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Já é o final da tarde, e eu sento nervosa e inquieta no átrio à espera do Sr. J. Hyde da Editora Seattle Independent. Esta é a minha segunda entrevista hoje, e a aquela que eu estou mais ansiosa. Minha primeira entrevista foi boa, mas é um grande conglomerado com escritórios sediados em todos os EUA, e eu seria uma de muitas assistentes editoriais lá. Eu posso imaginar ser engolida e cuspida bem rapidamente em tal máquina corporativa. A editora SIP é onde eu quero estar. É pequena e não convencional, defendendo os autores locais, e tem um elenco interessante e peculiar de clientes. Ao meu redor o ambiente é pouco decorado, austero, mas eu acho que é declaração dos projetos da empresa que uma falta de recurso e desleixo. Eu estou sentada em um dos dois sofás chesterfield verde escuro de couro... não muito diferente do sofá que o Christian tem em seu quarto de jogos. Eu acaricio o couro apreciativamente e me pergunto à toa o que Christian faz naquele sofá. Minha mente vagueia enquanto eu penso nas possibilidades... não.... eu não preciso pensar nisso agora. Eu fico vermelha por conta dos meus pensamentos impertinentes e inadequados. A recepcionista é uma mulher afro-americana com grandes brincos pratas e um longo cabelo liso. Ela tem uma aparência de boemia, o tipo de mulher que eu poderia virar amiga. O pensamento é confortante. A cada momento, ela olha para cima para mim, para longe de seu computador e sorri tranquilizadoramente. Eu timidamente retorno o sorriso. O meu vôo está marcado; minha mãe está no sétimo céu que eu vou visitar; já arrumei as malas, e Kate concordou em me levar para o aeroporto. Christian exigiu que eu levasse o meu Blackberry e o Mac. Eu reviro meus olhos com a memória de sua prepotência arrogante, mas eu percebo agora que é somente a maneira que ele é. Ele gosta de controlar tudo, incluindo eu. No entanto, ele é tão imprevisível e surpreendentemente agradável também. Ele pode ser carinhoso, bem-humorado, até mesmo doce. E quando ele é, é tão estranho e inesperado. Ele insistiu em me acompanhar o caminho todo até o meu carro na garagem. Meu Deus, eu vou estar fora por apenas alguns dias, ele está agindo como eu fosse estar fora por semanas. Ele me mantém com o pé atrás permanentemente. — Ana Steele? — Uma mulher com um cabelo longo, preto, parecendo de uma época pré-rafaelita30 estava parada ao lado da mesa da recepção e me distrai da minha introspecção. Ela tem a mesma aparência boêmia e esvoaçante igual à recepcionista. Ela poderia estar no final dos

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Na Inglaterra de 1848, um grupo de jovens artistas forma uma irmandade chamada “Os Pré-Rafaelitas”. Um importante movimento artístico que mudou os rumos da estética da arte, em uma época que os artistas tinham voz, coragem e, sobretudo, ideal. Estes artistas eram jovens destemidos que lutaram pelo que acreditavam ser a forma ideal de se fazer arte.

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