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ITÁLIA EM SÃO PAULO 2010


30 criar, formar e VenDer marcas

24 um emPresÁrio De ouro

18 Paixão à boLonhesa

12 La DoLce Vita

encontros De aLém-mar 92

a Procura Por VaLores humanos 88

no toPo Do monte 82

terraços itaLianos De são PauLo 68


64 PoLLastri off-roaD

58 a ciDaDe Das Águas e Das Pontes

54 um homem renascentista

50 a temPeratura Do coração

33 obJetos De DeseJo itaLianos

5

braVo, DJ! 118

arte em cerâmica 114

criaDa à moDa itaLiana 108

a famíLia Di Pace 102

Vinte anos De brasiL 100


142 no temPo Da sensuaLiDaDe

a Presença itaLiana na arte 176

a sicíLia e o mar 174

guia De gastronomia 168

136 uma ViDa De aVentura

132 Profissionais a caVaLo

o cozinheiro Lírico 164

entre Poetas e ciDaDes 160

128 retrato De um cônsuL

122 o que é que o brasiL tem?


157 100 anos De amor e emoção

154 correnDo PeLa itÁLia

153 Pequeno segreDo gastronômico

150 agitaDos Por natureza

PaDrões De beLeza 192

guia De comPras 188

nossas embaixaDas 186

momento itÁLia / brasiL 182


C

2010, un anno bellissimo!

hegamos à terceira edição da nossa Itália em São Paulo com quase o dobro de páginas, resultado de muito trabalho, esforço e da colaboração dos nossos patrocinadores, que, cada vez mais, acreditam e apoiam esse nosso projeto. A revista traz um panorama da moderna italianidade e seus admiráveis personagens, com diversas reportagens sobre um mundo ítalo-brasileiro no qual pessoas de destaque são reconhecidas por suas ideias, criatividade e bom humor. Além disso, esta edição aborda assuntos tais como design, gastronomia, moda, música e muito mais, num mundo que caminha rápido, onde tudo acontece a toda hora e a todo momento. Neste ano, nosso país chega a patamares nunca imaginados e a autoestima do brasileiro aumenta a cada dia. O país do futuro finalmente chega ao presente. Ficamos muito contentes porque a ponte Brasil-Itália se consolida cada vez mais e, no próximo ano, teremos o Momento Itália/Brasil, que certamente nos proporcionará inúmeros eventos de confraternização, estreitando ainda mais os laços entre esses dois países tão queridos, tão irmãos. Agradeço a todos por me ajudarem, mais uma vez, a cumprir esse meu objetivo que é, cada vez mais, mostrar a Itália linda, romântica e moderna que vive em cada um de nós.

Ciao! Edmundo Sansone Neto Editor

www.italiaemsaopaulo.com.br italiaemsaopaulo@terra.com.br

EXPEDIENTE

Editor: Edmundo Sansone Neto • Coordenação: Cristina Sansone • Jurídico: Sheila Sansone • Administração: Dinho Sansone • Projeto Gráfico: Roberto Gomes • Jornalista Responsável: Claudio Bacal • Projeto Editorial: Editora Casa Nova – André Blumberg, Jorge Litrenta, Nico Rossini • Assistentes de arte: Daniel Rosa, Isis Gomes e Marco Aurélio Ponzio • Pesquisa: Adriana Sansone, Carolina Sansone • Fotógrafos: Christian Franz Tragni e Rafael Evangelista • Foto de capa: Eduardo Svezia(fotógrafo) e Gokula Stoffel(modelo) • Colaboração: Aldo Tizzani, Julie Anne Caldas, Luciana Lana, Otto Aquino, Paula Caires, Silvana Tavano e Wilson Weigl • Estagiárias: Ana Paula Mendes e Natália Marques • Agradecimento especial: Nair de Souza Ramos Scartezini, Kabbalah Center, Tonico Senra Impressão


Engi neer i ngaBet t erSol ut i on

a i r a h n e g n ae r a sp a r o d a v o n sI e õ ç u l o S ! a c i l b ú eP l a i r t s u d n aI r u t u r t s e a r f n eI d F u n d a d ae m1 8 7 9e mBo l o g n a ,aMa c c a f e r r ia t u ah áma i s d e1 3 0a n o sn od e s e n v o l v i me n t od en o v a ss o l u ç õ e sp a r a e n g e n h a r i ad ei n f r a e s t r u t u r ap a r ai n d ú s t r i a ,c o mé r c i oe s e t o rp ú b l i c o . P i o n e i r ael í d e rmu n d i a l n os e t o rd eg a b i õ e s , ae mpr e s at a mbé mpos s uiama i sdi v e r s i f i c a dal i nhade

g e o s s i n t é t i c o sd oBr a s i l , oq u eac r e d e n c i aadi s poni bi l i z a r s o l u ç õ e sc o mt e c n o l o g i aa v a n ç a d ap a r aae nge nha r i a geot éc ni c a,hi dr ául i c a e de pr ot eç ão ambi ent al . E x pe r i ê nc i a gl oba l ,c ons c i ê nc i al oc a l .Conhe ç a ma i s s obr enos s a ss ol uç õe sa c e s s a ndonos s os i t e .


PaiXÃo À

boLoNHesa as motocicletas da marca italiana Ducati, produzidas em Borgo panigale, na região de Bolonha, habitam o imaginário dos brasileiros desde a década de 1960

a

Por Aldo Tizzani/Agência INFOMOTO | Fotos Agência INFOMOTO e Divulgação

Esquina do Veneno, cruzamento da Alameda Barão de Limeira com a rua General Osório, berço do motociclismo paulistano, e a Praça Charles Miller, em frente ao Estádio do Pacaembu (SP), foram palco de grandes encontros motociclísticos entre as décadas de 1960 e 1970. Todas as novidades que chegavam ao País desfilavam pelas regiões Central e Oeste da capital paulista. Entre modelos norte-americanos, europeus e japoneses, nasceu uma paixão entre os motociclistas brasileiros: uma marca italiana chamada Ducati. Passadas cinco décadas, o amor é o combustível deste relacionamento duradouro, apesar das dificuldades.

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Assim, com o incentivo às importações por parte do governo brasileiro, os empresários do ramo de duas rodas daquela época foram buscar na Europa modelos para concorrer com as motocicletas japonesas, já que as marcas nipônicas davam nítidos sinais de que iam se instalar no País. O flerte com as italianas começou quando as primeiras Ducati desembarcaram no Brasil, entre elas, os modelos de médias cilindradas Elite, Mach-1 e Diana. Mas havia também as pequeninas “cinquentinhas”. Em 1968, chegaram as velozes Ducati Mark-3 250, 350 e 350 Desmo. O sucesso nas ruas e nas pistas foi avassalador. Nem os japoneses eram páreo para as Mark-3, motos robustas, estáveis e potentes, além de belas como uma Ferrari. Daí a comparação entre as motos Ducati e os carros fabricados em Módena (Itália). Para os aficionados, não é exagero dizer que a Ducati é a Ferrari sobre duas rodas. Com tanta


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adrenalina correndo nas veias, a paixão entre homem e máquina foi arrebatadora. Só por curiosidade, foi com uma Ducati Desmodrômica, vinho, de 250cc, fabricada em 1968, que Denísio Casarini fez sua estreia nas competições de motovelocidade. Em seguida, transferiu-se para a Yamaha. Outros lendários pilotos como, por exemplo, Walter “Tucano” Barchi e Carlos Alberto Pavan, o Jacaré, também participaram de corridas com a macchine italiana. Com a chegada das Honda CB 450 importadas, a supremacia das Ducati começou a ser ameaçada. Mesmo assim, o rendimento da Mark-3 frente às japonesas era superior, principalmente no quesito estabilidade. Para desbancar o desempenho das Ducati, só com a chegada das Yamaha R5 350cc (precursora da RD 350), em 1971, que eram motos

Na década de 70, alguns importadores independentes também trouxeram poucas unidades da 900SS Desmo que, a exemplo da sua irmã menor, a 750SS, e da maioria das Ducati Super-Sport, foram concebidas para uso tanto em competições como em rua. “Para rodar na pista, eram necessárias apenas algumas mudanças dos componentes do motor e a adição de outros acessórios”, conta o colecionador e escritor Marcos V. Pasini, um apaixonado confesso pela marca italiana. Pasini já editou dois livros sobre sua paixão pelo motociclismo: “1967 - O Começo de uma Paixão” e “1970 - A Paixão Continua”, ambos da Editora Biblioteca 24x7.

a ducati é a ferrari sobre duas rodas

de rua, mas derivadas das TR2 de competição. Porém, nas curvas, ainda não tinha quem encarasse a italianinha. Neste período, também foram importadas as Ducati Kadett 125cc, Monza Jr. 160cc e a pequena Super Sport, de 50cc.

amor à primeira vista

A

os poucos, a marca começou a perder espaço para as nipônicas. Mas, novamente, a paixão falou mais alto. Nos idos de 1974, Luiz Latorre – empreendedor do segmento de duas rodas e um dos mais respeitados lojistas do centro de São Paulo – começou a importar outros modelos Ducati: a versão mais nova da Mark-3, a bela 450 Desmo, a SCR 250 Scrambler e um único exemplar do modelo 750SS, considerada a moto mais avançada da época e que inaugurava no Brasil a fase do motor bicilíndrico em “L”, com sistema desmodrômico, cuja arquitetura é utilizada até hoje nos propulsores de alta cilindrada da fábrica de Bolonha.

A

ntes da proibição das importações de carros e motos, que aconteceu em 1976, alguns exemplares da Ducati SCR 250 Scrambler também foram trazidas ao Brasil. A moto era um mix de “street” e “trail”, e sua principal característica era a robustez. Ainda hoje algumas marcas produzem releituras destas motos, cuja tendência estética marcou época nos anos 60/70. “No final da década de 70, estava entrando na faculdade e,

por este motivo, não tinha condições financeiras de adquirir a moto. Aquela Ducati era diferente de todas as outras que eu conhecia. A Scrambler me chamou muito a atenção, despertando-me o desejo. E o sonho se realizou quase 20 anos depois”, conta Pasini, dizendo que o contato com a Scrambler foi “amor à primeira vista”.

Nova fase

Em 1990, já na Era Collor, as importações foram retomadas. Porém, só em 2003, a Fórmula F3 foi nomeada revendedora oficial da marca no País. A empresa estabelecida no Rio de Janeiro não ficou muito tempo à frente da comercialização das motos italianas. A “joia” de Borgo Panigale, Itália, só voltou à cena nacional em 2007, quando o Grupo Izzo – importador de outras marcas de motos premium como, por exemplo, MV Agusta, Benelli, Triumph e HarleyDavidson – passou a gerenciar a distribuição e as vendas da Ducati no Brasil. No 1º Salão da Motocicleta, realizado em 2008, em São Paulo, a marca exibiu pela primeira vez 21


alguns modelos ao público brasileiro, com destaque para a Hypermotard 1100, além da superesportiva de competição – 999 Xerox. Aliás, a Desmosedici GP7 exibida na feira foi a utilizado por Casey Stoner na conquista do título Mundial de MotoGP em 2007.

A

grande expectativa do motociclista brasileiro está focado em três novos produtos Ducati: a superesportiva 1198, a naked Streetfigther e a aventureira Multistrada 1200, eleita a moto mais bonita do último Salão de Motos de Milão, realizado anualmente na capital mundial da moda. A moto apresenta a perfeita harmonia entre forma e função, além de trazer a mais alta tecnologia embarcada. Hoje, muitas das motos da década de 70 estão “vivas” – originais ou restauradas – e são guardadas como joias raras por muitos colecionadores espalhados pelo País. Apesar dos altos e baixos na relação entre homem e máquina, a paixão à Bolonhesa pela Ducati nunca vai acabar. Para a legião de motociclistas apaixonados pela marca, “o amor será eterno!”

LiNHa Do tempo 1926 - Os irmãos Adriano, Bruno e Marcello Ducati as-

1964 - Lançamento da Mach-1 250, capaz de superar a casa dos 150 km/h.

1968 - Apresentada a 350 Mark 3D, primeira motocicleta da marca com distribuição desmodrômica de série e capaz de atingir mais de 170 km/h. 1978 - Mike Hailwood vence a tradicional corrida da Ilha de Man, na Grã-Bretanha, com uma Ducati Super Sport de 900 cc. Em reconhecimento, a marca lançou uma série limitada da 900 SS Mike Hailwood Replica 1993 - Lançamento da família Ducati Monster, que até hoje é o “carro-chefe” da marca italiana.

1994 - Nasce a superesportiva 916, desenhada por Massimo Tamburini. que apresentava um equilíbrio perfeito entre a forma e a função, lógica e emoção. 1996 - A Ducati faz uma homenagem ao piloto Ayrton Senna. Produz uma série limitada da 916 Senna. São produzidas 300 unidades. Do total, apenas cinco estão no Brasil.

sociaram-se a investidores bolonheses para fundar a Società Radio Brevetti Ducati. Inicialmente, o objetivo era produzir componentes para as transmissões de rádio.

2000 - Lançamento da Ducati Multistrada 1100. Com o modelo nasce uma nova geração de motocicletas aventureiras.

1944 - Durante a II Grande Guerra, a fábrica da Ducati em Borgo Panigale foi destruída.

2003 - Apresentação da esportiva 999, herdeira natural 996, que, aliás, foi a protagonista de uma das cenas de perseguição do filme “Matrix Reloaded”.

1946 - Na feira de Milão, a empresa apresentou o motor auxiliar de bicicletas, que se tornou o mais famoso do mundo: o Cucciolo. Em função de seu sucesso, a Ducati firmou-se no setor mecânico.

2007- Lançamento da 1098, primeira superbike da marca italiana a superar os quatro dígitos de capacidade cúbica.

1952 - Nasceu a futurista Cruiser 175 cc, motocicleta equipada com ignição eletrônica e transmissão automática. 1954 - O ano marca a chegada à Ducati do engenheiro

2008 – Impactante, a Ducati Streetfigther é apresentada na Itália. Puro-sangue sem carenagem que pesa apenas 167 quilos e conta com um motor de dois cilindros em “L”, que gera 155 cv de potência máxima.

Fabio Taglioni, que é considerado um dos mitos do mundo do motociclismo.

2009 - A marca apresenta em Milão a nova geração da

1958 - A marca produziu a Elite, de 200 cc. O ano marcou também a conclusão do sistema desmodrômico, que Fabio Taglioni estava desenvolvendo desde 1955. O projeto resultou na famosa “Twin-cilinder” de 250 cc, encomendada 22

pelo piloto inglês de motovelocidade Mike Hailwood.

linha Monster com sistema de freios ABS, a superesportiva 1198 e a multifuncional Multistrada 1200. O modelo conta com controle de tração, sistema de freios ABS, acelerador eletrônico e regulagem das suspensões. Dependendo do estilo de pilotagem, a potência pode variar entre 100 e 150 cv.


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Um EmpREsÁRIO DE

OURO

U

Mercado de luxo é tradição da família italiana Tadini

Por Wilson Weigl | Fotos Rafael Evangelista

ma joia é um presente único, singular; nenhum outro tem tanto significado. Uma mulher pode ganhar um automóvel ou roupas caras, mas quando recebe uma joia sabe que aquele gesto é muito, muito especial”. Quem diz é Guido Tadini, empresário à frente da joalheria que leva o nome da família, em São Paulo, uma das marcas mais tradicionais do mercado de luxo brasileiro. Equilibrando a criação com a parte comercial, Guido dirige com toque de Midas o negócio de mais de meio século, tempo em que o nome Tadini se consolidou como um dos mais respeitados do setor. Famosa pelas peças clássicas, ao lado das joias sofisticadas, a Tadini também oferece uma vasta oferta de produtos mais comerciais, de canetas a relógios de marca própria. Sem filiais no Brasil, a empresa exporta para os Estados Unidos, onde as peças podem ser encontradas no magazine Neiman Marcus, um dos mais sofisticados daquele país. 25


“N

este ramo, você se cerca de coisas bonitas e, cada vez mais, aprende a apreciálas”, orgulha-se Guido. A intimidade com o mundo das joias vem desde a infância. O pequeno Dorian Guido (seu nome como consta no RG) acompanhava o pai, fundador da empresa, nas idas à oficina. Lá, o garoto fuçava em tudo e brincava com os funcionários. O tempo passou e, mais tarde, o rapaz que antes queria ser arquiteto optou por cursar Economia e se embrenhar no negócio da família. Aos 22 anos, foi morar em Paris para aprender mais sobre pedras preciosas e estagiar em algumas das joalherias mais famosas do mundo, como Boucheron e Van Cleef & Arpels. Guido nasceu em São Paulo, mas até os quatro anos de idade praticamente só falava italiano. O pai, Luciano Tadini, deu continuidade no Brasil ao negócio que tinha no país de origem. Ao se radicar aqui, Luciano trouxe na bagagem a vasta expertise no ofício aprendido ainda bem cedo, quando morou em Valenza — cidade na região do Piemonte, até hoje importante polo de oficinas e escolas de joalheria. Mais tarde, vivendo em Roma e Milão, aperfeiçoou-se trabalhando para empresas do status da Bulgari, até abrir sua própria fábrica.

va, mas seus frequentadores eram homens vestidos de terno, gravata e o quase obrigatório chapéu e mulheres de tailleur e salto alto, que passeavam entre as lojas de roupas e presentes (as melhores da cidade, como o magazine Mappin) e renovavam as forças nas cafeterias e casas de chá. Em 1958, a Tadini mudou-se para a avenida São Luiz, outro reduto de sofisticação na metrópole, onde ficou até 1972. No ano seguinte, a joalheria migrou para a Oscar Freire, no bairro dos Jardins, onde, ao lado da loja Dulce, do cabeleireiro L’Officiel e do empório Casa Santa Luzia, foi pioneira naquela que é hoje a rua comercial mais chique de São Paulo. O projeto arquitetônico da loja, moderníssimo, misturava aço e revestimento imitando tartaruga. Em 1997, finalmente, transferiu-se para a rua paralela, a alameda Lorena, onde está até hoje.

Reis e sulTões

R

elembrando a trajetória da joalheria, Guido conta que entre as peças mais fantásticas já confeccionadas está uma série de seis estatuetas de cavalos cravejadas de diamantes e colocadas sobre pedestais de ônix, confeccionada sob encomenda da francesa Piaget para os sultões da Arábia Saudita. Nos anos 1970, seus artesãos levaram oito meses montando um conjunto de colar e brincos de ouro, rubis e brilhantes. “Foram quatro meses só para lapidar as pedras”, lembra Guido. Quem comprou essas joias fabulosas? Ele desconversa, assim como não entrega nomes dos clientes famosos. No máximo, revela que Farah Diba, esposa do então xá da Pérsia nos anos 1960, comprou uma série de joias feitas com pedras brasileiras e Elizabeth II, rainha da Inglaterra, tem pelo menos duas peças da Tadini em sua vasta coleção. Muitas dessas criações ficaram apenas na memória, já que fotografias que faziam parte do acervo histórico da empresa foram destruídas num assalto em que os ladrões, além de pilhar a loja, atearam fogo no escritório, no final dos anos 1990.

O maIOR lançaDOR DE tEnDêncIas é a ItÁlIa Cansado da vida na Europa, convulsionada pelos conflitos da ressaca do pós-guerra, Luciano começou a acalentar o sonho de “fazer a América”. O destino planejado era, na verdade, os Estados Unidos, mas, aconselhado por parentes, decidiu dar uma desviada para o Brasil. “Se não desse certo, pelo menos ele já estaria mais perto da América do Norte”, diz Guido. Deu certo. Em São Paulo, Luciano conquistou uma boa clientela e prosperou. Em meados dos anos 1950, abriu as portas da Tadini na rua Barão de Itapetininga, em pleno centro de São Paulo. Naquele tempo, o bairro já fervilha26


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Nas horas vagas, Guido gosta de praticar golfe, sair para jantar e ir ao teatro. “Gostaria de ir mais do que tenho ido”, confessa. Mas não abre mão de prestigiar a filha Bianca Tadini, de 30 anos, atriz e cantora que tem atuado em muitos dos grandes espetáculos internacionais montados aqui, como O Rei e Eu e Rent. “Sou pai coruja, assisto à peça várias vezes”, admite.

V

iajar, para ele, é um prazer, seja a trabalho seja em companhia da esposa Stela. “Gosto muito da Itália. Ainda tenho tios lá e sempre dou um jeito de revêlos”, conta. Nas andanças pelo Velho Continente, aproveita para conhecer as novidades do mercado joalheiro. “Os maiores centros lançadores de tendências são a Itália, onde predominam as peças mais básicas, de uso cotidiano, e a França, famosa pelas criações requintadas, como as que podem ser vistas nas lindas joalherias da praça Vendôme,

jOIa é Um pREsEntE qUE pROvOca ImpactO em Paris”, ensina o empresário. Segundo ele, Londres também se destaca pelas lojas sofisticadas, que ficam em Bond Street e nos arredores da loja Harrods e atendem à enorme demanda dos milionários árabes e russos. “Suas vitrines são de cair o queixo”, afirma. “Mas atualmente ficou tão caro produzir na Europa que a maioria das marcas fabrica na Tailândia ou na Indonésia, países que têm mão de obra de qualidade.” Ultimamente, porém, o casal Tadini quase não tem ido à Europa. Por um bom motivo: o filho mais novo, Luigi, de 27 anos, mora em Nova York, onde trabalha como editor da badalada revista Paper Magazine. “Entre matar saudades da Itália ou de meu filho, acabo optando por rever o Luigi”. Enquanto mostra colares, brincos e outras peças nas vitrines, ao lado das pratarias antigas (outra de suas paixões), Guido conta que muitos clientes homens que querem presentear suas mulheres preferem que elas venham primeiro à loja para escolher: “Aqueles que querem surpreender e compram uma joia sem pedir palpite, entretanto, sabem o impacto que o presente provoca. Quando ganha uma joia, toda mulher sabe que é uma pessoa muito especial”, finaliza. 29


Criar, formar e vender marCas

e

Inspiração, visão empreendedora e uma excelente pesquisa de mercado são ingredientes indispensáveis para o sucesso de um novo produto Por Cristiana Arcangeli Fotos André Schiliró

ste ano eu lanço minha terceira marca, a Beauty In. Ela, assim como a Phytoervas e a Éh Cosméticos, é resultado de uma ideia aprimorada ao longo do tempo e de muito trabalho. Quando preciso criar alguma coisa diferente, costumo fazer viagens que me tiram da rotina e me deixam com a visão mais aguçada para o que é realmente novidade. Eu corro atrás do trabalho até a inspiração chegar. Mas tento fazer isso sem ficar ansiosa, apenas cultivando hábitos que atraiam criatividade. Acho que é uma missão que todos nós podemos cumprir, desde que a gente aprenda a estimular uma visão empreendedora do trabalho. Empreender, neste caso, é não ter medo de correr riscos, de criar alguma coisa ainda sem comparativos... enfim, inovar com uma boa visão de mercado e consumo. 30


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Depois desta fase, pesquiso bastante para saber se o meu projeto tem mais pontos fortes do que fracos. Analiso o mercado, as condições de produção, o consumidor e só então eu monto um negócio, ou pelo menos visualizo um. Acho que esta etapa é a mais importante na criação de uma marca. Se for bem feita, te dá todas as diretrizes a serem seguidas. A marca fica forte e consegue transmitir as mensagens que precisa para ser um sucesso. E quanto mais inovador, mais intenso fica este trabalho inicial. Achar falhas e contorná-las com soluções rápidas e eficazes é um dos principais pontos a serem levados em consideração. Isso é tão importante quanto ter a “grande ideia”. Além deste start, é preciso trazer inovações ao longo do tempo que sustentem a marca e mantenham suas características de pioneirismo. Costumo ampliar bastante o portfólio de produtos com características ainda inéditas no país.

E

é este trabalho bem feito que garante que outras empresas, maiores ainda, queiram se associar a estas marcas, que carregam tantos valores e inovação. Foi assim comigo. Quando minhas marcas alcançaram um bom portfólio de produtos junto com características que as tornaram únicas, passei a receber propostas de compra. Não planejei que fosse assim, mas acabou acontecendo. Vender a Phytoervas foi difícil, mas depois me envolvi com importação e passei a atuar em um nicho diferente e até então desconhecido do mesmo mercado. Cresci muito naquela oportunidade, mas voltei a ter minha marca assim que pude. Com a Éh, a venda aconteceu até rápido demais, mas acabou sendo um ótimo momento e eu aproveitei a oportunidade. Passei um tempo estimulando minhas ideias até nascer a Beauty In, que eu prometo ser inovadora e até mais revolucionária do que as outras. Volto logo para contar para vocês. Até lá, Cris.

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emPreender é não ter medo de Correr risCos


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OBJETOS DE DESEJO

ITALIANOS Personagens conhecidos do universo paulistano surpreendem com seus sonhos italianos. Inspire-se e pense nos seus!


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objetos de desejo

italianos

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Washington olivetto Marcello Mastroianni e ettore scola

dos anos 80 do século passado, quando os dois voltaram a trabalhar juntos, para um papo no Harry’s Bar, em Veneza.

uMa natureza-Morta do giorgio Morandi,

de preferência um óleo com as garrafinhas, para pendurar na parede lá de casa.

ristorante Puny, eM Portofino,

para jantar amanhã à noite ou, se possível, ainda hoje.

uMa riva original,

igualzinha à do Gianni Agnelli, para passear nos mares em Capri, Ravello e Saint-Tropez.

laura antonelli,

para um final de semana de sexo, com aquela carinha e aquele corpinho que ela possuía em 1977, quando estrelou “Esposamante”. 35


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objetos de desejo

italianos

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cesar giobbi uM bilhete de PriMeira classe da taM, ida e volta, direto São Paulo/ Milão/São Paulo

uMa Mesa de delÍcias italianas, em casa, montada por Toninho Mariutti

ovo frito coM trufas brancas, uMa trilha sonora sÓ coM canzonette naPolitane,

na temporada de outubro/ novembro, no Fasano

daquelas bem conhecidas, reunida por Clemente Napolitano, o DJ Clementão

fiat 500 autoMática, com teto solar, customizada para mim, marrom-escura metálica, com interior em couro pecari bege bem claro.

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objetos de desejo

italianos

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fabrizio rollo coleciono Panos e tecidos desde criança.

Veludo, então, é uma verdadeira paixão. Não existe veludo mais sofisticado para decoração do que o veludo italiano Colony, representado aqui em São Paulo pela Miranda Green Tecidos. Em medalhões, ou mesmo, os lisos, estes veludos tem cores impossíveis de copiar. São vibrantes e ao mesmo tempo tem ar envelhecido. Elegantíssimo!

MÓveis do dinucci,

italiano que durante as décadas de 40 a 60 criou e executou móveis ultrasofisticados para a alta sociedade paulistana. Podem ser encontrados nos melhores antiquários da cidade

sou fà de PÃes...

delicioso o pão ciabatta da Casa Santa Luzia.... compro todo fim de tarde

aMo a escultura “MonuMento aos herÓis

da Travessia do Atlântico”, de Ottone Zorlini, que fica entre a Nossa Senhora do Brasil e a Vogue, numa pracinha minúscula na Avenida Brasil... a escultura pelo que sei, ficava às margens da Represa de Guarapiranga e foi trazida para cá nos anos 80.... existe um projeto para devolvê-la ao lugar original por solicitação dos moradores. Se for removida, vou sentir falta... adoro olhar para este homem alado de bronze

aMo a água de colÔnia vetiver

e a água de rosas da fiorentina Santa Maria Novella, que já podem ser compradas por aqui mas a loja matriz em Firenze é endereço inigualável

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objetos de desejo

italianos

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giancarlo bolla uMa Maserati

coupé azul marinho com interior creme

uM Passeio de barco

no Lago de Como

toMar uM “gelato” ao cair da tarde na Piazzetta de Capri

caçar tartufo bianco fazer coMPras

em San Miniato, e na casa do chef Claudio Savitar faremos um inesquecível tagliolini

no Corso Matteotti, em San Remo, cidade onde nasci

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objetos de desejo

italianos

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claudia Matarazzo

antiga cÔModa veneta do sÊculo 19 lustre de Murano Moderno

esPelho veneziano antigo

uM vestido do valentino

anel buccellati 43


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objetos de desejo

italianos

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dudi Machado sofテ。 Minotti

lustre antigo de archiMede seguso a venda na Passado Composto Sテゥculo 20

ovo frito coM tartufo bianco do fasano

テ田ulos de sol Persol

sMoKing de giorgio arMani 45


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objetos de desejo

italianos

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brunete fraccaroli Maserati bolsa Prada

Poltrona frau relÓgio va bene

taccia laMP de Achille Castiglioni & Pier Giacomo

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objetos de desejo

italianos

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josé carlos Muoio sociedade esPortiva PalMeiras Palmeiras, quem não sofre pelo Palestra Itália???

Moda

O charme das grifes Prada, Gucci, Zegna e Armani, minhas prediletas, que você já encontra em São Paulo.

terraço itália

O Terraço Itália, no Edifício Itália, o prédio mais alto de São Paulo, com a vista mais esplendorosa da cidade, seja durante o dia ou seja durante a noite!

giancarlo bolla A massa incomparável de Giancarlo Bolla do agradabilíssimo restaurante La Tambouille.

festa de nossa senhora da achiroPita

Festa italiana mais tradicional de São Paulo, Nossa Senhora da Achiropita, que acontece todos os anos no bairro do Bexiga, onde as “mammas da comunidade” preparam as comidas mais gostosas da Itália. Fogazza, spaghetti, polenta, sardella, pepperoni e melanzana ao forno... que delícia!!! 49


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A temperAturA do

corAção

o

E não se está falando de paixão, mas de gastronomia. Maurizio Remmert ensina que a precisão é vital para a boa cozinha Por Cláudio Bacal

termômetro penetra o salmão trespassando o plástico que o embala à vácuo. O peixe já está temperado com sal grosso e azeite de oliva extravirgem. A agulha com o sensor de calor precisa chegar ao meio do filé. É dali que sairá a informação, quando o pescado estiver devidamente cozido - “Em exatos treze minutos”, garante Maurizio Remmert. “Se o centro chegar à temperatura certa, então toda a porção estará igualmente correta”, completa. Eis uma complementaridade sublime, levada com bom humor por esse ítalo-brasileiro, natural de Torino: cozinha se faz com lógica e precisão, mas a informação que vem do coração é essencial. O mantra que Remmert repete como lema de sua culinária reflete bastante essa ideia de combinar precisão e emoção. “Minha cozinha procura ser um conjunto de três fatores: ingredientes, técnica e tradição”, e completa, “não adianta ter ingredientes excepcionais sem saber cozinhá-los, ou mesmo ter uma cozinha soO preparo fisticada, sem saber usá-la, ou ainda esquecer a tradição e o “terroir” do salmão, para criar pratos etéreos, sem gosto, textura e coerência”. envolvendo Há muito de precisão nos rituais culinários de Remmert. Cada equipamentos como: pedaço do salmão tem peso igual. As quantidades de temperos embalagem à são medidas. Os plásticos para embalagem pré-cozimento são os idênticos e cada porção é exposta às mesmas condições de vácuo, agulha com sensor temperatura e pressão. O resultado é impressionantemente unidec alor, forme. Quando acerta na receita, acerta igual para todos os comenmaçarico e sais. Se erra... Bom, como tudo é testado ao extremo, antes de ser termômetro à distância servido aos convidados, o ato de errar restringe-se ao particular. 51


No público, frequentes são os aplausos. Utilizar o cozimento depois de submeter os alimentos ao vácuo traz regularidade aos resultados. Essa é uma prática constante na culinária de Remmert. A cozinha de seu apartamento, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, conta com equipamentos sofisticados, que vão além de fornos elétricos, a gás, e termômetros digitais e a laser. Há ainda a câmara de vácuo e o recipiente que controla o cozimento em banho maria. Manter a tradição em meio a tanta técnica não é exatamente simples. Um dos segredos está na escolha dos ingredientes, outro na busca pelas lembranças de pratos saboreados desde a infância. Talvez o exemplo mais inventivo dessa simbiose entre passado, tradição e novas técnicas, esteja na receita de Pitu, servido com caldinho da cabeça de camarão e, ao final,

coleção de Bialettis. Afinal, para servir a receita em um jantar, é necessária uma para cada pessoa à mesa.

Chapéu soviétiCo

Não há boa cozinha sem bons ingredientes. Não há uma boa refeição, sem um bom vinho. E como qualquer ritual que diz respeito a Maurizio Remmert, tradição e técnica devem ser respeitados, na hora de servi-lo. De cara, a adega de Maurizio é muito bem cuidada. Garrafas deitadas, condições de temperatura e umidade controladas, tudo montado em um pequeno quarto, colado à cozinha. “Buscar” a garrafa ideal é um ritual à parte. Remmert reclama de uma rinite crônica, que o afeta quando entra em ambientes climatizados. Mas isso não impede sua visitas à coleção de vinhos. Só que todas as vezes que vai entrar na adega, ele se veste à caráter: casaco estilo lenhador norte-americano, xadrez vermelho, e um impagável chapéu de pele “comprado na Rússia, quando ainda existia

trAdição e técnicA devem ser respeitAdos

uma espécie de “gelatina” do crustáceo. Maurizio, trajado com seu avental personalizado e auxiliado pela fiel escudeira de uma década, a Raimunda, acondiciona três camarões limpos e suavemente temperados em uma Bialetti – a tradicional “maquininha” de café, ícone do design italiano do pós-guerra. Mais precisamente, os pitus são colocados no funil em que, originalmente, se coloca o café. Embaixo, no lugar da água, Remmert coloca caldo de camarão ou de peixe. A Bialetti é fechada e vai ao fogo, por exatos 3,5 minutos – não mais. Resultado: o caldo “sobe”, passa para a parte de cima da máquina, cozinhando o camarão no caminho. Na hora de servir, o caldo resultante da alquimia é bebido em uma xícara. O camarão, degustado no próprio recipiente em que foi cozido. E, ao final, pode-se ainda provar uma espécie de glacê de camarão, que fica no fundo da máquina, no local onde antes estava o caldo. Para isso, nada melhor do que um pedaço de pão fresco. Vale lembrar que Remmert tem uma 52

a União Soviética”. Escolhida a garrafa, Remmert sai sorrindo. Tira a roupa invernal e volta para o calor dos queimadores.

aMoRE Mio

Se há um elogio ao qual Maurizio Remmert faz jus é o de bom anfitrião. Sua casa é claramente cuidada para deixar os amigos à vontade. Há vida no lugar. Muito dela pode ser sentida nas dezenas de fotos que repousam em porta-retratos espalhados por todos os cantos. Em algumas, a imagem de uma linda moça será certamente notada, por qualquer convidado. Trata-se da filha de Remmert, que hoje vive na França, onde casou e tem carreira artística. Há alAcima, camarões guns meses, Remmert recebeu a filha preparados em uma e o marido, em visita à Salvador. Ele Bialetti. Ao lado, conta que ficou muito feliz, apesar da Remmert em sua complicada agenda do genro, que é adega climatizada, presidente da França. vestido à caráter


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Um homem

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re nas cen tis ta

Eleito uma das cem pessoas mais influentes no Brasil e no mundo, João Doria é um exemplo de empresário multíplo com espírito empreendedor

o

termo “homem renascentista” é usado para descrever uma pessoa bem educada ou que se sobressai numa variedade de áreas. Esta ideia se desenvolveu durante a renascença italiana, da noção expressada por um de seus representantes mais conhecidos, Leon Battista Alberti (14041472). Alberti dizia que “um homem pode fazer todas as coisas que quiser”. João Doria Jr. pode ser considerado um destes raros indivíduos: presidente da Videomax Produções, da Doria Associados (marketing, empreendimentos e editora), editor das revistas Lide, Oscar, Gabriel, Arena, Meeting, Fórum e Empresarial, conferencista e autor dos livros “Sucesso com Estilo” e “Lições para Vencer”, fundador e vice-presidente do São Paulo Convention & Visitors Bureau, diretor do Masp, criador do projeto Market Plaza (shopping sazonal que funciona no inverno em Campos do Jordão) e do Boulevard Market Plaza; Também criador e fundador do Lide - Grupo de Líderes Empresariais, onde realiza disputadíssimos eventos empresariais no Brasil e no exterior, como o Meeting Internacional, Fórum Empresarial, CEO’s Family Workshop e o Fórum Internacional de Sustentabilidade, que reúnem os mais expressivos dirigentes públicos e empresariais do país e do exterior.


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T

ambém é acionista e presidente do conselho da Casa Cor, maior evento de arquitetura e decoração das Américas e o segundo maior do mundo (o grupo também realiza os eventos Casa Hotel, Casa Kids, Casa Boa Mesa, Casa Office, Casa Entretenimento, Casa Talento, Casa Cor Stars, Casa Cor Workshops e Casa Cor Seminários). É o apresentador do reality show “Aprendiz Universitário”, na Rede Record, e do Programa “Show Business” na Band; além de escrever semanalmente na coluna Líderes, na Isto É Dinheiro. Por fim, em 2009 e 2010 foi eleito uma das cem pessoas mais influentes no Brasil, pela revista Isto É. E em 2010, pela mesma revista, uma das cem pessoas mais influentes do mundo. E no meio de tantas atividades, João achou um tempo para falar conosco sobre a italianidade em sua vida.

DE onDE vEm a sua origEm italiana?

“Os Doria são de origem genovesa. Os primeiros Doria chegaram ao Brasil, com a corte portuguesa, na Bahia, no século 16.”

Qual sua rElação atual com a itália?

“De admiração, respeito e profundos laços de amizade. Visito a Itália a cada três anos.”

o QuE tE lEmBra a itália aQui Em são Paulo?

“Os tradicionais bairros como o Brás, Bexiga e Moóca além do estádio Palestra Itália. E claro, a deliciosa culinária, que está presente não apenas nos bons restaurantes de origem italiana, mas também em nossas casas, onde sempre há uma boa pasta.”

um lugar inEsQuEcívEl na itália

“É difícil citar um determinado local, porque toda Itália é inesquecível. Mas destaco Toscana, com sua culinária esplendorosa e paisagem mística, é marcante. E Roma, onde residi. Uma cidade que é história viva da humanidade.”

Quais ProDutos DE origEm italiana são sEus favoritos?

“Os Azeites de oliva e balsâmico; os queijos e vinhos. As Ferraris e Maseratis e a moda: de Armani, Gucci e Prada. Só para citar algumas das muitas referências extraordinárias deste lindo País.”

Qual o Prato italiano DE QuE você mais gosta (falanDo nisso, gosta DE cozinhar?)

“Gosto de cozinhar. Mas gosto mais ainda de comer. A pizza e o spaghetti a bolognesa estão entre os favoritos.” João Doria com a elegante Carolina Herrera e sua filha, e com o estilista e neo cineasta Tom Ford 56


a cidade

das รกguas... e

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das pontes


Carros? Não há. Ruas? Também não. O que a cidade mais original do mundo tem de sobra são barcos, canais e, especialmente, pontes. Muitas delas você poderá simplesmente amar ou apenas concordar que não poderiam mesmo estar em outro lugar Por Otto Aquino

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m lugar onde passado e presente se encontram no simples atravessar de uma ponte. Uma cidade em que a beleza e o amor flutuam. Entre pontes e canais de uma imensa laguna, Veneza, banhada pelo Adriático, é palco de paixões avassaladoras. O mínimo que se pode dizer de Veneza é que não existe outra cidade igual a ela. Afinal, que outra metrópole você conhece onde não existem automóveis, só barcos? Nem ruas, apenas canais? Muito menos terra que possa ser considerada firme, já que tudo ali foi erguido sobre ilhotas de areia ou palafitas de madeira? Existem cidades que têm algumas semelhanças. Chicago, por exemplo, lembra Toronto, que se parece com Sydney, que, por sua vez, tem tudo a ver com o Rio. Mas Veneza só lembra Veneza mesmo. Não existe nada (nada mesmo) igual no mundo. Olhando bem o mapa, você verá que ela tem o formato de um peixe. Nada poderia ser mais adequado a uma cidade que fica dentro da água. Não raro, sendo invadida por ela, como nas marés altas, que ocorre três ou quatro vezes por ano, inundando boa parte da cidade com palmos de água salgada. Mas,

um par de galochas quase sempre resolve bem a questão. Mesmo assim, os séculos que levantaram Veneza também deixaram como legado exuberantes pontes, muito mais que simples refúgios para quem quer desafogar os pés: além de extremamente necessárias para o deslocamento na terra retalhada pelo oceano, elas estão entre as mais belas construções da cidade e do mundo. É uma extensa e bela ponte, por sinal, que lhe dá as boas-vindas e, como um longo portal, abre-lhe os caminhos para desvendar as belezas desse destino surpreendente. Dizem que para ir a Roma basta ter boca, mas, para ir a Vene-

Veneza é como um museu ao ar liVre za, é preciso ter, também, boas pernas, o que não deixa de ser curioso numa cidade que fica dentro da água. Em média, um turista caminha cerca de cinco quilômetros por dia em Veneza, subindo e descendo pontes. Isso porque, devido aos barcos, cada ponte tem uma escadinha antes e depois. Haja fôlego! Mas ninguém reclama nem se arrepende desse delicioso exercício. 59


é a cidade com mais pontes: são 400 ao todo O motivo? Veneza é como um museu ao ar livre: tem palácios, igrejas, casas e, principalmente, pontes, que remontam aos tempos medievais. No mundo todo, ela é a cidade com o maior número de pontes: são 400 ao todo. A mais antiga, a Ponte do Rialto, foi construída em madeira em meados do século 13 e ganhou seu formato atual, com revestimento de mármore branco, no final do século 16. Hoje, foi invadida por lojas de joias, souvenires e roupas, que ocupam seus flancos, atraindo bandos de turistas.

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á a Ponte da Constituição é a mais recente de todas. Inaugurada há dois anos (nasceu, precisamente, em 11 de setembro de 2008), tem piso e parapeitos de vidro e exibe o desenho contemporâneo do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, uma espécie de Niemeyer deles. Algumas pontes, aliás, nem parecem pontes. Como a Ponte dos Suspiros, que tem um nome que lhe cabe muito bem, por sinal. Não pela conotação romântica que ele sugere, mas pela tristeza que a história deixou ali marcada. Construída no final do século 17, ela liga dois monumentos de Veneza: o Palácio do Doge (feito 60

em arquitetura gótica, um tipo de construção diferente, que não se apoia em muros e paredes compactas, mas sim sobre pilastras ou feixes de colunas) e a Prisão Nova, cuja área subterrânea, frequentemente, era alagada pelas marés. De lá, os prisioneiros eram levados ao tribunal do Palácio Doge e a ponte era a última oportunidade de verem o céu, o mar e tudo que os lembrava o mundo externo – momento que lhe arrancavam os últimos suspiros. Nas ruas de Veneza, circula ainda a versão de que os suspiros viriam também dos condenados à morte, que eram jogados da ponte, água abaixo. De um modo ou de outro, hoje seu estilo barroco, que lembra um arco, é admirado pelos turistas como uma obra-prima. Curiosamente, os dois únicos pontos sobre terra firme, que possibilitam admirar e se surpreender com a Ponte dos Suspiros, são outras duas pontes: a Canônica e a da Palha, que também permitem olhar para o Grande Canal — este, por sinal, uma espécie de avenida principal da cidade, que cruza quatro pontes representativas de três diferentes épocas. Por ele, aliás, circula, todos os dias, boa parte dos estimados 5 mil Acima, barcos, incluindo-se aí curiosos ônibus aquátia Ponte cos - os vaporettos - barcos que vão serpenteRialto. Ao ando e driblando as pontes, levando as pessoas lado, típico de um ponto a outro da cidade. Mesmo assim, restaurante de Veneza caminha-se barbaramente em Veneza.


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No dia a dia incomum, o mar, represado pelos mais de 170 canais que cortam a cidade (e que, por isso mesmo, obrigaram a criação das tais 400 pontes), bate diretamente nas paredes dos prédios corroídos pela água salgada e impõe severos limites de velocidade aos barcos. Caso contrário, a água invadiria constantemente as ruas. Por essas e outras, sob o ponto de vista prático, Veneza até hoje não entrou para a seleta lista dos Patrimônios Mundiais da Humanidade, porque ninguém garante que ela vá ser eterna, menos ainda suas centenas de pontes (mais um motivo para não deixar de conhecê-la), embora já tenha resistido por mais de 1.500 anos e pouco mudado nos últimos 500. Com exceção da eletricidade e dos muitos turistas, Veneza em nada mudou. Quando Cabral descobriu o Brasil, ela já era exatamente igual ao que é hoje. Até suas gôndolas ainda seguem o mesmo formato e cor de antigamente. Se o navegador Américo Vespúcio, um dos filhos mais nobres de Veneza, desembarcasse hoje na cidade, reconheceria até as cores das janelas dos edifícios. Seus caminhos são verdadeiros labirintos. É preciso ter paciência. As estatísticas provam: 99% dos visitantes se perdem a todo instante nas “ruas” de Veneza. E o 1% restante não sabe 62

exatamente onde está, nem para qual lado seguir. As pontes, além da função básica de interligar os “quarteirões aquáticos” servem, justamente, como um ponto de referência. No entanto, para complicar ainda mais, não existem ruas como as que estamos acostumados a ver — até porque não haveria carros para circular por elas. O melhor é, simplesmente, deixar-se levar pelos encantos que cada pedacinho de rua lhe reserva.

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s moradores locais até tentam levar uma vida normal. Mas, definitivamente, Veneza não é um lugar convencional. Os próprios moradores são tratados como atração turística, pelo simples fato de viverem em Veneza. Mas, por que será que os antigos vênetos optaram por viver dentro da água? Ninguém sabe ao certo. Consta apenas que, nos séculos 4 e 5, (a fundação de Veneza também é imprecisa), moradores do continente em fuga dos ataques bárbaros refugiaram-se em ilhotas no meio daquela lagoa e ali foram ficando até dar no que deu hoje. Quem vai para lá não está só saindo de férias, mas, sobretudo, viajando no tempo. E não adianta procurar outra igual. Só existe Veneza mesmo.


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POLLASTRI OFF-ROAD Quem convive com Edoardo Pollastri talvez não imagine. Sua personalidade tranquila e jeito elegante foram cunhados em uma história de vida cheia de aventuras

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Por Cláudio Bacal

Pollastri à direita, cumprimenta o imperador da Etiópia Haile Salassie

escritório particular de Edoardo Pollastri, no apartamento onde mora no bairro de Higienópolis, em São Paulo, ostenta na parede um quadro em aramaico – a língua que, contam as escrituras, Jesus usava para falar com os apóstolos. Pollastri é cristão, mas não se trata de um documento religioso. Na verdade, é uma homenagem, um diploma. A láurea é assinada por ninguém menos do que Hailé Salassié, o ex-regente da Etiópia. Salassié foi uma figura controvertida e extremamente importante na história do continente africano. Hábil orador, foi acusado de repressão feroz aos inimigos internos e muito elogiado internacionalmente pela articulação da União Africana (UA) e a inserção de seu país no seio das Nações Unidas. 65


Pollastri recebeu a homenagem do monarca pela contribuição que deu ao coordenar um grupo de dezenas de empresas italianas que se instalaram na Etiópia, onde morou, desde os seis anos de idade. Sua ida à África, em 1935, na companhia dos pais, ocorreu em função da tomada do país pela Eritreia, que já era domínio Italiano. A família instalou negócios no país, numa atitude desbravadora. Lá faltava de tudo. Não é a toa que os negócios dos Pollastri eram ligados à importação de gêneros alimentícios e engarrafamento de água. O menino Edoardo voltou para a Itália, aos nove anos, sem o pai, quando o Reino Unido retomou a Etiópia. Na época, os ingleses prenderam seu pai na cidade de Addis Abeba, com a intenção de enviá-lo como prisioneiro para o Quênia. Mas ele conseguiu fugir. Na Itália, Pollastri formou-se em Economia e Comércio na Universidade de Bari. Em seguida, foi ao encontro do pai na Etiópia e resolveu abrir negócio próprio, em terras africanas.

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começou como contabilista de empresas italianas, interessadas na florescente economia etíope. Ao mesmo tempo, ajudou a fundar e instalar a Universidade de Asmará, onde lecionou economia e chegou ao cargo de vice-reitor. O fato de ser um professor querido, terminou por salválo de outro capítulo incrível de sua história. Em 1974, a história de Etiópia sofreu uma guinada e, com ela, a de Pollastri. Um grupo da esquerda tomou o poder no país, derrubou a monarquia e estatizou todas as empresas privadas. Selassié foi assassinado. Um determinado dia, Edoardo foi detido, numa das empresas que representava e levado pelos revolucionários, até um lugar remoto, a pé. Ao chegar numa espécie de acampamento, o comandante o reconheceu como seu professor. “Eles quiseram me agradar e conseguiram até um pouco de pasta para me servir. Como não havia molho, eles colocaram açúcar”, conta Pollastri sorrindo. Em seguida, ele foi libertado perto da cidade. Mas estava proibido de sair do país. E, para voltar à Itália, usou de um expediente curioso. Pediu permissão às autoridades etíopes para ir a uma convenção do Lions em Nairóbi. Elas autorizaram, e Pollastri saiu do país apenas com o que conseguiu carregar. Obviamente, não voltou mais.

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São Félix do ArAguAiA

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vivência de Pollastri prestando serviços para empresas alimentícias italianas na África fez com que uma delas, a Star Holding, o convidasse para ser o manager no Brasil. Em 1975, a companhia era proprietária de uma fazenda de gado ao norte de São Félix do Araguaia, no extremo norte do Brasil. Edoardo veio, pela primeira vez ao Brasil, sozinho. Conheceu e admirou São Paulo, e resolveu trazer a família para a fazenda de 40 mil hectares da Star. “Foi uma atitude completamente inconsequente”, conta ele com humor. Quando a família chegou ao local, até a casa do capataz, então a principal da propriedade, era extremamente precária. “imagine a nossa?”. No que diz respeito aos negócios, Pollastri conta que fez um plano de administração ao estilo italiano. Calculou o número de cabeças de gado, fez a curva de crescimento do rebanho no tempo, investiu. “Vimos que nenhuma previsão dava certo”, conta. “A explicação que nos era dada era a mortalidade por picada de cobra”, completa. o empresário resolveu verificar pessoalmente. Saiu a cavalo com o capataz que começou a mostrar as carcaças de animais mortos. “Para mim, eram todas iguais”, afirma. rapidamente, Pollastri percebeu a impossibilidade de o negócio vingar. “Trocou” as terras por uma área de exploração madeireira perto de Belém do Pará. A área foi decretada de preservação. Apesar do início tumultuado no Brasil, Edoardo Pollastri apaixonou-se pelo país e daqui não saiu mais. Foi presidente de empresas como Visconti, e Findim e da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio indústria e Agricultura, cargo que exerce até hoje. é tão ítalo-brasileiro que, em 2006, foi eleito senador italiano, representando a comunidade “oriundi”, que vive na América do Sul e especialmente no Brasil.


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Os TerraçOs ITalIanOs de sãO PaulO Prédio Martinelli e Edifício Itália guardam em seu topo verdadeiras joias da cidade Por Ronaldo Padovani Fotos Eduardo Svezia

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a visão que se tinha da pequena vila de São Paulo do Piratininga, ao dela se aproximar pela antiga estrada de Tabatinguera, restam somente lembranças registradas em aquarelas por viajantes de passagem pelo mirrado ajuntamento de casas construído no alto de um morro e isolado boa parte do ano pelas cheias dos rios Anhangabaú e Tamanduateí. Resta também a Rua Tabatinguera, que em nada lembra o velho caminho do mar, espremida entre o Parque Dom Pedro e a Praça da Sé e sufocada por arranhacéus de todos os tamanhos. A vila eclodiu, desenvolveu-se, cresceu e as graciosas palmeiras, onde cantavam os sabiás que encantavam os poetas românticos de décadas atrás, deram lugar a construções ora sisudas, ora fascinantes, às vezes irreverentes, mas que em quaisquer casos levam-nos a querer saber como, em pouco mais de cem

a vidinha provinciana de São Paulo não era capaz de satisfazer. Para aquietar essa demanda latente, primeiro um comércio e depois uma pequena indústria começaram a se desenvolver e cresceram impulsionados particularmente pela estrada de Ferro Santos-Jundiaí, construída para ajudar a escoar a produção de café e que propiciou a vinda para a capital, estrategicamente colocada no meio do caminho entre o porto e as plantações, de produtos de primeira linha, trazidos da Europa como lastros dos navios que tinham a incumbência de levar para o exterior a valiosa bebida brasileira. Mas de onde veio a mão de obra necessária para dar vida a esse comércio e indústria, já que a coletividade mameluca local não tinha experiência nesse tipo de atividade? Bem, é aí que começa a saga de muitas famílias de imigrantes, em mais de 50% dos casos italianas, que de 1887 a 1920 vieram “a rodo” para o Estado e a cidade de São Paulo, assegurando num primeiro momento a produção de café e, posteriormente, colaborando na implantação do embrionário sistema comercial e industrial paulista, desenvolvendo atividades nas quais eram mestres em suas terras de origem, como a de ferreiro, sapateiro, marceneiro, pedreiro, costureiro, padeiro, tecelão, modelador e até mesmo de músico. A terra dos bandeirantes era carente de todos os tipos de profissionais que pudessem trazer o conforto almejado pela elite florescente e, para se ter uma ideia da quantidade de imigrantes que São Paulo acolheu, por volta de 1920, dois terços de sua população era formada por estrangeiros.

sãO PaulO TInha um ar de cIdade eurOPeIa anos, um povoado esquecido no meio do nada se tornou uma das maiores metrópoles mundiais. De fato, até 1870 São Paulo contava com pouco mais de trinta mil habitantes, número que pulou para um milhão, por volta de 1920, e para mais de 11 milhões nos dias atuais. De onde veio tanta gente? Ou o que talvez seja mais apropriado perguntar, o que atraiu a atenção de tanta gente para cá? E a resposta a essa pergunta está muito mais próxima do cotidiano de todos nós do que possamos imaginar: um cafezinho. Sim, um simples cafezinho, que quase todos degustamos puro ou com leite, alongado ou curto, logo pela manhã, ao acordar, ou depois do almoço, para não deixar o sono nos levar. Uma bebida simples, que nem mesmo é nativa do Brasil, mas que na terra avermelhada de São Paulo, chamada “rossa” pelos imigrantes italianos, de onde nasce o termo “terra roxa” dado pelos paulistas, proliferou e tornou-se uma das maiores riquezas deste país. Pois é, o café paulista ganhou o mundo (até 1929, 75% do café comercializado no mundo era produzido em São Paulo) e acabou enriquecendo muita gente, uma elite de fazendeiros que o tempo se encarregou de chamar de barões, os quais, como todos os endinheirados, passaram a ter necessidades que 70

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anta gente assim, além de trabalhar e influenciar a cultura local com seus sabores, odores, hábitos e sotaques, também precisava viver, morar, ter um lugar onde transcorrer as horas de folga com suas famílias. Para resolver essa questão, os próprios fazendeiros apresentaram uma solução, qual seja, construir casas de aluguel que começaram a transfigurar a geografia de São Paulo e garantir a manutenção das fortunas de seus proprietários, já que os imóveis de aluguel propiciavam ganhos maiores do que as aplicações bancárias. Essas construções de aluguel, bem como as novas e confortáveis residências dos abastados cafeicultores, decoradas com o requinte que o título de barão merecia, marcam uma drástica mudança na arquitetura local até então baseada na taipa de pilão. Com os imigrantes vieram as técnicas de produção de tijolos, que por sua vez permitiam a edificação de construções maiores, mais altas e mais robustas. Os imigrantes também trouxeram para cá suas técnicas de decoração e pintura, que passa-


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as nOvas resIdêncIas dOs cafeIculTOres

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mudaram a arquITeTura lOcal

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ram a ser largamente empregadas por escritórios de arquitetura e construção que fizeram a fama no início do século 20, como é o caso de Ramos de Azevedo, responsável pela construção de grande parte dos inúmeros palacetes que passaram a fazer parte da paisagem paulista, bem como diversos edifícios públicos. A arraigada cidade cresceu e nos diversos bairros que se formaram em volta do centro fundado pelos jesuítas, o que se percebia era um ar de cidade europeia, com belas construções em meio à rica vegetação e envoltas pela bruma da manhã que alguns chamavam de garoa e que hoje foi substituída pelas nuvens de poluição.

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as as transformações na paisagem urbana de São Paulo não pararam por aí e a visão bucólica de uma abastada capital europeia aos poucos foi dando lugar ao caos em que atualmente vivemos, com o advento dos automóveis e os inerentes congestionamentos, cujo primeiro registro de que se tem notícia data de 1911, por ocasião da inauguração do Teatro Municipal: 140 automóveis e 150 carruagens se emaranharam nos arredores do Teatro, fazendo com que muitos chegassem com notável atraso ao espetáculo inaugural! O surgimento do automóvel impulsionou a mudança no traçado de algumas ruas, o alinhamento de quarteirões e sua

construção de residências elegantes em estilo neo-clássico na Santa Cecília, em Higienópolis ou na Avenida Paulista, edifícios comerciais, hotéis, mercados, teatros, escolas e tudo mais que uma cidade precisava ter para entrar para a história como uma das maiores do mundo. A visão que se tinha, do topo do Martinelli, do vale do Anhangabaú, tão francês quanto a Avenida Champs Elisée de Paris, era de dar inveja a Gustave Eiffel, sobretudo porque, a partir da torre construída pelo engenheiro francês, via-se apenas uma bela cidade, mas não uma serra verdejante coroando o planalto sobre o qual São Paulo foi construída. Fecho os olhos e consigo me imaginar caminhando por aquele terraço revestido por um singular ladrilho hidráulico, tão em moda na época, e, protegido por uma bela balaustrada, aproximo-me do beiral em direção à Serra do Mar e quase consigo ouvir o barulho da arrebentação das ondas e o sopro de ar gélido vindo do Oceano Atlântico. Mas não é possível falar do Edifício Martinelli sem falar sobre seu idealizador, um entre tantos italianos de fibra que deixaram sua terra para fazer fortuna nas Américas. Giuseppe Martinelli, que pelos seus feitos assumiria mais tarde o título de comendador, nasceu no ano de 1870 na cidade de Lucca, onde viveu até completar 19 anos. Tinha o desejo de estudar arquitetura, mas suas condições financeiras não lhe permitiram concretizar tal sonho. Partiu então para o Brasil, país que, ontem, como hoje, atraía a atenção do mundo pelo seu insólito crescimento econômico, onde trabalhou como açougueiro e mascate, antes de montar uma importadora, que foi a origem de uma das maiores companhias de transporte marítimo da época. Em cerca de 30 anos de trabalho, sua companhia de navegação possuía uma frota de 22 navios e ele havia conseguido amealhar uma considerável fortuna. Dinheiro, porém, não lhe bastava. Queria deixar para a história um marco, um tributo a São Paulo por tudo aquilo que lhe havia proporcionado e, imbuído de seu espírito empreendedor, decidiu construir no ponto mais nobre da capital paulista o que foi, por diversos anos, o maior edifício da América Latina.

O surgImenTO dO auTOmóvel TransfOrmOu a cIdade consequente reconstrução, mas foi o concreto armado que transformou essa cidade num pulular de torres de Babel, ensandecidas para atingir o céu, das quais uma das primeiras foi o simpático Edifício Sampaio Moreira, uma joia da arquitetura Luis XVI e que ainda pode ser visto pelos transeuntes da rua Líbero Badaró, embora com o lustro de seus tempos áureos completamente apagado. Mas se foi com os dez andares do Sampaio Moreira que São Paulo começou seu crescimento vertical, foi com o Edifício Martinelli que a cidade dos jesuítas marcou seu ingresso no mundo das grandes metrópoles. Imponente no cruzamento da Avenida São João com a Rua Líbero Badaró e a Rua São Bento, ele foi o primeiro arranha-céu da América Latina. Do alto do seu terraço, localizado no 25° andar, era então possível admirar de maneira majestosa a cidade em frenética transformação: novas avenidas, construídas para dar vazão ao fluxo de veículos, inúmeras pontes que cruzavam os rios levando a bairros recém-criados, de modo a acomodar o extraordinário incremento populacional, a 74

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Edifício Martinelli foi inicialmente projetado para ter 12 andares, mas, impulsionado pelo clamor da população e pelo ego de seu proprietário, acabou, depois de muitas controvérsias e discussões com as autoridades competentes, atingindo 25 andares. No entanto, o comendador queria mais. Ele desejava um edifício com 30 andares e para tanto, para provar ao mundo que sua obra era segura,


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O TerraรงO ITรกlIa cOnTInua a Oferecer a vIsTa maIs deslumbranTe da cIdade

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construiu no terraço do edifício, que chamava a atenção não só pela altura, mas também pela largura, uma vila italiana de cinco andares, onde morou por algum tempo, até ter que vender sua obra para o Governo Italiano, em 1934, de modo a se recuperar das dificuldades financeiras que então enfrentava. Mais de 600 operários e 90 artífices italianos e espanhóis trabalharam na construção do Martinelli que, para ser erguido, usou cimento importado da Noruega e Suécia pela importadora do comendador. Todo o material de acabamento (lustres, mármores, espelhos, vidros, estuques, elevadores, louças, portas, ferragens e papéis de parede) também foi importado, já que entre 1924 e 1929, período em que o gigante se er-

somente em 1979, quando a prefeitura de São Paulo resolveu adquiri-lo, restaurá-lo e lá instalar alguns de seus escritórios. Nesse meio tempo e com o início da produção de aço no Brasil, matéria-prima necessária para a fabricação do concreto armado, os arranha-céus multiplicaram-se e o Martinelli acabou se tornando vítima da moda por ele mesmo criada, tendo, em 1947, perdido o título de edifício mais alto o Brasil para o Altino Arantes, construído a apenas alguns passos dele. Hoje em dia, de seu terraço já não é mais possível admirar a bela paisagem do vale do Anhangabaú, adornado pelos pavilhões gêmeos do Conde Prates, os palacetes de Santa Cecília, ou a Serra do Mar. Vêem-se, ao contrário, os telhados de prédios menores e paredões de vidro e concreto construídos por toda parte como que a lhe gritar que sua época já passou. Os transeuntes da região também já não são mais ricas senhoras a caminho das compras na formosa Rua Direita, ou políticos e executivos apressados para o trabalho. Os tempos são outros, assim como para outro terraço foi voltada a atenção dos paulistanos, desejosos de ver a sua cidade do alto, sem que outras construções lhes interrompessem o horizonte.

a Obra, edIfícIO ITálIa, TInha que ser ImPOnenTe gueu, o Brasil ainda não produzia os materiais necessários para dar vida a essa suntuosa obra que teve origem no projeto de um arquiteto húngaro, mas que ao longo das adaptações que a levaram ao céu, teve o comando nas mãos do próprio Comendador Martinelli.

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prédio era um luxo só: granito vermelho no embasamento, falsa mansarda de ardósia no coroamento e corpo central revestido por uma massa rósea composta por vidro moído, cristais de rocha e mica, que o faziam brilhar durante a noite. Tudo isso para fazer com que seus nobres inquilinos, como jornais, clubes (entre eles o Palestra Itália), restaurantes, um hotel, um cinema e a famosa escola de dança do Professor Patrizi, sentissem-se no melhor dos ambientes. Quem passa pelo Martinelli hoje tem dificuldade em identificá-lo com o Empire State da América do Sul, um lugar por onde passaram autoridades das mais renomadas em nível internacional, como o Prêmio Nobel e inventor do rádio Gugliemo Marconi. Também é difícil imaginar que foi ao seu redor que o Dirigível Graf Zeppelin deu uma volta ao passar por São Paulo, fazendo-o definitivamente entrar para a história, bem como pode ser difícil acreditar que em suas enormes fachadas foram afixados os primeiros out-doores do país (fazendo propaganda de produtos importados pelo comendador, é claro!). Com a guerra, e a Itália em posição divergente do Brasil, o Martinelli, então de propriedade do Governo Italiano, foi desapropriado em 1943 pelo Governo Brasileiro e daí para frente entrou iniciou um processo de decadência interrompido 78

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quis a história que novamente italianos estivessem envolvidos na construção desse novo ícone. Trata-se do Edifício Itália, localizado na esquina das Avenidas São Luis e São João. Ele não é o mais alto do país, posição ocupada pelo Mirante do Vale, aquele mesmo que empresta sua fachada para a telenovela “Tempos Modernos”. Entretanto, com seus 165 metros de altura e por estar construído numa zona mais elevada do que seu concorrente, faz com que seu terraço se eleve acima de todas as construções da paulicéia desvairada. A idealização do edifício ficou a cargo da colônia italiana em São Paulo, por meio do Círculo Italiano, cuja sede se localizava no terreno onde foi construído o edifício de 46 andares, 52 mil metros quadrados de área construída, quatro mil janelas e seis mil metros quadrados de vidros. A obra tinha que ser imponente, de forma a representar a ascensão social e econômica dos italianos em terras paulistanas, após um difícil início, muito semelhante ao de todos os imigrantes, e que culminou com a transformação desta cidade, deste estado e deste país numa terra não só de promessas, mas de realizações. Segundo noticia da época, o surgimento do Itália fez com que o perfil urbano de São Paulo fosse alterado de maneira marcante. É como se ele resgatasse para os italianos o passado de glórias do Martinelli, um resgate que até hoje não foi


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TERRAÇO DO PRÉDIO MARTINELLI AGRADECIMENTOS PREFEITURA DE SÃO PAULO / SECRETARIA ESPECIAL DE CONTROLE URBANO / SECRETÁRIO ORLANDO DE ALMEIDA FILHO ADMINISTRAÇÃO DO PRÉDIO MARTINELLI ICE – INSTITUTO ITALIANO PARA O COMÉRCIO EXTERIOR/RONALDO PADOVANI FICHA TÉCNICA MODELO - GOKULA STOFFEL MAKE E HAIR - ALESSANDRO TIERNI (GLLOSS MANAGEMENT) – PRODUÇÃO - CRISTINA SANSONE VESTUÁRIO E ACESSÓRIOS - ACERVO PESSOAL EDIFÍCIO ITÁLIA (CAPA) E TERRAÇO ITÁLIA AGRADECIMENTOS FAMÍLIA COMOLATTI TERRAÇO ITÁLIA FICHA TÉCNICA MODELO - GOKULA STOFFEL MAKE E HAIR - HELDER RODRIGUES (EQUIPE ROBERT ESTEVÃO) ASSISTENTE DE FOTÓGRAFO - RAFAEL EVANGELISTA PRODUÇÃO - CRISTINA SANSONE ASSISTENTES DE PRODUÇÃO - ADRIANA SANSONE E CAROLINA SANSONE VESTUÁRIO E ACESSÓRIOS - BRECHÓ MINHA AVÓ TINHA ( ACERVO )

Uma cidade orgânica, como bem colocado por Massimiliano Fuksas, grande arquiteto italiano que, em suas passagens por São Paulo, não consegue deixar de admirar a vida que exala. E um observador atento chega às mesmas conclusões ao observar São Paulo à noite, tomando uma boa taça de vinho, sozinho ou acompanhado, do alto do Terraço Itália: o fluxo de veículos lembra a circulação sanguínea, o acender e apagar de luzes no interior dos edifícios vizinhos faz lembrar um gigante ofegante, cujo sopro se traduz na suave brisa noturna. Quem serão essas pessoas, o que fazem, o que pensam, por quais problemas e vitórias passam? Ah, São Paulo! A maior cidade japonesa fora do Japão, a maior cidade libanesa, fora do Líbano, a maior cidade portuguesa fora de Portugal e, naturalmente a maior cidade italiana fora da Itália. Metrópole com uma das maiores populações do mundo, com uma das maiores frotas de automóveis e com a maior frota de helicópteros. Local onde mais são vendidas Ferraris, única no mundo a possuir mais que uma loja Bulgari, Tiffany, Cartier... Mal sabia Dom Pedro, às margens do riacho Ipiranga, que aquele momento era apenas a primeiro de tantas grandezas que enobreceriam essa cidade, que não tem o Cristo no alto de um morro, mas que do alto de seus edifícios recebe a todos de braços abertos.

famOsOs vêm Para admIrar O TerraçO ITálIa suplantado, já que o Edifício Itália continua a oferecer, depois de 45 anos, a vista mais deslumbrante de uma cidade que não pára de crescer. E o panorama que se descortina do alto desse tributo deixado pela comunidade italiana a São Paulo aos cidadãos do mundo que queiram surpreender-se com as dimensões da maior cidade sul-americana tornou-se possível também graças à vontade de Evaristo Comolatti, outro italiano de fibra que fez sucesso no setor de peças para caminhões e que ao visitar o terraço do Edifício Itália resolveu construir ali um dos mais charmosos restaurantes italianos do país, permitindo, assim, que São Paulo fosse vista do alto da maneira mais agradável possível. Um espaço projetado por ninguém menos que Paulo Mendes da Rocha e Burle Marx, e que já foi visitado por Elisabeth II da Inglaterra, Indira Gandhi da Índia, Édson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé, e inúmeras outras personalidades políticas e do show biz internacional. Famosos e anônimos, paulistanos ou forasteiros, vidas que se entrecruzam, conforme disse Comolatti, para admirar a partir do Terraço Itália Restaurante o coração e o centro motor da atividade industrial desta borbulhenta terra. 80


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No topo do moNte Criada por italiano, a fábrica de charutos artesanais impressiona e serviu de cenário para belas fotografias Por Marco Tancredi

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uitas vezes a fotografia, o predileto dos meus hobbies, me leva a lugares realmente fascinantes. Frequentemente, reservo tempo para viajar a lugares curiosos e assim ganho a oportunidade de registrar, usando luz e um sensor digital (antigamente era luz e prata, sinto saudades), tudo o que vi. Desta vez, a minha viagem me ofereceria dois prazeres, o segundo sendo o tabaco negro do recôncavo baiano. Tudo começou quando certa tarde caminhava pela Lincoln Road, em South Beach – Miami. Passando o cruzamento da Meridian Avenue, em direção à praia, senti um aroma familiar no ar. Sentia aquele perfume pendurado no ar, flutuando como uma aura, o aroma de um Monte Pascoal. Fiquei curioso. Quem em Miami estaria fumando um Monte Pascoal? Como um cão perdigueiro, passei a seguir aquele perfume. Subi e desci aquela quadra umas três vezes e como numa brincadeira de “tá quente – tá frio” me sentia ora mais perto e, momentos depois, achava que tinha perdido o rastro. Finalmente, eu avistei. A uns 40 metros de distância,

identifiquei duas pessoas fumando. Como um farol que guia uma embarcação, aquela fumaça perfumada me chamava. Foi somente quando eu já estava perto que me dei conta, para minha surpresa, de Lorenzo Orsi, o proprietário da manufatura que produz aquele charuto tão aromático, fumando junto com um amigo. Tinham acabado de sair do escritório da empresa em Coral Gables, onde distribuem com sucesso os puros baianos para o mercado norte-americano. Estavam tranquilamente soltando aquelas pequenas “cumulus nimbus” perfumadas quando me apresentei dizendo que o aroma de seu charuto fez com que eu, por alguns minutos, perseguisse o aroma até finalmente encontrar a origem. Lorenzo, cordialmente, me cumprimentou com um sorriso. Eu já o conhecia de alguns eventos de golfe e polo que ele participara, onde realizou inesquecíveis tardes de degustações, 83


e já tinha tido a oportunidade de trocar algumas palavras com ele no lounge da Monte Pascoal em um badalado evento em Itaparica. Foi assim que reencontrei Lorenzo, um italiano, que, neste mundo em que vivemos, fabrica os tais charutos em Cruz das Almas. Esta situação, que já foi curiosa o suficiente e que seria uma breve caminhada por South Beach, virou um encontro de novos velhos amigos fumando um delicioso Monte Pascoal. Mais curioso foi o fato de que Lorenzo já teria visto algumas das minhas fotografias e me convidou a conhecer sua fábrica em Cruz das Almas, Bahia. Algumas semanas depois do meu retorno ao Brasil, entrei em contato com Lorenzo. Tudo já estava marcado, minha ida a Cruz das Almas era iminente. Carregando mais equipamento do que qualquer outra provisão, embarquei para a Bahia. Lorenzo me aguardara no aeroporto e de lá fomos direto para a fábrica. A viagem de 180 quilômetros durou pouco menos de 3 horas. No caminho, Lorenzo se preocupou em me falar sobre a história desta região do Recôncavo Baiano, que é, e sempre foi, o maior exportador de tabaco negro do mundo. Chegamos ao anoitecer e, na manhã seguinte, conheceria a fábrica. Pela manhã, Lorenzo me encontrou na recepção do pequeno e humilde hotel. Quando chegamos à fábrica, Rosivaldo Oliveira, o gerente e blend master da fábrica, havia, carinhosamente, montado uma mesa com biju, frutas, sucos, e alguns dos melhores biscoitos que já comi. Finalmente, entramos na produção. Parece que o tempo não passou nesta manufatura de tabacos. O que vi, passando pelo batente, foram várias pessoas trabalhando, concentradas, manuseando as folhas de tabaco. Algumas destalando, outras enrolando, a chefe de produção testando. Lorenzo, enquanto caminhávamos pelas etapas da produção de puros brasileiros, me explicava cada processo. Mas meus olhos não conseguiam concentrar no que Orsi me falava. Enquanto eu ouvia as explicações e meu cérebro tentava não perder o foco, meus olhos sempre interrompiam meu raciocínio. É impressionante a destreza que cada um destes 84

artesãos tem. A sensação era de estar dentro de uma pintura de Debret. As moças, todas sentadas ao redor de uma grande mesa, trabalham retirando o veio central das folhas de tabaco e já as separando por tipo, tamanho e qualidade. Estas folhas vão para a mesa dos capoteiros onde o charuto é construído. Depois de prensados, um a um são testados em uma prova de fluxo e, em seguida, vão logo para a mesa das charuteiras, que aplicam cuidadosamente a capa no charuto. Finalizado, o charuto passa por um rigoroso teste de cepa - a bitola e o comprimento são medidos - para ter certeza que todos são do mesmo tamanho. Peguei então um charuto acabado na mão e gesticulei com a mão que queria um cortador. Lorenzo então me falou que os charutos ainda não estavam prontos e que agora sim passariam pela fase mais importante. Não me impressiono facilmente. Mas o que vi a seguir foi quase surreal. Todos os charutos da linha Monte Pascoal são envelhecidos na sala de cedro climatizada por pelo menos um ano. Lorenzo me levou a esta sala, mas sugeriu que eu não a fotografasse, por questões de inteligência industrial. Posso tentar descrever o que vi. Trata-se de uma sala grande, de mais ou menos 15 por 10 metros. Todas as paredes desta sala são forradas com prateleiras de cedro. No centro da sala, um labirinto das mesmas prateleiras e todas repletas de charutos. Lembra-me um armazém de munição da segunda guerra mundial. Pelas minhas contas algo entre 400 e 500 mil charutos simplesmente amadurecendo, melhorando, envelhecendo. Finalmente, quando os charutos estão envelhecidos e prontos para a distribuição, eles são separados por cor e anilhados. Quando esta separação é feita, os charutos são separados em até 30 tons de capa. Dentro de uma Charutos são caixa de 25, todos os charutos têm o ótimos para mesmo tom e tem suas capas enroladas degustar e para o mesmo lado. A anilha é aplicada acompanhar a por mãos carinhosas. Cada uma medibebida, um boa da para assegurar que, na caixa, todas combinação


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estejam em perfeito alinhamento. Sentamo-nos na produção, onde Lorenzo me entregou três charutos. Um double corona (meu tamanho predileto), um petit robusto e um minutos. O double corona, charuto de grande presença (e comprimento), recebeu uma inédita nota 91 na revista norte-americana Smoke, uma das bíblias da indústria do tabaco, o que equipara este maravilhoso charuto aos melhores do mundo, um verdadeiro orgulho brasileiro. Com muita gentileza, fui servido de chá para acompanhar os charutos. Aprendi que, na fábrica, quando o blend master faz uma degustação, ele usa chá para neutralizar o paladar. Comecei pelo minutos, um petit corona forte e saboroso. Neste charuto nota-se bem a presença do tabaco mata norte, um tabaco mais forte do que o mata fina e com nenhum ressaibo. Passei imediatamente para o petit robusto, perfeito para quem não tem tempo de degustar um charuto maior durante o dia. Não é o meu caso – durante o dia, mesmo no meu escritório, costumo fumar. Mas, voltando ao charuto, ele era de força muito similar ao minutos e com um bouquet diferente. Talvez, pela bitola maior, possa oferecer um bouquet mais complexo. Fizemos uma pausa para descansar a boca e encher o estômago. Durante o almoço, enquanto Lorenzo falava sobre como começou e aonde queria chegar, não saíam da minha cabeça as imagens daquelas artesãs tão habilidosas trabalhando o tabaco. Da imensa sala de cedro, onde tantos charutos aguardam o tempo. Minha mente passeava por dentro da fábrica, e aquele cheiro doce do tabaco negro perdurava na minha memória. Numa viagem, sem sair da mesa, eu contemplava tudo que tinha visto naquele dia. Recorriame o imenso trabalho que é a produção de um charuto. De como Lorenzo, e toda sua equipe, num esforço coletivo, atingiram tal grau de perfeição e qualidade. De como sua marca, disposta em inúmeras prateleiras de tabacaria, merecia o reconhecimento que tinha. Voltamos para a fábrica e Lorenzo foi cuidar de seu ne86

gócio e me deixou naquela mesa, dentro da produção, com um chá preto e o último charuto a ser provado. Um double corona sempre me traz alegria, ainda mais este, que eu fumaria dentro do seu berço, no seu local de criação. Uma fumaça suave e perfumada tomou a atmosfera ao meu redor. Na boca, um bouquet uniforme, sedoso e aveludado. Esta visita à fábrica respondia muitas das minhas perguntas. Minha estadia na fábrica durou mais três dias. Foi só no último dia, quando os artesãos do tabaco já não prestavam mais atenção nos meus movimentos, nos tripés e no piscar do flash, que consegui realizar o meu trabalho e captar imagens que expressam o meu sentimento em relação àquilo que observava. Alcançar a naturalidade numa fotografia é muitas vezes frustrante, porém, dentro deste lugar tão sereno, essa naturalidade já estava nos motivos que capturei. Na manhã seguinte, passei na fábrica para me despedir de todos e agradecer aquela experiência inesquecível. Uma experiência que certamente ficará impressa tanto nas minhas fotografias quanto na minha memória. Lorenzo me presenteou com uma caixa de cada uma das bitolas que eu provara nos dias anteriores e agradeceu minha presença. Um dos funcionários da fábrica me levou de volta para o aeroporto em Salvador. Cansado, dormi antes mesmo da decolagem. Cheguei à minha casa já tarde da noite. Há algumas horas atrás estava vendo a produção daqueles charutos e fotografando. Agora estou numa realidade tão diferente. Mas, acendendo um Monte Pascoal e olhando para aquelas três caixas bonitas, me transporto imediatamente para dentro das minhas fotografias. Não sou egoísta, nunca fui. Na mesma semana que voltei, marquei com meus amigos charuteiros Fabricação e fumamos boa parte daqueles charumanual de tos. Contei histórias e mostrei fotos. charutos: No final da noite, cada amigo que pardetalhes que tiu, levou, na boca, além de um charufazem a diferença to, um sorriso satisfeito.


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inStituto

AnimA de SophiA e A procurA por vAloreS humAnoS O instituto tem diversos projetos que visam melhor transmitir os valores essenciais da humanidade

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omente uma sociedade baseada em valores éticos perenes pode salvar a humanidade de sua irracionalidade destrutiva.” Esta tranquila declaração da psicóloga Raïssa Cavalcanti é um bom começo para se entender o pensamento e a ação desta brilhante teórica, autora de sete livros considerados importantes para o estudo da psicologia contemporânea e defensora do humanismo. E de como foi gerado o Instituto Anima De Sophia, de intensa atividade filantrópica, cultural e didática. Durante quatro anos a psicóloga Raïssa Cavalcanti, em trabalho voluntário, deu um curso de formação em valores humanos para um grupo de psicólogas no seu consultório. Esta formação consistia em estudos sobre a história e a filosofia dos valores éticos da antiguidade aos nossos dias. E de uma vivência simbólica profunda com a finalidade de trabalho da identidade e da autoestima, através de exercícios criados por uma metodologia desenvolvida pela própria psicoterapeuta. O único retorno pedido era que cada uma das psicólogas transmitisse gratuitamente este conhecimento para professores das escolas da rede pública e da rede particular, que por sua vez, de maneira natural, passariam estes valores para as crianças e jovens. Uma corrente humanística. Aïssa Cavalcanti acredita que os pais e professores são os principais agentes transformadores e responsáveis pela transmissão

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dos valores perenes essenciais, instrumentos Acima, Raïssa fundamentais para a correção da mentalidaCavalcanti e Jacob de predatória, materialista e desumana que Klintowitz está levando a humanidade para o caos. A aceitação inesperada e a expansão deste procedimento levaram a criação do Instituto Anima De Sophia, um instrumento multifacetado capaz de permitir uma ação mais ampla. Às psicólogas Raïssa Cavalcanti, presidente, Maria Isabella de Santis, presidente de honra, Margareth Scherschmidt, diretora, e as assessoras Vivianne Marzola e Patricia Hernandez, juntou-se o crítico de arte


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Jacob Klintowitz, como vice-presidente. Em um ano de atividade, o Instituto Anima De Sophia atende e orienta, em diversas escolas, 140 professores. Manteve um curso regular de filosofia da antiguidade clássica aos nossos dias com o professor Marcelo Koch, realizou exposições individuais dos artistas Sérgio Lucena, Fernando Araujo, Ely Bueno

sete artistas. A experiência será relatada em um livro de ensaios e de arte. Como se dá este projeto? Esta é a descrição do sétimo encontro. O ambiente é organizado de maneira simples e discreta, as pessoas dispostas em semicírculo voltadas para a psicoterapeuta Raïssa Cavalcanti que explica os fundamentos da vivência deste dia. É o dia 24 de abril e é o oitavo encontro do projeto experimental “Arte e Psicologia” e será consagrado ao contato com os níveis mais profundos da consciência, com o Self, ao relato da experiência e ao seu aprofundamento através da análise, comparações históricas e à identificação da individualidade de cada artista. O projeto “Arte e Psicologia” propõe o contato do artista com os arquétipos do inconsciente coletivo e com o núcleo essencial, com o Self, possibilitando, através deste acesso, o enriquecimento de seu processo criativo. Este projeto está fundado no desenvolvimento de uma metodologia criada pela psicóloga Raïssa Cavalcanti onde, por intermédio de vivências simbólicas específicas, as pessoas recuperam este contato, quase perdido na nossa civilização. Posterior à vivência, a ampliação realizada pela psicóloga permite a conscientização da experiência e o aprendizado que ela proporcionou. Periodicamente, a produção dos artistas é observada e discutida em grupo com a direção do crítico Jacob Klintowitz em que são assinaladas as modificações e desenvolvimento na sua obra, tanto nos assuntos, nos temas e no próprio tratamento. Articipam deste projeto experimental os artistas Luciana Maas, Fernando Araujo, Carola Trimano, Mauricio Parra, Daniela Noronha, Ana Magalhães e Eva Soban. O crítico de arte Jacob Klintowitz faz parte do projeto desde o seu começo contribuindo como observador da estética e do processo criativo dos artistas. O Instituto Anima De Sophia, concebido como um núcleo multidisciplinar de estudos, formação e reflexão, tem como finalidade promover a reunião e o aprofundamento de conhecimentos que sustentem uma prática pessoal e profissional ética e comprometida com os valores humanos essenciais. Para a presidente Raïssa Cavalcanti, “os valores humanos são importantes para que seja mantido a vinculação com o significado mais profundo da existência e para a À esquerda, recuperação do humanismo. A encontro “Arte sensibilização para a percepção e Psicologia” destes valores é fundamental para e curso de a construção de uma sociedade Valores para os professores. mais harmoniosa e sem violência”.

o inStituto promove umA Ação mAiS AmplA e Carola Trimano, promoveu conferências de Jacob Klintowitz sobre Lucena, Bueno, Araujo e Trimano e outras conferências de profissionais das várias áreas do conhecimento, como a da Dra. Sybil Douek sobre O Humanismo em Paul Ricoeur e Emanuel Lévinas, e a da psicóloga Erika Strack, sobre o envelhecimento e a qualidade de vida, além de um debate sobre “O Gesto Xilográfico”, entre Ely Bueno, Maria Pérez Sola e J. Klintowitz. O Instituto mantém ainda um curso regular de Danças Circulares, com a professora Ana Saber, um curso de Hatha Yoga com a professora Carol Seabra, um de Tai Chi Chuam, com a professora Lidia Matsubara e um de Iniciação Artística com Carola Trimano. Entre os projetos voluntários desenvolvidos pelo Instituto está o da cientista Suzana Sendacz que orienta e prepara jovens oriundos de famílias de baixa renda para ingresso nos cursos técnicos profissionalizantes. Este trabalho envolve desde a atualização nas questões sociais e institucionais do país, até o conhecimento dos equipamentos culturais da cidade de São Paulo.

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á no Instituto Anima De Sophia um programa de pesquisa em criatividade marcado pela originalidade e que envolve dois aspectos essenciais do nosso mundo, a arte e a ciência: “Arte e Psicologia”. Neste programa, com duração prevista de um ano, estão envolvidos

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Encontros DE

alĂŠm-mar

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Entre as muitas descobertas feitas em cinco expedições marítimas pelo mundo, Beto Pandiani conta uma das mais importantes – a história da família e uma série de novos afetos

s Por Luciana Lana

empre gostei de barcos à vela. Foi, então, com entusiasmo que me candidatei a entrevistar o velejador Beto Pandiani e redigir essa matéria. Pensava no prazer de ouvir – e depois descrever – as histórias mais pitorescas das seis expedições desse aventureiro pelos mares do mundo. A primeira delas, uma viagem de Miami a Ilha Bela, feita em 1994, durando 289 dias, a segunda, seis anos depois, saindo do Chile, descendo a Costa do Pacífico, dobrando o Cabo Horn, subindo a costa da Patagônia até chegar ao Rio de Janeiro – tudo em 170 dias, a terceira, num percurso menor, mas com um desafio maior – che-

Na Travessia do Drake e com as irmãs Barbara, Liliana e Graziella

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gar a Antártica, fazendo a travessia do Drake – 42 dias de muito frio e gelo, a quarta, uma continuação da primeira, agora pelo trecho mais difícil da costa do Atlântico nos Estados Unidos, da Flórida a Nova Iorque, subindo um pouco mais, a quinta expedição foi de New Jersey até a Groenlândia, e, não a última, mas a mais recente, um longo trecho pelo Pacífico Sul, do Chile à Austrália. Sempre em catamarãs sem cabine - experiências totalmente inéditas! Eu queria, lógico, os detalhes de todas essas viagens. Sabia que seria impossível, mas preparei meu fôlego para uma boa carga de informações. Respirei fundo e subi os quatro lances de escada até o escritório Pandiani, numa rua do Itaim. A porta se abriu e os mais de dois metros de altura do famoso Betão (o apelido fez todo sentido) se curvaram num cumprimen-

pai faleceu e a vida “apertou”. Beto arranjou seu primeiro emprego – trabalhava no estoque de um pequeno supermercado, arrumando caixas e até limpando o chão.

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rocou o sufoco por algo mais prazeroso – passou a fazer som (como DJ) em festinhas. Dava para tirar algum e conciliar com os estudos na Faculdade de Administração. Foi o curso superior que lhe rendeu um estágio na Pirelli – suficiente para que Beto percebesse que o mundo corporativo não era o seu. Para o desencanto da mãe, ele abandonou a empresa e foi trabalhar como barman. Dona Ivonete nem sonhava o talento do filho para aquela “profissão” escolhida. Sem beber (nunca gostou muito de alcoólicos), fazia o melhor dry martini da cidade – no Ritz. Trabalhou em vários outros points da noite paulistana, enfrentando situações das mais excitantes e curiosas, conhecendo pessoas dos mais diferentes perfis e contornando todo tipo de complicações. Foi assim que virou empresário da

homEm Do Dia E Da noitE, fEz sua opção pElo Dia

to gentil. Sem qualquer explicação física, comecei a entender como aquele corpo podia ocupar tão pouco espaço – o dos barcos (com, no máximo, 25 pés). Gentileza – conforme ele viria a confirmar no meio da entrevista – é fundamental para se permanecer dias e noites a fio, com as mesmas pessoas e toda sorte de restrições.

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abendo que as informações técnicas constam de uma série de livros e também de uma página na internet (www.betopandiani.com.br), sugeri uma conversa informal. “Adoro espaguete”, começou Beto, numa das primeiras revelações de sua autêntica descendência italiana. “Comunicação fácil” foi outra característica que mencionou como herança do povo italiano. O amor pelo mar também é herediário. Beto é filho de Conrado Pandiani, velejador nascido em Savona, que competiu em uma série de regatas na Itália. Fugido da guerra, veio para o Brasil, casou-se com a professora Ivonete, mineira da cidade de Passos, e foram morar em Santos, onde Beto nasceu e viveu até os nove anos. Tinha 18 e já moravam na capital, quando o

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noite. Com amigos – que se tornaram socios, abriu e comandou casas famosas como Olivia, Aeroanta, Mr. Fish, Clube B.A.S.E, Lounge, entre outros. Sobre essa fase “noite”, não falamos muito mais. Beto não cospe nos pratos em que comeu - ao contrário, reconhece que foi na noite que conheceu os parceiros que, depois, o apoiaram nas “atividades do dia”. Mas, não encheu a boca para contar detalhes e resumiu: “foi uma fase - fundamental para eu passasse à outra. Foi conhecer a fundo a noite que me fez valorizar ainda mais o dia. Foi a superficialidade das relações que me levou a um encontro ainda mais profundo comigo mesmo”. Partimos, então, para as viagens, folheando os livros, que têm os nomes das expedições – Entre Trópicos, Rota Austral, A Travessia do Drake, Rota Boreal. “Como você escolhe os destinos?”, perguntei. “De forma totalmente aleatória”, ele respondeu. A sua primeira expedição decorreu de uma Com Igor Bely, conversa de bar – um amigo propôs a na Travessia do viagem pelo Caribe e ele sugeriu estenPacífico, e com der até Ilha Bela, comprometendo assim Felipe Whitaker, quase um ano. “A segunda veio de um na Rota Boreal


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sonho. Eu acordei e me lembrei: vinha de Port Montt de barco até aqui. Depois, a terceira surgiu da curiosidade de saber se era possível chegar a Antártica”. “E a escolha dos parceiros?”, quis saber. Foi aí que falou de entusiasmo, iniciativa, respeito, gentileza e, sobretudo, bomhumor – “sinal de sabedoria”. A pessoa mal humorada, segundo Betão, não aprendeu muita coisa. “O bom-humor é um medidor de nível de aprendizado e de entendimento sobre a vida”. Por último, questionei a escolha do tipo de embarcação: porque o catamarã? “Ah, porque ninguém ainda tinha ousado isso”, respondeu de imediato, com o jeito simples, sincero, irreverente e desafiador que se tem aos 14 anos. Ali percebi que, aos 51, ainda há muitas ideias aventurosas na cabeça de Betão. Investiguei seus planos: uma viagem pela passagem noroeste, entre a Groenlândia e o Alaska, entre a calota polar e o continente americano – “como se você fosse do Atlântico para o Pacifico, por cima”, explicou, mostrando no Google Earth: “aqui no inverno é fechado, é

A fAmíliA

Beto Pandiani tinha me enviado por email dois capítulos do livro – mas eu quis lê-los no contexto da edição. Pois, entre as aventuras do mar, fui surpreendida com uma belíssima história de vida, digna de um filme. Foi o que me fez chorar. E agora eu cometo o crime de contar em poucas, objetivas e frias palavras que o velejador encontrou três irmãs que não conhecia, há pouco mais de dez anos. “Estava faltando uma parte de história; uma parte do quebra-cabeça. E pudemos juntar e construir a família que existe hoje”. Esse foi o comentário dele depois de contar rapidamente o que no livro é descrito com muita riqueza e emoção. O pai foi casado na Itália e, com a guerra, deixou mulher e duas filhas. Beto sabia, superficialmente, da existência delas, mas, com a morte do pai, foram-se as informações e não encontrava meios para refazer a história e procurá-las. Por um acaso, uma amiga conheceu um Pandiani numa noite em São Paulo e fez a ponte. Eram primos. Poucos dias depois (coincidência pouca é bobagem...), recebeu um telefonema de uma moça se apresentando como sua sobrinha – “filha da Barbara ou da Liliana?”, perguntou citando os nomes de suas duas irmãs. De nenhuma das duas. Era a filha de uma terceira irmã – Gra-

a EscassEz é um Dos DEsafios quE mE atrai

tudo gelo. No verão, com o degelo, surge o mar da Groenlândia e, então, existe essa passagem, aberta por dois meses – junho e julho. Minha ideia é passar pelas ilhas Aleutas e chegar a Vancouver. Pensei nisso esses dias, ainda não contei pra ninguém”. Meu lead!, pensei, está pronto. Informações já bastavam, mas conversamos ainda muito mais até que me presenteasse com o livro O Mar é Minha Terra, publicado em 2009. Disse que ali estariam todos os episódios que acabara de comentar e muitos detalhes sobre a última viagem – a Travessia do Pacífico. Saí animada com o dever de casa: devorar o livro e resumi-lo numa reportagem. Eu não tinha a menor ideia do que me esperava. Os primeiros capítulos renderam várias conversas durante o fim de semana. A todo instante, um pensamento sobre o vento, o frio, o sol, o silêncio, a solidão, os encontros, o inesperado. E fui avançando por aquele mar... e encharcando os olhos. 96

ziella -, de quem Betão nem sequer suspeitava a existência. Numa busca na internet , Graziella havia encontrado a reportagem “Beto Pandiani, um homem à procura de suas raízes”. Daí seguiram (sou obrigada a resumir) os encontros entre os quatro irmãos – Beto, Graziella, Barbara e Liliana – e suas respectivas famílias - cônjuges, filhos – e seus guardados, suas lembranças, suas heranças - fotos, cartas, objetos pessoais, montando o quebra-cabeça de afetos. “Os quatro irmãos, finalmente, juntos, à mesa, em volta da comida... É do italiano essa cultura familiar!”, constatou. Uma boa exclamação para me ajudar a encerrar o texto. As histórias que conheci não caberiam no meA chegada lhor do jornalismo - deixo, portanto, salpina aldeia e o cadas, incompletas, apenas como teaser para contato com que o todo seja procurado nas livrarias, nas os ianomâmis palestras, nas ruas do Itaim, na Ilha Bela ou na primeira expedição na bela Itália.


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momEnto mArcAntE

“Foi quando – na primeira expedição – entrando numa aldeia ianomâmi, tivemos uma emocionante recepção. O rio ia se estreitando e, de repente, os índios surgiram e eram muitos, subindo nas árvores; ainda assustados, vimos que iam cortando os galhos e abrindo caminho para facilitar a passagem do mastro. Entramos com eles na taba ficamos assistindo seus rituais, tentando não ser invasivos. Deu-me a sensação de voltar anos atrás. Aí eu achei que tinha que mostrar algo da nossa civilização e fui até o barco buscar um walkman, em que eu ouvia fitas k7 (na época não havia nem CD). Entreguei o fone a um dos índios para que ouvisse Sentinela, com Milton Nascimento. Ele passou os fones para que todos os outros ouvissem. Ao final, umas crianças vieram nos devolver o aparelho e cantaram para nós, como em retribuição. Emocionado, eu aplaudi e resolvi cantar para elas também. Elas nos imitaram nas palmas, quando acabei. E assim ficamos cantando a noite toda e nos comunicando sem falarmos uma palavra sequer na mesma língua. Foi um encontro muito rápido e muito forte”

A EsPirituAlidAdE

“Por ter ganho de presente de uma namorada – Renata - fui fazer um mapa astral com o Bola, astrólogo carioca, e ele me disse que eu ia mergulhar numa busca espiritual muito profunda e não haveria volta. Um tempo depois, num curso de astrologia, o filho da astróloga entrou na sala e, dotado de uma mediunidade, me disse que havia alguém de muita luz atrás de mim naquele momento e que era o meu pai. Sem saber nada sobre mim, descreveu meu pai e disse que nossas vidas haviam se cruzado várias vezes e que estivemos juntos no mar; perguntou se eu gostava de mar... Chorei”

mErA coincidênciA?

“Pela segunda vez a Renata pontou minha vida com descobertas... Num evento, no Gero, ela conheceu Fellipo Pandiani, italiano que mora em Londres e estava no Brasil apenas por umas semanas. Falou de mim e ele não soube dizer nada, mas deixou o telefone para que eu entrasse em contato. Eu liguei; trocamos várias referências, e nada parecia comum até eu mencionar que um tio ou primo do meu

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pai tinha uma fábrica de sapatos na Itália. E ele respondeu imediatamente que o pai dele era dono de uma fábrica de sapatos. Ele então ligou para um tio dele, em Turim, que confirmou sermos primos. Fellipo ficou de procurar informações sobre minhas irmãs ”.

PrivAçõEs? não, consciênciA!

A escassez é um dos desafios que me atrai. No barco, além do espaço – e, às vezes por conta dele - os recursos são todos muito restritos. As pessoas me perguntam o que essa vida tão limitada tem de bom. Ora, vivemos uma crise, recursos energéticos têm sido motivo de conflitos entre povos, poluentes tomam conta da atmosfera. Está mais do que na hora e acordarmos para isso. Passar dias e noites numa jangada, com recursos tão contidos, é uma prova de que se pode viver bem com pouco. Essa vida me reeduca, me ensina a ter hábitos mais condizentes com a realidade. Quando volto para São Paulo, fico assombrado com o desperdício. Podemos ser mais conscientes em relação ao nosso consumo e aos nossos hábitos”.

o rEgistro – um mEio dE vidA

Desde a primeira expedição, sempre houve uma preocupação em registrar tudo, e de forma profissional. Isso eu aprendi com o Marcos (Sulzbacher), que é publicitário. Ele é que sempre pensou no que viria depois – se a viagem ia virar filme, exposição fotográfica, palestra. Então, nós sempre viajamos com fotógrafos profissionais, que se revezam. Esse registro é o que garante a minha vida, é o que me dá possibilidade de continuar fazendo o que eu mais gosto que é velejar”.

PAlEstrA sEm PrEgAção

Então, isso acabou virando o meu trabalho. E eu nunca imaginei que alguém ia pagar pra eu viajar e depois ia pagar para eu contar histórias. Porque o que eu faço nas palestras é contar as minhas histórias. Eu não vou falar “façam o que eu fiz” – isso seria pregação. Minha palestra não frases de efeito, aulas de logística; eu conto os nossos erros, o que a gente não pensou. Se nada tivesse dado errado, não tinha como fazer palestra.


VInte anos

de BRasIL Vent’annI In BRasILe Conquistado por São Paulo, Giacomo acompanhou o crescimento da Itália no Brasil Por Cav. Avv. Giacomo Guarnera

Ana Luiza Rossi Guarnera, Francesco Vincenzo Rossi Guarnera e Giacomo Guarnera na Basilica di San Pietro, em Roma 100


a t pós minha transferência para o Brasil, em março de 1990, dei início à minha atividade profissional como consultor em Direito Italiano, em uma cidade em que os oriundos eram mais de cinco milhões! São Paulo me abraçou, fazendo com que me sentisse em casa desde o início, contando com a maravilhosa família da minha esposa. Como acontece com todos os novos “imigrantes”, senti imediatamente o calor dos paulistanos, que com o passar do tempo foi me surpreendendo e me conquistando cada vez mais. Em seguida, uma vez obtido o reconhecimento do diploma de graduação superior completa e superados os exames da OAB, comecei a desenvolver algumas atividades para empresas italianas que pretendiam investir no Brasil. E, no decorrer de minha atividade profissional, tive a oportunidade de assistir à abertura do Brasil ao mercado internacional, iniciada com o governo do então Presidente Fernando Collor de Mello, e incrementada por seus sucessores, até hoje. A própria cidade de São Paulo era diferente: os primeiros shopping centers, as lojas com produtos alimentícios importados (muitos dos quais italianos), a presença cultural internacional em ascensão. Hoje, a cidade está, merecidamente, no centro dos circuitos internacionais de negócios, da moda, da gastronomia e dos espetá-

rasferendomi definitivamente in Brasile nel mese di marzo del 1990, iniziai la mia attività professionale come consulente in Diritto Italiano in una città ove gli oriundi erano oltre cinque milioni! San Paolo ha accolto anche me con un abbraccio e mi sono sentito sin da subito a casa mia, favorito anche dalla splendida famiglia di mia moglie. Come vari altri nuovi “immigrati” ho constatato immediatamente il calore dei paulistani che non finisce di sorprendermi e conquistarmi sempre di più. Successivamente, ottenuto il riconoscimento della laurea e superati gli esami della OAB, iniziai un’attività per le imprese italiane che desideravano investire in Brasile. Conseguentemente, ho assistito nella mia quotidianità professionale, all’apertura internazionale del Brasile, iniziata sin dal governo del Presidente Fernando Collor de Mello, e continuata dai suoi successori sino ad oggi. La propria città di San Paolo era diversa: i primi shopping centers, i negozi con prodotti alimentari importati (moltissimi italiani), la presenza culturale internazionale crescente. Oggi la città è sicuramente al centro dei circuiti internazionali degli affari, della moda, della gastronomia e degli spettacoli, e conferma che avevo visto bene vent’anni fa, identificandone le potenzialità. Anche la presenza italiana si è sempre più qualificata, grazie all’ottimo livello raggiunto nei settori citati, con l’arrivo dall’Italia di grandi imprese, dei marchi della moda, eccellenti ristoranti ed offerta culturale di livello. Quindi, vent’anni di crescita del Brasile, e dell’Italia in Brasile!

sentI ImedIatamente o caLoR dos pauLIstanos culos culturais, o que confirma a minha visão de vinte anos atrás, quando podia identificar-se o potencial de São Paulo. A presença italiana também se tornou sempre mais qualificada, graças ao ótimo nível auferido nos setores citados acima, com a chegada de grandes empresas da Itália, de grifes renomadas, excelentes restaurantes, e oferta cultural de alto nível. Portanto, foram vinte anos de crescimento do Brasil, e de crescimento da Itália no Brasil!

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Maria, Ugo e Raul di Pace 102


A fAmíliA di PAce

A

Passear por Napoli é sempre um grande prazer para nós, pois nos aproxima do trabalho de meu avô Giuseppe, dos meus tios Vittorio, Julio e Guido, e de meus primos Mauro e Giuseppe, todos arquitetos e engenheiros com obras espalhadas pela cidade por Raul di Pace, arquiteto

arquitetura é uma tradição no trabalho de nossa família, que atualmente se estende a outros países, como a Alemanha, onde temos um primo arquiteto, Alex, e a Rússia, onde Giuseppe trabalha há muitos anos na construção civil. No Brasil, meu pai Ugo, eu e agora minha irmã Maria, trabalhamos desde sempre com arquitetura e design de interiores. Entre os trabalhos de meu avô, a partir do início do século 20, estão La Stazione Maritima di Napoli, o Instituto Politécnico e a Via Petrarca, belíssima obra de engenharia. Existem ainda vários prédios residenciais daquela época, inclusive aquele onde meu pai nasceu. Meu avô realizou também as primeiras grandes obras de habitação popular, sendo quarteirões inteiros na Fuori Grotta e obras de infraestrutura de esgotos em Napoli, além do Palácio da Prefeitura, o Tribunal e a reestruturação do Teatro Cívico e do Cemitério Monumentale, em Salerno. Depois da guerra, junto com meu tio Julio, continuou a realizar trabalhos de infraestrutura em Roma e um sistema de consolidação de fundações para a piscina olímpica, para a Mostra d`Oltremare. 103


1 Meu tio Vittorio di Pace, 103 anos de idade, é um dos arquitetos mais renomados do sul da Itália, e foi responsável pelo projeto do Palazzo della Sanità, em via Don Bosco, na década de 70, e pelo restauro das salas dei Baroni Al Maschio Angioino e da sala di Santa Maria la Nuova, todos em Napoli. Em Roma, projetou um belíssimo prédio moderno em via Parioli, já em 1938, além de inúmeras obras residenciais e de reformas. Meu primo Mauro é um especialista em realização de obras complexas de infraestrutura, como o Porto Intermodal de Nola, com 3 milhões de metros quadrados, do qual foi o coordenador de todas as fases de projeto e execução. Posteriormente, realizou o mesmo trabalho no projeto de Renzo Piano para o Volcano, um grande complexo comercial com vista para o Vesuvio, que compreende shopping centers, hotéis e escritórios. Hoje, coordena um projeto de Peter Eisenman para a recuperação da área de Ansaldo Breda in Pozzuoli.

N

osso primo Alex, em Berlim, tem escritório próprio e trabalha com o Studio de Norman Foster para o projeto de uma nova cidade em Abu Dhabi. Em São Paulo, nosso escritório existe há mais de cinquenta anos, sempre envolvido com arquitetura, interiores e obras de arte. Nos anos sessenta, meu pai,

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Ugo di Pace, Pietro Maria 1. O espaço da família na Bardi, seu amigo de toda a Casa Cor 2010; vida, e Wallynho Simonsen, 2. residência em São Paulo, abriram simultaneamente em arquitetura Raul di Pace; Roma e São Paulo uma gale3. projeto de Raul di Pace realizado em 1985, ria de arte chamada Studio os Condomínios Villa A, onde promoveram exposiAdriano e Villa Savoy ções importantíssimas, como foram pioneiros em Renoir, Picasso, Modigliani, oferecer a possibilidade Goya, e expuseram também de personalização total da obras de membros do Nabis , planta do apartamento e da fachada pelo proprietário. entre outros. Este conceito é amplamente Em São Paulo, em parcedifundido hoje em dia; ria com o cultíssimo expert 4. residência em São Paulo, em arte Fernando Medeiros, arquitetura e interiores criou também a Antiqua, Ugo di Pace. referência em antiquariado por anos em nossa cidade, ao mesmo tempo em que abria seu escritório de arquitetura, realizando centenas de projetos de residências e reformas, sempre com um estilo totalmente inovador para a época. Já lançou dois livros sobre seus trabalhos, um deles editado pela Rizzoli, e tem um terceiro a caminho.


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Me formei em 1976, e nesse mesmo ano projetei uma casa em São Paulo com um jardim sobre toda sua cobertura, projetada em diferentes níveis, proposta até então inédita. Após dois anos trabalhando no escritório de meu pai, e já com uma dezena de projetos realizados, fui para a França, onde fiquei por um ano entre Paris e Bordeaux. Lá, conheci e acompanhei o trabalho do arquiteto Patrick Hernandez, que se tornou um grande amigo, e durante esse período aprofundei minhas pesquisas em arquitetura do século 20. Desde então, completei 35 anos em viagens, fotografando pelo mundo o que há de melhor em termos de arquitetura. Nesse período, desenvolvi meu trabalho em diversas vertentes arquitetônicas, e hoje meu portfólio conta com quase quinhentas obras, entre residências, edifícios, hotéis e espaços comerciais. Estou ainda finalizando a criação de um conteúdo para site, até o momento com 5000 fotos e com upload previsto para mais 15.000 imagens de arquitetura coletadas nessas viagens. Atualmente nosso escritório chama-se di Pace e di Pace Arquitetura e Interiores, resultado de uma associação entre eu, Ugo e Maria, minha irmã. É uma empresa focada em arquitetura e design de interiores, que também trabalha em construção, incorporações imobiliárias, obras de arte, design e iniciativas culturais em geral, tudo o que sempre nos interessou.

P

ela primeira vez, resolvemos participar do evento Casa Cor, com um pavilhão que mostra nossa linguagem em arquitetura e design de interiores. Nesse projeto, o objetivo foi criar um ambiente baseado nos princípios da sustentabilidade e da construção ecologicamente correta, pois acreditamos que a adesão a essa prática garantirá a saúde do planeta daqui para a frente. A premissa adotada pelo projeto de interiores foi a de que a utilização de obras de arte é essencial para a criação de ambientes e pode ser feita de forma acessível a todo tipo de cliente, desde que norteada por critério e bom gosto. Considero que esse ambiente na Casa Cor 2010, o Espaço para Nova 1. Porto de Napoli, construído Era, marca o início de um novo ciclo em 1922; na vida profissional de nossa família, Prédio na Via que tem mais de cem anos de história 2. Giuseppe Fiorelli, de criatividade e constante inovação. em Napoli, Uma história de fortes laços e orgulho onde nasceu de nossa origem, sempre valorizando Ugo Di Pace 3. Antigo prédio o fato de que a imensa bagagem cultural de nossa tradição italiana reflete-se em Salerno em referências e lastro no trabalho que 4. Teatro desenvolvemos. em Salerno

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criada à moda

italiana

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inha ligação com a Itália começou quando minha mãe, Maria Amato, desembarcou com sua família no porto de Santos, em 1950. Neste mesmo dia, meu pai, Silvio Montanarini, descendente de vênetos, foi buscar uma tia que estava chegando no mesmo navio, da Linea C. Ao ver minha mãe descer as escadas do transatlântico, teve a certeza de que ela seria a mulher de sua vida. Durante três meses, ele saiu à procura de Maria através de algumas informações conseguidas por sua tia sobre a familia Amato durante o convívio de 30 dias no mar. Conseguiu descobrir o endereço de onde minha mãe estava morando e ficou vigiando a casa por várias semanas. Como ela não saía de casa, pois estava doente, ele tomou coragem e tocou a campainha esperando que ela abrisse a porta. Quem abriu a porta foi o pai dela, meu avô siciliano, que ficou surpreso com a atitude e a coragem dele e acabou consentindo que ele conhecesse minha mãe. Ela, que mal falava português, sentiu-se como se estivesse vivendo uma história de princesa, sendo encontrada pelo príncipe encantado. Uma história de amor à primeira vista 108

Com influência de seus parentes, Helena descobriu o mundo da moda logo cedo e teve toda a preparação necessária para trabalhar nele e obter o sucesso Por Helena Montanarini

que acabou em casamento algum tempo depois. Anos mais tarde, eu nasci. Fui criada à moda italiana, aprendi português e italiano reciprocamente e meu estilo de vida era mais europeu que brasileiro. Meus avós maternos passavam suas férias na Itália e, ao retornar, traziam-me de presente muitas roupas, o que já me diferenciava das outras meninas pelo meu modo de me vestir. Convivi assim com mulheres elegantes e vaidosas que traziam as tendências da moda em primeira mão. Minha avó conheceu na época a dona Gabriela Pascolato na Santaconstancia, onde comprava tecidos para mandar confeccionar vestidos para si e roupas para toda a sua família. Nos anos 60, minha tia Pina, irmã de minha mãe, passou a dirigir a recém-criada Riosa Modas, uma casa de moda na Praça da República, endereço chique da época. Ela trazia os moldes da Itália e confeccionava sob medida para as clientes brasileiras que buscavam roupas especiais e exclusivas. Neste endereço, eu assisti aos primeiros desfiles de moda de alta costura e vivenciei o glamour da moda. Meu pai começava a ser um empresário bem-sucedido e teve minha mãe como consultora de moda. Recordo-me que antes de meu pai sair de casa, ela montava em cima da cama a roupa que ele deveria usar, separando o terno, camisa, meias, sapatos e gravatas. Assim, ele foi eleito, nos anos 70, um dos homens mais elegantes de São Paulo. Meu irmão também


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Em sentido horรกrio: Helena, Isa Smith, Marcia Gimenez e Costanza Pascolato em Paris; Helena com Leonardo Ferragamo e Sandra Toscano; e Helena e Gildo Zegna

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usufruiu desse privilégio e se tornou vaidoso como meu pai o era. Maria sempre teve muito bom gosto e me transmitiu esta cultura de moda sem saber que mais tarde seria para mim uma carreira. Minha primeira viagem à Itália foi aos 15 anos. Fui visitar a minha avó, que estava morando lá. Foi uma viagem inesquecível, sobretudo quando fomos a Roma para ver as vitrines da Via Veneto e comprar o meu primeiro look de inverno: um maxi manteau, shorts e botas alta até acima dos joelhos, tendência nos anos 70. Hoje sou consultora de moda, estilo e marketing e, tam-

Anos mais tarde, ao retornar ao Brasil, fui convidada pela Vila Romana, a maior fabricante de ternos da América Latina, para atuar como diretora do projeto de lançamento da marca Giorgio Armani, onde fui responsável pelo desenvolvimento dos produtos e pela abertura de seis lojas franqueadas nas principais cidades do país. Foi com o Sr. Armani que aprendi tudo sobre o mercado de luxo. Alguns anos depois, saí da Vila Romana e fui passar um ano em Nova York, onde retomei meu escritório de consultoria de moda. Foi lá também que dei início ao projeto da primeira loja multimarca de moda masculina para o mercado brasileiro. Consultei alguns investidores com a esperança de poder colocar em prática o meu projeto, mas eles não acreditavam que os homens brasileiros estavam preparados para consumir moda. O destino me colocou ao lado da empresária e visionária Eliana Tranchesi, que agarrou o projeto e me contratou para criar a Daslu Homem, que abriu suas portas em 1996 com grande sucesso de vendas. A Daslu Homem foi consagração deste conceito e fui buscar pelo mundo um mix inédito de 60 marcas de luxo para trazer ao mercado brasileiro, tornando-a a maior loja do segmento na América do Sul. Foi através deste projeto que as principais marcas italianas masculinas desembarcaram pela primeira vez no território brasileiro. Logo, Salvatore Ferragamo, Ermenegildo Zegna, Loro Piana, Brioni, Prada, Gucci e Etro se tornaram familiares

foi com o sr. armani QUe aprendi tUdo soBre o mercado de lUXo bém, compradora especializada em marcas de luxo. Fui reconhecida pela revista The Italian Fashion Weekly Magazine como uma das seis compradoras mais importantes do mundo em moda masculina. Ao receber este prêmio, lembrei-me desta história particular da minha infância. Já adulta, formei-me em Desenho Industrial no Mackenzie, pois me encantava o design italiano. Na época, a profissão era muito nova e não consegui encontrar trabalho nesta área. Optei pelo jornalismo ao ser convidada por uma amiga para trabalhar na Editora Abril como produtora de moda na revista Moda e Serviço. Algum tempo, depois passei a escrever uma coluna de moda para o Jornal da Tarde do Grupo O Estado de São Paulo (tendo Cesar Giobbi como chefe), além de matérias para as revistas especializadas como Interview e Vogue. Em 1979, morando em Paris, além de cursar a escola Studio Berçot, desenvolvi uma consultoria para indústrias têxteis brasileiras e produzi desfiles para nomes como Jean Paul Gaultier, Thierry Mugler e Anne-Marie Beretta, entre outros. Segui sendo correspondente na Europa para diversos jornais e revistas brasileiras. Nesta época viajava a Milão para assistir aos desfiles na semana de moda e conheci pessoalmente estilistas italianos como Franco Moschino, Enrico Coveri e Valentino ao fazer algumas entrevistas para minha coluna Vogue Futuro, da revista Vogue.

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do consumidor local. Nestes sete anos que dirigi a Daslu Homem, ia à Italia seis vezes ao ano. Sempre para assistir os desfiles de moda masculina, visitar a feira Pitti Uomo, em Firenze, comprar e pesquisar novas marcas. Meu envolvimento com a Itália teve seu auge nesta época. Lá eu me sentia em casa! Com desejo de novos desafios, abri meu próprio escritório de consultoria de moda em 2001. Montei a loja Conceito Firma Casa e, logo, depois a Clube Chocolate. Inspirada na Colette de Paris, a Clube Chocolate movimentou a cena paulistana ao abrigar moda, joalheira, floricultura, espaço multimídia e um restaurante num mesmo espaço. Este formato de loja agradou e se multiplicou. Em 2005, montei a loja Conte Freire, a primeira loja conceito de Porto Alegre. Em uma área de mil metros quadrados, podia-se encontrar moda, artesanato, design, decoração, espaço dedicado a livros e revistas, espaço gourmet e uma área para desfiles e eventos. No mesmo ano criei e implantei o projeto da loja Les Iles em Cambo-

tura aos uniformes, pratos, talheres e serviço. Mais recentemente, fui convidada por Isabella Prata, da prestigiosa Escola São Paulo, para ministrar cursos de estilo e tendências. Consegui levar o curso de Estilo para as empresas como a Dominici e a La Lampe, que oferecem às equipes de vendas e aos funcionários das empresas workshops para encontrarem o seu estilo pessoal, aumentando a auto-estima destas pessoas e gerando ganho na produtividade e, bem-estar no ambiente de trabalho. Meu escritório em São Paulo presta consultoria de 360 graus para as marcas brasileiras e internacionais, sobretudo para aquelas que pretendem entrar no mercado brasileiro. Desenvolvemos projetos personalizados, planejamento estratégico de marketing, projetos de lojas, reposicionamento de marcas no mercado, compras e estratégia de varejo, sempre adequando o serviço ao perfil do cliente. Minha experiência como jornalista me trouxe uma coluna sobre lifestyle na revista Cidade, do Shopping Cidade Jardim, além de matérias para sites especializados. Com tanta informação adquirida, estou desenvolvendo o meu site e um livro. Não será um livro clássico sobre moda, foquei nele para ter características de roteiro de viagens com pitorescos segredos dos bastidores da moda. Para finalizar a minha história italiana, volto à da Maria, minha mãe, uma chef renomada em cozinha italiana. Seus conhecimentos foram revertidos em livros editados pela Editora Senac, tais como “Sabores da Sicília” e “60 Receitas de Alcachofra”. Esta influência gastronômica eu herdei também das duas avós italianas. Os almoços de domingo eram em minha casa e cada uma levava sua especialidade, quase uma competição gourmet! Gosto de ir à cozinha quando recebo amigos para jantar e sei que eles apreciam algumas das minhas especialidades: Pappa al Pomodoro, Risotto de Zucca e Zabaione al Mascarpone. Sou apaixonada por Ópera desde pequena, influência de meu nonno Plácido, que nos almoços de domingo colocava na vitrola os discos em vinil que ele trazia da Itália. Este prazer me leva de tempos em tempos ao Scala, de Milão, para recordar minha infância e confirmar que nas minhas veias corre genuíno sangue italiano. “Grazie” a Edmundo Sansone por me ter convidado para participar desta edição da Itália em São Paulo e dividir a minha ligação com a terra de meus pais, que considero minha também.

ia à italia 6 vezes ao ano para assistir os desfiles riú (SC), de beachwear sofisticado, com cultura de balneário chique, remetendo à Capri e Saint Tropez. Outro projeto que considero diferenciado foi a Berliner, loja multimarca inspirada no lifestyle de Berlim, já que na época se anunciava a cidade alemã como a capital da vanguarda mundial. Neste período, fui convidada para palestrar em Milão sobre o mercado de luxo brasileiro no Global Fashion Summit para os empresários do mundo inteiro que atuam neste mercado e estavam interessados em investir nos países do BRIC. Apesar do meu nervosismo por estar falando perante pessoas tão ilustres do mundo da moda, consegui falar em italiano e transmitir o potencial do nosso mercado brasileiro em ascensão. Pela minha formação de design, a arquitetura e a decoração de interiores sempre estiveram presentes no meu dia a dia. Acredito que o estilo de vida deve ser coerente com a nossa personalidade. Quando as pessoas visitam a minha casa me falam: “Ela tem a sua cara”. Realmente, eu acredito que eu tenho um estilo bem definido e tenho utilizado deste diferencial para desenvolver alguns trabalhos neste campo. A primeira experiência fora do domínio da moda foi a coordenação de estilo do Dalva & Dito, o novo restaurante do amigo e consagrado chef Alex Atala. Sua sensibilidade o fez entender o que uma consultora de estilo é capaz de fazer! Fui responsável por garantir que todo o projeto tivesse uma só cara. Da arquite112


Acima, Helena Montanarini com Elio Fiorucci, tomando sorvete em Mil達o. Ao lado, Helena com Paul Smith em Mil達o

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ARTE EM CERâMICA

N

Ao som de música napolitana, Guido Totoli cria suas peças de forma artística e artesanal Por Gisele Bolla

a obra do artesão italiano Guido Totoli, ânforas e cavalos etruscos revelam a influência renascentista, resultado da infância próxima às ruínas romanas de Paestum, no sul da Itália. Natural de Salerno, o ceramista, escultor e pintor italiano mora em São Paulo desde o Natal de 1958. Aos 72 anos, Guido acorda cedo e trabalha o dia todo no ateliê que se mistura à bela casa em que vive desde 1961. As peças que ele produz se espalham por toda a casa, o artista não para de criar, ao som de música napolitana ou de Maria Bethânia. Aos fins de semana, tem mais tempo e estímulo para criar peças livres das diversas encomendas que recebe diariamente em seu ateliê... Ao longo de tantas influências que a arte em cerâmica absorveu, passando pela época do renascimento até os dias atuais, as possibilidades de criação se ampliaram muito. No meio de tanta transformação e diversidade, a criação de peças em cerâmica artística não pode perder seu lado artesanal. E é assim o trabalho de Guido, sem pressa, bem artesanal, respeitando cada etapa da criação de uma peça que, somado ao seu grande talento, resulta em belíssimas criações... 115


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Como foi que voCê se inTeressou pelA CArreirA ArTísTiCA?

N

asci para criar. Aos 4 anos eu já fazia cerâmica e fui aprendendo a pintar com pintores da Igreja, fazendo afresco. Tinha pouco mais de 20 anos e naquela época o trabalho em cerâmica era pouco valorizado no Brasil. Então comecei a pintar, fazia naturezas mortas, mas não com o intuito de vender. Ia dando de presente a amigos, tanto que muita coisa está com colecionadores. E enquanto isso o destino ia ajudando...Sem querer passei a fazer parte de um grande grupo de artistas da época, eles todos com 50, 60 anos, em plena maturidade, e eu muito jovem. Nada menos que Volpi , Portinari, Rebolo, Pennacchi, Zanini... Um belo dia fui a um leilão de arte e lá estava uma obra minha, uma daquelas que eu havia dado de presente. Resolvi então passar a pintar profissionalmente.”

Não fAço ouTRA CoIsA,Tudo quE vEjo é EM foRMA dE ARTE mAs e A CerâmiCA? quAndo foi que elA pAssou A fAzer pArTe de suAs CriAções?

“Foi só nos anos 1970 que passei a fazer as primeiras peças, os jarros, os pratos com figuras, logo vieram os chafarizes, fontes com deuses da mitologia, os Bacos, os Éolos, as Dianas Caçadoras. Não faço outra coisa, tudo que vejo é em forma de arte.”

e Como foi A CheGAdA Ao BrAsil? AindA reTornA à TerrA nATAl?

“A chegada ao porto de Santos foi terrível, porque fazia um calor de derreter tudo, e eu vestia um paletó pesado de inverno. A adaptação não foi difícil, apesar das diferenças do clima, graças ao acolhimento que recebi dos que encontrei pelo caminho. Quase toda semana tinha uma festa de aniversário, comecei a gostar. Depois tive um período, de quatro ou cinco meses, em que tive uma recaída, estava querendo voltar pra Itália. Mas passou. Hoje, não fico um ano sem passar uns 40 dias por lá, já é suficiente”.

quAl o GrAnde seGredo de umA peçA ArTesAnAl? Como ConseGuir esse Toque ArTesAnAl em meio A TAnTAs TrAnsformAções e diversidAdes?

“O esboço, a criação da primeira peça, o esculpir dos detalhes, a finalização, o esmalte, a pintura, a queima nos fornos e, finalmente, a admiração. Todas essa etapas podem levar semanas, dependendo da peça e nenhuma delas devem ser superadas pela pressa. Tenho uma equipe de seis pessoas, mas acompanho todas as etapas de produção das peças – desde a preparação da massa, a modelagem, a queimação e a esmaltação final.”

quAis serão As suAs próximAs CriAções? o que Tem Te inspirAdo pArA fAzê-lAs?

“Envolve os afrescos em placas de cerâmica e peças robustas para parede inspirandose muito na mitologia grega e nas sereias.” 117


BrAvo,

Dj!

A

Que o DJ Clemente Napolitano está entre os mais badalados da cidade, não é novidade. O que talvez poucos saibam é que, antes de se apaixonar pelas batidas eletrônicas, era das óperas e peças clássicas que ele gostava Por Julie Anne Caldas Fotos Rafael Evangelista Agradecimento especial ao Colégio Dante Alighieri

os sete anos de idade, um menino italiano ia pela primeira vez ao teatro, acompanhado de sua avó. No palco do grandioso San Carlo di Napoli, a ópera Un ballo in maschera (Um baile de máscaras), de Giuseppe Verdi. Mas, não, aquele garoto ainda não era um apaixonado pela música clássica. Havia apenas sido “comprado” pela avó, que queria uma companhia no teatro, e deu ao neto 50 liras para exercer tal função – e ainda se comportar! “Na época, isso era uma fortuna para mim, pois representava o mesmo valor da mesada que recebia em um mês. Por isso, por puro interesse na grana, passei a querer ir com ela toda semana.” A confissão é do então menino Giuseppe Clemente, hoje residente em São Paulo e conhecido como Clemente Napolitano, ou apenas Clementão. É de suas mãos e de suas 118


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cação: se você aprende a gostar, seu ouvido se acostuma com aquilo”, explica o DJ, que, naquela época, nem sonhava em ter a atual profissão. Formou-se engenheiro naval na cidade natal e ainda atuava nessa área quando veio morar em São Paulo, em 1976. Este ano, completa uma década de “profissão DJ”. E orgulha-se de ter absorvido o que chama de “os dois melhores ouvidos musicais que existem”. “Sempre achei que o napolitano tivesse o melhor ouvido para música do mundo. Muitas coisas nasceram lá, tendências e pioneirismos como o próprio rap, feito já em 1970 por Pino Daniele e Tullio De Piscopo”, conta Clemente, que se surpreendeu ao chegar ao Brasil. “Os napolitanos ficaram para trás quando descobri o apuradíssimo ouvido dos brasileiros. Vocês têm uma grande capacidade de assimilar todo e qualquer tipo de música. Busco unir as habilidades dos dois para trabalhar com música.”

D

pick ups que saem as batidas eletrônicas que animam as festas mais badaladas da high society paulistana. Mas, como já foi dito, isso não é novidade. O fato curioso é que, após o episódio da avó, e pela frequência com que queria ganhar as tais liras como acompanhante, Clemente se tornou um amante da música clássica, e, mais especificamente, das óperas italianas.

“M

eus pais sempre foram muito ecléticos, em casa ouvia-se de tudo. Mas a Itália é o berço da ópera e a cidade de Nápoles uma das mais musicais, por isso, todas as melhores peças, orquestras e músicos se apresentavam lá. E música é edu120

e fato, o DJ conseguiu não apenas reunir o que os napolitanos e brasileiros ouvem de melhor como transformar tudo isso em músicas novas. Em sua estreia como DJ, por exemplo, tocou um remix que fez com a abertura de uma de nossas mais famosas óperas, O Guarani, de Carlos Gomes. Bachiana nº 5, de Villa Lobos, foi outra de suas primeiras músicas clássicas remixadas, com a qual fez sucesso aqui e na Europa. E por falar no velho continente, sempre que está por lá Clemente faz questão de ir ao mesmo teatro que frequentou garoto para ver as óperas antigas ainda apresentadas. São quatro os seus compositores favoritos desse estilo, e ele os classifica em categorias diferentes: “Giacomo Puccini é o mais romântico, Gaetano Donizetti, o mais chique, Vincenzo Bellini, o mais elegante, e Giuseppe Verdi é o compositor com as mais completas obras, musical e cenograficamente – é dele, inclusive, minha preferida, Rigoletto, de 1851”. E é unindo composições de centenas de anos atrás com as modernas batidas eletrônicas que Clemente, além de conquistar festeiros mundo afora, criou sua própria personalidade. “Sou a própria união do antigo e do moderno. Tenho 66 anos e ando


Sou A própriA união Do Antigo e Do moDerno

de calça jeans e tênis. Acho uma besteira esse negócio de rotular as pessoas, coisas, músicas. O que é bom é bom e ponto, não importa quando nem como foi feito.” O eclético DJ também não se incomoda com a modernidade ter chegado à plateia dos grandes teatros municipais. “Antigamente, nem entrávamos sem terno e gravata. Hoje, tudo é permitido no quesito visual. Continuo gostando de me vestir bem para assistir uma ópera, seja aqui ou na Itália, por respeito aos atores e autores. Mas o mais importante mesmo é se deixar embrenhar por essa cultura tão rica”, afirma. No Brasil, de jeans ou terno, Clemente frequenta teatros municipais de todas as capitais atrás de música de qualidade. E lamenta apenas uma deficiência do brasileiro. “Ele é muito facilmente convencido pela mídia que, infelizmente, não dá valor ao que é antigo e clássico, mesmo que seja bom. Aí, o ouvinte acha que nada que não for de sua época merece atenção”. Para mudar esse cenário, o DJ faz sua parte: “Adoro quando um garoto vem até a mesa de som me perguntar que música é aquela e a resposta é um clássico antigo. Ele sai com aquela cara de

espanto, mas sei que mais aberto a experimentar mais vezes esse som.”

DOis em um

Em comemoração aos dez anos de profissão, Clemente acaba de lançar um novo – e não menos eclético – projeto: o DUO DJs, dupla formada por ele e Igor Cunha, de 28 anos, que há cinco anos também se dedica às carrapetas. Juntos, desde o final do ano passado eles trabalham fazendo mixagens para eventos sociais e, trilhas para a TV e, claro, tocando nas mais badaladas festas. E Clemente tem o segredo de a parceria já ter nascido um sucesso: “Ele tem a metade da minha experiência profissional e quase um terço da minha idade, mas toda a energia e vivacidade dos jovens. Sem contar que está inserido no que há de mais moderno musicalmente. Ou seja, juntos temos todo o conteúdo musical possível para mixar e inovar ainda mais!”

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o QUe

É QUe o BrASIl TeM? Pela primeira vez, o País mostra seus talentos nas áreas de design e decoração de móveis, em um espaço exclusivo no maior evento mundial do segmento, na itália Por Paula Caires Fotos Divulgação

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ilão já viu de perto a beleza brasileira no rebolar tropical da mais que top, a top model, Gisele Bündchen. Agora, pela primeira vez, um dos principais disseminadores de tendências do

DeMonSTrAMoS MAIS A SenSAÇÃo QUe o ProDUTo mundo teve um pedacinho do Brasil no mais importante evento mundial de design e decoração, o Salão de Móvel de Milão, realizado de 14 a 19 de abril, que contempla, ainda, centenas de eventos paralelos chamados de Fuori Salone. Juntas, as ações fazem da cidade italiana um grande centro mundial de tendências e referências em design e decoração, sendo responsáveis por grandes lançamentos de produtos e de diversas tendências do segmento. É nesse cenário que foi criado, pela Moreira do Valle, Connect 360 e revista Casa Claudia, com apoio da Casa Cor, o lounge brasileiro Brazil S/A. Instalado na via Tortona 31, na região mais badalada do Fuori Salone, o espaço de relacionamento teve uma ambientação especial, com cenografia clean, assinada pelo arquiteto José Roberto Moreira do Valle e pelo cenógrafo italiano Filippo Bartolini. Já na entrada, uma representação das calçadas de Copacabana. No interior, cortinas que 123


Perfil

JoSÉ roBerTo MoreIrA Do VAlle Duas paixões, duas cidades, uma história

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ntre Pernambuco, cidade de sua origem onde ficou por 20 anos, e São Paulo, onde mora há 21 anos, forma-se a história de José Roberto Moreira do Valle. Foi em uma dualidade, também, que ele ganhou o país com o seu trabalho. Na verdade, duas paixões: a gastronomia e o design de interiores. Já como decorador, ele descobriu na gastronomia sua nova paixão. Com determinação e visão de mercado, juntou as duas e criou a Moreira do Valle Catering e Interiores, que há 25 anos é sinônimo de qualidade e excelência. Nesses longos anos de trabalho, Moreira do Valle já levou o glamour de sua cenografia ou com seu serviço de catering a grandes eventos de marcas renomadas, como Iguatemi, Louis Vitton, Dior, Cartier, São 124

Paulo Fashion Week (SPFW), Gioigio Armani, Audi, Moët & Chandon, Chandon,Veuve Clicquot, Chivas, entre diversos outros, inclusive, à Casa Cor, onde expõe seu trabalho há oito anos. Além da concepção do lounge Brazil S/A que foi sucesso na feira de móvel de Milão, na Itália. Pelo seu trabalho, José Roberto Morreira do Valle também já participou de diversos programas de televisão nas principais emissoras do país e foi pauta de importantes publicações, como Folha de São Paulo, Estadão, Casa Claudia, Casa Vogue, Vejinha SP, Isto é Gente, Cool Magazine, Caras, Chiques e Famosos, Prazeres da Mesa, entre outras... de Pernambuco para o mundo, levando graça, beleza e outras delícias.


bloqueiam a entrada de luz foram utilizadas juntamente com um trabalho de iluminação azulada, para dar um tom intimista ao ambiente, que ganhou ainda mais reforço com o som da Bossa Nova. “O objetivo era transmitir uma sensação de Brasil, como se fosse uma noite carioca”, explica Moreira do Valle.

eM SeIS DIAS, MAIS De 15 MIl PeSSoAS eSTIVerAM no loUnge BrAzIl

N

essa ambientação, foi realizada a exposição Design Brasileiro 2010, que levou peças exclusivas e inéditas dos designers brasileiros de maior expressão mundial, os irmãos Fernando e Humberto Campana, do estúdio Nada se Leva, de André Bastos e Guilherme Leite Ribeiro, e do designer carioca Lucio Carvalho. A exposição, que deu um charme todo especial ao espaço do Brasil, também contou com peças de Paulo Mendes da Rocha, Flavio de Carvalho, Ilse Lang e do projeto do Conselho Euro-Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (Eubra). “Investimos em uma ideia lúdica. Nesse primeiro evento, demonstramos mais a sensação do que o produto em si. Queríamos tornar essa iniciativa um abre-alas para o próximo ano”, afirma Moreira do Valle. A julgar pelo número de pessoas que visitaram o espaço, o objetivo foi atingido. Nos seis dias de evento, mais de 15 mil pessoas, entre empresários, lojistas, imprensa e até o embaixador do Brasil na Itália, José Viegas 125


Perfil

Ângelo Derenze Dos tijolos da construção ao requinte da decoração

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relação do executivo Ângelo Derenze com o Brasil começou assim, quase por acaso. Seu avô veio de Campobasso, na região de Molise, na Itália, saindo pelo porto de Gênova, com a ideia de ir para Buenos Aires. Mas, “talvez por causa do mau tempo, ele resolveu desembarcar em Santos e acabou parando em São Paulo”, como explica Derenze. Aqui, seu avô montou uma olaria e assim começou a história da família no País, que teve continuidade com seu pai. “Com os tijolos dessa olaria foi construída metade do Estádio do Morumbi, entre outras coisas”, orgulha-se o executivo. Derenze continuou essa trajetória, mas a seu modo. Durante 23 anos foi publisher de “Casa Cláudia”, revista da Editora Abril especializada em decoração e design, e hoje é presidente da Casa Cor - maior evento de arquitetura e decoração das Américas e o segundo maior do mundo. Foi

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através da decoração que ele começou a frequentar mais a Itália, em especial as regiões de Milão e Bolonha, onde acontecem as grandes feiras do setor mobiliário e de design. “Inspirei-me na bela região de Bolonha até mesmo para fazer minha casa de campo”, conta ele. Atualmente, ele vai todos os anos para as feiras mais importantes da Itália - a Mobile e a Fuori Salone, que acontecem paralelamente em Milão, e a Abitare il Tempo, em Verona. “O que foi lançado em Milão e deu certo, se consolida em Verona”, explica. Assim, entre Itália e Brasil, passado, presente e futuro se misturam e se completam, fazendo a história de sucesso de Derenze: é o legado de sua família na área de construção, seu trabalho dia após dia frente a Casa Cor, e a incessante busca pelas tendências do mundo da decoração e do design, que vão ditar moda no futuro.


Filho, o cônsul geral em Milão, Luiz Henrique Pereira da Fonseca, e o secretário de Feiras e Promoções, Silvio Gori, estiveram no lounge Brazil. A festa de inauguração teve mais de 700 convidados presentes, como os designers Karin Raschid, os irmãos Davide e Gabriele Adriano e o brasileiro Sergio Rodrigues.

P

ara o presidente da Casa Cor, Angelo Derenze, o lounge foi uma forma de retribuir a grande influência italiana no mobiliário do Brasil. “Os italianos, vendo esse interesse pelas coisas da Itália e, cada vez mais, pela própria situação da Europa, estão vindo ao Brasil e se posicionando com estrutura própria. Acredito que, nos próximos três anos, as empresas italianas estarão no Brasil e isso é muito bom para nós”, acrescentou ele que, por meio da decoração, começou a frequentar mais o país de origem de sua família.

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Trabalho, arTe e simpaTia...

reTraTo de um

cônsul

Mauro Marsili, cônsul-geral da Itália em São Paulo: no cargo desde 30 de março

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Com 25 anos de carreira diplomática, Mauro Marsili chega à capital paulista para assumir o consulado da Itália em São Paulo, no ano do Momento Itália no Brasil Por Paula Caires Fotos Rafael Evangelista

o sexto andar do prédio da Avenida Paulista, onde fica instalado o consulado da Itália em São Paulo, Mauro Marsili já deu início ao seu trabalho, que terá como prioridade “cuidar dos italianos”, como ele mesmo diz. Uma tarefa nada fácil, já que são mais de 6 milhões de italianos e descendentes só na cidade de São Paulo, segundo o Ministério das Relações Exteriores da Itália. A suavidade da música clássica que sai do notebook aberto sobre a mesa já dá pistas do perfil do novo cônsulgeral da Itália em São Paulo, que está no cargo desde 30 de março. Gestos sutis e um sorriso, à primeira vista tímidos, revelam um homem calmo, que distribui naturalmente gentileza e simpatia. Mas sua sala ainda não reflete esse seu jeito de ser. Ao posar para as fotos, ele olha ao seu redor e lamenta: “ainda não tem nenhum quadro aqui... o contêiner com as minhas coisas ainda não chegou.” 129


Foi esse amor pelas artes que levou Mauro a explorar boa parte da capital paulista. Há pouco mais de um mês morando na cidade, ele já foi três vezes à Sala São Paulo e visitou exposições no Museu de Arte de São Paulo (Masp), Museu Brasileiro da Escultura (Mube) e na SP Arte, no Parque Ibirapuera. “Gosto muito de arte contemporânea. Quando estava em Roma, era o responsável por todas as exposições italianas no mundo, feitas pelo Ministério das Relações Exteriores da Itália, que conta com 350 obras de renomados artistas contemporâneos italianos, além dos novos talentos”, conta ele, que, em 2008, colaborou para a realização da mostra itinerante, que esteve no Masp, “Arte Contemporânea Italiana (1950-2000) - Coleção Farnesina”. A coleção reunia pinturas, esculturas, mosaicos e instalações, que marcaram a produção artística italiana da segunda metade do século 20. Se pudesse, seus momentos de lazer também incluiriam “o gelo”. O das pistas de ski e o das bolas de sorvete, tipicamente italianos. “Infelizmente, aqui não posso esquiar”. E nem adianta, porque pistas artificiais parecem não lhe agradar, mas ele brinca: “quem sabe não fazem uma pista em São Paulo!”. Quanto ao sorvete, ele comenta saudosamente: “uma coisa que não tem aqui, e seria muito bom se tivesse, são os sorvetes naturais, feitos com frutas frescas. O industrial é bom, mas o fresco é muito melhor. E sorvete é uma coisa que todo mundo gosta!“. Mauro Marsili também não abre mão de uma boa macarronada, mas no original estilo italiano. “A verdadeira cozinha italiana ainda tem que ser descoberta aqui. Nossos pratos são muito simples, com pouco tempero e um bom azeite de oliva... não tem tantas coisas. É como a pizza, a brasileira é muito boa, mas temos que pedir para que não coloquem tanta mussarela, tanto catupiry...”. Por outro lado, quando o assunto são pratos japoneses, Marsili reconhece: “é quase como se fosse no Japão”.

as minhas raízes esTão lá! (roma)

A

lém de Roma, seus 25 anos de carreira diplomática contemplam a Berlim Oriental, onde acompanhou a histórica Queda do Muro de Berlim. Depois, foi para Bucareste, na Romênia, “um país maravilhoso, onde fiquei três anos”. Esteve em Buenos Aires, também por três anos, e voltou para Roma. Entre 2001 e 2004, atuou em Brasília. “Gosto muito de lá porque oferece uma qualidade de vida boa, tem um clima maravilhoso e vida social e cultural”, conta ele. Antes de vir para São Paulo, ainda passou mais um período em Roma, onde nasceu, apesar de sua família ser de Carmerino, região de Marche, no centro da Itália. “Minhas raízes estão lá!”. As raízes estão lá, mas seus frutos nasceram aqui, na capital paulista: um casal de gêmeas. Ainda estava morando em Brasília, mas ele e sua esposa, que é médica, escolheram um bom hospital aqui em São Paulo para ter as crianças. Agora, de volta a São Paulo, já começa a semear novos frutos, dessa vez profissionais. “O Momento Itália no Brasil, que vai de outubro de 2011 a junho de 2012, é uma iniciativa importante, que tem o objetivo de estreitar o relacionamento da Itália com os italianos que vivem no Brasil e também com os brasileiros, que sempre demonstraram muito carinho pela Itália”, explica ele, que já está colaborando para esse projeto. Com logomarca criada por Washington Olivetto, que mistura marcos dos dois países, – Coliseu e Cristo Redentor – a campanha terá ainda uma vasta programação. “Gilberto Gil fará uma canção com Laura Pausini, Felipe Massa, da Ferrari, irá representar a tecnologia italiana, entre diversas outras atrações”, adianta o novo cônsul. 130


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La DoLce peLos oLhos Vita De

MarceLLo Geppetti

O período pós-guerra vivido pela Itália é conhecido como Dolce Vita. E foi nele que nasceram as divas, uma vida de luxo, os paparazzi e uma forma completamente encantadora de fotografar fotos: Marcello Geppetti/ archivi geppetti

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inal dos anos 50, Itália, Roma, um set cinematográfico a céu aberto, diretores, produtores e atores passeando pelas ruas da cidade, as grandes produções em Cinecittà, a nobreza e o jet set internacional floreando a Via Veneto, o Café de Paris e as festas particulares temáticas. Esse período foi um dos mais importantes do pós-guerra italiano e foi chamado de Dolce Vita. O glamour, o nascer das divas e “divos”, os artigos de luxo, tudo isso proporcionou uma nova forma de fotografar. Os paparazzi, este grupo de jovens precursores da fotografia de ação, fez história - as brigas, o corre-corre para fotografar as situações mais divertidas, picantes, tristes, fizeram com que alguns se destacassem por saber o limite do trabalho, da arte e da ética de saber respeitar a privacidade dos personagens famosos.


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arcello Geppetti foi um deles e, segundo David Schonauer, (diretor-chefe da American Photo e ícone dos críticos de fotografia mundial): “Geppetti inventou uma nova forma de fotografar” (lembrando que na época as câmeras eram “one shot”, o talento consistia em saber imortalizar o momento). O “Archivio Geppetti” possui as capas da revista Life, fotos em jornais, como Daily Mirror e Le Monde, participações em muitos livros como “Paparazzi”, “Flash of Art” e “Legs”, além de fotografias dos Beatles, em Roma, e também de Pasolini, assim como numerosas exposições em Nova York, Londres, Paris, Lisboa, Roma, Monte Carlo, Saint-Tropez, entre outras. Aqui no Brasil, foi realizada em São Paulo uma exposição com o tema “Brigitte Bardot e La Dolce Vita, composta marjoritariamente por fotos inéditas da diva durante este maravilhoso período.

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Geppetti inVentou uMa noVa ForMa De FotoGraFar

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profissionais a cavalo


Copa Ouro São José Polo coloca o Brasil dentro do circuito internacional do esporte fotos Ricardo Godoy

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erca de 1.500 convidados compareceram à grande final da Copa Ouro São José Polo, o maior evento do gênero já realizado no Brasil, que aconteceu dia 15 de maio no Clube São José Polo, em Helvetia, na cidade de Indaiatuba, interior paulista. Criada com o desafio de divulgar e profissionalizar o esporte a cavalo no país, a Copa Ouro é o primeiro campeonato profissional a fazer parte do World Polo Tour (WPT), órgão internacional que concede rankings aos jogadores. A programação do dia começou às 11h, com um jogo feminino e outro infantil. Às 13h, entraram em campo as equipes Tigres Azul Linhas Aéreas e Prata Polo-Audi, que disputaram o terceiro lugar. Vitória do time Tigres, que marcou nove gols contra oito do Prata Polo-Audi. Já às 15h, aconteceu o ponto alto da competição, a grande final, com a disputa entre os dois times melhor classificados: Vila Real e São José Polo-Audi. O jogo de alto nível esportivo empolgou a torcida. Os VIPs aplaudiram a vitória do Vila Real, que bateu o São José Polo-Audi por 9 a 8. Após as competições, os convidados assistiram ao belo desfile da marca Ermenegildo Zegna, seguido de leilão de cinco capacetes estilizados por artistas argentinos, com a renda revertida a uma ONG da região de Indaiatuba.

O time São José Polo Audi - José Eduardo Matarazzo Kalil (com os filhos), Rodrigo Andrade, Willian Rodrigues e Agostin Palomero

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o final do dia, todos se reuniram em coquetel assinado por Marcelo Gussoni e pocket-show do Crossover, mix de música eletrônica e violino, comandado pelo instrumentista Amon-rá Lima, para uma grande confraternização. À frente do evento, o empresário e atleta José Eduardo Matarazzo Kalil só tinha motivos para comemorar. “A Copa Ouro São José Polo foi um evento de alto nível de jogadores, patrocinadores e convidados, inclusive com a presença de atletas argentinos”, disse Kalil. A organização do evento esteve a cargo de Daniela Zurita e sua empresa, a DZ, além do paisagismo e decoração que levaram a assinatura do arquiteto Marcelo Faisal. A Copa Ouro São José Polo contou com o patrocínio de Nestlé (Sollys), Audi, One Health, Lerosa Investimentos, além dos apoios de Zurita Carnes Nobres e Cachaça do Barão, de Ivan Zurita, Charutos Monte Pascoal, Chandon, Ermenegildo Zegna, Itaipava Premium, Artefacto Beach&Country, Mapfre Seguros, Chivas,, Happy Town, Francis Hydratta e TNT (energético).

‘‘a copa oUro foi UM EvEnTo DE alTo nívEl’’ José Eduardo Kalil

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1 Renata e

José Eduardo Matarazzo Kalil 2 Rico Mansur 3 As modelos Letícia Lamb, Rebeca Prado, Vanessa Adamatti e Jéssica Bronitzk 4 O time campeão Vila Real - Pedro Zacarias, Roberto Vila Real Filho, João Paulo Ganon e Leandro Rodrigues 5 Dani Freitas 6 O apresentador Beetto Saad 7 Maurren Maggi e Daniela Zurita

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Uma

vida de

aveNtUras

N

No início, era apenas por três anos, mas Giuseppe Lantermo di Montelupo já vive no Brasil há 35. Primeiro como diretor-executivo da Fiat, depois, de uma empresa de materiais plásticos, foi guia de navios na Amazônia e, atualmente, é Cônsul Geral de San Marino e Diretor do “Desk Torino” da Italcam. Nas palavras desse incrível personagem, eis a história da sua vida

Por Giuseppe Lantermo Fotos Christian Franz Tragni

a verdade, cheguei ao Brasil, em 1975, diria, por acaso, para ficar por um período de, no máximo, três anos. Um dia, em 1974, em Turim, meu santo protetor da época,

o senador Bosso, do PLI (Partido Liberal Italiano), presidente da União Industrial de Turim e meu “chefe” político, chamou-me para um encontro e disse que a Fiat estava desembarcando no Brasil, querendo levar com ela os fornecedores considerados importantes. Resumindo, queria que eu abrisse uma empresa no Brasil. Naquela ocasião, eu tinha acabado de perder tragicamente meu pai, e estava bem no meio de uma

crise familiar e profissional. Não tinha os meios e nem cabeça para pegar mulher, filho recém-nascido e ir para o Brasil! Estava com 37 anos. 137


tive iNFiNitas ocasiÕes para me destacar Arranjaram-me, rapidamente, uma parceira de altíssimo prestígio, a Solvay & Cia, a maior multinacional da Bélgi-

ca, que no Brasil era bastante forte como Plásticos Plavinil Eletro-cloro S.A, em Mauá, e outras menores. Naquele mo-

mento, encontrava-me “catapultado” para o outro lado do planeta com mulher, filho, mobília e dois pastores-alemães. Nas colinas de Turim, no “Rocciamelone” (Moncalieri), ficou somente o gato, Bingo-Bongo, convenientemente adotado pelo comprador de nossa casa. Fundaram, no Brasil, uma grande fábrica, a Plavigor S.A., em Varginha, Minas Gerais, com vários milhares de metros quadrados cobertos, uma verdadeira obra-prima. A linha de produção da fábrica recebia o tronco de um eucalipto (devido às características dessa madeira), quebrava-o em mínimas granulometrias, empastava-o com uma resina americana, da qual não me lembro exatamente o nome, e já estava pronto para a junção com o couro sintético da Plavinil/Solvay. Eram as laterais, o painel, além do para-sol do histórico Fiat 147. E os meus três anos se tornaram 11.

U

m pouco mais tarde, aceitei uma proposta de Franco Reviglio (Presidente da ENI) e comecei a trabalhar como administrador delegado do Grupo Tutela Filtros. O problema de ser 50% Fiat e 50% Agip com direção mutável de três em três anos significava, agora posso dizer, quase a imobilidade absoluta. Quando encerrei meu período na Agip (na Itália, Grupo ENI e no Brasil, Agip Liquigás), recebi a oferta para ficar, graças aos resultados obtidos como Fiat. Fiquei lisonjeado, mas achei que a oferta deveria ter sido registrada na ata e recusei. Não aguentava mais! Encerrei outros seis anos da minha vida: dois períodos na Tutela. Já ia me esquecendo, também fui diretor de várias empresas do Grupo, agora lembrei-me da Weber. Porém, eu precisava trabalhar e ganhar dinheiro. Tinha uma família para sustentar e, então, aceitei a oferta de uma empresa italiana, a OCRIM S.A., para trabalhar como vice-presidente e talvez tenha sido a fase mais bonita da minha vida, com longos

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períodos na Amazônia, entre Manaus e Belém. Tive infinitas ocasiões para me destacar, como quando em um momento que hoje diria de loucura: em um barco minúsculo, com três sondadores, fui guia de um navio de transporte de grãos canadenses que ia de Belém até Manaus. Era a primeira vez que um navio Entre suas daquela arqueação, com alguns milhares de aventuras, toneladas, percorria o rio. A Ocrim era o úniGiuseppe ficou com co moinho que produzia farinha em Manaus a arma de abastecendo cinco estados brasileiros, além Napoleão do Pará. Recebi uma homenagem solene da Bonaparte Prefeitura da cidade de Manaus! Quando voltei para São Paulo, a pedido da Câmara de Comércio de Turim, ou melhor, diria do presidente, meu amigo, Pichetto, companheiro de brincadeiras quando estávamos em Torre Pellice, sob as bombas dos americanos no final da guerra. Juntos, abrimos o “Desk Torino”, que hoje já conta com centenas de empresas assistidas e oito anos de vida! Ao mesmo tempo, fundei uma pequena trading, a Monte Bianco, que trouxe para o Brasil, entre outros produtos, a água San Pellegrino! E assim, após ter feito de tudo na Amazônia, ainda estou aqui na ativa em 2010! Em São Paulo, também começou a minha vida diplomática e consular, e essa história pode até parecer uma novela. Quando cheguei ao Brasil, conheci um arquiteto italiano de San Marino, já falecido há décadas, Patrizio, que era muito bem “relacionado” na sociedade local também por causa de seu parentesco com a família real de Baviera. Patrizio, a cada festa de San Marino, realizada em três de setembro, recebia para um almoço o grupo dos famosos paulistas “quatrocentões” em um grande e famoso restaurante italiano da Alameda Santos. Uma longa mesa comandada por Patrizio com uma bandeirinha de San Marino à sua direita e, sempre à direita, o primeiro lugar era ocupado por mim, porque os “Lantermos” tinham uma simples nobreza italiana sem título. Éramos uma família de militares, muitos militares e depois,


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essa história pode até parecer Uma Novela graças a um apoio, muito importante na época, nosso e da Entidade da República de San Marino, no final dos anos 30, a República nos concedeu o título de “Viscondes da Torre de Montelupo’’. E esse é o motivo de minha presença à mesa! Depois que descobri que, já em 1828, um embaixador do Brasil imperial tinha ido a San Marino, em nome do Imperador, para iniciar uma relação diplomática, decidi tentar reabrir essa antiga relação com o Brasil. A viagem do embaixador brasileiro para Paris durou 30 dias, com tempestade de neve nos Alpes e a morte de um dos quatro cavalos, antes que a carroça chegasse a San Marino. Por isso, os “sãomarinenses”, graças à chegada do embaixador, concederam o título de Nobreza de San Marino à Família Imperial, em primeiro lugar, “secula seculorum”, do Livro de Ouro, e o Patriciado ao Embaixador e ao Bispo que o acompanhava.

E

assim, após ter conseguido o apoio do Secretário do Estado (ministro) de San Marino para as Relações Exteriores, exmo. B. Reffi, um grande senhor, estudioso da história de seu país, iniciei os contatos com o Brasil que, brevemente, concretizaram-se com a abertura de um Consulado Geral Honorário, no já distante 1986, que se transformou, a pedido do Brasil, para meu grande orgulho, em Consulado Geral de Carreira, em 2002. Hoje, a pequena, mas antiquíssima San Marino, foi eleita, em voto secreto, pela segunda vez, para a Presidência da Sociedade Consular de São Paulo, forte em cerca de 90 Consulados. Do período consular até hoje, poderia lembrar de infinitos acontecimentos, turísticos ou filatélicos. Como a visita dos “Sbandieratori’’ com um espetáculo na Avenida Paulista, ao meio-dia de um sábado, ou a Exposição Filatélica, em Brasília, os selos emitidos (e já vencidos) pelos aniversários do Rio de Janeiro, e depois para os 400 anos de São Paulo, as importações de vinho, as exportações de alumínio do Brasil. Mas, principalmente, tenho muito orgulho das adoções de crianças carentes brasileiras para famílias de San Marino, onde vivem felizes, se me lembro bem... quase uma dezena!” 140


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Calendário

FoTo: CosTAnTino RusPoli

pirelli

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notempo da sensualidade com as tops mais desejadas do planeta estampadas em suas páginas e fotografadas pelos melhores profissionais, o calendário se tornou sinônimo de luxo e inovação Por silvana Tavano | Fotos divulgação


Ana Beatriz Barros, clicada por Terry para o Calendรกrio Pirelli

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FoTo: TeRRy RiCHARdson

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om lugar cativo no universo dos ícones-trash, os calendários de borracharia sempre estamparam mulheres nuas em poses pra lá de provocantes – imagens que sugerem tudo, menos a ideia de sofisticação, certo? Nem tanto. No que poderia ser definido como um pulo do gato, ou melhor, das gatas, a Pirelli transformou graxa em graça e reinventou a folhinha-fetiche do imaginário masculino – a partir de um novo olhar, o que era decadente e vulgar ganhou status de sensual e glamouroso, com fotos assinadas por fotógrafos estrelados clicando as mulheres mais desejadas do planeta. Ao longo de quatro décadas, a companhia aprimorou uma de suas mais bem-sucedidas peças de marketing, o cobiçado “The Cal”, tradicionalmente distribuído apenas para um seleto grupo

FoTo: CosTAnTino RusPoli

o Calendário é um Catálogo das maiores tops

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de clientes e colecionadores. Como Objeto de desejo cultuado, ganhou espaço nobre nas paredes das agências de publicidade, nos ambientes ligados à moda e até em museus como o MASP, em São Paulo – não é para menos que antigos exemplares frequentemente são disputados por preços surpreendentes em sites da internet. Referência no mundo das artes e da fotografia, o calendário Pirelli hoje é a mais perfeita tradução do conceito de sofisticação, o que antes parecia tão improvável, agregando atributos que toda marca almeja: nada menos do que luxo, beleza, modernidade e inovação. A ótima ideia nasceu na filial inglesa, em 1963, e já no ano seguinte ganhou a adesão geral, sendo imediatamente oficializada como peça promocional da empresa. Na primeira edição global, produzida em Maiorca, Espanha, modelos lindas e nem sempre famosas já revelavam toda a senAcima, Rosie sualidade que era permitida nos anos Huntingotn60 ao fotógrafo Robert Freeman, autor Whiteley no de algumas das imagens mais famosas calendário de dos Beatles. A partir daí, o calendário só 2010, ao lado, se aprimorou, envolvendo fotógrafos, todas as modelos a da 37 edição produtores, diretores de arte, modelos e


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FoTo: PeTeR BeARd

a 37ª edição foi orçada em dois milhões de dólares

atrizes em torno de temas e locações que mudavam a cada ano. Mais do que marcar a passagem do tempo, as trinta e sete edições dessa clássica folhinha registram as mudanças de comportamento da sociedade, as tendências de moda de cada época e a própria evolução da tecnologia e da linguagem fotográficas, compondo um painel histórico interrompido apenas durante a crise do petróleo, de 1975 até 1983, período em que a empresa suspendeu a produção do calendário.

A

retomada, em 1984, acontece em grande estilo, impulsionada pelo surgimento das primeiras supermodelos, com seus corpos magérrimos e cachês cada vez mais “gordos”: Iman, que mais tarde se casaria com o roqueiro David Bowie, marca o início dessa era, posando para Norman Parkinson, na Escócia, em 1985; no ano seguinte, é a vez da então adolescente Naomi Campbell brilhar, fotografada por Bert Stern, em Coswolds, na Inglaterra. Sincronizadas no ritmo dos tempos, as páginas do calendário se transformaram num catálogo das maiores tops de cada fase: de Cindy Crawford, Kate Moss e Christy Turlington, nos anos 90, até as divas do século 21, como Heidi Mount, Agyness Deyn e Lara Stone, a atual número 1 do planeta-fashion, para citar apenas algumas. Como não poderia deixar de ser, esse elenco contou inúmeras vezes com as nossas supermodelos: basta conferir o time formado por Gisele Bündchen, Mariana Weickert, Fernanda Tavares e Ana Claudia Michels “incendiando” Nápoles, em 2001, sob o comando do peruano Mario Testino; ou se deliciar com o erotismo da dupla Isabeli Fontana e Ales146

sandra Ambrosio envolvendo o modelo Marcelo Boldrini nas fantasias propostas por Bruce Weber, no sul da Itália, em 2003; ou, ainda, desfrutar de todo o sex-appeal de Adriana Lima nas areias cariocas, no calendário dirigido por Patrick Demarchelier, em 2005. Presença constante no casting da Pirelli, a beleza da mulher brasileira foi novamente capturada por Patrick Demarchelier em 2008, com a deslumbrante Carol Trentini bem à vontade em Shangai, na China. E ganhou um toque selvagem em Botsuana, na África, no enredo imaginado por Peter Beard e protagonizado pelas feras Emanuela de Paula e, de novo, Isabeli Fontana, em 2009.

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a história do calendário, a mulher esteve atrás das câmeras apenas três vezes, com Sarah Moon fotografando em Paris (1972), Joyce Tenneson, em Nova York (1989), e a famosa retratista da revista “Rolling Stone”, a americana Annie Leibovitz (2000), registrando o nu feminino pela primeira vez em sua carreira. Em compensação, os homens só estiveram na frente das lentes como personagens principais uma única vez, em 1998, no calendário pop de Bruce Weber, estrelado pelo ator Ewan McGregor e os músicos B. B. King e Bono Vox, entre outros nomes conhecidos. O ano de 2007 também cabe no rótulo “fora de série”, com a edição cinematográfica realizada pela dupla de holandeses Inez van Lamsweerde e Winoodh Matadin, colocando Sophia Loren, Penélope Cruz, Hilary Swank e Naomi Watts no centro da cena, e sem censura. Antológicos também foram os trabalhos artísticos que tingiram as imagens do calendário com todas as nuances de preto e branco: Arthur Elgort, em 1990, com fotos inspiradas nos Jogos Olímpicos, e o lendário Richard Avedon, em 1995, com cenas pautadas pelas quatro estações do ano.

Das garotas De Ipanema à magIa De trancoso

Pano de fundo fundamental, as paisagens sempre têm a delicada missão de ajudar a compor o ideal Famosa foto de beleza em cada tema – ora envolvido da top Gisele pelo mistério da Tunísia, ora mergulhado Bündchen, feita no astral paradisíaco das Ilhas Seychelles, para o calendário


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o calendário Pirelli já rodou pelos quatro cantos do mundo, e estacionou duas vezes no Brasil. A primeira aconteceu em 2005, com Patrick Demarchelier desnudando beldades nativas como Adriana Lima, Liliane Ferrarezi, Valéria Bohn e Diane Doondee, além de sereias de outros mares, como Naomi Campbell e Valentina Zaelianova, nas areias escaldantes de Ipanema.

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este ano, o destino escolhido foi Trancoso, na Bahia, ambiente inspirador para as trinta imagens escandalosamente eróticas criadas pelo fotógrafo americano Terry Richardson com suas onze eleitas: Catherine McNeil, Abbey Lee Kershaw e Miranda Kerr, da Austrália; Eniko Mihalik, da Hungria; Marloes Horst, da Holanda; Lily Cole, Daisy Lowe, e Rosie Huntington, da Grã Bretanha; Georgina Stojilijtoric, da Sérvia e, claro, duas brasileiras: Gracie Carvalho e Ana Beatriz Barros. Nenhuma nudez foi castigada no que está sendo considerado o mais sexy dos calendários Pirelli: “Já fui chamado de pornô chique e também de rei do trash. Mas considero que minhas fotos estão no limite da obscenidade e da arte”, disse Richardson no lançamento desta 37ª edição, uma produção orçada em nada menos do que dois milhões de dólares. Em uma homenagem às próprias origens do Calendário, o fotógrafo mergulhou no lado mais ardente da feminilidade, estimulando suas modelos a se revelarem totalmente sob o sol dourado da Bahia. Os registros do backstage, a cargo do fotógrafo Constantino Ruspoli, da revista “Vanity Fair”, capturam o clima envolvente dos bastidores: garotas de topless jogando vôlei na praia, e praticamente nuas em vários momentos – entrando no mar no final de uma sessão de fotos, devorando bananas colhidas do cacho, andando pelo mangue, refrescando-se com o jato d’água ou curtindo uma noite de luau turbinada com caipirinhas. Famoso pelo sex-appeal que imprimiu à imagem de grifes como Tom Ford e Diesel, o fotógrafo encontrou em Trancoso a miragem perfeita para inflamar a imaginação de suas modelos, compartilhando desse espírito nas fotos que privilegiam a naturalidade mais do que a técnica. Como o tempo não para, o calendário 2011 já está em plena produção. Desta vez, os cliques e também a direção de arte estão nas mãos do fotógrafo e estilista alemão Karl Lagerfeld, um dos mais respeitados nomes do mundo da moda, hoje à frente da poderosa grife Chanel. O segredo faz parte do negócio, mas já se sabe que o cenário de luxo da próxima folhinha está sendo criado no seu próprio estúdio, em Paris, e que ele pretende escalar “all the top A metáfora girls” – três delas já foram fotografadas: a da “estrela do atriz Julianne Moore, a übbermodel Lara mar”fic ou Stone e a brasileiríssima Isabeli Fontana. mundialmente O futuro promete. famosa


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agitadOs pOr natureza Ele, apresentador de um programa televisivo, dono de uma sorveteria premiada. Ela, dona de uma empresa de eventos em constante crescimento. O casal não cansa nunca e ainda arruma tempo para a família

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casal Edu Guedes e Daniela Zurita é agitado por natureza. Edu, um dos apresentadores do programa “Hoje em Dia”, na Rede Record, no qual ensina diariamente uma receita diferente, também é dono da sorveteria Stuppendo, no bairro de Moema, em São Paulo. Fundada em 1996, a sorveteria utiliza maquinário de produção e matéria-prima de origem italiana (da centenária empresa Fabbri), frutas frescas e açúcar orgânico em suas receitas. Nas palavras de Edu, que estudou gastronomia em Bolonha, na Itália, a sorveteria é “um lugar simples, mas com charme mediterrâneo, com ares de sorveteria italiana”. As frutas utilizadas na produção dos sorvetes são cultivadas pela própria da empresa. Os produtos são feitos somente com frutas frescas e grande parte vem do sítio da família em Campinas, no interior de São Paulo. O cultivo é feito sem nenhum tipo de agrotóxico e utilizam-se as melhores frutas, principalmente as da época. Edu procura fabricar um produto com menos açúcar e menos gordura do que o italiano. No Brasil, o clima é diferente e isto também influencia bastante no paladar. As pastas são importadas da Itália. A maioria dos sorvetes é de frutas à base de água, e há também os à base de iogurte e leite. Entre os prêmios con151


quistados pela sorveteria, destacam-se o de melhor sorvete da revista “Veja São Paulo” em 1998, 1999 e 2000, e também o italiano “Spatula D’Argento”, na cidade de Rimini, em1997. Sua avó materna, italiana de Cittadella, na região do Vêneto, foi quem mais influenciou Edu no gosto pela culinária. A ligação com a Itália é forte também no automobilismo: Edu competiu com um Maserati na Itaipava Trofeo Maserati, na qual ficou em 5º lugar na classificação geral em 2009. Daniela é dona da empresa de eventos DZ, em que realiza projetos personalizados como o elegante campeonato de polo São José Copa Ouro Brasil, o Athina Onassis Horse Show, e os badalados leilões da Agropecuária Zurita, de seu pai Ivan, presidente da Nestlé. Daniela vai realizar Acima, Dany em evento de sua empresa, carinho com os clientes. Abaixo, Edu e sua paixão por automobilismo

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em setembro o Millesime São Paulo, exclusivo evento de origem espanhola que chega com exclusividade ao Brasil. Nele se degustarão os mais sofisticados produtos da alta gastronomia, preparados por chefs como Alex Atala e José Barattino. A presidente do evento é a empresária Lucília Diniz. O evento promete agitar ainda mais a gastronomia paulistana.

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any, como é conhecida, abriu sua empresa há menos de dois anos, quando tinha acabado de dar à luz. Dinâmica, de lá para cá conquistou mais de 20 clientes, e teve 100% de efetivação nas concorrências. Ela atende com carinho seus clientes, e está presente em todos os momentos, desde a primeira reunião até a celebração final de um evento. E ainda por cima ela ainda encontra tempo para estar com a filha e o marido!


Dica de Itália em São Paulo

UM PEQUENO SEGREDO GASTRONÔMICO

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Fotos Rafael Evangelista

ma dica para quem está na região de Higienópolis e região e quer uma refeição rápida e de qualidade é o Giardino Gastronomico. Dos mesmos donos do Jardim de Napoli (Toninho Buonerba e famiglia), o lugar é um pequeno empório que vende vinhos, frios, massas, antipasti, tortas, azeites, chocolates e produtos italianos em geral. Dentro dele, e nas calçadas, mesinhas onde os clientes podem degustar pequenas maravilhas, tudo no meio dos produtos, lembrando as delis de Nova York. Pode-se fazer um lanche rápido, com carpaccios e sanduíches diferenciados preparados na hora, como o de carne louca, já tradicional. Tudo com a qualidade do Jardim de Napoli, que fica em frente, na mesma rua. Além disso, o cliente pode levar para casa o famoso polpettone. Impossível sair de lá sem uma sacolinha (ou duas...). Rua Martinico Prado, 436. Tel. (11) 3666-0343 153


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CORRENDO PELA

ITÁLIA

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Entre corridas e almoços com pessoas queridas, Mara Gabrilli encontra na Itália um personagem e amigo que a cativou por Mara Gabrilli*

inha vida na Itália foi um constante exercício de superação. Tudo começou quando embarquei em um navio com destino à Europa. Além de relaxar e buscar novas experiências de vida, foi também uma viagem de reconciliação com meus pais e a tentativa de esquecer alguns problemas que tive em meu último namoro. O previsto era que minha estadia em Firenze durasse uns dois dias, mas eu resolvi estendê-la por mais duas semanas, já que um primo que morava na cidade estava para voltar de Portugal. Meus pais seguiram viagem, e eu fui atrás das belezas e segredos daquele “novo” mundo. Tudo era perfeito, especialmente o contraste do céu azul royal entre os prédios e construções an-

tigas iluminadas de um amarelo forte, luz emitida pelos postes municipais. Eu ficava admirada em observar o cuidado com que os moradores preservavam a história local. Cada prédio e cada rua pareciam carregar consigo a eternidade: discretas testemunhas e cúmplices do dia-a-dia. E a comunicação? Quando eu cheguei ao país, não falava absolutamente nada de italiano. Mas nem por isso me senti estranha naquele meio. Mais bonito do que ouvir a entonação daquelas palavras antigas que compunham a raiz da minha própria língua, era acompanhar seus gestos e calor. Eu queria e precisava me misturar, fazer parte daquele estranho e, ao mesmo tempo, familiar jeito italiano de viver. O próximo passo foi matricular-me em cursos de idioma e história da arte: estava pronta para ali fixar minha residência. Sustentava-me com três empregos: pela manhã, cuidava de um casal de crianças e os levava até a escola. Depois, tomava conta de Luigi, um senhor de 90 anos que morava em um antigo edifício sem 155


elevador na Piazza della Signoria. À noite, fazia limpeza em uma grande editora, chamada Nardine. Volta e meia, ainda encarava alguns empregos temporários, mas foi Luigi quem ocupou um lugar totalmente exclusivo em meu coração. Quando fui contratada por sua filha, minha tarefa era, simplesmente, fazer-lhe companhia. Luigi, no entanto, era um senhor que conseguia se virar com autonomia, e todas as vezes em que eu tentava ajudá-lo em alguma tarefa ou na arrumação da casa, as minhas boas intenções eram logo soterradas por reclamações e mau humor. Se eu limpava o vaso de suas plantas, ele me xingava. Se eu arrumava sua cozinha, ele gritava. A vez em que eu resolvi encerar o chão e ele quase caiu, então... nem se fala. Quase me imaginei sendo jogada pela janela. Mas um dia, consegui irritá-lo da maneira correta! Para treinar meu italiano, comecei a ler as notícias que estampavam o jornal daquela manhã, em voz alta. Os meus erros gramaticais e meu sotaque sofrível parecem ter sido suficientes para despertar-lhe algo novo. Podíamos nos ajudar mutuamente.

CADA RuA PARECIA CARREgAR A ETERNIDADE

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ssim, estabelecemos um diálogo “lido e repetido” entre nós. Aos poucos, minha pronúncia e sua personalidade foram melhorando. Quem diria que aquele senhor ranzinza e solitário me incentivaria a organizar almoços com os meus amigos! Toda essa experiência provou-me que, independente da idade que temos, nosso espírito é dotado de um estado que lhe permite viver em eterna transformação e superação no convívio com os outros e consigo mesmo. Também foi na Itália que me tornei atleta profissional – sim, porque qualquer pessoa que consiga completar um percurso de 101 km ganha o direito de, pelo menos, sentir-se uma corredora profissional. Na realidade, o hábito da corrida foi adquirido como forma de controlar o frio que eu sentia. Lembro que eu pulava o dia inteiro, tanto que até aprendi a sambar na Itália. Antes de participar dos 101 km del Passatore, eu já estava condicionada a correr maratonas. Havia, inclusive, completado os 42 Km da Firenze Marathon, partindo da Piazzale Michelan156

gelo até a Piazza Santa Croce, em 4 horas e 40 minutos. Porém, quando me inscrevi na del Passatore, o objetivo inicial era, unicamente, estar perto dos meus amigos na hora da largada. Tanto que nesse dia eu vestia uma minissaia e um tênis que nem eram dos mais indicados para uma prova desse nível. Lembro que a cada 15 Km havia mesas cheias de comida, em que eram oferecidos desde aperitivos e frutas até macarrão e vinho para os participantes se hidratarem e continuarem o percurso.

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a primeira parada, pensei em continuar até a próxima. Na próxima, fiz a mesma coisa. E assim, a noite foi escurecendo cada vez mais o meu caminho, durante o qual eu só pensava em viver o momento. Se naquele minuto eu aguentava um pouco mais, então eu seguia em frente. E assim, fui da Piazza della Signoria, próximo de onde Luigi morava, até a Piazza del Popolo, em Faenza, dentro do tempo máximo: 20 horas. De um total de aproximadamente cinco mil pessoas, 500 terminaram o trajeto. Eu fiz parte do grupo de 13 mulheres que completaram a prova. Muito mais do que velocidade, a prova testou minha resistência e paciência em acreditar que um percurso tão longo pudesse ser feito por mim e pelos meus joelhos que, a essa hora, já me matavam. A volta? Feita de ônibus até a Piazza del Duomo, número 6, esquina com a Via Dei Servi, onde ficava minha casa – um lugar privilegiado em que eu acordava e dormia tendo como vista a imensa catedral. Voltei para o Brasil a fim de buscar alguns documentos para fixar residência em Firenze e começar a faculdade de psicologia, incentivada, principalmente, pelo exemplo de superação que vislumbrei em Luigi. No entanto, chegando aqui, comecei a namorar um outro rapaz... O cuidado de Luigi ficou a cargo de Rafael, que permaneceu ao seu lado por aproximadamente um mês, até que Luigi faleceu. *Mara Gabrilli, 42, tetraplégica, psicóloga e publicitária, é vereadora da cidade de São Paulo. Fundadora da ONG Projeto Próximo Passo, hoje Instituto Mara Gabrilli, foi Secretária Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida da Prefeitura de 2005 a 2007. www.maragabrilli.com.br


FRANCISCO SCARPA,

100 ANOS DE AMOR E EMOÇÃO

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Fotos: Patsy Scarpa Nikolaeff

rancisco Scarpa comemorou em maio desse ano seus cem anos de idade, bem vividos, como patriarca de uma das famílias ítalo-brasileiras mais importantes do cenário nacional. Recebeu junto com a mulher Patsy (num belíssimo “Oscar de La Renta”), em sua casa do Jardim Europa, seus convidados “comme il faut”; os homens elegantes de black tie e as mulheres nos seus habillés curtos, dando à festa um brilho adicional. A decoração ficou a cargo do amigo Jorge Elias, e o magnífico buffet, da amiga Mazzô França Pinto, no qual foram degustados, entre outras delícias, uma mousse de aspargos com cavaquinha e azeite trufado. O som foi feito pelo também amigo Clemente Napolitano, DJ dos mais conceituados e de extremo bom gosto. Para a hora do parabéns, mais amigos fizeram questão de participar; a mesa de doces, por Ana Maria Velloso, e o bolo pelas mãos de Maria Beatriz Andrade, e as exóticas flores de açúcar, por Isabella Suplicy, sem contar as lindas velas aromáticas da Eos, por Mariangela Bordon, que foram os gifts para os convidados dessa noite inesquecível. Para deleite dos convidados, Francisco Scarpa ainda declamou uma poesia, a “Cisma do Caboclo”, de Ricardo Gonçalves ( 1883-1916 ), com sua incrível memória por ser um homem atual, que lida com a internet, sua hidroginástica, seus jogos de tranca com os amigos, que o ajudam a ser essa pessoa cheia de vitalidade e emoção. 157


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2

3 1 Felipe Malamud, Felipe,

Eduardo, Fernando Scarpa Juliaフバ e Patsy Scarpa Nikolaeff 2 Dorothea e Ademar Albuquerque com Vera Andrauss 3 Carlinhos Salem e Anca 4 Candice e Marco Antonio Fanucchi 5 Carlos Ortali, Malu e Baby

6 Chico e Chiquinho 7 Ana Maria e Paulo Velloso

5

com Chico Scarpa

7 158

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6


2

1 1 Família 2 Bia Guillon, Marcos Arbaitman

3

5

7

e Bruno Gagliani 3 Paulo Velloso, Conny Lowndes e Helena Mottin 4 Malu Ortali e Gisela Rudge 5 Patricia Pinto Thomaz e Macos com Noreen e Bruno Gagliani 6 Alberto Bertolazzi, Laurita e Wander Weege 7 Thaís e Octavio Botelho do Amaral 8 Vera Leme dos Santos, Renata Scarpa, Rosimari Scarpa e Nádia Locanto 9 Jorge Elias

4

6 9

8 159


EntrE

poEtas

E cidadEs

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Uma deliciosa viagem por Roma, sua arte, sorvetes e poetas

n

Texto e foto Guilherme Malzoni

um dos mais famosos versos da poesia latina, dizia Horácio que caelum non animum mutant qui trans mare currunt. “Mudam de ares, mas não de ânimo, os que cruzam os mares”. Amante dos prazeres da vida como era, só pode existir uma razão para ter dito uma coisa como essa: ele vivia na Itália. Para nós que estamos longe, só nos resta arrumar as malas e cruzar estes mares com a certeza de que muito, muito em nós pode mudar nessa viagem. Assim eu fui e, como não poderia deixar de ser, comecei por Roma. Era véspera de Natal, e meu melhor presente foi apenas chegar à cidade. Porque em Roma não é preciso fazer mais nada, basta estar ali, andando pela rua, cruzando a cada esquina com uma escultura, uma fonte ou uma igreja que, antes de descobrirmos o nome, já disseram tudo de si com sua presença. Só uma obrigação me é imposta quando estou por lá: faça chuva ou faça sol, todos os dias é preciso tomar um sorvete. Os romanos todos com quem conversei me sugeriram um migliore gelato di Roma. Não sou romano, mas também tenho o meu: fica ali atrás do Pantheon, na Giolitti – recomendo sobretudo a combinação de cioccolato, zabaione ed un po’ di panna. Essa hospitalidade do lugar é conhecida. No seu L’antichità di Roma, Andrea Palladio já comentava que:

As Igrejas Gêmeas, ponto turístico da cidade de Roma

Fu consuetudine delli antichi Romani invitar i forastieri amichevolmente per le lor case, accioche sicuramente havessero a vedere celebrare le feste, & cosi andassero contemplando la Citta... Pude comprovar a afirmação do arquiteto como forasteiro convidado nos velhos palácios, com a multidão na Piazza San Pietro que me deixou de fora da Missa do Galo e, certamente, 161


com a vida na capital da república italiana. Aliás, em termos de república a coisa não estava muito bem, mas não entremos em detalhes porque essa história já é velha: a Divina Commedia já tem quase 700 anos...

Ahi serva Italia, di dolore ostello, nave sanza nocchiere in gran tempesta, non donna di provincie, ma bordello! E, por falar em Dante, a próxima parada seria visitar sua estátua na Piazza dei Signori, em Verona. Mas, nel mezzo del cammin, recomendo uma parada em Pádua. Não é preciso muito tempo na cidade e desta vez deixei a basílica de Santo Antonio de lado para aproveitar com calma uma das maiores obras de arte de todos os tempos e lugares: a Cappella degli Scrovegni. Os afrescos de Giotto colocaram a arte ocidental em outro patamar, e hoje podemos admirá-los totalmente restaurados. Mas atenção, só entra com hora marcada e a organização de todo complexo faz esquecer que estamos na Itália. Vistos os afrescos com a vida de Maria, se tudo correr bem dá

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tempo de chegar a Verona antes da Befana. Nesse ano, a festa teve até desfile de carros antigos, e quase não consigui chegar a tempo na basílica di San Zeno, um dos melhores exemplos de arquitetura românica da Itália, além do belíssimo altar de Andrea Mantegna.

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e Roma é uma cidade onde tudo parece extrapolar as expectativas, Verona é um lugar que parece ter sido feito sob medida. Nunca tinha ido para lá, mas de alguma maneira me senti em casa logo ao sair da estação de trem. Aproveitei a cidade e a neve que caia à noite na Piazza delle Erbe com um ótimo Amarone della Vapolicella. Só confesso que não dei muita bola para a casa da Julieta, pelo fato de Shakespeare ter escolhido essa cidade para ambientar a tragédia do casal mais famoso da literatura. Afinal, Ao lado, interessam aqui os poetas italianos! Cidade E foi de Eugenio Montale que me lembrei ao de Verona ao cair seguir viagem. Escrevendo para o Corriere della da noite. Sera, em 1951, por ocasião da première da ópera Abaixo, The Rake’s Progress, de Igor Stravinski, ele imagium FIAT nava Veneza como una città del silenzio ben or1400


ganizzata contro ogni forma di organizzazione mondana. Um sonho para todos que como eu vão para lá nos dias mais frios do inverno procurando escapar das enchentes de turistas. Encontrei a cidade realmente vazia de gente, mas completamente encharcada de água. Foi uma pena não se perder pelas ruelas desertas, mas foi também uma boa ocasião para lembrar que estava ali como turista. Ou seja, não tinha a cidade ao meu dispor. Na crônica do Corriere, Montale contava seu primeiro encontro com o poeta W. H. Auden. Dois dos maiores poetas do século 20 encontraram-se num restaurante local – será que eles comeram spaghetti al nero di seppia? – e, ao sair, o italiano escreveu sobre o colega inglês:

“Lo lascio pieno d’invidia. Mi mancherà sempre la gioia di vivere da straniero in Italia. E Dio sa se non ho provato a farlo; ma quando ci si è nati il giuoco non riesce!” De cabeça cheia e estômago vazio fui para o último destino da viagem, um vilarejo nas montanhas turinenses. Sentado num restaurante em Champlas, com um ravioli di cervo à minha frente, compreendi um pouco mais do que era a Itália. Com toda a teatralidade, com todo gosto pelo histriônico, aquele ravioli me

mostrou que ali existe a alma de um povo apegado a sua terra. Aquela montanha realmente tinha alguma coisa de mágico! Claudio Magris, mais um escritor que arrumou as malas e partiu para seu L’infinito viaggiare: nesse belo livro, que li durante a jornada, encontrei uma das mais precisas meditações sobre nós, viajantes por inteiro:

Utopia e disincanto. Molte cose cadono, quando si viaggia; certezze, valori, sentimenti, aspettative che si perdono per strada – la strada è una dura, ma anche buona maestra. Altre cose, altri valori e sentimenti si trovano, s’incontrano, si raccattano per via. Come viaggiare, pure scrivere significa smontare, riassestare, ricombinare; si viaggia nella realtà come in un teatro di prosa, spostando le quinte, aprendo nuovi passaggi, perdendosi in vicoli ciechi e bloccandosi davanti a false porte disegnate sul muro. Guilherme Malzoni Rabello, engenheiro naval, é presiden te do IFE e editor da revista Dicta&Contradicta (http://www.dicta.com.br) 163


Ópera La Bohème: uma das inspirações para receitas do livro do Mourad

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O cOzinheirO líricO

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ão sei bem quando uma ópera começa. Não sei se é quando o maestro levanta a batuta em preparação para a abertura, ou se é antes disso, quando o spala prepara a orquestra, ou se realmente começa quando ainda estamos saindo de casa, nos preparando para o que vamos assistir. O que posso garantir é que a ópera, na realidade, nunca acaba. Deixe-me explicar. Mesmo quando a cortina cai e os solistas são ovacionados, o espe-

Um projeto feito por um Líbano-ítalo-brasileiro, dá nova vida à ópera, mesclando fotografia e gastronomia. Por Tiago Marchese

táculo, que teve o seu fim dentro daquela casa de ópera, continuará ressoando dentro de nós. A ópera ganha um novo sopro de vida com o projeto Cozinha da Ópera, de Tarek Mourad. Trata-se de um livro que une três paixões do autor: a cozinha, a ópera e a fotografia de alimentos. Desde a infância, coisa peculiar de se ver, o autor tinha ouvidos para a ópera. Parte disso foi influência de sua tia-avó, que encantou o Brasil e o mundo no papel de Violetta Valery, de La Traviata. Outra influência foi seu tio-bisavô, Joanin, que trabalhou na mais bela obra de Ramos de Azevedo, o Teatro

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receitas sãO baseadas nas histórias das óperas Municipal de São Paulo. “O Teatro Municipal é meu. Esse é o meu sentimento. Sinto orgulho dele!” afirma o autor.

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astronomia também passou a fazer parte da vida de Tarek muito cedo. “Uma das primeiras memórias que tenho da minha infância, foi quando desci, junto com minha babá, a uma das cozinhas do Hotel de Crillon para preparar minha mamadeira. Eu era muito pequeno, tinha apenas 3 anos, mas me lembro com detalhes dignos de um texto de Machado de Assis.” Mourad conta que, graças a seus pais, desde criança teve acesso à gastronomia de qualidade. Ainda criança, dormia sentado nos bares dos grandes restaurantes, enquanto a família esperava por uma mesa. “Sentia vergonha quando caía no sono diante de estranhos. Mas a recompensa valia a vergonha”, brinca Tarek. Fotografia também passou a fazer parte da sua vida relativamente cedo. Aos quatorze anos de idade, Mourad já tinha um laboratório de revelação ocupando grande parte de seu banheiro e atuava como foto-jornalista expondo seus trabalhos em jornais de bairro e de comunidade. “Quando eu era pautado e chegava ao evento para a cobertura, ninguém levava a sério aquela criança gorducha com a câmera na mão”, diz o autor. Depois de estudar design, Tarek passou a se dedicar a fotografia exclusivamente de alimentos. No estúdio, preparava junto com produtores os alimentos a serem fotografados com uma filosofia: para se fotografar bem comida,

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tem que antes entender o alimento. E assim passou a estudar como autodidata, na prática e na teoria, a cozinha. Tarek conta que sempre que assistia à uma ópera, comilão como é, imaginava o que estariam comendo naquela determinada cena. “Qual seria o banquete que Don Giovanni prepara para o Commendatore? O que os Bohemios estariam comendo na ceia de natal no café Momus?” Foi daí que Tarek tirou a ideia de recriar receitas baseadas nas histórias das óperas. Escolher as óperas para o livro foi um trabalho duro para o autor. Tarek, que tem um apego especial pela ópera italiana, não poderia deixar de fora algumas óperas brasileiras, francesas e alemãs. “Na hora de escolher, sofri de verdade. Não poderia inviabilizar este projeto pelo tamanho final do livro e, assim, tive que fazer a difícil tarefa de cortar algumas peças.” Assim, o livro conta com óperas de Puccini, Verdi, Offenbach, Bizet, Leoncavallo, Gomes, Bellini e Rossini.

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as, para este projeto, Tarek, como Puccini nas suas composições, quis ser verista. Passou a estudar a história da gastronomia no momento histórico-geográfico de cada ópera se passa. “Eu não poderia sugerir uma receita com massa folhada para uma Madamma Buterfly, ou mesmo um leitão para a ópera Nabucco”, conta Mourad. Esse trabalho foi a parte mais difícil do projeto. De início, o autor não teve acesso a informações suficientes sobre a cozinha do Brasil colonial para sustentar algumas receitas para as óperas Lo Schiavo e Il Guarani de Carlos Gomes. Felizmente, com a ajuda de alguns historiadores, foi apresentado a alguns relatos que incluíam hábitos gastronômicos da época e, assim, conseguiu incluir as duas óperas de


Carlos Gomes, que é um de seus prediletos. Muitas receitas apresentadas no livro são receitas clássicas da cozinha de cada região onde a ópera se passa, como no caso de La Boheme e La Traviatta. Mesmo assim, Tarek deu a sua interpretação da receita. “O maestro, como diretor musical, dá a sua interpretação da partitura. Fiz o mesmo com as receitas clássicas que usei.” Para uma ópera épica, como Aida, Tarek criou receitas que respeitavam os ingredientes e técnicas usadas nas épocas faraônicas. Para óperas como Contos de Hoffmann, Mourad criou as receitas que expressassem a visão surrealista do compositor.

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autor usou de seus estudos em design para criar algumas telas que também ilustram o livro. Numa exposição quase audaciosa, Mourad sugere alguns cenários para as óperas que ele escolheu para o seu livro. “Quando se monta uma ópera e se desenha um cenário, temos que nos preocupar com a capacidade técnica da casa de ópera e da cena em si: esquema de luz, ponto de fuga, elevadores cênicos, coxias, ponto para o coro... nas minhas telas, não precisei me preocupar com nada disso, pois, afinal, elas servem apenas como ilustrações e imagens que levam o leitor para dentro do palco.” Na mente do autor, ópera é uma forma musical que nunca vai morrer nem sair de moda. Isto pode ser comprovado com a demanda por novas produções e com casas lotadas. Com este livro, Mourad espera que os amantes da ópera decubram a gastronomia e viceversa. “Para quem já é apaixonado por ópera e gastronomia, só me resta dizer: bom apetite!”

Ao lado, cena da Ópera Tosca e acima o prato inspirado nela

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Guia de GaSTRONOMia

Apresentamos um guia especial da gastronomia italiana em São Paulo. Da alta gastronomia à cantina, passando por pizzarias, sorveterias, cafés, importadoras de vinhos e empórios, pode-se realmente viajar à Itália sem sair da cidade. 168


Alta Gastronomia FASANO

R. Vitório Fasano, 88 Jardins Tel.: 11 3062-4000 LA TAMBOUILLE

Av. Nove de Julho, 5.925 Itaim Bibi Tel.: 11 3079-6277

ARMANI CAFFÈ

R. Haddock Lobo, 1.568 Jardim Paulista Tel.: 11 3897-9093 e outros endereços BOCACCIO

R. Amélia Correia Fontes Guimarães, 37 Morumbi Tel.: 11 3726-2299 BUTTINA

LA VECCHIA CUCINA

R. Pedroso Alvarenga, 1.088 - Itaim Bibi Tel.: 11 3079-4042 POMODORI

R. Dr. Renato Paes de Barros, 534 - Itaim Bibi Tel.: 11 3168-3123 VECCHIO TORINO

R. Pedroso Alvarenga, 1.088 - Itaim Bibi Tel.: 11 3079-4042

Italianos AGUZZO CAFFÈ E CUCINA

R. Simão Álvares, 325 Pinheiros Tel.: 11 3083-7363 ALIMENTARI

R. Pedroso Alvarenga, 545 - Itaim Bibi Tel.: 11 3068-8667 ALUCCI ALUCCI

R. Vitório Fasano, 35 Jardim Paulista Tel.: 11 3062-6191 AMARONI

R. Clodomiro Amazonas, 77 Itaim Bibi 534 - Itaim Bibi Tel.: 11 3807-5433

R. João Moura, 976 Pinheiros Tel.: 11 3083-5991 COMPAGNIA MARINARA

Av. São Gualter, 777 Alto de Pinheiros Tel.: 11 3021-0055 COSÌ

Itaim Bibi Tel.: 11 3079-2299 EMILIANO

R. Oscar Freire, 384 Hotel Emiliano Jardim Paulista Tel.: 11 3069-4369 EMPÓRIO RAVIOLI

R. Fidêncio Ramos, 18 Vila Olímpia Tel.: 11 3846-2908 FARFALLA

R. Presidente Prudente, 117 - Jardim Paulista Tel.: 11 3085-8146 FORNERIA SAN PAOLO

Av. Chedid Jafet, 131 (Villa Daslu) Tel.: 11 3841-9680

R. Barão de Tatuí, 302 Santa Cecília Tel.: 11 3826-5088

FRICCÒ

DELL’ARTE RISTORANTE

GATTORIA BISTRÔ

Av. dos Jamaris, 100 Moema Tel.: 11 5054-0046 DOLCE VILLA

R. Pedroso Alvarenga, 554 Itaim Bibi Tel.: 11 3167-0007 DON CARLINI

R. Dona Ana Neri, 265 Mooca Tel.: 11 3208-2024 e outros endereços DUE CUOCHI CUCINA

R. Manuel Guedes, 93 Itaim Bibi Tel.: 11 3078-8092 e outros endereços ECCO

R. Amauri, 244

R. Cubatão, 837 - Paraíso Tel.: 11 5084-0480 R. Dr. Mario Ferraz, 441 Jardim Paulistano Tel.: 11 3578-7164 GERO

R. Haddock Lobo, 1.629 Jardins Tel.: 11 3064-0005 GERO CAFFÈ

Shopping Iguatemi Av. Brig. Faria Lima, 2.232 - Jardim Paulistano Tel.: 11 3813-8484 GIARDINO

Av. Lavandisca, 437 Moema Tel.: 11 5051-0918 IL VECCHIO E LA VECCHIA

R. Pedro Cacunda, 460 Jardim São Paulo Tel.: 11 2959-1478

IN CITTÀ IL CLASSICO

R. Santa Justina, 210 Vila Olímpia Tel.: 11 3089-6235 INNOMINATO OSTERIA

R. Joinville, 561 Vila Mariana Tel.: 11 5571-9839 LA FARINA

R. Aurora, 610 Santa Efigênia Tel.: 11 3222-0893 e outros endereços LA PASTA GIALLA

OLEA MOZZARELLA BAR

R. Joaquim Antunes, 198 Pinheiros Tel.: 3062-2725 OSTERIA DEL PETTIROSSO

Al. Lorena, 2.155 Jardim Paulista Tel.: 11 3062-5338 PARIGI

R. Amauri, 275 Itaim Bibi Tel.: 11 30621212

Al. Lorena, 1.285 Jardim Paulista Tel.: 3061-3055 e outros endereços

PASSAPAROLA

LA RISOTTERIA ALESSANDRO SEGATO

PASTA & VINO

R. Padre João Manuel, 1.156 - Jardim Paulista Tel.: 11 3068-8605 LA TERRINA

R.Capote Valente, 500 Pinheiros Tel.: 11 3064-1155 LEOPOLLDINA

R. Jacques Félix, 239 Vila Nova Conceição Tel.: 11 3044-4949 R. Barão de Capanema, 206 - Jardim Paulista Tel.: 11 3081-8747 PICCHI

R. Jerônimo da Veiga, 36 Itaim Bibi Tel.: 11 3078-9119 PISELLI

Av. Chedid Jafet, 131 Daslu Tel.: 11 3841-4369

R. Padre João Manuel, 1.253 - Jardim Paulista Tel.: 11 3081-6043

MAGARI

PIOVE

R. Amauri, 234 – Itaim Bibi Tel.: 11 3073-0234

R. Jerônimo da Veiga, 75 Jardim Europa Tel.:11 3071-2301

MARINA DI VIETRI

R. Comendador Miguel Calfat, 398 - Itaim Bibi Tel.: 11 2659-7824 NONNO RUGGERO

R. Vitório Fasano, 88 Hotel Fasano - Jardim Paulista Tel.: 11 3896-4180 e outros endereços

QUATTRINO

R. Oscar Freire, 506 Jardim Paulista Tel.: 11 3068-0319 e outros endereços RAVELLO

Al. Lorena, 473 Jardim Paulista Tel.: 11 3051-3078 169


RAVIOLI CUCINA CASALINGA

R. Joaquim Antunes, 197 Pinheiros Tel.: 11 3082-3383 RISO & ALTRO

R. Tavares Cabral, 130 Pinheiros Tel.: 11 3815-5739 ROSMARINO

R. Henrique Monteiro, 44 Pinheiros Tel.: 11 3819-3897 SALLVATTORE

R. Salvador Cardoso, 131 Itaim Bibi Tel.: 11 3078-8686 SANTO COLOMBA

Al. Lorena, 1.157 Jardim Paulista Tel.: 11 3061-3588 SPADACCINO

R. Mourato Coelho, 1.267 Pinheiros Tel.: 11 3032-8605 SPAGHETTI NOTTE

Av. Roque Petroni Jr., 1.089 - Morumbi Shopping Jd. Das Acácias Tel.: 11 5181-4524 e outros endereços SPAZIO

Av. Horácio Lafer, 533 Itaim Bibi Tel.: 11 3079-0775 e outros endereços TABERNA DO JULIO

R. Conselheiro Carrão, 392 - Bela Vista Tel.: 11 3289-0421 TAPPO TRATTORIA

R. da Consolação, 2.967 170

Consolação Tel.: 11 3063-4864 TATINI

R. Batatais, 558 Jardim Paulista Tel.: 11 3885-7601 TAVICO FOCACCERIA

Av. dos Imarés, 478 Moema Tel.: 11 5093-2005 TERRAÇO ITÁLIA

Av. Ipiranga, 344, 41°andar - Centro Tel.: 11 2189-2929 TOMATTO

R. Marechal Deodoro, 497 - Santo Amaro Tel.: 11 5687-7250 TOTÒ

R. Dr. Sodré, 77 Vila Nova Conceição Tel.: 11 3841-9067 TREBBIANO

VINHERIA PERCUSSI

R. Cônego Eugênio Leite, 523 - Pinheiros Tel.: 11 3088-4920 VITO

R. Pascoal Vita, 329 Vila Madalena Tel.: 11 3032-1469 WALTER MANCINI RISTORANTE

R. Avanhandava, 126 Bela Vista Tel.: 11 3258-8510 ZUCCO RESTAURANTE

R. Haddock Lobo, 1.416 Jardins Tel.: 11 3897-0666

Cantinas ARANCINI

Av. João Carlos da Silva Borges, 1.211 Granja Julieta Tel.: 11 5641-9774

Al. Campinas, 266 L’Hotel - Jardim Paulista Tel.: 11 2183-0500

ABRUZZI

VERBENA

BELLA DONNA

Av. das Nações Unidas, 18.591 Hotel Transamérica Vila Almeida Tel.: 5693-4511 VICOLO NOSTRO

R. Jataituba, 29 Jardim das Acácias Tel.: 11 5561-5287 VILA CONTE 24 HORAS

Av. Macuco, 579 Moema Tel.: 11 5054-0166

R. Traipu, 145 Pacaembu Tel.: 11 3822-2052 R. Tabapuã, 749 Itaim Bibi Tel.: 11 3078-6889 e outros endereços BELLOSGUARDO

Al. dos Arapanés, 1.344 Moema Tel.: 11 5533-3489 BRASILIANI

R. Marco Aurélio, 102 Lapa Tel.: 3875-3915 BUCATINI

R. Abílio Soares, 904

Paraíso Tel.: 11 3887-5769 BUTTINA

R. João Moura, 976 Pinheiros Tel.: 11 3083-5991 CANTINA AURORA

R. Aurora, 872 - Centro Tel.: 11 2109-1500 CANTINA D’ANGELO

R. Humaitá, 258 Bela Vista Tel.: 11 3106-4274 CANTINA DI SALERNO

R. Francisco Leitão, 336 Pinheiros Tel.: 11 3064-6757 CANTINA DO MAGRÃO

CARINO’S

Al. Santos, 1.203 Cerqueira César Tel.: 11 2367-3938 CARLINO RISTORANTE

R. Epitácio Pessoa, 85 República Tel.: 11 3258-5055 CASA DAS MASSAS

R. Tupi, 610 Santa Cecília - Centro Tel.: 11 3825-7157 CUCINA DEI PIACERI

R. Aurora, 872 Vila Buarque Tel.: 11 3354-1742 DI TORINO

R. Agostinho Gomes, 2.996 - Ipiranga Tel.: 11 2061-6649

R. Dr. Homem de Melo, 380 - Perdizes Tel.: 11 3803-8871

CANTINA DO PIERO IL VERO

DIVINA ITÁLIA

R. Haddock Lobo, 728 Cerqueira César Tel.: 11 3062-9635 CANTINA GIGIO

R. do Gasômetro, 254 Brás Tel.: 11 3228-2045 e outros endereços CANTINA 1020

R. Barão de Jaguara, 1.012 - Cambuci Tel.: 11 3208-9199 CANTINA ROMA

R. Mourato Coelho, 789 Pinheiros Tel.: 11 3814-3344 DON PEPE DI NAPOLI

Al. dos Arapanés, 955 Moema Tel.: 11 5056-0007 e outros endereços FAMIGLIA MANCINI

R. Avanhandava, 81 Bela Vista Tel.: 11 3256-4320 GENOVA

R. Maranhão, 512 Higienópolis Tel.: 11 3660-0808

R. Lisboa, 346 Pinheiros Tel.: 11 3064-3438

CAPUANO

GIARDINO

R. Conselheiro Carrão, 416 - Bela Vista Tel.: 11 3288-1460

Av. Lavandisca, 437 Moema Tel.: 11 5051-0918


GIGETTO

MAMARANA

TAORMINA

R. Avanhandava, 63 Bela Vista Tel.: 11 3256-9804

R. Pará, 196 Consolação Tel.: 11 3661-8799

Alameda Itu, 251 Jardim Paulista Tel.: 11 3253-6276

IL FORNAIO D’ITALIA

MATTERELLO

TRATTORIA BELVEDERE

R. Manuel Guedes, 160 Jardim Europa Tel.: 11 3079-2473 IL SOGNO DI ANARELLO

R. Il Sogno di Agnarello, 58 - Vila Mariana Tel.: 11 5575-4266 JARDIM DI NAPOLI

R. Dr. Martinico Prado, 463 - Higienópolis Tel.: 11 3666-3022 e outros endereços LA BUCA ROMANA

R. Oscar Freire, 2.117 Pinheiros Tel.: 11 3088-6689 e outros endereços LA PENISOLA

R. João Passaláqua, 170 Bixiga Tel.: 11 3112-2592 e outros endereços LA TRATTORIA

R. Antônio Bicudo, 50 Pinheiros Tel.: 11 3088-3572 LELLIS TRATTORIA

R. Bela Cintra, 1.849 Cerqueira César Tel.: 11 3064-2727 e outros endereços

R. Fidalga, 120 Vila Madalena Tel.: 11 3813-0452 MONTECHIARO

R. Santo Antônio, 844/846 Bela Vista-Centro Tel.: 11 3259-2727 NELLO’S

R. Antônio Bicudo, 97 Pinheiros Tel.: 11 3082-4365 O GATO QUE RI

Largo do Arouche, 37/41 República - Centro Tel.: 11 3221-2577

R. Rui Barbosa, 172 Bela Vista Tel.: 11 288-5363 TRATTORIA PEIXOTO GOMIDE

R. Peixoto Gomide, 1.635 - Jardim Paulista Tel.: 11 3083-3588 VICO D’O SCUGNIZZO

R. Artur de Azevedo, 773 Pinheiros Tel.: 11 3085-6912 VINO!

R. Prof. Tamandaré Toledo, 51 - Itaim Bibi Tel.: 11 3078-6442

Pizzarias

ORFEO

R. Colônia da Glória, 555/583 - Vila Mariana Tel.: 11 5083-6369 PASQUALE

R. Amália de Noronha, 167 - Pinheiros Tel.: 11 3081-0333 PICAGLI

R. Araçatuba, 451 Alto da Lapa Tel.: 11 3831-3304

Av. Morumbi, 8.185 Brooklin Tel.: 11 5533-5743 A TAL DA PIZZA

R. Dr. Mário Ferraz, 351 Jardim Europa Tel.: 11 3079-3599 ALHO NO AZEITE

Av. Luís Dumont Villares, 717 - Santana Tel.: 11 6972-0222 ANTONIETTA

R. Maranhão, 512 Higienópolis Tel.: 11 3660-0808

R. Guaimbé, 354 Mooca Tel.: 11 2076-3788

ROPERTO

Al. Franca, 1.509 Jardim Paulista Tel.: 11 3085-1082

R. 13 de Maio, 634 Bela Vista Tel.: 11 3288-2573

e outros endereços

ARMESTO DISCOS

CAMELO

R. Aspicuelta, 251 Vila Madalena Tel.: 11 3819-9009

R. Pamplona, 1.873 Jardim Paulista Tel.: 11 3884-3514 e outros endereços

ARTESANAL

R. Itapura, 787 Vila Gomes Cardim Tel.: 11 2293-6162

R. Avanhandava, 25 Centro Tel.: 11 3231-0033

R. da Consolação, 3.288 Cerqueira César

R. Pedroso Alvarenga, 1.127 - Itaim Bibi Tel.: 11 3079-0003 CARLITOS

R. França Pinto, 1.347 Vila Mariana Tel.: 11 5572-2552

BABBO GIOVANNI

R. Haddock Lobo, 1.002 Jardim Paulista Tel.: 11 3085-6363 e outros endereços

CASA PIZZA

BENDITA HORA

CASTELÕES

R. Vanderlei, 795 Perdizes Tel.: 11 3862-0622 e outros endereços

R. Jairo Góis, 126 - Brás Tel.: 11 3229-0542

BONDE PAULISTA

Av. José Maria Whitaker, 1.785 - Planalto Paulista Tel.: 11 5585-9000

R. Oscar Freire, 1.597 Pinheiros Tel.: 11 3083-3928

R. Brasília, 90 Itaim Bibi Tel.: 11 3077-0000

CHARLES PIZZA GRILL

CRISTAL BRASCATTA

R. Passo da Pátria, 1.685 Alto da Lapa Tel.: 11 3648-5898 e outros endereços BRÁZ

R. Graúna, 125 Moema Tel.: 11 5561-0905 e outros endereços BROS RUA ADOLFO

ART’ N’ PIZZA

CARCAMANO

AVANHANDAVA 34

A ESPERANÇA

ROMA

L’OSTERIA DO PIERO

Tel.: 11 3061-2222

Tabacow, 170 Itaim Bibi Tel.: 11 3078-1130

R. Prof. Artur Ramos, 551 - Jardim Paulistano Tel.: 11 3031-0828 D’ANTÍGONA

R. Aspicuelta, 713 Vila Madalena Tel.: 11 3812-6402 DOM FELICIANO

R. Conselheiro Saraiva, 664 - Santana Tel.: 11 6950-2898 DONA MARIANA

R. Padre Machado, 321 171


Vila Mariana Tel.: 11 5575-5142 DONNA PAMPLONA

R. Pamplona, 1.115 Cerqueira César Tel.: 11 3285-2001 FARONELLA

R. Herval, 586 - Belém Tel.: 11 6292-1296 GALPÃO DA PIZZA

R. Dr. Augusto de Miranda, 1.156 Vila Pompeia Tel.: 11 3672-4767 I VITELLONI

R. Conde Silvio Álvares Penteado, 31 - Pinheiros Tel.: 11 3816-3071 JARDIM AURÉLIA

R. Tabapuã, 838 Itaim Bibi Tel.: 11 3168-6467 JULLIA

R. Francisca Júlia, 465 Santana Tel.: 11 2959-5077 LA GLORIA PIZZA BAR

Av. Macuco, 685 Moema Tel.: 11 5051-5329 LA VIA BLU

R. Casa Forte, 503 Água Fria Tel.: 11 2261-3685 MERCATTO

R. Mal Hastinfilo de Moura, 93 - Morumbi Tel.: 11 3742-3406 e outros endereços 1900

R. Estado de Israel, 240 Vila Mariana Tel.: 11 5575-1900 e outros endereços MONTE VERDE

R. Barra do Tibagi, 406 Bom Retiro Tel.: 11 3331-0658 MONTE VERDE ITAIM

Av. Juscelino Kubitschek, 198 -Vl. Nova Conceição Tel.: 11 3167-4166 OFICINA DE PIZZAS

R. Purpurina, 517 Vila Madalena Tel.: 11 3816-3749 e outros endereços O PEDAL

R. Caraíbas, 1.265 Vl. Pompeia Tel.: 11 3873-1468 PIOLA

R. Lopes Neto, 247 Itaim Bibi Tel.: 11 3078-8868

Al. Lorena, 1.765 Jardins Tel.: 11 3064-6570 e outros endereços

LEONA

PIZZARIA BRUNO

R. Constantino de Sousa, 582 - Campo Belo Tel.: 11 5096-3000 MARGHERITA

Al. Tietê, 255 Cerqueira César Tel.: 11 2714-3000 172

MEIME

Largo da Matriz, 87 Freguesia do Ó Tel.: 11 3932-2261 e outros endereços PRESTISSIMO PIZZA BAR

Al. Joaquim Eugênio de

Lima, 1.135 – Jd Paulista Tel.: 11 3885-4356 PRIMO BASÍLICO

Al. Gabriel Monteiro da Silva, 1.864 Jardim Paulistano Tel.: 11 3082-8027 QUINTAL DO BRÁZ

R. Gandavo, 447 Vila Clementino Tel.: 11 5082-3800 RITTO PIZZA BAR

R. Nanuque, 243 Vila Leopoldina Tel.: 11 3836-2166 SALA VIP

R. Cisplatina, 195 Ipiranga Tel.: 11 2914-8181 e outros endereços SANTA MARCELINA

Av. Vereador José Diniz, 1.125 - Santo Amaro Tel.: 11 5548-3830 SANTA PIZZA

R. Harmonia, 117 Vila Madalena Tel.: 11 3819-0301 e outros endereços SPERANZA

Av. Sabiá, 786 - Moema Tel.: 11 5051-1229 e outros endereços SOGGIORNO PIZZERIA

R. Cerro Corá, 1.841 Alto da Lapa T.: 11 3022-2656 VENITE

Av. Cons. Rodrigues Alves, 1.141 Vila Mariana Tel.: 11 5579-5316

VERIDIANA

R. Dona Veridiana, 661 Higienópolis Tel.: 11 3120-5050 e outros endereços VIA BLU

R. Lopez Neto, 247 Itaim Bibi Tel.: 3078-8868 VICA POTA

Vila Madalena Tel.: 11 3814-1060 CAFÉ ILLY SHOPPING CIDADE JARDIM

Av. Magalhães de Castro, 12.000 - 1º Piso Tel.: 3552-3132 CAFÉ DA PINACOTECA

R. Alagoas, 549 Higienópolis Tel.: 11 3825-5512

Praça da Luz, 2 Bom Retiro Tel.: 11 3326-1131

ZI TERESA DI NAPOLI

CAFÉ DO PÁTEO

Av. Vereador José Diniz, 3.401 – Campo Belo Tel.: 11 5044-8436 e outros endereços

Cafés AMAURI CAFÉ

R. Amauri, s/nº Jardim Europa Tel.: 11 3078-3799 ARÁBIA CAFÉ

Praça Vilaboim, 73 Higienópolis Tel.: 11 3476-2201 AROSA CAFÉ

Av. Sabiá, 158 – Moema Tel.: 11 5051-0325 BLÚ CAFÉ & BISTRÔ

R. Monte Alegre, 591 Perdizes Tel.: 11 3871-9296 BOUTIQUE BAR NESPRESSO

R. Padre João Manuel, 1.164 - Jardim Paulista Tel.: 11 3061-6505 e outros endereços

Pátio do Colégio, 2 Centro Tel.: 11 3106-4303 CAFÉ DO PONTO

Av. Higienópolis, 646 Shopping Pátio Higienópolis Tel.: 11 3823-2467 e outros endereços CAFÉ ZIM

R. Ramos Batista, 270 Vila Olímpia Tel.: 11 3044-4797 CAFFÉ BISTRÔ DO IMIGRANTE

R. Visconde de Parnaíba, 1.316 – Mooca Tel.: 11 6693-4487 CRISTALLO

R. Oscar Freire, 914 Cerqueira César Tel.: 11 3082-1783 e outros endereços DULCA

R. Oscar Freire, 778 Cerqueira César Tel.:11 2969-9003 e outros endereços

CAFÉ FLORINDA

EMPÓRIO SANTA MARIA EXPRESS

R. Aspicuelta, 181

Av. Cidade Jardim, 790


Jardim Paulistano Tel.: 11 3706-5211

SUPLICY CAFÉS ESPECIAIS

Al. Lorena, 1.899 – Jardins Tel.: 11 3062-2285

Al. Lorena, 1.430 Jardim Paulista Tel.: 11 3061-0195 e outros endereços

FRAN’S CAFÉ

TREVIOLO CAFÉ

ESCH CAFE

Av. Brig. Faria Lima, 2.639 Jardim Paulistano Tel.: 11 3375-9890 e outros endereços

R. General Flores, 114 Bom Retiro Tel.: 11 3223-1777 e outros endereços

GERO CAFFÈ

V. CAFÉ

Av. Brigadeiro Faria Lima, 2..232 – Jardim Paulistano (Shopping Iguatemi) Tel.: 11 3813-8484

Av. Paulista, 2.073 Livraria Cultura Cj. Nacional Tel.: 11 3170-4033 e outros endereços

GIRAMONDO

Sorveterias

R. Marconi, 19 - Centro Tel.: 11 3255-1463 e outros endereços HAVANNA CAFÉ

R. Bela Cintra, 1.829 Consolação Tel.: 11 3082-5722 e outros endereços IL BARISTA CAFÉS ESPECIAIS

R. Dr. Mário Ferraz, 414 Itaim Bibi Tel.: 11 3297-7131 e outros endereços OCTAVIO CAFÉ

Av. Brig. Faria Lima, 2.996 – Jd. Paulistano Tel.: 11 3074-0110

CREMERIA NESTLÉ

R. Alagoas, 900 Higienópolis Tel.: 11 3662-2551 e outros endereços FREDDÍSSIMO

Av. Ibirapuera, 3.103 Shopping Ibirapuera Tel.: 11 5561-9979 e outros endereços GELATERIA ITÁLIA

Av. Prof. Alfonso Bovero, 597 - Vila Pompeia Tel.: 11 3672-4072 GELATERIA PARMALAT

STRAMONDO

Estrada do Campo Limpo - Vila Prel Tel.: 11 5819-0080 STUPPENDO

R. Canário, 1.321 Moema Tel.: 11 5093-2967 e outros endereços VIPITENO GELATO & CAFFÈ

R. Manoel Guedes, 85 Itaim Bibi Tel.: 11 3476-1881

Empórios e Mercados Gourmet BACCO’S

R. Sergipe, 568 Higienópolis Tel.: 11 3661-7788 CASA SANTA LUZIA

Al. Lorena, 1.471 Cerqueira Cesar Tel.: 11 3897-5000

EMPÓRIO BAGLIONI

R. Fernandes de Abreu, 75 - Itaim Bibi Tel.: 11 3168-2574 EMPÓRIO CHIAPPETA

R. da Cantareira, 306 R. G Box 8 Mercado Municipal - Centro Tel.: 11 3228-1497 e outros endereços EMPORIUM DINIS

R. Oscar Freire, 727 Jardim Paulista Tel.: 11 3063-5209

Av. Higienópolis, 618 Shopping Higienópolis Tel.: 11 3661-8334 e outros endereços

SANTO GRÃO

SOTTOZERO

R. Oscar Freire, 413 Cerqueira César Tel.: 11 3082-9969 e outros endereços

R. Augusta, 2.935 Cerqueira César Tel.: 11 3898-2794 e outros endereços

EMPÓRIO SANTA MARIA

OSCAR CAFÉ

Av. Higienópolis, 618 Shopping Higienópolis Tels.: 11 3823-2523 e outros endereços

Av. Cidade Jardim, 790 Jardim Paulistano Tel.: 11 3706-5211

EMPORIUM SÃO PAULO

R. Afonso Bráz, 431 Vila Nova Conceição Tel.: 11 3848-3700 e outros endereços EMPÓRIO VIGNAMAZZI

Trav. Casalbuono, 120 Shopping Center Norte Santana Tel.: 11 2221-3718 PÃO DE AÇÚCAR

Av. Brig. Faria lima, 2.232 Shopping Iguatemi Jardim Paulistano Tel.: 11 3095-8500 e outros endereços VARANDA FRUTAS & MERCEARIA

Pça. Dep. Dário de Barros, 401 Cidade Jardim Tel.: 11 3035-5855

ENOTECA A CQUA SANTA

R. Oscar Freire, 155 Jardim Paulista Tel.: 11 3081-7909 ENOTECA FASANO

R. Amauri, 255 Jardim Europa Tel.: 11 3077-5018 e outros endereços EXPAND STORE

Av. Brigadeiro Faria Lima, 2.232 (Shopping Iguatemi) Tel.: 11 3037-7001 e outros endereços GRAND VIN

Av. Brig. Faria Lima, 4.433 - Vila Olímpia Tel.: 11 2843-8888 METAPUNTO

R. Cantareira, 651 Centro Tel.: 11 3328-8200 MISTRAL

Vinhos e bebidas

R. Rocha, 288 Bela Vista Tel.: 11 3372-3400

ARMAZÉM DOS IMPORTADOS

MONDO DI VINO

BY ABRUZZO

REI DOS WHISKY’S & VINHOS VIP

Al. dos Nhambiquaras, 43 -Indianópolis Tel.: 11 5051-1263

R. Estados Unidos, 325 – Jardim América Tel.: 11 3628.5916 e outros endereços CASA FLORA

R. Santa Rosa, 207 - Brás Tel.: 11 2842-5199

Av. Roque Petroni Jr., 1.089 Morumbi Shopping Tel.: 11 5181-3365

R. Inhambu, 402 Moema Tel.: 11 3488-2199 e outros endereços VINCI

R. Dr. Siqueira Cardoso, 227 - Mooca Tel.: 11 6097-0000

DECANTER

R. Joaquim Floriano, 101 - 8° andar Itaim Bibi Tel.: 11 3074-5454

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R. da Alfândega, 182 Brás Tel.: 11 3383-7477 173


A

SicíliA eO mAr A história da Sicília está, indissoluvelmente, ligada ao mar Por Franceso Paternó 174


A

Sicília é uma ilha, e sempre foram as ilhas que desempenharam , por um longo tempo, um papel independente na História. A Sicília não chega a ter 26 mil quilômetros quadrados, é um pouco maior que a sua vizinha, Sardenha, tem menos de um terço do tamanho da Irlanda e, menos de um quarto do de Cuba. Mas a sua posição não possui rivais: ao nordeste, o estreito de Messina, que a separa da Itália; e, ao oeste, a África, que fica a apenas 150 quilômetros. Por isso, a Sicília foi um ponto de entrada e uma encruzilhada. Por um lado, dividindo o Mediterrâneo oriental do ocidental, por outro, unindo a Europa e a África numa espécie de ponte entre os dois continentes. A Sicília uniu-se às ilhas circunstantes e às outras regiões da bacia do Mediterrâneo com vínculos culturais vindos da antiga idade da pedra e, quando as civilizações mais evoluídas se propagaram para o oeste dos mais antigos centros do Oriente, a Sicília, por necessidade, tornouse um ponto de encontro e, às vezes, um campo de batalha. Sua extensão e fertilidade eram suficientes para colocá-la muito acima de um entreposto comercial ou de uma simples base naval, e, assim, atrair imigrantes e conquistadores em busca de uma nova pátria. Todavia, a Sicília não era suficientemente forte para representar uma séria ameaça para os seus vizinhos da Europa ou da África, ou para poder conservar a sua independência diante de grandes potências como Grécia, Roma, Espanha ou Itália. Parece que o homem chegou à Sicília, nos primórdios da História, no período paleolítico, há 175


176


cerca de um milhão de anos. Os primeiros habitantes da ilha, dos quais existem importantes testemunhos arqueológicos, foram os sicânios, os elimis, os ausones e os sículos. Tribos indígenas que mantinham com o mar uma relação limitada às atividades da pesca. Mas, cerca de três mil anos atrás, começariam as sucessivas dominações, que se estenderiam até os dias de hoje. E era fácil chegar pelo mar: mais de mil quilômetros de costas, desde sempre orgulho e fragilidade da ilha. Os primeiros foram os fenícios, comerciantes do atual Líbano, que estabeleceram um grande número de colônias em todo o Mar Mediterrâneo. Em 734 a.C., os fenícios fundaram Mabbonath, hoje Palermo, já habitada pelos sicânios. Contudo, foi somente com a chegada dos colonizadores gregos que a Sicília entrou para a Grande História (sec. 8 a.C.). Os gregos fundaram as primeiras cidades sicilianas, quase todas nas costas: Nasso, Siracusa, Lentini, Catania, Messina e, os habitantes dessas

uma profunda memória dessa terra, com suas cores, sabores, fecundidade, cultura e humanidade.

E hojE?

O mar da Sicília continua soberano. A Sicília é circundada por ilhas, 14 no total, isoladas no mar ou acolhidas em pequenos arquipélagos que constituem uma infinita riqueza natural, com um grande potencial turístico e que, além disso, fornecem reservas minerais ligadas às atividades pesqueiras. Lágrimas lávicas, planícies calcárias batidas pelo vento, charnecas ensolaradas da cor de bronze: são quatorze as filhas da Sicília, e isso para nem falar de Mozia que, às vezes, a maré baixa a une à costa de Marsala. Quatorze paraísos de pura beleza. Algumas de fascínio africano, como Pelagie e Pantelleria. Já, outras, senhoras incontestadas do mar e cheias de seus mistérios, como Levanzo, Favignana e Marettimo: o arquipélago das Égadi no mar de Trapani. Mais ao norte, em esplendido isolamento, encontra-se Ustica, a ilha de Circe, com sua reserva marinha intacta. Enquanto nas Eólias depara-se com a água e o fogo. Aqui, resumindo, é ainda a natureza que dita o ritmo e não há nada a fazer senão ser deixar-se enfeitiçar pelas mágicas atmosferas dos pescadores e dos agricultores das ilhas, últimos guardiões de antigas tradições mediterrâneas.

O mAr dA SicíliA cOntinuA SOberAnO cidades fundaram as mais novas: Taormina, Megara Iblea, Gela, Selinunte, Imera, Milazzo, Agrigento, Segesta, Lillibeo, etc.

D

esde então, as dominações sucederam-se ininterruptamente: a romana, a maior da História, durou quase 8 séculos, depois veio a bizantina e em seguida a pela árabe. A dominação árabe deixou na Sicília marcas culturais muito importantes, tais como: geografia, agricultura, matemática, ciências, astronomia, que se desenvolveram, e criaram raízes. Mais tarde, do norte, chegaram os Normandos que tiveram a capacidade de não combater e, ao contrário, integraram-se à cultura árabe e a todas aquelas preexistentes que tinham deixado vestígios e desenvolvimento. Em seguida, vieram os suevos, os anjevinos, os aragoneses e os espanhóis. Cada um deixando traços e absorvendo o encanto e a generosidade da ilha. Então, chega-se ao século 18, com os Saboia que foram expulsos pelos austríacos, para encerrar com os bourbônicos, que foram sucedidos pelos atuais: os italianos. Todos vindos pelo mar. Todos ligados ao mar. Todos em busca de terras para conquistar. Todos atraídos pela riqueza que a posição estratégica do mediterrâneo oferecia. Vale a pena observar que ninguém quis sair espontaneamente. Todos foram caçados pelas invasões sucessivas. Sempre levando embora

M

as o mar, além de representar uma atração turística, também é um grande recurso econômico de que a Sicília extrai energia (é a região italiana com a maior produção de petróleo) e fonte de alimento. Na Sicília, em Mazara del Vallo, se encontra o maior distrito italiano de pesca. Isso relembra as origens de uma antiga tradição, da pesca e da produção de atum. Durante todo o século 18, as almadravas (armações para pescar atum, na Sicília chamadas de “tonnara”) cresceram desordenadamente em todas as costas e com elas a indústria de conservação de peixes. Almadravas e vaus, atuns e óleo: termos que não apenas retratam uma complementaridade técnica, mas também uma forte analogia socioeconômica entre mar e campo. Os esforços que acompanham a pesca do atum e o trabalho nos campos não são apenas unidos pelo caráter da sazonalidade ou periodicidade, mas também pela estreita dependência que existe entre pescadores de atum e camponeses, geralmente trabalhadores. Dessa duplicidade nasceu o termo que, vulgarmente, ainda se usa na Sicília: “Camponeses do mar”. Por que não se pode falar da Sicília sem falar do seu mar? Porque o seu mar é sempre da cor azul safira, atravessado por golfinhos e peixes-espada. Desde sempre. 177


A pRESENçA NA

ARTEBRASILEIRA

D

Uma lírica aventura que deu certo

Por Jacob Klintowitz

e três tragédias cósmicas, o Brasil foi misteriosamente poupado de todas. Nós não temos terremotos nem ciclones. Nós não temos guerras em nosso território. E gostamos de interagir rapidamente os imigrantes ao nosso modo de vida. O que nos evitou a terceira praga, a verdadeira tragédia do ódio racial comum aos povos e, felizmente, para nós, apenas imaginária: o que seria da nossa cultura se não tivéssemos entre nós artistas como Alfredo Volpi, Arcangelo Ianelli, Maria Bonomi, Hermelindo Fiaminghi, Victor Brecheret, Waldemar Cordeiro, Ermelindo Nardin, Domenico Calabrone, Odetto Guersoni, Anita Malfatti, Aldo Locatelli, Danilo di Prete, Luis Sacilotto, Candido Portinari, Claudio Tozzi, Lina Bo Bardi, Domenico Lazzarini, João Rossi, Roberto Sambonet, Norberto Nicola, Bruno Giorgi, Aldo Bonadei, José Pancetti, Ernesto de Fiori, Odilla Mestriner, Pietro Maria Bardi, Livio Abramo, Visconti, Henrique Bernardelli, Carlos Pasquetti, Sergio Ferro, Clóvis Graciano, Poty Lazarotto, Arthur Luiz Piza, Ivald Granato, Carybé, Carlos Oswald, entre tantos outros? É essencial na formação e desenvolvimento da arte brasileira a presença de artistas nascidos na Itália e de artistas com descendência italiana. A Semana de Arte Moderna, de 1922, emblema da modernidade nacional, foi constítuida tendo como base a obra do escultor Victor Brecheret, exemplo vivo e real de como poderia ser a nova arte. Para o historiador Pietro Maria Bardi, o escultor nasceu na Itália, em Farnese, província de Viterbo, em 1894, e chegou ao Brasil com a família em 1904. A família de Brecheret, apoiada em outra documentação e no depoimento

178

ITALIANA

do próprio artista, tem a convicção de que ele nasceu no Brasil. Para nós, o importante é o caráter fundamental que a sua obra tem na construção da moderna arte brasileira. A ideia modernista, a de que a arte deve expressar com inteira liberdade as emoções e as novas concepções do mundo, afirmouse por solidariedade e controvérsia com a exposição de Anita Malfatti, em 1917. Anita é filha do engenheiro Samuel Malfatti, natural de Lucca, Itália. Um artigo de Monteiro Lobato, intitulado “Paranóia ou mistificação?”, publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, transformou Malfatti em mártir e arregimentou os que lutavam pela nova arte. Waldemar Cordeiro, nascido em Roma em 1925, filho de pai brasileiro e mãe italiana, chegou ao Brasil em 1946 e é um artista pioneiro, paisagista, jornalista, crítico de arte, líder e teórico do movimento concretista, experimentalista e autor de uma obra que marcou a renovação da arte brasileira na década de 50. Cordeiro trabalhou com a geometria, com a arteônica (produzida por computador) e com a união de signos populares e formas não ortodoxas. Esta união foi batizada como popcretos pelo poeta Augusto de Campos. Até hoje, Candido Portinari, filho de imigrantes italianos, nascido na cidade de Brodowski, São Paulo, em 1903, é o mais conhecido artista brasileiro. Da segunda geração modernista, Portinari construiu uma obra ímpar, na qual enfrentou os temas históricos da nacionalidade, com crescentes recursos pictóricos, até hoje sem par. A sua obra, “Retirantes”, no acervo do Museu de Arte de São Paulo, tornou-se símbolo do país e da saga de sua população rural, migrante e desenraizada. Candido Portinari oferece uma obra tão vasta e de tanta densidade que a arte brasileira adquiriu uma fisionomia própria. As pinturas “Menino Morto” e “Enterro na Rede”, pintadas em 1945, também


179


180


acervo do MASP, formam a trilogia trágica da vida nacional e estão entre as mais importantes de seu período histórico. O pintor também é o autor dos painéis “Guerra e Paz”, feitos para a o edifício-sede da ONU, em Nova York.

M

uitos críticos tentaram enquadrar Alfredo Volpi no movimento concretista, devido ao desenvolvimento geométrico de suas formas, mas ele sempre se recusou à esta filiação e fingia não compreender bem a teoria do concretismo. Volpi nasceu em Lucca, Itália, em 1896, e chegou ao Brasil antes de dois anos de idade. Entretanto, com o seu modo singelo de proceder, Volpi sempre se declarou um homem de Lucca, onde, dizia, as pessoas têm muita imaginação. O seu grande compromisso era com a fidelidade à sua sensibilidade e ao desenvolvimento natural de suas pre-

chegou ao Brasil na década de 50 e amava ensinar, difundindo a arte moderna em lugares tão distantes quanto a Paraíba, Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro. João Rossi, filho de imigrantes, gravador, escultor, muralista, ceramista, pintor, foi um professor de larga experiência, ensinando, além do Brasil, no Paraguai, Uruguai, Argentina e na Bolívia. Uma espécie de desbravador que em muitos destes lugares é entendido como um mestre itinerante. O extraordinário gravador Lívio Abramo, junto com Maria Bonomi, manteve por muitos anos uma escola de gravura destinada a jovens. O pintor Cirton Genaro é visceralmente um professor, amado por seus alunos, ensina a técnica da pintura e os fundamentos da arte contemporânea. Roberto Sambonet, notável desenhista industrial de reconhecimento mundial, nascido em Vercelli em 1924, teve uma ativa participação didática entre nós, ajudando a implantar os modernos conceitos do desenho industrial e as novas realidades que se abriam aos artistas na época industrial.

A SAgA ITALIANA é poDERoSA No BRASIL ocupações formais. Volpi tornou-se um dos principais artistas da história brasileira, construindo uma obra onde se destaca a sensibilidade tonal, organizada geometricamente, e utilizando assuntos do cotidiano, tais como bandeirinhas e mastros de festas juninas, fachadas de casas e o oval do contorno de igrejas tradicionais. Em Volpi, a união entre a sensibilidade cromática e o rigor formal o torna um verdadeiro símbolo da arte brasileira nas décadas de 70 e 80. Maria Bonomi, nascida em Meina, Itália, em 1935, vinda para o Brasil em 1944, criou a gravura de grandes formatos, alterando a sua relação com o público. Bonomi também é uma artista que atualizou o conceito de obra pública, contribuindo teoricamente com a criação de importantes murais e objetos escultóricos nos quais, como uma constante estilística, mantém o sulco original da xilogravura como personagem. Norberto Nicola, filho de italianos, contribui de maneira notável para o desenvolvimento da nova tapeçaria e das formas tecidas. É um artista que soube traduzir em tessituras o veio sensual da cultura brasileira. Líder de um movimento de valorização das formas escultóricas tecidas, ele conseguiu unir o erudito e a tradição popular criando uma verdadeira escola brasileira de tapeçaria. Não é possível deixar de acentuar, igualmente, o apreço à atividade didática, da presença italiana. Aldo Locatelli, nascido em 1915, em Villa d’Almè, Bérgamo, de uma tradicional família de artistas, ensinou as técnicas do muralismo e do afresco no Brasil. Domenico Lazzarini, nascido em Viareggio,

E

ste artigo é forçosamente injusto. A saga italiana é tão poderosa no Brasil que temos a certeza de quantos estão omitidos nesta matéria. Apenas sobre o extraordinário Pietro Maria Bardi teríamos que escrever um livro. A construção do MASP e do seu acervo de altíssima qualidade torna Bardi um herói nacional. Francisco Matarazzo criou a Bienal Internacional de São Paulo, o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, entre outras coisas. Como circunscrevê-los nesta página, de resto, dedicada aos artistas? Certamente devemos citar alguns artistas, de várias épocas. Não eliminará a falta, mas a amenizará. Esta revista e este autor devem assumir com o leitor o compromisso de novos artigos, mais detalhados e pontuais. Alguns nomes: Rodolpho Bernardelli, Luca Carimini, Neto Sansone, Eliseu Visconti, Angelo Agostini, Giovanni Battista Castagneto, Carlo de Servi, Nicolao Facchinetti, Zorávia Bettiol, João Bez Batti, Hércules Barsotti, Thomaz Ianelli, Ado Malagoli, Luis Paulo Baravelli, Elvio Becheroni, Enrico Bianco, Mino Carta, Dan Fialdini, Claudio Tozzi, Mario Zanini, Ricardo Cipicchia, Paulo Rossi Osir, Pietrina Checcacci, Fulvio Penacchi, Renato Brunello, Flavio Império, Roberto Moriconi, EttoreXimenez, Italo Cencini, Quirino Campofiorito, Ernesto de Fiori, Hugo Adami, Galileo Emendabili, Mick Carnicelli, Gerda Brentani, Ana Maria Maiolino, Donato Ferrari, Menotti del Picchia, Berenice Gorini, Lelio Coluccini, Theodoro de Bona, João Batista Ferri, Cezira Carpanezzi, Sergio Bertoni, Alfredo Ceschiatti, Elvo Benito Damo, Enrico Camerini, Adolfo Rollo. 181


MOMENTO

ITÁLIA / BRASIL

A

mérico Vespúcio, navegador e mercador florentino, abriu caminho. Visitou o Brasil ao longo de 14 meses, a partir de novembro de 1501, descobriu o pau-brasil, batizou a Bahia, o Rio de Janeiro, Angra dos Reis e Cananeia, inebriou-se com os odores e sabores dessa terra, doou seu nome ao continente americano e ficou para a História como o primeiro habitante da península itálica a colocar os pés nessas paragens. Passou-se muito tempo até que outro italiano famoso viesse para cá e, quando a Imperatriz Teresa Cristina desembarcou no Rio de Janeiro, em 1842, não se fez de rogada e compensou essa lacuna trazendo consigo artistas, músicos, professores, botânicos e outros estudiosos, de modo a enriquecer a vida cultural e científica brasileira. É famoso seu tesouro arqueológico: composto por preciosidades artísticas advindas das primeiras escavações em Herculano e Pompeia. Dizem, também, que foi responsável pela preparação do primeiro prato de macarrão saboreado em terras brasileiras. Apesar do estímulo dado por esses dois grandes personagens da História, foi somente a partir de 1870 que os italianos começaram realmente a ver no Brasil um destino de prosperidade e para cá se dirigiram aos milhares. A primeira leva foi para o sul do País, atraída pela possibilidade de se tornar proprietária de terras, e

182

Projeto desenvolvido pela Embaixada da Itália, pretende reforçar a grande influência italiana no país

lá fundou cidades que são verdadeiros redutos italianos, como Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Flores da Cunha, Nova Trento e Curitiba. Para São Paulo, vieram particularmente os italianos do norte da Itália, onde encontraram trabalho, primeiro, nas fazendas de café, e, décadas depois, na indústria nascente. Estima-se que vivam atualmente no Brasil mais de 25 milhões de italianos e descendentes, perfazendo a maior população de italianos fora da Itália. Eles representam quase 15% da população brasileira, 45% da população da Região Sul e 30% da população do Estado de São Paulo. Atuam nos mais variados campos, da arquitetura às artes plásticas e cênicas, da música à literatura, da indústria à política, da medicina ao esporte. Suas marcas são tão presentes em nosso cotidiano, que não raro nem nos damos conta delas. É o caso da estátua em homenagem ao Engraxate e ao Jornaleiro (do romano Riccardo Cipicchia), em pleno Parque do Ibirapuera, mas também do sotaque do paulistano, das festas religiosas do Brás, da Mooca e do Bexiga, da ciência do Dr. Zerbini (responsável pelo primeiro transplante de coração do Brasil), do panetone que comemos com prazer nas comemorações de final de ano e da pujança de empresas como Fiat, Tim, Pirelli e mais de trezentas outras de dimensões variadas e que contribuem para o crescimento deste País. Acima, a Exatamente para ressalcolorida tar essa influência italiaPorto Fino, na, que contribui para a ao lado, formação deste País desa bela Gênova de seu descobrimento, a


183


Paisagem da cidade de Torino

Embaixada da Itália, sob orientação do Ministério Italiano das Relações Exteriores e em colaboração com as diversas instituições que compõem o chamado Sistema Itália (rede consular, institutos italianos de cultura, câmaras de comércio e a rede de escritórios do ICE), está trabalhando na elaboração de uma série de ações denominadas Momento Itália/Brasil, que deverá ocorrer a partir do segundo semestre de 2011 até o primeiro semestre de 2012.

U

m Comitê composto por personalidades italianas e brasileiras está sendo formado para coordenar a seleção e realização de tais ações, que incluem a inauguração da nova sede do Instituto Italiano de Cultura de São Paulo, projetado por Massimiliano Fuksas, a realização de exposições culturais em diversas capitais brasileiras, a inauguração de um Centro Tecnológico, realizado pelo ICE e pelo SENAI, um levantamento meticuloso das obras de arte italianas existentes no Brasil, o lançamento de publicações sobre a Itália e sobre a Itália no Brasil, a realização de desfiles de moda, a promoção de um festival de cinema, de música e de teatro, a participação com Pavilhões Italianos nas principais feiras comerciais brasileiras e a realização de eventos gastronômicos e desportivos. 184

A cidade de Bolonha, localizada no centro-norte do país


A Fontana di Trevi, em Roma

O

A “Ponte Vecchio”, de Firenze

Momento Itália/Brasil tem seu visual desenvolvido pelo publicitário Washington Olivetto, insigne oriundo que se inspirou no Coliseu e no Cristo Redentor, símbolos por excelência da Itália e do Brasil, duas das sete maravilhas do mundo moderno. Na logomarca criada por Olivetto, o Cristo abre seus braços do alto do Coliseu, dando boas vindas para todos, italianos ou não, a essa terra de grandes oportunidades. Falando em oportunidades, cabe dizer que fica a cargo do Instituto Italiano para o Comércio Exterior a organização de diversas iniciativas com o objetivo de identificar oportunidades de negócios nas quais italianos e brasileiros possam colaborar conjuntamente. Tais iniciativas englobam a realização de Pavilhões Italianos em feiras brasileiras, missões de empresários e jornalistas à Itália, seminários e campanhas publicitárias na mídia especializada. Tudo isso agora com o selo de qualidade ISO 9001:2008, o que reflete o empenho da entidade em aprimorar continuamente seus processos relacionados à eficiência e à qualidade, com o objetivo de agregar valor aos negócios e parcerias entre empresas italianas e brasileiras. www.ice.gov.it www.italtrade.com www.ice-sanpaolo.com.br 185


PAÍS NOVO, EMBAIXADA ANTIGA...

O

Palácio Pamphilj, sede da Embaixada do Brasil na Itália, está localizado no bairro Parione, em frente a uma das mais sugestivas e imponentes praças do mundo, a Navona. O núcleo originário do palácio, situado na Praça Pasquino, foi adquirido em 1470 por Antônio Pamphilj (procurador fiscal da Câmara Apostólica) que logo o ampliou. O palácio, elegante e sóbrio, foi projetado por Girolamo Rainaldi, um dos maiores intérpretes da arte seiscentista. O arquiteto dedicou-se a esta obra com entusiasmo, pois deveria estar pronta para o jubileu de 1650. Por volta de 1920, parte do palácio foi alugada pelo governo brasileiro, que a tornou sede de sua missão diplomática. Em 1960, contudo, tal contrato de locação foi transformado em ato de venda, o que suscitou alguma controvérsia na opinião pública e na imprensa local. A compra foi aperfeiçoada entre outubro e novembro de 1960 pelo governo brasileiro. O embaixador do Brasil em exercício, Hugo Gouthier de Oliveira Gondim, será sempre lembrado pela aquisição do imóvel ao preço de 900 bilhões de liras. Apenas um ano após a venda, foi concluída a restauração de todo o palácio (estrutura e salões internos), em conformidade com a orientação da Superintendência das Belas Artes da Itália. A nova sede diplomática foi inaugurada no início do mês de novembro de 1961. O majestoso prédio é hoje um ponto de referência mundial

e um orgulho para o Brasil. 186


PAÍS ANTIGO, EMBAIXADA NOVA...

J

uscelino Kubitschek, presidente da República de 1956 a 1961, doou lotes de terreno de idêntica dimensão a todos os países amigos, a fim de que pudessem construir as sedes de suas Embaixadas. O então ministro-conselheiro da Embaixada da Itália no Rio de Janeiro, Carlo Enrico Giglioli, escolheu, em novembro de 1959, o lote 30 da quadra 807 do Setor das Embaixadas, que seria destinado à Itália. Apesar disso, a Itália aguardou a transferência do Itamaraty do Rio de Janeiro para Brasília, no final de 1966, para começar as obras de construção da embaixada. O Governo brasileiro havia manifestado o desejo de que a construção das embaixadas pudesse ser harmonizada ao contexto arquitetônico e estilístico de Brasília, o que contribuiria, por outro lado, para expressar o melhor das respectivas arquiteturas estrangeiras. Tal orientação do governo brasileiro levou o então embaixador Prado a recomendar a candidatura de Píer Luigi Nervi para a realização do projeto de construção. Naqueles anos, Nervi era o arquiteto italiano mais celebrado no mundo, e suas obras, realizadas no período sucessivo ao segundo conflito mundial, constituíam um dos símbolos mais eloquentes da reconstrução da Itália. A primeira recepção oficial na embaixada foi realizada no dia 2 de junho de 1977 e, em 24 de outubro do ano seguinte, foi assinado o laudo de funcionamento. Recentemente, os famosos designers brasileiros de origem italiana, os irmãos Humberto e Fernando Campana, realizaram trabalhos de reestruturação interna do edifício. O elemento fundamental do projeto é o tetrápode, que reflete o hábito de Nervi, bem como da arquitetura italiana em geral, a partir do pós-guerra, de realizar formas fechadas, esculpidas, anti-industriais, contrárias a qualquer padronização. 187


Guia de Compras

Comprar é uma delícia... ainda mais quando se tem à disposição tantos produtos italianos em São Paulo, que é a grande vitrine do “Made in Italy” no Brasil. Moda, decoração, design, presentes, carros, motos, barcos... a escolha é muito grande. Aqui, você vai encontrar uma seleção dos endereços italianos mais descolados da cidade. Sinta-se como na Via dei Condotti ou na Via Montenapoleone sem precisar ir até ao aeroporto. Vamos às compras! 94 188


Moda Benetton

Al. Lorena, 1.683/1.685 Jardim Paulista Tel.: 11 3088-5422 Bulgari

R. Haddock Lobo, 1.626 Jardim Paulista Tel.: 11 3081-8833 Daslu

Av. Chedid Jafet, 131 (Villa Daslu) Vila Olímpia Tel.: 11 38414000 e também no Shopping Cidade Jardim Av. Magalhães de Castro, 12.000 Tel.: 11 3552-1000 Marcas italianas na Daslu: Moda feminina Alberta Ferretti, Blumarine, Bottega Veneta, Celine, Dolce & Gabbana, Emilio Pucci, Fendi, Fratelli Rossetti, Giambattista Valli, Giuseppe Zanotti, Gucci, Jasmine di Milo, Juicy Couture, Linea Rossa, Marchesa, Miguelina, Missoni, Miu Mil, Monica Rindi, Moschino, Prada, Salvatore Ferragamo, Sergio Rossi, Tod’s, Valentino, Valentino Roma Moda masculina Brioni, Canali, Diesel,

Dolce & Gabbana, Emanuele Maffeis, Ermenegildo Zegna, Etro, Europan, Fratelli Rossetti, Fred Perry, Gallo, Gola, Gucci, Juicy Couture, Linea Rossa, Penguin, Prada, Projecte, Salvage, Salvatore Ferragamo, Seven, Tod’s

energie

2.232

R. Oscar Freire, 1.035 Jardim Paulista Tel.: 11 3082-5384

(Shopping Iguatemi)

ermenegilDo Zegna

Av. Brig. Faria Lima, 2.232 (Shopping Iguatemi) Tel.: 11 3031-4771 e outros endereços giorgio armani

Moda infantil Il Filo Mato, Il Gufo, Kiwi, MC2, Napapijri, Prada Sport, Tod’s

R. Bela Cintra, 2.093 Jardim Paulista Tel.: 11 3062-2660 e outros endereços

Furla

la perla

Shopping Cidade Jardim Av. Magalhães de Castro, 12.000 Tel.: 11 3552.6110 Bolsas, carteiras, óculos e acessórios podem ser encontrados na mesma coleção apresentada na Europa

R. Oscar Freire, 696 Jardim Paulista Tel.: 11 3061-5079 e outros endereços

Tel.: 11 3819-8818

(Villa Daslu) Vila Olímpia Tel.: 11 3848-5940

replay

santa maria

R. Oscar Freire, 944 Jardim Paulista Tel.: 11 3089-4609 roBerto cavalli

novella

R. Haddock Lobo, 1.604 Jardim Paulista Tel.: 11 3062-0617 e outros endereços

R. Bela Cintra, 2.218 Jardim Paulista Tel.: 11 3088-7657

Automóveis Bugatti

salvatore Ferragamo

Av. Brig. Faria Lima,

Av. Europa, 888 Jardim Europa Tel.: 11 3062-8534

2.232 (Shopping Iguatemi)

Ferrari

Tel.: 11 3815-5057

Via Itália – Av. Brasil, 1.769 Jardim América Tel.: 11 3087-0199

e outros endereços tutto chicco

(infantil)

max mara

Av. Brig. Faria Lima,

R. Haddock Lobo, 1.604 Jardim Paulista Tel.: 11 3062-0617

2.232 (Shopping Iguatemi) Tel.: 11 3031-5975 e outros endereços

lamBorghini

Via Itália – Av. Europa, 110 Jardim América Tel.: 11 3061-3300

Diesel

miss sixty

R. Haddock Lobo, 1.573 Jardim Paulista Tel.: 11 3082-4937 e outros endereços

R. Oscar Freire, 1.035 Jardim Paulista Tel.: 11 3082-5384 e outros endereços

versace

Tel.: 11 3088-8602

Via Itália – Av. Brasil, 1.769 Jardim América Tel.: 11 3087-0199

Dolce&gaBanna

missoni

Av. Brig. Faria Lima, 2.232 (Shopping Iguatemi) Tel.: 11 3815-8387

Av. Brig. Faria Lima, 2.232 (Shopping Iguatemi) Tel.: 11 3031-6242 e outros endereços

versus

pagani

R. Bela Cintra, 2.203 Tel.: 11 3088-8588

Platinuss - Av. Europa, 888 - Jardim Europa Tel.: 11 3062-8534

Perfumarias

Motos

paul & shark

acqua Di parma

Bimota

Av. Brig. Faria Lima,

Av. Chedid Jafet, 131

Perfect Motors

emporio armani

R. Haddock Lobo, 1.550 Jardim Paulista Tel.: 11 3897-9090

R. Bela Cintra, 2.209 Jardim Paulista

Jardim Paulista

maserati

95 189


R. Álvaro Rodrigues, 375 Tel.: 11 5532-1880 Ducati

R. Colômbia, 368 Jardim Europa Tel.: 11 3081-2233

Náutica spirit Ferretti

Av. Brig. Faria Lima, 2.277 - (3ºandar) Tel.: 11 3094-7000

Presentes e acessórios caruso

Al. Lorena, 1.575 Jardim Paulista Tel.: 11 3062-5975 Gravatas Cosenza, humidificadores Savinelli, entre outros

Ferrari store

Via Itália – Av. Brasil, 1.769 Jardim América Tel.: 11 3087-0199 Produtos autorizados Ferrari lenat

Av. Brig. Faria Lima, 2.232 (Shopping Iguatemi) Jardim Paulistano Tel.: 11 3815-5835 Canetas Aurora, entre outros livraria italiana

R. Luiz Coelho, 340 – Loja 2 Tel: 11 3259-8915 Além dos títulos italianos encontrados, eles importam, a pedido dos clientes, qualquer livro disponível na Itália. pepper

cleusa presentes

Av. Brig. Faria Lima, 2.232 (Shopping Iguatemi) Jardim Paulistano Tel.: 11 3031-5090 IVV, Formia e Vetri, entre outros espaço santa helena

R. Oscar Freire, 777 Jardim Paulista Tel.: 11 3087-5800 Lofra, Valentino e Versace, entre outros 190

R. Leopoldo Couto Magalhães Jr, 753 Itaim Bibi Tel.: 11 3073-0333 Produtos para cozinha raul’s

Av. Brig. Faria Lima, 2.232 (Shopping Iguatemi) Jardim Paulistano Tel.: 11 3814-8532 Produtos para cozinha spicy

R. Haddock Lobo, 746

Jardim Paulista Tel.: 11 3062-8377 Cozinhas Mario Batali e produtos para gastronomia suxxar

Av.. Nova Faria Lima, 4.433 Itaim Bibi Tel.: 11 3842-3200 Smeg e Guzzini, entre outros

BaZZa

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Padrões de beleza

a

A ideia do belo mudou muito ao passar dos anos e a busca pelo ideal é constante e infinita... para a sorte da indústria da beleza Por Dr. Filipo Predinola Fotos Valentino Fialdini

busca pela beleza funciona como uma promessa de felicidade. As pessoas sentem necessidade de se aproximarem umas das outras com o objetivo de agradar, influenciar e sentirem-se notadas. A beleza pode facilitar em parte essa aproximação, porém, nem sempre a admiração da beleza exterior vem acompanhada de um sentimento real de estima. Muitas pessoas, em especial as mulheres, buscam uma espécie de beleza padronizada que está fora da realidade. A mídia, através de jornais, revistas e televisão divulga o “efeito embalagem”, ou seja, a boa aparência viria acompanhada de êxito na vida e no amor. Talvez o segredo da indústria da beleza seja que a grande maioria das pessoas nunca consegue atingir realmente a boa forma desejada, ou seja, torna-se...

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uma busca constante, que nem sempre é encarada com bom senso. O desejo de ser atraente faz parte da vida do ser humano, caracterizando a necessidade interna de ser valorizado e querido. Porém, a autoestima é o sistema imunológico da consciência, e de nada adianta ser belo ou bela se a autoestima vai mal. Tudo indica que, há muitos anos atrás, na pré-história, as mulheres com seios fartos e quadris bem definidos eram as preferidas dos homens por sugerir serem bem alimentadas e capazes de gerar filhos sadios. Esse conceito foi mudando com o tempo de modo que, para os gregos, o belo era tudo o que equilibrava proporção e simetrias. De lá para cá, tudo

de nada adianta ser belo se a autoestima vai mal mudou muito. No século 8, quanto mais barriguda, mais bonita, numa época em que a igreja era muito influente e considerava o ventre saliente relacionado à gravidez imaculada da Virgem Maria. Na época do Renascimento, já no século 15, as gordinhas eram consideradas as mais belas, associando tal característica física a uma saúde melhor, principalmente após a peste negra ter dizimado grande parte da população europeia no fim da Idade Média. Mais para frente, no século 17, o Barroco idealizou a mulher com formas delicadas e cintura finíssima, e tal padrão perdurou até o século 19.

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C

om a emancipação da mulher, lá pelos anos 20, a beleza feminina passou a ser representada por um perfil mais cilíndrico, com mamas e quadris mais achatados. Veio então a segunda grande guerra, na década de 40, que exigia da mulher formas mais masculinizadas, de ombros largos, como a atriz Joan Crawford. Já no pós-guerra, a valorização da vida trouxe, junto com as coleções do estilista Christian Dior, as formas como as de Marilyn Monroe. A década de 60 foi marcada pela magreza da modelo Twiggy: que trouxe a cobiça por corpos sem curvas e com seios pequenos. Nos anos 80, surge a busca pelo corpo “sarado”, estilo Madonna, para encarar os homens de frente no mercado de trabalho. Porém, no final da década, modelos maravilhosas como Cindy Crawford, Luiza Brunet e Linda Evangelista trouxeram de volta a beleza clássica, da mulher bonita, saudável e com curvas. A partir dos anos 90, e com a ajuda da modelo Kate Moss, surge o padrão de magreza total e o aumento da incidência de bulimia e anorexia entre os adolescentes. Passada essa fase, e até os dias de hoje, a mulher passou a buscar o silicone para conseguir seios grandes. O padrão atual, “grazie a Dio”, é da nossa belíssima Gisele Bündchen. Como nos mostra a história, a noção de beleza é um conceito abstrato e mutável, diretamente relacionado à eterna busca da perfeição.



Revista Itália em São Paulo 2010 - 3ª Edição