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GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO Governador José Serra

Universidade Estadual de Campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Coordenador Geral da Universidade Edgar Salvadori de Decca

Conselho Editorial Presidente Paulo Franchetti Alcir Pécora – Arley Ramos Moreno Eduardo Delgado Assad – José A. R. Gontijo José Roberto Zan – Marcelo Knobel Sedi Hirano – Yaro Burian Junior

Diretor-Presidente Hubert Alquéres Diretor Industrial Teiji Tomioka Diretor Financeiro Clodoaldo Pelissioni Diretora de Gestão de Negócios Lucia Maria Dal Medico

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IMAGENS DO SAGRADO

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ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação T116i

Tacca, Fernando Cury de. Imagens dio sagrado: entre a Paris Math e O Cruzeiro / Fernando Cury de Tacca. – Campinas, sp: Editora da Unicamp, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 1. Fotografia. 2. Candomblé. 3. Antropologia visual. 4. Fotojornalismo. I. Título. cdd 770 299.6 390 778.53807

isbn 978-85-268-0848-5 Índices para catálogo sistemático: 1. 2. 3. 4.

Fotografia Candomblé Antropologia visual Fotojornalismo

770 299.6 390 778.53807

Copyright © by Fernando Cury de Tacca Copyright © 2009 by Editora da Unicamp

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistema eletrônico, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização prévia do editor.

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Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Rua da Mooca, 1921 – Mooca cep 03103-902 – São Paulo-sp www.imprensaoficial.com.br livros@imprensaoficial.com.br sac Grande São Paulo: (11) 5013-5108 | 5109 sac Demais localidades: 0800 0123401

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IMAGENS DO SAGRADO ENTRE PARIS MATCH E O CRUZEIRO Fernando de Tacca

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Não há Cruzeiro que pague tanto Riso...

A Micênio Carlos Lopes dos Santos, in memoriam

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Agradecimentos Ao povo de Mãe Riso do Bairro da Plataforma e de Nilópolis, pelos depoimentos aqui publicados, especialmente a Janíldece Barroso da Silva, que nos acolheu desde a primeira vez que chegamos de surpresa em sua casa e se tornou nosso principal contato no Bairro da Plataforma em Salvador, Bahia, e a Marilene da Silva Reis, pela paciência com nossas indagações. Agradeço a todas as pessoas cujos depoimentos constam neste livro. Agradeço a algumas pessoas e entidades que foram muito importantes para esta pesquisa: Micênio Carlos Lopes dos Santos, meu companheiro de trabalho, que acompanhou todas as etapas e esteve comigo em Salvador, em julho de 2003; José Medeiros, que me recebeu em sua casa no Rio de Janeiro, em 1988, quando iniciava minha pesquisa; Milton Guran, amigo e incentivador deste estudo; Cláudio da Cruz David, assistente de pesquisa, sempre atento aos dados; Susana Sel, sempre presente e acompanhando nosso trabalho; Luiz Eduardo R. Achutti, Cláudia Possa, Emanoel Castro Oliveira , Vagner Gonçalves e Jéromê Souty, pelas preciosas informações e contribuições; Angela Lühning e Alex Baradel, da Fundação Pierre Verger; Casa de Cultura de Teresina, pelas informações da Coleção Fotográfica José Medeiros; Lygia Nery, pelas traduções e amizade, e Eduardo Covas, pelas transcrições dos depoimentos. Meus alunos de graduação e pós-graduação, sempre atentos ao desenvolvimento da pesquisa, e meus colegas do Departamento de Multimeios, Mídia & Comunicação, do Instituto de Artes da Unicamp; Fundação Vitae, pela Bolsa Vitae de Artes — 2002.

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Sumário

Apresentação Introdução Encontro com memórias e histórias recontadas O contraponto de Pierre Verger Clouzot no Brasil, o caso Paris Match O Cruzeiro e José Medeiros A fricção ritualística Bibliografia Candomblé — José Medeiros

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Apresentação

á foi dito que o jornalismo — o palco onde se desenrola a polêmica central deste livro — é um delicioso passeio pela superfície das coisas. De fato, cabe-lhe proceder a um inventário dos acontecimentos em geral. Entretanto, ao fazê-lo, o jornalismo produz, também, um registro mais ou menos minucioso dos diferentes interesses e mentalidades que permeiam a sociedade enfocada num determinado momento. Às ciências sociais, por sua vez, cabe reunir, sistematizar e problematizar todo esse material — que constitui parte do seu campo de trabalho —, buscando produzir uma reflexão sobre como os indivíduos e os grupos sociais organizam e classificam suas experiências enquanto seres sociais. São tarefas distintas, mas contíguas, por assim dizer. Normalmente, são desempenhadas por profissionais diferentes, cada um com uma formação específica e com propósitos diversos. Aqui, no entanto, encontramos o fotógrafo, com sua experiência de repórter-fotográfico, que se junta com o antropólogo para transformar aquele delicioso passeio pela superfície em uma apaixonante viagem pelas profundezas do mundo do candomblé, das suas dimensões sagrada, mediática e ética. A partir da própria polêmica gerada pela sua exposição jornalística, são apresentados e analisados os preconceitos que o candomblé despertava naquela época no Brasil e no exterior, como também os interesses menores dos seus adeptos ao lado de toda a sua dimensão humana e força social. Bastam os títulos das reportagens em questão para se ter uma idéia da problemática que essa polêmica pôs em evidência. De um lado, a revista francesa Paris Match publica “Les possédées de Bahia”, reportagem marcada pelo sensacionalismo do exótico. De outro, ferida em seus brios de líder inconteste do mercado editorial brasileiro e exemplo mais bem sucedido das revistas ilustradas na América Latina,

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APRESENTAÇÃO

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O Cruzeiro contra-ataca com “As noivas dos deuses sanguinários”, levando ao extremo o equívoco e o preconceito que marcavam a primeira reportagem. A revista O Cruzeiro tinha um impacto na sociedade brasileira de norte a sul somente comparável ao das grandes cadeias de televisão de hoje. A sua reportagem, mais do que a da revista francesa, mexeu profundamente com a representação do candomblé enquanto culto religioso e agitou perigosamente seus seguidores, principalmente em Salvador. E como ficaram os adeptos nessa polêmica? Como se produziram essas reportagens, que interesses representavam, dentro e fora dos terreiros de culto? Quem eram os protagonistas, e por que colaboraram com essas reportagens? Eis algumas das perguntas que este livro responde, e aí reside um dos seus méritos. Fernando de Tacca levantou as fontes originais dos jornais da época e foi procurar os seus protagonistas, diretos e indiretos, no próprio Bairro da Plataforma. Ouviu quem carregava ainda as lembranças da polêmica pelo seu lado de dentro, como Sissi, da Fundação Pierre Verger, e Mãe Cutu, da Casa Branca. Encontrou as mesmas imagens que foram sentidas como pejorativas agora habitando o universo das iaôs, ressignificadas em álbuns familiares. Aqui aparece, de volta, a personagem central de Mãe Riso, mãe-de-santo da periferia, de tradição banto, que foi duramente rechaçada pelo candomblé, mas que teve uma vida inteira dedicada somente a essa religião. Sua história de vida, por si só, enriquece enormemente a releitura desses fatos. Essa polêmica, naturalmente, envolveu a intelectualidade da época e aqui estão, também, Pierre Verger, Édison Carneiro, Paulo Duarte, Alberto Cavalcanti, Leão Gondim, Accioly Netto, Odorico Tavares e Roger Bastide (inclusive com o artigo específico sobre a revista O Cruzeiro, excluído dos seus compêndios), entre outros. Imagens do sagrado — Entre Paris Match e O Cruzeiro nos traz, ainda, uma significativa contribuição para a construção de uma metodologia de trabalho que alia técnicas de reportagem jornalística às melhores práticas de pesquisa de campo da antropologia. Partindo de um conflito de interesses e disputas jornalísticas que abrangeram tanto questões éticas quanto comerciais, Fernando de Tacca colocou na boca da cena, com status de atores principais, personagens que até então funcionavam 14

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apenas como objetos de curiosidade. De seres exóticos, esses personagens e, através deles, o próprio culto passaram a sujeitos e interlocutores graças às entrevistas e, sobretudo, à leitura acurada das imagens publicadas. milton guran

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Introdução

primeira vez em que as fotografias sobre rituais afro-brasileiros de

AJosé Medeiros estiveram diante do meu olhar corria o ano de 1984, quando me foi apresentado o livro Candomblé, publicado em 1957 pela Editora O Cruzeiro. Elementos inatingíveis pelo olhar leigo, espaços e temporalidades da liminaridade, detalhes do sagrado, impenetráveis ao olhar de um não-iniciado, eram explicitados pela fotografia e mostravam imagens nunca antes vistas, em recortes detalhistas de todo o conjunto de cerimônias que envolvem os ritos de iniciação no candomblé. Na ocasião, estava em Goiânia fazendo o primeiro curso no Brasil que tratava das questões de antropologia e imagem, seus usos e suas significações. Um curso no qual pude encontrar pessoas muito importantes para minha vida pessoal e profissional: Milton Guran, Kim-Ir-Sem Pires Leal, Micênio Carlos Lopes dos Santos, Luis Eduardo Jorge. O curso de especialização chamado de Recursos Audiovisuais em Etnologia foi realizado dentro de uma instituição sem nenhuma tradição imagética, mas com importante parte do acervo brasileiro do cineasta e fotógrafo Jesco von Puttkamer. Alguns professores foram importantes na aproximação com o conteúdo do curso, mas especificamente somente Cláudia Menezes tinha uma inserção real na área, já havia realizado um filme etnográfico sobre os pancararus e tinha alguma bibliografia básica para nos indicar. Um curso era uma idéia “fora de lugar”, pois o interesse era somente chamar a atenção para o acervo e buscar saber o que fazer com ele. Nessa situação, ainda um neófito na área chamada antropologia visual, que começava a encontrar seus primeiros caminhos no Brasil como área do conhecimento, estive com essas imagens pela primeira vez. Entretanto, eu vinha de uma experiência pessoal de pesquisa em alguns textos do periódico Studies in Visual Communications, que encontrei uma parte na biblioteca da Fflch-USP e outra na biblioteca da ECA-USP, e com uma

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prática fotográfica na documentação do cotidiano de pescadores da Ilha de Boipeba, Bahia, com cultura e conhecimento fotográficos. Assim, com essa formação, tive a primeira relação com as imagens de José Medeiros. O livro pertencia a Micênio Carlos Lopes dos Santos, também um antropólogo em formação com muita inserção no universo religioso dos cultos afro-brasileiros, com o qual travei as primeiras questões sobre as imagens e o contexto da cerimônia de iniciação no candomblé. As imagens de José Medeiros imediatamente saltaram aos meus olhos iniciantes na compreensão da relação entre antropologia e imagem. Imagens nunca vistas por mim e com certeza tampouco por muitos pesquisadores nas áreas da antropologia e da fotografia, e, como fotógrafo, percebi que estava diante de um fotógrafo especial, com aguçado senso plástico para as condições dadas de um ritual e suas dificuldades de documentação. Percebi que estava perante uma documentação autêntica e original. Já conhecia a importância da fotografia de José Medeiros, mas sua obra era inacessível, somente algumas imagens suas tinham sido publicadas até então, fora as publicações da revista O Cruzeiro, também de difícil acesso. O que me atraiu de imediato no conjunto de 60 fotografias foi o olhar inserido na complexidade do ritual e a forma como o fotógrafo realizou as imagens, com proximidade e consentimento. A objetividade no enquadramento com contextualização dos momentos importantes do ritual condensa, principalmente, os detalhes sobre o corpo como suporte ritualístico. Desde o primeiro instante em que meu olhar percorreu o conjunto das imagens, identifiquei-as como uma documentação original e de forte valor etnográfico. O texto jornalístico que acompanha as imagens não compromete pelo seu caráter meramente descritivo, com detalhamento para ações, cantos, nomeação de objetos, e certa dramaticidade narrativa do evento. O texto e as legendas não identificam o local e as pessoas fotografadas, somente havia a indicação da cidade de Salvador, Bahia. Pensei ingenuamente tratar-se de uma forma de preservação das pessoas que se deixaram fotografar, mas fui percebendo, conforme a pesquisa se desenvolvia, que tenha sido talvez um caso de simples omissão. Instigado então pelas imagens que ficariam retidas na minha memória, encontrei-me com o fotógrafo José Medeiros em seu apartamento no Rio de Janeiro, em 1988. Ele me concedeu, na ocasião, uma entrevista na qual relatou os fatos aqui apresentados. Eu tinha interesse específico em saber a motivação da reportagem, sua inserção no meio religioso,

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as relações que propiciaram a feitura das imagens, as conseqüências da publicação e outras informações que ele tivesse sobre o assunto. José Medeiros, amável e simpático, foi solícito e conversamos por duas horas. Na conversa, indicou-me caminhos importantes com informações que somente ele podia fornecer-me naquele momento. Disse ele que em 1951, sentindo-se importunado e incomodado em decorrência das imagens sobre candomblé publicadas por um estrangeiro, resolveu fazer uma reportagem mostrando os aspectos inacessíveis ao olhar leigo dos rituais de iniciação dessa religião afro-brasileira. Segundo ele, a reportagem estrangeira não mostrava o “verdadeiro candomblé”. Como era costume no processo de decisão de pauta na revista O Cruzeiro, os fotógrafos tinham autonomia para propor e conduzir uma reportagem. Os enfrentamentos com revistas estrangeiras eram um ponto importante de afirmação para O Cruzeiro como produto de um jornalismo autêntico e nacional. O caso Flávio publicado na revista Life é um deles. Medeiros partiu então com o jornalista Arlindo Silva para a Bahia para tentar uma documentação original dos rituais secretos do candomblé. A dificuldade de aproximação nos terreiros tradicionais levou-os a procurar alternativas, e um guia indicou-lhes uma casa não-tradicional onde três iaôs1 estavam em reclusão e em processo de iniciação. Medeiros relatou-nos que teve uma experiência desagradável quando freqüentava os terreiros tradicionais tentando as primeiras aproximações com o intuito de fotografar, e logo em um deles, mesmo sem portar o equipamento fotográfico, foi questionado por uma mãe-de-santo em transe, que se dirigiu diretamente a ele e falou: “Você veio aqui para fotografar, mas não vai não!”. Medeiros contou-nos essa passagem com um ar de espanto místico, mas, como um fotojornalista exemplar, refletiu internamente e decidiu que não iria desistir de mostrar o “verdadeiro candomblé” e voltar para a redação sem o material prometido. Assim, mesmo fora dos terreiros tradicionais já se sabia de seus objetivos, afinal, a chegada de um fotógrafo e de um jornalista da revista O Cruzeiro era assunto em qualquer cidade na época. No depoimento mais informativo de sua vida, Medeiros fala sobre sua sensação de ser um fotógrafo da revista O Cruzeiro: “Um fotógrafo da revista era tão famoso quanto é

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Termo que designa as pessoas que estão em processo de iniciação no candomblé.

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hoje um galã da Globo, cheguei a dar autógrafos na rua. O pessoal ficava vidrado pelo fato de o cara ser d’O Cruzeiro”.2 Assim, ele encontrou um guia que o conduziu a um terreiro na periferia, no qual estariam sendo iniciadas as três iaôs: o Terreiro de Oxóssi, da mãe-de-santo Mãe Riso da Plataforma. Na conversa com Medeiros, pela primeira vez ouvi o nome da mãe-de-santo que se deixou fotografar, um dado importante para a pesquisa de campo realizada em 2002, pois pude ir diretamente para o local, o Bairro da Plataforma, em Salvador, e encontrar as memórias vivas dos acontecimentos nas pessoas que tiveram alguma relação com o evento ou que foram fotografadas por Medeiros. Somente no final da pesquisa, por meio de conversas com Arlindo Silva, tivemos a informação de como chegaram até o terreiro de Mãe Riso. O também fotógrafo Gervásio Batista apresentou-os a um motorista de táxi, chamado de Sessenta, que era freqüentador da casa de Riso e sabia da reclusão de três iaôs, e, por intermédio de Sessenta, chegaram até o Bairro da Ilha Amarela onde ficava o terreiro. Localizado no subúrbio ferroviário, o local era ainda zona rural com poucas casas e um trajeto muito longo e difícil, passando pela Ribeira e pela Plataforma, muito distante do centro de Salvador. Contou-nos Medeiros que “pagou” a mãe-de-santo para fotografar as três iaôs dentro de sua reclusão, as etapas do ritual de iniciação e a festa de saída. Com a carga mística envolvendo sua fala e o fato de estar documentando procedimentos ritualísticos não veiculados pela mídia brasileira até então, falou-nos com forte ar de mistério que ainda teve problemas com seu equipamento, pois o cabo de sincronismo do flash rompeu-se. Como o ambiente era muito escuro, fez as fotos com sua Rolleiflex usando B no anel do obturador.3 Assim, acionando e segurando o disparador na posição B, disparou a luz do flash e imprimiu imagens com ótima qualidade tonal no material fotossensível, demonstrando sua capacidade técnica de trabalhar em condições adversas. A reportagem resultante foi publicada no dia 15 de novembro de 1951 na revista O Cruzeiro com o título “As noivas dos deuses sanguinários”, contendo 38 fotografias. Algumas dessas fotografias de Medeiros, poucas

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Depoimento no catálogo da exposição José Medeiros — 50 anos de fotografia. Rio de Janeiro: Funarte, 1986, p. 15. Dispositivo que permite sensibilizar a película por quanto tempo desejar o fotógrafo: enquanto estiver apertando o botão disparador, o filme está sendo exposto à luz.

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