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Apoio Cultural


Creuza Ferreira Barbosa Adriana Ferreira Barbosa Silva


Copyright © Creuza Ferreira Barbosa, Adriana Ferreira Barbosa Silva, 2013 Editor Isaac Maciel Coordenação editorial Tenório Telles / Neiza Teixeira Design e direção de arte Heitor Costa Ilustração Alcemar da Silva Falcão Revisão Núcleo de Editoração Valer Participação Especial Lucila Bonina Teixeira Simões Apoio Cultural e Logístico Waldir Santos B. Júnior Normalização Ycaro Verçosa

S835v

Barbosa, Creuza Ferreira.

Fábulas r apólogos da Amazônia. / Creuza Ferreira Barbosa; Adriana Ferreira Barbosa Silva; ilustrado por Alcemar Falcão. – Manaus: Editora Valer, 2013.

80 p.

ISBN 978-85-7512-648-6 1. Literatura infanto-juvenil I. Título II. Silva, Adriana Ferreira Babosa, III. Falcão, Alcemar (Ilust.)

CDD 028.5 22 Ed.

2013 Editora Valer Av. Ramos Ferreira, 1195 – Centro 69010-120, Manaus – AM Fone: (92) 3635-1324 www.editoravaler.com.br


Sumário A Floresta e a Moto-Serra............................................... A Formiga e o Gafanhoto................................................ A Mãe Natureza e o Curumim......................................... A Seringueira e o Soldadinho de Borracha...................... A Vitória-Régia e o Jaçanã.............................................. Do outro lado da Praia da Lua........................................ O Açaí e o Buriti............................................................ O Baile do Garanchoso.................................................. O Beija-Flor e a Rosa...................................................... O Bem-te-vi e o Gato...................................................... O Cardinal e o Acará-Disco............................................. O Galo da Serra e o Mico de Cheiro................................ O Jacaré e o Prefeito de Jacundá.................................... O Jaraqui e o Tambaqui.................................................. O Rio Negro e o Rio Solimões......................................... O Sanhaçu e a Borboleta Azul........................................ O Socó e o Peixinho Piedoso.......................................... O Tucumã e a Pupunha.................................................. Os Guardiões da Amazônia............................................ Os Três Filhotes da Onça Pintada...................................

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Apresentação A leitura é um caminho mágico – rico de histórias, vivências e aprendizagem. Como uma viagem, atravessamos o mar de palavras de um livro e, ao chegarmos ao término da travessia, já não somos mais os mesmos. Cores, cheiros, saberes e encantamento acrescem-se ao que somos. Fábulas e Apólogos da Amazônia, de Creuza Ferreira Barbosa e Adriana Ferreira Silva, é um livro tecido com os fios da magia e a alegria da infância. Compõe-se de narrativas escritas pelas duas autoras com foco na formação moral e nos valores humanos. São histórias que contagiam pela simplicidade da linguagem e a delicadeza com que foram narradas. Como é recorrente nos contos tradicionais, Creuza e Adriana criam/recriam narrativas com o objetivo de despertar a atenção dos leitores para temas e questões da atualidade. Exemplo disso é a fábula “A Floresta e a Motossera”. O assunto que pontua o texto é a preocupação com o meio ambiente, a partir do conflito que se estabelece entre as personagens Floresta e Motossera. A primeira se opõe às pretensões da segunda e não permite que as árvores sejam derrubadas de forma irresponsável. A moral se funda na ideia de que é possível uma relação de equilíbrio entre o progresso e o meio ambiente. A diversidade temática é outra marca deste livro especial – que tenho certeza ajudará a formar muitos leitores. Um tema frequente nesta obra é a solidariedade, como se percebe em “A Formiga e o Gafanhoto”, de Adriana Barbosa. Texto tocante, em que a Formiga, presa a um galho, é ajudada pelo Gafanhoto. Assunto semelhante é abordado no delicado “A Vitória-Régia e o Jaçanã”: a ave ajuda a planta aquática a se salvar da correnteza, amarrando-a a outra planta, o matupá. Não há inocência neste livro. Concebido por duas educadoras, foi escrito com a intenção de ensinar seus leitores, especialmente as crianças, a amar a natureza, a respeitar o próximo e a valorizar a cultura regional. A palavra que melhor define esta obra é a alegria. E, por isso, encantará os adultos e os pequenos. Tenório Telles 7


A Floresta e a Motosserra Creuza Barbosa

Ao longo dos tempos, vivia a Floresta Amazônica feliz da vida. Era parceira inseparável do índio e do caboclo do interior. Abrigava e sustentava a bicharada e outros viventes. Tudo na santa paz. O ambiente da Floresta era tão lindo, tão mágico que mais parecia um reino encantado. O vento espalhava as ramagens das árvores copadas como se fossem os cabelos das índias Amazonas. As borboletas multicoloridas bailavam no ar numa alegria

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contagiante. Bichinhos e bichões brincavam, e corriam, e pulavam que nem crianças nos parquinhos de diversão. A passarada, ah, os pássaros e passarinhos voavam, cantavam e tocavam a mais bela sinfonia da natureza em harmonia, sob a regência do maestro Uirapuru. Enfim, na Floresta, todo dia era dia de festa.

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Certo dia apareceu uma tal de Motosserra, vinda da capital, em companhia da sua comitiva. Ao chegar, foi logo mostrando os dentes afiados e um ronco assustador: rum... rum... rum!... Disse que tinha um assunto para tratar com a Floresta. Um tanto preocupada, mas não amedrontada, a Floresta encarou: – Olá, Motosserra! A que devo o desprazer desta visita indesejável? – Calma, calma, Floresta! – disse a Motosserra – É assim que recebes teus visitantes? Não estou aqui para brigar com ninguém. Vim em missão de paz e em nome do progresso.

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– Mas tu sabes que não és bem-vinda aqui, Motosserra! Não sabes? Tua fama de predadora corre longe. Por isso, não acredito, de jeito nenhum, nesse papo de boazinha! Fala sério! Acho bom dizeres logo o que queres de mim. Sentindo-se desafiada pela primeira vez na vida, disse a Motosserra: – Na verdade, Floresta, eu vim para ajudar o caboclo a fazer o seu roçado sem calejar as mãos no cabo do machado. Isso já é um sinal de progresso. Certo? Mas, pelo visto, estou sendo praticamente expulsa daqui. – Não estou te expulsando, Motosserra! – disse a Floresta – Só quero deixar bem claro que não vou permitir de maneira nenhuma, que saias por aí derrubando as minhas árvores sem a devida responsabilidade; sem o devido compromisso com o meio ambiente. Moral: O progresso é bem-vindo, sim, desde que respeite o Meio Ambiente.

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A Formiga e o Gafanhoto Adriana Barbosa

Bem cedinho, quando o sol abria seus olhos, seus raios abraรงavam รกrvores frondosas, acordando a natureza, eis que aparece no meio da floresta a ponta de um caminho de formigas. Na frente, ia um pequeno grupo para reconhecer onde encontraria alimento. As

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formigas corriam longe e muito rápido. Aquela pressa era até engraçada. Assim que encontraram a comida, voltaram pela mesma trilha, para avisar o lugar às colegas cortadoras e carregadoras. Enquanto ia pegar o alimento, uma formiga carregadora engatou uma de suas patinhas num pequeno galho de taperebá. Algumas colegas formiguinhas diziam: – Vamos, Formiga carregadora! Força! Saia logo daí! Precisamos de você para levar a comida até o formigueiro! – Minha pata prendeu aqui neste galho. E não consigo sair; mas estou me esforçando. Vão na frente; eu já saio daqui – respondeu a formiguinha em apuros.

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Em um instante, a Formiga se viu sozinha e logo se assustou ao ouvir um barulho... pic!pic! Eram pulos suaves... Quando percebeu que o bichinho pulador era um gafanhoto, ficou mais calma. – Como foi parar aí, pequenina? – perguntou o Gafanhoto. – Não sei, senhor Gafanhoto. Eu estava apressada e não prestei atenção a esse galho. Que tal uma ajudinha? – perguntou a pequena. – Posso ajudá-la, sim. Mas você promete não me levar para o formigueiro? – perguntou preocupado o Gafanhoto. – Não se preocupe, senhor. Não vamos pegá-lo. Eu e o meu grupo comemos folhas e doces e não insetos – respondeu sorrindo a Formiga.

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Mesmo sendo maior, o Gafanhoto sabia que a Formiga era mais forte, agindo em grupo. Desconfiado, guardou o seguinte plano: se ela não cumprir com a palavra, pulo bem longe e fico quietinho, para ninguém me pegar. Então, o Gafanhoto orientou a Formiguinha: – Segure firme na minha pata maior; ela me dá impulso e vamos pular alto e distante. – Atenção! No três, nós pulamos, certo?... Um, dois, três! – continuou o Gafanhoto. – Uhuuu! – toda animada, gritou a Formiguinha.

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Terminado o resgate, a Formiga carregadora correu em disparada atrås de seu grupo, num caminho sem-fim daquela floresta. Jå ao longe, agradeceu a ajuda do bichinho pulador que continuou pulando e respondeu: – De nada. De nada. Moral: A ajuda pode vir de quem menos se espera.

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A Mãe Natureza e o Curumim Adriana Barbosa

No reino da Floresta Encantada, onde passarinhos cantavam e voavam pra lá e pra cá; as onças se escondiam por causa da claridade, mas podiam ser vistas caminhando cautelosamente; alguns macacos pulavam de galho em galho no alto das árvores... E, sentado nos pés de uma samaúma, à beira do rio Negro, havia um curumim em cochicho com alguém. – Quantos sóis ainda nos restam para viver, Mãe? – muito preocupado perguntou o Curumim.

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– Muitos ainda. Mas é preciso que os construtores de pedra pensem melhor antes de derrubar tudo, antes de acabar com tudo – respondeu a Mãe. – De repente, um barulhão: trrrr! trrrr!... E outro: zim... ziiiiim! E depois um grito: – Cuidado! Madeeeeiraa! – Olha aí, Mãe! Bem que a senhora disse. São eles!

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Realmente, eram os madeireiros e os construtores de pedra com seus instrumentos de devastação em plena atividade. – Pois é, Curumim! Eles continuam agredindo o meio ambiente, sem pensar que também estão se prejudicando – completou a Mãe. – Isso mesmo. Não sei como eles sobrevivem. Mas a nossa tribo depende desse ambiente saudável, com muitas árvores frutíferas, plantas, animais e água límpida para nos alimentar. Por isso, cuidamos desse lugar com carinho, pensando no bem de todos – falou o Curumim. – É assim que deve ser, Curumim! É muito triste ver a casa que dei de presente a alguns filhos se transformar em concreto, só concreto. Algo frio, pálido, sem vida.

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– Mãe Natureza, ouvi o papai dizer que marcaram uma reunião com os construtores de pedra, para discutirem e, depois, praticarem as melhores formas de conservação e preservação do nosso ambiente. – Muito bem, Curumim! É preciso que façam isso rápido, porque a Terra está em perigo. Moral: Antes de transformar o espaço em que vivemos, é sempre bom pensar nas consequências.

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A Seringueira e o Soldadinho da Borracha Creuza Barbosa

Há muito tempo, lá pelas bandas da Amazônia, havia muitos seringais; imensos seringais. Patrões, barracões, uma agitação geral. Chegava gente de toda parte, em busca do ouro branco, como era chamado o látex (borracha) feito do leite da

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seringueira. A borracha era mesmo um grande sucesso. Passada a febre do ouro branco, tudo ficou praticamente esquecido, inclusive os trabalhadores dos seringais. Só muitos anos depois, o seringueiro daquela época recebeu o título de Soldado da Borracha com o direito a um benefício de dois salários mínimos por mês.

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Anos e anos se passaram até que um dia a Seringueira e o Soldadinho da Borracha se encontraram. – Que bom te encontrar, meu parceiro! – Quanto tempo! Pensei que nunca mais eu fosse te ver! Estás velhinho mesmo, hein! – O Soldadinho da Borracha, supercontente, emocionado, disse: – Antes de tudo, minha amiga Seringueira, quero te dar um abraço bem forte! Um abraço de tamanduá! Um!... Um!... Um!... – Ai, Soldadinho, não vais quebrar meus ossos! Eu também já sou velhinha! Não aguento tanto quanto naqueles tempos. Aí os dois ficaram abraçados longamente e aproveitaram para lembrar os velhos tempos. – Lembra, Soldadinho, quando chegavas cedinho, ainda com aquela cara de sono, trazendo a machadinha, a tigelinha e outros instrumentos, para extrair o meu leite? – Claro que eu lembro, amiga Seringueira! Quantas vezes eu te incomodei antes mesmo de o sol nascer. Desculpa!

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– Pois não é, Soldadinho, que eu tenho saudade daquela movimentação? Agora tudo está parado. Um desânimo só! – Eu também, companheira, tenho saudade dos amigos e das pouquíssimas coisas boas que aqui vivi. Mas procuro esquecer quanto fui explorado e maltratado. Nem sair daqui eu podia, porque o patrão não deixava, alegando uma tal de dívida que eu não conseguia pagar, nunca! – Sério, amigo Soldadinho? Chegaste a ficar preso por dívida? Isto tem nome: Trabalho Escravo! E é crime. Crime dos graves! Sabias?

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– Eu sei, amiga! Eu sei! Mas fazer o quê? Se até hoje ainda ocorre essa prática criminosa, quanto mais naqueles tempos. – Mesmo assim, amigo Soldadinho, é dever de todos e de cada um denunciá-la! Moral: Trabalho escravo é crime. Deve ser denunciado.

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A Vitória-Régia e o Jaçanã Creuza Barbosa

Era uma vez uma planta aquática, de folha imensa, do tamanho de um forno de torrar farinha. A maior folha do mundo. Linda, linda! O nome da planta já significava sucesso, poder e nobreza: Vitória-Régia. Ela vivia muito longe: lá nos lagos e igapós da Amazônia. Num ambiente calmo, de águas paradas. Cansada daquela vidinha pacata, sem grande futuro, resolveu se aventurar em busca de novas paisagens e lugares mais animados e desenvolvidos. Acreditava que só assim poderia realizar o seu sonho de ser reconhecida e admirada no mundo inteiro. Então, saiu se empurrando pelas ilhas de capim e matupá, até alcançar a margem de um rio corrente. Logo percebeu que ali nada seria fácil. Pegou reboque de um pedaço de matupá que ia descendo o rio, levado pela correnteza. Ajeitou-se como pôde, mas a correnteza era tão forte que sacudia a Vitória-Régia pra todo lado.

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Vendo que já estava quase solta do matupá, gritou aflita: – Socorro! Socorro! Alguém me ajude! Alguém me ajude, pelo amor de Deus!

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O Jaçanã, pequena ave da região, que vive pelas ilhas de capim, às margens dos rios, ao ouvir os gritos da Vitória-Régia, aproximou-se dela imediatamente e perguntou:

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– O que está acontecendo aí, Vitória-Régia? Por que estás desesperada? Logo tu, que és tão poderosa? Em que posso te ajudar? Com a voz sufocada, a Vitória-Régia falou: – Depressa, Jaçanã! Depressa! Pega aí qualquer coisa pra reforçar a minha segurança aqui neste matupá, por favor! Pois se eu me soltar daqui, serei despedaçada pela correnteza! Já pensaste na tragédia? O Jaçanã deu uns pulinhos e umas bicadas e arrancou algumas fibras de capim. Com muito esforço, conseguiu amarrar a VitóriaRégia no matupá. – Pronto, Vitória-Régia! Agora já estás bem segura. Te cuida, amiga! Te cuida!

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Obrigada, Jaçanã! Muito obrigada! Deus te pague! E a Vitória-Régia prosseguiu na sua aventura, indo parar nos hotéis luxuosos, nos shoppings e parques das grandes cidades do mundo. Moral: Sozinho, não se chega a lugar nenhum.

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Do outro lado da Praia da Lua Adriana Barbosa

Na Praia da Lua, de terra branquinha e banhada de águas negras, estilo cor da noite, entre árvores de médio porte, numa beleza rara, morava uma família pacata de gatos-maracajás: o pai, a mãe e os dois lindos filhotes. Certo dia, a mãe-maracajá precisou visitar uma prima que se encontrava muito doente. Enquanto isso, o pai-maracajá ficou vigiando os filhotes. Deu de comer e beber para os pequenos e foi descansar.

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Quando o sol ia se deitando e a lua se levantando, o filhote menor saiu de mansinho e correu pela Praia da Lua em busca de aventura do outro lado do rio. Pois ouvira dizer que lå existia uma cidade grande. De repente, em certa distância, atracou na praia um pequeno barco, carregadinho de sacos de farinha. O gatinho inteligente esperou o pessoal sair dali e logo cuidou de se esconder por entre uns sacos que permaneceram no mesmo lugar. Como o tempo estava bom, o rio calmo, sem muito banzeiro, a travessia para a cidade desconhecida foi tranquila.

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Já do outro lado do rio, o filhote gato-maracajá exclamou: – Uau! Que lugar bonito! Nossa! Mas é barulhento, hein! Uma hora dessa lá em casa, tudo está quieto, em silêncio. O pequeno animal estava caminhando sem rumo pelas ruas agitadas: muitos carros, barulho de buzina, muita gente andando apressada... E logo se deparou com uma rua maior que as outras. Nesse momento, apareceu outro gato, porém diferente dele e perguntou: – Você está perdido? – Sim. Na verdade, eu sou da Praia da Lua. Eu vim de lá para conhecer este lugar. Já ouvi falar muito daqui – respondeu o filhote gato-maracajá. – Você veio sozinho, menino? Que perigo! – falou o gato manauara, discordando daquela ideia do pequeno. – Eu queria tanto dar uma voltinha pela cidade. Não vou demorar. – Tá bom! Eu sou o gato Zezinho e esta é a cidade de Manaus. É um lugar muito bom de se viver. Sempre recebendo os visitantes carinhosamente. Vamos lá! Vou lhe mostrar pelo menos o Teatro Amazonas. – Manozinho, e quais são os outros lugares bonitos da cidade? – perguntou o gato-maracajá. – Ah! Tem o Porto de Manaus, a Ponta Negra, o Encontro das Águas e lindos museus. Mas é preciso ter cuidado. Por ser uma cidade grande e muito movimentada, existem também por aí lugares nada agradáveis – observou o gato Zezinho. Ansioso, o gato-maracajá pediu: – Vamos logo até o famoso Teatro Amazonas?

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Depois que o pequeno gato-maracajá conheceu e se encantou com as pinturas daquele lugar, disse ao gato manauara: – Você deve se orgulhar desse lugar, não é? E com toda a razão. Há muitos lugares bonitos por aqui. Eu também tenho orgulho de ser da Praia da Lua. Lá também é um lugar encantador, sem falar do pessoal que é caloroso. E já me deu até saudade de casa. Preciso ir. – Certo, mano. Tenho muito orgulho de ser daqui. O povo é mesmo acolhedor. E espero que, da próxima vez, você venha com toda a sua família para conhecer os outros pontos turísticos de Manaus. Agora, vá rápido para não perder o barco – falou o gato Zezinho. – Então, manozinho, só posso te dizer muito obrigado e até logo! – respondeu satisfeito o pequenino. E lá se foi para casa, todo feliz e sorridente, o filhote gatomaracajá. Chegou são e salvo. Moral: É importante valorizar o que é nosso.

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O Açaí e o Buriti Adriana Barbosa

Em Manaus, cidade grande, misturando tons tradicionais e modernos, casas antigas e arranhacéus, a famosa feira ambulante de frutas, legumes e objetos artesanais passeia pelos bairros dessa cidade ao longo dos dias da semana. É um dia bem movimentado. Na terça-feira, por exemplo, ela abre suas barracas no tradicional bairro de Aparecida. E no meio de toda aquela agitação e barulho, conversas pra cá, gritos pra lá, dialogavam o Açaí e o Buriti: – Bom dia, Açaí! – cumprimentou o Buriti. – Bom dia, Buriti! – respondeu o Açaí. – Açaí, você já leu a Carta-Decreto da feira, que exige a visita dos fregueses, principalmente na barraca de legumes? – perguntou o Buriti. – Ainda não. Que imposição é essa? Afinal a feira é livre. Vou já procurar saber do que se trata – respondeu o Açaí. No dia seguinte, inquieto que ficou o Açaí, foi em busca do tal documento que comentara o amigo.

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Caminhando por uma barraquinha e outra, perguntava de um e de outro sobre a CartaDecreto. Mas nada. Ninguém sabia onde encontrá-la. E, insistente, continuou procurando por ela, até que achou com a Potira, boneca de pano de uma barraca de artesãos caboclos ribeirinhos. Assim, pôde ler o que estava escrito: Carta-Decreto Pelo bem de todos os visitantes e para que possam ser pessoas mais fortes e saudáveis, os feirantes decretam que é importante a visita em todas as barracas desta feira; dessa forma, poderão escolher melhor e achar o que precisam, como legumes, frutas e objetos artesanais.

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No fim do dia, o Açaí encontrou o Buriti e perguntou: – Oh, Buriti, mano! Você leu a Carta? Todo sem jeito, o Buriti soltou: – Ham, ham! Não. Na verdade, eu só ouvi um zum-zum-zum. – Mas eu li, Buriti. E o assunto da Carta-Decreto não é esse que estão dizendo por aí, não – manifestou-se o Açaí. Então, o Açaí, pacientemente, leu a Carta e esclareceu a informação ao Buriti. Moral: Antes de se acreditar em boatos, deve-se buscar a verdade dos fatos.

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O Baile do Garanchoso Adriana Barbosa

No meio da selva amazônica, existe uma ilha encantada: a Ilha Tupinambarana – Parintins. Um lugar cheio de fantasias e mistérios. A gente de lá conta que embaixo dela vive uma cobra-grande. Quando chega o mês de junho, a ilha faz o Baile do Garanchoso. Bem no centro do Bumbódromo se apresentam os bois Garantido, de vermelho e branco, e o Caprichoso, de azul e branco. Com eles ainda aparecem o Levantador de Toadas, o Amo do Boi, a Sinhazinha da Fazenda, a Rainha do Folclore, o Pajé, a Batucada do Garantido, a Marujada de Guerra do Caprichoso, as Tribos e a índia mais bela da aldeia, a Cunhã-Poranga. O Baile é um verdadeiro espetáculo. Até grandes bonecos se divertem nele. Os dois lados se empenham durante o ano todo para esta grande apresentação.

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Certa vez, quase o Baile não acontece com todo o encantamento, pois, logo na primeira noite, a Cunhã-Poranga do Garantido desmaiou, de tanto sono, antes de mostrar a sua bela dança. Minutos depois, abrindo malmente os olhos, a bela jovem ouve: – Oi, linda! O que aconteceu com você? – perguntou uma grande boneca. – Não sei. Estou tonta, não dormi direito, de tão ansiosa que fiquei para o Baile. E aqui estou eu – respondeu a CunhãPoranga. – Bom, mocinha! Vou preparar um chá quente que vai te deixar melhor e disposta para a sua apresentação. O Baile do

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Garanchoso só é um espetáculo, porque todos cantam e dançam. Cada personagem é importante nessa festa. – Mas quem é você? – perguntou a Cunhã-Poranga. – Sou a Iara. Serei homenageada esta noite pelo Azul e Branco. – Você será homenageada pelo Caprichoso, e ainda está me ajudando, por quê? – perguntou a Cunhã-Poranga vermelha e branca. – Minha querida, essa é uma competição que só tem sentido se todos se apresentarem bem; caso contrário, o Baile do Garanchoso perde a graça. Moral: Uma competição só é saudável e emocionante se os competidores estiverem em plenas condições de se apresentarem.

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O Beija-flor e a Rosa Creuza Barbosa

Estava o Beija-flor a cortejar a Rosa num jardim simplesmente belo. Rodopios pra cá, rodopios pra lá... Um vaivém sem fim. Até que a Rosa não se conteve: – Olá, Beija-flor! Para que tantos rodeios? Por que não me beijas logo, se é isso que tu queres? Tens vergonha de mim? Ou tens medo de mim?

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O Beija-flor, todo encabulado, respondeu: – Nada disso, Rosa! Nada disso! Tu és tão linda! Tão delicada e pura, que seria uma grosseria da minha parte ir direto para o beijo. O Beija-flor continuou a se justificar.

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– Quero te beijar, sim, Rosa! Mas devo me aproximar de ti bem de mansinho, com muito carinho. Eu te admiro tanto! Te amo tanto, que todo o cuidado é pouco, para não te machucar. Moral: Não ser grosseiro, principalmente com quem se ama.

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O Bem-te-vi e o Gato Adriana Barbosa

Era um lugar muito agradável. Uma casa grande de portas e janelas avermelhadas, rodeada de árvores, plantas e roseiras; um ambiente muito tranquilo. Talvez, por isso, muitos bichinhos passeavam por ali sempre felizes, principalmente um Bem-te-vi curioso. Um dia, o passarinho resolveu voar pelos cômodos da casa, para descobrir o que havia por lá. Não foi longe. Ao entrar na sala, pousou no sofá e de repente outro animalzinho apareceu: o Gato.

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– Miau! O que fazes aqui? Não tens medo de mim? – Bem-te-vi! Por que eu deveria ter medo de ti? Tu és um gato tão bonito, charmoso e ainda pareces ser tão bonzinho!... – Miau, meu caro! Nunca ouviste falar que as aparências enganam? – Bem-te-vi! Não, Gato. Nunca ouvi. – Miau! Então, voe rápido, pois estou com fome. E gato também se alimenta de pássaros.

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Imediatamente, o Bem-te-vi abriu as asas e voou para longe do perigo. Moral: Cuidado! A curiosidade pode causar sĂŠrios problemas!

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O Cardinal e o Acará-Disco Creuza Barbosa

Nos igarapés de águas cristalinas do alto rio Negro, em Barcelos, havia um reino encantado de peixes ornamentais. Os peixinhos, muitos peixinhos multicoloridos, transformavam os igarapés em verdadeiros arco-íris animados. Nadavam tão graciosamente em ritmo coreografado que mais pareciam bailarinos profissionais. Viviam felizes da vida até chegarem os Piabeiros, pescadores de peixinhos. Dali em diante, a vida no reino virou de cabeça pra baixo.

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O Cardinal e o Acará-Disco, de tão belos, passaram a ser os mais visados e perseguidos. Um dia, os dois se encontraram. O Acará-Disco, profundo conhecedor do seu reino, falou: – Ei!... Ei!... Cardinal! O que fazes aí, com essa tranquilidade? Não sabes que o nosso reino está cercado de Piabeiros? Vem pra cá! Aqui tem um lugarzinho seguro pra gente se esconder! O Cardinal ficou pensando, até que aceitou o chamado do Acará-Disco. Então, os dois se esconderam por entre umas raízes mergulhadas na beira do igarapé.

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Inconformado com aquela situação, o Cardinal se manifestou: – Meu amigo Acará-Disco, agora sou eu que pergunto: o que estamos fazendo aqui? Até quando vamos ficar escondidos feito medrosos ou covardes? – Fazer o que, amigo? – disse o Acará-Disco. – No momento, eu não vejo nenhuma saída. – Ah! Eu tenho uma ideia, companheiro! – disse o Cardinal. – Vamos convocar os nossos companheirinhos para uma campanha contra a captura irresponsável de peixes ornamentais! – Genial a tua ideia, parceiro! Podemos aproveitar o nosso prestígio no Festival do Peixe Ornamental, onde nós dois somos a grande atração! Vamos distribuir informativos da nossa campanha em toda a cidade, nas escolas e, principalmente, no Piabódromo!

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– É isso aí, amigo! – disse o Cardinal. – Lá, no Piabódromo, somos adversários, como personagens do Folclore. Mas aqui somos personagens reais com um só objetivo: defender a sobrevivência da nossa espécie! Defender o nosso reino! Assim, o Cardinal e o Acará-Disco, juntamente com milhares de outros peixinhos ornamentais, habitantes do reino, convenceram os Piabeiros a pescarem com responsabilidade. E logo todos voltaram a ser felizes. Moral: A união faz a força.

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O Galo-da-Serra e o Mico de Cheiro Adriana Barbosa

Num dia chuvoso do mês de maio, alguns trovões caíam na Amazônia... Bum! Báaa! E logo muitos bichos procuravam abrigo, para se proteger. O vento passava forte, balançando cabelos curtos e compridos das árvores. Muitos pássaros aguentavam firmes nos seus ninhos. Depois de algum tempo, devagarinho, aquela chuva pesada começou a diminuir... Foi quando se pôde ver um Galo-da-Serra e um Mico de Cheiro bem encolhidinhos debaixo de uma pedra em forma de arco. Esse lugar era a Cachoeira da Pedra Furada. A chuva ficou fraquinha e o barulho agora era apenas da queda-d’água da bela cachoeira. Assim, os dois começaram a conversar: – Oi, Mico de Cheiro. Eu sou o Galo-da-Serra. Muito prazer. Mas não vejo você por aqui, normalmente. – Oi, Galo-da-Serra. O prazer é meu. Vim de Manacapuru, porque soube que acontecerá um festival de brincadeiras aqui, na Cachoeira da Pedra Furada. Como gosto de brincar e viajo mata adentro, pulando de árvore em árvore, resolvi dar um pulinho aqui também.

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– E quem não gosta de brincar, não é, Mico de Cheiro? – perguntou o Galo. – Pois é. Quem não gosta? – indagou o Mico. – Você vai gostar. Participam muitos bichos: galos-da-serra, tartarugas, araras, macacos, até o bicho preguiça vem brincar. A preguiça demora a chegar, mas chega. E as brincadeiras são variadas e muito divertidas: pião, bolas de caroço de tucumã, manja-pega, corrida de lata, pula-corda, bole-bole, queimada, futebol, brincadeiras de roda e outras com nomes engraçados, mas você deve conhecer bem: macaca, papagaio e curupira. – Legal! Já gostei. Tomara que essa chuva passe logo! – falou o Mico. – Mas quem dita as regras aqui? – perguntou. – Ah! Quem conhece bem as brincadeiras é a senhora Coruja. Ela é sábia, conhecedora dessas brincadeiras há muito tempo e sabe resolver, como ninguém, os impasses entre os participantes, quando acontecem. Por isso, todos nós aqui, devemos respeitá-la – respondeu o Galo. – Olha! A chuva parou – falaram os dois ao mesmo tempo. Então, os animaizinhos começaram a aparecer. Surgiam de todos os lados. Eita! Que era bicho de todo o tipo, assim como o Galo-da-Serra havia dito. Logo a senhora Coruja convidou a todos e a todas para ouvirem, pelo Galo-da-Serra, o Juramento de Paz e Harmonia nas brincadeiras. Daí o Galo-da-Serra pediu aos brincantes que estendessem o braço direito e leu: – “Todos nós prometemos brincar em Paz e Harmonia, respeitando um ao outro.” – Mas se houver qualquer confusão, a senhora Coruja decidirá o que fazer – observou o Galo. Depois, cada um estava na brincadeira de sua preferência, quando de repente, o jabuti e o tracajá, brincando de corrida, se desentenderam. O tracajá empurrou o jabuti, causando aquele blá, blá, blá.

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O Mico de Cheiro viu a confusão e atravessou a cachoeira por um cipó, para avisar à senhora Coruja sobre o que estava acontecendo. Na volta, o danadinho do macaco aproveitou para puxar a orelha do tatu e beliscar o rabo do gatomaracajá. A senhora Coruja chamou os envolvidos naquele embaraço. Ouviu os dois lados e alguns que presenciaram a cena. Num cantinho, conversou com os dois, que logo se entenderam e saíram abraçados. E, pendurado no galho de uma árvore, o Mico de Cheiro concluiu:

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– Realmente, o Galo-daSerra tem razão: “Devemos respeitar a senhora Coruja.” Moral: É preciso respeitar um ao outro e, principalmente, os mais velhos.

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O Jacaré e o Prefeito de Jacundá Creuza Barbosa

Longe, bem longe, lá na Amazônia, havia uma cidadezinha pacata, chamada Jacundá, nome de um peixe da região. De repente, um zum-zum-zum mudou todo o panorama da cidade. Era gente correndo pra cá, animais correndo pra lá... Uma agitação danada que deixou a cidadezinha de Jacundá de cabeça pra baixo. Toda aquela confusão fora provocada por uma possível invasão de jacarés na cidade e em seus arredores. Tal ameaça levou o povo a exigir do Prefeito providências urgentes. Sem nenhuma alternativa planejada, o Prefeito de Jacundá mandou afastar os jacarés de qualquer jeito. Mesmo que fosse preciso matá-los. Não deu outra: mataram um montão de jacaré. Soltando fumaça pelas ventas, o Líder dos jacarés foi à Prefeitura e, batendo forte na mesa de recepção, esbravejou:

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– Quero falar com o Prefeito, agora! Vendo aquela cena de agressividade, o Prefeito disse à recepcionista que podia deixar que ele ia receber o Jacaré. – Sim, Jacaré! Qual é o problema? – perguntou o Prefeito de Jacundá. – O problema, Prefeito, é que o senhor mandou matar os meus irmãos, sem dó nem piedade. E eu sei muito bem para quê. O senhor quer ficar rico, vendendo pele de jacaré. Não é mesmo?

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– Negativo, Jacaré! Eu só mandei afastar os jacarés, porque eles estavam invadindo a cidade de Jacundá e seus arredores. Pior: eles também estavam devorando tudo o que viam pela frente. – Que que é isso, senhor Prefeito! Diga a verdade pelo menos uma vez. Confesse que ordenou a matança de jacaré daqui de Jacundá! – Escuta aqui, Jacaré! – disse o Prefeito, aborrecido. – Eu sempre fui um defensor da natureza. Mas, em primeiro lugar, devo defender a minha gente! É isto que estou fazendo aqui e agora!

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Bastante decepcionado com o Prefeito, o Jacaré concluiu: – Já que a sua verdade é essa, senhor Prefeito, só me resta apresentar a minha posição, que é a mesma dos meus companheiros: “Não precisa escolher Muito menos matar. Se estou sobrando aqui, Me ponha noutro lugar. Sem violência!” Moral: Os problemas devem ser resolvidos com inteligência. Não com violência!

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O Jaraqui e o Tambaqui Creuza Barbosa

O lago do Ubim, rio Negro acima, estava quietinho, quietinho. Águas lisinhas que nem um lençol de cetim. Em meio àquela calmaria, ouviu-se um barulinho: tipum... tipum... tipum... Eram os frutos da abiorana, planta nativa dos igapós da Amazônia, que caíam de maduros.

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O Tambaqui, peixe nobre da região, rondava por ali, esperando que os frutos caíssem para saboreá-los. O Tambaqui também rondava outros pés de frutos de sua preferência, tais como: o tacoari, o arapari e o jauari.

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Assim, cada vez que caía uma abiorana, antes que o fruto afundasse na água, o Tambaqui, rapidamente, nhoc ... nhoc... nhoc... até encher a barriga. Nisso, passou um cardume de jaraqui naquela animação. Um deles ficou pra trás, prestando atenção aos movimentos do Tambaqui. Não contendo a sua curiosidade, falou: – Ei!... Ei!... Tambaqui! O que tanto fazes abrindo e fechando esse bocão? O Tambaqui, cheio de charme, respondeu: – Ora, ora, Jaraqui! Não vês que estou saboreando estas abioranas? Queres provar um pouquinho delas? Eu pego uma pra ti.

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– Quero não, Tambaqui! Obrigado! Eu não como essas frutas. Eu me alimento de algas e detritos do fundo do rio. – Nem sabes o que estás perdendo – lamentou o Tambaqui. – Esses frutos são saborosíssimos! E por falar em sabores, o Jaraqui fez questão de perguntar sobre as delícias do Tambaqui: – E aí, amigão, ainda ofereces aqueles pratos deliciosos? – Sim, sim, Jaraqui! Jamais poderia deixar de oferecer a famosa caldeirada, o tambaqui na telha, o assado de brasa, a moqueca e muito mais, principalmente nos melhores restaurantes. Afinal, fui eleito o peixe mais nobre da região, sabias? O Jaraqui, na sua simplicidade, concluiu: – Com certeza, Tambaqui! Sei também que não sou nobre como tu, mas quis a Mãe Natureza me tornar alimento básico do povão da minha terra. Sou grato e feliz por isso. Moral: Servir aos humildes é um meio de alcançar a felicidade.

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O Rio Negro e o Rio Solimões Creuza Barbosa

Era uma bela tarde de verão. O sol já se escondia por trás da floresta, estendendo o seu manto reluzente sobre o Encontro das Águas. Tudo estava calmo, sereno. Até o banzeiro se aquietara diante daquele quadro simplesmente belo. Ouviu-se, então, um resmungado bem baixinho: runrum... runrum... runrum... Eram dois dos maiores rios da Amazônia: o rio Negro e o rio Solimões, que discutiam sem parar.

– Poxa, Solimões! – reclamou o rio Negro – por que vives a me empurrar? – Mas eu, rio Negro? Que eu saiba és tu que me empurras insistentemente! – Solimões... Solimões!... Tens coragem de negar que estás sempre a implicar comigo?

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– Fala sério, rio Negro! Eu tomo cada empurrão de ti que fico todo dolorido. O fato é que os dois se empurravam um ao outro e ninguém cedia em nada. A lenga-lenga continuava até que o rio Negro apelou: – Confessa, Solimões! Confessa! Não te misturas comigo, porque sou negro, não é? – Que ideia mais absurda, irmão! – reagiu surpreso o Solimões. – Se for por isso, eu também posso dizer que tu não queres te misturar comigo, porque sou branco, certo? – Até parece, Solimões! Até parece! Tu sabes muito bem quem sempre foi o preconceituoso aqui, desde a escravidão. Não é verdade? O Solimões, com ar de ofendido, retrucou: – Não se trata de preconceito, irmão! Nossas águas não se misturam porque são diferentes: em densidade, velocidade e temperatura. Não por causa da cor! O Rio Negro, querendo entender melhor a questão, perguntou: – Quer dizer que ser branco não significa ter preconceito contra o negro? É isso?

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– Sim, rio Negro! É isso mesmo! Ser ou não ser preconceituoso depende do caráter e da personalidade de cada um. Não depende da cor. Repito! Satisfeito, o rio Negro ergueu a Bandeira Branca: – Valeu, irmão, valeu! Já captei a tua mensagem. Obrigado! Desculpa aí qualquer coisa. Tá bem? – Tudo bem, rio Negro! Tudo bem! E os dois rios, aparentemente desunidos, continuaram a produzir, juntos, aquele cenário deslumbrante, que é o Encontro das Águas. Moral: Ser ou não ser preconceituoso depende do caráter e da personalidade de cada um.

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O Sanhaçu e a Borboleta Azul Adriana Barbosa

No cenário exuberante da Amazônia, folhas balançando, flores amarelas dançando, araras gritando, voava que voava o Sanhaçu por entre plantas e árvores frutíferas. Como o dia estava muito quente, o passarinho pousou no galho de uma plantinha para descansar. Mexendo a cabeça para cima e para baixo, viu um bichinho descendo pelo tronco lentamente. Era uma lagarta com um belo casaco. Muito atento, observou a pequenina caminhando para outra planta. Ela comeu uma folha e foi se acalmando em outra. Parecia escolher um lugarzinho seguro.

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A lagarta, pendurada na folha, soltou seu casaco e se agasalhou com outro. – Fantástico! – admirado, exclamou o Sanhaçu. O sol já ia se pondo e mais nada acontecia. Tudo parado. Mas se enganou o pássaro; pois, na verdade, aquele bichinho estava dentro de um casulo, aguardando o tempo certo para sair. O Sanhaçu ficou preocupado com a lagarta e disse: – Ai, ai, ai! Ali dentro parece tão quente, tão apertado!... Tão sozinha e a coitadinha está lá, e nada de se mexer. Pensando em ajudá-la, resolveu bicar o que ele chamara de casaco. Sem esperar, ouviu um grito! De repente, pousou no outro galho uma linda borboleta azul.

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– Nossa! Quanta beleza! Encantado, senhorita! De onde vens? – exclamou e perguntou o passarinho. – Sou a Borboleta Azul, daqui mesmo da Amazônia. Acabei de sair do meu casulo. E por isso, te peço – Não abras esse casaco; isso é uma proteção para a lagarta. Agora, ela está se transformando em outro bichinho. Se forçares a sua saída, ele pode chegar cheio de problemas. Prontamente o pássaro atendeu ao pedido. Depois pôde acompanhar o abrir do casulo e de lá viu sair outra borboleta azul, tão bela quanto àquela que vira há pouco. Moral: Cada um tem seu tempo natural para crescer e se desenvolver.

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O Socó e o Peixinho Piedoso Creuza Barbosa

Todos os dias, lá estava o Socó na beira do rio. Ora em cima dos galhos secos caídos na água, ora em cima dos filetes de capim. Mantinha-se quietinho, quietinho, só esperando os peixes passarem para dar o bote com o seu bicão. Os peixes passavam, geralmente desatentos, e o Socó, thuc! thuc!... Às vezes acertava a bicada, outras vezes errava e o peixe: zip! Escapava... Assim, o Socó, que se alimenta só de peixe, ia levando a vida. Um dia, pegou um peixe enorme para o tamanho da goela dele. Atrevido, tentou engolir o pescado, mas não deu outra: o Socó se engasgou.

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Logo sentiu lhe faltar o fôlego. Já sufocado, com a voz muito rouca, pediu ajuda: – Tem alguém aí? Preciso de ajuda! Socorro!... Estou engasgado! Estou morrendo!... Passou um primeiro peixe, nem deu bola. Passou o segundo, não ligou. Pior, até zombou da situação do Socó. Passou o terceiro. Era um peixinho muito simpático. Tinha uma carinha de bondade. Tanto assim que teve pena do Socó. Chegou bem pertinho dele e perguntou: – O que houve, Socó? Ah! Já sei! Estás engasgado, não é? – disse o Peixinho Piedoso. Naquela altura, não se ouvia mais a voz do Socó. O cara estava mal mesmo.

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Preocupado, o Peixinho Piedoso lembrou de um meio bastante usado pra desentalar e falou: – Olha, Socó, sei que vai doer. Mas é uma tentativa de te salvar. Vira as tuas costas pra mim e te segura bem. Aguenta firme! O Peixinho Piedoso deu um salto, caindo com tanta força nas costas do Socó que o peixe do engasgo pulou lá fora, vivinho! Moral: Na hora do perigo, deve-se ajudar até o inimigo.

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O Tucumã e a Pupunha Creuza Barbosa

Numa rodada de frutos da região, ainda no barco vindo da zona rural, a Pupunha chamou o Tucumã, que estava um pouco afastado da turma: – Tucumã-ã!... Tucumã! – Ai, ai, ai! Lá vem essa chata. O que é, menina? – Eu só queria te perguntar se vais pra Feira do Produtor. O Tucumã foi logo demonstrando o seu exibimento: – Claro! Eu sou indispensável nas feiras. Indispensável também em todos os cafés-regionais e cafés da manhã dos hotéis. Sou indispensável, principalmente, na mesa do caboclo. Tanto assim que as cunhantãs só cheiram a tucumã. A Pupunha, que não gostou nenhum pouco da gabolice do Tucumã, retrucou: – Não precisas esnobar tanto, irmão! Ninguém é insubstituível, sabias? Podes muito bem ser substituído por outros frutos ou iguarias da região. Por exemplo: a castanha-da-amazônia, a macaxeira, a batata-doce, a pamonha, o uixi, o umari, o piquiá,

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tão saborosos e com alto valor nutritivo, por sinal. A Pupunha continuou o seu argumento, mas agora para falar um pouco de si. – Eu também, Tucumã, posso te substituir perfeitamente.

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Afinal, sou bastante requisitada nos diversos cafés. Não sou mesmo de se jogar fora. Já me vi como o único alimento na mesa de muitas famílias desse nosso interiorzão. O Tucumã, sempre se achando o melhor, reagiu aos argumentos da Pupunha: – Ah!... Ah!... Mas eu quero é ver! Tu mesma sabes, Pupunha, que nenhum de vocês tem tanta preferência do público quanto eu! E o Tucumã continuou a se gabar: – Que o diga quem já saboreou as tapiocas, os sanduíches caboquinhos. Sem contar com os doces, cremes e sorvetes feitos da minha polpa. Que delícia! Dá até água na boca só de falar. Eu sou o cara, não é verdade?

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O que fazer? Pensou a Pupunha com seus botões. Preciso dizer umas boas verdades pra esse Tucumã metido. Em seguida, manifestou-se diplomaticamente: – Sim, irmão! Reconheço a tua importância na culinária regional. És, de fato, importante para a alimentação da nossa gente e até mesmo dos nossos visitantes. Mas discordo da forma esnobe com que exibes as tuas qualidades. Não te esqueças de que não és o único fruto saboroso da nossa região. Há tantos outros, como os que já foram citados aqui. Cada um tem o seu valor. Ao ouvirem tão sábio argumento, os frutos da região aplaudiram de pé a Pupunha: – Ê, ê, ê... Muito bem! Moral: Ninguém deve se julgar melhor do que os outros. Cada um tem o seu valor.

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Os Guardiões da Amazônia Adriana Barbosa

Há muito tempo, época em que existiam mais animais e de muitas espécies, em que todos os rios eram limpos, muitas árvores altas e frondosas, no meio do tapete verde gigantesco, que era aquela floresta, ali a cada 20 sóis se reuniam os Guardiões da Amazônia, para discutir e decidir as estratégias de defesa e harmonia do reino. Era bicho de todo o tipo e jeito, mas as reuniões eram lideradas pela Onça-Pintada, pelo Gavião-Real e o Peixe-Boi. Os encontros aconteciam sempre à beira do rio; só assim os bichos aquáticos poderiam participar.

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Certo dia, a AraraAzul trouxe uma situação delicada para resolver entre os guardiões: – Pessoal! Estou cansada de ouvir a Iguana inventando horrores sobre

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mim. Justo eu, que tanto sou fiel ao grupo; que tanto me esforço para ajudar a defender a nossa Amazônia! – Realmente, Arara-Azul, conhecemos você muito bem. E o que ela está inventando a seu respeito? – indagou o Gavião-Real. – Ela anda espalhando que eu estou traindo o grupo; que eu até já me passei pro outro lado, o lado dos predadores! Como eu poderia fazer isso? Jamais trairia meu grupo; jamais deixaria de fazer parte dos Guardiões da Amazônia! – argumentou a Arara-Azul.

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E aí foi aquele blá, blá, blá. Muitos falando ao mesmo tempo. O Mico de Cheiro atravessou bem no meio de todos, pulando de galho em galho, puxando a orelha do trio, paca, tatu e cotia. Queria mesmo era ver o circo pegar fogo. (Ah, bichinho levado!) Já a sábia Coruja, calada parecia, mas se dirigiu à Onça-Pintada e cochichou alguma coisa. Até a Sucuri se contorceu todinha, de tão assustada que ficou por aquela situação desordenada. O Uirapuru, preocupado com o alvoroço dos amigos, começou a cantar, como forma de acalmar os ânimos. Só o Peixe-Boi e o Boto observavam tudo bem tranquilamente. Na verdade, ninguém sabia dar notícias da Iguana. Então, a Onça-Pintada interrompeu todos, dizendo: – Muito bem, pessoal! Eu mesma vou procurar e conversar com a Iguana. Vou descobrir por que ela está criando essas histórias sobre a Arara-Azul. Não foi difícil encontrar a Iguana, pois a sábia Coruja já havia falado para a Onça-Pintada onde encontrá-la. Ela estava bem verdinha, escondida por entre as folhas; camuflada mesmo.

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– Por que te escondes aí, Iguana? Fizeste algo de errado? – perguntou a Onça Pintada. – Sim, Onça. Saí por aí, inventando historinhas sobre a Arara-Azul, porque não gostei da forma como ela falou da minha morada. E resolvi deixá-la chateada. – Iguana! Não precisavas fazer isso. Agindo assim, tu só conseguiste com que os bichos não acreditem mais em ti. Vem. Vamos reunir os guardiões daqui a pouco e tu esclareces o que aconteceu. Enfim, na reunião, a Iguana teve a oportunidade de esclarecer a todos o que fizera, pedindo desculpas, principalmente à Arar-Azul. Esta aceitou o pedido. E logo o reino voltou a viver em harmonia. Moral: A mentira pode criar sérias desavenças.

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Os Três Filhotes da Onça-Pintada Adriana Barbosa

Vivendo na selva amazônica, onde tudo é tão verdinho, rodeado de grandes árvores, mata fechada, repleta de animais e estrada de rios, vive bem discretamente uma pacata OnçaPintada e seus três filhotes: Kaolim, Ananã e Rudá. Kaolim é a filha mais velha, astuta e muito admirada por todos que ali moram; uma bela onça-pintada. Ananã é a filha do meio, bem mais jovem que Kaolim. Uma oncinha observadora, que capta o perigo de longe e gosta muito de rodopiar, dançando pra lá e pra cá. Rudá é o caçula. Muito carismático, faz amizade com qualquer animal da selva. E em tempo de campeonato de futebol, é sempre uma grande atração. A Onça-Pintada saía atrás de alimento para os filhotes sempre ao pôr do sol. Mas um dia, ela saiu e não voltou no horário de costume. Ananã e Rudá, não aguentando mais de tanta fome, começaram a chorar. Kaolim, muito preocupada com a mãe e com os irmãos pequenos, ia entrando em desespero também, quando resolveu se acalmar e pensou no que poderia fazer.

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– Vamos, maninhos! Aguentem firmes, mais um pouquinho. E me sigam. Vamos encontrar o que comer – falou decidida Kaolim. Muito astuta e conhecendo bem a selva, já que caminhava com a sua mãe por ali, logo encontrou atracada a uma árvore, na beira do rio, uma canoa cheinha de peixes. Foi ali mesmo que saciaram a fome e a sede que sentiam. Depois, decidiram voltar para casa, torcendo para encontrarem a mãe-onça por lá.

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– Oba! – gritaram juntos, de longe, Ananã e Rudá, assim que avistaram a mãe. Rudá, como era mais veloz, chegou a casa em fração de segundos. Kaolim e Ananã ficaram aliviadas por saber que nada de grave acontecera com a mãe.

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Então, Ananã resolveu dançar em comemoração àquele momento de felicidade. Moral: O equilíbrio é um remédio para não entrar em desespero.

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Biografias Creuza Ferreira Barbosa (Creuzinha), professora aposentada, casada, três filhos e nove netos. Nascida no Paraná do Ariaú, Iranduba/ Amazonas. Pós-graduada em Língua Portuguesa e bacharela em Direito, ambos pela Universidade Federal do Amazonas/UFAM. Professora de Língua Portuguesa e Literatura de escolas da SEMED e da SEDUC. Professora de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Amazonas. Fundadora e Presidente, por dez anos, do Fórum de Prevenção e Erradicação ao Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente/AM. Autora da Coleção Trabalho Infantil – de Criança para Gente Grande, publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, onde exerceu o cargo de Auditora Fiscal do Trabalho, atuando na difícil tarefa de prevenção e combate ao trabalho infantil e proteção ao trabalhador adolescente. Autora de diversos poemas sobre o Trabalho Infantil e outros temas.

Adriana Ferreira Barbosa Silva, casada, três filhos. Nascida em Manaus/Amazonas. Pós–graduada em Docência da Educação Básica e com Licenciatura em Língua Portuguesa e Literatura, ambos pela Universidade Federal do Amazonas/UFAM. Professora de Língua Portuguesa e Literatura de escolas da SEMED e da SEDUC. Professora de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Amazonas. Professora de Língua Portuguesa e Literatura da Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Fucapi). Professora de Língua portuguesa e Literatura do Colégio Dom Bosco e Centro Educacional Adalberto Valle. Formadora na área de Linguagem da Divisão de Desenvolvimento Profissional do Magistério/ DDPM/SEMED.

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Fábulas 2  

livro de fábulas e apólogos da Amzônia

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