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Humberto V. Presser

O PROTESTANTISMO


Humberto V. Presser

O PROTESTANTISMO

editora

são paulo – 2010


editora

Esta obra é uma publicação da Editora Lexia Ltda. www.editoralexia.com.br / © 2010. São Paulo, SP Editores-responsáveis

Capa e Diagramação

Fabio Aguiar

Equipe Lexia

Alexandra Aguiar Revisão Projeto gráfico

Bianca Briones

Fabio Aguiar Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP P935p Presser, Humberto V. O Protestantismo /Humberto V. Presser. -- São Paulo: Lexia, 2010. 96 p. ISBN: 978-85-63557-22-3 1. Protestantismo. I. Título

CDD -280.4


Imagem com base no monumento Ă  Martinho Lutero em Dresden, Alemanha.


SUMÁRIO

Introdução ............................................ 9 1. Origem e Fundador ........................ 19 2. Ética e Moral .................................. 47 3. Expansão e Ramificações ............... 57 4. O Protestantismo no Brasil ........... 69 5. Escatologia ..................................... 75 Conclusão ........................................... 89 Bibliografia .......................................... 93


INTRODUÇÃO

O

Protestantismo foi a campanha da Reforma Luterana, a Dieta de Espira (Alemanha) resolveu que não se fariam mudanças religiosas na Alemanha até a reunião de um concílio geral; por conseguinte, católicos e luteranos ficariam nas posições até então assumidas. Esse decreto provocou o protesto de seis príncipes e

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quatorze cidades imperiais em 19 de abril de 1.527. Daí o nome de protestantes que lhes foi dado. O substantivo ‘protestante’ só entrou em uso no século XVII, passando a designar todos os cristãos reformados que se opusessem a Roma. Atualmente, esses irmãos preferem se chamar ‘evangélicos’, como se autodenominavam os reformados do século XVI.” (BETTENCOURT, Estêvão. Crenças, religiões, igrejas e seitas: quem são? p. 20). Portanto, é importante ressaltar, desde o início, que as palavras “protestante” e “protestantismo” não dizem respeito simplesmente ao conjunto de igrejas que

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têm, como objetivo precípuo, “protestar” contra a igreja católica ou contra o catolicismo, como se a razão de ser do protestantismo fosse protestar contra a igreja católica. Ao contrário, a essência do protestantismo é resgatar e anunciar o genuíno Evangelho de Jesus Cristo conforme consignado na Escritura Sagrada. Foi com esse objetivo que Martinho Lutero (1483-1546), monge alemão da ordem dos agostinianos, empreendeu sua batalha contra o que considerou ser os erros mais graves da Igreja medieval, especialmente a obrigatoriedade das obras para a salvação do crente (em oposição à

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salvação por graça e fé, conforme aprendemos na Escritura Sagrada, particularmente nas epístolas de Paulo Aos Romanos, Aos Gálatas, Aos Efésios e Aos Colossenses). Em 31 de outubro de 1517 – data que se convencionou considerar o marco inicial da Reforma Protestante – Lutero tornou públicas as suas “Noventa e cinco teses” acerca do comércio das indulgências. Considerando que essa prática não dispunha de fundamento claro na Bíblia, Lutero, junto como outros reformadores, deu início a uma persistente investigação de tudo aquilo que, na doutrina e na prática da Igreja, não encontrasse respaldo explícito na Sagrada Escritura ou que se

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opusesse a ela. Pois para os reformadores do século XVI, assim como para todas as igrejas legitimamente oriundas da Reforma, a Bíblia Sagrada é a autoridade máxima em matéria de fé e prática. Há um aspecto do protestantismo é importante destacar nessa parte introdutória, pois esse aspecto tem sido superestimado e utilizado como munição, particularmente por estudiosos católicos, para atacar o protestantismo. Refiro-me à diversidade de igrejas e confissões protestantes. Até o século XVI, o clero detinha o monopólio da interpretação da Escritura Sagrada. Além disso, o povo

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não tinha acesso à Escritura (tanto por causa do analfabetismo que imperava quanto pela falta de interesse da liderança da Igreja em que o povo conhecesse o Texto Sagrado). A partir da Reforma, a Sagrada Escritura começou a ser lida e estudada por todo o povo. A liberdade de acesso à Escritura, inevitavelmente, teve um preço: a multiplicidade de interpretações, algumas até conflitantes entre si, ou seja, antes, havia uma uniformidade de doutrina, mas mantida com mão de ferro pela autoridade eclesiástica, a qual não podia ser contestada (nem mesmo pela própria Escritura Sagrada!). Com a Reforma, toda a Igreja – e não só a hie-

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rarquia – passou a ter a possibilidade de estudar a Bíblia e de ser corrigida por ela, mas essa possibilidade veio acompanhada do indesejável efeito colateral das divergências de interpretações. Não obstante, é de suma importância salientar que, embora não possamos negar a existência dessas divergências, há um substrato comum a todas as igrejas protestantes, um conjunto de elementos essenciais à fé cristã, elementos esses que são compartilhados inclusive pela igreja católica. Dentre esses elementos essenciais, podemos destacar: a Revelação de Deus na Escritura Sagrada e

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o seu caráter infalível como regra de fé e prática; a encarnação de Deus em Jesus; a dupla natureza de Jesus Cristo (divina e humana); o caráter sacrificial e expiatório de Sua morte na cruz; a justificação por graça e mediante a fé em Cristo (cf. Ef. 2.8); a trindade divina; a ressurreição de Cristo e de todo aquele que Nele crê; o batismo, pelo qual ingressamos na Igreja, e a Ceia, pela qual rememoramos a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo (cf. Lc. 22.19 e I Cor. 11.24-25), como sacramentos instituídos pelo próprio Cristo; e a segunda vinda de Jesus Cristo. Todos esses elementos encontram-se fundamentados na Escritura Sagrada. Quanto a aspectos

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secundários da fé cristã, podem existir divergências de ênfases ou de perspectivas, mas, no essencial, há unidade entre os protestantes, sobretudo porque essa unidade está baseada na Escritura Sagrada. Por fim, há um fator que não só se relaciona com essa diversidade de leituras presente no protestantismo, mas também é inerente à perspectiva protestante da fé cristã: os protestantes não só podem como devem ser permanentemente corrigidos pela Escritura Sagrada. Essa é, sem dúvida alguma, a mais importante herança da Reforma Protestante. Ou seja, ainda que divergências e mesmo equívocos de inter-

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pretação da Escritura sejam inevitáveis, o enorme e multifacetado conjunto de protestantes espalhados pelo mundo sempre poderá ser admoestado e corrigido pela Bíblia Sagrada. Sendo assim, as igrejas protestantes, bem como toda a cristandade desde o século XVI, têm não só a possibilidade como também o dever de buscar, junto à Escritura Sagrada, aproximar-se cada vez mais daquilo que Deus planejou para a Sua Igreja na Terra.

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1 - ORIGEM E FUNDADOR

P

rotestantismo significa o grupo de príncipes e cidades imperiais que, na dieta de Speyer, em 1529, assinaram um protesto contra o Édito de Worms que proibiu os ensinamentos Luteranos no Sacro Império Romano e continha uma condenação de Martinho Lutero que o declarava um fora-da-lei e um

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herético pela sua oposição às doutrinas da Igreja Católica Romana. A partir daí, a palavra “protestante” em áreas de língua alemã ainda se refere às Igrejas Luteranas, enquanto que a designação comum para todas as igrejas originadas da Reforma é reformado, no Brasil, usa-se o termo evangélico para dizer protestante. A palavra também designa todos os grupos religiosos cristãos de origem européia ocidental, que romperam com a Igreja Católica Romana como resultado da influência de Martinho Lutero, fundador das igrejas luteranas, e de João

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Calvino, fundador do movimento Calvinista. Um terceiro ramo principal da Reforma, que entrou em conflito tanto com os Católicos como com os outros protestantes é conhecido como Reforma Radical ou Anabaptista. Lutero e Calvino distanciaram-se destes movimentos mais radicais, que eles viram como uma semente de insubordinação social e fanatismo religioso. Alguns grupos cristãos ocidentais não católicos são chamados protestantes, ainda que os respectivos grupos não reconheçam quaisquer ligações a Lutero, Calvino ou aos Anabaptistas.

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Os protestantes situam normalmente a sua separação da igreja católica romana por volta do ano 1500, chamandolhe a reforma magistral porque propunha inicialmente numerosas revisões radicais dos padrões da doutrina da Igreja Católica Romana (o chamado magisterium). Os protestos irromperam repentinamente e em vários locais ao mesmo tempo, de acordo com a região em que surgiu. De certa forma, esta explosão de protestos pode ser explicada por dois eventos de dois séculos anteriores na Europa Ocidental. Efervescência na Igreja e no Império Ocidental, que culminaram no Papado

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de Avignon (1308 - 1378), e no Cisma papal (1378 - 1416), levaram a guerras entre príncipes, revoltas entre os camponeses e a uma preocupação generalizada perante a corrupção do sistema dos conventos. O Renascimento humanista estimulava o efervescer da atividade acadêmica, sem precedentes durante a Idade Média, que pela sua natureza implica a busca da liberdade de pensamento. Sérios debates teóricos decorriam agora nas universidades sobre a natureza da Igreja e a fonte e extensão da autoridade papal, dos concílios e dos príncipes. Uma das perspectivas novas e mais radicais teve origem em John

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Wyclif, em Oxford, e posteriormente Jan Hus, na Universidade de Praga. Dentro da Igreja Católica Romana, este debate foi oficialmente concluído pelo Concílio de Constança (1414 1418) que executou Jan Hus e baniu postumamente Wyclif como um herético. No entanto, enquanto Constança confirmou e fortaleceu as concepções medievais da Igreja e do Império, não poderia ter resolvido as tensões nacionais ou as tensões teológicas que tinham surgido no século anterior. Entre outras coisas, o concílio não conseguiu evitar o Cisma nem as Guerras Hussíticas da Boémia.

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De certa forma, o protesto iniciado por Martinho Lutero, um monge agostiniano e professor na Universidade de Wittenberg, provocou a reabertura do debate sobre a venda de indulgências. Teve um ímpeto de uma força renovada e irresistível do descontentamento que tinha sido oprimido, mas não resolvido. O primeiro país a aderir ao luteranismo foi a Alemanha, berço de Lutero. Depois, a Reforma irradiou-se pela Europa. Em 1537, a Dinamarca, a Suécia, a Noruega e a Islândia já tinham aderido aos princípios luteranos. Na Suíça, foi um ex-padre, Huldreich Zwingli, quem

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difundiu o protestantismo e, na França, o propagador foi João Calvino (1509-1564). A Reforma Protestante também triunfou na Escócia e nos Países Baixos.

1.1 Fundamentos Para falar a respeito dos fundamentos protestantes, teremos como base o protestantismo tradicional, que tem como principais proposições as teses de Martinho Lutero, que lançou seu clamor de protesto contra a doutrina e disciplina da Igreja Católica, afixando a porta da Igreja de Wittenburg uma lis-

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ta de 95 teses, em latim, a respeito da supremacia do Papa, a supremacia da tradição sobre as Escrituras, a imoralidade do clero (celibato), a adoração das imagens, a doutrina do purgatório e a negação do cálice aos leigos. As teses preponderantes a qual o protestantismo esta baseado são: • A justificação pela fé sem as obras; • A Bíblia como única fonte de fé; • A negação de intermediários entre Deus e o crente.

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Além disso, Lutero reduziu os sacramentos, em número de sete, para apenas dois: Batismo e Santa Ceia. Simplificou o culto que passou a ser celebrado na língua local e não mais em latim. Lutero decretou o fim da veneração aos santos. Em seu lugar, propôs a meditação e a leitura da Bíblia. Acabou também com a ociosidade dos monges, transformando os mosteiros em escolas. Lutero fundamentou suas ideias no livro de Paulo aos Romanos 1:17 e aos Gálatas 3:12-22, textos lidos a luz dos escritos de Santo Agostinho, que se revelaram pessimista em relação à natureza humana. Há quem atribua a Lutero os

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dizeres: “Podes pecar fortemente; mas, se creres mais fortemente, serás salvo!”. O pecado seria inextinguível, mas a fé sozinha bastaria para o crente. A fórmula, porém, não é de Lutero, embora contenha, em seu âmago, o seu autêntico pensamento.

1.1.1 A justificação pela fé sem as obras A doutrina da fé sem as obras tornou-se a doutrina de Lutero. Implicava radical revolução dentro do cristianismo.

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Lutero

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