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JUNHO/JULHO 2013 • NÚMERO 11 • FAMECOS/PUCRS • WWW.PUCRS.BR/FAMECOS/EDITORIAL J

Escadas abandonadas Caroline Ferraz (4º sem.)

Relato íntimo de uma marcha Editorial J se mistura aos manifestantes na Capital Guilherme Testa (5º sem.)

PÁGINAS 8 E 9

Má conservação das passagens para pedestres em Porto Alegre é sinal de descaso da prefeitura com espaço público CENTRAL

A resistência dos cines pornô Locais seguem abertos apesar da virtualização da pornografia PÁGINA 3


Jornal mensal da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Avenida Ipiranga, 6681 Porto Alegre/RS PUCRS Reitor Ir. Joaquim Clotet Vice-reitor Ir. Evilázio Teixeira Pró-reitora Acadêmica Solange Medina Ketzer

papo de redação

Busca por apuração

FAMECOS Diretor João Guilherme Barone Reis e Silva Coordenador do curso de Jornalismo Fábian Chelkanoff Thier Coordenadora do Espaço Experiência Denise Avancini Coordenador do Editorial J Fabio Canatta Coordenadora de produção Ivone Cassol Projeto gráfico Luiz Adolfo Lino de Souza e Núcleo de Design Editorial/ Espaço Experiência Professores responsáveis Alexandre Elmi, Fabio Canatta, Flávia Quadros, Geórgia Santos, Ivone Cassol, Marcelo Träsel, Marco Villalobos, Paula Puhl, Rogério Fraga e Tércio Saccol Alunos editores Anna Cláudia Fernandes, Bruna Lopes, Caio Venâncio, Douglas Roehrs, Gabriela Cavalheiro e Lorenço Oliveira Alunos repórteres Augusto Lerner, Bárbara Moreira Pacheco, Bárbara Nobrega, Bibiana Borba, Bibiana Saldanha, Bruna Lodi, Carolina Guterres, Caroline Ferraz, Edison Caap, Eduarda Amorim Fraga, Flávia Carboni, Fernanda Ponciano, Flávio Tavares, Gonçalo Valduga, Greta Paz, Huanza Aidos, Jéssica Mazzola, João Carlos Dienstmann, João Arroque Lopes, Kátia Almeida, Laísa Mendes, Laís Auler, Lívia Auler, Leonel Frey Chaves, Lucas Etchenique, Luiza Muttoni Rodrigues, Marcelo Coelho, Marcelo Chinazzo, Marcelo Frey, Maria Helena Viegas, Mariana Mascarenhas, Marina Teixeira, Matheus D´Avila, Matheus de Jesus, Matheus Wink, Nathália Carapeços, Nathália Pádua, Nathália Rech, Paulo Guilherme Alves, Pedro Corazza, Paula Cé Martins, Rafael Macedo, Rafael Silva, Raissa Guagliardo, Renata Ramos, Ricardo Miorelli, Suzy Scarton, Thamíris Mondini, Tyssiani Vidaletti, Victor Rypl, Vinícius Fernandes, Vítor Rosa. Impressão: Apoio Zero Hora Editora Jornalística

Laboratório convergente da Famecos www.pucrs.br/famecos/editorialj

Greve da Carris causou transtornos aos passageiros no dia da paralisação, com muitas linhas atingidas P O R Thamíris Mondin (3º sem.)

tão claro nas fotos e áudios quanto na minha percepção. A suspeita de uma suposta privatização de linhas radiais da O repórter é visto como meempresa estatal causava maior diador, está nos locais para apreensão. Este temor era mais mostrar a quem não está. Para forte nos líderes do que em seus quem se envolve na apuração liderados, muitos perdidos e dos fatos, é difícil capturá-los surpresos, embora só com câmeras e aderentes à paraligravadores, ignosação. O medo era rando sensações. um termo ainda não Na cobertura A curiosiexposto nos veículos da greve da Carris, dade sabe de comunicação, mas dia 24 de maio, saí estava claro que era de casa antes das ser discreta, essa a causa princi7h, apetrechada os cliques, pal da greve. com um gravador, No meio da mauma câmera amanem tanto. nhã, veio o anúncio dora e a curiosida reunião na prefeidade em relação tura. Os manifestantes às reivindicações já haviam conseguido paudos grevistas que tas suficientes para preencher a já surgiam na mídia, como a não ata que promoveria o encontro obrigatoriedade do uso do cinto com o prefeito e os presidentes de segurança. Parecia o suficienda Carris e da Empresa Públite. Tinha de ser suficiente. ca de Transporte e Circulação Depois de chegar ao local (EPTC). Pareceu-me que a quesda manifestação, as impressões tão dos motoristas serem contráforam tão importantes quanto o rios ao uso do cinto de segurança uso do equipamento. As expresnão se justificava desde o início sões, a tensão, nada disso ficou

como reivindicação, estava lá do município. Hora de ouvir para engrossar o caldo das exias respostas para as questões gências e ajudar a discutir o prinda categoria amedrontada, que cipal, o medo de perder linhas permaneceu insatisfeita apesar para o setor privado, a insegudo diálogo. Na intenção de esclarança trazida com a licitação para recer e descartar qualquer ideia os corredores de ônibus rápidos de privatização, o presidente da e a garantia de salários diante da EPTC, Vanderlei Capellari, deisituação deficitária da empresa. xou escapar a informação de que Corri para chegar à prefeitura temos a presidenta da República em tempo de alcançar a reunião. entre os 300 acionistas privados Esgueirei-me para dentro do gada empresa de ônibus. binete do prefeito sem credencial Feitos os esclarecimentos e os ou equipamentos, o registros, sobraram que não é tão difías sensações que, cil, é até mais fácil. às vezes, ficam de Entrei apenas com fora. Corri para a Confira a matéria a câmera simples e a redação do Editosobre a paralisação de intenção de sentir e rial J. Participei do linhas da Carris aqui: registrar o clima do programa da rádio encontro. Foi feito. Famecos Cast e A curiosidade finalizei a matéria sabe ser discreta, para a publicação os cliques, nem tanna web. to. Fui gentilmente A matéria, as convidada a me reinformações e as tirar e assim o fiz. imagens podem ser Já levava comigo as acessadas pelo QR sensações e os registros. Code publicado nesta página. Ao final da reunião, vieram Parte das impressões da repórter as entrevistas com os gestores estão aqui.

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desejo

Cines pornô resistem BUSCA POR PRAZER E SEGURANÇA MANTÉM ESTABELECIMENTOS ABERTOS muitos acima dos 40 anos, usando óculos e vários com excesso de peso, mostram-se incomodados ao conversar. Não gostam de impática, a atendente do Cine falar sobre a atitude. Ao chegar, o frequenAtlas, localizado na Avenida Júlio tador pode ser surpreendido por outro de Castilhos, Centro Histórico de cliente, que em menos de um minuto senPorto Alegre, entrega uma ficha, ta-se ao seu lado. Não há diálogo, apenas a igual àquelas de mesa de sinuca, para o espera por uma rápida troca de olhares ou cliente cruzar pela antiga roleta. Na parte outro movimento qualquer que dê a entenexterna, o prédio passa despercebido. No der que o toque é consentido. seu interior, uma sala grande, escura, proZago considera o excesso de moralismo jeta filmes das 10h, quando abre, até as 21h, e a repressão na sociedade um dos fatores horário em que geralmente fecha. que produzem o chamado “cinemão”. A atiO som é baixo e a imagem da projeção, tude das pessoas estaria excessivamente disem qualidade. Após a exibição, quase vidida entre relação estável monogâmica ou cinco minutos se passam até a próxima. sexo rápido e casual. “A divisão dos espaços O aviso de que o DVD tem uso apenas de sociabilidade impede entendoméstico não é notado dermos que as pessoas circulam por parte das pessoas, que por vários ambientes, por vários pouco se importam com o espaços, e o fazem por várias rafilme. Estão ali em busca Penso zões, experimentando múltiplos do contato sexual fortuiprazeres”, completa. to. Segundo a atendente, que há o No Cine Atlas, clientes cacom 13 anos de experiência prazer da minham entre a sala e os dois em bilheterias de cinemas banheiros. O primeiro quase que exibem filmes pornoexcitação sempre com a luz brilhando, gráficos, cerca de 80% do coletiva.” acesa por um sensor de mopúblico é composto por hovimentos. O segundo, menor, mossexuais. Os demais são Luiz Felipe Zago é usado por pares que querem heterossexuais solteiros privacidade; eles deixam a porta ou, raramente, casais. fechada. O cheiro forte do banheiro O que se busca nestes – combinação de odor de hospital com lugares? A explicação é atribanheiro público – às vezes se mistura à buída ao que alguns especialistas chamam fumaça de cigarro. de colonização do medo. Tais ambientes, Outros locais semelhantes, como a assim, tornam-se uma alternativa para Athenas Vídeo Locadora, oferecem difeobter prazer e, ao mesmo tempo, estar prorentes atrativos. Além das salas de cinetegido, analisa o doutor em Educação pela ma, há show de strippers, videolocadora, Universidade Federal do Rio Grande do darkroom e cabines de exibição individuais. Sul (UFRGS) Luiz Felipe Zago. No Brasil, Dividido em três andares, o estabeleciem 2012, foram assassinados 338 homosmento, abrigado em um prédio velho, é sexuais, segundo dados do Grupo Gay da grande e constantemente limpo. Os longos Bahia. Um homossexual morre a cada 26 corredores mal iluminados levam às salas horas no país, número 21% superior em de pequeno e médio portes. O vaivém dos relação a 2011. frequentadores é constante. Muitos, devido a este problema, preUm dos clientes, alto, careca e de fala ferem nem ao menos sair de casa, satisfaarrastada, conta que já foi casado, tem uma zendo-se apenas com o uso da pornografia filha e não pensa em se unir a um homem, virtual. Por outro lado, o medo não é o único já que conhece o mundo gay e considera chamariz dos cines pornô. “Há o prazer o conceito de fidelidade inexistente. Com da excitação coletiva, em acessar um lugar uma criação que enfatizou a tradição, afironde se compartilharão experiências de ma nunca ter traído sua esposa, enquanto prazer corpóreo com outros indivíduos”, estava casado. Quando perguntado por que acredita Zago. decidira frequentar tal ambiente, ele é enfáO sentimento de prazer muitas vezes se tico: “Segurança”. alia ao de vergonha. Os clientes do lugar, P O R Douglas Roehrs (5º sem.)

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Gulherme Testa (5º sem.) JUNHO/JULHO DE 2013 • PÁGINA 3


apanhador

“A música é minha forma de comunicação” Janaina Marques (5º sem.)

P O R Betina Carcuchinski (1º sem.), Laísa Mendes (3º sem.) e Vitor Rosa (2º sem.)

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epois de lotar dois shows no Theatro São Pedro, a banda gaúcha Apanhador Só segue divulgando o disco Antes que tu conte outra pela internet. O novo álbum chama a atenção para causas sociais que refletem na vida dos jovens Alexandre Kumpinski (vocal/guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra), Fernão Agra (baixo) e André Zinelli (baterista), além de muitos jovens brasileiros. O Editorial J foi até a casa de Kumpinski para falar sobre o sucesso do novo disco, as dificuldades de ter uma banda independente e sua visão quanto às manifestações na Capital. A entrevista aconteceu de maneira descontraída, na sala onde os ensaios da banda ocorrem há mais de 10 anos. A seguir, os principais trechos: Editorial J – Qual foi a referência para compor o Antes que tu conte outra? Alexandre Kumpinski – Na verdade, não teve. As referências foram o que ouvíamos no momento. A gente não norteia a criação, deixamos fluir.

Para Kumpinski, CD da banda reflete momento atual

J – Vocês esperavam tamanha aceitação do público? Kumpinski – Há sempre uma dúvida toda vez que se lança um material sobre como será a aceitação das pessoas. No caso deste último álbum, mais ainda, porque foi uma quebra de expectativa. A gente era uma banda mais ensolarada, como já disseram, e, agora, vem com um álbum muito mais provocativo e agressivo. A gente tinha receio de que pessoas que gostaram muito do primeiro álbum não gostassem deste. Mas, não deixamos o medo nortear as escolhas artísticas durante a produção, porque não faria sentido mudar o que a gente estava a fim de fazer por conta de uma previsão de que não iria agradar. Focamos no disco que queríamos fazer e,

no final, o público recebeu muito bem. Parece que ao fazer algo sincero, tu comunicas o que realmente quer comunicar, isso parece ser mais absorvido pelas pessoas. J – As músicas que tu compões têm intuito de protesto ou são apenas por lazer? Kumpinski –Quando faço música, não necessariamente penso no que vai ser dito, nem em como será dito. A questão é que a música, a composição, é minha forma de comunicação, o meio pelo qual expresso minhas inquietações. No momento em que minhas inquietações pessoais passaram a ser mais políticas, as músicas, naturalmente, vieram com esse tom.

da alegria quando se manifesta contra a privatização dos espaços públicos, o cerceamento da liberdade de manifestação, o corte de árvores em favor de uma obra que não resolve nada do transporte público. A discussão não é entre a árvore e o progresso. É mais profunda, que tipo de urbanismo a prefeitura pretende? J – A divulgação do CD tem sido, principalmente, pela internet. Além disso, alguma rádio de Porto Alegre apoia, toca as músicas de vocês? Kumpinski –Rádio com programação livre é uma coisa muito rara no mundo inteiro. A Ipanema é uma raridade. Rádio de programação livre é aquela em que radialista bota as músicas que quiser, não tem diretriz, nenhuma lista de “as mais tocadas” que, normalmente, não são as mais pedidas, mas as que pagaram para estar na lista. Então, quando há programação livre, o radialista pode colocar o que quiser de Apanhador Só, por isso estamos na Ipanema. A cultura brasileira acaba norteada por quem tem grana para pagar, não há um desenvolvimento democrático, natural.

J – Esse tom político do novo CD tem relação com o momento de Porto Alegre, dos protestos, e disto estar muito vivo entre os jovens? Kumpinski – Totalmente. Eu sou um jovem da cidade, moro aqui, não tem como ficar fora disto. Algumas músicas, curiosamente, foram feitas um pouco antes dos protestos começarem a ir para rua mesmo, mas era algo que já estava no ar. As ideias começaram a fermentar. Algum amigo teu que compartilha no J – Se aparecer uma graFacebook um documentário sobre vadora, com os princípios de obsolescência programada, que vocês, assinariam contrato mostra como a indústria fode com com ela? o consumidor, com o meio amKumpinski – Não temos biente, tudo em nome de lucros nenhum interesse. Almaiores. Isso vai fergumas gravadoras mentando dentro na entraram em contahora que tu compõe. to dizendo que traA cidade está em balhariam como a Eu me movimento, isso me gente quisesse, que mudou como indivíidentifico podiam nos ajudar duo e, naturalmene a resposta foi que com causa te, minhas músicas não queríamos entambém. justa.” volvimento nenhum. J – Vocês têm Tivemos que discutir Alexandre simpatias partiinternamente, até Kumpinkski dárias? Particicausou alguns propam de movimenblemas entre parte da tos sociais? equipe de produção que Kumpinski – queria que tivesse esse enNão somos partidários. Eu me volvimento com as gravadoras. identifico com toda movimentaPor isso, foi uma decisão difícil de ção social horizontal, de prefeser tomada. No final das contas, a rência apartidária e que seja por gente decidiu que não queria enuma causa justa. É a defesa justa volvimento nenhum.

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Caroline Medeiros (4º sem.)/arquivo

Despirocar Faz tempo eu tô com azia Durmo mal, tenho alergia Quando acordo, nem bom dia E a ducha fria ainda me dói Em atraso permanente Escolho a roupa, escovo os dentes Abro a porta da frente e a luz do dia me corrói Então eu me pergunto, quando sobra algum segundo Em que eu reflito sobre o mundo, se funciona e coisa e tal Concluo que tá preta a situação, pra lá de azeda O leite que ainda sai da teta nem sequer é integral

Intervenções na cidade, como o show gratuito realizado na Rendeção, divulgam novos projetos da banda

Discografia da Apanhador Só Apanhador Só (2010) – Pago com financiamento do governo, o ábum foi disponibilizado na internet para download gratuito. O som alternativo lançou a banda na mídia como independente.

Acústico-Sucateiro (2011) – Os instrumentos tradicionais foram trocados pelo uso de sucata. O acústico ajudou a destacar ainda mais a banda, que foi adquirindo cada vez mais espaço.

Paraquedas (2012) – EP de 2012, lançado em vinil sete polegadas como edição de colecionador. Teve somente duas faixas: Paraquedas no lado A e Salão-de-festas no lado B.

Antes que tu conte outra (2013) – Provocante e poluído, veio quebrar o som “ensolarado” da banda para trazer o tom de protesto e preocupação. Foi produzido graças a financiamento coletivo.

[refrão] Desesperado eu penso em gargalhar Mas decido respeitar a minha dor Talvez seja melhor despirocar De vez, talvez, de vez Talvez, de vez No bus eu subo afoito, engolindo algum biscoito Acotovelo logo uns oito, eu tô cansado e vô sentar Depois do chacoalhaço, tô no trampo e um palhaço Mesmo me vendo um bagaço, já começa a me ordenhar Digito, atendo o fone, meio dia eu sinto fome Me levanto sem meu nome e vou pra fila do buffet Depois de dois cigarros, acomodo o meu pigarro Me reponho de bom grado e termino o afazer

Fotos: divulgação J – Qual a causa do cenário musical estar enfraquecido no Brasil? Isso se deve às regulações do mercado? Kumpinski – O cenário independente é muito novo, começou na década de 1990. No início, as bandas ainda eram atreladas a gravadoras. Agora, com a possibilidade de distribuição digital e de ter um estúdio de gravação mais barato, surgiu o cenário independente. Estamos fazendo o cenário independente gaúcho, do Superguidis para cá. As bandas não eram tão grandes, com certeza, por causa da regulação do mercado, por não ter espaço, não

ter acesso a mais público do que poderíamos é por conta dos acessos estarem delineados. Acho que faltam bandas grandes independentes no Rio Grande do Sul. J – Qual tua opinião sobre o Promova do Facebook, função na rede social que cobra pela promoção de posts? Kumpinski – De certa forma, é uma traição com o usuário. Desde o início, no Facebook, estava escrito: “é de graça e sempre será”. Eu lembro muito bem da frase porque pensei “dentro de alguns dias, esses caras vão corromper a própria palavra”. Pois é o que acontece. Continua sendo

de graça, tu fazer um perfil no moralmente, eles não podem. Face, mas deixa de ser se tu usar O Face se mostra igual, com a teu perfil. Eles simmesma postura das plesmente cortam indústrias hegemôteu poder de comunicas. Isso assusta nicação, o que foi um pouco porque Leia mais: entrevista construído ali dena internet é um escompleta com tro, tu e as pessopaço de liberdade, vocalista da banda as que curtiram tua mas a gente precisa página. Eles cortam cuidar para que não esse caminho entre o seja regulado por conteúdo e a pessoa mega empresas que para cobrar por isso. podem, no meio do É a mesma lógica, tu caminho, mudar as paga para ter acesso. regras do jogo e se Certo, o Facebook beneficiarem, como é privado, eles poquiseram fazer com dem fazer isso legalmente. Mas, a nossa dependência.

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[refrão] Talvez seja melhor despirocar De vez, talvez seja melhor Despirocar de vez Talvez, talvez Cansado eu chego em casa, o willian bonner me afaga Me contando alguma fábula de algo que ocorreu Requento qualquer rango, cambaleio até o meu canto Ainda nem fechei o tampo e o meu corpo adormeceu [refrão] COMPOSIÇÃO: ALEXANDRE KUPINSKI / IAN RAMIL


de olho ex

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Caroline Ferraz (4º sem.)

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Preservação e

EDITORIAL J VISITOU 14 ESCADARIAS NA CIDADE DE POR Gabriela Cavalheiro (5º sem.)

24 de maio - Entre a Duque de Caxias e a Desembargador André da Rocha, a escadaria foi reformada pela Smov em 2007 e decorada por iniciativa do movimento Artemosfera. Os degraus receberam o toque da artista plástica Clarissa Motta.

Kátia Almeida (2º sem.)

Caroline Ferraz (4º sem.)

Gregor Mendel – Ligando a Rua Senador Aníbal di Primio Beck, a escadaria no bairro Boa Vista apresentava muita sujeira. O órgão responsável pela coleta de resíduos no local é o DMLU.

Vila Assunção – Próximo ao número 878 da Avenida Pereira Passos, foram encontrados roupas sujas e até brinquedos de criança nesta passagem de pedestres.

Mariland – Nas cercanias do Colégio João Paulo I Higienópolis, a escadaria tinha pichações e grafite, cascas de frutas e até cinzas, indicando que o local recebeu uma fogueira recentemente.

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P O R Camilla Pereira (3º sem.)

A

s escadarias públicas em Porto Alegre são usadas para freeride (descida com bicicletas), plantações, depósito de lixo e até mesmo como banheiros. Menos para passagem de pedestres. Ao percorrer 14 desses locais para avaliar o estado de conservação destes pontos tradicionais da arquitetura porto-alegrense, se constatou condições lastimáveis, até mesmo ilegais das escadarias. As mais conhecidas ficam no centro da cidade, mas algumas estão localizados em bairros residenciais, como a Vila Assunção. O que se viu foi, além de sujeira, descaso. Na Avenida Itajaí, a escadaria localiza-se do lado de uma escola e, com frequência, o esgoto transborda – mesmo em tempo seco –, acumulando barro. Na Rua Marquês do Pombal, próximo à Praça Dom Luiz Felipe de Nadal havia muita pichação. A manutenção de cada item de uma passagem de pedestre é feita pelo setor correspondente, explica Assis Arrojo, diretor da Divisão de Conservação de Vias Urbanas da Secretaria Municipal de Obras e Viação (Smov). A iluminação é de responsabilidade do Departamento de Iluminação Pública (DIP) e a coleta de lixo cabe ao Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU). Segundo Assis, eventuais reparos – em qualquer área pública – devem ser requisitados pela população pelo número 156, o Fala Porto Alegre, serviço de atendimento ao cidadão. A solicitação é encaminhada à secretaria respon-

Viaduto Benjamin – Além de pic rolante não funcionava dificultando precisavam dela para locomoção, co alternativa era descer a escadaria ao


Gabriela Cavalheiro (5º sem.)

escada abaixo

RTO ALEGRE, PARA VERIFICAR ESTADO DE CONSERVAÇÃO

Janaína Marques (5º sem.)

Goitacaz – Um portão impedia a passagem de pedestres. A escadaria tornou-se um terreno baldio, forçando as pessoas a dar a volta na rua.

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Caroline Ferraz (4º sem.)

Kátia Almeida (2º sem.)

chação e vandalismo, a escada o o acesso das pessoas, que omo idosos e deficientes físicos. A o lado.

Barão de Ubá – Ligando à rua Carlos Gardel, próxima à praça da Encol, a passagem se localiza em área residencial. O ponto negativo eram entulhos não recolhidos.

Janaína Marques (5º sem.)

sável que, no caso da Smov, tem 15 dias para realizar uma vistoria do local e 60 dias para que o reparo seja efetuado. Na Vila Assunção, bairro da Zona Sul, três pontos chamam a atenção. Na Rua Possidônio da Cunha, a passagem hoje não existe mais por que uma casa lá foi construída; na Rua Pereira Passos, há lixo e sinais de descuido; e na Rua Goitacaz, a escadaria está bloqueada por um portão de ferro. O estado de conservação destes equipamentos levou Jacqueline Custódio, advogada e moradora da Vila Assunção, a fazer uma reclamação ao Ministério Público (MP). Ela relatou já ter exigido providências do poder público: “Faz cinco meses que eu pedi três vezes pra botar luz”. Jacqueline mantém um blog sobre a mobilização em torno do patrimônio cultural da cidade, chamado “Chega de demolir Porto Alegre” (chega-de-demolir-portoalegre.blogspot.com. br/), no qual denuncia como a prefeitura cuida dos equipamentos urbanos. “Tive 4,8 mil acessos nestes meses (de janeiro Acesse a galeria com de 2013 até 15 de as escadarias visitadas pelo Editorial J maio), mas quando postei o negócio das passagens (de pedestres) foi o recorde total. Em 24 horas, foram mais de mil acessos”, relatou a advogada.

Duque de Caxias – Nesta conhecida via do Centro, há maior circulação de pessoas por se localizar no Viaduto Otávio Rocha, cercado de lojas e prédios residenciais. Melhor conservada que as demais, é usada como pista de skate.

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Itajaí – Ao lado da Escola Estadual de Ensino Fundamental Imperatriz Leopoldina. No dia da visita, mesmo sem chuva, o esgoto transbordava e resíduos estavam expostos na escada, o que deixava o piso escorregadio.


Brasil na rua

Por dentro

Quatro estudantes de Jornalismo e um desafio: deixar a posição tradicional de repórter de lado e misturar-se aos manifestantes em Porto Alegre no dia 20 de junho para montar um relato íntimo do movimento. Apenas com os sentidos como ferramenta de apuração, sem blocos, gravadores ou entrevistas formais, buscavam um ponto de vista alternativo. Nestas páginas, a história de quem mergulhou na marcha que parou a região central da Capital. Quatro visões que se completam e questionam os limites da objetividade jornalística

P O R Anna Cláudia Fernandes (7º sem.), Caio Venâncio (3º sem.), Lorenço Oliveira (8º sem.) e Thamíris Mondin (3º sem.)

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or volta das 17h30min do dia 20 junho, ao lado dos leões da fachada da Prefeitura de Porto Alegre, um grupo de punks e anarquistas, alguns com o rosto escondido por camisetas e cachecóis, espalhava um forte cheiro de maconha pelo Paço Municipal. Instantes depois, um deles, visivelmente alterado, iria para o meio da multidão tentar conscientizá-la, segurando em uma das mãos uma garrafa de vodka quebrada. Com rostos encobertos para dificultar a identificação da polícia, portando bandeiras negras e vermelhas, além de cartazes de repúdio à imprensa, os anarquistas, quando acompanhados de perto, não podem ser reduzidos à figura de vândalos, arruaceiros e baderneiros. Ao lado do movimento era possível perceber que, embora muito questionado, ao menos parte dos integrantes possui, sim, projetos e ideais. Um grupo, que se denominava Frente Autônoma, parecia mais sério. Em meio à multidão com causas difusas e confusas, um componente distribuía uma simples folha de papel A4, ou melhor, a publicação Opinião Anarquista, da Federação Anarquista Gaúcha (FAG). Lia-se no papel os anseios daqueles que só aparecem na mídia como protagonistas da depredação: “Abrir a caixa preta da patronal do transporte coletivo!”, “Democratização da mídia!”, ”Protesto não é crime!”, entre outras palavras de ordem.

Perto dali, ao ser perguntada sobre os panfletos que distribuía, uma brigadiana respondeu que era um recado em defesa dos manifestantes no ato. “E vai ter tropa de choque?”, questionou-se. “Claro, sempre tem uns arruaceiros.” O clima parecia de Copa, com caras pintadas de verde e amarelo, bandeiras do Brasil e cornetas. Um grupo corria e ria enquanto bradava “Fora PT”. Outros, não tão bem humorados, pregavam o “Acabou o amor, isso aqui vai virar Turquia”. Vendedores ambulantes aproveitavam o tempo para vender guarda-chuvas e capas, além de água, refrigerantes, lanches e até bandeirinhas. Alguns adolescentes carregavam vinho em garrafa de plástico e chamavam os amigos para ir à prefeitura. Outros optavam por levar cervejas ou consumir substâncias alternativas. Entre estes últimos, surgiu até a tentativa do coro “Dilma Rousseff, legaliza o beck”, sem sucesso, talvez porque os companheiros desta reivindicação estivessem na outra ponta da manifestação, ou porque o grito de guerra surgiu nas bordas do movimento, sob a proteção de um prédio de esquina, onde se escondiam da chuva umas 15 pessoas. Ao ecoar, o chamado foi abafado pela multidão interessada em outros assuntos.

Às 18h30min, surgiam os primeiros coros que propunham uma rota para a passeata: “Anda! Anda! Anda!” e “Quem não anda quer aumento!”. Este último grito de ordem era reeditado para diversas situações. Quando o Hino Rio-Grandense surgiu, uma garota gritava sozinha: “Ei, reaça! Vaza dessa marcha!”.

Para onde iriam? Num primeiro olhar, isso parecia ser decidido literalmente no grito. Alguns gritavam “Borges, Borges!”, indicando a Avenida Borges de Medeiros, outros pediam que a massa fosse pela Júlio de Castilhos. Em meio a tudo isso, porém, os anarquistas da Frente Autônoma conversavam entre si e definiam que iriam por esta última via, tomariam o Túnel da Conceição e caminhariam pela Avenida João Pessoa. O grupo acelerou o passo, tomou a frente e, repentinamente, passou a ser seguido pela multidão. Ao lado da prefeitura, no cruzamento com a Siqueira Campos, em um princípio de briga, a massa se dividiu. “Volta! Volta! Eles são do PT”, urrava um sujeito baixinho, entroncado, que tentava convencer o grupo a permanecer em volta da prefeitura. No entanto, anarquistas e a tal direita reacionária uniam-se na hora de cantar “Sem partido! Sem partido!” para os militantes do Partido dos Trabalhadores (PT), abominado por quase todos que ali estavam. Pouco se cantava pautas concretas, mas houve vibração quando circulou o boato de que uma bandeira do PT teria sido rasgada. Enquanto uma dezena de pessoas caminhava por cima do arco da estação Mercado do Trensurb, 18 cavalarianos da Brigada Militar, parados sob o mesmo monumento, observavam o povo que tomava de forma pacífica a avenida.

Por um momento, a cena parecia um grande evento para o público jovem, como o Planeta Atlântida. Os chapéus de momo vermelhos e pretos e os narizes de palhaço tentavam lembrar que a reunião tinha outra motivação. Cartazes que se desfaziam na chuva, cartolinas

Batalhão de choque da BM conteve o avanço do protesto na Avenida Ipiranga, obrigando o grupo a se dispersar JUNHO/JULHO DE 2013 • PÁGINA 8


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da história

Veja mais sobre as manifestações por diferentes ângulos

fotos: Guilherme Testa (5º sem.)

Entre tantas causas, manifestantes pediram mais recursos para melhorar a qualidade da educação no país envoltas em plástico e até os guarda-chuvas serviam de apoio para frases como “Quem não tem virtude acaba por ser escravo” e “Parem de roubar que vai melhorar”. O grito dos indignados acompanhava o canto da hora: “Ei, Pelé, vai tomar…”. Perto das 19h, a massa atiçava as câmeras e os celulares de quem ainda estava pelo Centro, mas não protestava: tinha apenas o interesse em obter seu próprio registro das faixas, que, entre aqueles que agitavam bandeiras negras e vermelhas, continham dizeres como “Não intimidar, não desmobilizar! Rodear de solidariedade os que lutam!”. Em frente à Estação Rodoviária e ao Templo Central da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), bastante criticada, novos grupos se uniam à marcha. Em um determinado momento, pouco antes da entrada do túnel, panos brancos apareciam nas janelas dos prédios em volta. O refrão “Quem apoia pisca a luz” convidava os moradores a participarem do protesto. Quando uma turma percebeu que, em uma das janelas, as luzes eram coloridas, os gritos ganharam malícia: “Vem pra rua e fica nua” e “Quem apoia mostra os peitos” eram direcionados às prostitutas que abanavam sem intimidação. Dentro do túnel, a fumaça de sinalizadores preenchia o espaço, que mais se parecia com uma caixa amplificada de coros: “O povo acordou!”. A semelhança com uma torcida de futebol saindo de um estádio era nítida. Um espetáculo que exigia estar na escuta de um radinho, como em uma partida de futebol no estádio. Ninguém sabia direito o que se passava na linha de frente do manifesto. Quando o primeiro barulho de bomba foi ouvido, um homem barbudo tranquilizou a

Frente Autônoma: “Essa é das nossas”. Enquanto milhares, muitos deles envoltos na bandeira do Brasil ou do Rio Grande do Sul, gritavam o Hino Nacional, os seguidores de Bakunin, ícone do anarquismo, respondiam com “Nossa pátria é o mundo inteiro”. E a disputa seguia: de um lado “O gigante acordou!”, do outro “Só você não viu, a periferia nunca dormiu”, até que cruzaram o túnel e pararam de cantar em respeito aos internados na Santa Casa. A ordem era de silêncio: “É hospital, turista”.

Do outro lado da Santa Casa, enquanto os manifestantes pediam silêncio, uma parte virou-se ao contrário da marcha, determinada a chegar ao Palácio Piratini. Por um momento, as pessoas não sabiam o roteiro a seguir. Gritos sugeriam a RBS. Quem seguiu pela Avenida João Pessoa, encaminhou-se para a Ipiranga, provavelmente para chegar ao prédio da Zero Hora. Um sujeito escalou a primeira parada de ônibus da João Pessoa, para expor a bandeira anarquista. Houve vaias. Nos protestos anteriores, o caminho para a João Pessoa significava um fim certo. “Temos que voltar! É emboscada”, gritava um homem de meia idade, desmascarado, que tentava explicar a conspiração: “Tem gente infiltrada levando o pessoal para (avenida) Ipiranga, onde está o (batalhão de) choque”. O boato de policiais infiltrados no front não se confirmou, mas a batalha era certa. No final da avenida, o conflito começou. A partir daí, o grupo anarquista recolhia cartazes e bandeiras e partia para o combate. Como se ignorassem as várias bombas de gás lacri-

mogêneo, a ordem permanecia sempre a mesma: não recuar. Além de um helicóptero que voava baixo, a fumaça e o barulho de bombas de efeito moral dominaram o protesto. As pessoas corriam, muitos pediam para resistir. Mas a pressão exercida pelas bombas fazia com que uns poucos voltassem. A marcha se dividiu novamente, e uma parte fez o trajeto inverso, sem saber que rumo tomar.

Por volta das 21h, a esquina das avenidas Ipiranga com João Pessoa estava envolta em fumaça branca, provocada pelas bombas da tropa de choque. Um manifestante sufocado lavava o rosto com água das poças formadas pela chuva no asfalto. Aqueles que carregavam vinagre dividiam com quem precisasse aliviar os efeitos do gás. O protesto do contra tudo levou muitos para aquela esquina, sem que soubessem ao certo o motivo. Alguns falavam em emboscada, estratégia para desvirtuar o caminho da marcha. A indignação era coletiva, as causas, não. As pessoas caminhavam lado a lado, mas não juntas. Quem voltava para a Cidade Baixa, na esquina da Lima e Silva com a República, enxergava a cavalaria da BM passando pela João Pessoa. Próximo a um bar, um rapaz tentava depredar um contêiner de lixo e era vaiado pelos poucos que o cercavam. Em plena quinta-feira, às 22h, as ruas do bairro estavam quase vazias. Parecia madrugada. No cruzamento da Borges de Medeiros com a Rua dos Andradas, a dita Esquina Democrática, vândalos lançavam explosivos, depredavam e saqueavam uma loja. Três policiais da cavalaria passaram no momento

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e seguiram sem dar atenção ao saque. Em outro ponto da avenida, uma jovem encenava uma performance. Apoiada sobre os joelhos, ela levava as mãos ao rosto, simulando choro. Em suas costas, um cartaz que dizia: “Não é o seu gás lacrimogêneo que me faz chorar”. A polícia montada fazia uma varredura nos locais que ainda concentravam grupos de protestos. Os que restavam no Centro se dirigiram para o ponto onde o protesto se originou, a prefeitura. Em frente à sede do governo municipal, a tropa de choque fazia uma barreira. Depois de alguns minutos de confronto, a tropa de militares separou-se. No alto da Borges, cerca de 25 policiais montados. Na Júlio de Castilhos, a tropa de choque se posicionava, assim como na prefeitura e ao lado do Mercado Público. Toda a região foi cercada pela polícia. As bombas de gás eram lançadas, e o deslocamento ficou difícil. O cerco da polícia dispersou os remanescentes. Não era possível passar pela barreira em grandes grupos. Numa estação de ônibus do Mercado Público, um jovem era socorrido por dois bombeiros. Havia passado mal depois de ser atingido por bombas de gás. Logo ao lado, além das barreiras policiais, um cidadão vigiava suas frutas e legumes no abrigo da Praça Parobé. As ruas estavam desertas, e táxis não circulavam. O vendedor de cabelos brancos contou que por ali passaram manifestantes e também a polícia, mas, para sua sorte, nada foi levado. Sobre a agitação, comentou: “Complicado, muito confuso”. O vendedor, com sua dúvida, talvez estivesse mais esclarecido do que muitos que bradavam frases feitas.


operação prato

Novo teste à imaginação UFÓLOGOS DISCUTEM RELEVÂNCIA DA ABERTURA DE DOCUMENTOS MILITARES SOBRE OVNIS Daniele Souza (5º sem.)

Lima. O comandante e seus agentes foram enviados ao Pará, quando os fenômenos já haviam causado histeria entre a população. No prometida liberação entanto, com o objetivo de analisar dos documentos da os fatos e colher depoimentos de Operação Prato – que testemunhas, Lima deparou com aconteceu no final de algo muito mais sério. Uma nave 1977, no Pará – atiça a imaginação mãe e vários OVNIs teriam aparesobre a possibilidade de existência cido nos céus para eles, de acordo de vida inteligente extraterrestre, com os relatos. mas não anima os especialistas O professor universitário apona área. O caso é tido como um sentado e pesquisador de vida dos mais relevantes da ufologia no inteligente extraterrestre Osmar Brasil. Estudiosos do assunto, no Inácio da Silva está descrente entanto, entendem que a revelação com as possibilidades de esclaredo conteúdo da investigação pelo cimento, a partir do material da Ministério de Defesa trará à tona Operação Prato que virá à tona. informações que não serão capaPara ele, a revelação deverá ser zes de responder a todas as perparcial, sem documentos relevanguntas sobre o caso. tes. “A liberação não O fenômeno, será importante para conhecido como “O a ufologia”, garante. Caso Roswell BrasiO servidor púLiberação leiro”, foi uma opeblico e ufólogo Euração realizada pela não será clides Nunes Pereira Força Aérea Braafirma que a divulimportante sileira (FAB) para gação do conteúdo investigar o possípara a não passa de uma vel aparecimento enganação. Segundo ufologia” de objetos voadores ele, a Aeronáutica não identificados tem mais de duas Osmar Inácio (OVNIs) nos estados horas de filmagens e de Amazonas, Ma500 fotos dos OVNIs, ranhão e Pará. Na mas só irá liberar rascuépoca, autoridades nhos e desenhos. locais comunicaram à Aeronáutica Com a Lei de Acesso à Inforsobre algo misterioso, que descia mação, a expectativa é de que o do céu em forma de raios e atingia material seja publicado ainda no as pessoas, provocando queimaprimeiro semestre de 2013. Na duras, imobilização, perda da voz, direção oposta do ceticismo de tontura e distúrbios psicológicos. Euclides e Osmar, o professor Segundo os relatos de moda PUCRS e astrônomo Délcio radores da região e membros da Basso anima-se. Para ele, se os operação, foram avistados objetos documentos comprovarem que triangulares, esféricos, ovais e houve a visita de seres extracilíndricos, dos mais diversos taterrestres, a próxima etapa será manhos. Naquela ocasião, quem entender o porquê. Afinal, “toda estava chefiando a operação era a humanidade ficaria feliz ao o capitão da FAB Uyrangê Bolíentender mais sobre os mistérios var Soares Nogueira de Holanda do universo”, alega. P O R Laísa Mendes da Silva (3º sem.) e Victor Rypl (5º sem.)

A

Euclides entende que publicação do conteúdo da FAB será uma enganação

Olhe para os céus O termo UFO, criado pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, é a sigla da expressão Unidentified Flying Object, traduzindo para o português Objeto Voador Não Identifica-

Objetos não identificados eram avistados por pilotos na Alemanha

do ou OVNI. Alguns fenômenos foram considerados OVNI por não ser possível identificar a procedência. Veja alguns deles nas imagens ao lado.

Foto de um suposto ovni feita na Dinamarca

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1974


Roswell, Prato e a batalha inglória A Operação Prato, investigação militar feita no Brasil pela FAB na década de 1970, guarda paralelo com o Incidente Roswell, no Estados Unidos. Considerado um dos casos mais relevantes da ufologia, o acidente que aconteceu, em 1947, na cidade de Roswell, no estado do Novo México, ainda gera controvérsia. Segundo relatos, o fazendeiro William Brazel encontrou, no dia 2 de julho, a 12 quilômetros da sua fazenda, destroços de alumínio de um objeto totalmente desconhecido. Influenciado pelos boatos de que jornais estariam recompensando quem tivesse provas da existência de discos voadores, Brazel foi até a delegacia falar sobre o que havia encontrado. A notícia do avistamento do

OVNI se espalhou pela cidade e ganhou a primeira página do jornal Roswell Daily Record. Todavia, o alvoroço não durou muito tempo. No dia seguinte, o jornal se contradisse, afirmando que o disco voador do Novo México era apenas um balão meteorológico. A luta pelo reconhecimento dos fenômenos ufológicos, como os casos Roswell e Prato, está cercada de incógnitas. Para o ufólogo Euclides Nunes Pereira, o objetivo da atividade é preparar a sociedade para um possível contato com seres de outro planeta. O pesquisador acredita que a humanidade não está pronta para esse momento. Para Osmar Inácio da Silva, que possui uma estação de procura de vida inteligente extraterrestre em sua casa, a

população não tem conhecimento suficiente para lidar com o contato. Formado em Geografia pela PUCRS, Euclides é assistente administrativo na Câmara Municipal de Porto Alegre desde o início da década de 1990. Por 10 anos, escondeu a sua paixão de seus colegas na Câmara. Ao ser descoberto, virou alvo de brincadeiras, até um dia esbravejar: “Eu não discuto ufologia com leigo, eu ensino”. As provocações cessaram. Osmar condena o acobertamento dos governos, mas tenta entender os motivos de tanto segredo. “Imaginem o poder de uma nação ter que declarar para o seu povo que é incapaz de se defender”, diz.

Peças exóticas viram objetos de coleção

Céticos e sonhadores O professor da Faculdade de ser uma sonda, um satélite ou até a Ciências Aeronáuticas da Ponvisita de uma nave de espionagem tifícia Universidade Católica do de um governo”, argumenta. ApeRio Grande do Sul Ênio Lourenço sar de cético, o astrônomo vê valor Dexheimer foi piloto da Varig por na ufologia, pois “qualquer coisa 23 anos. Sobrevoou pelos céus que leve alguém a olhar para o céu do mundo todo e diz nunca ter é positiva”. visto nada que pudesse ser conA ufologia já recebeu uma siderado extraterrestre. “Nunca maior cobertura dos veículos de me considerei um ufólogo. Teria comunicação. Nos anos 1980, imensa curiosidade de encontrar encontrar cadernos sobre o asum ET. Só que não acredito nesunto era comum. Para Humberto les”, ressalta. O proTrezzi, repórter da fessor conta ter lido Zero Hora, o possível muitos livros sobre motivo para a atual astronomia, física e escassez de matérias Confira o vídeo com mecânica nos últié que “a mídia cona entrevistas dos ufólogos mos 20 anos, e que, vencional se tornou talvez, seu ceticismo mais pragmática e tenha surgido daí. menos sonhadora”. Assim como Desta forma, as disEnio, o astrônomo cussões teológicas Marcelo Bruckmann ou filosóficas acabam trabalha no Laboranão tendo muito estório de Astronomia paço nos veículos, e da PUCRS. Em uma a ufologia se encaixa espécie de cápsula, nesses grupos. “Falexplora o universo dos planetas, ta um clima mais metafísico no astros, estrelas e satélites e conta jornalismo. É tudo muito prático já ter visto pontos luminosos que e cotidiano, hoje”, diz o jornalista. não tinham características de O ceticismo da mídia, segundo satélites e nem por isso se deixou Trezzi, também se deve à forma levar pelas hipóteses ufológicas. como algumas pessoas se posi“Não podemos abrir mão de certas cionam com relação à ufologia. convicções, apenas para justificar Crentes, curiosos, ufólogos e senesses acontecimentos. Acompasacionalistas, todos falam sobre o nhar um movimento no céu não mesmo tema. “Tem muita gente quer dizer que o objeto não seja delirante, mas também gente séria produzido pela mão humana, pode e que estuda isso”, comenta.

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Osmar condena o acobertamento de informações pelos governos

Registro de nave espacial na França

Imagem capturada nos Estados Unidos

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Uso saia POR ESTILO OU POLÍTICA, HOMENS ADOTAM PEÇA ASSOCIADA AO FEMININO P O R Anna Cláudia Fernandes (7º sem.)

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Guilhe

aias coloridas cobrindo pernas masculinas tornaram inusitado o protesto dos alunos da Universidade De São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP) no dia 16 de maio. A ideia do protesto surgiu após o estudante do curso de Design Têxtil da USP Leste Vitor Pereira ter sido hostilizado nas redes sociais por usar a peça de roupa, usualmente restrita ao guarda-roupa feminino, pelo menos no Brasil. No universo da moda, essa forma de utilização é mais comum. Assim como Vitor, estudante de moda, o estilista nova iorquino Marc Jacobs também aparece em eventos usando saias ou vestidos. “Muitos designers de moda masculina já flertaram com a ideia das saias para homens, mas até isso já se tornou assunto velho, sabe? Hoje em dia, quem quiser usar, usa. Quem não, não”, aponta a consultora de moda e jornalista Patrícia Pontalti, uma das sócias do grupo AsPatrícias. A consultora acredita que entre os profissionais da moda o assunto nem é discutido, pois não poderia haver preconceitos deste tipo na área. “O preconceito é a primeira barreira de uma boa compreensão de qualquer assunto”, afirma. Para Patrícia, entretanto, não é uma tendência, ou seja, “algo que influencia e se torna desejo de muitos”. O que pode ser um alívio para Alexandre Gravem, programador da Kartesian, empresa localizada no Tecnopuc, Parque Científico da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Inspirado no mundo medieval, Alexandre começou a usar saias aos 12 anos, mas o hábito não durou muito, pois se sentia estranho. Há cerca de cinco anos, em uma viagem a Londres, não resistiu à compra de um kilt, saiote masculino com pregas de estampa xadrez, tradicionalmente usado na Escócia. O programador até gostaria de ver mais homens na rua com a peça, mas prefere que não vire moda, para ainda atrair olhares curiosos. Sobre o uso de saias, Alexandre é simples: “É lindo”. A peça é confortável e leve para o verão, e sua preferência fica clara em seu guarda-roupa: quatro saias para apenas duas bermudas. Diferentemente de Alexandre, Ali Savage, estudante de Artes Visuais, 25 anos, e Raphael Jacques, artista plástico, 17 anos, utilizam adereços femininos em seu vestuário para desconstruir a ideia vigente de representação de gênero.

Com cabelos amarelo-ovo, piercing na parte superior do lábio e no septo, tatuagens e coturnos, Ali já chama a atenção do público por sua estética punk. Contudo, no dia da entrevista, os olhos das pessoas que passavam pela mesa da padaria onde se encontrava se voltavam diretamente para a peça do seu vestuário, sua saia xadrez pregueada, em tons de roxo-escuro. Aqueles que buscam romper esses padrões se dividem entre os que veem o vestuário por seu lado estético, caso de Alexandre, e aqueles que o tratam como parte de uma política, como Ali e Rapahel. O último grupo é influenciado pelo movimento queer, união feminista e gay para combater a heteronormatividade em defesa do direito de escolha do indivíduo da identidade de gênero que quer assumir, da forma que deseja. Para Ali, usar saia é um símConfira protestos que bolo de resistência, algo envolveram o uso de que destoa dos padrões saias de normalidade. “É um reflexo de como uma parcela das pessoas envolvidas com políticas lutam hoje”, explica. Um dos ícones mais lembrados atualmente pela utilização de veste do outro sexo é o cartunista Laerte Coutinho, que assumiu uma identidade feminina tanto em seus quadrinhos, com o personagem Hugo, quanto na vida real. Hoje, Laerte milita pelos direitos de transexuais e travestis, através da Associação Brasileira de Transgêner@s (Abrat). Como o hábito de usar saias ainda não é moda entre os homens, as reações variam. “Só agora, dois ou três homens, héteros, riram e gritaram algumas coisas”, comenta Ali. “Quando eu me visto com adereços femininos, em Porto Alegre, fica na chacota, mas no interior é mais violento”, complementa Raphael. “É um ato político, mas é preciso ter bastante cuidado. A cultura do Interior é muito mais ortodoxa, religiosa”, declara o jovem, que nasceu em Gramado. Alto, cabelos longos crespos escuros e barba, Alexandre nunca foi agredido na rua ou sofreu algum comentário mais violento em relação à sua escolha, e credita o fato, em parte, ao seu tamanho e à sua aparência. As reações divergem entre a cara feia de desaprovação e as perguntas curiosas sobre o porquê da utilização. Embora usem saias por motivos diferentes, tanto Ali quanto Raphael concordam com Alexandre em ver a roupa como uma forma de expressão. “Vestuário é uma forma de se expressar, de dizer como você é para o mundo”, explica Raphael. Para ele, usar saias faz parte de um movimento amplo que conspira por mudanças.

Alexandre Gravem usa saias há cinco anos

Editorial J - número 11 - junho/julho de 2013  

Edição impressa do Editorial J, o laboratório curricular de jornalismo da Famecos/PUCRS.

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