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universidade estadual de campinas Reitor José Tadeu Jorge Coordenador Geral da Universidade Alvaro Penteado Crósta

Conselho Editorial Presidente Eduardo Guimarães Esdras Rodrigues Silva – Guita Grin Debert João Luiz de Carvalho Pinto e Silva – Luiz Carlos Dias Luiz Francisco Dias – Marco Aurélio Cremasco Ricardo Luiz Coltro Antunes – Sedi Hirano

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carolina p. fedatto

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o discurso hist贸rico sobre a cidade brasileira

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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Em vigor no Brasil a partir de 2009.

ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação F316s

Fedatto, Carolina Padilha, 1983Um saber nas ruas: O discurso histórico sobre a cidade brasileira / Carolina P. Fedatto. – Campinas, sp: Editora da Unicamp, 2013. 1. Análise do discurso. 2. Linguística – História. 3. Espaço urbano. 4. Patrimônio histórico – Brasil. 5. Monumentos – Brasil – História. I. Título.

cdd 401.41 410.9 307.76 363.690981 isbn 978-85-268-1044-0 731.760981 Índices para catálogo sistemático:

1. Análise do discurso 2. Linguística – História 3. Espaço urbano 4. Patrimônio histórico – Brasil Monumentos – Brasil – História 5.

401.41 410.9 307.76 363.690981 731.760981

Copyright © by Carolina P. Fedatto Copyright © 2013 by Editora da Unicamp

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a andrĂŠ de paiva toledo, meu amor, meu trampolim, meu ancoradouro.

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agradecimentos

agradeço à fundação de amparo à pesquisa do estado de são paulo e à coordenadoria de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior pelo apoio financeiro à pesquisa que resultou neste livro. meu carinho especial a suzy lagazzi pelo percurso intenso e terno. a bernard bosredon pela orientação acolhedora. à leitura atenta de josé horta nunes, luiz francisco dias, carolina rodríguez e claudia pfeiffer.

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a gente principia as coisas no não saber porque, e desde aí perde o poder de continuação. guimarães rosa, grande sertão: veredas

et aujourd’hui encore si, dans une grande ville de province ou dans un quartier de paris que je connais mal, un passant qui m’a “mis dans mon chemin” me montre au loin, comme un point de repère, tel beffroi d’hôpital, tel clocher de couvent levant la pointe de son bonnet ecclésiastique au coin d’une rue que je dois prendre, pour peu que ma mémoire puisse obscurément lui trouver quelque trait de ressemblance avec la figure chère et disparue, le passant, s’il se retourne pour s’assurer que je ne m’égare pas, peut, à son étonnement, m’apercevoir qui, oublieux de la promenade entreprise ou de la course obligée, reste là, devant le clocher, pendant des heures, immobile, essayant de me souvenir, sentent au fond de moi des terres reconquises sur l’oubli qui s’assèchent et se rebâtissent; et sans doute alors, et plus anxieusement que tout à l’heure quand je lui demandais de me renseigner, je cherche encore mon chemin, je tourne une rue… mais... c’est dans mon cœur… marcel proust, à la recherche du temps perdu (du côté de chez swann)

il est de la nature de l’évidence qu’elle passe inaperçue. jean paulhan, de la paille et du grain

[...] as identidades e as coerências, [...] essas têm obrigação de explicar-se por si mesmas [?]. questionamento a josé saramago, em a caverna

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sumário

prefácio. . ................................................................................................................................ 13 preâmbulo ao estranhamento.................................................................................... 17 introdução — o saber na história da cidade.. ........................................................ 19 primeiro capítulo — dos fundamentos teóricos à elaboração das questões.......................................................................................................................... 1. arquivo e memória discursiva na cidade. . ................................................ 2. discurso histórico e linguagem. . ................................................................... 3. dois pressupostos. . ............................................................................................... i. da metáfora como resistência................................................................ ii. o sujeito histórico. . ................................................................................... 4. uma poética da identificação pelo urbano.............................................

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segundo capítulo — pontos de parada na discursividade urbana.............. 1. referências na cidade. . ........................................................................................ 2. língua e urbanidade. . .......................................................................................... 3. do monumento ao patrimônio: um lugar de representação do nós nacional.. .........................................................................................................

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terceiro capítulo — a produção do espaço no brasil........................................... 1. colonização e historicidade do espaço..................................................... 2. história de nomes e coisas............................................................................... 3. imaginários da urbanização brasileira: três espacializações. . ........

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uma igreja...................................................................................................... 122 a biblioteca..................................................................................................... 147 um colégio....................................................................................................... 163 conclusão — o saber e o alhures.................................................................................. 187 bibliografia.......................................................................................................................... 195 anexos. . ................................................................................................................................... 209 1. acervos consultados.. .......................................................................................... 209 2. glossário. . .................................................................................................................. 213

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prefácio

Este livro nos presenteia com uma proposta ousada e consequente, resultado de um percurso acadêmico de doutorado que orientei com a co-orientação do professor Bernard Bosredon (Université de la Sorbonne Nouvelle – Paris III) e que recebeu o Prêmio Capes de melhor tese na área de Letras e Linguística do ano de 2012. Um reconhecimento que faz jus à produtiva intersecção entre a perspectiva discursiva materialista dos estudos urbanos e a história de produção do conhecimento sobre a linguagem. Uma contribuição ímpar. A delicadeza da escrita e o refinamento teórico se entrelaçam n ­ este texto e nos mobilizam numa leitura densa e instigante. Somos tomados no movimento de um dizer que, em meio ao abandono das maiús­ culas, nos surpreende com jogos significantes certeiros. Pensar os modos de inscrição do saber no discurso da cidade é aportar o olhar discursivo à produção cotidiana do conhecimento que se institui saber, entremeando sujeito, espaço, linguagem e história. Carolina Fedatto traz seu olhar atento para o espaço nacional brasileiro, recortando da literatura, de relatos históricos e de fotografias os materiais que analisa. Ressalto a habilidade com que Carolina mobiliza questões de ordem aparentemente diversa, dando extrema consequência às relações propostas. A construção de saberes toma corpo e se espacializa como linguagem na história da cidade, assim como a cidade vai se legitimando como lugar de conhecimento e referência para o Estado Na13

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cional, institucionalizando o social e se marcando em relações simbólicas estabilizadas. Na análise dos romances Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto, Istambul, de Orhan Pamuk, e Marcovaldo, de Italo Calvino, trabalha os imaginários de identificação do sujeito em relação à cidade, na compreensão da relação entre identificação e referência como uma “poética da identificação pelo urbano”. Ficção, realidade, prosa, poesia se demandam e nos mostram as fronteiras da nação em movimento de edificação, na recusa ao estranho estran­geiro. Carolina nos faz ver que o sujeito lança âncora nas referências urbanas, “(des)territorializando-se” no pertencimento produzido pela cidade. Um jogo simbólico entre o nacional e o urbano, que a autora apresenta com maestria. Num outro momento de extrema sensibilidade teórica, lemos que o monumento se configura no duplo cruzamento das noções de “­ponto de referência” e de “ponto de silêncio”: “o monumento fala por sua presença mesma no espaço histórico, seja pela imposição de uma forma que silencia outras, seja como condição para que o sentido se espacialize”. Monumentos que se tornam patrimônio, bens materiais a serem preservados. Nessa passagem de monumento a patrimônio, um gesto de compreensão fundamental na estabilização das referências nacionais, na construção de um “nós fundador da nação”, ressalta Carolina, lançando-nos no impacto da pergunta: Hoje, quando vilas operárias se deterioram à sorte do tempo, quando casarões coloniais dão lugar a parques de estacionamento, quando degraus de igrejas barrocas servem de leito, provisório mas habitual, para aqueles que não têm um teto, como não ver na necessidade incondicional de preservar o patrimônio histórico uma construção que se furta a enfrentar o papel do passado na constituição da diferença social e dos processos de segregação [...]?

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prefácio

Na continuidade do seu dizer temos a dimensão da densidade dessa discussão: As construções urbanas são, muitas vezes, recobertas sob formas extremas de “salvaguarda do patrimônio” que acabam “defendendo” a cidade de seus próprios habitantes, como se o espaço significasse por si só, independentemente das relações sociais, sem os sujeitos e sem as histórias que vieram e que estão por vir.

Dentre os muitos patrimônios que vão textualizando uma unidade imaginária nacional nas cidades, a autora tem um olhar acurado para os colégios, igrejas e bibliotecas, lugares de institucionalização desse saber urbano e nacional, lugares de projeção cotidiana dos sentidos que significam os sujeitos no pertencimento. Ao analisar o convento de São Francisco, em Salvador, a Biblio­teca Nacional, no Rio de Janeiro, e o Colégio Culto à Ciência, em Campinas, Carolina dá consequência ao processo de nomeação na relação com o espaço, com a arquitetura, com a fotografia. A relação entre os nomes e as diferentes materialidades significantes recortadas ao longo dessas três análises nos diz da tensão que constitui essa relação, “sobretudo quando perguntamos pelo modo como determinam posições para os habitantes da cidade”, especifica a autora. E, ao falar da posição-sujeito que se projeta no sentido de biblioteca nacional, somos brindados com a afirmação de que “esse lugar de dizer predicado como oficial, representando um dizer elitista, estende seus atributos para a significação da biblioteca nacional e determina, assim, o modo como ela significa a posição do povo enquanto (im)possível leitor”. No jogo arguto das formulações Carolina traça sua autoria. Neste prefácio, recortes de meu percurso de leitura. Pontos de referência na textualização. Alguns, entre tantos que me capturaram e que aguardam o leitor. Trajeto que me significa numa história de enorme afeto intelectual. Campinas, setembro de 2013. Suzy Lagazzi 15

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preâmbulo ao estranhamento

este texto começa com um estranhamento de escritura e de lei­ tura. diante da página em branco, eu, a postos, quase repito o gesto evidente que leva a pressionar a tecla shift, peça que muda a posição dos caracteres no teclado, dando acesso à letra maiúscula que, sole­ nemente, principia os começos, os nomes próprios e, em algumas línguas, as substâncias em detrimento dos acidentes. sinal capitular e versal versus todo o corpo do texto. corpo de onde, paradoxalmen­ te, se versa a letra-cabeça, superior em calibre e cerimônia. aqui não se repetiu esse gesto habitual. a interdição das maiúsculas neste texto tem suas consequências. ao preço de certa confusão no limite entre as frases, a minusculização provoca um efeito de continuidade, exige a adulteração das citações e a traição do hábito. esses efeitos, ainda que para muitos sejam permitidos apenas em obras de caráter literá­ rio, são assumidos neste ensaio científico como uma forma de acen­ tuar o poder heurístico do estranhamento e da experiência com a alteridade. na história da escrita, a forma das letras é testemunho de origem e originalidade desde as primeiras inscrições em xistos, passando pela influência da escrita consonantal egípcia e fenícia na criação de um alfabeto grego (com a adaptação de símbolos semitas para representar as vogais) até sua assimilação pelo sistema fônico romano, que deu origem ao alfabeto latino adotado amplamente no mundo ocidental. as letras minúsculas são derivadas historicamente das maiúsculas. mas estas, esculpidas em lápides e monumentos romanos (as chamadas 17

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capitalis monumentalis), não atendiam à necessidade de rapidez e condensação exigida pela escrita de documentos vulgares1. essa breve história testemunha que escrever somente em minúsculas é, portanto, sucumbir ao ordinário. tarefa que os sobreviventes da grande guerra de 1914, vanguardistas, buscaram levar a cabo. o espírito moderno do período entreguerras exigia funcionalidade e custo reduzido para a produção em massa, ideais que se estenderam ao campo da arte, do design e da escrita. a bauhaus — escola estatal da construção — apresentou em 1925 um protótipo de letra universal na forma de um alfabeto composto apenas por minúsculas e reduzido à fórmula gráfica mais simples possível (fruto da combinação entre o quadrado, a circunferência e o triângulo). esse sistema de glifos nus foi justificado pela comparação com a palavra falada, que não faz distinção entre versais e comuns2. em análise do discurso, não somos nunca indiferentes aos efeitos de sentidos produzidos pelos materiais simbólicos e históricos. a exclusão das maiúsculas dá ênfase ao caráter corriqueiro e apressado que especifica o traço dos caracteres minúsculos, à maneira das letras cursivas, do continuum da fala e da constituição cotidiana do saber3. diante dessa dupla história de escrita, uma estrita — a deste tex­ to —, outra lata — a da grafia —, este livro deseja provocar a estranheza diluída no cotidiano, em que escrita e cidade, pela vontade do perene, espacializam saberes e inscrevem uma história amiúde, em grandes ou pequenas inscrições, que o imaginário se ocupa de esquecer ou sedimentar.

1 p. heitlinger, tipografia: origens, formas e uso das letras, 2006. 2 idem, ibidem. 3 expressão de s. auroux, a revolução tecnológica da gramatização, 1992, p. 11.

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introdução o saber na história da cidade

o estudo da história de um campo disciplinar (por exemplo, a linguística ou a gramática) ou, mais amplamente, da constituição de um domínio de saber, como o conhecimento sobre a linguagem, se faz, tradicionalmente, pelo exame dos textos escritos que fundam ou expõem o desenvolvimento de conceitos e teorias. nesse caso, interessa-se por todo documento escrito que possa remeter à formação do saber sobre a língua, desde listas de palavras, comentários explicativos em textos antigos, glossários lexicais bilíngues até reflexões filosóficas sobre a natureza da linguagem, exposição de métodos e teorias, descrições gramaticais, leis etc.1 um domínio de saber, entretanto, se constitui também pelo modo como seus discursos circulam socialmente por discussões e imagens publicadas em diferentes suportes2. além disso, sabemos que há cruzamentos entre domínios diversos, que a ciência se relaciona com a arte, com a religião, com a filosofia e com as técnicas. os trabalhos dedicados à análise do vasto terreno de documentos sobre a língua (caracterizando-se, portanto, por serem, de alguma forma, metalinguísticos) contribuem de maneira fundamental para a compreensão do lugar atual dos estudos da linguagem em nossa sociedade; seja porque trazem à luz acontecimentos não conhecidos (um modo de 1 s. auroux, histoire des idées linguistiques: la naissance des métalangages en orient et en occident, 1989, pp. 13-37. 2 e. orlandi, língua e conhecimento linguístico, 2002.

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fazer com que outros sentidos circulem), seja porque constroem as relações de continuidade e ruptura necessárias à explicação dos trajetos desse domínio de saber. se o texto, entendido de maneira ampla como um processo de inscrição (verbal, visual, sonora, significante, enfim), é convocado para a explicação da constituição de um saber é porque ele goza, por definição, do estatuto de vestígio na relação com o horizonte de retrospecção3 desse saber, isto é, o conjunto de conhecimentos que o antecedem e nele interferem. por outro lado, se um saber se impõe sobre outros também possíveis é porque há algo da ordem do institucional que legitima a produção desse conhecimento e, simetricamente, algo da ordem do cotidiano que sustenta esse processo. sabemos também que uma condição fundamental para um saber se instituir é a afirmação da existência do objeto desse saber; afirmação que não é indepen­dente da política de sua circulação em diversas instâncias textuais (tanto linguísticas, como em livros, panfletos, cartas e jornais, quanto imagéticas, como em placas de rua e desenhos arquitetônicos — duas formas materiais4 que pretendemos analisar). acreditamos, portanto, que nenhum saber se constitui sem deixar traços no ordinário do sentido5 e sem encontrar aí um dos pilares de sua estabilidade. sendo uma realidade histórica, o conhecimento tem sua existência real na temporalidade ramificada da constituição cotidiana do saber, não na atemporalidade ideal que estabelece uma ordem lógica para que o verdadeiro possa ser descoberto. porque é limitado, o ato de saber possui, por definição, uma espessura temporal, um horizonte de retrospecção, assim como um horizonte de projeção. o saber (as instâncias que o fazem trabalhar) não destrói seu passado como se crê erroneamente com frequência; ele o organiza, o esco3 s. auroux, “les méthodes d’historicisation”, 2006, p. 107. 4 e. orlandi, análise de discurso: princípios e procedimentos, 2001, p. 19. segundo a conceituação

da autora, a forma material não é uma abstração formal, mas sim a forma encarnada na história, linguístico-histórica, portanto. 5 m. pêcheux, o discurso — estrutura ou acontecimento, 1990, pp. 49 e ss.

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