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case de sucesso O lixo como oportunidade de sucesso Empreendedores encontram no lixo chance de negócio que não viam em matéria prima virgem. A partir de ideias inovadoras e simples, eles mudam suas vidas apostando na transformação de resíduos em lucro certo A cada ano, cerca de 60 milhões de toneladas de lixo são produzidas em solo brasileiro. Parte desses resíduos é coletada e reaproveitada por cooperativas e grandes companhias de reciclagem e infraestrutura. Outra parte, jogada no meio ambiente, transforma-se em suplício para comunidades carentes que vivem próximas de lixões e aterros. Mas há ainda uma terceira parte que se transforma em oportunidade para pequenos e médios empresários que enxergam no lixo o início de um grande negócio. O site de VEJA conversou com empreendedores que, a partir de ideias inovadoras e simples, mudaram suas vidas apostando na transformação de resíduos em lucro certo e sustentável. Não se trata apenas de benevolência ou vontade de salvar o planeta. O que os empreendedores brasileiros começam a enxergar é que a possibilidade de se iniciar um negócio a partir de resíduos é, em muitos casos, mais lucrativa do que utilizar matéria prima virgem. Eles também preveem que o lixo se tornará um ativo cada vez mais valioso. De acordo com um estudo do Sebrae, 46% dos pequenos empresários pesquisados identificam oportunidades de ganhos com resíduos – e 48,3% utilizam materiais reciclados em seu processo produtivo. “É muito mais comum eles entrarem em negócios com resíduos por razões econômicas do que pelo puro ato da sustentabilidade. O objetivo é o lucro”, diz Carlos Silva Filho, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

A prosperidade que vem do lixo

Empresários lucram com soluções criativas para reaproveitar materiais que seriam descartados Após três anos de planejamento, conversas e tentativas, a Ciclo Indústria e Comércio produziu sua primeira telha em junho de 2011. Um ano depois, a produção alcança o patamar de 30 mil telhas por mês e a previsão dos sócios é que chegue a 60 mil no início de 2013. “Nem imaginávamos que fôssemos algum dia ultrapassar as 30 mil telhas. Não esperávamos esse crescimento. Isso mostra que há muita demanda”, afirma Goldemberg. Na opinião do empresário, o principal desafio é vencer o preconceito do consumidor. “Muitos acham que, porque é feito de resíduo, não é bom. Mas é justamente o contrário. São telhas mais resistentes e fazem parte de um ciclo sustentável. Cuidamos para que não haja nenhum resíduo em todo o processo de fabricação”, diz Goldemberg. Preconceitos à parte, as barreiras parecem estar sendo vencidas. Em apenas um ano de operação, a Ciclo, segundo os sócios, já se paga – e dá lucro. (Eles, no entanto, não quiseram informar o valor dos ganhos.)

João Trench Agnelli: suas telhas retiram milhares de embalagens longa vida do meio ambiente Em meados de 2007, os amigos Arthur Goldemberg e João Trench Agnelli decidiram investir em um negócio próprio que fosse ligado à reciclagem. Depois de muito pesquisar, ficaram fascinados pelo processo de fabricação de telhas a partir de embalagens longa vida – mais conhecidas como Tetra Pak, o nome de sua principal fabricante no país. Para colocar a operação de pé, avaliaram o mercado e perceberam que só teriam chances de montar uma empresa sólida se tivessem um parceiro de peso que pudesse fornecer caixinhas usadas. Passaram dois anos tentando emplacar um projeto com a Suzano Papel e Celulose para que ela fornecesse a matéria prima – e conseguiram. Fecharam um contrato de exclusividade com a companhia, que prevê a utilização de sua rede de coleta de papel para receber também as embalagens descartadas no lixo. “Com isso, conseguimos estruturar nosso negócio de forma mais equilibrada, já que o principal gargalo desse tipo de empreitada é a falta de caixinhas”, diz Agnelli (que é filho do ex-presidente da Vale, Roger Agnelli). Segundo ele, são necessárias 1.500 unidades de Tetra Pak para se produzir apenas uma telha.

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