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a infiltrada


a INFILTRADA Daniel Silva Tradução Haroldo Netto


Título original em inglês: The messenger Copyright © 2006 by Daniel Silva Amarilys é um selo editorial Manole. Este livro contempla as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil. Capa Depto. de arte da Editora Manole Imagens da capa Catedral de São Pedro (fotografia), Pavel Konovalov/Bankphoto Imagem; Marguerite Gachet no jardim (pintura), Vincent van Gogh Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)    Silva, Daniel    A infiltrada / Daniel Silva ;    [tradução Haroldo Netto]. -- 1. ed. -- Barueri, SP :    Manole, 2010.    Título original: The messenger.    ISBN 978-85-204-2968-6    1. Ficção norte-americana I. Título. 09-08179 CDD-813 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, por qualquer processo, sem a permissão expressa dos editores. É proibida a reprodução por xerox. A Editora Manole é filiada à ABDR – Associação Brasileira de Direitos Reprográficos. 1o edição brasileira – 2010 Direitos em língua portuguesa adquiridos pela: Editora Manole Ltda. Av. Ceci, 672 – Tamboré 06460-120 – Barueri – SP – Brasil Tel. (11) 4196-6000 – Fax (11) 4196-6021 www.manole.com.br / www.amarilyseditora.com.br info@amarilyseditora.com.br Impresso no Brasil Printed in Brazil


Para Phyllis e Bernard Jacob, pelos muitos anos de orientação, amor e apoio. E, como sempre, para minha mulher, Jamie, e meus filhos, Lily e Nicholas.


Os sauditas são ativos em todos os níveis da cadeia do terror, de planejadores a financistas, de núcleos de treinamento a grupos de infantaria, de ideólogos a líderes motivacionais. — LAURENT MURAWIEC, RAND Corporation

A menos que as raízes ideológicas do ódio que levou ao 11 de setembro sejam combatidas, a guerra contra o terrorismo não será vencida. Será apenas uma questão de tempo até que o próximo Osama bin Laden apareça. — DORE GOLD, Hatred’s Kingdom

Nós controlaremos a terra do Vaticano. Nós controlaremos Roma e lá introduziremos o islamismo. — XEIQUE MUHAMMAD BIN ABDAL-RAHMAN AL-ARIFI, imã da mesquita da Academia Rei Fahd.


Parte  1

A Porta da Morte


capítulo  1

Londres

Foi Ali Massoudi quem inconscientemente tirou Gabriel Allon de seu breve e irrequieto repouso. Massoudi, o grande intelectual e livre pensador francamente favorável à União Europeia que, em um momento de pânico cego, esqueceu que na Inglaterra se dirige no lado esquerdo da rua. O pano de fundo do seu falecimento foi uma chuvosa noite de outubro em Bloomsbury. A ocasião foi a última sessão do primeiro Fórum Anual de Políticas para a Paz e Segurança na Palestina, Iraque e região. A conferência havia começado cedo naquela manhã, em meio a grandes esperanças e fanfarras, mas, ao final do dia, adquirira a qualidade de uma produção medíocre de um grupo de teatro mambembe. Até mesmo os manifestantes que apareceram na esperança de partilhar um pouco dos vacilantes refletores deram a impressão de saber que estavam lendo o mesmo script velho e cansado. O presidente americano foi queimado em efígie às dez 11


horas. O primeiro-ministro israelense foi levado à chama purificadora às onze. Na hora do almoço, em meio a um dilúvio que por alguns instantes transformou a Russell Square em um lago, houve um tumulto que tinha qualquer coisa a ver com os direitos das mulheres na Arábia Saudita. Às oito e meia, quando o martelo bateu dando por encerrada a última conferência, as duas dúzias de estoicos que permaneceram até o final se organizaram em fila, entorpecidos, em direção às saídas. Os organizadores do evento detectaram pouco entusiasmo para um compromisso de retorno no outono seguinte. Um ajudante de palco adiantou-se e removeu um cartaz do púlpito que dizia: gaza liberada — e agora? O primeiro conferencista foi Sayyid, da London School of Economics, defensor dos homens-bomba, entusiasta da al-Qaeda. Em seguida foi o austero Chamberlain, de Cambridge, que falou da Palestina e dos judeus como se eles ainda representassem um dilema para os homens de terno escuro do Foreign Office. Durante toda a discussão, o idoso Chamberlain servira como uma espécie de “cerca de separação” entre o incendiário Sayyid e uma pobre coitada da embaixada de Israel chamada Rachel, que atraía vaias e assobios de desaprovação cada vez que abria a boca. Chamberlain tentou desempenhar o papel de guardião da paz quando Sayyid perseguiu-a até a porta gritando que os seus dias como colonizadora estavam chegando ao fim. Ali Massoudi, professor graduado de governança global e ­teoria social na Universidade de Bremen, foi o último a se levantar. O que dificilmente surpreenderia alguém, poderiam ter dito seus ciumentos colegas, pois no mundo incestuoso dos estudos sobre o Oriente Médio, Massoudi tinha a reputação de ser uma pessoa que nunca cedia voluntariamente uma posição. Palestino por nascimento, jordaniano por passaporte e europeu por criação e educação, o professor Massoudi parecia para todos ser um homem 12


moderado. O “futuro reluzente da Arábia”, era como o chamavam. A verdadeira face do progresso. Era conhecido por desconfiar das religiões em geral e do Islã militante em particular. Nos editoriais da imprensa, nos salões onde dava palestras e na televisão, podia-se sempre contar com ele para lamentar a disfunção do mundo árabe. Seu fracasso em fornecer educação a seu povo. Sua tendência em culpar os americanos e os sionistas por todas as suas doenças. Seu último livro fora, basicamente, uma forte defesa de uma reforma islâmica. Os partidários da jihad o culparam por heresia. Os moderados proclamaram que ele tinha a coragem de Martinho Lutero. Naquela tarde ele dissera, para enorme consternação de Sayyid, que a bola estava evidentemente na quadra da Palestina. Enquanto os palestinos não se afastassem da cultura do terror, disse Massoudi, não se podia esperar que os israelenses cedessem um centímetro da Cisjordânia. Nem deveriam. “Sacrilégio”, gritara Sayyid. “Heresia”. O professor Massoudi era alto, tinha um pouco mais de um metro e oitenta de altura e uma aparência boa demais para um homem que trabalhava muito próximo de jovens mulheres impressionáveis. O cabelo era escuro e cacheado, os ossos do rosto largos e fortes. O queixo quadrado tinha uma fenda profunda no centro. Os olhos eram castanhos e bem fundos, dando à sua expressão um ar de inteligência profunda e tranquilizadora. Vestido como estava agora, com uma jaqueta esporte de caxemira e um suéter com gola rulê na cor creme, era o próprio arquétipo do intelectual europeu. Ele havia trabalhado duro para conseguir essa imagem. Sendo naturalmente um homem de movimentos deliberados, arrumou de forma metódica os papéis e canetas na pasta bastante viajada, depois desceu os degraus do palco e subiu o corredor central na direção da saída. Diversos membros da plateia matavam tempo no saguão. De pé em um dos lados, uma ilha tempestuosa em um mar a não ser 13


por isso tranquilo, estava a garota. Usava jeans desbotados, jaqueta de couro e, em volta do pescoço, um kaffiyeh xadrez — o pano para cobrir a cabeça usado pelos palestinos. Seu cabelo negro brilhava como a asa de um pássaro. Os olhos eram quase pretos também, mas o brilho que havia neles era diferente. Seu nome era Hamida al-Tatari. Uma refugiada, dissera ela. Nascida em Amã, criada em Hamburgo, agora uma cidadã canadense que residia no norte de Londres. Massoudi a conhecera naquela tarde em uma recepção da união dos estudantes. Durante um café ela o acusara ardorosamente de se escandalizar pouco com os crimes de americanos e judeus. Massoudi gostou do que viu. Planejaram se encontrar para tomar alguns drinques naquela noite em um bar de vinhos perto do teatro na Sloane Square. As intenções dele não eram românticas. Não era o corpo de Hamida o que ele queria. Era seu entusiasmo e sua ficha limpa. Seu inglês perfeito e seu passaporte canadense. Ela lhe dirigiu um olhar furtivo quando ele cruzou o saguão, mas não tentou falar com ele. “Mantenha distância após o simpósio”, ele a instruíra naquela tarde. “Um homem na minha posição tem de ser cauteloso a respeito de com quem é visto.” Do lado de fora, ele se protegeu por um momento debaixo do pórtico e ficou contemplando o trânsito movendo-se muito devagar na rua ­molhada. Sentiu que alguém encostava no seu cotovelo e viu quando ­Hamida mergulhou sem uma palavra no aguaceiro. Esperou até que ela desaparecesse, pendurou a pasta no ombro e saiu na direção ­oposta, a do seu hotel na Russell Square. A mudança se apoderou dele — a mesma mudança que sempre ocorria toda vez que ele passava de uma vida para outra. A aceleração do pulso, o aguçar dos sentidos, o súbito apego a pequenos detalhes. Por exemplo, o jovem calvo caminhando na sua direção sob o abrigo de um guarda-chuva, cujo olhar pareceu demorar-se no rosto de Massoudi um instante longo demais. Ou o homem da banca de jornais que encarara Massoudi ousadamente 14


quando este comprara um exemplar do Evening Standard. Ou o motorista de táxi de olho nele, trinta segundos mais tarde, quando largou o mesmo jornal dentro de um cesto de lixo em Upper ­Woburn Place­. Um ônibus passou por ele. Enquanto seguia lentamente vencendo seu caminho, Massoudi espiou através das suas janelas embaçadas pela neblina e viu uns dez rostos cansados, quase todos negros ou pardos. Os novos habitantes de Londres, pensou, e por um momento o professor de governança global e teoria social lutou com as implicações desse pensamento. Quantos simpatizavam secretamente com a sua causa? Quantos assinariam na linha pontilhada quando colocados diante de um contrato de morte? No rastro do ônibus, na calçada oposta, havia um único pedestre: capa de oleado, rabo de cavalo curto e grosso, duas linhas retas como sobrancelhas. Massoudi o reconheceu de imediato. O rapaz estava na conferência — mesma fileira de Hamida, mas do lado oposto do auditório. Sentou-se no mesmo lugar de manhã, quando Massoudi fora a única voz discordante durante o painel que discutia os benefícios de impedir o trânsito de acadêmicos israelenses na ­Europa. Massoudi abaixou o olhar e continuou andando, enquanto sua mão esquerda involuntariamente segurou a tira que sustentava a maleta no ombro. Estaria sendo seguido? Em caso afirmativo, por quem? A explicação mais provável era o MI5. A mais provável, lembrou a si mesmo, mas não a única. Talvez o BND, o serviço de inteligência alemão, tivesse o seguido de Bremen até Londres. Ou talvez ainda estivesse sob vigilância da CIA. Mas foi a quarta possibilidade que fez o coração de Massoudi bater subitamente contra a caixa torácica. E se o homem não fosse inglês, alemão ou americano? E se ele trabalhasse para um serviço de inteligência que tivesse poucos escrúpulos quanto a liquidar seus inimigos, mesmo em ruas de capitais estrangeiras? Um serviço 15


de inteligência com o histórico de usar mulheres como isca. Pensou no que Hamida lhe dissera à tarde. — Passei a maior parte da infância em Toronto. — E antes disso? — Em Amã, quando eu era muito menina. Depois um ano em Hamburgo. Sou palestina, professor. Meu lar é uma mala. Massoudi fez uma volta súbita para longe de Woburn Place e entrou no emaranhado de ruas secundárias de St. Pancras. Após alguns poucos passos ele reduziu o ritmo e olhou por cima de seu ombro. O homem da capa de oleado cruzara a rua e o estava seguindo. Ali Massoudi apertou o passo, fez uma série de voltas para a esquerda e para a direita. Aqui uma fila de mews houses, as residências que haviam sido estábulos reais, ali um bloco de apartamentos, mais adiante uma praça vazia juncada de folhas mortas. Massoudi pouco viu de tudo isso. Tentava manter seu senso de orientação. Conhecia as principais vias de acesso de Londres muito bem, mas as ruas laterais eram um mistério para ele. Abandonou todos os cuidados típicos da técnica de espionagem e passou a olhar para trás com frequência. Cada olhada parecia encontrar o homem um ou dois passos mais perto. Chegou a um cruzamento, olhou para a esquerda e viu o trânsito fluindo ao longo da Euston Road. Do lado oposto, sabia, ficavam as estações de King’s Cross e St. Pancras. Virou nessa direção e, poucos segundos mais tarde, olhou por cima do ombro. O homem tinha contornado a esquina e vinha atrás dele. Começou a correr. Nunca fora muito atlético, e os anos de profissão acadêmica roubaram o preparo físico do seu corpo. O peso do laptop na maleta servia como uma âncora. Batia no seu quadril a cada passada. Segurou-a com o cotovelo e agarrou a tira com a outra mão, o que deu à sua corrida, no entanto, um ritmo 16


desajeitado que reduziu ainda mais a sua velocidade. Pensou em desfazer-se do peso morto, mas, ao contrário, segurou-o com mais força. Em mãos erradas, o laptop seria um enorme tesouro de informações. Assuntos pessoais, fotografias de vigilância, links de comunicação, contas bancárias... Parou em Euston Road, tropeçando. Ao olhar por cima do ombro, viu o homem que o perseguia ainda caminhando metodicamente em sua direção, mãos nos bolsos, olhos baixos. Olhou para sua esquerda, viu o asfalto vazio e tirou o pé do meio-fio. O barulho da buzina do caminhão foi o último som que Ali Massoudi ouviu. Com o impacto, a maleta soltou-se, saiu voando, girou diversas vezes no ar enquanto pairava acima da rua e caiu no chão com um golpe sólido. O homem da capa de oleado quase não teve de reduzir o passo para abaixar-se e pegá-la pela tira. Ajeitou-a de modo hábil no ombro, atravessou a Euston Road e seguiu as pessoas que saíam do trabalho e iam pegar o trem em King’s Cross.

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capítulo  2

JERUSALÉM

A maleta chegou a Paris de madrugada e às onze deu entrada em um edifício de escritórios de aparência impessoal no King Saul Boulevard, em Tel Aviv. Lá, os objetos de uso pessoal do professor foram inspecionados apressadamente, enquanto o disco rígido do laptop foi submetido à demorada inspeção de uma equipe de gênios da informática. Por volta das três horas da tarde, o primeiro pacote de inteligência tinha sido expedido ao gabinete do primeiro-ministro em Jerusalém, e às cinco, uma pasta de papel pardo contendo o material mais alarmante estava na parte de trás de uma limusine Peugeot blindada, seguindo para a rua Narkiss, uma rua estreita tranquila e repleta de árvores frondosas, não muito longe do importante centro de compras Ben Yehuda Mall. O carro parou em frente ao pequeno edifício de apartamentos situado no número 16. Ari Shamron, que chefiara por duas vezes o serviço secreto israelense e agora era assessor especial do primeiro18


ministro em todas as questões vinculadas a segurança e inteligência, emergiu do banco de trás. Rami, o homem de olhos negros que chefiava sua segurança pessoal, seguiu-o em silêncio. Shamron fizera um número incontável de inimigos durante a longa e turbulenta carreira, e por causa da confusa e emaranhada demografia de Israel, muitos desses inimigos ocupavam posições desconfortavelmente próximas. Shamron, mesmo quando se encontrava no interior de sua villa em Tiberíades — que mais parecia uma fortaleza —, estava sempre cercado de guarda-costas. Ele fez uma rápida pausa no caminho que atravessava o jardim e levantou os olhos. Tratava-se de um edifício antigo típico de Jerusalém, com acabamento em arenito, três andares de altura e um enorme eucalipto na frente, que fazia uma sombra agradável nas varandas. Os galhos do eucalipto oscilavam ao primeiro vento frio do outono, e da janela aberta do terceiro andar vinha o odor acentuado de solvente de tinta. Ao entrar no saguão, Shamron deu uma olhada na caixa de correio do apartamento número três e reparou na ausência de uma placa com o nome do morador. Enfrentou a escada e subiu com passos vagarosos e pesados. Era um homem baixo e vestia, como sempre, calça c��qui e uma jaqueta de couro cheia de arranhões e um rasgo no lado direito do peito. Seu rosto era cheio de rugas e fissuras, e a orla remanescente de cabelo branco era raspada de modo a se tornar praticamente invisível. As mãos eram curtidas e pareciam ter sido emprestadas por um homem com duas vezes o tamanho dele. Em uma delas estava o arquivo. A porta estava entreaberta quando ele chegou ao terceiro andar. Colocou os dedos sobre ela e empurrou delicadamente. O apartamento em que entrou havia sido meticulosamente decorado por uma bela judia italiana de gosto impecável. Agora, a mobília, tal como a linda italiana, desaparecera, e o apartamento fora transformado no estúdio de um pintor. Não era bem um pintor, Shamron 19


precisava lembrar a si mesmo. Gabriel Allon era um restaurador — um dos três ou quatro mais valorizados em todo o mundo. Ele estava agora em pé diante de uma tela enorme que representava um homem cercado por imensos felinos preda­dores. Shamron sentou-se silenciosamente em um banquinho manchado de tinta e ficou observando Gabriel trabalhar por alguns momentos. Sempre se sentira desconcertado com a capacidade que ele tinha de imitar as pinceladas dos Velhos Mestres. Para Shamron, tratava-se de algo semelhante a um número de mágica de salão, apenas outro dos dons de Gabriel a serem utilizados, como os idiomas que falava ou sua capacidade de sacar uma Beretta do quadril em posição de tiro no tempo em que a maioria dos homens leva para bater palmas. — Certamente tem uma aparência melhor agora do que quando chegou — disse Shamron. — Mas ainda não sei por que alguém haveria de querer pendurá-lo em casa. — Não irá para uma casa particular — disse Gabriel, levando o pincel à tela. — Esta é uma peça de museu. — Quem pintou? — indagou Shamron abruptamente, como se estivesse querendo se informar sobre o autor de um bombar­deio. — A casa de leilões Bonhams, em Londres, pensou que fosse Erasmus Quellinus — disse Gabriel. — Quellinus pode ter preparado a base, mas para mim está claro que Rubens terminou para ele — Gabriel moveu a mão por cima da tela ampla. — Suas pinceladas estão por toda parte. — Que diferença faz? — Cerca de dez milhões de libras — disse Gabriel. — Julian vai se sair muitíssimo bem com este quadro. Julian Isherwood era negociante de arte em Londres e, eventualmente, agente secreto do serviço de inteligência de Israel. O serviço tinha um nome comprido que tinha muito pouco a ver com sua verdadeira natureza. Homens como Shamron e Gabriel referiam-se a ele como o Serviço e nada mais. 20


— Espero que Julian esteja lhe pagando uma compensação justa. — Meus honorários pela restauração mais uma pequena comissão pela venda. — Qual é o total? Gabriel bateu com o pincel na paleta e voltou a trabalhar. — Precisamos conversar — disse Shamron. — Então fale. — Não vou falar com as suas costas — Gabriel virou-se e olhou para Shamron mais uma vez através das lentes do seu visor de aumento. — E não vou falar também enquanto você estiver usando esse troço. Fica parecendo algo que saiu dos meus pesadelos­. Relutante, Gabriel pôs a paleta em cima da mesa de trabalho e removeu o visor, revelando um par de olhos que eram de um impressionante verde-esmeralda. Ele era abaixo da média em altura e tinha o tipo físico magro de um ciclista. Seu rosto era alto na testa e estreito no queixo, e o nariz comprido e ossudo parecia ter sido esculpido em madeira. O cabelo era cortado curto e com mechas grisalhas nas têmporas. Era por causa de Shamron que Gabriel era restaurador e não um dos melhores pintores de sua geração. Fora por causa de Shamron também que suas têmporas tinham ficado grisalhas praticamente da noite para o dia quando tinha vinte e poucos anos. Shamron havia sido o oficial de inteligência escolhido por Golda Meir para caçar e assassinar os autores do Massacre de Munique de 1972, e um promissor estudante de arte chamado Gabriel Allon fora seu principal atirador. Ele gastou alguns minutos limpando a paleta e os pincéis, e depois foi para a cozinha. Shamron sentou-se à mesinha e esperou que Gabriel virasse de costas para acender apressadamente um de seus cigarros turcos malcheirosos. Gabriel, ouvindo o familiar clique-clique do velho Zippo de Shamron apontou para o Rubens, 21


exasperado, mas Shamron fez um gesto indicando que ia desconsiderar a reclamação e levou desafiadoramente o cigarro aos lábios. Um silêncio confortável estabeleceu-se entre os dois homens enquanto Gabriel enchia a chaleira com água engarrafada e punha pó de café na cafetière. Shamron sentiu-se contente ao ouvir o vento sacudir os eucaliptos lá fora no jardim. Fervorosamente leigo, ele marcava a passagem do tempo não pelas festas judaicas, mas sim pelo ritmo da terra — os dias em que a chuva caía, o dia em que as flores silvestres explodiam na Galileia, o dia em que os ventos frios retornavam. Gabriel lia seus pensamentos. Outro outono, e nós ainda aqui. O compromisso não fora revogado. — O primeiro-ministro quer uma resposta — o olhar de ­Shamron ainda estava fixo no pequeno jardim. — Ele é um homem paciente, mas não vai esperar para sempre. — Eu disse para você que daria uma resposta quando tivesse terminado com a pintura. Shamron olhou para Gabriel. — A sua arrogância não conhece fronteiras? O primeiro-ministro do Estado de Israel o quer como chefe das Operações Especiais, e você o põe de lado por causa de uma tela de quinhentos anos. — Quatrocentos. Gabriel carregou o café para a mesa e serviu duas xícaras. ­Shamron pôs açúcar na sua e mexeu com violência uma única vez. — Você disse que a pintura está quase terminada. Qual será sua resposta? — Não decidi. — Posso lhe oferecer um conselho? — E se eu não quiser seu conselho? — Eu o daria de qualquer maneira — Shamron esmagou a ponta do cigarro. — Você devia aceitar a oferta antes que o primeiroministro a faça a outra pessoa. — Nada me deixaria mais feliz. 22


— Mesmo? E o que você faria da sua vida? — saudado pelo silêncio de Gabriel, Shamron continuou a pressionar. — Permita-me pintar um quadro para você, Gabriel. Farei o que estiver melhor ao meu alcance. Não sou talentoso como você. Não descendo de uma grande família intelectual judia alemã. Não passo de um pobre judeu polaco cujo pai vendia panelas que carregava em um carrinho de mão. O mortífero sotaque polonês de Shamron ficou mais forte. Gabriel não conseguiu conter um sorriso. Sabia que sempre que Shamron desempenhava o papel do oprimido judeu de Lvov, com certeza se seguiria algo de divertido. — Você não tem outro lugar para ir, Gabriel. Você mesmo disse isso quando nós lhe oferecemos o emprego pela primeira vez. O que você vai fazer quando terminar com este seu Rubens? Tem mais algum trabalho na fila? — a pausa que Shamron fez foi dramática, porque ele sabia que a resposta seria negativa. — Você não pode voltar para a Europa senão quando for oficialmente declarado inocente no bombardeio da Gare de Lyon. Julian pode lhe mandar outra pintura, mas um dia isso também vai terminar porque as despesas de embalagem e transporte reduzirão os já tênues lucros dele. Compreende, Gabriel? — Com toda clareza. Você está tentando usar minha infortunada situação como meio de me chantagear e me forçar a assumir o cargo de chefe de operações. — Chantagear? Não, Gabriel, eu conheço o significado da palavra chantagear, e Deus sabe que sou conhecido por usá-la quando convém às minhas necessidades. Mas isso não é chantagem. Estou tentando ajudar você. — Ajudar? — Diga-me uma coisa, Gabriel: o que você planeja fazer para ganhar dinheiro? — Eu tenho dinheiro. 23


— O bastante para viver como um eremita, mas não o suficiente para viver — Shamron caiu em um silêncio momentâneo e ouviu o vento. — Está quieto agora, não está? Quase tranquilo. É tentador pensar que pode continuar assim para sempre. Mas não pode. Nós demos Gaza a eles sem pedir nada em troca, e eles nos pagaram escolhendo, numa eleição livre, o Hamas para governálos. A seguir, vão querer a Cisjordânia, e se nós não nos rendermos imediatamente, haverá outra rodada de derramamento de sangue, muito pior inclusive que a Segunda Intifada. Acredite em mim, Gabriel, um dia, muito em breve, tudo começará de novo. E não apenas aqui. Em toda parte. Você pensa que eles estão sentados em cima das mãos sem fazer nada? Claro que não. Planejam a próxima campanha. Também conversam com Osama e seus amigos. Hoje temos certeza de que a Autoridade Palestina foi totalmente infiltrada pela al-Qaeda e suas afiliadas. Sabemos também que eles estão planejando ataques importantes contra Israel e alvos israelenses no exterior em futuro muito próximo. O Serviço acredita também que o primeiro-ministro foi designado como alvo para ser assassinado, bem como alguns assessores especiais. — Inclusive você? — Claro — respondeu Shamron. — Afinal, eu sou o assessor especial do primeiro-ministro para todos os assuntos relacionados a segurança e terrorismo. Minha morte seria uma tremenda vitória simbólica para eles. Ele olhou pela janela de novo e contemplou o vento sacudindo as árvores. — Irônico, não é mesmo? Este lugar deveria ser o nosso san­ tuário. Agora, de um modo estranho, nos deixou mais vulneráveis que nunca. Quase a metade dos judeus existentes no mundo mora nesta minúscula faixa de terra. Um pequeno dispositivo nuclear é tudo o que seria necessário para acabar conosco. Os americanos

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poderiam sobreviver. Os russos mal notariam. Mas nós? Uma bomba em Tel Aviv mataria um quarto da população do país, talvez mais. — E você precisa de mim para impedir este apo­­calipse? Pensei que o Serviço estivesse em boas mãos atual­mente­. — As coisas estão definitivamente melhores, agora que Lev foi expulso. Amos é um líder e administrador extraordinariamente competente, mas, às vezes, eu penso que ele tem uma porção soldado exagerada. — Ele foi chefe tanto da Sayeret Matkal como da Aman. O que você esperava? — Nós já sabíamos como seria com Amos, mas o primeiroministro e eu estamos agora preocupados que ele esteja tentando transformar o King Saul Boulevard em um posto avançado da Força de Defesa de Israel. Queremos que o Serviço preserve seu caráter original. — Insanidade? — Ousadia — contrapôs Shamron. — Audácia. Eu só queria que Amos pensasse um pouco menos como um comandante de campo e um pouco mais como... — sua voz desapareceu ­enquanto ele procurava a palavra certa. Quando encontrou, esfregou os dois primeiros dedos contra o polegar e disse: — Como um artista. Preciso de alguém ao seu lado que pense mais como Caravaggio­. — Caravaggio era louco. — Exatamente. Shamron começou a acender outro cigarro, mas desta vez Gabriel conseguiu impedi-lo, segurando sua mão antes que ele usasse o isqueiro. Shamron o encarou, seus olhos ficaram subitamente sérios. — Precisamos de você agora, Gabriel. Duas horas atrás o chefe das Operações Especiais entregou sua carta de demissão a Amos. — Por quê?

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— Londres — Shamron abaixou os olhos para sua mão presa. — Posso? Gabriel largou o pulso grosso. Shamron rolou o cigarro apagado entre o polegar e o indicador. — O que aconteceu em Londres? — perguntou Gabriel. — Receio que tenha ocorrido um infortúnio lá ontem à noite­. — Infortúnio? Quando o Serviço tem infortúnios, alguém geralmente acaba morrendo. Shamron assentiu. — Bem, pelo menos pode-se dizer algo a respeito de nossa coerência. — O nome Ali Massoudi significa algo para você? — Ele é professor de qualquer coisa em uma universidade na Alemanha — respondeu Gabriel. — Gosta de desempenhar o papel de iconoclasta e reformador. Na verdade, já me encontrei com ele uma vez. As sobrancelhas de Shamron ergueram-se com surpresa. — É mesmo? Onde? — Ele foi a Veneza uns dois anos atrás para um grande simpósio sobre o Oriente Médio. Como parte do pacote pago, os participantes tiveram direito a um tour guiado pela cidade. Uma das paradas foi na igreja de São Zacarias, onde eu restaurava o retábulo de Bellini. Por diversos anos, Gabriel morara e trabalhara em Veneza sob o nome de Mario Delvecchio. Seis meses atrás, fora obrigado a fugir da cidade após ter sido descoberto por um importante terrorista palestino chamado Khaled al-Khalifa. O caso terminara na Gare de Lyon e, como consequência, o nome de Gabriel e o seu passado secreto foram divulgados por toda a França e imprensa europeia. Um texto no The Sunday Times, inclusive, referia-se a ele como o “Anjo da Morte de Israel”. Gabriel ainda era procurado 26


pela polícia de Paris para interrogatório, e um grupo palestino de direitos civis entrara com um processo contra ele em Londres, acusando-o de crimes de guerra. — E você chegou mesmo a conhecer Massoudi? — perguntou Shamron, incrédulo. — Apertou a mão dele? — Como Mario Delvecchio, claro. — Suponho que não percebeu estar apertando a mão de um terrorista. Shamron meteu a ponta do cigarro entre os lábios e acionou seu Zippo. Dessa vez, Gabriel não interveio. — Três meses atrás, recebemos uma dica de um amigo do Departamento de Inteligência Jordaniano de que o professor Ali Massoudi, o grande intelectual moderado e reformador, era na verdade um caçador de talentos da al-Qaeda. De acordo com os jordanianos, ele andava procurando recrutas para atacar alvos israelenses e judeus na Europa. Conferências de paz e manifestações anti-Israel eram seus verdadeiros campos de caça. Não ficamos surpresos com essa parte. Já sabíamos havia algum tempo que as conferências de paz tornaram-se um ponto de encontro para agentes operacionais da al-Qaeda e extremistas europeus, tanto de esquerda como de direita. Decidimos que seria bom colocar o professor Massoudi sob vigilância. Grampeamos o tele­f one do seu apartamento em Bremen, mas o resultado foi decepcionante, para dizer o mínimo. Ele era muito bom ao telefone. Então, um mês atrás, o escritório de Londres colaborou com uma informação valiosa e oportuna. Ao que parece, a seção cultural da embaixada em Londres recebeu um convite para enviar um representante a uma coisa chamada Fórum de Políticas para a Paz e Segurança na Palestina, Iraque e região. Quando a embaixada pediu uma lista dos participantes, adivinha que nome apareceu? — Professor Ali Massoudi. 27


— A seção cultural concordou em mandar um representante para a conferência e a Operações Especiais decidiu não perder Massoudi de vista. — Que tipo de operação era? — Simples — respondeu Shamron. — Pegá-lo no ato. Comprometê-lo. Ameaçá-lo. Fazer com que mudasse de lado. Você pode imaginar? Um agente dentro do departamento pessoal da al-Qaeda­? Com a ajuda de Massoudi, poderíamos ter levantado todas as suas redes operacionais europeias. — E o que aconteceu? — Pusemos uma garota em cima dele. Ela usa o nome de Hamida al-Tatari. Seu nome verdadeiro é Aviva e ela é de Ramat Gan, mas isso não tem importância. Ela conheceu Massoudi em uma conferência. Massoudi ficou interessado e concordou em se encontrar com ela naquela noite para uma discussão mais demorada a respeito do atual estado do mundo. Seguimos Massoudi depois da última sessão da conferência, mas tudo indica que ele localizou quem o seguia e começou a correr. Olhou para o lado errado da rua quando foi atravessar a Euston Road e pisou na frente de um caminhão de entregas. Gabriel estremeceu. — Felizmente não saímos com as mãos inteiramente vazias — disse Shamron. — Nosso agente que seguia Massoudi escapou com a maleta dele, que, entre outras coisas, guardava o seu laptop. Parece que o professor Ali Massoudi era mais que um simples caçador de talentos. Shamron colocou o arquivo em frente a Gabriel e, com um curto gesto de cabeça, instruiu-o para que abrisse a capa. Dentro, ele encontrou uma pilha de fotografias: a Praça de São Pedro vista de mais de dez ângulos diferentes; a fachada e o interior da basílica; a Guarda Suíça Pontifícia vigiando o Arco dos Sinos, uma das três entradas do Vaticano. Era claro que as fotos não tinham sido feitas 28


por um turista comum, porque o operador da câmera se interessara muito menos pela estética visual do Vaticano do que pelas medidas de segurança que o cercavam. Havia diversas tomadas das barricadas dispostas ao longo do limite ocidental da praça e dos detectores de metal na Colunata de Bernini — e mais outras da Vigilanza e dos Carabinieri que patrulhavam a praça durante grandes reuniões, incluindo closes de suas armas portáteis. As três fotografias finais mostravam o papa Paulo VII saudando a multidão que lotava a Praça de São Pedro em seu papamóvel. A lente da câmera tinha focado não o santo padre, mas sim os guardas suíços de roupa comum que andavam ao seu lado. Gabriel viu as fotos uma segunda vez. Baseado na qualidade da luz e na roupa usada pela multidão de peregrinos, parecia que tinham sido feitas em três ocasiões diferentes. Vigilância fotográfica repetida do mesmo alvo, sabia ele, era uma característica da seriedade de uma operação da al-Qaeda. Fechou a pasta e a devolveu a Shamron, mas este não quis aceitá-la. Gabriel analisou a expressão do homem mais velho com a mesma intensidade que estudara as fotos. Podia assegurar que más notícias ainda estavam por vir. — Nossos técnicos encontraram outra coisa no computador de Massoudi — disse Shamron. — Instruções para acessar uma conta numerada de um banco em Zurique — uma conta da qual tínhamos conhecimento há algum tempo, porque recebia infusões regulares de dinheiro de uma coisa chamada o Comitê para a Libertação de al-Quds. Al-Quds era o nome árabe para Jerusalém. — Quem está por trás dele? — perguntou Gabriel. — A Arábia Saudita — respondeu Shamron. — Ou, para ser mais explícito, o ministro do interior da Arábia Saudita, príncipe Nabil. Dentro do Serviço, Nabil era rotineiramente conhecido como o Príncipe das Trevas, em razão do seu ódio por Israel e pelos 29


­ stados Unidos e do seu apoio à militância islâmica em todo o E ­mundo. — Nabil criou o comitê no auge da Segunda Intifada — continuou Shamron. — Ele próprio levanta o dinheiro e supervisiona pessoalmente a distribuição. Acreditamos que tenha cem milhões de dólares à sua disposição, dinheiro que ele está distribuindo para alguns dos mais violentos grupos no mundo, inclusive para elementos da al-Qaeda. — Quem está dando o dinheiro a Nabil? — Ao contrário de outras caridades sauditas, o Comitê para a Libertação de al-Quds tem uma pequena base de doadores. Achamos que ele levanta o dinheiro de um punhado de multinacionais sauditas. Shamron olhou profundamente para o seu café por um momento. — Caridade — disse ele, em tom de voz desdenhoso. — Uma linda palavra, não é mesmo? Mas a caridade saudita tem sido sempre uma faca de dois gumes. A Liga Mundial Muçulmana, a Associação de Ajuda Internacional Islâmica, a Fundação al-Haramayn Islâmica, a Fundação Internacional de Benevolência — todas são para a Arábia Saudita o que o Comintern era para a antiga União Soviética. Um meio de propagar a fé. Islã. E não qualquer forma de Islã. O estilo puritano do Islã da Arábia Saudita, o wahhabismo. As instituições de caridade construíam mesquitas e centros islâmicos por todo o mundo, além das escolas — as madrassas — que fabricavam os militantes wahhabistas do futuro. E tudo isso proporcionava financiamento direto para os terroristas, inclusive nossos amigos do Hamas. Os motores da América funcionavam com petróleo saudita, mas as redes do terrorismo islâmico global funcionavam basicamente em cima do dinheiro saudita.

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— A caridade é o terceiro pilar do Islã — disse Gabriel. — Zakat. — É uma nobre qualidade — disse Shamron —, exceto quando o zakat termina nas mãos de assassinos. — Você acha que Ali Massoudi tinha alguma outra ligação com os sauditas, além de dinheiro? — Pode ser que nunca venhamos a saber, porque o grande professor não se encontra mais entre nós. Mas fosse quem fosse o grupo para quem ele estivesse trabalhando, tinha claramente o Vaticano como alvo — e alguém precisa dizer isso a eles. — Suspeito que você tem alguém em mente para esse trabalho. — Considere a primeira missão do seu trabalho como chefe das Operações Especiais — respondeu Shamron. — O primeiro-ministro quer que você preencha a vaga. Imediatamente. — E Amos? — Amos tem outra pessoa em mente, mas o primeiro-ministro e eu deixamos bem claro o nome de quem queremos para o t­ rabalho. — Não se pode considerar que meu currículo seja livre de escândalos, e, lamentavelmente, o mundo agora tem conhecimento a respeito dele. — O caso da Gare de Lyon? — Shamron deu de ombros. — Você foi atraído para lá por um oponente esperto. Ademais, sempre acreditei que uma carreira livre de controvérsias não é propriamente uma carreira. O primeiro-ministro compartilha do meu ponto de vista. — Talvez seja porque ele próprio tenha se metido numa boa quantidade de escândalos — Gabriel suspirou fundo e examinou as fotos mais uma vez. — Há riscos em me mandar para Roma. Se os franceses descobrirem que estou em solo italiano... — Não é preciso que vá a Roma — interveio Shamron. — Roma está vindo até você. — Donati?

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Shamron fez que sim. — Quanto disso você contou a ele? — O bastante para ele pedir à Alitalia um avião emprestado por algumas horas — disse Shamron. — Ele estará aqui de manhã bem cedo. Mostre a ele as fotos. Diga-lhe tudo o que for preciso dizer para impressioná-lo com a ideia de que pensamos se tratar de uma ameaça digna de crédito. — E se ele pedir ajuda? Shamron deu de ombros. — Dê tudo o que ele precisar.

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A infiltrada