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W PRÓLOGO

A

pós despertar de um sono profundo, Roberta acordara pensativa e confusa. Voltara a lembrar de sua situação atual e verificou que eram quase quatro da tarde. Olha pela janela de seu quarto e percebe uma forte chuva. Parecia uma tarde triste, não queria pensar em nada naquele momento, apenas observar aquele tempo frio, molhado e sombrio. Roberta estudava psicologia à noite numa faculdade particular, havia conseguido uma bolsa de estudos que facilitava suas precárias finanças. Suas despesas eram pagas graças ao complemento da pensão de seu falecido pai. Sua vida atribulada a consumia, deixando-a sem tempo para o lazer. Sua irmã Paula estava em coma num leito de hospital, vítima de um acidente de trânsito que aconteceu no réveillon do ano passado. Roberta costumava visitá-la nos feriados e finais de semana. Naquela quarta-feira soturna ela estava de folga de seu trabalho, era


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recepcionista num restaurante de um hotel de luxo situado próximo ao centro da capital paulista. Sua irmã Paula, vinte e cinco anos, recém formada em administração, trabalhava numa loja de modas e decorações. Era uma garota versátil e muito inteligente, dona de uma beleza impar, que jazia inconsciente naquele hospital já alguns meses. Em suas visitas, Roberta costumava contar histórias fascinantes e preocupava-se tanto com certos detalhes que fazia questão de relatar minuciosamente, imaginando que sua irmã ouvia perfeitamente todos aqueles relatos dos quais somente ela imaginava com precisão.


W I

A TRAJETÓRIA DE MARCOS

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nterior de Minas Gerais, ano de 2017, um pequeno povoado. A alegria de viver estava nos laços de amizade, nos valores espirituais e não no conforto que a matéria proporcionava. Marcos tinha um pai alcoólatra que havia morrido numa briga de bar há alguns meses sem ao menos ver o nascimento de sua irmã e sua mãe estava muito doente num hospital. A tristeza que se instalava naquela humilde casa era grande. Dr. Charles veio correndo para verificar o estado daquele bebê que agonizava no leito do seu berço. Ao adentrar naquele recinto, percebeu uma criança se agarrar com muita força em uma de suas pernas segurando insistentemente sem soltar. Ele ficou paralisado observando a triste cena quando percebe que o garotinho fala algo com os olhinhos cheios de lágrimas. – Dr. Não deixe minha irmãzinha morrer! – Calma meu amiguinho! Vamos ter fé em Deus!


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– Me prometa que não vai deixar Mônica morrer! – Se Deus ajudar, eu prometo! O garoto Marcos após ouvir as palavras vibrantes do médico ficou observando ainda triste ele entrar no quarto em que sua irmã agonizava. Mônica estava à beira da morte. Ela gemia de dor desde a noite passada, estava com uma febre de 40ºC, sentia um frio era intenso e não parava de tossir. Era lamentável a cena daquela criancinha chorar e ninguém poder fazer nada. Dr. Charles sentia ver Marcos olhá-lo, pedindo a Deus que sua única irmã não morresse. O garoto já não se alimentava e ninguém entendia o porquê daquele menino de apenas cinco anos ser obstinado por sua irmãzinha. Marcos era uma criança cheia de vida, inteligente, obediente, tranquilo e extremamente observador. Até parecia ciente de suas condições. Não bastava a situação financeira complicada, sua mãe doente, órfão de pai, agora sua irmã quase morta, era demais para o menino que se apegava a suas pequenas orações que sua mãe havia lhe ensinado. Marcos pressentia o pior após um silêncio. O médico depois de algumas horas sai do quarto, olha para aquele rostinho triste com os olhos cheios d’água e fica sem saber como dar aquela lamentável notícia. O garoto, apesar da pouca idade, tinha uma percepção acima do normal e pressentiu aquele acontecimento, começando a chorar e dizer em voz alta: – Oh meu Deus, o Senhor sabe o que faz! O doutor Charles, que sentia toda a dor do garoto, jamais viu tamanha compreensão e reação resignada numa criança e naquele momento desabou num forte pranto correndo para abraçar o pobre menino. – Me perdoe filho! Estava além de minhas forças, eu não podia fazer mais nada! O menino que chorava copiosamente olhou nos olhos do doutor e disse: – Não se preocupe, Deus quis assim! Após aquela triste cena, a vizinha que estava cuidando das crianças assistia a tudo, chorava alto e não mais sabia o que fazer.


W II

ASCENSÃO E QUEDA DE LUCAS

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ucas era o filho mais velho e costumava proteger os demais irmãos desde criança como se fossem seus filhos. Dono de um caráter dominador, dizia sempre que a última palavra depois de seus pais seria a dele. Algumas vezes costumava ser agressivo para impor respeito e demarcar sua supremacia naquele território familiar. Poucas vezes enfrentou seus pais, fingia ser obediente e tentava remar sempre a favor da maré, era essa sua política que acabou conquistando a todos, porém sempre tinha seu jeito próprio de pensar e de agir, era muito cauteloso quando sabia tratar-se de fazer coisas que considerava erradas. Seus pais costumavam ostentá-lo como o grande exemplo de filho, porém seus irmãos, apesar de admirá-lo, não conseguiam esconder uma ponta de inveja.


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Lucas, um jovem de classe média alta, inteligente e bem-sucedido na vida profissional, na qual conseguiu alcançar promoções, chegando a altos escalões na empresa em que trabalhava. Era ciente de possuir uma família maravilhosa. Lucas tinha grande sucesso também com as mulheres. Consolidou assim sua personalidade através do respeito que fazia questão de impor com seu forte caráter e líder genuíno sem jamais olhar para o espelho convexo de si mesmo. Após alguns anos no mercado de trabalho atuando como assessor de uma empresa multinacional do ramo de exportação de softwares, formado em economia chegando até o doutorado, sempre soube lidar muito bem com números. Tinha um forte carisma que atraia pessoas, sobressaia-se muito bem com os grupos de jovens com os quais se relacionava, a ponto de o chamarem de líder. Tinha uma aparência atraente e sua vaidade não tinha limites, sabia sempre tratar as pessoas com respeito e, mesmo não tendo comportamento arrogante, demonstrava certo ar de superioridade. Após sair de casa aos vinte e cinco anos para um apartamento de luxo, o jovem iniciou sua vida de playboy. Seus grupos de amizade eram cada vez maiores. Participava de comunidades na internet, saia com turmas que tinham o costume ir aos jogos de seu time e outras voltada para farras noturnas, churrascos em finais de semana, viagens de acampamentos, feriadões, sem contar os colegas de trabalhos. Todos costumavam vê-lo, geralmente, em companhias diferentes, cada uma mais bonita que a outra. Lucas era a personificação de alguém que usufruía a vida no sentido literal. Seus valores estavam parcialmente ligados a tudo que aprendera com seus pais de classe média alta. O pai engenheiro e a mãe advogada, ambos muito bem relacionados no meio político e empresarial, também provenientes de famílias tradicionais. Lucas finalmente conseguiu firmar um relacionamento com alguém por mais de um ano. Foi numa balada noturna que conheceu Sheyla, uma charmosa morena agradável que morava próximo a sua residência. Aquele namoro parecia se consolidar cada vez mais, atingindo um clima de estabilidade razoável se não fosse pelo fato dele


W III

O DESAFIO DE NEIDE

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uma tarde tranquila, Roberta passeava ao lado de sua melhor amiga Neide, uma linda afro-brasileira. Ambas trabalhavam num imenso hotel de luxo situado à avenida Paulista em pleno coração de São Paulo. O hotel de cunho internacional tinha padrões bastante rigorosos. De acordo com as normas da casa, elas somente entrariam pela porta lateral, a utilização do elevador principal somente se daria em caso de autorização expressa por um dos gerentes responsáveis pela administração do fantástico hotel cinco estrelas. Neide tinha dezenove anos. Era a filha mais velha e ajudava no sustento da família, seu pai havia ido embora quando criança. A bela jovem era bastante inteligente, sua situação financeira estava precária, sua mãe também trabalhava na cozinha de um pequeno restaurante na periferia de São Paulo. Os recursos para que Neide pudesse ingressar na faculdade de medicina, seu grande sonho, parecia ser uma utopia.


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Neide passava por uma fase de transição difícil no seu relacionamento com Anderson, que conheceu no cursinho. Ele era muito ciumento e tentava dissuadi-la de alguma forma a desistir dos sonhos de ser médica e alegava que quase não tinha tempo para ele. Neide estava muito apegada ao seu namorado de adolescência, porém jamais abriria mãos de seus sonhos, aquilo estava ficando cada vez mais complicado. – Não sei mais o que fazer! Adoro Anderson, mas não posso desistir do que mais sonhei em toda minha vida! Estou na parede. Ele me disse para decidir entre ele ou a faculdade de medicina! – disse Neide com os olhos cheios d’água. – Sinceridade! Ele tem que aceitar você com seus sonhos! É difícil alguém ter tanta convicção do que realmente quer e você demonstra plenamente que não tem dúvida alguma, seria anular-se Neide! – disse Roberta bastante incisiva. – Tem razão, acho que ele já me conheceu assim, ninguém vai alterar meu destino! – Isso! Assim é que se fala! Neide estava bastante triste por encontrar-se naquela situação, foi logo gostar de um namorado possessivo, mas aquele seria seu limite, iria tentar pela última vez conciliar aquela situação da melhor maneira possível. Naquela segunda-feira Neide nem imaginaria a terrível surpresa que a faria extremamente infeliz ao chegar no departamento onde sempre se apresentava para dar início ao trabalho. Percebeu que havia algo diferente naquele setor, todos se olhavam de maneira desconfiada, a supervisora chefe do setor de camareiras estava muito séria com uma prancheta nas mãos e aguardando a chegada dos últimos funcionários que logo eram encaminhados para um auditório lateral. Após ela conferir a presença de todos, deu início a um breve discurso lamentando a triste notícia do departamento pessoal e administrativo do hotel. – Atenção pessoal! Infelizmente sou portadora de notícias desagradáveis para algumas de vocês. O departamento administrativo


W IV

RECONHECENDO PAULA

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aula estava feliz após ter sido escolhida para tomar conta do departamento pessoal da empresa em que trabalhava. Finalmente poderia colocar em prática suas ideias e experiências depois de concluir sua especialização em recursos humanos. Marta sempre elogiou aquela profissional. Era uma empresa de modas e decorações, a Vitrine LTDA, sempre soube lidar com situações diversas, organizar registros departamentais. Administrava divinamente aquele setor de pessoal. Aquela promoção apenas veio consolidar o reconhecimento do seu talento. Camila, que tanto almejava aquela posição, jamais se conformava em perdê-la para alguém que estava na empresa a menos tempo. Teve que engolir aquela situação, porém sempre pensou em um dia provocar uma reviravolta. O natal estava próximo. A data de sua viagem já estava marcada para o réveillon. Paula iria viajar para o litoral paulista ao lado de seus


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familiares. Tudo parecia conspirar a seu favor, Roberta, infelizmente não teve a mesma sorte. Não conseguiu folga no hotel em que trabalhava, aquela época do ano era completamente inviável. O natal transcorreu maravilhosamente no apartamento simples em que moravam na Mooca. Muitos parentes se encontravam, tios e primos compareciam a sua residência, apenas não se sabia como estava o coração de Paula, que gerava certa curiosidade a todos. Ela sempre saia dizendo que o cupido ainda não havia acertado, estava míope. Ela era muito bonita, inteligente e misteriosa. Desde o último namorado que a traiu um ano atrás, ela deu tempo ao tempo. Seu melhor passatempo era a leitura espiritual, filosófica e de autoajuda, ficava horas “mergulhada” em vários tipos de leitura. Paula estava taciturna antes daquela viagem. Dizia para sua mãe que estava com um pressentimento ruim e não sabia explicar. Sua mãe disse para que se acalmasse, talvez fosse o nervosismo diante do trânsito caótico anunciado nos telejornais e a ansiedade que a fazia sentir-se assim. Aquilo se acentuou durante a estadia no litoral e na volta para casa, Paula sugeriu para que todos viajassem no dia seguinte. O tempo estava encoberto por nuvens e iria chover muito. Segundo a meteorologia, estava claro para a bela jovem que algo de muito ruim poderia acontecer naquela tarde de domingo, dia dois de janeiro, mas ninguém levou em consideração àquelas preocupações. Ao longo do percurso a chuva era forte. Havia quilômetros de engarrafamentos devido à falta de visibilidade, a serra estava totalmente inviável para seguir em frente. Foi exatamente no trecho mais perigoso que um carro tentou ultrapassar os mais lentos e acabou ficando de frente a uma enorme carreta que ao tentar desviar deles, freiou bruscamente naquela pista molhada se projetou em direção aos outros que estavam do outro lado. A cena seguinte foi terrível, a carreta derrapava de maneira desordenada gerando uma forte batida que arremessaria uma fila de mais de uma dezena de automóveis como se fossem brinquedos num enorme despenhadeiro abaixo. A carreta, após varias capotagens, é impedida por um poste de cair ladeira abaixo, ficando com parte de sua traseira por cima do carro que Paula se


SONO PROFUNDO