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Mal levantara o machado para descê-lo sobre a cabeça da velha quando a história de Crime e castigo lhe atravessou o espírito. Fulmina-o. Seus braços tremem; suas pernas vacilam. E o machado escapa-lhe das mãos. Racha o crânio da mulher e fica enterrado lá. Sem um grito, a velha desaba sobre o tapete vermelho e preto. Seu véu com motivos de flores de macieira flutua no ar antes de cair sobre o corpo gordo e flácido. Ela treme de espasmos. Respira mais uma vez. Talvez duas. Seus olhos arregalados fixam Rassul, de pé no meio do cômodo, sem fôlego, mais lívido que um cadáver. Seu patou escorrega dos ombros salientes. O olhar aterrorizado se perde na onda de sangue, este sangue que escorre do crânio da velha e se confunde com o vermelho do tapete, recobrindo assim seus contornos escuros, depois flui lentamente para a mão carnuda da mulher, que segura um maço de notas. O dinheiro ficará manchado de sangue.

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Mexa-se, Rassul, mexa-se! Inércia total. Rassul? O que é que o detém? No que pensa? Em Crime e castigo. É isso, em Raskólnikov, em seu destino. Mas antes de cometer esse crime, no momento em que o premeditava, jamais pensara nisso? Aparentemente não. Ou talvez essa história, escondida no mais fundo de seu ser, o tenha incitado ao assassinato. Ou talvez... Ou talvez... O quê? É de fato o momento de refletir sobre seu ato? Agora que você matou a velha, só lhe resta pegar seu dinheiro, suas joias e fugir. Fuja! Ele não se mexe. Permanece de pé. Abatido, como uma árvore. Uma árvore morta, plantada na laje da casa. Seu olhar acompanha o filete de sangue que chega quase até a mão da velha. Que ele esqueça o dinheiro! Que deixe esta casa, rápido, antes que a irmã da velha chegue! A irmã da velha? Essa mulher não tem irmã. Ela tem uma filha. Pouco importa se é sua irmã ou sua filha, isso não muda nada. Nesse momento, não importa quem entra na casa, Rassul será obrigado a matá-lo também.

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O sangue, pouco antes de tocar a mão da mulher, mudou de direção. Agora escorre para uma parte remendada do tapete, onde forma uma poça, não distante de uma pequena caixa de madeira transbordando de correntes, colares, braceletes de ouro, relógios... Por que se preocupar com todos esses detalhes? Pegue a caixa e o dinheiro! Ele fica de cócoras. Sua mão hesita em estender-se para lhe arrancar o dinheiro. A mão dela já está dura, fechada como se continuasse viva e segurando com força o maço de notas. Ele insiste. Em vão. Perturbado, seu olhar pousa nos olhos da mulher, sem alma. Ele percebe o reflexo de seu rosto. Seus olhos, que parecem sair das órbitas, lhe recordam que a última visão que a vítima guarda de seu assassino se incrusta em suas pupilas. O medo o invade. Ele recua. Sua imagem na íris da velha desaparece calmamente atrás de suas pálpebras. — Nana Alia? — uma voz de mulher ressoa na casa. Aí está ela, aquela que não deveria vir. Rassul, você está perdido! “Nana Alia?” Quem é? Sua filha. Não, não é uma voz de jovem. Tanto faz. Ninguém deve entrar neste quarto. “Nana Alia!” A voz se aproxima, “nana Alia?”, sobe a escada. Rassul, fuja! Exasperado, sai em disparada, precipita-se em direção à janela, abre-a e salta para o telhado da casa vizinha,

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deixando para trás o patou, o dinheiro, suas joias, o machado... tudo. Já no beiral do telhado, hesita em saltar para a viela. Mas o grito de pavor que ecoa do quarto de nana Alia faz vacilarem suas pernas, o telhado da casa, a montanha... Ele se joga e aterrissa com violência. Uma dor viva trespassa seu tornozelo. Não tem importância. É preciso se levantar. A viela está deserta. É preciso se salvar. Ele corre. Corre sem saber para onde vai. E só se detém em meio a um monte de lixo, em um beco onde o fedor faz arderem as narinas. Mas não sente mais nada. Ou está pouco se lixando. Permanece lá. De pé, apoiado contra o muro. Percebe o tempo todo a voz estridente da mulher. Não sabe se é ela que continua a berrar ou se é ele que está possuído pelo grito. Segura a respiração. A rua, ou sua cabeça, fica subitamente quieta. Afasta-se do muro para continuar a fugir. A dor no tornozelo o paralisa. Seu rosto se retorce. Apoia-se de novo contra o muro, ajoelha-se para massagear o pé. Mas alguma coisa começa a ferver dentro dele. Com uma sensação de náusea, inclina-se um pouco mais para vomitar um líquido amarelado. O beco com todo seu lixo gira em torno dele. Segura a cabeça entre as mãos e, com as costas grudadas no muro, escorrega para o chão. De olhos fechados, permanece imóvel por um bom tempo, a respiração suspensa, como para escutar um grito,

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um gemido que viria da casa de nana Alia. Nada. Nada, a não ser o sangue pulsando em suas têmporas. Talvez a mulher tenha desmaiado ao descobrir o cadáver. Espera que não.

Quem era essa mulher, esse tipo abominável que pôs tudo a perder? Era de fato ela ou... Dostoiévski? Dostoiévski, sim, é ele! Com seu Crime e castigo, ele me fulminou, me paralisou. Ele me impediu de seguir o destino de seu herói, Raskólnikov: matar uma segunda mulher ­— esta, inocente; levar o dinheiro e as joias que me teriam evocado meu crime... tornar-me presa de meus próprios remorsos, afundar num abismo de culpabilidade, acabar numa prisão... E então? Isso seria melhor do que fugir como um pobre imbecil, um criminoso idiota. Com sangue nas mãos, mas com nada nos bolsos. Que absurdo! Dostoiévski, maldito seja!

Suas mãos comprimem nervosamente seu rosto, depois perdem-se em seus cabelos crespos para se juntarem atrás, em sua nuca banhada de suor. E, subitamente, um pensamento lancinante o aflige: se a mulher não for a filha

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de nana Alia, ela pode roubar tudo e ir embora tranquilamente. E eu, então? Minha mãe, minha irmã Donia e minha noiva Souphia, o que será delas? Foi justamete por causa delas que cometi esse assassinato. Essa mulher não tem o direito de se aproveitar dele. É preciso que eu volte lá. Aos diabos com meu tornozelo! Ele se levanta. Retoma o caminho.

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Preview MALDITO SEJA DOSTOIÉVSKI