Issuu on Google+

. ..

Cu lt·"-·111 ANTROPOLOCIA SOCIAL diretor: Gilbertu Vdho

.. .. •0

RISO E 0 RISIVEL

Verena Alberti • ANTROPOLOGIA CULTURAL

Franz Boas • 0 ESPIRITO MILITAR • O S MILITARES EA REPUBLICA

Celso C1Scro • OA VmA NERVOSA

Luiz Fernando Duane • GAROTAS DE P ROGRAMA

Maria Dulce G:upar • NOVA L UZ SOBRE A A NTROPOLOG IA • 0BSERVANDO 0 I SLA

Clifford Geern • 0 COTIDIANO DA POLITICA

Karina Kuschnir

• CULTURA I RALAO PRATICA • ILIIAS Dl IIISJORIA

Marshall Sahlins • Os M ANDARINS MILAGROSOS

Elizabeth Travassos • ANTROI'OI.OGIA URBANA • 0 ESVIO F DIVERG"N('IA • I NDIVIOUAIISMO E CUITURA • PROJLTO 1:. METAMORFOSE

NovaLuz sobre a Antropologia

• SUBJI:: I"IVIDADE L SOCII DADE • A UTOI' IA URBANA

Gilberro Velho • P ESQUISAS URBANA$

Gilberro Velho e Karina Kuschnir • 0 M UNDO FUNK CARIOCA • 0 MISTe.RIO DO SAMBA

Hermano Vianna

Tradut;ao: Vl· l~ RIBEIRO

Rcvisao rccnica: MARIA Cl.AUmA PFRFIRA COELIIO D~pll d~

CibtcrtiS Sortnis, UER}

• CULTURA: UM CONCEITO ANTROPOLOG ICO

Roque de Barros Laraia • AUTORIDADE & AFETO

Myriam Lins de Barros

• B EZERRA DASILVA: PRODUTO 00 M ORRO

Lerfcia Vianna • 0 M UNDO DA AsTROLOGIA

Luis Rodolfo Vilhena • GUERRA DE 0RixA

Yvonne Maggie

Jorge Zahar Ediror Rio de Janeiro


Pr1m }ott// SaJ/1, JlIIH'rl I limlmu111 e MidJttd \'(ltt/za, roLegas

Tuuluottgllt.tl:

-~

OQ)

~

~

~

~2

~

~

"()

(.)

Q)

.,

d.t pt i11ll'11-,, l·dic..·;tu not h.:-.tmclit..lll.t 2000 pou i'lltoLcWII Untvcr"tY l'tc'>', de· Nc w kt·"·v. b1.1dn., Untdm ..:111

Copl't iglu

(c)

2000,

l'rin~dun

0

> 0

~~ 'U w

7

Uni\..:r,itv l'rc:"

C.opy11ght (<) 2001 .!.tnlu,:it> lu.o>tbt.o : foogt· /,,!,,,.- hlotnr Ltd.t. rtt.t M~\IW \I ,.,Ju dof.t 200 \I· lit It Rtn d.: f,tncn o. RJ 1~!.: !21 l 22t10-0~2(• I f.tx: (2 1l 221>2-'i 12\ ~-111.111: )l..:f.1't,oh.or.Ltlllt.lu

E ;::,

.i J z-8

p11hliL.td.o

~

~ ~~ ~ R;~

l'l•tlo•op/111·11/ !f,;nn

· rr.1 du~·:io .IUI \ll i1..1d.1

~

~;::, '/] (d_£ ~

/(,.ffr, ·l/111/• 1111

1i

Q)

cv

l ll'''il.t!Jk I ~~/11 llllhrupulu,~iud

~~

~ (.)

Sumdrio

13 rai"U~l' lll c acidente: Uma vida de aprendizagem

15

Alwrtum. I\ IHIIh:t '

\IlL': W\VW./.dl.tr.LOill.lll·

de assunto J,·nlpo de cspera

0 pt•rt,•unento como ato moral: Dimensoes eticas do 1111h.all10 de campo antropol6gico nos paises novas

30

Anli .mti relativismo ..

47

(h

( '11'-1\r."tl. ( .u.dng.t<,:in·n.o-J'n ot• N.oLton,d do> h litur..:., de· l.ivnl>. RJ.

15 22 29

~tu~l.•ndo

l'udo' "' dit~·ilo' r~'..:rv.u.lo~. II ICf'llldtt~<inll:in-,lllllll 1/,od.t dl'\l,tpuhlic.tr;:tn, nu wdn ou <'I ll p.trt..,, t..ool\1 i1111 \ iol.o\•'" tJ,_ . d oo clio., .outor,ois. (Lc:i '1.(1 10/9~)

15

mu~

68

da diversidade.

Simli ~.tl o

C 2Cm

( oc:\!1'11, C'Jii'fiord Nnv.t lm mhr• .o.ommpologt.t I ( :JiHind ( ;..,..,. 11.: tt.tdu,·:io. Vct.t Ril >..:111>: tc·vt<io thnic.t, 1\ l.oo 1.1 Cl,\mli.t l'..,rcir.t C:odho. - !~in d,· J.tnc:ooo: loll)-:< Z.oh.tr bl., 2001. (lln trnpulnw.o-~<>c<.o ll

t>lt

l'r.tdii\JV tk: /11 .ul.ohk h)-:ltt: .11ttl11 upulngit.tlrdb:tioll' philtl\llj'htuJt<IJ'I<'

ISBN: H'i- 7 110-'iXH-X I. Ft~tnloj:\l.t . .!. hlo>t>fi.t. \. l'lm.tlt•IIH> (u~IILi." snu.m). I. J'itll lo. II. St'ro~

() 1-00

~:i

CI>D \I}Ci CIJU \')

I nlr .rndo com passo desajeitado. cultural l•rt·q• rcntac:rao intensa ll' ' ''~ri:t c antropologia I) '\,,her local" e seus limites: alguns obiter dicta

I ;lll'll,l

ft ( ) '~tr.mho estranhamento: C harles Taylor ' IIH 1 it·m:ias naturais . . . .

() l·· •~·•dn de T homas Kuhn: 0

texto cerro na hora certa

86 86

93 101 111 124

131

143


8. 0 bcliscao do d estino: A rc ligiao como ex:periencia, sentido, identidade e poder . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149

9.

Prefdcio

Urn ato desequilibrador: A p sicologia cultural de Jerome Brune r .

166

10. Cultura, m ente, cerebro/cerebro, mente, c ultura

179

11. 0 mundo em p edayos: Cultura e poHtica no fim do seculo .

191 191

0 mundo em pcdac;:os . . . . . . . . . . 0 que e urn pals, se nao e uma nac;ao? . . 0 que c a cultura, se nao e urn consenso? Notas. . . . . . fndice remissivo

202 215 229 241

( 1111)0 co nvem a duas disciplinas nao claramente definidas e voltadas ambas p.ll.l ludo 0 que diz respeico avida e ao p ensamento hu manos, a antropologia e .1 filosofla sao mais do que suspeiras uma para a ourra. A ansiedade decorrente d.at ombinac;:ao d e uma di fusa e confusa identidade academica com a ambic;:3o cl,· lt·l.~t ionar tudo a praticamenre tudo, para assim chegar ao fundo das coisas, ,lt•ix.l as inseguras quan ro ao que cada uma deve faze r. Nao que suas fronreiras c 1 onfundam; antes, nao rem Fromeiras claramente demarcaveis. Nao que \C II~ 1ntcresses divirjam; ao conm1rio, parece que a elas nada cscapa. Alcm da co mperic;ao geral mcnre indi rera e impllcira para dar a t'drima e a p11111cira palav ras, os do is cam pos pani lham uma serie de outras caracterfsricas tpu· pcrturbam suas relac;oes mutuas e torna m d esnecessari amente diffcil sua , onpcr.u;ao. Mais especificamenre, ambos sao permeaveis e vu lneraveis, sol11·1n fWrigos e assedio. Freqi.ienremenre sao invadi dos, ho je em dia, por inrru11 ' fli t" alegam fazer seu rrabalho de manei ra mais eficaz, presos que esrao os duiNl.tnlpos numa rfgida imobilidade. l'.ua a filosofia, rrata-se de uma velha hist6ria. A hist6ria da fllosofia e uma "' '"''·m de rupturas, com seus protetorados e principados declarando indel'' nd i· nc.ia como ciencias espedflcas e auro no mas- como foi o caso da mate111.1111.1 , d.t nsica, da bi ologia, da psicologia e, nos ulrimos tempos, ate da 16gica ,1.1 qmtcmologia. Para a anrropologia, essa retrac;ao do imperio ante as pres'"'' w paratistas e mais rccente e menos pad fica, mas nao menos severa. Tendo l1\'1.1dn p.1ra si, a partir do seculo XIX, um Iugar especial como esrudo da cultu1 '• · n\t· 1odo co mplexo que inclui ... crenyas, moralidades, leis, costumes ... ul•111 111dos pclo homem como membro da sociedade", a anrropologia desco"" hn)C que varias discipli nas recentemenre improvisadas, semidisciplinas e uucd.uks militanres (de escudos de genero, da ciencia, dos homossexuais, da 1111tli.1, t· tnl tos, p6s-coloniais etc., livremenre agrupados, como insulro final, 7


H

Ant't l

I'IIJ.I• Ill

/11' sllln<' tltllll111fml".~m

sob o r6 rulo "escudos culrurais") se amonroam no rerreno que ela tao ardua c corajosamente desbravou, limpou e passo u a culrivar. Qucr como velha e honor:ivcl empresa holdingcuja honra e subsidiarias Ihe escapam lentamenre das maos, quer como ousada aventura inrelectual espoliada por saqueadores, in trusos e parasi tas, a sensayao do "fim ", d e dispersao e dissoluc;:ao, cresce dia a dia. Uma situac;:ao nao particularmente propicia a inrerac;:ao 0aenerosa e a combinac;:ao de forc;:as. No en tanto, ainda vale a pen a centar a interac;:ao e a combinac;:ao. Nao apenas os medos sao exager:tdos e as suspeiras infundadas (nenhum dos campos esta a ponro de d esistir e a oposic;:ao entre eles, em esri lo ou Indole, e men or do que gostariam d e acredirar seus mais ardorosos defen sores), como rambem as agirados mares p6s-modernos nunca d antes navegados, e que agora ambos na verdade singram igualmenre, os tornam cada vez mais necessitados um do outro. 0 fim nao esta proximo ne m sequer avista, tanto para uma como para outra empresa. Proxima esra, porem, a falra de objetivo, essa frustrante deriva em busca de rumo e fundamenro. · Meu interesse em estabelecer uma ligac;:ao, au forralece-la - ou ralvez, pensando em Montaigne e Montesguie u, revive-la - nao d ecorre do desejo de mudar minha identidade profissional , com a qual me sinto tao a vonrade • q uanta seria de esperar depois d e cinqi.ienta anos de lura para firma-la , nem de amplia-la para algum tipo de pe nsador de nfvel superior e sem hist6ria. Sou, da cabec;:a aos pes, urn ern6grafo que escreve sabre ernografia- e nao construo ~ · sistemas. Mas, provavelmente, isso esta ligado d e alguma forma ao faro d e que, como explico no primeiro capitu lo, comecei " na filosofia" mas a abandonei, ap6s um perfodo vergonhosamenre curta, para alicerc;:ar o meu pensamenro mais objerivamente, assim eu supunha, na variedade do mundo. As quest6es que me preocupavam enrao, gue eu queria invesrigar empiricamente e nao apenas em termos conceituais - o papel das ideias no comporramenro, o senLido do significado, o julgame nto do ju lgamento - persistem, ampliadas, reformuladas e, creio, mais subsranciadas, nos meus trabalhos sabre a religiao javanesa, os Estados balineses e os baza res marroquinos, sabre a m od ernizac;:ao, o isla mismo, o pare nresco, a le i, a arte e ern icidade. E sao essas quesr6es e preocupac;:6es que se refl erem, de modo urn po uco mais explfcito, nas " refl ex6es" aqui reunidas. Paradoxa!men re, relacionar o trabalho que fac;:o - revelar as singularidad es dos m odos de vida de outros povos- ao dos fil6sofos ou, pelo m e nos, dos fil6sofos que me inreressam - examinar o alcance e estrutura da experiencia huma na e sua llnalidade- e, sob mui ros aspectos, mais facil hoje em dia do que no final dos anos 40, quando m e im agi nava destinado a uma carreira de fil6sofo . Isso se deve, a meu ver, basicamente ao lato de que desde entao houve

')

grande mudanc;:a na mancira como os fll6solos, ou pclo menos a maior p.utc dclcs, concebem a pr6pria vocac;:ao. E essa mudanc;:a ocorreu numa dire~.1o parti cularm ente compalfvel co m aqueles que, como eu, acrediram que as tl'\postas a nossas indagac;:6es mais gerais-par que, como, o que, onde - de\'l'tn scr buscadas, see que existem, nos pequenos deralhes da vida vivida. A principal figura a possibilitar essa mudanc;:a, se nao sua causadora, foi , de no vo na minha o piniao, esse rebelde p6stumo e esclarecedor que foi "o ultimo Wittgenstein". 0 aparecimento em 1953, dois anos ap6s a sua morre, das l111wstiglltifes filos6ficas, com a rransformac;:ao do gue nao passava de conversas tit· Oxbridge num texto com poder gerado r aparenremente in finito, teve urn t'IHHme impacto no que eu pretendia e sen ria esperan c;:a de realizar, da mesma lonna que o fluxo de "Observac;:6es", "Mementos", "Apo ntamentos" e "LemlucLcs" que se seguiram ao Nachlass [AJfvio]nas decadas subsequences. N issa t'll nfio estava sozinho entre os que trabalhavam em ciencias humanas e tenrav.un encontrar a safda d e suas garrafas fechadas. Mas, certamente, era um dos mais predispostos a receber a mensagem. See verdade, como ja se disse, que os t'\uimres que gostamos d e chamar de mestres sao aqueles que nos parecem est.u dizendo afinal o que ha muito tempo tfnhamos na ponta da lfngua mas nao .onsegufamos expressar, aqueles que conseguem verbalizar o que para n6s nao p.t,sa de movimentos, tendencias e impulsos menrais incipiences, fico entao m.lis do que feliz em reco nhecer W irrgenstein com o mcu mcsrrc. Ou um dclcs, pdo menos. Que ele retribuisse o favor e me reconhecesse como disdpulo seti.t, naturalmente, mais do que imp rovavel, dado que nao gostava muito de •Jilt' concordassem com ele ou o co mpreendessem. Seja como for, a oposic;:ao de Wirrgensrein a ideia de uma lfngua privada, '1 ilica que rirou o pensamento de sua gruta mental e levou-o para a prac;:a pul,li c.l onde podia ser examinado; sua noc;:ao de jogo de linguagem, que forneceu 11111a nova maneira de encara-la como um con junto de praricas; e a sua prol'"'ta das " formas de vida" como (para citar um comenrador) o "conjunro de •nndic;:6es naturais e cu lturais pressupostas em ... qualquer compreensao espe' ifica do mundo", tudo isso parece quase feito sob m edida para possibilirar o 11po c.lc estudo antropol6gico que eu e outros da mesm a cepa fazemos. Essas ult:I.IS, e clara, juntamente com seus acompanhamenros e corolarios- "seguir 11111a regra , , (( n ao b uscar o senti'd o, mas o uso , , (( w d a uma nuve m d e fitr oso fita ,,,ndcnsada numa go ra de gramarica", "dizer e mostrar", "semelhanc;:a famili· , , "vtsto · co mo , , " nao - e' bem at,, , ude vo I ra a' terra fitr11 ;• , uum quad ro carrvante 1111'11, "cegueira momentanea", " ab rir o jogo" - nao tinham este objerivo, mas • 1.1111 parte de uma crftica impiedosa e revolucionaria d a filosofia. Mas trata\'.1 \l' de uma critica d a filosofia gue reduzia a defasagem entre ela eo ato de sair p..Io mundo tentando descobrir como, em meio a fala, as pessoas- grupos de liiiLt


Ill

pcssoas, pessoas ind ividuais, as pessoas como urn rodo - produz.em uma voz. mftica e m a tiz.ad a. A fo rma como essa d efasagem fo i reduz.ida, ou ralvez. apenas localiz.ada e descri ta, e indicada p ela cita<;:ao que urn an trop6 logo de campo acharia a mais co nvidariva entre as que acabo de listar: "De volta a terra firm e!" Wirrgenstein escreveu: "Chegamos ao gelo escorregadio e m que nao ha atrito e onde, pa rtanto , em certo senti d o, as condi<;:6es sao ideais, mas onde ram bern , jusramen te po r isso, nao conseguim os anda r. Q ue remos andar, porranro precisamos de atrito. D e volta a terra firme!" (lnvestigaroes filos6ficas, 107). A ideia d e que a an tropologia (embo ra, e clara, nao s6 a antropologia) explora a terra firme, o nde e possfvel ao pensamento - ode Wirrgensrein ou o de qualquer urn ganha r tras:ao , e para mim nao apenas insriganre por si mesma; foi essa ideia, desfocada e info rme, que an tes de mais nada m e levo u a migrar para o trabalho de campo, nos d ois sentid os de "campo". Cansado d e escorregar no gelo flutuanre carresia no, kanriano o u hegeliano, eu queria andar. Ou perambular . Ao passa r por lugares e povos, buscando incessanremenre contrastes co nsranres para qualquer pista que pudessem fo rnecer sabre qualquer enigma eventual , produz-se menos uma posi<;:ao, uma visao perm anence e cumulariva sobre uma serie fi xa de quesr6es, do que uma serie d e posicio namenros- argumenros variad os para fins variad os. lsso d eixa intocada mui ta nebulosidade e incerteza, ralvez a maior parte da nebulosidad e e incertcz.a existences. M as nisso tambem seguimos Wiirgenstein: poderfa mos indagar, d iz â&#x20AC;˘ ele, se "' um co nceito nebuloso e de faro um conceito'. Uma foro pouco nlrida e m esmo o retrato d e alguem ? Sera que e semp re va nrajoso trocar um rerrato po uco claro por o urro bem nfrido? Nao sera o rerraro pouco nfrido exata menre aquila d e que precisamos?" (!nvestigaroes filosoficas, 7 1). See o u n ao - e seja quem fo r esse "nos" - o que vira a seguir e um conjunto variad o e apenas pa rcialmenre o rganiz.ado de comenrarios, exemplos, criricas, rumina<;:6es, avalias;6es e indaga<;:6es que rem a ver com assuntos e pessoas - " relari vismo", " mente", "conhecimento", o "eu", Taylo r, Rorry, Kuhn, Jam es- pelo m enos suposramenre " fil os6ficos" . D epois de um capitulo de abertura mais ou menos introdut6rio, que reve o caminho vacil an te de minha Carreira pro fissional, texto preparad o pa ra a seri e "Uma Vida de Ap ren dizagem ", do American Council of Learned Societies, os tres capftulos seguinres abo rdam angustias marais surgidas no meu trabalho de campo , alguns argumenros d itos an ti- relarivisras, recencemen te populari zad os na anrropologia, e uma c ritica a algumas a po logias do p rovincianismo cultural na fi losofia mo ral. 0 cap itulo V, "A situa<_;:ao arual", re line cinco trabalhos extempo rineos sabre controversias ma rais e epistemo l6gicas do mom enta, dentro e fo ra da antropologia. Vem em seguida considera<;:6cs mais sisremaricas sabre a obra de

II

( ' harlcs Taylo r, 'J'ho m:ts Kuh n, Jerome Bruner e William James, preparadas para sem inaries em sua ho menagem. 0 cap itulo X, "Culrura, mente, cerebra ... ", e mais uma analise das relas:oes (possfveis) ent re 0 que (supostamente) se p;tssa nas nossas cabe<_;:as eo que (aparen ternente) aconcece no mundo. E, por lim, "0 m undo em pedas:os" trata das quest6es levanradas para a teo ria polrri~ .1 pel a recenre o nda de "conflitos etnicos". Quanta aos agradecim entos q ue geralmenre aparecem mais ou menos ncsre po nto, cenh o a esta altu ra ranras pessoas a quem agradecer que nao quero me arriscar a deixar ninguem de fo ra de urna lisra; de rod o modo, a rnaioria ja rcccbeu meu reco nheci mento anteriorm ente. Assirn, li mitei- me a dedicar o livro a meus colegas d e consp ira<;:ao na Escola de C iencias Sociais do lnsriruto de blUdos Avanyados de Princeton , o nde quase rudo foi inicialmente escrito e di,curido, depois reescrito e rediscutido, e onde criamos jun tos urn Iugar e uma a titude que m erecern ser defendidos. Para evirar interp reta<;:6es de sentidos encobercos por parte deles o u de quem quer que seja, relacionei -os por ord~¡rn de di stancia, no corred o r, ern rela<;:ao ao meu gabi nete.

Princeton, Nova jersey agosto de 1999


Agradecimentos

(~tpltulo 1: Conferencia C harles H o mer Haskin, proferida no American ( 'nuncil of Learned Societies, Filadelfia, 1999.

(itpltulo 2: Copyright 漏 1968 Antioch Review, Inc. Publicado origi nalmenre

c:rn /7;eAntioch Review, vol. 28, n 2 2. Reproduzido com permissao da edirora. (

. I

(~tpltulo 3:

Confercncia magna no encontro anual da American AnthropoloAssociation, C hicago, 1983; origin al mente publicada em The American l lmhropologist, 86(2), p. 263-78, 1984. Reproduzida com permissao da Ameril.lll Anth ropological Association.

tt'' Jl

( ~tpftulo 4: Conferencia Tanner sab re Valores Humanos, Universidade de Mit higan, An n Arbor, 1985; originalmente publicado em Tanner Lectures on 1/umrln Values, vol.7, Salt Lake C ity, University of Utah P ress, 1986, I' .!).3-75. ( ~tfl/tulo 5: Sec;oes originalmente publicadas, respectivamenre, em Times Litelll'l' Supplement, 5 de junho J e 1985; The New York Reuiew ofBooks, 30 de noVclllllro de 1995; The New York Review ofBooks, 22 de ourubro de 1998; New I ttrrttry History, 21, 1990, p.32 1-35; The Yale journaL of Criticism, 5 (I'J'H)p. l29-35. Reproduzido com permissao de The New York Review of 1\nnks. Copyright 漏 1995-8 NYREV, Inc. ( ttpitulo 6路 Publicado o riginalmente em James Tully e Daniel M. Weinstock (ntg,.), PhiLosophy in an Age ofPluralism, Cambrid ge, Cambridge University l'tt路~~. 1995, p.83-95. Reproduzido co m permissao da Cambrid ge University Pt c~s

( rtpltulo 7: Publicado originalmente em Common Knowledge, 6, 1, 1997, I' I '1 13


I if

No1111 luz Nln ,. ,, ''"'"'/''""xiu

Capitulo 8: Confercncia Wi llia m J ames, profcrida na Faculdade d e T cologia de H arvard, 1998; pu blicad a o rig inalmcntc t:m Raritan: A Quaterly Review, vol.l 8, n 2 3, inverno de 1999, p . l-1 9. Reproduzido com permissao.

Capitulo 9: A ser publicado em D. Bakhursr e S. Shanker (orgs.), Language, Culture, Self The Philosophical Psycholog;y of ]erome Bruner, Londres, Sage. Pa rte do rexro fo i originalmente publicad a e m The New York Review ofBooks, 10

1

Paisagem e acidente: Uma vida de aprendizagem

de abri l de 1997.

Capitulo 10: lnediro. Apresentado no semimirio inaugu ral da Fundas;ao Ferd inand d e Saussure, Arc hamps/Gen ebra, 1999. Capitulo 11: Conferencia Anual de Filosolla M oderna do I nstitut fur d ie Wissenschaften vo m M enschen [Instituto das C iencias do Homem], V iena, 1995; o riginalme nte publicado (em ingles) em FOCAAL, 23, 1998, p.9 1- 11 7.

Abertura ~ l n m plicado vir a publico no fin al de uma vid a im p rovisada e cha m a-la sabia. N.ao pcrcebi, ao comes:ar a ver, ap6s uma in fancia de isola menro, o que poderia t51.1t aco nrecendo no resro d o mundo, que have ria um exame fi nal. Supon ho 'lilt' o que fiz em rodos esses a nos fo i acumul ar aprendizados. Mas, naquela ~pula, pareceu-me q ue eu estava tentando descobrir o que fazer em seguid a e 11di.1r urn balans;o: analisar a siruas:ao, avaliar as possib ilidades, escapar as conlt''l licncias, repensar tudo . Nao se chega a muitas conclus6es dessa ma nei ra, 1111. pelo menos, a nenhuma durado ura, de forma que resumi r tudo perante I k us e o Mundo e de cerro mod o uma fa rsa. U rn bocado de genre nao sabe 1Hamenre para o nde vai, supo nho; m as eu nem sei com cerceza onde esrive. M.1s tudo bem. T entei virtualme nte todos os generos li tera rios numa ou em m ur.1 epoca. Posso perfeiramenre expcri menta r rambem o Bildungsrornan [ro "'·" lCe de fo rmas:ao] .

A bolba I l c qualquer fo rma, pelo menos aprendi uma coisa ao ir junrando os reralhos dt· minha carreira academ ica: tudo d epende do momen ro. Entrei para o mundn .1~.:adem ico n uma epoca que deve ter sido a m elhor para isso em todo o c u rso d., hist6 ria, se nao provavelmente em roda pa n e, pelo m enos nos Esrad os U n i""'· Quando d ei baixa da marinha americana em 1946, salvo po r pouco 1wl.• Bo mba- de ser obrigado a invadir o Japao, mal comes;ara o grande boom do t•nsi no universira rio nos EUA- e cavalguei rod a a o nda, u ma crista ap6s I HIIt .t , are hoje, quando cia parece, enfi m, como eu, esrar arrefecendo. Eu rinha 'll .tnos e q ueria sair da Calif6rnia, o nde tinh a parentes demais mas nao uma 15


fit

familia. Queria ser romancism, de prefercncia famoso. E, o que foi decisivo, Live o benefrcio da lei sobre os ex-combarenres. Ou melhor, tivemos o beneffcio d essa lei, milh6es de ex-combarenres. Como ja foi conrado a exausrao- houve are urn especial de relevisao sobre o assunro urn ou dois anos arras, e escreveram urn livro a seu respeiro, oportunamenre inrirulado Quando os sonbos se tomam realidade-, a enxurrada de vereranos de guerra, quase do is milh6es e meio de ex-combarentes decididos que in vadiram os campi universirarios na segunda metade da decada de 40, mudou por comp lero, repenrina e definiriva111enre, a face do ensino superior no pals. Esravamos 111ais velhos, rfnhamos passado por uma experiencia que a maioria dos colegas e professores desconhecia, rf nhamos press a e nao esravamos absolutal11enre inreressados nos rituais e mascaradas da vida universiraria. Muiros ja cram casados e os demais, inclusive eu, logo sc casariam . 0 mais importance, ralvez, foi que lransformam os a composic;ao de classes, ernica, religiosa, e mes1110 racial are cerro ponro, do corpo discente ameri cana. E por fim, a medida que a o nda avanc;:ava pelos cursos de p6s-graduac;:a:o, rransformamos ram bern o corpo docenre. De 1950 a 1970, o nttmero d e doutorados concedidos anualmenre quinruplicou, passando de 6 m il para aproximadamente 30 mil. (Em I 940 foram 3 mil. Nao ad mira que os anos 60 ten ham aco nrecido!) Talvez nao fosse bem isso o que pretend iam o magnata da imprensa William Randolph Hearst e a Legiao Americana ao mobilizar o apoio popular para a lei em beneficia dos ex-combarenres. Mas, ja naquela epoca, sabfam os que eramos a van- ·l guarda de algo vasto e replero de conseq i.ienc ias: a formarura d a America. Cresci no meio rural durante a Grande Oepressao e nao supunha que pudesse urn dia freqi.ientar uma faculdade, de modo que, ao surgi r de repenre essa chance, nao soube o que fazer. Oepois de perambular por Sao Francisco quase 0 verao inteiro, " readaprando-me" a vida civil, tambem a custa do governo, pergunrei o que d everia f.:lZer a um professor de ingles de segundo grau. esquerdisra a 1110da an riga e agirador porrwhio, que fora a primeira pessoa .l ~uge rir que eu me tornasse escriror - como Steinbeck, digamos, ou Jack London. E le disse {rna is ou menos) o seguinte: "Voce deve enrrar para o Antioch College. 0 sistema, Ia, e rrabalhar merade do tempo e csrudar a outra mcrade." Pareceu inleressante e en viei uma proposra de ad111issao- ele por acaso rinha um formula rio, que me cedeu. A proposla foi aceira em uma ou duas scmanas e eu parri, confian te, para ver o que acontecia no sui de Ohio. (Como disse, os tempos eram ourros. Nao estou cerro de que eu sequer soubesse que as proposras de admissao eram por vezes rejeiradas- e nao linha urn plano alrernarivo. Se fosse rejeirado, provavelmenre reria ido rrabalhar na companhia relefonica, rem ando escrever ano ire, esqueceria a co isa roda e serfamos rodos poupados do presenre exerdcio.)

17

0 Antioch College, cnrrc 1946 e 1950, era 3 primeira vista o pr6prio 1110ddo d.1 m:tis americana e, a mcu ver, mais admiravel das insriruic;:6es educacion.m a pcqucna escola ime riorana de humanidades, vagamenre cristae ainda mai' vagamenrc populisra. Com menos de mil alunos e apenas merade deles no tampus ao mcsmo tempo (a outra merade trabalhava em Chicago, Nova Votk, Derroir ere.), 75 ou 80 professores residences e insralada entre os bosques e .a fcrrovia de Yellow Springs, Ohio (popu la<flio: 2.500 habiranres), ela pareti.l, chcia de caramanch6es em rrelic;:a e ch amines de rijolo aparenre, um cenario da Metro Goldwyn-Meyer para que J udy Garland e Mickey Rooney, ou qm·rn sabe Harold Lloyd, inrerprerassem a passagem juvenil do lar para o mundo, avenrurando-se desajeitadamente no sexo, experimenrando o alcool, tlirigindo converslveis, enganando professores arurdidos e exercirando egos in•nlcnles. H avia um pouco disso po r hi, mas o Iuga r era bem mais serio, para nlin Jizer bem mais grave, do que sugeriam a aparencia e a localiza<;ao. Ur6pico, experimenralisra, anriconform isra, esforc;adamenre zeloso, desesperadamcmc inrenso e cheio de radicais politicos e de espfriros esrericamenre livres (uu scriam radicais esrericos e espiriros poliricamenre livres?), era um santuario JlftToce da contraculru ra - um ambience memal e fisico que o afluxo de tiC wmbatentes, dispostos a nunca mais aceirar que nada lh es fosse impasto J'ur ninguem, sob nenhum prerexro, reforc;ava vigo rosamenrc. Largado nesse confuso campus de auromodelagem moralizanre {reinavam Lilli cspfriro quaere, a mais fechada d as gaiolas de ferro, e uma arirude judaica fcila de impaciencia, ironia e autocririca, misrura que gerava uma especie de ruidosa inrrospecc;:ao, sumamenre curiosa), simplesmenre me inscrevi em lO,Ius OS cursos que de alguma forma pareciam inreressantes, esravam a mao ou pmliam fazer bem a minha indole- o que, suponho (e a escola scm duvida aupunha), e a deflnic;ao de um a educac;:ao liberal. Como queria ser escriror, J't'IISt'i (absurdamcn te, e clara) que deveria me cspeciaJizar em Jetras/inglcs. Ma' achei que are isso seria resrririvo, dai rer 111udado para a fllosofia, cujos relJIII, ilos admiririam praricamcnre qualquer curso que eu viesse a fazer- musi~nlogia, po r exemp lo, o u polfrica fiscal. Quanro a parte de "trabalho" do Jllllgrama de "rrabalho-esrudo" e aquesrao alarmanre que ele levanrava- que llpu de empresa aproveiraria um aprendiz de litteratew? - pensei (mais absur, IAilll' nlC ainda) que deveria ingressar no jornalismo como proflssao prelimi11 u, uma ocupac;:a:o preparat6ria que me susrenrasse are adquirir voz propria; a ldh1 foi logo abandonada quando passei pela experiencia de copy -boy no {enloln ,. ainda) e nlouquecido e ind igenre New York Post. 0 resulrado de roda essa hust.l, cxperimenrac;:ao e liberdade (embora, como ja disse, renha conseguido 1111 '·""r no meio disso rudo) foi que, quando aflnal me formei, nao rinha uma


IR

ic.lcia mclhor do que fazc r para conrin uar no mundo do que quando iniciei os cstudos. Ainda estava me readaprando. Mas, como oAmioch College, apesar de coda sua inclina~ao para o empenho morale a vida pnirica, nao era urn seminario nem uma escola de comercio, isso nao vi nha muito ao caso. 0 que se esperava que alguem adquirisse Ia, eo que de faro adquiri, foi urn a sensibil idade para aqui lo que Hopkins chamou de urn "balcao para toda sortc de mercadorias o rigi nais, raras e cstran has"- uma sensibi lidade para a irregularidade de tudo o que se passa no mundo e para a raridade daquilo que dura. Esravamos, afinal , nos "infames anos 50", quando, reza a hist6ria, a pra~a publ ica esrava vazia, rodos esravam envolvidos na cac;a as bruxas e na busca de objeri vos egofsras, e tudo era cinza sobre ci nza, quando nao suburbanamente technicolor. Mas n5o e assim que a coisa me vema lembran~a. Para mim, foi um a epoca de inrensidade jamesiana, quando a sensa~ao de que tudo poderia desaparecer de urn momenta para o o utro numa catasrrofe termonuclear tornava mais urgenre ser alguem que nao desperdi~asse nada do que tra~ar pianos e projetos ambiciosos. Talvez ficassemos perdidos ou desamparados, ou torturados por uma angustia onrol6gica, mas podfamos ao menos rentar nao ser estupidos e obrusos. Fosse como fosse, e como eu estava, alias, me formando, rinha que partir em busca de outro lugar. A questao era: qual, o nde? Sem nada de substancial em vista em materia de emprego (ninguem para quem eu havia trabal hado ' • queria me verde novo), achei co nvenience abrigar-me no curso de doutorado, e minha mulher, Hildred, ourra especialisra em ingles d eslocada e despreparada para o "mundo real", resolveu fazer o mesmo. Mais uma vez, porem, eu nao sabia como faze-lo e, como havia esgotado meus beneflcios de ex-combatenre, esrava- estavamos- de novo sem recursos. Assim, reproduzi o que aconrecera em 1946 e perguntei a ourro academico incom um, urn carismatico e desiludido professor de fi losofia c hamado George Geiger, que fora reserva de Lou Gehrig no time de beisebol da Universidade de Columbia eo ultimo aluno diplomado pela John Dewey, o que deveria fazer. Ele respondeu (tam bern mais ou menos) o seguinte: "Nao fa~ filosofia; ela esra n as maos de romistas e tecnicos. Voce deve tentar a anrropologia." Como o Antioch nao rinh a cursos nessa area, nao havia me interessado por ela, e, como nem eu nem cle sabfamos exatamenre o que vin ha a ser anrropologia, era uma proposta urn tanto estranha. Fiquei sabendo que Geiger esrivera em contato com C lyde Kluckhohn, urn professor de antropologia que esrava em pen hado, com alguns de seus colegas de Harvard, na cri a~ao de urn departamento interdisciplinar exp erimental de "Rel a~6es Sociais", no qua l a antropologia cultural estava acoplada nao com a arq ueologia e a antropologia

f111<.:.1, nlllHl c..c>swmava c infclizmcntc costuma acontecer, mas com a psicolol' .1 ~m.iolug,ia. Esse, scgunJo clc, seria o Iugar ideal para mim. T.dvc;. Eu n5o tinha ncnhuma objec;5o em especial. Mas o que decidiu a &JUC\1.10 foi que (e isso e 0 que VOCes podem achar difkil de acreditar) 0 AmeriAil <·uuncil of Learned Societies acabara de criar urn programa de bolsas tamb~rn l'Xpcrimemal para p6s-gradua~o. As balsas deveriam ser concedidas ao aluno mais prom issor porum docente escolhido de uma das escolas de humantd.ldc~. a raz5o de uma por insrirui ~ao. Geiger (ou "M ister Geiger", como ckvo .1inda chama-lo, embora ele tenha morrido no ano passado, aos 94 anos, dcpo 1 ~ Jc lccionar praticamente ate o fim da vida, admiravelmente divorciado dm modismos e do tempo) era o representanre do American Council no AnriD~.;h . Fie disse que nao me achava menos promissor que qualquer outro estu.Lan tl' a sua volta, de modo que, se quisesse, poderia ganhar a balsa. Como OS bol ~i ,tas recebiam uma verba incomumenre generosa para a epoca- na verdadt·, para qualquer epoca - , daria para manter a mime a Hildred nao a pen as pnr lllll ano, mas dois. Assim, pleiteamos matrfcula em Rela~6es Sociais (e, de novo, em mais ncnhum curso), fomos admiridos e, ap6s outro ver5o esrranho 111 S.1o Francisco, tenrando juntar ped ac;:os que mais ceria valido descartar, panimos para Cambridge (Massachusetts) a fim de nos prepararmos para uma

K'"

prufl~sao .

bcrevi alhures, em outro destes exerdcios de astuciosa fra nqueza e oculta\lu p1lhlica de mim mesmo, sobre o enorme jt'1bilo, quase milenarista e clifuso, CJtll' dominava o Departamento de Rela~6es Sociais na decada de 50, e que a no• lJIIC 0 freqiienravamos na epoca aprazia cha mar de seu Projero- a consuu...IO Jc "Uma linguagem comum as ciencias sociais". Era tudo alegria natJtld.& alvorada; mas os anos dourados foram breves demais, como sempre uuun· com os decididos e os inconformistas, e tambem com os empolgados, nn nll'io academico. Criado em 1946 como um agrupamento de fugitivos dos drp.utamentos tradicio nais, insatisfeiros com a volta a rotina depois dos translUI lim d a guerra, o Departamento de Rela~6es Sociais come~ou a perder fole10 uos anos 60, quando a rebeldia tomou rumos menos inrernos, e foi dh\olviJo em 1970, aparenremenre apenas com urn lamento residual e sem 1111111.1 c..crimonia. Mas, enquanro funcionava a plena vapo r, foi uma corrida luul.l l' sclvagcm, para quem gostava desse ripo de coisa e conseguia nao ser "'JIIdo fora nas curvas mais fcchadas. M1nha passagem pelo departamento foi, em cerro senrido, bastante breve dui~ anos febris como residence, aprendendo a postura adequada; ourro, llillt llll'nos febril, como membra da equi pe academica, transmirindo aos oullnl< .I postura adequada ("afastem-se, a ciencia esra come~ando! ") . Mas, em 11111 111 \t' Jltido, como esrive enrrando e saindo do deparramenro ao Iongo de


.!I

Ntw.tlu::. wlnr .t ''"'wft~log'''

um.t Jccad:1, cscrevcndo uma tese, dcscnvolvcndo projeros de pesquisa e esruJanJo para provas ora is ("Como os algonquinos domam cavalos?"), foi urn periodo bern extenso. Apos urn ano de acelerada instru~ao nao apenas em anrropologia, mas rambem em sociologia, psicologia social, psicologia clfnica e esradsrica, sob a orien ra~o de figuras de proa nesses campos {KJuckhohn, Talcott Parsons, Gordon Allport, H enry Murray, Frederick Mosteller e Samuel Stouffer), e mais urn ano checando o que tramavam ourros insurretos do Iugar Uerome Bruner, Alex Inkeles, David Schneider, George Homans, Barrington Moore, Eron Vogt, Pirrim Sorokin ... ), eu e minha mulher nos vimos diante do fato brucal e incvitavel- pelo mcnos aquela epoca; desde enrao as coisas mudaram um pouco- da vida do armopologo: o rrabalho de campo. E, mais uma vez, peguei a onda. Uma equipe de pesquisa interdisciplinar, generosamcntc financiada pela f.unda~ao Ford- com a mao aberta que essa fundac;ao exibia ao financiar empreendimentos ambiciosos e excenrricos em seus tempos her6icos, antes que o homonimo do drulo descobrisse o que se passava - , cstava sendo organizada sob o auspfcio conjunto mas incerro do Departamento de Relac;6es Sociais, do ainda mais recente Centro de Estudos lmernacionais do lnsrituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT)- de financiamento mais obscuro e prop6sitos ainda rna is misreriosos- e da Gadjah Mada, univcrsidade revolucionaria que se instalara no palacio de um sultao na Indonesia rcccm-indcpendenre; em suma, um grande cons6rcio de visionarios, pressagiadores e novatos. A equipe era composra de dois psic61ogos, um historiador, um soci61ogo e cinco amrop61ogos, todos des doutorandos de Ha rvard. Eles deveriam ir a uma regiao central de Java para desenvolver, em cooperac;ao com urn grupo corres pondence de Gadjah Mada, uma pesqu isa intensiva e de Iongo prazo sobre uma cidadezinha do interior. Hildred e eu, que mal havfamos comecrado a pensar seriamenre, em meio acorreria para nos arualizarmos com as coisas, sobre onde fazer nosso trabalho de campo, fomos convidados cerra tarde pdo chefe da equipe da faculdade (que alias abandonou o projcto sob uma misreriosa alega~o de doen~a) a nos juntarmos ao grupoela para esrudar a vida fam iliar, eu para esrudar a religiao. De urn modo tao improvavel e casual quanto o que nos levara a ser anrro p6 logos, e quase com a mesma inoccncia, nos tornamos indonesianistas. E assim foi: o resro e p6s-escrito, fruto do destino, do acaso. Dois anos e meio morando com a famfl ia de um operario de esrrada de ferro em Java, na plankie rizicola do rio Branras, cercada de vulc6cs, enquanto opals disparava, via eleicr6es livres, para as convuls6es da guerra fria e seus insenslveis morridnios. Regresso a Cambridge para escrevcr uma tcse sobre a vida rdi giosa javan esa sob a orie ntac;ao de Cora DuBois, eminence especialista no Sudeste Asi:hico que, na minha ausencia, tornara-se a primeira mulher com uma dre-

tlr.a 1111 dcpan.uncnto (e a scgunJa, .tc.ho, CllllO(la Harvard). Volta aIndonesia, de:t~.,

\'l'/

para B.1li e Sumatra e mais melodrama politico, culminando em re-

volt., l' guerra civil. Um ano recuperando as for~as no recem-criado Centro de

I ~tudos Avancrados em Ciencias Comporramentais, com genre como Thomas Kuhn, Mcyet Fortes, Roman Jakobson, W.V.O. Quine, Edward Shils, Geor-

1'" ~1dlcr, Ronald Coase, Melford Spiro, David Apter, Fred Eggan e Joseph rccnherg. Um ano em Berkeley, enquanro os anos 60 se inflamavam. Dez em l hil.1go, quando des pegaram fogo- parte do tempo ensinando, pane diriamdo .1 Comissao de Escudos Compararivos de Novas Nacroes, urn projeto de prsquisa mul tidisciplinar sobre os Estados p6s-coloniais da Asia e da Africa, e rilrtl' do tempo no Marrocos, em uma velha cidade murada dos montes Arias, lltllll.mdo bazares, mesquiras, cultivo de olivei ras e poesia orale orientando P""tuisas de dourorado. E por fim {como ten ho 73 anos e nao me aposenrei, OtnlCrteza deve ser por fim), quase trinra anos no lnsrituto de Estudos Avan~adm em Princeton, lutando para manter em funcionamento uma Escola de ( ti-lllias Sociais pouco convencional dianrc-como direi?- de uma certa rimull·/ c presunc;ao institucionais. E tudo isso da mesma forma e no mesmo rirmo l om que, a esra altura, tenho ccrreza, j:i os cansei a ponro de leva-los ao l'tkismo: um momenro de confusao e indecisao sobre o rumo a tomar, uma oportunidade inesperada que me cai nas maos, uma mudancra de Iugar, tarefa, klrntidade e cenario inrelectual. Uma vida sedutora numa epoca sedutora. Uma illll'ira errante, volari l, livre, instruriva e com uma remunerayao nada ma. A questao esaber se uma vida e uma Carreira dessas sao poss{veis hoje em d111, na Era dos Assistenres, quando os esrudantes de p6s-graduayao se definem um" " pre-desemprega.dos" e poucos desejam ir para o exterior, passar anos no m11111 t' viver de raiz de taro {ou algo semelhante no Bronx ou na Baviera), e qu.amlo os poucos que se disp6em a isso nao enconrram financiamento suficif\11' p.tra uma rolice dessas. A ilusao acabou, a onda passou? I! diffcil saber ao ceno. A qucsrao esd. mb judice. Os velhos academicos, nmnns pais idosos e os atleras aposenrados, rendem aver o presence como um r•H·II'() Jesviralizado, feiro de per(.la, descrencra e desisrencia. Mas parece haver lie f.llo uma boa dose de mal-estar por af, uma sensacrao de que as coisas estao dttltci c ficando cada vez mais duras, de que se vem formando uma subclasse Ill ulcnuca e de que, provavdmcnte, nao e muito sabio. justamente agora, cor' 1 11 ~ws desnecessarios, tomar novas direc;6es ou desafiar os poderes insrituf&tm I· dificil conquisrar estabilidade (acho que agora sao necessarios dois livros Jill' I >cus quanras carras, muiras das quais, alias, sou eu que renho de escre1 1t·o processo se rornou rao Iongo que exa.ure as energias e abate as ambicr6es lu~ IJIIt' nele se deixam apanhar. As cargas letivas sao mais pesadas, os estudant ~ tc111 mcnos preparo e os adminisrradorcs, imaginando-se altos executivos, ( 1


Nm•11 Ira;

wlnr tlllllllllf'lllr~~;,l

sao obcccados com a efi ciencia, os custos c o lucro. As bolsas esrao escassas c me rc:tntil izadas, e foram lans:ad as no h iperespas:o. N ao sei ate que ponro isso e exar?, o u, are onde o seja, em que m edida represenra apenas uma siruas:ao passageira que logo sc corrigir:i; are que ponro nao consrirui um ineviravel recuo de uma altura anormal e insustent:lvel, a suavizas:ao de um pico no gr:lfico; o u uma mudanc;a d e ma re, uma rica e estranha alr eras:ao na estrutura d as chances e p ossibilidades. T udo o que sei e que, are a lgu ns a nos arras, alegremen re e ralvez.c~ m uma pirad a de insensarez, eu costumava d ize r aos esrudanres e colegas ma1s )Ovens que me pergunravam como progredir nessa nossa cstranha profissao que eles devi am ser livres, arriscar-se, evirar os ca minhos ja rrilhados e o carreirismo, seguir seus pr6 prios rumos e que, se o fi zessem , m anrendo-se firmes e a lerras, o rimisras e fieis averdade, minha experi encia era que pod eria m escapar ilcsos, agir como q uisessem, rer uma vid a uri ! e, ainda assim , prosperar. N ao digo mais isso.

Mudando de assun.to T odo mundo sabe de que rrara a antropologia cultural: d a cu lru ra. 0 p robl ema e que n ingw!m sabe muito bern o que eculrura. N ao apenas e um conceiro fu.nd~menra~menre contestad o, como os de democracia, religiao, simplicidade 1 e JUStl<;:a s~c~al , co ~1o e ra~be m defin.ido de v:iri as maneiras, empregado de fo rmas muluplas e Jrremed iavelmenre 1mpreciso. E fugidio, insntvel, enciclopedico e no rmariva m ente carregado . E hi aqueles, especialmenre aqueles para quem s6 o real m ente real e realmente real, que o conside ram inteiramente vazio o u are perigoso, e q ue gosta ria m de el imina-lo d o discurso serio das pessoas serias. Em suma, um conceito imp rov:ivel sobre o qual renra r consrrui r uma cienc ia. Quase rao ruim quanto a materia.

Ch~ga~~ o a a nrropo logia co m ~m a fo rmas::io em humanidades, especialmente IIreran a e fil os6fi ca, o co nce1to de culrura me pareceu imed ia ra mente mais amplo co mo fo rma tan to de pen errar nos misrerios desse campo quanro de levar o individuo a se perder inreiramenre neles. Quando chcguei a H arvard, Kluckho hn eo enrao d ecano da d isciplina, Al fred Kroeber, que acabara d e se aposcnrar em Berkeley estava m empenhad os em preparar o que esperavam ser uma compil as:ao defini riva e aurori zad a das varias defin i<;:6es de "culrura" surgidas na lire rarura d esdc Arno ld e Taylo r, das quais haviam encon rrad o 17 1, cl assificaveis em 13 caregori as. E eu , suposrame nre avonrade com conceiros el ev~dos, fui recru ra? o para ler o que eles havia m feiro e suge rir mudans:as, esclarec1menros, recons1deras:6es ere. Nao posso dize r que esse exerdcio tenha levad o, a mim ou a disciplina, :1 uma diminuis:ao significariva d a angusria se-

nt nd, ,, 1111 ,,

um d~clfn i o na u xa J~ nataliJaJ c d e novas definis:ocs; bcm ao llll l dn, 11.1 vcrdadc. Mas me rcz mergulha r b ru ralmem e, sem orienras:ao Oll I u, I \Il l n i.H;.to do q ue mais rardc eu aprcndcria a chamar de problemarica da lnh,, .i l l';' Ar. Vil issitudcs dn "cuJtura" (a palavra, nao a coisa, po is nao ha coisa), as ' u s~ol'' sobrc o scu signi ficad o, seu uso e seu valor explicarivo, esravam de tu •'l'''''·' s Lo mcqando. Em seus altos e baixos, no seu vaivem de aproximas::io al .-~l .llll t'IHO da clareza e da po pu laridade n as ci nco decadas seguin res, pode r V l~ l.t .1 march:J hesitan ce e arrft m ica tanto da anrropologia quanto minha. n '"" " SO. a eloqUencia, o vigor, a amplitude de interesses eo brilho intenso i'\1 lllot cs como Kroeber e Kluckhohn , R uth Benedict, Robert Redfield, lph I int o n, Geoffrey G o rer, Franz Boas, Bro nislaw Malinowski, Edward pu c:, d.1 fo rma mais espetacular, Margaret M ead - que esrava em coda par" " unprcnsa, nas conferencias, nas comiss6es d o Congresso, dirigindo p roll, \ nando grupos, lanqando campanhas, assessorando ftlanrropos, l nl.lltdo os confllsos e p erplexes e, p o r fi m mas nao menos importance, inAndo .10:; colegas o nde e que erravam - ro rnaram a ideia anrropol6gica da hu1 .1 uncdiaramenre acessivel a ... bern, a c ulrura, tao d irundida e abrangenre U p.un i:t uma explicas:ao para w do o q ue o ser hu man o fizesse, imaginasse, rm·. fosse ou acredi rasse. T odo mundo sabia q ue os Kwalciud eram meganuull.llns, os D obu, parano icos, os Z un i, equi librados, os alemaes, auro rira, , m ru ssos, vio len ros, os americanos, praricos e ori misras, os samoanos, '.&11\.ulns, os Navajo prudenres, os T eporzlano inabalavel mente u nidos ou r mcdi.lvclmenre divid idos (havia dois anrro p6 logos que os esrudavam, u m n' l" ,,[uno do o utro) e os japonescs, envergonhados - e todo mundo sabia u r t 1111 .assim p o r causa de sua culrura (rodos ri nham uma culrura e nenhum nh11 111 .m d e uma). Pa recia que esravamos co ndenados a rrabalhar com uma I\. 1 l' l lllla linguagem nas quais conceiro, causa, form a e resulrado ti nham dn~ u tllcsmo no me. A~" IIIIi en tao como rarefa- em bo ra ni nguem me renha atribuldo isso e eu 1 .ul1.1 .11 c que po nro foi um a decisao conscience red uzir a ideia de cuJrura Ul ll 1,11nanho adeq uado, dar-l he uma dimensao menos vasra. (Ocvo admirir u 11111 t'\ Li va de forma alguma sozinho ncssa am b is::io. 0 desconrenramento m 1 'n11fusao e a nebulosidade era endemico na minha gerac;:ao.) Parecia urllh. l .lllld.t parece, dar a"culrura" u ma noc;:ao deli mi rada, com aplicac;:ao pre\l' lltldo c.laro e uso espedfico- com o objero ao menos um ranro definido 111111 • H' nLia pclo menos um pouco definida. I 'I ',(' Icvclou di flcil. Deixando de !ado a quesrao do que epreciso para ser 1111 lIt 11 <1.1 c de a a nrrop ologia rer chance de ser considerada ciencia algum Ill ' lllt~I.Hl llu e semp re me parece u a rtificial - chamem -na d e estudo, se pre-


N"'''' lur. wfn'f' '''"''"'/'"'"Jl.;,,

fcrircm, de busc:t OU i n vestiga~O -,OS instrumentos intelectuais necessaries a esse esforc;:o simplesmente nao esravam disponfveis ou, se estavam, nao eram rcconhecidos como tais. Que esse esforc;:o tenha sido empreendido, e, de novo, nao ape nas por mim mas por uma ampla e diversificada gama de pessoas, isto e, com insatisfac;:6es difcrentes, e que tcnha obrido um cerro grau de sucesso, e sinal n ao apenas de que algumas ideias aceitas de "cultura" - de que ela e um comportamento adquirido, e superorganica e maida nossas vidas como uma forma molda urn bolo o u a gravidade molda nossos movimenros, de que evolui como o absoluro de H egel, orienrada por leis inatas, para uma perfeita inregridade- haviam comec;:ado a perder forc;:a e poder de persuasao. Esinal rambem de que estava surgindo urn a abundancia de variedades novas e mais eficazes daquilo que Coleridge chamo u de instrumentos especularivos. Vi u-se que quase todos eram insrrumentos de ourras discipli nas, da filosofia , da lingilfstica, da semi6tica, da hist6ria, da psicologia, da sociologia, das ciencias cognitivas e tambem, ate cerro ponto, da biologia e da literatura; tais instrumentos capaciraram os anuop6logos, com o tempo, a produzir descric;:6es menos pan6pticas, menos inertes, da culrura e do seu processo. Precisavamos, parece, de a lga mais que uma ideia ou 17 1 vers6es da mesma ideia. Foi, de qualquer forma, com esse adrmulo de preocupac;:6es prolepticas e meias noc;:6es, e com menos de um anode preparac;:ao, no essenciallingilfstica, que parti para Java em 1952, a fim de situar e descrever, e quem sabe ate explicar, uma coisa chamada "religiao" num disrrito rural e distance, 800 quilometros a sudeste de Jacarra. Conrei alhures em minucia as dificuldades praticas dessa aventura, que foram imensas (por exemplo, quase morri) mas amplamente superadas. 0 importa nce, no que concerne ao desenvolvimenro de minha apreensao das quest6es no meu modo de ver, e que a pesquisa d e campo, Ionge de separar as coisas, misturou-as ainda mais. 0 que numa sal a de aula em H arvard era urn dilema merodol6gico, um enigma a decifrar, passava a ser, numa cidadezinha javanesa de curva Je estrada abalada pelo impacto de mudanyas convulsivas, uma condi~o imediata, um mundo no qual se engajar. Por mais espanrosa que fosse, a "Vida entre os javaneses" era mais do que um quebra-cabec;:a, e era preciso mais do que caregorias e definic;:6es, e bern mais do que a sagacidade de sala de aulae a faci lidade com as palavras, para nos situarmos ali. 0 que rornou o " Projeto Modjokuto"- como decidimos chama-lo no cosrumeiro e infrutffero esforc;:o de disfarc;:ar idenridades ("Modjokuto" sign iftca "Cidade do Meio", conceito que me desperrava suspeita na epoca e da qual nao vim a gostar desde entao) - parti cularmente questionador das formulac;:oes aceitas e dos procedimentos-padrao eque ele foi , se nao 0 primeiro, certamente um dos p rimeiros e mais consciences esforc;:os dos anrrop6logos no

nudn ,k tomprccndcrcm nao um grupo tribal, um povoado insular, uma solladt• dc,.rp.uccida ou uma relfquia, nem campouco uma pequena comunilr ,d.l'tada c fcchada de pascorcs e camponcscs, mas coda uma sociedade 11~1 ,. ht·tcrogcnca, urbanizada, letrada e politicamenre ativa- em suma, 11 rm·no~ t]UC uma civilizac;:ao- e faze-lo nao num "p resente etnogn1fico" ru ido c suavizado no qual tudo se poderia encaixar numa aremporalidaaunplcs (ncm mais nem menos), mas em coda a sua prcsenc;:a e historicidade r\.ul.rs. Loucura, talvez, mas seguida de uma serie de outras que tornaram 11'" nhsolcta uma visao da cultura voltada para os (supostamente) reservados 1, m primirivos aborfgenes ou os desgarrados Pigmeu. 0 que quer que fos1 Indonesia, Java, Modjokuto ou, mais tarde, o Ma rrocos, quando Ia estive, R' t r.ltava de "totalidade[s] de padr6es de componamento ... alojada[s] em J ~n1po", para citar uma das definic;:6es lapidares do livro de Kroeber e Ulkhohn. lh anos passados em Modjokuro, antes e depois, nos sucessivos retornos ' ]lit' lutci para me manter inreirado das coisas, acabaram nao consisrindo idcnriftca~o de fragmenros da cultura javanesa considerados "religio", r m sua separac;:ao de ourros fragmenros ridos como "seculares" (o que nao maior serventia) e na submissao do conjunro a uma analise funcional: a r~i.10" une a sociedade, sustenra valores, manrem a moral, imp6e ordem ao ntamento publico, mistiflca o poder, racionaliza as d esigualdades, justirnjusric;:as e assim par diante- 0 paradigma dominance, naquela epoca e t•JHao. Esses anos consisriram em adquirir uma certa fami liaridade (nun•c ~on segue mais do que isso) com os recursos simb6licos por meio dos quais 111divfduos se viam como pessoas, atores, sofredores, conhecedores e jufzes C'lll suma, para inrroduzi r a expressao expositiva de praxe, como participan"'" uma forma de vida. Eram esses recursos, portadores de significado e doatt'' de sentido (fesras comu nirarias, rearro de sombras, orac;:oes das '·'' kiras, acordos de casamentos, comlcios politicos, disciplinas mfsticas, m." populares, dan~as de correjo amoroso, exorcismos, o Ramada, o planin do .rrroz, enrerros, lendas folcl6 ricas, leis de heranc;:a), que possibilitavam a l1111~1fl,l<;i10 c a material izavam, tornando-a publicae discudvel e, mais imporllh', ,usccdvel de crlrica, disputa e eventual revisao. 0 que havia comec;:ado 111111 urn a invesriga~ao do "papcl do ritual e da cren~a na sociedade" (isso tem ue ~cr cscriro entre aspas), como uma especie de mecanica comparada, rranstiii«HI sc, ao se adensar a rrama c me enredar, no escudo de urn exemplo parllul.u da produc;:ao do senrido e suas complexidades. I ksnecessario d izer mais, aqui, sabre o conteudo do esrudo ou da experl lltl.r. Escrevi uma tese de selecentas paginas (a professora DuBois ficou cs-


.7

Nm·•l fuz. win.-,, .m1mpalagi11

pantada) , que foi espremida num livro de quatrocenras, voltando a comar o resultado. 0 imporranre sao as li~oes, e as lis;oes foram as seguinres: I. A anrropologia, pelo me nos a que eu professo e prarico, impoe uma vida seriamenre dividida. As habilidade~ necessarias na s.tla de aulae as exigidas em campo sao bern diferentcs. 0 sucesso num ambienre nao garanre sucesso no ourro c vice-versa. 2. 0 esrudo das culruras de mmos povos (e tambem da nossa, mas isso levanra ourras quesroes) implica descrcvcr quem clcs pcnsam que sao, o que pensam que estao fazcndo, e com que finalidade pensam que o esrao fazendo- algo bern menos direto do que sugerem os canones usuais da ernografia feira de notas e indagac;:oes ou, a rigor, o impressionismo exuberanre dos "esrudos culturais" da pop rtrt. 3. Para descobrir quem as pessoas pensam q ue sao, o que pensam que esrao fazendo e com que finalidade pensam que 0 esrao fazendo, e necessario adquirir uma familiaridade operacional com os con juntos de significado em meio aos quais elas levam suas viclas. lsso nao requer senrir como os ourros ou pensar como eles, o que e simplesmenre impossfvel. Nem virar narivo, o que e uma ideia impraricavel c ineviravelmenre falsa. Requer aprender como viver com eles, sendo de outro Iugar e tendo um mundo pr6prio diferente.

De novo, o resro e p6s-escrito. Nos quarenta anos seguin res ou quase, passci m ais de dez em rrabalho de campo, desenvolvcndo e aprimorando cssa abordagem do escudo da culrura, e passei os ourros trinta (nao lecionei muiro, pelo menos depois que entrei para o insriruro) tenrando comunicar os seus encantos por escriro. De qualquer forma, parece haver algu m a coisa na ideia de Zeitgeist[espiriro de cpoca] ou, pclo menos, na de conragio mental. Pensamos que estamos enveredando bravamente por urn caminho scm precedences, e de repenre, olhamos em volta e desco brimos que esrao no mesmo rumo LOda sorte de pessoas de quem nunca scqucr ouvidmos falar. A reviravolra lingufsrica, a reviravolra hcrm ene uri ca, a revolucrao cognitiva, os abalos secund ar ios dos terremotos W irrgenstein c H eidcgger, o construrivismo de Thomas Kuhn e Nelson Goodman, Benjamin, Foucault, Coffman, Levi-Strauss, Suzanne Langer, Kenneth Burke, OS desenvolvimenros na gramarica, na semanrica e na teori a da narrariva e, recenremenre, no mapeamcnto neural e na somarizas;ao da emos;ao, de repente tudo isso rornou accitavel para um academico a preocupas;ao com a producrao do senrido. Esses varios dcsvios e novidades nao se harmonizaram inreiramenre, e claro, para dizer 0 mfnimo, nem revclaram igual ucilidade. Mas criaram o ambieme e, de novo, forneceram os insrrumenros espccuhllivos para rornar bem mais facil a existc ncia de alguem que via os seres humanos (citando a mim mesmo parafraseando Max Weber) "amarrados a

\lc .signilic.1do qu~ elcs mesmos tc<.crarn". Apesar de Loda rninha deLermidt• ~,·guir tun cami nho pr6prio c Ja convics;ao d e que o havia feito, subi" VI me como um estranho. Depcm J c J•tva vcio Bali, o nde rcnrei m osrrar que o parenresco, o formaro aldc.-1.1. o Lstado rradicional, os calendarios, a lei e, da forma mais vii, a briga plo~ pmliam scr lidos como rexros o u, para acalrnar os adepcos da lireralidantno ".m.ilogos de Lcxros"- eram aflrmas;oes marerializadas de (para usar t'X pH·ss;IO cxpositiva) maneiras espedficas de estar no mundo. Depois vieo M.mocos e uma abordagcm semelhanre dos Marabu, do desenho urbano, idr.nlld.tdc social, da monarquia e das rrocas complexas no mercado dclico. { htl .tgo, aqucla al tura eu com es;ara a lecionar e agirar, teve infcio e com es;ou dthllltilr um movimenro mais geral, vacilanre e nada unificado, nessas direAlgun,, Ia e em o utros centros, bacizaram esse desenvolvimento, ao mesmo tt·<'utco c mcrodol6gico, de "anrropologia simb6lica". Mas eu, encarando IA~IIlO illO um em preendimenro essencialmence hermeneurico, um esclarel' dcfini<j'aO, e nao COmO uma meuifrase OU decodificaCf3:o, e pouco a lllm as misreriosas e 01 halfsricas implicas;oes de "sfmbolo ", preferi "a n_,..,•..,""·, .. 1ntcrprerari va". De qualquer forma, fosse ela "simb6lica" ou "inrer{algu ns are preferiam "semi6rica"), comecrou a surgir urn esroque de .tlguns meus, alguns de ourras pessoas, ourros reutilizados com alteras;ao ntidn .tntcrior, em torno dos quais se poderia construir uma concepcrao re· 1 <jill' pc lo menos eu am . d a c h amava d e " c ul rura , : "d escns;ao . ~ d ensa, , " mouo dc/p.tr.t", "sistema de sinais", "episteme", "ethos", "p:uadigma", "crirerios", lit.tlllll'", "quadro", "mundo", "jogos de linguagem", "inrerpretance", "Sinnncxo], "tropo n, "sjuzet", "experiencia proxima"' "ilocucion:irio", iscursiva", "desfamiliarizaCf3:o", "comperencia/desempenho", "fic-

_,,.,u ..n,o" [

'acllldlunya familiar", "hereroglossia" e, e claro, "estrurura", nos seus varit tnumcros senridos inrercambi:iveis. A virada para o senrido, como quer

1 nl..t

\ldo denominada e expressa, alterou tanto o assumo invesrigado

o ' II)Cito da invesrigaCf3:o. N.1o !(Ill' tudo isso ocorresse sem a habitual quota de medo e aversao. De,t.n H:\'l r,tvolras vieram as guerras: as guerras culrurais, as guerras da cien•• ~'"'' "·''do valor, as guerras da hisr6ria, as guerras do genero, as g uerras nlttpl.lllns c dos p6s. Salvo quando cxcepcionalmcnte provocado o u c u•"" .1.. pc<.ados qu e nao renho asrucia para co m eter, so u pessoalmenre 1 puiC:·mica; deixo o rrabalho pesado para os q ue Lewis Namier descar1 11 dq~.ull cmenre como pessoas mais inrercssadas em si mesmas que no lin tr.&h.tlho. Mas, quando a temperatura subiu e com ela a rer6rica, vi-me m 1u ,, d,·h.ucs esrdd ul os, muiras vezes are como confuso objero deles (" eu 1 w·"). ,ohrc quest6es tao empolgan tes como saber se oreal e verdadeira-


.!II

m cm c real e sea ve rdad e c realmente vcrd adcira. Sera possivel o conhecimenLO? 0 be rn uma questao de opiniao? A objerividade uma farsa? 0 d esinrercsse e ma-fe~ D escris:ao e do mi nacrao? T udo se resume a poder, pilhagem e projetos po liticos? E ntre os velhos possuido res de debentures, g rirar q ue 0 CCU esta vi ndo abaixo po rque OS relativistas ba ni ram a fact uaJid ade e as person alidades avanyad as a po luir a paisage m com seus slogans, seu sal vacio nis mo e sua parafern alia, a le m de uma g ra nde quanridade de escritos sem ressonanc ia, estes ulrimos anos n as c iencias humanas fo ram , para dizer o m fnim o, extrem am ente produri vos. 0 que quer que esteja aco nrecendo com a m ente american a, decen o ela nao esta se fechando.

e

e

Esra r:l, entao, se estilhas:ando? Em seus d rculos antro pol6gicos parece haver, no m o m enta, urn estranho punhado d e genre que pensa assim. Por coda pane se o uvem lam entos e lamurias sabre a unidade perdida, o po uco respcito pelos m ais velhos d a rribo, a falra de uma agenda consensual, d e uma idenridade pro pria e urn o bjerivo comum, e sobre o que a m oda e a conrroversia esrao fazendo com o discurso bem -educado. Quanro a mim, reco nhecendo que po r vezes sou considerado respo nsavel - a palavra da m oda "cumplice"- pelo faro de as coisas re rem ido Io nge dem ais o u nao rerem ido Io nge o bas ranee, s6 posso d izer que continuo calma e imperrurbavel, nao pro priamenre acima dos confli tos, mas m argem deles, cetico acerca de suas pr6 prias premissas. Para com es:o de conversa, unidade, identidade e consenso nunca existiram e a ideia de q ue existiam eo tipo d e crenya folcl6rica a q ue sobrerudo os anrro p6logos deveriam o po r resisrcncia. Q uanro a nao ir Io nge d emais, a rcbeldi a uma virtude superestimada; e impo rtance dizer algae nao apenas am eas:ar dize-lo, e ha sempre coisa m elho r a fazcr com uma hera n ~'l, m esm o p roblemarica, do que joga-la no lixo. Assim, onde esro u hoje, quando o milenio d e aproxima de fo ice na m ao? Bern, nao fas:o m ais t rabalho de campo, pelo m enos nao por perfodos lo ngos. Passei m eu 60" aniversario de cocoras n uma latrina de campanha em "Modjokuto" (bern , n ao 0 di a todo, m as voces cnrendem 0 qu e qu ero dizer), m e perg untando q ue d iabo esrava faze ndo ali, na m inha idad e, com os m eus inrestinos. Eu gos rava imensa m enre do trabalho d e campo (cerro, nao o tempo rodo) e essa ex pe ri enc ia conrribui mais para me alim entar a alma, e ate para cria- b , do que a acad emia jamais conseguiu. Mas, se acabo u , acabo u . Con tinuo a escrcver. Ja esro u nisso h a ranro tempo q ue nao e m ais possivel parar e, a lem disso, ha coisas que eu ainda nao disse. Q uanro anrro po logia, quando vejo o q ue pelo m enos alguns dos m elhores das novas geras:oes estao fazendo o u qucrc ndo fazcr, e tod as as d ificuldadcs q ue enfrenram com o ru fdo ideol6gico q ue hoje cerca prar icam enre roda aven tura intelecrual nas ciencias sociais e humanas, sou- escolhendo cuidadosam e ntc as palavras - basranre o tim isra. E nquanro em algu rna parte ho uver a lg uem lu ta ndo, com o d izia o gri ro de

c

a

e

a

d m nH.:liS u:mpos inscgu ros de juvcmude, ncnhuma voz cstari perdida. ;a uwdo t.l sobrc Samuel Becken cxp rcssa bcm o m cu estado de espfriLO ao nll' tt.H c~ta improvavcl carreira. Con ram q ue Becken cam inhava com urn pc.:lo g ramado do T rini ry College, em Dublin, nu ma ensolarada e quenmanh.l de abril. 0 amigo d isse: "Que bela d ia, esplendido, hem?" Becken r.arncntc concordo u: " D e fa ro, esplendi do, m agnifico." "N um dia como , prusseguiu o amigo, "a ge nre se sence feliz por tcr nascido." Ao que Bett路trucou: " Bern, eu nao iria tao Ionge."

a nos atras, na contribu is:ao franca c d irera que deu a esta serie de fabula~ .uno-o bituarios, tao diversa da minha no tom e na aspirayao, o historia~~.:onomico cliametrico Ro bert Fogel co ncluiu dize ndo que trabalha com poisihilidade de criar conjun ros d e dados in rergeracio nais de ciclos de vida" pcrmitiam a ele e a sua eq uipe de pesquisa "estudar o impacro do esrresse llilrJt c;orl6 !nico e biom ed ico no in fcio da vida sab re a taxa de ocorrencia de cro nicas, sabre a capacidade de trabalho na meia- idade e na idade oaJa e sobre o 'tempo de es pera' ate a ma n e". (Sei por o utras fonres que ele vern estudando placen tas de rato com esse objetivo.) Nao sci ao atipicamenre, o professor Fogel nao ex plicira as fo ntes entre esscs est:ise ainda posso o u nao m e cl assificar na categoria " idade avanyada" . lll路 qualquer fo rma, a cacegori a "tempo de espera" ("Gogo: 'Nao posso Ill liar assim'. Oidi: 'E0 que voce pensa' .") e 0 surgimento de d oens:as incalllllCS - os "quarro disturbios fatais" do vece rina ri o Felix Randall- nao m csrar muito Io nge; e, como disse W hite a Thurber o u T hurber disse a r~ . as garras da velha contraco rrenre sempre acabam nos pegando. Nao sou muico bo rn de espera, com o voces ja devem rer ad ivinhado pelo dt~o e pela rapidez com q ue o fas:o, e provavelmcn ce vou acabar estragando IJI\,1. A medida que m eus a migos e companhciros de conspi ray5o vao covelo c deixwdo "esra vasta desclegancia", com o Stevens a chamou, e que nu路,mo vo u enferrujando e sendo esquecido, com certeza serei tenrado a inVII p.ara cndireita r de novo as coisas. Mas isso, sem duvida, hade se revelar a\ul t ' possivelmente rid lculo. Nada e m ais inadequado a uma vida academica 'll" .1 lura pa ra nao aba ndona-la, e - cito agora Frost, nao Hopkinsn 11 h.i mcm 6 ri a d a fa m a/ que evire a a marg ura do fim". No momenta, potu ,, \ IOU conten ce por ter a o po rrun idadc de m o n tar minha propria lenda c llilll 11 m cu pr6 prio caso a ntes q ue os necrologistas m e apan hem. Ninguem , c u t arar o qu e fiz aq ui com o m ais do q ue isso.


( J /'(1/1,/11/r/lltl, 1111111 o/111 11/tll.tl

.I I

-~•'"l.uu, JHII1Jllt: cbs r.tr:unt:ntc se basciam num cxame circunstanciado do que l"'~' l'll';t como forma de condura. Os humanistas proresram que os cien-

2

0 pensamento como ato moral· Dimensoes eticas do trabalho de campo antropologico nos paises novos

Quando tento resumir o que de mais importance apre ndi ao enfrentar a difusa prolixidade da obra de john Dewey, chego adoucrina sucintae fria de queyensamenco e conduca e deve ser moralmente julgado como tal. Nao e a ideia de que pensar e uma coisa seria que parece discinguir esse ultimo dos fi l6sofos da Nova I nglaterra - todos os inrelectuais encaram as prod u~6es menta is co m certa estima - , mas sim a tese d e que 0 pe nsar e serio por ser urn ato social, e de que, portanto, somos tao responsaveis por ele quanco por qua lquer o utro aro social. Talvez mais ainda, pois o pen samenco eo ato social de maiores conseqiiencias a Iongo prazo. Em suma, D ewey craz o pensamento para o ambito publico, onde pode ser aval iado pelo jufzo erico. Para alguns, isso o deprecia terrivelmente, cransfo rmando -o em coisa, arma, propriedade ou algo igualmente comum . Moralistas revolucionarios - pois era isso, afinaJ, o que vinha a ser D ewey, com coda a sua dificuldade de expressao- nunca sao muito ap reciados, especialmente por aqueles, neste caso praricantes das trocas inteleccuais, a quem tao severamente pedem sarisfa~6es. Sao quase sem pre atacados, como ele fo i, por minarem as p racicas estabclecidas e corromperem os jovens. Para o melhor ou para o pior, no en tanto, eles sempre produzem cfeiro: as p raricas, quando nao solapadas, sao pelo menos abaladas; os jovens, se nao co rrompidos, sao pelo menos intranqiiilizados. Depois de D ewey, fi cou muiw mais dificil encarar o pensamenco como uma absren~ao do agir, a reoriza~o como uma alternativa ao compromisso e a vida inrelecrual como urn monacaro secular, isento de responsabilidade por ser sensfvel ao Bern. E_m nenh um ourro terreno isso foi mais verdadeiro q ue nas ciencias sociais. A medida que essas ciencias se d esenvolvera m recnicamente, sua s irua~o moral rornou-se uma quesrao cada vez mais premente. Mas, do po nto de vista deweyano, falra prop6siro a maioria das discuss6es esrimuladas po r essa preo30

liot i,,j, barbari7..am o mundo e se apossam de codas as verbas, enquanto cst5.o salvando, ou que o farao em breve, seas verbas forem t ut.td.ts. Mas a qualidadc moral da experiencia dos cienrisras sociais aruan• vttl.tl-tica que lcvam enquanro fazem suas pesquisas, p raricamente nunca 111 id.1, cxccto nos termos mais genericos. Esra d everia ser uma investigartgorma de urn aspecto central da consciencia mod erna. Infelizmente, 111011-sc em uma rroca de opini6es entre guardiaes do jogo cultural, J,n qucs Barzun, e cienrisras fundamenmlisras, como B. F. Skinner, sobre t rrivt· t' ou maraviJhosos efeitos do escudo sistematico da vida humana, on' huw ou num futuro mais pr6ximo d o que supomos. () uu pacro das ciencias sociais sobre o caritcr de nossa vida acabara scndo nutwlo, no en tanto, mais pelo ripo de experiencia moral que elas vierem rn.u do que meramente por seus efeiros recnicos ou po r quanto dinheiro ~��''tar. Como o pensamento e condura, as co nseqiiencias do pensardlctcm, ineviravelmente, a qualidade do ripo de situa~o humana em '"'·'"' produzidas. Os metodos e reorias da ciencia social nao estao sendo 1111dm por computadores, mas po r homens e mulheres, e sobrerudo por '' ,. m ulheres que rrabalham nao em laborat6rios, mas no mesmo meio 1111 I '( lie.' SC aplicam OS metodos C SC transformam as teorias. f_ isso que COnCIII JHCitada como urn rodo 0 seu cara ter especial. A maior parte das pes• ,.,., licncias sociais envolve contatos diretos, lntimos e mais ou menos t!..tdnrcs com os detalhes imediaros da vida conte mpo ranea, con taros de llpu '(liC dificil mente pode deixar d e afetar a scnsibi lidade das pessoas que IIIII tiil. E, como coda disciplina eo que faze m dela as pessoas que a pratit tl M"nsibilidade ew1 inserida em sua const irui~ao do mesmo modo como II tl·i lidades de uma epoca se inserem na culrura dessa epoca. Uma avaliallil~ intp l ica~6es morais do estudo cien tlftco da vida humana que nao se Iill ,lt-~.t ntcs zombarias ou celebrac;:6es inconsequences deve come~ar por ltll.ili,l· da pesquisa social cienrlflca como uma modalidade de experiencia d11et11 t]li C o

Ill l'•upn1, Jepois desse preambulo, minha propria experiencia como tema

_r.,._..,.lu p.tra analise pode sugerir uma certa presu n ~ao.

Com cerreza, o risco f,. 1 pnw nao deve ser dcscarcado levianamcnce. Discurir a propria visao lilt Ill Jll'tblico Csempre Uffi COnVite ahipocrisia e, 0 que e pior, aCOncepc;:ao l1.1 .dl!,O d~ particularmenre nob re em serer sido refinado o basrante por • llll' tltc te-la rido. Are quem comp rovadamentc odeia a si mesmo orgulllt llo observou Nietzsche, de sua sensibilidade mo ral em discernir com 1111 'l'"d"t..l a pr6pria degrada~o.

I"'


() /lrllfl/1/lr/1111, 1111111 '"'' """'"

Se ainda assim me proponho discutir aqui algumas das dimens6es cticas da minha experiencia como pesquisador, nao e porque as considere {micas ou especiais. Antes, suspeito que sejam comuns e ate universais entre os que se dedicam a trabalho semelhante, sendo portanto representativas de algo mais do que elas mesmas ou eu. Mais importance ainda, como meu trabalho lidou com os novas pafses da Asia e da Africa (ou, mais precisamente, com do is deles, Indonesia e Marrocos) e como problema geral da modernizac;ao das sociedades tradicionais, talvez ele seja particularmente adequado a uma avalias::io da pesquisa social como forma de conduta e d as implicac;oes que dele podem ser exrraldas para as ciencias sociais como forc;a moral. 0 que quer que se diga desra investigac;ao, dificilmente se pode alegar que enfoca quest6es triviais ou afastadas das preocupac;oes humanas. Nao e esse, evidentemente, 0 unico.ripo de trabalho que fazem OS cientistas sociais, nem mesmo o unico que fazem os antropologos. Outros insights viriam e outras lic;oes seriam extraidas da analise de outros tipos de trabalho, e uma avalias::io geral do impacto das ciencias sociais em nossa cultura teria que levar em conta todos eles. Evisando a contribuir para que o debate sabre a situac;ao moral das ciencias sociais se fac;a em solo mais firme, e nao para proper min has proprias experiencias ou linha d e trabalho como modele, que se fazem as seguintes e esparsas reflex6es necessariamente urn tanto pessoais.

Uma das conclus6es mais inquietantes a que me levou o ato de pensar sabre os novas pafses e seus problemas e que tal pensamento e muito mais eficaz para expor os probl emas do que para enconrrar soluc;oes para eles. Ha urn aspecro de diagnostico e um lado terapeutico em nossa preocupac;ao cientffica comessas sociedades, eo diagnostico parece, pela propria natureza do caso, ser infini tamente mais r:ipido que o remedio. Portanto, um dos resultados de perfodos muito longos e inrensos de pesquisa cuidadosa e, em geral, uma compreensao muito mais aguc;ada de que os novas pafses estao numa especie de beco sem safda. 0 sentimento trazido par esse tipo de recompensa pelo trabalho arduo e 0 que imagino em C harlie Brown quando, numa tirade Peanuts, Lucy lhe diz: "Sabe qual eo problema com voce, Charlie Brown? 0 problema e que voce e voce." Apos urn quadrinho d e reflexao muda sabre a irrefurabilidade dessa observas=ao, C harlie pergunta: "Bern, eo que e que eu posso fazer?" E Lucy responde: "Nao dou conselhos, apenas aponto a rai z do problema." A raiz do problema nos novas palses e bern profundae, nao raro, a pesquisa social de pouco serve senao para demonstrar sua exata profundidade. Quando se trara de dar consel hos, 0 q ue se descobre geralmente parece mais uti I para mostrar maneiras pelas quais a atual situac;ao insustentavel poderia (e provavel-

:u

,. i1.1) pio1 ar do que manciras de mclhon\-la. 0 arorismo de Francis Bacon nH· nniJamente mcnos axiomarico a cada dia: o conhecimento- pelo n upo Je conhecimento que fui capaz de desencavar- nem sempre re<'111 w.mJe coisa em materia de poder. ludo isso nao e urn mero acesso de pessimismo sentimental da minha ; ,, lllll aspecto teimosamente objetivo da pesquisa social nos novas pafses. p10va Jcssa afirmac;ao, permitam-me discutir par urn momenta urn 111.1 que c rundamenral nao apenas na Indonesia e no Marrocos, onde o 11 H'l , mas em praticamente rodos os novas pafses: a reform a agd.ria. I '"' problema aparece de formas muito diferentes, ate contrastantes, na n~,i.1 c no Marrocos, por raz6es tanto ecologicas quanta economicas, his,. udLUrais. Porem, em ambos os lugares, analisa-lo de modo sistemati• tloln apcnas perceber pela primeira vez sua dimensao realmente enormc, tJr,mbrir os fatores que o tornam tao recalcitrante- e esses fatores se reht'm scmelhanres nos dois pafses. Em particular, haem ambas as situa11111.1 incompatibilidade radical a curta prazo entre as duas metas lil.l' tlue juntas abrangem aquila em que consiste a reforma agraria a 111.110: progresso tecnologico e au men to do bem-estar social. Em termos .lll\tratos, urn aumento radical da produc;ao agricola e uma significativa • dn Jesemprego (ou subemprego) rural parecem , par ora, ser ambic;oes _.,lll'lt'IIIC conrradit6rias. Nn Indonesia, e particularmente no corac;ao da ilha central do pals, Java, (pur volta de 1960) as densidades populacionais chegavam a rna is de huhil.tntes por quilometro quadrado, essa contradic;1io se expressa num dt· t·xplorac;ao agraria com usa intensivo de mao-de-obra mas, no geral, ..,11r•u•· produtivo. Os inL1meros arrozais em terrac;os de mais ou menos mil 'l"·•drados que cobrem Java, Bali e certas regi6es de Sumatra e das Celen c ulr 1vados quase como se rossem jardins, ou, mais exatamente, como l'r.u1camenre rodo o trabalho e brac;al. Usam-se instrumenros muiro • (t· muiro engenhosos). Multid6es de trabalhado res da enorme popularUiatll.lhmam com extrema cuidado e esmero. ( h 1111.11 nu nao esses trabalhadores de "subempregados" depende das deCum cerreza, a maioria da alguma conrribuic;ao a alta produc;ao par , c, t.unbcm com certeza, eles estariam mais bern empregados em outro ,. hnuwsse outro Iugar para empreg:l-los e se houvesse meios mecanizaIt .al11ar suas tarefas agrfcolas. Mas nao ha nem uma coisa nem outra. E Ill gt' 0 problema: qualquer progresso tecnol6gico serio (isto e, afora as 1\ t'lllndarias, como o aumenw da fertil izac;ao e uma selec;ao aprimo~li iH ' Ill cs) implica um macic;o dcslocamento da mao-de-obra rural , o lllllh 11 \,lvcl nas condic;oes atuais. Como notou certa vez urn economista

P•'"


.1-1

Nm••t /u?

whu tltlllltllf'llltl/{ltt

() f'l'/lltllllrl/111 11111111 o//11 1//lll'ot/

holandes, com uma recnologia moderna o trabalho agricola em Java poderi a ser realizado por dez po r cenro d a arua l for<;:a de rrabalho, mas isso reduziria fome os outros 90 por cento. Nesse ponto, sempre aparece alguem para lembrar o resulrado da calamirosa previsao de Mal thus sobre a Europa e dizer: " lndustrializac;:ao!" Mas com o financiar a industrializac;ao num pals em que o pr6prio campesinato, im enso, conso me o grosse do que produz, eo pouco que existe d e ex porrac;:ao d estina-se basicamente a garanrir a subsisrencia d as massas urbanas? E como, mesmo financiada, pode ela rer uma dimensao tal (e, nos nossos dias de auromac;:ao, urn modele) que absorva mais do que uma frac;:ao diminuta da fors;a de trabalho que uma verdadeira revo lus;ao agrico la liberaria em Java? No essencial, co nfronrado com a opcrao de preservar o nfvel d e em prego o u aumentar a produs;ao por trabalhador, o cam pones de Java "prefere" (palavra absurdamente volunrarisra para usar nesse co n rexto) preservar o emprego, seja qual foro nfvel d e bem-esrar. Na verdade, ele fez essa "escolha" em p raticam en re todos os mementos crfticos dos u ltimos cern anos pelo menos. E dificil saber o que m ais ele poderia ter feito nessas circunsrancias ou o que mais pode fazer agora. A situas;ao, sabidamente, nao e tao preta como sugere esse quadro. Simplifico a bern da argumenras;ao e da enfase. Ha algumas coisas (a melhoria do nf .. vel educacional, o despertar das aspiras;6es populares, as novas sem en rcs) !\ colocar no ourro prato da balanc;:a, mas nao se rrata de uma situac;:ao alentadora. Ha uma Intima ligac;:ao entre a tecnologia absorvenre de mao-de-obra eo inrricado sistem a social das aldeias. E nrrelas;am-se perfeitmenre os processes de parcelizac;ao da terra, de colheiras multiplas e de arrendamento d e m eeiros, o que rorna muito mais diffcil reverter qualquer urn deles. Ha uma enfase crescenre nas culturas de subsistencia, como consequence declfnio da cria<;:ao animal e da lavoura mista. Para onde guer que nos viremos, as arterias estao obstrufdas. A siruac;ao marroguina mosrra, aprimeira vista, urn quadro bern d iferente, mas nao muito m ais brilhante, se exam inado de perto. Em bora a po pulac;:ao cres<;:a com rapidez alarmante, a simples massa humana ainda nao eo problema es magador que e na Indonesia. Em vez do modele d e explorac;:ao com uso intensive d e m ao-de-obra, mas alra mente produtivo, ha uma divisao entre fazendeiros co m propriedad es modernas de larga escala (muitas vezes, de larguissima 2 escala, com 10 mil km ou m ais) e lavradores d e pequeninas propriedades tra2 dicionais com rnenos de 20km • Aquelas sao altamente mecan izadas e, na maioria, bastante produrivas. As o urras nao apenas nao sao mecanizadas, com o o nfvel de sua tecnologia tradicional e muito baixo, ao contririo do que oco rre em Java. Como se rrata de terras marginais num cenario ecol6gico que e no mf-

a

Yi

I \ I f('lll,IIH<.'OIC uif(cil (nOV:l.mcntC em COOCraSte COm J ava), elas SaO partillt'll ll' improclutivas. Urn resume esradsrico, mesmo aproximarivo, .1 .1 \IIU:H1 5o com suflciente brutalidade: cerca de 0,5% da populac;:ao ruCill to1110 de 5 mil g randes fazendeiros- cultivava (em 1965) cerca de tl • ~ lt'll.ls do pals, co ntribuindo com aproximadamente 15% do total da '\·'" .1grkola e sendo responsavel por mais ou menos 60% da receita de .a, .ln agricola (30% do total das exportac;:6es). 1\ lltl .,gcm, portanto, e clara e classica. E tam bern o eo dilema que aprel'nl 11111 lado, a manurenc;:ao de fazendeiros ricos com culrivos de larga • .111 lado de pequcnos agricultores empobrecidos nao rem probabilidade, lal.11 em su:1 injustic;:a social, de durar muito no mundo p6s-colonial, e de 1~ tll iiH!ey.ou a se alterar. Por outro lado, o desaparecimento desses fazendei "'·' , ubslituis;ao por pequenos cam poneses ameac;:a, pelo menos inicial,. t.dvcz por mu ito tempo, uma queda da produs;ao agricola e da receira diVI~.I\ 1 0 l ]UC urn pals a beira d e uma g rave crise demografica e assolado peU•Itlll1Ci ros problemas da balan<;:a de pagamentos nao pode encarar com 111hd.tdc. !\r, 111 111 1.1situac;:ao como a Indonesia, a primeira reac;:ao e pensar em indus1 a~ .111, em uma situas;ao desse tipo pensa-se em reforma agr:iria. Contudo, rrltlllll;l agraria pode eli minar os latifilndios, nao pode por si s6 rransforl 1111poncses pobres rradi cio nais em competentcs fazendeiros modernos. Y rd.ulc, uma vez que ela tende, dadas as press6es populates, a gerar urn lollll'Xtcnsivo e a co nseque nce descapitaliza<f:io das grandes fazendas, rra,1, IIIII p3SSO fUJTIO a o pc;:ao indonesia por niveis mais altos de emprego Ill d r u imenro da racionaliza<;:ao eco nomica. Esse tipo de "ops;ao" e, ape1111111\ os seus atrativos de bem-estar, extrem amente dubio, consideran11111 IIICiO ffsico em que SaO necessarias tecnicas avanc;:adas nao apenas vu .u .1 ~1ucda da produc;:ao, mas tam bern para evi tar uma progressiva de~~~ 111 do meio ambience a urn nfvel irreverslvel, para todos os efeiros. M ,, II \l'll inverse tambem edubio: a preserva<f:io de urn enclave de fazenpr "'twros (ou, como hoje acontece cada vez rna is, de fazendas estarais al111• IIH'~.mizadas, admin istradas por uma elite) no meio de uma massa Ill• dt· pro lctarios rurais empobrecidos. Na Indonesia, os marxistas tivellluh• dilkuldade de idenrificar seus famosos inimigos declasse para lantlol~ t'll'\ a culpa pela pobreza do campesinat o - os kulaks sao muito • ~ 1.1, no Marrocos seus argumentos sao mais do que superficial mente \ I A \itu:lc;:ao marroquina e revolucionaria 0 bastante. 0 unico proble1" ' ddkil ver como a revo luc;:ao poderia levar a ourra coisa senao a nfveis II 1 d,, 11"\l.Cntes e urn comprometimento geral das possibilidades futuras llu• ok .tlguns ganhos de curtfssimo prazo, bastante marginais para uma I


1(,

pcqucna parcela da populac;ao rural acual. A previsao, reconhecem os, e extremamente diffcil, masse 60% d a populac;ao rural, como se calculou, nao possu2 em re rras, e se os grandes fazendeiros decem cerca de 8 mil km , entao a 2 red isrribuic;ao de suas propriedades em !ores, digam os, d e 40km reduzi ria a camada d os despossufdos em cerca de 3% - lndice que corresponde a taxa anual de crescimento dem ografico. Tambem ala situacyao nao e, com efeiro , nem tao desolado ra nem tao simples. U m a discussao ma.is equilibrada teria q ue mencio nar OS seri os esforcyos que vern sendo feitos para elevar 0 nfvel tecno l6gico d a agriculrura camponesa, o gra u rela ti vamente alto de realismo d as polfticas governam er.ta.is marroquinas e assim por diante. Mas o que prerendo ressaltar e mera mcnte que, tanto no Marrocos quanto na Indonesia, a tarefa de alinhar a necessidade de manter e aum enta r a producyao agricola com a necessidade de manter e aumentar o emprego agricola e extraordinariamente difk il. O s objetivos gemeos da verdadeira refo rma agraria - progresso tecnol6gico e maior bem-estar social conspira m fortemente urn contra o outro, e quanto mais fund o mergulhamos no pro blema, mais evidence se torna esse faro d esagradavel. M as meu intuito aqui n ao e pregar a desesperancya, uma desesperanc;a que na verdade nao sinto, mas sugerir algo da situac;ao mo ral incorporada no tipo de trabalho que eu fac;o. 0 desequilfbrio entre a capacidad e d e descobrir gual e o problema, o u pelo menos uma pisra dele, e a capacidade de descobrir o que deve ser feito para alivia-lo nao se limita, na pesguisa sobre os paises novos, aquesrao d a reform a agraria: ele e geral. Deparamo-nos com o choque na educac;ao entre a necessidad e de manter " padroes" e a de a mpliar oportunidades; na polftica, entre a necessidade de uma liderancya racional com organizacyao eficiente e a de envo lver as massas no processo governamenral e proteger a liberdade individual; na religiao , entre a necessidade de evirar a exaustao espiritual e a de evirar a cristalizac;ao de a tirudes obsoletas. E assim por dian te. Como o problem a de co mbinar produc;ao e e mprego, esses dilemas nao aferam unicamente os novos palses, mas, em geral , sao m ais urgenres, mais graves e menos traraveis neles. Para mante r a metafo ra medica, o tipo de atmosfera moral em que se acha algue m profissio nalmen te compro metido com a reflexao sobre os novos pafses n ao me parece, em mui tos casos, inteiramente d iversa d a d o o ncologista q ue despe nde a ma.ior parte de seus esforc;os em ex por delicadamente patologias graves que nao esta preparado pa ra combater.

T udo isso, no entanto, enconrra-se num nfvel impessoal, mera mente profissional; e 0 enrrentamos, de m odo mais o u menos adeq uado, in vocando 0 costumei ro esto icism o vocacional. Por m ais inefl ciente que seja uma abordagem

(} /lfl/lii//U/1/rlt t>lllllillrl 11/lllot/

.17

11 dm p ro blemas sociais, cia c mais cfl caz d o que as alternati vas dispon mc •c llld ;lt do jardi m , dcbater-sc no escuro o u acender vel as para Nos·•· 1\1.1\ ld o ut ra peculiaridade moral d a experiencia d o trabalho de 11115 IIIIVOS pafscS que C bern mais d iffcij d e neurraJizar po rque, sendo m11 1 ~ ln-"oal, toea-nos bem mais de perto. Ediffcil fo rmula-la com clalllll' lll nao a experimenrou o u are, alias, pa ra si mesmo. Ten tarei 11 l,al'll\ tcrmos d a noc;ao d e um ripo especial de iro nia, a " ironia antro-

..

hu ni.a ac:po usa, cclaro, numa percepc;ao d e como a realidade zo m ba das mra.IIJH'IllC human as do real, reduzindo atitudes grandiosas e grandes ' .au rid fculo. Suas fo rmas corriqueiras sao bern conhecidas. Na iroil.a, u csvaziamento resulta d o con traste entre o gue o person agem &.:1111\CI scndo asiruacyao e o queo publico sabe gue elae; na ironia hist6hu..c,nsistcncia entre as inrenc;6es de personagens soberanas e os resulra, d.as ac;oes que decorrem d essas intencyoes. A ironia lireraria repo usa n•pll<leyao momenra nea do auro r com o leiro r contra a estupidez e a 1 du mundo co tidiano; a iro nia socdtica o u pedag6gica repousa na ,an intclectual para parodiar a pretensao inrelectual. u 11po d e iro nia que surge no rrabalho de campo a ntropo l6gico, em llll'llOS dlcaz para romper a ilusao, nao se parece muito com nenhum Nuo l; dram:hico, porque rem do is gumes: o aro r ve o publico com a lrllll\JI.II Cncia com que este ve 0 ator. N ao e hist6 rico, porque nao tem Ill' n.an c1ue o produto das ac;6es do indivfdu o, po r uma l6gica interna lrumcntos, resulte no inverso do que elas pretendiam (embora isso m o11a algumas vezes), mas e que as cxpcctari vas sociais d o sujeiro c 1•m·s do que os ourros farao sao constantemente contrariadas, indelllCillc d e seu comportamento, pelo gue cles fizeram d e fa ro. N ao e linAu ra pntas porque as partes nao estao unidas, mas po rque pertencem a lllCII .II Sdiferenres. E nao e socdtico po rque 0 que se parodia nao e a llth·ll't lllal, mas a mera comunicac;ao do pensa mento - e nao pela au rntdcctual, mas por um esforc;o exrremamenre serio, q uase seve"" ndrrncnto. llilh.aiiiC) de campo, a mani festa<;ao de equfvocos serios sabre 0 que e a 'I"•'"' w mpre com ecya do lado d o inrorman te, em bo ra - infclizmen te Ulll \\Iim.t do p esquisador - niio rermine af. Os pri meiros indfciosdarn' d~.· ajuda m aterial e servicyos pessoais - sao bem faceis d e se li,.,, 1 cr11p rc constituam uma armadilha. N unca desaparecem e nunca d It IlLII 0 a ntrop6logo a rac il (e inu ril) o ferta de b ugigangas com o lal•t•ll'l<.:r relacy6es com os nativos, ou d e se livrar da culpa po r ser urn 111r c ~~~ rniseraveis. M as logo se to rnam ro tin a e, ap6s algum tempo, o


() /'rllll/11/f'//lrl fill/Ill t/111 /lltll"•t/

pcsquisado r acaba se resignando ao faro de ser vis to, are pelos an1 igos mais co nflaveis, nao s6 com o uma pessoa mas tam bern co mo fonte de renda. Urn dos be nefk ios psicol6gicos cola terais da pesquisa antropologica - pelo menos, acho que e urn beneficia - e que ela ensina ao sujeito 0 que e ser considerado urn otario e usado como urn objero, e a maneira d e supo rta r isso. Muito m ais diffcil, po rem, e lidar com outro confliro bern semelham e, entre minha maneira tipica de ver as coisas eo modo como a maioria de m eus info rmantes o faz. Mais d ifkil po rq ue nao d iz respeito apenas ao conteudo imed ia to da rela~ao entre nos, m as a seu sentido mais amplo, a suas nuan~as simb6licas. Para todos O S info rma ntes, a exce~ao d os completame nte tradicionais (cada vez mais raros), represenro uma exemp li fica~ao , uma vi trine am b ulante das opo rtunidades que eles logo te rao na vida, ou, se nao eles, com cerreza seus filhos. M as, como indicam minhas observa~6es anteriores sobre problem as e sol u~6es, tenho muiro menos cerreza disso do que eles, e o resultado, do ponto de vista das minhas rea~6es, e 0 que chama d e " tocante problema d a fe". Nao e nada co modo viver entre pessoas que de repente se sentem herdeiras de vastas possibilidad es, as quais cerramente tern todo o direito, mas que, co m roda a pro babilidade, n ao terao. T ampouco o faro d e, aos o lhos delas, voce ja rer recebido essa h e ra n~a (como alias recebeu, embora nao na medida em que elas costuma imaginar) ali via a situa~o. Qucr queira, quer n ao, voce e colocado numa posi<;ao moral urn ta nto pa recida com a d o b urgues q ue aconselha os pobres a serem pacientes, pois R oma nao foi construida num dia. N a verdade, esse t ipo de ho mil ia nao e proferido, ou, pelo m enos, nao o e mais de u ma vez. Mas tal postura e inerente a situayaO, independenrem ente do q ue fa<;a, pense, sinta OU deseje 0 pesquisad o r, em virrude do faro de que 0 antropologo e urn m embra, ainda que marginal, das classes mais privilegiadas do mundo; e no entanro, a nao ser que ele (ou ela) seja incrivelm enre ingenuo(a) ou se iluda d esvairad am ente (ou am bas as co isas, como as vezes acontece), sera difk il acreditar que o in fo rmante o u os filh os do in fo rmante estejam a ponro de se ju ntar a el e(a) como integra ntes dessa elite transcultural. E essa assimetria radical d e o pini6es sobre as verdadeiras chances do informante (e, alem dele, do seu pals) , especialmentesc combi nada com uma concordan cia sabre o que elas deveriam ser, que da ao rrabalho de campo esse colo rido moral mu ito especial que considero iro n ico. E iro nico, antes de tudo, porque as instirui<;6es sociais das quais o antropologo esupostam ente urn prod u ro tao exemplar, e que, portanto, rem e m alta co nra, nao parecem ser para seus info rmantes a via regia para 0 bem -estar que fo ram para ele: 0 antro po logo e urn m ostruario de bens que, apesar da semel han~a superficial co m p rodu tos locais, nao esrao efetivamente disponfveis no me rcado interno . Isso se evidencia no caso da educa~ao , onde o tocante proble-

.I'J

f~ . 11 ~.~ , ccc rl.l sua lot ma ma is aguJ a. A ideia segundo a q ual as escolas sa? nlli ~i ct \ que po r si s6s tornarao as oporrunidades de vida de u ma cn-

h11 ,

tn.arrnquina ou indo nesia idenricas as d e uma americana, francesa ou_hol~ ~~· m· ral izada. Para uma pequena mino ria que ja go~a ~e post~o Ml·ul.l, ISSO pode ser e e verdade. Porem, para a grande m a_rona, a _es~ola •Jll' l\ , 1 ~ translormar cri a n~as totalmente ignorantes em cnan<;a~ ltge_rra"""' .•d.ts. 0 que, po r si, nao e uma proeza insignificance. A r:ip tda_dtfu"dtrl .tc;iio popular e urn dos fenomenos mais esrimulan tes do cenano em d~,. 1 11 rmado r dos novas paises e, se requer ilus6es para se susrenrar, entao " que acalen rar essas ilus6es. N o ema nto, para as pessoas c?m i?eias 1'' •111 dimas, ideias esrimuladas pelo o rimismo ma niaco do nactonaltsmo ,l·w· ti po de progresso m arginal e bem diverso d o que ela~ rem em m en. .. , wnfusas esperan yas nas possibilidades de progresso gtram em rorno tnplt'f.Vl publico, da posse d e m ~quinas e do mo rar em _cidades grand,es; _e [ 111,.111 ao pais como um todo, g1ram em rorno d o planeJamento economttlo voto popular e d a diplomacia inte rmed iaria en tre for<;as polfricas op?s1 \ol\ lllSlitui<;6es e insrrumen tos rem seu Iugar em q ualqucr tentan va lc 11 ,, d e rcco nsrru~o social; sem eles, alias, e muiro provavel que tal reru., .u, scja impossfvel. M as nao sao OS operadores de mi lagres que tern a ,ll· "''. A chamada revolu<;ao das expectativas crescenres traz uma bela de culminar numa revolu<;ao de crescentes d esapontamentos, faro u 1111 trop6logo, que afinal estar:l. voltando para sua casa confortavel em 0 11 111 cnos urn ano, pod e se perm itir ver co m m ui to mais clareza d o que fnfotlll ,llllCS extrem amente engajados. N o maximo, eles so podem permidl· lonna incomoda e semiconscienre, suspeitar disso. I ~.1 w nsayao de que e nxergamos nosso relacio namento co m os informan1111 1una visao clara seria mais reconfo rtan te, po rem , nao fosse por out ro hn d.t .silUa<;ao q ue coloca esse suposto faro em seria duvida. Pois, se o an~~~~~ ~ de faro essencialmente irrelevante pa ra o destino dos in forman res e , pur interesses q ue, salvo da fo rma mais indirera, nao tem nada aver 11 d 1 · l ~·s, com base em que rem ele o d ireito de esperar que essas pessoas o ,. n ,1judem ? N esse tipo de t rabalho atuamos em meio a pessoas neces~ qw· cspcram melhorias radicais em suas c?ndic;:6es de vi~a: melhori~ flln p.u cccm propriamente imine ntes; alem d1sso, so mas os u p rcos ~enfet­ l 1p.11cs d e rrazer exa ramente as m elhorias que eles buscam, obn~ados , 111 ,1 pcdir a sua caridad e e, o que e q uase pior, obtendo-a. Esta devena ser pc- rrt~n cia porradora de modes ria e, porranto, de eleva<;ao;. no ent~nto, _o d I \'('/('S, e simplesm ente desorientado ra. Todas as conhecld as racwnalt' 1"" • ~·m a ver com ciencia, p rogresso, filantropia, esclarecimento e ~ u ra 1 ~,111 .dLrufsta soam falsas, e ficamos eticamente desarmados para ltdar


() f'rllll/1/trllltl tll/1111 11111 11111/,t/

com um relacionamenro humano que rem de ser rcpetidamente justificado da maneira mais imediara. Moralmenre, volramos ao nfvel do escambo; a mocda do pesquisador e inegociavel, rodos OS seus crediros se dissolveram. A unica coisa que real mente temos a oferecer para evitar a mendicancia (ou -nao desprezando a abordagem da troca de bugigangas- o suborno) somas nos mesmos: Eis uma ideia alarmante; e a reas;lio inicial a ela eo surgimenro de urn deseJO ardente de nos tornarmos pessoalmenre valiosos para os informanresou seja, amigos-, de modo a manter o auro-respeiro. A nos;ao de termos nos safdo m~ravilhosame~te bern nisso e a face da moeda da fe rocante volrada para o pesqUisador: acred1ramos na comunhao intercultural (chamamos a isso de "cmparia") como nossos objetos de pesquisa acreditam no amanha. Nao adm ira que Lan tos antrop6logos deixem o campo vendo lagrimas nos olhos dos informanres, as quais, tenho absolura certeza, nao esrao de faro 1:1. Nao que~o q.ue ~1e e~rendam mal. Assim como nao acho impossfvel urn progresso soc1al s1gmficanvo nos novas pafses, tam bern nao acho impossfvel o autentico conraro humano arraves das barreiras culrurais. Se nao rivesse visro um pouco desse progresso e experimcntado, vez por outra, urn pouco desse con taro, meu trabalho teria sido insuportavel. 0 que esrou assinalando, num e noutro cas~, e uma enorme pressao tanto sabre o pesquisador quanto so bre seus pesqUisados para encararem essas meras como pr6ximas, quando, na verdade, sao disrantes; como cerras, quando meramenre desejadas; e como alcans;adas, quando, no maximo, houve uma aproximas;ao delas. Essa pressao deriva ~a a~simctria m?ral inerente a situas;ao do trabalho de campo. Nao e, porranto, 1nte1~amenrc ev1tavel, mas faz parte do car:iter eticamente ambiguo da situas;ao em s1. D e urn modo que nao e absolurarnenre forruito, a relas:ao entre urn ant~op61~go e urn informante repousa sabre urn con junto de fics;oes parciais que sao ma1s ou menos percebidas. Enquanro clas se rnanrern apenas como fi cs:6es parciais (porranro, verdad es parciais) e apenas mais ou menos percebidas (portanro, meio obscuras), a rclas;ao progride bem. 0 anrrop6logo ap6ia-se no valor cienrlfico dos dados colerados e ralvez nurn cerro alfvio pela simples descoberta d e que a rarefa nao e, afinal, do ~odo sislfica. Quanto ao informame, seu interesse e mantido po r roda urn a sen e de ganhos secundarios: a sensas;ao de serum colaborador essenc ia! numa ernpreitada importance, ainda que mal compreendida; o orgulho por sua propria culrura ou por seu proprio conhecimento dela; a chance de expressar ideias e opini6es pessoais (e passar adianre boaros do varejo) a urna pessoa neurra, de fora; e tambern , de novo, algum beneficia material direro ou ind irero de um tipo ou de ourro. E assim por dianre-as reco mpensas sao difcre~1tes praricamenre para cada informanre. Mas, sc e rompido o acordo implfclto de eles se encararem muruamenre, a despeiro de serios indfcios do

•11

u1mn mcmbros do mesmo universo cultural, nenhum desses incenrnuis lomuns capaz de manter a continuidade da relas;lio por muiro I· l.a 'l' cxtingue aos poucos numa atmosfera de inurilidade, rediae demen to gcral, ou, de forma bern me nos comum, desmorona subiramen~clltllnenro muruo de que se foi enganado, usado e rejei rado. Quando ll'LC, o anrrop6logo experimema uma perda da empatia: o namoro foi . l) informanre ve a coisa como uma revelas;ao de ma-fe: senre-se hu. F mais uma vez eles se encerram em seus mundos separados, inrerna~.;m·'os c incomunid.veis. Pcrmitam-rne urn exernplo. Quando eu esrava em Java, urn de m eus mein lorman res era urn jovem escriturario de trinra e poucos anos, que rilhR~ .t~piras;oes, apesar de rer nascido e sempre vivido na cidadezinha 1a que eu esrudava: ele queria ser escriror. Na verdade, era urn escriur.tmc minha estadia, escreveu e rnonrou uma peya teatral baseada no relliVI'ncio de uma irma, na qual , em parte por verossimilhanya mas , por vinganya (o in feliz ex-marido ainda vi via na aldeia), a mos;a fazia dd,, mesma. A tram a equivalia a uma especie de Casa de bonecas javanelliOCjJ. educada (ela cursara o segundo ano ginasial) quer fugir as obrigadn p.tpcl tradicional de esposa, mas o marido nao deixa e cia o abandona ()lll", l-omo a arte e urn aperfeis;oamento da vida, em vez disso, na pes;a, ela . Alcm dessa obra curiosa, ele escreveu muiros conros (inediros) e pcs;as cnu·naJas), a maioria dos quais exrrafa sua linha geral das hisr6rias rradi11 rm que ele, apesar de todo o seu modernismo de fachada, rinha muiro l' era muiro versado. Seu rrabalho comigo rinha aver sobrerudo com nlolll·rial folcl6rico- miros, lendas, formulas encanrat6rias etc.- e ele um hom informanre: esfors;ado, inrcligenre, preciso, enrusiasmado. Demuito bern ate urn esrranho incidenre envolvendo minha maquina de , ap6s o qual ele passou a se recusar are a me cumprimenrar na rua, u m;ais a trabalhar comigo. lllli.ttcmpo que ele pegava a maquina empresrada de vez em quando para 1gr.tf.u seus escriros catrwdo milbo, preparando uma especie de edis;lio ma11.1. (~om o tempo, passou a pega-la mais e mais, are que ficava com ela a r p.ntc do tempo, o que era urn inconveniente para mim, ja que eu nao rimatt.t. Decidi, enrao, renrar red uzir os empresrimos a prazos mais madera(, no Jia, quando ele mandou o irmao menor, como de costume, pegar .ad.t a maquina por uma tarde, enviei-lhe urn bilhere dizendo que Ia. nus precisava dela para urn rrabalho meu. Foi a primeira vez que reo t·mprestimo. Em dez minuros o irmaozinho esrava de volta com outro I<, que, scm mencionar a maquina ou minha recusa, di zia apenas que udorm:mre, devido a um compromisso inadiavel, nao poderia (rambem

c


.:.

pcla p rimcira vcz) vir aocnconrro marcad ocomigo pa rao diasegu inte. Tent nria, porem , sc possfvel, hon rar o e nconrro subseq uence, tres dias depois. Incerprcte i isso, com muiro acerco, com o u ma paga na mesma moed a e, temeroso como sempre de urn a perda do vinculo, fiz uma coisa esrupida, que, no roca nre ao n osso rclacionam enro, fo i urn erro fatal. Em vez d e simplesmente deixar o incidence passar, respo ndi ao bilhere lamen tando que ele nao pudesse vir ao enco nrro marcado e dizendo que esperava nao te-lo o fendido, e que ele pode ria dispo r d a maquina , afi nal, p orq uc eu iria aos arrozais. Tres horas depois, volro u o irmaozi nho, com a m aquina e urn lo ngufssimo b ilhere (darilografado) cuja essen cia era: ( 1) e clare q u e ele nao se senrira ofendido, po is, afinal, a rnaquina era minha; (2) ele lam e nrava muito, mas 0 faro e que n ao apenas nao pod eria co mparecer ao nosso proximo encontro, como tam bern a preme ncia de seu rrabal ho literario im possibilitaria po r complero, infelizmenre, que con rinuasse mos a nos ver. Fiz alg uns debeis esfo rc;:os para consertar a siruas;aoainda mais d ebeis pela sensac;:ao de me haver po rtado como uma b esta - , m as era tarde demais. E le volrou a copiar seus escritos a mao e eu rive d e enconrrar urn novo informanre com q uem trabalhar sabre remas m fticos- um funciona rio d e hospital que, p or praricar um pouco de medicina amadora com os vizinhos, esrava mais in reressad o em m eu esroque de remedies do q ue na maquina d e escrever. Mera cavilac;:ao, ridicul am ente exagerada? Comico mal-enre ndido agravado po r urn excesso no rmal de melind res e uma esrupida falra de rato? Com cerreza. M as, po r que tam anha rempesrad e em copo d 'agua? Por que rivem os ranra dificuldade com uma coisa rao simples quanro o empresrimo de um a rnaqui na de escrever? Po rque, e clare, n ao se rrarava de uma maquina d e escrever sen do e mp resrada- ou, pelo me nos, nao so mente da maquina - , m as d e urn conjun ro de reivind icac;:6es e concess6es apenas obscuramenre reconhecidas. Ao ro mar empresrad a a maquina, m eu in formante afirmava raciramenre sua dem anda de ser levado a serio com o urn inteleclllal, urn "escriro r" - isro e, urn igual; ao empresra-la, eu racirame n re concordava com essa d ema nda, in re rprera ndo raciramente nosso relacio namenro como de am izade pessoal - isro e, eu me ad mi ria no d rculo in rern o da sua comunidade moral. Ao ro ma-la empresrada, ele aceirava, rambem raciram enre, essa inrerpretac;:ao. Ambos sabfamos, renho cerreza, que csses acordos so podiam ser parciais: nao eramos realmenre colegas nem camaradas. Mas, enqua nro nosso relacionamenro persisriu, cles existiram pelo menos pa rcialmenre, fo ram de algum modo reais, o q ue, d ados os componenrcs d a siruac;:ao- ele esrava tao Ionge de serum M ilto n desconhec ido quan ro eu de ser javanes - , fo i uma fas;anha. Porem , quando recusei a u rilizac;:ao do slmbolo de nosso pacro raciro de encarar, por uma especie de suspe nsao m utua d a descrenc;:a, nossos di ferenres mundos culturais como um

() J'r ll<o/111 (1/ltl • rllllll,/11) llllllod

- Ievava seu " rra b aII10 " tao - as e'"I" j1,1, scmprc p rcsc ntc, de que cu nao

11 1nc 11 , i 1ro mpcu na consciencia. Q uando ele, po r sua vez, r~cu­ c.; 11111p.tt cLcr a nosso enconrro seguinre, irro mpeu em mmha llll'll mcdo, tambcm sempre presence, de que ele me visse apenas 0 e~ 11 • 111 ~l'II O inconseqtienre, a quem s6 esrava ligado po r consideramall upon unistas. Com sua verdadeira anaro mia visivelmen re exposra, nwntn .tc:abo u em amargura e d eceps;1io . j 1111 11 ,111 c. hcga a ser t!pico nos relacionamenros en tre anrrop61ogos e IC'~: ,. , 11 gcral. c posslvel manter a sensac;:ao d e que eles sao membros, IWUC' lt'lnpw .triamentc, de modo inco~p!eto ~ inseguro, de um a .s6 comu1 .tl , mesmo face a realidades soctals m ats amp las, q ue p ress10 nam IC'tnpu wdo para nega-la. E essa ficc;:ao- ficc;:ao, nao falsi~ade - que L(JI ,II,.IO d a pesquisa antropo l6gica d e campo bem-S~~edtda; e e po r r compll•tamenre convincenre para nenhum d os parttctpanrcs que ela 1\tlllla.tlttt:nrc iro nica essa pesquisa, considerada como fo rma de conl;nnhn cr a te nsao mo ral e a a mbiguidade erica impllciras no enconrro _ .... ,...._., mfurmante, e ainda assim ser capaz d e d issipa-la arraves das pr6l' .11 itutles, eo que tal enconrro exige de amba~ as pa rtes para ser ~u t'lt·t1 v.uncnte ocorrer. E dcscobrir isso e descobnr tam bem algo multO d ,. 11 .-1o inceiram enre clara sobre a natureza d a sinceridade e da in11 11 d.l amenricidade e da hipocrisia, da ho nesridade e da auro- ilusao. " ' ' d t'l ollnpo e uma ex periencia educari va compl era. 0 di ffcil e decidir ful ol pt l· ndido. , ~ l l.tro, muiras ourras dimens6es ericas do rrabalho de campo alem ,1 1 ~, Ill id.ts aqui: o desequillbrio entre a capacidad e de revelar problel'utln de resolve-los, poi um !ado, et/ineren.re ren~ao m oral e~tre pesr uhjt·to, por o urro. N em sao essas duas dt mens~es n~cess~ n amente tn11 fund .ts, com o talvez indique o faro d e eu rer pod1do d1sc~n-las. Mas " w • rcvclac;:ao d e que elas- e ourras semelha nres- extstem pode 11 1 1 p.1t.t d issipar algumas ilus6es comuns s.o bre o ~ue vem a as cien111 1 u mo condura. Em especial, poder-se-1a quesn o nar a nos;ao generatpu· .1 pcsquisa social ciendfica consisre em u ma renrariva d e descobrir lldel\ lOrn que manipula r pessoas de papelao. Nao se rrara apenas de hm n.lll cXistam e as pessoas nao sejam de papelao; Cque todo 0 em preIll dn tllla-se nao a impossfvel ra refa d e con rro la r a hisroria, mas atall I~ ' IIII XUlCSCa de a mpliar 0 papel nela desempenhado pela razao. . • illll'""lhilidade d e ver isso- nao apenas po r parte dos que sao hosns j 1\ 11u I.IIS po r princfpio (qual princfpio , e Outra q uestao), maS por parte

s:r


() /'flllll/1/1'1/(11 (1111111 o/111 111111·"

de mui LOs de seus mais ardo rosos defensores- que rem to rnado scm sentido g:a.nde pa rte da discussao sabre seu status m oral. 0 faro e q ue as ciencias so c rrus ~~o sao um araque sinisrro a nossa cultura nem urn meio d e resgara-la em definltlvo - sao meramenre parte desra cultura. D o ponto de vista d a fil osofln moral , a que~:ao cen~ra! a levan tar sabre as ciencias sociais nao e a que os prctensos gua:draes plaronr cos_d e ambos OS Iadas semp re fo rmulam : Sera que vao nos d estrurr a u nos salva r? E q uase cerro q ue nao farao uma coisa nem outra. A questao Central a formul ar e; 0 que elas nos dizem sabre OS valo res COm que n6s - rod os n6s- d e faro vivemos? 0 necessaria e colocar as ciencias sociais nao no banco d os reus, que e o nde d eve estar a nossa cultura, mas no das resremunhas. . Se, quando isso for feito, elas testemunharao pela d efesa o u promoto ria, e, cre10, uma quesrao em aberro. Mas e claro que seu resremunho sed , como 0 de qualq_uer te~remu~ha, m ais pertinence a certos assunros do que a outros. E m especral, talmves tlgac;ao deve esclarecer que ripo de comporramenro social e 0 pensam enro ciendfico sabre os ass untos huma nos, e deve faze-lo de urn modo que nao 0 pode m fazer as analises fil os6fi cas de quest6es ericas, a 16gica d a deci~ao_ pesso~l o u as fontes da auroridade moral, apesar d e codas serem esforc;os urers ~m sr m~:ma_s. A~e meu exar~e passageir~ de alguns fragmentos da minha pr6pna expen encta da algumas prstas nessa dtrec;ao - ao expor o que significam "distancia mento", "relati vismo", " merodo cientifico" e coisas semelh anr~s, nao co~o.senhas e lemas mas como aros concreros de pessoas concretas em drspuras socrats espedficas. Discuri-los como tais, como aspectos de um oficio, nao pora fim adisputa, m as pode ajudar a ro rna-la proveitosa. A natureza do disrancia me nro cientffico- do desprendimento, se ainda p~demos usar esse termo - e um ba m exemplo. 0 estere6tipo popular d o tecnt~o de labo rar6rio de guarda-p6 branco, tao asseptico nos aferos quanta nos traJes, e apenas uma expressao da ideia geral d e que esse distanciamento consisre numa ausencia neur6 tica de aferividad e pasta em pr:hica. Como 0 eunuco no harem , 0 cienrista e um empregado com urn defeito uril; e, como 0 eunuco, e correspo ndenrementc perigoso, em vista de uma insensibilidade para os assuntos subcerebrais (em geral diros "humanos"). Nao sei muira coisa s~bre o ~ue se_ p assa nos laborarorios, mas no rra balho d e campo em anrropologta, 0 dtstanc ramento nao e um dom natural nem um ralenro fa bricad o, m as uma conquista pa rciallaboriosamenre alca nyad a e precariamenre man tida. 0 pouco desprendimenro que se co nsegue aringir nao vern da inexistencia de emoc;6es, d e seu d esconhecimenro nos ou rros, rampo uco d o ensimesmame nto num vacuo mo ral. Provem de uma submissao pessoal a uma erica vocacio nal. Essa nao e, reconhec;o, uma descobe rra o riginal. 0 que se precisa explicar e pa r que ranra genre fica rao a fl ita em neg:i-la e insisre, ao contnhio, em que,

45

cstao trabalhando, OS cic n tistas sociais SaO absoluta men nao desprendidos, mas indiferentes. 111 :. , u fticas exrernas, ralvez os inreresses acade micos velad os ex pliquem dos casas, sendo o restante explicado pa r uma ignorancia cuidadosac prn nvada. M as quando os mesmos pro restos sao feitos pelos pr6prios 1~1.1 ' , oc.iais - "N ao do u conselhos, apenas apo nro a raiz do pro blema" 11lvc·/ ,cja preciso olhar urn pouco mais fundo para as dificuldades ine rentes llll'll~ .-· o d e uma erica cienrffica nao apenas na escrivaninha ou no estrad o rC:· ncias, m as no co rayao m esmo das siruac;6es sociais cotidianas, e para uld.adc de 's er ao mesmo tempo urn aror envolvido na situac;ao e um obH imparcial . A l.U;tctcrfstica mais marcante do trabalho d e campo a ntropol6gico como lllk l UlldUta e que ele nao permite qualquer SCpa rayaO significativa das esCII.: IIpac.io nal e exrra-ocupacional da vida. Ao conrrario, ele o briga a essa , I k vcmos enconrrar amigos entre os in fo rman res e informa ntes entre os lam; dcvcmos encarar as ideias, aritudes e valo res co mo o utros ta ntos faros ,,j, t' continuar a agir d e aco rdo com aqueles que d efinem os nossos comi" os pcssoais; d evemos ve ra sociedade como um objeto e experimenta-la \ lljt•ito. Tudo o que diz.emos, rudo o que faze mos e ate o simples cen:irio ti·m ao mesmo tempo que fo rmar a subsrancia de nossa vida pessoal e serde ~r.ao para nosso moinho analitico. No seu ambiente, o an tro p6logo vai l.uncnre ao escrit6 rio para exercer urn ofkio, como todo mundo. Em pu. de tern que aprender a vive r e pensar ao mesmo tempo . C omo sugeri , esse processo de aprendizagcm so pode ir are cerro po nro, no n;ts melhores condic;6es, que d e qualquer fo rma nunca prevalecem. 0 .......... .ogo Eermanece inevitavelmente m ais alheio d o que deseja e menos cedo ttue imagina. Mas o processo imp6e, dia ap6s dia, o esfo rc;o d a sua nw,.to, o esforsQ_de comb inar duas atitudes fundamentais em relayao a rea·• c n~da e a analitica- nu ma atitude unica. E a essa atitude, nao v l 1111 moral, que chamamos disranciamen ro ou desprendimenro. E, por que seja o grau d essas caracterfsricas alcanc;ado pelo pesquisador, ele provr m da adoyao de uma ideologia do tipo eu-sou- uma-camera, ou do 1r.IIIICnto sob camadas d e armadura metod ol6gica, mas d a simples renrati Je l.a/l'l , ncssa situayao equfvoca, o rrabalho ciendflco que se pretende fazer. u nao .acapacidade de o lhar pa ra as pessoas e acontecimentos (e pa ra si mesl.ttlll 11111 olhar ao mesmo tempo frio e inreressado e urn d os sinais m ais sed,· macuridade, seja no individuo, seja num povo, essa ex periencia de Ill' '·' tcm implicac;6es marais bern mais pro fund as e dive rsas para nossa hur .a do que as que sao em geral sugeridas. 111Cill l\ ClllJll:llllO

lnJt mu\

j~ co nsidcrac;6cs ma rais -


lh

0 compromisso profi ssion al de encarar os assun ros humaoos de fo rma analrrica nao se opoe ao compro misso pessoaJ de encani-los sob uma perspectiva mo ral especifica. A etica pro fissional repo usa na etica pessoal e d eJa exrrai sua fo rc;a; obrigamo-nos a e nxergar por uma convic<?o de que a cegueira - ou a ilusao - prejudica a virtude como prejudica as pessoas. 0 distanciamen to provem nao do desinteresse, mas d e urn ripo de interesse Aexfvel o bas tante para suporta r uma enorme tensao entre a reacrao moral e a observacrao cientifica, uma rensao que s6 faz a ume ntar a medida que a percepc;:ao mo ral se aprofunda e a compreensao cientffica avanc;:a. A fuga para o cientificismo ou, po r outro lado, para 0 subjeri vismo nao passa d e urn sinal de que a rensao nao pode ma.is ser supo rtada, de que os nervos nao agiientam e d e que se fez a op<?o de suprimir a propria humanidad e ou a propria racionalidade. Estas sao as parologias da ciencia, nao a sua no rma. Visco po r esse prisma, o famoso relarivismo de valor da antropologia nao eo pi rron ismo moral de que tan tas vezes foi acusado, mas uma expressao da confianc;a em que tentar ver o compo rtamento human o em termos das fo rc;as '1!!£ o an imam e urn elemento essencial para compreende-lo, e em que julgar sem com preender e uma ofensa amoral. Os valo res sao mesmo valores, e OS fatos, infelizmente, sao mesmo fatos. M as comprometer-se com o esrilo de pcnsamento chamado ciencias sociais e ten tar transcender a defasagem Jogica que OS separa atraves urn padrao de compo rtamento que, abarcando-os numa experiencia unitaria, ligue-os racionalm ente. A vocacrao para aplicar o "metoda cientffico" a investiga<?o dos assunros hurnanos e uma voca<?o para confrontar diretamente o di v6rcio entre a razao e o sentimento, diagnosricada com acerro co mo a doenc;:a do nosso tempo e a cuja cura John D ewey dedicou incondicionalmenre todo o rrabalho de sua vida, imperfeiro como qualquer o utro.

Anti anti-relativismo

h.i mclhor rarefa para urn estudioso do que desrruir urn medo. 0 med o ( II

qucro destruir e0 do relati vism a cultural. Nao a coisa en:' si, q~e penso

u 11 ~: 1 uc existir, como a T ransilvania, mas o pavo r dela, que Julgo lnfunda-

lnlundado po rque as conseqiiencias ma rais e inrelectuais que comumentc upnc d ecorrerem d o relarivismo - subjerivismo, niilismo, incoerencia, I'"·IVclismo, estupidez etica, cegueira estetica e assim po r diante - na ver11,10 d eco rrem dele, e porque as recompensas pro m etidas a quem escapa • s garras, relacionad as sobretudo com um conhecimento pasteurizado, 11 1 tl11sorias. l'.lra ser mais claro, nao quero defender 0 relarivismo, gri ro d e guerra do 1dl> c afinal uma palavra d esgastada, mas ataca r o anti-relati vismo, que me r • cstar em ampla ascensao e representar uma versao aerodinamica de um 1 11 rw .mtigo . 0 que quer que possa ser ou ter sido originalme.nte o relativismo Jt , 1(e nao h a urn s6 d os seus crfticos que o renha enrend1d o bern), ele ser1 111 1 ,1111almenre, sobretudo como urn especrro para nos afugentar d e cerros mo' d 1• pensar e nos encaminhar para o u rros. E, como os modos d e pensar de 111 1·slamos sendo afasrados me parecem mais convincenres do que aqueles p~t 1 . 1 11 s quais som os impelidos, alem d e esr~rem no c~rne da ~er~nc;a anrropo1( t-:" .1, cu gosraria de fazer algoa esse respen o. Exorc1zar d emo mos e uma pra1 1 .1 dcvemos aderir, alem de estuda-la. Mcu tfrulo no estilo atraves-do-espelho p rerende sugerir esse esforc;:o de lwt.tr a uma visao, em vez de d efender a visao a que ela afirma opo r-se. A anal1v, 1.1 que rive em mente ao escolhe-lo - uma analogia l6gica, como creio q~e " " 11 dcrao; e nao uma analogia subsrant iva- foi o que, no auge da guerra fn a (y111 i·s devem estar lembrados), era cham ad o d e "anti-anticomunismo". Aque1 •till' se o punham ferozmenre a obsessao- como a encaravamos- com o I' IIW>Vermelho eram assim d eno minados pelos que - como o encaravam 47


viam esse Perigo como o faro primordial da vida polrrica da epoca, com a insinua~o - absurdamenre incorrera, na vas ta maioria dos casas- de que, pela lei da dupla negativa, tfnhamos uma simpatia secreta pela Uniao Sovietica. Mais uma vez, pretendo usar essa analogia num senrido formal ; nao penso que os relativistas sejam como os comunisras, que os anti-relativistas sejam como os a nricomunistas e creio que ninguem (bern ... quase ninguem) esta se comportando como o senador M cCarthy. Poderiamos estabelecer urn paralelismo semelhanre com a conrroversia sabre o aborro. Aqueles de nos que nos opomos ao aumento das resrri~6es legais ao aborto nao som as, pelo que eu entendo, pr6-aborto, no senrido de o consid erar uma coisa maravilhosa e achar que, quanro maior o lndice d e abortos, maior sera o bem-estar social; somas "anri-anti -pr6-aborro" por razoes bem diferentes, que nao precise enumerar. Nesse conrexto, a dupla negativa simplesmente nao funciona da maneira usual - e nisso resid em seus atrari vos rer6ricos. Ela p ermite rejeitar alga sem que com isso nos comprometamos com aquila que este algo rejeira. E e exatamen te isso o que quero fazer com o anri-relativismo. Esta abordagcm tao carregada do assW1to, que se explica e se desculpa a med ida que avan~a, e necessaria porque, como norou o fi l6sofo e anrrop6logo John Ladd, " rodas as defini~6es co muns do ... relativismo sao fo rmuladas por advemhios do relativism o ... sao definic;:6es absoluristas".' (Ladd, cujo foco imediaro e o famoso livro de Edward W estermarck, fala especificamente do "relativismo etico", mas a questao e geral: sabre 0 " relativismo cognitive", penscm na c rfrica de Israel Scheffi er a Thomas Kuhn; sabre o "relativismo esteti co", na critica de Wayne Booth a Stanley Fish.) 2 E, co mo Ladd rambem afirma, o resultado disso e que o relarivismo, ou qualquer coisa que se parec;:a com ele segundo essas defini~oes hosris, e idenrificado como niilismo.3 Sugerir que talvez nao exisram fundamenros "s6lidos" para os julzos cognirivos, esteticos ou ma rais, ou, pelo m enos, que sao duvidosos aqueles que nos sao oferecid os, e ver-se acusado de descrer da existencia do mundo ffsico, de achar que as trivialidades sao tao boas quanta a poesia, de ver Hider apenas como um sujeiro de gostos pouco convencionais, ou ate, como me aco nteceu recentem enre, de ser acusado - com o perdao da palavra- de nao ter "nenhuma posi~ao politica".4 A ideia de que alguem que nao pensa como voce rem a visao inversa ou simplesmente nao rem nenhuma, seja qual for seu consolo para os que tem em que a realidade desaparec;:a se nao acreditarmos piamenre nela, nao produziu muita clareza na discussao anri-relarivista, mas apenas levou muiro mais genre a gastar muito mais tempo do que parece proveitoso descrevendo lo ngamenre aquila que niio defende. Tudo isso e relevance para a antropologia porque, naturalmenre, foi atraves da ideia de relarivismo, sumamente m al definida, que ela mais perrurbo u a

tu.tl gt' t.d. Dcsdc nossos prim6rdios, mesmo quando a teoria antrocvnl uctonisla, difusionista ou elementargedankenisch [de ideias bact,, tudo mcnos relarivista, a mensagem que fomos ridos como hindu .111 rcsto do mundo foi que, como as pessoas veem as coisas de dtlt•tt' lllc cas fazem de modo diverso no Alasca ou em Enrrecasreaux, n, ,,,·tn uo~sas pr6prias op ini6es e atitudes e nossa dererminac;:ao de faUirm p.utilh:i-las tern uma base muito prec:iria. T ambem isso e comunu•l \'lllcm liJo. Nao foi a reoria an tropol6gica com o tal que fez nosso ,lc 111\'l'\ti gac;:fio parecer um argumenro poderoso contra o absolurismo lirlllo, na moral e no julzo estetico, mas sim os dados antropol6gicos: u:111tos, vcsdgios arqueol6gicos e lexicos. A ideia de que foram Boas, 1' M,·lvi llc H erskovirs, com a ajuda europeia de Westermarck, que inllllo,,o campo com o virus relativista, e de que Kroeber, Kluckhohn e , ttllll .tjuda similar de Levi-Strauss, luraram para nos livrar dele, nao m.ti ' um mi to a confu ndi r rod a essa discussii.o. Afinal, Montaigne t till w tHius6es relativistas, ou de aparencia relarivista, deter ouvido falar ~tt.t! ll.l ' nao usavam calc;:as; nao precisou ler Pattems ofCufture. Mesmo 1 -~~., olllcmplando "certos indige nas d a rac;:a chamada calaciana", entre dtti.t sc que os homens comiam os pr6prios pais, H er6doro chegou, 11.1 dl· csperar, a vis6es semelhames. hll illta~ :lo relativista au, mais exatamente, a incl inac;:ao relativista a que ''"~'·' comumente induz os que lidam muiro com seus materiais, esni, In, t'lll cerro sentido, implicita no campo antropol6gico como tal, talvez tllll'IHC na antropologia cultural, m as tambem em boa parte da arqued,t llngUfstica amropol6gica e da ant ro po logia ffsica. N ao se pode ler •nllll• .l matrilinearidade nayar, o sacriffcio asteca, o verba hopi ou as u~ r,,., da transi~o dos ho minldeos sem com ec;:ar por considerar pelo .a pc"~ihilidade de que, para citar de novo Montaigne, "todo homem d r h.u h,uismo qualquer pratica que nao seja a sua ... po rq ue nii.o temos 1 11 ~ 1111 racional que nao o exemplo e a ideia das opi ni6es e costumes do 111 !Jilt' vi vemos" . ~ E improvavel que essa ideia, sejam quais forem seus 1111 ~ ,. por mais delicadamente que se expresse, venha a se exringuir a meU 1 .1111 ropologia desapares:a. ~ul t c·"c fato, p rogressivamente constatado como tal amedida que nossa lv.t .t v.tn ~ou e nossas descobertas se tornaran1 mais circunstanciadas, que 111, de· .tlOrdo com suas sensibilidades, tanto os relati visras quanta os an1\'1~1.1\. A percepc;:iio de que as informac;:6es de outras regioes sabre o cal.nll.tsma, a destruic;:ao ritual d a propriedade, a fela~o iniciatica, a J(',tl l· 0 sexo despreocupado na adolescencia davam amente uma inll.lllll .ll para ver as coisas sob um prisma do ripo "ourras bestas, ourros


Anti t/1111 rrltltll't.. llln

Not'tl lu J .robrf '' tflllmpologi•t

habicos" levou a discussoes, alrernadamente vio lenras, desesperadas e efusivas, dest inadas a n os convence: a res istir a essa inclinac;:ao em nome da razao, ou a abrac;:a-la co m a mesma justificariva. 0 que parece urn debate sabre as impl icac;:6es m a is amplas da pesq uisa amropologica e, na verdade, urn debate sabre como viver com el as. Apreendido esse faro, e sendo o "relativism o" eo "anti-relativism o" vistos como resposras gen ericas a m an eira como nossa percepc;:ao d as coisas e afetada pelo que Kroeber cena vez c ha.mou de impulso centdfugo da antropologialugares distantes, ep ocas distantes, especies disrantes ... gram aticas disrantes-, roda a discussao enrra m a is em foco. 0 suposto con fliro entre o apelo de Benedict e H erskovirs rolerancia e a paixao inroleranre com que eles o fizeram revela-se n ao a simples conrradic;:ao que tantos logicos amadores sustentara m que fosse, mas a expressao de uma percepc;:ao (causada p o r muita reflexao sobre os Z uni e os daomean os) segundo a qual, sendo o mundo tao che io de tantas coisas, apressar-se a julgar e mais do que urn erro, e urn crime. De m odo semelhanre, as ve rdad es panculrurais de Kroeber e Klukho hn - as de Kroeber foram sobrerudo acerca d e confusos assunros pessoais como o d eliria e a menstruac;:ao, e as de Klu ckh o hn, sabre complicados temas sociais, co m o a menti ra e o assassi nato no proprio grupo- revelaram-se nao exatamenre as o bsessoes arbird.rias e pessoais que tanto parecem ser, mas a expressao d a preocupac;:ao muito m ais amp la (causada po r muita refl exao so bre anthropos em geral) de que, se algo nao esra alicerc;:ado em roda parte, nada pode esta r alicerc;:ado em Iugar algum. Aqui, a reo ria - see assim que se devem chamar esses conselhos zelosos sobre como devem os encarar as coisas para sermos considerados decentes- e bem mais uma rroca de advertencias do que uma discussao analirica. Oferecem-nos opc;:6es de preocupac;:ao. Aquilo com que OS chamados relarivistas querem que nos preocupem os e o provinc ianismo- o p eri go de que nossa percepc;:ao seja embotada, nosso inrelecto seja enco lhido e nossas simpatias sejam restringidas pelas escolhas excessivamente intern alizadas e valorizadas de nossa propria sociedade. Aquilo co m que os auto-intitulados anri-relarivistas querem que nos preocupemose n os preocupemos ao m aximo, co mo se nossas proprias almas dependessem disso- e com um ripo de entropia espiritual, uma especie de morre mental po r excesso de energia, no qual rudo e tao imporrante e, porranro, tao insignificante quanto rodo 0 resto: vale tudo, a cada urn 0 que e seu, e s6 pagar e escolher, sei o que eu quero, comigo n ao, tout comprendre, c'est tout pardonner. Com o ja sugeri, eu mesm o acho o provincianismo a m ais real de todas as preocupac;:6es no que co ncern e ao que aconrece no mundo (em bora, m esmo af, possa haver exagero: "Voce tanto pode cair de cara no chao", diz urn dos maravilhosos ditados de Thurbe r, "como se inclina r demais para tras.") A imagem

51

VII"" r11'11ncro de lcitores de antropologia vagando por al com uma men-

lllo lmm opoli ta a ponto de 1a0 terem opiniao sabre 0 que e OU nao ho m ou belo, parece-me sobrerudo uma fa ntasia. Pode haver •. : flllll~• ·" ,tutcnricos por af, na Rodeo Drive de Beverly Hills ou em T imes ,111." duvido que muiros se tenh am tornado niilistas por excessiva sensiAm .tpdos de outras c ulturas; e pelo menos a maioria das pessoas que nllo, lcio ou sobre quem leio, assim como eu m esmo, esta totalmente id.t com uma coisa ou outra, em geral p rovinciana. "Eo olhar da ')Ill" tcml! os demonios de brinquedo": o anri-relarivismo, em boa partdruu a angusria de que se alimenra. 111,

a

d Vlll'~la r cxagerando, nao e Com certeza, OS an ti-relativistas, seguros de

e

dwl.tlhos nao podem provocar trov6es e de que comer carne humana n.10 podem ser tao irriraveis, cerro? Ouc;:am, e ntao, W illiam Gass, ro' lil6sofo, precieuxe observador atenro dos caminhos da antropologia:

Anuop<'Jlogos ou nao, rodos COStUJmlvamos chama-los de "narivos" - aquele 1"1vo ilhcu, disranre, selvagem e de baixa esrarura - e acabamos reconhecendo o nuhi,mo nada cienrifico dessa arirude. Are nossas publica<;6es mais respeiraveis pmli.am cxibi-los nus sem ser ofensivas, porque as teras caidas ou ponrudas de u.u mulheres eram rao inumanas para n6s quanto os uberes de uma vaca. Logo ralrum em n6s e fizemo-los vestir-se. Come<;amos por suspeitar de nossas pr6fttlo1\ upini6es, de nossas cerrezas, e abra<;amos o relarivismo, embora esre seja UIIIJ r.tmeira das mais miseraveis; e acabamos por endossar uma bela igualdade 111rc .as culturas, cada qual desempenhando sua rarefa de aglu rinar, colocar em hllt'l,t~.IO e esrruru rar uma sociedade. A enorme sensa<;ao de superioridade era \1111 dm [·udos do homem branco, e esse peso, aliviado, foi subsrituido por urn ll'lltllncnto de culpa igualmenre pesado. As~im como nao devemos esperar que urn cirurgiao diga "morreu e ja vai 11111k", urn anrro p6logo nao exclamaria, rerirando-se da cul rura que houvesse ., ,,b,ulo de investigar como quem tirasse as rou pas de rrabalho: "Que jeiro horro''"" de viver!" Porque, mesmo que os narivos esrivessem pobres e cobertos de p6 t.·rrd.ts, ai nda que rivessem sido esmagados por pes mais fortes are ficarem acha1ultl\, rncsmo que estivessem morrendo como moscas, ainda assim o observador P"''''' no rar com que freqUencia eles riam, como era raro brigarem, ou como st·renos. Podemos invejar nos Zuni seus modos padficos e nos Navajo seu hum humor". Fr.t espanroso como nos apaziguava descobrir que havia algum objerivo lurh ronal nos tabus alimenrares, na infibula<;ao ou na clitorecromia; e, se ainda "'" st·mlamos moralmente melindrados como sacrifrcio humano ou a ca<;a de loiiH·~·''· eclara que ainda esravamos esp remidos num esrreiro ponto de vista eu-

,,,Ill


'i3

ropcu moderno e nao tinhamos simpatia nem comp reensao- nao podfamo' comprcen der. No entanw, quando enconrrava mos cerros adolescenres de indo lenres tribes praimas que ti n ham perm issao para rransar scm nenhu m tabu, fid vamos a imaginar se isso lhes permi ria evirar os esrresses dos nossos jovens, c: secrerame nre espenlvamos q ue nao. Alguns antro p61ogos desara ram o ponte de vista moral, tao sagrado par;t Elio t, Arnold e Emerson, de roda e q ualquer amarra (a ciencia e a arre rambcm flu ruam na corren re do Devir), raxando de "fu ndamenralisra" qualquer crensa no conhecimen roobjerivo, como se ele fosse a mes ma coisa que o esu1pido litera lismo bfblico, e de fendendo a roral murabilidade do homem e a com plera socio logia do que, nessas circunsrancias, ja nao podia ser considerado conhecimento, 6 mas apenas doxn, o u "opiniao". Essa visao acal orad a do "po nro de vista anrro po l6gico", que surge d as b rum as d e a rg umentos caricaturais e m al compreendidos, para com ec;:o de con versa (um a das ideias de Gass e que M ary D o ug las e uma especie de cetica, e a satira de Benedict, mais sagaz que a d ele, escapo u-lhe inteiramenre), deixa-nos com urn belo fardo pa ra carregar. Conrudo, m esm o e ntre os anrro p6 logos, as acusac;:6es, embo ra expressas com m enos o riginalidade, como convem a uma cienc ia, nao sao m enos g raves. 0 relativism o (" [P]ostura segundo a qual toda avaliac;ao e relari va a algum pad rao, seja qual fo r, e os padr6es d erivam de culturas"), no dizer d e l.C. J arvie, rem as seguinres conseqUencias censuraveis: ao lim irar a avaliacrao crfrica das obras humanas, ele nos desarma, desu man iza e incapacita para enrrarmos n uma inrera<;ao comu nicariva, ou seja, deixa-nos incapazes de cri rica r inrerculrura lmente e inrersubcul turalmenre; em ul tima insrancia, 0 relativismo nao deixa nenhum espacro para a cdrica .... [P]or rras desse relarivismo esprei ta o niilismo: M ais a frenre do que arras, faze ndo lembrar o esp anralho eo sino d o leproso: certam enre n enhum de nos, vestidos e em nosso jufzo perfeito, va i correr para abrayar uma opin iao que nos des umaniza a po nto de nos to rnar incapazes de nos comunicar com alguem . Os extrem es a que pode chegar esse alerta contra a ra m ei ra misedve l q ue pod e e liminar a capacidad e de criti ca sao indicados, para dar urn ultimo e:xemplo, pelo livro feroz d e Paul Johnson sobre a hist6ria do mundo depo is de 19 17, Modern Times, q ue, comec;:ando po r urn capitulo in t itulado "Um mundo relativisra" (a resenha d o liv ro por Hugh T homas, no Times Literary Supp lement, fo i m a is ad eq uada m enre intirulada "0 infern o do relarivism o"), descrev-e rod o o desastre m oderno - Le nin, Hitler, Amin , Bokassa, S ukarno, M ao, Nasser e H a mmarskjo ld , o estruturalism o, o New D eal, o ho locausro, as duas guerras mundiais, 1968, a inflac;ao, o mi li tarismo xin tofsta, a OPEP e a indep enden cia d a Indi a - co mo resultado de uma coisa cha-

8

"u hu L'\1 ,1 rdati vista". "Um g rande tri o d e in ventivos sabios alem aes"" hl·, M .u x c (com a poderosa ajuda de Frazer - nossa conrrib u ic;3.o) d cstruiu m o ralmenre o seculo XIX, assim com o Einstein , ao acabar n rno vimcnto abso luco, destruiu-o cognit ivam ente, e Joyce, ao abo lir a tiv.1 ,1bsoluta, destruiu-o escecicam en te: M.mc d~:scrcvcu um mundo no q ual a di namica central era o interesse econollllul. P.tra Freud, o impulse pri nci pal era sex ual. ... N ietzsche, o rerceiro do trio, rr,, t.unhcm areu ... [e) via [a mo rre de Deus] como ... um evenro hist6rico que ref i ll , un,cqlicncias d ramaricas.... Enrre as ra~as avancradas, o declfnio eo colapso ftn.1l do impulso religiose deixariam um imenso vazio. A hisr6ria dos tempos moJ r rnm c, em grande parte, a hisr6ria de como esse vazio [foi] preenchido. N t<'ll'thc pcrcebeu corretamenre que o cand idate mais provavel seria o que ele h.unuu de "vonrade de poder" .... Em Iuga r da crencra religiosa haveria a ideolol '.a M't ul.u. Aqueles que o utrora haviam integrado as flleiras do clero tetalitari o tnrrw ,c. iam polfricos rorali ta rios .... 0 fim da velha o rdem , com um mundo drst:on·rnado, a deriva n um universe relariv isra, era um convire ao su rgi menro &tr~'''' g:111gsreres-esrad isras. E eles nao demoraram a su rgir.?

I l r pni'

Jisso, pro vavelmente nao ha muito m ais a dizer, exceto talvez o que resumindo o utros: "o relativism o culmral, que respaldara o an r.tcialismo, [po de] ser perccbido com o uma especie de neo-racialism o 0 ju, tifil.l o atraso recno-econo rnico d os povos o utro ra colo nizados".' 0u o dtt I io ncl Tiger, resumindo a si m esmo: "[0] argumento fe minista [da l'"idade social .. . das leis insritufdas pelo parriarcad o'] reOete o rel ati visultur.ll <.JUC de ha muico caracteriza as cicncias sociais que se recusaram a sin wrnportam ento humano nos processes bio l6gicos."' ' T o lerancia lll' IHC, inrolerancia inconsequence; pro miscuidade ideol6gica, m o notd,·n lcSgica; hipocrisia ig ual iraria, sim plismo igualirario - ro d os provem •111.1 docn~a. Assim com o o Bem -Estar, a M fdia, a Burguesia o u os Cfrculli ng,· nt c~. o Relativismo C ul t ural causa rudo o q ue hade ruim. ( h unrr o p6 logos, bacalhand o em seu offcio e de algum mod o refletindo sol , dlfj, ilm ente po deriam, apesar de cod o o seu p eculiar provincianism o, fin&ltfcrt·rHcs ao zumbido da inq uierac;ao filos6fi ca q ue se ergue po r toda a ~11.1 volta. (Nem sequer mencionei os ferozes d ebates suscirados pelo res' ' "'" da tcoria po lftica e m o ral, pelo aparecimen to da crftica liter:iri a desutr vi, t.l, pela difusao de ideias nao-fundacio nistas na m eraffsica e na logr.t, c pela rejeic;:ao d o republican ismo e d o m ecodism o na hisc6 ria da ) lcHno u-se mais e m ais im enso o med o de que nossa enfase na d iferentlr vc·l\idade, na estranheza., na descontinuidade, na incom ensurabilidade, rl.urd.u.lc e assim po r d ianre - o que W illiam E mpson cham o u de "gi('of gl' Stocking,


t lllli t/1111

ga nLesco circa antropologico, [m~nrendo] ruidosamente armadas todas as sua~ Ionas"- possa acabar d eixando-r os com pouco mais a dizer senao que nos au12 eros lugarcs as coisas sao difcrentcs e que a culrura co que a culcura faz. Esse medo intensificou-se ramo, na verdade, que nos conduziu por rumos sumamen re conhecidos, na temaciva, a meu ver mal concebida, de aplaci-lo. Poder-se-ia alicer~ar essa ulri.,a p roposi~o num born numero de lugares do p ensamenro e da investiga~o antrop ol6gicos conrempo raneos - desde o materialismo harrisoniano do "tudo que surge rem que convergir" are o evolucionismo popperiano do "G rande Divisor de Aguas". ("N6s Temos a Ciencia... ou a Instru~ao, ou a Comperic;:ao hterte6rica, o u a Concepc;:ao Carresiana do Sa13 ber. .. e Eles Nao.") Mas quero me concenrrar aqui, de imediato, em dois pontes d e irnportancia cenrral, au, pe lo rnenos, rnuiro populaces: a tentativa de restaurar urn conceiro de "Natureza Hurnana" independenre do contexto como urn baluarre contra o relativismo, e a renrariva de reinsriruir igualrnente urn conceiro similar daq uela ourra velha amiga, "A Mente Humana". De novo, e necessaria ser clara para nao ser acusado (sob a ja rnencionada suposic;:ao de que "se voce nao acredira em meu Deus, deve acredirar em meu Demonio") de defender posic;:6es absurdas - urn hisroricismo rad ical, que acha que a cultura e tudo, o u urn empirismo primirivo, que ve 0 cerebra como urn quadro-negro - , que ninguem com urn mfnimo de seriedade defende, e que, muiro possivelmente, fora urn entusiasmo momentaneo aqui e ali, defendeu. A questao nao e se OS seres humanos sao organi smos biol6gicos com caracterfsticas intrfnsecas. Os homens nao podem voar e OS pombos nao podem falar. Nem se rrara de saber se eles ex ibcm atriburos comuns de funcionamento mental onde quer que os encontremos. Os papuanos invejam, os aborfgenes sonham. A quesrao e como d evemos en tender esses fa cos indiscutfveis ao explicarmos rituais, analisarmos ecossistemas, interpretamos sequencias f6sseis au com para rmos If nguas.

Esses dais movimentos para a restaurac;:ao de concepc;:6es nao pautadas na ideia de cultura d o que con sideramos o ho1-no basi co, de valor fixo, eo sapiens essencia!, sem adi tivos, adq uirem forrnas basrante dfspares, scm maior concordancia afora seu teor geral, naruralista nurn caso, racionalista no ourro. Do lado naruralista estao, clara, a sociobiologia, a psicologia evolucionisra e outras orientac;:6es hiperadaprarivas, m as h.aram bern perspectivas derivadas da psicanalise, da ecologia, da neurologia, da e tologia do imprinting, de cerros tipos de teoria do desenvovimemo e d e a lgumas correntes do marxismo. Do lado racionalista estao, naturalmente, o neo-intelectualisrno associado ao estruturalismo e o utras orientac;:6es hiperlogicistas, m as ha tambcm perspectivas d erivadas da lingi.ifsti-

lVII,

,tf,,,·,,,,,/11

'i5

d.1 p\Jcologia cxpcrimen Lal, da pcsquisa sabre intel igencia artificial,

1~m1ologi a do cstraLagema e contra-estratagema, de cerros tipos de te-

des''ll\'olvlmCnLo de algumas correntes do marxismo. As tentativas de 0 c-pt'tl ro do relativismo, seja escorregando da Gran de Cadeia do Ser, ndo -;1 a duras penas- a ostentac;:ao por teas das aparencias, a mente llml.l\ ,\S c.u Jturas- nao traduzem Um empreendimento unico, macicyo ...r ""'"'· mas uma mirfade desordenada de esforc;:os que nao se podem r, '.1d.1 um a pressionar em direc;:ao diferente, defendendo a pr6pria 0 pc~.1do pode ser urn s6, as proposras de salva~o sao muitas. pm l'\\,1 razao, tambem, que urn araque como o meu as tentativas de ex.da• iatw\ tigac;:6cs biol6gica.s, psicol6gicas, lingufsticas au simplesmente ~o.om.ciLOs da "Natureza Humana" e da "Mente Humana" que indeJo luntcxto nao deve scr tornado como um ataq ue a essas investigantjll.llltO programas de pesquisa. Nao imporra, em absoluto, se a ugi.l o u nao, com o penso, urn programa de pesquisa em degenera,1 sc csgotar em suas pr6prias confus6es, e sea neurociencia e uma llltP'~'"'t'll1 progresso (para usar os 1heis ep{Letos de Imre Lakatos), na imi,t.. olm·r resultados extraordinarios aos quais as anr rop6logos fariam m .llt'lltar, com matizes variados de vereditos ambfguos, do tipo ralvez 11.10 , sobre a gramitica gerativa, a etologia, a inteligencia artificial, a m~ ..1 ccologia, a microssociologia, o marxismo e a psicologia do desenlllo.11 0 que esta em questao nao e, ou nao e aqui, a validade das cien1111 supostas. 0 que me preocupa e deve preocupar-nos a todos sao os "')IIC, com uma determinac;ao crescente, quase evangelica, esrao sen11\l'lllc afiados com a ajuda delas. 111 fim11a de penetrar em todo esse debate pelo lado naturalisra, pode11111.1 olhada numa discussao geral que eamplamente aceita- em bora 11 l'll!cnder par que, uma vcz que sc comp6e basicamente de pranuncomo uma profissao de fe equilibrada e modcrada: o livro Bemt llu· Roots ofHumrm Nature, de Mary M idgeley. No tom que se tor"' [I•Jblico desses discursos nos ultimos anos, a moda do "antes eu era 111 H .1gnra posso ver" que enconrramos no Pilgrims Progress, Midgeley

e

'""' pd.a primeira vez nessa selva ha alguns anos, pulando o muro do arido jarllllho que na epoca era culrivado com o nome de Filosofia Moral Bridinica. I h'" numa tenrariva de pensar a natureza humana eo problema do mal. Os •I"' do mundo, pensava, sao rea is. 0 faro de que o sao nao e uma fantasia im" " ' 1 .1 1\Cls pela cultura ou criada pela nossa vonrade e imposra ao mundo. Tais l""''olll'S nao passam de ma-fe. 0 que abominamos nao e opcional. A culwra


S7

"\II

hlll"al'u ll.lllllal e prcscntc durante rocia a vida de uma pessoa sob a forma

varia os dctalhcs, sem duvida, mas aconrccc que podcmos criricar nossa cultur.l Que modclo [obsenem que a palavra e usada no singu lar] usamos para isso? Qu.tl csrrutura subjacentc a natureza humana deve a cultura complcrar c exprimir? Nesse emaran hado de perguntas, enconrrei algumas clareiras sendo abertas put psic6logos freudianos e jungu~a n os, com base em princfpios que pareciam pro missores mas nao cram muiro claros para mim. Ourras areas esravam sendo rna peadas por antrop6logos, que pareciam rer algum interesse no meu problema, masse inclinavam a ... dizer que o que os seres humanos rinham em com urn nan era a final muiro im portanre, que a chave de rodos os misrerios [esrava] na culrura. lsso me pareccu simpl6rio .... [Por ftm] chegu ei a ourra clareira, dessa vez uma amp lia~o das fronteiras da zoologia rradicional, feira por pessoas [Lorenz, Tin bergen, Eibes-Eibcsfeldt, Desmond Morris] que vinham esrudando a natureza de ourras especies. Elas rinham desenvolvido muiros rrabalhos sobre a quesrao do que era essa natureZII- rrabalhos rcccnrcs, na linha d<.! Darwin e are de Arist6reles, dircramente relacionadas a problemas que ja haviam inreressado a Arisr6reles mas que se rornaram particularmenre urgenres hoje em dia.'s Talvez possamos deixar que perec;:am por si mesmos os press uposros de que essa declarac;:ao de consciencia esti replcra- o prcssuposro de que as fantasias que nos sao imposras p elos jufzos culrurais (os pobres nao valem nada? os negros sao sub-humanos? as mulheres, irracionais?) sao mal substanciadas para servir de fundamento ao mal real; ode que a culrura eo glace e a biologia, o bolo; de que nao remos escolha quanta ao que iremos odiar (os hippies, os patr6es, OS intclectuais? ... OS relativistas?); 0 de que a diferenc;:a superfici al, mas a sc m elha nc;:a, profunda; ode que Lorenz um sujeiro franco, direro, e Freud, misrerioso. Apenas rrocou-se um j:udim por outro. A selva continua a muros e muros de disrancia. Mais importanre sa be r que ripo de jardim esse onde "Darwin enconrra Arist6teles". Que abominac;:6es vao se tornar imposirivas? Que fatos se rao antinarurais? Bem, as sociedades de admirac;:ao mutua, o sadismo, a ingraridao, a monoronia e a reje ic;:ao dos a leijados, en rre ourras coisas- pelo m e nos quando lcvados ao excesso.

r•rll

pant· n Ltto de legirimar um Jos soflsmas mais conhecidos do debate indt· hojc, afirmando a forma forte de um argumcnro e defendendo a

e

ildl\1111) natural, desde que a a pcssoa nao morda com demasiada forllloll.ah.trismo conceitual (o n atu ral pode ser anti na tural quando pensallolllltl'ta "em seu sentido plena") revela a rese basica de todos csses tus fundamenrados na Natureza Humana: a virtude {cogniriva, cm!ti' t.mto faz) esta para o vfcio assim como a adequacrao csta para a desornurtll.tlic.lade para a anormalidade, o bem-esrar para a doenc;:a. A rarefa II, wmo ados pulm6es ou da tire6ide, func ionar direito. Evirar OS

e

e

e

1111"''1.11k org.uwacla e, como disse [obispo] Buder, "inreiramenre con• ~nmtttlii<,.IO J.1 natureza humana" .... Que adulros se mordam na cama, n•rniiiiiCilto mutua, e natural em rodos os senridos; mas que professores nut.tllS·'' pcqucnas para disso exrrair uma sarisfa~Yao sexual nao o e. I-la d• Clf,tdo nc"·' atividacie que vai alem do prejulzo eferivo que ela inflige .... , .. c"llllllltrar cxcmplos desse erro- dessa nao naturaliciade- que nao 111 o1111.1' pcssoas como vftimas, a saber, o narcisismo exagerado, o suid1 nh'r-'1\'td.tde, o incesro e as socicdades exclusivas de admirafYliO reciproca. U111•1 vid.1 .uninarural", dizemos, qucrendo indicar que o seu centro est:\ fora lua.ar. ( ltmm cxemplos, que implicam a virimafYliO de rerceiros, sao a agressao '""''' •~·dirccionacia, a evitafYaO dos cieficientes, a ingraridao, a vingan<;a eo '" I'm.! as cssas coisas sao nnturais no senrido de que ha impulsos conhecid." que fazcm parte cia natureza humana .... Mas a agrcssao redi~cciona~ nuar.t' lOi~as do genera podem ser corretamenre chamadas de nntmnturnrs pcll,.tmos na natureza em seu senrido mais pleno, nao apenas como uma de: p.ntcs, mas como urn rodo organizado. Essas sao partes que destruirao a 6 du 1mlo se de algum modo lhes for permiricio controhl.-lo .'

e

e

Perceber isso ["que o natzmtl nun ca. e apenas uma condiyao ou arividade ... mas um cerro nlveldessa condi~ao ou arividade, proporcional ao resro cia vida da pessoa"J perm ire su perar uma dificuldade sabre conceiros como natural que fez com que muira genre os considerasse inureis. Alem do senrido forre, que recomenda alguma coisa, eles rem urn senrido fraco, que nao o faz. No senrido fraco, o sadismo e natural. lsso significa apenas que ele exisre e que devemos portanro reconhece-lo .... Mas, num sen rido forte e perfeirarnenre correro, podemos dizer que 0 comporramen to sadico e rtntitutturttl- no senrido de que uma poll rica baseada

ltildl )\

pode ser perigoso para a saude.

, •••mo <.liz Steph e n Salkever, cien tisra politico e scguidor de Midgeley: 11h c~., model a mais desenvolvido ou an:ilogo para uma ciencia social funciona" 11kqu.1Ja seja o fornecido pela mcclicina. Para o medico, as caractedsricas fl• ,lc 11111 organismo individual rornam-se inreligfveis aluz Je uma concep~o h 1 do' problemas cnfremados por esse sistema flsico aurodirigido, e a luz de lllttd~'·' gcral da saude ou esrado de bom funcionamenro do organismo com reI \~" .1 t'\\CS problemas. Enrender um(a) paciente e enrende-lo(a) como esrando ft1itl 1111 mcnos saudavel em relafYliO a um padrao esdvel e objerivo de bem-esrar ft 1111. p.tdt.io que os gregos chamavam de 111-ete. Essa palavra e hoje comumenre tr1ulu11d.1 por "virrude", mas, na ftlosofia poll rica de Plarao e Arist6relcs, refere-se lluplnllll'llte acxcelencia caracterfstica OU deftniriva do objetO de qualquer ana~~

IIIIICIUJl:tl.'-


Jl 1/11 •IIIII

'ill

Mais urn~ vez, podemos hoje encomrar praticamenre em qualquer partl' da anrropologta exem plos do ressurgimenro dessa mentalidade do "[Udo sc rc sum e a " (genes, estrutura cerebral, caracrerfsricas da especie, consrirui yao psi co-sexual etc.). Balance qualquer arvo re e e provavel que caia urn a lrrufsc' egoccnrrico ou um escruturalista especializado em biogenerica. Mas emelhor, creio eu, ou pelo menos nao rao russimulado, nao rer conw exemplo uma presa f:icil nem um artefaro aurodesrru rivo. Portanro, deixem-mc: examinar bem rapidamente os pontos de vista, em especial os mais recentcs, de um de nossos ern6grafos e te6ricos mais experiences e influences, alem de formi dave! pol~mista, Melford Spiro. Poder-se-iam enconrrar casas mais puros, me ~os m~ttzados ~ mcnos circunspectos, portanro melhores ainda para tmprcsstonar os lettores. Mas, recorrendo a Spiro, pelo menos nao esramos lida~do com ncnhum rename no marginal- como urn Morris ou um Ardrey l:1.ctlmenre descamivcl como urn enrusiasra ou um divulgador, mas com uma fi gura de desraque, que esta no centro ou quase no centro da disciplina. As ~ais importances incursoes recenres de Spiro nas "profundezas" da antro~ologta do Homo- sua redescoberta do romance familiar de Freud, prime• ro no seu pr6prio material sobre o kiburz e depois no de Malinowski sabre os rrobriandeses- sao bern conhecidas e eu diria que rerao ranro ou rao pouco poder de persuasao para os leirores quanro a reoria psicanalfrica orrodoxa em ~era!. ~~s minha .rreocupas:ao, de novo, e menos co m isso d o que com o an r~-rcbnvtsmo do npo Aqui Verno H omem Comum que ele desenvolve a parur dar. E, para termos uma ideia disso, serve muiro bern urn artigo em que elc resume seu progresso das confusoes passadas are clareza arual. [n riru lado "Culr~ra e t~atureza humana", o arrigo capta uma atirude e uma postura muito mais dtfundtdas do que sua criticada perspecriva re6rica ja nada vanguardisra. 1K rexro de Spiro, como mencio nei, rambem e formulado no esrilo "quando menmo cu falava como crians:a, mas, ago ra que esrou g rande, nao renho essas infamilidades", tao com urn na literarura anri-relati visra em geral. (Alias, ceria sido mclhor intituhi-lo tal como um outro anrrop6 logo do sul da Calif6rnia- o rclaLivismo parece serum perigo claro e presenre naquelas bandas- inrirulou o rebto da sua li berras:ao, "Conflss6es de urn ex-relarivisra culrural".) 1' 1 . Sp~ro ~omes:a sua apologia admirindo que, quando chegou a antropologta, no 1nfcto dos anos 40, ja ri nha sido prcparado, por uma formas:ao marxisra e por inumeros cursos de fllosofia briranica, para uma visao radicalmentc ambienralista d o homem, a qual presumia uma visao da mente como tabula rasa uma visao do comporrameruo sob o prisma de dererminismo social, e uma vi' sao cultural rebrivisra da ... culrura. Em seguida, relata a hist6ria de suas via gens ~e rr~b~l~o de campo como uma parabola para a nossa epoca. unu narranva dtdanca de como nao apenas veio a abandonar aquelas ideias, mas a

?

tr/.1/!t•itll/rl

1.. ~ pnt

'l'll' opustos. Em Ifaluk cle descobriu que um povo que depntiiJIIb\tm.t agrcssividade social podia, apesar disso, ser assolado •ttln•lt'lltm hostis. Em Israel descobriu que crians:as "criadas no sistema tc l.lllllllllidrio c coopcrarivo" do kiburz e educadas para serem gen~ l' n.w compctici vas, mesmo assim reagiam mal as tenrativas de faillt.u ·" coisas, mostrando-se resisrentes e hostis quando obrigadas a na Hilln;tn i.t, dcsco briu que a crens:a na rransiroriedade da exisrencia l1111lirv;ma budista e no desprendimenro nao diminula 0 interesse pel iltd.llb imediaras da vida coridiana.

111111.1,

Imrnhas pesqujsas de campo] convenceram-me de que muiras disposi-

invariaveis, assim como muitas oriema~6es T.1is d isposic;:6es e oriema~6es invariaveis decorrem ... de constanres t' u dru rais pan-humanas e jncluem aquela natureza humana universal rrit'llt·i .anlcriormente, junto com a opiniao antropol6gica adquirida, como • .. • !0 11111 prcconcetro ernocenrnco. 111111 iv.Kionais sao culturalmente

t\',1~.

a ~.ahcr sea imagem dos povos da M icro nesia ao Oriente Media como tr.ados, numa busca desonesta de imeresses hedonfsticos, ira liquidar plt'to a suspeira de que urn cerro preconceiro ernocenrrico ainda est:i • Vt\.lll de S piro sabre a natureza humana un iversal. 0 que nao resra sall(lll" dec bem cxplkiro quanro a isso, sao os ripos de ideias, produros dl· 11111 pernicioso relativismo, de que esse recurso ao funcionalismo dc:st i na-se a nos cu rar: 11'

I t unt t•ito de relari vismo cultural ... foi acionado para com bater as no~6es racm gcral e, em particular, a de uma menralidade primiriva .... [Mas] o relalllltural rambem foi usado, ao menos por alguns antrop6logos, para 11.11 uma especie de racismo as avessas. Quer dizer, foi usado como poderonatturncnro de crftica cultural, com a conseqUence depreciac;:ao da cultura ocinul c da memalidade que ela produziu . Abrac;ando a filosofia do prlmuivl,mo ... , a imagem do homem primirivo foi usada ... como mcio para nd1111r ut6picas invesrigac;:6es pessoais e/ou como vefculo para expressar odesuucnt.lmcnro pessoal com o homem e a socicdade ocidemais. As esrrart!gias lut 1.J.1, .1\SUmiram varias form as, das quais as seguinteS SaO bem representativas: (I)"" ll'llt.nivas de abolir a propriedade privada, a desigualdade ou a agressao nas ltcd.nlr~ ocidenrais rem uma chance razoavelmente realisra de sucesso uma vcz qu t.al t'\I;IJo de coisas pode ser enconrrado em muitas sociedades primirivas. (2) ' 11111p.n.ldo pelo menos a alguns primirivos, 0 hom em ocidental e unico em mal 11.1 de uHnpetic;:ao, belicismo, inrolerancia para com os desvianres, sexismo e as1111 I'"' dtanre. (3) A paranoia nao e necessariamenre uma doenc;:a, porque o 1 m.emcmo paran6ico e insrirucionaliza.do em cerras sociedades primirivas; a hollllo


' '"" t/1111

ffiOSSCXuaJidade n[o e desviame porque OS homossexuais sao focos culw rais de arras;ao em algumas sociedades primirivas; a monogamia nao e viavel porquc ,, poligamia ea fo rma mais freqi.ienre de casamemo nas sociedades primirivas. 21

a

Alem de acrescemar mais alguns itens lista de abomi nas;6es nao opcio nais, que promere ser infinita, e a inrrodw;:ao da ideia de "desvio", co ncebido como afastame nto d e urn a n orma in erenre, como urn a barida cardfaca arrftmica, e nao como uma esquisitice estatfstica como a po liandria fraterna, que constitui o gesto realmenre crucial em meio a tod a essa conversa bombastica sabre " racismo as avessas", "invesrigas;6es ut6picas" e "fi losofia do primirivism o". Paise atraves d essa ideia, 0 Amigo do Legislador, que se faz a transis;ao d e Midgeley entre o natural natural (a agressao, a desigualdade) eo natural anrinatural (a paran6ia, a homossexualidade). D epois que o camelo enfia o nariz d o !ado de denrro, a tenda- a rigor, todo o ruidoso circo na barulheira de suas tendas - fica com urn serio problema.

0 taman ho do problema talvez possa ser vista com mais clareza no texro de Robert Edgerton que acompanha ode Spiro no mesmo li vro : "Escudo do 21 desvio: homem m arg inal ou homem com um?" Ap6s urn ecl etico e uri! balans:o dos estudos so bre o desvio em antropologia, psicologia e sociologia, incluindo m ais uma vez seu proprio e interessante trabalho com excepcionais a m ericanos e intersexuados africanos, tam bern Edgerton chego u - alias, m uiLo subiramenre, como a lampada que se acende num d esenho an imado - a conclusao d e que 0 necessaria para tornar tal pesquisa realmente produriva e uma con ceps;ao da natureza human a q ue independa do conrexro- uma conceps;ao que veja os "poten ciais de compo rtamento geneticamenre codificados que todos temos em comum" como "subjacentes a [nossa universal] tendencia ao desvio". 0 "instinto" de autopreservayao do homem, seu mecanisme de lura e fugae sua inro lerancia ao redia sao usados como exemplos; e, num argumento que em minha inocencia eu supunha haver d esaparecido da antropologia, junto como evemerismo e co m a promiscuidade primitiva, sugere-se que, se tudo correr bern com a ciencia, poderemos, com o tempo, ser cap azes de julga r nao a pen as individuos mas sociedades inteiras como desviantes, falhas e antinaturais: Mais im porranre ainda e a nossa incapacidade de resrar qualquer proposis;ao sabre a adequas;ao relativa de uma sociedade. Nossa rradis;ao relarivista na anrropologia demorou a aceitar a ideia de que pode existi r a sociedade desviame, uma sociedade contniria a nat ureza humana.... No enranro, a ideia de sociedade desviante e central na rr adis;ao da alienat;:ao em sociologia e ourros campos, e constirui urn desafio para a reoria anrropol6gica. Por sabermos tao pouco sabre a natureza h umana ... nao podemos dizer see muiro menos como uma sociedade

~t•/,nir•imw

(,J

Mt'\1110 :mim, basta passar os olhos numa reporragem de qualquer \Clbrc o aumenro dos fndices de homiddios, suiddios, esrupros e l lllllt'\ VlOicntos para ver que essa questaO e reJevante nao apenas para a 3 111.1\ 1 .11nb~m por quest6es de sobrevivencia no mundo moderno.l

lurh.11 111

I N\11 1 ompleta-se 0

cfrcuJo e a p ortae batida com forc;a. 0 medo do

tl·~prc:ltando em cada esquina com o obsessao hip n6tica levou a uma 111

'I"'' a divcrsidade cultural no tempo e no espas;o corresponde a

dt• t•xprcss6es, algumas sadias, o utras nao, de uma realidade subjaa natureza essencial do homem - , e a antrop ologia equivale a IIIIV .t

lk Jiscernir, atraves da bruma de tais express6es, a subsrancia

ld,rdt•, U m conceito abrangenre, esquem:itico e faminro de conteudo,

dt' At' .unoldar a praticamente qualquer fo rma que apareya, w ilsoniana, ln·udiana, marxista, bemham iana ou arisrotelica (" uma das caracu~utr .ai s da Natureza Humana", teria diro algum ge nic anonimo, "e i~r iu .atH6nomo") , torna-se a base sabre a qual vern repousar definiti• \ umprccnsao da con d uta humana, do hom iddio, do suicfdio, does' !ern \tt ma,] da deprecias;ao da cuitura ocidenral. Alguns de uses de m.iquinas parecem custa r bem mais do que valem.

'"" r.a conjuracyao, "A Mente H umana", erguida como cruz protero11 I )r.kula relativista, posso serum po uco mais sucin ro; nos aspectos thlll no essencial, ela e praticamente a mesma coisa. H a o mesmo esptulllover uma li nguagem privilegiada da explicas;ao "real" ("o vocarn\prto J a natureza", como disse Rich ard Ror ry, aracando a ideia nllt\1,1 <..:icntiflcista) e a mesma discordancia feroz quanta a linguagem d f,alll \C lrata - a de Shannon , a de Saussure, a d e Piaget?24 H a amesi.r .a vcr a diversidade como superfi cial e a universal idade como pro" t 11 mcsmo desejo de represenrar as inrerpreras;6es pessoais nao como uuposras aos objetos- sociedades, culruras, llnguas- no esfon;:o "' ndi· los um pouco, de algum modo, mas como qualidades essenciuhJt'tnS, impostas ao nosso pensamento. '""''''~m diferenc;:as, e clara. A volta da Natureza Humana como ideia 11 fo1 \ob retudo estimulada pelos avans;os da genetica e da reoria evo11, ( ,, d.t Mente Humana, pelos ava ns;os d a lingufstica, da informatica t•lugl., <..:ognitiva. A renden cia da primeira ever o relativismo moral ""' dt· todos os nossos males; ada segunda e jogar a culpa no relarivis1111.11. E a predileyao pelos tropes e image ns do discurso terapeurico tftH'Il'.·' · normal e anormal, funs;ao e disfuns;ao), de urn !ado, equipa111 111 o, ~ prelerencia pelo discurso ep istemol6gico (conhecimento e


Jlllli o/111/

opi niao, faro~ ilusio, ver dadc e falsidade). Mas essas Jiferenc;:as pouco imJM ram .conrra o •mp ulso comum p a ra analise final: chega mos agora a C i~nci.1 , .• explJ cac;:io. A marrar as teor ias nu ma coisa chamada Esrru tura d a Razao c 11111 m o do tao efl cazde isola-las da hisroria e da cul ru ra quanro inseri-las n uma co1 sa c hamada Consriruiyao do H o mem. No gue c~ncerne aa.ntropologia, po rem , ha uma o urra diferenc;:a que m.1i o u .meno~ den va dessas e que, em bora ram bem seja (desculpem a expressa11) m a:s relanva ~o que rad ical, arua no sentido de levar as d uas discussoes para th res:oes algo d1 vergenres e are contririas, a saber, enquanto a orien tac;:ao daN .• tureza Humana leva a recolocar no centro d a atenc;:ao uma de noss.l' concepc;:oes classicas- a de "dcsvio social"-, a oriem ac;:ao da M ente H um.• n a traz d~ volta uma ourra- a do "pensamento primi tivo" (sauvage, pri ma rio, sem escnta). As angusrias an ti-relativisras q ue se juntam em um d iscurso Clll rorno dos enigmas da cond uta juntam-se, no o utro, em rorno d os e nigmas d .• cre nc;:a. M ais exata mente, jun ram-se em to rno de crenc;:as "irracio nais" (ou "m isll cc .J. 1 6 . , " r . , . cas , pre:- g•cas , a.eu vas o u, espectalm en te hoje em d ia, "nao cogniu vas") . . E~qua~ro foram praticas perturbado ras como a cas;a de caberyas, ,, escravtdao, o.s•srema de castas c a deformayao dos pes que leva ra m os anrrop6 logos a se un1rem sob a grandee velha ba ndeira da Natureza Humana, com .l impressao de que s6 assim seria justiflcavel ro ma r uma distan cia mo ral deb, foram. co~cepc;:oes !mprovaveis co mo a da substancia da bruxa ria, dos p rorew res an Jmats, dos re1s-deuses e (anrecipando um exemplo ao qual vo h a rei nu n1 segundo) d e urn dragao de coras:ao de o uro e chifre na nuca que os levararn a st unire~ sob a divisa da Menre Humana, com a impressao de que s6 assim sc pod en a defender a adoc;:ao de um cericismo emp frico em relas:ao a elas. 0 qut· preocupa tanco nao e bern como a o u tra metade se po rta, mas- 0 q ue e real mem e bern pio r - o que ela pensa. ,

t I a, m ais u ma vez, um nt'1 mero bern grande d essas perspectivas racionali\ tas ou neo-racio nalisras na an rropo logia, com graus variaveis de pureza, forc;:.1 de p~rsuasao, coe ren cia e aceiras:ao, n ao to talmen te consoa nres entre si. AJgu mas 111 vocam constancias fo rmais, geralmen re chamadas de uni versais cognin vos; algumas, consnin cias d e desenvolvimento, geraJ mente cham adas dt• estagios cogn irivos; ou tras, co nsrancias operacion ais, em geral cham adas dt' p~oce~sos cogni rivos. Algu mas sao esrruturalisras, algumas jung uian as, ourr:l\ p ~agen a nas, e outras buscam as ulrimas novidad es do MIT dos Bell Laborato . . ' n es ou d a Carn eg•e-Me llon . Todas esrao atr:is de aJguma co isa s6Jida: a Reali dade alca n c;:ada, a Razao salva do afogamenro. 0 que elas te rn em comum, po rranro, nao e m eramente urn interesse no nosso func ionamento men tal. Como o interesse em nossa constituis;ao biolo

li'i.ttll'/111111

tnd i~tl ll ivclmcnt c U ma Co isa Boa, ramo em si quanto para a utltiiJ.t; c, sc ncm todas as descobertas do que ve rn sendo esperanc;:och am.ado de "cicncia cogni riva" revelam-se descoben as aurcnricas, aiU' II II o f.tr.to e al terarao significativamente nao s6 nosso modo de ton to pc nsamos, mas tambem nosso modo d e pensar sobre aquilo "· () que clas re m em comum alem disso, desde Claude Levil{odnq Needham (o que e uma certa distancia), e que nao etao in........... ," bcncllco, c uma visao fundacio nista da Men te. Isto e, uma vimrnt l· a~sim como "Meios de Produc;:ao", "Esrrurura Social", lnt·r ~io~", "Cul tura." o u "Sfm bo lo" em o urras abordagens pragmati' mial , do t ipo "essa e a essencia da coisa" (e tam bem, e claro, nrt·ta llumana")- co mo o rermo soberano da explicayao, a luz 1111 ,.,lurid ao relarivista. t•t c ,: o mcd o do relati vismo, o anti-her6i d e mil faces, que fornece do fmpcto do neo-racionalismo e do neo natural ismo, e que serve ptin• ipal justificativa, pode ser con venientemenre percebido na exllllt·.a d e exorrac;:oes anri-relari visras- somad as a u ma ousada pec;:a m.u ,tvilhosamenre concebida para levar os o urros ao desejado nfvel urganizad a por Marti n H ollis e Steven Lukes: Rationality andRel'r oduto do chamado debate da racional idade, qLre as hist6rias de l•rudt.ud , en tre o urras coisas, parecem ter ind uzido nas ciencias sociais r cn1 hoa parte da fllosofia briranica (" H a verdad es absoluras que pol ' "du.tlmcnrc aringidas com o correr tempo, arraves de p rocessos raciu ~t· t .IO toJ os OS mod os e sistemas de pensamentO igualmente va)idos a p.ullr de seus quad ros refcrenciais inrernamenre coerentes?"), o livro mr nm cobrc a area da Razao em Perigo!!r'"As tenrac;:oes do rclarivismo • r dtfundidas", comec;:a a introduc;:ao dos organ izadores, como uma ~.. Jomwcl liana as barricadas. "[0] caminho fl o rida que leva ao rela,~. . do com anrmas;oes c. , . ,27 ,: p.avJmenra p Iaus JveJs. u~s .umo p6 logos d a coleranea respondem com enrusiasmo, rodos eles, • p.ua que nos salvemos de n6s mesmos. Ernest Gell ner diz que o tult .l\ pcssoas nao acreditarem no q ue nos, OS Filhos de Galileu, acreditltlt .1 maneira como se forma a realidade nao e argu menro conua o Jllr •IIIII ilo em que acredi ramos nao e a "0 n ica Visao Verdadei ra" e corC\fi!'( J,tlmen te uma vez que ourras pessoas, ate habirantes do Himapu n em esr:u se convencendo dela, Gelln er considera q uase cerro que M \' J ~.to verdadeira. Robin H orton defende Lllll "nucleo cognirivo co11111•• '' tcoria primordial" do mundo, culturalmente universal e apenas ha nais, que e cheia de objetos duradouros c d e tamanho medio, IIIJJ,Jdos em rermos de um conceito de causalidade tipo "li-

,,.,Ill'\


Nr11.t /u · w(n,. rl rlllllrlj•rlfrl,r:trl

ga-desliga", c inco dicoromias esp aciais {esqucrcla/d ircita, acimalabaixo uc.), u ma tricoromia tempo ral (a ntes!ao mesmo tempo/depois) e d uas d isti n~o· careg6ricas {h umano/n ao humano, self/o urro), cuja existencia assegura qw.: u "Relarivism o esra fadado a fracassar, enquanto 0 U niversalismo podera rcr \I I 19 cesso um d ia". Mase Dan Sperber, mais seguro de sua base racionalista (a visao com put .• cio nal de representac;:6es m en tais de J erry Fodor) que qualquer desses doi\ c co m Uma V isao Verdadeira toda dele (" nao existe essa coisa chamad a faro n,tu 311 li teral"), que desfere o ataque mais vigoroso. 0 relativism a, em bo ra maravt lhosamente nocivo (ele rorna "a etnografi a ... inexplicivel e a psicologia, imcn Sam en te cJjffcil"), nao e sequer uma posi<;ao inde fensaveJ: na verdad e, 11CIII sequer se qualifi ca como uma pos ic;:ao. S uas ideias sao meias ideias, suas crcu c;:as, semicrenc;:as, suas proposic;:oes, semipro posic;:6es. Como o dragao d e cot,, yao d e ouro e chifre na nuca que u rn d e seus info rmantes idosos do povo Oor:1c o co nvido u a cac;:ar e ma tar inocentemente, ou ralvez nao tao inocen rement • (desconfiado dos faros nao literais, ele recusou o co nvire), os "lemas relarivi' cas", rais como "povos de dife ren res culru ras vivem em mundos di fere nte~ ·. nao sao, a rigor, crenc;:as factua is. Sao represen rac;:6es mal fo rmadas e indefin1 das, ta pa-buracos mentais que se produzem quando, menos circunspectos du que os computado res, renramos processar m ais info rmac;:6es do que p ermit\. nossa capacidad e conceitual inrdnseca. Dreis, po r vezes, para guarda r o lug.11 ate que possamos pa r em dia nossos pod eres cognirivos, ocasionalmenre divc1 tidos para brincar enquanto espera mos, e are, vez po r o utra, "fo nres de inspira c;:ao no [autenrico] pensamen ro criari vo", eles nao sao, esses d rag6l'\ academicos de corac;:ao de phistico e sern chi fre algu m, coisa que sequer seu' maio res d efensores ro mem como verdadeiras, pois estes nao compreendc nt nem pode m co mpreender de faro o q ue eles sig nificam . Sao ace nos de maomais o u menos elabo rados - de urn tipo que, no compu to final, e con fo rrni\ ra, f.'llsamen re p rofunda, enganoso, " hermeneu tico-psicodelico" e inreresseiro

A maior prova conrra o relarivismo e ... a pr6pria atividade dos anrropologos, ao passo que a maior prova a favo r dele [esd.] nos escriros dos anrropologos .... Au reconsrirulrem os proprios passos fern suas obras], os anrropologos rransformam em abismos insondaveis as fronreiras culrurais rasas e irregulares que nao haviam achado tao diffceis de rranspor [no trabalho de campo), com isso proregendo s~u pr6prio senso de idenridade e dando a seu publico filos6fico ou leigo exaramcnt• o que ele quer ouvir." Em suma, seja n a forma de u rn vigo roso bo rn sensa (d eixem para hi a leitu ra de vfsce ras ou os odculos de veneno; afln al, sempre e n tendem os mais 0 11 me nos as coisas), d e ecume ni smo ch eio d e anseios (apesar das variac;:oes dos cs

rlll.lli vm ml is J cscnvolvidos, dos fetiches ou da genetica, no fundo nMi' ou rncnos a mesm a concepc;:ao do mundo) o u d e urn cienri fi•lvn (h.i coisas que sao realmente ideias, como "atitudes proposirirt·prcscntacio nais", e ha coisas q ue a pen as parecem ideias, com o drag nn.t cstrada" e "as pessoas de culruras d iferentes vivem em munl t"~") , .1 rcssurre iyao d a M ente Humana como po nto im6vel do flll.t\ .10 dcsfaz a ameac;:a d o relativismo cultural ao desarmar a forc;:a .,.~u~~·~..- l lllwral. Co mo acon tece com a " N atureza Humana", a d esd.t .tltcridade eo prec;:o da verdade. Pode ser, mas nao e isso que suialc~ri.t da antropologia, os materiais que ela reuniu ou os ideais que a lll' lll tampouco sao apen as os relarivistas que di zem a seu publico o 11urr1111Yir. Ha alguns dragoes- "rigres em clima quente"- que mer.x.un inados.

,lt.t~IICS, nao dornestid-los o u abo mi mi-los, nem afoga-los em barris ~ 1ml11 em que consiste a a ntropo logia. Pelo menos, e no que consisre

n lr ndo cu, que nao sou niilista nem subjeti vista e que, como voces poltnh" opini6es basta nte firmes sab re 0 que e real e 0 que nao e, 0 q ue (' II que nao e, 0 que e sensa toe 0 q ue nao e. T e mos procurado, com na\l.t d csprezlvel, manter o mundo em desequilfb rio , p uxando tapetes, m"'·" l ' solcando rojoes. T ranq uili zar e tarefa de o utros; a nossa e in- X Au, lr.tlopitecos, Malandros, C liques Foneticos, M egaliros: apregoaanc'\m.do, mascateamos 0 q ue e esrranho, mercadores que somas do pnt otHra, sem duvida, fo mos Ionge demais nessa direc;:ao e tran sfo rldlm~ incras ias em charadas, charadas em misrerios e misterios em far-

·'' rac;:ao pelo que nao se enquad ra e nao se con form a, pel a real idade , lt~ou-nos ao tema conduto r da hist6 ria cultural dos "Tem pos M ol'"•' l'ssa hist6ria rem consisrido numa sucessao de campos de pensati·m que descobrir como conti n uar vivos sem as certezas que os 1.1111 . Faro bruto, lei natu ral, verdade necessaria, beleza tra nscenIUIIItldaue imanente, revelac;:ao unica, are 0 sel f aqui -dentro defro ntan1 o mundo-la-fora, rudo isso fo i sub metido a um ataque tao pesado r m dt;t essas coisas parecem simpl icidades perdidas de urn p assado ~ 1111 . Mas a ciencia, o di reiro, a fllosofla, a arre, a teoria polft ica, a rel illllm.t insistencia do sensa com urn consegui ram continuar, apesar de lu i necessaria reviver as simplicid ades. •(tit' c precisamente a d crerm inac;:ao de nao nos agarrarmos ao que huu lntH)U bern e n os rrouxe are onde esramos, mas que agora ja nao


hh

fun cio na tao bem c nos leva a impasses rei tcrados, q ue faz ava ns:ar a cicnt-i,, Enq uan to nao havia nad a. mais ligeiro que urn maraton ista, a ffsica de AriSt61t les funciono u bastante bern, a despeito dos paradoxes eleaticos. Enquam o u•. instrumentos tecnicos mal podiam fazer- nos avanc;:ar urn pouco e sair u rn pou co d o mundo d ado pelos senridos, a mecanica de Newton funcionou mu itn bern, a despeito das perplexidad es d a ac;:ao a disrincia. Nao fo i o relativismo o Sexo, a Dialetica ea M orte de D e us -que m atou o m oto perperuo, o esp::t~n euclidiano e a causalidade universal. Foram feno menos instaveis, feixes d e on das e saltos o rbitais, diante d os quais eles ficaram impo tences. Tampouco foi" Relari vismo - o S ubjerivismo H ermeneutico-Psicod elico- que m arou (sc t que eles foram mo rros de Jato) o cogito cartesiano, a visao conservadora da hi~ co ria e "o ponto de vista moral tao sagrado para Eliot, Arnold e Emerson". Fo ram fatos b izarros - contratos de casamentos de crianc;:as, pinturas niio ilusionistas- que embaralharam as categorias. N esse movimento de distanciamento d e antigos triunfos transformadm em comodismo, de grandes avanc;:os de outro ra transform ados em bar reiras, .1 antropologia desempenho u em nossa epoca urn papel de vanguarda. Fomos o~ primeiros a insistir numa serie de coisas: que 0 mundo nao se di vide entre de voros e supersticiosos; que ha escul turas nas selvas e pinturas nos desertos; qul· a o rdem polftica epossfvel sem o poder centralizad o, e a justic;:a, proba sem re gras codificad as; que as no rmas da razao nao fo ram estabelecidas na G recia nem a evolus:ao da moral se consumo u na Inglaterra. M ais importance, fomo~ os primeiros a insistir em que vemos a vida dos o urros arraves das lentes qut• nos proprios polimos e que OS ourros nos veem atraves das deles. N ao e de sur p reende r que isso te nha levado alguns a pensar que 0 ceu estava desabando, que o solipsismo se apoderara de nose que o inrelecto, o jufzo e are a si m ple~ possibilidade d e comunicac;ao haviam desaparecido. A redefini s:3.o de hori zonres e a d escentralizac;:ao d e perspecti vas ja ti veram esse efeito antes. 0 cardeal Bellarmines sempre esteve entre n6s; e, como alguem observou acerca dos poli nesios, e necess:hio urn cerro ripo d e cabec;:a para sair em alto-mar nu ma cas quinha d e canoa. M as isso eo que temos feito, da m elho r ma neira possfvel e no nfvel maximo de que somos cap azes. E , a meu ver, seria uma grande las tima - agora que as d istincias que estabelecemos e os lugares o utros que d emarcamos comec;:am a surtir efeito, a mudar nosso sentid o do sen tido e nossa percepc;:ao da percep c;ao- se volrassem os as vel has canc;6es e a hisr6 rias mais anrigas na esperanc;:a de que, de algum mo do, apenas o superficial precise mudar, e de que nao d espenquemos da beirad a do rnundo. A objes:3.o ao anti-relativismo nao co ncern c a ele rejeitar uma abo rdagem do conhecimento do tipo " rudo d epende da m aneira com o voce ve as coisas", ou uma abo rdagem da mo ral do t ipo "em Rom a,

t l /111111111 lfhl/111/11//11

hi

ru rll.lltns", mas ao fato de ele imaginar q ue tais abordagens s6 podem 11d.l\ \t' ,t moral for posca acima da cultura eo conhecimento acima de l••o, f.d.111do J c coisas q ue tern q ue ser assi m, ja nao e poss(vel. Se quivc rd .•dcs casciras, deveriamos ter ficado em casa.


~IHIIC'fi•ll aprcserHnndo uma tese, a meu ver incomum e urn bocado

4

lll l!, t(li C o .mtrop6logo frances C laude Levi-Strauss desenvolve no lt'c l'!llc colcranca de ensaios, provocadoramenre inritulada (pro1 llll' .an rnc nos para urn antrop6logo) 0 olhar distanciado.

Uil

Os usos da diversidade

1~VI

~tr.tu ss surgiu, antes de mais nada, em resposta a urn convite da cJIIl' proferisse a conferencia de abercura do Ano In rernacional de au R.alr, mo e a Discriminac;:ao Rac ial, que, caso voces renham esque19 I. " l·ui cscolhido", disse ele, 11

vanl c· .mos antes rinha escrito [urn panfleto intitulado] "Ra<ya e hist6ria" lJnnc <),[ no qual] aflrmara algu mas verdades fu ndamenrais .... [Em] 1971, Pf1Lrlll que a Unesco esperava que eu [simplesmeme] as reperisse. Mas, vi nIl II In, para atcnder as insriruic;:6es inrernacionais, que eu julgava ter que m.m do que creio hoje, eu havia exagerado urn pouco min has conclus6es It•\" 1· hl\t6ria". Talvez por minha idade e certamenre grac;:as a reflex6es inspd., ' iruayao arual do mundo, nao gostei dessa solicitude e me convenci , ... , .• ~cr util a Unesco e cumprir com honesridade o meu compromisso, 2 hi I .l.u com absolura franqueza.

1

A anrropologia, minha frohliche Wissemchaft, rem se envoi vi do fara lmenre, no curso de roda sua hist6ria (uma longa hisr6ria, se parrirmos d e Hcr6doro, 011 muiro curta, se partirmos de Taylo r), com a enorme variedade de maneir.1' com que os homens e mulheres ten tam viver suas vidas. Em cerros momento\. ela procurou lidar com essa variedade caprando-a em alguma red e re6rica unr versalizanre: esragios evolutivos, ideias ou praticas pan-humanas, ou form•\ rranscendenrais (es rruturas, arqueripos, gramaricas subcerraneas). Em outro\, insistiu na particularidade, na idiossincrasia, na incomerrsurabi lidade - repo lhos e reis. Mas, recem emente, ela se viu dianre de algo novo: a possibilidadt de que a variedade esteja rap ida mente se suavizando num espectro mais pilido e mais estreiro. Podemos ver-nos confrontados com um mundo no qual sim plesm ente ja nao exisram mais cac;adores de cabec;:as, estruturas matrilincarc' o u pessoas que fazem a previsao do tempo pelas vlsceras do porco. A!; diferen c;:as sem duvida continuarao a exisrir- os franccses jamais comerao manreiga com sal. Mas os bons e velhos tempos de lanc;:ar viuvas na fogueira e do caniba lismo nao voltam mais. Em si mesmo, como questao profiss ional , esse processo de suavizac;:ao do conrraste cultural (s upondo-se que seja real) ralvez nao seja tao perturbador. Os anrrop6 logos simples mente terao que aprender a compreender diferenc;:as mais suris, e seus tex tos tal vez se rornem mais sagazes, ainda que menos espeta culares. Mas ele levan ta uma questao mais ampla, ao mesmo tempo de ordcm mo ral, esre tica e cogniriva, que e muito m ais pe rturbadora e que esra. no cenrro de Varias disCUSSOCS atua is so bre como justificar OS vaJo res: 0 que chamarei, apenas para rer u m nome que fique gravado na mente, de o Futuro do Erno centnsmo. Recomarei mais ad ia nre a lgu mas dessas discuss6es ma is gerais, poise para elas que se volta o meu in reresse global; mas, como forma de abordar o problc 68

• dt· h;ibito, isso nao se revelou propriamen re uma boa ideia, provo11114 npc~..ie de farsa. Algumas membros da diretoria da Unesco ficaram

"pnr "eu haver questionado urn catecismo lcuja aceirac;:ao]lhes perll'l Jc empregos modesros nos paises em desenvolvimento para res3 pusa,ncs de execurivos numa instiruic;:ao inrernacional". 0 enrao tl d.a Unesco, outro frances decidido, pediu inesperadamente a pala&lc rnluzir o tempo de Levi-Strauss e assim forc;:a-lo a fazer os cortes de liUm· nto" que !he haviam sugerido . Levi-Strauss, incorriglve~ leu a !nIl h'xto, aparentemente em alta velocidade, no tempo que Ihe restava. r.~n. que equivalia a urn dia no rmal na ONU, o problema da confe1 vi-Strauss foi que, nela, ali ele se "rebelou contra o abuso de lingual(ll,al .Is pessoas tendem cada vez mais a confundir o racismo ... com IIIII 111.1i s e are legftimas e, de qualquer modo, inevitaveis" OU scja, 4 lllou•attrismo, e mbo ra ele nao o chamassc po r esse nome. IIHHI'Ill rismo, argumenrou Levi-Strauss em "Rac;:a e culrura", e de IIJ~<IIIt O mais recnico em "0 a ntrop61ogo e a condic;:ao humana", cs1 I IIlla decada depo is, nao apenas nao e ru im em si, como e ate uma 14 l'dn menos desde que nao fuja ao conrrole. A fidelidade a urn cerro 1 dt '.do res faz com que, ineviravelmeme, as pessoas fiquem "parcial arc· rnsensfveis a ourros valores" aos quais outras p essoas, igualmen-

"I'


·u

(h 1

tc provincrmas, sao igual rn enre fieis. "Nao h:i n:tda de o fcnsivo em sc colou r o p r6 prio esril o de vida o u o pr6 prio m odo de pensar acima dos o urros o u .:111 senrir po uca arras;ao p or ourros valores." Essa " incomunicabilidade rclativ;{ nao auro riza ninguem a re primir ou d esrruir os valo res rejeitados ou aqucln q ue os possuem. A exces:ao d isso, p orem , "ela nao rem nada de repugnance"· Talvezseja a reo pres:o a pagar para qu e os sistemas de valores de cada familia cspr ritual au de cada comunidade sejam preservados e enconrrem em si mesmos m recursos necessaries pa ra sua renovas:ao. Se... as sociedades humanas exibem l llll gra u 6timo de diversidad e para alem do q ual nao podem avans:ar, mas abaixo do qual niio podem descer sem riscos, remos de reconhecer que, em larga medida, C\ sa diversidade resulra do desejo de cada culrura de resisrir as culruras que a cc1 cam, de se distingui r delas - em suma, de ser ela mesma. As culru ras n.10 desconhecem umas as ourras e, de vez em q uando, are romam empresrimos entJ(· si; mas, para nao perecerem, elas devem, sob ourros aspectos, permanecer um 6 ram o impermeaveis. Po rranro, nao apenas e uma ilusao que a humanidad e possa se livrar in rei ram ente do etnocentrism o, "ou sequer inreressa r-se em faze- lo", como nao sc ri a bo rn se o fizesse. Tal " liberdade" conduziria a urn mundo "cujas culruras, rodas apaixonad as umas pelas o urras, as pirari am apenas a celebrar-se mutua m ente, numa tal confusao que cad a uma perderia qu alquer arrarivo que pudcs· 7 se ter para as dem ais e perderi a sua pr6 pria razao d e ser." A disrancia cri a, se nao encan ro, pelo m enos indiferens;a e, assim, inregri dade. No passado, quando as cha m adas culruras primirivas envol via m-se apenas mu iro m arginalmenre umas co m as o utras - referindo-se a si mesm:ts como "As Y erdadeiras", "As Boas" o u simplesm enre " O s H o m ens", e desp rezando as qu e se siruavam do o urro Iado d o rio o u da serra co m o" macacos" ou "ovos d e pio lho", isro e, nao huma nas o u nao plenamenre huma nas -,a inregrid ade cul tural era pro ntamente m anrida. A " pro funda indiferenya para com o urras culruras era ... uma garanria de que elas p odiam exisrir asua pr6 pria m:t8 neira e segundo os seu s pr6 prios re rm os." Agora, quando e clare que essa situas;ao ja nao prevalece quando rod os, cada vez m ais apertados num pequeno planera, esrao pro fundam e nte in reressados em rodos os dem ais e nos assunros que lhes dizem respeito, asso m a a possibilidade d e perda dessa integridade em fun s;ao d a pe rda dessa indiferenqa . T alvez o ern ocentrismo nunca desapares;a po r co mpl ero, sendo " da essen c ia m esm a d a nossa especie", m as pode rorn ar-sc perigosa me n te fraco, d eixando -nos a m erce d e uma especie de enrropia m o ral: Sem d t'r v ida nos iludimos com urn sonh o ao supor q ue algum dia a igualdade e .1 frarernid ade rei11arao entre os homens sem compro merer nossa diversidade. No

111111

t/,, tlll•rnul~~tlr

71

nt.ull n, \t' a hum:tnid1dc nao esd resignada a se rornar urn consumidor cstcril dm v.rlot t'\ que conscguiu criar no passado .. ., capaz apenas de dar aluz obras basa1ud." ,. lll Vcnc;oes grossciras c pueris, [en tao] tera que aprcnder mais uma vez q ue aud.a, rr.rcr.ao verdadeira implica uma cerra surdez ao apelo de ourros valores, chei'l"du .at c a rcjcid.-los, se nao neg:!.-los por complero. Po is nao podemos desfr utar t•lr n.llncntc do o utro, identificarmo-nos com ele e, ao mesmo tempo, ~o n ti n uar ,llkfl•nt c~. Quando se alcans:a a comunicas:ao integral com o outro, mars cedo ou '""" t.mlc ela significa a dcsrrui<;iio da criarividade de ambos. As grandes eras cri•""·" loram aquelas em q ue a comunicas:ao se rornara suficienre para a estimula\.lo nnhua de parceiros distances, mas nao era tao freqi.iente nem tao veloz que 1'""''\l' em perigo os obmkulos ind ispensaveis entre os ind ivfduos e os grupos, 1111 que os reduzisse ao ponto em que trocas excessivamentc faceis pudesscm igua9 l.u ,. .lllular sua diversidade. ()que quer que se pense de tudo isso o u po r m ais surpreso que se fique ao In da boca de um anrro p6 1ogo , decerto se trara de algo que rem urn roque poraneo. O s atra tivos da "surdez ao apelo de o urros valores" e de uma ·•~em do tipo " relaxe e goze" a respeito d o aprisio namento pessoal na tradis;ao cultural sao cada vez m ais celebrad os no pensam en to social rer lncapazes de abrayar o relati vism o o u o absolutism o - o primeiro po r ,tli; ar o julgam enro , o segundo po r reriri-lo d a hist6 ria - , nossos fil6solu,toriadores e cientistas sociais volram-se para a impermeabiLite qu e Ler.Hiss recomenda, d o tipo " n6s som os n6s, eles sao eles". Quer se encare wmo legirimas;ao, com o a justificas;ao do preconceiro ou com o a esplendilumcstidade da frase de Flannery O'Connor, "quando em Ro m a, fas;am I fii',cram em Milledgeville", dira em rom de "eis-me aqui ", e claro que e qm• coloca a questao do Futuro do Etnocentris mo - e da diversidade cull sob uma nova luz. 0 recuo, o disra nciamento, 0 O lhar Disranc iado real mente a m aneira de escapar ad esesperad a rolerancia do cosm o po litisd.a Unesco? Sera o narcisism o m o ral a altern ari va a entro pia m o ral?

mt'altiplas as fo rs;as respo nsaveis po r uma visao m ais inreressanre do aurou .unento c ultural nos ulrimos 25 o u 30 anos. Existem as quest6es relati vas auua<JaO do mundo" a q ue Levi-Strauss alude, m a is especialmente o incapaltlc de a m aioria dos pafses d o T erceiro Mundo de atender as r6seas expec' "·" que eram correnres po uco a ntes e po uco depo is de suas Juras de 1cndenc ia. Os exrremistas Amin , Bokassa, P ol Po t e Kho m eini, o u, com '"" extravagancia, M arcos, M o buto, Sukarno e Indira Gandhi esfri aram 1 pouco a ideia de que ha mundos em o urros luga res em relas;ao aos q uais "'·', omparas;ao nose clara m ente desfavo ravel. Existe o sucessivo d esm ascara-


71

memo das utopms man<1stas- a Uniao Sovictica, a China, Cuba, o Ytetn.t ha rambem uma reduc;io d o pessimismo expresso na ideia de Declfnio do Ou denre, induzida pela II Guerra Mundial, pela depressao global e pela derrora d" imperiali smo. Mas ha tambcm, e creio que nao menos imporranre, o aumentn da consciencia de que o consenso universal - transnacional, rransculrunl , are de rodas as classes- sobre assu nros normarivos nao esr:i visfvel num furut1• pr6x imo. Ncm rodos -os sikhs, os socialistas, os posirivisras, os irlandcscs chegarao a uma opiniao comum sobre 0 que e decenrc c 0 que nab e, 0 que ( justa e 0 que nao e, 0 que belo e 0 que nao e, 0 que e razoavel e 0 que nao {, pelo menos nao tao cedo, ou talvez nunca. Quando abandonamos (e, e claro, nem todos abandonaram, calvez scqu(..'t a maioria) a ideia de que o mundo caminha para urn acordo essencial sobn quesr6es fundamentai s, ou mesmo, como Levi-S trauss, de que deveria fazc-lo, naturalmentc cresce o apelo do crnocenrrismo do tipo "relaxc e gaze". Se nm sos valores nao podem ser desvinculados de nossa hisroria e nossas insriwic;ocs, como nao podem se-lo os valores de ninguem em relac;ao a suas insrirut c;oes e sua hisr6ria, parece nao haver oucra coisa a fazer scnao seguir o cxemplu de Emerson e andar com nossas pr6prias pernas, falando com nossa pr6pria voz. "Espero indicar", escreveu Richard Rorry num rexw recence (maravilho samencc intitulado " Liberalismo burgues pos-moderno"), "como n6s [os libc rais burguescs pos-modcrnos] podemos convencer nossa sociedade de que .1 fidelidade a ela mesma co suficienre... , de que cia so precisa ser responsive! pot 111 suas pr6prias Lradic;oes. " Aquila a que chega o antrop6logo em busca das "lei\ consistences que subjazem a diversidade observavel das crenc;as e institui 11 c;6es" , partindo do racionalismo e da alta ciencia, e aringido a partir do prag macismo c da prudencia etica pelo fil6sofo persuadido de que "nao ha 'base' para [nossas] lealdades e convicc;6es, exceto pelo faro de que as crenc;as, d esejos c emoc;6cs que as susrentam superp6em-sc as de inumeros ourros membros do grupo com que nm idenrificamos para fins de dcl ibera<jiio morale politica ".'! A semelhanc;a e ainda maior, apesar dos ponros muiro diversos de que par rem esses dois sabios (o kanris mo scm o sujeiro transcendental , o hegelianismo sem o espfriro absoluro) e dos fins ainda mais diversos para os quais eles ten dem (um mundo bern arrumado de formas rransponfveis, um mundo desarru mado de discursos coincidenres), porque tambem Rorry encara as distinc;6cs odiosas entre os grupos nao apenas con10 na[urais, mas como essenciais ao pensamenro moral:

c

[OJ an:ilogo hegeliano da "dignidade humana inrrfnseca" [kanriana] naruraliza do, ea digniclade comparariva do grupo com que a pessoa se idcnrifica. As n acroc~ ou igrcjas ou movimentos, nos termos dcssa visao, sao cxemplos hist6ricos bri

, rw• pnrtJUC rcflitarn raios proveniences de uma fontc superior, mas por dos dt•ttos de contrasrc- da comparacr.'io com comunidades piores. As t~nl dignidade nao como uma luminescencia inrerna, mas por comparri1 l'~'l'\ cfciros de conrraste. Urn corol:irio dessa visao e que a jusrificac;ao I da, 1nsmuic;oes e pr.iricas do grupo a que se perrence- por exemplo, a ....,,. ...,,,,, lOntcmporanea- e sobretudo uma questao de narrarivas hisr6ricas tntlm·m hip6teses sobre o que rende a acontcccr em algumas contingencias uro~,) , c n:io de meranarrarivas fllos6ficas. 0 respaldo principal da historiogran:ln ,; .1 filosofia, mas a arre, que serve para desenvolver e rnodificar a au-'"'"'''"'11 do grupo - por exemplo, fazendo a apotcose de seus her6is, • . .'""'"··111 do seus inimigos, monrando dialogos entre seus membros e mudando r. I - IJ rlkn l c: sua arenc;ao.

'iendo cu mesmo integrante dessas rradic;oes inreleccuais- do estulffiw da diversidade cultural, por profissao, e do liberalismo burgues por convicc;ao geral - , minha visao pessoal, para aborda-las monll'nto, que a rendic;:ao facil ao comodismo de sermos apenas n~s , lttltivando a surdez e maximizando a gratidao par nao termos nasc•ou Ik, sera. fatal para ambas. Uma anrropologia muiro remerosa de 1r ,1 intcgridade e a criarividade culcurais, nossas e de rodos os outros, par de outras pessoas, conversar com elas e procurar apreende-las em tdiano e sua diferenc;a, esra fadada a morrer de uma inanic;ao que nao k't wmpensada par qualquer manipulac;ao de conjunros de dados objeti"" Qtt.tlquer fllosofia moral remerosa de se enredar num rclarivis'?"o desaotl num dogmacismo transcendental, a ponto de nao consegutr pensar mclhor a ser feiro com as ourras maneiras de viver do que faze-las papinrcs do que a nossa, esra desrinada (como disse alguem sobr~.os ~exV.S. Naipaul, ralvez nosso principal adepro da constru<jiio desses efe1tos r.1ste") a fazer com que o mundo se rorne seguro para a condescendent.u salvar duas disciplinas delas mesmas, ao mesmo tempo, ralvez pare·a. Mas, quando se rem dupla cidadania, tem-se obrigac;oes

e

' to de suas condutas difcrenres e de suas diferenres preocupac;6es (e eu muico mais proximo do populismo desleixado de Rorry que d.o mclindroso de Levi-Strauss- o que talvez seja apenas um preconcetur.tl meu) , essas duas vers6es do "cada um rem sua pr6pria moral" ap6ipdu menos em parte, numa visao comum da diversidade cultural, qual • dl· que sua grande import5.ncia reside em ela nos fornecer, para usar ~rn a lo1 d~ Bernard Williams, alternarivas a n6s, em contraste com alcernanvas


pa ra n6s. Ourras crens;as, valores e estilos d~.: cond uta sao vistos como c1cn~ 1 q ue ad otariam os, valores <)UC defenderlamos c estilos de condura que :.cgui1 i 1• m os, se houvessemos nascid o num Iugar ou epoca diferentes daqueles em tlllt' cstamos. E o farfamos mesmo. Mas tal visao parece ao mesmo te mpo supcrcscim:u t' subestimar bern mais do que deveria a realidade da di versidade cultural. S upc rCStima-Ja po r Sugeri r que ter Unta ·.rida d ifere ntC da que Se tern C Uma Op<,JII p rarica sobre a q ual, de algum modo, o sujeiro rem q ue decidir (sera que eu dt vc ria rer sido Bo roro1 Nao c uma s::me cu nao rcr nascido hirira?); e subestJ ma-la por obscurecer 0 poder que rem cssa di versidad e, quando pessoalmcn(t dirigida a n6s, d e transforma r nossa ~deia do que e, pa ra urn ser humano - Bn roro, hirira, esrruturalisra ou burgues liberal p6s-moderno - , acreditar, valo ri za r o u conduzir-se: do que e, como observou An hur Danto, fazendo ceo ~ f..'lmosa pergunta de T homas N agel sobrc o mo rcego, "achar que o mundo c plano, que fico irresisdvel com meu vestido d e Po iret, que o reverendo J im Jn n es me ceria sal vo po r seu am or, que os animais nao rem sentimencos o u que l\ 11 fla res OS rem - OU que 0 quenre e 0 punk". 0 pro blema do etnOCentrisrno nao esca em ele nos com pro merer com n ossos com pro m issos. T emos, po r defi nis;ao, esse co mpro misso, assim como esramos compro mcridos com nossas do res de cabec;:a. 0 problema do ernocentrismo e que ele nos impede de descobri1 em que ripo de angulo, como o Cavafy d e Fo rster, nos situamos em relas;ao ao mundo ; que ripo de morcegos somos, de faro. Essa visao- d e que os enigmas suscirados pela realidad e da di versidadc culwral rem m ais a ver com nossa capacidade d e sondar as apalpadelas as sensi bilidades alheias, os m odos de pensamento que nao remos nem tendemos a tcr (rock prmk e ves ridos d e Poi ret), do que com podermos o u nao fugir d e preferir nossas preferencias- re m diversas implicas;6es, que sao urn mau pressagio para a abo rdagem d as coisas culturais e m termos de " n6s somos n6s" e "eles sao clcs". A primeira dclas, c, possivelmente, a mais importance, e que esses enigmas nao surgem merame m e nas fro nreiras de nossa sociedade, o nde, segundo essa abord agem , es perarlamos encontri-los, m as surgem , po r assim dizer, nos lim ires de n 6s mesmos. A estranheza n ao com es;a nos limites da agua, mas no~ da pele. Aq ue le tipo de ideia q ue tende a ser culrivada pelos antro p61ogos desde Malinowski e pelos fil6so fos desdc W i rtgenstein- a de que os xiitas, digamos, por serem o urros, cons ri rue m urn probl ema, mas os to rcedo res d e futebo l, por cxemplo, po r serem pa rte de n os, nao 0 consrituem, o u, pelo menos, nao sao urn pro blema do m esm o tipo - e sim plesme nre errad a. 0 mundo social nao se di vide, em suas arric ulac;:oes, en tre urn n6s persp lcuo, com o qual podemos ter emparia, p o r m ais que sejamos diferentes entre nos, e urn eles enigm atico, com o qual n ao podem os ser emp aricos, por mais que defend amos are a monc

to d e '>Crcm d ifcrcntcs

de nos. A genralha comes:a mui ro antes do Canal

anclt .•. 1anto a anrropologia rcccnre, do tipo D o Po nto de Vista d o Nari vo (que

). \)l~<llltO a filosofia recente, do ripo das Fo rmas d e Vida (da qual sou ), lm.un levadas a conspirar, o u parecem conspirar, pa ra obscureccr esse l tt.tn1s d e uma apl icac;:ao cro nicamenre errada de sua ideia mais poderosa 1111p0rtanre: a ideia de qu~ 0 senrido e socialmente constru fdo. A pcrlcps:ao de que o senrido, sob a fo rma de sinais interpreraveis - sons, scntimenros, an efaros, gestos - , s6 passa a existir d enrro dos jogos 1.1~cm, das comunidades d iscursivas, d os sisremas de referencia inte r_ ,,,.,.,.. c das maneiras de consrruir o mundo; de que cle surge no conrexto intcrac;:ao social concrera, em que uma coisa euma coisa para u m voce e 1\1 , l' n;\o em alguma gruta secreta na cabec;:a; e de que ele e rigo rosamenre rnoldado no fl uxo dos aco nrecimentos, essa perceps:fi.o e in rerp rerada unplicando que as com unidades humanas sao o u d evem ser monadas sellUase sem janelas (o que, a meu ver, nem Malinowski nem Wittn - e, a rigor, nem Kuhn nem Foucault prerenderam q ue u.;;a"c). Somas, diz Levi-Strauss, passageiros desses trens q ue sao nossas cad a qual movendo-se em seus rrilhos pr6 prios, com sua pr6pria veloc em sua pr6pria dires:ao. Os rrens que correm bdo a lado, indo em disimi lares e com velocidades nao muito d ifcrentes d a nossa, sao-nos ao r.u.oavelmen re visfveis, qua ndo os o lhamos de nossos comparrimemos. m trcns que esrao e m rrilhos oblfq uos o u paralelos, indo em dires:ao oposo ~ao. "[P]ercebemos apenas uma imagem vaga, fugaz e quase nao idcnvcl. em geral apenas uma ma ncha mo m en tii. nea em nosso campo visual, n•an traz nenhuma info rmas;ao sobre si mesma e meramenre nos irrira, porllllcrrompe nossa pl:kida conremplac;:ao da paisagem que serve d e pano de para nossos devaneios. ,,\ Ro rry e mais cauteloso e menos poe rico, c sinsc inreressa menos pclos trens das ou rras pcssoas, rao preocupado csta aMiwr para onde esra indo o seu, mas fal a de uma "superposic;:ao" mais ou .Kidental de sistemas d e crenc;:a, entre comun id ades "americanas ricas e ll' '<ts" e ourras "com as q uais precisam os fal ar", como sen do o que pcrmi",llguma conversa enrre as nac;:6es ainda seja posslvel".'(' 0 faro de o sento , 0 pensamenro c 0 jufzo se alicers:arem nu ma fo rma de vida- que e0 lu~ar, alias, tan to a meu ver quanro na opiniao de Rorry, em que cles po•t· .tpoiar - e rido como significando que os limitcs d e meu m u ndo sao os ( s da minha linguagem, 0 que nao e exaramente 0 q ue 0 homem dissc. l) IJli C ele disse, e claro, fo i que OS Jimites da m inha linguagem sao OS limilfo mcu mundo, o que nao implica que o alcancc de nossa mente, daquilo podcmos dizer, pensa r, ap reciar e julgar, esreja aprisio nado nas frontciras


77 d e nossa sociedade, nosso p afs, nossa classe OLL nossa cpoca, mas que o alc;tllt 1 de n ossa mente, agama de sinais q ue de algum modo consegu imos in tcrprct.ll. e aqui la que d efin e 0 esp ar;:o inrelectual, afetivo e mo ral em q ue vi vemo~ Q ua nto maio r ele e, rnaio r podem os to rna-lo, tentando compreender 0 <.Jill vern a ser os ad eptos d a Terra plana, o u o reverendo Jim Jo nes (ou os Ik ou II\ v andalos), o que signifi ca ser com ::> eles, e m ais claros nos to rnamos ram bCin para n6s mesm os, tanto em re rmos do que vemos d e ap arenremente remoto, d e apa renrem ente fam iliar nos outros, d e atraente e d e repulsivo, de sens::tlo t de inreiramente louco; o posicy6es essas que nao se alinham de maneira simpli, ta, po is haalgumas coisas muiro atraenres nos morcegos e outras muito repug n antes nos e rn6grafos. Com o diz D an to no m esm o artigo que cirei ha po uco, sao "as lacunas en tre mim e os que pensam diferentemenre de mim- o que equi vale a d izer to d os os ou rros, e nao apenas os segregados po r diferencyas de geracy6es, sexo, n acio nal idade, seira e ate racya- [que] definem as verdadeiras fronteiras dn 7 self''.' Como ele rambem diz, ou quase, sao as assimetrias- entre aquilo cnt que cremos o u que sentimos e aqui la que os outros fazem - que nos permi rem situar onde estamos ago ra no mundo, como e es tar nesse Iugar e para o ndt gostarfamos ou nao de ir. O bscurecer essas lacunas e assimetrias, relegando-a\ ao campo da diferencya passive! de ser reprimida ou ignorada, d a mera dessemc lhancya, q ue e 0 q ue 0 etnocentrism o faze esta destinado a fazer (o uni versalis m o da Unesco as obscurece- Levi-Strauss rem roda razao n isso - , n egando por complero sua realidade), equivale a nos isolar desse conhecimento e dessa possibilidade: da possib ilidad e, em rermos literais e rigorosos, de mudarmos de ideia.

A hist6ria d e qualque r povo e m separado e a de rodos os povos em conjunto, como ram bem, a rigor, a hist6ria de cada pessoa to mada individ ualmente, rem sido a hist6ria d essa mudancya de ideias, em geral devagar, as vezes m ais dep ressa; ou, caso o rom idealista desta afirm as:iio perturbe o leiror (nao deveria, porquc nao e idealista nem nega as press6es narurais da realidade ou os limires materia is da vo nrade), tern sido a hist6ria d a mudan cya dos sistemas de sinais, das formas simb61icas e das tradi cy6es culturais. Essas mudancyas nao se deram necessariamente para rnelhor, ralvez nem mesmo em carater no rmal. T ampouco levaram :1 uma convergencia d as opini6es, m as a uma mistura delas. 0 que real mente foi , em algum m omenro, algo ao m en os parecido com o mundo das sociedades inrc grais em comunicacrao disrante de Levi-Strauss, Ia em seu abencyoado neolftico, transfo rmou-se em algo bem mais parecido com o mundo p6s-moderno de sensibilidades e m c hoq ue num con tato inescapavel de que nos fala D anto. Tal

II

llCI\t.dgia, a d iversidade ja naO e COmO antigam ente; e 0 trancafiamentO

\lid•'' t' lll vag6es ferroviarios separados, para produzir a renova<;:ao cultural, u t'Sfl.IC,.amenro com efeitos de contraste, para liberar energias marais, sao 1o111anticos q ue nao deixam de ser perigosos. A lt·ndcncia geral de o espectro cultural tornar-se mais vago e mais contfK IIl sc m rnar menos discriminado (alias, e provavel que esteja ficando mais do, a medida que as formas simb61icas se dividem e proliferam), tent•sta a que m e referi no infcio, al tera nao s6 a relas:3.o dele com a nc.~<;:5.o moral, mas tambem o carater dessa propria argumenras:3.o. Acosrno nos a ideia de que os conceitos cientfficos modificam-se com as mudos tipos de interesse para os quais se voltam os cienristas - a ideia de nl'l ll \ C p recisa do cilculo infinitesimal para determ inar a veJocidade de urn a , ncm da energia q uamica para explicar a oscilas:iio de um pendulo. Mas lwrn menos consciencia de que o mesmo se aplica aos instrumentos espevm do raciodnio moral. As ideias que bastaram para as magnfficas diferendr I.Cvi-Strauss nao sao suficienres para as perturbadoras assimetrias de ; c c com esras ulrimas que nos confronramos cada vez mais. lorn termos mais concreros, as q uest6es morais provenien ces da diversidaultural (que, e claro, esrao Io nge de ser cod as as quesr6es marais que exis·' ' quais, see que chegavam a surgir, su rgiam sobretudo entre sociedades atJUdc tipo de coisa dos "costumes COntrarios a razao e a moral" de que Se 111uu o imperialismo - , surgem agora, cada vez m ais, dentro delas. As iras sociais e cu lturais rem uma coincidencia cada vez menor- ha japo1111 Brasil, turcos as m argens do Main e narivos das fnd ias Ocidentais e t.tis encon trando-se n as ruas de Birmi ngha m-, num processo d e bara1110 que ja ve rn aco n tecendo ha urn born tem po, e clara (na Belgica, no 11da , no Uban o, na Afri ca do S ui, e nem a Roma d os Cesares era Ia muito nca), mas que, em n ossos dias, ap rox ima-se de p roporcy6es extremas e uni versais. )a vai Ionge o tem po em que a cidade norte-americana era o 1pal modelo d e fragmentacyao cultural e deso rdem etnica; a Paris de nos les gaulois esta fi cando tao poliglora e policro ma quanto Manhattan, e pc,~,fvcl que ainda venha a ter urn p refeito d a Africa setenrrional (ou , pelo ,,, assim temem muitos dos gaulois) antes q ue Nova Yo rk tenha um preltispan ico. No corpo de uma sociedade, den rro das fro nteiras de urn "n6s", esse surgi, de quest6es ma rais angustiantes, cenrradas na diversidade cultural, as1 111110 as implicacy6es que ele tern para n osso p roblema geral do "futuro do t·rurismo", ralvez se esclareyam de maneira bern mais vfvida arraves de ( )(('rnplo - nao de urn exemplo inve ntado d e ftcyao cientffica, reference a t'ln a ntimundos, ou a pessoas cujas lembrancyas se intercambiam enquan-


f )J uw1 t!.t dt~·nml.ult

711

to elas dormem (co mo os exemplos que passaram a agradar d emais aos fi l(,,., fos ultimamente, e m minha o pi ntao), m as d e um exemplo real, o u , pd .. menos, ap resentado a m im como real pelo a nrrop6 1ogo q ue o narro u: 0 e,,,., do fn d io Bcbedo c d a M a quina de H em odi alise. 0 caso e sim ples, po r mais inrriganre q ue renha sido seu desfecho. Anm arras, a extrem a escassez d e maquinas de he m odi alise, em virtude de seu enu 1 m e cusro, levo u, co mo era natural, ac ri ac;:ao de urn p rocesso de fo rmac;:iio de fil a para q ue os pacienres n ccessirad os d e d ialise ri vessem acesso a elas, nurtt program a medi co de governo do sudoeste d os Esrados U nidos, dirigido, ram be rn mui ro naturalmente, p or jovens medi cos idealistas, proveniences d e gran des faculdades de m edici na, em sua m aio ri a siruad as no lesre. Para que e~,. trata m ento seja eftcaz, ao m enos po r urn perfod o pro lo ngado, necessaria Unl,l disciplina rigorosa quanta a di era e outras quest6es po r parte dos pacientc\ Co m o iniciari va govern arnenral regida po r c6digos contrar ios adiscrim inay.ICI e, d e quaJq uer m odo, m oraJmen te m o tivada, com o afirmei, a o rganizac;:ao d.t fila fo i feita niio em term~ da capacidade de pagamenro, m as da simples g ravt dade dos casas e da o rdcm de chegada dos pedidos, polfrica esta q ue, com a·. disro rc;:oes habiruais da 16gica prarica, levo u ao pro blem a do fndi o bebedo.

e

Esse Indio, depo is d e conseguir acesso ao equipa m ento escasso, recu so u-se, para grande consternac;:ao dos m edicos, a parar de beber, o u seq uer .• contro lar sua ingesrao de alcool, que era prodi giosa. Sua postura, segu indo ut n tipo d e prind pio semelhante ao d e Flannery O'Conno r, que m encio nei antert orm ente - o d e o suje iro continuar a ser que m e, independentem ente dt· quem os o urros q uiserem qu e seja -,era a seguime: so u m esm o urn indio bt bedo, ja faz urn born tempo que sou ass im, e prerendo continuar a se-lo en quan ta voces co nseguire m m e m a nter vivo, am a rra ndo-m e a essa sua m aldi t•l m aq uina. Os medicos, cujos valo res eram bern diferenres, achava m q ue o Indio esrava impedindo o acesso ao aparelho po r parte de o urras pessoas da fila em si ruac;:ao nao m enos desesperada, as q uais, na visao d eles, p od eriam ap roveirar melho r seus beneffcios- 0 tipo jovem de classe m edi a, digamos, bern pareci do com eles, desrinado a universidade e, q uem sabe, a fac uldade de m ed icina. C omo o fndi o j:i escava uri lizando a m aquina d e hemodi:ilise qua ndo o problc rna se eviden ciou, cles nao co nseguiram decidir-se (nem creio que isso lhes tt vesse sido pe rmir ido) a retira- lo d e Ia; m as ftcaram profunda m enre aborrecido~ - pelo m e nos ram o q ua nto o Indio se mosrrava determinad o, sen do suficien teme nre discipli nado p ara compa recer com po n tualidade a cod as as suas ses· s6es - , e sem d uv ida teriam con cebido uma ratio q ualquer, aparentem entc medica, para rerinl.- lo d e sua posic;:ao na fila, se ho uvessem percebido a te mpo 0 q ue esrava pa r vir. 0 fnd io conrinuou a usar o apa relho e eles continuaram in comodados d ura nte va ri os an os, are que - o rg ulhoso, imagino, agradecido

m~dil.m) po r tc r o btido urn pro lo ngam ento da vida em que continuar

, c ac' m ncnhum arrcpendimento - ele mo rreu . ll<'lll ,

0

o b jeti vo dcsta pequena fabuJ a em tempo reaJ niio e m osrrar

o• m edi cos podcm ser insensfveis (eles nao eram insensfveis, e rinha m Ia ) ou <.1uao dcsoricnrados rornaram -se os Indios (esse nao esrava des' ,,,hia cxatam ente o nde se situar), nem tampo uco sugerir que os vaJom t'dt cm (istO e, aproxim ada mente OS nossos), OS d o fnd io (isto e, .I m ente os niio nossos), o u aJg um julgamento extern o as partes, reti filmofia o u da ancro po logia e proferido po r urn dos ju lzes herculeos de Dworkin, devesse ter prevaJecido. Era urn caso diffcil, que teve urn ft • mas nao vejo com o um etn ocentrism o, urn relati vismo o u uma Rll'hllll~- maio res pudessem te r melho rado as coisas (embora urn po uco • un.1ginac;:ao ral vez o fizesse). 0 o bjetivo da fabula (nao tenho pro priaccnna d e que haja nela uma m o raJ) e m osrrar que e esse tipo de coisa, e trlhn Jisrante, do brada sabre si m esm a numa diferenc;:a coerente 01 Al.olt1de ou OS lk, cujo fasdnio sabre OS fil 6sofos apenas ligeiram ente qul· o d as fantasias de ficc;:ao cien d ftca, ralvez po rque lhes seja possfvel rnl.i los em m a rcianos sublunares c enxerg:i-los em conso nancia com is' luc rcprcsenta, ainda qu e de m aneira m cio m elod ra marica, a fo rma gemid.t hoje em di a pelos conOitos de valo res surgidos d a divcrsidade

e

,. antagonistas dessa hist6 ri a, se e q ue se pode ve-los d esse m odo, nao rtprt', cnrantes de roralidades sociais ensimesm ad as, que se encontrassem ~asn ll<l S fro nreiras de suas cre nc;:as. Os Indios q ue afas tarn o destino arrac:onsumo de alcool sao parte tao integra nte da America contempo ran ca , us m edicos que o corri gc m arraves do uso de m aquinas. (Se voce quiser .:nmo, pelo m e nos no q ue concerne aos Indios- presumo que conhe<;:a iu>~ - , leia o inquietante ro m ance de Jam es W elch, Winter in the mule os efeitos de conrrasre ressalta m de urn m odo bastante peculiar.) IVt" al guma falha nesse epis6dio - e, a bern da justi c;:a, e diffcil di zer, a 1.1, cxatamente quaJ foi sua d imensao - , rrarou-se da incapacidade, por dr .unbos os Iadas, de apreender o q ue sig nificava estar no o urro, e poro <.JliC significava estar no seu. Pelo m enos ao que parece, ning uem muita coisa sabre si mesm o o u sabre q uaJq uer ourra pessoa nesse epi r .thsoluta m ente nada sabre o carater do encontro ocorrido entre eles, pd.ts banalidades da repug nancia e d a amargura. Niio e a incapacidade pr\\oas envolvidas abando narem suas pr6 prias convicc;:oes e ado tarem as d r outros que faz essa historieta parecer tao profundam ente deprimenre. pouco o sua falra de uma regra m o ral d esencarnada a que recorrer- 0 M.ti o r o u 0 Prind pio da O iferenc;:a (os quais, alias, pareceriam p roduzir

e


110

Nut'<illl:. 111/nr tltlllllaf'alagut

Il l

resultad os diferentesaqu i). 0 que respo nde po r esse senrimenro depressivo l .a impossibil idade de as p essoas seque r imaginarem, em meio ao misrerio da cl re nr;:a, como seria possivel con tornar uma assimetria mo ral perfeiramentc H I tentica. T udo aconteceu no escuro.

rl

0 que tende a acontecer no escuro - as unicas coisas que se diria serem perm I tidas par uma concepr;:ao da dignidade humana pautada em "uma certa surJc1 ao apelo deoutros valores" a u uma "compa rayao com comunidades piores"e o usa d a forr;:a, para garanrir a co nfo rmidade aos valores dos d erentores <.1.1 forr;:a, ou uma rolerancia vazia, que, nao compromerendo nada, nao modilic.1 nada, au ainda, como nesce caso, no qual a forya nao esta disponfvel e a role rancia e desnecessaria, urn escoamento para urn fim ambfguo. Scm duvida, sucede haver situar;:6es em que de faro exisrem as alternativa\ praricas. N ao parece haver muito que fazer como reverendo Jones, depo is gut ele esra em perseguir;:ao cerrada, senao dere-lo fisicamente, antes que ele disrri bua o venenoso Kooi-Aid. Quando as pcssoas acham que o quente e o rock punk, bern, pelo menos desde que nao o roquem no m etro, trata-se dos ouvi dose do funeral delas. E e diffcil mesmo (alguns morcegos sao mais inrrinseca mente morcegos do que ourros) saber exaramente co mo proceder com alguem que afirma gue as flares tern sentimenros e OS animais nao. 0 paternalismo, a indiferenya e ate a soberba nem sempre sao atirudes inureis a adorar diante de diferenyas de valor, m esmo diferenr;:as de maior peso do que essas. 0 problema esaber quando eles sao ureis e podemos d eixar a diversidade entregue em seguranr;:a a seus especialistas, e quando, como penso ocorrer com mais freguencia, e uma frequencia cada vez maior, eles nao sao ureis e ela nao pode ser entreguc dessa maneira, havendo necessidade de algo mais: uma incursao imaginariva numa m enralidade alheia (e uma aceirar;:ao dela) . Em nossa sociedade, o conhecedor pa r excelencia das menralidades alheias rem sido o etn6grafo (a historiad or tam bern, em cerra medida, e o romancista, de urn m odo diferenre, mas que ro volrar a minha pr6pria seara), que dramariza a esrranheza, enaltece a di versidade e transpira largueza de visao. Sejam quais forem as diferenr;:as de metoda a u teoria que nos separam, cem os sido sem elhanres nisro: profissionalmence obcecados com mundos situados no urros lugares e com o torn;i-Jos compreensiveis, primeiro para n6s mesmos e, depo is, atraves de recursos conceituais nao muiro diferentes dos usados pelos hisroriadores e de recursos Jire ra ri os nao muiro diferenres d os usados p elos romancisras, para nossos Jei ro res. E, e nquanro esses mundos esciveram realmenre nourros lugares, Ia onde M alinowski o s encontrou e onde Levi-Strauss as recordo u, isso foi , ap esar d e basrante diffcil como tarefa pratica, relativamenre

co mo ta1cfa analfrica. Podfamos pcnsar nos "pri mmvos" 1. s , nau vos" etc. ) como pensavamos nos m arc1• anos - como rnados ' dt· \Cillir, raciocin ar, julgar, cond uzir-se e viver que eram descondnu"""11\•alternacivos a n6s. Ago ra que esses mundos e essas menralidades Clll Sll;l maio ria, nao esrao realmen te noutro Iugar, mas sao alternativas n6•, \iluadas bern perto, "lacunas (instantaneas] entre mime OS que penIIICmcnte de m im", parece haver necessidade d e urn cerro reajusre de h.U11l0s rct6ricos e nosso senrimenro de missao. 1 mos Ja diversidade cultural, de seu escudo, sua descriyao, sua analise e Ul1l]Hl'Cnsao, tern menos o sentido de nos separarmos d os ou rros e sepam outros de n6s, a fim d e defender a inregridade grupal e m an ter a lealc.lu wupo, do que 0 sentido de defini r 0 campo que a razao precisa , para que suas modestas recompensas sejam alcanyad as e se concreti0 (t•rreno e irregular, cheio d e falhas subitas e passagens perigosas, onde ltcs podem acontecer e d e faro aco ntecem, e arravessa-lo au tentar lo contribui pouco a u nada para transforma-lo numa plan fcie nivelagur.a c homogenea, ape nas to rnando visfveis suas fendas e conrornos. l)lll' nossos m edicos perempr6 rios e nosso fnd io inrransigenre (au o (s) .11ncricano(s)" e "(aqueles com quem] p recisamos falar", na linguagem Rony) se confrontem de maneira menos destruriva (e estamos Ionge deter de que possam realme nte faze-lo, pa is as fendas sao reais), eles precisam r 0 ca rater do espatyo que OS separa. lm .:'!!rima instancia, sao eles mesmos q ue rem de fazer isso; nesse caso, h4 ,ubsriruto para o conhecime nto local, nem tampouco para a coragem. m mapas e graficos ainda podem ser uteis, assim como as tabelas, os relaIU fotografias, as descrir;:6es e are as reorias, se atentarem para o real. Os da ctnografia sao sobretudo auxiliares, mas, ainda assim, sao reais; co mo a (,:aO de dicio narios OU 0 polimento de lentes, essa e O U pode ser uma ina facilirado ra. Eo que ela facilira, quando o faz, e urn cantata operaciwm uma subjetividad e variance. Ela coloca "n6s" parriculares entre "eles" lllllarcs, e coloca "eles" entre " n6s" onde, como venho di zendo, rodos ja r ntonrramos, ainda que po uco a vo ntade. Ela e a grande inimiga do etnonsmo, d o co nfinamen to das pessoas em planetas culturais em que as uniidh as que elas precisam evocar sao "as d aqui ", nao par presu mir que cod as r~\Ml<lS sao iguais, mas pa r saber quao pro fun dam ente nao 0 sao, e, apesa r quao incapazes sao de deixar d e levar em conra umas as outras. 0 que 'IIIC tenha sido posslvel urn dia, e seja por que fo r que se anseie agora, a so·' J o conhecido empobrece a rodos; na medida em gue ela re n ha futuro, nmso sera tenebroso . Nao se rrata de que devamos amar uns aos ourros ou l l'l (se assim fo r - negros e africanderes, arabes e judeus, rameis e cingale,Jc iii .III Lu "

..


K\

H.!

creio que csrarern os condenados). Trata-se de que devcmos conhclt r uns aos o uuos e viver co m esse con hecime nto, ou rerminar isolados num murr do beckerriano de solil6q uios em ch.oque. 0 trabalho da ernografia, ou pelo menos um deles, e real mente proporcio nar, como a arte e a hisro ria, narrarivas e enredos p ara redirecionar nossa a ten c;:ao, mas nao d o ripo qu e nos rorne aceiraveis a n6s mesmos, representando o' outros como reu nidosem mundos a que nao queremos nem podemos cheg.11 , mas narrativas e enredos que nos tornem visiveis para n6s mesmos, represcn cando- nose a todos os ou tros como jogados no meio de um mundo repleto de esrranhezas irremovlveis, que nao remos como evirar.

''l'u·, t•m vez de se scpararem em un idades emolduradas, Cf!l espac;:os lunnes dcflnidos, as abo rdagens seriamente distintas da vida esrao r.ando em cspac;:os mal defi nidos, espac;:os sociais cujos lim ites nao rem lito lncgularcs e diffceis de localizar, a questao de como lidar com os ,lc julgamcnto a que tais disparidades dao margem assume urn aspecto lie. FiLar paisagens e naturezas-mortas e uma coisa; observar pano1 wl.rgcns c outra mui to diferente.

Are epoca bern recenre (agora a siruac;:ao esra mudando, e m parte, pclo m enos, por causa do impacro da ernografia, mas sobrerudo porque o mundo esra mudando), a etnografia estava basrante sozi nha ni sso, pois a hisr6ria, n.r verdad e, passava boa parte do tempo a estimular nossa auro-esrima, a respaldar nosso sentimen ro de que esravamos chegando a algum Iugar, ao fazer a aporco se de nossos her6is e diabolizar n ossos inimigos, o u a lamentar a grandeza pel d ida; o comenrario social dos romancisras, em sua maior parte, era inrernocom as partes da co nsciencia ocidental segurando, umas para as ourras, um c~ pelho pla no como ode Trollope ou curvo como o de Dosroievski; e are os cs critos de viagem , que ao menos atenravam para superficies ex6ricas (selva,, camelos, bazares, templos), empregavam-nas sobrerudo para demonsrrar .1 gra nde ca pacidade de recuperac;:ao das vi rrudes aprendidas, em meio a circum tancias penosas- o ingles que se mantinha calmo, o frances, racio nal , o nor te-americano, inocenre. Agora que ela ja nao esra tao sozinha e que a' esrranhezas com que rem de lidar vao-se rorna ndo mais oblrquas e matizadas, menos faceis de descarrar como a nomal ias desvairadas- homens que se jul ga m descendentes de urn ripo d e canguru ou cstao convencidos de que podcm ser assassinados po r um olhar de esguelha - , sua rarefa de local iza r essas estra nhezas e descrever suas formas pode ser mais dificil, so b certos aspecros, ma\ nao e menos necessaria. lmagi nar a d iferenc;:a (o que nao signi fica, e claro, in venri-la, mas rormi-la evidence) continua a ser uma ciencia da qual rodos prcci samos.

m no Ubano, os golpes de Estado na Africa e os tirotcios na Ameritr.•l sc imiscuem entre desastres locais que nao chegam a ser mais inreliIC'~uid os por sisudas discuss6es sobre o esrilo emp resarial japones, as ,j,. p.rixao persas ou os estilos de negociac;:ao dos arabes. Ha tambem n ......,,.., cx plosao de traduc;:6es, boas, ruins e ind ife rentes, dee para llnguas 11. indonesia, h ebraico e urdu- antes consideradas marginais e obscuuma rnigrac;:ao da culinaria, do vestuario, dos acess6rios e da decorac;:ao 1 t' lll Sao Francisco, Co lo nel Sanders em Jogjacarta e banqueras de bar roto), c tambem o su rgirnenro de temas do gamelao no jazz de vanguarmitos indigenas nos romances Iatinos e de imagens de revistas na pinrura . Acima de rudo, porem, rrata-se de que a pessoa que encontramos na tit hortalic;as e fruras rem ranra o u quase tanra probabilidade d e vir da Corun do Iowa, a pessoa do correio, tanta d e vir da Argclia quanto de Aut' a do banco, ranra de vir de Bombaim quan ro de Liverpool. Nem m meios rurais, onde a sim ilitude tende a ser mais arraigada, ficam h;i f:tzcndeiros mexicanos no sudoeste dos Estados Unid os, pescadores it.IS no lito ral do golfo do Mexico e medicos iranianos no meio-oesre.

St!S - ,

Nao e meu objeri vo agui , enrretanro, d efender as prerrogarivas de uma Wissm schaft feira em casa, cuj a parenre sobre o esrudo da diversidade cui rural, see que ela algum dia a reve, expirou ha mui ro tempo. Meu prop6siro e sugerir que chegamos a um porHo, na hisroria moral do mundo (uma hisr6ria que, em si mesma, e claro, e rudo me nos moral), em que somos obrigados a pensar ness;r diversidade d e modo b ern diferen t e do que cosrumavamos fazer. Se de faro est;\

w ill

r <.om csras ultimas que nos deparamos hoje em dia, que vivemos 111.1is em meio a uma enorme colagem, parece evidenciar-se por roda Nllo ~ apenas no noticiario noturno que os assassinatos na fndia, os

Ntio prcciso contin uar a multiplicar os exemplos. Todos voces sao capazes t\,11 nos seus, exrrafdos de seus passeios pelas redondezas. Nem roda essa l.~tlc.• igualmenre imporranre (a culinaria de Jogjacarta sobrevivera ao dt· <.hupar OS dedos), igualmente imediata (voce nao precisa compreenl r t· r~<;.•s religiosas do homem q ue Ihe vende selos), nem provem, roda el:t, 'nrltraste cultura l clara. Mas parece Aagranremenre claro que o mundo, d.r 11111 de seus pontes locais, esta comec;:ando a se parecer mais com urn ,In Kuwait do que com um clube de cavalheiros ingleses (para exemplifi')ut·, t.dvez por eu nunca ter estado em nen hum dos dois, parecem-me ser 1\ lll < tis diametralmente opostos) . 0 etnocentrismo dos tipos ovo de pioJU "1\sO SO ex iste grac;:as acultu ra" pode OU nao coincidir com a especie hu1 nr.l\ ago rae muito diffcil, para a maioria de n6s, saber exammente onde

c


KS

cenwi-lo, na imensa m o ntagem das dirercns;as justaposms. Os milieux cstrn todos mixtes. ] a nao se fazem m ais Umwelte como anrigamenre. Nossa resposta a essa realidade que me parece imperiosa e, ao que ramh~:r11 me parece, urn dos maiores desafios mo rais que enfrentamos arualmenre, con teo urn ingrediente de praticamente todos os ourros que enfrentamos, desde o dcs.11 mamenro nuclear ate a disrribui~o eqi.iita ti va dos recursos mundiais; e, para l'll frenra-lo, as recomendac;:6es de tolerancia indiscriminada, que de qualqtHI modo nao sao sinceras, e (o que constitui meu alvo aqui) os conselhos de rcmll ~o aos prazeres da comparac;:ao odiosa, seja ela orgulhosa, animada, defensiva 1111 resignad a, sao-nos iguaJmente inuteis, em bora estes uJtimos taJvez sejam OS m;ll\ perigosos, por serem os que mais tendem a ser seguidos. A imagem de urn mull do repleto de pessoas tao apaixonadamente encantadas com a culrura umas d." outras, que aspirem unicamenre a celebrar umas as outras, nao me parece cons II tuir urn perigo claro e atual; a imagem de urn mundo repleto de pessoas que glo rifiquem alegremente seus her6is e diabolizem seus inimigos, sim, infelizmen11 parece co nstiruf-lo. Nao e preciso escolher- alias, e preciso nao escolher- Cll tre urn cosmopo lirismo sem conreudo e urn provincianismo sem lagrimas. Nt· nhum dos dois tern servenria para se viver numa colagem. Para viver numa colagem, e preciso, em primeiro Iugar, que a pessoa \t torne capaz d e discernir seus elementos, determinando quais sao (o que impli ca, em geral, determinar de o nde vieram eo que eram quando estavam Ia) 1 como se relaciona m uns com os outros na pratica, ao mesmo tempo sem em botar a ideia que ela tern de sua pr6pria localizas;ao e de sua identidade dentru desta. Em termos menos figurados, "compreender", no sentido d a comprc ensao, da percepc;:ao e d o discernimenro, precisa ser distinguido d e "com preen der" no sentido da concordancia de opini6es, da uniao de sentimenros ou d:t comunhao de compromissos; ha que distinguir o je vow ai compris que De: Gaulle proferiu do je vous ai compris que os pieds noirs ouviram . • D evemm aprender a apreender o que nao pode mos abrac;:ar. A dificuldade disso e imensa, com o sempre foi. Compreender aquila que, de uma dada ma neira ou fo rma, nose estranho e tende a conrinuar a se-lo, sem aparar suas arestas com vagos murmurios sobrc a humanidade comum, scm desarma-lo com o indiferentismo do "a cada cabec;:a sua sen ten c;:a", e sem des carta-lo com o encantador, ad oravel ate, mas sem imporrancia, e uma habilida de que temos de aprender duramenre e, depois d e have-la aprendido, semprt· de maneira muiw imperfei ta, remos de trabalhar continuan1ente para manter

*"Eu os comprccndo"; pieds noirs designa os argelinos. (N.T.)

, n.rn sc tn\la de uma capacidadc inata, como a pcrceps;ao de profundidade u \1'1\ 'o de cq u ilrbrio, em q ue possamos confiar plenamente. I· III SSO, no rortalecimento da capacidade de nossa imaginac;:ao para apre1 o tprc cst6. diante de n6s, que residem os usos da diversidade e do eswdo OIVt'l , jJadc. Sc tcmos (como admito que tenho) mais do que uma simpatia lllll'lltal por aquele obstinado Indio norte-a mericana, nao e por compartimu, ,IS ideias dele. Q aJcoolismO e real mente nocivo, e colocar aparelhos de uli.i lisc a scrvic;:o de suas vftimas e fazer urn mau uso deles. Nossa simpatia v.1de sabermos a q ue p rec;:o ele co nquistou o direito a suas opini6es e, porI , o scntimento de amargu ra que existe nelas; deriva de nossa compreensao t'llt .lda terrfvel que ele teve de percorrer para chegar a elas, e daquilo - o etHtismo e os crimes que ele legitima- que a tornou tao terdvel. Se qui" scr capazes de julgar com largueza, co mo e 6bvio que devemos fazer, J\,111105 tornar-nos capazes de enxergar com largueza. E para isso, o que ja ' - o interior de nossos vag6es ferrovia rios e os brilhantes exemplos hisde nossas nac;:6es, nossas igrejas e nossos movimentos, por mais absorlc ljliC Seja 0 primeiro e por mais deslumbrantes que sejam OS ultimosmente nao bas ta.


,, ''""'' .111 ''"''"

5

A situafiio atual

Entrando com passo desajeitado Un1a das vanragens da anrropologia como empreirada academica e que nin guem, nem rnesmo os que a praticam, sabe exatamenre o que ela e. Genre qul observa a copula de babu fnos, genre que reescreve mitos em formulas algebrica\, genre que ~ese~1terra csqueleros do pleistocene, gente que elabora corrclacr6es dl ponros dectmats enrre as pniricas do trei namenro esfl ncreriano e as reorias dado enya, genre que decodiflca hierogli fos dos m aias e genre que classifica os sisremru de pare~tesco em ripologias nas quais o nosso aparece como "esquimo", rodos M denommam amropologos. 0 rn esmo fazem as pessoas que anal isam os ritmO\ dos tam bores africanos, disp6em a roralidade da hisr6ria humana em fases evolu ri vas que culminam na C hina co munisra ou no movimenro ecol6gico, ou reOc rem em geral sobre a natureza da natureza humana. Livros inrirulados (escolht algu ns ao acaso) 0 cabelo da Medusa, 0 chefe e eu, A !amparina vennelha do inm to, Teoria da cert?micn e processo cultural, Do Kamo, Conhecimento e paixiio, A lin guagem escofar americana, Pronunciamentos circunstanciais e 0 diabo e 0 ftticiJJsmo da mercndoria apresenram -se, rodos eles, como antropol6gicos, como faz tambem urn livro que me ca iu n as m aos sem ser chamado, alguns anos arri:., de ll~ ho me m cuja teoria e que OS macedonios derivaram originalmente d,t Escocta, com base no fato d e rocarern gaitas de fo les. H a diversos resultados disso tudo, sem falar numa porcrao de belos exem p los de pessoas cuja ambi~ao uhrapassa seu discernimenro, porem o mais im porranre deles, sem duvida, e uma c rise perman ence de idcnridadc. Costuma-~e. p ergunrar aos antrop 6logos, e eles pergunram a si mes mos, em que s u~ atJ.vtdade difere do que fazem o sociologo, o historiado r, o psicologo Oll 0 C't e~ rtsta po lftic~3 e eles n ao tern nenhuma resposta pronta, excero que sem duvtda h a urn a dtFeren~a. Os esforcros de definir esse campo vao desde ar 86

117

tos dt, pltLc ntcs, no cst ilo "convcrsa de clube social" ("de algum modo, l111tc" pc~soas do mesmo tipo, pensamos da mesma maneira"), ate argult .llttamcmc insrirucionais ("q ualqucr urn que se forme num departadt< .1111 ropologia e antrop6logo"). Mas nenhum deles parece realmenre Ill. N.to r ode trarar-se de que esrudemos povos "rribais" ou "primirirullptc, .l csta alrura, a maioria de nos nao 0 faze, de qualquer modo, ji "lllttit:l ccrteza do que seja uma "tribo" ou urn " primi rivo", see que ah'. Nao pode tratar-se de que estudemos "outras sociedades", porque tal\ttw·••l c:ada vez maior de n 6s estuda a nossa mesmo, inclusive a parcela c dl· n6s- cingaleses, nigerianos, japo neses- que pertence a cssas Mit tcdades". Nao pode tratar-se de que estudemos a "cul tu ra", as "fordr vtda" ou o "ponro de vista do narivo", po rque, nesres tempos hermest•mioricos, quem nao 0 faz? N4u ld nada de parricularmenre novo nessa siruac;ao. Ela cxiste desde os tm d essc campo, quando quer que eles renham ocorrido (com Rivers? ll<·rdcr? H er6doro?), e sem duvida estara por pcrto em scu fim , se ele Nu~ t'alrimos anos, conrudo, ela assumi u uma cerra nitidez e deu origem a crt.l angusria, que nao e facil de descarrar com aritudes como " sao ossos iu". Um incomodo cro nico, do ripo que d a fl sgadas, transformou-se lnu·ltnodo agudo, do tipo que irrita. A dtflculdade inicial de descrevcr a antropologia como uma iniciariva coe~ lJliC cia consiste, muito especialmente nos Estados Unidos, mas em atgn iflcarivo tambem no urras partes do mundo, numa co letanea de cienMIIIlln djversamen re conceb idas e unidas de maneira bastanre acidenral, Yrt s.trcm rod as elas, de urn modo ou de ourro (para cirar mais um tfrulo r. que hojc imagine que seria julgado sexisra), sobre 0 homem e suas A .arqucologia (exceto a classica, que manreve patrulhadas as suas fron' ,, anrropologia ffs ica, a anrropologia cultural (ou social) e a lingi.ifsrica ,l<)gica formaram uma especie de cons6rcio de fugitives reunidos, cuja mnpre foi tao obscura quanta foi decla rada sua correcrao. A ideologia l~u.11ro Campos", proclamada nos discursos e c ul tuada nos departamenUIItn·rsiririos, manreve unida uma disciplina descentrada, fcita de vis6es '· pesquisas pouco inrerligadas e aliancras im provaveis: u ma aurenrica 1 1 da vida sobre a l6gica. M." ha um limite para o que sc pod e faze r com os sentimentos, os habitos .apdos liberais as vanragens da amplitude. A medida que avancram recnicatc ,,, varias ciencias exrra-anrropo logicas de que dependem as varias cienlllll.t -anrropol6gicas, a l6gica comec;a a se vingar. Especialmenre nos casas lltttupologia ffsica e da lingi.iistica, o desvio da an tiga alianya foi acentuado. ptuncira, os avanc;os na genetica, na neurologia e na erologia viraram de


HH

11 Jll/l<l(o1(/ olllt.t/

pcrn::1s para oar a an riga abordagem das coisas que se pautav:J. 11:1 mcdiqao d. cabeqa, c levaram urn numero cada vez maior de esrudantes intcrcssados n. evoluqao humana aacharque bern po::leriam esrar numa disciplina biol6gic.a t dar o assunto par encerrado. Na segunda, o advenro da gramatica gerariv::1 It vou acons rru~ao de u111a nova associadio com a psicologia, os escudos de info1 marica e ourrasempreitadas de alta recnologia, majcsrosamenre inriruladas dt "ciencia cognitiva". Ate aarqueologia enrremeada com a paleoecologia, a bw geografi::1 e a teoria dos sistemas, tornou-se muito mais autonoma e, um dt. desses, pod era. com es:ar a referir-se a si mesma de forma mais ambiciosa. T od. essa dcscoscdura nos faz pensar em universos que se foram: a filologia, a histo ria natural, a econom ia poll rica, o Imperio dos H absburgo. As diferens:as inrcr n::1s estao comeqando a aparecer. No cntanto, n ao e esse movimento centrffugo, po r rna is poderoso que Sl' tenha tornado, que consrirui a causa principal da atual sensaqao de desconfor ro. A hist6ria, a filosofia, a crftica liter:iria e ate a psicologia, mais recentemen te, passaram por uma diversificaqao interna similar, por motivos semelhances, mas conseguiram manter pelo menos uma idencidade geral. A empresa matri7. da ancropologia deccrro se mantera, ainda que a duras penas, por mais algum tempo, nem que seja porque as pessoas interessadas no animal humano que nao sc imporram com a sociobiologia, ou as pessoas intcressadas na linguagem que nao estao enamoradas da g ram:itica gerativo-transformaciona l, podem en contrar nela urn abrigo proregido dos imperialismos dos cntomologistas e dos l6gicos. Os problemas mais perrurbadores vern surgindo no ramo da disciplina que ainda co maior, o mais visivel eo que mais costuma ser perceb ido pelo mundo em ge ral como aquele q ue a disringue (e que e ram bern aquele a que eu mesmo penenqo): a antropologia social, cultural ou sociocultural. Se ha problemas na pcriferia, cles sao ainda m aiores na capital. A primeira das diflculdades, a mais senrida e mais com entada, embora eu duvide que seja a mais importance, 0 problema do "desaparccimento do objeto". Sc algum dia foi cabfvel darmos aos "primitivos" esse nome, ou se real mente havia, mesmo no seculo XJX, muitos povos realmente "imocados" no mundo, c cerro que hoje mal chega a existir algum grupo que mereqa essas caracreri:aqoes. As terras a lras da Nova Guine, a Amazonia e talvez algumas partes do Artico OU do Kalahari SaO praticamente OS unicos Juga res em que se podc sequer enconrrar candidates a sociedades "inractas", "simples", "elemenrares" o u "selvagens" (para invocar alguns ourros termos obsoleros desse campo); e, na medida em que realrnenre exisrem como tais, elas estao sendo rapidamenrc incorporadas, como aconteceu antes com os indios norre-americanos, os aborfgenes australianos e os niloticos da Africa, nos pianos maiores desra o u daquela pcssoa. Os "primirivos", mesmo os do tipo que cel ebrizo u Boas, Mead,

e

11 11

nuwski c Evans Pritl.hard, sao um patrimonio mcio dcsgastado. llojc em maioria dos antrop6logos sociais nao esta zarpando para n.ao rl'glslradas nos mapas ou entrando em paralsos na selva, mas acirane m .1\sombrosas enridades da hist6ria mundial, como a fndia, o japao, o .a (;rccia ou o Brasil. ( OllllltfO, nao C0 desaparecimento de Uma tematica supostamente Unica, 11 nu路,ma, que se rem revelado urn abalo nos alicerces da anrropologia soc ,jm uma ourra privaqao, acarrerada pelo envolvimento com sociedades ' proscritas: a perda do isolamento das pesquisas. As pessoas que furavam ou usavam ratuagens no corpo. ou que enterravam seus mortos em art.alvcL nunca tenham sido os solir:irios que presumimos que fossem, mas er:unos. Os antrop6logos que partiam para OS T alensi, a tundra ou OS Tit:aziam de tudo: economia, pollrica, direito, reli giao; psicologia c posse tcrr.a, Janqa e parentesco; falavam de como os filhos cram criados, de como strulam casas, caqavam-se focas e se conravam hisr6rias. Nao havia mais m por perto, excero, vez por ourra e a uma adequada distancia academium outro anrrop6logo; ou enrao, quando havia - urn missionario, urn neantc, uma autoridade municipal, ou Paul Gauguin - , ele ou ela eram almeme poscos de lado. Eram mundos pequenos, talvez, mas cram justac a nossa concha. Nada disso exisre mais. Quando se vai a N igeria, ao Mexico, a China, ou, no m eu caso, a Indonesia c ao Marrocos, o que se encontra nao sao apeHnativos" e cabanas de barro, mas econom istas calculando coeficientes de , ~:icnriscas politicos fazendo escalas de aricudes, hiscoriadores corejando memos, psic6logos fazendo experimentos, e soci6 logos conrando casas, ou ocupas;6es. Os advogados, os crfricos licerarios, os arq uireros e are os - 路路'"''" nao mais sacisfeicos em " tirar a rolha do antigo enigma/ever os paracfcrvescerem", estao enrrando em aqao. Andar descalqo pela Totalidade Cultura ja nao e uma alternativa, na verdade, eo amrop6logo que tcnta farorre o grave risco de ser desancado por cscriro por um crftico ultrajado pnr urn dem6grafo en louquecido. Hoje somos, claramenre, uma espccie de aa especial, ou, pelo menos, e bom que nao demoremos a nos rransformar A unica pergunra, agora que "do Homem" e urn pouco demais como 1s1a, ciencia de que? A resposra a essa pergunra dilaceranre rem consisrido menos em responla do que em voltar a enfatizar o "merodo" que, pelo menos desde Mali., c considerado o prindpio eo fim da antropologia social- o trabalho ,grJflco de campo. 0 que fazemos que os ourros n5.o fazem, ou s6 fazem 路 nalmenre, e nao tao bem feito, (segundo essa visao) conversar com o wm do arrozal o u a mulher do bazar, quasc sempre em termos nao convcn11 c~rn.ag.1do ra

c:

e


1)()

cionais, noesrilo" umacoisa leva a ourra e tudo leva a tudo o mais", em Hnbll.t vernacul ae por lon gos perfodos de tempo, sempre observando muiro dt.: J'l'lln como elesse comp orram. 0 cad.re.cespecial "do que os anrrop6logos fazc11 .. sua abordagem holista, humanisra, sobretudo qualirariva e forremenre artc,,t n~l da. pesquisa social, eo cerne da quesrao (como nos ensinamos a aft rmar) . .\ ~tgena po~e nao seruma tribo e a I ralia nao e uma ilha, mas um offcio ap1c1r dtdo e m tnbos ou desen volvido em ilhas ainda pode revelar dimens6es do -.n que se oculram de tipos rna is rigorosos e mais organizados, como os econon j, tas, os hisroriadores, os exegeras e os cien ristas polf ricos. . 0 c ur.ioso, nesseesforcro de nos definirmos em termos de um estilo de r~·' qu1 ~a. pa mc~lar, coloquial e informal, radicado num conj unro espedfico dl habt!Jdades 1~1provisadoras e pessoais, e nao em rermos d aquilo que esruJ, 1 mos, das.reon as.q ue abrac;a.m os ou das descoberras que esperamos fazer, e <llll ele tern stdo mats eficaz fora da profissao do que denrro dela. 0 presrf~i o d~ antropol ogia, ou da antropologia sociocultural, pelo ITil' nos, nunca fot ma1or do que e hoje na hist6ria, na fi losofi a, na crftica lirerari.1 na te~ l ogi a .. no direito, na ciencia poll rica, ou, ate cerro ponto, na sociologi.1, na ps1colog1a e na eco nomia (os casos diffceis). Claude Levi-Strauss, Victot Turner, Mary D ouglas, Eric Wolf, Marshall Sal,Ji ns, Edmund Leach, Lou i' Dumo.nr, Melford Spiro, Ernest Gellner, Marvin Harris, J ack Goody, Piertl Bourd1 eu e eu mesm o (pa ra ensaiar uma lista que decerro ainda hei d e !amen tar~ somos cirados por toda parte, por todo o mundo e para toda a so rre de (j nal1dades. A "perspectiva antropol6gica", no que concerne ao intelecrual em geral, esta "na moda", e ha poucos sinais de que o que os criadores de jarg6e.\ chamam de seu "alcance" esteja fazendo o utra coisa senao crescer. Denrro d,t ~iscipli~a, enrretanro, o clima e menos orimista. A prop ria idenrificayao da . m ~nral 1dade do trabalho de campo" como aquilo que nos rorna diferenres c JUstr.fica nossa existencia, num mundo que se tornou metodol6gico, s6 faz in tenstficar a preocupacrao com a respeitabilidade cienrJfica da disciplina, porum !ado, e com sua legitimidade moral, por outro. Arriscar tanto do que se rem nu,m~ s6 aposta .produz urn cerro nervosismo, que as vezes bei ra algo mui ro proxtmo do p antco. Do !ado da c.ie ncia, essa preocupas;ao rem a ver sobretudo com a quesrao de saber se pesqu1sas gue se ap6iam tao macis;amente no fator pessoal - urn dado pesqutsador nu1n d ado momento, um cerro informan te num cerro local - podem ser suflcienremente "objetivas", "sistematicas", "reproduzfveis", "cumularivas", "preditivas", "exaras" ou "tesraveis" para gerar mais do que uma coles;ao de hisr6.rias p lausfveis. 0 impressio nismo, o intuicionismo o subj~tivismo, o esterismo e, talvez acim a de tudo, a subsriru is;ao das p ro vas p~la ret6nca e da argum encas:ao pelo esrilo parecem consriruir perigos claros e pre-

'II

ntado mais LcmiJo, a ausencia de parad igmas, e uma afli~ao perlipo de cienristas sao esses cuja recn ica principal e a sociabilidaUJo p11ncipal insrrumen to sao eles mesmos? Que podemos esperar deles, 11111.1 prosa carregada e belas teorias? A nwdida que a anrropologia caminhou para ocupar seu Iugar como uma n.r l'ntrc ourras, ressurgiu uma fo rma nova de urn debate antigo e por 1• wnhccido, Geisteswissenschaften vs. Naturwissenschaften [ciencias do t'l'r.rus ciencias da natureza], e ressurgiu sob uma forma especialmenre 1.1 c dcgradada - o deja vuo utra vez. En rrando rardiamente e com pas. tado, co mo disse Forster certa vez, referindo-se a fnd ia, para encontC'II Iugar entre as nas;6es, a an tropologia viu-se cada vez mais dividida uqudes gue se disp6em a am pliar e desenvolver sua rradis;ao aceita tr.tdic;ao que comes;a por rejeirar a dicoromia enrre hisroricismo e cienrifit• 'luc, com Weber, Tocqueville, Burckhardt, Peirce ou Montesquieu, \.11 111 uma science humaine- e aqueles que, remerosos de serem expulsos par nao esrarem adequadamente vestidos, pretend em transformar esse numa especie de ffsica social, rep leta de leis, formal ismos e provas apo11

I t'. < )uc

Nt·ssa lura, que irrompe por coda parte, desde os encontros academicos sofisticados ate as "reavalias;6es" fantasiosas de o bras classicas, e que licmdo exrraordinariamenre acirrada, os cas;adores de paradigmas derem turia das cartas, pelo menos nos Estados Unidos, onde, declarando-se "a II C central ", dominam as fo ntes de verbas, as organizas;6es, revisras e insH.' S de pesquisa da p rofissao, e estaO perfeitamente pre-adaptados a mendc de lucros e perdas que hoje permeia nossa vida publica. Os jovens {e r.a, <IS jovens) zelosos de Corn ford, dererm inados a co nseguir todo o dinhei'llll' c desembolsado, estao hoje por toda parte, mesmo que o dinheiro desado nao seja tanto assim. rndavia, ate OS que estaO do !ado (politicamente) mais fraco , OS que se inmais para uma visao das coisas no esrilo livre, afligem-se com sua pr6v.triedade de falra de coragem, s6 que ela e menos merodol6gica do que 1.al. Nao estao muiro preocupados em saber sea pesquisa "mim antrop6lo• VIILC nativo" e rigo rosa, mas em saber see decente. Q uanto a isso, no entanC\l;io muito preocupados. 0 problem a comes;a com algu mas reflex6es incomodas sobre o envolviIIIO da pesquisa antropo l6gica com os regimes coloniais, durante o auge do pnial ismo ocidental, e com suas sombras de ago ra, reflex6es estas acarreradll' por acusas;6es de inrelectuais do T erceiro Mundo sobre a cumplicidade campo na divisao da humanidade entre os que sabem e decidem e os que uohjcto do saber e em nome dos quais se tomam decis6es; tais acusas;6cs sao lu~.1res


1)\

panicularmenre percurbadora~ para eslUJIOsos que durante muilO tempo , ~,. consideraram amigos do narivo, e q uc ainda julgam compreende-lo melhor do que qualquer o urra pcssoa, inclusive, ralvez, do que ele mesmo. Mas a cui·.. a niio rermina aL lmpulsionada pelas imensas maquinas da aurodubit•t~·'" p6s-moderna- Heidegger, Wirrgenstein, Gramsci, Sarrre, Foucault, Dcnid.t e, mais recencemenre, Bakhrin - , a anguscia se difunde numa preocupa~·'" mais generalizada coma rep resenra<fiio do "O utro" (ineviravelmenre maiu ~etl lo, inevicavelmente singular) no discurso ernografico como raJ. Nao sera tUlLt essa empreirada apcnas uma domina~o exercida por oucros meios: "hegemo nia", "monologo", "voul01r-savoii', ~ mauvaise "orientalismo"? "Quem somes n6s para falar em nome deles?" Essa nao e uma p ergunca que se possa simplesmence descarcar, como r::tn · tas vezes foi descarrada por pesquisadores de campo calejados, como resmun• gos de anrrop6logos de bocequim ou posro de gasolina; mas seria desejavel qut ela fosse abordada com menos agress6es e invecrivas contra as suposras falh;t-. menrais e de canirer dos cienrisras sociais burgueses, e com mais renrarivas dl realmenre responde-la. Houve algumas dessas renrarivas, hesitances e de car•\ rer basrante formal, mas, pelo menos com igual freqi.iencia, a hipocondn.t fez-se passar por auro-exame e o "Abaixo rodos n6s!" (porque, alrnal, os des co nrentes rambem sao burgueses) fez-se passar por crfrica. A mudanc;:a na siruac;:ao do etn6grafo, tanto inrelecrual quanta moral , acarretada pelo desloca mcnro da antropologia das margens do mundo modcrno para seu centro, e tao precariamenre examinada pelos avisos de perigo iminente quanro pelas reivin dicac;:6es clamorosas de ciencia. 0 mero mal-esrar e tao evasivo quanta o mero rigor, e bern mais inrercssciro.

Jot',

Mesmo assim, no e ntanro, e posslvel que tudo scja para o bern, se nao para o melhor. A visiio que as pessoas de fora rem da anrropologia, como uma pode rosa forc;:a regenerativa nos escudos sociais e humanos, agora que ela finalmenre esra se tornando parte intcgrante deles, em vez de uma peque na diversao cob teral, ralvez acerte mais no alvo do que a visiio dos pr6prios antrop6logos de que a passagem de uma obscuridade dos Mares do Sui para a celebridade mun dial CSta simplesme!1lC cxpondo a falta de COCrencia interna da antropologia, sua debilidade merodologica e sua hipocrisia poll rica, alem, calvez, de sua irrc lev5ncia prarica. A nccessidade de elaborar, defender e ampliar uma aborda gem da pesquisa social que leve a serio a alrrmac;:ao de que, ao compreender 0\ "outros", scm maiusculas e no plural, ela e ucil para circular entre eles como cles circulam entre si, n.d );oce tareanremente, vern produzindo uma agita<jiio cxtraordinaria. Talvez n ao seja in teiramenre su rpreendenre que essa agira <jiiO parec;:a ameac;adora para :tlguns dos que sao apanhados no meio dela: como disse Randall Jarrell em algum !Ltgar, 0 problema das fases a ureas e que as pes

VI Vern

ncl:ts queixam se de que rudo parece amarelo. 0 que d~ foto

~ o quanro ela parcce promissora e are salvadora para ourros.

conjunsao de popularidade cultural e inquierac;:ao profissional que hoje ·' ;tntropologia nao um paradoxa nem urn sinal de que se est:i perllltl modismo passageiro. Euma indicac;:ao de que "a maneira antrade ver as coisas", ou "a maneira antropol6gica de descobrir coisas" e ,, anrropol6gica de escrever sobre coisas" (o que da mais ou menos na rcalmenre rem para oferecer ao final do seculo XX- e nao apenas nos aol iais- algo que nao se en contra nourros lugares, e esta em plena dctcrminar exaramente o que e isso. lUll !ado, as expectarivas ralvez sejam grandes demais- na excirac;:ao do csrruturalismo, scm duvida o foram - , c do ourro, as preocupac;:6cs , exageradas. Nao obstante, puxado em direc;:6es opostas por avanc;:os nas Jisciplinas afins, inrernamenre dividido por linhas acidenrais mal siriado de urn lado pelo cienrificismo ressurgente e, de ourro, por forma avanc;:ada de apeno de mao, e progressivamenre privado de seu ob. nal, de seu isolamenro na pesquisa e de sua autoridade inconresravel, pJrece nao s6 permanecer razoavelmeme imacro, como rambem, o mais importance, estendcr a influencia da perspecriva que 0 define a areas vezmais amplas do pensamento contemporaneo. Acabamos sendo muito fllll'n trar de mansinho, como passo desajeitado. Em nossa confusao rcsiforc;:a.

e

cultural ogia e uma djsciplina cheia de confliros, crernamenre em busca de para escapar de sua condi c;:ao, erernamenre scm conseguir encontd-los. !icmpre compromerida com uma visao global da vida humana- social, I. biol6gica e hisr6rica ao mesmo tempo-, ela esra sempre recaindo was partes, queixando-se desse faro e tenrando desesperadamenre, e sem 1, projetar algum ripo de nova unidade para subsriruir a que imagina ter n~o~s que agora, pela inlrdelidade dos aruais pratit:antes, ceria jogado fora, id.lmenre. 0 lema e"holismo", decanrado nos encontros profissionais e ,011\'0Cac;:oes gerais a!uta (das quais existe Ul11 numcro enorme) nas public monografias especializadas. A realidade, nas pesquisas eferivamente uml.1s c nos rrabalhos realmenre publicados, e a eno rme diversidadc. I· ·" Jiscuss6es, discuss6es imerminaveis. As tens6es entre as grandes subs do campo- anrropologia ffsica, arqueologia, anrropologia lingi.ifstica 1opologia cultural (ou social) - rem sido razoavclmente bern administra-


'lq , , ll/lldjl "''''"''

d:ts pclos meca nism os cosru m eiros de d i fercn cia~o e especiali7..ayao, nos tp Laa cad a su bcarn po torn ou-se um a disci plina bas ranee auto no ma. Isso nao aco 111 ceu scm invocac;6es lamu riosas d e polfmaras ancestrais - h avia gigantc!l 1\.a quela epoca - qu e suposrameme "faziam de rudo". M as as fissura~ " ' antropo logia cul tu ral com o t al, que e 0 cerne da d isciplina, rem-se mosu .u lu cada vez mais acenruad as e men os faceis de co ncer. A d ivisao em esco l:h d, pensamenro nitida m ente oposras- em abordagens globais concebidas n.u• como alrernari vas m etodol6gicas, mas como vis6es d e mundo, mo rais e po•i( 1 o namentos po liticos arraigad os- cresceu a urn po nto em q ue os choques s,an mais comuns do que as conclus6es, e a p ossib ilidade de consenso em rorno do q ualquer coisa fundamental parece remo ta. 0 afastamenro que isso acarrct.a. assim co mo o sen rimem o de pe rda, sao consideraveis e sem duvida sincerm. mas e muito provavel que seja m equivocados. A antropologia em geral e a :1 11 rropologia cultu ral e m partic ula r extraem a maio r parte de sua vitalidadc d,1, controversias que as an imam . Nao estao muiro destinadas a posic;6es fi rmcs, quesr6es resolvidas. 0 debate recenre, mui m celebrado na impre nsa inteleccual e no circuito acad emico, entre Ga nanarh O beyesekere e Ma rshall Sahlins, duas das figu r.t' mais ilusrres e combati vas do campo, concerne a m aneira como devemos en re nder a mo rre do Colo mbo do Pacifico, o cap itao James Cook, nas maos do• 1 havaianos, em 1779. (Colombo "d escobriu" a Ame rica quando procurava ,, fndia; Cook, tres seculos depois, "descobriu" as ilhas Sa nd wich - e, antes d, las, a Australia e a Nova Zelandia - ao procurar pela Passagem No roeste.) I nfl amados, eloquences e inrra nsigences- alem de causricamente en grac;:ado~. vez por o u tra - , os d ois escancaram algumas das quesr6es m ais cenrrais e ma1' gerado r:ts de dissidencia nos escudos antropol6gicos. Depois d e ler esses dois .1 se a tacarem , por cima, po r baixo e pelos !ad os, nas cerca de quinhentas paginas e m q ue elcs se aga rram pelo colarinho, o que possa rer aco ntecido com Cook, t• po r que, pa rece bern m enos importance e, provavelmenre, menos d erermi navcl d o q ue as q uesr6es que os autores levan tam sabre como devem os entender os atos e emoc;6es d e povos dis ran res em epocas remo ras. Em que consisre propri a mente "saber" sabre "os o utros"? Sera isso posslvel? Sera bo rn ? Com o r isco d e uma simpli ficac;:ao excessiva (mas nao mui ro: nenhum des ses do is guerreiros e d ad o a ideias obscuras), podemos di ze r que Sal1lins e um esm erado d efensor da ideia de que exisrem cul ruras d isrin ras, cada qual com " urn sisrem a cui rural com p lero da a~o humana", e que elas d evem ser en rendi das nos moldes esrruturalisras. O beyesekcre e urn esmerado defensor da idei.l d e q ue os arose crencyas d as pessoas rem func;6es praricas parriculares em su.1 vida, e de q u e essas fun c;:6es e cr en c;as devem ser enre ndidas em mold es psicol6 • 2 g tcos.

.,,

A ll'\l' o t1ginal Jc Sahl ins, que sofreu pouca ou nen hu ma modifica~o descit- .1 ex pos pda p ri mei ra vez, duas decadas arni.s, e que Cook tropcc;ou pt .ti.t d o !lava{ (isto e, da "ilha grande" do arq uipelago havaiano propriIC du o) po r ocasiac de uma imensa cerimo nia chamada Makahiki, que quat ro mescs e celebrava o renascimento anual da natureza, e cujo u.·n1ral era a chegada do deus Lo no, que vi nha de sua casa sobre as ~ unholizado por urn a giganresca imagem de pano de cascade amoreira e de ::\VeS, que era d esfiJada peJa i[ha dural1te urn mes, no sentido dos do rel6gio. ( >s laavaianos dividiam o ano lunar em dois perlodos. Urn deles era a epoM.tkah iki, quando a paz, os sacerdores narivos d e Kuali'l eo deus da fer• Lo no, m oldavam a vida do povo, eo rei permanecia im6vel. D u rante Jo ano, depo is que Lo no tornava a partir, fi cando sua imagem de penas aves virada d e costas, vi nh a urn ped odo de guerra, qua ndo os sacerdores Illes de N ahulu eo deus da viril idade, Ku, era m do m inances, eo rei torsc ;tti vo. Cook, que ch egou d a di rec;:ao cerra e da maneira certa, foi tomaprlns havaia nos, ou, pelo menos, pelos va rios sacerdores implicados, como arnac;ao viva de Lo no, e foi consagrado co mo tal p o r meio de complexos ~ no grande remplo da ilha. I kpois, po r suas p r6prias raz6es, mas ta m bem em concord ancia acidenral o c u enda rio q ue regia o Maka hi ki, ele partiu pa ra o ho rizo nre de onde viPnuco d epo is de zarpar, entretanro, u rn mastro partido obrigou-o a voltar Ia para conserra-lo . Esse gesto fora dos padr6es foi inrcrp retado pelos hacomo uma desordem cosmol6gica, q ue pressagiaria, se eles permirisscu p rosseguimenro, uma convulsao social e polfrica - uma "crise ural e m que todas as rclas;6es sociais ... m uda ria m seus signos". lsso levou mente ao confuso fim de Cook: ele foi morro a facadas e pauladas, em a centenas d e havaian os reunidos, d epois de desem barcar, irrirado, d ispaimpul sivamen te sua p istol a para rodos os !ados. Co nsagrado como deus, lcr chegado da maneira cerra na ho ra cerra, ele foi morro como urn deusnficado para m anter intacta e inalte rada a estrutura-, porter rerornado ao vaf d a maneira errada na hora errada: urn acide nre hisr6rico, apanhado 111.1 fo rm a cultu ral. Aroda essa resc alramente fab ri cada e impecavel a pon ro de levanrar susla~. O beyesekere respondcu com u m son oro "Nao!" - mais por raz6es mot• polrricas d o que emplricas, ao q ue parece. A seu ver, ela e degradante para h.avaianos (e para ele, pessoalmente, como "natu ral do S ri Lanka c como anq ue trabalha nu ma universidade norte-americana"), por retrad-los > selvagens infanris e irracio nais, rao embriagados com seus signos e pres q ue eram incapazes de enxergar o que lhes estava dianrc dos olhos lllll


''7

'J(J

hom em como qualquer outro- e incapazcs de rcagir a ele co m realisrno pr.tl i co e born senso corriqueiro. A exposic;:ao de Sahlin se chamada de etnocentrica, por impingir aos h:w.11 anos a ideia europeia de que a superioridade tecnol6gica dos europeus levm.1 OS primitives atonitos, ao depararem com eles pela primeira vez, a Ve-Jos COllll> seres sobrenaturais. E ha quem diga - isso e o que d6i real mente, sobrewd" para alguem como Sah l ins, que, como quase todos os antrop6logos, inclusiv~ Obeyesekere, ve-se como um tribuna d e seus sujeitos, urn defensor pub illl num mundo que os p6s de lado como desafortunados e desprezfveis - que .1 rese d e Saluins e neo-imperialisra: uma rentariva de silenciar as "verdadeir.,, vozes" dos havaianos e, a rigor, dos " natives" em geral, e de substituf-las pd." vozes das proprias pessoas que foram as primeiras a domina-los, d epois a explo ra-los e, agora, na faseerudira e redatorial da grande opressao conhecida como colonialismo, a obl itera-los. A prop6sito do relaro de Sahlins e das afirmac;:oes de que ele se baseia num faro real, Obeyesekere escreveu: Quesriono esse "faro", que demonstro rer sido criado na imaginac;:ao europeia do seculo XVlll e de epocas posteriores, e que se baseou em "modelos mfticos" pre vios, peninentes ao temfve[ exp[orado r e civi[izador que e Uffi deus para OS "nali vos". Diro em linguagem clara, duvido que os natives renham criado seu dcu\ europeu; os europeus o criaram para eles. Esse "deus europeu" e urn miro da con quisra, do imperialismo e da civilizac;:ao- uma rrfade diffcil de separar. A subseque nce guerra d e papel entre os dais antropologos pode ser acorn panhada no divaganre sumario da pro mo roria apresentado por Obeyesekerl·, no estil o " marar a cobra com 0 pau que estiver amao" (ele invoca 0 terro rismo cingales, Cortes entre os astecas, 0 corapio das trevase uma coisa chamada "psi co mimese simbo lica"), e no sumario da defesa apresentado por Sahlins, mai' fluente e pertinaz, no esrilo "e ha m ais uma coisa" . (Um ters;o do livro de Sah lins comp6e-se d e dezesset e apendices de uma minucia espetacular, en tre O\ quais se incluem "Sacerdores e genealogias", " Polfrica do calendario", "Q, Atua nas Ilhas Marquesas e no urras areas", "O s deuses de Kamakau" e "Lono em Hikiau".) De ambos os lados ha uma ab undance profusao de fatos, fa cos su postos e faros possfveis, que toea em praricamente tudo o que se sabe ou se su poe saber so bre o infortunio de Cook e as condic;:oes que o cercaram. Sahlins leva uma certa vanragem natural nesse arremesso d e dados, porqut.:, co mo antigo oceanista. de grande reputacrao, escreveu longamente sabre a el no-hisr6ri a p o linesia em geral e sobre a do H aval em particular. 0 trabalho dt' Obeyesekere t em-se volrado quase que exclusivamente para o Sri Lanka, e ell' construiu seu conhecimemo do assunto em discussao atraves de rres ou quaLm II

de lciLur:-ts pcni ncntcs e de uma b reve "peregrinacrao ao H avaf, para cotcjar nll .t vcrsflo com a dos esLUdiosos da hist6ria e da culrura havaianas". M.1s, como os do is esrudiosos baseiam-se essencialmente no mesmo corpus · , de rnateriais primari es- diaries de bordo, diaries de marinheiros, hisnrais anotadas, relatos de missiomirios, alguns desenhos e gravuras e urn ll.tdo de cartas - , essa nao e, em si mesma, uma diferenc;:a decisiva. Eape11111 <1 diferens;a que imp6e a Obeyesekere- cujo esrilo de argumenracrao a ser muito relaxado em rermos mecodol6gicos - um on us maior da d o que ele parece perceber. ("Julgo terrivel mente diffcil aceirar", "com b cilidade, seria possfvel argumentar", "parece razoavel presumir", "e di1.tucditar", "considero esse rel ato ... extremamente plausfvel" e outros apedt·ssa ordem a suposta o bviedade, justamente das coisas que estao em ..... .. ~,••• u, pontuam seu rexco do comes;o ao fi m .) Se esse fosse o debate acadeque as vezes parece ser, Sahlins, mais sagaz, mais concentrado e mais invenceria sem esforc;:o. Mas nao se rrara d esse ripo de debate. Apesar d a ret6rica cienrificista de os Iados sobre a "busca da verdade", apesar dos insultos eruditos reb usc perfeiram ente desnecessarios (Obeyesekere diz, a prop6sito d e coisa alque falta a Sahlins u ma " preocupac;ao etica p rofunda", enquanto lins diz, a prop6siro disso, que Obeyesekere e um " terro rista" literario), e a iLO da interminavel exposis;ao de po rmenores que s6 poderiam agradar a advogado, as questoes que OS dividem, no fundo, nao sao simples quest6es f.tto. M esmo que eles conseguissem concordar quanta a m aneira como os ianos viam Cooke este a eles- e, na verd ade, os dais a u cores nao se distanto nisso quanta presumem - , continuariam em completa oposinn tocante a praricam ente rudo o que importa na antropologia. 0 que os ra, assim como a boa parte dos pro fissio nais da area, e sua compreensao da rt·nc;:a cultural: 0 que ela e, 0 que a produz, 0 que a sustenta e ate onde ela Para Sahlins, ela e essencia; para Obeyesekere, e superfkie. • I

1ximadamente nos ul rimos vinte e cinco anos, era do pos-tudo (p6s-moderl, pos-esrruturalismo, p6s-colonialismo, p6s-posirivismo), a tentariva de t.tr "como pensam (ou pensavam) os ' natives"', ou mesmo o que eles estao mlo quando fazem o que fazem, vi u-se sob consideravel ataque moral, polfrir tilos6fico. A mera afi rmacrao de "saber mais", que d idamos que qualquer anlc'llogo rem que fazer, ao menos implicitamente, parece pelo menos ncnte ilegftima. Dizer sobre as formas de vida dos havaianos (ou de qual r cHtlro povo) alguma coisa que os pr6prios havaianos nao ten ham dito cxpoc lndiv{duo a acusacrao de estar escrevendo a consciencia de outros povos p.ll.l


'IH

clcs, ro Lcirizand o sua alma. Parecc guc rcalmcnlc j:i sc fo i o lcmpo d a anlropo~• gia simples de "os Dang acredi ram, os Dang nao acrcditam". As reas;oes a esse estado de coisas - o que Sahlins charnou, num de seus ttl saios mais recentes, d e "Adeus aos r,·istes Tropes" - rem sido diversas, prcm II 3 padas e um bocado confUsas. O s p6s-modernistas questio narn se os rcl.1h•' organizados de outras maneiras de estar no mundo- relatos que oferecem r plicas;oes monol6gicas, abrangentes e demasiadamente coerentes - sao rt d mente dignos de credito, e se nao estamos tao aprisionados em nossos modos cl, pensarnento e percepc;ao, que somos tncapazes de apreender os dos o utros, e 111r nos ainda de lhes dar cn!dito. O s estudiosos poliricamente motivados, intenst"'' sern hesirac;:ao, seguros de seu terreno, tern conclarnado a urn trabalho anrro1 n 16gico que promovaos destinos dos povos descritos, como quer que se emend. 111 esses destinos, e a uma subversao deliberada das desigualdades de poder entre", • O cidente e o Resto". T em havido demandas de "contextualizac;:ao" de derern11 nadas sociedades no "sistema mundial ('capitalista', 'burgues', ' urilicirio') n o derno", em conrraposis;ao a seu isolarnento em "ilhas da hist6ria", como d11 outro dos dtulos provocativos d e Sahlins. T ern havido pedidos d e resgate datil mensao hist6rica das culruras " primitivas" ou "simples", muitas vezes retratad.l\ como estruturas "frias", imuraveis e crisralizadas - naturezas-mortas hurnana' E tern havido apelos a uma reenfarizac;:ao d as caracterfsticas pan-humanas co muns e simples (todos raciocinarnos, todos sofremos, todos vivemos nurn rnu n do indiferente a nossas esperans;as), em contraposic;:ao aos contrastes nftidos t incornensuraveis da l6gica e da sensibilidade entre um povo e outro. Todos esses temas permeiam o ernbate entre Obeyesekere e Sahlins, ap.t recendo e reapa reccndo sob fo rmas d iferentes em diferentes articulas;6es -em intensos debates pa ra d eterminar se os relatos havaian os oitocencistas d e sem costumes e tradis;oes po dem ser usados para reconstruir o passado hist6rico, ou se esrao po r d emais impregnados dos preconceitos cristianizadores dos missio mhios que os registraram para ser dignos d e conllans:a; se C oo ke seus cornpa nheiros haviam aprendido havaiano o bastanre para entender o que os hava ianos lhes di ziam ; e sea abo rdagem estruturalista rem que presumir que as cre ns:as dos havaian os cram uniformes na populas;ao inteira, cujos m embros sao escereOLipadame nte apresencados, segundo a acusac;ao de Obeyesekerc, "como se pusessem em pnitica urn esquema cultural sem nenhuma refl exao" M as, no fim , os arg um en to s, opostos em rodos os aspectos, dividem-se num contraste nfcido e simples, quase maniquefsta. Para Obeyeseke re, OS havaianos sao racionalistas " pragmaticos", "calculis tas" e "escrategistas"; parecendo-se muito conosco- alias, com qualquer pessoa, com a possfvel exce<;ao de Sahlins - , eles "avaliam reOexivamente as implica c;:oes de urn p roblema em rermos d e crirerios pniticos". Para Sahlins, eles sao ou

1lsittutpl11 1111111/

')')

di, tullos, q ue cxistcrn nurn "esquema" distinto, num "sistema cultural n da as:5.o humana'', nurna "outra cosmo logia", inteiramente descondda " ra<.:ionalidade burguesa moderna", regida por uma l6gica "que [tem] a rhti<.:a de nao parecer necessaria aos nossos olhos, mas de ser suficiente t lt·s". "Culturas diferentes", diz Sahlins, "racio nalidades diferentes". A "racionalidade pratica" de Obeyesekere, no dizer d e Sahli ns (q ue tama l hama de "antro pologia pidgin" e de " nativis mo po pular"), mostra que fl a [ucilitaria e inscrumentalista] de H obbes, Locke, H elvetius & Cia. est;\ muito presente entre n6s". A " teoria estrutural da hist6ria" enunciaSuhlins, no dizer d e Obeyesekere (que a chama de " reificad a", "superor", " rfgida" e "pseudo-hist6 rica"), mostra que o que ainda esta muito lc entre n6s e 0 modelo irracionalista da m entalidade prim itiva - LeI, Levi-Strauss, os astecas de pensamento grupal d e Tzvecan T odorov, e de Totem e tabu, que achava que as crians;as, os selvagens e os psic6tit rarn uma coisa s6. {) (JUC esta em jogo, po rtan tO, e uma pergunta que perseguiu OS antrop6pnr quase cem anos, e que nos persegue ai nda rnai_s, ago ra qUt~ trabalhanurn mundo descolonizado: Como ente nder p rattcas culturats q ue nos estranhas e il6gicas? Quao estranhas sao elas? Q uao il6gicas? Em que a razao, precisarnenre? T rata-se de uma pergunta q ue nao se deve form uapC'nas sabre OS havaianOS do seculo XVl ll , que desfilava m ruid~sa m,:nte irnagens vesridas d e plurnagem de passaros, tomando um coq ue1ro ( u m com a cabes:a no chao e os tesdculos no ar") pelo co rpo de u rn deus, e wndo sua vida ern urn emaranhado tao complexo de sacralidade e proibio not6rio tabu- que, as vezes, mal co nseguiam se m exer. Ela tambem ~cr formulada sobre os ingleses setecentiscas, marinheiros e navegadores, sem mulheres pelos oceanos ern busca de descobertas - arcldias, cu. ......... ...., , ancorado uros, iguarias e a Passagem N oroeste - , e sobre a sociedahHJIIisitiva e agressiva, sobre o mundo de "o saber ca gl6ri~" q ue, espera~?o ultima instancia po r uma salvas:ao te mpo ral , mandava OS tngleses para Ia. ( )s havaianos e os navegado res do Iluminismo estao ago ra muito distances no\, no tempo e no espas;o. Isso e verdad e, pelo m enos, a respeito dos havailJIIC levavam o ritmo de vida regido po r Ku e Lo no. (Kamehameha II tJUC pas fim a esse ri tmo, com sua fa mosa fogueira das vaidades no seculo que foi uma verdad eira inversao dos signos; e aquila a que ele ~ao _po~ lim, refeic;:oes com as mulheres e atirando leones no mar, fot eltmtnado t rislianismo, pela cana-de-ac;:ucar e pela navegac;:ao a vapo r.) E tambcrn sc IL.a aos navegad ores que entraram a fo rs:a nesse ritrn o de vida, atrevidos, ig ntl·s e firmemen te decididos a pro mover melho ramen tos. Volramos m p.tra esses d ois "povos" e para seu lendario " primeiro contato" por ctllt~·


1110

Ntll'ol /11

11 Iitullplll•llll•t!

Jtlhtt 1/ o/111111/lllfriJ:I•I

as brumas da mod erna. ord cm c.lc vida (o u, ago ra que os im pcrios I'l l ro-a mericanos eo diviso r mundial "Oriente-Ocidente" se enfraqucccran• 111 1 desap areceram, p or en rre as brum as da o rdem pos-mod erna). A lem d isso, vol tamos os olhos p ara eles a partir de nossas posi<;6es particulares den tro dessa • 11 dem . N6s os com preendemos como nose possfvel, considerando quem SOIHt•·· o u aquilo em que nos transfo r mamos. Nao ha nada de fatal nisso, nem p:u ,, .1 verdad e nem para a imparcialidade. Mas e algo inevitivel, e seria uma lOllt I afirmar o utra coisa. E um grande m eriro de Obeyesekere e Sahlins que nenhum dos dois Jig.• o utra coisa. Suas posiy6es pessoais e seus projetos pro fi ssionais sao frances c vi sfveis. O beyesekere afi rma que, como aurenrico " nativo" (ou "p6s- narivo"~ ). direramente ap an ha do nas agoni as atuais d e uma ex-colonia destro<;ada pot uma violencia ind uz ida, ele esra im une aos auto-enganos ocidentais e especial mente bern posicion ado p ara enxergar 0 Pacifico do seculo XVl ll, tanto branc II q uanro d e cor, como real men te era. Ele dedica seu livro a urn taxista cingalh assassinado, que costumava transpo rra-lo em Colo mbo, em mem oria dos " m1 !hares que fo ram mo rros no mundo inteiro ... , pessoas comuns cujas famfli.l\ sequer tiveram a oportunidad e d e p rantea-los". Escreve ele que "foi precis.t mente a p a rtir de [minhas] condi¢es existencia is que se desenvolveu e florc' ceu m eu interesse po r Cook" (e sua "ira" em rela<;ao a Sahlins e sua ob ra). Em resposta, Sal1lins se pergunra, como seria cabfvel, de que modo elc 1 Cook se haveriam to rn ado " respo nsaveis, de algum modo, pela tragedia do amigo de Obeyesekere", e sea co nvoca<;ao dessa tragedia a servi<;o de uma dis puta erudita e inteiram enre ap ropri ada. D iz ele que, po r mais branco e ocidcn tal que seja, esta bern menos carregado de preconceiros ernocentricos do qu< alguem que, ao exp licar "as antigas concep <;6es havaianas dos hom ens brancO\ atraves d e cren<;as cingalesas e d e sua propria experiencia ... , afasra-se cada vcz m ais dos havaianos e chega cada vez rna is perto do fo ld ore ocidental n arivo do di vino versus o humano, do espi ritual versus o m aterial". A vfrima fi nal ... eo povo havaiano. 0 born senso empirico ocidental subsrirui lhe a visao das coisas, deixando-o com uma hist6ria ficcional e uma ernograf1.1 pidgin ... Os rituais rradicionais ... se dissolvem; as clivagens sociais em rorno d.1, qua is girava a h isr6 ria havaian a ... sao apagadas ... 0 povo havaiano aparece em cena como urn fan roche da ideologia eu ropeia. Privada ... de as;ao e culrura, a his t6ria desse povo fica reduzida a uma classica falta de sentido: eles viveram e sofrc ram- e depois morreram .

101

dth.ll l' \t'll pntboscxlrao rdinario e, no final, am eac;:a transforma-lo de uma dt• 111 11 p:tssado fugidio em u ma briga particular. Mes mo que, seguindo ..,l!!llt' ~Ct' IC,

tc nhamos consciencia da necessidade de levar plenamente em u f.u o de que o que sabemos sabre o H avai do "primeiro contato" chega fill rado pel as perspectivas dos que o narrara m, e de q ue ninguem em al~um :t jamais viveu n u m m undo in reiramen te disrante das preocupade tlldcm pritica, a redu<;ao desse H avai a ramanha "consrru<;ao europeia \"contin ua a parecer mais um produro do ressenrim enro deslocadoidl·ol6gica- do que dos faros, da reflexao e do " born sensa". E ainda q ue, segu indo Sah lins, perceban1os o perigo de perder para sem11 p rnfundas particularidades de povos extintos de epocas extintas, ao 1111;\-los em raciocinadores general izados, movidos por interesses de orp r.hica, e recon hec;:amos que ha mais ma neiras de silenciar os ourros do lm.agina o revisio nism o pos-colo nial, os problemas persistem. 0 encerralk·ssas particularidad es em fo r mas de contornos defin idos, firmemente aunas as ourras co mo as pec;:as de urn quebra-cabe<;a, ainda corre o risco rcr a :.1cusa<;ao de e ngodo ern ografico e excesso de brilhantismo. ( lwios d e cerrezas e acusac;:oes e inteiramenre dom inados pelo desejo de r po ntos, O beyesekere e Sahlins conseguiram , apesar disso, colocar junlnd.agac;:oes teoricas fu ndamenrais, de urn modo que jamais teriam consec· m separado; e levanta ram quesr6es merodol6gicas cruciais references a tarefa de "conhecer os ourros". (A p roposiro dessas indaga<;6es e quesc.al vcz neste mom en to eu deva confessar que, apar te o esplendor estrutul JUC cerca suas analises, considero Sahlins claramente mais persuasive. dc:scri <;6es sao mais pormenorizadas, seu retrato dos havaianos e dos in~ mais p rofundamente penetrante e sua apreensao das q uest6es marais e .as cnvolvidas e mais segura, menos suscerfvel aos rufdos desnorteadores prcsente con fuse.) Sc des elevaram o n fvel do debate anrropologico - o q ue e urn assunto unpo rtante, a Iongo prazo, p ara urn campo em que real menre nao exisrt·spostas no fim do livro - depende de os q ue vie rem depois (e ja ha urn numeroso em cada urn dos !ados) serem capazes de susrenrar sua inrensi,.. ao mes mo tempo, refrear sua p ropensao a se o fende rem e a brigarem vi 1<l ria; de serem capazes, em meio ao rancor alimentado e ao orgulho feritlt' ro nt inuar a conversar.

tafli.O intensa

Eessa curiosa inversao- o "sujeiro narivo", o fendido e injuriad o, porran do-se com o urn un ivei salisra do llum in ism o, eo "observador estranho", di:. .........--,>._Ea nte e ironi co, aparecen.do como um hisro riador relativista - q ue confere .1

r.' .. v•

J~~

:-....

1, :\

.,~0, ~

.as ciencias h umanas sao promfscuas, inconsranres e mal definidas, mas a 1logia cultu ral abusa desse p rivilegio. Vejamos:


I ll~

I ll.!

Primeiro, Pierre C last res. Aos tr nta a nos, quando faz.ia p6s-gradu.tc;.tu

1111

beranu do estrutu ralismo (o ILJbr.ratoire anthropologique de C laude I vi-S trauss), ele parciu de Pa ris, no ini::io d os a nos 60, rum o a um canto rc nH!Irt do Paraguai. La, numa regiao pouco h abicada, de estranhas florestas e a n i111.1t) ainda mais esrranhos - ons;as, quacis, urubus, cairirus, cobras-cip6, gua1 ii•H - , viveu durante urn ano co m cerca d e uma centena d e indios "selvagc u ." (como os chamo u em tom ap rovad or, alias co m certa reverencia), que aband" navam seus velhos, pimava m o co rpo com listras cu rvas e retingulos inc.l111 1 d os, praticavam a poliand ria, co mi am os mo rros e batiam com o penis de ant • nas m eninas que mensrruava m pela primeira vez., para to rna-las loucamcnl• ardentes, como a anta de rro mba comprida. Ao livro que p ub licou em sua volta, C lastres deu - com uma insipid( 1 pn~-moderna deliberad a e quase anacro nica, como sese tratasse do diario miss11• nario recem-descoberro d e urn jesufta setecenrista - 0 nome de Cbroniqur indiens Guuyaki.~ Reverenremenre traduz.ido pelo romancista norte-america no Paul Auster ("Creio ser quase impossfvel nao amar esse livro") e tardiamente pu blicado nos Estados Unidos, vinre e cinco anos depo is, o livro, pelo menos l'tll sua forma, chega a exagerar no vel ho esrilo ernograf'ico. Fornece uma descri~·"' do ciclo de vida "dos G uaiaqui ", comec;ando pelo nascimenro, passando pl l l inicias;ao ritual, Casamento, Caya e guerra, e chegando adoenya, a mo rte, aos fu nerais e, depo is destes, ao canibalismo. La estao as classicas foros esreticas, cuida dosamente posadas: nati vos seminus, fitando as cameras com o olhar vazio. 1 1 estao os esbos;os museol6gicos a lapis e nanquim - machadinhas, cesros, v:111 nhas de fazer fogo, vencarolas co ntra mosquitos, supo rtes de plumas- que J.' quase nao se veem nas monograf'i as. E, apesar de urn cerro lirismo ocasional an estilo Tristes tr6picos sabre os sons da floresta o u as cores do entardecer, o csulo da prosa e direto e concreto. Aco nteceu isro o u aquilo. E les acreditam em tal CU I sa, fazem tal oucra. Apen as a voz pcnsativa e rrisronha na primeira pessoa, irrom pendo aqui e ali numa Iuria mo ral, sugere que talvez esteja acontecendo algu alem do mero relata de curiosidades distantes. Segundo , J am es C lifford. Fo rmad o co mo histo riado r das ideias em I Lt1 va rd no infcio dos an os serenta, mas co nvercido como autodidata a antropolo gia e, m ais ta rde, aos escudos cul tu rais (arualme nre, ele leciona no Programa dl Hist6 ria da Consciencia d a U ni versidade da Calif6 rnia, em Santa C ruz), Cld ford, aos cinqi..ienta e do is a nos, esc::i be m mais para o M eio da jornada do que C lasrres na epoca em que parriu para o Paraguai; mas eles sao d a mcsma gc:ra s;ao acade mica- a <]Ue fo i prod uzid a pela conrraculrura. C lifford vagueia pc: los a nos 90 , d escon fiad o e in dagador, nao entre " nativos" proscri ros ou c:m meio a q uaisg u er "p ovos", a rigor, m as no q ue chamo u de "zonas de contato" - exposis;oes ernologicas, ponros turfsricos, semina ries sobre esperaculos a1

,!,

I

"• t..nmulto rias d e m uscus, con ferenc ias sobre estudos culturais e horcis .mi l'S. Yisita a casa d e Freud em Lo nd res, realyada pela arqueologia. Paslluno lulu animad a e hlbrida das convens;6es de p rofi ssio nais, pelos cordo futcbol pro fission al e po r navios afundados no Ano Novo chines, o a operas;ao T cmpesrade d o D eserro campeia no golfo Persico. Rer.t su,t infancia de "branco ecnico", fi lho d e um academico da UniversiUl' C o lumbia, andando de metro pela Nova Yo rk das cans;6es pop ulares. ,, sobre a hist6ria, a do minas;ao e a " dinamica global " dian te de u ma palirms.t d a decada de 1820, reconstrufda como um parque d a heranya mulur.tl na "Calif6rnia ' p6s-mode rna"'. Ao hvro que reune essas excursoes e paradas, nu ma fibula para n ossa epodl·u o nome d e Routes [rotas], com a intens;ao marcante de fazer um tro, co m roots [rafzes], acrescentando-lhe o subcltulo cuidadosamence 6 porizador de Viagem e tradurao nofim do seculoXX. N ele, em bora a fala ira pessoa rambem a pares;a ao Io ngo de todo o tcxro, bern mais assercimuito mais auto-refere nce, nao ha u ma narrariva construri va continua, ettca o u de qualq uer ourro ripo. Ao conrrario, ha uma serie desordenada ploras;6es pessoais", nao desrinadas a retratar "nati vos em aldeias" nem l'tocs puras e diferens;as cul turais isoladas", mas "pessoas indo a luga res", 7 hlbridos", "culru ras irinerantes". A prosa e variada e ind ircra. O ra c "academica", o u seja, absrrata e arguiva, ora "experimental", isto e, ensimesmada e impressionisra; mas e rc.· discursiva, respalda ndo e preenchendo, dando com uma das maos e riwm a o urra, fazendo uma digressao pa ra examinar u ma ideia, retracenos pr6 prios passos para voltar ao assun to. Os rexros vao de rres ou p:lginas a quarenta o u cinqi.ienta. As fotografi as sao reprodus;6es de de catalogos- ilusrras;6es d e ilusrras;6cs- o u insta n dineos amaiws fora de foco, tirados as carreiras po r C liffo rd. N ao ha nenh uma desde pessoas se casando, co mbarendo, cultu anclo, d eclamando, mo rrendo flllcndo o luro; nenhum relato d e como as crianyas sao educadas o u os deaplacados. E enquanro, a exces;ao de uma passage m de Monraigne, rc.·s faz uma unica citas;ao no livro inreiro, mesmo assi m o resumo de uma lr.tsc d e algumas paginas de uma hist6 ria clerical da conquista do Paraguai, ord apresen ra cenrenas delas, literal men te, as vez.es uma duzia por pagina, Mikhail Bakhrin, Stuart H all , Walter Benjami n, Antonio Gramsci c il. Jameson ate Malinowski , Mead, Rushdi e, Gauguin , Amitav Ghosh, lwl de Certeau e Adrien ne Rich - q uase todas mais criado ras de um dim a 'Jill' substantivas. E le cham a rudo isso- "escri ro sob o signo da ambivalcn8 ., 111 medias res ... , visivelme nte in acabado"- d e colagem . Como as cai m.igicas de Joseph Cornell, "a beleza encerrada dos enconrros fonuiros


111•1

uma pen a, um rolamen to, Lauren Bacall ", o u como os ho[cis parisicmv. ,/. clnsses, "lugares de cole~o. jusrap asiyao, enconrro apaixonado", de o11d1 " surrealisras lanc;aram suas "estranhas e ma ravilhosas viagens urbanas", Nmtt "afirma uma relac;ao entre elemenrcs hererogeneos de urn conjun to repk·tt• .I senrido, ... lur[a] por manrer uma cerra espera n~ e uma incerreza luc id.t · Em suma: (1) Urn p eregrine rom inrico numa Expedic;ao auro~avaliad111 co nfronrando~se com o Outro Radi:al nas profundezas da selva ("E u estava 11 almenre entre os selvagens", escreveu C lasrres: "0 imenso abismo entre ncS, fazia parecer impossfvel que viessemos a compreender uns aos outros"), 111 c ( ') urn especrado r reservado, a meia disrancia, movendo~se sem desenvolrw .1 I'"' urn salao de espelhos p6s~moderno ("Noire nas ruas apinhadas: fumas:.t d 11 carrocinhas de com ida, rapazes e moc;as de urn clube de arres marciais a co11 11, urn conjunro d e jazz da Universidade do H avaf com urn naipe inteiraml'lll• asiatica de saxofo nes .... Em camera lenta, um predio [iraquiano] implode.")" Os dais autores mal parecem pertencer ao mesmo universe, muito m en<" ~ mesma profissiio. No entanto, esses do is d escrirores do mundo, imaginadores do mundn. co mparadores do mundo, de formac;6es e compromissos diferentes, e com p1111 co ou nenhum conhecimento urn do outro (Ciasrres morreu, aos quarenra e 111 anos, num acidente de aurom6vel em 1977, do is a nos antes de C liffo rd come\ 11 a publicae; Clifford, apesar de todo o seu interesse pela anrropo logia fran cl ·, 1 nunca chega sequer a aludir a C lasrres), conseguem entre si formu lar, nos rernt" mais rigorosos, a quesrao mais crucial que a antropologia cultural enfrenra nc"c· tempos p6s~coloniais, p6s~posiri visras, p6s~tudo. Esse e 0 valor, a viabi lidadc ..• legi rimidade e, porranto, o futuro da pesquisa de campo vermk ula, locali7A1tl.c de Io ngo prazo e pr6x.ima- o que, a certa altura, Clifford chamo u coloqu1.d mente de "freqlienra<;iio inrensa", e que C lastres exaltou em quase todas as p:it•.l nas ("Bastava eu o lhar para a vida cotidiana a meu redor: mesmo com tiiJI mfnimo de atenc;ao, sempre podia descobrir alguma coisa nova"). 12 Sem uma teoria~mestra, sem urn objeto disrinro e, agora que todos os n.r1 1 vos sao cidadaos e os primitives sao minorias, sem ter sequer um nicho p rofrs,t o nal estavel e i neon test e, a an rropologia cultural depende m ais de uma pr:im 1 de pesquisa particular do que praricamen te qualquer ourra ciencia, social 0 11 natural, para ter identidade, au to ri dade e direito a aren<;iio. Se o trabalho de campo continuar - ou , pelo menos, assi m se reme, por urn !ado, e assim sc ,., pera, par ourro - , a disci plina prosseguira com ele.

Os "selvagen s" remoros e indeci fniveis d e Clasrres, encerrados num mundo dt cac;a, vio lenc ia, provac;oes e ani m ais demonfacos - "as meraforas farais da lln

, , J/1/1111 .711 t/111111

105

pat :l f:liJI a VcrJadc, bern me nOS primitiVOS do que parecem a rll vi~t.t. Trar::a~se, a ri gor, de rcfugiados que o governo paraguaio havia 1, dois a nos c meio antes, para urn posto comercial do Esrado na aria a ab:uidos, d esaculrurados e "p acificados". Jogados ali com antigos (wm quem selaram um "pacta de paz" quase caricaro), ainda vagan~ flmcsta, vcz por o utra, para ca~r, e informalmenre supervisionados "protctor" paraguaio que lhes era mu ito mais so lidario do que a maio~ It'll\ compatriotas, que os viam como gada, eles estava m, par ocasiao da de C lastrcs, em franco e acelerado processo de extins;ao. cle se foi, os Indios haviam~se reduzido dos cento e poucos origi~ , no maxi mo, serenra e cinco. Cinco a nos depois, em bora ele nao fosse durante uma visira ao Paraguai ("Nao rive coragem. Que poderia encon~ 14 ), cstavam reduzidos a menos de trinta. Quando da m o rte de Clastres, dl·saparecido par complete- "rragados pela doen<;a e pela tubercul a~ m por falta de cuidados adequados, por falta de tudo". No dizer dele, m -em uma imagem obsedante-, com o objetos nao reclamados, ba~ al1.1ndonada. " D esoladoramente obrigados a deixar sua pre~hist6ria, ri~ aido arirados numa hist6ria que nada tinha aver com elcs, exceto para los." S,lll,

11

od.a a empreitada (colon ial) iniciada no seculo XV esra chegando ao fim; urn nnt incnte inreiro logo ficara livre de seus primei ros habitanres, e esra parte do tJnho podera real mente proclamar-se urn "Novo Mundo". "Tamas cidades arra"·"· ranras nas;oes exrerm in adas, cantos povos elimi nados ao flo da espada, e a m11i' rica e mais bela parte do mundo desrrufda em nome de perolas e pimenra! Vhorias mecanicas." Foi nesses termos que Monraigne saudou a conquista da Am~ rica pela Civilizas;ao Ocidenral.'s om base numa antropologia ffsica improvisada e extremamente duvido~ de sumamente antiquada, C lastres viu os Guaiaqui como sendo, com 1 prohabilidade, remanescenres dos primeiros habitantes humanos dare~ l.tiVl'Z do conrinente inrei ro. Embora sua cor va ri asse do "acobreado clas~ dn\ indios, embora menos pronunciado, are 0 b ranco - nao 0 branco dm euro peus, mas um branco opaco e acinzentado, como a pele cinzen ~ pr~soa docnre", ele os chamo u, como tinham feiro os paraguaios e os es~ ~ l'm epocas anreriores, de "fndios brancos". E era assim que eles se 'l u.mdo nascia uma crianc;a inusitadamenre morena, e portanro, amaldi~ m.t av6 era obrigada a est rangula~la. (Ju.tll)Uer que fosse sua co r, a maioria desses Guaiaqui "originais" foi mar~ •tssimilada, no d ecorrer de uma gue rra de co nquista dos T up i~guaran i l>ides" c inrensamenre miliraristas, que chegaram depois, e que ainda


10(1

107

Nm•1 f11r. rubrt' 11 •llllll•f•tdllgitt

sao o principal grupoindlgenada regiao. Os poucos que escapnrnm ~ si m1 •l• an iquila~ao ab andonaram o cultivo da terra, qu e praticavam h:i tanto tcml'''· fugi ram para as Aoresras, rra nsforrr an do-se em ca~adores no mades - lev. ,1, , ao empobrecimenro, ao exrlio e regressao cultural nao {como noutras p. rl • do contin eme) p elos europ eus, q ue s6 comes:aram a atad-los no scculo X'vi i. mas por ourros Indios. Assim, os Guaiaqui , primeiros dos primeiros habi1.111 res, nao eram apenas "selvagens". Eram os selvagens d os selvagens- vesdgr" esvaecenres do social mente elementar:

a

[Os G uarani] nao conseguem aceirar as diferenyas; impossibilirados de eh1111 n:i-las, renram inclu C-Ias num c6digo con hecido, num conj unro rranqi.iili~.;Jd•·• de sfmbolos. Para [os Guarani]. os Guaiaqui nao pertc ncem a uma culru ra drf, rente, porque 111io hti possibilidndr de existirem diftrenrns entre culturflS: eles csl·•" fora da norma, fora do senso com um e acima da lei- sao Selvagens. Are os tlt 11 ses colocarn-se conrra eles. T oda civiliza.yao ... rem seus pagaos. 16 Porranto, eram a "selvageria", ou seja, !a civilisation sauvage e seu destinn que mais interessavam a C lastres e, nesse aspecto, ele foi urn estruturalista mu1 to orrodoxo, embora nunca tenha usado esse termo o u e mpregado o vocabul.l rio artificial do estruturalismo. Como seu m entor, de que m d everia sc1 ,, herdeiro, ele contrastou essas sociedades (que Levi-Strauss chamava de "qu<.'ll res"), apanhadas num processo impladvel e inrerminavel d e mudans;a hist6tl ca, com as sociedades (chamadas "frias" po r Levi-Strauss) que se rccusaram, d• m aneira inAexivel e absolura, a se rornarem parte desse processo, que Ihe opu seram resistencia e procuraram , no m aximo com sucesso extremamente rcnr porario, manter suas culturas estaticas, livres, comunais e nao d eturpadas. "Nao exisrem adultos", escreveu alguem recenremente [na verdade, rrarava-sc d" paladino de Ia civiLisation civilisee, Andre Malraux, como Clascres sabia e prcM• mia que seus leirores soubesse m] . Essa e uma observacyao esrranha a fazer em no•. sa civilizayao, que se orgulha de sera epitome da maruridade. Mas, justamcnlr por isso, ralvez seja verdadeira, ao menos em relas;ao a nosso mundo. qur quando pomos ope fora de nossas fronreiras, o que evalido para n6s, na Europ.1 dcixa deter validade. N6s mcsmos ra lvcz nunca nos tornemos adultos, mas i~'" nao significa que nao haja adulros nourros lugares. A quesrao e: qu::~J ea frontC111 visfvel de nossa cui tura, em que erapa do caminho ari ngimos o limite de nossu domfnios, onde exisrem coisns diferentes e comes;am os novos significados? N.111 se rrara d e uma pcrgu nra retorica, pois pod cmos situar a resposra num tempo , num Iugar defi n idos .... A rcsposta veio no fim do seculo XV, quando Crisr6v.111 Colombo descobriu os povos de alem -mar- os selvagens da America. Nas llhas, no Mexico de Montezuma e nas praias do Brasil, os homt'll' brancos cruzaram pela primeira vez o limite absoluro de seu mundo, um lim11 c

t

qu~ ldt·nlificamm imcdiatamcnte como a linha divis6ria entre a civiliza.yao e a

bar h.illl' ... Os indfgcnas represenraram tudo o que era esrranho ao Ocidenre. l!.ro~mu Oulro, eo Ocidenre nao hesirou em aniquila-los.... T odos eram habitan-

1 • dt· 111ll mundo que j:i nao se desrinava a eles: os esquim6s, os bosqufmanos, os

t

111•11.1lt.tnos. provavel que sej:1 cedo demais para avaliarmos as conseqUcncias n\111' unportantes desse encontro. Ele foi fatal para os fndios; mas, por uma estranho~ I<:Vrravolra do desrino, ralvez. tambem ven ha a se revelar a causa da morre lnr,p•·rada de nossa pr6pria hisr6 ria, da hist6ria do mundo em sua forma arual. 17

l'oi p.1ra registrar, com detalhes tao d elicados e po rm eno rizados quanta I (embora nem sempre fique claro se ele esra descrevendo algo que viu,

de t(liC apenas ouviu falar, o u algo que presume ser verdade), as crenyas e que compunham a vida dos Guaiaqui- os miros do jaguar e as provad:.s l't:.tpas de vida, as guerras inco ncludentes e nao di recionadas, e a natulmpntcnre e efemera d a lidera n~a- que C lastres escreveu seu livro. Em mais exaros, ele o escreveu para expor a n6s, que nun ca poderemos enpt·ssoalmente esses adulros selvagens como ele o fez, a 16gica dessa vida ihalismo, infanriddio, penis de anta e tudo o mais- e sua beleza m oral: l>r minha parre, qucro sobrerudo lembrar a devoyao [dos Guaiaqui], a gravidade de ~ ua presenya no mundo das coisas e no mundo dos scres. Frisar sua fidelidade rxc mplar a um saber amiqUfssimo, que nossa violencia selvagem despcrdis;ou 1111111 s6 insranre.... Sera absurdo disparar Oechas contra a lua nova, quando ela d(\li1.a por entre o arvoredo? Nao para [os Guaiaqui]: eles sabiam que a lua esrava vrv.1 c que seu aparccimento no ceu faria as [m ulheres] derramarem o sangue menstrual, que trazia ... ma sorre pa ra OS cayadores. Eles sc vingavam, porque 0 numdo nao e inerre e a pessoa rem que se defender .... Durante muiros seculos, lrbJ rnanti veram tenazmenre sua vida furriva e rimida de nomades na vida secre18 111 cl.1 Ooresta. Mas esse refUgio foi violado, e foi como q ue um sacrilegio. Cnmo quer qu e tenha sido, sacrilegio, co nquista ou a m a nia moderna de c progresso, eles nao civeram alternariva. "Nao havia nada a fazer. ... "morte em suas al mas .... Estava tudo acabado."' ~

.1 C li fford comparrilhe da feroz hostilidade de Clastres ao "globalismo", 'trnpcrialis mos", " hegem o nia ocidental", ao "neoliberalismo feroz", a ,formas;ao d e tud o em m ercadoria", aos "p ermanentes desequilfbrios de das rela~6es d e conrato", as " hierarqui as d e casta e d eclasse" e, e clara, ao l•rno" (para usarm os as express6es de C lifford, mais em dia com a moda, sc l(IIC menos eloqUences), e com p artilhe ra mbem d e sua simpatia pelos "do . .( .cos " , " exp Iorados " e " margma . I'1zados " , cIc Im , peIos " v1stos como exvn

a

II


A ,itllttfiltlllttllll

lOll

ddlnicivamenre nao partilha da crenya de Clastres na imcrsao LOcal no si nph e no disranre como via real para o resgate das formes elr!mentaires de Ia vie Stlt/11 le. Ao conrr:i.ri o, encara sua missao como sendo a de "proferir uma cdrica 1ig" rosa [da] chissica busca- 'exorista, anrropol6gica e orientalista'- de ·upn· culturais, alde6es ou nati vos' revel adores, de 'epftome[s] condensada[s] Jc tP ralidades sociais"'. 0 que corresponde, e claro, exaramenre ao que Clasrrcs t ·. cava ten cando fazer com ranta paixao: chegar ao fundo das coisas, examinamh• de perro e pessoalmenre urn punhado de Indios massacrados e impot.!ntt·~ como bagagem nao reclamada. Clifford, que nao esra muito interessado no fundo das coisas, dizque qut I apenas retirar o que chama de "o habitus do trabalho de campo"- "urn S UJU to scm genero, scm rac;:a e sexualmente inativo, [que interage] intensamclllt (no mfnimo nos pianos hermeneutico/ciendfico) com scus interlocutores" de sua posi<;:ao de caractertstica definidora da "verdadeira antropologia" c do "verdadeiros antrop61ogos". Ele quer reduzir a "func;:ao autorizadora" de entr.l da nas florestas, desconstruir o "poder normative" de viver entre pessoas qtu atiram Aechas na lua. Mas ficaclaro que rem em mente urn objerivo bern maio1 e mais radical do que sugere essa conhecida e cansariva construc;:ao de slogan• Ele esca decidido a liberrar a antropologia de seu provincianismo de Primci1co Mundo, de seu passado comprometido e de suas ilus6es epistemol6gicas para lanc;:a-la com vigor "em direc;:6es p6s-exotizantes e p6s-colo niais".

0 rrabalho inrensivo de campo nao produz uma compreensao privilegiada uu complera. Tampouco o faz o conhecimento cultural de auroridades indlgenas, tf, "pessoas de denrro". Esramos diferenremenre siruados, como habiranres e viaj.111 res de nossos "campos" desimpcdidos de conhecimento. Sera essa mulriplicid:.dc de localiza.y6es apenas mais um sinroma da fragmenra<;:ao p6s-moderna? Pode cl.• ser colerivamenre moldada em algo mais subsrancial? Pode a anrropologia ser rt invenrada como urn forum de rrabalhos de campo de roras variadas- urn lug.11 em que diferenres saberes conrexruais rravem urn dialogo crfrico e uma polemil.l respeirosa? Pode a anrropologia prom over uma crfrica da domina.yao cultu ral qtu se esrenda a seus proprios protocolos de pesquisa? A resposra nao e clara: aind.1 resram poderosas fon;as cenrralizadoras, recem-flexibilizadas. 2" As perambulac;:oes de C lifford por museus, exposic;:6es, armadilhas par.t turisras, parques do parrimonio cultural e similares sao menos informais e ino centes do que parccem . Oescinam-se a acelerar urn redirecionamento, um "re-enraizamenro" da pesquisa ancropol6gica: a afasca-la das descric;:oes esdu cas de alta resoluc;:ao de cal ou qual povo, em tal ou qual Iugar, vivendo de ral 011 qual maneira, no esrilo de Clasrres, e faze-la voltar-se para narrarivas desarti cu Iadas e "descentradas,. de povos, modes de vida e produtos culturais em movi

lll'J

viajando, miswrando-se, improvisando, emrando em choque, ndo pcla cxpressao e pela dominac;:ao. Esses espac;:os, evencos, locais ou amt's s.10 aquila a que ele pretende referir-se mmando emprestado um 1n de !mp~rial Ey~s, um esrudo de cexros de viagens coloniais feito por 11 l .ouise Pratt- como "zonas de contaro". Uma zona de contato, nas palavras de Pratt (cicadas por Clifford), e "o est'lll que pessoas geografica e historicamente separadas entram em contato -1uu·nrn c estabelecem relac;:6es permanentes, que em geral envolvem condidc coerc;:ao, desigualdade radical e confliros renitentes". Esta noc;:ao enfati' nn dizcr da aurora, "como os sujeims se consciruem em suas relac;:6es fprocas", frisando a "co-presenc;:a, a interac;:ao, as compreens6es e praticas 22 rdac;adas ... em relac;:6es de poder radicalmenre assimetricas". Ver por essa -r'""''"'·va o ripo de instiruic;:6es pelas quais Clifford se inreressa, lugares de •ll•nsu;:ao e comemorac;:ao culturais, eve-las como arenas polfticas- "conjundc incercimbio carregados de poder, de press6es e influencias". Nessas as, nessas colagens repleras de conseqi.iencias, nessas caixas magi cas da vida , a ancropologia errante e livre de Clifford encontra seu "campo". Entre os rexros reunidos em Routes, a maioria dos quais parece absoluratc efemera, isso talvez fique melhor demonsrrado no que se inricula "Quatro .....,~"''" da costa noroeste", que e uma comparac;:iio nao apenas dos museus como dois nacionais e majoriririos, dois tribais e oposicionistas, mas rambem de abordagens conrrastantes do acervo e da exposic;:iio de artefatos indfgenas; e transparec;:a de maneira ainda mais eficaz no ensaio intirulado " Meditac;:ao l;orte Ross", que e um retram sumamenre original e poderoso, se bern que tanto mrcuoso, do Padfico Norte - Siberia, Alasca e costa do Padfico"zona de contato regional". "A America russa foi uma extensao da Sibe" "N o Forte Ross, ... a h'IStorta ' . ' oc1'dent al' c h ega pe Io Iad o errado." 23 0 tempo rodo, no enranro, mesmo nos texros menos substanciais e mais · , e a despeito de sua fachada cortes de noli me tangere, a seriedade ral do trabalho de C liffo rd, sua prcocupac;:..'i.o pessoal como futuro humano wm o Iugar dos despossufdos dentro dele, manifesra-se com a mesma intenld.ldc, clareza e persistencia do rrabalho de C lastres, com sua voz proferica

No Forte Ross espero vislumbrar minha pr6pria hisr6ria em rela.yao a outras, numa zona de conraro regional. ... Siruadas na orla do Pacifico, meu lar por dezo ito anos, as hisr6rias oitocenrisras do forte, vistas de urn fin-de-sihle incerro, t;tl vez proporcionem "profundeza" suficienre para darmos sentido a urn futuro, ,, .1lguns fururos possfveis.... A hisr6ria e pensada em lugares diferentes, dcntro dt• uma dinamica global inacabada. On de esramos n6s nesse processo? Sed tarde dt•


110

Ill

m::lis para reconheccrmos " nossas'' divcrsas trajct6rias para c pela modcrnid.ad, Ou scracedo dema.is1 ... Dercpente, o milenio afigura-se um come~o."

Portanto: aproxirnac;:ao versus recuo, empirismo con fiance versus " incerteza l1'1 cida", os imediatismos do lo cal versu.sas refrac;:oes do descentrado, a estabilid.a de insular (e condenada) versus a comoc;:ao global (e esrimulante) . Essas ralvt 1 seja m oposic;:6es binarias meio tosca;, e, nessa materia, nao exisrem ripos puro • Mas, para os adeptos do especial , do singular, do diferente e do concretO- o11 seja, entre outros, os antrop6logos - , elas captam bastante bern a pergun1.1 aqui formulada: como devemos agora exercer nosso ofkio? A manei ra ja pronra de lidar com rudo isso seria ver Clastres como a V111 nosralgica de urn passado extimo e esgotado, tanto profissional quanto real obsolero, como a famosa caracterizac;:ao levi-straussiana dos rr6picos - , e vn Clifford como urn homem que rem o futuro nos ossos, co ncebendo uma :tn tropologia para uma era vindoura de inrerligac;:ao global, movimenro, insrabil1 dade, hibridismo e polftica anti-hegemonica dispersa. Mas isso dificilmcnl• basraria. A escolha nao se da entre lamentar o passado e abrac;:ar o futuro . Tam po uco esta entre o anrropologo como her6 i e como o proprio modelo d o gem· ral-de-brigada p6s-moderno. Ela esra entre, de urn lado, susrentar um.a tradic;:ao de pesquisa sobre a qual se erigiu uma disciplina "i nexara" e parcial mente formada, talvcz, mas moralmenre essencial, e, de ourro, "deslocar", "n elaborar", "renegociar", "reimagi nar" ou "reinventar" essa tradic;:ao, em favor de uma abordagem mais " multipla menre cenrrada", "pluralista" e "dial6gica'', que veja como uma espccie d e relfquia colonial o bisbilhotar a vida de pessoa\ que nao esrao em condic;:ao de bisb ilhorar a nossa. No que fizeram ate agora os partidarios de uma antropologia em que o tra balho de campo descmpenha urn papel muiro reduzido ou transformado urn grupo atuante e crescente, do qual Clifford e apenas urn dos membros mai' destacados - , ha muito pouco a sugerir que eles representem a onda do furu 1 ro. ~ f. verdade que o primitivism o rousseauniano de Clasrres, a visao de quem "selvagens" sao radicaJmente diferentes de nos, mais autcnticos do que n6!>, moralmente s uperiores a n6s, e d e que s6 precisam ser pro regidos, presum ivcl m ente por n 6s, de nossa ganincia e crueldade, nao esra., salvo por alguns entu siastas da Nova Era, mui[O presrigiado hoje em dia. (Ciasrres escreveu out ro livro antes de morrer, .A sociedade contra o Estado, no qual desenvolveu em tc1 mos mais expliciros, para nao dizer polemicos, algumas das ideias expostas n.a Cronica, mas essa o bra nao recebeu muita atenc;:ao/'' Nem mesmo os que ten tam desesperada mente proteger povos como os Guaiaqui contra a explorac;ao ocidental esrao tentando cristal izar suas culturas no tempo ou preservar sua~

lc, em :~lfaz.e ma; cstao tcnt::mdo dar-lhes voz em seu fu turo pr6prio, •••n•·· ntc nao tradicio nal. Mas, se o tipo de pesquisa ambulanre e a meia disA tJllC C lifford prarica e reco menda constitui urn avanc;:o em relac;:ao ao pr.JtiLaJo com tamanha devoc;:ao por Clastres, no esti lo inrimista e persise~d Ionge de ser algo que saibamos com certeza. N11um, que Clifford diz ser uma exrensao de The Predicament of Culture, ltvro anterior, muito louvado e muito ridicularizado (alias, urn livro mais , nll'nos desconexo e mais bem escrito do que Routes), parece mostrar urn hcsitante e gaguejanre (que posso dizer, como posso dize-lo e que direitenhn de dize-lo?) que nao e inteiramente atribufvel a sua natureza explo7 lil c inacabada. ! Clastres, fossem quais fossem sua orrodoxia e seu ••menta decidido, sabia aonde esrava indo e chegou Ia. Clifford, quaistJIIC sejam sua original idade e sua disposic;:io de experimentar, parece bioI, vacilante, atrapalhado em busca de uma direyao. T alvez seja cedo •~ para trocar as rafzes pelas ro tas.

-se falar mui ras coisas hoje em dia - algumas esperanc;:osas, muitas ce(" tJuase todas nervosas- sabre o suposto impacto da C iencia da Antra. sabre a Disciplina da Hisr6ria. Os texros das publicac;:6es eruditas inam o problema com uma ponderac;:ao inutil: porum lado, sim, por oun.w; e preciso cear co m o diabo usando ralheres compridos. Os artigos da sa popular dramarizam-no como a tdtima novidade no from acad emidcpartamentos "quen tes" e " frios"; serao as datas uma preocupac;:ao datada? tradicionalistas ultrajados (nao parece existir outro ripo) escrevem livros clitlue isso significa o fim da hisr6ria polftica tal como a conhecemos, e o fim da razao, da liberdade, das notas de rodape e da civilizac;:ao. -se simp6sios, dao-se cursos e se proferem palesrras para tentar disn assunto. Parece que esta havendo uma briga. Mas e urn bocado difkil r t'X:ltamenre a que diz respeito uma gritaria na rua. Um:t das coisas a que ela pode se referir sao o Espac;:o eo Tempo. Parece alguns hisroriadores, cuja educac;:ao antropol6gica terminou em Malii ou comec;:ou por Levi-Strauss, que acham que os antrop61ogos, indiferr' a mudanc;a ou hostis a ela, apresentam imagens esr:hicas de sociedades ·s, espalhadas por cantos longfnquos do mundo habitado, e ha antrop6cuja ideia da hisr6 ria e mais ou me nos a de Barbara Tuchman, c que 111 que a atividade dos historiadores consiste em conrar hisr6rias aJmoni'"'· Jo ripo "e aC', sabre este o u aquele episodio da Civilizayao O cidcnt.1l :


.rl Jilllllfllll 11111111

II.!

"romances verdadeiros" (na expressao de Paul Veyne) desrinados a nos f:rtc' l cn frenrar - ou desafiar- os faros. Ourra coisa a que abriga pode se referir sao o G randee o Pequeno. 0 pen dor dos hisroriadores p ara os grand es movimen tos do pen sa men to e da ac;ao a Ascensao do C apitalismo, a Queda d e Rom a-eo dos antrop61ogos pa1 a~ • estudo de pequenas comunidades bern delimitadas - o Mundo Tewa (qwtl!) o Povo de Alor (qunn?}- levam os hisroriadores a acusarem os anrrop61ogo\ de gostarem de minud encias, d e se atolarem nos d eralhes do obscuro e do sc.:111 imporrancia, e levam os anrrop6 1ogos a acusarem os hisroriadores de esquem.a rismo, d e perderem o conrato com os dados imediatos e as complexidades, d1. nao rerem "sensibilidade" (como gosram de dizer, considerando-se possuidn res deJa) para a vida real. Como muralistas e miniarurisras, eles rem certa dil1 culdade d e percebe r muruame nre o que cada urn ve nas perfeic;6es diminulol\ ou nos desenhos grandiosos. Ou talvez a briga se reflra a Alto e Baixo, Morros e Vivos, Escrito e Oral. Particular e Geral, Descric;ao c Explicac;ao, ou Arte e C iencia. A hist6ria sen re-se ameac;ada (segundo se ou ve dizer) pela cnfase antro pol6gica no mund.• no, no co mum, no corriq ueiro, que a afasra das forc;as que real mente movem n mundo- Reis, Pensadores, Ideologias, Prec;os, C lasses e Revoluc;6cs- c ,, leva a o bsess6es inversas co m algazarras, do tes, massacres d e gatos, brigas dv galo e histo rias de moleiros, que s6 fazem levar os leitores e eles mesmos ao rei.J rivismo. 0 esrudo de sociedades vivas, segundo se afirma, leva a uma conccn rrac;ao no presente, a instanraneos do passado enrendidos co mo n6s quando eramos moc;os ("0 mundo que perdemos", "A queda do ho m em publico"), c j inrerprerac;:ao ilegftima dos contemporaneos com o ancesrrais (os sistemas d, troca kula na Gn!cia homerica, a monarquia ritualisra em Versalhes). Os an trop61ogos queixam-se de que a dependencia dos hisrori adores nos documcn cos escritos os torna presa de relatos elitistas e convcncio nalismos li tenirios. Q, histo ri adores reclamam que a confia nc;a dos antrop61ogos no testemunho or.d OS torna presa d e tradic;6es inven radas e da fragilidade da memoria. Sup6c-~~ que os historiadores sejam arrebarados pela "excitac;ao de aprender coisas sin gulares", e os anrropologos, pelo deleite d a consrruc;:ao de sistemas, uns afun dando 0 individuo a tuanre no rapido suceder de acontecimentos superficiai\, outros dissolvendo por comp lero a individualidade nas estruturas profunda\ da existencia coleriva. A socjologia, diz Veyne, referindo-se com isso a qual quer esforc;o de discernir p rind pi os constantes na vida humana, e uma cicnc1.1 cuja primeira linha n ao foi nem jamais sera escrira. A hist6ria, diz Levi-Straus~. referindo-se com isso a qualquer re ntativa de entender seqi.iencialmente CS\,1 vida, e uma carreira excdenre, desde que ao final se saia dela.

c

rc.tlmcme a isso que sc refere a discussao, a esse espancamenro mcto\ o c.: m meio as granJes dicotomias da metafrsica ocidenral, o Sere o Ocrev l\ ll.tdos, nao vale a pena leva-la adianre. Ja faz urn born tempo que os 11pos do hisroriador como m emorialista da humanidade ou do anrrop6llllllO cxplorado r das formas elem entares do elementar deixaram de rer .accilac;ao. Sem duvida restam exemplos d e ambos, mas, nos dois cam;.~ vcrdadeira ac;ao (eo verdadeiro divisor) esta em o utro Iugar. Ha ranra ~l'p:trando quanro unindo, digamos, Michel Foucault e Lawrence Stone, Slhorske e Richard Cobb; e ha ranra coisa ligando quanta separando, di"· Keith Thomas e Mary Douglas, Fernand Braude! e Eric Wolf. () movimento cenrrlfugo- qualquer tempo excero ago ra, qualquer Iugar to aqui- que ainda marca as duas iniciativas, sua preocupac;ao como que ll'lCntcmenre a se chamar "0 Ourro", com maiusculas p6s-modernas e ul.as aspas estru turalisras, garante uma certa aflnidade eletiva entre elas. ar compreender pessoas em posic;6es muiro diferentes das nossas, encerrarm condic;6es materiais diferentes, movidas por ambic;6es diferentcs e topor ideias diferemes do que e a vida cria problemas muito semelhanres, a~ condic;:6es, as ambic;6cs e as ideias sejam as da Liga H ansdtica, as das S.tlomao, as do conde-d uque de O livares ou as dos Filhos de Sanchez. Li1.11111 urn mundo no utro Iugar da mais ou menos na mesma quando esse 1 Iugar fica ha muiro te mpo o u muiro Ionge daqui. l"odavia, como mostra a irreversibilidade do slogan comumenre usado t·xpressar essa visao- "o passado e o utro pals", de L.P. Hardey- (ja que ru pafs d efiniti vamenre niio e 0 passado), a questao e muito mais complexa; uivalcncia da distancia cultu ral entre, digamos, nose OS frances e n6s e OS ti.mos e bern menos do que perfeita, sobretudo uma vez que, hoje em dia, haver urn nigeriano morando ali na esquina. Na vcrdade, nem mesmo o • o "self" que busca essa compreensao do "Outro", eexatamente a mesma .tqui , e e isso que explica, a meu ver, 0 interesse de historiadores e antral~ pelo trabalho uns dos outros, bern como os receios que surgem quanr~~~· interesse e levado adiante. 0 " nos", assim como 0 "eles", signiflcam diferentes para quem olha para tras e para quem olha para OS !ados, pro1.1 t•sre que nao se rorna propriamenre mais faci l quando, como vern acontdo com freqi.iencia cad a vez maior, alguem tenra fazer as d uas coisas. A principal diferenc;:a e que, quando " nos" o lhamos para eras, "o Outro" se o~ligura ancestral. Foi aquele que de algum modo levou, nao importa quao lt'lllCnte, a maneira como vivem os hoje. Mas, qua ndo o lhamos para OS la1 ~\0 nao aconrece. A burocracia, o pragmatismo ou a ciencia da China pokmbrar-nos vivamente os nossos, mas, na verdade, trata-se de urn out ro lllll1 uma alteridade que nao se encontra nem mesmo na Grecia de llo St•


ll'i

J'l iilllllfiln a 11m/

lJ.l

m cro, com seus d euses ad ulteras, suas guerras pessoais e suas mortes po m pc ,., a - os quais nos fazern lernbrar so brerudo com o nossa m enralidade mudua 1 Para a imagina~o h ist6rica, o "nos" urn m o menta e m uma genealogia c.ult1a ral, e 0 "aquin uma heranc;:a. Para a imaginac;ao antropol6gica, 0 " n6s" IIIII verbere num dic iona rio geogniftco c ui rural, eo "aqui" e nossa casa. Esses, pelo menos, tern sido OS ideais profissionais, e, ate epoca bern fCCC'II re, rambem ap rox im a~6es razoaveis da realidade. 0 que os minou progrcssiv • mente como ideais e com o realidades, e que suscirou toda a angusria, nao ~~~~ uma m era confusao intdectual, uma diminui~o da fidelidade disciplinar c111 urn declfnio da erudic;ao. Na rnaio ria dos casos, tampouco o "modismo" - l "· se portentoso pecado que os co nservadores academicos atribuem a qualqm1 coisa que lhes sugira que eles poderiam ter ideias diferentes das que ja tivcra111 - d esempenhou urn grande p ap el. 0 que os minou foi urn a mudanc;a na cw logia do saber, que levo u h isto riadores e anrrop61ogos, co mo bandos de gansu·. migrat6rios, para os rer ri t6rios uns dos ourros: urn co lapso d a dispersao natut.al dos reservat6rios de alimentos, que deixou a Franc;a para uns e Samoa para'" o utros.

e

e

c

Hoje em dia, isso pode ser vista por toda parte: na rnaior atenc;ao dedicad.a pelos historiadores ocidenrais hist6ria nao ocidenral , e nao apenas do Egito , da C hina, d a fndi a e do Japao, mas a do Congo, dos iroqueses e d e Madaga' car, como fenomenos auro no m os, e nao meros epis6dios na expansao d a Euro p a; no interesse antropol6gico pelos vilarejos ingleses, pelos m ercadcn fran ceses, pelas cooperativas russas ou p elas esco las secund:iri as not te-americanas, e pel as m i norias. de rodos eles; nos escudos da evoluc;ao da arq ut tetura colonial na fndia, na Indonesia ou na Afri ca serenrrional como rcpresenrac;6es de poder; nas an:iJises da consrruc;ao de urn senti men to (ou sen timentos) do passad o no Caribe, no Himal aia, no Sri Lanka ou no arq uipelago havaiano. Anrrop6logos no rte-am ericanos escrcvem a historia das guerras d,t, ilhas Fiji, enquanto historiadores ingleses escrevem a etnografia de cul tos ao imperador romano. Li vros intitulados Antropologia historica da !ttilia do in/cw da era modmut (de urn historiador) ou !fhas da historia (de urn anrrop61ogo), A Europa eo povo sem histo ria (d e urn antrop6 logo) ou Rebeldes primitivos (de un1 historiador) p arecem p erfeiramente normais. 0 m esm o acontece com urn li v ro inrirulado Anthropologie der Erkenntnis, c ujo rem a e a evolu~o inrelecrual 28 d a cienc ia do Ocidenre. Todos parecem esrar-se m etendo na seara alheia. Como de praxe, p ode-se apreender com m ais seguranc;a em que resullam essas mudanc;as de direc;ao do interesse, na pratica, examinando alg uns traba lhos que vern sendo realizados de verd ade- gansos reais, alimentos rea is. N:-a' ciencias humanas, as discuss6es metodol6gicas co nduzidas em termos d e posi c;oes gerais e prindpios abstraros sao b as icame nte im'lte is. Salvo, quem sa be, al

a

a

Jllmfvcis cxccs;ocs (ralvcz Ourkheim , ralvez Collingwood), essas ll'' lcvam sobretudo a briguinhas inrramuros sabre a maneira cerra de ~~~ loisas e sabre os resultados terdveis ("relativismo", "reducionismo", tvismo", " niilism o") q ue advern de elas nao serern feitas dessa maneira, mllld.H.Ic ou ignora ncia. Os trabalhos metodol6gicos de p eso na hisr6ria e antr'•po logia- Os do is corpos do rei, A formtlfii.O da cfasse trabalhadora ingle-

u II r.rtrutura das retJoluf5es cientlficas; A organizafii.O social dos pueblos ociComb·cio e mercados nos imperios antigos, ou A floresta de sfmbolosm a scr, ao mesmo tempo, rrabalhos empfricos de peso, o que talvez consuma das caracterfsricas mais profundas que, atravessando divisores de 9 l' de temas, m ais unem esses dois campos.~ l'ornarei como exemplos, porranto, dois corpos de trabaJhos de tama nho o. 0 primeiro e 0 de urn conjunto pequeno e bastante definfvel de ri.1do rcs sociais que, envolvendo-se com ideias antropol6gicas e material pnl6gico, descobriram-se cada vez rnais arrastados para as trevas que aror.un essa disciplina. 0 segundo eo de urn numero bern maior de h isroriac antrop6logos que, havendo descoberro urn interesse comum que nao lllll tcr, produzirarn uma serie de escritos nao padronizados, impregnados drhales incertos. 0 prirneiro, ao qual m e referi rei como Grupo de Mel, so bretudo por seus protago nistas serem d e Melbourne e formarem um , fo rnece uma bela progressao de exernplos do contimmmentre a hist6ria 1pologizada e a anrropol ogia histo ricizada; o outro, ao q ual me referirei Consrruc;ao Simb6 lica do Esrado, por ser isso que debatem seus debate. fornece urn exemplo bem definido do que acontece quando historiadoc ;mrrop61ogos renra m , ex pliciram ente, coordenar seus esforc;os com ito a urn tema que e rradicional para ambos. Tra ra-se apenas de amosrras 1.1is e bastanre a rbitd rias, e ai nda por cim a esquematicas, do que vern tcccndo hoje nos tipos de esrudo que olham para rras e q ue olham para os . Mas elas revela m urn po uco da p ro m essa oferecida, das dificuldades en r.ldas e das realizac;6es ji computadas.

mcmbros do Grupo de M elbourne de que vou tratar (parece haver ourros, 'trabalho nao con hec;o) sao Rhys Isaac, cuj o Transformafiio da Virginia cstudo sobre as vicissitudes da cultura colonial a caminho da revoluc;ao; ( :lendinnen, cujo Conquistas ambivalentes uma analise d o en contra das 111.1s de vida espanho la e indfgena na peninsula de Yucatan , em m ead os do uln XVT; e Greg Dening, cujo lfhas e praias proc ura m apear a destrui~ao d.1 ll'lbde d as ilhas Marquesas sob o impacro das invas6es ocidentais qut· mf'll

c

c


I)(,

11 7

ram a panir de 1770.' T res lugares, rres epocas, urn s6 problema: o dcsc~p tt!l brio de formas esrabelecidas de ser/esrar no mundo. Esse paradigma, see nisso que ele consiste, evidencia-se da maneira llltll l clara no livro d e lsaac, porque eledivide seu trabalho em duas partes aproxit1~o• damenre iguais, uma esrarica, urna dinamica. A primeira, chamada "Esrilo~ d vida uadicionais", exp6e de maneira sincronica, auaves de insranraneos, m contornos da culrura dominada por grandes fazendas ate cerca de 175:1 n11 1760- uma ordem social que nao deixava de apresentar tens6es internas ou dires:oes d e mudanc;:aendogenas, mas que esrava essencialmente em equilrbttc• A segunda, ch am ad a" Movimentos e eventos", narra o transtorno dessa ordctu esrabelecida pelo aparecimenro de elementos - em especial o cr isti ani~lllll evangelico e, por volta de 1776, o nacionalismo no rte-americana- que hierarquias simples nao rinham possibilidade de canter. Ea imagern, ponantn, de urn cosmo social- a Vida nas Planrac;:6es, com tudo o que ela abarcava (l.l sas de campo, corridas de cavalos, o dia d e sessao no tribunal , a escravidao p.t triarcal, a danya formal e o campo de recruramenro militar) desinregra ndo-se nas fissuras n ele induzidas por "pregadores [nonistas] de t·x pressao severa", Novos Luminares e outros que agiravam o populacho, e pot "republicanos [sulistas] facciosos", Patrick H enry e ourros, passa ndo sermcll na elite: " [Os] grandes homens [ergueram] belos tribunais e igrejas de tijoh" como emblemas da dominayao que almejavam exercer e da divindade que lcgt rimava essa dominayao ... Em menos de meio seculo de sua aparente consolt 31 das:ao, o sistema [foi] derrubado." Essa imagem das maltrapilhas Foryas da Hist6ria destroyando os cristalinc" Padr6es da Culrura, primeiro o consenso, depois o dissenso, possibilita uma ab01 dagem basrante direra para distinguir o diciomhio geografico da genealogia, con11• referenciais para relacionar uma sociedade distante com a nossa. 0 primeiro entt • na pri meira parte, consrruindo a imagem, o segundo enrra na segunda, explicandc• sua transiroriedade. AAmropologia fica como quadro, a Hist6ria, com o drama; .1 Antropologia, com as formas, a Hisr6ria, com as causas. Ao menos em parte pelo mesmo impulse- o desejo de disringuir acontc cimentos provenientes d e diferen c;:as d e visao de diferenc;:as de visao provenicn res de acontecimentos - , ram bern C lendinnen divide seu livre em duas pam·. dialericas mais ou menos do mes mo ramanho. No caso dela, porem, a divisan n ao e entre 0 que e mov ido e 0 que move; e entre dois povos - urn deles, lllll grupo de exploradores c ulturais muito Ionge de casa, outre, uma forral eza c11l rural profundamente in situ-, a prisionados num encontro que nenhum do· dois conseguiu realm ente entend er. Assim , as duas partes de seu livre sao simplesmente chamadas de "Esp.• nh6 is" e " fndi os", e ha o mesmo tipo de distribuis:ao, em bora bem menos r:ttlt 0

s••·•'

, de narr:n iva hist6 rica numa pa n e e retrato etnogr:ifico na ourra. Nesse porcm, a ordem se inverte: o drama vern antes do quadro, a rup tura antes 'J Ut' foi rompido. Na parte "espanhola", inicial , os atores hist6ricos "exlures", "conquistadores", "colones" e "missionaries"- sao apresental.tzcndo-se a cronica de suas fas:anhas e explorac;:6es, bem como dos itos entre eles, da crise por que passaram suas empresas, do mundo mentllltJUC eles funcionavam e do desfecho final: a consolidas:ao do poder espa1. Na parte "indlgena", a segu nda, uma imagem da sociedade maia e das que a moviam- estoicismo, cosmografia, sacriffcio humano- e demente reconstrufda, a partir do que se admire ser urn registro native frat tragmentado. l'or conseguinte, a hist6ria que o livre rem para contar (o u a imagem que a apresentar) n ao e a de uma ordem social consensual, fon;:ada a conturbapcb entrada de homens d esordeiros e de ideias antagonicas em seu cenario ko, mas a de uma profunda d escontinuidade cultural entre os que se inm e os que sofrem a intromissao, descontinuidade esta que s6 faz apro-se mais a medida que suas relas:oes se intensiftcam. A fami liaridade gera mpreensao: para os espanh6is, rom ados pela "exrrao rdinaria convics:ao euia de seu direito de se apropria rem do mundo", os maias afiguram-se cada mais inatingfveis, quanta m aier e SUa aproxima<jiio deles; para OS maias, os e viti mas da construc;:ao espanho la do mundo", os espanh6is se aflgulada vez m enos assim ilaveis, quanto mais se entrincheiram. T udo acaba m tcrrfvel "salao d e espelhos", encharcado de sangue - ac;:oiramenros cleric crucificas:oes populares: "0 produro da lasrim:ivel confusao que assalta humcns quando eles nao comp reendcm a fa la uns dos outros e julgam mais transform:i-los em monstros conhecidos do que reconhece-los como dife"·'1 Uma rragedia antropol6gica com uma nama hisrorica. lkning tambem divide seu li vre ao meio, colocando o que os historiadodt;unaria m de e nredo numa pane e o que os a ntrop6 logos chamariam de j,c na outra. S6 que ele o faz, por assim dizer, ao com prido. A cada capitulo ·vo sabre tal o u qual fase do enconrro de 160 anos entre europeus e ucsinos ("Navies e homens", "Vagabundos de praia", "Padres e profetas", 'tacs e reis") ele anexa urn capitulo inrercalado, volrado para o assunto e - " ("S o bre o mo deo I e a meta'fiora " , "D os rttos . de passauIado "Re f1 exao ", "Das fronteiras", "D a mudans:a religiosa", "Sabre a dominas:ao", "Sabre lin civilizador"), que exp6e urn conjunto mais ou menos sistemaLico de ~ para interpretar o que acaba de ser relatado. 0 movimento do texlo, ncs u n , e m enos entre o que h avia eo que Ihe aco nteceu, como em Isaac, ou en 1c-nsibi lidades incomensuraveis, como em C lendi nnen, do que emrc csli lm rn:ni vos de tornar essas quest6es- a murns:ao cultural e a nao concx;'lo u ti


Ill!

II'>

tural - inreligfveis como um todo. Embora tenha comc~ado c LCrrt11Jl,Hiol como hisroriador, O en ing fez um c.outorado em antropologia ncssc Intel i111 ~.: se dedica a uma emprcitada meio excentrica para ambos os campos: a rcd.u,.llo 1 no dizer dele, de urn "discurso sab re lUTla terra silenciosa". Silenciosa porque, d iversamente dos fazendeiros da Virginia, de cuja VI'OI" persistem ecos ate hoje, nem que seja como reivindica~oes sociais e fant.l\1 • ancestrais, ou dos indlgenas maias, de cuja civiliza~ao restam fragmentos 'I"' persistem como trad ic;6es populare~ por sob a pcrsonalidade hispanica do Mt· xico moderno, os marquesinos como marquesi nos simplesmente nao existl'lll mais: "A morre [os carregou] ... ames que tivessem tempo ou vontade de f.ttr 1 33 qualquer adapta~ao cui rural a seu ambience modificado. " Ha pessoas vivendn nas ilhas Marq uesas, e claro, ao mer.os algumas das quais sao descendenres rr~, cos dos que ali viveram antes da chegada dos capitaes, dos padres e dos vag., bundos de praia, mas elas foram "despojadas", riveram rompida a sua hisr6ri.tl' foram rransformadas em " ilheus do Padfico", generalizados e indefinidos:

I '>~B.) 0 rcsulrado cque a "cultura marquesina" rornou-se uma realidade

0 passado de todos [dos europeus e dos marquesinos] morreu. Os acontecimcu ros s6 aconrecem uma vcz. Os aros desaparecem com sua cxecuc;ao. Somenlc .1 hisr6ria do passado tern certa permanencia, nas formas como a consciencia epn servada na cscrita, na mcm6ria ou nos pressuposros de cada aro sociaL Mas, p.111 [os marquesinos]. are sua hisr6ria esta mona. Toda a hist6ria que lhes resrou vincula-as aq ueles cuja inrromissao em sua terra lhes causou a morre. Aconrcu mentos, aros, insrituic;oes e papeis rransformam-se em hist6ria ao serem rradun dos em palavras. No caso [dos marquesinos], essas palavras sao as [dos europcu'l em sua dcscric;ao da rerra. Nem mesmo as pr6prias palavras [dos marquesinml sabre sua vida, coligidas em lendas ou are em dicionarios, conseguem escapar .o essa realidade fundamental. Nao restou uma s6 lenda ou genealogia que nao It nha sido compilada muiros anos depois da inrromissao [dos europeus]. Elas pc1 rencem a epoca em que foram escriras.J~

lui o primeiro dos tres eo de C lend innen, o mais recenre) daAntropolosituas;ao sabre a qual a Hist6ria age, passando pela Amropologia a selva em que a Hist6ria tropecra, para a Antropologia como o tumulo lJIIC a Hist6ria sepulrada. Visros em con junto, esses tres li vros sugerem que a juncriio da Hisr6ria e da logia niio e uma questiio de fundir do is cam pos academicos num novo ou Aquila, mas de redeflni-los em rermos urn do outro, administrando rda~6es denrro dos limircs de um escudo particular: as t:hicas rextuais. real mente nao bastara, no final das co ntas, scparar as coisas no que e moe: no que move, no que virima e no que e vitimado, ou no que aconreceu e 'fUC podemos dizer sabre o que aconreceu, nao vern ao caso. No final, nada Jc faro suficienre, e acred itar noutra coisa s6 fara produzir monsrros. Eem n,os como esses, e noutros que empregam o urros ritmos c outras disrintJUe se descobrira o que, alcm da polemica e da imita~ao, esse tipo de rratcm a oferecer (inclusive, desconfio, uma crftica de ambos os campos).

Os responsaveis pelas compilacroes cardias e pelos registros expropriadore' posro rratar-se de uma popula~ao de "primirivos", foram sobretudo amrop6ln gas, embora a lguns excenrricos, como o efusivo vagabundo de praia H erman Melville, tambcm se renham envolvido. Todos os ern6grafos classicos do lu ga r, aqueles a craves de que m sabemos a maior parte do que sabemos sabre a :.o ciedade marques ina naquele iL/o tempore, "o presente ernografico"- Karl von Steinem, E.S.C. Handy e Ralph Linton-, chegaram as ilhas muito depois dt· os marinheiros, comerciantes, missionaries e vagabundos ocidentais rerem ft·l to seu rrabalho civiJizador ou dcscivilizador. (A cultura nativa das ilhas Mt11 quesas, de Handy, livro em que se pautaram " praticamenre rodos os modclm da [sociedade i ndfgena mar<juesina que] foram construfdos", s6 foi publicado

..!, n:.io mais das ilhas Marquesas. (lllouvc ~poca em que as lendas [dos marquesinos], suas genealogias e a pr6pria de sua culrura viva manrinham-nos conscienres de seu passado, dill.llll lhcs como devia ser seu mundo. Are desras elcs foram despojados. Tal como t'll\ .arref..'ltos mareriais, seus costumes e esrilos de vida foram cransformados em IUtt-f:Hos culturais [europeus]. Sua culru ra viva morreu e foi ressuscirada como 11111.1 curiosidade e urn problema a respeito de coisas como o canibalismo ou a polw~rlri:t .... Todas as [suas] palavras, [sua] consciencia e [seu] saber foram arran,,ulm [das ilhas] e posros a servic;o nao da concinuidade ou da identidade [dos m.~rquesinos], mas do entretenimenro, da instruc;ao e da ediflcac;ao dos forasreitm. A vida [dos marquesinos] deixou de ser parte de seu discurso com eles mesmos [o qual, eclaro, ao contdrio dodos virginianos ou dos maias, era roralmenre nan cscriro] e, em vez disso, rornou-se parte do discurso [europeu].)"

~un11nuiJade

I )cslocamo-nos (no plano l6gico, nao cronol6gico, ja que o livro de DeUIIllO

e

u segundo exemplo das rebs;oes entre hisr6ria e anrropologia em as;ao e de hem diferente - nao urn ziguezaguear deli berado entre modalidades varidc discurso, mas uma convergencia nao inrencional e quase forruita das para um interesse comum: o enredamenro do sentido no poder. Pelo me dt·sde a epoca em que Burckhardt chamou o Esrado renascenrisra de "obra Artt·", em que Kantorowicz comec;:ou a falar da "reologia polftica medieval " tm que Bagehor norou que a Gra-Bretanha era dirigida por "u ma vitlv.l C urn jovem desempregado", OS historiadores tem-se interessado (;td;l Vt/.


1:.!0

rnais pclo papel d as formassirnb6 1icas no dcscnvolvimemo e no funcion.ttnt 11 Lo- na consrruc:;:ao, se prefcrirmos- do Esrado. E, pelo rncnos desdc a CJ'" • em que Frazer comec:;:ou a. fa lar em imo lac:;:ao rea l, Eliade, em centros sagr.t'l" ou Evans-Pritchard, em r eis divine>s no Alto N ilo, os antrop61ogos Lamhun rem demonsrrado esse in reresse. Afora uma o u outra referencia curi osa, t"' dois interesses desenvolve ram-se com relativa independencia ate epoca bcm It cenre, quando comec:;:aram a irrom?er um no outro com certa forc:;:a. Os ~~ ,,d tados foram o que se poderia esperar: uma explosao de trabalhos c 111111 explosao ainda maio r de p erguntas. A explosao de trabalhos evide:-~cia-se de ambos os lados. Um histori;11l"1 classico escreveu sobre a celebrac;:ao dos imperadores romanos nas cidades gtt gas da Asia Menor; urn hisroriado r moderno escreveu sobre o aniversario d t· ' anos de m orte da rainha Vit6ria. H o uve esrudos sabre o significado da cowo~ c;:ao de Constantino, sobre os funerais imperiais e m Roma, sobre "modclos d1 governo no cerimonial frances da realeza", sobre " rituais dos primeiros pap.• modernos", e alguem levou Kantorowicz para a epoca elisabetana, num crab.• lho chamado Os dois corpos da rainha.r Do lado anrropol6gico, no qual eu mesmo cenho sido um conspiradn1 conscience ou semiconsciente, com meu trabalho sobre "o Estado rearral"' d1 Java e Bali, houve escudos sobre o banho ritual real em Madagascar, um livro Ml 8 bre 0 rei ebrio ou a origem do Estado/ o urro sabre "o conrexro ritualfsrico da rt.l leza briranica [contemporanea]", no qual figuram a princesa Di, a bolsa d 1 rainha Elizabeth ("ralvcz o mais inrrigante dos acess6rios reais"), a cac;:a arapo~., c o em ir de Qatar, e ainda texros etnograficos mais padronizados sabre a reatrall dade da soberania no Chade, no Nepal, na Malasia e no H avaf. 0 casamcnt11 real, a morre real, os tumu los rea is e a sucessao real passa ram, rodos eles, a rcccbu o ripo de atenc:;:ao que costumava ficar reservado a rcrminologia do parentesco, '' mesm o aconrecendo como regiddio, a deposic:;:ao e seja qual fo ro rermo Lecniu1 que se rcfere ao incesro na realcza. Uma recence resenha bibliografi ca basrantt p arcial registra, apenas nos {dcimos dez anos, m ais de cinqi.ienra tirulos, desdc "A rainha-mae na Africa" are "0 rei esrrangeiro, Oumezil entre os fijianos", e a "do minac;:ao simb6lica" tornou-se, mesmo que ninguem tenha absolura certcza do que signiftca, um rermo padrao do saber e da invectiva. Foi da in rerac;:ao dessas duas lin has de pensamento, tal como descobrirant uma a outra, que veio a explosao de perguntas. A maior parte dessa inccra~,-ao conLinua a ser da n atureza das citac;:oes: historiadores da Iralia renascenlist.l mencionando ern6graros da Arrica cen tral, eln6grafos do Sudeste Asi:ililcl m encionando hisroriadores da Franc;:a renascenrista. Recentemence, porcm, houve algumas conjunc;:6es mais fmimas, sob a forma de colecaneas de simpo sios que incluem os do is tipos de escudo e os cotejam entre si, em benefkio de

mais global. Em dois dos mel bores desses rrabalhos- Ritos de polmlmlos, rituaL e polltica desde a !dade Media, surgido ha uns dois anos no >avis de Escudos Hisr6ricos, de Princeton , e Rituais d£t realeza, poder e "'"'ttl nas sociedades tradicionais, surgido no ano passado no grupo Past ll'"·'l'IH, da Gra-Breranha - , os problemas que chegaram junto com os \1. 10

''""I

39

"\"' \,to rao evidences quanro nao resolvidos. I l 111,1is aborrecido e mais fundamenral desses problemas e, simplesmen te, 1 11 1· l(LLe ponro o aparato simb6lico mediante o qual o poder do Estado se 111' c sc .1presenra- aquele que esramos acosrumados a chamar de seus adorl••mo se fosse uma quesrao de pampa e ornamenrac:;:ao- e realmenre imlllltl". A simples feitura desse ripo de trabalho implica o abandono de uma 1 .!., quesrao no estilo "esoterismo e artes magicas", bem como das formas 1111ples de reducionismo- militar, econom ico, estrutural ou biol6gicoco,ltunam acompanha-la. Os signos do poder e sua subsrancia nao sao mui1 ,,."de separar. De nada adianram 0 mdgico de Ozou Quantos batalhoes tern /'"• ncm tampouco as queixas sabre embusres e misriflcac;:6es. No entanto, 1 ""l' ate se acencua a quesrao de saber exaramenre o que sao e que important 111 os efeiros desses banhos reais e dessas li maduras senhoriais dos dentes, , dlgies majestosas c desses progresses im periais (ou, alias, das conferencias upub celevisionadas e das audiencias de impeachment no congresso). Como , h·' adquiridos? Como nao sao? Que tipo de forc:;:a rem o esperaculo? \c·.tn Wilentz, na inrroduc;:ao ao livro de Princeton, enfoca a questao como du relacionada com "as limirac:;:oes ... da incerprerac;:ao simb6lica, ... os lid.t verstehen em qualquer iniciariva de escudo": codas as ordens pol!ricas sao regidas por ficc;:ocs dominanres [como afirma11111 os antrop6logosl, havera algum senrido em rencar descobrir em que diver1'' 111 a ret6rica hisc6rica e a realidade hisc6rica? Podem os hisro riadores do 1111h6lico sequer falar numa "realidade" objeciva, cxccco raJ como era percebida pdos que sao objero do escudo, e que por isso e cransformada em mais urna fie' 111? Uma vez que respeiccmos as rniscificac;:oes polfcicas como inevicaveis e dignas ,I, c·,tudo por si mesrnas- uma vez que abandoncrnos as explicac;:oes cruas ear... ~.mces das origens da "[alsa consciencia" enos ocupernos do escudo da percep\ 111 c da experiencia - , havera algum modo convincente de vincula-las :\s , u.1ncrfsricas sociais e m::ttcriais de qualquer ordcrn hicrarquica, sem recair nesta 1111 naquela forma de funcionalismo mecanicisca? Alguns hisroriadores [ele cir:t I 1'. Thompson, Eugene Genovese e Felix Gilben] insisrern em que ainda c poslv.-1- imperarivo, a rigor- cstabelecer essas ligac;:oes, e adverrem contra a as· ' ' 11\JO de um idealismo "antropologizado", que dcsrespeira os comcxros lll~l(>ricos, no qual o novo feriche da exposic;:ao elegance subsrirui o antigo fcuchc .11 .!mrac;:ao sociol6gica e da prosa carregada. Ourros (cle cira Natalie Davi~. C.u


1.n

1~2

lo Ginsburg c Bemard Cohn] rcsponde m que csscs medos, embora justilll 1du nao tern por que bloqu ear o est udo hisr6rico da pcrcepc;ao e da cultu ra poll! 11 ',j 4 maneiras influenciadas pelas d es:::oben as dos anrrop6logos. " D eixando d e !ado a P rosa Carregada e a Ex posic;:ao Elegance, por rcrriv~.:1 que d e faro sejam esses crimes, a inq uierac;:ao ge ral co m a ideia de que, ca"' presre demasiada arenc;:ao ao sen tido, a realidade tend era a desaparecer (c nl •n dendo-se por "senrido" as m eras ideias e po r " rea lidade" as munic;:oes eo ;1\ fll re) atormenra realm ente esse ripo de trabalho. 0 desejo a n rro po logico d~..: '"' 1 como as coisas se encaixam nao se comparibiliz.a muiro com o desejo hiw)t h " de verde que m odo elas surgem , e os velhos insu ltos o irocentistas de " idl·all ra!" e "empirisra!" enrram mais uma vez em circula<;:io. "Urn mundo im~.:ll.& mente desmistiflcado C um mundo inteiramente d espolitizado", SCI11 l •c conclamado a proclama r urn antrop6 logo colabo rador, como se isso fossc lllll l 1 especie de revelac;:ao;~ "o poder, ann al, e mais do que a manipula<;:io de illl .l 12 gen s", e levad o a nos garantir o utro colaborado r, urn h isro riador, como •.• houvesse genre por af pensa ndo o urra coisa. Essa pergunra - como podemos colocar as arric ulac;:oes do poder c !.11.1 co ndic;:oes numa relac;:ao compreensfvel ? - continua a arrapalhar as discussc1c da colera nea d o grupo Past and Present, ainda mais dilaceradas intern amcnlc, sob cerros aspectos. David Can nadine, que apresenra o livro com urn ensaio que parece mud •f de rumo a cada paragrafo, considera q ue o problem a surge da combinac;:5o ch um reco nhecimenro ge ra l, po r parte d e anrrop6logos e hisroriadores, de 'I'" "rod a a ideia do poder como uma ca regoria estreira, separada e d isrima [e] 1111 propria, ... a ide ia d e que o esplendo r e o esperaculo sao apenas ... um arrallJII de vitrine ... [e) m al concebida", e da falra de alguma coisa que seja uma co11 cep<;:io m ais adequada em qualquer desses campos. "Se as ideias convencion.ll·· do poder parecem insarisfat6 rias, que o utra coisa melhor se pode colocar no lu ga r delas?" Precisamos, no di zer dele - e a maioria d e seus colabo radorcs '' acompanh a - , fo rm u lar pergun tas como: " Po r que, exatamente, as cerimolll as impressio n am ?" "[Q]ue sao os rijolos co m que de faro se co nstroem [css.1• cerimo nias]?" "[S]eri que o ceri monia l conven e sistem as de crenc;:a refercntl as hierarquias celestes em afi rm ac;:oes d e faro sobre h iera rq uias terrenas, .. . [n11l sera q ue o ceri monial converte aflrmac;oes de faro sobre o pode r na T erra c111 afirmac;:oes d e crenc:ra sob re o poder nos ceus?" " Po r que ... algumas sociedaJ.parece m precisar m ais do cerimonial d o que ourras?" "Com o se afigura a pam pa p ara OS alienados OU OS d espossufdos?" "Qual e a [igac;ao entre a derrubad I da realeza e a derrubada d()s ri tuais?" <t Po r que certos Lipos de fau sro se cnral . n am ' , en qu an ro ourros d enn c. ham e mo rrem .)"43 zam e •c.1unc to

f x, clll.lnJo-sc o

fam c.le que o problema ral vez resida menos numa cond,·m.tsiada mente esrreira d o poder d o q ue numa concepc;ao demasiadasimplist:t. do significado - urn erro fllos6flco, e nao d e defini<;:io - , alln, de faro, perguntas do tipo q ue essa cu riosa junc;:ao d e an trop6logos sel' lllStoriado res insritucio nais rem levantado. E, se o navegar por aguas h;ls nao provocar medos tao inrensos de despencar do navio a ponro de r pur complero o movimen to, eate possfvel que, em certa medida, e por l)llt' M.:jam refo rmuladas para se tornare m me nos mac;:antes, algumas d elas n·spo ndidas. ( nm cerreza, e provavel q ue co ntinuem a ser feitas. U rn livro recente (de 1ntrop6 logo, mas que, hoje em dia, pod eria facilmenre ser de urn hisroria•nh rc Ritual, polltica epoderdiscute, entre outras coisas, a visita de Ronald n a Bitburg, as cerimo nias f{mebres d a m orte de I ndi ra G and h i, as reu\nbrc o controle armamenrisra entre lfderes soviericos e norre-amerios riros cani bais d o Esrado asreca, a cerimo nia de posse dos p residentes Fstados Unidos, urn desli le d e membros d a Ku Klux Klan na decada de .1s arividades de grupos rerrorisras conrempo raneos, as cerimonias "curados reis franceses e brira nicos do secul o XVI e OS desfi les do Oia doT ra44 cm Moscou. 0 que a ntes sc a fi gurava u rn bela problem inha parece u ma bela confusao- o q ue ralvez seja o esperavel, quando as duas inicimais mu ltifacctad as d as ciencias humanas juntam forc;:as, nao importa t JUC oporrunismo ou com que nervosismo.

recente d e in teresse dos a nrrop6logos nao apenas pelo passado (sempre tn teressamos po r ele), mas pela m a neira como os histo riadores Ihe dao u rn adu atual, e do interesse d os hisro riado res nao apenas pel a esrranheza cultu(cnisa que H erodo ro ja ex ib ia), mas rambem pelas maneiras como os antraa trazem para perto d e nos, n:io e urn simpl es modismo; sobrevivera ao asmo q ue gera, aos m edos que desperta e as confus6es q ue cria. Bern medaro e a que levara essa o nda, ao sobreviver. quase cerro, po rem, que nao va mui to alem de onde ja foi, seja no sentide uma am algamac;ao dos do is cam pos em uma rerceira coisa, seja na en•n• ' ""~i:t.u de urn pelo o utro. Sendo assim , boa parte da inquierac;:ao d e am bas panes acerca d a desaparic;:ao do cara.ter erudiro ap ropriado (que se costuma gna r frouxa men te po r " ri gor"), bern como a polem ica defensiva a que ela ma rgem, sao no mfnimo equivocadas. M ais parricularmente, do !ado c.l.1 iatc)ria (que parece maio r, ralvez p ot haver mais Auroridades nela), a prcoc..u c.le que o intercambio com os an rropo logos Ieve a uma perda da alma c1i a, considerando-se a enorme d iscrepancia no taman ho dos dais campm,

r.


Ntw,/lllr: Jtdnr .t 111/llllf'tdngtol

p.ua n.\0 falar em seu pcso cultural. Qualqucr jun)aO, seja como convcrgc:!n~11 de discursos, seja coiTloconvergencJa. da aren)iio, esta fadada a ser urn gui,.L lo de clcfante com coelho ("pegue urn elefanre, urn coelho ... "), em rcla~.u· ·'" qual o elefante nao prec1sa preocupar-se demais como rea lee de seu sabor. (, 11 anro ao coelho, ele est:iacosrumado com esses arranjos. Para que venhaa prosperar urn trabalho dorado da originalidade, da fi~r~ e do bela cararer subversive do que examinei, e rna is uma imensa quantiJ.ul dos que nao examinei, 'indade codas as panes de cada urn dos campos para " das as partes do ourro (e levar adianre uma discussao como esra, sem menCJn nar as Annales, o esrruturalismo, o marxismo, A vida e morte dos Sbucm 011 Philippe Aries, ja e em si urn esforc;o herculeo) , parecc necessaria urn a sensihl11 dade mais aguc;:ada para as condic;oes- praticas, culwrais, pollricas e insti 11 cionais- em que ele ocorre. Em conl uio ou nao, o cncontro de uma tradic••• erudita, vasca, veneravel e cultural mente central, esueicamente ligada ao csf 11 c;o do Ocidenre de consrruir seu self colerivo, com uma tradiqao muito menu•. mais jovcm e cu ltural mente marginal , escreiramence ligada ao esforc;:o do Ou denre de ampliar seu alcance, rem uma esrrurura propria. No final das cont.\\, talvez o progresso resida numa compreensao mais profunda do "e" no acmtt plmm1t entre " Hist6ria e Antropologia". Cuidando-se das conjunc;:6es, o substantivos saberao cuidar de si.

0 "saber local" e set-tS limites: alguns obiter dicta I. " Local " c, claramente, um termo "rdativo". No sistema solar, a Terrae loc.d (como fl cou patence, no bom estilo antropol6gico, ao se sair dela, ao menm temporariamente, para fira-la da Lua e de ourras 6rbiras); na galixia, o sisrem.1 solar e local (a Voyagerdcve ajudar nisso); e no univcrso, a galixia e local (quan ro a isso, ralvez scja preciso esperarmos algum tempo). Para urn frsico nuclc.tJ, o mundo - ou o zool6gico- das partfculas e ... bern, o mundo. Ea pardcul.t, um fiapo de vapor numa nuvem de godculas, que e local. 2. Ponanto, a oposic;ao, see que devemos rer alguma (e nao escou convcn · cido de que uma oposic;io- outra oposic;ao- seja aquilo de que precisamm ou que devemos querer, em vez de urn foco de parricularidade mutavel), nao l entre o saber " local" eo "universal", mas enrre urn ripo de saber local (digamo\, a ncurologia) e outre (digamos, a etnografia). Assim como roda polfrica, quJI quer que seja seu peso, e local, o mesmo se da com wda compreensao, por 111.11, ambiciosa que seja. Ninguem sabe rudo, porque nao h:i um rudo para se sa.bct 3. A incapacidade de enxergar essa verdade crista! ina, por parte de pesso.t\ que, afora isso, afiguram-se racionais, resulta parcialmente d e uma confusao

t l 1//11111 .711 '"'''"

l.!'i

k.a n.ts c1cncias {ou nos cientistas) sociais (ou humanas) entre: (a) o~ ·~ ("todo o mundo tem o tabu do incesro", para cirar urn exemplo falpdn mcnos, sumamenrc enganoso); (b) as gm~ralizafiies, que podem ser ilhucas, ter exces;6es ou contradic;:6es scm ncnhuma faralidade, ou ser apruximac;:6es ceteris paribm, "via de rcgra", que rem uma milidade ins.al ("As sociedades horticulroras sao mais padficas do gue as pascoris" pcnsemos nos maias, olhemos para os lap6es); e (c) as leis. (Na amropoc:uhural, ou, a rigor, em qualquer parre das cicncias humanas, e diffcil "r urn exemplo- " do casamenro grupal para a marrilinearidade para a u:aridade" - que nao scja. risivel ncm esteja supcrado. T alvez uma prode alguns anos arras, que diz que OS trac;os culturais se difundem- isco pclo globo- arazao med ia de mais Oll mcnos tres quilometros por tra nsmita parte do efeito comico implicado.) 4. M inha visao pessoal, apenas para indid-la, j:i que nao posso propriadcfende-la num espac;o pequeno, e que: ou (a) a maioria dos universais lOllus, segundo podcmos supor) e tao geral que nao tern forqa ou interesse lU;tl, euma grande banaJid:ade a qual falcam minuciosidade ou surpresa, ou revelac;ao, e que, ponanro, rem pouquissima servenria ("Os povos todas as regi6es rem ideias sobre as diferenc;as entre os scxos"; 'Todas as sotern sistemas de hicrarquia social"; "A imporcncia rende a corromper, lmpotencia absol uta ten de a corrompcr em termos absoluros"- csrc, que c mente uma transformac;ao minha, cxcmpliflca outra caracrcrisrica de universais: como as capas de chuva de dupla face, eles podem ser usados urn !ado ou do ourro); ou (b) quando os universais de faro rem urn cerro de nao trivialidade, pormenorizac;:ao e originalidade, guando realmcnre algo suflcienremcnte interessante para estar errado (como a ubiqi..iidado complexo de Edipo, a nccessidade funcional de as psiques e socicdades costumes ligados ao luro, a forc;:a produtora de solidariedade que cxiste dadiva), elcs sao infundados. Em rermos ernograflcos, s6 esramos familiaricom uma proporc;:ao muiro pequena das sociedades que exisriram ate dcscas, apenas uma parcela ainda menor foi sistcmacicamenre estudada, e que foram siscemaricamcnrc estudadas nao o foram por igual ou de maneira nte. Podemos ou nao saber alguma coisa sobre as noc;oes do Edipo nas Trobriand ou no Sri Lanka, mas nao sci sc alguem sequer pensou em exao assunro entre os Havasupai, ou, se porvcnrura isso ocorreu a alguem vcrifiquci), entre os montenegrinos, os incas ou os cabilas. Ha uma rrcdesigualdade, assim como uma rremcnda insrabi lidade, na atenc;:ao :111 mi:IOJj:)Q't'ca. Nada e estudado em toda parre ou por muiro tempo. Arc poll<..() arras, nao havia muita informac;:ao sobre 0 sistema de parentesco dm , em bora o parenresco seja um de nossos temas mais obsessivamentc in


12C.

vcstigados cos Navajo sejarn um de nossos grupos mais minuciosamcntl: pc quisados. Isso nao e remediavel - nao atraves da cria<;ao de projeros do ripo 1101.1\ I pergunras, nem de programas padronizados de forma<jiio em pesquisa, ou 路.1 11 Ia o que for. T ampouco devemos, a meu ver, tenrar remedia-lo dessa mai1C'I t 1 A busca de universais afasta-nos do que de faro se revelou genuinamentc P'" durivo, pelo menos na ernografia (creio que nao apenas na etnografia, rna~ dc1 xarei que ourros discutam os ourros casas) isro e, das obses""' "inrelecruais" paniculares (a de Malinowski com a rroca, a de Levi-Strauss w111 o simbolismo animal, a de Evans-Pritchard com a adivi nha<;ao) - , enos In 1 para uma abrangencia rala, implausfvel e predom inantemenre pouco ins111111 va. Se voce q uiser uma boa generalizas:ao p nhica da anrropologia, sugiro a 'r guinte: qualquer frase que comece por "Todas as sociedades rem .. " infundada ou banal. 5. Eclaro que as generalidades do t ipo "no sui, nao" pod em ser aceita~. c claro que podem ser uteis, porem mais como pontos de partida heudstllll para invesrigas:oes locais mais ap rofundadas do que como conclus6es que P'" sam ser bancadas em livros didaticos. ("Uma boa coisa para examinar sao os 11 ros funebres, quando se esta interessado nas conceps:oes do self de urn povo "No Sudeste Asiatica, a diferencia<jiio do status rende a ser incomumenre 1111 ponanre, mas o conrrasre entre os generos, nao tanto; na Africa serenrrion d observa-se o inverso." "As praricas de cria<jiio dos filhos rem muiro aver co111 1 personalidade dos adulros.") A maioria das mais valiosas entre essas sao gem路'路' liza<;6es conceituais, do tipo "resre da receira": quando levam a algum Iugar, 611 mo; quando nao levam, que se danem. As generalizas:oes lingufsric,~>.. novamenre presrigiadas nos ulrimos tempos, em parte como res ultado da rcv11 lu<;ao chomskyana (ou conrra-revolus:ao, a meu ver, mas deixemos isso de l:ldn pelo preconceito que represenra), rendem a ser assim : disrin<;6es entre subst.lll rivo e verba, regularidades das formas marcadas etc. Elas realmente pareCl'lll ter aplicas:oes amplas, mas afirmar que sao universal mente aplicaveis e dogm.l rico ou raurol6gico, ou consrirui uma regressao as vacuidades que discuri h 1 pouco. Como sinais superficiais d e mareriais que jazem mais no fundo, enw tanto, sao 0 xisro (espera-se) que cobre 0 campo petrolffero. Nada disso equivale a djzer que a busca de generalidades amplas seja o u m inho 6bvio ou o melhor caminho a seguir, em bora se deva ad mitir q ue ha .d guma coisa na an tropologia - ralvez seu movimento de estudo do homem 11 partir do macaco- q ue parece incenriva-lo. Diro de ourra maneira, are as gc neral iza<;6es da d1.am ada antropologia cogniriva- o trabalho da etnobotft111 ca, o trabalho de ]erlin e Kay sabre as cores (muiras vezes mal interp retadm are por seus aurores, em rermos "universais")- tern, com ceneza, ate cc1111

A )111111(1111 >IIIII"

1.!.7

u, uma naturc7.a cmmopolita, cmbora nem sempre fique claro quao cosit.ts sao. Interpreta-las no mundo de maneira "realisra", como pane da ,I t.Omposi<jiio das coisas, e OUtra hist6ria, que tambem nao paSSO examilllJIIi, a nao scr para dizer que julgo duvidosa essa proposi<jiio. As "especies" "rc.1is", ate onde o sao, exatamenre da mesma maneira que o "poder" (are dee real). (1. Quanta as leis, ja sugeri que nao consigo pensar em nenhuma candidata em meu campo que eu possa debater. Uma das coisas mais irritantes em l.llnpo sao as pessoas que dizem que nao se esta fazendo "ciencia de verdallll.lt1do nao se fo rmula nenhuma lei, co m isso sugerindo que elas as forr.un, mas sem nos dizer, na verdade, quais sao essas leis. Nas raras ocasioes que d as nos dao essa informa<jiio- 3,2 quilometros por ano, o canibalisr .1cscassez de proteinas -,a situa<;ao fica pior. 0 cienrificismo- e, nesse ' quero falar das ciencias humanas em geral - e quase sempre um blefe. lOisa e invocar OS espfritos das profundezas, OUtra, bern diferente, e fa;Hcnder quando sao chamados. Mas 0 que esra implicado nao e apenas a ura: o uropismo induzido por uma visao equivocada da ffsica anterior ICtulo XX (o mundo antes de Maxwell), que foi imporrado pelas ciencias .mas, nao levou aos port6es da terra dos paradigmas, porem a uma grande idade de gestos inureis e proclamas:oes pretensiosas. 7. Chega de negativas. Quais sao as virtudes de uma orienras:ao do ripo r local"? i l . Limites. 0 tfrulo desta discussao parece presum ir que a exisrencia delie urn argumenro conrrario a alguma coisa. (Po r que nao e ela chamada 's.1ber un iversal' e seus li mites"? Possivelmenre porque faze-lo levantaria a 'bi lidade de que, sendo universal, cle nao tivesse nenhum e, portanto, nao um saber.) Para minha menre limirada, o reconhecimento direto e franco lim ires- urn dado observador, num cerro momenta e num dado Iugardas coisas que mais recomendam wdo esse estilo de realizar pesquisas. 0 hecimento do faro de que todos somas o que Renaro Rosaldo chamou de res posicionados (ou siruados)" e uma de suas facetas mais atraentes qul' mais conferem poder. A renuncia a autoridade provenience das "visoes partem de Iugar nenhum" ("Vi a realidade e ela e real") nao constitui uma , mas urn ganho; e nao e um recuo, mas um avans:o, a postura que diz: , eu, urn norte-americana declasse media de meados do seculo XX, mais mcnos padrao, e do sexo masculino, fui a tal Iugar, conversei com algumas que consegui induzir a falarem com igo, e acho que as coisas se passam das, porIa, mais ou me nos de tal ou qual maneira." Talvez isso nao scja tame, mas rem uma cerra franqucza (coisa escassa nas ciencias humanas) . visoes que partem de Iugar nenhum podem ser imaginativamente constru{


1..!.11

d as, e clara. Q uando bem-Feit as, podem ser e rem sido, nas ciencias naturni •• d e imensa utilidade. Mas, construldas d esta man eira, sao, na verdade, un1.1 "·' rie dade particular das visoes qu e parrem de algum Iugar - do estudo do fi lt'>M• fo , do computador do te6rico.) b. Dados circunstanciados. Ao menos podemos di zer alguma coisa (11.111 que sempre o fas;amos, e claro) co m certa concrerude. Jamais consegui cnH·II d e r por que se supoe que certos comentarios constituam cd ticas, tais cot1111 "s uas conclusoes, do mod o como se apresentam, abrangem apenas dais 111 1 lhoes de pessoas [Bali]. ou quinze m ilh6es [Marrocos], o u sessenta e cinco 1111 !hoes Oava], e s6 abarcam alguns anos ou seculos". E claro, podemos CS III e rrados, e muitas vezes estam os. Mas "ape nas" ou " meramen te" tentar cu111 preender o J apao, a C hina, o Zaire o u os esquim6s centrais (ou melho r, algtt111 asp ecro da vida deles num pedas;o d e sua linhagem no mundo) nao e uma 111 nharia, ainda que pares;a m enos impressio nante do que as explicas;oes, as tcot t as ou seja Ia o que For que renha como o bjeto a " Hist6 ria", a "Sociedade"," "H o mem ", a "Mulher", o u alguma ourra enridad e grandiosa e fugidia em 1~ tras maiusculas. c. Naturalmente, a comparas;ao e possivel e necessari a, e e 0 que eu e O il tros de iguais convics;6es passamos a maio r parte do tempo fazendo: vendo cor sas pa rticulares contra o pano de fundo de outras coisas particulares, com i"•l aprofundando a particularidade de am bas. Por se haverem discernido, ao <Jilt se espera, algumas diferens;as reais, tem-se alguma co isa genuina para camp.• rar. As similaridades encontradas, sejam quais fo rem, e mesmo que assumant 1 fo rma de con trastes o u inco mparabilidades, sao tambem genuinas, e nao c:m gorias abstratas, superpostas a dados "passives", entregues a m ente po r "Oeu' pela " realidade" ou pela "natureza". (D e ourro modo, o comentario d e Sant• yana d e que as pessoas recem comparas;6es quando nao conseguem chegat 1 raiz d as quest6es se rornaria muiro verdadeiro.) A teoria, que tambem e pos,r vel e necessaria, brota de circunstancias particulares e, por mais abstrata lpu seja, e validad a por sua capacidade de ordena-las em sua plena particularidndt e nao por descartar essa parricularidad e. D eus pode nao esrar nos d etalhes, 111.1 "o mundo"- " rudo o que exemplifica a situa?o" - certamente esta. 8. Mas a pergun ta crucial implicada na tensao d o local versuso u nivers.tl nas "ciencias hum anas" (e ja indiquei meu incom od o com essa maneira dt enunciar as coisas- "vers us" deveria ficar reservado as Juras profissionais d. boxe, as eleis;6es, as gu erras e aos rribun ais) e: que querem os dessas "ciencia,· Que significa o u deve sig nifi car "ciencia", nesse caso? N ao rem grande servctt tia d iscuti r SC devemOS CllVOlVer-n OS COm queStOeS inextricaveis de "tal epm I ou ral lugar", o u se devem os olh ar adian te d essas questoes e perguntar o C]lll • rudo, sempre e em rod os os lugares, a menos que saibamos com clareza o q111

II silltrt(•ltJ ttflutl

1.!'!

r.unos ga nhar ao ado tar uma orienra?o o u a o urra. A disputa, que me pawncerni r ao valor de caminhos diferentes para chegar a urn destine com' e, na verdade, sobre 0 valor de destines alte rnari vos, como quer que m atingidos. Som as menos divididos pelo m etoda- a genre usa o que rem tlo que pelo que pretendemos. Af csui urn conrraste conhecido, m as nem po r isso m enos im portante, enm que acrediram que a tarefa das ciencias humanas (embora estes tendam a chama-las de "comportamenrais") edescobrir faros, dispo-los em estrus proposicio nais, d eduzir leis, prever conseqi.iencias e administrar racionalt• a vida social, e os que acreditam que a meta dessas ciencias (em bora as nao concordem em chama-las de "ciencias") e esclarecer 0 que, afi nal, !l'CC com Varias pessoas em varias epocas, e extrair algumas conclusoes SOol S coer<yoes, as causas, as esperan s;as e as possibilidades os aspectos pratida vida. Sc a primeira dessas visoes, como disseram algumas pessoas, ecomo quesaber onde se vai m orrer, para nunca chegar perto desse Iugar, ou sea secomo disseram ou rras, e co mo apagar a vela e m aldizer a escuridao, scja menos importan te (em bo ra nao irrelevance) d o que saber qual a emitada em que de faro nos vemos empenhados . Se o que se esta procurando .wans;os no controle tecnico minucioso d a vida social (o son ho de Bent, o pesadelo d e Fo ucaul t), a conversa sabre a universalidade, acho eu, e a a ser falada. Q uando se esra a procura d e aperfeis;oamentos na capacidade l('var uma vida que fas;a algum sentido e que, no co mpuro geral, se possa r (a esperans;a ceti ca d e M o ntaigne, a esperans:a desalentada de Weber) ·'JHid6es m a rais, nao manipuladoras - , parece haver necessidade de algo nos ambicioso . Nacuralmen re, aqueles de n6s q ue ado tam a segunda postu ra (urn numero te, creio, agora que as ideologias do saber desencarnado foram meio l.1das) rem mui ro que esclarecer e m ais ainda que to rnar persuasive. Mas ess cmpenhados n isso e nao ha po r q ue nos preocuparmos d emais, a nao tal vez, em termos polfticos, com a ideia de ficarmos a altura de padroes nientes da p rimeira postura, pescando o utros peixes, talvez nao comestiM, no utros m ares, talvez d esabitados. 0 que Stephen T o ulmi n chamou de upera?o da fi losofia p r:itica" re m seu p roje to proprio e suas ideias de mn promove-lo. 0 que descreveu como "o reto rno ao oral" (referindo-se, a . a ret6 rica, aos en u nciados, aos atos de fala, ao discurso, a narrativa, a nwrsa e aos jogos de linguagem - nao ao que e liceralmente oral, mas ao ·sticamente oral) , ao "particular", ao "local" e ao "oportuno", e urn movi to, nao uma do utrina, e, como q ualquer m ovimento, precisa de reali1.1 • nao de maximas para sustenta-lo. 0 q ue precisamos (para formul::u 11111.1


I \0

maxima) nao e de reencenacyoes COn.tempod1neas de antigos debateS 00111111 ! II cos e ideograficos, erhliiren e verstthen, mas de demonstrac;:oes, de um ladoo11 do oucro, de uma tecnologia eftcaz para controlar as direc;:oes gerais da vid.1.,, , cial moderna, ou do desenvolvimento e da inculca de habilidades mais dd1t 1 das para navegarmos p or ela, nao importa que direc;:io ela tome. E, em tratando disso, sinro-mc razoavelmente conftante sabre qual das posuu.1~ mais desejavel e rem maio r probabilidade d e ocorrer. Quem conhece melh.or o rio (para adotar uma imagem que vi numa "'" nha de livros sabre H eidegger, urn dia desses) : o hidr6logo ou o nadador? F111 mulada a pergunta dessa rnaneira, e clara que a resposta depende do que .• pretenda dizer co m "co nhecer" e, como ja indiquei, do que se espere reali/tl Considerada como o tipo de conhecimento de que mais precisamos, o 'Jilt queremos, e aquele que ate cerro po nro podemos vir a ter, pelo menos nas cit-11 cias humanas, a variedade local- aquela que o nadador tern, ou que podc dt senvolver ao nadar - pode, para dizermos o mfnimo, sustentar-se l'lll oposic;:io a variedade geral - aqueJa que 0 hidr6logo tern OU afirma que 0 Ill~ todo fornecera, num futuro proximo. Nao se trata, mais uma vez, da forma d nosso pensamento, mas de sua vocac;:ao. Nao sei se podemos dizer que isso esarisfar6 rio como "resposta as reivind t cac;:oes crfticas de universalidade e autoridade" feiras contra o trabalho (Ill emerge de " ponto(s) hist6rico(s) no tempo ou ... d e ponto(s) geografico(s) 1111 espac;:o" (como diz a acusac;:ao feira a esta discussao), nem tampouco o que · poderia considerar "sarisfac6rio" aqui. Mas, como todo "saber local", elc ' subsrantivo, e de alguem e, por enquanco, serve.

6

0 estranho estranhamento: Charles Taylor e as ciencias naturais

paragrafos iniciais da introduc;:io de seus PhiLosophicaL Papers, Charles 1 11ylor confessa-se to rnado por uma obsessao. Em suas palavras, ele eurn ouri• 111n monomanfaco que po lemiza interminavelmente com uma tmica ideia ",t ambic;:ao de pautar o escudo do homem nas ciencias naturais". Da a essa ,, mui tos nomes, quase sempre "naturalismo" ou "visao de mundo naturallt.t", eave em praticamente coda parte das ciencias humanas. A invasao destlcncias por modos de pensam ento alheios e impr6 prios conduziu a dr\11 uic;:ao de sua singularidade, sua auto no m ia, sua eficacia e sua im portancia. Jmpdidos pelo enorme (e "co mpreensivel") prestfgio das ciencias naturais em nm,,t cultura, remos sido continuamente levados a uma falsa concepc;:io do 1111'' l- cxplicar o comportamento humaoo. 0 prop6sito dessa polemica, a parte 0 desejo de livrar as ciencias humanas d ll'rtas iniciativas "terrivelmente implausfveis", "estereis", "cegas", "mal acaba2 .W~" c "desastrosas" - o behaviorismo slcinneriano, a psicologia computacion.-1. a semantica condicionada averdade e a teo ria polftica da primazia do direito , t 1 abrir espac;:o nessas ciencias para as abordagens "hermeneuticas" ou "interpt('l;ttivistas" da explicac;:io. A incerpretac;:ao, "ten tativa de dar sentido a um objedl' escudo" de urn modo "confuso, incompleto, nebuloso ... , contradit6rio ... , 3 Ill d areza", e uma parte irremovfvel de qualquer pretensa ciencia das quest6es luun.mas. E e precisamente isso q ue "o modelo da ciencia natural", com sua pai1\o pcla Wertfreiheit, pela previsibilidade e pelos fatos brutos- bastante defenAwis em seu campo proprio - impede por completo. Quem , como eu, considera inreiramente persuasiva a tese de que a manei111 lllJis uti! de conceber as ciencias humanas eve-las como esforc;os para tarnal ~ i11.1 S quest6es, apare nremen te estranhas e inrrigantes (crenc;as religiosas, pd tlt•• l\ polfticas, autodefinic;:oes), "n ao mais estranhas e incrigantes, po rem cxpli 4 11d.ts", e considera magistral a elaborac;:ao que lhe da Taylor, talvt'/ \l' 131


N1111 luc 111/,,· ,, ,mtll•f•nlo,(t•l

dcscubra pcrru rbado, no entan to, ao notal , dcpois de algum tempo, qur 11 "ideal o posro"s com queessa visao e tao resolu ta mence con trastada, o u , •...•. "ciencia natural", e mu ico esquemat icamenre imaginado. Confrontamo II III nao com uma descri <;ao arriculada de uma in stitui~ao viva, q ue tenha lllll llil hist6 ria, uma vasta d iversidad e interna e urn futuro p ro missor, m as com 111 11 estere6tipo cum espantal ho - uma cabe~ d e G6rgona que faz a a~ao, o \I ~111 ficad o e a mente se transform arem em pedra. As referencias de Taylor a "ciencia natu ral", apesar d e extrem amen tt· 1111 merosas, aparecendo em quase tod os os ensaios dos Philosophical Pap~r.r. ;m m arcadas, ran to ncsse quan to nourros de seus trabalhos, par duas caractct ( 11 cas: praticamenre nunca sao circ unsranciadas, no sen rido de que s6 descrcv1 m exemplos reais de trabalhos d a flsica, da qufmica, da fi siologia, ou lei do qm· M 111 d e fo rma passageira, e praricame nte rodas dizem resp eito as etapas inici.m dii revo lu~ao cientfftca - Bacon, G alileu, D escartes, N ewto n, Boyle-, e n 111 a nada que seja remota mente contemporaneo. Como muitos d os "Outros'' qu• construfmos hoje em dia para nos asso mbra rem com sua simples alreridadc Os Japo neses, Os Mu~ulmanos a u L'Age classique-, seu anrago nista p::u.1 n ciencias humanas de orienra~o inrerprerariva e caracrerizado de maneira gcu rica e crisralizada no tempo. Urn conrraste que se presca para cudo. t. facil ver as raz6es disso. No rmalmente, com efeico, a co ncep~ao do qw , ser "verdad eiramente cienrffico" nas ciencias humanas tern sido rlgida e au.• cro n ica, ale m d e profundamenre desinformad a das realidades d as "verdadcll .ll ciencias" cujas virtudes deveriam ser impo rrad as pa r essas empreitadas "mc11u, - esta' errado ao ac I1.11 exaras"" , ma1·s cn acas"a " u menos maduras " . TI ay o r nao que a versao skinne riana do behaviorismo a u a versao fodo riana do cognitivt·· rna consciruem m e nos a exrensao de uma abordagem comprovada da expliu ~ao a novas campos do que par6dias dela. Tampo uco esra errado ao considcJ.II que a rejei ~ao dessas par6dias, e d e o utras similares, nao condena as ciencw 6 hum an as a urn "subjctivismo d e Humpty Dump ty", no estilo "o mundo t '' q ue d igo que e'', in capaz d e fo rmular uma hip6 tese decenre a u de confront.n uma hip6rese com provas autenricas. No enran to, e possfvel q ue a cria~ao d• urn abismo comple ro, ftxo e inrransponfvel entre as ciencias naturais e as cit·11 cias humanas seja u m pre~o alto demais, alem de desnecessario, a pagar p.u 1 manrer adisra ncia essas confusoes. Ela e simulraneamenre obsrruriva ao p 1o gresso de am b as. A ideia d esse abismo, de u ma dicoto mia, em conrraste com uma mera dilt ren~a (a qual ninguem encobriu e q ue, em sa consciencia, ninguem quereria 111 gar), remon ta , e clato, a conceirua~o das Geisteswissenschnften versus .I Naturwissenschaftm, do verstehen versus o erklnren, sob cuja egide, arravcs dt O il they, a herrneneutica mo dem a lan ~o u-se definirivamenre, e a qual, com H {'l

() r•lltlllllll r.llltlllllillllrJ/111

Ul 7

o.ttb mcr, l{icocur c llabermas, "e m uito s6lida no fim do seculo x:x". poul as as duvidas (cu, pel a m enos, nao renho nenhuma) de que essa visao no csrilo "dru a Cesaro que e de Cesar", prestou excelentes servi~os a da intcgridade e viralidade das ciencias humanas- da sociologia, da hisJ ., .ullropologia, urn pouco menos da psicologia, e menos runda d a econoantc as eno rmes press6es exercidas sabre elas no auge do positivismo, tMl' l6gico o u de ourra natureza. Sem ela, os pi ores pesadelos de T aylor pmlcriam ter-se tornado realidad e, e todos serfamos sociobi6logos, te6ricos ha racio nal o u criadores de axio mas de leis abrangenres. A quescao e se distin~o tao radical mente fo rmul ada ainda e uma boa ideia, agora que ja se cu c rornou a esclarecer que as ciencias humanas, pa r concernirem aos selevanram problemas parriculares e requerem solu~6es particulares, 11 idcia de uma "ffsica social" parece uma fa ntasia ex6tica de tempos idos. 1al distin~o as ciencias humanas ou as narurais? Sera que a con versa atracorpuscallosum de nossa cul rura e inibida ou impedida pa r esse ripo de cimmissural? t. essa cirurgia desvanrajosa para ambas, red uzindo a nios com apenas m etade d o cerebra? Sera que interessa a alguem uma ~uerra civil merodol6gica dos H ermeneuras versus os Naturalistas? Tais perguntas, e clara, sao ret6ricas- para nao dizer tendenciosas. A ho' za~ao d a ciencia naru_ral, no tempo e nos diferenres campos, como urn constance, urn "ideal oposto", permanenremenre distinguido de outras de pensamenro "por urn mecodo especial [e] uma rela~o especial com a ",como d isse Richard Rorty, e exrremamenre d ifk il de defender, quanulha para a hist6ria ou para sua varied ade inrerna com algum grau de miidade.8 0 perigo de ro marmos o rcducionismo objetivista como uma licncia ineviravel de buscarmos estfmulo nas ciencias naturais para constxplica~6es do comporramento humano e eno rme, caso nao haja uma imamais rica e m ais diferenciada do q ue a reconhecida pa r Taylor are hoje, do clas sao (e 0 plural e essencial neste po nro), do que foram e daquilo em q ue estar-se rransfo rmando. 0 mesmo se aplica ao perigo, possivelmenre maior, de isolarmos essas pr6prias ciencias numa ideia mui to ul trapassada meta e essencia (e num senti menta exagerado de seu valor), fora d o alcanconsciencia de si herm eneutica. A tendencia a supersimplifica~o, q ue acerradamenre deplora, parece vicejar tanto nas ciencias humanas q uan ta nalurais, precisamen te na medida em que 0 rransito in telectual entre elas e rufdo pa r no~6es artificiais de uma separa~o primord ial. l' (

os ripos de esq ue mariza~ao das ciencias narurais - o que as ve como tovidas de hist6 ria, o u, pelo menos, com o tendo uma hist6ria que consistc


1.1-1

( J f•mw/w rlfr.lllhillllr/1/tl

apenas n o desenvolvimerHo, ern gr aus cada vez maiorcs de complcxJ<.J.ad,. d urn modelo episremol6gico exposto no fim d o secul o XVII, eo que as vc t 1111111 uma massa apenas pragmaticamenre diferenciada, defi nida em rcrmos ftu~tll m enrais por sua adesao aguele modele- sao essenciais ideia de qu~: r I • compoem urn mundo isolado e auto-sufl cienre. Sem urn deles, e ccrtnnHIII sem os do is, essa ide i a parece ni rida.menre me nos 6bvia. A visao de que a hisr6r ia da ciencia natural consiste no mero descnv11" 1 m ento de urn aro fundante para tod o o sempre ("[A] grande guinada OCOIII•IM na cosmol ogia no seculo XVI I, que passou da imagem de uma ordem mund11l baseada nas ideias para a de uma o rdem baseada no universo como urn 1111·• 1 nismo, foi a objeriftca~ao fundanre, a Fonte e inspira~o para o desenvolvin11 11 9 to conrinuo de uma consci encia moderna dese ngajada" ) nao s6 desprct., '' rexros hisroriogr:Hicos (dos quais ode Thomas Kuhn e, provavelmente, o '"·" ' famoso) que enfatiza m as roturas, os desvios e as d esco nrinuidades no ava111, 1 dessas ciencias, como despreza as compJicac;:oes impostas ideia da "conSCill1 c ia desengajada" por teorizac;:oes de nfvel quantico - Heisenberg, Copcn h.1 10 gen e o garo de Schrodinger. E, o que e mais importanre, deixa de !ado'"" faro que Gyorgy Markus, ao falar de " uma segunda revoluc;:ao cienrlflca" Olor rida na segunda metade do seculo XIX, assi nalo u: os rrac;:os caracrerfsricos d • ciencias naturais, que Taylor considera muiro desrrurivos ao serem imporcHin pela psicologia c pcla polftica, nao sao uma projec;:ao dircra de ideias renasct'll tisras e iluministas em nossa epoca, porem uma rransformac;:ao muiro mai~ ' ' cenre e bas tanre radical delas. "A ciencia natural, como o genero cultural'!"' nosconhecemos, ... c produro de urn avanc;:o oirocenrisra no qual [sua] esrru111 ra cogniriva, [sua] organizac;:ao in stitucio nal, [suas] formas c ulrurais d e objt·ll 11 vidade c .. . [s ua] func;:ao social global modiflcaram-se ao m esmo tempo." ! I mundo anterior a Maxwell, na verdade, nao e urn modelo muito born do " n• turalismo" tal como e hoje enrendido. Foi uma etapa num projeto (ou, p.u 1 serrn os rn a is exaros, num con junto de projeLOs) que continua em andamento E, uma vez que continua em andamento e, pelo que parece para quem v(, l, fora, nao est:i se rorna ndo mui t:o consensual em seus enrendi m enros de si Ill! mo, e possfve) que ela rorne a se rransformar; a menos que a hisr6ria renha n.d mente acabado, e guase cerro que se transformad.. Na verdade, ha urn bo111 numero de s inais de que j a esra e m processo de mudanc;:a: o Aorescimenro da bu• logia (nao s6 da generica e da mic robiologia, mas da embriologia, imunologi., neurofisiologia) a urn ponca em que ela ameac;:a o status da Ffsica como arqucll l"' da in vcstigac;:a.o ciemlfica; os problemas epistemol6gicos e onrol6gicos que a1111 menram a pr6pria ffsica (" n ao pergunrem como isso pode ser assim, nao podc 'r 1 assim "); a crescenre dificuldade de a "grande" ciencia, isto e, a ciencia dispemliu sa, isolar-se d o escrurfnio popular, bern como a cresccnre tenuidade dos arg11

a

a

m pr<hicos da! dccorrcntes para financiar boa parte d ela; a volta da cosmowmo um interesse cultural ge ral; o surg imento da matemarica experimenn ucscimcnro das "ciencias da complexidade" mediadas pelos compuradores ropia ncgativa, fractais e atrarores estranhos), rodas essas quesr6es, alem de sugcrem que o retraimento das ciencias narurais, nos U.ltimos cento e vinanm aproximadamente, afasrando-se das ligac;:oes com qualquer discurso que 11 (I dclas, nao e urn estado de coisas permanente. J';tlvez nao seja urn estado de coisas permanence (a meu ve r, e quasc cerro nao c) po rgue, ao !ado dos imensos ganhos de poder cognitivo que 0 ins' houve tambem custos consider:iveis, que hoje sao suflcienremenre para por em risco os beneffcios. 0 mais grave deles, com o assinalou Mar'~ cxatamente a extre ma reduc;:ao da importancia cultural das ciencias natuqu c Taylor, ansioso po r impedi-las de inrerferirem em nossa conceitua~o '1uesr6es humanas, parece muito determinado a reforc;:ar: A "filosofla narural" dos seculos A.'Vll a XVIII ainda rin ha um carater acentuadamcnre multifuncional e, em geral, era transmirida com exira a grupos de destinar.lrios social e cul ruralmenre divergences. Ate livros que ap resemavam as mais cxrraordinarias diflculdades de com preensao, como os Principia de Newron,logo sc converriam nao apenas em objeto de "popularizas;6es" que rinham um vasto pt'1blico lei tor, mas rambem exerciam uma influencia profunda em ... ourras formas ja cul turalmen re ... separadas de discurso: teologicas, propriamenre fllosoflc•ts e ate literarias. Por sua vez, essas discussoes ocorridas em generos "esrranhos" influenciavam seriam ente o impacto mais esrri tamenre cienrfflco dos livros em ljuesrao e, em geral, cram tidas como exercendo uma influencia d ireta na q ucstao de sua veracidade .... Foi somente com a profunda transformas;io de toda a estrutura organizacio nal das atividades das ciencias natura is ... que se estabeleceram a cspecializacyao e a proflssionalizacyao do publico du rante o seculo XJX ... , simultaneamenre aproflssionalizas;ao do pr6prio papel do cientisra-a utor. Foi nesse processo que a ripublique des savttuts do secul o XV III , que ainda un ia frouxamente ~,:ienristas, fll6sofos, divulgadores e am adores cultos, rransformou-se numa multiplicidade de comunidades de pesquistt separadas, fo rmadas par especialisras profls~ionais de um a dada area, hoje postulados como 0 unico ptlblico das ubjeriflcas;6es cienrlflcas pertinenres. Esse processo hisr6 rico em que primeiro se formou o carater monofuncional das ciencias natura is conremporaneas signiflcou, ao mesmo tempo, uma pro~ressiva reduriio de mtt importnncin cultural. ... Quando o fechamento cui ru ral do discurso das ciencias naturais sobre si mesmo toma-se urn faro, ... o div6rcio en tre a in vesrigacyao das ciencias naturais e a culrura geral e tambem inevit::lvd .... IA)gora ele e tido como nao tendo a menor importancia para orientar a condut., dos homens no mundo em que vivem, nem sua compreensao desse pr6prio 1111111


1.17

() r•ll•lllhll t'.rtr,mhtllnrllltl

1.\(,

do vivido. Tenbruck deu a isso .1n1a formula~o oportuna: a visao Ja rornecida pel as ciencias nao ( mais urn a visao de mundo."

11.111 I(

I!

Isso talvez seja um certo exagero, mesmo em relac;:ao ao seculo XIX, tJILIII do as transac;:6es da "visao de mundo" entre as ciencias tecnicamentc dclin11l.t eo movimento geral da "culcura" nao estavam inteiramente atenuadas, ttlln•• mostram as angusriasde Tennyson com a "espiral dos sulcos da mudanc;:a". llll as ressonancias de Kelvin sobrea exrinc;:ao do calor do universo. E, de qual't" I modo, essa imagem de d esligamemo rambem se aplica bern mais as cienc.l. •. sicas do que as biol6gicas; 0 papel desempenhado por Newton e pelo new Ill nismo no seculo XVlll foi desempenhado por Darwin e pelo darwinismn 111• seculo xrx. Mas a rendencia geral e bern clara. 0 mesmo movimento hist61 II \1 que desarticulou "a repubfique des savants" numa " multiplicidade de COI11lll11 dades de pesquisa separadas" produziu tambem a desvinculac;:ao cultural d 1 ciencias naturais, o entrincheiramento cultural das ciencias humanas que ' I ,1 lor op6e a elas eo constrangimento crescente das relac;:6es entre as duas. 0 caminho para que esse constrangimento seja aliviado (apenas alivi.Hltt diflcilmenre eliminado) e para que as c iencias narurais voltem a ser inclufd 1 na con versa da humanidade sobre si mesma, nao sera. a reversao da hist6ri a. (I dias da repubfique des savants, see que jamais existiram, ja vao Ionge e n5.,, I. como resgaca-los. A inacessibilidade do interior tecnico da lfsica das pardcul.t da neurofisiologia, da mecinica estarfstica ou da matematica da curbulcm1 1 (ou do que vier a sucede-las), para qualquer pessoa que esteja fora das com11111 clades de pesquisa proflssionalmenre envolvidas com as quesr6es abordada~. , hoje em dia, urn simples faro da vida. Toda essa questao tern que ser aborJ.ult de outra maneira- uma maneira que, em vez de polarizar o mundo inrelecl111l numa grande disjunc;:ao, procure idenrificar suas dependencias obscurecidas.

n

Oir-se-ia que o comec;:o d essa reformulac;:ao envolveria levar a serio a imagem ( a realidade) de uma reuniao frouxa de comunidades de pesquisa com focos d1 ferenres, muilo vol cadas para elas mesmas e com graus variaveis de superpo\1 c;:ao, tanto nas ciencias humanas quanto nas ciencias naturais - econom11 embriologia, astronomia, anrropologia- e, com isso, o abandono da conCl'l' c;:ao taylorisra-dilrheyana de duas empreiradas continentais, uma movida pt J,, ideal d e uma conscien cia desengajada, olhando com seguranc;:a cognitiva )1.11• urn mundo absoluto de fatos verificaveis, outra movida pelo ideal de um \t II engajado, lutando na incerreza com signos e express6es para dar urn sentulu compreensfvel a ac;:ao .inrencional. 0 que se rem, segundo parece, e bern m.li l urn arquipelago entre cujas ilhas, grandes, pequenas e m edias, as relac;:6es '·'" complexas e ramiflcad as, e as ordenac;:5es possfveis aproximam-se muiro do 111

e

vd. Pcrgumas do tipo (volrando a cirar Rorry) '"que metoda com urn a ntnlogia c fisica das particulas?' ou 'qual e a relac;:ao com a realidade ulhada pela ropologia e pela entomologia?"' sao pouco mais uteis do (min has invenc;:6es, nao de Rorty) "a sociologia esta mais proxima da ffsica que da cdrica lireraria?" ou "sera que a ciencia polftica e mais hermeneurica 14 'Jlll' a microbiologia, e a qufmica e mais explicariva do que a psicologia?". Js.amos libertar-nos para esrabelecer entre os campos de investigac;:ao as la<jOCS e desvinculac;:6es que parecerem apropriadas e produtivas, sem preo que se pode aprender como que, o que pode manter urn interdmbio n ' lue, ou o que, sempre e em roda parte, rem que provir, inevitavelmenre "n.lluralismo reducionista" - , de tenrativas de romper linhas merodol6giaupnstamente impossfveis de romper. Alias, ha alguns indfcios, proveniences das pr6prias ciencias naturais, de 5ua imagem continental de bloco indiviso, unido em seu compromisso os metodos galileanos, a consciencia desengajada e a visao que parte de luncnhum, vern sofrendo uma certa pressao. Num capitulo de seu livro Air, Brilliant Fire: On the Matter ofMind, intirulado "Repondo a mente n.l!ureza", o neurofisiologista e imunologisra Gerald Edelman chega quase thrar Taylor em sua resistencia obsrinada dominac;:ao desses pressuposros ncepc;:6es em seu p r6prio campo de invesrigac;:ao, que e 0 desenvolvito c evoluc;:ao do cerebra humano:

a

a

!Como] observou Whitehead oporrunamenre, a menre foi reposta na natureza Ide onde a fisica a havia rerirado] com a ascensao da flsiologia e da psicologia flsiol6gica, no final do seculo XIX. Oesde enrao, remos passado por embarac;:os para 5.aber o que fazer com ela. Assim como ha algo de especial na relatividade c name,,lnica quanrica, ha algo de especial nos problemas suscirados por esses fenomenos flsiol6gicos. Sera que os pr6prios observadores sao "coisas", como o restanre dos objeros de seu mundo? Como explicar a curiosa capacidade dos observadores ... de se referirem a coisas do mundo, enquanto as pr6prias coisas do mundo nunl.l podem fazer essas referencias? Quando n6s mesmos observamos os observadorcs, essa propriedade da inrencionalidade e inevidvel. Alinhando-nos com a frsica, porvenrura devemos impor uma resrris:ao a todos os trac;:os psicol6gicos de tJIIe falamos na vida cotidiana: consciencia, pensamenro, crens:as, desejos? Devernos adotar os complexes regimes sanirarios do behaviorismo? ... Ou negamos a l"Xisrencia do que experimentamos antes de nos "rornarmos cientistas" (por l"Xemplo, nossa propria consciencia), ou declaramos que a ciencia (leia-se "cicn5 LI.l ffsica") nao e capaz de Jidar COm eSSaS queStOes.' F nao c s6 frente ao "behaviorismo" que Edelman, cienrista natural, soa Taylor, cientisra humano, ao esbravejar contra modelos de analiM· l'SI~


I IIi

() n/1111/fJO rttmn/)11/IUII/n

rcis, cegos e desasnosos, rcri rad os d e lugares cele bres, mas impr6 prios; de o !.11 tambem com respeito psicologi a cogniriva que estabelece analogias COlli ' ' comp utadore s - inteligencia artificial e tudo o mais. C h ega are a usar o 111• ·• mo termo insultuoso em rela~ao a ela:

a

A palavra "objetivismo" rem sido usada para caracrerizar uma visao de muu loJ que, a primei ra vista, afigura-se ir~epreensfvel em termos ciendficos e do \l'l .o comum .... 0 obje tivismo pressup5e ... que o mundo rem uma estrutura dell 11 da, feira de enridades e propriedades e d:lS reb~oes entre elas.... 0 mundo dt poe-se de tal modo que pode ser compleramente modelado segundo ... modrl .. te6ricos fixos ... Em virtu de da correspond e ncia singular e bern definida entre sfmbolo~ !l'u ricos Gxos e coisas definidas pela caregoriza~ao clissica, pode-se presumir, scgu u do essa visao, que as rela~6es l6gicas entre as coisas do mundo exi\11"111 objetivamente. Assim, su p6e-se que esse sistema de sfmbolos represente a rcalid.1 de, e as representa~6cs menrais devem ser verdadeiras ou falsas conforme t:\pt !hem a realidade correta ou incorreramente .. . 0 ... desenvolvime nto do compurador .. . refor~o u as ideias de eficienc1.1 • rigor eo sabor dedutivo que ... ji caracrerizava grand e parte da ciencia ffsica. ll "elega nce" supo rte formal deducivo dos com putadores, a liga~o com a ffsica 111.1 tematica eo sucesso das ciencias exatas pareciam poder esrender-se de mant ll •' inrerminavel ... · A visao compuracional ou representarivista e uma visao da natureza pclo olhos de Deus. t imponente e pnrece permirir urn mapa enca nrador en tre a mcll re e a natureza. Mas esse mapa s6 e encanrador desde que se desvie o o lha1 cl, quesrao de como a mente de faro se revel a nos seres humanos dorados de corpo Quando aplicada a mente in situ [isro e, no cerebro], essa visao [objerivista] tor 16 na-se i nsusrenravel.

e

D ecerto mais facil ver as insufic ie ncias d e um a formulac;:ao puramcnt• oposicionista ao "gr a nde di viso r" das rel ac;:oes e ntre as cie n cias " hum anas" c ,1'. c ie ncias " narurais" nurn livro co mo ode Ed elman, que versa sabre o d escnvol v i me n toe funcionamenro d e n osso sistema nervoso, e talvez na biologia em g< ral, do que, digamos, num trabalho sobre as transic;:oes de fase ou o moment~> a n gula r, no qual as vis6es divi n as parece m menos problem:hicas e os espclh.t m e nros rcp resenrativistas afiguram-se mais apropriad os. Mas, a inda que o s~ jam (o que, e m si, torn a-se ao me nos questionavel , a m edida que "coisas" co111n as func;:oes o ndula t6ria.s e a nao l ocali dad e vao e ntrando na teo ri a ffsica), a pe t dade d e ralhe produzida po r essa visao tao excessivamente co nrrastante obsu1 rece o utras maneiras de mapear a paisagem do con h ecime nto, outros modos d• atar e ntre si ou sep ara.r umas das ourr·as as ilhas disciplinares da investi ga~.tn

1 il.l . "Qu a ndo nao se sabe falar russo", escreveu o ffsico matema tico OaRuc.·llc, "rodos os livros nessa lfngua parecem exatam e nte iguais."

I >e mancira similar, a menos q ue se renha a formac;ao ap ro priada, nao se percebe nwita diferent;:a enrre os varios campos da ftsica re6rica: na roralidade dos casos, o •pte se ve sao rexros a bstrusos, com pomposas palavras gregas, enrremeados de lt'11 mulas e sfmbo los recnicos. T omemos, por exem plo, a relacividade especial. t um bclo assunro, mas ja nao rem m isre rio para n6s; senrimos saber sobre ele rudo llt)liC gosrarfamos de saber. A medinica esratfsrica, ao conrrario, preserva seus se..:rcdos imponentes: t udo aponra para o faro de que s6 com preendemos uma per qucna parte do que ha por com preender.

c

D cixando d e lado o julzo espedfico formulado nesse trecho (o qual, ciasou inco mpetenre p a ra a valia r, tal co m o nao sci aq uilatar os p onros fortes e Ja n euro logia de Edelman), a d esagregac;:ao das "cien cias n arurais" realtc parece essencial ao tipo de v isao nao raylorista, mas tambem nao redu. a e nao " n aruralista", que rem outre flsico mate m atico, Richard man - numa passagem usad a p or Edelma n como epfg rafe de seu livroo projeto geral d a compreensao humana: (~ua l destes fins esra mais prox imo de D eus, se posso usar uma meta fora religiosa:

a beleza e a esperan s:a, ou as leis fundamenta is? C reio que ... remos de examinar ... wcla a inrerli gac;ao esrrurural da coisa; e c reio que codas as ciencias, e nao somenre as ciencias, mas rodos os esforc;os de ripo in relecrual, sao urn esforc;o para enxerg;lr as liga~oes das hierarquias, para ligar a beleza a hisr6ria, para ligar a hisr6ria a psicologia humana, a psicologia humana ao funcionamenro do cerebro, 0 cerebro ao impulso nervoso, o impulso nervoso a qufmica, e assi m sucessivamenre, para cima e para baixo, nos dois senridos .... E nao creio qu e qualquer desses fins 8 . mats . pr6. c.·steJa xt mo de Dcus. ' nao e ape nas do !ado da ciencia natural- alias, n e m e principalmente !ado - que esrao v indo os quescionamentos das imagens forremente bide " roda a inrerligac;:ao esrrutural da coisa", c si m , precisamenre, do !ado rncneutico, inrencionalisra, cenrrado no agenre e extasiado com a linguaque Taylor, assim com o eu, em! tao d eterminado a defender do objetivisfugidio. A invesrigac;:ao hist6 rica, social , cultural e psicol6gica das ciencias mu tais - o que fi cou co nh ecido, res umid a m e nte, co m o "estudos da cicn " - n ao a penas c resceu com ex trem a rapidez n os ulrimos vinte ou vintc c anos, como tambem co m ec;:o u a redesenhar, d e m a neiras mais variad.ls, avcis e panicularizadas, as li nh as e ntre a "multiplicidade d e comunidadt'\ pcsquisa separadas" de que fala Markus. Olhar a "ciencia" de uma pc.·l\pn


() rurnubo rstr.mlumtl'/110

Ntn·t lu· sol1rc ,, .t•tlttlf'tl/ogllt

Li va intcrprctarivista co me~ou, por si s6, a substitui r o u, para dizcr o mlnintn.

1

co mplicar a im agem dilrheyana qu~ nos man teve cativos por tan to tempu I' D e rodos os tip os de trab alh o realizados sob a ru b rica geral d e cicncins !111 m a nas, os que se ded ica m a esclareceras for mas de vida vividas (para usa1111"8 alg uns exem plos reais) n o co ntexte deacelerado res lineares, laborat6 rios dl' u1 docrinologia, sal6es de demo nstrac;:ao da Royal Society, observas:oes astm1111 m icas, esta<;:6es de biologia m ar in ha, ou comiss6es de planejamento da Nl\\\, sa o os que rem men os pro babilidace de conceber sua missao como restring111 do-se a COmpreender OS mundos intersubjeti vos das pessoas. As m aqu inaS, oh jetos, ferramentas, artefatOS e insrru men tos estao por d em ais amao para SC.: I llll considerados externos ao que aco nrece; e muito equipamento Iiberto do St'l\11 do . Essas meras "coisas" te rn que ser inco rporadas na hist6 ria e, quando o s.w . 1 h ist6ria ass ume uma fo rma h ete r6clita- agen tes humanos e nao humnnn , unidos em narrativas interpretati vas. A construs:ao dessas narrativas, que abarcam os mundos supostarnt:lll• imisdveis da cultura e da na tureza, da as:ao humana e do processo ffsico, da 111 te n cio nalid ade e do mecanicis mo, tern demo rado a ser feita, ate m esm o nos l., tudos da ciencia, o nde se diria serem inevitaveis. (" Ot't sont les Mormier rltJ machines, fes Levinas des Betes, les Ricoeur des faits?',· talvez excla masse o 111.11 a rdoroso defenso r desse abarcamento, o a n trop61ogo d a cienc ia Bruno I 1 11 to ur.i Essas questoes fo ram evirad as, o u , para sermos ma is exatos, n unGl In ram abo rdadas pelas incu rs6es iniciais nos escudos da ciencia, entao chamad11 de sociologia da ciencia e mui ro destacad amente associados ao nome d e Roht 11 Merton, os qua is se restringiam a q uest6es "externalisras", como o contexto o,n cia! da cienc ia, o sistema de recompensas q ue a impu lsiona e, mui to particul.11 mente, as no rmas cu lrurais q ue a regem. As quest6es " internalistas", aqm·l.1 que rem aver co m o conreudo e :1 pratica da ciencia como tal, foram deixad 1 fora do am b ito da inves tigas:ao. Os t rabalhos posteriores, m ais influenciadn pela socio logia do conhecim en to, te ntaram abordar as opera<;:6es d a ciencia d, maneira mais direta, estudando temas como a evolus:ao das disputas re6ric:~o, • a replicas:ao d os ex pe rime nros, porem em termos nao menos objetivistas "apoiar-se nas coisas socia is" (em geral, res umidas d e maneira mui to val' 1 como "in reresses") "p ara explicar as coisas naturais". 56 mui ro recen tement< •

• "Ondc csrao OS Mounicr das maquinas, OS Uvinas dos a nimais, OS Ricocur das rcalidadcs?". ''" ucs 1116sofos fra n ceses cira dos, Emma.nuel Mounier difundiu a dourrina do "personalismo u111111 nirario", Emm a n uel Levin as especializ:ou-se em Husser! e H eidegger, e Paul Ricoeur foi o fund .ul111 da hermeneurica moderna. (N.T.)

J.11

11111:1 o riem as;ao interprerativis ta, q ue tenta ver a ciencia como a interas;ao 21 . do pensamenro e das cotsas, . . l l ' l'la da come<;:ou a se tmpor. Po r scrcm mui to recentes, essas abordagens inrerpretarivisras sao mal fore variaveis, como incertas sondas de abertura num a investigac;:ao aparentc interm inavel c, pelo mcnos por enquan ro, m al delimitad a. Existem i\cs da ret6 rica do discurso cientffico o ral e escrito; existem descri<;:6es de ICS humanos e nao humanos co mo nos cen trais coaci vos de redes ramificad c sentido e poder; existem escudos ernograficos e em o merodol6gicos da l ~tru<f3.o dos fatos" e dos "processes de exp lica<;:ao"; existem investigac;:6es planejamento de pesquisas, d a construs:ao de instr umentos e da pratica !arial. M as, por menos d esenvolvidos que sejam, rodos eles abo rdam a ia nao como urn precipitado social opaco, mas como uma as:ao social prod e sen tido: "Nunca est ivemos interessados em dar uma exp lica<;:[o social wisa alguma ... queremos exp licar a sociedade, d a qual ... as coisas, os fatos e 22 an cfaros sao compon enres fu nda menrais." Isso mal chega a se parecer com "nawral ismo" objerivista e scm agenre do qua l, com justa razao, Taylor desJa. Por mais d ifere ntes que seja m , as ciencias naturais e as ciencias humatalvez nao sejam tao radicalmente o utras, e seu congresso in telectual pode scr tao inevitavel men te estt!ri l.

IIUt'

icncias, sejam ffsicas, bio l6gicas, humanas ou Ia o que forem , modificam-se apenas em seu conreudo ou seu impacto social (em bora 0 fas:am , eclaro, e ....~...·.,.... re), mas tambem em seu carater enq uan to fo rma de vida, maneira cstar no mundo, sistema significative da as:ao huma na, hist6ria particular co mo estao as coisas. Como tod as essas m aneiras, fo rm as, sistemas e his- naturezas-morras, d igamos, o u o direito crim inal - , elas sao construno tempo (e, apesar de sua busca d a universalidade, ram bem no esp a<;:o, importance) e, sendo assim, q ualque r imagem delas q ue p ermanes:a , d ur ante todo o seu curso e passando por tod a a sua gama de arividades lntcresscs, csta fadada a se transformar num m ito encob rid o r. Esse mito realc existe e, como demonstrou T aylor, teve efeitos destrut ivos nas tentatidaq ueles que o acacaram para ex plicar a polltica, a linguagem, a ividualidade e a mente. Mas teve ta mbem , como T aylo r nao parece percecom muita clareza, efeitos nao m enos p erni c iosos na pr6 pria ideia da cienl'm si, para toma rmos emprestado o emprestimo q ue Woolgar tomou do 23 n de Davidson. t

I

,,1 ~

uma rradw;ao aproximada da forma adjcr iva do rermo ingles comilimu, q ue dcsigna a coinci-

dfm 1:1 de generalizac;oes de classes separadas de faros nas indw;:oes l6gicas, de ral modo que urn cnn )1111111 de leis indut ivas revela-se concorde a ourro conjunto, de derivac;ao difercnrc. Yer a nola 2 1 do Autw (N.T.)


NtJI',/

In~

wlnr fl <llltmpolo.~/11

Na verda.de, a resisrenc ia de Taylor aintromissao do " modelo da c.i~ uc1 1 na t u ral" nas ciencias hu manas parece a.ceitar a visao de seus adversaries J l'ljll exis te tal modelo, un ir:irio, bem de finido e hisroricamente im6vel, rcgcndo .1 i nves tiga~6es contempora neas sabre as coisas e as materialidades; o problltll t esraria m eramentecm confina-lo a sua esfcra p r6pria - csrrclas, pcdras, till\ • ondas - e em m ante-lo be rn Ion ge das quest6es em que "ter impo rtanCI.t" c 4 importante.l Essa divisao do campo, que muiro nos faz lembrar a manc·11 ,, como alguns teologos d o seculo XIX (e alguns fisicos devoros) tentaram "sol11 cionar" a quesrao da religiao versusciencia - "voces pod em ficar com os mel 1 nismos, nos ficaremos COm OS significados" - , garante, supostamente, qttl 1 idei as nao invadam a seara alheia. 0 que ela garante, n a verdade, e a presunc,.lll sim e trica eo esvaziamento das quesr6es. C o mo praticam ente todos se apercebem, ao m enos vagamente, ha gt.llt des transfo rmac;6es em andamenro nos escudos que se conve ncionou agrttJI.II sob a caregoria basra nte frouxa de ciencias narurais (sera que a matematica /.11 parre delas? e a psico farmacologia?) , transformac;6es estas que sao a urn temptt sociais, tecnicas e epistemo l6gicas, e que to rnam canhescra, palida e inexat 1 nao apenas a imagem seiscenrisra delas, mas tambem as imagens do fim do M culo XIX e infcio do seculo XX. 0 prec;o de manter as ciencias humanas radic.d me nte separadas desses escudos vern mantendo rais escudos radicalmcnl• sepa rados das ciencias humanas - deixadas a merce de seus proprios recurSO/J, Esses recursos nao bastam. 0 resulrado desse esrranhamenro artificial edt, necessaria e, ao mesm o tempo, a perpetuac;ao, nas d iversas ciencias narurais, dr auroco ncepc;6es ulrrapassadas, de historias globais que falseiam sua prarica elc11 va, de imirac;6es "estereis", "mal acabadas" e "implausfveis", induzidas por ess;t, concepc;6es fo ra de moda e por essas hist6 rias falsas nos cienristas humanos qtH desconhecem no que consistem, de faro, a ffsica, a qufmica, a fisiologia e cois.t• similares como ac;ao significariva, e ainda, o que talvez seja pior do que rudo, ,, produyao de varios ripos de irracio nalismos da Nova Era - a ffsica zen, a co~ mologia dos maharishis, a p arapsicologia-, que suposramente unificam tudo t todos em algum nfvel mais al to, mais profunda ou mais amplo.l5 C ombate r a "n aturalizac;ao" d as ciencias humanas e uma iniciariva neCC\ saria, para a qual T aylor conn:ibuiu d e maneira vigorosa; e d evemos ser-lht grates pelo destemor d e seus esforc;:os nesse aspecto, e pa r sua precisao. Tom.t do, ele mesm o, po r algum as fo rmulas empoeiradas, Taylo r, para prejufzo dt rodos nos, nao con tribuiu da m esrna form a para a iniciativa nao menos neccs saria de religar as cjencias naturais a suas rafzes humanas e, desse modo, com bater a natural iza~ao delas. Eurna grande lastima que alguns dos feno menos dr m aior peso na c ulru ra conremporanea esrejam ocorrendo fo ra da aren~ao dt urn dos mais profUndos est ud io sos dessa c ulrura.

7

0 legado de Thomas Kuhn: 0 texto certo na hora certa

morte de Thomas Kuhn - "T om", para rodos os que o conheciam, e que nsidcrando sua recusa, par princfpio, a desempenhar o papel de grande ceidade intelectual que ele indiscurivelmente era) somavam urn numero exinario de pessoas- parece estar a caminho d e ser vista, tal como sua profissio nal em geral nestes tempos de p6s-modernistas e guerras cultu\, como apenas mais urn apendice, nota de rodape o u aden do a sua Estrtttura 1 rl'volt-tflies cientl.ficas, obra escri ta nos anos cinqi.ien ta e publicada em 1962. de ele haver produzido varios o urros livros importances - inclusive A ltmiio essencia/(1977), pelo m enos tao o riginal q uanta o primeiro e bern mais · , e A teoria do buraco negro e a descontinuidade quantica, 1894-1912 2 l 'J7R), meticulosamente pesquisado, e cuja receps;ao ma rna pela comunidada ffsica, sempre enciumad a de seus mitos de origem, foi-lhe muito doloro- , foi A estrutura, como o prop rio T om sempre se referia ao texto, q ue o niu aos olhos do mundo e, reativamente, a seus prop rios olhos. Angustiado passional, ele viveu a sombra d o livro pa r quase rrinra e cinco anos. Seus obirios, que fo ram numerosos, concen traram-se quase exclusivamente nesse · ho, inclusive urn necrologic singularmen te desagradavel, obtuso e insinpublicado no periodico londrino The Economist, que terminou com uma de m a u gosro sabre a ideia de que Kuhn estava passando por uma mude parad igm a. E ja que, nos dias finais de sua batalha contra o cancer de ele enfi m levou praticamente a termo, para ser publicado, seu tao es~raJo e tao previsto segundo exame do assunro - co mo se modificam as ias - , sua reputa~ao sera alimen tad a po r esse livro por muitos anos. Assim, surge uma pergunta: po r que a Estrntura teve esse impacto imenso? Pur t]Ue todo o mundo, desde especialistas em ffsica das partfculas e fil6soros I tt' soci61ogos, hisro riado res, cd ticos lirerarios e cien tistas polfricos, para n:to f1l.n nos publicirarios, nos divulgadores culrurais e nos ignoranres da con11 a 143


l•l•l

Nuu lu• rv/Jrr 11

l i 'i

tlllllllf'tlltiJ:III

cultura, cncon crou nele algum a coisa a coloc:.u animadamenrc a scrvis;o de.·. St' ll ' pr6prios in reresses, o u a q ual reagir, com igual animac?o? Nao pode ser apcn.1 porq u e 0 livro e ousado, inov ad or, incisivo e maravilhosamente bern CSCtt l11 Ele e rudo isso, alem de erudiro e de pro funda sensibilidade. M as ha o utros It vros, n a hist6ria d a ciencia e fora d ela, com essas vi rrudes. A excelencia e a 11 11 po rd l.ncia, per mais reais qu e sejan, nao gara ntem a fa ma nem a repercuss.11• - a final, quantas pessoas p restaram arens;ao a Feeling and Form, de Suzan 111 Langer? D e algum m od o misterioso e indefinido, misrerioso e ind efinido .11•4 para o pr6p rio Kuhn, que nu nca deixo u de ficar surpreso, intrigado e SCI I,, mente preocupad o com a receps;ao d ada a seu livro, a Estrutttra foi o texto cc1l11 na b o ra certa. D csde aproximadamenre os a nos 2 0 (e sobretudo depois de publicad11 !deologie und Utopie, de Karl M annheim, em 1929), o que ficou conhecid" com o "sociologia do conhecimento" foi aplicado a urn campo ap6s o utro d., arividade inrelectual. A religiao, a hist6ria, a filosofia, a econo mia, a arte, a lite.. ratura, o d ireito, o pensamento polftico e ate a pr6pria socio logia foram suh metidos a uma fo rma d e a nalise que p rocurava expo r as ligas;6es que os unin111 ao con texto social em que eles existiam, e que os via co mo construs;6es hu m,, nas, hisroricamenre desen volvidas, cul turalmente localizadas e coleri vamcntc.. produzidas. Parte dessa analise fo i tosca e dererminista: urn reducio nismo mat xisra o u u rn h isroricismo hegelian o . Parte foi suril e hesitance: urn levanramcn to po rmeno rizado de avans;os locais, uma sugesrao pertinence d e relas;ov. espedfi cas. M as, rosca o u suril, imperuosa o u relutanre, ela nao foi aplicaJ,,, salvo algumas exces;6es que se m anci veram como tais, ao que ja se havia ro rn .t do a mais prestigiosa, mais am eas;ado ra e, em meados do seculo, mais impo1 tam e ari vidad e inrelectual de tod as- as ciencias narurais. Sepa radas num mundo de pensam ento auto propulsado, a fisica, a q u£m1 ca, as ciencias da Terrae a re a biologia nao foram conspurcadas pela sociologi.1, ou, pelo menos, pela socio logia do conhecimen to. A hisr6 ria que havia era so brerudo uma h ist6 ria d e praricantes, exagerada men re monumental e antiqua d a: uma narra riva d e realizas;6es que haviam constitufdo m arcos, conduzindo, uma ap6s o utra, a verdad e, aexp licas;ao e asituas;ao atual. A sociologia que h.t via, fosse a de Max Weber o u a de Robert M erto n, continuava predomi nanlc..' mente "externali sta", interessada nos efeiros sociais da ciencia, n as no rma\ institucio nais que a regem , o u na origem social dos cientisras. As chamada~ quesr6es internalisras- como e por que as reorias e praticas d os cientistas :l\ sumem as for m as que assumem , despe rtam os inreresses que despertam e de senvolvem a influencia que desenvolvem - ficavam fora de seu alcance, senJo explicaveis, se tanro, p elas e nerg ias da razao , pelos misterios da genialidade, ou pela simples natureza d as coisas a se im primir na men te capacitada.

hu cssn linha aparcntcmcntc inq ucstionavcl e suposramen te imransponf-

ttuc..· scpara a ciencia como forma de ari vidade inrelectual, como modo de sad.t cicncia como feno meno social, como modo de agir, que Kuhn iono u pcla primeira vez na Estmtura, e em seguida transpos. Eclara que ele loi o unico a faze-lo. Figu ras m uiro di versas, como Norwood Russell H anM id1ael Polanyi, Paul Feyerabend, Mary H esse, lmre Lakatos e, m ais tarde, I Fo ucault e Ian H acking, algumas delas crlricas de cerras reses espedficas Kuhn, ourras rivais, ourras simplesmenre em rrajet6rias pr6prias, tam bem .una linha, a partir d os anos cinqi..ienra. M ais do que qualquer uma delas, cm.anto, Kuhn e a Estrutttra prepararam o rerreno e, como nem sempre e pruc ou comodo estar na linha de frenre de urn pelotao de araque, arrafram o cio dos Anrigos Fieis. U ma vez que o livro, o riginalmente concebido um vcrbcrc independence da l ntemational Encyclopedia ofUnified Science, Nl·urath, Carnap e M o rris, de inspirac?o positivista, era muito esquematico, genre, confianre e intransigence, por si s6 ele estabeleceu os rermos do de. Torno u-se a imagem mesma do escudo da ciencia como iniciativa mundaturnou-se, para cw1h armos uma exp ressao, seu paradigma dominance, para ser imirado, ampliado, desdenhado o u derrubado. (~ desnecessario - e impossfvel, d e qualquer ma neira - rever aqui as cende argumenros pr6 e contra as reses proposras na Estmtttra: a de que a cientffica ed escon d nua, alternand o-se entre longos ped odos de esta" no rmal" e pequenos surtos de convulsao " revolucio na ria"; a de que a ciendfica "normal" e regida pa r model as esrabelecidos- OS famosos as-, que consriruem modelos de solus;ao de q uebra-cabeyas para a unidade pertinence; a de que esses paradigmas sao "incomensuraveis" e de us cientisras que rrabalham com paradigmas diferenres s6 apreendem parte as ideias uns d os o utros, na melho r d as hip6 reses; a de que a "escolha lt'<>ria", 0 movimen ro de urn paradigma para o utro, e mais adequada menre ·ra como uma q uesrao de "co nversao" intel ecrual par mudans;a da Gestalt que co mo urn confro nto gradati vo, ponto a po nto, entre a visao aba ndon ac: a aceita; e a d e que o grau em q ue os paradigmas se cristal izam nu ma cienc uma medida de sua maru ridade, de sua "exatidao" o u "inexatidao", e de distancia e diferenya das iniciativas nao ciendficas. Algumas dessas fo rmuforam modificadas pelo pr6prio Kuhn, numa serie de apendices, refor. ,.......\J Q , resposras e "reco nsideras;6es". M uitas ele julgo u serem d istorcidas e intcrpretadas, o u mesm o mal urilizad as, tanto pa r seus c rfticos q uanto por Jcfensores. Algumas, em especial a aflrm as;ao de que a mudanc;:a cientfflc.l wnsiste numa aproximas;ao resoluta d e uma verd ade que esra a espera de dcscoberta, m as nas calmarias e tormen tas das comunidad es disciplin>Hl''• dcfcndeu d e mdos os araques, vindos de todos os Iadas. -

·UI'JA


l•lh

De fato,foi esra ultima c mais influe nce de suas proposi(jOCS que lOt I IIIII rcvolucionirta a pr6pria Estruturo- uma convocayao as a rmas, para o' qur v iam a ciencia como o ultimo balua n e do privilegio episremico, ou urn atu111 do a razao, para osque a viam como a estrada po r excelencia para 0 realmull real. Quer as desconrinuidades re6ri cas sejam ou nao tao desracadas em o1111 n campos quanro suposramen te sio na ffsica; quer as mudan yas de Gestalt c .1 111 comensurabilidade sejam ou nio a norma na mudan<;a te6rica, o u em al~11111 momenta sejam completas; e quer a reo ria e a aftrmayao generalizada, os ~' quem as conceiruais e as vis6es de mundo sejam o u nao realmente o xis da lJII' I tao, para comeyo de conversa, tudo isso pode esperar para ser debarido 11 ' pr6prio tipo de estudo que a Estrutura exempli fica e convoca. 0 que rcst.l do legado d e Kuhn, o que e nfurece seus adversaries mais inrransigenres e conlu11 de seus seguido res mais acriticos, esua insisrencia apaixonada em que a histl'llll da ciencia ea hisr6ria do crescime nto e da substiruiyao de comunidades cicn11 fi cas auto-recrutadoras, normativam enre definidas, dirigidas de maneiras vm adas e, muitas vezes, clarame nte comperirivas. Ou, para finalm eme cit.n 1 Estrutrmt, em vez de apenas aludir a ela: "A ciencia normal e as revoluy6c~ ···'" ... atividades baseadas na com unidade. Para descobri-las e analisa-las, prinll'll" e precise d esenredar a estrurura comunitaria mutavel das ciencias ao Iongo d .. te mpo. Urn paradigma nao rege ... urn assunro, mas urn grupo de praticalltl Qualquer escudo das pesquisas norreadas por paradigmas o u destruidora\ d, paradigmas deve comeyar pel a localizayao do grupo ou grupos responsaveis.' Com esse firme posicionamenro "das ciencias" no mundo em que sc de senvolvem programas de rrabalho e se fazem carreiras, em que se fornl.llll alianyas e se desenvolvem rco rias, no mundo dos esfor(jOS grupais, dos chOlj ll~ entre grupos e dos comprom issos de grupos - em suma, no mundo em tjlll rodos vivemos - , a Estrutura esca ncarou as porras, tanto quanto era possiv~·l para a irrups;ao da sociologia do conhecimento no escudo d essas ciencl,l· Como a pr6pria sociologi a do conhecimento, no caso, era rcplera de debate. dissidencias e uma mulriplicidade de vis6es (hem como, em alguns de seus P'•' ricanres mais exuberances, de urn tom o posicio nisra que era a conra certa p.n' fazer a ordem esrabelecida ranger os dentes), seu embare com as ciencias ftll • continua a ser mais fe rtil d o que o foi com a li teratura, a hist6 ria ou o pem.t mento po lfrico, fazendo lembra r, na verdade, suas rixas prolongadas e vencno sas com a religiao. Entretanro, uma vez disparada essa aplicas;ao das caregort.t· raciodnios, m erodos e o bj erivos caracredsticos das ciencias humanas as pr.tll cas das ciencias rendenciosamenre ch amadas de "reais", agora nao se pode m.th reverte-la, nern mesmo pelas contramedidas mais desesperadas. Apesar d 1 acusas;oes de «subje rivismo", "i rracio nalismo", "psicologia da turba" e, e datil "relarivismo" - execras;io predileta dos que se planram nas trincheiras, h"l'

1<17

, todas as qu::.is foram repetidamenre gri radas contra a Estrutura (e 1.1 " Kuhn ", que foi acusado, por pessoas de quem se esperaria urn nfvel de mcntas;ao bern mais elevado, de descrer da exisrencia de urn mundo exrer' a proposta do livro, seja qual foro desrino de suas afi rmas;oes parriculares, para ficar. A submissao das ciencias aarcnyao- conrinuada ou superficit~d.trccida o u ignorante - de historiad ores, soci6logos, anrrop6logos, ecoi~t ;lS C ate autores cientffi cos e professores de ingles que nao se disp6em a nas fronreiras da auto ridade disciplinar, o u a se curvar a solenidade dos i.tdos como Premio Nobel, cresce a passos largos. Uma vez fora da garrats~c gcnio, em particular, nao pode ser novamenre enfiado hi denrro, por assusrador o u mal comporrado que seja- ou para quem o seja. bra basrante claro que, ao publicar a Estmtura, Kuhn nao rinha plena icncia de quao indisci plinado o genio vi ria a ser. A grande explosao de ess6cio-hisr6ricos da ciencia- Edimburgo, Paris, Bielefeld, Boston, Jeru' San Diego etc. - , assim como a grande explosao de jcrcmiadas conrra foram predo minanremence posteriores ao que o pr6prio Kuhn caracterinas paginas iniciais do livro, como urn ensaio de reflexao sobre algumas que o incomodavam desde seus tempos errantes de esrudanre de e de m embro da H arvard Society of Fellows. As causas de coda africa e contracrfrica, que nao rardariam a se esrender tambem aos campos \:ient!ficos (o u pretensamente cienrlficos), sao diversas, mal entendidas e discuridas. 0 Iugar mutavel das ciencias (e dos cienrisras) na culrura poranea, as inquietay6es mo rais advindas de suas aplicas;oes militares e crescenre disranciamenro da inreligibilidade geral, rodos foram proposros candidates a causas. Tambem o foram o cericismo crescenre quanto a bilidade d e exisrirem pesquisas isentas de jufzos de valor, a ambivalencia vez mais profunda a nte a mudans;a recnol6gica acelerada e as explos6es · ·as do fim dos a nos sessenra. Para ourros, o culpado eo ftm da moidade, o misricismo da Nova Era, o fem inismo, a desconsrrus;ao, o declfda hegemonia ocidenral, a polfrica de financiamenro das pesquisas, ou combinas;ao deles. Embora rivesse conhecimento da maio ria dessas quesr6es, o pr6prio Kuhn menos inreressado nelas do que em compreender como a ciencia havia de Arisr6teles a Newton, de N ewto n a Maxwell e de Maxwell a Eine, considcradas as conringencias do mundo, quais reriam sido as raz6cs K'U sucesso improvavel ao faze-lo. Oeixando de !ado o debate sobre "a bom , para o qual, ao que eu saiba, ele jamais se volrou publicamente, rais razoc~ \:hegavam a ser proeminenres, muiro menos cenrrais, no mundo aprecnsi mas ainda circunspecto do fim dos anos cinquenta e infcio dos scsscma. Fl.\\ h.uam esse desraque independenreme nre, depois do lans;amcnlo J.1 1·\tm llj,,


tura, e foram enrao polemicam enre associadas ao livro por seu publico inwn •• inespe rado e n ao pre tendido- em termos posi tives, como um a dcsmisu fu • cyao d a auro ridade ciendftca. e como sua reinclusao no tempo e na sociccladc • em termos negatives, como uma revolra contra ela, urn repudio d a o bjcrivll lt de, do desprendi menro, d a l6gica e da verdade. Kuhn havia sem ead o vcntct, r colheu uma re mpestade. Qualquer que fosse sua ati rude peranre os livros, metalivros e metanwl dt vros que se acu mula ram e m to rno da Estrutura depo is do fim dos anos scs~t: 1111 - e, d ecididamen re, era uma arirude ambivalence-, Kuhn vi u-se na situ .1~ 11 1 de rer que afirmar reperidamenre suas ideias, sob varias formas e em v:irim 11 pos de foros. Nao e que essas ideias fossem obscuras ou menos do que din·t,, francas em sua expressao inicial. Se tanto, ralvez fosscm urn pouco clara\ ell mais. Porem teriam que abrir cam inho num meio inrelecrual muiro difcrt:lll daquele em que se haviam fo rmado originalmente. Havendo come<;ado C.OIIHI urn ffsico "normal" e se tornado urn historiador "normal" (sua hisroriogr.tlrt ccntrad a e m casos, aparenremente aprendida com James Bryant Conant, • 11 tao convencional quanta foram heterodoxas as suas reses), Kuhn esrava Ioiii' de se senri r a vo nrade com dourrinas que quesrio nassem a possibilidade do 1 ber aure nrico ou a realidade dos verdadeiros avan<;os obtidos nele. E, apcs.u .1 toda a sua enfase nas consideras:oes socio l6gicas para se chegar a uma compr· ensao da mudan<;a das reo rias, ele nunca fez menos do que desdenh ar d a tdc, 1 de que tais considera<;6es aferassem o valor de verdade das teorias da prop.tr 1 yao da luz ou do movimen to dos planeras. Kuhn nao foi a primcira pessoa, logo em in lcio de carreira, a fazer algut11 1 co isa que a rrapalho u os pianos de muira genre, e a rer que se haver corn "' vasras implica<;6es, algumas mais d o que inrrag:iveis, quando ela se rramfn1 mo u, por sua vez, num saber comum. D ecerto foi esse o caso de Godel, qllt" dt rfamos ter desejado que sua prova rivesse dado o resulrado inverse, c 'I"' passou boa parte do resto de sua vida tentando esrabelecer por o urros mcio • inregridade da ra.zao. E deve ter sido tambem o caso de Einstein, pertut lt."l" com a brecha inrroduzida na teoria frsica por sua concep<;ao quanrica da lu , desde enrao procurando volrar a fecha-la, de algum modo. Viveros efeitos I"' reriorcs ao abalo, num rerremoro em c uja causa<;ao se desempenhou um Jl•'l' I importante, pode ser tao diffcil e tao cheio de repercuss6es quanta procltllir 11 tremo r original. H aque serer uma convic<;ao seren a e uma ironia impcrltlll•• vel a respeito de s i mesmo para conseguir esse feito. A revoluyao desencadt 11 l1 por Kuhn (que pend urara em casa um lema bordado com os dizeres " Deus 'I .I ve este Paradigma") a.inda perrurbad por muito tempo as nossas ccrtt 1 tl como penurbou as dele.

8

0 beliscao do destino: A religiao como experiencia, sentido, identidade e poder

.anclo, no ultimo capitulo de As variedades da experiencia religiosa- aquele qut· clcu o nome, com cerro consrrangimento, de "Conclus6es", anexandotrncdiaramenre urn p6s-escrito corretivo, que nao perdeu tempo em rene, William James voltou os olhos para w1s e observou o que fizera em qua'luinhentas paginas densamcnre cobertas de texto, ele se confessou meio prcso com o sentimenralismo daquilo rudo. "Ao reler meu manuscrito, •''l' me esrarrece o tanto de emo<;ao que encontro nele .... Esrivemos licente banhados em senrimenros."' Fora rudo uma questao de "individualisecretas", disse ele, e de "documcnros palpitantes" - autobiografias ncntadas, relata desre ou daquele epis6d io inrerno, perturbador e evaneslc. "Nao sei quanta tempo durou esse estado nem quando foi que adorme' disscra urn desscs relaros, " mas, ao acordar de manha, eu estat;a bem."2 ,an importa o que fizesse e o nde qucr que fosse", dissera outro, "eu continuanurna tempestade."·' "[A]qui lo parecia apoderar-se de mim em ondas", dis4 um terceiro, "abanar-me como asas imensas." E assi m p or dianre, em ap6s pagina de conflss6es. A religiao, disse James, com a p roverbial isao que usou para se salvar da copiosa riqueza de sua pr6pria prosa, era "o 1\C.:JO individual do desri no", tal como o individuo o senria. "[Os] recondidns senrimentos, as camadas mais obscuras e mais cegas do carater", escred c, "sao OS unicos luga res do mundo em que podemos flagrar a produyao urn faro real ... perceber diretamen te como se dao os acontecimentos ... 5 u c feito o rrabalho. " 0 resro era nota<;ao: esrava para a realidade da coisa 1111 o cardapio est:i para a refei<;ao, como o quadro de uma locomotiva em 1.1rada esta para sua energia e sua velocidadc, ou talvez, em bora ele nao tc 'onseguido propriamente chegar a dize-lo, como esta a ciencia para a vida. Fssa maneira de caracterizar a "religiao" e "o religiose"- o indiviclualis 1 r.aJical ("Se um Emerson fosse obrigado a ser urn Wesley, ou um Moudy 149


l'iU

Nm•.tluz t .JI•rf' 11 oint

"f'"l"f.'''

fossc fors;ado a scr urn \'{lhirman, roda aconscicncia humana do divino sufr ria""), a arras;ao pelas paragens mais agresLes do semimemo ("Tomei t~~ll exemplos mais exrremados por serem osque geram informas:oes mais pruftrrr das""). e, acima de tudo, a desconflan~ dos projeros e esquemas Qames os drtt mou, inclusive os seus, de "palidos", "empobrecidos", "incorp6rem" "rnortos")- confere as Variedades, quando volramos OS olhos para tris, <kIll) de quer que esrejamos agora, urn aspecrocuriosamente dup lo. Ao mesmo lUll po, o livro parcce ulrracontemporineo, como se rivesse sido escrico Ollltlll sobre a Nova Era e sobre este ou aquele ripo de rebulis;os p6s-modernos, c 11111 siradamenrc distance, imerso no eli rna da epoca, como Os bostonianos, "Aut" confianya" ou Cihzcia e sat/de. A sensas:ao de concemporaneidade ebasicamente uma ilusao- as pcr1111 bas:6es do ullimo fin-de-siecfe sao bern difercntes das desle, como 0 sao 1.1111 bern nossas maneiras de lidar com elas. Mas a percepyao de que o grande ll\11l de James, num senti do nao pejorarivo (see que existe urn sentido nao pejor.lll vo), e darado rem muico mais subsrancia. Vemos a religiao em rermos difcrtll res dos de James, nao por conhecermos mais do que ele sobre o assunto (11.111 conhccemos), nem porque 0 que ele descobriu ja nao nos imercsse ou nao 1111, pareya importance (parece), nem rampouco porque a pr6pria religiao rcnh 1 mudado (ela mudou e nao mudou). N6s a vemos em ourros rermos porquc u solo se moveu sob nossos pes; cemos ourros exrremos a examinar, ourros dn11 nos a prevenir. 0 beliscao continua a exiscir, contundente e incomodo. M.r por alguma razao, sua sensas;ao c urn tanto diferente. Menos particular, ralvtt ou mais diffci l de localizar, rna is diffcil de por o declo exaramente em cima; 11.111 e, com a mcsma certeza, urn indicador fidedigno ou urn sinal revelador, ncr11 rao seguramcmc uma dor metaffsica. Eque o que mais parece distanciar-nos de James, separar da dele a new. r espiritualidade, see que essa palavra ainda pode significar alguma coisa, cx1r cuada a precensao moral , eo termo que excluf cuidadosamenre de seu brilhantc lema, ao adota-lo como meu titulo: "individual"- "o belisdio individual du descino". A "religiao" ou a "religiosidade", nas paginas e no mundo de Jamr - a Nova I nglaterra rranscendemalista em seus estertores - , e uma quest 111 radicalmente pessoal, uma profunda expcricncia particular e subjeriva de 11111 "esrado de fe" (como ele o chama), que resiste com inflexibilidade as prell·rr s6es do publico, do social e do cotidiano "de serem os diradores unicos e m.hr 1 mos daquilo em que podemos acredirar". Havendo crescido na epoca .), James, quando os Estados Unidos comec;avam nao s6 a ser poderosos, mas·' ··• senrir dessa maneira, essas prerens6es, em nossa epoca, rornaram-se absoluJ.r mente esmagadoras. De algum modo, demarcar urn espas:o para a " relig1an num campo chamado "experiencia"- '"ascamadas rna is obscuras e mais cc~ r·

() f,rfuto1o tla t!rJ/11111

l'il

C1u.ircr"- j:i nfi.o parece uma coisa muito sensara e natural para se len tar fa11.1 c:oisas demais a que se quer dar o nome de "religiosas"- quase rudo o ;IUJJ1(CCe fora do self, COmO as vezes parece. Quando a expressao "lura religiosa", como ranras vezes acontece hoje em surge nos meios de comunicas:ao, nos rexros erudiros e are nos serm6es e ' lias eclesiisricos, ela tende a nao se referir aos embates parriculares com 1ios internos. As mensagens proveniences das ameias da alma ficam prenantemente reservadas aos programas relevisivos de entrevisras e as aurofias de cclebridades em recuperayao. A expressao nao mais se refere com Hcncia, tampouco, ao esfors:o que tanto se desmcou, na virada do ultimo o - quando as igrejas pareciam esvaziadas e em processo de arrofia eo enrncnto da riqueza avanyava - , para proreger a autoridade enfraquecida convicyao religiosa, arraves de sua lramposis;ao para urn campo auronomo, do alcance das seduc;:6es promfscuas da vida secular- o Iugar de criayao Auden, no qual os execurivos jamais quereriam mexer. Hoje em dia, a "lura ' "refere-se quase sempre a ocorrencias basranre externas, a processos ao que acontecem em pras:a publica- choques em vielas, audiencias em is superiores. Iugoshivia, Argelia, fndia e lrlanda. Polfticas de imigraproblemas das minorias, currkulos escolares, observancia do saba, xales cobrir a cabes;a e debates sobre o abo reo. T umulros, rerrorismo, fotwas, Suprema (Aum Shinn· Kyo), Kach, Waco, Santeria e a invasao do o Dourado. Monges politizados no Sri Lanka, mediadores politicos rtidos nos Esrados Un idos, santos guerreiros no Afeganistao. Desmond urn ganhador a.nglicano do Premio Nobel, uabalhando para levar os ricanos a confrontarem seu passado; Carlos Ximenes Belo, urn ganhador romano do Premio Nobel, lrabalhando para estimular os rimorenses lesle a resistirem a seu presence. 0 Dalai L'lma percorrendo as capirais d o o para manter viva a causa tiberana. Nao ha nisso nada de particulare privado- encoberto, calvez, ou sub-repdcio, mas dificilmenre privado.

tpoca de James, a religiao parecia estar ficando cada vez mais subjerivada; ia, pela pr6pria natureza, estar-se enfraquecendo como fors:a social, para tornar uma quesrao inreiramence ligada aos afews do coras:ao. Os secularisawlhiam essa suposra realidade como urn sinal de progresso, modernidadc ade de consciencia; os fleis resignavam-se a ela como o prec;:o necess:lrio essas coisas. Oames, como lhe era caracrerfslico, rinha as duas posruras.) a.mbos, a religiao parecia estar gravirando para seu Iugar ap ropriado, lon~l· aruculac;:ao das preocupas:oes cemporais. S6 que nao foi assim que as col\,1\ . Os evenros dos cern a nos decorridos desde que James fez Slt.lS p.t


152

No1111 It·~ ~~~rr tltlllll"llf'lllllgitl

lestras - duas guerras mundiais, o gen oddio, a descolonizacyao, a disscllllll.l cyao do populismo e a inregracy.ao tecnol6gica do mundo mtn••& contribuiram para impelir a fe para dentro, para as comocy6es da alma, do q111 para impulsion::i-la para fora, para as comoc;:oes da sociedade, do Estado edt·,.,, rema complexo a que chamamos culrura. A "experiencia", por mais que seja impossivel erradid.-la de qualquc..r dj, curso sobre a fe que seja receprivo a suas pretens6es de regenerac;:ao (po nt11 1 que pre rendo volrar no final , quando renrar resgarar Jam es de minha pr6p111 critica), ja nao parccc adequada pa ra mold ar, por si mesma, nossa compn·t•• sao das paix6es e aros q u e, sob tal ou qual descric;:ao, queremos chamar de ll'll giosos. E preciso em pregar termos rna is firmes, rna is d ecididos, 111.111 rranspessoais, mais exrrovertidos- "Senrido", digamos, ou "Identidade", 1111 "Pode r" - para captar as ronalidades da devoc;:ao em nossa epoca. Num 11111 mento em que, enquanro escrevo, e concebfvel que urn car6lico romano se leu ne primeiro- minisrro da India, se cair o arual governo hindufsra, em qul 11 islamismo, pelo menos de faro , e a segunda religiao d a Franc;:a, em que lireralt' ras biblicos procuram minar a legirimidade do presidenre dos Esrados Unidm. em que mistagogos budistas mandam polfricos budistas pelos ares em Collml bo, em que padres adeptos da teologia da liberracyao instigam campom'\1 maias a revolta social, em que urn mula eglpcio dirige, de uma prisao no1 te-americana, uma seira reformadora do mundo, e em que cac;:adores d e brux.1 sul-africanos ministram a jusric;:a em shabeens [bares] da vizinhanc;:a, falar de I! ligiao como " os sentimentos, atos e experiencias de homens individuais em sua SIJ!I diio, na medida em que eles se apreendem como estando relacionados como 'I'" possam considerar o divino "(para citar a "Circunscric;:ao do T ema", grifada pclca proprio James) parece passar por cima de uma multiplicidade de coisas q~~r 9 vern acontecendo nos corac;:6es e mentes dos d evotos de hoje. Tampouco se rrara de uma quesrao meramente vocacional, da voz do p~1 co logo, fascinado pelas profundezas afetivas, contra a voz do anrrop6logo, dl'~ lumbrado com as superficies sociais. J ames nao era individualista por '.I' I psic6logo; era psic6logo por ser individualista. Eesta ultima ideia, a de que Cl c' mos, quando cremos (ou descremos, quando d escremos), na solidao, post,tll do-nos sozinhos no que concerne a nosso desrino, a nosso beliscao particul.11 que ralvez precise de uma certa reconsiderac;:ao, dadas as guerras e disrurbio. que hoje nos cercam.

0 "Sentido", na badalada aceps;ao de "o Sentido da Vida", ou "o Senrido d 1 Exisrencia"- o "Sentido" do Sofrimento, do Mal, do Acaso ou da Ordem tern sido urn esreio das discussoes do uras da religiao pelo menos desde o seculu

() hrlw·tT!l t!11 tfrJf/1111

l'al

II. 'lu.mc.lo esses dcbales co mecyaram a ser fo rmulados em Lermos mais em m do que apologeticos. Mas fo i somente com a tenrariva de Max Weber uus.tdia ainda causa assombro) de demonstrar que os ideais religiosos e as cs pnhicas ava.nc;:am juntos, aos tropec;:os, a m edida que se deslocam hist6 ri a, constiruindo, a rigo r, urn processo inseparavel, que o "Sentido" ou a ser visro como algo mais, ou como algo d iferenre de um verniz conional, aplicado sabre uma realidade estavel. llavido esse reconhecim enro, quando olhamos agora para nosso mundo izado na mfdia, para tentar ver o que ha nele de " religioso", segundo alt.ompreensao sensata desse rermo, nao vemos, como via James com seus idos absortos, seus so litarios em extase e suas almas adoecidas, uma lulinha divis6ria entre as preocupas;oes com o eterno e as do cotidiano; praticamente nao vemos linha divis6ria alguma. Ao que parece, o Iongo ido do mar de fe que se afasra das praias esbranquis;adas da vida corriqueido qual nos falou Arnold, mostra-se basranre calmo por enquanro; a mare u c esta enchendo. 0 sentido (presumindo-se que algum dia tenha estado re Ionge, fora do sui da Inglaterra) esra de volta. 0 unico problema e c difidlimo saber o que isso significa. Frn quase todos os lugares (Cingapura talvez ainda esteja exclufda, embomcsmo Ia, haja alvo roc;:os evangelizadores), vemos concepc;:oes de cunho resob re 0 que e tudo, sempre e em toda parte, sendo impelidas para 0 tro da atency.ao cultural. Da Afri ca setentrional e ocidental, passando pelo uc Medio e pela Asia central, ate o sui e o sudeste asiaticos, uma vasra e .,.,.,,1n:~ colecyao de ideologias, movimentos, partidos, programas, vis6es, peridades e conspirac;:6es que se anunciam como autenticamente islimicos rou na concorrencia pel a hegemonia social - o u, em alguns casos (Ira, Afe'stio e ralvez o Sudao), mais ou menos acabou com ela. No subcontinente no, Iugar para o qual se poderia ter invenrado a palavra "mirfade", naciotsmos, subnacionalis mos e sub-subnacionalismos religiosos manobram competi<;ao renh ida, no estilo " urn milhao de marins agora", para obter nntrole, a d o minas;ao eo direito de prescrever a moral publica. Os iugosla, tlue se assemelham em tudo, menos em suas lembranc;:as, agarram-se a dinc;:as religiosas nao enfarizadas no passado, para justificar seus 6dios opacos. papado se globaliza, procurando moldar a sociedade leiga na Africa, no LesEuropeu e na America h ispanica. A orrodoxia e revivida, para devolver ::t .a a seu carater russo; o aprec;:o pel as Escriruras profericas e revivido, para ver a America a seu carater americano. Existem, e claro, lugares em que"' lllcpcy.oes religiosas, aceitas ou renovadas, p arecem desempenhar um p:tpt•l uzido nas quesr6es publicas (a China, talvez, ou Ruanda-Burundi , rambcm .. Porem e mais do que suficiente o nu mero de lugares em que chs d,·


scmpenham urn p ap el desracado para que consideremos esse fato co111u 11111 1 nal de nossos tempos. lnrerpretar esse sinal , desembrulhar seu senrido ou explicl-lo de .dgutn 0Utr0 modO, dcterminando por que ele e 0 que e e CO I110 foi que flcou 3\SIIII, o que nos diz sobre com o andam as coisas enrrc n6s na atualidade, cuma toll co mpletamente diferenre, sem duvida. Dada a longa e veneranda tradi~1o da ciencias sociais d e b usca r em coda parte a explicas;ao dos fenomenos religu''" exceto nesses pr6prios fenomenos- uma rradis;ao que nem Weber p:Hc-u: 1 r tido fors;a suficienre para ro mper - , rem havido, nas ultimas duas ou m: d cadas (e provavel que a Revolus;ao l raniana, em 1979, tenha marcado a vultll da religiao a urn Iugar importance em nossa agenda profissional, em bora IJ'" t6es como a parrilh a, as revoltas de Kuala Lumpur, o Cond lio Yarica11" 11 Martin Luther King e o rccrudescim enro dos confliros irlandeses devc"'"' ter-nos alertado para isso ha mais temp o), urn grande extravasa mento de u·o1l as e explicas;6es que invocam circunsrancias poliricas e economicas, souol gicas e hist6ricas, e, em alguns casos, ate psicol6gicas, das "massas cni11U quecidas", como as fors;as subjacenres que impelem, determinam, cam.uu moldam, movem ou estimulam - rodas essas coisas que as "fors;as" r.~~ "' - O S fenomenos religiosos. A "religiao" e a variavel d ependence favolil.l todo o mundo. Em si, nao ha nada de muito errado nisso. Apesar do incen ri vo que d.l J pecado renitente dos esrudos sociol6gicos- a analise da causa favorira ("111, 111 se resume" ... na personalidade dos llderes, nas tens6es da m odernizayacJ, "" memoria hisr6rica, na pobreza das massas, no rompimento das rradis;oe' 11 desigualdade, na geo politica, no imperialismo ociden ral etc.) - , essa po~1111 rem levado a inrerpreras;6es sugestivas de alguns casas parriculares e, com 111 nos freqi.iencia, do fenomeno em geral. Nao ha du vida de que homens co11111 Milosevic, Karadzic, T udjman e Izerbegovic, para nao dizer nada dos bandn de fadnoras que mataram em nome deles, foram e sao personalidades manq•u ladoras, muiro mais movidas pelas vaidades da gl6 ria terrena, pela amb1~'" calculismo, inveja e auto-admiras;ao nardsica do que par entusiasmos rcllj'.ll• sos, o u sequer erno-religiosos. Do mesmo modo, esra perfeitamenre claru '1'1 o "islamismo politico", como passou a ser enganosamenre chamado- t)ll r sob a forma d o radicalismo argelino, do clericalismo egfpcio, do militamrn" paquisranes o u do rradicionalismo malaio, q uer sob a forma dos movimcn ln p rogressistas arormenrados e disperses que, de algum modo, consegucm ptr sistir praticam ente em coda parte-, alimenra-se da esragnas;ao e da pobrt..'/ 1, representa urn esfors;o dos mus;ulmanos para finalmente enfrentar as cxlglll cias e as energias do mu ndo moderno. E a mare crescenre de con fli tos com11111 l:irios na India, na Nige ria, no Sri Lanka e na Indo nesia e, numa parul

fi~,u iva, com ccrtc/.<l uma rcsposta as temativas de construs:fio de l·stados .• ti \ fortes c c.:cntralizados nesses pafses poligloras, policulrurai s c po 1 ~111\0S.

l'udo isso esta muito bern. Mas, ao mesmo tempo, Karadzic nao teria 1id o mobilizar os temo res do que chamo u, com despreocupado anacrodc "os turcos" de Sarajevo, nem Tudjman ceria podido mobilizar os contra a grande minoria servia de Zagreb, cobrindo a cidade de carrazes m dizeres "Deus protege a C ro:kia", se ja nao houvesse alguma coisa a scr 17.ad~, mesmo nesses l ocai~ (en tao) cosmopoliras, descontrafdos e, em geltw lanzados. Sem um sennmento muito difundido, nas massas da cidade Cai ro ou de Karachi, de um islamismo avi lrado e negligenciado, com a Prodcsrcspeitada eo Profeta rebaixado, os m ovimentos para restaura-lo, pulo c destruir seus inim igos reriam poucos atrarivos. E, sem preocupas;oes, toda sorre de grupos, de coda sorre de ramanhos e com roda sorce de credos uma a nro.lo~ia de dev~s:?cs -.-, com a exclusao, a repressao, a marginaJizae ate a ehmmas;ao espmtua1s impostas pela politica, a construs;ao do Esra~ria pouco propensa, por si so, a acarreLar tumulros comunirarios. Deixar a ao fora disso tudo, exceto como sinroma ou fndice da dinarnica "real" re", e menos encenar a pes;a scm o prfncipe do que enccna-la scm a 0 mundo nao funciona apcnas com crens;as. Mas dificilmentc conscfun cio nar scm elas. Contudo, ~a um problema em invocar, como acabo de fazer para chamar dos lenores, exemplos que implicam a violencia das massas -os "camais extremes" de James, que "gcram as informas;6es mais profundas" (um pio duvidoso, a mcu vcr). A confians;a ncsscs cxemplos celebres obscureD car:itcr geral e d ifundido, a mera normalidade do que aconrece, confuna afirmas;ao religiosa, que e marcame, disseminada e bastante intensa, a furia religiosa, que econcen trada, geralmente esponl.dica e, nao raro, ftdo acaso. Nem todo Iugar e a Argelia ou o Sri Lanka, Beirure ou Yukovar, ira ou ~lster. Vi nte milh.6es de mus;ulmanos que emigraram para a Europeta, no correr de vanas decadas, causaram uma tensao consider:imas, pelo menos ate agora, apenas uma bruLalidade ocasional. Houve crishindus e mus;ulmanos em convfvio cstreito e padfico na I ndonesia cinqi.ienta anos (eles assassinavam uns aos ourros por ourras raz6es), l)UC, ago ra, talvcz isso esteja finalmente acabando. A Etiopia, desde o fim imperador, primeiro, e do dergue, depo is, parece vir conseguindo, mais rctemenre, adm inistrar sua diversidade rel igiosa ao menos com sucesso razon A concenrras;ao na violencia - tumultos, assassinaros, rebelioes e gucrr.1 1-, qu.e em si e. val i os~ para enrender como essas coisas acontecem co <)Ill scr fetro para •mped1-las de aconrecer, bern como para mostrar os infl·t -


·~r.

nos fumcgantes para os quais nossas almas ccgas podcm scr dcsviadas, d.l111111 imagem cnganosa do confliro religioso, rcprescnrando-o em suas form;t' 111 I parol6gicas. Exisrem quest6es mais profundas em ayao do que a mera dcs1.11 111 a qual, afinal de contas, todas as iniciarivas humanas estao sujcitas, e n;w 'P nas as que dizem respeiro ao Semi do de T udo. Entre essas quest6es mais profundas encontra-se, com certeza, o qut 1'1 sou a ser chamado de "busca da identidade". Como "polfrica da idemid.u lr "crises de identidade", "perda da idenridade" ou "consrruyao da idenridadt . fl termo "identidade" decerta tern sido muito aviJtado nos uJtimos tempos, •,r II do obrigado a ficar a servic;:o desta ou daquela causa, desra ou daquela tcoJ 11 desra ou daquela desculpa. Mas, em si mesmo, isso corrobora o faro de q111 apesar de LOda a criac;:ao de jarg6es e da ci rculac;:ao de slogans, e a despeico dt In das as opini6es preconcebidas, ha alga de importance surgindo. Alguma cn 1' 1 alguma coisa muiro geral, esr:i acontecendo com a maneira como as pcss11.1 pensam em quem sao, em quem sao os outros, e em como querem ser rcu.11 1 das, denominadas, compreendidas e siruadas pelo mundo em geral. "A rcp1 senrac;:ao do self na vida coridiana", para evocar a celebre expressao de E1V111 Goffman, tambem se tornou uma questao menos individual, urn prajero llH nos pessoal, mais colerivo, ralvez ate polfrico. Exisrem hoje, praticamentc t 111 roda parte, esforc;:os organizados, susrenrados e asslduos, e as vezes bern mais ,1,1 que isso, no senrido de promover o desrino mundano desta ou daquela V;lllt dade de individualidade publica. 0 que temos aqui e urn concurso de espec.i1 . Mais uma vez, nem rodas essas especies sao "religiosas", nem mesmo 1111 sentido mais lata do termo. Quando se pergunra a alguem "quem" ele e, 011. mais exatamente, "a que" e, a resposta tem tanta prababiJidade de ser etntl I ("servia"), nacional ("australiano"), supranacional ("africano"), lingi.ilstll .1 ("franc6fono"), ou mesmo racial ("branco") ou tribal ("navajo"), alem de wd 1 sorte de combinac;:oes destas ("queniano negro de lfngua lue"), quanta de st 1 religiosa- "barisra", "sikh", "lubavirchano", "bahai", "m6rmon", "budis1,1 ou "rasrafari". Tambem mais uma vez, no entanro, nao apenas as idenrific1 c;:oes religiosas do self (e dos outros) vao ganhando cada vez mais desraquc 1111 discurso "secular" da prac;:a publica, como algumas identificac;:6es exrraordin.1 riamenre poderosas- como "hi ndu" ou "xiira"- s6 muito recentemente g.1 nharam uma circulayao polfrica mundial agressiva. A pergunta e: par que as especies religiosas e as rensoes entre elas passar;uu a ter ramanho desraque? Par que as comunidades de fe tornaram-se, em tanlo' casas, os eixos em rorno dos quais gira a lura pelo poder- pelo poder loL.d nacional e ate, em cerra medida, imernacional? Nao existe, e clara, uma respm ta unica para essa pergunra, que sirva igualmente bern para OS Estados Unidos, a Turquia, Israel, a Malasia, o Peru, o Ubano e a Africa do Sui, e a competi~;Jo

n f>rfiu.trl "" dflll/111

1"17

us l.h;~nudas Novas Rcligi6cs (isco e, p6s-Meiji) do Japao constiwi um wnu em si. Mas e posslvel oferecer algumas sugestoes e observac;:oes pro;. guisa de prefacio a discuss6es mais rigorosas e mais abrangenres do 16 pmlcmos chamar de reconfigurayao religiosa da polftica do poder, que t'slao por ser desenvolvidas. A primeira dessas observac;:oes e que, como acabamos de assinalar, nao foapt·nas as idenridades religiosas, mas rambem as emicas, lingi.iisticas, racie tlifusamente culturais, que ganharam maior des taque polfrico nos anos idos desde que a descolonizac;:ao desrroc;:ou os imperios de alem-mar e, cspccialmenre, nos cerca de dez anos decorridos desde que a queda do de Berl im, o colapso da Uniao Sovietic.'l eo flm da Guerra Fria destroc;:aas grandes relac;:6es de poder instauradas desde os tempos de Teera e Pors0 alinhamento dos equilfbrios de poder inrernacionais entre Oriente e tc, urn alin hamento forremenre binario, para nao dizer maniqueista, e ...v .. ,".. ,adores efeiros colaterais que ele reve par coda parte, do Zaire ate a So• o Chile e Cuba, e tantO dentro das nac;:oes quanta entre elas (basta pennas Filipinas, em Angola, ou, infelizmente, na Coreia e no Vietna), te se dissolveram, deixando quase rodo o mundo em duvida quanta que combina e ao que nao combina com o que- onde ficam as demarcacruciais, e o que e que as tacna cruciais. Essa desmontagem do mundo muro de Bedim, sua dispersao em pedac;:os e restos, trouxe para o primeira formas mais parriculares e mais particularistas de auro- represenrayao co- e nao somenre na Jugoslavia ou na Tchecoslovaquia, por exemplo, o cfeito eclara e direto, pon!m em geral. A proliferac;:ao de enridades polfautonomas, tao dessemelhantes em sua fndole quanro em sua escalamundo em pedac;:os", como o chama mais adiantc, no capitulo XI-, esriidenridades publicas circunscritas, intensamenre espedficas e intensasenridas, ao mesmo tempo que essas idenridades, par sua vez, fraruram formas aceiras de ordem pollrica que rentam conte-las, muiro particularnestes tempos do Estado-nayao. A projeyao de grupos e lealdades religi-.,... ,,.p definidos em rodos os aspectos da vida coleriva, partindo da familiae baiera para fora, faz parte, portanto, de urn movimento geral que e muiro r do que ela pr6pria: a subsriruiyao de um mundo construido com uns tijolos analogos, enormes e mal encaixados, par urn mundo nao mais rmemenre nem menos compleramenre construido com muitos tijolos ..~·~ •v• =· mais diversificados e mais irregulares. lsso, e clara, nao chega nem perro de ser rudo. Nao apenas exisrem forc;:as trarias em ac;:ao (a globalizac;:ao economica e ritualmente invocada como delas, mas a recenre desordem na orb asiatica, a acelerayao dos problemas America Latina e as atrapalhac;:6es da Uniao Europeia talvez estejam come-


(J

e

~ando a d eixar ciaro que interdependencia clecididamente nao 0 111CSillll qll inrcgra~o), com o ha ta mbem muiro m ais coisas acon tecendo do que 11111

mera grilagem denrro d e idencjdades encasreladas. Exjsce uma mohilid •d maio r: ha turcos na Baviera, fi lipinos no Kuwait e russos nas praias de Bt il'h ron. Ja nao e facil evirar o conrato com pcssoas com ripos de crenc;:as clifc.:n·ot daquelas com que se cresceu - n em mesmo no meio-oeste norte-amcrit.,,., , onde e bern possfvel q ue voce tenha urn m edico hindu, o u na Franu prujon.l, onde e quase Certo q ue Seu lixeiro seja ffiU!YUlmano. Portanro, as disriny6es religiosas vao-se ro rnando, em muiros lugarcs, 111 apenas mais rensas, com o tambem mais imediaras. Num mundo sem fruut• I ras- de que servem as ra{zes, como disse certa vez Gertrude Stein, se n:w I'll demos leva-las conosco? -,a separa~o fisica simples, no escilo "cada tllll llll seu canto", ja nao fun ciona muito bem . Temos enorme dificu ldade, hojt • 111 dia, de ficar fora do caminho uns dos o utros: o bserve-se o enredamen to btl!\ nico como caso Rushdie, observem-se os processos judiciais no rre-amerit...u1" sabre os conrratos de casamento de c ria nc;:as, o sacriffcio de anima is, as crt·d, municiprus ou a cl itoridectomia rituaHsrica. As diferenc;:as de crenyas, as Vt 7 muiro radicais, sao mais diretamente visfveis, com freqi.h!ncia crescente, c 11111 diretamente encontradas: pro ntas para a suspeita, a preocupa~o, a repugn•rt cia e a alterca'Yao. Ou, suponho eu, para a tolerancia e a reco ncili a~o, ou ·' para a atra'Yao e a convcrsao- ainda que estas, no momenta, nao sejam cx.11 mente comuns. Como costumo dizer, poderfamos seguir por esse caminho, lisrando " possfveis fatores que contribuem para a proeminencia d as idenridades reli••'" sas na esrrutura polftica dispersa e sem i-ordenada que, pelo menos por 01 1 subsrituiu a magnifica sim plicidade da Guerra Fria. Existe a rese de que "n ... l mais funcionou": a desilusao sucessiva co m as narrarivas ideol6gicas mcstt• - o li beralismo, o socialismo, o nacionalismo - como arcabou!YOS da idcn1 1 dade coletiva, especialmente nos pafses m ais novos, deixou apenas a religt.'" como " uma coisa que ainda nao falhou", segundo diz o slogan. Existe a resc '"' "ma les da moderniza~o": a dissemina'Yao dos meios de co munica~Yao de m.1 sa, as devastay6es do desenvolvimento, do comercio e do consumismo c.:, d modo geral, a confusao moral da vida contemporanea fizeram as pessoas v11l tarem-se para ideias e val ores mais conhecidos, mais profundamenre arr:11•• • dos e mrus fam iliares. E por af vru. Mas, aparte a validade d estas e de ourras ideias semelharllt (e, em sua maioria, elas continuam a ser sugesr6es nao pesquisadas), h:i 111111 quesrao mais fundamental a ser abordada, se quisermos apreend er o que,.,,, acontecendo com a vida espirirual no fim do que alguns chamaram, nao suu comprova'Yao, de o pior seculo que ja houve ate hoje. E isso nos leva de volt •

/Jrltrr.w t!tJ dmu111

I 'l

jlll'SliiTIOque sell<\ incvid.vcl, apreocupa~O de james, Se naO, neCCSSari:l 1e, a sua maneira de forrnu la-la: que esta acontecendo, para cita-lo mais vr:1., nos "recondiros do senti memo, nas camadas mais obscuras e mais cc-

du l.tr:iter" dos que sao apanh ados n as Juras - religiosameme concebidas c te expressas- pelo sentido, pela identidade e pelo poder? Que lOrn "o beliscao do destino", agora que ele parece estar tao presence no ? A "experiencia", a rirada porta afora como um "estado de fe" radical,. subjetivo e individualizado, volta pela janela, como sensibilidade cornude um aror social que se afirma em termos religiosos.

una!, mas pessoal. A religiao, sem interioridade, sem uma sensas:ao "bacm sentimento" de que a crencra importa, e imporra tremendamente, de a fc sustenta, cura, conso la, corrige as injusris:as, mel hora a sorte, garante pensas, explica, imp6e ob ri ga~Y6es, abens:oa, esclarece, reconcilia, regercdime ou salva, mal chega a ser digna desse nome. claro que existe por uma grande dose de pu ro convencionalismo. A hipocrisia, a sanrimonia, a e 0 egofsmo- para nao falar da fraude e da si mples maluquicescmpre entre n6s. E resta, suponho, a torrurante questao de saber seal<.:redo, po r mais profunda que seja, chega perto de ser suficiente para seus Mas a visao que parece subjazer a inumeras anilises da expressao religiosa, nossos tempos neo-nietzschia nos de vo nrade de poder, q ual seja, a de as paix6es que nos movem sao puramente politicas ou polftiD-c~ccm<>micas, e de que a religiao n ao passa de uma mascara e uma misrificaum encobrimento ideol6gico de ambis:6cs pcrfciramente seculares e mais mcnos egofstas, simplesmente nao e plausfvel. As pessoas nao incendciam mesquita mongol que julgam esrar localizada na terra natal do deus nao tentam revivificar os rituais pre-colo mbianos nos pueblos maias, sc op6ern ao ensino da evolu~o no Texas e no Kansas, nem usam turbanna ecole primaire simplesmente para chegar a algum objerivo material pragico e exrerno. Reformulando e ralvez urilizando mal o celebre drulo ugcnsreiniano de Stan ley Cavell, elas querem dizer o que estao dizendo. Mas o problema e que, seas rumensoes comunirarias da mudans:a religioaquelas sobre as quais (as vezes) podemos ler nos jornais, sao pouco pesqui' as dimens6es pessoais, aquelas sabre as quais (geralmente) temos de falar pessoas vivas, se quisermos encontra-las, mal chegam a ser investigada~. esmente nao sabemos grande coisa sobre o que esta acontecendo, ncslc no obscuro rnundo jamesoniano das asas imensas e das tempesladt•\ l\Ue nao se pode escapar. E, como resulrado, a arricul a~Yao weberian<t d,l\ vic~Y6es rel igiosas com as as:oes priticas, a inseparabilidade entre a tll'll~.t l

t


Nm'.l l11z whr ,, /lll/~<~f"'"'f.'''

fJ ,,,.,,.,,1, tfii (fl'.tf//111

o compo rtamento, tcnde a se pcrdc rdc vista: as duas voltam a sc1 scp<ll .t•lt como " fa tores", "variaveis", "determinantcs" o u seja Ia o que fo r. Tocb .ttrn tll sa varied ad e d e experienc ias p essoa is - ou, falando co m m a is criu~rio, de 1 presenras:6es da ex pen enc ia pessoal que J am es explo rou 1 primorosamente, par urn lado, e que, por oucro, barro u resoluramentc Jm 'dl tadores daquilo em que podemos c rer", do publico, d o social e do cotid1.11tu nao apenas torna a ser isolad a das c ircu nvolu~6es da hist6 ria, como pass:t 1111 I ramenre d espercebida. Ou quase. A titulo de exe mp lo (urn exemplo pequeno e preliminar, cpu· posso rel ara r aqui em rerm os esque maricos) do ripo de rrabalho que :ti nd.t esra po r fazer nessa area, e do ripo d e compreensao que se podera cxtrair dt J, quero volrar-me para um esrudo recente d e uma jovem a ntrop6loga, Sut.lltll Brenner, sabre as reas;6es exibidas por algumas javanesas, rambem jovem. df pois d e el as haverem subicamente adotado uma forma e nfatica d e traje "isl.11 11l co", chamado jilbab, baseado no voclbulo arabe que designa a m upJ 1 tradicional das mulheres. u Faz muito tempo que a lndonesia em geral, e ]ava em particular, telll tllll grau ex traordinario de d iversiftca?o religiosa. Depo is d e quase um mileniorl inAuencia indiana, especial me nte em J ava, o nde surgira m grandes e podcro" ' Esrados hindus, budistas e hindo-budistas a partir do seculo IV, ela sol11•1 mais ou menos de 1300 em dia nre, tambem sobretudo a rraves da Asia nu·1t dional, uma forte incursao d o c redo islfun ico, a p rind pio sufista e, com o I'·' sar do tempo eo desenvolvimenro d as ligar;6es co m o O riente M ed ia atr.t\t da percgrina?o e d e o utros meios, sunita ortodoxa. Po r t.'dtimo, o u, pelo 1111 nos, par ultimo ate ago ra (que m sabe 0 que vira depois?), a partir do SCc llln XVl l, quando c hega ra m os holandeses, ela fo i submerida ao rrabalho m issio11 1 rio cristao, tanto de car6licos quanro dos varios tipos de protesra ntes q ue a lin Ianda sempre foi fe rril em produzir. 0 resu ltado, por ocasiao cl t Independenc ia, em 1950, fo i, tambem parti cularmem e em Java, o nde viv• 111 70% da popula?o, a presen qa conjunra de todos esses c red os, somados a 11111 1 dispersao de credos locais, di fe rencialmen re distribufdos numa estrurura SOlltl complexa. Sendo o itenra o u noventa p or cento mus:ulmana, no minalmentl' ou, como dizem com ironia os javaneses, estatisticamente mupt!mana-, a illt 1 era, na verdade, uma d e nsa Aoresra d e crc nr;as. No lim da decada d e 1970 e aumentando sua fors:a durante os a nos oit• 11 ta (a siruas;ao arual, com o muita coisa que aco ntece nesre momenro na Indo111 sia, nao esta inreiramenre cl ara), uma seriedade inte nsificada, que eq uivah • urn novo ri gorismo, comer;ou a surgir entre alguns dos javaneses mais con" 1 entemenre mur;ulmanos- " urn ressurgimento isla mico", como passou ,, ., , conhecido -,sob o estfm ulo, a te certo p onto, do chamado reto rno do isla111 1

c.-m gcral no mundo intciro, po rcm , em sua m aior parte, c1iad a em casa, inmente impulsio nada e local mente focalizada. Houvc diversas express6es wric.:dadc inrensiftcada- a proliferar;ao d e novas o rganizas:6es de fleis, a do ensino d a religiao, a publica?o de livros, revistas e jornais, o apa.,..m,••nto d e uma classe de arristas, intelectuais e politicos de orientar;ao islaassociados a eles, muitas vezes educados no exterio r, alem d a reavalia?o e ''rpretaqao c rfticas das tradiq6es locais do po nto de vista d o Alcorao, e aspur diante. Uma das mais impressio nan tes e controvertidas dessas exp resno cnra nto, fo i a ad oqao , por um n umero crescente d e m ulheres, udo as jovens instrufdas, do estilo de vestuario do Oriente Media: urn tu monocromatico Iongo e solto, que chega ate os ro rnozelos, d estinado a nder as formas do corpo, e uma esrola comp rida e enrolada, em geral brandcstinada a esco ndcr o cabelo eo pescoqo. Vez por ou tra, esse traje (o jilbab que mencio namos ha pouco) era enconanres, sobrerudo entre as mulheres devoras mais velhas, em especial no in. Mas sua ador;ao por mulheres urbanas rna is moyas - em n fcido contraste a blusa d ecorada e colante, o sarongue justa e o cabelo cuidadosamenre .."'"'"'uv que a maio ria das javanesas exi be, tradicionalmente - despertou opodesconflanya, perplexidade e raiva. Pretendendo ser uma aflrma~o, ele foi como tal. As mulheres vira m-se criticad as como " fanaticas" ou "funtalisras", muitas vczcs po r sua pr6pria famil iae pclos amigos mais fnrialguns dos quais fizeram grandes esfors:os para dissuadi-las dessa mudanya. que voce tam bem nao traz 0 seu camelo?", perguntou um pai en furecido a fi lha.) Elas foram alvo de mexericos, chamadas de beatas, hip6critas c magimaleficas. Vez po r o urra, fo ram discriminadas no mercado de trabalho, o pais da "Nova Ordem" de S uharto insricuiu um c6d igo de normas sabre o uario (ou rentou faze-lo, ante manifestar;6es enraivecidas), que se destinava a ·mula-las. Em algumas ocasi6es, elas chegaram a ser flsicamente agredidas as, tendo os xales arrancados da cabeya. A d ecisao de usar o jilbab, no de Brenner, nao era uma decisao leviana:

IC.U

Hl I

Os comenra rios das mulheres sobre os obstaculos psicol6gicos e pr:hicos com que clas deparavam para [ado taro jilbnb] indicaram que essa era uma decisao que exigia urn profu ndo exame de consciencia, muira determ i na~o e ate obstinar;ao por parte de las. [Usa r o jilbab] distingue a mul her como "diferente" em Java, ondc as normas de comportamenro sao muiro rfgidas e onde desafiar as conven.y6es rem repercuss6es imediatas nas rela.y6es do indivfd uo com os demais. Vesrir o jilbnb leva, muitas vezes, a uma mudant;a acenruada na idenridadc social c pcssoal d.1 moya, bern como a um romp imenro potencial dos vfnculos sociais com que el.t 11 conrava are entao.


() brlirrtllltln tlm11111

Brenner entrevisrou vinte mulheres que Lin ham feilO o que cia chatnwa ~I "conversao" ao jilbab. A maioria era de alunas universic~rias on I ( cem-formadas, na casa dos vin rea nos. Todas residiam nas grandes cidadt·\ 11:11 trais javanesas, J ogyakarta e Surakana, onde a diversidade religiosa c ,,,, 11 sin cretismo sempre foram particularmenre acenruados. A maioria provinlt.t .It~ classe m edia ou cia baixa classe media. Muiras haviam crescido em famrlt." d pouca observancia religiosa. Todas er am atuantes em organizac;:6es e grupm 11 ligiosos ligados ao "ressurgimenco islamico" . "As mulheres que conversaram comigo", escreveu Brenner, eram pessoas inreligenres e decididas, q ue lmavam de maneira conscieme c ina lecrual com as conrradit;:6es da vida coridiana, e rinham suas pr6prias raz6c,, ·.11 mamenre pessoais, para oprar pelos caminhos que haviam escolhido. A ma1111 11 das mulheres oprou [po r usar o jilbab], em parte, por uma convic<;io religio~.1, 111 sisrindo em que [ele] era uma exigencia ... do islamismo. Afora isso, pon!m, ""' narrarivas exibiam cerros remas que mosrravam que a adesao a dourrina reltgt••l a nao era o unico impulso .... Suas morivacroes ... eram sirnulranearnenre pes,n,u religiosas e polfricas . ... [Are] as hisr6rias de conversao ao jilbab mais pesso.u' • rnais carregadas de emoc;:ao conrinham elementos de uma hisr6ria rnais amp!' 12 que abarca o rnovirnenro islamico indonesia conrernporaneo. Brenner teve muito a dizer sobre a ligac;:ao disso tudo com os acontecimt 11 tos polfticos indonesios, com a m odernizac;:ao, como movimento mais ampl·' de revigorar o islamismo, com a revisao d as defi nic;:6es e expectativas de gent' I • '· e com a busca da idenridade pessoal e coleriva num mundo em rapida rransfot mac;:ao. Para n6s, enrreranto, o que mais interessa eo ripo de resposras que d .• recebeu quando comec;:ou a formular a essas jovens perguntas no estilo de J• mes, indagando o que significava em termos pessoais passar a usar o jilbrt/J, r como era isso como coisa vivida, sofrida, "experimentada". A inrensificac;:ao d.t co nsciencia de si, o medo da morte, a vigilanc ia pan6prica de Deus, a sensac;.u• de renascimento, a recuperac;:ao do aurodomi nio, codas as inflex6es familian . do belisdio do desrino- quem sou eu? que devo fazer? que aconrecera conll go? onde esta a finalidade? - apareceram, com o que respondendo pront.t mente a urn chamado. "Cada uma das mulheres ... indicou que essa mudanc;:a de seu vesruario", escreveu Brenner, "havia modificado seus senrimenros a respeiro de si m esm.l• de seus aros."

fro\

anwdiata da angustia ... tinha sido urn rnedo avassalador de morrcr c ... do que a mnrtc poderia significar para elas, se houvessem deixado de cumprir as exigencia~ do islamismo. A nova consciencia do pecado que elas haviam adquirido levara-as .1 uma profunda aflic;:3:o sab re o que poderiam sofrer na vida ap6s a morte, em wnscqiiencia de seus pecados .... Elas experimenraram uma confusao profunda, dt'Jvidas a respeito de si mesmas e a sensa<;io de esrarem fora de conrrole. Vesrir o plbrtb ... aliviou suas angUstias sabre a morre e lhes [deu] urn novo senrimenro de 3 Luntro le sobre o futuro, nesta vida e na outra.' E Brenner citou, extraindo-as de uma revista popular, as palavras inspiracle uma jovem acriz de cinema, as vesperas de dar a luz: "Eu esrava apavoEscava realmenre com medo de morrer. Porque, se eu morresse, qual seria prccro de todos os meus pecados?" Surgiram dianre de seus olhos imagens do , de ficar bebeda, vagar pelas noires, freguentar discotecas ou aparecer na tela. Foi, em suas palavras, "como se [ela] ouvisse 'o sussurro do ceu' na, 1~ memento . lsso calvez parec;:a bascanre formulaico, como al ias sao muitos, se nao a 'oria, dos relates de renovac;::io espiritual narrados por James, pois, mais vez, nao estamos lidando aqui com a experiencia simpliciter, seja isso o for, mas com represenrac;:6es dela, oferecidas ao self e aos ourros - com 15 rias sobre ela. E, cal como acontece com os relaros de James, as hisr6rias

Urn dia, Naniek [urna das info rmames de Brenner, que vinha resisrindo as pressoes das amigas para usar o jilbnb] foi subiramenre romada pelo medo de rnorrer, embora nao esrivesse doenre. Percebeu que havia ensinamenros do islamisrno que ainda nao havia observado, inclusive a exigencia de usar o jilbab. ... Acordou no meio da noire, aterrorizada, pensando: "Que posso fazer? Nao renho nenh uma roupa [islamica] ." Confldenciou isso ao irmao, que Ihe comprou o recido, e, dias depois (lembrava-se da data exara), comec;:ou a usar o ji!bab. Assim que o aceirou, usar roupas islarnicas rornou-se f:kil para ela, e "as roupas simplesmenre apareciam", embora 16 Naniek rivesse pouco dinheiro. 0 medo da morre desapareceu. E um a ourra comenrarista, escrevendo num li vro em lingua indonesia

para o mercado de massa, ch amado As mulheres mupdmanas no alvorecer do tlfiO 2000, aparentemente destinado a instruir rais mulheres sobre o que sentir, invocou explicitamen re a imagem do renascimenro:

Para diversas rnulheres, a decisao ... havia sid o precipirada por uma profunda nu gusria; essa angusria depois cedera Iugar a urn senrimenro de relariva calma c ,, uma sensac;:ao de renovac;:ao, urna vez tendo comec;:ado a usar o jilbab. A cau\,1

A pergunra ... mais imporranre para a mulher conscienre de hoje e "quem sou cu?" Com essa pergunra, ela renra compreender com plena consciencia que nfio potlc


() lirlilrrlll t/11 t!rJti/111

continuar como esta .... Ela deseja sua autodererminas:ffo .... Qucr dc.scnvol v 1 ' Scm pre timeja renascer. Nesse renascimenro, quer ser sua pr6pria parteim.' Brenner rem ourros depoimentos sobre os correlatos emocionais dcss.111111 danya de vestuario, que e uma mudanya. na maneira de ser/esrar no mundo I''' ocupac;6es sabre estar a altura das exigencias do novo traje, intensificac;ao d 1 preocupac;6es com as pequenas transgress6es, eo sentimento de estar consta1111 m ente sob uma vigilancia moral rigorosa, nao apenas por parte de Deus < dJ consciencia, mas de codas as pessoas ao redor, buscando avidamente falhas c l.•p sos. Mas, ralvez ja renhamos dito o suficienre para deixar clara a mensagem: 1111 que gostamos de chamar de vida real, o "senrido", a " idenridade", o "podcr" c 1 "experi encia" estao inexrricavelmenre emaranhados, implicando-se mucuamnt te, e e tao impossfvel fundamentar ou reduzir a "religiao" a esta ultima, a "cxp• riencia", quanta a qualquer dos demais. Nao e na solidao que se constr6i a f,. Ourros bichos, e clara, outros costumes. As respostas que Brenner obreve dt, sas jovens javanesas que tencavam tornar-se mais muc;ulmanas dificilmentc" riam as obtenfveis de hindus indianos, budistas birmaneses, car6ltw franceses, ou ate de ourros ripos de muc;ulmanos. No Marrocos, on de ramb, 111 rrabalhei, as respostas indonesias seriam vistas como contrarias as Escritur.t·. senLimenrais, antinomianas ou coisa pior. Os homens, e nao mulheres, os td11 sos, e nao os jovens, os camponeses sem instru<f3o, e nao os cidadaos urban" educados, os africanos, os nativos do Leste Asiatica, os americanos, os laLitHt\ ou os europeus, e nao os nativos do Sudeste Asiatica, decerco produziriam im.t gens muito diferentes- muito diferentes por serem consrrufdas de manw.1 muiro diferenre, em situac;oes muito diferenres, e a partir de materiais mull" diferentes. 0 movimento das idenridades religiosas e das quest6es religio,,t em dire<;::io ao centro da vida social, polftica e are economica talvez esteja disst minado e crescendo, tanto em escala quanro em imporcancia. Mas nao e 11111 fenomeno unitario, a ser uniformemenre descrito. Existem tantas variedadl·· de "experiencia religiosa", ou, se quisermos, express6es da experiencia religto sa, quanras sempre existiram. Ou ralvez mais. lsso nos devolve a questao da utilidade que James tern hoje para n6s: ,Ill duplo senti do, como assinalei no comec;o, de as Variedades parecerem simult.1 neamente obsoleras e exemplares, repleras de urn clima de epoca, mas send11 ram hem urn modelo do ripo de trabalho que, como ode Brenner, parece scr dt vanguarda, e o que ha de mais necessaria. E urn chavao (mas, como muiw• chav6es, e verdade) que os gran des pensadores, assim como os gran des arrist;l\, SUO completarnente in seridos em SUa epoca- profundamente situados, COtllll dirfamos hoje- e transcendentais a essa epoca, cJaramente vivos em OllliOI

lit ..

ntos, e que csscs Jois faros rem uma ligac;ao interna. Scm duvida isso sc James. 0 co nceito de rel igiao e religiosidade a que o levaram sua posidt· hcrdeiro do inruicionismo da Nova lnglaterra e seus pr6prios encontros " bclisdio do desrino, urn conceito radical mente individualisca e subjeri, como uma "percepc;ao brllta", foi complementado pela atenc;ao intensa, vi lhosameme observadora e quase parologicameme sensfvel as nuanc;as e llt·ns do pensamento e da emo<;::io a que eles tambem o levaram. E Jesses relaros circunsranciados das inflex6es pessoais do compromisso lgioso, que vao muito alem do pessoal e penetram nos conflitos e dilemas de cpoca, que precisamos agora. E, para isso, precisamos de James, por mais res que hoje nos pareyam sua epoca ou seu temperamento. Ou, pelo precisamos do ripo de investigac;ao em que ele foi pioneiro, do tipo de llos que ele possufa, e do tipo de abertura para o estrangeiro eo desconhe' 0 particular e 0 acidental, are 0 extrema e 0 doentio, que ele exibia. Tivemos antes mudanc;as macic;as, continenrais, na sensibilidade religiosa, irnpacro na vida humana, como vemos agora, apesar do carater maltrapit)Ue elas tiveram, foi radical e profunda, consriruindo urna vasta reformulaJo julgamenro e da paixao. Seria uma pena estarmos vivendo em meio a even to sismica e nem sequer saber que ele esti acontecendo. ll.t .1


v11 L~ti l c inwnigivdmcn tc inquisitive, capaz de manter dezenas dclas em ··~·10 ao mcsmo tem po, para conseguir manter-se de pe em meio a essa

9

Um ato desequilibrador: A psicologia cultural de Jerome Bruut.'l'

0 que se esra dizendo ao se dizer "p sicologia": J ames, Wundt, Binet ou Pavltol Freud, Lashley, Skinner ou Vygotsky? Kohler, Lewin, Levy- Bruhl ou Bate' ''" C homsky ou Piaget? D aniel Dennett ou O liver Sacks? Herbert Simon? Oc·.d que foi realmeore lanyada como disciplina c profissao na segunda mecad1 du seculo XlX, sobrerudo pelos alemaes, a autoproclamada "ciencia cia mente'' 11.111 foi perturbada apenas por uma proliferac;:ao de reori as, metodos, teses e tClllt cas. Isso afinal era de se esperar. Foi tam bern impelida par caminhos fanta~t 11 1 m encc diferenres, em fun yao de ideias fanrasticamenre diferenres sabre a<JIIII a que "se refere", como costumamos dizer- o ripe de conhecim ento, o de realidade eo ripe de objetivo que se espera que ela alcance. Vista de fiu 1 pelo m en os, a psicologia nao parece um campo unico, di vidido em escolas ( 1 pecialidades da maneira habitual. Parece urn sortimento de invesrigac;:6es dl pares e desconexas, reunidas numa mesma classe pelo faro d e coda\ • referirem , d e urn modo ou de o utre, a ral ou qual coisa a que se chama "fumt" namento m ental ". Dezenas d e personagens a procura d e urn texto. Vista de denrro, sem duvida ela parece um pouco mais ordeira, nem tjl ll seja pela estrurura academica biza nrina que cresceu a seu redor (a Associr11, I" Americana d e Psicologia rem 49 divis6es), mas decerto nao menos multfpltu As a mplas osci l a~6es entre as concepc;:6es do assunro- behaviorisras, P'H 11 merricas, cognitivistas, da psicologia p rofunda, topol6gicas, desenvolvimc11ll tas, neurol6gicas, evolucion isras e c ulwralisras- transformaram a ativid.ul• do psic6logo nurna ocupac;:ao inqui etante, sujeita nao apenas amoda, como'" das as ciencias hurnanas, m as ra mbem a subiras e frequenres mudanc;:as d. rumo. Os paradigmas , modos in teiramenre novas de proceder em relac;:iio 1 coisas, Surgem n ao a cada seculo, m as a cada decada; aS vezes, chega a part.'t II que surgem a cad a rnes. Epreciso urn indivfd uo sobrenaturalmenre conccnt 1 1 doe dogma tico, capaz. de barrar quaisquer ideias senao as suas, o u urn indivl

''I'"

166

holhada de projetos, promessas e proclamas:6es. Na psicologia, existe urn numero muito maier de pessoas decididas e imvcis, no genera esprit de systeme (Pavlov, Freud, Skinner, Piaget, msky), do que do tipo agil e adapcavel, com esprit de finesse Games, Bate' s.,cks). Mas e a escas ulcimas que claramente pertence J erome Bruner, auuu co-aurar de mais d e vinte livros e Deus sabe quantos artigos, sabre urn quase identico de assuntos. N uma carreira agirada e cheia de guinadas, de algu m modo, profundamente consequence, que abarca quase sessenta , Bruner esbarro u em quase codas as linhas de pensamento na psicologia e u algumas delas. Essa carreira com es:ou em H arvard, na dc:!cada de 1940, durante o auge do iorismo , das corridas de rates nos labirintos, da reperis:ao de sflabas sem tide, cia discrim inas:ao d e d iferenc;:as sensoriais e da medis:ao d e respostas nicas. Mas, insarisfeito com a acumulas:ao de "dados" experimentais so'luest6es perifericas (o p rimeiro escudo profissional de Bruner envolveu o icionamenco do "desamparo" num rata preso numa grade eletrificada), nao tardou a se jumar ao banda crescenre de colegas igual mente irrequietos, ro e fo ra cia psicologia, rransformando-se num dos lfderes da cham ada ReCogniciva. No fim cia decada de 1950, essa revoluc;:ao ja esrava em a ndamento, e "traa mente de volra" to rnou-se o griro de guerra de coda uma geras:ao de psic6' linguisras, modeladores do cerebra, ern6logos e cientisras cia rm:irica, alem de algu ns fil6sofos de orientac;:ao empirista. Para eles, os obprimordiais de escudo nao eram a fo rc;:a dos estfmulos e os padr6es de resm as os arcs m enrais aren rar, pensar, compreender, imaginar, r, sen tir e conhecer. Com urn colega d e ideias semelhantes, Bruner lanuma serie fa mosa de experime ntos de percepc;:ao baseados na "Nova V i", para demonstrar o poder da seletividade mental ao ver, ouvir e alga. As crians:as mais pobres veem uma mesma moeda como senmaier do que a veem as ricas; os alunos universitarios sao muito mais Iemos c.lcfensivos") ou muito m ais rapidos ("vigilantes") no reconhecimenro de pas ameas:adoras do que no das nao ameas:adoras. Com dais de seus alunos, ner realizou urn escudo do raciocfnio abstrato que foi urn marco. De que as pessoas tescam na p dtica, e nao na l6gica, suas hip6teses? Como dcci o que e perti ne nce a uma explicac;:ao eo que nao e? E, em 1960, ele eo psi inguista George M iller, o utre espfrico irrequieco, fundaram em Harvard o tro d e Escudos Cogni ti vos, de caracer inrerdisciplinar, pelo qual passaram, m ou noutro momenta, praricamente codas as figuras de proa desse campo


Um ,,, drlftJIIIIi/n,,,!,,,

I! oR

j:l cscabclecichs o u em processo de se esrabclecer, e que dcscncadcou 11111.1 plosao de cen rros simi lares e rrabal hos si mi lares nos Esrados U nidos c no ( rior. "Cerramenre ge ra mos urn ponro de vista e are urn o u dois modt\luO escreveu Brune r sobre seu trabalho eo de seus colegas nesse perfodo, l'ln 11 aurobiografla (que alias revelo u-se premarura) de 1983, fn Search of Mu 1 "Sobre as ideias, como e que se po de saber?" Passado a! g um tempo, o pro prio Bruner desencantou-se com a Rcvolu~ Cogniri va, o u , pelo menos, com aqui la em que ela se havia transformado I sa revolucrao", escreveu ele no infcio de Acts ofMeaning, de 1990, que fo 1 11111 proclamac;ao de uma nova direc;ao como "ad eus aqui la rudo", prerendeu reinrroduzir a "mente" nas cicncias humanas, depois de um longul 1 nebroso inverno de objerivismo .... (Agora, porem,) desviou-se para quesroe' IJII sao marginais ao impulso que !he deu origem. Na verdade, rornou-se recnica .1 111l ponro que chega a solapar esse impulso original. 0 que nao quer dizer que luth• fracassado: Ionge disso, pois a ciencia cogniriva por cerro dcve esrar entre a!> '\" mais valorizadas da bolsa academica. ~ posslvel, ao conrdrio, que renha sido d( virruada pelo sucesso, urn sucesso cujo virtuosismo recnol6gico cusrou um P" \'' alto. Alguns crfricos ... chegam a afirmar que a nova c.iencia cogniriva, filha da It'~" lu~o, conquisrou seus sucessos tccnicos ao prec;:o de desumanizar o proprio COlll> 1 to de mente que havia procurado restabelecer na psicologia, e que por isso a(;l\11'\1 grande parte da psicologia das ourras cicncias humanas e das humanidades: Ao salvar a Revolucrao Cognitiva de si m esma, disranciando-a do reduc111 niSl110 de alta teCnologia (0 Cerebra C 0 C0111pUtador, a m ente C 0 aplicatiVO, II pensar eo aplicacivo processando a informac;ao digitada no compurador), 8111 ncr levantou mais uma bandeira, aproximada me nrc nos ulrimos dez ai10\, anunciando mais uma direc;3.o: a "Psicologia C ultural". 0 que se coloca agot 1 110 centro da aten<f5.0 e 0 engajamenro do indivfduo nos sistemas esrabelecidu' de s ig nificados comparrilhados, nas crenc;as, valores e entendimenros dos qtu ja esrao insralados na sociedade em que 0 indivfduo e lan<rado. Para Bruner. II "quadro de tesragem" crucial desse ponro de vista e a educac;5o- 0 campo J.l\ pr:lticas em que se eferua o engajamenro, antes de m ais nada. Em vez de unu psicologia que ve a m en te com o urn mecanisme programavel, precisamos dt um a que a veja como uma co nqui sra social. A ed ucac;ao "nao e simplesme1111 um a questao tecnica de processam enro bern ad minisrrado de informac;ocs, nem rampouco uma simples questao d e cmpregar 'teorias de aprendizagem' n 1 sala de aula, o u de usar os resultados de 'testes de aproveitamento' cenrrados no sujeito. E a busca compl exa d a adeq uac;ao de uma c ultura as necessidades d<· seus inregrantes, e dos m odos de conhecer desses inregrantes as necessidades d.1 3 cultura".

"IUIJ~Io J c Bru ne r com a educ:.~<;ao e a pol! rica educacio nal data c.los csdo dcscnvolvimenro menral em bebes e crian~s muiro pequenas que, 1ua rcs1stencia c rescenre ao cognir ivismo maquinal, ele come<fOU a fazer em

dos anos sessenca, justamenre- assim funciona o Zeitgeist- no mol'lll que o programa Head Start, com as fanfarras da Grande Sociedade, grandiosamenre em cena. Esses escudos o levaram a uma visao "exrert.•rna" d esse d esenvolvimenco, uma visao que se interessa pelo "ripo de nccessirio para possibilirar o uso eflcaz da m ente (ou do corac;ao!)os tipos de sistem as de slmbolos, quais os ripos de narrarivas do passado, ancs e ciencias".4 0 desdobramenro dos aspectos crfricos do pensamenro an<>, a arenc;ao, junramenre com os o urros, para com os objeros e ac;6es, a · de cren<tJs, desejos e e m oc;6es a rerceiros, a apreensao da imporrangcral das siruac;6es, o senrimenro de individualidade- aqui lo a que Bruner "entrada no sentido" - , rudo isso come<tJ muiro cedo no processo de nvolvimen ro, an res nao apenas da escobrizac;3.o formal, mas antes damare da aquisic;ao da linguagem. "Os bebes, co m o se consrarou, cram muiro intdigenres, mais dorados de iniciariva do que reativos em termos de ~og­ • e mais arenros ao mundo social imediaro a seu redor do que se suspenara riormenre. Decididamenre, nlio hab iravam num mundo de 'confusao alae florescenre': pareciam estar a procura de esrabilidade prediriva des.

, •

nS

llliCIO. 0 progra ma Head Startcomec;ou com uma visao bern diferenre -.comtar, sob cerros aspectos, conrrasranrc, em o utros- do desenvolvlmenprim:lrio, baseada num con junto bern diferenre de invesrigac;6es ciendflcas: que mosrrava m que os animais de labo rat6 ri o c riados em "ambiences empo' com poucos desafios e rcduc;ao dos csdmulos, nao se safam rao bern ro os " normais" em tarefas padro nizadas de aprcndizagem e resoluc;ao de mas, tais com o correr em labirintos e enco ntra r ali m enro. T ransferido, tcrmos mais metaf6ricos do que experimentais, para a escolarizac;ao cas criem idade escolar, isso levou a chamada hip6rese da priva<rao cultural. As nc;as criadas em meios culrurais "empobrecidos", no guero ou Ia on de fosse, nlo se sairiam muiro bern na escola, por essa razao. Dal a necessidade de uma ida correriva, para enriquecer desde cedo seu ambienre, antes que o mal 0

fosse feiro. Oaf o Head Start. Apa rte 0 faro de que a ideia de corrigir a "privac;ao cultural" dep~nde de 11bcr em que consisre essa privacrao (na maioria das vezes, rem-se constdcrado que ela consisre num desvio dos pad roes de uma cultura n?rte-ame~:can.a idea llzada, de classe m edia), essa abordagem parece presum1r q ue 0 enfl(jlll'LI menta cu ltural" e urn bern a scr fornecido as crian<ras desfavorecid;ts prl.1 10cicdade mais amp la, como uma refeic;ao quente o u uma vacina conu.1 .1 v.t


17()

1/m,ttfl rlrutptiltln.ulm

a

a

rfola. ~o n s i dera-se que fa! ra algo crians;a, e nao que ela esta p rocm .t dl .1 , 1 ela e v1sta como recebendo a cul rura de ou rro Iugar, e nao como a consttt tt uo l in situ., com 0 ma terial e as inre rat;:6es que Ihe esrao imediaramem c a1110\0 . I\ ttl ner foi consultor d o Head Start p or algum tempo e ainda d e fen de seus su1, .. ,, muiro reais e suas p ossibilidad es de amplia<?o e reforma (afi nal, ele lllll ]•Itt grama "extern o-inrerno") . M as aftr ma que os resul tados d e seu ripo de pt'"l' 'l sa d o desenvo lvimenro me ntal d as c rianc;:as que, a esta .dtt 11 rransform ou-se num campo pr6prio, que produz mais e mais provas da cap.~o 1 dade conceirual d as crian s;as - rorna o bsolera a abordagem d a "priva\·'" Co nside ra r ate o bebe e a cri an c;:a p re-escolar como agenres ativos, dercmtllll d os a d o minar uma fo rma part icu lar de vida, a desenvolver um modo opct.u 1 o nal de ser/esrar n o mundo, exige que se repense todo o processo educaciott.d Trata-se menos d e d ar acrianc;:a a lgo q ue lhe falra do q ue de facilitar algo 'I" ela ja re m: o desejo d e da r senrido ao self e aos o utros, o impulso de comptt·, 11 d er que d iabo esra aco ntecendo.

c

1?1

sc asscmclhanclo m uiro a anrropologia, incorpo ra di retamcnlc uma 1iva ecletica e uma vasra amb ic;:ao. Parece romar por objcro roda a expci.t e rcco rrer a toda a erudic;:ao para encontrar seus meios. Com tanras por11 ab rir e tantas ch aves com q ue ab ri-las, seria urn d esatino tentar abri-las de uma vez. Por esse camin ho, sabe-se cad a vez m en os sobre cada vez A porta que Bruner, sensfvel como sem p re aos aspectos p r:hicos da pes. quer abri r - o q ue nao chega p ropriamen te a surp reen der, dados os rett·~ avanc;:os da "reoria do discurso", da "an:il ise dos a ros de fala", da rprctac;:ao das culruras" e da " hermeneutica da vid a coridiana"- e a narlli \\O

IV.I.

C on tar hist6rias, sobre n 6s mesm os e sobre os o utros, a n6s mesmos e aos rns, e "a maneira mais natural e mais precoce de o rgani zarmos nossa expe8 i;l e nosso conhecimen to". Mas d ifici lmenre se imaginar ia isso a partir da · cducacio nal padron izada, adestrada como e em testes e receiras: A convenc;:ao da maio ria das escolas rem sido a de rratar a arre da narrariva- as canc;:6es, o d rama, a ficc;:ao, o rearro, seja Ia o que fo r - mais como uma "decora!fio" do que como uma necessidade, como algo com que enfeitar o lazer, ou, as vczes, are como algo moralmenre exemplar. Apesar disso, for mulamos os relaros de nossas origens culturais e das crenc;:as que nos sao mais caras sob a forma de hist6rias, e nao eapenas o "conreudo" dessas hist6rias que nos atrai , mas seu arriffcio narrative. Nossa experiencia imedia ra, o que aconreceu onrem ou anreonrem, e formu lado dessa mesma ma neira historicizada. 0 que im pressiona ainda mais e que represenramos nossa vida (para n6s mesmos e pa ra os ourros) sob a forma de uma narrariva. Nao ede surpreender que os psicanalisras reconhec;:am agora que a idenridade implica a narrativa, sendo a "neurose" um reAexo de uma hisr6ria insu ficienre, incom plera ou impr6p ria sobre o prop rio sujei to. Lembremo-nos de que, quando Peter Pan pede a Wendy que volre com ele para a Terra do Nunca, a razao que fornece eque ela poderia ensinar OS Meninos Perdidos de Ia a conrarem 9 hisr6rias. Se soubessem conra-las, os Meninos Perdidos poderiam crescer.

Para Bruner, o fato r facilirad or c rucial, aquilo que concenrra a mente, l 1 culrura - "o modo de viver e p ensar que consrrufmos, negociamos, insritutt• • nalizamos e, por fim (depois de tudo acerrado), acabam os chamando de 'rc.tll 6 dad e', p ara nos consolarm os" . Qualquer teori a da educac;:ao que renh.t 1 es~eranc;:a de re fo rma-la (e praticam enre nao existe nenhum o urro rip o) prcu. 1 trema r sua atenc;:ao na produc;:ao social do sen tido. Os term os em que a socied,, dee a crianc;:a- a "realidad e" ja presenre e 0 in relecto agil que e fisicamt:lllt atirad o nela - implica m uma a o u tra sao elabo rados, em boa parte, na sala d 1 aula, o ~ pelo men.os o ~ao em nossa socied ad e voltada para a escola. E Ia g ut ~ mentaltdade e m aiS d el tberad a mente m o Jdada, que a subjetividade e mais si~tt maricam enre produ zida e que a in rersu bjerividade - a capacid ad e de "ler 011 tras m entes" - e mais cuidad osam enre c ulrivad a. Pelo menos nos ca~m favoraveis, que tal vez nao sejam in teiramente com u ns, a crianc;:a, "vista conw urn episrem6logo e com o urn aprend iz" , desloca-se para uma co munidade pt.'l manente de adu lros d iscursad ores e crianc;:as ragarelas, onde "aos poucos d.t reco nhece que nao est:i_agindo diretam ente no ' mundo', mas em crenc;:as gut rem sobreesse mundo".

~tdadores e varies outros ripos daguil o que Sa ul Bellow chamou, certa vez, sar-

Essa guinad a para o interesse p elas maneiras co mo os enrendim enros ex tern os da sociedade m ais ampla sao u sados pela crian c;:a em idade escolar, pa 1, 1 to m ar pe, para co nstruir urn sem ido interno d e que m ela e, d o que OS outrm pretendem , do que tende a aco n tecer e do q ue e possfvel faze r a resp eito da~ co isas, ab re a "psicologia cuirural " d e Bruner para uma multiplicidade de que\ toes que no rmal mente sao abordadas po r outras disciplinas - a hisr6ria, a Iitt• ratura, o direito, a fi losofia, a lingiilsrica e, mui to especialmente, essa outt.1 cien cia deso ladoramen te mul tiplice e inconstanre, a antropo logia. Tal psicolo

c:asticamenre, de "professores de real idade"- e 0 palco essencial da educac;:ao: 111 "vivemos nu m mar de hist6rias" . Ap render a nadar nesse mar, a construir hist6rias, entender h ist6 rias, classificar hisr6rias, verificar hisr6 rias, perceber o verdadeiro sentido das h.ist6rias e usar as hist6rias para descobrir como funcionam as coisas eo que elas sao, e n isso q ue consisre, no fu ndo, a escola, e alcm dcla, toda a "culru ra da educas;ao". 0 xis da q uestao, o que o aprendiz aprcndc. llaO importa 0 q ue 0 p ro fessor ensine, e "que OS Seres h umanOS dao semido ,HI m undo co nrando h ist6 rias sobre ele - usando o modo narrative p:1~o1 cnll \

C rescer entre nar rativas -

as pr6p rias, as dos professores, colegas, pais,


(lm•lltl tlrcrtJIII!tlll.ulm

172

11

truir a realidade". As hisr6rias sao ferramenras, "instrumcnm(s] da 12 pro I da criac;ao do senrid o" .

m l'll ,.

Brune r uaw de cx por as dires;6es em que a psicologia cultural dcvcd sc c procura descrever como devera ser sua relac;ao com outras aborda-

10 1

dn "cswdo da mente". Como de praxe, sua aritude e concil iadora, ecletica, vigorosa e otimisra: 0 trabalho m ais recenre de Bruner, portanro, dedica-se a levanrar as impl1Li\ c;oes dessa visao da narrariva com o "um modo de pensar e uma expressao d.1 VI 13 sao de mundo de uma cul rura". E le deu ink io a invesrigas;6es sabre o Cl l \ 1111 da ciencia, a "pedagogia popular", a na tureza cooperativa d a aprendiz.agcrn co nsrru c;ao infanril de uma "reoria da mente" pa ra ex plicar e comprccnJlJ "'' tras mentes. 0 autis mo como incapacidade de elaborar essa teoria, os aspt·t tcti formais da narrariva, a cultura co mo pr:lxis e as abordagens educacion ~ I '· d Yygotsky, Piager e Pi erre Bourdieu, relacionadas com a de Bruner, mas 1111111 certa ten sao com ela, rudo isso rem sido discurido, pelo m e nos de passagem l) mesmo rem aconrecido com as descobertas recentes da primarologia, os v-1 11 dos comparatives da educac;ao e m culruras diferenres, os testes de Ql , a " rm11 cognis;ao" (" pensar sabre o pr6prio pensamen to"), o relarivismo e os uso' do~ n eurologia. Esta tudo em movimenro; uma m assa asso mbrosa vai passa 11dt1 numa velocidade assombrosa. Isso nao c uma falha muiro grave, see que chega a constituir uma falha, Ill) que ainda e uma serie de incurs6es que mais se destinam a dcsbravar urn rcrnt•• rio do que a mapea-lo e povoa-lo. Mas deixa are OS crfricos simparizantes mt I perdidos, em se rrarando de saber para onde vai tudo isso, o que vern a sera "p·.r cologia culrural" como urn campo entre outros, como uma empreitada con ll nua, com urn estoque de quest6es e urn plano para enfrenti-las. Pode-sc rer llllll ideia disso, e clara, exa minando as dezenas e dezenas de investigas;oes tecnica\ d. Bruner, ou perseguindo suas ciras;6es ainda mais numerosas de esrudos de colt gas sabre coda sorre de coisas, d csde "a compreensao do numero pela crians:;t' r "vers6es orais da experiencia pessoal" ate a "amilise custo-ben effcio da educa<;·'" prc-cscolar" co "prejufzo no reconhecimento da emoc;ao na expressao facial, t'lll decorrencia da lesao bi lateral da amfgdala humana". Mas, como a maior parte dessa "literatura", envolta em estatfsticas e ap11 sio nada em protocolos, dispersa-se pelas publicac;6es especializadas e pdo• simp6sios disciplinares, pouco provavel que outras pessoas, alem dos especi.t listas, tenham paciencia para essa tarefa. Alguns verdadeiros trarados mais a sumidos, e, portanto, mais acessfveis, obras de sfntese elaboradas pru disdpulos, colaborado res e seguidores de Bruner, com ec;am a ser lanc;ados cnt quanridade crescente, e por eles se pode rer uma ideia urn pouco mais clara d, onde se enco ntra nesre momenro toda essa empreirada, e do progresso que cl.t 14 vern obtendo. E, na pane final de seu livro mais recente, urn a parte deno mr nada, com uma cerreza hesitance, de "0 pr6ximo capitulo da psicologia" , 11

e

Podc uma psicologia cultural ... isolar-se do ripo de psicologia que conhecemos no passado, enraizada na biologia, orienrada para o indivfduo e dominada pelo j,,borar6rio? Oeve o esrudo mais siruado da menre-na-cultura, de espfrito mais tnterpretarivamenre anrro pol6gico, jogar fora tudo o que aprendemos antes? Alguns aurores ... prop6em que nosso passado foi um erro, um equfvoco sobre .1quilo em que consisre a psicologia.... [Mas] eu gosraria de exorrar ao final de luma] abordagem "ou isro, ou aquilo" da quesrao do que deve sera psicologia no futuro, se in reiramente biol6gica, exclusivamenre compuracional ou monopolislicamente cultural. Bruner quer mosrrar que psicologia pode, dedi cando sua arencrao a certos rem as cruciais, ... ilusrrar a inrera!fliO das descoberras biol6gicas, evolu rivas, psicol6gicas individuais e culru rais, para nos ajudar a aprcender a natureza do funcionamento mental humano. [0] "pr6ximo capitulo" da psicologia [dira respeiro] a"in rersubjerividade"- a como as pessoas vem a saber o que as outras rem em mente e como se ajusram a isso ... um conjunro de temas ... [que e] central para qualquer concepcrao viavel de uma psicologia cultural. Mas nao se pode entende-la sem referencia a evolucrao dos primatas, ao funciona mento ncurol6gico e acapacidade de processamenro de in-

.1

c1ormacroes da men te. IS

Tudo isso esta muiro born, e eo tipo d e abordagem equil ibrada e sensara

que acenua os conrrasres, d esarma os inimigos, conrorna as dificuldades e seesquiva das decis6es diflceis. Mas fica a sensa<;:3.o de que Bruner subesrima o ~ad.­ tcr explosive de suas pr6prias ideias. Oizer que a culcura e soc1al e his10ricamenre consrrulda, que a narrativa e urn modo de conhecimento prim:\rio, talvez o modo de conhecimento primario d os seres humanos, que montamos as individualidades em que vivemos com o material que existe na ~<X:iedade a n osso redor e criamos " uma teoria da mente" para comp reender a mdividualidade dos ourros, que nao agimos direcamence sabre o mundo, mas aobre crenc;as que alime ntamos a respeito d o mundo, que todos somas, desde o nascimento, "criado res de senti do"' arivos e apaixonados, aprocura de hisr6rias plausiveis, e que "a mente nao pode ser co nsiderada 'natural' ou nua ern nc nhum sentido, pensando-se na culmra como urn acrescimo", roda essa visao corresponde a bern mais do que uma correc;ao do c urse no mcio do c:~mi nho!'' Considerada em con junto, ela equivale a adorar uma postura que bern podC' WI


174

Nm11 /111: u1~rr '' '''""'/'"'"X;,,

chamada de radical, para nao dizer subversiva. Parcce muito cluvidosu que; c sas ideias, assim como ourras q ue lhes esrao ligadas - o perspecrivismo, o 111 uumenralismo, o contextualismo, o anri-reducionismo - , poss.1111 1 absorvidas pel as tradic;:oes correntes da pesquisa psicol6gica (ou, a rigor, pdil ciencias humanas em geral) sem ca..1sar uma boa dose de rebulic;:o e sublcv.t~ m Sea " psicologia cultural" vier a ganhar ascendencia, ou mesmo uma p.ulrl significativa do mercado, ira percurbar bern mais do que a pedagogia. Pois aconrece que, na verdade, nao apenas a psicologia cultural esd c:vnlu indo rapidamente, ganhando forc;:a e acumulando dados, como cresccndn , tao tambcm suas duas rivais (ou alrernativas, pclo menos) mais imponantn o cognitivismo do processamento de informac;:oes e o reducionismo neurul•l" l6gico. A introduc;:ao, nocognirivismo, do processamento paralelo distribuJr ,., (q ue Bruner d escarta, a certa a ltura, como nao passando de uma "vcrsao vd ,, da" do associacionismo behaviorista) e do experimenralismo mediado P"f compuradores deu-lhe uma esp<kie de alenro renovado. A subira profusau .t pesquisas SObre 0 Cerebra, impuJsionadas pcla tecnologia, a extensao da (COli evolucionista a rudo, desde a moral arc a consciencia, o surgimento de tmloi uma gama de filosofias p6s-carresianas d a me nte e, o que talvez seja o mais 1111 portanre, o alvorecer da era do gene absoluto fizeram o mesmo pelo biolog1·. mo. Oianre disso rudo e das questoes morais e pr:iticas que estao em jogo, 1 divisao con es do rerrir6 rio, no esrilo "cada urn como seu pedac;:o", nao partl esrar prevista nas cartas. "0 pr6ximo capfLUio da psicologia" tende mais a ser tumultuado do que sereno, a medida que as abordagens computacional, biol6gica e cultural for~111 ganhando poder e sofisticac;:ao suficientes para lhes assegurar urn impacltt rransfo rmador umas sabre as outras. A simples afirmac;:ao de que a biologia i111 poe " restric;:oes" a cultura, como aconrece, e de que a ciencia cogniriva base.td 1 na informatica Cincompetence para lidar COm "a bagunc;:a da c riac;:ao do SCnll do", 0 que ela e, dificilmenre bastara para resolver as questoes profundas qlll por sua pr6pria presenc;:a. a p sicologia cultural rornara ineviniveis. lnrrodu/11 um camelo tao grandee desajeitado como a antropologia na tenda da psicolo gia contribuira mais para desarrumar as coisas do que para arruma-las ordeir.l mente. No auge do que e decerro uma das carreiras mais exuaordinaria~ t' prodmivas nas ciencias humanas, uma carrei ra d e originalidade continua e t:X plorac;:ao incansavel , Bruner parece esrar em meio a produc;:ao de uma revolu c;:ao mais revolucionaria d o que ele mesmo chega a perceber.

Na a nrropologia, a clareza, a p enine ncia, o poder de analise e are o status mo1.tl do conceiro de culrura fo ram muiro discuridos nos ulrimos anos, sem nenhu

ondu s<\0 muiLO scgura , exccto que, para que a cultura nao seja descanada 11111a rclfqura im penalisra, uma manobra ideol6gica ou uma palavra de , l 01110 sugcrem variadamente seus diversos cr!ricos, e preciso repensa-la nH.: nte. Oar- lhe um papel cen tral no " pr6ximo capitulo da psicologia", ~ugcre Bruner, deve conrribuir bastanrc para esse repensar, alem.de esum questionamento semclhanre ao conceito nao menos d~baudo ~e c. ao qual ele deseja liga-la. Aos enigmas permanen.tes que a~rgem a ~sr­ , 1 - natureza e criac;:ao, de cima para baixo e de bruxo para erma, razao e conscience e inconscientt:, t.ompet~ncia e desempenho, privacidadc c ctividade, experiencia e compo namento, aprendizagcm e esqll(~ci' _ vira somar-se uma mulriplicidade de outros quebra-cabec;:as: senndo causalidade social e inte nc;:ao pessoal, relati vismo e universalismo e, o t.1lvcz seja mais fundam ental, diferenc;:a c rrac;:os co muns. Se ha uma coisa ohccca a antropologia, e a diferenc;:a que a difere nc;:a faz. N:to existe resposta simples para essa pergunta, no que concerne as difeculturais (embora nao raro se forncc;:am respostas simples, em ge ral em cr cxrremado) . Na anrropologia, existe simplesmente a quesrao em si, forlalla e reformulada a cada siruac;:ao. Atirar uma ciencia rao parricularizadora mcio de outras tao decididamenre ge neralizadoras, como a genetica, o promenta d e informaCj6es, a psicologia do desenvolvimento, a gramatica geIVa, a neurologia, a reoria das decisoes e o neodarwinismo, e procurar a fusao terminal num campo - o escudo da arividade mental - ja basrante urccido por projetos impcrialisras, visoes de mundo antagonicas e uma ifcrac;:ao de metodos. 0 que ~hamadam os de "proj~to" de .~runer;, nos •"'""'-~ de Sarrre, implica bern mars do que acrescentar a culrura (ou o sen, ou a " narrativa") a cssa mistura - uma ourra va ria vel de que se tcve noia. Implica, como disse o pr6 prio Bruner, enfrentar o mundo :omo um po de diferenc;:as, "ajuizando as diferentes in,terprerac;:6es da realrdade que ineviraveis em qualquer sociedade variada" .' Ou em qualquer investigac;:ao.autenrica .. T enrar reunir,.~u •. mais ~uid~d~­ llmente relacio nar rudo de manetra produr1va- d esde os untversars pslqurs" e ~ "conrar hist6 rias" ate os " modelos neurais" e os "ch impanzes ICIIhurados", desde Vygotsky, Good man e Barden are Edelman, Simone Premack (para nao falar de Geerrz. e Levi-Strauss!)-, obviamenre implica tanto mnhilizar diferenc;:as quanro dissolve-las, "ajuizando" os contrasres (o que ra~ YM nao seja a melhor palavra), em vez de passar por cima deles ou de encat x4 los a forCja num palido todo ecumenico, daquelcs que trazem ~rna_ sen~a~.l() de hcm-estar. Ebern possfvel que o mais imediaramente necessarto nao scprT conciliar diversas abordage ns do escudo da mente, num ecletismo trantpitlll..l dor, mas joga-las umas contra as o urras de maneira eficaz. Sc esse tl'pullw


176

rnilagroso que e 0 cerebra parece-noS agora rnais adequadamentC COnlpii'Wdl do, em rermos dos processos separados que atuam simulraneamemc, 1.dvc mesmo se aplique a mente com que os biologizadores canras vezes o confun dem. A hisr6ria, a culrura, o corpo eo funcionamenro do mundo ffsi'o '' I mente determinam 0 carater da vida mental de qualquer pesso.• moldam-na, estabilizam-na e a enchem de conreudo- mas eles o f:tll'lll d modo independence, parririvo, cooperativo e diferenciado. Nao desap:un 111 simplesmente numa resultante, como urn punhado de verores incegrant nem se reunem numa conc6rdia lindamente equilibrada e sem arritos. A visao de que a compreensao proveitosa de como conseguimos JWII\ It deve ser uma compreensao em que as formas simb61icas, as tradic;oes hiSIIIJI cas, os arcefatos cu lturais, os codigos neurol6gicos, as press6es ambientai,, •• inscric;6es geneticas e coisas similarcs atuam agindo em con junto, nao ram .11 agonisticamente, parece estar lurando por obter uma expressao mais exal.t 1111 trabalhos recentes, estimulados, ao menos em parte, pelo de Bruner. lJt111 There, de Andy C lark, e dedicado a nada menos do que "reunir novamenl• " cerebro, 0 corpo c 0 mundo". Vygotskyand Cognitive Science, de William Ft.IV, ley, procura "mostrar que a mente humana tanto e Urn constrUCCO social C IIIII dispositive compuracional quanto se op6e a urn ou ao outro". 18 No que w11 cerne a cultura {"os sistemas simb61icos [utilizados] pelos indivfduos na co11 truc;ao do sencido"), aquilo que Clark chama de "imagem da mente co1111• inexrricavelmenre entremeada como corpo, o mundo e a ac;ao" e Frawley de , meme no mundo [e) o mundo ... na mente" torna impossfvel continuar a t·n car:i-la como excerna e complemenrar aos poderes residences do intelecto h11 mano, como urn instrumento ou uma pr6tese. Ela e um ingredienre d e~~l po deres. ·~ 0 rrajeco de nossa compreensao da mente nao consisre numa marcha dt cidida em direc;ao a urn ponto omega em que tudo enftm se encaixa alegreml'll re; consisre na exposic;ao repetida de invesrigac;6es disrintas, de cal modo que vez ap6s ourra, de maneira aparencemente inrerminavel, elas imponham H considerac;6es profundas umas das outras. Consrruir uma "psicologia culrur.d poderosa (ou uma antropologia psicol6gica poderosa, 0 que nao e exacamenlc a mesma coisa) e menos uma questao de criar disciplinas hfbridas, de por hi fens entre elas, do que de desequilibra-las reciprocamente. Numa epoca Clll que as concepc;6es monomanfacas do funcionamento mental, no esri lo "teon.• de tudo", escimuladas pelos avanc;os isolados da neurologia, da generica, d 1 primatologia, da ceoria liceriria, da semi6rica, da teoria dos sistemas, da robott ca ou seja Ia do que for, Iteam cada vez mais na moda, o que parece necessario 1 0 desenvolvimento de estrateg.ias que permitam as "diferentes construc;6es d .• realidade [men tal]", nas palavras de Bruner, confrontar, decompor, energizat t

IJm,lflltlt'Wfllililn.ullll

1'77

im.:ializar umas as outras, assim levando a empreitada erraricamcncc . Ncm cudo o que surge precisa convergir: rem apenas que tirar o meprovcito possfvel de sua incorrigfvel diversidade. As rnaneiras de fazer isso, de cransformar vis6es dfspares e are conflitantes l~ a mente, de como funciona equal e a melhor maneira de esruda-la, Otrl'Livos uteis das certezas umas das outras, sao, e cJaro, elas mesmas muJCXtremamente diffceis de conceber, extremamente diffceis de instauunu vez concebidas, e extremamente susceptfveis, uma vez insrauradas, de .tr uma versao academica da guerra hobbesiana. Mais uma vez, no que rnc a antropologia, o que mais a situa na posic;ao de contribuir para essa c de evicar seus efeitos parol6gicos nao sao suas descoberras parriculares .t feiric;aria africana ou as trocas melanesias, e certamenre nao as teorias ria possa cer desenvolvido sobre as necessidades universais e a l6gica inaca social, mas seu Iongo e fntimo compromisso com a diferenc;a cultural e o funcionamento concreto dessa diferenc;a na vida social. Afinal, invesricnnlrastes, levantar suas implicac;6es e permitir que, de algum modo, eles Ill algoa dizcr as quest6es gerais e seu offcio. Adminisrrar a diferenc;a, ou, caso isso soe demasiadamenre manipulador, · r nela, eo cerne da quesrao. Como acon rece com codas essas iniciarivas, muito mais maneiras de errar do que de acerrar, e uma das maneiras mais uns de errar enos convencermos de que acerramos- a consciencia ex plio modo como a mente funciona, a m:iquina da razao, a ultima palavra. tchead comenrou, certa vez, que devemos co nstruir nossos sistemas e ntc-los aberros, mas, dada a sua pr6pria paixao pela com pletude, pel a certer pcla sfnrese coralizadora, esqueceu-se d e acresccnrar que e muito mais faci l •• primeira que a segunda dessas coisas. A doenc;a do ouric;o e ada raposa u fcchamento premacuro e o medo obsessivo dele, amarrando tudo e deitudo pendente- podem ser igualmente obstrurivas para a movimenranas ciencias humanas. Mas, " na natureza", co mo costumavam dizer os tiviscas, enconcra-se o primeiro com muito mais freqi.iencia do que o se' especialmente nestes dias de visao esrreica d e alta tecnologia. Uma coisa e cerra, see que exisre alga cerro quando se trata de falar de coiwmo sencido, consciencia, pensamenro e sentimenro: "o proximo capfruJa psicologia e da antropologia nao sera urn tipo de discurso ordeiro e bem com os comec;os e meios caprichadamence ligados aos fins. lsolar as ns rivais da compreensao da mente e da cultura em comunidades fc· as ("psicologia evoluriva", "anrropologia simb61ica") ou fundi -las num inclusivo ("ciencia cognitiva", "semi6tica") nao e, a Iongo prazo, Oll :He ;) prazo, realmente exeqi.ifvel- de urn !ado porquc reifica a dife n.: n ~:ll' .1


cnaltcce, de o utro porquesu b esc ima sua ubiquidade, sua inerradicabil id ul sua ro rs:a. A ratio de o jargao juridico "ajuizar" nao ser a mel ho r palavra p :H;J ·'I"''' tar a alterna tiva a essas m a neiras :::le evirar as q uesr6es e que ele sugere l llll "11111 zador", algo (ou alguem) que separe as coisas, co ncilie as abordar' '' orden e-as hierarq uicameme o u escolha entre elas. M as, seja qual fo r a o11lt 1 que em erge na m enre o u na cui u ra, ela nao e produzida po r urn p roccsso 1, 11 tral reina nte o u por uma estrutura dirctiva; e produzida pela inrerayao ... lu Ill do que q uer que esteja i nteragindo no caso. 0 futuro da psicologia cul ru1.tl d pendera da habilidade de seus praticantes de rira r proveito d e uma situ.'\ 1 muiro turbule nta e deseleganre - uma siruacrao em que sao singulatll\1111 adequad as a franqueza, a receprividad e, a adaprabilidade, a inven rividadt ' inquietacrao imelectu al, p ara n ao falar no o timism o, que caracrerizaram u1 1 1 balho de Bruner d esd e seus prim6rdios. A visao eo exemplo dele pareccm I''" pensos a vicejar, seja que m for que d e conrinuidad e a narrativa, eo que 'I" ' 1 que ela venh a a dizer.

Cultura, mente, cerebro I Cerebro, mente, cultura

111ropologia e a psicologia escolheram en tre si do is dos objetos mais impro' em torno d os quais tenrar consrruir uma ciencia posiriva: Culrura e tc, Kultur tmd Geist, Culture et Esprit. Ambos sao heran cras de filosofias ex'·"· ambos rem hist6 rias variegadas de in flacrao ideol6gica e abuso ret6rico, e hos tern usos cotid ianos am plos e mulriplos, que inrerferem em qualquer 111~0 de estabilizar seu sentido ou transforma-los em especies naturais. FoIl rcperidamente conden ados como m fsticos o u meraffsicos, reperidamenre udos d os reci nros disciplinados da investigacrao seria, e repetidamenre serel.un a ir embo ra. Quando eles se aliam, as d ificuldades nao fazem simp lesmente somar-se, cxplodem. O u se prop6em e elabo ram rcd ucroes mais ou menos complicas t' igualmenre implausiveis do p rimeiro ao segundo ou do segundo ao priIO, ou se descreve entre eles algum sistem a de interacrao teoricamente rincado, que deixa sua poss ib ilidade de separayao sem quesrionamento e seu indererminado. Mais recente men te, a medida que se desenvolveram as Ill ias cogn itivas, h o uve u ma te ndencia a fugir desses termos, mais ou menos 111pletamenre, e, em vez d eles, a falar em circuiros neurais e processamento mpuracio nal, sistem as programaveis artificial m ente instrufdos- tatica que 111a intocadas e intodveis as quesr6es da habita<;ao social do pensamenro c ' bases pessoais da significa<;ao. No que concerne a anrropologia, essas dup las quest6es, mal formul:td.t\ 1 t•vitadas- a nat ureza menral d a culrura, a natureza cultu ral da mcmc 111 -na atormenrado desde seus prim6 rdios. Das rumina<;6es de Tylor sohtl' ·'' n,uflciencias cogn itivas da reli giao primitiva, na decada de 1870, p:m.\lldu l.ls de Levy-Bruhl sabre as participa<;6es simparicas e 0 pcnS.IIlll'llln 16gico, na decad a de 1920, ate as de Levi-Strauss sab re a bricolagr, m ttlltt nt.ts c fa pensee sauvage, na decad a de 1960, a q uestao da "mental id.tdt· Jl'""i' i

r ru'

179


IHU

( u/11nt1, 111r111r,

va"- o grau em que os chamad cs nati vos pensam de ma neira Jircn:111 dt (tambem c ham ados) ci vii izados, a\.an~ad os, racio nais e cientffl cos -tl'ln .It I dido e confundido a teoria e tnog rafica. Boas, em A mente do bomem prt M alinowski, em J\1agia, cihzcia e religiiio, e D ouglas, em Pureza eper~v..o, 1 entraram em lura com o m esm o anjo: colocar numa rela?o inreligfvcl, u!IH dizem va riadam e nte el es e seus seguidores, o inte rnee o externo, o priv.1d•• pt'1b lico, o pessoal eo social, o psicol6gico eo h isr6rico, o vivencial eo COI11 f11lt tam ental. M as talvez seja exatam ente essa suposis:ao- a de que o que esta em 1'•1111 e precisa ser d eterminado e uma especie de ligas:ao que esrabeles:a uma I'""' e ntre o mundo d enc ro do crania eo mundo fo ra dele - que cria o problt 1111 an tes de m ais nada. D esd e que W ittgenstein demoliu a pr6 pria ideia dr 11111 linguagem privada e da consequente socializas:ao d a fala e do sencido, a lm •II zas:ao da m ente na cabes:a e da cultura fo ra dela ja nao parece ser senao tllll t~l vio e inco ntroverso senso comum. 0 que esta de ntro d a cabes:a e 0 cerchiU mais umas outras coisas bio l6gicas. 0 que esra fora sao os rcpo lhos, os I t lA uma po rs:ao de o utras coisas. A pergunra subversiva do fil6sofo cogni rivo A11tl C lark, "Onde rermina a mente e com es:a o resto do mundo?", e tao pouco I' 1 sfvel de resposta q uanro sua correlata igualmenre exasperante, "O nde tc ttlllll a cul tura e comes:a o resto do self?"' Boa pa rte d os trabalhos recen tes do que passou a ser co nhecido como ' t• I cologia cuiLural" rem consisrido em tentati vas - algumas impressio n;HII• o utras bern menos, e codas manuseando confusame nte o m aterial de div,, J disciplinas- d e navegar em to rno d esse duplo dilem a, ro rn ando a concdu1 11 mentalidad e e 0 scn tido em term os menos incisivos, isto e isto, aquilo e aqlll l•• Os pr6prios rftulos d os esrudos desse genero emergence - A culturananu"'

Men tes reais e mundos possiveis, Pensando atraves das culturas, A mente disn11•l va, A vida interna: a mente externa, Como pensam tts instituiroes, Passos pam //Iliff ecologia da men tee Maneiras de constntir o mundo- sugerem seu alcancc ' ' ' 2

cente e sua ap reensao insegura. "Tornar a reunir", para citar novanHIII C lark, desra vez em seu d rulo , "o cereb ra, o corpo eo mundo" e urn a sen h.. ,~ rarefa, d ifusa e ambiciosa. M as e uma tarefa que enfim fo i iniciada para v.d, 1 O u q ue recomes:ou, com o su gere o drulo do levanramento recenre qut• ~II chael Cole fez desse assunro variegad o : Psicologia cultural: a ciencia de wn r/r.( 1

do jitturo.·

Como muitas vezes aconrece com os d esvios necessarios dos m erodo~ 1" nhecidos, o primeiro passo, nesse esfo rs:o de relacio nar o que os psic6log•• voltados para dentro, ap rend eram sobre como os seres humanos raciocin.1111 sen re m, recordam , im aginam e decide m com o q ue os antrop61ogos, volt.u l•• para fora, aprenderam so bre com o o senti doe co nstruldo, aprendido, impmlu

drr/Jm

IKI

t~ fot nudo, Lcm sido 6bvio h:i algu m Lcmpo, mas e cu riosamcnlc diffc:.il lJII.IIquc r dcsses ripos de invesrigadorcs. T rara-se do abandono da ideia de o l<1rcbro do Homo sapiens e capaz de u rn funcio namenro autonomo, cad" opcrar co m efi clcia, o u sim plesmenre sequer de operar, como urn sisrecndogcnamenre acionado e independenre do conrexto. Pelo menos desde a ri~, .IO pormenorizada dos esragios incipiences e pre-lingufsticos da hominikranios pequenos, estatura creta, urensfl ios p lanejados), iniciada ha cermcio seculo com a descoberra de f6sseis p re-pitecanrrop6 ides e sfrios do do pleistoceno, 0 faro de 0 cerebra e a culrura terem evolufdo juntos, a d cpcndencia redproca para sua p r6p ria realizac;:ao, tornou insustenravel t•pc;ao do funciona m enro m ental humano como urn processo intracereimrinsecamen te determinado, que seria o rnamenrado e ampliado, m as dintc gerado, po r recu rsos culturais - a linguagem , o rito, a tecnologia, o c o tab u do incesro. Nosso cerebra nao se enco ntra num tonel, mas em <.:orpo . Nossa mente nao se encomra em nosso corpo, mas no mundo. E, ao mundo, ele n ao esra em nosso cerebra, nosso corpo ou nossa mente: c que, junto com os deuses, os verbos, as pedras e a polfrica, esrao nele. Tudo isso- a evolu?o coetanea do corpo e da cultura, o carater funcio. ,.,,.,.,_.,. incomplero do sistema nervoso hu mano, o faro de o senrido ser urn ente do pensamento e de o pensamenro ser um com ponente da pratica augcre que o cam inho para u ma melhor compreensao do biol6gico, d o psi. ........·.. " e do sociocultural nao passa pela d isposis:ao deles numa especie de hiia da cadeia do ser, estendendo-se do ffs ico e do biol6gico ate o social eo i<Slico, com cada nivel em ergindo c dependendo do que !he esta mais abai(C', <.:om sorte, sendo redutfvel a ele). Ta mpouco passa po r rrata-los como redescontfnuas e soberanas, como campos fechados e isolados, amen te ligad os uns aos o utros (" numa interface" uns com os outros, J iz o jargao) atraves de fors:as, farores, q uan tidades e causas vagos e acilais. Constituindo u ns aos ou rros e recip rocamenre consrrurivos, eles descr trarados como rais - como com plemenros, nao niveis; como aspectos, cmidades; com o paisagens, nao domfnios. lsso ralvez seja discudvel. Sem duvida, e muiro discu tido. 0 que parece O S d iscutfvel e que, a medida q ue avans:a nossa compreensao do cerebra, processamen to d a informac;ao, do d esenvolvimenro individ ual, da comunisocial e do compo rta m en to colerivo, da perceps:ao, da cmos:iio, da fan raJa memoria e da formacrao de conceiros, e tambem da referencia, do "do, d a represenrac;:ao e do d iscurso, e ava ns:a de maneiras d iversas, numa ic de consciencia caurelosa e oblfqua u ns dos o urros, visros pelo canto do a possibilidade de reduzi r rodos eles a u m s6, d e sep ara-los em comparu los estanques, o u de reuni- los n uma sfntese ab rangen re, como uma tt•ori.l


f':t~lmm, mffltt, rlrtbrn

Ill.!

de tudo, vai licando cad::~ vez mais -emota. Ao que parccc, nao cst.lllltl~ \ 11 (jando em dirccyao a urn fim predete1minado onde rudo se junta, a B:~hd t faz. e o Self se une a Sociedade. Ao conml.rio, estamos assisrindo a uma proli ferac;:ao cada vcz. m:m '·'l'ld a uma invesrida, na verdade, do que Thomas Kuhn chamou de matrtzc, dt 1 plinares- moncagens solcas de recnicas, vocabuhl.rios, pressuposros, in tHI menros e realiz.ac;:oes exemplares que, apesar de sua especilicid.ul(' originalidade, ou ate de sua income:-1Surabilidade grandiosa, influem co111 I •f <;a sempre mais inrensa e com uma precisao crescenre sabre a velocidadc .. 1 lh rec;:ao e os pormenores do desenvolvimento uns dos outros. Tc11111~ concinuaremos a ter, no futuro previsfvel, um campo cada vez mais difcrl'llt.l do de disciplinas semi-tndependentes e semi-imerativas, ou de marrizcs di I plinares (e de comunidades de pcsquisa que as respaldam, celebram, crirk.tlu; ampliam), dedicadas a tal ou qual abordagem do escudo de como pensamu com 0 que pensamos. E e dentro desse campo, disperse, dfspar e em COillllltiA mudanc;:a, que devemos, de diversas maneiras, aprender a tocar nao um proJc 111 com urn -ja que Sigmund Freud e Noam Chomsky, Marshall Sahlins c I t) Wilson, Gerald Edelman e Patricia Churchland, Charles Taylor e D.111cd Dennett nunca se aproximarao o basrance uns dos outros para permicir que 1 so aconcecya -,mas uma colecyao semi-ordenada e policenrrica de projetos 11111 tuamenre condicionados. lsso, por sua vez, sugere que alguem que esreja ccncando, como fa<;o aq111, nao relatar descobercas espedficas ou avaliar proposras espedficas, mas dcsllt vera sirua<;:ao geral, fad bern em tcnrar examinar sinopricamenre o campo 111 ceiro, ainda que ele seja disperse, irregular e resisrentc a sfnccse como e. Nc" ultimos anos, acosrumamo-nos cada vez mais a lidar com sistemas disrributl vos, parcial mente ligados e auronomamenre organiz.ados, especial mente na c11 genharia e na biologia, c nas simulacy6es de cudo em computador, dcsdc formiguciros e monragens de neuronios ace 0 desenvolvimento embrionario' a pcrcepcyao de objeros. Mas ainda nao cscamos habituados a olhar dessa m.t neira para macrizcs disciplinares ou para a inrcracyao de macrizes disciplin;m\ Parece aconselhavel que urn campo (antigo ou futuro) como a "psicologia cui rural", interessado exaramence nessa 1nterac;ao entre a borda gens dessemelhan res, apaixonadas e ace ciumenras e incompatfveis de "como pensamos n6s. m nativos", e tambem entre os parrid:irios ardorosos que as levam competitiva · mente adiame, acostume-se a faze-lo. 0 que vamos enconcrar aqui nao e llllll coordenacyao ngorosa nem uma dispura displicente de divergencias, na base do cada um por si. 0 que cncontraremos e estamos encomrando e uma argumcn rac;:ao rigorosa, que se aguc;a e se aprofunda. E. se voce acha que as coisas andam rurbulenras, espcre s6 para ver o que vern por af.

18~

Jl~&r.t 10rn.1r tuc.lo isso um pouco mais concreto, em vcz de meramentc proiw c.: cxonarono, pcrmiram-mc, aguisa de urn breve exemplo, to mar ~I di\cussocs rccenrcs, na anrropologia, na psicologia e na neurolog1a, c!>s.1 panicularidade sumamente csquiva e variegada de nossa vida imediaqud.1 de que Hume achava que a razao era e devia ser escrava em toda parscj.l, a "paixao"- "emocyao", "sentimenro", "afero", "aricude", "esrado

mu", "desejo" ou "temperamento". T:unbcm essas palavras definem urn espacyo, nao uma enridade. Elas se sum, difercm e contrastam, junrando-se apenas em rermos obliques de ~c:mdhancya familiar- polireticamentc, como se coscuma dizcr; o prebleest a menos em lixar seus references (coisa notoriamente dificil de fazerfica a "inveja", que ea "saudade"?) do que em delinear seu alcanc~ e apliComecyarei pcla antropologia, nao s6 porque conh e<;o o marenal com cxaridao, mas porque eu mesmo lui meio envolvido nessa hisr6ria- acuna verdade, de haver "ajudado a obrer permissao para que os ancrop61onaltural-simb61icos desenvolvam uma antropologia do self e do 1 imcnro", coisa aparenremente lamencavcl. 0 que quero discutir aqui, en0, nao e meu pr6prio trabalho, que nesse aspecro foi mais de assessoria de aucorizacyao (uma palavra ao pe do ouvido, e nao uma espccie de bencyao liccnya para praticar), e sim o dos chamados re6ricos culcuralisras, ou da simb61ica, da paixao e do sentimenco. Esses re6ricos {c pesquisadores de campo, como e a maioria deles, basica, dos quais Michelle Rosaldo, Catherine Lurz., Jean Briggs: Richa_rd 11n1vec1er, Robert Levy e Anna Wier7.bicka sao, inter alia e de manetras var.tacxemplos representatives, adoram uma abordagcm essenc.ialmente seml6das emocy6es- uma abordagem que as ve em termos dos tnsrrumentos de ificacyao e das praricas de consrrucyao atravcs dos quais elas rec~bem for_ma, · e circulacyao. ~ As palavras, imagens, gestos, marcas corporals e termtno, assim como as hisr6rias, ricos, costumes, serm6es, melodias e conversas, sao meros velculos de sencimentos alojados noucro Iugar, como um punhado de reflexes, sintomas e transpiracy6es. Sao o Loewe a maquinaria da coisa tm st.

'' [Se] remos a esperancya", escreve Rosaldo, com a inaptidao hesirante que nsc ripo de visao rende a produzir, dado o cartesianismo ar~aigado de nossa hnguagem psicol6gica, "de aprender como as cancr?es, as desfettas_ou as mata~1~s podem agirar os coracy6es humanos, remos de tnstrUI~enrar a tnter_preca~ao com uma apreensao da relacyao entre as lormas expresstvas e os sennmcntos, que estao ligados aculcura e derivam sua si gn iGca~ao do Iugar_ que 0Cl~!Xll11 11•1 cxperiencia de vida de pessoas parriculares, em soc1edades parncularcs. C.omn qucr que se parecya seu aspecto geral e por mais uril que seja comp;td Ia,, ,\


lli-1

( ulfln.l, mrlllr, rrrdn'll

ira-menis de A quiles e a furi a-liget ::los casadores de cabecy..1.s qut; Ro\.dd .. t 11 co ntrou nas Filipinasextraern sua subsran cia especffica, diz a auto r:t, d1· ', "" rexros distinros e ... forma[s] disrinra[s] de vida". Sao " m odelo [s] [lot.thlll apreensao, m ediada por formas culturais e po r uma 16gica social [loc:ti'l Parrindo desse tipo de plataforma geral, a pesquisa pode tamar divt•t '·' ~ .11 rec;6es, a maioria das quais foi pelo menos provisoriamente explo rada. bd··t estudos sobre o "vocabulario da emoc;ao", desrinados a deslindar o scnlidc• ,j termos culturalmente espedftcos para designar senrimentos, atitudes c C\t.~clu de espfrito, como fez Rosaldo como Liget dos I longot. (Na verdade, essa pal ,l\' 1 impropriamence traduzida par "furi a". Aproxima-se mais d e "energia" ou "f,,, vital", mas nem essas traduc;oes servem. Ha necessidade, como em rela~·'' ' 111 menis da Ilfada, d e glosas extensas, exemplos d e uso, discriminac;6es context" 11 implicac;6es comportamcntais e termos alternatives.) Toda uma gama d e ant til p61ogos, inclusive eu mesmo, tern prestado servic;os sem elhantes a palavr.l\ 'I" sao, etnocentrica, tendenciosa ou apenas preguic;osamente, traduzidas dc\1.1 IIU daquela lfngua para o ingles como os cliches afetivos "culpa" e "vergonha". A lt11 guista culturalista Anna WierLbicka - observando que palavras jap0111, 1 "como emyo (aproximadamente ' moderac;ao interpessoal '), on (aproxim.u l1 m ente 'dfvid a de graridao') e omoiyari (aproximadam ence 'empatia bencvolt n te') ... podem levar-nos ao centro d e to do urn complexo de valores e atitllllc culrurais, ... revelando toda uma rede ... de roteiros especificos da cultura" - 11111 apenas d emonstra esse faro em relac;ao ao japones, mas tambem em relac;iin '" russo (toska, "m elanco lia com anseio"), ao alem ao (Heimat!iebe, "amod. paul,, 1 e ao que ela chama de "o grande adjerivo australiano", bloody. Outros fizcr.1111 desdobramentos comparaveis do samoano alofo ("amo r o u empatia ... volt.111., em linha ascendente pelos de status infe rior para os d e status superio r"), do :hal, . ("d ec1'd'd . " ... "Crranco " .. . " nao d 1'j u fd o " ... " s1ncero . ") e d o javatu, mya 1 o " ... "d eseJO 7 rasa (" percepc;ao-sen ri m en to-gosto-signiftcayao-sen tido ").

n'

Alem d esses escudos d os sistem as vocab ulares, tern havido uma am pl.t ga ma d e outros tipos d e pesq uisa desrinados a examinar os sentidos d as cn111 c;6es e, tanto quanto possfvel, mapear o espac;o conceitual que eles abrangctrr Existem escudos ern omedi cos sabre os conceiros nativos d e doenc;a, sofrimt•n to, d o r, cura e bem-estar. H a escudos ernometaf6 ricos d e regimes ftgurativu - possessao por espfr.itos, feiri c;:aria, riros de passagem - para gravar scn lt m entos d e ... bem , in verre ndo 0 m etodo tars kiano habitual, "possessao", "hrll xaria" e "passagem " . EH escudos etnopsicologicos sob re a imporrancia d.t· difere ntes emos;6es nas diferen.res sociedades, e sobre a man eira como as cri;tll s;as aprendem a senti-las. E ha es tudos e rno-estericos sabre a mirol ogia, a mthi ca, a arte, e a tonalidade e o ambien te da vida cotidiana. Cada um dcs\t escudos ou tipos d e escudo e pr ovis6rio e sugestivo- d iffcil d e confirmar, dirt

IIi~

rrproduzir. E algu ns Jdcs m a is fazem confundir do que esclarecer as coi no geral, p or sua variedade, pela gama de mareriais em q ue rocam e, l.tlrncntc, po r sua surileza sempre crescen te d e observayao, parece que eles m hem clara, p elo menos para mim, a co nsrituiyao cult u ral da emoyao. Como quer que seja, OS d esaflos mais vigorosos e dese nvolvidos as teorias ralistas e d a ayao si mb61ica sob re a emos;ao, o sentimento e a paixao nao . ............ , na verd ade, sob a forma de duvidas acerca de sua adequac;ao empfrital - 0 que nao passa, afinal d e contas, de um a questao interpretativa, 10 a observac;:ao ad icional e m ais exata e capaz d e resolver. Eles surgem, anauh a forma d e acusac;oes d e uma deficiencia mais fundamental, mais prom ente lesiva, ate fatal: seu suposro d escaso pa ra com a dinamica psfquica" e, portanto, sua desatens;ao (ta mbem suposra) e sua incapacidc lidar com o agente, a individualidad e e a subjeri vidade pessoal. Essas ri<;oes, escreve a psicanalista Nancy Chodorow, que e p articularmente

M.ts.

sao incapazes de conceber reoricameme, mesmo que descrevam ernograficamente, os processos psicol6gicos individuais de criar;:ao pessoal do sentido. DesconhelCtn os modos idiossincd.ticos e divergentes pelos quais as emor;:6es se dcsenvolvem e sao experi menradas .... Onde e, podemos indagar, que a crianya .~tlquire a capacidade, a habilidade ou o habito de "ler" os co rpos culrurais, para 8 wmer;:o de conversa, senao em panes internas ou psicobiol6gicas de seu ser? Como analisra, e basranre o rrodoxa, seguidora de Melanie Klein, Hans de D.W. Winnicott, Chodorow rem um a concepc;:ao fortem ente pauna "vida Intima", Ia no fundo do inconsciente, sobre como os bebes aluciios t ransformam-se em adu ltos movidos pela fantasia. Ale m do cultural e hio l6gico, di z ela, existe " um terceiro campo" que nao pod e ser efetivamenentcndido (e ela cita Rosaldo, que, junto com igo , e seu alva principalnesse o) "co m referencia aos enredos culturais e as associas;6es que eles evocam" a "cenas cul turais associadas com determinadas emos;6es". 0 que falra [escreve ela] na abordagem de fazer coisas com palavras da emor;:ao e urn entendimento do que exisre entre a insrinrividade h umana universal, ou a cultura pan-h umana, e a parricularidade cul[Ural universal, e de como essa area de in rerser;:ao se desenvolve e e vivenciada em contextos inrerpessoais e inrrapsil)Uicos espedficos, aos q uais a projer;:ao e a inrrojer;:ao, a rransferencia e a contratransferencia dao urn senrido pessoal. ... [0] regisrro psicol6gico [e] urn regiscro scparado, sui generis.~ M as nao e apenas nessa disciplina, notoriamente auto-suftci en te e :-~bsnrLl si m esm a, sobre cujas reivindicac;:6es de auroridad e absol uta e su prcrnac:ia c


18(;

( ulflll.t, """'"· dtt!n,

sobre cujo modo perempt6rio de ver as cois::tS c comprecnsfvcl 'JliC all~ 11111 pectador simparizantc tenha certas reservas, que surge esse ripo de tllll\ Qualquer urn que se inceresse pelo desenvolvimento individual, tbdt l " Piagee e Lev Vygotsky ate Jerome Bruner e Rom Harre, ten de a manifc~t.11 111 quietas;oes semelhan res sobrequalq..1er conceps;ao das paixoes q ue n:io in d .• •11 sobre sua h isr6ria ontogenetica. A quesrao n5o e que as analises cu iLUr.11·. ,1 emos;6es nao expliquem, como Chodorow parece querer dizer ("urn Jt·giUI scparado", "essa area de inrerse<;:5o", "sui generis"), como e real mente •I guem, de verdade, Ia denrro, no am ago da sua in rim idade, senrir esta ou .HJIHI emo<;:iio. Formulada dessa maneira, a pergunra e impossivel de respor~ol, r como a dor (ou a "dor"), cia esenrida como csenrida. A questao e como c • .t cmos;6es- m7mis, liget, iraoufilria, toskaou Heimatliebe, on, enryoou omor 1.1 ri (ou, ja que estamos no assunto, bloody)- passam a ter a fors;a, a pertim:tn It eo cfcito que tem.

P·""

Mais uma vez, pesquisas recentes, sobretudo de psic6logos do descnv"l~1 menro c compararivos (Bruner, Janet Astington, David Premack), mas 1. 111 bern, vez por ourra, de lingi.iisras e antrop61ogos de oriencas;ao psicoh'lj'.h (George Lakoff, Carol Feldman, William Frawley, Roy D'Andradc), 11 Ill 111 avans;ado nesse assunto com certa rapidez. E, o q ue e mais notavel, sutrtu uma concep<;:iio seriamentc modificada da mente infanril - nao uma conf11·· 111 alvoros;ada e florescence, nao uma fancas ia voraz, gira ndo em desamparo ttllt•• desejo cego, nem tampouco algoritmos inaros gerando uma profusao de c.llr gorias sinniticas e conceiros pronros para ser usados, mas uma mente criand•• semido, buscando senrido, preservando senrido e usando senrido; numa p.d 1 vra- a palavra de Nelson Goodman-, construtora do mundo. 11 Os estudu sobre a capacidade e a propcns5o das crians;as a consrruir modelos da socicd .• de, dos outros, da natureza, do self, do pensamento como tal (e, e claro, d.. , senrimen ros), e a usa-los para se haver como q ue aconrece a seu redor, tlt11 proliferado e assum ido urn cu nho prarico. Escudos do autismo como uma i111 possibilidade (seja por que razao for) de a crians:a elaborar uma teoria viavd M• bre as "outras menres", estudos sobre a imaginas;ao da realidade e a insuu~.H• da realidade arraves da narrativa e do relata de hist6rias, sobre a constru~ao dr si e a atribuis;ao dos agentes como iniciariva social, e sobre a subjerivid.111, como conquistada inrersubjctivamenre, e porranro, contexrualmentc, e pot tanro, culturalmente, vem-nos dando uma imagem do surgimenro de 110\'•.1 meme na qual "fazer coisas com paJavras da emos;ao" e a "crias;ao pessoal dn semido" nao se parccem muito com "regisrros separac.los". "0 desenvolviml'll to do pensamento da crians;a", escreveu ha setcnra anos Yygotsky, o parro1111 desse ripo de trabalho, "depende de seu domlnio dos meios sociais do pcmat ... 0 uso de signos leva os sercs hurnanos a uma estrutura espedfica de com pot

IH 7

"· que rompe <:OIIl u Jcscnvolvimemo biol6gico e cria novas formas de 1 prou.:sso psicol6gico bascado na cultura." ) l'nr r;l ntO, eassim que os scnrirnenros aconrecem: "entre uma lesao literal c tropo litcrario", como observou Richard Shweder, "ha muiro espas:o para ~ c cor;H,:ao partl'do. "M as, com o tam b.t.em comencou, "os nervos em •ranga, o sangue enregelado, a cabe~a explodindo eo co ras;ao partido [sao] metoc.lo sofrimento; dao .. . expressao, por meio de metaforas com partes do a formas de experiencia incorporada do sofrimento, atraves das partes corpo usadas para expressa-las .... [Mas] as cabcs;as explodindo nao explo' os coras;6es particles nao se parrem, o sangue enregelado conrinua a cirr t:Om a mesma velocidade e os nerves em frangalhos nao exibem nenhuma . estruturaI" . 13 ogta Mas ourros estados emocionais as exibem, as vezes, ou, pelo menos, envold cturpas;oes observaveis (e percepdveis) de processos somaricos. 0 recurls imagens de parres do corpo para caracterizar nao s6 o sofrimento, mas a em geral (se os coras;6es se partem de desespero, tambem explodem de ia), faz-nos lembrar que, como quer que sejam caracterizados e como quer sc venl1a are-los, os scnrimentos sao sentidos. As mas;as do rosro enrubesc fl cam aquecidas, ou se esfriam e empalidecem, os estomagos se revolvem sc con tracm, as palm as das maos transpiram, a respiras;ao fica entrecortada e qucixos caem, para nao fa lar das compl icadas intumcscencias e perturbas;6es 'J as por Eros. A te as lesoes lirerais, quando sao as lesoes de alguem, no ceretic aJguem, aJrerando a vida de alguem, e nao deuses exrracuJrurais vindos uma maquina cerebral, sao dignas de exame. Os neurologisras, eclaro, invesrigam ha muito tempo as implicas;oes rrazipara o funcionamento mental por les6es situadas numa ou noutra area do . Mas, ate recentemente, o grosse desses trabalhos dizia respeito ao promemo cognitive, no sentido intelectivo mais restrito- defeiros e deficits pcrceps;ao,lingilfsticos, mnemicos ou motores; deficiencias de Wernicke no hecimento, deficiencias de Broca na p rodus;ao. As altcras;6es emocionais, por terem forma menos deftnida e serem mais difkeis de medir (alem, de n5o serem prontamente caracrerizaveis em termos de deficiencia), William James ate Oliver Sacks, foram mais relatadas em rermos fenoancno l6gicos, ainda que brilhantes, do q ue somaticamente deslindadas. Tambcm isso comes;ou a mudar e, para exempliftd.-lo, podemos examinar, num resume apressado, o livro 0 erro de Descartes: emo~iio, raziio eo d rebro lm mm10, de Antonio Damasio, que e apenas uma dentre varias invesrigas:ocs rcccn tcs sobrc o que passou a ser chamado de "o cerebra incorporado".' ' Damasto relata seu rrabalho com pcssoas- nominalmente idenrificadas, descritas, pan1 cularizadas e culturalmenre situadas- com les6es no lobo frontal (uma p o n1.1


IHH

l K'I

de ferro que perfurou a resra., urn meningioma extirpado, um dcrrame Cl'ttl•l ,1 uma leucotomia), e discorre sob re as inferencias que podem ser feitas a p.utit (l.a lura, da s ubjeti vidade, da personalidade e do destine delas no tocantc .10 P·'l' I do senrimento na connrus;iio da vid a humana: "Os sentimentos nos pcrn1111 It\ vislumbrar o organis mo em plena arividadc biol6gica, como um reflcxo dm 1111 canismos da propria vida em funcionamenro. Nao fosse pela possibilid.ldt• d senrir os estados co rporais, ... nao h averia sofrimenro ou exrase, anseio ou mt ,t tl c6rdia, rragedia ou gl6ria na condi~o humana." 15 Ne m tarnpouco senrido. 0 estado apresenrado po r seus casos de It·.. ,,. frontal - urn operario fcrrovi:irio da Nova lnglater ra do seculo XIX, 11111 co nrado r profissio nal, um correror de valo res, um ho m em que sofrcu 11111 lesao ao n ascer e nunca se rccuperou, cerca de um a duzia, ao todo - c "''' certa fa Ira de afeto, um s uperfi cialis mo, d esap ego e indecisao, uma irrcgul.1 ridade d e o bjetivos, uma in ca p acidade de escolhe r urn caminho, ptTVll co nseq i.i encias o u aprender com os erros, d e seguir as co nven croes, plant')·'' o futuro o u reagir adequadamente aos o urros, tudo isso acompanhado I'"' apridoes motoras, lingi.ifsticas, perceptivas e inrelecruais no rmais, ou .11 s u penores. A "matriz de Gage", como a chamou Damasio, inspirando-se em scu ,,, .... dpico - o pobre operirio de ferrovia com um buraco no prosencefalo, cha111.1 do Phin eas P. Gage-, e, fundamentalmenrc, um distu rbio aferi vo, uma at• nuacrao da capacidade emocional que, ao mesmo tempo, bloqueia o jufzo. 1 vonrade e a sensibilidade social:

As deficiencias do comporramento social e do processo decis6rio [, na marril .lr Gage, sao) comparfveis com uma base normal de conhecimento social e com preservac;ao de lunc;6es neuropsicol6gicas su periores, como a memoria convr11 cional, a linguagem, a arcnc;.'io basica, a mem6ria luncional basica co raciodn1" b:isico, ... [mas sao] acom pan hados por uma red uc;ao da rearividade emocion.d • dos senrimenros . ... [E essa reduc;ao] da emoc;ao e do senrimenro nao [e) um t pecrador inocenre ao !ado da deficiencia no comporramenro social. (OJ ~·"' gue-frio do raciodnio dos [pacienres com Gage] impede [que eles] arribu.1111 valores diferenres a apc;6es diferenres e [torna] desoladoramenre insfpida a pai'·' gem de [seu] processo decis6rio .... Tambem a [rorna] inmivel demais e nao m.111 rida pelo tempo necessaria para que haja selec;6es de resposras ... , uma deficicnn.1 rna is suril do que basica na mem6ria fi.mcional [que alrera] o resro do processo d, raciodnio n ecessaria para que surja uma decisao. 16 Partindo d essa base, uma slndrome parab6 lica que ensina uma licrao con ceirual, Damasio desenvolve uma reo ri a arriculada sab re a maneira como fun ciana a emo\=ao em nossa vida mental- marcadores somaricos, percep<rm·•

cstados de d1,posi~ao corporal, individualidadcs neurais c a.~sim tli.ultc - , a qual n.to podemos nem precisamos acompa nhar aqui (e que, qu.alqucr modo, econven icntemente provis6ria), a nao ser, talvez, para assir tpiC a doutrina laco nica de F rancis Bacon, "o inrelecro do homem nao 1111. insfpida", recebe uma novae poderosa corroboracrao empfrica. "As ICS cOS sentimentos nao [sao] intrusos no basriao da razao", diz Damaft'SIImindo seus escudos e seu ponto de vista, mas" [estao] entremeados em 1 rl·dcs, para o pi o r e para o melhor" . ~ As paix6es- o amor, adore coda esdrnJp- podem destrocrar nossa vida. Eo mesmo podem fazer, de maneira re com pleta, sua perda ou sua ausencia. IJ ,llLh,

e

o quanta basta com respeiro a meu caso em miniatu ra aguisa de ilusrracrao: llflm:ao na cultura, na mente e no cerebra ... no cerebra, na mente e na cultuf:ict ao menos vaga menre patente, a p artir desses relates compacros e im.s:tdos de abo rdagens di versamente imaginadas e diversamente seguidas rstudo dos senrimenros (em bora eu ram bem pudcsse tc r falado da aprendiou da memoria, ou, ralvez, are da loucura), que um movimenro irrequida atencrao, pegando o que for possfvel, pelas matrizes disciplinares raposras, uma mudancra o po rtu na de foco, saindo de urn p rograma e uma idade rivais de pesquisa para a uL ros, pa d e dar uma ideia da direcrao geral 18 coisas, no cam po disperse e disrribufdo da investigacrao cienrffica. Os atafrontais e os impulses macicros para a uniao conceirual e a concordancia ... ,, ....,v •·v"'''""' rem Ia o seu Iugar - vez por outra, e quando a situac;ao o permiE o mesmo aco ntece com a especializa<?o tecnica cada vez mais profunda, a construcrao isolada de fatas, purificada e patrulhada nas fronteiras, sem a nenhuma ciencia, nem mesmo uma ciencia social, consegue avancrar. , por si m esmos, eles nao produzem nem produzirao a visao sin6prica dade que esramos arras de varias maneiras- do fim , como se cosruma di' <tue remos em mente. No caso arual, o q ue csramos procurando e a maneira como devemos pro-lo (assim como o que podemos conseguir para n6s e nossa vida ao proculo) parecem- me estar exposros, com exaridao, ainda q ue sob a forma de no concise poemi nha de Richa rd Wilbu r chamado ... bern, chamado ...

Mind in its purest play is Like some bat Tbat beats about in caverns aiL alone. Contriving by a kind ofsmseless wit Not to conclude against tt waiL ofstone.


I'JU

Nor '•1/u~ •o/.n 1111111111/11111,(111

it IJtts no nud to fob~r ore:..plort'; Darkly it knows rvhat obsrncfts nrr tbtr~, And so mny tvenve andflirter, dip and soar in perfect courus through the blackest 11ir.

0 mundo em pedafos: Cultura e politica no fim do seculo

And hns tbis simile 11 like perfmiotr? The mind is like a hilt. Precisely. Save Tbat in the very lutppiest intellection A gmcefid error nut)' correct the crtve. 19 •

Em mcm6ria de Edward Shils ... com l[UCm cu 3s vczcs cuncordava.

mundo em pedafOS ••11.1 polftica, que se apresenta como abordando quest6es universais e perIHntcs a respeito do poder, da obriga<?o, da justic;:a e do governo em termos .. , t' incondicionais, a verdade sabre as coisas, rais co mo no rundo sempre r•m toda pane, necessariamenre, c, na verdade e de maneira incvi ravel, uma 1\ta espedfica a circunsrancias imediaras. Por mais cosmopol ira que possa I llllCnyaO de Ser, ela C, COmO a re!igiao, a !ireratura, a historiografla OU 0 di1111 movida e animada pelas exigencias do momemo: um guia para perplexi 1"' particulares, premenres, locais e ao alcance da mao. lsso fica bastante clara por sua hisr6ria , especialmenre ago ra que essa his1.1 cnfim comcc;:a a ser escrita, por Quentin Skinner, John Pocock e ourros, tl·rmos realisras- como uma hisc6ria dos engajamentos dos intelecruais 'atuac;:6es polfricas que os cercam, e nao como uma procissao imaculada de II inas, impulsionadas pel a 16gica das ideias. A esta altura, e diffcil deixar de •nhecer que o idealismo polfrico de Pia tao ou o moralismo po lfrico de Arisl'S riveram alga a vcr com suas reac;:6es as vicissitudes das cidades-estados que o realismo de Maquiavel reve aver com seu envolvimento nas mahr.ts dos principados da Renascenc;:a, e que o absolurismo de Hobbes relaciotll sc com seu horror as furias da desordem popular nos prim6rdios da 11opa modern a. 0 mesmo com Rousseau e as paix6es do Iluminismo, com 111 kc e as da rea~ao a ele, com os realpolitikers do eguilfbrio do poder eo nal.tlismo e imperialismo do seculo XIX, com J ohn Rawls, Ronald Dworkin e t('(>ricos dos dirciros liberais e os Esrados de bem-estar pos-1945 , na Amerido Norte e na Europa Ocidenral, e com Charles Taylor, Michael Sandel cos Ia uuados comun irarisras, e a incapacidade de esscs Esrados produzirem a vid.a na.aginada. A moriva~ao da rencxao geral sabre a polfrica em gcral c r:tdic.d

1

• [Traducrao livre: "Em sua mais pura ac;ao a mente equal um morcego/ Que voluteia soli driu pd cavern~/ Con~cgulll~O, por algumJ pcrspidcia insciem~,/ Nao sc acauar cuntra um mum .J,.,, dra./ Nao prcctsa hcmar nem explorar/ Sabe obscuramcnrc quais sao os ohst:iculos,/ E podc .1• Ill tranc;ar c vocjar, mcrgulhar c subir/ Em trajct6rias perfcitas pelo mais negro ar./ E rem estc: ,( 111 11 pcrfeic;ao que o igualc?/ A mente c<JU:ll morccgo. Exat:Jmcnrc. Excero/ Que na mais feliz d,l\ 1111r lccc;oes/ Um erro gracioso pe>de co rrigir a caverna." (N.T.)

191


I'll

mente nao geral . Prm•e m de LL m de.;ejo, ate d e uma aflic;:ao, de com prn nd r jogo d e poder e aspiraqao que se en contra girando ao red o r, nu m d.tdll l11 perru rbado, num d ado mome nta desarriculado. H o je, passad a uma decada d a queda d o Muro de Berlim , est:i cl:u o I ji lt tamos mais um a vez nesse Iugar e nesse mom en ta. 0 mundo e m que VIVf.lllt desde T eera e P o tsd am, o u, a r igor, desd e Sedan e Port Arthur - u rn 1111111.! de potencias compactas e blocos anrago nicos, de arranjos e rearra njo' dt 111 cro-aliancyas- nao existe mais. 0 mundo que exisre, em vez disso, e a 111111• ~I co mo devemos reAerir sobre ele, po rem, sao coisas nitidamente menos cl.11 1 Urn padrao muito mais pluralista de relac;:6es entre os povos do 1111111 1 parece estar em ergindo, m as s ua forma ainda e vaga e irregular, fe ira dl· 1 t lhos, am eac;:ado ram enre inde terminada. 0 colapso d a Uniao Sovietica <: ·" 111 didas atrapalhadas d a Russia q ue a sucedeu (e que nao e nem espaci:tlltll II idenrica aque a precedeu) trouxe ram em sua esreira uma onda de divisol'' ',It curas e estranhas instabilidades. 0 mesm o fi zera m o reavivam ento das p.11 '' nacio nalisras n a Europa Central e Oriental, as angusrias hachuradas que .tl • 11 nificac;:ao d a Ale manha esrimulo u na Euro pa Ocidental, e o c ha mado Rll t 11 mento Americana: a capacidade decrescente (e a disposic;:ao decrescerHc) .!1 Estados U nidos d e compro m eterem seu poderio em regi6es di stan ces do 1111111 do - os Bilcas o u o leste d a Africa, o Magreb ou mar da C hina M eridion.tl \ crescenres te ns6es in ternas d e mui ros paises, surgidas de mig rac;:ocs cull1u tl mente disco rdantes e em larga escala, o aparecimento d e m ovime n tos rdtj'l" so-po liticos, armadas e apaixo nados, em varias partes do mundo, eo despw1111 de novos centros de riq ueza e pod er no Oriente M edio, na America Lari n;l l 11 margem asiatica d a costa d o Padfico s6 fizeram contribuir para o seminH 1111 gen eralizado de inconsran cia e incerteza. T odos esses feno m enos, assim co11u ourros induzidos po r eles (as guerras civis ernicas, 0 separa rismo lingi.iistil.ll. "mul riculruralizac;:ao" d o capital inrernacional), nao produziram a sensar;..tP tl uma nova ordem mundial. Produziram urn senrimento d e dispersao, par111 11 laridade, complexidade e descen tram ento . As temidas simetrias d a cr.1 du p6s-guerra desarticularam-se, e n6s, ao que pa rece, fi camos co m os peda\n Todas as mudanc;:as desse ripo, descontfnuas e em grande escala, quem t rud iosos e os esradistas gosra m de ch amar de "hist6 ricas mundiais", pa~>t desculparem por nao te r percebido a ap rox imac;:ao d elas, p roduzem novas I"' sibilidades e perigos inediros, ganhos inesperados e perd as surp ree ndentl'~. I 1 desaparecimenro, pelo men os por enq u anro, da am eac;:a d a conA agrac;:ao nw I. ar m acic;:a, a li bertac;:io de vasras gamas de pessoas da do minac;:ao d as grande potencias eo relaxame n ro da rigidez ideol6gica e das escolhas fo rc;:adas dl· 11111 mundo bipolar sao fenomenos positives, do ponro d e vista de praticam rlll• qualquer pessoa. Os recentes avanc;:os e m d irec;:ao a paz e acivilidade, por II I

'lilt' scjam, na Arr ica do Sui, emre os israelenses e a OLP, o u, de maneira difcrcn tc, na lrlanda do Norte, provavelmenre nao pod eriam rer ocorrir dt·ccn o nao com tanta rap idez, sea distancia entre as disputas locais e a rontac;:ao global ainda fosse tao pequena quanto era antes de 1989. E, se ela , os norre-americanos tambem nao estariam pensando em negociar com t uhanos, os russos com os japoneses, Seul com Pyongyang, o u Barak com Por o urro !ad o, as convuls6es trazidas por inimizades nacionalisras, antenwntc contidas pelas autocracias poderosas, ainda que a urn enorme custo o, simplesmenre ja n ao tern como ser acolhidas como benc;:aos da liber. Tampo uco podem se-lo as hesitac;:oes da inregrac;:ao europeia, agora que cdo do co munism o d iminui u, a m enor capacidad e de as po rencias munprcssio narem os Estados-clientes a se co mportarem, ago ra que as recomda d ependencia econo mica e po!irica foram reduzidas, ou a iplicidade d e candidaros adominac;:ao regional, agora que a polftica inrerpassou a ser men os cerceada pelas estrategias globais. Reduc;:ao das ardas superpotencias e prolife rac;:ao nuclear, libertac;:ao politica e mdamen to do provin cianismo, capitalism o sem fro nteiras e pirararia . e d iflcil fazer urn balans:o claro. Mas a muda nc;:a mais fatfdica talvez seja, mais uma vez, o esgarc;:amento lizado do mundo com q ue de repenre nos vemos co nfronrados. 0 esfato de coes6es maiores, o u que assi m p areciam, e m coes6es menores, lienrre si de maneira incerta, rornou exrrem amenre diffcil relacionar as es locais com as glo bais, "o mundo das bandas de ca'' (pa ra adaptarmos minosa exp ressao d e Hillary Putnam) co m o mundo em geral. Para que o possa ser apreendido e para q ue se descub ram n ovas un idades, parece nerio apreende-lo nao di retamenre, de uma vez s6, mas atraves de exemplos, variac;:6es, parricu laridades- aos pouquinhos, caso a caso. Num esrilhac;:ado, devemos examinar os esrilhac;:os. E e af que entra a teOL·ia, see que vai haver alguma. Em particular, onde e esse desped a<;:am ento - chamemo-lo de "desmo nragem " - deixa os ndcs conceiros inregrado res e ro ralizanres que po r tanto tempo nos acostuos a usar para organiza r nossas ideias sabre a polfrica mund ial e, em espesobre a semelhan c;:a e a diferenc;:a entre povos, sociedades, Esrados e uras: conceiros como "tradic;:ao", " idenridade", "religiao", "ideologia", "va", " nac;:ao" e, a rigor, ate os pr6p rios con ceitos de "culrura", "sociedad c", " ou "p ovo"? Sera q ue ficamos reduzidos, ago ra que a o posic;:ao flagran enrre "Lesre" e "Ocidente" foi denunciada como a f6rmula ernoccncric:t que re foi (o lesre em Moscou, o ociden te em Washington, e todos os outws res- H avana, T 6quio, Belgrade, Paris, Cai ro, Pequi m, J oancsblllgn


I'J•I

derivaciva men te situados), a falar apenas d e deralhes idiossincr:iticos c 1111," ll pas;6es imediaras, aos reralhos d e reflexao e as arens;6es dispersas do no111111 norurno? Epreciso consrruir algumas ideias gerais, novas ou reco ndic.1o11 tolt se quisermos pen etrar na luz ofuscan re da nova hererogeneidade e dizcr .1lgo uril sobre suas formas e seu futuro. D e faro, hi agora urn born numero de proposras sendo formul adas '"' '' direyao que deve tamar o pensameoro no roca nre a siruas;ao em ergent' I'" posras sobre como e nrende-la , como conviver com ela, como corrigi-la, "'' ja que sempre exisrem aquelesque insisrem resolutamenre em que nada )·"""' se modi fica d e verdade nas quest6es humanas, porque nada jamais se mudll1 no coras;ao humano (e eles exist em especial mente na Europa, onde o pc~\1 1111 mo hist6rico e freqi.ientemente tornado por marca de boas maneiras e cui1111 ) -como negar que ela esteja de faro emergindo. A mais destacada dessas propostas, o u a mais celebrada, de qualtpt modo, e, pelo menos num sentido desse rermo fabricado e mudvd. "p6s-modernismo". Segundo essa visao, a busca de padr6es ab rangentcs tl, ser simplesmente abandonada, como urn resro da busca an tiquada do ctt1111 do real, do essencial e do absoluro. N ao existem, segundo se afirma, narr.tll\ mesrras sobre a " idenridade", a "tradis;ao", a "culrura" ou qualquer outra co1 H a apenas acontecimenros, pessoas e formulas passageiras, e, mesmo assim, 111 coerences. D evemos conrenrar-nos com hisr6rias divergences em idiomas 1111 conciliaveis, e nao ten tar abarci-las em vis6es sin6pricas. Tais vis6es (seguud essa visao) sao impossfveis de obter. T entar obte-las leva apenas a ilusao estere6tipo, ao preconceiro, ao ressentimento e ao confliro. Em completa oposis;ao a esse ceticismo neu rastenico ante os esfors:o' tl juntar as coisas em relatos abrangenres, em grands recits provides de urn enll "" e uma mo ral, exisrem as tentarivas d e nao descartar como vazios e enganosm n conceitos de larga escala, inregradores e totalizantes, mas de subsriruf-los I'"' o u tros de escala ainda m aior, m ais integradores e mais torali zanres- "civil11 1 s:oes", ou seja Ia o que for. As te nrarivas de conrar hist6rias ainda mais grand111 sas e dramaticas comeyam a surgir, ago ra que as mais antigas esrao ' d esgastando: hist6rias d e choq ues de sociedades incomuniciveis, mo rais Cllll tradir6 rias e vis6es de mundo incom ens uriveis. "As grandes d ivis6es da huua 1 nidade e a fonte dominance d e co nAiro (nos anos do futuro imediatol proclamou recenremente o cientista polftico no rte-americana Samuel llu11 rington , "serao culrurais", nao "primordialmente ideol6gicas nem primordi.d mente economicas".' "0 c hoque das civilizas:oes", diz ele, "do minara a polflll 1 global. As linhas de fi ssura entJe as civilizas;6es [cristae islamica, confucian.•• hindu, norte-americana e japonesa, europeia e africana] serao as lin has de COlli bate do futuro ." "A proxima g-uerra mundial, sevier", como ele parece jul~·''

( J 1111111dn rill prt!ttfll!

l'l'i

ci t.uncn te prov:ivcl, dad.1s cssas agregas:oes maciyas d e religiao, raya, locali, c linguagem, "sera uma guerra entre civilizas:oes." ( ~o nfronrados com essa escolha entre urn cericismo desiludido, que nos pouca coisa a dizer, exceto que a diferens:a e a diferenya e nao ha como rnar isso, e urn reuato verbal operfstico, q ue concebe choques de guerras lrl' mundos ainda mais espetaculares do que as que parecemos ter evitado r tun criz ate agora (assim como diante de varias ourras sugesc6es implausf- as de que a hisr6ria acabou, as afi rmas:oes de conhecimento nao passam ll'lltativas mal disfars;adas de romar o poder, ou rudo se reduz ao desrino dos cs), aqueles d enrre n6s que remos o compromisso de fazer uma rriagem de mos concretes, para desenvolver comparas;6es pormenorizadas- investicspedficas de diferens:as especfficas - , talvez pares;amos ingenues, quiIOt:cs<:os, dissimulados o u antiquados. Mas, see que va mos encontrar normas navcgas;ao num mundo estilhas;ado e desmonrado, elas terao que vir desse halho pacienre, m odesto e cri terioso. Nem as cenas frias nem os enredos serao realmente de qualquer serventia. Precisamos descobrir com te exatidao qual e 0 panorama. Mas tambem isso e muito mais diffcil, agora que a maneira como nos acnstumamos a dividir o mundo cultural - em pequenos blocos (Indonesia, no meu caso, ou Marrocos) agrupados em blocos maiores (Sudeste tico ou Africa meridional), e estes reunidos em blocos ainda maio res (Asia, Oriente M edio, o Terceiro Mundo, ou seja Ia o que for) - j:i nao funciona m uito bern em nenhum de seus nfveis. Os escudos inrensamente concen trados (aobre a musica javanesa o u a poesia marroquina, 0 parentesco africano ou a lturocracia chinesa, 0 direito alemao ou a estrutura de classes inglesa) ja nao sao uados ou sequer in teligfveis, como invesrigas;6es fechadas e autonomas, relacionadas entre si, nem co m seu contexte e seus arredores, nem com os gerais de que fazem parte. Ao mesmo tempo, entretanto, as linhas pclas quais seria possivel rras;ar essas relas;6es, descrever esses contexros e definir uses fenomenos sao em aran hadas, sinuosas e diffceis de discernir. A mesma dissolus:ao de grupos esraveis e di vis6es conhecidas que rornou tao insondavel e hcio de arestas o mundo po ll rico fez com que a analise da culrura, de como as pcssoas veem as coisas, reagem a elas, imaginam- nas, julgam-nas e lidam com rlas, se rornasse uma empreirada muito mais delicada do que era quando sabfa mos, ou melhor, julgavamos saber o que combinava eo que nao combinava om o que. Em termos culturais, assim como em termos polfticos, a "Europa", dig.t mos, ou a "Russia" ou "Viena" nao d eve ser entendida como uma unidadl· de eaplrito e valor, co nrrastada com o utras dessas supostas unidades- o O ril'llll' Mcdio, a Africa, a Asia, a America Larina, os Esrados Unidos o u Londrc\


() ,,,,111 mas com o urn co nglomerado de diferenyas profundas, radicais c rcs istl'l11t'~ u• resumes. E o mesmo se aplica as d iversas subpartes que demarcamos, d~ IJill modo o u de outro, dentro desses conglo merados - protesram es c c.awli•u islamiras e ortodoxos; escandinavos, Iatinos, ge rmanicos, eslavos; urb:mm 1 111 rais, continenta.is e in sulares, natives e migrantes. A desmo nrage m do mtltulu polfrico nao provocou essa heterogeneidade, e clara. Foi a hist6 ria, inst.t\• I caprichosa, e dilacerad a pela viole ncia, que o fez. A desmonragem apen.l' l••r nou patente a hererogeneidad e: flagrante, impossfvel de encobrir com 1d~1 grandiosas, ja agora impossfvel de nao ver. 0 que precisamos, ao que parece, nao e de ideias grandiosas nem do .th Ill dono complero das ideias sinterizadoras. Precisamos e de modos de penSa l 'I" sejam receptivos as parricularidades, as individualidades, as estranhezas, ,l,li conrinuidades, contrasles e singularidades, receplivos ao que C harles T.t} lou chamou de "diversidade profunda", uma pluralidade de maneiras de fazcr l'·'r tee de ser, e que possam extrair deles - dela- urn senti men to de vincul,l~·•o de uma vinculayaO que nao e abrangente nem unifo rme, primordial nem i11111 2 ravel, mas que, apesar disso, e real. A preocupayao de Taylo r, dianre do scp.11 tismo ideologizado, d a ameaya de separayao entre Quebec e 0 Canada, e COlli I desmontagem poll rica, como aspecro de pertencimento e cidadania da idu11• dade num mundo esrilhayado: que e urn pa fs, se nao e uma nayao? Mas a p11 gunra e a mesma do !ado do eu, do ser, que e sua face especular e invercida: 'I" e uma culrura, se nao e urn consenso?

Boa pa rte do p ensamento filos6fico e das ciencias sociais na Europa e nos Fstt dos Unidos esta atualmente as voltas, de maneira nao muiro eficaz, com cs•.,t duas pergunras, muiras vezes, a lias, de ma neiras que co nfundem uma cotn 1 o utra e com a noyao- que esta bern Ionge de ser idenrica e e, a meu ver, bt "' mais complicada, frouxa, supergeneralizada e decerto abusivamenre usada de "nac ionalismo". A coexistencia, na ma ioria das regi6es do mundo, a ril-\''' em praricamente rodas, de grandes rradic;6es culrurais, ricas, disrinras e hist<lll camente profundas (civilizac;6es no senrido proprio do termo, e nao em srn senrido polemico), com uma progressao inrerminavel de diferenyas denLro dt diferenc;as, divis6es dentro de divisoes, misturas denrro de misturas, levant• uma pergunra que ja nao pode ser descartada como ociosa ou inconsequerHt como e, num mundo tao mulri facerado, que surge a idenridade polftica, sou.al ou cultural? Sea idenridade sem unfssono e de faro a no rma - na fndia ou rllt' Esrados Unidos, no Brasil ou n a Nigeria, na Belgica ou na Guiana, ou ate ru• Japao, esse suposto modelo de afinidade mental imanente e singularidadc ,., sencializada - ,em que e que ela repousa?

r111

prtlttftl!

I'J7

T.unbcm nc.ssc c:1so, cn LrcLanro, a perguma esta malposee, se inlerprelada urna pcrgunta gcral em busca de uma resposta invariavel - o que, mais vcz, constitui o problema de pelo m enos grande parte dos textos sabre o iunalismo" (au, a prop6sito, rambem sabre a "ernic idade") que se tornatao populares nos Ultimos anos. E que existem quase tantas maneiras de nir cssas idenridades, fugazes o u duradouras, abrangen tes ou intimas, cos>liras ou fechadas, amistosas o u sanguinarias, quantos sao os materiais que uni-las e as raz6es para faze-lo. fndio no rre-americano, israelense, bo' muc;ulmano, basco, tamil, europeu, negro, australiano, cigano, ulste:irabe, quilombola, maronita, hi spanico, flam engo, zulu, jordaniano, ola, bavaro e formosense- res pastas que as pessoas as vezes ciao apergunfi.·ita por elas mesmas ou po r terceiros, sabre quem (o u, talvez mais exataruc, o que) elas sao- simplesmenre nao com poem uma estrutura ordeira. Nem rampouco esravel. A medida que o mundo se torna ma.is rigorosantc inrerligado, econ6mica e politicamenre, que as pessoas se deslocam de iras imprevistas, apenas parcial mente controlaveis e cada vez mais macic que novas linhas sao rrayad as enquanto as anrigas se apagam, o catalogo idcnrificay6es disponfveis se expande, contrai-se, muda de forma, ramifi, involui e se desenvolve. Meio seculo arras, nao havia beurs. nem bengalis, havia peranakans e iugoslavos; a ltalia nao Linha urn "problema marroquic Hong Kong nao rinha urn problema vietnam ita. (Nem Vancouver rinha problema vindo d e H ong Kong.) Ate as identidades que persiscem, como austrfacos e norte-americanos rem boas raz6es pa ra saber- assim como os loneses, os xiitas, os malaios e os edopes - , alteram-se em seus layos, seu do e seu sentido interne. Os cientistas polfticos tendem a funcionar em nfveis bern acima desse made caracterizay6es, distinc;:oes, particularidades e rotu lay6es que como mundo d o "quem e0 que" das identidades coletivas; tendem a flutuar nu:dilativamenre sabre ele, como se esrivessem num balao de Montgolfier por medo de que descer venha a expo-los ao tipo de detalhes interminaveis e nnflitanres que amiude acabrunham os antrop6logos; talvez porque o matagal lhcs pareya meio repelente: emocional, esronteante, irracional, perigoso; ou talvcz porque pareya irreal ou acidenral , mero verniz, decorayao e misrificac;ao. Mas, se o que de faro nos con fronta e urn mundo de dessemelhanyas co rnp,te.

1 l1t<s1gnac;:1io

francesa das pessoas de origem magrebina e nacionalidade fran cesa, em gcral d.1Sl'~un

1la ~crac;:ao de imigranres. (N.T.)


N tJIIII

ltw. w!J r '''"'''''/'"' 'JI.''

(} 11111111/ 11 (II/ JlttfiiJIII

tadas de ma neiras di versas, e n ao de E.stados nacionais intciri~os, rcuntd., blocos e superblo cos (aquele ripo de co isa que seve de urn balao), nao rn t 1 111 tra coisa senao rrararmos d e exami nar os casas, seja qual fo ro pre~o par.• neralidad e, a cerreza o u o equilibrio inrelecrual. Mas, na verdade, talvez os custos nao sejam rao alros quanro se tenrc beneffcios esrejam sendo subesrimados: a absrrac;ao das especificidadcs n.to (mica forma assumida pela reoria. Nos anos do fururo imediaro, enqu.1111 n Ch ina enrra com passo desajeitado e desigual na econo mia internacio n.d . ell quanro a Ale manha proc ura remendar meio sck ulo de divisao polftit..r, 11 quanto a Russia ten ta encontrar uma forma viavel de existir, enqu .1111n sociedades africanas renram conre r 6d ios multiplos e disrinc;6es intrinc rold enquanto o J apao, descobrindo o u red escobrindo sua diversidade, procur .1 ol finir um Iugar pa ra si numa regiao que se move em meia duzia de direc;oc.' dtl rentes ao mesmo tempo, e en quanro os Esrados Unidos, a Franc;a, o M exru• •JII a Argelia descobrem-se assenrados sobre uma comunhao de mentalidadc~ 1.. Itt menor do que seus cred os publicos procla mam exisrir porIa, e provavel abo rdagens da analise polfrica que se dedicam a esses assuntos na pleni tud< ,1 sua particula ridade sejam mais ureis acompreensao d o que as que tentam d senvolver uma visao pan6prica geral. Em sfnrese, parece n ecessaria que haja varios ajustes serios no pens:lllll II to, para que n6s, fi l6sofos, antrop6logos, hisroriado res o u quem quer que '' 1~ ffiOS, tenhamOS alga de UtiJ a dizer SObre este mundo desmo ntado OU !I l l processo de desmonte, cheio de identidades irrequieras e ligac;6es incertas. l'rl meiro, a diferenc;a rem que ser reco nhecida, de maneira explfcita e franca, c 11 111 obscurecida po r urn discurso imp rovisado sabre a :t.rica C onfuciana ou a 'J r.1 dic;ao O cidenral, a Sensibil idad e Larina ou a M enral idade Muc;ul mana, nc 111 po r mo ralizac;6es fnigeis sobre os valores universais, ou tenues banalidadc1- ", bre a unicidad e subjacen te: Rosie O 'Grad y e a Senhora do Coronel. Segundto, e m ais impo rtance, a dife renc;a deve ser vista niio co mo a negac;ao da semclh,111 c;a, seu oposto, seu contrario e s ua contradic;ao. O eve ser vista como abar<.•l!r do-a: siruando-a, concretizando-a, dando -lhe fo rma. Ja que se fo ram os blo1." e co m eles suas hegemonias, esramos dia nre de uma era de emaranhados dr. persos, cada qual singular. A u nidade e a idenridade existences terao que scr 111 gociadas, produzidas a partir da diferenc;a. Por maiores que sejam a originalidad e e a singularidade das formas de vul.1 malaias e chinesas no Sudeste Asi atica, por exemplo, ou as fo rm as inglesas, cscu cesas, galesas ou irlandesas n a Gra-Breranha, o u as fndias e larinas na N icarag11 .1 o u na G uatemala, as muc;ulrnanas e cristas na N igeria, as muc;ulmanas e himlw na fndia, as cingalesas e ta m eis no S ri Lanka, ou as negras e brancas na Africa dto S ui - e e claro que elas t:em muiro disso - , essa o riginalidade e singularidad,

<i'" "

1'111

J as manciras como a varied ade das p nhicas que as comp6em se posiciow nstitui. Nao se rraca, pa ra ad ap rarmos a famosa imagem wingensreiniada t.O rda, de urn fio unico q ue as perpasse inteiramenre, defi nindo-as e numa especie de rodo. 0 que ha sao superposi¢es de fios dire~. que se inrersectam e emaranham, urn retomando o curso onde o o utro lftJIIn • •~u , e rodos posicio nados em tens6es efetivas entre si, formando u rn corposro, urn corpo local mente d fspar mas globalmente integral. Separar esfios, localizar essas inrerse¢es, enredamentos, ligac;6es e tensoes, sondar o ' carater agregado do corpo comp6sito e sua profunda diversidade, e isso c:xige a analise desses tipos de pafses e sociedades. N ao ha oposis:iio entre o ho delicado, que revela a variedade, e a caracterizas:iio geral, que defi ne afi0 imporrante e fazer com que eles iluminem urn ao outro e com isso reo que e a idenridade. Eo que ela nao e. llt'

isso - ligar paisagens locais, cheias de deralhes e acidenres, com as topocomplexas em que elas se inserem - requer uma alteras:iio nao s6 da rnacomo concebemos a idenridade, mas da manei ra como escrevemos sobre do vocabulario q ue usamos para tormi-la visfvel e medi r sua forc;a. A teoria que em nossa epoca tantas veus consiste em meditac;6es sin6pticas soprindpios rransformados em essencias e aprisionados numa lura d e morre · ta - coletivismo e ind ividualismo, objerivismo e relari vismo, direiro liberdade e coas:iio - , ou em compromissos ideol6gicos enfeitados maneira a parecer deduc;6es inelutaveis de prem issas inescapaveis, precisa rer ap reensao mais clara das parricularidades do mo mento atual. Mas a linguaem q ue ela e formu lada, uma linguagem que e mais de resumos que de disinac;6es, inibe-a seriamenre, quase por complero, de realizar essa tarefa. Os disponfveis de descris:iio e avaliac;ao nao se ajustam bern a urn m undo iplo, misturado, irregular, cambianre e desconrfnuo. 0 que parece necessaria e algo intermediario, o u que talvez com bine desta daquela maneira as reflex6es filos6ficas sobre o self, o agente, a vonrade e a ricidade (o u seu questio namen to co mo const ructos ideol6gicos ou ilumetaffsicas), os levantamenros hist6ricos do surgimento de etn icidades, Esrados e grupos solidarios (o u a imaginas:iio deles nos rituais politicos recnologias culturais da vida moderna) e as represen tac;6es ernograficas de ·as, mo rais, rradic;6es e vis6es d e mundo (ou a de nuncia delas co mo reexo tistas, hegem onizad oras e neocolo nialistas d e urn ourro que e rad ite virimado) . Mas nao esta muito clara o que seria isso . Quem procura , fac;o aqui, enfrentar o quadro con fuso e conflicanre d e urn m undo que i•~ 1: satisfato riamente d escrirfvel como u ma d istribuic;ao de povos o u um sis


( ) lfl II m/11 rill f't',/,1(1>1

tema de Es~ados, ~m catilogo de culrurJs o u uma ripo logia de rcgimc.s, , 1 m comra mul[a cotsa em que se apoiar nas concepcy6cs acci tas d.as • , humanas. Minha linha aqui, improvisadora, opo rtunista e info rmalmcntc lt·du n ada, a medida que eu for avan yando , consistira em enfocar alrernaJ.1111 Ill duas pcr?umas que. rnencionei antes como send o as que levam as qll<.:'·l J terpretanvas centrals levantadas pelo fracionamento, pela instabilidad 1 r carater descentrado do mundo p 6s-Muro de Berlim: que e urn pars, \(' II uma nac;:ao? Q u e e uma cultura, se nao e urn consenso? Poucos .uw·. quando o mapa do mundo parecia razoavelmente consolidado e scm w 1 nos cram mais o u m enos nftidos, essas duas perguntas tcriam parecido 1 " " sas o u absu rdas, pois havia pouca coisa separando os rermos contrast.tdm. que existia. Os pafses eram nac;:6es- Hungria, Franc;:a, Egito, Brasil. A\ 1 ras eram estilos d e vida comuns - hungaro, frances, egfpcio, brasilcim 1 u.ma cunha entre os rermos, e po rta nto, e ntre as pr6prias perguntas, pa1 1 vmcu hi-los uns d o outros e exam ina-los em separado, pareceria, no mclhnr casas, uma empreitada in util, e no pior, uma proposra maldosa. Talvez ela seja maldosa, a u, pel a me nos, perrurbadora, mas nao e illli' 11 agora exisrem pouqufssimos pafses, e tal vez nunca ten ham existido, que , 11111 dem sequer em carater aproximado com entidades culruralmente solid.i 11 •1 Japao, a No ruega e, possivelmente, o Uruguai, se esquecermos os italianm u talvez a Nova Zelandia, se esq uecermos os maoris. As formas do Estado 111 xicano e alemao, nigeriano e indiana, cingapuriano e saudita- sao tao 111 , 11 sam ente diversas, que mal podem ser coligidas sob uma mesma denomin. 1 1 As bases da legirimidade are mesmo de vizinhos contfguos, os ripos de hi , t11 d que eles contam a si mesmos para explicar sua existencia e justifrcar a cont llllll da~e ~esta- Israel e ] ordan ia, Camboja e Vierna, Grecia e Turquia, Sud .• ,, En6pra- sao enunciados de maneira co ntrastante, m al pod em ser trad 1111 ,J, e nada. rem de hom6logos. A ilusao de urn mundo coberro de ponca a pnfll por Unldades que. se repetem, a qual e produzida pelas convenc;:6es pict6rit · ~ I nossos atlas polfncos - recorres poligonais num quebra-cabec;:a bern cnc;.11 do - , e exaramenre isso: uma ilusao.

·---

Scparar os aspectos poliricos e culturais do mundo desmontado, antt a I tornar a relaciona-los entre si, ao menos nos permite desvendar algo das m,111 bras e ac;:~es cruzadas que esra? envolvidas na formac;:ao e na interac;::io das pr1 , nae colenvas, e alguns dos en1gmas que essas manobras e ac;:6es cruzadas Cl j •Ill para as ordenac;:oes sociais, as economias, as sociedades e as vidas cotidi ana \ 11 11 que elas ocorrem. ~om enos sabemos alguma coisa- nem de Io nge o sufiuc11 re, mas ~lguma cor sa- sobre como se com poem na sociedade as difcrcn~.l\ d, p oder, nqueza, stat us, sorte e habilidade, para o melhor au para o pior, , 11 j,1,

.. ...,~ ~· J

)

......... ,

.,~

o'i itucrcsscs m.ncn.us sc ajustam c conci liam, sao contidos ou subjugJ e ~nbrc como os confli tos idcol6gicos sao resolvidos ou exacerbados, cstaou Jispumdos ate a derrota de UITia das partes, e como sao 1strados. M as, diante de lucas sociais enunciadas em termos da individudos sentimenros arraigados e da lealdade primaria, dos contrasres nal' das sutilezas imanentes, continuamos muiro inseguros. Elas parecem lOmo rempestades e se evaporar com a mera exaustao, ou com uma muincxplicavel do tempo, ou en tao, com maior frequencia, persisrir como 1cs cronicos, latentes, meio escondidos, com os quais meramente se vive ae morre), sem que eles sejam realmenre co mpreendidos, realmente resolNiio e facil melhorar essa situac;::io de meramenre resremunhar e deplorar. scm duvida, o primei ro passo para melhora-la e examinar mais d e perro, e in /oco, 0 que vern (ou nao vem) a ser CXatamente OS pafses COITIO atocolctivos. Eo segundo, com certeza, e examinar o que os faz (na medida em os faz) serem assim. Dcsde 1945, passamos de uma situac;:ao em que havia talvez uns cinquenta universalmente reconhecidos, distribuindo-se o resrante do mundo em ias, proretorados, possess6es e coisas simi lares, para uma situac;:ao em que m quase duzentos palses, e e quase cerro que surjam outros. A diferenc;:a, e cst:i na revoluc;:ao descolonizadora q ue ocorreu na Asia e na Africa e, are ponto, no Pacifico e no Caribe, durante os anos cinqi.ienta e sessenta, e hoje e reforc;:ada pela desarriculac;:ao do ultimo dos imperios transculrurais mcnos que se considere a C hina como um dcles)- a Uniao Sovietica. Essa u~ao foi geralmente entendida, tanto par seus lfderes e re6ricos quanta aqueles con tra quem eles se rebelaram , como uma libertac;:ao da dom inac;:ao ngeira, e, por conseguinte, foi assemelhada com muita rapidez e facilidade movimenros nacio nalisras da Europa e da America Larina no seculo XIX a ultima onda de urn impulso global para a autodeterminac;:ao, 0 governo sc:melhanre pelo semelhanre, a moderniz."lc;:ao d a gesrao governamenral , a Jcac;::io do Esrado e da cultura, ou l:i o que seja. Mas ela foi , como ficou cada mais claro como passar do tempo e como resfriamento dos ardores mais mente ideol6gicos, algo bern mais pro funda do que isso. Foi uma alreraate uma rransformac;:ao, de roda a nossa ideia das relac;:oes entre a hisr6ria, Iugar e o perrencimenro polfrico. 0 reconhecimenro de que o aparecimenro de uma mulriplicidade de pafnovos na Asia e na Africa, de porte grande, pequeno e medio, foi mais do uma equiparac;::io imitariva dos pafses do mundo "subdesenvolvido" ou rasado", o u do "Terceiro Mundo", como chamado padrao do Estado na al, construldo na Europa entre os seculos XYll e XIX, e de que ele foi , sob


I Wl'ol II(£ 10/Jit' ol o/fll/1/f'llfll,~lll

mui ros asp~cws, mais um q~csciona.mcmo dessc pad rao do que \t'll ti ll,, reencarnayao, d emo rou mu1ro a chegar A id J.1'a d'r · · d d c · · ' t: II USIOntSta C CJI II 11 mo erno IOJ feJto na Europa serenrrional e ociden ra,I e d epo1..s t·s~cu, d 111 urn vazamen.ro e 61eo, ace cobrir o resto d o mundo, obscurcccu o f.llu deve esrar evide nce pe los aco nrecim entos nos Esrados U 'd A · c . ,. n1 ose na llllllll tJna, scm ra1ar na Llbena, no H aiti na T ailandia ou no J - ) d d · ' apao c () 11•· un e converg lrem para urn unico padrao, essas en ridades chamad as paf\,·~' yaran: a se o rdenar d e maneiras ineditas, maneiras que submetcl.ttn pressao crescenre as concepc;oes e uropeias alias J."' . I ' d ' a nao mul to segue:\\, 1 11 urn pals e equal esua ~ase. 56 agora as implicac;oes verdad eiramenlt· I .II do processo de descolomzac;ao esrao sendo reconhecl'das Para o b a1 di d · em" '' 1 ; H' a-' lnamlca a cons.rruc;ao ocidental d as nac;oes nao esta sendo rt:p l"d a. a a guma o utra co1sa acontecendo. A

Descobri~, o q~e.r~.de ser isso implica, por urn !ad o, uma comp rt'l'll • termos d .com o , n. ac;ao ' Estado", "povo" e "soc1.ed ad e", cun h agem dt'\l' 1 1 a analise polmca, - comu m, , ' d . que nao os reduza todos a urn pa d rao 111111 ~ente. repr~. ~zldo: e, p or outro, implica uma comprecnsao de termm ' ldentJdade ' tradJc,:ao", "afiliac;ao" e "coerencia" vocabula'r,· ·d d d · ' o nao lllC'Illl ~~; a escr~c;ao c~l tural, que nao os reduza rodos unifo rmidadc c .'1 ··• era d e ~nenrac;ao,. a urn molde de caregorias. £ nessa iniciariva ' til empenharel, d e manelra preliminar e explo rat6 ria, nas pr6ximas dua,' •Ill desr~b~alpdftdulo,dna esperanc;a de esclarecer os desafi os e os riscos, os terrol~ ' possl 1 1 a es o mundo desped ac;ado.

a

0 que eum pais, se nlio euma ndflio? As palavras que usamos hoje em dia para fal ar do que tomamos or alil I elem entares da ordem polfrica global - "nar<io" "Esrad " " ,~, " I ·, d " " " • . . r' o , pa1s , SOli• , e ' povo - te.m uma am bJgilldade p erturbad o ra, incorpo rada em \tu tl cance, seu prop6slto e sua definic;ao. Por urn !ado n6s as usam d . · b., 1 ' os e m.uu 1 ln tercam lave, como se fossem sino nimas: " Franra" o u " H . " "C, I o "C b · " "M-' · , .. • ungn a , ~ 1111 u am OJa ' cxlco o u E ri6pia", "Ira" ou "Po rrug I" d . I sas ao mesm t _ a sao to as ess.1' 1 ,, I d 6 o embpo - nas;oes, Esrad os, p aises, sociedades e povos. Por 011111 a o, n s as perce em os como desviando-nos em suas nuan s • · . . • c;aseconota\t" uas ressonanc1as e senndos m re rnos p ara direroes · d 'c san d multo lrere ntes: p.11 1 ~ue, a ras;a, a escendencJa e os mlsten os e mistificac;6es da sem elh I l6gJca; para a lealdad e poll rica e c ivil e p ara as indivisibill'dad es d I .and<;.t ',II• d d fc d a e1, a 11 ,, l e~cla: a o rc;a .e o governo; para a agregac,:ao geograft ca, a demarc I t tern ton al eo senn menro d e origem pi tria e habit t· . .\ ' a, para a 1nrerac;ao, o co 111 A

·A

'

,

,

rismo c a associa~.H> pd tica, o encon tro de pessoas eo jogo de intcresscs; 11 afinidade cul tural, hist6 rica, lingilfstica, rel igiosa ou psicol6gica lJiiididad e do espfrito. ambiguidade, persistence, teimosa, ral vez irremovfvel, perturbou a da Euro pa e das Americas pelo menos desde o seculo XVII, e agora perde modo pelo menos igualmente impladvel, tambem a Asia e a Africa. 111rrnt· :1n do bio l6gico, d o governamcn tal, do territorial, d o inceracional e ural co mo exp ress6es equivalences e inrercambi aveis de uma mesma re' como embutindo-se u mas nas o urras e convergin do para uma soma , c.• o senti men to de que elas s6 se emb utem e co nvergem assim de manei'al e incompleta, de que se referem a realidades d iferences, representam dC' solidaried ade e afiliac;ao diferentes, nascem de imagi naries diferences, diferentes e temores d iferentes, to rnam incerto saber exatarnence o rnapeado no m apa polftico do mundo. Q ue djzem os ao dizer MauritaOu Eslovaquia, Bo lfvia, ou Aumalia? Folheando os ve rbetes perrinentes no Oxford English Dictionary, vemos pC'rplex.idade e sua hisr6ria, pelo rnenos no rocanre aEuropa e aos inglcscs C'll diria que o rnesmo resultado seria obtido se vagassemos similarrnente p~ginas do Grand Robertou do Deutsches Worterbuch) . Em cada termo ha espccie de pen umb ra basica de senrido q ue !he eespedfica, cercando-o de CC'rtO ar e to nal idade, eo q ue parece ser uma rentariva del iberada, ou, a ridc:scsperad a, de suprimi r isso e empurrar a palavra para uma coincidencia ica com as ou tras, para produzir, seja como pals, povo, sociedade, Estanac,:ao, urn a unidade generica da acrao coleriva - del imitada, designavel, c: coerentemence defi nida: urn self hisrorico. " Country" [pafs], por exemplo, que nos d izem p rov ir da raiz Iarina da q ual recebemos "contra" e "counter' [conrrario], desloca-se de u rn chamatide literal, "aqui lo que esta em frente ou d ian te da visao, a paisagem que nde diance dos o lhos", passa por uma serie d e defi nic,:6es, q ue vao da defigeneral izada d e "terreno o u pedac;o de terra de extensao indefinida; redistrito", e das defi nic;oes bern mais espedficas de " terreno ou distrito de mais o u menos defin idos em relac,:ao aocupac;ao humana, p.ex., pertenao mesmo senho r o u proprietario, ou habirado po r pessoas da mesma dialeto, ocupac;ao etc." e "terra de nascirnento, cidadania, residencia etc. pessoa", ate a defi nic,:ao intei ramence ab rangente de "territorio OU area uma nacrao; em geral, Estado independente ou regiao antes independentc c para lidar co m a Esc6cia e a l rla nda], que se distingue ainda pela ra~a, instituic;oes ou lembranc;as hist6ricas"; e, para culm inar, vern a dcfini dircta e simples de "povo de urn distriro ou u rn Estado, nac;ao"- como n.1


n 1111111"11 , , prd·l! Ill

N111'.1 lue 11hrr ''"'""'/"''"!.'''

llistorin rln fnglntcrrll, de Macaulay: "0 povo nao tinha amor a scu p.ti till rei", o que nao significa, imagino, que nao gostasse da paisagcm. ' A pabvra "povo" segue uma trajet6ria semelhante, indo de urn.• de f1 general izad~ e indistinta de "populacho", "mulcidao" o u "plebe", pass.uulo las caraccenza~6es bem mais espedficas de "pessoas em rela~o a urn su 1 ou a alguem a quem percencem" e "rodo o corpo de ... cidadaos qu.1lil1 como uma fonce d e poder", ace chegar, mais uma vez, ao coletivo tllll "corpo de pessoas que comp6em uma comunidade, tribo, ra~a, [grupo 1·111 - "~. 0 mesmo aconrece com "Es tad o " , que vern, e claro, das r.llt ou nac;ao posic;ao e siruac;ao, como em "estate" [propriedade, condic;ao social] c '\1 11 e~e-deslo~a semancicamenc.~ por "domfnio" e "comunidade", acechega1 :1d mc;ao ma1s concencrada de corpo de pessoas que ocupam urn cerric6riu d, II do e organ izado sob urn governo soberano ... , o cerric6rio ocupado pot corpo", e daf para a detlni~o plenamence integral de "supremo poder cival. governo de urn pals ou na~o". "0 Estado", escreveu Matthew Arnold l:lll I mocrncin, "e, propriamence falando, ... a n ac;ao em sua qualidade coleciva, 5 poranva . 0 padC:io se repete com "sociedade" (''associac;ao como semelhantc": o;l lac;ao com pessoas"; "conjunro de pessoas que convivem [numa] comunid~ j ordeira"; "sistema ou modo de vida adocado por urn corpo de indivfduo\ I' 1 6 fins de convivencia harmoniosa"; "liga~o ... uniao ... afinidade"). Mas c , .. 11 o termo mais radicalmence consolidance da serie, e o mais esquivo, " na~.111 que ele chega a sua expressao mais plena, corn a palavra acraindo rodas as 011111 para si como urn escranho aerator semi6cico. "N ac;ao -" , que prov~.:m .c do Iallln . nation-em, '' linhagem", "cepa", "rac;a",lu•t s~a vez deri:ados de nasci, " nascer", rem, ou ceve no decorrcr de sua evolu\.111 d1versas apl1cac;6es alcamence particulares, co mo "famflia, parentela", "cl,1 11 Iandes", "populac;ao naciva de uma aldeia ou cidade", "classe, especie ou 1.1\il de pessoas", "domfnio, reino", ou "a totalidade do povo de urn pals ... em co11 trasce com algum corpo menor ou mais rescrico dencro dele", a maioria .t 1 q~ais, a esca alcur.~, resvalou para a vascidao magistral do que se cornou seu mficado central: Ampla aglomera~o de pessoas, cao escreicamence associad.u umas as ourras pela ascendencia, linguagem ou hisc6ria comuns, que form.u 11 uma rac;a ou povo disc:into, em geral organizado como urn Escado polfrico" parado e ocupando um terrir6rio definido." ("Nos exemplos iniciais", comc11 tao Oxford English Dictionary, ralvez embarac;ado, ele mesmo, com o imen··•• alcance eo car<~rer con fuso que a concepc;ao havia assumido em 1928, "a idtl, racia l costumava ser mais forte do que a polfrica; no uso recente, a ideia de Lilli dade polfrica .. . e mais proeminence"; eo diciomirio fornece duas cirac;:oes, b., ranee oposcas jusramenre nessa cendencia, para agravar ainda mais r 0

,

''I'

d.tdc: a frasc populil!ta de Bright, no cstilo "roc;ado c caberna"- "a na

de tmlo pafs mora no ctmpo" - , e a frase hicracica de Tennyson, no gene. c cerro": "Sepulremos o grande duque [ou seja, Wellington] ao som 7 cnlucado de uma nac;ao poderosa.") Mcnciono cudo isso nao por achar que as palavras em si fac;am o mundo (embora, na verdade, elas cenham urn bocado aver com suas obras e seu amenco), nem por achar que e possfvel incerpretar a hist6ria polltica a d.ts dcflnis;6es dos dicionarios (embora, na verdade, elas escejam entre os rnrcs mais sensfveis e menos usados de que dispomos para registrar seus res subcerraneos). Menciono rudo isso por acredirar que a censao entre lOnccpc;:ao convergence e uma conccpc;:ao dispersiva da a~o coletiva, en• tcntativa de cornar os cermos dessa a~o idenricos e inrercambiaveis e a iva de manter suas difercnc;as e separac;6es, reflere e, a rigor, impulsiona ro do que vern aconrecendo no mundo ulcimamence, bern como o que os antrop6logos, jornaliscas e ide6logos rem a dizer sabre o que esci ndo. De faro, na Europa entre Napoleao e Hider (para dar urn nome rendencia um perfodo cendencioso), o movimento de subordina~o das varias made pensar sobre a pergunca "que sou eu (ou voce, ou n6s, ou eles)?" a anc,em:lio de uma semelhanc;a global de especie, diflcil de especificar, facil de ire imposslvel de erradicar, foi uma dinamica central da hisr6ria polfrica, assim que foi rrequencemente idencificada com 0 pr6prio processo de iza~o. 8 Urn processo relarivamente curro, como s6i aconrecer, sumalocalizado em rermos geograficos e basranre incomplero, de qualqucr foi tornado por paradigma geral do desenvolvimcnro politico, em codas ~pocas e por coda parte. Foi isso, que eu chamaria de preconceiro, que foi ionado, primeiro, pelas revoluc;:6es anricolonialiscas, desde ada fndia no dos anos quarenra ate a de Angola no infcio da decada de 1970, e agora, desmoncagem do mundo bipolar (racetas, alias, de uma unica subleva~o). No que concerne arevoluc;ao ancicolonialista (que, no espac;o de quarenta quadruplicou 0 numero de encidades chamadas pafses, nac;:6es, Escados povos- sociedades discinras, com nome e enderec;o), como assinalei antes, foi simplesmenre assemelhada, em sua cocalidade, ao desenvolvimento euu, ou ao que se sup6e cer sido o desenvolvimenro europeu. Especial mente suas fases declamac6rias iniciais- os dias de Bandung de homens como Nehru, Hoe Sukarno (e como Mao e Tiro)-, ela foi vista como ";t ima onda" de urn movimenco mundial rumo a " nacionalidade [como] pr.t nrc inseparavel da consciencia policica", para cicar Benedict Anderson, o rico da narrariva mescra disso tudo.'J Mais recencemence, OS rcnorm.'IW\ denrro dessas enridades- a disjunc;:5.o nigeriana, cingalesa c a1 ~d1


lOCJ

() 111111111t1 rill prtltlftll

na, o terror camboj ano, o genodd o sudancs, a guerra civil iemcni1, suas rela~6es umas com as o urras con1plicaram basrante o panor:J m.t I , 1111 concerne a desmo n ta.gem do mundo bipolar, a perda do senrimcnt" d mentos analogos, e ncaixados numa esrrutura bern definida do podl' l , d porrancia, tornou diffcil de articular e di ficil de defender a idci.1 cl. •11 mundo se comp6e d e nacionalidades ato micas, poderosas e nao podt'llo 1 beranas e subalternas. Resistir a coalescencia das dimens6es da C() l tlllll polftica, m anter sep aradas e visfveis as varias linhas de afinidade qu<.• t 1 Ill mam popula~6es abscratas em atores publicos, de repente parece tel " 1 do, mais uma vcr., conceitualm enre util, moralmente politicamenre realista.

Na busca desse objetivo, poderiamos, e d aro, si mplesmenre percorrcr, llll e rotineiramenre, os diversos pares - povo e sociedade, sociedade t' I 1 Estado e na~ao, e assim por diante - e expor alguns dos danos e c0111 11 erroneas que resultam de nao se manter entre eles urn a distin<;:1io suficic11t• cerro po nro, isso j:i foi feito, aqui e ali, e de modo basta nee assistematico, ..1 tudo co m respeito a n a~ao e Estado, a medida que o hifen da formula d11 I do-na~o passou fin almente a ser visto com urn olhar mais crftico, c 'I'' princfpio da au rodetermina~ao nacional (todo grupo que real mente qut'll , Estado deve te-lo; qualquer grupo que tenha urn Estado e per se um.t II·'' passo u a ser visro como o fogo-faruo ou a idealiza<;:3.o q ue e - T ami l N .. 1,, C urdistao, Suriname e Zaire. M as quero concenrrar-me aqui apenas till desses pares, paise na~o, e sobretudo em liberrar o primeiro dos tenta<:t d,, segundo. A fusao o u confusao deles, que equivale a quase completa subnu1 da ideia de pafs, nao ap enas obscurece o que vern aco nrecendo neste ou IIIII I le Iugar. Ela nos impede de ver com muita clareza como de faro se monla 1 mundo atual.

A maneira mais facil de fazer isso, clara, e simplesmente opor urn LCIIIIII o utro. Podemos maldizer urn deles como "nacio nalismo", coisa q ue e "pot 1 tureza incivil , antidem ocratica e separatista, uma vez que confere podct , 111 grupo ernico sabre OS dem ais" (para citar as paJavras do ultimo emb;li~ 11l1 no rte-americana na Jugoslavia integrada, num relat6 rio perspicaz, afo t.t 1 sobre o que aco ntecia por Ia), e podem os enaltecer o o utro como "pat111111 mo", aquele amo r decente e calo roso pelo pafs - verdes vales, cafes na.s l tf,, das, 0 chamado do al m uad em, 0 mon te Fuji em meio as brumas, OS CllliJ"' piaZZilS, o cheiro de cra.vo. O u podemos o bjetifica-los como express6es cl.t .111 cat6rias, tipos irreconc iliaveis (urn mau e urn bo rn) de "nacionalismo", ·" ollt1 r I"' ern tco vs. ctvtco , o fitct.al,, vs. " popu Iar ,, , "d esmem b rad o r'' vs. (( uni llc:..u "'

,

"

'

,

(t

:w7

ll.tbsburgo" (ou "oriental") vs. "liberal" (ou "ocidem al"), o u seja Ia o que F.m qualq uer desses casos, fica-se com uma imagem maniquefsta, que o provincianismo enciumado e a xenofobia sanguinaria, de urn lado, ao lw si ncero e a serena autoconfian~, do o utro. N um nfvel mui co geral, o daquela visao do balao pairando la n o alto, isso e tc plausfvel: o tipo de nacio nalismo associado a Hider ou Karadzic realparece estar em rigoroso contraste com o tipo associado a Ghandi ou Mais uma vez, po rem, quando descemos aos casos particulares, ao et(se e disso que se trata) de Israel o u Banglades h, da H ungria ou de pura, ou ao patriotismo (see disso q ue se trata) de Castro ou Soljenitsin, h Powell ou Jean-Marie Le Pen, as coisas come~am a ficar bern menos 6bSc comarmos, po r exemplo, tres pafses que neste mo mento vern sendo em graus ascendenres de severidade e perigo, po r idenridades coletienunciadas como n a~6es e que resistem a ser abarcadas po r estas- o Canao Sri Lanka e a (ex-) Iugoslavia - , ficara claro q ue as rela~6es entre "pais" e " sao tao diferentes de urn para 0 o utro, q ue e impossfvel encerra-las opos i~o dicotom ica, do mesmo modo como esrao encerradas numa fupro mfscua. E, se prosseguirmos enrao para o Burundi ou a N igeria, o Afeistao o u a Indo nesia, a Belgica o u os Estados Unidos (deixo de lado a Suf~a Ubano, como casos q uase acessfveis demais), as coisas ficarao ainda mais dilicadas. Mais uma vez, nao ha nada senao uma especie de etnografia polftiuu polftico-economica que possa ident ificar as rel a~6es entre pafses e as afini dades e dissonancias em q ue eles esrao envolvidos por qualoda parte - nao, nao por q uase toda parte: em toda parte. lsso po rq ue, na medida em que ha uma dis tin ~ao a ser fei ta entre "pals" e ", ela nao esra na civilidade e nao agressividade de urn e na paixao e vocida ourra, o que, de qualquer maneira, nem sempre aco mece (vide a a Fran~a, o Marrocos, a Argentina). Esta, no pri meiro, como uma arepolftica, e na segunda, como uma for~a polftica: entre urn espa~o demarcapor fro nteiras e ate cerro ponto arbitrario, em cujo interior sao contidos, !ados e postos nos eixos os t ipos mais imediatos de lura publica, aqueles irrefletidamenre chamamos de in ternes (a orden a~ao dos encontros soa distri bui~o das possibilidades de vida, a utiliza~ao dos recursos produ' e, em contraste, uma das energias centrais q ue impulsio nam essas lucas: acnrimenro de quem sao aqueles de quem se descende, quem sao aqueles com m see parecido no pensar, na aparencia, na maneira de falar, de comer, de r, o u nos gestos, e a que m, po r conseguinte, sente-se q ue se est:i empali<..l ligado, haja o que houver. Se tomarmos brevemente os tres pafses q ue acabo de citar como cst.tndo ndo por graus variaveis de tensao, enu nciada em termos de nac;ao o C.t


r J "'"""" '"' pnMfllr

nadt o ~ ri Lanb e css3 sombra pcr'>t'>tcntc, ncm Jcsapar<.'cida ncm JHl''<"lllc e :l lugosl:ivia -,esc 0 fizcrmos scm ncnhuma tcntativa sena de OCSVl"tlllll hist6ria, avaliar suas perspectivas ou julgar os crros e acenos <.las cot'·" (hal para a qual, com coda a franqueza, nao estou preparado), essa imcra~·"' l:llll campo da polftica e sua complei~o f:cara bastante evidence. 0 arranjo t·., ranjo das cis6cs e uni6es geradas pel a lingua, pela ascendencia, pela rasa. I' Iii ligiao etc., bem como os espac;os e limites em que essas cis6es e uni• arran jam e se desarranjam, nao apenas diferem largamenre de um caso p.11 tro, como rambem as parricularidades dessa diferenc;a afetam profundanH·nt que, como costumamos dizer, ralvez com mais ratio do que nos damos t acontecc "no terrene". Urn pals enorme e de ocupa~o muito desigual, 11111 1 queno pals insular densamente povoado, ao largo de urn continence, e umtn te irregular de vales entre montanhas, planlcics fechadas, rios sinuosos c lunr estreitados, cercado de perto por vizinhos ciumentos, proporcionam tjU ideativos espedficos e distintos para o choque de idenridades -lugares ht tut cizados, que moldam com cerra forc;a a esrrutura do choque.

0 Canada, descrito pelo sarcasrico papa do jornalismo de Toronto, Co111 d Black, como sendo, "hisroricamenre, ... uma coler;ao de pessoas que nao <I 111 americanas: franco-canadenses abandonados pela Franc;a em 1763, depot. I vit6ria milirar britanica; os leais ao Imperio Britanico que fugiram da Rcvnht c;ao Americana; imigranres e fugitives da Europa e, mais recentemente, dt ••11 tros lugares, inclusive dos Esrados Unidos; e natives de Terra Nova, regiao qtl mal conseguiu eleger-se para se tornar uma provincia canadense em 1949, ,f, pois de ira falencia como domlnio autonomo"; somados (em bora ele sc esq11• r;a de mencion:i-los, talvez caracterisricamente) a urn numero considerivtl .J, ?Tupas ,amerfndios sig~ ift cati.vamente diferenteS, de~ertO e urn pafs em tjlll tmposstvel perder de VISta a dtferencya entre o espac;o tdeativo em que a polftu 1 c mol dada e pelo qual se espalha (dez mil hoes de quilometros quadrados t'Jll 11 Detroit eo Cfrculo Artico) e as idenridades colerivas que colorem essa pol111 ca." A lura que ocorre Ia, muiras vezes vista (pelo menos pelas pessoas de f01 •J como uma quesrao pura e simples de orgulho frances c sanguinolencia ingll· 1 e, na verdade, urn encontro mulrifacetado de "diversidades profundas", qw • desenrola num territ6rio imenso, insuftcienremente conhecido, imperfcll• mente concebido, nao u niformemente ocupado e desigualmenre dorado dl u curses. Quando 90% da popular;ao, talvez, concen tram-se numa faix;l .J, trezentos quilometros ao norte da fronteira norte-americana; quando mct.ul• da populac;ao vive a pen as no corredor en tre Toronto e Montreal e 1/4 dcla vrv• em Quebec, que rem mais de 80% de falanres de fran ces; e quando os ou111•1

10 do pafs (o none mats ou mcnos congclado, ondc se sirua a maior propor· dt· ~cus rccursos narurais) sao tao escassamente povoados que tern uma ia amerfndia em quase rodos os lugares- apenas para arranhar a superd.l complcxidade (ha urn ripo diferenre de minoria francesa em New nswick; ha esquim6s inuit nos terrir6rios do noroeste; ha ucranianos e asiagrupo em rapida expansao, e mais outros Indios no oeste; ha mitis, mestide franceses e {ndios que falam crioulo frances e indfgena, na regiao central rta de florestas; e ingleses de fora a fora naTerra Nova) - , e 6bvio que se uma situac;ao em que ha uma boa margem de manobra entre as partes e os como quer que sejam definidos. E a hist6ria poll rica recente do pafs (embora nao s6 a recenre) tern consisticm coda uma serie dessas manobras, a maioria delas aborriva ou, ate o presenincompleta, indefinida e de futuro incerto. Houve tcntativas de rever as ur,os.u·:o(~ constirucionais, ja entre as mais modificadas do mundo (s6 a Belgica ..vo1n;;1ua ou o Ubano debilirado parecem rer ido mais Ionge), de inventar novas de varies tipos (o Conselho de Yukon, o Nunavur, a Associa~o dos is), de ajusrar as fronreiras inrcrnas, de redistribuir recursos entre regi6es e e, mais especialmenre, de anrecipar ou, na falha rambem disso, de fapreparatives para a secessao quase cominuamenre ameac;ada do Quebec. E isso enquanto se procura, num pals essencialmenre definido por uma unica teira, manter sua inregridade e autogestao peranre aquila a que seus llderes umam referir-se cuidadosamente como "nosso grande vizinho do sui". 0 resulrado e, a urn tempo, fluido e curiosamente persistente- urn debacronico sabre "Para onde vai o Canada?", no qual a lfngua, a religiao, a ernie 0 regionalismo parecem estar conrinuamenre a beira de alterar a pria forma do pa{s, retrac;ando seus contornos e transformando por complete a ropografia do cenario polfrico, mas, pelo mcnos ate agora, sem realmente co nseguir faze-lo. Como se desenrolara rudo isso, e clara, ainda esra por ~ dcscobrir. Sera que o Quebec flnalmcnre se desligari, ou se desligara parcialmente ("urn Esrado soberano dentro de urn Esrado soberano"), ou conrinuara apcnas a ameac;ar incessantemente desligar-se? 0 que quer que ele fa~, quais acrao suas rclac;6es com o resro do Canada, inclusive, o que nao csem tmportincia, com as tribos indlgenas que se encontram dentro de suas fronteiras (entre algonquinos e inuks, elas comp6em a maioria da populac;ao em cerca de mcrade do rerrit6rio reclamado pelo Quebec), e com as quais ele ja esra cnreda do numa briga pelo conrrole dos recu rsos naturais das terras indfgenas? (" I• possfvel que os manses herdem a terra", como teria dito J. Paul Getty, " tn,l\ clcs podem esquecer os direiros aos recursos minerais.") lrao os resse n(imt•tllm das provfncias ocidentais contra Ontario, que hoje assegura meradc do PI B (t• que, num Canada sem o Quebec, responderia por uma parcela csma~.HI01.1),


() 1111111,/11 fill f'r,/,/flll

ou o~ rc~scntimcnros dos Iabn res de inglcs rcmanesccnrcs em Montr' ,d tll a marorra fran cesa do Iugar sofrcr uma cscalada ern d' C . ' rrcc;:ao .1 nova, 111 p111 ~mo sc organnara ftnalmemeo im enso e aberto none, sobretudo <Jll.uldt na enses europeus co.me~rem a se mudar para Ia? E por af vai. Eo mesmo se aplrca ao relacionamenro do pais com seu vizinho dv.•••ll ranee. Black, ele mesmo urn angl6fono nascido em n . b d ~ '<.ue ec, que, co111o 11111 meu~eus conterraneos (c~m mi.l, desde que comec;:ou o separatismo, cnr I q ou-se pa~a um .mer? mars congenerico, chegou a projetar unu (chamada, crero que rronrcameme de "Uma Uniao M . p fc • ") Es d b' 1 al ' ars er erta em q 111 ta o rcu. tur se desfizesse, o Canada ingles formaria uma fcdera . Esrados Unrdos, esrabilizando a "complicada demografi , d ' IS.:~<~''"'' r l, · . a este u lllllll ( ermos g~opo rtJ.cos, a ~enca quase renasceria"), embora nao esre·a d."" ele pr6pno canst~ acred rrar nessa hisr6ria.' 2 0 que esra clara e J ( como pals e d "' que 0 .Ill ' mats urn campo e liohagens', 'especies' ou 'ce as' de " (cul turalmenre supostas) do que uma linh · p . I , . d . . agem em st mesma _ corsn, t d que quanta aos Esrados Unt'd os, " vot.''I von so vu .I N. ·e atn , ~mats perttnenre . ntzonen ' como dtsse Herder algum tempo arras.

,j,

Considerando sua aparencia 0 s · L k 'd C . . . C d , Ilh ' n an a, nascJ o et 1ao, d rficilmentc lt•rllhl rra o ana a ora ape r d de 11150 do ~amanh d r a ~· c£ao uma vasra ~xrensao continental, tcm '' r 0 I . aque e. cern vezcs mats densamenre povoado 11 1abtranres razoavelmenre bern disrribufdos por rod , - ' t tn' d _ . . a a sua area, e nao apllrlr ~s em co ncenrrac;:~es dtsttnras, que se desracam de enormes vazios Eo pr~laAd~ dde cle~ro6~ crnquenra anos de dominac;:ao colonial direra e ~ais r emo e 1rsr rra e nao u 1 - d . . ' . ma co ec;:ao e pessoas reun rdas por acaso c em d rt m~tto reccnte. E e troptcal, .asiarico e pouco indusrrializado. 0 faro de h.ll I :~amcedrros aspecl~osl , uma ~udnosa semelhanc;:a entre as rens6es inrernas qut '"' T esmanrea-o-atn aque 1 ~ 1 . . 'pe o menos ate agora, e as sejam muito IIIII severas, mutro mats carregadas de 6dio e muiro mais marcadas pela vinic II I - e as gue amea~am desmanrelar o Canada da o que pensar. u Tambcmnr' caso, 0 pafs em St e mcnos uma suposta "Jinhagem" " e . "d terreno hisroricizado- urn meio e um Iugar no lou esiJ:' here o qut "''' · l qua essas 1n agens ou 1.,1, ~r es se acorove am, consrruindo-se mutuamente e construt'nd .t · d o o cara£('1 , ,, lnte resses co Ienvos umas as ourras. Pelo mcnos para llln observado d ft . Sri Lanka e d r e ora, o que parece mats marcan tc IHI ' m termos as tens6es entre idenridades grupais gue 0 vern Jl'\11•1

m

y"Replcro de inumeras pequen:JS na~ocs''. (N.T.)

,/;':11:

211

ll<t' t'rlt im;1s quatro dccadas, mais ou mcnos, nao co faro de clas screm rutidamcmc bipolares do que costuma sera norma nesses casos, hoje em (16 Ruanda ou o Burundi, ou ralvez a lrlanda do Norte, parecem aproxiddc nesse ;'!Specto; a Nigeria, a Jugoslavia, a fndia, o Canada e os EsraUnidos, mulrifacetados e com situac;:6es inrrincadas, sao bern mais da norma), nem rampouco eo faro de elas serem tao severas, tao crot' litO resistentes a divisao das diferens;as. 0 que mais impressiona e envoJum choque entre dois grupos que, de algum modo, sentem-se ambos rninorias; e rerem surgido muico recentemenre, como resultado quase dos aspectos incrigantes do "auto" de "autogesrao"; e terem ocorrido pals que, sob ourros aspectos, rem sido basrante esravel, progressisra e mcnos moderadamenre bern sucedido -crescimento populacional reduinflac;:ao conrida, melhorias na educac;:ao, uma taxa de crescimento decenuma taxa de morcalidade in fa neil que se aproxima das do Chile ou da Coreia 14 e uma expecrariva de vida equ iparavel as da Hungria ou daArgentina. A sicuacyao de duas minorias resulta do faro de que os cerca de doze milh6es '"'"'''""'""'• a maioria dos quais ebudisra e fala uma lrngua indo-europeia, sao a rdade dos que exisrem no mundo, enquanro os cerca de rres milhoes de raot maioria dos quais e hindu e fala uma lfngua dravfdica, conram com mais ou quarenta mi lhoes (caracrerisricamente, 0 numero e discurido) do outro do esrreiro de Park, na fndia meridional. Assim, e facil a mbos se consideratragados urn pelo ourro: os cingaleses pelo ex pansionismo rami I, que se inperiodicamence sob a bandeira de um T ami I Nadu livre e unificado, e os · pela dominacyao exclusivamenre cingalesa do Sri Lanka propriamenre o que e urn rema central do alvoroc;:o politico rrazido pela independencia, mcsma urn processo rranqiiilo e sem dramaricidade, quase huis clos - nada aucrra nem revoluc;:iio, nem sequer uma grande agiracyao. A criac;:ao de urn pals, ou, mais exatamente, suponho, a oficializac;:ao de pais onde antes exisria uma colonia, foi o que disparou os problemas ernido Sri Lanka- e nao queixas anti gas ourem ores alimenrados desd e longa 11. Antes de 1948 e por alguns anos desde en tao, uma elite bicultural anglici' cnrrincheirada em Colombo, manreve as coisas funcionando de maneira 1~ ou menos ordeira; as rens6es grupais existences eram difusas e localizadas, roladas por diferenciac;:6es mulriplas, acordos esrabelecidos, lealdades cruc complexidades praticas do coridiano. Mas, de meados dos anos cin lla em diante, essa civilidade delicada e meio artificial entrou em cobpso, itufda por uma divisao radical da popu lac;:ao em supercarego rias de "cin e "rameis" (ou "budisras" e "hindus", ou "arianos" e "dravidianos") c uma curva ascendenre de desconfianc;:a, ciume, 6dio e violencia, quc .tind.1 l hegou ao fim, a despeiro de uma serie de proposras consricucionai~ 11n C\ · I


..!ll

lilo canadensc, de uma noca comfnua de go vet nose do auxflio rclut ,ttlt 1 111 Ill solicitado, e agora encerrado, do exerciro indiana. Podcmos deixar de !ado aq ui o que, no espac;:o de poucos a nos,,, "1 11 rudo isso- a ascensao de d e magogos cingaJeses ao poder e a rejci~.to d.. h d.e lf.ngua inglesa, ra.nro pelas massas fa!~ res de cingales quanro pcla~ dc·ltfl~ll ramtl; a baralha apatxonada da lfngua, amda nao resolvida, que decom·11 ,1 1 a transformac;:ao do budismo, antes uma relig1ao quietista, num credo 111 ili1 n re, sob a lideranc;:a de monges empenhados na revivescencia religiosa c Jl· 111 1h cos yajurvedicos; o crescimenro de separatismo tamil, da atrac;:ao pclo ~ 11 1 it fndia e das travessias de urn !ado para outro do estreito; a onda de migr.t~.ln In terna, segregayao religiosa, agregayao etnica e terrorismo redproco; c 0 I IU descimenro de uma mitologia chissica de guerras religiosas, raci.u 1 comunit:irias, conquisras tameis e expuls6es cingalcsas. Os deralhes, d,· q 11 ttl quer modo, sao obscuros, e mais obscuro ainda e 0 seu peso. 0 import.llll que, mais uma vez, os lim ires de urn pafs, celebrados e quesrionados, hist 1111 mente montados e hisroricamenre desmontaveis, fornecem o arcabou~o •n que se cristalizam os conflitos de idenridade: o palco- no caso, comp.11111 superpovoado- em que eles sao forcrosamente elaborados, ou nao 0 sao, I (I ro. Faz direrenc;:a onde as coisas acontecem. Por cerro faz diferencra nos Bilcis. Volrarmo-nos brevemente para a Iugmltd (ou, como agora devemos dizer, com emonac;:ao descendenre, "a anriga lui'" I via") nao rem a intenc;:ao de deslindar o que praricamenre codas as ourras p~,.. 1 que o tentaram, inclusive os habeis e desesperados senhores Vance e Owen, c•HII sua reestruturayao da B6snia-Herzegovina em dez etapas, basicamenre naol .. l! seguiram deslindar. Tampouco posso abordar as rerrfveis quesr6es de mut•l polfrica que ela lanc;:ou num mundo despreparado para enrrenra-las. Quero 'I' nas concluir minha serie curta, ilusrrariva e muiro arbitraria de casas insrruttvg (eu ~ambem poderia cer considerado a Belgica, a Nigeria e o Afeganisrao, ott 1 Brastl, Ruanda e a Tchecoslovaquia): casos em que discriminar entre um I' como Iugar hisroricizado- uma localidade, urn nome e urn passado que p11,f ser lembrado- e as solidariedades afins do "quem somos n6s?", que o rc~p.d dam OU 0 problematizam, e mais Uti! para a reflexao SObre Uffi mundo estilh,l~ 1 do do que a fusao dessas duas coisas num "nacionaJismo" demonizado, d ramanho unico. A Iugoslavia (doravanre YOU suprimir 0 "anriga", a bern dol .• I lo: a expressao deve ser rida como !ida, em sua mais plena ironia) consritUI ttl It exemplo em que os tipos de rensoes que are agora rem sido conridas no Can;ul.t, pelo me nos suporcadas noS ri Lanka (em bora o mundo nao parec;:a rer muira t 1 1 teza disso, dados OS nfveis de viol en cia envoJvidos) esmagaram 0 pafs: literal me 11 · teo desrroc;:aram, detxaram-no em pedac;os. IS

u

A "vl11udc" (p.tlavta us;tda, cc.laro, enue as mats pcsadas aspas do hotror) cque 0 pafs sc dcsmcmbrou- isto e, foi desmembrado - , nAn prc<.isamenre em camera lenra, pelo menos com uma cerra delibcrayao .ivcl, do gencro "quem diz 'A' rem que dizer 'B'", na qual os estagios da ntq~r•tc;:flo roram distinros, nfridos, dramaricos e visfveis. Houve o discurso M1losevic em Priscina, capital do Kosovo, no anivers:irio de seiscencos anos famosa bataiha perdida para OS CUCCOS, que final mente demonstrou, ate para ' iugoslavo dos iugoslavos (ainda restavam muiros naquela ocasiao, e eles n Ionge de ser impotences), que a Questao Servia rinha volrado para fiHnuvc a sa ida quase furriva da £slovenia da Federayao, em junho de 1991 , da confusa e hesitance guerra dos dez dias, a declarac;:ao coincidence da · da Croacia, o reconhecimenro desses dois aconrecimenros pela haem processo de reunificac;:.1.o, retornando a polirica europeia como ator dcsimpedido, e a eclosao da guerra na Croacia, que se seguiu imediatae, quando Belgrado resolveu apoiar seus enclaves servios. Houve o desloto da guerra para a B6snia-Herzegovina, ap6s sua declarac;:ao de 11U:pc·no1encia em meados de 1992, eo maJfadado projero Vance-Owen dediem cant6es, em 1993- o desmembramento da B6snia para salva-la; o I c poroso cessar-fogo de Sarajevo; outro plano de divisao em cant6es; a asadora perspecciva dos assassinaros inrerminaveis, em 1994; e a rremula paz Acordos de Dayton. Cada urn desses aconrecimenros, alem de uma poryao outros- o bombardeio de Dubrovnik, o arrasamenro de Vukovar, o cerco Sarajevo, a reduc;:ao de Mosrar - , foi uma fase de urn unico processo: o apamo de urn pafs e a tencaciva de redelinear o que restou. (Os aconrecimenmais recentes em Kosovo sao apenas mais urn capfrulo de uma hist6ria -que vai acontecer com Montenegro?- e ralvez interminavel.) 0 pais nunca rivera, e clara, rafzes muico firmes; sua hist6ria era curta, ver••nosa. entrecorrada e violenra. Reunido pelas Grandes Potencias, depois da Guerra, a partir de alguns dos enclaves lingi.ifsticos, rcl igiosos e tribais tinham sido sacudidos pelas Guerras Balcinicas e deixados para tras pelo pcrio Austrfaco, ele foi arormentado desde o nascimento por quesrionatos de sua integridade, vindos de dentro e de fora- o separatism a croata e 6nio, os irredentismos hungaro e bulgaro - , e passou da monarquia o parlamentarismo , a ocupayao nazisra, a diradura comunista, e de no para o parlamentarismo, no espac;:o de aproximadamenre oirenta anos. Equase urn prodfgio que tenha conseguido manter-se unido. Mas, pclo nos em rerrospecriva, ele parece rc-lo feiro com uma forc;:a consided.vd , c~ i.tlmente nas merr6poles e cidades, e nao esta claro que seu impulso ll1t:llt.al , tdcia que ele projetou de urn pals do none dos Balcas com uma pupul.t~.tn muhiculruraJ , ja se tenha dissipado por complcto, seja qual ror ,\ ftn.tlld.lck ~~~~~ iugoslavo


0 mmuln rm prtlarns

pr:irica de seu desaparecimento. A guerra <JUC o Jcsrruiu passou tJl· j"'"'""'"''"' ~ara servo-croara e para b6snta- uma sucessao de renrativas, com

11111 , 1 ),

1

lt~ade e_loucura crcscenres, de substituir o que fora quase acidcnralmc 111 I dtdo: nao urn Esrado nem urn povo, nao uma sociedade nem um.t 1 nenhum dos qu~is elechegou aser mais do que em car:irer incipicmc, 111 a pars. A Iugoshivta, ou, pela ultima vez, "a anriga Jugoslavia", parccc: \(I exemplo quase puro da nao coincidencia, no scnrido e de faro, dcssas 1 , 11 des tao freqi.ien temente idenrificadas e fundidas entre si, e, de modo nq·.ll urn exemplo do peso, do poder e da imporrancia do pals.

"Zd~a~ko Greb~ [es~reveu Misha Glenny sobre urn amigo seu, urn pte de d trCitO da Umvcrstdade de Sarajevo e ex-polfrico] e urn b6snio que ll ,Ill humor e culrura. Seus pais cram muc;ulmanos de Mostar, mas ele foi cri.ulu Belgrado e continuou a se chamar de iugoslavo, mesmo depois de ,11 ) 111 aberramente que a I ugoslavia ja nao exisria. 'De que mais posso cham.11 Ill ponderava. diffcil eu comec;ar a me chamar de muc;:ulmano ou servto .J, de todos esses a nos. ' A B6s~i a (e especialmente Sarajevo) tinha a maior Jilt• tagem de pessoas que se destgnavam como iugoslavas no recenseamento 1111 ~al. Quando _a Iu~oshivia so~obrou no sangue de seu pr6prio povo, tugoslavos e a tdenttdade a que ainda se apegavam foram arrastados por 111 , 1 1 de hist6ria envenenada. " 16

·t.

0 rio d_a hi~t6ria nao precisa esrar tao envenenado, e claro. Mora 0 Ubann, I I vez a Ltbena e ralvez o S udao, ele nao o esreve, pelo menos nao tanto em 11111 ~os palses (a esmagadora maio ria, fa lando meramente em termos num~ 11 , u Jnternamente arormentados por linhas de fratura culrurais- a Indo nc\1 1 Esrados Unidos, a fndia, o Egito, o Quenia, a Guatemala, a Mal:isia ou a J\1 1 1 ca. 0 Canada ainda se mantem unido, e se vier a ser incapaz de con 111111 c_omo tal_(o q~e naoyarece provavel no momenro), devera conseguir real!: 1r npo de dtv6rct~ amtsto~o que ftzeram a Tchecoslovaquia c, antes dela, ( 1111 ~ura e a Malista. 0 Sn Lanka ralvez ainda consiga conter suas tens6e\ 111 m tlpo de estrutura con~titucional Aexfvcl e tratavel, como vem pelo menu• mcpn~o a fazer a Afnca do Sul, pais que, poucos a nos atr:is, era scm duv11l• qu~ se Julgava menos propenso a ter succsso num esforc;o dessa naturcz.t 1 m~ts tendc~re a mergulhar num caos multilateral. Ate a Jugoslavia podc 111 l 1 evtrado_o ptor, se, como sugeriu G lenny, "a Comunidade Europeia e os I II dos Untdos [houvesscm guiado] os llderes inexperientes ou oporrunista\ 1'·.!1 urn desm embramenro consensual do pafs"; e, para que o horror nao sc c~p.tlh

21S

1ul dm B.ilc:1s, .1inJ.t tcrao que fazc-lo.' Muico depcnde Jc como cssas si-

"·ran adminisrradas. Jlarn:cmos necessitar de uma nova forma de polltica, uma polltica que nao ,, .tfirm.u;ao etnica, religiosa, racial, lingi.i!stica ou regional como uma irultdade arcaica e ingenita, a ser suprimida ou ulrrapassada, como uma t·cnsurada ou uma escuridao desconhecida, mas que a veja, como a outro problema social- a desigualdade, digamos, ou o abuso de pon>mo uma realidade a ser enfrentada e modulada, com a qual de algum l: prcciso lidar e chegar a urn acordo. () lbcnvolvimenro dessa polfrica, que devera variar de urn Iugar para ouconfi>rmc as siruac;6es que river de enfrentar, depende de diversas coisas. c Je se descobrirem as origens da diferencia<;ao e da disc6rdia baseadas iJade nesse ou naquele caso. Depende de se d~en volver uma arirude simplistamenre demonizanre e _esterilmenre _negativa para ~o~ a dif~­ como se ela fosse uma relfquta de selvagena ou algum esragto anrenrxisrencia humana. Depende de adaptarmos os prindpios do liberalismo dt"mocracia social, que ainda sao nossos melhores guias do direiro, do got' c..la conduta publica, a quest6es com respeito as quais eles tern sido, com ' freqi.iencia, desconsiderados, rearivos ou incompreensivos- filonte cegos. Mas, o que talvez seja mais importante, depende de consus uma conccp<;ao mais clara, mais detalhada, menos mecanica, ipada e carregada de cliches daquilo em que consisre a poll rica, do que j, ( )u seja, depende de obtermos uma compreensao melhor do que vern a • cuhura- as estruluras de senrido em que as pessoas vivem e formam suas oes, suas individualidades e seus estilos de solidariedade- como forc;a das quest6es h umanas. I· 1sso, mais uma vez, significa uma crltica das concepc;6es que reduzem as a uniformidade, a homogeneidade, a igualdade de orienrac;ao - ao . 0 vocabul:irio da descri<;iio e da amilise culrurais rambem precisa para a divergencia e a mulciplicidade, para a nao coincidencia de especies nias. Assim como os pafses, as identidades que os colorem, muc;ulmana budista, francesa ou persa, Iarina ou sfnica ... negra ou branca, nao pod em ser hdas como unidades inteiric;as, como totalidades ininLerruptas.

flit'

ea cultu.?'a, se niio eum consenso?

urn paradoxa, ocasionalmenr~ notado mas nao_muiro profun?am.enr~ •:1c~i ••l crca do esrado acual daqllllo a que nos refenmos, com mutta d tspltccncta, "o panorama mundial": cle esta flcando mais global e mais dividido, nuts


rJ mumlo rm /''"'II 01

IV(Iflff Ill

compleramenre inrerligado e mais intrincadamcnre companimc·nt.•li1, I mesmo tempo. 0 cosmopolirismo eo provincianismo j:i nao sc opoc:tu: I e se refors;am. A mcdida que aumenta urn, aumenra o ourro. 0 desenvolvimento da recnologia, muito cspecialmente da tcu"'J,, 1 comunicas:oes, teceu o mundo numa s6 rcde de informas:oes e c.llls.~li.l 11 1 raJ sorte que, como a famosa borbolera que bare as asas no Pacrf'ic.o ,. 1 uma rempesra~e na ~enfnsula Iberica, uma mudans;a de siruas:ao 1111111 qual~uer P?de tn.dum a disrurbios em qualquer ourro Iugar. ToJ 0 , 1 ·.1 merce dos tnvesrtdores norte-americanos que especulam com druJu.. l1l nos, ~u dos banqueiros britanicos de Cingapura que jogam nos Jc11\'1111\t !6~uto. Os rerremoros de Kobe ou as inundas:oes holandesas, os t··• 11 HaJ1anos ou as meras de produ~o saudi cas, as vendas chinesas de ar111.1111 0~ 0 tr~flco de drogas colombiano, todos rem urn impacto quase imt,lll d1ssemmado e ampliado, Ionge de suas origens. A CNN introduz ll.l\ al estar do mundo a matans:a b6snia, a fome na Somalia ou os campos de ,, dos de Ruanda. Lugares normalmenre muiro obscuros, provincianm, ros em suas pr6prias quest6es- Groznyi, Dili, Ayodhya ou Crisr6b.tl J Casas; QuigaJi, Belfast, Monr6via, Tbilissi, Phnom Penh ou Porco Prflu 'I' desafiam momentaneamenre as grandes metr6poles do mundo, em hu atenyao mundiaJ. 0 capital e m6vel e, como praricamenre nao existc llf'l\h povo que nao renha uma diaspora, nem mesmo os samoanos, rambcm 1111 lho em6vel. Exisrem companhias japonesas nos Esrados Unidos, alem.1 n 1 donesia, norre-americanas na Russia, paquisranesas na Gra-13n.:t.•uh ~ormosenses. nas Fil i.pinas. T urcos e curdos mandam din hei ro para cas.t 1 ll l~m, magr~b.tnos e V1et.namiras, de Paris, zairenses e rameis, de BruxeJ.t, I' nnos e fil~p1nos, da Cldade de Kuwait, somaJis, de Roma, marroqutllt• Espanha, Japoneses, do Brasil, mexicanos, de Los Angeles, alguns cro.11 , Suecia, e praticamenre todo o mundo, de Nova York. Toda essa vasta ,.,, e essa complexa intcrdependencia sao as vczes designadas, com base no· 1 d~res de slogans dos escudos culturais, de "aldeia global", ou, com b.a·a c:tadores de slogans do Banco Mundial, de "capitalismo scm frontcira~·· l\1 vtsto que ~Ia t~ao rem unidade ncm tradis:ao, bordas nem foco, e que lh I I qualquer tntetreza, trata-se de uma aldeia pred.ria. E, uma vez que e Ill• I acompanhada pelo afrouxamenro e redus;ao das demarcas:oes culcurais d11 • 1 por ~ua re~labo~as;ao.e ~ulriplicas;ao, e ~uir~s vezes, como assi nalei acilll.t J' sua lntenstflcac,;:ao, d1flcdmente se podena d 1zer que ela e sem fronccira\ Ma~ear essas demarcac;6es, localizando-as e caraccerizando as popul ,, que elas 1~ola~, ou q~e pelo menos poem em desraque, e, quando muito IIIII t~re~a arbmana e r~alizada com imprecisao. Discernir rupturas cuhura1s, 1 , nnu1dades culturats, rra<;ar linhas em torno de con juntos de indivfduos tpl

217

m•

fc11111,1 d~ vtd.t m.tis ou menos idcncifldvel, em contrastc com nJunlns de 11H.Iivfduos que scguem formas de vida mais ou menos dioult.t\ VO'l..CS 110Utras saJas- C bern mais faci) na teoria do que na

tropolog1:t, que rem como uma de suas vocas;6es, pelo menos, localidt!m.m.t~ocs, discernir essas rupruras e descrever essas continuidades, dc!;ajeitadamente essa questao desde o comes;o e continua a se llllll da. Mas nao se deve fugir dela com banalidades obtusas sabre a .!.a cspccie humana ou os facores subjacentes de semelhan~ e tra~. nt·m que seja porque, " na natureza", como gostavam de d1zer os J\ pr6prias pessoas estabelecem esses contrasces e tras;am essas linault·r.un-se, em decerminados momenros e para determinados fins, ~ n.to inglesas, indianas e nao budistas, Hutu e nao Tursi, lacinas e xtii;\S e nao sunitas, Hopi e nao Navajo, negras e nao brancas, laranVt'r.lcs. Nao importa o que desejemos ou encaremos como esclareci1 Jivt·rsidade das culturas persisce e prolifera, mesmo em meio e ate em • pnderosas for~s de vinculayao da indUstria, das flnans;as, das viado wmcrcio modernos. Quanta mais as coisas se juntam, mais ficam seo mundo uniforme nao esca muito mais pr6ximo do que a sociedade llrlap.alhayao da antropologia para lidar com tudo isso, com a organiza1do mundo moderno, que por direito deveria ser seu assunto aprorc~ulta, em grande parte, das dificuldades por que ela passou, ao Iongo h1111lria errante e incrospecciva, para descobrir para si a melhor maneira ~nhrc a cultura, antes de mais nada. No seculo XIX c durante boa pararutlo, a cultura, acima de qualquer outra coisa, era tida como uma universal da vida social humana, as tecnicas, costumes, tradis;6es e - a religiao eo parentcsco, o fogo e a linguagem - que a disrinJa viJa animal. A palavra que se opunha a ela era natureza, e, quando se dividi-la em ripos e especies, isso era feiro em termos da distancia a 11\t qual de suas partes - o monotefsmo ou o individuaJismo, a monocut ,1 protes;ao da propriedade privada- suposramente se afastara danarm tcrmos de seu progresso para a luz. Depois da I Guerra Mundial, Ltt•,cimento do crabalho de campo parciciparivo e de Iongo prazo com ."'""·'u'"' grupos- boa parte dele feito em ilhas e em reservas indfgen;l\, •• rupturas e limites eram mais faceis de discernir e a id~ia d e que tuJo sc vJ era mais facil de alimenrar - , a concepyao genenca come~ou a su '''" l.tJo, por ser considerada difusa, de diffcil manejo e inreresscira, em Jt' uma conceps:ao conflgurarivista. Em vez de apenas a culcura c.omo t.tl , .tter culcuras- delimitadas, coerentes, coesas e auto no mas: org.um


_ IH

Ntll·~ lur. w/Jtr ,,

'"''"'/""''Xi•t

mos sociais, cristais scmi6ricos, micromundos. A cultura em o que o' 1'"'11 nham c manrinham em comum, fosscm eles gregos ou Navajo, M.111d 18 porto-riquenhos, cada q u.al com a sua. Entretanto, depois da II Guerra Mundial, quando ate os suposln\ mentos sociais - os povos da selva, os povos do deserro, os povos tlluua povos do Arrico, os povos encapsulados- tornaram-se menos numu1• 11 quando os anrrop6logos voltaram sua arens;ao para objetos iridcsccnlt'' 1 vasros e mais misrurados, como a fndia, o Japao, a Frans;a, o Brasil, a Nlt•,tll Uniao Sovietica ou os Estados Unidos, a visao configurativisra, por \11.1 tornou-se for~da, imprecisa, diffcil de manejar e pouco digna de crcdllu plausfvel encarar os Nuer ou os Amhara como unidades inregrais, pclo 1111 desde que se bloqueassem as variabilidades inrernas e os envolvimenlm 1 nos, alem de qualquer coisa que se assemelhasse ahisr6ria mais am pia, 111.1 cliffcil fazer isso como Sudao ou a Eti6pia; com a Africa, era impossfvcl, Clll alguns renham renrado. Uma minoria indonesia, como os chineses, ou 1 roquina, como os judeus, ou ugandense, como os indianos, ou norte-am\.'llt 1 como os negros, podia exibir urn cerro car:iter especial, mas era diffcil 111 de-las separadamente dos Esrados e sociedades em que estavam inseridas. Itt era variegado, poroso, entrelas;ado, disperso; a busca da totalidade era lllll l'•lla incerto, eo senrimento de uma compreensao definiriva era inatingfvel. A imagem do mundo como pontilhado de culturas distintas, blocm ,I, continuos de pensamenro e emos:ao- uma especie de visao pontilhist:~ dt 11 composis:1io espiritual - , e tao enganosa quanro a de um mundo raqt~< .. 1 com Esrados nacionais reperirivos e reirerados, e pela mesma razao: os elc:ln• n toS em pauta, OS pontOS OU OS taCOS, nao sao compactOS nem homogt111 11 simples nem uniformcs. Q uando exam inados, sua solidez se desfaz eo qut 111 resra nao e urn cat:ilogo de entidades bern definidas a serem dispostas e cl,, .... tll cadas, uma tabela mendeliana de especies naturais, mas urn emaranhado de .11 ferens;as e semelhans;as apenas parcial mente discernidas. 0 que faz os st'l \It serem servios, os ci ngaleses serem cingaleses, os franco-canadenses sercm l1 '" CO-Canadenses, OU qualquer pcssoa ser qualquer peSSOa, e que eles e 0 rCMtt .I mundo, num dado momenta e ate cerro ponto, para certos fins e em u·11u conrextos, passaram a severe serem vistos como contrastantes com o t)lll '' cerca. A compacidade territorial eo tradicionalismo localizado que eram fiu11• cidos por ilhas, reservas ind(genas, selvas, vales de regi6es monranhosas, o•i·.l coisas similares (ou, pelo menos, que eram supostamente fornecidos, pOl\ 11 isso era meio micico), assim como a ideia de idenridade cultural integral, w11l1 gurativista, do tipo " rudo se encaixa" - Os Argonautas do Pad fico OciclcJIIII 0 Estilo Cheye11ne, 0 Povo da F loresta, 0 Povo Montanhes, 0 Povo dn Ill

( J 1111111t111 rm prtltlf flo

.!. I')

, que ess•\ compacidade c cssa localizac;:ao cstimulavam, parcccm cada Ais mdcvantcs, mcdida que nos voltamos para OS fragmentOS e fragdo mundo conremporaneo. A visao da culrura, de umacultura, deslura, como urn co nsenso em torno de elementos fundamentais 1es comuns, semimentos comuns, valores comuns - parece muito vdvcl, diante de tamanha dispersao e d esarticulas:1io; sao as falhas e fisquc parecem demarcar a paisagem da identidade coletiva. Seja o que for defi ne a idenridade no capitalismo sem fronteiras e na aldeia global, nao se dt' acordos profundos sabre quest6es profundas, porem de algo mais pat:om a recorrencia de divis6es conhecidas, argumentos persistentes ou pcrmanentes, e com a ideia de que, haja o que mais houver, de algum c prcciso manter a ordem da diferens;a. N.to sabemos realmente como lidar com isso, como lidar com um mundo n&o se divide em seus ponros de juns;ao em partes inregranres nem e uma transcendental - digamos, economica ou psicol6gica- obscurecida cnntrastes superficiais tenues e fabricados, no maximo postos d e lado distras;6es nao essenciais. Um amo ntoado de diferens;as num ca mpo de apresenta-nos uma situas;ao em que as estruturas do o rgulho e as do as feiras culturais e a limpeza etnica, a survivancee os campos de extermfrnstam-se lado a lado, e passam com assustadora facilidade de urn para 0 As ceorias polfricas que admitem essa situas;ao e se disp6em a enfrena cxpor e interrogar a o rdem da diferens;a, em vcz de aperfeis;oar vis6es icas da guerra hobbesiana ou da concordia kantiana, mal chegam a r. Muito depende de seu crescimcnto e desenvolvimento: nao se pode aquila que nao se compreende.

a

como for, se o elementarismo da antropologia, seu foco no consensual, no c no co mum- o que se rem cham ado de conceito pre-mol dado de cultuede serventia duvidosa para pro mover esse crescimento e esse refinamento, seu cosmopolitismo, sua dererminayao de olhar alem do conhecido, do to c do imediaramenre a mao, seja mais valioso. Minar resolutamenrc roda de excepcionalismos, o norte-americana, o ocidental, o europeu ou o cri ~ t' toda sorte de exorismos, o primitive, o id6latra, o antip6dico ou o inusll.t obriga a comparac;:ao atraves dos domfnios aceitos da pertinencia e d.l ~n"•.._..v --a considerayao conjunta daquilo que normalmente n1io sc cuml• conjuntamente consider:ivel. No contexto dos acontecimenros do ull11n11 seculo, especiaJmente dos ultimos doze anOS, que SaO nOSSO ohjt'IO dt I ' I lll]Ui, essa comparas:1io nao-gramatical perm ire evirar a mais difunditl.t.lo ' ' 1 i t'lluivocada desses acontecimentos: sua divisao em variedades m hit 111 ti ~ c


N(}t\1

lur. .,,/•ntt •lllllll/•ttlugllt

221

nao ocidentais, vendo-sc a variedade n5o ocidcntal como essencialmcntl· tt f I culadora, uma reedi~o da historia que o Ocidenre acravessou e mai~ 1111 tilt II venceu, e nao, como realmenre o caso, como o limiar da nova varicd.tdt . pt monir6ria e emblematica, da hist6ria que esta por vir. Isso fica particularmente claro quando nos volramos para as altcr.u,«n.; , panorama polftico da Asia, da Africa, do Pacifico, do Caribe e de algum.a' I' f res da America Larina depois de 194 5. A dissol u~o dos gran d es imp~t 11 • ul tramarinos- britanico, holandes, belga, frances, portugues e, de mod .. til tanto diferente, norre-americano, alemao, italiano e japones (ate a Amtt 111 afinal, reve um protetorado, mesmo tendo rido que herda-lo dos .tlc·utl numa fase meio tardia do jogo)- deixou perfeitamente claro que, apc,.u ol apaixonadas comunh6es de caractedsticas da revolta colonial, as idcn11d .u l colecivas que impulsionaram essa revolta e se disseminaram pela vida do\ p.ll!l que ela criou sao inerradicavelmente plurais, comp6siras, inconstantcs l (nil testadas. A contribui~o da subleva~o do Terceiro Mundo para a compt•' 11 sao que o seculo XX tern de si mesmo reside menos em suas imita~un d nacionalismo europeu (que, de qualquer modo, foram bern menos intua digamos, no Marrocos, em Uganda, na Jordania ou na Malasia do que, I'' t exemplo, na Argelia, no Zaire, na India ou na Indonesia) do que no faro dt , I• haver obrigado a se perceber 0 carater comp6sito da culrura que e negado , ... , esse nacionalismo. Com o tempo, ralvez venhamos a considerar que a ret 1111 rruc;:ao politica da Asia e da Africa conrribuiu rna is para transformar a vis.111 idenridade social da Europa e da America do que o in verso. A razao disso nao esta em a natureza dos paises formados a partir do col.ap so do imperio colonial ser radical mente diferente, em sua especie e consu da dos pafses que surgiram antes no Ocidente, depoi s de colapsos semelh,tttto de imperios polfticos ou politico-culrurais igualmenre agiganrados. Eque .t 111 rureza deles e mais acessfvel a visao, esra menos velada pela hisr6ria ja sepult 1 co mo as lingi.iiyas de Bismarck, n6s os vimos em processo de produc;:ao. St'tulu mais recenres, ale m de fundados com mais rapidez e delibera~o- pafscs pt« medicados - , eles nasceram em plena luz da hisr6ria, ainda esrando claroltt , 1 s(veis os acidentes e as ocorrencias forruiras de sua forma~o. As conringctH 1, que os produziram , e que continuam a mante-los em praricamente roda patt• nao sao apenas evidences, mas tambem, sob certos aspectos, o que ha nelc' tl mais marcanre. A Franc;:a, pelo menos a esra altura, ralvez ja parec;:a serum d.ulu natural. E posslvel que are a I cilia ou a Dinamarca sejam vistas dessa mant•tt 1 Mas e dilkil pensar a mesma coisa de Angola ou Bangladesh. A com posic;:ao cui rural dos palses que emergiram do naufragio do q uc v1 111 a ser chamado "o projero colonial", como se fosse uma especie de experimctll~> do Iluminismo, cealizado para edificacrao dos cientistas politicos, e, sem dttvt

e

u

n, . .

mente heterogenca. em qua.sc toda parte; e uma coletanea de povos, for tutt.l ern muitos casas- as fronreiras esrao on de foram colocadas pc,,~ c safdas da polfrica europeia. (Par que sao marfinenses as pessoas m l'lll Abidja, ou ganenses as que vivem em Acra, a uns duzentos quide Jiscancia, seguindo o mesmo liroral? Par que metade da Nova fil.tl\.1 Indonesia e metade, em Papua-Nova Guine? Par que a Birmania pah ~cparado, e Bengala, nao? Por que alguns Ioruba sao nigerianos e oubeni rwnses? Par que alguns railandeses sao laosianos, e alguns afeganes, lll'scs?) A Hngua, a religiao, a rac;:a e os costumes encontram-se em toda de an~u los, coda sorte de escalas, coda sorte de nfveis, imposslveis de ra' ubscurecer ou explicar, ate mesmo par parte dos nacionalistas mais ...,,,.,.,""·'• como predescinados e ineviraveis. udo, 0 que se revela muito instrutivo nao e a simples realidade da heidade cultural em si e de sua grande visibilidade, mas a imensa variede nfvcis em que essa heterogeneidade existe e surte efeitos; cantos, na , que e diffcil saber organizar urn quadro geral, saber onde trac;:ar as !ide ~cpara~o e colocar os focos. Tao logo examinamos os pormenores da , l'tn qualquer caso particular, as demarcac;:6es mais 6bvias, aquelas solJU.Iis Iemos nos jornais (tameis e cingaleses, xiiras e sunitas, Huru e T ut. >s e chineses, indianos orienrais e fijianos), sao quase encobertas por tlcrnarcac;:6es, tanto de urn tipo mais apurado, que estabelece disrinc;:6es cllrl·iras e exaras, quanta de urn ripo rnais grosseiro, que esrabelece disrinmilis <tmplas e gerais. Ediffcil encontrar urn compartilhamento de vis6es, Jl· vida, esrilos comportamentais, express6es mareriais ou seja Ia o que por sua vez, nao tome a se dividir em outros menores, embutidos nele t:aixas dentro de caixas, ou inclufdos par inteiro em o utros maiores, inres, como prareleiras empilhadas sobre ourras prareleiras. Pelo mcmaioria dos casas, e desconfio que em rodos, nao ha nenhum ponro em pussa dizer que e ali que o consenso term ina ou comeya. T udo depcndc rode comparac;:ao, do pano de fundo com que se coreja a identidadc, l de interesses que a envolve e a anima. A Indonesia, pais que eu mesmo esrudei de perto e durante urn Iongo l' lainda que sua maier parte continue fora do meu alcance, como l'"\'"'i ul.1dos e lugares remoras, dos quais rna is ouvi mas falar do que llllllt '11 ), demonsrra essa diffcil intrincac;:ao com especial vecmt•tn i 1," • ' ~ daro, e urn dos mais complicados do mundo em termos cult 111.11 81 1'1(1 Jc um fluxo incrfvel de mentalidades con flitantes- porrugucs 1 Jl~ holandeses, indianos, chineses; hindus, budistas, tlllll"'''llll lmanos, cristaos; capitalistas, comunistas, adeptos da ;tdtllllll 11 1\ ''' llll , levadas, por meio desses grandes agentes da hist6t i.1 1111111dt tltpt


...... o corncrcio de mcrcadoria.sa longa distancia, o trabalho mission;tl io 1dig• • n a cxp lora~ao colonial, a urn vasto arquipelago composto de milharc' de !lh ocupado sobretudo (mas nao exclusivamemc) par malaio-polinesios f,,lltl• ccntenas de lfnguas, adeptos de cenrena.s de cultos, e dotado de ccntcn.t\ .I digos marais, leis, costumes e artes, e de centenas de sentidos, sutil <HI g1o ramente diferenres, raz.oavelmenre concordanres ou profundamenrc ol'' 11 de como deve ser a vida. Articular sua anatomia espirirual, derermin.u ,, m ele e momado em rermos de identidade e como se man tern unido, pclo 111 111 arc agora- alias, mantem-se surpreendentemente bern, se considcratnlu que tern de enrrentar - , e uma tarefa praticamente impassive!. Mas c IIIII I rcfa que qualqucr um que se interesse seriamcnte pelo Iugar, seja de dcntt" c 11 de fora, e in eviravelmente obrigado a tenrar cmpreender, de um modo 1111 d outro. A maneira como isso costuma ser feito, tambem de denrro ou de lor atraves do que se poderia chamar (e alias, em minha disciplina ainda ba\t.IIH classiflcat6ria, do esti!o age c/assique, e chamado) de discurso dos "poYO\ 1 111 turas". Os diversos grupos "ecnicos" ou quase ecnicos- OS javaneses, OS Hll k os Bugi, os atseheses, os balineses e assim par diante, chegando ate os exempli! menores e mais perifericos, como os Biman, os Dayak, os ambonenses ou 1 hi quem for- sao designados e caracterizados par tal ou qual conflgurac;:in d qualidades; suas subdivis6es sao delineadas, suas rela~6es mutuas sao deflnid 1 e sua posi~ao no coda e avaliada. lsso gera uma outra visao ponrilhisca, ou 1 •I vez, mclhor dizendo, dado o carater indexador dcssa ordena~ao, uma vis.111 d flchas de arqu ivo sobre o caniter cultural mente comp6sito do pals. Ele c v1·,1o como urn conjunto de " povos" de imporcancia, tamanho e carater van,hc reunidos num arcabous:o polftico e econom ico com um par uma hist6ria gltl bal, de cunho hist6rico, ideol6gico, religiose ou o que seja, que fornece a lop.i• dessa juns:ao que os encerra a codos num s6 pals. Todos os nfveis e dimen·.u da diferen~a e da integrac;ao, com excec;ao de dois- o grupo consensuaJ mint ITIO, chamado de "cultura" OU "grupO etnico", e 0 grup0 COnsensual maXIIIItl chamado de "na~ao" ou "Escado" -,sao ocluldos e descarcados. Infelizmuu. os assunros que, no decorrer da vida coleciva, de faro funcionam no senrido al. alinhar os indivfduos em iniciativas con juntas, ou de separa-los uns dos out I•• em empreitadas conflicanres, assim como as praticas, as institui~6es e as ow1 rencias SOCiais em que a diferenc;a e enCOntrada e em que de algum modo ·I !ida com ela, sao ram bem ocl uldos e jogados fora. As ftc has de arquivo sao''" nidas e fazem-se as anorac;6cs apropriadas. Mas nao se lcvanram suas remis~f11 cruzadas. A verdadc, porem, e que e justa mente nessa indexa~ao cruzada que as\ I rias identidades isoladas pel as fich.as sao form ad as e interagem umas com as ou

(I 111U111/o n11 J•rr/•ljlll

l~ss.ts '\.ulturas", ou "povos", ou "grupos emicos" separados, nao sao

lll1l

h.ado de agrcgados de scmelhanps, distinguidos pelos limites do conscnso:

vinus modos de implica~o numa vida coletiva que ocorre numa dezena de difcrcntes numa dezena de escalas diferentes e numa dezena de ambitos tcs ao me~mo tempo. 0 arranjo e a dissolucrao dos casamenros n~ aldei1 a ~.odifica~ao governamenral do direito de familia, as formas ~arncula~es ,ulto co papel oficializado da religiao no Estado, os pad roes locrus de soctac as abordagens gerais do governo, cudo isso, alem de um imenso ~ur:'ede interses;oes semelhantes das vis6es, esrilos ou inclinac;oes, constlt~l as em que a complexidade cultural se ordena em pelo menos uma espec1e de irregular, frouxo e indefinido. . N:\0 e passive! entrar nos deralhes aqui- male posslvcl falar das generalt- mas a diversidade cultural da indonesia (que, pclo que posso vcr, e co~o sempre foi, apesar dos efeitos supostamente homogeneizadores da -'""'' n, do rocke do intenso capitalismo tardio) enconua expressao sob a farde luras a respeico da natureza desse todo. A maneira eo grau em que os ascontrastames do conglomerado global devem ser representados na da idencidade indonesia sao o cerne da questao. 0 que esta em e menos o consenso do que uma mancira vi:lvel de prescindir dele. No que concerne aIndonesia, isso foi conseguido, na medida mui.ro pardcsigual e incompleta em que foi conseguido, atraves do desenvolvtmento uma forma de polltica cultural em que concep~6es claramente.dlspares do de pafs que o pals deve ser podem ser representadas e neurraltzadas, celee contidas, reconhecidas e encobertas, rudo ao mesmo tempo, no que apropriadamente chamado de um mal-entendido funci ~nal. Que nem pre funcionou, e clara. Os massacres de 1965 em Java, Bait e partes da Sura, com milhares, ou talvez centenas de mil hares de monos, foram, no funurn deslocamento dessa !uta multilateral pcla alma do pais para o plano da · Houve revoltas ecnicas e religiosas, sublevac;oes no interior e tumulurbanos, bern como, no Timor Lesre ou na Nova Guine Ocidental, a urilibruca do poder estatal - o consenso produzido a bala. Ate aq~i, no nto, 0 pals vai-se arrastando, como a fndia ou a Nigeria, como um fe1xc de · ncianismos que se agregam de algum modo. Deixando de !ado as imponentes particularidades do caso indonesia, qut• mitimos aproximarem-se um pouco dos excremos, essa imagem gcral d.t · ade cultural como urn campo de diferen~as que se confrontam em to os nfvcis, desde a fam ilia, a aldeia, o bairro ou a regiao ate a zona IUI.d ' dela- nao ha uniao senao a que se sustenta contra as diviso<.'s intt''"·" iumadas, nao ha divisao senao a que se sustenta contra as uniocs inco1 pot·' doras vo razes - , e muito proxima, a mcu vcr, da imagem geral do nuuHiu mn


Nrmt lur. rr~lttl' '''""mpalag11t

() 1/11/l/lltl till

derno; 11a0 na ne)a nada de "st...bdeseOVOIVido", "terccirO 111UJ1disl 111 I " rradicional" (eufemismo que passamos a usar, para cvirar dizc1 ".HI,Is.u ll• Aplica-se com igual perfei~ao aFraot;a, atormenrada por tensocs Cn llc II " me latque e a invasao de irnigranres do Magreb que querem cozinh.u 111 cominho e usar turban res na escola, aAlemanha, que lura para se havc1 '"Ill presencra de turcos numa Heimatlanddefinida pela ascendencia, ltili.t, "'' nalizada em localismos rivais, que s6 fazem ser reforcrados pela mode1n~tl.ul pelo desenvolvimenro desigual, ou aos Esrados Unidos, que ten ram rc1'tH '''' rrar-se num redemoinho mulriernico, mulrirracial, mulri-religioso, mullllltt giifstico e multicultural, assim como a lugares muito mais brut.1l11to 111 dilacerados, como a Liberia, o Ubano, Mianmar, a Colombia ou a Afttt 1 ol Sui. 0 excepcional ismo europeu {e norre-americano), que, pelo menos Jl.ll 1 ( europeus (e norre-americanos) , parecia muito plausfvel antes de 1989 11 temos o Esrado-nacrao, e eles, nao - , rornou-se cada vez mais implaus{vd.! de essa epoca. A lugoslavia, a cicada "ex", foi e e tanto o Iugar em que ess.111l 1 parece rer morrido quanto seu ultimo reduto- "o quintal da Europa c~t.l cha1nas".

a

I'"

Por direiro, a teoria polfcica deveria ser o que penso que Arist6teles queri.t 'I" fosse- uma escola de julgamenro, nao uma substitui'rao dele; nao uma 11111 tao de expor a lei a ser seguida pelos menos reAexivos (os juizes de Ro11 .t I Dworkin, os formu ladores politicos de John Rawls, os utilitaristas de Rolulf Nozick), porem urn modo de ver os horrores e confusoes em meio aos qua1 111 dos estamos vivendo, urn modo que possa dar-nos alguma ajuda para sobtt \I ver e para ab randa-los ou, quem sabe, ocasionalmente, ate preveni-los. "tc assim, Se CSSa e mesmo SUa vocacrao, ela precisa dedicar muito mais aten~.111 I particularidades das coisas, ao que esta acontecendo, amaneira como as em 1 funcionam. Precisa faze-lo nao para se rransformar num comentario pc11111 nente so bre como rude e terrivelmente complicado, e como e inrratavel I'' I ordenas;ao 16gica. Isso pode ficar a cargo da hist6ria e da anrropologia, ~·' 1 terrfveis complicadoras das ciencias humanas. Ela precisa faze-lo para pa11111 par da consrruc;:ao do que e mais necessaria, agora que o mundo esta se redt,lll buindo em escruturas de diferens;a cada vez mais variadas: uma polrtica pr.ll 11 1 de conciliacrao cultural. Como qualquer outra, essa polfrica tera que ter urn prop6sito definidu, , 1 talhada Conforme as circunstancias, as epocas, OS Jugares e as personalid.Hil Mas, como qualquer ourra pollrica, mesmo assim ela devera desenvolver C('lll, tracros comu ns de diagnostico, esrrategia e direcrao e urn a certa unidade de pH, posiros. 0 que ela buscar em Diyabakar ou Srinagar, deveni buscar ramlwtu

/'"'''fill

I tol\ Rtviercs ou na rcgi5.o sui de Los Angeles. A Kulturkampfargclina Jc.

a

justaposta irlandesa; 0 div6rcio amistoso entre tchecos e eslovacos ju~tapor-se ao da Malasia e Cingapura, ocorrido alguns anos antes, mas o lcmbra curiosa mente; a dupla influencia exercida sobre a Belgica, germa"na, deve jusrapor-se a greco-rurca exercida sabre Chipre; a marginaJos Indios da America, a dos aborfgenes australianos; o nao .ttionismo do Brasil, ao dos Esrados Unidos. Hade faro urn objero de dcfinfvel aqui. 0 xis da questao e defini-lo e, uma vez feito isso, coloem alguma especie de ordem. A dinamica central do objeto desse escudo, como eu ja disse, talvez de maJcmasiadamente repetitiva, parece consisti r em duas tendencias continutc opostas. Por urn !ado, existe a tendencia a criar ou tentar criar gotfculas sangda culcura e da polfrica: a visao pontilhista que a limpeza etnica e a IU:I~nc:aO COnvergence de acrao CO!etiva- 0 "nacionismo"- aJmejam pro• Por outro, existe o impulso de criar ou ten tar criar uma estrutura intrinc mulriplamenre ordenada da diferencra, na qual as tensoes culrurais que ac dispoem a desaparecer, ou sequer a se moderar, possam ser siruadas e ne- conridas dentro de urn pals. Essas pr6prias estruturas deverao ser tes de cada urn desses pafses para outro, e a possibilidade de consdiversamente real. Situar OS mucrulmanos na Francra, OS brancos na do Sui, OS arabes em Israel ou OS coreanos no )apao nao e exatamente a coisa. Mas, para que a teoria polftica tenha alguma pertinencia no estilhacrado, ela teri que rer algo convincente a dizer sabre como, frente para uma integridade destrutiva, tais estruturas podem ser criadas e tidas, e sobre como e possfvel faze-las funcionar. lsso me traz a ultima quesrao que quero abordar aqui, de maneira sumasuperficial. Trata-se da capacidade muiro discutida, mas nao muiro dede o liberalismo (ou, mais exatamente, para que eu seja colocado ao de Isaiah Berlin e Michael Walzer, e nao de Friedrich von Hayek e Robert ck, de 0 liberalismo social-democrara) colocar-se a altura desse d esafio, de capacidade de se envolver na polftica rancorosa, explosiva e nao raro hom ida diferencra cultural, e, a rigor, de sobreviver na presencra dela. 0 com prodo liberalismo com a neurralidade do Estado em materia de crencras · seu individualismo resolute, sua enfase na liberdade, na lei e na uniidade dos direitos humanos, e, pelo menos na versao de que so u adepto, preocupacrao com a disrribuicrao eqUitativa das oporrunidades de vida, s:to como impedindo-o de reconhecer a forcra e a durabilidade dos lacros da rc , da lingua, dos costumes, do Iugar, da racra e da ascendencia nos assuntos u"'""'"'- ou de encarar a entrada dessas consideracroes na vida civil como .tlgu redo parologico- do primirivo, atrasado, retr6grado e irracion.tl. Nao lt'f


2211

Nr•r•,t !11:::. "lnr' ,, .wtwpolox"'

creio que isso seja verdadc. 0 dcsenvolvimcnto de urn liberali:;mo w111 ,,, ut gem e a capacidade de se compromerer com urn mundo difc1CIIl l.11111, 11 mundo no qual seu sprindpios nao sao bern compreendidos ncm \ll\1( 111 por rodos, e no qual, na verdade, na maio ria dos lugares, ele e urn Cft.•do 111111 rirario, estranho e SUSpeiro, nao apenas e possfvel, COffiO etam bern llClC\\.II ICI Nos ulrimos anos- os anos em que o liberalismo, ranro do tipo t ••til mica, da utopia do me rcado, quanro d o ripo polfrico, da sociedadc ctvl l. d xou de ser uma fortaleza ideol6gica para merade do mundo e se to1 11o11 11111 proposra moral para rodo e le - , o grau em que o pr6prio liberalisrno r.' 11111 f nomeno culruralmenre espedfico, nascido e aperfeic;:oado no Ociclentc, 111 nou-se, paradoxalm enre, muiro mais evidence. 0 pr6prio universalism ... u que ele se com prom ere e que promove, sua inrenc;:ao cosmopolira, colm "ll francamenre em confliro com ourros un iversalismos d e inrenc;:ao scmd lau11 muiro parricularme nre com o proposro po r urn islamismo ressurgido, l llt urn grande numero d e visoes alrernarivas do born, do cerro e do indublt.l\'d a japo nesa, a indiana, a africana a u a de Cingapura -,para as quais clc I'·'' ser apenas mais uma tenra riva de impor os valores ocidenrais ao resto do1111111 do: a continuac;:ao do colonialismo por ourros meios. Esse faro, ode que os princfpios que movem o liberalism o nao s5.o t.H• d ros para OS outros, inclusive OS outros serios e ponderados, quanto sao P·" If liberais, evid en cia-se hoje para onde qucr que volremos os olhos. N a resist• 11 I a urn c6digo universal de direitos humanos, vista como inap lidvel ao~ I'·'' pobres que estao emp enhados em se desenvolver, e ate como urn recu1so 111 I dosamenre concebido pelos ja ricos para impedir esse d esenvol vimen111 11 moralism o "papai sabe tudo" de Lee Kuan Yew, que baixa a lenha em vag.d•llll dos, jo rnali stas e cmpresarios arroganres por nao serem suftcientemenrc wnlu cianos, ou no de S uharro, que se op6e as unioes de livre comercio, a libc1d tit de imprensa e as eleic;:6es livres como sendo conrrarias ao espfrito do COill llll lism o asi:arico; e numa ampla gama de discursos que e naltecem o ritual.•1 Ia rarquia, a inreireza e o saber tribal, fica clara que Locke, Monrcsq111• 1t Jefferson e Mill sao vozes particulares de uma hisr6 ria particular, que n.ut 1 igua~m enre persuasivas p ara todos os que as ouvem ou para seus defcn\ttl arua1s. Assim, os que prerende m promover a causa representada por esscs 11111[} e por ouLros mais conte mporaneos- D ewey, Camus, Berlin, Kuron, J ,1 lnt - , de SU:lS diversas maneiras (po rque tam bern 0 "JiberaJismo" nao CC0111f1,1 II nem ho mogeneo, e certame11re esra inacabado), precisam reconhecer su.l\ 111! gens culturalmente especfficas e seu carater culruralmente espedfico. Ek~, 1•1 c isam ... ou melhor, n6s precisam os, mais especial mente, reconhecer <jll< , 11 tentativa de promove-lo d e maneira mais ampla no mundo, ver-nos-emm lllll

'J.J.7

1s

n.lo s6 com a ccguci ra e a irracionalidadc, com as paixoes da ignodin-

(alptdas que conhccemos bcm nos Estados Unidos), mas rambem com -..-........, ""' rivais de como as coisas devem ser dispostas e as pessoas devem re·sc, J e como os atos d evem ser julgados e a sociedade deve ser governaqut· tern urn peso, urn impacto e uma l6gica pr6prios, o que e alga a ser dito ~ll favor. A questao nao e de "relativismo", como mui ras vezes dizem OS dl·scjam isolar suas crenc;:as da forc;:a da diferenc;:a. T rata-se de compreender fal.tr com os outros implica escuta-los, e q ue, ao escura-los, e muito improt JUC 0 que Se tern a dizer perma nec;:a inabalado, nao no fin al dcstc secuJ o no comec;:o do pr6ximo. A tcse que enunciei no infcio deste capitulo - a de que a teoria polltica ~. OU , peJo menos, nao deve ser uma renexao intensamen te generalizada assuntos inrensamen te ge neralizados, uma imaginac;:ao de arqu ireruras uc ninguem poderia viver, mas deve, an tes, ser urn compromisso intelecm6vel, preciso e realista, com problemas presenres que sao presentemente rosos- aplica-se co m forc;:a especial ao liberalismo, uma vez que, em almomenros, elc tern sido aplicado com certa indiferenc;:a a realidade das fazendo uma certa confusao entre desejo e realizac;:ao. E le precisa ser renu' ""uu. ou seja, seus partida rios precisam reconcebe-lo como uma visao nao provem do nada, mas vern de um Iugar especial (de um cerro tipo) da cncia politica ocidenral, como uma aflrmac;:ao (ou, mais uma vez, ja que nlio e ma is uniftcado do que fo i a experiencia, urn conjunro de aftrmac;:oes mente coerenres) sabre aquila que n6s, que somas os herdeiros dessa ncia, julgamos haver apre ndido sobre como as pessoas com diferenc;:as conviver entre si com cerro grau de civilidade. Confro ntados com ouherdeiros de o utras experiencias, que extrafram outras lic;:6es para ourros diffcil deixarmos de insistir nas nossas com a confianc;:a que ainda sentinclas, e de submete-las aos riscos de se chocarem com essas outras e sal rem mcnos urn pouco (ou, talvez, bem m a is do que urn pouco) machucadas e isando de reparos. A perspectiva de uma nova sfn tese- nao que tenha realmente existido an riga- parece-me bastante remota. As discordancias e disjuns;6es perrao, ainda que nao co ntinue m a ser as mesmas discordincias e disjun. Tampouco se afigura uma gra nde possibilidade a vit6ria simples daquilo E.M. Forster, homem rigorosamente ingles, inteiramente desiludido c in mente liberal, que tambem nao co ntava com ela, chamou de amor c amada republica. Parecemos estar condenados, ao menos no futuro im~:Jia c talvez porum bom tempo depois dele, a viver, se tanto, no que algucm ra lvez pensando nas treguas iugoslavas, nas decis6es de ccssar fogo i1 nas operac;:ocs de resgate a fricanas e nas negociac;:6cs do Oriente Me

e


. . . tl

clio, de "paz J e baixaincensidade" - o que nao e 0 lipo de amb tcntc t'lllllll normalmenre_ Ooresce o li_beral is~o._ Mas es~e eo Lipo de ambicnte em , 1 1111 teni que fun c tonar, se quts~r persts_tu e surttr efei ro, e se guiscr man ttl 11 qu me parece ser seu compromtsso mats profundo e mais cen tral: a obriga~·'" •n• ral de ter esperanc;:a.

N otas

3. Anti anti-relativismo J. Ladd, "The poverty of absolutism", in Edward \'(/~stmnnrck: Essays on His Lift and \'(/orks, l'hilosophica Fennica, Helsinki, 34, 1982, p.l58-80. 2. I. Scheffi er, Scimu and Subjectivity, Indianapolis, Bobbs-Merrill, 1967; W. Booh, "A new for establish ing a truly democratic criticism", Daedalus 112, 1983, p.l 93-2 14. 3. Ladd, "The poverty of absolutism", p.l58. 4. P. Rabinow, "Humanism as nihilism: the bracketing of truth and seriousness in American hur.tl anthropology", inN. Haan et al. (orgs.), Social Scimu liS Moral Inquiry, Nova York, Columhtd University Press, 1983, p.70. 5. M. de Momaigne, Les Esmisde Michel de Momnigne, P. Villery (org.), Paris, Presses Univcrehauc~ de France, 1978, p .205. VerT. Todorov, "Monr:tigne. Essays in reading", in G. Defaux OIK ), Yak French Studi~s, vol.64, New Haven, Yale University Press, 1983, p.113-4, para uma disIUnlo geral do relativismo de Montaigne semelhante a minh:t. 6. W. Gass, "Cu lture, self, and style", Syrncus~ Scholar, 2, 198 1, p.54-68. 7. I. Jarvie, "R.·nionalism and relativism", British journal ofSociology, 34, 1983, p.45 , 46. 8. P. Johnson, Modem Times, Nova York, Harper & Row, 1983; para a resenha de Thomas, I ht' Inferno of relativism", Times Literary Supplemmt, 8 de jul ho, p. l 78. 9. Johnson, Modm1 Times, p.48. I 0. G. Stocking, "Afterword: A view from the center", Erlmos, 47, 1982, p.176. I I. L Tiger e J. Sepher, \'(Iomeii in tlu Kibburz. Nova York, Ha rcourt Brace-Jovanovich, I'J,~. p. 16. 12. Citado, com prop6sitos opostos, em C. Kluckhohn, "Education, Values and Anthropololtul Relativity", in C. Kluckhohn (org.), Culturt' and 8l'IJIIvior, Nova York, Free Press, 1962. 13. Sabre matcrialismo, vcr M . Harris, Thl' Riu ofAmhropologicnl Tluory, Nova York, l l u wrll , 1968; sobre "cicncia" e "0 G rande Fosso", E. Gellner, Spectacles and Predicnmmu, Camh11dl'' tlntvc:rsity Press, 1979; sobre a "compeli~o interre6rica", R. Horton, "Tradition and modt:IIHI)' '' ~IUtt'd ", in M . Hollis e S. Lukes (orgs.), R11tionnliry and Relativism, Cambridge, MIT Pre:~,. I'IH 1 , I' 101-60; sobre "a Conccp.;ao Can csiana de Conhecimen to", S. Lukes, "Rclat ivism m it' pl.11 r , 111 llnllis e Lukes (orgs.), ibid., p.26 1-305, cf. B. Williams, Dl!scartes: Thl' Projm ofPurl' lnrf1111J', 11.11 "'"ndsworth, Penguin, 1978; sobre Popper, de quem provcm todas essas bcnlj:im, vc:1 1<. l'upp•·1, f tlll}f'rtures and Rejilfntiom: Tlu Growth of Scimtifir Knowledge, Londres, Routlrd~t· .uul lv1• 111

229


~0

N"tm

I'>HJI, 1963, e K. Popper, Objerlll•l' Know!t'fltl'IIN J:'~;J/mimutryAM•ro111"h, Oxford C l.art'n.l 1111 Jlr 1972. • rr '

n.,

14 Sobre programa.H.Ie p esquisa ''p rogrm vos' c "J egcncratiVOs", ver I. L·kJw,, Mfl dolot:J ofSrimtiflr Reunrr!J, Carnbr1Jge Un1vers1ry Press, 1976. 15. M . Midgcley, Beast nnd Man: "fl1e Roots of Human Nnrurt, Ithaca, Cornell Uruvu i Press, 1978, p .xiv-xv; grifo d o original. . 16. Ibid ., p.79-80; gnfo d o oraginal. 0 excn plo da "mo noto nia" aparccc em nota d1• pal .I l j gana ("A m onotonia c, po r si m~m~. urn ext rem:> anormal"). 17. S. Salkever, "Beyond in terpretat ion: human agency and the slovenly wilderne~s ' , 111 ll ult ct al. (orgs.), Sorinl Srimu, p.2 10. 18. M. Spiro, "Culture and human nature" in G. Spa ndler (org.), The Mnking of!'1y,l•tJio 1 AntiJropowg;y, Berkeley, U mvers ity of C"t11fo rn ia Press, 1978, p.330-60. 19. H . B~ggish, "Confes~ions of a former cultural relativisg", in E. Angeloni (org.), 1~<~1·· 1 wg;y..83184. G utlfo rd, C~n.necu.~u~, Dushki n Publish an g. 1983. Para outro dlscurso com pill .ulu II bre o pro~lcma do relaravrsmo van do dessa pane d o mundo ("Busco estabelccer o que pctl\u , , um ponro de V~ta razo:\vcJ para 1; rcenchcr 0 vazio parcial dcixado pclo relativismo ctico, que, llll d oUhltl ~e 1980, ~a~ raro parec~ mm repud1ado d o que sustcntado"), ver E. Hatch , Culfllrt' nml Mr·•ol/lt; The Relnnmry ofVnluu 111 AntiJropolog;y, Nova York, Columbia University Press, 1983, clt.t\.1'.1 11 • p. l 2. 20. Spiro, "Culture and human nature", p.349-50. 2 1. Ihid., p.336. 22. R. Edgerton, "The study ofdeviance. m.orginaJ m an o r everyman?", in Spindler (or~.)

1l

Mnkmg ofPryr!Jo!ogrrnl Anthropology, p .444-7 1. 23. Ibid., p.470. 24. ~· Rorty, "Mcdto~ and morality", em I laan et al. (orgs.), Social Scimu, p. 155-76; <I , ll Rony, PlnwsopiJy and tbe /1/r"or ofNnturt, Princeton, Princeton University Press, 1979. 25. I Ia tambem algu~s tr.abalhos mais m~derados e conciliadorcs. de Jan H acking. Uurl Taylor e Lukes, mas s6 o pruncrro parece autenttcamcnte livre de alarmes falsos. 26. As citar;ocs paremcricas sao da ca pa do lavro, que, fugindo a rcgra, refl cre 0 contcuJu 27. I Io iiis and Lukes (orgs.), Rntionnliry and &buivi;m, p.1. 28. E. Gellner, tn ibid. 29. R. Horro n, in ibid. 30. D. Sperber, "Apparcnly irrational beliers", in ibid., p.l4 9-80. 3 1. lbrd., p.l80.

Capitulo 4. Os usos dn diversidnde I. C. Levi-Strauss, 77u Vil'w from Afor, trad. dt: J. Neugroschel e P. Hoss, Nova York. ll.u t Books, 1985. 2. Ibid., p.xi. 3. Idem. 4. Ibid., p.X II. 5. 1dem. 6. Ibid., p.xiu. 7. Idem. 8. Ibid., p.7. 9. Ibid., p.23. I 0. Richard Rorty, " Post mod ernist bourgeois libcrali~m", joumnl of Plnlosoph;•. 80, 1')H ', p .583-9, vcr p.585.

II l evi ~tr.n1 ~1. JJu \luwji-nmAfor, p.35.

12. ltutty, NPmtmodc:rnm bourgeo1s lrberaltsm", p.586. II lim!.. p.586 7. 14. Arthu 1 Danto, "M and a1 rcd1ng; Form as presence; Langer as philosopher",jormrn/ ofPin· Kl, 19K4, p.M l -7. 1 ~. l h1 Straus,, Th~

Vinvf'romAfor, p. IO. I(• Rnuy, "Posun odcrnist bourgeois liberalism", p.588. 17 D.mto, "M and as reeling", p.647.

5. A

sittltlfliO tltulll

1. ( ,.1nanath Obeyesckere, Tlu Apotht'osis ofCnprnin Cook. EuropMn Mytlnnnking, .Princeton, University Press, 1992; M arshall Sahl ins, I {ow "NntiVt'I" Think, About Cnptnm Cook, for Uucago, U niversity or Chicago Press, 1995.

.

.

.

2. A mais simples e mais accss(vcl das muitas fo rmular;oes d~ Sal1ltns sobr: suas 1deaas c, pro~a­

' flrstoricn/ M~tnpiJon nnd MyriJirnl RMlirw: Smrcrur~ m riJe Enr!y Hrsrory of~IJ~ Snndwrch Kmgdom, Ann Arbor, University orM ichi~an ~ress, 1 9~ I , postcriormcm c amplaad.a num cade \culivro fslnnrh ofHistory, C hicago, Umvers1ty ofChrcago Press, 1985. ~uanto as conc~pmal\ gerais de Obeyesekere, ver, de sua autoria, Tlu \\'l'ork ofCulrur~: Symbolrc Trmufonrrntron ,.,ho1mnlysis and AntiJropolng;y, C hicago, University ofCh1cago Press, 1990. . .. 1. "(;oodbyc to Trisres Tropes: ethnography in the context or modern world h1story , TIJ~ rifModt'rn Hrstory, 65. 1993. p.l-25. 4. Nenhum dos dois aurores tern muito a di1.cr sobre isso, embora Obeyesckere nos prometa hingrafia psicanaHtica de Cook- rclacionando a concepr;ao que cste tern de si m"esmo como J'ro•pcro "que domestica uma terra selvagcm", quando c, na verdade, urn Kurr q~c sc rransforno pr6prio selvagem a quem dcspre7a", com sua "sexualidade com.plcxa" - , brografia .csta na talvl"'l nos scja oferecido algo mais. Para urn extenso cxame do me10 culru ral (a Cambrrdgc de d e que emergiu um cxplorador-descobridor, urn jovcm astronomo que teve morte cmdhante a de Cook, porem em Oahu e treze anos depois, ver Greg Dening, Tfg DMriJ of 1 · Gooch: A !lisroryi Anthropowg;y, Honolulu , U niversity of Hawaii Press, 1995: 5. P. Clastres, Chronirl~ oft/g Gunynki lndinm, trad. Paul Auster, Nova York. Zone Books, (Original mente publicado como CIJroniqun dts indimJ Guaynki, Paris, Pion, 19?2.) c.. J. C lifTord, Rour~s: Travt'l nnd Trnrulntion in tiJt' Lnu Twmritrh Crmury, Cambrrdgc, Mass., University Press, 1997. 7. Ibid. , p.2 1, 5, 2, 17 . H. Ibid., p.1 0, 12. •>. Ibid., p .18. 12. 10. C lastres, CIJroni&, op. cit., p.91-2. II . C lifTord, Roum, op. cit., p.241. 12. Ibid., p.56 e nota 2; Clastres, Chroni&, op. cit., p.3 15. 13. C lascres, Cbronirk, op. cit., p.276. 14. lbid. , p.345. 15. Ibid., p.345-6. 16. Ibid., p.l5, grifo no origi nal. 17. Ibid., p. l 41-2. 18. Ibid., p.348. 19. Ibid., p.346. 20. C lifTord, Routt'S, o p. cit., p.9l. 2 1. M. L. Prall, fmprrinl Eyt's: Trnt,l'f Writing nnd 7im1Srulturnuon, Lonclrcs, Rmult·d~t', I ')'12,


Nfll.l 111•

,,,fnr 11 nnll•'l'"''"''''

Ia r, 0 estrmzbo estrttn!Jflmt!llto: Cbttrles Taylor ens cienciflS nntumis

21 llml., p.6· 7. 23. ( ilfTord , Roufl's, op . en., p.3()2, 304,303. 24. lbtd., p.3-13-4. 25. P~r.t uma visao geral dessa cscola de pens~menro, vcr C ltiTo rd e Marcus (org\.) 1\1/11 Culturt: Tht Pomnand Polinr:s of Ethnography, Berkeley, Untvermy of California Pre\\, 1'186 \ t campo cmcrgenre dos "estudos culrurats", como qual CltfTord tem-se envolvtdo cada Vf:7 uui1, hu necc exemplos ainda rna is daros dessa espc!cie de et nografia nlio imersiva, do tipo ataquc r rtlll••l• r;lpidos. 26. C lastres, Socitty Agaimr tbt Statt: Th" [l'ndl'r as St!r11ant tllld tlu Human Um of l'uu among tht Indians oftht Amtricm, Nova Yo rk, Urizen Books, 1977. 27. ). CliiTord, Tht Prdicamrot o[Cufturt, Cambridge, llarvard U niversity Press, I 'Jill! 28. P. Burke, T!Jt Historical Anthropology ofEarly Modtrn Ira!;•, Cambridge, Ca mbndfir llrol versiry Press, 1987; E.R. Wolf, Europt and tiJt Ptop!L wiriJollf History, Berkeley, University uf l rll fornia Press; E.J. H obsbawm, Primitivt Rtbrls: Studits in Archaic Fonns ofSocial Molll'lllt'/11 "' Nilwumh and Twmrinh Cmturirs, Nova York, Praeger, 1963; Y. Elkana, AmhropoloJ!." dr• F.rkmnrnis, Fmnkfurr, Shrkamp, 1988. 29. E. II. Kantorowic-L, Thr Kingi Two Bodirs, Princeton, Prince10n University Press, 1'15 E.P. T hompson , T/g Making oftht English \'(forking Class, Nova York, Vintage, 1963; T.S. lwl11t Tlu Stmcmrt o[Scuntiflc Rrt'olutiotls, Chicago, University ofChicago Press, 1962; F. Eggan, /1Jr \n cia/ Organization o[tht \'(lmtm Putblos, C hicago, University of C hicago Press, 1962; K. Polan)'t rt al. (orgs.}, Trndtand Markm in tlu Early Empim, Glencoe, Ill ., Free Press; V. Turner, Tlu l·o11 Symbols, Ithaca, NY, Cornell University Press, 1967. 30. R. lsa:tc, Tlu Tm11Jjom111tion of Virginia, 1740-1790, C h:tpcl Hill, Univcrsiry of Nuttl. Carolm:t Press, 1982; I. Clendinnen , Ambi11akm Conqums: Maya and Spaniard in Yur.u.,., 1517-1570, Cambndgc, C1mbridge Univcrsiry Press, 1987; G. Dening, !slantu and Btndm, IJ11 coursts on a Silrnt Land: Marqunas 1774-1880, Melbourne, Melbourne University Press, 1980. 3 1. Isaac, Th~ Trnnsfonnation of Virginia, op. cir., p.ix. 32. C lendi nnen, Ambivakw ConqutSIJ, op. cit., p.xi, 128, 188. 33. Dcning, !sumds and Btnchi'S, op. cit., p.287. 34. Ibid., p.273. 35. Vcr E.S.C. H:tndy, Tht Natizlt Cultur~ in tlu Marqutsas, Ho nolulu , University ofH:tw~li Press, 1923. A c1tar;:ao foi cxtraCda d e Dening, Islanth and Brnclm, p.279. 36. Dcning, Islands and Brnclm, op. cir., p.329. 37. M. Axton, Thr Qutm's Two Bodin· Drama and thr Eliznbnhan Surussion, Londrcs, Roy~l Historical Society, 1977. 38. L. de ll eusch, Tlu Dnmkrn King, or, Thr Origins ofth~ Starr, Bloomington, Indiana Un1 versity Press, 1988.

,1,

tll/

39. S. Wi lcnrz (org.}, Rim ofPoUHr: Symbols, Rima/ and Politics sinu tht Middlt Agts, Filadcl fi:t, University of Pennsylvania Press, 1985; Can nadine e S. Price (orgs.), Rituals ofRo)'alry, Pou'" and Cutmomnlm Trnduiona/ Sociwts, C:tmbridgc, Cambridge University Press, 1987. 40. S. W ilenrz, "lnt roducuon ",in Wilentz (org.), RittS ofPowu, op. cir., p.7-8. 41. C. Geerrz, "Centers, kings, and charisma: reOccrions on the symbolics of power", in idem p.30. 42. ) .H. Elliou, " Power and propaganda in the Spain of Ph1lip IV", in ibid., p. l 47. 43. D. Cannadin e, "In troduction ", in Cannadinc e Price (orgs.), Rituals of Royalty, op. crt., p.15. 44. D. I. Kertzer, Rimals, Politics, mrd PouHr, New Haven, Yale University Press, 1988.

I ·\ lntrodur;:;Io" ~ repctida, com uma paginar;:ao ltgerramente difcdrendte, ~~ ~~lu~e 2:?Bs ;~· ' · · · toda a sua obra es e c.Jtpumauon o; t II dntralulhu de Taylor que :o.qut exammo perpassam .r I. 'S If. Ca b 'dgc Harvard lutulre\ Routledge & Kegan Paul , I 964, ate! Sourus O; t Jt I' • • m n •. . ty Pr~s. l 98 9; 3 bern da simplicidadc, porc!m, limitarel as cirar;:oes drretas aos Plnlosop/)lcal ( ·Jrnhridgc, Cambridge University Press, I 985, 2 vols. . II 247· 2. T .1ylor, Philosophical Papm, op. cit., vol.l, p.l; vol.ll, p.2 I; vol.l, P· I 87. vo · • P· ' e

II. I' n \ llml., vol.ll , p. I 5. 4 lhtd., vol.ll, p . l7. 'I lhid., vol.ll, p.ll7.

c•.

Ibid., vol.l , p. l l.

I · d

'de'

c

~ nda

7 Ihid vol.l, .45, vol.ll, p. 15. Como Taylor rcconhecc, a gene:t ogta essa '. ta pr~- u : c~samen~o ocidemal, e, em sua vcrsao modern a, ralvcz scja datada com tgual frcquencta ,t 110

Vic:c de Dilrhey, e seu modelo definidor ran to C. visto como Weber quanro como Gada",'cr. um lcv:tntamento sutil e detalhado do conrrasre, tal como se desenrolou desde ~ mundo_ a~ng~, ·r r~ ora como dicoromia, o ra como mcra faha de clarC'La, sob a egrde da dtmn~o <nmo d arcren..-, d 1. • • ortanre estudo · • 1(eles tam bern parecem ter invcnrado isso) do uomose a p 1ysrs, ver o tmp . (),::::r: '~elley, Tht Human Mtnsrm, Social Thought in thr \'(/tstt'm Ltgal Tradition, Cambndge,

1

U ntversity Press, I 990. I. 'l I. · 1 p, Ca 11 Richard Rorry, " Is natural science :1 natural kind?", em scus P)l ~sop ucn aptrs, . m: .·Cambridge University Press, 199 I ' vol.l. p.46. Edaro que Rorry. asstm como cu, qucmon . . vi•jo. . . . . fCh' ') Taylo r PhiloJopbica/ Papm. op. ctt., vol.l. p.5. · 2a. ed ·• Chtcago: Umverstty o •10 Th as Kuhn Tht Stntc/tlrt o1 . om IIifir R~vo1utrons, ~qn l'rc~s, 1;;;.. Para u~a discussao acess(vel da "esqursitice quiinrica", ver Hem7. Pa~~· ~~~i~:~ •lr ( ·at~~· Qua mum PhyJics as tlu Languagr of Nnrurt, Nova York, ~~~ta~,/f.l983.- . d g I tlfUUII d~ Taylor sobre "a formar;:ao da identidade modern:t", Sourm O; ~ Jt r •.a aus~n~m e ~~a.ff ,ltscussao si nifi cariva dos avanc;os da reo ria flsica como talc no ~-(nuno cunosa, a a a atrt Ut: , da uri em d:ssa "conscicncia mode rna" avis5o de mundo mccantctHa. Co':"o o deus do_s ddstas, a"Cii'nci:" _Descartes e Bacon, Newton e Boyle_ pas a empres:t para func1onar, mas nao parcce

·

'

.rs ·

lalvrr participado muiro dela desde entao. . r . "Why is there no hermeneutics of natural scrences? Some pre tmtnaty 1 I . G yorgy M ark u S, ·r · · I) .a. __ • S · · Conma 1 1987 p.5-5 1; cit::u;ocs das p.42 e 43 (gn oo no ongtna · W~n<"' , cunus 111 ' ' ' • • dF - tenho nenhuma 12. A citar;:lio do "nao pergunrem" foi ambu(da a Richa_r eynman, mas n:to PaNf'rri'ncia dela Para discussoes de alguns dos assunros menctonados, ver novamente, de Hctn7. . ·· ·. C d · bern Tlu Drtams ofRMson: Tbt' Computtr and rht Rrsr oftlu Sci·

~;, ~;~::;~:;;. ~~~~~~;:,~~:on and Schuster, 1988, c Ptrficr Symmnry: Tht Stnrrh for rlu lfttullring ofTimt' Nova York, Bantam, I 986.

. '"Why is there no hermeneutics of natural sciences?", op. ctt., p.26. 27 • 28. 29 • rc 13 . M ark us, . al r..•n"as omiridas, rcordenadas nos paragrafos, grifos no o.rigm · 14 Ror "Is natural science a natural kind?", op. Cit., p.47. 15: Ger~d M . Edelman, Bright Air, Brilliant Fm: On tbt Marrtr ofrlu Mind, Nova York, 1\,1• · · . 11 tcs d~ ·1·1ylnt .I 230 231 232; grifo no origmal. Para as crlttcas mutto scme 1an · Jb' d 16 • 1 ·• P· ' ' :i · " saio "Cognutvc I"Y' hu ,. ltca oes do desempenho humano pauradas em m qurnas , ver scu en . , ' P_ s:, .,_ 1. • l n II p 187-212· sobrc o "objetivismo", ver "Thconcs of mc.a""'li · 111.,,. Pmwsop ncn raptn, vo · • · ' 1 1" • 1• "'' ' 1 " b'etivismo" na ncurologia nelaclam.tlll <tt.l~··"' I voll, p.248-92. Para urn araquc corre ato ao o J • •

elc Rnoks, 1992, p.l l .


Nouu

Norlflluz sobr~ a antropolog1n

234

dragramas", ver Israel Rosen feld Tbt Strangl', Familiar and Forgonm. An Anatomy ofComdoumrJJ. Nova York, Knopf, 1992. 17. David Ruelle, Chnrraand Cbaos, Princeton, Prince10n Umversil)' Press, 1991. p.l2, II idcia da "formao;:ao ap ropriadJ" necessaria para apreciarmos as difereno;:as que Ruelle deseja que apre cicmos- num livro, afinal, destrn ado a urn publico que nao a rem- mais faz levanrar a quest.-ro, .I urn modo que protege a gui lda, do que rcspondc-la. A rraduo;:ao existe eo comemario tam bern (<c 11 do ode Ruel le urn bclo cxemplu): Nao conhco;:o o russo e, porramo, perco muita coisa, mas DO\tcu evski nao me parece igual a Tolst6i. 18. C rtado em Edelman, Bright Air, Brilliant Fir~. op. cit., p.vli. A ultima linha sugere 'l"r "h icmrquia" taiVl'Z n:io scja rampouco o melhor recurso para dccifrarmos essa rede de ligas:oes. 19. Para uma breve rcscnha geml, ver Steve Wool ga r, Scimce, tlu Very ldra, C hichester, I l11 Horwood, 1988; para urn a colednea atual de debates e posturas nesse campo criativamente desOif' 1 nit ado e proveuosarnente combat ivo, ver Andrew Pickering (org.), Scima as Pmctia and Cu/tm 1 Chicago, University of Chicago Press, 1992: para urn estudo de peso, que :uravessa a drvisao "'"'' cicncias human as e c icncias nawrais com uma cspccie de furia, ver Steven Shapin c Simon Sch.tfh, Lrviathan tmd t!u Air Pump: HobbN, Boyk, and thl' Expaimmtal Lift, Princeton, Princeton UnJ\'• 1 sity Press, 1985. 20. Bruno Latour, NouJ n iwom jamais ~rl mod~nw. Essai d'anthropologu symltriqu~. Pan. I Decouverte, 1991, p. I 86. Essa c a declara~o de posis:ao mais geral e rna is provocadora de Lltutu para urn a drscussiio mars dcmlhada, ver, tam bern de sua autona, Scrmrl' m Aaron. Hou•to Foi/(Ju• Sri tiii/Jts and Enginurr through Sod~ry. Cambridge, Harvard University Press, 1987; e, para um.r 1plt cas:ao espedfica, Tbr Pamuriwnon ofFranu, Cambndge, Harvard Umversity Press, 1988. 2 1. A cita~ao provem de H.M. Collins e Steven Ycarley, "Journey into space", uma polritll< contra Lnour 111 Pickering (org.), Srimu as Prnrtirl' and Cu!turl', op. cit., p.384. Qua nco 3 ab111.l~ gem de Merton, ver seu livro T/u Sorio/(Jgy o[Scimu: Thi'(Jr~tiral and Empirirallm•migauom, { hr• 1 go, University of Chicago Press, 1973. Quanta abordagem da sociologia do conhccumur .. (cicndfico) (SSK [sociology of(sci~ntijic) knowlt'dg~]). :\s vc-tes designada como "o projcm forte" , , 1 Barry Barnes, hlll'rms and tlu Cr(Jwth o[Knowltdgl', Londres, Routledge & Kegan Paul, 1977 l 11 mci cmprcsrado o anugo mas lfmpido tcrmo "concenado" (que rne parece um aprimoramenllt uu pcl o mcnos, um suplemento util ao "cocrente" cstctico, tal como aplicado aos rextos, ao "coJHI\IIIt tc" forma lrsra, tal como aplicado 3s crens:as, ao "intlogrado" funcronalrHa, tal como aplicado ;" ""' tuis:oes, o u ao "sintonizado" psicologista, tal como aplicado its pcssoas) de Ian Hatking, lit s~lf-vindic:111on of the laboratory sciences", in Pickering (org.), Srimu as Prartru and Cultru 1 U(' cu., p.29-64, que cum cxamc mmucioso do caminho que celebra. Para uma discussao cxrem.t 1 d de sua autona, Rtpr~Jtlumg and /nrt'rvtmng, Cambridge, Cambridge University Press, 1985. {II pois que csta nota foi escrita, o sociobi6logo E.O. Wrlson introduziu a palavra num scnudn 1111111 1 difercnte, totalmenre oposto ao mcu. Yer E.O. Wilson, C(11lsilimu: tlu Unity o[Knowltt{v,t, I .1 York, Alfred Knopf. 1998. 0 tcrmo se dcve, originalmenre, a William Whewcll, que o uulr. 1 , 111 conson:incra com meu semido e com ode Hacking, e nao com ode \X1 ilson.)

a

22. Michel Calion e Brun o Latour, in Pickering (org.), Srimua.s Practiuand Culturr, up l l l p. 348. Eles prossegucm: "Nosso prindpio ... geral nao alrernar entre o re:~lismo natur.d c urr.i lismo social, mas chcgar a natu rcza e a sociedade como resultados gcmeos de uma ou1ra .lll\'hll.l que nos c mais interessante. Nos lhc damos o nome de construc;Jo de redes, ou corsas cnlctJ\'.1 !Ill quasc objctos, ou provas de forsa; c outros a chamam de habilrdadc, forma~ de vida, pr.ilJt.t nHI rial. " (refercncias climinadas)

e...

23. Woolgar, Srrmu, op. cit. Cf. Donald Davrdson, "On the very ide.• of·' conu·pr11.1l . I. me", Prorudings nnd Atldmm ojtbr Ammct/11 1'/ulos!lpluw/ Assouallon, 47. 1<)7 j 74. p 'i 20 ?.4

l':t)·lur, Plnlornphmt/l',tpm, op. ell , vnl I, p. II) ·

25. Para alguns comentirios interessantcs sobre este ultimo asp~to,__ ~er Jeremy Bermtcm, Quantum Projilts, Princeton, Princeton UniverSity Press, 1991, esp. p.vu-vur, p.77-84.

Qlpftulo 1. 0 legado de Tbomas Kubn: 0 texto certo 1. T.S. Kuhn,

1Ul

bora certa

Th~ Stmcnm ofSrimnjir R~rt(J/rmom, Chrcago. University of Chrcago Press,

l9l.2.

2. T.S. Kuhn, Th~ Essmtial Tmsion, Chicago, Unrversrty of Chicago Press, 1977: Kuhn, IJJ.,1 k-body Tluory and thl' Quantum Dircomimury, 1891-1912, Chicago, University of Chicago Pres~. 1978.

3. Thr Strucwrr ofScimrifir R~rto/utions, p.l79-80.

CApitulo 8. 0 belisciio do destino: A religifio como experiencia, sentido, identidade e poder J. William James, Tlu Varietil's (JJRI'Iigiorts E.>:pl'rimu, A Study in Human Namrr, Nova York, Modern Libraty, 1929 {originalrnentc, 1902), p.476. 2. Ibid., p.J 19; grifo no original. 3. Ibid., p.171. 4. Ibid., p.250. 5. Ibid., p.492. 6. Ibid .• p.477. 7 !hid., p.476. 8. Ibid., p.418. 9. Ibid., p.3l, grifo no original. . , . ,., 10. S. Brenner, "Reconstructing self and society: Javanese Mushm women and The Veri , Amrrwm Etlmologisr, 1996, p.673-97. Como sugcrcm as aspas ao redor de "o veu", o q.ue cs·t·:i em IIUr•l~n nao <! o conhecido vcu (hijnb) do Oriente Mcdio, mas a ccharpc eo manto co~~n.do (jrlbab, rou ,.1", "vestido de mulhe r")- fa to que Brenner deixa daro em su~ nota de rodape rnrcra~. ~o~~· 1 raHJcs que nao preciso explicitar aqui, cssa c uma qucstao que crero ter certo peso, subsmurrcr Sl~ mente o terrno "vcu" po r jilbab ao f.12er ciras:ocs de Brenner. Como eu rnesmo descnvolvr tlll,.lhns, do infcio da decada de 1950 ate o final da dccada de 1980, sobre Java e, mais especialmcnauhrc 3 ~ praLicas, conccps:oes e sentimentos religrosos javaneses, o trabalho de Brenner pa_rece-mc:, un11 rmpo, ser uma continua~ao do meu e urn :rvancyo substancial em relas:iio a ele. Ycr, murfllut, II , rh~ Rl'iigion ofjava, Glencoe, Ill., The Free Press, 1 9~0, e _Geerrz, Jrlnm Obum~d: R~lrgr~I/J /)trvlnpmtrll 111 Morocco and !ndonrsia, New Haven, Yale Umversrty Press, 1968. Para. observar;ucs _ . rnt·ntes, ver Geerrz, Afur t!JI' Fact: Two Coumril's, Fortr Duad~s. On~ Anthropo~ogm: Cambn_d 11 M.m. 1brvard Universrty Press, 1995. Cf. S. Brenner, Thr Dommrrano11 ofDmrr: \1/'omm. \h· 1 awl M(Jdl'miry in java, Princeton, Princeton University Press, 1998.

II Brenner, "Reconstructing self and socicl)•".

1:1 lhid. lhrd lhrd.

1'I ('.11 ,1 um.r drscm~:io e crftica cxtcnsas d:.rdera da "cxpericncia" como fundamcn1o "irrcdu

1\1 1 ,[u ,,. 11 udo c da identid:ulc, "(fonte) fidcdrgna de conhecimento que provem do acessu ao Jl'.d " II - 11 " 1"·lmu'mc.1 ("A ~xpcricncr:. ... n:10 c! a ongcm de nos\J exphc:u;ao, mas :.quilo que quncmm 1 e•lr<~r · ). vu J 'iwll, "'l'he cvrtlcncc of cxpcril•mce", in J Ch~ndlcr l't :.I., Qunti(JIIS of Fr•idmu. 11 111 /'hi• tit,., otllll / 1rwutlion ttrlfiH tlrr /JtJof'llltrl, ( lllcJgll, Unrn•t ~IIY of Cl11c~gn Pre", 1J'J I.


NtltQI

16. Brenner, "Reconstructing 1clf.and •n~i ctv". 17. C itado ern ib1d.

CapituLo 9. Um ato desequilihrador: A psicologia culturaLd~ ]erom~ Brunrr I. J. Bruner, In SMrch ofMmtl, &ays in A utobiograplry, Nova York, Harper and Ro'', 1VII p. l26. 2. ). Bruner, Am ofM~ani11l, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1990, p.l 3. ). Bruner, Th~ Culmu ofEducatio11, Cambridge, Mass., Harvard University Pre", l 'J' , p.43. 4. Ibid., p.9. 5. Ibid., p.7 1-2. 6. Ibid., p.87. 7. Ibid. , p.57, 49. 8. Ibid., p.l21 . 9. Ibid., p.40. 10. Ibid., p.l47. II . Ibid., p.l30. 12. Ibid., p.4 1. 13. Ibid., p.x1v. 14. Surgiram agora dois desses rrabalhos: M. Cole, Culmral PsycholofJ'. A Onu a11d Fu••·•l Dtmplm~. Cambridge, Mass., Harvard Universiry Press, 1996, e B. Shore, Culnm i11 Mi11d, Coxn11l 011, Culmrr, and rhr Probkm ofMramng, Oxford, Oxford University Press, 1996. Cole, urn psiCr>ltt go do dcsenvolvimenro que ca minha em direy.~o 1t annopologia social , levantou a hist6n.• d, pesquisa comparanva entre culturas na psicologia, na qual ele mesmo desempenhou urn papel1111 ponante, e desenvolveu um arcabou ~o conceitual para a intcgra ~ao da invesriga~ao anrropol6g1•, psicol6gica baseada na "cicncia romanrica" ("o sonho da comhina~o de urn romancisra com u111 cicntisra") dos psic6logos russos N exei Lconriev, Alexander Luria e Lev Vygotsky. Shore, urn anll •· p6logo social que ca minha em direy.'io a psicologia cogniliva, rcexaminou alguns esrudos ernogr.lla cos clamcos, inclusive o seu pr6prio sobre Samoa, alcm de varias formas culrurais conrempor3nl.l• - o beiscbol, a dcco ra~ao de imeriorcs, as viagens acreas - , no esfor~o de rclacionar entre si o l[llr chama de modelos mentais "pessoais" (isto e, "cognirivos") e "convencionais" (isro c, "cultu ral\'), com isso rompendo a tonga e lamenr:lvel separa~ao entre a annopologia e a psicologia. Ambos os livros vao com sede demais ao pore e acabam njo se saindo muiro bern , mas oferr cern descn ~oes preciosas da situas:ao arual. Para O lltrOS desses trahalhos de revisao, igualmenre u1r1 para nos dar uma idcia dircta dcsse campo e suas perspectivas, ver R.A. Shweder, Thi11king throu.~h Cultum, E~prduiom in Culmral Psychology, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1991, ) Stigler, R.A. Shwcder e G. Herdt (orgs.), Cultural Psychology: Tbl! Chicago Symposia on Culrurr ,,,,/ Dn•t'lopmmt, Cambndge, Cambridge University Press, 19119; e R.A. Shweder e R.A Levine (org\.), Cultur~ 77,~ory: Essn;•s o11 /11ind, S~lfand Emotio11, Cambridge, C'lmbridge Universiry Press, 198·1 15. Bruner, Tht' Cu!turt' ofEducauon, p.l60. 16. Ibid .. p. l71 . 17. Bruner, Acts ofMi!aning, p.95. 18. A. Clark, 81!i11g Thai!: Pu~ing Brni11, Body, and l'<'or!LI Tognlur Again, Cambridge, Ma\\, M IT Press, 1997; W. Frawley, V;ogotsky and Cog11itiv~ Scil!llrr: Langu11gr 11nd tb~ Unification ofthr ,., rial and Computmional Mmtl, Ca mbridge, Mass., Harvard University Press, 1997. Para urn rccu nhccimento do esrfmulo trazido pelo u:ab:alho de Bruner, ver, por cxemplo, Clark, p.25, Frawl•·r. p.223.

I') 1\runcr, 1 lctl of/1/r.tlllllg, p.l L ( Lark, ll~lll.( /ltrtr, p xvii_: I uwl~)'• I 11/lt~ """ l Sl'lrmr, p.295. Par.r uma v1s:1o Ju ]Upd J J cu hura como cun\IIIIIIIV'• c "·"' • 1111111111111i I

.v11111,.11, humana, vcr Cltfford Geerll, ''lhe 1mpat l of the uollll' (ll ul lllhu1 c 1111 1h l 1111 11 f nun" c- "The: growth or culture and the cvoluuon of m1nd", em I'lit /ntrlftrloltit>ll off 11/11ur • Nu • Vmk, lhs1c Books, 1973, p.33-54, 55-83

CapiwLo 10. CuLtura, mente, cerebro!Cerebro, mente, culturn 1. Clark, A., Bt!ing Tlur~: Putting Bmin, Body, and \'(/or/J Togttbu Ag,till, C..tmhrttl~··· Muu , Mil Press, 1997, p.213.

.

2. B. Shore, Culmrr in Mind, Cognition and rlu Probkm ofMrllning, Nova York, Oxforcllln1 Ytr•tt)' Press, 1996; J. Bruner, AcmalMinds, Possibk \'(/or/Lis, Cambridge, Mass., I larvard Univcl\lt)' J>rr\\, 1986; R. A. Shwedcr, Thinki11g tbrough Culmm: Expi!ditions in Cultuml Psychology, Camh11d F• Mass., Harvard University Press. 199 1; R. Harre, Tlu Dimmi.v~ Mind, Thousand Oaks, C1ltf:, Sage Publications, 1994; S. Toulmin, n~ bm~r Lifo: Thr Ouur Mmd, Worceste~, M~s., Clark Unt""' \tty Press, 1985; M. Douglas, flow lrmimtions Think, Syracuse, Syracuse Umvers1ty Press, 1986; G. 1\atcson, Sups toward a11 EcolofJ' ofMind, Novato, Calif., Chandler, 1972; eN. Goodman, WayJ 1/ \l?or!Limaking, Nova York, llacken, 1978. . . 3. M. Cole, Culmml PsycbolofJ': TIJr Onrr nnd Fumr~ Sctrnu, Cambndge, Mass., Harvard University Press, 1996. . . . 4. N.J. Chodorow, Tb~ Powu ofFt'rlm!!· Pmon11l Mramng m Psycbo11nalym. Grndrr, and Cui"'"· New Haven, Yale University Press, 1999, p. l44. 5. M. Rosaldo, Knowkdgl! 1111d P11mon, Cambridge, Cambridge University Press, 1980; C. l ut7 , U1111atural Emottotu: Evnyd11y Srnnmrms o11a /11irronrsilln Atoll and TIJrir Challm~l! to Wmrm 11•rory, Chicago, University of Chicago Press, 1988; J.L. Briggs, Ni!vtr in A11gn, Cambr~~ge, Ma~s., Harvard University Press, 1970; Shweder, Tlnnkmg through Cultum; R.I. Levy, Tahm~ns: ~1md •nd Exprrimcr in tiJr Soci~ry /sktnds, Chicago, University of Chicag~ Pr~ss, 1973; A. W1erzb1cka, Undmtanding Culmm through T/Jrir KrywordJ, Oxford , Oxford Un1vers1ty Press, 1997. 6. Rosaldo, Knowkdgt' and PI11Jton, p. 222. 7. Wierthickn, Undm111nding Culmm, p. l6-7, 157, 218; Shore, Crtlmr~ in Mind•. p.30 1_-2; L. Rosen, Bargaining/or Rtaliry: Tht' Comtntctioll ofSocial Rrlatiom in 11 Mtulim Commumry, ~h1c:go, Umversiry of Chicago Press, 1984, p.48; C. Gecm, 71}( Rrligion of}alla, Glencoe, Ill.,~. he Free Prt"Ss, 1960, p.238-4 1. Para uma ex posis:ao sucinta dess:1 abordagem geral, ver H. Geern, The vocabulary of emotion", PJ]chiatry, 22, 1959, p.225-37. 8. Chodorow, Thr Pow~r ofFulmgs, p. l6 1. 9. Ibid, p.l 64, 166,218. . . 10. J. Bruner, Arts o[Mtmting, Cambridge, Mass., ll arvard Umvers1~ Pr~ss, 1990; J.W. Asungron , TIJr ChilLI's Di1covrry ofrh~ Mmd, Cambndge, Mass., Har:ard .Umvers1.ty Press, 199_3; D: J'r~mack e G. Woodruff, "Does rhc chimpanzee have a theory of mmd? , Brhavtoral and Bram Snmm, 1, 1978, p.515-526; G. Lakoff. Womm, Firr, and Dangaoru Things, Chicago,_ Uni~ersity of Chicago Press, 1987; C. F. Feldman, Thr Dr11aopmmt ofAd11ptivr lnrrlligmcr, ~an F~anc1sco, Jos.aey-Bass, 1974; W. Frawley, Vygouky a11d Cognirrvr Scimer, Langua~~ and tfg Unijiranon o(tlu Son11Jm1d Computational Mind, Cambridge, Mass., I lar-•ard Umvers1ry Pr~s, 1997; R. _D Andrade, "Cultural cognirion", in M.I. Posner (org.), Foundatiom ofCogmtivr Setmm, Cambndge, Mass., MIT Press, p.745-830.

1 ). Goodman, \'(lays of \'(/or/Lim11ki11g. cf. J. Bruner, 7'lJr Culntrr of Education, Cambridge,

Mass. , Harvard University Press, 1996. 12. Cirado em Frawley, Vygotsky. p.l43. 13. Shwcdcr, Tbinking through Cultum, p.324 ·


Nr~,1

14. A. R. Damasio, D~scnrt~s j Error. finotton, Rt!l/11111, rwd tlu Human Bmin, Nov;o Y111l· I'o! nam, 1994. 15. Ibid., p.xv. 16. Ibid., p.SI . 17. Ibid. , p.xxi. 18. Para uma discussao inst igame da esquizofrcnia em tcrmos das formas culturais de 'l'll'ilolt dade, ver L.A. Sass, Madness mzd Mockrnism: fnrnnity in thr Light of A1odtml Art, Liurntlllo ./lui Thought, Nova York, Basic Books, 1992. 19. R. Wilbur, New and Cofkcttd Pot!ms, Nova York, Harcourt Brace-Jovanovich, 111811, p.240.

Capitulo II. 0 mundo em p edrtfos: Cuftura e polftica no fim do seculo I. S. Huntingron , "The clash of civil izations", Foreigu A./foirs, verao de 1993, p.22-49: d \ Huntington, Thl' Clmh ofCioilizaJiom nnd the Remaking of World Order, Nova York, Simon •I lui Schuster, 1996. 2. C. Taylor, "Shared and divergent values", in C. Taylor, Reconciling the Solitudf!s: Eml)'l 1111 Cnnndinn Fedemlism nnd Nationalism, Montreal c Kingston, MeGill-Queen's University Prt•· 1993, p.l 55-86. 3. Tlu Compact Edilion ofthe Oxford English Dictionary, Oxford, Oxford University Pre\, 1971 [1928], 1, p.1 078. Para urn a d iscussao mais longa e pormenorizada da mudanc;a de vocabul.l rio no caso inglcs, ver p.1500-650; ver L. Greenfield, Nationalism. Fioe Roads to Motkmiry, Cam bridge, Mass., Harvard University Press, 1992, p.3 1-44. 4. The Compact Edition ofthe Oxford English Dictiona1y, 2, p.66 1-2. 5. Ibid., p.84 9-53. 6. Ibid., p.359-60. T odos os termos aqui examinados tern. e claro, significados ali ados que n.llt cstao diretamenrc cnvolvidos no campo semantico que estou descrevendo: " povo" denota seres hu manes em oposi-;:ao aos an ima is, ''country'' [pais, interior] denota "rural" ("the countryside" [o in tell or, a zona rural]), em oposi-;:ao a " urbana", "sociedade" denota "elegante", como em "alta sociedadc" etc.- o que precisaria ser levado em conta numa analise completa. 7. Ibid., p.30- 1. As defin i-;:oes fo rnecidas em Tb~ American Huitngf! Dicrionmy ofthe EngliJIJ Lnngung~. 3 1 ed., Boston, H oughton-Miffiin, 1992, p.1203, apresenram a co nso lid a~o moderna, cristalizada e total me nte multifacerada: "I. Grupe relativamente grande de pessoas organizadas soh urn governo unico, geralmcnre independente; pais. 2. 0 governo de urn Estado soberano. 3. Povo que rem costumes, origens, hist6ria e, frequenremenre, lfngua comuns; nacionalidade. 4. Federa~ao ou rribo ... 5. Territ6rio ocupado por essa federa~o ou tribe." 8. Ver, par exemplo, E. Gellner, Nntiom nnd Nationalism, Oxford, Oxford University Pres~. 1983; mas essa visao c muiw difundida. 9. B. Anderson, Imagined Communities. Reflections on the Origin nnd Spread of Nationalism, Londres, Verso, 1983, p. 123. 0 livre de Anderson ralvez seja a a lirma~o rna is vi go rosa da visao dofusion ista e hisr6rico-mundial "pela qual a na~o foi imaginada e, uma VC'L imaginada, moldada, adaptada c Lransformada" (p.l29); eo foi, poderiamos acresccntar, em sua visao purificada, nos movimentos de independencia das decadas d e 1950 e 1960. I 0. W. Zimmerman, "Origins of a catastrophe: memoirs of the last american ambassador to Yugoslavia", Foreign Ajfoirs, marso/abril de 1995. p.7. Quanta a oposi~ao emre "ernico" e "cfvico", ver M. lgnatief, Blood nnd Brlonging: }oumqs into thf! New Nationalism, Nova York, Farrar, Straus and G iroux, 1993; entre "o ficial " e "pop ular", B. An derson, Imagined Communitie;; e ntre "desmembrador" e " unilicador", "dos Habsburgo" e "liberal", e "oriental" e "ocidemal", E. Gellner, Nntiom nnd Nntionnli11n. (A ten tat iva de trac;ar a linha divis6 ria entre mau nacionalismo e born nacionalismo

qu• 0 "ao•Wo\mo" balclnoco d.1 "mat undadc" da ~uo~pa Ocidental, agora m~•i:o rcfor~:'~·~ pr( ,IILigc.ld oa iugosLwa c pclos fraC:tSSOS da U.nlaO. El.trOp~oa d~ante dcla, faz parte da VIS.IO das COisas l'•tH.otl.o no cxcepcionalismo europcu, que doscunre1 maos adoante.) .

"'I"''·'

11. C. Black, "Canada's continuing identity crisis", Foreign Ajfoirs, m:m;o/abnl de 199~, I 15. citac;ao na p .l 0 I . No trecho que se segue, SOLI especialment~ grato a ll~ ani go nao pub I~­ •"" (de 1995) de Russel Barsh, professor ad junto de Escudos dos Nanvos Amencanos da Umversadltll' de Lethbridge, em Alberta, intitulado "Re-imagi ni ng Canada: aboriginal.p.eoples an~ Quebec ntnpt•ting for legitimacy as emergent nations", e, inter alia, C. Taylor, Recon~r:mg tlu Soltht~e;; M. IKtJ.lt kf, Blood and &longing, p.l43-77; R. Handler, Nationalism nnd tb~ Polmcs ofCultu~·l! t~ Qu~­ lm, Madison, University of Wisconsin Press, 1988. Para uma rescnha dos esforc,:os consntuCio~aos d 1 ptir 0 Canada em ordem, ver J. Tully, Strangl! Multiplicity: Cowt~ltltionnlism in nn Agl! ofDro~~11/y, Cambridge, Cambridge University Press, 1995. Para uma tenranva de comprce~der ess~ ~molt!~ ,to, clnde em rermos de urn contraste entre "civiliza~ao" e "culrura", vcr D. Vern.ey, ~hru Crvtlrzatl1 1 11111, J'wo Culmm, Onl! Stare: Cnnndn! Political Trnditiom, Durham, Duke U noversoty Press, 1981. (Ju.tmo 3s visoes franco-ca nadenses, ver J. Letourneau, Ln Question idmtirairc au Cnnndn francopho-

r 1)1)

nr, Ouebec, Presses Universirai rcs Laval, I 997. ' 12. C. Black, "Canada's continuing identity crisis", p.ll 2-4; a cifra da migra-;:ao dos ::mgl6fonm para fora de Quebecveio de M. lgnatief, Blood and ~l!~nging, p.171. Quante ao q.ue~ec, a~s .rnd1m (Cree) e ao descnvolvimento dos recursos naturals, obod., p. l 63-7, e Barash, Re-unagonong l ~·ucl a". 13. Baseio-me aqui, principalmenre, em dois livros de S.J. Tambiah, Sri Lfll~k~, Etlm~c Fmtri1ult and the Dismamling ofDemocracy, C hicago, 1986, e Buddhism Betrayed? Rt!lrgron, Politr:s, ~nd Vwlmce in Sri Lanka, Ch icago, University of C hicago Press, 1992, bem como em ~.H. Wnggms, c'rylon: Dilemmas ofn Nl!w Nation, Princecon, Princeton U~iversiry ~ress, 1960. Foz un;:a res~nha l lll inta do que cram, na epoca, as fases iniciais do confliro etniCO do Cetlao em Geert'£, The ontell'·"'ve revolution, primordial sentiments and civil politics in the new stares", in C.. GeeiTL (or~.), ( )/tf Socil!tit!s and New Stares, Nova York. Free Press, 1963. p.l 05-57, esp. p.l2 1-3. Monha esratfsnca vrou dos rrabalhos cirados, do \Yiorld Devclopml!/11 Rl!port, 1992, The l nrernational Bank for Reconstruction and Development, Oxford, 1992, e de E.V. Daniel, Chnrrd Lulbtbit!s: Chapters man Awo-

c.

/JmJrmphy ofViolmu, Princeton, Princeton University Press, 1996. 14. World Developme/11 R~poz1, 1992, 1992. op. cit. , tabclas 1, 26 c 28. ~m rela~ao a alguns de trus vizinhos, 0 avan-;:o do Sri Lanka nos ultimos a nos foi urn pouco menos.lmpresso.on~nte, .como ll'\llltado, em parte, de seus problemas comunitarios, qu: levaram .a uma do:ispora sognofic~nva na huopa, no golfo Persico c nos Esrados Unidos, mas clc aonda conunua razoavelmcnte eficocnre.. 15. Houve tanras informac,:ocs na imprensa mundial nos ulrimos :mos. ale.m d~ numerosos hvro~. artigos e comendrios, para nao falar da cobenura d~ tdevisao, qL~e nao pr~c1so carar as f~ntcs d~ , ~ sao, de qualqucr modo, observac,:oes gerais e nao abahzadas. Paureo-me macoc,:amente no lovro ml-

1111

nucioso e perspicaz de Misha G lenny, T!Jf! Fall ofYugoslnvin: Tl~t: T~~rd Bnlknn ~nr, ~!!. cd., Nova Ynrk, Penguin, 1994, para manter a corre-;:ao factual e crono16goca. ~Immerman, O ngms of a cawtrophe", rambem foi utiI nesse aspecto. lgnatief, Blood nnd Belongmg, p.l 9-56, embora verse ape~ n.u sabre a Cro:\cia e a Servia, cvoca com grande vigor a devasrac,:ao, como faz, no toca~ne ~ 1\<)snia-HerLegovina, D. Rieff, Sbtugbterbouse: Bomin and the Fnilurf! oftbl' We~t, Nova York, Somon ~nd Schuster, 1995. que tam bern aborda as quesroes polfricas de urn ponro de v1sta fortementc lnlCI vrncion ista. 16. G lenny, Tbe Fall ofYugosbtvin, p.l6 1. 17. Ibid., p. 236. 18. Existe, e clara, uma hisr6ria do con figurativismo cullllral que e independcntc c .1not'oono ~ pr;\tica ernogr:ilica, desde Malinowski ou seja Ia quem for, muito especial mente a que sc log.\ .1 llr1


dcr, aos llumbo ldt eaos nc:o-kanwnos, h1sr6ua e~sa que, na verdadc, teve um 1mpacto mold.1do11 na amropologi.t, para uma boa rcscn ha rcccmc, vcr S. Flcischackcr, T/;~ /;rhirs o[Culmrt', !than, N\, Cornel l Universiry Press, 1994, esp. ca p. 5. 19. Para uma discussao da compos~e;aoc!tnica e rdigiosa da lndonc!sia, bern como da lllJIIt'll como cia vem send o abordada, ver mcu livro Afia tfu Faa: Two Coumrit'S, Four Dmult'l, 011t Amhropologist, Cambridge, Mass., H arvard Universiry Press, 1995, esp. caps. l -3. Nao rentcl mduu aqui os acomeci mcmos, a maioria dos qua.is refor~ minha argumema'?o, que se seguiram ao tnl1o11 so da rupia, arenuncia de Suharro, a Separa~ao do Timor Leste e ao movimento hesirante e conlu ,, de recorno ao govcrno popular. V er cambem mcu ani go'" Ethnic conOict': three alternative ti.'IIIIO" 1 Common Knowkdgt', 2, 3, 1992, p.55-65.

fndice 'remissivo

a'lo: coletiva, 205, 225; e rearm cultural da emo'?o, 185 aldeia global, 216, 2 19 Allpon, Gordon, 20 aheridade, os antrop61ogos e a, 64-7, 79-83., 92-3 American Cou ncil of Learned Societies, 19 American Psychological Association, 166 Anderson, B., 238n.9 Ano lnternacio nal de Comb:u e ao Rac1smo e a Discriminas:ao Racial (1971 ), 69-70 An tioch College, 16-9 anti-reducionismo. 174 and -relativismo. 47-5 1; abordagem n:uuralista, 54-6 1; aprcsenta'?o cxagcradamcnte acalorada do, 50-5; abordagem racionalista, 61-5 anuopologia cogniriva, 126-7 anrropologia cultural, 87. 89-9 1; movimcnto centdfugo da, 88, 11 3; problema d o dcsaparecimento do objeto da, 88-9; no mundo dcsmontado, 217-9; divisaes da, 93-4; hs:ocs aprend1das pclo autor, 25-6; pcrda do isolamemo da pesquisa na, 88-90; mc10dolog1a da, 89-90, 104; questoes morais da, 9 1-4; prob lcm:irica da, 23-6; c relativismo, 49-50; papcl do trabalho de campo na, II 0-1 1; como f!sica social, 91-2, 133; •·cr tnmbt'm traba lho de campo antropolog1a ffsica. 87, 93-4 antropologia in rcrpretativa, 27 antropologia psicol6gica, 176 antropologia simb6lica, 27 241

antropologia social ••cr antropologia cultural antropologia: comparac;ao na, 220; e psico logia cultural, 170-1, 174-8; ideologta dos "Quatro Ca m pos", 87; "do ponto de vista do nativo", 75-7; e hist6ria, 111-6, 11 8-20, 123-4; c qucstao da cultura c da mente, 179-80, 182-6; " unidade perdida" da, 28; crise permanente de identi dade da, 86-8; instrumentos da, 23-5; unidade e divcrsidadc na, 93-4; ''cr 111111 be111 cien cias sociais antrop6logo e informanu:, relas:ao humana entre, 40-3 antrop6logo: e a alteridade, 64-7; visao dos info rmantes, 37-43; como tomador de notas, 11 8-9; vcr 111mbthn trabalho de campo; construc;ao simb6lica do Esta do; nomcs cspccificos Apter, Da\'ld , 21 argumento moral: e diminuis:3o da d1vcrsid.t · de cultural, 76-80 Arnold, Matthew, 204 arqueologia, 87-8. 93-4 ass1mctria moral: diversidade cuhural, 77-80; do trabalho de campo, 37-43 Associa'?o Non e-americana de Ps1colug•a, 'J J\.o;tington, Janet, 186 auscncia de paradigmas, ameafi:t da, 90 2 Auster, Paul, 102


f''t''" lu.r.tnlllr" mumpoloxut 17 11, r. B.1con . h ancts, 189 Bagch ot , Walter, 119 Bali, trabalho de campu do aUIOr rm, 20- 1, 27 Barzun, J:~cqu es, 3 1 Becken , Samuel , 29 Bellow, Saul, 17 1 Bened icr, Ruth, 23.49-50 Berlin , Isaiah, 225 biologtsm o, 174 Bi rman ia, trabalho de campo de Spi ro na, 58-9 Black, Conrad , 208, 2 10 Boas, Franz, 23. 49 Booth , W ayne, 48 Bour<heu, Pierre, 90 Braude!, Fernand, 11 3 Brenner, Suzanne, 160-5 Briggs, Jean , 183 Bruner, Jerome, 20, 168, 173. 186; e a Revoluc;ao Cogni1 iva, I 66-9; c a pstcologta cultural, 168-75 Bu rckhardt , Jakob, 11 9 Calio n, Michel , 234 n.22 Canad:i como " pafs" e " nat;ao", 208- 11 , 2 14 Ca nnadme, Da\td , 122 capitalism o scm rronretras. 2 16, 2 19 caso do Ind io bcbedo e da maquma de hcmodi:ihse, 78-80 causa f.wo n ta e rdigi:to, an :i li ~e da, I 54 Cavell, ~ ta nl cy, 159 Centro de Estudos A'•ant;ados das C icncias Compo n :uncnrais, 21 cerebro: incorporado, 187 -8; estudo do, 18 1-2; t•er tm11bem neu rologia Chodorow, Nancy, 185-6 Chomskr. Noam, 167, 182 Churchland, Patricia. 182 cii:nCia cognit iva, 63, 88, 138, 174 , 179 cicncias hum anas 11er ciencias soc iais cii:nctas naturais e cii:ncias sociats: fo rmulat;ao do "grande div isor", 136-9; e a Estruturn, d e Kuhn, 143-8 cicncias naturais: desenvolvimcnto contfnuo das, 134-5, 142; desvmculat;:io cultu ral das. 135-7; hist6 na d as, 133-4; como "outro" 132-4; c socio logta do conheciment o: 144-5, 146-7: vtsiio de Taylor sobre .1s, 13 1-4, 14 1-2

grm •cmioil i~.r d .t, I HJ··i; vm.rhul.i1111 tla,

111r 11 11',

I H~ l l· mp,on . W illiam, S ~· 4 c,p.tnh6is c soctcd.tde dos m.u.l\: c:~nttln lie Clcntllllncn 'obrc o~. 11 6-7 bt:~do. 2M: papel das form:ls stmb6lic;rs no,

120 3 c:Hudos dacicnci:r, 139-4 1, 146-7 esrudos do sistema vocabul:rr, 183-4

')

cic nti lici~rno,

10 2, 17£•

1

ralism n cmgalews, 2 1 1· .! ci t as-~o. m n <1.1, I U) civtlilat;:io, J<).j, I 'Jh Clark, Andy. I '(,, IHn C last res, Picn l', IU 1 1:1, 111'1 I I Clcndinncn, lng.t, I I ~ 1 C lifford , J.lmn, Ill.' I, I 0 II Coase, Ron;lld, 'J. I Cobb, Richard I IJ cognitivismo, I '·I Cohn , Bernard, Ul Cole, Michael, IHO, 1. colonialismo, 9 1· 2; , .., lrHir

'''I nh,r to", pruhlrnu d n, 88 hmn•u•l p111 nitivu, 169-72,

1'18, ''· ,J,r~·rc:m;\1 d.•. 175. 11111'111" rl.r , I ') R; C SllllllaridallmJ>Il t'll!·'" ol.t, 97 - I 0 I 11\2 \

anu colonraiJ, t.t

(no

contraculrura, Anuudt Cull Cook, capuao Jam..-s do·I•HII' do, 94- 102

, uhur,tlm.t til, 183-6; sentimennr urologi.l e, 187-9: aborda-

t•(, /,

etnia, 197 ctnocentrismo: visoes do au tor sobre o, 73-·4, ruturo do, 68-9, 7 1, 83-5; Uvt-Smm~ sobrc o, 69-72: O b eyesekere e, I 00 I ; ressurgrmento do, 7 1-3; Sahltns c, 96, I 00- 1; problema do, 73-6 cm ografi a, 8 1-3 cm 6graro. 80-3 Evans- Prirchard , Edward, 63, 120 exccpcio naltsmo europcu, 2 19-20, 224, 239 n. IO expericncia c rcligi:io. I 5 1-3. I 58-9, 163-4 experimcntos de perccpo;ao da " Nova Visao" (de Bruner), !68 re, problema tocante da, 38-40 Feldman, Carol. 186 Fcyerabend , Pa ul , 145 Fcynm.tn , Richard , 139 filosofia, 7- 11 ; das "rorm:rs de vida", 74-6 Fish, Stanlcr. 48 Fodor, Jerry, 64 Fogel, Robert , 29 r6 rmula do Estado-nac;:io, 206-7 Forster, E.M., 228 Fon es, Mc)•er, 2 1 Foucault, Michel , 26, 11 3. 14 5 Frawley. W illiam, 176. 186 Fr:~zc r, Sir Ja mes, 53 Freud, Sigmu nd , 53. 182 rronreiras soci:ris/cultu rais. 77 Frosr. Roberr. 29 G:rdjah Mada (I ndonesia), 20 Gass. William, 5 I Gcem. Hildred , 18 Gctgcr, George, 18-9 Gel lner, Ernest, 63, 90 gcner:rltz.1<;oes, 124-7 Genovese, l:ugcne, 12 1


/n,/11 r trmiwr•,

211·1

Geu y, J. Paul, 210 Gilbert, Felix, 121 Ginsburg, Carlo, 121-2 Glenny, Misha, 214 glob ali za~o economica, 157-8 Godel, Kurt, 148 GoiTman, Erving, 156 Goodman , Nelson, 186 Goody, Jack, 90 Gorer, GeoiTrey, 23 Grebo, Zdravko, 214 Greenberg, Joseph, 2 1 Grupo de Melbourne, 11 5-20 grupo Past and Prcsen t, I 21-3 Guaiaqui, I 02, I 05-7 "habito do trabalho de campo", visao de Clifford sobre o, I 07-9 Hacking, !an , 145 Handy, E.S.C., 11 8 Hanson, Norwood Russell, 145 Harris, Marvin , 90 Hanley, L. P., 11 3 Harvard: Cemro de Estudos Cognirivos, 167; Depan amenro de Rclao;:oes Sociais, 18-20 havaianos, e mone de Cook, 94- 10 I I lend Start, programa, 169-70 Her6doto, 49 Herskovirs, Melville, 49 Hesse, Mary, 145 heterogcncidadc cuhural: e revolu¢io anticolonialista, 220-5 hist6ria e anrropologia, II 1-6, 118-20, 123-4 historiador, 80, 81-2; ver tn111bem Grupo de Melbourne; constru<;ao simb6lica do Estado Hollis, Marrin, 63-5 Homans, George, 20 Hon on, Robin, 63 Huntington, Samuel , 194 idcnridade colctiva, 197-200; rcligiosa, 156-9 Ifaluk, trabalho de campo de Spiro em, 58-9 i magcns de pan es do corpo (para rcpresenrar a cmor;ao), 187 individualidade e teo ria cultural da emoo;:ao, I 85 individualismo radical: de james, 150-1, 164-5

lllulhc r c:~ pvancs.l\, Murray, llenry, 20

lndnnc~ a.t rcl urnt .••g r ~ lltlttt

ht:tl·rugcnd d.ulr! •lllt llltu

Surn.ll r.1 indOnCSI.IIll\1,1, .1111111 Cu l(llt industn.tlru~.tn ""' 1111\o i I informamcs c rc l.u '""'''" 111 37-43 lnkeles, Alex, 20 lnstituto de Tt'l iiUl nl~"' 1•crM1T ins rrum cnralr ~ nw ,

concil iar;ao cullllral,

I ·I

integridadc cuhur .el ' ''"""Ill 73 intclcctualismo, nnvu, ·, I 'i inrerpretao;:ao na~ 1 ioth t;ll 139-41 inrersubjetividadc, I ·I inruicionismo da Nuv.e lu f l ~l II ironia antropo16gec.t 37-43 Isaac, Rhys, I 15-6 islarnismo, 155-6; em I·•VO• isolamento da pesquh.l, )" lllo I Israel, trabalho de CJili JI" .J 1II lugosl:ivia, antiga, 155, 1 1 ' "nao;:ao", 207-8, 21:Z·'i Jakobson, Roman, 21 James, William, l49 52, l 'i'l, 1M Jarell , Randall , 92-3 Jarvie, l.C., 52 Java, Habalho de ca mpo .J., Ill 24-6, 4 I -4. 235 n. l 0, II el111l1 deBrenncrem, l60 I jilbnb, mulheres 235n.IO johnson, Paul, 52 Joyce, James, 53 Kanrorowic-L, Ernst, I 19 Kluckhohn, Clyde, 18 9. 11 2 , 0 Krocbcr, Alfred, 22, 2.3, 11) II Kuhn, Thomas, 21, 26, 41!, I de, 143-8 Ladcl, John , 48 Lakaros, lmre, 14 5

n1 ~ 111

mm os cspanh6is (estudo de "'hrc os), 11 6-7

t~ao;:ao", tese dos, 158-9 1\rumslaw, 23, 74, 180 An"rt', 106 K.arl , 144

IM; rcforma agraria no, 35-6; Habaumpo do autor no, 21 , 27 'i .~

conceito

an-

ru de Esrudos lnrernacionais do, 20 •ocial, 157-8 Michel de, 49-50 8~rrington , 20 , h ederick, 20 <ientlfica, 143-8; hisr6rica mundial, rdigiosa, dimensao comunal da, 159

J(jQ. 4

nao;:ao, 204 5; e pals, 202- 15 nacronalrsmo, 196-9. 206-7, 2 13, 220 -i, 239n.IO "nada mais fun cionou", rese de que, 158 Naipaul, V.S., 73 Namier, Lewis, 27 narrariva: e desenvolvimento pnmi!IVO, 17 1-2; inrerpretativisra (nos esrudos sobre a ciencia), 140- 1 naturalismo: reducionista, 137; Taylor e o, 13 1-4, 141 -2 natureza c culrura, 2 17 "natureza humaoa" (como conccito anti-relativista), 54-61 Needham, Rodney, 63 neo-impcrialismo, Sahlios e, 96 neonaruralismo, 54-6 1 neo-racionalismo, 6 1-5 neurologia c a qucstao da cultura e da mente, 186-9 Nierzsche, Friedrich, 53 niilismo, rclarivismo e, 48-9 novos parses, id entifi ca~ao de problemas nos, 33-7; ••er tambem 11omes de pnfses especificos Nozick, Robert, 224, 225 Obeycsekcre, Gananath, 94- 10 I ; como "nativo", 100 Obeyesckere-Sahlins, debate, 94- 10 I ; opiniocs do autor sabre o, 101 ; questao fundamental do, 10 1-2 objctivismo, 138-4 I "Ourro", rcpresenra~o do, 92-3, 11 3-4 pals, 203-4; e culrura, 200-3; e n a~o. 202- 15 paradigmas cienrlficos, 144-7, 166-7 Paraguai: trabalho de campo de Clames no, I02-3, I 04-8 Parsons, T alcott, 20 passado, como ourro pals, 113-4 pauiotismo, 206-7 pensamento: "primitivo" e anti-relativismo, 62; como ato social, 30-1; ''er tnmbc111 em o~ao; sentido; psicologia cultural perspecrivismo, 174


lmfrrf' ''"'

:l.'IO

pnqui ~: t Clentlf'ic.t \OCI~J 43~1

plu r .tl"mo cmcrgc:ntc:, I ?2-3 Jlnt.:utk, John , 19 1 Jlolanyr, Michael, 145 politic.'\ c.laconcilia~orulrural,214-5, 225; hb~­ r;~hsmo e, 225-8 poll [lea do poder, nova concep~o relrgiosa da, 157-9 pormc:norizas:3o e saber local, 127-9 positivismo, 133 p6s-modernismo e reona polftrca, 194 "povo", uso do rermo, 204 "povos c culrurns", discurso dos, 222-3 Prarr, Mary Louise, I 09 Prcmack, David, 186 "primitivos", 88-9, 179-80 Princeton: Cenrro Davis de Estudos llist6ricos, 121-3; Insrituto de Esrudos Avans;ados, 21 privas;ao culrural, hip6tc~ da, 160-70 Projeto de Modjokuto, 24-6 provincialismo, 50 psican~lise e teoria culwral da emos;ao, 185-6 psicologia cultural, 172-6, 182; e amropologia, 174-8; Bruner e a, 168-75; c qucstao da culrura e da menre, 179-8 1 psicologia do desenvolvimenro/comparada, 186-7 psicologia evolutiva, 54-5 psicologra, 166-7; futuro da, 172-5 Putnam, l!illary, 193 Quebec e Canad:i, 209-1 0 Quine, W.V.O., 21 racionahdade pr:itica: Obcyesekere e a, 98-9 Rawls, John, 191, 224 rebcldra (como vinude exagerad:unente louvada), 28-9 Redfield, Robcn, 23, 49 reducionismo, 174 reforma agraria nos novos Estados, 33-6 reforma cducacional, 170-2 rcl:uivismo dos valorcs com o expressao de fc, 46 relativismo, 146-7, 227; l'rr tambcm anti-rclativismo rcligiao: rcssurgimenro contemporaneo da, 153-9; e experiencia, I 5 1-3. 159-60, I 62-4; e an:llrsc da causa f.wori ra, 154; James c a, 149-53, I 64-5; javanesa, 25; subjetivismo da, 151-3

RctraJil lcnru Nonc-amc:ncJnu, I 'J}. rcvolulj~O anucoloniahsra. lO I '1. :ZO' 111 I hctcrogeneidade cultural , 220·5 Revohu;:io Cogn iuva, 167-8 rcvo lulj~O das cxpectarivas cresccnte\, \'l rcvolus;~o irantana, 154 romancma, 80, 81-2 Rorry, Richard, 6 1, 72, 75, 133. 137 Rosaldo, Michelle, 183, 185 Rosa! do, Rena to, I 27 Ruelle, David, 159 Sacks, Oliver, 187 Sahlins, Marshall, 90, 94- I 0 I , 182; 1'1.'1 """ bcm Obeycsekere-Sahlins, debate Salkcver, Stephen, 57 Sandel, Michael, 192 Sapir, Edwud, 23 Schefficr, Israel, 48 Schneider, David, 20 Schorskc, Carl, 113 scnrido: construs;ao do, 75-7; entrada no, 168-72; e rclrgiao, 152-4; produs;aosonal do, 75·7, 170-2 sentimento, James eo, 149-50, 146-7 sentimcntos ver emo~ao Sh ils, Edward, 21 Shore, 13 .• 236n.l4 Shwcder, Richard, 183, 187 Skinner, B.F., 31 Skin ner, Q uest in, 19 I sociedade, 204; como colagem, 83-5 sociobiologia, 54-5 sociologia da cicncia, 140 sociologia do conhecimento, 140, 144-5, 146-7 Sorokin, Pirrim, 20 Sperber, Dan, 64 Spiro, t-. lclford, 2 1. 58-9, 90 Sri Lanka, como "pafs" e como "nas;iio", 208, 2 10-2,2 14-5 Stocking, George, 53 Srone, J.~wrence, 11 3 SroufTcr, Samuel, 20 subemprcgo dos camponescs nos novos Esrados, 33-4 subjcti vidadc e teo ria cultural da cmoo;ao, 185 subjerivismo da rcligiao, 151-2

'• nu Sn l ~mka, 211-2 1, Charles, 131 3, 141 -2, 182, 192. 196 IICitl~ .umopol6gica: c rdeia de rd.uivrsmo, 411 )I '""'~ pulhica, 191 -2; no mundo dcsmonrado, I'H 6, 219, 224-5; c qucstao das rdcnudadr ~ wlcrivas, 197-9 11rnr11.1~, llugh, 52 Thum.as, Keith, I 13 11uunp~on, E.P., 121 1tgcr, lronel, 53 ''"'"'S• tmportancia do (na carreira acadcmi la), 15-22

Tuulrmn, Stephen, 129 trah.rlho de campo do au tor: dimcnsocs eticas do, 32-43; abandono do, 28-9; inicio do, 20; hist6ria da m.iquina de datilografar, 41 3; ver tnmbem 11omes tie lugnrcs u~halho de campo: e conccito de culrura , 24-6; cumo merodolog•a disrintiva, 89-90, I 04-5; wmo fusao das csfcras pcssoal e prolissmnal, ·15-6; futuro do, I 04, II 0-11; c perda do 1so!Jmenro da pcsquisa, 89-90; assrmctna mora] do, 37-43; papcl do dcsprcndimcnto no, 44-6 l'upi -guarani, I 05-6 hrrncr, Vicror, 90 l'ylur, Sir Edward, 179 Unesco, 69, 76 lJm;~o Sovietica, desmcmbrarncmo da, 20 I

JJ/1'/I

unJvc:rs.m, 124 6 umvcrsahsmo, lrbcralismo e, 225· 6 Universidadc da Calif6rnia, Berkeley, 2 1 Univcrsidadc de Chicago, 2 1, 27; Comissao de Esrudos Compar:uivos de Novas Nao;aes, 21 vestido feminino, 160-4, 235n.l 0 Veyne, Paul, 11 2 violcncia: na Indonesia, 223; religiosa, 155-9 Virgfnia coloma!: eswdo de Isaac sobre a, 115-6 "visocs que parrcm de Iugar ncnhum", 127 vocabul~no para d1scussao dos "palscs", 203-5 Vogr, Eron, 20 Von Hayek, Friedrich, 225 Von Steinem, Karl, 11 8 Vygotsky. Leo, 186 WalLer, Michael, 225 Weber, Max, 144, 153 Welch , James, 79 Wcsrcrmarck, Edward, 48-9 Whitehead, Alfred North, 177 Wicnb1cka, Anna. 183-4 Wilbur, Richard, 189 Wilent7., Scan, 121 Williams, Bernard, 73-4 Wilson, E.O., 182 Wingensrein, Ludwig, 9-10 Wolf, Eric, 90, 113 zonas de contato, conceito de Pratt sobre as, 102-3, 109


Geertz, C - Nova luz sobre a Antropologia