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Liber Matteucci

Sangue bom


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Copyright © 2011 by Liber Matteucci Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou meio eletrônico ou mecânico, inclusive fotocópia, gravação ou sistema de armazenagem e recuperação de informação, sem a permissão escrita do editor. Direção Editorial Jiro Takahashi Editora Luciana Paixão Editor assistente Thiago Mlaker Assistente editorial Diego de Kerchove Revisão Paola Morsello Ivan Souvarin Capa Andrea Pedro Criação e produção gráfica Thiago Sousa Assistente de criação Marcos Gubiotti CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ M387s Matteucci, Liber Sangue bom / Liber Matteucci. - São Paulo: Prumo, 2011. 336p.: 21cm ISBN 978-85-7927-142-7 1. Romance brasileiro. I. Título. 11-4651.

Direitos de edição: Editora Prumo Ltda. Rua Júlio Diniz, 56 – 5o andar – São Paulo/SP – CEP: 04547-090 Tel.: (11) 3729-0244 – Fax: (11) 3045-4100 E-mail: contato@editoraprumo.com.br Site: www.editoraprumo.com.br

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3


Entrando no Templo, começou a expulsar os comerciantes, dizendo-lhes: “Está escrito: E minha casa será uma casa de oração, mas vós fizestes dela um covil de ladrões”. Lucas, 19:46


1 — O seu filho está com bruxismo… xismo... ismo... Horas depois da consulta, a frase continuava a ecoar nos ouvidos do menino, enquanto o ônibus seguia em direção à Nossa Senhora da Consolata, o bairro da Zona Norte onde Artur morava com a mãe e o tio mais velho. Bruxismo é coisa de bruxa, ele concluiu, rangendo os dentes. Tinha só nove anos. Em compensação, o cérebro era novo em folha: foi à raiz da palavra e viu que nada de bom podia sair dali. Não bastassem os pesadelos, as espadas e feras assassinas, agora as bruxas estavam soltas na sua cabeça. Diagnóstico médico: enfeitiçado. Artur reparou numa velha, de pé, que chacoalhava com o movimento do veículo. Agarrada à vassoura, ela soltou um riso histérico e cuspiu sapos, cobras e lagartos sobre os passageiros (leia-se: agarrada ao balaustre, a velha teve uma crise de tosse e encheu de perdigotos os lugares sentados). O menino já ia ceder o seu, em pânico, quando a mãe, que conhecia aquele olhar invertido, veio varrer as imagens da telinha interior: — Entendeu o que o doutor disse, Artur? Ele demorou para reagir. Depois fez que sim. — Bruxismo não é nada de mais. — Ela repetiu o médico: — É o hábito de ranger os dentes, de origem nervosa. Mas a mamãe vai fazer chá de camomila todas as noites, na hora de dormir, para você ficar bom. Certo? Então fique calmo e esfrie essa cabecinha. Não há nada com o que se preocupar.


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Ah! Isso é o que ela dizia. Mas mãe não vale. Mãe e médico dizem todo tipo de mentira só para tranquilizar os otários. Bruxismo só podia ser uma coisa: o que o nome indica. Quando muito, o hábito de ranger os dentes é rangismo. Mas fosse o que fosse, Artur estava cansado, a bruxa tuberculosa já arranjara um banco livre e o ronrom do motor tinha um efeito sonífero sobre ele. Adormeceu. Lisa ouviu-o ressonar e pôs as mãos para o céu. Menos mal que o menino ia ter um minuto de sossego. Já não bastava ele se preocupar com tudo, sempre de olho arregalado, e agora essa, mordendo os dentes como um cachorrinho que rói o osso. Era filho único, tivera-o depois dos trinta. Nenê, o seu irmão mais velho, dizia-lhe que o menino era a joia da “coroa”. Ela só podia rir e concordar. Não que as coisas tivessem sido fáceis. Primeiro, veio a morte prematura do marido, quando Artur mal engatinhava. Depois, Nenê, perturbado pela bebida, perdeu o estúdio que lhe garantia o ganha-pão, tendo de ir morar com eles. Por fim, o próprio filho revelou-se sensível demais, com uma generosidade de que ela não tinha exemplo em nenhum outro membro da família. Quando muito, Artur herdara o espírito solidário do avô, um comunista da velha escola. Mas se o pai de Lisa se movia por razões ideológicas, o menino agia visceralmente. Como da vez em que ela lhe deu um carrinho e, dias depois, viu o filho entregar o brinquedo nas mãos de um moleque de rua. Lisa perguntou o que se passava, e Artur disse que tinha dado o carrinho para o pirralho. A seguir, justificou-se: “assim ele ganha presente também”. Esse era o filho dela, uma joia rara. Quando ele acordou, o primeiro tiro acabara de ser disparado, furando o teto do veículo. Ainda zunia no metal. Um dos ladrões tinha estabelecido com clareza quem mandava

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ali. O motorista assustado agarrara-se com força ao volante, como se isso lhe desse algum controle da situação. O menino encostou-se instintivamente à mãe, que abriu as asas sobre ele. A velha bruxa segurou um crucifixo que trazia ao pescoço. A maioria dos passageiros, sem reação, olhava para a arma fumegante do bandido, um negrão com uma pistola prateada. Com sangue frio, ele encarava todo mundo, enquanto o cúmplice, branco e drogado, tinha um revólver preto que lhe tremia nas mãos. O negrão controlava o motorista. O branco doidão instalou-se na borboleta e esticou um saco para o cobrador, que começou a enchê-lo de dinheiro, sem erguer os olhos. Depois, o bandido saiu arrancando das pessoas os relógios de pulso, correntes de ouro e carteiras com o que houvesse. Foi de banco em banco, até chegar ao de Artur e sua mãe. Lisa tinha a bolsa presa ao ombro, do mesmo lado do filho. Quando o assaltante esticou a mão, achou que ele ia tocar no menino. Reagiu. E o marginal não pensou: “Esta senhora é um ser humano, mãe zelosa, com um filho para criar e uma vida tão sagrada como a minha, que só a Deus cabe dar ou tirar”. Estava drogado. Mesmo que estivesse careta, faltava-lhe empatia, o sentimento do outro. Carecia de respeito pelos seres viventes, que nunca lhe fora ensinado no lar ou na escola, ele que crescera sem uma coisa nem outra, abandonado numa selva de pedra. Parecia bicho. Diante da fêmea nervosa, o bandido-jaguar arreganhou os dentes e premiu o gatilho, mordendo a presa. Os caninos de chumbo abriram um rombo no crânio da mulher, fazendo espirrar restos de miolos para cima de Artur. O pânico, a princípio privilégio do menino, distribuiu-se democraticamente entre os passageiros. Os homens-macacos, assustados, fugiram de galho em

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galho, espantando os jovens-periquitos, as senhoras-araras e um eleitor tucano, que esvoaçaram em todas as direções. O ônibus ziguezagueou nas mãos do motorista descontrolado. Ouviram-se gritos, guinchos, houve mais tiros e mortes estúpidas. Aliás, é uma redundância: a morte é sempre estúpida. O negrão mandou o motorista pisar no breque e deu-lhe uma coronhada na cabeça, fazendo-o cair desmaiado. Os grandes felinos lamberam os beiços e saíram do veículo como se nada houvesse, como quem assina o ponto depois de um dia de trabalho. Eram predadores profissionais. Sumiram na folhagem das ruas, sem deixar rastro. Na manhã seguinte, os jornais estampavam fotos das vítimas ensanguentadas, para atrair os leitores-urubus à carniça das bancas. Entre os mortos havia um pedestre, atingido por uma bala perdida. As primeiras páginas davam destaque a um pequeno sobrevivente, de olhos baços, agarrado ao cadáver ainda quente da mãe, num banho de sangue. Fotografia não faz barulho. Caso contrário, seria possível ouvir o ranger de dentes do menino, de origem nervosa. Um caso de bruxismo. O filho da mulher morta sabia melhor do que ninguém o que a palavra queria dizer. Estava enfeitiçado. Pendiam espadas sobre a sua cabeça. Havia feras assassinas no seu caminho.

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Há algo de inebriante na leitura de Sangue Bom. Este é um livro que junta violência urbana e fanatismo religioso assim como os botecos das periferias brasileiras misturam pinga com vermute: o menino Artur, personagem central da história, presencia atônito à morte da mãe, que leva um tiro durante um assalto. Vítima de um tio ambicioso, um jornalista oportunista e um marqueteiro mau caráter, Artur será transformado na reencarnação de Jesus Cristo, atraindo hordas de crentes, todos à espera de um milagre, e enfrentará uma verdadeira via-crúcis. Mais do que uma boa história, Sangue Bom possui um tom contemporâneo de crítica social: Escancara a violência exacerbante, a manipulação inescrupulosa da fé, a putrefação dos valores morais, a postura vexatória dos governantes, a alienação do povo. É um livro com alto teor etílico e satírico. Mas, ao contrário do “cocktail” nacional de cachaça ruim e vermute vagabundo, este despretensioso e panfletário romance não arranha a garganta, desce redondo, até a última gota.

Liber Matteucci nasceu em 1948, em São Paulo. Cursou a Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi redator publicitário no eixo Rio-São Paulo e Diretor de Criação da Agência da Casa da Rede Globo. Também trabalhou na Telemontecarlo, em Roma, e na JWT, em Lisboa. Publicou diversos artigos e contos de humor em revistas brasileiras e portuguesas. Foi colaborador de O Pasquim e faz quadrinhos em parceria com o ilustrador Jô Fevereiro.

ISBN 978-85-7927-142-7

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9 788579 271427


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