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O narrador nos propõe o melhor dos convites: viver bem e feliz! Então, remete-nos a um lugar no espaço, onde vive a dor, passa dificuldades, no entanto, sobrevive. Uma obra iluminada, que nos leva a pensar e muito nas atitudes do cotidiano. Para aprender a viver melhor, com certeza, é a intenção de J. C. Bridon em cada expressão, pensamentos claramente expostos e sentimentos cheios de amor a Deus e ao próximo. A busca pelo autoconhecimento do próprio elo perdido, pela verdadeira felicidade, é o que vem nas entrelinhas do contexto. A leitura cresce a cada página e nosso envolvimento com a personagem principal torna-se uma corrente de inspiração e de descobertas em nós mesmos que nos tranquiliza e nos acalenta. Convido-os a adentrar a Obra, este é o segredo...

ISBN 978-85-88886-98-8

9 788588 886988


O

Iluminado


Índice

Introdução......................................................................................................... 7 A Cabana – Recordações................................................................................. 9 “Jordh”.............................................................................................................. 21 “A Pedra Filosofal”.......................................................................................... 27 “O Reencontro ”............................................................................................. 32 “Cartas”............................................................................................................ 40 “Chuvas Rápidas” .......................................................................................... 45 “O Templo”...................................................................................................... 48 “O Retorno de John e seus Amigos”............................................................ 58 “Volta a Realidade” . ...................................................................................... 65 “De Volta Cabana”.......................................................................................... 71 “A Procura do Ermitão”................................................................................. 82 “O Grande Segredo”....................................................................................... 97 “A Cachoeira do Beija-Flor”........................................................................ 103 “Mensagens e Caminhos”............................................................................ 107 “Um Belo Presente”...................................................................................... 122 “Uma Visita Inesperada”.............................................................................. 130 “O Grande Retiro”........................................................................................ 137 “Eu Sou o Caminho”.................................................................................... 148 “Eu Sou a Verdade”...................................................................................... 149 “Eu Sou a Vida”............................................................................................. 150 “O Guia Espiritual”....................................................................................... 161 “Segredos Revelados”................................................................................... 175 “Retorno a Cabana”...................................................................................... 186 | 5 |


A Cabana – Recordações

Ventava forte. O caminho em direção à floresta estava molhado, devido à chuva passageira de inverno. Quase não dava para perceber onde pisar, pois grossas gotas caíam sobre meus olhos. De repente, avistei ao longe a fraca luz da cabana. Então percebi que dentro de pouco tempo poderia estar abrigado da chuva, tomando um café bem quentinho, enrolado em um cobertor, em frente à lareira. Aquilo me deu um novo ânimo, e então, em poucos minutos eu estava em casa. Após tomar um banho bem quente e colocar mais lenha na lareira, apanhei uma xícara de café e recostei-me languidamente na cadeira de balanço, que havia pertencido ao meu pai, com os pés cobertos por grossas meias, para me abrigar do intenso frio que começou a percorrer meu corpo. Depois de gozar o delicioso líquido, colocando em seguida a xícara em cima da mesa, encostei minha cabeça no espaldar da cadeira e fechei levemente os olhos, como que ensaiando um sono tranquilo. O dia tinha sido muito puxado desde o amanhecer até o entardecer, causando-me muito cansaço. Por isso, acho que peguei no sono logo que recostei a cabeça na cadeira. Quando acordei, já passava das onze horas da noite e a fome se transformara em um verdadeiro vulcão dentro de mim. Corri os olhos pela sala em direção à cozinha, tentando me lembrar do que | 9 |


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havia de salgado para que eu pudesse saciar um pouco aquela fome que me assolava. Lembrei-me de algo que havia visto no armazém, da última vez que lá estivera e abri um sorriso de satisfação. Com certeza, faria um preparado especial para aquela noite. Seria o prato preferido de meu pai e isso me deixou muito satisfeito. Pensei baixinho: valeu a pena toda a correria de hoje e a chuva que apanhara, pois só assim, teria uma grande oportunidade de comer o prato preferido dele. Não havia nada de extraordinário e creio que pouca gente conhece a tal guloseima. No entanto, como ele era descendente de portugueses, adorava saciar a vontade de comer tal coisa, de vez em quando, e minha mãe o presenteava, quando ele menos esperava. Era uma comida típica da noite, por isso minha alegria ao me lembrar disto naquele momento. Vesti um avental que havia pertencido a minha esposa e assoviando, alegremente, encarei a sublime missão daquele momento. Quando vi o prato completamente vazio, foi que percebi o quanto havia exagerado, por isso, corri depressa para preparar um chá de ervas, para prevenir qualquer eventualidade desagradável. Agradeci sorridente a Deus por ter me dado um pai tão maravilhoso. Acendi o velho cachimbo que pertencera a ele, sentei-me em frente à janela que dava para frente da cabana e agradeci mais uma vez a Deus. “Acho que tinha sido um bom filho”, pensei, enquanto deixava meus pensamentos vagarem em direção às belas lembranças de quando ele era vivo e pertencia a este mundo físico. Eu tinha consciência de que o havia feito sofrer muito no passado, mas tive tempo ainda de retribuir-lhe todo o carinho que a mim dedicara. Lágrimas começaram a rolar pela minha face pelas lembranças que mais pareciam verdades, que outra coisa qualquer. Senti um aperto no coração e uma grande saudade estampou-se em meu semblante. Tive a sensação de estar sozinho e não gostei muito daquela infeliz ideia.


“Jordh”

Acordei com o apito do trem que percorria e soltava uma enorme fumaça negra como que lembrando um dragão. Olhei para minha esposa que já deveria estar acordada há muito tempo e que sorria carinhosamente. – Descansaste bem, meu querido? Ainda bem que consegues dormir com todo esse sacolejar, hein? – Sabes quanto tempo estás dormindo? – perguntava-me toda feliz por poder compartilhar comigo de minhas aventuras em direção ao desconhecido. Aos poucos fui tomando consciência de onde estava e abrindo devagarzinho os olhos, a fitei carinhosamente por alguns instantes. – Creio que andar de trem eleva o espírito, meu bem, pois me sinto ótimo e pronto para recomeçar a “busca” – respondi sorrindo. A “busca”. A simples menção já me fazia arrepiar até o último fio de cabelo e ela sabia disso, pois nunca a tinha incomodado até concordar em partir comigo para um lugar tão distante como esse. Olhando pela janela, percebi que o trem havia parado em um lugar muito distante da Capital e que parecia apenas uma pequenina aldeia, perdida naquele imenso deserto de areia, terras, verde, animais e gente. – Onde estamos? – Perguntei-lhe. – Pelo que pude entender pelo inglês pesado do chefe do trem, acho que no lugar para onde desejavas mesmo vir. – disse-me entre risinhos. | 21 |


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Como era difícil a pronúncia daqueles nomes, rimos os dois e nos preparamos para abandonar o trem e tentar seguir caminho, pois nada haveria de nos atrapalhar nesta “louca busca”, como havia afirmado minha esposa. Em volta do trem havia se formado uma multidão de pessoas e pelo que pudemos deduzir, parecia que o trem só passava ali de tempos em tempos e isso era mais uma preocupação que teríamos de resolver, antes de nos embrenharmos na “louca aventura”. Conseguimos, através do chefe da pequena estação, entender que o referido veículo só retornaria ali dentro de três ou quatro meses, “às vezes só retorna no outro semestre, por isso as passagens valem por tempo quase indeterminado”, dizia-nos sorridente. Quando a multidão começou a se afastar da máquina é que percebemos como era diminuta aquela aldeia e um pequeno temor começou a querer empanar o brilho da nossa aventura. Quando parecia não existir mais ninguém, percebi alguém meio escondido, atrás de uns caixotes, que nos acenava. Acenei para o pequenino sujeito que nos sorria. Achegando-se perguntou: – Sr. Paul? Senti que tinha muitas dificuldades em falar a nossa língua e percebi como seria difícil a comunicação entre nós, porém, também sorridente, estendi as mãos e falei: – Sim, e você deve ser Jordh, não é? Notei que entendia minhas pequenas palavras e aquilo nos deixou mais tranquilos, pois, pelo menos, fome não iríamos passar. Apontou um jipe, desses antigos e, apanhando nossas malas, fez sinal para que o seguíssemos até o mesmo. – Creio que desejam tomar um banho, não é? Ele nos perguntou, arrastando seu velho idioma, misturando inglês e sei lá mais quantas línguas. Também não importava, desde que nos entendêssemos e era exatamente o que estava acontecendo.


“A Pedra Filosofal”

Voltei à realidade depois daquele longo descanso, onde também alimentei meu fiel companheiro e, como se me entendesse disse: – É meu fiel amigo. A caminhada realmente é longa. Sinto-me cansado, tanto física como mentalmente, porém não posso e não desejo desanimar, estando tão perto. Um latido alegre se fez ouvir, como se tivesse entendido minhas palavras. Mochila nas costas, me encaminhei para mais uma “aventura”. Às vezes, realmente me perguntava se aquilo não seria só uma aventura e que logo iria me cansar e esquecer aquele assunto. Porém, algo muito mais forte que minha vontade, trazia-me de volta à realidade e o desejo do “conhecimento” se avivava em minhas entranhas. Enquanto estava entretido com esses pensamentos, não senti o desaparecimento do cão, o que aconteceu algum bom tempo depois, quando percebi me sentir sozinho. Como das outras vezes, ouvi seu forte latido em determinada direção, mas como na selva nossos sentidos nos traem, decidi continuar minha caminhada na direção que determinara. Quando caminhamos em lugares como matas virgens, a sensação de “esquecimento do mundo e das coisas terrenas” é impressionante, por isso, nem liguei muito pelo fato de só ouvir o latido, em vez de estar | 27 |


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vendo o cão. As belezas que se deparam à nossa frente nos deixam de boca aberta e pensativos em relação ao destino da humanidade. Será que os homens ainda não entenderam que a vida é bela e que se mantém sozinha, com seus próprios meios e recursos, sem que precisem ser molestadas com desculpas como precisamos salvar as matas, florestas, rios e mares. Precisamos salvar quem lá vive para que a humanidade tenha continuidade? Será que ainda não perceberam que, sem os homens e seus projetos fantásticos o mundo seria bem melhor e todos viveriam em paz eterna? Será que não percebem que não haverá futuro algum, se continuarem as matanças indiscriminadas, as queimadas sem fim e o extermínio de seres que não lhes causam mal algum? Será que não sabem viver como vivem os pássaros, as aves, os animais e os habitantes dos rios e mares? Será que não percebem o olhar entristecido desses seres indefesos, que não se expressam em palavras? Será que desconhecem o caminho do leste, onde todos se unem para partilhar as belezas infinitas? Será que não sabem sonhar e não desejam que seus sonhos sejam coloridos, como as belas plumagens de milhares de aves multicoloridas? Será que não conhecem a verdadeira felicidade, sem que tenham que dizimar, queimar, matar e exterminar? Será que não percebem o quanto embelezam a natureza para que nossos olhos possam sonhar com o dia seguinte, repleto de paz e amor? Será que pensam que são os todo-poderosos, dizimadores de indefesos e que ficarão impunes? Será que desconhecem seu Criador e que em um lampejo de bondade criou a tudo e a todos para viverem em completa harmonia? Será que não sabem pronunciar a palavra “amor” que mais parece um termo de vocabulário do que o maior e mais profundo dos dons divinos? Será que ainda não se olharam no espelho e pensaram pelo menos uma vez que a vida só terá continuidade se vivermos todos unidos e em paz eterna?


“O Reencontro ”

Tão logo cheguei à cabana, percebi que se tivesse demorado um pouco mais, teria sérias dificuldades para voltar, pois o sol se punha e a escuridão já dava sinais de vida. Novamente a rotina do banho, o jantar requentado, pois havia gasto muito mais energias do que das vezes anteriores, as orações de agradecimento e as lembranças dos meus entes queridos, antes de finalmente adormecer. Em sonho, os fatos foram se achegando a mim de uma forma impressionante e mais uma vez, pude comprovar que as palavras do Grande Livro eram verdadeiras. Tinha a felicidade de seguir as sugestões de minha esposa que sempre me alertava para ter a mão algo para escrever, por isso colocava no criado mudo em nosso quarto, uma caneta e um diário para anotações que porventura surgirem, afirmava. Tinha razão, aliás, sempre tivera, porém, dessa vez, eu não poderia de forma alguma envolvê-la neste caso particular. “Obrigado, meu bem, por seres alguém muito mais do que especial na minha vida”. “És meu anjo maior que zela por mim nesta minha passagem pela vida terrena”. “Obrigado, mais uma vez, por seres o grande amor de minha vida”. | 32 |


J.C. Bridon | 33

Com aqueles belos pensamentos adormeci e, ao acordar, percebi o quanto havia transcrito em meu diário durante toda a noite, pois havia acordado várias vezes para fazer anotações. Li e reli os meus escritos, arrumei aqui e ali, se bem que nada iria mudar do que escrevera, pois eu cometia erros, eu é que não tinha certeza das coisas, no entanto, daquelas palavras e pensamentos nada deveria ser corrigido. A época das chuvas estava se iniciando, por isso, também teria de me preparar para isso. Muitas e muitas vezes me questionara se o que estava fazendo era o correto, abandonar a família, o emprego e amigos. No entanto, quando, lá na Índia, descobri o que faria se quisesse continuar na trilha dos que buscam, decidi depois de muitas conversas com minha adorada esposa e alguns amigos mais chegados que, para que muitas coisas ficassem claras dentro de mim, teria de levar avante esta trilha espiritual. Liguei minha camioneta, para que esquentasse um pouco e comecei a fazer uma lista do que deveria comprar na cidade mais próxima. Aliás, de tempos em tempos, tinha que fazer isso e o pessoal daquela cidade já me chamava de “o misterioso”, pois apenas trocava algumas palavras com o proprietário do armazém e com o farmacêutico e mais ninguém. Acho que era este o motivo para me acharem um pouco estranho, porém aquilo não me incomodava nem um pouco. Pensando dessa forma, tão logo abri a porta da camioneta meu cão pulou para dentro. Com a lista no bolso e cantarolando uma canção que me veio à mente, dos tempos de quando eu era jovem, parti na direção da cidade. Tinha percorrido alguns quilômetros quando parecendo pressentir algo, Sultão levantou as orelhas e emitiu um longo uivo. Estranhei o fato, pois somente agia daquela forma, quando estava empenhado em caçadas e se dirigia como um louco entre as árvores, em perseguição a algo que somente ele conseguia enxergar, por isso achei muito estranho sua atitude.


“Cartas”

Como o dia já estava bem adiantado, decidi que dali para frente não pararia para mais nada e conversaria só um pouquinho com as pessoas que teria de conversar, ou seja, o dono do armazém e da farmácia. Feitas as compras necessárias para enfrentar as épocas das chuvas, capa, botas de cano longo, dois pares cada, pois passaria um bom tempo até meu retorno à cidade, o que só iria acontecer com a chegada da primavera. Ao lembrar a bela estação, não pude deixar de pensar como havia sido feliz em outras épocas. Para mim, foi uma verdadeira volta às origens, isto é, um novo renascer, como o que estava começando a acontecer novamente. Não estava preparado ainda para pronunciar o nome daquele que veio da fronteira e que retornou ao físico, porém tinha certeza absoluta que novamente havíamos sido colocados frente a frente e isso me fez lembrar uma frase que escrevera pensando nas pessoas que nos são muito caras: “Os amigos são reflexos da face de Deus, por isso nos são colocados frente a frente para que possamos nos mirar neles”. Novamente a alegria começou a jogar para o lado a melancolia que estava tomando corpo dentro de mim, quase me fazendo desistir da longa busca, porém agora esse fato novo me trazia novas esperanças e meus dias ali seriam maravilhosos, sem dúvida alguma. Cantava agora alto e forte, como se desejasse expressar ao meu bom e eterno | 40 |


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amigo quanta saudade tinha sentido, desde que aquelas lembranças me fizeram retroceder a épocas passadas. Chegando em casa, preparei um banquete para aquela noite e depois daquele banho quente e gostoso, abri uma garrafa de uma bebida que não continha álcool, despejei um pouco em um copo e me sentei à mesa, comendo como um touro, tamanha era a fome que o dia havia me proporcionado. Liguei a pequena vitrola que havia levado, caso surgisse alguma oportunidade e colocando alguns discos antigos, sentei-me na cadeira de balanço e me pus a recordar. “Quantas voltas a vida dá para que consigamos pagar nossos carmas devidamente”? Esta era a pergunta que fervilhava em minha mente, tomando de assalto todo o meu ser. “Respostas definidas”, pouco as tinha, mas, nem por isso deixavame abater pelo desânimo que, às vezes, tornava-me melancólico. Era uma verdadeira guerra interior essa louca busca que me havia feito andar pelos quatro cantos do mundo. Acho que ainda não entendera que as coisas nunca estão longe de nós e se quisermos ser felizes, devemos ser “aqui e agora”, tentando encontrar as respostas dentro de nós mesmos. Acho que tive muitas vidas anteriores a esta e, prova disto, é que de vez em quando me vejo pensando como se tivesse vivido em determinados lugares e épocas. Certa ocasião em que escrevia meu romance Ilha dos Sonhos, me vi envolvido de tal forma pelo enredo que quase tive a certeza de que vivera todos aqueles fatos, tão reais se pareceram. Depois, afastei aquela sensação de minha mente, para poder continuar a escrever, coisa muito difícil, pois me sentia preso àquela história. Foi algo estranho e maravilhoso, ao mesmo tempo pude conhecer outro lado da minha vida que desconhecia completamente e isso era o que mais me tranquilizava. O acontecido de hoje, relembrei, trazia-me de volta belos pensamentos que vivi naquela maravilhosa ilha e que aquecia meu coração já bem cansado de amar.


O Iluminado