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“Pois um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites”

Walter Benjamin


A XÍCARA PERFEITA: Cafés, aromas, memórias e histórias


UM GRÃO DE HISTÓRIA O GRÃO

Pastor Kaldi

Sempre que se fala sobre a descoberta do café, apesar de encontrarmos várias versões, o que é bastante comum por se tratar de uma narrativa lendária, que sofre influências características da oralidade, mudam-se personagens, um pastor de ovelhas ou monges orientais, mas a essência da história permanece inalterada, as propriedades estimulantes do fruto vermelho. Esse fruto vermelho, originário das terras quentes do Nordeste da África, tem como história mais difundida de sua descoberta a do pastor Kaldi, que cuidava de suas cabras e, percebeu que depois que elas comiam os frutos vermelhos de um certo arbusto, apresentavam uma agitação incomum, ficavam mais rápidas e dispostas. O curioso pastor resolveu experimentar os frutos dessa planta e descobriu que a mesma realmente possuía propriedades estimulantes. A veracidade da história é o que menos importa, fato é que desde então, o café ganhou o mundo e fez história, mudou economias, elevou nações, criou uma cultura, a cultura cafeeira e um modo de viver que atravessou os séculos em ondas. Ondas que alcançaram também o Brasil e chegaram a Minas Gerais e à Serra do Caparaó.


Vamos para uma breve viagem no tempo¹ 1727 - O café é introduzido no Brasil por Francisco de Melo Palheta, brasileiro, nascido em Belém do Pará, foi enviado à Guiana Francesa representando a coroa portuguesa oficialmente para resolver questões de fronteira entre Portugal e França e extraoficialmente trazer para o Brasil mudas e sementes da cobiçada planta de frutos vermelhos. 1760 - O café chega então ao Rio de Janeiro e se expande para são Paulo. 1808 - Com a vinda da família real para o Brasil e a abertura dos portos houve mudanças na lei de exportação e importação, com isso percebeu-se o potencial econômico do café que é escolhido como principal produto de exportação. 1822 - Com a proclamação da independência o café já exerce papel cada vez mais central no crescimento do país. Sua importância para é tamanha que por sugestão de José Bonifácio de Andrade, um ramo de café é incorporado ao escudo das armas do Império. 1830 - O café torna-se o primeiro produto da balança comercial brasileira e o país caminha para ser o maior exportador do grão, condição que mantém até aos dias de hoje. Para suprir a demanda por mão de obra nas lavouras, inicialmente o país recorre à mão de obra escrava e depois incentiva a vinda de imigrantes, principalmente europeus. Entre o Primeiro e Segundo Império e a República Velha, a expansão da cafeicultura traria o desenvolvimento para as províncias produtoras, com destaque para São Paulo. Esse fato trouxe desenvolvimento, como construção de ferrovias, aumento na urbanização, da imigração, surgimento de novas cidades

da classe média. Estimulou e influenciou a cultura e as artes, o desenvolvimento da imprensa, jornais e revistas, principalmente em São Paulo. É também o período da supremacia dos barões do café. Se dá também o estabelecimento das primeiras fazendas na região de Muriaé - MG. 1929 - A queda da Bolsa de Nova York abala a economia 1930 - O golpe de Estado de Getúlio Vargas somado à queda da Bolsa de Nova York no ano anterior abala fortemente a economia. A superprodução existente devido a queda da Bolsa teve que ser contida, os preços do café sofrem queda violenta devido à crise. Muitos cafeicultores perdem suas posses sendo obrigados a vender suas fazendas ou a diversificar seus investimentos em novos plantios como algodão, milho, amendoim, etc. Fim da supremacia dos barões do café. Getúlio implementa políticas econômicas como taxação para exportação, impostos para novos plantios, comprou a produção excedente e incentivou o plantio do trigo. Essas políticas se mantiveram até 1937, mas, foram insuficientes para deter a queda dos preços e uma medida radical foi tomada, queimou-se literalmente toda produção excedente. 1939 - Eclode a Segunda Guerra Mundial que interfere na economia mundial 1945 - Com o fim da Segunda Guerra, os preços do café são liberados, a Europa volta a consumir valorizando novamente o produto. O café começa a ser plantado em Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. O café começa a ser plantado em Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. Tem início as “Ondas do Café.”²


Coffea Arรกbica Bourbon Amarelo


O MEEIRO

“Tenho orgulho do que eu faço. Se pergunta o que eu faço, falo mesmo, sô produtor e com orgulho, sô paxonado mesmo com café.”


O meeiro O café se tornou o grande propulsor da economia desde o Brasil Império. Os cafezais foram se espalhando pelas terras brasileiras trazendo energia, característica própria do fruto vermelho, e inspirando sonhos com seu aroma e sabor. Desbravando terras nunca antes alcançadas chegou até às montanhas das Gerais. Já esgotada em suas reservas de ouro, descobre no café uma outra riqueza. A planta que produz o fruto vermelho que é cobiçado, preparado e sorvido na pequena casinha no interior, nos lugares mais distantes e remotos até nas mais refinadas cafeterias do mundo inteiro. O café brasileiro é apreciado no mundo inteiro e tem status de um dos melhores, senão o melhor, com destaque para o café de Minas Gerais. Mas, para que chegasse a essa posição braços semearam e colheram o fruto. Braços que quase nunca aparecem na história e por isso não são lembrados. Nas terras de Minas, o crescimento das lavouras se deu principalmente pelos braços do “meeiro”. Mas, quem eram esses meeiros? Barbosa descreve assim o meeiro da Serra do Caparaó. “O meeiro da Serra do Caparaó era o brasileiro pobre e livre que perambulava pelo Brasil afora, em busca de trabalho moradia, em busca de um lugar para estabelecer um lar. Em busca de uma vida de respeito.

Semelhante ao escravo, nada possuía de seu, não tinha nada. Diferente do escravo, tinha liberdade, era dono do seu corpo. [...] O meeiro era descendente dos habitantes originais dessas terras, os puris, do europeu português e do africano. [...] Não tinha raízes, tradições, baluartes, lugar”. (Barbosa, 2009, p 134) A meação o fazia independente, construía sua sua vida com seus braços. Prezava a dignidade, sua palavra tinha mais valor que documento assinado. Valorizava a família, o respeito e a moral.

A meação A meação possuía regras que eram definidas principalmente pelo fazendeiro e basicamente se dava da seguinte forma: Em um contrato as vezes escrito e noutras apenas verbal, o fazendeiro fornecia as terras e as sementes e o meeiro sua mão de obra. A produção era dividida entre os dois e o fazendeiro descontava do meeiro os custos das sementes. Já o meeiro, como era pobre, para conseguir um bom contrato de meação tinha a oferecer seu caráter. Outro detalhe importante, homem solteiro só recebia meia se ainda morasse com os pais e jamais se dava meia a mulheres, como nos conta Barbosa. O que o meeiro tinha a oferecer para obter termos razoáveis nas condições do contrato era sua atitude moral, sua conduta, por todos conhecida e reconhecida, a boa reputação de sua família, sua capacidade de trabalho, seu conhecimento das coisas da roça, em especial no cuidado da lavoura de café, sua condição de bom trabalhador, bom de serviço. E se mantinha um bom casamento, com moça direita, decente, de boa família. Não se dava meia a homem solteiro, a não ser que ainda morasse com os pais. À mulher, nem pensar. A função de meeiro era, portanto, para homem e casado, para a família. (Barbosa, 2009, p 141) Essa forma de contrato ainda prevalece nos dias de hoje, com algumas variações, como contratos escritos e a concessão de

meia a homens solteiros e algumas poucas mulheres. Mas a tradição é de ser concedido principalmente a famílias. As condições e obrigações contratuais da meação ainda dependem principalmente da mentalidade do fazendeiro, quanto mais humanitário, melhores as condições para o meeiro.


De meeiro a produtor Nas andanças pelas serras e pelos cafezais de Manhuaçu, na comunidade de Córrego Boa Vista, fomos levados por Gean (outro produtor de quem vamos falar depois) à casa de Célio Miguel, mulato, simples, gente da terra, terceira geração de uma família que trabalha com café. A história do Celinho, como é conhecido na região, e de sua família não é muito diferente da de muitos meeiros da década de 1940. Fomos recebidos, como manda a tradição mineira, na varanda da cozinha de sua simples porém bela casa. Sentados em uma mesa e claro tomando um bom café, colhido ali mesmo, em suas terras, um tabuleiro de broa feito por sua esposa Marilane. Com sua filha Ludmila no colo, Celinho nos conta sua história. - So paxonado cum café mesmo intendeu? Do minha vida por esse produto, intendeu? O dia a dia ali, intendeu? Vo purque gosto, tenho orgulho do que eu faço. Se pergunta o que eu faço, falo mesmo, sou produtor e com orgulho, so paxonado mesmo com café. Meu prazer é plantá alí e vê cresce, a gente dedica o tempo pra isso. Vai pra roça com amor mesmo, trabaia com carinho. Cada veiz impenhando mais né. Enquanto Ludmila brinca, agora em uma cadeira, na mesa como gente grande e Marilane sentada ao fundo em um banco, Celinho continua contando sua história. De uma família de 4 filhos, 3 homens, que são

produtores de café e uma mulher. Volta no tempo e relembra como tudo começou, como as mudanças se deram. - Na realidade, essa mudança foi ieu mesmo qui fiz, (da uma risada) na época do meu avô como se diz num ixistia o diferenciado, era praticamente era rio³ mesmo. Meu pai também, veio com essa mesma dificuldade, trabalhando com café, mas também nada pensando em qualidade, intendeu? I ieu (risos), num sei de onde eu herdei essa herança não. Purque aqui im casa, nessa questão de qualidade o mais impenhado só ieu mesmo. Purque a gente se reconhecido no mundo pelo produto que a gente faiz di melhor, pra mim é um privilégio baum. Eu falo com orgulho, ser reconhecido pelo que a gente gosta de faze, pela sociedade, é igual eu to falando, pra gente num tem privilégio mior não. - Uns dez ano atrás ieu era meiero, num tenho um pingo de vergonha de fala, trabaiava pa cumê. Dez ano atrás tinha que trabaiá de sete as cinco pa cumê. Porém assim como tantos outros, Celinho tinha um sonho, um objetivo: - Mas eu tinha um pensamento, vo trabaiá, vo sigurá, vo compra o qui é meu. Intendeu? Graças a Deus, primero gradeço Deus. Intendeu? Mas hoje gras a Deus to com cinquenta e dois mil pé di café. Dez ano atrás num tinha ninhum, por isso valorizo dimais o que eu tenho, glória a Deus. O trabalho é duro, mas trabalho satisfeito.

O trabalho de Celinho não diminuiu e ainda continua de sol a sol e as vezes até a noite. O semblante porém é outro, o sorriso se mostra toda vez que fala de sua conquista. Já não trabalha mais “só pra cumê”, agora o trabalho é na busca de produzir a cada dia um café melhor. Mesmo não trabalhando mais apenas para comer, dificuldades ainda existem. Dificuldades do mercado, o valor da saca do café commodity4 não permite um lucro maior que garanta uma condição mais tranquila e mais folgada, o preço de insumos e equipamentos também são altos e os investimentos na lavoura são contínuos e necessários. Mas, Celinho não desanima. Determinado, orgulhoso de suas conquistas já vê os novos rumos da cafeicultura e as oportunidades que chegam com a terceira onda do café. - Quando é normal, cê chega na rua e vende a rodo né. A gente que está buscando o diferencial, a gente tem que valorizar o produto da gente. Se a gente que é o produtor, que está ali no dia a dia num valorizar, o de fora… Intão agora com a terceira onda chegando aí, ieu acho que é uma oportunidade e tanto pra nós. Intendeu? - A realidade é o seguinte, nós decidimu a lutá com esse objetivo, de busca o mercado do café especial, purque esse mercado de café de commodity tá ficando um pouco, um pouco disvantajoso, o valor é mei poco né. A gente busca esse mercado diferenciado, vai

tenta miorá esse valor né. Dali, da sua mesa, Celinho entrou em sua caminhonete e nos levou para conhecer seu cafezal. Sempre acompanhado de Ludmila, que esperta, com o celular do pai, sai fotografando tudo. Subimos até o alto da lavoura, lá Celinho para e fala: - Daqui, inté lá naquelas árvores, lá embaixo, tá vendo? É meu. Tudo isso foi o café que me deu Eu aproveito e pergunto, Celinho e a sustentabilidade? Ele então se vira, mostra trechos de mata preservada, descemos mais um pouco e ele vai mostrando também as nascentes, ao todo duas, que são cuidadosamente preservadas. Cruza os braços, com orgulho e convicção fala: - Tem que colher sustentável, não adianta como se diz num respeita a natureza, a gente sabe que a gente tá aqui, isso é passageiro, tem a geração que vai assumi o nosso lugar, então a gente tem que pensa nela (mostrando a filha) e nos próximos também, então a gente tenta colher mió maneira possível, respeitando o meio ambiente, as nascente. Intendeu?


Celinho, a esposa Marilane e a filha Ludmila


“O brasileiro, de uma forma geral, não tem referências inovadoras quando o assunto é café”5


QUEM SÃO

“ Se eu num cuidá, a próxima geração num vai ter. Eu quero tentar passar isso também pras outras gerações. É uma mudança radical.”


O Administrador Sim, isso mesmo. Quando se fala em café, apesar de o Brasil ser o maior produtor, a grande maioria dos brasileiros ainda tem a mesma imagem do produtor de café. Ou um barão do café, ou aquele sujeito simples, fala de roceiro, pés enfiados em botas sujas de terra e com pouca formação. Quando chegamos à casa do Gean Gomes, encontramos outra realidade. No alto da serra, com uma visão privilegiada do vale, cercada por cafezal e matas, uma casa confortável e acolhedora. Assim como no Celinho, já encontramos antena de TV por assinatura, não demorou e a senha do wi fi foi oferecida. Formado em Administração, Gean foi criado na roça. Como não podia ser diferente, fomos parar na cozinha e dali para varanda que espaçosa tem um fogão a lenha no canto onde o almoço já estava sendo preparado. Logo veio o convite, vamu tomá um cafezin? Entre uma xícara e outra, o som da sua esposa Berenice capinando o quintal e o cantar agudo do bem-te-vi a história foi sendo contada. Meu avô já mexia com café, meu pai, como diz o outro, começou mexendo com café também, mas era uma época de muita dificuldade também, então tinha que conciliá com outra coisa, então ele concilio com leite, ele mexe com um pouco de leite até hoje. Eu já nasci numa família mexendo com café. - Fui criado aqui na roça, em volta do

terrero de café. Meus irmão, cada um cuidava de uma coisa aqui na roça, um cuidava do gado, outro tratava dos animal e eu, como tive uma doença muito grave fiquei aqui, em volta de casa cuidando das coisa e aprendi a lidá com o café. Estudei aqui na roça mesmo até a quarta série e depois fui pra cidade, lá estudei e tive oportunidade forma em administração de empresa. Nunca trabaiei com administração, vim administrar aqui né. Depois de sete anos trabalhando na cidade Gean não se acostumou à correria e confusão e voltou para o que era seu. Uma parte de terreno que lhe coube por herança. - Aí voltei e comecei a trabaiá com café aqui e depois que atinei pra essa questão do café especial, café diferenciado, até porque eu saí com uma pequena parte de café a maior parte do que saiu pra mim era pastagem. Então eu falei assim, eu tenho que tentá, tenho que tentá ter uma outra visão para o meu café, porque eu to produzindo pouco se eu continuar vendendo como commodity, no mercado normal aí vai ficar um pouco complicado. Aí comecei a pesquisar. Orgulhoso, Gean pega o pequeno pacote, com 250 gramas de café torrado em grão e mostrando fala. - Ha muito tempo atrás, quando se falava em café da Zona da Mata, era o pior café que tinha, era o café rio zona6 , de uns anos pra cá, com essa questão de cursos da EMATER, então assim, mudou muito.

-Muda totalmente a percepção da gente tomá um café, aqui, esse café é produzido aqui, puro. Eu tercerizo pra torrá… Torro café puro, eu separo pra mim tomá… Muda totalmente a percepção, nas questões de meio ambiente, nas questões de segurança. Para Gean, tudo começa no cuidado com a sustentabilidade. -Porque ocê vê que não é só lá e plantá o café, cê tem que cuidar de uma nascente, cê tem que ter um certo cuidado com funcionário, equipamento, agrotóxico… Eu fui vendo que eu tinha que mudá, eu tinha que melhorá as condição de trabalho. Tudo isso assim, vendo tipo assim, pra melhorá o meu produto, uma coisa foi puxando a outra. Depois nós vamu andá e você vai ver, alí pra cima vou plantá, já fiz a estrada, mas tem uma parte que não mexi, tem nascente. E a preocupação com o legado, com o que a próxima geração, o filho Víctor que brincava ali do lado, receberia como herança fica clara. - Se eu num cuidá, a próxima geração num vai ter. Eu quero tentar passar isso também pras outras gerações. É uma mudança radical. E todas as mudanças que aconteceram depois de duas gerações foram impulsionadas pela terceira onda do café, pela busca de produzir um café especial. -Meu avô plantava uma qualidade de café, meu pai continuou com a mesma qualidade do meu avô, e eu que estou

mudando, plantando uma qualidade diferente. Hoje a gente já busca plantar outras variedade, que tenha mais qualidade, a gente está sempre buscando informação. Essa semana tem o simpósio do café aqui em Manhuaçu e eu vou tá lá, já até preparei o meu café. Em um dos quartos da casa, como uma preciosidade, estão guardados, o café especial Gomes Ferreira. As sacas são abertas e o aroma do café que até então era sutil, se espalha pela casa. E a conversa entra pelos detalhes da colheita, da embalagem, dos métodos de extração. Fala de Berenice, sua esposa, de como ela é seu braço direito em toda produção e dos planos para o futuro . - E vamos né, buscando conhecimento e melhorando a cada dia. - Hoje sou conhecido, por causa do café. Ele traz isso. Chego nos lugar e as pessoas falam, ah, você é o do café. E elas falam, quero ir lá conhecer, então, estamos de portas abertas. O que traz visibilidade para a comunidade é o café, por causa do trabalho que estamos fazendo. Tudo isso começou com o trabalho diferenciado com o café. É muito bacana quando você começa a trabalhar com café. E como não poderia deixar de ser, dois convites irrecusáveis foram feitos. - E vamu andar no meio da lavoura? Falar de café e não andar no meio da lavoura não tem graça. Não sei que hora cê tá


Gean, a esposa Verenice e o filho Victor


“ Pô, rico eu já tô, só não tenho grana. Bebo água mineral aqui, tomo banho com água mineral, bebo água do chuveiro. Meus filhos andam descalço aqui, em volta de casa, rico eu tô bicho, faz tempo. São valores diferentes.”


O Surfista Partimos de Manhuaçu no dia seguinte, subimos mais um pouco, percorrendo uma estrada de asfalto sinuosa e cercada por cafezais e chegamos á cidade de Alto Caparaó. A 997 m de altitude, logo na entrada um portal e um enorme out dor anuncia, “Bem vindo a cidade do melhor café do Brasil”. Situada aos pés do Pico da Bandeira e fazendo divisa com o Parque Nacional da Serra do Caparaó a pequena cidade, vive e respira café. Passamos pela avenida principal e seguimos até nosso destino, uma fazenda com o sugestivo nome de Ninho da Águia, o mesmo nome que é dado ao café considerado um dos melhores do Brasil, vencedor de vários concursos e que hoje pode ser encontrado nas melhores cafeterias do Brasil e do mundo. Chegando lá fomos recebidos pelo simpático Sr. Aídes que sai pela porta da cozinha e diz: - Bem vindo à fazenda do melhor café do Brasil! O convite para tomar café vem em seguida. - Vamo entrá, vamo tomá um cafézin. Alí, na varanda que funciona como uma cafeteria, encontramos um sujeito jovem, cerca de 35 anos, camiseta, bermudas, braços tatuados. É Clayton, filho do seu Aídes, o surfista que virou cafeicultor e que é considerado o precursor da cultura do café

especial em toda região. De jeito calmo e tranquilo, Clayton prepara o café e vai falando sobre o grão, a variedade, a torra e por aí vai. Nossa conversa começa por aí. Claiton começa a nos contar sua história. - Eu vim em 96 pra cá, eu não bebia café, não entendia nada de café. Quando meu tio falou: - Por quê você não vai pra lá, planta um café? - Eu tinha morado no litoral, voltei pra São Paulo e aí ele, ele que colocou essa pilha… - Por quê você não vai pra lá, planta um café? - Mas café? Não tem nada haver comigo né… Ahnn … - Café você trabalha uns seis meses e os outros seis você fica meio sem fazer nada… - Opa!! Vou pra lá, planto um cafezinho, fico seis meses e seis meses na praia… Né? Com cara de deboche, Claiton toma mais um gole de café, da uma risada e continua. - Rapaz, eles me colocaram pra trabalhar, tem… mais de 20 anos já que eu tô aqui e num deu os seis meses. Tô esperando até hoje. As gargalhadas voltam, ele se estica na cadeira, mais um gole de café e conta sobre como despertou sua curiosidade e consequentemente o interesse pelo café. A estranheza com a cultura antiga incomoda e Clayton começa a mudar no sítio do pai

- Mas, aí, o que aconteceu? Quando cheguei aqui achei muito estranho, o pessoal vendia os cafés e deixava o pior pra beber… né? Iiii … Falei, pô mais, passou tanto café bonito… Primeiro ano que trabalhei secando café, trabalhei com meu tio pra aprender, porque no outro ano eu já ia começar a plantar, e tal… Aí, eu observei isso aí, o pessoal vendia os cafés, vendendo, vendendo e ia ficando o pior pra beber em casa. Eu falei, pô, mas passou tanto café bonito, por quê que vai ficar esse? - Ahh, esse é mais barato! - Eu falei, mais, pô, gasta muito café em casa? - Não, um saco da pra passar um ano. - Falei, então pô, deixa o melhor que você colheu, pô. Vai beber esse café horrível aqui? - Aí o que aconteceu, os caras é… no outro ano eu comecei, teve um meeiro foi embora, me entregou a lavoura alí, eu comecei a tocar ela e foi minha primeira colheita, eu já passei a partir daquele ano, sempre o lote mais bonito eu colhia, com mais uniformidade é que eu deixava na fazenda pra gente aqui, ou, quando eu fosse a São Paulo eu levava, para os amigos, parentes. Ééé… quando foi mais ou menos começo dos anos 2000, 2001, 2002, começou abrir umas cafeterias em São Paulo. Aí sempre que eu ia lá, eu falava, ah, deixeu ir provar um café naquela cafeteria, porque diz que lá tem um café especial… bebia e putz, o que bebia lá em casa é muito

mais especial. Aí eu foquei nisso, tem um potencial de qualidade que o pessoal num tá sabendo explorar… éé … num tá sendo explorado, aí eu peguei e comecei a focar nisso aí. Então as amizades, e a vivência com outras pessoas dos tempos de surfista trouxeram uma contribuição importante, além dos contatos e do network, capacitaram Claiton de forma natural. Conhecimentos que ele soube usar na hora certa. - Aí veio um amigo meu que morava na Austrália, e a gente pegava onda junto e tal, aí ele veio e ficou um fim de semana aqui… eu falei, cara, fui a São Paulo no fim de semana e tomei uns café lá… a gente já tava na colheita… eee… acho que a gente pode fazer o melhor café do Brasil e até do mundo, isso aqui tem um potencial de qualidade que o pessoal num tá sabendo ainda usar. Aí foquei nisso aí e comecei a trabalhar nisso aí. Depois de um mês ele voltou aqui e falou, cara, pra exportar vc tem que fazer assim, tem que certificar a propriedade, fazer assim, assim, assim… Ficou estudando isso um mês lá, como que fazia pra poder exportar os cafés, porque aqui não tinha mercado assim e pra você exportar tinha que ser um container7. Esse negócio de microlote8 que a gente vende hoje, esse negócio num existia ainda. - E aí, a gente tentou fazer uma associação com outros produtores, mas num rolou.


- Pô, mas você que vai vender o café? - Tá certo que eu não passava credibilidade nenhuma … risos… Mas aí ninguém quis entrar Apesar de não ter dado certo no primeiro momento, o sonho não morreu. Clayton resolveu dar um tempo, mas, continuou com a proposta de produzir o melhor café do Brasil. Plantou lavoura, colheu, aperfeiçoou, investiu tempo e recursos buscou conhecimento, “só fazendo uns cafés legais e tal”, mesmo sem mercado para vender seu produto especial. Sempre de olho no que estava acontecendo no mercado aguardando o momento certo, à sombra do Pico da Bandeira. Passaram-se dez anos e em 2011 certificou a propriedade como produtora de café sem agrotóxicos, o objetivo era certificar como orgânico, mas os custos para essa certificação são altos. Então conseguiu o Certifica Minas9 Café e com a certificação as portas começam a se abrir e aparecem os concursos. - Aí o cara falou, - Ahh tem concurso de qualidade. - Eu falei, ôpa, então vou mandar pra vê se o meu café bom mesmo igual eu tô pensando, ou eu sou doido igual os caras aqui acham. Aí já mandamos e ganhamos já de cara o melhor café de Minas, natural10. Aí foi receber prêmio do governador, lá em Belo Horizonte… Aí já ôpa, já demo um beliscão na galera aí e tal… aí a maioria das pessoas falaram, - Ah, foi sorte, nunca mais ganha.

- O pessoal daqui da região mesmo. - Essa região não é disso. - A nossa região era tida como um dos piores cafés do Brasil. Claiton relembra com tristeza o tempo que o café da Zona da Mata de Minas tinha que ser levado para o Sul de Minas, ser embalado lá e vendido. - Me da preguiça de pensar porque vou pensar só coisa errada. Melhor nem pensar, fazer de conta que os caras eram songos mesmo e tudo um bando de topera, porque não tem explicação. Pra não falar as coisas que eu acho. Outros prêmios vieram na sequência e a constância quebrou o estigma da sorte. Em 2014 e 2015 o Café Fazenda Ninho da Águia conquista o tão sonhado prêmio de melhor café do Brasil. Desde então está entre os dez melhores cafés do Brasil, ganhando um prêmio aqui outro alí. sso motivou outros produtores que também mudaram suas visões e cafeicultores do Caparaó conquistaram todos os prêmios de qualidade. Quebra-se mais um paradigma, a Zona da Mata só produz cafés ruins. - Então assim, consolidou a história, Caparaó tem café bom, ponto. Mas a luta e os problemas não acabaram. Claiton continuou buscando melhorias. Escolhendo os parceiros certos, enfrentando a logística difícil do Brasil e até mesmo recusando se tornar um atravessador e comprar café dos vizinhos e vender como seu

diz: - Eu não quero comprar café dos meus vizinhos, quero que meus vizinhos também façam café especial. - Mas você pode ficar rico - Você quer que eu me passe a ser o cara que eu lutei minha vida toda pra sair fora dele? Pô, rico eu já tô, só não tenho grana. Bebo água mineral aqui, tomo banho com água mineral, bebo água do chuveiro. Meus filhos andam descalço aqui, em volta de casa, rico eu tô bicho, faz tempo. São valores diferentes. As parcerias certas, transparentes e com a mesma mentalidade possibilitaram ao Café Ninho da Águia chegar às melhores cafeterias no Brasil e no exterior. Outros produtores buscaram em Claiton a inspiração e o conhecimento necessário para também produzir cafés especiais. A transição do modo antigo da cafeicultura, do café commodity, rio zona para o café especial, vencedor de concursos chegou e transformou toda uma cultura e modo de pensar o café. Claiton finalmente alcançou seu principal objetivo, que a Serra do Caparaó se transformasse na terra do café especial. - E a gente faz um trabalho muito bacana junto e tentando cada vez vender melhor os cafés do Brasil, contar essa história lá fora… agregar valor, pros pequenos produtor principalmente. Então essa é a nossa luta lá. Sem deixar de pensar no Brasil, com uma expressão de esperança e preparando mais

um café, Clayton fala das expectativas e oportunidades do mercado nacional. - E aqui no Brasil, tentar fazer quanto mais gente beber o café especial possível, simplificar um pouco essa história, colocar o produtor mais em contato direto ali com quem tá bebendo o café. Mostrar pra pessoa que é fácil beber café especial, que é o luxo mais barato. Que o que ela bebe por aí é o lixo do café, que o cara taca açúcar porque se não não dá pra beber. Depois que a pessoa bebe esse café, é caminho sem volta, ela num toma mais do outro, é uma mudança de cultura. O papo embrenhou pela tarde, Clayton, empolgado começou a falar da agrofloresta, da manutenção das nascentes, da sustentabilidade, mas a noite chegou, a chuva caiu, a luz acabou e a visita à lavoura ficou para o dia seguinte. Cheguei bem cedo na Ninho da Águia. Fim de semana por lá é movimentado e a fazenda já estava lotada de visitantes, que chegaram em veículos 4X4, bicicletas, alguns praticando slackline11 alí, no quintal da fazenda, outros tomando café. Fiquei por alí observando a movimentação, na cabeceira da grande mesa na varanda seu Aídes contava suas histórias. A viagem através do tempo por meio da sua prodigiosa memória é inevitável, histórias da fundação da cidade, a criação do Parque Nacional da Serra do Caparaó. As histórias do café na região, a trajetória do filho, mostrando os troféus e medalhas conquistadas nos concursos, as revistas especializadas com todas


as matérias sobre o café Ninho da Águia e finaliza, mostrando todo orgulhoso as embalagens de seu café nas melhores cafeterias do mundo e o saco de 30 kg, para exportação, feito a partir de garrafas PET recicladas, com os logos do Café Fazenda Ninho da Águia e Cafés do Brasil. Os visitantes se despedem e então Claiton convida para uma volta na lavoura. Enquanto caminhamos por entre os pés de café o papo entra na agricultura sintrópica12 e do potencial das terras do Caparaó. - Existem vários modelos. Assim, eu acredito que em todos os lugares que eu vi que foram feitos, são muito diferentes daqui do Caparaó, eu acho que Caparaó está um passo a frente de todos eles. Pelo terreno aqui, é muito melhor que a maioria que vi dos lugares onde eles fizeram o trabalho, é muuiito melhor, muito. A terra aqui da de vinte a zero. A gente já tá vários passos na frente, porque você tem que modificar aquele terreno todo, da um trabalho danado. Você tem que entender onde você tá, pra ser produtor de café especial nessa linha que a gente vai ser, tem que ser produtor de verdade, cara que estuda ali, que tá observando, que tá plantando, que vai errar, mas vai errar achando o caminho pra acertar. Outro aspecto também é influenciado pela nova onda do café. O produtor não é mais aquele que vive no campo, nas roças e mal sabe ler e assinar o nome. Desde o início da terceira onda, os produtores sentiram a necessidade de se informar e formar, é preci-

so estudar, conhecer novas técnicas de manejo, conhecer e entender o lugar onde vive, crescer culturalmente e socialmente. Para Claiton, o conhecimento e o estudo faz toda diferença. - Tem que ter conhecimento, tem que tá na ponta da língua ali. Sempre falo assim, o gringo vem pra te comprar, você tem que saber responder… ah, que variedade esse é? Ahh acho que é Catuaí13, o cara já deprecia seu café. Que altitude você está? Ahh, acho que lá de tá uns 1000… Uma vez eu estava vendendo para um cara na Noruega e ele perguntou: - Você tem árvores de contenção na sua divisa? Seu vizinho usa agrotóxico? - Ah, meu vizinho é o Parque Nacional do Caparaó, é, dá uma olhada aí e vê se tem árvore plantada lá. Aí o cara tava na internet né, ele deve ter dado uma olhada no google ou sei lá e ele mandou assim: - Uooouu - Esse é o meu vizinho. Meu café já agregou valor aí e puf, foi lá pra cima, porque o cara vai vender isso junto. Então você tem que ser um produtor… profissional. Quando perguntei se fora do Brasil eles valorizam essas questões ligadas ao meio ambiente e à sustentabilidade, a resposta foi firme e direta. - Absurdamente mais!! É uma distância absurda!! Eu sou pequeno produtor, eu chego lá, numa feira na Europa, cê tem que ver o barulho que os caras fazem, pare-

ce que você é uma estrela assim…Um respeito, uma, é, admiração que eles tem assim pelo produtor, que é absurda. E enquanto caminhamos, paramos aqui e ali, Claiton mostra um pé de café carregado, as mudas de árvores frutíferas, abacateiros, bananeiras, laranjeiras e de madeira de lei como mogno, jacarandá, pau-brasil e ipês, que foram replantadas no sistema agrofloresta. Também mostra as matas e nascentes preservadas. Sua riqueza, como ele mesmo disse. Como empreendedor de olho no futuro, ele não para e são projetos de crescimento sustentável, de valorização e transformação de uma cultura. Seu mais novo projeto que teve início ha 2 anos, uma parceria com a secretaria de educação e escolas da cidade. Claiton da palestras para os alunos do ensino fundamental e leva essas crianças para uma visita à fazenda. Ao falar do projeto, o brilho nos olhos, o sorriso e a satisfação ficam evidentes. - Tem uns dois anos… dois ou três anos… que a gente tá nisso, esse ano tá bem legal, a gente já tá conversando com a diretora da escola daqui, municipal, pra já agendar umas palestras, cada bimestre, trazer eles aí de novo e tal, vamos falar muito de água… que eu acho que é a coisa mais importante e… essa, de eles entenderem que o legal é ficar aqui, estudar e ficar aqui, ponto. A maioria são filhos de produtor e eles visualizam no perfil do pai, do avô, que é aquilo ali, que a pessoa

sempre reclama muito… Ah a roça é pior coisa, muito difícil.. Mas eles precisam saber que tem mil possibilidades, que não precisa ficar, só mexer com café, tem mil coisas legais para ser feitas, que qualquer coisa que você produzir o cara vai passar na porta da tua casa ali e te compra… Desde que seja bem feita. E brigo muito para que o cara que está em torno do Parque, ser alinhado com isso. Eu escrevo em toda embalagem minha, Serra do Caparaó, Pico da Bandeira. Então se eu uso o apelo do Parque e uso agrotóxico, isso aqui acho que fica fora… Parque Nacional, paraíso ecológico e aí eu uso agrotóxico aqui… Não faz sentido nenhum. Isso já muda toda uma cadeia, toda uma cultura. As crianças já ficam tudo pensando isso aí, já começa a buzinar na cabeça do pai, do avô. Descemos para a casa, e mais um café foi sendo preparado. Preparando o filtro e sentindo o cheiro do grão moído na hora Claiton fala. - Isso aqui é um estilo de vida, os dias que eu fico mais feliz aqui é os dias que tô na roça, plantando, com a mão cheia de terra e… podando as frutas, os pé de café… eu não sinto que estou trabalhando… eu num tô trabalhando, eu tô fazendo uma coisa que eu gosto de fazer. O café ficou pronto. tomar um café especial preparado na hora, do Pico da Bandeira, bolo de banana com ganache, feito ali mesmo, perfeito. A chuva recomeça, hora de descer a serra.


Clayton e Sr Aídes


“Eu fugi do café, falei, vou fazer qualquer coisa nessa vida, só não vou fazer café. Eu associava café a miséria. A um sacrifício muito tremendo, a crise.”


O sonhador Desci a Serra do Caparaó e me afastei um pouco da Zona da Mata, na verdade nem tanto, a cidade para qual me dirigi, fica alí, logo no limite entre a Zona da Mata e o Vale do Aço. Fui até a cidade de Caratinga conhecer a história de mais um produtor que além de ter a sua própria vida transformada, desenvolve um projeto para transformar outras vidas com o café. Chegando ao Café Gourmet Brasil, uma cafeteria, no centro de Caratinga, lá encontrei o Gustavo, um sujeito sorridente, gentil e muito falante. Se o assunto é café, o papo vai render horas. Ele não tem pressa. Cheguei bem na hora do café compartilhado. Todos os dias, às 4 da tarde, quem estiver na cafeteria tem a oportunidade de ajudar no preparo do café. Uma Hario V6014 é preparada e todos os presentes tem a oportunidade de derramar água no filtro e falar uma palavra positiva. Aproveitei a oportunidade e fiz minha parte. Como já era um fim de tarde e início de noite, a cafeteria estava movimentada. Gustavo então sugeriu que eu fosse para a fazenda e lá pernoitasse aproveitando para conhecer os “meninos” do projeto Casa de Daví. Casa de Daví é um projeto para recuperação de dependentes químicos que funciona na fazenda da família do Gustavo. Chegando lá fui recebido pelo Carlos

José, o Terrinha, como é conhecido por todos. Logo fui convidado para participar do culto que estava para começar. Os internos já estavam todos arrumados, com suas bíblias na mão. O culto começa e vozes masculinas entoam cânticos religiosos, alguns desafinados, outros entusiasmados. Todos cantam. Durante o culto os internos tem oportunidade de dar seu testemunho, todos relatam um pouco de sua vida, os males causados pelo uso de drogas e as mudanças e esperança de recuperação que encontraram na Casa de Daví. Terminado o culto, o jantar foi servido. As histórias viriam no dia seguinte. Amanhece na Associação Terapêutica Casa de Daví, o dia começa cedo e com um momento de meditação. Em um espaço separado que para eles é sagrado, cantam, lêem a bíblia, oram e compartilham suas meditações. Logo depois, o café da manhã é servido. Saí do refeitório e fui me encontrar com Cézar, um ex usuário que hoje é mestre de torra15. Encontrei Cézar sentado ao lado do torrador de café, fazendo a seleção de grãos para a torra. - O crac me levou pras ruas, virei “mindingo”, aí, resolvi vim pra cá, comecei a ter um conhecimento do Senhor, aí um pastor me viu, eu tava capinando, casamento derrotado, aí ele falou: - Eis que o Senhor manda te falar vaso, tudo que você precisa está nas sua mãos, basta você saber administrar.

- Com duas semanas da revelação, Gustavo chega pra pastora, - Pastora, tô querendo abrir a torrefação, aí a pastora falou, - Nota aquele minino ali. - Aí ele chegou pra mim e falou: - Rapaz, você se interessa em aprender café? - Ai eu falei, uai, se interesso. Mas foi luta espiritual meu irmão, porque quando você vai adquirir algo novo, o diabo luta. Hoje eu vejo, graças a Jesus a recompensa. Aí o Gustavo disse: - Então vou te ensinar - Quando o Gustavo falou veio aquela insegurança, eu nunca tinha ido em colégio, num sei lê, num sei escreve. Aí que eu falo pra você, diferença entre inteligência e sabedoria. Inteligência você tem aqui, sabedoria Deus dá. Aprendi a lê na bíblia, agora que eu to começando a escrevê. Deus falou comigo, quem qué que se esforça, hoje taí a recompensa. Hoje minha filha é gerente da cafeteria (vou contar essa história depois), pela misericórdia de Deus, o Gustavo é um gênio. Esse cara não precisa disso aqui não, podia alugar isso aqui. Tipo assim, aonde que eu amo ele em Cristo por isso. Aonde a gente não tem condição, Deus usa quem tem pra nos beneficiar Cézar se levanta, confere a temperatura do torrador, bota os grãos para torrar volta, se senta e com a cabeça baixa, ainda selecionando o café, fala:

- Isso aqui é minha vida, eu vou ficar aqui quietinho com eles até quando Jesus quiser Fiquei por ali um tempo. Cézar continua na lida, o café já está quase torrado quando Gustavo chega e ajuda a finalizar a torra. Provamos o grão torrado ali mesmo, saboroso, uma castanha adocicada, diferente do que se está acostumado a ver, assim como a história de Gustavo. Fomos para um grande galpão, com um moinho de pedra. Talvez uma referência àquilo que precisa ser quebrado e moído para se obter o que é útil. - Rapaz, isso aqui é um chamado, não parte de mim não. Quando Deus coloca assim, é ocê… E não adianta ocê querer fugir não, não adianta você querer fazer do seu jeito não por que não vai. ele vai incomodando, incomodando, até que você cede. Gustavo olha para o teto, com quem busca algo no tempo que passou, se ajeita na cadeira e continua. - Eu fugi do café, falei, vou fazer qualquer coisa nessa vida, só não vou fazer café. Eu associava café a miséria. A um sacrifício muito tremendo, a crise. Mesa de produtor, principalmente de cafeicultor, vamos colocar aí ha 20 anos atrás, não tinha nenhuma perspectiva além de uma commodity, era só vender e você não via o final do processo. Pra mim era assim desagradável por que o pai, sempre foi uma pessoa, um lutador, cearense, daquele sertão, onde teve que dar braçada, teve que rastejar igual um soldado


César


Gustavo


pra chegar no Rio de Janeiro, lutar, pra conseguir as coisas. Se perguntar a qualquer uma pessoa da região, o que que é o Edmar, eles falam, Edmar é trabalho. Então eu associo café a muita luta e não via retorno disso. Eu vi pai trabalhando muito e exercendo pouco a função de pai mesmo. Isso me incomodava muito. Um sofrimento muito grande. Então eu falei, não mexo com isso não. Fui embora pro Estados Unidos, fui entregar pizza e aquilo era o céu, não preciso de muita coisa pra ser feliz. Vivia bem, razoavelmente. Mas, uma coisa incomodava Gustavo, a namorada que ficou no Brasil. Entre idas e vindas, ele resolve voltar. Tenta algumas coisas para não se envolver com café, mas não teve jeito, o que ele realmente sabia fazer era café. A ideia era trabalhar com o processamento de café e não com o plantio. Surgiu o Café Gourmet Brasil com a proposta de valorizar o pequeno produtor e investir no café especial. No primeiro momento as coisas não deram certo. O produto era caro e não tinha saída, o desconhecimento do consumidor sobre o café especial no início dos anos 2000, não permitiu que a primeira ideia desse certo. O contato com outras pessoas e a convivência com um grande amigo, deram a Gustavo uma nova visão de vida e de família. Outras ideias surgiram mas também não foram adiante. Mas segundo ele tudo tinha um propósito. - Desde o início eu já sabia que Deus tinha uma coisa pra esse lugar aqui, eu não sabia

o que era. A turma falava: - Por quê que você está investindo dinheiro aqui? - Eu não sei não, Deus é que sabe. Mistérios né? Em seu caminho, indo e vindo pela cidade, Gustavo viu uma mulher que distribuía sopa para dependentes químicos. Isso chamou sua atenção e então decidiu levar essas pessoas para a fazenda. Precisava fazer algo por elas. Fez a proposta, ela ficou espantada, pensou e aceitou. Então Gustavo leva mendigos para a fazenda. - O que eu poderia fazer pra eles de forma profissional? Ah, o que eu sei é café… Então começou a ensinar sobre café, preparou um curso de barista avançado e assim preparou e capacitou muitos internos. Alguns deram certo e seguem a vida, como Cézar, outros desistiram. Em 4 anos de existência da Casa de Daví, segundo Gustavo, cerca de 3 mil dependentes químicos já passaram por ali. A casa também tem uma plantação de pimentas que são beneficiadas, comercializadas e os recursos revertidos para a manutenção do projeto. O curso de barista16 porém tinha uma limitação, onde mostrar o trabalho dos “meninos” ? - Eu tinha barista, mas o que eles iam fazer? Aqui na fazenda, poderia abrir aqui, mas, uma coisa muito limitada, muito longe do consumidor. Então surgiu, vamos criar um módulo, um pequeno módulo pra gente criar uma forma desses meninos ganhar o próprio

Gustavo criou então uma pequena estação de café. Depois de “ invadir” a loja de presentes de uma inquilina e amiga, agregando uma ou outra coisa à pequena estação, ele se deu conta de que tinha praticamente transformado a loja da amiga em uma cafeteria. Depois de uma negociação oferecendo uma outra loja em troca, Gustavo resolve montar então a cafeteria. Nasce a Café Gourmet Brasil. Uma cafeteria conceito no centro de Caratinga. - Vamos fazer uma loja conceito, vamos fazer uma loja e os menino chega até aonde eles podem pra eles desenvolver e vislumbrar até aonde eles podem chegar com a loja conceito. E foi muito bom, aí a coisa começou a tomar uma forma super bacana. As transformações trazidas pelo café não mudaram apenas a vida dos internos, mas também a vida de Gustavo e de sua família. Não é apenas um negócio, mas uma ferramenta de transformação social e mudança de vidas. - Isso tudo aqui só existe em função deles. Assim Gustavo resumiu a função da Café Gourmet Brasil. Saímos e fomos tomar café no laboratório que na verdade é uma cafeteria montada em um casarão, onde se pode reproduzir todo o processo, desde a seleção do grão passando pela torra até os mais variados métodos de preparo do café. Lá sentamos e enquanto apreciávamos um bom café, chega o Carlos José, o Terrinha. Entre uma xícara e outra ele nos conta como

saiu das ruas de Governador Valadares e depois de várias internações chegou até à Casa de Daví - Eu vim procurando o Cézar, falaram que o Cézar tava aqui e que num tava mais trabalhando na rua. Aí me disseram que se eu chegasse aqui eles me acolheriam. Eu vim pra cá, fui convivendo aqui, deu com quinze dias eu tive uma experiência com Deus muito gostosa. Com dezessete dias me convidaram para participar da organização da casa. Apesar das muitas profissões, Terrinha se viu desorientado e sem rumo por causa das do álcool. - Aí eu fui pensar, por quê eu vim parar aqui. Tenho várias profissões, sou pedreiro, sou bombeiro hidráulico, eletricista, pintor, gesseiro, operador de motosserra, ainda instalo ar condicionado e dou manutenção. Aí eu perguntei, por quê que eu vim parar aqui, que eu fui refletir. Estamos aí, tomando um café gostoso, aprendendo a conviver com café, - planos pra embora daqui, por enquanto ainda não fiz, nem pretendo fazer agora… E… Tô feliz com Jesus graças a Deus. O café entrou na minha vida agora, e.. é uma coisa nova que desperta interesse na gente, pra gente tá conhecendo a fundo, é uma boa oportunidade de emprego pra gente também. O café vai nos proporcionar uma nova visão, café é muito interessante, não é só plantar e colher, tem muito mais coisas por trás disso. Pra mim é tudo novo, então pra mim está sendo uma maravilha. Tô gostando


Terminamos nosso café, me despedi de Terrinha e do Cézar. Mas ainda faltava ouvir mais uma pessoa antes de pegar a estrada. Faltava ouvir Ilza, a filha do Cézar. Saí da fazenda deixando amigos e voltei à cafeteria, lá, atrás do balcão, conferindo tudo estava Ilza, a gerente. Sempre sorridente, atende a todos com simpatia e educação sem esquecer de acompanhar como está o andamento dos pedidos. A história de Ilza, assim como a do pai, teve um recomeço graças ao café. - Na verdade eu casei em Manhuaçu e vim pra cá, eu também fumava, fumava maconha. Depois eu fui pra Galiléia, mas, aí eu voltei, voltei porque o Gustavo foi me buscar, foi me buscar e me trouxe pra cá, me deu emprego aqui. Nunca passou pela minha cabeça a possibilidade de mexer com café, mas é uma coisa que eu gosto. É uma experiência, é muito boa. Estou aqui já uns seis ou sete meses. Quero fazer outros cursos, é uma área que eu gostei. Transformou minha vida, é uma coisa que me mudou. Eu sou outra pessoa. O perfil do cafeicultor mudou, mudou pra melhor. São pequenos produtores com seu café especial. Especial não apenas porque é um café premiado e reconhecido no mundo inteiro, mas porque carregam um valor sustentável. São jovens que aos poucos mudaram a tradição familiar, característica da cafeicultura, não abandonaram, mas resgataram essas memórias como uma forma de melhorar o presente. Quebraram paradigmas, transformaram vidas.


Carlos José, o Terrinha

César e sua filha Ilza


“Desde o primeiro momento, a gente quis valorizar mais o produtor em si, mostrar ele, divulgar o trabalho dele, a gente sabe tudo que está por trás , não é um trabalho nada fácil e os produtores é que são a cara do café.” Arquivo Café Salomão


O Clube do Café O e-commerce tem influenciado de forma significativa as novas ações de marketing. Um dos novos modelos de negócio que tem atraído empreendedores e consumidores são os clubes de assinatura. Esses clubes funcionam de maneira simples e objetiva: o consumidor paga uma taxa (mensal, trimestral ou até mesmo anual) para receber uma série de produtos em casa. Essa modalidade de negócio também chegou à cafeicultura e tem mudado toda uma tradição de comercialização e facilitado o acesso do consumidor aos cafés especiais. Voltei à Manhuaçu para ver de perto todo o processo de um clube de café especial. Fui conhecer o Clube do Café Salomão. O clube funciona no centro da cidade, em um escritório amplo e o aroma de café está por todo espaço. Fui recebido pelos irmãos Salomão e Davi Charbel, dois jovens, 25 e 23 anos, naturais de Manhuaçu. Salomão é formado em Educação Física e possui certificação como Q-Grader17 e Davi é graduado em Relações Internacionais. Filhos de produtores de café e ex produtores, conhecem de perto a lida na lavoura, as dificuldades e claro o anonimato do pequeno produtor. Observaram o mercado e viram a oportunidade para criar o clube. - Foi mais assim, observando o mercado mesmo - Conta Davi - Começamos a vender os cafés em Belo Horizonte, aí a gente

pensou, ah vamos fazer uma marca, fazer um projeto, nisso a gente viu que precisava fazer alguma coisa pra não ser só uma marca de café. Então a gente começou a pesquisar muito sobre café especial. Então na pesquisa de café especial que a gente se ligou nessa coisa de clube. Então a gente viu que na nossa região tinha um potencial muito grande, porque ninguém em Minas Gerais tinha um clube de assinatura igual a gente que tá ali no foco direto com o produtor. E esse foco no produtor trouxe um diferencial para esse clube de assinatura. Mostrar quem realmente está por trás daquele café que está sendo bebido. Como filho de cafeicultor, Salomão entende que o produtor precisa ser valorizado e resolveu encontrar uma forma de fazer isso. - A gente reparo que falava sempre qual era a propriedade, quem era o produtor, mas esse foco maior no produtor, se deu desde o primeiro momento, a gente quis valorizar mais o produtor em si, mostrar ele, divulgar o trabalho dele, a gente sabe tudo que está por trás e não é um trabalho nada fácil e os produtores é que são a cara do café dele. A gente olhava com uma crítica, assim, que os cafés eram foto só de lavoura, você não vê a cara da pessoa do café, quem tá tomando café as vezes quer vê mesmo a pessoa, quer conhecer um pouco mais da história, acho que vendo a foto da pessoa é a melhor maneira dela entender mais sobre o café. Dessa forma, os irmãos conseguiram

valorizar e contar a história que está por trás daquela xícara, e dar visibilidade para o pequeno produtor. - Produtores que já ganharam concurso, recebi mensagem de produtor falando dessa forma - Nossa como o clube tá me dando muito mais visibilidade do que deu quando ganhei o concurso. - Então essas coisas que motivam a gente a cada vez mais a gente ter esse contato cada vez mais próximo com o produtor. A gente hoje faz questão de ir pessoalmente, tirar foto, fotografar a lavoura sempre mostrando o produtor e pegando ao fundo a propriedade, mas sempre mostrando o produtor. Com esse modo de pensar o clube, Salomão e Daví perceberam as mudanças acontecerem tanto na vida do pequeno produtor, como no trato que o mesmo passou a dar em suas lavouras. Para Davi o primeiro passo foi a conscientização. - Primeiro passo é o produtor se conscientizar do que é o café especial, do que é qualidade. Acho que tudo começa quando o produtor começa… quando vem uma faísca de qualidade na mente dele, ele começa a pesquisar sobre aquilo e ele muda a mentalidade dele em prol de trabalhar qualidade. Salomão destaca também o acesso a informação. - E o acesso á informação também, são os clubes, as cooperativas, tudo isso vai agregando o conhecimento do produtor e

ele vê onde ele pode chegar também. A perspectiva do produtor que aumentou muito, a visão dele, o conhecimento que chega até ele. Então ele vê que pode ser melhor, que pode fazer melhor. Davi destaca o reconhecimento para o produtor - Esse ganho tem a parte financeira sim, porque o café especial remunera melhor, mas tem muito a parte de reconhecimento do trabalho, que é onde que eu acho que o pessoal mais gosta se for olhar. Porque o produtor é tratado muito como uma commodity. Ele não tem nome dele. Só café, ele procura lá quem compra, mas nunca que o nome dele vai pra frente. Só um café e os outros que são o nome. O café especial traz isso para o produtor, a valorização do nome dele. Tudo isso aconteceu com a terceira onda. A valorização de tudo que ele faz ali para sair na xícara. As mudanças sociais e culturais trazidas com a terceira onda são evidentes e perceptíveis. Tradições são mantidas, paradigmas quebrados, uma nova mentalidade.


Os irmãos Salomão e Daví


Fotos: Arquivo Café Salomão


DA COZINHA À LAVOURA

“É curioso, que anos depois, a gente tá bebendo o nosso café, na nossa varanda, entendeu? Isso é um negócio fantástico!”


Da cozinha à lavoura “Só pode senti-la fresca, mas não pode ver sanguínea a madrugada. Já está com a panela no fogo, fervendo a água com um pedaço de rapadura, para coar o café. E já está separando as vasilhas. ãs vezes, preparando uma broa para assar a tempo de sair com o café. É preciso dar café ao seu homem, antes que este saia para o trabalho na lavoura.” Subi e desci serras, percorri estradas, conheci produtores e contei um pouco de suas histórias. Mas o trabalho não se encerra aqui, é preciso falar delas, das mulheres do café. Elas estão sempre presentes, desde o início de tudo. Na versão romântica da chegada do café ao Brasil, era a mulher do governador da Guiana Francesa que presenteava Palheta com grãos da cobiçada planta. Na meação, apesar de a mulher não poder mear terras, o homem, se solteiro fosse também não seria meeiro. Nas lavouras e sítios que visitei, elas estão sempre ali, bem perto, atentas, observando e ouvindo. Voltei o olhar para elas e as descobri além da cozinha, além do cuidado com a casa, com os filhos e com o marido, as descobri produtoras. Da Alemanha para Conceição do Carangola A busca me levou primeiro à Conceição do Carangola. Uma comunidade também incrustada no outro lado da Serra do Caparaó

no município de Carangola. Lá encontrei Julenia Lopes e seu marido Helmut, um alemão, sério e de pouca conversa no Sítio Boa Sorte . Neta e filha de cafeicultor, foi morar na Alemanha e depois de anos, retorna ao seu lugar. Julenia, que já estava me aguardando, com um sorriso, logo perguntou: - Não se perdeu no caminho? Isso porque ao explicar como chegar à sua propriedade, ela indicou algumas direções e no final, disse, “lá você pergunta onde eu moro que todo mundo me conhece”. Essas mineirices! O convite a seguir, não foi para um cafezinho, mas para acompanhar ela e o marido até o vizinho, em uma outra propriedade, onde ela iria buscar um café que havia deixado para selecionar. Entramos na Kombi e lá fomos pela estrada de terra, cheia de curvas, buscar as sacas de café. No caminho, Juleina, muito falante contava um pouco do seu trabalho enquanto vereadora, casas conquistadas para pequenos produtores com o Minha Casa Minha Vida Rural. Chegando ao nosso destino, ela já assume a frente e encontra com um aqui, da instruções, outro chega e tira dúvidas e no meio masculino, Juleina lidera. Depois de conferir o café e passar instruções sobre as demais etapas do processo, sacas na Kombi e de volta pra casa. No caminho, paramos no Zezinho da Padaria, uma mistura de padaria com quitanda, muito bem cuidada, à beira da estrada, no meio do

nada e com a melhor caçarola, um tipo de pudim com queijo parmesão e coco ralado, que já comi. O Zezinho tem de um tudo para atender os vizinhos. Paramos no caminho no terreno onde sendo construída a nova sede da associação dos produtores que, por sinal é presidida por Juleina. Logo o pedreiro, que também é produtor vem ao nosso encontro. Juleina confere o andamento da obra, da orientações, verifica as horas que outros produtores cederam para a construção da sede e que depois serão abatidas nos serviços, como a utilização do torrador comunitário, que a associação presta para os cafeicultores. Depois de tratar todas as questões, retomamos o caminho. Depois do almoço, a caçarola como sobremesa e saboreando um excelente café, ela contou um pouco da sua história e já logo foi indicando o responsável por ela se tornar cafeicultora. - A culpa é dele (aponta para o marido)… Eu era professora de inglês! - Ele veio conhecer o Brasil, viemos em dezembro de 2006, passar o Natal aqui. Chegamos aqui, aquela coisa de dezembro chuvoso, muita chuva mesmo e meus pais, dos onze irmãos foram os primeiros a morar na cidade. Mamãe, foi a primeira que vendeu o pedaço (terras) dela e foi morar na cidade, perto da sogra. Então, chegamos do Rio e fomos pra casa da mamãe e lá ela liga pro meu tio aqui e fala:

- Juleina tá aqui, com o marido… - Ah, tem que vim cá, tem que fazer um frango caipira pra ele - E meu pai, criado na roça, adora um franguinho caipira, disse: - Vamos sim. - E tá que chove e chove, choveu a noite inteira… e meu irmão de manhã, horrorizado… - Num vou levar Helmut lá não, né possível, naquelas estradas horrorosas de Conceição… - Não queria colocar o carro dele na estrada, Helmut pediu para mostrar o caminho que ele ia, tá acostumado a dirigir na neve… por que tava escorregando… E viemos nós, de Carangola pra Conceição. O carro escorrega prum lado, pro outro e ele rindo né… E ao mesmo tempo olhando assim maravilhado. Então quando chegamos à casa do meu tio pra almoçar, tava aquele serenim e esse homem só fotografando, ficou encantado com esse verde. Tinhamos pensado em comprar uma pousada, mexer com turista alemão, aquelas coisas e o Helmut… - Que praia o que, praia você vai lá, descansa um dia, dois. Agora, realmente, lugar pra viver é aqui! - E o que ele gostou foi que já tinha dez mil pés de café plantados aqui e esse sistema de meeiro, que em certos cantos de Minas ainda é uma coisa maravilhosa, como aqui nessa região. Essa história de meeiro, que você divide a produção, atraiu muito.


Depois de comprar o terreno, era hora de começar os preparativos para a mudança. Helmut já estava com o processo de aposentadoria finalizando, faltando apenas alguns detalhes, como aguardar quem o iria substituir o que logo aconteceu. Enviaram por navio parte da mudança e vieram para o Brasil. Se para Juleina foi o retorno ao seu lugar, para Helmut foi a descoberta de um novo que se tornou seu. - Eu tirei uma licença de dois anos na escola, faltavam dois anos para eu me efetivar, licença sem vencimento… E eu achei que ele não ia se adaptar, Helmut não vai adaptar. Mas não tem como , a gente vai na Alemanha quase todo ano, chega lá com uma semana ele quer voltar, o lugar que ele fala, o lugar dele é aqui, ele gosta mesmo daqui. Isso foi uma virada na minha vida. Sou agricultora. E ele nunca fala que é médico, quando perguntam pra ele, ele diz “ sou produtor rural”. Se no início, vemos o papel da mulher de forma velada e à sombra do homem, apenas como figurante, começamos a ver outra história que está sendo escrita, a da mulher como protagonista. Como sempre tomou cafés excelentes na Alemanha, ela se perguntava se no sítio seria possível ter um café daquele. Anos depois como ela mesma diz, está tomando especial, colhido em seu próprio sítio sentada na sua varanda. - É curioso, que anos depois, a gente tá bebendo o nosso café, na nossa varanda, entendeu, isso é um negócio fantástico…

Nunca pensei em mexer com café, nunca pensava em produzir. Chegando à Conceição e se empenhando na sua lida, os talentos de Juleina como líder e administradora são descobertos pelos produtores locais que logo a convidam para integrar o quadro da diretoria da associação que havia sido fundada pelo seu avô. Na diretoria da associação, Juleina descobre possibilidades e deixa sua marca. - Na associação descobri novas possibilidades, o que uma associação pode fazer por uma comunidade, pelo produtor. Então veio a ideia do torrador, da gente conseguir um torrador pra comunidade, aí uma ideia vai puxando a outra. Aí você ganha o torrador, torrador, torrador comunitário. A comunidade pose usar, paga o valor mínimo, para ajudar os rapazes lá que tão trabalhando. Então surge, a curto prazo, vamo torra o café de todo mundo, a longo prazo, vamos criar uma marca coletiva. Quando tomou conhecimento do Certifica Minas, Juleina chama o marido e se inscreve no programa para se aprimorar na produção do café. E logo além dela já eram mais 22 produtores que estavam interessados em aprender e produzir um café especial. Helmut tem a ideia de implementar em Conceição o mesmo que já havia visto na Alemanha, que são pequenos produtores de vinho que se unem e produzem um vinho com a marca porém tem um rótulo atrás identificando quem é o produtor. A ideia deu

certo. Mas o café precisava de um nome. Apesar de gostarem do nome Conceição, Juleina já pensando na linguagem digital, para não ficar CONCEICAO, sugere um concurso na escola da comunidade para a criação da marca e não poderia ter nem cedilha e nem til. Como a maioria dos moradores da comunidade tem um grau de parentesco, os participantes do concurso deveriam usar pseudônimos. E o nome escolhido foi Fruto Fino, do aluno Alfa. Quando foi revelado quem era o aluno Juleina se surpreendeu. - A gente abre lá, fala que o nome que deu foi Fruto Fino, e fica: quem quem que deu essa sugestão? Aí tava lá Alfa. Menino, a danada da menina, falei, gente a Zilá! A Zilá é uma menina que admiro demais, uma meeira, pai meeiro, ele numa simplicidade, a menina com 14 anos, na quarta série primário, já sabe escrever, não precisa mais ir pra escola, o pai não deixou. Depois que ela casou, falou com o marido, uma coisa que ela queria muito era voltar a estudar, e ele deixou. Com 17 anos ela voltou pra escola, fazer a quinta série, admirada pelos professores. Ela vinha pra aula de manhã e de tarde ia ajudar o marido na lavoura. Ela colocou a definição do nome: “Fruto Fino, na minha mão de meeiro ele é fruto e na mesa do rico e do pobre ele é fino” . Ela fechou!! De fato mais uma história surpreendente, de uma vida transformada pelo café e mais uma mulher deixando a sobra e se tornando protagonista.

E o Fruto Fino começou sua trajetória. Por não usar agrotóxico, dentre outros projetos, foi o escolhido para estar com um stand na Copa do Mundo no Rio de Janeiro em 2014. Tem estado presente em feiras e simpósios e aos poucos ocupando seu espaço. Mas Juleina não para em sua luta pelas mulheres e o novo projeto é colocar o nome da mulher junto ao do marido no rótulo do café. Até então só aparece o nome do produtor e nunca o da produtora. Então descobri a IWCA - International Women’s Coffee Alliance (Aliança Internacional das Mulheres do Café)18. - A Aliança começou quando americanas e canadenses, na Costa Rica, foram numa região, onde o preço do café era tão ruim que os maridos iam pra cidade e as mulheres ficaram por conta da lavoura, então, essa aliança foi criada pra ajudar essas mulheres a produzir um bom café, pra ter uma renda, melhor, e dali foi pra Costa Rica, foi pra Nicarágua, foi rodando, foi rodando. Essa Aliança no início eram só países produtores, agora já tem países consumidores que são associados, Japão mesmo entrou, um dos maiores consumidores. A Aliança tenta mostrar, não é que a mulher é melhor do que o homem, tenta mostrar que a mulher existe. A realidade dentro da própria família fez com que Juleina se engajasse nessa luta, a de mostrar a mulher e o seu papel de extrema importância dentro de todo processo de produção do café.


JuLeina e Helmut


que eu vejo, aqui na nossa realidade, eu sei que as mulheres estão atrás. O café pra chegar na xícara ele passa por vários processos e é a mulher. Porque trouxe o café, o café tá no terreiro, o homem tem que continuar panhando, é claro, o homem tem a força dele. A mulher, tem que fazer a merenda, tem que fazer o almoço, tem que lavar a roupa e tem que tá ali, mexendo o café entre uma atividade e outra. O tempo, vai fechar, ela que corre pra junta o café e tapa. Isso faz ela ter uma participação muito importante do lado dele. É muito importante receber a premiação, café 85 pontos, café 90 pontos, aí chama o vencedor, produtor fulano de tal a mulher nunca é chamada. E eu tenho certeza que o fulano de tal não conseguiu aquele café, com aquela nota, sozinho. Quando eu tô num concurso desses eu grito, quedê a mulher dele? Quedê a família? Tem que subir todo mundo lá em cima! Tem que ser todos. Então quando o Helmut falou de colocar o nome do produtor eu disse o - da mulher primeiro. Então tem mulher que chorou ao ver o nome dela, tem marido que perguntou porque o meu nome em segundo, mas, são coisas que estão acontecendo aqui, que tão mexendo com o povo. É uma chance que a gente tem de chamar um pouquinho da atenção pra ela. E Juleina segue na sua luta. De forma tranquila, com o dom natural para liderar, foi conquistando a confiança dos produtores de forma natural. E foi organizando festas do

café e incentivando a produção de quitutes de café, promovendo concursos de café na região, buscando soluções como chamada pública para agricultura familiar, para que o produtor não dependa unicamente da colheita do café e assim possa fazer uma colheita mais seletiva, apenas do fruto maduro. Dessa forma, o café da região tem adquirido o status de especial, cafeterias do Rio de Janeiro, Campos - RJ e São Paulo já tem ido à procura desse café que vem tendo seu valor agregado aumentado. Se o café é valorizado, o pequeno produtor também é, e com isso o estímulo para produzir cada vez melhor. Não apenas o produtor, mas também sua principal parceira, sua mulher, que graças à iniciativa de Juleina, não fica mais apenas na cozinha, essa mulher tem seu nome inscrito na embalagem do café de Conceição do Carangola, o que sem o envolvimento e sua dedicação, não seria o Fruto Fino Fiquei por ali mais um tempo, a máquina de espresso soltando café enquanto proseávamos mais. Ouvi Juleina falando da varanda onde estávamos, que foi o lugar que ela e Helmut escolheram para viver, dos pés de café que chegam até a porta da cozinha, basta estender a mão e colher, do frio que faz na região e outras histórias que vão ficar para outra hora. A tarde já findava e eu ainda precisava percorrer alguns quilômetros de volta. A história das mulheres do café ainda tinha mais uma personagem que eu precisava

conhecer. Voltei para Manhuaçu e no dia seguinte peguei estrada novamente. Iria percorrer mais 108 km. Deixando a Serra do Caparaó iria até uma serra vizinha, a Serra do Brigadeiro. Vamos conhecer a concurseira.


“A sucessão familiar meu pai não fez pra mulher. Era só meus irmão que trabalhavam na lavoura.”


Se você pesquisar no Google pela cidade de Araponga, verá junto ao nome da cidade a foto de um casal com uma menina no colo. São Simone, seu marido ….. e sua filha… E não por acaso Simone está ali. A produtora de cafés premiados já se tornou referência na produção de cafés especiais. Simone também é a idealizadora da IWCA no Brasil e teve a oportunidade de organizar um encontro da Associação em Araponga. Mas, para alcançar o status que tem hoje, Simone enfrentou barreiras e quebrou tradições. - A sucessão familiar meu pai não fez pra mulher. Era só meus irmão que trabalhavam na lavoura. Eram três homens e dois voltaram pra cá, um ficou fora, mas, dois resolveram voltar e seguir ajudando ele (o pai) na cafeicultura e nós mulheres não. A gente vinha, mas, não foi feita a sucessão pra gente. Meu pai nunca me ensinou plantar café. Levava café, lá em Viçosa pra vender, a gente fazia coisas com contador, mas, ele queria que todo mundo estudasse, pra ser alguém tinha que estudar e não ser cafeicultora. A tradição de que para ser alguém não podia ser produtor. Por anos, principalmente na cafeicultura, o pequeno produtor nunca foi alguém. Desde sempre, na cultura patriarcal brasileira, para ser alguém era preciso ser doutor. Para mulheres ainda era mais difícil pois estas eram educadas para serem esposas, cuidarem do marido, da família, não se pensava em mulheres produtoras.

Para o pai de Simone, as filhas nem mesmo poderiam buscar uma formação acadêmica que fosse ligada à cafeicultura. - Aí quando eu fui estudar, falei que queria fazer agronomia, ele disse que não queria filha dele com isso, acho que na verdade era mais machismo, com medo da filha envolver com trabalhador… Não sei o que que era isso, ele nunca quis a gente… Todas mulheres, loiras, bonitas… Ele não queria a gente naquele meio… Era muito mais machismo do que… Eu num sei, nunca conversei com ele, nunca tive oportunidade de falar com ele sobre isso né… Então meus irmãos todos fazem, todos tiveram sua propriedade antes , antes da gente, antes da herança ele contribuiu, ajudou, como pagamento ele deu a eles uma propriedade e a gente teve que desbravar mesmo. Ainda um outro relato me surpreendeu: - Aí quando a gente ganhou, tinha até aquela história de que mulher não tinha direito a herança, que era só o homem que tinha direto a herança, teve até alguns comentários… Lá em casa não, não tivemos atritos, nossas porções muito bem definidas, minha mãe sempre muito positiva, ela fez a partilha da forma que ela achou mais justa, ela foi muito sábia. Dois tiveram direito a escolha, o que eles queriam na propriedade, porque eles tiveram aí, ajudaram mais, mais presentes, foi justa e todo mundo teve café e água para continuar, ela disse:

- Minhas filhas, se você não tem dinheiro pra investir, o café vai te dar. A sabedoria e os conselhos de sua mãe fizeram diferença na vida de Simone. Seguindo os conselhos, ela rompeu com paradigmas, investiu na produção e venceu. - E hoje eu acho que é um sucesso, eu não me vejo mais fora do café. Mas, Simone ainda enfrenta barreiras e preconceitos pelo fato de ser mulher. Barreiras que segundo ela são rompidas dia a dia. Mesmo sendo uma família sem atritos, questões ligadas à cultura patriarcal e machista ainda existem e que também são contornadas e resolvidas. Porém, o maior orgulho de Simone estava ali, bem perto, sentada no fundo do restaurante da família, sua filha Hélen. Simone tem duas filhas, Helen e …. . Helen já se manifestou afirmando que ela quem vai cuidar e dar seguimento na cafeicultura. Simone abre um sorriso e conta: - A de 12 anos já falou assim: - Olha mamãe eu vou ter que enfrentar isso tudo, pelo que eu tô vendo a minha irmã já foi, já saiu e quem vai ter que assumir esse negócio do café sou eu porque se não isso tudo vai se perder. Se o pai não preparou sucessão para as filhas, Simone e o marido fizeram o processo inverso, romperam as tradições da família, pensam nas filhas e em prepará-las para assumirem a produção. As barreiras vão além da família, a

cidade, como diz Simone, tem muitas vaidades. Quando ela e o marido, em busca de uma vida mais tranquila, voltaram e assumiram definitivamente a cafeicultura, chegaram com uma nova visão e implementaram mudanças profundas na sua propriedade. Já com conhecimento da terceira onda, eles entendiam que para produzir um café de qualidade não bastava fazer mudanças apenas no manejo da lavoura, mas, sim em todo o processo, desde o caseiro, que precisava de condições dignas, como uma casa com melhores condições, um padrão de vida melhor, escola para os filhos até os apanhadores de café, que além de receberem melhor capacitação, precisavam ser melhor remunerados. Essas mudanças se tornaram conhecidas em toda região e mais uma vez barreiras foram vencidas e paradigmas quebrados. - O embarreiramento existe, meu marido não é muito do social, ele gosta de ficar lá na roça, se precisar roçar ele roça, se precisar podar ele poda. Mas, o social, ficar aqui e resolver as coisas, isso sou eu. Nós definimos bem os papéis na família por que, eu tenho negócios com ele, com minhas filhas, então precisamos definir isso porque se não o casamento acaba. Simone ri, sorve mais café e continua: - Então eu que fico com a parte de preparo de amostras, gosto disso, não dou mais pra ninguém preparar minha amostra, olha que loucura, eu mandar minha amostra,


E a cultura de que mulher não é produtora permanece mas, aos poucos Simone vai se impondo no mercado. - Eu faço os contatos para vender o café… Você acredita que tem comprador que liga querendo comprar do meu café e depois retorna procurando meu marido pra fechar? Aí eu falo, não, é comigo mesmo, eu sou a produtora. Aos poucos essa coisa vai melhorando né? Porque a mulher, quer queira quer não, ainda é tudo diferente pra gente, o salário é diferente… Eu ajudo em tudo, eu trabalho no despolpador, eu busco apanhador, eu levo apanhador… né… Só não panho café porque não é minha praia. Eu lido no terreiro com aquilo que eu quero. Simone deixa claro, entre ela e o marido o que existe é uma relação de parceria e respeito mútuos. Ela busca capacitação e compartilha com ele e ele, mesmo com formação acadêmica como mestrado e MBA, busca esse compartilhamento. Papeis e responsabilidades definidos, segundo ela, quando não da certo, eles trocam de função. - Não tem vaidades mais. O primeiro prêmio de renome que ganharam, o Prêmio Ernesto Illy de qualidade do Café, foi em nome dela e para João, todo café premiado tem que ser em nome de Simone, a produtora de Araponga. O diferencial começa no fato de ser uma produtora e todo marketing é feito com isso. - Mas é o nosso café, da nossa propriedade. Mas a gente percebe, que tudo

que a mulher está na frente a organização é melhor. Ele tudo é na cabeça, eu, tudo no papel… vamos anotar, vamos anotar… né. Por que é tanta coisa que a gente tem, quer queira quer não, né… hoje mesmo minha filha ligou… mamãe, briguei com meu namorado… raramente liga pro pai e eles tem uma relação super bacana. Simone conseguiu estabelecer uma relação equilibrada dentro e fora de casa. Sem que fosse preciso abrir mão de suas convicções, seu desejo de sucesso. Não precisou se anular ou se omitir. Com a sabedoria herdada da mãe, dividiu com João o papel de liderança nos negócios da família e o principal, implementou no café Monte das Oliveiras o seu jeito de administrar, a sua personalidade. Ela já percebe a reversão no modo masculino e patriarcal das lavouras. - Agora eu estou vendo essa reversão depois da terceira onda, no quadro do café, olha só que bacana. Tem compradores querendo comprar café só de mulheres, tem querendo conhecer a história das mulheres, e não sou feminista não, não levanto bandeira de mulheres sozinha não, porque tem coisas que a gente tem limitação também. O homem tem as limitações e as mulheres tem. Na minha casa é uma parceria muito legal. Nós somos uma família que tinha um sonho, eu juntei ao sonho dele o meu sonho. É o nosso trabalho. A presença da mulher na cafeicultura sempre foi forte e de extrema importância. Apesar de pouco se falar sobre a mulher

produtora, elas existem sempre fizeram e continuam fazendo diferença no mercado. Como a lavoura de café é uma cultura familiar, seja na hereditariedade, seja na preservação das tradições, temos uma corrente e se um dos elos dessa corrente se rompe, a produção falha. Simone define bem a evolução do papel da mulher na cafeicultura. - A cadeia não é só um elo é uma corrente, a mulher, ou ela tá preparando a comida, para o homem estar lá na lavoura, ela levantou de madrugada e arrumou a marmita, cuidou do porco que ela vai matar pra sustentar, é uma corrente. Hoje tem muitas tomando a frente mesmo, antes a gente só ficava no terreiro, antes ficava na cozinha, preparando a comida, coando café, porque também precisa disso, porque se não como que a máquina funciona né, sem o combustível. Aí depois elas já foram pro terreiro e hoje tem um monte gerindo propriedade sozinha, com realização e cada uma do seu jeito. A organização da mulher é mais pertinente. No horizonte de Simone, além de projetos de crescimento e solidificação do seu café, estão também os de desenvolver trabalhos sociais com as mulheres da região, capacitar e promover uma mudança de mente. - Desenvolvendo projetos sociais, mudando a visão delas, elas entenderem que tem uma mudança social, o café e a mulher, ela leva a família, você vê minha, não é por causa do pai dela, eu acho, é mais por causa

de mim. Você vê que o café transforma vidas, se você empoderar a mulher pra seguir junto com o marido, consegue… Isso que eles precisam entender. Deixamos o pequeno restaurante e subimos um pouco mais a Serra do Brigadeiro, fomos conhecer a lavoura da família. Simone lembrou histórias da infância, a lida no terreiro, todas as suas lembranças estão ligadas à lavoura, os aromas, as cores. - Não existe coisa mais linda do que o cafezal florido. Quando eu abro a porta e vejo o cafezal florido eu grito, João, João, tá florido o cafezal… No dia, quando eu abro a porta, o cheiro é tão forte, invade tudo, dá até dor de cabeça, cítrico, o cheiro é diferente, o aroma é diferente Esse cheiro invade tudo e na minha memória vem as lembranças de quando papai levava a gente pro terreiro e a gente ficava ali, brincando, correndo no meio do café empilhado, aí quando o tempo fechava e ameçava chover, ele chamava todo mundo pra ajudar a tapar o café, a gente ia, fazia aquela festa. Na verdade brincava mais que ajudava né.... Papai ficava bravo, mas criança já viu, nem liga, quer mesmo é brincar, fazer farra. Ela fala das mudanças, e orgulho de colher um café que no final alcança uma classificação de 90 pontos. Ela mostra inovações e modos diferenciados de cuidar do café. Da varanda de sua casa ela mostra sua lavoura e fala do novo projeto, conciliar o plantio de oliveiras com o café. Descemos para a cidade


Com a terceira onda, a demanda por cafés especiais tem crescido dia a dia. A mulher com sua forma diferenciada e mais atenta aos detalhes tem contribuído para a melhoria da qualidade do café. Assim como Simone outras mulheres tem buscado garantir a hereditariedade para as filhas e com isso continuar a luta diária pela quebra de tradições e paradigmas. Continuam na luta. Quando mulheres são empoderadas, quando mulheres tem oportunidades, quando mulheres são respeitadas e valorizadas tanto por seus pais como por seus maridos, rompese uma tradição machista de opressão e submissão. A herança transmitida não é mais a de subserviência. A mulher assume seu papel e seu lugar de direito, o de ajudadora, parceira, companheira. Quando mulheres são empoderadas e valorizadas, temos famílias mais saudáveis.


Simone e JoĂŁo


A xícara perfeita Foram meses de pesquisa, 22 dias de estrada e 2026 quilômetros percorridos entre idas e vindas, por asfalto, estradas de terra estreitas e cheias de curva, subindo e descendo as serras e claro, tomei muitas xícaras de café. Conhecemos produtores e suas famílias, suas histórias, seus sonhos e planos. O café possui uma longa trajetória e sempre ligada à memória. A minha paixão pelo café também vem de família. A ligação vem de bisavô que foi produtor e avô que por muitos anos trabalhou com torrefação. Parte da família é de Alto Caparaó. As histórias ligadas ao café sempre estiveram presente. O café é isso, é história. O café não é simplesmente algo que sai do campo e vai para a mesa, é mais, muito mais. O aroma do café fresco, sendo preparado, seja na mais requintada cafeteria com seus métodos sofisticados ou na casa mais simples, do meeiro, lá no alto da serra, sempre traz lembranças. Quem nunca teve lembranças despertadas pelo cheiro do café? Quem nunca se lembrou da infância, levantar cedo para ir à escola ou de ver a família reunida em torno da mesa de café? Em toda e qualquer circunstância o café está ligado a lembranças, a família. Em uma xícara de café não tem apenas uma bebida. Em uma xícara de café tem história, tem lutas, tem o Celinho que caminha pelo cafezal com sua filha, tem o Claiton que com seu café premiado hoje surfa na terceira onda, tem o Gean, orgulhoso com o pacotinho de café que carrega o seu nome, tem a Juleina que reencontrou seu lugar e tem a Simone na sua busca pelo empoderamento da mulher. Todos com histórias ligadas ao café, todos tiveram suas vidas transformadas pelo café. A valorização do pequeno produtor, tem sido maior a cada dia. O discurso que se houve nas lavouras de café é diferente. Já não querem mais deixar o campo, querem sim passar para os filhos e filhas que não precisam mais deixar o seu lugar para ser alguém. Não, o que se fala com orgulho e cabeça erguida é: Eu sou alguém porque eu sou produtor. O café é muito mais que uma bebida que se sorve, isso mesmo, o café não se bebe, se sorve enquanto desfruta não apenas do sabor, da energia, você sorve aromas, memórias e histórias, um valor, o trabalho de uma família que cuidou para que chegasse até você uma xícara perfeita. Aceita um cafézinho?


Notas

1.Fontes: - GURGEL, Miriam. Café com design: a arte de beber café. Editora SENAC, São Paulo 2015. 213 p. - COUTO, Anderson. Café é para os fortes. Editora Belas Artes, Caxias do Sul, 2017. 109 p. - BARBOSA, Vivaldo. Meeiros do café: gente e ocupação da zona proibida do caparaó. Editora Revan, Rio de Janeiro, 2009. 474 p. 2.A primeira onda teve início na década de 1940, após a Segunda Guerra Mundial, com o crescimento das vendas de café torrado, do tipo comum, nos mercados. Foi a era do café solúvel, da máquina automática com coador, uma nova tecnologia para a época. Mas o café tinha baixa qualidade, com defeitos e impurezas. Era consumido mas não apreciado. Se na primeira onda beber café ficou popular, na segunda havia o desejo de melhorar a qualidade da bebida e dos hábitos de consumo. Eram os anos 1970, a vez das cafeterias. Tomar café virou uma experiência a ser apreciada, embora ainda não rolasse um interesse do consumidor pela produção dos grãos e os modos de preparo da bebida. A terceira onda. É a onda do momento, marcada, principalmente, pela descoberta dos cafés especiais. Os consumidores começaram a se envolver mais com a cadeia do café, da plantação à xícara, buscando informações sobre seleção de grãos, criação de blends (mistura de grãos). níveis de torrefação para ressaltar as características de diferentes origens, tipos de moagem, métodos de preparo e modos de servir a bebida. 3. Bebida com sabor forte e desagradável, lembrando iodofórmico ou ácido fênico http://revistacafeicultura.com.br 4. As commodities – ou commodity, no singular – é uma expressão do inglês que se difundiu no linguajar econômico para fazer referência a um determinado bem ou produto de origem primária comercializado nas bolsas de mercadorias e valores de todo o mundo e que possui um grande valor comercial e estratégico. Geralmente, trata-se de recursos minerais, vegetais ou agrícolas, tais como o petróleo, o carvão mineral, a soja, a cana-de-açúcar e outros. https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/commodities.htm 5. COUTO, Anderson. Café é para os fortes. Editora Belas Artes, Caxias do Sul, 2017. 109 p.

6. Bebida de sabor e odor intoleráveis ao paladar ao olfato. http://revistacafeicultura.com.br 7. Um contentor ou container é um recipiente de metal ou madeira, geralmente de grandes dimensões, destinado ao acondicionamento e transporte de carga em navios, trens etc. É também conhecido como cofre de carga, pois é dotado de dispositivos de segurança previstos por legislações nacionais e por convenções internacionais. https://pt.wikipedia.org/wiki/Contentor_(transporte) 8. O termo “microlote” está ligado à terceira onda dos apreciadores de café. Estes pequenos lotes têm garantia de origem, qualidade e excepcionalidade. https://www.graogourmet.com/microlotes-de-cafe 9. O Certifica Minas Café é o programa de Certificação idealizado pelo Governo de Minas Gerais, executado pelo IMA, Emater-MG e Epamig – todos vinculados à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa). O Programa tem como principal objetivo a implantação de boas práticas de produção nas propriedades cafeeiras do Estado, de modo a aumentar a visibilidade e a competitividade do café mineiro nos mercados nacional e internacional. http://www.ima.mg.gov.br/certificacao/cafe 10. Cafés naturais são cafés colhidos e secos com a casca. http://abic.com.br/cafe-com/glossario 11. O Slackline é uma atividade física executada em uma fita estreita e flexível de nylon ou de poliéster, presa em dois pontos fixos, onde são realizados movimentos em cima dela, esses movimentos podem ser estáticos ou dinâmicos. http://blogeducacaofisica.com.br/tudo-sobre-o-slackline 12. Trabalhar a favor da natureza e não contra ela, associar cultivos agrícolas com florestais, recuperar os recursos ao invés de explorá-los e incorporar conceitos ecológicos ao manejo de agroecossistemas são algumas das características da Agricultura Sintrópica, mas não são exclusivas dela.Variações desses fundamentos podem estar associados respectivamente à Permacultura, à Agrofloresta, à Agricultura Regenerativa e à Agroecologia, por exemplo.


http://www.agendagotsch.com/agricultura-sintropica 13. Híbrido das variedades Coffea arabica, café Mundo novo com o Caturra, desenvolvido a partir dos primeiros cruzamentos efetuados em 1949 pelo geneticista Alcides de Carvalho, quando se procurou associar o bom vigor e a rusticidade do Mundo novo ao porte baixo e boa capacidade de produção do Caturra, pouco rústico. A colheita de seus frutos é bastante facilitada por seu pequeno porte (dois metros de altura), além de haver um melhor aproveitamento da área de cultivo. Sua produção é bastante precoce, sendo que sua primeira colheita se dá aos dois anos. Seus frutos podem ser vermelhos (Catuaí vermelho) e amarelos (Catuaí amarelo). http://www.reservagourmet.com.br/conteudo/cafe-catuai-o-que-e-cafe-catuai 14. O Filtro Hario pode ser encontrado em três diferentes materiais: cerâmica, vidro e plástico e todos tem um buraco grande na parte de baixo. O buraco maior que os tradicionais filtro da Mellita faz com que a infusão do pó com a água passe de maneira constante. O segredo dessa método está na técnica de passar a água quente pelo cone da V60. Ao invés de simplesmente jogar toda a água a técnica consiste em derramar gentilmente em movimentos circulares molhando todo o pó. https://mokaclube.com.br/conteudo/hario-v60 15. É no processo de torra que, por meio das altas temperaturas e do tempo em que o grão é submetido, os sabores e aromas dos cafés especiais se desenvolvem. Além disso, essa etapa determina características como corpo, acidez e equilíbrio e finalização da bebida.o mestre de torra, ao olhar o grão, já sabe se vai ser uma torra clara, média ou escura. A torrefação é responsável por conservar quase 99% das características sensoriais do café. https://g1.globo.com/es/espirito-santo/especial-publicitario/realcafe/realcafe-reserva-sensacoesque-aquecem/noticia/ciencia-e-arte-a-torra-de-um-cafe-especial.ghtml 16. Termo de origem italiana que designa o profissional conhecedor da arte de preparar corretamente os cafés, principalmente o espresso, cappuccinos e bebidas à base de café. http://abic.com.br/cafe-com/glossario/ 17. Um avaliador Q (de qualidade) é um profissional de degustação e classificação de cafés que recebe uma certificação mundial ligada ao Instituto de Qualidade do Café (Coffee Quality Institute

CQI). http://bsca.com.br 18. A Aliança Internacional das Mulheres do Café - IWCA Brasil é um capítulo da IWCA (International Women’s Coffee Alliance, em inglês), organização sem fins de lucro que foi criada em 2003 a partir do encontro de mulheres da indústria do café dos Estados Unidos com produtoras de café na Nicarágua . A metodologia da IWCA é o “success through localization”, quer dizer, através da criação de capítulos nos países produtores e consumidores. Atualmente existem capítulos em 22 países de todo o mundo e diversos outros já manifestaram a intenção de criar os seus. A visão da IWCA é dar visibilidade às mulheres em toda a cadeia do negócio café. http://www.iwcabrasil.com.br/iwca

Ilustrações 1. Pastor Kaldi http://www.ourodekaffa.com.br/ 2. Grão de café https://www.istockphoto.com/br/vetor/%C3%ADcone-de-linha-do-feij%C3%A3o-decaf%C3%A9-gm911322142-250930159


A Xícara Perfeita - Cafés, aromas, memórias e histórias  

Memorial fotográfico sobre a terceira onda do café e as mudanças sociais na Zona da Mata de Minas

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