Page 1


CAPÍTULO 1

M

icael nasceu anjo. Um anjo torto para se danar na vida. Sem dúvida, ele se danou e, com certeza, era torto. Danado de espírito e torto de nascença. Muito antes da sua aparição por estes sertões, ele vivia em Habersbam, uma pequena comunidade do paraíso, onde nunca aceitaram o fato de ter nascido torto. Veio ao mundo, isto é, ao paraíso, com a tez clara e os olhos azuis de sua mãe e os cabelos lisos e pretos de um pai desconhecido. Dizi am por lá que seu pai era um ser humano, já que não existe registro algum nos anais do paraíso de anjo que não seja loiro e, menos ainda, descarado como ele. Habersbam está localizada sobre a região oriental da América do Sul, apenas uma pequena ilha com dois mil habitantes, afastada da grande capital do Éden, Petrus, a cidade fulgurante dos deuses que flutua sobre o Mediterrâneo. Seus moradores seguem os preceitos da cidade-mãe, moram em singelas casas de madeira revestidas de cristal e caminham por alamedas de pedras brilhantes circundadas por árvores que se transmutam do verde esmeralda para o azul mais profundo. Embaladas por suaves melodias, gôndolas deslizam pelo mar dourado que a circunda para satisfazer o deleite daqueles que desejam meditar. E, assim, todos viviam felizes, para a glória do Deus Todo Poderoso. Um dia Deus, distraído, lhes impôs a presença de Micael e, distraído como estava, não percebeu que em um futuro não muito distante, o então pequeno e mimoso querubim, viria a desvirtuar e bagunçar a divina harmonia de Habersbam. Micael, que nunca se preocupou com seus semelhantes, desconhecia os benéficos efeitos espirituais da gloriosa beleza que lhe era ofertada. À bem dizer da verdade, recebia as dádivas divinas com a mesma desenvoltura dos mortais, mais habituados à ingratidão. Gostava, mesmo, do seu jeito semvergonha de ser, da sua agressiva beleza humana e de chamar atenção com marcante postura de anti-herói. O que fazer se Deus o fez assim? — É castigo do Poderoso! – reclamavam os anjos velhos, ao vê-lo surgir das nuvens em um looping desvairado.


MARIA BORALLI

8

— Sigam-me! – ressoava até eles a ordem de Micael. E contemplavam, aturdidos, o pequeno séquito de seguidores de Micael a imitá-lo nas perigosas manobras aéreas. O céu era o seu paraíso, os palácios cintilantes locais perfeitos para corridas e algazarras e nas árvores mutantes escondia-se quando seu avô e, também, progenitor, Anjo Leôncio, saía a sua procura para as aulas de meditação em grupo. O seu maior defeito era o de nunca conseguir resistir aos encantos de uma “querubina”. Quando elas voavam por entre as nuvens, chilreando como pássaros cristalinos, Micael quedava-se estático, embevecido com tanta beleza. Por bem pouco tempo, aliás. Bastava, apenas, que visualizasse o que havia por debaixo das transparentes túnicas de cambraia e lá se ia embora a sua inércia. Resoluto, metia-se por entre aquela revoada de seios, cambraias e asas, atraindo-as com aquilo que aos outros repelia, o contraste entre os cabelos negros e os belos olhos azuis. Elas protestavam com gritinhos envergonhados e muitos sinais da cruz, mas esperavam, curiosas, pela manifestação de sua gritante virilidade sob a túnica. Afinal, pensavam elas, quem mais deixaria que elas vissem “aquilo”? E, afinal, pensava ele, onde mais elas veriam algo parecido? Era um pecado extraviado, tentação gostosa, encoberto pelas nuvens. Vez ou outra uma querubina mais ousada era puxada pela asa e candidamente levada até o seu esconderijo. Este lugar, cuidadosamente escolhido, ficava na Capela de Nossa Senhora das Dores e era um segredo guardado a sete chaves por ele e pelas doces anjinhas que o frequentavam. Sob o olhar meigo da imagem de Nossa Senhora, eles se enfronhavam sob um altar grande e acolhedor, rodeado de flores e incenso e coberto por longas toalhas brancas; o refúgio perfeito para alguns momentos de prazer. Apesar do sigilo, Micael desconfiava que os querubins soubessem das suas escapulidas e, até mesmo, onde se realizavam, pois a cada vez que retornava de uma sessão de sacanagem eles o fitavam com um misto de inveja e desprezo, fato este que o alegrava enormemente. É claro que isso era proibido, anjos só transam uma vez na vida e, ainda assim, para fins de procriação e com a devida aprovação do Conselho dos Sete Anjos Veneráveis. Micael nunca entendeu como podiam viver de tal maneira. De qualquer forma, entendendo ou não, esta foi a causa maior da sua desgraça. Estava ele um dia sob o altar de Nossa Senhora entretido nos meandros do amor com a adorável querubina Mirzna quando, repentinamente, a toalha foi levantada e um berro assustador ressoou sob a cúpula da capela. Sem querer olhar, Micael olhou, desviou o olhar, olhou novamente. Aturdido, o anjo


CAPÍTULO 2

O

avô de Micael encontrava-se em meio a uma aula de aritmética e foi ali que lhe deram a notícia do pecado mortal cometido por Micael. Era ele um anjo idoso, com apenas um metro e meio de altura, de feições comuns e ralos fios de cabelos sobre a cabeça. Recebeu a notícia sem demonstrar surpresa, como se a esperasse. Ajeitou os óculos sobre o nariz, assou o nariz e, educadamente, pediu licença para retirar-se. O incidente com o seu pupilo e, por acaso neto, implicava-lhe retroceder dois graus na escala da evolução eterna, arduamente conseguidos. Dedicara sua vida à educação e cultura dos querubins, ensinando-lhes os cálculos e as letras e, quando adolescentes, preparando-os para o ingresso na Universidade dos Anjos Evoluídos, mas ele fracassara com Micael. Haveria o questionamento dos Conselheiros e, posteriormente, seria publicamente declarado inepto para o exercício do magistério. O convento dos mestres progenitores localizava-se atrás do Colégio Angeliano, além do pátio e entre o dormitório masculino e feminino destinado aos querubins. Por entre as ramagens das árvores entrevia-se uma construção de madeira esverdeada, sem adornos, sugerindo que seus moradores preferiam os prazeres intelectuais aos prazeres mundanos. Os aposentos de Anjo Leôncio consistiam em um antiquado banheiro e um pequeno quarto. Nele via-se uma mesa de trabalho e uma cadeira há muito usadas, um armário acoplado à parede e um imenso crucifixo pendurado à cabeceira da cama de ferro fundido, desproporcional ao tamanho do quarto. Anjo Leôncio confinou-se em seus aposentos por vontade própria, necessitado de solidão e orações. O comportamento de Micael e as consequências que disso adviriam desencadeou em sua mente tristes recordações e o temor de tornar a viver uma estória já vivida. Sentou-se na cadeira, os pés mal roçando o assoalho devido a sua pouca altura, os braços cruzados sobre o tampo, o olhar fixo na parede nua. De vez em quando passava a mão sobre os cabelos ralos e ajeitava os óculos que teimavam em escorregar para a ponta do nariz. Esquecido de si próprio, o pensamento perdido vagueava pelo passado e retornava ao presente. Persilah... e, agora, Micael.


MARIA BORALLI

14

Persilah, a filha do seu coração. Mais do que mestre, ele fora seu tutor, designado pelo Conselho dos Veneráveis para suprir a falta de seus pais, enquanto descansavam nos Campos do Senhor à espera de um novo renascimento. Ela crescera sob os seus cuidados e tornara-se bela como Shadith, a deusa da beleza. Os cabelos loiros caíam-lhe sobre os ombros como flocos de algodão, o colorido de seus olhos modificava-se do azul-marinho ao prateado de um lago brilhando sob a lua cheia, as asas assemelhavam-se a auréolas diáfanas que lhe emolduravam o corpo esbelto. Criara-a com carinho e a preparara para o ingresso, com louvor, na Universidade. Todavia, no decorrer do terceiro ano dos estudos evoluídos, os anjos doutores acharam por bem enviá-la para um estágio de visibilidade no planeta Terra, a título de treinamento para futuras missões junto aos terráqueos. Preocupado, o bom anjo apressou-se em pedir uma audiência com os sábios de Habersbam. — Ela é jovem e bela demais para ser exposta a tal experiência – argumentara ele. — Não deves se preocupar, Leôncio, Persilah está preparada – responderam-lhe eles. Ninguém deu ouvidos ao mestre das primeiras letras e a ele restou apenas resignar-se junto a Deus. Dezenas de vezes ao dia suplicava ao Poderoso: — Senhor do Universo, esconda-a sob o vosso sagrado manto. Dai-lhe sabedoria e proteja-a dos malignos olhos humanos. De nada adiantou. Quando retornou a Habersbam Persilah estava apaixonada e grávida de um mortal. Ela havia transgredido o mais sagrado dos tabus! Ousara desafiar a Deus! Esquecera-se de honrar o nome de seu prometido, o Anjo Beliah de Aramantis, a quem deveria voltar intacta para fins de procriação. Foi, então, discriminada e execrada por toda a sociedade angelical, proibida de circular pelas alamedas do pequeno Éden e só encontrou abrigo no Convento dos Progenitores, junto ao velho tutor. Anjo Leôncio recordava-se muito bem do dia em que Micael nasceu e do constrangimento que sentiu no coração quando se deparou com a vasta cabeleira negra com que os genes humanos o equiparam para vir ao mundo. Era um prenúncio de maus agouros, pensou ele na época. Não demorou muito para o velho anjo se apegar ao querubim recémnascido e divertir-se com as brincadeiras de mãe e filho. No entanto, preocupava-se com Beliah de Aramantis que, desconfiava ele, jamais perdoaria Persilah. A soberba arrogância e os olhos gélidos de Beliah por muito tempo molestariam as noites mal dormidas de Anjo Leôncio. — O que desejam? – perguntou-lhes Beliah rispidamente, quando Persilah e Anjo Leôncio foram a sua casa para desfazer o compromisso de procriação.


CAPÍTULO 3

N

ormalmente as reuniões do Conselho dos Sete Anjos Veneráveis acontecem por motivos comuns ao dia a dia dos habitantes de Habersbam: decidem quem irá para outra dimensão, qual o anjo que irá à Terra em missão especial, quais irão procriar e, extraordinariamente, em situações raríssimas como a de Persilah. Da mesma forma, raríssima era a investigação que se procedia em torno dos atos de Micael. A comissão descobriu as várias idas para debaixo do altar, os voos obscenos em companhia das anjinhas inocentes, a legião de querubins que o imitava. Descobriram, também, as inúmeras aulas que não assistiu, os cochilos durante as rezas matutinas e a quem pertencia a voz propositalmente desafinada durante os cânticos de louvor. Bem antes do dia marcado para a decisão final dos Veneráveis, Micael tornou-se o alvo preferido dos querubins que antes o seguia; chamavam-no de pecador e jogavam água benta por onde passava. Mirzna e suas antigas companheiras de folguedo olhavam-no chorosas sem nada que pudessem fazer, apavoradas com a expectativa de uma severa punição. Solidariedade, só de Aranís. Mais corajoso, visitava-o às escondidas. — Ouvi dizer que você irá para o Reformatório dos Querubins Rebeldes, Micael. — Ai, meu Deus! Dizem que o diabo aparece por lá. — E é verdade, mas só para se vingar dos querubins que se tornam disciplinados. — É? — É. E com um garfo em brasas na mão. — É?! — É. — Ai, ai, ai! O que será de mim? Micael apavorava-se a cada visita de Aranís, porém a esquecia tão logo saísse à rua. Gostava de ser o alvo das conversas, fazia bem ao seu ego de anti-herói, acostumado a reagir com ironia às rejeições angelicais. Embora os anjos não lhe dirigissem a palavra, provocava-os puxando-os pelas asas e gargalhava quando algum anjo lhe jogava água benta.


MARIA BORALLI

22

Ele se divertia e esquecia-se da própria situação... até a próxima visita de Aranís. — Micael, prepara-te. Talvez te enviem para a antessala do purgatório. — Não pode ser... aquele lugar horrível, cheio de almas penadas. — Muito pior que o reformatório. — Eu tenho medo de alma penada, Aranís. — E tem diabo por lá também. — Tem? — Tem. — Mas, não podem fazer isso – e Micael socou uma mão contra outra. – É discriminação. — Também acho, mas o que podes fazer? O que Micael pensava ser apenas uma punição para os seus pecados estava se transformando em algo maior, do qual ele ainda não tinha noção; tinha dezesseis anos de idade e não se lembrava até então de algum fato que o houvesse preocupado tanto. Por duas vezes procurou o avô, mas haviam-lhe dito que o deixasse em paz, encontrava-se em profundas meditações devido aos sofrimentos que ele, Micael, havia lhe causado. Condoeu-se com a situação em que o havia colocado e preocupou-se com as consequências que seus atos trariam sobre a sua carreira de mestre. Todavia, não entendia por que; afinal o avô não tinha culpa de ele ser um querubim pela metade. Lembrou-se dos longos dias passados a seu lado, aprendendo a ser um anjo contra a sua vontade, obrigado a aprender os ensinamentos. Arrependeu-se, teve vontade de afagar seus ralos cabelos brancos, de ouvir as sábias palavras que, com certeza, dissipariam todos os seus medos. Não podia esperar que os anjos professores permitissem que fosse ao quarto do avô. Tinha urgência em escutá-lo, ter certeza que nada de mal lhe aconteceria. Sem titubear, esgueirou-se pelos corredores do convento e facilmente chegou a sua porta. Bateu, mas não aguardou pela resposta, entrando antes que alguém o visse. Anjo Leôncio encontrava-se ajoelhado, rezando o terço das Sete Chagas, contemplando o imenso crucifixo. — Vô? – chamou-o Micael, parado junto à porta encostada. — Ah, Micael... Por alguns segundos, Anjo Leôncio olhou para o filho de Persilah, a cada dia mais belo. O queixo quadrado, as mandíbulas salientes, os olhos amendoados, cor de anil. Estava ganhando altura, o tórax se alargava e os braços em breve tornar-se-iam musculosos. As asas eram alvas e imensas, batendo-lhe acima dos calcanhares, como devem ser as asas dos anjos descendentes do grande Arcanjo Gabriel. Pena que os cabelos lhe nasceram tão


CAPÍTULO 4

C

hegou, afinal, o dia do interrogatório. Na véspera, Micael foi enclausurado na cela com a recomendação de rezar ininterruptamente a fim de obter o perdão do Divino. Não rezou, mas também não dormiu. Às seis horas da manhã dois anjos vieram buscá-lo. Tenso, porém controlado, seguiu-os pelo caminho que levava até o parlatório. Ao meio do trajeto encontrou Anjo Leôncio, acompanhado de outro Anjo Progenitor. Caminhava abatido, cabisbaixo, absorto em orações. Não havia curiosos pelas alamedas, nem anjos entretidos em seus habituais afazeres e a sensação de que algo desconhecido estava para acontecer tomou conta de Micael. Respirou fundo várias vezes, controlou o nervosismo e, seja lá o que fosse, contava somente com o seu orgulho para manter-se em pé. Ao chegar, apenas seus maxilares contraídos trairam a surpresa do que viu. As bancadas do parlatório, construídas em círculos que se sobrepunham um ao outro, estavam superlotadas. Anjos e mais anjos comprimiam-se uns aos outros. Todos os rostos voltaram-se para ele, o desprezo impresso em cada um. Seguiram-se alguns segundos de silêncio sucedidos por uma saraivada de gritos e vaias. — Pecador! — Herege! Fora! — Purgatório para ele! Os temores transformaram-se em certeza, aquilo não seria uma punição, mas um julgamento. Micael conscientizou-se imediatamente que seria julgado não pelos seus atos que, vá lá, não eram muito corretos, mas sim, pela oportunidade que ele mesmo lhes havia ofertado para se livrarem de um anjo diferente. Lamentou pelo seu progenitor exposto a tal vexame, olhou para ele e viu seu semblante tristemente surpreso, as velhas asas arrastando-se pelo chão, parecendo menor do que realmente era. Concentrou sua atenção no grande círculo central. Não podia divagar, não podia enfraquecer, urgia que se mantivesse alerta. Atrás de uma grande mesa em formato de meia-lua, havia sete grandes cadeiras de espaldar alto, forradas de brocado vermelho e, a uma distância respeitosa, duas cadeiras de madeira, destinadas a ele e Anjo Leôncio. Perguntou a si mesmo de onde vinha esta força que


MARIA BORALLI

26

mantinha sua cabeça levantada, suas asas entreabertas, seus passos firmes. Um pensamento relâmpago voou pela sua cabeça. Talvez os humanos possuam mais orgulho e menos humildade que os anjos. Obrigado, pai, seja lá você quem for. Caminhando entre aquela multidão loira, a negritude de seus cabelos sobressaía ainda mais, denunciando a sua metade humana. Pensou na mãe. O rosto de Persilah perdia-se nas brumas do passado, mas ele nunca a esquecera. Há oito anos ela havia partido, há oito anos a haviam julgado, agora chegara a sua vez. Mãe, juro que saberei honrar o seu nome tanto quanto você soube honrálo no dia da sua desgraça. Ecoou as sete badaladas do grande sino de bronze e, em seguida, entraram os Sete Anjos Veneráveis trajando largas túnicas de linho branco, sem adornos. O Presidente do Conselho, Anjo Josiber, os precedia e o austero traje ressaltava a sua altivez e autoridade. Eram todos idosos, com exceção de Beliah de Aramantis. Magro e alto, na faixa dos quarenta anos, era o único a usar a túnica mais curta, elegantemente composta por sandálias com tiras que se entrelaçavam até a altura do joelho. Os cabelos loiros em um tom mais escuro que o normal, cortados à moda romana, acentuavam o queixo comprido e o nariz ligeiramente adunco, mas não disfarçavam um rosto que nunca sorria e olhos que tudo via. Josiber, Beliah, Omael, Jeriah, Salam, Lucano e Jenareh acercaram-se das grandes cadeiras. O presidente do Conselho, Anjo Josiber, seguido pelos Conselheiros e pela plateia, deu início à prece da justiça, rogando a Deus que os orientassem nas decisões que ali seriam tomadas. Em seguida sentaram-se e, a um sinal imperceptível do Venerável Presidente, todos os imitaram. A gritaria e as vaias recomeçaram sem que os Veneráveis fizessem algo para impedi-las. Anjo Beliah encarava Micael, deixando transparecer no semblante um leve toque zombeteiro e certo prazer maldoso nas narinas entreabertas. Micael enregelou-se sob o seu olhar, recordando que fora ele, Beliah, o responsável pelo banimento de Persilah; manteve-se impassível, negando-lhe a oportunidade de vê-lo humilhado. Normalmente, em um caso de punição, qualquer um dos Sete Anjos Veneráveis pode perguntar, acusar ou defender. Neste caso não houve perguntas nem defesa, apenas acusações. A plateia manifestava-se ruidosamente, ora vaiando Micael, ora instigando os anjos velhos. Terminadas as acusações, Beliah propôs o banimento para a antessala do purgatório, na função de guardião de seus portais. Micael sentiu o sangue parar de correr; não havia acreditado que aquilo pudesse se


CAPÍTULO 5

–S

into muito, Pablito, fiz tudo que podia. Não gosto de dizer isso... os novos inquilinos chegarão amanhã. — Amanhã? — Sim, filho. Você tem que sair ainda hoje – disse, tristemente, o proprietário da casa. — Ninguém respondeu as cartas do meu pai? — Não Pablito, não é de se admirar que com toda esta confussão aqui em Barcelona, cada um ande por si. O rapazote de treze anos olhou desconsolado para o velho alto e magro sentado à sua frente. Compreendia que a casa era seu único rendimento e fazia-se urgente alugá-la novamente. Comprou-a com sacrifícios, juntando suas economias durante anos de trabalho no ofício de sapateiro e, tanto ele como a mulher, sobreviviam do aluguel da casinhola. — Não quero ficar encarcerado com os padres, seu Carmelo. Vão me obrigar a rezar o dia inteiro – resmungou ranzinza. — Eu tampouco gosto de usar saia, mas o que fazer! Você vai aprender uma profissão e mais, você terá estudo e comida. E, agora vai, se arruma, prometi aos padres que você chegaria até as quatro horas. Antes de morrer, seu pai, Carlos Calón, entregou a Carmelo todas as parcas economias que possuía, o que garantiu a Pablo quatro meses de moradia e ao moribundo a esperança que, nesse ínterim, algum velho amigo o adotasse. Carmelo Montéz, além de proprietário era também vizinho de Pablo e participou do drama que se abateu sobre ambos. Carlos não morrera nas agruras do campo de batalha, mas tomado pelo câncer que o corroeu por dentro e, de seu leito de morte, previra a fatalidade do abandono sobre seu único filho. — Carmelo, amigo – dissera ele na véspera de sua morte – por Deus nosso Senhor, eu imploro, não deixe meu filho abandonado nos bancos das praças. As cartas... se ninguém responder, por favor, fique com ele na sua casa. — Não posso prometer isso. Purita não deixará que ele fique por aqui, meu amigo. Perdoa-me. Você sabe muito bem como ela é brava.


MARIA BORALLI

36

— Então, me prometa que... o deixará em um bom orfanato e que não deixará ele sozinho no mundo. — Por Deus nosso Senhor, eu prometo! – dissera ele, comovido. Carlos não poderia ter falecido em um ano pior do que aquele. O ano de 1909 estava sendo um dos mais terríveis na história da Catalunha, especialmente em Barcelona. Há muito os catalães, entre tumultos e protestos, pregavam a ideia separatista, o desejo de constituírem um Estado autônomo, invocando as diferenças de línguas e a origem aragonesa. Empenharam-se em lutas, porém, o exército monarquista dominou cruelmente um dos maiores movimentos separatistas daquele estado. A fome e a insegurança rondavam a todos e levantes anarquistas ainda eclodiam por toda a Catalunha. Bem que ele tentou ajudar, porém, mais não podia fazer. Mesmo opondo-se à férrea vontade de sua esposa, Purita, esperou inutilmente pelas respostas às cartas que Carlos, do seu leito de morte, enviara a seus antigos companheiros de trabalho pedindo abrigo para seu único filho. Em vão recorreu, também, a seus próprios amigos e depois aos orfanatos. Entretanto, estes se encontravam lotados de crianças cujos pais haviam morrido na carnificina que se abatera sobre Barcelona. Não tinham como abrigar outro órfão. Mas o velho Carmelo era teimoso; não queria partir deste mundo levando tal pecado para pagar no outro, pois não se nega o último pedido de um homem à beira da morte. — É muito grande. Não poderemos alimentá-lo – respondiam. — Sim, mas ainda é uma criança. Pense bem, ele poderá ajudar com os menores, não acha? – replicava seu Carmelo. — Não temos muita comida – diziam as freiras e batiam-lhe com a porta na cara. Finalmente, de tanto pedir, conseguiu que os padres da Igreja da Mercé o acolhessem. Pablo calçou as alpargatas, abotoou os suspensórios, levantou os olhos castanhos sombreados por longos cílios em um último pedido de ajuda. Constrangido, o velho desviou o olhar; por ele o menino ficaria ao seu lado, mas Purita havia lhe deixado bem claro que isso não seria possível. — Um garoto de treze anos come por dois. Você não sabe que a resistência continua a lutar? — Mas, Purita... Ele sabia que bastava tocar em um assunto que a contradizia para que ela não parasse mais de falar. — Os soldados que lutam pela monarquia estão por todos os lugares. Onde o marmanjo vai trabalhar se não há trabalho? Nós – e Purita frisava “nós”, batendo no peito –, nós é que vamos ter que alimentar esse filho de um desalmado.

Micael - Um anjo caido na Terra  

Micael - Um anjo caido na Terra

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you