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Traficantes do simbólico e outros ensaios sobre a história da antropologia

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universidade estadual de campinas Reitor José Tadeu Jorge Coordenador Geral da Universidade Alvaro Penteado Crósta

Conselho Editorial Presidente Paulo Franchetti Christiano Lyra Filho – José A. R. Gontijo José Roberto Zan – Luiz Marques Marcelo Knobel – Marco Antonio Zago Sedi Hirano – Silvia Hunold Lara

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ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação C817t

Corrêa, Mariza, 1944Traficantes do simbólico e outros ensaios sobre a história da antropolo­gia / Mariza Corrêa. – Campinas, sp: Editora da Unicamp, 2013. 1. Antropologia – Brasil – História. 2. Ciências sociais. I. Título.

cdd 301.2981 isbn 978-85-268-1007-5 300 Índices para catálogo sistemático:

1. Antropologia – Brasil – História 2. Ciências sociais

301.2981 300

Copyright © by Mariza Corrêa Copyright © 2013 by Editora da Unicamp

Direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19.2.1998. É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização, por escrito, dos detentores dos direitos. Printed in Brazil. Foi feito o depósito legal.

Direitos reservados à Editora da Unicamp Rua Caio Graco prado, 50 – Campus Unicamp cep 13083-892 – Campinas – sp – Brasil Tel./Fax: (19) 3521-7718/7728 www.editora.unicamp.br  –  vendas@editora.unicamp.br

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Para Ruth e Roberto, com saudade.

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Sumário

Prefácio .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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capítulo 1 — Traficantes do simbólico ........................................................... 15 capítulo 2 — Traficantes do excêntrico ........................................................ 35 capítulo 3 — A revolução dos normalistas .............................................. 71 capítulo 4 — A antropologia no Brasil ( 1960 - 1980 ) . ................ 107

depoimentos e entrevistas 1 — Donald Pierson .......................................................................................................................... 205 2 — Emilio Willems ........................................................................................................................... 319 3 — Ruth Cardoso ................................................................................................................................ 3 33 4 — Verena Stolcke ............................................................................................................................. 4 01

Bibliografia .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 453

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Prefácio

Os ensaios aqui publicados foram escritos ao longo dos últimos 25 anos e estão todos relacionados ao Projeto História da Antro­ po­logia no Brasil (PHAB), no qual venho trabalhando intermiten­ temente nesses anos todos, embora alguns ensaios tenham sido feitos também no âmbito do Projeto História das Ciências Sociais no Brasil, levado a cabo por uma equipe multidisciplinar coorde­ nada por Sergio Miceli, no Idesp. Os textos mantêm os títulos originais de publicação e estão apresentados em ordem cronoló­ gica. Tentei cortar repetições, mas nem sempre fui bem-sucedida, já que às vezes as argumentações dos textos iam em direções di­ ferentes e era difícil prescindir da informação repetida. Não pude evitar certas contradições no uso dos modos verbais, já que não pretendi reescrevê-los da perspectiva de hoje, mas em alguns tre­ chos essa perspectiva é inevitável, como quando acrescento infor­ mações bibliográficas novas surgidas sobre algum tema ou perso­ nagem. Se fica claro da releitura desses textos o quanto a bibliogra­ fia sobre a história da antropologia e a história das ciências sociais cresceu nesses anos todos, a intenção desses acréscimos não é ter uma bibliografia exaustiva — menos do que oferecer uma lista dessa bibliografia nova, procurei antes referir os textos que situam melhor personagens com os quais trabalhamos mais de perto.

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Fica claro também que, apesar de todas as rupturas entre os anos 1930 e os 1960 — institucionais, políticas, ideológicas —, al­ gumas continuidades marcam os estudos feitos então: os mal-afa­ mados estudos de comunidade, que assinalam o início dos estu­ dos empíricos de sociólogos e antropólogos no país nessa época (Willems, 1961), estabeleceram alguns parâmetros que serão mantidos nas décadas seguintes. Se a comparação não era mais estabelecida entre comunidades “isoladas” e “em contato” (como nos estudos de Donald Pierson e suas equipes, no projeto do Vale do São Francisco), entre comunidades “tradicionais” ou “progres­ sistas”, em processo de mudança, como nos estudos do projeto Estado da Bahia – Universidade de Columbia, coordenado por Thales de Azevedo e Charles Wagley), ou entre o “Brasil provin­ ciano e o Brasil urbano” (como no projeto de cidades-­laboratório coordenado por Darcy Ribeiro para o CBPE, sob a ­égide de Aní­ sio Teixeira), ainda se tratava, nos anos seguintes a essas pesqui­ sas, de comparar situações de vida “tradicionais” com situações contemporâneas — tribais, ou rurais, e urbanas. Como bem ob­ servou J. C. Melatti (1984), talvez se tratasse de um deslizamento sutil dos estudos de comunidade para os então chamados estudos regionais. Isto é, os estudos vão passando gradualmente de um modelo dualista, primeiro, para modelos mais dinâmicos, nos quais os agentes analisados se inscrevem antes num continuum do que rigidamente divididos em dois polos (O. Velho, 1982) e, de­ pois, para análises nas quais se contempla uma multiplicidade de agentes atuantes na sociedade brasileira. Mesmo nos estudos so­ bre as sociedades indígenas, aparentemente sempre mantendo uma certa autonomia em relação às demais pesquisas, é possível ver uma certa continuidade — entre os estudos de Kalervo Oberg sobre os Terena e os estudos posteriores de Roberto Cardoso de Oliveira sobre eles; entre os estudos de Baldus sobre os Tapirapé e os estudos feitos sobre eles por Charles Wagley; ou entre os es­

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tudos sobre os grupos Tupi, feitos na USP nos anos 1930, e os es­tudos posteriores coordenados por Eduardo Viveiros de Castro nos anos 1980. Apontar essas con­tinuidades não significa deixar implícito que se estava tratando das mesmas questões — elas variam bastante ao longo desses 30 anos —, mas sim que se es­tava estabelecendo uma agenda de questões que pareciam importantes para a análise das variadas realidades do Brasil, e que essas ques­ tões estavam sendo enfrenta­das por sucessivas gerações de pesqui­ sadores. E se, de início, os pes­quisadores brasileiros se socorriam de colegas mais experientes na lida com as ciências sociais, sobre­ tudo dos norte-americanos — até por injunções do contexto pósSegunda Guerra —, no final do período criaram um sistema de pós-graduação e pesquisa no país, não só com grande autonomia, como também ímpar no cenário latino-americano. Sobre os apêndices a esses textos, cabe dizer que, quando da publicação original de seu depoimento, o professor Donald Pier­ son me escreveu longas cartas com sugestões para talvez uma segunda edição, as quais tentei incorporar, na medida do possível: o depoimento original, em português, se perdeu e, como se pode ver, o uso da língua pelo professor Pierson tinha se tornado, como ele mesmo diz, rusty, depois de tantos anos fora do país — tentei corrigir os erros de sentido apontados por ele, e outros de gramá­ tica da edição original, sem interferir muito no texto. As entre­ vistas tiveram sua grafia atualizada e algumas correções, também sem muita interferência. As centenas de cartas do acervo de Do­ nald Pierson doadas ao Arquivo Edgard Leuenroth certamente apontam muitos outros caminhos de análise, alguns dos quais se afastam da feita nesse depoimento, o que é um desafio para futu­ ros pesquisadores. A versão do depoimento de Emilio Willems é a mesma que está no meu livro de 1987 (História da antropologia no Brasil, 1930-1960). Os depoimentos de muitos dos nossos con­ vidados já foram publicados em outros lugares, como indico nas

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notas a seguir. Assim, ao invés de republicá-los aqui, preferi pu­ blicar as entrevistas inéditas de duas de nossas convidadas, Ruth Cardoso e Verena Stolcke, que, ao mesmo tempo em que reme­ moram seus programas (a USP e a Unicamp), são praticamente as únicas a incluir uma reflexão de gênero a esta história. Torno a agradecer o carinho e o apoio de sucessivas turmas de estudantes de graduação e de pós-graduação que trabalharam co­migo durante esses anos, alguns, hoje, transformados em cole­ gas; agradeço também a enorme receptividade de todos os per­so­ nagens que entrevistamos, desde o mais velho, Manuel Nunes Pereira, então com 90 anos, até o mais jovem, Roberto Cardoso de Oliveira, então com menos de 60; todos mantinham acesa sua curiosidade pelas histórias que nossa equipe ia encontrando pelo caminho e contribuíram com as suas. Meus colegas da geração seguinte, não entrevistados, nem por isso foram menos atentos a detalhes que me escapavam — e seus comentários, bilhetes, fotos e documentos ajudaram a delinear esta história, pelo que lhes sou grata. Agradeço a confiança da Associação Brasileira de Antro­po­ logia, a ABA, na pessoa de seu então presidente, Antonio Au­gusto Arantes, mantida pelos presidentes que o sucederam, em ter de­ positado os arquivos itinerantes que conseguimos reunir da nos­ sa Associação sob a guarda do Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, juntamente com o material doado por nossos convida­ dos — cartas, documentos pessoais, diários de campo, ­fotografias, livros. Agradeço, ainda, a Paulo Franchetti, pelo seu interesse na publicação deste livro, fruto da ampliação do livro História da antropologia no Brasil (1930-1960), onde constam o capítulo 1 e os depoimentos de Donald Pierson e Emilio Willems*; à Funda­ ção Carlos Chagas, pela permissão de republicar o artigo saído na

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Nos depoimentos de Donald Pierson e Emilio Willems manteve-se a grafia original.

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re­vista Cadernos de Pesquisa (capítulo 3); e a Marcelo Ridenti, em nome da Anpocs, sucessora dos direitos da Editora Sumaré, pela cessão dos direitos dos artigos publicados na Revista Brasileira de Ciências Sociais (capítulo 2) e no livro História das ciências sociais no Brasil (capítulo 4). Agradeço também a Martha Ramirez-Gál­ vez o trabalho de escanear textos que não estavam ainda digitali­ zados, ou cujos originais tinham se perdido. Jadison da Silva Freitas e Luciana Camargo Bueno sabem bem o que lhes devo pelo seu apoio nesses anos todos. Por último, mas não menos importante, cabe agradecer às agências financiadoras de pesquisa no país — Fapesp, Capes, CNPq e Finep, e também ao Faepex e à minha universidade — pelos auxílios prestados, tanto no apoio ao desenvolvimento da pesquisa propriamente dita quanto na concessão de bolsas de estudo para os estudantes que realizaram suas dissertações e teses no âmbito deste projeto. Meu primeiro trabalho sobre a história da antropologia foi minha tese de doutorado, orientada por Ruth Cardoso, a quem devo muito da minha formação e mais do que posso expressar aqui — sua atenção carinhosa e respeitosa com os alunos foi um exemplo para mim e para várias gerações de antropólogos neste país. Vários dos meus trabalhos subsequentes sobre o tema conta­ ram com o estímulo, o apoio, e muitas e muitas horas de con­versa com Roberto Cardoso de Oliveira, talvez o único antropólogo brasileiro a ter a vivência cotidiana de todos os primeiros quatro programas de pós-graduação (analisados no capítulo 4) em antro­ pologia no país. Ambos estão muito vivos na minha lembrança.

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capítulo 1 Traficantes do simbólico 1 And as modern scholars are no more solitaires than are Bushmen the same should be possible for them. (C. Geertz, 1983, p. 156)

Quando escreveu a frase acima, Clifford Geertz estava argumen­ tando em favor de utilizar o método antropológico para o estudo das chamadas “comunidades científicas”: uma vez que os intelec­ tuais contemporâneos vivem em bandos, conhecem-se razoavel­ mente bem uns aos outros, empregam uma linguagem comum e têm uma carreira determinada por certas regras, por que não es­ tudá-los do mesmo modo que os antropólogos estudaram os Azande ou os Zulu? Sua ênfase, como convém ao mentor dos es­tudos de interpretação em antropologia, recai na análise do “tráfico das formas simbólicas disponíveis em qualquer comu­ nidade”. Recomenda, em suma, analisar os intelectuais de qual­ quer especialidade — mas particularmente os praticantes do que chama Third culture: nós outros, cientistas sociais, incluídos como nativos de um determinado território profissional. Se é reconfortante encontrar no Primeiro Mundo o eco dos interesses que levamos avante no Terceiro, seja nas analogias esco­ lhidas para exemplo, seja na linguagem usada para expressar essa preocupação e até na metodologia recomendada, nosso objetivo 1 Publicado como introdução ao livro que organizei com os depoimentos de Donald Pierson e Emilio Willems em 1987.

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com este projeto de história da antropologia2 é bem mais mo­ desto. Trata-se aqui, de recuperar o que é possível recuperar, seja em termos de memória dos nativos, seja em termos de material para análise3, da trajetória de nossa disciplina no Brasil nos últi­ 2 História da antropologia no Brasil (1930-1960): Testemunhos, projeto financiado pela Fapesp e pelo CNPq. O impulso inicial da pesquisa foi de Maria Manuela Carneiro da

Cunha, que assinou o projeto aprovado pela Fapesp. Quando Manuela se transferiu da Unicamp para a USP, fui convidada pelo Departamento de Antropologia a levar adiante o projeto que originalmente previa apenas entrevistas e depoimentos de antro­ pólogos do país, no âmbito de seminários ocorridos no primeiro e no segundo semes­ tre de 1984, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. De 1984 em diante, o CNPq e várias outras agências, mencionadas antes, apoiaram o projeto, desde então sob minha responsabilidade. Os depoimentos foram registrados em áudio e ví­ deo graças à inestimável colaboração do então Limec, hoje Centro de Comunicações da Unicamp; Marcelo Costa Souza e Murilo José D’Almeida Machado são responsá­ veis diretos pelo bom andamento dessa colaboração. Agradeço a Ubiratan D’Ambrósio, coordenador geral dos institutos da Universidade, por seu apoio e por ter sugerido a possibilidade daquela colaboração logo no início do projeto, bem como ao nosso bom amigo, Hannibal de Lima e Castro, que com muita paciência providenciou os meios de transporte para todos os convidados, e também o apoio da direção de nosso insti­ tuto, primeiro através de André Villalobos e depois, de Luiz Orlandi. Embora tenha contado com a colaboração de um número maior de estudantes, a equipe que mais de perto trabalhou com o material do projeto nesse primeiro momento estava constituída por Adriana Piscitelli, Andréa Milesi, Carlos James dos Santos, Emília Pietrafesa de Godói, João Batista Cortez e José Augusto Laranjeiras Sampaio, a quem também agra­ deço pela colaboração.

3 “Recuperar o que for recuperável”, dizia Manuela em sua primeira proposta à Fapesp, em 1983. Graças à boa vontade de nossos convidados, reunimos um razoável acervo de

documentos relacionados com o projeto (fotografias, textos esgotados, correspondên­ cia, Anais da Associação Brasileira de Antropologia etc.). Tanto os depoimentos quan­ to esse material estão depositados no Arquivo Edgard Leuenroth, do Instituto de Filo­ sofia e Ciências Humanas da Unicamp. Haviam sido entrevistados, até o momento desta publicação, os seguintes convidados, por ordem de entrada em cena: Florestan Fernandes (1920-1995), Thales de Azevedo (1904-1995), Egon Schaden (1913-1991), Antonio Rubbo-Muller (1911-1987), Manuel Nunes Pereira (1895-1985), Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006), Oracy Nogueira (1917-1996), René Ribeiro (19141990), Donald Pierson (1900-1995), Napoleão Figueiredo (1923-1989), Emilio ­Willems (1905-1997), Luiz de Castro Faria (1913-2004), Claude Lévi-Strauss (1908-2009), Da­ vid Maybury-Lewis (1929-2007) e Aryon Rodrigues (1925). A primeira etapa do pro­ jeto foi encerrada com um debate, do qual participaram Maria Manuela Carneiro da Cunha, Eunice Durham, Peter Fry, Sergio Miceli e Wanderley Guilherme dos Santos. Todos os convidados responderam com extrema cordialidade aos nossos convites, e a presença de cada um foi importante, para mim e para os estudantes, que vimos nossa história disciplinar se materializar diante de nós, num momento em que ela era ainda

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mos 50 anos. O verbo que lembro termos utilizado com mais fre­quência durante os dois semestres em que trabalhamos intensa­ mente com o material que começamos a publicar agora era mapear. Isso se devia, em parte, ao nosso próprio desconhecimento do território que habitamos, em parte à escassez de pesquisas se­ melhantes nos territórios vizinhos da sociologia e da ciência po­ lítica, só parcialmente percorridos4, mas, também, em boa ­parte, à nossa rejeição em seguir caminhos estabelecidos de antemão. O que não derivava de qualquer desejo inocente de originali­ dade, mas, antes, de uma sensação de que determinadas afirma­ ções a respeito desse território, e de seus personagens, não faziam muito sentido quando chegávamos mais perto deles. Certas pe­ riodicidades, que pareciam bem estabelecidas (por exemplo, como os marcos políticos de 1930 ou 1964, enfatizados a priori), ou determinadas “correntes teóricas” escolhidas como centrais, e em relação às quais todo o resto era subsidiário, pareciam não se encaixar, não combinavam bem com as histórias de vida que ­íamos ouvindo, metade objetivamente, metade fascinados com o

quase uma incógnita. O depoimento de Florestan Fernandes foi publicado, por ini­ ciativa de Charles Pessanha, no BIB, em 1995; uma entrevista, síntese das várias que realizamos com Roberto Cardoso de Oliveira, foi publicada por mim, graças ao in­ teresse de Adam Kuper, na Current Anthropology, 1991, e o depoimento de Oracy Nogueira foi publicado por Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti em História, Ciências, Saúde — Manguinhos, 1995. A entrevista de Lévi-Strauss, feita por Manuela durante as andanças à procura das tribos que ele visitara, foi gravada em vídeo e parte dela, utilizada no filme A propósito de tristes trópicos, de Jorge Bodansky, Patrick ­Menget e Jean-Pierre Beaurenaut, de 1990. O depoimento de Maybury-Lewis foi em parte recuperado na entrevista que Roberto Cardoso de Oliveira, Roque Laraia e eu fizemos com ele numa reunião da Anpocs, em 2001, publicada na Revista Brasileira de Ciências Sociais. 4 Ver, por exemplo, o trabalho organizado por Bolivar Lamounier, 1982; na área da so­ ciologia, nosso interlocutor mais constante tem sido Sergio Miceli, 1979. Oracy No­

gueira estava, na época, escrevendo uma história da sociologia no Brasil, além de ter feito a introdução e a organização dos volumes dedicados a Donald Pierson e a Emilio Willems para a coleção Grandes Cientistas Sociais, da Editora Ática, textos, infeliz­ mente, não publicados. Sobre Willems, ver também Borges Pereira, 1994.

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próprio enredo delas. Decidimos (decidir não é bem o verbo, foi mais alguma coisa que nos aconteceu no decorrer da experiência), então, que, antes de estabelecermos como dados certos marcos usualmente utilizados (cronológicos, teóricos, institucionais, po­ líticos — o que fosse), tentaríamos mapear esse território tão pouco conhecido, a começar por seus habitantes, que é o da antro­pologia no Brasil. Falávamos em “território” também, ao invés de “campo”, por exemplo, tanto para evitar as conotações de uma análise do tipo da de Bourdieu (1973), levemente inade­ quada — parecia-nos — para a análise do âmbito de atuação dos agentes de uma disciplina tão recentemente institucionalizada como tal no país, quanto, claro, pela influência difusa de Michel Foucault e Gilles Deleuze. Esse mapeamento, temporal e espacial, foi sendo feito não só de acordo com os nossos desígnios, sempre mais ambiciosos do que as nossas possibilidades, mas principalmente conforme as circunstâncias o permitiam. A boa vontade de antropólogos do Norte e Nordeste do país em prestar seus depoimentos ao proje­ to — aliada à possibilidade de financiarmos sua vinda — combi­ nou-se muitas vezes com a má vontade, ou com circunstâncias desfavoráveis a isso, de antropólogos mais próximos fazerem o mesmo. E depois de registrarmos a visita de tantos brasileiros e residentes no país, acabamos por escolher, para abrir a série de publicações do projeto, os depoimentos escritos por dois estran­ geiros cujas vozes não conhecemos e cuja imagem não gravamos em vídeo. As razões dessa escolha — que parece irônica, mas é, de certo modo, exemplar da forma como os personagens vão se incorporando ao projeto, e da própria trajetória das ciências so­ ciais no país — ficam claras pela leitura de seus testemunhos. Ao mesmo tempo, parecia que a reflexão sobre o que os hispanoamericanos chamam de “quehaceres antropológicos” estava na ordem do dia: J. C. Melatti publicou um roteiro extremamente

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útil sobre a nossa história no mesmo ano em que púnhamos em prática o projeto; Otávio Velho escreveu mais uma reflexão im­ portante sobre o tema e o Anuário Antropológico editou três depoi­mentos básicos para o nosso conhecimento dos inícios da antropologia no contexto da história institucional das ciências sociais no país5. Suponho que isso, e mais algumas coisas, configure o que Geertz chamou de “dados convergentes” em sua proposta para o estudo do modo de pensar contemporâneo; em todo o caso, eram informações que certamente convergiam para o nosso centro de interesse naquele momento. Outras convergências, ainda no nível do universo textual, foram também importantes por apontarem para conexões que, inicialmente, eram menos nítidas: o livro de memórias de J. Maugué, citado quase de passagem por Egon Schaden, no dia de sua visita, ou os diários de Alfred Métraux, citados por Mariza Peirano, bem como alguns artigos de Charles Wagley, mais o capítulo XI de Tristes trópicos6, iam ampliando um mapeamento que começou no território nacional. De repente, parecia impossível pensar a respeito da antropologia feita no Bra­ sil sem pensar na antropologia feita na América Latina como seu contexto e na importância de certos personagens que a tiveram não só no cenário brasileiro, mas também no latino-americano como um todo — e particularmente para o estabelecimento de

5 J. C. Melatti, 1984; O. G. Velho, 1980 e 1983. Os depoimentos de Luiz de Castro Fa­

ria, Egon Schaden e Thales de Azevedo, com apresentação de J. C. Melatti, foram publicados no Anuário Antropo1ógico/82. Descobrimos também que o nosso mais jo­ vem entrevistado, Roberto Cardoso de Oliveira, que o foi por sua importância na institucionalização de dois programas de pós-graduação em antropologia (o do Museu Nacional e o da Universidade de Brasília), já estava coordenando uma série de pes­ quisas sobre a história da antropologia em outros países. Ver Cardoso de Oliveira e Guillermo Ruben, 1995.

6 J. Maugué, 1982; A. Métraux, 1978; M. Peirano, 1981; C. Wagley, 1964 e C. LéviStrauss, 1979 (1955).

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vínculos internacionais entre seus praticantes7, o que puxava os fios da política internacional e das agências de financiamento de pesquisas — nacionais e estrangeiras — para a nossa rede de preocupações. É claro que, ao ser assim ampliado o contorno do nosso ob­jeto de pesquisa, foram também multiplicadas as questões quase no mesmo ritmo em que diminuíam as nossas certezas a respeito de fosse lá o que fosse: até agora temos mais perguntas do que res­ postas registradas, mas acredito que questões como as que come­ çam a ser colocadas aqui são pertinentes para a reflexão em anda­ mento a respeito da história da nossa disciplina. Outras ainda não encontraram autores que as desenvolvessem — ou sequer foram adequadamente formuladas. Um primeiro problema — e aquele pelo qual sempre come­ çam as nossas discussões com nossos colegas cientistas sociais — era como definir antropologia e antropólogo. Uma resposta óbvia para a segunda pergunta parecia ser a mesma que a Comissão Pró-Índio deu certa vez à Funai, quando se tentava qualquer tipo de tergiversação em relação às terras indígenas: índio é todo ­aquele que se define como índio. Outra tinha a ver com temas, orienta­ções teóricas ou metodologia de trabalho. Sem ser preciso invo­car regalias para o papel institucional, parecia-nos que antro­ 7 Uma primeira recuperação desses vínculos, estabelecidos primeiro por antropólogos

estrangeiros e depois pelos brasileiros e hispano-americanos que seguiam suas trilhas, foi auxiliada pelos textos reunidos em América Indígena, de abr.-jun., 1980, México, pelo trabalho de J.-P. Oster­ling e H. Martinez, 1983, e de Jaime Arocha e Nina S. de Friedmann, 1984. A trajetória de Paul Rivet (1876-1958) é certamente exemplar neste sentido: fundador, com Mauss e Lévy-Bruhl, do Instituto de Etnologia e, mais tarde, do Museu do Homem, em Paris; foi também o criador, em 1943, do Instituto Francês da América Latina, do Instituto Etnológico Nacional, na Colômbia, além de ter trabalhado no México e no Chile. A incorporação da documentação de Paulo Duarte ao acervo do Centro de Memória da Unicamp poderá ajudar a ampliar o nos­ so conhecimento sobre o Instituto Francês de Altos Estudos Brasileiros, que ambos iniciaram em 1945. A sua biografia (de Paul Rivet) ajuda a definir também o que é um americanista.

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