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universidade estadual de campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Coordenador Geral da Universidade Edgar Salvadori de Decca

Conselho Editorial Presidente Paulo Franchetti Christiano Lyra Filho – José A. R. Gontijo José Roberto Zan – Luiz Marques Marcelo Knobel – Marco Antonio Zago Sedi Hirano – Silvia Hunold Lara Comissão Editorial da Coleção Várias Histórias Fernando Teixeira da Silva (coordenador) Jefferson Cano – Luiz Marques Margarida de Souza Neves – Sueann Caulfield Conselho Consultivo da Coleção Várias Histórias Silvia Hunold Lara – Sidney Chalhoub Maria Clementina Pereira Cunha – Robert Wayne Andrew Slenes Claudio Henrique de Moraes Batalha – Michael Hall Consultoria deste volume Clifford Andrew Welch – Keila Krinberg

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Joana Medrado

T E R R A D E VA Q U E I R O S R E L AÇ Õ E S D E T R A B A L H O E C U LT U R A P O L Í T I C A N O S E R T Ã O DA B A H I A , 1 8 8 0 - 1 9 0 0

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Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Em vigor no Brasil a partir de 2009.

ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação M137a Medrado, Joana. Terra de vaqueiros: relações de trabalho e cultura política no sertão da Bahia, 1880-1900 / Joana Medrado. – Campinas, sp: Editora da Unicamp, 2012. 1. Cultura política. 2. Relações trabalhistas. 3. Pecuária – Brasil. 4. Folclore do boi. 5. Brasil – História – Séc. XIX. I. Título. cdd isbn 978-85-268-1006-8

306.2 331 636.20981 398 981.04

Índices para catálogo sistemático:

1. 2. 3. 4. 5.

Cultura política Relações trabalhista Pecuária – Brasil Folclore do boi Brasil – História – Séc. xix

306.2 331 636.20981 398 981.04

Copyright © by Joana Medrado Copyright © 2012 by Editora da Unicamp

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistema eletrônico, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização prévia do editor. Printed in Brazil Foi feito o depósito legal

Editora da Unicamp Rua Caio Graco prado, 50 – Campus Unicamp cep 13083-892 – Campinas – sp – Brasil Tel./Fax: (19) 3521-7718/7728 www.editora.unicamp.br  –  vendas@editora.unicamp.br

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C oleção V á rias H ist ó rias

A coleção Várias Histórias divulga pesquisas recentes sobre a diver­ sidade da formação cultural brasileira. Ancoradas em sólidas pesquisas empíricas e focalizando práticas, tradições e identidades de diferentes grupos sociais, as obras publicadas exploram os temas da cultura a partir da perspectiva da história social. O elenco resulta de trabalhos individuais ou coletivos ligados aos projetos desenvolvidos no Centro de Pesquisa em História Social da Cultura do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (www.unicamp.br/cecult). Volumes publicados 1 – Elciene Azevedo. Orfeu de carapinha. A trajetória de Luiz Gama na imperial cidade de São Paulo. 2 – Joseli Maria Nunes Mendonça. Entre a mão e os anéis. A Lei dos Sexa­ ge­nários e os caminhos da abolição no Brasil. 3 – Fernando Antonio Mencarelli. Cena aberta. A absolvição de um bilontra e o teatro de revista de Arthur Azevedo. 4 – Wlamyra Ribeiro de Albuquerque. Al­gazarra nas ruas. Come­mo­rações da Independência na Bahia (1889-1923). 5 – Sueann Caulfield. Em defesa da honra. Moralidade, moder­nidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). 6 – Jaime Rodrigues. O infame comércio. Propostas e ­experiên­cias no final do tráfico de africanos para o Brasil (1800-1850). 7 – Carlos Eugênio Líbano Soares. A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro ( 1808-1850). 8 – Eduardo Spiller Pena. Pajens da casa imperial. ­Jurisconsul­tos, es­cravidão e a Lei de 1871.

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9 – João Paulo Coelho de Souza Rodrigues. A dança das ­cadeiras. Literatura e política na Academia Brasileira de Letras (1896-1913). 10 – Alexandre Lazzari. Coisas para o povo não fazer. ­Carnaval em Porto Alegre (1870-1915). 11 – Magda Ricci. Assombrações de um padre regente. ­D iogo Antô­n io Feijó (1784-1843). 12 – Gabriela dos Reis Sampaio. Nas trincheiras da cura. ­As di­fe­rentes medi­ cinas no Rio de Janeiro imperial. 13 – Maria Clementina Pereira Cunha (org.). Carnavais e outras f(r)estas. Ensaios de história social da cultura. 14 – Silvia Cristina Martins de Souza. As noites do Ginásio.Teatro e tensões culturais na corte (1832-1868). 15 – Sidney Chalhoub, Vera Regina Beltrão Marques, Gabriela dos Reis Sam­paio e Carlos Roberto Galvão Sobrinho (orgs.). Artes e ofícios de curar no Brasil. Capítulos de história social. 16 – Liane Maria Bertucci. Influenza, a medicina enferma. Ciência e práticas de cura na época da gripe espanhola em São Paulo. 17 – Paulo Pinheiro Machado. Lideranças do Contestado. A for­mação e a atuação das chefias caboclas (1912-1916). 18 – Claudio H. M. Batalha, Fernando Teixeira da Silva e ­Ale­xan­dre Fortes (orgs.). Culturas de classe. Identidade e diversidade na formação do operariado. 19 – Tiago de Melo Gomes. Um espelho no palco. Identidades sociais e massi­ ficação da cultura no teatro de revista dos anos 1920. 20 – Edilene Toledo. Travessias revolucionárias. Ideias e militantes sin­dicalistas em São Paulo e na Itália (1890-1945). 21 – Sidney Chalhoub, Margarida de Souza Neves e Leonardo Affonso de Miranda Pereira (orgs.). História em cousas miúdas. Capítulos de história social da crônica no Brasil. 22 – Silvia Hunold Lara e Joseli Maria Nunes Mendonça (orgs.). Direitos e justiças no Brasil. Ensaios de história social. 23 – Walter Fraga Filho. Encruzilhadas da liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia ( 1870-1910). 24 – Joseli Maria Nunes Mendonça. Evaristo de Moraes, tribuno da Re­pública.

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25 – Valéria Lima. J.-B. Debret, historiador e pintor: a viagem pitoresca e his­ tórica ao Brasil ( 1816-1839). 26 – Larissa Viana. O idioma da mestiçagem: as irmandades de pardos na América Portuguesa. 27 – Fabiane Popinigis. Proletários de casaca: trabalhadores do comércio carioca (1850-1911). 28 – Eneida Maria Mercadante Sela. Modos de ser, modos de ver: viajantes europeus e escravos africanos no Rio de Janeiro ( 1808-1850). 29 – Marcelo Balaban. Poeta do lápis: sátira e política na trajetória de Angelo Agostini no Brasil Imperial ( 1864-1888). 30 – Vitor Wagner Neto de Oliveira. Nas águas do Prata: os trabalhadores da rota fluvial entre Buenos Aires e Corumbá ( 1910-1930). 31 – Elciene Azevedo, Jefferson Cano, Maria Clementina Pereira Cunha, Sidney Chalhoub (orgs.). Trabalhadores na cidade: cotidiano e cultura no Rio de Janeiro e em São Paulo, séculos XIX e XX. 32 – Elciene Azevedo. O direito dos escravos: lutas jurídicas e abolicionismos na província de São Paulo. 33 – Daniela Magalhães da Silveira. Fábrica de contos: ciência e literatura em Machado de Assis. 34 – Ricardo Figueiredo Pirola. Senzala insurgente: malungos, parentes e rebeldes nas fazendas de Campinas (1832). 35 – Luigi Biondi. Classe e nação: trabalhadores e socialistas italianos em São Paulo, 1890-1920. 36 – Marcelo Mac Cord. Artífices da cidadania: mutualismo, educação e tra­ balho no Recife oitocentista. 37 – Joana Medrado. Terra de vaqueiros: relações de trabalho e cultura política no sertão da Bahia, 1880-1990.

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Agradecimentos Estrada longa e sem fim. Escrever é uma viagem aos espaços recônditos de nossa expressividade, de nosso estar no mundo. Um ponto no infinito, aliamo-nos a outros tantos para formar um traço único e entender os muitos sentidos do que queremos dizer. Aqui, passeio pelo nome de alguns desses pontos de luz, agradecendo profundamente: Àqueles que me deram o sopro vital e me ligaram emocionalmente ao tema desta pesquisa: minha mãe, Mary, e meu pai, Eduar­do, me apresentaram desde pequenina um mundo cheio de vaqueiros, bois, cavalos, ovelhas, galinhas, serras e vales, paisagens sertanejas de matizes infindas entre o verde e o cinza; minha irmã, Maria, com quem primeiro aprendi a compartilhar tudo isso, e a pequena Rosa, seu rebento, que veio com a primavera de 2008, ensinando-me a grandeza que é multiplicar. Aos vaqueiros de Iaçu-Bahia, especialmente a João de Néri e seu filho Gilvan Pires, que me ensinaram a tocar e arrebanhar o gado, a tirar leite de vaca e cuidar de ovelhas, cantaram aboios e contaram suas histórias, inspirando-me e fazendo-me imergir em um dos muitos mundos da pecuária nordestina. Aos amigos, perfumes de cânfora, que oxigenaram cada passo desta escrita, ampliaram minha família ensinando-me a be­leza de estar só e muito bem acompanhada: Dennis Leoni, que me acompanhou na viagem a Jeremoabo; Aline Losada e Rafaela Leuchtenberger, que me acolheram em suas casas e em seus corações, sendo minhas primeiras mestras na arte de jogar o corpo no mundo; Andercelly Christofolli, Natália Guerellus e Hélida Conceição, pelo amor imenso e criativo, bálsamo de acolhimento. Aos amigos transeuntes nesta minha vida nômade, pelo apoio em congressos, em breves ou alongadas estadias, partilhando casa,

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comida e alegria, ingredientes imprescindíveis a uma pesquisa saudável. Difícil seria citar nomes, preferindo aqui dar um “viva!” à solidariedade estudantil. Aos meus doces e cruéis amigos historiadores, revisores des­ tas linhas que agora seguem publicadas: Natália Guerellus, Hélida Conceição, Sarita Mota, Fábio Baqueiro e João Correia. A Kleiber Reis, pela revisão técnica. Grata aos que intermediaram meu acesso às fontes e me ajudaram nas questões burocráticas: Paulo, Samara, dona Edith e “seu” Daniel, no Arquivo Público da Bahia; Álvaro, na Fundação Clemente Mariani, por me apresentar o tesouro que são as cartas de seu trisavô Cícero Dantas Martins, o barão de Jeremoabo; “Seu” Domingos, vaqueiro das terras que eram da família Dantas, por me mostrar a cidade de Jeremoabo e as antigas casas onde morou o barão; e Flávia, no Cecult, que facilitou tantas coisas com soli­ citude, bom humor e paciência incríveis. Grata aos mestres que potencializaram minha trajetória aca­ dêmica: na Universidade Federal da Bahia, Valdemir Zamparoni, professor de Introdução ao Estudo da História, que primeiro me fez pensar na beleza e amplitude dessa ciência, em sala de aula e no bom e velho bar “Boneca Cobiçada”, onde se reunia alegre­ mente a turma de 2001, antes de descobrirem as desavenças ideo­ lógicas; Gabriela Sampaio, que me iniciou nas artes da pesquisa e na pesquisa como arte; João Reis, pelo estímulo e pela atenção à minha escrita. Na Universidade Estadual de Feira de Santana, agradeço especialmente a Erivaldo Neves, que primeiro me en­ sinou o caminho das pedras na pesquisa sobre o sertão baiano, cedendo-me generosa bibliografia. Na Universidade Estadual de Campinas, agradeço aos professores e colegas da turma da pósgraduação de 2006, que tanto enriqueceram este texto com as discussões, nem sempre afáveis, das reuniões das linhas de pes­ quisa História Social da Cultura e História Social do Trabalho. Agradeço especialmente a Beatriz Brusantin, pela interlocução, e a Larissa Corrêa, pelas conversas; a Robert Slenes, pela paciência em me ajudar com os gráficos e por discutir muitas etapas da dissertação, sempre mostrando como eram mais complexas e in­

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terligadas as coisas; a Sidney Chalhoub, pela crítica instigadora e pela insistência em me salvar do “isolamento historiográfico”; fi­ nalmente, a Silvia Lara, que, mais do que orientar este trabalho, partilhou cada detalhe com uma lucidez impressionante. Por fim, agradeço, pelo apoio econômico institucional, à Fun­ da­ção de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo — Fapesp —, que me contemplou com uma bolsa, fundamental para a estabili­ dade e tranquilidade durante o trabalho.

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“Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.” Clarice Lispector

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Sumário PREFÁCIO . ...................................................................................................... 17 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 23 1 A COMARCA DE JEREMOABO ........................................................................ 43 2 VELHOS CONFLITOS E NOVAS SOLIDARIEDADES ............................................. 83 3 “ENTRE LINHAS”: O JOGO DA DOMINAÇÃO PESSOAL ................................... 121 4 “ê BOI, QUEM HAVERÁ DE PEGAR?” “SUB VERSÕES” NARRATIVAS . .............. 157 CONCLUSÃO .................................................................................................. 201 anexo 1 — sede da fazenda caritá . ........................................................... 209 anexo 2 — casa do vaqueiro ..................................................................... 210 anexo 3 — CARTA DE JOSÉ LINS BARRETO AO BARÃO DE JEREMOABO .............. 211 anexo 4 — mapa da região nordeste da bahia ......................................... 214 FONTES ........................................................................................................ 215 BIBLIOGRAFIA ............................................................................................... 221

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P r e fác i o Um sertão sem escravidão e com ausência quase total de africanos e seus descendentes foi a imagem legada por gerações de memo­ rialistas, folcloristas e cronistas. O sertão se definia como contra­ ponto ao litoral e, no caso específico da Bahia, como imagem invertida do Recôncavo açucareiro. Enquanto no Recôncavo pre­ dominaram relações escravistas, com forte presença de africanos e descendentes com várias tonalidades de pele, resultantes da mistura com o branco português, no sertão erigiu-se uma socie­ dade com forte mistura de indígenas e brancos. Estudos mais recentes já corrigiram essa visão simplificada de realidades sociais e culturais bastante diversas e complexas. Além disso, durante muito tempo os estudos sobre a região terminaram reiterando a imagem idealizada do sertão nordestino como lugar de relações de solidariedade e fidelidade, ligando fa­ zendeiros e vaqueiros. Entre estes, a proximidade teria eliminado as relações de dominação. Era a “servidão inconsciente” na defi­ nição de Euclides da Cunha. Essa dedicação “inconsciente” faria do vaqueiro um tipo devotado e fiel ao fazendeiro. Tais relações gerariam “solidariedade moral”, ligando as diversas camadas sociais e conferindo estabilidade àquela sociedade. Essa visão clássica das relações sociais baseava-se em relatos de viajantes e quem sabe na própria visão dos fazendeiros a quem interessava fazer crer que seu mundo era moralmente justo. Entretanto, desde pelo menos a década de 1970, revisões his­toriográficas sucessivas buscaram superar aquela visão quase idílica. O que emergiu dali foi um sertão marcado pelas desigual­ dades, pela escravidão e por fortes laços de dominação e depen­ dência. Mas, ao desbancar-se aquela visão idealizada, ficaram em segundo plano as noções de honra, fidelidade e solidariedade,

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princípios morais que, segundo os memorialistas, regiam as rela­ ções sociais nos sertões. O livro de Joana Medrado, Terra de Vaqueiros — Relações de trabalho e cultura política no sertão da Bahia, 1880-1900, insere-se na linhagem de estudos revisionistas, mas a autora abre novos cami­ nhos interpretativos relendo a contrapelo os escritos dos memo­ rialistas, folcloristas, a literatura popular de cordel e, ao mesmo tempo, explorando novas fontes históricas, como correspondências privadas, processos crime, inventários post mortem, testamentos e depoimentos orais. A partir desse conjunto de fontes documentais, submetido à sofisticada análise do dito e do não dito nos textos e depoimentos, a autora busca entender como eram tecidas cotidia­ namente a dominação e a resistência. O estudo tem como cenário a extensa comarca de ­Jeremoabo, tradicional região de pecuária no extremo nordeste baiano, lugar assolado pelas secas e pelas guerras entre facções políticas. O primeiro capítulo oferece detalhes da paisagem local, da forma­ção de suas elites, hierarquias, níveis de riqueza e prestígio social. O livro situa o leitor num momento crucial da história do Brasil, abarcando os anos finais da escravidão e a Abolição, em 1888, os anos de pregação de Antônio Conselheiro e os desdobramentos do massacre de Canudos, em 1897. Momentos tensos e dramáticos, em que a ordem social montada nos sertões de Jeremoabo e ad­ jacências foi desafiada pelas expectativas resultantes do fim do cativeiro e pela anunciação das boas-novas por Conselheiro. O livro parte das noções de honra, prestígio social e laços de solidariedade, elementos que a autora, diferentemente do que pensavam os memorialistas, considera importantes para entender­ mos conflitos e tensões no interior das sociedades sertanejas. As noções de honra baseadas moralmente no sentimento de solida­ riedade, aspecto que os folcloristas e memorialistas identificavam como a face mais saliente e harmônica das sociedades sertanejas, explicam tensões e conflitos. Paradoxalmente, era em torno do que se entendia por solidariedade que os conflitos se expressavam. Por isso, o livro destaca-se por revelar facetas ainda desconhecidas das relações estabelecidas nos sertões.

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Joana Medrado argumenta que a noção de solidariedade per­ passava o interior das elites nordestinas, que dependiam de redes sólidas de cumplicidade no governo de propriedades imensas, onde o gado se espalhava por fronteiras dilatadas e quase indefinidas. Os compromissos em torno da ideia de honestidade e fidelidade eram fundamentais para o sucesso da economia pecuária. Em torno deles também eram montadas estratégias de ascensão e de controle político. O argumento nos ajuda a entender como esses compromissos podem iluminar o campo da disputa pelo poder político no qual vicejavam formas diversas de coronelismo e man­ donismo. Mas esse enredamento em torno dos compromissos de soli­ dariedade descia ao rés do chão, ligando grandes e pequenos, fazendeiros, vaqueiros e agregados. Relações em que a “palavra empenhada” tinha valor estimado por todas as camadas sociais. É esse mundo — das relações cotidianas e inalcançáveis às abordagens panorâmicas — que constitui o centro da reflexão deste livro. O gerenciamento das atividades econômicas, o fornecimento de cré­ dito, o apoio eleitoral, a formação de redes de dependentes, de trabalhadores e de agregados assentavam-se nos compromissos de solidariedade e fidelidade. Isso explica a grande aposta no apa­ drinhamento, no comprometimento eleitoral, nas dispensas dos recrutamentos militares e na formação de redes de protegidos e protetores. Essa fórmula de sociabilidade buscava garantir estabi­ lidade às relações cotidianas de sujeição, mas, como bem demons­ tra a autora, não era infalível para silenciar conflitos, nem para evi­tar rupturas e desafios à ordem estabelecida. Segundo Joana Medrado, vaqueiros e moradores das fazendas faziam leituras próprias a respeito dos compromissos de solida­ riedade. Esta obra nos leva à intimidade da vida dos vaqueiros para demonstrar como percebiam a dominação e elaboravam estratégias para movimentar-se num contexto marcadamente regido pelas relações pessoais. Aspirações de independência ante os fazendeiros e administradores passavam pelas noções de honra, dignidade, liberdade, orgulho profissional e coragem. A autora chega a dizer que essa era a maneira como astuciosamente os vaqueiros enre­

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davam os fazendeiros em compromissos que nem sempre lhes eram favoráveis. Assim, os compromissos em torno da lealdade e da “palavra empenhada” poderiam ser o campo em que se desafiava a sujeição. Isso fica patente no envolvimento e mesmo na cumplicidade dos vaqueiros nas incursões furtivas aos pastos e aos rebanhos dos pa­ trões, tema abordado no capítulo dois. Havia um mundo secreto em meio à caatinga, nos recantos distantes das fazendas, que fugia aos olhares dos administradores e dos proprietários, muitos deles governando suas fazendas de muito longe. Mundo secreto e mo­ vediço, muitas vezes metaforizado na mitologia do “boi encantado”. Os relatos fantásticos de encantamentos muitas vezes encobriam incursões furtivas aos rebanhos, mas também subliminarmente afirmavam direitos e reconhecimento. O clímax do livro é justamente o momento em que Joana analisa o processo de abolição da escravidão ( 1888) e a Guerra de Canudos (1893-1897). A relação entre o fim da escravidão e o mo­vimento de Canudos é tema ainda carente de reflexões mais aprofundadas no âmbito da historiografia brasileira, mas o livro traz evidências e reflexões importantes sobre as consequências do fim do cativeiro e a pregação de Conselheiro nos sertões baianos. As “boas-novas” anunciadas para este e para o outro mundo de al­ guma maneira respondiam às expectativas do “povo do 13 de Maio”. Não espanta que muitos se tenham refugiado em Canudos. E, mais que isso, a pregação de Conselheiro havia abalado as formas de dominação e oferecido perspectivas aos sertanejos pobres — mui­ tos deles egressos da escravidão — para questionarem abertamen­ te as práticas tradicionais de mando e sujeição. Entre 1888 e 1897, momento que separa a Abolição do fim da Guerra de Canudos, havia insatisfação dos fazendeiros em relação à oferta de mão de obra de vaqueiros. Em tom arrogante, um fazendeiro da região chegou a falar da dificuldade de encontrar “administradores e vaqueiros que prestem”, algo muito semelhan­ te às queixas dos donos de engenho do Recôncavo em relação à suposta falta de braços e à insubordinação dos ex-escravos.

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Terra de vaqueiros