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Capítulo

1

Peça-me um presente! O pequeno Príncipe estava enfeitiçado diante do pôr-do-sol. Parecia-lhe o mais formoso de todos os que já havia presenciado em sua vida, o mais cálido, lento, profundo e, ao mesmo tempo, triste poente que jamais vira. Tão absorto estava, que nem notou a chegada de um estranho visitante que, com a voz mais lastimosa que havia escutado, com um aspecto aflito, o mais extremamente infeliz, nunca visto antes, dizia-lhe com um fiozinho de voz: — Peça-me um presente!


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Capítulo

2

Os amanhecer no planeta do pequeno Príncipe, nesse pequeno asteróide em que habitava junto com a sua flor, seus vulcões e os brotos de baobás que insistiam, com uma constância teimosa, em seguir aparecendo por todos os lados, eram breves como os suspiros, mas muito formosos, tão formosos como o entardecer, só que este tinha o tom melancólico que fazia dos poentes um espetáculo único e insubstituível, isto é, se alguém quisesse saber realmente o que era beleza. O pequeno Príncipe observava o sono daquele homenzinho que havia chegado à sua casa,


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implorando-lhe para que o menino pedisse um presente. Era, certamente, demais estranho, mas agora, adormecido, com a cabeça reclinada sobre um dos vulcões extintos que, mesmo que o pequeno príncipe o mantivesse limpo nunca se poderia saber, com o gorro vermelho meiocaídodelado, bufando mais do que roncando, tinha uma imagem, por sua vez terna e divertida. Olhando para ele o pequeno Príncipe não pôde reprimir o riso. — Ah! Dormi como não o fazia há muito tempo, – disse o homem despertando como por encanto, como se o riso do menino, que conseguiu no dia anterior acalmá-lo e fazê-lo descansar, tivesse também o segredo de poder despertá-lo. — Bom dia, garotinho! Sou-lhe muito grato por ter-me permitido contar-lhe meus problemas, – continuou dizendo o homenzinho e, ao lembrar das suas lágrimas na noite anterior, entristeceu-se. — Não deve entristecer-se por suas lágrimas, – disse-lhe o pequeno Príncipe, como respondendo aos seus pensamentos, como se tivesse podido ler o que nesse momento se passava na mente do homenzinho.


Capítulo

3

Lenta, mas inexoravelmente com esta cadência que tem os relógios de pêndulo, foi caindo a tarde. O pequeno Príncipe havia dedicado o dia todo para fazer uma limpeza no seu asteróide, cortando os brotos de baobás para evitar que crescessem demais e, também, a remover a fuligem dos vulcões, inclusive daqueles que estavam apagados há muito tempo, porque nunca se sabe. Durante todo esse tempo ficou observando Misha pelo rabinho do olho, que parecia imerso numa profunda depressão, como se houvesse


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caído num poço muito fundo e não houvesse encontrado o jeito de sair dali, nem houvesse ninguém lá no alto que pudesse soltar uma corda para ajudá-lo a subir. O pequeno Príncipe não sabia o que fazer para ajudá-lo, pensou que poderia lançar-lhe uma corda ao fundo do poço e animar o homenzinho a recolhê-la para poder subir. Pensando em tudo isso, o pequeno Principe começou a imaginar Misha amarrado a uma corda, tentando subir pela parede do poço, bufando, como quando dormia. O pequeno Príncipe começou a rir em gargalhadas e seu riso foi como um bálsamo para o homenzinho; foi como um remédio que o curasse de algum mal, como um despertador que o acordasse de um terrível pesadelo e lhe devolvesse a tranqüilidade naquele pequeno asteróide. – Quanto tempo levei aqui? – Perguntou Misha. Desde que descobriu que as pessoas da Terra haviam-se esquecido do Natal, não tinha voltado a abrir a boca e permanecera sentado em posição de meditação, sem saber o que acontecia ao seu redor.


Capítulo

4

A manhã seguinte não se parecia em nada com as manhãs que Misha conhecera no minúsculo planeta do pequeno Príncipe. Um vento furioso que vinha do oeste, do mesmo lugar de onde a criança colocava sua cadeira para contemplar o pôr-do-sol, e varria com força a minúscula superfície do planeta. O pequeno Príncipe despertou e, rapidamente, pôs uma tampa de vidro sobre sua flor protegendo-a do vento, pois era tão forte que poderia machucá-la.


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A Misha se lhe alvoroçaram os cabelos e a barba, e com as duas mãos segurava seu gorro para que o vento não o carregasse. – É normal este furacão? – Perguntou à criança ainda que já soubesse que dificilmente receberia resposta. – Nunca ocorrera algo assim – disse o pequeno Príncipe como se estivesse falando a si mesmo. – O ar aqui é sempre suave e cálido, alegre e musical. O vento sempre se veste de brisa para vir a minha casa, mas hoje está diferente... O pequeno Príncipe havia deixado sem terminar a última frase porque, realmente, não sabia o que dizer. Achava muito estranho um comportamento assim, pois nunca antes havia acontecido. Por mais que pensasse não conseguia encontrar uma explicação convin-cente, e pensando nisso, de repente, como se fosse a resposta a todas as suas perguntas. – O que é aquilo? – Misha disse. – Vem voando, mas não é um pássaro! Só teve tempo de dizer essas palavras, quando, no mesmo instante, aquela coisa que voava para


Capítulo

5

O pequeno Príncipe tinha razão a respeito da rota do sul. Misha, que havia vivido muitos e muitos anos, havia visto coisas verdadeiramente formosas ao longo da sua extensa existência, porém, jamais sonharia em poder contemplar algo tão realmente belo como a rota do sul. Diante dos seus olhos, enquanto se deixava acariciar pela cada vez menos fria corrente do norte, desenrolavam-se, como se fossem as mágicas páginas de um atlas, as estrelas mais cintilantes, os sóis mais fulgurantes, as luas mais redondas e cheias que jamais sonhara ver. Tudo tinha um ar de celebração, como se as


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