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AGENTES DO

REINO


Marcela Bastos Dantas

AGENTES DO

REINO


Copyright © Marcela Bastos Dantas Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma e por qualquer meio mecânico ou eletrônico, inclusive através de fotocópias e de gravações, sem a expressa permissão do autor. Todo o conteúdo desta obra é de inteira responsabilidade do autor. Editora Schoba Rua Melvin Jones, 223 - Vila Roma - Salto - São Paulo - Brasil CEP 13321-441 Fone/Fax: +55 (11) 4029.0326 | 4021.9545 E-mail: atendimento@editoraschoba.com.br www.editoraschoba.com.br CIP-Brasil. Catalogação na Publicação Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ D211a Dantas, Marcela Bastos, 1975Agentes do reino / Marcela Bastos Dantas. - 1. ed. - Salto, SP : Schoba, 2013. 156 p. ; 21 cm. ISBN 978-85-8013-263-2 1. Literatura infantojuvenil brasileira I. Título. 13-01100 CDD: 028.5 CDU: 087.5


Dedico esta obra ao meu melhor Amigo. Dele recebi e a Ele devolvo.


Sumário

Apresentação...................................................... 9 Antes do encontro.......................................... 11 Alguém invisível.............................................. 15 Um idiota falando sozinho?!!.......................... 17 Seja lá quem você for...................................... 21 Os três Reis...................................................... 25 Você é um Agente do Reino............................ 35 Amor ativo........................................................ 43 Será que vale a pena?....................................... 49 Sujas mentiras.................................................. 57 Não era apenas um sonho................................ 69


Realmente eu não estava pronto................... 77 Você se sente pronto?...................................... 95 Ele quer ser conhecido................................. 105 Às vezes, ele pega pesado!.............................. 115 Que venha o Teu Reino.................................. 125 Em qualquer lugar do mundo sem sair do lugar........................................... 133 É disso que o mundo precisa......................... 145 O mundo precisa de você............................... 153


Olá, meu nome é Brupe. Sei que meu nome é meio estranho; todos perguntam se minha mãe estava com raiva de mim quando eu nasci. Mas sabe, isso não é importante e, depois, eu gosto muito do meu nome. Gostaria mesmo é de contar a minha história para vocês. Na verdade, vou contar uma parte da minha história, afinal de contas, eu ainda estou vivo e sou muito novo, portanto, ainda tem muita coisa para acontecer na minha vida – eu espero! A maioria das pessoas olha para mim e vê apenas um garoto de 13 anos normal como qualquer outro. E é muito importante que elas continuem a me ver assim. Porém, na verdade, eu não sou só um garoto de 13 anos; eu sou um Agente. Já sei até o que vocês estão pensando! Estão achando que eu sou um agente secreto, do tipo espião do governo, não é? Não. Não é nada disso. Minha história é muito mais fantástica do que essas histórias de pequenos espiões. Você não acredita?! Pois então, prepare-se para ler a mais fantástica de todas as histórias!

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Antes do encontro

Eu nasci numa família pobre, com muitas dificuldades. Meus pais são boas pessoas, mas têm muitos problemas. Meu pai é vendedor e minha mãe é dona de casa. Meu pai trabalha muito para manter a casa e todos nós. Ele é muito tranquilo e está sempre querendo nos ensinar alguma coisa. Ele faz parte de um grupo de pessoas chamado O Corpo, mas eu achava essas pessoas meio esquisitas. Ele me levava, às vezes, até lá na casa onde eles se reuniam, mas eu não entendia nada, também não dava muita atenção. Eu gostava era de brincar com as outras crianças que também iam lá. Mas depois de um tempo, eu decidi que não queria mais ir com meu pai naquelas reuniões, pois não queria que 13


ninguém, principalmente os meus amigos, me confundissem com aquelas pessoas esquisitas. Minha mãe... bom, minha mãe é uma boa pessoa, como eu já disse. Mas, ela tem problemas com álcool. É, é isso mesmo. Minha mãe é alcoólatra. Ela tenta ser legal comigo e com meu irmão, mas nem sempre consegue. Às vezes, ela fica muito nervosa e diz e faz coisas que não deveria. Meu pai é muito paciente com ela. Ele está sempre querendo ajudá-la. Até um tempo atrás, eu não conseguia entender como ele aguentava. Ele sempre me dizia que não podemos desistir das pessoas, mas eu não sabia por quê. Não me entendam mal. Eu sempre amei minha mãe, mas eu pensava que ela não tinha mais jeito. Mas, tudo bem, eu não penso mais assim. E agora eu tenho certeza que ela vai ficar boa. Como vocês já perceberam, eu tenho um irmão. Ele é quatro anos mais velho do que eu; tem 17 anos de idade. Nós não nos dávamos muito bem. Brigávamos muito até um tempo atrás. Eu sempre gostei dele, sabe? Mas ele não tinha muita paciência comigo, então, eu implicava com ele para valer. Era um salve-se quem puder! Ele queria ser engenheiro, mas desistiu. Parou de estudar no segundo ano do ensino médio e começou a trabalhar para ter o seu próprio dinheiro. Meu pai insistiu muito que ele não parasse de estudar, mas não teve jeito. 14


Até os meus 11 anos de idade, eu tive um grande amigo. Nós éramos vizinhos e nossa amizade começou quando ainda éramos bebê. Nossas mães são amigas e, por coincidência, engravidaram na mesma época. Ele é mais velho do que eu apenas cinco dias. Na escola, estudamos na mesma sala desde o maternal, e agora já estamos no sétimo ano. Uma vez, durante uma aula na escola quando estávamos no quinto ano, um professor fez uma pergunta para a classe e logo apontou o dedo para mim dizendo: – Brupe, qual é o seu maior sonho? Ele estava falando de várias profissões que poderíamos escolher que estavam em alta no mercado e que pagavam os melhores salários. E eu respondi: – Meu maior sonho é ser um cantor famoso. A classe toda riu. Até o meu melhor amigo. O professor continuou: – Mas, você sabe cantar, Brupe? Com essa voz, talvez seja melhor você arranjar outro sonho. Todos riram mais ainda. Eu nunca senti tanta vergonha na vida. Fiquei ali morrendo de raiva e me considerando totalmente ridículo. Pois é! Meu maior sonho – depois de ver minha mãe curada e feliz com meu pai – era de ser um cantor famo15


so. No entanto, por conta de tantas dificuldades financeiras, também por causa da situação dos meus pais, vendo o exemplo do meu irmão, e é claro, por conta daquele vergonhoso episódio na escola, eu já não acreditava que os sonhos pudessem se realizar. Eu comecei a entender que a realidade é muito diferente e que nela os sonhos são bobagens que só atrapalham. Agora, isso é passado! Isso tudo foi antes, antes do encontro que mudou a minha vida. O encontro onde me revelaram a minha verdadeira identidade.

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Alguém invisível

Eu não sei se vocês já sentiram isso alguma vez, mas desde pequeno eu sentia que o mundo, que a vida era mais do que eu conseguia ver e perceber. É estranho! Eu não sei explicar, mas às vezes, em alguns momentos eu sentia uma presença. Alguém invisível, mas que não me dava medo, ao contrário, fazia-me sentir bem. Lembro-me de um dia, eu tinha uns 8 anos de idade, em que eu estava na laje da minha casa. Já era noite e a minha mãe estava daquele jeito, então, eu subi à laje. Estava distraído com algumas figurinhas quando, de repente, eu olhei para o céu. Ele estava cheio de nuvens. E as nuvens pareciam muito gordas, grossas e se moviam mais rápido do que o normal. Elas pareciam tão próxi17


mas que estiquei o braço como que querendo tocar o céu. Eu não toquei o céu ou as nuvens, mas naquele momento eu senti aquela presença. Tinha alguém ali fazendo aquele espetáculo acontecer, e parecia que era só para mim. Eu senti uma alegria tão grande que me fez esquecer por um tempo do que estava acontecendo lá embaixo dentro de casa. Quando desci, já estava tudo calmo, minha mãe já tinha dormido, e eu nunca mais me esqueci desse dia. Em outros momentos, eu sentia certa curiosidade de ler um livro que meu pai vivia lendo. Ele sempre dizia que aquele livro tinha todas as respostas para todas as perguntas. Acontece que quando eu pegava para ler ou quando meu pai lia para mim, eu não via nada além de histórias antigas. Por algum motivo que eu não entendia, eu sempre voltava a pegar o livro para ler. Eu percebia que aquela presença tinha ligação com o mistério que envolvia aquele livro. Bem, eu tinha 10 anos de idade quando o mistério foi revelado.

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Um idiota falando sozinho?!!

Até o quinto ano escolar, eu e o meu amigo estudávamos numa escola pública muito precária. Sabe como é... a escola era um poço de problemas. Não tinha uma estrutura legal; as salas eram horríveis com as paredes mofadas; não havia quadra de esportes... E a merenda?! Era horrível! Nós sonhávamos conseguir uma vaga em outra escola pública que tinha perto do nosso bairro. Essa escola era grande, bonita, e o ensino era de excelente qualidade. Mas havia um problema. Para entrar ali era preciso fazer uma prova do tipo concurso. Isso porque eram muitas crianças para poucas vagas. Era muito difícil passar. Eu e meu amigo nos esforçamos muito. Estudamos muito 19


mesmo. Alguns dos nossos professores até resolveram nos ajudar quando perceberam o nosso esforço. Até que chegou o dia 15 de outubro, o dia da prova. Eu estava muito nervoso, mas eu sabia que estava preparado. Estava confiante... nervoso, mas confiante. Tinha muita esperança de que ia conseguir passar. Um mês depois saiu o resultado. Foi, sem dúvida, um dia muito especial! Eu e meu amigo havíamos passado. Passamos raspando, mas passamos. Ficamos todos muito felizes! Meu pai comprou uma pizza para comemorarmos. Minha mãe estava bem nesse dia e comemos todos juntos. Era como se todos os problemas tivessem desaparecido! Depois, quando já estávamos indo deitar, vi que meu pai estava ajoelhado diante da janela do seu quarto e ele falava com alguém, e chorava e agradecia. Ele sempre falava com essa pessoa. Era um mistério porque era alguém que ninguém podia ver. E meu pai insistia em dizer que nós também podíamos falar com essa pessoa, mas como?! Eu me sentia um idiota falando sozinho. Porém, toda vez que eu via meu pai falando com essa pessoa, eu não o achava um idiota. Eu percebia que com ele era diferente. Era como se fosse algo... sei lá! Só sei que era diferente! 20


Bom, mas naquele dia, quando vi meu pai ali chorando e agradecendo de joelhos, senti vontade de agradecer tambĂŠm. E, em silĂŞncio, disse: obrigado! E fui dormir muito, mas muito feliz mesmo.

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Seja lá quem você for

Uma semana depois, meu amigo me mostrou uma carta que ele havia recebido da nova escola, parabenizando-o pela conquista da vaga e com todas as informações necessárias para fazer a matrícula. Fui correndo para casa ver se tinha chegado alguma carta para mim. Quando cheguei, que alívio! A carta estava lá. Abri e quando comecei a ler, minha alegria foi se esvaindo. Fui perdendo o chão. Não podia acreditar no que estava lendo. Na carta, a direção da escola lamentava o engano e pedia desculpas pelo transtorno, mas acontecera um erro na contagem dos pontos. Perdi a vaga. Não podia ser! Na carta, diziam que eu poderia tentar de novo no próximo ano. Era um pesadelo! Fiquei arrasado! Não queria ver ninguém nem sair de 23


casa. Todo mundo queria me consolar e eu dizia que estava tudo bem, mas não era verdade. Eu estava mesmo muito mal; muito infeliz. Poucos dias depois, pela manhã, eu estava sozinho em casa quando acordei. Eu me sentia tão triste que não conseguia sair da cama. Eu não estava aguentando aquela tristeza. Então, eu gritei: – Se você existe mesmo, então, me ajuda seja lá quem você for! Faz alguma coisa porque eu não estou aguentando de tanta tristeza; me ajuda! Confesso que chorei um pouco, mas foi só um pouquinho. E fiquei ali na cama mais um tempo, mas nada aconteceu. Depois que me acalmei, levantei, e o dia seguiu normalmente. No dia seguinte, meu pai me chamou e disse: – Arrume-se, pois nós vamos à escola. Eu, muito contrariado, respondi: – Fazer o que lá, pai? Eu não quero ir. Não tem nada para a gente fazer lá! Meu pai insistiu: – Filho, confie em mim. Prepare-se e vamos logo. Percebi que não tinha escolha, então, obedeci. Fiquei pensando: ele vai tentar uma solução, mas é pura perda de tempo! É a velha história dos sonhos que só atrapalham! 24


Chegamos à secretaria da escola e nos mandaram esperar um pouco. Depois, um homem nos chamou e entramos numa pequena sala. O homem sentou-se atrás da mesa e mandou que nos sentássemos também. Ele pegou, então, uma pasta que estava sobre a mesa e, enquanto olhava os papéis que estavam dentro dela, nos perguntou qual era o problema. Não esperei meu pai responder. Eu mesmo contei tudo. Ele balançou a cabeça mostrando que estava entendendo e depois continuou olhando para os papéis. Então, ele colocou um dos papéis na minha frente sobre a mesa e mandou que eu olhasse. Ele disse: – Você está vendo isso aqui? – Estou – respondi sem entender nada. Ele continuou: – Esse papel está dizendo que você ficou em quinto lugar na pontuação geral do concurso. Você nunca poderia ter recebido essa carta. Minha cabeça começou a girar. Será que é isso mesmo? Será que esse homem está certo? Será que não é um engano? – Eu não sei o que aconteceu – o homem continuou – alguém cometeu um erro, e eu peço desculpas em nome da escola e, que bom que vocês vieram hoje, pois 25


o prazo para fazer a matrícula se encerra daqui a algumas horas. Pelo que estou vendo aqui na sua ficha, vocês moram aqui perto. Dá tempo de pegar os documentos. Só nessa hora meu pai abriu a boca e falou: – Os documentos estão todos aqui comigo. Bom... Não preciso nem dizer como fiquei feliz, né? Aquilo tudo parecia um milagre! Só acreditei para valer depois de ser realmente matriculado.

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Os três Reis

Na volta para casa, meu pai e eu fomos conversando. Eu estava eufórico. Não parava de falar. Então, lembrei-me: – Pai, você, por acaso, já sabia que ia dar tudo certo? – perguntei curioso. Meu pai respondeu: – Por que você está me dizendo isso? – Ué! Porque você levou todos os documentos que eram necessários para fazer a matrícula! – respondi. – Talvez eu seja só precavido! – ele retrucou com um sorrisinho. – Peraí, pai! Você nem ficou surpreso quando ele disse que eu tinha passado. Você ficou ali, calado o tempo todo, sem nenhuma reação! 27


– Você está certo. Chegou o tempo de você conhecer a Verdade. Realmente, eu já sabia que tudo ia dar certo. – Conhecer a Verdade?! Do que você está falando, pai? E, como você podia saber que tudo ia dar certo? – perguntei confuso. – Tenha calma! Uma coisa de cada vez. Bom... Eu sabia porque o Vento me contou. – Quem?! – O Rei Vento. Ele me disse que você havia Lhe pedido ajuda e que, por causa disso, tudo ia acabar bem. Por isso, decidi ir até lá com você levando todos os documentos. – Mas... Você disse o Vento?! Como assim, pai? Eu não estou entendendo nada do que você está falando. Como assim, o Vento lhe disse? Eu pedi ajuda ao Vento?! – Não é esse vento que sentimos soprar à nossa volta. O Rei Vento é uma pessoa. Ele é um dos três Reis e foi pra Ele que você pediu ajuda. Meu pai dizia coisas que, em princípio, pareciam absurdas, mas que, por alguma razão que eu não entendia, faziam sentido para mim. Ele falou: – Filho, você não é quem você pensa que é. Você, eu e muitos outros como nós, nascemos aqui, mas não pertencemos a este lugar. Estamos aqui de passagem, para cumprirmos uma missão. 28


– Como assim, pai? Eu não tô entendendo nada! – Filho, não se preocupe. Você não precisa entender tudo agora. Você vai ter muito tempo para compreender tudo isso. Mas, preste atenção! Tem algo que você precisa saber agora e é muito importante. – O que é? – perguntei curioso. – Como eu já disse, não somos daqui. Pertencemos a um Reino que está em toda parte, mas está numa dimensão em que as pessoas não podem perceber. Ele é invisível aos olhos, mas é absolutamente real. Mas você precisa saber que, apesar de fazer parte desse Reino, você não é obrigado a pertencer a ele. Você tem escolha. Você pode simplesmente continuar vivendo a sua vida sem levar em conta os princípios, os propósitos e os ideais do Reino. Você pode ignorá-lo, mas o Reino não ignora você. O Reino está sempre em movimento, pois tudo o que acontece no mundo influencia o Reino e vice-versa. O Reino está sendo constantemente ampliado, mas não sem luta. Existem forças inimigas por toda parte tentando impedir o avanço do Reino. Você, assim como muitas pessoas pelo mundo inteiro, pode viver alheio a isso, mas essas forças, tanto de um lado como do outro, não estão alheias a você. Na verdade, elas lutam entre si por sua causa e por causa de cada pessoa que nasce no mundo. 29



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