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O P E R Á R I O S D E E M P R E I TA DA

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universidade estadual de campinas Reitor José Tadeu Jorge Coordenador Geral da Universidade Alvaro Penteado Crósta

Conselho Editorial Presidente Eduardo Guimarães Christiano Lyra Filho – José A. R. Gontijo José Roberto Zan – Luiz Marques Marcelo Knobel – Marco Antonio Zago Sedi Hirano – Silvia Hunold Lara Comissão Editorial da Coleção Várias Histórias Fernando Teixeira da Silva (coordenador) Jefferson Cano – Margarida de Souza Neves Sueann Caulfield – Luiz Marques Conselho Consultivo da Coleção Várias Histórias Silvia Hunold Lara – Sidney Chalhoub Maria Clementina Pereira Cunha – Robert Wayne Andrew Slenes Claudio Henrique de Moraes Batalha – Michael Hall Consultoria deste volume Clifford Andrew Welch – Keila Krinberg

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Thiago Moratelli

operários de empreitada os tra b a l h adores da c o n str u ç ã o da estrada de f erro n oroeste do b rasi l ( s ã o pa u l o e mato g rosso, 1 9 0 5 - 1 9 1 4 )

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ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação M796o

Moratelli, Thiago Operários de empreitada: os trabalhadores da construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil (São Paulo e Mato Grosso, 1905-1914) / Thiago Moratelli. – Campinas, sp: Editora da Unicamp, 2013. 1. Estrada de ferro Noroeste do Brasil – 1905-1914 – História. 2. Trabalhadores. 3. Ferrovias – São Paulo (Estado) – História. 4. Ferrovias – Mato Grosso (Estado) – História. 5. Movimento operário – Brasil. I. Título.

isbn 978-85-268-1013-6

cdd 385.0981 301.4442 385.098161 385.098172 322.20981 Índices para catálogo sistemático:

1. 2. 3. 4. 5.

Estrada de ferro Noroeste do Brasil – 1905-1914 – História Trabalhadores Ferrovias – São Paulo (Estado) – História Ferrovias – Mato Grosso (Estado) – História Movimento operário – Brasil

385.0981 301.4442 385.098161 385.098172 322.20981

Copyright © by Thiago Moratelli Copyright © 2013 by Editora da Unicamp O presente trabalho foi realizado com o apoio da Capes, entidade do Governo Brasileiro voltada para a formação de recursos humanos. Direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19.2.1998. É proibida a reprodução total ou parcial sem autorização, por escrito, dos detentores dos direitos. Printed in Brazil. Foi feito o depósito legal. Direitos reservados à Editora da Unicamp Rua Caio Graco prado, 50 – Campus Unicamp cep 13083-892 – Campinas – sp – Brasil Tel./Fax: (19) 3521-7718/7728 www.editora.unicamp.br  –  vendas@editora.unicamp.br

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Co l e ç ã o V árias Hist ó rias

A coleção Várias Histórias divulga pesquisas recentes sobre a diver­ si­d ade da formação cultural brasileira. Ancoradas em sólidas pesquisas em­pí­r icas e focalizando práticas, tradições e identidades de diferentes ­g rupos sociais, as obras publicadas exploram os temas da cultura a partir da perspectiva da história social. O elenco resulta de trabalhos individuais ou coletivos ligados aos projetos desenvolvidos no Centro de Pesquisa em História Social da Cultura do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (www.unicamp.br/cecult). Volumes publicados 1 – Elciene Azevedo. Orfeu de carapinha. A trajetória de Luiz Gama na imperial cidade de São Paulo. 2 – Joseli Maria Nunes Mendonça. Entre a mão e os anéis. A Lei dos Sexa­ ge­nários e os caminhos da abolição no Brasil. 3 – Fernando Antonio Mencarelli. Cena aberta. A absolvição de um bilontra e o teatro de revista de Arthur Azevedo. 4 – Wlamyra Ribeiro de Albuquerque. Al­gazarra nas ruas. Come­mo­rações da Independência na Bahia (1889-1923). 5 – Sueann Caulfield. Em defesa da honra. Moralidade, moder­nidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). 6 – Jaime Rodrigues. O infame comércio. Propostas e ­experiên­cias no final do tráfico de africanos para o Brasil (1800-1850). 7 – Carlos Eugênio Líbano Soares. A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro ( 1808-1850). 8 – Eduardo Spiller Pena. Pajens da casa imperial. ­Jurisconsul­tos, es­cravidão e a Lei de 1871.

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9 – João Paulo Coelho de Souza Rodrigues. A dança das ­cadeiras. Literatura e política na Academia Brasileira de Letras (1896-1913). 10 – Alexandre Lazzari. Coisas para o povo não fazer. ­Carnaval em Porto Alegre (1870-1915). 11 – Magda Ricci. Assombrações de um padre regente. ­D iogo Antô­n io Feijó (1784-1843). 12 – Gabriela dos Reis Sampaio. Nas trincheiras da cura. ­As di­fe­rentes medi­ cinas no Rio de Janeiro imperial. 13 – Maria Clementina Pereira Cunha (org.). Carnavais e outras f(r)estas. Ensaios de história social da cultura. 14 – Silvia Cristina Martins de Souza. As noites do Ginásio.Teatro e tensões culturais na corte (1832-1868). 15 – Sidney Chalhoub, Vera Regina Beltrão Marques, Gabriela dos Reis Sam­paio e Carlos Roberto Galvão Sobrinho (orgs.). Artes e ofícios de curar no Brasil. Capítulos de história social. 16 – Liane Maria Bertucci. Influenza, a medicina enferma. Ciência e práticas de cura na época da gripe espanhola em São Paulo. 17 – Paulo Pinheiro Machado. Lideranças do Contestado. A for­mação e a atuação das chefias caboclas (1912-1916). 18 – Claudio H. M. Batalha, Fernando Teixeira da Silva e ­Ale­xan­dre Fortes (orgs.). Culturas de classe. Identidade e diversidade na formação do operariado. 19 – Tiago de Melo Gomes. Um espelho no palco. Identidades sociais e massi­ ficação da cultura no teatro de revista dos anos 1920. 20 – Edilene Toledo. Travessias revolucionárias. Ideias e militantes sin­dicalistas em São Paulo e na Itália (1890-1945). 21 – Sidney Chalhoub, Margarida de Souza Neves e Leonardo Affonso de Miranda Pereira (orgs.). História em cousas miúdas. Capítulos de história social da crônica no Brasil. 22 – Silvia Hunold Lara e Joseli Maria Nunes Mendonça (orgs.). Direitos e justiças no Brasil. Ensaios de história social. 23 – Walter Fraga Filho. Encruzilhadas da liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia ( 1870-1910). 24 – Joseli Maria Nunes Mendonça. Evaristo de Moraes, tribuno da Re­pública.

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25 – Valéria Lima. J.-B. Debret, historiador e pintor: a viagem pitoresca e histórica ao Brasil ( 1816-1839). 26 – Larissa Viana. O idioma da mestiçagem: as irmandades de pardos na América Portuguesa. 27 – Fabiane Popinigis. Proletários de casaca: trabalhadores do comércio carioca (1850-1911). 28 – Eneida Maria Mercadante Sela. Modos de ser, modos de ver: viajantes europeus e escravos africanos no Rio de Janeiro ( 1808-1850). 29 – Marcelo Balaban. Poeta do lápis: sátira e política na trajetória de Angelo Agostini no Brasil Imperial ( 1864-1888). 30 – Vitor Wagner Neto de Oliveira. Nas águas do Prata: os trabalhadores da rota fluvial entre Buenos Aires e Corumbá ( 1910-1930). 31 – Elciene Azevedo, Jefferson Cano, Maria Clementina Pereira Cunha, Sidney Chalhoub (orgs.). Trabalhadores na cidade: cotidiano e cultura no Rio de Janeiro e em São Paulo, séculos XIX e XX. 32 – Elciene Azevedo. O direito dos escravos: lutas jurídicas e abolicionismos na província de São Paulo. 33 – Daniela Magalhães da Silveira. Fábrica de contos: ciência e literatura em Machado de Assis. 34 – Ricardo Figueiredo Pirola. Senzala insurgente: malungos, parentes e rebeldes nas fazendas de Campinas (1832). 35 – Luigi Biondi. Classe e nação: trabalhadores e socialistas italianos em São Paulo, 1890-1920. 36 – Marcelo Mac Cord. Artífices da cidadania: mutualismo, educação e trabalho no Recife oitocentista. 37 – Joana Medrado. Terra de vaqueiros: relações de trabalho e cultura política no sertão da Bahia, 1880-1990. 38 – Thiago Moratelli. Operários de empreitada: os trabalhadores da construção da estrada de ferro Noroeste do Brasil (São Paulo e Mato Grosso, 1905-1914).

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Para minha família querida: meus pais, Carlos Alberto e Maria José, meus irmãos, Luiz Otávio e Ana Carla, e minha esposa, Maíra.

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Agradecimento A realização deste trabalho só foi possível porque contei com a ajuda e a solidariedade de diversas pessoas. Como é difícil citar o nome de todos aqueles que contribuíram nesta “empreitada”, dei­ xo aqui meus agradecimentos e um abraço aos anônimos. Agradeço aos meus pais, Carlos Alberto e Maria José, pelo amor que eles têm por mim e pelo esforço que sempre realizaram para me auxiliar. Certamente, não teria chegado aqui sem eles. Agradeço aos meus irmãos, Ana Carla e Luiz Otávio, pelo apoio, pelo estímulo e pelo carinho. Serei eternamente grato à minha esposa Maíra por sua ajuda e por seu amor durante todos esses anos, assim como a Célia e Enio pelo apoio constante. Agradeço a meu orientador, Fernando Teixeira da Silva, pela realização deste livro. Na Unicamp, Fernando sugeriu leituras e cor­r igiu meus textos sempre com muita sabedoria, disposição e bom humor. Devo a ele os acertos deste trabalho. Certamente, os erros são de minha inteira responsabilidade. Agradeço aos profes­ sores Michael Hall e Cláudio Batalha pela participação nas bancas de qualificação e de defesa e pelas sugestões ao longo do mestra­ do, aos professores Sidney Chalhoub e Robert Slenes pelos apon­ tamentos em sala de aula, e a Flávia Peral pelo apoio na prepara­ ção do livro. Sou grato aos professores Paulo Roberto Cimó Queiróz e João Francisco Tidei Lima pelos incentivos e informações sobre a No­roeste do Brasil, ao professor Vitor Vagner Neto de Oliveira pelas várias sugestões e pela participação na banca de defesa, e ao pes­quisador Celso Higa pelo apoio e pelas indicações em Campo Grande. Agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) pela bolsa de 24 meses.

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Agradeço a todos os funcionários das instituições em que realizei pesquisas nas cidades de Bauru, Campinas, Botucatu, Jaú, São Paulo, Campo Grande e Cuiabá. Em Campinas e na Unicamp, recebi apoio de diversos amigos, como Pedro e Josi, Robério, João Samuel (Juninho), Giovana, Priscila, Amanda, Luciana e Kleber, Iacy, Luciana e Fabiano. Adria­ no não mediu esforços para me ajudar na pesquisa que originou este livro, oferecendo sugestões acadêmicas, soluções práticas e grande amizade em todos os momentos. Em Bauru, os amigos Pierre, Adriana, Sílvio, Fernando, Fabrício, Robson (in memoriam), Juliana, Valmira; Roque, Tatiana, Plínio e todo o pessoal do sindi­ cato dos ferroviários; Gilson, Hélida, Alex, Ricardo, Luís e Cintia, do museu ferroviário, foram companheiros imprescindíveis ao longo desta jornada.

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Sumário prefácio . ...................................................................................................... 15 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 21 1 Construção ferroviária e trabalho de empreitada ............................ 39 2 Recrutamento dos trabalhadores ........................................................ 77 3 Condições de vida e de trabalho ......................................................... 125 4 Movimento operário . ........................................................................... 169 5 Crime e cotidiano .................................................................................. 203 Considerações finais ................................................................................. 249 ANEXOS .. ...................................................................................................... 253 fontes ........................................................................................................ 259 BIBLIOGRAFIA ............................................................................................... 263

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P r e fác i o A imagem de um dormente podre em meio ao que restou da es­ trada de ferro Noroeste do Brasil pode evocar um objeto, mas também transpor o sentido próprio ao figurado, compondo a metáfora de uma relação entre passado e presente. Antes, peça de peroba a atravessar o leito de uma ferrovia, sobre a qual assenta­ vam os trilhos e locomotivas carregavam gentes e coisas, ideais de progresso e riqueza. Viga indiferente ao tempo, ao ferro e ao sangue de trabalhadores e índios. Hoje, inerme e inútil, integra a paisagem de sucatas de uma fortaleza que soçobrou. Em meio ao capitalismo de mal-estar social, a festa das privatizações dos anos 1990 prometia reverter esse estado de prostração e desencanto. O resultado foi mais sucateamento, demissões em massa e formas iníquas de organização do trabalho que remontavam aos primórdios da construção da Noroeste no início do século passado. Foi num panorama de destroços e fantasmas que Thiago Moratelli colocou em prática o método regressivo de Marc Bloch: compreender o passado pelo presente... A visão de um dormente podre, entre os bustos dos cons­ trutores dessa moderna Tebas de sete portas, é parte da inspirada Introdução deste livro, que já pertence às belas páginas dos me­ lhores praticantes da nossa história social do trabalho. Quantas vezes, ao abrirmos um livro, não somos parados logo na porta da frente por um brutamonte de palavras mal-encarado nos barran­ do a entrada? Forçamos a passagem por obsessão, dever de ofício, esperança de encontrar algum conforto em um dos cômodos do livro, ou simplesmente lhe damos as costas. Aqui, ao contrário, o leitor contará com um anfitrião acolhedor, que sabe receber seus convivas logo à entrada. Nem por isso será poupado de ingressar sem demora no “Inferno da Noroeste”, onde vigorava “um confu­

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so e complicado sistema” de contratos, concessões, garantias “que nem o diabo as entendia”, como bem registrou uma pena sagaz. Mas fique o leitor desarmado, que Thiago não escreveu seu traba­ lho num cartório. Com escrita serena, o texto respira calmo e nos guia sem sobressaltos em meio ao cipoal de documentos patrimo­ niais que nos dão acesso a um intrincado jogo de interesses envol­ vendo engenheiros e médicos, investidores e especuladores nacio­ nais e estrangeiros, empresas concorrentes, políticos e governos, trabalhadores e “vagabundos”, índios caingangs e o matar de suas flechas. Foi em meio a isso tudo que, de 1905 a 1914, a Noroeste construiu uma estrada de ferro de 1.600 quilômetros de extensão em terras paulistas e mato-grossenses, o maior empreendimento ferroviário de seu tempo. Hoje, de Bauru a Corumbá, a solidão das estações ocupa o lugar do burburinho de um século atrás. Este livro, muito bem documentado, conta e analisa com primor a história dos trabalhadores que, em tempo recorde, cons­ truíram a Noroeste do Brasil, sob o complexo regime de emprei­ ta de serviços e obras de grande envergadura e inversão de capital. Para alimentar de trabalhadores uma região com baixa densidade demográfica, não faltaram agenciadores recrutando homens de diferentes paragens, dentro e fora do país, em busca de dias me­ lhores. Muitos, entretanto, lá encontrariam o pior de suas vidas, ou mesmo a enormidade da morte. Não sabemos se do púlpito de alguma igreja soou essa advertência do xará bíblico do autor: “Ou­ çam agora, vocês que dizem: ‘Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócio e ganha­ remos dinheiro’. Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa” (Tiago, 4: 13, 14). Esta singu­ lar e extraordinária advertência encontrada por Thiago nas Escritu­ ras foi dita de outras maneiras pela imprensa operária, sobretudo a libertária e anticlerical, em intensa campanha travada para im­ pedir que milhares de trabalhadores — muitos dos quais arranca­ dos das prisões ou seduzidos pelo canto de sereia de fraudulentos aliciadores de força de trabalho — fossem ganhar a vida com pás e picaretas em terreno pantanoso e insalubre, onde grassavam en­

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demias — algumas desconhecidas, como a “úlcera de Bauru” —, além de confrontos fatais com onças, cobras e “índios inclementes”, chacinados aos magotes. Ao lado das denúncias dos jornais operários, em guerra de informação declarada com a grande imprensa, os trabalhadores recusavam-se a se dissipar como neblina. Em propalado regime de livre contratação, muitos deles fugiam, em desafio à máxima dantesca “quem entra no inferno não sai”, dando o que pensar so­bre as fronteiras movediças entre trabalho livre e compulsório. Se não desertavam por medo da malária e de índios atocaiados na floresta, recusavam-se a obedecer às ordens para atacá-los. Fizeram a Companhia de Estradas de Ferro Noroeste do Brasil reconhecer atraso na execução das obras em razão de protestos e recusas dos trabalhadores, que se expressavam por meio de greves, confrontos com feitores armados e crimes “por questões de serviço”, em geral envolvendo arbitrariedades dos empreiteiros, embora os atos de violência fossem atribuídos por autoridades e relatos de via­ jantes a alguma tara atávica dos trabalhadores da Noroeste. Qualquer semelhança entre o Inferno da Noroeste e o nar­ rado em Coração das trevas, de Joseph Conrad, não será mera coin­ cidência. Correndo todos os riscos de anacronismo, em ambas as narrativas, encontramos paralelismos que não são fortuitos nem tão distantes no tempo. Guardadas as proporções, estamos diante de enormes sorvedouros de riquezas, trabalhadores e nativos. Conrad, aliás, viajou para o Congo belga no mesmo navio que para lá carregou trilhos e dormentes. Lá também, onde adoeceu de malária, viu o que narrou: levas de operários construindo a fer­ rovia do rei Leopoldo, assim como bacongos mortos de tanto trabalhar no assentamento dos trilhos e a debandada de fugitivos que não queriam ser recrutados 1. Se nas cercanias da Noroeste não encontramos nenhum colecionador de cabeças, nem por isso estamos tão longe do afã irrefreável e selvagem de expansão e poder do conradiano Kurtz, explorador de marfim, mensageiro da ciência, do progresso e do extermínio de “todos os boçais”, dos “brutos” não ocidentais, para tornar o lugar habitável. Como não ver na floresta e no lúgubre dos pântanos que desafiaram a cons­

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trução da Noroeste a atmosfera espessa, sombria e aflitiva que acompanhava o medo assassino do narrador do livro de Conrad na viagem aterradora pelo coração das trevas do homem moderno? Assim como a vida de Kurtz, a história da construção da Noroes­ te é uma confissão. Thiago Moratelli, entretanto, não é um con­ fessor indulgente, mas historiador o bastante para, acima de tudo, compreender e dar a compreender aquilo que o leitor poderá julgar como quiser. Fernando Teixeira da Silva

N ota 1 Adam Hochschild, O fantasma do rei Leopoldo. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.

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M a p a s |  Mapa 1 — Brasil. São Paulo e Mato Grosso.

Fonte: Mapa desenhado pelo autor.

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Fonte: Mapa desenhado pelo autor.

Mapa 2 — São Paulo e Mato Grosso. Estações da estrada de ferro Noroeste do Brasil (1905-1914).

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