Issuu on Google+

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 1

5/2/2013 13:59:40


FUTILIDADE DA NOVELA.indb 2

5/2/2013 13:59:40


futilidade da novela

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 3

5/2/2013 13:59:40


universidade estadual de campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Coordenador Geral da Universidade Edgar Salvadori De Decca

Conselho Editorial Presidente Paulo Franchetti Christiano Lyra Filho – José A. R. Gontijo José Roberto Zan – Luiz Marques Marcelo Knobel – Marco Antonio Zago Sedi Hirano – Silvia Hunold Lara

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 4

5/2/2013 13:59:40


Abel Barros Baptista

futilidade da novela

a revolução romanesca de camilo castelo branco

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 5

5/2/2013 13:59:40


Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Em vigor no Brasil a partir de 2009.

ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação B229f

Baptista, Abel Barros, 1955Futilidade da novela: a revolução romanesca de Camilo Castelo Branco/ Abel Barros Baptista. – Campinas, sp: Editora da Unicamp, 2012. 1. Camilo Castelo Branco, 1825-1890. 2. Ficção portuguesa – História e crítica. 3. Literatura portuguesa – História e crítica. I. Título.

cdd isbn 978-85-268-1010-5

869.356 869.09

Índices para catálogo sistemático:

1. Camilo Castelo Branco, 1825-1890 2. Ficção portuguesa – História e crítica 3. Literatura portuguesa – História e crítica

869.356 869.356 869.09

Copyright © by Abel Barros Baptista Copyright © 2012 by Editora da Unicamp

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada, armazenada em sistema eletrônico, fotocopiada, reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer sem autorização prévia do editor. Printed in Brazil Foi feito o depósito legal

Editora da Unicamp Rua Caio Graco prado, 50 – Campus Unicamp cep 13083-892 – Campinas – sp – Brasil Tel./Fax: (19) 3521-7718/7728 www.editora.unicamp.br  –  vendas@editora.unicamp.br

00-INICIAS.indd 6

7/3/2013 14:15:16


Faz-me tristeza pensar que eu floresci nesta futilidade da novela quando as dores da alma podiam ser descritas sem grande desaire da gramática e da decência. Camilo Castelo Branco Prefácio da 5ª edição de Amor de perdição (1879)

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 7

5/2/2013 13:59:40


FUTILIDADE DA NOVELA.indb 8

5/2/2013 13:59:40


SUMÁRIO

apresentação.................................................................................................................... 11

primeira parte

propedêutica da revolução camiliana 1.

da culpa – postulado e dispositivo................................................. 19 2. da revolução – definição e pressuposto................................... 55 3. da crise – poder e programa. .................................................................. 71 4. da prática – guerrilha e nome próprio...................................... 105 5. da estratégia. ............................................................................................................ 151

segunda parte

figurações do romancista 1. habeas corpus (memórias do cárcere). ................................................... 155 2.

a responsabilidade do romancista (o romance dum homem rico). ............................................................................................................. 173 3. o romanesco “minhoto” (novelas do minho). .......................... 193 4. os anticorpos do corpus (as polêmicas)...................................... 227

terceira parte

rever o amor de perdição 1.

a tradição revisionista.................................................................................. 247

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 9

5/2/2013 13:59:40


2.

o erro de simão....................................................................................................... 255

notícia bibliográfica........................................................................................ 287 referências bibliográficas........................................................................ 289

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 10

5/2/2013 13:59:40


apresentação

Um dos persistentes lugares-comuns portugueses no capítulo das relações culturais com o Brasil diz que Eça de Queirós goza de imenso prestígio entre os brasileiros ao passo que Camilo, esse, poucos o conhecem. Ou, numa versão argumentativa, a fortuna brasileira de Camilo foi afetada pelo imbatível prestígio de Eça. Não vejo por onde começar a negar essa ideia, e num duplo sentido: nem me parece que seja falsa, nem me preocuparia demasiado em negá-la se assim a considerasse. Mas há uma razão para a referir na entrada da apresentação deste livro, escrito em contexto português e nele enraizado: é que o prestígio de Eça no Brasil pode ter — e o mais certo é que tenha mesmo — importado um antigo antagonismo na cultura portuguesa, tornando-se aquele argumento uma sua versão. Refiro-me ao antagonismo entre camilianos e queirosianos, hoje diluído, mais por fadiga do que por ação crítica, e talvez por isso ainda ativo. Acontece que, durante décadas, os leitores portugueses ilustrados se dividiram entre os que apreciavam Eça e os que apreciavam Camilo. Essa rivalidade é o mais próximo que tivemos de uma guerra do câ­none, a ponto de a própria “guerra” se ter tornado um lugarcomum. A alguém que, incauto, elogiasse Camilo, logo outro haveria de responder “prefiro claramente o Eça”. O fato de a preferência significar basicamente que o idólatra nunca chegou a ler qualquer 11

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 11

5/2/2013 13:59:40


abel barros baptista

livro do escritor preterido só é relevante para confirmar a eficácia dos lugares-comuns. E de nada adiantou insistir nas trivialidades com que os mais bem-intencionados tentavam superar o antagonismo: que não há sentido em opor os dois escritores, que não temos tantos que possamos preferir um ao outro, que ler um não é incompatível com ler outro etc. A verdade é que o antagonismo decorre de uma visão teleológica da história do romance português e do dano consequente e irreversível. A visão teleológica resume-se assim: o romance português balbuciou infantilmente com os primeiros românticos, embora já propenso à história pátria; disparatou juvenilmente com Camilo, desordenado e um tanto pri­mitivo; atingiu enfim a forma madura, a queirosiana, capaz de cumprir a finalidade última — representar Portugal. Em resultado, não devia fazer sentido valorizar ou cultivar a forma imatura, quando a madureza foi atingida com tanto brilho e segura consequência. O dano irreversível foi este: a ficção camiliana perdeu, durante todo o século XX, a oportunidade de se constituir escola da arte do romance. Em vez, os alunos frequentaram a escola queirosiana, afinal uma restrição dessa arte imposta pela amálgama ideológica a que então se chamava “ideia nova”. A ficção queirosiana persiste, então, não apenas o paradigma da representação de Portugal pelo romance, mas ainda exemplo da suposição de que a finalidade de representação é a única compatível com a modernidade: Eça é moderno porque oferece uma representação válida de Portugal — entendendo-se por isso, e paradoxalmente, uma representação em que o leitor português contemporâneo reconhece a realidade em que vive — e porque oferece exemplo de romance organizado em função da finalidade de representar Portugal. De pouco adianta argumentar que Camilo tem do romance uma visão mais ampla e até mais moderna, se considerarmos a evolução romanesca de todo o século XX: enquanto persistir aquela visão teleológica, não se arranca Camilo à noção falsa de etapa de imatu12

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 12

5/2/2013 13:59:40


futilidade da novela

ridade, quando muito necessária, mas já superada, na história do romance português. Os ensaios deste livro procuram justamente desarticular o privilégio dessa visão teleológica, e apesar de escritos ao longo de vários anos, orientam-se no mesmo sentido: a história do romance por­tu­ guês não pode fazer-se segundo o modelo da evolução linear em direção a uma forma superior porque madura, mas antes ilumi­nando as rupturas que levaram o romance a tornar-se o gênero dominante na literatura portuguesa. O princípio deste livro é que o corpo dessas rupturas forma uma revolução e que Camilo a levou a cabo sozinho: o que aqui se chama propriamente a revolução camiliana. Na primeira parte, a “Propedêutica da revolução camiliana”, onde o leitor encontra o que poderíamos designar “arqueologia do nome de Camilo”, analiso o processo através do qual o nome de Camilo passou a designar na literatura portuguesa, mais do que uma pessoa ou escritor, a revolução romanesca, o processo de imposição do ro­ mance moderno como gênero dominante e, mais ainda, o pleno êxito dessa revolução. Embora aborde o começo da carreira literária camiliana, o que nela se faz é essencialmente expor a tese de ­começo, a imposição do romance como revolução camiliana e a descrição da emergência do romancista enquanto nova figura de intelectual no espaço público. Trata-se de mostrar que, se não há romance sem romancista, o romancista não se confunde com nenhuma das fi­guras então existentes de intelectual e de escritor: Camilo criou essa no­va figura e o seu nome confundiu-se com ela, ou mais precisamente, deu o seu próprio nome a uma nova figura de escritor, o romancista. Ao fazê-lo, Camilo rompe decisivamente com os pilares da noção de romance que se imputa à forma queirosiana: a finalidade de representação de Portugal e a submissão do romance às “ideias”. Camilo é, desde cedo, o romancista que trabalha em função de uma ideia de romance e reivindica a legitimidade de escrever indiferente quer às representações da nação quer à obrigação de a representar. 13

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 13

5/2/2013 13:59:40


abel barros baptista

A segunda parte do livro, constituída por uma série de ensaios dedicados a obras particulares, amplia a tese inicial e desenvolve o argumento. Trata-se agora de mostrar como essa tese pode renovar a leitura das principais obras de Camilo, orientando-se então para a segunda ideia da revolução camiliana: que a figuração do romancista é a principal ficção do universo camiliano, a que o distingue, operando no universo textual como princípio de legitimação do romanesco, como elemento básico de composição e como instrumento de renovação das modalidades de leitura. Daí as análises de um conjunto de obras — Memórias do cárcere, O romance dum homem rico, Novelas do Minho — que estabelecem os traços da figura do romancista. A terceira parte é dedicada a outra novela, a mais célebre das muitas que Camilo publicou, Amor de perdição. A estratégia seguida começa por delinear as linhas de força de certa fortuna crítica, a que surge animada do impulso de destruir interpretações herdadas, para depois mostrar as dificuldades em que a crítica cai quando não considera a ficção de romancista como condição de todas as outras fic­ções do universo camiliano. Quero deixar, por fim, uma palavra de reconhecimento à Edi­ tora da Unicamp pelo interesse manifestado por este livro e muito em par­ticular a Paulo Franchetti, pelo empenho que colocou na sua publicação e pela enorme generosidade com que sempre acolheu as páginas que se imprimem. Lisboa, 24 de setembro de 2012

14

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 14

5/2/2013 13:59:40


Primeira parte PROPEDÊUTICA DA REVOLUÇÃO CAMILIANA

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 15

5/2/2013 13:59:40


FUTILIDADE DA NOVELA.indb 16

5/2/2013 13:59:40


Rigorosamente, todas estas notícias são desnecessárias para a compreensão da minha aventura; mas é um modo de ir dizendo alguma coisa, an­t es de entrar na matéria, para a qual não acho porta grande nem pequena; o melhor é afrouxar a rédea à pena, e ela que vá andando, até achar entrada. Há de haver alguma; tudo depende das circunstâncias, regra que tanto serve para o estilo como para a vida; palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução; alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compôs as suas espécies. Machado de Assis

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 17

5/2/2013 13:59:40


FUTILIDADE DA NOVELA.indb 18

5/2/2013 13:59:40


Capítulo 1 Da culpa — Postulado e dispositivo

Vexo-me de estar pobre, e de ser a irrisão dos que me chamam o primeiro romancista, como ao Cristo chamavam o rei da Judeia. É uma ironia honorífica. Camilo Castelo Branco

Postulado da culpa No último filme de François Truffaut, Vivement Dimanche (1983), o protagonista faz, em dado momento, uma reflexão decisiva. Está escondido, a polícia persegue-o sob a acusação de ter assassinado um amigo e a própria mulher; falando com a secretária (Fanny Ardant), em poucas palavras capta o essencial da súbita clandestinidade: repara que nem pensa na mulher e na certeza de não mais a ver, porque a morte se tornou para ele uma abstração e a vida, um perfeito romance policial. Vemos depois que apenas se mobiliza para descobrir a verdade, ou antes, que só a tarefa de determinar o culpado lhe convoca as energias. E está aí, de fato, o princípio do romance policial: um percurso de reordenação de um universo perturbado que se desenrola desde o ponto fixo da perturbação até ao ponto fixo da causa única enfim encontrada — o culpado. Com pouco esforço, repara-se sem assombro que o mesmo modelo governa muito da nossa vida corrente. Na luta política e nos conflitos domésticos, no futebol e nos acidentes de viação, o caminho mais fácil ainda é o da determinação do culpado. Quando ocorre uma grande catástrofe, com comboios ou aviões, o governo manda logo abrir um inquérito, pressupondo sempre que, entretanto, 19

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 19

5/2/2013 13:59:40


abel barros baptista

alguém vai enterrar os mortos e está já a cuidar dos feridos. Há até uma famosa piada que estende o mesmo princípio aos terremotos. Conta-se que um certo governo recebe um telegrama contendo o seguinte aviso: “Prevê-se movimento sísmico vosso território — epicentro em X”. A resposta segue um mês depois: “Movimento sísmico abafado — epicentro e cúmplices presos — terremoto impediu resposta mais rápida”. O governo foi sendo o de Salazar, o de Franco, o de Costa e Silva, mais recentemente coube a vez a Samora Machel, mas o princípio manteve-se intacto: captar o culpado, porque sempre existe um culpado em qualquer perturbação. Uma vez decidida a questão de saber “quem teve a culpa?”, todos os problemas se dissipam e vai cada um à sua vida. Ora, o princípio da determinação do culpado é também decisivo para compreender o espaço camiliano como território que se expande ou retrai sem perder o traçado fundamental de uma trama expiatória: o centro motor do seu movimento é a culpa atribuída ao homem que lhe dá o nome, Camilo. Sabe-se perfeitamente que, quando se fala da obra camiliana, o problema fundamental é o homem. Não se trata apenas de uma decorrência do paradigma crítico dominante, ainda que o modelo que se ergue sobre a origem mi­rífica de uma intenção do autor seja já um modelo policial, na medida em que se esforça basicamente por barrar a flutuação do sentido e aprisioná-lo nessa gaiola suprema que é a intenção do autor e o contexto histórico e cultural em que surge. Mas a particularidade do caso camiliano está na dupla condição de autor e de culpado que o seu nome próprio evoca: à custa disso mesmo se compreende que nenhum discurso sobre o texto camiliano seja ainda possível no exterior de uma apreciação do próprio Camilo. As provas da culpa camiliana não são difíceis de apurar, ao menos aparentemente. Por exemplo: todos nós nos habituamos, primeiro por educação, depois por inércia, a prezar a coerência, sobretudo a coerência ideológica, e o sentido da responsabilidade como valores 20

FUTILIDADE DA NOVELA.indb 20

5/2/2013 13:59:41


Futilidade da novela