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Bem, é fácil escrever sobre Tenha Fé (Keeping the Faith). Não é uma obra-prima de comédia, mas pode ser considerado um filme excelente. A história, embora convencional em alguns aspectos, tem aquele sabor de novidade, que é proporcionada por um argumento com boas piadas e um elenco extraordinário. O filme gira em torno do trio Brian (Edward Norton - além de ator, estreando na Direção), um padre católico; Jake, seu amigo de infância, um rabino; e Ruth, grande amiga dos dois na escola, que transformou-se numa mulher de sucesso, viciada em trabalho. Brian e Jake estão apaixonados por Ruth, mas Brian, o padre, tem como obstáculo o seu voto de celibato e Jake, o rabino, não deve(ria) envolver-se com uma não-judia. Algumas «gags» apresentam situações prá lá de divertidas e ajudam a dourar a pílula. Gostei particularmente dos integrantes do Gospel, convidados pelo rabino a apresentar-se na Sinagoga e mostrar aos seus congregados como “Ein Keloheinu” deva ser cantado, com muita alegria e disposição: eles dão um verdadeiro show! As mães judias são exemplarmente representadas, travestindo-se de casamenteiras e submetendo a todo instante as qualidades de suas filhas ao rabino solteirão. O diálogo mantido entre o padre e um barman indiano, muçulmano e com parentes judeus, e que de quebra herdou seu bar de uma freira irlandesa, é impagável. Outra cena divertidíssima é a dos cromos «Heróis da Torá», que substituem os jogadores de basebol por rabinos famosos, e que não ficaria mal num filme de Woody Allen. Aliás, há em Tenha Fé a tendência inconsciente de captar momentos únicos de uma cidade - Nova Iorque - fora dos clichês figurativos e dos personagens habituais, e de novo a lembrança de Woody Allen e seu “Manhattan”. Resumindo: o humor, algo sempre difícil nos dias que correm é, neste filme, digno e nunca superficial, mostrando que houve trabalho na sua abordagem. Tenha Fé não cai na farsa, pois acreditamos fielmente nos personagens (“culpa” da boa apresentação dos atores). O único senão do filme é que, depois de passar quase todo tempo fugindo das abordagens tradicionais, termina por ter um final convencional, aquele que já se esperava desde o começo (não revelo nada de extraordinário se disser que o rabino fica com a “mocinha”; o engraçado seria se ficasse com o padre). O filme não consegue aguentar o ritmo que quis impor desde o início e descai um pouco quando da inevitável briga entre o rabino e o padre pela mão de Ruth, só se recuperando nas cenas finais. O filme teve seu lançamento em 2000 e pode ser encontrado nas locadoras. Vale a pena assistir.

No Império Otomano nós, judeus, assim como os cristãos (“Povos do Livro”), éramos considerados “dhimmis”, cuja tradução mais correta seria protegidos e não estrangeiros. Linguisticamente, dhimmi significa “aquele cuja responsabilidade tinha sido tomada”. A dhimma concedia o direito de morar no país em troca de certas obrigações e alguns impostos. O dhimmi tinha menos responsabilidades legais e sociais e direitos que os muçulmanos. Contava com a proteção do governo que, por sua vez, não aceitava nenhuma intervenção de representações estrangeiras. Enquanto os cristãos consideravam a dhimma uma vergonha e uma restrição à liberdade, os judeus a aceitavam sem reclamações. Sentiam-se felizes de ter a liberdade de moradia, de preservar sua religião, seus costumes, sua vida comunitária, de negociar e ganhar dinheiro. Acostumados a serem perseguidos, discriminados e maltratados quando viviam sob o domínio de qualquer Estado cristão, enfurnados nos guetos, viam a dhimma como uma instituição justa. É difícil avaliar a origem da dhimma, embora seja conhecido como o “pacto de Omar”. Omar foi o segundo califa, mas a legislação sobre os protegidos foi posterior a ele. Há uma versão de que a origem do pacto seria a proposta de Omar para que os cristãos de Jerusalém entregassem a cidade. A legislação sofreu pequenas modificações em cada estado muçulmano, mas a essência não se alterou. O dhimmi, na condição de protegido, não podia ser maltratado ou perseguido. Mas, nada impedia que fosse desprezado ou considerado uma pessoa de segunda categoria. O muçulmano tinha como princípio de que o judeu era judeu pela vontade de Alá, ou seja: maktub (estava escrito). Não tinha raiva, tinha pena. Era considerado covardia maltratá-lo. Afinal o judeu era um dhimmi.

A legislação atribuída ao Califa Omar era dividida em duas partes, condições essenciais e condições desejáveis. Vejamos as condições essenciais cuja transgressão, bastaba uma, retirava do nãomuçulmano sua condição de dhimmi: Os dhimmis não usarão o Alcorão para ridicularizações; não podem se referir a Maomé em termos desdenhosos ou mentirosos; não podem ridicularizar o culto do Islã nem zombar de suas práticas; não podem manter relacionamento com mulheres muçulmanas; não podem tentar converter um muçulmano para outra religião; não podem ajudar os inimigos do Islã nem dar asilo a espiões.

Seguem as condições desejáveis cuja transgressão é punida com multas e outras penalidades, mas os dhimmi não perdiam seus direitos: os dihmmis usarão o ghiyar, um distintivo amarelo para os judeus, e azul para os cristãos; não é permitida a construção de casas mais altas que as dos muçulmanos; não tocarão seus sinos e não lerão em voz alta seus livros sagrados; não beberão vinho em público; não exibirão suas cruzes; não criarão porcos; enterrarão seus mortos em silêncio; não podem montar em cavalos - podem apenas montar em mulas e asnos.

Havia duas obrigações que eram consideradas essenciais: O pagamento do kharadj que era um imposto fundiário; o pagamento da djizya, uma capitação a ser paga por homens “portadores de barba”. Em 1839 com o Tanzimat (Reforma) do Sultão Abdul Mejid foi adotado o princípio de igualdade entre todos os turcos, independente da crença religioasa. Assim, legalmente, a dhimma foi abolida. Em 1856, num novo ferman (edito), o Sultão reafirmou o princípio de igualdade entre muçulmanos e não muçulmanos, que culminou com várias reformas. Os não muçulmanos foram autorizados a ingressar no exército. Estaria mentindo se não dissesse que foi uma grande alegria para os judeus.


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