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No ano de 1747, inicia a imigração de açorianos à Ilha de Nossa Senhora do Desterro – atual Florianópolis –, Santa Catarina. Até 1756 mais cinco levas chegarão para ajudar a povoar a ilha. Entre esses anos, um cargueiro aporta em Desterro. Mais que alimentos e ferragens, o capitão traz escondido em seu porão mulheres fugidas do Arquipélago de Açores. Feito brumas, elas chegam à ilha sem registros e sem autorização da Coroa Portuguesa. Mas quem são essas mulheres? Do que estavam fugindo? Entre relatos fictícios e fatos históricos, a personagem tece sua história: a saga de mulheres que viviam no Arquipélago de Açores e tiveram que deixar suas vidas e o que mais sagrado havia em suas almas para então se lançarem numa incógnita fuga para a América. Um romance que aborda o sagrado feminino, o universo das mulheres com suas esperanças, seus medos, suas sombras e sonhos. Um livro femíneo, que mergulha na figura da mulher intuitiva, visceral, presciente e densa; a então mulher intitulada de bruxa. Romance contemplado com O EDITAL ELISABETE ANDERLE DE ESTÍMULO À CULTURA, concurso de produção, circulação, pesquisa, formação, preservação e difusão cultural de projetos culturais da Secretaria de Estado Turismo, Cultura e Esporte de Santa Catarina, Fundação Catarinense de Cultura e Conselho Estadual de Cultura.


Prólogo

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atmosfera onírica da ilha em noite de Lua cheia sempre me proporcionou encantamento, e depois de tantos anos, aprendi que não há ritual mais intenso do que somente contemplar a Lua. Neste momento, é para ela que minha alma está voltada. Tanto sofrimento... Para chegar a tão desconcertante sabedoria. O som abafado da chaleira a denunciar a fervura da água fez-me levantar-me da cadeira, privando-me por alguns momentos da veemente visão lunar. Caminhei até o fogão a passos lentos e cansados. A erva de capim-limão aguardava, pacientemente na caneca, a água fervente. O aroma penetrou em minhas narinas, “Por onde andaria Ignis?”, pensei. Já fazia três semanas que ela se ausentara da vila, numa viagem misteriosa. Ela era assim, sempre seria. Uma criança-mulher-velha selvagem, livre de regras e sentimentos terrenos. Alma liberta de preconceitos e de tudo o que o ser humano valoriza em sua inquietante busca fracassada. Não ousaria perguntar-lhe para onde iria, seria invadir seu espírito. Se quisesse me dizer, o faria sem minha cobrança. Peguei a caneca com o líquido fervente. A respiração da Grande Mãe já se anunciava. Isso era bom, só mesmo o vento Sul secaria as roupas e o terreno, levando embora a chuva teimosa que se arrastava durante toda a semana. O vento. A respiração do divino feminino. [9]

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Ouvi o bater de palmas no portão. Eram os filhos de Kraí a trazer-me milho-verde; agradeci, afagando-lhes os seus lindos cabelos lisos e negros como a terra de Corvo. “Corvo”, repeti em pensamento, “a Ilha Negra”. Um dos pequenos tirou da sacola algo pesado e de cheiro denunciador: uma respeitosa tainha. – Tinha tanta, mas tanta tainha que não dava para ver a areia da praia – disse-me o menorzinho. – Amanhã, trago mais. Trago as pequeninhas, que eu sei que a D. Lunae gosta – disse, mostrando-me a boca vermelha sem os dentes de leite. Fui até a cozinha, e com minha mão cheia de veias e manchas escuras da idade, peguei as últimas balas que eu havia feito do resto do melado. Fizeram festa e foram-se embora, levando com eles a alegria e o calor da juventude. Voltei para frente do fogão à lenha, era junho, e o inverno já chegara à Ilha do Desterro. A tainha já estava limpa, sem tripas, porém, haviam deixado a ova. Pensei em fazê-la no dia seguinte, mas era muita comida. Olhei a tainha carnuda, olhos brilhantes e as guelras com um sangue vivo. Era muito grande, daria para três pessoas esfomeadas. Mesmo assim, salguei-a e temperei-a com limão, “amanhã sem falta eu irei fazer um bom almoço”. Geralmente, alguém aparecia para a benzedura ou mesmo para pedir esmolas. Poderia também Tereza aparecer, talvez fosse o dia de sua visita semanal... Não me recordo. Dar-lhe-ia um pedaço da tainha com pirão. A ova eu iria guardar caso a Ignis voltasse, é do que ela mais gosta, da ova. Peguei a manta, já estava frio por demais. Fui trancar o portão que os meninos, na correria, deixaram aberto. Já passava das 20 horas. Fechei o trinco e caminhei para casa, um longo caminho, que eu fazia correndo em meu tempo de moça. O Paru, meu cachorrinho, se pôs a latir. Eram os patos que se adentravam

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Escritos I Portugal, Arquipélago de Açores, Ilha das Flores, maio de 1745.

Minha vida, entre amargas verdades e doces mentiras

O

s últimos raios de Sol projetavam-se contra a parede costeira perfeitamente vertical, coberta por uma exuberante vegetação, regada por uma sucessão quase ininterrupta de quedas de água, convertendo-se num imenso arco-íris que fazia do local um momento mágico paradisíaco. A vibração que eu sentia originava-se do solo, me inclinei e coloquei as mãos na terra, estava úmida e ainda morna por causa da forte presença do Sol durante todo o dia. O céu abrigava nuvens de intenso cinza, era a familiar chuva que sempre chegava ao entardecer. – Perdeste-te no tempo, Lunae? Nem precisei volver-me, o aroma de terra que sempre acompanhava minha irmã era de certa forma revelador. – Há quanto tempo estás aqui, Ignis? – Tempo suficiente para já estar faminta – disse-me, aproximando-se pelas minhas costas, onde senti os seus lábios roçarem, no meu ombro esquerdo, seguido de uma sutil sucção até o estalar de um beijo. – Vamos, o jantar já está pronto – ordenou-me. Levantei-me e tentei segurar a sua mãozinha. Ignis se afastou, provocando-me quase um tombo. Cambaleando me [ 16 ]

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reergui, fitei-a com desaprovação, mas fui vencida pelo seu sorriso indefectível, enquanto ela já levantava o vestido até a altura dos joelhos, entregando-se a uma leve corrida. Não tive escolha, retribuí e entreguei-me ao seu ato ludíbrio. Arfantes e com os vestidos um pouco sujos, chegamos até nossa casa. O caminho era de terra negra, típica das ilhas do Arquipélago, procedentes de terras vulcânicas. Enchi uma pequena banheira que se localizava atrás de nossa casa. Havia um pequeno filete de água que jorrava da colina próxima. Era a água vinda de um dos vulcões existentes na Ilha das Flores. Vó Luzia sempre nos dizia, “para que temê-lo? Vamos é aproveitar o que ele pode nos oferecer”. Desfiz a longa trança emaranhada pelo vento, que insistia em soprar o dia inteiro, às vezes chegávamos a sentir tonturas, tamanha era sua constância, por isso sempre estávamos com lenços ou mesmo tranças benfeitas. Tratei logo de capturar a pequena Ignis e coloquei-a junto comigo a esfregar-lhe os pés para que a lama negra saísse. Ignis raramente usava sapatos, vivia com os pés descalços. Quando pedíamos para calçá-los, respondia assustada: “Como ouvirei a terra?”, e vó Luzia sorria pelo seu encanto. Maria Luzia Fernandez, esse é o nome completo de minha avó, conhecida por todos como vó Luzia. Trabalhou durante anos como cozinheira de uma igreja na região da Galícia, o que sei é que durante o ano de 1742, com sessenta anos, vó Luzia teve de nos assumir plenamente, pois um trágico acontecimento surgiu em nossa família. Eu cresci criada pelo meu avô paterno. Meus pais haviam falecido quando uma peste assolou a Europa. Só fui saber de Ignis após a morte desse meu avô; até então, eu pensava que era filha única. Só nos haviam restado dois parentes por parte de mãe: nossa tia-avó, Vó Luzia, que consideramos

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Escritos II Arquipélago de Açores, Ilha do Corvo, setembro de 1746

Corvo, a ilha negra

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água da cachoeirinha que brotava das pedras encoberta de musgos estava fria, aproveitei e lavei o meu rosto. Olhei em volta, a Ilha das Flores era bela, com suas várias pequenas cascatas que tornavam o lugar paradisíaco. Continuei a minha caminhada até o casebre, lembrei-me da noite em que eu e vó Luzia conversamos sobre minha mãe, agora eu estaria usando o mesmo lugar para esperar o barco que viria de Corvo. Levava pouca coisa, somente uma muda de roupa e algo para comer durante a minha espera pelo barco. Estava sozinha, ninguém viera comigo. Nem mesmo Ignis. Senti sua falta. Cheguei ao casebre. Havia pouca poeira, mesmo ele estando fechado. Esperei por alguns momentos. Pela posição do Sol, já passava das 08h00. Olhei pela janela e vi Corvo. Separadas pelo mar, eu e minha mãe. Vi um ponto branco ao longo do horizonte, vindo do sentido da Ilha do Corvo. Era um pequeno barco. Ao longe, parecia um daqueles barquinhos de papel que monge Daniel me ensinara a fazer quando criança. Fiquei a observá-lo, cada vez mais perto da laje, cada vez mais próximo de mim. À medida que ele se aproximava, minha angústia crescia. Até o momento em que ele ancorou na ilha. Não me movi; um medo intenso deixou-me paralisada. Havia somente duas [ 70 ]

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pessoas: um velho de corpo pequeno e muito ágil e uma mulher que trazia consigo uma sombrinha. Eram estranhos; pensei em vó Luzia, precisava dela nesse momento. Eles não me viram. Pensei em fugir, daria tempo. Encostando-me à parede, fui até a ponta da janela e observei-os como uma raposa assustada. A mulher foi a primeira a descer do barco. Olhou direto para a janela. Por um instante, pensei que ela poderia ter me visto; meu sangue gelou. Aparentava uns trinta anos, tinha uma beleza insólita, cabelos extremamente negros e uma pele alva como a neve dos livros de contos do monge Daniel. Vi seu corpo a se movimentar, vindo em direção ao casebre. Abaixei-me rapidamente. Um filete de suor percorreu minhas têmporas. Não sabia o que fazer, não sabia explicar, medo, talvez, por não haver como retornar. Numa fração de segundo, minha vida passou por meus olhos, até que ouvi o ranger da porta. Não sei ao certo se a luz do dia contribuiu para que a mulher, ao entrar, parecesse um anjo. Seria o anjo do meu destino? Quem são realmente os anjos? Será que realmente gostam de nós? Fiquei imóvel, a mirar seus contornos celestiais. Ela sorriu e moveu-se com uma elegância silenciosa. “Lunae, querida Lunae, não tenha medo.”, disse-me, sem mexer os lábios, com um semblante sereno. Unindo verticalmente o dedo indicador e o médio na altura de seu ventre, levou-os aos lábios, beijando-os, e depois os seguiu calmamente até o meu rosto, tocando em minha testa, e novamente, sorriu. Tomou-me uma das mãos, virou-se e pegou a pequena trouxa que eu trazia comigo. Caminhamos até o barco juntas. Não consegui dizer-lhe nada; ao conduzir-me, ela tomara conta do meu destino. A sensação que eu tinha era a de que ela flutuava, tão leve era o seu andar.

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Escritos III Arquipélago de Açores, Ilha das Flores, outubro de 1747

Retorno a flores

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mar estava um pouco agitado, apesar de ser de manhã cedo, as marolas respigavam a todo instante. Estávamos todas olhando para o horizonte em direção a Flores. Não poderíamos mais voltar, não havia mais a casa da Irmandade, tudo fora destruído. Certamente os próprios moradores iriam se apossar do terreno após a invasão de Tenório. Estava frio, mas poucas de nós pareciam senti-lo, a não ser as meninas, que permaneciam juntas como filhotes de coelho assustados. Chegamos a Flores muito cedo; isso era bom, afinal, ninguém nos veria. Minha mãe sugeriu que Nicolas fosse chamar Matheus para nos levar, pois vó Luzia estava cansada e doente. Mas ela rejeitou, preferiu caminhar até nossa casa para que ninguém soubesse como havíamos chegado à vila e por qual motivo estaríamos ali. – Devemos nos expor o mínimo possível. A verdade é que ficaremos em Flores por pouco tempo, o suficiente para que pensemos em algo. Isso nos dará tempo. Mas devemos ter cuidado, Tenório poderá deduzir que viemos todas para cá. Concordamos e caminhamos em silêncio até chegar à nossa antiga casa. Tomei um dos braços de vó Luzia e fomos caminhando juntas; mais adiante, Ignis entremeteu-se no outro braço de vovó. [ 179 ]

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Nós três juntas, a olhar e a relembrar a vida em Flores. As pequenas cachoeiras, a variedade e a quantidade de flores a justificar o nome da ilha. A brisa e o aroma familiares nos faziam sentir-nos bem. A trajetória fora cansativa e demorada. Estávamos cansadas, mas vó Luzia havia parado de tossir. Agradeci à Grande Mãe. O estado em que se encontrava a casa era de abandono. Percebi o quanto é triste uma casa sem ninguém. Faltava vida, respiração, calor. Entramos pela porta dos fundos. Minha avó deixara uma chave debaixo de uma pedra para que Matheus pudesse, de vez em quando, abrir para arejar o ambiente. Quando entrei na cozinha, a suave nostalgia fugiu das portas secretas de minha alma. Era a minha casa, meu fogão à lenha no qual eu fazia os pães, minhas louças, meus paninhos de pratos que eu mesma bordara. Tudo se encontrava exatamente no mesmo lugar. E para minha surpresa, por dentro, a casa estava em ordem. Fui até o meu quarto, olhei no baú: minhas roupas cercadas de lembranças. As nossas camas jaziam cada qual em seu canto. Estranhei pelo fato de na minha parecer ter alguém dormido. A colcha estava suavemente remexida, com o corpo de alguém que dorme suave, como uma alga que descansa sob brandos movimentos, alguém marino, como Matheus... Sorri em pensar nele dormindo em minha cama. – Lunae, tu poderias colocar a água para esquentar, vou fazer uma sopa para todas nós – disse-me vó Luzia, a acordarme de meus devaneios. – De jeito nenhum – respondi-lhe. – Essa cozinha é minha e dela cuido eu – finalizei, já procurando os meus utensílios. Minha mãe estava um pouco perdida com a situação, até mesmo Nilda parecia não saber o que fazer. Ignis já estava a preparar o banho para todas.

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Escritos IV Oceano Atlântico, Mar de Portugal, novembro de 1747

O cargueiro

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vento faz as ondas baterem forte no casco do cargueiro, o som é ainda mais forte do porão. Já faz três semanas que estamos em alto-mar, nunca passei um plenilúnio presa a ponto de não conseguir sequer ver a Lua, a não ser quando o tempo não permitia. Passamos o tempo quietas, estamos pálidas e muito debilitadas. Não tomamos Sol. Escrevo sob a luz de uma lamparina, meus dedos se enrijecem por causa do frio intenso que assola o cargueiro. Vó Luzia havia pedido ao comandante uma hora que fosse, ao dia, ou se não, por semana. Precisamos de Sol, até para nossa higiene, já que não temos como tomar banho. A resposta veio logo após o jantar, seguida de uma inaceitável surpresa. O capitão desceu até nossos aposentos: – Amanhã, se o Sol sair, todas poderão sair durante meia hora. Mas terá de ser duas por fez. Não quero confusão no meu cargueiro – definiu, arqueando suas sobrancelhas, que mais pareciam duas brancas lagartas peludas. – A propósito, outra informação: não iremos mais desembarcar em Cabo Verde, terei de ir para a Capitania de Santa Catarina – comunicou-nos, enquanto coçava sua vasta barba intercalada de tufos cinzas e brancos, evitando demonstrar receio com nossa reação. [ 192 ]

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– Santa Catarina? Onde fica esse país? – minha mãe perguntou-lhe, surpresa e indignada. – Não é um país, senhora, é uma Capitania de Portugal, situada na América do Sul, abaixo da linha do Equador. – No hemisfério Sul? Mas quanto tempo irá durar a viagem? – Isabel indagou-o aflita. – Três meses. Não adianta se desesperarem, não há outra saída. Não posso voltar para Açores, preciso fazer um carregamento o quanto antes – falava-nos, enquanto o seu bigode, que lhe cobria todo o lábio superior, movimentava-se agitado. – No começo, vocês todas iriam para Cabo Verde. Mas aconteceu algo que eu não previa – ele movimentou-se pesadamente. – Só há um jeito, levá-las para a Capitania de Santa Catarina. Assim, não me comprometerei com o Brigadeiro José da Silva Paes – ele falava, enquanto prestávamos atenção, como pequenas coelhas indefesas diante de um caldeirão fervente de dúvidas. Não tínhamos o que cogitar. Oldemberg nos passou as novas regras, permitiu-nos sair uma vez a cada três dias, e poderíamos secar a roupa ao Sol. Mas com uma condição: só poderiam sair duas de cada vez. Minha mãe e Isabel relutaram no início, mas logo concordaram quando perceberam que não havia como argumentar com o capitão; não podíamos desacatá-lo, ele era a nossa única proteção naquele cargueiro, isso nos deixava à sua mercê. Mas minha mãe insistiu para que, pelo menos uma vez, pudéssemos todas nós subir ao convés. Ele relutou, mas, por fim, concedeu o direito de, pelo menos uma vez, todas nós subirmos ao convés para respirar ao ar livre. O Sol forte fez-nos proteger nossos olhos com as mãos; meu corpo estava frio como uma rocha úmida. Esfreguei meus pés com óleo de cozinha e fiz isso nos pés de vó Luzia, mas os

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