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Passaram-se as épocas da infância e da juventude da raça humana, para nunca mais voltarem... Os sistemas políticos, diversos e instáveis que são, sejam do passado ou do presente, quer tenham se originado no Oriente ou no Ocidente, não oferecem nenhum critério adequado segundo o qual se possa estimar a potência de suas virtudes ocultas, ou avaliar a solidez de seus alicerces... Uma tempestade de inédita violência varre atualmente a face da Terra, e não podemos prever seu curso... A humanidade, perplexa, angustiada e impotente, vê este grande e poderoso vento... invadir as mais remotas e belas regiões, abalando a terra até os fundamentos, e perturbando-lhe o equilíbrio... Os efeitos imediatos são catastróficos, porém as consequências finais serão gloriosas, além do que possamos imaginar. A transformação orgânica na estrutura de nossa sociedade hodierna – transformação como o mundo jamais presenciou - constitui um desafio, ao mesmo tempo audaz e universal, para os critérios obsoletos de credos nacionais... Este supremo e nobre empreendimento – verdadeira fonte da paz e do bem-estar do mundo todo – deve ser considerado sagrado por todos aqueles que habitam na Terra. Shoghi Effendi

ISBN978-85-88886-81-0

9 788588 886810


INTRODUÇÃO

Este livro foi inspirado na declaração de uma figura majestosa do Oriente e, por muitos, reconhecido como o Embaixador da Humanidade, chamado ‘Abdu’l-Bahá Abbás, de que “A verdadeira civilização içará sua bandeira no âmago do coração do mundo, em qualquer época em que um determinado número de seus proeminentes e magnânimos soberanos – os dignos exemplos de devoção e perseverança – se levantar com firme decisão e esclarecida visão, pelo bem e felicidade de todos os Homens, e para estabelecer a causa da Paz Universal”. Confiante nessa profecia e desejoso de contribuir, de forma mais modesta que seja, à transformação social numa


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abordagem mais unificada dos problemas sociais, econômicos, políticos e ambientais, o autor foi impelido a uma pesquisa na proposta bahá’i, e reflexão sobre um aspecto da doutrina bahá’i que estimula e abarca o campo de comportamento baseado em novas visões e percepções para o mundo contingente que, apesar de contar com numerosos e hábeis políticos, administradores, engenheiros, médicos, cientistas e acadêmicos produzindo respeitável quantidade de artigos em todas as áreas da ciência, continua com indicadores lastimáveis nas áreas social, de educação e de saúde, e se encontra num estado deplorável de individualismo e carência em educação ética, ecológica, e aplicações da ciência, que venham valorizar a vida no Planeta. Com uma breve introdução a alguns conceitos contemporâneos e universais sobre política e temas correlatos, e longe de esgotar qualquer dos tópicos abordados, o livro visa instigar mentes e lançar luz sobre um fenômeno global emergente. A confirmação de sua consistência, e sua coerência com a realidade dependerá de uma averiguação pessoal por parte de todo leitor atento e pesquisador, que indaga sobre os impasses de seu tempo. O autor declara que esta obra não é um documento da Comunidade Bahá’í Brasileira e, opiniões e textos aqui reproduzidos refletem simplesmente o seu próprio ponto de vista. Mohiman Shafa


1 POLÍTICA

Dentro de certa ótica, todo ser humano é essencialmente político. Esta particularidade marca que o ser humano terá sucesso em todos os campos de atividade, na medida em que dominar “a arte no trato das relações sociais, com vistas a obter resultados desejados”. Desde o momento em que nos penteamos, pela manhã frente ao espelho, e cuidamos dos detalhes da roupa, brilho do sapato, perfume, etc. e no corriqueiro de nosso cotidiano, estamos exercitando política; a política de apresentar uma melhor e mais apropriada imagem de nós mesmos. Até na maneira com que sorrimos ou cumprimentamos, o tom de voz quando


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solicitamos, informamos, determinamos ou mesmo quando silenciamos, estamos no exercício político. O modo com que abordamos: amigos, clientes, fornecedores, credores e patrões, gera um processo que tem como meta obter resultados desejados com “civilidade” e “cortesia”, e faz parte de processos políticos pessoais. No coração da civilização, repousa um estatuto de ordem expansiva e de profunda conotação política. A política é um fato natural da convivência humana. Os mais antigos indícios da presença do ser humano, na Terra, já evidenciam vestígios do exercício político: o Homem vivendo em grupos, em função de suas necessidades e segurança. Desde os primórdios, ele se organiza em sociedade, e a agregação se impõe à vida solitária. A realização social é um mandato imperioso da própria natureza humana. A irrefutável tendência gregária dá origem ao estatuto tribal. No grupo social, inauguram-se assim os problemas relativos: à organização, direção e liderança. Impõemse, aí, uma nova estrutura de atuação relativa à especialização e especificidade de funções, embriões determinantes de uma futura ordem social. No começo da vida humana, esses fenômenos ocorreram de forma natural e espontânea, tão logo o ser humano começou a disciplinar o raciocínio. A investigação do mundo e o entendimento dos fenômenos naturais fizeram com que o Homem buscasse: a lógica dos fatos, as causas primárias e últimas das coisas que o rodeavam. Comparando ideias com a realidade circundante, movido pelas próprias necessidades e as de seu clã, o Homem começou a metodizar o conhecimento. Assim, tiveram início as primeiras especulações e reflexões


2 O MUNDO DA POLÍTICA

Aristóteles chamava a ciência política de “a ciência mestra”. Dizia que a ciência política era a mais importante de todas, porque dela dependiam todas as outras ciências; que sua principal tarefa era elaborar um modelo de organização política que, por sua vez, deveria estabelecer o máximo de justiça, mantendo-se ela inteiramente estável. Os cientistas de hoje, face à ameaça de uma guerra nuclear, concluem que saber controlar politicamente os resultados do trabalho científico – em outras palavras, saber como manter a paz – é provavelmente a maior de todas as tarefas humanas.


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‘Abdu’l-Bahá situa a posição dos governantes (reis) justos, logo e apenas abaixo da dos Profetas de Deus, e enfatiza que seus nomes têm ecoado através da criação, como campeões dos direitos humanos.

O Estado Instituição responsável pela organização e controle de uma sociedade que contém os poderes executivo, legislativo e judiciário como instituições permanentes e dirigidas por um governo com reconhecida soberania sobre um território definido e reconhecido, tanto interno como externamente.

Política Social Surge quando os problemas e anseios humanos se transformam e ganham uma dimensão social através das reivindicações dos mais diferentes movimentos sociais e sindicais que buscam o “bem-estar dos cidadãos”. É, portanto, um instrumento para elevar a qualidade de vida da população e se traduz na implementação de ações governamentais específicas nas áreas de: educação, saúde, meio ambiente, redução da pobreza, e outras.

Política Econômica Meio pelo qual um governo busca regular ou modificar as atividades econômicas de uma nação. Um complexo de relações que aglomera os membros da sociedade. A política, neste sentido, é também chamada economia política ou política corporativa.


3 A POSTURA

Os bahá’is não se identificam com nenhuma atividade político-partidária, porém não deixam de tomar parte de grupos progressistas, em conferências ou comitês, designados para promover uma mudança construtiva da sociedade, pois têm compromisso com a promoção dessa transformação social e zelar pelas necessidades da era em que vivem, tais como melhores relações raciais. Eles possuem uma transparente política de harmonizar e unir os povos e raças do planeta, a fim de que todos possam viver em uma paz verdadeira, não somente entre governos, mas principalmente entre os cidadãos. Portanto, eles são políticos,


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sim, porém uma nova espécie de político. Não se alinham com algum partido ou facções e, em qualquer questão polêmica ou ideológica, sempre se posicionam pró e defendem o respeito aos direitos humanos de quem quer que seja. Os bahá’is votam nas eleições; podem também procurar emprego como juízes, membros de conselhos de educação, planejamento e outros cargos técnicos dentro dos órgãos governamentais, contanto que não se filiem a partidos políticos e não se engajem em campanhas eleitorais, mesmo ao nível de candidatos individuais. Eles se abstêm da arena da luta pelo poder. Não obstante, não se abstêm de requerer uma ação urgente por meio de um congressista. As recentes advocacias no Senado e Câmara Federal em favor dos bahá’is perseguidos do Iran, e a difusão dos princípios bahá’is, são exemplos de como isso é feito dentro das leis da Fé. No tocante à política econômica, não se presume que os bahá’is se abstenham do planejamento, desenvolvimento e rumos da economia. Seria impossível agir assim, em qualquer caso, sem se afastarem inteiramente da sociedade. Na visão dos bahá’is, os problemas fundamentais são de natureza espiritual. A “Causa” deles não é um partido político, nem uma ideologia, muito menos um instrumento de agitação política contra este ou aquele mal social. No entanto, o processo de transformação que essa “Causa” colocou em marcha segue avante, buscando induzir uma mudança fundamental de consciência; e o desafio que coloca diante de todos os que gostariam de servi-la é de se libertar do apego a suposições e preferências herdadas cegamente, irreconciliáveis com a Vontade de Deus para o amadurecimento da humanidade.


4 OS DESAFIOS DO NOSSO TEMPO

Transformar Uma Sociedade Competitiva em Cooperativa O maior desafio da raça humana, hoje, é alcançar a suficiente maturidade para criar uma sociedade cooperativa, imprescindível à solução de todos os problemas econômicos, sociais, ambientais e políticos, que de sua ausência se originaram. Os povos do mundo, “perplexos, angustiados e ­impotentes”, se encontram hoje numa etapa de transição entre a fase de adolescência e a de maturidade da raça humana. Gradativamente,


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tomam consciência da incontestável interdependência, e da necessidade de diálogo e interação para solução dos males que os afetam. Maturidade implica em capacidade de entendimento, respeito, de compreender que estamos todos no mesmo barco, e que o bem-estar de um depende necessariamente do bemestar de todos. Uma sociedade na qual um grupo, classe ou nação procura dominar, explorar e manipular os outros, é enferma. Uma sociedade na qual Homens e instituições competem entre si a fim de obter vantagens próprias em detrimento dos outros, está imatura e ainda na fase de adolescência. Uma sociedade na qual há conflitos e agressões, armados ou não, demonstra claros sinais de insensatez. Uma sociedade na qual transparecem atitudes de preconceito religioso, racial, social ou nacional, por mais sutis que sejam, se revela intolerante e sem uma perspectiva edificante da realidade. Uma sociedade na qual se encoraja ou se comete atos inspirados por fanatismo que destroem vidas inocentes, demonstra cega imitação. Uma sociedade na qual a academia educa os jovens para competir e vencer, ao invés de estimular a prática de cooperação e interrelação, é egocêntrica. E enfim, uma sociedade na qual se gasta muito mais recursos em treinamento para guerra, do que na educação para paz, é lamentável. Estar ajustado a uma sociedade assim, não é demonstração de saúde. Parece que a humanidade, em geral, é como uma espécie de adolescente que ainda não conseguiu sequer se encontrar e, por este motivo, como todo e qualquer bom adolescente, é muito inseguro e, devido a esta insegurança, não sabe como pedir

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