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Bom dia – Eduardo Paganella São seis da manhã e as notícias não são animadoras. Tenho só meia hora para chegar na reunião. Uma breve pausa para pensar e de repente, o relógio já me cobra o tempo com juros de desespero. O carro é movido a álcool e precisa aquecer. O locutor e os repórteres avançam no noticiário. O trânsito está caótico; congestionado exatamente no caminho onde pretendo seguir. As bolsas caíram. O dólar caiu. O motociclista caiu e o ministro também. A violência subiu, o etanol subiu, o desemprego subiu, o avião subiu; mas este último caiu de novo. Vinte e nove pessoas morreram num fim de mundo bem longe daqui. Este rádio só mente! Se eu fosse o locutor, daria uma boa notícia: o carro ligou e finalmente partiu. O trânsito realmente estava congestionado. O motociclista agonizava sem atendimento na rodovia. O carro ficou parado e superaqueceu. Meu motor explodiu. O meu horário explodiu. O meu chefe explodiu. O acordo com o grupo chinês que investiria bilhões foi para os ares, assim como meu emprego. Enfim, vou ficar sem emprego, sem carro, sem relógio e sem a carteira, que foi roubada anteontem por um trombadinha de plantão. Bm, mas assim como o noticiário, o dia tem que seguir em frente. Para o meu alívio, agora o bloco é de esportes. Meu time perdeu, o deles ganhou. Meu atacante se machucou e o craque do outro time fez três gols. Enquanto os jornalistas confabulam sobre projeções astrológicas, aguardo um guincho parado no acostamento. Antes do socorro, vem o grito. É o craque que chega até mim. Ou melhor, o crack chega até mim. Quer uma pedra, moço? A cabeça pende para os lados nervosamente. Afim de encontrar solução, opto por pegar meu celular e a minha pasta com todos os documentos e contatos. Faria isso, caso o telefone e os papéis já não estivessem do outro lado da rua, de posse do menino do crack. Deus,dai-me esperança! Então, como se o céu se abrisse milagrosamente, eu vejo um homem com vestes azuis caminhando rapidamente em minha direção. É a redenção. “Doutor fiscal, meu carro estragou e fui assaltado. Eu preciso de aju... que papel é este? Ah, não! Isto é uma multa” – esbravejo e conto até dez. Recosto a cabeça no banco da jaula. Mesmo achando que os animais estão fora dela. Quando a fúria está quase consumindo meu superego, o bipe toca e o cara de pau do locutor me saúda: Agora são oito horas. Tenha um bom dia!

Bom dia  

Bom dia ou bom dia?

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