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14 NOV/DEZ/JAN 2017-8

Só fracassa quem tem muita coragem AS SETE VIDAS DO AUDACIOSO BLACKSAD

Conversa com Denise Fraga A ficção científica no Brasil Um planeta a desbravar

Aforismos

Literatura para tempos líquidos e incertos

Publicação literária e cultural do SESI-SP #14 NOV/DEZ/JAN 2017-8

editora@sesisenaisp.org.br sesispeditora.com.br facebook.com/editorasesi

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NOV/DEZ/JAN 2017-8

SESI-SP Editora Av. Paulista 1313 – 4o andar 01311-923 São Paulo SP Telefone 55 11 3146 7308

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Na página anterior, ilustração do livro O rei Davi, o príncipe Salomão e o ovo cozido, de Ilan Brenman e Rashin Kheiriyeh.

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editorial

Depois de cinco anos publicando a Ponto, de forma um pouco intermitente e com

uma periodicidade irregular, é verdade, seguimos na busca por um modelo de subsistência que garanta que projetos de estímulo à leitura, à escrita e a nossa produção cultural como um todo consigam encontrar seus caminhos. A Ponto nunca se pensou uma revista de crítica literária e cultural, mesmo que isso por vezes apareça em suas páginas. Mas se propõe, sim, a representar um veículo que levante questões e discorra sobre temas e movimentos com um tratamento leve que aproxime o leitor sem afastar a profundidade do tema. Admiramos e apoiamos formalmente outros veículos de informação que trazem a literatura como centro e sentido, tais como o consagrado jornal Rascunho e a novíssima revista Quatro cinco um, pois acreditamos que cada um deles, a sua maneira e com objetivos bem definidos, busca o aprofundamento crítico e a formação intelectual de nossos leitores. O nosso objetivo é a formação cultural de nossa sociedade em todas as frentes possíveis: criando nossos próprios produtos e coleções, fomentando em escolas e bibliotecas o interesse pela leitura de crianças e jovens, estimulando outros produtos de comunicação. Com esse mesmo propósito, lançamos as seções Ponto do Conto e Ponto do Novo Contista. No entanto, excepcionalmente neste número, não publicamos nenhum novo contista por conta do exíguo número de trabalhos que nos foram submetidos. Acreditamos que a produção literária está intimamente ligada ao hábito de leitura, além de trazer consigo outros fatores que estimulam a formação intelectual e emocional do ser humano, por isso não estamos descontinuando essa seção, mas provocando os novos autores brasileiros para que nos submetam seus trabalhos para serem publicados na Ponto e, quem sabe, – com perdão do trocadilho – representarem um ponto de partida para suas trajetórias literárias. Uma ótima leitura! O Editor

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14 NOV/DEZ/JAN 2017-8

Conselho editorial Paulo Skaf (Presidente) Walter Vicioni Gonçalves Neusa Mariani Comissão editorial Alexandre Ribeiro Meyer Pflug Débora Pinto Alves Viana Rodrigo de Faria e Silva Editor-chefe Rodrigo de Faria e Silva Coordenação editorial Gabriella Plantulli Mario Santin Frugiuele Produção gráfica Camila Catto Sirlene Nascimento Valquíria Palma Editoração Letícia Alvarez Sardella/Globaltec Editora Colaboradores desta edição Carlos Castelo Del Candeias Evandro Affonso Ferreira Ronaldo Bressane Jorge Miguel Marinho Sheyla Miranda Ramiro Giroldo Silvio Alexandre Valmir Santos Revisão Débora Donadel Jornalista responsável Gabriella Plantulli (MTB 0030796SP) projeto gráfico Tereza Bettinardi CAPA Globaltec Editora Tiragem desta edição 5 mil exemplares Impressão Interfill

CAPA Ilustração de Orlandeli para a matéria de capa Só fracassa quem tem muita coragem: as sete vidas do audacioso Blacksad.

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Revista Ponto® – Publicação Literária e Cultural Número 14 – NOV-DEZ-JAN 2017-8 SESI-SP Editora Av. Paulista 1313, 4o andar Tel. (11) 3146-7134 comunicacao_editora@sesisenaisp.org.br www.sesispeditora.com.br www.facebook.com/editorasesi

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sumário 28 Só fracassa quem tem muita coragem: as sete vidas do audacioso Blacksad

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Lançamentos

Literatura sem veredas

Sonhar com palavras o sonho de todos Por Jorge Miguel Marinho

Estante de livros

Artigo

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Por Evandro Affonso Ferreira

NAC, um programa artístico-pedagógico visionário

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Conversa com Denise Fraga

Cinquenta anos de PanAmérica

Bombons recheados de cicuta

Ponto entrevista

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Tirinhas

Claudius, Orlandeli, Ossostortos, Ruis e Gilmar

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Literatura

A ficção científica no Brasil: um planeta a desbravar

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Teatro

Memória

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Aforismos

Literatura para tempos líquidos e incertos

Ensaio

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Ponto do conto

Marita, em linha reta Por Carol Rodrigues

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Eventos das editoras SESI-SP e SENAI-SP Galeria de fotos

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Unidades do SESI-SP

64 HQ

Os quadrinhos e seus prêmios

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estante de livros

Chapeuzinho vermelho

O lobinho vermelho

O cabelo da menina

SERGIO GARCÍA SANCHEZ E LOLA MORAL

AMÉLIE FLÉCHAIS

FERNANDA TAKAI Ilustrações de INA CAROLINA

Esta publicação de Chapeuzinho Vermelho traz um olhar inovador sobre a fábula de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm. Em uma versão ilustrada, acompanhamos não só a história da Chapeuzinho Vermelho mas também conhecemos melhor os outros famosos personagens: a avó, o lenhador e o lobo.

Esta novela gráfica de Amélie Fléchais revisita a fábula de Chapeuzinho Vermelho, conservando seu toque cruel. Além da bela história, que inverte o papel dos personagens do clássico conto, a força desta obra está na riqueza gráfica e nas belas paletas de cores.

Um dia, ela acordou com a cabeleira malucona. Iria para a escola mesmo assim? Sim, ela iria para a escola principalmente assim. Por que não? Na escola, a atitude da menina causa grande repercussão e o resultado é inusitado.

O rei Davi, o príncipe Salomão e o ovo cozido ILAN BRENMAN Ilustrações de RASHIN KHEIRIYEH

Em um jantar oferecido por um vizinho, um homem empresta um ovo a outro conviva, chamado Samuel. Um ano depois, o homem cobra o empréstimo com muitos acréscimos, espantando Samuel, que busca a ajuda do rei Davi. Com bondade e senso de justiça, o rei resolve o impasse.

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Senhor cem cabeças GHISLAINE HERBERA

Com um vocabulário que desvenda as origens étnicas e geográficas das máscaras e o que elas expressam, Senhor cem cabeças busca refletir o amplo repertório de emoções que as crianças são capazes de viver em um belo inventário de máscaras dos mais diversos países, inclusive do Brasil.

Os 101 dálmatas

Catálogo de perdas

DODIE SMITH Ilustrações de VERIDIANA SCARPELLI

JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA E JULIANA MONTEIRO CARRASCOZA

A aventura se inicia quando os dálmatas Pongo e Missis partem em busca de seus filhotes perdidos. Enquanto farejam o sequestro de seus filhotes, suspeitam de Cruella DeMonyo. Nessa história, a habilidade, a lealdade e a amizade caninas dão provas de que não só os humanos são racionais.

Este livro se inspira no acervo do Museum of Broken Relationships (Zagreb, Croácia), que reúne em exposições temporárias relatos e objetos enviados por pessoas do mundo inteiro – símbolos catalisadores de suas relações “partidas”. Apresenta narrativas diversas de perda escritas por João Anzanello Carrascoza e fotografadas por Juliana Monteiro Carrascoza.

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estante de livros

Receitinhas para você: cerveja LUIZ CAROPRESO E BRUNO GIACOMELLI

A cerveja associada à gastronomia é algo muito comum em diversos cantos do mundo. O objetivo deste livro é fomentar a utilização da cerveja como um ingrediente no preparo de receitas, algo ainda pouco comum no Brasil.

Justiça seja feita – a vida de Sydney Sanches RICARDO VIVEIROS DE CASTRO

Este livro retrata a trajetória do jurista Sydney Sanches, o menino de Rincão, cidade do interior paulista, que entrou para a história. Um livro que, nas palavras de Ignácio de Loyola Brandão, foi “escrito para ser lido com prazer. Não é um tratado jurídico. É a vida com todas as alegrias, ambições, apreensões, sonhos, determinações, frustrações, embates pessoais [...]”.

Dias raros JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA

Os contos circulam em uma geografia quase bucólica: casas, portões, quintais, vizinhos, parentes, pais e filhos, árvores, silêncio. No limite entre o idílio rural remanescente e a violência das cidades grandes, todo pensamento é físico, e quando chega quase à abstração, como no excelente “Umbilical”, um dos mais belos momentos do livro, é como se reencontrássemos uma essência natural na vida, essência sempre generosa, cujo fim é comunhão.

Breviário de afetos IVO BARROSO

Mistura de testemunho e confissão, Breviário de afetos é o que poderíamos chamar de “livro-viagem”, já que a partir de suas páginas temos a possibilidade de visitar diferentes épocas, personagens e situações. Nas memórias aqui reunidas, Ivo Barroso repassa lembranças com o colorido característico de quem enxerga a escrita não apenas como um ofício, mas como uma profissão de fé.

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estante de hqs

HQs Verões felizes 2. A calanque ZIDROU E JORDI LAFEBRE

Neste segundo volume de Verões felizes, a família de Pierre e Madô inicia outra viagem em direção ao sul da França. Desta vez, no entanto, a aventura começa em 1969, quatro anos antes da história narrada no primeiro volume (1973). O casal e as três crianças (Paulette, a caçula do volume 1 ainda não havia nascido), depois de receberem uma dica de um senhor francês, acampam em uma calanque – espécie de falésia – “secreta” e deserta, onde decidem passar o verão.

Blacksad 2. Arctic-Nation DÍAZ CANALES E GUARNIDO

John Blacksad, nesta segunda aventura, deve solucionar o desaparecimento misterioso de uma criança. Ao longo da investigação, ele descobre que uma seita fascista está por trás do crime.

Quem vai parar Cyanure? TOME E JANRY SÉRIE “SPIROU E FANTASIO”

A vila de Champignac corre o perigo de cair nas mãos de um exército de ciborgues controlado pela terrível Cyanure. Spirou e Fantasio de repente se veem metidos na trama, e devem enfrentar a mulher-robô que ameaça implantar o caos.

Sobrenatural Social Clube #3 RONALDO BARATA

Jorge, um dos integrantes do Sobrenatural Social Clube, acaba se perdendo com sua família. No meio de uma estrada erma, por acaso acabam chegando a uma estalagem macabra. Ali, o garoto terá de superar obstáculos fantasmagóricos para liberar seus pais, já enfeitiçados pelo estalajadeiro. Para isso, Jorge contará com uma inesperada ajuda do além.

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BomBons nº 03 por Evandro Affonso Ferreira ilustrações de Bruno Maron

ENIGMA... enigma... Difícil decifrá-lo, mas, se você souber que enigma é um substantivo masculino, já é, digamos, um ganho e tanto.

* PERGUNTINHA, caríssimo-distraidíssimo leitor: Você já foi o et cetera da frase de alguém?

* É PRODIGIOSO, tudo muito prodigioso - até minha vida que não é, convenhamos, grande coisa, é prodigiosa.

*

Sempre que escrevo um livro deixo num canto, na gaveta de criado-mudo, por exemplo, um título provisório– sei que mais cedo, mais tarde ele aparece. Foi o que aconteceu semana passada, quando fui atravessar rua movimentada. Tarde calorenta. Fiquei ao lado de um poste, cuja sombra tinha meio metro, quase. De repente, moça-morena-bonita pegou

carona na minha sombra. Rimos daquela, digamos, intromissão sombria. Sinal abriu. Ela foi; eu, fiquei e anotei no meu bloquinho de rascunhos. NUNCA MAIS OUTRA VEZ NOUTRA SOMBRA.

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Não, não foram apenas as palavras daquele escritor, ele também havia caído em desuso. * TENHO, sim, autodomínio. Pena que nunca aparece quando preciso realmente dele.

* FÁBULA de Ambroise Bierce: Um Leão que havia apanhado um Rato estava prestes a matá-lo, quando o Rato lhe disse: - Se me poupares a vida, farei o mesmo por ti um dia desses. O Leão, num ato de generosidade, deixou-o ir. Aconteceu que, pouco tempo depois, o Leão foi apanhado por uns caçadores e atado com uma corda. O Rato, ao passar pelo local e vendo o seu benfeitor indefeso, roeu-lhe o rabo.

NOITE quase toda escrevendo um conto, quando, de repente, bodum-cabrum, texto tresandou a mau cheiro insuportável: por causa daquela personagem que ainda não havia sido sepultada mesmo depois de seis páginas seguintes.

AGORA, depois de velho, anoto tudo o que vejo. Se vejo um báculo, anoto: báculo; se vejo um centauro, anoto: centauro; se vejo uma clepsidra, anoto: clepsidra; se vejo uma mulher, anoto: impossível.

* Saí de casa – não havia diálogo: ela não me ouvia de jeito nenhum; mas agora vai ouvir minha ausência. *

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Denise Fraga interpreta Claire Zachanassian, na peรงa A visita da velha senhora.

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entrevista

O GANHO DO HUMOR por Sheyla Miranda

Cacá Bernardes.

Protagonista de nova montagem de A visita da velha senhora, texto

fundamental do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt, a atriz Denise Fraga defende o riso como ferramenta poderosa para levar à reflexão. E é com um sorriso no rosto que ela e seus companheiros de elenco cumprimentam os espectadores e começam o espetáculo caminhando e cantando pelos corredores do teatro SESI-SP – todo o espaço se transforma em Güllen, a fictícia cidade natal de Claire Zachanassian, personagem de Denise e a tal velha senhora do título. Milionária, ela é ansiosamente aguardada por ser a única esperança de resgate financeiro do pequeno município, arrasado economicamente. Topa ajudar, mas impõe a condição de que matem Krank, o amor de juventude que a abandonou grávida, fez com que fosse expulsa de Güllen e se tornasse prostituta. O enredo articula na sequência uma crítica voraz à força do dinheiro e à dissolução de valores éticos e morais. “O texto é uma aula de dramaturgia, não tem uma palavra ou gesto fora do lugar. E Dürrenmatt disse que nada atrapalharia mais este trabalho do que não ser levado como uma comédia”, conta Luiz Villaça, diretor da montagem. “O autor dizia que a tragédia do nosso tempo só pode ser representada através do humor”, completa Denise. Encontraram juntos o tom para a vilã, que é crua e impiedosa, mas também sedutora, engraçada, o que deixa o público sem saber se concorda ou crucifica suas ações. “O público gargalha assistindo à peça, mas não é qualquer risada. É aquele riso que eu chamo de ‘pior que é’, em que o espectador ri enquanto se dá conta da miséria humana, das nossas falências e eternos dilemas morais.” 13

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No escritório de sua produtora, que fica no andar térreo do prédio em que vive em São Paulo, Denise me recebeu com um suéter verde-bandeira que realçou a nova cor de seus cabelos, pintados de ruivo para interpretar a vilã. Falou à revista Ponto sobre as complexas relações entre dinheiro e poder e a importância do humor para sua trajetória artística, que começou quando tinha dezoito anos. A seguir, os melhores momentos da conversa: Denise, se há algo que parece costurar os seus trabalhos em diferentes fases e plataformas, principalmente no teatro, é o humor. O que a fez escolher tantos trabalhos que pegam o público por esse viés? O humor virou quase uma condição sine qua non para eu topar um projeto. Vai além do trabalho, é como uma filosofia – acredito que através do humor você faz ver, consegue chamar a pessoa pela cabeça, pela inteligência. Há diversos tipos de humor e sinto que cada vez mais me instiga o que se manifesta pela palavra, pela ironia. A coisa que mais adoro é pegar um texto que acho que tem essa força e fazê-lo acontecer. O Brecht é um autor que amo por conta disso, é dele uma máxima com a qual me identifico muito: “Divertir para comunicar”. Acho que ninguém precisa ir ao teatro para ter paciência; você tem que capturar o espectador, seduzi-lo. O humor é uma grande ferramenta para isso, mas não só, é uma via de grande potencial para provocar um grau profundo de contemplação. Meus olhos batem naquilo que tem humor, e minhas escolhas de teatro têm muito a ver com o que me faz brilhar o olho, com o que acredito que tenho que dizer. E como você chegou a este texto do Dürrenmatt? Há anos tenho a prática de fazer leituras na minha casa, assim surgiu a montagem de A alma boa de Setsuan, Galileu Galilei, e agora A visita da velha senhora. É sempre com o mesmo grupo, e fazemos isso não só para conhecer novos autores, mas também para revisitar alguns que lemos na escola de teatro. Como nos conhecemos há muito tempo, não temos vergonha um do outro, já lemos o texto representando, então é muito divertido. O Zé Maria, que é nosso produtor, disse que precisávamos voltar ao texto do Dürrenmatt. Quando li, falei: “Caramba! A gente precisa montar!”. O projeto surgiu há quatro anos e até me assusto, porque parece que a peça foi encomendada no ano passado – e o autor escreveu o texto em 1956. O clássico sobrevive porque trata não dos problemas, mas dos dilemas humanos: os problemas têm solução, já os dilemas são eternos. E o Dürrenmatt aborda dilemas com muita habilidade, muita técnica. Ele escreveu uma comédia trágica ou uma tragédia cômica, porque ele imprime um timing cômico muito preciso, muito rico. 14

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Com a montagem de A visita da velha senhora, você parece completar uma trilogia com dois trabalhos anteriores: A alma boa de Setsuan e Galileu Galilei (ambos baseados em textos de Brecht), que também abordam relações conflituosas entre dinheiro, poder e moral. Por que discutir esses temas a move especialmente? Existe um grande tirano que é o sr. Mercado. Imagina um senhor gordo, suando, sentado numa poltrona, que coloca uma canga no nosso pescoço. É muito importante discutir a questão econômica porque vivemos num país em que o básico não está garantido. Você pensa se vai ter filho ou não porque não sabe se vai poder pagar uma escola, mas se esquece que no quarteirão em que mora tem um colégio. O duro é que lá os professores estão sendo espancados, as professoras, estupradas. A educação pública entrou num descrédito tamanho… quando tive filhos, pensei em colocá-los em uma escola municipal ou estadual – estudei a vida toda na rede pública –, mas não tive confiança. Falo da educação porque é um tema que me toca e que tem muito a ver com o capital. Na alma boa…, a Chen Te, minha personagem, dizia: “Como é que posso ser boa tendo que pagar o aluguel?”. Galileu Galilei fala muito de resistência, de ética, de seguir os próprios ideais. A Güllen imaginada por Dürrenmatt está numa situação terrível, não sei até que ponto minha ética resistiria à miséria, se eu não roubaria um quilo de feijão se meu filho estivesse passando fome. O Brecht perguntava: “Que ética resiste à fome?”. E a Claire Zachanassian, minha personagem atual, é a encarnação mítica do dinheiro. O capitalismo é feito de dívida, da corda no nosso pescoço, e a Claire faz isso, coloca a corda no pescoço daquela cidade. A peça é uma grande crítica ao sistema em que vivemos. Agora a minha luta diária é para que as pessoas saiam do teatro questionando se precisa ser assim, pensando no que que podemos fazer para mudar, nem que sejam pequenas atitudes cotidianas. A ideia é que a pessoa veja a peça no sábado e na segunda-feira reveja sua postura no escritório, não aceite certas injustiças, consiga se posicionar com mais consciência. Que reflexos do texto do Dürrenmatt você vê na realidade brasileira? Diante dos festivais de malas de dinheiro, penso no quanto a corrupção tem raízes profundas aqui. Não são só nos que estão lá em Brasília nos abandonando, não cumprindo com as obrigações mínimas que têm com a população. Mas também no quanto é corrupto quem propõe favorecimentos em negociações que deveriam ser isentas, desde uma empresa de dedetização de um prédio que oferece o serviço de graça para o apartamento do zelador até em contratos de publicidade que escondem bonificações. A cultura do favorecimento é algo muito profundo e prejudicial por aqui, e está por todos os lados. 15

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A montagem trata dessas questões densas, mas é permeada por muita música, você canta para pontuar momentos-chave da narrativa. Como tem sido a experiência de soltar a voz em cena? Adoro cantar, mas sou cantora de chuveiro, nunca tinha cantado no palco. Tenho uma rodinha de samba, uma cantoria muito amadora, mas que é uma delícia. Para essa peça o Luiz pediu que eu usasse mais a voz e logo pensei em brincar com a coisa da ópera, porque a personagem é poderosa, tem um ar de diva. Fomos criando juntos e é um exercício muito bacana para mim.

Fotos de Cacá Bernardes e Everton Amaro.

As peças em que você atua costumam ficar longas temporadas em cartaz, vários meses, às vezes anos. Como são esses períodos de contato intenso com o palco para você? Deixo as peças se esgotarem, temos isso como princípio de produção. Sempre vai ter mais um lugar que precisamos ir e claro que para isso é importante ter um patrocínio consistente. Com Galileu…, fizemos o Brasil de cabo a rabo, nos apresentamos em 28 cidades, se não me engano. Desde teatros burgueses, perfumados, até nos teatros dos CEUs, nas periferias, atingimos plateias de todas as idades, de todas as classes. O que eu quero é comunicar, propagar boas ideias. Quero que o teatro esteja cheio em todas as apresentações, a peça tem de estar boa todo dia, meu critério de qualidade é ferrenhíssimo. Se acho que não está bom, fico doente, sabe? Eu encho o saco do Luiz (Denise e Villaça são casados), volto para casa e falo: “Amor, então…”. Discutimos as cenas de novo e de novo. O teatro tem uma felicidade que é ser móvel, dá pra ir ajustando aos poucos, é muito bonito. O teatro é um ritual de comunhão de ideias, gosto de pensar que o espectador volta para casa diferente, o ator também volta diferente. Você viaja com frequência pelo Brasil desde 2003, ano em que começou a rodar o país com os seus espetáculos. O que essas experiências de estrada trouxeram de mais precioso para você? Esperança. O Galileu… me fez ter fé de que é balela essa história de que o público não quer pensar. E quando tem humor no meio, tem prazer no meio também. Talvez 60% das pessoas que assistiram a A alma boa de Setsuan ou Galileu Galilei não sabiam quem foi Brecht, e agora muitas que vão assistir a A visita da velha senhora não sabem que foi Dürrenmatt, mas entendem o que eles quiseram dizer, os textos falam com todo mundo. Acho que essa é a grande função do ator, dar de presente para o público algo que ele não conhece e precisa conhecer, não por imposição, mas por prazer. No meu caso, quero usar inclusive a comunicabilidade que a televisão me deu para chegar em mais gente. Sempre digo: “Não solta a mão da dona Maria!”. O espetáculo precisa comunicar para cumprir sua missão. 17

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A dona Maria, a figura de qualquer pessoa comum parece te despertar muito interesse, tanto que por anos seguidos você fez o Retrato falado, no Fantástico, que dependia de uma interação com o público. Lembro que, quando fazíamos o Retrato, sempre pensávamos que não podíamos rir da pessoa que tinha escrito uma carta para o programa, mas rir com a pessoa. Todas as peças que já montei e tenho vontade de montar surgiram do meu contato com o outro. Prezo muito pela minha urbanidade, vou ao sacolão, vou ao cinema sozinha, vou andar no Minhocão no final de semana, quero ouvir o que as pessoas estão dizendo, o que estão pensando. Gosto de sentir e perceber minha cidadania, prezo pela minha existência no mundo independentemente da minha bolha de amigos. Neste ano, o Núcleo de Artes Cênicas do SESI-SP completa 30 anos, que é um programa de cursos não profissionalizantes de iniciação ao teatro e de vivência de processos criativos para crianças, adolescentes, adultos e idosos. Qual a importância de o teatro ser ensinado na escola? É que ele continue a ser uma fonte de aprendizado em diferentes momentos da vida? Por meio do teatro você se amplia, mesmo que não seja sua profissão. Dizer que acredito que o teatro deva ser estudado nas escolas vai parecer que estou puxando a brasa para a minha sardinha, ainda mais diante de uma reforma do ensino que tira a arte da grade obrigatória, que considera a arte supérfluo. Vivemos num país em que consideram a arte como um acessório, uma coisa que se tiver está bom, mas as prioridades são outras, antes deve vir a economia, o dinheiro. Só que desde tempos imemoriais o homem precisa da arte, inclusive para se conectar ao sagrado. Então penso que é importante entrar em contato com a arte não só indo ao teatro, mas também fazendo teatro, porque a arte forma, nos ensina a aprender, e isso é muito potente. Você começou a fazer teatro aos dezoito anos e agora, mais de 30 anos depois, parece sempre renovar seu interesse no ofício. O que de mais fundamental o teatro ensinou para você? O respeito pelo humano. Tenho uma conexão com a plateia, faço questão de receber os espectadores na porta. As pessoas falam assim: “Eu vi a da chinesa” [em referência a A alma boa de Setsuan]. Essa frase me faz delirar, porque quem diz nem sabe o nome do Brecht, nem sabe o nome da peça, mas a pessoa me viu em cena e quis voltar a ver. Essa minha conexão com o público é um trabalho de formiga, mas tenho fé nesse trabalho. O teatro me ensinou a me 18

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responsabilizar pela minha comunicabilidade. Não escolho uma peça porque quero fazer tal personagem – claro que tem que ter uma personagem boa para mim, mas escolho uma peça porque acredito na força do que ela tem a dizer. Fiz uma hashtag que coloco sempre nas publicações dos meus espetáculos, que é #somostodosprofessores. Temos que nos responsabilizar pelo coletivo, mostrar coisas boas, romper o ciclo vil em que você suspeita que os cantores sertanejos são patrocinados pela Ambev, e por isso falam tanto de bebida nas músicas. É perverso, temos que abrir sempre o diálogo, desenvolver a consciência. E acho que o teatro é uma das melhores formas para ajudar o outro a pensar. Eu acredito muito nisso. Você já disse que acreditava quando criança que os livros nasciam prontos. E você tem uma relação forte com a literatura, com a expressão escrita: escreveu livros infantis, colunas para a Folha de S.Paulo, tem ainda a da revista Crescer… Foi uma surpresa me chamarem para escrever na Crescer e depois na Folha, mas sempre digo que todo mundo tem seu ser falante e seu ser escrevente. Meu ser escrevente veio com uma volúpia e eu achava que eu não era uma escritora, imagina, nem acho ainda, mas eu sinto agora falta de escrever. Mas como sou muito mais atriz do que escritora, escrevia com uma arma na cabeça porque tinha um deadline. Não escrevo mais na Folha e estou sentindo necessidade de escrever. Então, sinto que existe uma onda, uma onda que vem e é uma onda do cérebro ligado às pontas dos dedos e flui. Quanto mais você escreve mais você quer escrever, e o que acontecia comigo e acontece ainda é que quando eu tenho que escrever um texto, eu fico louca, adiando, adiando, porque nada me parece suficientemente bom para ser escrito, mas aí quando sento lá e começo a formalizar, aí dou um caminhão para não sair de lá. É o prazer do pensamento. E eu acho que a escrita tem uma coisa que ela é música, ritmo. E quer coisa mais musical do que esse texto do Dürrenmatt? É incrível o que ele faz. Ele escreve frases curtas, não cita música clássica na peça à toa. Ele devia amar uma orquestra, a música. Ele sabia o quanto a música está ligada à literatura.

SHEYLA MIRANDA é jornalista de cultura desde 2008, editora, tradutora e mestre em teoria da literatura pela Universidade de Barcelona. Já passou por redações das editoras Abril e Trip, da Folha Online e do canal Arte 1.

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tirinhas

Claudius*

* Esta charge faz parte do livro Claudius, da SESI-SP Editora. 20

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Orlandeli

Ossostortos

Bobo da corte − Ruis

Gilmar

Os autores das tirinhas integram o catálogo da SESI-SP Editora. 21

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literatura

A FICÇÃO CIENTÍFICA NO BRASIL: UM PLANETA A DESBRAVAR por Ramiro Giroldo

Guilherme Garoa. CF: um planeta desconhecido, 2017. Instagram: @guigaroa.art

Não há apenas uma literatura brasileira, mas muitas. Esquecer, igno-

rar ou falsear seu caráter múltiplo promove o apagamento de diversas facetas de nossa cultura, veiculando a enganosa impressão de que a produção literária nacional pode ser compreendida por meio de perspectivas redutoras, generalizantes. Um exemplo: o excessivo apego à periodização da literatura faz esquecer que nem todos eram românticos na voga do Romantismo, ou realistas no Realismo, ou modernos no Modernismo, e assim por diante. O que não se conforma às tentativas homogeneizantes de certa historiografia literária tem sido ignorado, privando o divergente de uma apreciação capaz de apreender o que o faz singular. Chamar a atenção para a diversidade não equivale a condenar a literatura que, canônica, pôde se integrar plenamente ao sistema literário brasileiro. Tal sistema, na esteira do pensamento de Antonio Candido, é concretizado apenas quando dada obra alcança um impacto sociocultural expressivo o bastante para, em um único movimento, inovar uma tradição literária e dar a ela continuidade. Ora, realizar tal feito não é algo a ser desprezado. Dialogando produtivamente com o cânone pregresso e com o vindouro, a obra cumpre o grande potencial da palavra literária: revestir-se de novos sentidos a cada diferente época. 23

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É preciso cultivar uma visada capaz de cuidar tanto do acolhido quanto do rejeitado. Dessa forma, a percepção de nossa cultura será ampla e aberta à diversidade – esta que é, também na literatura, tão própria do Brasil. Impõe-se a seguinte dificuldade ao observador: para refletir acerca de uma obra colocada às margens, os parâmetros avaliativos podem não ser os mesmos usados para as obras consagradas. Afinal, cada diferente manifestação artística impõe a sua própria lógica ao observador, que deve respeitá-la a fim de não cometer injustiças. Sequer a diversidade dos baluartes de nossa literatura é respeitada quando o olhar tende a aparar as arestas e homogeneizar. Assim, embora considerado o romance fundador do Realismo brasileiro, Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, faz uso de um expediente marcadamente insólito, o defunto autor que rompe com os preceitos da verossimilhança realista. Também pode provocar surpresa verificar que Rachel de Queiroz, tão conhecida pelo “romance social nordestino”, escreveu um conto de ficção científica (FC) bastante significativo, “Ma-Hôre”. O conto não é um caso isolado na literatura brasileira: embora tradicionalmente os estudos literários não tenham notado, os exemplos de ficção científica nacionais não são poucos. Em meados da década de 1970, o escritor e crítico Fausto Cunha publicou o texto “A ficção científica no Brasil: um planeta quase desabitado” – trata-se da introdução ao volume No mundo da ficção científica, de L. David Allen. Nele, Cunha traça um breve histórico do gênero entre nós, assinalando sua pequena expressividade quantitativa em comparação com as variedades estrangeiras. A constatação de fato encontra respaldo numérico, mas poderia ser diferente em um país onde o mercado livreiro sempre enfrentou dificuldades em diversificar a oferta e fugir de caminhos mais seguros? É mais seguro, claro, publicar a FC estrangeira, que traz consigo o agressivo aparato da indústria cultural, como merchandising, filmes, séries e quadrinhos. Além disso, o problema da FC brasileira (FCB) não é só dela: numericamente inexpressiva e muitas vezes incapaz de chegar ao leitor é boa parte de nossa produção literária, que acaba por circular majoritariamente entre críticos, pesquisadores e escritores. Infelizmente, as exceções muitas vezes levam à pavimentação de um novo caminho seguro que é, no final das contas, tão hostil à diversidade quanto a tentativa de estabelecer crité24

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literatura

rios únicos para tratar da produção nacional. Em suma, os efêmeros modismos não colaboram para o estabelecimento de uma tradição da FC – ou de quaisquer outros gêneros. Conforme já foi reiteradamente indicado por ensaístas como Braulio Tavares e Roberto de Sousa Causo, há desde o século XIX exemplos de textos nacionais que podem ser chamados, em maior ou menor medida, de FC. Embora a produção tenha sido ininterrupta desde então, não o foi de maneira articulada: são manifestações isoladas, algo despidas dos caracteres necessários à continuidade e ao mutuamente enriquecedor diálogo intertextual. Há apenas um esboço de sistema literário, às margens daquele oficialmente endossado. Ler e divulgar a FC nacional contribui para que o esboço alcance um acabamento mais satisfatório. Como o conjunto de obras possui contornos pouco nítidos, é necessário abdicar da pretensão de definir com rigor a natureza da FCB. É possível, evitando a violência da generalização, apenas indicar linhas gerais que se deixam entrever em meio a um todo algo indistinto. Parte da FCB anterior a 1960, por exemplo, pode ser abordada segundo duas chaves complementares: o diálogo com o britânico H. G. Wells e a apropriação do modelo narrativo utópico. A primeira chave diz respeito ao tema; a segunda, à forma. Servem de exemplo os romances O presidente negro, de Monteiro Lobato, Viagem à aurora do mundo, de Érico Veríssimo, e 3 meses no século 81, de Jerônymo Monteiro. Estruturadas segundo o modelo utópico instituído por Thomas More, as narrativas são desprovidas de conflito, compostas pela estática apresentação de um mundo e um tempo outros. Nas três obras, o que o guia tem a relatar é fruto da ação de uma máquina do tempo, fazendo lembrar a clássica obra de Wells. Se a articulação entre Wells e More salta aos olhos em algumas obras do período, o mesmo não pode ser dito ao todo da produção, difuso e multiforme. Um esboço um pouco melhor acabado de articulação entre autores, veículos e leitores vai se dar apenas na década de 1960, graças ao fomento dos editores Gumercindo Rocha Dórea (Edições GRD) e Álvaro Malheiros (EdArt). Embora as atividades do primeiro tenham se prolongado por um período maior, ambos foram responsáveis por promover no país a FC com estratégias editoriais similares, como o lançamento de antologias de contos brasileiros e a publicação concomitante de nomes estrangeiros e nacionais. Acerca das antologias, é significativo que os editores tenham convidado autores que 25

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produziam (ou passaram a produzir) FC extensivamente, como Jerônymo Monteiro e Fausto Cunha, ao lado de autores já consagrados e à primeira vista alheios ao gênero, como Lygia Fagundes Telles, Rachel de Queiroz e Domingos Carvalho da Silva. Dórea e Malheiros pareciam agir de forma a integrar a FC ao sistema literário brasileiro. André Carneiro combinava em si ambos os mundos: conhecido poeta da Geração de 45, ao mesmo tempo produzia de maneira extensiva FC. Também por incorporar muito desse espírito da época, é o autor de maior destaque do período (e, talvez, também dos períodos seguintes), com uma obra sempre disposta a colocar em xeque nossos preceitos e preconceitos. O alcance da iniciativa dos editores, contudo, não foi o esperado. Se artisticamente os dividendos foram positivos, o mesmo não pode ser dito do aspecto financeiro. Pouco a pouco as publicações foram rareando e tornaram-se insustentáveis segundo a lógica do mercado. Gumercindo Rocha Dórea continua a publicar esporadicamente, mas seu projeto editorial teve seu mais fértil momento nos anos 1960, período da nossa FC conhecido, não por acaso, como Geração GRD. O segundo momento em que surge um eixo claramente definido de produção e recepção é a década de 1980. O fandom, comunidade atuante de fãs, é quem dessa vez vai fomentar a produção – o que não equivale a dizer que o movimento fosse homogêneo. Alguns dos agitadores responsáveis por organizar reuniões, publicar fanzines e realizar demais ações “de guerrilha”: Cesar Silva, José Carlos Neves, Marcello Simão Branco, Mario Mastrotti, Roberto Nascimento e Ruby Felisbino Medeiros, entre outros. Alguns dos autores a adquirir destaque a partir do momento: Braulio Tavares, Carlos Orsi, Fábio Fernandes, Finisia Fideli, Ivan Carlos Regina, Ivanir Calado, Jorge Luiz Calife e Roberto de Sousa Causo. A fim de inserir-se dentro de uma perspectiva historiográfica, e dar o devido crédito aos autores pregressos, tal eixo dos anos 1980 nomeou a Geração GRD de “Primeira Onda” e a si próprio de “Segunda Onda”. Dórea e Carneiro eram figuras que, ainda em atividade, representavam uma das pontes entre os dois períodos. Ainda com um pé na água e outro na areia da margem, nossa FC mostra certo vigor. Contemporaneamente, estaríamos na “Terceira Onda”, com autores como Ademir Assunção, Ana Cristina Rodrigues, Cirilo Lemos, Cristina Lasaitis, Luiz Bras, Márcia Olivieri, Santiago Santos e o saudoso Mustafá Ali Kanso, que tão cedo nos deixou. A opção por “estaríamos na Terceira Onda” e não “estamos” sinaliza, aqui, que os autores mencionados não 26

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LITERATURA

Michael J. Bowman. The Hyper-Psych Art, 2013. (bit.ly/2iW5CLj)

necessariamente aderem de pronto à divisão em “ondas”, ou à noção de que fazem parte da terceira. Pelo didatismo, contudo, não deixa de ser uma divisão válida para compreender historicamente a dinâmica da FCB – desde que não seja esquecida, nunca é demais lembrar, a diversidade. Hoje é inadequado falar na produção nacional sem chamar atenção para Nelson de Oliveira. Autor consagrado, subdividiu-se há alguns anos em três heterônimos: Teo Adorno, Valério Oliveira e Luiz Bras. O último é um autor de FC acentuadamente interessado em questões contemporâneas, representando uma muito bem-vinda ponte entre a literatura brasileira respeitada como tal e a FC. Trata-se de uma figura agregadora: várias foram suas iniciativas em prol da articulação entre diferentes autores, como a organização de eventos e antologias de contos – a próxima, pela SESI-SP Editora, sai em 2018. À sua maneira, Oliveira representa uma ponte como Carneiro um dia representou, mais uma mostra de que a FCB não precisa e não deve se restringir a um gueto. O esboço de sistema literário talvez esteja a ganhar alguns traços a tinta. Diante de tantos nomes elencados nesta breve conversa, cada um deles dono de particularidades dignas de atenção dos leitores, dos pesquisadores e das editoras, difícil ainda dizer que a ficção científica no Brasil é um planeta quase desabitado, como o fez Fausto Cunha. O astronauta que pousar os pés no planeta deve estar preparado para surpresas: encontrará espécies nunca antes descritas e descobrirá traços inusitados em seres que julgava conhecer bem. E os nativos certamente farão o astronauta ver com outros olhos seu próprio mundo. RAMIRO GIROLDO é professor da UFMS, atua na graduação e na pós-graduação e ministra disciplinas ligadas à literatura brasileira. Doutor em Literatura Brasileira pela USP, dedica-se a investigar a utopia, a ficção científica nacional e as representações artísticas da violência e do horror. Autor de diversos ensaios, publicou em 2013 o livro Ditadura do Prazer: sobre ficção científica e utopia.

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Só fracassa quem tem muita coragem: as sete vidas do audacioso Blacksad por Ana Rüsche

Imagem que compõe o livro Blacksad. Algum lugar em meio às sombras.

Se gatos têm sete vidas, John Blacksad faz questão de arriscar milime-

tricamente cada uma delas. Em meio a tiros, investigações e amores fracassados, o gato detetive traça jornadas perigosas, nem sempre frutíferas, para ganhar seus trocados, alguma justiça e saciar sua curiosidade. Em um mundo de moral dúbia e crimes de magnatas, tendo como pano de fundo fatos históricos do final do século XX, Blacksad mantém a tensão página a página dentro da melhor tradição das boas histórias de detetives. Elaborado por Juan Díaz Canales, roteirista de quadrinhos, séries e animações, e por Juanjo Guarnido, dono de uma técnica impressionante no que se refere à coloração e estilização de movimentos, Blacksad é um deslumbre. Juanjo, que trabalhou para a Marvel e para Walt Disney Studios, contribuiu com seu traço e sua paleta com os principais estúdios do mercado de animação internacional. Inclusive, foi responsável por desenvolver um leopardo fêmea Sabor no longa-metragem Tarzan (Walt Disney Pictures, 1999). Não é à toa que John Blacksad, nosso gato protagonista, possa emprestar de quando em quando a potência ágil dos grandes felinos e explodir uma página inteira com seus saltos e sua ousadia. 29

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O primeiro número, Algum lugar em meio às sombras, foi um sucesso estrondoso na França, tendo vendido mais de 200 mil exemplares pela editora Dargaud. Embora voltado inicialmente ao público europeu, logo ganhou o mundo e destacou-se faturando os principais prêmios internacionais da área. Publicada de 2000 a 2013, a sequência será completada pelos títulos Artic Nation; Alma Vermelha; O inferno, o silêncio; e Amarillo, Texas – coleção que desembarca no Brasil em ótima hora, com o cuidado estético necessário para que os álbuns não percam nada para outras edições.

Cidades soturnas e perigos à luz do dia Se nosso herói é um maravilhoso gato preto, certamente a cidade é uma grande personagem. Seja Las Vegas, New Orleans, Nova York ou a pequenina Amarillo no meio do Texas na Rota 66. Ora soturnas ora brilhantes, as metrópoles nostálgicas emergem nas páginas com seus letreiros arruinados, becos, arranha-céus impenetráveis, cemitérios. Os bares e botecos são incontáveis – com sorte, você poderá avistar um conjunto de músicos tocando clássicos do jazz ao fundo. Bebendo de um tipo de estética que se convenciona chamar de estilo noir, Blacksad atualiza os tópicos ficcionais da literatura dos anos 1950 estadunidense que irá retratar a cidade como a senhora desconhecida e perigosa, disputada por gangues e habitada por uma justiça pouca, por mortes banais, copos de uísque, socos, fumaça espessa de cigarro e mulheres de batom vermelho. É conhecida por ser “uma literatura barata”, distribuída em livrinhos e comics vendidos em bancas, impressos em papel jornal, voltada a temas populares, a denominada pulp fiction. Entretanto, Blacksad vai além do noir: são retratados imigrantes nos Estados Unidos, guerra nuclear, ascensão de supremacistas brancos. Em um comentário histórico, o gato será testemunha ocular de manifestações políticas, palestras sobre energia nuclear no contexto da Guerra Fria, assuntos que se somam à atmosfera densa que envolvem suas aventuras. O vermelho sangra a página e é utilizado para envelopar crimes violentos – as cores e o traço do trabalho são preciosos para definir a ambientação. Assim como amarelos vibrantes para sublinhar o nome da cor que, em espanhol, batiza a cidade “Amarillo” no Texas. A estrutura dos quadros também é torcida para conferir maior movimento e profundidade às personagens, quando, por exemplo, exprimem abalos de dor ou cólera ou mesmo o caos do escritório do detetive. 30

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A linguagem é um relato das sete vidas preciosas do gato John Blacksad, narradas em primeira pessoa em tom confessional. Afinal de contas, quem irá acreditar em tantas aventuras funestas? Quando o detetive nos permite entrar em seu escritório, entraremos em seu universo, em suas desilusões amorosas, em seus problemas financeiros: “às vezes, quando entro em meu escritório, tenho a impressão de estar caminhando entre as ruínas de uma civilização antiga. Não por causa da desordem e do caos, mas justamente porque aqueles escombros parecem os vestígios do ser civilizado que um dia eu fui”.

Um mundo animalesco, cheio de personagens históricos e arte O mundo em Blacksad é visto com lentes animalescas: todas as pessoas são transformadas em animais humanoides. Focinhos, bicos, mandíbulas povoam as páginas coloridas. Muitas das características que humanos reputam a animais são preservadas nestas lentes. A começar pelo próprio herói, Blacksad, um gato preto, cuja tristeza escura vem acompanhada por uma insistente má sorte, principalmente o azar no amor, embora a agilidade das sete vidas o transforme em incrível detetive. Exemplificando, em Algum lugar em meio às sombras logo vamos conhecer o leal e responsável pastor alemão Smirnov, comissário de polícia amigo de John Blacksad ou mesmo um rato maltrapilho que surge das trevas, a guiar o detetive até um cemitério. Chama a atenção a gangue de lagartos, que com seu sangue frio e olhos esbugalhados se mostram perigoso oponentes peçonhentos – os lagartos refugiam-se no bar La Iguana e logo declaram que “sujeitos peludos como você não são bem-vindos aqui” para uma lontra desavisada que surge na toca errada. Os livros dialogam entre si. Se você gostou do comissário de polícia Smirnov, que dá carta branca para Blacksad punir criminosos em Algum lugar em meio às sombras, ele irá reaparecer com mulher e dois filhos em exposição de arte. Ou mesmo Weekly, doninha otimista. É interessante pescar personagens históricos e ver como foram transformados em animais. Há muitos! Apenas para citar alguns, Em Alma vermelha, você poderá ver o pintor norte-americano Mark Rothko como o urso Sergei Litvak, o poeta beatnik Allen Ginsberg como o bisão Greenberg uivando o seu “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus” (o tradutor Antonio Xerxenesky cita o poema “O Uivo” na conhecida tradução ao português de Claudio Willer). Você pode 31

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ainda encontrar Adolf Hitler como um gato branco – sugerem ser uma alusão a Maus de Art Spiegelman. É um mundo brutal para mulheres. É como se ouvíssemos um sax, trompete e a voz de James Brown na rouquidão do It’s A Man’s Man’s Man’s World: as mulheres são principais vítimas dos crimes que nosso detetive irá solucionar (ou somente vingar, quando estão mortas) e são ainda alvos de piadinhas misóginas, como no episódio em que as comparam com a energia atômica. As mulheres atraentes são gatas nas lentes de John Blacksad, como a atriz famosa Natalia Wilford. O detetive tem pouca sorte com elas – embora se esforce para as conquistar, suas relações não duram o quanto ele gostaria, vive sofrendo decepções amorosas e desencontros. A vida também o castiga com suas ironias: um momento engraçado é quando está em uma mesa em Las Vegas e é obrigado a suportar e assistir a um concurso de imitadoras de sua ex-namorada, a bela atriz Natalia Wilford.

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Como a vida é maior, nem somente de crimes e amores tristes vive nosso herói: nos livros, há um comentário quase constante a respeito da arte produzida na época, inclusive de diferentes segmentos. O gato John Blacksad trava conhecimento com artistas que revolucionaram a arte e a indústria cultural dos Estados Unidos. Além do poeta Allen Ginsberg e Mark Rothko, já citados, que aparecem em Alma Vermelha, veremos a profícua cena do jazz em New Orleans em O inferno, o silêncio. Em Amarillo, Texas vamos ainda conhecer o cotidiano de uma companhia circense e suas dificuldades financeiras e artísticas. Grandes estúdios de filmes e fonográficos em funcionamento também são retratados – como na cena em que um leão-marinho quebra um lápis aos berros que tinha contratado um saxofonista e não um xilofonista em Algum lugar em meio às sombras.

Imagem que compõe o livro Blacksad. Algum lugar em meio às sombras.

A ficção mais humana: curiosidade, fracasso e coragem

Como a ficção de Blacksad pode aportar em nossas vidas? Uma das funções da ficção é nos inspirar, conceder possibilidades para que lidemos melhor com desafios e questões que nos atravessam. A ficção possui esta força mágica de nos devolver o mundo em que vivemos exatamente como se apresenta. Blacksad, com seu protagonista corajoso e muitas vezes fracassado, nos devolve um lado muito humano, que oscila entre a audácia e o fracasso: “Vi e vivi tantas situações incríveis que os leitores vão pensar que são um monte de mentiras, que não cabe tanta maldade no mundo”. O gato detetive nos traz, uma vez mais, a noção de nossa pequena estatura frente à magnitude das injustiças, nos traz as maneiras possíveis de se habitar cidades e explorar seus tesouros, nos traz a urgência em perceber que somos cercados por arte e por acontecimentos históricos. Talvez seja essa a maior inspiração desta leitura: a de seguirmos cheios de curiosidade, que alimenta um espírito investigativo e a sede por conhecimento. Saber que o fracasso só ocorre a quem tem muita coragem.

ANA RÜSCHE é escritora e doutora em letras pela Universidade de São Paulo (USP). Publicou cinco livros, entre eles o romance Acordados (Demônio Negro, 2007). Seu último livro é Furiosa (poesia, 2016). Será responsável pela tradução do título Blacksad – Amarillo para o português.

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Quando você lê ___

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lê _______, você é o Sherlock Holmes por um tempo.

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artigo

Literatura sem veredas por Del Candeias

Sandro Botticelli. La mappa dell'inferno, 1480-1490.

Quando estava no finado colegial e a matéria português partiu-se

em três (gramática, redação e literatura) aprendi que a produção literária no Brasil também se partia, mas em dez: quinhentismo/literatura informativa, barroco, arcadismo, romantismo, realismo/naturalismo/parnasianismo/simbolismo e modernismo. Ao longo dos anos restantes para me formar, acompanhei essa narrativa dos sermões e cartas, que não me pareciam literatura, até os feitos heroicos do modernismo e depois, como adorava ler e escrever, entrei numa tristeza profunda, porque tive a sensação de que dali em diante nenhuma obra teria relevância. Na minha graduação, como em muitas outras de letras, acompanhei a mesma narrativa, apesar de, é claro, encontrar visões muito mais críticas e a presença pontual de obras cujos autores ainda respiram – e sem ajuda de aparelhos. Acompanho-a novamente dia a dia, pois dou aulas particulares e em praticamente todos os colégios de meus alunos os estudos sobre literatura brasileira baseiam-se na divisão de períodos por meio de escolas, movimentos, correntes ou períodos literários. Para se ter uma ideia da longevidade e generalidade desse recurso, leiam o seguinte trecho de Santiago Nunes Ribeiro citado e comentado por Antonio Candido (2012, p. 650): Nós entendemos dividir a história da literatura brasileira em três períodos. O primeiro abrange os tempos decorridos desde o descobrimento do Brasil até o meado do século XVIII. Cláudio Manuel da Costa faz a transição desta época para o segundo, que termina em 1830. Os padres Caldas e São Carlos, bem como o Sr. José Bonifácio, formam a transição para este terceiro em que nos achamos.

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Segundo Candido, essa periodização, mais razoável do que as antecessoras, “é, em linhas gerais, a que se aceita até hoje, sendo de notar o critério valioso de estabelecer zonas e autores de transição e o sentimento muito mais firme dos blocos de produção literária” (Ibidem, p. 650-651). Saibam que o trecho de Nunes Ribeiro é anterior a 1850 e o comentário, posterior a 1955. Com essas observações, não quero sugerir que a historiografia da literatura brasileira é demasiadamente esquemática, muito menos que em outros países esse tipo de estudo seja completamente livre da divisão de períodos conforme tendências estéGARNIER, M.J. Visconde de Araguaya, 189?.

ticas generalizadas. Na realidade, minha hipótese – e acredito não ser o único a propô-la – é de que a periodização conforme estilos se aplica particularmente bem ao Brasil, pois, aqui, diferentemente do que ocorreu em outros lugares do mundo onde a criação literária se realizou de maneira mais espontânea, os movimentos, escolas e o processo criativo em geral assumiram essencialmente a forma de programas. Para ilustrar minha hipótese, gostaria de dar dois exemplos. Pensemos no nosso romantismo, que deu seus primeiros passos quando jovens homens de letras buscavam uma literatura autenticamente nacional

Gonçalves de Magalhães.

e identificaram nas novas manifestações literárias europeias elementos que poderiam fornecer subsídios para o processo de elaboração dessa nova literatura. Sendo assim, esse movimento (que, segundo manuais e historiografias, tinha características como individualismo, sentimentalismo, forte ligação com a cultura popular e ausência de regras preestabelecidas para a composição), na versão brasileira, foi fundado por um grupo de estudiosos, em Paris (cadê o nacionalismo?), com direito a um patrono, Gonçalves de Magalhães, cuja teoria tornou-se preceito e cuja obra transformou-se em modelo (apesar de, na realidade, mais virtual do que real). Ao ser transposto para o Brasil, um movimento, que não era apenas literário, mas também cultural, ganhou a forma de escola e se irmanou com um grande inimigo: o oficialismo. Aliás, o nível de oficialidade dessa primeira etapa foi tão alto, que na grande maioria dos livros de história da literatura brasileira, sejam voltados para a academia ou para os colégios, demarca-se o início do nosso romantismo com a publicação de Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães, e/ou da revista Niterói, elaborada pelo grupo que ele liderou, 38

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artigo mesmo quando esse procedimento justifica-se mais como registro histórico do que como apreciação literária. Se não acatamos a ideia de que a obra de Magalhães seja total ou verdadeiramente romântica, precisamos considerar seu esforço deliberado de adesão e não podemos ignorar sua capacidade performativa. De maneira que os espíritos mais críticos colocam-na no lugar de costume, mas fazem observações como as que desfecham o trecho abaixo: É aos Suspiros poéticos e saudades, coleção de poesias publicada em Paris, em 1836, por Domingos José Gonçalves de Magalhães, que ele próprio, os críticos e leitores contemporâneos atribuíram o início do romantismo aqui. Razoavelmente se não pode discordar deste conceito. O leitor de hoje [1916], entretanto, só com esforço e aplicação encontrará nesse livro o que plenamente o justifique. E somente da comparação com o que era aqui a poesia antes dele, lhe virá a certeza de que não é errado. (VERÍSSIMO, 1954: p. 164)

Não é curioso que o leitor da época de Veríssimo precise de “esforço” e “aplicação” para reconhecer que a obra inaugural do romantismo brasileiro seja romântica? Esse apelo decorre de duas razões muito particulares ao Brasil. A primeira, já esboçada no trecho acima, é que o livro poderia ser considerado uma obra de transição diante do que se escreveu depois, mas deve ser tomado como texto fundador, porque assim foi declarado oficialmente, tendo servido, inclusive, de inspiração para outros autores românticos. A segunda é a necessidade que Gonçalves de Magalhães e a intelectualidade de sua época tiveram de vincular Suspiros poéticos e saudades ao romantismo. Como escrever literatura não era um hábito originalmente nacional (e qual seria numa nação de quatorze anos, criada por portugueses e cuja população era africana e indígena?), atrelá-lo a uma corrente artística europeia recente e de vulto era lhe dar credibilidade e sabor de novidade. Além disso, certos aspectos do movimento eram ideais para servir de base ao nacionalismo crescente, oferecendo um norte seguro para os novos escritores. Agora vamos ao segundo exemplo para ilustrar minha hipótese. Desde 1849, quando foram utilizados pela primeira vez, os conceitos de “modernidade” ou “moderno” receberam as mais variadas análises e aplicações. Sua complexidade nunca permitiu uma definição fechada e unânime. Uma das provas desse caráter difuso são as recentes e atuais polêmicas a respeito do “pós-moderno” ou da “pós-modernidade”, que são também reflexo do caráter ainda indefinido de “moderno” ou “modernidade”. 39

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Assim como o conceito geral, também não existiu nem existe um consenso sobre o que seria arte moderna. Há, é claro, algumas características comuns que foram levantadas por alguns autores, mas nenhuma delas, nem mesmo um conjunto, serve como indicação categórica. Contudo, no Brasil, a arte considerada moderna surgiu por meio de um evento inaugural, realizado por artistas que a praticavam (ao menos em teoria) e a defendiam. Nesse sentido, podemos afirmar que, paradoxalmente, esse fenômeno cultural cujo alcance não se restringiu ao campo da arte e cuja essência é extremamente difusa foi incorporado ao ambiente brasileiro por meio de uma transposição que o transformou num movimento, com grupo liderante, adeptos e início oficialmente demarcado: o modernismo. Por conta disso, seus artistas filiados são, antes de tudo, modernistas, o que não é necessariamente sinônimo de “modernos”. Nos anos que seguiram essa fase original, os artistas que fizeram parte do grupo modernista mostraram pouco a pouco que, apesar da forte inspiração nas vanguardas europeias, sua preocupação talvez principal era refletir sobre o Brasil e, com isso, modernizar a arte nacional. De modo que naturalmente cada um desenvolveu seu estilo, conforme os próprios princípios artísticos que foram amadurecendo num contexto no qual a própria ideia de movimento tornou-se obsoleta. Por quais meios os artistas adquiriram essa autonomia não é assunto agora. O que importa aqui é sugerir que o processo de criação do escritor brasileiro, até pelo menos metade do século XX, dependeu, e bastante, do conceito que se fazia e que era disseminado das tendências europeias assimiladas e oficializadas no Brasil. Infelizmente é esse esquematismo que geralmente serve de norte e é enfatizado nos nossos colégios, talvez os mais importantes responsáveis pela nossa formação literária. E a lei do mais forte no vestibular cristaliza tal processo. O resultado disso é que as contradições e nuances, os aspectos mais ricos da arte (por que não da vida?), se perdem junto com a atualidade da nossa literatura, pois as obras ou características que não se enquadram tão bem nas categorias e no passado historiografado podem se aproximar dos leitores, mas se afastam do currículo-padrão e das exigências dos vestibulares. Por isso, hoje em dia, não me espanto quando me lembro de que algumas pessoas da minha geração nunca leram inteiro um livro de ficção ou poesia. Ou de que, para alguns, existem apenas dois tipos de literatura: os entediantes clássicos nacionais e a agradável produção estrangeira. Nesse sentido, é também natural alguns acreditarem que os livros renomados pela crítica não 40

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entretêm e que os best-sellers, por ela ao menos aparentemente desprezados, não são frutos de trabalho crítico, ficando entre Grande sertão: veredas e A culpa é da estrelas. Contudo, se há estrelas e culpa no sertão, de John Green a

Caixa Modernista/Edusp/Editora UFMG/Imprensa Oficial

Guimarães Rosa, é possível caminhar ao menos duas veredas.

Organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922: René Thiollier, Manuel Bandeira, Manoel Villaboin, Francesco Petinatti, Paulo Prado, Afonso Schmidt, Mário de Andrade, Cândido Mota Filho, Graça Aranha, Goffredo da Silva Telles, Couto de Barros, Borba de Morais, Luís Aranha, Tácito de Almeida e Oswald de Andrade.

Referências bibliográficas CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, 1750-1880. Rio de Janeiro, Ouro sobre azul, 2012. VERÍSSIMO, José. História da Literatura Brasileira: de Bento Teixeira (1601) a Machado de Assis (1908). Rio de Janeiro, José Olympio, 1954.

DEL CANDEIAS é bacharel em português e alemão, mestre e doutor pela Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP). Estreou na literatura intantojuvenil com A Flauta mágica e o livro da sabedoria, pela SESI-SP Editora. A obra recebeu, em 2016, o segundo lugar do Prêmio Jabuti, na categoria adaptação, o Prêmio FNLIJ 2016 e o selo “Altamente Recomendável”, ambos na categoria reconto, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Na categoria adulto, publicou o livro de poesia Cantos do ermo e da cidade (2015), menção honrosa no prêmio Nascente-USP; o de contos Dois de novembro (2012); o de poesia Uma dose de cortisol e uma porção de serotonina (2006) e o romance A louca (2007).

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teatro

NAC, um programa artístico-pedagógico visionário

Fotografia de Bob Sousa para o livro Atos de coexistência. 30 anos do NAC, da SESI-SP Editora.

por Valmir Santos

Ex-aluno da filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) e expoente

da sociologia urbana na atualidade, o estadunidense Richard Sennett anda empenhado na conclusão da trilogia denominada Projeto Homo Faber. O sociólogo e historiador dedica os dois primeiros volumes às habilidades necessárias para se levar uma vida cotidiana satisfatória. Esse pensamento – não confundir com autoajuda – inspira o presente artigo a estabelecer livre associação com os princípios artístico-pedagógicos do Núcleo de Artes Cênicas, o NAC, programa do Serviço Social da Indústria introduzido há trinta anos e presente em 21 unidades do Estado de São Paulo. O NAC oferece cursos livres de iniciação ao teatro para crianças, adolescentes, adultos e idosos. A “biografia” do programa pretende realçar a dimensão amadora e o quanto ela pode transformar a vida e o cotidiano das pessoas ao friccionar cultura, arte e cidadania. Mas antes de avançar sobre Atos de coexistência: 30 anos do Núcleo de Artes Cênicas do SESI-SP, lançamento da SESI-SP Editora, convém situar a invocação a Sennett nestas linhas. O ensaísta abriu a citada trilogia com O artífice (2009), estudo sobre a arte de produzir coisas bem feitas sintetizadas na prática do artesanato, conectora de cabeça e mãos. Na percepção do pesquisador, fazer bem uma coisa, pelo simples prazer de fazê-la, é qualidade que a maior parte dos seres humanos possui, mas pouco prestigiada na sociedade, por paradoxal que pareça. 43

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Já o livro Juntos: os rituais, os prazeres e a política da cooperação (2012) sustenta que a capacidade de cooperar lubrificaria a maquinaria necessária para fazer as coisas e a coparticipação compensaria aquilo que, talvez, nos falte individualmente. A cooperação não é conquistada facilmente: carece desenvolvê-la e aprofundá-la, sendo mais bem-sucedida quando envolve pessoas cujas visões de mundo não necessariamente combinam, porém esbanjam qualidades para celebrar o convívio. Quanto à terceira obra do Projeto Homo Faber, ainda sem previsão para ser publicada, o sociólogo versará sobre a construção das cidades: de como o desenho urbano vem artificializando as experiências compartilhadas, seja em espaço público ou privado. Richard Sennett nutre a esperança de que tanto a habilidade artesanal como a habilidade para a cooperação social sejam capazes de inspirar novas ideias, assim como uma melhor concepção de cidade. Essas proposições alvissareiras como que ecoam o ideário do mentor do Núcleo de Artes Cênicas, o encenador Osmar Rodrigues Cruz (1924-2007). Afinal, o teatro é uma arte essencialmente artesanal, coletiva e inscrita no dia a dia da cidade onde acontece, quer nos palcos, nos espaços não convencionais ou ao ar livre. Tem sido assim desde a Antiguidade. Em 1987, Cruz estava vinculado havia 36 anos ao Serviço Social da Indústria, fazendo do teatro sua razão de viver, quando foi apoiado pelos gestores da instituição a criar um programa de caráter artístico e pedagógico. De fato, uma iniciativa coerente com a trajetória do diretor: ele ingressou na entidade para ensinar artes cênicas em chão de fábrica, em 1951; idealizou o grupo Teatro Experimental do SESI, em 1959, voltado aos amadores e espécie de laboratório para a fundação da companhia estável Teatro Popular do SESI, em 1962; e comandou a prestigiada e então homônima sala da sede na avenida Paulista, cujas cortinas foram abertas em 1977. Como se observa, o teatro é uma arte inexorável na tradição do SESI-SP, precisamente desde o segundo ano de atividade do serviço social criado em 1º de julho de 1946. No mesmo ano da inauguração do lendário Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, em 1948, no Bixiga paulistano, algumas escolas, clubes e associações de bairro e indústrias já recebiam montagens de espetáculos não profissionais capitaneados pelos assim chamados ensaiadores e grupos dramáticos encampados pela entidade. O NAC, por sua vez, nasceu como atividade complementar gratuita aos alunos das escolas do SESI e do entorno, públicas ou particulares, proporcionando os primeiros passos nos jogos de atuação. E assim o programa evoluiu 44

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teatro

e tem sido aprimorado até os dias de hoje, valorizando ARTES CÊNICAS DO SESI-SP

3O ANOS DO NÚCLEO DE

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feiçoamento teatral, bem como provendo o autoconhecimento de cidadãos com idades de 8 a 90 anos – acesso ampliado aos industriários, familiares, amigos e membros da comunidade em geral.

ATOS DE COEXISTÊNCIA

Este livro narra e dá a ver as três décadas de história do Núcleo de Artes Cênicas do sesi-sp, o nac, programa de cursos não profissionalizantes de iniciação ao teatro e vivência de processos criativos que atende crianças, adolescentes, adultos e idosos. Implantado em 1987 e presente em 21 unidades da capital, da região metropolitana, do interior e do litoral paulistas, o programa pedagógico gratuito reafirma o trabalho continuado do Serviço Social da Indústria de São Paulo (sesi-sp) e seu pioneirismo ao abraçar a noção de cidadania. As aulas conjugam balizas social, educacional, cultural e artística em prol de sujeitos críticos e participativos, protagonistas de suas próprias vidas. Neste Atos de coexistência, as páginas ecoam vozes de aprendizes, orientadores e técnicos, além de gestores atentos ao aperfeiçoamento permanente. Todos eles, em alguma medida, tocados pelas ideias amadoras, comunitárias e humanistas que ajudaram a solidificar a identidade do nac e a prover sua memória feita de histórias singulares.

sua vocação amadora e comunitária no ensino e aper-

Cada NAC corresponde a uma plataforma de atividades. Todos oferecem o curso semestral de iniciação ao teatro, com 32 horas de aulas, e o curso múltiplas linguagens, que compreende 220 horas de aulas ao longo de pelo menos nove meses de pesquisa, criação

ATOS DE COEXISTÊNCIA

ISBN 978-85-504-0587-2

e ensaio de espetáculo adulto levado a público sob os ritos e os rigores formais e temáticos de qualquer obra dessa natureza, efêmera.

Capa do livro publicado pela SESI-SP Editora.

A ação formativa sistemática é complementada por oficinas de oito a dezesseis horas que abarcam amplamente os modos contemporâneos de criar e produzir. Elas envolvem técnicas e poéticas em corpo, voz, dramaturgia e desenho de luz, além de estimularem as interfaces com as áreas coirmãs da dança, do circo, da performance e da música, entre outros desdobramentos. A solidez dos fundamentos, a abrangência geográfica no Estado, a ambição poética e a longevidade do programa são alguns dos indicadores que costumam surpreender profissionais do jornalismo cultural, pesquisadores dos departamentos de artes cênicas das universidades e mesmo a categoria artística quando, enfim, conhecem o caráter continuado do NAC. Surpresa causada pela distinção do NAC em relação a outras iniciativas da casa que conquistaram mais visibilidade a um só tempo artística, pedagógica e produtiva, vide o Núcleo Experimental de Artes Cênicas do SESI (desde 2001), voltado ao aperfeiçoamento profissional de jovens atores de 18 a 27 anos, e o Núcleo de Dramaturgia SESI – British Council (desde 2007), centro de formação para novos autores brasileiros. Uma das metas de Atos de coexistência é dar a relevância e a singularidade dessa experiência ainda pouco conhecida no âmbito da arte-educação no país. Com texto deste jornalista e foto de Bob Sousa, a história do NAC é narrada a partir das pessoas que lhe deram ossatura e tutano em três décadas. A tônica humanista reverbera nos aprendizes, técnicos, orientadores e administradores do Núcleo de Artes Cênicas, espaço geralmente integrado ao edifício teatral de cada Centro de Atividades (CAT) do SESI. 45

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É por meio do NAC que a expressiva maioria dos aprendizes entra em contato pela primeira vez com as artes cênicas. A perspectiva amadora sedimenta a transmissão de conhecimento, os fundamentos técnicos e éticos. Sobretudo, instaura a alteridade, a percepção do outro no trabalho coletivo e na lida com a comunidade. A complementaridade arte-vida é apontada com muita pertinência no prefácio do diretor e professor Francisco Medeiros ao sublinhar que além da experiência de convívio em grupo o NAC provoca “uma sensibilidade estética e ética” a quem nele imerge, numa influência mútua. Com a sabedoria de quase 17 anos na coordenação do NAC, entre 1992 e 2008, a professora, pesquisadora e escritora Sônia Machado de Azevedo é outra voz importante e aparece no primeiro dos quatro capítulos de Atos de coexistência, intitulado “A dimensão amadora do teatro no Núcleo de Artes Cênicas”. Nele são abordados contextos históricos na colaboração dos cursos livres no Brasil e no mundo. A rigor, nenhum artista deveria abandonar o amadorismo em sua acepção mais nobre – aquele que ama. O pensador francês Jacques Copeau não via motivos para vergonha, mas orgulho em quem abraçava o teatro e driblava a sobrevivência retroalimentando-a por meio do fazer artístico e o brilho no olhar. Foi assim com o francês Molière e sua companhia L’Illustre Théâtre. O russo Stanislavski e os primeiros dias do Teatro de Arte de Moscou. O espanhol Lorca e sua trupe universitária e itinerante La Barraca. Todos eles mestres ativamente imbuídos do amor ao ofício, desde cedo. O segundo capítulo, “O ofício dos orientadores no encontro artístico-pedagógico”, mostra as convicções das mulheres e dos homens que resultam o coração do programa, atualmente sob a batuta da atriz, professora e pesquisadora Miriam Rinaldi. Alguns desses educadores trabalham há décadas no NAC, outros são recém-chegados. Em comum, devotam a paixão pelo tablado e a consciência do legado a transmitir. “O horizonte de expectativa dos alunos nos cursos de iniciação e múltiplas linguagens”, assim é nomeado o terceiro capítulo, aquele dedicado aos aprendizes. Eles compartilham das mudanças que o conhecimento e a prática teatral geraram em suas trajetórias pessoais e coletivas. O quarto capítulo, por fim, aborda “A apropriação poética por meio da criação do espetáculo”. O leitor adentra o processo de escolhas investigativas para a construção de uma peça em todos os seus elementos absolutamente integrados – o treinamento corporal, o estudo do texto, os ensaios, a cenografia, os figurinos, os adereços etc. –, isso mesmo quando a estratégia assumida é pela desconstrução narrativa, por exemplo. Em suma, a dor e a delícia de saber qual será a reação do espectador a partir da cena materializada no encontro presencial. 46

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Fotografia de Bob Sousa para o livro Atos de coexistência. 30 anos do NAC.

teatro Atos de coexistência demandou deslocamentos por onze unidades, entrevistas com dezenas de pessoas e depuração do olhar e da escuta nas coxias, cabines técnicas, salas de ensaio, palcos, camarins, saguões, padarias, enfim, um exercício afeito ao livro-reportagem. E como convém ao gênero jornalístico, as boas histórias surgem sustentadas ainda por fontes documentais, reforçando a dimensão vivencial da narrativa. A memória é particularmente acolhida na parte final, com a relação das peças montadas anualmente por cada NAC, entre 2012 e 2016, e a espiral de imagens afetivas resgatadas dos respectivos acervos. Como Richard Sennett raciocina na trilogia combinatória do artifício e do ofício, a sensibilidade para com o outro “requer dos indivíduos a capacidade de compreender-se mutuamente e de responder às necessidades dos demais com o intento de atuar conjuntamente, ainda que se trate de um processo espinhoso, cheio de dificuldades e de ambiguidades”, conforme o sociólogo anota no prefácio a Juntos. A vida no NAC é impregnada desse espírito.

VALMIR SANTOS é jornalista, crítico e pesquisador de teatro com atuação em jornais e revistas desde 1992. Idealizador e coeditor do site Teatrojornal – Leituras de Cena (teatrojornal.com.br), lançado em 2010. Mestre em artes cênicas pela Universidade de São Paulo (USP).

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Ricardo Cavolo. Instagram: @ricardocavolo.


memória

Cinquenta anos de PanAmérica por Ronaldo Bressane

Arquivo Maria Esther Stockler.

Ricardo Cavolo. Instagram: @ricardocavolo.

José Agrippino de Paula e Silva, o autor de PanAmérica, faria

80 anos em 13 de julho – morreu num 4 de julho, aniversário dos Estados Unidos, país que é um dos epicentros de sua obra excêntrica. Desde o início dos anos 1980, quando tem diagnosticada sua esquizofrenia, Agrippino é uma espécie de monolito de 2001, a separar a cultura brasileira em antes e depois – sem que ele mesmo jamais explicasse essa divisão. A história pessoal talvez lance alguma luz. A presença paterna é poderosa no romance de estreia de Agrippino, Lugar público. Não no nível psicológico: novidade na época, o romance propõe uma escrita em que os fatos surgem limpos aos olhos do narrador, sem justificativa social, psicológica, metalinguística, simbólica – e não se trata de literatura realista. O pai de Agrippino, o advogado Oscavo de Paula e Silva, é figura central na família: severo, conservador, positivista. A mãe do escritor é a professora de história Claudemira Vasconcelos. Nascido em São Paulo em 1937 e batizado em homenagem ao tio paterno, Agrippino ganha um irmão sete anos depois, o arquiteto Guilherme Henrique de Paula e Silva, 63. Segundo este, o lar presidido por Oscavo é iluminado pela mãe, que nunca deixa faltarem na casa da Lapa paulistana livros de história, literatura, filosofia, bem como aulas de música. “Era frequente conversar sobre literatura russa e francesa”, lembra ­Guilherme. A família vive em harmonia até que o doutor Oscavo morre, em 1957. Um abalo de que os Paula e Silva não se recuperam. Agrippino, que estuda arquitetura na FAU/USP, vai morar no Rio de Janeiro, onde retoma a prancheta na UFRJ até 1964. Neste período carioca, em que jamais trabalha e vive da pensão da mãe (aliás, nunca terá um emprego regular em toda a vida), Agrippino lê dramaturgia, arquitetura e filosofia, atua no teatro amador, frequenta o cinema, namora bastante, vive num quarto e sala do Leme. E escreve Lugar público. 49

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Se, no entanto, o autor recuse psicologia em sua prosa, é importante notar coincidências entre escrita e vida. “O seu pai dizia que a ele, o seu filho, faltava qualquer coisa de fundamental, como a falta dos braços.” Antes de a mãe morrer, diz ao filho Guilherme que o pai sempre achava algo “estranho” em ­Agrippino. A estranheza do romance causa impacto e logo o paulistano é figura cultuada. Na orelha do livro (Civilização Brasileira), Carlos Heitor Cony, que o compara ao nouveau roman de Alain Robbe-Grillet, não economiza: “Estamos diante do que de mais moderno existe em matéria de ficção”. Finda a faculdade, Agrippino vem a São Paulo lançar o livro, em 1965. Contata o núcleo que mais tarde ganhará o nome de Tropicália: o escritor Jorge Mautner, o ­designer Rogério Duarte, os compositores Gilberto Gil e Caetano Veloso. Dirige o primeiro show d’Os Mutantes, “O Planeta dos Mutantes”. E, principalmente, conhece a futura companheira, a bailarina Maria Esther Stockler.

Rito do Amor Selvagem

Bela e altiva, ossos longos, olhos verdes iluminando o rosto que se multiplica em ângulos surpreendentes, herdeira de família quatrocentona paulista (que irá falir nos anos 80 – o dinheiro vem da célebre casa financeira Haspa), Maria Esther quer montar um espetáculo e Agrippino propõe-se diretor. É o início de uma parceria artística e amorosa que formará o epicentro da cena tropicalista. Em seu Verdade tropical (recentemente republicado pela Companhia das Letras), Caetano Veloso aponta Agrippino como guru da geração – ao lado do físico Mario Schenberg e do parceiro Gil, é o nome mais citado na obra. “Quando falava, todos silenciavam”, recorda Jorge Mautner. A grave, doce e lenta voz de Agrippino soa xamânica durante as psicodélicas festas patrocinadas pelo casal – que seriam inesquecíveis não fossem propícias ao esquecimento as muitas substâncias consumidas pelos convivas. Enquanto bola o espetáculo com Maria Esther, com quem passa a viver na Bela Vista, sempre às expensas da bailarina, Agrippino escreve um dos livros mais citados e menos lidos da literatura brasileira do século 20: ­PanAmérica (Tridente, 1967). “Eu sobrevoava com o meu helicóptero os caminhões despejando areia no limite do imenso mar de gelatina verde”, abre o romance, todo sedimentado em frases diretas centradas num anônimo Eu. Pela natureza íntegra e radical, o romance impõe-se como óvni na cultura dos anos 1960. O escritor carioca Sérgio Sant’Anna reflete: “Havia um murmúrio no Rio, em Minas, em São Paulo: ‘Tem um cara aí com uma literatura absolutamente inovadora’”, diz. “Ao ler PanAmérica, meu coração começou a bater diante de uma grande revelação, o conhecer de uma literatura cósmica, 50

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a partir de uma primeira pessoa pronunciada por um diretor de produções hollywoodianas, filmando nada menos que a Bíblia. Toda a mitologia adolescente surgia como numa tela: James Dean, Marilyn Monroe, John Wayne e os grandes astros, numa linguagem que tirava sua força de uma repetição obsessiva até chegar ao Caos”, exalta o autor de O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. A narrativa antirrealista de PanAmérica bebe na pop art norte-americana – mas seu mérito, conforme o próprio Agrippino afirmaria a este repórter em 2003, é trazer ao centro da narrativa nacional a urbanidade: “Não tem muitos escrevendo literatura urbana hoje”, me disse, em sua prosa sempre apoiada no tempo presente. “Só o Mautner, o João Antônio e eu.” O romance, mais imagem que linguagem, mais urdido em mitos midiáticos que em personalidades psicológicas, contaminará a literatura experimental brasileira das décadas seguintes – pode ser pressentida nas ficções de André Sant’Anna, Manoel Carlos Karam, Terron e poucos outros autores. Incensado como gênio tropicalista, Agrippino dirige em 1968 o média Hitler III Mundo, coadjuvado pelo diretor de fotografia Jorge Bodansky. No filme, o Coisa, um Jô Soares travestido de gueixa e PMs reais atuando como militares (!) caçam Hitler pelas ruas do centro de São Paulo. Em 1969, Agrippino estreia Rito do Amor Selvagem, espetáculo fundado no happening, propõe o inovador conceito de mixagem entre texto, música, cenografia, luz – e plateia. A figura-chave é o ator Stênio Garcia, que contracena com um grupo de dançarinos e uma banda. “Entre os personagens podiam ou não estar, já que não tinha um texto definido, Marlon Brando, Mussolini, Eva Braun e o Super-Homem”, lembra Stênio. “Se um espectador tinha um sonho ou um insight, o material ia pro palco e o elenco improvisava em cima. Uma bola gigante de plástico caía na plateia… a sequência das ações era imprevisível.” Sucesso de público no Rio, a peça é montada várias vezes por dia até ser censurada – e o casal volta a São Paulo, indo morar numa casa no Pacaembu. Capa da edição publicada pela editora Papagaio.

Céu sobre a água

Palco de festas psicodélicas – “é como se o irracionalismo do Rito tivesse virado realidade”, observa Guilherme –, a casa recebe seguidas batidas da polícia. Vivem ali Agrippino, Maria Esther e a amiga Maria do Rosário, pivô de brigas no casal. Certa vez, Agrippino recebe voz de prisão: sua foto algemado estampa a primeira página da Última Hora (Guilherme esconderá o jornal para que a mãe não veja o filho preso). Existe uma hipótese de que o trauma causado por este evento brutal em plena viagem de ácido tenha detonado a esquizofrenia de Agrippino, diagnosticada décadas mais tarde. 51

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Assustado com a operação policial e com o cerco da ditadura sobre os amigos tropicalistas – Rogério Duarte foi preso, Caetano e Gil foram exilados em Londres – , o casal foge para a África. Passam por lugarejos em Mali, Senegal, Marrocos, onde realizam em super-8 filmes oníricos, baseados em coreografias de Maria Esther. O casal se separa: Agrippino vai a Londres (onde perde uma mala cheia de escritos, um deles um romance), Nova York (onde experimenta pela primeira vez a mescalina, “mais forte que ácido”, conforme contou a este repórter), depois gira pela Europa. No retorno ao Brasil, Agrippino, reconciliado com Maria Esther, vai viver na Bahia. Da África, o escritor traz a indumentária com que fixaria a imagem até o fim: um parangolé beatnik, jaqueta jeans recosturada que usa como fraldão em torno do corpo. Agrippino descobre-se pai – a amiga Maria do Rosário dera à luz Chara do Rosário (o nome é referência ao charo de maconha), hoje única herdeira do autor. E em seguida, Maria Esther descobre-se grávida – imagens de sua barriga boiando no mar podem ser vistas no curta Céu Sobre a Água, de 1972. Em 1973, o casal recebe a vinda de Manhã, que nasce na Boca do Rio, próxima à ilha de Itaparica. O idílio baiano é breve. O casal novamente se desata – Agrippino vai morar em Salvador, Maria Esther no Rio, e Manhã fica aos cuidados do tio Guilherme. Os anos seguintes são erráticos; o profeta oferece novidades dispersas. Agrippino retorna a São Paulo, onde tenta conviver com a mãe. Porém, ocorrem surtos violentos e delírios persecutórios em que gritava que Antonio Carlos Magalhães tentava matá-lo (ironicamente, ACM morreria apenas duas semanas após Agrippino), destruía TVs e rádios ou investia contra a mãe com uma espada do CPOR. O irmão Guilherme é chamado, convoca psiquiatras, afinal vem o veredito: esquizofrenia.

Capa da primeira edição de PanAmérica.

Madame estereofônica

A história não termina aqui. Inicia-se uma rotina de visitas a clínicas, fugas, medicações, até que Agrippino passa a viver em uma casa no Embu das Artes, subúrbio paulistano. A doença justifica a crescente apatia. Segue leal à sua fala sempre no tempo presente – mesmo quando se refere aos anos 1960 –, ao seu parangolé e à sua dieta básica de arroz integral. E ganha novo sentido o que havia escrito em Lugar público: “Falta qualquer coisa em mim. E eu estou relegado a segundo plano na ordem do tempo, onde as coisas possuem a ordem do tempo. Estou numa confusão absoluta de palavras e de sentido (…). Construir a ordem da falta de ordem.”

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Em 1992, a filha Manhã, então uma lindíssima aspirante a atriz, é vitimada em acidente automobilístico. Quando ouve a notícia, Agrippino vira o rosto e pede ao irmão: “Resolva isso”. O baque causado pela perda da filha parece ser somente sentido por Maria Esther – que, retirada da vida artística e vivendo em Paraty, alternará dali em diante momentos de euforia e períodos de depressão. “Ela parecia ter os olhos voltados para dentro”, reflete ­Guilherme. Em 2006, Maria Esther morre – um câncer de que nunca tentou se curar. E nove meses após a ex-mulher, o profeta sofre infarto fatal. É encontrado na cama pelo fiel irmão, o corpo enrolado à sua túnica. Em 2008, PanAmérica afinal foi traduzido – para o francês, pela editora Léo Scheer. Agrippino jamais parou de escrever. No Embu, além de livros encimados por toneladas de pó, sacos de arroz e parangolés, o artista deixa cerca de 500 grandes cadernos, lotados de notas para o romance que escreveu até seu último dia – Os favorecidos de madame estereofônica.

O pai perdido da Tropicália Um biógrafo em busca de um escritor – e de uma editora

O jornalista Vinicius Galera, autor do romance Linha verde (Pasavento), escreveu a biografia O homem hibernado, A vida de José Agrippino de Paula como apoio à sua tese de mestrado Fora do lugar, orientada por Eliane Robert Moraes (ambos os livros ainda buscam editora). Ele conversou com a Ponto sobre a extenuante investigação que empreendeu em busca da vida e da obra do pai da Tropicália. Na sua pesquisa sobre a vida de Agrippino, que descobertas foram as mais surpreendentes? As lacunas do período em que viveu fora do Brasil, passando por lugares tão diversos quanto Europa, Nova York e pela África setentrional. Foi nesse período que ele escreveu um romance hoje perdido, Terracéu, e eu me surpreendi quando soube que fragmentos desse livro foram publicados em uma revista nos anos 1970. Outro momento importante e fecundo é o período em que ele estudou arquitetura no Rio de Janeiro, quando perambulava pelas ruas observando a cidade sozinho ou acompanhado. Por sorte, essas perambulações foram registradas e boa parte delas está em Lugar público.

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Por que PanAmérica segue um livro tão subvalorizado? Pela ruptura. PanAmérica é um livro desconcertante. Por um lado, ele pode ser associado a qualquer obra que tenha rompido com padrões, mas ele é muito radical no que parece ser um afastamento da própria literatura, ou seja, ele não tem precedentes e, de certo modo, ao seu modo tão original, acaba impedindo o estabelecimento de uma filiação. Acredito que a leitura desse livro exige uma escolha de leitores e até mesmo de escritores: queremos seguir com ele ou sem ele? Sem ele é mais fácil. Ao colocar em cena o cinema e o contexto histórico do período que vai do pós-guerra aos anos sessenta, quando é escrito, e ao adotar um narrador obsessivo e não fazer concessões à linguagem literária, PanAmérica acaba se colocando numa posição única e portanto marginal dentro da nossa literatura. Evelina Hoisel, que realizou um estudo pioneiro sobre esse livro e também sobre a peça Nações Unidas, observa que, em PanAmérica, a alta e a baixa literatura perdem suas fronteiras. Acredito que tudo isso, associado a questões como a postura quase descuidada do autor diante de seu trabalho, o período em que ele viveu – o da ditadura militar – e o mercado editorial, que tradicionalmente não se volta para experimentações desse tipo, tenham tornado o livro mais do que subvalorizado, mas esquecido. Ainda em relação à postura do autor, é preciso compreender que Agrippino, como Jorge Mautner, de quem é contemporâneo e do qual foi amigo, não fazia nenhuma questão de integrar qualquer patota ou de assumir uma imagem tradicional de escritor. Basta observarmos que, enquanto a grande maioria usava ternos e camisas e os cabelos engomados, Agrippino usava batas e tinha cabelos e barbas compridos como um hippie. Podemos encontrar algo razoável em Madame estereofônica? Acho difícil. Há cerca de um ano recebi de seus herdeiros duas caixas com os originais de seus livros e com algum material inédito. Ainda não terminei a leitura desse material, mas, do que li, não vejo nada com a força de PanAmérica. Talvez as caixas com os cadernos escritos em seu último período, o de Embu, hoje em poder da Editora Papagaio, possam revelar algo. Ou então se fosse encontrado o manuscrito de Terracéu. Mas o que é fundamental para entendermos o trabalho literário de Agrippino é o seu método fragmentário. Ele escrevia trechos isolados para depois juntá-los formando os livros, ou seja, não ­trabalhava o material da composição a partir de uma sequência linear. Em uma entrevista bastante importante à Revista da Civilização Brasileira, concedida em 1966, ele expõe o que considero sua poética: “Não escrevo um livro ou romance, simplesmente escrevo uma ou duas páginas”. Foi assim que fez seus dois livros. Talvez, não fosse pela doença, ele pudesse ter organizado mais livros como esses em outros momentos.

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Com quem você falou sobre Agrippino para sua biografia? A biografia foi escrita como um projeto de conclusão de curso de jornalismo em 2010. Eu a escrevi em um curto período, que não considero satisfatório, durante cerca de quatro meses. Ainda assim, fico bastante contente com o resultado. Para fazê-la falei com cerca de cinquenta pessoas entre amigos como Carlos Henrique Escobar, José Roberto Aguillar, Jorge Mautner e Rogério Duarte, profissionais que trabalharam com ele em seu teatro e cinema, editores e familiares. Depois, entre 2012 e 2016, estudei apenas os romances de Agrippino em meu mestrado em literatura. Ainda assim, realizei outras entrevistas para tentar preencher lacunas deixadas pela biografia, tendo conversado com gente como ­Caetano Veloso e Sérgio Mamberti. Agrippino se inscreve em algum cânone da literatura brasileira? Creio que não, foi precisamente por isso que chamei minha tese de Fora do lugar. ­Agrippino produziu uma literatura deslocada. Talvez ele possa ser associado a autores de obras experimentais de vanguarda apenas, mas seu trabalho é muito peculiar. Nada, porém, impede isso. Longe de querer compará-los, é sempre bom lembrar que durante muito tempo ­Shakespeare não fazia parte do cânone da literatura inglesa. Até que ponto a esquizofrenia pode ser uma chave para a leitura de sua obra? Essa é a grande questão que envolve Agrippino. Ele fez uma obra tão peculiar porque foi diagnosticado como esquizofrênico? É muito difícil qualquer afirmação nesse sentido, ainda que a associação entre sua obra e sua doença pareça inevitável. Como biógrafo, lembro que ele teve um diagnóstico tardio, quando tinha mais de quarenta anos e quando já tinha feito suas principais obras. Além disso, alguns dos meus entrevistados na biografia que conviveram com Agrippino também disseram terem tido diagnósticos de esquizofrenia. É bom lembrarmos que estamos tratando de um período em que era comum tratar desvios comportamentais ou extravagâncias como casos psiquiátricos. De todo modo, acredito que a questão deve ser enfrentada. Durante meu mestrado, em diversos momentos quis tratar os romances de José Agrippino isoladamente, apenas como os fatos estéticos e literários que são, mas minha orientadora, Eliane Robert Moraes, sempre fazia questão de me lembrar que Agrippino é um autor cuja obra está intrinsecamente ligada à vida. E essa vida tão intensa associada à força da literatura que produziu reforçam ainda mais sua peculiaridade.

RONALDO BRESSANE é escritor e jornalista. Seus livros mais recentes são o volume de poesia Metafísica prática (Oito e Meio) e o romance Escalpo (Reformatório).

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Literatura para tempos líquidos e incertos por Carlos Castelo

Não há povo que não tenha cultivado algum tipo de expressão sintética e afiada. São infinitos exemplos. O provérbio é um legado dos hebreus; a sentença vem do latim; o refrán do hispânico. O aforismo, já desde a sua etimologia, aponta para uma concepção particular do mundo: a da Grécia antiga, a do logos. Provém de aphorízein (φορίζν), propriamente “definição”, derivado por sua vez de: “eu separo, defino”. A tradição considera Hipócrates o criador dessa expressão que nos primórdios deveria ser aplicada à prevenção ou tratamento de sintomas e doenças. Minha história com esses enunciados começou quando ainda era bem jovem. Descobri, ao acaso, um exemplar empoeirado do Almanhaque, do Barão de Itararé, num sebo. Não demorou para que me encantasse. Aqueles períodos, tão diminutos, conseguiam, além de fazer rir, matutar. Alguns não somavam nem meia dúzia de palavras, era o cúmulo da síntese. Dei para

EKO. http://eko-aforismos.blogspot.mx/.

memorizá-los, pegar o ritmo próprio de cada um e a almejar produzir meu próprio material um dia. Mais tarde veio o período O Pasquim. Abandonei a leitura do Barão porque soube que Millôr Fernandes - minha nova inspiração - não ia lá muito com o estilo dele. O guru do Méier chegou mesmo a declarar em entrevista que o venerando Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly havia feito “uns trocadilhos bons e meia dúzia de trocadilhos imbecis”. Passei a procurar outras fontes nos anos de chumbo. No próprio O Pasquim, na seção “Picles”, conheci Dirceu Ferreira. Admirado por Ziraldo, Millôr e Henfil, seus ditos sobre o cotidiano brasileiro vinham sempre rechea57

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dos de um humor sutil, às vezes bastante ácido. Para mim, só um outro cronista da realidade chegava naquele patamar: o gaúcho Fraga - criador de Punidos venceremos (coletânea de textos publicados na imprensa de 1972 a 1980). Hoje presença contumaz no ­Twitter, ele pode ser visto diariamente subindo o sarrafo das redes sociais com sua perspicácia no perfil ­@F_R_A_G_A. Um pouco mais tarde veio o achamento de Don Rossé Cavaca (1924 - 1965), pai do clássico do frasismo de humor brasileiro, Um riso em decúbito. A obra trazia pílulas, piadas curtas e Don Rossé desde sempre foi considerado um luminar por artistas e jornalistas. Infelizmente teve o trabalho quase esquecido após um trágico acidente de trânsito numa Vespa. Continuei revirando o mundo das máximas, sentenças, adágios, apotegmas. Termos que estão aí para descrever um dos mais argutos gêneros literários: o aforismo. A frase curta, a tirada de espírito, cheia de agudeza e ironia. Dos epigramas de Marcial, na Antiguidade latina, às reflexões do “Oráculo Manual” do barroco Baltazar Gracián ou dos moralistas franceses Pascal, La Bruyère, Chamfort. E, claro, de nomes obrigatórios como os de Elias Canetti, Karl Kraus, Emil Cioran, Franz Kafka, só para ficar em alguns. Mas o que havia de comum em tais orações para que pudéssemos chamá-las de aforismos? Muito pouco. Talvez o seu pensamento fragmentado. Pode-se ainda dizer que são reflexões criativas, meio poéticas e céticas. Um livro de aforismos é sempre meio lotérico. E modesto. Porque sem isto, ele viraria uma máxima definitiva e não há nada pior para um aforismo do que tornar-se um lugar comum. Se hoje muitas das frases de Abraham Lincoln, Voltaire e Plauto prestam-se a mostrar uma requentada erudição e suposta intelectualidade, os melhores aforistas são ainda os que optam pela tirada sarcástica em cima do fato, a sacada sobre situações do dia a dia, expondo o nosso ridículo e nossa pequenez. Numa tentativa quase impossível, pelo imenso território que o gênero abrange, vou selecionar alguns dos aforistas que me acompanham. 58

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Georg Christoph Lichtenberg (1742 - 1799)

Foi toda a vida hipocondríaco em último grau. As numerosas doenças que supunha ter ocupam importante lugar em seu livro Aforismos. Era professor titular de Física da Universidade de Göttingen e manteve estreitos laços com a família real britânica e os meios científicos ingleses. Curiosamente acabou escrevendo suas anotações sem pensar em publicá-las. Talvez por isso tenham saído tão impecáveis. O humor de Lichtenberg é por vezes melancólico Alguns exemplos: “Quantas pessoas, comentadores, impressores e encadernadores não terá a Bíblia alimentado?” “O amor é cego, mas o casamento restaura a visão.” “Os santos esculpidos exerceram mais influência no mundo do que os santos vivos.”

Mesmo sendo um hipocondríaco de carteirinha, Lichtenberg morreu de uma doença que não previu, talvez tuberculose.

Ramón Gómez De La Serna (1888-1963)

Escritor espanhol que abalou a literatura de sua época. Durante a Guerra Civil Espanhola exilou-se em Buenos Aires, onde permaneceu até o fim da vida. Gómez de la Serna foi um dos mais ativos participantes da vanguarda europeia e artista muito ligado a Marinetti. Inventou as greguerías, metáforas acrescidas de humor. Folheando seu livro Total de greguerías pinça-se centenas de verdadeiras pérolas: “O pêndulo do relógio nina as horas.” “O sabão é o peixe mais difícil de pegar na água.” “A Natureza é triste. Já viu alguém rir para uma árvore?”

Apesar de definições assim tão aforísticas, Ramón não se via como parte integrante do clube. “Eu não sou um aforista. A aforística é enfática e ditadora. E as greguerías não são reflexões ou têm algo a ver com elas. Humildes e travessas por natureza estão a anos-luz das máximas.”

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Stanislaw Jerzy Lec (1909-1966) Pode-se dizer tudo de Stanislaw Jerzy Lec, menos que não era astuto. Durante a II Guerra Mundial foi internado num campo de concentração e conseguiu fugir vestido com um uniforme alemão. Autor do célebre Das groβe Buch der unfrisierten Gedanken (O grande livro dos pensamentos desarranjados), esse polonês também foi *persona non grata* no regime stalinista. Esse detalhe o tornou ainda mais rebelde, crítico e subversivo. Dono de um senso de humor tipicamente judeu, dizia-se a favor da guerra. Da guerra contra a estupidez e contra a barbárie. Contra a mediocridade.

Bruno Maron, 2017.

“Eu sou a favor da tirania: todos devem ser forçados a pensar.”

Evandro Affonso Ferreira (1945) O colunista da Ponto é também aforista de ofício. Inclusive, seu recente livro Não tive nenhum prazer em conhecê-los é considerado singular por mesclar fragmentos poéticos curtos à narrativa. Para Evandro, o gênero é “um conjunto minúsculo de humor, filosofia e psicanálise - tudo numa única frase”. E cita a máxima do poeta português Mário-Sá Carneiro: “Onde estou, se eu não estou em mim?”. O escritor acredita que os aforistas são tão raros na atualidade porque o mundo está descambando para o rasteiro. “Tudo tem a profundidade de um pires. Demos adeus ao *multum in parvo* do epigrama, sim, o muito em pouco. 60

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Vivemos o século daquilo que meus amigos da boêmia costumavam dizer: muita abelha e pouco mel. Somos, modo geral, idiotas em vários assuntos.” Seus modelos de frasistas são Millôr Fernandes (“aquele que disse que a vida seria melhor se não fosse diária”) e o mineiro Paulo Mendes Campos (“viver dá azar”). Um aforismo favorito de sua autoria? “Ku-Klux-Klan: poema-concreto-abjeto.”

Adolfo Montejo Navas (1954)

EKO. http://eko-aforismos.blogspot.mx/.

Montejo é um poeta, crítico e curador independente espanhol que mora no Brasil há 20 anos. Tem vários livros onde os aforismos imperam e também é um estudioso do tema. Para ele, o maior perigo para um dito é virar citação, frase de sociedade, cair no palato fútil. “Um aforismo que se preze guarda certo veneno para não cair nisso, não negocia com o lugar comum, esse paraíso da obviedade.” A nosso pedido escolheu alguns pensamentos soltos - do De Caosmocrise (2016-2017) - que “revelam o diapasão amargo da crise brasileira”: “A corrupção reproduz o canto das sereias.” “Querem que o sofrimento cotize mais em bolsa.” “Gente sentada nas estruturas como retretes.” “Quando o arrependimento faz parte do negócio é delação.” “Os mansos estão mais satisfeitos que os mortos.” “O vício dos políticos é nosso entretenimento.” “O merchandising tem substituído ao logos.”

Millôr Fernandes (1923 -2012)

Entra na categoria hors-concours. E, por isso, fecha este texto com uma de suas flechas incendiárias, sempre muitíssimo flamejantes: “Certos escritores se pretendem eternos e são apenas intermináveis.” 61

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Luis Fernando Verissimo: “aforismo é um ‘insight’ que faz sucesso”. Dá para notar pelo livro Verissimas que você é um cultor do gênero aforismo. Eles saem de um planejamento, isoladamente, ou você os retira de frases de textos seus mais longos? Em outras palavras, onde o seu trabalho como escritor conflui com o de aforista? As frases do livro Verissimas foram quase todas garimpadas de textos longos pelo Marcelo Dunlop, que é quem teve a ideia de fazer o livro. Poucos são aforismos de propósito. Você possui algum aforista, pensador ou filósofo do peito? O Millôr e o Oscar Wilde. Dizem que Nietzsche tinha uma ambição: dizer em dez sentenças o que qualquer outro diz (ou não diz) num livro. Você também crê que as frases curtas são infinitas? É, o bom aforismo é o que diz muito com poucas palavras. Quando as palavras são muitas o efeito não é o mesmo. Aliás, não é nem aforismo. O poeta e estudioso dos aforismos, Adolfo Montejo Navas, descreveu-os assim: “entremeados de rasgos de humor, são belos, secos e misteriosos: pedras pensadas”. Quais são as suas pedras pensadas favoritas - suas ou de outros autores? Tem uma frase, “Viva cada dia como se fosse o último, um dia você acerta” que eu pensava que fosse minha, mas está no último filme do Woody Allen. De qualquer maneira, gosto dela. A linhagem de escritores que usam o aforismo para zombar e criticar nossos piores costumes é cada dia menor. Por que um gênero literário, cultuado por Schopenhauer, Wittgenstein e W. H. Auden, está cada vez menos evidente no século XXI? Hoje existe o Twitter que, pelo menos no tamanho, é um aforismo. Portanto, não penso que se esteja fazendo menos aforismos no mundo. Bons aforismos, sim, estão em falta. Acho que é porque o pessoal ficou mais burro. O que diferencia um ótimo aforismo de uma frase feita de salão? Um bom aforismo é sempre uma sacada, um “insight” que faz sucesso. É isso, uma frase de sucesso. Qual seria uma máxima para o Brasil de 2017? “Aguenta, que só pode melhorar”.

CARLOS CASTELO é escritor, letrista e autor de Orações insubordinadas – aforismos de escárnio e maldizer (Ateliê Editorial). É colunista do Estadão e das revistas Bravo! e Bula.

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Os quadrinhos e seus prêmios por Silvio Alexandre

Ilustração de Claudius, publicada em livro pela SESI-SP Editora.

Virou clichê dizer

que as histórias em quadrinhos vivem bom momento no Brasil e que o cenário melhorou bastante, tanto pelo aumento de produção, quanto pelo aumento de qualidade. Mas, no início deste ano, o que chamou a atenção foi um movimento que reuniu autores, editores, jornalistas e fãs solicitando ao Prêmio Jabuti (o mais importante prêmio do livro do país, que data de 1958) a criação de uma categoria para histórias em quadrinhos. Como já havia uma compreensão dentro da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e da Comissão do Jabuti a respeito da sua inclusão, essa mobilização foi essencial para a sedimentação dessa categoria, que passou a vigorar a partir deste ano. Agora, o prêmio possui 29 categorias ao todo. E não podemos esquecer o enorme papel dos quadrinhos como incentivador da leitura, instrumento educativo e parte fundamental da produção literária e artística do Brasil. Essa função foi lembrada pelo prêmio Jabuti de 2015, quando homenageou com um troféu especial Mauricio de Sousa em reconhecimento por sua obra e seu papel na formação de leitores. O desenhista é considerado um dos maiores formadores de leitores do país.

Prêmios literários

Recompensar e reconhecer os grandes artistas é uma tradição cuja origem pode voltar quase até o nascimento da literatura. No mundo grego, as honras eram concedidas a poetas. Na Idade Média, começaram os jogos florais europeus, os concursos literários, que sobreviveram ao século XX. Até o século passado, os prêmios literários tinham uma nova função: ajudar os jovens autores a dar-lhes o impulso necessário em seus primeiros passos para o difícil mundo das letras. Atualmente, um autor recebe não apenas prestígio e fama, mas também benefícios econômicos. 65

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Para os quadrinhos, os prêmios ganharam relevância especial, porque deixaram de ser apenas ornamentais. Eles ajudaram a abrir portas de editoras e rendem espaço na mídia. No Brasil, eles passaram a estimular e incentivar os criadores. Hoje, encontramos trabalhos para a internet, para produção independente, de fanzines e direcionada para prêmios governamentais. Atualmente, os quadrinhos contam com prêmios próprios por todo o mundo. No Jabuti, eles eram enquadrados em outras categorias, como didático e paradidático, adaptação ou ilustração. Pelo novo regulamento, eles concorrem com “livros compostos por histórias originais ou adaptadas, contadas por meio de desenhos sequenciais, definidas pela união de cor, mensagem e imagem”. A categoria adaptação continua existindo, mas sem incluir quadrinhos especificamente. Ou seja, não foi criada uma categoria “quadrinhos”, mas uma categoria na qual os quadrinhos podem entrar. Não acredito que esse processo esteja encerrado. Mesmo porque se trata de uma inclusão experimental. Com certeza ainda surgirão muitas dúvidas e haverá mais discussões.

Os quadrinhos são um gênero literário?

Uma das discussões ainda está presente: os quadrinhos são um gênero literário? Querer que uma história em quadrinhos concorra em uma premiação literária é como inscrever um filme em um festival de teatro. Por mais que a elas se apliquem teorias literárias para a análise estrutural da narrativa, elas não são literatura, são histórias em quadrinhos. São artes diferentes, com sentidos estéticos distintos. São linguagens diferentes. Usam signos e técnicas narrativas diferentes. Sua leitura é diferente. Essa discussão data de, pelo menos, fins de 1960 e início dos 1970, época em que iniciaram os estudos teóricos a respeito da linguagem. Neste começo de século, as pesquisas acadêmicas registraram um significativo aumento no volume de estudos. Esses novos trabalhos acadêmicos têm convergido para a leitura de que quadrinhos não são literatura. Trata-se de uma linguagem artística autônoma, assim como o teatro, o cinema, a dança e tantas outras formas de manifestação, a literatura uma delas. Sem entrar em discussões teóricas, considero que os quadrinhos não são propriamente literatura. Eles são uma linguagem autônoma composta de palavras e elementos visuais. Por sua vez, o Jabuti não é um prêmio de literatura, mas um prêmio para incentivar o mercado do livro, do qual os quadrinhos fazem parte. Acredito que uma das funções do Jabuti é justamente estimular esta produção. Além de valorizar escritores, o Jabuti destaca a qualidade do trabalho de todas as áreas envolvidas na criação e produção de um livro. Como a própria organização afirma: o maior diferencial do Jabuti em relação a outros prêmios literários é a sua abrangência. 66

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A cultura pop mudou o mercado editorial

Os quadrinhos fazem parte do chamado mercado geek, que tem impactado as vendas de livros entrando quase sempre nas listas dos mais vendidos e revolucionando a cadeia editorial, desde a aquisição de títulos, passando pela produção e pelas formas de publicação, chegando a como se vendem e se divulgam os livros no país. Nos últimos anos temos acompanhado o crescimento de várias editoras focadas nesse nicho e selos editoriais de quadrinhos e literatura fantástica sendo criados pelas grandes editoras para atender esse público. Trata-se de um segmento que movimenta uma boa fatia da verba do mercado editorial. Para as consultorias internacionais o negócio do entretenimento no Brasil vai gerar US$ 70 bilhões até 2018. O apelo e a temática geek seguem conquistando espaço cada vez maior de mercado. Existe um alto poder de consumo (fidelidade aos temas de adoração) e, aparentemente, esse potencial não atingiu seu limite.

Financiamento coletivo

Um novo modelo alternativo de realização de quadrinhos no Brasil também tem crescido de forma significativa. Trata-se do financiamento coletivo. Atualmente, ele ocupa espaço de destaque dentro da produção nacional e tornou-se fundamental para os quadrinhos independentes. Somente no Catarse, por exemplo – uma das várias plataformas disponíveis – publicações como Opala 76, de Eduardo Ferigato (vencedor do HQMIX, na categoria publicação independente de autor); The hype, de Marcel Ibaldo e Max Andrade (publicação independente edição única) e São Paulo dos mortos vol. 3, de Daniel Esteves (publicação independente de grupo) foram viabilizadas graças a ele. Só em 2017, somados os projetos apoiados no segmento dos quadrinhos, o Catarse já arrecadou mais de R$ 190 mil reais, com mais de 39 mil pessoas apoiando. Para o pessoal que produz quadrinhos, ele tem feito a diferença. De 2011 para cá, diferentes projetos ajudaram a colocar quadrinhos no mercado via esta plataforma, que fez circular um montante superior a R$ 4 milhões e viabilizou mais de três mil projetos.

Editora SESI-SP apostando no mercado

Entre as editoras indicadas ao prêmio de melhor do ano do Troféu HQMIX, a SESI-SP Editora liderou desde o início a corrida com 20 indicações. E conseguiu chegar na reta final em primeiro lugar.

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É bom lembrar que a SESI-SP Editora apostou pesado em 2016, publicando mais de 40 títulos. Lançado em setembro de 2015, o selo de quadrinhos SESI-HQ, desde então, tem aberto espaço para diversos artistas nacionais, entre quadrinistas, roteiristas e ilustradores, levando ao público brasileiro produções inéditas e de alta qualidade. Segundo seu editor-chefe, Rodrigo de Faria e Silva, “o selo é um espaço aberto a gêneros e estéticas narrativas diferentes, e é direcionado ao público infantil e juvenil sem engessar as possibilidades desta linguagem ou limitar a criatividade dos talentosos quadrinistas brasileiros”. Para ampliar a produção de quadrinhos no país, ajudando novos autores a publicar e colaborando para sua popularização, a SESI-SP Editora e a Quanta Academia de Artes firmaram uma parceria e criaram o selo SESI-Quanta Quadrinho. “Com este novo selo, a Editora tem a perspectiva de se fortalecer no mercado de quadrinhos, abrindo mais espaço para novos talentos e também para autores já conhecidos do público. A parceria com a Quanta foi apenas a primeira. Muitas novidades virão por aí”, completou Rodrigo. Além de editora do ano, a SESI-SP levou o troféu publicação infantil com O roubo do Marsupilami, da série francesa Spirou e Fantasio, de enorme sucesso na Europa, mas que nunca foi publicada de forma continuada no Brasil. Mostrando que os quadrinhos europeus vieram para ficar.

Prêmio Ângelo Agostini

É uma das mais tradicionais premiações dos quadrinhos realizada no Brasil. Criado e organizado pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP), o prêmio tem como objetivo “o resgate e a referência aos grandes artistas do quadrinho nacional”. A escolha dos contemplados é feita por votação pela internet, e conta com a participação de profissionais da área, estudiosos, amadores, aficionados pelos quadrinhos nacionais e público em geral. O nome do prêmio é em homenagem a Ângelo Agostini (1843-1910), criador da primeira história em quadrinhos brasileira: As aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma viagem à corte, que começou a ser publicada em 30 de janeiro de 1869. Por isso, o dia 30 de janeiro foi escolhido “Dia do Quadrinho Nacional”. Inicialmente, o prêmio visava destacar profissionais que estivessem ligados aos quadrinhos nacionais por, pelo menos, 25 anos (denominados “mestres do quadrinho nacional”). Depois, ampliou-se a premiação para os melhores trabalhos do ano anterior. Hoje em dia, ainda existe premiação para produção alternativa, por meio dos fanzines.

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Troféu HQMIX

Prestes a completar 30 anos como a mais prestigiada premiação dos quadrinhos, o Troféu HQMIX é conhecido pelos entusiastas como o “Oscar das histórias em quadrinhos no Brasil”. O formato do troféu é escolhido a cada ano com um personagem de quadrinhos brasileiro para servir de modelo. Foi criado em 1989, pela dupla JAL e Gualberto Costa, no programa TV Mix, da TV Gazeta, de São Paulo; e depois apadrinhado por um dos seus apresentadores, Serginho Groisman. Do programa de TV veio a ideia e o nome do troféu. O TV Mix foi um programa revolucionário e referência até hoje, exibido entre 1987 e 1990. Idealizado por Marcelo Machado, era um programa de variedades, misturando jornalismo, videoclipes, comentaristas dos mais variados assuntos, como sexo, cinema, artes, teatro, culinária e quadrinhos, além de humor, dentro de um formato inovador para a época. Fernando Meirelles dirigiu a atração até 1988, sendo substituído por Tadeu Jungle. Atualmente, para concorrer ao HQMIX, os autores, as editoras e produtores precisam fazer inscrição dos trabalhos. Eles são analisados por um júri de profissionais e pesquisadores que indicam até dez trabalhos em cada categoria, que entram em uma cédula de votação para seguir em uma votação nacional feita por profissionais da área, por meio da Associação dos Cartunistas do Brasil (ACB) e do Instituto Memorial das Artes Gráficas do Brasil (IMAG). Além disso, existe um grupo responsável pela análise de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), dissertação de mestrado e tese de doutorado concluídos no ano anterior, com votação fechada. Em 2017 foram contempladas 32 categorias, além das três outorgadas pela comissão organizadora.

Harvey Award

É um dos prêmios mais respeitados da indústria de quadrinhos e o segundo prêmio mais importante nos Estados Unidos. O Harvey reconhece realizações notáveis em mais de 20 categorias. O seu nome é um tributo ao cartunista e editor Harvey Kurtzman (19241993). Foi criado em 1988, no Chicago Comic-Con, pelo editor e crítico Gary Groth, presidente da editora Fantagraphics, para ser o sucessor do Kirby Award, descontinuado em 1987. As edições do Kirby Awards eram organizadas por Dave Olbrich, um funcionário da editora. Em 1987, com a saída de Olbrich, a Fantagraphics decidiu encerrar o Kirby e instituiu o Harvey Awards. É feito por voto aberto entre os profissionais dos quadrinhos. Os vencedores são selecionados a partir dos cinco melhores indicados em cada categoria para uma rodada final de votação.

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Atualmente, o Harvey não está mais afiliado à Fantagraphics. O Comitê Executivo do prêmio é composto por voluntários não remunerados e estão bem financiados pelas generosas doações de seus patrocinadores. Os brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá foram premiados pelo Harvey Awards, em 2008, por The Umbrella Academy (Melhor Nova Série); e em 2011, por Daytripper (Melhor História em Edição Única). Em 2009, Gabriel Bá ganhou na categoria Melhor Desenhista, por The Umbrella Academy.

Eisner Award

O Will Eisner Comic Industry Award (abreviado para Eisner Award e traduzido como Prêmio Eisner) é um prêmio que distingue os feitos e a conquista criativa nos quadrinhos. Seu nome é uma homenagem ao quadrinista e escritor Will Eisner (19172005), criador do herói Spirit e autor de várias graphic novels e de diversos livros didáticos sobre narrativas gráficas. Para selecionar os concorrentes, um grupo de cinco membros se reúne e cria uma lista de indicados para cada uma das categorias, a partir de trabalhos realizados no ano anterior. Depois, é feita uma avaliação com profissionais dos quadrinhos e os vencedores são anunciados na Comic-Con International, uma convenção de quadrinhos que acontece anualmente em San Diego, na Califórnia. O prêmio Eisner foi organizado pela primeira vez em 1987, por Dave Olbrich, um funcionário da editora Fantagraphics Books, depois da descontinuidade do Prêmio Kirby, dedicado à indústria dos quadrinhos que era promovido pela Fantagraphics. Por dois anos Olbrich organizou o Eisner até que, ao ver-se incapaz de reunir os fundos necessários para a edição de 1990 - que acabou não ocorrendo – passou a responsabilidade para a Comic-Com. Os brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá foram premiados pelo Eisner Awards, em 2008, por Sugarshock (melhor quadrinho digital) e 5 (melhor antologia). Em 2011, pela obra Daytripper (melhor série limitada). Em 2016, por Dois irmãos (melhor adaptação de outro meio).

Grand Prix de la ville d’Angoulême

O Festival de Angoulême, (Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême) é o mais importante evento de quadrinhos da Europa e um dos mais populares do mundo. Durante o evento, a pacata cidade francesa de Angoulême tem seus dias agitados e recebe fãs de diversos países. Criado em 1974, é um evento anual que se divide em três frentes: exposição, premiação e a feira propriamente dita, composta de uma série de atrações como encontros, espetáculos, sessões de autógrafos com os principais autores presentes. O festival é aberto ao público. 70

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hq As premiações do festival são atribuídas por um júri previamente selecionado, mas o público também pode votar no “Prix du Public Cultura”. O prêmio mais conhecido do festival é o Grand Prix, que homenageia todo o conjunto da obra de um artista. Ou seja, não é uma premiação para o melhor do ano, mas um reconhecimento à obra do quadrinista agraciado. Em 2016, o brasileiro Marcello Quintanilha, com o álbum Tungstênio, recebeu um dos prêmios de Angoulême, o Fauve Polar-SNCF, concedido ao trabalho no estilo romance policial, adaptado ou original.

Ignatz Award

Desde 1997, o prêmio Ignatz reconhece realizações que se destacam em quadrinhos e desenho animado, principalmente norte-americanos, produzidas por pequenos criadores de imprensa ou projetos publicados por editores maiores. O prêmio recebeu seu nome em homenagem a George Herriman (18801944), e sua tira Krazy Kat, que apresenta o rato Ignatz – que costuma jogar tijolos na cabeça do gato Krazy, que, por sua vez, interpreta o ato como um sinal de carinho. A premiação acontece durante a Small Press Expo (SPX), o primeiro festival independente de animação e artes de quadrinhos da América do Norte. A SPX reúne anualmente mais de quatro mil artistas e fãs dos quadrinhos. Desde 2014, é realizada em Bethesda, North Bethesda ou Silver Spring, Maryland. A votação é feita pelos participantes da edição anual da SPX, por meio de um painel de cinco membros composto por profissionais dos quadrinhos. As cédulas são oferecidas pela SPX e estão abertas para todas as pessoas presentes, expositores e público em geral. Depois que todas as cédulas foram coletadas no dia do prêmio, elas são contadas e divulgadas no SPX.

The Adamson Statue

O prêmio de quadrinhos mais prestigiado da Suécia é concedido todos os anos pela Svenska Serieakademien (Academia Sueca de Quadrinhos) para um criador de quadrinhos sueco e um internacional. A academia é uma organização sueca fundada em 1965 pelo jornalista Sture Hegerfors, que tem sido seu presidente desde o início, e é baseada na estrutura da Academia Sueca e tem 18 membros, mas é voltado para a arte dos quadrinhos. A estatueta é nomeada em homenagem ao quadrinho Adamson (conhecido em inglês como Silent Sam ou Adamson’s Adventures), criado por Oscar Jacobsson (1889-1945), em 1920.

SILVIO ALEXANDRE é editor e gestor cultural.

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Sonhar com palavras o sonho de todos por Jorge Miguel Marinho

“A vida é sonho”

Ilustração do livro Infâncias: aqui e além mar, da SESI-SP Editora.

De Calderón

Fabular é preciso, fabular faz parte da natureza humana, fabular é

um modo de ser que acorda em cada um de nós o apelo ao sonho, à necessidade da fantasia, à vivência da imaginação. Ninguém consegue viver sem conviver com momentos de fabulação que na arte literária acontece do feliz casamento do sonho com o real. E é nesse jogo de contar e imaginar a vida surpreendida pelo poder encantatório e inventivo da ficção que o ato de fabular revela como o mundo é e como o mundo poderia ser. Por isso mesmo a fabulação humaniza, não só por estar sempre voltada para a condição humana, mas também e talvez sobretudo por atender à carência de fantasia como contraponto da razão extremada que faz da realidade um território árido e carente de imaginação, centrado no reduto da objetivação e da inteligência lógica. Para viver e sobreviver, é preciso sonhar e sonhar com palavras é um modo de reinventar a vida e fazer da existência um lugar de descobertas e de revelações. São muitas as formas de fabulação como prosa ou poesia: o conto, a novela, a peça de teatro, a história em quadrinhos, a canção, a anedota, o causo e tantas outras. Todas elas ganham forma e cor por força do imaginário que faz parte da natureza humana e, no universo literário, é sempre experiência criativa no gesto de quem escreve, na expectativa de quem lê. Existe uma historieta, “A fábula do oleiro”, que identifica o traço lúdico de quem fabula como aquele que brinca, que se diverte, que subverte as normas, 73

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que reinventa a vida e sonha nas palavras o sonho de todos. Sugerindo mais do que afirmando, o fabulador diz: Uma criança se aproxima de um oleiro que molda bonecos no barro e pendura as estatuetas num varal para secar. Chega perto, admira os seres enfileirados, fica fascinada com a perfeição daquelas pequenas criaturas que se multiplicam nos movimentos exatos das mãos do escultor. Mesmo assim, pergunta: – Por que você está fazendo tantos bonecos, se o mundo já está cheio de gente? E o oleiro, sem tirar os olhos e as mãos do trabalho, responde: – É para preencher os vazios da vida, e não faz mal nenhum equilibrar as criaturas de barro com os homens reais.1

Esta breve narrativa, que se afasta da fábula de ensinamento e se oferece como matéria de indagação, mostra como a fabulação presente na arte literária joga a favor da vida e extrai do sonho e da fantasia um modo de corrigir o real. O ato de fabular ou recriar o universo busca preencher o que o mundo tem de faltoso ou de carência, anunciando de forma muito expressiva um mundo onde todos devem inventar e reinventar criaturas para “preencher os vazios, as brechas da realidade” com o exercício da fabulação, como clama com ênfase Fernando Pessoa: “A literatura como toda arte é uma confissão de que a vida não basta.”

E Leyla Perrone-Moisés vai além pontuando o sentido faltoso da literatura e da própria linguagem que se quer como expressão literária: A linguagem nasce de uma dupla falta: uma falta sentida no mundo, que se pretende suprir pela linguagem ela própria sentida e seguida com falta. A primeira falta é experimentada por todos do mundo físico a que chamamos real. O mundo em que vivemos, o mundo em que tropeçamos diariamente não é satisfatório - essa é uma constatação a que se chega bem cedo, na existência /.../ Esse descontentamento primário que nos traz o estar no mundo só faz acentuar-se pela vida afora, à medida que a simples sensação da falta se acrescentam as especulações racionais sob como as coisas deveriam ser e não são.2

1 Fábula popular recriada por mim, presente no livro A maldição do olhar, Editora Biruta, São Paulo, p. 112. 2 Leyla Perrone-Moisés. Flores da Escrivaninha – Ensaios. Companhia Das Letras: São Paulo, p. 103.

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É aqui que a literatura entra como um direito de todos e um componente essencial para uma vida motivada pelo equilíbrio harmonioso entre porções do real e porções da fantasia. Sem o sonho de fato ou o sonho presente no espaço da fabulação, seria impossível viver. O professor Antonio Candido identifica o ato de sonhar como enseada necessária para a existência do ser: Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar vinte e quatro horas sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. /.../ E durante a vigília a criação ficcional ou poética /.../ está presente em cada um de nós, analfabeto ou erudito, como anedota, causo, história em quadrinhos...3

Muitos escritores e estudiosos reconhecem que a fabulação pulsa nas camadas mais profundas do homem e ele precisa transitar o universo da fabulação para viver a experiência lúdica da literatura, sonhar sonhos possíveis e impossíveis, fazer o trajeto da fantasia para existir. É bom lembrar alguns: “Fabular é uma questão de saúde”, diz Deleuze. “Quanto é melhor quando há bruma/ Esperar por Dom Sebastião quer ele venha ou não”, insiste Fernando Pessoa. “Invente uma canção de roda para que o povo cante, principalmente as crianças”, confirma Thiago de Mello. “O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre”, celebra William Shakespeare. “Sonhe com aquilo que você quer ser/ Porque você possui apenas uma vida”, clama Clarice Lispector. Apenas uma palavra final: a fabulação sempre se anuncia como uma voz coletiva que oferece palavras e cores acolhedoras e revela “um mundo onde todos sonham”. Por essa existência tão presente do imaginário na arte, fazemos confidências com Capitu, sonhamos silenciosamente com Fabiano, atravessamos o espelho com Alice, guardamos o segredo de Batman, sapateamos nas estrelas com Ginger Rogers e Fred Astaire, cobrimos a morte de Romeu e Julieta celebrando o sono de todos os amantes, mentimos com Pinóquio como forma de defesa e de preservação das diferenças na experiência de ser e existir. JORGE MIGUEL MARINHO é professor de literatura brasileira, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ator e escritor de vários livros, entre eles, Te dou a lua amanhã (Prêmio Jabuti), Lis no peito – um livro que pede perdão (Prêmio Jabuti), Na curva das emoções (Prêmio APCA). Pela SESI-SP Editora, publicou: Blue e outras cores do meu voo, Na gravidade das coisas miúdas (Prêmio FNLIJ) e Lá longe no chora menino. 3 CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura”. In: Vários Escritos. São Paulo/Rio de Janeiro. Duas Cidades, 2004, pp. 169, 174/75.

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do conto

Marita, em linha reta

Sidney Hall. Urania's Mirror – Gloria Frederici, Andromeda, and Triangula, 1825.

por Carol Rodrigues

Chega o momento: a grande porta é aberta por dois homens com bigodes parecidos entre si. Arrastada no assoalho, permite a escuridão abafada de um sonho, mas ainda não é hora de entrar: o prefeito está a caminho, vai dizer umas palavras. A fila dá voltas ao redor de seu redondo; a tarde é morna; o algodão-doce esse dia é de graça mas se murcha no palito, crianças desapontam, queriam as nuvens coloridas sob o sol. A cem metros da entrada está Marita, a única adulta desacompanhada, anda calada, o pé bambeia pra fora da sandália de plástico, branco surrado a fivela solta, o cabelo preso num elástico frouxo nas costas, os braços cruzados, os olhos muito claros e o casaquinho, a saia no joelho abaixo dele as veias, como funduras reversas de azul, cordilheira que avança, agora sabe como juntou tanta, passa muito tempo em seus pés. O primeiro planetário da cidade fica ao lado do lago onde navega o cisne negro, altivo o espaço-tempo no bico vermelho, silêncio de osso oco em cada pena uma bolsa primogênita de ar. Marita desce os olhos para as suas veias, talvez tenham se tornado navegueiras, volta a vista ao lago, arrasta a sandália e lembra do primo João do queixo quadrado a moldura dum sorriso de ator. Foi amor de moço de rosto largo e moça sem varizes, amor de bomba atômica o deslize enquanto encanto o beijo do cinema era o beijo requerido, o moço arqueado a moça pendida, um braço que alcança um corpo inteiro de cintura fina, um cabelo de cachos controlados salto alto que bambeia quando vem a ideia desse mesmo beijo, mas se desiste ou afrouxa o braço a moça pode cair de costas machucar a vértebra, a cabeça pode bater numa gaveta aberta, a coluna na fivela de cinto ao chão e ao acaso e sem o osso estar oco é funda a gravidade ao centro da Terra, vermelha fogo vivo, o bico do cisne se abre e boceja, a tarde é morna, um mergulho ligeiro sacode a cabeça, o 77

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pescoço alonga, e se Marita pintasse pintaria esse lago, as pessoas do outro lado na margem ao fundo não se distinguem, são pequenas as mulheres de calça e as de salto, as árvores na terra úmida, arqueadas pelo vento como pernas que mergulham. O prefeito chegou num carro preto a fanfarra avisa. Escoteiros cantam em roda ela não escuta, agradecem a satisfação do passeio, as boas-vindas à primavera o adeus ao inverno que castiga mas não alonga, a saudação ao sol e à vida, as roupas iguais, os lencinhos. Marita na fila não rói as unhas nem enrosca o cabelo no dedo, ela termina o esquadrinho do lago e escolhe outro ponto e olha fixo. O ponto é um menino de lenço mostarda no queixo, o pescoço muito curto, a idade pequena a bermuda pra baixo dos joelhos, nos joelhos o brilho de ferida fresca e a marcha macia de quem canta, Marita não escuta mas acompanha na boca e na cabeça pendente ao ritmo a letra que parece estava a velha em seu lugar e veio alguém lhe fazer mal, cada olho de Marita neles nos joelhos do menino, a ciranda agradecente à vida e ao planetário o primeiro do país obrigado ao prefeito que vamos ver o céu. A cúpula são cinco milhões de cruzeiros e cada centavo contou porque nós vamos ver o céu o prefeito diz entre microfonias aplaudido assoviado, vamos ver o céu os escoteiros soprando seus apitos sacudindo os bonezinhos e o joelho do menino é muito feio o machucado, Marita torce o olho pro oposto da boca, o primo João que desistiu. A fila anda a perna pesa a fivela a sandália emite um ruído quando trisca só o pássaro ao lado escuta e torce o dorso. Um passo pra frente o menino a bermuda revela quando a perna dobra o que ela já sabia: um vermelhão de ferida fresca e funda. Marita comove o olho esgarça, onde foi que houve a ferida, que pressente na ausência de sangue na sua metade superior de corpo a sua própria metade ela pressente, todo menino cai da bicicleta o pega-pega trepa-trepa gangorra com alguém muito mais gordo ou do balanço quando solta a mão, do futebol, mas pressente muito dentro do seu próprio machucado que ali foi sangrado de maldade. Morde os olhos, não quer perder o lugar na fila, é quase lá a mão do homem que recebe a porta aberta é quase ali pra ver o céu é quase ali tanta hora de pé e as varizes o prefeito a tesoura na mão, um corte perfeito na fita azul de cetim, um silêncio sublime ao tec, ou tac, o laço rompido bailarino, a porta aberta, vamos ver o céu. Entra; procura e encontra um lugar na primeira fileira a poltrona deita, solta os braços a mão roça na mão do moço ao lado e se retira dolorida, o braço quebrado que João brincou: derrubar a moça no beijo do cinema isso seria engraçado, um osso torto o corpo todo pregado ao chão e não foi ao 78

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do conto

pronto-socorro ele pegou gelo do freezer enrolou num paninho de prato florido um calendário que dizia mil novecentos e quarenta e seis, um sol bordado, um pato uma casinha de triângulo e chaminezinha. Com esse paninho ela passou a noite em claro o olho arregalado no sol que sorria ponto-cruz e nunca mais. O apresentador se apresenta ao microfone muito boa tarde o meu nome é Luíz. É com muita alegria que é sempre com muita alegria que se abrem as coisas e a primeira sessão do Planetário Municipal vai mostrar a vocês a escala real de tamanho entre os planetas e o Sol. A luz apaga e a cúpula vai, ponto a ponto, se transformando no céu piscando pontinhos e outros e a Terra mais longe e mais longe as mãos agarradas aos braços das cadeiras e a alma em suspensão e também o pisco das pálpebras o Sol é estupidamente maior do que a Terra a imagem flutua não gravita, o coração levita do resto das carnes do dentro do corpo há que se encaixar o coração é astronauta. A viagem do olho pra fora do corpo vai mais longe e mais longe a via láctea, as outras galáxias, o ponto mais distante e não se sabe do lado de lá o fim do elástico. E a volta acelerada ao ponto na Terra a luz acesa e algumas vidas dilaceradas: o menino escoteiro não se sabe se está triste ou feliz. Ao fim e de pé o pequeno bambeia da fila e esbarra na Marita e a Marita esbarra nele e sorri. Ela está mais feliz do que infeliz. Qual é o motivo da ferida o menino não escuta e comenta como é que o anel de Saturno é feito de gelo? Nessa parte eu não prestei atenção diz Marita envergonhando um chumaço de cabelo embaraçado atrás da orelha, o casaquinho suado, retira com cuidado dolorido de braço entortado, e faz tanto tempo do João não se sabe e que tarde abafada ela diz ao menino que tira o bonezinho marrom a franja empapada o suor se derrama até o olho e o menino já caminha. O pé de Marita chupa a sola da sandália a bolsinha de couro ao esquerdo do corpo o passo apressado a fivela ainda solta ainda quer saber mais do menino: ergue a mão e pergunta mas ele vai longe entra no bosque junto a outros meninos de uniformes e lenços. São maiores esses outros desviam para o tronco mais grosso e se acomodam compartilham um exemplar do novo Camel que acaba de chegar. O menino dos joelhos não gosta do cheiro e segue sozinho pelas sombras nosferatas que as árvores fazem no chão na verdade quem faz é o sol, e o menino para e olha o sol, não acredita que ele possa ser maior se olhando assim de frente é tão menor. Atrás vem Marita vê que ele quase para, será que há ou à espera e se apressa e não vê o galho erguido e preso ao chão que dribla a sandália e crava na curva suada do pé um grito de urso abatido. O menino se vira e se arrepia 79

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e dá exatos cinco passos e retira seu lencinho do pescoço e entrega à mulher que se debate tão sozinha no gramado. O sol das quatro e meia reflete no lago um clarão o último do dia. Depois da vista defendida com os braços inteiros a visão iluminada da mulher descabelada de olho transparente e boca aberta ele decide o menino ela parece bruxa louca. E corre para fora para longe para casa onde mais tarde se arrepende. Marita na grama deitada os olhos mais claros que a pele a boca tremulenta a perna dobrada o pé ferido nas mãos um ralado no joelho a sandália mais ao longe; coloca o lencinho mostarda na sua própria boca entre os dentes apertados e retira o galho da sola um grito das guturas. O lencinho mostarda enfim enfaixa o pé furado e muito mancando, a sandália desafivelada as canelas pesadas as varizes e a Marita chega pontual ao próximo compromisso: um filme colorido de savana de bicho que já viu quatro vezes no cinema que é gratuito a fila é longa sempre a espera, sempre um novo ponto de olhar fixo uma nova ferida em outro corpo sempre tem alguém ferido, olha ali, a menina de amarelo tem hematomas no bracinho e aqui, mais perto, um senhor de boina tem o rosto arranhado até o nariz e a sua esposa, no pescoço, a cicatriz furinho na traquéia e na entrada do cinema o cão manco de abajur na cabeça o rabo murcho, que olho fundo meus deus que olho triste que ele tem um soluço, um osso atravessado na garganta.

CAROL RODRIGUES nasceu no Rio de Janeiro e hoje vive em São Paulo. É contista e roteirista. Tem dois livros publicados: Sem vista para o mar (Edith, 2014), que venceu os prêmios Jabuti e Biblioteca Nacional em 2015, na categoria Contos, e a novela experimental Ilhós (e-galáxia, 2017).

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do novo contista

Ponto do novo contista por equipe SESI-SP Editora

Excepcionalmente nesta Ponto 14, por não termos recebido um

número significativo de trabalhos, tivemos que suspender momentaneamente a seção "Ponto do novo contista". Aqui buscamos dar espaço às escritoras e aos escritores que começam a enveredar pelo caminho das letras, arriscando seus textos inéditos ao crivo alheio. A ideia é abrir portas – que contistas principiantes costumam encontrar trancadas. Para ter seu texto publicado nesta seção, envie o material para o seguinte e-mail: comunicacao_editora@sesisenaisp.org.br. O conto deve possuir entre seis e dez mil caracteres com espaços.

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GALERIA DE FOTOS

Eventos das editoras SESI-SP e SENAI-SP

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1 Prêmio Jabuti 2017. Alexandre Rampazzo, Fernanda Takai, Gabriella Plantulli e Juliana Farias; 2 SESI-SP Editora recebe o prêmio de melhor editora do ano no HQMIX 2017. 3 Nova livraria do Centro Cultural FIESP (CCF); 4 Bruno Giacomelli

e Luiz Caropreso, autores de Receitinhas para você: cerveja; 5 Flávia Muniz, autora de O manto escarlate e Viajantes do infinito; 6 Laura Reinas, autora de Receitinhas para você: azeite; 7 Lançamento dos livros Agora! e O rei Davi, o príncipe Salomão e o ovo cozido. Livraria da Vila – São Paulo – SP; 8 Lançamento do livro A gótica que não gostava de fantasmas. Geek.etc.br – São Paulo – SP; 9 Exposição sobre o livro Monstros do cinema. Universidade de Passo Fundo – RS; 10 Arnaldo Antunes durante reabertura da livraria do CCF.

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unidades do sesi-sp

Americana

cat dr. estevam faraone Avenida Bandeirantes, 1.000 Chácara Machadinho cep 13478-700 Americana − sp Tel: (19) 3471-9000 www.sesisp.org.br/americana

Araçatuba

cat francisco da silva villela Rua Dr. Álvaro Afonso do Nascimento, 300 Jd. Presidente cep 16072-530 Araçatuba − sp Tel: (18) 3519-4200 www.sesisp.org.br/aracatuba

Araraquara

cat wilton lupo Avenida Octaviano de Arruda Campos, 686 Jd. Floridiana cep 14810-901 Araraquara − sp Tel: (16) 3337-3100 www.sesisp.org.br/araraquara

Araras

cat laerte michielin Avenida Melvin Jones, 2.600 B. Heitor Villa-Lobos cep 13607-055 Araras − sp Tel: (19) 3542-0393 www.sesisp.org.br/araras

Bauru

cat raphael noschese Rua Rubens Arruda, 8-50 Altos da Cidade cep 17014-300 Bauru − sp Tel: (14) 3234-7171 www.sesisp.org.br/bauru

Birigui

cat min. dilson funaro Avenida José Agostinho Rossi, 620 − Jardim pinheiros cep 16203-059 Birigui − sp Tel: (18) 3642-9786 www.sesisp.org.br/birigui

Botucatu

cat salvador firace Rua Celso Cariola, 60 Eng. Francisco cep 18605-265 − Botucatu − sp Tel: (14) 3811-4450 www.sesisp.org.br/botucatu

Campinas I

cat professora maria braz Avenida das Amoreiras, 450 cep 13036-225 Campinas − sp Tel: (19) 3772-4100 www.sesisp.org.br/amoreiras

Campinas II

cat joaquim gabriel penteado Avenida Ary Rodriguez, 200 B. Bacuri − cep 13052-550 Campinas − sp Tel: (19) 3225-7584 www.sesisp.org.br/campinas2

Cotia

olavo egydio setúbal Rua Mesopotâmia, 300 Moinho Velho cep 06712-100 − Cotia − sp Tel: (11) 4612-3323 www.sesisp.org.br/cotia

Cruzeiro

cat octávio mendes filho Rua Durvalino de Castro, 501 Vila Ana Rosa Novaes cep 12705-210 − Cruzeiro − sp Tel: (12) 3141-1559 www.sesisp.org.br/cruzeiro

Cubatão

cat décio de paula leite novaes Avenida Com. Francisco Bernardo, 261 − Jd. Casqueiro cep 11533-090 − Cubatão − sp Tel: (13) 3363-2662 www.sesisp.org.br/cubatao

Diadema

cat josé roberto magalhães teixeira Avenida Paranapanema, 1.500 Taboão − cep 09930-450 Diadema − sp

Tel: (11) 4092-7900 www.sesisp.org.br/diadema

Franca

cat osvaldo pastore Avenida Santa Cruz, 2.870 Jd. Centenário cep 14403-600 − Franca − sp Tel: (16) 3712-1600 www.sesisp.org.br/franca

Guarulhos

cat morvan dias de figueiredo Rua Benedito Caetano da Cruz, 566 − Jardim Adriana cep 07135-151 − Guarulhos − sp Tel: (11) 2404-3133 www.sesisp.org.br/guarulhos

Indaiatuba

cat antonio ermírio de moraes Avenida Francisco de Paula Leite, 2701 − Jd. Califórnia cep 13346-000 Indaiatuba − sp Tel: (19) 3875-9000 www.sesisp.org.br/indaiatuba

Itapetininga

cat − benedito marques da silva Avenida Padre Antonio Brunetti, 1.360 − Vl. Rio Branco cep 18208-080 Itapetininga − sp Tel: (15) 3275-7920 www.sesisp.org.br/itapetininga

Itu

cat carlos eduardo moreira ferreira Rua José Bruni, 201 Bairro São Luiz cep 13304-080 − Itu − sp Tel: (11) 4025-7300 www.sesisp.org.br/itu

Jacareí

cat karam simão racy Rua Antonio Ferreira Rizzini, 600 − Jd. Elza Maria cep 12322-120 − Jacareí − sp Tel: (12) 3954-1008 www.sesisp.org.br/jacarei

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Jaú

cat ruy martins altenfelder silva Avenida João Lourenço Pires de Campos, 600 Jd. Pedro Ometto cep 17212-591 − Jaú − sp Tel: (14) 3621-1042 www.sesisp.org.br/jau

Jundiaí

cat élcio guerrazzi Avenida Antonio Segre, 695 Jardim Brasil cep 13201-843 − Jundiaí − sp Tel: (11) 4521-7122 www.sesisp.org.br/jundiai

Limeira

cat mario pugliese Avenida Mj. José Levy Sobrinho, 2415 − Alto da Boa Vista cep 13486-190 − Limeira − sp Tel: (19) 3451-5710 www.sesisp.org.br/limeira

Marília

cat lázaro ramos novaes Avenida João Ramalho, 1.306 Jd. Conquista cep 17520-240 − Marília − sp Tel: (14) 3417-4500 www.sesisp.org.br/marilia

Matão

cat professor azor silveira leite Rua Marlene David dos Santos, 940 − Jardim Paraíso III cep 15991-360 − Matão − sp Tel: (16) 3382-6900 www.sesisp.org.br/matao

Mauá

cat min. raphael de almeida magalhães Avenida Presidente Castelo Branco, 237 − Jardim Zaíra cep 09320-590 − Mauá − sp Tel: (11) 4542-8950

Mogi das Cruzes − sp Tel: (11) 4727-1777

Pres. Prudente − sp Tel: (18) 3222-7344

www.sesisp.org.br/mogidascruzes

www.sesisp.org.br/ presidenteprudente

Mogi Guaçu

cat min. roberto della manna Rua Eduardo Figueiredo, 300 Parque Residencial Zaniboni III cep 13848-090 Mogi Guaçu − sp Tel: (19) 3861-3232 www.sesisp.org.br/mogiguacu

Osasco

cat luis eulalio de bueno vidigal filho Avenida Getúlio Vargas, 401 cep 06233-020 − Osasco − sp Tel: (11) 3602-6200 www.sesisp.org.br/osasco

Ourinhos

cat manoel da costa santos Rua Professora Maria José Ferreira, 100 Bairro das Crianças cep 19910-075 − Ourinhos − sp Tel: (14) 3302-3500 www.sesisp.org.br/ourinhos

Piracicaba

cat mario mantoni Avenida Luiz Ralph Benatti, 600 V. Industrial cep 13412-248 Piracicaba − sp Tel: (19) 3403-5900 www.sesisp.org.br/piracicaba

Presidente Epitácio

cil − carlos cardoso de almeida amorim Avenida Domingos Ferreira de Medeiros, 2.113 − Vila Recreio cep 19470-000 Pres. Epitácio − sp Tel: (18) 3281-2803

www.sesisp.org.br/maua

www.sesisp.org.br/ presidenteepitacio

Mogi das Cruzes

Presidente Prudente

cat nadir dias de figueiredo Rua Valmet, 171 − Braz Cubas cep 08740-640

cat belmiro jesus Avenida Ibraim Nobre, 585 Pq. Furquim cep 19030-260

Ribeirão Preto

cat josé villela de andrade junior Rua Dr. Luís do Amaral Mousinho, 3.465 Castelo Branco cep 14090-280 Ribeirão Preto − sp Tel: (16) 3603-7300 www.sesisp.org.br/ribeiraopreto

Rio Claro

cat josé felício castellano Avenida M-29, 441 Jd. Floridiana cep 13505-190 − Rio Claro − sp Tel: (19) 3522-5650 www.sesisp.org.br/rioclaro

Santa Bárbara D'oeste

cat américo emílio romi Avenida Mário Dedini, 216 V. Ozéias cep 13453-050 S. B. D’oeste − sp Tel: (19) 3455-2088 www.sesisp.org.br/santabarbara

Santana de Parnaíba

cat josé carlos andrade nadalini Avenida Conselheiro Ramalho, 264 − Cidade São Pedro cep 06535-175 Santana de Parnaíba − sp Tel: (11) 4156-9830 www.sesisp.org.br/parnaiba

Santo André

cat theobaldo de nigris Pça. Dr. Armando de Arruda Pereira, 100 − Sta. Terezinha cep 09210-550 Santo André − sp Tel: (11) 4996-8600 www.sesisp.org.br/santoandre

Santos

cat paulo de castro correia Avenida Nossa Senhora de Fátima, 366 − Jd. Santa Maria 85

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unidades do sesi-sp

cep 11085-202 − Santos − sp Tel: (13) 3209-8210 www.sesisp.org.br/santos

São Bernardo do Campo cat albano franco Rua Suécia, 900 − Assunção cep 09861-610 S. B. do Campo − sp Tel: (11) 4109-6788 www.sesisp.org.br/sbcampo

São Caetano do Sul

cat pres. eurico gaspar dutra Rua Santo André, 810 Boa Vista cep 09572-140 S. C. do Sul − sp Tel: (11) 4233-8000 www.sesisp.org.br/saocaetano

São Carlos

cat ernesto pereira lopes filho Rua Cel. José Augusto de Oliveira Salles, 1.325 − V. Izabel cep 13570-900 São Carlos − sp Tel: (16) 3368-7133 www.sesisp.org.br/saocarlos

São José do Rio Preto

cat jorge duprat figueiredo Avenida Duque de Caxias, 4.656 V. Elvira cep 15061-010 São José do Rio Preto − sp Tel: (17) 3224-6611 www.sesisp.org.br/sjriopreto

São José dos Campos

cat ozires silva Avenida Cidade Jardim, 4.389 Bosque dos Eucaliptos cep 12232-000 São José dos Campos − sp Tel: (12) 3936-2611 www.sesisp.org.br/sjcampos

São Paulo − AE Carvalho

Sorocaba

www.sesisp.org.br/carvalho

www.sesisp.org.br/sorocaba

São Paulo − Catumbi

Sumaré

cat mario amato Rua Deodato Saraiva da Silva, 110 − Pq. das Paineiras cep 03694-090 São Paulo − sp Tel: (11) 2026-6000

cat antonio devisate Rua Catumbi, 318 − Belenzinho cep 03021-000 − São Paulo − sp Tel: (11) 2291-1444 www.sesisp.org.br/catumbi

São Paulo − Ipiranga

cat roberto simonsen Rua Bom Pastor, 654 − Ipiranga cep 04203-000 São Paulo − sp Tel: (11) 2065-0150 www.sesisp.org.br/ipiranga

São Paulo − Vila das Mercês

cat sen josé ermírio de moraes Rua Duque de Caxias, 494 Mangal cep 18040-425 − Sorocaba − sp Tel: (15) 3388-0444

cat fuad assef maluf Avenida Amazonas, 99 Jardim Nova Veneza cep 13177-060 − Sumaré − sp Tel: (19) 3838-9710 www.sesisp.org.br/sumaré

Suzano

cat max feffer Avenida Senador Roberto Simonsen, 550 Jardim Imperador cep 08673-270 − Suzano − sp Tel: (11) 4741-1661 www.sesisp.org.br/suzano

cat professor carlos pasquale Rua Júlio Felipe Guedes, 138 cep 04174-040 São Paulo − sp Tel: (11) 2946-8172

Tatuí

www.sesisp.org.br/merces

www.sesisp.org.br/tatui

São Paulo − Vila Leopoldina

Taubaté

cat gastão vidigal Rua Carlos Weber, 835 Vila Leopoldina cep 05303-902 São Paulo − sp Tel: (11) 3832-1066 www.sesisp.org.br/leopoldina

Sertãozinho

cat nelson abbud joão Rua José Rodrigues Godinho, 100 − Conj. Hab. Maurílio Biagi cep 14177-320 Sertãozinho − sp Tel: (16) 3945-4173

cat wilson sampaio Avenida São Carlos, 900 B. Dr. Laurindo cep 18271-380 − Tatuí − sp Tel: (015) 3205-7910

cat luiz dumont villares Rua Voluntário Benedito Sérgio, 710 − B. Estiva cep 12050-470 − Taubaté − sp Tel: (12) 3633-4699 www.sesisp.org.br/taubate

Votorantim

cat josé ermírio de moraes filho Rua Cláudio Pinto Nascimento, 140 − Jd. Morumbi cep 18110-380 Votorantim − sp Tel: (15) 3353-9200 www.sesisp.org.br/votorantim

www.sesisp.org.br/sertaozinho

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Ilustração do livro Agora!, de Ivan Brenman e Guilherme Karsten.


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Revista Ponto #14 - NOV/DEZ/JAN 2017-8  
Revista Ponto #14 - NOV/DEZ/JAN 2017-8