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Introdução

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riginalmente, a palavra Apócrifo (escondido, secreto) não significava nada falso ou desautorizado, mesmo com o passar dos séculos esta seria a conotação principal que referido termo foi adquirindo, pelo menos dentro da Igreja. Os chamados evangelhos apócrifos constituem-se numa coleção de textos muito heterogêneos, cujos únicos traços comuns são sua referendada antiguidade, o relato de temas ou personagens muito importantes, relacionadas com o início da religião cristã e por terem sido todos eles recusados pelas autoridades eclesiásticas. Atacados e vilipendiados por uns e excessivamente elogiados por outros, os evangelhos apócrifos apresentam-nos um quadro multicolor e sumamente interessante dos primeiros tempos do cristianismo. Neles, capta-se a frescura e a inocência do cristianismo inicial, quando a religião popular e os ensinamentos esotéricos não tinham sido, ainda, ocultados nem submetidos por uma Igreja que, com o tempo, chegaria ser extremamente autoritária e repressiva. • 7 •


8 • Os Evangelhos Apócrifos

Neste volume apresentaremos uma seleção dos apócrifos do Novo Testamento que consideramos mais significativos: textos, todos eles redigidos durante os primeiros séculos de nossa era, muitos contemporâneos e, inclusive, talvez até anteriores aos evangelhos canônicos. Através destes escritos, o leitor interessado poderá penetrar mais profundamente, não somente no processo de gestação das novas idéias religiosas que teve lugar nos primeiros tempos de nossa era, mas também nos mistérios da história de Jesus, cujo poderoso atrativo segue vigente depois de vinte séculos.


O Protoevangelho de Santiago

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Protoevangelho de Santiago pertence ao grupo dos Evangelhos da Natividade, que relatam também o nascimento e adolescência da Virgem Maria. O termo protoevangelho foi utilizado, pela primeira vez, para designar este apócrifo em 1551, pelo humanista francês Guilherme Postel, que, ao ver que era lido nas igrejas do Oriente, pensou que nesse aspecto poderia ser considerado canônico e que constituía uma espécie de prólogo ou introdução ao evangelho de São Marcos, daí o nome de “Protoevangelium.” Seria mais apropriado, por isso, denominá-lo Livro de Santiago, que é o nome com o qual Orígenes o conhecia. As primeiras referências a este evangelho já as encontramos em Clemente de Alexandria, mestre de Orígenes, e também Justino, mártir, refere-se a detalhes do nascimento de Jesus, que não se encontram em nenhum outro lugar, somente neste Livro de Santiago. Parece que foi escrito no princípio do Século II, pelo que se constitui, para muitos autores, a narração mais antiga do milagroso nascimento e da infância da Virgem Maria. Nele, aparecem, pela primeira vez, os nomes de seus pais: Joaquim e • 9 •


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Ana, assim como alguns episódios muito interessantes, não isentos de extravagâncias. Com uma linguagem cheia de ingenuidade e de brandura, conta os primeiros anos de Maria. Evidentemente, a finalidade principal de toda a obra é demonstrar a virgindade perpétua de Maria antes do parto, no parto e depois do parto, por isso não há dúvida em beber “a água da prova do Senhor.” Sua virgindade durante o parto é testemunhada por uma parteira que esteve presente no nascimento. Seu autor trata de dar a impressão de que é Santiago, irmão de Jesus, porém quem foi, na realidade, é impossível de averiguar. Sua ignorância da geografia da Palestina é surpreendente, por outro lado, em suas narrações nota-se uma grande influência do Antigo Testamento, o qual parece indicar que se trata de um cristão de origem judaica, que vivia fora da Palestina, talvez no Egito. Na sua forma atual, não é obra de um só autor. Os incidentes da morte de Zacarias e da fuga de João, o Batista, nota-se que foram claramente acrescentados posteriormente, pois o fio do relato é cortado em várias ocasiões. Mesmo que sua composição atual não vá além do Século V, é evidente que as duas primeiras partes já existiam na primeira metade do Século II. Foi freqüentemente utilizado nas igrejas gregas e também por oradores, poetas e artistas gregos e bizantinos. Existem mais de 30 manuscritos do texto grego, além de traduções muito antigas em armênio, siríaco, copto e eslavo, embora não se tenha descoberto nenhum manuscrito latino. A influência desse evangelho no campo da liturgia, da literatura e da arte tem sido enorme. O culto de Santa Ana e a festa eclesiástica da Apresentação da Virgem no Templo devem sua origem a este livro. Muitas das lendas sobre Nossa Senhora estão baseadas nele. Tem-se constituído uma permanente fonte de inspiração para os artistas de todos os tempos.


O Evangelho do Pseudo Mateus

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Protoevangelho de Santiago teve uma enorme influência na literatura e na vida da Igreja do Oriente, entretanto, na do Ocidente, parece que somente foi conhecido através de arranjos dos quais, o mais antigo e importante, parece ser, hoje, o conhecido Evangelho do Pseudo Mateus. Este evangelho foi, possivelmente, redigido nos fins do Século III, ou princípios do Século IV. Em muitas de suas passagens especialmente na primeira parte - estão calcadas as anteriores, se bem que introduz também algumas modificações substanciais como as feras selvagens que escoltam a sagrada família, o episódio dos leões, a palmeira que se inclina para que comam, surgindo logo a seus pés uma fonte, ou a derrubada, diante de Jesus, dos ídolos do templo egípcio. A postura das autoridades eclesiásticas diante deste e outros apócrifos é, muitas vezes, ambivalente: por um lado os recusam com animosidade, mas por outro, manifestam que possivelmente muitas das passagens contidas neles bem poderiam ser verdadeiras. A influência do Pseudo Mateus, durante toda a Idade Média, foi enorme. Seus relatos ocupam um importante lugar • 28 •


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nas escrituras de muitos santos medievais e, por isso, serviram de inspiração para numerosos pintores, especialmente durante o Renascimento.

Evangelho do Pseudo Mateus Primeira Parte I 1. Naquele tempo, vivia em Jerusalém um homem de nome Joaquim, pertencente à tribo de Judéia. Pastavam suas ovelhas e temia a Deus com toda a simplicidade e bondade de seu coração. Não tinha outra preocupação que seus rebanhos e empregava o produto que obtinha em dar de comer aos que, carecendo de recursos, também temiam a Deus; oferecia seus sacrifícios por dupla partida, pelos que trabalhavam na doutrina e nos termos de Deus e pelos que estavam sob seu cuidado. De seus cordeiros, de suas ovelhas, da lã e de todo o que possuía dividia em três partes: dava uma às viúvas, aos órfãos, aos forasteiros e aos pobres; uma segunda parte dava aos que tinham sido consagrados ao serviço de Deus; enquanto que, a terceira parte, a reservava para ele e para sua casa. 2. Como se comportava assim, Deus, em recompensa, multiplicava seus rebanhos, até a ponto de não haver ninguém como ele em todo o povo de Israel. Quando tinha 20 anos, tomou por esposa Ana, filha de Isachar, de sua tribo, e da raça de David. E depois de conviver com ela 20 anos, não tinha tido filhos e nem filhas.


Livro Sobre a Natividade de Maria

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rata-se, sem dúvida, de uma refundição do Evangelho do Pseudo Mateus e como ele serviu de base a numerosas lendas e histórias medievais. Neste livro, vemos depuradas - e até eliminadas - muitas coisas que podiam ferir a sensibilidade de seu tempo, como o primeiro matrimônio de José, a prova da “água do Senhor,” a comprovação de Salomé, etc. Apresenta muitos dos conceitos incluídos em seus predecessores, mas manifesta uma devoção mais delicada sobre a Virgem Maria. Durante a Idade Média, foi atribuído a São Jerônimo e ainda hoje figura entre as obras deste Doutor da Igreja. Seja como for, em sua forma atual, parece bastante posterior aos anteriores.

Livro Sobre a Natividade de Maria Prefácio Esta incumbência que me dás, não é para mim grande trabalho, mas sim uma grande responsabilidade, já que exige muito cuidado para discernir o verdadeiro do falso. Pedes-me • 65 •


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que faça uma relação escrita dos dados que encontrei sobre o nascimento da santa e bem-aventurada Virgem Maria (e do restante de sua vida) até o dia de seu incomparável parto e os inícios da vida de Cristo. Esta não e uma incumbência difícil, mas sim arriscada, como acabo de dizer, pelo perigo que acarreta em relação à verdade. Bem sabes que estas coisas, cuja relação me pedes, agora que tenho a cabeça esbranquiçada, li-as quando pequeno, em certo livro, que então caiu em minhas mãos. Pelo que te darás conta que, depois de tanto tempo, e ocupado como tenho estado em assuntos de notável envergadura, podem facilmente se ter apagado da memória alguns detalhes. Assim pois, acredito que ninguém poderá reprovar as omissões, trocas e os acréscimos nos quais incorra ao ceder a teu pedido; já que, assim como admito sua possibilidade, da mesma maneira nego que as cometa com deliberação.

I 1. A bem-aventurada e gloriosa sempre virgem Maria descendia da família real e pertencia à família de Davi. Nasceu em Nazaré e foi educada no templo do Senhor, na cidade de Jerusalém. Seu pai chamava-se Joaquim e sua mãe Ana. 2. A vida destes esposos era simples e justa ante o Senhor e irrepreensível e piedosa diante dos homens. Seus bens eram divididos em três partes: uma a destinavam para o templo de Deus e seus ministros; outra davam aos pobres e peregrinos, a terceira ficava reservada para as necessidades de seus criados e para si mesmos. 3. Entretanto, este matrimônio, tão querido de Deus e piedoso para com seu próximo, fazia vinte anos de vida conjugal em casto matrimônio sem obter descendência. Entretanto, haviam feito voto de que, se Deus concedesse-lhes um re-


O Evangelho de Tomás

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onsiderando como oriundo do meados do Século II, este “Evangelho de Tomás” do qual se conservam versões em grego, siríaco, armênio, eslavo e latim, deve ter sido escrito por algum cristão mediamente versado na língua e literatura judaicas. Relata a infância de Jesus, seus feitos e milagres, com pitoresca ingenuidade e simplicidade. Inclui muitos dos episódios repetidos em outros “evangelhos da infância,” que mostram o menino Jesus geralmente caprichoso e vingativo, que fazia, com freqüência, alarde de seus poderes mais para castigar aos outros do que para curar ou fazer o bem. Sem ter relação com o gnóstico “Evangelho segundo Tomás”que mais adiante veremos - este apócrifo foi de grande popularidade, como o acreditam as numerosas versões e traduções chegadas até nós, e também os afãs de Orígenes e outras autoridades da primitiva Igreja, por desautorizaçãr em seus escritos e homilias.

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78 • Os Evangelhos Apócrifos

O Evangelho de Tomás Narrações sobre a infância do Senhor, por Tomás, Filósofo e Israelita I Eu, Tomás Israelita, venho dar a conhecer a todos a infância de Nosso Senhor Jesus Cristo e quantas maravilhas realizou depois de nascer em nossa terra. Assim começa meu relato:

II 1. O menino Jesus, tinha então cinco anos, e se encontrava um dia brincando no leito de um arroio. Recolhendo da corrente pequenos charcos de água, tornava-a cristalina de imediato e a dominava somente com sua palavra. 2. Depois fez uma massa de barro e formou com ela doze pássaros. Era dia de sábado e tinha outros meninos brincando com ele. 3. Mas um judeu, vendo o que Jesus acabava de fazer em dia de festa, foi correndo até seu pai José e contou tudo: “Olha, teu filho está no arroio e pegou um pouco de barro fez doze pássaros, profanando com isso o sábado.” 4. Foi José até o rio para ver e o repreendeu dizendo: “Por que fazes no sábado o que não é permitido fazer?” Mas Jesus bateu palmas e se dirigiu às figuras gritando: “Andem!” E os passarinhos foram-se todos cantando. 5. Os judeus ao verem isto se encheram de admiração e foram contar o que tinham visto Jesus fazer.

Os Evangelhos Apócrifos  

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