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A SUBJETIVIDADE EM QUESTÃO Os paradigmas do corpo na construção cultural através da educação popular

TEMA: EDUCAÇÃO

Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

AUTORES Aline Lúcia de Rocco Gomes; Douglas de Jesus; Profª Dra. Raiane P. Severino Assumpção (TUTORA); Valéria Ap. de Oliveira Silva

Santos 2014


O Projeto de Extensão Educação Popular, Corpo e Cultura nasce a partir da atuação dos estudantes bolsistas do PET (Programa de Educação Tutorial) Educação Popular “Criando e Recriando a Realidade Social” da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp Campus Baixada Santista, que busca formas de interação entre os moradores da comunidade e a universidade, baseado no tripé ensino, pesquisa e extensão, sob a perspectiva freiriana de educação popular. Este projeto construiu conhecimento e mudou posturas a partir da percepção e reconhecimento do próprio corpo pelos sujeitos envolvidos, provocando-os a problematizar e refletir sobre as amarras construídas socialmente e a trazer outras perspectivas. Compreendeu-se que a libertação das opressões, exige nos libertar das concepções que têm nos referenciado sobre o próprio corpo e o nosso fazer cotidiano (a cultura), levando a refletir sobre o papel que estamos desempenhando no mundo e de qual forma estamos inseridos nele. “Por um lado, o homem é um corpo, no mesmo sentido em que isto pode ser dito de qualquer outro organismo animal. Por outro lado, o homem tem um corpo, isto é, o homem experimenta-se a si próprio como uma entidade que não é idêntica a seu corpo, mas que, pelo contrário, tem esse corpo ao seu dispor. Em outras palavras, a experiência que o homem tem de si mesmo oscila sempre num equilíbrio entre ser um corpo e ter um corpo, equilíbrio que tem de ser corrigido de vez em quando. Esta originalidade da experiência que o homem tem de seu próprio corpo leva a certas consequências no que se refere à análise da atividade humana como conduta no ambiente material e como exteriorização de significados subjetivos”. (Berger e Luckmann, 2002)

Assim, reconhecer o próprio corpo, nas suas diversas dimensões – biológica, social, produtiva, psicológica, afetiva, política e cultural, só foi possível pelo uso de uma linguagem que criou vínculo, diversão, outras espacialidades, mas tendo como fundamento a intencionalidade da educação popular. O grupo buscou na dança uma estratégia para a vivência da práxis (ação-reflexão-ação): revelando valores, códigos e sentidos, que na maioria das vezes passam despercebidos e contribuem na reprodução de uma lógica opressiva e preconceituosa. Desse modo, a perspectiva da educação popular e a intencionalidade política, passou a fazer com que os sujeitos levantassem questionamentos, reflexões e compreendessem a realidade em que estamos inseridos, possibilitando criar propostas de transformação dessa


realidade sob um contexto de subjetivação: de abertura para a novidade, de contato com o próximo e da transversalidade das afetações. Essa experiência evidenciou a visão de mundo e conceitos internalizados pelos sujeitos participantes, construiu um diálogo mais aprofundado, plural e horizontal, na perspectiva da autonomia política e educação libertadora. As oficinas de dança possibilitaram a criação de outras atividades geradoras de questionamentos, com ênfase em temas transversais ou ações referentes ao racismo, machismo e intolerância e a qualquer outra forma que desrespeite a pluralidade e aos Direitos Humanos. A proposta inicial, utilizando a oficina de dança como ferramenta, deu-se a partir do contato dos integrantes do PET com alguns trabalhadores terceirizados da universidade, e, aos poucos, foi atingindo um número maior de participantes, depois de intensa divulgação e ajustes de horário, houve a adesão tanto desses trabalhadores, como de servidores técnicos e estudantes. O trabalho, foi realizado também em outros formatos, tais como místicas (atuação teatral), dinâmicas e rodas de conversa, procurando sempre enfatizar o que Paulo Freire afirma: “Ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, sem aprender a refazer, a retocar o sonho por causa do qual a gente se pôs a caminhar”. (1997) Iniciou-se um novo modelo de Projeto no ano de 2014, com a chegada de novos integrantes e pela necessidade de outras possibilidades de abordagem voltadas para: intervenções, discussões e debates a partir do conceito de corpo e cultura na sociedade com divisão de classes sociais, pautada pelo consumo. As atividades buscaram favorecer o reconhecimento de que no processo de transformação social há também uma mudança subjetiva, e vice-versa. Que há uma relação intrínseca entre as concepções assumidas, a forma como são construídos os processos sociais e culturais, e as atitudes/ posturas dos sujeitos. “...os homens, ao terem consciência de sua atividade e do mundo em que estão, ao atuarem em função de finalidades que propõem e se propõem, ao terem o ponto de decisão de sua busca em si e em suas relações com o mundo, e com os outros, ao impregnarem o mundo com sua presença criadora através da transformação que


realizam nele, na medida em que dele podem separar-se e, separando-se, podem com ele ficar, ao contrário do animal, não somente vivem, mas existem, e sua existência é histórica”. (FREIRE, 1996)

O processo vivido possibilitou descobrir diferentes formas de atingir a intencionalidade da educação popular, rumo à emancipação humana e a construção de um novo projeto de sociedade. Uma sociedade livre de quaisquer resquícios de opressão e discriminação, uma sociedade livre da desigualdade social.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGER, Peter L. & LUCKMANN, Thomas. A Construção social da realidade: Tratado de Sociologia do Conhecimento. Cap. I A sociedade como realidade objetiva. Institucionalização. São Paulo: Ed. Vozes, 2002, P. 74. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido: Educação como Prática da Liberdade, São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1996, P. 51. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: Um reencontro com a Pedagogia do Oprimido, Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1997, P. 79.

Roda de Conversa 6º CBEU - Frente Educação Popular, Corpo e Cultura  

Trabalho inscrito e apresentado no 6º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária - CBEU, realizado em maio de 2014, em Belém do Pará.

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