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SOL NEGRO ANTOLOGIA POÉTICA


Edições Sol Negro - Natal/RN - Brasil edsolnegro@hotmail.com 2010 Capa e Direção de Arte: Breno Xavier Editoração Eletrônica: Márcio Simões Ilustrações: Binho Duarte

Divisão de Serviços Técnicos Catalogação da Publicação na Fonte. UFRN / Biblioteca Central Zila Mamede ___________________________________________________________________________ Sol negro: antologia poética / Barbosa da Silva ... [et al.] . – Natal, RN: Edições Sol Negro, 2010. 102 p. 1. Poesia brasileira. 2. Literatura brasileira. 3. Antologias. I. Silva, Barbosa da. CDD B869.1 RN/UF/BCZM CDU 821.134.3(81)-1 ___________________________________________________________________________


SOL NEGRO ANTOLOGIA POÉTICA

Barbosa da Silva (1979. Garanhuns-PE. frb.silva@hotmail.com) Márcio Magnus (1985. Natal-RN. marciomgs16@yahoo.com.br) Márcio Simões (1979. Caicó-RN. mxsimoes@hotmail.com) Sopa D’osso (1967. São Paulo-SP. sopadosso@hotmail.com)

Edições Sol Negro NATAL/RN 2010


... um hino dizendo coisas saudáveis e corretas. Pois ritos sagrados eram realizados pela poesia. E não é possível dizer dos nomes a solução, ainda que sejam falados. Pois a poesia é algo estranho e enigmático para os seres humanos. E Orfeu, com ela, não queria dizer enigmas disputados, mas em enigmas dizer coisas grandes. Então ele faz um discurso sagrado, sempre, desde a primeira até a última palavra. Como é evidente também no verso bem escolhido: “Pois tendo-lhes ordenado fechar as portas das orelhas”, ele diz não legislar para os muitos, mas àqueles de audição purificada... [Fragmento órfico. Século IV a.C.]


BARBOSA DA SILVA


DE POEMAS

I atravessei o núcleo numa carreira e nasci dançando repuxava os bicos seios de minha mãe atravesso as trevas escapo longe o sol doura o corpo quente meu primeiro dia barrento coração rebenta violentado em luz

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II POEMA DE UMA TARDE PRIMAVERIL calor da tarde e voz de Nico suave como o suor da primavera tenra deleita também na mente o bom do fumo de todo dia fumado o que há pra fazer há pra desfazer nesta tarde quieta nada tarda nem o lírio no jarro ao lado nem o cacto que nasce no peito

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III à noite a dama doce amada suada dorme ao fogo seus cabelos consolam seus olhos nublados abrandam meu olhar. à noite as coisas tiveram num falo de sorte o entrelaçamento das volúpias e a pulsação única do mundo. o talo verde namora o aroma da rosa essa doce menina de corpo infinito.

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IV GIRA DEUS Gira deus no dormitório dos monges no toalete das freiras nas esquinas dos bêbados nas tocas dos maconheiros gira deus nas faces insones gira deus nas orações da noite toda nas bundas das desinibidas irmãs

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gira no girassol gira sol e girassol é meu deus e girassol é meu olho inclinado ao acaso ao descaso da vigília gira deus e me encontra nessa desordem de coisas onde tudo pira onde tudo gira ave maria gira e traz meu espírito de volta deve tá na china ou ainda pior deve tá na oficina de deus concertando o volante zerando o cronômetro e o velocímetro ou aporrinhando os santos gira deus na chuva debaixo da luz amarela por cima da chuva por cima de mim e em mim gira deus em tudo.


DE O JARDIM DE SOLOMON V sou adepto incondicional da reeducação através da intuição espiritual creio em religião não em dogmas às vezes sou como um intranquilo demônio mas sempre apaixonado pelo frenético pensamento-amor por todas as coisas sei que coisas diversas somos coisas órficas, coisas mergulhadamente caídas coisas relativamente absolutas, unicamente indefinidas inconfundivelmente em giro eterno coisas épicas e de absurdas aventuras adventos do rio de sangue, adeptos do eterno amor do agora e sempre no vácuo da expedição cegos centauros do grão da palavra que brota como humano-dragão-besouro-de-deus, como sol tangendo instrumentos mântricos em lâminas e flâmulas de alegrias imitando nuvens, como pássaros em voo pleno vagando em brisa & o assovio do vento & o trovão da bênção

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VI

equinócio no jardim, flor de quenopódio te ofereço a ti virgem maria incensando canabis, heras terrestres, mãe protetora com suas orquídeas e alquimilas rosa, romã, mãe preta branca flor de lírio mãe maria minha

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flor dos céus flor das águas, flor das terras das serras e serrados flor do deserto, do pico da montanha e flor até do meio do asfalto com tua graça o sol derrama em nossa cabeça sua barba e nosso horto floresce e a palavra da morada deságua de tuas fontes somos as árvores de tua bênção ó virgem trepadeira que sublime sobes pelos galhos dos nossos membros até os frutos bagas dos olhos corações alma

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VII há n’alma do cosmo um rio em vidas muitas, que de vez em quando, noite ou dia, insiste: conduz como comboio de navio em número de mil vezes mil e dez as estrelas que viste o abismo entre teus ombros foi que caminhou teu coração e fez verter em vinha o triste

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DE FLÂMULAS, HIDRAS & COQUETÉIS

VIII ÓRFICO DE UM JARDIM encontrei Rosa entre vetustos sonhos vestida e despida pelas estradas errantes transpirando como timbre noturno atraindo meu olhar para as vielas labirínticas e sincrônicas dos mais lúcidos vestígios do salto na sombra do jardim onde carvalhos nos campos estelares por onde passamos louco cálice transfigurando como numa revoada rajada de chamas pelos cantos tântricos e o trago lá onde se deixa brilhar quanto quiser e a língua não prende mais o transformar nem as asas do gavião da mente nem o olhar atraído pelo ímã e pela guelra da poesia contínua ecoando feito aquele sujeito que disse que não existia 19


e mesmo assim foi dormir depois de beber uns bons tantos tragos de cana e amar loucamente como selvagem na mágica noite toda escura uma voz doce havia anunciado e ela veio caminhando do sertão marcando o chão com sua sapatilha de mira-celi ascendente por ser aquela que me dá e ressoa os cantos e os gritos de todos de séculos sem fins de pálpebras e pensamentos expulsando os troncos brabos que eclipsam nosso olhar e assim com as sombras de algumas filosofias os lívidos lábios da amante me plantam e me lançam pelos lençóis misteriosos da vibração e galopes da existência

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IX

Eu me envolvo no fértil acalanto desse povoado jardim Disperso e ansioso pelo caminho de copas e sementes O vermelho talha tua boca para lançar-se em palavra-sendo Alimento da criança órfã e poetas e estrelas comunicantes Labirintos trilhados pela formiga e o fio de seda de Salomão Explosões em visões alçadas e lançadas por trevas e clarões Estrela negra e o surdo murmúrio do rio em curso Galos oboés e entalhos prefaciando o livromúsica Saltos soltos despojos arrancados pela Rosa mutação Ciclones em cinturão e batuques em Batá na Pedra de Raio

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X TRANSMUTAÇÃO DA PRECE cachoeiras de cabelos línguas lâminas para ter o feixe faísca da poesia peixe para ver o raio gentil caveira em ouro olho profundo borbulho de sol estômago palavras relâmpagos pureza inatingível lâmpada flâmula roubo da morte cravo em chama leva e levanta luzes musa mundo amor abismo rodopio viola rebentada em corais e cores eternas o fantasma escova os dentes do violino no clavicórdio espólio dos gritos santos tristes motéis de anjos com asas de fogo música muda musa lúdica musica via luta semeia sonhos em sexos e favas vendavais pentelho coletivo coração de girassol e tesoura bicicleta flutua lulas estrelas subindo árvores espírito da mosca masca céu em dinamites pernas soltas atravessadas pelos olhos de deus 22


XI

O MENINO E O PAI

O menino viu o Tathagata no mato o pai desmentiu disse que era bicho disse que isso não existe “Deus é Deus e tá lá no céu...” O menino silencioso riu Estava vendo o Tathagata Onde quer que olhasse Estava vendo o Tathagata

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XII PIPOCA COM MOLOTOV – PARA SER RECITADO ACOMPANHADO POR UMA GUITARRA ELÉTRICA E UMA FLAUTA FRENÉTICA aos saltos altos desses pipocos ditos aos claros brados aos limes vermes palavras achadas à lança alvasa ovosso estourestrondo explode esforço espaço espesso nada dessa arca ressaca arcabouço burocratas saladas de gravatas&granadas

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nos baste o estilete do pixote e os archotes e arrebites da palavra e as bestas e os anjos com os rubros cintilantes ópticos mantenham os pentelhos arrepiados e os arredios esparsos da força da pata do cavalo na imaginação pisoteando os miolos deveras maus&politizatados

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XIII MIRA-CELI ROSA ME EXPULSA DO COTIDIANO

se tuas tranças efêmeras transformam minha palavra se a ti devoto relvoso segredo galáxias e vorazes vertigens se a flauta sopra tuas sobrancelhas curvas do mistério se em vez de violinos teus lábios e olhos umbigo girassol se nuvens dançam grávidas o leite plasmático de lúcifer se o esquecimento aquece tua flor em tantra e sangue se o osso da luz é cúmplice da vela e da treva perene as palavras abandonadas roem tormentas na rede suja pássaros tráfegos de estrelas borbulhantes de fogo se teu absurdo reinventa a luta e escolhe o jardim se tua boca cálice de tantas vozes serve a noite em taça se é melhor suportar o peso das estrelas do que da cruz o lençol do piano lança luzes espermáticas no espaço o silêncio dança indecifrável chuva gozo luz de lamparina

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as luas estão cheias de rastros mágicos e no ar partituras música ruptura de sapatos gravatas casa e supermercados


XIV

JUVENILIS E TERRORISMO POÉTICO flâmulas & hidras & coquetéis molotov tarântulas & mirras & bordéis com orloff tâmaras & águas & poesias sem páginas trapos & risos & viagens a pé cãnhamo & rouxinóis & saravá axé

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XV TIRINETE PARA PERCUSSÃO canetas canivetes ampulhetas com urina batucadas em tom de bagunça universal a chuva despejando sua carne suja de afecções os rios noites e dias pedindo a poesia escapada apesar das vozes sargaços e nozes profundas além dos vulcões e dos amores e ameaças clarões de estrelas brincando de fome galáxias estepes de mundos ventres ninhos moinhos espalhados como espelhos redondos religados renovando distâncias flores tripas e mercados perfazendo caminhos de abelhas e quimeras unções bênçãos moscas e trevas ocas borbulham raízes oleosas ramalhetes irrisórios beija-flores adormecida ou entorpecida a vaga sombra anda pula muralhas pousa em cafés e atiça silêncios palavras palavras palavras buscam o branco o nada nada nada corre parado feito um deus 28

e o poeta raspa o tacho dos mitos e se encontra


atravessado por todas as gerações e flechas pois qualquer coisa que fazemos fica registrado no campo elétrico dos trapos movediços cosmos caldos de ferrugem para a política do destino brumas de fogo sucos de luz feixes espalhados segmento selvagem e híbrido do casamento de Blake olhar do poema desconhecido sobre o ombro infernal milhões de órbitas habitam o ser todo mestiço cagamos e andamos para patrulhas e pulhas na abóboda divina Dionísio comeu um santo cuspiu constelações e crimes espetaculares nenhuma balada se ouvia mas os tambores tocando o pai o filho e mãe cansados da farsa hortelã cheirando a estudante fugitivo da aula chás de partidas experiências há muito tempo cosmos meninas queimaduras e utopias para levantar a carcaça todo dia e dá-làvida peitos despertados adubados e flechados gritos agonizantes e angelicais amém vejo-me renascer naquele ovo sem data pescar relicários e moedas inválidas sapatos velhos e vetustas lembranças

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nesse instante todo instante momentos vagando sem calendário nem corolário ébrio e visionário meu amigo poeta lida queima as pestanas das leis com palavras queima os pentelhos dos reis com palavras todo o poder na encruzilhada do ser vários ontens agoras amanhãs tatuados nalmas dos arvoredos que raízam profundamente e sorvem absortos dos céus alimentos de silêncio

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MÁRCIO MAGNUS


I

Tudo tudo se arrepia quando cai o império do Medo o delírio constrói ritmos e mágicas visões poder voltar ao Corpo Infinito abandonar a memória destruir labirintos

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II

O Absurdo é minha capa nos dias em que ogivas de desespero chovem como um pesadelo interminável eu queria que o mundo desse uma chance ao Crepúsculo que tocasse com a sua a língua de fogo da poesia que bebesse música em um cálice fantástico e se deliciasse nas alquimias cósmicas mas não caminho só ao som de tambores antigos mascando ciclones engolindo visões alimentando galáxias

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III

A vida campo de areia onde outrora deliraram violetas

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IV

A Lua vermelha movendo mares na alma mesmo que os desertos cresรงam

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V

Sob o nimbo um pĂĄssaro atravĂŠs do cĂŠu suavemente demolindo muralhas

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VI

A verdadeira vida nascerรก como o Sol que surge eclipsando planetas

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VII

A vida fruto de um delírio floral na secreta face lunar colmeia de sopros o coma é coletivo mal se conhece o meteoro se esquece o Infinito o flanar foi esquecido e não se sente a fumaça do incenso póstumo bailarina errante dissipada no Caos a bandeja balança para que o vinho caia sobre o Sonho que brotem delírios que brotem visões que brotem amores do subsolo canibal do meu coração dançando no Absoluto

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VIII

Naquele céu azulado o saco branco parecia um pássaro levado pelos ventos pelos séculos em metamorfose sem fim naquele céu azulado o saco branco rebelado parecia um Serafim me levando alado no seu ritmo de sonho a um antigo Jardim

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IX

Os primeiros ventos do inverno rasgaram a única folha intacta da lacrimosa partitura outonal espalhando todas as lembranças todas as melodias amarelecidas pelo céu de tons minguantes febril igual a um verão absoluto abatido em meu catre eu espero a tempestade projetada no horizonte profundo profundo como as raízes vermelhas do teu olhar perdido na última primavera

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X

Janela aberta no alto

duma torre em ruínas

ruas-ringues repolhos podres diarreias vítreas convulsões compulsões dados rolam & cabeças cubiculam entre as linhas vermelho-pólvora dos obituários obesos impressos pós crepúsculo na nuca dos fecais vulcões sem face gritos lacerados abrem crateras no meu crânio miragens de beleza escapam sem graves lesões de olhos bem cerrados 44


MÁRCIO SIMÕES


DE JUVENÍLIA

O ACENO DAS POSSESSÕES uma coluna cinza clara de perfume festeja seu silêncio no horizonte no momento em que lástimas soltas alimentam um pranto de papel e sou um urro em desalinho as percepções ativas ferem o olho nu crises escutam sentadas os desatinos do porto cães atravessados por automóveis bailam entre um extremo e outro jovens espancam um oceano de lamentos uma febre de néon suspira uma agonia de luz uma cólera de possibilidades enforca os fetos do destino vermicidas oxigenam pulmões mentes florescem como chagas no intestino grosso das metrópoles

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LUGAR – 1999 foi na Ribeira que tive minha última obsessão arcaica perseguido por policiais como um cão o esqueleto arquitetônico da rodoviária velha era um imenso abrigo de sombras nas esquinas velhos assistiam desiludidos crianças com olhos fundos de pedra festejos ruidosos despertavam as almas dos casarões abandonados para andar novamente nas calçadas de mãos dadas quanto tempo caminharão sem que um de seus becos lhes confisque o abrigo sem que devaneiem em atrativos devassos antes que o cais afogue mais um suicida antes que cesse o alarido da multidão antes que paguem o preço do dia quanto tempo de noites maldormidas onde ruas estreitas eram o palco imundo de festejos rítmicos em que paredes e prédios aos pedaços sugeriam segredos nos ouvidos atentos que fazem essas sombras com confidências antigas? ah como deve ter sido diferente quando aqui tinham vida esse batalhão de casas e agitavam-se suas praças sob o encanto da novidade suas ruas urravam cheias de lixo pessoas carros carroças marujos putas políticos artistas anônimos e indiferentes o barulho ensurdecedor do porto como um discurso constante a gritaria dos bêbados o sufocante pudor feminino os bares como pequenos infernos

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correria de bondes equilíbrio de guindastes baforadas de navios anjos de remos tudo isso hoje está esquecido em olhos brancos sua alma sufocada pelo bafo oficial seus ossos abertos em fraturas seus dias deixados à caridade das chuvas torcidos pelo sol quente sua tarde acabada por perseguições noturnas seus amores desconfortáveis como os mendigos de suas fachadas sua voz apenas o ronronar escuro de suas águas profundas ensinando que a distância impõe o silêncio agora que estou longe de ti impelido por imensidões abruptas me pergunto quando esquecerei tua face escura índia velha e quando poderei por fim às lembranças de seus demônios e criaturas noturnas destilando espetáculos narcotizados para minha presença descontrolada – e por mais quanto tempo ainda lhes serei grato

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CLARÃO a brisa trazia pesadelos nos cachos ao redor do rosto eu era perseguido por luminárias, pelos paralelepípedos e línguas de fogo ardiam abarcando o céu e o barro o meu último movimento arrastou-me e apagava estrelas com a minha sujeira despregada eu te ouvia dizer as coisas mais santas com as palavras mais sujas e um batalhão de recém-nascidos repetia pela sétima geração os refrãos paternos para o meu desespero tentando em vão aprumar-se na calçada de partida meus olhos vagos vazados por uma asa de borboleta (ganho suas cores como consolo) na árvore pousa o caminho do vento, meu mapa a sombra caminha definida em torno com o sol retorna com ele em torno à coluna observo extático as caretas da estátua mãe magnânima de todas as praças de que valem seus nomes? estou assombrado pelas suas maneiras são tormentas amontoam montanhas partem vales POSSO VER

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há vinte e cinco mil aves distintas ao meu redor comendo centenas de centopeias escuras de dez olhos e inúmeras patas sobre o prato do meu crânio bipartido fui um poeta manco um aprendiz de feiticeiro um surdo um cego desmistifiquei o escuro tive todos os defeitos e agora fui hospitalizado para transferência de vestes desnorteados sinais sem trânsito dispersam luzes epilépticas se debatendo pelas suas faixas que marcam laboriosamente minha idade É O COMEÇO DE UMA NOVA E POSSÍVEL ASCENDÊNCIA

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DE ATHANOR

I na primeira alvorada de verão o voo inverso da semente primeva a morada abobada ampara num caminho repartido em meio à planície onde as árvores calam como vales & o vento vertia o rio trezentos homens de palha incendiavam corações de alumínio estalando como o sol a tempestade não me dizia mais nada a ventania não me dizia mais nada o trovão não me dizia mais nada o teu olhar parado perdido na radiante manhã de um domingo cercados pelos pequenos e ressurgentes seres das horas amenas & manhãs orvalhadas ah minha breve irmã do rosto esmaecido & sob o sol fervente quem elevará teu suspiro?

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o universo nos traz o fogo & desejamos o abandono e no entanto somos nós ígneos ardentes negros & cegos arrastando a multidão crescente a multidão crescente como o grito a multidão nervosa febril & apressada com o vazio invisível do bote repartido sangue de concreto nas estruturas do prédio ossos de cimento nas entrelinhas das torres homem de cerâmica descarrilado do tempo fervilhão desameno do desencontro anjo-morte muro extenso guardião da desordem balançai

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III Anarcopunks em círculos ao redor da Praça Vermelha professores universitários negando a realidade das musas (fiéis amantes das Danaides?) ninfas-caranguejo nos manguezais ocupados pelos Kãos do Kaos tráfego & transe imóvel da cidadela alucinada automóveis em filas prédios encaixotados parques uniformizados uma jovem criança invadindo a avenida desmantela o trânsito todo da metrópole

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VII meskhabah-carrocéu cerco sono sem tempo ou sonho realidade/concreto mar aberto & Odisseu düsendorf caleidoscópio & takes partidos cemitério lunar suntuosa sinfonia fúnebre fear death by water I see crowds of people walking round in a ring cittá. sítio. cité city arco-seco

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IX é Bloomsday em Natal e as flores somem nos botões não postos levarão dois meses ainda para o primeiro dia quente após as águas induzir as orquídeas aos primitivos rebentos abrindo veredas nos caminhos e dezembro queime definitivamente as hastes e faça luzir as faces ausentes que os ventos de agosto cobriram antes de terra e poeira caiada da pele

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XI No retrato negro do cisne me tragam o mirante da igreja do rosĂĄrio pavimento entre o azul do vento e o branco-verde de barcos escumas folhas & sais sobre a superfĂ­cie das ĂĄguas lento anoitecer sob o Potengi desalmado das almas luzes ao norte luzes ao centro

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XIV.I O Buddha da beleza afogado na cabeceira do rio Pitimbu ouro-áureo escorrido esgoto & merda no Villaggio Verità medusa encantatória. usurária funcionários enclausurados. meninos-milicos. vigilantes viris amantes das madames. vidro negro & espelho arame & grade insígnias insignificantes & pavorosas ilusões de nenhuma eternidade

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AIII. DA PONTE À CABEÇA. LINHA ASCENDENTE. hidris hibris ísis íris d’água chuvimóvel corrida lalga-lava arcoadouro translucedendo de céu feixe prismespiralado tapando a redoma linha d’água finerrante ao longe ondante pater núbem andaste diante de mim a claridade ferindo a pétrea férrea do olho carregando o filete lunar antes de minha vez de levantar-me caminhei cego pois não enxergava meu guia Lúiz prima palavra enxergo-te claro discernido entre o fundo de vultos indistintos distante do funesto Averno alvo & lúcido de pé perante o umbral e recobrado à esquerda do caudal de mnemosina a saia do sol arqueada no zênite de nossas cabeças viajor & navegante encontraste o cetro nos confins soletram vogais silêncio de vácuo & verbo guardiões palavra prima vale imóvel tez temida distante aos montes um em tudo é deserto & fome aridez soprada desolação & sede sem remédio & pelo aroma seco de seca ensolarada desejamos o lago em ardência & o distante mais longínquo juntador áspera & dura ríspida & intolerante se entremeia do convívio dos homens brutalidade & violência sem rumos hibris hidris serpe espiralada balsa branca & risco de vento percorrido pelo remo ísis batido da areia quando o turbilhão centrifugia cavalo selado do mar amianto & tormenta ante a baia branca trespassada de vidro moído albalar stella remirada quem refletirá o luzir cada grão de areia esmeralda láctea descendo lenço alvo jorrado da cabeleira fecunda de Berenice via realçada & mãe d’água torneando entre bafo espesso & rio escuro grifado de dragão crucificado rosácea alada roseta atada aos eixos repartidos rosal corrente rosa dos ventos rosário & vitória-régia meridiana às asas vermelho & verde rubro rubi mergulhado nos lençóis largos de rios & reentrâncias inavegadas

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torneio vazante & cheias ressurgindo finirrumo reabrindo coberta cíclica torneante balsa dos amantes cortejo fúnebre & vibrante de união pai apossar-se da mãe & mãe ceder ao pai espada flamante lâmina mercurizada cetro & centro coroa & reino reunido corama repartida laço ligado à testa cabeça copulando cauda coluna alinhavada animal fúlgido refulgente veio reatado o rio mudava a pele o corpo retornava à pedra trabalhada corona derramada leito de lona desfazendo pedaços de ossos asas de borboletas sem peso sustem o primeiro movimento percutido aluminante pássaro-branco partindo de eixo híbrido à fonte refluída riodemo erguido a levantar o fosso engolfa trago ardente pedregulho labareda d’água folha despetalada em flora incandescente de caju igapó braço solar de veio escuro ascendido peixe lagarto dragão recorta volta de voo os ares fendendo areia & parte luz transfigurado parte & paira sobre a cidade aberta reconhecida ruída sobre a face do vórtice volteante de águas íris hidris hibris corrente fechada

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DE O BALÉ LETAL

X quando anjos aleijados decapitarem a boca aberta das trombetas quando clarins incendiarem a nudez numa vegetação quando a campânula estrebuchar num arco de chuva as caravelas se abrirão num largo e as amantes se enforcarão em claras flores de lótus estampidos e paradas se baterão pela planície o orvalho virá fecundando a tormenta ou a terra a ruína do mar e o arrebentar-se das pedras louvarão essas vacilações do espírito minhas anarquias, meus demônios

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IV cabeças de prédios decepadas no largo espaço azul de manhã é um rasgo claro para o olho aberto eu preciso ouvir a criança órfã regenerada por Orfeu sua vingança

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V os deuses se retiraram nada mais nos une mas o signo ainda manipula o mundo é razoável assentar o céu, para que não percamos a medida da esfera

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ÓRFICA I a flor de lótus escurece as pétalas de fogo incendiadas pelos braços d’água e a lenha da aurora acende as linhas de corais II biosthanatosbios sêmem branco sobre negro sol noturno na escuridão nada mais anoitece só o carvão acende seu corpo em chamas sob o enxame das almas semeadas na espuma

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III densanoturna e noturnasolar a virgem mãe senhora marinha entre éguas e ovelhas cadelas e chacais cruza com um archote a estrada de estrelas com ramos de ciprestes em direção à cidadela do condutor da carruagem três serpentes lhe cobriam cada um dos rostos

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XII. O BANQUETE sonho em morrer assassinado & despedaçado por um bando de meninos & meninas seminus num assalto Violento & Inesperado tendo em seguida minha carne devorada num Grande & Alegre repasto comunitário. Essas novíssimas Crianças Selvagens fariam parte de um golpe mundial para extinção do poder através de sentenças de morte coletivas para todas as pessoas maiores de 12 anos por crime de tornar a vida impraticável. todo adulto ou adolescente foi considerado culpado pelos seguintes crimes: • destruição do que se podia beber no Planeta; • permissão às luzes para apagarem Vaga-lumes & Estrelas; • povoação do globo por latas móveis a motor; • por matar as geleiras de calor; • por tornar o ar respirável apenas para chaminés; • por ordenar à Polícia Kármica a perseguição do Poeta; • por pronunciar ou mesmo pensar a frase: “Mas este foi o mundo em que eu nasci!”; fora decretado o Dia Internacional da Poesia & Bagunça Transcendente & Anarquismo Pampsíquico Homens & Animais & Plantas & Pedras eram Gente nesta nova e pequena Humanidade (o encolhimento da população resolvendo o problema do espaço) todo dia era domingo (o mesmo que dizer sábado) proibiu-se o tempo e aboliram-se as formas futuras e passadas anularam-se as nacionalidades e as classes sociais todos os tipos de Vícios & Virtudes eram permitidos desenhos eram encenados ao ar livre, sobre a carcaça dos televisores

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todos pagavam suas mercadorias com seu melhor sorriso extinguiu-se o legal e o ilegal (todo local fora decretado universal) o dia permaneceu dia, e a noite, noite os pobres tiveram de ser eliminados, porque só queriam ser ricos todo som era considerado música aos de tendências filosóficas e reflexivas foi preciso expulsar os muito velhos & os loucos foram poupados por serem Sábios & Bobos & Desinteressados assim como as mulheres da vida, que podiam gerar Filhos & ser Mães para todas as Crianças o mais inocente erotismo os unia & eu morreria satisfeito como um ancestral rei francês nessa contemporânea queda da bastilha – deformado em cinzas como Dionísio – e por fazer parte desta última Geração Negra que indiretamente e por reação incitou a revolta

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SOPA D’OSSO


DE LAMELAS MARVÓTICAS

DE BELLO CHRISTIANE Já contaram sobre civilizações soterradas, Apenas um escombro imaginário nos confins Dos quadros manifestativos, desmemoriáveis! Já confabulamos sobre liberdade e revoluções!! Quantas guerras narradas sem espanto, Embelecidas por nobres e raras palavras! Mas urgência urgentíssima se faz esta mais: Haja apego às palavras que viajam d’além-mente Inté questas manos esqueléticas, rochedos, Mãos impuras, gesticulatórias obscenas, por ser Vertido à noite, tornado mendigo à noite, Goliardo fixo, perenizado de abismos e afãs! A mão canhota segura o berro e a dor, Perfeita refazendo os estragos segue Rabiscando questo amparo solo inerte. Ó regina sapiência! Distenda-me os dáctilos! Canhestra mano distendida liricoide, A destra mão domina fácil os escritos. Assim o poliestilicissismo de evidências Pensando a bel guerra engendrar Num hermetismo espremido reescreve-se A perenosa batalha do corposãomanamente. Hajam cantares aticistas e afazeres solícitos A clarear os descompassos dessas inermas cifras!

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O ESTIO E A MEMÓRIA Aroma de gramas aparadas e o cheiro de terra revolvida A trair na memória que ‘té serenos remancham às terras do Retiro. O astro que deu-nos vida, ceifa castigos, Fomes encardem frágeis ossadas do que, possível, foram seres, Hoje quase sombras tostadas, quase cinzas Mascando cactos e bebendo lamas. Enquanto noutros lados, aqui mesmo, onde de bucho cheio e suando minerais, Não nos antojamos das sedes sociais nesta saciedade.

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A COMÉDIA FINDA Soam-me lamúrias, soam-me lágrimas Tanto sorrir desgraças, comiseráveis De fáceis alegrias em tempos de choro, Em tempos de dentes a ranger... Melhor seria emudecer, calar as faces Impostas, cerrar os olhos lamentos, As bocas em escancaros de alvos dentes: Iras falsificadas, ódio devidamente encoberto... Invertam-se as máscaras e, logo logo, A barbárie, o depravamento, o destruir sonhos; Desnudados das caras enrugadas ao alto, Despencam os olhares, as bocas emurchecem, E, onde antes houvera só sorrisos em estrondos, Um trêmulo murmúrio, escuro gemido E o crepitar de dentes refazendo a cena.

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UM NÃO-CANÇÃO Não, não abro aqui proposta promissora, Já prometido fora erguer do sepulcro Tantos bilhões de humanos aguerridos. Revele-se que não há vida após morte; Há vida aos vivos, aos mortos, morte; Movimentam-se os vivos, os mortos se consomem. Mas digo que nunca ninguém conseguiu saber Quando vida e morte foram vistas assim Tão solidárias! Não, não proponho um canto clamoroso, Só pretendo que o descante toque ouvidos. Foram-se a muito as aladas palavras Dar-se como gota em recipiente transbordante; Logo toca a massa tremulosa, um bafejo, Soma-se a partícula ao todo circundante; Rolando em mesmas proporções, desprende A correr, uma parcela idêntica e nova.

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JÓ-ZÉ IMAGINANDO DIALOGAR COM DEUS Pois o que vejo em meus irmanados, Tão agregados quant’eu os vejo sou; Se vejo que me veem com bons olhos, Assim igualzinho me vejo a Eu; sendo O que escrito inter linhas, o Eu mesmo Que os meus manos mesmos somos. Assim dizendo àqueles que fraternos A mim mesmo digo-me, não me vendo Eu O outro que somos, mas sendo apenas Eu o mesmo outro, o mesmo mano, Assim dizendo a mim me vejo o outro Falando, e respondo sempre: - Irmão, O que em mim vedes não me sou apenas, Sou o que vós mesmo és, quase nada À pena, sermentes do mesmo grande Eu!

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Se é mal o que sempre vejo, Mal nos somos constantes inertes Boiadores no execrável das fezes Do abismo! Não! Que não sejamos, Pois por que queria Eu me ver Atolado em porcarias, se o Eu Donde parto indolo, a mim mesmo Constante indica que se vejo bem Mesmo o mal qu’outro implica, Assim mesmo nos iremos perfeitos! Não entendamos acabados, mas plenos Planadores dos ideais humanos! “- Eu sou, e te obrigo a escrita! Publicai o que às tuas mãos Movo, o que à tua mente indico, O que aos sentidos teus inundo! Certamente não és um vaso insólito, Sim que és dos filhos meus um meritório!”.

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JÓ-ZÉ IMAGINANDO AINDA O que vejo de primeiro São as marcas rafadas pela vida: Um dente faltoso ou empenado, Uma vistosa cicatriz, Um tom tão fanho, verbo tão tosco; E ninguém vejo com muita simplicidade: Nem aleijos, nem inutilizações, não, E não os caducos, os maltrapilhos, Ou crianças gordas de solitárias; São todos impressionantes, E poderosos únicos, donos de maior dignidade; São maiores e mais importantes Que todos os títulos, que-fazeres E bajulações...

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BEBO POR BEBER, FUMO POR FUMAR, Mesmo havendo aí só mera flexão verbal, Fumo e bebo porque existo e isso faço - Conto uma lenda formativa De época remota não tanto Em que cartinhas davam novas Além Atlântico que diziam De povos que bebiam fumos E sorviam mofos até caírem tortos Ou, honradez, vomitarem tudo Para tornar logo à beberragem; E isso na maior simplicidade, Sem ser bem nem malvadeza, Não um vício combatido e tolerado, Apenas o estar vivo, existindo a beber E a oscilar sem base às pernas, A vomitar muitíssimo e com gosto... Vomitar, digo: a falar sem que haja haver, Nem sentidos empolados, nem gagueiras, Só os irmãos unidos a se rirem da droga Que é o bronco mundo dos sentidos!

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DE DOMINGOS E PASQUELAS Pensemos... melhor: Digamos, Talvez: Pensemos mais... quer dizer: Pensemos apenas... - Eis que na terra do poeta Só sorrisos moram, porém não ouvidos... Abdicar dos surdos-cegos, assim Despensemos... Pensemos, melhor, estejamos Em sintonia: ligados... quer dizer: Apenas vivos... - Quando já os viajantes, por terras Estrangeiras, não mais se saúdam É sinal certo certo de guerras justas... Não ligueis que sejam guerras... Vivamos... melhor: bibamos, Pois o cálice das dores é já pleno, Eis pois chegado a hora De tempos por tão longo esperados... A hora... melhor: pensemos!

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SOBREPOSTO AO NADA Um irmão, cigano poeta, Na folha branca cantou de índios Iniciações de mudança, rito Cantado assim segundo des-lembro: - “Olha o luz olha o alvo Olha a sol olha a lua, Tresolha o sete-strelo. Fala mansa à lua clara Aquecidos solações Mákánàkà bésàrè uê ô!” Enpós o altivo, vermelho Chefe dos gípcios, declarou-me Príncipe... dispensei o adulado Pré-penso a embolar que: Melhor servo ser à casa real Que deste mundo ser primado!

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DE TRILOGUS

I - DESPERTO TORTO

Pois, poucas vezes que me sinto Realmente vivo, fechados os olhos, A imagem que de mim mesmo guardo É a de um bonzo tosado Vestindo linhos já não tão brancos... II - MORTO DORMINDO

Pois vezes outras e talvezes Aqui estando, arregalado de sustos, Há dinheiro em meus poucos bolsos E nos vestimos de nada... ...Obrigados! III - TONTO LOUCO

Ia a lua, ia, vixe! Êita! A lua balança oca, A lua branca e suja, Olha lá vai lái vem a lua!

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YGARAPÉ MA’ ENDWASÁBYPE Vai sereno vai aquele fio D’água fria entanto turva. Vai ganhando vai outros fios, D’água que em queda acresce Gota a gota se avoluma. Vai correndo vai esse fio D’água sempre turva. Velho como ia vai o fio D’água e se perder no abismo. Ganha vida e muito brio O fio d’água simples simples. Vai sereno vai este fio simples, Faz-se em mínimo o non-plus-ultra. Vai sereno vai aquele fio D’água simples, turva e fria.

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“SEPTIMA DIE” Neste dia fabuloso em que o de tudo obrador No ócio gerador mergulha livre-pássaro E sonha-se sonhado em possibilidades infinitas, E sabe-se infinito nessas possibilidades: Este dia simples... É dia de descanso, a vida eterna dos infinitos mergulhos. E eu... mirando o mar por sob meu assomo, descanso o ócio de meus dias todos neste dia.

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DE NOVO, A ATLÂNTIDA Há uma terra ensolarada em formação No não-lugar de nossas tementes mentes; Porto de todos, presente, imagem viva. Suas imensas alamedas assimetricamente cortam Quarteirões de paixão, Todas a o uno ponto convergindo; Radial ponto onde suntuoso luz o templo, A praça de esplendor e de juízo.

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PROMETEU!? -Brasil: queimadas quase simultâneas traçam o mapa da ilha crescente... às avessas. Júpiter pulverizado de cometas Quinze graus e um pouco lá a frente... quase Vésper. Furacões na Novíssima Babilônia E presentes explosivos aos Muhhamed, E prejuízos duplicados em flamas, no limite humano Simultâneos: - Brasis; cerca de quatro milhões de humanos de outras humanidades... serenados. - E ao termo: guerras sem ter nem pra que contagiam celerados e celebrados... morte em festa. - E o ponto afluente: quem terá atirado De primeiro, de primeiro à derrota... rolam. E dominós...em cascatas. - Tudo visto da cela preta Pelo quadrado de luz Que encandeia ao teto. “- Você tem que conhecer a cela preta (...) Você tem que carregar pedra pesada Nessa cabeça raspada pra deixar de ser... ladrão!” - ... - Vênus e Júpiter enamorados pasmam... - ... 87


ERAS CÓSMICAS Ego remimotáribo nigredus aiñe’éng potár Ego abá temimbo’é a’é juati’embó-apýnha et Kurusú id est kurusá-gwasú sive santa joasába Et opá joawsúba xé py’ápè igitur logos ojepébe Topárába konipó toparára komonipó topára Id est kanhembóra ropebypebýka nipó a’é Opy’á - gwasú: “Num princípio o verbo se viu no kaos O grande estouro da galada universal, Depois os hádrons, leptons ainda depois, Foi a um segundo, depois três vezes dez na quinta Veio a radiação e a vida dos mundos Em desdobramentos muitos e ainda mais E mais; até o fim desta noite ainda vamos: A navegar contentes e cruzados no ungido, Humildes em simplicidade.”

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DE SPIRITUS DICIT

I Ergue-se vozeante o Espírito, em positivo “- Vê!! Só a luz é eterna e enseminadora, Neste campo nada é movimento e parte Sobre tudo isso, o que tudo é, é a mesma luz E tem-se forma: deiformacionismo! O ponto cada qual, que humanos são, Está cada qual extaticizado a cada altura, Cada átomo do espaço em cada uma direção, E o sol por sobre todos ocupa sempre O mesmo ponto inalcançável radioso. Essa lá lama negra abaixo é sombra, Como humanas sombras são movíveis, Aquela, imóvel sempre, implica nada ser, O sol é o foco e o que se antepara É o mistério, o corpo circular que Limita-se a atmosfera lumni-silenciosa.”

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DE DE PROFUNDIS SERENATIO

sub rosa emendatio ODE DE VERÕES Deita despudorado o verão nos seus dias medianos Um afago de brasas nos verdejantes cajueiros Vitimados pelas cinzas e chagas civilizatórias. Achegam-se bem-te-vis e outros pássaros do trópico Assobiando prazeirosamente aos nossos ouvidos atentos E cansados do insólito rumor da vida urbana sem sentidos. Almoçamos tardiamente jantares, e bebidas tresnoitadas Pacientam-nos via epifanias e semanas comuns em ócio. Missas verdes voam em folhas pardo-ressequidas de novo ano, Cuidadosamente destacadas e vividas por mãos gratas De suaves seres que nos somos assomados, os três: Mãe, Filho e Pai a percorrer o impermanente lastro Na mesma cela libertária da mesma nave dos aflitos.

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ODE PARA INVERNOS E a todos: inverno; O qualquer nenhum saber; Até a folha à tarde Se destaca, não esquecido Calendário de afãs e esperança; Já renovados os dias, Já chuvas de felicidade E reais cidadanias. Até mesmo estes versos sutis E bem mesmo a eufonia Desta ode indica: inverno; E um sopro frio corta A bombordo desta nave, Sudeste a noroeste, Umedece vidraças as carroças Quando canta um galo doido Desorientado por não ser manhã; Ou manhas de artifícios:

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Guerrilhas de São João E quadrilhas estilizadas, E a saudável saudosa brejeirice Imitada por humanos a beira De milênio novo, novo Século, já sopro de outras Terras... e por todos: Inverno, eu, banhando-me Nas insondáveis profundezas Deste açude divinal Em que bailam estrelas E formigam vidas e ilusões.

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HAI-KATÚ Lembretes em português dum professor de Tupi

da 101 afoito livrando lama à vereda um homem ao sol

o Katú é assim: ao centro o rio dá o nome marginando: o povo

vento a pentear o mar do canavial ressoam meus passos

nomes reinventados como se apelidam lembro reinventados nomes

curvas ladeiras cercas desbandeiras vivas cerceando o mar

a escola escolho os amigos nomeio tupi dum lado e doutro

assovios, silvos, berros a mata é ilha atlântica lá abaixo: Katú

ojepé, mokõi o professor às contagens cansado forceja

não me esperando a merenda matutina sabe já que vou

onze horas suando d’aula do domingo fim canavial ou cana

pra casa sem vida digo eu boas noites-dias Dona Nô responde

um homem sozinho no sombrio canavial sobe e vai ladeira 93


UNS HAI-PUNX-KAI PLICADOS

PRÓLOGO

SOM

aranha no jacko primeiro pentelho branco sinais de trânsito

zoombís elétricos fiações farrapos e Cia. lixo latadas

POGO

o dia todo chuva o sabão Brilhante babando moicano morto

I o pogo espoca a roda gira esmurros quieto o núcleo II moshes capinantes os punx expelos dardos brinca molecada III a marcha amorna brasas às águas ardentes espoca o pogo

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ÍNDICE BARBOSA DA SILVA Atravessei o núcleo numa carreira... 09 Poema de uma tarde primaveril 10 À noite a dama doce amada... 11 Gira deus 12 Sou adepto incondicional... 13 Equinócio... 14 Há n’alma do cosmo um rio... 16 Órfico de um Jardim 17 Eu me envolvo no fértil acalanto desse povoado jardim... 19 Transmutação da Prece 20 O menino e o pai 21 Pipoca com Molotov 22 Mira-Celi Rosa me expulsa do cotidiano 24 Juvenilis e Terrorismo Poético 25 Tirinete para Percussão 26 MÁRCIO MAGNUS Tudo... 33 O absurdo é minha capa... 34 A vida... 35 A lua vermelha... 36 Sob o nimbo 37 A verdadeira vida nascerá... 38


A vida... Naquele céu azulado... Os primeiros ventos do inverno... Janela aberta...

39 40 41 42

MÁRCIO SIMÕES O aceno da Possessões 47 Lugar – 1999 48 Clarão 50 O voo da semente... 52 Anarcopunks em círculos... 54 Meskabah-carrocéu... 55 É Bloomsday em Natal... 56 No retrato negro do Cisne... 57 O Buddha da Beleza afogado... 58 Da ponte à cabeça 59 Quando anjos aleijados decapitarem... 61 Cabeças de prédios decepadas... 62 Os deuses se retiraram... 63 Órfica 64 O Banquete 66 SOPA D’OSSO De Bello Christiane O Estio e a Memória A Comédia Finda

71 72 73


Um Não-Canção 74 Jó-Zé Imaginando Dialogar Com Deus 75 Jó-Zé Imaginando Ainda 77 Bebo por Beber, Fumo por Fumar, 78 De Domingos e Pasquelas 79 Sobreposto ao Nada 80 De Trilogus 81 Ygarapé Ma’ Endwasábype 82 “Septima Die” 83 De Novo, a Atlântida 84 Prometeu!? 85 Eras Cósmicas 86 Spiritus Dicit I 87 Ode de Verões 88 Ode para Invernos 89 Hai-Katú 91 Uns Hai-Punx-Kai Plicados 92


Sol Negro - Antologia Poética  

Poemas do Coletivo Poético Sol Negro Rodrigo Barbosa da Silva Márcio Magnus Márcio Simões Sopa d'Osso

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