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A SAGA DO CASAL VENCEDOR EDSON FRANÇA


A SAGA DO CASAL VENCEDOR! Copyright © 2014 by Edson França O conteúdo desta obra é de responsabilidade do autor, proprietária do Direito Autoral. Proibida a venda e reprodução parcial ou total sem autorização. A violação dos direitos de autor (Lei nº. 9610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. Depósito Legal na Biblioteca Nacional conforme decreto nº. 1825, de 20 de dezembro de 1907.

Editora Júlia Larissa LTDA www.julialarissa.com.br Revisão – Parceiros do livro Projeto gráfico – Vital Publicidade Editoração – Vital Publicidade Capa – Emprimeiro Impressão – Artgraf

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

França, Edson A Saga do Casal Vencedor = Edson França = São Paulo: ===============2008 Depósito Legal na Biblioteca Nacional conforme decreto n°. 1825, de 20 de dezembro de 1907. Registro n°. 432.002 livro 809 folha 162 Autobiografia


Agradeço a Deus pela força que nos deste para passarmos com sabedoria as lutas registradas neste livro. Sem esta força, por certo, teríamos sucumbido durante a peleja.


SUMÁRIO INSTITUTO MONITOR, obrigado por você existir......................... 08 Prefácio | DEIXEM O VELHO FRANÇA FALAR!............................ 09 Apresentação..................................................................................... 11 I Capítulo | O dia em que o sol escureceu e o mar secou................. 17 II Capítulo | Buscando nova vida, debaixo do mesmo Sol.............. 36 III Capítulo | Sempre haverá no horizonte um ponto indefinido aguçando nossa curiosidade................................................................ 60 IV Capítulo | A nudez da menina dos olhos..................................... 70 V Capítulo | Mãe, advogada eterna................................................. 100 VI Capítulo | De braço dado com a pressão.................................... 113 VII Capitulo | Vida de escritor........................................................ 126 VIII Capítulo | Um anjo chamado Elaine....................................... 136 IX Capítulo | A esperança é renovada............................................. 148 X Capitulo | A riqueza que não necessita de cofre para protegê-la... 173 XI Capítulo | Palestrante ou Pastelantre........................................ 189 XII Capítulo | Tentando tirar leite de pedra.................................. 209 XIII Capítulo | Entre o sonho e a realidade existem “os porquês”... 239 XIV Capítulo | Rumo à vitória almejada........................................ 250 XV Capítulo | Transformando sonhos em realidade..................... 267 Conclusão.......................................................................................... 293


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Sempre achei que dedicatória devesse se resumir em breves nomes para não cansar o leitor. Todavia, não poderia excluir esta parte, pois os familiares, irmãos e amigos são, na verdade, parceiros nas minhas muitas vitórias. Com amor, a Maria Teixeira de Melo França - esposa e companheira amada que, ao longo desses trinta e sete anos tem suportado minhas imperfeições, sendo uma alavanca em minhas vitórias. Com carinho, a Maria José França, a mãe querida. Alguém muito especial: Tiago França, meu pai, um grande homem. Partiu desta Terra com apenas quarenta e sete anos, deixando-me um bem valioso de herança: seu caráter e sua honestidade. Uma saudade: Antonio Carlos França, meu irmão, arrancado covardemente do mundo dos viventes. Uma dedicatória especial aos caros irmãos da Vila Maringá, da cidade de Jundiaí, do Parque Internacional e Botujuru, de Campo Limpo Paulista e da cidade de Catanduva, os quais deixavam suas casas em finais de semana para, com amor, trabalhar na reforma da minha. Aos meus irmãos Miguel Ferreira, Gilberto Ricco, Paulo Schimidt, que foram muito importantes na solidificação de minha fé em Deus. Meu carinho respeitoso. A todos os meus irmãos que professam a mesma fé. Creiam, as vossas orações contribuíram em muito nessa vitória. Perdoem-me não citá-los nominalmente; são tantos os nomes que correria o risco de me esquecer de algum. Aos amigos que ao longo dos anos foram se multiplicando, tirando qualquer possibilidade de mencioná-los. O livro não comportaria tantos nomes. Sei que vocês sabem que também são importantes pra mim. Aos familiares, irmãos e amigos. Deus abençoe a todos por fazerem parte em minha vida. 6


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Meu primeiro e maior obrigado vai para os leitores, mais do que pessoas dispersas, os leitores de minhas escritas formam um time poderoso. Aliás, responsáveis por mais esse trabalho! Obrigado por me darem a oportunidade de mostrar a forma que o curso da vida de uma pessoa pode ser mudado mediante o poder da fé. Que você não tenha esse livro como um manual, mas que possa tirar proveito da lição que a vida me preparou. Não há aqui pretensão de ensinar, pois não vejo em mim capacidade nenhuma para tal missão. A finalidade é mostrar que: Não importam as guerras em nosso entorno, importa a paz que há em nosso coração para enfrentá-las. Não importa a fúria do ofensor, importa é a forma como devolvemos a ofensa. Não importam as lágrimas nos olhos, mas sim o sorriso nos lábios. Não importa a dor que aflige o peito, importa o cântico que a boca entoa.

Pedir perdão quando ofendemos alguém é um dever. Pedir perdão quando somos ofendidos é um ato de amor.

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INSTITUTO MONITOR, obrigado por você existir. Meus agradecimentos aos amigos: Roberto Palhares, presidente da Escola Instituto Monitor. Elaine Guarisi, vice - presidente da Escola Instituto Monitor. Aos funcionários do Instituto Monitor, que muito contribuíram na edição de meu primeiro livro: FILHO DEIXA EU TE AJUDAR. Abrindo na minha vida largos caminhos, impulsionando a carreira de um escritor desconhecido. Crendo em quem muito crê. Por fim, um agradecimento especial ao caro professor Benedito Milioni que, gentilmente, se prontificou a prefaciar este livro, A saga do casal vencedor, honrando-me com esta gentileza. A estes amigos, só me resta dizer que o amor que vocês plantaram está dando frutos de louvor a Deus. Que Deus retribua em muitas bênçãos na vida de cada um de vocês!

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Prefácio Deixem o velho França falar!

Tivesse eu competência para escrever este livro, é o título que a ele daria: DEIXEM O VELHO FRANÇA FALAR! Contudo, coube-me a honra do convite para prefaciá-lo, o que me fez sentir parte mesmo que insignificante do que ele propõe! E sou grato a Deus por isso e ao Edson França porque ambos decidiram que eu deveria aprender muito com que esta leitura. E, como um saboroso fruto, colhido no pomar cuidado por anjos luminescentes, ao provar o primeiro bocado, não resisti e prossegui até o fim: parte da manhã e grande parte da tarde de um mesmo dia de pura iluminação! Deixem o velho França falar! E, enquanto ele fala, não raras as vezes trazendo de volta as dores decorrentes de tudo por que passou nós, leitores, vamos aprendendo a calar nossas queixas e a olhar de forma diferente as nossas próprias dores. Aprendemos com esse espírito lutador, impregnado de fé em Deus e regido por sua exemplar capacidade de seguir adiante na luta por sua recuperação, atravessando tantas vicissitudes. Aprendemos ou nos lembramos, dá no mesmo, que a justiça divina nos dá as provas na medida exata das nossas capacidades em enfrentá-las e sempre nos robustece e tonifica para vencer cada prova. Deixem o velho França falar! Calados, temos que ouvi-lo com os olhos fechados e o coração aberto, para que nada afete a absorção de lições de muita luta e digna capacidade de jamais culpar a ninguém e alocar essa energia, a de procurar em terceiros as razões das cortantes dores, nos atos de reconstrução dos próprios alicerces, pedra por pedra, juntando cada grão de areia e cimento a todas as gotas d’água, ainda que algumas 9


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delas venham de dentro, pelo canto dos olhos. Nessa dimensão, cada página nos surpreende com a serena opção em sempre procurar alternativas para os problemas que se sucedem, a par do feroz julgamento e repulsa que pessoas carentes de iluminação insistem em despejar sobre Edson Carlos França, que lutava por manter-se em pé, produtivo, honrando seus compromissos, porque um homem íntegro, mesmo que fortes tivessem sido as dores e imensas as cargas suportadas. Deixem o velho França falar, assim como tem dito para Maria Teixeira de Melo França o quanto a ama nesses 37 anos juntos. Ele caindo e levantando; ela ao lado sempre, altiva, absoluta, mulher que faz a mãe Natureza sorrir com sua obra perfeita: uma Mulher porque, lembremos, a Natureza é uma mulher e, entre elas, as mulheres, há uma conspiração focada em dar sentido à Vida e compensar a fraqueza de todos os homens! Deixem o Velho França falar porque, falando, esse homem mais e mais nos aproxima de Deus, para ouvi-Lo dizer o mesmo que foi dito no ouvido do lúcido escritor desse livro: “Vá em frente, porque sempre estarei contigo!” É um livro para ter, para reler periodicamente, para presentear, para compartilhar, enfim para semear em todas as almas e nelas frutificar a união perfeita da Fé, da Esperança e do Trabalho! Honrado, emocionado, agradeço ao Velho França e me calo...para ouvi-lo! Prof. Benedito Milioni Sociólogo, Consultor, Escritor, Palestrante, sempre prostrado e reverente diante de Deus.

Não importa o quanto você já lutou, tente outra vez, o vencedor jamais desiste!

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Apresentação O que você lerá é a história real a qual fui obrigado a viver, após assistir à bancarrota de Solemar Agência de Viagem e Operadora de Turismo LTDA, uma empresa de minha propriedade. Por tratar-se de um fato verídico, usarei de transparência ao escrever e, ao narrar, mostrarei a fé que professamos. A mesma fé que, em outras palavras, um dia o pai da psicologia americana “William James – 1842-1910” - reconheceu a existência. Já dizia ele: “A maior descoberta do século XIX não era no reino da ciência física”. A maior descoberta, afirmou William: “Era a força do subconsciente sustentado pela fé”. Dizia ainda William James: “Em cada ser humano existe um reservatório ilimitado de força, capaz de superar qualquer problema do mundo”. Você poderá comprovar, através da leitura deste livro, quão verdadeiro é o depoimento do psicólogo americano, embora não tenha trazido nada de novo pra mim. O que alguns americanos só vieram a descobrir através de William James, 19 séculos depois da passagem de Cristo pela Terra, recebi de Deus através do dom de crer em Sua Palavra e em mim há esta certeza: “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem”. Heb. Cap.11 vs. 1º. “Faço um aparte nesta minha apresentação, para trazer ao conhecimento do leitor que este livro não tem cunho evangélico. Portanto, deixo de mencionar o nome da igreja da qual somos membros, visto que o céu não se conquista através de publicidade e muito menos com dinheiro”. É comum, quando algum mal nos acomete, buscarmos socorro

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com analista ou outra fonte de ajuda menos digna. Eu não tive tempo para depressão, sabia de antemão que dias de lutas se aproximavam, uma nova realidade se avizinhava, prometendo momentos difíceis em minha vida. Pra mim não havia alternativa a não ser a de lutar, lutar e lutar... Com a fé em Deus, fui à luta. Claro que há muitos livros de autoajuda para servir de consolo ou mesmo de válvula de escape para algumas pessoas. Nesses livros, há vários caminhos para se encontrar a felicidade: pregam que somos do tamanho de nossos sonhos, credenciam sábios curandeiros peruanos a darem respostas para nossa dor, oferecem-nos a chave para abrir os cárceres das nossas emoções e tantos outros “segredos” apoiados em ciências espiritualistas, misturando conceitos filosóficos, pensamentos positivos e poder da mente. Tudo em nome de uma prosperidade material, tais como: saúde, dinheiro, felicidade. Vão mais longe ao afirmar que homens do passado, iguais a Da Vinci, Einstein, Thomas Edison, entre outros, tinham a capacidade de conquistar, através do poder da mente, coisas impossíveis aos mortais comuns. É verdade, a história registra feitos memoráveis que esses grandes homens fizeram; porém, por maior que tenham sido os poderes dessas pessoas, não foram capazes de conservar o tesouro mais valioso que todo o ser vivente almeja: a própria vida. Não quero desmerecer os autores desses livros que encantam o leitor e fazem escola. Contudo, peço compreensão ao caro leitor pela minha ignorância nos comentários que farei a seguir. Penso que o homem não tem - e nunca teve - poder de decidir o seu futuro. Nós, homens racionalmente ignorantes, somos dotados de inteligência superior a outros animais inteligentemente irracionais. Tanto é que temos a Terra sob nosso domínio, sendo assim,

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podemos planejar nosso futuro, acreditar nestes planos, lutar em prol dessas realizações, tudo dentro de uma normalidade racional. Entretanto, não há no homem capacidade de saber se realmente os planos traçados serão concretizados, se os seus desejos serão realizados, se a sua enfermidade será curada. Mesmo por que nem toda enfermidade é para morte nem toda saúde significa abundância de vida. Caso você tenha outra opinião, merece o meu respeito. Todavia, desejo sua compreensão antes que emita seu parecer ou dispare sua artilharia. Sugiro que pare por alguns segundos essa leitura, programe algo para realizar, vamos supor daqui a 24 horas. Independente de seu grau de instrução, seu poder sócio econômico, a fé que professa. Se nesse instante você está lendo este livro dentro de um avião, do metrô, quem sabe no trem de subúrbio ou mesmo deitado em sua cama, não importa o local que esteja. Caso já tenha planejado o que fará daqui a 24 horas, responda pra você mesmo: Conseguirá realizar o seu intento? Não quero com esta explanação criar sentimentos de medo. Mas mostrar, de forma clara, a incapacidade do homem em realizar seus projetos futuros, apoiado apenas em sua sabedoria e poder sócioeconômico. Porém, em nossa vida, nossos planos esbarram em limites e reversões, ou “Reversos de turbinas de Airbus”. Reportemos para o dia 17 de julho de 2007, cidade de Porto Alegre, aeroporto Salgado Filho, no momento em que os passageiros faziam o check-in, para muitos dos que ali estavam era pura rotina. Quantos planos, sonhos e desejos na mente daquelas pessoas! As razões para estarem naquela viagem eram diversas; entretanto, eles não sabiam que, ao embarcar naquele avião, estavam atendendo ao

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convite para outra viagem. Convite feito ao homem espiritual, ocultado do homem material, independente de idade, raça, religião, profissão, se estava preparado ou despreparado para vida além-túmulo. Para alguns, como a família Cunha, da cidade de Natal, unida até a morte; para outros, iguais a Jamile e Levi, esposa e filho do amazonense Ildercler, a morte os separaria. Enfim, eles não tinham como declinar àquele convite, a não ser o time do Grêmio de Porto Alegre, que não havia sido convidado especificamente para aquela viagem. Todos os planos, desejos e sonhos, diferentes ou iguais aos de Diogo Casagrande, que entre outros, era ser piloto de avião, foram consumidos pelo fogo, horas depois no trágico acidente do voo JJ3054, com a aeronave da TAM! Deixo ao leitor, o critério de escolha. O que levou o avião chocar-se contra o prédio da própria companhia! Coincidência? Ou determinação de Deus? Para assim, completar o número dos escolhidos para àquela viagem, deixando marcas que o tempo jamais apagará! E para os homens uma difícil missão; encontrar respostas para tantos mistérios! Pare alguns segundos essa leitura e reflita: Conseguirá mudar o que está traçado para você passar nesta Terra? Não sei qual foi a sua resposta, eu particularmente não tive, e não tenho este poder. Um acidente gerou consequências graves em minha vida e, por aproximadamente dezessete anos, fui obrigado a abraçar o que não desejei, e deixar de abraçar tudo que havia sonhado. Hoje posso expressar toda minha alegria e posso dizer que é bem maior do que possa imaginar. Visto que, em ocasião favorável, vivenciei certas provações. Dentre

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estas provações, pude me manter em pé – e hoje ter a oportunidade, de em forma de doação, de passar, com alegria para outras pessoas, as lições tiradas destas experiências. Agradeço a Deus por ter-me sustentado de cabeça erguida e nunca ter deixado faltar Tua presença em minha vida. Nos momentos de angústia, quando parecia que tudo estava perdido, Deus me concedia uma saída. Com este recurso, renascia a esperança. Apoiado neste sentimento, sentia as forças redobrarem. Com esta injeção de ânimo, persistia nas batalhas, esperando o dia de alcançar a vitória almejada. Por isso sempre lutei. Mesmo nas horas em que as forças estavam por um fio, em que tudo parecia estar perdido e, em meu entorno, uma multidão torcia pela minha queda. Quando parecia ser impossível vencer. Neste momento uma centelha divina explodia em meu interior, a fé renascia; com ela, continuava a lutar... Hoje posso dizer com alegria de alma que a bondade de Deus suplantou qualquer força e capacidade humana, imperando nessa libertação. Sentindo esta felicidade, na pureza de coração, dedico este livro, com carinho, àqueles que iguais a mim, um dia sentiram medo, choraram, se desesperaram e que chegaram a pensar em jogar tudo para o alto. No entanto, em meio a erros e acertos, lutaram e continuam a lutar, sendo vencedores mesmo na mais acachapante derrota! Não parem, acreditem, planejem, arregacem as mangas, façam acontecer! Vocês podem transformar o mundo.

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Creiam, enquanto Deus conceder o fôlego de vida ao homem, o sonho estará vivo, e o sonhador poderá realizá-lo. Haja vista este livro que você está lendo, começou com um sonho durante o barulho causado pela queda de uma empresa. Naquele instante, descobri ser capaz de fazer muito mais do que havia feito, pois as pedras atiradas me instigavam para o impossível, totalmente possível. Quando acreditamos que, por mais difícil que possa ser a guerra, sempre haverá um amanhã de braços abertos a nos esperar! Lembrem-se: “Deus não tem prazer em homens covardes!” Edson França

A nossa vida é um conto ligeiro; as vírgulas, os pontos de exclamações e interrogações, nós colocamos. O ponto final, este é colocado por Deus. Sendo assim, nunca deixe uma frase incompleta, pois não sabe a hora em que O Autor da vida virá encerrar este conto.

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I Capítulo O dia em que o sol escureceu e o mar secou. De pé, na porta de casa, sentia o cheiro de relva molhada após a chuva tempestuosa. No abacateiro sanhaço gorjeava, o sabiá-laranjeira, replicava entre as folhas de amoreira. Contemplei ainda o pica-pau, com seu bico feito martelo, a bater no tronco da árvore ainda úmida. Era assim uma pequena orquestra regida pelo maestro Bem-Te-Vi. Tentava entender o que eles queriam dizer com aqueles cânticos barulhentos. Mas, aprazível à audição. No íntimo sabia, ou pensava saber, eles ofereciam louvores a Deus, por ter livrado-os da fúria da tempestade e agradeciam pelo sol que tornava a aparecer naquele instante. Naquele momento passei a examinar minha vida e pude perceber uma semelhança com a vida dos pássaros. Da mesma forma que Deus protegeu as aves da fúria da tempestade, tem me protegido das lutas e das provações pelas quais tenho passado. Estava assim usufruindo daquela dádiva divina, quando minha esposa me dando uma xícara de café falou: - Deus é bom em nossa vida, amor, só Ele para fazer uma obra dessas! Enquanto saboreava o café contemplava minha esposa, após isso, desviei olhos para os volumes em cima da mesa. Divididos em cinqüenta pacotes com vinte unidades cada, estavam mil exemplares de livros, nos quais acreditava ter o inicio de uma nova vida. Voltando a atenção para minha esposa, a quem carinhosamente 17


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chamo de mãe, falei: - Sim, mãe, Deus sempre foi muito bom em nossa vida, mais uma vez mostrou o Teu poder, cercando-nos de pessoas maravilhosas. Minha esposa tornou a falar: - O que você pretende fazer agora, meu amor? - Mãe, neste momento cuidar do lançamento do livro. Como você sabe, somos os personagens principais nesta festa e temos que estar bem apresentáveis neste evento. Daqui a alguns minutos, irei ao centro de Campo Limpo Paulista visitar pessoas conhecidas e aproveitarei a visita para vender alguns exemplares. Com o dinheiro dessas vendas, poderemos comprar as roupas que precisaremos para estarmos bem bonitos amanhã na festa de lançamento do livro. FILHO DEIXA EU TE AJUDAR. Emocionada, minha esposa tornou a dizer: dessas! - Amor, só Deus para fazer uma obra - Mãe, é só Deus em nossa vida, eu tinha a certeza de que o livro seria editado mas, de que forma seria, isto eu desconhecia. Quem poderia imaginar que de dentro de um presídio viria a solução para a edição desse livro! Mais uma vez ficou provado que Deus cria caminhos onde não existe, colhe onde não foi plantado e ceifa onde não foi semeado. Em lágrimas Mara, minha esposa, perguntou: - Amor, você acredita mesmo, que nesse livro está a solução para

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sanarmos os nossos problemas financeiros? Olhando aquelas lágrimas que rolavam no rosto de minha companheira, recordei-me de outra cena que havia acontecido há cerca de onze anos, na cidade de Jaú. Naquela ocasião, encontrava-me sentado num sofá de cabeça baixa, sentindo o peso de uma bancarrota nos ombros. Estava a ponto de jogar a toalha ao chão, sem força pra mais nada, quando ouvi soluços. Levantando a cabeça, vi Mara apoiada em uma geladeira chorando copiosamente. Quando nossos olhos se encontraram, ela perguntou: - Acabou tudo? Olhando aquelas lágrimas de desespero que rolavam pela face de minha esposa, brotou em mim uma força interior me impulsionado para a luta. Estava revivendo o passado, quando Mara me trouxe de volta à realidade. - Amor, está me ouvindo? - Sim, estou ouvindo, mas o que era mesmo que estava falando? Olhando-me com cara de dúvida, gracejou: - Velho França, o que estava pensando que não ouviu o que dizia? Estava pensando no início de nossas provações. - Como assim, amor? - Mãe, você se lembra de que forma tudo começou? Após perguntar-lhe e, sem esperar pela resposta, mergulhei naquelas lágrimas de alegria que continuavam a rolar suavemente pela sua face e reportei-me ao passado, exatamente no ano de 1993. Naquele ano o Brasil passava por uma crise política, o país era governado por Itamar Franco, o vice-presidente. O presidente de direito, Fernando Collor de Mello perdera o direito de governar, um impeachment o derrubara da presidência. A moeda em circulação

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tinha um nome esquisito, URV, que servia de parâmetro para o valor real de uma unidade. Foi neste clima que constitui, com dois irmãos, uma agência de turismo na cidade de Jaú: SOLEMAR AGÊNCIA DE VIAGEM E OPERADORA DE TURISMO LTDA. Sociedade que perdurou por apenas seis meses. Após o término dessa sociedade, me restaram as dívidas e uma empresa prestes ao naufrágio. Os concorrentes criaram uma bolsa de aposta, seria o ganhador aquele que acertasse o dia em que Solemar fecharia as portas. No meio das turbulências entre acertos e desacertos, consegui sobreviver o primeiro ano de vida. O ano de 1994 prometia ser melhor. No final do mês de fevereiro, Solemar assinou contrato para transportar noventa alunos da Fundação Dr. Raul Baub para festa de oktobeerfest, a qual acontece todos os anos na cidade de Blumenau, no estado de Santa Catarina. O contrato deu fôlego necessário para uma sobrevida à empresa. No mês de março daquele ano, a empresa Viação Santa Cruz ofereceu um ônibus para ser agregado pela Solemar Turismo. Não aceitei, não queria assumir naquele momento um compromisso na ordem de oito mil dólares mensais. A empresa havia saído da UTI e dia a dia dava sinal de que em breve estaria recuperada. No mês de maio, nova oferta por parte de senhor Cavallari, chefe de garagem da empresa Viação Santa Cruz, na cidade de Jaú. Dessa vez, diante de um programa pré-estabelecido, aceitei. Da ideia à prática foram dias. Em pouco tempo havia mais um ônibus operando na linha Jaú - Foz do Iguaçu - Ciudad Del Este - no Paraguai. Com um diferencial, era um carro novo de três eixos, equipado com ar condicionado, frigobar, geladeira elétrica, TV e forno micro-ondas. Além da tripulação normal, havia também guia e rodomoça para

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serviço de bordo. Um verdadeiro carro vip, totalmente diferente do bate-volta que havia até então. Estabeleci como meta, além da cidade de Jaú, atender as cidades de São Carlos, Araraquara, Matão, Tabatinga e Ibitinga. Com um cronograma ousado, para o tamanho da Solemar, dividi os números de bancos do ônibus entre as cidades citadas. Iniciei as primeiras viagens no vermelho, porém seguro que, em questão de pouco meses, teria um ônibus com o mesmo padrão, saindo de cada uma daquelas cidades. Fiz um marketing agressivo direcionado aos sacoleiros. Nasceu assim o “Executivo da Fronteira”. Na terceira viagem, havia lista de espera na cidade de Jaú. Era o melhor carro, o mais rápido, o mais seguro. Talvez por ser empresário precoce, não avaliei o risco de investimento. Solemar Turismo, como prestadora de serviço, capitalizava dinheiro de estudantes, com responsabilidade de alugar ônibus, reservar e pagar hotéis, os quais seriam usados pelos clientes. Era, portanto, a agência comissionada pela operação. Juridicamente, qualquer instituição constituída legalmente tem autoridade para aplicar investimentos dessa natureza. Diante desta prerrogativa, foi investido pela Solemar o equivalente a quinze mil dólares capitalizados, para iniciar a linha. Desta forma, tudo caminhava dentro do cronograma traçado. Em seis meses, teríamos recuperado o dinheiro investido e passaríamos a ter receita. Todavia, em nossas vidas existem os limites e reversos. Não quero usar este episódio como desculpa por toda a luta que tive que enfrentar. Mesmo porque nós, homens falíveis, às vezes, não aceitamos os desígnios com naturalidade, preferimos buscar culpados. Assim, no dia 22 de julho do mesmo ano, ao chegar à agência fui consultado por D. Miriam, minha secretária.

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- Senhor Edson, o senhor vai ao Paraguai? Meneando a cabeça, neguei. Um pouco mais tarde Marcos, profissional liberal que prestava serviço contábil a Solemar, passando por ali indagou: - Edson, você vai ao Paraguai? - Não, não irei. Aliás, não tenho intenção de ausentar-me de Jaú neste final de semana. Quase na hora do almoço, vi Neide, minha filha, num bate-papo caloroso com Elaine, uma freelancer que prestava serviço de guia a Solemar. Assim que me viu, pediu: - Chefe, deixe a Neide ir ao Paraguai comigo? Neguei alegando que Neide, por ser menor de idade, não poderia fazer uma viagem internacional sem os pais ou responsáveis. Ela retrucou: - Então, vamos também. Aquele convite causou-me irritação e deixei uma sentença no ar: “Se mais alguém mencionar que devo ir ao Paraguai, estará automaticamente despedido.” Saí aborrecido e fui à oficina de conserto de bicicletas de um irmão, entre um assunto e outro percebi que ele negociava uma bicicleta usada com um cliente. Após vê-lo concluir o negócio, deu para ver o valor da transação. Pensei que, com aquele valor, ele conseguiria comprar duas bicicletas novas em Ciudad Del Este, no Paraguai. Diante desta descoberta disse a ele: - Irmão Joãozinho, pegue este dinheiro e vá a Ciudad Del Este buscar bicicletas novas para comercializar. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. - Vou orar a Deus, se sentir alegria eu irei. Porém, só vou se você for comigo.

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Na hora, sem titubear, respondi: - Se for para ir contigo, eu irei. Mas lembre-se de que o ônibus sai às 17h. No período da tarde, o ônibus encostou para ser preparado para a viagem. Os passageiros chegaram adiantados, tanto que às 16h30min um dos motoristas indagou: - Senhor Edson, os passageiros de Jaú estão todos aqui. Posso partir? Diante da colocação feita pelo motorista Osvaldo, esquecendo que o irmão Joãozinho poderia ir naquela viagem, liberei a partida. Cabe aqui um comentário: “Caso o ônibus tivesse saído no horário programado, teria passado no local que se acidentou meia hora depois. É possível que o Escort, causador do desastre, estivesse a quilômetros dali”. Como ia narrando, havia transcorrido pouco mais de quinze minutos da partida do ônibus, quando fui chamado para atender a uma ligação. Era o irmão Joãozinho, que ligava para comunicar-me que havia decidido viajar. Combinamos ir de carro até a cidade de Ibitinga, onde esperaríamos o ônibus. Em seguida ao telefonema, liguei para São Carlos e reservei os dois bancos atrás do motorista para nós. Eram um pouco mais de 18h, quando saí de casa com destino à residência de irmão Joãozinho, de onde pretendia seguir viagem até a cidade de Ibitinga. Mas, ao me despedir de minha esposa, Mara demonstrou uma preocupação nunca vista, implorava para que não fosse. Todavia não logrou êxito em seu intento e, ao nos despedirmos no portão de casa, recordo-me que o tempo estava prometendo chuva. Eu olhava em seus olhos e via as lágrimas deslizarem suavemente pelo seu rosto. - Amor, não vá. Não há necessidade de você ir.

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Olhando para Mara em pé, apoiada no portão da garagem, tendo como fundo o céu escuro da tempestade que se aproximava velozmente, via-a como num quadro emoldurada pela mãe natureza. Naquele instante, pude perceber em Mara uma beleza inigualável. Desfrutando daquela tela irretocável, quase fui traído pela emoção e desistido da viagem. Todavia, deleitando-me naqueles momentos líricos, dei-lhe um beijo de despedida e, antes de partir, disse: - Eu tenho que ir. Assim que me despedi de Mara, segui para casa de irmão Joãozinho. Ao chegar, fui atendido por sua esposa, que me intimou: - Irmão Edson, tome conta de meu marido. Com alegria, disse: - Calma irmã, ele vai apenas ao Paraguai. Prometo entregá-lo inteiro no domingo. É fato como este que me ensina e me prova: prometer para o amanhã é fácil; porém, cumprir o prometido não está no homem; o amanhã pertence a Deus. É evidente que os agnósticos e os filósofos têm outras opiniões e têm meu respeito por pensarvem diferente. Todavia, se Sócrates, o filósofo grego, vivesse neste século com tanta informação cristã sobre vida pósmorte, teria fugido diante da oportunidade recebida de seus amigos? Não teria covardemente atentado contra a própria vida, destruindo o pilar do sonho -, quem sabe, acreditando num amanhã que poderia trazê-lo de volta à vida. Com uma decisão errônea, jogou por terra todo conhecimento que acreditava ter. Minha formação Cristã me dá a certeza: “O amanhã pertence a Deus”. Conforme havíamos planejado, embarcamos às 20h na cidade de Ibitinga. Às 22 horas, encontrava-me sentado num banquinho dentro da cabine, trocando conversa com o motorista Osvaldo e o passageiro Nelson, que havia embarcado na cidade de Ibitinga. Naquele momento

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viajava em pé nos degraus da porta de entrada. Fomos assim papeando até descer a serra de Echaporã, na região de Assis quando disse a eles: - Vou tirar um cochilo. Após ter comunicado minha decisão, dirigi-me ao interior do ônibus. Assim que me acomodei, deixei entreaberta a cortina que protege o vidro que separa a cabine e o salão de passageiros, mania de motorista. Lembro-me de que naquele momento chovia torrencialmente. Antes de me ajeitar, olhei irmão Joãozinho, que dormia na poltrona do canto. Devo ter demorado uns 20 minutos para cochilar, e devo ter cochilado também por uns 20 minutos. Quando fui despertado por um barulho estranho. Olhando pelo vão deixado na cortina, vi-me sentado em cima da faixa dupla que divide a pista. Percebi que o ônibus estava atravessando a rodovia e fatalmente chocaria com algum veículo que poderia estar transitando em sentido contrário. Conclui este pensamento em fração de segundos. Com a mesma rapidez do raciocínio, os músculos agiram, teria que sair de onde me encontrava. Foi tudo muito rápido, não tive tempo nem de acordar o irmão Joãozinho. Tentei correr para o final do salão do ônibus, devo ter dado dois ou três passos, quando houve a colisão. Como corria de costas, deu para assistir ao choque do ônibus com um caminhão. Foi uma colisão frontal de grande proporção, voaram pedaços de ferros em toda a direção. Um pedaço deste ferro, ou algo semelhante, veio chocar-se contra minha cabeça provocando um corte profundo, levando-me à inconsciência. Porém, antes de desmaiar, ouvi quando Ronaldo, o segundo motorista, disse: - Senhor Edson, está pegando fogo. Enquanto dizia estas palavras, quebrou o vidro de emergência e

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tirou-me do meio das chamas que propagavam entre os bancos. Ao ser jogado pra fora do ônibus, entre alguns momentos de lucidez, percebi que estava paralisado da cintura pra baixo. Em virtude do calor intenso em minha volta, causado pelas chamas que devoravam o ônibus, tentei me afastar daquele local. Apoiando as mãos no chão, fui forçando o corpo para me distanciar daquele calor. Quando ouvi irmão Joãozinho pedir: - Irmão Edson, irmão Edson, não me deixe. Tentei localizá-lo pelo som de sua voz, pois naquele instante minha visão estava embaçada, pelo sangue que saía abundantemente de um corte profundo feito em minha cabeça, o qual, misturado com a água da chuva, impedia que eu enxergasse com clareza. Embora não tivesse alcançado sucesso no meu intento de localizá-lo, procurei animá-lo com palavras de conforto, pedindo para se esforçar, pois precisávamos sair daquele local. Mal sabia que ele havia sofrido várias fraturas e apresentava um quadro bastante difícil. Como não reagia e o calor era terrível, tentei obedecer ao instinto de sobrevivência, lei natural do homem, comecei a forçar o corpo para longe daquele lugar. - Irmão Edson, não me deixe – disse novamente Joãozinho, com voz de súplica. Naquele apelo foi embora o instinto de sobrevivência e toda lei covarde de natureza humana, sobrando apenas o amor compartilhado. Abraçando a ele, disse: - Tenha calma, vamos sair dessa. - Se sairmos dessa, nunca mais hei de viajar – respondeu-me, entre lágrimas. Ali, no meio da angústia, Deus me deu força para brincar. - Se você, irmão Joãozinho, deixar de viajar, terminarão as

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missões espirituais na Terra. Neste momento houve uma explosão jogando-nos na vala lateral do asfalto. Deus não permitiu que eu sofresse dano, nem no fogo nem nas águas, mas meu irmão não teve a mesma felicidade. Ele sofreu queimaduras de terceiro grau no rosto, além de ter sofrido várias fraturas. Quando eu estava sendo socorrido, perguntei ao motorista Ronaldo: - Saíram todos com vida? Abaixando a cabeça, ele emudeceu. Naquele silêncio previ o pior. - Quem ficou? - indaguei. - O Osvaldo morreu, senhor Edson – respondeu, pesaroso. As lutas que se arrastariam por longos anos em minha vida começaram naquele momento. Perdi um amigo e um companheiro de trabalho. Tudo que havia investido virou cinza no calor do fogo. O ônibus havia subido em cima de um Escort e colidido frontalmente com um caminhão de carne, causando ferimentos em vários passageiros e ceifando a vida três pessoas. De cima da carroceria de uma caminhonete carregada com alguns sacos de arroz, onde fui colocado para ser socorrido, eu via o ônibus ser consumido vorazmente pelo fogo. À medida que a picape partia velozmente, enxerguei pela última vez o ônibus em chamas, deixando uma sensação de perca no meu íntimo, vendo ser destruído todo um trabalho. Fomos levados à cidade de Tarumã, onde foi feito um curativo provisório em minha cabeça. Neste instante, apaguei de vez. Ao recobrar a consciência, sentia muita dor na cabeça. Notei que haviam feito um curativo provisório no ferimento. Percebi que o sangue, misturado ao barro da enxurrada, havia formado uma

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crosta criando um canal por onde fluía em abundância. Senti naquele momento que, se não fosse atendido com urgência, poderia ter uma hemorragia que seria fatal. Comecei a pedir ajuda, mas não era atendido. Não podia andar, pois continuava paralisado da cintura para baixo. Esperei e, quando passou próximo de mim uma enfermeira, segurando em seu braço, perguntei: - Enfermeira, o que faço neste local? - O senhor passou por um acidente e se encontra no hospital da cidade de Assis – respondeu ela, impaciente. Fazendo gesto com as mãos para interrompê-la, disse: - O meu desejo é saber o que faço deitado nesta maca. Tentando soltar os braços de minha mão, ela respondeu: - O senhor passará por um ortopedista. Com movimento brusco, arranquei o tampão que cobria o ferimento, o qual começou a esguichar sangue. - Eu preciso é de um cirurgião, não de um ortopedista. Fui levado para o centro cirúrgico onde foi feita uma sutura daquela veia estourada. Por volta das 14h20, Mara chegou ao hospital. Como ela é muito emotiva, assim que me viu indagou, chorando: - Amor, o que aconteceu? Olha como você está todo machucado... - Eu estou bem, preciso saber de irmão Joãozinho, ache-o dentro deste hospital e me dê notícias dele. Mara ainda tentou argumentar, preocupada com meu estado de saúde, mas não dei tempo, exigindo notícias de meu irmão. Pouco tempo depois, voltou com informações que me confortaram: estava todo quebrado, mas vivo. Após saber do estado de saúde de meu irmão, pedi que chamasse o medico.

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Quando este chegou, disse a ele: - Doutor preciso de uma ambulância, e minha alta hospitalar, pois pretendo ir embora deste hospital. Olhando-me com cara de riso, ele falou: - Ah sim! Você precisa de uma ambulância, pois deseja ir embora... Senhor Edson, o senhor já atentou para sua situação? Além do mais, não tenho ambulância disponível. - Doutor, a minha situação é a que menos importa neste momento. Estou sentindo cheiro de encrenca e tenho que estar a posto para evitar o pior – disse, olhando bem nos olhos do médico. Com paciência, o médico falou: - O senhor está com paralisia parcial da cintura para baixo, há ainda este ferimento na sua cabeça, que será preciso... Deixei o médico falando aos ventos, virei para minha esposa e ordenei: - Dona Mara, desça até a rua, procure um ponto de táxi, escolha um carro grande que caiba um colchão dentro, contrate-o para nos levar a Jaú. Espantado, o médico olhou para a Mara e perguntou: - Ele vai mesmo? Por me conhecer, Mara respondeu: - Se ele está falando que vai, doutor, daqui a pouco estaremos viajando. Além do mais me chamou de dona e, quando me trata assim, ele não está brincando. O médico ainda tentou argumentar: - Mas ele não pode sair desse hospital nas condições em que se encontra. - Doutor, sei que esta viagem é de alto risco em virtude das condições nas quais ele se encontra nesse momento. Todavia, ele fez

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uma opção e nada o fará desistir. Diante de minha teimosia e vendo que nada demovia minha decisão de sair daquele hospital, aquele médico pediu a minha esposa que assinasse um documento, no qual constava que qualquer dano que viesse ocorrer comigo, seria de minha responsabilidade. Na semana seguinte, contabilizando o saldo do desastre, constatei que era negativo. Tudo que era sólido foi consumido pelo fogo. Como tudo girava em torno de minha pessoa, contratei um profissional para fazer a parte financeira da Solemar. Passei a cuidar da parte comercial, virei uma máquina de vender como comprovam as notas fiscais. No aniversário de emancipação política de Jaú, que acontece no mês de agosto, saem várias excursões da cidade com estudantes para se divertir no programa Noite de Terror, no parque de entretenimento Play Center. Neste ano de 1994, não foi diferente. As agências de turismo da cidade de Jaú, num total de dez lojas na época, travaram uma disputa acirrada para conquistar os jovens que viriam a São Paulo. O esforço compensou, saíram da cidade onze ônibus de estudantes. Contei com a bênção de Deus, que me deu forças para superar a concorrência naquele embate. Apoiado numa bengala em virtude do acidente que havia passado há pouco mais de duas semanas, contando com o apoio do guia Robson Davi França Costa hoje um excelente advogado na cidade de Jandaia do Sul, Paraná - excursionei cinco ônibus que a Solemar havia vendido daqueles onze que saíram da cidade. Tudo caminhava para um final feliz.

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Porém, no dia nove de novembro de 1994, o mundo desmoronou em minha cabeça. Deveria sair, e não saiu, um ônibus para cidade de Cabo Frio, estado de Rio de Janeiro, e dois ônibus com destino ao Balneário Camboriú. Cabe um comentário: Não havia dinheiro para pagar os ônibus, parte do valor que seria aplicado tinha ficado num acidente; a outra parte... Hoje não tenho a mínima intenção de procurar culpados, mas de reparar os danos e resgatar minha dignidade perante uma sociedade. Peguei uma folha de cheque e fui à cidade de Piracicaba falar com José Luiz, proprietário da empresa de ônibus Monte Alegre. Era seu cliente, havia entre nós um relacionamento comercial salutar. Além de que havia outras viagens agendadas. Pagaria as viagens deste dia com cheque pré-datado com vencimento para trinta dias. As viagens posteriores dariam para honrar o compromisso que assumiria e ainda sobraria para os hotéis. No Balneário Camboriú, as hospedagens estavam quase todas pagas. Sentei-me, confiante, diante do proprietário da viação Monte Alegre, mas todos os planos e projetos caíram por terra. Além de não aceitar o cheque, o que causou estranheza, exigia o pagamento em dinheiro vivo. Naquele momento senti o chão sumir sob meus pés. Tentei negociar, mostrando que estava acabando com um homem. Não teve jeito, ele não cedeu. A solução seria voltar a Jaú e tirar minha família da cidade. Sabia que numa situação destas ocorreriam tragédias. A noite de 09 de novembro de 1.994 ficará marcada em minha vida como terrível. Não conseguia assimilar o que estava acontecendo. Enquanto dirigia o carro procurando um lugar onde pudesse passar aquela noite, travava uma luta terrível com o diabo que tentava jogar– me de encontro às carretas que trafegavam em sentido contrário.

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“Acabou, acabou, acabou...” Mas dentro de mim, no profundo de meu ser saíam, quase num sussurro: “Senhor Jesus, cubra-me com teu sangue.” Na segunda-feira seguinte, retornei à cidade de Jaú, depois de passar um final de semana terrível. Teria que responder pelo desastre. Minha vida tornou-se um caos, perdi todo dinheiro que já havia enviado aos hotéis e os bens materiais, que não eram muitos, foram tragados pelo furacão da falência. Vi minha casa ser invadida por pessoas furiosas, enfrentei sozinho uma turba de estudantes furiosos e revoltados (não poderia esperar outra atitude que não fosse aquela). Na hora marcada, encontrava-me sozinho no pátio do Colégio Instituto, havia recusado a proteção policial que o delegado me oferecera. Minha proteção viria do céu. Poderia até morrer naquele encontro, porém morreria como um homem que não dá as costas para adversidades. Creio ter sido um dos piores momentos passados pós–falência. Solemar. Fui cercado por um batalhão de jovens furiosos, um dos alunos, o mais irado entre eles, colocou o dedo em riste apontado para meu rosto, não deveria estar mais do que um centímetro de meu nariz. Enquanto ouvia aquelas palavras contundentes, sentia a respiração de uma massa humana em minha volta pronta para o linchamento. Sabia que a ordem partiria do rapaz a minha frente. Seria ele o primeiro a me agredir e o fim seria inevitável. Era uma situação gravíssima, nossos olhos trocavam mensagens. Enquanto o dele transmitia desejo homicida, o meu estava sereno, não havia medo ou qualquer sentimento de pânico. Deus colocou uma paz tão grande em meu coração, que nada abalaria meu propósito nascido naquele momento e uma certeza: não me tocariam. Se não me agrediram até aquele instante, não haveria agressão. Sairia com

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vida daquela situação, iria embora daquela cidade, superaria qualquer obstáculo que surgisse, mas haveria de voltar para saldar aquelas dívidas. Se não fosse aquele rapaz e sua fúria devastadora, é possível que não tentasse. Porém, suas acusações entraram em meu ser ferindo minha alma. Provaria àquelas pessoas, e também à cidade, que estavam enganados a meu respeito, que não procediam as acusações das quais me condenavam. Naquele momento, um senhor ali presente que, depois se identificou como advogado, tomou parte naquele confronto e os ânimos ficaram mais brandos. Pelas sequelas da falência, fui levado ao Fórum de pequenas causas, julgado e linchado, sumariamente, por uma cidade, sem chance de defesa. Durante aquela primeira semana pós-falência, passei por situações uma mais melindrosa que a outra. como pude perceber ao receber a visita de uma senhora, dona de um brechó, acompanhada do filho Maurício. Pensava que vinham me trazer palavras de conforto o que logo percebi estar enganado quando Mauricio com palavras insolentes me disse: - Vim para te dizer que a Bíblia diz que quem está sujo, que se suje mais. Portanto para você só resta um caminho, se sujar cada vez mais. Clamei muito a Deus, naquele momento, para não expulsar aquela família a pontapé de minha casa. Quando foram embora, sentime só e abandonado. Todavia, contei com apoio mais importante que um homem pode ter, o de Deus. Este não me abandonou um segundo sequer e, ainda hoje, é o meu refúgio nas horas de angústia. No dia 16 de dezembro de 1994, estava sentado no sofá da sala pronto para jogar a toalha, quando ouvi prantos. Levantei a cabeça e, através do corredor que ligava a sala com a cozinha, pude ver Mara

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em pé encostada à geladeira chorando. Assim que nossos olhos se encontraram, ela parou de chorar e perguntou se havia terminado tudo. Por um instante, fiquei olhando nos olhos de minha esposa, para em seguida mergulhar nas lágrimas de desespero que rolavam pelo seu rosto. Neste momento, senti uma força interior brotar dentro de mim. “Os livros de autoajuda poderiam dizer que era determinação. Se fossem os gregos, diriam que era Deus em meu interior. E teriam decifrado corretamente, que a força que havia me tomado realmente era virtude de Deus”. Disse a minha esposa que nada estava terminado, na realidade estava apenas começando, pois em meu interior uma centelha divina empurrava-me para a luta. Como não entendeu o que quis dizer, tive que explicar que iria a São Paulo procurar serviço. Havia decidido que não iria à sepultura sem ver minha cabeça levantada e minha honra resgatada perante a cidade de Jaú. “Todavia, quando entramos numa guerra por iniciativa própria, armamo-nos de acordo com a batalha que iremos enfrentar. Mas, quando somos jogados de surpresa no meio de uma batalha, corremos o risco de ali chegarmos, sem as armas condizentes para a luta que vamos travar”. Foi o que aconteceu comigo, não tinha dinheiro nem para o coletivo municipal, quanto mais para sair da cidade como era o meu desejo. Neste momento agradeci a Deus pela esposa e companheira pois, num arrojo próprio de sua personalidade, parou de chorar, provendo de ingredientes necessários, preparou algumas dezenas de coxinhas. Como uma guerreira, e verdadeiramente é uma guerreira, foi pra a rua comercializar aquela mercadoria. Mas, ao sair de casa com o tabuleiro nos braços, no qual estava depositada a esperança de levantar capital necessário para custear a viagem do esposo, ofereceu o salgado a uma vizinha próxima de nossa residência. Ali começaram os percalços de humilhações em nossa vida, 34


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que se arrastariam por longos anos. - Você não é a esposa do empresário? – disse a vizinha, ironicamente. Aquela ironia não abateu minha esposa, pelo contrário, provou que a vitória de um guerreiro é alcançada com o auxílio de outra guerreira. Deus preparou o necessário para minha viagem. No dia seguinte fui à casa do irmão que dirigia a obra de Deus naquela cidade. Era necessário comunicar a decisão que havia tomado de sair de Jaú. No entanto, enquanto conversava com a esposa desse irmão, a qual me informava a ausência do marido que havido ido buscar a filha na cidade Naviraí, no estado de Mato Grosso do Sul, o filho do casal chegou e simplesmente ignorou minha presença, o que me causou ainda mais sofrimento. Todavia entendia sua atitude, afinal, uma cidade inteira já havia declarado o veredicto final, “culpado”, porém, naquele momento houve um alento em minha alma, quando ouvi sua mãe chamar: - Fábio, você não viu o irmão Edson? Eu estava muito emocionado e constrangido ao mesmo tempo. - Deixe, irmã Olga, ele é apenas uma criança. - Não, irmão Edson, não eduquei os meus filhos para que hajam desta forma – disse a mulher, fraternalmente. Senti, naquele momento, que estava conversando com uma santa de Deus e que haveria de voltar novamente àquela casa para agradecer por aquele gesto que muito contribuiu para os meus dias futuros. O amor cristão dispensado por aquela irmã foi de suma importância em minha vida.

Não importam as guerras em nosso entorno, importa a paz que há em nosso coração para enfrentá-las.

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II Capítulo Buscando nova vida, debaixo do mesmo Sol Despedindo de meus familiares dirigi-me à estação ferroviária com a intenção de embarcar no trem expresso que passava em Jaú vindo de Panorama com destino a São Paulo. Antes de embarcar, já com o bilhete nas mãos, retornei à entrada do prédio da estação. Por alguns segundos, contemplei a cidade que um dia havia me recebido de braços abertos e que naquele momento era obrigado a sair quase que fugindo, como um cachorro que bate em retirada com o rabo entre as pernas. Ali parado, com lágrimas rolando na face, falei estas palavras ao vento como se todos os moradores da cidade de Jaú pudessem me ouvir naquele momento: “Jaú, eu voltarei! Ouviu, Jaú? Eu voltarei e você se curvará diante da minha vitória!” Após firmar aquele compromisso, retornei à plataforma para aguardar o trem que me tiraria daquela cidade. Se perguntasse para alguem ali presente: O Edson conseguirá realizar o que acaba de prometer? Com certeza esta pessoa diria: Não! Impossível! Para ele não há mais jeito, o Edson está acabado... É verdade para aquela cidade era impossível, ninguém apostaria um tostão furado em mim. Hoje é obvio a resposta. Enquanto o trem percorria a ferrovia em meios a canaviais, coloquei a cabeça pra fora do vagão e passei a respirar aquele cheiro gostoso de interior, tentando armazenar em meus pulmões aquele ar puro, enquanto minha alma versejava sua lamentação: 36


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Ah! Se pudesse voltar ao passado e resgatar a alegria perdida no tempo presente! Quem me dera, se pudesse pegar o tempo presente e fazê-lo tempo passado! Tomar os dias futuros e fazê-los dias presentes, nos quais todas as promessas seriam realizadas. Ah! Se houvesse em mim poder para engarrafar as lágrimas deste tempo e trocá-las pelo riso de outrora, encontraria a felicidade prometida do futuro. Ah! Se pudesse dizer para a tristeza, aparte-se de mim, não tenho prazer em você! Quem me dera ser dotado de sensibilidade para interpretar no cantar dos pássaros e na prosa dos ventos o dia de minha libertação! Ah, quem me dera! Não posso, minha alma está aflita. Ao menos se ela fosse ungida com o dom da música. Poderia compor um hino de alegria e andar pelas praças e pelas ruas assoviando a melodia de minha libertação, na qual a letra da poesia só ela entenderia. Enquanto minha alma queixava-se ao vento, eu continuava a armazenar aquele cheiro selvagem de interior, pois sabia que dias de lutas se aproximavam e teria que estar bem saudável para enfrentá-los. Fui morar em Várzea Paulista. Tinha que recomeçar, precisava trabalhar, levantar capital e resgatar minha honra. Arrumei emprego na Escuna Tour, uma agência de turismo no Itaim Bibi, na cidade de São Paulo. Contudo, pouco tempo depois, meu gerente disse: - Edson, há neste jornal o anúncio de um ótimo lugar para você trabalhar. - Lugar para trabalhar! Como assim? Pelo que sei sou funcionário

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da Escuna Tour – disse, espantado e um tanto preocupado. - Você era funcionário, Escuna Tour acaba de abaixar as portas e você como bom vendedor poderá preencher a vaga deste anúncio. Peguei o jornal que ele me oferecia, li o anúncio e disse: - Você está de brincadeira comigo, não preencho os requisitos que o cargo exige. - Quem disse que não, fui seu gerente e sei o que estou falando. - Quando fui contratado para trabalhar aqui, o que pesou a meu favor foi ter sido proprietário de uma agência de turismo. Porém, para esta vaga anunciada no jornal não me vejo capaz, estão exigindo nível superior, eu mal cursei a sétima série no ano de 1969. Portanto, sem chance. - Sabe Edson, você poderia ter cursado uma bela faculdade, dominar três ou quatro línguas, porém se não tivesse talento de nada adiantaria. Vou mais além, a sua atitude desafiadora de enfrentar o mundo pesa a seu favor. Olhei espantado para o meu interlocutor, pois não tinha comentado como havia perdido a Solemar. - Não sei o que se passou em sua vida. Todavia, você tem um brilho desafiador no olhar, e quem tem este brilho nos olhos não se esconde de desafio! Olhei para aquele rapaz admirado por suas palavras. Naquele momento ele me passava uma força tremenda. - Quando me apresentar, o entrevistador indagará sobre meu grau de instrução, direi a verdade e com certeza serei reprovado na entrevista. - Ninguém perguntará seu grau de instrução. - Claro que vão perguntar. Impaciente e meio irritado, olhando-me sério o homem falou:

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- Onde está sua fé, homem? Parece que o crente entre nós sou eu, e não você. Saímos da agência, peguei uma carona com o meu gerente, pois minha intenção era ir à estação da Luz, onde embarcaria no trem da CPTM que me levaria à cidade de Várzea Paulista. Enquanto o carro percorria a Avenida Nove de Julho, as últimas palavras de Gutierrez, meu gerente, não saíam da minha cabeça: “Onde está sua fé, homem? Parece que o crente entre nós sou eu, e não você” Fui uma criança normal, fiz as peraltices que teria que fazer. Como todas as crianças ou quase todas, fui criado num lar católico e fui coroinha do Padre Benedito Lessa, um homem amado na pequena cidade de Itambaracá, norte do Paraná. Um dia meus avós maternos creram que eu poderia ser um padre. A ideia não me desagradou. Fui para o colégio São José da ordem de Nossa Senhora de Sion, na cidade de Castro, no sul do Paraná. Passei alguns anos e não era ser padre o plano de Deus na minha vida. Saindo do colégio ainda na infância, fui uma presa fácil para o mundo. Aos 14 anos, já era uma pessoa viciada no cigarro e já tinha provado a bebida forte. “Fato absurdo para o padrão daquela época”. Até os 35 anos de idade, fui escravizado pelos vícios mundanos. Cumprindo o que Jesus Cristo falou que o médico veio para o doente, Deus operou a maior das maravilhas na minha vida, curou minha enfermidade da alma. Movendo uma Infinita Misericórdia, cercou meus caminhos, converteu meu coração, fez uma obra que homem nenhum teria poder de fazer. Tudo teve início no ano de 1986, para ser mais preciso no mês de julho. Acontecia a Copa do Mundo que naquele ano era disputada no México. A seleção brasileira tentava conquistar o quarto título mundial. O tetra campeonato era fava contada. O Brasil vestiu-se de

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verde amarelo, a magia que envolvia o povo brasileiro era contagiante. Nesta época trabalhava de motorista de ônibus circular em São Paulo. Vivia os últimos dias de um casamento prestes a naufragar. Era domingo, não me recordo o dia, mas o mundo nunca esquecerá o dia em que o Brasil foi desclassificado pela França. Zico, o galinho de Quintino, e Doutor Sócrates não converteram a penalidade máxima em gol, erro que desclassificou o time brasileiro. Após assistir ao jogo num local que não traz edificação citar o nome, fui para casa com uma legião de espíritos muito bravos querendo brigar até com minha sombra. Ao chegar não encontrei minha companheira, havia ido à casa de sua mãe, o que me irritou. Fui buscá-la, furioso. No retorno, enquanto caminhávamos, agredia com palavras ofensivas. Próximo a minha casa havia uma Igreja. Ao passar, alguma coisa aconteceu em meu interior naquele momento. Parando de ofendê-la e tomado por um impulso, disse: - Vamos entrar aí? Não acreditando no que ouvia, Mara olhou espantada, pois eu não tinha afinidade com crentes. Para dizer a verdade, não gostava. Meio temerosa por não saber qual seria minha intenção, concordou. Entramos e sentamos os dois nos bancos destinados às irmãs. O irmão que atendia à porta, ao ver-me sentado junto com minha esposa, aproximou-se, com amor, e disse: - Você não pode ficar aqui. Cri eu que não poderia era ficar na igreja por não ser membro, e também não dei tempo para o irmão explicar que deveria sentar no banco destinado aos irmãos. Bravo, levantei-me e saí da igreja. Ao descer as escadas, ouvi quando o irmão, guiado pelo Espírito Santo, falou: - Vai em paz, que o Senhor Deus te acompanhe.

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Palavras santas. Não se falou mais em separação e Deus foi cercando meus caminhos na terra. Desempregado, busquei refúgio no interior do Estado. Fui morar com minha mãe na cidade de Jaú. Na primeira oportunidade, fui procurar um amigo que há muito não via. Amigo das peladas no fim de tarde, da mesa de bilhar ou dos bailinhos, era assim um bom camarada. Mas qual não foi a minha surpresa em encontrá-lo mudado. Ao inquirir o motivo daquela mudança, descobri que ele havia se convertido e tornado um cristão evangélico. Passei a fugir do meu amigo. Não que ele me forçasse algo, não tínhamos mais comunhão, meu espírito que vivia em trevas empurrava-me para longe dele. O ano de 86 passou. No terceiro dia do ano de 1987, Deus contemplou meu lar com uma linda menina. Algumas vezes o meu amigo me convidava para ir à igreja com ele, esquivava-me mais de que bagre ensaboado, ora com uma desculpa ora com outra, assim ia escapando de assumir compromisso. Até que um dia me encontrava em um posto abastecendo o caminhão quando ele chegou e me convidou para ir à igreja naquela noite. Para me ver livre dele, concordei. Marcamos de nos encontrarmos no ponto final de ônibus, onde ele deveria me apanhar. No horário aprazado, dei um calote não comparecendo ao encontro. Passaram os dias e fui fazer uma visita para minha mãe. Encontrei-a diferente. - Filho, a mamãe obedeceu a Deus no santo batismo. Tinha outra pessoa a mais para me esquivar. Mas o Pai quando ama uma alma, por mais que o diabo tente, não deixa escapar nem que para isto use meios que para nós são dolorosos, é o único jeito para nos fisgar. E Deus começou a cercar meus caminhos. Perdi o emprego, perdi a casa que morava, não consegui pagar o aluguel. Em pouco tempo, encontrava-me na rodoviária da cidade com mulher e filhos, cheio de caixas, sacos e malas, íamos embora da cidade. O

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diabo que sabia do plano de Deus na minha vida, empurrava-me para longe daquela cidade, tentando com isto, impedir de Deus operar em minha vida obras e maravilhas. Fui com a minha família para a cidade de Birigui, a 230 km distante de Jaú. Conhecia algumas pessoas naquela cidade e achava que pudessem me ajudar. Ledo engano. Quando Deus prova um homem, não tem quem possa ajudar, só Ele tem a chave que abre e ninguém fecha, mas quando Ele fecha não tem quem abre. Na cidade de Birigui todas as portas se fecharam, acabou o pouco do dinheiro que havia levado, a dona da pensão levou-me ao delegado por falta de pagamento, fomos expulsos da cidade. Pegamos carona para Buritama. Ali fomos nos alojar no banheiro da praça, pois o tempo virou para chuva. Mas fomos impedidos pelo guardanoturno que, movido de uma compaixão, abrigou-nos numa casinha nos fundos de sua casa para que aguardasse o amanhecer. Nas primeiras horas do novo dia, na saída da cidade, pegamos uma carona para a cidade de José Bonifácio, pois o prefeito local era meu amigo. Não sabia que o único amigo que o homem tem na terra é JESUS CRISTO. Chegando àquela cidade, o amigo escondeu-se e novamente me vi só. No final da tarde estava sentado num dos bancos que há na rodoviária, sem noção do que fazer de minha vida, quando minha filha Neide veio dizer que a mãe dela estava chamando-me no banheiro. Indaguei o que ela queria, minha filha disse que a mãe estava chorando. Naquele momento olhei para meu filho Junior sentado ao meu lado, foi aí que eu percebi que fazia dois dias que ninguém tinha comido nada. (Deus não permitiu que meus filhos pedissem comida, e até aquele momento eu estava com a mente fechada). Levantando meus olhos para o céu, na minha ignorância, falei desta maneira com Deus: “Você está com bronca de mim e eu não sei o porquê. Se está com bronca de mim me pega que eu aguento, meus filhos não; eles não têm culpa de nada. Se Você existe mesmo, meus filhos têm que

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comer e beber em uma mesa e dormir em uma cama hoje. (Não tinha eu entendimento e falei desta forma com Deus. Creio que Deus na Sua infinita misericórdia não levou em consideração o meu desabafo) Aproximou-se um senhor, indagando se tinha fósforo. Dei-lhe o isqueiro. Ofereceu-me um cigarro, coloquei-o na orelha. Ele quis saber por que não ia fumar. Mencionei que esperaria minha esposa para que pudéssemos fumar junto. Então, ele me deu outro cigarro. Indaguei a respeito de trabalho, alguma coisa com pagamento diário. Foi neste momento que Deus começou a operar na minha vida embora viesse a entender alguns anos depois. Aquele homem por nome Joaquim dos Santos me informou sobre um lugarejo 30 km dali, de nome Machado, onde residia a maioria dos boiasfrias da região. Quando lhe informei que não tinha dinheiro para o ônibus, ele oi à saída da rodoviária, conversou com uma moça que depois vim a saber ser sua filha, retornou logo em seguida e disse: - Pegue sua família e venha comigo. Viajamos de ônibus até o distrito de Machado. Desembarcamos e caminharmos por aproximadamente vinte minutos até chegarmos a um sítio onde aquele senhor morava. Ao chegarmos, chamou sua esposa por nome Aparecida e disse: - Encontrei-os na rodoviária de José Bonifácio e precisam de ajuda. Naquela noite meus filhos comeram em uma mesa e dormiram numa cama. No dia seguinte, nas primeiras horas da manhã, fomos à roça. Foram dois meses e pouco naquele lugarejo. Eu e minha esposa trabalhamos de bóia-fria (colhemos laranja, algodão, milho verde e milho seco, ríssemos e abanamos café). No final do tempo determinado por Deus, voltei a Jaú para receber um dinheiro que havia ficado de saldo trabalhista, e qual não foi minha surpresa ao ser readmitido pela antiga empresa. Vida nova, um emprego na minha profissão, ser motorista profissional era o ápice profissionalmente. Com o passar do tempo, novo contato com meu

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amigo Joãozinho, novo convite para ir à igreja, nova recusa. Algumas vezes minha esposa aceitava ir. Para não discutir na frente do amigo, acabava indo também. Assim fui algumas vezes, via e ouvia, mas não entendia. Até que determinado dia fui convidado a ir congregar num lugar de nome Jorge Atalla. Naquela noite estaria naquele local o irmão Flávio Diácono, de Guarantã do Norte (Mato Grosso), e por certo teria a contar muitas obras que Deus operou naquele sertão e isto era motivo de júbilo para os fiéis. Como esperado, o Irmão Flávio contou várias obras, mas uma me chamou a atenção por se tratar de caminhão. Dizia ele que seu caminhão deu problema na bomba injetora e não tinha condições de pagar um mecânico, por isso naquela noite ele orando a Deus fez uma prece (tentarei reproduzir com as mesmas palavras, é possível que troque algumas por fazer muito tempo, mas o objetivo da oração isto não esquecerei nunca.) “Senhor, sei que no céu o senhor tem Anjos para servir teu povo na terra, tem Anjo médico, Anjo enfermeiro, Anjo advogado. Senhor, mande-me um Anjo mecânico para consertar meu caminhão”. Depois da oração, foi dormir. No outro dia pegou seu caminhão e foi puxar lenha. Certa altura Deus falou dentro do seu coração: “E a bomba?” Parou o caminhão e foi verificar. Deus tinha operado, aquela bomba não daria mais trabalho. Este testemunho mexeu comigo. Quando acabou o culto, irmão Joãozinho perguntou: - Você estará em casa amanhã? Confirmei com um acenar de cabeça. No sábado cedo, ao levantar com um cigarro na boca, lembrei-me do testemunho da noite anterior e falei da seguinte forma com Deus: “O rapaz ontem disse que Você tem vários tipos de Anjo, arrumou até um Anjo mecânico! Se estiver sobrando Anjo no céu, me arruma um Anjo tirador de vício e, se me tirar o vício do cigarro, eu vou te servir na terra.” Fiz este pedido e me esqueci tanto do desejo de me ver livre do vício do cigarro como de irmão Joãozinho, só lembrando-se dele lá pelas 13h quando bateu

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palmas no portão de minha casa. Diferente das vezes anteriores quando vinha acompanhado somente da esposa, neste dia veio acompanhado de uns quinze irmãos. Corri desesperado para colocá-los pra dentro, para que os vizinhos não me vissem recebendo crentes em minha casa. Após acomodá-los na sala, fiquei meio perdido nos assuntos que não entendia, desejoso que fossem embora logo, pois às 16h o Sport Clube Corinthians jogaria. Naquela época era torcedor do alvinegro e não perderia por nada aquele jogo, muito menos para ficar papeando com aquelas pessoas. Contudo, as horas passavam e nada deles irem embora. Até que por volta de 15h30 se prontificaram a partir, não sem antes irmão Joãozinho pedir autorização para efetuar uma oração. Concordei crendo que a oração não duraria mais que cinco minutos. Mas qual não foi minha surpresa ao ver as horas passarem e nada daquela oração ter fim. Ouvia os fogos pipocarem na vizinhança, tentava identificar a casa que havia soltado o rojão. Se conseguisse, com certeza saberia o time que o morador era torcedor, todavia não conseguia identificar. Aquela oração terminou por voltas das 18h. Os irmãos foram embora regozijando na presença de Deus, deixando um Edson indignado. Na segunda-feira ia saindo quando minha filha Neide, oferecendo um maço de cigarros que trazia nas suas mão, perguntou: - O senhor não vai levar seu cigarro, pai? Foi só naquele momento que me dei conta que havia fumado o último cigarro no sábado após o almoço. Para meu espanto e temor, aconteceu algo que nunca havia acontecido comigo. Dentro do meu coração, uma voz falou comigo: “Fiz a minha parte, faça a sua.” Deus havia ouvido minha petição sobre o desejo de fumar, enviou o Seu anjo com poder para fazer uma limpeza geral nos vícios, tirou o vício do cigarro, da bebida, da prostituição, da valentia, da mentira e me chamou na Graça.

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Minha companheira ganhou um esposo, em pouco tempo legalizamos nossa situação diante da lei, meus filhos ganharam um pai e amigo, minha mãe ganhou um filho. Nesta Graça Maravilhosa, Deus converteu meu coração de tal forma que nada poderá me separar do Seu Amor, e por Ele gozo plenamente a felicidade de ser crente em Jesus Cristo. Fui despertado de minhas lembranças. Meu gerente perguntou: - Edson, você sabe nome desta rua? Respondi sem entender o porquê daquela pergunta: - Sim, estamos na Rua Bela Cintra. - Significa alguma coisa para você? - Estamos exatamente diante do nº. 866 da Rua Bela Cintra, local daquele anúncio, não quer mesmo tentar? Olhei para aquele rapaz que sorria desafiadoramente e, em meu interior, ardeu aquela chama, a mesma que queimava meu peito quando me despedia de Jaú: “Por fé, lutaria contra o impossível e venceria o invencível, pois em meu interior habita esta Palavra - Se Deus é por mim, quem será contra mim?”. Pouco tempo depois, em companhia de Luis Carlos Gutierrez, fui entrevistado. Com nossas fichas nas mãos, a entrevistadora perguntou: - Senhor Edson, nós temos noventa vagas a serem preenchidas e até este momento já foram entrevistados mais de setecentas pessoas. O que faz pensar que poderá ser um dos escolhidos Atrevidamente, respondi: - Peço perdão, mas a senhora não foi feliz ao mencionar o número de vagas, na realidade não são noventa, mas sim oitenta e nove. - Desculpe, senhor Edson, tenho os dados em minhas mãos, realmente são noventa as vagas em aberto. Sorrindo, disse: - A senhora está certa ao informar os números das vagas que

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constam nesta ficha, porém as vagas a serem preenchidas são de apenas oitenta e nove, pois a primeira vaga me pertence e não darei a ninguém. A senhora entende, a primeira vaga é minha. Olhando-me com simpatia e admiração, lançou o desafio: - Esteja aqui amanhã, às 10h, para iniciar os treinamentos. Veremos se realmente é dono da primeira vaga. Iniciei o treinamento naquela empresa. Posso dizer que foi uma verdadeira operação de guerra. Mas a experiência contribuiu muito para o meu aprendizado. Foi gratificante aprender com administradores de empresa, psicólogas, ex-corredores de fórmula 1, pessoas cursando 3.º ano de Direito e tantas outras especialidades. O que chamou minha atenção naquele treinamento eliminatório foi a ética da empresa em dispensar os reprovados. Todo dia, no final do treinamento, a empresa avisava que, caso o candidato chegasse a casa e encontrasse um telegrama, não deveria comparecer no dia seguinte para o treinamento. No entanto, certa manhã, antes do início do treinamento, Átila, um dos instrutores, com sua voz preguiçosa de mineiro, apontou o dedo pra mim e falou: - Você. Levante. Dando uma que não era comigo, olhei para os lados como se procurasse a pessoa que ele apontava. Percebi que o aborreci. - É você mesmo, Sr. Edson. Fazendo uma cara de espanto, perguntei: - Por que eu? Tem tanta gente mais interessante nesta sala. Sem mostrar nenhuma emoção, perguntou-me: - Se ao chegar a sua casa, o senhor encontrar um telegrama agradecendo sua participação, qual será sua reação? Todos aguardavam minha resposta. Naquele momento senti que em minhas mãos fora colocada a chave que abriria as portas daquela

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empresa. Até então, não haviam feito esta pergunta a ninguém, simplesmente dispensavam os que não preenchiam os requisitos necessários, através de telegramas. Diante da oportunidade surgida, senti-me privilegiado. - Fique tranquilo, senhor, amanhã estarei aqui, o carteiro não há de levar nenhum telegrama na minha casa. Ainda sério, o instrutor perguntou: - Como você pode ter tanta certeza de que não encontrará um telegrama ao chegar a sua casa? Naquele instante dei a resposta que abriria as portas da DM Associada. - Claro que não encontrarei. Ontem antes de chegar a minha casa, passei na borracheira, apanhei umas borrachas de câmara de ar, fiz vários estilingues para meus filhos e ordenei: “Se vocês virem o carteiro se aproximando de nossa casa, pedrada nele”. Pensei que o prédio viria abaixo com tanto riso, contagiou até o instrutor. Trabalhar na DM Associada vendendo purificador de água Europa, profissionalmente foi de um valor inestimável. Agradeço a Deus por ter me dado condições e sabedoria por esta oportunidade. Depois que saí da empresa, nasceu o desejo de vender pastel. Todavia, o valor de uma barraca de pastel era de duzentos e quarenta reais, soma difícil de poupar. Mas Deus tomou um caminho e acabei ganhando algumas peças de ferro do dono de uma oficina mecânica, na qual eu prestei serviço. Com este material, confeccionei minha primeira barraca de pastel na oficina de refrigeração de um conhecido e fui vender pastel por Várzea Paulista. Houve progresso rápido com o negócio da barraca de pastel. Em pouco tempo, tinha mais duas barracas em pontos estratégicos

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vendendo o salgado. Ao confeccionar a terceira barraca, despertei interesse em futuros pasteleiros pela perfeição alcançada na industrialização das barracas. Logo, o dono da oficina sugeriu industrializarmos barracas de pastel em sociedade e vendermos no mercado. Vislumbrei um escape para minha situação. Em companhia do meu sócio e mais uma pessoa amiga, nasceu uma empresa de artefatos de ferros. Resolvemos prestar uma homenagem às esposas, usamos as primeiras letras dos prenomes delas para criar o nome daquela pequena metalúrgica. Assim nasceu “MALURO”. Com um porém, meu nome não constava na razão social da empresa, tínhamos um contrato verbal de cavalheiros. Depositava nesta pequena empresa a esperança de resgatar minha honra. Com alegria, fui vender os produtos que eram industrializados. Em pouco tempo, já estávamos fabricando trailer, e com projetos de industrializarmos pequenas carretas-reboques para carros. Todavia, impulsionado por um desejo espiritual, desliguei-me da sociedade e mudei, com minha família, para a cidade de Sobral, no estado do Ceará, em missão de evangelização. Crendo que Deus faria grandes milagres nesta missão, pois era testemunha viva do operar de Deus. Conhecia o seu poder, já havia recebido milagres iguais a estes que relatarei a seguir: No ano de 1985, devido a um parto complicado de minha cunhada, fui convidado a doar sangue ao Hospital Universitário da Cidade de São Paulo. No entanto, o que seria uma rotina tornou-se um pesadelo. Por profissionalismo, o hospital normalmente examina todo o sangue coletado para que esse não seja um agente transmissor de doenças infecciosas. O meu sangue estava contaminado, foi aí que descobri que eu

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tinha o Mal de Chagas. Foram seis anos de tormento, e toda a sorte de exames que tive de fazer: na Medicina Tropical, na Faculdade de Medicina do Hospital das Clínicas, no Instituto Adolfo Lutz, no Instituto Dante Pazzanezzi. Praticamente quase todo dia, acontecia alguma complicação provocada pela enfermidade. Quando eu comia carne de porco, por exemplo, apareciam umas bolhas de água espalhadas pelo corpo que causavam coceiras terríveis e, ao coçálas, estouravam, e saía da bolha água, que minava com um pouco de sangue; depois, por si só, a pele secava. No ano de 1991, por grande misericórdia, já servindo a Deus, uma bolha estourou no meu pé esquerdo, bem na lateral do tornozelo. O normal seria secar em um ou dois dias, mas não aconteceu. O pé foi inchando, fui recorrendo à medicina sem grandes resultados e a situação continuou agravando. Meu pé ficou parecendo um abacate maduro, cheio de rachaduras. Estava terrível aquela situação. Passei praticamente quase a semana inteira à base de injeções de Benzetacil, mas o problema continuava e eu notava que agravava dia após dia, pois a medicação não fazia regredir a enfermidade no meu pé. Os familiares aconselhavam que eu fosse ao médico. Porém eu me recusava a ir. Mesmo esperando por um milagre naquele momento, e querendo acreditar profundamente nisso, diria até que eu possuía um fervor mediano para tal, sentia-me como se fizesse parte da lista dos homens de pouca fé, porque a recusa em buscar socorro na medicina era muito mais pelo pavor de ter que amputá-lo do que pela confiança absoluta e cega que eu deveria ter em Deus. Esta ideia me causava um medo terrível. Um dia, saindo do comércio de um irmão, quase sem poder andar direito, com aquela perna inchada, peguei uma carona com um outro irmão. No trajeto, ele me intimou que eu fosse em busca da medicina, alegando que a mesma havia sido deixada na

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Terra por Deus, para benefício do homem. Embora eu já soubesse disso, o que ele não sabia era que minha recusa não estava amparada na fé, e que meu medo era de sofrer uma amputação. E a pressão continuava de todos os lados. Chegando a casa, tinha que passar pelo quintal da minha mãe, que cobrou minha ida ao médico. Entrando em casa, minha esposa imediatamente me pediu para que eu fosse ao médico. Crente novo, poucos meses que havia sido batizado, ainda sem saber o que poderia ou deveria pedir ao Pai, nosso Deus. Fui ao quarto, coloquei a Bíblia sobre a cama, dobrei meus joelhos em terra e, ali buscando a comunhão com os céus, pedi ao pai de toda a Glória que, de algum modo, me respondesse se eu deveria ir ao médico ou se deveria aguardar na providência do Alto. Pedi ainda que, ao abrir e ler a Bíblia, que Ele me fizesse saber a Sua vontade. E ao abri-la, Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, testificou e é testemunha dessa obra. A palavra veio do livro de Isaías, no Capítulo 38. Deus sabia que eu não tinha – como ainda não me julgo ter – um conhecimento que fosse suficiente para ter capacidade de entendimento da Bíblia Sagrada. Iniciei a leitura e, enquanto lia os primeiros versículos, ao chegar ao trecho em que a morte de Ezequias é decretada, isso foi me causando uma certa angústia, mas Deus me deu forças para continuar lendo e, à medida que eu prosseguia a leitura, fui recobrando o ânimo. Quando cheguei ao versículo 21, onde Isaías disse: “tome uma pasta de figo, e ponha como emplasto sobre a chaga; e sarará”, percebi que só Deus mesmo para fazer uma obra dessa: colocar fé no coração para libertar o homem. Ao ler essas palavras de Isaías, interrompi afobadamente a oração e me levantei, pois estava lendo a Bíblia ajoelhado. É possível que eu nem tenha encerrado a oração, não me recordo se o fiz. Aos gritos fervorosos, chamei minha esposa e mostrei a ela o que estava escrito, enquanto dizia:

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folha de figo, folha de figo... Meus filhos foram correndo à casa do irmão Israel e trouxeram as folhas de figo. Como não havia uma receita para fazer aquele emplastro, guiada por Deus, minha esposa ferveu aquelas folhas e, em seguida, colocou-as sobre a ferida no meu pé. A partir daquele instante, operou-se uma obra de Deus em minha vida, e até o dia de hoje, nunca mais aquela enfermidade voltou a se manifestar. Alicerçado nesta fé e crendo que na minha permanência naquela cidade haveria de contemplar outras maravilhas operadas por Deus, e por Ele vivenciei outras. Para obter o nosso sustento, vendíamos refeições nas feiras e nos festejos que eram realizados de tempos em tempos nas cidades da região. Um dia, convidei um irmão para participar comigo de um festejo na cidade de Parazinho. Lá eu venderia refeições para os camelôs e ele comercializaria balas e bombons. Este irmão, um jovem na época, hoje está casado e é caseiro da igreja de Sobral, trabalhava vendendo doces numa banca que ele possuía perto de um colégio. Quando havia os festejos, ele aproveitava para arrecadar um pouco mais, pois nessas épocas, geralmente, as vendas dobravam. Por ser muito conhecido entre os fornecedores, os quais lhe confiavam as mercadorias em consignação, para que ele prestasse contas só ao final dos eventos que, em geral, duravam até quinze dias. E neste festejo de Parazinho não foi diferente. Levou a mercadoria para um acerto no retorno. Porém Deus, para mostrar o Seu poder, permitiu que ele esquecesse a caixa com aproximadamente 70% do produto que havia levado à cidade de Parazinho. Ao voltar para Sobral e, enquanto estávamos descarregando o carro, notamos que a caixa dos bombons do irmão Joãozinho não estava entre as mercadorias. Isto nos trouxe grande tribulação. Não tínhamos nada a fazer, pois sair de Sobral e voltar a Parazinho, para ver se encontrava a caixa

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de bombons era uma longa jornada, mais de cem quilômetros e, mesmo que voltássemos, os garotos que ficavam perambulando por ali após o término da feira, por certo, já teriam devorado aquelas guloseimas. Contudo, Deus colocou paz em nossos corações. Passaram muitos dias até a data do festejo mais esperado da região: a Festa de Santana do Acaraú, cidade que dista 50 km de Sobral e, aproximadamente, uns 110 km de Parazinho. No primeiro dia da festa, eu andava acompanhado do irmão por entre as barracas dos camelôs, para um reconhecimento e para ter a noção de quantas refeições deveriam fazer para atender à demanda. De repente, encontramos uma senhora com a qual tínhamos feito amizade no festejo anterior na cidade de Parazinho. Como todo camelô que se preza, o assunto em pauta era justamente sobre o festejo anterior, e ela queria saber se eu tinha “acertado a burra”, expressão usada para saber se havia tido lucro. Confirmei que haviam sido boas as vendas, porém disse a ela que eu estava triste, porque o meu irmão ali presente teria que trabalhar em dois ou três festejos para pagar o prejuízo, por ter esquecido a sua mercadoria lá em Parazinho. Estava eu justamente falando da situação do irmão quando a senhora disse: - A caixa de bombons está lá em casa. A senhora explicou que viu uns garotos numa algazarra em cima de uma caixa. Foi ver o que era e, percebendo o que continha, tirou da mão deles. Quando abriu a caixa por completo, viu um livro do Novo Testamento e pensou: “Algum filho de Deus perdeu isto”. Fechando a caixa, levou para sua casa e guardou-a. No dia seguinte, a senhora devolveu a mercadoria ao irmão, e Deus foi glorificado mais uma vez no meio do seu povo. Para algumas pessoas, pode ser coincidência, eu não entendo

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desta forma, até por experiência igual ao fato que será exposto a seguir. A obra de evangelização é cheia de mistério, não se escolhe a quem a Palavra de Deus deve ser pregada, Deus cria caminhos ímpares para que o evangelho de Jesus Cristo seja difundido entre as pessoas que Ele deseja... Estava indo a Juazeiro do Norte, com um irmão de Guaraciaba do Norte, uma cidade localizada na Serra Grande, que faz divisa do estado do Ceará com o estado do Piauí, para comprar sandálias para comercializarmos nas feiras. Estávamos perto de Nova Russa, uma cidadezinha bem no coração do cerrado cearense, e meu companheiro de viagem estava de motorista no momento em que nos deparamos com várias cabeças de gado paradas no meio da pista. Na ânsia de se livrar daquele imprevisto, por não conhecer bem o veículo que dirigia, freou bruscamente o carro. Acontece que só havia freio na roda dianteira do lado esquerdo. Quando sentiu que perdia o controle do carro, tirou o pé do freio e, da posição em que o veículo estava, fomos arremessados. Não posso precisar, mas creio que descemos uns trinta metros ribanceira abaixo. Por experiência, sabia que o carro numa situação dessas poderia explodir. A porta do meu lado não abria. Consultei o companheiro de viagem a respeito da porta do seu lado e ele, meio choroso, estava demorando a agir, mas quando avisei do perigo que estávamos correndo, pois o tanque do carro estava cheio e uma pequena faísca nos mandaria para eternidade, foi o primeiro a chegar lá em cima. Como nada poderia ser feito naquele momento, o irmão pegou uma carona indo a Nova Russas em busca de socorro e eu fiquei ali, naquele deserto, onde demorava horas para passar um carro. Estava eu sentado no meio da pista, envolto em meio à escuridão, quando ouvi vozes. Era uma pequena multidão que se aproximava. Umas vinte pessoas aproximadamente. Tinham visto o acidente do

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alto da montanha onde residiam e ouviram o barulho da freada brusca do veículo. Resolveram descer o barranco para verificar o acontecido. Estavam admirados por me encontrar vivo. Um deles afirmou: - Homem, Deus foi quem o guardou. Essa frase tocou o meu entendimento e imediatamente professeilhe sobre a graça do Filho de Deus: - Homem, o senhor disse que foi Deus quem me guardou... Realmente, o senhor está certo. E, embora eu não enxergasse todas as pessoas que estavam ali presentes, devido à tamanha escuridão, continuei a professar sobre o Evangelho: - Agora, olhem pra cima e vejam quantas estrelas há no céu. Elas serão testemunhas do que vocês ouvirão neste momento. O meu Deus achou graça em me dar provas do Seu Amor. E, através de mim, provar o seu amor a outros. Deus me tirou de São Paulo, do meio da minha parentela, para anunciar as boas novas de salvação neste Nordeste, e a vocês hoje chegou a Palavra da Verdade. Este gado não estava aqui no meio da pista por um mero acaso, esse foi o meio que Deus usou para encontrá-los... Naquele lugar, falei-lhes sobre a graça do filho do Deus vivo. Eu percebia que eles estavam pasmos, maravilhados, e creio que aceitando de bom grado aquelas palavras que Deus expressava através de minha boca, pois me ouviram por mais de vinte minutos, até que alguém manifestou o desejo de ir embora e foram saindo um a um. Disseram um boa-noite e partiram. Pouco tempo depois, o irmão retornou de táxi. Pernoitamos em uma pensão. No dia seguinte, com o auxílio da prefeitura local, tiramos o carro do buraco em que havíamos caído. Estava sem nenhum vidro quebrado. Após alguns pequenos reparos, prosseguimos nossa viagem.

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Entre tantas lições, narrarei a de um jagunço de nome Marcio, nome fictício, homem perigoso e temido. Nasceu uma amizade entre nós e sempre que aparecia uma oportunidade falava a ele do santo evangelho, lembrando-lhe sempre de que o homem um dia teria que dar conta de seus feitos sobre a Terra. Falava também do prazer que eu tinha em ser um crente em Jesus Cristo. Um dia Marcio descobriu o que eu já sabia, havia um grupo de pessoas interessadas em me dar uma surra. Chegando a minha casa com seu jeito nordestino de falar, disse: - Irmão Edson, eu soube, macho, que tem uns cabras doidos pra pôr a mão em ti. Eu vim aqui para irmos lá. Quero ver se eles farão alguma coisa com você na minha frente. Olhei para Marcio, sorrindo. - Marcio, se fosse para resolver na pancada, na peixeira, na bala, você acredita que Deus me tiraria de São Paulo com tanto macho nesta localidade? Não Marcio, minha missão neste lugar é de paz, vim para pregar o amor fraternal, mostrar para o homem que existe uma esperança após a morte. Pasmo, sem querer acreditar no que ouvia, disse: - Se for para ser crente desse jeito, eu nunca vou ser. - Preste bem atenção no que vou dizer, Marcio. Eu nunca o chamei para ser crente, apenas dei o testemunho da Graça do filho de Deus. Quanto a ser ou não ser crente, não está nem em mim nem em você. O dom de crer vem de Deus, e bem-aventurado aquele que alcançar esta Graça. Quando senti por parte de Deus que deveríamos retornar para o nosso Estado, presenciei algo maravilhoso com Marcio. Não poderia imaginar que aquele homem duro havia mudado. O que presenciei me deu a certeza de que não existe coração duro para Deus. Não querendo

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acreditar no que ouvia, Marcio fez o possível para impedir de virmos embora. Ao perceber que não conseguiria demover-me de meu intento, como conversávamos dentro do carro, saiu batendo a porta com violência e se pôs a caminhar. - Volte Marcio, preciso despedir-me de você. Sem se virar, respondeu: - Vai embora, macho... Sem arredar o pé de onde estava, respondi: - Não irei sem me despedir de você. Com a voz entrecortada pela emoção, respondeu: - Vai embora, macho, que até hoje nenhum macho me viu chorando. Sem conter a emoção, com os olhos lacrimejando, respondi: - Se você olhar para trás, verás outro macho chorando. Naquele momento vi que valeu a pena ter ido ao Ceará falar da grandeza de Deus, pois contemplei nas lágrimas de um homem o operar do Senhor que faz tremer o coração do valente. - Droga, macho, o que as pessoas vão pensar de mim, abraçado com um macho na rua, chorando. Fica uma lição. Quando o amor fraternal entre duas pessoas do mesmo sexo, ou de sexos opostos, aparece em sua plenitude, corre-se o risco de servir de escárnio para os olhos maliciosos, que vislumbram sexo no menor gesto e vivem

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transpirando desejos carnais. Para essas pessoas não chegou a frase célebre pregada por Jesus Cristo: “Amai o seu próximo como a si mesmo”. Após termos passado seis meses naquele Estado, lembro-me de que era final de setembro de 1996 quando chegamos a São Paulo. Escolhemos a cidade de Campo Limpo Paulista para morar, no distrito de Botujuru, local em que aprendi o doce sabor do amargo. Sem casa e sem móveis, minha filha nos acolheu em sua casa. Fomos morar de favor e dormir no chão. Como havia saído de um Estado com temperatura média de 35 graus, encontrei o clima de São Paulo com a temperatura naquele ano em torno de 16 graus. Quase peguei pneumonia. Pouco tempo após minha chegada, Deus foi tomando caminho da minha vida. No ano de 1997, fui convidado por uma pessoa conhecida para trabalhar na Companhia Paulista de Turismo. Nesta empresa montamos o projeto “oktobeerfest 97”. O cronograma era transportarmos 72 grupos. Havia a certeza de conquistar aquela meta, receber uma ótima comissão e saldar as contas da Solemar. Mesmo assim, desejoso de sair o mais rápido possível do embaraço deixado na cidade de Jaú, solicitei ajuda financeira para resolver pendências da Solemar, falando a verdade sobre a situação em que se encontrava a empresa no momento. Somente o banco Bradesco respondeu a um homem que se

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encontrava humilhado ao pó da terra. Embora naquela ocasião fosse impossível algum empréstimo bancário, a casa comercial deixou um caminho de esperança. Por falta de ética, alguém na empresa violou a correspondência recebida do Banco. Diante disto, fez-se necessário falar sobre a Solemar e o acontecido na cidade de Jaú. Em seguida, perdi o emprego e com ele a chance de resgatar minha honra.

É comum ouvir as pessoas dizerem: Não desejo isto nem para o pior inimigo, como se existissem bons inimigos. Este é um ditado de tolo, se transferir para outra pessoa nossa luta. Pode ser que nessa transferência, damos a outros, a oportunidade de tirar proveito da situação, transformando-a em lição, e consiga descobrir o caminho percorrido pela Sabedoria. Portanto, quando sobrevier alguma dificuldade, saiba que a Sabedoria está bem próxima de você, tente encontrá-la em meio à tempestade, e será vitorioso.

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III Capítulo Sempre haverá no horizonte um ponto indefinido aguçando nossa curiosidade.

Ao sair da Companhia Paulista de Turismo, aceitei o convite de uma pessoa conhecida para gerenciar uma agência de turismo aqui mesmo em Campo Limpo Paulista, na qual criei o programa “Troféu Estrela Vida”, homenagem dos filhos a seus pais. Saindo desta agência, fiquei meio à deriva até que encontrei um amigo. E aqui há um dado interessante. “Quando alguém diz, que tem alguma coisa boa pra nós, não devemos acreditar, pois se fosse bom mesmo, guardava pra si”. - Edson, que bom encontrá-lo, meu caro amigo. Tenho algo excelente pra você. - Que bom, e posso saber de que se trata? - Sim, claro. Olha, é o seu perfil! Quando falei de você, se maravilharam.. - Mas, do que se trata realmente? Com seu jeito intelectual de colocar as palavras, meu amigo falou do novo sistema de trabalho que estava surgindo com força no Brasil, o de “sócio-cooperado”. Enfim, pintou o pavão tão bonito conseguindo fazer-me acreditar também. Tornei-me sócio da tal cooperativa médica e fui trabalhar na função de gestor numa empresa de remoção hospitalar. Pensava estar apto para enfrentar qualquer situação na vida, mas meu engano foi justamente a minha forma de pensar. Encontrei dependentes químicos, opções sexuais e sentimentos exóticos que, ao sair daquele ambiente, senti como se tivesse no vale 60


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da sombra da morte. Agradeço a Deus por ter me guardado naquele serviço. Quanto ao amigo, encontrei-o cabisbaixo. O novo sistema, que ele tanto acreditou, foi sua ruína, teve que dispor de seus bens para arcar com encargos trabalhistas movidos pelos sócio-cooperados. Até agosto de 1999, ainda conseguia algum trabalho fixo de motorista. Depois desta data, minha carteira de habilitação vencia e não podia renová-la. Meu CPF estava cancelado em virtude da falência da Solemar e não tinha como regularizar sem que mexesse com embaraço passado. A situação estava se complicando cada vez mais. No final de ano de 2000, fui trabalhar de garçom no Buffet Ki Festa, na cidade de Jundiaí. Senti mais uma vez o comichão que ataca as pessoas inquietas. Se minha avó paterna, Antonia Laureano, tratada carinhosamente pelos netos de “Vótotonha”, fosse viva, diria: “- Edinho é um moleque muito arteiro”. Não foi diferente dessa vez. Lá estava eu esquadrinhando o que poderia fazer dentro daquele Buffet, para deixar registrado que havia passado por ali. Neste ínterim, surgiu a ideia de elaborar uma revista direcionada a noivas com a marca do Buffet. Após ter o projeto pronto, procurei o diretor da empresa. - Senhor, tenho uma excelente ideia para ser aplicada... No entanto, o diretor nem esperou que eu terminasse de falar a respeito de minha ideia para retrucar grotescamente: - França, você está aqui para carregar bandeja e não para ter ideias.

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Diante daquela truculência “Deit-nalfa”, senti vontade de rir e passei a conversar com meus botões. “Como pode uma empresa com esta estrutura, ser comandada por este capataz nocivo a ideias novas?” “Vou mostrá-lo que o velho França é um lutador nato. Se o procurei, foi para honrá-lo como meu superior”. - Você entendeu, França, só para carregar bandeja. - Entendi, senhor, só para carregar bandeja. Com licença. Alguns dias depois, montei um boneco de uma revista e dei na mão da patroa. Olhando com cara de espanto, ela disse: - O que é isto, França? - Isto, senhora, é o boneco de uma revista customizada, que este Buffet poderá produzir – disse entusiasmado. - Menino, quem fez isto? – perguntou, admirada. Conservando o sorriso nos lábios, falei: - Eu, senhora. Admirada e, ao mesmo tempo em dúvida, exclamou: - Você, França? Geeente é inacreditável, você já mostrou para o Camargo? Olhando a patroa, sabia que havia ganhado o primeiro round, mas sabia também que para o sucesso daquela revista não poderia ser um agente de divisão. Sendo assim, não mencionei o que o diretor havia dito. Não foi preciso dizer, ela mesma se encarregou de falar para o esposo. Um tempo

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depois, passei a cuidar de toda a logística daquela revista. Com um diferencial, fez necessário administrar o ciume de um trio de pessoas, desejosa do fracasso daquele trabalho. Onde passava convidando o empresário a participar do projeto, vinha uma pessoa atrás desfazendo aquele convite. Usavam a favor deles a posição administrativa dentro da empresa, e com uma discriminação bestial, mostravam minha posição de garçom. Só que eles não sabiam que dentro do uniforme de garçom estava um lutador nato que não desiste por nada neste mundo, e, que nunca irá desistir - pois, tem uma fé muito grande em Deus, e por Ele, tem alcançado grandes vitórias. Não foi diferente desta vez, assim na véspera do lançamento da revista que aconteceu no Buffet Ki Festa Passarinho, durante um glamoroso jantar. Aquele diretor chegando onde me encontrava conversando com um empresário que fazia parte do projeto - todo choroso, não escondendo o ciúme por aquela realização disse: - Quando fui contratado, fiz um folder do Buffet, hoje com mania de grandeza, fizeram esta “rivistinha, (sic)”. Naquele momento, o que tinha que somar já havia somado, portanto não deixaria passar aquela oportunidade de colocá-lo no lugar que ele merecia. Pensando desta forma, sem mágoa, ou qualquer ressentimento, apenas me divertindo disse-lhe: - Senhor, se Santos Dumont pensasse como você, e apregoasse como está apregoando, por certo ainda estaríamos atravessando o Atlântico de 14 Bis. Posso dizer que fui um vitorioso com a edição de vinte mil revistas, que foram encartadas nos jornais Estado e Folha de S. Paulo e distribuídas em treze cidades circunvizinhas. E ano após ano ela fica

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mais bonita, parece um lindo Boeing voando sobre a cabeça dos casais apaixonados. E pensar que tudo começou com o protótipo de um 14 Bis. Confesso que é maravilhoso saber que a revista Ki-Festa Noiva foi o início da publicação de revista de noivas daquele Buffet, a “Revista Ki- Festa Noiva Magazine”. Da mesma forma que abriu caminho para que outras empresas tirassem proveito da ideia, pois até então, em Jundiaí, era publicado apenas um suplemento por um jornal local. Ao passo que hoje, este mesmo jornal produz em grande “Estilo” uma bela revista com este fim. Portanto, mesmo que procure ignorar, a primeira revista de noiva da cidade foi editada por um garçom e consta meu nome como coordenador. Fica uma lição: Em qualquer ambiente participativo, o colaborador tem o direito de ser ouvido. Ouvir não significa assumir compromisso, porém é ouvindo o colaborador que se descobrem novas ideias e também o valorizamos. Em todas as empresas sempre haverá os operários anônimos, porém se abrirmos as portas para o talento, é possível que encontremos Thomas “Edison” perdido entre os profissionais. E, quando isso acontece, uma nova luz brilha entre as demais. Caso aquele diretor tivesse me ouvido, por certo teríamos somado as ideias e poderíamos criar novos feitos em prol da coletividade. Não me ouvindo, ficou fora do pioneirismo. Depois do lançamento daquela revista, senti que era o momento de sair daquele Buffet. Após me desligar daquele emprego, passei a esquadrinhar tudo em minha volta, procurando uma oportunidade de mostrar meu potencial, a qual surgiu quando fui à Alvorada Center comprar pão, um hipermercado da rede Alvorada. Assim que entrei, percebi uma morosidade dos funcionários do caixa, o que despertou minha atenção, pois demorei mais que o necessário naquele local. O

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quadro presenciado revelou-me que o público presente não seria o suficiente para manter aquela loja aberta por muito tempo. A loja teria que criar algo novo para atrair novos clientes. Era fácil perceber que os empresários pecaram ao escolher o ponto para instalar a loja. Ao fugir do corpo a corpo com o concorrente, instalaram-na num local de difícil acesso ao consumidor que não possuía carro. Talvez se optassem pela máxima: que é mais fácil ganhar um cliente em cima da falha da concorrência do que formar nova clientela, teriam optado por um local mais centralizado onde o fluxo de pedestre com certeza seria maior. Pois bem, ali estava a chance de ser reconhecido. Em pouco tempo criei algo que poderia ser a solução para a empresa e fui ao desafio. Escrevi uma carta colocando-me à disposição do grupo e enviei a D. Dolores, sócia-proprietária da rede de supermercado Alvorada. Pouco tempo depois de ter enviado a carta, recebi um telegrama agendando um horário. No dia agendado, fui atendido pela Érika, filha da D. Dolores, que logo me reconheceu do coquetel de abertura do Alvorada Center. Eu era funcionário do Buffet que promoveu a recepção do evento. Infelizmente o fato da filha da dona do supermercado ter me reconhecido, não trouxe resultado positivo. Discutir o futuro da empresa com um ex-garçom não causa uma boa impressão. Descobri neste dia que “A arrogância é uma péssima conselheira, um de seus piores conselhos: é a de subestimar a inteligência alheia”. Aquilo que previa aconteceu alguns meses depois, o hipermercado

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Alvorada Center quebrou, arrastando todo o grupo. “Confesso não me alegrei com esta quebra, a queda de uma empresa é prejudicial não apenas ao empresário, mas a todo um sistema que gravita em torno de sua marca”. Continuei minha jornada em busca de um trabalho rentável, foi quando um conhecido que sabia do trabalho desenvolvido por mim, na edição da revista Ki-Festa Noiva, me convidou para trabalhar numa franquia que vendiam processador de água na cidade de Jundiaí. Negócio este, segundo ele, da China, ganhava-se dinheiro como água. Pois bem, ao assistir algumas palestras, “não cabe aqui nenhuma consideração sobre o conteúdo da referida palestra” percebi que não era meu mundo, embora eles tentassem de todas as formas me seduzirem com ofertas superiores as que ofereciam aos demais, mesmo assim, por questão pessoal não ingressei naquela empresa. Não me refiro o lado comercial, mesmo porque sou vendedor nato, além de ter cursado Universidade de Vendas e feito parte do corpo de vendas do Grupo DM. Associados, os mesmos que vendem purificadores de água Europa. Cabendo aqui um comentário a respeito deste grupo empresarial, desconheço se há no mercado outra empresa que prepare profissionais de vendas tão bem quanto eles. Novamente na estaca zero, às vezes mexendo no arquivo morto, deparava com algo que me trazia em frente à Solemar Turismo. Pronto, aquele desejo de ir a Jaú vitorioso revivia, mas não via saída quantas noites sonhando que estava fazendo check-inn dos alunos no aeroporto de Cumbica, vendo-os embarcar com destino a algum ponto turístico nordestino, tudo pago pela Solemar que assim saldaria aquela pendência. Mas quando amanhecia me via distante de realizar o tão almejado

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sonho. Porém, a esperança é o maior patrimônio de um homem, e quando esta esperança está alicerçada na fé cristã, o impossível não existe. Diante disso, mesmo não vendo que caminho tomar, mas sempre acreditando que chegará o dia de bradar o grito de vitória, guardo com carinho os contratos de todos os clientes da Solemar, pois tenho fé que eles ainda irão viajar. “E viajaram” Certa vez alguém me disse que a necessidade faz o artista, provei que é a pura verdade. Os frutos de maracujá e os chuchus das parreiras existentes no Recanto dos Velhos França transformaram-se em dinheiro. As plantas ornamentais que existiam na propriedade começaram a servir de renda provisória para a minha família. Lembro-me de que certa vez, de posse de um tambor desses de cem litros de armazenar suco concentrado, forjei a fogo aqui mesmo no quintal um belo vaso para minha esposa. Depois de pronto, coloquei como caçamba sobre a armação de um carrinho de pedreiro. Ao receber aquele presente, Mara plantou um pé de coqueirinho que, em pouco tempo sob seus cuidados, transformou-se numa linda mini-palmeira. Num final de semana, não tínhamos plantas no ponto de venda, mas tínhamos necessidade dentro de casa. Esquadrinhei o que poderia vender. Quando vi o vaso que havia feito para minha esposa, na hora passei a ver pendurada nas folhas do coqueiro notas de cinco, dez e vinte reais. Por um momento tentei desviar meus olhos daquele vaso, não seria justo fazer aquilo com Mara, mas estava tão lindo no canto da sala, ainda mais com aqueles papéis-moeda que imaginava estar vendo. Como falar pra ela que pretendia vender o vaso que havia lhe dado de presente? E aí veio a surpresa na fala da minha esposa.

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- Amor, por que você não vende este vaso de coqueirinho? Não esperei que falasse duas vezes. Mais que de pressa, antes que ela mudasse de ideia, fui com ele pra rua e Alberto, da imobiliária Barros, aqui mesmo do bairro, comprou o vaso para dar de presente à esposa Terezinha, pagando R$ 45,00. Todavia, sentia falta de uma renda fixa, e às vezes via e lia cartaz com anúncio de vagas para motorista de ônibus nos coletivos do Rápido Luxo, uma empresa circular regional. Neste momento uma dor invadia meu ser, sabia ser apto para desempenhar aquela função. Porém, a bancarrota de Solemar, trouxe-me prejuízos impares, entre eles, tirando-me o direito de pleitear um trabalho registrado. Respeitando os que convivem comigo no dia a dia, por quem tenho grande consideração, e também sou considerado. Todavia entre este há os que me julgam; “Vagabundo” por não ter um trabalho com registro em carteira. Percebo isto nos olhos, entre estes, há os mais ousados como neste caso, quando encontrei um jovem, deveria ter na época vinte anos, assim que se aproximou usando de deboche disse-me: - Você não quer nada mesmo com a vida? Só andando à-toa pela rua! Naquele momento, olhei para aquele menino que tinha idade para ser meu filho, não disse nada apenas sorri e, na comunhão conversei com Deus. Pai, ele errou três vezes: Primeiro erro foi o de não respeitar minha idade. Tenho a idade de ser seu pai. O segundo, eu desejo muito dessa vida, e tenho lutado dia e noite para permanecer de pé. O terceiro não estou andando à-toa pelas ruas, estou indo a

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oficina de serralheria de irmão Eliezer, tomar uma maquina de solda emprestada, pois pretendo fazer um carrinho para vender doce. Portanto não sou vagabundo como ele insinuou. Faço claro que não me aborreci com aquele comentário, alias! Não tinha tempo para ficar chorando pelos cantos, mesmo porque, nestas ocasiões as pancadas deixam de doer. Pelo contrario, servem de alavanca para continuar lutando.

Se o homem soubesse onde o vento repousa, ele guardaria as portas de sua boca, pois a mesma brisa que ora refresca sua pele, um dia pode se transformar em tempestade.

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IV Capítulo A nudez da menina dos olhos. Pensava que havia combatido todos os tipos de guerra. Porém, no ano de 2003, levantou-se um gigante desconhecido diante de mim. Senti minhas pernas tremerem ao ser avisado por minha mãe da prisão do meu filho Junior. Enquanto descia a Rua Avaré em busca de um telefone público, de onde pretendia telefonar para delegacia de polícia para saber o porquê daquela prisão, em meus ouvidos ecoava a voz de minha mãe: “- O Junior está preso”. Tantas indagações passaram pela minha cabeça em fração de segundos, e não tive respostas para nenhuma daquelas perguntas. Fiz um retrospecto da educação dada a meu filho para saber onde tinha errado. Como numa projeção, reportei-me ao passado. Boas lembranças fluíram em minha mente e, lançando-as sobre os fatos, recordando um tempo de paz, que hoje não existia mais. Dezembro de 1997. Encontrava-me deitado enquanto a mãe (forma carinhosa de tratar minha esposa) ainda preparava o jantar, pois à meia-noite eu conduziria uma excursão à Praia Grande. Estava cochilando quando meu filho entrou no quarto e falou: – Pai, podemos conversar? – Claro, filho. – O pai me acha responsável, quero dizer, um homem capaz? – Claro, filho, que você é responsável, mas por que esta pergunta? – Então eu posso assumir um compromisso sério com uma moça, pra casar? Por alguns segundos, fiquei olhando aquele garoto tentando ser 70


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um homem... Eu o conhecia e sabia dos seus limites. Embora ele tenha atravessado o Brasil em minha companhia, era um menino ingênuo, que não sabia a diferença entre o leite Ninho e a Maisena. Uma criança. Tinha feito 16 anos em junho passado... Enfim, eu precisava dar a ele uma resposta de homem. – Filho, posso fazer uma pergunta antes? – Sim, pai. – Eu, esta noite, pediria a você para que fosse, em meu lugar, na excursão, e confiaria o ônibus na sua mão. Porém, quando chegasse a Cajamar, vamos supor que o policial rodoviário o parasse. Após verificar sua documentação, o que ele diria a você? – Ah! Pai, pai, ah! Pai... – Vamos filho, me responda... O que ele diria a você? – Tá bom, pai, tá bom... Ele mandaria chamar o senhor. – E agora? Ainda preciso responder à sua pergunta? – Não, senhor. – Bem, Junior, creio que você já me compreendeu, filho. - Agora, diga ao pai, quem é ela? Quando meu filho mencionou o nome da amada, senti um aperto no coração. Eu já a conhecia da vez em que veio nos visitar com um casal de irmãos e, confesso, não gostei do que li em seus olhos. A vida nos ensinou a ler o que está escondido atrás de uma retina e eu pressenti, ao ouvir seu nome pronunciado por meu filho, que uma árdua batalha teria de enfrentar, pois o que eu havia brevemente conhecido daquela figura era arte final. Como se costuma dizer no linguajar usado entre os caminhoneiros (pessoas com quem convivi trabalhando durante alguns anos), a pessoa que não era do ramo, não era um estradeiro. Querendo aplicála à criatura em questão, como alguém inapto para partilhar a estrada

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da vida com meu filho. O ano de 1998 começou bem, mas no mês de março as previsões foram se cumprindo. Quando minha filha mais velha engravidou, eu a trouxe com o marido para morar conosco durante a gestação. Passamos a curtir sua gravidez dia a dia. Era o nosso primeiro neto e o futuro mostrou ser uma neta. Ríamos à toa, tudo era felicidade. Uma filha prestes a tornar o nosso sonho realidade e, no meio desta alegria que contagiava a vizinhança, o problema eclodiu. Era um sábado, eu precisava dormir cedo, na madrugada iria a São Paulo levar algumas pessoas ao Parque Anhembi, pois participariam de uma feira. Estava eu deitado quando meu filho entrou em meu quarto e pediu: - Pai, posso ir à igreja do Jardim Paulista amanhã? - Pronto! Senti que o mal já estava começando... A dita cuja era de lá. – Não, filho, não é conveniente. Você tem a igreja aqui, então é bom continuar honrando o lugar em que moramos. Junior abaixou a cabeça, saiu do quarto e foi dormir. Eu também fiz o mesmo. No outro dia, voltando de São Paulo, passei na feira para pegar dois sacos de milho verde que havia encomendado. Minha filha estava com vontade de comer pamonha e, se era para o neto do Velho França, tinha que comprar milho com exagero para que o bebê não nascesse com cara de pamonha. Era tudo alegria, até eu perguntar à minha esposa onde estava o Junior. Meio apreensiva, minha esposa respondeu: - Foi pra Várzea. Falei a ele que não fosse, para não desobedecê-lo, mas o Junior não me ouviu... Enquanto eu transitava pela marginal que liga Campo Limpo

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Paulista ao município de Várzea Paulista fui meditando que meu filho nunca me desobedecera, nós sempre fomos amigos. Foi meu companheiro nas missões evangélicas feitas no Nordeste. “Por que ele está agindo assim agora, meu Deus?” Parei em frente à casa dela e minha previsão se confirmou... Lá estava ele. E, por me conhecer, afastou-se das outras pessoas que lá estavam e veio ao meu encontro. Ao se aproximar, disse a ele, enfaticamente: – Vim te buscar. – Pai, não vai fazer isto comigo... – Claro que vou! Você procurou isto! Agora, pegue o seu clarinete e vamos embora. Contrariado, porém me obedecendo, solicitou a ela que lhe trouxesse o clarinete. Como eu previa, naquele momento iniciaria a operação-guerra, e assim, de pronto, ela colocaria as garras à mostra. - Você vai, Junior? Não vai ficar como prometeu? Ele, cabisbaixo, entrou no carro e seguimos para casa. Claro, o clima de festa tinha acabado. A pamonha perdeu o sabor... Senti que precisava fazer algo, pois o controle da situação estava escapando das minhas mãos. No trajeto de volta a nossa casa, eu havia pensado e decidido tomar alguma atitude que contornasse o problema gerado. Decidi que iria à casa da garota e levaria comigo meu filho e minha esposa. Fomos recebidos por um homem que era o símbolo da petulância. Sem camisa e sem postura, ouviu meu pedido de desculpa e disse: – Você quer dizer que minha filha não serve para seu filho? – Me desculpe, senhor, eu não quis dizer isso. O que eu disse é que se um pirralho como o meu filho batesse na porta de minha casa

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pedindo uma filha minha em casamento, eu o expulsaria a pontapé. Tomando a palavra ele, grotesca e ironicamente, retrucou: – A educação que você teve está ultrapassada. Hoje a liberdade é geral. É outra. – Novamente me desculpe, senhor. Quando fui educado, no quintal da casa do meu pai tinha um abacateiro e seu fruto era o abacate e, se hoje eu voltar à cidade em que nasci, tenho a certeza de que o seu fruto continua sendo o abacate. Portanto, senhor, os valores morais continuam tendo o mesmo peso do passado. Fingimos uma reconciliação. Saímos daquela casa e, para o meu desgosto e de minha esposa, com a fulana ganhando o primeiro round: meu filho, infelizmente, estava autorizado a namorá-la. Com a vinda de minha neta, o júbilo voltou. Era um presente esperado há 19 anos. Finalmente eu era avô. Que maravilha! O dia 17 de abril de 1998 ficou como marco em nossa vida. Conforme havíamos agendado com o Dr. Odilon, médico que fazia o acompanhamento pré-natal de nossa filha Neide, às 7 horas eu, minha esposa e minha filha futura mamãe estávamos na sala de atendimento no Hospital Nossa Senhora do Rosário. Depois de realizar os exames de praxe, pré-parto, Dr. Odilon disse: – Avô, sua filha está bem, o bebê também. O senhor e sua esposa podem ir pra casa, a Neide já fica internada. Por volta de 16 horas, vocês telefonam pra cá, é possível que já tenhamos alguma novidade. – Ah, doutor... Hoje dispensamos todos os compromissos e, como nada temos para fazer em casa, ficaremos por aqui. E assim fizemos. No horário do almoço, meu genro nos trouxe lanche. O dia foi normal até que, por volta das 18 horas, a recepcionista do hospital chamou pelo nome do meu genro. Imaginem: cheguei primeiro que ele no balcão, perguntando:

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- Nasceu? Porém, a recepcionista não quis me dar notícias dizendo que ela só poderia dar informações ao pai. Meu genro logo se aproximou e ela disse: - Pai, nasceu, vou liberar sua entrada por 15minutos para que possa ver sua esposa... Sem compreender a atitude dela eu, ansioso, interrompi: - Mas, pelo menos, você poderia dizer o sexo da criança? Eu sou o avô! Ela, olhando com impaciência, disse: - Não posso, senhor... – Mas que besteira, dona! Assim que eu entrar, eu vou ver! – O senhor não entendeu que não poderá entrar, só o pai da criança... Nossa! Aquilo foi a gota d’água que faltava. Eu imagino a minha cara de furor, pois ela até deu um passo para trás. Respirei fundo, tentando me acalmar e, pausadamente, disse: – Dona, estou esperando há 19 anos para ser avô. Sou um homem apaixonado por minha família, acompanhei dia a dia a gestação da minha filha. Passamos o dia inteiro neste hospital e, exceto pelo piquenique e algumas fotos, não incomodamos ninguém e você, dona, vem me dizer que não vou poder entrar! Não tem quem irá me impedir! Dirigi-me ao interior do hospital e, atrás de mim, ecoaram os gritos da recepcionista: - Segurança! Segurança! Minha esposa, que se encontrava em pé próximo ao balcão da recepção, vendo a atitude da recepcionista também gritou para me alertar: - Amor, ela chamou a GM pra você!

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Aquela cena mexeu com toda a sala de espera do hospital, que naquele momento estava cheia de gente. Parecia cena de comédia de filme pastelão. Voltei ao balcão, porque aquela fulana tinha que ouvir umas boas. Chamar a guarda municipal para impedir que eu expressasse o meu amor ao meu neto? Que absurdo! Nesse instante, o guarda, que ali estava nos vendo e sabia que o dia todo estivemos ali aguardando ansiosos o nascimento de nosso neto, era desses que normalmente ficam de plantão no hospital com o objetivo de cuidar do patrimônio e impedir atos de vandalismo ou coisa parecida. Como num passe de mágica, esse guarda desapareceu dali. Acredito eu, como quem não visse acontecendo nada que requeresse a sua intervenção. Aproximei do balcão e me deparei com aquela atendente visivelmente pálida que, com uma expressão receosa, falou: - Calma, senhor, calma... Vou liberar a sua entrada. Até me espantei! De repente ela se tornou gentil e liberou a entrada para nós! Enfim, nem tentei entender a atitude que ela teve antes. O que me importava era ver de perto meu neto. Aliás, minha neta. Para agradecer por minha filha e neta terem recebido tratamento de primeiro mundo, tanto por seu médico, Dr. Odilon, quanto pelo hospital (quase todo), escrevi uma mensagem. Campo Limpo Paulista, 18 de abril de 1998. Poderia falar das flores, poderia falar das estrelas, Poderia falar até da pessoa amada. Porém, não teria a sensibilidade para sentir o perfume nas flores nem

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veria o brilho das estrelas nos céus Se não falasse dos homens e mulheres que não fazem poesia, mas ajudam a nascer um poeta. Não cuidam de flores, mas ajudam a nascer um jardineiro. E quando a pessoa amada, aquele amor particular, só nosso, que não damos e que não dividimos com ninguém, um amor além do zelo, ciumento, até egoísta quando a outros confiamos, chegamos a sentir ciúme pelo carinho e amor dispensados aos nossos. Que Deus abençoe a todos pelo amor dedicado aos pacientes... E a paciência em administrar nossas ansiedades. Nossa neta, Raissa, é prova viva do profissionalismo mesclado com amor, o qual foi dispensado à nossa filha, por todos os funcionários. Da recepção ao centro cirúrgico. Obrigado funcionários do Hospital Nossa Senhora do Rosário, de Campo Limpo Paulista. Avô e Avó Edson e Mara. O amor tem poder sobre a dor. Nem mesmo uma complicação vascular que acometeu minha filha Neide, e se transformou em trombose, tirou nossa alegria de ter conquistado o direito de fazer parte do grupo de avós corujas. Durante os dez dias que Neide passou no Hospital São Vicente de Paula, da cidade de Jundiaí, para onde havia sido transferida, nós marcamos presença diária no local. Num desses dias, precisamente 9 de maio de 1998 eu, minha esposa e nosso genro comíamos uma refeição rápida na lanchonete do Supermercado Russi e, da mesa em que estávamos, dava para ver, em frente, alguns vasos de flores expostos na floricultura que havia no próprio supermercado. Como a

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quem ama tudo é motivo para uma demonstração de afeto e carinho – e lembrando que no dia seguinte seria Dia das Mães e a Neide participaria pela primeira vez dessa data, já como mamãe, esse dom maravilhoso adquirido mesmo com a dor do parto, diante dessa lembrança de uma data memorável, a nossa dedicação teria que ser à altura que nossa filha Neide merecia. Compramos ali mesmo, no supermercado, os buquês para três gerações de mães: para minha mãe, para minha esposa, mãe da Neide, e para minha filha, a mãe de Raissa. Minha esposa substituiria minha mãe, que havia passado a noite com a Neide no hospital. No trajeto do supermercado ao saguão da portaria do hospital, eu fazia planos de como convencer o guarda a liberar a minha entrada e a do meu genro, pois naquele momento não era horário de visita normalmente preestabelecido pelo hospital. O guarda que estava de plantão naquele horário não tinha autorização para fazer a liberação porém, comovido, encaminhou-nos à assistente social, que não se conteve de ver tanto amor e dedicação e nos abriu uma exceção, admirada com tantos buquês de rosas e com o amor estampado em nossos rostos. Naquele dia, Neide teve duas visitas, em horários diferentes. E, acompanhando o buquê de rosas, entreguei à minha filha essas poucas linhas, com intenção poética, escritas às pressas, no invólucro de papel de hambúrguer que comi na lanchonete, para expressar nosso sentimento de amor por ela. Saudações, Neide! Neide, quisera ser um poeta e falar da voz do vento. Como seria fácil, Neide, se eu fosse um poeta, falaria do sussurro do rio, poderoso, a desvirginar a terra ao longo do seu leito, deixando a sua

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herança verdejante. Ah! Neide, se eu fosse um poeta, diria com palavras simples, como a amamos. Enfim, não sou poeta, sou apenas um pai que ama, porém sou um avô coruja, e um filho que ama ser filho, que chega a babar por ser avô, quase bobo! Filha, a amamos. Dos tontos, Pai e mãe, os Velhos França Voltei sozinho de Jundiaí. Minha esposa ficara no hospital, para fazer companhia à Neide, substituindo minha mãe. Durante a viagem de retorno, contrariando o quadro clínico que era desfavorável à minha filha, eu fazia planos otimistas, pois em mim morava e mora uma fé inabalável em Deus, e sabia de suas promessas, no tocante àquela enfermidade. No domingo, 10 de maio de 1998, o mundo comemorava o Dia das Mães e, quando a minha esposa chegou do hospital, no início da noite, mostrava o semblante cansado, pois havia permanecido trinta e seis horas em companhia da nossa filha. O que ela mais queria era um banho e uma cama, porém teve que adiar os seus planos para aceitar os meus. Eu havia preparado o jantar e um belo buquê de flores, que depositei sobre a nossa cama. Em volta, uma folha de papel com estes dizeres: Campo Limpo Paulista, 10 de maio de 1998. Quando te buscava na madrugada, quando o teu calor não achava.

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Vi-me só no leito de nós dois, e veio uma tristeza em minha alma por não poder estar ao seu lado, agasalhando-a e fazendo companhia na fria madrugada do hospital. No entanto, a tristeza foi substituída por um sentimento de ternura, pois eu compreendia o seu ato de amor. Absolutamente necessário, neste mundo onde o amor está em extinção, o homem invadiu o calendário e criou um dia especial, para que nós não esquecêssemos de honrar e reverenciar nossa mãe. Mara, este seu gesto de amor, tão corriqueiro, é lembrado apenas no segundo domingo do mês de maio. Mãe, sou feliz por ser mãe todos os dias em nossas vidas. Te amo, Pai. P.S.: Ah! Perdoe se a casa não está do seu gosto. É que a mãe teve que dormir fora. Poucos dias depois, nossa filha Neide recebeu alta do hospital e voltou para a nossa casa. Observei que, junto ao receituário, havia um cartão com um gráfico orientando os dias que ela deveria retornar ao hospital para um acompanhamento preventivo. Foi num desses retornos ao hospital que aconteceu um fato curioso. Como Neide e o marido não voltavam no horário previsto, para tranquilizar minha esposa, fui em busca deles, e descobri que, em vez de o casal vir para a nossa casa, haviam decidido voltar para a casa em que viviam. Fato mais que natural, pois como diz o ditado popular: “Quem casa quer casa”. O interessante é que, às vezes, é necessário acontecer alguma coisa diferente em certas pessoas, para podermos traçar os seus perfis.

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Como se sabe, o coração tem várias funções: uma delas, creio eu a mais importante de todas, é a de ser a sede moral da sensibilidade humana. Todavia, alguns seres racionais, além de não terem sido beneficiados com este dom nem se esforçado em possuí-lo, destroem a sensibilidade dos que convivem ao seu lado, a ponto de até mesmo levá-los ao desamor. Fato mais que comprovado nessa atitude de minha filha e seu esposo. Passados alguns dias, meu genro veio em nossa casa para buscar os seus pertences. Assim que minha esposa o viu, indagou pela filha e pela netinha. Ele, curto e grosso, respondeu: – Está em casa. Por quê? Quando ouvi o seu tom de voz ríspido, e vendo-o entrar de cara fechada no quarto que havíamos cedido a eles no período que estiveram conosco, clamei a Deus e fui para o banho. Naquela noite eu tinha um compromisso de levar um casal à igreja e não queria que nada atrapalhasse aquele ato de evangelização. Porém, quando ia me despindo para o banho, ouvi um barulho, provocado pelas laterais de ferro da estrutura da cama do casal que, meu genro, raivosamente, desmontava e ia atirando ao chão com violência. Tornando a me vestir, saí do banheiro trocando um olhar com minha esposa que, apreensiva, apontava o casal, que já havia chegado e, sem entender, a tudo assistiam, calados. Fui até o quarto onde meu genro se encontrava. Parado na porta do quarto, por alguns segundos fiquei contemplando a sua agressividade, no entanto, sem compreender o porquê ele estava agindo daquela forma. Mesmo assim, evitei polarizar o seu ato, apenas disse: - Queira retirar-se, por favor... e quando você se acalmar sei lá do quê, você retorna para buscar as suas coisas! Ele empinou o peito para retrucar, coisa que não permiti e tornei

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a dizer: - Agora! A energia que empreguei ao falar, convenceu-o a ir embora. O que no princípio era felicidade tornou-se suplício. O amor que sentíamos por nossa neta passou a incomodar seus pais, chegando ao cúmulo de sermos impedidos de ter um contato afetivo com a Raissa fora de sua residência. Algumas vezes minha esposa pedia: - Neide, deixe-me levar a Raissa em casa... E ouvia sempre a mesma resposta: “- Imagine! Eu não fico sem minha filha!” Como se frequentar a casa dos avós, fosse corromper a neta! Todavia, Deus nos deu forças e superamos o fato de não poder manifestar o nosso amor explicitamente à Raissa, mesmo porque nos envolvemos com um projeto ambicioso: o de comprar um imóvel que estava erguido em ponto de laje, porém não tinha telhados, portas, janelas, piso, enfim só havia as paredes erguidas. Nós não tínhamos dinheiro para terminá-lo; mas o contrato da residência que morávamos estava terminando. Reuni meus familiares, expus a situação, indagando se estavam de acordo em comprarmos uma lona desta de plástico preta para cobrir a nova moradia e mudarmos para o que era nosso. Houve consenso e mudamos para nossa casa. E continuamos a tocar o barco... E como navegar era preciso... Que fosse, então, sobre águas serenas. Pensando assim, orientei minha esposa no sentido de que evitasse ir todos os dias na casa da Neide, para não haver choques que viessem a abalar ainda mais o nosso relacionamento, já um tanto desgastado. A nova propriedade absorvia todo o tempo que tínhamos disponível para transformá-la em um lugar agradável de habitar. As tarefas diárias eram muitas e ficávamos entretidos de tal forma que não percebemos outro mal já nos circundando, agora envolvendo o

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nosso filho Junior. Mal este que foi nascendo embaixo do nosso nariz, o qual só notamos quando já estava formado: o Junior havia decidido sair da casa paterna. O problema maior, quando da saída de Junior de casa, foi consolar o coração de minha esposa. E, como sempre, o nosso Deus nos deu forças e os obstáculos foram ficando para trás. O ano de 98 já havia terminado. Por intermédio de algumas pessoas, eu recebia informações e sabia que Junior fazia planos para casar no decorrer do ano de 99, que apenas tinha iniciado. Esta notícia nos preocupava, pois a nossa relação com a escolhida de nosso filho, por nós preterida, era um bocado difícil, a ponto de sermos, por ela, verbalmente agredidos. Junior, querendo amenizar a situação e não tendo como, enviou-me a seguinte carta: “Pai Estou em um destino que meu coração deseja, pois pretendo, ou melhor, viverei com ele a vida inteira. Não discordo do Senhor de não querer, mas infelizmente serei capaz de ser feliz. Não tenho raiva, remorso, ou algo do tipo contra vocês. Mediante tudo que aconteceu sou seu filho, e vós sois meus pais. Em resumo de tudo isso, vim a fim de amenizar toda a situação, (se vós estiverdes de comum acordo), ao meu casamento deixa-lhes claro, que se não forem, não sou ninguém a obrigá-los a ir. Se forem, eu e a Raquel ficaremos contentes, pois nunca viramos aos costas a vocês, faça o que for, se precisar tendo as condições viáveis, ajudaremos. Não deixo a graça por nada, meu ministério muito mais ainda, dentro dela já está difícil, e fora dela? Não quero nunca que depois de casado fiquem sem vir em casa, (a Raquel errou de tudo que disse, mas quero que perdoe-a).

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Volto Domingo, termino na Paz de Deus. Seu Filho “Junior” Porém, quando a data do casamento foi se aproximando, Junior vinha com mais frequência em nossa casa e trazia a noiva, que não fazia nada para criar um caminho de harmonia. E os dias foram passando. Até que, finalmente, precisavam oficializar a data em cartório, e como o Junior não tinha idade para responder judicialmente por seus atos, era necessário contar com o nosso aval. Assim sendo, ele veio nos procurar. Nesse dia, encontrava-me ajudando na reforma da casa de um amigo, quando minha esposa me procurou, acompanhada de nosso filho. – Amor, o Junior deseja falar com você. Meio apreensivo, por não ter decifrado o sorriso que eu tinha nos lábios, depois de me saudar, meu filho disse: – O que foi, pai? – Nada! – Então por que o senhor está rindo? – Por nada. Agora fale o que precisa? – Pai, eu vou casar daqui a trinta dias, preciso que vocês me deem a autorização para isto. – Claro, filho, eu não vou poder sair neste momento, mas sua mãe poderá ir, porém, quero saber como vocês irão, já que o Cartório é em Várzea Paulista. – O pai pode ficar tranquilo. Eu estou com o carro do pai da minha noiva, vou levar a mãe até o Cartório e prometo trazê-la de volta. – Claro, só peço uma coisa, cuide bem de sua mãe... Ouviu? – Sim, pai, fique tranquilo que logo eu volto e trago a mãe. Depois que o carro que transportava o meu filho, sua noiva e o

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motorista do futuro sogro de Junior partiu, levando também minha esposa, eu retornei aos meus afazeres. Algumas horas depois, como o tempo continuava a passar sem que meu filho retornasse com a mãe, a inquietação tomou conta de mim. Até que vi minha esposa vindo com passos trêmulos, como se sobre os seus ombros houvesse sido colocado um grande fardo. Assim que me viu, entre soluços, disse: - Amor... Hoje sofri a maior humilhação que uma mãe pode passar. Fui tratada com o maior desprezo por nosso filho. Ah! Amor, se fosse a noiva dele ou a família dela que me ofendesse, eu não me incomodaria, porém foi o Junior, amor! Tentei acalmá-la, sem sucesso. Ainda em pranto, minha esposa continuou expondo o acontecido. - Amor, o Junior teve a coragem de me dar dois passes, me deixando sozinha no ponto de ônibus e foi embora. E ainda tem mais, os passes que ele me deu não serviam para usar na minha volta. Aquelas passagens só poderiam ser usadas no ônibus circular local. E me encontrava tão nervosa que não observei isso, só vim a descobrir quando fui obrigada a desembarcar do ônibus que me traria para casa. A minha sorte é que consegui trocar aqueles passes, numa banca de doces próximo a um ponto de ônibus, por outros passes que me davam condição de poder voltar para casa. O que fazer neste momento? Muitas coisas passaram pela minha cabeça. Todavia, alguns dias depois, Junior veio nos visitar e falou da dificuldade que estava encontrando para alugar uma casa. Em vista disso, ficou em segundo plano o que eu havia planejado fazer com ele em relação ao acontecido entre ele e a mãe. Pelo contrário, senti desejo de ajudá-lo. Sugeri que comprasse o terreno vizinho à minha casa, em virtude da facilidade de pagamento e que financiasse o material de

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construção, eu o ajudaria a construir a casa. Fez o que aconselhei. Como havia prometido ao meu filho, iniciei aquela construção contando com o apoio de alguns irmãos e, durante vinte e poucos dias, concluímos a obra. Faltava pouca coisa a ser feita para entregar a casa aos noivos. Na sexta-feira, véspera do casamento deles, nas primeiras horas do dia, eu sentia a pressão arterial ir além do limite e, pelo clima à minha volta, a expectativa é que continuaria a subir e, fatalmente, não prometia nada de bom para o Velho França. Sua noiva me pressionava querendo o término da casa, embora a residência deles estivesse pronta, faltando somente ligar a água que eu havia emprestado. Por outro lado, minha esposa me solicitava ajuda para remover os móveis da sala, pois queria fazer uma faxina para recepcionar os familiares que viriam ao casamento do filho. Estava meio perdido no meio das solicitações femininas, quando meu filho, aproximando-se, perguntou: – Pai, o senhor já fez a ligação da água? – Não, filho, depois eu faço. – Por que o senhor não faz agora? – Agora não, mais tarde... – Não vai dar tempo! – Claro que vai! – Se o senhor não quiser fazer agora, então não precisa fazer mais! E, após ter expressado o seu pensamento irado, pegou uma barra de cano e, cortando-a no meio, se pôs a fazer a ligação sem nenhuma regra básica de hidráulica. Fiquei olhando aquele pirralho tentando ser autossuficiente por via errada. - Amor, você não vai me ajudar? – gritou minha esposa. Minha futura nora, temendo o prejuízo que poderiam ter, interrompendo minha esposa, falou:

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- Irmão, o Junior não vai conseguir fazer a ligação.O irmão precisa fazer o serviço, para que ele não venha a estragar material em vão! Naquele momento senti que precisava sair de casa e foi o que fiz. Desci a Rua Avaré com o propósito de andar sem destino. Enquanto tivesse forças nas pernas caminharia, não importava a direção. Contudo, o meu Deus colocou um anjo de carne e osso no meu caminho e mudou o meu propósito. Quando vi irmão José Barros (hoje, já dorme no Senhor) sentado na escada que faz a ligação da rua com a sua residência, houve uma mudança no meu intento. E, quando recebi a saudação, a paz voltou dentro de mim. Entrei em seu lar e, com a discrição que lhe era pertinente, nada me indagou. Após as lágrimas de desabafo rolarem no meu rosto, fui convidado por ele para orarmos a Deus. Depois da oração, com a paz de Deus no coração e fortalecido no Senhor, voltei para casa pronto para auxiliar a minha esposa e entregar a casa pronta para os jovens. Havia em mim um desejo de que os meus pressentimentos fossem coisa apenas da minha cabeça. Havia me preparado para, após o casamento, convidar o meu filho e a sua já esposa para um jantar de confraternização, no qual eu estava decidido a me humilhar em desculpas para estimular uma união familiar saudável. Entretanto, durante a cerimônia nupcial, um amigo de São Bernardo do Campo, testemunha de casamento do Junior, disse: - Essa jovem é um osso duro de roer. Vocês terão uma pessoa indigesta na família. Então não era só em mim que a esposa do meu filho havia causado má impressão. Durante a festa de casamento, os problemas começaram quando vi Junior sendo puxado pela gravata como um cachorrinho e a mesma sendo cortada em pedaços. Por constrangimento, os

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convidados eram obrigados a comprar uma parte daquela peça, às vezes por preços exorbitantes. Gostaria de esclarecer que não tenho nada contra quem usa este tipo de expediente durante uma festa de casamento. Entretanto, sinto que os convidados, ao se reunirem num cerimonial, estão ali para honrar os noivos e seus familiares. Acontece que, ao forçá-los a comprar um pedaço da gravata, amparado na desculpa que servirá para ajudar os noivos, pode acontecer de esse ato nobre de esmolar, colocar alguns convidados em situação vexatória. O único convidado que passou aqui na Terra foi o Senhor Jesus Cristo. Mesmo porque, quando foi convidado a participar daquela festa memorável, não se preocupou em prover-Se de nada e, apesar da necessidade apresentada, era visível que Ele não trazia vinho no bolso. Contudo, havia (e há) n’Ele o poder de transformar a água, e a transformou num vinho de qualidade ímpar, que o homem jamais havia provado e que, igual àquele na Terra, jamais alguém provará (nem tampouco proverá). Alguns convidados trazem consigo somente o dinheiro para custear o retorno para casa, mas não querendo passar vergonha cedem, pelas circunstâncias apresentadas, o capital que tem no bolso e suportam as consequências mais tarde. Meu filho era conhecedor do meu ponto de vista e sabia que eu não concordaria com aquela cena e, chamando sua esposa, solicitei que parassem com aquele comércio indecente. Meu filho, assim que soube do meu desejo, como uma fera veio em minha direção e, assim que se aproximou, com o dedo em riste quase tocando meu nariz, disse: - A festa é minha, não venha você fazer bonitinho aqui, ouviu? Com uma enorme tristeza de alma, uma profunda melancolia tomou conta de mim. Com o espanto do choque que me causou a sua

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forma de falar comigo, apesar disso, olhando para ele, com calma, respondi: - Claro, Junior, claro... Deixando-os, saí do salão e fui para uma alameda que circunda todo o prédio onde estava sendo realizada a festa. Ali dei vazão às minhas queixas em lágrimas silenciosas, até que ouvi passos e pude ver minha esposa que, tomando conhecimento dos fatos, me procurava, aflita. Assim que se aproximou, secava as lágrimas que rolavam na minha face, como se tentasse me consolar. - Mãe... Deus é bom na minha vida... No momento em que o Junior quase tocou seu dedo no meu nariz, uma paz do céu invadiu o meu ser e foi mais forte do que o meu eu, dominando a minha carne e tirando qualquer desejo de lhe dar uns tapas. A festa de casamento para nós havia terminado. Só nos restava irmos embora, e foi o que fizemos. No outro dia, logo cedo, acordamos com o Junior batendo na porta de casa. Minha esposa ia atendê-lo quando foi contida por mim. - Mãe, se nós fôssemos bater na porta da casa dele neste momento, por certo ele jogaria em nós um bloco de cimento. Portanto, fique quietinha aqui na cama... Que negrão tonto! Nem parece que está em lua de mel. Lá pelas nove horas, aproximadamente, o Junior entrou no quarto onde ainda me encontrava deitado e, olhando para mim, falou: – Pai, o meu chuveiro queimou... – Ah! Queimou... – falei com ironia. – Sim, pai, o senhor pode ir consertá-lo? – Claro que não, filho... Saiu emburrado. Voltou à casa dele e, alguns minutos depois, deu um grito de dor. Sua mãe, assustada, indagou:

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– Amor, o que está acontecendo? – Nada de mais, mãe, é que o Junior tomou uma descarga elétrica. Preocupada, minha esposa perguntou: – E você, amor? Não vai lá pra ver o que está acontecendo? – Claro que não! Daqui a pouco ele estará aqui. Mal fechei a boca pronunciando isso, meu filho entrou segurando na mão o que tinha sobrado de uma resistência. Eu olhava... Diante de mim, aquele homem-menino... Digo homem, no instante em que ele precisava impor sua condição de desligado dos conselhos paternos. E menino, quando as dificuldades apareciam e, o homem, na sua incapacidade de resolvê-las, desaparecia, dando lugar ao menino, que buscava apoio no pai. Em outras circunstâncias, eu seria zeloso no ensinar, todavia, naquele instante, era preciso agir conforme o seu proceder e lhe daria tratamento adequado, em momento oportuno, nessa questão. – O chuveiro queimou, pai. – É... Percebe-se pelo emaranhado de arame em suas mãos. Não percebendo minha ironia, perguntou: – Que faço, pai? – Vamos por lição, filho. Primeira lição: se você não tiver conhecimento de eletricidade, é bom que, antes de tocar em qualquer objeto conectado na energia elétrica, você desligue a chave geral. – Sim, pai. Agora me diga, onde eu posso comprar uma resistência nova? De repente, o menino ficou humilde. – Segunda lição, filho: não sendo na farmácia nem no açougue, é possível que você encontre no supermercado. O certo mesmo é numa casa de material de construção. Perdeu mais uma vez aquela tentativa de se expressar com

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humildade e saiu bufando pelas narinas. Na primeira segunda-feira após o casamento, lá de casa dava para observar o Junior levantando duas muretas de alvenaria onde seria colocado o tanque de lavar roupas. Porém, por falta de experiência, estava assentando os blocos sobre a valeta do encanamento feita por mim. Ocorre que, diante da pressa em entregar a casa a eles, não tive tempo de socar a terra com que havia tampado a vala. E, pela forma como meu filho trabalhava, eu notava que ele não havia percebido esse detalhe. Diante disso, meu pensamento se expressou em voz alta : “Na primeira chuva que cair, a terra, que está solta, sairá com as águas da chuva e o tanque irá ao chão”. Minha esposa, temendo pelo prejuízo que o filho teria e, querendo ajudá-lo, pediu: – Fale pra ele, amor. – Claro que não vou falar, e você está proibida de fazer o mesmo. Ele mal havia terminado a instalação do tanque quando sua sogra chegou e, num ato de puro exibicionismo, mostrava-lhe o tanque e as muretas de blocos que havia construído... e ainda se gabava para ela dizendo que tinha ganhado um genro e tanto. A sogra era pura satisfação em conhecer mais uma qualidade do novo membro da família. É possível que ela tenha mudado de opinião, alguns dias depois, quando o tanque foi por terra depois de uma bela chuva. Passaram-se alguns dias e, durante um jantar, ao qual Junior e a esposa foram convidados, sua mãe quis aconselhá-lo a respeito de uma desfeita que ele havia feito a um irmão. Além de não aceitar o conselho, também não participou do jantar que sua mãe havia feito com carinho. Pelo contrário, convidando sua esposa, retirou-se e, antes de saírem pelo quintal em direção à casa deles, disse rispidamente à mãe:

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- Sou um homem casado e não admito que falem grosso comigo! Naquele momento, em uma rápida reflexão, eu vi aquele homemmenino totalmente perdido, trilhando por caminhos errôneos, tentando impor uma autoridade a qual não conhecia, esquecendo as lições que recebera de seu pai: que autoridade só possui quem sabe obedecer, e que liderança não é imposta, mas sim, conquistada. No dia seguinte, de casa dava para ver meu filho colocando pedras britadas no carrinho de mão, que ele começava a transportar da rua para o quintal. Suponho que, pensando em transportar as pedras no menor tempo possível, colocou no carrinho uma quantidade de pedras superior a que sua capacidade física poderia transportar. Eu contemplava aquele exagero e, vendo o aclive que ele teria de subir, deduzi que o homem-menino precisaria aprender uma nova lição, e eu teria prazer em ministrar mais uma aula. Fiquei só aguardando o momento adequado, que apareceu logo a seguir. Tomando embalo, foi empurrando o carrinho ladeira acima, porém na metade do morro faltaram-lhe forças. Parou o carrinho, olhou pra mim, deu um sorriso de cumplicidade. Mas como não obteve manifestação de minha parte, falou: - Pai, o senhor pode me fazer um favor? Sentado estava, sentado continuei. O único gesto que fiz foi inclinar a cadeira para encostar-me à parede, enquanto indagava: - Me diz... qual é o favor? Tentando engolir o meu descaso e procurando colocar humildade em suas palavras, disse: – O senhor pode me ajudar a subir este carrinho? – Vou lhe fazer dois favores, meu filho; o primeiro é este: existe limite de peso para o homem transportar. O segundo, filho... Veja, é mais fácil. Vire este carrinho, desça com ele até o monte de pedra, vá

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descarregando, até descobrir o seu limite e, quando descobrir, tenho certeza de que você não precisará pedir ajuda a outro homem. Junior me olhou com um ar pasmado, e ainda tentou dizer: - Mas, pai... Deixei-o falando sozinho e entrei em casa, encontrando o olhar severo de minha esposa. - Não diga nada, mãe, é para o bem dele. O tempo, que é dono das razões, mostrou-me que eu não teria que pedir perdão para a esposa do meu filho. Algum tempo depois, o casamento deles entrou em crise. Os dois vieram em casa, pois queriam falar comigo. Assim que os recebi, a esposa, tomando a palavra, disse: - Irmão, eu e o Junior decidimos nos separar, não dá para continuarmos mais juntos. Olhava aquele casal ali, em pé, na minha frente. Contabilizei o tempo que eles tinham de casado e, para o primeiro aniversário de casamento seriam necessários, ainda, mais oito meses de união. Minha preocupação era com a vida espiritual do meu filho. Eu tinha a consciência de que se o casamento naufragasse seria um prejuízo para a sua vida espiritual e, embora o Junior, entre outras coisas, tivesse adquirido o vício do cigarro com a esposa, que fumava e, apesar de considerar isso também um prejuízo, ainda assim, optei, em meu íntimo, que permanecessem unidos. Tentando salvar aquele casamento, perguntei: - Por quê? Retomando a palavra, ela continuou: - Porque não dá mais, o amor acabou. Eu olhava para o meu filho, que sorria e não percebia o perigo que era, para sua vida espiritual, aquela separação. Era um garoto, mal tinha feito dezenove anos. No casamento, tinha iniciado uma vida

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sexual ativa e, com o fim da união conjugal, estaria entregue às paixões que o mundo oferece. Pensando dessa forma, ainda tentei evitar o fim daquela união dizendo: - Vou ser sincero, e vocês sabem disto que vou falar. Desde o princípio fui contra este casamento, todavia como vocês estavam decididos a casar e não havia nada que os demovesse de tal ideia, cheguei a pensar que o errado era eu e que estava atrapalhando a felicidade de vocês ao querer impedir o casamento. Porém, com esta decisão, vocês estão desfazendo a boa imagem que eu estava construindo dentro de mim. E para que o estrago não seja maior, não concordo com esta separação. Portanto, vamos procurar ver, juntos, onde está o erro e, detectado, procurar saná-lo. Se estiver em nós, podem ter a certeza: eu e sua mãe iremos... Fui interrompido por meu filho, que disse: - Não adianta o senhor procurar solução, pai, estamos decididos. Saíram ambos, alegres, como se nada de anormal estivesse ocorrendo, deixando minha esposa e eu sem saber o que pensar. Logo em seguida, nesse mesmo dia, eu os procurei, mas não os encontrei, porque foram para a casa da sogra, em Várzea Paulista. No dia seguinte, quando retornaram, os planos haviam mudado. Tinham alugado uma casa próximo à da sogra, que se propôs a salvar o casamento deles. Paralelamente, em questão de poucos dias, conseguiram vender a casa, aquela pela qual eu havia lutado arduamente para construir para eles. Após algum tempo, não muito, creio, já tendo eu assimilado que Junior não voltaria mais a vizinhar comigo, ele cometeu um erro comparável ao erro da venda da casa. Jogou fora uma estabilidade de emprego numa empresa familiar, onde era respeitado pelo trabalho que

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ali executava e onde tinha chance de ter um crescimento profissional que o coroaria com uma carreira brilhante. Aparentemente tudo ia bem na vida conjugal do meu filho. A convite deles, chegamos a passar um domingo em sua casa, participamos de um almoço, ou seja, eles estavam superando a crise conjugal que havia surgido. Pensava assim, até que um dia, chegando ao meu serviço, uma colega de trabalho passou-me este recado: - Edson, esteve aqui uma oficial de justiça procurando-o, deixou este telefone para contato. Apanhando o telefone das mãos da recepcionista fui para minha sala e, por várias vezes naquele dia tentei um contato, porém sem sucesso. Deixei para o dia seguinte mas, envolvido com muito trabalho, acabei esquecendo. Alguns dias depois, fui novamente procurado pela oficial de justiça e conseguimos nos falar. Surpreso, ouvi quando, do outro lado da linha, uma pessoa de voz calma, demonstrando uma delicada simpatia, disse que era a mãe da namorada do Junior e que ele havia dado a liberdade de averiguar o seu testemunho junto a mim. Depois de um breve diálogo, que não satisfez a curiosidade da mãe da nova namorada do meu filho e, após eu desligar o telefone, fiquei perdido em meio a perguntas, para as quais eu me encontrava sem respostas. Quando cheguei a casa, minha esposa, percebendo que algo não ia bem, indagou: – Aconteceu alguma coisa, amor? – Sim, mãe. O Junior está metido numa confusão que você nem imagina. – O que foi, amor? O que está acontecendo com o meu filho? – O que está acontecendo? Hum... Bem... Faz alguns dias que uma oficial de justiça vem tentando falar comigo...

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Fui interrompido por minha esposa que, ao me ouvir mencionar oficial de justiça, temendo pela sorte do filho, proferiu como um brado, nervosamente. – Oficial de justiça? O que está acontecendo? Fale, amor... – Nada de mais, mãe, acalme-se que vou explicar. O nosso amado filho está envolvido com a filha de duas autoridades. O pai é juiz, e a mãe, oficial de justiça. Minha esposa ficou me olhando, pasmada, sem entender nada. – Espere um pouco, amor, deixe-me ver se entendi bem, você está me dizendo que o Junior está namorando uma moça que o pai é juiz e a mãe, oficial de justiça? – Sim, mãe. O Junior está fazendo exatamente isto. Retomando a palavra, ainda atônita, minha esposa tocou na ferida. – E o casamento dele? – Sei tanto quanto você, mãe. A resposta veio, dias depois, quando encostou um veículo na porta de casa trazendo alguns móveis que lhe couberam na partilha dos bens. Era o que restava de um casamento. O namoro de nosso filho com a filha do juiz foi se fortalecendo. Com pouco tempo de namoro, trouxe-a em nossa casa para que a conhecêssemos. Algum tempo depois, como sempre de improviso, trouxe a mãe da namorada, no mesmo intento. Enfim, cheguei a pensar que meu filho houvesse encontrado a mulher de seus sonhos. Enganeime e, de pronto, percebi meu engano, quando o vi entrando no quintal de casa, de mãos dadas, com outra jovem desconhecida para nós. Ao questionar Junior sobre aquela situação, com cara de inocente, explicou que havia terminado o seu compromisso anterior e que estava “noutra”. Assim que ficamos a sós, eu disse:

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- Não quero suas mulheres entrando por este portão. Pedido inútil. Era só trocar de amor que trazia a nova namorada para uma exibição. E para adocicar a mãe trazia-lhe, cada vez, um presente. O dom de mãe é terrível e, quando vem acompanhado de presente, é capaz de virar uma fera para defender sua prole. Um desses presentes, dado por meu filho à sua mãe, foi o fogão que lhe coube na partilha dos móveis, quando do fim do casamento. Fui contra a tal doação, alertei minha esposa que não era conveniente aceitar aquele presente. Resignado, vi a vontade de ambos prevalecer. Com o passar do tempo, vendo que o fogão antigo não seria mais utilizado em nossa casa, doamos para suprir a necessidade de outra família. Alguns meses depois, Junior descobriu um novo amor e, como era muito inconstante, neguei apoio àquele relacionamento que ele dizia mais uma vez ser sério. Algum tempo depois, o casal decidiu ter o próprio cantinho. Alugaram uma casa, compraram uma cama de casal e apareceram em casa para buscar o fogão, o mesmo que havia dado de presente à mãe. Eu olhava para minha esposa e contemplava a tristeza estampada em seu rosto. Para consolar seu coração desiludido, disse: - Deixe que leve, mãe. Amanhã, quando eu chegar do Buffet, vou a Francisco Morato e compro um fogão de duas bocas, até que Deus prepare condições e eu possa dar um fogão de quatro bocas. O relacionamento entre mim e meu filho, que não andava lá aquelas coisas, depois disso piorou. Eu não admitia, como ainda não admito, filhos fazerem sofrer a mãe, tanto menos minha esposa, que doava a vida por eles. Em questão de aproximadamente dois meses, sua companheira engravidou. Nesse período, como Junior ficou desempregado, levei-o para trabalhar de garçom no Buffet em que eu trabalhava.

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A notícia da gravidez fez com que melhorasse um pouco nosso relacionamento. Até escreveu uma carta que deixou dentro do bolso de meu uniforme. Pai Mesmo na prova, na luta, lembre-se de que aquele que fez o céu e a terra vela por ti e por mim, pois lhe dará a vitória e erguerá a vossa cabeça. Mesmo errando, estou me esforçando para poder ao menos tocar na orla do Senhor. Quero que seu neto siga seu exemplo, podendo sentar lá dentro da casa do nosso Deus. Sinto orgulho de ser seu, ter vindo daí de dentro de ti. Tu ensinaste muitas coisas a mim, e terás que ensinar muito ainda, Força Velhão! Tu és forte ainda, tua vitória é muito grande. Te amo, Junior Algum tempo depois, eu e minha esposa fomos procurados pelo casal. Havia um problema na gestação da companheira de meu filho. Durante o pré-natal, foi preciso fazer o exame morfológico e foi diagnosticada uma anomalia fetal grave. De repente, eu e Mara vimo-nos no meio do problema. Foram inúmeras as visitas que minha esposa fez a vários hospitais, acompanhando a mulher de nosso filho. Até que, por determinação médica, foi necessário realizar um aborto, o qual foi assistido no Hospital Maternidade de Jundiaí. Com o fim da gravidez, praticamente de imediato, terminou a união deles.

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Quando ficou só, Junior decidiu ir embora para São Paulo. Foi morar com o tio materno, meu cunhado. Eu pensava que, com a ida dele para São Paulo, os problemas tivessem seguido com ele.

Viva os seus sonhos iguais às formigas que vivem incansavelmente os delas.

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V Capítulo Mãe, advogada eterna. Eu esperava concluir o ano de 2001, querendo acreditar que acabasse um pouco melhor do que começou. No entanto, surgiu um novo problema de onde eu menos esperava. Fui procurado pelo dono de uma locadora de fitas de vídeo, pois queria receber a locação de uma fita que, por não ter sido devolvida, ele estava cobrando o valor de trinta reais. A locação tinha sido feita por minha filha caçula, Thais. Ao perguntar a ele o que estava acontecendo, respondeu-me que minha filha e uma amiga de escola fizeram a tal locação em nome do tio dessa mesma amiga, que era sócio da locadora. Depois de negociar com o credor, e tendo ele prometido terminar ali aquela questão, esperei que o mesmo partisse. Queria aplicar uma correção em minha filha que, não me dando tempo para nem um tipo de ação, saiu correndo rua afora. Fiquei pasmo com a atitude da caçula e só saí daquele assombro quando minha esposa perguntou: – Você não vai atrás dela, amor? – Não, Mara, não vou, não. A Tico tomou uma decisão e, doravante, será responsável pelos próprios atos... – Então, eu vou... – Vai sim, mãe, mas eu não vou tomar nenhuma atitude nessa questão. Estou cansado... Assim que minha esposa saiu, eu fiquei meditando e me perguntando: “Por que, meu Deus? Agora a Thais também! Era a única filha que ainda estava conosco, nossa companheira nas aflições”. Pouco tempo depois, Mara retornou desolada. Minha mãe tinha 100


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dado guarida à neta, atitude normal partindo de uma avó. A Thais não voltou mais para casa. Não posso, com precisão, dizer o quanto contribuiu para isso o tipo de apoio que ela recebeu nem quero lançar o ocorrido sobre ombros alheios. Como também não me sinto culpado por ela não ter retornado, pois em companhia do irmão Elizeu, que Deus constituiu na Terra para cuidar dos jovens, fomos até a casa de minha mãe. Ao chegar lá, pedi a ela que voltasse para casa, porém não aceitou, traçando assim seu próprio destino longe dos conselhos paternos. “E agora? Como eu explicaria para minha esposa a decisão da nossa filha caçula? Como eu consolaria o coração da mãe, que vivia sofrendo e chorando pelos cantos, depois de dar mais uma notícia dessas? Tentei de várias formas amenizar a notícia e consolar, mais uma vez, minha esposa. Infelizmente, apesar de todos os meus esforços, não obtive êxito. Decidi, então, humilhar-me aos filhos e escrevi uma carta na esperança de que eles, diante deste apelo, reconsiderassem suas atitudes e dessem o devido valor à mãe.” Campo Limpo Paulista, 19 de dezembro de 2001. Neide, Junior , Thais., Sabem... Amor... Amor é Vida... É Perdão... É Conselho... É Correção... É Renúncia... É dar a si em benefício de outrem... É onde o falso é vendido, e o verdadeiro é doado. O exemplo mais sublime é o de Cristo para a Igreja. Para que eu fale do verbo amar, tenho que falar de uma pessoa muito especial. Tenho que falar de Maria Teixeira de Melo França, mãe, esposa,

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amiga, irmã e companheira no caminho... Que mais poderei falar sobre ela a vocês? Os adjetivos seriam infinitos. Falo com autoridade de causa, pois vivi e vivo tudo isto ao seu lado. As falhas, eu poderia procurar nela, mas me consideraria o causador de todas. Então, vou me ater às suas qualidades e, neste manuscrito, vou exortar o seu dom de mãe. No ano de 1980, abandonada, com uma filha de um ano e pouco para criar, no ventre trazia uma criança prestes a nascer. Sem moradia, viu-se obrigada a buscar refúgio na casa materna, passando toda sorte de humilhação que um ser humano pode passar. Suportou calada, pois tinha uma filha e, em breve, nasceria outra criança, e nasceu um filho varão. Caso fosse só, em qualquer lugar caberia para viver, mas não, era mãe de um casal de filhos: uma menina, você, Neide; e um menino, você, Junior. Quantos planos foram feitos pela mãe! Tantos que seriam difíceis de ser contados, posso até dizer, impossíveis de ser enumerados. Porém, de uma coisa eu tenho certeza: em todos os planos, os filhos... Você, Neide, e você, Junior, eram prioritários. Mãe que saía de madrugada, precisava buscar o sustento para os filhos. Mãe que voltava além da hora, pela mesma razão! Mãe que também era pai! Mãe que socorreu! Mãe! Mãe! Mãe! Mãe para tudo! Mãe que não pensou em perguntar aos filhos se, no futuro, valorizariam seus gestos de amor. Com certeza, se pudesse prever o futuro e saber o que colheria: Sofrimento, em vez de Alegria; Desprezo, em vez de Respeito; Abandono, em vez de Amor... Mesmo assim, por você, Neide, e por você, Junior, continuaria lutando, como ainda luta. Quando o homem mexeu no calendário e, por conveniência comercial criou um dia para dedicar às mulheres pelo gesto sublime de gerar, foi criado o Dia das Mães. Porém, se minha opinião fosse levada em conta, eu diria:

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o segundo domingo do mês de maio, sem menosprezo às outras mães, e respeitando os seus direitos, eu chamaria este dia ‘Mãe Maria Teixeira de Melo França’. Mãe, novamente grávida, gesto sublime de amor, gerando mais um filho: Thais, um tiquinho de gente. Mãe amamentando. Mãe passando necessidade, mãe trabalhando, mãe chorando, mãe sofrendo como mãe e como esposa. Lembra-se desse dia, Neide? 23 de maio de 1992? Data em que você obedeceu a Deus nas águas do Santo Batismo? Lembra o que aconteceu na semana seguinte, Neide? Para justificar a sua escapada da escola, mentiu... e de prêmio, uma repreensão. Mãe advogando: – Você não foi duro com ela, pai? O tempo mostrou que não. A colega de escola, sua companhia na tal escapulida, por exemplo, pouco tempo depois, aos treze anos, mãe solteira. Julho de 1994, domingo, dia da Santa Ceia, lembrança do gesto de amor de Cristo para a Igreja. Neide, um vestido-envelope, inadequado para a ocasião... De prêmio, uma censura. Mãe advogada, arriscando a salvação da própria alma por amor à filha; não tomou parte da Santa Ceia naquele dia, deixando para participar no domingo seguinte, em outra localidade. Acredito que Deus, que sonda os corações, não tenha lhe atribuído isto como falha, pois em Sua infinita misericórdia tem a compreensão do amor materno. Lembra-se, Neide, desse outro dia?... Quando sua mãe transportava nossa mudança sozinha, da Rua Alvorada para a Rua Quatro de Novembro e não recebeu auxílio nem seu nem de seu esposo, que a tudo assistia sem se compadecer do seu esforço, nada fazendo para ajudá-la? Mesmo assim,

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continuava a ser advogada: coitados, amor, eles são crianças; um dia crescerão e nos darão valor. Dez dias de hospital, mãe sofrendo com você doente, usando de malabarismo para entrar com o leite para a neta, escondido das enfermeiras, pois isto não era permitido lá... Lembra-se disso, Neide? E você, depois de recuperada, em uma das datas agendadas para o acompanhamento preventivo, simplesmente não retornou à nossa casa, onde estava até então, vivendo conosco, nem ao menos para dizer: Obrigada, mãe! Mãe advogada: – Amor, deixe, um dia tudo mudará e eles nos valorizarão. Mãe avó sofrida: – Eles não deixam eu trazer a Raissa, amor... Não posso passear com minha neta. Eu, como sempre, alertava: – Mara, eu já te falei!... Você... Mãe advogada: – Amor!... Amor... Você não entende, eu sou mãe, entendeu? Mãe! Filhos, filhos... Junior, certo dia, desobedecendo ao pai, foi à Várzea Paulista. Repreendido e alertado sobre o que poderia acontecer ao criar vínculos com aquela família. Mãe advogando: - Você não foi duro com ele, pai? O tempo mostrou que não havia sido. Durou somente seis meses o casamento, deixou de tocar o clarinete na igreja, adquiriu o vício do cigarro, tornou-se um homem sem paz na Terra. Faz promessas à mãe, as quais não cumpri, sempre adocicando a mãe pelo telefone: – Mãe, eu te amo, dê um beijo na careca do pai, diga que estou indo aí no sábado... Mãe preocupada: – Ele não veio neste sábado como prometeu, amor... Eu, como sempre, alertando: – Mara, você sabe que o Junior ... Mãe, como sempre, advogando: – Amor, ele teve compromisso pela

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firma, foi para o Rio de Janeiro. O sábado havia passado. Mãe saudosa continuava na ilusão. Mãe esperançosa: – Amanhã ele vem, não é verdade, amor? As palavras que saem de sua boca já não demonstram tanta firmeza, parecendo que nem mesmo ela acredita mais no que está dizendo. Mãe desesperançosa: – Você acha que ele vem, amor? Os dias desta mulher, de mãe e avó, são dedicados à família, como me prova e me demonstra, claramente, quando tem um dos seus nas mãos, mesmo que seja apenas por fotografia. Mãe avó coruja: – Rica da vovó! Fala como se a foto pudesse ouvir e a Raissa entendesse de amor por telepatia. Ah! Filhos, filhos... Thais, ah! Thais … Lembra-se disso? – Mãe, olha o urso que ganhei da moça da loja do Orlando Móveis! Mentiu, tirou o bicho de pelúcia em uma máquina de jogo, instalada na loja da praça de Botujuru. Como prêmio, minha censura e repreensão. Mãe advogada: – Você não foi duro com ela, amor? Lembra-se também, Thais? Quando você e a coleguinha da rua, por curiosidade, experimentaram fumar? Mãe advogando, defendendo a filha. Filha, por um ato inconsequente, pondo em risco a segurança e a vida do pai. Ah! Filhos, filhos... ... Quantas madrugadas na rua!... Mãe... Quantas madrugadas acordada, andando pela casa, preocupada, chorando... Mãe aflita: – Meu filho, onde andará!?! Mãe chorando, mãe acordada, mãe preocupada, mãe invocando a Deus pelo filho.

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Ah! Filhos, filhos... E disso, Thais? Lembra-se?... Fita de vídeo... A fuga... Mãe desespero, mãe angústia, mãe aflita, mãe desespero, mãe sofrida. Que mais poderia dizer, meus filhos, do sofrimento da mãe por vocês? É possível que vocês continuem ignorando este apelo, mas só quem convive ou conviveu com ela, conhece este amor supremo, até egoísta, que tem pelos seus. Um direito de mãe, conquistado na dor do parto. E, se depois dessas recordações que eu trouxe aqui, que não correspondem nem a um terço do que a mãe de vocês passou e sofreu durante todos esses anos, em total doação de si para os filhos, se vocês Neide, Junior e Thais - não se sentirem sensibilizados, eu coloco de lado tudo que aprendi e penso saber e conhecer sobre correção, zelo e autoridade, não importando o nome que vocês queiram dar. Mas, com profundo pesar de alma, pelas falhas que eu possa haver cometido, e imbuído do desejo de ver novamente nossa família unida, venho pedir a vocês que reconsiderem minhas atitudes, não por mim mas sim pela mãe, que hoje vive sem alegria no coração, apenas com o sublime desejo de tê-los novamente por perto. Pedindo mais uma vez aqui que vocês, Junior e Thais, voltem a morar em nossa casa. E, você, Neide, com o esposo e a filha, nossa amada neta, Raissa, voltem a frequentar nosso lar. E se de alguma forma os magoei, meus filhos, peço, no amor de Jesus Cristo, que me perdoem. E nunca mais, nunca mais mesmo, em sã consciência, eu os importunarei com minhas atitudes grosseiras. Saibam meus filhos que, se a Mãe-Esposa deixar de existir aqui na Terra, não haverá mais lugar para mim. Depois de escrever esta carta, minha esposa considerando tamanha humilhação, não permitiu que eu a entregasse aos filhos. Certa feita, por razões que não cabe aqui citar, nossa filha Thais teve a

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oportunidade de conhecer seu conteúdo. Raramente Junior nos visitava em casa e, quando vinha, era como um cometa, mal dava tempo de vê-lo. Ficava mais tempo na casa de sua irmã Neide. Até que um dia, lá chegando embriagado, o cunhado não permitiu que Junior pernoitasse com eles na casa, praticamente obrigando-o a dormir ao relento. No outro dia, antes de voltar para São Paulo, deixou esta carta: Diga para a mãe e o pai que eu os amo também. “Neide: preste bem a atenção! Se ao menos alguém soubesse a minha dor... Dor que vem lá de dentro do Coração, dor de desgosto, falsidade, de aproveitamento, calúnia... Ah! Se me fosse digno de não ter passado por isso. Quem dera estar dentro da casa do Senhor, vivendo as Luxarias dessa graça maravilhosa... Quem dera... Difícil viver nesse lamaçal de pecado, farto de mulheres, orgias, vícios, machismo, caminho que não tem volta. O perdão e o arrependimento massacram o coração... A partir de hoje serei um mero peregrino, espero que ao menos uma companheira Deus me dê e, se um dia eu vier a ter filhos, que eles sejam do Senhor... Dói estar em um lugar onde todos o tratam como se fosse uma criança, pisam e alisam e depois tornam a pisar... Bem-aventurada tu és, minha irmã! Que Deus te abençoes com teu esposo e tua bela filha! Amo vocês! Hoje não tenho nem onde ficar, mas tenho certeza de que um dia estarei bem, ajudarei o meu Amado Pai e a querida mamãe. Quando cantar o hino “Jesus é o nosso guia”, lembre-se do seu fraco

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irmão. Te amo. Neste momento choro como uma criança, pois a única forma de desabafar é essa. Sabe tenho saudade das reuniões de jovens, do Ceará, embora lá foi muito difícil, mas melhor que aqui perdido onde estou foi. Vou embora não sei para onde, mas tenho fé que me sairei bem. Pode até achar loucura, mas vou. Eu não volto, sou muito errante e ainda mais quero me virar sozinho para que eu possa dar algo para os nossos pais. Estou indo a algumas seitas. Sei que não estou certo, mas vou. Quem sabe lá o Criador ouve a minha voz! Amo muito, muito mesmo, vocês. Nunca se esqueça de exemplificar minha vida para a Neguinha Thais, fala para ela que eu a amo também. Posso até parecer durão, mas sou banana, não quero que ela passe pelo que eu estou passando. Fale para a vó Zezé orar por mim, pois não sei quando vai embora e quando voltarei... Lembre-se de mim em suas orações. Amo todos vocês... Diga a Raissa que eu a amo muito... Junior O Recanto dos Velhos França permanecia somente com dois moradores. Os filhos não voltaram, porém os problemas continuavam. Numa terça-feira do mês de abril de 2002, recebemos em nossa casa a visita de irmão Cardoso e Damião da cidade de Cristinópolis – Sergipe, irmão Pedrão e Elizeu de nossa cidade. No término da visita, após orarmos Deus, em Sua magnitude manifestou Seu poder, para falar comigo, através do irmão Elizeu, que me disse:

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- Irmão Edson, gostaria de poder dizer palavras de bênçãos, todavia é uma palavra pesada que terá de ouvir. Você, meu irmão, ainda esta semana beberá um cálice amargo como fel, mas fique firme, você tem carregado uma carreta de paciência e não vai pôr tudo a perder, faltando apenas uma colher de paciência. Recebi, vinda de Deus, aquela profecia e, no sábado, último dia daquela semana, eu sentia que alguma coisa aconteceria, porém não sabia de onde viria o problema. Até que, por volta das dez horas, minha esposa falou: – Vamos um pouco na casa da Neide, amor? – Não vou, não. Aliás, não pretendo sair de casa hoje. – Vamos, amor, só um pouco? Damos um beijo na Raissa e voltamos. - Não, Mara, não vou sair, e você sabe por que: eu não sei o que vai acontecer no dia de hoje, mas seja o que for eu prefiro estar aqui em casa. Aqui eu conheço onde estou pisando, fora daqui eu não sei. Mesmo assim, minha esposa desejava ver sua amada neta. – Então eu posso ir, amor? Volto logo. Tendo o meu consentimento, Mara saiu em direção à casa da Neide e, pouco tempo depois, retornou com nossa filha Thais, que ficou aguardando do lado de fora do portão. Entrando em casa, minha esposa disse: - Amor, você precisa ir à casa da Neide, está acontecendo algo que a Thais não quis me falar. Pronto! O cálice amargo que eu tomaria antes do término da semana estava ali. Clamei a Deus e, sob uma comunhão íntima com o céu, fui até à casa da Neide. Ao entrar no quintal onde ela morava - posso até me referir, aqui, como um condomínio familiar, pois residiam vários membros

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da família do seu esposo - enquanto eu cruzava por aquele local, olhando nos olhos da concunhada da Neide, vislumbrei uma centelha de compaixão. Caminhando um pouco mais, já na parte que pertencia à minha filha, encontrei o sogro dela que, vindo ao meu encontro, disse: - Calma, irmão, tenha muita calma. Em meu íntimo, tornei a clamar a Deus, enquanto entrava na cozinha e, assim que sentei na cadeira que me foi oferecida, mantendo a calma, perguntei: - Alguém pode me dizer o que está acontecendo? Nesse mesmo instante, Neide chamou o esposo, que estava no quarto, anunciando a minha presença. Ele apareceu. Olhei aquele rapaz que eu havia aprendido a gostar, embora achasse que entre nós houvesse algumas arestas a desbastar, mesmo assim ele tinha conquistado a minha estima e meu respeito. Ali na cozinha, parado diante de mim, sem pronunciar uma palavra. - Queria falar comigo? Limpando a garganta e, com um jeito embaraçado, ele disse: - Sim, eu quero entregar sua filha. Naquele momento eu agradeci intimamente a Deus por Sua bondade infinita em minha vida, ao mesmo tempo em que indagava ao meu genro: – E por que você deseja devolver a minha filha? – Porque eu errei. Minha filha, enfurecida, pretendia entrar na conversa. E eu percebendo que, se ela entrasse, os ânimos poderiam acirrar, fiz sinal para que se calasse e perguntei ao seu esposo: – Errou como? É tão grave este erro que não dá para reparar? – Eu gostaria de poder voltar atrás, mas a Neide não quer me

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perdoar. Não tive como identificar, pela voz, se ele estava sendo sincero em sua resposta, pois mantinha a cabeça baixa, enquanto falava comigo. Creio que envergonhado pela situação. No entanto, sua atitude ao me chamar para explicar o embaraço em que se encontrava, mereceu o meu respeito. E, munido desse sentimento de respeito, perguntei à minha filha: – Neide, não há como reconsiderar caso ele peça perdão como já manifestou desejo? – Não, pai. Não quero mais ele. – Está bem, minha filha, não posso obrigá-la a ficar com ele. Se você quiser realmente se separar, o que é normal numa situação dessas, você terá o meu apoio. Se precisar de outro local para morar, pode contar com a casa do seu pai. Porém, antes, minha filha, tenho de dizer algo que você precisa saber. Se o homem errar por falha da mulher, ou vice-versa, haverá uma cobrança futura. Portanto, minha filha, não sou a favor do ato praticado por seu esposo. Mas, se ele procurou prazer fora de casa, alguma coisa estava faltando a ele. Examine a si mesma e analise se você não tem parte no erro do seu esposo. O ambiente foi tomado por um silêncio. O sogro da Neide, naquele momento, se manifestou favorável à reconciliação; minha esposa, também. Enfim, todos os que ali se encontravam eram favoráveis a que eles permanecessem juntos. E houve, aparentemente, uma reconciliação a qual perdurou, acreditem, apenas por dois dias! Passado o fim de semana turbulento, fui visitá-los logo na segunda-feira para ver em que pé estava a situação. No momento em que cheguei, encontrei meu genro, covardemente, espancando minha filha. Assistindo à cena, embora me sentisse profundamente condoído,

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o que me daria todo o motivo do mundo para revidar a agressão que ela recebia. Apesar disso, Deus quando fez a obra de salvação em minha vida, tirou todas as razões que os motivos provocam nos levando a prejuízos ímpares, ou seja, as decisões tomadas por impulso. Diante da situação, considerei que seria melhor conduzir o problema, pacificamente, optando pela separação. Mara e eu cuidamos de nossa filha, dando a ela a assistência que precisou no período da separação. Procuramos explicar à Neide que, por ser uma mulher ainda jovem, poderia, no futuro, recomeçar uma nova vida ao lado de alguém que a honrasse. Orientamos para que zelasse pela sua reputação, servindo, assim, de bom exemplo à Raissa. Infelizmente, não conseguimos o intento de conservá-la longe dos perigos pelos quais passa uma mulher divorciada que não sabe administrar a liberdade em que foi lançada. O ano de 2002 havia terminado. No balanço feito por mim tinha sido um ano péssimo e não havia deixado saudade. Pensava estar preparado para enfrentar as lutas que surgiriam na vida, porém não estava, e precisei muito da bondade de Deus para não sucumbir durante mais uma peleja.

Pobre do homem que descer à sepultura sem reconhecer Jesus Cristo como a porta da salvação, tardiamente descobrirá o grande erro cometido.

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VI Capítulo De braço dado com a pressão. Fui despertado de minhas lembranças ao ser cumprimentando por um vizinho. Naquele momento senti uma paz interior, pois não encontrei em minhas recordações nada que me acusasse, pelo contrário sempre dei a educação correta aos meus filhos, sendo assim não me sentia culpado pelos seus atos. Mesmo sentindo isento de qualquer culpa por aquela prisão, senti que uma nova batalha estava se levantando furiosamente à minha volta e, se dependesse somente das minhas forças, seria uma guerra perdida. No entanto, reside em mim a esperança em Jesus Cristo e esta fé inabalável me conduz com segurança, não só sobre os obstáculos apresentados naquele instante, mas em todos os momentos de minha existência. Já havia passado, aproximadamente, dois meses da data da prisão do nosso filho. O barco continuava a deslizar sobre águas nervosas. Vivíamos tensos e qualquer vento mais forte era motivo de preocupação. E, como previ, a tempestade veio numa terça-feira, dia de visita ao Junior. Por volta de nove horas da manhã, fui chamado para atender a uma ligação telefônica na casa vizinha. Era minha filha Neide. – Fala Neide. – Pai? – Sim, filha, o que está acontecendo? – Pai, houve uma rebelião. A tropa de choque está lá dentro da cadeia e ninguém nos dá notícias dos presos. Pai, o que vemos é só viatura levando feridos. O senhor precisa fazer alguma coisa, pai. 113


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Naquele momento senti o ar faltar, percebi que o oxigênio não subia com a mesma frequência para o cérebro. Creio que minha pressão arterial, ao mesmo tempo em que subia a mais de vinte na máxima, trazia a mínima para o mesmo valor, o que poderia ter sido fatal. Nestes poucos segundos de embolia Deus, por misericórdia, me deu forças e, respirando fundo, eu disse à minha filha: – Neide, preste atenção... – Sim, pai. – Não há nada a ser feito neste momento, ouviu Neide? – Mas, pai... – Neide, quero que você e sua mãe saiam daí, agora. – Mas, pai... – Neide, agora, já, entendeu? – Sim senhor, pai. – Coloque sua mãe no telefone. Assim que pegou o telefone, minha esposa era só lamentação. – Amor, o Junior, amor... – Mara, escuta... – Amor, o Junior, amor... – Mãe, me escuta. Está me ouvindo? – Sim, amor, fale. – Quero que você e a Neide saiam daí agora. Neste momento não há nada que possa ser feito, a não ser estar longe deste tumulto. Portanto, saiam daí agora e, dentro de quarenta minutos, vou ligar para casa do seu irmão e quero falar com você lá, entendeu? – Sim, amor, entendi. Depois que falei com minha esposa, desci o morro com o intuito de encontrar alguém com quem dividir a minha dor. E foi, com alegria, que saudei o sogro da minha filha assim que eu o vi. Porém, minha

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esperança de ter encontrado um ombro amigo desapareceu assim que ele chegou perto de mim. Foi me culpando pelo filho ter abandonado o emprego e ter mudado para São Paulo e tentar uma nova vida ao lado da minha filha. Naquele momento, creio que me faltou entendimento. Quando dei por mim, já havia falado. - Olha aqui, irmão, vou dizer uma vez só. Desde que o seu filho aprontou com a minha filha, que venho engolindo calado diversas provocações. O seu filho saiu lá não sei de onde, apareceu na minha casa, levou uma moça virgem vivendo dentro da graça do filho de Deus. E, no ano passado, veio me entregar uma mulher desonrada... E o irmão ainda tem a coragem de vir me acusar de isto e mais aquilo? Vocês estão encurralando cachorro manso. Se não pararem, correm o risco de levar uma mordida. Ao ter falado isso a ele, devo ter feito uma expressão terrível, pois se encolheu todo e o seu cunhado, que o acompanhava afastou-se, deixando-o sozinho. Depois de ter dito essas palavras rudes ao sogro de minha filha Neide, segui o meu caminho. Não havia percorrido ainda nem duzentos metros, quando uma dor invadiu o meu ser e o arrependimento tomou conta do meu coração. De repente, enquanto caminhava pela rua, vi-me conversando comigo mesmo: “É, irmão Edson, que absurdo você fez! Parece tonto, Velho França!” Estava assim numa autocrítica, aborrecido e envergonhado comigo mesmo, quando deparei com a sogra da minha filha atravessando a Ponte Seca. Uma passagem de nível que liga os bairros do distrito de Botujuru. Assim que a vi, caminhei em sua direção e, após a saudação, disse: - Irmã, acabei de ofender o seu esposo e me sinto arrependido. Pretendo ainda hoje, quando nos encontrarmos na igreja, pedir-lhe

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perdão pela minha atitude grosseira de minutos atrás. Porém, irmã, se Deus vier me buscar antes e eu não tiver tempo para fazer isso, peço à irmã que seja minha portadora. Eu estou arrependido do ocorrido entre mim e ele e desejo o seu perdão. Após ter pedido isso a ela, segui o meu caminho em paz. Deus poupou a minha vida e, naquela noite, ao me encontrar com o sogro da minha filha na igreja, pude pedir-lhe perdão e houve a reconciliação entre nós. Parece que o ano de 2003 teve mais de doze meses, teimava em não terminar, cada dia surgia uma luta diferente. E sabia que, para não sucumbir, deveria encarar com dignidade qualquer tipo de luta e valorizar cada batalha como se fosse a última, mesmo tendo a convicção de que outras viriam e poderiam ser até mais difíceis que a enfrentada naquele momento. E esta, merecia o meu respeito, não o meu temor. Tendo a misericórdia de Deus a me guiar, as batalhas iam, uma a uma, sendo vencidas. Uma dessas lutas ocorreu no período de reconciliação do casamento da Neide, que estava mais para Titanic que para Love Store. Novamente grávida, teve uma gestação complicada e, por ordens médicas, foi necessário fazer um aborto, assistido no Hospital das Clínicas de São Paulo. Nesta época, o casamento naufragou de vez. Em um curto espaço de tempo, tentaram manter as aparências, mas foi inútil; separaram-se definitivamente. Sem o esposo, o qual retornou para Botujuru, Neide foi morar com a tia e levou a filhinha junto. Às vésperas do dia de visita que minha esposa fazia ao filho na prisão, minha prova redobrava. Era obrigatório suprir as necessidades dele. Muitas dessas vezes, porém, a necessidade já estava instalada antes, no meu lar. E, quando não tínhamos condições de enviar o que ele precisava, minha esposa recorria à nossa filha Neide, que comprava

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para o seu irmão o que ele pedia a nós. Todas as vezes que minha esposa precisava dormir na casa da minha concunhada, onde nossa filha Neide estava morando, minha neta pedia para vir embora com a avó mas, seguindo minha orientação, Mara não a trazia, pois não tínhamos condições de arcar com mais aquele compromisso. Porém, um dia, ao ligar para a casa do meu cunhado para falar com minha esposa, para minha alegria, quem atendeu ao telefone foi minha neta. – É você, Raissa? – Sim, vô. – Como você vai, minha linda? – Vô, deixa eu ir, deixa? Apesar de todas as dificuldades financeiras, ao ouvir minha neta fazer esse pedido, quase numa súplica, quebraram-se todos os empecilhos e ela veio morar conosco em Botujuru. Com a vinda de Raissa, a alegria voltou ao Recanto dos Velhos França e, irreverentemente, lá estava eu, feliz da vida, já até brincando de roda com minha neta. Reportei-me à minha infância, que eu havia deixado perdida no tempo. As cantigas de roda que já nem me lembrava mais, tive que reaprendê-las: atirei o pau no gato-to, mas o gato-to não morreu-reureu...; ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...; nesta rua, nesta rua tem um bosque, que se chama, que se chama solidão, dentro dele, dentro dele mora um anjo... Sem falar das cantigas de roda mais modernas que tive de aprender. Todavia não tão belas como as cantigas do meu tempo de infância. Também precisei recorrer aos livros para relembrar e poder contar à minha neta as histórias folclóricas e as fábulas que ouvi quando criança. E constato que, embora hoje a tecnologia esteja presente em

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quase todos os lares, sempre haverá, em qualquer parte do mundo, uma criança querendo ouvir uma história antes de dormir. A vinda de Raissa nos fez repensar, por exemplo, outros hábitos, como no caso da alimentação. Foi necessário criar novas técnicas. Pelo fato de nossa neta ser filha de açougueiro, parecia uma oncinha para comer carne. Porém, como agora morava no Recanto dos Velhos França, um cantinho cheio de amor mas com poucos recursos financeiros, os produtos bovinos e suínos eram escassos. Era preciso achar soluções nutritivas e ao mesmo tempo econômicas. Como em quase todo o lugar serrano, o chuchu é o legume mais produtivo, e aqui não foi diferente. Os pés de chuchu viviam cheios de frutos. Nesse ínterim, em paralelo, resolvemos pesquisar sobre esse legume e descobrimos as propriedades nutricionais que o chuchu contém e os seus vários benefícios para a alimentação do ser humano. – Raissa, se você comer um pouco deste chuchu... Meneando a cabeça, ela nem me deixava concluir e já ia dizendo: – Hum! Não gosto. – Como é que você sabe que não gosta, Raissa, se você ainda não provou? – Não quero, vô. – Está bem, se você não quer, não tem problema, porém vai perder a oportunidade de ficar um pouquinho mais bonita. A vaidade não tem idade. Raissa, me olhando com ar de dúvida, foi levando um pedaço do legume à boca que, com o tempo, passou a ser um prato comum em seu dia a dia. Mas, para que não se tornasse uma vegetariana assumida, quando Deus nos preparava condições, providenciávamos um pacote de pescoço de frango que a vovó Mara preparava com maestria; e era uma festa. O pescoço de frango tornou-se o prato real da família. Raissa, certa feita, ao expressar seu

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pensamento, colocou em risco o animal de estimação da vó Mara. - Vô, por que o senhor não mata a gansa? Ela tem um pescoção! Ouvindo isso, eu não me contive em riso e, imediatamente, olhei para minha esposa e vi em seus lábios um sorriso contido, diante do humor saboroso da ideia pronunciada pela neta. A presença de Raissa foi um bálsamo em nossa vida que nem percebemos o ano de 2003 terminando. 31 de dezembro de 2003 - 23h58. Em dois segundos, o mundo explodiria abraçando o novo ano. E o Ano Novo chegou. A visão era fascinante, porém o cheiro de pólvora me incomodava as narinas. Com os ruídos, incômodos demais para a minha audição tanto quanto para a audição de qualquer ser humano, colocavam-me palavras de crítica na boca, pelo prejuízo que os estrondos dos morteiros causavam aos tímpanos. O mundo se deliciava com a chegada do primeiro dia do ano. Para muitas pessoas, a data é comemorada como o Dia da Confraternização Universal. Os desejos mais ocultos da humanidade afloram neste dia, mesmo que sejam impossíveis de serem alcançados. No entanto, a crença popular é algo que não se deve colocar em discussão. Aqui, do Recanto dos Velhos França, dava para ver o céu deslumbrantemente iluminado: ora coberto por estrelinhas vermelhas, cintilantes; ora por morteiros subindo que, após as explosões, pintavam o céu com lindos pigmentos coloridos como se fossem estrelas cadentes em busca do solo terreno. Eu esquadrinhava com minha mente tentando ver acima dos coloridos artificiais, desejando entrar no céu dos céus, onde Deus habita, no intuito de achar respostas para o ano de 2004 que se anunciava. Eu buscava respostas no infinito para as perguntas que, de antemão eu tinha, prevendo os problemas que aconteceriam e como

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eu faria para enfrentá-los. Logo descobri que não há estrategista bélico neste mundo que possa traçar um plano de ação que seja totalmente satisfatório para enfrentar uma batalha de natureza tão difícil, como a que eu estava tendo de enfrentar. E a batalha inicial era a de assimilar a condenação do meu filho: a lei o condenou a catorze anos de reclusão. Embora este episódio tenha feito uma chaga no meu peito, eu não poderia, de forma alguma, deixar transparecer para a minha esposa a dor que eu sentia. Na verdade, eu precisava ser um companheiro que apoiasse e desse força a ela, pois sabia que se percebesse em mim qualquer sinal de fraqueza tornaria-me, diante dela, o mesmo que um salva-vidas preso nas mãos de uma pessoa que está morrendo afogada. “Todavia, quem nasceu para lutar, combate até o último minuto nesta Terra e nunca dará as costas para a peleja”. Para adoçar um pouco mais a luta, meu irmão me avisou que nos visitaria no final de semana seguinte e que traria sua namorada para comer uma dobradinha à moda da casa. A notícia trouxe aflição. Como receber visita se não tínhamos dinheiro para bancar aquele almoço? Mais uma vez Deus me deu a guia. Fui à chácara de um antigo cliente, que era comum receber de minhas mãos voucher para suas viagens turísticas. E, despojado de qualquer constrangimento, empreitei a capina de sua chácara. Após acertarmos aquele trabalho, solicitei um adiantamento. Com alegria, recebemos no dia seguinte minha mãe, meu irmão e namorada dele com uma bela dobradinha. Todavia as despesas aumentaram. Além do honorário do advogado, havia ainda despesas internas com meu filho. Precisava de outro trabalho mais rentável. Busquei o artesanato. Virei artesão. Confeccionava, na massa de biscuit, lindas peças e ímãs de geladeira. Depois, enveredei em sonhos e pudim de mandioca - uma iguaria de

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grande aceitação no mercado. Aqui há um dado curioso. Inicialmente, pensávamos em fazer bolo de mandioca, mas ao prepará-lo erramos na receita. O que era para ser um bolo transformou-se num delicioso pudim. INGREDIENTES: • 1½ kg de mandioca • 5 ovos • 1 vidro pequeno de leite de coco • 100 gramas de coco ralado • 1 xícara de chá de margarina • 3 xícaras de chá de açúcar • 1 colher de sopa de fermento em pó MODO DE PREPARO: Rale a mandioca e lave um pouco para tirar a goma. É necessário um saco alvejado para coar a mandioca. Reserve. Numa vasilha à parte, vá colocando os ovos, o açúcar e a margarina. Bata bem até formar uma massa homogênea. Coloque o vidro de leite de coco e, depois de misturar levemente, coloque a mandioca ralada. Por fim, o fermento em pó. Leve ao forno em assadeira untada e polvilhada por trinta minutos. Tire do fogo e coloque a calda. Leve novamente ao forno por mais trinta minutos. Espere esfriar, leve à geladeira e sirva gelado. CALDA Coloque 2 xícaras de açúcar no fogo e, quando estiver em ponto de fio, acrescente 2 xícaras de água e deixe até que forme a calda. Quando a calda estiver pronta, acrescente o coco ralado, deixando ferver por

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alguns minutos. Depois, acrescente os seguintes ingredientes: • 3 xícaras de Talento • 1 porção de Bom Gosto • 1 pitada de Dedicação • Misture com bastante Calor Humano. Enfeite uma bandeja com Arte e sirva com Classe. Esclareço que, mesmo nas dificuldades, há alguns princípios que prevalecem em nossa vida. Fé incondicional em Deus e a certeza de um dia alcançar a vitória almejada. Não desistir nunca e entrar na luta confiante de sair vencedor. Esbanjar amor e procurar ser o melhor em tudo que fizer. Sorrir com sinceridade e transmitir alegria. Com estas credenciais, embalava os sonhos em sacos transparentes com desenhos variados. Condicionava o pudim em pequenas embalagens, mais guardanapo e colherinha descartável, embalando-o também em sacos transparente, dando condições do freguês se deliciar com a beleza do produto. Com minha esposa, tomávamos o trem e íamos para São Paulo, precisamente no bairro de Bom Retiro, e vendíamos aquelas guloseimas aos lojistas e clientes das lojas. Porém era proibida a entrada de vendedor ambulante nas lojas. Então, vestia-me a caráter: calça preta, camisa branca, gravata borboleta, blazer branco. Nas mãos, uma bandeja de inox coberta com guardanapo de tergal e, em cima, as guloseimas. Era, na verdade, um “fashion delivery”. Não tinha segurança que ousasse barrar minha entrada quando ouvia: - Com licença, senhor. Era tão divertido vê-los encolhendo a barriga e, com um sorriso simpático no rosto, permitir minha entrada no estabelecimento. Dentro

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da loja o serviço era mais fácil, a visão dos doces era deliciosamente tentadora para uma repreensão. Ao mesmo tempo em que trabalhava, divertia-me. Recordo-me que certo dia, ao entrar numa loja, uma coreana, assustada, gritou: - O que é isto? O grito da patroa chamou a atenção de sua gerente, a qual saiu espantada de dentro de um biombo e, por alguns segundos, ficou olhando, pasmada! Ao perceber meu traje, vendo aquela bandeja em minhas mãos e o sorriso em meus lábios, respondeu a sua patroa com um sorriso de compreensão. - Não é nada, senhora, isto é truque de televisão. Daqui a pouco Ana Maria Braga entra na loja. No meio desta alegria temporária surgiu uma nova luta para provar nossa fé, no amanhecer de um novo dia pude perceber que do nada, surgiram ratos que destruíram todo o material que pensávamos em vender. Foram dias penosos até eliminarmos aqueles animais, e fazermos uma higienização completa na casa, que desse segurança, tanto a nós como também aos nossos clientes. O período para eliminar aqueles bichos foi muito desgastante, via o semblante cansado de Mara, percebia que ela estava por um fio, que seu emocional não agüentaria um simples esbarrão. Certa noite, em que o sono foi substituído pela inquietação, via ao meu lado uma companheira com os olhos fechados, porém as lágrimas que rolavam silenciosas em sua face, molhando o travesseiro, denunciavam a mim, que ela estava acordada, embora fingisse o contrário. Levantei-me da cama, pois precisava sair para o quintal em busca de ar. Ao abrir a porta da cozinha, vi nosso cachorro Maguila, que

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demonstrava alegria em ver o dono. Depois de fazer um afago, levantei a cabeça e vi o céu como um tapete negro e as estrelas como lindas pedrinhas de diamantes incrustadas nele. Olhei a natureza à minha volta, vi um pé de abacate na minha frente, com sua copa mirando o firmamento como se buscasse atingir o céu para levar o seu fruto ao Criador. Ao meu lado, estava o pé de mamão, com o mesmo propósito do pé de abacate, disputando palmo a palmo quem chegaria ao céu primeiro. Mais ao lado, encontrava-se o pé de chuchu, que não tinha a mesma pretensão dos companheiros do quintal, pois Deus deulhe vida e frutos em abundância ali, para servir de alimento a todos quantos chegassem ao Recanto dos Velhos França. Ali sozinho, no meio do quintal, iniciei um monólogo dirigindome à natureza. “Abacateiro, preste atenção. Neste momento eu posso falar contigo, pois estamos a sós, portanto não vou causar escândalo conversando com um pé de abacate. Todavia, o mesmo Deus que me fez, foi o que o fez também, sendo assim, creio de alma, que Ele traduzirá a você o que estou falando. Hoje, Abacateiro, você está assistindo às minhas lutas e provas. Mas digo, Abacateiro, calma, aguenta firme neste lugar, pois um dia verá a minha vitória, porque é promessa do meu Deus e não irei à sepultura sem que a Sua Palavra se cumpra em minha vida e minha cabeça seja erguida, como sempre é e será erguida a de quem Nele confia. Depois de dizer isso ao pé de abacate, voltei-me para a parreira de chuchu, dirigindo-lhe as mesmas palavras. Assim que terminei de dizê-las, virei-me para o pé de mamão e, como anteriormente, repeti o que eu havia dito tanto ao abacateiro como ao pé de chuchu. E, ainda confiante e amparado em Deus, disse mais isso: Agora, Mamoeiro, vou falar com o causador dos meus infortúnios. Tranquilamente, movimentei meu corpo para o outro lado. Olhei

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ao redor e a escuridão era intensa, porém a comunhão com o céu era tanta que não sentia meus pés no chão e, com alegria de alma e uma autoridade recebida dos céus, falei: E você, Incircunciso, ouça o que vou dizer: eu amo o meu Deus e nada do que fizer vai me esmorecer. Agora veja se você aguenta isto: GLÓRIA A DEUS! GLÓRIA A DEUS! Neste momento, senti uma paz tão grande que, em seguida, entrei em casa, fui para o quarto e encontrei minha esposa dormindo. Deitei e fiz o mesmo.

As provações ensinam-nos a conhecer os caros irmãos, e a identificar os irmãos caros.

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VII Capítulo Vida de escritor No meio do ano de 2004, percebi que poderia tirar das lágrimas frutos benéficos – literariamente, transformei a dor num empreendimento e exercitei o dom maravilhoso doado por Deus, o de escritor. Por ser bem democrático o mundo das artes, investi horas a fios crendo num reconhecimento e numa prosperidade financeira com os quais poderia dar uma guinada de 360 graus em minha vida. Sendo assim, tentei doar parte daquela triste experiência ocorrida na prisão de meu filho a outras pessoas como forma de prevenção. Pensando dessa forma iniciei a escrita do livro FILHO DEIXA EU TE AJUDAR, ao mesmo tempo em que vendia meus doces no centro de Campo Limpo Paulista. Vida de escritor. Foi amor à primeira vista. Na tenra idade, descobri a escrita rabiscando as primeiras letras, somando a consoante “B”, de barriga, com vogal “A”, de abelha, copiado da cartilha “Caminho Suave”. Todavia, a realidade desta vez foi diferente, fui obrigado a viver uma realidade brutal, ao narrar uma experiência até então impensada. Por motivos óbvios, encontrava-me sem luz elétrica há quase um ano. A CPFL, Companhia Paulista de Força e Luz, havia desligado a energia elétrica de minha residência. Encontrava sem condições de saldar a conta e trocar o poste de ferro por um poste de concreto, exigência da companhia. Portanto, minha prioridade era poupar o valor do poste e quitar a luz; depois comprar um computador para digitar o tão almejado livro. No entanto, os planos reais eram bem diferentes dos sonhados. As vendas dos doces mal davam para custear a matéria-prima de outros 126


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doces. O pouco que conseguíamos economizar, às vezes, era usado para bancar as visitas à Penitenciária para ver meu filho. Imagino um capitão de uma caravela perdido no oceano, com o mastro de vela escorado no tombadilho, uma tripulação faminta e desmoralizada a seu lado. Posso imaginar também que muitos desejam ser capitão, mesmo que seja para aprender nos livros a ciência da navegação. Eu não tive escolha, aliás! Quem almeja ser vencedor, não escolhe o tipo de mar para navegar. Respeita as ondas contrárias, mas não teme o mar bravio. Para estas pessoas só há uma opção: lutar e vencer. Recordo-me que, no período das águas, ficamos algumas semanas sem condições irmos à rua vender nosso produto. Logo, fomos privados do gás de cozinha e obrigados a recorrermos ao fogão à lenha. Porém, chegou o dia em que não havia mais lenha seca para acendermos o fogão. Percebendo que aquela situação poderia puxar outra situação, que fatalmente levaria ao motim, seria necessário mudar a rota da embarcação. - Mãe, o que você acha. Quando formos colocar laje em nossa casa, deixarmos a saída da escada que dará acesso ao pavimento superior, saindo daqui mesmo da sala? Sem entender o que queria dizer, perguntou: - O que tem a ver laje com o que estava falando a respeito desta chuva? - Mãe, com laje na casa, não haverá mais goteiras, portanto tem tudo a ver com a chuva. - Olhando deste lado você tem razão. Aproveitando que ela havia entrado no clima de construção, aproveitei o gancho e continuei a falar: - Mara, você já imaginou como ficará linda esta casa rebocada? Percebendo que, por alguns segundos, minha companheira

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viajava imaginando a casa tão sonhada, prossegui minhas explicações. - Mãe, quando rebocarmos esta casa, deixarmos linda como só você merece. Esta porta de nosso quarto terá que ser trocada. Percebe que este pequeno buraco ao lado da fechadura tirará a beleza de sua casa. Entre sonhos, ela respondeu: - Na verdade, amor, esta porta está feia mesmo. - Sim, mãe, esta porta realmente está feia. Eu, particularmente, tirava hoje mesmo. Naquele momento, o barco mudou de rota e passou a navegar em águas mais tranquilas, sem que a tripulação percebesse. - Você é quem sabe, amor. Por mim, pode tirar. Aquela porta deu para suprir a necessidade da lenha até que o sol voltasse a aparecer. Não poderia ficar esperando condição favorável para iniciar a escrita. Portanto, sob a luz de vela, comecei a escrever manualmente num caderno aquele que seria o meu primeiro livro. Este episódio me traz lembrança de ter lido uma passagem no livro Como falar corretamente e sem inibições, de Reinaldo Polito, no qual o criminalista Dr. Waldir Troncoso Peres faz menção à obra do humanista suíço Henri Frederic Amiel. Segundo Dr. Waldir, em sua obra, Henri dizia que o homem tem duas almas: a alma noturna e a alma diurna. O homem pensa uma coisa durante o dia e pensa outra coisa durante a noite. Durante o dia, o homem se aproxima da realidade. As suas qualidades de animal se assentam,

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ele é mais rústico e mais primário; à noite, seu espírito é mais leve, baila, dança, é mais suave e ele se aproxima de Deus. Provei, em outras palavras, aqui no Recanto dos Velhos França o que o humanista suíço quis dizer. É verdade, a noite é o melhor momento de expressar o sentimento da alma, porque estamos mais leve; é o instante em que nos despojamos de toda coisa ligada à matéria e nos aproximamos de Deus”. Quando a madrugada se aproximava, encontrava-me rabiscando em folhas de papel o que seria um livro e, por alguns minutos, saia daquele estado lírico para caminhar entre as plantas do jardim que embelezavam o Recanto dos Velhos França, no qual nascia a inspiração para escrever meus textos. Claro, a natureza empresta ao poeta as inspirações necessárias. Nesse momento de rara beleza, tenho a oportunidade de ver a natureza manifestar seu poder. É possível neste êxtase ver o rubor de acanhamento da aurora ao ser beijada pelo amado sol. Extasiado, permaneço nesse estado de contemplação por longos minutos. Só saio da imobilização quando os pássaros como arauto apregoam um novo amanhecer - é a plenitude da vida. Mais uma vez contemplo o sol que segue seu curso natural, nada o faz parar, como um conquistador incansável nem se lembra de aurora, pois com seus raios acaricia a floresta sobre os montes. É um novo dia, a vida tem que continuar. Para alegrar um pouco minha alma, no dia 1º de agosto de 2004, quando completava cinquenta anos, recebi uma carta de meu filho. Não me lembro de ter recebido presente tão precioso. As palavras escritas pelo meu filho me fortaleceram.

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Por conseguinte, cuidava de levantar o ânimo de minha esposa com palavras estimulantes, mostrando um futuro promissor com o lucro que teríamos, com a comercialização do livro que estava escrevendo. Por um momento via renascer a esperança em seus olhos, assim tornava mais fácil combater o mar bravio. Enquanto animava e levantava a moral da companheira, sentia uma injeção de ânimo

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também. Um ano havia passado entre o início e o término da escrita do livro. Tinha-o pronto, havia uma história completa. Porém senti que tinha uma grande dificuldade à frente: editar o livro. Mas, como Deus sempre apareceu em minha vida de várias formas, desta vez o socorro veio de dentro do presídio, com a carta de meu filho. “Pai, o senhor e a mãe têm uma dádiva muito linda: a de saber lidar com todas as dificuldades desta vida. Parece incrível, mas tudo ao seu lado se torna muito fácil, desde uma Belina 74 sem gasolina a uma doença de chagas, que se torna fichinha. Com vocês não há problemas sem solução, pois são servos do Deus altíssimo e todos os caminhos têm saída. Com vocês não há tempestade que não acabe em um lindo e brilhante pôr do sol no alto da Rua Avaré. Vocês me fazem ter mais coragem, por isso os amo”. São fatos como estes que me impulsionam à luta e me dão ânimo para continuar a batalha, pois em minha volta gravitam satélites necessitando de minha luz. Deixo registrado, na íntegra, a carta recebida de meu filho. Cidade Oswaldo Cruz “Do homem vem a preparação do coração, mas do Senhor vem a resposta da boca” Provérbio cap.16 vs.1º * Saudação, Pai ou mãe. Estava trabalhando quando sua carta chegou. Sabe, estava tão atribulado, pensando na minha vida e perguntando ao Senhor, até quando?

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Mas Deus Misericordioso deu a resposta imediata, com sua carta inspirada por Ele. Pela Graça e misericórdia de Deus, estou bem e com saúde. Tenho escrito três cartas a vocês. Afinal, elas chegaram? Fico feliz em saber que a mocidade ora por mim, saudai-os com a paz de Deus. Gostei do desenho de Raissa, dê um beijão nela e diga que a amo do fundo de meu coração. Sabe pai, aqui é um Vietnã espiritual, tão grande que o senhor não pode fazer ideia. O inimigo, quando não vem, manda os mensageiros, mas eu consegui dominá-los com o amor de Deus e a fé calçada na preparação do evangelho da paz. Se minha vontade não fosse entrar no céu, já teria desistido, mas como quero que desmorone o mundo, eu não paro. Penso em vocês 24 horas. Às vezes, sob as luzes dos refletores do pátio, fico até às duas horas da madrugada fazendo tapetes para a mãe levar e vender para poder ajudá-los. Neste momento, enquanto manejo agulha de crochê, eu converso com Deus... Fui burro demais, meu ego me cegou, hoje não posso ver a beleza da natureza, nem vocês, sou um verdadeiro cego procurando a luz na imensidão de um paraíso... Por que não vos ouvi? Só de pensar que ainda passarão 78 meses para eu sair. Sabe, pai, às vezes quando vou almoçar ou jantar, ou até mesmo tomar o café da manhã, penso em vocês. Será que tem isto lá na mesa? É difícil... Estou desabafando porque hoje descobri o valor que vocês têm para mim. Não que antes não os amasse, pelo contrário, amava, mas hoje estou loucamente enamorado e vou cuidar de vocês pelo resto de minha vida. Vou prestar um concurso público, vou dar a volta por cima, quem me viu que verá. Não quero que vocês fiquem esquentando a cabeça comigo, estou na Graça do filho de Deus, e a graça me basta. Amo vocês. Deus sabe o quanto queria estar aí, mas ainda não é possível, mas o amanhã a Deus pertence. E a mãe? Puxa, ela nem imagina como estou com saudade. Peça que me perdoe, fiz tanto crochê que temo não ser possível ela transportar sozinha devido ao peso, seria bom se Neide viesse também para ajudá-la. Quem sabe assim Raissa venha junto e posso vê-la, desta forma

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acabo matando a saudade. Outro dia, ao tomar sol, minhas pernas ficaram vermelhas, pois a pele estava branca como este papel. Senti coceira devido à falta de sol. Antes de ser transferido para penitenciária, não gozava deste direito. E avó Zezé? Meu Deus, quanto tempo não a vejo e não tenho notícias dela? Pai, dê o novo endereço dela para que eu possa escrever. Quando o senhor a encontrar, saúda-a como também ao tio Bene com a santa paz de Deus e diga que estou com saudade. Dia 09/01/05, farei a prova da FUNAP para eliminar o Ensino Fundamental. Espero que a carta que enviei tenha chegado a tempo de avisar para a mãe não vir nesta data. Venha somente em 16/01/05, pois assim não perco a prova. Caso tenha que perder, outra oportunidade somente em 2006. Particularmente, não quero deixar de prestar a prova. Estou me esforçando nos estudos, pois pretendo prestar um vestibular e cursar uma universidade. Pai, o senhor e a mãe têm uma dádiva muito linda: a de saber lidar com todas as dificuldades desta vida. Parece incrível, mas tudo ao seu lado se torna muito fácil, desde uma Belina 74 sem gasolina a uma doença de chagas, que se torna fichinha. Com vocês não há problemas sem solução, pois são servos do Deus altíssimo e todos os caminhos têm saída. Com vocês não há tempestade que não acabe em um lindo e brilhante pôr do sol no alto da Rua Avaré. Vocês me fazem ter mais coragem, por isso os amo. De um homem menino que muito o ama. Mãe, eu te amo. Com amor Junior *Esta carta faz parte do livro LÁGRIMAS EMBALADAS DE FILHO PARA OS SEUS PAIS.

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Os planos eram muitos, mas sempre esbarrava no fator principal: dinheiro para uma produção independente. Posso imaginar aquele capitão citado em parágrafo anterior, que já havia se livrado de todo peso extra da caravela à deriva e que se depara com um marujo em cima de uma tábua em alto-mar. “Que o faria? Passa de largo? Ou socorre?”. Em meio às dificuldades latentes, recebo outra carta de meu filho solicitando que pagasse – pasmem - vinte e dois reais a escola de ensino à distância, Instituto Monitor, que havia doado a ele uma bolsa de estudo. Ao ler aquela carta, vi-me como aquele capitão: passo de largo ou presto socorro. Fiquei com a segunda opção, embora o valor estipulado era uma fortuna diante do capital disponível. Mesmo assim, no dia Oito de julho de 2005, fui à sede da escola, com a minha esposa, efetuar o pagamento.

Quanto maior for a humildade de um líder, maiores serão suas conquistas.

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VIII Capítulo Um anjo chamado Elaine Enquanto era atendido pela funcionária, perguntei: - Moça, você poderia me dizer o nome da pessoa que rubricou essa autorização? - D. Elaine Palhares. - Será que poderia falar com ela? A atendente desculpou-se alegando que D. Elaine tinha muitos compromissos e não se encontrava na sede da empresa. Ao retornarmos para nossa casa, eu disse a minha esposa: - Mãe, o que você acha de citarmos o nome dessa escola no livro? Afinal, está fazendo um bem ao nosso filho. De comum acordo com minha companheira, abri um espaço no corpo do livro e citei a escola Instituto Monitor. No entanto, fui informado de que necessitava de uma autorização para mencionar o nome da instituição. Portanto, resolvi redigir uma carta à vicepresidente da escola. Campo Limpo Paulista, 19 de Julho de 2005.

Ao INSTITUTO MONITOR At.: Sra. Elaine Palhares Vice-Presidente São Paulo – SP Prezada Senhora,

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Tem esta carta, entre outras, a finalidade de expressar o meu sincero agradecimento pelo apoio dispensado ao meu filho, que cumpre pena no presídio da cidade de Oswaldo Cruz. Aproveito o momento para comentar que estou escrevendo um livro narrando muitos dos momentos vividos por mim e as lições tiradas nos instantes mais difíceis que passei após a detenção de meu filho. Não com o intuito de buscar compaixão, mas o de desejar passar como doação ao ser humano algumas dessas lições de vida que esta triste experiência me proporcionou. Deixo em aberto, caso V. Sa. tenha contentamento ou algum interesse em apoiar a publicação da 1ª. Edição deste livro será muito bem-vinda, pois estou fazendo uma produção independente, porém buscando auxílio de empresas que utilizem leis de Incentivo Fiscal e que em sua estrutura de marketing apóiam a cultura, ao mesmo tempo em que são beneficiadas com o desconto em Imposto de Renda. Todavia, também gostaria de deixar claro que, independente de um apoio material, é com muita alegria e gratidão que estarei citando o nome de vossa conceituada escola no corpo do livro, pois o apoio moral dispensado por V. Sa. ao meu filho, advinda desta oportunidade, terá em mim o eterno agradecimento. E, claro, se essa citação for do seu agrado, pediria se necessário, uma autorização por escrito para estar mencionando o nome da instituição que V.Sa. representa. Para tanto, informo que tenho prazo até o dia 28 de julho de 2005, pois os originais do livro vão seguir para a gráfica provavelmente no dia 01 de agosto de 2005. Encaminho, em anexo, alguns trechos do livro, que ainda estão passando por processo de revisão e formatação em mãos de profissional da área, para que V. Sa. possa verificar o texto no qual cito o Instituto Monitor. E, caso tenha algo a modificar ou outras sugestões a acrescentar, poderemos

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falar a respeito, desde que não altere os propósitos do livro e que, de alguma forma, possa contribuir para a sua divulgação de um modo adequado e que também possa servir ou resultar, até mesmo, em proveito mútuo. Antecipadamente agradeço vossa atenção e me coloco ao seu inteiro dispor para dirimir qualquer dúvida que V. Sa. tenha, porventura. No aguardo de uma manifestação de V. Sa., parte nesse ensejo, também, pediria a gentileza de que me posicione de vossa análise e decisão até a data do prazo supracitado, para que o cronograma não sofra alterações e tenhamos, o mais rápido possível, finalmente, o livro publicado. Sem mais para o momento, subscrevo-me, atenciosamente. EDSON CARLOS FRANÇA. Dois dias após ter enviado aquela carta, como havia fornecido o número de telefone de uma irmã, recebi o recado para entrar em contato com Dona Elaine, vice-presidente do Instituto Monitor. Sendo assim, ali mesmo da casa desta irmã fiz a ligação. Enquanto aguardava completar a ligação, olhando nos olhos de minha esposa, pude perceber a ansiedade mesclada com esperança, quando do outro da linha alguém disse. - Sr. Edson, recebi o seu material, o que posso fazer para ajudá-lo? Naquele instante, ouvindo aquela voz calma que passava segurança, meu coração disparou. Como estava sentado numa poltrona, levantei a cabeça pra olhar minha esposa que se encontrava em pé ao meu lado. Quando nossos olhos se encontraram antevendo um milagre, verteram água em abundância. Enquanto via aquelas lágrimas de alegria, imaginava conseguindo subsídio para edição de cem livros. Mas como falar para aquela senhora subsidiar cem livros? - Não sei – respondi, constrangido.

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- Li num parágrafo que o senhor me enviou que tem a intenção de vender dez mil livros. O senhor não acha que é muito? Naquele momento recordei que realmente havia feito esta previsão à esposa, mas como falar pra ela que este número era uma meta a ser atingida. A única coisa que veio à mente foi uma data. - Este é um número para ser atingido em dois anos. - O senhor já fechou com alguma editora ou gráfica a edição deste livro? Diante de minha negativa, tornou a indagar: - O senhor sabia que nós temos gráfica e editora? Por um segundo, antevendo o milagre de Deus, o qual minha esposa já havia sentindo, respondi: - Não, senhora, não sabia. Diante de minha resposta, ela disse: - A princípio, nós poderemos fazer mil livros para o senhor. Novamente olhei para minha esposa, que embora não estivesse ouvindo as palavras que D. Elaine me dizia, pela expressão do meu rosto, percebeu que o milagre havia acontecido. Como fiquei sem resposta diante do número expressivo de livros que Deus estava me preparando, D. Elaine tornou a falar: - O que o senhor acha disto? Com a voz entrecortada pela emoção, disse: - Posso chorar? Com a mesma emoção, ouvi-a dizer: - Não faça isto, se não eu choro também. Faço uma pausa nessa narração para uma consideração: Ter condições de adquirir um objeto de desejo é muito gostoso, claro que cada caso é um caso. Porém, quando não vemos condições de realizar o desejo de nosso coração, mas se mesmo assim conseguirmos apalpar

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o sonho antes dele se materializar, é possível vermos entre as névoas do subconsciente uma realidade possível de ser alcançada. Embora saibamos que por nossas forças não teremos êxito. Se neste momento, nossa fé alcançar o céu e Deus aparecer com Sua misericórdia, o homem apalpa o sonho impossível. E quando isto acontece, creia, a alegria que invade o coração não há nesta Terra dinheiro que possa comprar esta felicidade. Foi com esta alegria que saímos da casa de meu irmão, sabendo que em alguns dias nossos sonhos seriam realizados. Conforme havia agendado, em 1º de agosto de 2005, acompanhado por minha esposa, estava me sentindo o homem mais feliz do mundo. Enquanto viajava no trem da CPTM com destino a São Paulo para o encontro que mudaria o curso de minha vida. Mesmo porque, nesta data, eu estava completando cinquenta e um anos de vida, não poderia haver presente melhor. Causou-me espanto a forma como fomos recebidos. Após sermos anunciados, fomos orientados pela recepcionista a subirmos ao segundo andar. Antes de alcançá-lo, vi no topo da escada uma jovem senhora nos aguardando para nos recepcionar. Assim que nos aproximamos, com um sorriso nos lábios, ela disse: - Sr. Edson, sou Raquel, secretária de dona Elaine, a qual pediu para o senhor desculpar por não estar presente, pois surgiu um compromisso de última hora, mas o senhor Roberto o atenderá. Dando a explicação, encaminhou-nos à sala do senhor Roberto que, por ser de vidro a divisória de sua sala, pôde perceber nossa presença. Assim que nos viu, levantou-se para nos receber. Enquanto caminhava a seu encontro, percebi que estávamos num enorme salão ocupado por várias mesas, onde homens e mulheres manuseavam micros e laptops. Do lado esquerdo, vi a laje que cobria a escada de acesso ao andar que nos encontrávamos. Notei que sobre ela havia uma

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planta entre pedras servindo de decoração, dando um toque ecológico ao ambiente. Próximo à sala do senhor Roberto, à esquerda, vi uma sala ampla com uma mesa ocupando todo aquele recinto e algumas cadeiras ao redor, como se aguardasse o momento da reunião. O anfitrião recebeu-nos calorosamente, convidou-nos a sentarmos à mesa e disse: - Como vai, senhor Edson, vejo que trouxe a esposa. Respondi timidamente, meio perdido naquele ambiente. - O senhor está fora de moda. Sabia que o senhor está fora de moda? Olhando para aquele senhor de camisa manga curta, que sorria com simpatia, pensei com meus botões: “Você é um tonto, velho França, esta sua mania de andar vestido de terno, olha só o que deu”. Todavia, os olhos do senhor Roberto não denotavam zombaria e sim um amor singelo, visível somente a quem sabe amar. - Vou explicar-lhe, senhor Edson, porque está fora de moda... Antes que tivesse tempo de se explicar, entrou na sala uma jovem com uma bandeja nas mãos, trazendo café para nos servir. Naquele momento senhor Roberto mostrou o tamanho de sua grandeza. Por alguns minutos, conversou de igual para igual com sua funcionária. Pude perceber que não havia naquela relação a hierarquia usual, tão comum numa corporação. O que vi foi a interação entre colegas de trabalho. Voltando sua atenção para nós, indagou: - O senhor prefere café com açúcar ou adoçante? Senti vontade de rir, ao mesmo tempo em que glorificava a Deus, por saber que às vezes em casa não tinha nem o café, e naquele momento eu poderia escolher, açúcar ou adoçante. Enquanto saboreávamos o café, entrou na sala um senhor tão simpático quanto o patrão.

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- Posso tirar uma foto de vocês? – disse Rony, o funcionário apresentado. Com nossa anuência, fomos fotografados pelo Rony, que a seguir solicitou autorização para nos fotografar ao lado de senhor Roberto. - Senhor Edson, vou explicar o porquê está fora de moda. O amor que o senhor coloca em seu livro está em extinção. Tenho quatro filhas e nenhuma me deu trabalho, não saberia o que fazer se tivesse acontecido comigo o que aconteceu com o senhor. Até que tomei conhecimento de seu livro, agora sei. Com amor, se resolve tudo. Faço um aparte para um comentário. Na época do lançamento do livro, a vice-presidente da escola Instituto Monitor, D. Elaine Palhares, gravou um vídeo e, em seu depoimento, enalteceu minhas qualidades de escritor, sendo muito gentil em sua consideração. Porém, há em mim a consciência de que a arte não sobrevive sem talento. “Penso”. Todavia, sabia também que só o talento não seria suficiente para edição de meu livro, portanto precisava que Deus criasse um caminho e colocasse ao meu lado pessoas solidárias que compartilhassem comigo o mais precioso dos tesouros: Amor. O amor tem muitas formas de se manifestar. Na nossa vida foi maravilhoso, pois vi refletido nas lágrimas de compreensão de uma vice-presidente, na simplicidade de um amor verdadeiro semeado por Jesus Cristo há mais de dois mil anos. E nas palavras do Sr. Roberto Palhares, presidente da escola Instituto Monitor, que me honrando, registrou na nota do editor, entre outras, estas palavras: A vontade de realizar um sonho para nós tão possível transformou funcionários em voluntários. A minha alegria em receber os livros de presente me fez recordar outra cena que presenciei no Estado do Ceará. Exatamente no dia das mães do ano de 1.996, estava vendendo utensílio doméstico numa cidade de nome Groairas, distante da

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cidade de Sobral, coisa de 50 km aproximadamente. Estava em meio Fazendo Feira no Ceará a panelas, pratos, copos, xícaras e baldes de plásticos, esparramado sobre uma lona de caminhão, quando apareceu um casal de meia idade, mas que parecia ter mais do que aparentava, fato normal naquele cerrado de povo sofrido. Depois de examinar as mercadorias ali presentes, pegou duas xícaras de formato diferentes nas mãos e indagou a esposa qual ela preferia. Após saber qual a companheira havia preferido, devolveu a outra. O que me chamou a atenção e me trouxe grande lição foi a situação que presenciei. Após dar a xícara à esposa, tirou do bolso um saco deste usado para embalar arroz de 5k. De dentro do saco, tirou um pano que foi desembrulhando cuidadosamente. Apareceram duas moedas, uma de 0,50 que ele usou para pagar a xícara, e outra de 0.25, que tornou a embrulhar cuidadosamente, colocando no mesmo saco plástico e guardando no bolso. De mãos dadas à esposa, foram embora felizes da vida. Se naquele instante aparecesse alguém que tivesse o poder de dividir as águas do mar em litros. Se aparecesse outra pessoa com poder de pegar o resultado desta divisão e separar em gotas. A

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felicidade daquela senhora em receber a xícara como presente de dia das mães, ou a minha em receber os livros de presente do Instituto Monitor seriam maiores. Posso dizer: “Para família Monitor, o Pão e o Vinho continuam tendo o Seu significado” Saímos maravilhados daquela escola, depois de ter deixado acertado que cuidariam da edição. Entreguei ao Rony o original do livro e ficamos aguardando que o mesmo fosse editado. Várias vezes estive na sede do Instituto Monitor e, sempre que houve necessidade, Rony colocava a minha disposição uma jovem jornalista por nome Rebeca que, movida de simpatia e paciência, esclarecia as minhas muitas dúvidas. Numa desta vez que ali estive, enquanto tratávamos de assunto pertinente ao livro, fui agraciado por dona Aline; outra filha do Sr. Roberto Palhares, com mil e cem convites para o lançamento do livro. Numa outra visita a sede do Instituto Monitor, enquanto conversava com Rony, fui informado por ele que os funcionários da Fundação Biblioteca Nacional na cidade do Rio de Janeiro estavam em greve, e estavam aguardando para registrar o livro antes da publicação. Aquela colocação “registrar o livro” mexeu comigo. De repente comecei a lembrar de um passado onde havia depositado confiança em pessoas que mal conhecia, e paguei caro por aquela confiança. Creio que Rony tenha percebido minha desconfiança, pois disse a seguir: - Senhor Edson, confia em nós. Claro que confiava, mas como dizer a ele que, por várias vezes, apanhara com vara de marmelo, portanto sentia medo ao ouvir o chacoalhar da folha de samambaia. Esperar, verbo terrível, todavia as pessoas por parte do Instituto Monitor tiveram paciência e suportaram minha ansiedade.

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Finalmente o grito de vitória foi dado, o carro do Instituto Monitor havia acabado de partir, deixando sobre a mesa os livros almejados. Aquilo representava mais que simples livros, eram a pá e a picareta, ferramentas que me possibilitariam ir a campo, garimpar o ouro tão necessário para almejada vitória. Minha esposa me trouxe de volta à realidade: - Tenho a impressão, amor, de estar sozinha nesta casa. Estou falando há algum tempo e você não responde. - É verdade, Mara, por segundos, reportei-me ao passado e fiquei imaginando que se não fosse Deus nos dar força, teria sucumbido nas pelejas. - É, Velho França, se não fosse Deus em nossa vida... Colocando os dedos nos seus lábios, impedindo que prosseguisse, disse: - É verdade, mãe, mas deixe o Velho França tomar um banho, correr ao centro de Campo Limpo Paulista vender alguns destes livros e levantar dinheiro para comprar nossas roupas. Após ter-me preparado para sair, abri um daqueles pacotes, tirei um livro. Com os olhos lacrimejando de alegria, passei as mãos sobre a capa alisando com carinho, encostei-o ao peito como se fosse possível tocar meu coração com ele. E, com uma alegria de alma, redigi uma mensagem a quem tudo devo, Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Guardei com carinho aquele livro e saí para cuidar de meus afazeres. No dia 26 de novembro de 2005, no ginásio Fubazão, na cidade de Campo Limpo Paulista, foi realizado o lançamento do livro FILHO DEIXA EU TE AJUDAR. Neste dia, começou a apagar de minha mente os momentos de angústia, pois era o início de uma vitória. De todas as homenagens feitas naquela noite, uma merece ser lembrada: a que dediquei a minha esposa, lida pelo mestre de

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cerimônia, após minhas netinhas Raissa e Larissa darem à avó um lindo arranjo de flor. Sabe, Mara! Você, linda de Maria; Aos seus pés, a flor de orquídeas não existe; Perto de ti, Mara, as rosas tornaram-se insignificantes. Tu és o cântico dos pássaros e tema na prosa dos ventos. Sem você, o amanhecer não teria sentido. Que grande sorte a minha, Maria, em ter você como esposa, Mara. Prometo continuar a ser um Edson muito apaixonado e um esposo dedicado; Sua ternura é superior às minhas imperfeições. Como lutar, Mara, se não contar com seu apoio? Por que vencer se você não estiver ao meu lado para dividir as vitórias concedidas por Deus. Sabe, Mara! Tenho tanta coisa para escrever e dizer, mas Maria quando começo tenho em mente a emoção... Você, metade de mim, dona de meu coração. Ou simplesmente mãe. A soma do infinito seria pequena, em relação ao amor que sinto por você. Com amor, pai ou somente amor. O Velho França A homenagem me proporcionou um beijo apaixonado em público. Confesso que o amor, a dedicação e o carinho dispensados por todos do Instituto Monitor - da direção aos funcionários – tudo superou minha expectativa.

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Para coroar a grandeza que só os grandes homens têm, humildemente não compareceram ao lançamento do livro, ausentes, elevaram-se. E o nome de Deus foi glorificado. Das muitas homenagens recebidas na ocasião do lançamento do livro, destaco uma para representar todas: um cartão enviado por Dr. Geraldo Alckmin, que governava o Estado de São Paulo naquela ocasião.

O insensato reclama da brisa.O valente desafia o vento. O sábio encontra o “Caminho” entre a tempestade.

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IX Capítulo A esperança é renovada Comecei o ano de 2006 cheio de planos. Embora houvesse desempenhado várias funções de liderança, em que a eloquência era a base para o sucesso de qualquer líder mas, desejoso de um aperfeiçoamento técnico, voltei ao banco de uma escola. Durante dois meses frequentei um curso livre de oratória;. Neste período descobri que nada sabia e todo o conhecimento que acreditava ter, nada significava diante do universo de fatores novos que descortinavam em minha frente. Os planos estavam caminhando dentro do cronograma traçado, embora não tivesse ainda normalizado a questão “CPFL”. A alegria era contagiante, pois víamos naqueles livros a solução para resolver vários problemas, entre eles comprar um poste, quitar o débito atrasado e pedir para CPFL ligar novamente a luz. Todavia, como qualquer escritor desconhecido, sabia que para vender bem meus livros seria necessário gritar para a multidão: “Psiu! Eu existo, sou escritor, por favor, leiam meu livro”. O que não era nada fácil, pois a mídia não costuma conceder espaço para autor desconhecido. Mesmo com esta dificuldade, montei um cronograma, acreditando que, em 21 de setembro de 2008, os passageiros credores de Solemar Agência de Viagem e Operadora de Turismo Ltda. viajariam para a cidade de Maceió num tour aéreo. Foi nesta época que recebi uma ligação do irmão Yerko, que morava na colônia penal de Presidente Prudente, solicitando autorização para estar conosco no feriado de abril. Quando meu filho Junior esteve detido na Delegacia de Polícia 148


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na cidade de São Paulo, ele conheceu um boliviano por nome Yerko, a quem foi anunciado o santo evangelho e juntos participavam dos cultos que havia na cadeia. Algum tempo depois foram separados, mas tornaram a se encontrar no presídio da cidade de Oswaldo Cruz. Alguns meses depois, o rapaz aceitou Jesus Cristo como seu único salvador. Fomos apresentados por carta pelo meu filho e passamos a trocar correspondência. Quando ele foi montar o pedido para ser beneficiado a cumprir o restante de sua condenação numa colônia penal, era necessário por lei constar um endereço brasileiro. Meu filho me escreveu intercedendo pelo amigo, para que ele usasse nosso endereço. Por entender que na prisão qualquer um pode ser crente em virtude do lugar em que se encontra e não querendo fazer algo que pusesse em risco nossa segurança, busquei resposta de Deus. Como senti alegria, autorizei que assim o fizesse. Recebi irmão Yerko como um filho. No entanto, após a sua chegada, pediu-me: Irmão Edson, eu tenho um amigo boliviano que mora em São Paulo, será que eu posso visitá-lo amanhã? Rindo respondi a ele: Claro, vá ver o seu amigo. No sábado cedo irmão Yerko viajou para São Paulo, só retornando a noite, no domingo enquanto tomávamos café falei estas palavras a ele: Irmão Yerko você sabia que se colocarmos um urubu preso em uma gaiola, de jeito nenhum conseguiremos caçar uma colerinha? Que para caçar um pássaro que está livre é necessário um pássaro semelhante, e o interessante que o pássaro que canta livremente na copa de um abacateiro não percebe que o cântico que lhe atrai, é um cântico triste; pois sua atenção está na ração traiçoeira que lhe roubará a sua liberdade. Após dizer aquelas palavras, perguntei a um Yerko atento

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as minhas palavras: Entendeu Yerko? Somente um pássaro igual, consegue atrair outro para o alçapão. Após alguns segundo meditando no que ouviu, aquele rapaz me disse: Irmão Edson, encontrei meu amigo, nossa (sic) ele está muito rico, me tratou muito bem, quando me preparei para retornar para casa do irmão, ele colocou um pacote de dinheiro sobre a mesa e me disse estas palavras: “ Yerko aqui está o dinheiro e lá fora está minha camionete, vamos, te ajudo a fugir, amanhã a esta hora estaremos em Santa Cruz de La Sierra nossa pátria, com este dinheiro você começa vida nova longe da prisão. Enquanto Yerko falava dava para perceber que ele havia travado uma luta terrível para resistir àquela proposta, sorrindo pergunto a um rapaz de olhar triste: O que você respondeu a ele? Com os olhos brilhando de satisfação respondeu-me: Disse a ele que devia para justiça brasileira e se não pagasse não estaria agindo corretamente com Deus. Diante daquela resposta comprovei que estava certo quando entendi a voz de Deus em meu coração para ajudá-lo. Com esta alegria, comentei para um rapaz interessado em me ouvir: Você fez a melhor escolha Yerko, pois se tivesse optado pela fuga, com certeza a esta hora você poderia estar preso na cidade de Corumbá Os dias que passou conosco ele participou de vários cultos de adoração a Deus. Ao retornarmos de um desses cultos, como continuava sem a luz elétrica, nossa casa estava encoberta por uma escuridão que parecia um breu, assim que entro no quintal, eu disse ao irmão: - Irmão Yerko, na próxima vez que você vier, a luz estará normalizada. Na hora ele selou com um amém, minha esposa glorificou a Deus,

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e em mim entrou uma fé tão grande que já enxergava a luz acesa dentro de casa. Não sabia como, pois estava mais difícil colocar meus livros na rua, minha única fonte de renda. Mas, mesmo assim tinha a certeza, que quando irmão Yerko retornasse em outra saída, a luz estaria normalizada. Porém, no livro de II reis no capitulo IV Elizeu pergunta para a viúva que o havia procurado pedindo por socorro: - Que te hei de eu te fazer? Declara-me o que tens em casa. O que respondeu aquela senhora: - Tua serva não tem nada em casa, senão uma botija de azeite. Elizeu homem de Deus ordenou: - Vai, pede par ti vasos emprestados a todos os teus vizinhos, vasos vazios, não poucos. Então entra, e fecha a porta sobre ti, e sobre teus filhos, e deita o azeite em todos aqueles vasos, e põe aparte o que estiver cheio. Após ter feito o que o homem de Deus pediu, retornou a ele para falar sobre o milagre que havia acontecido da multiplicação do azeite, e ouviu deste: - Vai, vende o azeite, pague tua dívida, e você e seu filho viva do resto. Da mesma forma que a viúva creu, nas palavras que saí da boca do profeta, eu cri nas palavras que saíram da minha boca, pois senti em meu coração que a fé havia multiplicado, igual o azeite na botija. Esta multiplicação produziu obras que relatarei a partir desse parágrafo, não relato por erudição, mas no calor da verdade. Para que não paire sombra de dúvida no leitor, darei todos os nomes dos envolvidos neste milagre. Alguns dias depois da partida de irmão Yerko, era um final de tarde, quando vi que parou um caminhão da CPFL em frente a minha casa, o mesmo que faz manutenção da luz que ilumina a via pública. Ao constatar que estavam ali para sanar o problema existente na luz, que

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há no poste em frente de minha casa, desci até a rua para acompanhar o trabalho de reparo que eles faziam. Assim que percebeu minha presença, o funcionário que se encontrava no chão, apontando para o poste onde seu companheiro trabalhava disse: - Tem um siamês ali... Como não entendi o que ele queria dizer, perguntei: - Tem o que, senhor? - Siamês. Percebendo que não havia entendido, com um sorriso nos lábios, disse: - Gato. Tem um gato ligando a luz do seu vizinho. Por alguns segundos, fiquei olhando para aquele senhor e reportei para um passado não muito distante quando ouvia de meu vizinho: - Você é tonto ficar todo este tempo sem luz. O empresário ganha muito dinheiro, uma casa a mais uma casa a menos, não vai fazer falta para ele. Como aquele senhor olhava para minha casa em busca de alguma irregularidade, falei: - O senhor não vai encontrar a mesma coisa na minha casa. Fazendo uma pausa, conclui sem mencionar minha crença: - Meu pai me ensinou que um homem não deve ser repreendido por outro homem. Olhando, admirado, aquele senhor disse: - Você está nas trevas material, porém na luz espiritual. - Do que o senhor trabalha? - Hoje sou escritor. Diante de minha situação, com um chapéu de palha velho na cabeça, um chinelo de dedo nos pés, morando na última casa de

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uma rua sem saída e abandonada e ainda com a luz cortada, ele não acreditou que estava diante de um escritor. - O senhor está querendo me dizer que já escreveu livro? - Sim, já escrevi um livro. Aquele senhor de nome Daniel perguntou: - O senhor tem este livro para que eu possa ver? Pedi a minha esposa que trouxesse um livro. Aproveitei e expliquei sobre meu filho e sua prisão. Assim que teve o livro em mãos perguntou o valor. Quando disse que eram vinte reais, buscou na carteira achando dezoito reais, preço pelo qual levou o livro. O homem Foi embora e pouco mais de uma hora, Marcos o seu companheiro retornou para também comprar um livro. Alguns dias depois, estava folheando o jornal de Jundiaí que uma irmã assina e senti uma alegria em meu coração. Larguei tudo, dobrei meu joelho e busquei a Deus em oração. Em dado momento da oração, a alegria interior era tão grande que comecei a conversar com a casa, e a falar pra ela como se pudesse me ouvir: - Ouça isto casa hoje Deus vai dar motivo para o nome D Ele ser glorificado, viu parede vocês será testemunha da obra que Deus vai fazer. Após ter feito aquela oração, estava novamente envolvido com o jornal quando ouvi barulho de um caminhão estacionando em frente de casa, pouco tempo depois ouvi alguém me chamar. Ao atender me surpreendi ao ver Daniel, funcionário da CPFL, o mesmo que conversou comigo a respeito do gato siamês, - neste dia vinha acompanhado de Roberval, outro parceiro. Depois de apresentar seu companheiro me disse: - Vim comunicar que levei sua situação para dentro da CPFL, peço que fique em paz, uma providencia divina está sendo tomada a seu respeito. Depois de alguns minutos foram embora, no outro dia quando cheguei

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de São Paulo minha esposa me disse: - Amor esteve aqui em casa um engenheiro da CPFL, e falou para você fazer um buraco de 1.50m aqui onde ele marcou. Após receber aquele recado, fui providenciar aquele buraco que eu faria até de 100m se fosse o caso. O mês de abril já era passado, no dia 06 de maio, estava me preparando para fazer o cerimonial de uma festa de 15 anos, de Jéssica filha de uma conhecida, quando ouvi um barulho se aproximando, era um caminhão munck de uma empreiteira prestadora de serviços a CPFL que vinha trazendo um poste de concreto, e procurava por Edson Carlos França. Não tive nenhum trabalho, eles mesmos usando o braço mecânico existente no caminhão, colocaram o poste no buraco que eu havia feito. Na segunda feira seguinte em companhia de minha esposa fomos ao escritório da CPFL tentar negociar o débito que tínhamos com a companhia, qual não foi nossa surpresa em saber que não devíamos nada para a CPFL. Na sexta feira 11 de maio de 2006 a luz elétrica de minha casa foi normalizada, sem que eu tivesse pagado os R$ 341,00 de conta de luz atrasada, e comprasse o poste orçado em R$ 450,00. Em mim cumpriu a Palavra da botija de azeite, com um pouquinho de fé, Deus fez grande obra. Quando o irmão Yerko voltou no mês de maio em sua 2º saída de indulto, encontrou a luz ligada, este fato fortaleceu sua fé. Neste ínterim, meu filho ganhou o direito de ir para o semiaberto, o que nos trouxe muita alegria. Passamos a contar os dias nos dedos, esperando sua primeira saída que seria no mês de agosto. O mês de julho foi de uma morosidade terrível, aguardava ansioso o dia que abraçaria meu filho, que não via há mais de três anos. Enquanto aguardávamos a visita de nosso filho, aconteceu um fato que nos alegrou muito. Foi no primeiro domingo de agosto. Era por volta de 11h, quando me chamaram no portão de casa.

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Era um senhor conhecido que, a pedido de seu genro que era vereador, convocava os moradores para naquele domingo estarem reunidos num determinado ponto da Rua Avaré, onde a água da chuva havia aberto uma cratera. Dizia ainda que o senhor prefeito estaria neste encontro e seria tratada a pavimentação da nossa rua. Eu disse que não poderia estar presente, pois aos domingos nossos cultos são realizados às 14h30 e não gosto de faltar. Todavia, como nos confidenciou que era de suma importância a presença de todos, acabei me comprometendo para receber o senhor prefeito. Na hora marcada, o nobre vereador pediu desculpa em nome do senhor prefeito que, em virtude de um compromisso de última hora, não estaria presente. Irritado, falei a minha esposa: - Mãe, este senhor nos engabelou com esta história da vinda do prefeito, poxa! Como pude acreditar nessa conversa. De repente, parou um carro branco modelo Santana não muito distante de onde me encontrava e uma pessoa do lado do passageiro perguntou a um vizinho se conhecia o senhor França. Ao receber a informação, dirigiu-se até nós. Ao se aproximar, disse que estava ali para me presentear com um computador. O casal Wagner e Jose, que nos presenteou com o computador, deixou nosso lar em festa. Aquela semana prometia ser de cântico e júbilo no Recanto dos Velhos França, pois aguardávamos a chegada de nosso filho que viria nos visitar em sua primeira saída após ter ido para a colônia penal. No dia 11 de agosto de 2006, cheguei à estação por volta das 17h para aguardar meu filho. Cada composição que chegava, eu o buscava entre os passageiros. Olhava ansioso tentando encontrá-lo entre as pessoas que desciam apressadas dos vagões estacionados. Somente o

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vi por volta das 19h. Quase enfartei de alegria. Ele continuava criança, embora no rosto houvesse a marca do amadurecimento forçado mesclado com o sofrimento de alma. Quando nossos olhos se encontraram, seus lábios se abriram num doce sorriso. Abri meus braços, onde ele se aninhou, enquanto dizia: - Não vale chorar. Como se adiantasse me proibir. Apertando-o em meus braços, dei vazão às lágrimas reprimidas ao longo daqueles três anos e pouco sem poder vê-lo. Na minha mente, naquele momento, passava um trecho de uma carta recebida de meu filho. Nem sei como começar esta carta. A grande verdade é que desejo que esta possa encontrá-lo bem e com saúde, juntamente com a mamãe. Estou bem e com saúde, porém com muita saudade de você. É, meu velho, já faz dois anos e oito meses que eu não o vejo. Sabia? Isso pesa dentro de mim e não vejo a hora de ganhar o semiaberto e, na saidinha, passar cada segundo dos cinco dias que terei direito ao seu lado. Hoje acordei cedo. Por não ter trabalho no raio em que moro, li parte de um livro, almocei e iniciei a escrita desta carta, pois a saudade é tamanha que não dá para conter. Eu fui burro, hein? Quanto desgosto hein, meu pai? E em troca recebo seu apoio como prova de amor. Negrão, seu filho hoje é um verdadeiro homem, pois a cadeia me ensinou a ser: amor, verdade, sinceridade, homem de palavra, coisas que eu não tinha, hoje adquiri através do sofrimento. Portanto, escreva não num papel, mas na pedra que não apaga, pois hei de cumprir. Foi maravilhosa aquela semana que meu filho passou conosco. Quando voltaram para a colônia, irmão Yerko, que também esteve

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conosco naqueles dias, ganhou o direito de pagar o restante de sua condenação na rua. Naquela mesma semana retornou para nossa casa, onde morou conosco por algum tempo. Depois alugou uma casa aqui mesmo no bairro. Seis meses depois se mudou para Suzano, na grande São Paulo. Abriu uma oficina de costura e, durante alguns meses, ficou naquela região. A última notícia que tivemos dele é que havia voltado para Bolívia, seu país de origem. “Agradeço a Deus por ter-me concedido a oportunidade de ter sido útil a alguém, embora eu nada tenha feito. Serviu de muito para quem nada tinha”. O mês de setembro começou a todo vapor. Agora eu tinha um micro para digitar meus livros. Em pouco tempo, digitei um livro que havia manuscrito há meses: Hains & Tein, droga não posso morrer! Em dezembro de 2006, seria a terceira saída de meu filho Junior, que viria passar as festas com a família. Mara preparou a casa com alegria para receber nosso filho e, conforme combinado com suas irmãs, elas viriam também. Seria o primeiro final de ano que a família se reuniria depois da prisão de Junior, ocorrida no ano de 2003. Tudo caminhava para dias de alegria no Recanto dos Velhos França. Neste período, digitei algumas cartas recebidas de meu filho. Aliás, manuscritos poéticos extraídos do fundo de sua alma nos momentos de solidão, quando tinha como companhia somente uma folha de papel e uma caneta para extravasar seus sonhos. Cartas que, às vezes, chegavam a nossas mãos trazendo lágrimas embaladas ou o eco de choro de um angustiado - em outras ocasiões, trazia o doce sabor de um beijo e o sorriso do filho amado. A princípio, pensava em catalogar aquelas cartas e, à medida que fosse surgindo necessidade, seriam doadas. Porém, quando vi o resultado, surpreendi-me. Havia nascido um livro: Lágrimas

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embaladas de um filho para os pais! Percebi que, sem este livro, a saudade não teria vida, as lágrimas não teriam sentido e a distância seria infinita. Todavia, na sua chegada, percebemos que aquele menino que na infância dobrava o “erre” quando falava as palavras que continham um “erre” só, tais como: Bomberro, morrango - entre tantas palavras, dizia uma: “Ganrum”, que até o dia de hoje não descobri o seu significado e, com certeza, jamais vou descobrir. O Junior dos erres dobrados mudou, já não era o mesmo, havia perdido a candura do olhar. As palavras, embora embaladas com mel, não tinham mais a doçura de antigamente. As promessas de fazer-nos felizes ficaram guardadas somente nas cartas. Enfim, era outro Junior, que não quis passar as festas com os pais, preferindo passar com as irmãs e a avó. Na véspera de seu retorno à colônia penal, Junior apareceu em casa. A mãe, chateada com a ausência do filho, reclamou. Uma discussão entre mãe e filho começou, obrigando-me a intervir. - Que valentia é esta, negrão? Discutindo com uma mulher? Discuta com homem rapaz... Enquanto dizia estas palavras, empurrava contra a parede um Junior que, embora tenso, não reagiu, pelo contrário, colocou as duas mãos nas costas, abaixou a cabeça e ouviu calado tudo o que eu devia e não devia falar. No final, cabisbaixo, deu uma saudação e foi embora. No final de janeiro de 2007, lembrei-me de Junior e das coisas que haviam acontecido em sua última visita. Sabia que o lugar em que ele se encontrava era propício para empurrá-lo definitivamente para o buraco. Resolvi, então, ligar para o telefone público do sistema penitenciário, no qual meu filho se encontrava. - Pai! É o senhor? Pensei que o senhor estivesse bravo comigo. - Eu continuo bravo com o senhor. Estou ligando apenas para

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dizer que o amo e que, aconteça o que acontecer, sou o seu pai e você nunca deixará de ser meu filho. Fiz uma pausa antes de continuar o meu desabafo. Junior ouvia calado do outro lado da linha. - Entretanto, quero que saiba que estou muito triste com a situação que estamos vivendo, independente de amá-lo, nunca aceitarei passivamente esta situação. No dia 05 de março daquele mesmo ano, depois de um précontato, levei meu micro numa assistência técnica para ser instalado um fax-modem. Conforme me confidenciou o técnico, era um serviço simples e rápido, o qual me custaria apenas R$ 50,00. Após longos minutos tentando instalar a peça, o técnico constatou que meu computador estava com um problema. Depois de muitas explicações, ficou acertado que teria que ser trocado o cooler. Como ele não tinha a peça no estoque, no dia seguinte fui a São Paulo comprá-la, na Rua Santa Ifigênia. Na tarde daquele mesmo dia, entreguei-lhe a peça. Mas depois de várias tentativas, o técnico disse: - Será preciso levar o seu micro para um técnico dar uma olhada. - O senhor não é técnico? - Sim, mas só trabalho com máquinas novas. Por alguns segundos, olhei com pena para o velho Pentium III. - Dê-me o endereço do técnico, que eu mesmo levo. Naquela mesma semana, retornei a São Paulo levando a tiracolo o velho Pentium, que passaria por uma avaliação nas mãos de um técnico japonês, amigo do técnico anterior. Depois de mais de horas tentando descobrir o defeito, o tal técnico japonês não conseguiu solucionar o problema, devolveu-me o aparelho e, usando o linguajar do Vale do Silício para me explicar o defeito do micro, o que não entendi patavina

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nenhuma, a única coisa que compreendi foi o valor cobrado por nada ter feito, R$ 20,00. De volta a Campo Limpo Paulista, fui até a assistência técnica. Como o profissional (sic) não se encontrava, entreguei o micro a sua esposa e recomendei: - Senhora, aqui está minha máquina. Diga ao seu esposo que não precisa colocar o fax moldem. Quero apenas que ele faça a máquina funcionar, pois foi assim que a entreguei. Caso contrário, procurarei meus direitos. Irei ao PROCON. Dois dias depois, recebi o recado para buscar meu velho micro. Ao chegar à loja, ele ligou o micro e mostrou o funcionamento da máquina. Depois, desligou a máquina e se armou com uma chave de fenda, passou-a perto do meu nariz e falou: - Grita com homem. Levei um susto e indaguei: - Não estou entendendo o senhor. Furioso, o técnico tornou a dizer: - Você chegou aqui na loja gritando para todos os fregueses ouvirem. Ameaçou minha esposa. Quero ver você gritar e ameaçar um homem. Percebendo que nada o acalmaria, no meu íntimo fiz uma súplica a Deus. Pedi que não permitisse que aquele rapaz me tocasse. Agradeço a Deus pela minha esposa que, tomando a frente, disse: - Conheço meu esposo há trinta anos, ele não é de gritar e muito menos de fazer escândalo. Chamou a esposa do técnico e, olhando nos olhos dela, perguntou: - A senhora tem certeza de que meu esposo entrou aqui gritando e fazendo ameaças? A mulher, ficando alguns segundos em silêncio, respondeu:

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- Bem, ele disse que iria ao PROCON. Naquele momento fui tomado por um sentimento de compaixão por aquela senhora, pela infantilidade de colocar o marido em confronto com outro homem e lembrei-me de um versículo bíblico que diz exatamente isto: “Toda a mulher sábia edifica sua casa, mas a tola derruba-a com as suas mãos. Prov. 14vs1º”. Concluindo, perdi meu velho Pentium que entrou vivo naquela oficina e saiu morto. Agradeço a Deus por ter perdido somente um computador. Mas ficou uma lição: “Por mais valioso que seja o bem material, mesmo assim, não é superior ao mais pobre e miserável dos homens”. Alguns dias depois daquele episódio do computador, para ser mais preciso, exatamente no feriado de 1º de maio, encontrava-me no quintal serrando algumas madeiras, quando parou um carro embaixo de uma árvore, que tem numa rotatória em frente de minha casa. Era um palio e dentro estava uma pessoa conhecida, que havia trabalhado de vendedora sob minha gerência, na Cia. Paulista de turismo e na viação Mimo. Com alegria a recebemos. Relembramos o tempo em que trabalhamos juntos, falamos do acidente que havia ceifado a vida de seu esposo e do trabalho que eu estava desenvolvendo naquele momento. No entanto, o que parecia ser uma visita amigável, na verdade era uma revelação. - Sabe, Edson, não sei como, mas sei que você se esconde atrás de uma máscara que não consegui entender ainda, mas tenho a certeza de que você se esconde. Olhei para minha amiga e indaguei: - Não estou entendo, como assim? Máscara! - Sim Edson, máscara! Quando fui trabalhar sob a sua gerência, eu era uma pessoa sem experiência, que não sabia nada da vida, ao

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passo que você estava centenas de anos-luz na minha frente. Você sabe trabalhar, mas tem algo que o impede de ter sucesso, de se mover... Olhei para ela e pensei: “É amiga, você está ficando esperta.”. Concluindo o meu pensamento, fiz menção a uma empresa perdida, sem entrar em detalhes. Para finalizar aquele assunto, disse: - Você sabe que escrevi um livro e estou empenhado em fazer palestras relacionadas ao tema. Naquele momento, ela mostrou por que havia me procurado quando mencionou uma doação para o fundo social da cidade. - Você vota? Olhando para aquela senhora, não querendo acreditar que ela estava ali como cabo eleitoral, indaguei: - Votar! Com assim? - Quero saber se você tem título de eleitor. - Não, não tenho título de eleitor. E por que você deseja saber? - Sem título de eleitor, você não é nada nesta vida... Contemplei aquela senhora enquanto pensava: “Seria tão bom se o voto fosse facultativo, pois assim não teríamos que suportar esta lengalenga dos bajuladores de carteirinhas”. Mesmo assim, falei: - Você está certa, sei que preciso legalizar meus documentos porém, enquanto isso não acontece, conto com os amigos para quebrar as barreiras. O que você pode fazer para me ajudar nesta parte das palestras, pois pelo que ouvi você é pessoa bem relacionada dentro desta cidade. Sorrindo sarcasticamente, falou: - Como fazer palestras, quem é você para tanto? Respirei fundo e disse: - Eu sou Edson França e me considero um escritor.

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- Dê-me o seu cartão de visita e verei o que posso fazer. Quando respondi que não tinha cartão, com aquele sorriso incômodo, disse: - Quem é o Edson, vamos me diga, que não tem nem cartão de visita. Senti que nossa conversa tinha chegado ao fim. Durante o tempo em que trabalhamos juntos, percebia nela uma ambição desmesurada pelo dinheiro e, naquele momento, descobri outra pessoa, cheia de arrogância, dona de si, sádica, como se quisesse competir uma intelectualidade que ela estava longe de possuir. Diante da situação vivida, cabe uma história. Viajava um empresário por uma rodovia, quando em determinado lugar da estrada deparou-se com a ponte quebrada que impedia sua travessia para o outro lado do rio. Aquele imprevisto o aborreceu muito, pois estava a poucos metros de seu destino para fechar um grande contrato. Ficou ali parado tentando resolver aquela situação quando viu, no meio do rio, um pescador lançando rede de cima de uma canoa. Pronto, ali estava a solução. Rapidamente, gritou: - Oh pescador, aproxime-se depressa que tenho um compromisso do outro lado do rio. Calmo, o pescador tirou a rede da água e, para desespero do homem de negócio, separou os peixes um a um, guardando os graúdos num cesto de vime e devolvendo os pequenos ao rio. Só depois disto levantou a cabeça e falou: - Boa tarde, sinhô dotô, o sinhô qué mesmo o quê? Controlando para não explodir, aquele empresário disse: - Preciso ir do outro lado do rio com urgência, pago o valor que pedir.

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Depois que acertaram o valor, já dentro do barco em movimento, o empresário olhou para a pobreza do pescador e, ironicamente, perguntou: - Você faz mais alguma coisa além da pesca? Espantado, o pescador perguntou: - Como fazer outra coisa, dotô? Se o que gosto mesmo é de sentir este cheiro selvagem do rio. Sarcástico, o passageiro perguntou ao pescador: - Ao menos, você sabe quem é Bill Gates? Tentando pronunciar, perguntou: - Biuu o que, dotô? - Bill Gates. - Não dotô, não sei o que é isso não? Ainda com aquele sorriso sarcástico nos lábios, ele falou ao pobre pescador: - Homem, quem neste planeta não conhecer Bill Gates, perde um terço de sua vida. Bem não conhece o Bill, mas ao menos sabe o que é computador. - Chi, dotô! Não sei disso não. Não contente com a ignorância do pobre homem e querendo humilhá-lo mais um pouco, perguntou: - E internet, isto você sabe o que significa? - Não dotô, não sei não, sinhô. - Sabe, com esta sua ignorância, você perdeu mais da metade de sua vida. Naquele momento, o barco chocou-se com uma tora que descia o rio e virou jogando seus ocupantes na água. O pescador saiu a nado enquanto perguntou para o empresário: - Dotô, o sinhô sabe nadar?

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Afogando-se, ele respondeu: - Não, me tire daqui. Enquanto se distanciava a nado em direção à margem do rio, o pescador gritou: - É dotô, o sinhô acaba de perder a vida todinha por esta ignorância: a de não saber nadar. Minha amiga foi embora feliz da vida por aquela superioridade ilusória, mal sabendo que por trás das ondas que levantam em nossa vida podem esconder uma tora viajando velozmente rio abaixo, em rota de colisão. Naquela semana surgiu outro problema, tinha que enviar dinheiro à colônia penal para custear a passagem que traria o nosso filho para passar o dia das mães com os familiares. Embora soubéssemos que Junior dificilmente ficaria em nossa casa, a missão de enviar o dinheiro era nossa. Recordo-me que o prazo de enviar o dinheiro havia esgotado, não podia passar daquela quarta-feira e não tínhamos conseguido o valor necessário. Saí cedo de casa com alguns livros na bolsa com intenção de vendê-los. A bondade de Deus apareceu naquela manhã, em pouco tempo consegui efetuar uma venda jamais conseguida em outras ocasiões, mas não foi o suficiente. Retornei a Botujuru para ver se Mara havia conseguido receber de algumas pessoas que haviam comprado livros. Ao encontrar Mara, um alívio tomou conta de mim, pois ela havia conseguido receber os fiados. Voltei ao centro da cidade para enviar o dinheiro ao nosso filho, mas esqueci o CPF da minha esposa, número necessário para fazer o depósito. Mesmo assim fiz o depósito me comprometendo a ligar mais tarde para informar o número do documento solicitado.

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Quando foi me entregar o recibo, a funcionária do correio perguntou: - Senhor França, o senhor está passando bem? Estranhando por ela ter feito aquela pergunta, respondi afirmativamente. Meio na dúvida, ela falou: - A sua aparência não é nada boa. Tranquilizando-a saí do correio com a intenção de pegar o ônibus no terminal. Após atravessar a passarela que interliga a região central de Campo Limpo Paulista sobre a via férrea, senti uma pressão muito forte no tórax. Por alguns segundos, senti como se fosse cair e procurei um lugar para me apoiar. Após longos minutos ali parado, reuni forças e me dirigi ao posto de saúde central. Quando entrei no posto de saúde, vi a enfermeira Rosa, uma conhecida que mora no meu bairro. - Rosa, me ajuda, não estou passando bem. Depois que tiraram minha PA (pressão arterial), Rosa chamou a médica e comunicou o resultado dos exames. A médica, imediatamente, solicitou uma ambulância para me levar com urgência para o hospital. Ao ouvir aquela ordem, falei: - Doutora, cancela a ambulância, não posso ir ao hospital, tenho um compromisso que não pode passar das 14h. Olhando séria pra mim, ela falou: - Moço, o senhor não está em condições de ir a nenhum lugar que não seja ao hospital. Interrompendo-a com as mãos, virei-me para a enfermeira Rosa e disse: - Rosa, você sabe o problema que passo com meu filho. Hoje é o último dia para enviar o dinheiro. Acontece que me esqueci de trazer

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o CPF de Mara e, se até às 14h eu não informar o número daquele documento, o dinheiro não chegará a tempo para o nosso filho sair neste feriado. Olhando-me, penalizada, a doutora me passou um remédio, ligou um ventilador com o vento direcionado ao meu rosto e segurou-me no ambulatório alguns minutos. Diante de minha insistência em retornar para casa, pediu que assinasse um termo de responsabilidade me liberando para resolver minhas questões. Consegui resolver aquela questão. Junior veio no feriado do dia das mães. Como sempre, apareceu em casa na véspera de ir embora, ficou por ali por menos de uma hora e partiu. Lamentei a sua atitude, não por mim, mas por ele mesmo, a vida nos devolve no futuro o que plantamos no presente. No mês de julho, lendo umas mídias de CDs, deparei com os livros: Hains & Tein, Droga não posso morrer! e o livro Lágrimas embaladas de um filho para os pais!. Olhando para os dois novos livros, senti-me como um jovem desempregado numa maternidade, ao ser notificado que era pai de duas lindas crianças. Feliz pela paternidade dupla e apreensivo pela falta de condições de criá-las. Como nada podia ser feito, continuei tocando a vida, esperando o momento propício para as realizações. Assim num final de tarde de uma segunda-feira, ao chegar da rua, Mara trouxe uma sacola contendo vários jornais da semana anterior, que irmã Maria Helena, assinante de um jornal da cidade de Jundiaí, enviou. Deparei com uma matéria que anunciava a prorrogação da data de inscrição da olimpíada de redação, que estava sendo promovida pela biblioteca Municipal Nelson Foot, da cidade de Jundiaí. - Mãe, aquela olimpíada de redação prorrogou a inscrição até dia 29 deste mês.

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Minha esposa perguntou: - Você não quer mesmo participar? Para o primeiro lugar estão pagando o prêmio de mil reais. Com este valor poderá comprar o computador que tanta falta lhe faz. Sem titubear, respondi: - Não, não quero. Jundiaí pode até estar aberta para receber capital financeiro externo. Porém, para a competição artística, posso estar enganado, mas senti certa xenofobia por parte de alguns organizadores. Já participei de alguns trabalhos naquela cidade e não gostei, não tenho interesse de participar mais. Com paciência, minha esposa insistiu: - Por que, amor? Lembre-se de que você tem potencial para chegar entre os primeiros colocados. - Mara, esta é uma disputa que o potencial é o que menos importa e não quero me desgastar criando uma redação apenas para contribuir com uma olimpíada. - Sim amor, mas você poderia ao menos tentar desta vez. Olhando com carinho para minha esposa, disse: - Sabe mãe, sempre entrei numa batalha para ganhar, jamais entraria numa guerra se não confiasse numa vitória. Todavia nesta competição as chances de classificação são zero. Porém, por você, somente por você, vou participar desta olimpíada, vou dar o melhor de mim, e só entregarei a rapadura no último minuto. Está bem assim? Sorrindo, ela falou: - Este é o Velho França que conheço. Todavia, sabia que em Jundiaí era sem chance. Mas, como havia prometido a minha esposa, preparei-me para escrever a redação. Analisei o tema, não era um assunto difícil, teria que escrever um Conto de Sabedoria citando os problemas existenciais no ser humano.

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Sendo assim na madrugada de terça-feira escrevi a redação. Se não for por amor... Tornou-se comum para os moradores de rua veem aquele senhor caminhar entre eles, olhando-os como se procurasse por alguém. Até que certo dia, finalmente ele encontrou o que procurava, pois se dirigia a um grupo que reunidos fumavam num cachimbo. Assim que se aproximou do grupo, falou para uma das jovens que ali estava: - Olá, Ingrid! Uma das meninas ali reunidas levantou a cabeça e deparou com aquele senhor de olhar carinhoso, no qual não havia nada que indicasse repreensão, apenas amor. Por este gesto de compreensão respondeu: - Oi, vô! A convite de seu avô, a jovem separou-se do grupo de amigos e foi sentar-se à margem do riacho que cortava aquela praça. Não se sabe quanto tempo ficaram ali parados, mudos, como se falar fosse quebrar o encanto que os cercavam. O único barulho presente era o burburinho das águas do rio a deslizar entre as pedras. Até que a jovem iniciou o diálogo: - Fale algo, meu avô, qualquer coisa. Olhando com carinho nos olhos da jovem, falou: - Eu te amo. Por um momento, aquela criança, jovem mulher, sentiu-se consumida pela emoção e, por breves segundos, reportou-se a um passado não muito distante quando ouvia de seu avô: - Tenho vários netos, Ingrid, e amo todos com a mesma intensidade. Porém, você é a primogênita dos netos, por isso a amo duas vezes. Em meios às lembranças passadas, sentiu que tinha que dar uma explicação para quem tanto a amava: - O senhor deve estar triste por

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me ver nesta situação. E num espasmo como uma alucinada, voltou a falar: - Não procurei isto, fui jogada nesta vida. O senhor não sabe! Desde que minha mãe foi morar com aquele sujeito, minha vida virou um inferno. Não podia mais brincar, não tinha liberdade para sair, além de ser obrigada a ouvir que me dava casa, comida, plano de saúde. Não, meu avô, não deu para aguentar mais. Odeio aquele cara. Tomando a palavra, seu avô disse: - Por que você nunca me falou sobre isso? - O senhor não sabe, aquele cara é terrível, vivia me ameaçando e prometendo surras memoráveis se contasse algo para o senhor. Porém, um dia encontrei amigos com os mesmos problemas e juntos saímos de casa. Aqui na rua conheci as drogas, perdi minha virgindade e a vontade de viver. Hoje sou um lixo humano. Minha tristeza só não é maior porque me contaram que aquele crápula teve “derrame” e está jogado sobre uma cama. Como gostaria de estar lá para ver minha mãe dando banho naquele podre. Com lágrimas rolando na face, o avô disse: - Estou aqui para ajudá-la... Foi interrompido pela jovem que disse: - Não, “meu velho”, para mim não há mais volta, daqui a pouco iremos nos separar, e nunca mais, nunca mais mesmo, iremos nos encontrar. Sem falar nada e com profunda tristeza no olhar, seu avô tirou do bolso interno do paletó um cachimbo com uma pedra de crack, colocou na boca e, quando ia acendê-lo, a jovem, espantada, perguntou: - O que o senhor pretende fazer, vovô? Olhando com amor para jovem, respondeu: - Você se lembra quando eu falava que nada iria nos separar? Que

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meu amor por você era superior à soma do infinito? Pois bem, por este amor vou ser um morador de rua, provar tudo que a rua oferece, serei igual a você. Se este for o preço, Ingrid, para não a perdê-la, pagarei. De você, minha filha, não desistirei nunca. Por um momento a jovem ficou olhando nos olhos daquele velho homem e o que viu deu-lhe a certeza de que faria o que estava dizendo. - Não, meu querido, não fará isto. O senhor não sabe o quanto é terrível este mundo, onde tudo cheira morte. Com os olhos em lágrimas, perguntou à neta: - Por que não quer me ver neste mundo? Abraçou ao avô, jogou no rio o cachimbo que havia tirado das mãos dele e falou chorando: - Por que eu o amo, meu velho. Naquele momento sentiu que o amor mais uma vez havia sido vencedor. De mãos dadas com a neta, saiu daquele lugar horrível. - Vamos para casa, vovó nos espera com um saboroso jantar. Após escrever o texto, aguardei alguns dias antes de me inscrever, deixando para fazer no dia 28, véspera de encerramento da inscrição. Na semana da premiação, recebi um convite padrão que era enviado a todos os participantes. No dia seguinte, ao verificar os recados eletrônicos, surpreso, deparei-me com um convite especial para a premiação dos 36 melhores textos daquele concurso. Por um momento, passei a acreditar que havia conquistado uma boa colocação. Quando comentei com minha esposa, ouvi: - Amor, você ganhará em primeiro lugar. A alegria de Mara conseguiu me contagiar, embora tivesse lá minhas dúvidas. No dia da premiação como ela fazia muitos planos, aconselhei:

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- Mãe, preste atenção nisto que vou lhe dizer: em qualquer disputa dessa natureza você tem que estar preparado para ganhar ou para perder. Você pode considerar meu texto por ser minha esposa, mas lembre-se que nesses concursos só têm feras. Chegamos cedo para a premiação no espaço Guimarães Rosa, que estava preparado para ocasião. Emocionei-me ao ver a comoção dos vencedores. No retorno para nossa cidade, tive que consolar minha esposa, que vinha revoltada. - Você estava certo, nunca mais o deixarei participar de qualquer coisa em Jundiaí. Enquanto Mara tecia críticas, eu meditava: “Seria atitude inteligente não participar de outra olimpíada? E cheguei à seguinte conclusão: no ano de 2008, estaria no páreo e não entregaria a rapadura nem à pancada”.

“Faça banquete e terá com quem dividir a mesa; porém, chore, e conhecerá quem realmente o ama”.

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X Capítulo A riqueza que não necessita de cofre para protegê-la O ano de 2007 já era passado, o ano de 2008 iniciou-se prometendo grandes vitórias. Assim na última semana de janeiro de 2008, precisamente no dia 31 daquele mês, recebi uma carta da Dra. Maria Cristina Contador, uma advogada da cidade de Jaú. Uma alegria invadiu minha alma e, por breves segundos, reporteime ao mês de julho de 2007, quando escrevi a ela uma carta pedindo, se possível, que tirasse certidões dos processos contra Solemar Turismo, que tramitavam no fórum daquela comarca. Após alguns dias, Dra. Maria Cristina entrou em contato comigo, prontificou-se em fazer-me aquele favor e enviou duas procurações que assinei para me representar em juízo. Após ter devolvido aquelas procurações, fiquei aguardando as certidões para saber em que pé andava o referido processo. Em minhas mãos estava um envelope que eu supunha conter os documentos que poderiam mudar o rumo dos acontecimentos. Abri ansioso aquele envelope, no entanto junto à certidão de um processo civil estava um bilhete de Dra. Maria Cristina avisando que havia outras certidões as quais não tinham sido possível extraírem do arquivo. Seria necessário aguardar alguns dias. Mas, assim que tivesse o documento em mãos, enviaria. Estava lendo novamente aquele bilhete quando o silêncio foi interrompido pelo estrondo de disparos de armas de fogo seguido de barulho de carro freando bruscamente em frente de casa. Os disparos foram tantos que davam a impressão de estarmos no meio de um dos 173


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morros cariocas e não na pacata Rua Avaré. Trancados dentro de casa, aguardávamos o desfecho daquele tiroteio. De repente, ouvi alguém gritar: - Abra a porta que a casa caiu. Como não sabia quem estava do outro lado da porta, nada respondi. Novamente gritaram: - Polícia! Abra a porta que a casa caiu. Quando vi que do outro lado realmente quem falava era um soldado da polícia militar, abri a porta com cuidado e me vi de frente com uma pistola 380 apontada para o meu rosto. O policial, gesticulando com a arma, afastou-me para o lado e foi entrando em minha casa. Assim que entrou, no entanto, pode perceber estar numa casa que inspirava paz, ao ouvir o hino de louvor a Deus tocando no gravador. Ficamos sabendo que perseguiam uns elementos que haviam roubado uma chácara no outro lado da cidade. Após o susto, voltamos a cuidar de nossos afazeres. Janeiro já era passado, num final de tarde de um dia qualquer do mês de fevereiro, encontrava-me sentado nos degraus da escada que dava acesso ao Recanto dos Velhos França, que ficava embaixo de um pé de jambo, o qual proporcionava uma sombra agradável a quem ali sentava. Estava imerso nos planos para aquele ano, quando Mara se aproximou, apanhou algumas frutas, ofereceu-me uma enquanto mordiscava outra. Após sentar a meu lado, perguntou: - Posso saber o que esta cabecinha tanto pensa? Olhando com carinho para a companheira de todas as batalhas, respondi: - Claro que pode, estou estudando a melhor forma de excursionar os clientes da Solemar a um ponto turístico nordestino, num tour

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aéreo. Mara ficou olhando em silêncio. Interrompendo aquele estado de ação, perguntou: - E o Velho França sabe que caminho tomar para que isto aconteça? Lembre-se de que são trezentos passageiros, por outro lado o que restou da Solemar foram só documentos. Como fará então para levantar capital para uma empreitada dessas? - Bem pensado, realmente olhando da forma que você falou seria impossível. Porém, da Solemar restou uma riqueza, e creia rendeu juros e hoje é um patrimônio considerável. Com cara de dúvida, Mara falou: - Claro que isto é conversa. Se houvesse restado esta riqueza que você fala, não estaríamos passando por tantas dificuldades. - Mãe, nem toda a riqueza significa dinheiro, dinheiro é apenas consequência de um processo. Impaciente, Mara falou: - Eu posso saber que riqueza é esta, que não é dinheiro? Sorrindo, respondi: - Citarei algumas dessas riquezas que não necessitam de cofres para protegê-las: a paciência, a perseverança e a fé, isto tem um valor inestimável. Com cara de dúvida, Mara falou: - Muito bonito o que acaba de me dizer. Agora depois desta conversa toda, traduz pra mim, como fará para levantar o dinheiro necessário para excursionar os clientes da Solemar? - Mãe, se você tem um bom produto, todos desejam comprar. Sem entender onde estava pretendendo chegar com aquele assunto, Mara perguntou: - Muito bem, Velho França, concordo com o senhor, qualquer

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um deseja adquirir uma boa mercadoria, agora me mostre onde está guardada esta mercadoria, que só você viu. - Mãe, por tudo que passamos com a quebra da Solemar, com a prisão do Junior, na oportunidade que esta prisão me deu de escrever um livro, consequentemente criando um elo entre mim e a escrita, surgiu-me a ideia de narrar o que passamos nos últimos anos e transformar num livro. Espantada, Mara exclamou: - Livro, meu amor! Acorda, meu querido, neste país, livro e uma lata de refrigerante vazia têm o mesmo valor: quanto ao autor, coitado, este não serve nem para reciclagem. - Nossa! Nunca tinha te visto tão pessimista... - Velho França, você é tão inteligente e, pelo retorno que teve do livro que escreveu, deveria parar de sonhar. Retorno financeiro em livros no Brasil é para poucos. - Cheguei a pensar que encerraria minha vida de escritor. Todavia, embora pessimista, reconhece que alguém consegue ganhar dinheiro escrevendo livro. Portanto, entre esses poucos que você citou, estará o seu esposo. Olhando, com admiração, respondeu: - Apague o que disse, lembrei-me que sou esposa do Velho “turrão” França, sendo assim estarei ao seu lado, lutando ombro a ombro para esta realização. Quem ficou admirado desta vez fui eu, por ver a energia empregada por Mara. Dei-lhe um beijo antes de dizer: . - Você acha que lutaria apenas para ser bem sucedido financeiramente? Antes que ela respondesse, continuei: - Não, meu amor, entre tantos motivos, o principal deles é o de

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ver sua alegria quando alcançamos uma vitória. É tão contagiante, que a tristeza derrete-se em amor ao senti-la. - Sem bajulação, Velho França, agora me diga qual sua ideia em relação ao livro. Como fará dele um patrimônio de valor? - Não será uma tarefa fácil, Mara, para um escritor desconhecido, todavia também não será difícil. O mundo editorial neste país é ingrato e nós somos prova disto, não há espaço para o autor doméstico, ainda mais se sua escrita for uma autobiografia. Pode parecer pretensão de minha parte comentar isto. Todavia, amparado no livre arbítrio, posso emitir minha opinião, e que me perdoem os leitores destes livros. Os livros mais lidos geralmente são recheados de meias verdades para satisfazer o leitor, que também vive envolto em meia verdade. Os autores descobriram um novo filão nestes livros, transformando-os em divãs. E há público de sobra precisando de um psicanalista para socorrê-los de problemas, que nem eles mesmos sabem quais são. Cito O Monge e o executivo, de James C. Hunter, um renomado consultor americano que mesclou fábula com fundamentos de uma das cartas que apóstolo Paulo escreveu aos Coríntios, quando exortava a igreja sobre a excelência da Caridade. Este livro esteve por muitas semanas como o mais vendido nas livrarias. Posso afirmar que muitos leitores se emocionaram ao ler a história narrada pelo autor. Por conhecer a Verdade, escapei de ser envolvido pela sabedoria humana usada na narrativa. Todavia, alegrei-me por entender que o autor, mesmo que por interesse, conseguiu pregar a Palavra de Deus a muitos supostos ateus. Entendeu meu ponto de vista, Mara? - Sim, entendi, e mesmo assim continua acreditando que nossa história é produto desejável? - Claro, temos uma bela história e de grande valor. Meio na dúvida, Mara falou:

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- Amor, quem vai querer ler um livro que retrata sofrimento? - Aí é que está o “xis” da questão, nossa história não é de sofrimento. Nossa história é feita de persistência, valentia, garra, solidariedade, de amor, muito amor mesmo. Aliás, foram a união e o amor entre nós que deu força para superarmos as dificuldades que se apresentavam. Sabe, mãe, sempre tivemos a coragem de olhar para o amanhecer e saldá-lo dizendo: “Seja bem vindo Sol, você será testemunha de nossa conquista no dia de hoje”. E, quando a noite chegava, se não havia acontecido o que tínhamos planejado, havia em nós a alegria de dizer: “Não conseguimos desta vez, mas amanhã estaremos a posto para novas batalhas”. Acima de tudo, nunca nos faltou fé, acreditar que, ao virar a próxima página, poderia raiar o sol da justiça na história de um casal vencedor. Dentro da Graça do Filho de Deus. Sabe o que significa isto, Mara? É o embrião de um belo produto, que pode transformar-se num best-seller. Admirada, minha esposa indagou: - Amor, tudo faz crer que este livro será de autoajuda. - Não, Mara, o livro não tem esta pretensão. Aliás, os livros de autoajuda são quase todos iguais, entre aspas. A diferença está apenas no palavreado e nos fundamentos que o autor pesquisa para compor uma tese. Como já havia dito, dá-se a impressão que o autor travestiuse de psicanalista e através de

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sua escrita busca interpretar os sonhos e as angústias do leitor e astutamente tenta preencher este espaço, firmando ideias no seu inconsciente, criando sonhos sedutores, fáceis de serem conquistados. Porém, experiência é algo intransmissível. Ao passo que A Saga do casal vencedor é uma história na qual nós estivemos e estamos no centro dela. Não sei se alguém poderá ser ajudado apenas lendo este livro. Vai depender muito de como o leitor interpretará e analisará cada situação vivida por nós. Emocionar-se ao ler uma situação protagonizada por outra pessoa, é uma coisa. Outra coisa é ter que improvisar com criatividade um fogão à lenha dentro de uma panela de ferro, quando o gás acaba em plena fritura de sonhos. Ou mesmo fazendo massas para coxinhas que seriam comercializadas. Ou até mesmo esquentando o arroz que seria servido no jantar. Ter que acender uma vela quando a luz é cortada. Escrever o primeiro livro à luz de vela, contrariando as vozes contrárias. Comer feijão com farinha e chuchu na falta de outro alimento. Visitar um filho na prisão. Enterrar um irmão assassinado e tantas outras provações. Em todos estes momentos havia em nós a consciência, que não podíamos esmorecer: Fomos persistentes, embora às vezes inconstantes!

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Sempre lutamos com garra, sem deixarmos de ser fracos! Mesmo sem termos condições, fomos solidários com o próximo ao mesmo tempo em que fomos egoístas! As mesmas pessoas a quem dedicamos amor, também ofertamos ira! Fomos valentes em todas as situações difíceis, embora sofrêssemos a dor do medo! Fizemos muito e nada vimos, teve momento que nada fizemos, mesmo assim fomos agraciados em bênçãos do céu! Fomos e somos pessoas normais, sujeitos a erros e acertos: pessoas que choram, que riem, que têm sonhos e desejos, que amam e desejam ser amadas! Porém, temos também a consciência disto: “O homem é como uma erva e sua glória como a flor, seca-se a erva e acabou-se flor”. Admirada, Mara falou: - Depois desta explicação me diga então qual o objetivo do livro? - Mãe, este livro poderá ser lido por pessoas de diversos níveis: cultural e crença, sendo assim fica difícil determinar um fim. Tento apenas mostrar: “Que não existem fórmulas preparadas para alcançar objetivos nem remédios para curar adversidades”, e nós somos provas disto. No nosso caso foi a bondade de Deus que nos deu Sabedoria, nos guiou e continua nos direcionando rumo às vitórias. Qualquer outro resultado não sendo este, a falha está em nós. Portanto, se após a leitura, o leitor achar que poderá tirar lição do que leu, pra mim será gratificante, mas que fique ele sabendo: “Só quem apanhou sabe o quanto dói uma chibatada”. - Que coisa linda, amor... - É verdade, Mara, quando o livro A Saga do casal vencedor sair, será um estouro.

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- Deixando a empolgação de lado, diga-me como fará para levantar dinheiro através do livro? - Tenho várias ideias, entre elas a de abrir uma consultoria, mas este projeto eu explico depois, o que estou tentando dizer é que A saga do casal vencedor atravessará fronteiras e será editado em diversas línguas. Mara penalizada, disse: - É, amor, o papel aceita tudo mas a realidade é outra coisa. - Concordo com você. O papel realmente aceita tudo e, um dos objetivos do papel, é o de registrar os planos que serão realizados por um vencedor. Por falar em planos, vamos pensar em nossa história. O que você acha de iniciarmos a escrita do livro A saga do casal vencedor com a chegada dos livros doados pelo Instituto Monitor? - Pode ser, mas como você fará para encaixar a perca da Solemar, se iniciar a escrita do livro onze anos depois? - Fácil. É só reportar a história para o passado. - Amor, deixe o assunto livro pra depois. Ao mencionar “Solemar,” veio à mente que temos uma pendência pra resolver em Jaú. Você tem alguma ideia em mente? - Sim. Você se lembra que escrevi ao presidente da OAB, na época presidida pelo Roberto Antonio Busato, e ele me informou da existência de um órgão de nome Defensoria Pública da União, que poderá me auxiliar nesta questão. Pois bem, vou escrever para aquele órgão solicitando um advogado para resolver a questão Solemar.

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Campo Limpo Paulista, 28 de abril de 2008. A DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO At. DOUTOR LUCIANO BORGES DOS SANTOS DEFENSOR PÚBLICO-CHEFE. São Paulo – SP Prezado Senhor, A carência financeira pela qual passo nesse momento impede-me

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de contratar um profissional para me representar em juízo, tornando-se necessário recorrer ao Defensor Público da União. Deus colocou alegria em meu coração nesta parte, a de entregar nas mãos de V. Sa. esta questão. Crendo que como Defensor público-chefe poderá nomear um profissional para me defender em juízo. Em causa decorrente de processo provocado pela bancarrota de minha empresa no ano de 1994. Durante estes anos, nunca tive condições financeiras de mexer com esta questão, também desconhecia a respeito deste órgão. Mas sempre na esperança que um dia um caminho haveria de se abrir e teria a condições de saldar os débitos pendentes e com isto resgatar perante uma cidade a minha honra, que ficou manchada com este episódio. E creio, de alma, quando V.Sa. receber esta carta, uma obra poderá ser realizada em minha vida. Caso V. Sa. sinta prazer em me auxiliar nesta parte, terá de mim um reconhecimento enquanto viver e, posteriormente, o meu livro tornará imortal a minha gratidão. De antemão, peço que me perdoe por tamanha ousadia, em solicitar de V.Sa. tanta atenção. Por favor, aceite o livro FILHO DEIXA EU TE AJUDAR. Antecipadamente agradeço vossa atenção e me coloco ao vosso inteiro dispor para dirimir qualquer dúvida que V. Sa. tenha, porventura. Rogando a Deus muitas bênçãos para o Senhor e os que lhe são caros, colho o ensejo para, com meus cumprimentos, apresentar a V. Sa. as expressões da mais elevada estima e apreço. Sem mais para o momento, subscrevo-me, atenciosamente.

Edson Carlos França

Após alguns dias, resolvi recorrer ao órgão público pessoalmente. - O Doutor Luciano Borges dos Santos se encontra na repartição? – perguntei à atendente da instituição. 183


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- Sim, o doutor Luciano se encontra, senhor. - Posso falar com ele? - Claro. Só vou tentar localizá-lo no prédio. A atendente fez uma ligação interna e informou: - Senhor, estão tentando localizar o Dr. Luciano e pedem para o senhor aguardar um minutinho. Fiquei impressionado com o atendimento daquele órgão público. Normalmente, este tipo de serviço deixa muito a desejar. - Senhor, pode me dizer o seu nome? - Edson França, de Campo Limpo Paulista. De posse da informação, repassou para o outro lado da linha, para tornar-me a indagar: - Senhor, pode me confirmar se é Edson Carlos França? - Sim, sou Edson Carlos França. Tornando a repassar a informação, recebeu ordem para encaminhar-me para a sala do Dr. Luciano, que ficava no 8º andar. Assim que saltei do elevador, percebi estar num prédio novo, com várias salas vazias prontas para serem ocupadas. Procurei a de nº. 85, conforme me indicaram. Após alguns minutos fui atendido pelo DEFENSOR PÚBLICOCHEFE, o que me causou espanto foi a sua idade. Doutor Luciano deveria ter trinta e cinco anos. Admirado, falei: - Imaginava encontrar uma pessoa na casa dos sessenta anos e encontro um jovem neste cargo. Envaidecido, falou alguns minutos de seu trabalho, citou seu aborrecimento em ver os menos favorecidos sendo tratados com desprezo por não saberem transmitir seus problemas. - Então o senhor é um escritor.

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Depois de um breve diálogo e uma xícara de café, Dr. Luciano gentilmente pediu para um estagiário me acompanhar ao departamento de atendimento ao assistido. Neste local uma jovem senhora deu-me as informações cabíveis, solicitando que aguardasse em casa que seria comunicado por telegrama a data de meu retorno. Foi ao me despedir de Nicole, a jovem que havia me atendido que percebi a simplicidade dos assistidos, e entendi o diferencial no tratamento recebido. Creio que o porteiro a me ver trajando terno, embora velho e surrado e com uma pasta na mão, deduziu estar diante de um advogado. Ao passo que o tratamento dispensado pelo Dr. Luciano, só pode ter sido à curiosidade de falar com um escritor, como se houvesse alguma diferença entre mim e os assistidos ali presentes. Em casa, torcia para que desta vez tudo corresse a contento e a questão Solemar ficasse resolvida de vez. Passado algum tempo após ter ido à Defensoria, percebi algo estranho em Mara, que não havia percebido devido à correria dos últimos dias. Mara estava com uma tristeza de alma, um vazio havia tomado conta de seu coração e, por mais que tentasse, não conseguia preencher aquela lacuna. Busquei a razão de tanta dor e descobri ser a ausência de nosso filho Junior. Dei minha presença como consolo, mas não foi o suficiente para suprir a ausência do filho. Contemplei sua face cansada, vi que as marcas do tempo se fizeram presentes em seu rosto, que a risada de outrora havia ficado no passado, o que se ouvia em dias atuais eram somente risos fragmentados. Diante desta realidade, procurei no baú da memória os momentos felizes que ficaram no passado e me vi no longínquo ano de 1977, época em que a conheci no esplendor dos seus dezenove anos. Com sua criancice

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irresponsável, conquistou o meu coração que também não tinha responsabilidade. Foi um amor tão forte que em nossa irresponsabilidade não olhamos para o prejuízo que aquele relacionamento poderia trazer a outras pessoas ligadas a nós. Apenas buscamos as razões para vivermos aquele amor e, durante treze anos, coabitamos maritalmente. Até que chegou a nós a luz do evangelho e legalizamos perante a lei aquela união. No plano espiritual, um pacto firmado na fidelidade a Deus, assinado com amor, que nos dá a garantia de vivermos esta união enquanto caminharmos nesta Terra. Vivenciando aquele amor, todos os planos se resumiam em nós, vivíamos o momento; a minha alegria era o seu prazer; o seu prazer, a minha alegria. Como imaginar dor futura se os planos se resumiam em felicidade. Como íamos prever lágrimas, se vivíamos rindo, como dois tontos apaixonados. Porém, o tempo cria caminhos e dita regras contra a nossa vontade, às vezes, nos surpreende com presentes que não desejamos. Assim aconteceu na prisão de nosso filho Junior. Mara passou por um processo muito difícil, creio um teste duro demais para sua estrutura emocional. Quando ele esteve detido na delegacia de polícia, foi um ano de peregrinação. Quantas madrugadas transitando sozinha pelas ruas Butantã e Teodoro Sampaio em direção à Delegacia de Polícia, no bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Uma verdadeira doação materna. Sem contar que, no dia de seu júri, ocorrido no Fórum da

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Barra Funda, na capital paulista, quase que foi penalizada por um ato de amor. Segundo me contou, ao ver o filho algemado sendo conduzido por policiais, não se conteve, em lágrimas gritou chorando: Juniooooor, oh! Juniooooor, meu filho, por que tudo isto, a mãe te ama. Ah! Meu filho, porque meu Deus? Enquanto soluçava era repreendida pelo advogado, alertando que poderia ser presa por gritar naquele local. Após ser julgado, Junior foi transferido para a cidade de Oswaldo Cruz, no oeste do Estado. Quando havia oportunidade de visitar o filho, o sacrifício de Mara era dobrado. Para chegar ao local que o filho se encontrava, era necessário embarcar às 19 horas em ônibus de excursão para chegar às 3h no presídio. Às 7h passava por uma revista humilhante para entrar na penitenciária. Saía às 15h, viajava o resto do dia e parte da noite para retornar para casa. Um sacrifício terrível, mas o amor pelo filho compensava o sacrifício. Haja vista o risco que passava ao lado de pessoas durante a viagem, com currículos do submundo de fazer inveja a muitos gangsteres detidos. Numa dessas viagens, Mara passou por uma provação muito grande, levando-me a questionar se valeria a pena passar novamente por um risco daquele. Como é de praxe, antes de entrar no presídio, as visitas passam por triagem e rigorosa vistoria, mais uma vez Mara se submeteu àquela humilhação por amor ao filho. Após todos os trâmites, entrou para a visita. Segundo ela, era uma alegria o encontro entre eles. Após beijos e abraços, Junior ia esvaziando as sacolas e guardava em uma prateleira improvisada o que a mãe havia trazido. Pois bem, ao esvaziar uma das sacolas se assustou e, tenso, perguntou: - Mãe! O que faz este prego de construção nesta bolsa? Mara, pálida, respondeu:

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- Prego? Que prego? Jogaram o prego no vaso sanitário e deram descarga. Não se sabe como aquele prego foi parar na sacola de Mara. Este incidente dobrou minha preocupação, quem colocou aquele prego poderia fazer coisas piores que pudesse vir a prejudicar minha esposa. Agradeço a Deus por Junior ter ido para o semiaberto e a sair periodicamente em datas festivas, dessa forma terminaram as viagens que a mãe fazia para visitá-lo. Sabia que teria que fazer algo, pois tinha medo de Mara sofrer uma depressão. O melhor remédio seria envolvê-la em algum trabalho. Todavia Deus criou um caminho, fomos convidados pelo amigo Martinho para um almoço na Pizzaria Pekas. Olhando somente para as minhas condiçoes, seria impossivel levar Mara para aquele almoço. Mas quando Deus cria um caminho o impossivel deixa de existir.

Deus pegou o melhor pedaço de terra para fazer o homem. Sendo o homem boa terra, tudo que nele for plantado germina. Cabe a cada um de nós escolhermos o fruto que iremos produzir. 188


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XI Capítulo Palestrante ou Pastelantre Sentia a necessidade de buscar uma fonte de renda que propiciasse uma melhor condição de vida. Alternativas eram muitas, mas a que me interessou foi a de mostrar a pais a forma que havia encontrado para enfrentar uma situação real e brutal: o descaminho de meu filho, que o levou para a prisão. Precisava colocar em prática este trabalho e nada melhor que a cidade onde tudo começou. Embora já houvesse feito o mesmo trabalho em outras localidades, Campo Limpo Paulista seria a primeira cidade a assistir minha palestra com bilheteria paga. No mês de fevereiro de 2008, programei a primeira conferência, cujo tema deveria chamar a atenção: “Se não for por amor”. Por ser conhecido e bem relacionado na sociedade local, acreditei num belo trabalho. Investi muita energia e muitos quilômetros a pé, visitando amigos para divulgar a conferência. No final do mês de março, faltando uma semana para pagar o aluguel do teatro, não tinha conseguido ainda levantar os R$ 400,00 necessários. Portanto, recorri a um segundo plano, busquei isenção de aluguel no cine teatro Ayrton Senna, que era uma propriedade pública. Depois de vários dias, falando com um e com outro, me concederam um desconto, abateram o valor para R$ 200,00. Na semana que antecedia a palestra, começou outro drama; as pessoas que haviam se comprometido a me prestigiar foram desistindo uma a uma e num efeito cascata, os números de convidados foram rareando. O grande dia havia chegado 12 de abril e, com ele um problema, não tinha ainda todo o dinheiro para pagar o teatro, esperava completar 189


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o restante com a bilheteria. Olhava para minha esposa e via a fadiga estampada em seu rosto, mas o brilho dos olhos me mostrava que nela havia a fé, que até no ultimo instante, o resultado poderia mudar e no final haveria a recompensa por tanta luta. As 13h45 faltando quinze minutos para iniciar o evento, percebiam outro evento paralelo; não tinha público para assistir minha palestra. 14h30 não havia mais como adiar a conferência. Contei com a colaboração de Fabiano Andrade e Nilmar Gabriel, representante do órgão público ali presente, que compreensivos reduziram a R$ 120,00 o valor do aluguel, mesmo porque era o único valor que possuía. Após iniciei a palestra sufocando minha decepção – porém, sabia que teria que dar o melhor de mim, em respeito aos amigos, Marcelo Biseto e Sua esposa Adriana, Denis e namorada, Palmira, Dimas, Everton, Nei, Vera da cultura, Nice e Marta sua filha, que aguardavam corajosamente minha apresentação, para honrar um sonhador. Entre os presentes, via minha esposa me dando à maior força, mas só Deus sabia o que passava em seu íntimo, que se manifestaram quando chegamos a nossa casa. Uma dor tomou conta de minha alma ao ver a tristeza estampada em seu rosto, e, a frustração pelo fracasso daquele empreendimento, quando me disse: - E agora, como vamos fazer? Olhando aquele rosto cansado, ouvindo aquela voz entrecortada pela decepção, tentei animá-la. - Mãe, eu sei que não é fácil, havíamos feitos muitos planos com o resultado desta palestra e o retorno não foi o esperado. Mas acredite, Deus há de dar uma saída, criar outro caminho. - De que forma? Eu não vejo nenhuma saída que possa viabilizar

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em outro caminho. Consternado pela dor que via em seu rosto, busquei no passado outras situações semelhantes nas quais não havia mais saída para o homem e Deus aparecia com Sua Infinita Misericórdia e criava caminho e socorria. - Mãe, você se lembra daquela vez que nos encontrávamos na cidade de Camocim numa situação um pouquinho pior que esta e como Deus fez para nos tirar daquela situação, como resolveu a questão de nosso retorno a São Paulo? Não esperei que Mara respondesse e passei a falar como se pudesse reviver mais este milagre operado por Deus em nossa vida. - Nossa missão na cidade de Sobral havia terminado e, de alguma forma, o que Deus havia proposto a fazer naquela cidade, creio ter sido feito. As portas se fecharam de tal maneira que tivemos que morar dentro do carro durante um período de vinte e poucos dias. Tomávamos banho no posto de gasolina e nos alimentávamos precariamente economizando todo dinheiro que conseguíamos, preparando-nos para uma viagem de quase três mil e quinhentos quilômetros. Sabe, Mara, nossa vida sempre foi de trabalho, de luta e não foi diferente daquela vez, seria necessário trabalhar para conseguir dinheiro para as despesas da viagem, sendo assim decidimos ir a Camocim, uma cidade litorânea onde pretendia transformar nosso capital que era de dez reais em cem reais, vendendo sorvetes e refrigerantes na praia. Quando pensava estar solucionando um problema surgiu outro, um pouquinho pior do que o anterior. Recordo que chegamos a Camocim por volta das 18h e, foi ao procurar um lugar para armar o acampamento, que houve o imprevisto: o monobloco do nosso carro quebrou provocando avaria também na treseta. Naquele momento nada poderia ser feito, estávamos numa cidade estranha. Esquadrinhei o local em que estava e percebi que era zona portuária. Diante desta constatação, pressenti o perigo pois,

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além de você, Mara, ainda havia nossa filha Thais. Teria que tirar vocês dali e, com sua ajuda e de nossos filhos, fomos empurrando nosso carro em direção a um lugar mais movimentado. Neste propósito empurramos o carro aproximadamente meio quilômetro quando deparamos com uma estalagem: POUSADA PONTA PORÃ. Neste momento Deus colocou desejo em meu coração de entrar naquele recinto. Obedecendo àquele desejo, entrei deparando com uma senhora sentada em uma cadeira de balanço fazendo tricô. Após cumprimentá-la, solicitei autorização para guardar nosso carro em seu estacionamento que, por ser um local fechado, tornava-se mais seguro. Aquela senhora de olhar sereno e gestos calmos por alguns segundos me examinou como se tentasse decifrar o que havia por trás de meu sorriso. Indagou onde eu estava hospedado e recebeu como resposta que estava com a minha família no carro e passaríamos a noite ali, se ela permitisse. Após receber autorização para usar o estacionamento da pousada, estacionei próximo ao pé deu ma palmeira, feito isto, procurei um telefone publico liguei para uma tia em São Paulo, contei minha situação, e pedi emprestado um determinado valor que restituiria assim que tivesse condições, no que prontamente atendeu, oferecendo mais do que havia pedido. Ficando acertado que enviaria até as 12horas do dia seguinte 80,00. Após dar aquele telefonema voltei para pousada e juntos demos o inicio ao preparativo para o jantar, uma galinha cozida misturada com farofa, creio que nunca mais faremos um jantar tão gostoso igual o daquele dia. Estávamos terminando o jantar quando D.Eduana, a dona da pousada apareceu e nos ofereceu um banheiro para que pudéssemos tomar banho. Recordo sua alegria o que mais deseja naquele momento era um chuveiro. Nem bem havíamos saído da alegria que havia nos tomado pelo gesto de bondade de dona Eduana quando a vimos retornar e me dizer: - Pegue

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sua família e venha alojar-se num apartamento. Na hora contestei, agradecendo por aquele gesto, todavia não poderia aceitar. Olhando-me com olhar de benevolência, mas usando de firmeza na voz disse-me: - Não estou alugando e sim cedendo um apartamento para vocês passarem a noite. E você é prova que não mencionei a crença que professávamos. Naquela noite, quando dobramos nosso joelho para agradecermos à bondade Deus, a virtude celestial nos visitou com a Sua presença. No dia seguinte ao procurar uma oficina mecânica senti certo descaso por parte do mecânico quando mencionei 74, o ano da Belina. Todavia, sua displicência mudou quando a seu pedido, citei o endereço que se encontrava o carro. Causou espanto sua mudança que gentilmente nos colocou em seu carro e nos acompanhou de volta a pousada, após verificar o defeito do veículo passou o orçamento: R$60,00 de mão de obra e R$35,00 pela peça. Dispensei-o, e fiquei numa comunhão íntima com o céu, quando apareceu D. Eduana querendo saber, o valor pedido mecânico. Quando falei o total de R$95,00 se indignou, e disse-me: - Ele pensa que vocês estão cheio de dinheiro, pois estão na melhor pousada deste lugar, não se avexe. Ribeiro tem um rapaz que trabalha com ele, fabricam gaiolas e veremos o que se pode fazer e torno a dizer vocês não se avexe que não estão na rua. Enquanto D. Eduana expressava o seu descontentamento com o mecânico eu pensava, quem seria este senhor Ribeiro e que relação havia entre monobloco de um carro com uma gaiola. Foi questão de tempo para saber que o senhor Ribeiro era seu esposo que prestativo trouxe o mecânico, e cedeu seu carro para irmos comprar a peça, encontramos uma treseta por R$15,00.

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Pelo mecânico fiquei sabendo que gaiola, era o nome dado aos carros feito de chassi de carro Brasília, para andar na areia. “Lembra-se que minha tia havia feito uma Ordem de Pagamento no valor de R$ 80,00 na conta de Dona Eduana” Passamos o dia todo envolvido no conserto do carro, pensava em partir de Camocim assim que terminássemos, mas fomos persuadidos por D. Eduana e ficamos mais aquela noite na pousada. No dia seguinte logo cedo despedimos daquela família e partimos, quando estávamos saindo da cidade, vi que um Jipe Buggi saia do meio de uns pés de eucaliptos e cruzava a rodovia em nossa frente, e dentro dele estava dona Eduana. Ali debaixo do sol que começava despontar, fomos tomados pela emoção, quando Dona Eduana com lagrimas nos olhos te abraçou Mara, após abraçou também nossos filhos como se fosse possível perpetuar aquele momento, que em breve instantes, se tornariam em saudades. Dou Graças a Deus que vi operar de Deus, naquela cidade. Dentro daquela Pousada Deus nos Honrou, fomos tratados como Príncipes, éramos servidos sempre pela D. Eduana que nos dava o que tinha de melhor. De volta a Sobral com nosso capital quintuplicado, senti que o momento de retornar havia chegado embora você duvidasse do êxito daquela viagem. Eu tinha confiança de ser bem sucedido. E assim, no dia 20 de setembro de 1996, saímos com destino a São Paulo e Deus nos acompanhou com braço forte para cumprir a Sua Palavra na minha vida. O dinheiro conseguido, cinquenta reais, dos quais trinta foram usados para abastecer a Belina, sobrando vinte para fazer a viagem de 3.500 km. Dinheiro não tinha, mas o que havia no coração não há dinheiro que pague: a confiança no Deus Todo Poderoso. E, com esta confiança, partimos rumo a Fortaleza, onde eu precisava acertar algo que havia ficado pendente. Era um domingo e eu já

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pretendia prosseguir viagem, quando encontrei com irmão William, sogro de irmão Djair que, percebendo a precariedade dos pneus de nosso carro, pela guia de Deus, apresentou uma solução e combinamos de nos encontrarmos no dia seguinte em sua casa. Mais uma vez presenciei a obra de Deus no meio do seu povo. Na segunda-feira de manhã, logo ao chegarmos à casa do irmão, ele nos deu três pneus, com roda e tudo! E não parou por aí. Ficamos ali, naquela casa abençoada por Deus, o dia inteiro. Na despedida, fomos convidados a orar em benefício da viagem que faríamos e, nessa oração, o Senhor Jesus foi convidado de honra. Ao terminarmos de orar, Deus inspirou um dos irmãos ali presentes e esse colocou em minhas mãos a quantia de cem reais. Na terça-feira, por volta de nove horas da manhã, Fortaleza já era passado. Estávamos atravessando os últimos quilômetros dentro do Estado do Ceará e, ao longo, já se podia avistar o que imaginávamos ser o Estado do Piauí quando furou o pneu dianteiro da Bela, forma carinhosa de chamar a Belina. O sol estava escaldante no meio daquele deserto e, com ajuda de nosso filho , começamos a trocar aquele pneu e enquanto isso acontecia, apareceram ali dois meninos, e um deles perguntou: - deu prego? Eu respondi: - Deus é bom! O garoto perguntando sempre a mesma pergunta e eu dando sempre a mesma resposta, e assim, neste diálogo repetitivo, eu continuei trocando o pneu, até que o menino fez uma nova pergunta, queria saber o que eu estava vendendo, pois a Bela parecia o carro de um caixeiro-viajante; sempre cuidando da troca do pneu, respondi-lhe que não estava vendendo nada e que tudo o que havia ali era de graça. O menino ficou me olhando, entre meio que desconfiado e meio que duvidando, e falou: - se é de graça, então me dê uma fita desta. Ficando na comunhão, Deus me trouxe alegria; dei-lhe uma fita K7 com hinos cantados, explicando que era uma fita de hinos de louvor e sua

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finalidade era a de adoração ao grande Deus. Ao ter a fita na mão, disse um obrigado e saiu correndo junto com o coleguinha; mesmo percebendo a euforia deles pelo presente que ganharam e imaginando a pressa que ficaram de ir embora para escutar a fita, mesmo assim, eu gritei para chamá-los, fazendo com que parassem, e voltassem para ouvir o que eu tinha a lhes dizer: - Nunca se esqueçam de que Deus é bom. Ficamos alguns dias em Araripina, no Estado de Pernambuco, sendo recepcionados pela cunhada de nossa filha. Quando decidimos prosseguir a viagem de retorno a São Paulo, ela nos ofereceu mel, o famoso mel da Serra do Araripe e pediu-nos para levar um pouco dessa preciosidade para sua mãe, que morava no Estado de São Paulo. Quando vi você aceitando que a cunhada de Neide nos desse mais do que dois litros de mel, além do que levaríamos para a mãe da irmã, chamei-lhe a atenção pelo que achei exagero, pois aquilo na minha concepção era uma falta de entendimento de sua parte. Mas fui repreendido por uma irmã ali presente e tive de aceitar. E assim, armazenaram mel em muitos frascos de dois litros, porém eu não sabia que aquela simples situação seria parte da obra que Deus faria mais adiante. Chegando a Itabuna, Estado da Bahia, a situação começou a complicar. Você queria que eu ligasse para São Paulo, para falar com nossa filha Neide no intuito de pedir-lhe ajuda, mas não senti vontade de ligar. No entanto, deixei você livre para telefonar, pois o desejo era seu. Então, você se encaminhou ao telefone mais próximo. Do carro, eu podia vê-la digitando o número do telefone. Perguntei ao Pai se conseguiria, se teria êxito na busca do auxílio e, nesta minha comunhão com Deus, peguei a Bíblia, que ficava sempre no painel do carro e, ao abri-la onde meu dedo marcava, detive-me no Salmo 108, vs. 12: “Dá-nos auxílio para sairmos da angústia, porque vão é o socorro da parte do homem... Em Deus faremos proezas, pois Ele calcará aos pés o nosso inimigo”. Naquele momento, Deus me deu a luz que estava

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faltando. Vendi algumas panelas industriais que tínhamos ali no carro e usei parte do valor obtido na compra de frascos de 500 ml para enchê-los de mel, os quais íamos vendendo aos caminhoneiros nos postos de gasolina. Este dinheiro permitia percorrermos 100 km. Pernoitávamos, fazíamos novas vendas, rodávamos mais outros 100 km; outro pernoite, e assim sucessivamente. Devo lembrar que a Bela tinha necessidade de ser revisada nestes intervalos, as paradas serviam para trocar as velas por outras que eu trazia de reserva. No dia 3 de outubro de 1996, uma quinta-feira, dia de eleições municipais, estava a 1.700 km de São Paulo, no sul da Bahia, num posto de gasolina onde tínhamos pernoitado. Nesse dia, por volta das nove e meia da manhã, eu já sabia que o dinheiro que eu tinha no bolso era menos de R$ 9,00 e, nas minhas contas, nós não tínhamos mais do que quatro litros de gasolina no tanque. Porém, outra coisa que eu sabia é que o meu Deus tinha sempre tudo de que eu precisava e com esta fé fui até ao banheiro do posto; ao entrar, procurei um lugar onde pudesse dobrar meus joelhos e fiz minha petição a Deus, desta forma: Senhor sei que iremos chegar, pois é promessa Sua, mas já estamos viajando há treze dias e, por certo, outros quinze dias ainda terão que passar até que cheguemos em casa. Porém, se Tu, ó Pai, quiseres, poderá apressar nossa viagem, e neste final de semana mesmo poderá nos colocar no meio de nossa parentela. Levantei da oração e meus olhos encontraram com o de Junior, meu filho, em pé na porta do banheiro e, em seguida, também se dobrou em oração, ali, no mesmo papel em que eu havia ajoelhado para orar. Às 10 horas aproximadamente estacionou perto de nós no posto uma carreta-cegonha nosso filho me perguntou: - Pai, posso vender mel para aquele carreteiro? Respondi-lhe: - Pode filho, e pergunte a ele se vai vazio para São Paulo.

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Junior saiu correndo, e só nesse momento me dei conta de que não tínhamos condição nenhuma de fretar um caminhão para transportar a Bela. Assim que voltou, falava quase aos gritos que era para ir lá, pois o motorista desejava falar comigo. Devido à constatação que eu acabara de ter sobre a minha situação financeira, fiquei indeciso quanto a ir falar com ele, porém, percebi que o motorista daquele caminhão nos olhava e senti necessidade de lhe dar uma explicação e me desculpar por fazê-lo esperar. O trajeto a percorrer até ele não era mais que 50 m, mas parecia-me como se eu tivesse que caminhar 50 km. Quando me aproximei, Deus não permitiu que eu falasse nada, apenas respondesse às perguntas que ele fez: - Fundiu o motor do seu carro? Neguei com a cabeça. Olhou pra mim, meio desconfiado, mas mesmo assim perguntou: - quanto de dinheiro você tem no bolso? Naquele momento senti vontade de gargalhar, não como zombaria, mas imaginando a cara que ele faria quando eu lhe respondesse; e, contendo o riso, eu disse a ele: - Nove reais. Dizendo-lhe a enorme quantia que tinha no bolso, pedi desculpas, e me voltei em direção à Bela, quando ele falou atrás de mim: - Posso levar vocês até Vitória, onde irei carregar para São Paulo. Aquele gesto foi recebido com muita alegria por nós; era um percurso de aproximadamente 700 km, isto significaria um ganho de uma semana de viagem. Combinamos que, quando chegássemos à região de Cariacica, nós desceríamos junto com a Bela na Rodovia 101. Chegando ao local onde deveríamos nos separar, seguiu adiante além do combinado e levou-nos com ele para a cidade de Vitória, onde juntos percorremos várias garagens de carros novos procurando carga para transportar para São Paulo. Depois de ter visitado várias empresas que atuam na área de

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transporte de carros novos e, não tendo sucesso, veio até a mim e disse: carga para mim, só na terça-feira; não vou esperar, portanto, vou vazio para São Paulo e vou levá-los comigo. Enquanto ele dizia aquelas palavras eu sentia, mais uma vez, Deus operando maravilhas em nossa vida e quando ele terminou de falar me coloquei à sua disposição: - Senhor João Batista, eu, durante alguns anos, fui motorista carreteiro e posso garantir para o senhor, se estiver ao lado de alguém dirigindo não preciso mais do que cinco ou seis quilômetros para identificar a habilidade do condutor, portanto, o senhor pode me deixar dirigir o seu caminhão num percurso idêntico e comprovar a veracidade do que estou dizendo, sendo esta uma forma de retribuir o bem que o senhor está me fazendo. No entanto, Deus, quando faz uma obra é por completo. Demonstrando uma responsabilidade exemplar, aquele motorista não permitiu que eu fizesse nada a não ser usufruir da bondade de Deus na nossa vida. E no sábado, às 14 horas, descarregamos a Bela de sobre a cegonha, no bairro de Vila Maria, em São Paulo. Estávamos em casa. Ao nos despedirmos daquele senhor por nome de João Batista, que gostava de ser chamado por seu apelido Fubá, fiz questão de ter o seu endereço, como também o telefone; o nome da firma em que trabalhava estava visível no caminhão, empresa Transauto, da cidade de São Bernardo do Campo. E você sabe Mara que durante algum tempo tentei encontrá-lo, mas minha busca foi em vão, ninguém o conhece ou sabe dar notícia desse homem; o telefone é de um orelhão numa favela em São Bernardo do Campo e na transportadora não souberam me informar nada a respeito deste senhor. Parei de tentar encontrá-lo, o certo é que estas obras operadas por Deus fortificaram-nos na fé, e só tem esta confiança quem foi agraciada por

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ela. Sendo assim mãe, depois de relembrar este episodio que passamos, e de ter visto o operar de Deus, mesmo assim continua a acreditar que as portas estão todas fechadas? Mais confortada, minha esposa falou: - Você tem razão, amor, por um momento cheguei a vacilar na fé. Mas, diante destas recordações, senti que nada, nada mesmo vai nos impedir de alcançarmos a vitória almejada. Depois que Mara foi deitar, embora tivesse passado palavras que a confortaram senti que precisava sair um pouco daquele assunto, para não ser contagiado pela mesma tristeza que havia tomado minha esposa. Mas, para que isto acontecesse, precisava me ausentar do Recanto dos Velhos França e não me restou outra alternativa a não ser o de viajar na imaginação. Portanto, postei-me diante de meu velho micro e comecei a escrever um novo livro cujo título, por si já é contraditório: Israel, Líbano te ama e Palestina te adora - a história de um amor quase impossível de acontecer na vida real. Naquele emaranhado da história, viajei para Tel-aviv, passei por Damasco, mas foi em Ghouma, uma cidade a meia hora de Beirute, que avistei um abbu e os fenos ali esparramados. Foi como um convite, nesse momento o corpo pediu cama, saí daquele estado lírico de inspiração e fui fazer companhia a minha esposa. No domingo, enquanto tomávamos o café, mantinha-me em silêncio. Mesmo depois de toda conversa que tivemos na noite anterior, percebia que Mara estava triste. Respeitando seu sentimento, deixei que partisse dela o início da conversa. Entre um gole e outro de café, ela disse: - Não é fácil, amor, tanta luta e no fim não colher resultado. Olhei para minha companheira, sabia como ela estava sofrendo, tínhamos feito planos de vender cem convites, com o valor que

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receberíamos dessas vendas pagaríamos as contas de luz, telefone, água e compraríamos um computador, um liquidificador, um ferro de passar roupa. Porém, o resultado foi diferente. Amanhecemos o domingo sem um tostão furado no bolso. Como não lhe respondi, tornou a dizer: - Você não diz nada, amor? - Sabe mãe, vou dizer uma coisa pra você: “Nada pode nos separar do amor de Deus que há em Cristo Jesus”. Claro que aqueles que não entendem e não têm a certeza de que tenho, chamem-me de louco e outros adjetivos menos decorosos. Não me importo, se temos que viver neste meio, Mara, que seja de cabeça erguida, com dignidade. Ninguém, ninguém mesmo, mãe, merece ver nossas lágrimas. É verdade que precisamos, e como precisamos do dinheiro, temos feito várias coisas e o resultado não foi o desejado, em virtude de me encontrar com as mãos amarradas. Mas prometo, pois creio nas promessas que me foram feitas, breves você cantará. Tenha paciência, vou terminar o livro A saga do casal vencedor, transformar a história da Solemar numa bela reportagem para televisão, filmar aquele povo todo viajando num tour aéreo ao Nordeste, será o ápice da questão Solemar e será nossa libertação. Confia em mim, não descansarei enquanto não resolver esta questão da Solemar. - Claro que confio em você e acredito que conseguiremos, é promessa de Deus esta vitória. - Agora me dê um beijo sabor romã de trás pra frente, que vou esticar um pouco as pernas. Após nossa conversa, deixei Mara cuidando dos afazeres de casa, saí caminhando pelo quintal, apanhei uma seriguela com a intenção de saboreá-la, mas ao ver que o pássaro havia passado na fruta com a mesma intenção, soltei-a pelo chão.

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Ouvi fogos pipocando no ar, procurei a razão para logo descobrir, alguém havia soltado um balão. Vendo aquele enorme balão ganhar altura, fiquei imaginando a cabeça da pessoa que havia sonhado em ver o homem voando. Fechei os olhos e, na comunhão, mergulhei em meus sonhos e me vi andando de mãos dadas com Mara na orla de uma praia numa cidade nordestina. Já era primavera, era setembro de 2008... Na segunda feira saí pelas ruas de Botujuru tentando encontrar pessoas que haviam comprado o meu livro e ainda não haviam efetuado o pagamento. Por certo se os encontrasse, é possível que recebesse ao menos de um já seria o suficiente para transformar o numerário em salgados para ser comercializado. Voltei para casa sem ter sucesso em meu intento. Porém, Deus criou um caminho e, no dia seguinte, pela manhã, enquanto fui ao centro de Campo Limpo mais uma vez tentar receber dinheiro de alguns livros, Mara saiu com as coxinhas pelas ruas de Botujuru. No período da tarde, enquanto fazíamos a refeição, conversava com Mara: - Sabe, mãe, quando vi você sair com a cesta de coxinha nos braços, doeu-me o coração. Você é uma guerreira, Mara. Prometo que breve Deus erguerá nossa cabeça e nunca mais precisará fazer este tipo de sacrifício. Olhando carinhosamente, respondeu: - Ah, amor! Você acha que também não sinto tristeza quando vejo você carregando cesta de sonhos ou coxinhas por estas ruas, sabendo que você é um profissional de vários recursos, com tanta capacidade e não pode fazer nada, neste estado, como se estivesse amarrado. Além disso, ainda sofre na língua dos incautos, com fama de braço curto. Isto dói dentro de mim. - Mãe, não se entristeça por me ver carregar cesta de sonhos por

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estas ruas, no momento esta também é uma forma de trabalharmos. Alegre-se, pois sou como os rios que descem para o mar, ou igual a neve que rola montanha abaixo. Como nada consegue deter o percurso deles, assim acontece comigo. Tenho objetivos e nada, nada mesmo, impedirá de alcançá-los. E quanto ao que dizem de mim, não se preocupe, isto um dia se esclarecerá e a vergonha não será minha por ter sido julgado, mas dos juízes de causa injusta. No dia 28 de maio de 2008, recebi um telegrama da Defensoria Pública requisitando minha presença para que comprovasse, com documentos, minha incapacidade de arcar com honorários advocatícios. No dia seguinte ao recebimento do telegrama, juntamente com minha esposa, dirigi-me a São Paulo. Ao chegar ao local, embora trajasse socialmente, postei-me na fila de atendimento de praxe. Após a triagem, fomos conduzidos ao primeiro andar, local de atendimento. Senti-me como se estivesse dentro de um centro-cirúrgico e um médico rasgasse meu íntimo com um bisturi, expondo minhas vísceras a um grupo de jovens bacharéis estagiários. Porém, era necessário aquele procedimento, novamente pediram que aguardasse novo contato em casa. O retorno para nossa casa foi debaixo de alegria, tudo caminhava para um final feliz, só nos restava esperar por aproximadamente sessenta dias, segundo nos disse o estagiário por nome Sérgio, que nos atendeu. Porém, menos de um mês após ter estado na defensoria, recebo deles outro telegrama, alegria invadiu minha alma enquanto assinava o AR para o carteiro. Após, fui subindo a escada de casa, enquanto abria o telegrama antevendo uma bela noticia; mas qual não foram minha surpresa e tristeza, em ser notificado que aquele órgão estranhamente não

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tratava de assuntos pertinentes a minha causa, solicitavam ainda que comparecesse na defensoria para retirar os documentos que ali havia ficado. Atendendo aquela solicitação, fui a aquele órgão e retirei os documentos que ali havia deixado. No retorno para minha casa, já no trem da CPTM, enquanto via e ouvia os camelôs vendendo todos os tipos de mercadoria, meditava que eles eram os demonstradores número um dos produtos chineses, sem contar os pedintes, de cego a mãe abandonada com uma dúzia de filhos para sustentar. Olhando aquelas pessoas cada com seus problemas, recordei dos meus, e por alguns momentos passou pela minha cabeça, outras tentativas que também tinha resultado em fracassos: Já havia feito várias tentativas para tentar resolver meu problema jurídico. Tentei contato com a Ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal, Dr. Roberto Antônio Busato, presidente da OAB, Dra. Maria Cristina Contador, a advogada, e nada conseguira. Preparei-me para recomeçar do zero, mas não tinha problema, Deus me daria forças para recomeçar outra vez e tantas vezes quantas fossem necessárias. Uma fé inabalável no coração me dava a certeza de que, se continuasse a lutar, um dia conseguiria alcançar a vitória almejada. Não posso dizer a reação de William James sobre a descoberta do poder da fé, mas posso falar sobre este mistério que fascinou o psicólogo americano. Aquele que nasceu pra crer, consegue apalpar o sonho antes mesmo dele se materializar, e sou prova disto. Esta certeza me fez recordar um episódio que cabe bem neste parágrafo: “O segredo da confiança absoluta em Deus”. No início do ano 2000, trabalhei por alguns meses de gerente de

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vendas na viação Mimo, uma empresa de turismo na cidade de Várzea Paulista. Num final de semana me encontrava em Ilha Comprida, participando de um Fan tour a convite do proprietário de uma pousada. O grupo do qual fazia parte era bem heterogêneo, neste emaranhado de pessoas, havia três evangélicos: Irmão Elizeu, irmão Davi e eu. Apesar de todos serem credenciados como agentes de viagem, alguns dos que ali estavam ainda não conheciam a elevação das águas do mar quando a maré sobe. E era o momento aguardado por muitos que não conseguiam esconder a ansiedade desmesurada... O mar, o soberano mar, não decepcionou os expectadores. Ele, que repousava sobre águas tranquilas, despertou furiosamente mostrando toda sua pujança e o fenômeno aconteceu. Por alguns instantes, as expressões faciais mudaram, as bocas abriram em espanto, os “Oooooh!” retumbaram, ecoando entre as dunas daquele lugar. Em pouco tempo as águas invadiram a praia. À medida que entardecia, o mar ficava mais furioso, elevando suas ondas a ponto de subirem a escadaria da pousada. A praia, que é usada como rodovia que interliga o continente entre as cidades de Iguape e Cananeia, desapareceu, foi engolida pelas ondas impetuosas. À medida que a noite se aproximava, o mar ficava mais furioso. Enquanto todos, ou quase todos, estavam fascinados pela fúria das águas, em mim havia preocupação. Por experiência, sabia que dificilmente o mar retornaria ao seu estado natural depois que o sol se punha. O que previa aconteceu, veio a noite e com ela o desespero. A água potável estava no fim, a alimentação que havia foi servida no almoço, o querosene do gerador estava por um fio. O responsável pela excursão pediu que embarcássemos no ônibus e ordenou ao motorista que nos

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tirasse dali. No entanto, quando o ônibus invadiu o mar margeando uns arbustos, as águas alcançaram o pára-choque do veículo e a apreensão tomou conta dos passageiros. A viagem foi interrompida por umas pessoas que trafegavam num bote e se identificaram como agentes da defesa civil. De volta à pousada, sabia que estávamos ilhados. Para temperar mais a situação, o ônibus caiu num banco de areia encostando o chassi no solo. Pelo que Deus já tinha permitido de passar nesta Terra, estava convicto de que o grupo se desintegraria na primeira dificuldade. Não demorou quinze minutos já havia pessoas discutindo entre si, algo teria que ser feito. Sabia também que o primeiro passo seria tirar o ônibus do atoleiro e aguardar que Deus fizesse um milagre. Olhando para o lado, vi vários montes de areias cobertos por vegetação rasteira. Atrás de um daqueles montes fiz uma petição a Deus em súplicas de amor. Levantei daquela oração com tanta certeza de alcançar um milagre que, ao passar próximo a Janete, uma colega de serviço que esfregava a mão nervosa, disse: - Tenha calma, daqui uma hora estará fora deste local. Passando pelo irmão Elizeu disse a ele que tinha orado, pude perceber que ele foi fazer o mesmo. Fui até a altura da cabine do ônibus, sinalizei ao motorista que parasse o veículo. Quando ele interrompeu a tentativa de tirar o ônibus do atoleiro através da força do motor, pedi: - Josivaldo, você permite que eu coordene a retirada do ônibus deste atoleiro? Após receber do motorista autorização para aquele trabalho, vasculhei o terreno da pousada, seguido pelo irmão Davi. Quando retornamos, vínhamos com os braços carregados de pedaços de madeiras e blocos de construção. Foram mais de vinte

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minutos, erguendo e descendo ônibus com macaco hidráulico, calçando os pneus com caibros e blocos. Finalmente, conseguimos tirar o veículo do atoleiro. Foi nesse momento que eu percebi que não se ouvia mais o barulho das águas. Corri em direção ao mar e não vi água. Tornei a correr, não posso precisar a distância que percorri em direção ao oceano, creio ter sido de 60 a 70 metros. Quanto mais andava, mais pisava em seco. Voltei à pousada e vi que tínhamos condições de sair daquele lugar. Com toda a força do meu pulmão gritei: - Elizeeeeeeu! Meu irmão veio correndo seguido pela Janete. Assim que se aproximaram, irmão Elizeu perguntou: - O que foi, irmão Edson? Maravilhado por mais uma vez ter a oportunidade de contemplar o poder de Deus, perguntei: - Cadê a água? Olhando para mim, Janete perguntou: - Vocês fizeram alguma oração? Não respondi, não havia necessidade, apenas olhei para o céu e ali no meio do oceano pude contemplar a imensidão do firmamento com suas estrelas a brilhar, mostrando a beleza do poder de Deus. Na comunhão com o céu, de braços abertos como se pudesse abraçar aquele milagre, entoei um hino de louvor ao grande Deus. Como ia narrando sobre o poder da fé, reviver este fato acontecido em Ilha Comprida renovou minha esperança, dando-me a certeza de que o mesmo Deus que operou naquele dia me ajudaria outra vez e abaixaria as ondas contrárias me libertando deste mar de dificuldades. Ao chegar a casa e comentar o fato com Mara, senti minhas forças redobrarem quando ela me disse:

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- Vamos procurar outro órgão, não vamos desanimar. A maior riqueza de um homem é ter uma esposa valente, posso dizer que sou um afortunado. Mas mesmo com aquela força que Mara me passava, preferi aguardar alguns dias para tomar outra decisão. Neste impasse, o mês de junho terminou sem que desse um passo para resolver a questão Solemar. Por outro lado havia, mesmo que tênue, a esperança que a dvogada Dra. Maria Cristina Contador me enviasse as certidões retiradas no fórum de Jaú. No início do mês de julho, senti que precisava fazer algo. O ano havia chegado a sua metade e nada tinha acontecido. Por mais que se esforçasse, estava com a mente bloqueada, não tinha ideia pra nada. Precisava provocar algum choque que despertasse a mente cansada.

Qual destes dois predadores deve ser condenado. O gavião que busca o filhote da andorinha para saciar a fome de seus filhos. Ou o caluniador que difama seu irmão para saciar sua egolatria.

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XII Capítulo Tentando tirar leite de pedra A oportunidade apareceu, literariamente, numa sexta-feira, precisamente no dia 11 de julho de 2008. Estava folheando um jornal quando encontrei um panfleto com o anúncio de um concurso literário, categoria crônica, promovido pela ASTRA - uma empresa de louça sanitária da cidade de Jundiaí. Ao comentar com minha esposa sobre aquele concurso, ouvi: - Você não aprende mesmo hein, Velho França! Esqueceu a olimpíada de redação? Não meu amor, caia fora deste concurso. Se fosse em outra cidade, eu apoiaria, porém Jundiaí, Velho França, é fria. Saia dessa. Puxando mais um pouco o cobertor para nos agasalhar, já que lia o jornal deitado em nossa cama, argumentei: - Mãe, este concurso é promovido pela ASTRA, uma empresa que hoje está com seus produtos em 80% dos lares brasileiros, inclusive o nosso. Sendo assim, há um compromisso de fidelidade com o consumidor e ela não correrá o risco de discriminar os forasteiros. Meio a contragosto, Mara falou: - Você é quem sabe, amor... Para reforçar meus argumentos, disse: - Para o primeiro lugar estão pagando cinco mil reais, mais um laptop e uma impressora. - Pela forma como se expressou, você pensa em abocanhar o primeiro prêmio, não é mesmo, Velho França? - Mãe, eu nunca entraria numa disputa pensando em segundo lugar. Desta vez, ninguém tirará de mim o prêmio máximo. 209


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Mara olhou com afeto e disse: - Uma das coisas que não cesso de admirar é a confiança de vencedor que você tem, embora não tenha ganho nada até o dia de hoje. - Pois bem, prepare-se para me acompanhar na premiação, afinal é a esposa do vencedor. E quanto a este assunto de não ter ganho nada, não se esqueça. Coloquei você a meus pés, subjugada de tanto amor? Fazendo um muxoxo com a boca, disse: - Convencido! Agora me diz, qual é o tema deste concurso? - O assunto é sobre o meio ambiente. - Então é fácil, é só escrever sobre desmatamentos, rios poluídos, pescas predadoras... Interrompi seu raciocínio lógico para questionar: - Mãe, segundo o dicionário, meio ambiente é o conjunto de fatores físicos, biológicos e químicos que cercam os seres vivos, influenciando e sendo influenciados por eles. E o teor das crônicas retratará o prisma de cada autor dentro deste contexto. Sendo que as vencedoras virão recheadas de lamúrias desoladoras. - Velho França, você me surpreende com este pessimismo. Primeiro diz que vai faturar o prêmio máximo, depois vem com esta história que o vencedor já condenou o mundo. Pelo que conheço de você, não escreverá nada destrutivo, pelo contrário, em seus textos você esbanja amor. Sendo assim, bem deixe pra lá... Vendo minha esposa balançar a cabeça, como sinal de desaprovação, argumentei: - Mara, a influência do homem é determinante na mudança que ocorre na natureza. Não vamos entrar em detalhe, que este assunto dá muito pano pra manga. Com certeza, as crônicas classificadas darão ênfase nesta situação degradante em que se encontra o planeta Terra.

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Embora também participe do mesmo sentimento e veja com pesar a destruição massificada do ecossistema, não cederei à tentação de malhar uma situação que, involuntariamente, também sou culpado. Prefiro expor a forma que ouço a declaração de amor da natureza para o homem. Naquela madrugada escrevi um texto narrando a história de um homem que só descobre a beleza dessa vida quando está próximo de morrer. Fui deitar com os primeiros raios solares passeando pelo Recanto dos Velhos França. Após o almoço, disse a Mara: - Mãe, a crônica está pronta, ficou a coisa mais linda. - E o que você está esperando para lê-la para mim? - perguntou Mara, servindo o café. - Se você tiver um pouco de paciência e esperar eu tomar esta xícara de café. Enquanto saboreava o café, via a ansiedade em Mara para ouvir o que havia escrito. Interrompi o café, sentei diante do velho micro, abri a pasta em que se encontrava o texto que havia escrito e, com ar solene, disse: - Mãe, prepare-se para ouvir... O magnata e o mordomo Ao entrar no quarto, o mordomo sentiu o ar gelado e viu a janela aberta por onde entrava o vento frio. Dirigiu-se a ela com a intenção de fechá-la, mas foi impedido pelo enfermo que disse: - Não a feche, Jorge. Voltando sua atenção para o paciente, o mordomo respondeu: - Senhor, está tão frio!

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- Eu sei, mas preciso saber como é sentir frio, algo que nunca senti na vida! Jorge olhou para o seu patrão com pesar, um homem que teve tudo que quis na vida e, neste momento, estava inválido sobre uma cama. Se não bastasse isso, estava maluco. Foi interrompido em suas reflexões pelo patrão que perguntou: - Pensa que estou maluco, não é mesmo, Jorge? Sincero, o serviçal respondeu: - Sim, senhor, é o que estou pensando. Sorrindo, o patrão falou: - Não sou maluco, apenas gostaria de ver e sentir, antes de morrer, o que as pessoas normais sentem. - Não entendi, senhor! Apontando para janela, o magnata mostrou o prelúdio de um novo dia. - Olhe a aurora chegando, não vê que ela está ruborizada de acanhamento, pelo beijo que lhe roubou o amado sol? Pasmo, o mordomo ia falar algo, mas o patrão fez sinal para que se calasse, para ouvir os cânticos dos pássaros - era uma verdadeira orquestra regida pelo maestro bem-te-vi. Após longos minutos ouvindo aquele concerto musical, ofertado pela mãe natureza, o patrão comentou: - Que coisa linda! Por que não os ouvi antes? Os pássaros como arautos apregoando um novo amanhecer! Tomando uma decisão, o magnata pediu: - Me leve ao jardim. Negando com cabeça, o mordomo respondeu: - Não posso, senhor, o médico recomendou que não tirasse o senhor dessa cama.

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Com cara de bravo, o magnata disse: - Mande o médico às favas e faça o que o ordeno! Mais por carinho que por obediência, o mordomo pegou o patrão no colo e saiu com ele para o exterior da casa. Quando estavam descendo os degraus da varanda para o jardim, ele pediu: - Pare um pouco... Dos braços do fiel amigo, ele contemplou o imenso jardim, admirou-se do tamanho do pé de castanheira, era um brotinho tão pequeno quando o plantara na primavera de 1960. Miriam, sua esposa, duvidou de que um dia fosse dar fruta. E hoje estava uma linda castanheira com mais de vinte metros de altura, tendo a cobrir a nudez de seu tronco várias espécies de orquídeas, dando um colorido naquela saia como se o pé de castanha tivesse sido importado do Havaí e não do Pará. Pediu ao mordomo para prosseguir e que o colocasse sentado no mesmo banco em que ele e Miriam sentavam e trocavam juras de amor. Ali naquele banco improvisado com duas rodas de carroça suspenso por correntes fez com a esposa muitos planos, realizou quase todos, menos o de ser feliz. Após se ajeitar sobre as almofadas colocadas pelo mordomo, disse: - Sente aqui perto de mim, Jorge. Com espanto, o serviçal respondeu: - Não posso, senhor, não me dou este direito. - Jorge, esqueça a hierarquia e se ajeite aqui ao meu lado, que mostrarei coisas belas que jamais vimos; eu por não ter tempo com coisas que pensava serem banais e você, meu fiel companheiro, acompanhando todos os meus passos nesses quarenta anos.

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- Quarenta anos, oito meses e doze dias, senhor – concluiu, sério, o mordomo. - Como sempre, minucioso em tudo, é capaz de lembrar até as horas nas quais fui obrigado a suportar sua presença, mas me poupe disso e venha sentar aqui ao meu lado. Obedecendo ao magnata, o mordomo sentou-se junto a ele e ficaram por longos minutos em silêncio até que o magnata, respirando fundo, disse: - Que delícia o cheiro da relva molhada... Para de falar, fecha os olhos e vai respirando lentamente aquele cheiro, tentando preencher a alma com o perfume da grama salpicada pelo orvalho. - Olhe, Jorge, as formigas enfiando o meu ego goela baixo e, unidas, transportando este pedaço de castanha, que a elas representam uma montanha. Por um momento uma tristeza sombria invadiu seu rosto, enquanto dizia: - Sabe, gostaria de ter a oportunidade de ir a Salesópolis e, ali na Barragem da Ponte Nova, precisamente na nascente do rio Tietê, redimir-me por ter sido um dos seus algozes. Melancólico, o serviçal respondeu: - O senhor irá, patrão... Não deixou o empregado concluir e comentou: - Olhe que coisa linda! As flores perdendo a virgindade ao toque das abelhas! Sabe o que significa isto, Jorge? É o amor - doce como mel - das operárias por sua rainha. Parou de falar, inclinou a cabeça com dificuldade, tornou a levantar e, pausadamente, conseguiu dizer: - Que lindo ver as folhas flauteando no sopro do vento, Jorge..., Não terminou o que ia dizer, inclinou a cabeça e expirou, deixando

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um vazio no coração do mordomo e uma tristeza em sua alma, por perder o patrão e amigo. Soluçou baixinho deixando as lágrima rolarem por sua face e caírem na grama misturando com o orvalho que, pouco a pouco, foi evaporando ao receber as carícias do amado sol. Ao terminar a leitura, desliguei o micro, voltei a sentar-me à mesa, troquei o café que havia esfriado por um novo, enquanto ouvia Mara dizer: - Amor, que coisa bonita! Como você consegue criar estas coisas lindas, não é qualquer pessoa que consegue escrever isto. - Claro que qualquer pessoa pode escrever belos textos, é só sentar e escrever, que no final sai uma bela história. - Se fosse fácil como está dizendo, estaria todo mundo escrevendo belos livros. - Mãe, não é difícil criar uma história, qualquer criança pode escrever belos contos. Com cara de dúvida, Mara falou: - As crianças, amor, perderam o jeito até de brincar. - Está aí o segredo, Mara, de uma boa escrita: vivenciar o irreal. Entendeu, mãe? Quando escrevo uma ficção, viajo na imaginação, volto a ser aquele negrinho peralta na cidade de Itambaracá, que fugia da mãe para assistir ao filme do Zorro no bar do “Asso, o turco”, que amava os filmes de bang-bang italiano e chorava no filme Dio como ti amo que assistia no cinema da dona Rita Gomes. Mara interrompeu: - Continuo com minhas dúvidas... - Mara, a minha maior dificuldade ao escrever é com a parte gramatical. Vim a saber o que significa cacofonia, redundância, verborragia aos cinquenta anos de idade, pois mal cursei a sétima série

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do Ensino Fundamental há trinta e nove anos. Você é testemunha do tempo que levo corrigindo um texto e, mesmo assim, contém erros primários. A minha sorte é contar com bons professores que esclarecem minhas dúvidas. - Posso saber quem são estes professores? - Claro que pode, Dona Mara, vou lhe apresentar os meus amigos: o dicionário da língua portuguesa, o manual de redação e a gramática pedagógica. Ao mencionar o livro de gramática pedagógica, veio à lembrança o dia em que o recebi autografado de presente das mãos do autor Cloder Rivas Martos. Neste instante, uma ternura invadiu minha alma e, por alguns momentos, o dia 26 de março de 2006 passou pela minha mente, uma melancolia tomou conta de mim e lembranças que jamais se materializaram povoaram meus pensamentos, reportando-me para São Paulo, exatamente na estação Tatuapé do metrô. Foi ali que perguntei para um segurança da estação: - O senhor pode me informar como faço para chegar à Rua Terra Roxa? De posse da informação, segui para o destino conforme orientação recebida. Enquanto caminhava, ia pensando com meus botões: “A vida é mesmo engraçada, estou indo ao encontro de uma pessoa que não conheço e que está sendo apresentado pelo meu filho que nunca o viu”. Assim que encontrei a Rua Terra Roxa, fui direto ao número fornecido pelo meu filho. Parado em frente ao sobrado cujo número conferia com o que tinha em mãos, acionei o interfone e, enquanto aguardava, a expectativa tomou conta de mim, em poucos minutos estaria falando com um escritor da Editora Saraiva, com vários livros editados. Eu mesmo já havia lido dois de seus livros: Uma janela para o crime e Mataram nosso zagueiro”. Estava imerso em meus

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pensamentos quando ouvi pelo interfone: - Pois não. - Sou Edson Carlos França e gostaria de falar com o senhor Cloder Rivas Martos. Uma voz feminina respondeu do outro lado: - O senhor Cloder está dormindo e não poderá atendê-lo. - Estou vindo de Campo Limpo Paulista e trago uma encomenda pra ele. Enquanto aguardava a pessoa que viria buscar o livro Filho deixa eu te ajudar que Junior incumbiu de presentear o amigo de correspondência, contemplava um pequeno jardim que dava um ar de interior naquele sobrado. Uma senhora de gestos finos e voz pausada apareceu na porta e indagou: - O senhor é o pai do Junior? Fez a pergunta já sabendo a resposta, pois abriu o portão antes mesmo de ter a confirmação e convidou: - Entre, Cloder ficará contente em recebê-lo. - Não vou atrapalhar? Pelo que a senhora me disse ele está dormindo. - Já o acordei, ele não me perdoaria se o deixasse partir, sem que tivesse a oportunidade de conhecer o pai de Junior. Senti uma paz naquela casa, onde a humildade sobressaía sobre qualquer bem material ali presente. A convite da esposa do Sr. Cloder, participei do café e pude saborear um delicioso bolo de cenoura. Confesso por um momento desejei ter esquecido os conselhos que minha mãe me dava quando visitávamos alguém: “Lembre-se, meu filho, apenas um pedaço, não me faça passar vergonha.” Comi apenas um pedaço, mas bem que desejei não ter lembrado os conselhos maternos e comer todo o bolo da travessa posta sobre a mesa.

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Fui presenteado com o livro Gramática Pedagógica, autografado pelo autor, que muito tem me ajudado em meu trabalho. Despedindo-me daquela família, retornei para casa e, conforme combinado com minha esposa, nos encontraríamos na estação de onde seguiríamos para igreja no culto das 14h30. Mas qual não foram minha surpresa e tristeza ao desembarcar do trem da CPTM ser notificado da morte de Paulinho, meu irmão espiritual. - Que foi, meu amor, em que está pensando que seu rosto se encheu de tristeza. Cheguei a pensar que choraria – perguntou Mara, preocupada. - Ao falar do livro Gramática Pedagógica, recordei-me do Cloder e do irmão Paulinho e sua morte trágica em meio a ferragens de um carro. Sabe mãe, quinze dias antes do acidente e você é testemunha, ali na estação de Botujuru ele me dizia que estava aborrecido neste mundo. Este fato, mãe, mais uma vez me prova quão maravilhosos são os mistérios que cercam os homens. Edvan, seu cunhado, estava a seu lado na hora do acidente que o vitimou. Os dois alcançaram vitória. Paulinho, aborrecido neste mundo, morreu. Edvan, jovem, cheio de vida e tendo vários planos para o futuro, nada sofreu e está vivo. Mara, querendo cortar aquele clima triste, falou: - Bem, vamos deixar as coisas tristes e pensar em coisas alegres. Olhando para minha esposa, falei: - Cita algo alegre para falarmos. Escondendo a tristeza pela perca do irmão amigo, Mara falou: - Imagine neste momento você recebendo a notícia que pode regularizar todos os seus documentos e pode excursionar todo aquele povo como é o seu desejo. - Realmente você sabe falar coisas alegres. Mesmo com aquela alegria momentânea, o mês de julho passou

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sem que eu movesse uma palha para realização de meus objetivos. Assim no dia 1º de agosto de 2008, ao comemorar meus cinquenta e quatro anos de vida, pude perceber que o Velho França estava em fase de envelhecimento. Por um momento a canseira se apossou de mim, olhava-me no espelho e via as pálpebras criando anéis sobre os olhos. Contemplei ainda as pupilas e pude perceber que o brilho de outrora continuava ali, mas o vigor já não era o mesmo de antes. A força estava acabando. Compreendi também que se cumprisse em mim a previsão de vida dada aos brasileiros que era de setenta anos, restavam apenas dezesseis, embora soubesse que esta conjectura poderia ser uma falácia. Portanto, não tinha tempo a perder, teria que agir rápido se quisesse sair vitorioso da batalha. Foi neste momento que fiz uma nova descoberta: “A rapidez de um cinquentão anda a passos de tartaruga e, os dias de sua vida, à carreira de uma lebre”. O mês de agosto passou, setembro chegou trazendo a sensação que não realizaria a viagem a Maceió e que teria que adiar meu projeto de excursionar os credores da Solemar para outra data oportuna. Neste período, de comum acordo com minha esposa, no dia 15 de setembro, voltamos a vender sonhos no comércio de Botujuru, com um detalhe: aumentamos o tamanho do produto e inovamos os sabores, agora oferecendo, além do tradicional, os sabores de brigadeiro, beijinho e cajuzinho. Vendíamos nossos produtos aqui mesmo no bairro até que, ao recebermos uma visita, nasceu uma ideia próspera que colocamos em prática. Tudo começou no dia 18 de outubro quando recebi uma ligação de um irmão que reside na cidade de São Paulo informando que viria me visitar. Ao desligar o telefone, comentei com minha esposa: - Irmão Edvaldo e família estarão conosco amanhã. Que faremos

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para recebê-los? Por alguns segundos Mara ficou pensativa e comentou: - Não sei, amor, o certo seria oferecermos um almoço que seja simples, barato e gostoso, mesmo porque nosso capital é pouco. Desta vez quem ficou pensativo fui eu, para logo sugerir: - Que tal, uma lasanha de berinjela? É gostosa e não fica caro para fazê-la. Assim, com alegria, recebemos irmão Edvaldo, sua esposa, irmã Miriam, a filha e Elvis, o futuro genro. Ao mencionar que eles almoçariam uma lasanha de berinjela, Mika, filha de nossos irmãos, comentou que não gostava de berinjela. No entanto, na hora do almoço foi a que mais se deliciou da iguaria. Como sempre, irmão Edvaldo chegou às 8h30 e foi embora por volta das 13h. Assim nos deixava livres para assistirmos ao culto que, aos domingos, é realizado às 14h30. Depois do culto, encontramos um outro irmão. - Como foi o culto hoje? - Foi uma maravilha, Deus falou grandemente com Sua Igreja respondi. Aliás, hoje o dia foi maravilhoso! Recebemos a visita de uns irmãos, almoçamos uma deliciosa lasanha de berinjela e, no período da tarde, tivemos a liberdade de oferecer a Deus um culto santo à Sua Santidade Divina. Existe coisa melhor do que isto? Com espanto, ele perguntou: - Lasanha de berinjela? Esta situação me trouxe a lembrança de fatos ocorridos no ano de 1996, quando residia na Várzea Paulista. No início de uma semana, não recordo o mês, estávamos tomando café da manhã quando bateram palmas no portão de casa. Ao atender, deparei com várias moças vestidas socialmente. A primeira impressão

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que tive é que estava diante de um bando de vendedoras, prontas para me venderem algo que não tinha a intenção de comprar. Assim que me viram, uma delas falou: - Bom dia, senhor! Pode nos indicar neste bairro um local que sirva refeição? Às vezes, a oportunidade tromba conosco. Alguns maldizem pelo esbarrão; outros, a abraçam. - Aqui mesmo... Resumindo, improvisamos um restaurante na sala de casa e, durante cinco dias, servimos refeição para aquelas jovens, ganhando um dinheiro extra. Como ia narrando, ao ouvir o irmão dizer lasanha de berinjela, senti mais uma vez o esbarrão da oportunidade. Sem titubear, respondi: - Sim. Lasanha de berinjela e estamos aceitando encomenda para o próximo domingo. Vi o desejo em seus olhos quando perguntou: - Qual o valor? Em virtude de ter preparado uma lasanha há poucas horas, tinha o custo na cabeça, estava apenas calculando a margem de lucro e cheguei ao resultado que 15,00 seria o preço ideal, por uma travessa de 234x294mm, mas mesmo assim não mencionei o valor. - Não posso responder agora, pois tenho que pesquisar o preço da mercadoria. Na hora, a sua esposa perguntou: - Você acha que ficará mais de 20,00? - Creio que está bem próximo deste valor. - Por este preço, eu quero uma. Naquela semana vendemos mais cinco lasanhas, que foram

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entregues no domingo seguinte. Neste ínterim, a expectativa tomou conta de nós, pois seria anunciado o resultado do concurso de crônica da Astra. Assim no dia 2 de novembro, enquanto preparávamos as lasanhas que seriam entregues, comentei com Mara: - Mãe, amanhã será o dia que anunciarão o resultado das crônicas ganhadoras do concurso Astra. Esperançosa, Mara falou: - Amor, se ganharmos e, caso seja o prêmio máximo, como será usado o dinheiro? - Mãe, uma parte investirei em nossa cozinha. Mara ficou pensativa e comentou: - Amor, vamos supor que não ganhemos este concurso, você tem outro plano em mente? - Mara, não sou tolo a ponto de programar um cruzeiro marítimo contando com o transatlântico do outro lado do oceano. Em minha planilha de viagem, consta como meio de transporte uma canoa. Claro que, se for rebocado por um navio, a travessia será mais rápida. Porém, com transatlântico ou sem transatlântico, de canoa, ou mesmo a nado, nós atravessaremos este mar e aportaremos em outros continentes, até então desconhecido por nós. Na segunda-feira, ao ler o resultado do concurso, comprovei que meu nome não estava entre os classificados. Mesmo assim senti-me realizado por, com minha crônica, ter contribuído para realização daquele evento. Além de que as crônicas classificadas foram merecedoras das honrarias recebidas. Emocionei-me ao ler crônica de Hilda Vitório. Sem sombra de dúvida, foi digna do prêmio máximo. Ela foi muito feliz em sua redação, quase que dava para ouvir o mugido da vaquinha do Seu Bastião, ao mesmo tempo em que tentava controlar a

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invasão de água na boca provocada pela lembrança das gabirobas. Será que ainda existe esta fruta? Deixando de lado a questão das crônicas e diante da receptividade de nossos pratos, nasceu o desejo de transformar nossa casa num local agradável para servimos refeições. Com este propósito, comentei com minha esposa: - Mãe, o que você acha de transformarmos o Recanto dos Velhos França num ponto turístico gastronômico dentro desta cidade? Admirada, minha esposa comentou: - O que está me dizendo? Transformar a nossa casa num ponto turístico e, ainda por cima, gastronômico? - Mara, você se lembra da Cantina Veneza, de Curitiba? Pois bem, o nosso recanto será sua mini versão. Mara penalizada, disse: - Amor, a Cantina Veneza está localizada em Santa Felicidade, bairro tradicional e famoso pela suas iguarias italianas. Ao passo que o Recanto dos Velhos França... Mara balançou a cabeça em sinal de dúvida e falou: - Meu velho, sonho tem limite, quem se arriscaria a visitar um lugar tão abandonado como é esta rua? - Não concordo com você. Nossa rua não é abandonada, ela é apenas desconhecida, porém posso transformá-la em objeto de desejo. - Como assim, amor? - Mãe, qualquer pessoa pode criar algo e transformá-lo na cultura local. - Amor, cultura é algo enraizado, é muito difícil mudar a tradição de um lugar. Não questionei Mara, apenas deixei-me levar pelas lembranças e recordei-me da época que estivemos por seis meses morando no estado

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do Ceará em missão espiritual. Lembro-me de que era o ano de 1996. Foi nesta época que comprovei que, por mais enraizada que possa estar uma cultura, ela é sujeita à adaptação. Em meios às lembranças passadas, reportei-me à cidade de Santana do Acaraú. De acordo com a tradição local, o povo nordestino comemora o dia do padroeiro da cidade com uma festa que se estende por longos dias. Além do tema religioso, as ruas da cidade se transformam numa feira livre com os camelôs vendendo suas mercadorias. A diversidade de produtos era tamanha que tínhamos a impressão de estarmos circulando entre as barracas na calçada da Rua 25 de março, rua central de São Paulo. Foi nesta feira que instalei minha barraca onde fazíamos refeições que eram vendidas aos camelôs. Por questão de economia, comprava carne direto do sitiante. Numa destas compras fui buscar parte de um boi num sítio próximo e descobri uma qualidade de abóbora até então desconhecida por mim. Fiquei admirado pela quantidade da fruta esparramada pelo chão, como se tivesse sido jogada. Tomando uma decisão, pedi: - Vocês podem me dar um pouco desta abóbora? Um dos rapazes ali presentes perguntou: - O que o senhor fará com esta abóbora? - Farei doce. Minha resposta provocou uma risada tão gostosa nos rapazes, que contagiou uma senhora que lavava roupa numa gamela. Quando cessaram o riso, perguntei: - Falei alguma besteira? A senhora que lavava a roupa disse: - Não, meu filho, é que o senhor não conhece a abóbora de leite, ela não serve pra nada a não ser alimentar porco.

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Mesmo assim contestei: - Dona, qualquer abóbora vira doce. - Pode ser, moço, que todas as abóboras de Som Palo (sic) virem doce, mas esta daqui não, ela não dá ponto, fica uma coisa sem gosto, ruim até no cheiro, que ninguém consegue comer. A opinião contrária não me convenceu e acabei levando várias abóboras comigo. Na primeira oportunidade nos preparamos para fazer o doce. Como já sabíamos que ela não dava liga de ponto, fui ao mercado central em busca de algo para esta finalidade. Quando retornei, trazia comigo banana, laranja, maçã, abacaxi, cravo e canela. Dividi a abóbora em pedaços grandes e coloquei no fogo junto com a banana, ciente que a banana daria a consistência necessária para o ponto. Acrescentei bastante caldo de laranja para tirar aquele cheiro esquisito, fui colocando aos poucos pedaços de abacaxi, para cadenciar o gosto, casca de laranja mesclada com pequenas quantidades de cravo e canela. Quando percebi que começou a dar o ponto de doce pastoso, fui colocando pedaços de maçã e, pouco tempo depois, o doce estava pronto. Como sempre, todos os pratos que eram preparados o primeiro dava ao dono do terreno onde estava instalada nossa barraca. Desta vez não foi diferente, foi ele o primeiro a provar o doce de abóbora de leite. - Homi, tira minhas dúvidas, minha cunhada disse que o doce é de banana e laranja, já minha esposa disse que é abacaxi com moranga e eu senti um gosto de maçã. Diga-me cá, é doce do quê? Rindo, respondi: - Vocês comeram doce de abóbora de leite Espantado, ele me disse: - Mintira (sic)

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Naquele ano os moradores de Santana do Acaraú comeram doce de abóbora de leite, o que quebrou um velho paradigma naquela localidade. Nesta mesma época vendíamos refeições aos camelôs, com um porém, nossa comida típica paulista não conseguia agradar o nordestino. Era comum ouvirmos alguém pedir: - Tem panelada? Ao inquirir o que seria panelada, descobri que era um cozido das vísceras do boi, de cheiro esquisito e sabor duvidoso. Confesso que não tive estômago para provar aquele cozido. Aboli qualquer ideia de servir a tal panelada, todavia como não conseguia vender nossa refeição típica paulistana, tive que me render ao desejo do povo da terra. Assim, nas primeiras horas do dia, fui ao mercado central e comprei quinze quilos daquelas vísceras. Trabalhamos durante algumas horas para tirar aquele cheiro característico. O prato foi preparado, abusamos no acompanhamento. Lembro-me de que foi colocada linguiça calabresa, bacon, tomate, vagem, pimentão, molho de tomate, alho, cheiro verde, cebola. Depois de horas o prato ficou pronto e nada lembrava a tradicional panelada. Como sempre, fazia o primeiro prato era doado ao proprietário do terreno onde estalei minha barraca. Em pouco tempo, sem que me desse conta, minha barraca passou a ser visitada por moradores locais em busca da tal panelada. Só vim perceber este detalhe, quando um cliente chegou com uma tigela nas mãos pedindo panelada. Ao informá-lo que não poderia atendê-lo, pois havia acabado o arroz que acompanhava o prato, ouvi: - Macho, esquece o arroz, o que quero mesmo é provar esta panelada que tanto falam. Para compensar a falta de arroz, enchi a tigela do cliente com a panelada que foi embora satisfeito. Qual não foi minha surpresa ao

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vê-lo no outro dia em minha barraca. Quando falei que não estava atendendo ainda, ouvi: - Eu tenho um restaurante ali na praça, quero contratá-lo para ser meu cozinheiro durante o festejo, por cada prato vendido, receberá o valor que você vende aqui. Naquele momento fui abraçado pela oportunidade, no entanto, por ignorância a rejeitei. Nestas lembranças tive a convicção que poderia criar uma situação que transformaria a nossa casa em referência gastronômica. - Dona Mara, você sabe, não preciso lembrar que, enquanto Deus conceder o fôlego de vida ao homem, o sonho estará vivo e o sonhador poderá realizá-lo. Sendo assim, conto com sua preciosa ajuda para transformar nossa casa num restaurante e mudar nosso destino. Indecisa, Mara perguntou: - Amor, pela forma confiante de falar deve ter um plano em mente que ainda não me falou. - Claro que há, Mara! - Por que você não pára com este rodeio e me fala logo desse plano. - Mãe, o nosso cantinho é privilegiado até no nome, vou transformar este nome em sinônimo de alta gastronomia. E nascerá o Recanto dos Velhos França Sabor e CIA. - Esta sua confiança me faz crer que você já tem a planta do prédio, o dinheiro para pagar a construtora e comprar todo o material para o funcionamento do restaurante. - Você errou por pouco, só não tenho a planta pronta, os demais já temos é só questão de me organizar que o dinheiro aparece. - Você e suas ideias... - Mãe, prepare-se para abraçar mais uma vitória de Deus em nossa vida.

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- Você consegue tornar tudo tão fácil, amor, que já consigo ver tudo realizado. - Prepare-se, pois vamos transformar esta casa num objeto de desejo. Além do restaurante e seus quitutes, teremos espaço para uma fábrica de chocolate artesanal da mesma forma que a panificação para confecção de pães, roscas doces com frutas cristalizadas, sonhos, pudim de mandioca etc. No final do terreno, vamos preparar um espaço para um orquidário. Aqui do lado, ficará o showroom das orquídeas; ao lado, ficará o empório para vendas das iguarias que faremos e de nossos livros. Faremos um coquetel de inauguração para o lançamento de Recanto dos Velhos França & Sabor e CIA, de Campo Limpo Paulista para o mundo. - Senhor Edson França, diante da simplicidade deste empreendimento me diz uma coisa: tem-se a impressão que está pensando em alta gastronomia, porém o lugar é de difícil acesso. - Aí é que mora a beleza do negócio. - Não estou entendendo onde há beleza nisto? - Então imagine você na ilha de Florianópolis, indo sentido à lagoa da Conceição. Conseguiu imaginar? Diante da resposta afirmativa de Mara, perguntei: - Você se lembra do hino da ilha de Santa Catarina escrito em placas na subida da serra? - Sim. Lembro-me de que os lia quando íamos para a praia da Joaquina, recordo também que sentia muito medo tanto para subir como para descer aquela serra. - Pois bem, vamos fazer o mesmo com o poema do Recanto dos Velhos França. Vou distribuir o poema em três outdoors, partindo da chácara do senhor Moraes. No primeiro colocarei este trecho: No alto da Rua Avaré, bem lá em cima! Lá no alto! Bem pertinho do céu! Onde o

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vento faz morada e os pássaros refugiam-se. Lá, onde o orvalho chega primeiro e a luz solar é derradeira; ali, no meio de um pequeno bosque, fica o Recanto dos Velhos França Sabor e CIA. Quem por ali passou viu e ouviu... Os pássaros com seus cantos a reverenciar o Criador, as folhas flauteando no sopro do vento, sussurrando melodias cujas notas musicais só os dotados de sensibilidade conseguem decifrar, impossíveis de serem regidas por maestro humano... O segundo outdoor será colocado na curva da noiva com este trecho do poema: Só os olhos atentos para perceber as flores sendo desvirginadas em amor, ao toque das abelhas, liberando a essência da vida - doce como mel-, para alimentar sua rainha que tem, nas operárias, o exemplo do amor compartilhado. As formigas juntam-se e mostram aos homens que é possível superar o ego e que, unidas, podem transportar uma montanha. O terceiro e último outdoor será colocado aqui mesmo na rotatória com esta última parte do poema: Aqui a natureza foi pródiga e o amor fez morada. Seus sinais estão gravados em cada planta que brotou, em cada banco construído, nas pedras ornamentais, nos jardins existentes, nos mínimos detalhes e em tudo mais, aqui o amor é soberano. Aqui, quando dobramos nosso joelho, falamos com o Advogado dos advogados, com o Médico dos médicos, com o Pai do órfão, o Marido da viúva, o Amigo do desprezado. Aqui temos prazer em receber os que acreditam nos mesmos valores cristãos, nas mesmas normas e condutas, e que também têm prazer em falar das virtudes do próximo, edificando no amor; e que tem fé no mesmo Deus. Aqui, bem no alto, os corações se inclinam e os joelhos dobram em adoração ao Deus verdadeiro... Por quem nossos joelhos dobram? Eles dobram por você também... Este poema escrito em outdoor será primeiro cardápio que vamos oferecer ao cliente. Percebi que Mara havia comprado a idia, mas mesmo assim ela

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questionou: - Preciso entender uma coisa que ainda não deu liga. Vamos supor que as coisas aconteçam da forma que você está dizendo, como fará para trazer os clientes até nós? - Simples, caipira como sou, usarei a velha prática do caixeiro viajante: “você vendo, eu vendo”. - Velho França, eu sei que será através de divulgação. O que desejo saber é a metodologia que você usará? - Breve, Mara, muito em breve você saberá e uma multidão descobrirá que “Todos os caminhos conduzem ao Recanto dos Velhos França Sabor e CIA”. Trazendo o cliente, darei opção ao freguês de eternizar sua passagem neste lugar. Farei, em papel fotográfico cartão postal deste local, deixando espaço onde será impressa na hora a foto do cliente que assim desejar. No cartão estará impresso o poema do Recanto dos Velhos França. Entendeu quando disse de Campo Limpo Paulista para o mundo? Receberemos aqui para almoçar pessoas de várias partes do planeta, e creia, o nosso recanto viajará na asa de um cartão postal. - Meu amor, embora você consiga me fazer acreditar na realização desses projetos, mesmo assim preciso entender como você vai conseguir dinheiro para uma empreitada desta envergadura? - Você se lembra quando disse sobre abrir uma consultoria? Pois bem a consultoria virá antes do restaurante. - Da forma como fala e pelo capital existente, você deve estar pensando que abrir uma consultoria ou um restaurante é tão fácil como fazer coxinhas e sonhos. - Eu sei que não será fácil, porém nasci nesta Terra para crer que tudo é possível para aquele que tem a fé como aliada e ousadia para arriscar.

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- Você poderia deixar o rodeio de lado e dizer qual é a ideia desta vez. - Penso em terminar o livro A saga do casal vencedor com chave de ouro e colher frutos desta realização. - Sabe, amor, gostaria de ter a visão que você tem, só assim seria possível ver uma realização antes dela existir. - Mara, preste atenção. A oportunidade é dada a todas as pessoas, todavia as lágrimas de quem chora impede que veja a oportunidade passando. É este o cliente preferido dos vendedores de lenços. - Você com suas tiradas... - Aguarde que breve encherei uma mala de lenço e sairei como um turco mascateando por este Brasil afora e voltarei com recursos para iniciar nossa arrancada rumo às realizações. - Você pode me explicar de que forma? - Não tenho como explicar algo que também desconheço, porém conheço o Deus que servimos e tenho a certeza de que Ele me dará sabedoria necessária para esta realização. - Velho França, gostaria de ter esta fé. - Mãe, eu tenho a certeza de que acontecerá. Lembra quando sentimos da parte de Deus de irmos anunciar o santo evangelho na cidade de Sobral, no estado do Ceará? - Sim, amor, lembro. Recordo-me que as pessoas ao nosso redor tentaram de todas as formas nos demover daquela viagem, em virtude das condições que dispúnhamos para a empreitada: 280,00 e uma Belina ano 74 sem as mínimas condições de fazer uma viagem daquele porte. - Você é testemunha viva de que Deus nos levou e nos trouxe, livrando-nos de todos os obstáculos que foram surgindo durante a viagem.

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Por alguns instantes deixei a mente viajar para o passado, exatamente no dia 3 de março de 1996, quando saímos de São Paulo com destino à cidade de Sobral, que fica aproximadamente a 220 km de Fortaleza, capital do Estado. Íamos numa Belina, ano 74, com duzentos e oitenta reais no bolso; no coração, a certeza viva de que Deus estava nos mandando para aquela localidade e Ele cuidaria de nós. Quando entrei na Rodovia Presidente Dutra, lembro que era um domingo chuvoso, assustei-me quando minha esposa gritou alertando que um homem estava sentado no capô do nosso carro. Na hora, meu coração se encheu de fervor e comecei a assoviar um hino de louvor ao grande Deus. Depois de passarmos doze dias na casa de irmão Nerivargas, na cidade de Juazeiro, na Bahia, partimos rumo ao destino que Deus tinha nos confiado, mas antes iríamos a Fortaleza, para passar o final de semana na casa de irmã Conceição, que o irmão Neri nos recomendara. Quando atravessamos a ponte do rio São Francisco, já no Estado de Pernambuco, comentei despretensiosamente à minha família no carro que não podia furar nenhum pneu, porque não tínhamos dinheiro. O nosso patrimônio era um tanque cheio de gasolina, um galão com trinta litros de gasolina de reserva, porém dinheiro, nenhum. Irmã Gil, esposa do irmão Neri, de bom grado nos preparou alguns lanches para a viagem, dizendo que era para economizarmos o nosso capital. Como Deus é bom em nossa vida! Eu lá dizendo que não queria que furasse nenhum pneu... Pois bem, furaram dois, para que o poder de Deus se manifestasse em nosso meio. Quando furou o segundo pneu, estávamos perto da cidade de Russas, 160 km de distância de Fortaleza, e já passava das oito horas da noite. Assim que consegui parar o carro, pondo as duas mãos abertas no rosto, fui descendo-as em direção ao peito. À medida que se

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aproximavam do pescoço, eu ia erguendo os olhos para o alto e, ao sentir que minhas mãos descobriam minha boca, mantendo os olhos fitos no céu, disse no ar: “E agora?” Havia murmurado essas palavras, tão baixo, quase num sussurro, quando ouvi um caminhão frear do outro lado da pista, sentido contrário ao nosso, seguindo uns duzentos metros adiante. Fazendo a conversão, estacionou atrás do meu carro. Em seguida, o motorista colocou a cabeça do lado de fora da cabine e perguntou: - Deu prego? O povo nordestino, quando o carro sofre qualquer avaria, costuma usar essa expressão, dizer que “deu prego”. Respondi afirmativamente e ele, de bom grado, se propôs a me levar no posto mais próximo, o qual ficava no trevo de entrada da cidade de Russas. Partimos levando os pneus e um toca-fitas que ainda estava na caixa, sem uso, para negociar com o borracheiro. Enquanto aguardávamos o conserto do pneu, percebi que aquele motorista, que fez questão de esperar para me levar de volta ao meu carro, estava acompanhado por uma mulher que, tudo levava a crer, fosse uma aventura. Aliás, para ambos, pelo procedimento deles. Mais uma vez, Deus mostrou ao adversário da minha alma que, se for preciso, Ele tira socorro para um servo Seu, até do meio da lama. Como além do conserto também precisaria de uma roda e de uma câmara, fiz um “pacote” de preço com o borracheiro e embuti todo esse valor na troca com o toca-fitas. Ele aceitou apenas com uma ressalva, que seria menos a roda, pois não tinha mais ali na borracharia outra roda de três furos própria para Corcel. Perguntei ao borracheiro se ele possuía uma máquina de solda para que eu pudesse, então, fazer um reparo na roda que ficou danificada quando do estouro do pneu. Ele prometeu providenciar

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uma na manhã seguinte. Assim, por aquela noite, a nossa viagem estava interrompida. Nesse ínterim lembrei que a irmã Conceição estaria nos esperando em Fortaleza. Liguei para o irmão Neri, em Juazeiro, na Bahia, pois a ele eu tinha liberdade de ligar a cobrar e comuniquei a avaria do carro, dizendo-lhe onde estávamos e pedindo a ele que tranquilizasse a irmã de Fortaleza, quanto ao nosso atraso. Depois de telefonar, comecei a preparar o melhor jeito de agasalhar minha família quando, a meu lado, apareceu um senhor com seu filho, o qual me saudou: “A paz de Deus, irmão Edson!” Em seguida, ele disse ao filho: - Junior, s’imbora, homi! Entra no carro do irmão e leve-os até nossa casa. Através do Junior, fiquei sabendo que o irmão Neri havia ligado para o seu pai, nosso irmão Valeriano tendo contando sobre a avaria do nosso carro, o qual se prontificou a nos socorrer. Passamos dois dias naquela cidade. Queriam eles que passássemos mais tempo ali. Se não tivéssemos sido firmes, teríamos permanecido com eles até o dia de hoje. Mas foi com muita alegria que compartilhamos do amor recebido desses nossos irmãos em Jesus Cristo. Na noite desse mesmo dia, irmão Valeriano tomando ciência que precisávamos de uma roda, no intuito de me tranquilizar, falou que seria fácil encontrar no comércio local. Pensando estar nos fazendo um bem, colocou-me em atribulação. Como eu poderia comprar uma roda na situação em que estava sem um real no bolso? E não queria que os nossos irmãos soubessem que não tínhamos dinheiro para tal gasto, porque isto os atribularia, e somos ensinados em Jesus Cristo: “quando jejuares lave o seu rosto para que o seu irmão não veja, e sim, o Pai que está no céu, e que pode suprir a sua necessidade”.

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No dia seguinte, após o café da manhã, o irmão Valeriano disse: - S’imbora, irmão Edson, vamos comprar a roda do seu carro. Pedi licença ao irmão para antes ir ao banheiro, e ali, no chão frio daquele sanitário ajoelhei-me e orei a Deus pedindo que tirasse todas as rodas de três furos que houvesse em Russas, pois só assim não deixaria o irmão atribulado. Caso percebesse que eu não tinha dinheiro, com certeza, pelo amor que demonstrou ter na obra de Deus, teria nos dado alguma importância em dinheiro, inclusive muito maior do que a nossa necessidade, e este caminho só serviria se fosse por revelação. Porém, eu sentia que não era esse o caminho que Deus havia projetado para solucionar e suprir aquilo que era minha necessidade presente e, por misericórdia, Deus ouviu o meu pedido. Não encontramos a roda, não fiquei envergonhado e, com uma máquina de solda, fez-se um remendo na roda velha. Os irmãos não perceberam nossa dificuldade material e se alegraram com nossa fé em Jesus Cristo. Era uma quinta-feira, no período da manhã, quando partimos de Russas com destino a Fortaleza. Na tarde desse mesmo dia, chegamos lá e gozamos da hospitalidade da irmã Conceição, que o irmão Neri havia nos recomendado. Nos dias em que permanecemos naquela casa, muito nos alegramos e pudemos ver Deus operando obras grandiosas conosco no seio daquela família. No sábado cedo, encontrava-me na sala da casa dessa irmã e minha esposa, chorando, chamou-me no quarto. A irmã Conceição nos aguardava e, após a minha entrada, fechando a porta falou: - Irmão Edson, um dia minha mãe vindo à minha casa trouxe uma importância que eu não sei o valor. Eu não quis aceitar, irmão, pois o meu rendimento é suficiente para o meu sustento, mas o nosso Deus não permitiu que eu recusasse e, quando vocês chegaram, Deus me fez saber que este dinheiro era para vocês.

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Chegamos a Sobral no dia 22 de março de 1996. Com o valor que Deus havia nos preparado, alugamos uma casa. Fabriquei e montei uma barraca de pastel para prover o nosso sustento e, durante seis meses, residimos naquela cidade, trabalhando na obra de Deus. Mara interrompeu minhas reflexões e falou: - Amor, compreendo sua fé, mas me fale de algo palpável... - Mara, eu tenho que levantar fundo para excursionar os credores da Solemar, e não é pouco dinheiro. Enquanto não aparece o meio desta realização, vou me dedicar a fazer algumas palestras... Espantada, Mara exclamou: - Palestras, meu amor? Você se esqueceu da última que fez? O fiasco que foi? - Sim palestras, e creia, em breve, muito em breve, não precisarei vender minhas conferências, pois serei muito requisitado. Quanto ao fracasso da última conferência, trouxe mais lucro do que prejuízo, pois é no fracasso que surgem grandes líderes. - Preciso levá-lo ao médico com urgência. Não faz muitos dias você fez críticas veladas contra as conferências de autoajuda e agora me diz que vai ministrar palestras? - Mara, minha esposa, a nossa história não foi alicerçada em livros filosóficos e muito menos foi escrita por erudição, ela foi alicerçada em lágrimas, em medo, em fome, em desprezo, em superação. Todavia, os desafios e obstáculos eram rompidos um a um, tudo em meio à esperança, aos sonhos, à alegria de fazer acontecer. Acima de tudo, nas nossas lutas nunca faltou amor, mesmo quando tivemos que lutar, o amor era a essência principal para enfrentar a adversidade. Nestes momentos, Deus dava Sabedoria para, “além de fazer”, nos ensinava “como fazer”. - Concordo com você. Só não estou entendo por que deseja fazer

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palestras! - Mãe, o segredo de saber vencer, de ser um vencedor, tem desafiado a intelectualidade dos autores que escrevem para este fim. O verbo “vencer” é um dos mais usados quando o assunto é motivar uma equipe, entretanto poucas são as pessoas que têm o brilho de vencedor nos olhos. É possível que nas minhas palestras, alguém possa descobrir o caminho para ser um vencedor, é possível! Todavia não posso garantir que isto venha a ocorrer, mesmo porque a fé esta pequena palavra, mas de grande efeito, não se conquista num banco de faculdade. E sem fé é impossível ser um vencedor. Pois é no acreditar que o homem persevera, e o caminho da perseverança nos leva a várias encruzilhadas, é nesse momento que a fé leva os grandes homens à vitória. - Muito bonito o que você está falando, mas vamos supor que a escolha seja o caminho errado. - Muito bem pensado, minha linda, é neste momento que o vencedor mostra para que veio. Caso o caminho escolhido por ele não seja o esperado, resta ainda a oportunidade de deixar um recado para os desavisados não cometerem o mesmo erro. - Velho França, você tem resposta pra tudo. - Quase tudo. - Vamos supor que este seja o caminho, você acredita que será fácil começar uma empreitada desta sem dinheiro? - Claro, quando o projeto é bom todos desejam comprar. - Somente o Velho França para acreditar que alguém possa investir num projeto que é apenas papel! Ainda mais com esta crise que assola a economia mundial. - Mara, preste bem atenção, a crise propagada, a crise temida, a crise suicida e toda sorte de crise, pra nós ela não existe. O mundo

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já enfrentou outras crises, talvez mais sérias que esta, no entanto quando a febre da economia abaixou, ela ressurgiu com saúde de ferro, só perecendo os anêmicos e tímidos. Para nós evangélicos, a mais lembrada foi os sete anos de fome no Egito. Foi através de uma crise que Deus levantou a cabeça de José. Creia para nós será o ano dourado das realizações, por um simples motivo. Para o nosso Deus, não existe crise. - Amor, os empresários não pensam como você, eles trabalham com número real e não de sonho. Portanto, mesmo que você diga isto a eles, não será fácil comprarem sua ideia. - A verdade, Mara, “é que ninguém quer comprar nada, até que nada passe a existir e preencha a necessidade de alguém”. - Você consegue tornar tudo tão fácil, amor, que já consigo ver tudo realizado. - Creia, Mara, este será o caminho que nos conduzirá a vários objetivos, desde excursionar os credores da Solemar a outras realizações que temos em mente, como também das que não passaram pela nossa mente. - Vindo de você, e tendo o acompanhado ao longo destes trinta e poucos anos e, conhecendo o Deus que servimos, somente me resta dizer “amém”.

Quem pode desenhar uma saudade sem machucar o coração.

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XIII Capítulo Entre o sonho e a realidade existem “os porquês” Retornava com Mara da Vila Chacrinha, onde tinha ido entregar coxinha e oferecer nossos pratos para o próximo final de semana, quando parou um carro ao nosso lado. Era o irmão Adauto, um guarda municipal, que nos oferecia uma carona. No percurso até nossa residência expus a ele, que entre outros, tinha o desejo de transformar minha casa em um restaurante. Irmão Adauto se propôs a nos apresentar ao proprietário do restaurante que fornecia refeições para corporação. - Quem sabe ele não passa para vocês este serviço! Adauto foi embora deixando-nos radiantes de alegria. Uma porta estava se abrindo para o início de nossas realizações. Poucos dias depois, Adauto me comunicava que Dona Cristina, proprietária do Zeca restaurante, desejava conversar comigo. Assim no dia 16 de dezembro, reuni-me com Dona Cristina e Zeca, seu esposo. Ficou acertado que eles entrariam em férias coletivas e nós forneceríamos as refeições de 24 de dezembro a 4 de janeiro à corporação. Após o retorno deles das férias, caberia a nós servirmos apenas aos domingos. Ao chegar a casa e dar a notícia a Mara, grande foram sua alegria e sua preocupação. Alegria, por saber que em doze dias servindo refeições daria para ganhar um bom dinheiro. Preocupação por saber que não tínhamos recursos financeiros para custear aquele empreendimento. - Amor, seria maravilhoso se tivéssemos condições de atender estes dozes dias, porém não consigo ver uma saída que possa ter um 239


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final feliz. Custear almoço e jantar aos finais de semana é uma coisa, agora bancar todos os dias é difícil, amor. - Vou falar com o Armando, do Mini Mercado Santo Antônio. Caso ele nos conceda crédito para este negócio, eu fecho com o Zeca. Conforme havia falado a Mara, conversei com o Armando, dono de um mini mercado aqui do bairro, que foi pronto em me conceder o crédito dando-me condições de assumir aquele compromisso. No dia 24 de dezembro começamos a servir refeições para a Guarda Municipal de Campo Limpo Paulista. Todos os planos caíram por terra cinco dias depois, quando a pedido da corporação, encerramos as entregas. Não fomos suficientes bons para agradá-los. - Por que não deu certo desta vez? Onde erramos? Quando, amor, teremos sucesso em nossos negócios para podermos parar de correr tanto? - Dona Mara, o sucesso não é uma realização final, é apenas um porto onde invernamos e continuamos a navegar e descobrir novos mares. Quanto aos erros, ninguém errou, e não se entristeça. Às vezes, perder é lucro e achar é prejuízo. - Como assim, amor? - Preste atenção, nós perdemos um cliente, mas ganhamos uma lição de consultoria grátis. Olhe a sua volta, Mara, busque dentro de todos os limites possíveis e me mostre se temos uma cozinha preparada para servir trinta refeições ao dia. - Difícil enxergar recursos para isto. - Mãe, você foi um heroína nestes dias em que servimos as refeições, não se sinta derrotada e sim uma vitoriosa. Ninguém conseguiria fazer mais do que você fez com tão pouco. - Velho França, você fala como se eu tivesse feito tudo sozinha, a sua garra em enfrentar as dificuldades me fez ficar valente.

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- Muito bem, dona Valentona, que tal tirar três dias de férias e descansar bastante? Em 2009, teremos muito trabalho pela frente. Na primeira semana de janeiro já tendo superado o assunto marmitex, fomos ao mercado do Armando para comprar alguns produtos para casa. Faço uma pausa para expor o pensamento, diga-se de passagem, muito bem colocado de Dr. Jose Renato Nalini Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo que saiu nas páginas do jornal de Jundiaí, que cabe neste parágrafo. Em outras palavras, nos legou Dr. Nalini: “Pode até parecer piada, expor amor ao próximo numa sociedade egoísta e hedonista, onde a regra é puxar o tapete do outro”. Dr.Nalini foi muito feliz ao descrever a personalidade humana e seus interesses quando escreveu na mesma matéria: “A egolatria é a característica mais evidente em todos os espaços. A competição, o consumismo, o próprio interesse em primeiro lugar”. Faz-me crer que Dr. Nalini com sua larga experiência por esta Terra tem deparado com alguns “feudos cristãos” com supostos títulos de propriedades no céu, e que distribui a bel prazer aos vassalos que limpam suas botas. Quando nos presenteou com estas palavras: “Tudo isto predomina num mundo que ainda se autodenomina Cristão” Para finalizar, Dr.Nalini nos dá de leve; um tapa com luva de pelicas, quando diz: “Já houve tempo, dizem em que os cristãos eram identificados porque se amavam, vede como se amam”. Pois bem, continuando minha narrativa: assim que entrei no estabelecimento avistei uma pessoa conhecida de longa data enchi-me de alegria e com a mesma alegria fui ao seu encontro para cumprimentá-

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lo, qual não foram minha surpresa e decepção, em descobrir uma nova pessoa, totalmente diferente do amigo de outrora. Pude perceber que a observância ao mandamento de amar ao próximo como a si mesmo, não cabia naquele encontro. Após o cumprimento de praxe nos separamos para nos encontramos novamente na fila do açougue, em dado momento vira para mim, olha na minha cesta, vê apenas um pote de 250 gr de margarina, que só estava ali por não existir potes de 150gr no mercado. Após examinar minha cesta vai até o seu carrinho, pega dois potes de 500gr, de margarina mista manteiga, com o dedo indicador aponta o valor e, com indolência fala: - Olhe só o preço desta manteiga! Meus filhos não aceitam outra. Ficou evidente o desejo de mostrar o seu poder de consumo, como se estivéssemos numa competição para ver quem podia gastar mais. Como não tinha o que falar apenas sorri; conhecia-o há mais de dez anos, neste período acompanhei seus altos e baixos, era de conhecimento geral, mesmo porque ele nunca escondeu que muitas vezes o pão chegou a sua mesa através de doações e, hoje usava um termo irresponsável, para desmerecer o próximo. Guardei daquele encontro uma lição um tesouro de grande valor: “Jamais tripudiar os menos favorecidos, pois é fato que tornaremos a nos encontrar nesta fascinante estrada, que é a estrada da vida. Pode ser que neste novo encontro, venhamos a ter que saciar nossa sede no cantil de quem nós desmerecemos.” O tempo corria velozmente, como não podia acompanhá-lo, apenas caminhava e, nesta peregrinação, encontrei uma cliente que pediu um dos pratos que fazemos sob encomenda. - Dona Linda pediu uma travessa de panqueca para domingo. - Amor, temos que ser grato a Deus pelas pessoas que Ele prepara

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para pedir os nossos pratos. - É verdade, Mara, nossos pratos são muito requisitados, vejo as pessoas elogiando e reconheço que não temos méritos para receber estas honrarias. Se não fosse Deus abrir nossa mente, estes pratos não alcançariam o sabor propagado pelos nossos clientes. - Amor, quando resolvermos estas pendências da Solemar, vamos parar com este trabalho de refeição, não é mesmo? - Sim pararemos, por um pouco de tempo, até a abertura de nosso restaurante. - Você me disse que o livro A saga do casal vencedor será um Best-Seller e que será editado em várias línguas. Então coloque nele algumas das receitas que nós preparamos, estaremos assim divulgando um pouco de nossa culinária a outros povos. Também estaremos doando às outras pessoas a forma que encontramos para superar certas dificuldades. Mostre que os problemas sempre existirão, mas com criatividade é fácil de superá-los. - Que excelente ideia, mãe, parece até que é minha! De acordo com Mara, escolhemos algumas receitas dos pratos que preparávamos. Para coroar a dona da ideia, nasce neste instante o livro de receita: MARA, FORNO & FOGÃO.

Tenha uma leitura saborosa:

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LAZANHA DE BERINGELA INGREDIENTES 5 unidades de beringelas medias 500 gramas de queijo muzzarela 500 gramas de presunto 2 Copos de molho de tomate refogado 1 unidade de caldo de legumes 1pacote de queijo ralado 1 copo de água PASSO A PASSO: Descascar as beringelas corta-las em rodelas, levar o molho de tomate refogado ao fogo e acrescentar agua para não ficar muito grosso. Empanar as fatias de beringelas na farinha de trigo, Após tendo feitos isto frite-as no oleo bem quente. Numa travessa, coloque uma camada de presunto, em seguida uma camada de queijo e depois uma camada de beringela com um pouco de molho. Repetir esta sequencia terminando com a camada de queijo com um pouco de molho por cima, polvilhar com queijo ralado o quanto baste. Levar a travessa ao forno (ou microondas) até derreter bem o queijo. Acompanha com arroz e salada!

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PANQUECA DE PEITO DE FRANGO CREMOSA INGREDIENTES! Para a massa:2 ovos. 1 copo de leite. Uma colher de chá de oleo. Uma pitada de sal. 2 xicaras de farinha de trigo. Para o recheio: 700 gramas de peito de frango desossado. 2 dente de alho amassado. 1 tablete de caldo de carne. Sal pimenta do reino a gosto. 1 copo de requeijão. Cebolinha picada a gosto 2 colheres de sopa de oleo. PASSO A PASSO: O recheio, frite o alho, a seguir coloque o caldo de carne, sal, pimenta do reino a gosto, só após coloque o peito de frango. Depois de cozido desfie bem, a seguir acrescente o cheiro verde e a cebola. Leve ao fogo por cinco minutos, a seguir desligue o fogo, coloque o requijão e misture bem. Reserve. A massa:Bata os ingredientes no liquidificador , após pré aqueça uma frigideira teflon com uma colherinha de oleo. Coloque a massa na frigideira com o auxilio de uma concha. Deixe assar até que a borda obtenha uma cor dourada. Vire a massa deixando dourar o outro lado. Recheie, enrole,reserve-as em um pirex. Cubra com molho de tomate refogado, polvilhando com queijo ralado. Leve ao forno pouco antes de servir só para aquecer. Obs.: Tirando o sal da receita, você poderá rechear a panqueca com doce de leite, brigadeiro,banana, geleia, etc. 245


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ROSCA DOCE INGREDIENTES 1 litro de leite 300gr de margarina 1 colher de sopa de óleo 10 ovos 350gr de açúcar cristal 3 kg de Farinha 60gr de sal Essência a gosto. 150gr de fermento fresco. 150 de coco ralado 50gr de cereja PASSO A PASSO Esponja:Coloque ½L de leite numa bacia de plástico dissolva 150 gr de fermento acrescente ½ kg de farinha de trigo,deixe descansar por 20m´. Massa: Bata no liquidificador a margarina , os ovos, o óleo, o açúcar , o sal, e a essência.Após a esponja crescer, despeje os ingredientes batido do liquidificador na bacia da esponja, a seguir coloque uma medida de uma mão de farinha de trigo, e misture bem, torne a repetir o processo, até que seja misturada toda a farinha. O segredo de uma massa leve e homogênea é não ter pressa para colocar a farinha. Após este processo numa superfície lisa sove bem a massa, quando sentir que a mesma está ficando leve e porosa, divida em três pedaços. Cada pedaço divida em três partes e com ajuda de um rolo faça tiras. Recheie as tiras com frutas cristalizadas ou doce de leite feche as tiras e faça as tranças Faça a mesma coisa com as outras duas partes da massa restante e deixe crescer por aproximadamente 1h. 246


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Asse em forno bem quente Faça creme para o brilho das roscas da seguinte forma: 2xicaras de água 2xicara de açúcar 1colher de coco ralado 2 gemas 1 colher de margarina Leve ao fogo, quando levantar fervura desligue o fogo e deixe esfriar. Quando as roscas estiverem assadas, pincele com creme de brilho a seguir enfeite com as cerejas e polvilhe com flocos de coco. Obs.: Para fazer o sonho, estique a massa com um rolo até que atinges a espessura de 1 cm. Corte com cortador redondo, na falta deste, pode-se usar um copo. Deixe descansar por aproximadamente 2h, a seguir frite em óleo com fogo baixo. Sugestão do recheio: Brigadeiro, doce de leite, beijinho, Romeu e Julieta, creme, etc. Depois de o sonho recheado polvilhar com açúcar confeiteiro. CAMARÃO NA MORANGA INGREDIENTES 1 unidade(s) de abóbora moranga 2 colheres (sopa) de azeite 1 unidade(s) de cebola picada(s) finamente 2 dentes de alho picado(s) finamente 1 xícara (chá) de molho de tomate 1 kg de camarão cinza limpo(s) 2 colheres (sopa) de farinha de trigo

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1/4 xícara(s) (chá) de leite 250 gr de requeijão 1/2 lata(s) de creme de leite sem soro quanto baste de sal quanto baste de pimenta-do-reino branca quanto baste de cheiro-verde para polvilhar MODO DE PREPARO Corte uma tampa na superfície superior da moranga e reserve. Retire as sementes com o auxílio de uma colher. Cubra a moranga com papel-alumínio e coloque em uma assadeira com a cavidade voltada para baixo. Leve ao forno pré-aquecido a 180 graus até que a moranga esteja macia. Reserve. Em uma panela aqueça o azeite e refogue a cebola e o alho picados Acrescente o molho de tomate os camarões, a farinha de trigo dissolvida no leite, o sal e a pimenta. Tampe e deixe ferver por 5 minutos. Retire do fogo e misture o requeijão já misturado com o creme de leite. Faça a correção do sal e da pimenta, se necessário. Recheie a moranga com este creme e Leve ao forno pré-aquecido a 180 graus por aproximadamente 25 minutos. Polvilhe com o cheiro verde e decore a superfície com camarões grandes cozidos em água e sal. PREPARANDO NO MICROONDAS Corte uma tampa na superfície superior da moranga e reserve. Retire as Corte uma tampa na superfície superior da moranga e reserve. Retire as sementes com o auxílio de uma colher. Forre o prato giratório

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do microondas com papel manteiga e coloque a moranga com a cavidade voltada para baixo. Cozinhe por 20 a 25 minutos na potência alta ou até que a moranga esteja macia. Reserve. Em um refratário coloque o azeite, a cebola e o alho. Leve ao microondas por 3 a 4 minutos na potência alta. Acrescente o molho de tomate, os camarões, a farinha de trigo dissolvida no leite, o sal e a pimenta. Tampe e leve ao microondas por 10 a 12 minutos na potência média (60%). Mexa na metade do tempo. Retire e misture o requeijão já adicionado com o creme de leite. Faça a correção do sal e da pimenta, se necessário. Recheie a moranga com este creme e retorne ao microondas por 5 minutos na potência alta. Polvilhe com o cheiro verde e decore a superfície com camarões grandes cozidos em água e sal.

O otimista consegue enxergar solidariedade no trabalho das formigas, e tira lição. O pessimista pragueja e procura inseticida para exterminá-las. 249


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XIV Capítulo Rumo à vitória almejada Há dois tipos de enfartos: por tristeza ou por alegria. Quase enfartei no dia 22 de abril de 2009 quando ouvi a buzina de uma moto a uns cem metros de minha casa. Como ela se aproximava velozmente, fiquei na expectativa. Era Nelson, o carteiro. Pude perceber que os carteiros nutrem um carinho por mim e torcem pelo meu sucesso e este sentimento é recíproco. Não foi diferente desta vez, Nelson me entregou o envelope feliz antevendo que estava me trazendo uma grande notícia. Despedi do carteiro amigo, abri ansioso o envelope e tirei uns papéis de dentro dele. O primeiro era um bilhete de Dra. Maria Cristina e, o segundo, a certidão tão esperada que havia chegado. Olhava aquele papel em minhas mãos, não sabia se chorava ou se ria, deixei que minha alma manifestasse sua alegria e ela explodiu todo o seu anseio quando de minha boca saiu em brada voz: “GLÓRIA A DEUS, GLÓRIA A DEUS, GLÓRIA A DEUS”... Poucos dias após receber os documentos de Jaú, conversava com Mara enquanto almoçávamos e falei: - Mara, vamos esquecer um pouco os nossos planos. Quero falar de nosso amor, você já me ouviu declarar meu amor de várias formas. Peço que feche os olhos para me ouvir mais uma vez, o que nunca cansarei de dizer. Mesmo que sejam simples palavras, porém a singeleza do amor que sinto por você colocará a melodia. Depois de certificar que Mara tinha realmente fechado os olhos, tirei do bolso uma folha de papel com um texto escrito e, dando uma entonação romântica na voz, declamei: 250


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Mara sabe! Tú, bella María; Sus pies, la flor de las orquídeas en ellos; Cerca de ti Mara, las rosas se han vuelto insignificantes. Usted es el canto de los pájaros, y el tema en la prosa de los vientos. Sin ti, el amanecer no tendría ningún sentido. Qué gran suerte para mí, María, para que usted como mujer, Mara. Les prometo que voy a ser muy apasionado Edson, y un esposo devoto; Su ternura es más, mis imperfecciones. Como Mara lucha, si no contar con su apoyo? Por qué ganar, si no estás a mi lado para compartir las victorias concedidas por Dios. Mara sabe! Tengo mucho que escribir y hablar, pero, María, al comienzo, tener en mente, la emoción... Usted, la mitad de mí, el dueño de mi corazón. O simplemente mamá. La suma de la infinito sería pequeño, por el amor que siento por usted. Amor papá, o simplemente el amor. Francés antiguo - Que coisa linda, bem, desconhecia este amor castelhano que tens por mim! Nossa amei! - Você gostou mesmo? - Sim, amor, mas como você conseguiu traduzir aquele poema do

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português para o castelhano. - Mãe, a tradução não foi feita por mim, usei a ferramenta de tradução do Google, disponível na internet. - Você com as suas hein, Velho França. - Velho França, aproveitando o romantismo deste momento me diga o que pretende fazer agora que recebemos os documentos de Jaú e que nada mais nos impede de saírmos da informalidade? - A princípio, encerrar a empresa antiga e constituir outra, que será uma consultoria. - Sim, amor, mas tudo isto tem um custo. Como faremos então para pagar um contador e começar nossa empreitada? - Boa pergunta. Você tem alguma ideia? - Temos noventas livros. Caso vendêssemos todos de uma só vez, teríamos o dinheiro para pagar o contador. - Vamos tentar vendê-los o mais rápido possível. Para uma confirmação de que a venda dos livros seria a solução necessária para nossa realização, naquela semana recebi uma mensagem de Dona Elaine, vicepresidente do Instituto Monitor, pedindo que fôssemos buscar noventa e dois livros Filho deixa eu te ajudar, que estavam no estoque. Durante nossa permanência naquela escola, tratamos da edição de outro livro que eu e Mara havíamos escrito. E mais uma vez contamos com os serviços gráficos do Instituto Monitor para edição de nosso segundo livro: Lágrimas embaladas de um filho para os

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pais. Aproveitando que faria 55 anos no dia 1º de agosto de 2009, programamos uma festa de aniversário, na qual reuniria alguns amigos no centro de informática de Campo Limpo Paulista e faria o lançamento de meu segundo livro. O ano findou sem muita novidade. No último dia do ano, da janela de casa, dava para ouvir nas ruas adjacentes o povo cantando repetidamente: “Adeus ano velho, feliz ano novo, muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender”. Embora aqueles desejos em forma de música também fizessem parte de meus sonhos, o ano de 2010 começou meio travado, as vendas dos livros não trouxeram o retorno esperado. Em janeiro, o mundo foi impactado com o terremoto ocorrido no Haiti, deixando consternada a humanidade com o sofrimento dos haitianos. Naquele mesmo ano, a Biblioteca Nelson Foot, da cidade de Jundiaí, lançou a olimpíada de redação com o tema Haiti. Passar o sentimento que teríamos se estivéssemos naquele país no período da catástrofe. Desejoso de dar minha contribuição àquele evento e crendo que poderia desta vez ser o primeiro colocado, escrevi uma redação já vendo o título máximo em minhas mãos. Nasceu “Olhar de súplica”. Claro que não ganhei nada, apenas participei, entretanto me senti honrado em poder participar com minha redação em meio a feras existentes no mercado. Olhar de súplica Porto Príncipe, 14 de janeiro de 2010

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Pai, ao iniciar esta carta, encontrava-me dentro do avião da Força Área Brasileira (FAB), com o propósito de sair do Haiti, um país miseravelmente pobre habitado pela raça negra. Aliás, considerada pelo senhor como raça inferior! Pois bem, vou lhe explicar porque mudei de ideia. Tudo começou na última terça-feira, faltavam poucos minutos para às 17h, encontrava-me descansando no quarto do hotel Villa Creole, após um dia estafante. Entre uma conversa e outra, meu companheiro de quarto pediu: - Renato, procure tratar melhor os operários haitianos. Com arrogância, respondi: - JP, os haitianos são miseráveis demais para merecer tanta consideração, além deste fator a cor deles não ajuda em nada. Fiz uma pausa e justifiquei: - Desculpe-me, esqueci que você também é negro. Com tristeza no olhar, JP respondeu: - Pena que você pensa desse jeito, garoto. Peça a Deus para mudar sua forma de pensar, caso contrário, nunca será feliz. Rindo, respondi: - Balela, JP, cumprirei este contrato, pois preciso deste estágio. Depois disto, meu amigo, vou trabalhar num país de primeiro mundo e ganhar todo o dinheiro que preciso para ser feliz. No momento que JP ia me responder, o mundo veio abaixo. “Sabe”, meu pai! Nunca imaginei que passaria por situação tão desesperadora, o prédio do hotel começou a sacudir de tal forma, que fomos jogados de um lado para outro. As pessoas que estavam no saguão correram para fora. Durante dez segundos, não conseguíamos nos mexermos, era como se estivéssemos num barco à deriva. Só depois conseguimos descer e sair correndo para a rua. Ali, no meio da poeira que tomou a cidade, corríamos como loucos em busca de um lugar seguro. Neste ínterim, percebi que JP parou e olhava

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insistentemente para um posto de gasolina, destruído pelo abalo sísmico. Naquele local, preso por uma viga que havia caído sobre ele, um menino acenava com os olhos para JP. Era um olhar intenso, de dor, de apelo, olhar de súplica. Naquele instante, presenciei cenas que nunca imaginei existir e que jamais esquecerei. Movido por compaixão, um sentimento até então desconhecido por mim, JP foi ao encontro daquele garoto. Vislumbrando o perigo, gritei: - Não, JP, não vá, o posto vai explodir. Pedido inútil, com destemor JP correu em direção ao posto. Vi quando ergueu a viga e tirou o menino. Após o resgate, com a criança nos braços, correu para um lugar seguro, enquanto outras vozes clamavam por socorro entre os escombros. Logo depois de socorrer o menino, percebi que ele voltaria ao posto. Mais uma vez tentei impedir. Segurando em seu braço, bradei: - O que deu em você? Está querendo morrer? Com complacência, mas firme em seu propósito me respondeu: - Quando você entender que somos imagem e semelhança de Deus, independente de nossa posição social, da cor de nossa pele ou fé que professamos, entenderá por que faço isto. Em seguida, voltou correndo para o posto impelido por um egoísmo natural. “Pai, acovardei-me, não o auxiliei em sua tarefa enquanto socorria outras quatro pessoas”. Foi ao tentar socorrer a quinta e última vítima, que o posto explodiu vitimando-o também. Assim que perdi o amigo, meu desejo era sair o mais rápido possível daquele país, esquecer que um dia estive no Haiti. Contudo, enquanto aguardava o momento de partida, alguém ao meu lado comentou sobre a valentia de João Pedro da Silva, engenheiro da Camargo Correa, que morreu heroicamente.

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Uma dor invadiu minha alma, sentia-me culpado quando a mesma pessoa falou: - Estão trazendo o caixão com dona Zilda Arns. Uma outra voz emendou: - Morreu a idealista, mas o seu exemplo de solidariedade jamais morrerá. “Poxa, papai! Aquelas palavras mexeram no meu íntimo e tomei a decisão de ficar e lutar em favor do povo sofrido. Pela guerreira que foi dona Zilda! Por este herói que foi JP! E por mim, que através dos exemplos por eles praticados, descobri a essência da vida: o amor ao meu semelhante”. Não sei quando retornarei, entretanto em meu retorno levarei Patrick, que ficou órfão nesta tragédia. Ele é um dos meninos que JP salvou. Segue a foto do novo membro da família que consegui com uma jornalista. Fico por aqui, o avião vai partir e tenho que procurar meu irmão Patrick. Beijos a todos. Seu filho, “Rê” Não ganhei a olimpíada, mas recebi um presente melhor que qualquer premiação daquela natureza. Em virtude das pendências da Solemar Turismo, estava com meu CPF bloqueado na Receita Federal e não via como regularizar aquela situação. Procurei várias pessoas conhecidas que sabiam os procedimentos legais para me ajudar naquela questão, mas não fui bem sucedido. Pagar um contador, não tinha recursos para isto. A única solução seria vender nossa casa.

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Depois de conversar com Mara, explicar que era o caminho mais viável, anunciei a venda do Recanto dos Velhos França. A princípio, cotei o valor de R$ 42.000,00 numa casa de dois quartos, sala, copa, cozinha e banheiro, com 88m2 de área construída embora faltasse o acabamento. Sentia que era um preço justo. Cada visita que chegava ao portão para ver a casa, avivava minha esperança, que desfalecia quando ia embora. Portanto, fui reduzindo o valor do imóvel, até que concordei em vender por R$ 18.000,00 para uma pessoa que mostrou muito interesse. No entanto, fora interesse em vão. A pessoa nunca mais apareceu para concluir o negócio. São nestes momentos que sentimos que nossas forças acabam, que nossas esperanças estão por um fio. A mente vagueia. Quantos anos esperando uma vitória! Quantos, meu Deus? Dois, cinco, dez, treze, quinze, dezesseis. Foram dezesseis anos de luta. Em cada novo ano renascia a esperança de uma libertação que não vinha, mesmo assim nunca desisti. Se tivesse desistido, por certo hoje não estaria glorificando a Deus por esta grande obra. Mesmo gemendo, minha confiança sempre esteve no Senhor e nunca fiquei sem ouvir a santa e bendita Palavra. Por Ela passei com alegria as provações, crendo que no Seu tempo haveria Deus de cumprir Suas promessas. O cativeiro seria virado e virou. No décimo sexto ano do início de minhas provações Deus, por Sua grande misericórdia, deu início à virada do cativeiro em minha vida. Tudo começou quando recebi a visita de irmão Paulo que, tomando consciência de minha situação, apresentou-me o irmão Eli, proprietário de um escritório de Contabilidade, e se prontificou a cuidar das minhas pendências, sem nenhum custo. A pedido de irmão Eli, fui à Receita Federal fazer uma pesquisa sobre a situação de meu CNPJ. Descobri que no governo Lula baixou

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uma portaria cancelando todos os CNPJs inaptos. Portanto, em pouco tempo, meu CPF estava regularizado. Com este documento, regularizei também minha carteira de habilitação. Finalmente, tudo começava a melhorar. Mas, como as provações são diversas, com o problema dos documentos resolvido, aconteceu um imprevisto que afetou Mara e, por pouco, não a perdi. No quintal de casa havia uma fossa tampada por uma laje de concreto. Mara, para aproveitar o espaço, fez um varal para estender as roupas. Apesar de meus avisos sobre o perigo da laje ceder, ela continuava a usar o espaço que cruzava por cima desta laje. O inevitável aconteceu era dia 4 de dezembro de 2010, por volta das 11h. Encontrava-me no centro da cidade quando fui avisado por uma vizinha que Mara havia caído na fossa. O desespero tomou conta de mim. Não sabia a real condição dela, muito menos se estava viva. Foi com alívio que a encontrei, embora com várias escoriações nas pernas em virtude de ter ficado presa entre as ferragens de sustentação da laje, Deus a guardou evitando-a que caísse dentro do poço, que estava cheio e causaria sua morte por afogamento. Mais uma vez o nome de Deus foi glorificado em nossa boca. No final de dezembro de 2010, conversando com alguns irmãos, narrei uma viagem que havia feito para cidade de Caldas Novas, onde conheci um jovem usuário de cocaína. Em setembro de 2002, precisamente dia 28, encontrava-me na sala de casa conversando com Mara, que naquele momento lamentava os problemas e as dificuldades de se locomover, quando parou um carro embaixo de uma árvore que tem em frente de casa. O condutor acionou a buzina para chamar nossa atenção. Vi ser um casal de amigos, Mauro e sua esposa Antônia. Já dentro de casa,

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Antonia, conhecida por Toninha, falou: - Edson e Mara, vim para convidá-los para ir a Caldas Novas conosco. Olhei para Mara e falei: - Não temos condições de aceitar este convite. Sorrindo, ela disse: - Claro que vocês têm e não precisam se preocupar com nada, pois está tudo pago, levem dinheiro apenas para o refrigerante. Mesmo recebendo toda aquela cortesia, não podíamos aceitar. - Desculpe-nos, mas não podemos aceitar. Mauro, seu esposo, tomou parte naquele diálogo para perguntar: - Você é orgulhoso? Ao responder que não, ele disse: - Vai a minha casa na próxima quarta-feira, pois já está tudo preparado para vocês irem nesta viagem. Ao vê-los partir, Mara perguntou: - Nós iremos, amor? - Não sei, Mara, vamos aguardar um pouco, antes de decidirmos se vamos mesmo nesta viagem. Assim, na quarta-feira, fomos à casa de Toninha, que nos recebeu com muita honra. Daquele casal recebemos desde malas até as roupas necessárias para a viagem. Estávamos no terminal rodoviário, onde Mauro cordialmente nos deixou para podermos tomar o ônibus que nos traria para o bairro de Botujuru, quando entrou em mim uma preocupação. - Mãe, não estou gostando disso. - O que está incomodando você? Ganhamos uma viagem a Caldas Novas, vamos nos hospedar no Resort Thermas de Roma, comidas gostosas, belos passeios, e a seu ver tem algo errado?

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- Esse é o problema, está tudo muito fácil, dá-se a impressão de que algo nos impulsiona em direção a Caldas Novas. Mas, por quê? Neste momento Mara caiu na real e temerosa comentou: - Você tem razão, amor, fiquei empolgada e esqueci-me de nossa real situação. Estamos com a luz e a água cortadas, ainda faltam-nos sapatos e não temos dinheiro nem para o refrigerante. - Pois bem, vamos buscar respostas do céu. Se sentir que é a vontade de Deus nós iremos, caso contrário, devolveremos tudo que nos deram com um muito obrigado. Alguns dias depois, já confirmado por Deus para estarmos nesta viagem, via a angústia de Mara quando se queixava da falta de sapato: - Amor, como vamos nesta viagem se não temos sapato? - Calma. Se é para ver uma obra operada por Deus, eu vou nesta viagem mesmo que seja de chinelo de dedo havaiana. Nada acalmava Mara e, por graça e misericórdia de Deus, uma irmã ofertou dois pares de sapato. O dia da viagem chegou e eu continuava sem sapato. Tentei pintar de preto uma bota branca que havia ganhado de meu irmão carnal quando este trabalhava na Parmalat, na cidade de Jundiaí. Ficou horrível aquela pintura. Tentei voltar a sua cor natural, sem sucesso. Quanto mais mexia, mais ficava feia. Resolvi o problema com uma tinta automotiva que estava guardada há tempos. Por ser de couro, a bota aceitava bem o esmalte. No término, ela parecia um fuscão branco, estava uma coisa linda. O irmão Joãozinho nos levaria às 23 horas no Paço Municipal de nossa cidade para o embarque que seria à meia-noite. Porém, devido ao tempo ter virado prometendo chuva (e a Rua Avaré naquela época encontra-se sem asfalto), ele adiantou o horário vindo em nossa casa por volta das 18 horas, levando-nos para sua casa.

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Ninguém percebia minha indumentária tão exótica: socialmente vestido e calçando uma botina esmaltada, que chegava a brilhar de tão branca. Ali, naquela casa abençoada por Deus, havia alguns irmãos trabalhando na construção de uma varanda. Após irmã Neuza, esposa do irmão Joãozinho, servir o jantar, fomos orar a Deus em agradecimento aos bens e favores que de Sua mão temos recebido. Ao término da oração, um dos irmãos ali presentes, perguntou: - Irmão Edson, que número de sapato que você usa? Pensei que Luciano percebera minha bota e, por compaixão, queria me ajudar. Falei um número que não correspondia ao que usava. Por um momento ficou em silêncio, depois falou: - Não é 42? Diante daquela afirmação, fui obrigado a confirmar: - Realmente, Luciano, é o número 42 que uso. Mas por que você deseja saber? - Porque já faz dez dias que sinto da parte de Deus em lhe dar um par de sapatos, e o momento é este, o João vai me levar em casa e trará o seu sapato. Neste ínterim da ida de João à casa de Luciano, chegou um casal de irmãos, que residira na vila Chacrinha e que atualmente morava na cidade de Uberlândia, no estado de Minas Gerais. O casal trazia duas calças que irmã Vânia havia confeccionado especialmente para nossa viagem. Estávamos conversando na calçada, quando irmão Joãozinho retornou da casa de Luciano e, assim que desceu do carro, entregoume a caixa de sapato. Irmã Vânia pediu para que provasse a calça para ver se tinha ficado boa. Fui ao banheiro e, após colocar calça, abri a caixa de sapatos que havia levado na intenção de provar também o sapato, e qual não foi minha surpresa em ver uma nota de cinquenta reais dentro do

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sapato. Para quem tinha somente um real e cinquenta centavos no bolso, aquele capital preparado por Deus era uma bênção e tanto. E, para minha felicidade, Deus tomou outros corações e fomos naquela viagem com cento e um reais e cinquenta centavos. Chegamos a Caldas Novas no domingo, por volta de 10 horas. Usamos o período da tarde para reconhecimento das dependências do Resort. Tínhamos a pretensão de irmos à igreja naquela noite. Todavia havia esquecido de levar minha gravata. Combinamos que no dia seguinte procuraria uma loja para comprar aquele acessório necessário para minha adoração a Deus. Na segunda-feira, antes de descermos para o café, em oração, fizemos esta petição a Deus: “Senhor, não estamos nesta cidade Em Caldas Novas para nos divertir, e sim para ver no Jardim Japonês uma obra, então nos guie no local desejado para que isto aconteça”. Após o café, o grupo foi conduzido numa das atrações existentes na cidade: o Jardim Japonês. Alguns minutos ali foram suficientes para conhecermos o local. Então, convidei Mara para saírmos. Assim que nos encontramos do lado de fora, deparamos com um batalhão de fotógrafos ávidos para tirar nossa foto. Entre eles havia um rapaz muito falante, alto que se destacava dos demais. Olhando para ele deu para ler o nome que estava escrito no crachá que trazia pendurado no pescoço por um cordão: Edson. Ao ver que era meu xará, não deixei passar em branco a oportunidade de fazer uma brincadeira. 262


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- Edson, todos os Edson falam demais. Ao ouvir-me dizer aquelas palavras, fechou a cara. Não dando tempo para nenhuma resposta, completei: - Mas é gente boa, pois também sou Edson. Na hora ele retrucou: - Mas eu sou bonito e você é feio. Não deixei por menos e disse: - Pode ser que no exterior você seja mais bonito, porém o que há dentro de mim é muito mais bonito do que você. Pasmo, ele perguntou: - O senhor é evangélico? Naquele momento senti que minha missão era com aquele rapaz e, diante desta constatação, falei: - Sim, e antes de sair do hotel eu fiz uma oração, e nela eu pedia a Deus para guiar meus passos para a obra que Ele realizaria nesta cidade, e esta obra é com você. Já era para você estar morto, mas Deus o segurou com vida para ouvir o que está boca tem que falar. Emocionado, ele perguntou: - Em que hotel o senhor está? - No Thermas de Roma. - Qual o apartamento? - No apartamento 399 - Às 15h, estarei ali para falar com senhor. - Estarei aguardando e aproveito, quando você for embora, para o acompanhar para que me mostre onde posso comprar uma gravata. Despedi-me dele e, quando o grupo chegou após outros passeios, retornamos para o hotel. Às 15h30, como o rapaz não apareceu, Mara perguntou: - Será que ele vai vir?

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Quando deram 16h, entregaram-nos um pacote da parte do fotógrafo. Ao abrir, pude comprovar que eram uma gravata e dois chaveiros com nossas fotos que ele havia feito. Estava sem entender por que não havia vindo como tinha prometido, quando Mara interrompeu minhas reflexões para falar, admirada: - Por que será que ele não veio, conforme o combinado? Na terça-feira Mara sugeriu que voltássemos ao Jardim Japonês com a intenção de encontrá-lo, o que não concordei. À noite, fomos à igreja e, ao término do culto, conversando com alguns irmãos, mencionei sobre aquele rapaz, e um dos irmãos presentes, de nome Valito, perguntou: - Ele tem uma tatuagem enorme no braço? Quando confirmei, o irmão disse: - Eu sei onde ele mora. Quase explodindo de alegria, perguntei ao irmão: - Não sente de fazermos uma visita a ele? Após o irmão ter concordado, combinamos que seria no dia seguinte. Marcamos de nos encontrarmos às 18h, ali mesmo em frente à igreja. No horário acertado, como Valito não apareceu, liguei para o número de telefone que havia me fornecido. O irmão se desculpou dizendo não seria possível irmos naquela visita por ser um lugar distante e ele não havia conseguido arrumar carro para nos levar. Então, eu sugeri: - Vamos a pé. Irmão Valito não concordou e explicou por quê. - É muito longe e vocês de São Paulo não estão acostumado andar a pé.

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Por mais que falasse que nós temos o hábito de andar muito, ele estava irredutível, não me restando outra saída a não ser a de dizer: - Então me dê o endereço que eu irei. Estas palavras convenceram o irmão, e pouco tempo depois caminhávamos pelas ruas de Caldas Novas em direção à casa daquele rapaz. Quando lá chegamos, ele se encontrava juntamente com um rapaz mexendo no terreno de sua casa e, assim que nos viu, começou a dizer: - Meu, estou viajando em Jesus, cara. Meu, estou viajando em Jesus, cara. Meu, estou viajando em Jesus, cara. A seu convite, entramos em sua casa e, enquanto acomodava na cadeira que Graça, sua esposa, nos oferecera, eu pensava: “ele misturou gíria com Jesus, quem será este rapaz?” Naquela casa humilde ouvimos uma história emocionante da boca daquele rapaz. Dizia ele ser viciado em drogas, mais especificamente em cocaína. Um ano antes de ali chegarmos, ele havia consumido uma quantidade excessiva da droga que a levou à loucura a ponto de atentar contra a própria vida, pois colocou uma corda no pescoço e tentou se enforcar. Por um milagre não entrou em óbito. Ao ser socorrido, passou boa parte dos dias que ficou internado na unidade de terapia intensiva. Depois foi internado num manicômio. Ali alguém falou de Jesus Cristo, o que ele de pronto aceitou. Todavia quando teve alta, por algum motivo que ignoramos, ele passou a hostilizar as pessoas que ali estiveram ao ponto de expulsá-los de sua casa. Feito isto disse para Graça, sua esposa: - Se Jesus existe mesmo, Ele mandará alguém de longe em minha casa, que não me conheça e não saiba o meu endereço. Esta foi a razão de não ter comparecido no hotel, pois assim teria nos levado a sua casa, e não era desta forma que desejava. 265


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Saímos daquela casa contentes por vermos que mais uma vez Deus usou de nós para cumprir o desejo no coração de alguém. No percurso de retorno ao hotel, devido aos pés de Mara terem inchado, ela tirou os sapatos e levou-os nas mãos. Aquele gesto chamou atenção do irmão Valito, que olhava para os pés descalços de Mara, que tinha como proteção só a meia calça. Olhava para nós que estávamos felizes caminhando de mãos dadas. Não se contendo, começou a chorar enquanto dizia: - Irmãos, como gostaria de ser um homem abençoado por Deus para poder viajar em Sua obra. Naquele momento pude entender o pensamento do irmão. Ele achava que nós éramos ricos, estávamos hospedados no melhor hotel da região. Mara caminhava de meias pela calçada sem se preocupar se podia rasgá-la (o que ele não sabia é que ela não podia tirar aquela peça em público). Diante disso, comentei com o irmão:- Querido irmão Valito, você deve estar pensando que somos ricos. Não, meu querido irmão, somos tão pobres quanto você, quero que saiba que saímos de casa e deixamos luz e água cortadas. Ao ouvir confessar nossa pobreza e falar da forma que Deus usou para estarmos ali, seu choro dobrou. Seis anos depois, soube pela Toninha que aquele rapaz havia morrido após sofrer overdose com cocaína. Diante destas lembranças e do sofrimento passado com o meu filho, nasceu o desejo de fazer um trabalho preventivo que pudesse levar informações completas a outras pessoas. Para um maior aprimoramento, com minha esposa, fiz um curso de Agente multiplicador à prevenção de uso abusivo de drogas, no DENARC de São Paulo. Quem pode talhar uma lágrima sem ferir a menina dos olhos?

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XV Capítulo Transformando sonhos em realidade Moramos numa casa há 15 anos, como já havia mencionado anteriormente, entremos nela no estado que se encontrava e nunca tivemos condições de mudarmos aquela situação. Por Botujuru se encontrar numa região serrana no inverno sofria com os ventos cruzando os buracos das paredes sem reboco. No verão era um sacrifício permanecer dentro dela, por causa do mormaço que o sol impunha sobre as telhas velhas pelo uso. Na ocasião da chuva tínhamos a brigada das águas, foram muitas madrugadas procurando lugar no quarto onde não houvesse goteiras para colocar a cama. Enfim em meios a esta pobreza havia e há uma riqueza de valor sem igual, a graça do filho de Deus, nesta graça maravilhosa o Senhor têm nos conduzidos sem que o infortúnio material tire de nós a alegria de viver. Com esta alegria, conseguia ver nas mínimas coisas a plenitude de Deus, igual à Jó quando em suas adversidades conseguia extrair poesia das lágrimas. Um deste momento fiz questão de fotografar embora Mara preocupada com minha segurança pedisse insistentemente que saísse da chuva, contrariando o seu pedido, fiz questão de registrar tudo que esteve ao alcance de minha lente. Desde o pássaro procurando refugio entre as folhas da palmeira, às folhas desta emboladas pela fúria da tempestade, as velhas telhas sendo sacudidas no furor do vento. 267


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São momentos iguais a estes que me ensinam: “Quem se esconde da tempestade perde a oportunidade de sentir a força do Altíssimo. Até este momento que para muitos podem ser de pânico, é regido por Deus”.

Entre várias chuvas, uma delas ficará marcada em nossa vida, aconteceu em janeiro de 2011, naquele inicio de ano choveu muito,

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quando cheguei em casa encontrei Mara chorando a casa estava alagada. Cada pessoa tem sua maneira singular de lidar com as adversidades. Para algumas pessoas as provações representam o fim do mundo. Para outras servem para mostrar o seu lado fraco. Há, no entanto, aqueles que fazia igual a Davi nos seus momentos de angustia: olhava para os montes e conversava com Deus. Foi o que fiz em lagrimas contei para o Pai a minha necessidade, embora Ele soubesse. Creio que Deus naquele momento pegou minhas lágrimas, regou meus sonhos, adubou minhas esperanças. Do céu derramou chuva de amor no coração dos Teus servos, que, em forma de anjos, vieram com as providencias divinas. Ainda naquele mês enviou três irmãos em minha casa. Após orarmos um deles me perguntou: - Irmão Edson você deixaria nós reformarmos sua casa? Pra mim, reformar significaria trocar o telhado e um reboco nas paredes, ledo engano. Fevereiro de 2011 iniciou e com ele as vitórias chegaram; trazendo, caminhão de blocos, de areia, de pedras, de cimentos, com laje, com viga U de ferro, betoneira etc. Para resumir, minha casa em finais de semana virou um canteiro de obra que começou em 12 de fevereiro de 2011 terminando somente em março de 2012. Sem contar que um dos irmãos, pagou as contas de água e luz durante um ano. Neste período chegaram tantas cestas com produtos alimentícios que ficamos uns dois anos aproximadamente sem fazermos compras.

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Durante a reforma de nossa casa fomos convidados a almoçar na residência de um casal de irmãos na Vila Maringá na cidade de Jundiai, após o almoço o anfitrião anunciou que Deus havia preparado um terno para mim. O interessante nas provações é que ela, consegue tirar de nossa mente coisas que nos enchia de prazer em tempos passados, por exemplo, ir ao shopping. Quantos anos meu Deus usando vestimentas doadas, sem poder comprar roupas novas, no entanto, naquele momento, estava entrando no Maxi Shopping na cidade de Jundiai, de mãos dadas com Mara. Depois de horas naquele ambiente aconchegante, vivendo um tímido glamour, saímos felizes da vida com varias sacolas nas mãos, contendo roupas para o casal. Depois da casa pronta chegaram moveis, que mais posso dizer desta obra, faltar-me-ia palavras para enaltecer a bondade de Deus, sendo assim deixo nas próximas páginas registrado através de algumas fotos, a casa antes e depois, e os irmãos trabalhando para o bem da obra de Deus na vida de um casal. Procurei não legendar as fotos com os nomes dos irmãos, para que somente o nome de Deus seja glorificado.

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Uma estrela que se apagou deixando saudade.

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Mais uma estrela a se apagar. Esteve entre nós e deixou um vazio em nossos corações.

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Hoje posso contemplar uma sala de dois ambientes de 27m2, uma cozinha enorme para irmã Mara fazer pratos saborosos, embora o médico maldosamente tenha proibido as iguarias deliciosas, que Mara tão bem sabe fazer. Três dormitórios com uma suíte, “promessa de Deus”. Enfim, Deus nos deu uma bela casa de 118m² de área construída. A felicidade só é benéfica quando é partilhada com alguém. Desta forma, esbanjando felicidade pela obra que Deus tinha feito em nossa vida, direcionei-me ao trabalho de prevenção às drogas. No meio do ano de 2012 tentei publicar um livro com uma história que havia escrito sobre prevenção às drogas. Busquei patrocínio para a edição com o propósito de distribuí-lo gratuitamente para alunos a partir da sétima série de escolas públicas. Não foi possível realizar o desejo. O patrocínio conseguido não foi o suficiente para a edição. Em virtude deste atraso, me direcionei para outro, fazer palestras em escola pública movido por este desejo: “Caso o inferno tenha em seu projeto viciar cem mil pessoas por ano e, se através de minhas escritas e palestras informativas sobre drogas, um jovem, apenas um, escapar deste terrível mal... Já valeu a pena sonhar por uma causa justa. Valeu a pena vencer as dificuldades para realizar este sonho. Valeu a pena ter sofrido a dor que sofri com meu filho, pois foi através deste sofrimento que Deus abriu meu entendimento para me dedicar em auxiliar outras pessoas”. Com amor, durante os meses de setembro e outubro visitei 28 escolas públicas nas cidades de Jundiaí, Cajamar, Itupeva e Jarinu fazendo gratuitamente palestras sobre “Qualidade de vida e prevenção ao uso nocivo de drogas nas escolas”. Houve escolas que, a convite da direção, retornei outras vezes, como aconteceu na Escola Benedita Arruda da cidade de Jundiaí,

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onde estive por três vezes. Durante as palestras, pude perceber que me encontrava diante de uma juventude desinformada, totalmente despreparada, quando o assunto era drogas. Recordo-me um fato acontecido na escola Duílio Mazieiro, na cidade de Jarinu, quando um rapaz me perguntou: - O senhor não gostaria de ser meu pai? Outra ocasião, numa escola no bairro Residencial Jundiaí, uma jovem chorando, abraçou-se com a professora e, com gratidão nos olhos, disse: - O senhor acaba de nos dar uma linda lição de vida. Uma das palestras que quase fui às lágrimas foi a que fiz na Escola Conde de Parnaíba, na cidade de Jundiaí. Olhava para os rostos dos estudantes e via olhos lacrimejados, jovens atentos ouvindo o que dizia a eles. A emoção pairava no ar e invadiu minha alma. Se não me controlo, choraria diante dos alunos. Não que isto me constrangeria, mesmo porque isto aconteceu em outra ocasião, foi na escola Jurandir de Souza Lima, no bairro de Traviu, ao conhecer dois jovens: Elias e Ewerton. Elias, um aluno assistido que morava na Casa Nazaré, comoveu vê-lo chorando no final de minha palestra confidenciando a carência de amor que há em sua vida. Já estava machucado com o drama de Elias, quando se aproximou um menino pedindo se podia conversar comigo. A conversa não durou mais que dez minutos, aquele menino de nome Ewerton, também assistido, e que morava na mesma Casa Nazaré, me fez ir às lágrimas ao mostrar-me um amadurecimento forçado, provocado pela peça que vida lhe pregou. Em novembro de 2012, por falta de recurso para custear as passagens para me locomover às escolas, encerrei aquele trabalho de prevenção.

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No início de 2013, Deus criou um caminho e foi editado o livro Telles, seja feliz! com uma tiragem de 3.000 livros. O mesmo que havia tentado publicar no ano anterior. Muito me alegrei com a oportunidade de levar gratuitamente informações preventivas sobre drogas a uma juventude carente de afeição. Por experiência sabia que este trabalho não traria retorno financeiro, embora tenha recebido cartas elogiosas da parte da Presidenta Dilma Rousseff e do Governador Geraldo Alckmin, que lerem o livro enviado por mim. Todavia, não recebi por parte do órgão público nenhum incentivo financeiro para continuar aquele trabalho.

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Quando recebi as cartas oficiais elogiando meu trabalho, comentei com Mara: - É, minha linda, esqueceram de mandar o cheque. - Você ainda ri. - Claro, você queria que eu chorasse. Inconformada, minha esposa continuou: - Amor, você não acha que faltou boa vontade do governo em investir no seu trabalho de prevenção? - Sim! - Mas por quê? - Somente eles poderão responder. - Eles ao menos deveriam... Interrompendo o que Mara falaria, continuei: - Mara, minha esposa, esquece o governo, o assunto é meio complicado, é um tema proibido em muitos lares e desprezado em alguns sistemas educacionais. Você sabe que somos prova disto. Só acordamos depois do choro. - Sim, Velho França, mas o governo poderia ao menos te ouvir. - Mara, sabe por que consegui fazer todas estas palestras nas escolas? – dei uma pausa. Porque eram escolas públicas e foram de graça.

Pobres soldados mirins que marcham pelas ruas, caminhando para uma guerra sem chance de vitória. É neste campo de batalha, que o caminho dos bem nascidos se cruza com os filhos da periferia e favelados, formando um único pelotão, caminhando para uma morte inglória. 284


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- Você me despertou para algo que não havia percebido, por que a escola particular não o convida para fazer palestras de prevenção às drogas? - Simples, minha esposa, com medo que no simples fato de aplicar um trabalho de prevenção, criar uma imagem negativa da instituição junto aos pais dos alunos. “É a síndrome de avestruz”. Fazendo um afago na minha esposa expresso meu pesar: É triste ver um pai recuar diante de sua responsabilidade junto aos filhos, enquanto às crianças de hoje, estão expostas aos mais variados tipos de aprendizados: na escola, na rua, entre amigos, diante de uma televisão. Penalizada Mara pergunta: Mesmo sabendo da impossibilidade de fazer este trabalho pretende continuar nesta luta Quixotesca? Com firmeza na voz respondo: Mãe, sempre que houver oportunidade vou gritar contra este mal. Percebi que Mara concordava comigo, mas racionalmente comenta: Entendo você amor, só que precisamos comer pagar as contas, embora este trabalho seja benéfico a outros, no entanto a nós não está trazendo nenhum beneficio. Sabia que Mara estava com razão, precisava direcionar em outra frente de trabalho, sabia que mesmo que fosse provisório teria que recorrer à venda de sonhos. Ao comentar com Mara ela questiona: Já fizemos isto em outras oportunidades e só trocamos figurinhas. Eu sei Mara, mas vamos tentar mais uma vez, as contas estão as porta. Amor, não é brincadeira encontrar cinquenta pessoas interessadas em comprar sonhos. Sorrindo comento: Você só precisará encontrar quinze.

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Sem entender meu raciocínio Mara comenta: Se com cinquenta comprador já trocávamos figurinha, com quinze, vamos doar as figurinhas. Interrompendo-a passei explicar-lhe a nova idéia: Mãe, vou a São Paulo comprar embalagem que possa acomodar quatros sonhos cada, atendendo quinze clientes, estaremos vendendo sessenta produtos. Admirada minha esposa comenta: Que idéia excelente amor... Fazendo uma pausa pergunta com tristeza na voz: Você acha que encontraremos pessoas dispostas a comprar quatro sonhos em uma só vez? - Mãe, vamos usar a lei do CIDE. - Lei do quê? - CIDE. - Pode me dizer o que significa esta lei do CIDE? - Sim, é uma técnica de venda imbatível, isto é: cria uma imagem e desperta a emoção. - Como assim, amor? - Mara, para cada dez pessoas que você simplesmente oferecer o sonho, possivelmente terá êxito com dois ou três. Ao passo se você aplicar a lei do CIDE, o retorno será de oitenta por cento. - Explique-me melhor esta técnica. Diante de uma esposa atenta, ensinei passo a passo a metodologia de oferecer o produto aos clientes. Em poucos dias, estávamos na rua vendendo sonhos. Mara vendia na cidade de Campo Limpo Paulista, enquanto eu fazia a Praça de Jundiaí. As vendas proporcionavam momentos de alegria pela arte que usávamos para colocarmos nosso produto no mercado. No final do dia, quando sentávamos para almoçar, com alegria, comentávamos o que havia acontecido na rua durante as vendas. Uma

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das situações será relatada agora e aconteceu na “Perfeison”, uma loja de som automotivo na Av. Dr. Cavalcanti, na cidade de Jundiai. - Bom dia, sou Edson França, uma pessoa feliz da vida, já realizei quase todos os meus sonhos, mas ontem, precisamente ontem, tentei realizar um sonho antigo e, por falta de cinco reais, me vi impossibilitado de realizá-lo. Fiz uma pausa, olhei para os rostos atentos me ouvindo, não dando tempo para nenhuma reação prossegui: - Pois bem, estou tentando comprar um carro, claro que não é um carro novo, não teria condições para tanto. Por alguns segundos li nos olhos das pessoas compaixão. Já antevendo o que eles pretendiam fazer, adiantei: - Estou inconformado. Poxa, consegui um desconto de cem mil reais... Ao mencionar cem mil reais, percebi o espanto das pessoas. - Era uma Ferrari, na verdade, usada, claro, não poderia ser uma Ferrari nova, afinal, moro na periferia de Campo Limpo Paulista. Rindo, um rapaz ali presente por nome Cesar que, depois descobri ser o proprietário da loja, admirado, perguntou: - Puxa! Você não quer trabalhar de vendedor para mim? Ao terminar de expor a Mara o acontecido comigo, ela comentou: - Estava no salão de cabeleireiro Andre & Mare. Após falar da necessidade dos cinco reais para comprar uma Ferrari, uma cliente do salão me perguntou quem tinha sido o meu professor. Embora nos divertíssemos no dia a dia, a idade não perdoava, em pouco tempo a canseira tomava conta do corpo. Sabia que mais dia menos dia teríamos que procurar outra opção para as nossas realizações. - Mãe, há dias que estou com uma ideia e creio chegou a hora de

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tirá-la do papel. - E posso saber que ideia é esta? - Sim, vamos percorrer Brasil durante três anos vendendo nossos livros. O carro chefe será A saga do casal vencedor. - E quantos livros você pretende vender em três anos? - Uns 60 mil, claro que com 40 mil já realizo o meu sonho. - Velho França, sonho tem limite, vender livros de porta em porta na era das livrarias virtuais é coisa de malucos. - Não com a metodologia que aplicarei. Será igual a do vendedor de geladeira no Pólo Norte. - Vendedor de geladeira no Pólo Norte? - Sente aqui, olhe bem em meus olhos que lhe contarei a história de um homem que conseguiu vender geladeira no Pólo Norte. Vendedor por excelência “Havia um vendedor de geladeira campeão em vendas na empresa que trabalhava. Até que um dia o patrão, querendo preparar o filho para lhe suceder, colocou o herdeiro no departamento de vendas para competir com o campeão. Claro que levou uma goleada, além de ser humilhado pelo pai, tinha que suportar o sorriso de zombaria de seu competidor. Aquela situação provocou uma ira no rapaz para com o empregado, que arquitetou um plano: um dia herdarei esta empresa e acabo com sua pose. Meses depois seu pai morreu e ele assumiu a empresa. A primeira coisa que fez foi transferir o funcionário para o Pólo Norte. Dois meses após a transferência do vendedor vieram os pedidos, eram tantas as encomendas que foi preciso fretar um navio exclusivamente para transportar as geladeiras. Duvidando de que

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fosse verdade, o patrão acompanhou a entrega. Assim que desembarcou, abordou um habitante daquela localidade, mostrou um folder com a foto da geladeira e perguntou: - Passou um homem vendendo um objeto deste por aqui? - Sim. - E você comprou? - Sim, comprei uma pra mim, uma para minha esposa e outra para nosso filho. Espantado, o empresário perguntou: - Mas por que você comprou se aqui é tão gelado! Calmamente, o homem respondeu: - É por isto que comprei, é tão quentinho dormir dentro dela. - Não acredito, onde você consegue estas histórias? - Digamos que elas brotam entre mechas de cabelos brancos que circundam minha cabeça, quase careca. Entendeu, mãe, no Pólo Norte eles não tinham a necessidade de geladeira para conservação de produtos perecíveis, lá é tudo gelo. No entanto, o vendedor criou uma imagem, despertou neles a emoção e eles passaram a dormir quentinhos dentro de uma geladeira. E isto é o que faremos, mãe. - De que forma, amor? - Usaremos a mesma técnica do vendedor de geladeira, dando ao leitor motivos para ler o nosso livro. - Não estou entendendo você, Velho França. Pare de rodeios e me explique o método que usará. - Dona Mara, aguarde mais uns dias e a colocarei a par dos planos. Mas uma coisa é certa em três anos teremos dinheiro suficiente para realizar o meu maior desejo, e também para nossa aposentadoria. - Seu maior desejo? E eu posso saber que desejo é este? - Sim, dona Mara, excursionar os credores da Solemar Turismo.

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- Aquelas dívidas não existem mais, morreram com o fim da Solemar. - Eu sei, mãe, que perante a justiça ela foi extinta. Mas sei também que alguém pagou por viagens que não foram realizadas. Sendo assim, pretendo honrar aqueles compromissos, pois creio nas promessas feitas por Deus, que não descerei à sepultura sem realizar este desejo. - Você está certo, a honradez de um homem é o seu maior tesouro. - Sim, mãe, a honestidade de um homem é o seu maior patrimônio. Na verdade, temos passado por situações difíceis, mas estamos lutando para andar de cabeça erguida. - E você acredita mesmo que, em três anos, conseguiremos dinheiro para excursionar os credores da Solemar e para nossa aposentadoria? - Você tem alguma dúvida? - Tudo isto eu sei, o que não sei é de onde virá dinheiro para tal empreitada. Esqueceu a dificuldade para viajar aqui na região, que teve que tomar emprestado o carro da irmã Maria para irmos a Jarinu, na escola Duílio Mazieiro. Você acha que a irmã emprestará o carro para viajarmos por este país? - Claro que não, Mara. Vamos comprar um carro e mandar editar o livro A saga de um casal vencedor! Creia, dona Maria Teixeira de Melo França, será o fim de todas as dificuldades financeiras que passamos até agora. - Edson França, acorda meu velho, sonho tem limite, para um projeto desta grandiosidade é necessário muito dinheiro. - Claro que não, com cinquenta mil reais faremos um belo trabalho. - Quanto? - Cinquenta mil reais, dona Mara.

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- Você não acha que é muito dinheiro? - Não, não é muito dinheiro, aliás pelo que vamos fazer, acredito que será o valor exato! - Você já sabe como conseguir este dinheiro? - Sim. - Onde? - Mãe, Deus foi bom em nossa vida, deu-nos uma casa linda, já sabendo que nós poderíamos usá-la como capital de giro. - De que forma. - Vamos vendê-la. Com o dinheiro da venda, nós compraremos uma chácara em outra localidade e editaremos os livros. Sabe, Mara, vou editar um vídeo documentário sobre a nossa história, que será exibido durante a nossa turnê. Será um sucesso, como dizem os irmãos Pinheiros: show de bola. - Você acredita nisto? - Claro que acredito, mesmo por que... todo este projeto que acaba de ouvir é plano “B.” - Plano “B”? - Sim. Plano “B”. Em meus planos, que considero como “A”, venderemos 10 mil livros em 90 dias e 100.000 em 12 meses. - Isto é impossível. - Claro que não. Se o impossível existisse mesmo, não haveria o Guinness Book. Aliás, escreverei meu nome nele como o escritor independente a atingir esta marca em um ano. - Amor... Amor... pára com estes sonhos... - Mãe, preste atenção, vou explicar qual é minha ideia. Se depois de me ouvir, você continuar achando que é sonho, eu paro e vamos vender sonhos palpáveis na rua. Está bem assim? Mara se calou e passei a explicar meu projeto. À medida que

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falava, seus olhos iam brilhando. Quando terminei minha explicação, ela não conteve a alegria e explodiu: - Uau! Que coisa, como ninguém pensou nisto antes? Conforme havia conversado com Mara e, tendo a certeza de estar confirmado por Deus, colocamos nossa casa à venda e montamos o cronograma de trabalho. Programamos a viagem para os credores da Solemar Turismo para Março de 2015. Faço uma pausa para trazer um trecho do prefácio deste livro: “É um livro para ter, para reler periodicamente, para “presentear”, para compartilhar, enfim para semear em todas as almas e nelas frutificar a união perfeita da Fé, da Esperança e do Trabalho!” Se você concordar com as palavras do professor Milioni, pode me fazer um favor? Presenteie um amigo com o livro A saga do casal vencedor. Não, espere, presenteie três amigos e terá três motivos para deixar quatro pessoas felizes. Sua contribuição será de valor incalculável para a continuação da história que será narrada no livro: A saga de um casal vencedor II, que será publicado em 1º de agosto de 2015 quando, se Deus me conceder vida, estarei completando 61 anos de idade.

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Conclusão: “Torço para que este livro alcance terreno fértil e produza bons frutos.” Sou grato a Deus por todas as vitórias alcançadas neste livro. Reconheço que sonhar é fácil, mas materializar o sonho e imortalizar o grito de júbilo, somente Deus tem poder para fazer. Amparado nesta confiança, posso dizer: não importa quantas páginas ainda tenham que ser escritas no livro de nossa vida. O certo é que cada página escrita me dá a certeza de termos vencido mais um desafio e a confiança de tantos quantos outros surgirem ficarão registrados como mais um capítulo na história de um casal vencedor. “Dentro da Graça do Filho de Deus”.

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Para reflexão: Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi do Senhor, Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza e nele confiarei. É possível que alguém pergunte. Onde se encontra o esconderijo do Altíssimo? No evangelho do apóstolo João, no Cap. 17, VS. 21, ficaram registradas estas palavras ditas por Jesus Cristo: “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”. Diante destas Palavras, eu creio: o esconderijo do Altíssimo se encontra entre a Divindade e a Sabedoria.

É ali: o meu, o seu, o nosso refúgio. Fora deste habitat, serei apenas “eu”, o mais egoísta, pobre e miserável dos homens. Toda a honra e toda a glória pelas nossas vitórias sejam dadas a Deus por Jesus Cristo, filho do seu amor. Amém. Edson França Servo inútil na presença do Senhor.

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Agradecimento:

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Sobre o autor Edson França nasceu em Itambaracá Paraná em 01/08/54 ao longo destes 60 anos desempenhou várias funções: foi motorista carreteiro – profissão do pai de quem herdou o amor pela estradas. Vendedor de refeições nas feiras nordestinas,Gerente de vendas, emissor de bilhetes aereos, guia turistico, gestor de cooperativa, até garçon. Mas, foi ao escrever o livro “Filho deixa eu te ajudar”, no ano de 2005 que ele descobriu sua verdadeira vocação, a de escritor. Nestes nove anos Edson escreveu mais seis livros. Conferencista motivacional, França descobriu através de experiencia própria; o segredo de transformar derrotas em vitórias. Ao seu alcance com: “Lider vitorioso é feliz em familia e no trabalho”. Indicado:A todos os que desejam conhecer a força do “Amor”, em abrir caminhos nos momentos mais difíceis de nossa vida. Para agendar palestras acesse o site: www.editorajulialarissa.com.br

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A saga do casal vencedor!  

A saga do casal vencedor!, é o fruto que nasceu de um sonho. Poxa! Parece que foi ontem, e já se passaram vinte e três anos, vinte e três an...

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A saga do casal vencedor!, é o fruto que nasceu de um sonho. Poxa! Parece que foi ontem, e já se passaram vinte e três anos, vinte e três an...

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