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CONTO DE ESCOLA EM QUADRINHOS

Um pai autoritário, um professor sisudo, um garoto medroso e seu colega cheio de curiosidade pela vida. Uma rua ensolarada e uma escola dos tempos da palmatória. Esses são personagens e cenários do célebre “Conto de escola”, de Machado de Assis, em quadrinhos de Silvino.

SILVINO

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Neste álbum, a Editora Peirópolis apresenta uma transposição de Machado de Assis para os quadrinhos. O texto escolhido foi “Conto de escola”, integrante do livro Várias histórias, de 1896, obra de um escritor já maduro e em pleno domínio de suas armas, exercitando a forma breve após terminar um romance – Quincas Borba, em 1891 – e guardando fôlego para a obra que o consagraria mundialmente: Dom Casmurro, em 1899. Trata-se de um belíssimo exemplar da sagacidade de Machado.

POR

Laerte Silvino nasceu em Recife, cursou Geografia e, após viajar por várias áreas exóticas do país, resolveu se dedicar à ilustração e aos quadrinhos, trocando assim a liberdade das paisagens pelas quatro paredes de seu estúdio. Desde esse dia ilustrou para alguns jornais em Pernambuco e, atualmente, para alguns jornais do Nordeste; também ilustra e faz quadrinhos com frequência para revistas de circulação nacional e livros infantis, juvenis e didáticos. Publica no site www.laertesilvino.com.br .

TEXTO INTEGRAL

O crítico literário norte-americano Harold Bloom definiu Machado de Assis como um verdadeiro “milagre” das letras brasileiras. Afinal, era mesmo muito difícil imaginar que o menino mulato nascido num morro carioca em 1839, em pleno período da escravidão, conseguiria alcançar o respeito e a credibilidade que atingiu na vida adulta. Joaquim Maria Machado de Assis – poeta, dramaturgo, crítico literário, romancista e contista – impressiona ainda hoje leitores de todos os lugares do mundo com o poder surpreendente de revelar a profundidade psicológica de seus personagens.

Conto de escola em quadrinhos traz o texto integral envolvido na leitura imagética do quadrinista Laerte Silvino, grande admirador de Machado de Assis. Laerte mostrou-se um excelente leitor, valendo-se da elegância e da sagacidade do escritor para realizar sua tradução em imagens. No conto quadrinizado, Silvino abraça características importantes da obra de Machado para conduzir o leitor pelos caminhos da memória de Pilar no banco de escola.

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Escola, um rito de passagem A escola é palco de muitos acontecimentos. A despeito de todas as mudanças sofridas ao longo dos séculos, o espaço escolar continua a potencializar algumas vivências universais, e frequentá-lo é viver um rito de passagem. Ali se cruzam relações de poder e submissão, sentimentos de amizade e aversão, competição e solidariedade. Em seu “Conto de escola”, o mestre Machado de Assis descortina uma “cena de bastidores” repleta de afetos e significados. Pilar, seu narrador e protagonista, foi mandado para a escola pelo pai rigoroso para aprender a ser um homem responsável e trabalhador, mas foi lá que conheceu a mentira e a delação, apoiado pelo próprio sistema injusto que deveria torná-lo íntegro. Machado, ao ambientar a narrativa numa escola, trabalha com a ideia, recorrente na literatura, do ambiente educacional como microcosmo da sociedade. Publicado em 1896 no volume Várias histórias, “Conto de escola” passa-se em 1840, ano em que a maioridade de D. Pedro II, então com 15 anos incompletos, foi antecipada por uma manobra dos políticos liberais para encerrar a regência conservadora de Araújo Lima. Assim como Pilar aprendeu sobre corrupção, delação e injustiça, D. Pedro II aprenderia valores de que precisaria para se tornar um governante. No conto, a passagem do mundo infantil para o universo habitado por adultos sisudos e corruptos também faz alusão à maturidade forçada do menino destinado a governar o Brasil na ausência de seu pai. O rito de passagem do narrador pode ser lido, assim, como a transformação então vivida pelo país. As metáforas pouco convencionais são um aspecto muito significativo do trabalho de Machado, e esta versão em quadrinhos, que traz o texto na íntegra, não poderia eliminar o prazer do leitor em descobri-las. Laerte Silvino contribui com a narrativa machadiana ao explicitar, por meio das cores, alguns elementos fundamentais para a sua apreciação, especialmente ao explorar a subjetividade do narrador, que conta sua história infantil em primeira pessoa. Difícil tarefa para um quadrinista esta, ficar em silêncio para deixar Machado falar. Silvino não só dá conta do recado como aproxima o leitor do século XXI de um dos maiores exploradores da alma humana que já existiram. A coleção Clássicos em HQ da Editora Peirópolis tem um mérito inquestionável: apresentar a leitores obras fundamentais para a formação de um repertório intelectual, sem facilitar os textos ou diminuir sua profundidade e grandeza.

Maurício Soares Filho

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A ESCOLA era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau.

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O ano era de 1840.

N

aquele dia uma segunda-feira, do mĂŞs de maio - deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manhĂŁ.

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e o Campo de Sant’Ana.

H

esitava entre o morro de S. Diogo

que não era

então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito.

a

lastrado de lavadeiras, capim e burros soltos.

M

orro ou campo? Tal era o problema.

De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.

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Na semana anterior

tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro.

A

s sovas de meu pai doíam por muito tempo.

Era um velho empregado

do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro.

Citava-me nomes de Fulano...

capitalistas que tinham começado ao balcão.

cicrano...

beltrano...

de tal...

O

ra, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio.

Não era um menino de virtudes.

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S

ubi a escada com cautela, para nĂŁo ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo.

Ele entrou na

sala trĂŞs ou quatro minutos depois.

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Chamava-se

Entrou com o

andar manso de costume.

em chinelas de

Policarpo e tinha perto de cinquenta anos ou mais.

cordovão

jaqueta de brim lavada e desbotada

calça branca e tesa

e grande colarinho caíd0.

Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se.

Tudo estava

em ordem; começaram os trabalhos.

Uma vez sentado, extraiu da

jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala.

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Seu Pilar, eu preciso falar com você!

d

isse-me baixinho o filho do mestre.

C

hamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinquenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro.

Reunia a isso

um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre.

E

ntrava na escola depois do pai e retirava-se antes dele.

O mestre

era mais severo com ele do que conosco.

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O que é que você quer?

LOgo...

Começou a lição de escrita. Custa-me

dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção.

respondeu ele com voz trêmula.

Note-se que não

era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro.

N

a lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a desenhar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espírit0, mas em todo caso ingênua.

Naquele dia foi a

mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente dava-lhes essas expressões.

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Os outros foram acabando.

não tive remédio

senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.

Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora.

e

recapitulava o campo e o morro...

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Um pai autoritário, um professor sisudo, um garoto medroso e seu colega cheio de curiosidade pela vida. Uma rua ensolarada e uma escola dos tempos da palmatória. Esses são personagens e cenários do célebre “Conto de escola”, de Machado de Assis, em quadrinhos de Silvino.

SILVINO

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Neste álbum, a Editora Peirópolis apresenta uma transposição de Machado de Assis para os quadrinhos. O texto escolhido foi “Conto de escola”, integrante do livro Várias histórias, de 1896, obra de um escritor já maduro e em pleno domínio de suas armas, exercitando a forma breve após terminar um romance – Quincas Borba, em 1891 – e guardando fôlego para a obra que o consagraria mundialmente: Dom Casmurro, em 1899. Trata-se de um belíssimo exemplar da sagacidade de Machado.

POR

Laerte Silvino nasceu em Recife, cursou Geografia e, após viajar por várias áreas exóticas do país, resolveu se dedicar à ilustração e aos quadrinhos, trocando assim a liberdade das paisagens pelas quatro paredes de seu estúdio. Desde esse dia ilustrou para alguns jornais em Pernambuco e, atualmente, para alguns jornais do Nordeste; também ilustra e faz quadrinhos com frequência para revistas de circulação nacional e livros infantis, juvenis e didáticos. Publica no site www.laertesilvino.com.br .

TEXTO INTEGRAL

O crítico literário norte-americano Harold Bloom definiu Machado de Assis como um verdadeiro “milagre” das letras brasileiras. Afinal, era mesmo muito difícil imaginar que o menino mulato nascido num morro carioca em 1839, em pleno período da escravidão, conseguiria alcançar o respeito e a credibilidade que atingiu na vida adulta. Joaquim Maria Machado de Assis – poeta, dramaturgo, crítico literário, romancista e contista – impressiona ainda hoje leitores de todos os lugares do mundo com o poder surpreendente de revelar a profundidade psicológica de seus personagens.

Conto de escola em quadrinhos traz o texto integral envolvido na leitura imagética do quadrinista Laerte Silvino, grande admirador de Machado de Assis. Laerte mostrou-se um excelente leitor, valendo-se da elegância e da sagacidade do escritor para realizar sua tradução em imagens. No conto quadrinizado, Silvino abraça características importantes da obra de Machado para conduzir o leitor pelos caminhos da memória de Pilar no banco de escola.

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