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Poem(a)s


universidade estadual de campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Coordenador Geral da Universidade Edgar Salvadori De Decca

Conselho Editorial Presidente Paulo Franchetti Alcir Pécora – Christiano Lyra Filho José A. R. Gontijo – José Roberto Zan Marcelo Knobel – Marco Antonio Zago Sedi Hirano – Silvia Hunold Lara


e. e. cummings

Poem(a)s traduções de

A ugusto

de

C ampos

edição revista


Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Em vigor no Brasil a partir de 2009.

ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação C912p

Cummings, E. E. (Edward Estlin), 1894-1962. Poem(a)s / E. E. Cummings; tradutor: Augusto de Campos. – 3a ed. revista. – Cam­pinas, sp: Editora da Unicamp, 2012. 1. Poesia americana. 2. Literatura americana. I . Campos, Augusto de. II . Título.

cdd 811.52 isbn 978-85-268-0970-3 810 Índices para catálogo sistemático:

1. Poesia americana 2. Literatura americana

811.52 810

From COMPLETE POEMS: 1904-1962 by E. E. Cummings, edited by George J. Firmage. Copyright 1923, 1925, 1926, 1931, 1935, 1938, 1939, 1940, 1944, 1945, 1946, 1947, 1948, 1949, 1950, 1951, 1952, 1953, 1954, © 1955, 1956, 1957, 1958, 1959, 1960, 1961, 1962, 1963, 1966, 1967, 1968, 1972, 1973, 1974, 1975, 1976, 1977, 1978, 1979, 1980, 1981, 1982, 1983, 1984, 1985, 1986, 1987, 1988, 1989, 1990, 1991 by the Trustees for the E. E. Cummings Trust. Copyright © 1973, 1976, 1978, 1979, 1981, 1983, 1985, 1991 by George James Firmage. Used by permission of Liveright Publishing Corporation.

Copyright © by Augusto de Campos Copyright © 2012 by Editora da Unicamp 1a edição, Francisco Alves Editora, 1999 2a edição, Editora da Unicamp, 2011

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sumário

e. e. cummings, sempre jovem ...................................................................... 13 traduções acrescidas a esta edição ................................................. 21 e. e. cummings: olho e fôlego .................................................................... 23 não, obrigado .............................................................................................................. 27 30 anos, 40 poemas .................................................................................................... 33 intradução de cummings ................................................................................ 37

poem(a)s foreword to is 5, 1926 ................................................................................................... 48 introdução a são 5, 1926 ........................................................................................... 49 de tulips and chimneys ( 1923 ) 1

2

into the strenuous briefness . ........................................................................ 50 na estrênua brevidade ........................................................................................ 51 the Cambridge ladies who live in furnished souls ....................... 52 as damas de Cambridge que moram em almas mobiliadas ..... 53 de &(AND) ( 1925 )

3

4

i will be ....................................................................................................................... 54 eu estarei .................................................................................................................... 55 i like my body . ........................................................................................................ 56 eu gosto do meu corpo ..................................................................................... 57


de XLI POEMS (1925) the sky was . ................................................................................................................ 58 5 o céu era . .................................................................................................................. 59 Buffalo Bill’s ........................................................................................................... 60 6 Buffalo Bill é .......................................................................................................... 61 de IS 5 (1926) 7

POEM,OR BEAUTY HURTS MR. VINAL . ............................................ 62 POEMA,OU A BELEZA FERE O SR. VINAL ................................ 63

ITEM . ............................................................................................................................ 68 8 NOTA ............................................................................................................................ 69 9

oDE . ............................................................................................................................... 70 oDE . ............................................................................................................................... 71

MEMORABILIA ..................................................................................................... 72 10 MEMORABILIA ................................................................................................... 73 11

“next to of course god america i .............................................................. 76 “depois de é claro deus américa eu . ....................................................... 77

12

since feeling is first ............................................................................................ 78 já que sentir vem antes .................................................................................... 79 de W(VIVA) (1931)

13

twiis -Light bird . ................................................................................................. 80 crep úscu -Luz ave ................................................................................................ 81 14

it)It will it . ................................................................................................................ 82 ela)Ela virá ela . ..................................................................................................... 83


15

somewhere i have never travelled,gladly beyond .......................... 86 nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além ......... 87 de NO THANKS (1935)

16

o pr ................................................................................................................................. 88 ó pr ................................................................................................................................. 89

17

r-p-o-p-h-e-s-s-a-g-r .......................................................................................... 90 o-h-o-t-n-a-f-g-a . .................................................................................................. 91

18

go(perpe)go .............................................................................................................. 92 vai(perpé)vai ............................................................................................................ 93

19

floatfloafloflf ........................................................................................................... 94 flutuflutfluflf ........................................................................................................... 95

20

birds( ............................................................................................................................. 96 aves( . ............................................................................................................................. 97

21

brIght ............................................................................................................................ 98 brIlha . ........................................................................................................................... 99 de NEW POEMS (1938)

22

un ..................................................................................................................................... 1 00 a ........................................................................................................................................ 1 01

23

so little he is . .......................................................................................................... 1 02 tão pequeno ele é . ................................................................................................ 1 03

24

my specialty is living said ............................................................................. 1 04 minha especialidade é viver — era a legenda . ................................ 1 05 de 50 POEMS (1940)

25

!blac . ............................................................................................................................. 1 06 !pret . .............................................................................................................................. 1 07


de 1 X 1 (ONE TIMES ONE) (1944) 26

nonsun blob a . ........................................................................................................ 1 08 nãosol bolha um .................................................................................................... 1 09

27

a politician is an arse upon . ........................................................................ 1 10 um político é um ânus no ............................................................................... 1 11

28

plato told .................................................................................................................... 1 12 platão lhe . .................................................................................................................. 1 13

29

pity this busy monster,manunkind, ........................................................... 1 14 piedade desse monstro em ação,humanimaldade? ......................... 1 15

what if a much of a which of a wind ...................................................... 1 16 30 que tal se um nem de um quem de um vento ................................... 1 17 a- ...................................................................................................................................... 1 18 31 à ........................................................................................................................................ 1 19 how ................................................................................................................................. 1 20 32 tão . .................................................................................................................................. 1 21 de XAIPE (1950) hush) .............................................................................................................................. 1 22 33 psiu) ............................................................................................................................... 1 23 chas sing does(who ............................................................................................. 1 24 34 chas sing não ca(e . .............................................................................................. 1 25 when serpents bargain for the right to squirm ............................... 1 26 35 quando as serpentes paguem para ser serpentes . ........................... 1 27 pieces(in darker . ................................................................................................... 1 28 36 cacos(no mais escuro ......................................................................................... 1 29 why must itself up every of a park . ......................................................... 1 30 37 por que haverá de em cada de um parque ........................................... 1 31 i’m ................................................................................................................................... 1 32 38 eu ..................................................................................................................................... 1 33


(fea . ................................................................................................................................ 1 34 39 (plu ................................................................................................................................. 1 35 a like a ......................................................................................................................... 1 36 40 uma como uma . ...................................................................................................... 1 37 (im)c-a-t(mo ............................................................................................................. 1 38 41 (i)g-a-t-o(m . ............................................................................................................. 1 39 de 95 POEMS (1958) l(a .................................................................................................................................... 1 40 42 so . .................................................................................................................................... 1 41 now air is air and thing is thing:no bliss . ......................................... 1 42 43 agora ar é ar e coisa é coisa:traço ........................................................... 1 43 un(bee)mo .................................................................................................................. 1 44 44 i(abe)mó ...................................................................................................................... 1 45 off a pane)the .......................................................................................................... 1 46 45 na vidraça)a .............................................................................................................. 1 47 joys faces friends . ................................................................................................ 1 48 46 alegrias faces amigos . ....................................................................................... 1 49 why from this her and him ............................................................................. 1 50 47 por que deste ela e ele . .................................................................................... 1 51 dim .................................................................................................................................. 1 52 48 dim .................................................................................................................................. 1 53 ev erythingex Cept: ............................................................................................. 1 54 49 tu doex Ceto: ........................................................................................................... 1 55 what Got him was Noth . .................................................................................. 1 56 50 o que o Levou não foi Nad ............................................................................ 1 57 a he as o ..................................................................................................................... 1 58 51 um o tão v . ................................................................................................................ 1 59 a gr ................................................................................................................................. 1 60 52 um bê ............................................................................................................................ 1 61


f ......................................................................................................................................... 1 62 53 t ......................................................................................................................................... 1 63 why . ................................................................................................................................ 1 64 54 por que ......................................................................................................................... 1 65 n ........................................................................................................................................ 1 66 55 v ........................................................................................................................................ 1 67 you no ........................................................................................................................... 1 68 56 você re . ........................................................................................................................ 1 69 old age sticks . ......................................................................................................... 1 70 57 o velho prega ........................................................................................................... 1 71 “but why should” ................................................................................................. 1 72 58 “mas por que” ......................................................................................................... 1 73 out of the lie of no .............................................................................................. 1 74 59 da mentira do não ................................................................................................ 1 75 the(oo)is ...................................................................................................................... 1 76 60 d(oo)is .......................................................................................................................... 1 77 de 73 POEMS (1963) at just 5 a . ................................................................................................................. 1 78 61 às 5 da man . ............................................................................................................. 1 79 e ........................................................................................................................................ 1 80 62 e ........................................................................................................................................ 1 81 n ........................................................................................................................................ 1 82 63 m ...................................................................................................................................... 1 83 insu nli gh t .............................................................................................................. 1 84 64 empl eno so l ........................................................................................................... 1 85 a grin without ......................................................................................................... 1 86 65 um riso sem .............................................................................................................. 1 87 “nothing” the unjust man complained .................................................. 1 88 66 “nada” o homem injusto lamentou ........................................................... 1 89


n ........................................................................................................................................ 1 90 67 n ........................................................................................................................................ 1 91 t,h;r:u;s,h;e:s .......................................................................................................... 1 92 68 o,s;t:o;r,d;o:s ........................................................................................................... 1 93 mi(dreamlike)st ...................................................................................................... 1 94 69 né(comoemsonho)voa ........................................................................................ 1 95 & sun & . ..................................................................................................................... 1 96 70 & sol & ........................................................................................................................ 1 97 who is this ................................................................................................................. 1 98 71 quem é esta ............................................................................................................... 1 99 one .................................................................................................................................. 2 00 72 o ........................................................................................................................................ 2 01 D-re-A-mi-N-gl-Y . ................................................................................................ 2 02 73 S-on-H-am-E-nt-E ................................................................................................ 2 03 de ETC thing no is(of ........................................................................................................... 2 04 74 coisa é nenhuma(de . ........................................................................................... 2 05

APÊNDICE ESTELA PARA E. E. CUMMINGS ............................................................................ 2 09 CUMMINGS ENTRE MÚSICOS ................................................................................. 2 17 E. E. CUMMINGS: BIOFLASHES ............................................................................. 2 25 BIBLIOGRAFIA DE E. E. CUMMINGS (POESIA) . ......................................... 2 29 DOCUMENTOS E IMAGENS ....................................................................................... 2 31

Memorabilia — Correspondência relativa à primeira edição de E. E. Cummings — 10 poemas (1960) ............................................................. 2 33 Capa de Alexandre Wollner e Geraldo de Barros para a primeira edição das traduções de Cummings por Augusto de Campos .......... 2 44


Notícia da morte de Cummings ( 1962 ) . ........................................................... 2 45 4 Patchin Place — Residência de Cummings em Nova York (foto: Bernardo Voronow, 2007 ) ............................................................................ 2 46 Placas de homenagem ao poeta em 4 Patchin Place (foto: Carlos Adriano, 2007 ) .................................................................................... 2 47


e . e . cummings , sempre jovem *

passaram-se mais de 60 anos

desde que o (então respeitável) crítico R. P. Blackmur sentenciou que a arte do poeta E. E. Cum­mings, considerada a sério, não era mais que uma es­pé­cie de “baby-talk”. Hoje ninguém mais sabe quem é Mr. Blackmur. Mas Cummings está entre os grandes da poesia moderna norte-ameri­cana. Para os poetas — os mais exigentes, pelo menos — isso nunca foi novidade. Marianne Moore: “E. E. Cummings é um con­centrado de significações titânicas, ‘um caráter positivo’; e somente a inventividade poderia tentar sugerir em uma palavra o aspecto ‘heroico’ de suas pinturas, seus poemas e suas resistências. Ele não comete erros estéticos”. William Carlos Williams: “Penso em Cummings como se fosse Robinson Crusoé no momento em que viu a impressão do pé desnudo de um homem na areia. Isso também implicava uma nova linguagem — e um remanejamento da consciência”. Ezra Pound: “Cummings? Sim. Sempre o mais vivo de todos nós”. A área principal de atrito de Cummings com a crítica se localiza no seu uso não ortodoxo da tipografia, as suas famosas ou famige­ radas fragmentações de palavras. Mas tais desconstruções gráficas são só aparentemente desorganizadas, e, no fundo, são construtivistas ou reconstrutivistas, pois têm finalidades ao mesmo tempo se­ mân­ticas (bus­cando, por meio de associações icônicas, reconstituir a experiência sensorial ou imaginativa e multiplicar os níveis de leitura) e estrutu­rais (relativas à divisão estrófica do poema). Nesse sentido, não cons­tituem um fato isolado na poética de Cummings;  Publicado como introdução à primeira edição de Poem(a)s (Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1999).


unem-se a outros tantos recursos formais, dentre os quais sobres­ saem: a cunhagem de vocábulos, em grande parte por processos de afixação; as trocas de funções gramaticais, consistentes sobretudo na conversão de verbos, pronomes, adjetivos, advérbios e con­ junções em substantivos; e o deslocamento sintático, ou aquilo que D. J. Grossman (o mais conhecido tradutor francês de Cummings) denomina de “interversão”, isto é, a alteração da ordem das pa­ lavras, tal como a concebe a estrutura das proposições da lógica discursiva. O que é fundamental para compreender a poesia de Cummings é que as suas transgressões tipográficas e sintáticas não são meros fo­ gos de palha ou gratuidades. O que ele pretende é rejuvenescer a linguagem e explorar, com maior flexibilidade do que permitem as estruturas entorpecidas dos sistemas convencionais, o universo com­ plexo da percepção e da sensibilidade. É por isso que ele introjeta num idioma moderno ocidental, como o inglês, procedimentos de­ rivados do ideograma chinês (a figuralidade de origem pictográfica e o pensamento por analogia) e de línguas clássicas como o grego ou o latim, tratando o seu idioma como se fosse uma língua flexionada — como já observou Norman Friedman, no seu estudo E. E. Cummings: The Art of His Poetry — de forma a liberar a ordem das palavras. Igual libertação é concedida às áreas mais humildes da linguagem, como os conectivos ou as partículas de transição. Lionel Trilling, um dos raros críticos que souberam apreciar o poeta desde a primeira hora, escreveu a propósito: “Ele foi capaz de encontrar mais e mais vida em mais e mais palavras. Aquelas partes da linguagem que todos considerávamos apenas ‘modificadoras’, ‘relativas’ ou ‘dependentes’ aprenderam com ele a ter uma existência plena e livre”. É esse o caso de prefixos como “un-” ou “non-”, ou sufixos como “-less”, “-ness” ou “-ly”, que se unem a outros vocábulos para criar novas palavras, por exemplo: “nonsun” (nãosol) ou “sunly” (solmente) ou “dreamlessnesses” (semsonhidades). E de partículas como “a”, “un”, “self, “much”, “when”, “if’, “am”, convertidas em substantivos. 14 |

Poem(a)s — e. e. cummings


Esse anárquico idioleto de Cummings não é, porém, nem caó­ tico nem egocêntrico. Obedece antes a uma ética que privilegia a cria­tividade individual contra o conservadorismo da maioria (“mostpeo­ple”), o amor e a solidariedade contra a cobiça e a guerra, a poesia e a emoção contra o negócio e a razão condicionada pela obe­diên­cia cega aos valores convencionais. Daí a simpatia com que Cum­mings vê os amantes, as crianças, as minorias discriminadas ou exclu­ídas, como os bêbados e as prostitutas, e o correlato desprezo com que trata os negociantes e os políticos, os fascistas e os comunistas (igualmente escarnecidos por ele) e os “democratas” e “patriotas” belicistas e preconceituosos. Sua poesia apresenta algumas linhas temáticas, muitas vezes re­ cor­rentes. Há uma vertente descritiva (motivos principais: a lua, a es­trela, a folha e o floco de neve, a primavera e as estações, o cre­ pús­culo; pequenos animais como o gato ou o esquilo, e insetos como o gafanhoto, a abelha, a mosca). Uma vertente amorosa, altamente sig­nificativa, tanto na pauta físico-erótica da primeira fase como na mais espiritualizada dos poemas da maturidade. Entre essas duas linhas se situam os poemas que retratam personagens em breves anedotas poé­ticas, podendo tanto homenagear pessoas reais como Picasso, o dançarino Paul Draper (no 19) ou o comediante Jimmy Savo (no 23), como consagrar criaturas anônimas como prostitutas ou vagabundos, uma camponesa ou um catador de papéis. Na antí­tese dos poemas amorosos ou encomiásticos, situa-se uma larga porção da poesia de Cummings: os poemas satíricos, que abran­gem os tex­tos antibélicos como “plato told” (no 28) e “why must itself up every of a park” (no 37), os que ridicularizam os valores convencionais e suas figuras prototípicas como o de no 2, “the Cambridge ladies who live in furnished souls” (as damas de Cambridge que moram em almas mobiliadas), ou “the dollarbringing virgins” (as virgens endolaradas) — isto é, as turistas americanas em Veneza (no 10, “MEMORABILIA”) — e invectivam a “manun­ kind”, a “hu­manimaldade” (no 29) dos patrioteiros, dos negociantes e dos po­líticos (no 27: “a politician is an arse upon”). Finalmente há Augusto de Campos

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a ca­te­goria dos poemas de “persuasão” ou de “reflexão”, como os ­clas­sifica Norman Friedman, aqueles que revelam a filosofia de vida do poeta e o seu elenco de valores, como “now air is air and thing is thing:no bliss” (no 43). Evidentemente, essas categorias não são es­tan­ques, e se projetam umas sobre as outras. Como afirma Friedman, a poética de Cummings se origina do que ele chama de “metafísica carnalizada; ou abstrações elevadas à potência do concre­to”. Sua visão da vida, embora transcen­ dental, começa por um básico e inabalável deleite sensual pelo mundo físico, tanto urbano quanto rural. É o mundo social, o mundo das ansiedades e rotinas criadas pelo homem que ele transcende e não, como se acredita às vezes, os mundos físico e cultural. Não é a morte mas o medo da morte que ele ironiza e não a tradição cultural existente mas a convenção estéril.

As minhas primeiras traduções da poesia de Cummings, reuni­ das em livro em 1960 (E. E. Cummings — 10 poemas, edição do Mi­nis­tério da Cultura), enfatizaram o poeta das experiências de ges­ tualização tipográfica, o mais revolucionário e o menos aceito e en­tendido. De­lineado o perfil do poeta-inventor e implodida a textura tradicional do poema com a exposição dessa inusitada “tortografia”, tornou-se pos­sível explorar, em leituras posteriores, o espec­ tro mais amplo das ver­tentes cummingsianas. Duas novas sele­ções de poemas, publicadas em 1979 (E. E. Cummings — 20 poem(a)s, Editora Noa Noa) e 1986 (E. E. Cummings — 40 poem(a)s, Editora Bra­siliense), ampliaram o nú­mero de textos traduzidos, enfatizan­do o humor cummingsiano e as sutilezas de sua fase derra­deira. Nesta nova edição, comemorativa do centenário do nascimento do poeta, pretendo homenageá-lo com mais 22 traduções, abrangendo todas as suas faces e estilos. Das composi­ções líricas de juventude como “somewhere i have never travelled” (nalgum lugar em que eu nunca estive) — no 15 — aos poemas objetivistas, como os que tematizam a mosca, a lua, o floco de neve, a estrela, a camponesa. Dos epigramas crítico-anedóticos, como os de no 51 e no 52, que descrevem

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os bêbados de rua — “a he as o” (um o tão v), “a gr” (um bê) —, aos poemas francamente satíricos, como o antibelicista “why must itself up every of a park” (por que haverá de em cada de um parque), no 37, ou os que escarnecem os “unpeople”, as nãopessoas, sem horizonte a não ser a vida prática e o lucro, como o de n o 50, “what Got him was Noth” (o que o Levou não foi Nad) ou o de no 56, “you no” (você re). Este último poema se fulcra no trocadilho (ir­recuperável literal­mente em português) entre “more” (mais) e “morticians” (agentes funerários). Com liberdade, uso na tradução as palavras “mais” e “ani­mais”, mudando a chave semântica, mas mantendo o tom cáustico do poema dentro de um equivalente jogo de palavras. As composições de n os 19 e 23, “floatfloaflofl” (flutuflutfluflf) e “so little he is” (tão pequeno ele é), dedicadas a Paul Draper, um dançarino, e a Jimmy Savo, um comediante, confirmam o poeta radical das atomizações de palavras e dos mimogramas tipográficos. Cummings é um mestre da tmese (do grego tmesis, corte), ou inter­calação de palavras, processo que tem origem no ­latim clássico — o exemplo mais notável é “cere-comminuit-brum” (que traduzo por cere-esfacela-bro), geralmente atribuído a Ênio (século III a.C.) — mas que Cummings, versado em literatura greco-latina, emprega sistematicamente e erige à condição de recurso privilegiado da estru­tura, associando-o às técnicas da montagem cinematográfica e da colagem. Algu­mas vezes a tmese se alia à tática dos deslocamentos ­sintáticos, produzindo efeitos de confusão de sensações ou simulta­nei­dade perceptiva. Vivamente presente nas primeiras linhas de “why must itself up of every park” ou no poema da mosca (no 45) — “off a pane)the” / na vidraça)a —, ou no da camponesa (no 40) — “a like a” / uma como uma —, o processo se desenvolve admiravelmente na composição de no 74, um pequeno poe­ ma inédito recolhido na cole­ção póstuma ETC — “thing no is(of” / coisa é nenhuma(de —, de estilo semelhante a outro, anterior, já traduzido por mim (no 26): “nonsun blob a” (nãosol bolha um). Se reconstruirmos a ordem de encadeamento lógico do poema, ele ofeAugusto de Campos

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recerá, entre outras possibili­dades de leitura, a seguinte: “of all things which are, no thing is so quite alive as one star (which will disappear in a now) to whom kneeling I say here my (who)” — de todas as coisas que são, coisa nenhuma é tão bela como uma só estrela (que já vai indo embora num aqui) à qual ajoelhado eu digo agora meu (quem). Numa das leituras possíveis a palavra “will” (formante do futuro) sugere também o substantivo com o signifi­ cado de “desejo”, que poderia também completar a frase em suspenso, tomando o lugar de “who” (quem). Mas é da própria in­com­ pletude do enunciado, da dispersão e da ambiguidade frásica que se forja o momento mágico do poema; de um lado, a desordenação imposta ao texto iconiza a contemplação da estrela perdida na pai­ sagem celeste, e de outro, por meio da substantivação das partes do discurso, opera a transformação da coisa em ser ou do “which” em “who”, ou do “que” em “quem”, para usar o jargão estilístico do próprio poeta. Acho admirável que Cummings, em seus últimos poemas, tenha insistido em pesquisar nessa área-limite da desautomatização da lin­guagem, tão difícil de empreender, mas tão rica de sugestões. Está aí talvez um dos pontos de contato de sua obra com a poética de John Cage. Este, como se sabe, foi um dos primeiros a musicar poemas de Cummings nas composições “Five Songs for Contralto”, 1938, “Forever and Sunsmell”, 1942, “Experiences I”, 1945, “Experiences II”, 1948. Al­guns dos próprios textos de Cage parecem dever algo a outros de Cummings. É o caso do título de “Diary: How to improve the world (You will only make matters worse)”, 1965, que recorda o “sonnet entitled how to run the world” de No Thanks. E do apólogo de Suzuki relatado por Cage na sua Con­ferência da Juillard (“Before studying Zen, men are men and mountains are mountains.”) que faz lembrar “now air is air and thing is thing:no bliss” (agora ar é ar e coisa é coisa:tra­ço”) de 95 Poems, também incorporado a esta cole­tânea de traduções. Mas são procedimentos como o deslocamento sintático e tipográfico e a liberação das partículas auxiliares ou subor­dinadas que irão interessar mais especifi18 |

Poem(a)s — e. e. cummings


camente a Cage, ainda que chegue a eles não por meio de um deliberado controle da desconstrução, como Cummings, mas antes pelo desencadeamento de processos casuais que têm por escopo eliminar a interferência do gosto pessoal. Indagado sobre suas preferências em poesia, Cage manifestou em mais de uma oportunidade a sua admiração por Cum­mings, Eliot, Pound, Gertrude Stein e James Joyce. E embora tenha sempre afirmado que Joyce e Gertrude foram os mais importantes para ele, o fato é que em seus “mesós­ ticos” — alguns dos quais compostos inteiramente de fragmentos do Finnegans Wake — ele fez convergi­rem Joyce e Cummings, assim como o fizera antes com Pound e Stein. De qualquer modo, há uma forte presença cummingsiana na obra de Cage, que com­ partilha com o poeta uma generosa ética anarcoindividual da cidadania americana, com raízes comuns na “desobediência civil” de Thoreau. É mais um aspecto das potencialidades prospectivas da obra de Cummings, que resiste com intacta grandeza neste fimcomeço de século. Augusto de Campos 1999

Augusto de Campos

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Poem(a)s Cummings  

Poem(a)s Cummings