Osso do coração

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Osso do Coração


universidade estadual de campinas Reitor José Tadeu Jorge Coordenador Geral da Universidade Alvaro Penteado Crósta

Conselho Editorial Presidente Eduardo Guimarães Esdras Rodrigues Silva – Guita Grin Debert João Luiz de Carvalho Pinto e Silva – Luiz Carlos Dias Luiz Francisco Dias – Marco Aurélio Cremasco Ricardo Antunes – Sedi Hirano


Zuca Sardan

Osso do Coração


Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Em vigor no Brasil a partir de 2009.

ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação Sa72o

Sardan, Zuca, 1933Osso do Coração/ Zuca Sardan. – 2a ed. – Campinas, sp: Editora da Unicamp, 2014. 1. Poesia Brasileira. I. Título.

e-isbn 978-85-268-1252-9

cdd B869.15

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia Brasileira B869.15

Copyright © by Zuca Sardan Copyright © 2014 by Editora da Unicamp 1a edição, 1993

Direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19.2.1998. É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização, por escrito, dos detentores dos direitos. Printed in Brazil. Foi feito o depósito legal.

Direitos reservados à Editora da Unicamp Rua Caio Graco prado, 50 – Campus Unicamp cep 13083-892 – Campinas – sp – Brasil Tel./Fax: (19) 3521-7718/7728 www.editora.unicamp.br – vendas@editora.unicamp.br




apresentando

Carlos Felipe Saldanha

Em meados da década de 1950, começam a aparecer, em tiragens mimeografadas e reduzidas, os “gibis” ou “spholhetos”, pequenas coletâneas de desenhos e de poemas cuidadosamente caligrafados, cujo autor, Carlos Felipe Saldanha, disfarça sua autoria sob inúmeros e sucessivos pseudônimos. A partir da década de 1970, a xérox viria a substituir o mimeógrafo na confecção de tais opúsculos, que até hoje o autor envia aos amigos. Ao lado das coletâneas, Saldanha teve algumas de suas publicações editadas (por conta própria e em pequenas tiragens) em forma de livro: Cadeira de Bronze (poesia, 1957); Bebhé-Gomão Anuncia (romance, 1967); Poe­ mas Zum (poesia, 1969); Aqueles Papéis (poesia, 1975); Ás do Colete (poesia, 1979); Os Mystérios (contos, 1979); Visões do Bardo (desenhos, 1980); Almanach Sportivo (miscelânea, 1981), cuja autoria divide com o romancista João Padilha, autor de Os Corpanzis). Nos anos 1970 e em inícios da dé­ cada de 1980, muitos poetas procuravam publicar seus livros em coleções por eles mesmos organizadas, com o propósito de ampliar o raio de alcance da edição do autor. Aqueles Papéis e Alma­nach Sportivo saíram em duas dessas coleções, respectivamente, Vida de Artista e Capricho, a primeira or­g ani­ zada por Cacaso e a segunda, por Eduardo Augusto. Poe­­mas de Saldanha constam da antologia 26 Poetas Hoje, organizada Apresentação

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por Heloisa Buarque de Hollanda. Publicada em 1976, a antologia constituiu-se em marco da poesia daqueles anos. Para apresentar o autor aos leitores desta edição, a primeira de um livro de Carlos Felipe Saldanha publicada com a chancela de uma editora e lançada no mercado, foram selecionados trechos de artigos de crítica sobre sua obra, transcritos a seguir. Personalidade das mais originais e curiosas da literatura e da poesia brasileiras, Carlos Saldanha nelas percorre um trajeto inteiramente singular. [...] A altura do Soberano depende da altura de seu povo Assim, o Soberano dos suecos mais alto é que o... dos esquimós.

Saldanha compõe um gênero de poema que joga com o leitor e consigo mesmo, quase sempre em contradição com a expectativa inicial que a leitura predispõe. O poema oferece uma imagem de significado estável (Soberano, Astrólogo etc.), e depois a corrige, reduzindo-a a outra possibilidade semântica; altura (alteza) não no sentido de valor ou moral, mas simples questão a ser resolvida com a fita métrica na mão, sem mais nenhuma ambiguidade, os esquimós são mais baixos do que os suecos, quem duvida que os vá medir... Cacaso ***

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É um prazer olhar, folhear e ler os livros de Zuca Sardana. Neles a leitura torna-se amigável, efeito da capacidade visual, uma arte contemplativa. Aqui, nada mais distante daquela definição do leitor como “cisne tenebroso”, que só poderia ser a brincadeira de um grande escritor ou o consolo dos críticos zangados. Os trabalhos de Zuca Sardana diminuem a atividade do leitor a um ponto de satisfação compatível com a realidade de fruição sensorial que seus livros conformam como objeto. [...] É como se o fantasma de Saint-Exupéry fosse merecidamentre corrigido a cada frase por Alfred Jarry. As soluções fantásticas e marcações míticas são dirigidas para um acabamento tolo e zombeteiro. São as verdadeiras fontes do pensamento maravilhoso. [...] Almanaques naives, onde a atmosfera irreal de circo se concilia com uma piedade irreverente para tratar o lugar-comum. [...] [...] Tal como em uma enciclopédia qualquer, só que sem se precisar do apelo à “totalidade do saber”. Uma enciclopédia, porém, não se faz no fundo do quintal. Sardana fez. Seus livros omitem a tipografia. A escritura manual dá então um traço ardiloso ao livro artesanal, porque, estando as evidências caligráficas da mão do autor acintosa­ mente presentes, a ausência de suporte tipográfico deixa um vácuo tão desneces­sário, tão gratuito, que só podia ser por aí que se filtrasse a atividade poética como prolongação absurda da vida do Álbum. Pode-se apreciar aqui a suave desilusão, a comiseração resignada com que Sardana trata os entulhos dos prodígios e contos de fadas que enfileira como figurinhas de uma coleção maluca, impossível de completar. O fôlego primitivista, junto ao belo desconforto técnico com que seus livros são fabricaApresentação

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dos, traduz propriamente o feitio do poeta desconforme, mas que gosta de se atrapalhar na crítica. Como se para mostrar o mundo em desvario antes devesse desculpá-lo delicadamente, exibindo-se ele mesmo como um preguiçoso gozador. Há que ser insensato sem perder a ternura. [...] Horácio González *** O mesmo poema que abre o folheto A Volta do Conde de Monte Christo, de Carlos Saldanha, talvez possa sugerir a trilha deste texto. Trata-se de “Paisagem com Movimentação”, poema curto, com trama humorística, em seis linhas e uma autonegação. Primeiro, a descrição: “Um pato deslizando, em lago oval e roxo / Ao crepúsculo / onde meninas / dançam Chopin”. Em seguida uma única frase, separada por intervalo gráfico significativo, onde se sugere, com ironia evidente, a dissolução da paisagem recém-esboçada: “Ou era só um carimbo”. E, ainda, no interior do mesmo quadrado em que se vê o poema, elemento a mais, a figura de um bicho, dentro d’água, murmurando num balão semelhante ao das histórias em quadrinhos: “moi QUA un QUA canard QUA ça c’est trop fort...”. Decla­ração manuscrita que se, a rigor, não parece ter nada a ver com o texto datilografado do poema, aponta em direção a desmentido semelhante ao operado pela última linha, pela sugestão do carimbo, em meio à paisagem aquática anterior. E o fato de a figura carimbada negar que seja a de um pato e o “era só um carimbo”, que fecha o texto, negar crepúsculo e lago, isso não significa que palavra e figura se aproximem aí apenas como elementos de uma idên10 |

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tica negação, mas sobretudo pela possibilidade de afirmação do caráter de “coisa construída, inventada”, tanto da paisagem, quanto do poema. No lugar de um cachimbo, um carimbo, de pipe, pato, mas, à maneira de Magritte, e da “traição” das palavras e imagens que parece tratar o poema de Carlos Felipe Saldanha. De um pacto de pouca referencialidade extraliterária escrita e intensa interferência e mútua referência entre o still moment da paisagem poética e a movimentação das linhas, que a figuram, entre a figuração pictórica e verbal, desenho e escrita, carimbo e fábula. Tensões e duplicações que não se limitam a um único poema. Multiplicam-se nos poemas, fábulas, desenhos, colagens e codinomes — Capitão Fantasma, Cedric Ferrugem, Zuca Sardana — de Carlos Felipe Saldanha. Flora Süssekind *** O herói de Sardan é um ser metamórfico (e metafísico), a oscilar entre a fralda e o fraque, a chupeta e o cavanhaque: capaz de grandes tiradas filosóficas e ainda não desmamado de tetas opulentas. Personagem de uma idade inconcebível, espécie de infância vetusta, onde transitassem bebês-anciãos. Sardan utiliza os encantos dos mitos infantis para melhor desvendar aos adultos os desencantos do mundo. São fábulas e apólogos narrados com uma delicada pena de urutau, constantemente banhada em ironia e humor sem equivalentes nas letras pátrias. É como se ele relatasse para nós a vida (o mundo) como ela (ele) é e a gente não se desse conta. Porque tudo vem naquela tonalidade sépia — tão própria das páginas anApresentação

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tigas; e, suprema malícia, ficamos quase sem saber se estamos lendo um texto atual, adulto e crítico, ou se se trata de um disfarce, a partir de uma daquelas historietas do “Livro de Belas Ações” do velho Thesouro da Juventude; ou de uma simples e comovida homenagem a Reco-Reco, Bolão e Azeitona.

Francisco Alvim

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