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Lisa Kleypas é autora de 21 romances já publicados em 12 línguas. Licenciada em Ciências Políticas, editou o primeiro romance com 21 anos. Os seus livros figuram constantemente em listas de bestsellers como o NYTimese a Publishers Weekly. Os seus romances conquistaram já vários prémios RITA, o prestigiado galardão da RWA (Romance Writers of America).


Des ejo Subtil Lisa Kleypas Publicado em Portugal por 5 Sentidos® Divisão Editorial Literária – Porto Título original: Secrets of a Summer Night Copyright © 2005 by Lisa Kleypas Imagem da capa: @Allan Jenkins/ Trevillion Images Design da capa: Nor267

1.ª edição em papel: março de 2012

5 Sentidos® é uma chancela da Porto Editora, Lda.

Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem transmitida, no todo ou em parte, por qualquer processo eletrónico, mecânico, fotocópia, gravação, sistema de armazenamento e disponibilização de informação ou outros, sem prévia autorização escrita da Editora.

Este livro respeita as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.


À Julie Murphy, por cuidares do Griffin e da Lindsay com tanto carinho e uma paciência e dedicação intermináveis… por cederes os teus talentos ao lado mais empresarial da minha carreira… por seres um membro acarinhado da nossa família… E, acima de tudo, por seres quem és. Com amor, L.K.


Prólogo Londres, 1841

Mesmo tendo sido toda a sua vida advertida para não aceitar dinheiro de estranhos, um dia houve em que Annabelle abriu uma exceção… depressa compreendendo por que razão deveria ter seguido o conselho de sua mãe. Era um daqueles raros períodos de férias escolares do seu irmão Jeremy e, como já era hábito, ele e Annabelle tinham saído para assistir ao mais recente espetáculo de diorama1 de Leicester Square. Tinham sido necessárias duas semanas de dramática poupança no orçamento familiar para ela conseguir amealhar o dinheiro suficiente para os dois ingressos. Na qualidade de derradeiros descendentes da família Peyton, Annabelle e o irmão mais novo sempre haviam sido invulgarmente íntimos, não obstante a diferença de dez anos que os separava. As duas crianças que se seguiram ao nascimento de Annabelle, Deus e as doenças da infância levaram-nas, nenhuma delas sobrevivendo sequer ao primeiro aniversário. – Annabelle – disse Jeremy, regressando da bilheteira –, restou-te mais algum dinheiro? Ela abanou a cabeça e olhou o irmão, surpreendida: – Temo que não… Porquê? Com um suspiro triste, Jeremy afastou da testa uma madeixa cor de mel: – Duplicaram o preço dos ingressos. Parece que esta produção lhes resultou bem mais onerosa do que o esperado. – O anúncio no jornal não referia nada sobre isso – indignou-se Annabelle. – Que maçada… Abriu o cordão da bolsa, na vã esperança de aí encontrar alguma moeda perdida. Do alto dos seus doze anos, Jeremy lançou um olhar carrancudo ao cartaz que havia sido pendurado lá no alto, entre as colunas de entrada do teatro… A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO: UM ESPETÁCULO DE MÁXIMA ILUSÃO COM VISTA EM DIORAMA. Desde a sua estreia, há duas semanas, o espetáculo já havia sido assistido por milhares de visitantes, ansiosos por experimentarem «ao vivo» as maravilhas do Império Romano e da sua trágica queda: «é como recuar no tempo!» – exclamavam à saída. Este tipo de espetáculo consistia numa tela disposta numa sala curva, rodeando os espectadores de um cenário intricadamente pintado. Por vezes era associada música e efeitos especiais para um resultado ainda mais estimulante, enquanto um orador se ia movendo em torno do círculo para descrever locais longínquos ou batalhas famosas. Segundo o que Annabelle lera no Times, esta produção tinha «vista diorâmica», o que significava que a tela era feita de uma chita lubrificada transparente, iluminada pela frente e por vezes por trás com luzes especialmente filtradas para o efeito. Trezentos e cinquenta espectadores posicionavam-se de pé numa plataforma giratória ao centro da sala, operada por dois homens para que todo o público fosse rodando lentamente ao longo do espetáculo. A interação das luzes, dos filtros e dos vidros espelhados com os atores contratados como romanos beligerantes resultava num efeito a que fora dado o nome de «exposição animada». Pelo que Annabelle lera, os exaltantes momentos finais do simulacro de um vulcão


eram de tal forma realistas que muitas senhoras da assistência gritavam e desfaleciam. Tirando a bolsa das mãos da irmã, Jeremy atou-lhe o cordão e devolveu-lha: – Deixa… Temos o suficiente para uma entrada – afirmou com total naturalidade. – Vai tu. Eu nunca tive grande vontade de ver o espetáculo. Sabendo que o irmão mentia, Annabelle abanou a cabeça: – De modo algum. Vais tu. Eu poderei assistir ao espetáculo em qualquer ocasião, ao passo que tu… dedicas todo o teu tempo à escola. Além de que dura apenas quinze minutos, e eu contento-me de bom grado com uma visita a uma loja das redondezas, enquanto assistes ao espetáculo. – Visitar lojas sem dinheiro? – indagou o rapaz, os olhos azuis carregados de dúvida. – Que divertido… – O objetivo único de irmos às compras é o de olhar as vitrinas, não de comprar. Jeremy soltou uma gargalhada: – Isso é o que os pobres dizem para se consolarem quando percorrem a Bond Street. Além de que eu não te deixaria a passear sozinha – num minuto terias metade da população masculina atrás de ti. – Deixa de ser tonto – murmurou Annabelle. O irmão sorriu-lhe, percorrendo-lhe com o olhar o rosto perfeito, os magníficos olhos azuis, as pontas dos delicados caracóis castanhos e dourados cuidadosamente apanhados e que o espreitavam sob a aba do elegante chapéu. – E tu deixa-te de falsas modéstias. Sabes bem o efeito que causas nos homens e, que eu saiba, não costumas hesitar em fazer bom uso dele. Annabelle reagiu à provocação do irmão com uma expressão pretensamente arreliada: – «Que tu saibas?» Ora… que sabes tu das minhas relações com o sexo forte, se passas a maioria do teu tempo na escola? Jeremy assumiu uma expressão séria. – Isso vai mudar – disse. – Não conto voltar para a escola, desta vez. Posso ajudar-vos bem mais, a ti e à Mamã, se arranjar um trabalho. Ela abriu os olhos de espanto: – Jeremy, nem sonhes com uma coisa dessas. Darias um enorme desgosto à Mamã, e se o Papá fosse vivo… – Annabelle – interrompeu-a ele num tom suave –, nós não temos dinheiro. Nem sequer conseguimos poupar uns míseros cinco xelins a mais para podermos desfrutar de um momento de lazer. – E que belo trabalho tu arranjarias, maninho – disse ela, sarcástica. – Sem instrução, e sem conhecimentos… A não ser que tenciones ser um moço de recados ou um varredor de ruas, o que tens a fazer é prosseguir com os estudos até te veres capacitado para seguires um ofício digno. Até lá, tenciono conhecer um cavalheiro decente e muito rico que me peça em casamento – e aí sim, a vida correr-nos-á de feição. – Sem dote jamais arranjarás marido, sabe-lo bem – retorquiu o rapaz. Prosseguiram com aquilo até que as portas do velho teatro se abriram e a multidão avançou e passou por eles, dirigindo-se ansiosamente para a entrada. Jeremy colocou um braço protetor em torno da irmã e conduziu-a para longe do amontoado de curiosos. – E se esquecêssemos o diorama? – sugeriu alegremente. – Faremos outra coisa qualquer, algo


divertido… e de graça. – Como por exemplo? Ficaram ambos a matutar. Quando se tornou evidente que nenhum deles conseguia apresentar uma única sugestão que fosse, romperam a rir à gargalhada. – Master Jeremy – ouviram uma voz cava atrás deles. Ainda a rir, Jeremy voltou-se para o estranho: – Mr. Hunt – exclamou empolgado, estendendo-lhe a mão. – Surpreende-me que se recorde de mim. – Digo o mesmo! Cresceu imenso desde a última vez que o vi – disse ele apertando-lhe a mão. – Numa pausa da escola, presumo? – Sim, senhor. Reparando na expressão algo desconcertada da irmã, Jeremy segredou-lhe algo, enquanto o jovem alto que Annabelle desconhecia fazia sinal aos amigos para que entrassem no teatro sem ele. – Mr. Hunt é o filho do açougueiro – sussurrou Jeremy ao ouvido dela. – Conhecemo-nos quando a Mamã me mandava levantar-lhe as encomendas. Sê simpática, que ele é cavalheiro de muitas posses. Algo impressionada, Annabelle não conseguiu deixar de considerar que Mr. Hunt se vestia com extraordinária elegância para um simples filho de talhante. Envergava um elegante casaco preto e aquele novo estilo de calças de corte mais solto e folgado que, curiosamente, não disfarçavam as linhas esbeltas e poderosas do corpo que as vestia. Tal como a maioria dos cavalheiros que entravam no teatro, Mr. Hunt tinha já retirado o chapéu, exibindo uma soberba melena escura, bem cuidada e ligeiramente ondulada. Era um homem alto e de ossos largos, rondaria os trinta anos e tinha feições fortes, um nariz pleno de personalidade, boca larga e olhos tão negros que se tornava impossível distinguir-lhes as íris das pupilas. Um rosto profundamente masculino, com um toque de sarcasmo no olhar e um esgar de malícia na boca que nada deviam à frivolidade. Era mais do que notório que este homem nada tinha de ocioso, o corpo firme e a atitude determinada dando mostras de uma vida de trabalho árduo e ambição desmedida. – A minha irmã, Annabelle Peyton – disse Jeremy. – Mana, deixa-me que te apresente… Mr. Simon Hunt. – É um grato prazer – murmurou Hunt com uma elegante vénia. Não obstante os seus extremos bons modos, houve qualquer coisa no olhar dele que lhe provocou um estranho arrepio. Annabelle fez-lhe um breve aceno de cabeça e, sem saber muito bem porquê, deu por si a recuar para o aconchego seguro do braço do irmão. Para seu extremo desconforto, ela deu por si a não conseguir afastar o olhar do dele. Parecia que uma subtil corrente de apreciação os unia… Não como se já se conhecessem… antes como se já se tivessem aproximado inúmeras vezes até que finalmente, o Destino, já impaciente, forçasse os seus caminhos a cruzarem-se. Uma inquietante atração, à qual Annabelle parecia não conseguir resistir. Deixou-se ficar, apoquentada, cativa do seu olhar intenso, até sentir as faces escaldantes e ruborizadas. Hunt dirigiu-se a Jeremy, sem contudo desviar o olhar dela. – Permitem que vos acompanhe até à entrada? Instalou-se um desconfortável momento de silêncio, antes de o rapaz conseguir responder com fingida despreocupação: – Obrigado, mas acabámos de decidir não assistir ao espetáculo. Hunt ergueu um sobrolho:


– Deveras? Promete ser excelente, dos melhores até hoje. O seu olhar intuitivo passou do rosto de Annabelle para o de Jeremy, estudando-lhe os indícios que revelavam desconforto. Ao dirigir-se-lhe, a voz suavizou-se: – De facto, ditam as regras que não se deve discutir estas questões na presença de uma senhora, mas não posso deixar de me perguntar, master Jeremy… terão sido surpreendidos pela súbita alteração no preço dos ingressos? Se foi esse o caso, terei o maior prazer em disponibilizar-lhe o dinheiro em falta para… – Creia-me muito agradecida, mas não – interrompeu-o Annabelle, espetando o cotovelo nas costelas do irmão, que se retraiu de dor. – Aprecio a sua gentil oferta – disse ele, fixando o rosto inexpugnável de Hunt –, mas a minha irmã não… – Não desejo assistir ao espetáculo – interrompeu Annabelle friamente. – Soube que muitos dos efeitos são violentos e perturbadores para as senhoras. Prefiro sem dúvida um tranquilo passeio pelo parque. Hunt olhou-a de novo, com uma mal contida expressão trocista: – É assim tão assustadiça, Miss Peyton? Arreliada pela súbita provocação, Annabelle apertou com insistência o braço do irmão: – Devíamos ir indo, Jeremy. Não queremos atrasar mais Mr. Hunt, uma vez que demonstra um tal entusiasmo pelo espetáculo, não é assim? – Creia que o meu entusiasmo esmoreceu sobremaneira… – declarou em tom grave – … uma vez que não poderei contar com a vossa companhia. – E lançou a Jeremy um olhar encorajador: – Seria lamentável se, por questão de uns meros xelins, se vissem privados de uma bela tarde recreativa. Pressentindo o irmão a fraquejar, Annabelle sussurrou-lhe severamente ao ouvido: – Não ouses deixá-lo pagar-nos os ingressos, Jeremy! Ignorando-a, o rapaz dirigiu-se com toda a sinceridade a Hunt: – Mr. Hunt, caso aceitemos o seu gentil empréstimo, temo não podermos garantir-lhe um rápido reembolso. Embaraçadíssima, Annabelle fechou os olhos, deixando escapar um gemido surdo. Esforçava-se tanto para não deixar que estranhos se apercebessem das suas dificuldades… Só de pensar que este homem pudesse pressentir a importância que tinha cada xelim no seu orçamento familiar deixava-a desesperada. – Ora, não há qualquer urgência – ouviu Hunt declarar com grande à-vontade. – Basta-lhe passar pelo estabelecimento de meu pai, na sua próxima pausa escolar, master Jeremy, por quem é… – Muito bem, então – disse Jeremy, satisfeito, selando a negociação com um aperto de mão. – Ficolhe extremamente grato, Mr. Hunt. – Jeremy… – começou Annabelle num tom tão suave quanto gélido. – Peço-vos que, assim sendo, me aguardem um momento – proclamou Hunt, dirigindo-se sem mais demoras ao guiché da bilheteira. Annabelle olhou severamente o rosto impenitente do irmão: – Jeremy, bem sabes que não é decente aceitarmos o dinheiro deste homem! Como pudeste fazer tal coisa? Não é de modo algum apropriado, e só a ideia de me ver em dívida para com um fulano destes é para mim intolerável!


– Mas… que fulano destes, Annabelle? – perguntou o rapaz em tom inocente. – É um indivíduo de posses, como te disse… Ah, talvez te deixe arreliada o facto de ele pertencer a uma classe inferior? É disso que se trata? – Um sorriso formou-se-lhe nos lábios. – Lamento dizer-to, mas não podes dar-te ao luxo de tais preconceitos, mana… Sobretudo tratando-se de um homem tão obscenamente rico. E tu e eu não pertencemos propriamente à mais distinta nobreza, recordas-te? Digamos que… oscilamos perigosamente num ramo baixo da árvore social, o que significa que… – Como pode o filho de um açougueiro ser tão obscenamente rico? – indagou ela. – A não ser que a população londrina se encontre a consumir bastante mais carne e bacon do que o habitual nos dias de hoje, um açougueiro não viverá certamente muito à larga. – E quem te disse que ele trabalhava com o pai? – atirou-lhe Jeremy num tom altaneiro. – Apenas referi que foi lá que o conheci. Mr. Hunt é um empreendedor. – Queres dizer… um especulador financeiro? – estranhou Annabelle. Deu por ela a pensar que numa sociedade em que se considerava descortês falar ou sequer pensar em assuntos mercantilistas, nada havia de mais grosseiro do que um indivíduo que fizesse carreira dos seus investimentos. – É bastante mais do que isso – observou o irmão. – Mas que te importa a ti o que ele faz, ou que riquezas tem, visto provir de origens humildes? Sentindo um teor crítico na voz do rapaz, Annabelle olhou-o com desagrado. – Prezo muito essa tua costela democrática, mano. E não precisas de me tratar como uma snobe presunçosa. Teria tido a mesma reação se um duque se tivesse oferecido para nos emprestar dinheiro. – Mas não com tamanha convicção, aposto – brincou Jeremy, rindo-se da expressão da irmã. A chegada de Simon Hunt pôs termo à controvérsia. Dirigiu-lhes um sorriso tão gentil quanto divertido e declarou: – Já está tudo tratado. Vamos entrando? Annabelle avançou bruscamente, em resposta a uma discreta cotovelada do irmão. – Por favor, não se sinta obrigado a acompanhar-nos, Mr. Hunt – disse ela, friamente. Tinha perfeita noção de estar a ser deselegante, mas havia qualquer coisa na atitude daquele homem que lhe bulia com os nervos. Não lhe parecia digno de confiança… Pior ainda, com todo aquele requinte e polidez de modos, não lhe parecia minimamente civilizado. Era o tipo de indivíduo com que uma senhora decente jamais se permitiria ficar a sós. E essa sua consciencialização nada tinha que ver com hierarquias sociais – tratava-se sim de um discernimento instintivo de uma carnalidade viril e um temperamento masculino que lhe eram absolutamente estranhos. – Certamente que quererá juntar-se ao grupo que há pouco o acompanhava? Ele acolheu aquele comentário com um mero encolher de ombros: – No meio desta multidão, jamais os encontrarei. Annabelle poderia ter argumentado que, sendo ele um dos homens mais altos ali presentes, não teria grande dificuldade em localizar os amigos. Contudo, ela sabia que era inútil discutir com ele: teria de assistir ao espetáculo com Simon Hunt sentado a seu lado – não tinha alternativa. Contudo, ao ver o entusiasmo na expressão do seu irmãozinho, o ressentimento esmoreceu-se-lhe e deu por ela a suavizar o tom de voz quando voltou a dirigir-se a Hunt: – Peço perdão, não pretendi ser rude. Acontece que não me agrada sentir-me obrigada para com um


estranho, só isso. – Um sentimento que não só entendo como subscrevo, Miss Peyton – disse ele, conduzindo-a cortesmente através da multidão. – Contudo, não existe neste caso qualquer espécie de obrigação. Além de que não somos propriamente estranhos, não será assim? A sua distinta família sempre foi cliente regular da minha – e já de há largos anos para cá. Entraram no imenso teatro circular e subiram para uma ampla plataforma redonda, protegida a toda a volta por um corrimão de ferro. Rodeava-os uma desmesurada paisagem da Roma antiga pintada numa tela, meticulosamente trabalhada, e com um fosso de onze metros separando a tela do rebordo da plataforma. Esse fosso era preenchido por uma complexa maquinaria – alvo imediato de entusiasmados comentários por parte da assistência. Assim que o público ocupou a totalidade da plataforma, a sala mergulhou na total escuridão, provocando arquejos e gritinhos de excitação. Sob um suave ronronar da engrenagem, e um fulgor de luz azulada vinda de trás da tela, a paisagem adquiriu uma tal dimensão, e uma tamanha sensação de realismo, que deixou Annabelle extasiada. Quase se sentiu iludida pela ideia de se encontrar em plena Roma ao meio-dia. Surgiram alguns atores de togas e sandálias, enquanto um narrador dava início a um empolgante relato da história da Roma antiga. O espetáculo resultou ainda mais arrebatador do que Annabelle tinha esperado. Ainda assim, não conseguiu abstrair-se de tudo o resto e envolver-se naquele panorama – estava demasiado consciente do homem sentado a seu lado. E tão pouco a ajudou o facto de, a dada altura, ele lhe ter murmurado ao ouvido um comentário totalmente inapropriado, repreendendo-a em tom de brincadeira pelo seu visível interesse pela meia dúzia de homens semidespidos à sua frente. Por mais que Annabelle tivesse querido conter-se, não conseguiu evitar soltar uma gargalhadinha – que lhe valeu o olhar reprovador das pessoas à sua volta. E depois disso, é bom de ver, Hunt repreendeu-a por se estar a rir sobre o relato do narrador – o que só a fez rir-se ainda mais. Jeremy parecia demasiado absorto pelo espetáculo para reparar nas diabruras de Hunt, e Annabelle viu-o a esticar ao máximo o pescoço delgado, tentando perceber que máquina produzia qual efeito. Hunt calou-se por fim. Até que, na sequência de um ligeiro problema técnico no sistema de rotação, a plataforma sofreu um safanão, fazendo com que algumas pessoas se desequilibrassem – de entre elas, a própria Annabelle que se viu subitamente amparada pelo peito de Hunt. Ele soltou-a assim que a viu recuperar o equilíbrio e olhou-a, querendo saber se estava bem. – Sim – disse ela subitamente sem fôlego. – Peço perdão, mas… Não conseguiu acabar a frase, sentindo-se inundada por uma vaga de calor que a silenciou. Nunca em toda a sua vida se recordava de sentir tal reação a um homem. Tudo o que aquele impetuoso sentido de urgência despoletava nela – e o ignorar de que forma satisfazê-lo – encontrava-se muito para além do seu conhecimento. Tudo o que sabia era que, por um fugaz momento, tinha querido desesperadamente ficar ali, nos braços dele, de encontro a um corpo tão firme e disponível, tão absolutamente invulnerável, proporcionando-lhe um porto de abrigo ao sentir o chão fugir-lhe dos pés. Aquele seu cheiro… Um odor a pele masculina limpa. O odor do couro do casaco e do algodão da camisa… tudo lhe despertava os sentidos numa expectativa de prazer. Ele era o absoluto oposto dos aristocratas com cheiro a colónia e brilhantina que ela se esforçara por atrair para a sua teia nas duas temporadas passadas. Profundamente abalada, Annabelle fixou o olhar na tela, não parecendo impressionar-se com as flutuações de luz e cor que agora transmitiam a ideia de um cair da noite… o crepúsculo do Império


Romano. O próprio Hunt parecia igualmente indiferente ao espetáculo, a cabeça inclinada para ela, o olhar preso ao seu. Não obstante a respiração dele lhe parecer regular, Annabelle pressentiu-lhe uma ligeira alteração no ritmo cardíaco. Ela humedeceu os lábios secos. – O senhor não deve… fixar-me dessa forma. Por ténue que fosse o seu murmúrio, ele ouviu-o. – Com a sua presença a meu lado nada mais me parece merecedor de um olhar. Ela não se moveu, nem emitiu qualquer som, fingindo não ter ouvido o sussurro do diabo, sentindo o coração descompassado e os dedos dos pés a encarquilharem-se dentro dos sapatos. Como podia uma coisa destas estar a acontecer, num teatro apinhado de gente e com o irmão colado a ela? Fechou os olhos por um breve momento – para controlar uma tontura que nada tinha que ver com o girar da plataforma. – Olha! – disse Jeremy, acenando-lhe freneticamente. – Estão prestes a exibir os vulcões. Subitamente, a sala mergulhou numa escuridão total, enquanto um inquietante ribombar se soergueu de debaixo da plataforma. Ouviram-se gritinhos de alarme, risadinhas nervosas e sufocadas exclamações de expectativa. Annabelle sentiu um arrepio na espinha ao reconhecer o suave roçar de uma mão pelas suas costas. A mão dele subindo-lhe pela espinha com lenta deliberação… o seu cheiro, fresco e sedutor, enchendo-lhe as narinas… e antes que ela pudesse dizer uma palavra, a boca dele possuiu a sua, num beijo cálido e apenas levemente arrebatador. Sentiu-se demasiado atordoada para se mover, com as mãos no ar como borboletas suspensas em pleno voo, o corpo oscilante ancorado pela mão dele na sua cintura, enquanto a outra lhe afagava a nuca. Não era a primeira vez que Annabelle era beijada, evidentemente. Variados jovens lhe haviam já roubado um beijo, aquando de um passeio pelo jardim, ou a um canto da sala de estar onde não pudessem ser observados. Mas nunca nenhum desses insinuantes e breves encontros lhe haviam provocado uma tal sensação… um beijo tão lento e estonteante que a enchia de total delírio. As sensações não paravam de a ensombrar, demasiado fortes para suportar, e ela deixou-se abandonar, impotente, ao seu abraço. Por puro instinto apenas, entreabriu cegamente os lábios, sentindo a pressão dos dele exigindo uma reação, numa voluptuosa exploração que lhe deixou a alma a arder. No momento em que Annabelle começara finalmente a perder toda a sanidade, a boca dele soltou-se da sua com uma impetuosidade tal que a deixou zonza. Sem retirar a mão da maciez do pescoço dela, Hunt baixou ligeiramente a cabeça enquanto um murmúrio de arrependimento encheu os ouvidos de Annabelle: – Perdoe-me… não consegui resistir. Retirou de imediato a mão das costas dela, e quando finalmente uma luz filtrada a vermelho invadiu a sala, ele tinha já desaparecido. – Olha-me bem para isto! – ouviu a voz entusiasmada de Jeremy bradar, apontando o simulacro de um vulcão à frente deles, a lava incandescente começando a brotar das extremidades. – É incrível! Reparando que Hunt já não estava presente, estranhou. – Para onde foi Mr. Hunt?… Suponho que a reunir-se aos amigos? E com um encolher de ombros regressou à empolgadíssima observação dos vulcões, contagiando todos quantos o rodeavam com o seu entusiasmo. Ainda estarrecida e muda de espanto, Annabelle perguntou-se se aquilo que julgou ter sucedido teria


de facto sucedido. Certamente que não fora beijada em pleno teatro por um perfeito estranho. E beijada daquela maneira… Enfim, que outra coisa poderia ela esperar de um cavalheiro abastado que acabara de lhe pagar os ingressos? Esse tipo de coisas dava-lhes legitimidade para se aproveitarem dela. Mas o comportamento dela… meu Deus! Perplexa e envergonhada, Annabelle esforçou-se por compreender por que razão permitira a Mr. Hunt tê-la beijado. Tinha de ter protestado, de tê-lo rechaçado. Ao invés, tinha-se limitado a ficar ali, assim, num atordoamento irracional, enquanto ele… oh, só a simples recordação a deixava transida. Não era sequer relevante como e por que razão Mr. Hunt tinha logrado abalar-lhe as suas tão bem erigidas defesas. A verdade é que tinha… e, por isso mesmo, ele passara desde logo a ser um homem a evitar a todo o custo.

1 Modo de apresentação artística, extremamente realista, de cenas da vida real (paisagem, plantas, animais, eventos históricos) pintadas sobre

uma tela de fundo curvo, de modo a simularem um contorno real. A tela, colocada na obscuridade e iluminada de maneira adequada, dá uma ilusão de profundidade e de movimento, dando a impressão de tridimensionalidade. (N. T.)


Capítulo 1 Londres, 1843 Final da temporada

Uma jovem verdadeiramente obstinada em casar consegue ultrapassar praticamente todos os obstáculos, à exceção da ausência de dote. Annabelle bateu impacientemente o pé por debaixo da amálgama volumosa e branca das suas saias, esforçando-se por manter uma expressão composta. Nas três últimas malogradas temporadas acostumarase a ser uma encalhada. Acostumara-se, mas não se resignara. Por mais de uma vez deu por si a pensar que merecia muito melhor do que ficar sentada numa frágil cadeira, a um canto do salão. Esperando, ansiando, sonhando com um convite que jamais chegaria. E fingindo não se importar – dando a ideia de que até lhe agradava ficar ali especada, observando as amigas a dançarem e a serem cortejadas. Soltando um longo suspiro, Annabelle brincou com o mimoso carnet de baile em prata que lhe pendia de uma fita no pulso. A delicada capa deslizava para o lado para revelar um caderninho de pequenas folhas de marfim, quase transparentes de tão finas, que se abriam em leque. Era suposto as jovens escreverem a carvão naquelas finas lâminas de marfim os nomes dos candidatos a seus pares de dança. A Annabelle, o leque de folhas vazias fazia-lhe lembrar uma fila de dentes que se riam para ela, zombeteiros. Fechando o pequeno carnet-pingente, olhou de relance para as três raparigas sentadas a seu lado, todas num esforço de parecerem igualmente despreocupadas com as suas tristes sinas. Annabelle conhecia a razão de ser da presença de cada uma delas. A considerável fortuna de Evangeline Jenner fora conquistada através do jogo, já que as suas origens eram francamente humildes. Para ajudar à festa, Miss Jenner era incrivelmente tímida e detentora de um sério problema de gaguez, que transformava a menor possibilidade de conversa numa verdadeira tortura para as partes envolvidas. As outras duas moças, Miss Lillian Bowman e a sua irmã mais nova, Daisy, não se tinham ainda aclimatado à Inglaterra – e, pelo andar da carruagem, esse dia ainda vinha longe. Dizia-se que a mãe das meninas Bowman optara por trazê-las de Nova Iorque por nenhuma delas ter tido o vislumbre de algum pretendente digno. Eram veladamente alcunhadas de «Herdeiras Bolha-de-Sabão» ou, ocasionalmente, «Princesas do Dólar», e não obstante a elegância das suas linhas do rosto e da expressividade dos olhos escuros, certamente que por cá não teriam melhor sorte – a não ser que desencantassem alguma madrinha aristocrática que lhes atestasse os encantos e as ensinasse a melhor se integrarem na exigente sociedade britânica. Ocorreu a Annabelle que, nos últimos meses desta maldita temporada, as quatro – Miss Jenner, as irmãs Bowman e ela própria – se tinham sentado frequentemente lado a lado em bailes e soirées, sempre a um canto ou encostadas à parede. E contudo, poucas palavras tinham trocado entre si, ali cativas no silencioso tédio da espera. O seu olhar captou o de Lillian Bowman, escuro e aveludado, que continha agora um inesperado reflexo de humor. – Se ao menos fizessem as cadeiras mais confortáveis… – declarou, amargamente. – Sobretudo


quando se torna evidente que as vamos ocupar ao longo de todo o serão. – Devíamos ter os nossos nomes gravados nelas – ripostou Annabelle secamente. – Após tanto tempo aqui sentada, já me sinto dona da minha. Um risinho abafado soltou-se dos lábios de Evangeline Jenner, que ergueu o indicador enluvado para afastar da testa um caracol de um ruivo intenso. O sorriso tornou-lhe os olhos redondos e azuis ainda mais brilhantes e as faces ganharam um rubor rosado sobre a profusão de sardas doiradas. Deu ideia de que um súbito assomo de afinidade a fez esquecer-se por um momento da sua timidez. – É-me difícil vê-la como uma encalhada – disse ela a Annabelle. – É sem sombra de dúvida a jovem mais bonita desta sala. Os homens deviam pelejar entre si para lhe roubarem uma dança. Com um delicado encolher de ombros, Annabelle olhou-a com ar resignado. – Nenhum homem quer uma noiva sem dote. Apenas no mundo da fantasia e dos romances os duques casavam com plebeias. No mundo real, duques, viscondes e quejandos arcavam nos ombros com o peso da responsabilidade financeira de manter vastas propriedades e numerosas famílias. Um lorde endinheirado necessitava tanto de se casar com uma senhora de posses quanto um lorde depenado. – Nem tão-pouco homem algum ambiciona casar com uma nouveau-riche americana – confidenciou Lillian Bowman. – A nossa única esperança de nos vermos integradas onde quer que seja é casando com um nobre detentor de um título sólido. – E nem sequer temos madrinha – acrescentou a irmã mais nova com um suspiro triste. Daisy era uma versão petite e delicada da irmã Lillian, com a mesma tez clara, farta cabeleira escura e olhos castanhos. Um sorrisinho travesso aflorou-lhe os lábios. – Se acaso conhecer uma duquesa simpática que esteja disposta a acolher-nos sob a sua asa, ficarlhe-íamos eternamente gratas, Miss Peyton. – Para falar verdade, eu nem sequer desejo arranjar marido – confessou-lhes Evangeline Jenner. – Est-t-tou apenas a passar por estas terríveis temporadas por não ter mu-mu-muito mais com que me entreter. Já sou ve-velha de mais para estar na escola, e o senhor meu pai… – Desfez-se num suspiro. – Bom, resta-me apenas mais uma temporada antes de perfazer os vinte e três, e aí sim, serei uma solteirona atestada. E como anseio a chegada desse dia… – Serão os vinte e três anos o limite aceitável da idade casadoira? – indagou Annabelle, fingindo-se alarmada. – Deus meu, jamais pensei estar já tão longe disso. – Que idade tem a Annabelle? – quis saber Lillian, curiosa. Ela olhou de relance para a direita, depois para a esquerda – certificando-se de que não era ouvida. – Farei vinte e cinco no mês que vem. Tal revelação valeu-lhe três olhares contristados, até Lillian retorquir, à laia de consolo: – Pois não aparenta ter um dia a mais do que vinte e um. Annabelle rodeou com a mão enluvada o seu carnet de baile, escondendo-o de um eventual olhar de lince. O tempo passava a correr, pensou. Esta temporada, para ela a quarta, apressava-se velozmente a caminho do fim. E ninguém no seu juízo perfeito embarcaria numa quinta – seria no mínimo caricato. Teria de caçar um marido e depressa. De contrário, ser-lhe-ia impossível manter Jeremy a estudar… e a família ver-se-ia forçada a mudar-se da humilde casinha geminada onde moravam para irem viver para uma hospedaria. E assim que se desse a queda, não haveria retorno ascendente.


Nos seis anos que se seguiram à morte de seu pai, tragicamente levado por um achaque de coração, os recursos financeiros da família viram-se reduzidos a coisa nenhuma. Por uns tempos debateram-se para esconder os seus apuros, a cada dia mais angustiantes, aparentando ter meia dúzia de criados ao invés de uma única criada que, eternamente estafada, exercia igualmente as funções de cozinheira, e de um lacaio já velhote… Modificando constantemente as suas roupas puídas, para que o avesso dos tecidos ficasse voltado para fora… Vendendo ao desbarato as pedras preciosas das joias e substituindo-as por bijutaria. Annabelle sentia-se profundamente saturada dos seus esforços constantes para ludibriar toda a gente, quando aparentemente toda a vizinhança estava sobejamente a par da situação desastrosa da família. Recentemente, ela começara até a receber discretas oferendas de homens casados, que lhe asseguravam que bastava ela pedir-lhes para eles se prestarem desde logo a ajudá-la. Escusado será descrever as contrapartidas que essas «ajudas» requeriam da parte dela. Annabelle tinha profunda consciência de que detinha as qualidades necessárias a uma amante de primeira categoria oficial. – Miss Peyton – dirigiu-se-lhe Lillian Bowman –, que espécie de homem seria por si considerado o marido ideal? – Oh… – disse Annabelle com uma leveza irreverente – qualquer lorde serviria. – Qualquer um? – indagou Lillian, incrédula. – Então e a beleza? Annabelle encolheu os ombros. – Sempre bem-vinda, mas não imprescindível. – A paixão? – quis saber Daisy. – Decididamente indesejada. – A inteligência? – sugeriu Evangeline. – Negociável. – O encanto? – Igualmente negociável. – Quão baixas expectativas, as suas – observou Lillian secamente. – Pois eu… imporia sem dúvida determinadas condições. O meu lorde de sonho teria de ser moreno e bonito, um magnífico dançarino… e jamais teria de me pedir permissão para me beijar. – Pois eu tenciono casar com um cavalheiro que tenha lido na íntegra a obra de William Shakespeare – disse Daisy. – Alguém sereno e romântico, preferencialmente com óculos, que aprecie a poesia e a natureza. E não me agradaria nada que fosse experiente com as mulheres. A irmã ergueu os olhos para o céu. – Decididamente, jamais cobiçaremos o mesmo homem… Annabelle fitou Evangeline Jenner. – E a menina? Que género de homem lhe serviria como marido, Miss Jenner? – Evie, por favor... – murmurou a jovem. Corou de modo incontrolável, a vermelhidão das maçãs do rosto indo ao encontro do tom flamejante do cabelo. Batalhava por uma resposta, a sua extrema timidez confrontando-se com um forte sentido de privacidade. – Creio que… privilegiaria al-al-alguém que fosse bondoso e… Não sei, alguém que me amasse. Que me amasse ver-da-da-deiramente. Annabelle sentiu-se comovida por aquelas palavras, que a encheram de uma súbita melancolia. O


amor era um luxo a que ela jamais se tinha permitido ceder – um assunto claramente supérfluo, estando a sua sobrevivência de tal modo em causa. Ainda assim, estendeu a mão e tocou a da amiga. – Oxalá o encontre, Evie – desejou sinceramente. – Quem sabe não tenha de esperar muito mais tempo. – Quero que encontre o seu, primeiro, Annabelle – disse-lhe Evie, com um sorriso tímido. – E oxalá eu possa ajudá-la de alguma forma. – Parece-me bem que todas precisamos de ajuda, de uma forma ou de outra – comentou Lillian. Fitou Annabelle com um laivo de cumplicidade: – Hmm… Não me ralaria nada dedicar-me exclusivamente ao seu caso, Annabelle. – Perdão? Annabelle arqueou as sobrancelhas, sem saber se deveria sentir-se elogiada ou ofendida. Lillian apressou-se a explicar. – Restam-nos não mais que duas semanas até ao final da temporada – que para si será a última, presumo. Em termos práticos, as suas aspirações a casar com alguém que esteja socialmente à sua altura extinguir-se-ão em finais de junho, não é assim? Annabelle concordou com a cabeça. – Nesse caso, proponho… Lillian calou-se a meio da frase. Seguindo a direção do seu olhar, Annabelle distinguiu uma figura sombria que delas se aproximava. Sentiu-se gelar por dentro. O intruso era nada menos do que Mr. Simon Hunt – um homem de quem qualquer uma delas deveria desejar distância, por fortes e boas razões. – Nem de propósito, minhas amigas… – disse Annabelle, baixinho. – O meu marido ideal seria o exato oposto de Mr. Hunt. – Porque será que isso não me surpreende? – ironizou Lillian, gerando uma imediata cumplicidade nas outras. Seria de perdoar um homem com tendências arrivistas, desde que ele possuísse uma porção considerável de encanto e cavalheirismo. Contudo, não era esse o caso de Mr. Hunt. Não havia como tentar entabular uma conversa educada com um homem que dizia sempre exatamente aquilo que pensava, por mais censuráveis ou menos lisonjeiras que fossem as suas opiniões. Sem dúvida que objetivamente se podia afirmar que ele era um homem bonito. Annabelle supunha mesmo que muitas senhoras achariam atraente aquela masculinidade robusta – e até ela própria se via forçada a admitir que existia algo de cativante em todo aquele poder refreado por debaixo de um formal e aprazível fato de cerimónia branco e preto. Todavia, os discutíveis atrativos de Simon Hunt ficavam desde logo ofuscados pela grosseria do seu carácter. Não existia qualquer faceta sensível na sua natureza, qualquer idealismo ou apreço pela elegância… ele era apenas libras e pence, todo ele egoísmo, frieza e calculismo. Qualquer outro homem na sua situação teria a decência de se sentir embaraçado pela sua total ausência de requinte – mas Hunt fazia questão de fazer dessa falha uma virtude. Adorava escarnecer dos rituais e elegâncias da educação aristocrática, os olhos negros brilhando de deleitado desprezo – como se estivesse a rir-se de todos eles. Para enorme alívio de Annabelle, Hunt não tinha nunca indicado quer por gestos ou palavras que se recordava daquele longínquo dia do espetáculo de diorama em que lhe roubara um beijo na obscuridade de uma sala de teatro. À medida que o tempo foi passando, ela própria convencera-se de que tudo aquilo


não passara de um produto da imaginação. Olhando para trás não lhe parecia real – sobretudo a sua própria reação, tão inesperadamente ardente, a um perfeito estranho. Sem dúvida que muitas pessoas partilhavam da hostilidade de Annabelle para com Simon Hunt, mas para grande consternação da alta sociedade londrina, ele tinha chegado para ficar. Nos últimos dois, três anos, tornara-se um homem incomparavelmente abastado, tendo adquirido participações maioritárias em companhias de manufatura de equipamentos para a agricultura, e a construção de navios e de locomotivas. Não obstante toda a descortesia de Hunt, ele era frequentemente convidado para festas da alta sociedade – apenas e só por ser demasiado rico para ser ignorado. Hunt personificava a ameaça que a iniciativa industrial representava para a secular vocação da aristocracia britânica para a agricultura latifundiária de vertente familiar. Consequentemente, a nobreza olhava-o com contida hostilidade, mesmo permitindo-lhe frequentar os seus consagrados círculos sociais. Para piorar ainda mais este estado de coisas, Hunt não demonstrava a menor humildade, pelo contrário, parecia impor-se à força em locais e eventos onde não era desejado. Nas raras ocasiões em que se cruzara com Simon Hunt, já depois do episódio no teatro, Annabelle tratara-o com frieza, frustrando-lhe todas as tentativas de conversação e recusando todos os seus convites para dançar. E ele aparentava sempre ficar algo divertido com aquele desdém e fixava-a de um modo tão intenso que Annabelle sentia eriçarem-se-lhe os cabelos da nuca. Esperava que muito em breve ele desistisse, perdesse o interesse por ela, mas até à data ele limitava-se a ser enervantemente persistente. Annabelle pressentiu o enorme alívio das outras encalhadas quando viram Hunt ignorá-las para dedicar toda a sua atenção exclusivamente a ela. – Miss Peyton… – disse. Aquele seu olhar de azeviche parecia nada deixar escapar; as cuidadosas, quase impercetíveis, emendas nas mangas do vestido dela, o facto de ter costurado uma bonita aplicação de pequenos botões de rosa na orla já puída do seu corpete, as pérolas de imitação pendendo-lhe das orelhas. Annabelle encarou-o com uma gélida expressão de desafio. O ar entre ambos parecia carregado de tensão, num duelo de atração-repulsa puramente competitivo, e Annabelle sentiu os nervos à flor da pele ao vê-lo chegar-se a ela. – Boa noite, Mr. Hunt. – Dá-me a honra de uma dança? – perguntou sem mais prelúdios. – Agradecida, mas não. – E porque não? – Tenho os pés cansados. Ele ergueu um sobrolho escuro. – Deveras? E de fazer o quê? Já aí está sentada há horas. Annabelle manteve o olhar firme. – Não tenho a menor obrigação de me justificar perante si, Mr. Hunt. – Uma valsa não representará certamente uma grande diligência da sua parte. Apesar do seu esforço hercúleo em manter-se calma, Annabelle sentiu uma carranca a formar-se-lhe nos músculos do rosto. – Mr. Hunt – declarou nervosamente –, nunca ninguém lhe disse que não é educado maçar uma senhora ao insistir que ela faça algo que claramente não é de sua vontade?


Ele sorriu-lhe levemente. – Miss Peyton, se acaso eu me preocupasse com questões de educação, jamais obteria aquilo que pretendo. Apenas julguei que lhe agradaria a ocasião de poder, nem que por um breve momento, vencer a fatalidade de ser uma eterna encalhada. E se este baile seguir os seus padrões habituais, o meu convite será muito provavelmente o único que receberá. – Encantador… – observou ela num tom mordazmente maravilhado. – Pasmo perante a sua talentosa adulação. Como poderia recusar? Ela viu-lhe um impercetível brilho nos olhos. – Quer dizer então que aceita dançar comigo? – Não – disse ela num murmúrio brusco. – Peço-lhe que se retire. Por favor. Ao invés de se retirar, vexado pela rejeição, Hunt atreveu-se a sorrir, o branco dos dentes reluzindo no rosto tisnado do sol. Aquele sorriso atribuiu-lhe um toquezinho malandro à expressão. – Mas que mal pode ter uma dança? Creia que sou um parceiro dotado. Quem sabe não irá inclusivamente deleitar-se? – Mr. Hunt – disse ela, num tom que já roçava a exasperação –, só da ideia de me ver unida a si, seja em que circunstância for ou qualquer que seja o propósito, gela-se-me o sangue nas veias. Inclinando-se um nadinha mais para ela, Hunt baixou o tom de voz para que mais ninguém ouvisse. – Muito bem. Mas deixo-a com algo a considerar. Miss Peyton… Pode bem chegar o dia em que deixará de poder dar-se ao luxo de rejeitar um convite honesto da parte de alguém como eu… ou mesmo um desonesto. Os olhos de Annabelle escancararam-se de espanto e ela sentiu uma descarga de puro ultraje espalhando-se pelo leve decote do colo. Francamente, já era de mais! – ter de se sentar a um canto durante todo o serão, e ainda ser sujeita aos insultos de um homem que desprezava! – Mr. Hunt, o senhor soa como o vilão de uma peça de baixíssima categoria. O comentário provocou-lhe um novo sorriso, aberto e sardónico, e Hunt despediu-se com uma vénia levemente trocista antes de finalmente se retirar. Perturbada por aquele encontro, Annabelle semicerrou os olhos vendo-o distanciar-se. Em uníssono, as outras encalhadas soltaram um suspiro de alívio por se verem livres dele. Lillian Bowman foi a primeira a falar: – A palavra «não» parece nada significar para esta criatura, não é verdade? – O que foi que ele lhe disse, Annabelle, mesmo antes de se afastar? – quis saber Daisy, roída de curiosidade. – O que a fez ruborizar como uma romã? Annabelle baixou o olhar para o pequeno carnet pingente, afagando com o polegar uma mancha minúscula de um canto da capa. – Mr. Hunt insinuou que, muito em breve, a minha situação se tornará de tal modo desesperada que me fará considerar tornar-me sua amante. Não fosse sentir-se tão perturbada, Annabelle ter-se-ia largado a rir perante a expressão de assombro no rosto das outras. Mas, ao invés de soltar um comentário ultrajado, ou até de diplomaticamente deixar cair o assunto, Lillian fez a única pergunta que Annabelle jamais esperaria: – E tinha razão? – Quanto ao desesperante da minha situação, sim – admitiu ela. – Mas não… nunca… quanto a eu vir


a ser sua amante… ou de quem quer que seja. Mais facilmente me casaria com um cultivador de beterrabas do que descer tão baixo. Lillian sorriu-lhe, parecendo identificar-se com o tom de firme repulsa na voz de Annabelle. – Gosto de si – declarou, com um sorriso cúmplice. Recostou-se na cadeira e cruzou as pernas com uma deselegância deveras inapropriada a uma jovem em debute de temporada. – Faço minhas as suas palavras – respondeu Annabelle um tanto mecanicamente, e mais por uma questão de boas maneiras. Mas assim que as palavras lhe saíram concluiu com surpresa que até eram verdade. Lillian sorriu, prosseguindo: – Odiaria ter de a ver acabar os seus dias arrastando-se atrás de uma mula por um campo de beterrabas. Merece certamente um futuro bem mais auspicioso. – Concordo – disse Annabelle secamente. – Que poderemos fazer em relação a isso? Ainda que a pergunta fosse sarcástica, Lillian pareceu levá-la muito a sério. – Era aí que eu queria chegar. Antes de ser interrompida, ia precisamente fazer uma proposta: creio que deveríamos fazer um pacto de entreajuda entre as quatro, por forma a conseguirmos arranjar bons maridos. Se os cavalheiros ideais não vêm ao nosso encontro, vamos nós ao encontro deles. Será um processo significativamente mais eficaz se unirmos esforços, ao invés de o levarmos a cabo individualmente. Começaremos pela mais velha – que tudo indica ser a Annabelle – até chegarmos à mais nova. – Isso significa que ficarei em desvantagem – protestou Daisy. – É da mais singular justiça – informou-a Lillian. – A menina tem muito mais tempo disponível do que qualquer outra de nós. – E a que tipo de «ajuda» é que se refere, Lillian? – quis saber Annabelle. – Toda a que se revelar necessária. A ideia é fazermos forças das fraquezas de cada uma e proporcionarmo-nos mutuamente conselhos e assistência sempre que necessário. – Olhou em volta com um sorriso radioso. – Seríamos como uma equipa de rounders em miniatura! Annabelle olhou-a com expressão cética. – Refere-se ao jogo em que os cavalheiros se revezam a bater numa bola de couro com uma espécie de pau aplainado num dos lados? – Não somente os cavalheiros – disse Lillian. – Em Nova Iorque é igualmente jogado por senhoras, desde que não se entusiasmem demasiado e que mantenham o recato. Daisy esboçou um sorriso nostálgico. – Como naquela ocasião em que Lillian ficou de tal modo arreliada com um arremesso inábil, que arrancou do chão um poste de marcação. – O poste já estava solto – protestou Lillian. – Representava um perigo para as outras jogadoras. – Sobretudo contigo a correr atrás delas com o poste em riste – retorquiu Daisy, reagindo à expressão zangada da irmã com um sorriso angelical. Contendo uma gargalhada, Annabelle desviou o olhar das duas irmãs para a expressão vagamente perplexa de Evie. Foi fácil ler-lhe o pensamento – que as irmãs americanas iriam requerer uma enorme carga de trabalhos para conseguirem atrair a atenção de possíveis candidatos. Ao voltar novamente a


atenção para as manas Bowman, Annabelle não pôde evitar sorrir perante os seus rostos expectantes. Não lhe era de todo difícil imaginar aquele parzinho batendo com paus em bolas, correndo pelo campo com as saias arregaçadas até aos joelhos. Perguntou-se se todas as jovens americanas teriam a mesma plenitude de espírito… sem dúvida que as Bowman aterrorizariam qualquer cavalheiro britânico decente que ousasse uma abordagem. – Confesso que nunca considerei a «caça ao marido» um desporto – disse ela. – Pois deveria ser – retorquiu Lillian. – Pense no quão mais eficaz ela se tornaria. A única possível dificuldade seria se duas de nós se interessassem pelo mesmo homem… mas tal não me parece provável, dados os nossos gostos e predileções. – Assim sendo, temos de acordar em não competir pelo mesmo homem – sugeriu Annabelle. – E ainda m-m-mais importante – interveio Evie inesperadamente –, não deveremos prejudicar a ninguém. – Mas que belo desígnio, esse… – comentou Lillian. – Pois eu creio que ela tem toda a razão, Lillian – observou Daisy, algo crítica. – Não desconsideres a pobrezinha, por amor de Deus… Lillian pareceu aborrecida. – Não estava a ser irónica, minha tonta. Annabelle resolveu interceder antes que as duas irmãs iniciassem uma altercação. – Assim sendo, vamos ter de acordar quanto ao plano de ação, minhas amigas. De nada nos servirá andarmos cada uma em direções opostas. – E deveremos ensinar umas às outras tudo o que sabemos – disse Daisy, entusiasmada. – Inclusivamente os detalhes mais… in-in-íntimos? – indagou Evie timidamente. – Oh, particularmente esses! Lillian esboçou um sorriso maroto e lançou um olhar depreciativo ao vestido de Annabelle. – Perdoe-me que lhe diga, minha amiga, mas esse seu vestido é… medonho! – observou, sem rodeios. – Quero oferecer-lhe alguns dos meus. Tenho arcas cheias deles, a maioria dos quais nunca cheguei a usar; não lhes sentirei a falta. E certamente que minha mãe nem irá dar-lhes pela falta. Annabelle discordou veementemente com a cabeça, desde logo encantada com a oferta e, contudo, absolutamente envergonhada pela sua manifesta condição financeira. – Não, não… Não posso aceitar uma tal oferta, agradecendo-lhe ainda assim a sua generosidade. – O azul pálido, com o debrum lavanda – murmurou Lillian para a irmã. – Recordas-te desse? – Oh, ficar-lhe-ia a matar! – disse Daisy, com emoção. – Assenta-lhe certamente muito melhor do que em ti. – Obrigada, minha irmã… – retorquiu Lillian lançando-lhe um olhar divertido. – Não, por favor, eu… – protestou Annabelle. Lillian ignorou-a, prosseguindo. – E aquele de musselina verde com a aplicação de renda branca à frente? – Não posso aceitar os seus vestidos, Lillian – insistiu Annabelle. A jovem ergueu o olhar das suas anotações. – Porque não? – Antes de mais, porque não tenho como retribuir-lhe. Além de que seria inútil. Por mais que me


aperaltasse, a questão da falta de dote permaneceria. – Ora, ora, dinheiro… – disse Lillian, no tom típico de quem o tem em abundância. – Conto que a menina me retribua com algo bem mais valioso, minha querida. Vai ensinar-nos, a mim e à Daisy, a sermos mais… enfim, mais do seu género. Ensinar-nos a dizer as coisas certas – aquelas regras tácitas que aparentemente ambas quebramos a cada minuto dos nossos dias. Se possível, ajudar-nos a adquirir uma madrinha. E então ser-nos-iam abertas todas as portas que atualmente nos estão vedadas. E quanto à questão da sua ausência de dote… bom, comece por fisgar o homem certo. A partir daí, todas nós a ajudaremos a içá-lo para a margem. Annabelle olhou-a, estarrecida. – Não posso crer que estejam mesmo decididas a levar este plano adiante… – É claro que estamos – disse Daisy. – Que alívio será para todas nós termos finalmente algo de interessante com que nos entreter, ao invés de nos sentarmos a um canto como perfeitas imbecis! A Lillian e eu estamos prestes a dar em doidas com o profundo tédio desta temporada. – Assim como eu – acrescentou Evie. – Bom… Annabelle percorreu cada um dos rostos expectantes, incapaz de conter por mais tempo o seu agrado. – Se estão todas assim tão dispostas a seguir em frente, é claro que contam comigo e com todo o prazer. Mas se a ideia é fazermos um pacto, não será de bom-tom assiná-lo com sangue, ou coisa assim? – Por Deus, não! – exclamou Lillian. – Julgo que conseguiremos alcançar um acordo razoável sem termos de recorrer a sangrias desnecessárias… Muito bem, creio que o melhor será começarmos por fazer uma lista dos elegíveis mais promissores que restaram da passada temporada. E que lote de escolhidos e remexidos teremos pela frente, malogradamente… Que tal classificá-los por títulos? Começando pelos duques? Annabelle abanou a cabeça. – Com esses nem devemos perder tempo; não conheço nenhum elegível que tenha menos de setenta anos e ainda com os dentes todos. – Ah! Então a inteligência e o encanto são requisitos negociáveis, mas os dentes não? – comentou Lillian, forçando Annabelle a rir-se. – Os dentes são negociáveis, sim – respondeu-lhe. – Mas altamente preferenciais. – Muito bem – disse Lillian. – Passando por cima da categoria «duques decrépitos e desdentados», passemos então aos condes. Conheço pessoalmente Lord Westcliff, por exemplo… – Não, não! O Westcliff nunca – observou Annabelle. – É um verdadeiro «peixe mole», além de que nunca demonstrou o menor interesse por mim. No meu debute, já lá vão quatro anos, recordo-me de praticamente me lançar para os seus braços e ele me ter olhado como se eu fosse uma poia colada à sola do sapato. – Esqueçamo-lo, então – declarou Lillian. – E que me diz de Lord St. Vincent? Jovem, celibatário, lindo como o pecado… – Não resultaria – afirmou Annabelle, perentória. – Por mais séria que fosse a situação, St. Vincent jamais se comprometeria. Já seduziu e pediu a mão a pelo menos uma dúzia de jovens e desgraçou-as a todas. «Honra» é uma palavra que não lhe diz rigorosamente coisa alguma. – E que tal o conde de Eglington? – sugeriu Evie, pouco segura de si. – Ainda que não seja


propriamente um jo-jo-jovem. Rondará os cinquenta anos. – É de o pôr na lista – disse Annabelle. – Não posso dar-me ao luxo de ser assim tão exigente. – Também temos o visconde de Rosebury – observou Lillian, com um leve esgar. – Mas trata-se de uma criatura um tanto estranha, devo dizer. E é tão… sei lá, desaprumado. – Desde que tenha uma carteira aprumada, pode ser desaprumado onde bem lhe convir – comentou Annabelle, provocando um coro de risinhos. – Coloque-o na lista. Ignorando completamente a música e os parzinhos que rodopiavam pelo salão, as quatro jovens trabalharam diligentemente na lista, provocando umas nas outras ocasionais ataques de riso, de tal forma que todas as cabeças se viravam para elas. – Recato, meninas – disse Annabelle, esforçando-se por parecer séria. – Não queremos que ninguém suspeite de que estamos a planear o nosso futuro… Além de que não é expectável que quatro encalhadas se riam desta forma. Desde logo todas se esforçaram por assumir expressões circunspectas – o que apenas fez com que a vontade de rir se agravasse. – Oh, reparem… – disse Lillian exibindo o seu pequeno carnet. – Por uma vez os nossos carnets de dança estão quase completos! Considerando o rol de celibatários, franziu os lábios, pensativa. – Ocorreu-me que alguns destes ilustres cavalheiros estarão ansiosamente à espera da habitual festa de fim de temporada, proporcionada por Lord Westcliff, em Hampshire. A Daisy e eu já recebemos convites. E a menina, Annabelle? – Tenho um bom relacionamento com uma sua irmã – respondeu-lhe a outra. – Creio conseguir que me convide. Se necessário, imploro-lhe. – E eu também poderei interceder em seu favor – disse Lillian em tom de confidência. Sorriu para Evie. – E tratarei de que o convite seja extensível a si. – Será tão maravilhosamente excitante! – exclamou Daisy. – O nosso plano está esboçado, então. Dentro de duas semanas invadiremos Hampshire e de lá não sairemos sem um noivo para Annabelle. Inclinando-se para a frente, as quatro deram as mãos, sentindo-se tontas e frívolas e extremamente encorajadas. Quem sabe se o meu destino não estará prestes a mudar, pensou Annabelle, fechando os olhos numa rápida prece de esperança.


Capítulo 2

Simon Hunt aprendera desde muito cedo que uma vez que o destino não o abençoara com sangue nobre, teria de lutar pela sua fortuna num mundo frequentemente pouco caridoso. Considerava-se dez vezes mais agressivo e ambicioso do que o homem mediano. E a maioria das pessoas chegava rapidamente à conclusão que lhes era mais vantajoso deixá-lo levar a sua avante do que tentar fazer-lhe frente. Sendo um homem dominador e mesmo implacável, o sono diário de Hunt não era nunca perturbado por pesos de consciência. Era a lei da natureza: apenas os mais fortes sobreviviam; e os fracos bem podiam sair-lhe do caminho. Filho de um açougueiro, que sempre se matara a trabalhar para conseguir providenciar o conforto necessário a uma família de seis, Simon desde cedo se viu obrigado a seguir as pisadas do pai – assim que este o julgou com idade suficiente para suportar o peso de um cutelo. Longos anos a trabalhar no estabelecimento do pai ajudaram a formar-lhe os braços maciços e os ombros musculosos de talhante. Dele sempre foi esperado que viesse a abraçar o negócio da família, mas assim que perfez vinte e um anos, Simon deu aos pais o desconsolo de deixar o talho, em busca de um diferente meio de sustento. E após investir o seu parco pecúlio de economias, Simon depressa descobriu o seu verdadeiro talento na vida: fazer dinheiro. Simon adorava a linguagem da economia e da gestão, os elementos de risco, a interação entre comércio e indústria e política… e apercebeu-se desde cedo de que a rede ferroviária britânica, em franca expansão, passaria muito rapidamente a representar o meio principal de os bancos conduzirem os seus negócios com a maior eficácia. As remessas de dinheiro e títulos, bem como a criação de oportunidades de investimento de rápido desenvolvimento, dependeriam substancialmente do serviço dos caminhos de ferro. Seguindo os seus instintos, Simon investiu todos os cêntimos que tinha na especulação ferroviária, vendo-se rapidamente recompensado por uma explosão de lucros que de imediato aplicou num amplo âmbito de interesses. Hoje, com trinta e três anos, detinha partes maioritárias de três firmas de manufatura, uma fundição de quatro hectares e um estaleiro. Era convidado regular – ainda que indesejado – dos salões de baile da aristocracia, e sentava-se lado a lado com os mais altos quadros de seis companhias de renome. Após anos e anos de trabalho árduo, obtivera praticamente tudo o que sempre desejara. Contudo, se o questionassem se era feliz, Simon rir-se-ia com desdém de tal pergunta. A felicidade, esse esquivo desfecho do sucesso, era um sinal evidente de complacência. E dada a sua natureza, Simon jamais seria complacente, ou sequer satisfeito; e a bem dizer, nem o desejava. Ainda assim… no cantinho mais profundo, mais íntimo, do seu coração negligenciado, existia um


único desejo que Simon Hunt parecia não conseguir satisfazer. Lançou um breve olhar de relance pelo salão de baile, experimentando mais uma vez a estranha sensação de pontada aguda que a visão de Annabelle Peyton produzia nele. De tantas mulheres disponíveis e dispostas – e eram efetivamente muitas – nenhuma conseguira ainda despertar-lhe a atenção de forma tão poderosa. O encanto de Annabelle ia muito para além da beleza física, não obstante Deus tê-la obsequiado com uma formosura inigualável. Se existisse uma pitada que fosse de poesia na alma de Simon, ele ter-se-ia certamente lembrado de dúzias de extasiadas frases descrevendo-lhe os encantos. Mas como era pouco ou nada versado no assunto, não conseguia encontrar as palavras certas que descrevessem com exatidão aquela atração. Tudo o que sabia era que a simples visão de Annabelle sob a luz tremeluzente dos candelabros o fazia literalmente fraquejar das pernas. Ele jamais esqueceria a primeira vez que a vira, à porta de um teatro de Leicester Square, vasculhando a sua bolsa com um irresistível franzir de testa. O sol vespertino destacara-lhe as mechas de ouro e champanhe no cabelo castanho claro e fizera-lhe a pele resplandecer. Havia algo tão delicioso… tão palpável nela… a pele aveludada, os cintilantes olhos azuis, e aquele franzir de testa impossível de apagar da memória. Estava praticamente certo de que Annabelle já estaria casada por esta altura. Os indícios claros de que a família Peyton mergulhara numa crise de recursos não era de relevância para Simon, que presumia que qualquer lorde no seu juízo perfeito daria desde logo conta do valor daquela mulher, desejando-a para si. Contudo, dois anos passados, Annabelle permanecia solteira – o que acalentava em Simon um secreto laivo de esperança. Via nela uma enternecedora valentia na busca determinada por um marido, uma serenidade e segurança extremas na forma como envergava os vestidos constantemente remendados… o modo claro como se valorizava a si mesma, não obstante a falta de dote. A maneira engenhosa como iniciara todo o processo de caça ao marido fazia lembrar a Simon nada menos do que um experiente jogador lançando as suas últimas cartas, num jogo já dado como perdido. Annabelle era astuta, cuidadosa, intransigente e, ainda assim, deslumbrantemente bela, ainda que, ultimamente, o terrível espetro da pobreza tivesse atribuído ao seu rosto uma certa dureza, especialmente na expressão dos olhos e da boca. Um tanto egoisticamente, Simon não lamentava o apuro financeiro de Annabelle – já que ele lhe proporcionava uma oportunidade que de outro modo jamais teria. O problema residia no facto de Simon ainda não ter engendrado maneira de Annabelle o desejar, uma vez que era óbvio e visível que ela sentia repulsa por tudo o que ele representava. E Simon estava mais do que consciente da escassez de atrativos no seu carácter. Além do mais, ele não tinha pretensões a tornar-se um cavalheiro – tanto quanto um tigre aspiraria a transformar-se num gato doméstico. Ele era apenas um homem com muito dinheiro – e igual dose de frustração por realizar que esse dinheiro não comprava aquilo que ele mais desejava. Até ao momento, a estratégia de Simon Hunt consistira tão somente em aguardar pacientemente, sabendo que a exasperação eventualmente levaria Annabelle a fazer coisas que jamais considerara. A privação tinha a particularidade de apresentar uma situação a toda uma nova luz. Muito em breve, o jogo de Annabelle chegaria ao fim. Ver-se-ia confrontada pelo dilema de escolher casar com um homem pobre ou tornar-se amante de um homem rico. E se fosse este último caso, seria na cama dele que ela acabaria por se deitar. Simon estava certo disso. – Um apetitoso pedaço de mau caminho, aquela… – ouviu comentar atrás de si.


Simon voltou-se para se deparar com Henry Burdick, cujo pai, um visconde, se dizia encontrar-se já no leito da morte. Enquanto aguardava impacientemente a morte do pai – e a consequente herança do título e da fortuna –, Burdick passava a maior parte do seu tempo a jogar e a correr atrás de saias. Olhava agora fixamente para Annabelle – que parecia enredada numa animada conversa com as restantes jovens do seu grupo. – Não saberia dizer – retorquiu Simon. Sentiu uma imediata antipatia por Burdick e toda a sua fanfarronice, uma criatura que, desde o dia em que nascera, tinha recebido toda a sorte de regalias e privilégios servidos numa bandeja de prata. E que nunca fizera o que quer que fosse para justificar uma tão imprudente generosidade do destino, ao que constava. Burdick sorriu, o rosto rubicundo indiciando o excesso de bebida e toda uma vida de alimentação opulenta. – Pois eu tenciono comprová-lo e, espero, muito em breve. Burdick não estava sozinho neste seu intento, longe disso. Muitos homens tinham já assentado os olhos em Annabelle com a mesma expectativa de uma matilha de lobos perseguindo uma presa ferida. E estando ela de tal modo fragilizada, e oferecendo muito menor resistência, um deles acabaria por investir e atacar. Todavia, e tal como na natureza, o macho dominante acabaria invariavelmente por ganhar. A sombra de um sorriso aflorou a rigidez da boca de Simon. – O senhor surpreende-me, confesso – murmurou. – Seria expectável que a desdita de uma senhora inspirasse um cavalheiro da sua categoria a nada menos do que gentis galanteios – e em vez disso vejo-o a enveredar por grosserias típicas de um homem da minha categoria. O outro soltou um risinho gutural, sem sequer se dar conta do fulgor feroz nos olhos negros de Simon. – Por mais senhora que ela seja, terá de optar por algum de nós assim que os seus parcos recursos finalmente se esgotarem. – E algum de vós consideraria, por um momento que fosse, pedir-lhe a mão? – indagou Simon, indolentemente. – Por Deus, e para quê? – exclamou Burdick, lambendo os lábios de antecipação. – Para quê desposar a serigaita sabendo-a brevemente disponível ao preço de uma noite? – Quiçá seja demasiado honrada para isso? – Duvido… Uma mulher tão bela e tão necessitada não pode dar-se ao luxo de ser honrada. Além de que corre o rumor de que ela já… enfim, tratou de ceder os seus préstimos a Lord Hodgeman. – Lord Hodgeman? Profundamente chocado por dentro, Simon logrou ainda assim manter-se impassível. – Quem deu início a tal rumor? – Oh, consta que alguém avistou a carruagem dele à porta da casinha geminada da família Peyton, e a altas horas da noite… E a crer na palavra de alguns dos seus credores, é ele que ocasionalmente lhe paga as contas. O execrável sujeitinho fez uma pausa para soltar uma gargalhada bem-disposta. – Uma noite passada entre aquelas coxas merece bem o encargo da conta da mercearia, não diria? A resposta pronta de Simon consistiu num impulso assassino de decepar a cabeça do outro daquele corpo frouxo. Tinha a noção de que parte da sua raiva era alimentada pela mera visão de Annabelle Peyton na cama com o suíno Lord Hodgeman, e que a parte restante resultava do puro deleite manifestado


por Burdick em relação a um mexerico que provavelmente até era falso. – Pois eu aconselhá-lo-ia a que, ao pretender difamar a reputação de uma senhora, o cavalheiro se munisse de provas sólidas do que acaba de dizer – advertiu-o Simon num tom perigosamente prazenteiro. – Homessa, os mexericos não carecem de prova, meu amigo – ripostou o jovem alegremente. – E o tempo nos ditará em breve o verdadeiro carácter da senhora em causa. Lord Hodgeman não dispõe dos recursos indispensáveis ao sustento digno de uma beleza destas – em breve ela irá exigir-lhe muito mais do que o estritamente necessário. Prevejo que pelo final da temporada, ela enverede pelo trilho de alguém com as algibeiras bem mais recheadas. – E eu prevejo que esse alguém… seja eu próprio – declarou Simon suavemente. Burdick não dissimulou o espanto, o sorriso irónico desvanecendo-se-lhe dos lábios, perguntando-se intimamente se teria ouvido bem. – Perdão?… – Tenho observado o modo como você e a chusma de palermas com quem priva farejam os calcanhares de Miss Peyton, nos últimos tempos – disse Simon, semicerrando os olhos. – Pois agora perderam a vossa oportunidade. – Perder a oportunidade… Mas que diabo quer dizer com isso? – protestou o outro, indignado. – Quero dizer que tenciono infligir o tipo de dor mais lenta e dilacerante, tanto física como mental, ao infeliz que ouse trespassar o meu território. E o próximo que os meus ouvidos oiçam tecer comentários não fundamentados sobre Miss Peyton irá engoli-los dolorosamente – juntamente com o meu punho. O sorriso de Simon revestiu-se de uma aura de feroz ameaça ao fixar o rosto literalmente assombrado de Burdick. – Passe palavra, senhor. A quem julgue ser de particular interesse – advertiu-o, antes de se afastar da criatura pomposa e boquiaberta que acabara de ficar sem fala.


Capítulo 3

Assim que se viu à porta de casa, devidamente entregue pelo primo mais velho que por vezes lhe fazia de acompanhante, Annabelle entrou, desanimada, no átrio deserto de laje fria. Parou ao ver um chapéu deixado displicentemente em cima da mesinha em meia-lua com tampo recortado em forma de concha, encostada à parede. Tratava-se de um chapéu alto de cavalheiro, cinzento-claro com banda em cetim bordeaux. Um chapéu de grande requinte, quando comparado com os pretos, básicos, que a maioria dos homens usava no dia a dia. Annabelle já o vira em demasiadas ocasiões, repousando naquela mesma mesa, qual cobra enroscada. Encostada à mesa, uma distinta bengala com o cabo incrustado de diamantes. Annabelle acalentava o secreto desejo de bater com a bengala na copa do chapéu – preferencialmente quando o dono o estivesse a usar. Em vez disso, subiu as escadas, com um peso no coração e uma pontada aguda nas têmporas. Prestes a alcançar o segundo andar, onde se situavam as salinhas de estar, Annabelle viu surgir um homem alto e corpulento no topo da escada. Olhou-a com um sorrisinho enervante, quase intolerável, o rosto rosado e transpirado de um esforço recente, enquanto uma madeixa assimétrica do cabelo lambido lhe pendia da testa como a crista de um galo. – Lord Hodgeman… – disse ela, visivelmente tensa, engolindo a raiva e a vergonha presas na garganta. Hodgeman era uma das raríssimas pessoas no mundo que ela genuinamente odiava. Um pretenso amigo do seu falecido pai, Hodgeman era visita frequente de sua casa, mas nunca a horas dignas desse nome. Chegava sempre já noite cerrada e, contra todas as regras da decência, passava horas com Philippa, mãe de Annabelle, a sós numa salinha privada. E nos dias que se seguiam às suas visitas, Annabelle não tinha como não reparar que algumas das contas mais prementes haviam sido miraculosamente pagas, e um ocasional credor mais irado, apaziguado. E a mãe mostrava-se invariavelmente sensível e irritadiça – o que nela não era habitual –, escusando-se a conversas. Annabelle recusava-se a acreditar que a mãe, a quem a falta de decoro sempre deixara horrorizada, permitisse quem quer que fosse usar e abusar do seu corpo em troca de dinheiro. No entanto, era essa a única conclusão a tirar – o que deixava a filha num lastimoso estado de vergonha e raiva. E essa raiva não era apenas dirigida à mãe – sentia-se igualmente furiosa com o estado miserável da sua situação, bem como com ela própria por não ter conseguido casar. Foi preciso bastante tempo até que Annabelle se apercebesse de que, por mais bela e encantadora que fosse, e por maior que fosse o interesse demonstrado pelos homens na sua pessoa, esse dia jamais chegaria. Não iria nunca receber uma proposta. Pelo menos, uma honesta.


Desde o seu debute na sociedade, Annabelle vira-se aos poucos forçada a aceitar o facto de que o sonho de ver surgir-lhe à frente o seu príncipe encantado, belo e abastado, culto e sensível, que se apaixonasse por ela e lhe resolvesse todos os seus problemas, não passava de uma ingénua fantasia. E essa desilusão agravara-se ainda mais ao longo do prolongado desencanto que representou a sua terceira temporada. E agora, com a quarta temporada prestes a chegar ao fim, a imagem desalentadora de uma «Annabelle, a mulher do agricultor» era uma realidade alarmantemente próxima. Em silêncio e de rosto totalmente inexpressivo, Annabelle fez menção de passar por Hodgeman, mas este reteve-a com uma mão carnuda no braço dela. Ela repeliu-o com uma tal veemência e antipatia que o gesto brusco quase a fez desequilibrar-se. – Não me toque – disse-lhe, fulminando-o com o olhar gélido. Os olhos dele tornaram-se ainda mais azuis, ainda mais brilhantes, num sério contraste com a rudeza das feições. Sorrindo, poisou a mão no topo do corrimão, impedindo-a de descer. – Mas que pouco hospitaleira te mostras – murmurou, naquela voz de tenor típica dos homens altos, e que a ela lhe soava tão incongruente. – Depois de tudo o que tenho feito pela vossa família. – Não nos fez quaisquer favores – ripostou ela friamente. – Estarias há muito a arrastar-te pelas ruas da amargura, não fosse pela minha generosidade. – Está a sugerir que eu me deveria sentir grata? – perguntou-lhe Annabelle, num tom repleto de ódio e repulsa. – Não passa de um reles abutre, chafurdando na desgraça alheia. – Nada aceitei que não me tivesse sido livremente oferecido, minha linda. Hodgeman estendeu a mão e tocou-lhe no queixo, a viscosidade dos seu dedos fazendo-a saltar de repulsa. – Mas para te ser franco, tem sido um entretém bastante entediante – prosseguiu ele, sem deixar o sorriso irónico. – A tua mãe é demasiado dócil para o meu gosto. Inclinou-se um pouco mais para ela e o odor corporal dele – suor entranhado, deliberadamente encoberto com colónia – encheu as narinas de Annabelle, que mal conteve uma náusea. – Quem sabe da próxima vez resolva antes saborear-te a ti… – murmurou-lhe. Sem dúvida que ele confiava que ela corasse, implorasse, se desfizesse num pranto. Mas Annabelle não vacilou, mantendo os olhos gélidos de morte nos dele. – Seu velho presunçoso e repugnante – disse-lhe, sem alterar a voz –, se algum dia viesse a tornar-me amante de alguém, cuida que não arranjaria melhor traste? Após uma breve pausa, Hodgeman acabou por franzir os lábios numa espécie de sorriso, mas Annabelle sentiu um gostinho particular ao perceber que isso lhe tinha exigido algum esforço. – Afigura-se-me bastante insensato veres-me como um inimigo. Bastam-me três ou quatro palavrinhas dirigidas a amigos bem colocados para reduzir a tua família a um estado de deplorável miséria. – Baixou o olhar para o tecido puído do corpete dela e sorriu desdenhosamente. – No teu lugar, não me mostraria tão desdenhosa nesses trapos velhos e reles quinquilharias. Annabelle corou e assentou-lhe um sopapo na mão ao vê-la estender-se para o seu decote. Rindo com desdém, ele começou a descer as escadas enquanto Annabelle ficou a vê-lo afastar-se, envolvida num gélido silêncio. Após ouvir bater a porta da rua, correu escada abaixo e foi trancá-la. Respirando com esforço, num misto de ultraje e ansiedade, espalmou as mãos de encontro à pesada madeira de carvalho e encostou a fronte a um dos painéis.


– Basta – murmurou em voz alta, tremendo de raiva. Sentia-se saturada daquele velho nojento e das contas por pagar… já todos tinham sofrido o bastante. Teria de arranjar imediatamente um marido – agarrar-se-ia com unhas e dentes à melhor proposta que se lhe deparasse na «festa da caça ao marido» de Hampshire e tudo ficaria resolvido. E se acaso isso falhasse… Fez deslizar as mãos pelo painel de madeira escura, deixando-lhe um trilho húmido de ansiedade. Se o seu plano fracassasse, teria de encarar a hipótese de se tornar amante de alguém. Ainda que nenhum homem parecesse querê-la para esposa, muitos havia que a cobiçavam para as suas camas. Se fosse esperta poderia granjear uma verdadeira fortuna. Tremia só de pensar no terrível panorama de jamais poder vir a socializar nos seus circuitos habituais… de ser desdenhada e ostracizada, e valorizada apenas pelas suas habilidades entre lençóis. As alternativas, viver na virtuosa penúria de costurar ou lavar roupa suja alheia, ou tornar-se ama de crianças ruidosas e com excesso de mimos, pareciam-lhe infinitamente mais arriscadas – uma jovem senhora nessa posição ver-se-ia à mercê de qualquer um. Além de que a retribuição estaria longe de ser suficiente para o sustento da mãe e do irmão – que estariam inevitavelmente destinados a servir. Nenhum dos três poderia dar-se ao luxo de acatar a moralidade de Annabelle. Viveriam num castelo de cartas… que à menor agitação sofreria um colapso. Na manhã seguinte, Annabelle sentou-se à mesa do primeiro almoço com uma chávena de porcelana segura entre os dedos gélidos. Vendo-a levemente esbeiçada, passou repetidamente o polegar pela pequena brecha, sem sequer erguer o olhar para a mãe, acabada de entrar na salinha. – Chá? – perguntou em tom monocórdico, ouvindo-lhe um murmúrio de assentimento. Pegando no bule e servindo uma segunda chávena, Annabelle adoçou-o com uma colherzinha de açúcar, terminando com umas gotas de leite morno. – Há muito que me privei do açúcar – disse Philippa. – Habituei-me a apreciá-lo assim. O dia em que sua mãe deixaria de apreciar doces seria o dia em que passariam a servir água gelada no inferno. – Ainda podemos dar-nos ao luxo de termos açúcar para o seu chá, minha Mãe – disse Annabelle com um suspiro, mexendo-lhe o chá. Fez deslizar a chávena para perto da mãe que, tal como já esperava, lhe pareceu exausta e taciturna, com um laivo de vergonha espreitando-lhe por sob a fachada angustiosa. Em tempos idos, parecer-lhe-ia inconcebível que a sua fogosa e galante mãe – sempre tão mais bonita do que qualquer outra mãe – pudesse assumir uma tal expressão. E ao olhar para o rosto tenso de Philippa, Annabelle apercebeu-se de que a sua própria fachada era o espelho do desalento pela vida, a boca exibindo o mesmo trejeito de desencantamento. – Que tal o baile? – quis saber Philippa, encostando a chávena ao rosto para lhe sentir o vapor. – O desastre habitual – disse Annabelle, suavizando a sinceridade da sua resposta com um risinho falsamente alegre. – O único homem que me pediu uma dança foi Mr. Hunt. – Deus Todo-Poderoso – murmurou Philippa, beberricando do seu chá. – E tu acedeste? – É claro que não. Não haveria nisso qualquer vantagem. Sempre que ele olha para mim torna-se evidente que o que de mim pretende nada tem que ver com casamento. – Até os homens da estirpe de Mr. Hunt acabam eventualmente por casar – comentou Philippa. – E tu serias a esposa ideal para ele… Quem sabe não resultasses numa boa influência, auxiliando-o a abrir caminho pelas mais decentes esferas sociais?


– Por amor de Deus, Mamã… Parece que quer encorajar-me a aceitar-lhe as atenções. – Não – disse Philippa, pegando na colher para uma mexida desnecessária no seu chá. – Não, se de facto considerares Mr. Hunt inaceitável. Contudo, se te dispusesses a dar-lhe uma oportunidade, sem dúvida que todos nós beneficiaríamos da sua… – Ele não é nem nunca será casadoiro, Mamã – interrompeu-a Annabelle. – Toda a gente sabe isso. Por mais atenciosa e dedicada que me mostrasse, jamais obteria dele uma proposta minimamente respeitável. Annabelle enterrou a colher no açucareiro em busca do torrão mais pequeno que encontrasse. Deitouo na chávena recém-servida e mexeu-o com ar ausente. Philippa beberricou do seu chá, desviando cautelosamente não apenas o olhar como o assunto – que Annabelle pressentiu ter uma desagradável ligação com o anterior. – Não dispomos de recursos para manter Jeremy na escola no próximo ano. Deixei de pagar aos criados já lá vão alguns meses, e temos contas por liquidar que… – Sim, minha Mãe, estou bem ciente disso – disse Annabelle sentindo-se corar de desagrado. – Muito em breve arranjarei um marido, prometo. – Conseguiu forçar um sorriso. – Que me diz de uma jornada até Hampshire? Agora que a saison está a chegar ao fim, são muitas as famílias que deixam Londres em busca de novas distrações – em particular a caçada que Lord Westclif conta promover na sua propriedade rural. Philippa olhou a filha com todo um novo brilho no olhar. – Não me dei conta de termos recebido um convite do conde. – Não recebemos – replicou Annabelle. – Por enquanto. Mas ele chegará, confie. E eu tenho um forte pressentimento de que novas e excelentes oportunidades nos aguardam em Hampshire, Mamã.


Capítulo 4

Dois dias antes de Annabelle e a mãe partirem para Hampshire, receberam uma encomenda composta por uma enorme pilha de embrulhos e caixas. Foi necessário ao lacaio galgar por três vezes as escadarias da casa, de modo a entregar todas as encomendas no quarto de Annabelle. O velhote empilhou-as ao lado da cama dela, que se dedicou desde logo a desembrulhar cuidadosamente cada uma delas, deparando-se, incrédula, com pelo menos uma dúzia de vestidos por estrear. Tafetás, sedas e musselinas em tons deslumbrantes, com os respetivos casacos a condizer, forrados na camurça mais suave, e um vestido de baile em pesada seda cor de marfim e com delicadas aplicações em renda de bilros no corpinho e nas mangas. Havia também luvas, xailes e lenços às dúzias, bem como alguns chapéus – tudo de uma qualidade tal que por pouco Annabelle não se largou em prantos. Sem dúvida que aqueles vestidos e acessórios deveriam ter custado uma pequena fortuna – nada de significativo para as manas Bowman, mas uma dádiva preciosa para Annabelle. Pegando na carta que acompanhava a encomenda, e ainda de mãos trémulas, Annabelle quebrou-lhe o lacre, abriu-a e sentou-se na cama a ler. Das suas Fadas-Madrinhas, igualmente conhecidas por Lillian e Daisy. Com desejos de uma feliz caçada em Hampshire. P.S. Não vai perder a coragem, pois não? Annabelle sorriu e prontificou-se a responder. Prezadas Fadas-Madrinhas, Temo que a coragem seja a única coisa que me resta. Recebam a minha eterna gratidão pelos maravilhosos vestidos. Sinto-me absolutamente extasiada por finalmente poder voltar a vestir roupas belas. É talvez a minha maior fraqueza, o amor que tenho pelas coisas belas. Com o mais devoto afeto, Annabelle P.S. Lamentavelmente vos devolvo os sapatos, visto ficarem-me pequenos. Parece confirmarse o que sempre ouvi dizer: que as jovens americanas têm pés grandes! Cara Annabelle,


Será mesmo uma fraqueza amar as coisas belas? Só se for uma ideia inglesa, essa, já que tal coisa jamais ocorreu a qualquer alminha de Manhattanville. Só pela sua observação acerca dos nossos pés, conte que a iremos obrigar a uma partida de rounders connosco, em Hampshire. Vai adorar bater com paus em bolas, acredite! Nada existe de mais prazenteiro. Estimadas Lillian e Daisy, De bom grado aceito o desafio, desde que logrem persuadir a Evie a juntar-se a nós, o que, francamente, duvido. E visto não ter como saber antes de experimentar, consigo pensar num rol infindável de coisas mais prazenteiras do que bater com paus em bolas. Desencantar um marido é uma delas… A propósito, o que leva uma jovem vestido para uma partida de rounders? Um fato de passeio? Cara Annabelle, Jogamos em knickers, naturalmente. Cuida conseguir correr livremente enfiada numa saia? Caras Lillian e Daisy, Temo que o termo knickers me seja absolutamente estranho. Referir-se-ão a uma qualquer espécie de roupa interior? Certamente que não estão a sugerir que surjamos em pleno ar livre apenas em calcinhas, como crianças selváticas…? Cara Annabelle, A palavra deriva do termo knickerbockers, as bragas masculinas usadas por uma esfera social nova iorquina da qual sempre fomos ritualmente excluídas. Na América, o termo «calcinhas» há muito que caiu em desuso… Ah, e a Evie disse que sim. Querida Evie, Não acreditei no que os meus olhos leram na mais recente carta das manas Bowman, informando-me de que a Evie concordara jogar uma partida de rounders e vestida com ceroulas! É mesmo verdade? Confesso que espero que não, uma vez que impus a condição de aceitar apenas se a menina aderisse à ideia… Cara Annabelle, Estou profundamente convicta de que esta minha aliança com as manas Bowman me irá auxiliar a combater a timidez. «Rounders em ceroulas» afigura-se-me um excelente primeiro passo. Tê-la-ei chocado? É curioso… nunca choquei ninguém na minha vida, incluindo eu própria! Espero ter-lhe causado boa impressão com esta minha disposição de aderir ao espírito das coisas.


Cara Evie, Impressionada, divertida e de certo modo apreensiva quanto aos eventuais apuros para os quais as manas Bowman nos arrastem. E onde, diga-me, por Deus, onde iremos nós desencantar um local suficientemente recatado para não sermos observadas a jogar rounders em tais figuras? E sim, estou profundamente chocada, sua figurinha desavergonhada! Cara Annabelle, Cada vez mais me inclino a acreditar que existem dois tipos de pessoas… as que escolhem ser senhoras dos próprios destinos e aquelas que esperam, sentadas em cadeiras, enquanto as outras dançam. E eu adoraria pertencer ao primeiro grupo, creia. Quanto ao local da partida e em que condições terá lugar, deixo tais pormenores nas hábeis mãos das manas Bowman. Com o maior apreço e estima, Evie, a desavergonhada Durante a fervilhante permuta destes e de outros alegres bilhetes, Annabelle deu por si a viver uma experiência para ela esquecida há muito… o absoluto deleite de ter amigas. Uma vez que as suas amigas antigas tinham, todas elas, alcançado a consagrada existência de senhoras casadas, Annabelle passara rapidamente à condição de esquecida. E a sua condição de encalhada, já para não falar da alarmante falta de recursos financeiros, tinham criado nela uma fissura que a amizade parecia não conseguir transpor. Nos últimos tempos ela tornara-se cada vez mais apartada, independente, esforçando-se por evitar a companhia de raparigas com quem outrora conversara e rira e partilhara segredos e cumplicidades. E agora, numa súbita e única investida, ela adquirira três amigas com quem desfrutava de tanto em comum, não obstante as origens distintas. Eram as quatro jovens senhoras, com esperanças e sonhos e angústias e receios… cada uma delas perfeitamente familiarizada com a visão de um polido par de sapatos masculinos passando pela sua fileira de cadeiras, em busca de uma presa mais promissora. Ao ajudarem-se mutuamente, as encalhadas nada tinham a perder; pelo contrário, teriam tudo a ganhar. – Annabelle… – ouviu a voz da mãe da porta do seu quarto, enquanto terminava de arrumar cuidadosamente as caixas de luvas, novinhas em folha e ainda por abrir, dentro de uma gaveta. – Tenho uma pergunta a fazer-te e que sejas honesta na tua resposta. – E alguma vez eu deixei de ser honesta com a Mamã? Ao erguer o olhar para a mãe, sentiu uma pontinha de remorso perante aquele semblante belíssimo e carregado de preocupações. Que Deus a perdoasse, mas sentia-se saturada dos sentimentos de culpa de Philippa, para não falar dos seus. Sentia uma profunda mágoa e desespero pelo terrível sacrifício que sua mãe certamente fizera ao deitar-se com Lord Hodgeman. E contudo, bem no seu íntimo, atormentava-a a ideia de Philippa, acaso ter conscientemente optado por seguir aquela via, poder perfeitamente estabelecer-se como uma verdadeira amante, arrogada e digna, ao invés de se acomodar às insignificantes esmolas que Lord Hodgeman lhe concedia. – De onde vieram todas estas coisas? – quis saber Philippa, pálida mas sincera ao fixar diretamente os olhos da filha.


Annabelle encolheu os ombros. – Pois se já lho disse, Mamã… que foram uma oferta de Lillian Bowman. Porque me olha desse modo? – Não terão estas roupas sido enviadas por um homem? Mr. Hunt, talvez? Annabelle não conseguiu evitar que o queixo lhe caísse de espanto. – A Mamã está a insinuar que eu possa… Com ele?! Deus seja louvado, minha Mãe! Ainda que tivesse a inclinação, jamais teria a oportunidade! E por que razão lhe terá passado uma tal ideia pela mente? Philippa manteve o olhar fixo nos olhos da filha. – Referiste amiúde o nome dele ao longo desta temporada. Mencionaste-o com muito mais frequência do que a qualquer outro cavalheiro. E esses vestidos aparentam ter sido extremamente dispendiosos... – Não foi ele quem mos enviou – disse Annabelle num tom firme. Phillippa pareceu serenar, mantendo ainda assim uma expressão interrogativa no olhar. Pouco acostumada a ser observada com suspeita, Annabelle pegou num chapéu e colocou-o na cabeça com um gesto elegante. – Não foi ele – insistiu. Amante de Simon Hunt… Voltando-se para o espelho do toucador, Annabelle viu uma expressão inesperadamente tolhida refletida no rosto. Cuidava que a mãe teria razão, ela tinha mencionado Mr. Hunt com bastante frequência nos últimos tempos. Algo nele fazia com que certos pensamentos lhe permanecessem no espírito, muito após os seus encontros. Nenhum homem que ela conhecia possuía aquela atração perversa, magnética, nem nenhum se mostrara tão abertamente interessado nela. E agora, nas últimas semanas desta malograda temporada, Annabelle dera por si a meditar, a pensar em determinadas coisas que nenhuma jovem decente deveria sequer considerar. Ela sabia que não seria necessário um grande esforço da sua parte para se tornar amante de Simon Hunt – e assim pôr fim a todos os problemas. Ele era um homem abastado – iria proporcionar-lhe certamente tudo o que ela desejasse, saldar os encargos da família e cobri-la de roupas e joias, carruagem particular, casa própria… tudo isto na mera condição de ela dormir com ele. Aquele pensamento fê-la arrepiar-se, sentir borboletas no estômago. Tentou imaginar-se nos braços de Simon Hunt, na sua cama, sujeita a tudo quanto ele lhe exigisse, as mãos dele no corpo dela, a boca… Corando profundamente, afastou aquela imagem do espírito brincando com os adornos de seda rosa na banda aveludada do seu chapéu. Acaso se tornasse amante de Simon Hunt, ele seria seu dono e senhor de plenas funções, na cama e fora dela, e a ideia de ficar tão absolutamente à sua mercê seduzia-a intensamente. Uma vozinha interior plena de sarcasmo indagou: Será a tua honra assim tão importante para ti? Mais importante que o bem-estar da tua família? Ou até que a tua própria sobrevivência? – Sim – afirmou perentória, observando o seu reflexo, resoluto e pálido. – Por agora, sim. Não poderia responder a longo termo. Mas até que a sua derradeira réstia de esperança se extinguisse, manteria firmemente o amor-próprio – e lutaria com unhas e dentes para conseguir mantê-lo.


Capítulo 5

Era simples de entender a razão pela qual o nome Hampshire tinha origem no termo em inglês arcaico hamm, que referia um prado inundado. No condado abundava este tipo de paisagens, bem como charnecas e luxuriantes bosques que em tempos haviam sido marcados como terrenos de caçadas reais. Com os seus contrastes de vertiginosas escarpas e amplos vales verdejantes, e os seus rios a transbordarem de trutas, Hampshire oferecia um vastíssimo rol de atividades para toda a sorte de desportistas. Stony Cross Park, a propriedade do conde de Westcliff, destacava-se como uma joia num vale fluvial fertilíssimo estendendo-se delicadamente por vastos hectares de floresta. Stony Cross Park ostentava um constante frenesim de convidados, já que Westcliff se revelava um anfitrião de excelência, bem como um experiente caçador. Aparentemente, Lord Westcliff era merecedor da sua reputação de cavalheiro de honra imaculada e altos princípios morais. Não era pessoa de se envolver em escândalos, já que se mostrava pouco tolerante às intrigas e arguciosas moralidades da sociedade londrina. Ao invés, preferia passar grande parte do tempo no campo, dedicando-se afincadamente às suas responsabilidades e ao bem-estar dos seus arrendatários. De quando em vez viajava até Londres para acompanhar e promover os seus negócios e interesses, ou envolver-se num qualquer assunto político que lhe exigisse a atenção. E fora precisamente numa dessas viagens que Annabelle conhecera o conde, tendo-lhe sido apresentado numa soirée. Mesmo não sendo de uma beleza clássica, Westcliff não era parco em atrativos. De estatura mediana, ostentava uma estrutura indiciadora de uma excelente forma física e uma aura de indiscutível virilidade. Tudo isto, combinado com uma enorme fortuna pessoal e posse de um dos mais antigos títulos nobiliárquicos, tornava-o um dos mais cobiçados partidos da sociedade londrina. Naturalmente, Annabelle não perdera tempo a seduzi-lo no minuto em que lhe pusera os olhos em cima. Contudo, o conde mostrara-se absolutamente imune a quaisquer investidas femininas, tendo-a, a ela, rotulado de caçadora de maridos – o que a deixara abalada, mesmo sendo verdade. Desde que Annabelle se vira rechaçada por Westcliff que se esforçava por evitá-lo. Apreciava bastante a sua irmã mais nova, Lady Olivia, uma jovem doce e reservada que teria aproximadamente a idade de Annabelle, e que tinha sido atormentada por um escândalo do passado. E fora precisamente graças à generosidade de Lady Olivia que ela e Evie haviam sido convidadas para a festa. E agora, por três belas e longas semanas, um rol de presas das mais variadas – tanto de duas como de quatro pernas – estariam sitiadas e à disposição em Stony Gross Park. – My lady – exclamou Annabelle ao ver Lady Olivia surgir a recebêlas –, que bondade a sua ter-nos convidado! Londres estava positivamente sufocante. O clima retemperador de Hampshire é precisamente


o que mais precisávamos. Lady Olivia sorriu. Não obstante a sua pequena estatura e feições comuns, apresentava-se particularmente bonita nesta ocasião, o rosto resplandecendo de felicidade. Segundo o que Lillian e Daisy contaram, Lady Olivia estava noiva de um milionário americano. «E trata-se de um matrimónio por amor?», perguntara Annabelle na sua última carta, ao que Lillian respondera que constava que sim. «Contudo», Lillian ressalvara, «meu pai crê que a aliança entre as duas famílias será certamente de vantagem financeira para Lord Westcliff, razão pela qual terá dado o seu consentimento». Para o conde, o romance estava longe de ser tão importante quanto as considerações de ordem prática. De regresso ao presente, Annabelle sorriu enquanto Lady Olivia lhe tomava as mãos nas dela, num gesto de acolhimento. – E as meninas são precisamente o que nós precisávamos! – exclamou a jovem com um risinho jovial. – Esta casa está apinhada de machos obcecados pelo desporto – e eu informei o conde de que teríamos absolutamente de convidar algumas jovens senhoras, por forma a mantermos um ambiente relativamente civilizado. Venham, deixem que vos acompanhe aos vossos aposentos. Agarrando as saias do seu novo vestido de musselina rosa, gentil oferta de Lillian, Annabelle seguiu Lady Olivia pelos degraus que levavam ao átrio de entrada. – E como está Lord Westcliff? – quis saber. – De boa saúde, espero? – Meu irmão está em excelente forma, obrigada. Se bem que temo que esteja a um passo da loucura com os planos do meu casamento. Insiste em controlar obstinadamente os mais ínfimos pormenores. – Sem dúvida uma prova do seu apreço por si, minha querida – afirmou Philippa. Lady Olivia soltou um risinho irónico. – Será antes a prova da sua incontrolável necessidade de controlar tudo e todos ao seu redor. Confesso que se me afigura difícil que alguma vez desencante uma noiva suficientemente resoluta para o manejar. Captando o subtil olhar cúmplice da mãe, Annabelle abanou levemente a cabeça. Seria de pouca ou nula utilidade encorajar as expectativas de Philippa nessa direção. Contudo… – Acontece que eu conheço uma jovem resoluta e absolutamente encantadora que, por sorte, permanece casadoira… – comentou. – Americana, por acaso. – Refere-se a alguma das irmãs Bowman? – perguntou Lady Olivia. – Ainda não tive o prazer de as conhecer, ainda que seu pai já tenha estado em Stony Cross. – São ambas encantadoras em todos os aspetos, creia – comentou Annabelle. – Excelente – exclamou a outra. – Quem sabe não arranjaremos finalmente uma noiva para meu irmão? Chegadas ao segundo andar, retiveram-se para observar por um breve momento as pessoas que se acumulavam lá em baixo no átrio principal. – Temo que não se encontrem por cá tantos solteiros disponíveis quanto os desejados… – comentou a anfitriã. – Mas ainda nos restam uns quantos… Lord Kendall, por exemplo. Se a Annabelle o desejar, poderei apresentar-lho mal a ocasião mo permita. – Muito agradecida, terei nisso um imenso prazer. – Receio que ele seja algo reservado, contudo. Não será com certeza muito atraente para alguém tão alegre e fascinante quanto a menina…


– Pelo contrário – disse Annabelle rapidamente. – Atraem-me bastante os cavalheiros reservados. Uma certa circunspeção digna torna-os bem mais interessantes do que aqueles que se dedicam eternamente a bambolear-se e vangloriar-se à nossa volta. Tal como Simon Hunt, pensou com azedume, cuja adulação por si mesmo não podia ser mais gritante. Antes de Lady Olivia poder responder, o seu olhar prendeu-se à distância no de um cavalheiro de cabelos loiros que acabara de chegar ao átrio de entrada. Ali ficou, numa postura refletidamente descontraída, de ombro apoiado a uma coluna, as mãos enfiadas nas algibeiras do casaco. Annabelle soube de imediato que ele era americano. O sorrisinho irreverente e os argutos olhos azuis, a juntar ao modo descontraído com que envergava as elegantes roupas, denunciavam-no. O facto de Lady Olivia ter enrubescido assim que o viu também ajudou. Pareceu precisar de um ou dois fôlegos extra para se restabelecer – e devido apenas ao modo como ele olhou para ela. – Com a vossa licença… – murmurou ele com ar ausente. – Eu… o meu noivo… parece requerer a minha presença. E com isto se foi, com um aparte sussurrado sobre o quarto delas ser o quinto à direita. De imediato lhes surgiu uma governanta que se prontificou a acompanhar mãe e filha no restante percurso até aos quartos. Annabelle suspirou, antes de comentar em surdina: – Ao que parece, haverá sem dúvida uma acérrima competição feminina por Lord Kendall. Queira Deus que ele não se encontre já comprometido. – Ora… não será com certeza o único cavalheiro disponível por estas bandas – comentou Philippa com um laivo de esperança. – Não esqueçamos o próprio Lord Westcliff. – Aconselho-a a não alimentar demasiadas esperanças nesse sentido, Mamã – disse Annabelle, levemente irónica. – O conde mostrou-se manifestamente mal impressionado em relação a mim desde o primeiro momento em que nos conhecemos. – Só pode ter havido um profundo erro de discernimento da parte dele – foi a resposta indignada da mãe. Sorrindo, Annabelle levou a mão à mão enluvada da mãe. – Obrigada, Mamã. Mas creia que é preferível que eu repouse as vistas num alvo mais… atingível. À medida que os convidados continuavam a chegar, alguns dirigiam-se diretamente aos quartos para se refrescarem ou fazerem uma breve sesta, em antecipação do auspicioso jantar e baile de receção que teriam lugar nesse mesmo serão. Senhoras tagarelas e alcoviteiras juntavam-se no salão ou na sala de jogos, enquanto os cavalheiros preferiam jogar bilhar ou fumar na biblioteca. Assim que a criada terminou de lhes desfazer as malas, Philippa preferiu descansar por umas horas. Se bem que pequeno, o quarto era adorável, forrado num gracioso papel de parede às florinhas e com janelas emolduradas por cortinas de seda azul pálido. Quanto a Annabelle, demasiado impaciente e agitada para pensar em dormir, estimou que Evie e as manas Bowman já haveriam de ter chegado. Ainda assim, quereriam certamente refrescar-se da viagem. Portanto, e ao invés de suportar horas perdidas de inatividade forçada, Annabelle decidiu ir explorar os jardins e paisagens do exterior da mansão. Estava um dia quente e soalheiro, e ela sentia necessidade de se exercitar após a longa viagem de carruagem. Mudou-se, elegendo um vestido de dia em musselina azul moldado por fileiras de minúsculas pregas, e saiu.


Aventurou-se por uma porta lateral, cruzando-se com alguns dos criados, e saiu para o sol da tarde. Havia qualquer coisa de misteriosamente belo na atmosfera de Stony Cross Park. Era fácil imaginarmonos num local mágico, situado algures numa terra distante. A floresta em seu redor era tão densa e profunda quanto milenar, na sua aparência, enquanto os cinco hectares de jardins das traseiras da mansão pareciam demasiado perfeitos para serem reais. Havia arvoredos, sendas e clareiras, lagos e fontes, fazendo daquele jardim um refúgio de múltiplos estados de ânimo, alternando entre tranquilidade e colorido tumulto. Um jardim sereno, disciplinado, cada fio de relva zelosamente cortado, as arestas dos canteiros de buxo primorosamente aparadas em redor de desenhos belíssimos. Desprovida de chapéu e de luvas, e imbuída de uma súbita onda de otimismo, Annabelle respirou profundamente aquele ar fresco do campo. Contornou os jardins das traseiras da mansão, dispostos em fileira, e seguiu por um trilho de cascalho fino que serpenteava por entre canteiros de papoilas e gerânios. Desde logo o ar se tornou mais denso do perfume das flores, à medida que o caminho se encontrava com um muro de pedra seca, coberto de alto a baixo por uma amálgama de rosas creme e cor de rosa. Abrandado o passo, Annabelle atravessou um pomar de pereiras ancestrais, esculpidas por décadas de formas fantásticas. Um pouco mais adiante, um gigantesco toldo de bétulas prateadas abrigava um bosque a perder de vista. O trilho de cascalho acabava aí, num pequeno círculo onde fora centrada uma mesa de pedra. Aproximando-se dela, Annabelle viu os tocos derretidos de duas velas colados na superfície da mesa. Sorriu, nostálgica, pensando que a privacidade daquela clareira representava o cenário perfeito para um encontro amoroso. Indiferente à atmosfera etérea em seu redor, um bando de cinco anafados patos brancos atravessaram o círculo de cascalho e dirigiram-se saracoteantes a um pequeno lago construído um pouco mais adiante. Dava a ideia de estarem mais do que acostumados à afluência de convidados e visitantes de Stony Park, uma vez que ignoraram completamente Annabelle quando passaram por ela. Grasnaram alto e bom som antevendo já o deleite de um mergulho no laguinho artificial, e aceleraram o seu bambolear de um modo tão cómico que Annabelle riu a bom rir. De súbito, pareceu-lhe ouvir o estalar de uns passos pesados no cascalho. Voltou-se e avistou à distância um homem – que muito provavelmente regressaria de um passeio pela floresta. Ergueu a cabeça para olhar para Annabelle, numa expressão atenta, atónita mesmo, cruzando o olhar com o dela. Annabelle sentiu-se gelar. Simon Hunt, pensou, muda de espanto e de choque por vê-lo ali, em Stony Cross. Ela sempre o associara à vida mais mundana da cidade – vira-o quase sempre em ambientes interiores, à noite, e confinado por paredes e janelas, laços de seda e colarinhos engomados. Todavia, neste ambiente em plena luz do dia, ele pareceu-lhe uma criatura totalmente diferente. A sua constituição robusta e de ombros largos, tão inconciliável com o corte estreito dos casacos de noite, parecia-lhe agora quase perfeita sob o tecido espesso do casaco de caça e da camisa de colarinho aberto – e sem gravata de espécie alguma. Parecia mais moreno do que o habitual, a pele levemente acobreada, indiciadora de algum tempo passado fora de portas. O sol refletia-se-lhe no cabelo espesso que, concluiu ela, afinal não era negro mas antes castanho-escuro. As suas feições, delicadamente delineadas pela luz do sol, eram fortes e proeminentes e magníficas. Os breves toques de suavidade no rosto… os espessos semicírculos de sobrancelhas escuras, a sensual curva do lábio inferior, tudo era ainda mais intrigante quando inserido


naquele ambiente austero. Hunt e Annabelle fixaram-se em silenciosa perplexidade, como se alguém tivesse colocado uma questão à qual nenhum sabia responder. O silêncio alongou-se, tornando-se cada vez mais desconfortável, até que finalmente Hunt o quebrou: – Que belo som… – disse suavemente. Annabelle lutou para recuperar a voz. – Qual? – indagou. – O do seu riso. Ela sentiu uma ligeira guinada no diafragma, que não era nem de dor nem de prazer. Sentiu-se de tal forma desarmada que nem soube o que dizer. Jamais se tinha sentido assim. Inconscientemente, levou os dedos ao ponto logo abaixo das suas costelas. Os olhos de Hunt acompanharam-lhe o movimento antes de voltarem a fixar-se no rosto dela. Aproximou-se um nadinha mais da mesa de pedra, encurtando a distância entre ambos. – Não contava vê-la por cá – disse, percorrendo-lhe desconcertantemente o corpo com o olhar. – Mas bem vistas as coisas, este é sem dúvida o local ideal para uma mulher na sua situação. Ela semicerrou os olhos. – E qual é ela, ao certo? – De busca por um marido – esclareceu-a ele. Ela respondeu-lhe com um olhar desdenhoso. – Não ando em busca de ninguém ou de coisa alguma, Mr. Hunt. – Lançando o isco – prosseguiu ele –, içando o arpão e soltando o incauto peixinho até o ver arquejar em agonia pelo chão do convés. Annabelle apertou os lábios numa linha ténue. – Pode ficar descansado e sem a menor apoquentação, Mr. Hunt, já que não tenho intenções de o arredar da sua preciosa liberdade. É o último nome da minha lista. – E que lista é essa? – O seu tom carregado de sarcasmo era cada vez mais enervante: – Ah… presumo que tenha feito uma lista de possíveis candidatos. É um alívio saber que não figuro nela, uma vez que sempre foi minha firme intenção resistir a todo o custo ao cárcere do matrimónio. Mas não posso deixar de me perguntar… quem estará no topo dessa sua lista? Annabelle recusou-se a responder. Ainda assim o seu nervosismo foi desmascarado pelo estender de mão para um dos cotos de vela, raspando-lhe a cera com as unhas. – Westcliff, talvez? – provocou-a ele. Annabelle soltou um risinho sarcástico, já quase sentada sobre a mesa de pedra. O tampo suave e aquecido pelo sol provocou-lhe uma sensação agradável. – De todo. Não casaria com o conde nem que ele se ajoelhasse a meus pés e mo implorasse. Hunt riu-se com gosto da descarada mentira. – Um lorde da mais fina linhagem e com tamanha fortuna? Nem pensaria duas vezes, desse ele esse imprudente passo. Com o ar mais casual possível, Hunt sentou-se no extremo oposto da mesa, e Annabelle mal se conteve em encolher-se da sua proximidade. Usualmente, uma conversa entre uma senhora e um cavalheiro estava salvaguardada pelo entendimento acordado de que havia determinadas coisas que um


cavalheiro jamais faria… embaraçá-la ou insultá-la, ou tirar vantagem dela seja de que forma fosse. Contudo, no caso de Simon Hunt tais garantias eram manifestamente inexistentes. – Por que razão está aqui? – quis saber Annabelle. – Sou amigo de longa data de Lord Westcliff – respondeu ele prontamente. A Annabelle pareceu impensável que o conde pudesse considerar seu amigo um homem como Simon Hunt. – E que razões podem sustentar uma tal amizade, não me dirá? E não me diga que ambos têm seja lá o que for em comum – são dois homens tão diferentes quanto o dia da noite. – Pois saiba que o conde e eu temos efetivamente alguns interesses comuns. Ambos gostamos de caçar, e partilhamos uma imensidão de teorias e crenças políticas. E ao contrário da maioria dos nobres da nossa praça, Westcliff não se permite deixar-se aprisionar pelas restrições da vida aristocrática. Tal como eu. – Bom Deus… – murmurou Annabelle, escarnecendo-o. – O senhor parece considerar a aristocracia como um estado de clausura. – É um facto. – Nesse caso, mal posso esperar por me enclausurar e lançar a chave fora. Hunt não conteve uma gargalhada genuína. – Não duvido que se sairia lindamente como esposa de um nobre. Vendo aquela frase muito longe de ser elogiosa, ela reagiu num tom brusco: – Já que demonstra um tal desprezo pela aristocracia, pergunto-me por que razão passa tanto do seu tempo dentro dos seus círculos? – São-me de alguma utilidade, não o nego. E não é que os despreze, aos nobres, apenas não desejo fazer parte deles. Caso não tenha reparado, a aristocracia, ou pelo menos o estilo de vida que ela advoga, está moribunda. Aquela declaração fê-la abrir os olhos de espanto. – Como assim? – Muitos dos nossos nobres latifundiários estão a perder as suas fortunas, vendo-as reduzidas e desbaratadas por um sempre crescente número de familiares que requerem o seu auxílio… Para já não falar nas transformações económicas com que nos deparamos quase diariamente nos dias que correm. O domínio e a administração do nosso Estado pelos grandes proprietários está a chegar ao fim e rapidamente. Apenas homens como Westcliff, abertos a um novo futuro e a uma viragem do estado de coisas, resistirão à mudança. – Com o seu precioso auxílio, claro está – disse Annabelle. – Precisamente – disse ele com uma sobranceria tal que ela não conseguiu deixar de rir. – Alguma vez considerou sequer assumir uma réstia de humildade, Mr. Hunt? Nem que dissimulada? Eu sei lá… por mera cortesia? – Não acredito em falsas modéstias. – As pessoas apreciá-lo-iam bastante mais, creia-me. – A Miss Peyton também? As unhas de Annabelle cravaram-se na cera suave de tom pastel, e ela lançou um olhar rápido aos olhos dele, tentando avaliar o alcance daquela pergunta. Para seu enorme espanto, em vez de desdém viu-


lhe sinceridade e um laivo de esperança. Parecia genuinamente interessado na sua resposta. Observandoo intensamente, sentiu-se empalidecer ligeiramente. O desconforto dela face àquela situação era crescente, gritante. Uma conversa a sós com Simon Hunt, com ele sentado junto dela como um pirata folgazão e inquisidor, deixava-a fisicamente alterada. Baixou o olhar para a mão dele, grande e forte, os dedos longos e limpos e bronzeados, com unhas tão curtas que os semicírculos brancos eram quase impercetíveis, e tentou não vacilar. – Apreciá-lo seria talvez um termo excessivo – disse ela, sentindo que quanto mais tentava controlarse para não enrubescer, mais quentes sentia as faces. – Mas creio que passaria a tolerar mais facilmente a sua companhia se decidisse comportar-se como um cavalheiro, sim. – Como por exemplo? – Para começar, abstendo-se dessa atitude de… querer corrigir constantemente as outras pessoas. – Não considera a honestidade uma virtude? – Sim… mas dificilmente auxilia a uma boa conversa. – Ignorou-lhe a risadinha e continuou: – E o modo como fala abertamente de dinheiro é deveras grosseiro, particularmente para os estratos superiores. As pessoas finas fingem não se preocupar com questões financeiras, se têm mais ou menos dinheiro, como o ganharam e como contam investi-lo ou gastá-lo ou… esse tipo de coisas que o senhor parece gostar de analisar. – Confesso que nunca entendi por que razão a busca entusiasta pela riqueza é vista com um tal desdém. – Talvez por essa busca ser, regra geral, acompanhada de grandes vícios… a ganância, o egoísmo, a hipocrisia… – Eu não tenho tais defeitos. Annabelle ergueu os sobrolhos. – Ah… não? Sorrindo, Simon Hunt abanou lentamente a cabeça, a luz do sol refletida nas madeixas de tom zibelina. – Fosse eu ganancioso e egoísta, reservaria para mim próprio o gordo dos lucros dos meus negócios. No entanto, os meus associados poder-lhe-ão confirmar que sempre se viram generosamente recompensados pelos seus investimentos. E os meus empregados são todos remunerados bem acima da média. Quanto à hipocrisia… bom, creio ser notório em mim o exato oposto dela, o que não deixa de me causar alguns amargos de boca. Sou extremamente sincero – o que é tido como imperdoável numa sociedade civilizada. Sem saber muito bem porquê, Annabelle deu por si a devolver o sorriso àquele descarado grosseirão. Desencostou-se da mesa e sacudiu o pó das saias. – Não conto perder nem mais um segundo do meu precioso tempo a incentivá-lo a ser cortês e educado quando é absolutamente notório que não deseja sê-lo. – Não foi tempo perdido – disse-lhe, rodeando-a para ficar a seu lado. – Vou dedicar alguma consideração aos seus conselhos e ponderar até modificar os meus modos. – Não se incomode… Considero-o uma causa perdida, temo bem. E agora, se me der licença, vou prosseguir com o meu passeio. Desejo-lhe uma tarde agradável, Mr. Hunt. – Permita-me que a acompanhe – disse-lhe ele suavemente. – Pode aproveitar para me tentar educar.


Prometo que a ouvirei atentamente. De um modo impertinente, Annabelle franziu-lhe o nariz numa careta, declarando: – Duvido seriamente, Mr. Hunt. E afastou-se, decidida, pelo caminho de pedrinhas, perfeitamente consciente de que ele ficara a observå-la atÊ a ver desaparecer pelo pomar de pereiras.


Capítulo 6

Mesmo antes de jantar, no primeiro serão da sua estadia, Annabelle, Lillian e Daisy reuniram-se na sala de receção do piso térreo, uma espaçosa área disposta por núcleos de mesas e cadeiras, o local que a maioria dos convidados escolhera para conviver. – Eu já calculava que esse vestido lhe iria assentar um milhão de vezes melhor do que em mim – comentou Lillian Bowman alegremente, abraçando Annabelle e afastando-a ligeiramente de si para melhor a admirar. – Oh, é uma verdadeira tortura ser amiga de alguém tão deslumbrante quanto a menina… Annabelle estava realmente deslumbrante, num vestido de seda amarelo com ondeantes sainhas em tule, apanhadas em intervalos estreitos por minúsculos raminhos de violetas de seda. Usava o cabelo apanhado na nuca numa trança que tinha tanto de intrincado quanto de sofisticado. – Ora, são os seus olhos, minha amiga, demasiado gentis. Creia que tenho inúmeras imperfeições. – Ai sim? E quais são? Annabelle sorriu timidamente. – Uma vez que não reparou, dificilmente lhas irei confessar. – Já a Lillian tem por hábito descrever alto e bom som as suas imperfeições – disse Daisy, com um brilho divertido no olhar. – Tem orgulho nelas, inclusivamente. – Tenho um temperamento terrível, para começar – assumiu a irmã, alegremente. – E praguejo como um marinheiro! – E onde aprendeu a fazê-lo? – Com a senhora minha avó, que era lavadeira. E meu avô, o fabricante de sabão junto de quem ela se abastecia. Uma vez que ela trabalhava junto às docas, a maioria da sua clientela era composta por marinheiros e estivadores – que lhe ensinavam vulgaridades tais que fariam corar o mais grosseirão dos carroceiros. Annabelle foi acometida de um acesso de riso que lhe fez estremecer o peito. Encantava-a o espírito travesso e malicioso das irmãs americanas, que eram diferentes de qualquer alminha que ela jamais conhecera. Desafortunadamente, era difícil imaginar qualquer uma delas como esposa feliz de um nobre. A maioria dos cavalheiros da aristocracia preferia jovens recatadas e serenas para suas esposas, a um tempo majestosas e discretas. No fundo, o tipo de esposa cujo único propósito era fazer do marido o foco principal das atenções mais apreciativas. Ainda assim, e por tanto prezar a companhia das manas Bowman, Annabelle considerava lastimável que qualquer uma delas tivesse de refrear, por pouco que fosse, aquela audácia inocente que as tornava tão encantadoras.


De súbito, Annabelle viu Evie entrar na sala, com a relutância de um ratinho lançado para dentro de um saco de gatos. Ainda assim, viu-lhe o rosto descontrair assim que as viu. Murmurando um qualquer pretexto à austera tia que a acompanhava, dirigiu-se a elas com um sorriso de alívio. – Evie! – guinchou Daisy, extasiada, precipitando-se para ela. Annabelle agarrou-lhe o braço enluvado e sussurrou-lhe: – Espere! Não vai certamente querer atrair as atenções para ela, pois não? Ainda nos desfalece de vergonha aqui mesmo. Daisy conteve-se, obedientemente, e dedicou-lhe um sorriso agradecido. – Tem toda a razão. Sou uma perfeita selvagem. – Eu não diria tanto, querida… – segredou-lhe Lillian. – Obrigada – disse Daisy, agradavelmente surpreendida. – Digamos que é tão somente uma… semisselvagem – rematou a irmã mais velha. Contendo uma gargalhada, Annabelle foi abraçar Evie que acabava de se juntar a elas. – Está deslumbrante, Evie – disse-lhe. A tímida jovem tinha o cabelo apanhado num chignon alto, numa suave massa de caracóis ruivos, tão resplandecentes, presos com ganchos com cabeça de pérola. A profusão de sardas âmbar que lhe sarapintavam o nariz acrescentavam-lhe um encanto muito especial, como se a natureza se tivesse rendido a um devaneio, borrifando-a com uns salpicos excedentes da luz do sol. Evie refugiou-se naquele breve abraço como se procurasse conforto. – A t-t-tia Florence diz que p-p-pareço uma tocha com o cabelo apanhado assim – disse. Daisy riu-se do comentário. – Pois a tia Florence devia abster-se de tais observações, visto que ela própria se assemelha a um duende. – Daisy, caluda – repreendeu-a Lillian. Annabelle manteve o braço em redor da cintura de Evie, pensando que, pelo pouco que a jovem lhe relatara, a tia Florence parecia ter particular satisfação em abalar a pouca confiança que restava à sobrinha. Quando a mãe morrera, ainda muito jovem, a família acolhera a infeliz criança no seu seio – e os anos que se seguiram, de constantes censuras e repreensões, tinham deixado o amor-próprio de Evie nas ruas da amargura. O sorriso de Evie continha um esgar de divertimento ao olhar as manas Bowman. – E-e-ela não é tanto um duende. Sempre a vi m-m-mais como um troll. Annabelle riu-se com gosto daquela largada inesperada. – E diga-me – indagou, mudando de assunto –, já viu Lord Kendall por aqui? Soube que é um dos raríssimos celibatários presentes – e, à exceção de Westcliff, o único celibatário com título. – A disputa por Lord Kendall afigura-se-me brutal – comentou Lillian. – Felizmente que a Daisy e eu acabámos de esboçar o plano perfeito para conduzir o mais insuspeito cavalheiro até à sua teia matrimonial – disse a Annabelle, fazendo-lhes um sinal com o dedo para que se aproximassem. – Até tremo em perguntar – disse Annabelle –, mas… que plano é esse? – A Annabelle irá atraí-lo para uma situação comprometedora, e no momento certo nós três aparecemos convenientemente para os apanharmos juntos. E aí, o cavalheiro que for digno desse nome será forçado pela honra a pedir-lhe a mão.


– Um plano brilhante, não? – quis saber Daisy. Evie olhou Annabelle com uma expressão de dúvida. – Sim, m-m-mas… não será um tanto ardiloso? – Um tanto é dizer pouco – concordou Annabelle. – Mas confesso que não consigo lembrar-me de algo melhor. E a Evie? A outra abanou a cabeça. – Não – admitiu. – A questão é: estaremos assim tão desesperadas por arranjar maridos ao ponto de recorrermos a todos os meios, sejam eles de que índole forem? – Eu estou – afirmou Annabelle sem hesitações. – Nós também – acordou Daisy alegremente. Evie olhou as três, pouco segura. – P-p-pois eu… não posso renunciar a todos os escrúpulos. Não me agrada ter de lu-lu-ludibriar um homem e levá-lo a fazer algo que não lhe… – Evie – interrompeu-a Lillian, dando já mostras de impaciência. – Os homens esperam ser ludibriados quanto a estes assuntos. E são felizes assim. Se fôssemos sempre francas e diretas com eles, a mera expectativa do casamento seria demasiado alarmante, e nenhum deles ousaria dar esse passo. Annabelle olhou para a americana com uma expressão falsamente chocada. – Que implacável, Lillian! – É de família – disse a outra, sorridente. – Os Bowman são cruéis por natureza. Chegamos mesmo a ser demoníacos se a ocasião assim o ditar. Rindo, Annabelle voltou de novo as atenções para Evie, que exibia agora uma expressão desconcertada. – Evie – proferiu docemente –, até agora eu sempre me esforcei por fazer as coisas da forma correta. Mas isso não me levou muito longe – e neste momento estou mais do que disposta a ousar toda uma nova abordagem… A menina não? Ainda que não totalmente convencida, Evie rendeu-se com uma aura de resignação. – Linda menina – disse Annabelle em tom encorajador. De súbito, ouviu-se uma ligeira agitação perante a entrada de Lord Westcliff na sala. Aparentando um total à-vontade na posição de anfitrião, e parecendo ter tudo controlado, dedicou-se a emparelhar com destreza senhoras e cavalheiros – em preparação para o desfile até à sala de jantar. Ainda que não fosse o homem mais alto da sala, Westcliff ostentava uma presença magnética impossível de ignorar. Annabelle deu por si a pensar por que razão determinadas pessoas possuíam essa qualidade – qualquer coisa de improferível que atribuía transcendência a cada gesto que faziam e a cada palavra que pronunciavam. Olhando de relance para Lillian, apercebeu-se de que também ela reparara nisso. – Eis um homem que se tem em desmedida consideração – observou Lillian, secamente. – Perguntome se existirá algum assunto ou circunstância que o consiga abalar. – Não imagino – ripostou Annabelle. – Mas vou adorar estar presente se e quando isso acontecer. Sentiu Evie apertar-lhe ligeiramente o braço. – Eis Lord K-K-Kendall, ali ao canto. – Como sabe que se trata de Lord Kendall? – Presumo que s-s-seja… pela quantidade de senhoras solteiras que o rodeiam como tu-tu-tubarões.


– Muito bem visto, Evie. Annabelle ficou a observar o jovem e o seu séquito pululante de jovens mulheres. Lord Kendall, ou simplesmente William, parecia inebriado pela dose excessiva de atenção feminina. Era um homem de tez e cabelo claros, mais magro e mais baixo que a média, o rosto esguio emoldurado por um par de óculos imaculadamente polidos. O reflexo do vidro das lentes lampejava à medida que o seu olhar perplexo alterava de um rosto feminino para outro. Aquele tipo de interesse apaixonado demonstrado por um homem tão tímido quanto Kendall era a prova viva de que não existia afrodisíaco mais eficaz do que o celibato de final de temporada. Conquanto que Kendall se revelasse profundamente desinteressante para estas mesmas senhoras em janeiro passado, a partir de junho tinha adquirido lesta e prestamente uma aura irresistível. – Parece-me um jovem bem interessante – disse Annabelle em tom sonhador. – Pois a mim dá-me a ideia de se amedrontar facilmente – observou Lillian. – Aconselho-a a manter uma postura tímida e vulnerável assim que ele lhe for apresentado, minha amiga. – A vulnerabilidade nunca foi o meu forte. Uma certa timidez, sim… talvez consiga aparentar, mas não posso garantir. – Não lhe prevejo a menor dificuldade em desviar-lhe o interesse daquelas raparigas e centrá-lo em si, Annabelle – disse Lillian, confiante. – Depois do jantar, assim que as senhoras e os cavalheiros regressarem aqui para conversar e tomar chá, arranjaremos uma maneira de vos apresentar. – E de que forma é que eu… – começou Annabelle, e calou-se, sentindo um súbito e inexplicável calafrio descer-lhe pela nuca. Levou a mão ao pescoço e olhou em volta, tentando encontrar a causa daquela estranha reação. Até que se apercebeu do olhar de Simon Hunt prendendo o dela. Ele estava de pé no extremo da sala, com um ombro levemente apoiado numa pilastra, ao lado de um grupo de três cavalheiros envolvidos numa animada conversa. Parecia falsamente descontraído, o olhar intenso, como o de um gato considerando uma investida. Era notório que ele reparara no interesse de Annabelle por Kendall. Irra!, pensou ela irritada e voltando-lhe deliberadamente as costas. Não iria admitir que Hunt lhe causasse problemas. – Acaso já deram pela presença de Mr. Hunt, meninas? – perguntou baixinho às amigas, vendo-as abrir os olhos de espanto. – O seu Mr. Hunt?! – balbuciou Lillian, enquanto Daisy esticava a cabeça para ver melhor. – Ele não é meu, Lillian… francamente! – protestou Annabelle com uma careta cómica. – Mas de facto está cá, ali ao fundo. E hoje esbarrei com ele, quando fui passear. Acreditam que ele se diz íntimo amigo do conde? – Fez uma careta de desprezo e acrescentou: – Aquele homem fará tudo ao seu alcance para nos estragar os planos, creiam. – Crê-lo mesmo ca-ca-capaz de um egoísmo tal que a impeça de ca-ca-casar? – perguntou Evie incrédula. – Apenas com a vil intenção de a tornar sua… sua… – Protegida – Annabelle acabou a frase por ela. – Sim, não é uma hipótese a desconsiderar. Mr. Hunt tem a reputação de não ceder a nada quando se trata de levar a cabo os seus intentos. – Isso até pode ser verdade – interveio Lillian –, mas no seu caso não vai ele interferir. Prometo-lhe. O salão de jantar apresentava-se magnífico, com colossais terrinas, travessas e salvas de prata


servidas numa infindável procissão de criados, rodeando as três longas mesas dispostas no recinto. Annabelle não podia crer que os convidados de Stony Cross jantassem assim todas as noites, mas o cavalheiro à sua esquerda – o vicário da paróquia – assegurou-lhe que tudo aquilo era de uso e costume à mesa de Lord Westcliff. – O conde e a sua família são afamados pelos sumptuosos jantares e magníficos bailes que proporcionam aos seus convidados – disse-lhe. – Lord Westcliff é sem dúvida o mais dotado anfitrião da nossa aristocracia. Annabelle não se dispôs sequer a discordar. Há séculos que não era convidada para um banquete tão exótico quanto aquele. Os repastos requentados e sensaborões servidos nas festas e soirées londrinas não podiam ser minimamente comparados a isto. E ultimamente, a família Peyton não tinha podido permitir-se a muito mais do que sopa, pão e toucinho, com o ocasional «luxo» de uma solha frita ou um guisado de carneiro. Pela primeira vez na vida, ela sentiu-se feliz por não ter ficado sentada ao lado de um conversador entusiasmado, já que lhe permitiu dispor de longos momentos de silêncio durante os quais se dedicou a comer o mais que pôde. E com a criadagem constantemente servindo novos e requintados pratos de degustação aos convidados, ninguém pareceu notar o seu voraz apetite – tão pouco digno de uma senhora. Esfaimada, devorou uma taça de sopa confecionada com champanhe e camembert, seguida de umas delicadas tiras de vitela banhadas num molho à base de ervas, e um misto de legumes fresquíssimos e tenros envolvidos em nata… peixe confecionado em delicadas papillotes que, quando abertas, soltavam um vapor de deliciosa fragrância… suculentas batatinhas servidas em cama de agriões… e, o melhor de tudo, molhos feitos à base de compotas variadas, servidos dentro de sumptuosas laranjas ocas. Annabelle estava de tal forma embrenhada naquela refeição que vários minutos passaram antes de reparar que Simon Hunt se encontrava sentado ao lado de Westcliff – que ocupava a cabeceira da sua mesa. Levando aos lábios um copo de cristal de vinho diluído, ela olhou-o discretamente. Hunt estava magnificamente vestido, como era seu hábito, de casaca preta e um bonito colete de seda cinza claro, levemente lustroso. A pele bronzeada contrastava fortemente com o branco imaculado da camisa, o laço da gravata escrupulosamente composto. O farto cabelo acastanhado reluzia da aplicação de brilhantina… e já uma madeixa teimosa lhe tinha escorregado para a testa. Sem saber muito bem por que razão, aquele pormenor desgrenhado incomodava-a. Annabelle só desejava sacudir-lhe aquela madeixa do rosto… Não lhe escapou o facto de as duas senhoras que ladeavam Hunt parecerem querer disputar-lhe a atenção. Annabelle já observara por várias ocasiões que as mulheres em geral consideravam Simon Hunt um homem atraente – e ela sabia exatamente por que razão: nada mais era do que a explosiva combinação de encanto imoral, ambiciosa inteligência e a mais absoluta e arraigada experiência de mundo. Hunt dava ares de ter já visitado os leitos de muitas mulheres e de saber exatamente o que fazer em cima deles. Ora isso deveria torná-lo menos atraente, nunca mais. Mas Annabelle começava a descobrir que existia por vezes uma enorme diferença entre aquilo que sabia ser bom para ela e o que ela realmente desejava. E por mais que lhe agradasse poder negá-lo, Simon Hunt fora o único homem a conseguir atraí-la fisicamente a um nível daqueles. Mesmo tendo sido toda a vida protegida e resguardada de alguma forma, Annabelle estava a par dos factos básicos da vida. A sua escassa acumulação de conhecimentos tinha sido fruto de um ouvido atento e de saber somar dois mais dois. Já tinha sido beijada por uns quantos homens, que haviam mostrado um


fugaz interesse por ela, ao longo dos últimos quatro anos. Mas nenhum desses beijos, por mais romântico que fosse o cenário, lhe havia exaltado uma tal reação como a que obtivera com Simon Hunt. Por mais que o desejasse, ela jamais conseguira esquecer aquele momento longínquo no espetáculo de diorama… a pressão suave e erótica dos seus lábios nos dela, o deleite forçado do seu beijo. Quem lhe dera saber a razão de tudo aquilo, mas a verdade era que não tinha a quem perguntar. Aconselhar-se junto da mãe estava totalmente fora de questão, uma vez que não queria ter de lhe confessar que aceitara dinheiro de um estranho. O dinheiro de um simples bilhete, é certo, mas ainda assim… E também não via a menor utilidade em partilhar aquele seu pecadilho com as outras encalhadas, já que era óbvio que todas sabiam ainda menos de beijos e de homens do que ela própria. Ao sentir subitamente o seu olhar preso no dele, Annabelle horrorizou-se perante a hipótese de ter sido apanhada a olhar para ele durante todo aquele tempo. A olhar e a fantasiar. Ainda que estivessem sentados longe um do outro, ela estava consciente da ligação imediata, eletrizante, entre os dois… ele tinha no rosto uma expressão de tal modo admirada, que a fez desde logo perguntar-se o que teria ele visto de tão fascinante. Corando violentamente, afastou o olhar para longe e espetou o garfo num estufado de aboborinhas e cogumelos coberto por raspas de trufas brancas. Findo o jantar, as senhoras retiraram-se para o salão para tomar chá ou café, enquanto os cavalheiros permaneceram à mesa para desfrutarem de um bom porto. Mais tarde, reunir-se-iam às senhoras para um convívio mais abrangente. Enquanto os mais diversos grupos de senhoras riam e cavaqueavam no amplo salão de estar, Annabelle sentou-se a um canto mais reservado com Evie, Lillian e Daisy. – Alguém descobriu algo de interessante sobre Lord Kendall? – perguntou-lhes, na esperança de que alguma delas tivesse captado um saboroso mexerico à mesa do jantar. – Haverá alguém que lhe possa vir a despertar um particular interesse? – O campo permanece aberto, até ver – disse Lillian. – Perguntei à Mamã o que sabia ela de interessante no que respeita a Lord Kendall – informou-a Daisy –, e ela afiançou-me que ele é dono de uma fortuna ainda considerável e de que não lhe são conhecidas dívidas de espécie alguma. – Como pode ela saber? – estranhou Annabelle. – A pedido da Mamã – esclareceu-a Daisy –, nosso Pai redigiu um relatório detalhado acerca de cada um dos mais cobiçados lordes de Inglaterra. E ela memorizou-os, caso a caso. Afirma que o partido ideal para qualquer uma de nós duas seria um duque «depenado» cujo título garantisse o triunfo social dos Bowman, enquanto o nosso dinheiro lhe exigiria a ele a promessa de um casamento. Daisy esboçou um sorriso sardónico e voltou-se para a irmã. Deu-lhe uma palmadinha cúmplice na mão, antes de acrescentar: – Chegaram a fazer uma rima sobre a Lillian, em Nova Iorque… «Se a Lillian pedires a mão, ganharás um milhão.» O dito tornou-se de tal forma popular que acabou por se tornar uma das razões que nos fez fugir para Londres. A nossa família viu-se retratada como uma chusma de imbecis, parolos e excessivamente ambiciosos. – E não somos? – indagou Lillian ironicamente. Daisy suspirou. – Tivemos muita sorte em conseguirmos sair de lá sem que me tivessem inventado uma rima… – Inventei-a eu – disse Lillian. – «Quem com a Daisy casar, ocioso irá ficar.» – A irmã lançou-lhe um


olhar de desagrado que a fez sorrir: – Nada temas, minha irmã – prosseguiu. – Verás que eventualmente nos vamos conseguir infiltrar na sociedade londrina, e então casaremos com Lord Depenado e Lord Algibeiras-Rotas, e por fim ocuparemos os nossos lugares como senhoras da mansão. Annabelle abanou a cabeça com um sorriso compreensivo, enquanto Evie se afastou com uma justificação murmurada, provavelmente para atender a alguma necessidade pessoal. Annabelle quase sentiu pena das americanas, já que se tornava cada vez mais notório que a possibilidade de elas se casarem por amor era tão promissora como a sua. – É da ambição de ambos os vossos pais que se casem com um nobre? – quis saber. – Qual é a opinião de vosso Pai sobre o assunto? Lillian encolheu os ombros, serenamente. – Desde que me recordo, o Pai nunca foi senhor de emitir opinião sobre o que quer que fosse no tocante à sua prole. Tudo o que ele desejava é que o deixassem sossegado, para que pudesse ganhar mais e mais dinheiro. As cartas que lhe escrevíamos eram continuamente ignoradas, a não ser que se tratasse de um pedido de permissão para levantar novos fundos da conta no banco. E então respondia com duas singelas palavras: «Permissão concedida.» Daisy pareceu partilhar do cinismo jovial da irmã. – Creio que sempre agradou ao Pai o espírito casamenteiro da Mamã, uma vez que isso a mantém suficientemente ocupada para não o aborrecer. – E ele nunca contraria esses vossos… pedidos de financiamento? – Oh, nunca… – disse Lillian, rindo da expressão invejosa da amiga. – Nós somos obscenamente ricos, minha querida – e temos ainda três irmãos mais velhos, todos por casar. – Fez uma pausa meditativa, antes de acrescentar: – A Annabelle não consideraria algum deles, por acaso? Se quiser, faço-o atravessar o Atlântico neste preciso momento para a menina o inspecionar. – Proposta assaz tentadora, essa… mas não – retorquiu Annabelle. – Não me agradaria nada viver em Nova Iorque. Prefiro ser a esposa de um lorde inglês. – Será assim tão maravilhoso? – indagou Daisy, em tom lamentoso. – Viver numa mansão velha e bafienta, com péssimas canalizações, e ter de aprender toda a sorte de regras sobre a maneira mais correta e mais decente de fazer tudo… – Não somos ninguém antes de desposarmos um nobre – garantiu-lhe Annabelle. – Em Inglaterra, a aristocracia reina acima de todas as coisas. Determina o modo como somos tratadas, os colégios onde os nosso filhos estudam, os convites que recebemos… todas as facetas das nossas vidas, em suma. – Não sei… – disse Daisy, sendo interrompida pelo regresso apressado de Evie. A jovem, ainda que contida nos gestos, ostentava um brilho urgente nos olhos azuis, e duas rosetas de exaltação. Pegando na cadeira que tinha ocupado antes de sair, sentou-se à beirinha e debruçou-se para Annabelle, sussurrando e gaguejando: – Eu t-t-tive de vir a correr di-dizer-lhe… ele está sozinho! – Quem? – Lord Kendall! Acabei de vê-lo no te-te-terraço de trás. Sozinho, sentado a uma das me-mesas… contemplativo. Lillian estranhou. – Talvez esteja à espera de alguém. E se assim for, de nada valerá a Annabelle investir sobre ele


como um rinoceronte no cio. – Não se lhe ocorre uma metáfora mais… lisonjeadora, minha amiga? – indagou Annabelle, provocando-lhe um sorriso. – Peço desculpa… Mas por favor, Annabelle, seja cautelosa. – Fique descansada – sossegou-a a outra, levantando-se e alisando com destreza a saia do vestido. – Vou investigar a situação. Bom trabalho, Evie. – Boa sorte – respondeu-lhe a outra, cruzando os dedos e sendo desde logo imitada pelas outras. As três ficaram expectantes vendo Annabelle sair. Ao atravessar o salão, Annabelle sentiu o coração acelerar. Sabia estar a quebrar um sem número de intricadíssimas regras sociais. Uma senhora não devia jamais procurar deliberadamente a companhia de um cavalheiro; e se acaso os seus caminhos se cruzassem acidentalmente, ou se alguma vez se vissem sozinhos no mesmo sofá ou canapé, poderiam trocar um ou outro comentário gracioso. Não lhes era de todo permitido ficarem a sós, a não ser quando a cavalo ou viajando numa carruagem aberta. E se acaso uma senhora se cruzasse com um cavalheiro aquando, por exemplo, de um passeio pelos jardins, dela se esperava que tudo fizesse para que a situação não parecesse de modo algum comprometedora. A não ser, claro, que ela desejasse comprometer-se. Aproximando-se da longa fileira de portas de sacada que davam diretamente para o amplo terraço em chão de lousa, Annabelle viu a sua presa. Tal como Evie descrevera, Lord Kendall estava só, sentado a uma mesa redonda, recostado na cadeira e com uma perna despreocupadamente estendida à sua frente. Parecia estar a desfrutar de um breve momento de sossego face à atmosfera excessivamente quente e frenética daquela casa. Silenciosamente, Annabelle dirigiu-se à porta mais próxima e saiu. No ar fresco havia um leve perfume a urze e eucalipto, enquanto o suave murmúrio do rio que atravessava as traseiras dos jardins oferecia um convite à descontração. Mantendo a cabeça baixa, Annabelle passou os dedos pelas têmporas como que a querer amenizar uma incómoda dor de cabeça. Quando se viu a menos de dez passos da mesa de Lord Kendall, ergueu o olhar e fingiu sobressaltar-se ligeiramente, como se acabasse de o ver ali pela primeira vez. – Oh… – disse. Não lhe foi difícil soar ofegante. Estava nervosa, desinquieta, sabendo quão importante seria causarlhe uma boa impressão. – Não cuidei que estivesse aqui alguém… Kendall levantou-se, os óculos refletindo a tonalidade alaranjada das tochas do terraço. Era magro ao ponto de parecer insubstancial, a casaca negra pendendo-lhe dos ombros acolchoados. Mesmo sendo uns bons sete centímetros mais alto do que Annabelle, esta não se surpreenderia se ouvisse afirmar que eram da mesma altura. A postura dele era a um tempo tímida e estranhamente tensa, como a de um veado preparando-se para uma súbita retirada forçada. Ao observá-lo, Annabelle teve de admitir que ele não era decididamente o tipo de homem por quem ela alguma vez se sentiria atraída. Por outro lado, ela detestava arenque de conserva e, no entanto, caso se visse a definhar de fome e alguém lho oferecesse, ela não iria certamente virar-lhe o nariz. – Viva – disse Kendall, numa voz suave e refinada, ainda que um tanto aguda. – Não há razões para alarme, creia-me. Sou absolutamente inofensivo.


– Reservarei esse juízo para mais tarde – disse ela, sorrindo amplamente, e fazendo logo de seguida um esgar de dor. – Perdoe-me por lhe perturbar a privacidade, cavalheiro. Quis apenas respirar um pouco de ar fresco. Inspirou fundo de modo a que os seios pressionassem decorosamente as costuras do seu corpete, antes de prosseguir. – A atmosfera do interior da casa é-me demasiado sufocante, receio. Kendall aproximou-se dela de mãos semi-erguidas, como que temendo que ela desfalecesse ali mesmo, no frio das pedras de lousa. – Posso providenciar-lhe alguma coisa? Um copo de água fresca, talvez? – Oh não, por quem é, não se incomode… Bastam-me uns minutos cá fora para me recompor. Deixou-se afundar graciosamente na cadeira mais próxima. – Se bem que… Fez uma pausa e esforçou-se por parecer constrangida. – Não será certamente de bom tom que alguém nos veja assim… a sós. Especialmente não tendo sido ainda apresentados. Ele fez uma ligeira vénia. – Lord Kendall, ao seu serviço. – Miss Annabelle Peyton – disse ela, indicando-lhe uma cadeira vazia a seu lado. – Queira sentar-se, por favor… Prometo retirar-me assim que a minha cabeça me dê tréguas. Kendall obedeceu, ainda que com expressão cautelosa. – Por quem é, fique o tempo que desejar. A ela, aquilo soou-lhe encorajador. Tendo em mente o conselho de Lillian, ponderou a observação seguinte com extremo cuidado. Uma vez que Kendall andava a ser perseguido por um número considerável de mulheres, era crucial que ela se distinguisse, fingindo ser a única presença feminina daquela festa que não estava interessada nele. – Consigo entender por que razão terá vindo para aqui sozinho… – disse ela, com um sorriso. – Estará certamente desesperado por fugir ao firme e constante assédio feminino de que tem sido alvo. Kendall lançou-lhe um olhar surpreso. – Com efeito… sim. Devo dizer que nunca estive numa festa com uma tal profusão de convidadas tão… excessivamente amigáveis. – Aguarde até ao final do mês e verá – Annabelle aconselhou-o, sorrindo. – Estarão tão amigáveis que terá de se munir de cadeira e chicote para as afastar. – Estará acaso a insinuar que eu represento alguma sorte de… alvo matrimonial? – indagou ele em tom irónico. – Para se tornar um alvo mais gritante, só desenhando círculos a branco nas costas da casaca – disse Annabelle, arrancando-lhe uma risada. – Permita-me que lhe pergunte, my lord, haverá outra razão pela qual se veio refugiar no terraço? Kendall continuava a sorrir, apresentando-se bem mais descontraído do que inicialmente. – Receio não conseguir acompanhar o desmedido consumo de álcool desta soirée. Existem limites para a quantidade de porto que um homem é capaz de ingerir a bem da socialização. Annabelle nunca conhecera um cavalheiro capaz de admitir uma tal fraqueza. A maioria media a sua


virilidade pela capacidade de ingestão de bebidas espirituosas que, regra geral, era a bastante para inebriar um elefante. – Fê-lo ficar indisposto, então? – Mareado como uma pescada. Diz-se que a tolerância melhora com a prática, mas afigura-se-me uma teoria algo idiota. Sei de muitas outras coisas para fazer para passar o tempo – e bem mais agradáveis, devo acrescentar. – Tais como…? Kendall pareceu considerar a pergunta com extremo cuidado. – Um passeio pelo campo. Um livro que estimule o espírito e a mente. – O seu olhar adquiriu um súbito fulgor amistoso: – Um ameno convívio com uma amizade recente. – Também me agradam todas essas coisas. – Deveras? Ele hesitou por um momento, e o silêncio ficou preenchido apenas com o sussurro do rio e o suave balançar das árvores. – Dar-me-ia o grato prazer de me acompanhar amanhã num passeio matinal? Conheço percursos magníficos em redor de Stony Cross. O súbito entusiasmo de Annabelle tornou-se difícil de conter. – Adoraria – respondeu. – Mas, e se me permite a questão, o que conta fazer à sua… entourage? Kendall sorriu, exibindo uma fileira de dentes pequenos e brancos. – Duvido seriamente que alguém nos incomode, desde que partamos cedo. – Acontece que sou uma madrugadora nata – mentiu ela. – E adoro caminhadas. – Às seis horas, então? – Seis horas parece-me perfeito – rematou ela erguendo-se elegantemente da cadeira. – Tenho de regressar, em breve a minha ausência será notada. Já me sinto bem melhor, agora. Os meus mais sinceros agradecimentos pelo seu convite, my lord. – Permitiu-se-lhe dirigir-lhe um sorriso levemente sensual: – Assim como pela partilha do terraço. Regressando para dentro, Annabelle fechou os olhos por um breve momento e soltou um suspiro de alívio. Tinha sido uma apresentação perfeita – e bem mais simples do que o que ela antecipara. Estava segura de ter cativado o interesse de Lord Kendall por si. Com uma pitada de sorte – e a ajuda das amigas –, tinha-o no papo. E então… tudo se resolveria.


Capítulo 7

Findo aquele encontro pretensamente casual entre ela e Lord Kendall, Annabelle atravessou uma das entradas em arco que davam para o salão, para constatar que senhoras e cavalheiros já se encontravam todos reunidos para um ameno convívio. Ao entrar, viu as outras encalhadas que a aguardavam com expectativa. Sorrindo perante os seus rostos ansiosos, encaminhou-as para um nicho reservado onde poderiam conversar mais intimamente. – Então? – quis saber Lillian, tremendo de curiosidade. – Lord Kendall convidou-me – a mim e à Mamã, evidentemente – para um passeio matinal, já amanhã. – Só os três? – Só os três – confirmou Annabelle. – Aliás, contamos sair assim que nasça o dia, precisamente para evitar sermos acompanhados por um rebanho de caçadoras de maridos. Estivessem elas num ambiente mais privado e teriam certamente rompido em gritinhos de excitação. No entanto, tiveram de se contentar com uma partilha de sorrisinhos cúmplices e triunfantes, enquanto Daisy não resistiu a bater com os pés no chão numa exuberante dançazinha de vitória. – E co-co-como é ele, Annabelle? Conte-nos tudo! – Tímido, mas muito agradável. E pareceu-me ter sentido de humor, uma qualidade que eu não lhe atribuiria à primeira vista. – Tem tudo isso e a sua própria dentadura? É magnífico! – exclamou Lillian. – E a Lillian tinha razão quando afirmou que ele dava ares de espantadiço – afirmou Annabelle. – Estou convicta de que Kendall jamais se sentiria atraído por uma mulher forte e determinada. É extremamente cauteloso e de falas ponderadas. E eu, claro está, esforcei-me ao máximo por me mostrar recatada – se bem que me sinta um tanto culpada por estar a ludibriá-lo. – Todas as mulheres o fazem durante a corte, assim como os homens, diga-se – afirmou Lillian em tom prosaico. – Tentamos ocultar os nossos defeitos e imperfeições e dizer as coisas que sabemos que os outros desejam ouvir. Fingimo-nos eternamente amáveis e doces, e imunes aos hábitos desagradáveis alheios. Até que, depois de consumado o casamento, baixamos a fasquia – a nossa e a deles. – Sim, mas eu não creio que os homens sejam tão dissimulados quanto as mulheres conseguem ser – ripostou Annabelle. – Para nós, por mais gordo, desdentado ou entediante que um homem seja, será sempre um bom partido desde que seja um cavalheiro e de bolsa bem recheada. Por outro lado, em relação às senhoras existem sempre expectativas bem mais altas. – Razão pela qual somos todas enca-ca-calhadas – suspirou Evie.


– Mas não por muito mais tempo, minha querida – prometeu-lhe Annabelle com um sorriso. Florence, a emproada e carrancuda tia de Evie, surgiu vinda do salão de baile. Assemelhava-se a uma bruxa desconfiada, num severo vestido preto que em nada lhe favorecia o tom de pele descolorado. Poucas semelhanças familiares existiam entre Evie, de faces redondas e rosadinhas, cabelo ruivo e sardas douradas, e a tia, velha e azeda e eternamente mal-humorada. – Evangeline – proferiu em tom desagradável, olhando com severidade para o grupo de meninas. – Já a adverti que não me desaparecesse de vista desta maneira. Há mais de dez minutos que a procuro por todo o lado, e não me recordo de a menina me ter pedido permissão para se juntar às… suas amigas. E de todas as meninas respeitáveis aqui presentes, tinha logo de escolher a companhia de… Barafustando em tom irado, a tia Florence afastou-se arrastando uma lamentosa Evie atrás de si. As outras ficaram a vê-la partir – e voltar-se sub-repticiamente para lhes acenar um adeus desconsolado. – A Evie disse-me que a família dela é muito abastada – observou Daisy. – Mas também referiu que são profundamente infelizes, todos eles. Pergunto-me porque será? – As fortunas seculares têm esse senão – observou Daisy. – O Pai sempre nos disse que não há como toda uma vida de abundância para não se dar o devido valor ao que se tem. – Enfiou o braço no de Daisy: – Vamos, minha querida, antes que a Mamã se dê conta de que desaparecemos. – Olhou para Annabelle com um sorriso inquisitivo: – Acompanha-nos num breve passeio noturno, Annabelle? – Agradecida, mas não posso. Fiquei de me encontrar com a Mamã ao fundo da escadaria já de seguida. – Tenha uma boa noite, então. – Os olhos de Lillian brilharam ao acrescentar: – Quando acordarmos de manhã, já a menina estará a desfrutar do seu passeio com Lord Kendall. Conto com um relatório completo e pormenorizado por alturas do primeiro almoço! Annabelle fez-lhe um discreto gesto de cortesia militar e ficou a ver as duas irmãs afastarem-se. De seguida, avançou lentamente até à imponente escadaria e ali ficou à espera da mãe. Aparentemente, Philippa, como já era seu hábito, delongava-se a terminar uma conversa, algures na sala de estar. Contudo, Annabelle não se importava de esperar. Tinha a mente repleta de ideias e pensamentos, entre os quais tópicos de conversa que pudessem interessar e entreter Lord Kendall durante o passeio do dia seguinte, e umas quantas ideias para lhe atrair a atenção para ela – em desfavor das inúmeras outras jovens que o iriam perseguir ao longo das duas semanas seguintes. Se fosse inteligente o suficiente para conseguir que Lord Kendall a apreciasse, e se as encalhadas vissem o seu plano triunfar, como seria ser a esposa de um homem daqueles? Annabelle tinha uma certeza instintiva de que jamais se apaixonaria por alguém como Kendall – mas jurava a si mesma que tudo faria para ser a melhor esposa possível. E quem sabe com o tempo não acabaria por ganhar-lhe afeto? O casamento com Lord Kendall adivinhava-se extremamente prazenteiro. Teria sem dúvida uma vida confortável, segura, e nunca mais teria de se preocupar com a angústia de lhe vir a faltar comida na mesa. E mais importante, o futuro de Jeremy ficaria assegurado, e a mãe não voltaria jamais a ter de sujeitar-se aos obscenos avanços de Lord Hodgeman. Ouviram-se pesados passos de alguém descendo a escadaria. Encostada ao corrimão, Annabelle ergueu o olhar com um leve sorriso, e paralisou. Não podia crer no que os seus olhos viam: um rosto roliço, emoldurado por uma farta cabeleira branca. Hodgeman!? Impossível! Ele desceu o último degrau da escadaria e ali ficou, de pé, voltado para ela, dedicando-lhe uma breve


vénia e um sorriso insuportavelmente petulante. Ao fixar-lhe os gélidos olhos azuis, Annabelle sentiu toda a comida que ingerira formar uma bola em torno do estômago. Como era possível que ele ali estivesse? E por que razão ainda não o tinha visto? Ao pensar na mãe, prestes a juntar-se a ela naquele preciso local, a raiva consumiu-a. Este homem insolente e grosseirão – que se intitulava benemérito da família enquanto sujeitava a mãe às mais repugnantes sevícias em troca de um punhado de moedas – vinha agora apoquentá-las, logo ali e naquele momento, o pior possível. Annabelle não imaginava um pior tormento para Philippa do que sabê-lo presente naquela festa. A qualquer momento ele poderia fazer referência ao relacionamento entre ambos, poderia destruí-las num piscar de olhos, e elas sem a menor probabilidade de o poderem calar. – Ora, ora, se não é a Miss Peyton… – murmurou o velho, a cara rechonchuda corando de prazer malévolo. – Mas que agradável coincidência ser a menina a primeira convidada com quem esbarro em Stony Cross Park. Annabelle sentiu-se arrepiar pelo esforço que teve de fazer para lhe sustentar o olhar. Tentou banir toda e qualquer emoção da sua expressão, mas Hodgeman sorriu-lhe cinicamente, bem consciente do pânico que a envolvia. – Depois dos tormentos da viagem desde Londres – prosseguiu –, achei por bem jantar no meu quarto. Que lástima não nos termos encontrado antes… Mas estou certo de que haverá muitas outras oportunidades de nos cruzarmos, nas próximas duas semanas. Sua encantadora mãe também se encontra presente, presumo? Annabelle teria dado a vida para poder responder «não». Sentia o coração a bater-lhe de tal forma dentro do peito, que receou deixar de conseguir respirar. Lutou para conseguir pensar e falar por cima daquele martelar ensurdecedor. – Nem ouse chegar perto dela – disse, espantada com a firmeza da própria voz. – Ou sequer dirigirlhe a palavra. – Ah, Miss Peyton, como me ferem essas palavras… Eu, que tenho sido o amparo, o sustento, o único amigo da sua família, nestes tempos difíceis em que todos os outros vos viraram as costas… Ela fitou-o sem pestanejar, sem se mover, quase sem respirar – como se se visse perante uma serpente venenosa prestes a investir. – Não é mesmo uma feliz coincidência? Os três presentes na mesma festa? – indagou Hodgeman, sempre cínico. Estremeceu num riso contido, o movimento fazendo soltar uma madeixa oleosa sobre a testa. Afastoua com a palma da mão e insistiu: – Posso de facto afirmar que a sorte me sorriu, permitindo-me uma tal proximidade com uma mulher que tanto estimo. – Não haverá a mais ínfima proximidade entre si e a minha mãe, asseguro-lhe – disse Annabelle, cerrando um punho de modo a evitar assentá-lo naquele rosto imundo. – Estou a avisá-lo, senhor, se a importunar seja de que forma for… – Oh, minha querida… Cuidou que me estava a referir à senhora sua mãe? De modo algum… A menina é demasiado modesta, Annabelle, referia-me obviamente a si. Há muito que a admiro. Melhor dizendo, que a desejo, dada a natureza dos meus sentimentos por si. E agora, parece-me bem que o destino nos presenteou com a oportunidade perfeita para… nos conhecermos um pouco melhor.


– Mais depressa dormiria num ninho de cobras – respondeu Annabelle friamente, mas sem disfarçar um leve tremor na voz. Em que ele obviamente reparou. – De início irá protestar, é claro – disse ele, com um sorriso. – É comum nas raparigas do seu género. Mas depois… pensará um pouco, tornar-se-á mais sensata, e rapidamente verá as vantagens de se tornar… minha amiga. Posso ser um amigo inestimável, minha querida. E se acaso me agradar, pode contar que eu a recompense generosamente. Annabelle lutava desesperadamente por arranjar uma forma de lhe destruir qualquer réstia de esperança de ela se tornar sua amante. O medo de eventualmente poder estar a trespassar a propriedade de outro homem pareceu-lhe a única coisa capaz de manter Hodgeman afastado dela. Com essa esperança, ela forçou um sorriso mordaz. – Acaso lhe pareço necessitada dessa sua pretensa amizade? – perguntou, alisando as pregas do vestido novo. – Engana-se. Saiba que eu já tenho um protetor, um homem bastante mais generoso do que o senhor. Portanto, o melhor é deixar-nos sossegadas, a mim e a minha mãe. Ou será a ele que terá de prestar contas. Ela viu-lhe a progressão de emoções no rosto, passando de descrença a raiva, e terminando em desconfiança. – E quem é ele, não me dirá? – Por que razão lhe haveria de dizer? – inquiriu ela com um sorriso frio. – Prefiro deixá-lo carente dessa informação. – Mentes, sua cabra intrujona! – Acredite no que bem entender. Hodgeman arqueou as mãos papudas, como que a querer conter-se de a agarrar e lhe arrancar uma confissão. Em vez disso, olhou-a com o rosto vermelho de fúria. – Não creias que isto acaba aqui – murmurou, humedecendo nervosamente os lábios. – Longe disso. Deixou-a com um abrupto voltar de costas, demasiado irritado para se dignar a conceder-lhe uma vénia. Annabelle ficou ali, imóvel, recompondo-se aos poucos. Sentiu a raiva desvanecer-se, deixando-lhe um pico de ansiedade que a fez estremecer dos pés à cabeça. Teria sido aquilo que dissera a Hodgeman o suficiente para o manter longe dela? Não, concluiu; era apenas uma solução temporária. Nos dias que se avizinhavam, ele iria certamente observá-la bem de perto, estudando-lhe cada gesto, cada palavra, por forma a apurar se ela teria ou não mentido sobre o facto de ter um protetor. E haveria ameaças e farpas e comentários, destinados a deixar-lhe os nervos em franja. Mas o que ela não poderia nunca permitir era que ele revelasse o relacionamento que acordara com a mãe. Isso mataria Philippa, e arruinava-lhe a ela quaisquer hipóteses de se casar. Deixou que a mente lhe fervilhasse de pensamentos e manteve-se quieta e inexpressiva, até que uma voz sussurrada a acordou daquele pesadelo. – Interessante… O que poderia Lord Hodgeman ter de tão interessante para debater consigo? Empalidecendo, Annabelle voltou-se para se deparar com Simon Hunt, que se aproximara dela com uma argúcia felina. Os ombros largos bloqueavam parcialmente a profusão de luz cintilante que vinha do salão. Naquela postura confiante e controlada, ele parecia infinitamente mais ameaçador do que Hodgeman.


– E o que foi que ouviu? – quis saber Annabelle, amaldiçoando-se por sentir um tom defensivo na própria voz. – A bem dizer, nada – disse ele. – Mas pela expressão do seu rosto quando falava com ele dir-se-ia que alguma coisa a perturbava. – Não estava perturbada. Traduziu mal a minha expressão, Mr. Hunt. Ele abanou a cabeça, e surpreendeu-a ao erguer um dedo para lhe tocar na zona do antebraço não coberta pela luva. – Fica manchada quando se zanga. Ela baixou os olhos para constatar que o braço adquirira umas leves manchas rosadas, um hábito irritante que a sua pele insistia em assumir sempre que ela se enervava. Sentindo um arrepio na espinha, mais pelo toque do que por outra coisa, Annabelle afastou-se bruscamente dele. – Está metida em algum apuro, Annabelle? – inquiriu ele suavemente. Ele não tinha o direito de lhe perguntar o que quer que fosse naquele tom gentil, quase preocupado… como se fosse alguém a quem ela pudesse pedir ajuda… e como se ela alguma vez se prestasse a isso. – Gostaria que isso fosse verdade, aposto – retorquiu. – Qualquer aperto da minha parte deixá-lo-ia extasiado, aposto. Aí poderia avançar de imediato com uma oferta de auxílio e tirar partido da situação. Os seus olhos semicerraram-se, ficando ainda mais atentos. – E de que tipo de auxílio necessita? – Da sua parte, nenhum – garantiu-lhe ela. – E por favor não use o meu primeiro nome. Agradeço que se me dirija respeitosamente, ou melhor ainda, que se abstenha de me interpelar. Incapaz de suportar o seu olhar perscrutador por mais um segundo, Annabelle passou por ele com brusquidão. – E agora, se me dá licença, vou reunir-me com a minha mãe. Apoiando as mãos na cadeira em frente ao toucador, Philippa olhou para a filha com uma expressão perturbadíssima. Annabelle tinha esperado até ambas se verem na segurança do seu quarto antes de transmitir à mãe as terríveis notícias. Philippa pareceu necessitar de um bom minuto para assimilar a informação de que o homem que ela mais temia e abominava era um dos convidados de Stony Cross. Annabelle tinha contado que a mãe se debulhasse em lágrimas, mas ela surpreendeu-a ao inclinar levemente a cabeça e fixar o olhar num canto sombrio do quarto, esboçando um sorriso cansado – um sorriso estranho, dadas as circunstâncias. Annabelle concluiu que nunca lhe havia visto aquele sorriso, espelhando uma enigmática amargura que traduzia que não valia a pena alguém tentar melhorar a sua situação, já que o destino levava sempre, invariavelmente, a melhor. – Será melhor deixarmos Stony Cross? – murmurou Annabelle. – Podemos partir para Londres imediatamente. A questão pairou no ar pelo que lhe pareceu uma eternidade. Quando Philippa finalmente respondeu, soou contemplativa e algo atordoada. – Se partíssemos agora estaríamos a destruir as esperanças de alguma vez te casares, minha filha. Não… a única alternativa é ficarmos e rezarmos para que tudo corra pelo melhor. Amanhã iremos passear com Lord Kendall – e eu não permitirei a Hodgeman que te arruíne esta oportunidade de oiro. – Teremos de contar que ele será uma fonte constante de problemas, Mamã – disse Annabelle


suavemente. – Se não regressarmos à cidade, a nossa estadia aqui tornar-se-á um verdadeiro pesadelo. Só aí Phillippa se voltou para ela, mantendo aquele sorriso incómodo. – Minha querida, se não conseguirmos que fiques comprometida, quando regressarmos a Londres, aí sim, terá início o verdadeiro pesadelo.


Capítulo 8

Assoberbada com preocupações, Annabelle dormiu um total de duas, talvez três horas. Quando acordou, ao raiar do dia, ostentava profundas olheiras e o rosto cansado e pálido. – Deus seja louvado! – exclamou ao ver-se ao espelho do toucador. Correu a embeber uma toalha em água fria, pressionando-a sobre o rosto. – Isto não vai resultar. Pareço uma septuagenária, esta manhã! – O que disseste, querida? – ouviu a voz sonolenta da mãe. Philippa estava de pé, atrás dela, trajando um robe puído e pantufas velhas. – Nada, Mamã. Falava comigo mesma. – Esfregou o rosto de modo a adquirir alguma cor nas faces. – Não preguei olho esta noite. Aproximando-se da filha, Philippa observou-a de perto. – Aparentas algum cansaço, sim. Vou mandar trazer um chá. – Peça um bule grande, minha Mãe – disse Annabelle em tom queixoso. Observando de mais perto os olhos raiados a vermelho refletidos no espelho, reconsiderou: – Dois bules grandes, por favor. Philippa sorriu-lhe compreensivamente. – E que vamos nós vestir para o passeio com Lord Kendall? Annabelle largou a toalha no lavatório e pareceu considerar a situação. – Os nossos vestidos mais antigos. Julgo ser a escolha mais acertada, visto que deveremos encontrar terreno lamacento em alguns trilhos da floresta. Mas podemos cobri-los com os belíssimos xailes de seda que Lillian e Daisy me ofereceram. Após beber três fumegantes chávenas de chá e mordiscar uma torrada fria que a criada trouxe ao quarto, Annabelle acabou de se vestir. Estudou-se cuidadosamente ao espelho, imbuída de um forte espírito crítico. O xaile de seda azul atado por cima do corpete já gasto do seu velho vestido creme fez verdadeiras maravilhas. E o seu novo gorro, igualmente oferta das manas Bowman, favorecia-a imenso, com o forro violeta realçando-lhe o azul dos olhos Soltando um amplo bocejo, dirigiu-se com Philippa ao terraço traseiro da mansão. Àquela hora, a maioria dos hóspedes de Stony Cross ainda dormia. Apenas um entusiasmado grupinho de cavalheiros, empolgados pela pesca às trutas, se tinham dado ao trabalho de madrugar. Elas viram-nos tomando o primeiro almoço nas mesas exteriores, enquanto alguns lacaios os esperavam com canas de pesca e cestas para carregar peixes. A pacatez daquele cenário foi no entanto interrompida por um desagradável clamor, bastante inesperado naquela hora tão matutina. – Deus do Céu… – ouviu Philippa murmurar.


Seguindo o seu olhar pasmado, Annabelle voltou-se para o outro extremo do terraço e deparou-se com um verdadeiro bando de raparigas chilreantes, que riam e soltavam gritinhos. Frenéticas, moviam-se em torno de algo ou alguém que, àquela distância e tapado pelo ruidoso grupinho, se tornava indistinguível. – O que se passará ali? – indagou Philippa, pasmada. Annabelle suspirou e disse, resignada: – Uma caçada matutina, receio. Philippa semicerrou os olhos na direção do grupo, boquiaberta. – Não estás a querer dizer que… Cuidas que o infeliz Lord Kendall se terá visto apanhado no meio daquilo? Annabelle assentiu. – E diria que não restará muito dele quando elas acabarem. – Mas… ele combinou um passeio contigo – protestou Philippa. – Tu e ele apenas, comigo como acompanhante. Algumas das raparigas aperceberam-se da presença de Annabelle ao fundo do terraço e apertaram ainda mais o cerco à sua presa, como que a escudá-la de outras vistas. Annabelle abanou a cabeça lentamente e pôs-se a pensar: ou Lord Kendall havia sido suficientemente tolo para informar alguém dos planos deles, ou o frenesim casamenteiro atingira um ponto tal que o impedia de pôr um pé fora do quarto sem que uma alcateia de mulheres lhe caísse em cima – ainda que de madrugada. – Então? Não fiques aí especada – apressou-a Philippa. – Vai juntar-te ao grupo, e esforça-te por lhe atraíres as atenções. Annabelle lançou-lhe um olhar pleno de dúvida. – Algumas daquelas moças têm um aspeto feroz, Mamã, reparou? Odiaria levar uma dentada. Um risinho abafado vindo de muito perto atraiu-lhe as atenções. Como já era de esperar, Simon Hunt estava encostado à balaustrada do terraço, uma chávena de porcelana quase desaparecendo dentro daquela mão enorme, enquanto beberricava do seu café. Vestia roupas grossas e resistentes, semelhantes às do grupo de pescadores; calças feitas de tweed e sarja e uma velha camisa de linho com o colarinho desapertado. A centelha trocista do seu olhar não deixava dúvidas quanto ao seu interesse pela situação. Sem que tivesse tomado uma opção consciente, Annabelle deu por si a avançar para junto dele. Chegando a uns escassos passos dele, apoiou os cotovelos na balaustrada e ficou a apreciar a manhã encoberta pela neblina. Hunt apoiou as costas à balaustrada, encarando a fachada principal da mansão. Sentindo um desejo incontrolável de esmurrar aquela irritante autoconfiança, Annabelle murmurou: – Lord Kendall e Lord Westcliff não são os únicos celibatários de Stony Cross, Mr. Hunt. E eu pergunto-me por que razão não é o senhor perseguido da mesma maneira. – Pois a mim parece-me evidente – disse ele em tom satisfeito, levando a chávena aos lábios para um último gole. – Não pertenço à nobreza. Além de que daria um marido insuportável. – Lançou-lhe um olhar de relance: – Quanto a si, Miss Peyton… e não obstante o meu respeito pela sua causa, aconselhá-la-ia a não apostar em Kendall. – Minha causa? – exclamou Annabelle, claramente ofendida. – O que é que isso significa exatamente, não me dirá? – Digo, sim, com todo o gosto – disse ele suavemente. – A Miss Peyton pretende nada menos do que o


melhor para si. Acontece que Kendall não se integra nessa categoria. Uma união entre vós dois seria um verdadeiro desastre. Ela voltou-se para o fixar diretamente nos olhos. – Sim? E porquê? – Porque ele é demasiado bom para si. – Simon riu-se da expressão dela. – Não tome isto como um insulto, peço-lhe. Não teria nem metade do apreço por si caso fosse uma boa mulher. Ainda assim, não é a pessoa indicada para Lord Kendall – nem ele seria uma boa escolha para si, em última instância. Iria certamente tratá-lo abaixo de cão, espezinhando-lhe aquela alma de cavalheiro até a ver numa poça aos seus pés. Annabelle controlou-se para não lhe arrancar com um estalo aquele sorriso arrogante do rosto – logo ela, que jamais lhe passara pela cabeça envolver-se num confronto físico com quem quer que fosse. A sua raiva nem sequer esmoreceu minimamente pelo facto de ele ter razão. Ela também tinha a noção de que era demasiado enérgica para um homem tão dócil quanto Kendall. Mas nada disso era da conta de Simon Hunt… além de que nem ele nem qualquer outro homem representava para ela uma melhor alternativa. – Mr. Hunt – disse-lhe ela em tom doce, mas de olhar venenoso –, porque não vai… – Miss Peyton! – ouviu ela à distância, uma voz masculina notoriamente aflita. Annabelle olhou na direção do chamamento e viu vagamente a silhueta de Lord Kendall emergir daquela salgalhada de mulheres. Parecia descomposto e despenteado, e vagamente perturbado, abrindo caminho na direção dela. – Bom dia, Miss Peyton. – Fez uma pausa para endireitar o nó da gravata e endireitar os óculos. – Afigura-se-me não termos sido os únicos a pensar num passeio matinal. – Olhou-a de relance, levemente embaraçado, antes de acrescentar: – Fazemos uma tentativa, ainda assim? Annabelle hesitou. Estava ainda furiosa com Simon Hunt e sabia que seria de pouca utilidade enveredar num passeio com Kendall sabendo que seriam acompanhados por pelo menos uma dúzia de mulheres quase histéricas. Afigurava-se-lhe improvável conseguirem manter uma conversa calma e agradável no meio de uma revoada de pegas palradoras. Por outro lado, ela não podia recusar a tímida proposta de Kendall. Qualquer rejeição, por leve que fosse, poderia resultar desalentadora para ele e o mais provável era que não voltasse a convidá-la. Dirigiu-lhe um sorriso radioso. – É uma ideia encantadora, my lord. – Excelente! Existem determinadas espécies de fauna e flora que eu gostaria muito de lhe mostrar. Como floricultor amador, tenho vindo a fazer um cuidadoso estudo da vegetação natural de Hampshire e… Não acabou a frase, vendo-se subitamente rodeado por uma trupe de entusiastas jovens. – Oh, eu adoro plantas – guinchou uma delas. – Não existe uma única coisinha verdejante que eu não considere absolutamente maravilhosa… – Oh, sim, e a natureza seria tão feia e desenxabida sem elas, não é verdade? – exclamou outra. – Oh, Lord Kendall – suplicou uma terceira –, faço questão de que me enumere as principais diferenças entre a fauna e a flora! A multidão de raparigas arrastou Kendall dali, como uma onda gigante plena de correntes. Num rasgo de valentia, Philippa seguiu o grupo, firmemente determinada a zelar pelos interesses da filha.


– A minha filha foi certamente demasiado modesta para lhe falar da sua extrema afinidade com a natureza… – ouviu-a Annabelle dizer a Kendall. Este olhou por cima do ombro numa expressão indefesa, vendo-se ser arrastado na direção dos degraus do terraço. – Miss Peyton? – Estou indo – respondeu-lhe Annabelle, levando as mãos em concha aos lábios para se fazer ouvir. A resposta dele, se é que existiu, foi inaudível. Com o ar mais calmo do mundo, Simon Hunt poisou a chávena vazia sobre a mesa mais próxima e murmurou qualquer coisa a um criado que lhe guardava a cana de pesca. Este assentiu com a cabeça e retirou-se, enquanto Hunt deu meia volta para se dirigir novamente a Annabelle. Esta ficou tensa ao vê-lo reaproximar-se. – O que é que está a fazer? Hunt enfiou as mãos nas algibeiras do casaco de pescador. – Decidi acompanhá-los. O que quer que aconteça no ribeiro das trutas não será nem de perto nem de longe tão interessante quanto vê-la bater-se pelas atenções de Kendall. Além de que eu sou uma verdadeira nulidade em matéria de floricultura; ainda poderei aprender alguma coisa… Engolindo uma resposta desagradável, Annabelle optou por seguir, resoluta, Lord Kendall e a sua entourage. Todos desceram os degraus do terraço e seguiram por um caminho que conduzia à floresta, onde carvalhos e faias altíssimos, majestosos, sobressaíam dos espessos mantos de fetos baixos, musgo e líquen. Inicialmente, Annabelle ignorou a presença de Simon Hunt ao seu lado, e seguiu caminhando penosamente atrás da horda de admiradoras de Kendall. Este via-se obrigado ao esforço inglório de ajudar menina atrás de menina a transpor todos os obstáculos, mesmo os mais insignificantes; um tronco de árvore caído, cujo contorno não era maior que o braço de Annabelle, tornou-se um problema de tal ordem que todas precisaram do auxílio de Kendall para o transpor. Cada uma delas se tornava progressivamente mais desamparada – até que o pobre coitado se viu obrigado a praticamente levar ao colo a última, galgando o insignificante tronco enquanto a ouvia guinchar de pretensa consternação e lhe sentia os braços apertando-lhe o pescoço. Seguindo bem atrás deles, Annabelle recusou-se a aceitar o braço de Simon quando ele lho ofereceu para a ajudar a transpor o tronco. Ele não deu parte de fraco e olhou-a com um sorrisinho divertido. – Cuidei que por esta altura a Miss Peyton já estaria bem lá à frente – comentou ele. Ela olhou-o com desdém antes de responder: – Não conto gastar o meu ânimo e energias em disputas com aquele bando de galinholas histéricas. Aguardarei um momento mais oportuno para atrair a atenção de Lord Kendall. – Já a conquistou, acredite. Ele seria tolo em não reparar em si. A verdadeira questão é: por que razão a Annabelle julga ter alguma sorte em conseguir arrancar-lhe uma proposta de casamento, se nos dois anos em que eu a conheço não logrou conquistar qualquer alma masculina? – É simples: porque agora tenho um plano. – Que consiste em…? – Como se alguma vez eu lho dissesse… – Conto que seja algo astuto e calculista – disse ele num tom grave. – Não tem tido grande sucesso nas abordagens mais… femininas.


– Apenas porque não tenho dote – retorquiu ela. – Se tivesse dinheiro, já estaria casada há anos. – Mas eu tenho – disse ele, ironicamente prestável. – De quanto necessita? Ela ofereceu-lhe um sorrisinho irónico. – Tendo a perfeita noção daquilo que me exigiria em troca, Mr. Hunt, posso seguramente afirmar que jamais aceitaria de si um xelim que fosse. – Agrada-me sabê-la tão seletiva nas suas companhias masculinas – disse ele, estendendo a mão para afastar um ramo do caminho dela. – Tendo ouvido rumores que apontam precisamente para o contrário, folgo imenso em saber isso. Ela parou a meio do caminho e voltou-se para o encarar. – Rumores? Sobre mim?… Que diabo poderiam as pessoas afirmar sobre mim? Ele manteve o silêncio, vendo-a notoriamente perturbada. – Seletiva… – murmurou ela – nas minhas companhias masculinas? Isso é suposto significar que eu possa ter tido algum comportamento menos… Calou-se subitamente, vindo-lhe à ideia a imagem repulsiva e rubicunda de Hodgeman. Hunt devia ter reparado na sua súbita palidez e nos sulcos que se lhe formaram entre as sobrancelhas, já que a fixava intensamente. Olhando-o com frieza, ela voltou-lhe as costas e seguiu caminho. Hunt acompanhou-lhe a passada determinada, enquanto se ouvia a voz cada vez mais distante de Lord Kendall, informando o seu atento cortejo sobre as plantas com as quais se iam cruzando. Orquídeas raras… celidónias… as mais variadas espécies de fungos. O discurso dele era ocasionalmente pontuado por exclamações maravilhadas das extasiadas ouvintes. – … e estas plantas mais baixas, aqui – dizia Kendall, tendo feito uma breve pausa para indicar uma massa de musgo e líquen que cobria a base de um carvalho – … são classificadas como briófitas, e requerem condições de extrema humidade para prosperar. Caso fossem privadas da guarida característica dos bosques, não sobreviveriam. – Nada fiz de errado ou condenável – prosseguiu Annabelle, secamente. Perguntava-se por que razão lhe interessava tanto a opinião de Hunt. Contudo, perturbava-a o suficiente para se questionar sobre quem poderia ter lançado tais rumores e, especificamente, a sua natureza. Seria possível que alguém tivesse visto Hodgeman a entrar ou sair de casa dela a altas horas da noite? Isso seria terrível. De uma intriga dessa natureza, tão destrutiva da reputação, era impossível alguém conseguir defender-se. – E não há nada de que eu me arrependa – rematou ela. – Isso é lamentável – disse Hunt, com uma certa leveza. – O arrependimento é o único indício de que fizemos coisas realmente interessantes na nossa vida. – Ai sim? E de que se arrepende o senhor, nesse caso? – Oh, infelizmente de nada… Não que não me tenha esforçado, evidentemente. Passo a vida a cometer atos inconfessáveis na vã esperança de mais tarde me vir a arrepender, mas… até ao momento, nada. Não obstante sentir-se a ferver por dentro, ela não conseguiu conter um risinho espontâneo. Deparouse com um ramo espesso que a impediu de prosseguir e estendeu a mão para o afastar. – Permita-me – disse Hunt, afastando-o por ela. – Obrigada. Annabelle lançou um olhar na direção de Kendall e o seu séquito, já bastante afastados, e subitamente


sentiu uma forte picada no pé. – Ai! – gemeu, erguendo a bainha da saia para investigar a origem de um tal desconforto. – O que foi? – Simon precipitou-se desde logo para junto dela, amparando-a pelo ombro com a sua manápula para a manter equilibrada. – Tenho qualquer coisa a picar-me dentro do sapato. – Deixe-me ajudá-la. Simon acocorou-se e segurou-lhe o tornozelo. Era a primeira vez que um homem lhe tocava na perna – em qualquer parte da sua perna – e Annabelle ruborizou de imediato. – Não me toque aí – protestou com um murmúrio violento, quase perdendo o equilíbrio de tão afrontada. Hunt não se deu por vencido e sorriu por dentro ao senti-la obrigada a apoiar-se nele para não cair. – Estou a ver a fonte do problema… – murmurou ele. Annabelle sentiu-o puxar-lhe a fina meia de algodão que lhe cobria a perna. – Um feto espinhoso colou-se-lhe ao tornozelo – concluiu ele, mostrando-lhe um raminho pleno de pequenos espinhos que conseguira furar-lhe o tecido fino da meia, picando-lhe a pele. Corando profusamente, Annabelle manteve a mão no ombro dele. Impressionou-a a robustez da sua omoplata, sentindo-lhe a forte estrutura do osso e a elasticidade do músculo – mesmo sob a espessura do casaco de caça. A sua mente atordoada estava com dificuldades em assumir que estava sozinha com Simon Hunt no meio de um bosque, e com a mão dele no tornozelo dela. Vendo-a tão mortificada, Simon abriu-se num sorriso. – Vejo-lhe mais uns quantos espinhos no interior da meia. Quer que os tire? – Sim, mas seja rápido – disse ela em tom ofendido. – Não quero que Lord Kendall me venha procurar e me veja aqui, consigo a enfiar-me as mãos pelas saias acima. Com um riso sufocado, ele dedicou-se à delicada tarefa, retirando cuidadosamente todos os espinhos da meia de Annabelle. Enquanto o fazia, ela fixou o olhar na nuca dele, no ponto onde os pequenos caracóis negros-que-afinal-não-eram-tão-negros-assim se colavam à pele firme e bronzeada. Pegando no delicado chinelo2, Hunt voltou a colocá-lo no pé de Annabelle sem nunca deixar de sorrir. – Minha linda e rústica Cinderela… – disse ele, levantando-se. Ao ver-lhe as rosetas que lhe queimavam o rosto, não conteve um rasgo de escárnio nos olhos escuros. – Por que diabo trouxe um calçado tão ridículo para um passeio no bosque? Cuidei que fosse suficientemente sensata para optar por uns sapatos abotinados. – Não trouxe os meus sapatos abotinados – retorquiu ela secamente. Irritou-a a insinuação dele, retratando-a como uma fútil boneca que não sabia sequer escolher o calçado mais confortável para um passeio pelos campos. Suspirou antes de acrescentar: – Os que tenho estão a cair de podres e eu não me posso dar ao luxo de comprar um par novo. Curiosamente, ele não aproveitou a oportunidade para a humilhar ainda mais. Pareceu estudá-la por um breve momento, mantendo uma expressão impassível. – Juntemo-nos aos outros – acabou finalmente por sugerir. – Já devem ter descoberto uma variedade de musgo que nos passou ao lado. Ou quem sabe um cogumelo?


Ela sentiu-se descontrair pelo seu tom humorístico. – Por mim ficaria encantada se me apresentassem a uma nova espécie de líquen – gracejou. Trocaram um breve sorriso, e ele afastou com o pé um ramo grosso que lhe bloqueava o caminho. Acompanhando-lhe o espírito, Annabelle arregaçou as saias e esforçou-se por não pensar em como seria agradável ver-se agora sentadinha no terraço, com uma bandeja de chá e biscoitos à sua frente. Chegaram ao cume de um leve declive e foram obsequiados pela vista surpreendente de um tapete de belas campainhas cobrindo o chão da floresta. Era como tropeçar num sonho, com uma bruma azul-celeste filtrando-se por entre os troncos dos carvalhos, das faias e dos freixos. O odor doce das campainhas era inebriante e Annabelle sentiu os pulmões inundados por ele. Parando junto a um tronco estreito, Annabelle envolveu-o com um braço, olhando maravilhada para o manto azul-celeste de campainhas. – Que lindo… – murmurou, o rosto resplandecendo sob a sombra do toldo formado pelos ramos seculares e entrelaçados. – Sim… Mas Hunt não olhava para o manto de campainhas e sim para ela. E algo no seu olhar fez o sangue formigar-lhe nas veias. Ela já tinha visto a admiração estampada no rosto de muitos homens, em alguns casos até reconhecendo-a como desejo, mas nunca fora alvo de um olhar tão perturbadoramente íntimo… como se ele desejasse dela algo bem mais complexo do que a mera utilização do seu corpo. Incomodada, Annabelle afastou-se da velha árvore e dirigiu-se a Kendall que estava agora a conversar com Philippa, enquanto o grupinho de meninas inquietas se dedicava a colher braçadas de campainhas. Centenas de pés foram espezinhados e partidos pela horda saqueadora no ataque ao seu tesouro. Kendall pareceu aliviado pela chegada de Annabelle e ainda mais pelo sorriso alegre e bem-disposto que ela trazia no rosto. Dir-se-ia que ele esperava dela alguma petulância; bem vistas as coisas, era o que qualquer mulher faria, tendo sido convidada para um passeio para depois se ver ignorada e preterida por um bando de gatas assanhadas. O olhar dele fixou-se em Simon Hunt e a sua expressão foi levemente ensombrada pela incerteza. Os dois trocaram um cumprimento de cabeça, Hunt ostentando a sua habitual segurança e Kendall parecendo algo desconfortável. – Vejo que atraímos toda a sorte de acompanhantes – murmurou Kendall. Annabelle ofereceu-lhe o seu sorriso mais deslumbrante. – Mas é claro que sim! – disse-lhe. – O senhor é como o Flautista de Hamelin, my lord. Aonde quer que vá, os outros seguem-no. Ele corou, agradado com aquele inesperado gracejo, e murmurou: – Espero que o passeio tenha sido até agora do seu agrado, Miss Peyton. – Oh, sim – garantiu-lhe ela. – Ainda que deva confessar que me vi aflita com um arbusto espinhoso. Philippa olhou a filha, preocupada. – Oh, meu Deus… Feriste-te, minha querida? – Não, não… Sofri apenas uns leves arranhões numa perna, Mamã, nada mais. E a culpa foi inteiramente minha. Quem me mandou calçar estes sapatos? Levantou um pé para mostrar a Kendall os chinelinhos leves que trazia, certificando-se de que deixava à vista um pedacinho do tornozelo.


Kendall abanou a cabeça de consternação. – Miss Peyton, num passeio por estas florestas é necessário algo bem mais resistente para caminhar. – É claro, tem toda a razão – acedeu ela sem deixar de sorrir. – Fui uma tonta por não considerar a aspereza deste terreno. No caminho de regresso tratarei de estudar os meus passos mais cuidadosamente. Mas as campainhas são tão deslumbrantes que creio que de bom grado caminharia descalça por montes e vales só para poder desfrutar desta paisagem. Kendall baixou-se para colher uma viçosa campainha, prendendo-a cuidadosamente na fita do rebordo do chapéu de Annabelle. – Não conseguem ser de um azul tão belo quanto o dos seus olhos. – O seu olhar recaiu no tornozelo dela, já devidamente coberto pela bainha do vestido. – Peço-lhe que aceite o amparo do meu braço na hora do regresso, de modo a evitar eventuais incidentes. – Fico-lhe muito grata, senhor – disse ela, olhando-o com fingida admiração. – Receio ter perdido a maioria dos seus brilhantes comentários acerca dos fetos, my lord. Julgo tê-lo ouvido referir as características do… feto-ninho, se não estou em erro? Fiquei fascinada, devo dizer-lhe. Kendall desde logo se prontificou a explicar-lhe tudo o que havia a saber sobre fetos de toda a ordem. E pouco depois, assim que Annabelle teve ocasião de olhar para trás, Hunt tinha já desaparecido.

2 Na época as senhoras calçavam chinelos de seda ou brocado, tão finos como se feitos de papel e cujas solas eram tão frágeis que não

resistiam a alguns passos fora de casa. (N. T.)


Capítulo 9

– Vamos mesmo levar avante esta ideia absurda, meninas? – perguntou Annabelle em tom lamentoso, à medida que ela e as outras encalhadas percorriam o trilho da floresta, cada uma carregando a sua cesta. – Julguei que o plano «rounders de ceroulas» fosse uma mera brincadeira. – Os Bowman nunca encaram um jogo de rounders como uma brincadeira – informou-a Daisy. – Seria um sacrilégio. – A menina gosta de jogos, Annabelle – observou Lillian alegremente. – E o rounders é o melhor jogo de todos! – Gosto de jogos, sim, mas daqueles que decorrem à volta de uma mesa – retorquiu Annabelle. – E com as pessoas trajadas decentemente. – Ora, tudo isso não passa de preconceitos – rebateu Daisy displicentemente. Annabelle começava a aprender que o preço de ter amigas implicava que, ocasionalmente, ela tivesse de se render às vontades alheias, por mais que fossem contra os seus princípios e desejos. Ainda assim, naquela manhã ela tinha tentado aliciar Evie para o lado dela – sem alcançar que, bem lá no seu íntimo, a jovem tímida ansiava pela oportunidade de surgir ao ar livre semidespida. Assim, Evie mostrou-se determinada em alinhar no plano das manas Bowman, parecendo considerá-lo como parte integrante do seu intento pessoal de se tornar mais audaz. – Eu gos-gos-gostaria de ser mais pa-pa-parecida com elas – tinha confessado a Annabelle. – Elas são tão livres, tão ousadas… Nada as faz vacilar. Vendo a expressão entusiasmada no rosto da amiga, Annabelle acabara por ceder com um longo suspiro. – Oh, muito bem, seja. Desde que ninguém nos veja, julgo que não haverá problema. Ainda que não consiga vislumbrar qual o objetivo de tudo isto. – O da pura diversão? – sugeriu Evie. Annabelle respondera com uma expressão caricata, arrancando à amiga uma gargalhada. O tempo, claro está, parecia ter colaborado totalmente com os planos das americanas, exibindo um céu limpo e azul e o ar refrescado por uma suave brisa. Abraçadas às suas cestas, as quatro raparigas atravessaram uma estrada enlameada e percorreram um extenso prado verdejante e húmido, salpicado por tufos de plantas carnívoras e violetas púrpuras. – Fiquem atentas ao poço dos desejos, minhas amigas – alertou-as Lillian. – Soube que existe um algures por aqui... E também existe um prado seco por bandas do topo da encosta. Um dos criados contou-me que ninguém se aventura a lá ir.


– Obviamente será a subir – suspirou Annabelle. – Lillian, como é esse poço dos desejos, tem ideia? Será uma daquelas estruturas pequenas e caiadas, com um balde e uma polia? – Não. Segundo me foi descrito, trata-se tão-somente de um buraco lamacento no solo. – Ali está ele! – exclamou Daisy, apontando para um buraco acastanhado no solo, recentemente reabastecido pela água vinda da margem de um ribeiro, a poucos passos do poço. – Venham daí, temos todas de pedir um desejo! Até trouxe alfinetes para lançarmos. – Como diacho te lembraste tu de trazer alfinetes? ��� quis saber Lillian. Daisy esboçou um sorriso traquina. – Bom, ontem à tarde quando me sentei a costurar com a Mamã e um grupo de senhoras viúvas, confecionei a nossa bola de rounders. – Tirou da cesta uma bola de couro e exibiu-a orgulhosamente. – Tive de sacrificar um par de luvas de pelica novinho em folha – e não foi uma tarefa nada fácil, digolhes. Mas adiante: as senhoras observavam-me com curiosidade enquanto eu procedia ao enchimento com pedaços de lã, e uma delas não se conteve e perguntou-me o que em nome de Deus estava eu a fazer… É claro que eu não podia dizer-lhe a verdade, não é? Creio que a Mamã se apercebeu, mas ficou demasiado embaraçada para dizer o que quer que fosse. Então disse à senhora que eu estava a fazer uma alfineteira. Todas soltaram risadinhas cúmplices. – Deve ter pensado para si mesma que era a alfineteira mais hedionda que jamais vira – disse Lillian, rindo. – Oh, sem dúvida! – disse Daisy. – E creio que terá ficado com pena de mim. Ofereceu-me desde logo uma mão-cheia de alfinetes, e ouvi-a balbuciar qualquer coisa acerca das raparigas americanas desajeitadas, sem talento particular para coisa alguma. Com a ponta da unha, retirou os alfinetes espetados na bola e distribuiu-os pelas outras. Poisando a sua cesta no chão, Annabelle segurou um alfinete entre os dedos, e fechou os olhos. Sempre que lhe surgia uma oportunidade, ela pedia invariavelmente o mesmo desejo: casar-se com um nobre. Curiosamente, contudo, desta vez um novo pensamento tomou o lugar do antigo – no preciso momento em que lançou o alfinete ao poço. Desejo apaixonar-me. Surpresa consigo mesma, Annabelle perguntou-se por que razão teria gasto um desejo em algo que se lhe afigurava tão manifestamente insensato. Abrindo os olhos, viu que as outras encalhadas olhavam para o poço com expressões solenes. – Confundi-me no desejo – disse, visivelmente nervosa. – Posso pedir outro? – Não – disse Lillian em tom perentório. – Depois de lançado o alfinete já não há volta a dar-lhe. – Mas eu não quis pedir este desejo particular – protestou Annabelle. – Foi algo que me surgiu inadvertidamente à ideia e… não era de todo o que eu pretendia. – Não conteste, Annabelle – aconselhou-a Evie. – Não vai querer aborrecer o espírito, vai? – Aborrecer… quem? Evie sorriu ao ver-lhe a expressão perplexa. – O espírito residente do po-poço. É a ele que pedimos. Mas se o aborrecermos, ele po-po-poderá exigir-nos um preço terrível, incomportável, para realizar o desejo pedido. Ou me-mesmo arrastar-nos com ele para o fundo do poço, para lá vivermos eternamente como suas con-consortes. Annabelle fixou a água acastanhada. Levou as mãos em concha aos cantos da boca para melhor se


fazer ouvir: – Não tens de concretizar o meu desejo imbecil – disse ela ao espírito invisível. – Eu retiro-o! – Não o irrite, Annabelle, por amor de Deus! – exclamou Daisy, cada vez mais nervosa. – E pela sua saúde, afaste-se da beira do poço! – É assim tão supersticiosa, Daisy? – quis saber Annabelle, com um sorriso. A outra olhou-a com ar grave, antes de responder: – Existe uma razão válida para as superstições, sabia? A uma determinada altura, qualquer coisa de determinado acontece a uma determinada pessoa que se encontre à beirinha de um poço, tal como a menina está. – Fechando os olhos, concentrou-se intensamente, lançando de seguida o alfinete à água. – Pronto, optei por pedir um desejo a seu favor. Já não precisa de se lamentar pelo seu desejo perdido. – Mas… como é que pode saber o que eu desejava? – O desejo que pedi é para seu bem, acredite – informou-a Daisy. Annabelle esboçou uma careta teatral. – Como eu odeio coisas que são para o meu bem… Seguiram-se uns minutos de amena cavaqueira, em que as meninas se entretiveram a dar sugestões de desejos umas às outras, baseadas naquilo que seria melhor para cada uma delas, até que finalmente Lillian pediu silêncio já que estavam a interferir com a sua concentração. Calaram-se apenas o tempo suficiente para que Lillian e Evie pedissem os seus desejos, e seguiram caminho através do prado e cruzando a floresta. Em breve chegaram a um lindo prado seco, coberto de erva e banhado pelo sol, com uma acolhedora sombra num dos flancos que se estendia por debaixo de um frondoso arvoredo de carvalhos. O ar era ameno e rarefeito, e tão fresco que Annabelle deu por si a inspirar profundamente. – Esta atmosfera não tem substância absolutamente nenhuma – comentou ela, em tom jocoso. – Não se sente o fumo do carvão ou o pó das ruas, nada. É demasiado rarefeito para uma londrina nata como eu. Não sinto sequer os pulmões. – Não é assim tão rarefeito – ripostou Lillian. – De quando em vez a brisa traz um odor distinto a… Eau de carneiro. – Como assim? – disse Annabelle farejando comicamente o ar. – Não sinto nada. – Isso porque a menina não tem olfato – zombou Lillian. – Peço desculpa? – indignou-se Annabelle, alinhando na brincadeira. – Ora, tem olfato como toda a gente, mas um olfato vulgar. Ao passo que o meu é apurado. Sou extraordinariamente sensível aos cheiros. Dê-me um perfume a cheirar, qualquer um, e eu consigo identificar e distinguir todos os seus componentes. Trata-se de um fenómeno muito semelhante ao de ouvirmos um acorde musical e sermos capazes de intuir cada uma das suas notas. Antes de deixarmos Nova Iorque, cheguei inclusivamente a desenvolver uma fórmula para sabonetes, para a fábrica de meu pai. – E crê-se capaz de vir a conseguir criar um perfume? – quis saber Annabelle, genuinamente fascinada. – Atrevo-me a dizer que conseguiria criar um perfume magnífico – afirmou Lillian, muito confiante. – Porém, qualquer alminha da indústria iria desdenhá-lo, já que a expressão «perfume americano» é por si só um paradoxo – além de que eu sou mulher, o que desde logo levanta sérias dúvidas quanto à qualidade do meu olfato.


– Quer dizer que os homens têm melhor olfato do que as mulheres? – Pelo menos é o que eles creem, sim – disse Lillian, num tom sombrio. Com um floreado, retirou da cesta uma toalha de piquenique. – Mas já basta de falarmos de homens e das suas protuberâncias. Que tal sentarmo-nos ao sol por uns minutos? – Corremos o risco de ficar tisnadas – previu Lillian, sentando-se a um canto da toalha com um suspiro de prazer. – E aí, a Mamã sofrerá um badagaio. – O que é um badagaio? – inquiriu Annabelle, curiosa pelo termo que desconhecia. Deixou-se cair ao lado de Daisy. – Por favor, previnam-me quando ela sofrer algum. Estou desejosa de ver o que será. – A Mamã tem-nos com frequência, garanto-lhe – disse Daisy. – Certamente que ficará a conhecer-lhe um badagaio antes de deixarmos Hampshire. – Não devíamos comer antes de jogar – observou Lillian, vendo Annabelle erguer a cobertura da sua cesta. – Mas eu estou faminta – protestou a outra, espreitando o interior constituído por fruta, queijo, patê, grossas fatias de pão e uma variedade de vegetais para salada. – Valha-me Deus, a Annabelle está sempre faminta – observou Daisy com uma gargalhada. – É dona de um apetite desmedido para alguém tão pequenino… – Pequenina, eu? Se a Daisy medir um centímetro que seja a mais do meu metro e cinquenta e dois, juro-lhe que como esta cesta de piquenique! – Então aconselho-a a preparar esses dentinhos, querida – disse a outra com um sorriso vitorioso. – Eu meço exatamente um metro e cinquenta e três centímetros. – Se fosse a si, não trataria já de roer essa pega de vime, Annabelle – intercedeu Lillian com um sorriso irónico. – A Daisy põe-se sempre em pontinhas dos pés quando tem ocasião de ser medida. A pobrezinha da nossa modista teve de retificar as bainhas de quase uma dúzia de vestidos, graças à firme resistência da minha querida irmã em assumir que é baixa. – Eu não sou baixa! – indignou-se Daisy. – As mulheres baixas nunca são elegantes ou misteriosas, ou perseguidas por homens bonitos. E são sempre tratadas como crianças. Recuso-me a ser baixa! – Pode não ser misteriosa – concedeu Evie. – Mas é mui-mui-muito bonita. – E a menina é uma querida – agradeceu-lhe Daisy, estendendo o braço para alcançar a sua cesta. – Vamos lá alimentar a pobrezinha da Annabelle – já não suporto ouvir-lhe roncar o estômago. Lançaram-se ao repasto com grande entusiasmo. Quando terminaram, estenderam-se indolentemente sobre a toalha e dedicaram-se a observar as nuvens e a tagarelar sobre tudo e sobre nada. Num momento de pausa, um pequeno esquilo ruivo aventurou-se para fora do denso arvoredo e saltitou até junto delas, observando-as com astutos olhinhos negros. – Um intruso – observou Annabelle sob um bocejo delicado. Evie rolou para o lado e, de barriga para baixo, lançou uma côdea de pão na direção do esquilo. Este imobilizou-se, qual estátua, olhando fixamente para a tentadora oferenda, mas ainda com demasiado receio de avançar. Evie pôs a cabeça de lado, o cabelo resplandecendo ao sol como que revestido por uma rede de rubis. – Pobre criaturinha… – disse ela suavemente. Lançou outro pedaço de côdea ao tímido esquilo que, ao vê-la aterrar mais perto de si, abanou freneticamente a cauda.


– Sê corajoso, amiguinho – animou-o a jovem. – Vamos, apanha-a. Sorrindo, lançou-lhe um novo pedaço de pão – que desta vez foi cair a escassos centímetros do bichinho. – Ora, senhor esquilo… – disse Evie em tom reprovador. – Está a ser um verdadeiro poltrão. Não entendeu ainda que ninguém aqui lhe quer mal? Num súbito ímpeto de coragem, o esquilo agarrou o pedacinho de côdea entre as patitas e desapareceu agitando delirantemente a pequena cauda. Olhando as amigas com uma expressão triunfante, Evie constatou que elas a olhavam boquiabertas, com expressões de estranheza nos rostos. – O que-que-que foi? – perguntou, estranhando. Annabelle foi a primeira a falar. – Ainda agora, quando falava com o esquilo… a Evie não gaguejou. – Oh… – subitamente envergonhada, ela baixou o olhar e sorriu timidamente. – Eu nunca ga-gaguejo quando falo com crianças ou aninimais. Desconheço a razão. Todas consideraram aquela estranha informação por um breve momento. – Pois eu já notei que a Evie gagueja significativamente menos sempre que fala comigo – observou Daisy. – Ai sim? – disse Lillian, não resistindo a ironizar. – E em que categoria é que a menina se insere, crianças ou animais? Daisy respondeu-lhe com um gesto de mão que para Annabelle se revelou completamente estranho. Preparava-se para perguntar a Evie se alguma vez consultara um médico sobre a sua gaguez, mas a ruivinha fez questão de mudar abruptamente de assunto. – Onde tem a bo-bola de rounders, Daisy? Se não começarmos já a jogar, receio que adormeça. Apercebendo-se de que Evie não desejava prolongar-se muito mais sobre o seu problema, Annabelle achou por bem reforçar a ideia. – Suponho que uma vez que temos mesmo de jogar, mais vale agora que mais tarde. Enquanto Daisy procurava a bola na sua cesta, Lillian abriu a dela e retirou qualquer coisa de lá. – Vejam só o que eu trouxe – disse. Daisy olhou-a com espanto, soltando uma gargalhada. – Um taco verdadeiro! – exclamou, impressionada. – E eu que cuidei que tivéssemos de jogar com vulgares troncos de carvalho. Onde é que desencantou essa maravilha, Lillian? – Foi um dos moços de estrebaria quem gentilmente mo cedeu. Pelos vistos, gostam de se escapulir de quando em vez para uma partida entre todos – são realmente apaixonados pelo rounders. – E quem não é? – comentou Daisy, apressando-se a desabotoar o seu corpete. – Meu Deus, que quente que está o dia – será um alívio ver-me livre de todas estas camadas de roupa! Enquanto as manas Bowman se prestavam diligentemente a desabotoar os vestidos – num jeito típico de raparigas que pouco se ralavam com questões de pudor –, Annabelle e Evie trocaram um olhar hesitante. – Desafio-a… – murmurou a ruiva. – Deus seja louvado! – disse Annabelle em tom lamentoso, começando a desabotoar-se. Sentiu um inesperado lampejo de recato que lhe trouxe ao rosto duas leves rosetas. Ainda assim, não


tencionava acobardar-se quando até a temerosa Evie Jenner se mostrava disposta a juntar-se à Rebelião Anti-Decoro. Despindo as mangas do vestido, levantou-se e deixou que ele caísse pesadamente num monte a seus pés. Ao ver-se em camisa, ceroulas e corpete, os pés cobertos apenas por meias de seda e chinelos, sentiu uma brisa fresca nas axilas transpiradas e estremeceu de prazer. As outras encalhadas também se levantaram, livrando-se dos seus vestidos, que permaneceram amontoados no chão como gigantes flores exóticas. – Apanhe! – disse Daisy, lançando a bola a Annabelle, que a agarrou num ato reflexo. Dirigiram-se todas para o meio do prado, lançando a bola umas às outras. Evie era a mais desajeitada, tanto a arremessar como a apanhar a bola – ainda que fosse óbvio que a sua inaptidão tinha mais a ver com falta de prática do que com falta de jeito. Annabelle, pelo contrário, tinha um irmão mais novo que frequentemente a elegia como companheira de equipa, daí que jogar com uma bola lhe fosse mais do que familiar. A sensação de correr ao ar livre com as pernas libertas do peso das saias era a um tempo estranha e extremamente agradável, fazendo-a sentir-se leve como uma pena. – Suponho que seja assim que os homens se sentem – exclamou ela, lançando a bola a Daisy. – Confesso que é quase de invejar uma tal liberdade. – Quase? – comentou Lillian com um grande sorriso. – Pois eu afirmo sem a menor reserva que os invejo de morte! Não seria maravilhoso que as mulheres pudessem vestir calças? – Eu ja-ja-jamais me renderia a uma mo-moda dessas! – indignou-se Evie. – Morreria de vergonha se algum homem pu-pu-pudesse ver a fisionomia das minhas pernas ou das minhas… – Hesitou, procurando o termo apropriado para designar as zonas inconfessáveis da anatomia feminina. – … ou-ou-outras partes – concluiu, ainda hesitante. – A sua camisa está em péssimo estado, Annabelle – observou subitamente Lillian. – Confesso que não considerei oferecer-lhe roupa interior, mas devia ter pensado que… Annabelle encolheu os ombros num gesto brusco. – Não tem importância, uma vez que esta será a única oportunidade de alguém a poder ver. Daisy trocou um olhar com a irmã mais velha. – Lillian, fomos ambas umas perfeitas imbecis. A pobrezinha da Annabelle não teve grande sorte no que respeita a fadas madrinhas. – Não me queixo, garanto-lhes – disse Annabelle, rindo. – E pela parte que me toca, nós quatro viajamos todas na mesma abóbora. Após alguns minutos de exercício, e de uma breve toca de ideias acerca das regras do jogo, dispuseram as cestas de piquenique em jeito de postes de delimitação, e deram início ao jogo. Annabelle colocou-se num ponto a que chamaram «Castle Rock», de pé, muito direita e com os pés paralelos. – Eu passo a bola a Annabelle e tu apanha-la – disse Daisy à irmã. – Mas os meus lançamentos são melhores que os teus – protestou Lillian, assumindo ainda assim a sua posição atrás de Annabelle. Segurando o taco por cima do ombro, Annabelle tentou intercetar a bola que Daisy lançou. O taco falhou o alvo e a bola, sibilando, desenhou no ar um arco perfeito. Por trás dela, Lillian apanhou-a com destreza. – Foi um belo lançamento – encorajou-a Daisy. – Um conselho: não tire os olhos da bola sempre que


a veja vir na sua direção. – Custa-me ficar quieta e impassível perante objetos que me são arremessados, confesso – disse Annabelle, brandindo novamente o taco. – A quantas tentativas é que tenho direito? – No rounders, o atacante pode fazer um número infinito de swings – ouviu a voz de Lillian atrás de si. – Experimente de novo, Annabelle… e desta vez tente imaginar que a bola é o nariz de Mr. Hunt. Annabelle acatou aquela proposta com enorme entusiasmo. – Bela ideia! Mas já agora, prefiro apontar para uma outra protuberância localizada um pouco mais abaixo – disse, fazendo um novo swing à bola lançada por Daisy. Desta vez, a parte aplainada do taco bateu na bola com um forte ruído. Soltando uma exclamação de alegria, Daisy correu elegantemente atrás da bola, enquanto Lillian, perdida de riso, gritava: – Corra, Annabelle! E ela correu o mais que pôde, contornando as cestas para chegar a «Castle Rock». Nervosa mas determinada, Evie empunhou o taco e preparou-se para receber a bola. – Finja que a bola é a sua tia Florence – brincou Annabelle, provocando-lhe um sorriso. Daisy fez um lançamento simples, lento e suave, mas Evie falhou a bola, que chegou certeira às mãos de Lillian. Lançou-a de volta à irmã, e esta tratou de reposicionar a desajeitada amiga. – Procure ampliar a sua posição e flita um nadinha os joelhos – murmurou-lhe. – Isso mesmo. Agora, não perca a bola de vista e desta vez não falha. Malogradamente, Evie falhou. Uma e outra vez, vezes sem conta, até o rosto se tornar vermelho de frustração. – É de-de-masiado difícil! – disse ela, visivelmente aflita. – Quem sabe não seja melhor fa-fa-fazer uma pausa e dar a outra uma o-o-oportunidade. – Vamos tentar mais umas vezes, sim? – disse Annabelle, decidida a que Evie lograsse acertar na bola por uma vez que fosse. – Não temos pressa. – Não desista, Evie! – animou-a Daisy. – Creio que o problema está em que se está a esforçar demasiado. Precisa de se desinibir um pouco. E deixe de fechar os olhos quando faz o swing. – A Evie vai conseguir, estou certa disso – encorajou-a Lillian, afastando uma mecha de cabelo preto dos olhos. – Da última vez esteve quase. Mantenha os olhos na bola. Com um suspiro resignado, Evie arrastou o taco até «Castle Rock» e ergueu-o uma última vez. Semicerrou os olhos azuis fixando Daisy e preparou-se, ainda que tensa, para o próximo lançamento. – Estou pronta. Daisy lançou-lhe a bola e Evie conseguiu finalmente acertar-lhe, provocando uma onda de satisfação geral. Estupefactas, ficaram as quatro a ver a bola voar como uma flecha e perder-se em pleno coração do arvoredo. Annabelle e as manas saltaram e gritaram de alegria e Evie, absolutamente pasmada com a sua proeza, desatou aos saltinhos guinchando: – Consegui! Consegui! Consegui! – Corra, contorne as cestas! – gritou-lhe Annabelle, correndo para «Castle Rock». Extasiada, a ruivinha correu a toda a volta do improvisado campo de rounders, uma mancha nívea realçando-se do verde da relva. Assim que se viu no ponto certo, constatou que as outras três continuavam aos pulos e guinchos sem nenhuma razão especial – a não ser por serem novas e sãs e felizes.


De súbito, Annabelle apercebeu-se de uma figura escura que descia rapidamente a encosta. Ficou paralisada e em silêncio, ao constatar que aí vinham nada menos do que dois cavaleiros – num trote acelerado em direção ao prado seco. – Vejo alguém a chegar! – gritou, logo que conseguiu recuperar o pio. – São dois cavaleiros! Rápido, peguem nas roupas e vistam-se! Componham-se, depressa! O tom alarmante da sua voz silenciou abruptamente o regozijo das companheiras, que se entreolharam com expressões de pânico. Num ímpeto, e aos guinchinhos de aflição, correram desenfreadas em direção à toalha de piquenique onde haviam deixado os vestidos. Annabelle começou a correr para junto delas, mas parou e voltou-se abruptamente ao sentir os cavaleiros que acabavam de chegar, fazendo parar os cavalos mesmo ao lado dela. Temerosa, encarou-os e tentou descortinar-lhes as expressões. Ficou sem pinga de sangue ao reconhecê-los. Tratava-se de Lord Westcliff… e, pior ainda… Simon Hunt.


Capítulo 10

Assim que Annabelle cruzou o olhar nervoso com o olhar atónito de Hunt, já não conseguiu desviá-lo. Parecia um daqueles pesadelos de que sempre acordamos com uma sensação de alívio, sabendo que algo tão terrível não poderia realmente acontecer. Não fosse ela estar numa situação tão pouco vantajosa, teria adorado ter deixado Simon Hunt sem fala. De início, a expressão dele era como se tivesse enorme dificuldade em absorver o facto de ela estar ali, mesmo à frente dele, vestida apenas de camisa, corpete e ceroulas. Os seus olhos percorreram-na, calma e lentamente, acabando no rosto corado. Após um momento de silêncio ensurdecedor, Hunt engoliu em seco antes de conseguir dizer, num tom quase embargado: – Provavelmente não deveria perguntar, mas… que diacho estão as senhoras a fazer? As palavras dele acordaram-na do seu entorpecimento. Não queria – não podia – ficar ali a conversar com ele em trajes menores, evidentemente. Mas a sua dignidade – ou o que restava dela – exigia-lhe que não desatasse a correr e aos guinchos feita uma idiota, tal como as outras encalhadas tinham feito. Decidindo-se por uma situação de compromisso, avançou decidida até ao vestido caído no chão e pô-lo à sua frente enquanto se voltava novamente para Simon Hunt. – Estamos a jogar uma partida de rounders – informou-o, a voz soando mais esganiçada do que gostaria. Hunt olhou em volta apreciando a cena, antes de voltar a olhá-la nos olhos. – Mas por que razão estão em… – Não é possível correr de saias – interrompeu-o ela. – Parece-me óbvio. A si não? Depois de absorver aquela informação, Hunt olhou-a com a sua habitual expressão irónica, comentando: – Uma vez que nunca experimentei, vou ter de acreditar na sua palavra. Atrás dela, Annabelle ouviu Daisy dirigir-se à irmã num tom acusador: – Não afirmaste a pés juntos que nunca ninguém vinha para estas bandas? – Foi o que me disseram – ripostou Lillian, a voz saindo-lhe abafada ao entrar dentro do vestido e puxando-o para cima. O conde, que até então ficara mudo e quedo, estudou a cena com o olhar e confirmou: – Os seus informantes estavam absolutamente certos, Miss Bowman. Este prado é muito raramente frequentado. – E assim sendo, por que razão se encontra aqui? – Lillian exigiu saber, num tom acusador. Parecia que era ela, e não Westcliff, a dona da propriedade.


Perante aquela observação, o conde olhou incrédulo para a americana antes de conseguir retorquir: – A nossa presença aqui é mera coincidência – disse friamente. – Saí com a intenção de vir inspecionar a zona nordeste da minha propriedade. – Deu à palavra minha uma entoação discretamente assertiva. – Enquanto Mr. Hunt e eu cavalgávamos pela encosta, ouvimo-las gritar e achámos por bem vir ver o que se passava – no intuito de prestar auxílio, nada mais. Jamais me passou pela mente que estariam a utilizar este campo para… para… – … jogar rounders em ceroulas – ajudou-o Lillian, enfiando os braços nas mangas. Parecendo incapaz de repetir aquela frase ridícula, o conde fez o cavalo voltar-se ligeiramente de lado e falou por cima do ombro: – Nos próximos cinco minutos, conto vir a padecer de um acesso de amnésia. Mas antes disso, sugeria às senhoras que se privassem de quaisquer atividades futuras envolvendo ar livre e nudez, uma vez que outros cavalheiros que por aqui passem poderão não ficar tão indiferentes quanto eu e Mr. Hunt ficámos. Apesar do seu embaraço, Annabelle não conseguiu conter um esgar de ceticismo perante o assumir de indiferença por parte de Simon Hunt – já para não falar na do próprio conde. Hunt tinha conseguido claramente obter uma perspetiva do corpo dela. E também não tinha escapado a Annabelle o olhar de relance que o conde lançara a Lillian antes de fazer virar o cavalo. Porém, e dada a sua exposição, seria pouco apropriado contestar as alegações de Lord Westcliff. – Obrigada, my lord – acabou por dizer, agradavelmente surpresa com o tom tranquilo da sua voz. – E agora, tendo levado em séria conta o seu excelente conselho, pedia-lhes que nos permitissem alguma privacidade para nos compormos. – Com certeza – grunhiu Westcliff. Antes de Simon Hunt se afastar, ainda lançou um olhar a Annabelle, vendo-a ajustar o vestido de encontro ao peito. Não obstante a sua aparente compostura, a ela pareceu-lhe que ele tinha corado… e não havia a menor dúvida quanto à chispa nos seus olhos negros. Ela ainda tentou controlar-se ao ponto de lhe conseguir lançar um último olhar, desdenhoso e frio, mas apenas se sentiu ruborizada e descomposta e profundamente atordoada. Pareceu-lhe que ele se preparava para lhe dirigir um último comentário, mas mudou de ideias e limitou-se a esboçar um sorriso cínico. O cavalo bateu os cascos e resfolegou com impaciência, volteando bruscamente quando Hunt o fez abalar a galope atrás de Westcliff. Embaraçadíssima, Annabelle voltou-se para Lillian, que apesar de corada mantinha um impressionante controlo de si mesma. – De todos os homens do mundo a topar-nos nestas figuras, tinham logo de ser estes dois! – Temos de admirar uma tal arrogância – comentou Lillian secamente. – Deverá ter levado anos e anos a cultivar. – A quem se refere? A Mr. Hunt ou a Lord Westcliff? – A ambos. Se bem que a arrogância do conde conseguiu superar a de Hunt – o que pode ser considerado um feito histórico. Entreolharam-se por um momento, trocando expressões de desdém pelos tão indesejados visitantes, até que Annabelle não se conteve e largou uma gargalhada bem-disposta. – As expressões deles… reparou? – disse, entre fungadelas. – Ficaram estupefactos! – Mas não tanto quanto nós… – acrescentou Lillian. – A questão que se põe é… como é que os vamos


enfrentar depois disto? – Não, a questão põe-se a contrário: como é que eles nos irão enfrentar? – contrapôs Annabelle. – Nós estávamos muito sossegadas no nosso cantinho – foram eles os intrusos! – De facto… tem toda a razão. Julgo que… Lillian interrompeu-se ao ouvir um som sinistro vindo da área do piquenique, como o de alguém a sufocar. Evie estava deitada sobre a toalha, de joelhos no chão, o corpo pendendo convulsivamente para a frente e a cabeça escondida entre as mãos. Daisy estava de pé a seu lado, de mãos nas ancas e expressão confusa. Correndo para elas, Annabelle indagou, preocupada: – O que foi? – Toda esta situação foi demasiado para ela – disse Daisy. – Julgo que ficou histérica. Evie rebolou sobre a toalha, um guardanapo tapando-lhe o rosto, mas deixando vislumbrar uma orelha cor de beterraba – literalmente. Quanto mais tentava controlar o riso, pior era, fazendo-a arquejar desesperadamente para tentar meter ar nos pulmões. Sabe Deus como, lá conseguiu articular uma única frase: – Mas que fa-fa-fabulosa introdução aos jo-jo-jogos de relvado! E seguiram-se mais espasmos e fungadelas de riso incontrolável, que a fizeram contorcer-se perante o olhar confuso das outras três. Daisy lançou um olhar a Annabelle, antes de a informar: – Isto, minha querida… é um badagaio. Simon e Westcliff cavalgaram prado fora, até se verem suficientemente afastados da zona crítica, altura em que abrandaram a passada para seguirem por uma vereda que conduzia ao terreno arborizado. Passaram ainda uns bons cinco minutos antes que algum deles se visse inclinado, ou mesmo apto, a falar. Pela mente de Simon fervilhavam imagens de Annabelle Peyton, as suas curvas firmes, estupendas, cobertas por trajes interiores velhos e minguados por milhares de lavagens. Agradecia a Deus o facto de não se ter encontrado a sós com ela naqueles preparos, já que estava certo de que não teria conseguido deixá-la sem lhe fazer alguma coisa de absolutamente barbárica. Em toda a sua vida, Simon não tinha nunca experienciado um desejo tão arrebatador quanto o que sentira ao ver Annabelle seminua em pleno prado. Sentira o corpo todo fustigado por uma descarga de desejo, uma vontade quase incontrolável de desmontar, tomar Annabelle nos braços e levá-la até à zona mais próxima de relva fofa. Não conseguia imaginar tentação mais pecaminosa do que a visão daquele corpo voluptuoso, a extensão de pele sedosa, tingida de nata e rosa, o cabelo castanho alourado, meio em desalinho e beijado pelo sol. Ela tinha-se mostrado tão encantadoramente vulnerável, corando dos pés à cabeça. E ele desejou agarrá-la e rasgar-lhe com unhas e dentes as vestes puídas; e depois enchê-la de beijos, saborear-lhe todos os suaves cantos do corpo e… – Não – murmurou ele, sentindo o sangue aquecer-lhe nas veias ao ponto de o escaldar por dentro. Não podia permitir-se seguir aquela linha de pensamento, ou aquele seu desejo enlouquecedor tornarlhe-ia o resto da viagem extremamente desconfortável. Depois de se controlar o melhor que pôde, Simon olhou para Westcliff, que parecia meditar. Ora isto revelava-se no mínimo estranho num homem como Westcliff, longe de ser do tipo contemplativo. Os dois homens eram já bons amigos há cerca de cinco anos, tendo-se conhecido num jantar


oferecido por um político progressista que ambos prezavam. O autocrático pai de Westcliff acabara de falecer, deixando nas mãos do único filho, Marcus – o novo Conde de Westcliff – a tarefa de gerir os negócios da família. Este acabara por se confrontar com a realidade de que as finanças da família estavam apenas superficialmente seguras, mas podres por dentro – muito como um doente que contrai uma doença fatal mesmo parecendo são como um pero. Alarmado pelo terrível panorama que lhe foi apresentado pelos livros de contabilidade, o novo conde concluiu que seria inevitável proceder a mudanças drásticas. E começou precisamente por tentar contrariar para si o destino de muitos outros nobres, que viviam os seus dias num alegre desbaratar das fortunas de família. Contrariamente à visão romanceada e eufemística de que um número infinito de nobres perdiam as suas fortunas à mesa de jogo, a realidade era que os aristocratas modernos não eram, regra geral, assim tão imprudentes, mas antes gestores financeiros absolutamente inaptos. Investimentos tacanhos e conservadores, pontos de vista obsoletos e acordos fiscais destinados ao fracasso, andavam a minar paulatinamente a riqueza da aristocracia e a permitir que uma nova classe de profissionais em ascensão fosse penetrando nos mais altos níveis da sociedade. Qualquer homem que optasse por desconsiderar a influência dos avanços da indústria e da ciência na economia emergente teria inevitavelmente os seus dias contados… e Westcliff não tinha a menor intenção de se ver incluído nessa categoria. Quando Simon e Westcliff se tornaram amigos, não houve dúvidas de que cada um deles estava a usar o outro para seu benefício. A Westcliff interessavam os instintos financeiros de Simon, e Simon via no conde uma porta de entrada para o almejado mundo das classes privilegiadas. Mas à medida que se foram conhecendo, tornou-se claro que os dois eram extremamente parecidos numa infinidade de aspetos; eram ambos exímios cavaleiros e caçadores, carentes de uma atividade física vigorosa e frequente – como uma escapatória para o excesso de energia que ambos pareciam ter. E eram os dois intransigentemente honestos, ainda que Westcliff possuísse elegância e educação suficientes para tornar essa sua honestidade bem mais apetecível. Nenhum deles era homem para ficar sentado horas a fio a conversar sobre poesia ou a analisar conceitos sentimentais. Preferiam claramente lidar com factos concretos, assuntos tangíveis e, bem entendido, debater empreendimentos e iniciativas de negócios, correntes ou futuros, com enorme entusiasmo. Uma vez que Simon se tornou presença assídua em Stony Cross e convidado frequente de Marsden Terrace, a residência londrina de Westcliff, as amizades do conde foram-no gradualmente aceitando dentro dos seus círculos. E foi com grata surpresa que Simon veio a descobrir que não era o único plebeu a ser tido por Westcliff como amigo íntimo. O conde privilegiava nitidamente a companhia de homens simples, cuja forma de estar na vida e de ver o mundo fora moldada fora dos muros das propriedades aristocráticas. E de facto, Westcliff ocasionalmente afirmava que gostaria de renunciar ao título, acaso isso fosse possível, uma vez que não suportava a noção de aristocracia hereditária. Simon não duvidava que as declarações de Westcliff eram sinceras – mas a verdade é que ele parecia não se aperceber de que o privilégio aristocrático, com todo o poder e responsabilidade inerentes, era uma parte inata de si. Como detentor do mais antigo e reverenciado condado de Inglaterra, Lord Westcliff nascera para servir as exigências do dever e da tradição. Tinha conseguido manter uma vida organizada e impecavelmente programada, e era o homem mais sereno e controlado que Simon alguma vez conhecera. E agora o conde, habitualmente ponderado, parecia-lhe bem mais perturbado do que aquilo que a situação poderia exigir.


– Raios! – exclamou ele por fim. – Tenho frequentes encontros de negócios com o pai dela. Como é que é suposto eu encarar Thomas Bowman sem me lembrar de que me deparei com a sua filha em trajes menores? – Filhas – corrigiu-o Simon. – Estavam ambas presentes. – Deveras?! Reparei apenas na mais alta. – A Lillian? – Precisamente... – Não escondeu uma expressão de horror. – Deus do Céu, não admira que ainda estejam ambas por casar! São… verdadeiras selvagens, mesmo pelos padrões americanos. E o modo como aquela mulher me dirigiu a palavra, como se fosse eu quem devesse ficar envergonhado por lhes interromper a indecorosa festança… – Co’a breca, Westcliff, soa como um verdadeiro pedante – interrompeu-o Simon, divertido com o melindre exagerado do conde. – Umas quantas raparigas inocentes a saltitar prado fora não é propriamente o fim da civilização. E podia apostar que se não passassem de vulgares criaditas, tudo aquilo lhe passaria ao lado. Caramba, quem sabe até se não se juntaria a elas? Já o vi nas suas festas e bailes em posturas pouco dignas com as suas amantes e… – Mas elas não são vulgares criaditas, Hunt. São jovens senhoras, ou pelo menos alegam sê-lo. O que diacho pode levar um bando de encalhadas a comportar-se daquela forma? Simon sorriu perante o tom ofendido do amigo. – A minha teoria é a de que elas se tornaram cúmplices, aliadas na sua condição de eventuais solteironas. Na maior parte do tempo desta última temporada, estiveram sentadas lado a lado, praticamente sem se falarem. Mas ao que parece, acabaram por entabular uma amizade muito recente. – E com que objetivo, não me dirá? – indagou o conde, pleno de desconfiança. – Quem sabe não estejam apenas a pretender divertir-se? – sugeriu o outro. Simon não pôde deixar de desenvolver um interesse particular pelo grau de perturbação do amigo em relação ao comportamento das meninas. Lillian Bowman, em particular, deixara-o profundamente abalado. E isso era pouco habitual no conde, que sempre se relacionara com as mulheres com visível descontração. Que Simon soubesse, não obstante o número de mulheres que o perseguiam dentro e fora da cama, Westcliff jamais perdera a objetividade. Até agora. – Então que se dedicassem à costura, ou ao que quer que seja que as mulheres decentes fazem para se divertir – grunhiu o conde. – Não me diga que não arranjavam um entretém que não envolvesse correrem nuas pelos campos? – Não estavam nuas – salientou Simon Hunt. – Para grande pena minha… – Esse seu comentário impele-me a dizer-lhe uma coisa… – disse Westcliff num tom subitamente sério. – Como sabe, não sou de dar conselhos a quem não mos peça, mas… Simon interrompeu-o com uma gargalhada. – Meu caro Westcliff, duvido seriamente que tenha passado um dia da sua vida sem dar um conselho a alguém acerca de alguma coisa. – Apenas ofereço conselhos quando se me afigura absolutamente necessário– disse o conde, com uma leve carranca. Simon olhou-o com um sorriso sardónico. – Pois então faça o favor de me dispensar as suas palavras sábias, meu amigo. Já que algo me diz que


irei ouvi-las quer queira, quer não. – Dizem respeito a Miss Peyton. Se for tão sensato quanto eu o considero, irá privar-se de todas e quaisquer ideias que lhe concernem. Ela é sem dúvida um belo pedaço de mulher, e mais egocêntrica do que qualquer criatura que eu já tenha conhecido. A fachada é magnífica, sim, mas, em minha opinião, não há nada de recomendável debaixo dela. Não duvido que tenciona fazer dela sua amante, isto no caso de ela falhar nos seus intentos de conquistar Lord Kendall. E o meu conselho é: não o faça. Há muitas outras mulheres com infinitamente mais a oferecer-lhe do que Annabelle Peyton. Simon ficou calado por um momento. Os seus sentimentos por Annabelle Peyton eram incomodamente complexos. Ele admirava-a, gostava dela, e Deus sabia que ele não tinha o direito de a condenar por vir a tornar-se amante de outro homem. Mas ainda assim, a mera possibilidade de ela ter levado Hodgeman para a sua cama provocava-lhe um misto de raiva e ciúme que não deixava de o surpreender. Quando ouvira o rumor – que Lord Burdick se dedicara a espalhar – de que Annabelle se havia tornado amante secreta de Hodgeman, Simon não tinha resistido a investigar tal insinuação. Tinha perguntado ao pai, que mantinha meticulosamente organizados livros de contabilidade de inúmeros clientes, se alguém alguma vez lhe dera dinheiro para regularizar as contas de talho da família Peyton. Se bem que isso não pudesse ser considerado uma prova do que quer que fosse, fortaleceria, ainda assim, as suspeitas de Simon de que Annabelle se tornara amante de Hodgeman. Ao juntar a isto as evasivas dela ao longo da conversa que haviam tido na manhã anterior, o dito rumor tornava-se cada vez mais provável. Era notório que a situação financeira dos Peyton era desesperada… mas as razões pelas quais Annabelle se teria voltado para um palerma velho e gordalhufo como Hodgeman permaneciam um absoluto mistério. Por outro lado, tantas eram as decisões de vida, boas ou más, tomadas apenas como resultado da oportunidade… Quem sabe se Hodgeman não tivesse logrado intervir num momento em que as defesas de Annabelle estivessem debilitadas ao seu extremo, levando-a a convencer-se a oferecer ao velho bandalho aquilo que ele queria, a troco do dinheiro que ela tão desesperadamente precisava… Ela não tinha uns sapatos abotinados confortáveis. Cristo! A generosidade de Hodgeman devia ser miserável, já que apenas lhe permitia uns quantos vestidos novos, mas não um par de sapatos decente ou roupa interior minimamente aceitável, a julgar pelo estado andrajoso da dela. Se Annabelle se via forçada a amancebar-se com um homem, bem podia escolhê-lo a ele – e receber ao menos uma recompensa digna dos seus favores. Mas obviamente que ainda era demasiado cedo para a interpelar sobre essa possibilidade. Simon teria de esperar pacientemente até ela tentar – e afortunadamente perder – as suas chances junto de Lord Kendall. Não tencionava fazer nada que lhe arruinasse essas chances, mas se acaso ela falhasse nos seus intentos, Simon contava abordá-la e seduzi-la com uma oferta bem mais tentadora do que o seu atual acordo clandestino com Hodgeman. Imaginando Annabelle nua e estendida na sua cama, Simon sentiu a volúpia a reacender-se, e esforçou-se por retomar o fio à meada na conversa com o conde. – O que o leva a crer que eu possa ter algum interesse em Miss Peyton? – indagou num tom falsamente descontraído. – O facto de quase ter caído do cavalo quando a viu em trajes menores. Aquilo arrancou a Simon um sorriso relutante. – Com uma fachada daquelas pouco me rala o que está no interior. – Mas devia – disse o conde. – Miss Peyton é uma mulher fria, egoísta e de reputação duvidosa,


como eu nunca vi igual. – Westcliff – indagou Hunt, em tom casual –, alguma vez lhe passou pela ideia que possa estar enganado? Em relação a qualquer coisa? O conde pareceu perplexo perante a pergunta. – Efetivamente… não. Abanando a cabeça e esboçando um sorriso compungido, Simon esporeou o cavalo para o fazer acelerar.


Capítulo 11

Enquanto as meninas regressavam a Stony Cross Manor, Annabelle teve a desconfortável sensação de ter torcido um tornozelo. Devia ter acontecido durante a partida de rounders, ainda que não se recordasse do momento preciso. Com um suspiro profundo, mudou a cesta de mão e alongou a passada de modo a acompanhar Lillian, que lhe pareceu pensativa. Daisy e Evie vinham uns escassos metros mais atrás, envolvidas numa conversa séria. – O que é que a preocupa? – perguntou Annabelle a Lillian em voz baixa. – O conde e Mr. Hunt… crê que eles venham a contar a alguém que nos viram naqueles preparos? Seria péssimo para a nossa reputação. – Não creio que Westcliff o faça – disse Annabelle após um momento de consideração. – Recorda-se do comentário que ele fez sobre vir a ter amnésia? Sinto-me tentada a acreditar nele. Além de que não me parece nada o tipo de homem dado a mexericos. – E quanto a Mr. Hunt? Annabelle franziu a testa. – Não sei… Não me passou despercebido o facto de ele não ter prometido guardar segredo. Mas acredito que mantenha a boca fechada se pensar que ganhará alguma coisa com isso. – Assim sendo, julgo que o melhor é ser a Annabelle a abordá-lo nesse sentido. Assim que o vir no baile desta noite, fale com ele e faça-o prometer que não comenta com ninguém o nosso jogo de rounders. Lembrando-se do baile que ia ter lugar nessa noite na mansão, Annabelle soltou um suspiro de desagrado. Suspeitava – não, estava certa – de não conseguir suportar olhar para Simon Hunt depois do que sucedera nessa tarde. Por outro lado, Lillian tinha razão; não era expectável que ele se mantivesse calado. Ela teria mesmo de o abordar direta e pessoalmente, por mais que essa ideia a desesperasse. – E porquê eu, ora essa? – perguntou, embora já soubesse a resposta. – Porque o Hunt gosta de si. Toda a gente vê isso. Estará bem mais inclinado a fazer um favor que a menina lhe peça. – Talvez, mas nunca será um favor. Terá certamente um preço – murmurou ela sentindo agudizar-se a dor no tornozelo. – E se ele se atrever a fazer-me alguma proposta desonesta? Lillian pensou um momento antes de responder: – Bom, aí… terá de lhe atirar com um osso, por pequeno que seja. – Como assim, um osso? – quis saber Annabelle, desconfiada. – Oh, sei lá, deixá-lo beijá-la… se isso for o suficiente para o manter calado.


Incrédula com a sugestão da amiga – e sobretudo com o ar despreocupado com que a fez –, Annabelle inspirou profundamente. – Por Deus, Lillian! Não posso fazer tal coisa! – E porque não? Não me diga que nunca beijou um homem… – É claro que sim, mas… – Um par de lábios é apenas um par de lábios, minha amiga. Certifique-se apenas de que ninguém a vê e despache o assunto o mais rapidamente possível. Verá que vai conseguir apaziguar Mr. Hunt, e que o nosso segredo estará a salvo. Annabelle abanou a cabeça e soltou uma risadinha estranha, enquanto sentia o coração a bater descompassado perante a ideia. Pela milionésima vez, recordou aquele longínquo momento do beijo secreto na sala de teatro, aqueles segundos de exaltação sexual que a tinham deixado muda e trémula. – Terá de deixar bem claro que um beijo será tudo o que ele poderá esperar de si – prosseguiu Lillian. – E que jamais voltará a acontecer. – Peço desculpa por lhe gorar as expectativas desse seu maquiavélico plano que, quanto a mim, cheira pior que a peixe podre. Um par de lábios não é apenas um par de lábios, sobretudo se pertencer a Simon Hunt! E saiba que ele jamais ficará satisfeito com algo tão trivial quanto um beijo e eu jamais lhe ofereceria algo mais do que isso. E mesmo assim… – Considera-o assim tão repulsivo, Annabelle? – quis saber Lillian, com um certo sarcasmo no tom de voz. – Ele não é assim tão mau, se quer saber a minha opinião. Chego mesmo a considerá-lo bonito. – Ora… no que me diz respeito, ele é de tal modo insuportável que nunca perdi tempo a reparar na sua aparência. Annabelle caiu num silêncio confuso, considerando a observação da amiga sob uma nova e desconfortável perspetiva. Objetivamente falando – isto se alguma vez fosse possível ser-se objetivo em relação a Simon Hunt –, ele era um homem atraente. O termo «bonito» era geralmente aplicado a alguém com feições esculpidas e proporções delgadas e elegantes. Mas Simon Hunt tinha redefinido a palavra com o seu semblante audaz e harmonioso, os atrevidos olhos negros, o nariz perfeito, forte e que apenas podia pertencer a um homem, e a boca larga, eternamente pautada por um humor irreverente. Até a altura e a musculatura pouco usuais pareciam assentar-lhe de forma perfeita, como se a natureza tivesse reconhecido que ele não era uma criatura digna de ser formada por meias medidas. Simon Hunt deixara-a nervosa e desconfortável a partir do primeiro momento em que se conheceram. E muito embora Annabelle nunca o tivesse visto senão impecavelmente vestido e rigorosamente controlado, ela ficara sempre com a sensação de que Simon Hunt era apenas parcialmente domesticado. Os seus mais profundos instintos tinham-na alertado contra o facto de, por trás daquela fachada zombeteira, existir um homem capaz de uma paixão alarmante e avassaladora, talvez mesmo brutal. Não era de todo uma criatura suscetível de ser dominada. Ela tentou imaginar-lhe o rosto escuro sobre o seu, o hálito quente, os braços fortes envolvendo-a… tal como já o vira. Só que desta vez, com ela como ativa participante. Ele era apenas um homem, esforçou-se por lembrar-se. E um beijo era efetivamente uma coisa efémera. Mas pelo escasso tempo que ele durasse, ela estaria intimamente unida a ele. E a partir de então, e sempre que se cruzassem, Simon Hunt iria silenciosamente vangloriar-se. E isso ser-lhe-ia difícil de suportar. Esfregou a testa, que sentiu subitamente dorida – como se tivesse levado com um taco de rounders.


– Será que não podemos pura e simplesmente ignorar tudo e esperar que ele tenha o bom gosto de ficar calado? – Oh, sim… – disse Lillian, plena de sarcasmo. – É sabido que Mr. Hunt é frequentemente conotado com a expressão «bom gosto». Por quem é, minha boa amiga, cruze os dedos e espere por isso… se os seus nervos aguentarem o suspense. Massajando as têmporas, Annabelle soltou um suspiro resignado. – Seja. Vou abordá-lo esta noite. E… – Hesitou por um longo momento: – Até o beijo, se for necessário. Mas fique sabendo que considerarei isso paga suficiente por todos os vestidos que me ofereceu. Um sorriso de satisfação aflorou os lábios de Lillian. – Negócio fechado, minha querida. E sossegue; estou certa de que facilmente chegará a uma qualquer sorte de consenso com Mr. Hunt. Ao chegarem à mansão, e depois de cada uma seguir para os seus aposentos, Annabelle resolveu fazer uma sesta na esperança de se restabelecer antes do jantar-baile dessa noite. A mãe não estava presente, tendo certamente optado por tomar chá com as outras senhoras na sala de estar do piso térreo. Graças a Deus por isso, pensou Annabelle. Assim poderia refrescar-se e mudar-se sem ter a mãe a matraqueá-la com perguntas indesejáveis. Ainda que Philippa fosse uma mãe carinhosa e permissiva, não teria reagido nada bem às notícias de que a filha se envolvera numa embrulhada escandalosa com as irmãs Bowman. Depois de se lavar e mudar de roupa interior, Annabelle deitou-se, deleitando-se com o suave contacto de uns lençóis de linho brancos impecavelmente engomados. Para sua enorme frustração, a moinha no tornozelo impossibilitou-a de dormir. Desconfortável e irritadiça, tocou para a criada lhe trazer um lava-pés com água fresca, e sentou-se com os pés de molho por uma boa meia hora. Tinha definitivamente o tornozelo inchado, levando-a a concluir, mal-humorada, que aquele tinha sido um dia particularmente azarento. Amaldiçoando-se enquanto enfiava um novo par de meias sobre o pé inchado, foi-se vestindo lentamente. Chamou novamente a criada, desta vez para a ajudar a apertar o corpete e fechar as costas do vestido amarelo de seda. – Miss? – murmurou a criada, olhando apreensiva para o rosto pálido e cansado de Annabelle. – Parece-me algo indisposta. Quer que lhe providencie algo? A governanta guarda lá em baixo no armário dela um tónico muito bom para as maleitas femininas… – Não. Não se trata disso – disse Annabelle, esboçando um sorriso fraco. – Torci o tornozelo, nada mais. – Oh… Um chazinho de casca de salgueiro, então? – sugeriu a rapariga, colocando-se atrás de Annabelle para lhe abotoar as costas do vestido de baile. – Vou num saltinho e trago-lho em dois, Miss! E pode tomá-lo enquanto lhe arranjo o cabelo. – Sim, agradeço. Annabelle manteve-se de pé enquanto os dedos ágeis da criadita lhe apertavam o vestido, para de seguida se sentar graciosamente na cadeira em frente ao toucador. Fixou o reflexo tenso no belíssimo espelho Queen Anne do toucador e suspirou. – Não faço a mais pálida ideia de como me aleijei. Não tenho por hábito ser desastrada. A criada ajeitou o folho de tule doirado que adornava as mangas do vestido de Annabelle, antes de


sair, apressada. – Vou tratar de providenciar o seu chá, Miss. Verá como se restabelece em dois tempos. Mal ela saiu, Philippa entrou no quarto. Ao ver a filha radiosa no seu vestido de baile, olhou-a com orgulho e um amplo sorriso e deixou-se ficar atrás dela, cruzando o olhar com o da filha através do espelho. – Estás deslumbrante, minha querida. – Mas não me sinto assim, Mamã. Torci um tornozelo durante um passeio com as encalhadas, esta tarde. – Haverá necessidade de se referirem a vós próprias nesses termos? – comentou Philippa, algo desagradada. – Certamente que se lembrarão de um nome mais agradável para dar ao vosso… grupinho. – Mas assenta-nos que nem luvas, não será? – disse Annabelle com um sorriso. – Mas se isso a fizer sentir melhor, passarei a dizê-lo com um toquezinho de ironia. Philippa suspirou. – Receio bem que o meu próprio provimento de ironia esteja algo desfalcado neste momento. Não me é nada fácil ter de as ver angustiadas, envolvidas em ardis, enquanto as demais raparigas da vossa condição parecem levar a vida com feliz desembaraço. Vê-las com vestidos emprestados, ciente dos fardos que carregam… um milhão de vezes que já dei por mim a pensar que se vosso pai não tivesse partido, e se tivéssemos umas economias, por poucas que fossem… Annabelle encolheu os ombros. – Como é costume dizer-se, minha Mãe, «se desejos fossem tostões, eu já teria milhões»… Philippa acariciou-lhe levemente o cabelo. – Porque não ficas antes a descansar, esta noite? Eu lia para ti enquanto ficavas deitadinha com o pé erguido… – Não me tente – disse Annabelle com um suspiro. – Nada me daria mais prazer, acredite. Mas não posso dar-me a esse luxo. Não posso perder uma oportunidade que seja de causar boa impressão em Lord Kendall. E negociar com Simon Hunt – pensou, com um calafrio de apreensão. Depois de beber uma generosa chávena de chá de casca de salgueiro, Annabelle foi capaz de descer a escadaria da mansão sem coxear, ainda que o inchaço teimasse em não reduzir. Teve ocasião para uma breve troca de palavras com Lillian antes de os convidados serem conduzidos para a sala de jantar. O sol tinha deixado as suas marcas no rosto de Lillian, tornando-as levemente rosadas e brilhantes, o aveludado dos olhos castanhos resplandecendo sob a luz dos candelabros. – Até ao momento, Lord Westcliff saiu-se maravilhosamente no seu intuito de ignorar as encalhadas – comentou ela com um sorriso forçado. – A menina tinha razão, dali não virá mal ao mundo. O nosso potencial problema poderá vir de Mr. Hunt. – Não será problema algum – garantiu-lhe Annabelle, carrancuda. – Tal como lhe prometi, vou falar com ele. A outra reagiu com um sorriso de alívio. – A menina é um anjo, Annabelle. Ao sentarem-se à mesa do banquete, Annabelle ficou apreensiva ao aperceber-se de que ficaria ao lado de Lord Kendall. Noutras circunstâncias, isso teria sido uma dádiva dos céus, mas naquela noite em particular ela estava longe de se sentir no seu melhor. Não ia certamente conseguir entabular uma


conversa inteligente com ele, sentindo a cabeça a doer e o tornozelo a latejar. Para ajudar ao seu desconforto, Simon Hunt ficara sentado precisamente à sua frente, parecendo exasperantemente confiante e seguro de si. E para piorar aquele triste cenário, uma súbita sensação de náusea impossibilitou-a de desfrutar do magnífico repasto. Ao invés de dar largas ao seu habitual apetite voraz, Annabelle deu por ela a depenicar tristemente nas iguarias que lhe iam sendo servidas. De cada vez que erguia os olhos do prato, deparava-se com Simon Hunt a perscrutá-la, forçando-a a preparar-se mentalmente para um eventual gracejo ou provocação. No entanto, e afortunadamente, os raros comentários que ele lhe dirigiu foram banais e desinteressantes, permitindo-lhe aguentar a refeição sem incidentes. Finalmente, começaram a soar os primeiros acordes de orquestra vindos do salão de baile, assinalando o fim do jantar – e Annabelle deu graças aos céus por o baile estar prestes a começar. Pela primeira vez na vida ansiava sentar-se na fileira das encalhadas e poder descansar os pés, enquanto as outras dançavam. Concluiu que tinha estado demasiadamente exposta ao sol nessa tarde, já que se sentia dolorida e ligeiramente atordoada. Lillian e Daisy, pelo contrário, pareciam mais vibrantes e saudáveis que nunca, enquanto Evie, a pobrezinha, tinha levado um responso tal por parte da tia Florence que a deixara profundamente humilhada. – O sol provoca-lhe sardas – contou Daisy a Annabelle. – E a tia Florence disse-lhe que depois do nosso passeio desta tarde ela ficou a assemelhar-se a um leopardo e proibiu-a de estar connosco enquanto a sua pele não regressar ao normal. Annabelle franziu a testa, sentindo uma onda de simpatia pela amiga. – Diabos levem a tia Florence – rosnou. – Torna-se óbvio que o seu único propósito de vida é tornar a sobrinha infeliz. – E é brilhante nessa tarefa, diga-se – concordou Daisy. Subitamente, o seu olhar recaiu em alguma coisa por sobre o ombro de Annabelle que a fez esbugalhar os olhos. – Co’a breca, Mr. Hunt vem aí! E eu estou literalmente morta de sede, minha amiga, por isso vou dar um saltinho até à mesa de refrescos e deixá-los sozinhos para… – A Lillian contou-lhe! – exclamou Annabelle, indignadíssima. – Sim. E estamos-lhe todas extremamente gratas pelo sacrifício que está prestes a fazer por nós, minha querida. – Sacrifício…? – repetiu Annabelle, não gostando do som da palavra. – Parece-me um termo algo exagerado, não? Tal como diz Lillian, «um par de lábios é apenas um par de lábios». – Ter-lhe-á dito isso, sim… – disse a outra, espicaçando-a. – Mas a nós, a Evie e a mim, garantiu-nos que mais depressa morreria antes de permitir-se beijar um homem como Simon Hunt. – Como? Mas… – indignou-se Annabelle, mas Daisy tinha já desaparecido, aos risinhos, em direção à mesa de bebidas. Começando a sentir-se qual verdadeira virgem sacrificial deixada às portas do inferno, Annabelle preparou-se para o inevitável, mas estremeceu ao ouvir a voz grave de Simon Hunt bem perto do seu ouvido – um som que pareceu ressoar-lhe pela espinha abaixo. – Boas noites, Miss Peyton. Vejo que está impecavelmente vestida… para variar. Cerrando os dentes, ela voltou-se para ele. – Devo confessar-lhe, Mr. Hunt, que fiquei impressionada pela sua contenção ao longo do jantar. Contava ouvir-lhe sair da boca uma saraivada de insultos, e no entanto conseguiu comportar-se como um


cavalheiro ao longo de quase duas horas. Fantástico. – Foi um verdadeiro martírio, efetivamente – concedeu ele, muito sério. – Mas achei que devia deixar os comportamentos chocantes a seu cargo… – Fez uma pausa elegante, antes de acrescentar: – … uma vez que os desempenhou tão magistralmente ainda há poucas horas. – As minhas amigas e eu própria nada fizemos de chocante! – Ouviu-me dizer que desaprovava fosse de que forma fosse a vossa partidinha desnudada de rounders? – perguntou inocentemente. – Pelo contrário, apoiei-a incondicionalmente. Acho até que o deviam fazer todos os dias, para lhe ser muito franco. – Não estávamos desnudadas, mas sim em roupa interior – retorquiu ela em tom sibilante. – Ah… era isso que a Miss Peyton vestia? Ela corou profusamente, mortificada por ele ter reparado no estado lastimável da sua roupa interior. – Comentou com alguém esse… episódio? – quis saber, a medo. Obviamente, essa era a pergunta que ele mais ansiava ouvir. Um sorriso mordaz delineou-lhe os lábios. – Ainda não. – E tenciona fazê-lo? Hunt considerou a pergunta com uma expressão meditativa – que não disfarçava minimamente o prazer que retirava daquela situação. – Tencionar, tencionar, não tenciono… – disse, em tom pesaroso. – Mas já sabe como as coisas são. Por vezes, esse tipo de coisa tende a sair-nos boca fora durante uma conversa… Ela semicerrou os olhos. – E o que espera de mim em troca do seu silêncio? Ele fingiu-se chocado com a sua franqueza. – Ora, Miss Peyton… Contei que soubesse lidar com assuntos dessa natureza de um modo mais… diplomático. De uma senhora do seu requinte e condição espera-se algum tato e delicadeza no que respeita a… – Não tenho tempo para diplomacias – interrompeu-o ela, assertiva. – E parece-me notório que o senhor não tenciona manter o silêncio, a não ser que lhe seja proposta alguma sorte de… suborno. – O termo suborno comporta em si uma conotação tão negativa… Prefiro chamar-lhe incentivo. – Chame-lhe o que bem entender – disse ela, impaciente. – Passemos às negociações, sim? – Muito bem, Miss Peyton – Hunt esforçou-se por manter um ar sério, mas os olhos cor de café não escondiam um certo divertimento. – Poderei ser persuadido a manter o silêncio em relação ao seu escandaloso divertimento desta tarde. Desde que compensado por um forte… incentivo, claro está. Annabelle caiu em silêncio, baixando as longas pestanas ao considerar o que ia dizer. Assim que as palavras fossem proferidas, já não havia nada a fazer. Bom Deus, porque lhe coubera a ela a espinhosa missão de comprar o silêncio de Simon Hunt? E logo por causa de uma imbecil partida de rounders em que ela nunca tivera vontade de participar? – Se o senhor fosse um cavalheiro, tudo isto seria desnecessário – murmurou. Um assomo de riso suprimido tornou-lhe a voz rouca e irregular. – Não sou efetivamente um cavalheiro, não. Mas permita-me recordá-la de que não fui eu quem resolveu correr seminu pelos prados, esta tarde.


– Importa-se de falar baixo? – disse-lhe ela com aspereza. – E se alguém o ouve? Hunt observou-a fascinado, os olhos escuros e cruéis. – Faça a sua melhor oferta, Miss Peyton. Olhando fixamente um ponto na parede atrás do ombro dele, Annabelle falou num tom sufocado, sentindo um tal calor nos lóbulos das orelhas que temeu que o cabelo se incendiasse. – Se prometer ficar calado em relação ao que se passou esta tarde, eu… permito-lhe beijar-me. O interminável silêncio que se seguiu àquela declaração foi doloroso. Obrigando-se a erguer o olhar, Annabelle pôde constatar que deixara Hunt surpreendido. Ele olhava-a como se ela tivesse falado numa língua estranha e da qual não estava seguro da tradução. – Um beijo – repetiu ela, com os nervos em franja da tensão que se gerara entre ambos. – E não assuma que por eu lhe permitir que o faça uma vez, vou consentir que alguma vez se repita. Hunt pareceu escolher cuidadosamente as palavras ao responder, algo bastante usual nele. – É curioso… Sempre pensei que a sua oferta se resumisse a uma única e simples dança comigo. Uma valsa, ou quadrilha, sei lá… – Também pensei nisso – acedeu ela. – Mas um beijo é mais conveniente. Para além de incomensuravelmente mais rápido que uma valsa. – Diz isso porque nunca me beijou. Aquela declaração, e sobretudo a suavidade do tom, fê-la tremer das pernas. – Não seja ridículo – retorquiu secamente. – Uma valsa comum dura uns bons três minutos. Não é possível beijar-se alguém durante tanto tempo. – A Annabelle lá o saberá – comentou ele com um tremor de voz quase impercetível. – Muito bem, aceito a sua oferta. Um beijo em troca do meu silêncio. Mas serei eu a decidir quando e onde é que ele terá lugar. – O «onde» e o «quando» serão determinados em função do nosso acordo, naturalmente – disse ela. – O único propósito de tudo isto é precisamente o de manter a minha reputação imaculada. Não vou certamente permitir-lhe deitar tudo a perder, ao escolher uma hora e um local inapropriados. Ele sorriu, num esgar irónico. – Mas que bela negociadora me saiu, Miss Peyton. Que Deus nos ajude a todos se tiver ambições futuras de enveredar pelo mundo dos negócios. – Não, a minha única ambição futura é tornar-me Lady Kendall – disse ela, sabendo estar a pôr-lhe o dedo na ferida. E teve a satisfação de o comprovar pela expressão na cara dele. – Isso seria lastimável – limitou-se ele a responder. – Tanto para si como para Lord Kendall. – Vá para o diabo, Mr. Hunt – disse ela, irritadíssima. E virou-lhe as costas, afastando-se dele com toda a sua determinação e ignorando a dor excruciante no tornozelo. Ao dirigir-se ao terraço traseiro da casa, apercebeu-se de que a lesão no tornozelo piorara significativamente, ao ponto de sentir pontadas de dor subindo-lhe até ao joelho. – Raios o partam! – praguejou baixinho, culpando-o a ele, obviamente. Naquele estado, dificilmente faria progressos em relação a Lord Kendall. Não era fácil ser sedutora estando a um passo de desfalecer de dores. Sentindo-se subitamente exausta, definitivamente derrotada, Annabelle não teve outro remédio senão optar por regressar ao quarto. Agora que o assunto Simon Hunt


estava resolvido, o melhor a fazer seria dar descanso ao tornozelo e rezar para que amanhã estivesse melhor. A cada passo dado a dor intensificava-se, até começar a sentir pequenos ribeiros de transpiração formarem-se sob as barbas rígidas do corpete. Nunca tinha sofrido uma dor assim. Não só lhe doía a perna, como a cabeça parecia poder explodir-lhe a qualquer momento. E sentia dores em cada centímetro do corpo. As náuseas eram insuportáveis e necessitava urgentemente de ar fresco… tinha mesmo de se esgueirar para a noite fria e sentar-se algures até aquele enjoo amainar. As portas de vidro que davam para o terraço pareceram-lhe angustiantemente distantes e Annabelle receou não conseguir sequer lá chegar. Felizmente, as irmãs Bowman tinham-se apressado a ir no seu encalço assim que a viram afastar-se de Simon Hunt. O sorriso expectante no rosto de Lillian desvaneceu-se no momento em que viu a expressão pálida e sofrida de Annabelle. – Está com um aspeto terrível! – exclamou ela. – Em nome dos céus, diga-me: o que foi que Mr. Hunt lhe disse ou fez para a deixar neste estado? – Ele acedeu à minha proposta – disse Annabelle num tom débil, prosseguindo em direção ao terraço. – Meu Deus, se a simples ideia a deixa tão aterrorizada… – disse Lillian. – Não – interrompeu-a Annabelle. – Não se trata disso. É o meu tornozelo… torci-o esta tarde durante o jogo, e agora mal me tenho em pé. – Mas porque não nos disse nada, pobrezinha? – perguntou Lillian, visivelmente preocupada. O seu braço delgado mostrou-se surpreendentemente forte ao rodear a cintura da amiga, amparando-a no seu doloroso percurso. – Daisy, por favor dirige-te à porta do terraço e mantém-na aberta até sairmos. Com a ajuda das irmãs, Annabelle lá conseguiu sair para o ar fresco da noite. Deu dois passos e teve de se encostar à parede levando a mão enluvada à testa transpirada. – Julgo que… vou vomitar – murmurou, sentido a boca aguar-se desagradavelmente e a garganta a arder. A perna doía-lhe como se tivesse sido esmagada pela roda de uma carruagem. – Oh, meu Deus… eu não posso vomitar agora! – Não se preocupe, minha querida – sussurrou-lhe Daisy, conduzindo-a até ao canteiro de flores que ladeava os degraus da escadaria. – Ninguém a vai ver, deite fora aquilo que precisar. A Daisy e eu tomamos conta de si. – Isso mesmo – disse Lillian, logo atrás dela. – As amigas verdadeiras não se importam de ajudar as outras a vomitar as tripas! Annabelle ter-se-ia rido, não fosse ser acometida de um espasmo absolutamente incontrolável. Felizmente não tinha comido praticamente nada ao jantar, o que tornou o processo misericordiosamente rápido. O estômago subiu-lhe à boca e ela não teve outro remédio senão render-se. Tossindo e cuspindo para o canteiro, gemeu debilmente: – Lamento tanto… Perdoem-me, minhas amigas… – Não seja tonta… Faria o mesmo por nós, não é verdade? – foi a resposta doce das americanas. – É claro que sim… Mas nenhuma de vós seria assim tão tolinha. – Não está a ser tola – disse Lillian suavemente. – A menina está doente. Vamos, tome o meu lenço. Ainda inclinada para a frente, Annabelle recebeu o gracioso lencinho de linho das mãos de Lillian, mas retraiu-se ao sentir-lhe o perfume.


– Aaaghh, não aguento… – murmurou – … este cheiro. Não têm um lenço sem perfume? – Oh, desculpe – exclamou Lillian, e voltou-se para a irmã: – Dá-lhe o teu lenço, Daisy. – Esqueci-me – foi a resposta apreensiva. – Vai ter mesmo de se servir deste – disse Lillian a uma nauseadíssima Annabelle. Uma voz masculina entrou na conversa. – Aceite o meu.


Capítulo 12

Demasiado atordoada para se aperceber do que estava a acontecer à sua volta, Annabelle recebeu o lenço fresco que alguém lhe estendeu. Graças Deus não cheirava a nada que não a lavado e ao suave odor da goma. Depois de limpar a boca e a testa transpirada, Annabelle conseguiu endireitar-se e enfrentar o recém-chegado. O estômago combalido ainda conseguiu dar uma última volta perante a visão de Simon Hunt. Tudo indicava que ele a tinha seguido até ao terraço, e ainda a tempo de testemunhar a sua humilhante provação. Ela só quis morrer. Finar-se ali mesmo e naquele segundo, e para sempre apagar da sua mente o facto de que Simon Hunt a tinha visto acocorada sobre um canteiro a vomitar as entranhas. O rosto dele estava impassível, à exceção dos sulcos formados entre as sobrancelhas. Num gesto rápido, levou a mão ao ombro dela, ajudando-a a recuperar o equilíbrio. – À luz do nosso mais recente acordo – murmurou –, isto é altamente depreciador, Miss Peyton. – Oh, saia da minha vista – grunhiu ela. Não deixou, ainda assim, de contar com o apoio forte do corpo dele, enquanto sentia surgir uma nova onda de náuseas. Levou o lenço à boca e respirou pelo nariz, e felizmente a sensação passou. Mas continuou com aquela fraqueza, como nunca antes havia sentido, e soube que se ele não estivesse ali para a amparar teria caído redonda no chão. Deus Todo-Poderoso, o que é que se estava a passar com ela? Hunt facilmente a susteve, devolvendo-lhe o equilíbrio enquanto observava num tom gentil: – Bem que eu a achei demasiado pálida, há pouco. – Afastou-lhe uma madeixa do rosto. – O que é que se passa, minha querida? Trata-se apenas do estômago ou dói-lhe mais alguma coisa? Algures por debaixo das camadas de desconforto, Annabelle surpreendeu-se com aquele carinho súbito e tão estranho em Simon Hunt. Já para não falar no facto de que um cavalheiro não devia nunca e em tempo algum mencionar as partes interiores de uma senhora. Contudo, naquele momento ela sentia-se demasiado doente para dizer ou fazer o que quer que fosse a não ser agarrar-se à lapela do casaco dele. Ponderando na pergunta que ele fizera, soltou um suspiro de cansaço antes de responder: – Eu… sinto dores em toda a parte – sussurrou. – Na cabeça, no estômago, nas costas… mas acima de tudo no tornozelo. Ao falar sentiu os lábios dormentes. Passou-lhes a língua, alarmada pela ausência total de sensação. Estivesse ela um pouco menos desorientada e teria certamente reparado que Hunt a olhava de uma forma inédita, absolutamente estranha. Mais tarde, Lillian descrever-lhe-ia quão protetor Simon Hunt lhe parecera ao erguê-la nos braços. Mas por agora, Annabelle estava demasiado atarantada para se aperceber do que quer que fosse para além do seu profundo mal-estar. Lillian falou algo bruscamente, enquanto avançava para libertar Annabelle do amparo dele:


– Muito obrigada pela cedência do seu lenço, Mr. Hunt. Agora pode deixar-nos, uma vez que a minha irmã e eu somos perfeitamente capazes de cuidar de Miss Peyton. Ignorando a americana, Simon manteve o braço em torno de Annabelle, sem nunca deixar de lhe olhar o rosto sofrido. – Como foi que magoou o tornozelo, Miss Peyton? – quis saber. – Terá sido durante a partida de rounders, creio… – Reparei que não bebeu nada durante o jantar – disse ele. Pôs-lhe a mão na testa para verificar se ela teria febre. Aquele gesto pareceu a Annabelle surpreendentemente íntimo e familiar. Ele prosseguiu, preocupado: – Terá bebido algo antes disso? – Se se refere a vinho ou bebidas espirituosas, a resposta é não – disse ela, sentindo o corpo prestes a desfalecer, como se a mente tivesse perdido todo o controlo sobre o movimento dos seus membros. – Bebi apenas um chá de casca de salgueiro, ainda no meu quarto. A mão quente dele passou da testa para a face esquerda de Annabelle, numa carícia reconfortante. Ela estava gelada, tremendo dentro do vestido encharcado de suor, toda ela em pele de galinha. Sentido aquele calor tão acolhedor que irradiava do corpo dele, quase caiu na tentação de se enfiar dentro do seu casaco, como um animalzinho assustado metendo-se numa toca. – Est-t-tou ge-gelada – balbuciou, e o braço dele estreitou-se instintivamente em volta dela. – Apoie-se em mim – murmurou-lhe, conseguindo habilmente despir o casaco enquanto lhe amparava o corpo trémulo. Envolveu-a no casaco que ainda continha em si o calor da sua pele, e ela reagiu com um som inarticulado de gratidão. Algo angustiada por ver a sua amiga nos braços de um inimigo figadal, Lillian falou em tom impaciente: – Oiça cá, Mr. Hunt, a minha irmã e eu… – Vá procurar Mrs. Peyton, por favor – interrompeu-a Hunt num tom que não admitia réplica. – E informe Lord Westcliff que Miss Peyton necessita de um médico. Ele saberá quem mandar chamar. – E o que é que o senhor tenciona fazer? – Lillian exigiu saber, claramente pouco habituada a que lhe dessem ordens, e ainda para mais num tom daqueles. Hunt semicerrou os olhos ao responder: – Tenciono levar Miss Peyton até ao quarto pela ala da serventia, entrando pela porta lateral da mansão. E a sua irmã irá acompanhar-nos de modo a evitar eventuais falatórios. – Como se eventuais falatórios fossem motivo da sua preocupação… – atirou-lhe Lillian, irritada. – Não tenho tempo nem ânimo para debater essa questão. Por favor, tente ser de alguma utilidade, sim? Após alguns segundos de uma pausa carregada de tensão, Lillian voltou-lhe as costas e afastou-se, apressada. Daisy parecia atemorizada. – Não me recordo de ter visto alguém dirigir-se à minha irmã nestes termos. O senhor é o homem mais corajoso que jamais conheci, Mr. Hunt. Simon baixou-se ligeiramente e prendeu um braço na parte de trás dos joelhos de Annabelle. Ergueua com facilidade, vendo-se com uma profusão de saias e saiinhas de seda nos braços. Ela nunca tinha


sido carregada ao colo por quem quer que fosse – e custou-lhe a crer que aquilo estava de facto a acontecer. – Eu… creio que consigo deslocar-me pelos meus próprios pés, Mr. Hunt. – Talvez, mas duvido que conseguisse descer a escadaria – disse Hunt. – Permita-me que o faça, e assim poderei mostrar-lhe o lado mais cavalheiresco da minha natureza. – Sorriu gentilmente. – Importase de pôr os braços à volta do meu pescoço? Annabelle obedeceu, aliviada e grata por se ver livre daquele peso desmedido sobre o tornozelo magoado. Resistindo à tentação de encostar a cabeça no ombro dele, passou-lhe o braço esquerdo pelo pescoço. Enquanto Hunt a carregava pelos degraus de pedra do terraço, ela pôde sentir-lhe a agilidade e absoluta destreza dos músculos por debaixo da camisa. – Confesso que nunca pensei que existisse em si uma faceta cavalheiresca – conseguiu ela dizer por entre o bater de dentes. – Sempre o vi como um rematado grosseirão. – E eu confesso que não sei onde vão as pessoas buscar essas ideias sobre mim – respondeu-lhe, olhando-a com um toquezinho de provocação. – Sempre fui tragicamente incompreendido. – Continuo a considerá-lo um grosseirão. Hunt sorriu e fê-la ficar mais confortável nos seus braços. – É notório que a sua doença não lhe afetou o discernimento. – Por que razão insiste em ajudar-me depois de o ter mandado para o diabo? – Porque tenho um interesse muito particular em preservar-lhe a saúde. Quero que esteja em plena forma quando me decidir a reclamar a minha dívida. Ao descer os degraus, e sentindo o seu rosto tão próximo do dele, Annabelle não resistiu, e sob o pretexto de procurar uma posição mais segura, pressionou-lhe a nuca com as mãos, sentindo-lhe as madeixas suaves e encaracoladas entre os dedos. É lamentável sentir-me assim tão indisposta, pensou. Não estivesse eu tão gélida e atordoada, quem sabe não teria prazer em ser carregada desta maneira. Chegados ao carreiro que conduzia à área lateral da mansão, Hunt deteve-se para permitir a Daisy passar por eles e liderar o caminho. – A porta da serventia – relembrou-a ele. – Sim, eu sei onde fica – disse ela, avançando pelo carreiro. Tinha o rosto pequeno franzido de preocupação. – Ainda não consigo entender como um torção no tornozelo pode fazer alguém adoecer ao ponto de vomitar – comentou. – Receio que isto seja mais grave do que um tornozelo torcido – respondeu-lhe Hunt. – Terá sido do chá? – Não. A casca de salgueiro não lhe causaria uma reação destas. Tenho uma leve suspeita do que se poderá tratar, mas apenas poderei confirmá-la depois de chegar aos aposentos de Miss Peyton. – E como é que tenciona… confirmar essa sua suspeita? – quis saber Annabelle, algo receosa. – Preciso apenas de lhe observar o tornozelo com mais atenção – sossegou-a ele com um sorriso. – Certamente que mereço isso, depois de a carregar ao colo por três lanços de escadas. Mas, como foi possível confirmar-se, as escadas não constituíram para ele o menor problema. Assim que alcançaram o último degrau do terceiro lanço, a sua respiração mantinha-se estranhamente regular. Annabelle suspeitava que ele seria capaz de a carregar outros dez lanços sem sequer pestanejar. Quando lho disse, ele respondeu em tom casual:


– Passei a maior parte da minha juventude a acartar com peças de porco e de vaca para o talho de meu pai. Carregá-la a si é infinitamente mais agradável. – Que ternas, essas palavras… – murmurou Annabelle, de olhos fechados. – O sonho de qualquer mulher é ouvir da boca de um homem que é mais agradável que uma vaca morta. O riso fez-lhe tremer o peito e ele viu-se forçado a abrandar para não tropeçar a meio do corredor que levava aos quartos. Chegados ao de Annabelle, Daisy abriu a porta para lhes dar passagem, e ali ficou, ansiosa, vendo Hunt poisar Annabelle sobre a cama com extremo cuidado. – Eis-nos chegados – disse ele, alcançando uma segunda almofada para melhor a acomodar. – Obrigada – murmurou ela, fixando-lhe os pestanudos olhos castanhos. – E agora terei de lhe observar a perna. Ela sentiu o coração parar, literalmente, pela audácia daquela proposta. Assim que recuperou a batida cardíaca, mal conseguiu balbuciar: – Eu… prefiro esperar pela chegada do médico. – Não lhe perguntei o que prefere ou deixa de preferir, minha cara. Ignorando-lhe os protestos, Hunt tratou de lhe fazer subir as saias. – Mr. Hunt! – exclamou Daisy em tom ultrajado, e precipitando-se para ele. – Não se atreva! Miss Peyton está doente, e se o senhor não tirar imediatamente essas mãos de cima dela, eu… – Acalme lá os cavalos – disse ele em tom jovial. – Não vou abusar de Miss Peyton… pelo menos, não para já. – Desviou o olhar atrevido para o rosto pálido de Annabelle. – Não se mexa. Por belas e elegantes que as suas pernas possam ser, e não duvido que o sejam, elas não me vão enlouquecer ao ponto de fazer algum disparate. – Respirou fundo ao deparar-se com o profundo inchaço que lhe rodeava o tornozelo: – Co’a breca! Até agora sempre a considerei uma mulher razoavelmente inteligente… Como diacho se lembrou de descer para jantar neste estado lastimável? – Deus seja louvado, Annabelle! – guinchou Daisy. – Tem o pé num estado deplorável! – Não estava assim tão mau ainda há pouco – disse ela, na defensiva. – Piorou significativamente na última meia hora e… Calou-se, perplexa, ao ver Simon Hunt subir-lhe a mão pela perna. – O que julga que está a fazer?! Daisy, não o deixe! – Estou apenas a retirar-lhe a meia, fique sossegada – disse ele, já impaciente. – E aconselho seriamente Miss Bowman a não interferir. Lançando-lhe um olhar de ódio, Daisy colocou-se ao lado da amiga numa atitude fielmente protetora. – E eu aconselho-o a si a proceder com toda a cautela, Mr. Hunt – disse-lhe, num tom feroz. – Não conte que eu fique passivamente a vê-lo molestar a minha amiga. Hunt não conteve um olhar de escárnio, enquanto encontrava o cinto de ligas de Annabelle, soltando a aselha da meia com grande desembaraço. – Miss Bowman – observou –, dentro de poucos minutos veremos este quarto ser invadido por curiosos, entre os quais Mrs. Peyton, Lord Westcliff, e a sua casmurra irmãzinha, aos quais se juntará, pouco depois, o médico requisitado. Até mesmo um selvático brutamontes como eu precisaria de mais tempo do que isso para molestar alguém. A expressão dele alterou-se ao ver Annabelle gemer de dor em reação ao seu suave toque. Rapidamente lhe desenrolou a meia, os dedos suaves como plumas, mas a pele dela estava tão sensível


que o mínimo toque lhe causava uma dor excruciante. – Vamos… seja forte, minha querida. E fique quietinha – murmurou-lhe, fazendo descer cuidadosamente a meia pelo tornozelo intumescido. Mordendo o lábio, Annabelle viu-o inclinar-se sobre o seu tornozelo. Virou-lho com todo o cuidado, esforçando-se por não lhe tocar mais do que o absolutamente necessário. Até que ficou muito sério, afirmando em tom preocupado: – Tal como previ… Daisy inclinou-se para melhor observar o local que Hunt apontava. – O que são essas marcas? – De uma mordida de víbora – disse ele, arregaçando as mangas e exibindo uns antebraços musculados. As duas jovens olharam-no absolutamente pasmadas. – Fui mordida por uma… cobra? – indagou Annabelle em voz trémula. – Mas como? Quando? Não é possível, eu teria sentido alguma coisa… ou não teria? Hunt levou a mão à algibeira do casaco que ainda a envolvia, procurando algo. – Acontece as pessoas não sentirem nada no momento em que são mordidas. Os bosques de Hampshire estão repletos de víboras nesta época do ano. Provavelmente aconteceu durante a vossa... partidinha de rounders. Encontrou o que procurava, uma navalha que ele se apressou a abrir. Os olhos de Annabelle escancararam-se de pânico. – O que é que está a fazer? Segurando a meia de seda, rasgou-a em duas com um golpe preciso. – Um torniquete – limitou-se a responder. – Tem por hábito andar com… isso na algibeira? Ela sempre tinha visto nele uma leve faceta de salteador, e agora, ao vê-lo de mangas arregaçadas e de faca em riste essa imagem ganhava força. Sentando-se ao lado da perna estendida de Anabelle, Hunt amarrou-lhe uma faixa de seda na zona um pouco acima do tornozelo. – Sim, tenho – limitou-se a dizer, concentrando-se no que estava a fazer. – Enquanto filho de um talhante sempre desenvolvi um enorme fascínio por facas. – Nunca pensei que… – Annabelle interrompeu-se e soltou um gemido surdo pelo suave cilhar da seda. Ela e Hunt entreolharam-se e ele esboçou um sorrisinho tenso. – Desculpe – disse, atando outra tira de seda logo abaixo do inchaço. Foi falando com ela no intuito de a distrair enquanto apertava o segundo torniquete. – É este o resultado de usar aqueles chinelos ridículos no exterior. Provavelmente terá pisado uma víbora que se aquecia ao sol… e ela, ao ver aquele belo pedaço de tornozelo, decidiu prová-lo. – Fez uma pausa e murmurou algo impercetível, que soou como «Não a podemos censurar por isso.» Annabelle sentiu a perna a aquecer, latejando terrivelmente e fazendo-lhe subir as lágrimas aos olhos. Combatendo um pranto iminente, enterrou as unhas na espessa colcha de brocado por baixo de si. – E por que razão o tornozelo só há pouco me começou a doer desta maneira, se fui mordida há já


tantas horas? – Pode levar várias horas até o efeito se fazer sentir – disse ele, desviando o olhar para Daisy. – Miss Bowman, chame a criada e peça-lhe que nos providencie uma infusão fervente de amor-de-hortelão. E de imediato, por favor. – E isso é… ? – quis saber Daisy, desconfiada. – Uma erva daninha que cresce nos arbustos. A governanta guarda sempre um saquinho dessas ervas secas desde que o jardineiro foi mordido, no ano passado. Daisy correu a executar a ordem, deixando Hunt e Annabelle temporariamente sós. – O que aconteceu ao jardineiro? – perguntou ela, batendo os dentes. Era acometida de calafrios constantes, como se estivesse imersa em água gelada. – Morreu? A expressão de Hunt não se alterou, mas ela apercebeu-se de que a pergunta o abalou. – Não – disse ele num tom suave, aproximando-se ligeiramente dela. – Não, minha querida… – Pegou-lhe na mão trémula e entrelaçou os dedos nos dela. – As víboras de Hampshire não produzem veneno suficiente para matar algo maior do que um gato ou um cão pequeno… Vai ficar bem, prometolhe. Extremamente desconfortável nos próximos dois ou três dias, mas depois ficará como nova. – Não está apenas a ser simpático, não?… – perguntou ela, ansiosa. Ele inclinou-se para ela e retirou-lhe umas mechas de cabelo, teimosamente coladas à testa transpirada. Mesmo vindo de uma mão daquele tamanho, o toque foi suave e terno. – Eu nunca minto para agradar ou ser simpático – murmurou-lhe, sorrindo. – Um dos meus inúmeros defeitos. Depois de ter dado as devidas ordens a um lacaio que encontrou no corredor, Daisy regressou apressada e ansiosa para a cabeceira de Annabelle. Ergueu o sobrolho ao ver Simon Hunt inclinado sobre a amiga, mas ainda assim absteve-se de fazer qualquer comentário, limitando-se a perguntar: – Não é suposto fazer-se um corte na picada para fazer expelir o veneno? Annabelle olhou-a, alarmada. – Por favor, Daisy, não lhe dê ideias! Hunt esboçou um sorriso antes de retorquir: – Num caso de dentada de víbora, não. Semicerrou os olhos ao concentrar-se novamente no estado de Annabelle, notando-lhe a respiração rápida e superficial. – Está a custar-lhe respirar? Ela assentiu, esforçando-se por puxar o ar para os pulmões – que lhe pareceram ter encolhido para um terço do tamanho habitual. A cada fôlego que dava, o peito estreitava-se mais e mais, ao ponto de sentir as costelas à beira de estalar, tal era a pressão. Hunt acariciou-lhe o rosto, passando-lhe o polegar pelos lábios secos. – Abra a boca. Vendo-lhe o interior da boca, observou: – Não tem a língua a inchar, isso é ótimo sinal… Mas vai ter de despir o corpete, ainda assim. Voltese. Antes que Annabelle pudesse ripostar, Daisy protestou indignadíssima: – Eu auxilio-a com o corpete. Pode retirar-se, por favor.


– Não é a primeira vez que vejo um corpete, sossegue – informou-a ele, sarcástico. Daisy revirou os olhos. – Não seja deliberadamente obtuso, Mr. Hunt. Como é óbvio, não é consigo que estou preocupada. Um homem não despe o corpete a uma senhora a não ser em circunstâncias muito particulares de vida ou de morte – o que nos acabou de assegurar que não é o caso. Hunt olhou-a com um suspiro de resignação. – Irra, mulher! – Pragueje tudo aquilo que lhe aprouver – disse a outra num tom implacável. – A minha irmã vence-o claramente nessa matéria, já estou acostumada. – Respirou fundo e fez-se grande, ainda que do alto do seu metro e cinquenta e três, o efeito não fosse minimamente impressionante. – O corpete de Miss Peyton fica exatamente onde está até que o senhor se digne a sair deste quarto. Hunt baixou o olhar para Annabelle, que subitamente sentiu uma falta de ar tão aflitiva que começou a tossir desesperadamente. – Por amor de Deus! – disse ele impacientemente, dirigindo-se para a janela e voltando-lhes as costas: – Não estou a olhar, despache-se com isso! Daisy obedeceu lestamente, retirando o casaco dele dos ombros da amiga. – Vou desenlaçar-lhe os atilhos das costas e retirar-lho pela frente, por dentro do vestido – disse ela ao ouvido de Annabelle. – Desse modo, permanecerá coberta e decente. Annabelle não tinha nem ar nem força anímica para lhe dizer que quaisquer problemas relacionados com decência e decoro nada eram quando comparados com a aflição que sentia por não poder respirar. Muito a custo, voltou-se de costas para Daisy e sentiu-lhe os dedos frios enquanto lhe desapertava o vestido de baile. Sentia os pulmões a arder do esforço que fazia para os encher de ar precioso. Soltou um gemido dolorido, enquanto Daisy se esforçava nervosamente por lhe abrir o corpete. Ao fim de uns quantos impropérios surdos, a americana voltou-se para Hunt, já desesperada: – Mr. Hunt, por menos que isso me agrade vou ter de lhe pedir que me ceda a sua navalha. Estes atilhos estão presos com nós cegos e eu não… Oh! Esta última exclamação adveio do facto de Hunt, já de cabeça perdida, ter avançado para elas sem a menor cerimónia e, de navalha em riste, cortar com destreza os atilhos do corpete. De imediato, a peça soltou-se, livrando as costelas de Annabelle – bem como os pulmões martirizados – daquele terrível sufoco. Ela sentiu-o arrancar-lhe o corpete do corpo, deixando apenas o tecido finíssimo da camisa na pele nua. No estado atual de Annabelle, aquela exposição preocupava-a muito pouco. Todavia, no seu íntimo ela sabia que mais tarde iria morrer de vergonha. Voltando Annabelle de frente como se ela fosse uma boneca de trapos, Hunt sossegou-a com o olhar. – Não se esforce tanto, minha querida. A mão dele alisou docemente a zona superior do peito dela. Fixando-lhe intensamente o olhar receoso, massajou-a com círculos suaves. – Pronto… tente afrouxar a respiração. Olhando-lhe o negro dos olhos, Annabelle tentou fazer o que ele pedia, mas a garganta fechava-se em torno do mais débil fôlego. Ia morrer sufocada, ali mesmo e naquele instante. Ele não lhe permitiu afastar o olhar do seu.


– Vai ficar bem, deixe apenas que a respiração abrande por si mesma… dentro… fora… lentamente. Isso mesmo, muito bem… De alguma maneira, o suave peso da mão dele parecia aliviá-la, atenuando-lhe a dor e a angústia, como se ele detivesse o poder de lhe controlar o ritmo respiratório apenas e só pela força da vontade. – O pior de tudo isto já está a acabar – disse-lhe. – Oh, que maravilha… – tentou ela dizer num tom mordaz, mas o esforço fê-la tossir. – Não tente falar, respire apenas. Vamos, mais uma inspiração longa… lenta… isso. Linda menina. À medida que ela foi conseguindo gradualmente recuperar o fôlego, a sensação de pânico desvaneceu-se. Ele tinha razão… custava menos quando não resistia. O som da sua respiração ofegante foi sendo substituído pelo tom hipnotizador da voz de Simon. – Isso mesmo… – murmurou-lhe, sem deixar de lhe massajar o peito. Nada havia de erótico ou sequer sensual no toque dele – ela bem poderia ser uma criança que ele procurava acalmar. E isso fascinava-a. Quem haveria de dizer que Simon Hunt podia ser tão gentil, tão doce? Sentindo um misto em doses iguais de gratidão e perplexidade, Annabelle estendeu debilmente a mão para aquela garra que lhe acariciava tão suavemente o peito. Ela estava tão fraca que aquele simples gesto exigiu de si todas as suas forças. Supondo que ela estava a querer afastá-lo, Hunt ia para retirar a mão mas, ao sentir os dedos dela entrelaçarem-se nos seus, deixou-se ficar muito quieto. – Obrigada – murmurou-lhe ela. Aquele gesto deixou-o visivelmente tenso, como se o contacto lhe enviasse uma descarga elétrica pelo corpo. Olhou-lhe não para o rosto, mas para os dedos delicados entrelaçados nos dele – com a expressão de alguém que está a procurar resolver um quebra-cabeças extremamente complicado. Mantendo-se imóvel, prolongou aquele momento, baixando as pestanas para dissimular a sua expressão. Annabelle humedeceu os lábios secos, apercebendo-se de que continuava sem os sentir. – Tenho o rosto totalmente dormente – disse ela roucamente, largando-lhe a mão. Hunt ergueu o olhar para ela, com um sorriso que indiciava que tinha acabado de descobrir algo de inesperado em si próprio. – As ervas vão ajudar. Tocou-lhe levemente num dos lados da garganta, o polegar percorrendo-lhe o contorno da maxila, num gesto que apenas poderia ser interpretado como uma carícia. – O que me leva a indagar… – Olhou por cima do ombro, como se acabasse de perceber que Daisy também estava presente. – Miss Bowman, aquele criado mandrião já tratou de ir buscar o… – Está aqui – disse a jovem moreninha, precipitando-se para a porta para receber das mãos do lacaio uma pequena bandeja de prata. Aparentemente, Simon e Annabelle tinham estado demasiado embrenhados um no outro para sequer ouvirem o bater de porta. – A governanta providenciou o chá de ervas daninhas que pediu, que cheira pavorosamente, diga-se, e enviou também um frasquinho com «tintura de urtiga», segundo o que me disse o criado. E parece que o médico já chegou e subirá ao quarto a qualquer minuto; o que significa que tem de se retirar, Mr. Hunt. Ele cerrou os maxilares. – Ainda não. – Agora – disse Daisy, nervosa. – Pelo menos tenha a decência de aguardar lá fora. Se não por si,


pela Annabelle. Ficará com a reputação arruinada se o senhor for visto aqui. Carrancudo, Simon baixou o olhar para Annabelle. – Quer mesmo que eu saia? Não, pensou ela de imediato. Pelo contrário, sentia um desejo irracional de lhe implorar que ficasse. Oh, que chocante reviravolta nos acontecimentos, fazendo-a desejar a companhia de um homem que abominava! Mas aqueles derradeiros minutos tinham de algum modo conseguido gerar uma intensa união entre ambos, e Annabelle via-se agora num estranho dilema de não ser capaz de dizer não ou sim. – Eu mantenho a respiração regular, prometo – finalmente murmurou. – E o mais sensato será mesmo retirar-se. Ele assentiu com a cabeça. – Estarei lá fora, no corredor – disse, visivelmente desagradado, erguendo-se da cama. Apontando para a bandeja que Daisy segurava, mas sem deixar de olhar para Annabelle, recomendou: – Beba o chá por pior que ele saiba. Ou eu volto cá e enfio-lho pela goela abaixo. E pegando no casaco, saiu do quarto. Suspirando de alívio, Daisy poisou a bandeja na mesa de cabeceira. – Louvado seja Deus! – disse. – Confesso que não sei o que faria se acaso ele se recusasse a sair. Pronto… deixe-me elevá-la um pouco, e colocar-lhe outra almofada nas costas. Demonstrando uma competência surpreendente, Daisy ajudou Annabelle a sentar-se mais confortável, e de seguida pegou na grande malga terracota de chá fumegante e malcheiroso, levando-a cuidadosamente aos lábios da amiga. – Tome, beba um pouco, querida. Annabelle engoliu a mistela castanha com uma profunda careta. – Ah, que horror… – Mais – disse Daisy, inflexível, levando-lhe a tigela à boca. Annabelle bebeu de novo. Sentia o rosto de tal modo entorpecido que não se apercebeu de que parte do líquido lhe escorreu pelo queixo, até ver Daisy pegar num guardanapo para lho limpar. Cautelosamente, Annabelle levou a ponta dos indicadores às faces insensíveis, estranhando a sensação. – Que coisa estranha, esta… – murmurou. – Não sinto a boca. Daisy, esclareça-me, peço-lhe: ter-meei babado enquanto Mr. Hunt aqui esteve? – É claro que não – disse Daisy imediatamente. – Eu teria feito alguma coisa se isso tivesse acontecido. Uma amiga verdadeira não deixa a outra babar-se na presença de um homem. Ainda que seja um homem que ela não pretende impressionar. Aliviada, Annabelle foi beberricando do sinistro chá de erva daninha, que na realidade sabia apenas a café queimado. Talvez fosse apenas sugestão, mas a verdade é que começava a sentir-se um pouco melhor. – A Lillian deve ter tido o cabo dos trabalhos para encontrar a sua mãe – comentou Daisy. – Nem imagino que outra coisa a possa ter retido tanto tempo. – Fez uma pausa e olhou para a amiga com um súbito brilho nos olhos castanhos: – Se quer saber, ainda bem. Se ela tivesse voltado logo, eu teria perdido a ocasião de ver a fantástica transformação de Mr. Hunt, de lobo mau para… um lobo mais agradável. Annabelle deixou escapar um risinho relutante.


– De facto… foi espantoso. – É verdade. Tão arrogante e… dominador. Como uma personagem saída de um daqueles romances tórridos que a Mamã insiste em arrancar-me das mãos… praticamente todos os dias. Ainda bem que eu me deixei ficar, ou receio fortemente que ele se tivesse lançado a si e rasgado cada peça de roupa do seu corpo. Daisy continuou a tagarelar enquanto Annabelle bebia o chá, limpando-lhe ocasionalmente a boca e o queixo. A páginas tantas pareceu ficar pensativa e observou, com ar confidente: – Quer saber…? Nunca pensei vir a dizer isto, mas creio que Mr. Hunt não é tão terrível quanto pensávamos. Annabelle torceu tentativamente os lábios para os lados, sentindo aos poucos a sensibilidade do rosto a regressar-lhe. – Foi de extrema utilidade, sim. Mas… não creia que esta transformação será permanente.


Capítulo 13

Nem dois minutos passaram antes de Simon ver chegar o grupinho que previra, composto pelo médico, Lord Westcliff, Mrs. Peyton e Lillian Bowman. Encostado à parede junto à porta do quarto, dirigiu-lhes um olhar especulativo. Intimamente, divertia-o o ódio tangível entre Westcliff e Miss Bowman, cuja óbvia animosidade mútua traía o facto de já terem trocado palavras azedas. O médico era um velhote respeitável que já assistia Westcliff, bem como os seus familiares, os Marsdens, há mais de três décadas. Lançando a Simon um olhar perscrutador e desconfiado, dirigiu-selhe ainda assim em tom calmo e imperturbável: – Mr. Hunt, informaram-me que o senhor já assistiu a jovem senhora no seu quarto? Simon descreveu-lhe sem quaisquer rodeios o estado e sintomas de Annabelle, optando por omitir que fora ele, e não Daisy, a descobrir-lhe as marcas da picada no tornozelo. Mrs. Peyton ouviu tudo com uma indisfarçável palidez e preocupação. Quanto a Lord Westcliff, debruçou-se de testa franzida para o ouvido de Philippa e disse-lhe qualquer coisa que a fez assentir e agradecer-lhe brevemente. Simon calculou que ele prometera providenciar à filha os melhores cuidados possíveis até ela se ver totalmente recuperada. – Obviamente, não poderei confirmar a opinião de Mr. Hunt enquanto não observar adequadamente a jovem senhora – observou o médico. – Contudo, será talvez aconselhável mandar providenciar de imediato uma infusão de folhas de amor-de-hortelão, para a eventualidade da enfermidade ter sido causada por uma picada de víbora que… – Ela já tomou desse chá – interrompeu-o Simon. – Mandei que mo trouxessem há cerca de quinze minutos. O médico olhou-o com o tipo de vexação reservada àqueles que ousam fazer diagnósticos sem estarem habilitados a tal. – Essa erva é uma droga muito potente, Mr. Hunt. E potencialmente perigosa na eventualidade de a paciente não sofrer de envenenamento colubrino. Deveria ter aguardado por uma opinião médica antes de lho administrar. – Os sintomas de uma mordida de víbora são inconfundíveis, senhor doutor – respondeu-lhe Simon num tom impaciente, desejando que o velhote não perdesse mais tempo inútil e desempenhasse o seu dever. – E apenas pretendi aliviar as dores e o desconforto de Miss Peyton o mais rapidamente possível. As espessas sobrancelhas cinzentas do médico desceram ao ponto de quase lhe taparem os olhos. – Parece-me bem seguro do seu julgamento – foi o comentário seco que lhe saiu. – Sim, estou – replicou Simon sem pestanejar.


Subitamente ouviu-se um riso sufocado vindo de Lord Westcliff, que pôs a mão no ombro do velhote, apressando-o. – Meu caro doutor, temo que sejamos forçados a ficar aqui para todo o sempre, caso o senhor pretenda convencer o meu amigo de que ele está errado sobre o que quer que seja. «Opinativo» é um adjetivo eufemístico a aplicar a Mr. Hunt, garanto-lhe. As suas energias serão muito melhor despendidas nos cuidados de Miss Peyton. – Seja – respondeu o médico friamente. – Mas não posso deixar de pensar que a minha presença aqui é dispensável, à luz do sábio e experiente diagnóstico de Mr. Hunt. E com este comentário sardónico, o velhote entrou no quarto, desde logo seguido por Mrs. Peyton e Lillian Bowman. Vendo-se a sós com Westcliff no corredor, Simon revirou os olhos numa expressão de enfado. – Velho danado – murmurou. – Não sabia ter enviado alguém menos… decrépito, Westcliff? Duvido que ele consiga sequer ver ou ouvir convenientemente para poder fazer o seu próprio diagnóstico. O conde olhou o amigo com alegre condescendência, antes de replicar: – É o melhor médico de Hampshire, Simon. Vamos, desçamos para beber um conhaque. Está com cara de quem precisa. Simon olhou para a porta fechada. – Talvez mais tarde. – Ah, peço desculpa – comentou Westcliff em tom irónico. – Deve querer esperar à porta do quarto, como um cão que aguarda pelos restos da cozinha. Estarei no meu escritório. Assim que tiver notícias apresse-se a pôr-me a par, sim? Contrariado, Simon lançou-lhe um olhar gélido e desencostou-se da parede. – Muito bem – grunhiu. – Eu vou. O conde respondeu-lhe com um aceno satisfeito: – Não se preocupe, o médico vai entregar-me o seu relatório assim que terminar de observar Miss Peyton. Enquanto acompanhava Westcliff pelo corredor e pela imponente escadaria, Simon refletiu, taciturno, no seu próprio comportamento dos últimos minutos. Era uma experiência absolutamente nova para ele, deixar-se levar mais pelas emoções do que pelo intelecto, e muito francamente, não lhe agradava nada. Ainda assim, isso não parecia ter importância. Assim que se apercebera de que Annabelle não estava bem, tinha sentido um estranho vazio no peito, pungente e doloroso, como se o coração lhe tivesse sido arrancado por alguma razão. Não duvidara por um segundo que faria o que fosse necessário para a deixar segura e confortável. E ao ver Annabelle lutar aflitivamente para respirar, fixando-o com um olhar brilhante de medo e de dor, sentiu-se capaz de fazer tudo por ela. Tudo. Que Deus o ajudasse se Annabelle alguma vez viesse a suspeitar do poder que exercia sobre ele… um poder que representava uma séria ameaça ao seu orgulho e autodomínio. Desejava possuir cada parte ínfima do seu corpo e da sua alma, em todas as formas possíveis e imagináveis de intimidade. Aquela paixão profunda e em constante crescendo que sentia por ela deixava-o perturbado. E ninguém dos seus conhecimentos, muito menos Westcliff, conseguiria entender isso. O conde tinha sempre conseguido manter as suas emoções e desejos profundamente encerrados dentro dele, mostrando desdém pelos tolos que se prestavam a figuras patéticas em nome do amor.


Não que isto fosse amor… Simon não queria ir tão longe. E no entanto era algo mais do que banal desejo. Muito mais do que desejo. E que exigia dele nada menos do que total e absoluta posse. Esforçando-se por disfarçar as emoções, Simon seguiu Westcliff até ao seu escritório. Era uma sala pequena e de linhas austeras, forrada com lustrosos painéis de carvalho e decorada simplesmente com uma fila de belíssimos vitrais coloridos de um dos lados. Não era, por conseguinte, uma sala confortável. Ainda assim, havia nela um toque de masculinidade que agradava a Simon, tornando-a num cantinho onde se podia fumar, beber e conversar abertamente. Sentando-se numa das cadeiras rígidas da secretária, aceitou um conhaque das mãos de Westcliff e bebeu-o de um trago só. De seguida, ergueu o balão de cristal e baixou levemente cabeça num agradecimento mudo, quando o conde o voltou a servir. Antes de Westcliff poder lançar-se em indesejadas deambulações versando Annabelle, Simon tentou distraí-lo. – Estarei enganado ou a Miss Bowman causa-lhe uma certa irritação? – quis saber. Como manobra de diversão, a referência a Lillian Bowman resultou primorosamente. O conde fez uma carranca e respondeu com um grunhido: – Essa fedelha mimada e grosseira ousou insinuar que o percalço sofrido por Miss Peyton foi da minha responsabilidade – disse, servindo-se de outro conhaque. Simon estranhou. – E como poderia ter sido? – Miss Bowman parece considerar que eu, enquanto anfitrião, deveria garantir que a minha propriedade estivesse imune a uma invasão de víboras venenosas, segundo palavras suas. – E qual foi a sua resposta, posso saber? – Fi-la notar que os meus convidados que optam por manter-se vestidos quando passeiam pela minha propriedade não costumam ser mordidos por víboras. Simon não conteve um sorriso, ao retorquir: – Miss Bowman está preocupada com o estado da amiga, nada mais. – Ah, pois claro… Ela não se pode dar ao luxo de a perder, já que certamente não terá outras – disse o conde, pleno de sarcasmo. Sorrindo, Simon olhou as profundezas do seu conhaque, ouvindo o amigo prosseguir. – Que terrível dia o meu amigo teve hoje, hã?… Primeiro, viu-se obrigado a carregar ao colo o corpo jovem e núbil de Miss Peyton até ao quarto dela. Depois teve de lhe observar a bela perna. Que cruel sacrifício isso terá representado para si… O sorriso de Simon desvaneceu-se. – Não me ouviu dizer que lhe observei a perna! – Nem foi necessário. Conheço-o o suficiente para calcular que não terá certamente desperdiçado essa oportunidade. – Admito que lhe observei o tornozelo, sim. E também lhe cortei os atilhos do corpete quando se tornou evidente que ela não podia respirar – disse Simon, olhando o conde e desafiando-o a objetar. – Terá sido muito prestável, sem dúvida – murmurou o outro. Simon irritou-se. – Por mais que lhe custe acreditar, eu não retiro prazer lascivo da visão de uma mulher em


sofrimento. Recostando-se na cadeira, Westcliff fixou Simon de um modo de tal modo inquisitório que o fez arrepiar-se, literalmente. – Espero sinceramente que não seja idiota ao ponto de se deixar apaixonar por uma criatura daquelas. Sabe bem o que penso de Miss Peyton. – Sim, sei. Já mo fez notar repetidamente. – Além de que – acrescentou o conde –, eu detestaria ver um dos raros homens de bom senso que conheço transformar-se num daqueles palermas que se dedicam a polinizar a atmosfera com ideias sentimentaloides. – Eu não estou apaixonado. – Mas está… qualquer coisa – insistiu Westcliff. – Nestes nossos dez anos de amizade, nunca lhe vi uma expressão tão aparvalhada como a que trazia ao sair do quarto dela. – Espelhava tão somente uma simples compaixão por um ser humano em sofrimento. O conde riu-se, desdenhoso. – Ser humano esse cujo apelo sexual o deixa cheio de comichões. A exatidão brusca daquela declaração levou Simon a sorrir relutantemente. – Há dois anos eram comichões, sim – limitou-se a observar. – Atualmente já é uma terrível doença epidérmica. Soltando um suspiro desagradado, o conde comentou: – Não há nada que eu mais abomine do que ver um amigo avançar cegamente para o abismo. A sua fraqueza, Hunt, é a sua total incapacidade de resistir a um desafio. Mesmo que esse desafio não seja digno de si. – Gosto de desafios, sim – disse Simon, fazendo rodar o conhaque no balão. – Mas isso nada tem a ver com o meu interesse por ela. – Por amor de Deus – murmurou Westcliff. – Beba lá o conhaque de uma vez, e deixe de brincar com ele! Arruína-lhe totalmente a suavidade chocalhando-o dessa maneira. Simon olhou-o com uma expressão divertida. – E como exatamente se «arruína» um balão de conhaque, não me dirá? Não, espere, prefiro que não mo diga; o meu cérebro provinciano não iria conseguir absorver o conceito. – Obedientemente, deu um gole no conhaque e poisou o copo. – Onde é que nós íamos?… Ah, sim, a minha fraqueza. Antes de avançarmos com essa discussão, quero que assuma que em determinadas alturas da sua vida já se rendeu ao prazer em detrimento do bom senso. Porque, caso nunca o tenha feito, não vejo qualquer utilidade em debater este tipo de questões consigo. – É claro que sim. Qual o homem de vinte anos que não passou por isso? Mas a principal vantagem de um intelecto superior é precisamente a de não nos permitir cometer repetidamente esse tipo de erros. – Ora aí está, é esse o meu problema: não me preocupo em ter um intelecto superior. Sempre convivi às mil maravilhas com o meu, manifestamente inferior. – E é precisamente essa a razão pela qual Miss Peyton e todas as suas carnívoras amiguinhas continuam por casar, Hunt. Todas elas são sinónimo de sarilhos. E se os acontecimentos de hoje não o fizeram ver isso, então o meu amigo é efetivamente um caso perdido. Tal como Simon Hunt previra, Annabelle sofreu um considerável desconforto nos dois dias seguintes.


Não teve outro remédio senão familiarizar-se com o intragável sabor do chá de amor-de-hortelão, que o médico lhe prescreveu que tomasse de quatro em quatro horas no primeiro dia, e de seis em seis no segundo. Mesmo não podendo afirmar que o remédio ajudava a reduzir os sintomas do envenenamento, a verdade é que aquela mistela lhe acalmava o estômago permanentemente revolteado. Sentia-se constantemente exausta, e ainda assim não conseguia dormir sossegada. E por mais que ansiasse por um entretém que lhe combatesse o tédio, não conseguia concentrar-se em coisa alguma por mais de cinco minutos seguidos. As amigas fizeram tudo ao seu alcance para a manterem animada e distraída – e Annabelle estavalhes profundamente grata por isso. Evie sentou-se à cabeceira dela e leu-lhe em voz alta as melhores partes de um romance tórrido surripiado da fabulosa biblioteca de Lord Westcliff. Daisy e Lillian visitaram-na amiúde para a pôr a par dos mais recentes mexericos, fazendo-a rir com hilariantes imitações dos mais variados convidados. E agora, e perante a sua insistência, estavam ambas a relatar-lhe quem lhes parecia ir à frente na corrida pelas atenções de Lord Kendall. Uma jovem em particular, loira, alta e magra, de seu nome Lady Constance Darrowby parecia ter-lhe cativado o interesse. – Se quer saber, minha amiga, ela a mim parece-me um tanto fria – disse Daisy francamente. – Tem uma boca de fole horrível e o hábito enervante de soltar risinhos com a mão em frente da boca, como se fosse pecado mortal uma senhora ser apanhada a rir em público. – Talvez tenha dentes feios – sugeriu Lillian, esperançada. – Pois eu considero-a extremamente entediante – insistiu a irmã. – Nem consigo imaginar o que ela terá de especial para ter conseguido despertar um tal interesse em Lord Kendall. – Daisy, querida, recordo-te que estamos a falar de um homem cuja ideia de divertimento passa pela observação de plantas. A sua tolerância ao tédio é obviamente ilimitada. – Hoje no piquenique, houve um momento de satisfação suprema em que acreditei que iria apanhar Lady Constance numa situação comprometedora com um dos convidados. Desapareceu por longos minutos com um cavalheiro que não era Lord Kendall – confessou-lhe Daisy. – E quem era, afinal? – quis saber Annabelle. – Mr. Benjamin Muxlow, um grande proprietário aqui das redondezas – esclareceu-a a amiga. – Aquele género de cavalheiro irrepreensível e intocável, detentor de um impressionante quinhão de terras e de uma mão-cheia de criados, e em eterna busca de uma possível esposa que venha a cuidar dele e dos oito ou nove filhos, que lhe remende os punhos das camisas e saiba fazer um bom pastelão de sangue de porco em épocas de matança… – Daisy… – interrompeu-a a irmã notando que Annabelle ganhara subitamente uma tez esverdeada. – Tenta utilizar uma linguagem um nadinha menos… repugnante, sim? – Sorriu para Annabelle, num pedido de desculpas: – Perdoe-lhe, querida… mas sabe como é, os ingleses são capazes de ingerir coisas que a nós, americanos, nos fariam vomitar as tripas. – Fez uma pausa, antes de continuar: – Enfim, o facto foi que Lady Constance desapareceu depois de ser vista na companhia de Mr. Muxlow e eu, naturalmente, fui procurá-los na esperança de ver alguma coisa que lhe descredibilizasse a reputação – o que obviamente faria com que Lord Kendall perdesse todo o interesse. Consegue imaginar o meu deleite quando os descobri atrás de uma árvore e com as cabeças muito juntas… – Estavam a beijar-se? – perguntou Annabelle.


– Não, malogradamente… Muxlow estava apenas a ajudar Lady Constance no seu auxílio a uma cria de tordo que caíra do ninho. – Oh – disse Annabelle, sentindo os ombros descair de desilusão. – Mas que gentil da parte dela… – disse, num resmungo irónico. Ela sabia que parte do seu desânimo era causado pelos efeitos do veneno da cobra, já para não falar no seu intragável antídoto. No entanto, conhecer a causa do seu estado de espírito não o melhorava em nada. Ao vê-la abatida, Lillian pegou numa belíssima escova de cabelo em prata, sugerindo: – E se esquecêssemos Lady Constance e tratássemos deste seu cabelo magnífico? Verá que se sente muito melhor assim que eu lho afastar do rosto. – Onde está o meu espelho? – quis saber Annabelle, dando espaço a Lillian para se sentar junto dela. – Não sei, não o encontrei – foi a resposta casual da americana. Não passara despercebido a Annabelle que o espelho desaparecera convenientemente. Ela sabia que a sua maleita a tinha de alguma maneira desfeado, deixando-lhe o cabelo áspero e sem brilho, a pele macilenta e o olhar baço. Isto para não falar nas náuseas constantes que lhe tinham retirado todo o apetite, deixando-a com um aspeto escanzelado, sobretudo no colo e nos braços. Ao serão, deitada no seu leito de dor, sons de música e dança entraram-lhe pela janela aberta do quarto, vindos do salão de baile do andar de baixo. Só de imaginar Lady Constance nos braços de Lord Kendall, fê-la revolver-se de desconforto debaixo dos lençóis, concluindo com desalento que as suas chances de casar estavam a um breve passo de se extinguirem totalmente. – Odeio víboras… – resmungou baixinho, vendo a mãe arrumar-lhe os objetos da mesinha de cabeceira: colheres lambuzadas de remédios, frascos, lenços, escova e ganchos de cabelo. – Odeio estar doente, e odeio passeios na floresta, e acima de tudo odeio «rounders em ceroulas»! – O que disseste, querida? – perguntou Philippa, interrompendo-se. Annabelle abanou a cabeça, subitamente tomada pela melancolia. – Eu… oh, nada, Mamã. Tenho estado a pensar: quero regressar a Londres logo que me seja possível. Deixou de fazer sentido continuar aqui. Lady Constance está a um passo de se tornar Lady Kendall, e eu não me sinto com capacidades de atrair outro possível alvo. E além disso… – Ainda não há motivos para perderes as esperanças, minha filha – interrompeu-a Philippa, inclinando-se para ela e acariciando-lhe o rosto com suavidade maternal. – Ainda não foi anunciado qualquer compromisso – e Lord Kendall tem perguntado por ti com bastante frequência. E lembra-te do lindíssimo bouquet de campainhas que ele te enviou. Colhidas pelas próprias mãos, segundo me disse. Annabelle olhou com expressão infeliz para o arranjo de campainhas disposto numa jarra sobre a cómoda, o seu aroma denso enchendo o ambiente. – Oh, Mamã… eu já estava para lho pedir: importa-se de se ver livre dele? É lindo e eu apreciei imenso o gesto, mas… o cheiro… – Oh, confesso que não pensei nisso – disse Philippa, precipitando-se para a cómoda, pegando na jarra de flores azuis e dirigindo-se à porta. – Vou deixá-las fora da porta e pedir que as levem. Com expressão ausente, Annabelle pegou num gancho de cabelo e dedicou-se a brincar com ele, enquanto pensava na grande variedade de ramos de flores que recebera nos últimos dias. As notícias da sua doença tinham desencadeado uma onda de simpatia por entre os convidados de Stony Cross Manor.


Até mesmo Lord Westcliff lhe enviara em seu nome um magnífico ramo de rosas de estufa. A proliferação de flores em jarras dera ao quarto um aspeto fúnebre que lhe desagradava. Curiosamente, nada fora deixado em nome de Simon Hunt… nem um simples cartão ou uma flor isolada. Depois da sua atitude tão solícita e preocupada de há duas noites, ela esperava qualquer coisa. Um indício de preocupação da parte dele, por breve que fosse. Passou-lhe pela cabeça que ele talvez a considerasse uma criatura ridícula, uma fonte de sarilhos e problemas, não mais merecedora da sua atenção. Se assim fosse, ela só tinha de dar graças pelo facto de não voltar a ser incomodada por ele. Mas em vez disso, Annabelle sentiu um aperto no peito e lágrimas nos olhos que ameaçavam saltar a qualquer momento. Não conseguia entender-se a ela mesma. Não sabia identificar a emoção que se escondia debaixo daquela desesperança profunda. Por outro lado, sentia-se invadida pelo desejo de qualquer coisa de indecifrável… Se ao menos soubesse o que era… Se ao menos… – Mas que coisa estranha… – ouviu a voz da mãe ao reentrar no quarto. – Encontrei isto à porta, sem um cartão, uma palavra… nada. E são absolutamente novas, vê-se pelo aspeto. Terá sido alguma das tuas amigas? É o mais provável, sim. Uma prenda tão… excêntrica só pode ter vindo das americanas. Endireitando-se nas almofadas, Annabelle olhou espantada para o que a mãe lhe punha no colo: um par de sapatos abotinados novinhos em folha, atados com um garboso laço de seda vermelho. Eram lindos, em pele lisinha e muito macia, num tom bronze muito em voga, e primorosamente polidos. Com os saltos baixos concebidos em várias camadas de couro, e as solas cosidas com pontos muito juntos e firmes, os sapatos abotinados eram a um tempo elegantes e extremamente funcionais. Dos lados tinham delicados bordados com o desenho de folhas que se estendiam até ao bico. Ao olhar para as botas, Annabelle foi subitamente acometida por um ataque de riso. – Só podem ser uma oferta das manas Bowman – disse ela, sabendo bem que não era assim. As botas vinham obviamente de Simon Hunt, que estava plenamente consciente de que um cavalheiro digno desse nome jamais ofereceria a uma senhora um artigo de vestuário. Teria de as devolver imediatamente, pensou, não resistindo a estreitá-las contra si. Apenas Simon Hunt e só ele se lembraria de lhe oferecer algo de tão pragmático e tão… inadequadamente íntimo. Sorrindo, desatou o laço de seda e pegou num botim, surpreendendo-se com a sua leveza. Com um breve olhar viu de imediato que o par lhe serviria na perfeição. Mas como poderia Simon ter sabido o tamanho de sapatos abotinados a encomendar, e de onde diabos os teria desencantado? Lentamente, percorreu com o dedo os pontos ínfimos e perfeitos que uniam a sola à pele cor de bronze. – Que bonitos são – comentou Philippa. – Demasiado bonitos para pisarem em terrenos lamacentos, diria mesmo. Annabelle levou a bota ao nariz, sentindo o odor fresco e natural do couro polido. Acariciou-a com o polegar uma vez mais e ergueu-a em frente dos olhos para a observar, como se de uma escultura inestimável se tratasse. – Pois eu já me cansei de calcorrear campos sinuosos e lamacentos – disse, com um sorriso. – Por isso, doravante o destino delas serão apenas os pavimentos das ruas e, quando muito, os trilhos de cascalho dos jardins. Olhando-a com ternura, Philippa estendeu a mão para lhe acariciar o cabelo. – Jamais pensei que um par de sapatos novos te animasse tanto, minha querida; mas fico muito feliz. Queres que te mande fazer um caldo e uma torradinha? Tens de comer alguma coisa antes da tua próxima


dose de chá de amor-de-hortelão… Annabelle fez uma careta e suspirou: – Sim, um caldo parece-me bem. Philippa fez um aceno de satisfação e fez menção de pegar nos sapatos, dizendo: – Deixa-me arrumá-los no teu armário… – Não… ainda não, Mamã – murmurou Annabelle, agarrando-os possessivamente. Philippa sorriu e saiu para o corredor para ir tocar à campainha dos criados. Annabelle recostou-se na cama, e enquanto passava os dedos pelo couro suave dos sapatos abotinados, sentiu o aperto no peito desvanecer-se aos poucos. Era sem dúvida um sinal de que o veneno começava a sair-lhe do organismo… mas isso não explicava por que razão se sentia tão subitamente aliviada e tranquila. Teria de agradecer a Simon Hunt, é claro, mas fazendo-o ver que aquela prenda era no mínimo inapropriada. E caso ele admitisse ser o autor de uma tão inusitada ideia, ela teria de lhe devolver a oferta. Algo como um bouquet de flores, uma caixa de bombons ou um livrinho de poemas teria sido bem mais conveniente. Mas a verdade é que nunca nenhuma prenda a tinha sensibilizado tanto como esta. Annabelle manteve os sapatos junto dela o resto do serão, não obstante os protestos da mãe, que insistia que «dava azar colocar calçado em cima da cama». Só no momento em que praticamente adormeceu, ainda com o som suave da orquestra a entrar-lhe pela janela, é que consentiu que a mãe os colocasse na base da mesinha de cabeceira. Assim que acordou na manhã seguinte, a simples visão deles fê-la sorrir.


Capítulo 14

Na manhã do terceiro dia da sua recuperação, Annabelle sentiu-se finalmente com forças para sair da cama. Para seu enorme alívio, a maioria dos convidados tinha saído para uma festa a decorrer numa propriedade vizinha, o que deixou State Cross Manor praticamente vazia e extremamente sossegada. Depois de acertar os preparativos com a governanta da mansão, Philippa instalou Annabelle numa sala privada do andar de cima, que oferecia uma belíssima vista diretamente para os jardins. Era uma sala bonita e muito alegre, com as paredes forradas a papel azul pálido e coloridos retratos de crianças e animais. Segundo a governanta, a sala era de uso reservado aos familiares do lado Marsden, mas fora o próprio Lord Westcliff a pô-la à disposição de Annabelle, para seu maior conforto. Depois de instalar a filha num canapé junto à janela e de lhe colocar uma manta sobre os joelhos, Philippa serviu-lhe uma chávena do chá medicinal, poisando-a na mesinha ao lado dela. – Está na hora de tomares o teu chá, querida – disse-lhe num tom firme, em resposta à sua careta de desagrado. – É para o teu bem, já sabes. – A Mamã não precisa de ficar aqui a olhar por mim – disse Annabelle. – Fico lindamente a descansar, enquanto vai passear ou conversar com as suas amigas. – Estás segura? – Absolutamente – disse ela, beberricando do chá. – Prometo que tomo o chá até ao fim. Por favor, minha Mãe, deixe-se de hesitações e vá distrair-se um pouquinho, sim? – Muito bem – disse Philippa, algo relutante. – Mas só por uma horinha. A governanta pediu que toques à campainha, caso precises de uma criada. E por favor, bebe o chá até à última gota. – Prometo – disse Annabelle com um amplo sorriso. Manteve o sorriso até ver a mãe sair do quarto, depois voltou-se para a janela aberta nas suas costas e verteu o conteúdo da chávena diretamente para o jardim. Com um suspiro de satisfação, Annabelle aninhou-se num dos cantos do canapé. Ocasionalmente, ouvia o som de tarefas domésticas interrompendo o plácido silêncio da mansão: o bater de uma peça de loiça, a voz sussurrada da governanta, o varrer da vassoura sobre o tapete do hall principal. Apoiando o braço no apoio do canapé, Annabelle voltou-se ligeiramente para a janela, permitindo que o sol lhe banhasse suavemente o rosto. Fechou os olhos e ficou a ouvir o zumbir das abelhas rodeando ociosamente os rebentos em flor das hortênsias rosa forte e das ervilhas de cheiro, cujas gavinhas se enrolavam em torno dos canteiros de vime. Mesmo sentindo-se ainda bastante fraca, era um enorme prazer deixar-se envolver pela quente letargia, preguiçando como um gato. Já praticamente dormitava quando ouviu um levíssimo bater de porta… um toque só, como se o


visitante se esforçasse por não a perturbar com um bater mais forte. Piscando os olhos ofuscados pelo sol, Annabelle manteve-se sentada na mesma posição, com os pés sob as nádegas. Deixando o olhar habituar-se à mudança, conseguiu distinguir a figura imponente e escura de Simon Hunt. Estava de pé, encostado à ombreira da porta, numa postura naturalmente descontraída. Com a cabeça ligeiramente de lado, observava-a com uma expressão insondável. Annabelle sentiu a pulsação disparar. Como sempre, Hunt vestia impecavelmente, sem contudo deixar que a elegância das roupas lhe escondesse aquela energia viril que parecia emanar naturalmente dele. Recordou-se de imediato da firmeza dos braços e da robustez do peito quando a carregara ao colo, o toque das suas mãos no corpo dela… oh, jamais conseguiria voltar a olhar para ele sem se lembrar desse momento! – Parece uma borboleta acabadinha de entrar pela janela – disse ele num tom suave. Só podia estar a zombar dela, pensou Annabelle, perfeitamente consciente da sua palidez de enferma. Num gesto quase inconsciente, levou a mão ao cabelo na tentativa de compor as mechas em desalinho. – O que faz aqui? – perguntou secamente. – Não devia estar na festa? Não tinha querido soar tão fria e desagradável, mas a sua habitual verbosidade parecia tê-la abandonado. Agora, ao olhar para ele, não conseguia evitar pensar no modo como ele lhe massajara o peito. E esse pensamento fê-la corar involuntariamente. Hunt respondeu-lhe num tom gentilmente cáustico: – Tenho negócios a tratar com um dos meus gerentes, que chegará de Londres ainda esta manhã. Ao contrário dos cavalheiros de meias de seda, cuja linhagem a Annabelle tanto admira, eu tenho assuntos importantes a considerar, para lá das festas, pescarias e caçadas. Desencostando-se da ombreira, Hunt aventurou-se um pouco mais pela sala, sem tirar os olhos de Annabelle. – Continua fraca? Isso vai melhorar muito em breve, creia. E como está o tornozelo? Erga as saias, por favor, e deixe-me observá-lo novamente. Annabelle olhou-o, alarmada, por uma fração de segundo, antes de soltar uma gargalhada franca ao ver-lhe um brilho travesso no olhar. O ousado comentário conseguiu apaziguar-lhe o embaraço, deixando-a mais descontraída. – Agradeço a atenção, Mr. Hunt – disse, algo friamente –, mas não vejo necessidade. O meu tornozelo está bastante melhor, obrigada. Hunt sorriu ao aproximar-se dela. – Quero que saiba que o meu pedido foi feito apenas e só num espírito de puro altruísmo. Não retiraria qualquer prazer ilícito da visão da sua perna exposta. Bom, talvez uma excitaçãozinha inofensiva, admito, mas tê-la-ia dissimulado na perfeição. Pegando nas costas de uma cadeira com uma só mão, levou-a para perto do canapé, sentando-se junto dela sem mais hesitações. Annabelle impressionou-se com a facilidade com que ele ergueu a pesada cadeira de mogno, e deu por ela a lançar um olhar rápido à porta da sala, que Hunt tinha deixado aberta. Pareceu-lhe aceitável e adequado estar ali assim, a sós com Simon Hunt, mas à vista de quem quer que fosse a passar. Como a mãe, que seguramente não tardaria a vir ver como ela estava. Mas antes que isso acontecesse, ela decidiu desde logo trazer à baila o assunto dos sapatos abotinados. – Mr. Hunt – disse cautelosamente –, há algo que terei de lhe perguntar…


– Sim? Os olhos dele eram sem dúvida o seu maior atrativo, concluiu ela. Vibrantes e plenos de vida, faziamna perguntar-se por que razão as pessoas preferiam quase sempre os olhos azuis aos castanhos. Nenhum tom de azul conseguiria transmitir a crescente sagacidade escondida nas profundezas dos olhos castanhozibelina de Simon Hunt. Por mais que se esforçasse, não conseguiu arranjar uma forma subtil de abordar a questão. Após uns momentos de silêncio em busca das palavras certas, decidiu-se por uma abordagem direta. – Foi o senhor o responsável pelos sapatos abotinados? A expressão dele não o traiu. – Sapatos?… Receio não entender o que quer dizer, Miss Peyton. Está a falar metaforicamente, ou refere-se efetivamente ao calçado? – O par de sapatos abotinados – afirmou ela, olhando-o com suspeição –, novinho em folha, e deixado ontem à porta do meu quarto. – Por mais que me encante debater consigo o seu guarda-roupa, Miss Peyton, temo desconhecer em absoluto aquilo a que se refere. Contudo, muito me agrada saber que finalmente adquiriu calçado decente. Isto, obviamente, se não pretender continuar a parecer uma perfeita pata-choca nos seus passeios pelas paisagens de Hampshire. Ela olhou-o durante um longo momento. Não obstante estar a negar, havia algo na sua expressão que o traía, um certo brilho jocoso no olhar… – Nega então ter-me oferecido os sapatos? – O mais enfaticamente que me é possível, sim, nego-o. – Por outro lado, pergunto-me… se alguém pretendesse ofertar um par de botas novo a uma senhora e sem o seu conhecimento… como poderia ele saber o tamanho certo do seu pé? – Isso não constituiria o menor problema – respondeu ele com ar sério e pensativo. – Imagino que alguém minimamente sagaz pedisse à governanta que lhe fizesse chegar às mãos as palmilhas dos chinelos da senhora em questão… Depois bastar-lhe-ia levá-las ao sapateiro local e conseguir… persuadi-lo a pôr de parte todos os seus trabalhos em curso para se dedicar exclusivamente à confeção urgente dos ditos sapatos. – Isso soa-me a uma enorme carga de trabalhos, não lhe parece? O olhar dele foi subitamente coberto por um manto de malícia. – Mas uma carga manifestamente menor do que ter de carregar uma senhora aleijada por três imensos lanços de escada, de cada vez que ela decidir dar um passeio de chinelos. Annabelle percebeu que ele jamais iria assumir ter-lhe oferecido os sapatos abotinados – o que lhe permitia a ela ficar com eles, mas que ao mesmo tempo a impedia de poder agradecer-lhe. E ela sabia que tinha sido ele – estava-lhe estampado no rosto. – Mr. Hunt… – disse ela muito francamente. – Eu… Eu… Calou-se, incapaz de dizer o que quer que fosse e limitando-se a olhá-lo com uma expressão impotente. Hunt pareceu compadecer-se. Levantou-se e dirigiu-se a um canto da sala para pegar numa mesa de jogo redonda. Teria cerca de sessenta centímetros de diâmetro e com um engenhoso mecanismo que permitia mudar o tabuleiro de damas para o de xadrez.


– Joga? – perguntou em tom casual, colocando a mesinha em frente dela. – Damas? Sim, de quando em vez… – Referia-me ao xadrez. Annabelle abanou a cabeça, recostando-se de novo no canapé. – Não, nunca joguei xadrez. E não querendo parecer desagradável, receio que o meu estado atual não me permita animar-me a aprender algo de tão complicado como… – É a altura ideal para aprender, minha querida – disse ele, dirigindo-se a uma estantezinha na parede. Pegou numa bonita caixa de mogno com embutidos de madrepérola. – Costuma dizer-se que não conhecemos realmente uma pessoa antes de jogarmos uma partida de xadrez com ela. Annabelle observou-o cautelosamente, claramente nervosa perante a perspetiva de ficar ali sozinha com ele… mas sentindo-se absolutamente enfeitiçada pela sua ternura deliberada. Quase parecia que Simon se esforçava por convencê-la a confiar nele. Havia nele uma doçura de gestos e palavras totalmente desadequada à imagem de mulherengo cínico que Annabelle tinha dele. – E acredita nisso? – perguntou-lhe. – Claro que não. Hunt poisou a caixa na mesinha de jogo e abriu-a para revelar um belíssimo conjunto de peças de xadrez em ónix e marfim, de pormenores maravilhosamente esculpidos. Lançou-lhe um olhar provocador antes de acrescentar: – A verdade é que não conhecemos realmente um homem antes de lhe emprestarmos dinheiro. E não conhecemos realmente uma mulher antes de a levarmos para a cama. Disse aquilo com a clara intenção de a chocar, tendo sido extremamente bem-sucedido, ainda que Annabelle se tivesse esforçado por disfarçar. – Mr. Hunt – disse ela franzindo os olhos num amplo sorriso –, se persistir em fazer esse tipo de comentários vulgares, serei forçada a pedir-lhe que se retire. – Perdoe-me. – Aquela súbita contrição não a convenceu minimamente. – Acontece que não consigo resistir à oportunidade de a fazer corar. Nunca vi uma senhora fazê-lo com a frequência com que a Annabelle o faz. Ela abespinhou-se, o que só a fez corar ainda mais. – Eu nunca coro. É apenas quando estou na sua presença que eu… Interrompeu-se, olhando para ele com uma expressão tão comicamente indignada que ele largou a rir. – Eu porto-me bem, prometo – murmurou-lhe. – Mas não me peça que me retire. Ela olhou-o, algo indecisa, passando uma mão pouco firme pela testa – e a visão da sua fragilidade fez com que Hunt suavizasse o tom de voz. – Pronto, está tudo bem… Por favor, deixe-me ficar. Ela respondeu-lhe com um leve aceno de cabeça e recostou-se no canapé, vendo-o arrumar metodicamente as peças no tabuleiro. A leveza e destreza com que ele tocava nas peças era surpreendente, tendo em conta o tamanho das suas mãos. Mãos potencialmente brutais, pensou… bronzeadas e masculinas, com uma suave linha de penugem escura nas costas. Com ele ali de pé, levemente inclinado e tão junto dela, Annabelle pôde sentir-lhe a intrigante fragrância, um cheirinho a engomado misturado com o odor de sabão de barba – que ainda assim não lhe ocultava o cheiro natural a pele masculina. E havia ainda qualquer coisa mais, um odor difícil de


identificar… um travo adocicado no hálito, como se ele tivesse acabado de comer uma pera, ou talvez uma fatia de ananás. Erguendo o olhar para ele, apercebeu-se de que lhe seria extremamente fácil beijála. A ideia fê-la estremecer. Desejava tanto sentir-lhe a boca na sua, inalar o leve trago doce do seu hálito. Desejou que ele a estreitasse novamente nos braços. Aquela constatação fê-la abrir muito os olhos, e a sua súbita quietude não passou despercebida a Hunt. A atenção dele passou do tabuleiro de xadrez para o rosto transtornado de Annabelle, e o que quer que tenha visto na expressão dela fê-lo paralisar e ficar sem fôlego. Nenhum deles se moveu. Annabelle limitou-se a aguardar em silêncio, a ponta dos dedos cravados no estofo do canapé, pensando no que fazer a seguir. Respirando fundo, Hunt quebrou a tensão e falou com voz suave, quase resignada: – Não… ainda não está restabelecida. Era difícil ouvir as palavras debaixo do ribombar das batidas do seu coração. – Co-como? – inquiriu debilmente. Parecendo incapaz de resolver a situação, ele afastou com um dedo uma madeixa ínfima da testa de Annabelle. O toque do seu dedo queimou-lhe a pele sedosa, deixando-a a arder. Ele esclareceu-a: – Sei o que lhe vai na mente e, creia, tenta-me muito. Mas ainda se encontra muito fraca – e hoje o meu autodomínio também não está nos seus melhores dias. – Se acaso está a insinuar que… – Eu não perco tempo com insinuações – murmurou, voltando à sua tarefa no tabuleiro. – É óbvio que gostaria que eu a beijasse. E eu terei o maior prazer em satisfazê-la assim que a situação o permita. Mas ainda não. – Mr. Hunt, o senhor é o ser mais… – Sim, eu sei – disse ele com um sorriso. – Poupe-se ao esforço de me lançar adjetivos, já os ouvi a todos. Repetidamente. Sentando-se finalmente, Hunt colocou-lhe na mão uma peça de xadrez. O ónix cinzelado era pesado e frio, aquecendo ligeiramente ao toque da mão dela. – Não serão adjetivos que me apraz lançar-lhe – disse ela. – Um ou dois objetos contundentes seriam suficientes. Um riso bem-disposto sacudiu-lhe o peito, e o polegar dele acariciou-lhe as costas da mão antes de retirar a sua. Ela sentiu-lhe a aspereza do dedo calejado, uma sensação parecida com a da língua de um gato. Transtornada com as reações que ele produzia nela, Annabelle concentrou-se na peça de xadrez que tinha na mão. – Essa é a rainha, a peça mais poderosa do tabuleiro. Pode mover-se em qualquer direção, e tão longe quanto desejar. Nada havia de sugestivo no modo de Simon falar, mas ainda assim o tom suave da voz dele fazia-lhe encaracolar os dedos dos pés. – É mais poderosa do que o rei? – quis saber. – Em termos práticos, sim. O rei pode apenas mover-se uma casa de cada vez. Mas é a peça mais importante do jogo. – E como pode o rei ser mais importante, se a rainha é mais poderosa? – Porque assim que ele for capturado, a partida termina.


Retirando-lhe da mão a peça que lhe dera, Simon substituiu-a por um peão. Os dedos roçaram nos dela, numa leve mas inequívoca carícia. Mesmo sabendo que tinha o dever moral de desencorajar aquele tipo de abuso, Annabelle deu por si a fitá-lo com o olhar perdido, os nós dos dedos brancos da força com que segurava o peão de marfim. A voz dele continuou suave a aveludada, ao prosseguir: – Essa peça é o peão, que se move apenas uma casa de cada vez, e apenas para a frente. Não pode recuar ou mover-se para os lados, a não ser que a jogada lhe permita capturar outra peça. A maior parte dos jogadores iniciados gosta de mover frequentemente os seus peões, por forma a controlar uma zona mais ampla do tabuleiro, mas a estratégia ideal é fazer-se bom uso das outras peças… À medida que Hunt ia familiarizando Annabelle com cada peça e respetiva função, pressionava-a, uma a uma, na palma da mão dela – o que a deixava absolutamente enfeitiçada. O roçar hipnótico das mãos dele fazia-lhe despertar de expectativa a totalidade dos sentidos. As suas habituais defesas pareciam ter-se pulverizado, como grãos numa mó. Qualquer coisa lhe tinha acontecido, ou a Hunt, ou a ambos, permitindo que interagissem com um à-vontade até aí inexistente. Ela não queria aliciá-lo a aproximar-se mais… isso não augurava nada de bom… e todavia não conseguia deixar de adorar aquela proximidade. Hunt envolveu-a no jogo, orientando-a, aguardando pacientemente enquanto ela considerava as suas jogadas, oferecendo-lhe prestamente conselhos assim que ela lhos pedia. Aquele momento tornou-se de tal modo encantador, alegre e distrativo, que a ela pouco lhe importava quem ganharia… Ou quase. Quando moveu uma peça para uma posição que lhe permitiu capturar não uma mas duas peças de Hunt, retirou um imenso prazer do olhar aprovador e orgulhoso que ele lhe lançou. – Essa é uma jogada de mestre que apelidamos de «garfo». Tal como eu calculava, a Annabelle tem um instinto natural para o xadrez. – E agora não lhe resta alternativa senão declarar-se derrotado – provocou-o ela. – Ainda não… Moveu outra peça, numa casa mais afastada do tabuleiro, deixando de imediato a rainha dela ameaçada. Matutando na estratégia dele, Annabelle apercebeu-se com tristeza de que fora ele a deixá-la a ela numa posição de iminente derrota. – Não é justo – protestou ela, fazendo-o rir. Entrelaçando os dedos, Annabelle apoiou o queixo nas mãos e contemplou o tabuleiro. Um bom minuto decorreu enquanto considerava as possíveis estratégias, mas nenhuma lhe parecia apropriada. – Não sei o que fazer – declarou por fim. Erguendo o olhar para ele, apanhou-o a fixá-la intensamente, de um modo estranho, preocupado e quase paternal. Enterneceu-a, aquele olhar, fazendo-a engolir em seco. – Cansei-a – murmurou-lhe ele. – Não, não, de todo. Sinto-me muito bem. – Acabamos o jogo mais tarde. Verá as possíveis jogadas muito mais claramente depois de repousar um pouco. – Mas eu não quero interromper o jogo agora – disse ela, aborrecida com a insistência dele. – Além de que nenhum de nós se lembrará mais tarde da disposição das peças. – Eu lembro-me – disse ele, ignorando-lhe os protestos e afastando a mesa do alcance dela. – Precisa


de uma sesta retemperadora. Posso ajudá-la a subir ao seu quarto ou prefere que eu chame a… – Mr. Hunt – interrompeu-o ela, elevando o tom de voz –, eu não vou regressar ao quarto. Estou farta dele. Digo-lhe mais, preferia dormir no chão do átrio principal do que voltar para aquele… – Pronto, pronto, muito bem… – disse ele com um sorriso e voltando a sentar-se. – Sossegue. Longe de mim obrigá-la a fazer algo que não lhe agrade. – Entrelaçou os dedos e inclinou-se para a frente numa postura falsamente casual, o seu olhar prendendo-se ao dela. – Amanhã os convidados regressam à mansão em todo o seu esplendor – comentou. – Calculo que pretenda desde logo retomar a sua perseguição a Kendall? – Provavelmente – admitiu Annabelle, levando a mão à boca para dissimular um bocejo teimoso. – Não o deseja realmente – disse ele docemente. – Oh, sim – disse ela com um ar subitamente sonhador. – E por mais gentil que o senhor tenha sido comigo, Mr. Hunt… lamento dizer-lhe que isso não alterará em nada os meus planos futuros. Ele olhou-a com a mesma expressão simultaneamente absorta e descontraída com que fitava o tabuleiro. – Também não tenciono alterar os meus, minha querida. Se Annabelle não estivesse tão cansada, teria certamente reagido a este «minha querida». Em vez disso, ponderou sonolentamente naquela frase. Os planos dele… – Planos que consistem em tentar lograr-me os meus de conquistar Lord Kendall – afirmou. – Vão um tanto mais longe que isso – replicou ele, visivelmente divertido com a conversa. – Como assim? – Não lhe vou revelar a minha estratégia, obviamente. Claramente que irei precisar de todos os trunfos disponíveis. A próxima jogada é sua, Miss Peyton. E nunca se esqueça que estarei a observá-la. Annabelle sabia que aquele aviso a deveria deixar alarmada, mas sentia-se demasiado fraca e indolente, e fechou os olhos por uns segundos. Tinha de se render à evidência de que precisava de descansar. Voltou a abrir os olhos com enorme relutância e a imagem de Simon Hunt surgiu-lhe longínqua e desfocada. Que pena termos de ser adversários, deu por si a pensar. E só percebeu que havia pensado em voz alta quando o ouviu afirmar em tom doce: – Eu nunca fui seu adversário, Miss Peyton. – Poderei considerá-lo meu amigo, então? – murmurou num tom cético. Rendeu-se à tentação de voltar a fechar os olhos, mas desta vez o sono envolveu-a no seu reconfortante abraço, de um modo tão rápido que mal a deixou registar o facto de que Hunt lhe puxara a manta para cima, cobrindo-a até aos ombros. – Não, querida – sussurrou-lhe. – Não sou seu amigo… Annabelle caiu num ligeiro dormitar, acordando pouco depois, apenas para se ver sozinha, e adormecer de seguida sob um sol suave. Enquanto o corpo se deixava cair num repouso mais profundo, ela deu por si a vaguear por um sonho colorido, no qual todos os sentidos se elevaram e o corpo lhe pareceu ondulante, como se flutuasse num oceano tépido. Lentamente, as formas foram-se materializando ao seu redor… Vagueava por uma casa desconhecida, uma resplandecente mansão cujas janelas altíssimas deixavam filtrar a luz do dia. As salas estavam vazias, sem convidados ou criados à vista. Música de


uma proveniência impercetível invadia o espaço, numa melodia triste e sobrenatural que a deixou ansiosa. Caminhando sozinha, deparou-se com uma espaçosa sala com colunas de mármore e sem teto… era aberta para o céu, ligeiramente ensombrada pelas nuvens que iam passando sobre a sua cabeça. O soalho de tacos de madeira formava gigantescos quadrados pretos e brancos que faziam lembrar um tabuleiro de xadrez, com estátuas de pedra de tamanho humano posicionadas em alguns dos quadrados. Curiosa, Annabelle moveu-se por entre as figuras, fazendo círculos lentos para melhor lhes observar os rostos esculpidos e brilhantes. Ansiando por alguém com quem conversar, uma calorosa mão humana para segurar, atravessou o tabuleiro de xadrez gigante, caminhando às cegas por entre a multidão de figuras imóveis… até ver uma silhueta escura indolentemente recostada numa das colunas brancas. O coração começou a bater-lhe no peito, forte e descompassado, e os passos abrandaram ao sentir-se envolver por um assomo de excitação que lhe escaldou a pele e acelerou o pulso. Tratava-se de Simon Hunt, avançando para ela com um leve sorriso estampado no rosto. Apanhoua antes de ela conseguir fugir, e debruçou-se para lhe sussurrar ao ouvido: – E agora, já dança comigo? – Não posso – disse-lhe, afogueada e sem fôlego, revolvendo-se no seu abraço apertado. – Pode sim – disse ele suavemente, a boca quente e terna roçando-lhe o rosto. – Ponha os braços em volta de mim… Ao rodeá-lo com os braços, ouviu-o rir suavemente antes de a beijar até a fazer fraquejar das pernas. – A rainha está finalmente sujeita à captura – murmurou-lhe, afastando o rosto do dela para a olhar nos olhos com expressão diabólica. – Corre perigo, Annabelle… Conseguiu finalmente libertar-se, correndo para longe dele e esbarrando nas estátuas por que passava. Ele seguiu-a lentamente, o riso rouco ecoando nos ouvidos dela. Manteve-se muito próximo, prolongando deliberadamente a perseguição, até a ver exausta e febril e sem fôlego. Capturando-a por fim, voltou-a de costas e atirou-a ao chão. A sua cabeça escura obscureceu-lhe a vista do céu, enquanto ele a cobria com o corpo, e a música foi abafada pelo ribombar do coração dela. – Annabelle… – ouviu-o sussurrar. – Annabelle… Acordou estremunhada, os olhos bem abertos no rosto ensonado ao pressentir alguém junto de si. – Annabelle… – ouviu de novo… mas não era o barítono rouco e acariciador do seu sonho.


Capítulo 15

Annabelle ergueu o olhar e deparou-se com Lord Hodgeman à sua frente. Sentou-se instintivamente, percebendo que aquela não era uma figura imaginária, mas antes dolorosamente real. Emudecida de espanto, encolheu-se toda ao vê-lo estender a mão papuda para ela e acariciar-lhe o debrum de renda do decote. – Soube da sua maleita – disse-lhe, olhando-a de cima com uma expressão lânguida. – Contristou-me imenso saber que sofreu uma tal provação. Mas parece não lhe ter deixado mazelas graves. A Annabelle está… – Fez uma pausa para humedecer os lábios gordos – … Tão bela como antes… se bem que um pouco pálida, talvez. – Como… como entrou aqui? – inquiriu ela sem disfarçar o nervosismo. – Esta é a ala privada dos Marsdens, certamente que ninguém o autorizou a… – Digamos que… convenci uma criada a deixar-me vir vê-la – foi a petulante resposta dele. – Saia! – exigiu-lhe ela. – Ou gritarei por socorro. Hodgeman soltou uma sonora gargalhada de desprezo. – Não se pode dar ao luxo de um escândalo, queridinha. O seu interesse em Lord Kendall está à vista de toda a gente. E ambos sabemos que o menor laivo de desonra associado ao seu nome lhe arruinará totalmente as chances de ficar com ele, não é assim? – Riu-se perante o silêncio dela, expondo uns dentes tortos e amarelados. – Muito bem, assim estamos muito melhor… Minha pobre e bela Annabelle… sei o que trará uma pincelada de cor a essas lindas e pálidas faces. – Levou a mão ao bolso e tirou uma grande moeda de ouro, que exibiu tentadoramente aos olhos dela. – Uma pequena lembrança que expressa a minha consternação pelo seu acidente. O fôlego de Annabelle regressou-lhe num sibilar de indignação, vendo Hodgeman aproximar-se ainda mais dela, a moeda reluzente entre o polegar e o indicador numa tentativa de lha enfiar pelo decote. Não obstante o seu estado de fraqueza, Annabelle repeliu-o com um forte safanão, o suficiente para lhe fazer voar a moeda da mão. – Deixe-me em paz! – disse-lhe num tom feroz. – Cabra miserável! Comigo não precisas de fingir que és melhor do que a tua mãe. – Porco nojento! – disse ela, amaldiçoando o seu estado de debilidade. Vendo-o já em cima dela, esforçou-se o mais que pôde para o repelir, sentindo uma onda de arrepios de nojo pela espinha. – Não… – gritou entredentes, cobrindo o rosto com os braços e resistindo heroicamente enquanto ele lhe agarrava os pulsos. – Não!


Um movimento vindo da porta fez com que Hodgeman reagisse, endireitando-se de surpresa. Tremendo da cabeça aos pés, Annabelle olhou para a porta e viu a mãe de pé, à entrada da porta, trazendo uma bandeja com o almoço. Estarrecida, apercebendo-se do que se passava, deixou cair no chão os talheres de prata do tabuleiro. Philippa abanou a cabeça em profunda descrença pelo que os seus olhos viam, sem querer acreditar que Hodgeman estava realmente ali. – Atreve-se a aproximar-se da minha filha…? – começou ela, em voz grossa. Escarlate de raiva, poisou a bandeja numa mesa próxima e dirigiu-se a Hodgeman com um olhar capaz de o matar. – A minha filha está doente. Não permito que a saúde dela seja ameaçada; venha comigo agora para discutirmos este e outros assuntos noutro local. – Não é bem discutir que me apetece… – disse ele. Annabelle viu um corrupio de emoções percorrer o rosto da mãe: nojo, ressentimento, ódio, medo. E finalmente… resignação. – Muito bem. Afaste-se da minha filha, assim sendo. E venha comigo – disse friamente. – Não! – insurgiu-se Annabelle roucamente, apercebendo-se de que Philippa se preparava para ficar a sós com ele. – Fique comigo, Mamã. – Vai ficar tudo bem – disse Philippa sem olhar para a filha, mas mantendo o olhar inexpressivo no de Hodgeman. – Trouxe-te o almoço, querida. Esforça-te por comer alguma coisa. Incrédula e desesperada, Annabelle viu a mãe seguir calmamente Lord Hodgeman para fora da sala. – Não! Mamã, não vá com ele! Mas Philippa saiu como se não a tivesse ouvido. Annabelle não teve noção de quantos minutos decorreram, olhando fixamente o vazio da porta da sala. Não conseguiu recordar-se de sequer tocar na bandeja do almoço. O aroma do caldo de legumes que perfumava o ar nauseou-a. Deu por si a perguntar-se quando e como aquele sinistro affair teria começado; se fora Hodgeman a forçar a mãe ou se, inicialmente, teria sido por mútuo consentimento. Mas como quer que tivesse começado, o caso tornara-se agora numa verdadeira farsa. Hodgeman era um monstro, e Philippa tentava apaziguá-lo para evitar que ele as destruísse. Esgotada e profundamente triste, tentando não pensar no que poderia estar a ocorrer entre a mãe e aquele porco sinistro, Annabelle levantou-se do canapé. Doía-lhe o corpo todo, a cabeça estava prestes a rebentar, sentia náuseas e tonturas e só desejava regressar ao quarto. Arrastando-se como uma velha, dirigiu-se ao cordão da campainha e puxou-o. Após o que lhe pareceu um tempo interminável, continuava sem resposta. Com os convidados fora, a maioria dos criados tivera direito a folga, e as criadas disponíveis eram poucas. Passando as mãos pela cabeça, tentou avaliar a situação. Embora sentindo as pernas fracas, a verdade é que conseguia caminhar. Nessa manhã a mãe tinha-a ajudado a percorrer dois longos corredores, do quarto delas até à sala privada dos Marsdens. Mas agora estava certa de conseguir fazer sozinha o mesmo percurso. Ignorando as faíscas dançantes que via à frente dos olhos, Annabelle saiu da sala em passos curtos e cautelosos. Manteve-se encostada à parede, não fosse sentir-se desfalecer e necessitar de algum apoio. Que estranho tudo aquilo era, a sensação de só de dar dois passos parecer ter percorrido milhas e milhas. Furiosa com a sua própria fraqueza, amaldiçoou-se por não ter bebido o chá de ervas daninhas até à


última gota. Esforçando-se por colocar um pé em frente do outro, foi fazendo lentos progressos pelo primeiro corredor, até se ver praticamente à esquina que dava para a ala nascente da mansão – onde ficava localizado o seu quarto. Parou ao ouvir vozes vindas da direção contrária. Raios partam! Seria dramático ser vista naquele estado por quem quer que fosse. Rezando para que as vozes pertencessem a um par de criados, Annabelle apoiou o peso do corpo contra a parede e deixouse ficar absolutamente imóvel. Viu dois homens percorrendo o corredor à sua frente, distantes e tão embrenhados na conversa que certamente nem reparariam nela. Aliviada, Annabelle esperou conseguir escapulir-se sem ser vista. Mas não teve assim tanta sorte. Um dos homens olhou por acaso na sua direção e após uma breve hesitação, dirigiu-se a ela. À medida que se aproximava, Annabelle reconheceu-lhe a elegância masculina da passada mesmo antes de lhe ver o rosto. Parecia estar eternamente predestinada a surgir em tristes figuras aos olhos de Simon Hunt. Suspirando, desencostou-se da parede e tentou parecer composta, mesmo com as pernas tremelicando incontrolavelmente. – Boa tarde, Mr. Hunt… – O que faz aqui? – interrompeu-a ele, chegando-se a ela. Soou algo zangado, mas ao erguer os olhos para ele, Annabelle reconheceu-lhe preocupação no olhar. – O que faz sozinha no meio do corredor? – Dirijo-me ao meu quarto – disse ela, estremecendo ao senti-lo rodear-lhe os ombros com um braço e a cintura com o outro. – Mr. Hunt, não vejo necessidade de… – Está fraca como uma gatinha recém-nascida – disse ele, assertivo. – Devia saber que não pode caminhar sozinha no estado em que se encontra. – Não tive quem me ajudasse – ripostou ela, irritada. Sentiu a cabeça à roda e encostou-se a ele, deixando que a amparasse. O peito dele era maravilhosamente firme, a fazenda do casaco sedosa e fresca de encontro à face dela. – Onde está a sua mãe? – insistiu ele, afastando-lhe um caracol da testa. – Diga-me que eu tratarei de… – Não! Lançou-lhe um olhar alarmado e fincou-lhe os dedos finos nas lapelas. Deus do Céu, a última coisa de que ela precisava era que Hunt debandasse à procura de Philippa, sabendo-a naquele mesmo momento numa situação sem dúvida comprometedora com Hodgeman. – Não vale a pena procurá-la – disse bruscamente. – Eu… não preciso de ninguém. Consigo perfeitamente chegar ao meu quarto pelos meus próprios pés, isto se o senhor me largar, claro… – Muito bem – disse Hunt, mantendo um braço firmemente em volta dos ombros dela. – Pronto, acalme-se… eu não vou a lado nenhum. Ela encostou-se a ele, tentando recuperar o fôlego. – Simon… – murmurou. Surpreendeu-a tê-lo tratado pelo nome próprio, já que nunca o tinha feito nem nos seus sonhos mais íntimos. Humedecendo os lábios, tentou de novo, e para seu grande espanto, disse-o novamente: – Simon… – Sim? – murmurou ele, acariciando-lhe muito subtilmente as costas. – Por favor… leve-me ao meu quarto.


Hunt não resistiu a olhá-la com um sorriso traquina. – Minha querida, de bom grado a levaria a Tombuctu, acaso mo pedisse… Por esta altura o homem que acompanhava Simon chegava já junto deles, e Annabelle quase desfaleceu de vergonha ao perceber que se tratava de Lord Westcliff. O conde lançou-lhe um olhar reprovador, como se suspeitasse que ela tinha, de algum modo, provocado aquela situação por conveniência sua. – Miss Peyton – disse, friamente. – Por quem é, não vejo necessidade que percorra desacompanhada os corredores da mansão. Se não teve quem a ajudasse, deveria ter chamado uma criada. – Foi o que fiz, my lord – disse ela, defensivamente, tentando libertar-se de Hunt que teimava em não a largar. – Toquei a campainha algumas vezes e esperei um bom quarto de hora, mas ninguém apareceu. Westcliff olhou-a com indisfarçável desconfiança, antes de afirmar: – Isso é impossível. Os meus criados vêm imediatamente assim que são chamados. – Pois hoje parece-me ser uma exceção – disse ela, não perdendo a oportunidade. – Ou quem sabe haja alguma avaria nas campainhas, ou os criados… – Pronto – sossegou-a Hunt, pressionando-lhe a cabeça contra o peito. Annabelle detetou-lhe o tom de aviso com que se dirigiu ao conde: – Continuaremos a nossa conversa mais tarde. Neste momento tenciono acompanhar Miss Peyton aos seus aposentos. – Não será uma ideia sensata, na minha opinião – disse o conde. – Então só me resta alegrar-me por não lha ter pedido – retorquiu Simon em tom cordial. Ainda se ouviu um suspiro irritado da boca do conde, antes de ele se afastar a passos largos e determinados pelo corredor fora. Hunt baixou a cabeça e Annabelle sentiu-lhe o bafo quente na nuca, ao perguntar: – E agora… importa-se de me explicar o que aconteceu? Ela sentiu todas as veias do corpo dilatarem-se, gerando uma onda de prazer sob a pele fria. A proximidade de Hunt enchia-a de um misto de prazer e desejo. Ali, nos braços dele, só lhe vinha à lembrança o sonho de há pouco, a erótica ilusão do corpo dele sobre o seu. Tudo isto lhe parecia terrivelmente errado, o prazer que retirava do simples gesto de se ver envolta naquele abraço… mesmo sabendo que ele não lhe daria nada mais que prazer efémero – seguido de eterna desonra. Conseguiu abanar a cabeça, em negação à pergunta que ele lhe fez, a face ruborizando contra a lapela do seu casaco. – Pois… já calculava que não – disse ele num tom amargo. Sem dizer mais uma palavra, pegou nela ao colo, deixando-a surpresa mas rendida, resignando-se a rodear-lhe o pescoço com os braços. Enquanto a carregava pelo longo corredor, ele foi falando em tom sereno: – Quem sabe eu não poderia ajudá-la, caso me contasse o seu problema. Annabelle considerou por momentos aquela proposta. Sabia que se lhe confidenciasse o seu infortúnio, ele se disporia de imediato a ajudá-la… em troca de se vir a tornar amante dele. E ela detestava a parte dela que se deixava tentar com a ideia. – Por que razão deseja assim tanto envolver-se nos meus problemas? – perguntou-lhe. – Terei de ter um motivo dissimulado para desejar ajudá-la? – Claro – respondeu-lhe ela friamente, fazendo-o rir-se. Chegados à porta do quarto, Simon pô-la no chão com todo o cuidado.


– Consegue deitar-se sozinha, ou prefere que a aconchegue? Embora o tom fosse de brincadeira, Annabelle estava certa de que não seria preciso um grande encorajamento para ele fazer precisamente isso. Abanou firmemente a cabeça. – Não, muito obrigada. Eu estou bem, por favor não entre – disse-lhe, pressionando-lhe o peito com a mão para o impedir de entrar. Ainda que débil, o gesto pareceu ser suficiente. – Muito bem… Tratarei de que uma criada a venha ajudar. Ainda que suspeite que Westcliff já esteja na ala dos criados a fazer cerrados interrogatórios. – Eu chamei pela criada – insistiu Annabelle, incomodada pelo tom irritadiço da voz dele. – Já vi que o conde não acredita, mas… – Eu acredito. Simon afastou-lhe docemente a mão do peito, segurando-lhe brevemente os dedos frágeis antes de os soltar. – O Westcliff não é o monstro que parece. Há que conhecê-lo bem para poder apreciar-lhe as qualidades, que são muitas. – Se o diz… – comentou ela em tom cético. – Agradeço-lhe o que fez por mim, Mr. Hunt. Olhou de relance para o quarto vazio, perguntando-se quando Philippa regressaria, antes de se voltar de novo para ele. O olhar penetrante que Simon lhe lançava conseguia desenterrar-lhe todas as emoções ocultas, e ela apercebeu-se da diversidade de perguntas que pareciam querer soltar-se dos lábios dele. Todavia, Simon disse apenas: – Precisa de descansar. – Nada mais tenho feito senão descansar. Estou prestes a enlouquecer de tédio, e o curioso é que só a simples ideia de fazer o que quer que seja me deixa exausta. – Fez uma pausa antes de sugerir, visivelmente nervosa: – Calculo que não tenha interesse em continuar mais tarde a nossa partida de xadrez…? Após um breve silêncio, ele regressou à sua habitual ironia. – Ora, ora, Miss Peyton… enche-me de alegria sabê-la desejosa da minha companhia. Annabelle não foi sequer capaz de olhar para ele, sentindo-se enrubescer ao balbuciar: – Eu… de bom grado desfrutaria da companhia do diabo em pessoa, desde que isso me permitisse fazer outra coisa que não ficar na cama. Ele riu-se e estendeu a mão para lhe compor uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Veremos… – murmurou. – Talvez passe pelo seu quarto mais logo. E com isto se despediu, fazendo uma breve vénia e afastando-se com a sua habitual passada confiante. Já tarde de mais, Annabelle lembrou-se da soirée musical prevista para essa noite, enquanto os convidados desfrutavam de um jantar-buffet. Certamente que Simon preferiria ficar em alegre convívio com os outros convidados lá em baixo do que jogar xadrez no quarto de uma doentinha pálida, desgrenhada e mal-humorada. Estremeceu, desejando poder retirar o convite espontâneo que lhe fizera… oh, como lhe deve ter parecido fraca e desesperada! Entrou no quarto e deixou-se cair sobre a cama ainda desfeita, como uma árvore acabada de abater. Cinco minutos depois ouviu bater à porta, e duas criaditas visivelmente embaraçadas entraram no quarto.


– Viemos compor-lhe o quarto, Miss – balbuciou uma delas. – O senhor conde mandou-nos e disse para ficarmos totalmente à sua disposição. – Muito obrigada – disse Annabelle, esperando que Westcliff não tivesse sido demasiado severo com as rapariguinhas. Sentou-se num cadeirão e ficou a vê-las em frenética atividade. Num ritmo quase mágico, as jovens criadas de quarto fizeram a cama de lavado, arejaram o quarto, e limparam o pó de cada canto e peça de mobília. De seguida, trouxeram-lhe uma pequena banheira dobrável que se apressaram a encher com água quente e sais de banho. Uma delas ajudou Annabelle a despir-se, enquanto a outra lhe trouxe uma braçada de toalhas limpas e um balde de água tépida para lhe enxaguar o cabelo. Estremecendo de conforto, Annabelle entrou para a banheira com rebordo de mogno. – Apoie-se no meu braço, Miss, por favor – disse a criadita mais novinha, dando-lhe o braço. – Ainda está demasiado fraquinha para se equilibrar sozinha. Annabelle obedeceu e deixou-se sentar na banheira, largando de seguida o braço musculado da rapariga. – Como te chamas? – quis saber, deixando-se submergir até ao pescoço na água perfumada e cálida. – Meggie, Miss. – Meggie, julgo ter deixado cair uma libra de ouro no chão da salinha onde estive esta manhã. Podes ir procurá-la, por favor? A rapariga olhou-a com uma certa perplexidade, perguntando-se claramente por que razão teria Annabelle deixado uma moeda valiosa no chão – e o que poderia vir a acontecer acaso não a encontrasse. – Sim, Miss – murmurou, fazendo uma vénia nervosa e saindo do quarto. Com um suspiro de prazer, Annabelle mergulhou a cabeça dentro de água e sentou-se com o rosto e o cabelo soltando vapor. Enxugou os olhos à toalha que a criada lhe estendia e deixou que ela lhe ensaboasse a cabeça. – Sabe tão bem sentirmo-nos lavadas – murmurou, deleitada e de olhos fechados. – A minha mãezinha costuma dizer-nos que não devemos tomar banho quando estamos doentes – comentou a criada, algo nervosamente. – Pois eu arrisco de bom grado – respondeu Annabelle alegremente, inclinando a cabeça para trás enquanto a criada lhe vertia água limpa sobre o cabelo ensaboado. Assim que limpou novamente os olhos, viu que Meggie acabava de regressar. – Encontrei-a, Miss – exclamou, praticamente sem fôlego, estendendo-lhe a moeda de ouro. Annabelle deu por si a pensar que era muito provável que aquela fosse a primeira vez que a rapariga via uma libra de ouro, já que o soldo de uma criada de quarto nunca excedia os oito xelins mensais. – Onde quer que a ponha, Miss? – indagou a rapariga. – Quero que a dividam entre as duas – disse Annabelle. As raparigas olharam-na, mudas de assombro. – Oh, Miss, que Deus lhe pague! Muito obrigada – exclamaram ao mesmo tempo, exaltadas de felicidade mal contida. Silenciosamente, Annabelle considerou a hipocrisia de tudo aquilo; estava a dar às criaditas dinheiro proveniente de Lord Hodgeman, quando a família Peyton tinha beneficiado do seu duvidoso patrocínio ao


longo de mais de um ano. Um tanto embaraçada pela extrema gratidão demonstrada pelas raparigas, Annabelle baixou a cabeça. Apercebendo-se do seu desconforto, apressaram-se ambas a ajudá-la a sair da banheira, esfregando-lhe o corpo trémulo com dois toalhões fofos e envolvendo-lhe o cabelo com uma toalha de rosto. Por fim, fizeram-na vestir uma camisa de noite lavada e fresca. Refrescada mas também cansada do banho, Annabelle deitou-se entre os lençóis frescos de linho e dormitou, enquanto as criadas foram removendo a banheira e deixando o quarto limpo e arrumado. Mal deu pela discreta saída delas. Acordou já era final da tarde, piscando os olhos quando a mãe acendeu o candeeiro a petróleo da mesinha de cabeceira. – Mamã – murmurou, sonolenta. A lembrança do encontro com Hodgeman foi o suficiente para a fazer despertar e sentar-se na cama. – A Mamã está bem? Ele… – Não pretendo discutir esse assunto, querida – disse ela num tom doce mas determinado. Annabelle admirou-lhe o delicado perfil sob a luz do candeeiro. De expressão entorpecida e olhar vazio, Philippa esforçou-se por tranquilizar a filha. – Eu estou bem, minha filha. Annabelle respondeu com um aceno breve, algo melancólica, e sentindo na mãe uma profunda sensação de vergonha. Recostou-se nas almofadas, sentindo-se como se a espinha tivesse disso substituída por um atiçador de ferro. Aparte da rigidez dos músculos atrofiados, até se sentia mais forte – e pela primeira vez em dois dias o estômago doía-lhe de fome. Saindo da cama, dirigiu-se ao toucador e pegou na escova para pentear o cabelo recentemente lavado. – Mamã… – disse, hesitante. – Necessito urgentemente de uma mudança de cenário. Prefiro voltar para a ala dos Marsden e de lá pedir que me sirvam o jantar. Philippa pareceu ter ouvido apenas metade das palavras. – Sim, parece-me uma excelente ideia – disse vagamente. – Queres que te acompanhe? – Não, obrigada… Já me sinto bastante melhor e o percurso é curto. Irei sozinha. Com certeza que a minha Mãe também necessitará de alguma privacidade, depois de… – Calou-se subitamente e pousou a escova no toucador. – Não conto demorar-me. Com um breve murmúrio, Philippa sentou-se no cadeirão em frente à lareira, e Annabelle sentiu que ela tinha ficado aliviada pela perspetiva de ficar sozinha. Depois de prender o cabelo na nuca, numa longa trança pendendo sobre o ombro, Annabelle deixou o quarto, fechando silenciosamente a porta atrás de si. Quando atravessava o corredor ouviu o tagarelar subtil dos convidados lá em baixo, desfrutando do jantar-buffet servido no salão principal. A música abafava o misto de risos e conversas – um quarteto de cordas acompanhado ao piano. Parando para ouvir melhor, Annabelle apercebeu-se com grande inquietação de que se tratava da mesma música que ouvira no seu sonho. Fechou os olhos e ouviu intensamente, sentindo um aperto doloroso na garganta. Aquela melodia enchia-a de um tipo de anseio que não lhe deveria ser permitido sentir. Meu Deus!, pensou. O meu estado debilitado está a deixar-me piegas. Preciso absolutamente de conseguir controlar-me. Abriu os olhos e seguiu caminho, incomodada ao ponto de quase esbarrar em alguém que vinha na direção contrária. Mais uma vez sentiu o coração a querer saltar-lhe do peito ao dar de caras com Simon Hunt. Vinha vestido num estilo formal de preto e branco, o eterno sorriso folgazão desenhado nos lábios. A sua voz cava fê-la estremecer de excitação.


– Aonde pensa que vai? Tinha vindo ter com ela, contra todas as suas expectativas, ao invés de se deixar a confraternizar com os animados e elegantes convidados no jantar-buffet. Percebendo que a súbita fraqueza nos joelhos nada tinha que ver com a sua enfermidade, Annabelle brincou nervosamente com a extremidade da trança e murmurou nervosamente: – Não penso, vou. Jantar na sala privada. Pegando-lhe no cotovelo, Simon fê-la dar meia volta e seguir na direção contrária. – Não… Não vai querer jantar na sala privada – informou-a. – Ai não? Ele abanou a cabeça. – Tenho uma surpresa para si. Venha, não estamos longe. Enquanto ela se deixava conduzir por ele – de boa vontade, diga-se –, Simon olhou-a de alto a baixo com expressão satisfeita. – Vejo que já recuperou o equilíbrio, desde esta tarde. Como se sente? – Muito melhor… E com bastante apetite, devo acrescentar. Hunt sorriu e fê-la parar em frente a uma porta semiaberta. Deu-lhe passagem e Annabelle entrou numa adorável salinha, forrada a painéis de madeira pau-rosa, belíssimas tapeçarias cobrindo as paredes, e móveis acolchoados a veludo âmbar. Contudo, a característica mais distintiva da sala era a ampla janela na parede do fundo, que se abria para o salão dois andares abaixo. Era um local escondido da vista dos convidados, permitindo, ainda assim, que a música enchesse o ambiente através da janela aberta. O olhar espantado de Annabelle recaiu sobre uma mesa onde havia sido deixada uma variedade de pratos cobertos. – Não me foi nada fácil decidir o que poderia tentar-lhe o apetite – disse Hunt. – Por isso pedi ao pessoal da cozinha que incluísse um pouco de tudo. Absolutamente comovida com tudo aquilo, Annabelle sentiu dificuldade em falar. Não se recordava de alguma vez ter sido tão acarinhada por homem algum. Engoliu em seco e olhou para todo o lado menos para os olhos dele. – Isto é… maravilhoso. Eu… desconhecia a existência desta salinha. – Poucos são os que a conhecem. Por vezes a condessa gosta de ficar aqui, quando se sente demasiado doente para descer. – Levou-lhe o indicador ao queixo, fazendo-a olhar para ele. – Janta comigo? Annabelle nem sabia o que sentir, muito menos o que dizer. – Mas… não temos acompanhante – murmurou. A ingenuidade do comentário fê-lo sorrir. – Não pode estar mais segura, creia. Dificilmente a seduzirei, estando a Annabelle tão fraca para se defender. – É muito gentil da sua parte. – Seduzi-la-ei quanto a vir restabelecida. Mordendo-se para não sorrir, ela ergueu-lhe um sobrolho crítico. – Está muito seguro de si, ao que vejo. Não deveria antes dizer «tentarei seduzi-la»? – Não devemos nunca antecipar o fracasso, meu pai sempre mo disse. – Envolvendo-lhe os ombros


com o braço forte, Hunt conduziu-a a uma cadeira. – Toma um pouco de vinho? – Não devo – disse ela, sentando-se na cadeira almofadada. – Vai subir-me vertiginosamente à cabeça. Hunt serviu-lhe um copo e estendeu-lho, esboçando um sorriso que o próprio Lucifer teria dificuldade em imitar. – Sossegue – murmurou-lhe –, eu cuido de si se ficar meio tonta. Provando o tinto de suave colheita, Annabelle lançou-lhe um olhar irónico. – Pergunto-me quantas vezes a perdição de uma mulher não começa precisamente com essa promessa… – Não sei dizer, nunca contribuí para a perdição de uma mulher. Geralmente persigo-as quando as vejo já perdidas. – Curioso… E já houve muitas mulheres perdidas a passarem pela sua vida? – Annabelle não resistiu a perguntar-lhe. – Não me posso queixar – brincou ele. – Ainda que ultimamente as minhas energias tenham sido gastas num… entretenimento diferente. – A saber? – Tenho andado a supervisionar o desenvolvimento de uma locomotiva em que Westcliff e eu investimos. Ela olhou-a com genuíno interesse. – Deveras? Nunca viajei de comboio. Qual é a sensação? Hunt sorriu, adquirindo subitamente uma expressão de menino, espelhada pelo seu entusiasmo. – Rápida. Excitante. A velocidade média de uma locomotiva de passageiros é cerca de cinquenta milhas por hora, mas a Consolidated está a conceber o projeto de uma locomotiva-expresso que atingirá as setenta milhas/hora. – Setenta milhas por hora? – repetiu ela, incrédula, incapaz de imaginar uma máquina movendo-se a essa velocidade. – Mas… isso não será desconfortável para os passageiros? A pergunta fê-lo sorrir. – Assim que o comboio atinge a velocidade média de viagem, não se sente o ímpeto. – E como são as carruagens de passageiros? – Sem grandes luxos – admitiu ele, servindo-se de mais vinho. – Não recomendo outra coisa que não viajar numa carruagem privada – especialmente para alguém como a Annabelle. Ela dirigiu-lhe um sorriso infantil. – Alguém como eu? Se pretende insinuar que sou caprichosa ou mimada, posso afiançar-lhe que não sou. – Mas devia. – O olhar quente dele passou-lhe do rosto para a suave tez do decote, e voltando a subir. O tom terno da sua voz fê-la ficar sem fôlego. – Devia ser estragada com mimos, todos os dias e a todas as horas. Annabelle inspirou profundamente, tentando restabelecer o ritmo normal da respiração. Desesperada, só pedia que ele não a tocasse, que mantivesse a promessa de não a seduzir. Porque, caso contrário… que Deus a ajudasse… não estava nada certa de conseguir resistir. – Consolidated é o nome da sua companhia? – perguntou, esforçando-se por retomar o rumo da


conversa. Ele assentiu. – É a parceira britânica da Shaw Foundries. – Que pertence a Mr. Shaw, noivo de Lady Olivia? – Precisamente. Shaw está a ajudar-nos a adaptar o sistema de maquinaria americano, bem mais produtivo e eficiente do que o método inglês. – Sempre ouvi dizer que a maquinaria britânica está entre as melhores do mundo – comentou Annabelle. – É discutível. Mas ainda assim, raramente é uniformizada. Não há duas locomotivas construídas em Inglaterra exatamente iguais, o que abranda significativamente a produção e dificulta a manutenção e as reparações. Contudo, se conseguirmos seguir o exemplo americano e produzir peças a partir de moldes previamente fundidos, através de bitolas e matrizes uniformizadas, torna-se possível construir uma máquina em questão de semanas em vez de meses, e proceder a acertos e reparações a uma velocidade relâmpago. Enquanto conversavam, Annabelle observava Hunt com ar fascinado, concluindo que nunca tinha visto um homem a falar com uma tal paixão sobre a sua profissão. Pela sua experiência, o assunto trabalho não era algo que os homens gostassem de discutir, visto que o mero conceito de trabalhar para ganhar a vida era uma característica distintiva das classes mais baixas. Se um cavalheiro de classe superior se visse forçado a ter uma profissão, fazia os possíveis por ser o mais discreto possível, fingindo que a maioria do seu tempo era dedicada às atividades de lazer. O fascinante em Simon Hunt era o facto de ele não fazer qualquer esforço para esconder a paixão que tinha pelo que fazia – e por uma estranha razão Annabelle considerava isso irresistível. Encorajado por ela, Hunt descreveu-lhe mais detalhadamente o mundo dos seus negócios, falando-lhe nas negociações que tinha em curso para a compra de uma fábrica, propriedade da companhia ferroviária, remodelada de acordo com o novo sistema de inspiração americana. Dois dos nove edifícios do terreno de dois hectares haviam já sido convertidos numa fábrica que produzia parafusos, varas metálicas, pistões e válvulas – tudo devidamente uniformizado. Estas peças, juntamente com outras importadas pela Shawn Foundries em Nova Iorque, estavam a ser montadas em máquinas de quatro e seis eixos que seriam vendidas por toda a Europa. – Visita frequentemente as instalações? – quis saber Annabelle, provando uma fatia de peito de faisão envolto num cremoso molho de agrião. – Diariamente, quando estou na cidade. – Contemplou o copo de vinho com um ligeiro franzir de testa. – Aliás, já estou ausente há demasiado tempo. Vou ter de regressar a Londres muito em breve para me inteirar dos progressos. A ideia de que ele deixaria Hampshire em breve deveria deixar Annabelle satisfeita. Simon Hunt representava uma distração à qual ela não podia dar-se ao luxo e, com ele longe dela, ser-lhe-ia muito mais fácil concentrar as suas atenções em Lord Kendall. Estranhamente, contudo, sentiu-se vazia, apercebendo-se de como lhe agradava a sua companhia e quão mortiço Stony Cross Park ficaria assim que ele partisse. – E conta cá voltar ainda antes de a temporada acabar? – perguntou ela, esforçando-se por dissimular a ansiedade.


– Depende. – De quê? – De eu ter ou não uma razão suficientemente forte para voltar. Annabelle não olhou para ele. Em vez disso, caiu num silêncio inquieto e voltou a cabeça para a janela, pela qual se ouvia a exuberante melodia de Rosamunde, de Schubert. Pouco depois ouviram bater à porta e um lacaio entrou para levantar os pratos. Annabelle não pôde deixar de pensar que a notícia de que tinha jantado em privado com Simon Hunt já correria certamente pela ala dos criados. No entanto, assim que o lacaio os deixou, Hunt tranquilizou-a, parecendo ter lido os seus pensamentos. – Ele não vai dizer uma palavra a quem quer que seja, sossegue. Westcliff garantiu-me que se trata de um dos seus mais fiéis criados, o único capaz de manter um segredo. Ainda assim, Annabelle lançou-lhe um olhar preocupado. – Isso significa que… o conde tem conhecimento de que nós… Mas… com certeza que ele não aprova! – Frequentemente faço coisas que Westcliff não aprova – respondeu-lhe Simon com um sorriso. – Assim como eu não aprovo muitas das suas decisões. Contudo, e com vista a mantermos esta nossa conveniente amizade, não costumamos entrar em conflitos. – Levantou-se, poisou as mãos na mesa e inclinou-se ligeiramente para ela. – Que me diz de uma partidinha de xadrez? Pedi que providenciassem um tabuleiro… para o caso de aceitar jogar. Annabelle assentiu com a cabeça e um sorriso vago. Fixando-lhe os olhos negros e calorosos, concluiu que este era talvez o primeiro serão da sua vida adulta em que se sentia totalmente feliz por estar onde estava. Com este homem. Sentia uma profunda curiosidade por ele, uma real necessidade de descobrir os pensamentos e sentimentos contidos nas profundezas daquela alma. – Onde aprendeu a jogar xadrez? – perguntou, observando-lhe as mãos ágeis e precisas posicionando as peças no tabuleiro. – Com o meu pai. – O seu pai? Ele esboçou um leve sorriso irónico. – Um talhante não pode jogar xadrez? – Claro que sim, eu… – Sentiu-se mortificada pela sua falta de tato. – Desculpe. O seu sorriso persistiu enquanto a estudava. – Parece deter uma impressão errada sobre a minha família. Os Hunts pertencem a uma sólida classe média. Tanto eu como o meu irmão e irmã acabámos os estudos. E atualmente os meus irmãos trabalham com o meu pai e vivem por cima da loja. E ao serão têm por hábito jogar xadrez. Tranquilizada pela ausência de censura do seu tom de voz, Annabelle pegou num peão e fê-lo rodar entre os dedos. – E por que razão não escolheu igualmente trabalhar com o seu pai? – Sempre fui um jovem teimoso e rebelde – admitiu ele, com um sorriso. – Sempre que o meu pai me dizia para fazer uma coisa, eu não descansava enquanto não lhe provava que estava enganado. – E qual era geralmente a reação dele? – De início, esforçou-se por ser paciente comigo. Mas quando isso deixou de resultar, optou pela


tática oposta. – Fez uma pausa e pareceu algo nostálgico: – Creia-me, ninguém gostaria de confrontar fisicamente um talhante; os seus braços são verdadeiros troncos. – Consigo imaginar… – murmurou ela, olhando de relance para os ombros largos de Simon, e recordando-lhe a firmeza dos músculos. – A sua família deve estar muito orgulhosa do seu sucesso. – Talvez – disse ele com um breve encolher de ombros. – Infelizmente, parece que a minha ambição só serviu para nos distanciar. Os meus pais não me permitem comprar-lhes uma casa no West End; nem tão pouco entendem as razões de eu querer lá viver. Também não encaram a maioria dos meus investimentos com bons olhos. Seriam mais felizes se me vissem voltado para algo mais… tangível. Annabelle olhou-o intensamente, compreendendo o que ficara implícito naquela breve exposição. Ela sempre soubera que Simon Hunt não pertencia nem se enquadrava nos círculos sociais mais altos onde se movimentava. Contudo, até este momento não lhe tinha ocorrido que ele se sentia semelhantemente deslocado do mundo que deixara para trás. Perguntava-se se ele se sentiria só, ou se andava sempre demasiado ocupado para ter essa noção. – Pois eu não consigo imaginar nada de mais tangível do que uma locomotiva de cinco toneladas – comentou ela, em tom jovial. Ele soltou uma gargalhada e estendeu a mão para a peça que ela segurava. Mas por uma estranha razão, Annabelle não conseguiu largar o peão, e os dedos de ambos entrelaçaram-se, enquanto os olhares se cruzaram intensamente. Chocou-a a onda radiante de calor que lhe fluiu da mão para o ombro, espalhando-se de seguida por todo o corpo. Era como estar ébria ao sol, o calor derramando-se em correntes de sensação. E juntamente com o prazer, chegou-lhe uma alarmante pressão sobre os olhos que indiciava a chegada de lágrimas. Transtornada, Annabelle retirou a mão com um gesto brusco, deixando cair ao chão a peça de xadrez. – Desculpe – disse, soltando uma risadinha pouco convincente. Alarmava-a o que poderia vir a acontecer, caso ficasse muito mais tempo a sós com ele. Levantou-se desajeitadamente e afastou-se da mesa. – Eu… acabei de me aperceber do meu estado de cansaço… julgo que terá sido o vinho a afetar-me, tal como previ. Vou voltar para o quarto. Acredito que ainda lhe reste muito tempo para confraternizar com os convidados no salão, por isso o seu serão não terá ficado totalmente estragado, não é assim? – Fez uma pausa nervosa: – Muito obrigada pelo magnífico jantar, e a música e… – Annabelle… – Hunt moveu-se com elegância e foi colocar-se em frente dela, pondo-lhe suavemente as mãos na cintura. Fixou-a com um olhar inquiridor. – Não tem receio de mim, pois não? – murmurou. Ela limitou-se a abanar a cabeça. – Então porquê esta pressa em se retirar? Ela podia ter respondido de mil e uma maneiras distintas, mas naquele instante não conseguiu recorrer a subtileza, sagacidade ou qualquer outra forma de agilidade verbal. Pôde apenas responder com uma franqueza direta e cortante: – Eu… não quero isto. – Isto? – Não vou tornar-me sua amante. – Hesitou, para acrescentar, num murmúrio: – Mereço muito melhor. Hunt considerou aquela firme declaração com extremo cuidado, mantendo as mãos na cintura dela.


– Quer dizer que consegue arranjar um homem que case consigo – perguntou por fim –, ou que pretende tornar-se amante de um aristocrata? – Isso não é relevante, pois não? – respondeu-lhe ela, afastando-se do toque das suas mãos. – Nenhum dos cenários possíveis o envolve a si. Mesmo tendo-se recusado a olhá-lo, sentiu a mirada dele na sua, e estremeceu ao sentir a onda de calor abandoná-la por completo. – Eu acompanho-a ao seu quarto – disse Hunt, sem emoção, seguindo-a até à porta.


Capítulo 16

Quando Annabelle se juntou aos convidados na manhã seguinte, enterneceu-a saber que a sua desventura com a víbora desencadeara uma onda geral de simpatia, incluindo de Lord Kendall. Demonstrando extrema sensibilidade e preocupação, Kendall sentou-se ao lado de Annabelle à mesa de um primeiro almoço tardio a decorrer ao ar livre no terraço traseiro. Insistiu em segurar-lhe o prato junto à mesa do buffet, enquanto ela se servia de uma vasta variedade de pães, e certificou-se de que um criado lhe enchia o copo de água sempre que necessário. Insistiu igualmente em fazer o mesmo por Lady Constance Darrowby, que se juntara a eles na mesa. Recordando os comentários das encalhadas sobre Lady Constance, Annabelle avaliou a competição. Kendall parecia deveras interessado na rapariga, que se mostrava muito calada e serenamente distante. Era também elegantemente magra, num estilo que atualmente se tornara muito em voga. E provava-se que Daisy estava certa: Lady Constance tinha efetivamente a boca em fole, fazendo constantes boquinhas sempre que Kendall partilhava com ela qualquer informação sobre as suas adoradas plantas. – Que terrível provação deve ter passado – disse ela, referindo-se ao incidente com Annabelle. – É um verdadeiro milagre não ter morrido. Não obstante a expressão angelical, o laivo de frieza nos seus olhos azuis pálidos fizeram Annabelle aperceber-se de que a jovem não teria ficado desagradada tivesse isso acontecido. – Mas já estou perfeitamente bem – disse ela, voltando-se para Kendall com um grande sorriso. – E mais do que pronta para uma nova caminhada no bosque. – Não me prestaria a um esforço desses tão cedo, se fosse a si, Miss Peyton – disse a outra num tom falsamente preocupado. – Não parece ainda totalmente restabelecida… Mas estou certa de que o tom pálido e pastoso da sua tez melhorará imenso nos próximos dias. Annabelle manteve o sorriso, recusando mostrar-se ofendida pelo comentário. Se bem que tenha ficado fortemente tentada a fazer uma observação relativa às manchas na testa da rival. – Se me dão licença… – murmurou Lady Constance, levantando-se da mesa. – Vejo ali uns apetitosos morangos frescos. Eu já volto. – Esteja à vontade – disse Annabelle num tom doce. – Mal daremos pela sua ausência. Ela e Kendall ficaram a vê-la dirigir-se à mesa do buffet, onde, por mero acaso, Mr. Benjamin Muxlow se encontrava – servindo-se de morangos de uma enorme taça. Educadamente, afastou-se da taça para deixar Lady Constance servir-se enquanto lhe segurava o prato. A atmosfera que os rodeava em nada indicava existir algo mais que simples cordialidade entre ambos, mas Annabelle lembrou-se da história que Daisy lhe contara dois dias atrás.


E foi então que se lhe ocorreu a forma perfeita de conseguir eliminar Lady Constance da competição. Antes de se deixar preocupar com as consequências, implicações morais ou quaisquer outras noções inconvenientes, chegou-se mais a Lord Kendall e sussurrou-lhe: – Aqueles dois não conseguem dissimular a verdadeira natureza da sua relação, não é mesmo? – Fez uma pausa para lançar um olhar discreto na direção do parzinho, e prosseguiu: – Mas também… claro que não seria conveniente a nenhum deles que esse facto se tornasse do conhecimento geral. – Calou-se e olhou para a expressão confusa de Lord Kendall com fingido desconforto. – Oh… lamento! Calculei que já tivesse ouvido… – Ouvido… o quê? – quis saber Kendall, olhando discretamente para a mesa do buffet. – Bom… não é que seja de modo algum dada a mexericos, mas… soube de fonte segura que há dias, no piquenique que teve lugar na margem do rio, Lady Constance e Mr. Muxlow foram vistos numa situação terrivelmente comprometedora. Parece que estavam juntos, atrás de uma árvore, e… – Calou-se com uma bem ensaiada expressão consternada. – Oh, não devia ter falado nisto. E é muito provável que tudo não tenha passado de um mal-entendido. Acontece com frequência, não é assim? Beberricando elegantemente do seu chá, Annabelle olhou para Kendall por cima da chávena. Podia ler-lhe facilmente as emoções: ele não queria acreditar que Lady Constance tivesse sido apanhada numa tal situação. Só a ideia era o suficiente para o deixar perturbado. Contudo, como verdadeiro cavalheiro que era, a Kendall jamais lhe passaria pela mente averiguar a situação. Jamais ousaria perguntar a Lady Constance se estaria de algum modo comprometida com Muxlow. Em vez disso manteria o silêncio em relação ao assunto, esforçando-se por ignorar as suas próprias suspeições… e as perguntas sem resposta ficariam eternamente a remoê-lo. – Oh, Annabelle… não de-de-devia ter feito isso! – disse-lhe Evie horas mais tarde, depois de ouvir a amiga confessar-lhe o que tinha feito. As quatro amigas estavam instaladas no quarto de Evie, com esta sentada num cadeirão, e com o rosto coberto de uma espessa camada de creme – que supostamente serviria para lhe remover as sardas. Olhando para Annabelle por debaixo da pasta esbranquiçada que lhe cobria o rosto, tentou prosseguir, mas era nítido que as suas capacidades discursivas – já de si bastante limitadas – tinham sido tolhidas pela indignação. – Pois eu penso que se trata de uma estratégia brilhante – declarou Lillian, pegando numa lima do toucador à frente do qual se sentara. Annabelle não sabia dizer se Lillian aprovava ou não a sua atitude, mas era óbvio que ela lhe seria leal até ao fim. Sentiu-se reconfortada por isso e ouviu-a prosseguir: – Não se pode afirmar que a Annabelle tenha mentido. Limitou-se a transmitir um rumor que ouviu de alguém, e tornou claro desde logo que não passava disso mesmo, um rumor. O que Kendall decidir fazer só a ele concerne. – Mas a Annabelle não lhe disse que sabe que esse rumor é infundado – contrapôs Evie. Lillian concentrou-se a limar uma unha num oval perfeito. – Ainda assim, não mentiu. Sentindo-se algo culpada e na defensiva, Annabelle olhou para Daisy. – Qual é a sua opinião? A mais jovem das Bowman, que até então se entretivera a atirar a bola de rounders de uma mão para


a outra, lançou um olhar astuto a Annabelle antes de lhe responder: – Eu penso que, em certas ocasiões, não transmitir a alguém a totalidade da informação é praticamente o mesmo que mentir. A menina entrou em terreno escorregadio, minha amiga. Cuidado com os passos que dá. A irmã olhou-a com enfado e apressou-se a retorquir: – Oh, não fales como uma vidente de feira, Daisy. Assim que Annabelle conseguir o que pretende, deixa de ter importância o modo como o conseguiu. Os resultados é que contam. E a menina, Evie, deixese de sofismas éticos. Lembre-se de que concordou em ajudar-nos a manipular Lord Kendall para uma situação de compromisso; onde é que isso é melhor do que a Annabelle espalhar um rumor, diga lá? – Mas todas prometemos não prejudicar ninguém – disse Evie com extrema dignidade, pegando numa toalha para limpar o creme do rosto. – Lady Constance não foi prejudicada – insistiu Lillian. – Ela não está apaixonada por ele. É notório que o seu interesse por Kendall é apenas por a temporada estar a terminar e ela continuar por casar. Céus, Evie, deixe de ser tão sensível. Cuida que Lady Constance é mais desafortunada que nós? Já nos viu bem? Quatro encalhadas que, até agora, nada ganharam com os seus esforços, a não ser sardas, picadas de víboras e a humilhação de se terem exposto em ceroulas em frente a Lord Westcliff. Annabelle, que estava sentada na beira da cama, deixou-se cair para trás e ficou a olhar para o tecido riscado do dossel sentindo-se cada vez mais culpada. Oh, como eu desejava ser mais parecida com Lillian… pensou. Acreditar convictamente que os fins justificam os meios. Prometeu a si própria ser profundamente honrável de futuro. Mas… tal como Lillian observara, Lord Kendall poderia acreditar no rumor ou ignorá-lo. Era um homem adulto, perfeitamente capaz de tomar as suas próprias decisões. Annabelle não fizera mais do que plantar as sementes – cabia a Lord Kendall a decisão de as regar ou deixar secar. * * * Para a noite, Annabelle vestiu um lindíssimo modelo rosa claro, feito de incontáveis camadas de gaze de seda transparente e ondulante. A cintura era extremamente cingida com um cinto de seda adornado à frente com uma enorme rosa branca. Quando Annabelle andava, as saias faziam um suave roçagar e ela ajeitava as fofas camadas exteriores, sentindo-se como uma verdadeira princesa. Demasiado impaciente para esperar por Philippa, que levava sempre uma eternidade a arranjar-se, deixou o quarto mais cedo, na esperança de ver as amigas. Com sorte encontraria Lord Kendall e arranjaria um motivo qualquer para se escapulir com ele por uns breves momentos. Defendendo muito levemente o tornozelo magoado, Annabelle percorreu o corredor que levava à enorme escadaria. Por impulso, parou à porta da sala privada dos Marsden, deixada entreaberta, e resolveu entrar. A sala estava escura, mas a luz do corredor era suficiente para iluminar os contornos da mesinha de jogo ao canto. Aproximando-se, reparou com agrado que a sua partida com Simon Hunt permanecia exatamente como eles a haviam deixado. O que quereria aquilo dizer? Que ele esperava que ela fizesse a próxima jogada? Não mexas em nada, ordenou-se… mas a tentação foi demasiado forte para resistir. Concentrou-se, analisando a situação com um novo olhar. O cavalo de Hunt estava na perfeita posição para capturar a rainha dela, o que significava que Annabelle teria de ou mover a sua peça ou defendê-la. Subitamente


apercebeu-se de como proteger melhor a rainha ameaçada – fez avançar uma torre próxima de forma a capturar o cavalo de Hunt, e assim tirá-lo do jogo. Sorrindo de satisfação, pôs o cavalo capturado de lado e saiu da sala. Desceu a longa escadaria, atravessou o átrio principal e dirigiu-se a um novo átrio – que dava acesso a uma ala com várias salas de uso comum. A carpete debaixo dos seus pés abafava qualquer som, mas subitamente Annabelle apercebeu-se de que estava a ser seguida. Sentiu um calafrio nas costas expostas e olhou por cima do ombro, para se deparar com Lord Hodgeman, que se aproximava, movendo-se com impressionante leveza para um homem daquele porte. Antes que ela pudesse reagir, sentiu-lhe os dedos fortes prenderem-se à parte de trás do cinto de seda, forçando-a a parar para que a delicada faixa não se partisse em duas. Aquilo provava até que ponto Hodgeman se tornara arrogante, não hesitando em assediá-la daquela forma num local onde qualquer um os poderia ver. Sufocada de afronta, Annabelle voltou-se para o encarar. Foi confrontada pela visão do seu corpulento torso enfiado numa camisa de cerimónia justa de mais, e o odor enjoativo e sebento da colónia dele invadiu-lhe as narinas. – Criatura deliciosa – murmurou Hodgeman, com um forte hálito a brandy. – A recuperar maravilhosamente, pelo que vejo. Que tal retomarmos a nossa conversinha de ontem, antes de eu ser tão desagradavelmente interrompido pela Mamã? – Você é revoltante – começou ela furibunda, mas ele interrompeu-lhe o chorrilho de impropérios com dois dedos brutos apertando-lhe cada lado do maxilar. – Eu conto tudo a Kendall – ameaçou-a, os lábios polposos muito juntos aos dela. – Com os devidos pormenores suculentos que o farão olhar para ti e a tua família com nojo. O corpo balofo dele empurrou o dela de encontro à parede com uma força tal que quase lhe tirou o fôlego. Fixou-lhe os olhos intensamente antes de prosseguir: – A não ser, é claro, que aceites receber-me e… acomodar-me do mesmo modo que a Mamã o faz. – Conte o que quiser e a quem quiser – disse Annabelle, os olhos carregados de puro ódio. – Contelhe tudo e acabemos com isto de uma vez. Prefiro morrer à fome numa sarjeta a acomodar um suíno repulsivo como você. Hodgeman olhou-a, incrédulo e furioso. – Vais arrepender-te – disse, salpicando-lhe o rosto com saliva. Ela sorriu-lhe com um profundo desprezo. – Não me parece. Antes de Hodgeman a largar, Annabelle apercebeu-se de um movimento pelo canto do olho. Voltou a cabeça e viu, ao longe, alguém caminhando na sua direção – um homem movendo-se com a passada furtiva de uma pantera em perseguição da sua presa. Aos seus olhos, tudo parecia indicar que ela e Hodgeman tinham sido apanhados num enlace amoroso. – Largue-me! – sibilou-lhe Annabelle, empurrando-o para trás com violência. Ele soltou-a finalmente, permitindo-lhe respirar, e lançando-lhe um olhar ameaçador antes de caminhar apressadamente na direção contrária à do homem que aí vinha. Perturbadíssima, Annabelle encarou Simon Hunt, deixando que ele a amparasse pelos ombros. Ele ficou a ver o outro afastar-se, e com um olhar tão duro – sedento de vingança, dir-se-ia – que ela sentiu o sangue gelar-se-lhe nas veias. Depois olhou para ela com uma expressão tal que a inquietou. Até então


ela nunca tinha visto Simon desprovido da sua habitual despreocupação. Por mais que ela o desdenhasse, insultasse, ou ofendesse, ele reagia sempre com um previsível e desconcertante escárnio. Mas agora parecia que ela finalmente tinha feito algo que o deixara genuinamente enfurecido. Parecia capaz de a estrangular. – Estava a seguir-me? – perguntou-lhe, esforçando-se por parecer calma, e perguntando-se como conseguira ele aparecer ali, naquele preciso momento. – Vi-a atravessar o átrio principal – disse ele –, e com Hodgeman nitidamente no seu encalço. Seguia porque quis descobrir o que raio se passa entre vós. A expressão dela passou a desafiante. – E descobriu? – Não sei – foi a sua resposta, inquietantemente calma. – Diga-me, Annabelle: quando afirmou que merecia melhor, era a isto que se referia? Oferecer os seus préstimos a este pote de banha imbecil, em troca da patética recompensa que ele lhe oferece? Nunca a julguei cretina a esse ponto! – Hipócrita maldito – murmurou-lhe Annabelle, exasperada. – Está fulo comigo por me crer amante dele e não sua! Pois agora responda-me a mim: por que razão o preocupa tanto a quem eu vendo o meu corpo? – Porque é nítido que não o quer – disse ele entre dentes. – E também não quer Lord Kendall. Querme a mim. Annabelle não conseguia entender o bulir emaranhado de emoções dentro dela, ou a razão por que este confronto a deixava estranhamente, terrivelmente emocionada. Quis bater-lhe, lançar-se sobre ele, provocá-lo até o último resquício do seu autodomínio se ver reduzido a pó. – Deixe-me adivinhar: prefere oferecer-me uma versão mais lucrativa do acordo que supostamente mantenho com Hodgeman? – Riu-se com escárnio ao ver-lhe a resposta estampada no rosto. – Pois a minha resposta é não. Posto isto, e de uma vez por todas, deixe-me em paz. Calou-se ao ouvir o tagarelar de outros convidados vindo do corredor. Exasperada e desesperada, olhou em volta em busca de uma porta pela qual se conseguisse escapulir, de modo a evitar ser vista sozinha com Hunt. Pegando-lhe num braço, este enfiou-a na sala mais próxima e fechou rapidamente a porta. Distinguindo os contornos de um piano e de um suporte com partituras, Annabelle afastou-se de Hunt com um repelão. Ele foi endireitar o suporte que ela quase deitara ao chão com a entrada intempestiva. – Se tolera ser amante de Hodgeman – murmurou-lhe ele, voltando-se para ela –, facilmente tolerará ser minha. Até pode afirmar que não se sente atraída por mim, mas ambos sabemos que está a mentir. Estipule um preço, Annabelle. Qualquer quantia que lhe venha à cabeça. Quer uma casa própria? Um barco? Vamos lá arrumar este assunto de uma vez – cansei-me de esperar por si. – Que romântico… – disse ela, com uma risadinha nervosa. – Meu Deus, a sua proposta carece absolutamente de subtileza, Mr. Hunt. E engana-se ao pensar que a minha única opção é ser amante de alguém. Consigo facilmente levar Lord Kendall a desposar-me. Os olhos dele eram tão negros quanto vidro vulcânico. – O casamento com ele só lhe proporcionaria a si uma vida de inferno. Ele jamais a amaria. Nem sequer se dignaria a conhecê-la verdadeiramente. – Não é amor que eu pretendo – disse ela, abalada por aquelas palavras. – Só quero… – Calou-se,


sentindo um doloroso aperto no peito. Olhando-lhe o rosto indecifrável, tentou de novo: – Eu só quero… Ouviu-se um ruído na porta. A maçaneta rodou. Inquieta, Annabelle apercebeu-se de que vinha alguém a entrar – e então, qualquer réstia de esperança de casar com Kendall ficaria reduzida a pó. Reagindo instintivamente, pegou no braço de Simon e puxou-o para um nicho encostado à janela, tapado por pesadas cortinas que caíam de um varão de cobre. A única peça do nicho era um longo banco de janela forrado a veludo vermelho, com uns quantos livros arrumados a um dos cantos. Fechando as cortinas atrás deles, Annabelle tapou a boca de Hunt com uma mão, no preciso momento em que alguém… ou «vários alguéns» entraram na sala de música. Ouviu-se o som abafado de vozes masculinas, e o barulho indistinto de qualquer coisa a bater, seguido de um ruído metálico que a deixou confusa – até começar a ouvir o som desafinado das cordas de um violino. Meu Deus, os músicos tinham vindo para ali afinar os seus instrumentos, antes de o baile ter início. Por ridículo que pudesse parecer, ela arriscava-se a comprometer-se em frente a uma orquestra inteira! Havia luz suficiente filtrada pelo topo da cortina para se conseguir distinguir as feições de ambos – o suficiente para Annabelle identificar nitidamente o sorriso maligno que bailava no olhar de Simon. Uma palavra, um som que fosse, proferido da boca dele naquelas circunstâncias incriminatórias, ser-lhe ia fatal. Pressionou ainda mais a mão sobre a boca de Hunt, os seus olhos a escassos centímetros dos dele, e lançou-lhe um olhar capaz de o fulminar. As vozes dos músicos misturavam-se com o som dos instrumentos a serem afinados, notas dispersas e desafinadas que logo a seguir se harmonizavam, a dissonância virando ordem. No pânico de ser apanhada, Annabelle fixava cegamente as cortinas, segurando-as para as manter cerradas. Sentia o bafo cálido dele sob a sua mão e olhou-o de relance. Apercebeu-se de que o sorriso malicioso no olhar fora substituído por uma expressão só por si bem mais alarmante. Sentiu-se gelar, o coração acelerando dolorosamente, vendo-o erguer lentamente uma mão. Os dedos dela mantinham-se cravados na sua boca… até que ele começou a afastar-lhe os dedos, delicadamente, um a um, começando pelo mindinho. Depois sentiu-lhe o outro braço estreitando-lhe a cintura e foi como se uma descarga elétrica a percorresse. Estava irremediavelmente presa, indefesa, impossibilitada de o impedir de fazer o que muito bem lhe aprouvesse. Sentiu o último dedo a ser afastado, e Hunt puxou-lhe a mão para baixo e agarrou-lhe a nuca. Ela enfiou-lhe os dedos pela manga do casaco, puxando-a, tentando libertar-se. Ele não estava a magoá-la, mas tornava-lhe impossível mover-se ou resistir. Ao vê-lo baixar a cabeça, Annabelle abriu inconscientemente os lábios, soltando um breve suspiro. E foi então que tudo ficou escuro. Ele tinha a boca na dela, suave mas firme, exigindo-lhe uma reação. Ela sentiu-se febril, ardendo por dentro, impotente perante o ataque de um desejo como jamais sentira. A recordação daquele longínquo e único beijo não era nada quando comparado a isto… talvez porque ele tinha deixado de ser um estranho para ela. Desejava-o com um desespero que a aterrorizava. A pressão dos lábios dele aflorando os dela, perdendo-se pelo seu queixo, pelas suas faces, deixando um rasto de fogo suave por onde passava, antes de lhe regressar à boca, já com um prazer mais explícito. Sentiu-lhe a ponta da língua contra a sua, num toque suave e tão inesperado que a teria feito desfalecer se não estivesse tão presa a ele. A elegante cacofonia da orquestra ressoava nos ouvidos dela, fazendo-a alertar-se pela iminente possibilidade da descoberta. Esforçou-se por descontrair nos braços dele, tremendo da cabeça aos pés.


Naquele momento deixá-lo-ia fazer o que quisesse, o que quer que fosse, desde que ele não traísse a presença de ambos. Hunt voltou a saboreá-la, procurando-a com subtis toques de língua. Chocou-a aquela exploração tão íntima, e ainda mais chocada ficou perante as incríveis sensações que lhe atacavam as zonas vulneráveis do corpo. Sentiu-se acometida de uma deliciosa fraqueza, e estremeceu nos braços dele, as mãos agarrando-lhe o pescoço, afagando-lhe o cabelo, sentindo-lhe as madeixas suaves e fortes entre os dedos. Aquele gesto fê-lo soltar um arquejo incontido, como se o toque dela o tivesse afetado seriamente. Hunt levou-lhe uma mão ao rosto, afagando-lhe a face, o polegar roçando-lhe suavemente o lábio superior, depois o inferior, provocando-lhe pinceladas de calor, suaves como penas. Compulsivamente, ela pressionou-lhe a cabeça para baixo, convidando-o a explorá-la, e quando lhe sentiu os lábios na suave linha que lhe unia o pescoço ao colo, quase deixou soltar um gemido. Mas antes de o som conseguir escapar-se, tinha já a boca dele na sua, calando-a docemente. Sentiu-lhe o rápido subir e descer do peito firme, e o seu sopro quente de encontro ao cabelo. Agarrando-lhe a massa de caracóis apanhados na nuca, Hunt puxou-lhe a cabeça para trás para lhe expor a garganta. O trilho ardente dos lábios dele teve início na covinha logo abaixo da orelha direita, despertando-lhe nervos sensitivos até então desconhecidos, enquanto lhe percorria com a língua a delicada linha da veia. Os dedos dele escorregaram-lhe para a curva do ombro, o polegar encontrandolhe o contorno da clavícula, a mão aberta explorando a frágil arquitetura do seu corpo. Empurrando-o desesperadamente, Annabelle conseguiu distraí-lo por uns breves segundos, após os quais ele lhe tomou a boca com um novo beijo arrebatado. A mão de Simon acariciou a seda que lhe cobria o peito, uma vez e outra e outra. A cada carícia lenta, o calor da mão dele queimava-a através do fino tecido. Sentindo-lhe o mamilo intumescer, ele apertou-o docemente com as costas dos dedos até quase o fazer explodir. A pressão crescente do beijo dele forçou-lhe a cabeça para trás, numa postura rendida, expondo-se à carícia prolongada daquela língua, à engenhosa pesquisa daquelas mãos. Aquilo não devia, não podia estar a acontecer, o corpo dela consumido por uma energia sensual que jamais imaginara possuir. Ele fê-la esquecer tudo, naqueles silenciosos e febris momentos – perdeu a noção do tempo, do espaço, e até de quem era. Tudo o que sabia era que precisava de estar nos braços dele, mais junto, mais fundo, mais estreito… a sua pele, os seus músculos fortes, a sua boca perscrutando cada parte do corpo dela. Puxou-lhe a camisa até a ver fora das calças, a mão revolvendo o linho branco, numa busca desesperada pelo calor da sua pele. Hunt pareceu entender que ela não tinha qualquer experiência em controlar aquele nível de desejo – os beijos dele tornaram-se mais suaves, as mãos afagaram-lhe as costas num gesto tranquilizador. Contudo, quanto mais ele tentava acalmar-lhe o desejo, pior ele se tornava, a boca dela movendo-se desesperadamente sob a dele, o corpo contorcendo-se num ritmo ansioso. Finalmente ele decidiu-se por afastar a boca da dela e estreitá-la num forte abraço, os lábios cravados na curva ruborizada do seu pescoço, do seu ombro. Annabelle sentia-se absurdamente grata pela brutalidade daquele abraço, os braços dele formando ondas compactas de músculo que controlavam o violento tremor do corpo dela. Permaneceram assim pelo que lhes pareceu uma eternidade, até Annabelle tomar consciência de que a sala ficara em silêncio. Aparentemente, nos últimos cinco minutos os músicos tinham acabado o seu trabalho de preparação, deixando-os finalmente sozinhos. Cautelosamente, Hunt moveu a cortina e, ao constatar que estavam de facto sós, voltou novamente as


atenções para Annabelle, afastando com o polegar um caracol que lhe caíra para a testa. – Eles já se foram – sussurrou-lhe. Demasiado atordoada para ter um pensamento coerente, ela fitou-o em silêncio. As pontas dos dedos dele acariciaram-lhe a face escaldante, o doce almofadado dos lábios. Sentindo o corpo insaciado, tentou ceder à tentação de o incentivar – acometida de um súbito rasgo de lucidez que a alertou para o facto de aquele ser o momento certo para se afastar dele, ou o estranho desaparecimento dos dois em breve seria notado. Mas para seu profundo desespero, ficou quieta, o corpo faminto absorvendo as incessantes carícias a que Hunt insistia em não pôr cobro. Sentiu-lhe de novo as mãos arranhando-lhe suavemente as costas e, desta vez, ela não conseguiu calar a emoção; gemeu e soltou soluços breves que a sufocavam, sentindo um profundo alívio quando o corpete cilhado lhe foi desapertado. O desenho do decote do vestido impossibilitava-lhe o uso de um corpete com copas – ao que ela optara por usar um modelo de corte sobre o busto, que lhe deixava os seios livres debaixo da camisa. Sem nunca deixar de a beijar, Simon fê-la deitar-se sobre o banco de janela. Susteve-a no colo, os dedos ágeis baixando-lhe o corpete, e soltando murmúrios de prazer ao descobrir-lhe a plenitude dos seios. Subitamente angustiada pela perceção do que lhe estava a permitir, Annabelle agarrou-lhe debilmente o pulso. Ele ergueu-lhe ligeiramente mais o corpo, e esmagou os lábios no meio do peito dela, onde o coração batia num ritmo forte e irregular. Os braços fortes de Simon sustiveram-lhe o arquear das costas, enquanto ele descia os lábios para os seus seios, trémulos e cheios. Só de lhe sentir o bafejo no mamilo, enfraqueceu e deixou de tentar resistir-lhe, cerrando os punhos contra os ombros dele. Quando ele lho sugou, num misto estranho de voracidade e doçura, até o sentir molhado e hirto, Annabelle sentiu o sangue das veias transformar-se literalmente em mel. Ouviu-o sussurrar-lhe palavras ternas, enquanto lhe acariciava o seio com a palma da mão, passando o polegar pela rosácea resplandecente. Murmurando incoerências, ela rodeou-lhe o pescoço com os braços, e suspirou ao sentirlhe a boca fechar-se sobre o outro mamilo. Uma nova e estranha urgência invadiu-a, algo que lhe fez o corpo retesar-se ritmadamente no colo dele. Hunt via-se atormentado pela mesma necessidade urgente – ela podia sentir-lhe o ímpeto do seu ritmo cardíaco. Ainda assim, ele parecia bem mais apto a refrear a própria paixão do que ela, mantendo os movimentos das mãos e da boca calmos e controlados. Annabelle sentia-se atabafada no meio de tanta roupa, os dedos cravados no casaco e no colete dele – demasiadas roupas, por todo o lado. Estava enlouquecida pelo desejo de sentir a sua pele na dele. – Calma, querida… – murmurou-lhe ele. – Sossegue. Não, deixe-se ficar quieta nos meus braços… Mas ela não conseguia que o corpo lhe obedecesse, não tinha como controlar o retorcer das ancas e as súplicas que lhe saíam incontrolavelmente da boca. Subitamente, e sem deixar de lhe segredar palavras ternas, Hunt começou a ajustar-lhe as roupas, erguendo-a suavemente como a uma boneca, começando a apertar-lhe as costas do vestido. A dada altura, soltou uma risada suave, vacilante, como se os seus próprios atos o divertissem. Refletindo mais tarde em tudo aquilo, ela concluiu que ele estaria tão atordoado quanto ela; mas agora, face àquela descarga de desejo frustrado, Annabelle não conseguia pensar direito. E à medida que o desejo lhe foi abandonando paulatinamente o corpo, deixou-lhe também um desagradável resquício de vergonha. Livrou-se dele, afastando-se com as pernas a tremer. À mente vieram-lhe apenas duas palavras – que quebraram o terrível silêncio. Sem sequer olhar para ele, murmurou com voz rouca:


– Nunca mais. Empurrando as pesadas cortinas, deixou a sala de música o mais rapidamente que conseguiu, precipitando-se pelo corredor.


Capítulo 17

Depois de Annabelle deixar a sala de música, Simon deixou-se lá ficar uma boa meia hora, esforçando-se por acalmar aquela paixão avassaladora, deixando o sangue escaldante arrefecer. Compôs as roupas e passou a mão pelo cabelo, considerando o que fazer a seguir. Annabelle, murmurou, mais confuso e perturbado do que alguma vez se sentira. O simples facto de ser uma mulher a deixá-lo naquele estado era exasperante. Logo ele, considerado por muitos um hábil negociador, extremamente disciplinado, fizera-lhe uma proposta a todos os níveis desastrosa e, para cúmulo, tinha sido rotundamente rejeitado. E bem o merecera, diga-se. Nunca deveria tê-la incitado a estabelecer um preço antes de a deixar admitir que o desejava. Mas só a suspeita de que ela poderia ter dormido com Hodgeman… – Hodgeman, de todos os homens possíveis – tinha-o deixado desvairado de ciúme, arruinando-lhe todas as suas destrezas e talentos. Recordando o que sentira ao beijá-la, ao finalmente poder acariciar a quente suavidade daquela pele, Simon sentiu de novo a ameaça do desejo tomar conta de si. Com a sua já longa experiência, julgou serem-lhe já familiares todas as sensações físicas possíveis e imagináveis. Mas tudo aquilo o forçara a concluir que dormir com Annabelle representaria uma experiência absolutamente distinta, que envolveria não apenas o corpo mas também as emoções. Emoções tão alarmantes que ainda não conseguia sequer considerá-las. A atração entre ambos tornara-se perigosa – não menos para ele do que para ela. E era claro que ele necessitava absolutamente de ganhar perspetiva sobre aquela situação. Naquele momento, contudo, não conseguia pensar claramente. Soltando uma praga surda, saiu da sala de música, compondo o nó da gravata de seda preta. Sentia os músculos tensos, tolhendo-lhe a habitual passada decidida, e fazendo-o sentir-se predatório e potencialmente violento ao dirigir-se ao salão de baile. A perspetiva de ter de participar em mais uma soirée social era de enlouquecer. A sua tolerância a festas que se prolongavam noite fora nunca fora grande – não era homem dado a entretenimentos frívolos ou a longas horas de conversa indolente. Não fosse pela presença de Annabelle em Stony Cross Park, já teria partido há muito. Meditativo e melancólico, entrou no salão de baile e olhou ansiosamente à sua volta. O seu olhar captou de imediato a visão de Annabelle, sentada a um canto, com Lord Kendall a seu lado. Kendall mostrava-se visivelmente enfeitiçado por ela, o olhar fascinado não deixando dúvidas quanto ao seu interesse. Algo ruborizada, Annabelle parecia apagada e distante, com aparente dificuldade em fixar o olhar adorador do outro. Falava pouco, sentada com as mãos firmemente entrelaçadas no colo. Simon deteve-se a observá-la, de olhos semicerrados. Ironicamente, agora que Annabelle se sentia diminuída e pouco segura de si, a


atração que Kendall sentia por ela parecia finalmente enraizar-se. Seria certamente uma chocante surpresa para ele – caso Annabelle conseguisse efetivamente fisgá-lo – descobrir que a sua esposa não era de todo a jovem tímida e ingénua que aparentava ser. Era uma mulher de espírito forte e apaixonado, uma criatura decididamente ambiciosa – e que precisava de um companheiro à sua altura. Kendall jamais conseguiria manejá-la. Era demasiado cavalheiro para Annabelle – demasiado brando e ponderado, e demasiado inteligente no pior sentido. Ela jamais o respeitaria, nem retiraria o menor prazer das suas virtudes. Acabaria por desprezá-lo pelas mesmas razões que a deveriam levar a admirá-lo… e a Kendall iriam desagradar certamente as qualidades de Annabelle de que Simon tanto apreciaria poder usufruir. Afastando o olhar do parzinho, Hunt dirigiu-se ao extremo oposto da sala, onde Westcliff e alguns amigos confraternizavam. Ao vê-lo chegar, o conde saudou-o. – Como está o meu amigo? Divertido? – Não particularmente – disse Simon, enfiando as mãos nas algibeiras do casaco e olhando em volta com ar desinteressado. – Concluí que já estou em Hampshire há demasiado tempo, e preciso de regressar a Londres para saber como vai a fábrica. A pergunta que se impunha não tardou a chegar. – E quanto a Miss Peyton? – disse Westcliff em voz baixa. Simon considerou a pergunta por uns breves segundos. – Creio – disse num tom suave – que vou ter de esperar para ver qual o resultado final da sua perseguição a Kendall. O conde respondeu-lhe com um breve aceno, antes de indagar. – Assim sendo, quando conta regressar a Londres? – Amanhã bem cedo – disse Simon sem evitar um suspiro de desalento. Westcliff sorriu-lhe amistosamente. – A situação vai desintricar-se por si própria, meu caro – disse-lhe em tom prosaico. – Volte para Londres, sim, e regresse assim que tiver essas ideias mais claras. Annabelle parecia não conseguir vencer a melancolia que a envolvia como um manto de gelo. Tinha dormido muito pouco e muito mal, e praticamente não tocara no sumptuoso primeiro almoço servido lá em baixo. Lord Kendall havia reparado no seu ar cansado e pálido, bem como no seu silêncio e quietude de movimentos, mas atribuía tudo isso aos efeitos persistentes da doença recente, cumulando-a de mimos e atenções até a deixar irritada ao ponto de desejar enxotá-lo de junto de si. De igual modo, as amigas mostravam-se maçadoras na sua simpatia, e pela primeira vez desde que as conhecera Annabelle não retirou o menor prazer da alegre tagarelice de grupo. Tentou identificar o momento em que o seu estado de espírito se tornara tão azedo, e concluiu que tinha sido ao saber, pela boca de Lady Olivia, que Simon Hunt deixara Stony Cross. – Mr. Hunt regressou a Londres devido aos seus negócios – comentara a anfitriã em tom ligeiro. – A verdade é que ele nunca fica por cá muito tempo… até me admira não ter partido mais cedo. Não há pó que assente naquela alminha, essa é que é essa… Quando alguém lhe perguntou a razão de uma partida tão precipitada, Lady Olivia limitou-se a sorrir e a abanar a cabeça. – Oh, Simon Hunt surge e desaparece como um gato vadio. E as suas partidas são sempre abruptas e inesperadas; ao que parece, tem asco a qualquer sorte de despedidas.


Hunt tinha partido sem uma palavra, e em resultado disso Annabelle sentia-se abandonada e ansiosa. Lembranças da noite anterior – oh, noite hedionda! – persistiam em atormentar-lhe a mente. Após os acontecimentos na sala de música, ela tinha ficado tão desorientada, tão assoberbada por pensamentos sobre Simon Hunt, que parecia não conseguir fixar-se no aqui e agora. Nessa noite persistira em manter a cabeça baixa, de modo a evitar captar uma visão inesperada de Simon, e rezara silenciosamente para que ele não se aproximasse dela. Felizmente, ele optara por manter a distância – enquanto Lord Kendall fizera questão de se plantar firmemente ao lado dela. E tinha passado o resto do serão a dissertar sobre assuntos que ela desconhecia e que, muito francamente, não podiam desinteressá-la mais. Annabelle limitara-se a encorajá-lo com murmúrios e monossílabos de delicadeza, meios-sorrisos e vagos olhares, e até chegou a considerar que devia estar grata por ser merecedora de tanta atenção. Mas a verdade é que apenas desejava que ele a deixasse sossegada. E agora, a sua postura contida e reservada ao primeiro almoço apenas servira para atrair ainda mais as atenções de Lord Kendall. Crendo que a atitude ausente e apagada da amiga não passava de um genial artifício, Lillian Bowman sussurrava-lhe agora ao ouvido: – Bom trabalho, Annabelle. Tem-no a comer das suas mãos. Incomodada, Annabelle pediu licença e retirou-se da mesa sob o pretexto de precisar de repouso. Vagueou sozinha pela mansão até chegar à ala reservada. Entrou na salinha e sentiu-se desde logo atraída pela mesa de jogo. Aproximando-se lentamente, perguntou-se se a governanta já teria arrumado as peças, ou se alguém teria interferido no jogo. Não, estava exatamente como eles a deixaram… com uma ínfima diferença: Simon Hunt movera um peão para uma posição defensiva, permitindo-lhe a ela estabelecer a sua própria defesa ou, numa jogada mais ousada, perseguir-lhe a rainha. Aquela não era uma jogada previsível nele. Annabelle julgou-o capaz de uma tentativa um tanto mais ambiciosa. Mais controversa. Estudando o tabuleiro, esforçou-se por lhe entender a estratégia. Teria sido aquela jogada fruto de indecisão ou puro descuido? Ou teria ele um objetivo oculto que ela não conseguia alcançar? Annabelle estendeu a mão para o tabuleiro, hesitou, e retirou-a. É só um jogo, disse para si mesma. Estava a atribuir demasiada importância a tudo aquilo, como se estivesse em causa um prémio de capital importância. Ainda assim, reconsiderou a sua decisão com todo o cuidado antes de estender novamente a mão. Fez avançar a rainha e capturou o peão dele, sentindo uma onda secreta de satisfação ao bater as peças uma na outra, o marfim de encontro ao ónix. Pegando no peão cativo, sopesou-o por um segundo antes de o deixar de lado no tabuleiro. À medida que a semana foi passando, aconteceu que o tabuleiro de xadrez passou a constituir a exclusiva distração de Annabelle, o seu único e solitário momento de prazer. Nunca na sua vida se tinha sentido assim… nem feliz, nem infeliz, nem sequer minimamente preocupada com o futuro. Apenas entorpecida, os sentidos e as emoções de tal modo adormecidos que a fazia perguntar-se se alguma vez voltaria a preocupar-se com alguma coisa. A sensação de desprendimento era tão forte que por vezes ela parecia elevar-se sobre si própria, vendo cá em baixo uma boneca movendo-se mecanicamente, dia após dia. Lord Kendall procurava-a com uma frequência crescente… dançaram juntos num baile, sentaram-se lado a lado numa soirée musical, e passearam pelos jardins de Stony Cross, acompanhados por Philippa a uma prudente distância. Kendall era aprazível, respeitador e discretamente encantador. Era, aliás, de tal forma tolerante que Annabelle chegou a considerar que quando ela e as outras encalhadas lhe


assentassem a estocada final, talvez ele não ficasse excessivamente abalado – ao ver-se forçado a casar com uma rapariga com quem se tinha inadvertidamente comprometido. Eventualmente acabaria por se habituar – e a sua faceta filosófica levá-lo-ia até a arranjar uma forma de aceitar a situação. Quanto a Hodgeman, era nítido que Philippa conseguira mantê-lo afastado de Annabelle. Mais importante ainda, ela tinha-o de alguma maneira convencido a não levar avante a ameaça de as desmascarar perante Lord Kendall – ainda que não tivesse comentado com a filha o preço de uma tal negociação. Apreensiva com os efeitos que aquela constante ansiedade poderiam ter na mãe, Annabelle tentou abordar a possibilidade de deixarem Stony Cross Park. Contudo, Philippa nem a quis ouvir. – Deixa que eu lide com Hodgeman, minha filha – disse ela, firmemente. – E limita-te a manter acesa a chama entre ti e Lord Kendall. É óbvio para toda a gente que ele já está enfeitiçado. Se ao menos Annabelle pudesse apagar da mente a memória da aventura na sala de música… sonhava com isso de noite e de manhã acordava atormentada, com os lençóis enrodilhados entre as pernas e a pele ardendo de desejo. Não conseguia deixar de o recordar, o seu toque, o seu odor, os beijos arrebatadores… a firmeza do corpo dele sob o elegante fato de noite preto. Apesar da promessa das encalhadas de nada ocultarem umas às outras sobre as suas aventuras românticas, Annabelle não foi capaz de se confidenciar a nenhuma delas. O que sucedera entre ela e Simon Hunt era demasiado íntimo, excessivamente pessoal. Para ela demasiado forte para ser esquadrinhado por amigas ávidas de emoções – e tão desconhecedoras dos homens e do amor quanto ela. E mesmo que ela tentasse exprimir-lhes a sua experiência, Annabelle estava certa de que elas jamais a entenderiam na sua plenitude. Não havia palavras que conseguissem descrever uma tal intimidade, tão arrebatadora de corpo e de alma, e muito menos a confusão devastadora que ela gerara. Como em nome de Deus era possível ela sentir-se assim em relação a um homem que sempre desprezara? Ao longo de dois penosos anos ela tremera de repulsa só de o ver em acontecimentos sociais – considerando-o a criatura mais desagradável com quem jamais privara. E agora… agora… Afastando pensamentos indesejados, Annabelle resolveu nesse dia refugiar-se na sala privada dos Marsden, no intuito de distrair a sua mente conturbada com uma boa leitura. Debaixo do braço levava um pesado volume com o pomposo título Royal Horticultural Society – Findings and Conclusions of Reports Submitted by Our Respected Members in the Year 18433, gravado na capa a letras douradas. O livro tinha o peso de uma bigorna, e Annabelle deu por si a pensar como era possível tantas almas de Deus terem tanto a dizer sobre plantas. Poisando o livro na mesinha de apoio, Annabelle instalou-se no canapé junto à janela, até que qualquer coisa lhe despertou a atenção. Algo se tinha passado entretanto no tabuleiro de xadrez. Ou seria apenas imaginação sua? De olhos semicerrados de curiosidade, dirigiu-se à mesinha de jogo e observou atentamente a configuração das peças de xadrez – que supostamente se teria mantido inalterada toda a semana. Sim… havia algo de diferente. Ela tinha usado a sua rainha para capturar o peão de Simon. Mas agora, a rainha havia sido retirada e colocada ao lado do tabuleiro. Ele voltou, pensou ela num súbito estremecimento de emoção. Estava certa de que Simon Hunt era a única pessoa passível de ter tocado naquele tabuleiro. Ele estava ali, em Stony Cross. Empalideceu e estremeceu de suores frios. Plenamente consciente de que aquela reação era manifestamente exagerada, esforçou-se por se recompor. O regresso dele não significava coisa alguma – ela não o queria, não podia tê-lo, tinha de o evitar a todo o custo. Fechando os olhos, inspirou profundamente e concentrou-se em


regularizar a pulsação, ordenando ao coração que abrandasse o seu ritmo recalcitrante. Quando finalmente se sentiu recuperada, olhou para o tabuleiro tentando compreender a última jogada de Hunt. Como teria ele conseguido capturar-lhe a rainha? Num ápice mental, relembrou a localização prévia das peças. Até que percebeu… astutamente, ele aliciara-a a avançar com o peão defensivo, deixando-a na posição perfeita para ser capturada pela sua torre. E com a rainha eliminada, o rei ficava desde logo ameaçado e… Ele deixara-a em xeque, absolutamente vulnerável. Tinha-a ludibriado com o seu modesto peão, e ela estava agora em perigo iminente. Soltando uma risada incrédula, Annabelle afastou-se da mesa de jogo e deambulou pela sala. Uma série de possíveis estratégias defensivas percorreram-lhe a mente, tentando decidir qual delas seria, para ele, a mais inesperada. Respondendo ao seu instinto, aproximou-se da mesa e debruçou-se sobre o tabuleiro, sorrindo ao antever a reação de Hunt ao deparar-se com aquele contra-ataque. Contudo, e ao estender a mão para a peça pretendida, a onda de excitação esmoreceu totalmente e o rosto empederniu-se. O que estava ela a fazer? Continuar este jogo, tentar manter esta frágil comunicação entre eles, era inútil. Não… era perigoso. E não havia sequer como escolher entre segurança e catástrofe. A mão dela tremeu ligeiramente ao pegar nas peças, lentamente, uma por uma, arrumando-as cuidadosamente na caixa, e pondo um fim definitivo à partida. – Desisto – afirmou em voz alta, engolindo em seco perante a inevitabilidade que a palavra encerrava. Não era tonta ao ponto de se permitir desejar algo… alguém… tão claramente inadequado para ela. Ao fechar a bonita caixa de mogno, afastou-se da mesa de jogo e ficou a olhar para ela por uns momentos. Sentia-se derrotada, profundamente cansada, mas determinada. Esta noite. A corte ainda tão ambígua entre ela e Lord Kendall teria de ficar definida – e, quisesse Deus, concretizada – ainda esta noite. A temporada em Stony Cross estava prestes a chegar ao fim, e agora que Simon Hunt regressara, ela não podia arriscar-se a deitar tudo a perder com uma nova complicação com ele. Endireitando as costas, deixou a sala para ir ter com Lillian. Juntas, acabariam por conceber um novo e derradeiro plano. E o serão não terminaria sem que se visse oficialmente proclamado o noivado de Annabelle Peyton com Lord Kendall.

3 Real Sociedade Hortícola – Achados e Conclusões em Relatos Apresentados por Nossos Respeitáveis Membros no Ano de 1843. (N. T.)


Capítulo 18

– O segredo está tão-somente na oportunidade – declarou Lillian, os olhos castanhos brilhando de entusiasmo. Certamente que nenhum oficial militar teria conduzido uma campanha atacante com a mesma determinação que Lillian agora demonstrava. As quatro encalhadas estavam sentadas no terraço das traseiras, com copos de limonada fresca à sua frente, e dando ideia de estarem num ambiente de total indolência – quando na realidade planeavam detalhadamente e com todo o cuidado o serão que se avizinhava. – Eu vou sugerir, ainda antes do jantar, darmos um passeio pelos jardins para nos despertar o apetite – disse Lillian a Annabelle. – E, claro está, Daisy e Evie concordarão. Posto isto, levamos connosco a Mamã e a tia Florence e quem quer que nos rodeie no momento, e com alguma sorte, assim que chegarmos à clareira junto ao pomar de pereiras, a menina será vista in flagrante delicto com Lord Kendall. – E o que é isso do flagrante delicto, não nos dirás? A mim soa-me a ilegalidade. – Não sei precisamente o que é – admitiu a irmã. – Mas li o termo num romance que li há tempos e… estou plenamente convicta de que se trata da manobra certa para comprometer fatalmente uma rapariga. Annabelle respondeu-lhe com um risinho abafado, desejando sentir metade do entusiasmo das amigas por toda aquela situação. Uma escassa quinzena atrás, ela estaria tão extasiada e empolgada quanto elas, se não mesmo mais. Mas agora… tudo lhe parecia estranhamente errado. Não sentia a menor emoção pela perspetiva de finalmente fisgar um membro da nobreza para o casamento. Não sentia alegria ou alívio ou algo de remotamente positivo. Parecia-lhe, isso sim, um desagradável dever que ela tinha de levar a cabo. Esforçou-se por ocultar das amigas a sua apreensão, vendo-as maquinar, calcular e planear com a perícia de verdadeiras conspiradoras. Ainda assim, Annabelle ficou com a nítida sensação de que Evie, sem dúvida a mais observadora do grupo, se apercebera das verdadeiras emoções por detrás da máscara que ela ostentava. – É me-me-mesmo isto que quer, Annabelle? – perguntou-lhe docemente, os olhos azuis plenos de preocupação. – Não tem de o fazer, se-seguramente. Trataremos de lhe arranjar outro pre-pretendente, caso não esteja realmente interessada em Kendall. – Não há tempo para isso – retorquiu Annabelle com um suspiro. – Não. Tem mesmo de ser Lord Kendall, e terá de ser esta noite, antes que… – Antes que…? – indagou Evie, olhando Annabelle com uma expressão confusa. O sol iluminava-lhe a profusão de sardas leves, fazendo-as brilhar como pó doirado na tez acetinada.


Perante o silêncio de Annabelle, insistiu suavemente: – Antes que quê, minha amiga? As manas Bowman trocavam ideias animadamente, debatendo a questão de o pomar de pereiras ser ou não o local ideal para emboscar Lord Kendall. E no momento em que Annabelle julgou que Evie tinha desistido e esquecido o assunto, ouviu-a murmurar: – A menina já soube do regresso de Mr. Hunt, na noite passada? – Como soube? – Disse-mo a tia Florence. Fixando-lhe o olhar perspicaz, Annabelle não pôde deixar de pensar que era uma tolice a toda a prova alguém subestimar a inteligência de Evangeline Jenner. – Não, não sabia – murmurou. Inclinando levemente copo de limonada, Evie observou com ar pensativo o líquido turvo de açúcar. – Pergunto-me porque não lhe terá ele cobrado a… di-di-dívida do beijo – comentou. – Depois de totodo o interesse que ele demonstrou por si… Os olhares de ambas cruzaram-se por fim, e Annabelle sentiu-se enrubescer. Os olhos dela imploraram a Evie que se calasse, e esta assentiu com um rápido baixar de cabeça. Tornou-se óbvio que entendera. – Annabelle – disse lentamente –, importa-se muito que eu não acompanhe as outras no plano de fisgar Lord Kendall? Haverá certamente su-su-suficientes testemunhas, já que Lillian vai certificar-se de arrastar com ela uma ver-ver-verdadeira multidão até ao… local do crime. Creio que a minha presença será des-desnecessária. – É claro que não me importo – disse Annabelle, indagando com um sorriso tímido. – Por questões de ordem ética, imagino? – Oh, não… Não estou a querer ser hipócrita, admito facilmente a minha culpa por associação… E quer apareça esta noi-noite no jardim, quer não, eu fa-faço parte do plano. Mas… – Fez uma pausa e prosseguiu, num murmúrio: – Não a creio realmente interessada em Lord Kendall. Não como homem, não por aquilo que ele verdadeiramente é. E agora… tendo vindo a conhecê-la um pou-pouco melhor… não acredito que este ca-casamento a vá fazer feliz. – Mas vai, Evie, creia-me. Vai, sim – argumentou Annabelle enfaticamente, o elevar súbito do tom de voz despertando a atenção das manas Bowman. Interromperam a conversa e olharam-na, curiosas. – Nunca ninguém se aproximará tanto do meu ideal de marido quanto Lord Kendall. – Ele é perfeito para si – Lillian concordou com veemência. – Só espero que não esteja a querer deixar Annabelle com qualquer tipo de dúvida, Evie. Já é tarde para isso. Não vamos deitar por terra um plano perfeito, agora que já praticamente podemos aclamar vitória. Evie abanou a cabeça com convicção, parecendo encolher-se na cadeira. – Não, não… eu não esta-ta-tava a que-querer coisa alguma – murmurou, lançando a Annabelle um olhar pesaroso. Esta lançou-se de imediato em defesa da amiga. – É claro que não estava – afirmou, sorrindo-lhe. – Bom, e que tal se revíssemos o plano mais uma vez, meninas? Lord Kendall reagiu com enorme agrado quando Annabelle Peyton o encorajou a uma escapadela de


final de tarde para um passeio pelos jardins. A luz do crepúsculo atribuía uma leveza ao ambiente, estendendo-se pela propriedade a perder de vista. Com a maioria dos convidados ainda a arranjar-se para o serão, ou em ameno convívio no salão e na sala de jogo, os jardins da mansão encontravam-se praticamente desertos. Nenhum homem no seu juízo perfeito ficaria com dúvidas sobre as intenções de uma rapariga, se ela lhe sugerisse um passeio sem acompanhante naquelas circunstâncias. E pelos vistos, a Kendall não lhe desagradava nada a perspetiva de um ou outro beijo roubado. Assim, de bom grado se deixou conduzir sedutoramente por Annabelle. Os dois percorreram calmamente os trilhos que ladeavam o jardim, e rodeando o enorme muro de pedra seca coberto de rosas trepadeiras. – Creio que deveríamos ter uma acompanhante – disse ele com um breve sorriso. – Tudo isto me parece decididamente indecoroso, Miss Peyton. Ela encandeou-o com um sorriso radioso. – Ora… deixe-se escapulir comigo por um momento – disse-lhe em tom sedutor. – Ninguém irá reparar. Ao vê-lo vencer aos poucos a renitência inicial, Annabelle sentiu-se esmagada pelo peso da culpa. Aquilo era como conduzir um cordeiro para o matadouro. Kendall era um excelente homem – não merecia ser ludibriado, conduzido para a fatalidade de uma união forçada. Se ao menos ela tivesse tido mais tempo, quem sabe as coisas não progrediriam naturalmente – ao ponto de lhe conseguir arrancar uma genuína proposta de casamento? Mas estavam já no último fim de semana da temporada, e era imperativo ela levá-lo a tomar uma decisão. E se acaso ela pudesse pura e simplesmente saltar esta parte, que lhe era tão penosa, as coisas seriam deliciosamente simples a partir de então. Annabelle, Lady Kendall… já se via uma jovem e respeitável matrona, vivendo no glorioso mundo da sociedade de Hampshire, com viagens ocasionais a Londres, e recebendo calorosamente o irmão na chegada das férias do colégio. Annabelle, Lady Kendall, teria meia dúzia de crianças loiríssimas, os meninos de óculos como o pai, verdadeiramente encantadores. E Annabelle, Lady Kendall, tornar-se-ia uma esposa dedicada e passaria o resto dos seus dias a tentar expiar a sua culpa por ter ludibriado o marido, forçando-o a casar com ela. O parzinho chegou finalmente à clareira da extremidade do pomar de pereiras, parando em frente a uma mesa redonda de madeira, disposta no centro de um círculo de cascalho. Kendall olhou para Annabelle, ligeiramente encostada ao rebordo da mesa, numa pose estudada. Atreveu-se a tocar-lhe numa mecha solta que lhe caía sobre o ombro, admirando-lhe os reflexos dourados sobre o tom castanho pálido. – Miss Peyton… – murmurou-lhe. – Creio ser-lhe já evidente a predileção que fui desenvolvendo pela sua companhia. O coração de Annabelle, a esta altura já bastante acelerado, pareceu querer saltar-lhe da garganta, ao ponto de ameaçar sufocá-la. – Eu… eu também já me habituei a retirar um enorme prazer dos nossos momentos, das conversas, dos passeios… – conseguiu dizer a custo. – Como é adorável… – sussurrou-lhe ele, chegando-se a ela. – Nunca vi um azul tão belo quanto o dos seus olhos. Poucos meses atrás, Annabelle teria ficado louca de alegria por isto estar a acontecer. Kendall era um homem encantador, para além de atraente, jovem e são, e… titular… oh, mas que diabo se passava com


ela, então? Sentia uma incontrolável relutância, de corpo e de alma, ao senti-lo inclinar-se sobre o seu rosto tenso e ruborizado. Agitada, perplexa, esforçou-se por ficar quieta, pronta para o que aí vinha. Contudo, antes que os seus lábios se unissem, Annabelle não conseguiu evitar afastar-se dele com um arquejo surdo, e voltando-lhe as costas. Um pesado silêncio invadiu a clareira. – Oh… tê-la-ei assustado? – inquiriu ele, visivelmente aflito e embaraçado. Todo ele era gentileza, suavidade e contenção… tão diferente da arrogância de Simon Hunt. – Não, não… lamento muito, eu… não posso fazer isto! Annabelle passou uma mão pela fronte subitamente dorida, sentindo uma tensão terrível nos ombros, sob os delicados chumaços do vestido de seda cor de pêssego. Quando voltou a falar, a voz saiu-lhe derrotada e plena de culpa: – Perdoe-me, my lord. Considero-o um dos melhores cavalheiros que já conheci e com quem tive o grato privilégio de privar. E é exatamente por isso que terei de o deixar, neste preciso momento. Não seria digno da minha parte alimentar esse seu interesse, sabendo que nada de bom daí advirá. – Mas… por que razão pensa assim? – perguntou ele, visivelmente confuso. – Não me conhece realmente – disse ela com um sorriso amargo. – Mas por favor, creia no que lhe digo: somos um par inconciliável. Por mais que eu me esforçasse, acabaria eventualmente por destratálo, desrespeitá-lo – e o senhor seria demasiado cavalheiro para se opor ou objetar e… acabaríamos ambos profundamente infelizes. – Miss Peyton… – balbuciou ele, esforçando-se por tirar algum sentido daquele arrebatamento. – Eu… não consigo compreender o alcance do… – Nem eu própria sei se compreendo. E lamento profundamente, creia-me. Desejo-lhe nada menos do que o melhor, my lord. E desejo igualmente… – Calou-se subitamente, soltando uma risadinha incontida. – Os desejos são algo de perigoso, não é mesmo?… – murmurou. E afastou-se rapidamente.


Capítulo 19

Censurando-se a si própria, Annabelle percorreu a passo acelerado o caminho de volta à mansão. Não podia crer no que tinha feito! Quando finalmente tudo aquilo que sempre desejara estava a um passo ínfimo de se concretizar, deitara tudo a perder. – Estúpida… – murmurou para si mesma, afogueada. – Estúpida, estúpida… Não conseguia imaginar o que dizer às amigas, depois de estas se dirigirem para a clareira e a encontrarem deserta. Ou talvez Lord Kendall permanecesse lá, precisamente onde ela o deixara, parecendo um cavalo cuja bolsa de alimento lhe fora repentinamente sacada das mandíbulas, antes de poder comer. Annabelle jurou a si mesma que não voltaria a pedir a ajuda das outras encalhadas para lhe arranjarem marido – não depois de ter desperdiçado a excelente oportunidade que lhe fora dada. Merecia o que quer que lhe acontecesse a partir de agora. A passada dela transformou-se praticamente em corrida, ao dirigir-se ao quarto. Estava de tal modo concentrada na sua frenética retirada, que quase esbarrou num homem que vinha caminhando calmamente em sentido contrário. Detendo-se subitamente, murmurou um «perdão», e dispôs-se a seguir caminho, quando algo de distintivo naquela figura, e no modo como as mãos longas e bronzeadas lhe saíram dos bolsos, lhe traiu a identidade. Atordoada, deu um passo atrás ao deparar-se com Simon Hunt fixando-a intensamente. Os seus olhares encontraram-se, com idênticas expressões vazias. Tendo acabado de fugir de Lord Kendall, foi praticamente impossível a Annabelle não fazer comparações entre eles. Hunt surgia-lhe sensualmente moreno sob a luz crepuscular, grande, potente, masculino, com o seu olhar de salteador e a rudeza implacável de um rei pagão. Não estava menos arrogante do que sempre fora… nem menos dominador, ou menos requintado… e ainda assim, ele tinhase tornado um objeto de desejo de tal forma devastador que Annabelle estava certa de ter enlouquecido. Havia uma carga elétrica absolutamente tangível entre eles, o ar estrepitando de paixão e conflito. – O que se passa? – perguntou ele sem quaisquer preliminares, estranhando o tumulto de Annabelle. A tarefa de condensar todas as suas emoções em meia dúzia de palavras coerentes revelou-se-lhe impossível. Mas ainda assim, ela tentou. – Abandonou Stony Cross sem me dirigir uma palavra que fosse. O olhar dele era duro e frio como o ébano, ao devolver-lhe a acusação: – Arrumou o nosso jogo de xadrez. – Eu… – ela afastou o olhar dele, mordendo o lábio. – Não quis… não podia ceder a uma tal perturbação.


– Pois ninguém a está a perturbar, agora. É o Kendall que quer? Fique com ele. – Oh, muito obrigada… – disse ela, plena de sarcasmo. – É muito gentil da sua parte descartar-se da situação, depois de a ter arruinado totalmente. Ele olhou-a, atento e desperto. – Como assim? Annabelle sentiu-se estranhamente gelada, naquele ameno fim de tarde de verão. Sentiu um leve tremor invadir-lhe os ossos e aflorar-lhe a pele. – Os sapatos abotinados que recebi quando estive doente – disse ela, cortante e direta –, estes que estou a usar agora, foram obra sua, não é verdade? – E o que importa isso? – Admita-o – insistiu. – Sim, é verdade. E então? – Estive agora mesmo com Lord Kendall, e estava tudo a correr como planeado, com ele prestes a… mas eu não fui capaz. Não consegui deixá-lo beijar-me sentindo estes malfadados sapatos nos pés. Certamente que ele me considera demente, depois do modo arrebatado como o deixei. Mas o senhor tinha razão, Mr. Hunt… ele é efetivamente bom de mais para mim. E teria sido um enlace desastroso e… Fez uma pausa ao aperceber-se de um súbito lampejo nos olhos dele. – Então – disse ele num tom bem mais suave –, agora que desistiu de Kendall, quais são os seus planos imediatos? Voltar para os braços de Hodgeman? Acossada pela crueza da pergunta, Annabelle lançou-lhe uma expressão carrancuda. – Se o fizer não será certamente da sua conta. Rodou nos calcanhares e afastou-se dele. Hunt alcançou-a em duas passadas. Pegou-lhe num braço e forçou-a a encará-lo. Com os dedos firmemente cingidos no antebraço de Annabelle, deu-lhe um leve abanão e colou-lhe a boca ao ouvido. – Este jogo acabou – disse-lhe. – Diga-me o que pretende. E já, antes que eu perca a pouca paciência que me resta. O cheiro dele, fresco e perfumado e deliciosamente masculino, deixou-a tonta. Só quis mergulhar para dentro das suas roupas… beijá-lo intensamente ao ponto de se deixar desfalecer. Desejou desesperadamente o desprezível, arrogante, cativante e diabolicamente belo Simon Hunt. Mas… oh, ele seria certamente impiedoso. O orgulho ameaçado de Annabelle afirmou-se de modo incontrolável, formando-lhe um coágulo na garganta que a deixou apenas balbuciar: – Não posso… Lançando a cabeça para trás, Hunt olhou-a de alto, os olhos brilhando de incontido prazer malévolo. – Pode sim. Pode fazer o que quiser, Annabelle… mas apenas se se prestar a acatar os seus desejos. – Está determinado em humilhar-me total e irremediavelmente, não está? Não me permite reter uma partícula que seja de orgulho e dignidade… – Eu, humilhá-la a si?! – Ergueu o sobrolho numa expressão sardónica. – Após dois longos anos de palavras rudes e absoluto desprezo de cada vez que a convidava para dançar… – Oh, muito bem, eu admito – disse ela, num suspiro rendido. – Eu desejo-o… Está satisfeito? É a si que eu quero. – E em que qualidade? De amante ou marido?


Annabelle olhou-o, chocadíssima. – O quê?! Os braços dele rodearam-na, amparando-lhe o corpo trémulo. Não disse nada, olhou-a apenas, fixa e intensamente, enquanto ela ponderava as implicações daquela pergunta. – Mas… o Simon é profundamente avesso ao simples conceito de casamento… – observou debilmente. Ele tocou-lhe a orelha, a ponta do dedo percorrendo a frágil curva exterior. – Descobri que não… desde que a envolva a si. Aquela leve carícia fez-lhe ferver o sangue, toldando-lhe a capacidade de pensar. – O mais certo era matarmo-nos um ao outro antes de decorrido o primeiro mês… – Provavelmente – concedeu Hunt, a boca sorridente roçando-lhe a testa. – Mas ainda assim… case comigo, Annabelle. Pelo modo como vejo as coisas, resolver-lhe-ia a quase totalidade dos seus problemas… e uma parte significativa dos meus. – Aquela mão enorme percorreu-lhe a espinha, acalmando-lhe os tremores. – Deixe-me estragá-la, cumulá-la de mimos… – sussurrou-lhe. – Deixe-me cuidar de si. Nunca teve ninguém em quem se apoiar, não é assim? Pois eu tenho ombros fortes, Annabelle… – Riu-se e prosseguiu, no mesmo tom suave e pleno de doçura: – Além de que eu devo ser o único homem das suas relações capaz de a sustentar… Ela estava demasiado atordoada para reagir àquela provocação. – Mas porquê? – indagou, sentindo a mão dele subir-lhe até à nuca exposta. Arquejou quando ele pressionou suavemente a ponta dos dedos na covinha da base do crânio. – Porquê pedir-me em casamento, se me pode ter como amante? Ele afagou-lhe docemente a garganta, antes de responder: – Porque ao longo destes dias me fui apercebendo de que não posso deixar que se instale na mente de pessoa alguma a dúvida sobre a quem a Annabelle pertence. Especialmente na sua. Annabelle fechou os olhos, sentindo-se inundar de euforia, enquanto a boca dele se aproximava lentamente aos lábios, secos e semiabertos. Os braços e mãos de Simon estreitaram o corpo expectante de Annabelle de encontro ao seu, disponível e exigente. Para além da mestria inerente aos gestos dele, havia igualmente reverência e adoração, a ponta dos dedos descobrindo as zonas mais sensíveis da pele exposta dela. Annabelle deixou-o abrir-lhe os lábios com os dele, e gemeu ao sentir-lhe a doce suavidade da língua. Simon devorava-a com beijos ávidos mas ternos, que lhe apaziguavam o desejo e ao mesmo tempo a faziam desesperar pela necessidade de ver despertadas zonas do seu corpo há muito ignoradas. – Dê-me a sua resposta… – sussurrou-lhe ele, afagando-lhe uma face escaldante com a palma aberta. O calor da sua mão causou-lhe estranhos calafrios, e Annabelle pressionou ainda mais a sua face contra a palma dele. – Sim – disse ela, sem fôlego. Os olhos de Hunt resplandeceram de triunfo. Segurou-lhe a cabeça para trás e beijou-lhe avidamente o pescoço, deixando-a em puro êxtase. As mãos dele agarraram-lhe cada um dos lados da cabeça, fazendo-a rodar suavemente até as suas bocas se unirem num ângulo perfeito. O ritmo dos seus fôlegos tornou-se caprichoso e variável, e Annabelle viu-se subitamente tomada por uma torrente exagerada de oxigénio. Procurando-o, cravou-lhe as unhas nos braços, pressionando-lhe os músculos fortes e bem


delineados. Sem interromper o beijo, Hunt ajudou-a a equilibrar-se, levando-lhe as mãos à curvatura do pescoço. Assim que a sentiu segura, levou-lhe a mão ao peito cingido no corpete e puxou-o ligeiramente para si. Beijou-a com uma nova urgência, mais forte e premente, até a deixar literalmente em estado de delírio. Subitamente, Simon afastou os lábios dos de Annabelle, aquietando-a e arrancando-lhe um gemido de protesto. Num murmúrio, ele comunicou-lhe que tinham companhia. Estonteada e de olhos piscos, Annabelle espreitou por cima do ombro dele. O parzinho viu-se confrontado por um grupo de convidados – a quem era praticamente impossível evitar a visão de um casal abraçado ali, no meio do caminho, junto ao amplo muro de pedra. Lillian… Daisy… a mãe delas… Lady Olivia e o seu atraente noivo americano, Mr. Shaw, e… a cereja em cima do bolo: o próprio anfitrião, Lord Westcliff. – Oh, meu Deus… – murmurou Annabelle, profundamente constrangida, escondendo o rosto no ombro de Hunt, como se o simples gesto de tapar os olhos os fizesse a todos desaparecer. Sentiu a orelha a ferver quando Hunt lhe murmurou, num tom pleno de gozo: – Xeque-mate. Lillian foi a primeira a falar. – O que em nome de Deus se passa aqui, Annabelle?! Morta de vergonha, Annabelle obrigou-se a cruzar o olhar com o da amiga. – Não consegui fazê-lo – disse, timidamente. – Lamento muito… Era um plano maravilhoso e vocês desempenharam a vossa parte na perfeição, mas… – E ter-se-ia revelado de um enorme sucesso se a menina não optasse por beijar o homem errado – exclamou Lillian. – Em nome de Deus, o que aconteceu afinal? Por que razão não se encontra no pomar com Lord Kendall? Não era propriamente o tema mais conveniente a debater em frente a uma multidão de curiosos. Annabelle hesitou e ergueu o olhar para Hunt, que a observava com um sorriso trocista, parecendo fascinado e ansioso por ouvir a explicação que ela teria para oferecer. No meio daquele pesadíssimo silêncio, Lord Westcliff pareceu nitidamente ter somado dois e dois, olhando de Annabelle para Lillian com profunda indignação. – Agora entendo a vossa insistência para que fizéssemos este passeio. Tudo não passou de um plano torpe para comprometer Lord Kendall! – Eu… assumo a minha parte de responsabilidade – declarou Daisy, determinada em partilhar a culpa. Mas Westcliff não pareceu ouvir-lhe o comentário, fitando-as com ar perplexo e escandalizado. – Deus seja louvado – existirá alguma coisa a que vocês não se prestem? – Se existe – retorquiu Lillian, diligentemente –, ainda não a descobrimos. Não estivesse ela debaixo de circunstâncias tão confrangedoras, Annabelle teria rebentado de riso perante a expressão do conde. Com um leve encolher de ombros, Lillian voltou de novo as atenções para Annabelle. – Pode não ser ainda tarde de mais para consertar as coisas, Annabelle – disse-lhe. – Faremos com que todos prometam guardar segredo deste… incidente de percurso entre si e Mr. Hunt. Sem testemunhas, é como se não tivesse acontecido.


Lord Westcliff considerou aquelas palavras com uma profunda carranca. – Por mais que me repugne a ideia de concordar com Miss Bowman, creio que essa será a atitude mais sensata, sim – disse, num tom grave e sombrio. – Teremos todos de ignorar este incidente. Miss Peyton e Mr. Hunt não foram vistos juntos e, por conseguinte, ninguém ficou comprometido com rigorosamente coisa alguma. O que significa que não haverá quaisquer consequências a retirar desta infeliz situação. – Lamento, meu caro, mas terei de discordar – disse Hunt subitamente, com expressão determinada. – Miss Peyton ficou comprometida, sim. Por mim. E eu não tenciono evitar ou fugir das consequências. Eu… – Tenciona sim – disse o conde em tom assertivo e autoritário. – Diabos me levem se vou permitir que uma criatura destas lhe arruíne a vida, Hunt! – Arruinar-lhe a vida? – repetiu Lillian, indignadíssima. – Mr. Hunt não arranjaria para si melhor esposa do que Annabelle! Como se atreve a insinuar que ela não é digna dele, quando é visível e manifesto que é ele o… – Não! – interrompeu Annabelle em tom ansioso. – Por favor, Lillian… – Se me permitem… – ouviu-se Mr. Shaw murmurar com extrema polidez, não conseguindo conter um sorriso esforçado. De braço dado com Lady Olivia, puxou-a levemente para si e fez uma graciosa vénia sem destino particular. – Creio que a minha noiva e eu prescindiremos de futuros envolvimentos neste caso, por estarmos manifestamente a mais. E julgo poder falar pelos dois ao afirmar que é nossa firme intenção sermos tão cegos, surdos e mudos quanto os símios sábios. – Os seus olhos azuis brilharam de boa disposição. – Deixamo-los, portanto, a decidir o que foi visto e ouvido esta noite… e o que não foi. Vamos, querida? E afagando a mão de Lady Olivia enganchada no seu braço, conduziu-a de volta à mansão. O conde voltou-se para Mrs. Bowman, uma senhora alta e magra, de rosto comprido e afunilado, fazendo lembrar uma raposa. Até agora, ela esforçara-se por manter uma expressão indignada, ainda que visivelmente desejosa de não perder pitada da situação. Como mais tarde Daisy esclareceu, Mrs. Bowman nunca tinha os seus famosos badagaios a meio de um ato, preferindo poupá-los para um intervalo mais conveniente. – Mrs. Bowman – interpelou-a Westcliff –, posso contar com a sua total discrição em relação a este assunto? Tivesse o conde, ou qualquer outro titular ao seu alcance, pedido à ambiciosa Mrs. Bowman que se lançasse para dentro de um dos canteiros de flores para seu simples divertimento, ela tê-lo-ia feito sem hesitar. – Oh, mas certamente, my lord… Jamais me passaria pela mente espalhar uma alcoviteirice de tão mau gosto! As minhas filhas são tão puras e inocentes… dói-me muito perceber aquilo que a sua associação a esta… rapariga sem escrúpulos as levou a fazer. Estou certa de que um cavalheiro do seu discernimento verá facilmente que as minhas cândidas meninas estão absolutamente desprovidas de responsabilidade em toda esta situação, tendo sido pervertidas e desviadas por esta jovem sem escrúpulos, com quem estabeleceram uma recente amizade. Lançando um olhar de relance às cândidas meninas, Westcliff retorquiu friamente: – É possível…


Hunt, que insistia em manter um braço possessivo em torno da cintura de Annabelle, lançou ao grupo um olhar gélido. – Façam o que muito bem entenderem. Miss Peyton ficará comprometida ainda esta noite, aconteça o que acontecer. – Docemente, fê-la seguir pelo trilho de cascalho fino, murmurando: – Vamos, minha querida… – Para onde vamos? – perguntou-lhe ela, resistindo a acompanhá-lo. – Para dentro. Visto que nenhum deles se quer prestar a ser testemunha, parece-me bem que terei de lhe macular a honra em frente a outros. – Espere! – guinchou Annabelle. – Já concordei em casar consigo! Para quê fazer-me passar novamente por tudo isto? Hunt ignorou-lhe os protestos, que se juntavam à indignação sussurrada de Westcliff e as Bowman, respondendo-lhe assertivamente: – Gosto de jogar pelo seguro. Annabelle fincou os pés no chão, recusando-se a mover-se enquanto ele a puxava pelo braço. – Não precisa de fazer isto! Cuida que eu seria capaz de quebrar a minha promessa? – Numa palavra?… Sim. – Simon apressou-se a arrastá-la pelo caminho que levava à mansão. – Ora bem, por onde deveremos nós entrar?… Pelo átrio principal, sem dúvida. É lá que está concentrada a maioria dos convidados. Gente mais do que suficiente para testemunhar a sua perdição forçada… Ou quiçá a sala de jogos? – Simon! – protestou Annabelle, vendo-se arrastada sem cerimónias pelo seu pulso forte. – Simon… O som do nome dele na boca dela fê-lo parar subitamente, encarando-a com um sorriso meio agradado, meio curioso. – Sim, meu doce? – Por amor de Deus! – exclamou Westcliff por fim. – Poupem-nos a este ridículo melodrama, sim? Hunt, se está assim tão determinado em tê-la, então deverá poupar-nos a mais exibicionismos deste género. De bom grado me ofereço para atestar sobre a honra manchada da sua digníssima noiva, daqui até Londres, desde que isso me conceda agora alguma paz e sossego. Só não me peça para assistir à cerimónia desta fantochada. Não me agrada ser hipócrita. – Pois não, apenas imbecil – foi o murmúrio de Lillian. Provando ter um ouvido de tísico, Westcliff voltou-se para encarar a americana, cuja expressão inocente não conseguiu convencê-lo. – Quanto a si… – começou ele. Simon pôs fim ao que se previa tornar-se uma feia altercação entre os dois. – Estamos todos de acordo, assim sendo. – Olhou Annabelle com um profundo orgulho varonil. – Considere-se comprometida. E agora corra a dar as novidades à sua mãe. O conde abanou desconsoladamente a cabeça, dando mostras de uma profunda afronta, típica dos aristocratas cuja vontade é contrariada. – Jamais na minha vida pensei ver um homem de tal forma ansioso por se confessar à mãe da rapariga cuja reputação acabou de arruinar – disse amargamente.


Capítulo 20

A reação de Philippa à notícia foi de serena estupefação. Sentada entre Simon e Annabelle na sala privada dos Marsden, ouviu-o informá-la do noivado assumido com a filha, bem como as razões que levaram a uma tal precipitação. No breve silêncio que se seguiu à singela declaração de Simon Hunt, Philippa fitou-o longamente e sem pestanejar até que falou, muito calmamente: – Uma vez que Annabelle não tem um pai que a proteja, Mr. Hunt, o mínimo que se espera de mim é exigir-lhe determinadas condições de segurança e estabilidade. Não há mãe que não deseje que a sua filha seja tratada com bondade, respeito e gentileza… e terá de convir que as circunstâncias são… – Eu compreendo – interrompeu-a Simon, num tom pleno de sinceridade. Impressionada pelo tom formal das suas palavras, Annabelle olhou-o intensamente, vendo-o concentrar todas as suas atenções em Philippa ao prosseguir: – E dou-lhe a minha palavra de honra de que a sua filha jamais terá a menor razão de queixa. Vendo a súbita expressão cautelosa no rosto da mãe, Annabelle mordeu o lábio inferior, já adivinhando o que viria a seguir. – Suspeito que já esteja mais do que ciente, Mr. Hunt – ouviu-se Philippa murmurar –, de que Annabelle não dispõe de dote. – Sim – foi a casualíssima resposta de Simon. – E isso não obsta a rigorosamente nada da sua parte? – indagou Philippa, não escondendo o tom de dúvida. – Decididamente, não. Detenho o privilégio de não ter de considerar quaisquer questões financeiras no que respeita à escolha de uma esposa. Não me preocupa rigorosamente nada que Annabelle me chegue sem um xelim a que chame de seu. Mais lhe digo que é minha firme intenção auxiliar financeiramente a vossa família, assumindo dívidas, encarregando-me de contas e credores, assegurando todos os encargos escolares e de outra sorte; o que quer que seja necessário para lhes garantir o maior conforto possível. Annabelle viu as mãos da mãe estreitarem-se no colo, até os nós dos dedos ficarem brancos, seguindo-se um insondável tremor que tanto poderia ser de empolgamento, alívio, embaraço ou a combinação dos três. A voz de Philippa tremeu-lhe ao responder: – Fico-lhe grata, Mr. Hunt. Espero que compreenda que acaso o pai de Annabelle estivesse ainda entre nós, as coisas seriam substancialmente diferentes… – Sim, com certeza. Seguiu-se um silêncio contemplativo antes de Philippa prosseguir: – É bom de ver que, sem dote, Annabelle não dispõe da menor fonte de rendimento, nem sequer para


assegurar as despesas do lar ou… – Conto abrir-lhe uma conta no Barings – disse Hunt prestamente. – Com uma quantia inicial de… digamos, cinco mil libras? E prestar-me-ei a reforçá-la sempre que necessário. Claro que ficará igualmente a meu cargo o providenciar de uma carruagem, cavalos… roupas… joias… e Annabelle terá evidentemente crédito em todas as lojas de Londres. Annabelle acabou por perder a reação de Philippa a todas aquelas notícias, ao sentir a mente entrar num corrupio desenfreado. Só a ideia de poder dispor livremente de cinco mil libras… uma verdadeira fortuna… lhe parecia absolutamente irreal. O seu assombro inicial foi, aos poucos, dando lugar a uma espécie de encantamento… Após tantos anos de sacrifícios e privações, ser-lhe-ia possível aceder às melhores modistas, e oferecer um cavalo a Jeremy, e remodelar totalmente a casa da família com os mais luxuosos móveis e acessórios. Contudo, tendo como base do seu casamento com Simon estas frontais discussões – envolvendo dinheiros e aspetos tão fortemente materiais – davam-lhe a desagradável sensação de se ter vendido a si mesma com vista à obtenção de lucro. Lançando um olhar discreto e cauteloso a Simon, reparou que ele tinha nos olhos o seu habitual brilho escarnecedor. Ele conhecia-a demasiado bem, pensou, sentindo um calor indesejado subir-lhe às faces. Annabelle manteve-se em silêncio à medida que a conversa foi versando contratos, advogados e estipulações, descobrindo com indisfarçável espanto que a mãe tinha a persistência de um cão de fila no que respeitava a negociações matrimoniais. Aquela conversa de cariz tão fortemente negocial acabou por revelar-se tudo menos romântica. Além de que não passou despercebido a Annabelle que Philippa nem por uma vez perguntou a Simon se amava a filha – nem ele tão pouco o afirmou. Assim que Hunt saiu da sala, Annabelle seguiu a mãe até ao quarto delas, onde tratariam, sem a menor dúvida, de prolongar a conversa. Preocupada com o súbito e pouco habitual silêncio de Philippa, Annabelle fechou a porta atrás de si e considerou o que dizer – perguntando-se se a mãe teria alguma espécie de reserva em ter Simon Hunt como genro. Assim que se viram sós, Philippa dirigiu-se à janela e olhou lá para fora com expressão melancólica. Segundos depois, Annabelle viu a mãe cobrir os olhos com as mãos. Alarmada, ouviu-lhe o som de um soluço abafado. – Mamã… – disse, hesitantemente, fixando as costas rígidas da mãe. – Eu… lamento muito… – Graças a Deus… – murmurou Philippa com voz trémula, não parecendo tê-la ouvido. – Graças a Deus. Não obstante a intempestiva promessa de Westcliff, a verdade é que ele partiu para Londres duas semanas antes, só para estar presente na cerimónia de casamento. Ainda que circunspecto e de poucas palavras, chegou mesmo a oferecer-se para entregar Annabelle ao futuro marido, assumindo o lugar do seu falecido pai. Ela sentiu-se fortemente tentada a recusar, mas a proposta deixou Philippa tão feliz que Annabelle não teve outro remédio senão aceitar. E acabou por retirar um certo prazer malicioso do facto de o conde assumir um papel tão importante numa cerimónia contra a qual se opunha tão veementemente. Só a extrema lealdade a Simon o fizera viajar para Londres, demonstrando o fortíssimo elo de amizade entre os dois homens – muito mais arreigado do que Annabelle alguma vez imaginara. Lillian, Daisy e a mãe fizeram igualmente questão de estar presentes na cerimónia privada que decorreu na igreja, comparência apenas possível graças à presença do próprio Lord Westcliff. Mrs. Bowman jamais permitiria que as filhas participassem na cerimónia de casamento de uma rapariga que ia


casar fora da sociedade aristocrática, e que além de tudo o mais representava uma péssima influência. Todavia, para a mãe das jovens americanas, qualquer oportunidade de as ver próximas do partido mais cobiçado de Inglaterra era superior a tudo o resto. E o facto de Westcliff se mostrar completamente indiferente em relação. à filha mais nova, e profundamente desdenhoso em relação à mais velha, era apenas um leve contratempo que Mrs. Bowman certamente ultrapassaria. Malogradamente, Evie fora proibida pela tia Florence e restante família materna de assistir ao casamento. Tristemente conformada, enviou à amiga uma longa carta plena de afeto e, como presente, um serviço de chá de porcelana Sèvres pintado com florinhas rosa e douradas. O restante grupinho era formado pelos pais e irmãos de Hunt – que eram mais ou menos como Annabelle os imaginara. A mãe era uma senhora robusta e de feições rudes, uma mulher cordial e determinada em pensar bem de Annabelle somente até prova em contrário. O pai era um homem corpulento e de rosto angular que conseguiu não sorrir uma única vez ao longo de toda a cerimónia, ainda que as profundas rugas de riso ao canto dos olhos indicassem tratar-se de um homem intrinsecamente alegre e bem-disposto. Nenhum deles era particularmente bonito, mas tinham conseguido gerar cinco filhos magníficos, todos altos e morenos. Se ao menos Jeremy tivesse podido assistir à cerimónia… mas ainda estava em aulas, e Annabelle e Philippa tinham tristemente concluído que o mais sensato seria ele terminar o período e regressar a Londres quando a irmã e o novo genro regressassem da lua de mel. Annabelle não estava segura da reação do irmão perante a perspetiva de se tornar genro de Simon Hunt. Ainda que Jeremy sempre tivesse demonstrado gostar dele, a verdade é que o rapaz estava há muito acostumado a ser a única influência masculina da família. Havia sérias probabilidades de se gerarem atritos quando Hunt lhe impusesse eventuais regras e restrições. Mas o facto é que nem a própria Annabelle via com bons olhos a perspetiva de ter de render-se aos desejos de um homem que, a bem da verdade, não conhecia assim tão bem. E essa realidade acabou por se fazer sentir na própria noite de núpcias, enquanto Annabelle esperava pelo recentíssimo esposo num quarto do Rutledge Hotel. Tendo erradamente assumido que Hunt residia numa residência particular, tal como a grande maioria dos solteiros de Londres, Annabelle ficou mais do que um pouco surpresa ao constatar que ele vivia numa ampla e luxuosa suite de hotel. – E porque não? – perguntara-lhe Hunt uns dias antes, divertido com a visível perplexidade de Annabelle. – Bom… viver num hotel concede muito pouca privacidade… – Permita-me discordar. Tenho a enorme vantagem de poder entrar e sair como e quando muito bem me aprouver, sem ter uma horda de criados a comentar todos os meus gestos e hábitos. Do meu ponto de vista, viver num hotel é de longe preferível a assentar residência numa mansão gélida e plena de correntes de ar. – Sim, mas um homem da sua posição tem de ter um número significativo de criados como símbolo inequívoco do seu estatuto. – Desculpe-me, querida – disse-lhe ele docemente –, mas para mim os criados contratam-se em função das necessidades de serviço na vida de cada um; essa ideia de se exibirem os criados como acessórios de estilo sempre me escapou. – Ora, já não estamos propriamente no tempo da escravidão, Simon! – Por aquilo que a esmagadora maioria deles recebe de salário, diria que isso é muito discutível. – Vamos ter necessidade de um forte apoio doméstico quando um dia optarmos por viver numa casa


decente – disse-lhe Annabelle, acrescentando em tom espirituoso: – A não ser que pretenda ver-me de mãos e joelhos no chão a esfregar soalhos e limpar lareiras? Aquela sugestão fez com que Simon assumisse um brilho malévolo no olhar – que Annabelle não atingiu plenamente. – Vou querer vê-la sem dúvida de mãos e joelhos no chão, minha querida… mas garanto-lhe que não será a esfregar soalhos. Esboçou um sorriso divertido ao ver-lhe a expressão confusa, e chegou-se a ela para lhe plantar nos lábios um beijo breve, gesto que a deixou nervosa. – Simon… por favor… a Mãe não iria aprovar se nos visse nestes preparos… – Deveras? – brincou ele. – Ora, minha querida, a Mãe não se vai opor a rigorosamente nada que eu entenda fazer consigo, descanse. Annabelle franziu a testa e afastou-o de si, pretensamente amuada. – Oh, criatura arrogante… A sério, Simon, faço questão de saber: tenciona viver eternamente num hotel ou vai comprar-me uma casa? Roubando-lhe um segundo beijo, Simon riu-se da sua expressão mimada. – Compro-lhe a casa que desejar, meu doce. Melhor ainda, compro-lhe uma novinha em folha, uma vez que há muito já me habituei ao conforto de uma boa iluminação e canalizações modernas. O rosto dela iluminou-se. – A sério? Onde? – Creio conseguir algo com uma área razoável nas proximidades de Bloomsbury, ou Knightsbridge… – E porque não Mayfair? Simon sorriu como se já esperasse aquela sugestão. – Não me diga que vai querer viver numa zona superpovoada como Grosvenor ou St. James, vendo da janela pomposos aristocratas bamboleando-se pelos seus jardinzinhos vedados… – Oh, isso seria o paraíso! – exclamou ela entusiasmada, e fazendo-o rir. – Pronto… seja. Procuraremos qualquer coisa em Mayfair, e que Deus me ajude… E poderá contratar os criados que desejar. Note que eu não disse «precisar», uma vez que essa discussão me parece inútil. E entretanto, acha que consegue tolerar uns quantos meses no Rutledge? Agora, e recordando aquela conversa, Annabelle dedicava-se a sondar calmamente a enorme suite, de várias e luxuosas divisões de onde se destacavam requintados apontamentos de veludo, de couro e de mármore. Tinha de admitir, o Rutledge mudava sem dúvida a perceção que alguém poderia ter de um hotel. Dizia-se que o seu misterioso proprietário, Mr. Harry Rutledge, fora movido pelo sonho de vir a criar o mais moderno e elegante hotel da Europa, combinando o estilo continental com o modernismo americano. O Rutlegde era um enorme edifício localizado na seleta zona dos teatros, ocupando cinco quarteirões entre o Capitol Theater e a Embankment. Características distintivas como construção à prova de fogo, elevadores para comida e casas de banho privativas em todas as suites fizeram do Rutledge o hotel de eleição para europeus e americanos mais abastados. Para deleite de Annabelle, os Bowman ocupavam cinco das cem luxuosas suites do hotel, o que significava que ela, Daisy e Lillian teriam muitas oportunidades de se reunirem assim que regressasse da lua de mel. Um vez que, em toda a sua vida, Annabelle nunca tinha viajado para fora de Inglaterra, foi com extremo agrado que soube da notícia de que Simon planeava levá-la a Paris para uma longa quinzena de


lua de mel. Devidamente munida de uma extensa lista de modistas, chapeleiros e perfumistas – fornecida pelas irmãs Bowman, que já haviam visitado Paris com a mãe –, Annabelle antecipou com grande empolgamento o seu primeiro vislumbre da Cidade Luz. Contudo, ainda antes da partida do dia seguinte, havia agora que enfrentar… a noite de núpcias. Vestida com uma camisa de noite adornada com uma requintada cascata de renda branca no corpinho e nas mangas, Annabelle andou nervosamente de quarto em quarto. Por fim, sentou-se num cadeirão ao lado da cama e pegou numa escova da mesa de cabeceira. Lenta e metodicamente, tratou de escovar o longo cabelo, perguntando-se se todas as noivas sentiriam uma ansiedade assim, na alarmante dúvida se as próximas horas seriam de deleite ou de terror. E foi nesse preciso momento que a chave rodou na fechadura e a figura escura, magra e esguia de Simon se insinuou na suite privada. Annabelle sentiu um calafrio percorrendo-lhe a espinha, e esforçou-se por se mostrar calma enquanto escovava o cabelo com gestos lentos e firmes, ainda que sentindo os dedos trémulos ao segurar o cabo da escova. O olhar de Simon percorreu o sensual trilho de renda e musselina que lhe cobria o corpo. Ainda vestido com o fato de casamento, aproximou-se lentamente de Annabelle, parando em frente à cadeira onde ela estava sentada. Para espanto dela, ajoelhou-se à sua frente, ficando com o rosto ao nível do seu. Levou-lhe uma mão ao farto cabelo, liso e brilhante da recente escovagem, e penteou-lho com as pontas dos dedos, olhando fascinado as mechas castanho-dourado que lhe serpenteavam por entre os nós dos dedos. Se bem que Simon estivesse impecavelmente vestido, num belíssimo fato preto formal, certos indícios de desmazelo atraíram a atenção de Annabelle… as madeixas curtas caindo-lhe sobre a testa, o nó semiaberto da gravata de seda cinza-pálido, as mangas do casaco levemente amarrotadas. Largando a escova, Annabelle alisou-lhe suavemente o cabelo, numa tentativa de o compor, as madeixas escuras, espessas e brilhantes deslizando-lhe suavemente por entre os dedos. Simon deixou-se ficar muito quieto, vendo-a desapertar-lhe a gravata, a pesada seda impregnada do calor da sua pele. Os olhos dele continham uma expressão tal que Annabelle se sentiu arrepiar. – Sempre que a vejo – murmurou ele –, penso que é impossível ficar mais bela, e a Annabelle persiste sempre em provar-me o contrário. Deixando-lhe a gravata solta à volta do pescoço, ela sorriu com o elogio. Estremeceu levemente ao sentir a mão dele fechar-se sobre a sua e fitou-o intensamente, ouvindo-o perguntar: – Está nervosa? Annabelle assentiu, apertando-lhe levemente a mão. Ele parecia escolher cuidadosamente as palavras, algo pouco habitual nele e que a fez estranhar. – Querida… eu calculo que as suas experiências com Lord Hodgeman tenham sido tudo menos agradáveis. Mas só lhe peço que acredite em mim quando afirmo que não é forçoso que assim seja. Quaisquer que sejam os seus receios… – Simon – interrompeu-o ela apreensiva. Aclarou a garganta antes de prosseguir. – Isso é extremamente gentil da sua parte. E… o facto de se mostrar tão compreensivo em relação a… bom, saiba que isso me deixa muito sensibilizada. Mas… temo não ter sido muito franca e direta consigo no que respeita ao meu relacionamento com Hodgeman. – Vendo-lhe a súbita expressão curiosa, limpa de qualquer emoção, Annabelle soltou um longo suspiro de preparação antes de continuar: – A verdade é


que Hodgeman esteve de facto em nossa casa em determinados serões, e pagou algumas das nossas contas em retribuição de… de… – Fez uma pausa e sentiu a garganta contrair-se ao tentar expulsar as palavras. – Mas… não era a mim que ele vinha visitar. As pupilas negras de Simon dilataram-se ligeiramente. – Como?… – Nunca dormi com ele – admitiu ela. – O seu… acordo… era com a minha mãe. Ele olhou-a, absolutamente, indisfarçavelmente incrédulo. – Diabos me levem… – murmurou. – Tudo começou há cerca de um ano – disse ela, num tom profundamente defensivo. – A nossa situação era desesperada… Tínhamos contas infindáveis e escassos ou nenhuns recursos para as comportar. Os bens deixados à Mamã por morte de meu pai foram minguando, em parte devido a investimentos danosos. Lord Hodgeman já andava a farejar-lhe os calcanhares há muito tempo… e não posso precisar quando tiveram início as suas visitas… mas sei que comecei a ver o seu chapéu e bengala à entrada de casa a horas tardias, e coincidentemente as nossas dívidas a diminuir. Acabei por me aperceber do que estava a acontecer, mas nunca toquei no assunto. Sei agora que devia tê-lo feito. – Suspirou e afagou as têmporas. – Na primeira festa em Stony Cross Manor, Hodgeman confrontou-me e tornou claro que já estava enfadado da Mamã e gostaria que eu tomasse o lugar dela. Ameaçou expor o nosso segredo… «com pormenores suculentos», como fez questão de salientar. E isso seria a nossa ruína. Eu rechacei-o, claro, mas de alguma maneira a Mamã conseguiu mantê-lo calado. – Mas… por que razão me deixou pensar que era a Annabelle que dormia com ele? Ela encolheu os ombros de desconforto. – Percebi que o presumira erradamente, mas… como não havia razão aparente para o corrigir… Jamais pensei que acabássemos… assim. Quando o Simon me pediu em casamento, levou-me a concluir que, para si, não era de especial relevância o facto de eu… ser ou não virgem. – E nunca o foi – murmurou Simon numa voz algo estranha. – Queria-a para mim fosse em que circunstâncias fosse. Mas agora que… – Calou-se, abanando a cabeça de perplexidade. – Annabelle, para que fique bem claro, está a dizer-me que nunca esteve com um homem? Ela baixou os olhos para as mãos, sentindo-lhe o aperto firme ao ponto de doer. – Bom… sim. – Sim?… Esteve ou não esteve? – Nunca estive com homem algum em toda a minha vida – disse ela num tom preciso e lançando-lhe um olhar interrogativo. – Ficou aborrecido por não lhe ter contado antes? Peço desculpa… Mas a verdade é que se trata de um assunto delicado, extremamente sensível… Não é propriamente algo que venha à baila, tipo: «Boa tarde, Mr. Hunt, como passou? A propósito, sou virgem…» – Não estou aborrecido – disse ele, o olhar pensativo percorrendo-lhe o rosto. – Estou apenas a perguntar-me… que diacho fazer consigo agora. – O mesmo que estava previsto antes de termos esta conversa? – sugeriu ela, esperançada. Sem mais hesitações, Simon levantou-se e puxou Annabelle para os seus braços com extrema doçura, como se temesse que ela se partisse. Enfiou a cara na sua farta cabeleira e inspirou profundamente. – Quanto a isso, creia que tratarei do assunto – disse, com um sorriso levemente malicioso. – Mas antes, creio precisar de lhe fazer umas perguntas.


Annabelle enfiou-lhe as mãos por dentro do casaco e abraçou-lhe o torso musculado e elegante. O calor corporal dele impregnara o fino tecido da camisa, e ela estremeceu de prazer naquele abraço. – Sim? – indagou docemente. Até aquele momento, ela nunca tinha visto Simon que não plenamente articulado no seu discurso… mas agora ouviu-lhe a voz plena de hesitação, como se aquela fosse uma conversa que ele jamais pensara vir a ter. – A Annabelle sabe o que deve esperar? Está a par de todas as… informações necessárias? – Julgo que sim – respondeu-lhe ela, sorrindo ao sentir-lhe o coração batendo fortemente contra a sua face. – A Mamã e eu tivemos há pouco uma conversa, após a qual me senti quase tentada a pedir uma anulação… Ele não conseguiu deixar de rir. – Assim sendo, o melhor é eu reclamar os meus direitos de digníssimo esposo sem mais demoras. – Retirou-lhe as mãos de trás das costas e beijou-as docemente, a uma e a outra. O suave toque do seu hálito deleitou-a. – E o que foi que lhe disse a senhora sua mãe, posso saber? – murmurou entre os dedos dela. – Depois de me esclarecer quanto aos factos mais… básicos, digamos assim, disse-me apenas para o deixar fazer o que lhe aprouver e tentar não me queixar se algo não me agradar. E sugeriu também que, caso a coisa se torne demasiado desagradável, eu deixe a mente divagar pela generosa conta bancária que o Simon abriu para mim… Annabelle arrependeu-se daquelas palavras assim que as proferiu, apavorada que Simon se melindrasse com uma tal frontalidade. Mas ele limitou-se a rir prazenteiramente. – Ora aí está uma refrescante mudança em relação à típica atitude inglesa. – Afastou a cabeça para trás para melhor a olhar. – Será que devo murmurar-lhe ao ouvido doces conceitos sobre saldos, transferências e taxas de juros, então? Levando a mão ao rosto dele, Annabelle deixou que as pontas dos dedos lhe roçassem os lábios, acariciando-lhes o toque acetinado e descendo pelas linhas másculas do seu queixo. – Julgo que isso não será necessário. Diga apenas as palavras habituais. – Não… as palavras habituais não se adequam a si – disse ele, acariciando-lhe a face antes de inclinar o rosto para o dela. A boca brincou com a dela, provocando-a e fazendo-a entreabrir-se, enquanto as mãos lhe descobriam os contornos do corpo, pelo meio da profusão de rendas. Sem um corpete a pressionar-lhe as costelas, ela podia sentir-lhe o toque através do fino tecido da camisa de noite. Aquele afagar das mãos dele pelas zonas laterais do corpo dela provocaram-lhe arrepios, os bicos dos seios tornando-se deliciosamente sensíveis. A palma da mão dele viajou lentamente até à frente, descobrindo-lhe a suave elevação de um dos seios, e Simon pôs a mão em concha, levantando-lhe a vulnerável carne. Ela deixou de respirar momentaneamente, enquanto os dedos dele lhe beliscavam o mamilo, provocando-lhe uma dor suave e extremamente agradável. – É geralmente doloroso para a mulher, na primeira vez… – segredou-lhe. – Sim, eu sei. – Não quero magoá-la. Aquilo deixou-a simultaneamente surpresa e enternecida. – A Mamã disse-me que não dura muito – disse.


– A dor? – Não… tudo o resto – respondeu-lhe, fazendo-o rir de novo. – Annabelle… – A boca dele desceu-lhe pela garganta. – Eu desejo-a desde o primeiro instante em que a vi, à porta daquele teatro, vasculhando a bolsa por moedas. Não consegui tirar os olhos de si. Custou-me até acreditar que era real. – Ficou especado a olhar para mim durante todo o espetáculo – disse ela com um sorriso de menina. – Duvido que tenha aprendido o que quer que seja sobre a queda do Império Romano… – Aprendi que tem os lábios mais suaves que alguma vez beijei. – Pois eu diria que tem uma maneira original de se apresentar… – gracejou ela. – Não consegui evitá-lo. – A mão dele acariciou-lhe a linha da axila à anca, e ela estremeceu. – Verme ao seu lado no escuro representou para mim a tentação mais pecaminosa que alguma vez experienciei. Tudo em que conseguia pensar era quão adorável a Annabelle era e como eu a desejava. Quando as luzes se apagaram totalmente, não consegui resistir mais. – Fez uma pausa para acrescentar, num tom levemente petulante: – E a Annabelle não me afastou. – Fiquei demasiado estarrecida! – Foi essa a razão de não se ter oposto? – Não – concedeu ela, roçando a sua face na dele. – Eu gostei do seu beijo. Sabe bem que sim. Ele sorriu. – Desejei ardentemente que o prazer fosse mútuo. – Olhou-a nos olhos, os rostos tão próximos que os narizes quase se tocavam. – Vamos para a cama… – sussurrou-lhe, num tom interrogativo quase impercetível. Annabelle assentiu com um suspiro trémulo e deixou-o conduzi-la até à enorme cama de dossel, coberta por uma colcha de seda acolchoada cor de vinho. Simon afastou-a com um gesto preciso e pegou em Annabelle ao colo, poisando-a suavemente sobre os lençóis frescos. Ela afastou-se para arranjar espaço para ele. Ele ficou de pé, observando-lhe o rosto enquanto, muito lentamente, tratou de se despir. O contraste entre o requinte do fato de fino corte e o vigor do corpo cru e másculo debaixo dele era desconcertante. Tal como Annabelle esperara, Simon tinha um torso belíssimo, invulgarmente musculado, formando ondas nos ombros e nas costas, o estômago liso e firmemente definido. A pele trigueira ganhava reflexos dourados sob a luz da cabeceira, a superfície dos ombros firmes brilhando sedutoramente. Nem mesmo a lã suave e escura que lhe cobria o peito conseguia suavizar aquela potente caixa de carne e de osso. Annabelle duvidava seriamente que existisse no mundo um homem de aspeto mais saudável e vigoroso. Talvez ele não correspondesse à imagem ideal do aristocrata de constituição esbelta e magra, tão em voga na época, mas fosse como fosse Annabelle achou-o esplêndido. Sentiu borboletas no estômago ao vê-lo juntar-se a ela na cama. – Simon… – suspirou, quando ele a envolveu no seu abraço. – A Mamã não me esclareceu se… se esta noite eu lhe devo fazer a si alguma coisa de especial… A mão dele começou a brincar com o cabelo dela, os dedos massajando-lhe docemente o crânio e provocando-lhe suaves calafrios. – Não tem de fazer nada esta noite, minha querida… Deixe-me apenas abraçá-la… tocá-la… ser eu a descobrir as coisas que lhe agradam… Simon encontrou-lhe a fileira de pequenos botões de madrepérola na parte de trás da roupa.


Annabelle fechou os olhos e suspirou, sentindo afrouxar de cima dos ombros o tecido rendado da camisa de noite – o que lhe provocou uma agradável sensação de libertação nos seios. – Lembra-se daquela noite na sala de música? – segredou-lhe ao ouvido. – Quando me beijou, no nicho por detrás da cortina? – Cada segundo… – segredou-lhe ele de volta, puxando-lhe os braços para fora das bonitas mangas de balão. – O que a leva a recordar esse momento, agora? – Não sei… Ainda não consegui deixar de pensar nele – confessou-lhe ela. Soergueu-se ligeiramente para o ajudar a despir-lhe a camisa, vendo cada centímetro da sua pele exposta, coberto por uma suave rosácea. – Nem eu – admitiu ele. A sua mão deslizou-lhe para um dos seios, aconchegando-o na mão em concha até lhe sentir o bico duro e rosado entre os dedos. – Parecemos ser um dueto verdadeiramente… inflamável, muito mais do que alguma vez supus. – Quer dizer que não é sempre assim? – quis saber Annabelle, num tom adoravelmente ingénuo. – Não… – murmurou-lhe ele, roçando uma longa linha por entre as coxas dela, estreitamente cerradas. – Raramente o é. – E porque… – perguntou-lhe ela, sem no entanto conseguir acabar a frase, ao sentir o polegar dele percorrer-lhe a curva acetinada do seio. Simon tomou-lhe o finíssimo torso entre as mãos e debruçou-se sobre o peito dela. Annabelle sentiulhe os lábios leves e quentes abrirem-se sobre um mamilo intumescido e temeu desfalecer de prazer a qualquer momento. Gemeu ao sentir-lhe a língua aflorar-lhe uma zona tão sensível – até já não lhe ser possível manter-se quieta debaixo dele. As pernas abriram-se-lhe involuntariamente, e de imediato ele ocupou o espaço entre elas com as próprias coxas, firmes e musculadas… Sentindo-lhe as mãos passearem livremente pelo corpo, Annabelle segurou-lhe a cabeça com ambas as mãos, deixando que as suaves ondas de cabelo lhe escorregassem entre os dedos. Simon beijou-lhe a delicada pele dos pulsos e do interior dos cotovelos, passando às covinhas entre as costelas, sem deixar qualquer parte daquele corpo por explorar. Ela deixou-o fazer tudo o que ele mostrou ter vontade, tremendo ao sentir-lhe o doce arranhar da barba em contraste com o prazenteiro calor da sua boca. Mas assim que o sentiu chegar ao umbigo, a ponta da língua introduzir-se na exígua cavidade, Annabelle deu por si a rebolar para longe dele, com um arfar de perturbação. – Não… Simon, eu… por favor… De imediato, Simon soergueu-se e tomou-a nos braços, sorrindo ao ver-lhe o rosto escarlate. – Fui longe de mais? – perguntou-lhe, numa voz rouca. – Perdoe-me… por momentos esqueci-me que tudo isto é novo para si… Venha, deixe-me abraçá-la. Não está assustada, pois não? Antes que ela pudesse responder, ele calou-a com um beijo sôfrego. Annabelle sentiu-lhe os pelos do peito aflorarem-lhe os seios como veludo puro, os mamilos firmes roçando os dela. A garganta dela vibrava com gemidos leves – que não faziam mais do que evidenciar o prazer que não conseguia conter. Sentiu-lhe o joelho introduzir-se um pouco mais entre as suas coxas, permitindo-lhe abrir-lhas. Os dedos dele roçaram-lhe a suave penugem ondulada, explorando suavemente a sua zona mais íntima, que Annabelle sentia estranhamente húmida e inchada. Suspirando de profundo prazer, Simon afastou-lhe um pouco mais as coxas, descobrindo-lhe o suave botão – que desde logo vibrou ao seu toque. Massajou docemente a zona ligeiramente acima dele, com dedos leves e gentis, e ela sentiu-se literalmente elevar-


se aos céus. Arquejou de encontro à boca dele, sentindo a pele pálida adquirir as manchas rosadas da paixão. Simon procurou-lhe a entrada do corpo, os dedos meigos insinuando-se com extremo cuidado. O coração de Annabelle bateu mais forte e ela sentiu as pernas e os braços retesarem-se de puro prazer. Mais uma vez se deixou consumir por um estranho temor, rolando de novo para fora do alcance dele e fitando-o com os olhos muito abertos. Simon deixou-se ficar quieto, deitado de lado e apoiado no cotovelo, o cabelo escuro desgrenhado e o olhar ardente, numa expressão meio apaixonada, meio divertida. Parecia ter entendido o que começara a acontecer dentro dela, e mostrava-se fascinado pela sua inocente consternação. – Não se mexa… – disse-lhe gentilmente e com um sorriso doce. Muito lentamente puxou-a para debaixo dele, preparando o corpo dela com toda a meiguice. – Não a vou magoar, querida – sussurroulhe ao ouvido. – Deixe que lhe dê prazer… Deixe-me prová-la… Sem deixar de lhe segredar palavras doces, foi cobrindo Annabelle de beijos e carícias enquanto lhe descia pelo corpo. No momento em que a cabeça dele aflorou o acesso oculto de entre as coxas dela, Annabelle gemia já incessantemente. A boca dele descobriu-lhe o pequeno monte de penugem delicada e beijou-o docemente. Plena de constrangimento, Annabelle retraiu-se, mas Simon segurou-lhe as ancas com ambas as mãos e explorou-a despudoradamente, a língua deslizando suavemente por todas as pregas e fendas. A visão da bonita cabeça dele entre as suas pernas representava por si só um profundo abalo em todos os sentidos de Annabelle. O quarto em seu redor ficou toldado, e ela sentiu-se como que flutuando por entre as camadas de sombra e de luz, consciente de coisa alguma a não ser de um puro e infinito êxtase. Ela já não podia opor-se-lhe, negar ou esconder-lhe nada; nada podia fazer senão render-se à sua boca sôfrega – uma boca que despertava nela um prazer profano e tão maravilhosamente desconhecido. Ele concentrou-se naquele ponto central do seu sexo, lambendo firme e suavemente, até o prazer se tornar demasiado intenso para ela conseguir suportar – fazendo-a arquear o corpo, elevar descontroladamente as ancas, estremecer de encontro à boca dele – e, finalmente, sentir uma descarga elétrica percorrer-lhe o corpo e a alma. Despedindo-se daquela zona tão íntima com um beijo suave, Simon percorreu-lhe novamente o corpo com beijos, agora no sentido ascendente. Annabelle tinha já as coxas débeis quando ele lhas escancarou, sentindo desde logo a ponta da sua lança aflorá-la suavemente. Baixando o olhar para o rosto atordoado dela, Simon afastou-lhe docemente uma mecha da testa. Annabelle esboçou um sorriso tímido, vacilante, ao olhá-lo nos olhos. – Esqueci completamente a minha conta bancária… – murmurou-lhe, arrancando-lhe um largo sorriso. Simon acariciou-lhe a testa com o polegar, na zona onde a pele acetinada se juntava ao cabelo. – Minha pobre Annabelle… – segredou-lhe, enquanto pressionava o seu sexo por entre as pernas dela, e provocando-lhe os primeiros prenúncios de dor. – Receio que a partir de agora não vá retirar disto a menor dose de prazer… – Eu não me importo… Eu… sinto-me tão feliz por ser consigo… Sem dúvida que aquela era uma frase estranha, saída da boca de uma noiva em plena noite de núpcias, mas conseguiu levar um sorriso aos lábios de Simon. Ele baixou a cabeça e começou a sussurrar-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que forçava o caminho para o interior inexperiente dela, vendo-a esforçar-se para não resistir, não obstante o instinto natural a mandar rejeitar aquela dolorosa


intrusão. – Meu amor… – sussurrou-lhe ele. A respiração de Simon tornou-se mais pesada e irregular e, ao aquietar-se subitamente dentro dela, pareceu fazer um esforço hercúleo para se controlar. – Sim, é isso… só mais um pouco… – murmurou. Após um novo e cuidadoso impulso, hesitou novamente. – Mais um pouco… – Foi forçando a sua entrada com avanços e recuos delicados, levando paulatinamente o corpo dela a aceitá-lo. – Mais… – Quanto mais? – indagou Annabelle num arquejo. Era demasiado doloroso, a pressão demasiado intensa, levando-a a perguntar-se como era possível aquilo ser outra coisa que não profundamente desconfortável. Simon cerrou os dentes pelo esforço necessário para se controlar e ficar quieto. – Diria que estamos… a meio caminho – conseguiu finalmente murmurar, num tom levemente pesaroso. – A… meio caminho – suspirou ela, protestando com um risinho nervoso. – Oh, isto é impossível, não consigo… não posso… Mas ele continuou a impulsionar-se, cada vez mais fundo, cada vez mais longe, tentando mitigar-lhe a dor com beijos e carícias. Gradualmente foi ficando mais fácil, a dor dando lentamente lugar a um… queimar, leve e prolongado. Annabelle deixou escapar um longo suspiro ao sentir o corpo ceder, a sua carne virginal concedendo-lhe a inevitabilidade da posse. As costas de Simon eram uma massa de músculo hirsuto, o estômago uma tábua esculpida de mogno. Mantendo-se firmemente dentro dela, gemeu intensamente enquanto os ombros estremeciam. – É tão apertada… – disse roucamente. – Eu… lamento… – Não, não… – disse ele. – Não lamente… Meu Deus! – A voz dele soava arrastada, como que ébria de prazer. Os dois estudaram-se mutuamente, intimamente, um olhar aflito, o outro brilhante de desejo. Annabelle não conseguia deixar de se maravilhar pelo modo como Simon lhe havia contrariado as suas expectativas. Ela estava tão certa de que ele iria aproveitar aquela oportunidade para se provar dono dela, seu senhor de plena posse… e em vez disso, tinha-a conquistado com infinita paciência. Plena de gratidão, lançou-lhe os braços à volta do pescoço. Beijou-o, explorando-o com a língua – num ato, para ela, ousado. Cravou-lhe as mãos nas costas e fê-las descer suavemente até as palmas lhe encontrarem o contorno firme das nádegas. Deu-lhe palmadinhas tímidas, encorajando-o a investir mais fundo dentro dela. Aquele gesto pareceu destruir em Simon os últimos resquícios do seu controlo. Com um grunhido faminto, gutural, penetrou-a com movimentos ritmados, tremendo pelo esforço de ser brando. A força da sua libertação fê-lo estremecer violentamente, cerrando os dentes no culminar do êxtase. Enterrando o rosto nas madeixas fartas do cabelo dela, inundou-a com o calor meloso do seu abraço. Decorreu um logo momento antes de a tensão lhe abandonar os músculos, fazendo-o soltar um suspiro lento. Ao sentilo retirar-se suavemente de dentro do seu corpo, Annabelle estremeceu de ardor. Apercebendo-se do seu desconforto, Simon acariciou-lhe docemente a pele aveludada da anca. – Creio que jamais sairei desta cama – murmurou-lhe, aninhando-a na curva do braço. – Oh, vai sair, sim… – disse ela, de olhos fechados e sorriso de menina. – Vai levar-me a Paris e já


amanhã. Não conto ser privada da lua de mel que me prometeu. Enfiando o nariz na amálgama de suaves caracóis, Simon respondeu com um sorriso na voz: – Não, minha esposa adorada… não será privada de coisa alguma.


Capítulo 21

Durante aquelas duas semanas de lua de mel, Annabelle descobriu que não era tão requintada como julgara ser. Com uma mistura de ingenuidade e arrogância britânica, sempre considerara Londres como o centro de toda a cultura e conhecimento, mas Paris foi uma revelação. A vida era espantosamente moderna, fazendo Londres parecer uma prima provinciana e desleixada. E contudo, apesar da sua vantagem social e intelectual, as ruas de Paris eram quase medievais na aparência: escuras, estreitas e tortuosas, entrelaçando-se em extensos bairros – a que chamavam arrondissements – de edifícios artisticamente concebidos. Era como um assalto aos sentidos, trapalhão mas encantador, com uma arquitetura que ia das espiras góticas de velhas igrejas à solidez grandiosa do Arco do Triunfo. O Hotel Coeur de Paris, onde ficariam hospedados, situava-se na margem esquerda do Sena, entre uma plêiade deslumbrante de lojas na Rue de Montparnasse e os mercados cobertos de Saint Germaindes-Prés, onde se exibiam produtos exóticos, tecidos, rendas, obras de arte e perfumes de uma variedade estonteante. O Coeur de Paris era um palácio com uma série de quartos concebidos para o prazer sensual. A casa de banho, por exemplo – a que chamavam salle de bain –, era cor-de-rosa, com as paredes em mosaico italiano, e um canapé rococó dourado, onde uma pessoa podia descansar após o esforço exaustivo da lavagem. Havia não só uma, mas duas banheiras de porcelana, cada uma com a sua própria água quente e fria. No teto, por cima das banheiras, estava pintada uma paisagem oval, destinada a entreter e a relaxar após o banho. Criada na visão britânica do banho como uma questão de higiene – e para ser despachado com brevidade –, Annabelle sorriu à ideia de que o ato de banhar-se podia tornar-se uma diversão decadente. Para seu extremo gozo, um homem e uma mulher podiam partilhar uma mesa num restaurante sem a necessidade de requisitarem um compartimento privado. Nunca comera refeições tão deliciosas… frango tenríssimo fervilhado em vinho tinto com minúsculas cebolinhas… um confit de pato, assado até se tornar deveras macio sob a pele tostada e reluzente, filetes de linguado num espesso molho de trufas…. E, claro, as sobremesas, grossas fatias de bolo ensopadas em licor e cobertas de merengue, pudins entremeados de nozes e frutas cristalizadas. Observando o suplício de Annabelle, que todas as noites hesitava sobre o que escolher como sobremesa, Simon, muito sério, garantiu-lhe que generais havia que tinham delineado planos de ataque com mais determinação do que ela empregava agora para escolher entre a tarte de pera e o soufflé de baunilha. Uma noite Simon levou-a a um espetáculo com bailarinas escandalosamente seminuas e, na noite seguinte, a um teatro de comédia com piadas obscenas que não precisavam de tradução. Foram também a bailes e festas dadas por amigos de Simon. Havia franceses, mas também turistas e imigrantes vindos de


Inglaterra, América e Itália. Alguns eram acionistas ou membros de empresas que ele detinha, enquanto outros estavam associados às suas companhias ferroviárias ou de navegação. – Como é que conhece tanta gente? – perguntou Annabelle espantada, vendo-o ser cumprimentado por vários estranhos logo na primeira festa onde foram. Simon riu e troçou dela com ternura, dizendo que mais parecia que ela nunca considerara existir todo um mundo fora da aristocracia britânica. E era verdade. Nunca, até agora, ela se lembrara de olhar para fora daquela sociedade rarefeita. Aqueles homens, tal como Simon, eram a elite num sentido puramente económico, ocupados ativamente a construir fortunas; muitos deles eram literalmente donos de cidades inteiras, construídas à volta de indústrias que se desenvolviam rapidamente. Possuíam minas, plantações, fábricas, manufaturas, lojas e armazéns; e, ao que parecia, os seus interesses raramente se confinavam a um só país. Enquanto as suas mulheres faziam compras e mandavam confecionar vestidos nos melhores costureiros de Paris, os homens frequentavam cafés ou salas privadas onde discutiam longamente negócios e política. Muitos fumavam tabaco por finos tubos de papel a que chamavam cigarros, uma moda que começara entre os militares egípcios e se espalhara rapidamente por todo o continente. Ao jantar falavam de coisas que Annabelle nunca ouvira mencionar, acontecimentos completamente desconhecidos para ela e que, com toda a certeza, os jornais nunca haviam publicado. Annabelle também reparou que, quando o marido falava, os outros homens prestavam toda a atenção às suas opiniões e pediam os seus conselhos numa enorme variedade de assuntos. Simon talvez fosse pouco considerado no meio da aristocracia britânica, mas era nítido que tinha uma influência notável fora dela. Agora ela percebia porque é que Lord Westcliff o tinha em tanta estima. A verdade é que Simon era um homem poderoso só por si. Vendo o respeito que os outros tinham por ele e a excitação coquete que inspirava nas outras mulheres, Annabelle começou a ver o marido a uma luz diferente. E passou até a sentir-se um tanto possessiva em relação a ele – a Simon, imagine-se! –, e deu por si a fervilhar de ciúmes quando uma mulher sentada junto dele num jantar tentava monopolizar a sua atenção, ou quando outra declarava, provocante, que Simon era obrigado a ser seu par numa valsa… No primeiro baile a que foram, Annabelle instalara-se numa salinha com um grupo de jovens mulheres casadas, muito sofisticadas, uma delas esposa de um fabricante de armas americano, as outras duas francesas, cujos maridos eram negociantes de arte. Pouco à vontade com as perguntas delas acerca de Simon – e não querendo mostrar quão pouco sabia ainda acerca do marido –, Annabelle ficou bastante aliviada quando o tema da conversa apareceu, vindo buscá-la para dançar. Impecável, num fato preto de cerimónia, Simon trocou cumprimentos com as mulheres que coravam entre risinhos e voltou-se para Annabelle. Olharam-se, enquanto uma melodia começava a soar no salão de baile, ali ao lado. Annabelle reconheceu a música… era uma valsa popular em Londres, tão doce e obsessiva que todas as raparigas que não conseguiam um par num baile consideravam que era, literalmente, uma tortura ficarem sentadas enquanto a tocavam… Simon estendeu o braço que Annabelle tomou, recordando as inúmeras vezes que, no passado, desdenhara os seus convites para dançar. Reconhecendo que, finalmente, Simon obtivera o que desejava, Annabelle sorriu-lhe. – Acaba sempre por conseguir o que quer, não é verdade? – Por vezes leva mais tempo do que eu gostaria – respondeu ele.


Ao entrarem no salão, ele pôs a mão na cintura dela, guiando-a até à massa rodopiante de pares de bailarinos. Ela sentiu uma súbita inquietação, como se estivesse prestes a partilhar de algo muito mais significativo do que uma simples dança. – Esta é a minha valsa preferida – disse ela, deixando-se enlaçar. – Bem sei. Foi por isso que pedi que a tocassem. – Como é que sabia? – perguntou ela com um risinho incrédulo. – Calculo que foi uma das manas Bowman quem lho disse? Simon abanou a cabeça, enquanto a sua mão enluvada apertava a dela. – Por mais de uma vez observei a sua expressão enquanto a tocavam. Parecia sempre prestes a levantar voo da sua cadeira… De boca entreaberta de surpresa, ela olhou-o nos olhos, confundida. Como é que ele se apercebera de uma coisa tão subtil? Ela tinha-o repelido constantemente e, contudo, ele reparara na reação dela a uma dada música – e gravara-o na memória. Aquela revelação trouxe-lhe lágrimas aos olhos e ela afastou imediatamente o olhar, lutando para controlar uma súbita vaga de emoção. Simon fê-la entrar na corrente dos pares que dançavam. Os seus braços firmes e a mão nas costas dela ofereciam proteção e liderança. Era tão fácil segui-lo, deixando o corpo descontrair-se ao ritmo estabelecido por ele, enquanto as saias revolteavam sobre o chão reluzente, fustigando subtilmente as pernas dele. Aquela melodia cativante parecia penetrá-la totalmente, dissolvendo-lhe aquele nó na garganta e enchendo-a de um prazer incontrolável. Por seu lado, Simon também não disfarçava um sentimento de triunfo, enquanto conduzia Annabelle pelo salão de baile. Finalmente, após anos de perseguição, desfrutava da tão desejada valsa com ela. E – o que era ainda mais satisfatório – Annabelle continuaria a ser sua após a valsa… Ele iria levá-la para o hotel, despi-la e fazer amor com ela até de madrugada. O corpo dela era flexível nos seus braços, a mão ligeira no seu ombro. Poucas mulheres teriam alguma vez seguido a sua condução com tanta fluidez, como se ela soubesse a direção que ele ia tomar, antes mesmo de ele próprio a conhecer. O resultado era uma harmonia física que os levava a evoluir rapidamente pelo salão como aves em voo. Simon não ficara surpreendido com as reações dos seus amigos ao conhecerem a sua jovem esposa – as expressões de felicitações com olhares de subtil cobiça, e os murmúrios matreiros de certos homens, comentando que não lhe invejavam o fardo de possuir uma esposa tão bonita. Ultimamente, Annabelle tinha-se tornado ainda mais bonita, se possível, agora sem aquela tensão de tantas noites de sono sem sonhos. Na cama, era afetuosa e até brincalhona – na noite anterior trepara para cima dele com a graciosidade de uma foca, semeando-lhe beijos no peito e nos ombros. Ele não o esperara da parte dela, tendo conhecido no passado mulheres lindíssimas que invariavelmente se deixavam ficar passivas, à espera de serem reverenciadas. Annabelle, pelo contrário, tinha-o provocado e acariciado até ele não poder mais. Simon rolara para cima dela, enquanto ela protestava, rindo e dizendo que ainda não tinha acabado com ele. – Eu é que vou acabar consigo – ameaçara ele, enterrando-se nela até a ouvir gemer de prazer. Simon não tinha ilusões acerca daquela relação vir a ser eternamente harmoniosa – eram ambos demasiado independentes e de forte carácter para evitar ocasionais embates. Tendo abandonado as suas


hipóteses de casar com um aristocrata, Annabelle fechara a porta ao género de vida com que sempre tinha sonhado, percebendo que teria de se ajustar a um outro totalmente diferente. Excetuando Westcliff e dois ou três outros amigos bem-nascidos, Simon tinha pouca interação com a aristocracia. O seu mundo era constituído, sobretudo, por homens de profissão, como ele, pouco requintados e razoavelmente satisfeitos com a finalidade de gerar dinheiro. Esta multidão de homens de negócios não podia ser mais diferente da classe culta com que Annabelle sempre tinha vivido. Falavam muito alto, relacionavam-se com excessiva facilidade e por demasiado tempo, e não tinham o mais ínfimo respeito pela tradição ou pelas boasmaneiras. Simon não estava completamente seguro do modo como Annabelle iria aguentar-se com gente daquela, mas parecia disposta a tentar. Ele apercebera-se disso e apreciava os seus esforços, mais do que ela poderia imaginar. Compreendia perfeitamente que cenas como a que ela aturara há duas noites teriam levado qualquer outra jovem habituada a ser resguardada a uma explosão de lágrimas de vergonha. Contudo, Annabelle enfrentara-a com relativa compostura. Tinham ido a uma soireé oferecida por um rico arquiteto francês e sua esposa; fora uma noite um tanto caótica, com vinho à discrição e demasiados convidados – o que resultara numa atmosfera de estridente imoderação. Tendo deixado Annabelle sozinha por alguns minutos numa mesa de desconhecidos, Simon voltara de uma conversa privada com o dono da casa para descobrir a sua mulher aturdida, encurralada por dois homens que tiravam à sorte quem teria o privilégio de beber champanhe por um sapato dela. Ainda que o jogo fosse entendido num espírito de brincadeira, era óbvio que os rivais, que disputavam as boas graças de Annabelle, tiravam enorme prazer do seu embaraço. Não havia nada mais divertido para aquela gente grosseira do que atacar o decoro de uma mulher, especialmente quando a vítima era, obviamente, inexperiente. Embora Annabelle tivesse tentado minimizar o incidente, aquele jogo atrevido provocara-lhe mal-estar e o seu sorriso não podia ser mais forçado. Levantando-se da cadeira, ela lançou um olhar rápido à volta da sala, em busca de proteção. Mantendo uma fachada social de profunda serenidade, Simon chegou à mesa, afagando-a na base do pescoço com um polegar tranquilizante. Sentiu-a relaxar ligeiramente e a cor viva da face esbater-se aos poucos, enquanto levantava os olhos para ele. – Acredita que estavam ambos a discutir quem iria beber champanhe pelo meu sapato? – murmurou ela, ofegante. – Obviamente que a sugestão não partiu de mim e não entendo de que maneira… – Bem, ora aí está um problema fácil de resolver – interrompeu Simon sem se alterar. Olhando discretamente em seu redor, apercebeu-se de que já se juntara uma multidão ávida de o ver perder as estribeiras devido àquela audaciosa investida sobre a sua mulher. Suavemente, mas com firmeza, levou Annabelle de novo até ao seu lugar. – Sente-se, minha querida. – Mas eu não… – começou ela hesitante, e abafou um grito ao ver Simon acocorar-se rapidamente diante dela. Metendo a mão sob a bainha da saia, retirou rapidamente ambos os seus sapatinhos de cetim bordados. – Simon! – exclamou ela, de olhos escancarados de espanto. Ele levantou-se e, com um florear de mão, entregou um sapato a cada rival. – Podem ficar com os sapatos, meus senhores, contanto que ambos fiquem bem cientes de que o seu recheio me pertence.


Pegando ao colo na sua mulher descalça, atravessou o salão, enquanto a multidão reagia com risos e aplausos. Ao saírem, passaram por um criado a quem tinha sido mandado buscar uma garrafa de champanhe. – Ficamos com isto – disse Simon ao criado atarantado, que não teve reação. Simon levou Annabelle até à carruagem, enquanto ela segurava a garrafa com uma mão e enroscava o braço livre à volta do seu pescoço. – Está a custar-me uma fortuna em sapatos, querida – disse ele. O riso voltara-lhe aos olhos. – Tenho mais sapatos no hotel – respondeu ela. – Está a pensar em beber champanhe dentro deles? – Não, meu amor, vou bebê-lo dentro de si. Ela lançou-lhe primeiro um olhar sobressaltado, mas compreendendo subitamente, enterrou o rosto no ombro dele, donde sobressaiu uma orelha escarlate. Recordando aquele episódio e as agradáveis horas que se seguiram, Simon contemplou a mulher que tinha nos braços. A luz de oito candelabros refletia-se nos olhos dela, polvilhando-os de minúsculos reflexos que faziam com que as íris azuis parecessem uma noite de verão plena de estrelas. Ela olhava-o com uma intensidade que nunca mostrara antes, como se ansiasse por uma coisa que não poderia ter. Aquele olhar inquietou-o, provocando-lhe uma necessidade imperiosa de a satisfazer por todos os meios possíveis. Naquele momento, o que quer que fosse que ela lhe pedisse, ele ter-lhe-ia dado sem hesitação. Naquela noite eles haviam proposto um sério desafio a qualquer casal presente: a sala ficara desfocada, como num sonho, e Simon perdera o sentido da direção que tomavam. Dançaram até as pessoas à sua volta comentarem azedamente que não ficava bem um marido e mulher ostentarem uma tal exclusividade num baile, e que depois da lua de mel não duraria muito até se cansarem um do outro. Simon sorriu, a propósito daqueles comentários, e murmurou ao ouvido de Annabelle: – E agora, tem pena de nunca ter querido dançar comigo? – Não… – murmurou ela. – Se eu não constituísse um desafio, o senhor teria perdido o interesse. Abafando uma gargalhada, Simon envolveu-a pela cintura e levou-a para um lado do salão. – Isso jamais poderia acontecer. Tudo o que diz e faz me interessa. – Ah sim? – disse ela, cética. – E que tal aquele comentário de Lord Westcliff, sobre como eu sou fútil e presunçosa? Ele voltou-a de costas para a parede, encostou a mão perto da sua cabeça e inclinou-se sobre ela protetoramente. – Ele não a conhece – disse em voz baixa. – E o Simon, conhece? – Conheço-a sim – levantou um dedo para um fio de cabelo húmido colado ao pescoço dela. – A Annabelle guarda-se com muito cuidado. Não quer depender de ninguém. É determinada, voluntariosa e muito firme nas suas opiniões. Para não dizer teimosa. Mas presunçosa, nunca. E com uma inteligência como a sua, ninguém pode ser considerado fútil. O dedo dele alisou-lhe os fios de cabelo por trás da orelha e, com um brilhozinho provocante no olhar, acrescentou: – E é também deliciosamente fácil de seduzir. – Só por si! – disse Annabelle com uma gargalhada, levantando um punho fechado contra ele.


Ele agarrou-lhe o punho e beijou-lhe os nós dos dedos. – Agora que é minha mulher, Westcliff não se atreverá a dizer uma única palavra de objeção contra si, ou contra o nosso casamento. Se o fizesse, eu poria fim à nossa amizade sem sequer pensar duas vezes. – Ah, mas eu jamais quereria isso… – olhou para ele, subitamente confusa. – Era capaz de fazer isso por mim?! Simon percorreu com um dedo uma madeixa dourada que atravessava o seu cabelo cor de mel. – Não há nada que eu não fizesse por si. Era uma declaração sincera. Simon não era homem de meias palavras. Em troco do compromisso de Annabelle para com ele, ela teria a sua inequívoca lealdade e apoio. Depois disto, Annabelle ficou estranhamente calada por muito tempo, levando Simon a pensar que estaria cansada. Mas quando voltaram ao quarto do Coeur de Paris, naquela noite, ela entregou-se-lhe com um novo fervor, tentando exprimir com o corpo o que não podia dizer com palavras.


Capítulo 22

Tal como tinha prometido, Simon demonstrou ser um marido generoso, encomendando grande quantidade de vestidos e acessórios feitos em Paris, que seriam enviados para Londres quando estivessem prontos. Mas, quando uma tarde levou Annabelle a um joalheiro e lhe disse para escolher o que quisesse, ela só conseguiu abanar a cabeça, desorientada perante a plêiade de diamantes, safiras e esmeraldas espalhadas sobre o veludo preto. Após anos a usar pedras falsas e vestidos virados do avesso, o hábito da economia era difícil de contrariar. – Não há nada que lhe agrade? – perguntou-lhe Simon, pegando num colar feito de diamantes brancos e amarelos, enfiados juntos a imitar florzinhas. Segurou-o junto ao pescoço dela, admirando o brilho das pedras contra a sua pele delicada. – E este, que tal? – Tem brincos a condizer, madame – disse o joalheiro solícito. – Et aussi um bracelet que diz muito bem com o conjunto. – É lindo – respondeu Annabelle – Só que… bem, parece tão estranho entrar numa loja e comprar um colar de diamantes como se se tratasse de uma caixa de bombons… Perplexo perante aquela timidez, Simon olhou-a com atenção, enquanto o joalheiro, com todo o tato, se retirava para o fundo da loja. Simon repôs com cuidado o colar no seu estojo de veludo e tomou nas suas a mão de Annabelle. Afagando-lhe as costas da mão, perguntou: – O que se passa, meu doce? Há outros joalheiros, se nada disto lhe agrada… – Oh não, não é isso!… É que… talvez por estar habituada a não comprar coisas, me seja difícil ajustar-me ao facto de que agora posso fazê-lo… – Tenho a certeza de que esse problema não vai ser difícil de resolver – disse Simon secamente. – Em todo o caso, eu é que estou farto de a ver com joalharia de imitação. Se não se decide a escolher, permita-me que o faça. Decidiu-se por dois pares de brincos de diamantes, o colar às flores e a pulseira a condizer, dois colares de pérolas e finalmente um anel com um diamante de cinco quilates em forma de pera. Enervada com tanta extravagância, Annabelle limitou-se a emitir tímidos protestos, até que Simon, rindo, lhe disse que quanto mais objeções fizesse, mais ele iria comprando. Ela calou-se logo e viu, de olhos arregalados, o feliz joalheiro colocar tudo num cofrezinho de mogno forrado a veludo e com uma pega no topo. Tudo menos o anel, que Simon lhe colocou no dedo, viu que estava largo de mais e restituiu ao joalheiro. – E o meu anel? – protestou Annabelle, segurando a caixa com ambas as mãos ao saírem da loja. –


Vamos deixá-lo lá? Divertido, Simon respondeu: – Ele vai apertá-lo e mais tarde manda-o para o hotel. – E se o perdem? – Que é feito das suas objeções? Na loja até parecia que não o queria… – Pois, mas agora é meu – disse ela preocupada, provocando em Simon um ataque de riso. Para seu alívio, o anel foi entregue no hotel nessa mesma noite, numa caixinha forrada a veludo. Enquanto Simon gratificava o rapaz que o trouxera, Annabelle saiu à pressa do banho, enxugou-se e enfiou uma camisa de noite branca. Ao fechar a porta do quarto, Simon voltou-se e viu a sua mulher mesmo atrás de si, com a expressão de alegre expectativa de uma criança numa manhã de Natal. A expressão dela fê-lo sorrir, vendo que os seus esforços para se comportar como uma lady logo se desvaneciam num afluxo de excitação. O anel reluziu quando ele o tirou da caixa e lho colocou no dedo, encostando-o à aliança de ouro, muito simples, que lhe dera no dia do casamento. Juntos, admiraram o anel na mão dela, até que ela lançou os braços em volta do pescoço dele com uma exclamação de alegria. Logo a seguir, afastou-se e executou, descalça, um pequeno bailado de regozijo. – É tão bonito!… Como brilha! Simon, vá-se embora, deixe-me, não passo de uma horrível mercenária! Oh, como eu adoro este anel! Aproveitando a excitação dela, Simon agarrou-a e apertou-a junto ao corpo. – Para sua informação, não estou inclinado a ir-me embora, minha senhora. Esta é a minha grande oportunidade para colher os benefícios da sua gratidão… Excitada, Annabelle puxou a cabeça dele para si, esmagando-lhe a boca com a sua. – E assim será – disse-lhe, beijando-o uma e outra vez novamente. – E já! Ele riu do ataque dela, tão impulsivamente genuíno. – Sem dúvida que eu deveria dizer sem hesitação que… o seu entusiasmo é paga suficiente. Por outro lado, e já que tanto insiste… – Insisto! Claro que insisto! Afastando-se dele, Annabelle dirigiu-se à cama, trepou para cima e, teatralmente, deixou-se cair para trás, ficando de braços e pernas estendidos sobre a colcha. Simon seguiu-a, fascinado com aquelas cabriolas. Era uma Annabelle que ele jamais vira antes, cómica e deliciosamente caprichosa. Ao vê-lo aproximar-se da cama, ela ergueu a cabeça encorajando-o. – Sou toda sua. Queira recolher a sua recompensa… Rapidamente, ele desfez-se do casaco e da gravata, mais do que pronto para lhe obedecer. Annabelle sentou-se a contemplá-lo, de pernas abertas sob a camisa de noite diáfana, o cabelo caído sobre os ombros num tumulto sedoso. – Simon, quero que saiba que eu iria para a cama consigo mesmo sem o anel… – É muita bondade sua – disse ele ironicamente, desembaraçando-se das calças. – Um marido gosta sempre de ouvir dizer que é apreciado para além do seu valor financeiro. O olhar dela demorou-se sobre o corpo dele. – Entre todos os seus méritos, Simon Hunt, o financeiro é provavelmente o menos importante. – Provavelmente?! – avançando até à cama, Simon levantou-lhe um pé e encostou a sua boca à pele


macia. – Não queria antes dizer decididamente? Ela caiu de costas, sentindo a carícia quente da língua dele e a bainha da camisa de noite escorregarlhe até ao cimo das coxas. – Ah, sim… decididamente… definitivamente… O corpo dela estava ainda húmido e tépido do banho, retendo o aroma quente do sabonete e os eflúvios estonteantes do óleo de rosas. Excitado pela vista daquele corpo róseo e perfumado, Simon foi beijando e mordiscando um caminho até ao tornozelo, depois até ao joelho dela. Ao princípio, Annabelle contorcia-se, rindo, sob as hábeis manobras da boca dele, mas quando ele mudou para a outra perna, ela calou-se, respirando fundo e devagar. Simon ajoelhou-se entre as pernas dela, puxando-lhe a camisa de noite para cima centímetro a centímetro e beijando cada parte da pele exposta, até alcançar o tufo de caracóis reluzentes. Mal permitindo que o seu queixo aflorasse o tufo macio, continuou a viagem para cima, despertando nela um ténue gemido de protesto. Intoxicado pela textura aveludada da pele dela, Simon beijou-lhe a cintura, subindo lentamente pelas saliências das costelas até aquele sítio no peito, onde o coração batia descompassado. Annabelle emitiu um som suplicante e agarrou na mão dele tentando levá-la para entre as suas coxas. Mas Simon, resistindo com uma pequena gargalhada sádica, prendeu-lhe ambos os pulsos por cima da cabeça, tapando-lhe a boca com a sua. Ele sentiu a surpresa dela ao ser contrariada e a reação que se seguiu: Annabelle fechou os olhos e o ritmo da sua respiração aumentou. Mantendo firmemente o controlo sobre os seus pulsos com uma mão, fez deslizar a mão livre sobre o corpo dela, girando os dedos à volta dos mamilos. O seu próprio corpo estava rígido e quente de excitação, os músculos tensos em novelos de urgência. Em toda a sua experiência amorosa, nunca experimentara uma absorção tão febril. Qualquer conexão com o mundo exterior estava completamente desligada, ocupado como estava, de forma exclusiva, com Annabelle. O prazer dela alimentava o seu… as reações dela intensificavam o seu próprio desejo. A boca dela abriu-se sob a sua, num acolhimento trémulo, gemendo à medida que os seus beijos a penetravam, mais e mais agressivos. Simon tocou a fenda entre as coxas dela, rejubilando perante a humidade sedosa da sua carne. O corpo dela ondulou, subindo em direção à mão dele, enquanto os seus pulsos aprisionados se torciam, tentando fugir àquela prisão. Todos os seus movimentos comunicavam a sua necessidade de ser possuída e saciada, e o corpo dele endurecia de deleite, atravessado por uma fome primitiva. Lentamente, ele penetrou-a com um dedo, ouvindo-a gemer contra a sua boca. Apercebendo-se da elasticidade crescente da carne dela, Simon acrescentou outro dedo, afagando-a suavemente, até ela estar inchada de excitação. Mal ele descolou a boca da sua, ela suplicou, incoerentemente: – Por favor, Simon, por favor! Eu preciso… – tremia quando ele retirou os dedos. – Não, Simon, não! – Chhh… – ele agarrou-a pelos joelhos e puxou-a cuidadosamente, atravessando-a na cama. – Vais ver como é bom… – murmurou ele. – Eu tomo conta de ti… deixa-me amar-te desta maneira… Puxando-a, até as suas ancas estarem apoiadas na beira do colchão, ele voltou-a subitamente, levantando-lhe as nádegas na sua direção. Ficou de pé, postado entre as ancas dela, e a cabeça rígida do seu membro enfiou-se prontamente dentro do corpo dela. Agarrando-a firmemente pelas ancas, entrou nela com um longo deslizar, não parando até estar completamente inserido. Uma vaga de calor invadiulhe o corpo, como se tivesse avançado para um forno incandescente, e o seu membro inchou, com uma dor aguda de prazer, quase demasiado aguda para suportar. Simon respirava em curtos arranques, lutando


para dominar a intensidade do seu desejo, antes de se descontrolar completamente. Annabelle jazia quieta e passiva sobre o colchão, exceto pelo cerrar dos dedos na colcha. Receando estar a magoá-la, Simon conseguiu dominar aquela necessidade selvagem o tempo necessário para se curvar sobre ela murmurando: – Estou a magoar-te, querida…? – O movimento impeliu-o ainda mais para dentro dela, fazendo-a gemer. – Diz-me e eu paro logo. Ela demorou um tempo a responder, como se precisasse de alguns segundos para compreender a pergunta, e quando respondeu, a sua voz estava embargada de prazer. – Não… não pares… – gemeu. Ele ficou inclinado sobre ela, movendo-se em ímpetos profundos que faziam os músculos internos dela fletirem-se sofregamente contra a dureza dele. As mãos dele cobriam as dela, agarrando-a pelos pulsos, numa posição que a dominava completamente e, contudo, ele não estava a forçar o seu próprio ritmo sobre ela. Pelo contrário, ele movia-se em resposta às exigências do corpo dela, agindo em complemento às pulsações da sua carne… de cada vez que ela se contraía sem poder dominar-se, ele penetrava-a mais, usando o seu corpo para acariciá-la no mais profundo do seu ser. Ela pairava na orla de uma libertação prestes a estilhaçá-la, sem o conseguir, a respiração em longos haustos, as nádegas dela comprimindo-se contra o ventre dele. – Simon… Ele estendeu uma mão debaixo dela, encontrando logo a zona preparada para o receber e o tenro montículo por cima. Com a ponta do dedo espalhou a humidade quente do corpo dela sobre o botão inchado, manipulando-o delicadamente em círculos e afagos, variando o ritmo até achar um ponto que a fez gritar e agarrar-se a ele com toda a força. Ela gemia e gritava enquanto ele esfregava e acariciava num contraponto infatigável e as costas dela se arqueavam em êxtase. Os espasmos e contrações do corpo dela tornaram-se de mais para os sentidos dele, estimulados até ao limite… arquejou com o seu próprio clímax, sugado para dentro da doce carne dela, e o alívio trespassou-o em vagas incontroláveis. O pior momento daquela lua de mel teve lugar, contudo, na manhã em que Annabelle, impensadamente, disse a Simon que achava verdadeiro o ditado segundo o qual o casamento era o estado mais elevado da amizade. Dissera isto para lhe agradar, mas Simon reagira com inesperada hostilidade. Reconhecendo a velha citação de Samuel Richardson, Simon comentara secamente que esperava que os gostos literários dela melhorassem, para o poupar de ouvir citar filosofices baratas, tiradas de romances de cordel. Magoada, Annabelle reagira com um silêncio gélido, incapaz de compreender a razão pela qual o seu comentário irritara tanto o marido. Simon saiu cedo do hotel e não apareceu durante toda a manhã e parte da tarde, regressando para encontrar Annabelle a jogar às cartas com outras senhoras num dos salões do hotel. Aproximando-se da cadeira dela, colocou os dedos no seu ombro. Ela sentiu o toque através do vestido e a sensação mexeulhe com os nervos. Fortemente tentada a prolongar o ressentimento, Annabelle pensou, por momentos, em afastá-lo com um menear de ombros. Mas, pensando para consigo que não lhe custava nada demonstrarlhe uma certa tolerância, olhou para ele com um sorriso por cima do ombro. – Boa tarde, Mr. Hunt – murmurou ela, tratando-o da maneira formal que a maioria das mulheres casadas adotavam em público. – Espero que se tenha divertido no seu passeio. – Com um sorriso provocador, mostrou-lhe as suas cartas. – Já viu o jogo que eu tenho? Algum conselho útil para me dar?


Deslizando as mãos pelos lados da cadeira, Simon baixou a cabeça para lhe murmurar ao ouvido: – Tenho. Acabe já esse jogo. Consciente dos olhares curiosos das outras mulheres, Annabelle manteve uma expressão neutra, embora sentisse uma vaga de calor subir-lhe ao rosto. – Ora… porquê? – murmurou ela, enquanto a boca dele se mantinha junto ao seu ouvido. – Porque vou fazer amor consigo dentro de, precisamente, cinco minutos – respondeu ele noutro murmúrio. – Seja onde for que estivermos… aqui… lá em cima no quarto… ou nas escadas. Por isso, Mrs. Hunt, se deseja alguma privacidade, sugiro que saia desse jogo o mais brevemente possível. Ele não seria capaz…!, pensou Annabelle com o coração aos pulos. Por outro lado, conhecendo Simon, havia uma possibilidade… Com essa ideia no espírito, Annabelle jogou uma carta com a mão trémula. A jogadora seguinte levou um tempo infinito a jogar a sua carta, e a que se seguia parou para trocar um comentário jocoso com o seu marido, que se aproximara da mesa. Consciente do suor que se lhe acumulava na fronte e entre os seios, Annabelle considerou as hipóteses de se retirar do jogo sem mais demoras. A voz da razão acalmou-a, dizendo-lhe que, por mais audacioso que Simon fosse, não iria com certeza acometer a própria esposa numa sala de hotel. Contudo, a voz da razão viu-se subitamente estrangulada quando Simon, muito calmo, consultou o relógio. – Tem três minutos – sussurrou ele ao ouvido dela. Curiosamente, em plena agitação, Annabelle sentiu entre as coxas um indecoroso palpitar e todo o corpo vivamente estimulado pela ousada promessa na voz dele. Apertando as pernas com energia, ela esperou pela sua vez de jogar com uma compostura forçada, embora o coração lhe batesse a um ritmo descompassado. As jogadoras conversavam amenamente, abanando leques e mandando trazer por um criado mais um jarro de limonada fresca. Por fim, chegou a vez de Annabelle, que deitou fora a sua carta mais valiosa, tirando outra. Vendo com alívio que a nova carta não tinha valor, pousou o seu jogo na mesa. – Desculpem, mas estou fora – disse ela fazendo um esforço para não soar ofegante. – O jogo foi excelente, mas preciso de… – Oh, fique para mais uma mão, por favor – pediu uma das senhoras, a que se seguiram novos pedidos das outras. – Sim, fique, por favor!… – Pelo menos até acabarmos esta mão… – Obrigada, mas… – Annabelle levantou-se e suprimiu um arquejo, ao sentir nas costas a leve pressão da mão de Simon. Os seus mamilos arrebitaram-se dentro do vestido. – Estou simplesmente exausta com o tanto que dançámos na noite passada – improvisou ela. – Tenho de descansar um pouco antes do teatro desta noite. Seguida por um coro de protestos e alguns olhares entendedores, Annabelle iniciou uma saída condigna do salão. Mal chegaram à escada em caracol, que levava aos andares superiores, Annabelle soltou um suspiro de alívio, lançando ao marido um olhar falsamente reprovador. – Se estava a tentar envergonhar-me, teve êxito absoluto… O que é que está a fazer?! O vestido tinha-se-lhe desprendido dos ombros e ela verificou com um choque de surpresa que ele lhe tinha desabotoado alguns botões.


– Simon… – sibilou ela entre dentes – Não se atreva! Não! Pare com isso! – Afastou-se dele rapidamente, mas ele seguiu-a sem esforço. – Tem… um minuto. – Não seja tonto! – disse ela rispidamente. – Não temos a menor possibilidade de chegar à suite em menos de um minuto e com certeza não vai… Interrompeu-se com um grito ao senti-lo desabotoar outro botão e virou-se para afastar com palmadas aquelas mãos atrevidas. Os seus olhares cruzaram-se e ela percebeu, incrédula, que ele tinha todas as intenções de cumprir a ameaça. – Simon, não! – Sim… Os olhos dele estavam cheios daquele espírito de… tigre folião, que ela tão bem conhecia. Arregaçando as saias, Annabelle virou-se para subir as escadas, já ofegante de riso e de pânico. – Você é impossível, realmente! Deixe-me em paz! Não vê que… Se alguém nos apanha neste preparo… ah, juro que nunca lhe perdoarei! Simon seguiu-a sem pressa aparente – mas a verdade é que ele não tinha massas de saias e roupas de baixo que lhe toldassem os movimentos. Annabelle chegou ao andar de cima e deu a volta para o patamar seguinte, com os joelhos a doer enquanto as pernas trepavam num esforço desesperado, degrau após degrau. Era como se as saias tivessem pesos e os seus pulmões estivessem prestes a rebentar. Oh, maldito fosse ele por lhe fazer uma coisa assim – e maldita ela por aquelas risadas abafadas que continuavam a sair-lhe da garganta. – Trinta segundos… – ouviu ela atrás de si, no momento em que, ofegante, chegava ao topo do segundo piso. À sua frente havia três longos corredores até chegarem à suite – que, em meio minuto, era impossível percorrer. Segurando a frente do vestido que ameaçava cair, ela olhou para um lado e para o outro do patamar em que desembocava a escada. Correu para a primeira porta que encontrou, que dava para uma pequena despensa sem luz. Um intenso cheiro a roupa engomada saiu lá de dentro e, à luz do patamar, Annabelle viu prateleiras e mais prateleiras cheias de lençóis e toalhas cuidadosamente empilhadas. – Entre… – murmurou Simon, empurrando-a para dentro do armário e fechando a porta. Annabelle achou-se imediatamente imersa em escuridão. O riso inchava-lhe a garganta, enquanto tentava, sem resultado, empurrar as mãos que a agarravam. Pareceu-lhe que o marido criara, subitamente, mais braços do que um polvo, desapertando-lhe o vestido e despindo-lho muito mais depressa do que ela conseguia defender-se. – E se acabou de nos fechar aqui dentro? Pensou nisso? – perguntou, enquanto via as suas roupas caírem no chão. – Eu arrombo a porta – respondeu ele, puxando-lhe pelas fitas das ceroulas. – Depois… – Se uma das criadas nos encontra, somos expulsos do hotel! – As criadas já viram muito pior, acredite. O vestido jazia pisado por Simon, que já começara a fazer-lhe descer as ceroulas até aos pés. Ela começou a protestar sem convicção, até que Simon lhe meteu a mão entre as coxas, descobrindo a evidência da excitação dela, após o que os seus protestos pareceram sem sentido. A boca dela abriu-se para o beijo, respondendo avidamente à pressão acariciante e rude da boca dele. A entrada do corpo dela


preparou-se logo para o receber e um gemido escapou-lhe da garganta ao sentir os dedos dele, alargando-a para que cada ímpeto das ancas dele roçasse mais fundo o ponto sensível do seu sexo. Lutaram para se comprimirem mais e mais, fletindo os corpos, fundindo-se, cada beijo uma invasão mais precisa que a excitava mais ainda. O espartilho dela estava apertado de mais, mas aquela constrição resultava num prazer inesperado, como se uma sensibilidade extra tivesse sido desviada para a metade inferior do seu corpo – e capturada por tecidos entumecidos de prazer. As mãos dela tentavam, em vão, agarrar-se à camisa dele, à medida que o seu desejo ascendia até perto da loucura. Simon invadiu-a com profundas investidas, num ritmo insistente, até que o êxtase os invadiu, ecoando em ambos ao mesmo tempo, e os seus pulmões aspiraram torrentes de ar carregado do cheiro da roupa lavada, acabada de engomar. Braços e pernas entrelaçados apertaram-se como que para terem entre eles a mesma sensação. – Diabo! – disse Simon uns minutos depois, tendo conseguido recuperar o fôlego. – O que foi? – murmurou Annabelle, com a cabeça colada à lapela do casaco dele. – O cheiro a goma vai fazer-me ficar excitado para o resto da minha vida. – Problema seu – replicou ela com um sorriso lânguido, inspirando fundo ao sentir o corpo dele ainda dentro dela. – E seu também – disse-lhe ele, procurando a boca dela com a sua.


Capítulo 23

Pouco antes de regressarem a Inglaterra, Simon e Annabelle viram-se confrontados com a inevitabilidade da interação de duas famílias que não podiam ser mais díspares. Bertha, a mãe de Simon, fez questão que fossem lá jantar para se conhecerem melhor, o que não tinham podido fazer antes do casamento. Embora Simon tivesse avisado a mulher sobre o que a podia esperar, e ela, por sua vez, se tivesse esforçado por preparar a sua mãe e o seu irmão, Annabelle suspeitava de que aquele encontro iria produzir – na melhor das hipóteses – resultados variados. Jeremy, felizmente, tinha-se reconciliado desde logo com o facto de Simon Hunt ser agora seu cunhado. Havia crescido muito, de forma algo desengonçada, e ficava agora bem acima de Annabelle, ao abraçá-la no salão da casa de família. O seu cabelo castanho ficara mais claro, graças ao tempo que passara ao ar livre, os seus olhos azuis destacavam-se, muito claros e sorridentes, no rosto bronzeado pelo sol. – Não queria acreditar quando li a carta da Mamã dizendo que ias casar com Simon Hunt! – disse Jeremy à irmã. – Depois das coisas horríveis que disseste dele durante os últimos dois anos… – Jeremy! – gritou Annabelle. – Não te atrevas a repetir nada disso! Rindo e continuando a cingi-la pela cintura enquanto estendia a mão a Simon, Jeremy felicitou o cunhado. – Parabéns, Simon – E ao apertarem as mãos continuou, malicioso. – Para dizer a verdade, não foi surpresa para mim. A minha irmã queixava-se tanto de si e durante tanto tempo, que percebi logo que ela tinha um forte sentimento a seu respeito. O olhar terno de Simon incidiu sobre a sua esposa carrancuda. – Não consigo imaginar o que ela encontrava em mim para se queixar tanto – disse ele suavemente. – Se bem me recordo, ela dizia que… – começou Jeremy, dando um estremeção exagerado quando Annabelle lhe espetou um cotovelo nas costas. – Pronto, pronto, eu calo-me – disse ele levantando as mãos na defensiva. – Estava apenas a ter uma conversa de salão com o meu novo cunhado… – As conversas de salão consistem em dissertar sobre o tempo ou perguntar pelo estado de saúde – elucidou-o Annabelle. – E não em revelar detalhes potencialmente embaraçosos que uma irmã nos fez em confidência. Passando o braço pela cintura de Annabelle e puxando-a contra o peito, Simon murmurou-lhe ao ouvido: – Tenho uma remota ideia do que lhe terá dito… Ao fim e ao cabo, teve ocasião de mo dizer cara a


cara. Sentindo na voz de Simon o tom divertido, Annabelle apoiou-se nele, sorrindo. Vendo pela primeira vez a irmã interagir de forma tão familiar com um homem, Jeremy sorriu. – Mas devo dizer que o casamento condiz lindamente contigo, minha irmã… – disse, carinhosamente. Nesse momento, Philippa entrou na sala, correndo ao encontro da filha com uma exclamação de alegria. – Querida, que saudades eu tive tuas! Abraçou a filha impetuosamente e a seguir voltou-se para Simon com um sorriso radioso. – Meu caro Mr. Hunt, seja bem-vindo a casa… Gostou de Paris? – O mais possível – respondeu Simon, inclinando-se para beijar a face que ela lhe oferecia. Sem olhar para Annabelle, acrescentou: – Gostei especialmente do champanhe. – Claro, claro – respondeu Philippa, alegremente. – Quem não gosta de… Annabelle, querida, o que vais fazer? – Vou só abrir a janela, minha Mãe – respondeu Annabelle com a voz estrangulada, e a cara cor de cereja, pelo comentário de Simon, lembrando-lhe a noite em que ele tinha dado a uma taça de champanhe um uso particularmente criativo. – Está muito calor aqui. Por que razão insiste em manter as janelas fechadas nesta época do ano? Mantendo desviada a cara, debateu-se contra o trinco, até que o irmão veio ajudá-la. Deixando Philippa e Simon a conversar, Jeremy abriu a janela com um largo sorriso e Annabelle expôs as faces em brasa à brisa refrescante. – Deve ter sido uma lua de mel em cheio… – murmurou ele, lançando à irmã um olhar cúmplice. – E tu não tens nada que saber dessas coisas – sussurrou-lhe Annabelle. Jeremy fez uma careta divertida. – Eu tenho catorze anos, Annabelle… e não quatro. – E, aproximando-se mais, acrescentou: – Ora diz-me lá: por que razão casaste com Mr. Hunt? A Mamã diz que foi porque ele te comprometeu, mas conhecendo-te como te conheço, quer-me parecer que a história não é assim tão simples… Uma coisa é certa: tu nunca te deixarias comprometer, a não ser que quisesses. De repente, ele ficou mais sério ao perguntar: – Foi por causa do dinheiro dele? Eu vi as nossas contas bem recentemente; é óbvio que estamos irremediavelmente depenados… – Não foi só pelo dinheiro… Annabelle nunca tinha sido senão completamente franca com o irmão, mas era-lhe difícil admitir a verdade, mesmo para si própria. Suspirou, antes de prosseguir: – Eu adoeci em Stony Cross e o Simon foi tão bom para mim… E quando comecei a ser menos dura para com ele, descobri que os dois temos uma espécie de… bom, de afinidade… – Intelectual ou física? – O sorriso de Jeremy abriu-se de novo ao ler a resposta nos olhos da irmã. – Ambas?… Isso é ótimo! Diz-me, não estarás tu… – O que estão vocês dois a cochichar? – perguntou Philippa com um risinho, acenando-lhes para se afastarem da janela. – Estava a suplicar à minha irmã que não tiranizasse o marido – replicou Jeremy, o que fez com que Annabelle levantasse os olhos ao céu.


– Muito obrigado, Jeremy – respondeu Simon com ar muito sério. – Como pode imaginar, é preciso muita força de ânimo para aguentar uma esposa destas, mas até agora tenho conseguido… Parou de repente, ao ver o olhar ameaçador de Annabelle e fitou-a com um sorriso contido, dirigindo-se-lhe: – Vejo que será melhor o seu irmão e eu trocarmos as nossas confidências fora daqui, enquanto a Annabelle e a sua mãe conversam sobre Paris. Jeremy, que me diz de me acompanhar num passeio no meu faetonte4? Jeremy não precisou de mais insistência. – Com prazer! É só ir buscar o meu chapéu e o casaco. – Não se rale com o chapéu – avisou Simon laconicamente. – Não conseguiria mantê-lo na cabeça por mais de um minuto. – Mr. Hunt – lançou Annabelle ao par que se afastava –, se o senhor ferir, ou matar o meu irmão, fica sem ceia! Simon respondeu algo indistinto por cima do ombro e os dois desapareceram no hall de entrada. – Os faetontes são tão rápidos… e leves de mais. Viram-se com tanta facilidade! – disse Philippa, preocupada. – Espero que Mr. Hunt seja um bom condutor… – É um condutor admirável, Mamã – disse Annabelle com um sorriso tranquilizador. – Trouxe-nos do hotel a um trote tão bem controlado, que até parecia virmos numa velha caleche de família. Garanto-lhe que o Jeremy não podia estar em melhores mãos. Durante a hora que se seguiu, as duas mulheres, sentadas na sala, tomaram o seu chá e comentaram os acontecimentos dos últimos quinze dias. Philippa não fez pergunta alguma sobre os aspetos mais íntimos da lua de mel, procurando não se imiscuir na privacidade do casal. Mas mostrou-se muito interessada acerca dos estrangeiros com que tinham convivido e das festas a que tinham ido. A sociedade dos ricos industriais era desconhecida para Philippa, que escutou atentamente as descrições que deles lhe fez Annabelle. – Vê-se cada vez mais gente dessa a visitar a Inglaterra – comentou Philippa. – Vêm comprar títulos de nobreza com o seu dinheiro. – Como os Bowmans – observou Annabelle. – Pois, parece que a cada época somos mais infiltrados por um número incrível de americanos, e Deus sabe como já é difícil encontrar um aristocrata… Não precisávamos cá deste excesso de competição. Estou morta por que todo este fervor empresarial pare finalmente e as coisas voltem a ser o que eram. Annabelle sorriu tristemente, imaginando como havia de explicar à mãe que, pelo muito que tinha visto e ouvido, o processo de expansão industrial ainda estava no início e que as coisas jamais voltariam a ser o que eram. Annabelle começara a entender a transformação que as ferrovias, os navios munidos de hélices e as fábricas mecanizadas iriam efetuar na Inglaterra e no resto do mundo. Eram esses os assuntos que Simon e os seus conhecidos tinham discutido durante os jantares, em vez das distrações fúteis das classes superiores, como a caça e as festas no campo. – Diz-me, tens-te dado bem com Mr. Hunt? – perguntou Philippa. – Parece-me bem que sim… – Oh, sim! Embora deva dizer que o Simon não é como nenhum dos homens que a Mamã ou eu conhecíamos antes… os homens a que estávamos habituadas. A cabeça dele funciona de maneira


diferente. Ele é… ele é um progressista. – Oh, Deus do céu! – disse Philippa com uma vaga aversão no tom de voz. – Queres dizer… politicamente? – Não… – Annabelle parou, com uma estranha expressão ao lembrar-se de que nem sequer sabia com que partido simpatizava o seu marido. – Vendo bem, não me admira que ele seja um Whig…5 ou mesmo um Liberal. – Valha-me Deus! Talvez, com o tempo, consigas persuadi-lo a tomar outra direção. Isto fez rir Annabelle. – Duvido. Mas, no fundo, não tem importância, porque… Sabe, Mamã, estou mesmo a começar a acreditar que qualquer dia as opiniões destes empresários e capitalistas vão ter mais peso do que as da nobreza. Só a influência que eles têm financeiramente… – Annabelle… – interrompeu Philippa suavemente. – Eu acho que é maravilhoso que queiras apoiar o teu marido. Mas um homem de negócios nunca será tão influente como um membro da nobreza. Em Inglaterra, nunca! A conversa foi subitamente interrompida pela entrada brusca de Jeremy na sala. Parecia perturbado e desesperado. – Jeremy, o que aconteceu? – exclamou Annabelle preocupada e levantando-se de repente. – O que aconteceu? Onde está Mr. Hunt? – Está a dar voltas à praça com os cavalos, para os acalmar – disse ele, esbaforido. – Aquele homem é um lunático! Quase nos virámos, pelo menos umas três vezes, estivemos prestes a matar uma dúzia de pessoas e fui tão agitado que devo ter o traseiro pleno de nódoas negras!… Se não tivesse ficado sem fôlego, ter-me ia posto a rezar, porque era óbvio que íamos morrer. Hunt tem os cavalos mais espantosos que jamais vi, e ouvi-o praguejar tanto que se eu dissesse apenas um daqueles impropérios, seria expulso do colégio para sempre! – Oh, Jeremy… – começou Annabelle, consternada por Simon ter tratado tão mal o seu irmão. – Desculpa… – Foi sem dúvida a tarde mais fantástica de toda a minha vida! – continuou Jeremy, extasiado. – Supliquei ao teu marido que me levasse de novo amanhã e ele acedeu, se tiver tempo… Oh, que homem estupendo, Annabelle! Deixa-me ir beber um pouco de água, tenho um monte de poeira a forrar-me a garganta! E saiu a correr, como um adolescente, enquanto a mãe e a irmã o olhavam boquiabertas. Naquele fim de tarde, Simon levou Annabelle, Jeremy e Philippa até à casa onde os pais ainda viviam, situada por cima do talho. Consistia em três salas e uma escada estreita que levava a um sótão no terceiro piso. A casa era pequena, mas bem mobilada. Mesmo assim, Annabelle detetou desaprovação e perplexidade na expressão da sua mãe, pois Philippa não podia compreender porque é que os Hunt não preferiam morar num belo casarão e, preferencialmente, num bairro elegante da cidade. Por mais que Annabelle lhe explicasse que os Hunt não tinham vergonha da sua profissão e nenhum desejo de escapar ao estigma de pertencerem à classe trabalhadora, mais confusa Philippa se demonstrara. Aborrecida por suspeitar que a sua mãe se mostrava deliberadamente incompreensiva, Annabelle abandonara qualquer tentativa de falar na família de Simon e, em privado, pedira a Jeremy que impedisse a mãe de fazer qualquer comentário desdenhoso na frente deles.


– Vou tentar – disse Jeremy, num tom duvidoso. – Mas bem sabes que a Mamã nunca se deu bem com gente… diferente de nós. Annabelle soltou um suspiro exasperado. – Deus não permita que alguma vez tenhamos de passar uma noite com gente que não é exatamente como nós! Podíamos aprender qualquer coisa! Ou, pior ainda, poderíamos gostar…! Que vergonha! O irmão sorriu, divertido com a ironia dela. – Não sejas severa de mais com a Mamã, Annabelle. Ainda não há muito tempo tu também sofrias do mesmo desdém pela gente das classes inferiores, recordas-te? – Eu?! Nunca!… – Annabelle fez uma pausa e suspirou, apagando do rosto o seu cenho carrancudo, e acabando por dar a mão à palmatória. – Tens razão, isso é verdade. Mas mudei de ideias e agora não percebo porquê. Trabalhar não é desonra nenhuma, pois não? É certamente mais admirável do que a ociosidade. Jeremy não parava de sorrir. – Estás muito mudada… – comentou ele, ao que Annabelle respondeu de mau modo: – Talvez, mas não terá sido para pior, isso garanto-te. Agora, ao subirem a escada estreita que dava da loja do talho para os aposentos privados, Annabelle apercebeu-se da subtil moderação dos modos de Simon, o único indício da insegurança que deveria estar a sentir. Estava sem dúvida preocupado com o modo como ela e a família dele iriam «dar-se», como dizia Jeremy. Determinada a assegurar o sucesso daquele encontro, Annabelle colocou no rosto um sorriso confiante, que não vacilou sequer quando se começou a ouvir o reboliço em casa dos Hunt… uma cacofonia de vozes de adultos, guinchos de crianças e baques que pareciam provir de móveis a serem revirados. – Meu Deus! – exclamou Philippa. – Isto parece… parece… – Uma rixa? – sugeriu Simon, prestimoso. – É possível. Na minha família é por vezes difícil distinguir entre uma conversa de salão e uma troca de impressões num ringue de boxe amador. Ao entrarem na sala principal, Annabelle tentou distinguir entre a multidão de rostos… Lá estava a irmã mais velha de Simon, Sally, casada e mãe de meia dúzia de crianças, que corriam como touros de Pamplona por entre as variadas divisões. O marido de Sally, os pais de Simon, os três irmãos mais novos e a irmãzinha, chamada Meredith, cuja serenidade silenciosa chocava com todo aquele tumulto. Pelo que Simon lhe explicara, Meredith tinha o seu carinho especial por ser tímida e recatada, e dada à leitura – tão diferente dos seus irmãos, turbulentos e brigões. As crianças acercaram-se logo de Simon, que demonstrou um surpreendente talento em lidar com eles, atirando os mais pequenos ao ar, enquanto admirava um dente de leite que caíra recentemente, ao mesmo tempo que aplicava um lenço num nariz que pingava. Os primeiros minutos da chegada foram um tanto confusos, com séries de apresentações em voz muito alta, crianças correndo de um lado para o outro e o miar indignado de um gato junto à lareira, importunado por um cachorro mais curioso. Annabelle estava esperançada que as coisas acalmassem, mas a verdade é que a sublevação geral continuou ao longo de todo o serão. Teve curtos lampejos do sorriso forçado da mãe, da satisfação relaxada de Jeremy e da exasperação divertida de Simon, ao ver a inutilidade dos seus esforços para acalmar aquele desassossego. O pai de Simon, Thomas, era um homem enorme e imponente, com traços que poderiam levar a crer


uma austeridade intimidante; mas ocasionalmente a sua face e os seus olhos eram amaciados por um sorriso, não tão carismático como o de Simon, mas que emitia um inegável encanto. Annabelle chegou a ter com ele umas breves conversas, visto estar sentada ao seu lado durante o jantar. Infelizmente, as duas matriarcas não pareciam comunicar facilmente. A causa não parecia ser tanto antipatia como uma total impossibilidade de comunicação entre as duas: as suas vidas, a acumulação de experiências que as tinha formado e moldado as suas opiniões, não podiam ser mais distintas. O jantar consistiu em grandes nacos de rosbife bem passado, acompanhados de puré de batata e uma pequena quantidade de legumes. Suprimindo um suspiro de saudade ao pensar na requintada cuisine com que se tinham deleitado em França, Annabelle atacou diligentemente a sua pesada fatia de carne. Do outro lado, Meredith entabulou com ela uma conversa amistosa. – Annabelle, tem de nos contar coisas de Paris. A minha mãe e eu vamos em breve visitar o Continente pela primeira vez! – Que maravilha! Quando é que partem? – Dentro de uma semana. Vamos estar de viagem pelo menos durante um mês e meio, começando em Calais e terminando em Roma… A conversa continuou até ao fim do jantar e a criada-para-todo-o-serviço veio levantar a mesa, enquanto a família se retirava até à sala de estar para o chá e doces. Para alegria das crianças, Jeremy sentou-se com elas no chão, perto da lareira, jogando às varinhas-de-bambu e brincando com o cachorro. Annabelle sentou-se perto, assistindo às suas brincadeiras e conversando com a irmã mais velha de Simon. Não pôde deixar de reparar que Simon desaparecera na companhia da mãe, que ela imaginava ter muitas perguntas a fazer ao seu filho mais velho, a respeito daquele matrimónio precipitado e do estado atual da relação. – Oh, diabo! – ouviu-se Jeremy exclamar. – O cachorro… fez uma poça no chão da lareira! Enquanto as crianças riam às gargalhadas da má criação do cachorro, Sally disse: – Alguém vá avisar a criada, por favor. Estando mais próxima da porta, Annabelle levantou-se, solícita. Ao entrar na sala ao lado, viu a criada, que levantava a mesa, e avisou-a do sucedido. A rapariga foi logo para a outra sala com um monte de trapos. Annabelle ia segui-la, quando ouviu sons de uma conversa na cozinha, perto dali, e parou ao ouvir a voz baixa de Bertha, num tom desaprovador. – … e será que ela te ama, Simon? Annabelle ficou especada, ouvindo a resposta de Simon. – As pessoas casam-se por muitas outras razões para além dessa, Mãe. – Ah… isso só me diz que não te ama – foi o comentário de Bertha. – Não posso dizer que isso me surpreenda. As mulheres como ela… – Atenção, minha Mãe – murmurou Simon –, está a falar da minha mulher. – Ela fica muito bem a teu lado, quando frequentas a alta sociedade. Não o nego… Mas será que ela teria casado contigo sem o teu dinheiro? Ficaria ao teu lado em caso de desgraça ou de necessidade? Se ao menos tivesses querido lançar um segundo olhar sobre alguma das raparigas com quem tentei arranjarte casamento… A Molly Handhock, ou a Peg Larcher… isso sim, boas raparigas, robustas, que teriam sido companheiras fiéis… Annabelle não quis ouvir mais. Controlando a expressão no seu rosto, regressou à luz e ao ruído do


salão. Bom, é o que se ganha com escutar às portas, disse ela para consigo, vexada e perguntando a si própria se a opinião de Bertha a seu respeito poderia ser pior. Aquela crítica era duríssima… mas Annabelle tinha de concordar que não havia nenhuma razão forte para que a mãe de Simon – ou alguém da família – gostasse dela. De facto, Annabelle compreendeu pela primeira vez que, ao calcular todos os benefícios de um casamento com Simon, nunca lhe ocorrera perguntar a si mesma o que é que ela lhe poderia dar em troca. Perturbada, ponderou se deveria ou não dizer alguma coisa a Simon acerca do que tinha escutado e logo decidiu que não. Tocar no assunto só iria forçá-lo a tranquilizá-la ou a pedir desculpa pela mãe – e nada disso era necessário. Sabia que lhe levaria algum tempo a provar o seu merecimento a Simon, à família dele… e até, quem sabe, a si própria também. Muito mais tarde, quando Annabelle e Simon já haviam regressado ao Rutledge, Simon tomou-a pelos ombros, olhando-a com um suave sorriso. – Obrigado… – disse ele. – Porquê? – Por ser tão simpática com a minha família. – Puxou-a para si e beijou-a no topo da cabeça. – E por decidir ignorar o facto de eles serem tão diferentes de si. Annabelle corou de prazer pelo elogio e sentiu-se de repente muito melhor. – Gostei muito de lá estar – mentiu ela e Simon abriu um sorriso divertido. – Também não é preciso exagerar – disse ele. – Oh, talvez tivesse havido um momento ou dois, quando o seu pai falou das entranhas dos animais… ou quando a sua irmã mencionou o que o bebé tinha feito na água do banho… Mas no conjunto foram muito, muito… – Barulhentos? – sugeriu Simon, desatando a rir. – Eu ia dizer simpáticos. Ele deslizou as mãos pelas costas dela, massajando as zonas tensas entre as omoplatas. – Está a levar lindamente esta tarefa de ser mulher de um plebeu, apesar de tudo… – Não é tão mau como isso – disse ela, contemplativa. Desceu lentamente a mão ao longo do peito dele, lançando-lhe um olhar provocante. – Posso tolerar muita coisa, considerando este… impressionante… e bem dotado… – Saldo bancário? Annabelle sorriu, enfiando um dedo no cós das calças dele. – Não, não tem nada que ver com isso, tontinho… – sussurrou-lhe, antes de a boca dele se fechar sobre a sua. No dia seguinte, Annabelle ficou encantada por se encontrar com Lillian e Daisy, cuja suite no Rutledge ficava na mesma ala da sua. Gritando e rindo ao se abraçarem, as três faziam tanto barulho que Mrs. Bowman mandou uma criada recomendar-lhes silêncio. – Gostava tanto de rever Evie – disse Annabelle, enfiando o braço no de Daisy e passando para a saleta da suite. – Como vai ela? – Arranjou um grande sarilho há quinze dias por tentar visitar o pai – suspirou Daisy. – O seu estado piorou significativamente e agora está acamado. Mas Evie foi apanhada a tentar escapulir-se de casa e agora está mantida em isolamento pela tia Florence e o resto da família.


– Por quanto tempo? – Indefinidamente – foi a deprimente resposta. – Ah, que gente odiosa… – murmurou Annabelle. – Gostava de lá ir salvar a nossa amiga. – Seria bem divertido! – considerou Daisy, imediatamente encantada com a ideia. – Podíamos levar uma escada, púnhamo-la debaixo da janela e … – A tia Florence soltava-nos os cães – disse Lillian desanimada. – À noite eles têm dois mastins enormes de guarda. – Atiramos-lhes comida drogada – contrapôs Daisy. – E quando eles estiverem a dormir… – Deixem-se de planos extravagantes! – exclamou Lillian – O que eu queria era saber como foi a lua de mel de Annabelle. Dois pares de olhos castanhos cravaram-se em Annabelle com um interesse pouco virginal. – Então, como foi? – perguntou Lillian. – Doeu tanto como dizem? – Conte-nos tudo, Annabelle – insistiu Daisy. – Lembre-se que prometemos contar tudo umas às outras. Annabelle riu, gozando a sua posição de conhecedora de um assunto que era ainda um grande mistério para as amigas. – Bem, em certos momentos foi um pouco desagradável – admitiu. – Mas Simon foi muito gentil e… atencioso… E embora não tenha experiência prévia para fazer comparações, não consigo imaginar que algum homem possa ser um amante mais maravilhoso. – Que quer dizer com isso? – perguntou Lillian. Uma acentuada onda cor de rosa coloriu as faces de Annabelle. Hesitante, escolheu as palavras para explicar uma coisa que, de repente, parecia impossível de descrever. Podia-se contar detalhadamente a mecânica do ato, mas… dificilmente se poderia exprimir a ternura de uma experiência tão privada. – Aquela intimidade ultrapassa de longe tudo o que se pode imaginar… Ao princípio cuidamos morrer de vergonha… mas depois há momentos tão maravilhosos que afastam de imediato todo o constrangimento e a única coisa que importa é estar junto dele. Houve um breve silêncio, enquanto as irmãs meditavam no assunto. – Quanto tempo dura? – arriscou Daisy. Annabelle corou ainda mais. – Às vezes só uns minutos… outras vezes algumas horas. – Algumas horas?! – repetiram as duas em coro, assombradas. Lillian torceu o nariz com repugnância. – Meu Deus, isso parece pavoroso! Annabelle riu da expressão cómica da americana. – Não é nada pavoroso. Na realidade, é lindo! Lillian abanou a cabeça. – Terei de arranjar uma maneira de obrigar o meu marido a acabar depressa com isso. Há certamente um ror de coisas muito mais agradáveis para fazer do que levar horas na cama a fazer… isso. Annabelle riu. – Por falar no cavalheiro-mistério que um dia virá a ser seu marido… deveríamos começar por planear a estratégia para a nossa próxima campanha. A temporada só começa em janeiro, o que nos dá


uns bons meses de preparação. – Daisy e eu precisamos de um padrinho aristocrático – disse Lillian com um suspiro. – Para não falar de lições de etiqueta. E infelizmente, Annabelle, como a menina casou com um plebeu, não tem uma grande influência social e não estamos mais perto do que quando começámos. – E acrescentou vivamente: – Isto sem ofensa, querida. – Não me ofendeu nada – respondeu Annabelle. – Mas o Simon tem alguns amigos entre a nobreza… Lord Westcliff, especialmente. – Oh, não! – disse Lillian com firmeza. – Com essa criatura não quero nada! – Porquê? Lillian ergueu as sobrancelhas, surpreendida por ter de se explicar. – Porque é o homem mais detestável que eu jamais conheci. – Mas está extremamente bem colocado – insistiu Annabelle. – E é o melhor amigo de Simon. Não nutro particular simpatia por ele, mas pode revelar-se um aliado útil. Dizem que o título dele é o mais antigo de Inglaterra. O seu sangue não podia ser mais azul. – E ele bem o sabe – disse Lillian, com azedume. – Apesar de toda a sua conversa populista, vê-se bem que interiormente ele está todo satisfeito por ser quem é: um par-do-Reino rodeado de sabujos em quem mandar. – Porque será que ele ainda não casou? – indagou Daisy. – Apesar dos seus defeitos, há que admitir que ele é um partido do tamanho de uma baleia. – Pois eu ficarei encantada quando alguém o arpoar – comentou Lillian, fazendo rir as amigas. Embora Londres fosse abandonada por parte da alta sociedade durante o verão, a vida da cidade não se encontrava estagnada de maneira alguma. Até ao período de férias do Parlamento, a 12 de agosto, coincidindo com a abertura da caça ao tetraz, a presença ocasional dos cavalheiros da nobreza continuava a ser requisitada durante as sessões da tarde. Enquanto os homens frequentavam o Parlamento, ou se juntavam nos seus clubes, as esposas iam às compras, visitavam as amigas, e punham a sua correspondência em dia. À noite tinham jantares, soirées e bailes que geralmente duravam até às duas ou três da madrugada. Era este o emprego do tempo dos aristocratas – ou mesmo de quem fosse considerado membro de uma nobre profissão, como os médicos, os homens do clero ou os oficiais da marinha. Para desgosto de Annabelle, rapidamente se tornou evidente para ela que o marido, apesar da sua fortuna e inegável sucesso, não pertencia a uma profissão remotamente nobre. Assim, o casal era por vezes excluído de eventos elegantes da alta sociedade, de que ela sempre sonhara fazer parte. Apenas quando um nobre tinha alguma obrigação para com Simon, ou era amigo íntimo de Lord Westcliff, é que os Hunt eram convidados para sua casa. Annabelle recebia raras visitas das jovens matronas da aristocracia que outrora haviam sido suas amigas e, embora nunca lhe fosse negada a entrada quando decidia visitá-las, a verdade é que raramente era encorajada a voltar. Os limites entre classes e posições sociais eram impossíveis de transpor. Até mesmo a mulher de um visconde que caíra na penúria – graças ao vício do jogo e hábitos perdulários do marido – e que agora vivia numa casa exígua, com apenas dois criados para a servir, parecia determinada a manter a sua superioridade sobre Annabelle. Ao fim e ao cabo, o marido, não obstante todos os seus defeitos, pertencia à nobreza – enquanto Simon Hunt era desagradavelmente mercantilista. Nessa tarde, furiosa perante o frio acolhimento da mulher do visconde, Annabelle correu a queixar-se


a Lillian e Daisy da acumulação de desfeitas e humilhações de que fora vítima. Ambas se demonstraram perplexas e divertidas ao escutarem as suas lamúrias irritadas. – Haviam de ter visto a sala de estar daquela casa! – exclamou Annabelle, passeando de um lado para o outro diante das irmãs sentadas no canapé da sala. – Tudo puído e cheio de pó, e havia nódoas de vinho na carpete!… E tudo o que ela sabia fazer era olhar-me de alto e criticar-me por ter casado abaixo da minha condição! Abaixo, quando toda a gente sabe que o marido dela é um imbecil, um pateta alegre, um bêbedo que gasta a última moeda nos jogos de azar! – Fez uma pausa para recuperar o fôlego e prosseguiu com incontida raiva: – Ele pode ser visconde, mas não é digno sequer de lamber as botas do Simon! E eu tive a maior dificuldade em refrear-me para não lho dizer! – E por que razão se refreou, minha amiga? – perguntou Lillian negligentemente. – Eu ter-lhe-ia dito exatamente o que penso do seu snobismo ridículo. – Pela simples razão de que não se ganha nada em ter altercações com gentinha daquela. Nem que Simon salvasse uma dúzia de pessoas de morrerem afogadas, jamais seria olhado com a mesma admiração que qualquer fidalgo gordo e velho que ficasse imóvel e sem levantar um dedo para ajudar. – Não estará arrependida de não ter casado com um nobre, Annabelle? – perguntou Daisy, de sobrolho erguido. – Não! – exclamou ela, corando de vergonha. – Apenas sinto que… Sinto que há momentos em que não posso deixar de desejar que Simon detivesse um título. Lillian olhou-a, preocupada. – Se a menina pudesse voltar atrás e mudar tudo, escolheria Lord Kendall em vez de Simon Hunt? – Deus do céu, não! Suspirando, Annabelle deixou-se cair sobre um banquinho, onde a saia do seu vestido de seda verde claro semeado de florinhas se encapelou em ondas à sua volta. – Não me arrependo da minha escolha. Mas lamento, isso sim, não poder ir ao baile dos Wymarks. Ou à soirée em Gilbreath House… Ou a qualquer desses eventos frequentados pela alta sociedade. – Fez uma pausa para soltar um suspiro triste. – Em vez disso, o Simon e eu vamos sobretudo a festas frequentadas por uma gente muito diferente. – Como assim? Que espécie de gente? – quis saber Daisy. Annabelle hesitou e Lillian respondeu por ela, num tom irónico: – Creio que a Annabelle se refere aos arrivistas, toda essa gente com dinheiro recente, valores de classe baixa e péssimas maneiras… Como nós. – Não! – disse Annabelle imediatamente, fazendo rir as duas irmãs. – Sim… – disse Lillian, docemente. – A menina casou no nosso mundo, querida, e não pertence a ele, tal como nenhuma de nós pertence à nobreza, ainda que conseguíssemos fisgar maridos titulares. A verdade é que não me interessa rigorosamente nada conviver de perto com os Wymarks ou os Gilbreaths, todos eles enfadonhos de morrer e intoleravelmente convencidos. Annabelle olhou-a, pensativa, vendo subitamente a sua situação de um novo ponto de vista. – Nunca me questionei se eles seriam enfadonhos – murmurou. – Julgo que sempre ambicionei chegar lá acima sem perguntar a mim própria se iria gostar da vista. Mas isso agora pouco importa… Tenho mesmo de me adaptar a uma vida diferente da que eu julgava querer. – Poisou os cotovelos sobre os joelhos e o queixo entre as mãos, acrescentando: – E só saberei que o consegui quando deixar de me


melindrar por ser desconsiderada por uma viscondessa com cara de fuinha. * * * Por ironia do destino, os Hunt foram convidados nessa mesma semana para um baile oferecido por Lord Hardcastle, que se sentia em dívida para com Simon depois de este o ter aconselhado sobre como restruturar a periclitante fortuna da família. Era uma grande ocasião, frequentada pela mais fina flor da sociedade, e Annabelle não pôde deixar de se sentir empolgada – não obstante ter decidido não se ralar por se ver excluída de determinados eventos sociais. Num vestido de cetim verde-água, com o cabelo apanhado em caracóis e preso por um cordão de seda, Annabelle Hunt entrou no salão de baile pelo braço do marido. A ampla sala, flanqueada de colunas de mármore branco, era iluminada pela luz cintilante de oito candelabros, o ar perfumado por arranjos maciços de rosas e peónias. Annabelle aceitou uma taça de champanhe, envolvendo-se facilmente no meio de amigos e conhecidos, e entregou-se à elegância serena daquela noite. Aquelas eram as pessoas que ela sempre entendera e tentara imitar – civilizadas, de modos elegantes, conhecedoras de música, de arte e de literatura. Aqueles cavalheiros jamais sonhariam em discutir negócios ou política na presença de senhoras – e qualquer deles teria preferido levar um tiro a ter de mencionar o custo das coisas ou especular abertamente sobre a fortuna de quem quer que fosse. Dançou muito, e muitas vezes, com Simon e com outros homens, rindo e conversando serenamente – e desviando com habilidade os galanteios que sobre ela choviam. A dada altura, viu Simon no outro extremo do salão conversando com amigos, e sentiu um súbito anseio de ir ter com ele. Conseguindo afastar-se de um par de jovens galanteadores mais persistentes, seguiu por um dos lados do salão, onde o espaço por detrás das colunas proporcionava uma espécie de corredor sombrio. Entre as colunas, uns quantos canapés e pequenos grupos de cadeiras facultavam espaço para os convidados descansarem e conversarem. Annabelle passou por detrás de um grupo de velhas matronas… depois por um grupo de tristes encalhadas que lhe provocou um sorriso de simpatia. Mas ao passar por trás de duas senhoras em animada tagarelice, algumas palavras fizeram-na parar, aproveitando para se escudar atrás de um gigantesco vaso de palmeiras baixas. – … não entendo por que razão eles foram convidados, muito francamente – dizia uma delas, visivelmente revoltada. Annabelle reconheceu a voz de uma amiga antiga, agora Lady Wells-Troughton, que a havia cumprimentado minutos antes com exagerada simpatia. – Que presumida, a exibir aquele diamante no dedo, de péssimo gosto, diga-se, e pavoneando-se sem o menor recato pelo braço daquele marido tão… vulgar! – Pois não há de ser presumida por muito mais tempo, digo-lhe – foi a resposta da amiga. – Ela parece não ter entendido ainda que eles só são convidados para casa daqueles que lhes devem dinheiro. Ou dos amigos de Lord Westcliff, claro… – Sim, sem dúvida que Lord Westcliff é um aliado de importância – admitiu Lady Wells-Troughton. – Mas a sua condescendência não há de ir longe. A verdade é que eles deviam ter o bom gosto de não se intrometerem em ambientes que não são de modo algum o seu meio. Ela casou com um plebeu, logo o seu lugar é entre plebeus. Embora eu acredite que ela se julga superior a eles… Sentindo-se literalmente agoniada, Annabelle recuou sem ser vista e dirigiu-se a um canto do salão.


Decididamente, tenho de me deixar deste terrível hábito de bisbilhotar as conversas alheias, pensou ela com ironia, lembrando-se da noite em que ouvira os comentários de Bertha acerca da nora. Parece que acabo sempre por ouvir coisas desagradáveis a meu respeito. Não a surpreendia que existisse falatório acerca dela e de Simon – o que a incomodara fora o rancor no tom de voz daquelas mulheres. Era-lhe difícil entender o que causava tanta antipatia… a não ser, talvez, inveja. Annabelle arranjara um marido bonito e viril, rico e poderoso, enquanto Lady WellsTroughton casara com um aristocrata pelo menos trinta anos mais velho que ela, com o carisma de uma planta murchando num pote de barro. Era natural que essa sirigaita e as amigas se mostrassem ferozmente decididas a proteger a sua única superioridade, o seu poderoso trunfo: fazer parte da aristocracia. Annabelle deu por si a recordar o comentário recente de Philippa: um homem de negócios nunca terá a influência de um nobre. Mas a ela dava a ideia de que a fidalguia começava a temer o crescente poder dos industriais como Simon. Raros teriam a inteligência de Westcliff, que desde cedo tivera a visão de que era necessário fazer bem mais do que ater-se aos privilégios da posse de terras para manter o seu poder. Avançando por entre um par de colunas, Annabelle olhou em volta do salão para aquela multidão de aristocratas… tão presunçosos, tão arreigados aos seus modos tradicionais de pensar e de se conduzir… tão determinados em ignorar que o mundo à sua volta começara a mudar. A bem da verdade, ela continuava a preferir a companhia deles à conduta crua, e por vezes bisonha, dos companheiros de profissão de Simon. Contudo, já não os olhava com reverência ou excessivo respeito. Pelo contrário… Os seus pensamentos foram interrompidos por um cavalheiro que se aproximava dela, trazendo duas taças de champanhe. Era encorpado, de cabelo rareando, as pregas do pescoço protuberantes sobre a gravata de seda. Annabelle gemeu em silêncio ao reconhecê-lo – Lord Wells-Troughton, o marido da mulher que tanto ressentimento lhe tinha. E a julgar pelo modo como o seu olhar ávido insistia no seu peito, coberto de pálido cetim, parecia não partilhar com a mulher o desejo de que ela se tivesse abstido de ir àquele baile. Wells-Troughton, cuja inclinação para devaneios extraconjugais era sobejamente conhecida, aproximara-se de Annabelle no ano anterior, dando claramente a entender que gostaria de a ajudar nas suas dificuldades financeiras. Em troca da sua companhia, bem entendido. O facto de ela o ter rechaçado não parecia ter-lhe diminuído o interesse. Nem a notícia do casamento dela, aparentemente. Para aristocratas como Wells-Troughton, o casamento não era empecilho para uma aventura amorosa – pelo contrário, poderia ser um excitante encorajamento. «Nunca leves solteiras para a cama» era uma ideia pré-concebida entre a aristocracia… e as intrigas amorosas eram um privilégio frequentemente aproveitados por lordes e ladies. Nada havia de tão atraente para um aristocrata do que a jovem esposa de outro homem. – Mrs. Hunt… – disse Wells-Troughton jovialmente, estendendo-lhe uma taça que Annabelle aceitou com um sorriso de agradecimento. – Está deslumbrante esta noite, como uma rosa de verão… – Obrigada, my lord – respondeu ela, recatadamente. – E a que poderemos atribuir o seu óbvio contentamento, minha querida? – Sem dúvida ao meu recente casamento, senhor. Wells-Troughton soltou uma risadinha. – Ah, como eu recordo esses primeiros tempos do casamento… Aconselho-a vivamente a celebrar esse prazer enquanto dura, já que é tão passageiro…


– Talvez para alguns. Para outros pode durar toda uma vida. – Oh, minha querida, a sua ingenuidade é encantadora! – lançou-lhe um sorriso intencional enquanto o olhar descia de novo até ao decote dela. – Mas longe de mim querer privá-la dessas ilusões românticas, que a seu tempo hão de passar. – Duvido – disse Annabelle, provocando nele uma nova risadinha de escárnio. – Com que então, Hunt é um marido satisfatório? – Sob todos os aspetos – declarou ela. – Mas venha… – convidou-a ele. – Esta noite serei o seu confidente; encontraremos um cantinho sossegado onde conversar. Conheço vários… – Não duvido – disse Annabelle num tom falsamente jovial. – Mas temo não necessitar de confidentes, my lord. – Mas eu insisto em roubá-la por uns instantes. – Colocou uma mão pesada nas costas dela. – Não será tonta ao ponto de fazer uma cena, não é verdade? Sabendo que a sua única defesa era não tomar a sério a persistência dele, Annabelle sorriu, voltandolhe as costas, e afastou-se beberricando o seu champanhe com fingida despreocupação, não sem antes comentar: – Não me atrevo a ir consigo para parte nenhuma, my lord. Receio que o meu marido tenha um feitio excessivamente ciumento. Teve um sobressalto ao ouvir a voz de Simon atrás de si: – E com boas razões, ao que parece. Embora tivesse falado baixo, havia na sua voz um tom cortante que a deixou alarmada. Lançou-lhe um olhar suplicante que pedia que não fizesse uma cena. Lord Wells-Troughton era profundamente irritante, mas inofensivo, e Simon faria de todos eles objetos de ridículo reagindo excessivamente à situação. – Hunt! – murmurou o anafado aristocrata, sorrindo abertamente e sem o menor sinal de embaraço. – É um homem de sorte, meu caro, por possuir um troféu tão delicioso… – Pois sou. – O olhar de Simon era positivamente assassino. – E se alguma vez eu voltar a vê-lo a aproximar-se dela… – Querido… – interrompeu Annabelle com um sorriso divertido. – Por mais que me encantem os seus modos de troglodita, que tal deixarmos isso para depois do baile? Simon não respondeu, olhando para Wells-Troughton com um ar tão feroz que aquela ameaça fervilhante começou a atrair as atenções de quem estava perto. – Não volte a aproximar-se da minha mulher, é um aviso – disse ele num tom baixo que fez o outro mudar de cor. – Boa noite, my lord – despediu-se Annabelle airosamente, bebendo o resto do champanhe e lançando-lhe o mais artificial dos sorrisos. – Obrigada pelo champanhe. – O prazer foi todo meu, minha senhora – foi a resposta do vexado cavalheiro que se afastou o mais depressa que lhe foi possível. Corada de vergonha, Annabelle tentou evitar os olhares curiosos dos outros convidados, ao sair do salão com Simon nos seus calcanhares. Procurando o ar fresco de um terraço, pousou o seu copo e deixou que a brisa lhe esfriasse o rosto escarlate. – O que foi que ele lhe disse? – perguntou Simon asperamente, inclinando-se sobre ela.


– Nada de importante… – Ora, fez-lhe um avanço cerrado, toda a gente percebeu! – Nada daquilo tinha importância, nem para ele nem para ninguém. Eles são todos assim, sabe perfeitamente que estas coisas nunca são tomadas a sério. Para eles, a fidelidade não passa de… um preconceito da classe média. E quando um homem aborda a mulher de outro, como fez Lord WellsTroughton, absolutamente ninguém dá importância ao assunto. – Eu dou importância ao assunto, quando é a minha mulher a ser interpelada! – Reagindo com tanta violência faz de nós dois um objeto de zombaria, Simon… Além de que em nada abona a favor da minha fidelidade. – Acabou de dizer que a sua classe não acredita na fidelidade… – Eles não são a minha classe! – gritou Annabelle, perdendo a calma. – Pelo menos, desde o dia em que casei consigo. Não sei a que classe pertenço agora… Não à deles, nem certamente à sua. A expressão dele não se alterou, mas Annabelle sentiu que o ofendera. Contrita, suspirou, abanando a cabeça. – Simon, eu não queria dizer… – Não tem importância – disse ele rispidamente. – Vamos para dentro. – Mas eu gostaria de explicar… – Não precisa de se explicar. – Simon… Calou-se subitamente, estremecendo quando ele a levou por um braço para dentro do salão. E desejou do fundo do coração poder retirar o que dissera tão impulsivamente.

4 Carruagem descoberta de quatro rodas e de construção leve. (N. T.) 5 Partido político que pretendia subordinar o poder da Coroa ao do Parlamento. (N. T.)


Capítulo 24

Tal como Annabelle receara, a sua impetuosa acusação criou uma inegável distância entre ela e o marido. Ela desejara ardentemente pedir-lhe perdão e explicar que não o censurava por coisa nenhuma. Mas os seus esforços para lhe dizer que não lamentava ter casado com ele foram calmamente, mas sem apelo, repelidos. Simon, sempre pronto a debater com ela qualquer assunto, fixara o limite naquela matéria. Inadvertidamente, ela atingira-o com a pontaria subtil de um estilete, e a reação dele traía um certo sentimento de culpa por tê-la afastado do mundo das classes superiores, que ela em tempos sonhara ocupar. Para alívio de Annabelle, a relação deles depressa voltou ao modo antigo, de interação prazerosa, desafiadora e mesmo afetuosa. Contudo, incomodava-a a sensação de que as coisas não estavam completamente na mesma. Havia momentos em que Simon se mostrava ligeiramente na defensiva com ela, pois agora ambos sabiam que ela detinha o poder de o magoar. Era como se ele lhe permitisse chegar só até um certo ponto de proximidade, protegendo-se, preservando em última análise uma distância crucial entre eles. Ainda assim, Simon prestava-lhe inestimável auxílio e apoio sempre que ela necessitava… e provou-o numa noite em que o conflito chegou de uma fonte inesperada. Simon chegara a casa mais tarde do que o habitual, tendo passado o dia nas instalações da Consolidated Locomotive. Cheirando fortemente a carvão, fumo, óleo e metal – ao fim de um dia inteiro enfiado na fábrica –, chegou ao Rutledge com a roupa decididamente em mau estado. – Deus seja louvado, o que esteve a fazer? – perguntou Annabelle, meio divertida, meio alarmada pelo aspeto dele. – Passei pela fábrica – replicou Simon, tirando o colete e a camisa assim que entrou no quarto. Ela lançou-lhe um olhar crítico. – Não me parece que tenha apenas por lá passado… O que são essas nódoas na sua roupa? Dir-se-ia que esteve a construir sozinho uma locomotiva. – Houve um momento em que foi necessária ajuda extra, sim. Simon deixara cair a camisa no chão, revelando uma expansão de torso bem musculado. Parecia particularmente bem disposto. Sendo um homem assaz atlético, agradava-lhe o esforço físico, sobretudo quando implicava um certo risco. De testa franzida, Annabelle foi encher a banheira para ele na casa de banho contígua ao quarto, e voltou para encontrar o marido em roupa interior. Tinha na perna uma nódoa negra do tamanho de um punho e um vergão vermelho de queimadura num braço, o que a fez exclamar, aflita: – Está ferido?! Que aconteceu?


Simon pareceu ficar momentaneamente admirado com a reação dela e pelo modo como a viu correr para ele. – Isto não é nada – disse ele, agarrando-a pela cintura. Annabelle afastou-o com brandura e ajoelhou-se para lhe examinar a perna. – Como foi isto? – perguntou, aflorando a impressionante contusão com a ponta do dedo. – Foi na fábrica, não foi? Simon Hunt, exijo-lhe que pare de frequentar esse sítio horrível! Todas aquelas caldeiras e gruas e cubas de metal derretido… ainda acaba esmagado, ou cozido ou espetado! Ele parecia divertido. – Annabelle… – Inclinou-se para a agarrar pelos cotovelos e fazê-la levantar. – Não consigo falar de forma coerente… consigo de joelhos à minha frente dessa maneira. Posso explicar o que… – Parou, estranhamente emocionado ao ver a expressão dela: – Está aflita, querida, não está? – Como qualquer mulher que veja o marido chegar a casa neste estado! Simon passou-lhe a mão pela nuca e apertou-a ligeiramente. – Está a reagir exageradamente a uma nódoa negra e a uma escaldadela, não lhe parece? – Diga-me primeiro o que aconteceu e logo decidirei como reagir – disse ela, zangada. – Estavam quatro operários a retirar uma placa de metal de dentro de um forno, com umas pinças compridas especiais. Tinham de levá-la para uma forma onde seria enrolada e prensada. A placa acabou por se revelar mais pesada do que eles cuidavam… e quando vimos que eles iam deixar cair o raio da coisa, eu agarrei num par de pinças e fui ajudar. – E por que razão não foram os outros fundidores a fazer isso? – Era eu quem estava mais perto do forno – disse ele, encolhendo os ombros, numa tentativa de aligeirar o incidente. – Bati com o joelho na forma, antes de conseguirmos baixar a placa… e a queimadela foi quando a pinça de alguém me tocou no braço de raspão. E foi só isso. Mas não tem importância nenhuma, eu cicatrizo depressa. – Ah… foi só isso, então? Deu-lhe para levantar centenas de quilos de ferro incandescente em mangas de camisa? Que parvoíce a minha, preocupar-me com tão pouca coisa… Simon baixou a cabeça para a beijar na face. – Não deve preocupar-se comigo. – Alguém tem de o fazer. Annabelle estava plenamente consciente da força e solidez do corpo dele, tão perto do dela. A sua constituição era feita de ossos grandes, de um poder e graça sensualmente masculinos. Mas Simon não era invulnerável nem indestrutível. Era humano e a súbita perceção de como a sua segurança se tornara fundamental para ela fez soar em Annabelle um súbito alarme. Separando-se dele bruscamente, foi verificar a água que enchia a banheira, dizendo por cima do ombro: – Cheira a comboio, sabia…? – Com uma chaminé a deitar fumo negro… – gracejou ele, seguindo-a de perto. Ela respondeu-lhe com uma fungadela irritada. – Se está a tentar ser engraçado, não se canse. Estou furiosa consigo, para que saiba. – Porquê? – murmurou Simon agarrando-a por trás. – Por eu me ter magoado? Confie em mim, minha querida, as minhas partes suas favoritas estão em condição de funcionar. Ele tentou beijá-la de lado no pescoço, mas Annabelle endireitou-se, resistindo ao abraço.


– Desiluda-se. Eu não me ralo se quiser mergulhar de cabeça num tanque de ferro fundido, visto ser tolo ao ponto de entrar naquela fábrica sem vestir nada que o proteja, nem… – Caldo do inferno – disse ele, enfiando o nariz nos delicados fios de cabelo da nuca dela, com uma mão já a caminho do seu seio. – O quê? – estranhou Annabelle, perguntando-se se ele teria inventado um novo impropério. – Caldo do inferno é o que eles chamam ao ferro derretido… Os dedos dele rodearam as formas reforçadas dos seios dela, moldados artificialmente, altos e redondos dentro do espartilho. – Deus do céu, o que é que traz debaixo do vestido? – É o meu novo espartilho, moldado a vapor. Aquela moderna peça de roupa interior, importada de Nova Iorque, fora engomada a preceito e moldada numa forma semiesférica, dando aos seios maior dureza estruturada do que o corpete convencional. Simon torceu o nariz. – Não me agrada… Mesmo nada. Não consigo apalpar-lhe os seios. – Nem é suposto fazê-lo – disse Annabelle com exagerada paciência, levando os olhos ao céu ao vêlo levar as mãos ao peito dela e apertando-o tentativamente. – Simon, o seu banho… – Quem terá sido o imbecil que inventou o corpete, a bem dizer? – resmungou ele, largando-a. – Um inglês, obviamente. – Tinha de ser! Seguiu-a, enquanto ela se deslocava a fechar as torneiras. Annabelle suspirou e olhou-o com uma expressão provocadora. – A minha modista diz que os espartilhos foram inventados ainda na Idade Média e que eram usados como marca de servidão. – Deveras? E o que a leva a si a gostar tanto de usar marcas de servidão, não me dirá? – Porque todas as senhoras usam e se eu não usasse ficaria a parecer uma vaca leiteira, em comparação com elas. – Vaidade, teu nome é Mulher… – disse ele, deixando cair a roupa e encaminhando-se para a banheira. – Então diga-me lá: os homens usam gravata porque se sentem extremamente confortáveis, é isso? – disse Annabelle, vendo o marido entrar na banheira. – Eu uso gravata porque, se não usasse, os outros achar-me-iam ainda mais selvagem do que já acham – ripostou ele. Sentando-se cuidadosamente, uma vez que a banheira não fora concebida para um homem do seu tamanho, Simon suspirou de conforto, deixando a água quente envolver-lhe o torso dolorido. Annabelle sentou-se na borda ao seu lado e passou-lhe os dedos pelo cabelo. – E ainda não sabem eles da missa a metade… Pronto, dê-me cá esse braço, eu dou-lhe banho. Enquanto o ensaboava, Annabelle teve o prazer de fazer o inventário do belíssimo corpo do marido – um corpo de Adónis, forte, longo e musculado. Muito lentamente, as mãos dela percorreram os firmes planos de músculo, uns delineados como cordas, outros sólidos e macios. Como criatura sensual que era,


Simon não fez nenhum esforço para esconder o seu prazer, olhando Annabelle indolentemente por entre os olhos semicerrados. A sua respiração acelerou, embora ainda sob controlo, e os seus músculos tornaram-se duros como aço ao suave toque dos dedos dela. O silêncio da sala de ladrilhos era apenas quebrado pelo doce rumor da água e o som de ambas as respirações. Sonhadora, Annabelle passou os dedos pela espessa penugem ensaboada do peito dele, recordando a primeira sensação que tivera daquele corpo movendo-se sobre os seios dela. – Simon… – murmurou. Ele abriu os olhos, fitando os dela. Uma mão grande agarrou a dela, pressionando-a contra o seu corpo. – Sim?… – Se alguma coisa lhe acontecesse, eu… – Parou, sobressaltando-se com o som de vigorosas pancadas na porta da suite. – Hmm… quem será? Aquela interrupção provocou em Simon um esgar irritado. – Mandou vir alguma coisa? Abanando a cabeça, ela levantou-se e procurou uma toalha para secar as mãos. – Não… Ignore-os – pediu-lhe ele. Ela esboçou um sorriso apreensivo, enquanto o bater na porta se tornava mais insistente. – Não me parece que este visitante desista tão facilmente… Terei mesmo de ir ver quem é. Annabelle saiu da casa de banho, fechando a porta suavemente para que o marido acabasse o seu banho em sossego. Dirigiu-se à porta da suite e abriu. – Jeremy! A sua alegria ao ver o irmão cedo desapareceu quando reparou na expressão dele. O seu rosto de rapazinho estava pálido e a boca contraída numa linha dura. Vinha sem chapéu e sem casaco, com o cabelo em total desalinho. – Jeremy… aconteceu alguma coisa? – perguntou-lhe ela, fazendo-o entrar. – Bem podes dizê-lo. Ao ver o pânico que ele tentava dominar, a irmã olhou-o com crescente preocupação. – Diz-me o que aconteceu! Jeremy passou uma mão pela cabeça, deixando ainda mais espetado o espesso cabelo loiro. – Aconteceu que… – Calou-se, com uma expressão pasmada, como se não pudesse crer no que ia dizer. – Aconteceu… o quê?! – insistiu Annabelle, também ela já em pânico. – Aconteceu que… a nossa Mãe acabou de apunhalar uma pessoa. Annabelle olhou o irmão em completa confusão. Mas, gradualmente, uma onda de indignação espalhou-se-lhe no rosto. – Jeremy – disse, em tom severo –, isso é a brincadeira mais estúpida… mais… – Não é brincadeira, mana… Tomara eu que fosse. Ela não se esforçou por esconder o seu ceticismo. – E quem é que a Mamã… supostamente apunhalou, não me dirás? – Lord Hodgeman. Um dos amigos do nosso pai… Lembras-te dele? De súbito, a cor fugiu das faces de Annabelle, que se sentiu invadida por um terrível choque.


– Sim… – limitou-se a murmurar num fio de voz. – Lembro-me dele. – Ao que parece, ele foi esta noite lá a casa… Eu tinha saído com uns amigos, mas voltei cedo… e logo que abri a porta vi sangue no chão, à entrada. Ela abanou levemente a cabeça, tentando apreender as palavras. – Segui a pista até ao salão – prosseguiu Jeremy –, onde a cozinheira passava por um ataque histérico e o criado tentava lavar uma poça de sangue no tapete – enquanto a Mamã ali estava, parecendo uma estátua, branca como a cal e sem dizer uma palavra. Em cima da mesa estava uma tesoura ensanguentada, a que ela usa nos trabalhos de costura. Pelo que consegui saber pelos criados, Hodgeman entrou no salão com a Mamã, ouviu-se uma discussão acesa, e a seguir ele saiu de lá cambaleando, com as mãos agarradas ao peito. A mente de Annabelle funcionava agora com o dobro da velocidade normal, com os pensamentos a galope. Ela e Philippa sempre haviam escondido a verdade a Jeremy, que estivera sempre ausente no colégio aquando das visitas de Hodgeman. Ele teria ficado arrasado se soubesse que parte do dinheiro que lhe pagava os estudos provinha de… Não, ele jamais poderia vir a saber! Ela ia ter de inventar uma explicação minimamente plausível… Mais tarde. O importante agora era proteger Philippa. – Onde está ele agora? E com que gravidade está ferido? – Não faço ideia. Parece que lá conseguiu chegar até à porta das traseiras, onde a carruagem o esperava, e foi o próprio criado e o cocheiro que o levaram… – O rapaz sacudiu a cabeça furiosamente. – Não sei onde a Mamã o esfaqueou, e quantas vezes, ou sequer porquê. Ela não diz, limita-se a olhar para mim como se não se lembrasse do seu próprio nome. – E onde está ela agora? Não me vais dizer que a deixaste sozinha em casa!… – Pedi ao criado que a vigiasse de perto e não deixasse que ela… – Jeremy interrompeu-se, lançando um olhar embaraçado a um ponto para além do ombro da irmã. – Boa noite, Mr. Hunt, peço desculpa por vir interromper esta noite, mas aconteceu uma… – Eu ouvi. Simon estava ali parado, enfiando calmamente para dentro das calças a fralda de uma camisa lavada, enquanto olhava Jeremy atentamente. Gelada, Annabelle voltou-se para o marido. Por vezes esquecia-se de como Simon podia ser intimidante, mas naquele momento, com um olhar inexpressivo e absolutamente desapiedado, ele parecia tão implacável quanto um assassino a soldo. – Por que razão terá ido Hodgeman lá a casa a uma hora daquelas? – disse Jeremy como se falasse sozinho, com uma cara perdida de aflição. – E por que diabo é que a Mamã o recebeu? E o que a teria irritado ao ponto de… Ele tem de ter feito qualquer coisa! Terá dito alguma coisa acerca do nosso Pai, ou… quem sabe até não terá sido atrevido com ela, o velho nojento…! No silêncio tenso que se seguiu às especulações ingénuas de Jeremy, Annabelle abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas Simon abanou subtilmente a cabeça, para a silenciar. Dirigiu toda a sua atenção para o jovem, falando num tom baixo e calmo: – Jeremy, corre até ao estábulo nas traseiras do hotel e manda que atrelem a minha carruagem. E dizlhes para selarem o meu cavalo. Depois vai a casa, pega no tapete e nas roupas ensanguentadas que encontrares e leva-as para a unidade de montagem das locomotivas – é logo o primeiro edifício da fábrica. Dizes que vais em meu nome e o gerente não fará perguntas. Há uma fornalha onde…


– Sim! – interrompeu-o Jeremy, compreendendo imediatamente. – Tratarei de queimar tudo. Simon fez-lhe um sinal de cabeça e o rapaz dirigiu-se à porta sem mais uma palavra. Logo que Jeremy saiu, Annabelle voltou-se para o marido, com o rosto carregado de angústia. – Simon… tenho de ir ter com a Mamã e… – Sim, eu acompanho-a. – Eu… não sei o que aconteceu ao Lord Hodgeman e… – Eu trato disso – disse Simon, determinado. – Rezemos para que os ferimentos sejam superficiais. Se ele morrer, será bem mais complicado encobrir toda esta trapalhada. Annabelle assentiu, mordendo o lábio antes de dizer: – Julguei que estivéssemos finalmente livres daquele… sabujo sinistro. Jamais sonhei que ele se atrevesse a incomodar de novo a Mamã, depois de eu casar consigo. Parece que não há nada que o faça parar! Simon agarrou-a tranquilamente pelos pulsos, dizendo com uma calma assustadora: – Eu faço-o parar. Pode ficar sossegada a esse respeito. Ela olhou-o com preocupação. – O que… conta fazer? – Mais tarde falamos. Agora não percamos mais tempo. Vá buscar a sua capa. – Sim… – murmurou ela, correndo para o quarto. Chegados a casa de Philippa, encontraram-na sentada nas escadas, segurando um copo com uma qualquer bebida espirituosa. Parecia pequenina, quase uma criança, e o coração de Annabelle deu-lhe uma volta no peito ao ver a postura curvada da mãe. – Mamã… – murmurou ela, sentando-se no degrau abaixo e rodeando-lhe os ombros com o braço. Entretanto, Jeremy, mais seguro de si, pedia ao criado que o ajudasse a enrolar o tapete e a levá-lo para a carruagem lá fora. Apesar da sua apreensão, Annabelle não pôde deixar de pensar que o irmão estava a conduzir a situação extraordinariamente bem para um rapaz de catorze anos. Philippa levantou a cabeça, olhando para a filha com um ar atormentado. – Lamento tanto… – Não, Mamã, sossegue… – Logo quando eu julgava que estava tudo bem, ele entrou aqui e… disse que queria continuar a visitar-me e se eu não estivesse de acordo, contaria a toda a gente a nossa combinação…. Ameaçou-me, afirmando que isso representaria a nossa ruína, que nos tornaríamos alvo do desprezo total. Por mais que eu chorasse, que suplicasse… ele ria… E finalmente, quando o senti pôr-me as mãos em cima… algo dentro de mim disparou… não sei explicar. Vi a tesoura ali à mão e não pude deixar de agarrar nela e… e tentei matá-lo. E oxalá esteja morto. Não me importo com o que me possa vir a acontecer agora… – Chhh, Mamã… – murmurou Annabelle, consolando-a com uma carícia. – Ninguém a pode censurar pelo que fez… Lord Hodgeman era um monstro e… – Era…? – disse Philippa, entorpecida. – Quer isso dizer que está morto? – Não sabemos. Mas vai tudo correr bem, de uma maneira ou de outra. Jeremy e eu estamos aqui… e o Simon não vai deixar que nada de mal lhe aconteça, prometo. – Mamã – chamou Jeremy, erguendo uma ponta do tapete enrolado que, juntamente com o criado, levava para as traseiras da casa. – Sabe onde está a tesoura?


Aquela pergunta foi feita num tom tão natural que dir-se-ia que o rapaz precisava da tesoura para cortar um pedaço de fio. – A criada é que a levou – respondeu Philippa. – Está a… tentar lavá-la. – Muito bem, vou pedir-lha. Enquanto se afastavam pelo corredor, Jeremy recomendou, por cima do ombro: – Dê uma vista de olhos pela sua roupa, minha Mãe. Tudo o que tiver o menor pingo de sangue tem de ser queimado. – Sim, querido. Ao ouvi-los, Annabelle não pôde deixar de admirar o modo casual como ela e a família estavam a ter uma conversa acerca do modo como fazer desaparecer as provas de um crime. E pensar que sentira a mínima superioridade sobre a família de Simon… era um pensamento que lhe causava arrepios. Duas horas depois, Philippa estava a salvo, metida na cama e acarinhada pela filha; Simon e Jeremy regressaram à casa de família com poucos minutos de diferença. Trocaram umas breves palavras no hall de entrada, no momento em que Annabelle vinha a descer as escadas. Parou por momentos ao ver Simon enlaçar brevemente o seu irmão e despentear-lhe o cabelo, já de si bastante desgrenhado. Aquele gesto paternal pareceu acalmar sobremaneira o rapaz, levando-lhe à face um sorriso de cansado alívio. Annabelle observava-os, imóvel. Fora-lhe pesaroso que Jeremy tivesse aceitado Simon tão facilmente, quando Annabelle esperava que o irmão se revoltasse contra a autoridade do cunhado. Causou-lhe um estranho sentimento testemunhar a ligação que se formara instantaneamente entre eles, especialmente sabendo que a confiança de Jeremy não era fácil de ganhar. Até agora, Annabelle nunca havia pensado no alívio que o irmão devia sentir por ter alguém forte em quem se apoiar, alguém capaz de encontrar soluções para problemas que ele, por ser ainda demasiado novo, não conseguia encarar. A luz amarela do hall de entrada deslizou sobre o espesso cabelo escuro de Simon e fez-lhe brilhar o rosto quando levantou os olhos para ela. Debatendo-se com todas aquelas emoções, Annabelle acabou de descer e perguntou: – Encontraram-no? – Encontrei-o, sim – assegurou-lhe Simon, pegando na capa pendurada no corrimão da escada e pondo-lha sobre os ombros. – Vamos… Annabelle voltou-se para o irmão. – Jeremy, ficas bem? – Tenho a situação controlada – foi a resposta do rapaz. Simon esboçou um sorriso divertido ao enlaçar a cintura de Annabelle. – Vamos lá, querida – murmurou-lhe. Já no interior da carruagem, Annabelle bombardeou Simon com perguntas, até que ele lhe tapou a boca com a mão. – Vou contar-lhe tudo… se conseguir manter-se caladinha por um minuto ou dois – disse ele. Annabelle assentiu e ele inclinou-se sobre ela, substituindo a mão pela boca. Depois de lhe roubar aquele beijo, recostou-se no assento e, com uma expressão séria, passou a relatar: – Encontrei Hodgeman em casa, nas mãos do seu médico privado. E em boa hora o fiz, porque eles já tinham chamado a polícia e preparavam um depoimento. – E como conseguiu convencer os criados a deixá-lo entrar?


– Entrei com um empurrão e exigi que me levassem imediatamente à presença do dono da casa. A confusão era tal que ninguém ousou recusar. Ordenei a um criado que me levasse ao quarto, onde o médico já estava a tratar o ferimento de Hodgeman. – Fez uma pausa e acrescentou, visivelmente divertido: – Claro que podia ter encontrado facilmente o quarto guiado apenas pelos gritos e pragas daquele canalha… Annabelle soltou uma risadinha plena de satisfação, comentando: – Na minha opinião, qualquer dor que Lord Hodgeman esteja a sofrer ainda não é bastante. Como é que ele estava e que lhe disse quando entrou no quarto? Simon torceu a boca de desdém, antes de responder: – Não passava de uma ferida superficial num ombro – e bastante pequena. E a maior parte das coisas que ele disse… bom, o pudor impede-me de as repetir. Deixei-o disparatar por uns minutos e pedi ao médico que aguardasse no quarto ao lado, enquanto eu tinha uma conversa particular com Lord Hodgeman. Assim que o vi sair, disse àquele sebento que lamentava muito saber da sua grave perturbação digestiva – um comentário que o intrigou, até eu lhe explicar que ele teria todo o interesse em descrever a sua doença, à família e amigos, como um desarranjo de estômago e não uma punhalada. – E se ele recusasse? – quis saber Annabelle, com um leve sorriso. – Nesse caso, tornei bem claro que me dedicaria a retalhá-lo como a uma peça de presunto de Yorkshire. E se jamais viesse a ter conhecimento do mínimo rumor que pudesse embaciar a reputação da sua mãe, ou de alguém da família, atribuir-lhe-ia a origem; e depois não haveria dele restos suficientes para lhe dar um enterro decente. Quando acabei com ele, já nem ousava respirar. Acredite que nunca mais voltará a aproximar-se de Philippa. Quanto ao médico, recompensei-o dignamente e persuadi-o a banir do espírito aquele episódio. E, bom… depois disto só me restou aguardar pelo chefe da Polícia. – E a ele? O que lhe disse? – Simplesmente que tinha havido um engano e que sua presença não seria necessária. E em paga da maçada e do tempo perdido, sugeri-lhe que fosse à Brown Bear Tavern no fim do seu turno e mandasse vir todas as rodadas de cerveja que lhe aprouvesse, que ficariam por minha conta. – Graças a Deus! – exclamou Annabelle, profundamente aliviada, suspirando no seu ombro. – E quanto a Jeremy? O que vamos dizer-lhe? – Ele não precisa de saber a verdade; só o iria confundir e fazer sofrer. Em minha opinião, Philippa reagiu exageradamente aos avanços de Hodgeman e feriu-o sem querer – Simon acariciou-lhe o queixo com a ponta do dedo, dizendo: – Mas eu tenho uma proposta a que gostaria que desse alguma atenção. Suspeitando que aquela proposta não passasse de uma ordem velada, Annabelle olhou-o com desconfiança. – De que se trata? – Creio que o melhor seria Philippa pôr alguma distância entre ela e Londres – incluindo Hodgeman – até a poeira assentar. – Alguma distância… quanta? E para onde iria ela? – Sugiro que se junte à minha mãe e irmã, que se preparam para uma viagem pelo Continente. Partem dentro de poucos dias. – Essa é a pior ideia que jamais ouvi! – exclamou Annabelle. – Quero que ela fique aqui mesmo, onde Jeremy e eu podemos cuidar dela. Além de que, ou eu me engano muito, ou a sua mãe e a sua irmã


não ficariam nada satisfeitas! – Podemos mandar o Jeremy com elas. Tem tempo suficiente antes de recomeçar a escola e é a pessoa ideal para servir de escolta às três. – Pobre Jeremy… – murmurou ela, tentando imaginar o irmão acompanhando aquele trio de mulheres por toda a Europa. – Eu não desejaria tal destino ao meu pior inimigo! Simon não pôde deixar de rir. – Pelo contrário… pode aprender imensa coisa acerca das mulheres. – E nenhuma delas agradável, certamente – retorquiu ela. – Mas por que razão considera necessário afastar a Mamã de Londres? Haverá ainda alguma sorte de perigo a esperar de Lord Hodgeman? – Não – murmurou ele, puxando-lhe docemente o rosto para si. – Já lhe afiancei que ele nunca mais ousará aproximar-se de qualquer uma de vós. Contudo, se ainda surgir algum problema com ele, eu prefiro tratar do assunto na ausência dela. Além disso, o Jeremy disse-me que a mãe não parecia estar em si. O que não admira nada, dadas as circunstâncias. Uns meses de viagem vão certamente fazê-la sentir-se melhor. Annabelle suspirou e dispôs-se a considerar a ideia – acabando por admitir que fazia todo o sentido. Há muito que Philippa não viajava para parte alguma. E se Jeremy acompanhasse a mãe, talvez a companhia das senhoras Hunt se tornasse mais tolerável. Quanto ao que Philippa desejaria… bom, a verdade é que ela parecia demasiado entorpecida para tomar qualquer decisão. Era pois plausível que iria aderir a quaisquer planos que os filhos lhe propusessem. – Simon… – disse ela, hesitante. – Está a pedir-me a opinião ou a comunicar-me a sua decisão? O olhar de Simon percorreu a face dela, numa avaliação cautelosa. – O que seria melhor para a levar a concordar comigo? – Sorriu ao ler a resposta na expressão dela. – Muito bem… estou a pedir-lhe a opinião… Annabelle sorriu ironicamente e ajeitou melhor a cabeça no ombro dele. – Nesse caso… se o Jeremy concordar… eu também concordo.


Capítulo 25

Annabelle não perguntara a Simon como é que Bertha e Meredith Hunt tinham recebido a notícia daquela adição de dois novos companheiros de viagem. E não tinha pressa de saber a resposta. Tudo o que importava era que Philippa estivesse bem longe de Londres e de tudo o que lhe pudesse recordar Lord Hodgeman. E esperava que quando a mãe regressasse, estivesse fresca e restabelecida, pronta para um recomeço. A viagem talvez acabasse por ser um divertimento para Jeremy, que ansiava por ver alguns daqueles sítios no estrangeiro de que lhe tinham falado no colégio. A menos de uma semana do dia da partida, Annabelle lançou-se à tarefa de fazer as malas para a mãe e para o irmão, tentando adivinhar o que iriam precisar para uma viagem de seis semanas. Perante a quantidade de mantimentos que Annabelle comprara para eles, Simon fez-lhe notar, divertidíssimo, que mais parecia que a família se preparava para viajar por regiões bravias e inexploradas do que para se instalarem numa sucessão de estalagens e pensiones. – Viajar pelo estrangeiro pode por vezes ser desconfortável – respondeu Annabelle, recheando afanosamente um saco de coiro com latas de chá e de bolachas. Um monte de caixas e embrulhos erguia-se ao lado da cama do casal, onde ela empilhava agora vários artigos. Entre outras coisas, selecionara cuidadosamente mezinhas preparadas pelo boticário, um par de almofadas de penas e roupa de cama extra, uma caixa cheia de livros e revistas, e uma série de conservas e mercearias empacotadas. Erguendo um boião de vidro com compota, examinou-o com olhar crítico. – No Continente a comida é muito diferente. – Muito – assentiu Simon gravemente. – Ao contrário da nossa, a comida deles acontece ter sabor. – E o clima é frequentemente inapropriado à estação. – Sol e céu azul? Oh, sim, tentam evitá-lo a todo o custo! Ela reagiu à troça dele com um olhar altivo. – Não tem nada de mais importante para fazer do que ficar aqui a ver-me empacotar caixas? – Não, uma vez que o está a fazer no nosso quarto de cama… Erguendo-se, Annabelle cruzou os braços sobre o peito, lançando-lhe um olhar provocante. – Pois receio que tenha de controlar os seus instintos animalescos, Mr. Hunt. Talvez não tenha reparado que a lua de mel acabou. – A lua de mel não acaba enquanto eu não disser – esclareceu-a Simon, agarrando-a antes que ela pudesse escapar. Esmagou-lhe a boca com um beijo dominador e lançou-a sobre a cama. – O que significa que, para si, é um caso perdido.


Tentando dominar o riso, Annabelle espinoteou, embaraçando-se nas saias até se ver pregada ao colchão pelo corpo dele colado ao seu. – Tenho mais embrulhos para fazer – protestou ela, enquanto ele se instalava entre as suas coxas. – Simon…! – Já alguma vez lhe disse que sou capaz de desabotoar botões com os dentes? Ela soltou uma risada ofegante, contorcendo-se quando ele baixou a cabeça, direto ao corpete dela. – Parece-me uma habilidade muito pouco prática, essa. – Engana-se. É extremamente útil em certas situações. Deixe que lhe mostre… E naquele dia não houve mais embrulhos. Dias depois, contudo, Annabelle acabou por se encontrar à porta de casa da família, vendo partir a mãe e o irmão numa carruagem com destino a Dover, onde se encontrariam com as Hunt e embarcariam para Calais. Simon também estava presente, com a mão rodeando a cintura da mulher, enquanto a carruagem virava a esquina em direção à estrada principal. Ela acenava-lhes, desanimada, perguntando-se como em nome de Deus iriam eles governar-se sem ela. Levando-a para dentro de casa, Simon fechou a porta. – Anime-se, meu doce. Verá que esta é a melhor solução. – Para eles ou para nós? – Para todos. – Voltou-a para si, sorrindo-lhe. – Prevejo que as próximas semanas irão passar a correr. Mas entretanto, Mrs. Hunt, vai ter imenso que fazer. Para começar, esta manhã vamos encontrarnos com um arquiteto para combinarmos os planos para a nossa nova casa, e a seguir vai ter de escolher um entre dois lotes que o nosso agente encontrou em Mayfair. Annabelle pousou a cabeça no ombro dele. – Graças a Deus… Já começava a desesperar, cuidando jamais sair deste hotel. Não que não tenha gostado destes tempos, mas toda a mulher sonha com a sua própria casa e… – Interrompeu-se, sentindo-o mexer no seu cabelo. – Simon, não me tire os ganchos – avisou-o. – Dá imenso trabalho prender este cabelo e… E mais não disse, limitando-se a suspirar ao sentir o penteado desmanchar-se e ouvir o cair dos ganchos no chão. – Não consigo resistir – murmurou-lhe ele, desmanchando-lhe sofregamente com os dedos o entrançado. – O seu cabelo é tão bonito… – Levou ao nariz uma mão-cheia de cabelo sedoso. – Tão macio… E cheira a flores. O que é que lhe faz para ele cheirar tão bem? – Sabonete – respondeu Annabelle, escondendo um sorriso no peito dele. – Sabonete Bowman. A Daisy deu-mo a experimentar; o pai delas manda-o vir de Nova Iorque aos caixotes. – Hmm… não admira que seja milionário. Todas as mulheres deviam cheirar assim. – Passou o cabelo entre os dedos e roçou-lhe o nariz pela garganta. – E em que outros sítios o usa? – sussurrou-lhe ao ouvido. – Podia convidá-lo a verificar por si mesmo, mas… temos um compromisso com o arquiteto, recorda-se? – Ele pode esperar. – E o senhor também – disse-lhe ela severamente, embora controlando o riso. – Meu Deus, Simon,


não se pode dizer que tenha sofrido privações. Tem-me dado muito trabalho satisfazer as suas… Ele moldou a sua boca na dela, num beijo tão quente e persuasivo que todos os pensamentos racionais lhe desapareceram do espírito. Agarrando-lhe o cabelo entre as mãos, empurrou-a contra a parede do hall de entrada, e penetrou-a com a língua, deleitando-se vagarosamente até Annabelle se sentir estonteada, os dedos fincados nas mangas do casaco dele. Gradualmente a boca dele separou-se da dela, mordiscando-lhe a garganta, macia como seda. Murmurava coisas que a chocavam, exprimindo-se agora não em frases floreadas mas com a simplicidade crua de um homem cujo desejo por ela não conhecia limites. – Não consigo controlar-me no que a si lhe diz respeito. Cada minuto que não estou consigo, só sonho em estar dentro de si. Abomino tudo o que me separa de si… Estendeu a mão por trás das costas dela e puxou-lhe o vestido com força, fazendo-a arquejar ao sentir ceder os botões e pedacinhos de marfim esculpido espalharem-se por todos os lados. Tapando-lhe o suspiro com a boca, Simon puxou-lhe o vestido para fora dos ombros, enquanto lhe pisava deliberadamente a bainha da saia. O tecido, de tão maltratado, rasgou-se em dois e o vestido escorregou até ao chão. Simon puxou-a contra o corpo, agarrando-lhe o pulso e conduzindo-o até ao sexo. Ela suspirou ao sentir-lhe a enorme ereção, moldando os dedos sobre ela e semicerrando os olhos. – Quero fazer-te gritar e arranhar e desmaiar nos meus braços – sussurrou-lhe ele, a face áspera roçando-lhe a pele delicada. – Preciso de devorar-te, por dentro e por fora, tão fundo quanto puder… Calou-se de repente e a boca dele apoderou-se da dela com uma pressão insistente, subitamente tão arrojado no seu desejo, como se o sabor da boca dela fosse um estímulo exótico que o levava até ao êxtase. Annabelle apercebeu-se vagamente de que ele procurava qualquer coisa na algibeira do casaco, e a seguir sentiu algo a morder as fitas do espartilho… até que percebeu que ele as cortara com o seu canivete, ao sentir a cinta apertada alargar a pressão contra as suas costelas. Percebendo que estava quase a ser violada na entrada da sua casa de família, Annabelle separou-se do marido com um sorriso trémulo. Mesmo nos seus momentos de maior excitação, Simon sempre parecera dominar-se, aplicado travões calculados à sua paixão. Jamais ela temera que ele fosse outra coisa que não gentil e solícito com ela… até agora. O seu aspeto era quase selvagem, o rosto obscurecido por uma cor desusada. O coração dela começou a bater com pancadas dolorosas, levando-a a humedecer os lábios ressequidos. O movimento da sua boca atraiu fortemente a atenção dele, que passou a olhá-la com uma intensidade alarmante. – No meu quarto… – conseguiu ela dizer, voltando-se para as escadas. Assim que começou a subir os primeiros degraus, com as pernas bambas e trémulas, Annabelle sentiu Simon agarrá-la por trás e levantá-la nos braços. Antes que pudesse produzir um som, ele levou-a escada acima com uma facilidade impressionante. Transportou-a até ao quarto, onde a visão da sua silhueta escura era chocante contra os pálidos folhos e rendas gastos pelo tempo, bem como as amostras de bordados que ela fizera com as suas mãos de criança. Despindo-a rudemente, Simon deitou-a sobre os lençóis, puídos e com um leve cheiro a mofo de não terem sido usados há tanto tempo. A roupa dele em breve se juntou à dela no chão, e logo o seu corpo deslizou sobre o dela. Ela respondeu à urgência do marido com inequívoca boa vontade, abrindo os braços para ele e afastando as pernas ao toque mais ligeiro. Simon enterrou-se nela, num profundo deslizar, fazendo-a ofegar no esforço de se acomodar. Uma vez dentro dela, ele tornou-se mais meigo, e a


sua premência adquiriu uma intensidade calculada. Era como se cada parte dele tivesse sido planeada para lhe dar prazer a ela, o toque acetinado da sua masculinidade, o velo espesso e macio que roçava suavemente os mamilos dela, o sabor e o cheiro que lhe drogavam os sentidos. Dominada por aquela intimidade devastadora, Annabelle sentiu as lágrimas chegarem-lhe aos olhos e Simon consolou-a com doces murmúrios, enquanto ao mesmo tempo a penetrava mais fundo, mais longe, tirando dela mais do que ela jamais pensara ser possível dar. A boca dele deslizava sobre a dela, absorvendo a sua respiração errática, enquanto se movia em investidas voluptuosas, calibradas, que faziam vibrar e retesar todos os seus músculos. Ela soluçava contra a boca dele, suplicando-lhe sem palavras que a libertasse. Por fim, cedendo, ele aumentou o ritmo, levando-a a um clímax penetrante, num encontro cru e exaltado e assombroso na sua violência. Minutos depois, Annabelle, estendida numa deliciosa indolência sobre o corpo dele, uma face aninhada no seu ombro, tentava analisar o maravilhamento dos seus sentidos. Nunca se sentira tão saciada, cada nervo envolto em prazer. E contudo, ela sentira qualquer coisa de novo no amor deles… uma altura inatingível que se elevava até sobre o que haviam experimentado juntos… uma possibilidade irrealizável que pairava fora do seu alcance. Um sentimento… um desejo… qualquer coisa de tantalizante que não tinha nome. Fechando os olhos, Annabelle aqueceu-se com a proximidade dos seus corpos, enquanto a esquiva promessa assombrava o ar como um espírito benevolente. Cada vez mais curiosa a respeito do grandioso projeto que tanto ocupava a atenção do marido, Annabelle pediu a Simon para visitar a fábrica de locomotivas, mas só deparou com recusas, manobras de diversão e táticas sortidas para a impedir de visitar o local. Percebendo que, por uma qualquer razão, Simon não queria levá-la, ela tornou-se cada vez mais determinada, obsessiva mesmo. – É só uma curta visita, Simon – insistiu ela uma noite. – Só quero dar uma vista de olhos, não vou mexer em nada. Por amor de Deus, depois de tanto o ouvir falar em locomotivas, não terei direito a conhecê-las? – É demasiado perigoso – respondeu Simon secamente. – Uma mulher não tem nada que ir a um sítio pejado de maquinarias pesadas e cubas de milhares de quilos de caldo do inferno a ferver. – Há semanas que me tem andado a dizer que é um sítio seguro e que não há absolutamente nenhuma razão para eu ficar preocupada… e agora diz-me que é perigoso? Dando conta do seu erro de tática, Simon franziu o sobrolho. – O facto de ser seguro para mim não quer dizer que o seja para si. – E porque não? – Porque é uma mulher. Fervendo como uma das ditas cubas de caldo do inferno, Annabelle olhou-o de olhos semicerrados. – Já lhe respondo – rosnou-lhe ela –, logo que consiga dominar a vontade que tenho de lhe dar na cabeça com o objeto pesado mais à mão. Simon andava de um lado para o outro no salão, com uma evidente frustração em cada linha do seu corpo. Parou diante do sofá onde ela estava sentada, falando-lhe lá do alto: – Annabelle – disse-lhe finalmente, e já de mau modo –, visitar uma fundição é como olhar para além das portas do inferno. Aquele lugar é tão seguro quanto nos é possível, mas ainda assim é um sítio barulhento, sujo, selvagem. E claro que existe sempre uma possibilidade de perigo e… Calou-se, olhando em volta impacientemente e passando os dedos pelo cabelo, numa súbita


dificuldade em encará-la, enquanto ela, de cabeça encostada à mão, o olhava fixamente. – É muito natural que me queira proteger – murmurou. – Mas eu não quero viver fechada numa torre de marfim, meu querido. – Consciente da luta interior do marido, ela continuou, num tom razoável: – Quero saber mais acerca do que faz quando não está comigo… conhecer esse lugar que é tão importante para si. Por favor… Simon remoeu por instantes os seus pensamentos e quando respondeu foi já num tom de inegável mau humor. – Está bem, seja. Já que é óbvio que não terei paz de outro modo, levo-a lá amanhã. Mas não me censure se ficar desapontada. Avisei-a do que a espera. – Obrigada – disse Annabelle, satisfeita, oferecendo-lhe um sorriso radioso que se foi perdendo pouco a pouco com a frase que ouviu a seguir. – Felizmente, Westcliff também vem visitar a fábrica amanhã. Será uma excelente oportunidade para ambos se conhecerem melhor. – Que bom… – disse ela, numa pálida tentativa de se mostrar encantada com aquela notícia. Annabelle ainda não esquecera as observações cortantes que Westcliff fizera acerca dela, nem tão pouco a sua previsão de que aquele casamento iria arruinar a vida e a carreira de Simon. Mas se o marido pensava que a perspetiva da companhia de um imbecil presunçoso como Westcliff a dissuadiria, estava muito enganado. Colando à face um ténue sorriso, passou o resto do dia a pensar que era lamentável que uma esposa não pudesse escolher, por ele, os amigos do marido. No dia seguinte, ao fim da manhã, Simon levou Annabelle ao terreno de 3,6 hectares da Consolidated Locomotive. Eram filas de edifícios cavernosos, cravados de miríades de chaminés expelindo fumo negro, que era levado pelo vento sobre pátios cheios de vagões e passadiços que se intersetavam. O tamanho da fábrica era ainda maior do que Annabelle esperava, e albergava equipamento de uma escala de tal modo planetária que a deixou literalmente sem fala, e logo assim que lá chegaram. O primeiro local que visitaram foi a unidade de montagem, uma gigantesca oficina que ostentava nove locomotivas em variados estados de produção. O objetivo da companhia era produzir quinze máquinas no primeiro ano e trinta no seguinte. Ao saber que as despesas da fábrica ascendiam, em média, a um milhão de libras semanais, e com uma capitalização do dobro, Annabelle olhou para o marido de queixo caído de espanto. – Meu Deus… – suspirou ela. – Quanto dinheiro é que tem, Simon? Ele soltou uma gargalhada perante a pergunta de gosto duvidoso, e inclinou-se para lhe sussurrar ao ouvido: – Sou suficientemente rico para a manter bem fornecida em sapatos de baile, minha senhora. De seguida visitaram a carpintaria de moldes, onde os desenhos das partes a modelar eram cuidadosamente examinados e construídos protótipos em madeira, a partir dos quais eram concebidos os moldes – onde finalmente o ferro derretido seria vertido e arrefecido. Fascinada, Annabelle fez uma série de perguntas acerca do processo de fundição, de como funcionavam as prensas e as máquinas hidrostáticas de rebite; e quis saber por que razão o ferro arrefecido a alta velocidade era mais resistente do que o arrefecido mais paulatinamente. Apesar das suas apreensões iniciais, Simon pareceu gostar de a conduzir pelos edifícios, sorrindo frequentemente ao ver a expressão absorta e maravilhada da mulher. Guiou-a cautelosamente através da fundição, onde ela descobriu que aquela sua expressão, «é como olhar para além das portas do inferno»,


não era, como ela imaginara, um exagero. Não tinha nada que ver com a condição laboral dos operários, que pareciam ser bem tratados, nem sequer pelo estado dos edifícios, que estavam razoavelmente estruturados. Era mais a natureza do trabalho em si, uma espécie de inferno organizado onde os fumos, o trovejar ensurdecedor e o fulgor rubro das fornalhas ribombantes formavam um cenário impressionante para homens protegidos por roupas pesadas, manejando marretas e ferros em brasa. Era certo que os serventes do diabo não pareciam tão bem organizados no decurso dos seus trabalhos. Movendo-se pelo labirinto de fogo e aço, os fundidores tinham de esquivar-se sob gruas maciças deslocando toneis de caldo do inferno – e parar ocasionalmente para dar passagem a gigantescas placas de metal. Annabelle sentiu alguns olhares curiosos na sua direção, mas a maioria dos trabalhadores estava demasiado atenta ao seu trabalho para se permitir distrações. Gruas giratórias instaladas em todo o centro da fundição içavam vagões cheios de ferro-gusa, sucata de ferro e carvão de coque até ao topo de altos-fornos com mais de vinte pés de altura. Aí, a mistura de carvão e ferros era fundida, deitada em conchas gigantescas e vertida em moldes por gruas adicionais. O cheiro a combustível, metal e suor humano conferiam ao ar um peso atordoante. Ao ver o ferro fundido ser transferido das cubas para os moldes, Annabelle encostou-se instintivamente ao peito do marido. Atordoada pelos guinchos implacáveis e os gemidos do metal a ser dobrado, o assobio aterrador das máquinas a vapor e os ecos e solavancos de um gigantesco martelo manejado por seis homens, Annabelle sentiu-se estremecer a cada novo assalto aos seus ouvidos. Simon prontamente lhe passou o braço pelas costas, enquanto travava uma conversa gritada mas amistosa com o chefe de produção, Mr. Mawer. – Já viste Lord Westcliff por cá? – perguntou-lhe. – Combinou chegar à fábrica pelo meio-dia e nunca o vi atrasar-se. O robusto fundidor limpou o suor da cara com um lenço, respondendo: – Creio que o senhor conde está na linha de montagem, Mr. Hunt. Estava preocupado com as dimensões dos moldes dos cilindros novos e queria inspecioná-los antes de serem aparafusados às máquinas. – Vamos lá para fora – disse Simon para Annabelle. – Está muito calor e demasiado barulho para esperarmos aqui por ele. Aliviada pela ideia de escapar ao ruído implacável da fundição, Annabelle concordou imediatamente. Agora que já tinha dado uma vista de olhos pelas instalações, e satisfeita a sua curiosidade, sentia-se mais do que pronta para sair dali – mesmo perante a desagradável perspetiva de se defrontar com Lord Westcliff. Enquanto Simon parava mais uma vez para trocar impressões com Mawer, ela aproveitou para observar de mais perto um gigantesco fole operado a vapor que injetava ar no imponente alto-forno central. O poderoso sopro do ar obrigava o metal em fusão a correr para conchas cuidadosamente posicionadas, contendo cada uma delas mais de 450 quilos de metal instável. Uma pilha particularmente grande de sucata de ferro foi lançada do vagão de carga para a cúpula do alto-forno… aparentemente demasiado grande, visto que o capataz começou a gritar, irado, contra o operário que carregara impensadamente o vagão. Franzindo os olhos, Annabelle observou-os com atenção. Gritos roucos de alerta vindos dos homens no cimo da galeria anunciaram um novo assopro de ar do grande fole… e desta vez, deu-se o desastre. O ferro em fusão transbordou rapidamente das conchas e caiu em pedaços fervilhantes, alguns deles ficando presos nas gruas móveis. Simon parou a meio da conversa com o capataz e ambos olharam para cima em simultâneo.


– Meu Deus! – disse Simon. E Annabelle só teve um lampejo da sua cara antes que ele a atirasse ao chão, cobrindo-a com o próprio corpo. Ao mesmo tempo, dois pedaços de caldo do inferno do tamanho de abóboras caíram para dentro das cubas de arrefecimento por baixo, provocando uma série de explosões instantâneas. O impacto foi como uma sucessão de golpes em cheio sobre eles. Annabelle nem teve tempo de gritar quando Simon se curvou num arco, formando com os ombros um escudo sobre a cabeça dela. Depois disso… Silêncio. De início parecia que o próprio movimento da terra tivesse parado com um safanão súbito. Desorientada, Annabelle pestanejou para aclarar a visão e foi desde logo atingida pelo brilho brutal do incêndio. Os vultos ameaçadores da maquinaria destacavam-se como monstros na ilustração de um tomo medieval. Jatos intermitentes de calor fustigavam-na com tanta força que parecia conseguirem arrancarlhe a pele dos ossos. Repuxos de aparas de metal voavam pelo ar, como se disparados por uma arma. Sentia-se rodeada de um turbilhão de movimento caótico, todo envolto num cobertor de silêncio atordoante. De repente sentiu uma espécie de estalido nos ouvidos que se encheram de um apito metálico num tom agudo. Ela estava a ser arrastada pelo chão. Simon puxou-a com força pelos braços, levantando-a num só movimento. Desequilibrada, aterrou contra o peito dele, ouvindo-o dizer-lhe qualquer coisa ao ouvido… mas ela só distinguia o som da voz dele – subitamente abafado pelo estrondo de explosões mais pequenas e o rugir do fogo que começava a engolir, esfomeado, todo o edifício. Viu a expressão grave e séria de Simon e tentou compreender o que ele lhe dizia, mas ficou desorientada pelas mordidelas de mais aparas de metal quente que lhe picavam a cara e o pescoço, qual enxame malévolo de insetos enfurecidos. Levada pelo instinto mais do que pela razão, Annabelle não pôde impedir-se de esbofetear inutilmente o ar com as mãos. Simon ora a puxava ora a empurrava através de todo aquele caos, tentando protegê-la sempre com o próprio corpo. Um tonel gigantesco rolava calmamente à frente deles, esmagando tudo o que encontrava pelo caminho. Praguejando, Simon sacou violentamente Annabelle para fora do caminho do cilindro rolante, que seguiu em frente. Havia homens por todos os lados, empurrando-se e gritando, com a ânsia suprema de sobreviver, correndo para as entradas de ambos os lados do edifício. Uma nova onda de erupções sacudiu a fundição, acompanhada de gritos ásperos. O ar era irrespirável de tão quente e Annabelle, aturdida, perguntava a si própria se morreriam assados antes de chegarem aos portões. – Simon! – gritou ela, agarrando-se à cintura dele. – Pensando melhor… acho que tinha razão. – A que respeito? – perguntou ele, de olhar fixo na entrada da fábrica. – Este sítio é demasiado perigoso para mim! Simon baixou-a e içou-a por cima do ombro, carregando-a sobre gruas tombadas e equipamento desconjuntado, com um braço firmemente apertado à roda dos joelhos dela. Baloiçando de cabeça para baixo, totalmente impotente, Annabelle viu no casaco dele buracos com sangue e percebeu que a explosão cravara bocados de ferro e estilhas de madeira nas costas dele, quando Simon a protegera com o seu corpo. Transpondo obstáculo após obstáculo, Simon finalmente chegou às portas de espessura tripla e colocou Annabelle de pé. Mas assustou-a, ao empurrá-la firmemente para os braços de alguém, a quem gritou que cuidasse dela. Voltando-se, ela viu que Simon a tinha confiado a Mr. Mawer.


– Leva-a lá para fora! – ordenou-lhe Simon. – E não pares até que ela esteja completamente fora do edifício. – Muito bem, senhor – disse o capataz, agarrando-a firmemente, num controlo inexorável. Arrastada à força para a entrada, Annabelle lançou a Simon um olhar desvairado. – Simon! O que é que vai fazer?! – Tenho de me certificar de que saiu toda a gente. Atravessou-a um arrepio de horror. – Não, Simon, fique comigo…! – Estarei cá fora dentro de cinco minutos – disse ele secamente. Annabelle sentiu a face contorcer-se até lhe chegarem aos olhos lágrimas de fúria e de terror. – Dentro de cinco minutos o edifício terá ardido completamente. – Vai! Corre, não pares – disse ele a Mawer, voltando as costas. – Simon! – gritou ela, vociferando ao vê-lo desaparecer de novo no edifício em chamas. No telhado ondulavam chamas azuis e ouvia-se toda a maquinaria guinchar ao ser devorada por aquele calor infernal. Das portas saía fumo, irrompendo em florescências negras que contrastavam estranhamente com as nuvens brancas lá do alto. Annabelle depressa descobriu que era inútil resistir ao punho forte de Mawer. Inspirou profundamente o ar do exterior, tossindo enquanto os seus pulmões irritados tentavam expelir o fumo. Mawer não parou enquanto não a depositou num caminho de gravilha, ordenando-lhe firmemente que não saísse dali. – Ele vai sair dali, confie em mim – disse-lhe ele. – A senhora fica aqui e espera por ele. Prometa-me que não sai daqui, Mrs. Hunt. Preciso de ir encarregar-me dos meus homens e não quero que a senhora me meta em mais sarilhos. – Não saio daqui – disse ela prontamente, com os olhos fixos na entrada do edifício infernal. – Vá descansado. – Sim, minha senhora. Ela ficou imóvel, de pé sobre a gravilha, olhando fixamente a porta da fundição, rodeada de uma atividade frenética. Passavam por ela homens a correr, enquanto outros se ajoelhavam junto dos feridos. Uns poucos, como ela, estavam imóveis como estátuas, olhando as labaredas com expressões vazias. O fogo rugia com uma força que fazia vibrar o chão, ganhando novo alento ao consumir a fábrica. Uma bomba hidráulica manejada à mão e arrastada por duas dezenas de homens rolou até perto do edifício – provavelmente tinha sido mantida ali para uma emergência, visto não ter havido tempo para pedir reforços exteriores à fábrica. Freneticamente, os homens procuraram ligar uma mangueira a uma cisterna debaixo do chão. Agarrando as longas pegas laterais, trataram de bombear num esforço concertado, acabando por conseguir introduzir na câmara de ar da bomba a pressão suficiente para lançar no ar um repuxo de água, que subiu trinta metros acima do chão. Mas, malogradamente, o seu esforço não teve consequências contra a magnitude daquele inferno. Cada minuto que passava tinha para Annabelle o peso de um ano. Sentia os lábios movendo-se numa súplica silenciosa… Simon, saia daí… Simon, por favor, saia daí… Meia dúzia de vultos saíram cambaleantes pela porta, com as caras e as roupas enegrecidas pelo fumo. O olhar de Annabelle varreu os homens que emergiam. Ao perceber que o seu marido não estava entre eles, a atenção dela mudou para a bomba hidráulica. Os homens tinham mudado a direção da


mangueira para o edifício ao lado, inundando-o numa tentativa de impedir o incêndio de alastrar. Annabelle abanou a cabeça, incrédula, ao aperceber-se de que já tinham dado a fundição por perdida. Desistiam agora do seu conteúdo… incluindo quem pudesse ter ficado preso lá dentro. Galvanizada por um esforço de ação, correu para o outro lado da fábrica, perscrutando desesperadamente a multidão, procurando algum sinal do seu marido. Ao descobrir um dos gerentes fazendo o inventário dos operários evacuados, Annabelle correu para ele. – Onde está Mr. Hunt? – perguntou ela, tendo de repetir a pergunta mais alto para chamar a sua atenção. O homem mal a olhou, respondendo-lhe com uma impaciência alheada: – Houve um novo desmoronamento lá dentro. Mr. Hunt estava a ajudar um dos operários que ficou preso nos escombros. Desde então não mais foi visto. Apesar do calor infernal que irradiava da fundição, Annabelle sentiu gelarem-se-lhe os ossos. Com a boca trémula, disse: – Se ele conseguisse sair, já o teria feito certamente. Deve precisar de auxílio. O que espera para mandar lá alguém procurá-lo? O gerente olhou-a como se ela fosse demente. – Ali dentro?! Seria suicídio, minha senhora. Voltando-lhe as costas, o gerente dirigiu-se a um homem prostrado no chão e curvou-se para lhe colocar um casaco dobrado por baixo da cabeça. Quando se lembrou de deitar um olhar para o sítio onde Annabelle estivera, encontrou-o vazio.


Capítulo 26

Se alguém notou que uma mulher irrompera pelo edifício em chamas, ninguém tentou impedi-la. Cobrindo o nariz e a boca com um lenço, Annabelle percorreu o caminho por entre vagas de fumo acre que lhe trouxe uma torrente de lágrimas aos olhos semicerrados. O fogo, que começara no outro extremo da fundição, avançava gulosamente por entre as vigas, em ondas voluptuosas azuis, brancas e amarelas. Mais assustador do que o calor escaldante era o barulho: o rugir das chamas, os gritos e gemidos do ferro a contorcer-se, o estrondo da maquinaria pesada partindo-se como brinquedos de criança esmagados por uma pisadela. O metal líquido saltava e espalhava-se em jatos fortuitos, como metralha de canhão. Segurando as saias em feixes embaraçantes, Annabelle avançava tropeçando até aos joelhos em entulho fumegante, chamando Simon com a voz ensurdecida por aquela cacofonia sinistra. Quando já quase desesperava de o encontrar, apercebeu-se de um movimento por entre o entulho. Gritando, correu até um longo vulto caído. Era Simon, vivo e consciente, mas com uma perna presa sob o eixo de aço de uma grua caída. Ao vê-la, a sua cara suja de fuligem contorceu-se de horror e ele esforçou-se por se sentar. – Annabelle…! – conseguiu dizer em voz rouca, entremeada de acessos de tosse. – Não, que diabo! Saia daqui, saia já!… Que diabo está aqui a fazer?! Ela abanou a cabeça, evitando perder tempo com discussões estéreis. A grua era pesada de mais para qualquer deles a arredar… Ela tinha de encontrar qualquer coisa – algo que pudesse servir de alavanca! Limpando os olhos que lhe ardiam terrivelmente, Annabelle pesquisou uma pilha de moldes e pedras partidas, e um monte de pesos de contrabalanço. Tudo aquilo estava coberto de camadas de óleo e fuligem que a faziam escorregar no meio dos escombros. Uma série de rodas motrizes, algumas mais altas do que ela, estavam encostadas à parede. Encaminhou-se para lá e encontrou um monte de eixos e bielas grossos como um punho. Agarrando numa das pesadas bielas cobertas de óleo, ela puxou-a, tirando-a do monte, e arrastou-a até junto do marido. Só de olhar para Simon não restavam dúvidas de que ele, acaso pudesse deitar-lhe as mãos, a teria assassinado. – Annabelle! – berrou-lhe ele, entre espasmos de tosse. – Saia deste edifício, já! – Sem si, nunca. Olhando em volta, ela viu um bloco de madeira encostado a um carneiro hidráulico. Torcendo-se e contorcendo-se, puxando desesperadamente pela perna imobilizada, Simon cobriu-a de impropérios e ameaças, enquanto ela arrastava o bloco de madeira até junto dele, encostando-o à grua. – Isso é pesado de mais! – rosnava ele, vendo-a lutar com a enorme biela. – Não vai poder com isso!


Annabelle, saia daqui! Raios a partam, mulher, saia daqui! Gemendo com o esforço, ela apoiou o ferro ao bloco de madeira e entalou uma ponta sob a grua. Com todas as suas forças, empurrou-o para baixo. A grua permaneceu solidamente no mesmo lugar, indiferente aos seus esforços. Com um grito de frustração, Annabelle lutou com a alavanca até o ferro chiar em protesto. Nada a fazer – a grua permanecia imóvel. Ouviu-se um grande estampido e estilhas de ferro voaram pelo ar, fazendo-a baixar a cabeça. Sentiu uma pancada no braço com força suficiente para a deitar ao chão. Uma sensação aguda de queimadura penetrou-lhe o braço e ela apercebeu-se de que um fragmento de metal se tinha alojado no ombro, fazendo jorrar um jato de sangue vermelho vivo. Arrastou-se até Simon, que a agarrou junto ao peito, protegendo-a até que a chuva de estilhas de ferro acabasse. – Simon – arquejou ela, endireitando-se para o olhar nos olhos –, não tem por hábito trazer consigo uma navalha? Onde é que a tem? Simon ficou imóvel ao compreender o significado daquela pergunta. Por uma fração de segundo, ela viu-o analisar a possibilidade, e depois ele abanou a cabeça. – Não – murmurou. – Mesmo que conseguisse decepar a perna, eu não teria forças para me arrastar para fora daqui. – Empurrou-a com firmeza. – Não há tempo a perder… tem de sair já daqui! Já, Annabelle! – Lendo a recusa no rosto dela, as suas feições torceram-se numa tremenda angústia, não por ele mas por ela. – Meu Deus, querida… – disse-lhe em tom de súplica – … não me faça isso. Por favor… se me ama realmente… – Uma tosse violenta atravessou-lhe todo o corpo. – Saia daqui!… Vá! Por um instante, Annabelle quis obedecer-lhe, enquanto o desejo de escapar ao pesadelo infernal de uma fábrica a arder quase a dominava. Mas quando, a muito custo, se pôs de pé e olhou para ele no chão, tão forte e contudo tão indefeso, não conseguiu sair dali. Pegou novamente na peça de ferro e inseriu-a sob o bloco de madeira, sentindo uma dor violenta trespassar-lhe o ombro. O sangue atroava-lhe os ouvidos, tornando impossível distinguir a súplica de Simon do ruído ensurdecedor do edifício à volta deles. E bem vistas as coisas, isso até nem era mau, pois Simon parecia louco de fúria. Ela empurrou a alavanca, pondo nela todo o seu peso, enquanto os pulmões atormentados se enchiam de ar enfumarado e respondiam com um espasmo. À sua volta tudo se tornava indistinto, mas Annabelle continuou a exercer toda a sua força sobre a barra de ferro, apesar do seu escasso peso. De repente, ela sentiu qualquer coisa a agarrá-la pelas costas do vestido. Teria gritado, tivesse ainda alguma réstia de fôlego. Aterrorizada, ficou hirta ao sentir-se arrastada para trás e as mãos arrancadas à força da barra de ferro. Soluçando, olhou meio cega para a magra figura sombria atrás de si. Uma voz calma soou-lhe aos ouvidos: – Eu levanto a grua. Ao meu sinal, liberte-lhe a perna. Ela conheceu aquele tom autocrático ainda antes de reconhecer o rosto. Westcliff!, pensou ela, incrédula. Era com efeito o conde, de camisa branca suja e rasgada, o rosto enfarruscado de fuligem. Mas apesar do seu desalinho, parecia calmo e senhor de si, fazendo-lhe sinal para ir ter com Simon. Erguendo a barra de ferro sem grande esforço, ajustou habilmente a alavanca por baixo do eixo da grua. Embora fosse de estatura mediana, o seu corpo magro parecia sólido e soberbamente em forma, condicionado por anos de impiedoso exercício físico. Enquanto Westcliff empurrava para baixo a barra de ferro com um poderoso impulso, Annabelle escutava os roncos e gemidos do metal a ser vergado e a maciça grua a ser erguida poucas mas cruciais polegadas. O conde gritou para Annabelle que freneticamente puxou a perna


de Simon, sem fazer caso do seu gemido agonizante, ao rolar de sob aquela massa demolidora. Baixando a grua com um estrondo compacto, Westcliff veio ajudar Simon a pôr-se de pé, enfiando-lhe um ombro sólido debaixo do braço para suportar o lado ferido. Annabelle colocou-se do outro lado e estremeceu de dor quando Simon a apertou, num abraço punitivo. O calor e o fumo apoderaram-se dela, tornando-lhe impossível ver, respirar ou raciocinar. A tosse, violenta e contínua, abanava-lhe a figura frágil. Se estivesse sozinha, jamais teria conseguido encontrar a saída do edifício. Viu-se puxada e empurrada por Simon num abraço brutal, ocasionalmente levantada do chão quando atravessavam escombros e entulho. As suas pernas, tornozelos e joelhos estavam escoriados e doridos. Aquela viagem tormentosa parecia não ter fim, o progresso deles era aventuroso, enquanto a fundição estremecia e bramia como uma fera disputando a sua presa ferida. Annabelle sentia-se desfalecer. Lutou para permanecer lúcida, mas a sua visão estava tolhida por centelhas brilhantes e, por trás delas, uma escuridão convidativa. Não mais conseguiu lembrar-se do momento em que os três emergiram da fundição, com roupas fumegantes, cabelos chamuscados e rostos ressequidos de calor… Tudo o que conseguiu recordar mais tarde foi que havia incontáveis pares de mãos estendidas para ela, e que as suas pernas doridas se sentiram subitamente aliviadas do seu próprio peso. Desfalecendo lentamente nos braços de alguém, sentiu-se a ser levada, enquanto os seus pulmões trabalhavam avidamente no intuito de recolher ar fresco. Uma toalha áspera e húmida passou-lhe pelo rosto e mãos desconhecidas mergulharam dentro do seu vestido para lhe desapertarem o corpete. Mas ela nem sequer teve forças para reagir ou se ralar: envolta num cobertor de letárgica exaustão, rendeu-se àqueles rudes cuidados e engoliu o conteúdo de uma concha de metal que lhe levaram à boca. Quando finalmente voltou a si, Annabelle pestanejou repetidamente para deixar que os fluidos naturais acalmassem a superfície dos seus globos oculares. – Simon…? – murmurou, tentando levantar-se. Mas alguém a impediu com gentileza. – Descanse uns minutos mais – disse uma voz pedregosa. – O seu marido está bem. Um pouco amolgado e arranhado, mas decididamente recuperável. Cuido até que a perna nem esteja partida. À medida que readquiria o tino, Annabelle descobriu com entorpecido espanto que se encontrava no chão, semideitada no colo de Lord Westcliff, com o vestido um tanto desabotoado. Olhando para cima, viu aquele rosto de traços austeros, e notou que a face bronzeada pelo sol estava riscada de fuligem e o cabelo despenteado e imundo. Aquele lorde, geralmente tão impecável, parecia tão simpático e desgrenhado… e tão intrinsecamente humano que ela mal o reconheceu. – O Simon… – murmurou ela. – Está neste momento a ser levado para a minha carruagem. Escusado será dizer que está impaciente por vê-la juntar-se-lhe. Vou levá-los a ambos para Marsden Terrace, já mandei o meu médico particular ir lá ter convosco. – Westcliff levantou-a um pouco nos braços. – Porque foi atrás dele, Mrs. Hunt? Poderia vir a ser uma viúva muito abastada… Curiosamente, a pergunta não foi feita em tom trocista, mas antes com um interesse amável que a desconcertou. Sem responder, Annabelle dirigiu a sua atenção para uma macha de sangue no ombro dele. – Não se mexa – disse-lhe baixinho. Com todo o cuidado, ela usou as suas unhas partidas como uma pinça para agarrar a ponta de um


fragmento metálico cravado na camisa dele. Arrancou-lho subitamente, provocando-lhe um estremecimento de dor. Olhando a farpa de metal que ela estendia para ele ver, o conde abanou a cabeça, admirado. – Meu Deus, não tinha reparado nisso. Guardando a farpa no seu punho fechado, Annabelle perguntou, cautelosamente: – E o que levou a si a entrar na fundição, my lord? – Tendo sido informado que Mrs. Hunt correra para dentro de um edifício em chamas para salvar o seu marido, pensei em oferecer os meus serviços… abrir uma porta, por exemplo, afastar qualquer objeto pesado do seu caminho… esse género de coisas. – E foi muito útil, sem dúvida – respondeu ela no mesmo tom despreocupado, o que o fez rir, exibindo uns dentes branquíssimos na cara negra de fuligem. Cuidadosamente, Westcliff ajudou-a a sentar-se. Amparando-a com um braço pelas costas, fechou-lhe a frente do vestido com um toque hábil e impessoal e contemplou as ruínas da fundição. – Morreram apenas dois homens e há um desaparecido – murmurou. – Podemos considerar um milagre, considerando a extensão do desastre. – Isto pode significar o fim da fábrica de locomotivas? – Não, espero reconstruir o que se perdeu no mais curto espaço de tempo possível. – O conde olhou com simpatia o rosto exausto de Annabelle. – Mais tarde contar-me-á o que aconteceu. Por ora, permitame que a leve até à minha carruagem. Ela ofegou um pouco quando ele se levantou, carregando-a ao colo. – Oh, não é necessário, eu… – É o mínimo que posso fazer – disse ele, dedicando-lhe outro dos seus raros sorrisos enquanto a levava sem o menor esforço. – Tenho para consigo uma… reparação a fazer. – Refere-se a acreditar agora que eu amo de facto o Simon e não casei com ele pelo dinheiro… – Algo desse género, sim. Tenho de admitir que me enganei a seu respeito, Mrs. Hunt. Aceite por favor as minhas mais humildes desculpas. Suspeitando que o conde raramente seria dado a pedidos de desculpas fosse pelo que fosse – e muito menos humildes –, Annabelle pôs-lhe os braços à roda do pescoço. – Não tenho outro remédio… – disse ela, de má vontade. – Visto ter-nos salvo a vida. Ele ajeitou-a mais confortavelmente nos braços. – Vamos declarar-nos pax, então? – Pax – disse ela, tossindo-lhe para o ombro. Enquanto Simon era observado e tratado pelo médico no quarto principal de Marsden Terrace, Lord Westcliff tomou Annabelle à parte e tratou-a ele próprio da ferida no braço. Com uma pinça arrancou-lhe a lasca de metal que ela tinha cravada na pele e limpou-a com álcool, fazendo Annabelle gemer de dor. De seguida aplicou-lhe um bálsamo em pancadinhas leves, ligou-a com perícia e deu-lhe um cálice de brandy para a animar. Se acaso ele acrescentou alguma coisa à bebida, ou se a mera exaustão dela potenciou o seu efeito, Annabelle jamais o viria a saber. A verdade é que, após ter bebido dois dedos daquele líquido cor de âmbar, ela sentiu-se tonta e de cabeça leve. De voz entaramelada, disse a Westcliff que o mundo tivera muita sorte por ele não ter enveredado pela carreira médica, com o que ele concordou ser provavelmente verdade. Titubeante, ainda fez menção de ir à procura de Simon, do que foi


firmemente dissuadida pela governanta e um par de criadas, que pareciam ter a intenção de lhe dar banho. Antes que ela percebesse o que se passava, Annabelle viu-se de banho tomado, enfiada numa camisa de noite da idosa mãe de Lord Westcliff e, finalmente, deitada numa cama fresca e macia. Assim que fechou os olhos, caiu no mais profundo dos sonos. Para sua mortificação, Annabelle acordou bastante tarde no dia seguinte, debatendo-se para saber onde estava e o que acontecera. Assim que o seu pensamento aflorou Simon, saltou da cama e, sem sequer apreciar o requintado meio que a rodeava, desceu descalça até ao átrio de entrada, cruzando-se com uma criada – que se mostrou surpreendida ao ver uma mulher de cabelo solto e descomposto, a face arranhada e colorida e uma camisa de noite que nitidamente não era sua… uma mulher que, não obstante a barrela da noite anterior, ainda cheirava fortemente a fumo de fábrica. – Onde está ele? – perguntou Annabelle sem mais prelúdio. A rapariga, diga-se em seu abono, compreendeu imediatamente a pergunta tão abrupta e indicou a Annabelle o quarto principal, ao fundo do hall. Através da porta aberta, Annabelle viu Lord Westcliff de pé ao lado de um leito enorme, onde Simon estava sentado, recostado a um monte de almofadas. Estava de peito nu e os seus ombros e torso contrastavam com os lençóis brancos de neve que o cobriam até à cintura. Annabelle estremeceu ao ver a profusão de emplastros fixados no seu peito e braços e teve uma nítida ideia do desconforto que ele devia ter sentido ao serem-lhe retiradas tantas estilhas de metal. Os dois homens calaram-se quando a viram entrar. Os olhos de Simon cravaram-se nos dela, com uma intensidade inquietante. Uma onda invisível de comoção encheu o quarto, afogando-os ambos numa tensão aguda. Perante a expressão do marido, dura como granito, Annabelle ficou sem palavras. Naquele momento, dizer-lhe o que quer que fosse seria um exagero pueril ou uma atenuação grotesca de sentimentos. Absurdamente grata pela presença de Westcliff, que lhe servia temporariamente de amortecedor, Annabelle dirigiu-lhe o seu primeiro comentário: – My lord – disse-lhe, observando os cortes e queimaduras no rosto dele –, parece o adversário vencido numa rixa de taberna. O conde avançou para ela, tomou-lhe a mão e executou uma vénia irrepreensível. Depois, e para surpresa dela, depositou-lhe um beijo cavalheiresco nas costas do pulso. – Se alguma vez eu tivesse participado numa rixa de taberna, minha senhora, garanto-lhe que não seria eu o adversário vencido. Isto provocou um sorriso divertido em Annabelle, que não pôde deixar de pensar que, 24 horas antes, tinha condenado a arrogância daquele homem, que agora lhe parecia quase enternecedora. Westcliff largou-lhe a mão, não sem antes lhe ter aplicado um ligeiro apertão tranquilizador. – E agora retiro-me, com sua licença, Mrs. Hunt. Terá sem dúvida coisas a discutir com o seu marido. – Obrigada, my lord. Enquanto o conde saía fechando a porta, Annabelle aproximou-se da cama. Simon desviou o olhar, franzindo as sobrancelhas, e o seu perfil austero ficou iluminado pela luz do sol. – Tem a perna partida? – indagou Annabelle em voz baixa. Simon abanou a cabeça, concentrando-se no faustoso papel florido que cobria a parede do quarto. – Vai ficar bem – disse ele, numa voz ainda rouca e embargada pelo fumo. O olhar de Annabelle passeou sobre ele, demorando-se na forte musculatura do seu peito e dos


braços, os longos dedos da mão, o modo como um anel de cabelo escuro lhe caía sobre a testa. – Simon… – disse ela com doçura –, não quer olhar para mim? Ele voltou a cabeça para ela, estreitando os olhos numa expressão hostil. – Mais do que olhar para si, gostaria de a estrangular. Teria sido ingénuo da parte dela perguntar-lhe porquê. Ela sabia perfeitamente. Limitou-se a esperar pacientemente enquanto Simon lutava contra a tosse. – O que… a senhora… fez ontem foi imperdoável – acabou por dizer. Ela lançou-lhe um olhar alarmado. – A que se refere… especificamente? – Quando estava ali deitado naquele poço do inferno, eu fiz-lhe o que julgava ser o derradeiro pedido da minha vida. E a senhora recusou. – Dados os acontecimentos, acabou por não ser o seu último pedido – replicou Annabelle, cautelosamente. – Sobreviveu… e eu também. E agora está tudo certo. – Não está nada certo! – gritou Simon numa fúria crescente. – Hei de lembrar-me para o resto da vida o que senti quando julguei que iria morrer ali comigo e sabendo-me totalmente impotente para o impedir! Desviou a cara quando a voz lhe faltou, num ataque involuntário de emoção. Annabelle estendeu a mão e logo hesitou, mantendo-a suspensa entre eles. – Como é que podia pedir-me para o deixar ali, ferido e só? Eu… não fui capaz! – Devia ter feito o que eu lhe disse para fazer! Annabelle compreendeu o medo que fervia sob a ira dele. – Se fosse ao contrário, sei que jamais me teria deixado a mim, sozinha, prostrada no chão daquela fundição! – Porque será que eu já esperava que dissesse isso?! – comentou ele, indignado. – Claro que não a iria deixar. Eu sou o homem! Um homem tem o dever supremo de proteger a sua mulher. – E uma mulher tem a obrigação de amparar, de ajudar o seu marido, de ser a sua companheira! – Não estava ajudar-me em nada! – exclamou Simon. – Estava a fazer-me passar por uma agonia insuportável! Irra, Annabelle, porque é que não me obedeceu? Ela respirou fundo antes de dizer: – Porque o amo. Simon continuou a evitar olhá-la, mas aquelas palavras causaram nele um choque visível. A sua mão fechou-se num punho, enquanto as suas defesas começavam visivelmente a ceder. – De bom grado morreria mil vezes para lhe evitar o mínimo mal – disse ele numa voz trémula. – E o facto de querer atirar fora a sua vida num sacrifício sem sentido é mais do que consigo suportar… Annabelle fitava-o de olhos rasos de lágrimas, sentindo uma necessidade e uma ternura inesgotáveis, como uma dor excruciante no corpo. – Eu percebi uma coisa, Simon… quando estava lá fora, vendo a fundição arder e sabendo que estava lá dentro… – Engoliu as lágrimas. – Percebi que preferia morrer nos seus braços, Simon, do que enfrentar toda uma vida sem si. Todos aqueles anos sem fim… aqueles invernos, aqueles verões, centenas de semanas e milhares de dias a querer tê-lo e não poder… A envelhecer sozinha, enquanto o meu marido permaneceria eternamente jovem na minha memória. – Mordeu os lábios, sacudindo a cabeça e fazendo


as lágrimas jorrarem. – Eu estava cega quando lhe disse que não sabia onde era o meu lugar… Agora sei. É consigo, Simon. Nada mais importa exceto estar a seu lado. Terá de me aturar para o resto da vida e eu não vou ouvir nada quando me mandar embora. Fez uma pausa e conseguiu esboçar um sorriso trémulo, enquanto ele a escutava em perfeito silêncio. Ela prosseguiu, à laia de conclusão: ��� Por isso, mais vale parar de se queixar e resignar-se a mim de uma vez por todas… Com um ímpeto que a sobressaltou, Simon voltou-se e agarrou-se a ela, enterrando a cara naquele cabelo desalinhado. A voz saiu-lhe num lamento angustiado: – Meus Deus, não posso suportar isto! Não posso deixá-la sair da minha vista, todos os dias, temendo a cada minuto que lhe aconteça alguma coisa, sabendo que a última gota de sanidade mental que me resta depende do seu bem-estar. Não posso sentir mais isto… é forte de mais! Ah, diabo! Estou a ficar louco… sem préstimo para mais nada. É-me urgente reduzir isto… amá-la apenas metade… aí sim, talvez possa viver em paz. Annabelle riu tremulamente perante aquela assombrosa confissão, enquanto sentia um jorro quente de alegria atravessá-la por completo. – Ah, mas eu exijo todo o seu amor – disse ela. Simon levantou a cabeça para olhar para ela, e a sua expressão cortou-lhe o ar nos pulmões. Annabelle levou ainda alguns segundos a recuperar. – Todo o seu coração e a sua mente… – E acrescentou com um sorriso em viés, baixando de tom provocadoramente: – E o seu corpo também… Simon olhou-lhe o rosto radioso, como se não conseguisse desviar os olhos. – Isso é animador… Ontem parecia muito ansiosa por me decepar a perna com uma navalha. A boca dela tremia de riso, enquanto lhe afagava o peito, brincando com os fios de pelos escuros e brilhantes. – A minha intenção era preservar a maior parte possível de si… e levá-la dali para fora. – A certa altura talvez lho permitisse, se pensasse que resultava… – Simon tomou-lhe a mão arranhada entre as suas, encostando-lhe o rosto. – É uma mulher forte, Annabelle… Muito mais forte que do que jamais cuidei. – Não… o meu amor por si é que é forte. Sabe que eu não seria capaz de cortar a perna de uma pessoa qualquer, não sabe? – Se alguma vez voltar a arriscar a vida seja por que motivo for, estrangulo-a com as minhas próprias mãos… Venha cá… Agarrando-a pela nuca, Simon puxou-a para si. Quando os narizes estavam prestes a tocar-se, ele respirou fundo e disse: – Meu Deus… amo-a tanto. Ela aflorou a boca contra a dele, provocante. – Quanto? Ele soltou um som abafado, como se aquela promessa de beijo o afetasse intensamente. – Sem limites. Para lá do infinito. – Mas eu amo-o mais – disse Annabelle, colando a boca à dele. Sentiu subir-lhe um prazer extraordinário, acompanhado por uma sensação de inteireza, de satisfação


total, a que nunca tinham chegado antes. Parecia flutuar, como se a sua alma estivesse banhada em luz. Afastando-se um pouco, viu pelo brilho aturdido no olhar de Simon que ele sentia exatamente o mesmo. Havia um tom novo, maravilhado, na voz dele, ao dizer: – Beije-me de novo. – Não… posso magoá-lo. Estou a fazer peso sobre a sua perna. – Isso não é a minha perna – foi a resposta malandra que a fez rir. – Oh, que homem depravado… – É tão bonita… – sussurrou-lhe ele. – Por dentro e por fora… Annabelle, minha mulher, meu único amor… beije-me de novo. E não pare enquanto eu não disser… – Sim, Simon – disse ela num doce murmúrio, obedecendo ao seu pedido.


Epílogo

– Não, não… esta não é a melhor parte – disse Annabelle, muito animada, agitando uma mão cheia de folhas de papel para fazer calar as manas Bowman. As três mulheres preguiçavam nos aposentos de Annabelle, no Rutledge Hotel, balançando pés descalços e beberricando cálices de vinho generoso. – Deixem-me continuar a ler… – pediu ela. – Quando parámos no Vale do Loire para visitar um castelo do século XVI que está a ser restaurado, Miss Hunt travou conhecimento com um cavalheiro inglês, solteiro, Mr. David Kerr, que acompanha dois primos mais novos na sua viagem ao Continente. Parece ser um historiador de arte, empenhado em escrever um livro erudito sobre… qualquer coisa; ele e Miss Hunt descobriram muitos interesses em comum. Na opinião das Mães – pois é assim que de ora em diante me vou referir à Mamã e a Mrs. Hunt, visto estarem constantemente na companhia uma da outra parecendo inclusivamente partilhar do mesmo cérebro… – Meu Deus! – exclamou Lillian, rindo. – O seu irmão escreve sempre com frases tão compridas? – Chh! – ralhou Daisy. – O Jeremy está prestes a contar-nos a sua opinião sobre Mr. Kerr! Prossiga, Annabelle, por favor! – … são de opinião unissonante que Mr. Kerr é um cavalheiro atraente e bem dotado… – continuou Annabelle. – Isso quer dizer «bonito»? – perguntou Daisy. Annabelle riu. – Decididamente! E Jeremy continua para dizer que Mr. Kerr pediu autorização para escrever a Meredith e tenciona visitá-la quando regressarem a Londres! – Que bom! – exclamou Daisy, estendendo o seu copo à irmã. – Serve-me mais um, querida, quero brindar à felicidade futura de Meredith! Todas brindaram e beberam e Annabelle pousou a carta com um suspiro de satisfação. – Gostava tanto de poder contar tudo isto a Evie… – Eu morro de saudades dela – disse Lillian com uma surpreendente melancolia. – Talvez em breve os seus carcereiros, perdão, os seus familiares, nos deixem visitá-la. – Tenho uma ideia – disse Daisy. – Quando o nosso Pai regressar de Nova Iorque no mês que vem, vamos ter de o acompanhar noutra visita a Stony Cross. Naturalmente que Annabelle e o seu… digníssimo esposo serão convidados, dada a amizade que os liga a Lord Westcliff. Talvez possamos pedir que Evie e a tia sejam incluídas… Nessa altura poderemos ter um novo reencontro oficial de encalhadas, já para não falar noutro jogo de rounders…


Annabelle soltou um gemido teatral, acabando de beber o seu vinho. – Que Deus me livre e guarde! – Poisou o copo e procurou no bolso um embrulhinho de papel com um objeto dentro. – Por falar nisso, lembrei-me de uma coisa… Daisy, quer fazer-me o favor? – Com certeza – disse a rapariga imediatamente, abrindo o papel. Fez uma cara de espanto ao ver uma peça de metal do feitio de uma agulha. – O que vem a ser isto?! – Foi a estilha que eu arranquei do ombro de Lord Westcliff no dia do incêndio. – Riu, divertida com a expressão das outras duas ao verem o estranho objeto. – Se não se importa, querida Daisy, leve isto consigo para Stony Cross e lance-o para dentro do Poço dos Desejos… – E o que devo desejar? Annabelle soltou uma risadinha suave, antes de dizer: – Peça o mesmo desejo para o pobre Lord Westcliff, coitado, que fez para mim. – Pobre coitado?! – Lillian fungou desdenhosamente, olhando as outras duas com ar desconfiado. – O que foi que desejaste para Annabelle? – perguntou ela à irmã mais nova. – Nunca mo disseste. – Também nunca o disse a Annabelle – murmurou Daisy, olhando a amiga com um sorriso curioso. – Como soube o que era? Annabelle restituiu-lhe o sorriso. – Calculei… – Curvando-se para as outras duas, murmurou-lhes: – E já agora… quanto a achar um marido para si, Lillian… tenho cá uma noção bem interessante…


1 desejo subtil lisa kleypas