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GIZ


vulto de primavera teu nome a risca de giz

a mandĂ­bula da cigarra mastiga nossos sonhos cansadas cores, cansado o vulto dos meus olhos, o tempo de um samba e ponto


carrego segredos que ainda não sei e caem, ariscos sobre teu nome solstícios de verões, solos e blues e pontos


Quisera eu ter esquecido da existência e apenas ter vivido. Mas sinto um não sei o quê que me faz olhar para os cantos e caminhar arrastando os pés. Porque os castelos que fazemos na praia sáo de areia. E só percebemos isso quando vem o mar e nos ensina o amor.


Toda aquela cidade. Não se pode ver onde acaba. O fim? Por Favor. Podia me mostrar onde acaba? Estava tudo indo muito bem naquela passarela e eu estava fantástico com o casaco. Fazia um figurão e não tinha dúvidas em sair. Estava seguro, esse era o problema. Não foi o que eu vi que me impediu Max, o que me parou foi o que eu não vi. Entende? Aquilo que eu não vi. Em toda aquela cidade dispersa havia tudo, exceto um fim. Não havia um fim. E o que eu não vi era onde acabava aquilo tudo, o fim do mundo.


Um piano, por exemplo, as teclas começam, as teclas acabam. Você sabe que existem 88 delas e ninguém pode te dizer o contrário. Elas não são infinitas, você é infinito. E naquelas teclas, a música que você faz é infinita. E eu gosto disso. Consigo viver com isso. Mas me sobe naquela passarela, e aponta adiante um teclado com milhões de teclas que nunca acabam. Essa é a verdade, nunca acabam. Aquele teclado é infinito. E se esse teclado é infinito, não se pode tocar nada. Está sentado no banco errado. Esse é o piano de deus.


Eu nasci neste navio. E o mundo passou pela minha frente, mas apenas 2.000 pessoas por vez. E havia aqui desejos, mas não mais do que aqueles que cabiam entre a proa e a popa. Eu expressei sua felicidade, mas num piano que não era infinito. Aprendi a viver assim. A terra firma?... É um berço grande demais para mim, uma mulher bonita demais, uma viagem grande demais, um perfume forte demais, é uma musica que não sei tocar. Jamais saberia descer deste barco.

Na melhor das hipóteses, posso desembarcar da minha vida. Afinal de contas, não existo para ninguém. Você é a exceção Max.


Olhou bem para as ruas? Apenas as ruas? Havia milhares delas! Como é que você faz? Como é que escolhe uma só? Uma só mulher, uma só casa, um pedaço de terra, uma paisagem para contemplar. Uma só forma de morrer. Todo aquele mundo é um peso, sem você nem sequer saber onde acaba. Não tem medo de vir abaixo só de pensar? Essa enormidade de vida...

Você é o único que sabe que eu estou aqui. É uma minoria, é melhor que vá se acostumando. Me perdoa, meu amigo. Mas não vou desembarcar.


Saiu para caminhar pela praia, pegar algumas conchas para si. As conchas se nos a rememoram suas aventuras na velha casa. A verdade ĂŠ que ele tambĂŠm era passado,


assemelhavam, sempre ecoando o som de sua velha vida no oceano... o tempo inteiro , do tipo dos que nĂŁo passam mais hĂĄ muito tempo, sem muitos caminhos a seguir.


jos

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Não podia deixar de achar, ou pensar, que já se esteve nesse lugar várias vezes. Sob várias formas, e sentimentos. O que mais me impressiona dessa cidade, ou de qualquer cidade – do urbano de uma forma geral – é como o anonimato e as cicatrizes históricas (pessoais e coletivas) se interpõem continuamente, um grande frenesi da verve urbana. Estive aqui antes, realmente me lembro, outras pessoas, em outro momento – aquela menina que passou correndo, chorando, por um motivo que nunca se soube,

tampouco importa. Mais importante é o fato de não viver este lugar sem me lembrar de quão tristemente ela chorava. Mas, de novo: As sutilezas dos sentidos e a brutalidade da transformação. As escavadeiras e aquela casa que lá não mais está. (Ou os lugares como já não mais o são) Ninguém vai saber que eu contei quantas casas havia nessa rua, antes de todos eles chegarem. “A engenharia cai sobre as pedras”. Mais um copo de cerveja e mais uma imersão em mim mesmo, mais um, e mais uma imersão nas infini-


tas possibilidades dos lugares e pessoas que nunca vi. As superposições dos propósitos hegemônicos e o viver à margem. A Igreja e o Banco na mesma vista – a mesma dor. À margem e à embriaguez, “Não conseguimos acompanhar o motor da história, mas somos batizados pelo Batuque e apreciamos a Agricultura Celeste”. Mas, de novo: a verve, a esquizofrenia. O sangue escorrendo, denso e escuro, da testa daquele homem, aquele velho, que eu vi tropeçar e cair na calçada, mas estava den-

tro do ônibus. Também não esqueço de seu olhar assustado e distante, ao constatar a própria fragilidade. Não é questão de sucumbir ao anonimato dessa multidão urbana, o que se deve é deixar-se arrebatar pela alucinante multiplicidade. “Mas enquanto o mundo explode, nós dormimos no silêncio do bairro. Fechando os olhos, e mordendo os lábios, sinto vontade de fazer muita coisa.”


Tem dias que são brancos, simplesmente são brancos e mais nada. Promoção do dia, gravado em giz branco no quadro negro. Segunda feira de feriado, mais ou menos sete da noite, e a chuva caía. Eu tava sentado naquela mesa de plástico grudenta há uns quarenta minutos, e nada dele. Quase no coração da cidade e a rua tava completamente vazia. A televisão tava ligada em algum filme idiota, os três funcionários sentados na mesa do lado assistindo. De vez em quando um passava o olho preguiçoso, conferia a cerveja, provavelmente ria da minha cara e ficava puto, era segunda feira de feriado e ele queria estar em casa, chovia. Aqueles que não conseguiram fugir da cidade tinham dignidade suficiente pra aceitar a chuva e ficar em suas camas vendo aquele filme idiota na tevê. Eu não. Quarenta minutos e nada. Liguei pra ele, disse que estava chegando, como sempre, e isso tinha sido há trinta minutos atrás. Mas não era um problema, a essa altura do campeonato eu já tinha me desligado de tudo, cortado todos os laços. Eu tava lá pra tomar cerveja, só não queria ficar sentado em algum bar vazio fazendo papel de alcoólatra. Na rua nem uma alma viva. Vez ou outra passava uma criança perdida. Eu esperava que alguém aparecesse e sentasse em alguma mesa, só pra preencher o vazio. Hora o garçom olhava, hora era o caixa, conferiam a cerveja, conferiam a figura e depois se voltavam pro filme idiota. Ao meu redor eu via a chuva caindo no asfalto, molhando o chão, deixando as luzes da cidade mais vivas e dançantes, as árvores balançavam, na calçada o quadro negro gravado em giz branco escorria com aquela água toda. Tinha muita poesia naquele momento. Em mim não.


Quando ele finalmente chegou, nos cumprimentamos - friamente, ele se sentou e pediu um copo. Trocávamos algumas palavras e bebíamos. Falamos isso ou aquilo sobre a vida, sobre o tempo - chuvoso, sobre tempos - passados, quando por fim chegamos ao vazio da cidade, decidimos mudar de bar. A chuva agora era só uma massa úmida formada por minúsculas gotinhas, dava pra ir. Caminhávamos com as mãos nos bolsos, os olhos voltados pro chão. Os buracos da calçada, cheio de água suja, as bitucas boiando. Seguíamos, sem palavras, sem medo, sem nada. Beber por beber. Finalmente apareceu um buteco, fizemos da mesa nossa cama. Descansamos. A cerveja tava quente, e as pessoas eram estranhas. As pessoas das segundas de feriado chuvosas em buracos alheios sempre são estranhas. Gente


bituca. Na primeira cerveja quase não falamos, na terceira as frases se alongavam, na sétima já cantarolávamos. Eis que um corpo cai, alguém que provavelmente exagerou na farinha, as pessoas arrodiaram, tinha gente chorando, rezando e até rindo. A ambulância passou, tudo normal. A chuva engrossou e nem a marquise dava mais conta de segurar, quem estava bêbado o suficiente ficou na chuva mesmo, bebendo cerveja com água suja, os outros se espremeram todos na salinha que era aquele lugar. Falávamos alto, ríamos alto, já não dava pra saber mais quem era amigo de quem. Todo mundo conversava junto, ria junto. De repente um travesti começou a cantar, foi muito bonito, todo mundo se calou, e só dava pra ouvir aquela bela voz e a chuva caindo no asfalto. Se alguém ali tivesse de chapéu ia tirá-lo da cabeça e o seguraria em seu peito como voto de respeito. De alguma maneira todos nós fizemos isso. Pensávamos na vida, na rotina, nos pássaros que buscavam abrigos em canos. Não pensávamos. A coisa só mudou quando ele puxou a primeira música do nelson. Todo mundo começou a cantar junto e dançar, faltou o cavaquinho, mas a gente fazia do jeito que dava, batucava na mesa, batia palma, e desse jeito foi indo. Todos dançavam, vestiam belos sorrisos na cara. Quando


uma garrafa ou copo caía no chão todo mundo batia palma e dava um berro, não demorou muito pro primeiro subir na mesa, de repente a luz acabou. Mas ninguém ligou, a cerveja quente só ia esquentar mais um pouco e tinha muita cachaça pra amortecer. Alguns acenderam isqueiros, e tinha até vela. A dança e o canto não paravam. Quando a luz finalmente voltou estávamos em outro bar. Dessa vez éramos cinco, a sinuca era a bola da vez, a jukebox marcava o ritmo. Os que tinham energia dançavam, batiam palmas, cantavam, os mais cansados se sentavam nas cadeiras batendo pé e esperando a vez no jogo. A cerveja ia e vinha e novamente o bar se unia, pessoas davam palpite, escolhiam músicas, mal deu tempo da festa começar e já andávamos pela rua, dois quarteirões e paramos novamente em um canto. Sem chuva a união era menor, eram formados pequenos grupos, e dava para perambular entre eles. Falavam de tudo, não sei o quê traiu o movimento, novo cd de fulano de tal ta muito comercial, lá no senado a coisa ta feia. Todos tinham muita propriedade, homens sábios aqueles. Se pudessem reger o mundo acabariam com a fome, a miséria e a ignorância em minutos. O sol estava pra nascer quando ele se apaixonou por uma senhora, ela usava roupas coloridas e chuvapava um pirulito, ele fazia promessas de amor, ela ria e falava delícia de um jeito bem engraçado. As pessoas iam embora para suas casas e eu cansado novamente esperava por ele, dessa vez vivia seu amor descartável dentro do banheiro sujo. Enquanto isso eu ali na sarjeta tomando a última garrafa de cerveja possível do dia. Quando ele finalmente voltou, caminhamos rápido pela rua, suas mãos tremiam e eu preferi não tocar no assunto. Perto de onde encontramos no começo da noite nos despedimos, cada um seguiu seu rumo e eu nunca mais o vi, nem recebi notícias suas. Caminhando para casa, o sol batia forte na cabeça, minha boca estava igual ao deserto do Saara, meus joelhos desidratados doíam, minhas costas doíam, a vista cansada só queria apagar. Eu dividia a rua com trabalhadores a caminho do serviço, famílias que iam pra praça, pra igreja, senhores de idade que jogavam conversa fora na padaria, com o jornal de baixo do braço. Eu embriagado e sujo me senti mal. Olhei pro lado e vi aquele primeiro bar, onde passei minha quase hora sozinho, o quadro negro estava gravado em giz branco uma nova promoção do dia. Amanhã vai ser um dia melhor.


Antes

tem o

conhecer,

depois tem o

depois .


mergulho em um ponto que é profundo, porque é ponto sem fundo

Engulo expectativas Em muitos goles. Enquanto bebo mais esperas. Este é meu ponto: encontro o lugar


Mergulho no infinito sem escafandro E faço das minhas angústias/amores o meu ar que não respiro [pela falta dele mas mesmo assim mergulho.

O ponto, preto como um final longo _ mas não linha Quase reticência... eterna espera... Com muito [pouco Espaço para suas imprecisas respostas. No ponto, busco um entendimento. Não o há. Não haverá.

(te encontro na música)


Nasci personagem enquanto queria ter nascido pessoa. Não tenho talento para borboleta, que se fazem e desfazem em uma rodada de mundo. Tudo o que preciso é de uma pitada a mais de tempo, ponteiros menos carrascos e apressados. Quero poder deitar fora do palco, das linhas, das notas, sem ter que pensar na próxima cena, no próximo ato; apenas nos vaga-lumes brincando de virar e desvirar estrela. Cansei de me render e me render e me render – fecham-se as cortinas, e não pude reparar no choro baixo da moça da poltrona 5, nos olhos de 220V da primeira fila ou nas mãos dos casais embestados, que se entrelaçam e fazem amor desavergonhado no meio de todo o mundo. Felizes são os seres de vida espichada, que vivem uma porção de dramas únicos (diferentes, ainda que por vezes repetidos) e vêem o ar produzido pelas árvores de madeira. Podem sentir cada clímax, roteirizado não por um poeta metido a boêmio, mas por veias e artérias e sangue e suor, que às vezes chamam de Deus. Eu, condenado a viver em pequenas porções, vivo de bis e replays, em seções iguais de uma história repetida a cada nova temporada. Personagem, vivo pra sempre, mas não sinto a eternidade. Borboleta, bato asas, mas não vôo além dos panos vermelhos. Uma vida só: inteira, arredondada e em todas as dimensões - sem faz-de-conta; é tudo o que peço, Senhor. (faz o sinal da cruz e sai de cena)


a ponta dos dedos aponta pro ar

pergunta, afinal: - pra onde vai o olhar?


a ponta do cais aponta pro mar: afinal, como voltar?

afinal: a ponte haverรก no final?


Ana Paula Garcia Clara Mendes Julia Amaral Nina Aragóm Agradecemos aos autores dos textos: Gustavo Bicalho - pág. 4 e 5; 24 e 25; 52 e 53 Laura Cohen - pág. 6 a 11 Nina Aragón - pág. 15 Guilherme Salviatti- pág. 17 Renato Mendes - pág. 22 e 23 André Veloso - pág. 26 e 27 Luiz Henrique Moreira - pág. 30 a 35 Julia Serran - pág. 39 Davi Aroeira - pág. 40 e 41 Will Penna - pág. 45 Cesar de Oliveira - pág. 46 e 47 Filme “A lenda do pianista do mar”,

de 1999, direção Giuseppe Tornatore - pág. 18 a 21


Giz  

Revista de Artista por Ana Paula Garcia, Clara Mendes, Júlia Amaral e Nina Aragón

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