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Este livro busca, através de uma linguagem de fácil compreensão, desvendar o processo da codependência afetiva nas mulheres. O processo da codependência é muito doloroso e, às vezes, sem saber de onde ele surge, prosseguimos com nossas vidas atadas às pessoas problemáticas, sem ao certo entendermos o porquê e como fazer para nos desvencilharmos delas. Através de histórias reais e romanceadas, aprenderemos a identificar se existe esse padrão de comportamento em nós e, em caso afirmativo, como nos livrar deles. Helena, nossa protagonista, coloca um anúncio no jornal em busca de homens problemáticos para relacionamento sério e certamente encontrará vários. Descubra você mesma uma possível Helena latente em você e saiba como resolver seus conflitos junto com a nossa heroína. Nenhuma mulher suporta ser espancada, certo? Errado! Suportar difere muito do conceito de gostar – mas se suportamos homens doentes e problemáticos em nossas vidas, por que será que fazemos isso? Espero que você descubra e que esse seja o seu primeiro passo para conseguir uma vida saudável, com um homem sadio e merecedor do seu amor. O amor é incrivelmente belo, e saber amar, incrivelmente difícil! Boa leitura!

ISBN 978-85-88886-89-6

9 788588 886896


ÍNDICE

Introdução........................................................................................... 7 Parte 1...................................................................................11 1 O dia em que amei Hitler....................................................... 13 2 O anúncio no jornal................................................................ 21 3 Lucidez e dor............................................................................ 27 4 Abstinência............................................................................... 33 5 Dani........................................................................................... 35 6 Volta pra mim?......................................................................... 41 7 O casamento de Bárbara......................................................... 45 8 Um pouco mais de Dani......................................................... 49 9 Dr. George................................................................................ 53 10 À espera de um milagre.......................................................... 55 11 Preciso melhorar...................................................................... 61 12 Vivian........................................................................................ 63 13 Karem........................................................................................ 67 14 Diversão, amor, êxtase e passado........................................... 71 15 Não posso viver sem ele.......................................................... 77 16 Lívia........................................................................................... 81 17 Polícia e drogas........................................................................ 83

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O grupo de mulheres que amam demais.............................. 85 Eu sou bem resolvida. Só por hoje!....................................... 89 Há algo interessante nos homens normais........................... 95 Revivendo o passado cruel..................................................... 97 A briga dos pais...................................................................... 103 Sou um corpo pesado e um lixo.......................................... 105

Parte 2.................................................................................107 1 O amor saudável.................................................................... 109 2 Uma carta de amor................................................................ 111 3 Sozinha na Grécia.................................................................. 117 4 Carla está no hospital............................................................ 125 5 Nina e Hitler........................................................................... 129 Parte 3.................................................................................131 1 Um verão distante e cruel..................................................... 133 2 Um tempo atemporal............................................................ 137 3 Amor e loucura...................................................................... 139 4 34 Anos: o que ganhei e o que perdi?.................................. 141 5 Nina não se lembra mais de Hitler...................................... 145 6 A diretora de uma grande empresa..................................... 147 Parte 4.................................................................................149 1 Características........................................................................ 151 2 Sintomas da codependência................................................. 155 3 Disfunção familiar................................................................. 159 4 Recuperação da codependência.......................................... 163 5 Teste a sua codependência e dicas de autocuidado........... 169 6 A síndrome da codependência afetiva:............................... 173 7 A cura – controle................................................................... 179 Referências bibliográficas:............................................................. 181 Sobre a autora:................................................................................ 185


CAPÍTULO 1

O DIA EM QUE AMEI HITLER

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chão gelado denunciava um turbilhão de sentimentos e Nina, deitada nua, sentia o corpo gélido derreter-se e unir-se ao chão num processo simbiótico entre a dor e a esperança, a morte e a vida, o hoje e o amanhã. Estava assustada e confusa, esticou-se mais e mais até alcançar um pequeno diário que guardava há anos e abriu exatamente num capítulo com título que ela mesma julgava horripilante: “O dia em que amei Hitler, por Nina M.” Posicionando-se de lado, sentiu que o corpo estava bem mais magro; percebeu os pequenos ossos que saltavam e espremiam o chão, a dor e as lembranças. Então, num ato súbito de coragem, resolveu reler o conteúdo do dia em que amara Hitler e antes que o fizesse, decidiu que substituiria o titulo por “O dia em que não me amei”. Simples, fácil e menos drástico. Mas a vida de Nina pedia, de certa forma, essa dramaticidade, esse sentimento exacerbado, e ela chegou a se questionar se o fato de ter vivido tantas exuberâncias não fazia parte de um universo dela, dedicado a ela, um teste dos deuses para provar que ela era, sim, insana, exagerada e muito passional.

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Escravas de Eros

Olhou para os rabiscos nas páginas e identificou pedaços “suados” por lágrimas da época em que escrevera e uma sensação de calafrio percorreu seu corpo de forma tão intensa que ela precisou correr para alcançar um cobertor, nele se enrolar, voltar à posição de “mulher ao chão” e recomeçar a sua leitura. E em voz alta, leu: “No dia em que amei Hitler, o céu estava nublado e o vapor da água da banheira anunciava o meu crime. Eu era cúmplice de um jogo perigoso e fatal e sem a percepção consciente do genocídio que estava causando nas células do meu corpo e da minha mente. A cada toque, uma morte; a cada beijo, um grito; a cada consentimento, cinzas pelo chão. “O amor sugeria felicidade e paz e eu estava amando a própria guerra que travava toda vez que os olhos castanhos de Hitler exigiam que os meus fossem azuis. Eu estava berrando na calada da noite e ninguém poderia me ouvir, pois meu grito era silencioso e frio; assustado, porém apático. “As mãos de Hitler eram brancas e fortes e no primeiro dia em que ele anunciou seu plano de guerra eu já estava cabisbaixa concordando com suas maquetes diabólicas, seus discursos persuasivos, seus pensamentos insanos, apenas para poder estar ao lado dele, o homem que viria destruir territórios dentro de minha fragilidade de mulher. “Quando se é comparsa de uma guerra, a mente é escrava de cada plano traçado, cada movimento do soldado à espreita, cada fuzilamento e cada gota de sangue derramada ao chão. O corpo se faz disponível para o grande ditador sem a percepção óbvia de que ele poderá te aniquilar com o tempo, ou mesmo quando a percepção é um pouco vívida temos a sensação de que ao lado de Hitler somos fortes e corajosas, ousadas e resolvidas, somos mulheres seguidoras de um grupo nazista, andando


CAPÍTULO 2

O ANÚNCIO NO JORNAL

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elena pegou o celular e discou o número dos classificados do jornal. Quando ditou o anúncio para a atendente, esta a fez repetir, pensando ter entendido mal. Helena, então, suspirou e sorriu, imaginando o rosto do outro lado, confuso e constrangido, e repetiu calmamente: “Eu, mulher bonita e inteligente, busco homens extremamente problemáticos para relacionamento sério. Ass.: A Escrava de Eros.” O número da caixa postal foi dado, e Helena decidiu que dentro dessa semana de anúncio, escolheria com muita atenção e perspicácia o seu novo namorado. Vários homens responderam, numa curiosidade mórbida, e foram logo descartados. Outros entenderam errado, e responderam dizendo possuir o mesmo fetiche sexual. Insinuavam relações sadomasoquistas, citavam roupas que comprariam para ela, todas dignas de uma rainha, e foram descartados também. O primeiro contato que parecia entrar no perfil do anúncio dizia: “Olá, Helena, me chamo Antonio, tenho 35 anos, sou separado, e possuo um diagnóstico psiquiátrico um tanto complicado.


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Escravas de Eros

Paranoia e oscilações de humor são constantes. Tomo medicamentos fortes, mas mesmo assim, ainda me sinto ausente do mundo em que vivo. Espero poder encontrar em você a pessoa que me salvará de toda essa confusão. Já ansioso. Antonio.” Casaram-se após uma semana do primeiro encontro. Helena e Antonio mudaram-se para uma pequenina casa, afastada, já que ele não poderia conviver com muitas pessoas, pois isso certamente desencadearia uma crise de paranóia e ansiedade. As crises de Antonio aconteciam de forma inesperada e por motivos que pareciam ilógicos à Helena. Uma vez foi a empregada que estabelecera um pacto diabólico com a pouca vizinhança para destruí-lo, outra vez foi o homem do lixo, que na visão de Antonio era um ET louco para abduzi-lo e levá-lo de vez para experiências malignas. Helena também não escapava da paranoia do marido e teve que reajustar a vida para que ele pudesse sentir mais segurança. Ela era arquiteta e precisou abandonar o trabalho, pois, como ele dizia, as pessoas que trabalhavam com ela poderiam tirá-la dele; e ele sabia que elas não eram confiáveis. Ela passou então a dedicar 24 horas por dia de sua vida a Antonio. Dava-lhe comida, levava-o ao médico e cuidava até de suas dívidas. Quando alguém tentava, de alguma forma, alertá-la de que Antonio não era a pessoa certa, ela simplesmente ignorava os comentários e prosseguia na sua missão: deixar Antonio feliz! Vamos entrar no inconsciente de Helena e perceber que o que ela almejava de forma inexorável era salvar Antonio. Na verdade, ela se sentia a única capaz de fazê-lo, ela seria a mulher que o modificaria, pois podia entendê-lo e tinha a necessidade


CAPÍTULO 3

LUCIDEZ E DOR

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elena estava esperando no corredor, enquanto os médicos avaliavam mais uma crise de Antonio. Teria que esperar para saber se ele seria internado ou não e provavelmente o levariam novamente para um hospital horrível e cheio de malucos. Pegou um café e começou a pensar em Antonio, a forma estranha como se conheceram, e como ela havia colocado o anúncio no jornal, o olhar dele no primeiro encontro, a vontade imediata de cuidar, de tomar conta, de... Os pensamentos dela foram levados para uma realidade não muito bem-vinda. A necessidade de mais uma vez tapar os buracos com a doença de outrem. Lembrou-se do Dr. George e suas teorias, acreditando que ela precisasse dessas pessoas porque no fundo não passava de uma codependente, manipuladora e emocionalmente instável. Mas ela sabia exatamente o que queria e não via nas palavras do Dr. George qualquer significado de realidade. Sim, ela queria alguém para cuidar, alguém doente, mas isso fazia parte da sua personalidade, fazia parte de gostar de ajudar, enfim, ela precisava dessas pessoas e isso não poderia negar.

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Escravas de Eros

Pensar no Dr. George a fez ficar inconfortável, fraca e cansada, precisava de forças para Antonio e as conseguiu não se sabe como. Tomou um café, deitou-se no sofá do hospital e conseguiu dormir por alguns minutos. Foi acordada pelo médico de Antonio, e pela expressão em seu rosto ela já sabia que o removeriam da enfermaria da psiquiatria para o hospício. Não disse nada, levantou e acenou com a cabeça, como quem diz “tudo bem, tudo bem”, respirou fundo e foi ao encontro da ambulância. No quarto gelado e branco, Antonio exibia ainda alguns últimos espasmos musculares. Estava sedado e a impressão que dava era a de um morto-vivo que luta pelos últimos segundos de vida, respirando devagar, suspirando, a mente inquieta agora um pouco mais calma e controlada. Ele observou Helena ao lado, os olhos cansados, as mãos pequenas passando em sua testa e a sensação nítida do sofrimento daquela mulher, com os olhos inchados de tanto chorar, a voz rouca e a certeza de que ela estaria ali como uma estátua pelo resto de sua vida, sempre ao lado dele, como cúmplice de um crime que sofre em silêncio, mas não pode deixar o parceiro sozinho por um único segundo, pois será incriminado também. A sombra de algo ruim que tem a percepção do corpo que a formou, mas não pode desvencilhar-se dele. — Por quê? – perguntou Antonio, olhando para Helena. – Por quê? Helena percebeu que a pergunta fora lúcida e, ao dar-lhe um beijo na testa, respondeu: “Simplesmente porque é minha missão cuidar de você. Porque eu te amo!” Antonio se agitou e ficou nervoso. Naqueles estados de lucidez, a presença de Helena era constrangedora, como se o fizesse


CAPÍTULO 4

ABSTINÊNCIA

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árbara chegou em 10 minutos e presenciou a pior cena de sua vida. Helena estava branca, imóvel, apática, e não respondia a nada. Levou-a correndo ao hospital, mas após um batalhão de exames, nada foi detectado. O médico disse que provavelmente seria estresse e que a amiga ficasse de olho nela por algum tempo. Helena acordou no quarto de hóspedes de Bárbara e começou a chorar, era impossível deixar de fazê-lo. Pensou em Antonio e a sensação de fracasso e dor era tamanha que a única solução para acalmar a sua alma seria tê-lo de volta. Ligou para o hospital, mas foi avisada que ele tivera alta. Tentou os poucos números onde poderia encontrá-lo: em nenhum deles obteve retorno. Estava ficando desesperada. Andou pela casa de Bárbara e ignorou o aviso da empregada para que se deitasse. Saiu correndo e pegou um táxi; rapidamente estava em casa. Estaria segura? Antonio estava lá, fazendo as malas com olhar tranquilo, rosto ameno. Helena o odiou e amou ao mesmo tempo. Jogou-se em cima dele e foi empurrada.

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Escravas de Eros

— Respeite a minha doença, Helena, e a minha decisão de querer ficar sozinho. — Não posso! — Não cabe a você poder ou querer, cabe a mim essa decisão. Pegou a pequena mala, andou até a porta, quis virar-se para ver como Helena estava, mas não o fez. Num ato de lucidez extrema, foi embora.

ESCRAVAS DE EROS  

Este livro busca, através de uma linguagem de fácil compreensão, desvendar o processo da codependência afetiva nas mulheres. Este é muito do...

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