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P.6 / CONFERÊNCIAS Confira a cobertura completa

UMA PUBLICAÇÃO DO SINEPE/RS Nº 134 /// ANO XXIII /// SETEMBRO-OUTUBRO 2019

P.44 / BASTIDORES O registro dos principais momentos do Congresso

XV CONGRESSO DO ENSINO PRIVADO GAÚCHO


Recordar é viver OSWALDO DALPIAZ Vice-presidente do SINEPE/RS e coordenador do XV Congresso do Ensino Privado Gaúcho A releitura de um documento ou de um texto leva não só

Por outro lado, não basta ser feliz. Os alunos admiram um professor inspirador, que é competente naquilo que faz, que consegue elevá-los a ter consciência de suas potencialidades, que os incentiva a serem autores de seu conhecimento e protagonistas de suas decisões. Possuir essa capacidade, “para não sermos substituídos por robôs”, conforme alerta Fábio Bernardi, é também compreender o sentido que a BNCC dá às habilidades e às competências como ideal a ser atingido no trabalho pedagógico. É indiscutível a influência do professor na vida de seu educando, pois educar alguém é tocar nas suas emoções.

a aprofundar determinado conteúdo como a descobrir facetas

Por isso, o professor pode fazer a diferença. E vale lembrar o

despercebidas. Por isso, rever algo é sempre voltar às origens

alerta da conferencista Ana Cláudia Arantes: “a gente, quando

e retornar revigorado, principalmente quando essas origens

ensina, tem que ser impecável com a palavra, porque temos o

foram permeadas de profundidade, foco e leveza.

poder de destruição de almas”. Ótima leitura!

As conferências do XV Congresso do Ensino Privado Gaúcho tiveram a preocupação de mostrar que o professor exerce uma importância ímpar no jeito de ser de seu aluno, contribuindo para que este seja uma pessoa realizada e um cidadão significativo. Nos textos dessa edição, o leitor vai poder conferir reflexões interessantes, como a importância de o professor ter um olhar para si e, a partir desse olhar, construir-se como uma pessoa que escolhe ser feliz, realizada, contente, capaz de perdoar e perdoar-se, de enxergar o potencial de seus alunos para fazê-los crescer, pois “educar é convidar o outro à melhor versão de si mesmo”, como nos diz Leo Fraiman.

/// EXPEDIENTE EDIÇÃO: Coordenação: Carine Fernandes. Produção e edição: Vívian Gamba (MTB 9383). Infográficos: Hermes Moura. Foto da capa: Bruno Alencastro. Diagramação: Prya Estúdio de Comunicação. Revisão: Rosane Vargas e Milton Gehrke. Conselho Editorial: Osvino Toillier, Hilário Bassotto, Flávio D’Almeida Reis, Mônica Timm de Carvalho, Naime Pigatto, Raquel Boechat, Ruy Carlos Ostermann, Ângela Ravazzolo, Rosângela Florczak e Gustavo Borba. Antenas: Adriana Gandin, Alfredo Fedrizzi, Caio Dibi, Crismeri Corrêa, Fernando Becker, José Moran, Laura Dalla Zen, Márcia Beck Terres e Mauro Mitio Yuki. DIRETORIA: Presidente: Bruno Eizerik, 1º Vice-Presidente: Osvino Toillier, 2º Vice-Presidente: Oswaldo Dalpiaz, 1º Secretário: Marícia da Silva Ferri, 2º Secretário: Iron Augusto Müller, 1º Tesoureiro: Hilário Bassotto, 2º Tesoureiro: João Olide Costenaro. Suplentes: Maria Helena Rodrigues Lobato, Ruben Werner Goldmeyer, Joacir Della Giustina, Laura Coradini Frantz, Nestor Raschen, Jacinta Maria Rothe, Carlos Roberto Milioli. CONSELHO FISCAL: Titulares: Ademar Joenck, Inacir Pederiva, Cátia Teresinha Lange. Suplentes: Isaura Paviani, Maria Angelina Enzweiler, Guilherme Kühne. EQUIPE: Direção: Milton Léo Gehrke. Assessoria pedagógica: Naime Pigatto e Claudete Chiarello. Centro de Desenvolvimento em Gestão (CDG): Vera Lúcia Corrêa. Assessoria de Comunicação e Marketing: Luciana Moriguchi Jeckel Lampugnani, Carine Fernandes, Eduardo Oliveira, Tamara Stucky, Hermes Moura e Bruno Pinheiro. Financeiro: Matheus Philippi. Secretaria: Jaqueline Maria Rodrigues da Rosa e Suelen Schroeder Ferreira. Recepção: Emília Pires e Joana Reni Vielhuber. Serviços Gerais: Ereni Souza da Silva e Naira Elizabetti Real. FALE CONOSCO – Redação: Cartas, comentários, sugestões, matérias – educacaoemrevista@sinepe-rs.org.br. Comercial: Anúncios e assinaturas – comercial@sinepe-rs.org.br. Informações: Telefone (51) 3213.9090 e www.educacaoemrevista.com.br. ISSN: 1806-7123 A Educação em Revista não se responsabiliza por ideias e conceitos emitidos em artigos ou matérias assinadas, que expressam o pensamento dos respectivos autores.


SUMÁRIO ///

06 JOSÉ MOTTA: A Educação 4.0 e as Edtechs Emergentes

16 PRISCILA BOY A formação do professor na perspectiva da BNCC

18 ANDRÉ GUADALUPE Escola de Alto Desempenho – do propósito à gestão de resultados

36 ROSSANDRO KLINJEY Numa era de incertezas, o mais importante é ser feliz

40 LEO FRAIMAN Os projetos de vida do educador – por uma vida com mais propósito e brilho nos olhos


FOTOS BRUNO ALENCASTRO

4 /// ABERTURA

/// Presidente do SINEPE/RS, Bruno Eizerik, e coordenador do Congresso, Oswaldo Dalpiaz, fizeram a abertura do evento

XV Congresso reúne dois mil professores em Porto Alegre

C

mil professores. Em três dias de evento, 13 conferencistas subiram ao palco para falar sobre temas importantes do dia a dia do professor, como habilidades socioemocionais, uso das novas tecnologias, Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e novas competências para o século 21. Na abertura, na noite do dia 24 de julho, o coordenador do Congresso e vice-presidente do SINEPE/RS, Oswaldo Dalpiaz, fez uma reflexão sobre a temática do evento a partir da palavra “conexão”: “é uma relação entre o aqui e agora e o futuro, entre o ser e o poder ser, entre a realidade e a esperança, e fazendo essa conexão estão vocês, educadores, e graças a essa conexão podemos pensar e falar numa sociedade

onferências que discutiram a fundo o papel do

melhor”, destacou. O presidente do SINEPE/RS, Bruno Eizerik,

professor como agente de conexão e surpresas que

agradeceu a presença dos congressistas e afirmou que uma

tentaram mostrar aos professores a importância que

das coisas que os professores colocam em prática é a emoção:

tem a emoção na função docente foram algumas das marcas

“Se não existe emoção, não existe aprendizagem. Não temos

do XV Congresso do Ensino Privado Gaúcho. O evento

dúvida de que não existe outro caminho para construir um

promovido pelo SINEPE/RS ocorreu de 24 a 26 de julho, no

mundo melhor que não a educação, e todos os que estão aqui

Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre, e reuniu dois

compartilham dessas ideias, para crescer”.


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Especialistas destacaram o papel cada vez mais importante do professor na formação dos estudantes O Congresso recebeu 13 nomes de destaque da academia – José Motta, Pedro Demo, Priscila Boy, Fábio Bernardi, Kátia Biehl, Denise Cavaline, Eny Muniz, André Guadalupe, Marcos Raggazzi, Ana Claudia Arantes, Luis Rasquilha, Rossandro Klinjey e Leo Fraiman –, que falaram do papel cada vez mais importante do professor na formação dos estudantes. Entre as surpresas que marcaram o evento, um show com Os Fagundes na abertura; os professores recebidos com

/// Surpresas aos professores foi uma das marcas do Congresso

maçãs, um presente tradicional da vida docente, que trouxe muitas recordações àqueles que costumavam recebê-las de

Escolas São Francisco, de Porto Alegre, Claudete Massimino,

seus alunos (ou mesmo entregá-las aos seus professores);

afirmou que o evento era bastante esperado e atendeu à

cartas dos alunos aos participantes, falando da importância

expectativa de todos. “A temática, as palestras, que mostraram a

do professor; apresentações emocionantes dos gauchinhos

questão socioemocional, que a gente vivencia muito hoje.”

do The Voice Kids Luiza Barbosa e Thomas Machado; uma

Paralelamente ao Congresso, ocorreu a XV Expoeducação, a

homenagem especial aos congressistas avós, no Dia dos

maior feira de produtos e serviços da área da educação da região

Avós, com a entrega de brownies; e o encerramento, no qual

Sul do país. Em um espaço de 600 m2, 42 empresas (confira na

cada um dos congressistas foi presenteado com flores.

página 48 a lista completa de expositores) trouxeram novidades

Para a professora do Colégio Franciscano São José,

para o setor educacional – inovações em recursos pedagógicos,

de Erechim, Vanessa Braz, o evento agregou muitos

de gestão e tecnologia educacional, móveis escolares,

conhecimentos. “Incentivou o olhar ao professor, na questão

brinquedos lúdicos, editoras, livrarias e sistemas de ensino.

da felicidade, [da necessidade] do brilho nos olhos e o

Nessa edição, o Congresso contou com o patrocínio das

direcionamento disso aos nossos alunos. Foi muito interessante

seguintes empresas: Unoi Educação, Sistema Etapa, Anglo, Ph,

e proveitoso. É a primeira vez que participei e pretendo

International School, Editora do Brasil, Cantinas do Tio Júlio,

participar de novo.” A coordenadora pedagógica da Rede de

Parque Snowland, School Picture e Mackenzie Educacional.

/// Apresentação de Os Fagundes empolgou o público na primeira noite

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


FOTOS BRUNO ALENCASTRO

6 /// JOSÉ MOT TA

Professor tem que inspirar

G

ratidão especial a todos vocês que estão nesse hub para que possamos conectar professores. Sou da geração X, nascido em 1970, filho de uma mãe professora e

eles com cotonete pendurado no ouvido. No lapso da coisa antiga, eu digo: “Gente, pelo amor de Deus, parem de ficar escutando Spotify e vão estudar direito”. Ambos me interromperam: “Pai, o professor passa podcast, áudios, vídeos. Então, quando você pensa que estou ouvindo música (a gente também faz isso), eu estou estudando”. Eu vi ali, no chão da minha casa, o choque de gerações. Meus filhos estavam consumindo conteúdo de outro jeito e eu não fui capaz de enxergar. Fui professor de turmas regulares em Curitiba por 23 anos, de Física no Ensino Médio e Matemática no Ensino Superior.

pai militar e professor. Vocês podem ter uma ideia de como foi

A experiência de lidar com pessoas é extraordinária. Eu me

minha criação. Meu Google era a Barsa e eu tinha que decorar

propus a ensinar e aprendi muito. Só que, em 2014, eu entrava

aritmética. Eu não entendia por que não poderia ter uma fonte

em sala de aula e sentia dores extremas. Dores de alunos

de consulta na prova. Hoje, confesso: em todas as situações da

que não queriam nada com nada. Aquela minha aula, que eu

minha vida, quando preciso resolver um problema, consulto

achava sensacional, não fazia mais efeito.

coisas, converso com pessoas, me conecto. Fui moldado de um jeito que não pertence ao mundo de hoje. Por mais que eu me considere um professor que já “virou a

Tem que ser artista e ter um poder gigante para professar seu conteúdo. E eu [depois de um tempo] me dei mal. A gota d’água aconteceu quando eu cheguei à sala de aula e um aluno

chave”, me peguei fazendo coisas vintage (porque tem coisas da

mostrava aos outros um aplicativo que resolvia exercícios

criação que ficam na sua cabeça). Eu estudava no meu quarto,

matemáticos. Pensem num ser desesperado. Eu vibrava

em silêncio, escrivaninha organizada. Entro no quarto dos meus

quando a editora me mandava um livro extra com os exercícios

filhos, celular ligado, computador ligado, televisão na Netflix e

resolvidos. Os alunos tinham, no máximo, o gabarito. Eram


8 /// JOSÉ MOT TA

meus reféns. Quando eu vi um aplicativo de celular com o passo a passo de um exercício escaneado (e aquela encrenca resolvia tudo, derivada, integrais, equações diferenciais), com conteúdo e comentários, pensei: E agora? Qual será o meu papel, se há uma

“Qual será o meu papel, se há uma IA capaz de reconhecer um conjunto de símbolos e resolver o que eu resolvia?”

espécie de IA (Inteligência Artificial) capaz de reconhecer um conjunto de símbolos e resolver o que eu resolvia? Entendi que havia chegado a hora de fazer diferente.

é professor de Física e Cálculo e não adotou elementos steam nas suas aulas?” Meu olho já começou a arregalar. “Você não

Eu tinha que fazer dos meus alunos os criadores daquele

segue as premissas de learning by doing, do it yourself, cultura

conjunto de símbolos a ser resolvido, ensiná-los a direcionar

maker? Como você faz uma aula de Física sem levar algo que o

seu olhar para o mundo e equacionar problemas. Por que

aluno possa colocar a mão na massa, montar fuçar, errar, acertar,

resolver algo que já estava resolvido, quando fora dos

errar de novo? Não acredito que você não usa gamificação, isso

muros da escola há tanta coisa para resolver? Eu não estava

é altamente engajante, colaborativo e participativo. Você não

inspirando os meus alunos para isso.

tem canal no YouTube? Não gera conteúdos, discute com os

Chamei outros professores para conversar. Professores que ficavam com seus alunos em sala depois do sinal tocar e de os meus já terem “fugido”. Meus alunos não queriam ficar comigo

alunos? Pede para eles gerarem conteúdo para você colocar no seu canal?” E isso virou uma coisa infinita. Realidade virtual, aumentada, mista, estendida. O aluno

e isso me martirizava. Depois de fazer do encontro um muro de

entrar no gráfico em vez de ficar desenhando. Plataforma,

lamentações – justo eu, que nunca gostei de reclamações –, um

software para interagir com o aluno para coletar dados e poder

deles interrompeu. “Você chamou a gente aqui para isso? Você

fazer a próxima aula melhor... “O que você tem feito?” Cada termo

PREOCUPADO EM ACOMPANHAR A EVOLUÇÃO DO ENSINO? VÁ NA CERTEZA SISTEMA ETAPA O Grupo Etapa dedica-se 100% à educação há 50 anos. É líder em premiações em olimpíadas culturais e aprovações em universidades internacionais. Toda essa experiência pode ser levada para a sua escola por meio do Sistema Etapa.

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que eles falavam eu pensava: onde é que eu estava? Voltei para casa com o seguinte recado: Vá estudar; acorde, o mundo mudou; você parou no tempo, caiu na zona de conforto e foi acometido por uma doença chamada maldição do conhecimento. E esse é um exercício muito dolorido para nós, professores: sair da caixa para começar a navegar em outras teorias, que às vezes não fazem parte da nossa formação. Eu me deparei com muita coisa interessante que eu nunca tinha ouvido falar. A primeira foi metodologia ativa de ensino. Para mim, a tal sala invertida beirava o charlatanismo educacional. Mas tentei e, em menos de um mês, vieram resultados: os alunos começaram a se interessar mais, olhar para mim de volta, falar, interagir, questionar. Estavam novamente comigo, querendo aprender um pouquinho mais. Fui atrás do autor da metodologia ativa, o professor Eric Mazur. Aprendi muito mais: que um ser humano, independentemente da sua titulação, precisa ser humilde. Os criadores da sala de aula invertida, Aaron Sams e Jon Bergmann, ajudaram-me a compreender melhor a possibilidade e o potencial de realmente executar uma sala invertida com todos os ingredientes que ela precisa ter. Os insights desses três professores, em tempos diferentes, foram: 1. O professor tem que amar o que faz; não tem que entregar só conteúdo técnico da sua disciplina, mas um exemplo de

escola destaca a interdisciplinaridade, mas, no planejamento,

mudança de mundo; ele tem que inspirar; 2. O professor tem

os professores são separados em áreas e salas diferentes para

que entrar na sala de aula entusiasmado, tem que ter uma

trabalhar. Eu já abri planejamento que foi cópia do ano anterior,

energia boa; 3. Use e abuse da tecnologia em sala, desde que

só com datas diferentes. Nada de novo, nenhuma atividade. E

você saiba que tecnologia é meio e não fim. É uma ferramenta.

reclamam que os alunos não são mais como antes.

E tem que colocar a mão na massa. Mas onde estão as

Muitas vezes, eu “deformei” minha aula porque percebia

mãos? Semana pedagógica é case de milhares de artigos. A

que o aluno não tinha pré-requisito, não estava rolando. Se

escola chama um palestrante de fora para motivar, o coffee

eu tivesse que dar seis, sete vezes aquela aula, a primeira e a

break do primeiro dia é show de bola, você reencontra os

última seriam bem diferentes. Ao entregar as provas corrigidas,

amigos, os colegas, conversa, vai para o auditório... Estamos tão

via alunos comemorando por terem ficado na média. Média é

bons de coração que saímos de lá pensando que “neste semestre

medíocre. Ou seja, a gente faz um exercício gigante na escola

vai ser diferente”. No segundo dia, o café já é o que sobrou de

em prol da média. Isso fez com que a nossa educação chegasse

ontem, a direção fala do planejamento financeiro, das obras, a

ao fundo do poço. Alunos egressos do Ensino Médio não têm

coordenação pedagógica dá seus recados paroquiais e chega

proficiência em Matemática e Língua Portuguesa. Isso é triste. É

a hora que professores mais amam: o planejamento. O PPP da

um eterno colocar tijolo no muro, livrar-se do conteúdo. O professor não se envolve, não tem amor, não tem

“É um exercício muito dolorido para nós, professores: sair da caixa para começar a navegar em outras teorias”

entusiasmo. Isso é pegar algo extraordinário, a diversidade em sala de aula, e colocar no moedor de carne; é pegar o que é fantástico e tentar deixar igual. Se isso fosse certo, nós seríamos primeiro lugar do Pisa. Temos que fazer como esse


10 /// JOSÉ MOT TA

avô do vídeo, que usou uma espécie de IA para acessar uma informação que ele não sabia – o que era “fúlgido” – e, para explicar ao neto, colocou algo que só ser humano coloca na jogada: um sentimento, algo especial na hora de entregar essa informação. “Fúlgido é uma coisa que tem luz, uma

“Temos que dizer que está errado de um jeito que a pessoa faça melhor. O erro é permitido, mas o que vem a partir dele que é importante”

coisa que brilha, assim como você. Você é fúlgido”, ele falou. Sensacional. Esse avô nos dá uma lição sutil sobre a diferença

aula diferente? Em vez de achar que é tudo ruim em tecnologia

entre inteligência e consciência. O Google entregou imagens, e

e inovação, tem que aprender. Filtre, esprema e veja se algo

ele teve que interpretar como ser humano. Ele usou e abusou

é útil para você. Um professor da Universidade Singularity

do feedforward. Nas escolas, esqueçam os feedbacks, isso é

me disse que não podemos mais optar pelo tradicional ou

alimentar o passado, chorar sobre o leite derramado. Temos que

pela tecnologia, temos que fazer os dois andarem juntos,

fazer diariamente feedforward, alimentar para o futuro, acelerar,

num processo educacional bem lapidado, bem planejado.

dizer que está errado de um jeito que a pessoa faça melhor. O

Pensei nos dez pilares da BNCC e me alegrei, porque consigo

erro é permitido, mas o que vem a partir dele que é importante.

reconhecer ali humano e tecnológico de mãos dadas.

Como o professor do século 21, tenho que entender que

Uma aluna do mestrado da Universidade de Berkeley contou

é possível meu aluno explorar um conteúdo antes da minha

que a prova pode ser feita de qualquer lugar do planeta, com

aula de um jeito incrível. Fazer sala de aula invertida, por

consulta, desde que seja entregue 8 horas após o acesso, sem

exemplo, não é entregar artigo científico (para os alunos

ajuda de outra pessoa. “Eu até posso correr o risco de pedir para

lerem antes), mas algo que brilhe o olho, para que ele fique a

um ser humano me ajudar a fazer essa prova, posso até me

fim de fazer. Só que isso dá trabalho.

formar, mas o meu diploma não virá um carimbo escrito que

No Brasil, há 211,6 milhões de pessoas vivas e 215,2

eu fui um aluno com honra e conduta”, ela falou. Essa é a vibe

milhões de equipamentos ativos inscritos. Como é que eu,

dos alunos da universidade. Sabem quantos prêmios Nobel

professor, não vou considerar isso quando eu for planejar uma

saíram dessa universidade? 106. Quantos temos no Brasil? Zero. Quantos prêmios Pulitzer saíram dessa universidade? 14. Quantos elementos da Tabela Periódica atual foram descobertos nesse lugar? 16. Será que é o nosso jeito de educação que está certo? Os professores precisam se unir, inventar moda e a direção endossar. Os quatro elementos vivos para o planejamento de aula são o sentido, a criação, o fazer e o compartilhar. Porque após você realizar algo, tem que submeter a teste, compartilhar, estar aberto a ouvir críticas e elogios. Assim, o ser humano vai criando maturidade e autonomia na vida. Isso fez uma incrível reviravolta na minha missão como professor. Eu quero mudar o mundo, mudar pessoas, eu quero que daqui a 10 anos elas sejam melhores do que são hoje, e se eu puder inspirá-las, show de bola. Se você escolheu um dia ser professor, é porque você tem um sonho. O meu é mudar uma realidade. Conferência: ‘A Educação 4.0 e as Edtechs Emergentes’. José Motta é mestre em Tecnologias Emergentes em Educação (Must University/ USA); especialista em Gestão Escolar (FAE Business School); especialista em Principles of Technology (Cord International/USA) e MBA em Gestão Empresarial (FAE & Baldwin Wallace/USA).


FOTOS BRUNO ALENCASTRO

12 /// PEDRO DEMO

Educador e aluno precisam ter autoria

A

Precisamos impor limites aos nossos filhos, mas cuidamos para que eles se tornem autores, emancipem-se. Temos um tipo de cuidado, como queria Tiba (‘Quem ama, educa’), tão bem feito que, com o tempo, dispensa cuidados. Ou seja, nosso filho vai ficando em pé, tocando sua vida. Sabemos que ele precisa andar sozinho. A isso chamamos mediação; nas teorias modernas, liderança merecida ou liderança de motivação intrínseca. Seja qual for o nome, o líder é quem busca motivação intrínseca dos seus liderados.

reconstituição do professorado no Brasil é sempre

A psicologia diz, claramente, que a motivação realmente

a parte mais exigente e mais importante de toda a

importante é aquela que vem de dentro. O professor tem

proposta de renovação da educação. Nosso objetivo

esta grande missão na escola: cuidar para que os alunos

sempre é o estudante. Temos que pensar sobre isso. A BNCC

sejam dirigentes, tenham proposta própria. Autoridade não

coloca sobre o professor um monte de coisas novas, de

pode ser autoritarismo.

exigências, mas ele continua o mesmo. Quem dá vida à BNCC é o professor. Ela coloca que é

Há uma discussão complicada sobre disciplina e, no fundo, uma crítica à escola pública, de que é largada, não

papel do governo federal rever a formação docente, e nós

tem dono. Os resultados são evidentes: a escola que tem

deveríamos fazer isso. Temos dados mais que suficientes

disciplina tem uma proficiência maior. O interessante é

para entender o quanto isso é complicado, o quanto isso

que muitos professores trabalham nos dois lados. Quando

é um problema e o quanto isso é solução. É preciso outra

estão na escola pública, têm um tipo de comportamento,

proposta de formação.

quando estão na escola privada, outro.


13 Os professores com pós-graduação, na escola privada, são pouco mais de 20%, mas na escola básica federal, nos colégios de aplicação e militares, quase 80%. A escola privada parece não cuidar tão bem dos professores, mas tem

“O professor que não é autor terá dificuldade de trabalhar a autoria do estudante”

bons resultados também. De repente, deve-se à escola ter dono, disciplina, ter que entregar um produto, ter pais que

mediar, porque a aprendizagem é um fenômeno de dentro

pressionam e ter sindicatos ativos. Essa é uma discussão

para fora, de automotivação. A gente não aprende porque

importante que temos que levar em conta.

alguém coloca ideias dentro da nossa cabeça. Aprendizagem

Um problema que não estamos sabendo atacar é o

não está na aula do professor; está na cabeça do estudante, e

instrucionismo. Os cursinhos, geralmente privados, são um

lá nós não entramos. Não podemos aprender pelo estudante,

exemplo. Muito procurados, mas com resultados dúbios. No

ler pelo estudante, entender pelo estudante. Nosso papel é

Enem, quando se trata de redação, o castelo cai. Quantos

conseguir que o estudante se mobilize para isso. A escola,

estudantes tiram nota máxima em redação? 50 em quase 5

praticamente, não tem atividades de aprendizagem, só

milhões. Ninguém sabe redigir, porque o cursinho é decoreba,

de ensino. Ler, estudar, pesquisar, elaborar, fundamentar,

transmissão de conteúdo, memorização, macete. Saindo

argumentar. Não tem isso na escola, em geral, porque na

desse script, o estudante se perde. Ele não tem assunto, não

faculdade também não havia. O professor que não é autor

lê, não sabe formular um argumento, não sabe desenhar um

terá dificuldade de trabalhar a autoria do estudante.

fundamento de uma proposta, não tem proposta. Nós não podemos causar aprendizagem, só podemos

Muitos países começaram, há muito tempo, educação científica desde a pré-escola. A criança com 4 anos já

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


14 /// PEDRO DEMO

está mexendo com método, fazendo experimentação, laboratório. A criança é curiosa. Como dizia Piaget, na teoria da equilibração, toda criança constrói um esquema mental para entender a realidade. Ela faz um esquema e encaixa o mundo lá dentro. E descobre, dali a pouco, que nem tudo cabe. Então ela tem que se desestruturar. A aprendizagem é essa desestruturação mental. Você tem que largar uma fase e ir para outra, mais sofisticada, tem que elaborar. A Educação Infantil tem esse tom. Não se dá aula. No Ensino Fundamental, é só aula. Aula, prova,repasse. A curiosidade vai diminuindo até ser exterminada. O aluno estuda o que o professor propõe, tem que seguir o script, e o currículo é a garantia dessa sequência. Uma das coisas que a BNCC trouxe agora é o cuidar. Na Educação Infantil, é obvio, o professor tem que ser um cuidador. Mas na Educação Básica, como cuidar da cabeça, do raciocínio, da Matemática, da lógica? Essa visão cartesiana rígida eurocêntrica vai mudar, porque muita gente já se convenceu de que o ser humano não é só cabeça. A escola precisa cuidar de outras dimensões fundamentais da existência

ser aplicado a várias coisas. Na série de Fibonacci, o último

humana. Para que isso ocorra, é muito importante a realização

número é a soma dos dois anteriores (5+3= 8,8+5= 13, 13 +

própria, e falta isso no professor. Ele não se sente realizado.

8 = 21). Esses meninos passaram a estudar Fibonacci dia e

A Finlândia determinou que todo professor de escola

noite. Fizeram uma construção e aplicaram ao mundo da vida,

tem que ter mestrado. Porque mestrado? A razão mais

a Biologia – descobri que não tem flor com 4 pétalas (mas

concreta é simples: porque o mestre aprendeu a pesquisar.

com 8, 13, 21) porque não está no Fibonacci –, e no mundo

Para ser aprovado, teve que fazer uma obra, foi avaliado pela

físico – planetas também têm esses padrões seriados. A

autoria. O doutor, mais ainda. A universidade sabe o que é

universidade considerou que os meninos apresentaram uma

aprender bem, mas reserva isso para a sua elite acadêmica. A

proposta de mestrado, de tão bem elaborada. O que interessa

graduação é só aula. Certamente, as coisas não são simples.

ressaltar? Uma professora de Matemática sacou que o aluno

Uma coisa é cuidar de um candidato a doutorado, outra coisa

só aprende se entender e, para cuidar que eles entendam, ela

é cuidar da multidão que está fazendo graduação. Não quero

se transformou. Conclusão: os alunos não são problema. Nós

ressaltar a precariedade, mas tirar daí o ímpeto para mudar.

que temos que mudar e, sobretudo, a universidade tem que

Qualquer pessoa que deixa o instrucionismo de lado,

mudar. Um dos maiores problemas que eu vejo é a dificuldade

diminuindo ou eliminando as aulas para que os estudantes

da universidade em cair em si e fazer uma autocrítica, perceber

pesquisem e produzam, se tornem autores, protagonistas,

que a licenciatura e a Pedagogia se perderam pelo caminho.

vê que eles podem mudar. Em Mato Grosso do Sul, uma professora de Matemática conseguiu que cinco adolescentes

Na BNCC, as habilidades são codificadas uma a uma. Existe uma tentativa de flexibilização que eu acho fundamental. Sugere,

do Ensino Médio se encantassem por Fibonacci – matemático

nas entrelinhas, que poderíamos fazer o Ensino Médio em três

medieval italiano que descobriu um padrão numérico que pode

anos juntos. No fundo, está a ideia de quebrar 50 minutos, uma das coisas mais mesquinhas e imbecilizantes que existem na

“Um dos maiores problemas que eu vejo é a dificuldade da universidade em cair em si e fazer uma autocrítica”

escola. Se você tomar a ideia de aprender como autor, para que servem 50 minutos? Dá para ler? Dá para estudar? Dá para pesquisar? Dá para elaborar? Dá para fazer um texto bom? Só dá para transmitir conteúdo e esperar que o aluno engula.


Quando falamos de aprendizado adequado no Brasil, estamos indo para trás. Primeiro: os números mostram o efeito desaprendizagem. Em Matemática, o aprendizado adequado nos Anos Iniciais, em 2017, é de 48,9%; nos Anos

“A BNCC só funciona se tivermos um bom professor. O aluno só aprende se tivermos um bom professor”

Finais, 21%; no Ensino Médio, só 9%. Esse efeito é devastador para o aluno e para o professor. Segundo: por que o pedagogo

digitalmente. O texto do futuro é um texto digital, multimodal,

tem um desempenho tão melhor que o licenciado se vem

e os professores não estão conseguindo acompanhar.

da mesma “ferraria”? Vou chutar: ele trabalha todos os

E a valorização docente. Cito estudo do BID do ano passado,

conteúdos, envolve-se, conhece seus alunos, relaciona-se.

‘Profissão professor’. É um banco de desenvolvimento, tem

Muitos licenciados dão sua aula e vão embora. É a regra.

sua ideologia, mas os pesquisadores deles são tecnicamente

A grande mudança seria esta: questionar radicalmente a

muito bons. Eles constataram, entre outras coisas, que 5%

Pedagogia e a licenciatura para fabricar outro professor, um

dos estudantes latinos (15 anos) afirmam que gostariam de

profissional da aprendizagem, autor, cientista, pesquisador.

ser professores, mas as matrículas da universidade mostram

Todos os países que melhoraram a educação arrumaram

que 20% fazem algum curso de educação. Como? Então,

o professor. Tem que ser uma profissão importante, o

sugerem um termo um pouco provocativo: refúgio. A turma

profissional dos profissionais. Cingapura, que está no topo

faz educação para ter um diploma superior baratinho, que

do Pisa nos três itens (Ciência, Leitura e Matemática), cuida

não exige muito. Educação como curso avacalhado, não dá.

obsessivamente dos seus. Professor precisa de tempo

Educação tem que ser “o curso”, até porque define o que é

para estudar. Não na mesma universidade. É preciso outra

aprender, o que é absolutamente essencial.

oportunidade, outra coisa. Vamos sair um semestre da

Muitos países avaliam os concluintes de Pedagogia e de

escola para nos regenerar, balançar a roseira deixar para trás

licenciatura (no Brasil,com o Enade). Os dados são tão ruins

ideias velhas. Professor precisa estar atualizado também

que a maioria dos países está pensando em não fazer mais. É melhor não ver. Mas a gente precisa ver. É fundamental ter espírito crítico, sobretudo autocrítico, botar o dedo na ferida na graduação; ela não está correspondendo. A BNCC só funciona se tivermos um bom professor. O aluno só aprende se tivermos um bom professor. Este é o grande desafio: como conseguir que os professores entrem no século 21, sejam autores, cientistas, pesquisadores, para puxar o estudante para o protagonismo de sua sociedade? Cuidar do estudante é um termo estranho, principalmente para o licenciado de Matemática, formado numa faculdade onde apenas o intelecto da pessoa conta. Isso não vale mais. Nunca valeu, na verdade. Mas a gente se iludiu que cuidando da cabeça estava tudo resolvido. É importante que os estudantes tenham um projeto de vida e, mais importante, que o professor tenhaum projeto de vida, se realize com isso e tenha a consciência do quanto ele é fundamental para o futuro do país. Conferência: ‘A autoridade do professor e do aluno’. Pedro Demo é pós-doutor (UCIA/Los Angeles); doutor em Sociologia (Universidade de Saarbrucker/Alemanha); técnico de Planejamento e Pesquisa IPEA e professor titular da Universidade de Brasília.


FOTOS BRUNO ALENCASTRO

16 /// PRISCILA BOY

O efeito da educação é exponencial

P

razer enorme estar com vocês para conversar sobre um tema inquietante, desafiador, que se une a outro tema: um deles é a BNCC e outro é a formação, que

deve se preparar, se posicionar e se abrir para implementála. A BNCC é um documento normativo que define as aprendizagens essenciais. Por isso, posiciona-se na perspectiva de competências e habilidades. A habilidade traz dentro dela o conteúdo: ele não sai de cena, está lá, mas dentro de um contexto. Quando a gente tem um ponto de chegada, pode escolher vários caminhos, que chamamos de currículo. O currículo diz quem é você; é a identidade da escola. A base vai dizer: quero o menino lendo. Aprendizagem essencial: leitura. Como você vai fazer o menino ler? Da forma que você quiser. É currículo, metodologia, o seu posicionamento. O que não pode é o menino não ler. A BNCC traz as aprendizagens essenciais a alcançar. A estrutura está posta. Temos dez competências gerais que

seguem todas as etapas, da Educação Infantil ao Ensino Médio. A Educação Infantil mudou radicalmente: em vez de áreas, há campos de experiência. A lógica do campo de experiência não fecha uma área em si mesma, ela dialoga, é transdisciplinar, então temos que ressignificar as práticas. No Ensino Fundamental, temos a perspectiva do aluno no centro do currículo, protagonista, produtor e não só usuário. Isso vai exigir uma mudança na postura, na forma de organizar, na forma de avaliar. O Ensino Médio está complicado ao quadrado. Áreas do conhecimento, competência específica da área, matriz de habilidade de área. Não há um posicionamento por componente curricular, como no Ensino Fundamental. Está parecido com o Infantil, porque as áreas dialogam o tempo inteiro, e tem uma parte flexível, que o aluno vai escolher. Se você não dominar o conteúdo daquele componente, não vai


fazer um itinerário assertivo. O país precisa muito da expertise

das competências comunicativas. E as quatro últimas:

do professor para formatar um Ensino Médio que garanta a

Autonomia e Autogestão; Autoconhecimento e Autocuidado;

solidez pedagógica, sem a qual ninguém é transformado.

Empatia e Cooperação; Responsabilidade e Cidadania, que a

Todos os segmentos estão a serviço do desenvolvimento

BNCC chamou de socioemocionais, porque o ser humano é

das dez competências gerais, porque competência a gente

integral, não é somente cognição. Ele não precisa aprender

não ensina, a gente desenvolve no cotidiano. São elas:

só fórmulas e letras, precisa aprender a comunicar isso, e

Conhecimento: o aluno precisa ter acesso ao conhecimento.

comunicar de forma correta, respeitando as pessoas. Ele

Iniciação Científica: a ciência tem que vir colada com a crítica,

não precisa aprender os biomas, decorar e acertar na prova,

porque ciência sem crítica é instrumento de manipulação.

ele precisa realmente reverberar isso, a conservação do

Cultura: o repertório cultural é a localidade; é importante

planeta. Ele não precisa apenas dominar alguns conceitos

uma cidade preservar sua cultura e sua história. Cultura rege

e conteúdos históricos, ele precisa aprender a se relacionar,

moral, ética, uma série de percursos de um povo. Essas três a

colaborar, colocar-se no lugar do outro e, principalmente, o

Base chamou de competências cognitivas.

ser humano precisa se conhecer. O humano harmonizado se

Temos, depois, as linguagens. São elas: Múltiplas linguagens: a Base desfoca a escrita como única linguagem expoente. Linguagem musical, linguagem corporal,

relaciona bem com ele, com o outro, com o planeta. O eu, o outro e o nós são os pilares do novo século. A BNCC virou tudo de pernas para o ar. Não tem

linguagem artística, linguagem digital: a gente tem que

conteúdo isolado, não tem metodologia, não tem área,

desenvolver (e dar o mesmo status para as) múltiplas

não tem componente. Precisamos entender esse novo

linguagens, porque existem muitas formas de se comunicar.

caminho – desenvolver competências e habilidades – e

Argumentação: construir argumentos, muito importante

ressignificar nosso trabalho.

no século 21, no mundo globalizado, diferentes opiniões.

Competência é a mobilização de recursos para resolver

Tecnologia, que a Base chama de Cultura Digital: essa é

uma situação complexa. Diante de um problema, às vezes vou

a competência 7, que joguei para 6 para compor o bloco

ter que mobilizar o cognitivo, às vezes o comunicativo, às vezes o socioemocional. Habilidade é saber fazer. Se você não sabe

“O país precisa muito da expertise do professor para formatar um Ensino Médio que garanta a solidez pedagógica”

usar o conhecimento, ele não serve para nada. O conteúdo que você aprende é estanque, a habilidade é transferível. Eu não aprendo apenas o que é solidariedade. Se me torno solidário num projeto, vou ser solidário em qualquer ambiente.


18 /// PRISCILA BOY

Na Educação infantil, temos os campos de experiência, os direitos de aprendizagem, atendidos por meio dos campos, e os objetivos de aprendizagem. O que você vai olhar para fazer seu currículo? Os objetivos, os pontos de chegada, o que você tem que entregar. Os pilares educar e cuidar, binômio que há séculos se discute, são indissociáveis. Temos os eixos estruturais, as interações (com o outro, com o mundo e com o conhecimento) e as brincadeiras, que são pedagógicas. Os campos são cinco: 1) o eu, o outro e o nós; 2) traços, sons, cores e formas; 3) espaços, tempos, quantidades, relações e transformações; 4) escuta, fala, pensamento e imaginação; 5) corpo, gesto e movimento. Não existem fronteiras entre eles, que se interconectam a todo momento. A vivência de experiências faz com que a criança construa hipóteses. No Ensino Fundamental, ela vai sistematizar; nos Anos Finais, consolidar, para, no Ensino Médio, aprofundar e aplicar. No Ensino Fundamental, temos as áreas do conhecimento,

oralidade para gravar um audiobook, um podcast, um vídeo.

com competência específica da área e componente curricular,

Existe uma conexão fortíssima da Língua Portuguesa com

que também tem sua competência específica. E temos as

a oralidade. A gente tem duas perspectivas: a criatividade e

unidades temáticas (planejamento anual) que reúnem os

o protagonismo. O aluno não só aprende gramática, ele faz

objetos de conhecimento (planejamento de etapa), que são

roteiro de vídeo, grava, faz seu próprio canal. Ele não é só o

conteúdos, conceitos e processos; e as habilidades (matriz

usuário da língua, é produtor dela.

de avaliação), que são os pontos de chegada. A essência do

A perspectiva do letramento matemático traz a Matemática

fundamental é ampliar o universo da criança e sistematizar.

como linguagem. A Matemática não é só símbolo, ela

A BNCC abre o texto dizendo “na Educação Infantil a criança

comunica. A essência da Matemática é a elaboração de

viveu experiências; vamos fazer uma retomada dos campos”.

problemas, matemáticos e cotidianos, para trabalhar o

Quer dizer: você está recebendo uma criança; calma, ela não

raciocínio lógico. São situações-problema, dilemas éticos,

sabe ler ainda ou sabe pouca coisa. Ela viveu experiências,

desafios de lógica, tudo ligado à tecnologia digital. Eu ensino

criou hipóteses, acha que “guardanaple” é guardanapo e

algoritmo para quê? Para aprender a programar. Fluxogramas?

agora você tem que dizer para ela que não é.

Porque vou ter que criar um aplicativo. Trabalho robótica

Saímos do modelo de grade curricular, de conteúdo

num diálogo com a ciência. Embora a Base, em alguns

programático, para um modelo de matriz de habilidade. Em

momentos, no Fundamental, não consiga ser interdisciplinar,

Língua Portuguesa, a gramática conceitual cede lugar à

faz essa tentativa de diálogo com outro componente. Resolvo

gramática conectada à prática social, numa perspectiva

problemas do mundo por meio da Matemática – integração

de letramento. Todos os gêneros a partir do primeiro ano.

com Humanas, com mediações e intervenções.

A tecnologia vem com expoente na oralidade, que tem o

A Ciência é integrada desde o primeiro ano. A investigação

mesmo status de leitura, porque é um eixo. Vem, também,

e os múltiplos espaços são a base do letramento científico.

em conexão com a produção de coisas digitais. Eu trabalho a

Vamos sair dos laboratórios. Em vez de minhocas nos vidrinhos, vamos para a terra, para o território das minhocas,

“Habilidade é saber fazer. Se você não sabe usar o conhecimento, ele não serve para nada”

propor ações para preservá-las. Tem que ir até os territórios, é isso que a Geografia fala, que a História fala e que a Ciência fala. A História vem com obrigatoriedade cronológica e obrigatoriedade de dois pontos de vista ou mais, porque


19

sem dois pontos de vista você não tem visão crítica. Um olhar especial sobre três coisas na História: a influência da tecnologia no cenário político, o papel da mulher e o racismo. Estudar não é suficiente; precisamos

“Estudar não é suficiente, precisamos fazer os alunos propor ações concretas para dirimir as desigualdades”

fazer os alunos propor ações concretas para dirimir as desigualdades. A gente só vai mudar a realidade do país quando se dispuser a fazer redes humanas e institucionais. No Ensino Médio, são quatro áreas do conhecimento, com competência específica de cada área. Os eixos estruturantes

decide se vai mediar, intervir no racismo, intervir na violação dos direitos, fazer projetos que reverberam socialmente ou se você vai ficar na sua vidinha de se queixar, de reclamar. Há muitas histórias ao redor do mundo em que

dos itinerários formativos são os seguintes: investigação

professores trabalham em barcos, em tribos indígenas, em

científica, processo criativo, mediação e intervenção e

zonas rurais, em salas sem banco, que partilham materiais,

empreendedorismo. O mundo é multidisciplinar e, por isso,

em regiões onde a religião proíbe as meninas de estudar...

a base do Ensino Médio veio dialogar. Exemplo: alunos do

porque eles acreditam que vão fazer diferença e ressignificam

colégio Magno, de São Paulo, escola de elite, foram desafiados

as relações. Muita gente sai da ignorância e da pobreza por

a olhar para as diferenças sociais e fizeram o projeto

causa de professores que acreditam que é possível. Se você

‘Limpando os rios’, integrando áreas do conhecimento. O

semear, vai colher. Quando a gente colhe, isso se espalha.

processo inicia-se com visitas ao Córrego Congonhas, próximo

Você não tem dimensão do alcance do aluno quevocê tocou,

da escola, para análise física (cor, cheiro) e química (coleta de

livrou do racismo, construiu autoestima. Ele pode ser alguém.

água para análise). A partir da tecnologia, de mobilizações,

O efeito da educação é exponencial, espalha-se pelo mundo.

de patrocínio, eles desenvolvem ferramentas para limpar

Karl Jaspers (filósofo e psiquiatra alemão) trocava cartas

essa água. O professor é o único que pode fazer esse projeto

com Arlette sobre culpa e responsabilidade. Ele diz que o

acontecer, que pode mudar o mundo. Está na sua mão. Você

povo alemão tem que carregar a culpa do Holocausto, mas não aquela culpa que traz sofrimento, mas para nunca mais fazer, na perspectiva da responsabilidade. Porque se o mundo vai mal, não é culpa sua, mas é sua responsabilidade. Culpa e responsabilidade são duas coisas diferentes. Se há racismo na sua escola, a culpa não é sua, mas é sua responsabilidade. Se há desigualdade em relação aos deficientes, aos pobres, que são excluídos, a culpa não é sua, mas é sua responsabilidade. Se existe, na sua escola, relações de poder que humilham, maltratam, segregam, a culpa não é sua, mas é sua responsabilidade. Dona Lenir, professora aposentada de Minas Gerais, descobriu que tem uma responsabilidade. Colocou uma faixa na porta de casa oferecendo aulas para que adultos aprendessem a ler. Essa mulher mudou a vida de pouca gente, mas o efeito vai ser exponencial. As perguntas que eu deixo são: Qual é o seu papel? O que você pode fazer? Se você não sabe como, faça do jeito que você sabe, só não deixe de fazer. Conferência: ‘A formação do professor na Perspectiva da BNCC’. Priscila Boy é pós-graduada em Antropologia Filosófica, docência no ensino superior, elaboração de projetos e gestão de pessoas; MBA executivo Internacional em Marketing (FGV) e pedagoga.

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


Emoção é a palavra do Espaço MOVER

A

FOTOS BRUNO ALENCASTRO

20 /// ESPAÇO MOVER

emoção foi a porta de entrada do Espaço MOVER

(Minuto para Olhar, Viver, Escutar e Refletir). Na palestra ‘Aristóteles e os robôs’, o sócio da Morya

e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e

Social do RS, Fábio Bernardi, trouxe uma frase de Aristóteles para mostrar aos professores o que ele considera o segredo

/// Eny Muniz: Emoção deve estar também na avaliação

para construir pontes: “O juízo de valor das pessoas muda conforme a emoção que elas sentem”. Segundo ele, se nos

além, ideias; e, juntando uma ideia à outra, chegamos

lembrarmos disso em qualquer contato humano, vamos

à sabedoria. “Todos podem aplicar em sala um dado

mudar a forma de nos relacionar.

de sabedoria importante para enfrentar um mundo de

“A comunicação não é o que a gente diz, é que os outros

mudanças: DECOREBA. Assim: DE COR, EBA! A chave está

entendem. Como a gente ensina e como a gente aprende?

no coração. Cada vez mais ele está se tornando uma métrica

Não tenho resposta, mas intuo. Para não sermos substituídos

para as coisas. Emocionem as pessoas e tudo mudará.”

pelos robôs, não podemos ser um.” Bernardi pontuou

A diretora pedagógica do ‘Projeto UNOi Educação’, Eny

que dados são apenas dados; quando mais apurados, são

Muniz, com a palestra ‘Avaliação como processo Educativo’,

informação; ligando os pontos, temos conhecimento; mais

falou do uso da emoção também no processo avaliativo. Ao definir os professores como “agentes” que exercem ações e se conectam com os alunos todos os dias, afirmou que tudo o que fazem e também o que não fazem causa impacto na vida dos alunos e na sua aprendizagem. “Avaliação é um processo educativo. Estou falando de uma cultura avaliativa. Avaliação do ensino (meu, como professor) e da aprendizagem (o processo ao qual o aluno foi exposto). Onde estamos em nosso processo de avaliação, para onde vamos e como vamos?” Para ela, a avaliação mostra muito do que os professores são e do que são capazes de construir. Eny afirmou que professor não dá aula. “Somos gestores de recursos em sala de aula; do tempo, de conhecimento, de pessoas, de processos.” E colocou questões que, segundo ela, se respondidas, mostram a capacidade das pessoas de fazerem qualquer coisa: O que é? Para que serve? Como fazer? Por que existe? Para a pedagoga, em tempos de BNCC,

/// Fábio Bernardi: Emocionem as pessoas e tudo mudará

é preciso olhar e ressignificar. “Vamos nos reunir com nossos


21 pares. Precisamos ver, estudar, transformar. Senão nós, quem vai fazer? Senão agora, quando vamos fazer?” A doutora em Psicologia Kátia Biehl deu continuidade ao ciclo com a palestra ‘A formação da inteligência socioemocional em adultos: uma abordagem da educação multidisciplinar’, que mostrou seu trabalho de reabilitação de presos. Um dos seus exemplos: Rodrigo, um preso que, em 2014, foi indicado para trabalhar numa empresa parceira e tem um salário de R$ 3.800. Usuário de drogas em tratamento, cumpriu pena até 2015 e, desde então, não reincidiu. Kátia começou sua pesquisa em 2013, como professora universitária. No pós-doutorado em Neurociências, usou sua metodologia com os apenados: o desenvolvimento da inteligência emocional por meio de um tratamento penal que trabalha fatores biopsicossociais e espiritualidade. O objetivo: refletir sobre a capacidade do cérebro de se modificar

Kátia Biehl abordou a formação da inteligência na reabilitação

aprendendo novos comportamentos e a relação com o ambiente em que o indivíduo está envolvido. “Enxergar a vida com esperança, fé, vontade de crescer. Como a gente faz isso [com os presos]? A questão está na nossa

‘Competências socioemocionais e as armadilhas da mente: desafios da educação atual’, que trata dos fenômenos que atuam na mente humana e que ajudam a potencializar o

percepção. Trabalho o superego, o princípio moral, a consciência.

autoconhecimento, a compreender cada vez mais nossas

A voz que diz: não faz isso.” A adesão não é total. No entanto,

características e a pensarmos sobre elas, e também as relações

para ela, a possibilidade de contribuir com a mudança daqueles

que desenvolvemos com os outros e com o meio ambiente.

que desejam realmente mudar já faz o trabalho valer a pena. A pedagoga com habilitação em Educação Especial Denise Cavalini fechou o espaço MOVER com a palestra

“Passamos, com isso, a compreender melhor a importância de pensar antes de agir e reagir, superar ofensas, ter empatia, resiliência, determinação, compreender que ninguém fere sem antes ter sido ferido, e a enfrentar as armadilhas da mente, tais como coitadismo, conformismo, necessidade neurótica de estar sempre certo, dificuldade em reconhecer erros”, afirma Denise. “Falamos muito sobre o mundo de fora e temos dificuldades de falar sobre o mundo de dentro e entender a estruturação dos pensamentos e por que eles precisam ser estudados, compreendidos e trabalhados”, afirmou a palestrante. “O que fazer com os pensamentos invasivos que nos dizem: você não é bom, não vai conseguir? Se você não confrontá-los, eles tomam as rédeas e controlam para onde você vai.” Que palavras usar? Quando falar? De que forma? Denise acredita que esses três filtros são essenciais na vida, colaboram para a assertividade. “Temos que elogiar o outro antes de apontar dificuldades. Um navio só naufraga se o casco está avariado. Assim somos nós: só naufragamos

/// Denise Cavalini falou sobre competências socioemocionais

quando a água da emoção invade quem somos.”

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


FOTOS BRUNO ALENCASTRO

22 /// ANDRÉ GUADALUPE

A cultura da escola não tem preço

H

nos aspectos cognitivo, esportivo e social. A escola não tem para onde correr. Temos uma missão gigantesca na formação desses meninos. E, no dia a dia, na hora em que a porta fecha, é o professor que faz todo o processo de formação e transformação desses jovens. O alto desempenho é quando a gente supera a expectativa do aluno, da família, quando entrega mais do que prometeu. Você tem que prometer bastante e entregar acima. Só que há um problema: quando você entrega um pouco acima, no dia

á 42 anos eu vou para a escola todo dia, como aluno

seguinte tem que fazer mais um pouco. Há duas armadilhas

ou como professor. A escola é a minha segunda

superperigosas: o fato de a gente ter vivido ou estar em alto

casa. Sou professor de Física e design maker. Hoje,

desempenho não nos garante um futuro de alto desempenho; e

dirijo um colégio que fundei há três anos, o Plank. Estamos

o mundo do quando – “Vou desenvolver meu alto desempenho

conseguindo fazer um projeto diferente. Nessa escola,

quando eu tiver um perfil de aluno muito bom, quando eu tiver

eu tenho três papéis: diretor de operações, coordenador

menos alunos por sala, quando eu tiver uma estrutura melhor,

pedagógico do Ensino Médio e professor de Física, com 18

quando as famílias forem diferentes...”. Se esperarmos as

aulas por semana – certa carga de trabalho.

condições perfeitas, nunca vamos fazer nada. A gente tem que

Pelo menos em São José dos Campos, alunos e famílias têm expectativas de que a escola seja capaz de formar bem em múltiplos idiomas, tecnologia, habilidades socioemocionais e

desenvolver alto desempenho hoje, com as condições que tem e, claro, buscar melhores condições a cada momento. O processo de aprendizado na escola é diário. Eu me


23 formei em 97 e não tinha Google. Você consegue imaginar o mundo, hoje, sem Google, sem celular? Quem está indo para séries finais do Ensino Fundamental nasceu junto com o YouTube; quem está indo para o Fundamental 1 nasceu na

“Alto desempenho é quando a gente supera a expectativa e entrega mais do que prometeu”

época do Uber. Os pequenininhos nasceram com YouTube Edu. Eles não assistem mais à TV, assistem tela – Netflix, YouTube.

mostrar que tem algo interessante ali por trás? Eu posso falar

Escutam Spotify, Google Play, qualquer fonte de streaming.

das leis da inércia, mas primeiro eu peço para eles estudarem

Apertam o botão, começa o programa, começa a música, o

freio ABS, cinto de segurança, airbag, coisas do dia a dia. Se eu

carro chega, a comida chega. E quando sentam para assistir à

não despertar o interesse desse aluno pelo conteúdo, não adianta

aula de Física, 50 minutos, 100 minutos, o que têm vontade de

eu ser o melhor professor do mundo, ele não vai prestar atenção.

fazer? Trocar de canal. Não consigo, vou desligar. Eles param

Nosso papel é de extrema responsabilidade e exige

de prestar atenção. O consumo de informação é instantâneo e

muita preparação, muita transformação. Na escola, quero

nós, professores, temos que entender isso. Temos que capturar

destacar duas mudanças de mindset. Primeiro, avaliar

a alma desse aluno no começo da aula.

desempenho de forma individual; nas organizações, o aluno vai trabalhar sozinho? Raramente. Temos que ensiná-los a

Eu posso dar uma aula de interferência em películas delgadas ou ir para o pátio fazer bolha de sabão, ver as perguntas

trabalhar em grupo e contemplar avaliações coletivas. Outra

que os alunos querem fazer sobre as cores da bolha de sabão

é ensinar que existe resposta certa ou errada. Há opções,

e, depois, ir para a sala e explicar a teoria da interferência em

possibilidades e consequências. Óbvio que tem que ter uma

películas delgadas. Você entende que primeiro eu preciso

resposta certa para Matemática, Física, mas a gente tem

A nossa Solução Bilíngue

atende todos os segmentos da sua escola

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


24 /// ANDRÉ GUADALUPE

que ensinar esses meninos a criar hipóteses, defender teses. Mas elaborar um processo de avaliação e corrigir uma prova dessa forma é muito mais complexo. Estamos conseguindo construir essa cultura. Nem sempre conseguimos ter um modelo ideal, mas eu escrevo meu sonho à caneta e desenho o caminho a lápis. Não deu certo, apago e vou por outro caminho. Quero mudar o sistema de avaliação, a forma de trabalhar e quero que o nosso professor se sinta mais empoderado do processo de aprendizagem do aluno. Esse é o meu desafio. Lá no colégio, a gente elegeu estas habilidades socioemocionais: criatividade, curiosidade, motivação, determinação, empatia, colaboração, autoconhecimento responsabilidade, respeito e cuidado e autocontrole. O meu professor tem que avaliar o aluno nessas competências. Eu tenho uma rubrica definida. E uso essa mesma rubrica para contratar – tenho que ter professores que tenham essas competências ou que estejam abertos a desenvolvê-las.

que a sua escola está fazendo hoje para ser referência amanhã.

Nosso papel tem que ser cada vez mais amplo. É

Estamos conseguindo fazer uma escola diferente. O

maravilhoso quando a gente pega um aluno e transforma

professor tem que avaliar o aprendizado do aluno antes da

a vida dele. Não existe tecnologia mais adaptativa que um

prova. Entregar esse conceito junto com a prova, aí vejo se a

olhar atento de um professor. Não existe personalização mais

nota do aluno confere a percepção de aprendizagem dele; 40%

sofisticada que o olhar atento de um professor. O olhar atento

da nossa avaliação é um portfólio; a média é 6. Meu aluno sabe

para corrigir a prova, ver como é que ele está colocando, o

mais Física, mais Química, mais Literatura e mais Geografia do

olhar ao longo da aula, no intervalo, isso é fundamental.

que o aluno da escola concorrente, na média. Posso garantir

Nessa mudança de mindset, uma escola moderna é uma

isso. Porque ele tem prazer em estudar. Eu não mudo o “que”,

escola que tem propósito (não lucro), redes de trabalho (não

eu mudo o “como”. A gente sonha junto e realiza junto.

hierarquia), empoderamento (não controle), experimentação e transparência no processo. Tem que poder errar. A gente tem que buscar sempre estar lá em cima. Sua escola é importante? Se fechasse as portas em 2020, seus alunos e

Para isso, eu preciso contratar bem, preciso reter, preciso ter uma boa cultura e uma boa operação. O que motiva um time? Autonomia, excelência e propósito. Autonomia é como o professor pode desenvolver projetos e dar errado. Uma escola exige que

familiares sofreriam perda real? Quanto tempo levariam e que

o aluno seja criativo e pense fora da caixa, e o professor não?

dificuldade teriam para achar uma escola que faz exatamente o

Vamos combinar os riscos, mas vamos inovar. Excelência é fazer

que a sua faz? A resposta tem que ser “infinito”. O que há na sua

algo absolutamente surpreendente, de que a gente se orgulhe.

escola que é raro ou difícil de imitar? Material didático, software, carteira? Não é nada que o cheque compre. É a combinação das

Tem sete posturas no nosso dia a dia: 1. Toda pessoa numa escola de alto desempenho tem que

pessoas, os professores, o time, a cultura. Isso não tem preço. A

ter claro o seu entregável, o job description, seu papel na

forma como a sua escola opera usando aquele material, aquela

escola. No Plank, esses documentos estão disponíveis para

tecnologia, aquela estrutura, aquele software, aquele recurso. O

todo mundo. Seu Marco Aurélio, um dos porteiros, sabe qual é o meu papel como diretor de operações e sabe o que esperar

“Não existe tecnologia mais adaptativa que um olhar atento de um professor”

de mim. Às vezes ele não compreende, exatamente, mas ele sabe. Não pode ter atividade na escola sem dono e não pode ter atividade na escola com dois donos.


25 2. Dado que você tem um propósito claro e uma especificação de atividades executivas claras, você tem que ter uma estrutura de feedback clara. 3. Toda a escola tem que ter uma estrutura de confiança.

“O que há na sua escola que é raro ou difícil de imitar? Não é nada que o cheque compre. São as pessoas, a cultura”

Eu confio que o Fulano vai fazer a parte dele e ele confia que eu faça a minha, porque está tudo muito claro. 4. Tem momentos em que você vai centralizar, outros em que você vai descentralizar e outros em que você vai distribuir. Não existe modelo de gestão único. Você vai transitar por esses três cenários de construção. 5. Ter comprometimento com um sonho maior. O conflito

e indicadores: as metas têm que ser mensuráveis, realísticas, desafiadoras, tem que ter tempo para serem executadas e ela têm que ter relevância associada ao propósito da escola. Anos atrás, eu fui para a Finlândia com a ilusão de que encontraria pessoas levitando. Tecnologia, coisas chiques. A primeira escola que visitei, English School of Helsinki, fundada

positivo ocorre porque você pensa no bem maior. Às vezes

em 1945, tinha EVA na entrada. Uma mandala com os valores

temos discussões com os professores, entre os sócios.

da escola. Eles podiam colocar isso num telão chique, poderoso.

Respeitosamente, eticamente. Quando há um problema, você

Mas era EVA. Todos os alunos conheciam os valores da escola.

tem que ser suave com as pessoas e duro com o problema.

Isso, para mim, é alto desempenho. Não cair na armadilha de

Porque, no final, o que sobra? As pessoas.

esperar ter a tecnologia para divulgar. Se uma escola particular

6. Todos têm que ter foco nos resultados específicos e gerais.

em Helsinque fez, a gente não pode fazer no Plank, em São

7. Um dos pontos mais importantes: ter alta energia e gostar

José? Eu faço. Um professor de Matemática e Ética, da quinta

do que faz. Afaste-se de pessoas mal-humoradas, elas são do mal. Este é o modelo de gestão que eu uso no colégio: trabalhar

série, colocou abajures na aula, porque nas horas em que ele abaixa a luz branca e liga os abajures, os alunos têm a

conhecimento, planejamento, atitude e inovação. O gestor

sensação que estão na casa da vó, ele explicou. Quem é que

tem que fazer isso e o professor também. E temos processos

não se sente confortável na casa da vó? Ele criou um ambiente mais aconchegante para discutir determinado assunto. Isso é inovação. Trouxe esses exemplos para vocês entenderem que para fazer inovação, basta querer. Prego um conceito do design maker: prototipe, proteja a sua ideia como se estivesse absolutamente certo, mas teste como se estivesse errado. Deu para entender? Na hora do teste, você não tem apego àquela verdade que você internalizou. Você tem que deixar as pessoas bater. Inovar de coração aberto. Construindo junto, a gente constrói melhor. Para encerrar, trouxe uma frase do Starbucks que acho genial: “Não estamos no ramo de café servindo pessoas, estamos no ramo das pessoas servindo o café”. Se uma empresa que vende café tem esse pensamento, imagina a gente, escola? Nós estamos no ramo de pessoas escolarizando, formando, transformando, inspirando. Pessoas. A gente só faz aprendizado com significado. A gente só faz o aprendizado quando a gente se coloca no lugar do outro. Conferência: ‘Escola de Alto Desempenho – do propósito à gestão de resultados’. André Guadalupe é especialista em design maker pela Harvard University, MBA em Gestão Estratégica de Negócios pela ESPM.

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


26 /// MARCOS RAGAZZI

É

BRUNO ALENCASTRO

O professor pode fazer a diferença um prazer imenso estar aqui para falar sobre educar, o capítulo mais importante da minha vida, como profissional e ser humano. Educar para desenvolver

habilidades e gerar competências. Meu objetivo é tentar

responder a cinco questionamentos: 1) O que é educar?; 2) O que são habilidades e competências?; 3) Para que nós educamos?; 4) O que precisamos para desenvolver habilidades e gerar competências?; e 5) Na prática, o que fazer? Educar é um processo em que devemos fornecer informações aos nossos alunos. Eu ia para a escola, basicamente, para receber informação. Hoje, os alunos têm informação 24 horas por dia, sete dias por semana; só que são informações corretas e incorretas, adequadas e inadequadas. A escola continua sendo um espaço para oferecer informações, mas é importante desenvolver a capacidade de processá-las. A segunda parte do processo é o gerenciamento de comportamentos. A escola tem que estimular os positivos e inibir os negativos. É responsabilidade da família? Também. Mas

sentido.” Não existe mais espaço para problemas irreais. E o que são habilidades? Um saber fazer simples, que integra conhecimentos declarados, que podem ser de natureza cognitiva, afetiva e psicomotora ou social. Vamos falar de duas habilidades, essencialmente, as

quando a família nos dá a tutela dos filhos por um determinado

cognitivas e as socioemocionais, ou não cognitivas. O ser humano

período, vamos ter que fazer isso. A terceira parte: a escola

não é um ser racional; é emocional, regulado, às vezes, pela razão.

tem que ser um celeiro de experimentação. Para quê? Para

Portanto, a escola não pode desenvolver apenas capacidades

que os nossos alunos possam descobrir algumas habilidades,

expressas por verbos como deduzir, analisar, concluir, criticar,

desenvolvê-las e gerar o que chamamos de competência. Então,

correlacionar, interpretar, comparar, inserir, citar, sintetizar,

o processo de educar está associado a gerar conhecimento,

descrever, decompor, justificar, julgar, comprovar, induzir, explicar.

gerenciar comportamento e gerar competência.

É imprescindível que também trabalhe autonomia, empatia,

O que são habilidades e o que são competências? A BNCC diz que as competências são mobilização de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas

sociabilidade, estabilidade emocional, resiliência, autocuidado, autoconhecimento, curiosidade, criatividade. Helder Lima Gusso, professor da Universidade Federal de

complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania

Santa Catarina, diz que educamos para capacitar nossos alunos

e do mundo do trabalho. A gente tem que usar tudo isso para

a lidar de maneira mais efetiva e afetiva com o seu mundo.

resolver problemas reais. Um aluno do 3º ano do EF disse que

Genial. Efetiva: competência cognitiva. Afetiva: competência

não queria resolver uma questão de Matemática porque “não

socioemocional. Educamos para que eles enfrentem o futuro. E

era possível”. “Zezinho, com 10 anos, não consegue comprar

qual será o futuro daqui a 20 anos? Os problemas serão muito

nem uma melancia, quanto mais três! 70 maçãs? Isso não faz

mais complexos do que se pode imaginar. Então, educamos


27 para que eles estejam preparados para serem autônomos e capacitados para enfrentar incertezas, imprevistos e novidades. O que precisamos saber para desenvolver habilidades e gerar competências? Se eu pudesse escolher uma das

“Temos que começar a trabalhar com aquilo que a gente chama de ‘educar para o pensar’, usar a criatividade”

dez competências gerais da BNCC, seria argumentação. A capacidade de argumentar é transformadora de sociedades,

enigmas. Se saírem antes de 60 minutos, ganham um prêmio.

de vidas. Freud diz que somos seres de palavras e que nos

Por que não aplicar isso na sala de aula?

constituímos a partir da palavra do outro. Se o outro consegue

Fizemos um projeto chamado ‘literatuitando’, literatura

argumentar de maneira adequada e eu não, ele vai fazer uma

utilizando Twitter, para a escola inteira. Tarefa: escrever

leitura por mim e eu não estaria escrevendo a minha história.

uma poesia sobre sentimento utilizando o Twitter. No

Tem alguma escola aqui que não tem, entre os seus

outro dia, aparecem alunos do 6º ano com Twitter. Você

propósitos, desenvolver capacidades para que seus alunos

explica que eles não podem consumir esse recurso. Mas

sejam cidadãos? E quantas vezes, ao longo da Educação Básica,

você não deixa de fazer a atividade. Usa o desafio técnico,

as avaliações diziam “aluno, critique”? Como vou desenvolver

de escrever utilizando 140 caracteres.

capacidades para que eles possam exercer adequadamente a sua cidadania se não tiverem habilidade de criticar?

Júri simulado: não precisam ser ideias antagônicas, pode ser a defesa de duas boas ideias para resolver um problema; a

Na prática, o que fazer? Temos que começar a trabalhar

melhor vence. A escola tem que ter espaço para o debate. Sua

com aquilo que a gente chama de “educar para o pensar”, usar

escola tem uma rádio? Ela tem que ser operada pelos alunos,

a criatividade para colocar o aluno no centro do processo,

que desenvolvem habilidade comunicativa. Você tem um

para que ele seja protagonista de verdade, e não de discurso.

sistema assistencial na sua escola ou você faz projetos sociais?

Já ouviram falar em uma estrutura chamada Escape 60? É

Educação financeira: lucrar é isso, poupança aquilo. Não

uma instalação onde existem dicas, enigmas, e as pessoas

funciona. Combina um projeto com os pais: orçamento semanal

pagam para entrar num cenário e, em equipe, decifrar

de padaria é R$ 100 e os alunos definem o que comprar. Tem gente que vai comprar bala, chiclete, maria-mole. Depois vai ter o pão, o iogurte que ele gosta? O pai vai deixar o menino com fome? Não, mas vai substituir pão por mandioca, iogurte por leite. Aí o aluno aprende que toda decisão tem uma consequência. Na segunda semana, não falta nada. Experimentação. Para finalizar, eu gostaria de dizer que o seu aluno pode ter apenas você. Eu estou aqui hoje porque encontrei professores que me deram oportunidades. O meu nome, apesar de vocês verem lá Marcos Raggazzi, é Marcos Antônio Pereira da Silva. Raggazzi foi um professor que mudou a minha vida e me deu a oportunidade de poder desenvolver, ter brilho no olhar e entender que uma pessoa pobre, sem pai, sem nenhum tipo de perspectiva, um dia poderia estar num dos maiores congressos de educação do país, um lugar tão maravilhoso, com vocês. Existirão várias situações em que você pode fazer a diferença na vida do seu aluno. Conferência: ‘Educar para desenvolver habilidades e competências’. Marcos Ragazzi é mestrando em Ensino de Ciências (UFOP); MBA em Gestão Educacional (USP) e diretor pedagógico executivo no Bernoulli Educação.

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


O aprendizado comunga o encontro com o outro

O

mundo nos oferece um espetáculo de desigualdade e de sofrimento, sem justificação. A prática diária do cultivo do sofrimento é algo que a gente vem

aprendendo, muitas vezes dentro de nós mesmos. O

comportamento das pessoas segue esta linha: inveja de quem está acima, competição com quem é igual, desprezo por quem está abaixo. Essas três coisas são a raiz de toda insatisfação e infelicidade. O mundo, hoje, depende da oferta e da aceitação de atos de bondade e apresenta três grupos de pessoas: as que ajudam, as que precisam de ajuda e as que fornecem o espaço para que a ajuda aconteça. O que você tem dentro de você para oferecer ao mundo hoje? Há alguns anos venho tocando no assunto “morte” e tem gente que insiste em dizer: “fala de outra coisa, fala de vida”. Aí eu respondo: você só prestou atenção no título da aula; se você tem medo da morte, não fale sobre a morte, fale sobre o seu medo. A riqueza do aprendizado vai ser muito maior do que você ficar favorecendo a negativa de conversar sobre algo que todos nós vamos ter que enfrentar. Um trecho de uma carta que Beethoven deixou para a mulher que ele mais amou diz assim: “Quase coloquei fim à minha vida algumas vezes. Foi a música que me entreteve. Me parecia impossível abandonar este mundo antes de criar todas as óperas que sentia imperiosa necessidade de compor”. Se fosse tirado de você o único caminho de realização do que você considera o sentido da sua vida, você construiria alguma forma de viabilizar essa expressão que te move? Quem, entre os professores de Beethoven, poderia ter sido capaz de dizer “não desista” ou “você tem tudo o que é necessário para ser quem você é”? Não há necessidade de você compor, na sua história, um

BRUNO ALENCASTRO

28 /// ANA CLAUDIA ARANTES


29 número infindável de pessoas que você transformou, mas, se você acreditar que naquele mundo infindável de pessoas que estão ali para serem transformadas, tem alguém que tem um potencial muito grande de mudar o mundo... Uma professora que tive, a Zita, me fez entender de uma forma grandiosa que

“A forma como você ensina transforma a pessoa que escuta em alguém capaz de entender que a vida é mais que aquilo do que você ensina”

não havia nada errado comigo, mas que havia muito espaço dentro de mim para aprender. A escolha que temos ao nosso

caverna? Meditação. A meditação da atenção plena, do

alcance muitas vezes não diz respeito a qual o caminho

você está aqui, agora, e é isso que você tem para lidar. Esse

vamos escolher, mas como a gente vai andar por ele. Um livro que vale muito a pena ler em voz alta, ‘O poder

homem fez um feito que talvez a maioria das pessoas que acham que podem fazer alguma coisa não conseguiria: não

de uma pergunta aberta’, traz um questionamento que

entrar em desespero no momento em que a única coisa

deveria ser a charada de todas as manhãs: como viver uma

possível era entrar em desespero. O que você oferece de

vida na qual não podemos nos agarrar? Quando esperamos

ensinamento para os teus alunos, usando o instrumento

a estabilidade do mundo das coisas, nos tornamos

mais improvável do mundo? A forma como você ensina

vulneráveis à frustração. A gente está num processo de

transforma a pessoa que escuta em alguém capaz de

construção contínua de frustração, porque tudo o que

entender que a vida é mais que aquilo que você ensina.

é ensinado, escrito, ministrado em curso, é em cima de

Ano passado, quebrei o pé. Uma fratura que fez com

sucesso, da conquista. Tenha dinheiro, tenha bens, tenha

que ele ficasse pendurado. A dor que eu tive foi a pior que

amigos, tenha influências, tenha um currículo lattes, tenha

eu poderia imaginar ser capaz de viver. Quando tive minha

uma expressão na sociedade, tenha reconhecimento social,

dor aliviada, já no quarto do hospital, a técnica veio me dar

tenha valor. Não ensinam a gente que nada disso vai ser

banho e falou: “Doutora Ana, vou precisar lavar seu pé”.

levado para o cemitério. Nada do que realmente tem valor,

Olhei para ela com aquela cara de pelo amor de Deus, não

tem preço. Mas tudo que a gente faz é para construir coisas

me diz que isso é verdade, e ela olhou bem nos meus olhos

que têm preço. E aí a gente desperdiça tempo. O tempo

e disse: “Eu vou precisar lavar seu pé, mas eu vou lavar

não espera você perceber a importância dele. Quem é você

com muito amor”. Ela não disse que ia lavar rapidinho ou

quando ensina? Que tipo de ensino você oferece?

que era muito experiente, que tinha uma técnica incrível.

Um professor de 25 anos e seus 12 alunos adolescentes

Ela não disse que eu tinha que passar por aquilo porque eu

ficaram presos numa caverna sem água e sem comida

faria uma cirurgia grande e isso me pouparia do risco de

durante quase 20 dias. O que ele ensinou dentro dessa

uma infecção grave. Ela disse “nós estamos aqui com um

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


30 /// ANA CLAUDIA ARANTES

THIELE ELISSA

problema e eu vou te ajudar a resolver, com muito amor”. Não doeu; nenhuma parte do toque. Trazendo um paralelo para o mundo do ensino: lembro que eu tinha uma dificuldade grande de desenhar os números quando estava sendo alfabetizada. A forma como fui ensinada foi muito cruel. A professora poderia dizer assim, como a Joselita, a técnica: “Essa matéria é muito difícil e você é uma pessoa que está se dedicando muito para aprender”. Suponha que seja Biologia. Para você ser um médico de sucesso, você tem que passar por isso, tem que aprender, tem que tirar 10. Para você ser um químico de sucesso, você tem que tirar 10. Não. O professor é quem ensina: “É difícil, eu estou vendo que você está se dedicando e eu vou te ensinar isso com muito amor. O que você vai fazer com isso depois? É uma escolha sua, é o seu caminho, não o que eu decido por você”. É necessário fazer o bem porque é o que precisa ser feito. Você não faz o bem porque pega bem. O que existe na maestria é um grande espaço de aprendizado com teus discípulos. Se você não é capaz de aprender com aquilo que você ensina, está na hora de você fazer outra coisa

conta de ver tanto sofrimento e tantas pessoas que não se

da vida, porque o aprendizado comunga isso, o encontro

importavam com aquele sofrimento. Eu estava lá, no meio

com o outro. Os mestres de verdade têm sentimentos que

das lágrimas, quando o padre Leo, depois de ouvir o que eu

conectam; têm olhos que enxergam o outro como ele é e

estava passando, segurou na minha mão e disse: “Você está

o respeitam dessa forma, não julgam; o pensamento que

muito cansada de ver tudo isso. Não desista. Feche a porta

alimenta, não que corrói; a voz que constrói confiança, não

da casa que você ainda não tem condição de conhecer, mas

que destrói e condena; [ensinar] é um ato que protege e

a casa é sua. Descanse e volte. Tenha certeza, tem muita

acolhe, não que machuca ou sufoca. É na atitude que você

coisa para fazer por esses pacientes, e a certeza que eu

vai ver o resultado de toda essa integridade interna do

tenho é que você vai descobrir o que tem para fazer”.

pensamento, do sentimento, dos olhos. Um grande desafio para o professor é ensinar para

Reencontramo-nos 15 anos depois. Ele estava certo. Eu não só descobri o que tinha para fazer por esses pacientes,

aquele aluno que tem uma habilidade pouco reconhecida

como agora eu ensino profissionais da saúde a fazerem tudo

entre seus pares que ele tem valor. Quem me deu valor pela

o que pode ser feito por eles. Talvez o padre não pudesse

primeira vez foi o padre Leo Pessini, capelão no Hospital das

imaginar a força da palavra dele. Minhas habilidades tinham

Clínicas, quando eu era estudante e desisti da faculdade de

que ser reconhecidas, em primeiro lugar, por mim mesma, mas

Medicina. Fui para a capela porque parecia que eu estava

alguém no mundo tem que olhar para nossa habilidade e dizer:

negando um dom. Foi muito difícil entrar numa faculdade

vai em frente. Foi uma conversa de cinco minutos que durou a

pública e eu estava abrindo mão, porque eu não dava

minha vida toda. Por isso que a gente, quando ensina, tem que ser impecável com a palavra, porque quando você tem o poder

“A gente, quando ensina, tem que ser impecável com a palavra, porque temos o poder da destruição das almas”

da palavra, você tem o poder da destruição das almas. Ensinar a cuidar e ajudar as pessoas é ensinar as pessoas a viverem no mundo em que a gente está vivendo. É preciso ajuda e cuidado, não condenação.


31 Se vocês esquecerem tudo que eu falei até agora, pensem que sua meta de vida precisa ser esta: ser capaz de, no dia a dia, ensinar compaixão. Imagino que vocês vivam, com relativa frequência, uma briga de crianças

“Você tem que saber para que você existe. E não é para provar ao mundo o valor da sua existência.”

na hora do recreio. Uma empurra a outra, que cai e rala o joelho, sangra. Junta aquela rodinha, “olha o que ele

compassiva. Reconhecer que o sofrimento existe. Você não

fez”, e aí vem a professora. A conduta habitual é “olha

olha para aquele joelhinho e diz “isso não é nada, imagina,

o que você fez no seu amigo; ele está sofrendo por sua

perto do que você vai passar na vida”. Há quem responda

causa; se coloque no lugar dele; se fosse com você”. A

isso. Tenha a verdadeira intenção de que o sofrimento

cena pode ser refeita. Se você falar para o rapazinho que

seja aliviado. Conecte-se com esse desejo. Busque, então,

empurrou o amigo “ele está sofrendo muito, você viu que

suas ferramentas, suas habilidades, sua capacidade, seu

está sangrando o joelho?”, certamente ele vai dizer que

conhecimento, sua força, seu amor e sua coragem para

sim. “O que você pode fazer para ajudá-lo a passar por

ajudar a aliviar o sofrimento. Esse passo dá força para você

isso?” Eu posso ir buscar água, eu posso segurar na mão

olhar para si mesmo e se sentir capaz de ajudar.

dele enquanto você faz o curativo, eu posso trazer o meu

Não importa a idade que você tenha, nunca é tarde para

brinquedo para emprestar enquanto ele fica bom... “O

se envolver, para aprender a fazer aquilo que é preciso ser

que você pode fazer para aliviar o sofrimento que você

feito e não aquilo que você sabe fazer. Você tem que saber

causou?” Ensinar compaixão. Você precisa ensinar seu

para que você existe. E não é para provar ao mundo o valor

aluno a ter consciência que o sofrimento existe. Não é

da sua existência. É para ajudar o mundo a ser melhor do

o meu nem o seu, é um sofrimento. Ele não pertence

que seria se você não estivesse ali. Para ensinar a compaixão,

a ninguém. Repouse seu coração sobre o sofrimento,

busque dentro de cada um dos seus dias, de cada uma das

esse é o espaço da empatia, o segundo passo da atitude

suas relações, o que faz bem a você, o que faz com que você seja bom, o que é bonito e o que faz você ser você, de verdade. Se você só tivesse um dia de vida, tem alguma coisa que você gostaria de fazer? Anote e faça todos os dias, porque qualquer um deles pode ser o último. Eu gosto muito de poesia, que é a capacidade da palavra de entrar no seu DNA. A poesia tem esse talento, de fazer mutação da sua percepção de mundo. O Manoel de Barros diz: as coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis; e eu digo que as pessoas não merecem mais ser vistas por olhos razoáveis. A gente precisa olhar e conseguir ver para poder fazer essa conexão que transforma. Na minha área, muitas vezes eu escuto “não tem jeito, não tem nada para fazer”; aí dou aquele sorriso de três voltas e falo: “eu sei o que fazer”. Quando alguém diz que não tem nada para fazer, é quando você começa a ficar vivo de verdade. A vida tem que valer a pena ser vivida, porque no final você morre. É só por isso. Você tem que fazer, então, sua escolha. Conferência: ‘Professor, atitude amorosa na aprendizagem’. Ana Cláudia Arantes é especialista em Cuidados Paliativos (Inst. Pallium/Univ. de Oxford) e Intervenções em Luto (Inst. 4 Estações de Psicologia) e geriatra.

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


THIELE ELISSA

32 /// LUIS RASQUILHA

A única forma de fazer é fazer diferente

E

físico para o cartão de crédito e agora para os aplicativos de pagamento. Nós somos a geração que está vivendo na pele a maior transformação da história da humanidade, a chamada quarta revolução industrial, que tem muito mais a ver com conectividade do que com tecnologia. Os três maiores medos que temos, hoje, é que o wi-fi não conecte, o aplicativo não abra e a bateria não dure, o que muda radicalmente a lógica comportamental dos seres humanos. O que queremos está, literalmente, à distância de

u sempre gosto de falar de futuro. Na educação, é difícil.

um clique, e o grande desafio, lá nas competências, é saber

Dedicamos muito mais tempo olhando para trás, e o

equilibrar esse nível de desenvolvimento.

passado só serve para uma coisa: aprender com ele.

Este é o século da complexidade. Poucas pessoas

Vamos viver o resto da vida no futuro. E sempre que se desafia o

acreditaram nisso. Alguns exemplos: uma capa da Forbes

futuro, a ignorância do presente se revolta e o tempo vai acabar

dizia em 2007: “Nokia. Um bilhão de clientes – pode

por premiar os mais ousados. O objetivo desta apresentação é

alguém alcançar o rei da telefonia?”; Blockbuster falou que

que saiamos todos daqui com um pouquinho mais de ousadia,

a “preocupação dos investidores em relação à ameaça de

um pouquinho mais de coragem para fazer diferente.

novas tecnologias é exagerada”, e sabemos o que houve

O que aconteceu no mundo? Por que o futuro é tão

com as locadoras. Quem resiste à mudança talvez não fique

importante? Nós viemos da fita cassete, com a caneta

para ver o que vem aí. Deixamos de comprar CDs porque o

BIC para rebobinar, para o CD, para o Spotify; viemos da

Spotify resolve nossa vida; deixamos de usar o Guia Quatro

fita VHS para o DVD e para o Netflix; viemos do dinheiro

Rodas porque o Waze resolve a nossa vida; deixamos de


33 ter a Barsa porque a Wikipedia resolve a nossa vida. A pergunta é: por que a Blockbuster não fez a “blockflix”, a Coopertáxi não fez a “cooperuber” e o Guia Quatro Rodas não fez Quatro Rodas digital? Por que quem está no mercado

“Os três maiores medos que temos, hoje, é que o wi-fi não conecte, o aplicativo não abra e a bateria não dure”

deixa que a transformação seja operada pelo novo entrante? Na educação, é a mesma coisa. O que tem de novo entrante

e copiadora. De repente, o multifuncional virou PDF, os

do mundo digital mudando a forma como nós aprendemos

cartões de visitas foram por Linkedin, a foto de família para

é uma coisa inacreditável. E eu vejo escolas, faculdades e

o Instagram, os amigos para o Facebook, jornais, revistas e

academia como um todo paradas, esperando não sei o quê.

livros para o site, a nossa agenda para o Outlook, aquilo que

Este mundo que conhecemos está desaparecendo, tem

nós escrevíamos no caderno foi para o Word, a transparência

um novo mundo chegando e nós sabemos disso. Qual é a dor?

que usávamos para dar aula foi para o PowerPoint, e tudo foi

A intersecção deles. Eu sempre fiz desse jeito e deu certo, por

convergindo para a palma da mão, numa tela de computador,

que eu tenho que mudar? Porque o futuro é hoje. Nós estamos

de tablet, de celular. É o primeiro passo para a transformação.

escrevendo o último capítulo de um livro e temos um novo para

A segunda era, dos vestíveis, já está começando.

escrever. Cada um de nós tem que escolher que papel quer ter:

Compramos com o relógio. Temos reconhecimento facial,

quer escrever um capítulo, o livro, ou não quer escrever nada?

impressão digital. A terceira era, dos implantáveis, é um

Nós entraremos em quatro eras. Já estamos numa delas,

pouquinho mais desafiadora: lentes de contato conectadas,

a da convergência. Nossa mesa de trabalho, 15 anos atrás,

com informações em tempo real, que já estão sendo testadas.

tinha um multifuncional 4x1 – scanner, fax, impressora

E a quarta é a da singularidade, dos humanos digitais. Como

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


a Sofia, o robô mais avançado da história, comparável ao ser humano de 30 anos pela sua capacidade de aprendizagem, de articulação, de verbalização e de relacionamento. Tem 62 expressões faciais e ganhou cidadania da Arábia Saudita em 2017. Imaginem a Sofia dando aula? Ela vai tirar o nosso

BRUNO ALENCASTRO

34 /// LUIS RASQUILHA

emprego? Se o professor é meramente expositivo, vai, com certeza. Agora, se ela fizer a exposição e eu a mentoria, o debate, aí vai ser uma baita dupla de trabalho. Temos grandes dúvidas sobre o que está acontecendo e para onde o mundo vai, mas precisamos caminhar. A única forma de fazer é fazer diferente. Um professor de História fez um teatro para representar a Revolução Francesa. Um professor de Biologia, para explicar DSTs para uma molecada de 14 anos, deu a cada um dos 30 alunos um copinho com água e colocou uma música. “Dancem entre vocês e se vocês gostarem de dançar com um colega, troquem um pouquinho da água.” Dos 30 copos, 5 tinham reagente. No final da dancinha, o professor jogou a luz negra na sala, e 28 copos estavam contaminados. “Vocês entenderam o que é uma DST?” Tem alguém que não entenderia? Então, nosso papel é redesenhar o modelo, reinventar a forma de desenvolver uma nova abordagem. Segundo o World Economic Forum, as competências necessárias para estarmos preparados para o futuro são

E nós temos que ajudá-lo a fazer isso, porque o mundo será mais flexível, trabalhará mais por projetos e menos por demanda, será muito mais orientado à colaboração do que à retenção de informação, muito mais focado na aprendizagem democratizada e não na aprendizagem imposta de conteúdo. A escola é o espaço para testar e errar. Na empresa,

criatividade, resiliência, inteligência emocional, softskills

pode custar o emprego, o salário e, no limite, a própria

(mais do que competência técnica) e capacidade de olhar o

empresa. Então, é preciso que a escola seja espaço de maior

ecossistema e se preparar para o que está acontecendo. Em

experimentação, de maior aprendizado com o erro.

2025, as máquinas vão suplantar os humanos na execução.

Há três grandes grupos de profissões no futuro: as

Vai sobrar para a gente aquilo que eu acho mais legal, que

clássicas, engenheiro, médico, advogado, que precisarão

é voltarmos a ser humanos. Capacidade de pensar, de criar,

se adaptar à nova realidade; as tecnológicas, programador,

de propor, de correr riscos e de fazer diferente. E isso é uma

piloto de drone, mecânico de robôs, um conjunto de novas

mudança profunda do nosso mindset como pessoas.

profissões; e as emergentes: imagina o nosso filho chegar em

A próxima década vai trazer grandes transformações

casa dizer que quer ser controlador de nuvens? Porque hoje

tecnológicas e, se eu quiser estar preparado para isso, vou ter

já é possível fazer chover. Quantos de nós diriam “que legal,

que estudar mais. Como? Coloca a máquina para executar, a

eu também quero, vamos estudar juntos”?

tecnologia a seu serviço para pesquisar, articular, construir,

Qual o papel que nós queremos ter como educadores? De

assim você pode estudar, pensar, criar e olhar diferente.

espectadores ou de protagonistas deste novo território? Cada um

Temos que olhar para o futuro no qual cada aluno, cada

de nós leva como dever de casa uma reflexão profunda de como

profissional, construa a sua própria trilha de conhecimento.

fazer uma transformação evolutiva no seu dia a dia como escola. Eu chamo isso de upgrade. Não é radical, não é jogar o lixo que eu

“Temos grandes dúvidas sobre o que está acontecendo e para onde o mundo vai, mas precisamos caminhar”

fiz até agora, mas é trazer novas linhas, testar coisas novas. Encontramos cinco grandes tendências para a educação: 1) empoderamento: nosso papel como professor é dar poder ao nosso aluno para que ele descubra, experimente, teste,


35 com a nossa orientação, mediação e acompanhamento; 2) experiência: experimentar mais do que apenas mostrar, testar, fazer coisas diferentes, errar – é o erro que nos ensina – e, principalmente, criar soluções memoráveis; 3) tecnologia:

“É preciso que a escola seja espaço de maior experimentação, de maior aprendizado com o erro”

pode ajudar o professor a chegar muito mais longe com a interação; 4) cocriação: compartilhamento, integração de

Como eu faço? O que tem que fazer? Fazer mais e falar

experiências e um ecossistema de trabalho; 5) nanodegrees:

menos. O futuro é daquele 1% que faz acontecer. Uma frase

pílulas de conhecimento rápido, não sequenciais, e construção

extremamente atual: não é o maior nem o mais forte que

de trilhas de informação, que é uma tendência.

sobrevive, mas aquele que melhor se adapta. Concluo com

Eu diria que a palavra reinvenção é a mais importante. A reinvenção do professor, que tem que ser mais moderador,

algumas recomendações: 1. Tenha muito claro seu propósito, porque você existe, qual

gestor, orientador; da sala, mais interativa, experiencial,

é a sua função e o que você agrega de valor ao seu aluno e à

provocadora; do horário, mais flexível, integrador de conteúdos;

comunidade, à instituição, ao mundo.

dos conteúdos, mais abrangentes mais atuais, mais aplicáveis;

2. Venda sonhos. Nós não entregamos diplomas, aulas, nós

da interação entre alunos, professores e comunidade; das

preparamos as pessoas para um sonho no futuro. Nossa função é

grades, mais atuais, mais focadas; e do processo. As quatro

fazer o nosso aluno feliz e preparado para o que vem pela frente.

palavras de ordem que nós defendemos para trazer educação para um novo patamar são: exposição – se dissermos ao aluno que o trabalho dele vai ser exposto, o nível de engajamento

3. Foco. Não adianta querer fazer tudo. Não temos tempo, não temos pessoas, não temos dinheiro. Vamos focar no que interessa. 4. Abra-se e crie um ecossistema, faça a conexão com o

aumenta –; competição – saudável, mas é competição, o mundo

mundo empresarial funcionar. A academia, tradicionalmente, é

é competição –; participação, para que todo mundo contribua; e

fechada. Temos o que ensinar e eles o que aprender e vice-versa.

colaboração, para que todo mundo faça a coconstrução.

5. Interaja mais com seus alunos, para trabalharem juntos, construírem juntos, porque você aprende com eles e eles aprendem com você. 6. Pense coisas, crie coisas, teste coisas e erre rápido. Se não deu certo, siga em frente e comece do zero. 7. Olhe mais para o futuro, faça a sua transformação digital, use a tecnologia como ferramenta para ser um professor melhor, um profissional melhor. 8. Tenha a lógica da inovação como mindset: como inovar em sala de aula, como inovar o conteúdo, como inovar no relacionamento, como inovar perante uma audiência que vai precisar da inovação para sobreviver. O mundo está em transformação e o papel humano é fundamental. O analfabeto do século 21 não é quem não sabe nem escrever, mas aquele que não sabe aprender, desaprender e reaprender. Nossa força como professores é ajudar nossos alunos a aprender, desaprender e reaprender. Isso muda tudo na nossa vida. Conferência: ‘Do aluno de hoje ao profissional de amanhã’. Luis Rasquilha tem formação em Disruptive Strategy (Harvard Business School), Criatividade e Design Thinking (Stanford University) e Gestão da Inovação (UCP).

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


THIELE ELISSA

36 /// ROSSANDRO KLINJEY

A felicidade é onde a gente já está

N

O conceito de felicidade é muito particular, muito abstrato e se torna concreto quando as pessoas nos dizem que, para sermos felizes, temos que ter tal comportamento, vestir tal roupa, usar tal tecnologia, fazer tal viagem e ter tal corpo. Criaram um monte de fantasias e circunstâncias para que a gente pense que a vida só seria feliz se nós atingíssemos certos patamares, certos lugares. E muitos de nós fizemos a pior escolha, que é ser infeliz. Ser infeliz é se comparar. E no mundo das redes sociais, muitos de nós, infantilmente,

uma era em que as pessoas ficam nos solicitando

contabilizamos a nossa vida privada, os nossos bastidores,

sermos protagonistas da sala de aula, a pergunta

com o palco editado das outras pessoas.

que eu me fiz foi: como alguém que não é

A primeira escolha que alguém pode fazer sobre a própria

protagonista de sua própria vida pode ser protagonista

vida é ter a capacidade de selecionar, no mundo, aquilo que

da escola ou da sala de aula? Como alguém que não olha

vale a pena. Pesquisas feitas academicamente, balizadas por

para si com carinho, com cuidado, com zelo e que não

vários pesquisadores, provam que o mundo só melhora. Ainda

se comporta como alguém que se ama, pode aventar a

assim, temos a sensação de que o mundo piorou. Isso é uma

possibilidade de levar esse amor àqueles que educa? Vamos

mentira. A história humana mostra que toda geração que vem,

procurar entender por que nós não desenvolvemos, muitas

sobretudo pela contribuição da geração que está indo, é uma

vezes, essas competências e como podemos, mesmo com

geração melhor. Ela pode começar errando, mas se aprimora

obstáculos comuns a qualquer um de nós, não ficar presos

e acerta. Ela pode explodir Hiroshima e Nagasaki com a

ao “você não pode, não consegue, é incapaz”.

tecnologia nuclear, mas depois, com a mesma tecnologia,


37 consegue salvar milhões de vidas com a radioterapia. A gente se educa, aprende, sobrevive, cria novas formas de construir porque a gente é a prova viva de que o projeto humano é viável. Nós, educadores, não podemos cair no discurso fácil de

“Nós, educadores, não podemos cair no discurso fácil de que tudo está perdido, muito menos a nossa vida”

que tudo está perdido, muito menos a nossa vida, aquilo que fazemos e o propósito que acreditamos e vivemos todo dia

Porque se fosse assim, a criança se sentiria diminuída diante

como pessoas e como educadores. Precisamos entender que,

dos pais, os alunos se sentiriam diminuídos diante dos

nessa escolha de ser feliz, além da capacidade de deixar de se

professores. E nós estamos no mundo para crescer e fazer o

comparar, devemos nos permitir viver a experiência de ver a

outro crescer, nós estamos no mundo para observar o que

luz do outro sem nos sentirmos ofuscados. Alguém tem uma

o outro tem de bom e com ele aprender, jamais competir,

habilidade que você não tem? Não fique triste, agradeça. Porque

jamais se diminuir, jamais se menosprezar.

essa pessoa vai fazer uma coisa que você não faz. Ninguém faz

Outro segredo da felicidade: não terceirize sua felicidade

tudo. Vamos modular esse sentimento de inveja para cobiça.

para ninguém. Não imagine que, obviamente, tirando Deus,

Qual é a diferença? Inveja é querer que o outro não tenha, cobiça

alguém pode ser o responsável por lhe fazer feliz. Não vai

é querer ter também. Claro, momento fantástico é quando eu

ser um casamento, um namoro, que vai recuperar suas

não estou nem aí para o que o outro tem e só vou atrás daquilo

frustrações infantis. Ninguém pode delegar à escola a

que me faz feliz e, geralmente, são coisas muito simples.

educação moral que cabe à família, porque nós podemos

Assim, a gente modula o sentimento de escassez que

colaborar, mas não fazer o que os pais não têm feito. Não

faz com que a gente veja a competência do outro como algo

podemos terceirizar responsabilidades, temos que ser

que nos subtrai. O sentimento de abundância faz com que a

autores do nosso próprio destino. O principal amor não

gente veja a competência do outro como algo que nos agrega.

é aquele que existe na relação, mas o seu amor por você

As pessoas que sabem não me diminuem, me acrescentam.

mesmo. Eu jamais vou convencer alguém a olhar para mim com amor se eu não tiver esse olhar amoroso por mim mesmo, jamais vou estimular alguém para olhar para mim com respeito se eu não tiver um comportamento respeitoso por mim mesmo, eu jamais vou fazer com que alguém cuide de mim se eu não cuidar de mim mesmo. Mas por que as pessoas têm dificuldade de se amar? Por causa dos padrões que estabeleceram para nós, dos motivos que fariam com que nos sentíssemos apaixonados por nós mesmos, do autoamor condicionado a critérios estabelecidos externamente. Aí a importância da maturidade de fugir um pouco desses critérios. Na intersecção entre as demandas do mundo exterior, que tentam impor padrões, e sua busca por estar ou não em sintonia com esses padrões e descobrir a felicidade, você precisa entender que, muitas vezes, o seu sentimento de menosprezo vem de uma falsa ideia de autoestima. Nós somos as pessoas possíveis. A mãe que podemos ser, o pai que podemos ser, o professor que podemos ser. Não quer dizer que eu não vá avançar. Mas eu só posso avançar se eu já tiver gratidão a mim mesmo, por quem eu já estou conseguindo ser, apesar de tudo. Existe algo em mim que já merece comemoração, só isso

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


38 /// ROSSANDRO KLINJEY

BRUNO ALENCASTRO

vai me estimular a conquistar mais, a aprimorar pontos, a desenvolver habilidades, a desenvolver competências. Para ser feliz, eu não posso ficar preso ao passado, eu tenho que ter foco no futuro. Quantas pessoas não conseguem se amar porque estão ressentidas com pessoas do passado? Quantas pessoas estão presas num cipoal de lamentações sem olhar para si e para sua própria história entendendo que tudo o que existiu foram tão somente experiências? A energia que poderia estar disponível para você ser protagonista da sua própria história é drenada para alimentar uma coleção de mágoas, desenvolvendo um sentimento infantil de vítima, de alguém machucado, encontrando culpados e responsáveis, muitos dos quais você não quer abrir mão porque, afinal de contas, quando tudo der errado de novo, a quem você vai culpar? Para crescer, é preciso abrir mão dos algozes e entender que eles são pessoas comuns, que erram, que acertam, que machucam, e que guardar delas a pior imagem, desenvolver ressentimento, é tirar de si a energia disponível para viver e fluir na vida. Tem momentos na vida em que dói mesmo, que a gente tem que se recolher para sobreviver à dor do luto, luto

parte das pessoas doentes tinha um padrão: ressentimento,

da própria vida, da ausência de alguém que a gente ama ou de

especialmente de marido e de mãe.

alguém que morreu. Mas viver assim é escolha. Eu não posso

A gente tem que entender que o ódio é um veneno que

fazer nada com relação ao que fizeram comigo, mas não é isso

eu tomo para matar você, mas quem morre sou eu. Muitas

que me define. Como disse Jean Paul Sartre: não se pergunte

vezes, a escolha da felicidade é ter a coragem, a grandeza, a

o que fizeram com você, se pergunte o que você vai fazer com

altivez de perdoar. Coragem de abrir mão do bode expiatório

o que fizeram de você. Trauma não é o que acontece comigo. É

que eu sempre utilizei para culpar quando a minha vida dava

como eu reajo àquilo que acontece comigo.

errado; altivez de, ao fazer isso, viver a minha experiência,

Pesquisas mostram que pessoas desenvolvem doenças

olhar para o passado não como um lugar do repositório da

sem ter fatores genéticos. Descobriram, por exemplo, que

mágoa, mas como o ambiente das experiências da vida, nem

existem 120 genes que provocam câncer de mama, que

sempre agradáveis, mas ambientes de experiência. E poder,

há pessoas que têm esses genes e nunca tiveram câncer

finalmente, deixar que meu passado não destrua o meu

de mama e outras que não têm nenhum dos 120 e, ainda

presente e não inviabilize meu futuro.

assim, desenvolveram a doença. De que adianta nós

Eu fui a uma festa de bodas de diamante: 60 anos de

sabermos que gene provoca o câncer se não sabemos o

casamento. Um fotógrafo oficial fazendo aquela fotografia

que dispara? A psicossomática, então, ganhou novo vigor e

clássica: um senhor e uma senhora, de mãos dadas, numa

começamos a entender a interface entre comportamento e

cadeira, com os filhos, os netos, os bisnetos e os tataranetos.

desenvolvimento de doenças. Interessante notar que a maior

Ao mesmo tempo, convidados suspirando e dizendo: “que casal lindo”, “que coisa mais meiga”. E eu pensando: para

“Estamos no mundo para crescer e fazer o outro crescer, para observar o que o outro tem de bom e aprender”

essa foto sair, teve tanta dor, tanto perdão, tantos dias em que um pensou em desistir do outro, tantos dias em que um machucou profundamente o outro. É aí que reside a beleza dessa fotografia: não é a foto ficcional de uma família


39 perfeita, que nunca teve dor, mas a de uma família que, apesar da dor, se manteve unida. É preciso esse olhar sobre os outros e sobre a vida que nos dê a condição de olhar com grandeza e registrar as possibilidades que cada um de nós

“Eu só posso avançar se eu já tiver gratidão a mim mesmo, por quem eu já estou conseguindo ser, apesar de tudo”

tem de viver a própria experiência. O que é felicidade? Fizeram uma pesquisa para registrar

A diferença não está no onde eu estou, mas com quem eu

o desenvolvimento de euforia psicológica a partir da compra

estou. Um problema da nossa falta de felicidade, hoje: você

de um bem e perceberam que, quando alguém troca de

está com quem você ama? Às vezes você está na mesma

carro, por exemplo, passa em média 15 dias em estado de

casa, no mesmo quarto, ignorando quem você ama. Dê 5%

euforia psíquica. E descobriram que se sua tia faz um sagu

do tempo que você dá ao celular às pessoas que você ama e

para você, liga da casa da outra tia para que você vá até lá

você vai ver o que é ser feliz. 5%. Será que a gente não está

comer, e você vai e encontra aquele primo que você não

se desconectando daquilo que é mais essencial e procurando

via havia 10 anos, e vocês reúnem os amigos de infância

fora uma coisa que já está dentro? Será que a gente não está,

para ver fotografias e lembrar a infância, e aquela tarde vira

infantilmente, comprando mentiras, padrões, soluções externas?

janta... o registro neurológico é de 60 dias de felicidade.

Quantas pessoas só descobrem no dia do velório que o amor e

Faça as contas. Comprar um carro e passar 60 meses

a felicidade estavam nas coisas mais simples? Ninguém lembra,

pagando: 15 dias de euforia. Comer sagu na casa da tia de

no dia que está enterrando a mãe, se tem roupa de marca, se foi

graça, encontrar os amigos e ainda ficar para a janta: 60

para a Disney. Lembramos de coisas simples: café quente, se ela

dias. Todas as pesquisas do mundo que desenvolveram

engomava a cama antes você deitar no dia frio, daquela noite

o que a gente chama de FIB, felicidade interna bruta,

inteira com a mão na sua testa até a febre baixar. É preciso olhar

chegaram à conclusão de que felicidade não tem a ver com

para o simples. Olhar novamente para o que nós já temos. Como

coisas, tem a ver com relacionamentos.

diz Carl Jung: quando a gente olha para fora, sonha; quando a gente olha para dentro, finalmente acorda.

BRUNO ALENCASTRO

Queria terminar fazendo um mantra. Fechem os olhos e não se preocupem com quem está do seu lado, nem com que sentimentos vão fluir de você. Lembrem-se das coisas simples da vida – um café, um cafuné, um aconchego, um “venha cá, eu te entendo” – e das pessoas que vivem com você, daquelas que quando você duvidava de você mesmo, continuaram acreditando – seus pais, seus avós, seus professores –, que fizeram de você quem você é. Em homenagem a essa coletânea de felicidades cotidianas que nós nos esquecemos de contabilizar, vamos cantar juntos um mantra da gratidão: “eu tenho tanto para lhe falar, mas com palavras não sei dizer, como é grande o meu amor por você; e não há nada pra comparar, para poder lhe explicar, como é grande o meu amor por você”. E que vocês tenham descoberto hoje que a felicidade não é um lugar para onde a gente vai, é onde a gente já está. Muito obrigado. Conferência: ‘Numa era de incertezas, o mais importante é ser feliz’. Rossandro Klinjey é mestre em Saúde Coletiva e psicólogo clínico com base psicanalítica (UEPB).

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


FOTOS BRUNO ALENCASTRO

40 /// LEO FRAIMAN

Educar é convidar o outro à melhor versão de si mesmo

O

brilho no olho do aluno vai depender muito do

Criatividade, caiu na minha mão outro livro, que me impactou

brilho do olho do professor, que vai depender muito

fortemente: ‘Em busca de sentido’, do psicólogo Viktor Frankl.

do brilho do olho do gestor, do mantenedor, que

Em sua experiência em Auschwitz, ele percebeu que, diante

vai depender muito do brilho do olho dos pais. Meu pai era

do frio, da fome, do sono, da sede e de todo tipo de sofrimento,

administrador. Vi tanta gente carimbando todas as profissões

algumas pessoas não tentavam sequer se agasalhar ou se

e as possibilidades de projeto de vida de um jeito negativo

alimentar. Elas desistiam de viver. No entanto, mesmo naquela

que, já que eu não sabia quem eu queria ser, resolvi ser como

situação extrema, havia pessoas com uma força interior, com

meu pai. Cursei um ano de Administração e descobri que

um brilho no olho, uma esperança diferente, eram resilientes.

não tinha nada a ver comigo. Minha mãe, inteligentemente,

Ele decidiu entrevistar essas pessoas. O que havia nelas que

deu-me o livro ‘A História Sem Fim’, do Michael Ende. No

não desistiam? Foi a primeira vez que eu li a expressão “projeto

livro, o Bastian, protagonista, estava em busca do resgate

de vida”. Viktor Frankl fala que quem tem um projeto de vida,

dos sonhos, da fantasia. Ele dizia que os adultos estavam

quem tem um “para quê” viver, sobrevive a qualquer “como

roubando as cores do mundo. Diante disso tudo, do que eu

viver”. Tive um insight que mudou a minha vida: é isso que eu

pensava sobre sonhos, desejos, vontades, ideais, eu decidi

quero fazer, é isso que tinha que ser ensinado na escola. Além

cursar Psicologia, queria trabalhar com sonhos.

da Matemática, da Química, da Física, que são e sempre serão

Do terceiro para o quarto ano de Psicologia, na disciplina de

importantes, quando é que a gente tem uma aula sobre sonhos,


41 projetos, protagonismo, amizade, perdão, felicidade? Quando é que teremos um momento na escola para falar de nós? E são 33 anos exatos que eu me dedico a trabalhar projetos de vida com alunos, educadores e pais. O projeto de vida do educador

“Quando temos uma aula sobre sonhos, projetos, protagonismo, amizade, perdão, felicidade?”

é algo absolutamente relevante. Nesta pressa de fazer o filho feliz, pais e mães têm criado pequenos imperadores, pequenas princesas. A meta de muitas famílias: eu não quero que o meu filho sofra. Está na

bilhete escrito “boa semana” na segunda-feira, e, na sexta, “obrigado por mais essa semana”, celebrar os aniversários, seja com um café, seja com um bolo, tudo isso é altamente

hora de darmos um passo para trás, de falarmos com clareza

motivador. A tecnologia é fantástica, mas, se faltar luz na

para os pais qual é a nossa expectativa, qual o papel de cada

escola e o professor for envolvido e comprometido, ele vai

um, como podemos acertar juntos. Porque nenhum pai erra

com os alunos para a garagem ou outro local, acende uma

porque quer, nenhuma mãe superprotege ou mima porque

vela e dá aula. Dinheiro e tecnologia ajudam, mas o maior e

quer gerar um filho infeliz, mas é o que está acontecendo.

mais precioso recurso que tem na escola é o professor.

Hoje temos mais liberdade, mais tecnologia, mais

Uma interessante reflexão que o gestor pode fazer: pensar

facilidade, mas estamos mais infelizes. Sabem por quê?

o que está gestando, vida ou medo? Vida, brilho no olho, é a

Porque, de modo geral, temos apostado em uma educação

resposta. Elogios devem ser feitos à pessoa. Críticas devem

voltada apenas a conteúdos, e está na hora de isso ser revisto.

ser feitas ao comportamento. Elogio deve ser feito em voz alta.

Para que o professor tenha brilho no olho e isso impacte o

Críticas são faladas em voz baixa, para o indivíduo. Falamos

aluno, ele precisa de ajuda. Percebe-se, atualmente, que o

sobre a importância de o professor ser inovador, criativo,

professor não tem sido visto, amado e cuidado.

empreendedor, arrojado. Mas se ele tenta algo diferente e falha,

A sala dos professores é o lugar mais bonito da sua escola? Deveria ser. Pequenos gestos como colocar um

muitas vezes é repreendido. Se queremos um professor feliz, animado, empolgado, nós precisamos ser o exemplo. No livro ‘Felicidade S.A.’, Alexandre Teixeira mostra que os ambientes de mais alta performance são os ambientes de felicidade. A neurociência explica: mais dopamina, mais serotonina, mais conexões cerebrais, eu crio mais e melhor. Num ambiente de medo, o cérebro manda liberar mais cortisol, reação de luta e fuga, reação de medo, não tem inovação. Quer um professor inovador? Professor tem que estar feliz. Além desses desafios todos, teremos cada vez mais inteligência artificial competindo com o nosso trabalho e com as nossas escolas. O US Department of Labor, o equivalente ao Ministério do Trabalho, já fala que 65% dos alunos de hoje vão trabalhar em carreiras que ainda não existem. Então, quando o aluno falar: “professor, estou pensando em trabalhar com design, o que você acha?”, temos que entender que o nosso papel é de copiloto, não de comandante. Uma parte do desencanto e da desmotivação do aluno em estudar é porque ele não tem a autorização dos pares e/ou dos professores para ser quem ele é! É preciso ensinar competências socioemocionais. Pensamos que é muito complicado, mas, na verdade, é imbuir o professor do direito, do desejo, do engajamento de, ao longo

EDUCAÇÃO EM REVISTA ///


42 /// LEO FRAIMAN

do ano, dar pinceladas de vida, com vida e para a vida, além dos conteúdos. Pequenas atitudes, como por exemplo um professor de Educação Física, depois de um jogo, conversar com o time sobre as atitudes em jogo, quem teve fair-play, quem agiu bem, quem não agiu bem. Não temos que temer o futuro, temos que tomar o futuro. O futuro somos nós, nós estamos construindo o futuro agora, nós somos o futuro construído a cada dia. É necessário ajudar o aluno a se tornar competente. Quando a “Mariana” não aprende Matemática, muitas vezes a encaminhamos à pedagoga, à professora particular, ao psicólogo. Já viram como há, hoje, patologias, distúrbios e demais nomes para isso e para aquilo? Existe, sim, o transtorno desafiador opositivo, mas o índice de prevalência é inferior ao índice de crianças com diversos tipos de tratamentos quando, na verdade, o que falta é sono, limite, sentar à mesa, mastigar de boca fechada e depois ir para o quarto, ter perseverança. “Tentei 10 minutos de exercício.” Faltou alguém dizer para ela que, às vezes, são necessários 12, 15 minutos e que nós temos que dar o nosso melhor. A pequena Mariana pode aprender se nós colocarmos um cartaz de um grande atleta como exemplo, passar um filminho sobre determinação, alguém – pais, professor – falar sobre algum momento da vida em que demorou a conquistar algo, mas quando conseguiu, comemorou. Ora, se a gente

sonhos? E mais do que de sonhos, de projetos? Para sermos

não tiver janelas positivas, o nosso aluno vai ficar com medo

escolhidos como alguém relevante, para o nosso conteúdo

da vida. Faça uma aula invertida. Proponha que os alunos

ter uma chance de disputar com tudo o mais que passa pela

tragam trechos de filmes do YouTube de até 3 minutos sobre

cabeça do aluno, temos que tocar o emocional, o significado.

otimismo. Não precisamos saber tudo! Ao contrário. O mundo

Se queremos que o professor trabalhe com mais brilho

hoje é conexão, é troca, é interação, é compartilhar com o

no olho, precisamos entender de onde ele vem. Fale com o

aluno. Vamos aprender juntos! No livro ‘O jeito Harvard de ser

grupo sobre a importância dos cuidados mais básicos. Sono,

feliz’, Shawn Achor explica que há duas maneiras de encarar

alimentação, exercícios. Reforce a importância do cuidado com

C

desafios: como problemas ou como oportunidades.

a saúde. Celular longe da mesa, longe do quarto. Nada de tela

M

Você não fica triste quando um aluno de alto potencial diz

depois das 21h. Mentalizar um bom dia pela frente, no lugar

Y

que tal universidade não é para ele? “Eu queria, mas eu não

de se atormentar com as dificuldades. Ao acordar, ficar dois

CM

vou conseguir” ou “É meu sonho, mas meu pai falou que eu

minutos na cama visualizando um dia bom, espreguiçar-se.

MY

sou uma porcaria”. Imagine se, ao longo de anos, for possível ter momentos para construir, para cultivar este florescer de

A psicologia positiva nos ensina que temos que focar mais em ter um cérebro plástico, entender que a gente muda, que a gente está, a gente não é. Ou seja, eu ainda

“Dizemos que a mãe deu à luz, mas qual seria o grande objetivo da educação, senão ajudar cada criança, cada adolescente, a encontrar a luz?”

não consegui, vou tentar de novo. Eu ainda não sei, quero encontrar o caminho. Eu ainda não alcancei, mas vou encontrar alternativas. É isto que precisa ser cultivado: o poder do ainda. Estamos em processo. É importante que escola e família saibam que é extremamente mais vantajoso

CY

CMY

K


43 elogiar o processo, não a nota. Quando a criança cresce sendo elogiada pelo esforço, pela determinação, pela disciplina, pelo engajamento, ela se desenvolve muito mais. Que tal você disponibilizar a cultura de que um professor

“Muito se fala sobre o propósito. Na verdade, é bem mais simples do que parece. Propósito está ligado ao dar valor”

assista à aula do outro pelo menos uma vez por semestre? Depois, em uma conversa, compartilha-se o que aprendeu, o

hoje, que tal um pouco mais de proatividade? Muito se fala

que teria a ensinar, o que faria diferente. Uma cultura em que os

sobre o propósito, e existem pessoas que acreditam ser algo

pares de educação se educam. E é possível fazer isso também

muito difícil. Na verdade, é bem mais simples do que parece.

com os pais. Debater, em um pequeno grupo, temas como

Propósito está ligado ao dar valor.

limites, horário para dormir, uso da tecnologia, uso do dinheiro,

Quando alguém nasce, dizemos que a mãe deu à luz, mas

alimentação. A família apresenta os temas. Pais e mães acertam

qual seria o grande objetivo da educação, senão ajudar cada

e erram todos os dias. Às vezes, o que foi difícil para uns, outros

criança, cada adolescente, a encontrar a luz, o brilho no olho,

tiraram de letra, e assim compartilham-se soluções.

a fazer o mundo brilhar com a sua presença? A vida se torna

Temos que ajudar os professores a ter uma vida

mais divina quando a gente serve ao outro com o nosso amor.

consciente: eu sou responsável pela minha sala de aula;

Acredito que educar é convidar o outro à melhor versão de si

não são “os alunos”, e sim “os meus alunos”. No lugar do

mesmo. Mas, para chegar a isso, eu preciso estar conectado.

“vou fazer o que dá”, colocar o “vou fazer o meu melhor”, “vou dar o máximo de mim”. Se não acertar, aprendi com a experiência. No lugar da reatividade, aos alunos, aos pais de

Conferência: ‘Os Projetos de Vida do Educador: por uma vida com mais propósito e brilho nos olhos’. Leo Fraiman é mestre em Psicologia (USP) e especialista em Psicologia Escolar.

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BRUNO ALENCASTRO

BRUNO ALENCASTRO

44 /// BASTIDORES

/// Participantes receberam ecobag personalizada do Congresso

THIELE ELISSA

THIELE ELISSA

/// Evento reuniu dois mil educadores em três dias de programação

BRUNO ALENCASTRO

/// Equipe recebeu os dois mil congressistas

BRUNO ALENCASTRO

/// Guia do Congressista: informações úteis aos educadores

/// Apresentação de Os Fagundes empolgou o público na primeira noite /// Show com Os Fagundes animou o público na abertura

/// Artistas Kelvin e Richard Koubik ilustraram os assuntos das palestras


BRUNO ALENCASTRO

BRUNO ALENCASTRO

/// Água quente e distribuição da Erva Mate Amizade para os amantes do chimarrão

THIELE ELISSA

BRUNO ALENCASTRO

/// Professores foram recebidos com maças no segundo dia

/// Congressistas receberam cartas de alunos sobre a importância do professor THIELE ELISSA

THIELE ELISSA

/// Thomas Machado, do The Voice Kids, encantou o público

/// Coffee break: momento de integração entre os participantes

/// Luiza Barbosa, do The Voice Kids, surpreendeu os educadores


BRUNO ALENCASTRO

THIELE ELISSA

46 /// BASTIDORES

/// Programação encantou os participantes

THIELE ELISSA

APLAUSE

/// Palestrantes gravaram entrevistas para o canal do Youtube do SINEPE/RS

THIELE ELISSA

/// Equipe responsável pela organização do evento

BRUNO ALENCASTRO

/// Registros para ficarem na memória dos participantes

/// Feira contou com espaço especial para professores fazerem fotos

/// Organizadores e expositores comemoraram sucesso de público


THIELE ELISSA

BRUNO ALENCASTRO

/// Expositores sortearam prêmios aos congressitas no último dia do Congresso

THIELE ELISSA

/// Professores receberam flores no final do Congresso

BRUNO ALENCASTRO

/// Expoeducação trouxe variedade em produtos e serviços

BRUNO ALENCASTRO

THIELE ELISSA

/// Entrega de brownies para lembrar do Dia dos Avós

/// Artistas apresentaram tela completa no final do evento; obra está exposta na sede do Sinepe/RS

/// Emoção e abraços marcaram o encerramento do Congresso


Agradecemos aos expositores e patrocinadores que acreditaram no sucesso do evento! Somente com parcerias fortes conseguimos grandes resultados.

EXPOSITORES: Anglo | Applause Formaturas | Bernoulli Sistema de Ensino | Casio Projetores ECOTREKO – Presentes e Produtos Personalizados | Edibook | Editora do Brasil | Edufy - Agenda Eletrônica Erva Mate Amizade | Escola em Movimento | Estação das Palavras | Fazenda Sonho Meu | FTD Educação International School | JAFFCARD | KRENKE Brinquedos | Kumon | LAVS | Linplast Móveis Escolares Inovadores Livraria e Editora Cassol | Livraria Santos | Mackenzie Educacional | MEAC – Método de Ensino Através do Coaching Mind Lab | Movelaria Toigo | Movesco Móveis Escolares | Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS | Nave TI OAP Construções | Parque Snowland | Parque Terra Mágica Florybal e Mundo a Vapor | Paulus Livraria PEPER - Proteção Escolar Permanente | pH | Pimpão | Plataforma Redigir | Quinta da Estância | Rosetta Stone School Picture | Sistema Etapa | UNOi Educação | Zoom Education

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Educação em Revista - Edição 134  

Revista produzida pelo SINEPE/RS com conteúdos voltados para a educação.

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