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O modo de os jovens se relacionarem com a igreja está mudando

Jul-Set 2018 – Ano 11 no 47

Exemplar: 9,06 – Assinatura: 28,80

ENTENDA. EXPERIMENTE. MUDE

ALÉM DO DIPLOMA Estudantes que encaram o voluntariado como parte da sua formação universitária aprendem o que a sala de aula não pode ensinar IMAGINE SE NÃO EXISTISSE O CAPITALISMO

LIÇÃO DE VIDA: O CAMPEÃO QUE TROCOU DE TIME

MUDE SEU MUNDO: VITÓRIA SOBRE A DEPENDÊNCIA QUÍMICA

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Da redação

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Editor Wendel Lima

4 CONECTADO

A OPINIÃO DE QUEM SEGUE E CURTE A GENTE

BOA VIAGEM

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GLOBOSFERA

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MILAGRES, ÁLCOOL, VEGETARIANISMO, DESCANSO NO SÁBADO E CRIACIONISMO

8 ENTENDA

COMO SÃO ORGANIZADAS AS IGREJAS

Daniel Oliveira

QUASE TODO MUNDO gosta de viajar, ainda mais se essa experiência oferecer imersão cultural, o aprendizado de outro idioma, a contemplação de lugares belos e exóticos, novas amizades e o desenvolvimento de habilidades profissionais. A reportagem de capa desta edição mostra que muitos universitários têm embarcado nessa aventura. Boa parte deles busca colocar a teoria da sala de aula em prática e agregar ao currículo o envolvimento no voluntariado. No caso de uma instituição confessional de ensino, como o Unasp, esse potencial de serviço dos alunos têm sido direcionado para projetos que integram a preocupação humanitária com a missionária. Por isso, muitos estudantes têm participado de ações locais, ao longo do ano letivo, e de missões transculturais durante as férias. Apesar de esse movimento ter ganhado força no Brasil nas últimas duas décadas, nos Estados Unidos ele existe há mais de 60 anos. No período pós-guerra, os cristãos norte-americanos não queriam mais apenas enviar suas ofertas para além-mar e, sim, se envolverem pessoalmente nos projetos missionários. Com o tempo, vários campi universitários se tornaram verdadeiras bases de envio de voluntários, e o envolvimento missionário passou a fazer parte da formação acadêmica desses estudantes. Como qualquer iniciativa, as missões de curta duração apresentam pontos positivos e negativos. Há o consenso que o maior beneficiado com esses projetos é o voluntário. Isso porque ele costuma repensar seu estilo de vida e desenvolver uma consciência cidadã mais global. Jamais alguém volta de um projeto desses sendo a mesma pessoa. É o testemunho que se ouve dos voluntários. Isso ocorre por vários fatores. Uma transformação espiritual é vivenciada por muitos missionários, que encontram mais sentido na prática da oração e no altruísmo. O contato com outra cultura possibilita enxergar novos caminhos para resolver velhos problemas. Disciplina e foco também são exercitados nas missões de curta duração para que as tarefas sejam cumpridas a tempo. Por fim, a participação nessas iniciativas amplia a visão missionária do estudante, fazendo com que ele deseje repetir a experiência, recrutar outras pessoas e até servir posteriormente em projetos de longa duração. Por outro lado, existem desvantagens, como a superficialidade dos contatos que os missionários estabelecem com a população nativa; o risco de o voluntário encarar a experiência apenas como um pico de “adrenalina” espiritual, que depois não se sustenta; a falta de continuidade do processo iniciado com a visita dos missionários; e possíveis ruídos de comunicação pelo fato de os voluntários não conhecerem profundamente a cultura local. Em resumo, participar de missões de curta duração durante a faculdade pode ser um divisor de águas na carreira e na vida de um estudante; porém, essa viagem não pode ser encarada como mero turismo ou imersão cultural. Ela é mais do que isso. Ir movido por um verdadeiro espírito de serviço é o que torna a experiência transformadora e inesquecível. Desse modo, aquilo que foi vivenciado em um período de férias pode se tornar a causa de uma vida. Boa viagem! 2 |

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20 PERGUNTAS

SALVAÇÃO DOS ANIMAIS, GANÂNCIA, GENEROSIDADE E ALIANÇA COM DEUS

28 APRENDA

COMO APROVEITAR UMA VISITA AO MUSEU

29 NA CABECEIRA

OBRA EXPLICA UM DOS LIVROS MAIS ENIGMÁTICOS DA BÍBLIA

30 GUIA DE PROFISSÕES

UMA CARREIRA QUE PROMOVE O CUIDADO DA SAÚDE E O BEM-ESTAR DAS PESSOAS

16 REPORTAGEM

O MODO COM QUE AS NOVAS GERAÇÕES LIDAM COM A RELIGIÃO PODE MUDAR O CRISTIANISMO

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22 IMAGINE

... SE NÃO EXISTISSE O CAPITALISMO

5 AO PONTO

O PASTOR DE UMA COMUNIDADE DE ADOLESCENTES QUE LEVAM A IGREJA A SÉRIO

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CAPA

UNIVERSITÁRIOS APLICAM A TEORIA DA SALA DE AULA EM PROJETOS DE VOLUNTARIADO

Revista trimestral – ISSN 2238-7900 Jul-Set 2018 Ano 11, no 47 Capa: Renan Martin Ilustração: © retrostar | Fotolia

CASA PUBLICADORA BRASILEIRA

Editora da Igreja Adventista do Sétimo Dia Rodovia Estadual SP 127 – km 106 Caixa Postal 34 – 18270-970 – Tatuí, SP Fone (15) 3205-8800 – Fax (15) 3205-8900 Site: www.cpb.com.br / E-mail: sac@cpb.com.br Serviço de Atendimento ao Cliente Ligue grátis: 0800 9790606 Segunda a quinta, das 8h às 20h30 Sexta, das 8h às 15h45 Domingo, das 8h30 às 14h Editor: Wendel Lima Editores Associados: Fernando Dias e André Vasconcelos Projeto Gráfico: Marcos Santos e Éfeso Granieri Designer Gráfico: Renan Martin, Fábio Fernandes e Flávio Oak Diretor-Geral: José Carlos de Lima Diretor Financeiro: Uilson Garcia Redator-Chefe: Marcos De Benedicto Gerente de Produção: Reisner Martins Gerente de Vendas: João Vicente Pereyra Chefe de Arte: Marcelo de Souza Colaboradores: Alexander Dutra, Antonio Marcos da Silva Alves, Almir Afonso Pires, Almir Augusto de Oliveira, Eder Fernandes Leal, Edgard Luz, Marco Antônio Leal Góes, Pedro Renato Frozza, Raquel de Oliveira Xavier Ricarte, Rérison Vasques e Rubens Paulo Silva

24 MUDE SEU MUNDO

GRUPO DE APOIO EM SÃO PAULO AJUDA A LIBERTAR DEPENDENTES QUÍMICOS

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Assinatura: R$ 28,80 Avulso: R$ 9,06 www.conexao20.com.br Tiragem: 30.000

26 LIÇÃO DE VIDA

O CAMPEÃO EUROPEU E MUNDIAL DE FUTEBOL QUE TROCOU DE TIME

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Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, sem prévia autorização escrita do autor e da editora.

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Informação Conectado & Opinião Globosfera Ao ponto Entenda

conexao20@cpb.com.br

Desabafos, sugestões, interação e dúvidas para a seção Perguntas? É aqui mesmo!

conexao20.com.br

Perdeu alguma edição ou deseja reler uma matéria de que gostou muito? Acesse nosso arquivo e folheie todas as edições da Conexão 2.0

É difícil folhear a revista Conexão 2.0 sem dar aquela espiadinha mais de perto. Além de visualmente atrativa, ela gera reflexão sobre assuntos relevantes. Como jovem cristã, sinto-me feliz por ter em mãos essa referência sobre orientações práticas para nosso tempo. Destaco a matéria de capa: “Diante do espelho”. Creio que Deus espera que a gente estabeleça compromissos com base no amor: seja entre nós e Ele, conosco mesmos e com o semelhante. Obrigada, editores, por me lembrarem disso! Sthefania Rocha Caraguatatuba (SP)

Interessantíssimo o artigo “Diante do espelho” (p. 10-15)! De forma simples, mas profunda, o texto aponta prováveis fatores que contribuem para a superficialidade das relações amorosas atuais. A autora da matéria foi “cirúrgica” ao dizer que tem faltado um propósito norteador para os relacionamentos de hoje. Victor Hugo Campinas (SP)

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Saiba o que vai ser publicado, opine sobre os conteúdos que já saíram e compartilhe com os amigos que não têm a revista.

Diante do espelho O artigo de capa da última edição (abril-junho) é muito interessante. Ele mostra como os relacionamentos na cultura pós-moderna são marcados por superficialidade e satisfação individual. Porém, como jovens cristãos, somos chamados a viver em harmonia com o propósito de Deus. E Ele deseja ver uma geração que se relacione com base em princípios eternos. Wendel Pacheco Brasília (DF) 4 |

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Somos todos iguais Achei relevante a reportagem “Somos todos iguais” (p. 16-19). Além de explicar a diferença entre integração e inclusão, a jornalista deu exemplos de pessoas que passaram por alguma dificuldade acadêmica em função de suas limitações físicas. Destaco a história da Michele que, mesmo estudando numa faculdade sem programa de inclusão, não desistiu do curso, graduou-se em Recursos Humanos e agora sonha em fazer um mestrado. Josimar Lisboa Campos (RJ)

Gostei da reportagem sobre inclusão nas escolas. É de lamentar que essa ainda não seja a realidade em todas as instituições de ensino. Penso que ajudaria muito uma divulgação mais ampla do tema, juntamente com uma capacitação maior dos profissionais

envolvidos e, principalmente, uma vivência (tanto para os profissionais quanto para os alunos) junto a comunidades com essas características especiais.

Júlio César Ribeiro Engenheiro Coelho (SP)

Compaixão para servir A seção Mude Seu Mundo de abril-junho, sobre o grupo de voluntários (p. 24-25), é uma amostra de que os jovens podem fazer a diferença quando cumprem o chamado de Jesus. O ministério do Mestre foi realizado fora das sinagogas e do templo. Ele estava nas ruas com o povo, comunicando a graça de Deus por meio do amor e da compaixão aos necessitados. É reconfortante e animador ver que jovens estão dispostos a promover o reino e levar Cristo à comunidade. Sigamos esse exemplo! Davi Antunes São Gabriel (RS)

Competição e cooperação O breve texto sobre competição e cooperação, na seção Perguntas, despertou minha curiosidade (p. 20). Além de recorrente, o tema é oportuno pelo fato de estarmos num ano de Copa do Mundo. Ao destacar que o problema não é o esporte em si, mas seus excessos, esse texto deixa claro que é possível praticá-lo sem deixar de ser um bom cristão. A chave de tudo é o equilíbrio. Paulo de Jesus Cachoeira (BA)

Fãs ou discípulos? Achei belo o testemunho relatado na seção Lição de vida (p. 26-27). Trata-se da história de alguém que percebeu seu talento para influenciar pessoas e decidiu usar isso para levar outros a Cristo. Também achei curioso o fato de que a influência do Vinícius Andrade tenha sido tão grande a ponto de ele ter sido procurado por políticos. Ele até acabou “criando uma moda” de usar elástico colorido no aparelho ortodôntico. Bom saber que ele tem usado essa habilidade para ajudar outros! Elcana Pereira Morais Lopes Alvorada do Norte (GO)


Ao ponto

Texto Wendel Lima Ilustração Kaleb

A GALERA QUE DISSE “SIM” O PASTOR JACKSON Roberto de Andrade acredita que não precisa ser descolado e superinovador para se comunicar com os adolescentes. Por isso, ele aposta no básico: ser amigo, estar próximo e incentivar a juventude que pastoreia a fim de usar o potencial que tem para servir no reino de Deus. Capelão escolar há 14 anos, Jackson fundou a Comunidade YES e a lidera há quatro anos. O projeto reúne 200 jovens no Unasp, campus São Paulo. Nesta entrevista, ele fala como essa galera tem aprendido a seguir a Cristo.

O que é a Comunidade YES? É uma comunidade de alunos do Colégio Unasp, em São Paulo, que diz “sim” para as coisas boas da vida. Para nós, o logotipo YES é formado por uma letra “I” de “braços abertos”, que inicia o seguinte acróstico: Integração, Evangelismo e Serviço. Quando e como começou esse trabalho? No início de 2014, um culto de consagração reuniu alunos que gostariam de intencionalmente testemunhar de Cristo para seus colegas. A ideia surgiu de uma conversa com o pastor Daniel Lüdtke, sobre algo semelhante que eu havia organizado em Porto Alegre. De alguns pequenos grupos que já existiam, escolhemos alunos influenciadores que trariam seus amigos para um culto direcionado para adolescentes. Hoje, cerca de 200 pessoas frequentam os

cultos semanais, e apenas 50% são adventistas. Quais são os objetivos de vocês? Temos dois: ser uma comunidade adventista que desafaça a ideia negativa e reguladora de igreja e na qual todos se sintam à vontade para participar. Aqui, a maioria se envolve em ministérios antes mesmo de ser batizado. Como os jovens são ensinados a seguir a Cristo? Isso não se aprende assistindo a um vídeo ou palestra. Discipulado é gente cuidando de gente. É viver ao lado de alguém que já aprendeu a viver com Cristo e deseja compartilhar sua caminhada com outros. Quais têm sido os resultados? Em quatro anos, 60 pessoas, entre pais, alunos e familiares decidiram seguir a Jesus e foram batizadas. E estamos chegando a 100 pessoas en-

volvidas nos ministérios, ou seja, servindo ao próximo de alguma forma. Que tipos de atividades vocês realizam? Sábado de manhã temos o culto e a Escola Sabatina num programa unificado. Depois fazemos um piquenique e estudamos as doutrinas bíblicas com quem está chegando à comunidade. Na parte da tarde, alguns se dividem em grupos para fazer trabalho social e há os que apenas passam o sábado juntos, até porque boa parte deles vem de famílias que não guardam o sábado. Nas férias, vários participam de missões de curta duração para destinos como a Amazônia. O que você tem aprendido na Comunidade YES? O envolvimento das pessoas em ministérios acelera seu crescimento espiritual. Precisamos distribuir responsabilidades, mas sem cobrar que

os jovens acertem sempre ou reprimi-los quando não atingem o esperado. Além disso, os adolescentes não querem necessariamente pastores superinovadores, mas que estejam ao lado deles. Um modelo pastoral acolhedor torna a igreja uma família. Amar incondicionalmente é o que faz o discipulado ser uma realidade. Sua experiência mostra que alguns rótulos sobre a juventude são equivocados? Talvez eles sejam colocados por nós, adultos, para termos a quem culpar. É mais fácil dizer que a igreja ou o mundo estão perdidos por causa dos jovens, do que treiná-los para a missão. Vejo nos meus jovens uma vontade enorme de fazer algo para Deus e pelo próximo. Eles vivem a era do compartilhamento e do engajamento social e fazem isso com intensidade. O que lhes falta são líderes dispostos a ajudá-los a trilhar o caminho certo. jul-set

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Divulgação

Colaboradores: ASN, Felipe Lemos, Kívia Henning, James Ponder e Vanessa Arba

Gustavo Leighton

A EXPERIÊNCIA DO DESCANSO NÚCLEOS CRIACIONISTAS

A Sociedade Criacionista Brasileira, entidade com 46 anos, sediada em Brasília, e que reúne cientistas criacionistas, pretende abrir nos próximos anos vários núcleos de pesquisa sobre a origem da vida ao redor do país. Nos últimos três anos foram organizadas oito filiais. Essa é uma forma de aproximar o debate sobre evolucionismo e criacionismo dos estudantes do ensino médio e da universidade. Outra iniciativa da entidade é distribuir kits criacionistas (revista, livros, DVD, maquetes) para as escolas adventistas e lançar, neste segundo semestre, novos documentários que mostram evidências de planejamento na natureza.

DILEMAS REAIS

A experiência do repouso no sábado é o tema do documentário Rest (Descanso, em português). Filmado em 13 países, o vídeo de 1 hora e 17 minutos de duração procura mostrar a dimensão existencial e transcultural da mensagem do sábado, seja no México, Uruguai, China, Coreia do Sul, África do Sul ou Brasil. Disponível em feliz7play.com.

AULAS MAIS TARDE

A plataforma de vídeos Feliz 7 Play lançou a websérie -10 A Vida Não é um Jogo para discutir a dependência tecnológica e bullying entre adolescentes. O enredo trata de um grupo de amigos que muda de comportamento depois que um deles começa a participar de um jogo online, que exige o cumprimento de desafios estipulados por administradores anônimos. A série tem dez capítulos de dez minutos e está disponível em feliz7play.com.

ASN

Preste bem atenção! Você vai colher o que você plantar agora. Se não, talvez você nem chegue aonde eu estou chegando.” Cid Moreira, apresentador por 27 anos do Jornal Nacional na TV Globo, falando que completou 90 anos com boa saúde por causa das escolhas que fez na juventude 6 |

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©pictworks | Fotolia

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A Associação Brasileira do Sono tem sugerido que se faça uma discussão sobre o horário de início das aulas no período matutino para alunos de 13 a 17 anos. Segundo os pesquisadores, pelo fato de os hábitos modernos e as mudanças hormonais da puberdade levarem os jovens a dormir mais tarde, começar as aulas depois das 8h30 seria uma forma de garantir uma noite reparadora de sono. O assunto voltou à discussão em março, após a publicação de um estudo do Datafolha mostrando que o brasileiro dorme cada vez pior.


O RISCO DOS PEQUENOS GOLES

Evidência e experiência são importantes [...]. Sua experiência do miraculoso pode ser válida, mas pode não ser convincente para os outros. É aí que entra a comprovação.” Lee Strobel, jornalista ex-ateu e convertido ao cristianismo, em entrevista sobre seu novo livro a respeito de milagres The Case for Miracles: A Journalist Investigates Evidence for the Supernatural

Religion News Service

©djvstock | Fotolia

Um estudo robusto publicado em abril na conceituada revista acadêmica The Lancet mostrou que mesmo a ingestão de poucas doses semanais de álcool pode reduzir em dois anos a expectativa de vida e aumentar o risco de inúmeros problemas cardíacos. O levantamento, que envolveu a revisão de 83 pesquisas e a análise da saúde de quase 600 mil pessoas, indica que está cada vez mais difícil falar em consumo seguro de álcool. Historicamente, a Igreja Adventista tem orientado seus membros e alertado a sociedade de que o caminho mais saudável é a abstinência total dessas substâncias.

NÚMEROS

Arquivo Pessoal

Hoje, muitas pessoas não estão preocupadas com a verdade em si, mas sim com a verdade que lhes interessa.”

dos brasileiros se declaram vegetarianos, cerca de 29 milhões de pessoas. Em 2012, o número era de 8% da população do país.

Natália Leal, jornalista e subeditora da Agência Lupa, em entrevista sobre fake news ao Portal Adventista

dos adolescentes norte-americanos (geração Z) se dizem ateus, o dobro da média nacional.

CARNE X NOZES © joebakal | Fotolia, © анна линевич | Fotolia

dos brasileiros já testemunharam alguma cena de exploração sexual infantil.

dos brasileiros férteis não pretendem ter filhos, pelo menos até 2020, segundo pesquisa com 1.491 pessoas de 140 cidades.

Há décadas, a Universidade de Loma Linda, no sul da Califórnia (EUA), pesquisa a respeito dos efeitos da alimentação vegetariana na saúde de milhares de adventistas. Um estudo publicado em abril no International Journal of Epidemiology revelou que as pessoas que consumiram grandes porções de proteína animal tiveram 60% mais doenças cardiovasculares, enquanto que as que consumiram grandes porções de proteína de nozes e sementes experimentaram uma redução de 40% na incidência dessas doenças. Os pesquisadores, que trabalharam com uma base de dados de 81 mil indivíduos, ainda precisam entender melhor se outros fatores, como pressão sanguínea e sobrepeso, influenciam nesses resultados.

pessoas adoram a Deus nos templos dos campi universitários adventistas na América do Sul.

56%

dos adultos norte-americanos dizem acreditar em Deus, como Ele é descrito na Bíblia.

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Entre os jovens de 18 a 29 anos, esse número cai para

43%

Fontes: Folha de S. Paulo, Religion News Service (RNS), Ibope Inteligência, Pew Research Center, Datafolha jul-set

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Entenda

Texto Fernando Dias Ilustração Kaleb

COMO SÃO ORGANIZADAS A SE VOCÊ ANDAR por seu bairro, é provável que encontre templos de várias denominações diferentes. Você já sabe que as igrejas diferem em muitos aspectos, como doutrina e forma de culto, mas talvez não tenha notado que uma das principais divergências entre as denominações cristãs é seu modelo de governo. Neste guia, descubra os cinco modelos principais de organização de igreja.

IGREJA CONGREGACIONAL

EPISCOPAL

PERSONALISTA

convenção

concílio

líder

bispos pastores pastores pastores

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igrejas

igrejas

igrejas

Um líder religioso carismático, geralmente o fundador da denominação ou seu sucessor, é a autoridade máxima da igreja. Quase sempre são atribuídos a ele dons sobrenaturais. Ele define a doutrina e práticas da igreja e, sozinho, toma as decisões. Exemplos brasileiros: Igrejas Mundial do Poder de Deus e Pentecostal Deus É Amor.

Toda a autoridade da igreja repousa em seus membros, que escolhem o pastor, o modelo de culto e até algumas doutrinas e práticas. As igrejas se associam em convenções para realizar empreendimentos missionários que não conseguem manter sozinhas. Porém, essas convenções interferem pouco na rotina das congregações locais. A Igreja Batista e as Assembleias de Deus adotam essa forma de organização.

A autoridade da igreja está em seus bispos, líderes que, sozinhos ou auxiliados, administram as igrejas de uma região e escolhem seus pastores. Os vários bispos de uma denominação se reúnem em concílios para definir doutrinas e práticas da igreja. As Igrejas Anglicana, Metodista e Ortodoxa são os principais exemplos desse modelo.

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S AS

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REPRESENTATIVO

Assembleia geral

PAPAL Assembleias e comissões

papa Assembleias e comissões cardeais

bispos

pastores

padres

igrejas Um papa é a autoridade da organização religiosa. Ele tem autoridade sobre os bispos (arcebispos e cardeais são bispos com responsabilidades adicionais) que, por sua vez, escolhem os padres das igrejas locais. Os bispos reúnem-se em concílios para definir a doutrina da igreja, e alguns bispos escolhidos (os cardeais) escolhem o papa. Além da Igreja Católica Apostólica Romana, as Igrejas Copta, Palmariana e o caodaísmo têm papas.

igrejas A autoridade da igreja está em seus membros. Representantes escolhidos por eles gerenciam a igreja local por tempo determinado. As igrejas locais se associam em vários níveis administrativos. As decisões cotidianas são tomadas pelas comissões menores de representantes e, as mais importantes, por assembleias regulares. O fundamento desse modelo está principalmente em Atos 15. Os pastores das igrejas são escolhidos pela igreja local ou por uma comissão regional, dependendo da denominação. As Igrejas Presbiteriana e Adventista do Sétimo Dia adotam esse modelo.

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Fontes: Manual da Igreja Adventista do Sétimo Dia (CPB, 2015); Túlio César da Costa Leite, “Um Sistema de Governo Presbiteriano” (reformados21.com.br); A Túnica Inconsútil, de João Falcão Sobrinho (Juerp, 1999). jul-set

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Interpretação Capa & Reflexão Reportagem

Texto Mairon Hothon Design Renan Martin

Perguntas Imagine

FORMAÇÃO D Conheça as experiências de estudantes que encontraram no voluntariado a chance de unir teoria e prática e investir numa formação que vai além do diploma

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O DE VALOR “Somos generosos em reconhecimento ao que Cristo fez e faz pela gente. Quando ajudamos um desconhecido, somos educados com o próximo, repartimos o que temos, nos dispomos a doar, nem que seja uma carona; mostramos Jesus para outras pessoas. Nossa missão não é catequizar, mas demonstrar de maneira prática o cristianismo”, explica o pastor Edson Romero, diretor de Desenvolvimento Espiritual do Unasp, campus Engenheiro Coelho. Ele ressalta que generosidade tem que ver com motivação correta e é uma forma de agir que identifica o cristão. No campus em que Romero trabalha, a prática da generosidade é incentivada em projetos de extensão, que fazem parte do calendário acadêmico de todos os cursos. Por exemplo, desde 2013 a Pastoral Universitária incentiva e capitaneia os estudantes que desejam se envolver no voluntariado local e nas cidades vizinhas ao campus. O Núcleo de Missões e Crescimento de Igreja (Numci), por sua vez, organiza as missões de curta duração para o Brasil e exterior durante as férias de janeiro e julho.

_ D Ilustração: © rsinha | Fotolia

O VALOR EM pauta pode ser visto como uma virtude pessoal e até corporativa. Existem índices também para medi-lo entre as nações. Do contexto bíblico aos debates filosóficos, esse valor é a resposta para muitos questionamentos. Estamos falando da generosidade, virtude que está sendo enfatizada em toda a rede educacional adventista sul-americana neste terceiro bimestre. A ideia é mostrar que a generosidade vai além da atitude de dividir e compartilhar esporadicamente, mas tem que ver com um estilo de vida, que parte de um coração transformado e que se manifesta no dia a dia. Segundo o Dicionário Houaiss, generosidade é definida como a ‘‘virtude ou qualidade daquele que se dispõe a sacrificar os próprios interesses em benefício de outras pessoas’’. No texto bíblico, em que o tema recebe destaque maior e é sinônimo de caridade, generosidade é colocada como um atributo do próprio Deus, que Ele deseja resgatar no ser humano. Em Provérbios 22:9, por exemplo, a generosidade resulta em bênção, enquanto que, em Atos 20:35, essa virtude está atrelada à felicidade.

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Foto: César Pumacahua

ATIVIDADES DE EXTENSÃO No entendimento do Plano Nacional de Ensino (PNE), toda instituição de ensino superior no país deve oferecer ao aluno programas de ensino, pesquisa e extensão como parte do currículo acadêmico. Tânia Kuntze, pró-reitora de Extensão Universitária do Unasp, explica que essa área diz respeito à aplicação do conhecimento científico para o benef ício da sociedade. E a legislação prevê que ao menos 10% das atividades de uma graduação sejam na área de extensão. Kuntze acredita que o conhecimento não pode ficar restrito à sala de aula. E, quando os alunos aplicam o que aprenderam, o ensino se torna extensão, beneficiando assim a sociedade. “Qualquer ativida-

Projeto Mão na massa: atividade semanal de extensão dos futuros arquitetos e engenheiros do Unasp

de que a Pastoral Universitária desenvolver, por exemplo, nós também podemos aproveitar para a área de extensão, pois esses projetos não trabalham somente com o aspecto evangelístico, mas assistencial e estrutural de uma comunidade”, completa. Um exemplo desse tipo de iniciativa é o projeto Mão na massa, que é realizado semanalmente, aos domingos, com alunos de Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo, e de outros cursos. Os estudantes constroem casas e abrigos de emergência nas comunidades carentes em torno do campus. Além de desenvolver o espírito humanitário dos universitários, as atividades são requisitos da graduação, fazendo assim parte da formação deles. “A gente acorda cedo no domingo para literalmente colocar a mão na massa. Aqui a gente não só desenha e planeja, mas faz cimento, levanta parede,

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estrutura e o teto. É gratificante ver a obra terminada e a expressão da pessoa recebendo uma casa nova”, diz Renan Oliveira, estudante de Engenharia, que aproveitou esse projeto para cumprir sua carga horária obrigatória de extensão. Até junho, três obras já haviam sido concluídas. As parcerias entre comunidade e universidade podem partir tanto da instituição de ensino quanto da comunidade que precisa de ajuda. Em São Paulo, desde 2011, os estudantes do campus local do Unasp realizam atendimentos na área de saúde e organizam debates sobre as principais necessidades do Jardim Colombo, uma das cinco maiores favelas paulistanas, na região do bairro de Paraisópolis. “Tudo começou quando o líder de Paraisópolis nos procurou para saber como poderíamos ajudálos e, depois de várias conversas e estudos, conseguimos direcionar as atividades práticas dos cursos para atender esses locais. Ali, a gente realiza não somente atividades de extensão, mas conseguimos identificar muitos cases também para pesquisa científica, completando assim o ciclo do ensino. Ou seja, na própria rotina do aluno incluímos o ato de fazer o bem e crescer na profissão escolhida”, analisa Tânia Kuntze. LEQUE DE OPÇÕES Somente em 2017 foram realizadas mais de 200 atividades de extensão pelo campus Engenheiro Coelho. Isso inclui 25 ministérios que atuam na assistência a idosos, crianças, moradores de rua, pessoas com deficiências, dependentes químicos, além de atendimento psicológico e jurídico, reforço escolar, atividades artísticas e ações de evangelização. “Desde o trabalho com feiras de saúde, visitas a presídios e hospitais, ou mesmo o ministério de dar caronas, tudo colabora com o foco maior de ajudar pessoas e transformar lugares. Por isso, todos os ministérios se reúnem durante a semana para ver o que será feito a cada fim de semana. Dessa forma, o campus nunca para e isso é muito bom, porque o aluno tem em sua rotina o ato de se doar e se envolver em atividades cidadãs e generosas”, destaca Romero. Todos esses ministérios têm como guarda-chuva o conceito de Atos 29. O nome faz referência ao livro bíblico, o qual relata os primeiros passos da igreja cristã e tem 28 capítulos. “O número 29, portanto, seria uma continuação do ideal missionário que caracteriza os personagens e as histórias de Atos”, explica o pastor. Muitos dos projetos são mantidos pela própria instituição. Outros funcionam em parceria com o poder público, a iniciativa privada, ONGs e agências humanitárias, como a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA).


Marianna Hidalgo (acima) servindo em projeto com crianças na China. Ela já foi voluntária na Amazônia brasileira, no Paraguai e na Albânia

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_ E Foto: Mairon Hothon

MUDANÇA DE PERSPECTIVA Marianna Hidalgo estuda no Unasp desde o ensino médio. Incentivada na época pelos pais para seguir a carreira de Direito ou mesmo algo na área de saúde, ela optou por cursar Pedagogia e Teologia, por vocação. Há cinco anos ela participa de movimentos de voluntariado no campus, como o Geração 148 e Atos 29. Ela acredita que foi esse contato com as necessidades do próximo que a ajudou a delimitar seu foco profissional. “Sempre gostei de me envolver nas campanhas sociais da igreja, mas elas eram realizadas esporadicamente, não como um programa regular. Porém, quando cheguei ao Unasp e vi as opções que tinha de voluntariado, comecei a participar e fazer amigos. Comecei ajudando num lar de idosos e, depois que entrei no curso de Pedagogia, migrei para o abrigo das crianças. A cada sexta-feira que vou lá, percebo que estou na profissão certa”, declara Marianna, que hoje lidera o Atos Kids no núcleo da ADRA em Engenheiro Coelho. “Atualmente, meu trabalho voluntário me ajuda muito nos cursos que estudo. Dá para perceber, por exemplo, como o afeto que dou para uma criança colabora no desenvolvimento intelectual dela. Nem é preciso tanta coisa, basta brincar, abraçar, ouvir e ensinar, que o restante a criança desenvolve sozinha”, garante. Ela acredita que a pessoa mais beneficiada nesse processo é ela mesma. “Altruísmo, generosidade, trabalho em equipe e gratidão não se aprendem em sala de aula”, justifica. O interessante é que Marianna seguiu os passos que os especialistas na área de missão e voluntariado indicam ser o caminho para transformar a participação em ações pontuais num estilo de vida. Depois de se envolver nos projetos de impacto local, ela decidiu experimentar missões transculturais. Já foi para a Amazônia brasileira, Paraguai, Albânia e, no início deste ano, esteve na China. “Após minha formatura, quero muito servir em tempo integral em algum país da Janela 10/40, a região do mundo que tem o menor índice de cristãos. Desde que me envolvi com isso percebi quantas habilidades a gente pode desenvolver, minha visão de mundo mudou e minha fé passou a ter sentido”, confessa. Para ela, o acúmulo de horas complementares no currículo não é o mais importante. “Os ganhos do envolvimento numa missão vão muito além. Ver o sorriso das pessoas ou ouvi-las chamar meu nome é muito bom.”

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PROJETO DE VIDA Outra estudante animada com esses projetos de extensão é a Pollyanna Mamedes, que cursa Música e Arquitetura e Urbanismo. Ela e mais 80 pessoas viajaram para servir agora em julho, durante três semanas, em comunidades ribeirinhas da Amazônia. Os voluntários construíram banheiros e casas em comunidades de difícil acesso. “Quando acabar meus estudos, tenho o sonho de viajar o mundo em missão mas, enquanto isso não é possível, aproveito essas viagens de curta duração para conhecer outras realidades e me conectar às necessidades das pessoas”, diz Pollyanna, que também já participou de projetos sociais na Indonésia e China. Para Afonso Cardoso, pró-reitor de graduação do Unasp, o conhecimento científico em si é muito árido; por isso, o programa de voluntariado é um “ingrediente humano” necessário para o tornar esse conteúdo aplicável. Para ele, “o aluno que consegue unir teoria e prática, alcança o ápice do saber”. “A educação não acontece somente em sala de aula, mas também com seus pares e quando o aluno se entrega para beneficiar o outro de forma altruísta. Quando ele entra em contato com alguém diferente, amplia sua cosmovisão e cria um sentimento de generosidade. Hoje, o voluntariado é uma das melhores ferramentas para troca de experiências”, avalia. O Unasp é reconhecido pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), como instituição que possui o selo de responsabilidade social, por incluir diversas atividades comunitárias em seu programa de ensino. O centro universitário 14 |

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Foto: Fernando Borges

Durante o semestre, os estudantes participam de projetos locais, enquanto que nas férias viajam para lugares distantes, como a Amazônia

planeja também incluir uma disciplina sobre voluntariado na grade de todos seus cursos. “O aluno que apresenta em seu currículo uma experiência de voluntariado, já vai para o mercado de trabalho com um plus”, ressalta o professor. A GENEROSIDADE DO BRASILEIRO Apesar de o brasileiro não negar ajuda quando ocorrem catástrofes, o país está longe de ser considerado generoso, pelo menos de acordo com uma pesquisa da fundação britânica Charities Aid Foundation. O The World Giving Index 2017, ranking de filantropia divulgado pela entidade e que avalia 135 países, coloca o Brasil na 90a posição, empatado com França e atrás do México. Entre os países mais generosos estão Mianmar, Estados Unidos, Nova Zelândia, Austrália, Malásia, Sri Lanka, Indonésia, Butão e Irlanda. De acordo com os critérios analisados, que levam em conta a ajuda a desconhecidos, dinheiro doado e tempo investido em voluntariado, os fatores religião e cultura parecem pesar na hora de avaliar um país. As nações mais bem posicionadas no ranking são de tradição budista e protestante, e passaram por guerras. “Diante de catástrofes, o brasileiro até se dispõe em doar e ajudar momentaneamente, mas não faz daquele ato algo cotidiano. O famoso ‘jeitinho brasileiro’ e a vontade de sempre conseguir algo às custas dos outros é nosso freio nessas pesquisas sobre generosidade. Está aí a importância de reforçarmos o assunto do voluntariado e da doação em sala de aula”, revela Marcelo Dias, doutor em Missiologia pela Universidade Andrews (EUA) e professor do curso de Teologia do Unasp.


SENSO DE UTILIDADE De acordo com a pesquisa The Generosity Gap, do Instituto de Pesquisas Barna, a geração dos millennials (nascidos entre 1980-1995), valorizam muito o impacto social de suas ações. Apesar de ainda não estarem estabilizados financeiramente, esses jovens adultos veem no voluntariado uma forma de fazer diferença no mundo, especialmente se puderem gerar transformação no diálogo com outras culturas e etnias. O estudo do Instituto Barna também mostrou que, entre os jovens entrevistados, a maioria entendia a hospitalidade como um gesto mais generoso do que doar dinheiro. E o dinheiro para eles deve ser usado mais para a própria realização emocional do que para a compra de bens e serviços. “Tem gente que acredita que, para ajudar o próximo, primeiro é preciso ter um emprego, para ter dinheiro para conseguir doar, mas não é nada disso. Você pode estar no primeiro ano da faculdade, não ter status social nem emprego, contudo, ao se envolver em um projeto social, você desenvolve habilidades, relacionamentos e virtudes que vão torná-lo diferente. Você dá o que tem para o próximo, e isso será uma benção para todos!”, desafia o pastor Edson Romero.

Foto: Ícaro Assunção

ALÉM-MAR No Unasp, além das missões urbanas, outra modalidade de engajamento social são as missões internacionais de curta duração. Só nas férias de verão deste ano, cerca de 100 alunos e colaboradores embarcaram para servir por algumas semanas na China, Índia, Tailândia, Peru e Guiné-Bissau. Em julho, grupos de voluntários viajaram para Níger, Moçambique, Grécia, Peru, Albânia e Chipre. Essa mobilização reflete uma tendência no Brasil. Segundo o Center for Studies in Global Christianity, entidade ligada ao seminário teológico Gordon-Conwell (EUA), o país é a segunda nação no mundo que mais envia missionários. “Hoje há uma tendência de valorização do voluntariado internacional nas universidades. No Unasp, a escolha dos países é facilitada pelos alunos estrangeiros que estudam aqui e nos ajudam com o contato. No campo missionário, na maioria das vezes atuamos nas áreas de educação, saúde, infraestrutura e evangelização. E nosso objetivo é voltar várias vezes ao mesmo lugar, a fim de criar vínculos e dar continuidade ao trabalho”, ressalta Marcelo Dias, que também é o diretor do Numci. Fundado em 2007 pelo falecido pastor Berndt Wolter, o núcleo de missões (Numci) deu seus primeiros passos organizando projetos de curta duração para regiões desafiadoras do Brasil e países de fala portuguesa. Com o tempo, as iniciativas se expandiram para outras nações da Europa, África e Ásia. Anualmente o Unasp envia cerca de 300 pessoas em missões estrangeiras. “As missões mais curtas são uma forma de despertar nos voluntários a necessidade de servir em projetos mais longos e de experimentar a prática do cristianismo”, defende Marcelo Dias. Peter Miguelez estava no grupo de voluntários que se preparava para ir à Índia em 2015. Desde a infância, o então estudante de Teologia alimentava a ideia de um dia ter uma experiência missionária transcultural. “Aquele projeto foi um verdadeiro divisor de águas. Entendi que todo cristão precisa ser um ‘missionário’ em suas ações. Vi a necessidade de mostrar o Jesus vivo e amoroso para outras pessoas, sem me preocupar com cultura ou aparência. Percebi também que precisava aprender inglês para ser um missionário global”, relembra o jovem pastor, que hoje estuda esse idioma na região metropolitana de Washington (EUA). No início deste ano, ele esteve num projeto na China, e agora se prepara para servir por um ano na Austrália.

Missões locais incluem o contato com pessoas em situação vulnerável

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Reportagem

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Texto Lisandro Staut Design Fรกbio Fernandes


A ALGUMAS CENTENAS de quilômetros distante da Terra, completamente sozinha e certa de que tinha chegado ao seu fim, a doutora Ryan Stone, personagem de Sandra Bullock no filme Gravidade (2013), abre seu coração, num momento dividido com um desconhecido que nem sequer entendia sua língua. Aningaaq é um pescador esquimó, um nativo do círculo polar ártico. Alguém que vive numa parte do planeta quase tão isolada quanto uma nave à deriva no espaço. O desenrolar da tentativa frustrada de contato com a estação de controle revela sentimentos profundamente humanos. O diálogo é fictício, como tudo no filme, mas as sensações não: “Eu vou morrer, Aningaaq. Eu sei, todos nós vamos morrer, sabemos disso. Mas eu vou morrer hoje.” Enquanto confessa seu medo do desconhecido, a personagem recorre a algo totalmente novo na sua experiência: “Você oraria por mim? Ou já é tarde demais?” A profundidade da cena comove. “Eu deveria orar por mim mesma, mas nunca orei antes. Ninguém nunca me ensinou como fazer. Ninguém nunca me ensinou como fazer.” A ênfase dada pela repetição da frase mostra que Alfonso Cuarón, diretor e roteirista do filme que levou sete estatuetas do Oscar, tinha uma intenção com a cena. Sandra Bullock não estava apenas no papel de uma jovem engenheira, nascida depois de 1980, e que enxerga a vida por meio das lentes do humanismo secular. Na relação com o universo da fé, ela na verdade representa legiões de jovens da sua idade e mais novos do que ela. A evidente falta de intimidade da doutora Stone com as práticas religiosas, embora também possa ser observada em gerações de outras épocas, é uma das características mais latentes nos chamados millennials, jovens que nasceram entre 1980 e 1995. Essa característica parece ainda mais acentuada na chamada Geração Z, ou seja, naqueles que nasceram até 15 anos depois dos millennials, e que são considerados a primeira geração genuinamente pós-cristã. É claro que nunca será muito preciso classificar jovens tão diversos numa categoria rígida, mas ela serve de ponto de partida. Vale lembrar ainda que essa perda de força da tradição cristã no ocidente pode também ser verificada, com variações, nas sociedades em que o islamismo e o judaísmo são as religiões hegemônicas. Ilustração: © Bitter | Fotolia

A religião cristã, como a conhecemos, pode estar com os dias contados. Isso porque as novas gerações estão reconfigurando o modo de se relacionar com Deus e a igreja

RAZÕES PARA O DESCOLAMENTO Entre os estudiosos dessa relação das gerações mais jovens e a religião institucionalizada está o teólogo James Emery White. Autor de mais de duas dezenas de livros, incluindo Meet Generation Z jul-set

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(Baker Books, 2017), no qual ele tenta explicar para as gerações anteriores porque a atual pensa como pensa; e The Rise of the Nones (Baker Books, 2014), um estudo sobre o grupo “religioso” que mais cresce nos Estados Unidos: os desigrejados. Nos dias 12 e 13 de abril, James Emery White esteve no campus da Universidade Andrews (EUA) como o principal palestrante de uma conferência promovida pelo Centro de Estudos em Secularismo e Pós-Modernidade (CSPS, em inglês) da sede mundial da Igreja Adventista. “A igreja cristã e seus especialistas em gerações não sabem exatamente sobre o que estão falando. Eles estão respondendo questões que os jovens não estão fazendo”, afirmou White, logo em sua primeira palestra. Para ele, as igrejas estão tocando em questões secundárias ou periféricas para o cotidiano dos jovens. Colter Slikkers parece engrossar esse coro. Esse universitário de 18 anos fala a partir dos Estados Unidos, onde a tendência de descolamento entre os jovens e a igreja parece mais acentuada do que no Brasil. Nascido numa família adventista, e batizado aos 8 anos de idade, Colter teve sua própria experiência espiritual já na adolescência. Hoje, estudando teologia e administração, ele consegue apontar algumas possíveis razões para que nem todos seus colegas de infância estejam vinculados à igreja. “Na minha infância, a igreja foi muito boa para mim; porém, desde minha adolescência, sinto que tem faltado algo: acho que a igreja tem estado muito envolvida com debates internos, o que acaba afetando a própria centralidade da adoração a Deus.” O diagnóstico desse estudante apresenta certa convergência com as pesquisas de James Emery White. No livro The Rise of the Nones, White explica que, mesmo que os jovens não se oponham à ideia de que Deus existe, eles se sentem desconectados de igrejas nas quais a disputa por poder e dinheiro ganham mais relevância. Não sem razão, são essas questões interconectadas que acabam ficando mais em evidência no noticiário quando o assunto é religião. No livro You Lost Me, David Kinnaman, diretor do Instituto de Pesquisas Barna, apresenta um estudo de cinco anos com a juventude norte-americana. Com base nesse levantamento, ele enumera seis principais razões pelas quais os jovens estão deixando as igrejas e repensando a própria fé. De maneira geral, esses jovens enxergam a igreja como superprotetora, isolada da cultura e indiferente aos problemas do mundo real. Também criticam, declarando que a experiência espiritual deles foi muito rasa, não oferecendo conexões para aspectos cotidianos da vida, como a carreira, por exemplo. Outra questão levantada é a tensão entre religião e ciência. 18 |

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Os jovens que apontam essa razão para se afastarem lamentam que os cristãos sejam confiantes demais de que tenham todas as respostas. A quarta justificativa apresentada é que a igreja tem sido, ao mesmo tempo, muito repressiva e simplista ao tratar de assuntos complexos, como a sexualidade humana. Outro ponto indicado pelos entrevistados é a postura exclusivista de boa parte do cristianismo, que não se vê aberta a dialogar e aprender com outras religiões. Finalmente, os jovens se queixaram de que a igreja não é um ambiente amigável para aqueles que expressam dúvidas. Segundo o doutor Allan Martin, que coordena um trabalho com jovens cristãos no Texas (EUA), quando a mesma pesquisa realizada pelo Instituto Barna é aplicada ao contexto adventista, a reclamação de que a igreja é superprotetora (36%) é maior entre os que abandonaram a denominação do que entre os jovens cristãos em geral que tomaram a mesma decisão (23%). Ao que parece, o cuidado da igreja pelos jovens tem sido interpretado por eles como excessivo. ATEÍSMO FUNCIONAL Eventos como o realizado na Universidade Andrews (EUA) mostram que a igreja não está de braços cruzados e que ela pode ser não apenas um suporte fundamental para os jovens que desejam enfrentar com coragem os desafios da existência, mas uma referência para aqueles que, sem a fé, têm dificuldade de encaixar todas as peças do quebra-­ cabeça da vida. Para tanto, segundo James Emery White, a igreja precisa discutir questões do nosso tempo, como transsexualidade e inteligência artificial, temas que têm que ver especialmente com o que a Bíblia diz a respeito da natureza do ser humano. Segundo o pesquisador, por não encontrarem no discurso religioso as conexões com os dilemas do seu tempo, as gerações nascidas nos últimos 40 anos acabaram produzindo o maior desafio cultural já enfrentado pela igreja. Ele tem chamado esse fenômeno de “segunda queda”. Na “primeira queda”, ocorrida há milhares de anos, Deus expulsou os primeiros seres humanos do Éden e, agora, a geração atual estaria “dando o troco” e expulsando Deus da vida. De acordo com White, “a religião secular se transformou num ateísmo funcional, não mais filosófico”. Por ateísmo funcional, ele entende o estado de completa indiferença da geração atual. Se nos últimos anos observamos a militância do neoateísmo, que fez questão de afirmar sua posição e argumentar contra a existência de Deus, hoje há jovens que “nem sequer consideram que estão rejeitando alguma coisa”. Em outras palavras, eles são filhos de pais que já haviam


“assassinado Deus” e, por isso, eles não têm sequer “memória do evangelho”, como a doutora Ryan Stone, no filme Gravidade. Embora essas características se mostrem mais acentuadas na Europa e nos Estados Unidos, devido à globalização, é possível observar traços dessa mudança cultural, em maior ou menor medida, em qualquer grande centro urbano do mundo.

Ilustração: © Bitter | Fotolia

...numa busca pela essência da mensagem cristã, eles investem num retorno ao estudo das Escrituras e numa experiência direta e real com Deus, a fim de entender como viver hoje a própria fé.

IGREJA E JUVENTUDE Se a liderança da igreja se movimenta para criar espaços de reflexão de como lidar com essas novas demandas, os próprios jovens também fazem sua parte. O que muitos têm feito é reconhecer primeiramente que a vivência da fé que herdaram é fruto de séculos e séculos de acúmulo de camadas de cultura religiosa. Portanto, numa busca pela essência da mensagem cristã, eles investem num retorno ao estudo das Escrituras e numa experiência direta e real com Deus, a fim de entender como viver hoje a própria fé. Davi Boechat é um exemplo. Graduado em Jornalismo e estudante de Direito, ele nasceu em 1997 e faz parte da geração Z. Como líder de sua igreja no Rio de Janeiro, ele entende que as gerações anteriores tinham mais comprometimento, mas um acesso limitado ao conhecimento bíblico disponível atualmente. Mais do que apenas apontar problemas, Davi procura ser parte da solução. Ainda que não pretenda mudar o mundo, ele busca luz para iluminar sua trajetória numa época tão difícil. Essa é também a visão da jovem médica Franciéli Schäffer, graduada na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e profissional do Programa de Saúde da Família em São Paulo. Nascida numa família adventista, em 1989, já quase no fim da geração dos millennials, ela acredita que as gerações anteriores tiveram sua espiritualidade centrada na igreja como instituição e no prédio como local de culto. “Sou a quarta geração de adventistas da minha família e percebo que meus avós, por exemplo, apesar de terem o hábito da devoção pessoal, centralizavam a vida cristã na rotina e nas atividades da igreja. Por outro lado, minha geração já enxerga a igreja como uma instituição auxiliadora, mas não intermediadora da comunhão com Deus, da conversão ou santificação”, compara Franciéli. Assim como Davi e Franciéli, há muitos jovens que estão atentos às mudanças do nosso tempo e às críticas da sociedade em geral à aparente ineficácia da religião institucionalizada. Eles buscam numa relação ainda mais profunda e original com o Criador, uma forma de ver o mundo e a vida com mais esperança. Se essa jornada for marcada por humildade, espírito de aprendizado e submissão à vontade de Deus, conforme revelada em Sua Palavra, o caminho ainda não plenamente conhecido poderá ser mais seguro se for vivenciado no ambiente comunitário da igreja. jul-set

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Básica

Texto André Vasconcelos Imagem © ichz | Fotolia

A religião bíblica envolve a entrega completa a Deus

UNIDOS POR UM PACTO Em 1955, um teólogo chamado George Mendenhall publicou um livro em que comparava os antigos tratados políticos dos hititas (séculos 14-13 a.C.) com a aliança entre Deus e Israel. Mendenhall percebeu que os pactos na Bíblia seguiam a mesma estrutura desses tratados, que, em sua maioria, apresentavam um acordo entre um senhor e seu servo. Na Bíblia, Deus é apresentado como o Criador e o Soberano, pois é Ele quem estabelece as leis e as aplica. Por sua vez, os seres humanos são vistos como Seus súditos, criados à Sua imagem e semelhança para governar com Ele (Gn 1:27, 28). Essa relação fica evidente na história de Adão, uma vez que Deus fez uma aliança com ele (Os 6:7). Esse pacto original envolvia pelo menos quatro elementos: (1) Recursos: Adão deveria exercer domínio sobre toda a criação, administrando­a devidamente (Gn 1:28). (2) Talentos: além de ter a responsabilidade de cuidar da Terra, ele deveria empregar sua capacidade física para cultivar o jardim (Gn 2:8, 9, 15) e intelectual para dar nome aos animais (Gn 2:19, 20). (3) Tempo: Adão teria seis dias para trabalhar e um para dedicá-lo inteiramente ao Senhor (Gn 2:1-3). (4) Controle do corpo: a forma com que o primeiro casal se alimentaria determinaria seu destino. Adão e Eva poderiam comer (Gn 1:29) de todas as frutas e ervas do campo, menos do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2:16, 17). Portanto, essa história nos ensina pelo menos três lições. Primeira, nossa lealdade a Deus pode ser expressa em quatro aspectos: bom uso dos recursos, talentos, tempo e corpo. Em segundo lugar, assim como os pactos da Antiguidade, nosso relacionamento com Deus inclui bênçãos e maldições, como consequências naturais de uma aliança que é quebrada ou observada (Gn 2:17; 3:22, 23). O terceiro ponto é que podemos escolher manter ou quebrar a aliança, mas não temos controle sobre as consequências dessa escolha.

Curiosa

Texto Fernando Dias

VALE A PENA FAZER DOAÇÕES? Os escândalos financeiros, a má administração de recursos, o uso de entidades filantrópicas falsas para lavar dinheiro e a corrupção quase generalizada desestimulam muitas pessoas a fazer doações. Apesar disso, saiba que há muitas entidades que farão bom uso dos recursos, dos bens e do tempo de serviço que você venha a doar. Algumas das pessoas mais ricas do mundo são também as mais generosas. O banqueiro saudita Sulaiman Al Rajhi já doou para causas humanitárias e instituições religiosas cerca de dez vezes mais do que a fortuna que tem atualmente. Os americanos Bill Gates, fundador da Microsoft, e Warren Buffet, megainvestidor, comprometeram-se em doar pelo menos metade de suas fortunas para filantropia (já doaram um terço cada). Eles se inspiraram no irlandês Charles Feeney, fundador das lojas Duty Free. Feeney é um ex-bilionário que mora em um apartamento alugado, anda de metrô e usa relógios comprados no camelô. Ele não foi à falência. Ele doou em 20 |

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média um milhão de dólares por dia para projetos de educação, ciência, saúde e de defesa dos direitos humanos, até consumir os 8 bilhões de dólares de sua riqueza. Essas pessoas trabalharam duro para conquistar sua fortuna, mas estão abrindo mão dela para fazer a diferença no mundo. Por isso, você não precisa estar entre os mais ricos para ser um doador. Jesus Cristo, que foi mais pobre que qualquer um de nós (Mt 8:20), doou tudo, a Si mesmo, pela

humanidade (Jo 10:17, 18). Você pode também doar seu tempo e suas habilidades para ajudar uma pessoa ou uma causa, pode doar seu sangue no hemocentro mais próximo e, por que não doar parte de seu dinheiro para a igreja ou uma entidade filantrópica, como a ADRA (adra.org.br)? Afinal, é melhor doar do que receber (At 20:35). Fontes: revista Época Negócios, de 13/10/2015 (https://glo.bo/2LjjYly); revista Exame, de 19/10/2010 (goo.gl/6XykyE) e de 26/6/2014 (goo.gl/go5U5X).


Ponto de vista

Texto Fernando Dias Imagem © emmapeel34 | Fotolia

Tudo ligado Texto Fernando Dias

DA GANÂNCIA À RELEVÂNCIA Ganância

OS ANIMAIS IRÃO PARA O CÉU? Durante séculos, essa pergunta tem intrigado muitos cristãos; porém, com o crescente apego dos seres humanos aos seus pets, a resposta hoje talvez interesse ainda mais pessoas. Apesar de os “cães” aparecerem na lista dos que não entrarão na Nova Jerusalém (Ap 22:15), a maior parte dos estudiosos acredita que o termo foi usado no sentido figurado, referindo-se, como em outras partes da Bíblia, aos que têm um estilo de vida condenável (Dt 23:18; Is 56:10, 11; Mt 7:6; Fp 3:2). Mesmo assim, permanece a pergunta: os animais irão para o Céu?

Não

A grande maioria das denominações cristãs, como a Igreja Católica, acredita que não. Segundo elas, animais não têm uma alma imortal, requisito indispensável para a continuação da existência num estado imaterial após a morte.

Sim

Para o espiritismo e as religiões que ensinam a reencarnação, os animais são seres espirituais como as pessoas, mas em estado menos evoluído. Essas religiões, além de admitirem que os animais têm uma existência espiritual após a morte, creem que eles se manifestam e que reencarnarão indefinidas vezes.

Depende

Os adventistas entendem que haverá animais na nova Terra, e que eles serão todos mansos (Is 11:6-9; 65:25). Por sua vez, a Bíblia não é clara em afirmar se esses animais que estarão no paraíso foram ressuscitados. Porém, alguns textos não excluem completamente essa possibilidade. Por exemplo, as Escrituras dizem que a alma humana, que é mortal (Ez 18:20), é da mesma natureza que a dos animais (Ec 3:18-21). Deus nunca Se esquece de nenhum animal (Lc 12:6) e a misericórdia Dele inclui todas as criaturas (Sl 145:9). Ele preservou a vida de alguns animais durante o Dilúvio que devastou a Terra (Gn 8:1) e, de algum modo, o que ocorreu no tempo de Noé servirá de modelo para o juízo divino na volta de Jesus (2Pe 3:5-7). Por fim, Paulo escreveu que a criação (incluindo os animais) que agora geme por causa das consequências do pecado, aguarda a restauração de todas as coisas (Rm 8:19-21).

É um defeito de caráter muito estimulado numa época de consumismo e competitividade. Ganância é querer mais para si, e apenas para si, sem se importar com outros. É saudável ter aspirações, desde que a ética vá adiante das conquistas; mas, para o ganancioso, os fins justificam os meios, e não interessa para ele se sua vitória é a derrota de outros. A palavra ganância é da mesma família das palavras ganho e

Gana República no oeste da África, antiga colônia portuguesa e britânica conhecida como Costa do Ouro, foi a primeira nação africana a declarar a independência formal do colonialismo europeu, em 1957. Com um nome que significa “guerreiro”, o país é relativamente rico, contrastando com a pobreza de algumas nações vizinhas. Em 1836, escravos libertos de Salvador, na Bahia, emigraram para Gana, ficando conhecidos como povo tabom, porque, desconhecendo a língua local, respondiam aos nativos falando tá

Bom Que é adjetivo, diferentemente de bem, que é advérbio. O antônimo de “bom” é “mau”, com “u”, e o antônimo de “bem” é “mal”, com “l”. Substituir as palavras “mau” e “mal” por seus antônimos ajuda a acertar na ortografia. Aliás, escrever corretamente ajuda não só a passar no vestibular, mas a conquistar

Relevância Uma palavra que vem de relevo, o mesmo da Geografia, mas com o sentido de destaque, de algo ou alguém que pode ser notado mais facilmente pelos outros, como uma montanha. Se você deseja ser uma pessoa de relevância, alguém realmente bom no que faz, tenha gana para conquistar suas metas e realizar seus sonhos, sem permitir que a ganância corrompa você.

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Fontes: Milton Torres, “O destino dos cães”, em revista Ministério, janeiro-fevereiro de 2008; Catecismo da Igreja Católica (Loyola, 2002); Marcel Benedeti, Os Animais Conforme o Espiritismo (Mundo Maior, 2012); Leandro Quadros, “Os animais irão para o Céu?”, artigo disponível em novotempo.com/namiradaverdade.

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Imagine

Texto Jessica Manfrim Design Flávio Oak Ilustração Thiago Logo

... se não existisse o A LÓGICA DO capitalismo está tão presente em nossa vida, que é difícil imaginar outro mundo além desse que temos. O ponto é que nem sempre a humanidade viveu nesse sistema econômico e social predominante, cuja história tem apenas poucos séculos, mas é de grande impacto. Talvez mais do que em qualquer outra época, hoje tem crescido o número de pessoas que se questionam se não há outro jeito de viver. Elas buscam um estilo de vida marcado por menos desigualdade social, competição, aceleração, consumismo e destruição da natureza. No século passado, tivemos tentativas mais drásticas e estatais de mudança desse sistema. No entanto, nos últimos anos, temos visto iniciativas mais individuais e orgânicas de minimizar os efeitos negativos do capitalismo, sem abrir mão de seus benefícios. O texto a seguir vai ajudar você a pensar nos pilares que sustentam nosso estilo de vida atual e como algumas pessoas têm tentado repensar essa lógica. 22 |

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NOVA RELIGIOSIDADE

Ao observar a sociedade alemã e norteamericana do fim do século 19 e início do 20, o pensador Max Weber percebeu que a cultura ocidental tinha uma marca distinta das demais: a partir do século 16, houve uma combinação frutífera (afinidade eletiva) entre a ética protestante calvinista e o espírito do capitalismo. A primeira tinha que ver com levar a vida de modo disciplinado, olhar o trabalho como uma vocação espiritual e o lucro como uma bênção de Deus (evidência de que fazia parte dos predestinados à salvação). O segundo estava relacionado com a racionalização da vida. Desse “casamento” histórico de uma crença religiosa e um objetivo econômico se desenvolveu o capitalismo ocidental. A questão é que, no decorrer do tempo, o capitalismo perdeu sua conexão com a religião, tornando-se uma “religião”, com seus próprios templos, ídolos, rituais, sistema de sacrifícios e a crença na “mão invisível” do mercado. Ao mesmo tempo, em grande medida, a religião passou a incorporar a lógica do capitalismo, tratando seus fiéis como consumidores, e deixando de ser um contraponto aos pontos cegos desse sistema. O trabalho passou a ser visto como um fim em si; e os direitos básicos de sobrevivência deixaram de estar atrelados à sacralidade da vida, para depender do mérito (performance, status e produtividade).

A ILUSÃO DO MÉRITO

Ao longo da história, a humanidade já teve outras formas de sobrevivência, como as trocas simples e igualitárias, o sistema das terras comuns e o mercantilismo (com a atuação forte do Estado). Nos últimos dois séculos, alternativas foram pensadas para substituir o capitalismo, como o socialismo (promover o bem-estar comum, revendo o regime de propriedade privada) e o comunismo (etapa posterior ao socialismo, em que a propriedade e os meios de produção seriam coletivos). Atualmente, porém, o que ganha espaço é o pensamento neoliberal, que prevê o mínimo de intervenção do Estado na economia e a autorregulação do mercado, cujas leis valorizam a produtividade e competitividade (mérito). Essa fase mais atual do capitalismo tem na sua base a ilusão do self made man, ou seja, a crença de que qualquer pessoa que se esforçar poderá construir seu sucesso econômico. O que essa equação não leva em conta é a impossibilidade de prosperidade para todos, pois a riqueza de alguns só pode ser construída com a pobreza de outros. Em outras palavras, nem todos os países do mundo conseguiriam ter a riqueza dos Estados Unidos, ainda que trabalhassem para isso. Além disso, os recursos naturais do planeta não dariam conta de alimentar uma cadeia produtiva ininterrupta e exponencialmente maior do que a atual.


e o capitalismo NOVA ECONOMIA

Pensar num sistema econômico global que contemple crescimento e justiça parece ser impossível. Por isso, as iniciativas que têm surgido são locais, e em pequena escala. Pode-se falar, por exemplo, da economia compartilhada e da solidária. A primeira proposta não preza pelo enriquecimento financeiro, e sim por uma qualidade de vida sustentável, que inclui conexões mais significativas entre as pessoas. Daí a ideia de compartilhar bens, produtos e serviços sem a necessidade de comprá-los. Esse tipo de economia seria uma etapa posterior ao capitalismo atual, pois questionaria os símbolos clássicos de status, como casa e carro próprios. A economia solidária, por sua vez, geralmente reúne trabalhadores que procuram evitar a vulnerabilidade financeira e social e garantir a sobrevivência de suas famílias. Iniciativas que se encaixam nesse modelo são os coletivos de geração de renda, cantinas populares, cooperativas de produção e comercialização, redes e clubes de troca, sistemas de comércio justo e de finanças, e grupos de produção ecológica.

MICROSSOCIEDADES

Se o capitalismo precisa de grandes mercados consumidores, as alternativas a esse sistema, por sua vez, parecem favorecer as pequenas comunidades. O povo hadza da Tanzânia, por exemplo, mantém um modo de vida peculiar mesmo após a chegada dos bens industrializados. Organizados numa tribo igualitária com mil pessoas, cerca de 300 deles cumprem a função de caçar animais e coletar frutas e tubérculos (não praticam a agricultura). Eles compartilham tudo entre si, e ninguém passa fome. Também não possuem líderes nem hierarquia. Na Europa e nos Estados Unidos existem experimentações semelhantes. O movimento “off the grid” (fora do sistema) reúne pessoas que resolveram viver sem tecnologia, acesso ao supermercado e uso de roupas industrializadas. Eles plantam a própria comida e caçam. Outros se organizam em condomínios autossustentáveis e ecovilas, fabricam seus próprios móveis e se locomovem com base na carona.

O capitalismo faz parte de um processo histórico, não é uma entidade com vontade própria. As leis que regem o mercado não são inquestionáveis como as da f ísica. Entender isso nos faz questionar se o lucro deve estar acima ou a serviço da natureza, das relações sociais e do bem-estar humano.

Fontes: O que é capitalismo, de Afrânio Mendes Catani (Brasiliense, 1984); O que é socialismo, de Arnaldo Spindel (Brasiliense, 1983); O que é comunismo, de Arnaldo Spindel (Brasiliense, 1983); A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber (Companhia das Letras, 2004); A origem do capitalismo, de Ellen Meiksins Wood (Jorge Zahar Editor, 2001); “Religião, direitos humanos e o neoliberalismo em uma era pós-humanista” (https://bit. ly/2KZgbKL) e “Lutero, a crítica da idolatria do dinheiro e a dialética do possível” (https:// bit.ly/2IhaohJ), artigos de Jung Mo Sung; “Capitalismo como religião”, de Walter Benjamin (https://bit.ly/2rFkdz3); “Em ensaio para ‘fim do capitalismo’, alemã fica um ano sem comprar nada” (https://glo. bo/2rG6CbH); “Família produz quase três toneladas de alimentos orgânicos no quintal” (https://bit.ly/2Ikz9cQ); “Conheça pessoas que vivem ‘fora do sistema’ na Europa e EUA” (https://bit.ly/2wBrOEE) e “Conheça pessoas como você que optaram por viver fora do sistema” (https://bit.ly/2FZ8TXH). jul-set

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Ação Mude seu mundo

Texto Michelle Martins Design Renan Martin

Lição de vida Aprenda Na cabeceira Guia de profissões

Histórias de quem encontrou no ministério Tudo Anônimo ajuda para vencer a dependência química

DESDE A INFÂNCIA, R. C.*, de 30 anos, vivia dias conturbados. Ele odiava a vida e reprovava a si mesmo. Aos 9 anos de idade, o garoto roubou dinheiro da mãe para comprar cigarros. Dois anos depois, chegou a consumir álcool até cair, época em que também experimentou maconha. Entregar-se ao consumo das drogas era sua maneira de lidar com a frustação e a melancolia da vida. Os anos passaram, e R. C. certo dia se viu sem ter o que comer e vestir. Ele estava no fundo do poço, sem família e dignidade. No mesmo grupo em que ele compartilhava sua história de perdas, estava H. R., de 37 anos. H. R. experimentou maconha aos 14 anos e três anos depois já usava crack diariamente. Em sete anos como usuário, as drogas também lhe tiraram a família, bens materiais e o respeito e amor próprios. 24 |

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Para R. C., a frustração por estar preso a um vício era pior do que o ódio que sentia de si mesmo. “Percebi quanto era impotente e covarde. Foi então que me entreguei na mão de Deus”, lembra. H. R., por sua vez, conta que quando pediu ajuda, ainda estava casado e seu filho tinha apenas um ano de idade. “Já tinha aberto para minha família que consumia drogas e estava com dificuldade de deixar. Era minha última tentativa de parar.” Ambos encontraram ajuda no projeto Tudo Anônimo (TA), grupo de apoio e tratamento para dependentes químicos que se reúne todas as sextasfeiras, às 20h, na Igreja Adventista do Jardim Anália Franco, na zona leste de São Paulo. Idealizado pela psicóloga Rosemeire Ferreira, já participaram das reuniões desse ministério, que funciona desde 2012, mil pessoas; e 150 delas deixaram o vício.


Foto: © lorabarra | Fotolia

Foto: Elvis Natali / APL

CODEPENDÊNCIA MUDANÇA ESPIRITUAL Os encontros começam com um jantar caprichado. A reA equipe do TA sabe também que é preciso oferecer ajuda para as famílias dos dependentes. Por isso, existe feição é preparada com dedicação por T. M. Foi por buscar um grupo paralelo que auxilia os pais e familiares. A. B., ajuda para o filho mais velho que estava envolvido com drogas, que o diretor de TI acabou sendo reintegrado à tradição relide 53 anos, por exemplo, se viu numa condição de codependência (ligação emocional com o dependente químico) giosa em que foi criado. Afastado do convívio da igreja desde quando estava em um estágio avançado de depressão. a adolescência, com o tempo, T. M. e a esposa passaram a O filho mais novo era alcoólatra e o então marido dela era frequentar os cultos e decidiram ser batizados. usuário de drogas. A psicóloga Karen Baffini também encontrou no TA uma Ela conta que, naquela época, só chorava. Foi no TA que nova orientação espiritual. Convidada por Rosemeire para A. B. aprendeu que não podia jogar a culpa sobre si. “Sou atuar como voluntária no projeto, ela aceitou e ficou. Batizada em agosto de 2016, Karen faz parte do grupo de psicólogos e muito sorridente, mas naquele período evitava ir à igreja, líderes espirituais que apoiam os dependentes e suas famílias. porque as pessoas iam me perguntar sobre minha tristeza. O que eu queria era apenas um abraço. Por isso, o que mais me encantou aqui foi o apoio e a espiritualidade do grupo”, desabafa. Faz cinco anos que ela frequenta o TA. O filho mais novo tem vencido o vício, mas agora ela acompanha o mais velho, que também luta contra o álcool. “Só tenho que agradecer a Deus e aos voluntários por dedicarem tempo e paciência.” Paciência e dedicação que fizeram a diferença para R. C. e tantos outros. “Vim para o grupo e aqui abri meu coração. Chorei muito na primeira reunião e falei para as pessoas que Grupo de apoio em São Paulo oferece atendimento psicológico, acolhimento estava cansado de ser escravo. Hoje posso dizer e incentiva o desenvolvimento da espiritualidade que estou há seis meses livre das substâncias”, afirma R. C. Por sua vez, H. R. chegou ao projeto em março de 2012 e Mesmo não tendo nenhum amigo ou familiar dependente está há quase três anos sem usar drogas. “Não foi fácil, mas químico, ela se interessou pela causa, pois foi atraída pelo nível de empatia do grupo e o desafio pessoal de se colocar no lugar persisti. Tenho muito que agradecer a Deus. Eu não queria ter começado a usar droga, mas não posso voltar no passado. do outro. “Aqui percebo que posso fazer algo por alguém. Hoje tenho reconquistado minha dignidade e o prazer de É uma experiência que nenhum consultório ou grupo de viver”, confessa. Ele acrescenta que o consumo de droga traz amigos poderia dar. A cada sexta, eu recebo mais do que dou.” muito sofrimento, mas somente quando o usuário decide Apesar de ser especialista em psicologia aplicada à dependência química, Rosemeire ressalta que não é necessariamente parar é que a libertação ocorre. “Cheguei ao fundo do poço e hoje estou aqui como preparo acadêmico que traz resultados no trabalho, mas o partilhando minha história. Se você é usuário de droga, amor. Ela acrescenta que o trabalho tem por objetivo o acoprocure ajuda porque tem resultado. O que dificulta tudo lhimento e o desenvolvimento da espiritualidade. “A gente é o isolamento e achar que consegue sozinho. Por isso, foi trabalha para que a pessoa chegue aqui e diga: ‘Me encontrei. importante compartilhar essas lutas. Toda sexta-feira estou Neste lugar sou amado.’ Esse é o diferencial. Por isso vejo aqui aqui e sou o primeiro a falar. O pessoal até brinca comigo vidas sendo transformadas. Gente com vários anos de uso de cocaína, crack e álcool tendo contato com Deus, abandonando por causa disso. Mas estou feliz. Essa é minha família de o vício, trazendo a família e crescendo como ser humano.” verdade”, conclui H. R. Rosemeire Ferreira explica que o dependente químico *Nesta reportagem foram utilizadas as iniciais de pseuapresenta duas características: compulsão e repetição. dônimos para preservar o anonimato dos entrevistados. O ponto é que muitos deles chegam ao grupo sem admitir que são viciados. Eles pensam que conseguem parar Para saber + com o hábito a qualquer hora. “Nosso trabalho é ajudáTudo Anônimo (TA) Rua Luís dos Santos Cabral, 414, los a se conhecerem, a se enxergarem e a desenvolver a Jardim Anália Franco, São Paulo (SP) habilidade de estar próximos de Deus. É essa visão que Sextas-feiras, às 20h vai impulsioná-los a ser pessoas melhores”, especifica fb.com/encontro.analiafranco Rosemeire. jul-set

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Lição de vida

Texto Márcio Gomes Basso Ilustração Thiago Lobo

A história de conquistas, lesões e descobertas espirituais de um bicampeão europeu

VAMOS DERLEI, BATE, bate, bate! Goooooooool! O narrador português quase foi à loucura. Não era para menos. Final da Copa da UEFA de 2003. O jogo entre Porto e Celtic estava empatado em 2 a 2. Derlei tinha aberto o placar, Larsson empatado; o russo Alenichev havia colocado o Porto na frente, mas novamente Larsson, de cabeça, tinha igualado o marcador. Faltando apenas cinco minutos para acabar o segundo tempo da prorrogação, Derlei deu um drible seco no zagueiro Jackie McNamara e chutou forte de direita. O goleiro ainda tentou salvar, mas a bola entrou e decretou a vitória do time português. Porto, campeão da UEFA! A euforia dos jogadores e torcedores tomou conta do estádio Olímpico de Sevilha. O então desconhecido técnico José Mourinho ganhava seu primeiro título internacional. O Porto era o primeiro time português a conquistar o campeonato europeu de clubes, tendo Derlei como o artilheiro da competição, com 12 gols. DO ABC PAULISTA PARA A EUROPA Derlei nasceu em julho de 1975, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Seu nome de nascimento é Vanderlei Fernandes Silva. Aos 11 anos já disputava campeonatos amadores em sua cidade, passando pelas categorias de base dos clubes da região. Em meados de 1990, ele começou sua carreira de muitos gols, passando pelo América de Natal. Fez 21 gols em 56 partidas pela equipe potiguar. Em seguida, jogou no Guarani de Campinas, onde marcou sete gols. Em 1999, ele trocou o Bugre pelo Madureira do Rio de Janeiro. Ali, jogou apenas 14 partidas, anotou quatro gols e embarcou para Portugal, a fim de vestir a camisa do União Desportiva de Leiria. Começava assim a fase mais importante da carreira desse camisa 11. Em 92 jogos pelo Leiria, de 1999 a 2002, Derlei balançou a rede 42 vezes. O faro de gol do Ninja, como também ficou conhecido, fez ele assinar contrato em 2002 com o Porto, clube no qual conquistou seus títulos mais importantes. Ter trabalhado seis meses com Mourinho no Leiria fez com que 26 |

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o técnico o chamasse para atuar pelo Porto. Anos depois, em janeiro de 2014, em entrevista ao jornal esportivo O Jogo, Mourinho falou que Derlei foi um dos jogadores mais importantes que já havia treinado. No clube português, eles viveram uma grande fase. Acompanhados de nomes como Vítor Baía, Costinha, Deco, Dmitri Alenichev e Nuno Valente, a equipe ganhou quatro títulos em 2003: campeonato português, Taça de Portugal, Supertaça Cândido de Oliveira (Portugal) e a Copa da UEFA. No ano seguinte, mais títulos. Além do campeonato português e da Supertaça, o Porto faturou pela segunda vez a Champions League (Liga dos Campeões da Europa). Vitória tranquila por 3 x 0 sobre o Mônaco, com gols dos brasileiros Carlos Alberto e Deco e do russo Alenichev. Na semifinal, contra o La Coruña, Derlei marcou o único gol da partida, que classificou a equipe para a final. Ainda em 2004, o time português bateu o Once Caldas, da Colômbia, por 8 x 7 nos pênaltis, e faturou a Copa Intercontinental (atual Mundial de Clubes da FIFA), no Japão. ENTRE IDAS E VINDAS Depois de seis anos em Portugal e de atuar 92 vezes pelo Porto, Derlei deixou o país como um dos grandes nomes da época de ouro do clube. Ele e o zagueiro Tiago Silva, da seleção brasileira, foram transferidos para o Dínamo de Moscou. Por três anos, o atacante manteve a boa média de um gol a cada duas partidas. Em 2007, Derlei voltou para Portugal a fim de vestir a camisa do Benfica e, depois, a do Sporting, tornando-se o único estrangeiro a atuar nos três grandes clubes do país. Contudo, devido a lesões, ele não repetiu as boas atuações de antes. Mesmo assim, fez 14 gols. Já para terminar a carreira, Derlei retornou para o Brasil, com passagens rápidas pelo Vitória, da Bahia, e o Madureira. Conversar com Derlei é, até certo ponto, um pouco surpreendente. Ele parece não ter jogado o que jogou nem ganhado o que ganhou. Ele não se vangloria de suas conquistas. Com lucidez, fala que poderia ter jogado a Copa das Confederações pela seleção brasileira, num dos

melhores momentos da carreira, mas que uma “proposta” não muito correta, feita por empresários, o levou a repensar a possibilidade de vestir a camisa canarinho. O ocorrido causou mal-estar para Derlei, pois a imprensa portuguesa divulgou que ele havia rejeitado o convite da seleção brasileira, o que, segundo ele, nunca aconteceu. Pressionado pela Federação Portuguesa de Futebol para que se naturalizasse, assim como o brasileiro Deco, em setembro de 2003 o processo foi iniciado em caráter extraordinário, pois Derlei ainda não tinha completado cinco anos de residência no país. Porém, três meses depois ele sofreu uma grave lesão, e o processo foi suspenso. Derlei conseguiu se recuperar antes do previsto e ainda marcou o gol que levou o Porto para a final da Champions League de 2004. Os cartolas portugueses se movimentaram novamente, mas não havia mais tempo. Luís Felipe Scolari, técnico da seleção de Portugal na Eurocopa de 2004, disse que, se a documentação do Derlei tivesse ficado pronta, o teria convocado ainda que fosse para ficar no banco de reservas. Hoje, olhando para trás, Derlei acredita que sua contusão e não naturalização naquele momento (hoje ele é cidadão português) foi um tipo de providência divina. Para ele, sua vida teria tomado outro rumo e talvez não tivesse trilhado a jornada espiritual que acabou abraçando. NOVA FASE Apesar dos títulos, do dinheiro e da fama, Derlei não se sentia feliz. Foi aos 31 anos de idade, com a possibilidade de jogar mais um tempo, que ele abriu mão da carreira. Em 2009, quando ele já havia decidido abandonar os gramados, foi surpreendido por um abaixo-assinado dos torcedores na internet, que pediam que ele ficasse. Os dirigentes do Sporting também queriam prorrogar o contrato por mais dois ou três anos. Nascido num lar evangélico, Derlei entendeu que aquele era o momento de escolher entre o futebol e seguir a Deus. Além do exemplo dos seus pais cristãos, Derlei convivia há anos com o testemunho silencioso, mas genuíno, de

sua esposa, Rebeca, uma adventista desde a infância, com quem ele teve três filhos. No período em que jogou em Moscou, ele entrava em campo praticamente só aos domingos. Assim, tinha mais tempo para a família e para acompanhar pela internet, aos sábados, os cultos da Igreja Adventista de Moema, de São Paulo. No entanto, uma experiência em Portugal foi determinante para o ex-atleta. Num sábado em que estava de licença médica por causa de uma lesão, ele foi com sua esposa à Igreja Adventista Central de Lisboa. “Quando entrei na igreja, percebi que as coisas eram totalmente diferentes do mundo com o qual eu estava acostumado”, atesta. Ali, as pessoas o reconheceram, mas não o bajularam. Ele não era o centro das atenções. Isso o fez refletir que talvez devesse deixar de ser “adorado” para tornar-se um “adorador”. Credibilidade, vigor f ísico, abaixoassinado dos torcedores, pressão dos dirigentes, três anos de contrato garantido, mercado emergente no Oriente Médio e nos Estados Unidos. Nenhum desses fatores fizeram Derlei desistir do novo caminho que precisava trilhar. De volta ao Brasil e aposentado, ele foi batizado em 2010 na Igreja do Riacho Grande, bairro da sua cidade natal, São Bernardo do Campo. No ano seguinte, ele ajudou a organizar uma partida beneficente para coletar doações para a campanha Mutirão de Natal. A ideia foi tão boa que virou um ministério. Há pouco mais de dois anos, o pastor Cirilo Gonçalves, ex-jogador de futebol, ligou para Derlei, a fim de juntos reunirem boleiros e exboleiros para partidas com fins sociais. O projeto ganhou nome: Advento Futebol Clube – Gol e Missão. Depois dos jogos, os colegas de esporte participam de um momento de confraternização com as famílias, com direito a almoço, música religiosa e uma reflexão bíblica que fala a linguagem de quem já esteve dentro das quatro linhas. O trabalho já começou a mostrar resultados. Alguns ex-jogadores estão estudando a Bíblia. Eles estão entendendo que, no time em que Derlei joga agora, todo mundo pode ser mais que vencedor (Rm 8:37). jul-set

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Aprenda

Texto Loriza Kettle Design Renan Martin

Como aproveitar uma visita ao museu Programe-se com alguns dias de antecedência. Com uma pesquisa prévia, é possível saber em quais dias e horários o museu tem menos movimento, se oferece gratuidade ou descontos, se fica aberto por mais tempo e se disponibiliza guias para visitação.

3. PEÇA AJUDA

Se a exposição for grande, você pode agendar uma visita guiada para seu grupo ou juntar-se a um. Os guias oferecerem mais informações para apreciar o acervo, e você pode interagir com outros visitantes. Não se preocupe em ver tudo, nem ler todas placas informativas ou ouvir os áudios descritivos. Gaste tempo com o que lhe interessa.

2. VISITE COM CALMA

Esse não é um programa para fazer na correria, entre uma atividade e outra. Dedique uma manhã ou tarde para a visita. Analise o acervo, especialmente o que mais lhe interessa. Vá com roupas e calçados confortáveis. Faça pausas para descansar e se hidratar, e enquanto toma um lanche, consulte os encartes da exposição.

4. NÃO FOTOGRAFE

Não tire fotos. Provavelmente depois você nem vai mais olhar essas imagens. Além disso, fotos de qualidade do acervo estão disponíveis na internet e podem ser compradas na loja de souvenirs do museu. A visita presencial será uma experiência mais significativa se você simplesmente observar e admirar as obras e interagir com elas.

5. SOLTE A EMOÇÃO

Observe a obra como um todo e depois seus detalhes. Se for uma exposição de arte, atente para as pinceladas do artista, o jogo de cores e o contraste de iluminação. Se for escultura, observe as formas e os contornos. Preste atenção às emoções que a contemplação da obra geram em você e busque decifrá-la. Caso queira sorrir ou chorar, libere suas emoções.

Fontes: “Como visitar um museu”, de Marcelo Testoni e Felipe Germano, Superinteressante (https://abr.ai/2rfXomj); videoaula “Museu: Para que serve?”, TV Univesp (https://bit.ly/2AR3f4w); “O museu tem futuro?”, de José Neves Bittencourt, na revista Musear de junho de 2012 (https://bit.ly/2FsCF2V).

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Ilustração: © Adrian Hillman | Fotolia

1. PLANEJE

O MUSEU, EM sua versão mais tradicional, como o Louvre de Paris, é uma invenção europeia com cerca de 300 anos. Até o século 17, somente nobres e seus convidados podiam visitar coleções particulares. Seja uma mostra de arte, história, ciência ou religião, os museus são espaços pensados para resgatar e preservar nossa memória coletiva. É neles que encontramos nossas referências culturais, expressões artísticas e, a partir deles, podemos levantar questionamentos sobre nossa condição e futuro. Para você aproveitar ao máximo a riqueza que essa experiência pode lhe oferecer, leve em conta algumas dicas.


Na cabeceira

Texto André Vasconcelos

Códigos decifrados PARA QUEM GOSTA de decifrar símbolos, o livro bíblico de Daniel é um convite para entender o significado histórico e espiritual de animais exóticos, sonhos, visões, cálculos proféticos e a ascensão e queda de reis e impérios. O livro Segredos de Daniel (CPB, 2018, 199 p.) é uma boa opção para embarcar nessa aventura interpretativa, e torná-la mais fácil e interessante. A mensagem do profeta bíblico é surpreendente, não apenas por seu conteúdo preditivo, mas por suas narrativas. Elas destacam a fidelidade de quatro jovens nobres do povo judeu que foram levados como cativos para viver na corte do maior império de sua época (Dn 1:8). Mesclando história e profecia, o livro mostra que Deus está no controle da trajetória humana (Dn 2:20-22; 44) e, que, por isso, compensa ficar ao lado Dele. Mesmo cativos e vivendo longe de sua família e terra natal, eles se mantiveram conectados com Deus e protagonizaram milagres incríveis. Mostraram que o Deus de Israel era capaz, por exemplo, de fechar a boca de leões famintos (Dn 6) e fazer homens caminharem através do fogo sem sofrer dano nenhum (Dn 3). A leitura se torna ainda mais envolvente quando percebemos que os fatos narrados pelo profeta,

mesmo os que ocorreram séculos depois de sua morte, aconteceram exatamente conforme foram revelados (Mt 24:15). Isso nos leva a acreditar que as predições não cumpridas vão ocorrer no seu devido tempo, sob a direção sobrenatural de Deus. Escrito por Jacques B. Doukhan, um erudito adventista de origem judaica, Segredos de Daniel examina o texto em suas línguas originais, a partir de uma minuciosa análise literária, conectando um verso a outro por meio de uma abordagem intertextual. Em outras palavras, Doukhan ajuda o leitor a entender o fluxo do texto e a ver suas conexões com passagens e relatos anteriores. Além disso, ele usa seu background cultural e religioso para mostrar como se encontram e dialogam o pensamento judaico e o pensamento cristão.

Recomendo Pelo Sangue do Cordeiro, de Vanderlei Dorneles (CPB, 2015, 221 p.). Nessa obra, o foco do autor é a centralidade de Cristo na profecia apocalíptica. Jesus é o personagem principal da profecia, e Seu precioso sangue é a certeza da restauração final de todas as coisas. Esse livro traz uma perspectiva renovada sobre o Apocalipse e a relevância de seu estudo.

Consultório Psicológico, de César Vasconcelos (CPB, 2001, 248 p.). Esse livro apresenta uma linguagem simples e conselhos muito úteis para lidar com a saúde emocional. Uma obra fantástica. Super recomendo!

Fabrício Fraga Londrina (PR)

Janaína Xavier Engenheiro Coelho (SP)

A Revolução do Espírito, de Ron E. M. Clouzet (CPB, 2016, 240 p.) Ron Clouzet mostra os grandes feitos do Espírito Santo, tanto no passado quanto nos dias atuais, numa leitura clara e indispensável para todo cristão. Ao mesclar a compreensão teológica sobre o Espírito com testemunhos surpreendentes, ele nos convida a mergulhar nessa leitura incrível. Rodrigo Neto Duque de Caxias (RJ)

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Guia de profissões

Texto Murilo Pereira Designer Renan Martin

Enfermagem Uma carreira responsável pela saúde e bem-estar do ser humano

GRADE CURRICULAR

Uma formação integral e abrangente deve contemplar desde disciplinas como farmacologia, biologia molecular e epidemiologia, até gestão de pessoas, desafios da saúde pública e assistência espiritual do cliente. Em outras palavras, é preciso aliar o ensino de técnicas e procedimentos com embasamento teórico e científico. Na rede adventista, existe oportunidade também de assistir aulas sobre os fundamentos do cristianismo e participar de projetos de voluntariado e transformação social.

PERFIL DO ALUNO

O enfermeiro é o profissional que lidera equipes multidisciplinares, seja em unidades móveis de resgate, de pronto atendimento, em ambulatórios, clínicas ou hospitais. Por isso, as competências para gestão de pessoas e processos, bem como liderança, são bem-vindas nas instituições públicas ou privadas de saúde.

ÁREAS DE ATUAÇÃO

ONDE ESTUDAR

Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp) São Paulo Nota 4 no MEC (reconhecido) 998 reais mensais Bacharelado, matutino, dez semestres unasp.edu.br/sp

SALÁRIOS

Os salários variam conforme a função, especialização, tempo de serviço, carga horária e região do país. A média salarial é de 3 mil reais para quem está começando. Porém, um coordenador de enfermagem pode ganhar de 7 a 10 mil reais.

Faculdade Adventista da Bahia Cachoeira (BA) Nota 4 no MEC (reconhecido) 1.230 reais mensais Bacharelado, matutino e vespertino, dez semestres adventista.edu.br/enfermagem

Instituto Adventista Paranaense (IAP) Campo Mourão (PR) Nota 4 no MEC (reconhecido) 1.240 reais mensais Bacharelado, matutino, dez semestres iap.org.br

Fontes: catho.com.br e cofen.gov.br

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Ilustração: ©VIGE.co; ©Vectorvstocker | Fotolia

SER ENFERMEIROA É uma nobre missão. É uma carreira de grande responsabilidade, que exige preparo técnico-científico e uma abordagem humanizada. O curso de Enfermagem foi a primeira graduação oferecida pela rede educacional adventista a ser reconhecida pelo MEC, há exatos 50 anos. Hoje, a rede disponibiliza esse curso em três instituições. Conheça mais sobre a profissão e saiba onde estudar.

É possível atuar em UTI e emergência, obstetrícia, na administração de instituições de saúde ou de áreas do Programa de Saúde da Família (PSF), ligado ao SUS. Há quem opte pelo segmento de home care (atendimento domiciliar), consultoria, auditoria, pesquisa clínica, resgate ou saúde do trabalho.


MKT CPB | Fotolia

“O conhecimento é um tesouro, mas a prática é a chave para ele.” Thomas Fuller

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DESCUBRA O NOVO

Generosidade

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Conexão 2.0 - ALÉM DO DIPLOMA  

Estudantes que encaram o voluntariado como parte da sua formação universitária aprendem o que a sala de aula não pode ensinar.

Conexão 2.0 - ALÉM DO DIPLOMA  

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