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O Filho de Abasi

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Gito Wendel

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1ª Edição

Joinville, 2016

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Copyright © 2016 Gito Wendel. Os direitos dessa edição estão reservados à Editora Grafar Ltda.

Capa: Tuco Egg Foto da capa: Tato Egg Diagramação: Editora Grafar Ltda

Ficha Catalográ�ca

W469

Wendel, Gito O� lho de Abasi / Gito Wendel – 1.ed. – Joinville: Grafar, 2016. 256p.; 23cm ISBN 978-85-63723-12-3 1. Literatura brasileira. 2. Romance. I. Título.

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CDD B869(22.ed) CDU 869.0(81) Elaborada por: Maria Isabel Schiavon Kinasz – CRB 9-626

Esta é uma obra de� cção. Nomes, personagens e acontecimentos foram criados pelo autor com a única intenção de chamar a atenção para o seu tema central: a estigmatização de crianças. Qualquer semelhança com nomes e acontecimentos reais não foi intencional, é mera coincidência.

Editora Grafar Ltda. Rua XV de Outubro, 4792 – Rio Bonito 89239-700 – Joinville – SC www.editoragrafar.com.br vendas@editoragrafar.com.br

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Para Sara, por sarar-me o coração com sua sempre tão doce presença.

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Sumário

Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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I

Cultura imposta

11

1

Lembranças de Idara . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

2

A Casa Grande . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16

3

A morte da consciência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

4

Auri sacra fames . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36

5

Bruxos e feiticeiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43

6

Inquietações de alma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58

7

A formação da consciência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65

8

Metanoia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78

9

O homem de mil demônios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85

10 Pressão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91 11 Graça . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95 12 Um� lho se nos deu . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101

II É perigoso ser criança

105

13 O menino-bruxo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107 14 O resgate . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115 15 Quebrando galho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 16 Vidas de lata . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134 7 ↵ ⌦

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17 Estigma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141 18 O bando do medo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145 19 Infância perdida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152 20 A isca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157 21 Ninguém sabe deles . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164 22 Cansaço . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 170 23 A Base . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177 24 O perigo é não amar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184

III Sementes de esperança

189

25 Ação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 191 26 Outros planos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195 ↵ ⌦

27 Uma noite sem grilos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198 28 Amarrados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 202 29 Luta e briga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 207 30 A mensagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 214 31 Con�ssão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219 32 Para-paraíso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 224 33 O sol amarelo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 228 34 Supermercado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 234 35 Olhos castanhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 239 36 Um de nós . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243 37 Miopia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 246 38 Doce revolução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248 39 Curados pelo amor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 251

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Prefácio

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Você quer saber? Esse livro que você tem em mãos só é um “romance” porque suas personagens são� ctícias. As histórias, porém, são reais! E vêm acontecendo com a mesma dramaticidade obrigatória a quem pretende contar o que está acontecendo com as crianças na África Ocidental. A chamada “bruxi�cação infantil” é um fenômeno já descrito e catalogado pela UNICEF, e em anos recentes chegou ao Vaticano em forma de relatório, dando conta do abuso e marginalização impostos a milhares de crianças das urbanidades imersas em um nível agudo de fanatismo religioso e caos socioeconômico, como as que caracterizam o sul da Nigéria. ONGs foram, ONGs voltaram! Leis já foram criadas e transgredidas. . . O mundo inteiro já sabe! Mas ninguém quer mais saber! Gito Wendel sabe do que está falando. Como agente humanitário e assistente social esteve embrenhado na mais profunda escuridão do fenômeno investigado. Resgatou crianças, brincou, cantou e dançou com elas, deu-lhes de comer, velou seu sono. Denunciou abusadores, teve que fugir e se esconder devido ameaças de sequestro, e só não foi agredido porque depois que a porta do seu quarto no Orfanato foi arrombada, Gito já tinha escapado. Passou dias e dias escondido, sofrendo da sensação de impotência que nos acomete quando não há justiça, nem amor. . . Por três anos sucessivos, Gito participou de expedições brasileiras ao local que ele tão bem sabe descrever nesse livro. Quando casou, se fez acompanhar de sua jovem esposa ao Campo, e ela, a Sara, se tornou uma mãezinha àquelas crianças. Eu pensei que não os teria mais conosco em Campo depois de uma grave malária que o levou à UTI e ao coma! Mas eles voltaram. Sabem que é perigoso, mas costumam dizer que o verdadeiro perigo é não amar! Logo, esse romance tem a cara deles. Não é um documentário, mas é um documento. Não é poesia, mas é todo poético. O narrador está de fora, mas poucos estiveram tão mais dentro! Todos os lugares citados existem com a geogra�a e história tal qual descritas. Existem também a corrupção política e policial. 9 ↵ ⌦

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E, principalmente, existe, sem que nas suas linhas se tenha esboçado qualquer exagero, a degeneração da liderança religiosa local, amparada pela importação da maldita Teologia da Prosperidade, a heresia das heresias do Cristianismo evangélico neopentecostal, estabelecida no� m do século passado a partir dos Estados Unidos. Ademais, Gito Wendel sabe do que está falando quando deixa vazar de si mesmo uma espiritualidade que contrapõe a religião falsi�cada. Ver o que viu não fez dele um ateu. Ao contrário, levou-o a níveis mais profundos do conhecimento experimental de Deus, aquele que só temos quando nossa conversão a Ele nos faz devoto do nosso próximo! Logo, Gito Wendel sabe do que está falando. E o mundo inteiro já sabe! Mas ninguém quer mais saber! Daí a importância de você saber! Cada leitor pode se tornar mais um defensor dos pequeninos, a partir da própria inspiração gerada pela leitura. Não será fácil. . . Você quer saber? Marcelo Quintela Madri – Espanha – Junho 2016 ↵ ⌦

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Parte I

Cultura imposta ↵ ⌦

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1 Lembranças de Idara

Quando escurece antes do sol se pôr, a noite chega com cheiro de morte.

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O chão de terra batida está bem varrido. As folhas descansam num monte fora da casa de Idara. No meio do terreno, um banco feito com troncos de uma árvore amaldiçoada. Uma casa ao fundo, com paredes de barro e telhado feito com folhas secas de palmeira. Alguns latões espalhados que servem para armazenar água. Uma cabra deita na sombra da árvore. Um vento tropical refresca as tardes de calor numa vila em Oron. As conversas são interrompidas com tapas para matar os mosquitos que desejam o sangue dos braços e pernas. Alguns moradores das vilas chamam estes mosquitos de “malárias” e já estão acostumados com eles. A estrada que corta a cidade é cheia de caminhantes e vendedores. Muitos moram nas vilas afastadas. Caminham longas distâncias para chegar perto dos mercados, mas acabam encontrando o que querem com os vendedores de beira de estrada. Crianças com caixas de frutas na cabeça procuram vender seu produto na estrada para algum viajante, sinalizam para cada carro que passa. Nos córregos que cortam as cidades, jovens se banham nus ao mesmo tempo em que mulheres lavam roupa e buscam água para consumo. Sem energia elétrica. Sem água encanada. A noite é um outro mundo, de medos e danças. As trevas que cobrem o sol trazem sentimentos ainda não bem explicados para dentro do coração. Todos dormem cedo, mas há aqueles que não conseguem dormir. Alguns por causa dos atrativos que a noite traz. Outros por causa da consciência. Há muitas crianças em Oron. Elas são a maioria. Muitas famílias têm mais de cinco� lhos. Desde pequeninos ajudam nas tarefas de casa. Correm descalças e nuas, até que� quem quase adolescentes e então se cobrem. Só os loucos não se cobrem. Esses vivem nus a perambular pelas estradas, ultrajados por todos e 13 ↵ ⌦

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ameaçados sempre. Comem do que encontram pelas estradas, bebem água dos riachos. As crianças caçoam e lhes tacam pedras, mas os temem. Até os adultos os temem. Os loucos, nus, são o retrato do descaso e também da superstição que assombra o povo. Ninguém gosta de pensar neles. Ninguém gosta de vê-los perambular por aí. Não são os loucos o maior perigo em Oron. É a loucura. Uma loucura�ngida de boa vontade. Uma loucura travestida de verdade que transforma crianças em demônios e adultos em monstros. Loucura terrorista, sagaz, fria e nojenta. Uma loucura que se alastra, mais contagiante que a tuberculose e mata tanto quanto o ebola. Idara, cansada de varrer o quintal e ainda mais cansada por já não dormir, senta no banco no meio do terreno. Seus pés descalços se esfregam enquanto ela coleciona memórias. Luta contra sua consciência. Revive dentro de si, sons e cheiros. Já não chora. Já não canta. Já não sabe ser. Tem uma dor aguda, silenciosa, uma impotência diante do mundo que ela conhece. Idara não sabe sobre outros mundos. Ela não sabe o que dizem os psicólogos das grandes cidades sobre a dor. Não sabe que o que sente é dor. Nem o que são psicólogos. Nem onde �cam as grandes cidades. Mas sabe que no seu coração tem uma dor de saber que fez o certo, ainda que sua consciência não queira admitir. Ela já não dorme porque não consegue esquecer. Malditas lembranças dos dias em que escurecia antes do sol se pôr. A falta de sono virou seu pesadelo. Os dias sem dormir passam ainda mais cinzentos e nebulosos. Os afazeres se tornam enfadonhos. Todo som é ruído irritante. O corpo pesa e o silêncio é a melhor companhia. O cansaço parece ser melhor combatido quando se acha alguma coisa para fazer, coisas que ajudam a não pensar. Pensar é um tormento da lembrança, e relembrar é uma tortura! Idara ouve os risos das crianças que correm pelo caminho. Todas vão à grande estrada que corta a cidade. Ela evita olhar. Lá, naquele caminho, está uma de suas piores lembranças. Com medo de querer lembrar-se, levanta-se e volta a varrer. Espalha folhas e as junta. Varre todas para o canto de onde já haviam sido varridas. Seus pés descalços� cam cobertos pela poeira do chão. Ela varre com uma vassoura sem cabo, feita com folhas secas de palmeira. Inclina-se para empurrar as folhas. Varre onde já está varrido. Varre por varrer. Varre para não se lembrar. Tenta varrer para sempre o pó do chão que insiste em lembrá-la. Quer varrer de sua vida esse sentimento de impotência diante da existência. Quer limpar seu coração daquilo que a atormenta! Quer conseguir dormir sem ter que visitar o passado, pois, noite após noite, lembra daquele dia maldito! Tenta chorar e não consegue. Tenta respirar, mas até o ar que entra pelos pulmões lhe corta a carne, a sufoca. Tenta voltar a ser. Quer aliviar-se do que agora a faz agonizar por dentro. Tenta não lembrar a dor daquele dia em que escureceu antes 14 ↵ ⌦

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do sol se pôr. Não quer voltar a ver o entardecer e a noite que chega com cheiro de morte. Todas as noites, para ela, agora são assim. Tenta apagar a memória que insiste em dizer que ela tem sangue nas mãos. Idara matou seus�lhos.

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2 A Casa Grande

O ouro é uma coisa maravilhosa! Seu dono é o senhor de tudo o que deseja. O ouro faz até mesmo as almas entrarem no paraíso. Carta enviada da Jamaica aos reis da Espanha, em 1503 C��������C������ ↵ ⌦

Asuquo corre pelos caminhos de terra entre as� orestas. Ele empurra um brinquedo feito com um galho de árvore enganchado no que um dia já foi um aro de uma roda de bicicleta. Tenta equilibrar o aro no chão enquanto desvia dos buracos na estrada de terra. Descalço e apenas vestindo uma bermuda, o menino corria pelas matas que cercavam seu vilarejo, no estado de Akwa Ibom, na Nigéria. Uma grande casa está sendo construída. A maior que ele já viu. “Deve ser de homem branco”, pensou. A casa ocupava quase todo o terreno que já havia sido um campo de futebol. Lá Asuquo, muitas vezes,� zera gols memoráveis com uma bola improvisada, imaginando ser Roger Milla1 . Duas colunas sustentavam a cobertura da área de entrada. Uma escadaria larga com dez degraus feita de pedras e três corrimões dourados. Os homens brancos chegavam com máquinas e grandes caminhões. Quando estavam estacionados, os meninos brincavam embaixo deles. Algumas caçambas eram maiores que suas casas. Depois de muitos meses de construção, com a ajuda de máquinas e homens, os brancos� nalizaram a Casa Grande, que� cara majestosa e convidativa. Então 1

Camaronês, foi um dos mais importantes jogadores de futebol do continente. Destacou-se na Copa do Mundo de Futebol de 1990, na Itália.

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chegaram mais pessoas, outros homens brancos de algum outro lugar. Asuquo, que jamais havia visto tantos homens brancos juntos,� cou ansioso para saber quem seria o dono daquela casa. Provavelmente um rico. O menino pensava que para morar numa casa tão grande e bela como aquela, teria de ser alguém muito importante. Os líderes do seu povo recebiam sorridentes os presentes que os brancos lhes davam. Garrafas de whisky, tênis e câmeras fotográ�cas. O chief 2 do vilarejo os recebia sempre com um sorriso, e reforçava para o povo que as suas promessas de melhora de vida en�m haviam chegado. Os homens brancos andavam com grandes carros e roupas diferentes, anéis nos dedos, relógios e sapatos brilhantes. Alguns distribuíam balas para as crianças, que por causa disso sempre cercavam o grupo e corriam atrás dos carros. Os brancos se reuniam sempre e só andavam em grupo. Entravam na Casa Grande e de lá raramente saíam. Quando saíam, logo ofereciam doces ou mesmo dinheiro para as crianças que passavam horas esperando por eles, e entravam rapidamente nos carros. Asuquo conseguiu pegar um pacote plástico com um doce chamado chocolate. Era marrom como a terra quando chove. Nunca havia comido algo tão ruim! ↵ ⌦

* * * Carros ainda maiores chegaram. Grandes como um eniin3 . Todos da vila olhavam atentos, admirados pelo tamanho destes automóveis. Os faróis eram como olhos que acendiam. Não dava para ver dentro deles, de tão escuro que eram os seus vidros. Então, destes carros saíram homens armados que correram na direção de um homem branco, de roupas que brilhavam, e entraram rapidamente na Casa Grande. De lá não saíram. Um dos homens armados� cou parado em frente a um grande portão prateado com um enorme cadeado. Ele tirou chocolates do bolso. Parecia gostar deles. * * * Os tambores batiam com um som seco. É o aviso do chief para que o povo se reúna debaixo da Árvore Mãe, conforme a tradição. Todos saíram sem pressa de suas casas feitas de barro e caminharam na direção da Árvore Mãe, como se acompanhassem o som dos tambores. As crianças brincavam fazendo festa. Em pouco tempo, centenas de pessoas estavam sentadas embaixo da árvore e também espalhadas pelo terreno, alguns encostados em bancos improvisados. 2 3

Líder de um vilarejo ou um povo. Elefante, em ibíbio, a língua nativa dos estados de Akwa Ibom e Cross River na Nigéria.

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O chief disse, com a costumeira formalidade: – Povo do meu sangue. Tem um homem enviado por Deus que vai falar pelos homens brancos, também enviados por Deus. Falarão na língua o�cial da Nigéria.4 Vamos ouvi-lo. Eles tem boas notícias para nós. Prestem atenção. Que o Senhor esteja com vocês! Então um moço negro, vestido com roupas brancas diferentes das do povo, com um relógio prateado e anel dourado, aproximando-se do chief deu-lhe a mão com extrema cordialidade e, virando-se para a multidão, disse: – Que Deus abençoe a Nigéria! E impostando a voz: – Me preparei para falar a vocês, e me preparei a vida toda especialmente para este dia. Um dia mais do que especial para o povo de Akwa Ibom, para o povo ibíbio de Eket e, especialmente, para o povo desta vila. Hoje, neste lugar, cairão as obras dos espíritos que querem destruir o grande povo ibíbio, da linda cidade de Eket, do grandioso estado de Akwa Ibom no nosso maravilhoso e abençoado país, Nigéria! E continuou, aos berros, suscitando euforia no povo, especialmente nas crianças: – O tempo de sofrimento acabou! O tempo de pobreza, de doenças, de infelicidade está no� m! Queremos convidar a todos para visitarem a Casa de Deus, o Templo Apostólico! – alguns homens ligados ao chefe do povo aplaudiram, a população estava confusa. Houve um burburinho, as pessoas não conseguiam entender muito bem o que este moço falava, mesmo que falasse em bom inglês e impressionasse por sua facilidade em se comunicar. Nada entendiam sobre essa casa. Casa de Deus. O que aconteceria ali? Um dos homens comentou baixinho com um companheiro, sentado ao seu lado: – Com o mundo todo e toda a sua criação, porque Deus resolveu construir uma casa nessa vila? – e riram. Retomado o silêncio, o moço continuou: – Nos reuniremos no próximo domingo pela manhã. Todos devem vir! É gratuito. Vista sua melhor roupa para a grande festa de inauguração! Se você está cansado de viver na miséria, atacado por doenças e tristeza, venha para este 4

O inglês é a língua o�cial da Nigéria. Essa antiga língua colonial foi escolhida para facilitar a unidade cultural e linguística do país, já que existem mais de 500 línguas faladas na Nigéria. Em algumas regiões, há grupos que falam mais de duas línguas. A maioria dos grupos étnicos preferem comunicar-se em suas próprias línguas, usando o inglês para a educação, transações comerciais e para� ns o�ciais. O inglês não é falado em áreas rurais. Com cerca de 75% da população da Nigéria nas zonas rurais, as principais línguas de comunicação no país permanecem tribais.

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encontro com Deus, com homens de Deus que são abençoados para proclamar as maravilhas e os milagres de Deus pelo mundo. Homens dedicados, prósperos e que são usados tremendamente. O milagre na sua vida vai acontecer diante da presença de Deus. Venham todos! Todos estão convidados! Muito obrigado. Deus abençoe vocês! Os líderes do povo puxaram os aplausos no mesmo instante em que um coral convidado começou a cantar ao som dos tambores. Alguns levantaram já dançando, comentando o ocorrido e o convite. Estavam curiosos sobre essa festa. O moço interlocutor foi saudar os homens ligados ao chefe da tribo, que o acompanharam em direção à igreja que� caria conhecida como a Casa Grande de Deus. O povo estava admirado com a notícia. Todos poderiam entrar na Casa Grande que, se era bonita por fora, também deveria ser linda por dentro. Asuquo ainda estava surpreso por ter descoberto o dono da Casa e, mais, poderia se encontrar pessoalmente com Deus no domingo pela manhã. Ele ainda era um menino, e as poucas vezes que havia ouvido falar sobre Deus foi antes do sol se pôr, perto da fogueira, quando o seu avô já falecido e considerado por muitos um idaat 5 , contou a história de Abasi6 que fez um lugar para estar em companhia dos primeiros. A presença de Abasi dava vida a tudo, e os primeiros cuidavam da� oresta. Os animais lhes faziam companhia, todos se alimentavam dos frutos no jardim de Abasi e não uns dos outros. O sangue era sagrado e era proibido derramá-lo. Abasi caminhava pelo jardim na mesma hora em que eles acendiam as fogueiras no pôr do sol e, então, no horizonte, se via o clarão e a beleza radiante que em tudo era causada pela presença de Deus entre os primeiros homens. Abasi e os primeiros conversavam sobre o Jardim e sobre todas as espécies de árvores lá plantadas. Os animais também falavam com eles e até as plantas se inclinavam e reverenciavam a passagem de Abasi entre elas. Os olhos de Abasi eram como fogo que queima o coração da gente. * * * O sol raiou e já havia movimentação. Muitos queriam conhecer a Casa Grande de Deus por dentro e participar de uma reunião com a presença Dele e dos homens por Ele enviados. A euforia era grande. Muitos estavam curiosos com a estrutura até então jamais vista por eles. As crianças cantavam antigas canções que eram ensinadas de pai para� lho. As mulheres amarraram lindos lenços coloridos na cabeça, os homens buscaram roupas tradicionais para vestir. Todos estavam empolgados. A porta da Casa Grande permanecia fechada enquanto o povo se aglomerava no lado de fora. De repente, dos alto-falantes acoplados no alto 5 6

Pessoa louca, em ibíbio. Deus, em ibíbio.

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da torre, saiu um ruído de microfonia que assustou a todos, seguido por uma música, com tambores e percussão que arrancou sorrisos das crianças menores que olhavam assustadas, buscando saber de onde vinha aquela música. No�nal da canção, ouviu-se no dialeto local: – Hoje, nosso encontro será às nove horas da manhã. Os portões serão abertos a partir das oito horas e quarenta e cinco minutos – outra microfonia e a canção voltou a tocar. O povo não tinha relógio, por isso, começaram a se agrupar em frente ao portão dourado da Casa Grande. Asuquo não tinha roupa especial. A sua roupa mais bonita era uma camisa de futebol, uma calça social emprestada e nada para calçar. Asuquo tinha entre onze e treze anos. Sua mãe havia falecido quando ele ainda era pequeno, e vivia sob os cuidados de uma tia que se casara com seu pai. Asuquo era o terceiro� lho, tinha duas irmãs mais velhas e outros irmãos e meio-irmãos. O pai aparecia em casa poucas vezes por mês, dizia que trabalhava na capital. Viviam todos numa casa feita de barro, com um quarto grande para todos os irmãos, que dormiam juntos. Ele tinha um pedaço de colchão jogado num canto sobre a terra batida. Comiam mandioca plantada no terreno da casa. Estudou pouco, pois a tia obrigou o rapazinho a ajudar em casa, deixando a escola para os menores. Ele assumiu o posto de buscador de água para a família, andava todos os dias uma hora e meia para ir e voltar do rio, com direito a paradas para descansar. Gostava de brincar. Era metade criança, metade adulto. Tinha sempre um sentimento de tristeza pela falta de carinho da tia e saudade da mãe. Sentia algum desprezo pelo pai que era um desconhecido, já que quando estava em casa, não dava a eles nenhuma atenção. Asuquo trapaceava os menores nos jogos e se divertia quando eles choravam de raiva. Certa vez, no caminho para o rio pela estrada que cortava a cidade, viu um grupo de pessoas paradas ao lado de um carro. Todos estavam olhando para uma televisão ligada a um gerador. Assistiam a uma partida de futebol. Asuquo tentou se achegar para ver melhor. A seleção nigeriana de futebol jogava nas Olimpíadas de Atlanta, nos Estados Unidos. Seus olhos estavam vidrados na TV. Vibrava com o público, a grandeza do estádio, tudo parecia tão diferente do mundo onde vivia. Queria aqueles aplausos, aquela vibração, queria aquelas garrafas de água do lado do banco dos reservas, queria não ter que buscar água todos os dias, queria fugir da pobreza que assolava sua família, queria ter um colchão só seu, numa, quem sabe, cama só sua ou até mesmo um quarto sem mais ninguém. Mesmo sem o jogo acabar, prosseguiu sua jornada até o rio com o sentimento de que seu sonho nunca seria realidade. As portas da Casa Grande se abriram. Homens vestindo blazers pretos com camisas brancas organizavam a entrada. As pessoas subiram os degraus com euforia e espanto. Ao adentrarem, veem um espaço enorme, alguns músicos 20 ↵ ⌦

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estão num palco, há muito dourado em tudo, bancos de madeira, �ores e até ventilador. Tudo funcionando apesar da falta de energia elétrica que assola o país, graças aos grandes geradores no fundo do terreno. A Casa Grande era linda. Asuquo� cou impressionado e, ao mesmo tempo, envergonhado de estar ali sem ter uma roupa melhor ou algo para calçar. Procurou sentar-se no meio do auditório. Conhece a maioria das pessoas que estão presentes. Lá do palco, um homem pega o microfone e fala na língua do governo: – Bem-vindos, irmãos! Sejam todos bem-vindos! Eu sou ministro de louvor. Vamos celebrar e dançar para a glória de Deus! A banda começou a tocar, há músicos negros e alguns brancos. Todos se levantam e começam a bater palmas. A letra é fácil, aos poucos todos estão cantando o refrão: “Eu sou abençoado! Eu sou� lho do Rei! Nenhum mal chegará à minha tenda! Eu sou abençoado! Eu sei!”. O ritmo é gostoso. Asuquo já está menos tímido. Alguns homens no palco começam uma dança e, aos poucos, todos compreendem os passos e os seguem no ritmo. O ministro coordena o povo, as vozes, o tom, o idioma. As canções se repetem, com palmas. É realmente uma festa! Então, depois de quase duas horas cantando e dançando, inicia uma música lenta e o homem que coordenava as canções, chamado de ministro de louvor, diz em inglês com tradução para ibíbio, deixando um clima de contrição em todos: – Você está na Casa de Deus para ser abençoado. Você veio aqui esta manhã para ser abençoado. Eu ministro sobre a sua vida a cura, a prosperidade, as bênçãos, a alegria dos� lhos do Rei. Amém? Você quer ser abençoado? Quem quer, diga: Amém! As pessoas, ainda que um pouco desacostumadas com uma cerimônia em inglês respondem: “Yes!”. “Amém!”. – Ô glória. Vamos ouvir agora a mensagem do apóstolo Edward, enviado por Deus, que veio de Lagos esta manhã para nos abençoar. Recebam-no com aplausos! Aquelas pessoas que conseguiam entender inglês, que os mais velhos chamavam de “a língua do governo”, logo aplaudiram. Os outros que tinham di�culdades esperaram a tradução ou para ver do que se tratava. O apóstolo chegou com toda a energia. Seguranças traziam um livro em uma bandeja dourada. Ao lado dele, o mesmo moço que havia convidado a todos para irem à Casa Grande dias antes e que iria traduzir para o dialeto, disse: – Meu nome é pastor Ugo John. Serei pastor-líder dessa comunidade. Sou �lho espiritual do apóstolo Edward. Traduzirei do inglês para o dialeto local nos dias em que o apóstolo estiver conosco. Tratem de aprender inglês enquanto ele estiver aqui – e soltou uma gargalhada. Alguns riram. 21 ↵ ⌦

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Tudo era novo para a maioria que estava empolgada com tudo, especialmente as crianças como Asuquo. Era como se ele estivesse vendo um grande espetáculo, uma grande festa, como a que viu pela TV com os torcedores no estádio em que a seleção de futebol da Nigéria jogou. – Eu digo: Deus abençoe a Nigéria e vocês dizem “Amém”, OK? – disse o apóstolo Edward. Esperou um pouco para que fosse feita a tradução e então começou: – Deus abençoe a Nigéria! – Amém! – Deus abençoe a Nigéria! – Amém! – Mais forte: Deus abençoe a Nigéria! – Amém! – Mais forte e mais rápido: Deus abençoe a Nigéria! – Amém! O público ria e se empolgava conforme o apóstolo aumentava o ritmo, as crianças gritavam. Asuquo se lembrou da vibração do público no jogo de futebol que viu pela TV e sentiu a mesma empolgação. – Deus abençoe minha vida! – Amém! – Aleluia! – disse Edward cansado, buscando respirar – Aleluia! Vocês podem se assentar! Eu quero toda a sua atenção aqui neste momento. Você está na Catedral dos Milagres do Ministério de Libertação e Cura da “Casa de Deus”, que tem templos como este, espalhados em 15 países e em quatro estados na Nigéria, inclusive em Lagos, a maior cidade do nosso amado país e sua capital econômica, em Calabar, capital do estado de Cross River e em Abuja, a nossa capital federal. Agora chegamos nessa abio7 . Estamos crescendo, amém? Vire para a pessoa que está ao seu lado e pergunte: você quer crescer na vida? Pergunte! Você quer ser liberto e curado? Quer ser abençoado? O público atendia, e Edward se empolgava com a resposta de todos. – Quem quer ser abençoado dê o maior grito de “amém” da sua vida! O público gritou: – Améééém! – Eu quero contar a minha história para vocês. A história de vida desse homem aqui. Vocês podem achar que não, ao ver meu relógio e meu terno, podem achar que não, mas eu já fui muito pobre. Pobre não, pior que pobre. Um miserável! A fome era minha companheira. Eu não tinha dinheiro nem para 7

Cidade ou vila, em ibíbio. Mesmo falando em inglês, algumas palavras não são traduzidas, eles preferem usar expressões no idioma local.

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comprar uma latinha de refrigerante, sem almoço e sem janta. Vivia procurando o que comer nos lixos da minha cidade. Todos prestavam atenção. O silêncio era total. – Não acreditava em Deus. O diabo me usava para praticar a maldade. Eu vivia para destruir a vida das pessoas. Sem esperança, triste e pobre, queria a morte todo dia. Causava a desgraça na vida da minha família. Roubava todas as noites. Me prostituía. Uma vez sofri um acidente. Um acidente. Era o diabo querendo a minha vida. Eu estava atravessando a estrada quando um carro surgiu do nada e me acertou em cheio. Fiquei no hospital entre a vida e a morte. Os médicos achavam que eu não iria resistir aos ferimentos. Fiquei em coma. Edward secou o rosto suado numa toalha, e continuou: – Eu senti quando o inferno veio me buscar. Um medo se apoderou de mim, havia algo como fumaça no quarto do hospital. Os servos do diabo chegaram com cheiro de enxofre e diziam: “sua vida foi para causar o mal a este mundo! Você não obedeceu! Não foi� el! Agora seu destino será a morte eterna!”. E me levaram para o inferno8 . Nesse momento, no hospital, eu tive uma parada respiratória. Irmãos, vocês não sabem, mas o inferno é um lugar terrível! Fiquei três dias e três noites sendo levado por todo o inferno, o tempo no mundo espiritual não é como o nosso. Aqui são minutos e no mundo espiritual podem ser dias. Eu�quei no inferno vendo o sofrimento eterno de milhares de in�éis. Eles diziam: “eu não frequentei a igreja. Não cri. Eu roubei. Eu matei, e agora estou pagando”. Então, fui colocado numa sala vazia. E nessa sala ouvi um barulho ensurdecedor. Era um anjo de Deus que quebrava as portas da sala e as minhas correntes dizendo: “Edward, você teve uma chance! Você será o representante de Deus na terra!”. E, ao ouvir estas palavras do anjo, acordei do coma. Os médicos não entenderam o que tinha acontecido, perceberam que só podia ter sido um milagre e foram os primeiros que se converteram no meu Ministério! Amém, meus irmãos? Os primeiros! Depois de tomar um gole de água, disse: – Desde então, Deus me deu nova chance, uma esposa e� lhos, uma igreja pequena que se transformou numa catedral com seis mil membros e que virou um ministério em diversos países abençoando milhares de pessoas. O homem que não tinha como comprar uma lata de refrigerante tem, agora, em sua igreja membros que trabalham como diretores da maior fábrica de refrigerantes do mundo! Fui aprendendo a ser� el e, então, Deus foi me dando prosperidade. 8

Há diversos relatos em vídeos no YouTube e também em livros, de pessoas que a�rmam ter ido ao inferno. Essas histórias fazem com que essas pessoas ganhem destaque em ambientes muito religiosos. Verossímeis ou não, porém não veri�cáveis, histórias assim alimentam a imaginação de muitos� éis e fazem com que as pessoas que relatam tais experiências, sejam tidas nesses ambientes como autoridades espirituais ou porta-vozes exclusivas de Deus.

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Hoje tenho igrejas, casas, um programa de televisão exibido em mais de dez países, minha família tem carro. Esse relógio aqui, você quer saber quanto custa? Eu vou te falar, comprei com o dinheiro do meu ministério: quatro mil dólares. Conheço mais de 50 países. Essa igreja em que vocês estão hoje, meu ministério que mandou fazer por causa da� delidade nos dízimos e nas ofertas! Porque não desistimos de crer! Quando você oferta na Casa de Deus, Deus te devolve o investimento em bênçãos materiais, saúde e sucesso! Servo do Senhor não�ca pobre. Se está pobre é porque ainda não entendeu ou não está ofertando, não está sendo�el. 9 Deus quer de nós essa� delidade, meus irmãos, então nos dará todas as bênçãos materiais! E o carro que vocês viram lá fora? Ganhei de um irmão de ministério, para deixá-lo aqui para que seja usado pelo pastor dessa igreja! O pastor dessa igreja é o Ugo John, que achei jogado numa lanchonete, pobre, mal falava inglês, mas Deus mudou a sua vida e hoje ele está estudado. Vestia o uniforme sujo da lanchonete, mas agora veste terno importado. Venha cá, pastor Ugo John! Algumas pessoas puxaram os aplausos enquanto Ugo John ia na direção de seu mentor espiritual. – Aplausos para Ugo John! Hoje ele está vestido com uma abara10 feita na capital, sob medida! Antes só atendia clientes, hoje atende os anjos e expulsa os demônios. Era magro igual um pedaço de pau e hoje está forte como um enang!11 Nessa manhã, eu vim aqui dizer que o que aconteceu comigo e com ele, vai acontecer com você também! Amém? Você consegue crer? Se você tiver fé, se for� el, se for corajoso... o inimigo quer roubar, o inimigo quer lhe matar, o diabo quer acabar com você, quer roubar a sua alegria, a sua alma... mas isso não vai acontecer, ô glórias, porque você será� el e prosperará! Você vencerá as forças do mal! Você derrubará as ações do diabo e das trevas, e será abençoado! Repita comigo: “eu. . . serei. . .� el!”. De novo: “eu serei� el!”. Agora, vire para a pessoa que está ao seu lado e diga a ela, repetindo comigo: “depois dessa mensagem... tudo será diferente. . . e com fé... e atitude... a prosperidade chegará na minha vida.... por isso, me trate bem.... cuide bem de mim... porque amanhã eu poderei ser... o seu patrão!”. O povo aplaudia eufórico enquanto o apóstolo tomou mais um pouco de água e limpou o suor da testa com a toalha que, então, jogou ao público das primeiras cadeiras que fez um enorme esforço para pegá-la. Asuquo estava empolgado com tudo o que havia acontecido na vida deste homem de Deus. De como ele havia estado quase morto e foi escolhido para 9

Essa é a lógica da Teologia da Prosperidade, fortemente difundida por líderes religiosos no Brasil, na Nigéria e outros lugares. 10 Veste tradicional masculina. 11 Cavalo, em ibíbio.

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viver e, também, de como enriqueceu! Tudo aquilo era realmente empolgante. O apóstolo continuou: – Uma das maneiras que Deus prova a nossa fé é pelas nossas ofertas. Quer provar para Deus que você é� el? Traga suas ofertas a Deus! Quando eu estava começando o meu ministério perguntei a Deus: “como posso ser abençoado?”. Ele me respondeu: “sê� el nas ofertas!”. Então, eu que não tinha nada, juntei tudo o que tinha e entreguei como oferta para a nossa pequena igreja de nossa cidade. Menos de um mês depois, recebi um envelope na minha casa com um cheque no dobro do valor que eu tinha doado! Exatamente o dobro do valor! Sabe de quem? De um irmão milionário que orou e ouviu Deus mandar ele me entregar o dinheiro! Ser� el, irmãos, é o segredo do sucesso! É o segredo da prosperidade! Deus abre as portas do céu e derrama as bênçãos sobre nós! Tem alguém aqui que quer ser abençoado esta manhã? Seja� el nas ofertas esta manhã! Talvez você pense: “eu não tenho nada!”. Essa é a desculpa que o diabo coloca na sua cabeça para não lhe deixar vencer! Ele não quer o seu sucesso! Lembre-se disso: o diabo não quer o seu sucesso! Ele manda agentes que não querem o seu sucesso, eles roubam no mundo espiritual a sua prosperidade no mundo material. Vença o diabo! O diabo usa pessoas para roubar sua fé! O diabo usa pessoas para roubar sua saúde, sua prosperidade! São os bruxos e as feiticeiras do inferno. Os agentes do diabo. Não tem dinheiro agora? Empresta de alguém! A bênção de Deus vem para você e para quem emprestou! Não trouxe dinheiro porque não sabia das ofertas a Deus por ser o primeiro culto? Não tem problema. Dê algo em gratidão a Deus. Não deixe de ser abençoado esta manhã! Banda, começa a tocar aí... vamos fazer um clamor... que as bênçãos dos céus cairão sobre nós! Traga as suas ofertas aqui na frente! Quem tem mil, traz mil! Pode ser dólar americano, pode ser libra, euro, pode ser naira nigeriano. Quem tem quinhentos naira, traz quinhentos! Não deixe de ser abençoado hoje! Quem não tem, empresta... faz um voto de fé. Deixe seu anel, seu colar... prove a sua fé, vaso valoroso! O público� cou impressionado com a vida do apóstolo e com o poder com que falava. Formaram� las nos corredores para entregar as ofertas. Quem não tinha dinheiro, deixava as sandálias ou os colares. Asuquo estava envergonhado e triste. Não tinha coragem de pedir emprestado, nem como contribuir e, por isso, saiu dali naquela manhã com o sentimento de que tinha perdido a chance de ser abençoado. Os homens de preto e branco recolhiam as ofertas numa sacola e reparavam em algumas pessoas que davam grandes quantias. Eles teriam uma surpresa para elas. * – Oga? 12

Oga12

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Friday?

Sr., em ibíbio.

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A esposa do senhor Friday ouviu alguém chamar lá fora. Espiou. Eram homens vestindo terno. Paletós pretos e camisa branca, com sapatos novos. Deixou a panela no chão para então acordar Friday que dormia numa rede. – Os homens da Casa Grande de Deus estão aí. Friday levantou-se depressa e colocando suas sandálias foi até a frente da casa desculpando-se pela demora em atendê-los. Eram três. Eles foram diretos: – Deus nos mandou para entregar ao oga este envelope. A prosperidade irá chegar na sua vida. Testemunhe isso aos seus vizinhos, parentes e na próxima reunião! E sem que Mr Friday pudesse responder qualquer coisa, eles deixaram o envelope e se foram. Mr Friday entrou na casa e ao abrir o envelope, viu uma porção de notas de dinheiro. Era o equivalente a três meses de trabalho. No fundo do envelope havia uma pulseira com um escrito bordado: “Dizimista�el da Casa Grande de Deus”.

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3 A morte da consciência

A esperança seria a maior das forças humanas, se não existisse o desespero. V�����H��� , novelista francês

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Era os anos 80. O menino Ugo John mora na cidade chamada Uyo que, com a criação do estado de Akwa Ibom, passou a ser sua capital. Desde os seis anos trabalhava na estrada que dá acesso à rodoviária, vendendo torta de peixe que suas irmãs faziam. Era a maior fonte de renda para o sustento da casa. Sempre recebia surras como retribuição, apanhava por qualquer coisa; suas irmãs sentiam prazer em vê-lo chorar. Andava com uma bacia plástica pendurada no pescoço por dois cadarços, os pés descalços e os olhos sempre atentos. Aprendeu muito cedo os macetes para fazer boas vendas. Diante da miséria de muitos de sua vila, garotos descalços e� lhos de pais ausentes como ele, tinha a vantagem de poder comer uma das muitas tortas que vendia. O lucro obtido era dividido em duas partes. Uma servia para comprar algum ingrediente necessário para fazer novas tortas de peixe e, a outra, para subsistência. Ugo não entendia qual, já que se alimentavam sempre com o mesmo, e moravam jogados num barraco velho, numa vila que distanciava uma hora a pé de onde ia vender suas tortas, num dos lugares de maior movimento da cidade. Vendia bem. O fato de ser um menino franzino de olhar cativante, o menor entre os meninos que ofereciam alguma coisa, dava a ele vantagem nas vendas. Pés descalços, vestindo uma camisa de adulto que mais parecia um vestido, fazia com que, não raras as vezes, Ugo sentisse vergonha de si. Trabalhava perto da rodoviária e vivia com viajantes apressados, gente de todo o país, alguns 27 ↵ ⌦

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mal-encarados, outros falando em outros idiomas, mulheres de mãos dadas com meninos como ele, mas com a diferença de que estes calçavam tênis e tinham alguém para lhes segurar a mão. Ugo via um mundo à sua volta. Sabia o horário de chegada e saída das vans, o que facilitava suas vendas, especialmente nos horários de almoço e janta. Somente depois do sol se pôr e a última van, que vinha de Enugwú, chegar, é que Ugo ia para casa, e apenas para entregar o lucro às suas irmãs que conferiam o dinheiro, antes mesmo de dizer “olá”. Dormia, mesmo sujo, num velho colchão jogado num canto. E neste colchão acordava todos os dias junto com o nascer do sol para, em seus primeiros minutos acordado, ouvir chateações.

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* * * Ugo já havia vendido tortas para esse cara certa vez. Ele pagou mais do que precisava. No cumprimento com estalar dos dedos, comum na capital, ele havia sido gentil no toque e no trato, coisa rara nas rodoviárias, especialmente com meninos pequenos e pobres como Ugo. Duas vezes por semana ele aparecia. Quando Ugo não estava por perto, ele fazia questão de procurá-lo para comprar uma torta e puxar um papo. Às vezes, essa era a única conversa que tinha durante o dia. Ele não se dava bem com as outras crianças. Ugo� cava feliz quando via aquele homem, já que a gorjeta aumentava a cada dia. E� cou assim, feliz, quando diante do depósito de bugigangas extraviadas pelos viajantes da rodoviária, ouviu que o homem gostaria de comprar a bacia toda e pagar bem mais do que ele poderia pedir. Esses “extras” não eram contabilizados pelas irmãs, e permitiam que Ugo pudesse tomar um refrigerante, comer algo diferente, até mesmo uma fruta! Pensando no “extra”, ele topou ir com o homem ao barracão cheio de muita tralha e sem luz, numa casa com portões azuis enferrujados, próxima à avenida da rodoviária. O homem que aguardava ao lado do portão sorriu quando o viu atravessar a avenida. – Comprei uns malta1 pra acompanhar a torta. Você gosta? – e estendeu uma garrafa do líquido preferido de Ugo – Abaak2 está lá dentro. Entre! – Pequeno! – disse Abaak de um canto sem muita luz. Ele estava assentado numa cadeira plástica, de frente para uma TV colorida que estava sobre algumas caixas de madeira. A antena improvisada estava pendurada em pregos na parede velha. Na TV passava um� lme de Nollywood3 . Ugo encarou a TV e o� lme, não 1

Bebida à base de malte, cevada e lúpulo, como a cerveja, porém, não alcoólica. É muito apreciada em algumas regiões da Nigéria. 2 Signi�ca jovem. Neste caso, se trata de um codinome ou apelido. 3 Indústria cinematográ�ca da Nigéria, considerada a terceira maior do mundo, atrás de Hollywood

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estava muito familiarizado com o aparelho. Percebendo a atenção dada à TV, Abaak puxou uma cadeira para o menino: – Senta aqui, tome seu malta e assista um pouco. Você já viu desenhos? Posso colocar algum para você. O menino nada disse. Abaak pegou a bacia plástica com tortas do menino e a colocou de lado. – Onde você mora? – perguntou Abaak, colocando as mãos sobre a perna do menino. – Avenida Nsikak Eduok – mentiu o menino. – Você vende �sh pie4 porque seus pais mandam? – Não! Minhas irmãs. – Você mora com elas? – Sim! – E elas lhe pagam pelo seu trabalho? – perguntou o homem, abaixando-se para olhar nos olhos de Ugo. – Não! – disse o menino. – Mas o que é isso! – bravejou o homem levantando-se da cadeira plástica que rangeu – o menino trabalha pra caramba e não recebe nada? Ugo concordou com ele, mas não disse nada. Tinha raiva de suas irmãs, pois só o provocavam e batiam. – Vou comprar todas as suas tortas, e mais, vou te dar muita grana hoje – disse o homem tirando as notas amassadas de um bolso lateral de sua bata – você só vai precisar fazer uma coisa... vai precisar brincar comigo. Pequeno. Você quer brincar? Ugo consentiu, com olhar inocente. O homem do portão fechou a porta de lata do barracão ao mesmo tempo em que Abaak afrouxava o elástico da calça, revelando o pênis quase ereto. Ugo meneou a cabeça assustado: – Não tio. . . É só segurar aqui e você ganha essa grana toda. Vamos nos divertir! Ugo tentou afundar na cadeira. Tentou se levantar. – Se você não pegar, moleque, a surra vai ser pior – disse o homem do portão. Ugo suportou o quanto pôde a pressão psicológica, sem chorar ou correr, feito um novilho acuado no canto ante a faca de seu algoz. Não teve nenhuma reação, a não ser o silêncio e o medo que lhe tomou o coração. – Não será ruim, eu juro – e Abaak aproximou-se com as calças abaixadas. Pááá! O tapa quase lhe quebrou o pescoço. – Facilita,� lho da puta! – o homem do portão estava por trás. (americana) e Bollywood (indiana). 4 Torta de peixe, em geral vendida nas ruas do sul da Nigéria.

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Enquanto Abaak demonstrava uma gentileza macabra, este era um torturador. O menino começou a chorar alto. – Quero ver você chorar assim en�ado até a goela! – pááá! Outro tapa. O torturador deu de mão aberta em uma das orelhas do menino que tonteou. – Calma, Amin! Ele vai facilitar – disse Abaak – senão, nunca vai voltar para a sua casa. Amin era o apelido do rapaz, em referência a Idi Amin Dada, ditador de Uganda entre 1971 e 1979, conhecido por sua violência. O homem que torturava Ugo estava todo marcado por cicatrizes. Filho de um combatente na Guerra do Biafra5 , cresceu traumatizado com os abusos do pai e o abandono da mãe. Alguns diziam que Amin tinha matado o pai e os próprios irmãos, com facões, por considerá-los efeminados. Ele era uma espécie de segurança particular de Abaak e, também, facilitador de orgias e estupros, participando deles com violência. Amin odiava homens efeminados, procurava-os e sempre os espancava depois dos abusos. A sua manipulação através de torturas era tão e�ciente, que nenhum deles fazia qualquer denúncia, até porque, temiam o preconceito e corriam o risco de serem considerados homossexuais, o que traria grandes consequências negativas.6 Ugo foi abusado de todas as formas. Apesar da dor que sentia, esforçava-se para não gritar, chorar ou gemer demais, pois isso fazia com que Amin se irasse ainda mais e o esbofeteasse com mais violência. Abaak lhe disse, com cinismo: – Acho que você merece voltar para casa hoje, e com dinheiro de muitas tortas. Os dois se revezavam no abuso do menino. Amin, apesar de louco, parecia temer Abaak. Sempre se retirava de perto do menino quando Abaak se aproximava. Só tocava o menino quando Abaak consentia com a cabeça. Tinham experiência nesse tipo de situação. Especialmente nas longas torturas psicológicas para fazer com que os abusados se transformassem em dependentes, numa espécie de Síndrome de Estocolmo7 . Assim, tinham uma rede de violentados silenciosos. Eles sabiam que por causa da fragilidade e da pouca idade do menino, depois de o terem observado muito, ele seria um alvo fácil desse tipo de abuso. – Que merda! Esse desgraçado está sangrando! – Tira o pinto, Amin! – disse Abaak com um sorriso frio. Ele era completamente gelado. E, como ainda não tinha ejaculado, começou a se tocar. 5

Guerra que durou de 1967 a 1970, que foi causada pela tentativa de separação das províncias ao sudeste da Nigéria, como a autoproclamada República do Biafra. 6 Ainda hoje, a homossexualidade é ilegal de acordo com o Código Penal nigeriano, com pena que pode chegar a 14 anos de prisão. 7 Nome comumente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida por um tempo prolongado à intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade pelo seu agressor.

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– Tomara que ele não esteja doente! – Amin saiu resmungando, procurando água para se lavar. – Relaxa, esse estreou hoje! Ugo John parecia não ter sentimento. Arrancaram-lhe algo, ele não sabia o quê, mas lhe causou mais do que um vazio. Queria estar morto. Melhor que morto, queria jamais ter nascido. Não tinha raiva do seu algoz. Tinha raiva do mundo. Da própria vida. Tinha nojo de si mesmo. Não sabia, mas daquele dia em diante, alimentaria um monstro em si capaz de toda espécie de loucuras e violências, como vingança de algo que ele nem sabia ao certo o que era.

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* * * Não foram poucas as vezes em que foi obrigado a encontrar-se com Abaak. Participou das mais insanas sodomias. Abaak e Amin levavam jovenzinhas para que Ugo tivesse relações sexuais com elas, muitas vezes forçando-o à violência física e para isso lhe pagavam, pagavam muito. Mas, muito mais para que ele� casse em silêncio. A remuneração era su�ciente para que ele parasse de trabalhar. Suas irmãs não reclamaram quando ele disse, aos gritos, que não carregaria aquela porcaria de torta para lugar nenhum. Ele sempre chegava com mais dinheiro a cada semana, ainda que elas não soubessem como, mas também não queriam perguntar devido ao mau humor do menino que crescia rápido, tomando corpo de homem e as enfrentava quando queriam lhe bater. Alguns anos se passaram, e com o desenvolvimento da capital e algum recurso para começar algo novo, Ugo John investiu numa lanchonete. Seus clientes eram os funcionários de uma grande construtora que trabalhava num grande projeto: o aeroporto. Conseguiu, de certa forma, se vingar ao contratar as irmãs como suas funcionárias. Ainda era muito jovem. Ficou conhecido como bom vendedor por causa da sua experiência na rua e por se comunicar bem com o público, apesar de �car muito tempo calado e pensativo. Sua capacidade de comunicação fez com que lhe oferecessem a oportunidade de montar um pequeno estande na área de lanchonetes do aeroporto. Saiu de uma vez das redondezas da rodoviária e, no novo local, o negócio de sua propriedade estava indo melhor do que poderia imaginar. * * * Numa das vezes em que encontrou com Abaak no depósito de costume, Abaak mudou as regras do jogo. Ugo é quem iria, de agora em diante, promover os jogos de violência sexual para o delírio de Amin. Ugo os esbofeteava e chicoteava enquanto eles urravam como potros no cio. 31 ↵ ⌦

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O menino franzino tinha se transformado num jovem de corpo de�nido, musculoso e vaidoso. Com os recursos obtidos pelo prazer masoquista e autodestrutivo que vinham daqueles encontros, ele pôde se organizar melhor�nanceiramente. Comprou roupas melhores, passou a alimentar-se melhor e alugou, no fundo do terreno de uma casa na capital, um quarto e cozinha para se distanciar das irmãs e ter maior privacidade. Comprou para ele artigos até então impensados, como um televisor. Guardou o máximo que pôde de dinheiro. Flagrava-se formulando o seu futuro longe dali e mantinha silenciado dentro dele os sentimentos de morte que fortemente o rodeavam. O silêncio de suas dores, raivas e frustrações empedraram-no e tornou-se em ódio ambulante. Sua mente era uma máquina de pensamentos sanguinários e suicidas. Ninguém nunca soube dos abusos que sofreu, a não ser seus algozes. Eles tinham por ele um desprezo total depois das aventuras, e não foram poucas as vezes que pensaram em eliminá-lo. Só não o�zeram porque ele era, de fato, alguém duro na queda, difícil de vencer. Uma vez ele chegou atrasado a um dos encontros. Por isso� cou amarrado, sem água nem comida, sofrendo ameaças de denunciá-lo aos policiais para, com suborno ou coisa parecida, o deixarem apodrecer numa prisão suja. O dinheiro compra a lei, especialmente nos lugares em que poucos têm muito e muitos têm nada. Logo no começo, Ugo parecia ter entendido o jogo deles. Se ele se mostrasse frágil, seria eliminado, mas ele fazia parecer que gostava do jogo. Dava a eles a sensação de que esperava ansiosamente para estar com eles. As ameaças de morte ou desaparecimento caso ele revelasse algo a alguém, eram encaradas por ele com total frieza, como se não se importasse. Por isso eles tinham a sensação de que poderiam con�ar em Ugo, de que o tinham dobrado como�zeram com outros. Quando ameaçavam sua família, ele agia como se concordasse com eles, quase que pedindo para que cumprissem depressa o que prometiam. De certa forma, agora eram eles que estavam reféns de Ugo. Um psicopata quarentão, louco, ávido por sangue e perturbado. Um empresário rico, que escondia seus desejos podres pagando bem para que jamais fossem percebidos, um cara manipulador e detalhista, pedó�lo, que tinha a proteção pessoal de um monstro que o considerava um deus. Ambos reféns. Reféns de Ugo John, o jovem calado e, ao mesmo tempo, bem comunicativo. Alguém que sabia esconder e havia aprendido a manipular. Que durante sua infância e toda a sua adolescência foi por eles abusado, sendo obrigado a resistir e sobreviver todos os dias. Já eram íntimos, o que fazia com que Ugo precisasse inovar sempre em seus encontros. Deveria encontrar novos métodos, novos jogos sexuais para que não fosse esbofeteado. Não foram poucas vezes que os dois o achavam monótono ou estavam enjoados dele, então ele apanhava muito, tanto que� cava difícil �rmar as pernas para vestir as roupas na hora de ir para casa, e ainda tinha 32 ↵ ⌦

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que caminhar� ngindo não sentir dor. Sabia do pequeno facão na mochila de Amin. Tinha medo de ser morto a qualquer instante. Nesses dias de medo ele caprichava, descobriu que bater neles, especialmente em Amin, despertava um prazer jamais visto. Notava nele um olhar diferente, sedento, como se estivesse no Saara, no Níger, em sequidão e encontrasse água gelada. Por mais insano que pareça, nos dias em que achava que seria seu último, batia neles até quase matá-los de prazer sádico e gemidos, e então ganhava uma nova chance para viver.

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* * * Dessa vez propôs um jogo novo. Brincaria com eles como se fosse um caçador. A brincadeira começou quente, mais do que nunca. Amin ria como um louco. Abaak estava excitado. Ele escolheu Amin para sentar numa cadeira à parte enquanto o tocava. Amarrou levemente o pulso de Amin à cadeira de madeira e quando este estava por entender o que se passava, Ugo lhe esbofeteou a face com toda a força. Amin urrou de gozo, era um amante da violência e desses jogos de prazer. Era um sádico psicótico. Apertou o nó no pulso de Amin e o esbofeteou novamente e, então, tocou seu membro. Amin delirava. Amarrou o outro pulso e continuou seu jogo erótico, enquanto Abaak assistia. Então se levantou, deixando Amin na cadeira, foi até Abaak, no mesmo processo, começou pelo pulso esquerdo. Ao invés de bater, tocava-o com erotismo. Sabia que este tinha prazer em algo menos violento. Quando percebeu que Abaak estava completamente envolvido em sua trama e completamente ereto, respirou fundo e pegando o facão debaixo da mochila de Amin, golpeou com toda força o membro de Abaak. Sentiu o sangue que espirrou lhe arder nos olhos, enquanto seu torturador gritava de dor. En�ou um pano sujo que estava no chão na boca de Abaak e, enquanto se afastava, observava o desespero do homem que o vinha molestando há anos. – O pequeno cresceu – disse Ugo em voz baixa. Amin o olhava com pavor e gritou quando percebeu suas reais intenções. – Vou cortar você todo, seu �lho da puta! Vou bio8 sua cabeça, seu porco nojento! Foi o que Ugo disse antes de desferir o primeiro de muitos golpes no seu torturador, enquanto Abaak assistia a tudo gemendo de dor. Então derramou gasolina em Abaak, no corpo trucidado de Amin e por todo o depósito. Trocou de roupa devagar, lavou-se numa bacia com água e, então, ateou fogo num colchão no fundo do barracão. Ficou observando para ver se seu plano com a gasolina daria certo e só depois saiu como se nada tivesse acontecido. 8

Expressão em ibíbio que signi�ca, “cortar com um único golpe”.

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Numa rua mais movimentada, tomou um okada9 e desapareceu como se tivesse realizado um sonho de infância. * * * O barracão do depósito era separado de outras casas, o que impediu que o fogo se espalhasse pela vizinhança. Ele estava cheio de garrafas velhas com gasolina e combustível para geradores, o que ajudou a in�amar o lugar. Sacolas de roupas, malas extraviadas, colchões velhos, tudo foi consumido. Ugo sabia que os galões de combustível e todas aquelas tralhas ajudariam a mandar o depósito pelos ares. Ele só não conseguira prever que as lembranças daquele lugar, do incêndio e dos seus algozes não deixariam de persegui-lo, aliás, elas o atormentariam cada vez mais. Ainda assim, ele estava de certa forma aliviado. As autoridades locais jamais souberam o que causou o incêndio. *

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*

Foi no pequeno espaço que Ugo John adquirira no aeroporto que ele conheceu muita gente, viajantes que iam e vinham de todas as regiões da Nigéria e também do exterior. Eles, provavelmente, trabalhavam no ramo da construção ou do petróleo, eram pessoas de muito prestígio e dinheiro, bastava ver a gorjeta que deixavam. Ugo não perdia a oportunidade de conversar com todos, sempre de forma muito atenciosa e prestativa. Atendia a todos muito bem, mas, em especial, aos homens brancos com sapatos brilhantes e maletas recheadas. Ninguém acreditaria se alguém dissesse que aquelas conversas eram apenas bajulações. Na verdade, John estava organizando a sua vida fora dali, estava “investindo”. Em cada homem branco que por ali passava, John via uma chance de conseguir alguma coisa, talvez uma oferta de emprego em alguma multinacional. Talvez a chance de ter uma vida decente, sem precisar bajular, como na vida chata de atendente e vendedor a que, desde cedo, fora obrigado pelas irmãs mais velhas e pela madrasta. A raiva que nutria pelos familiares surgiu porque o obrigaram a vagar pelas ruas, debaixo de chuva e sol, para vender tortas enquanto suas irmãs estavam protegidas em casa. Elas sempre podiam comer uma ou outra torta ou beliscar o seu recheio. Mas ele, se alguma torta sumisse ou o dinheiro das vendas fosse menor, apanhava de vara, sob as ordens da madrasta e das chacotas das irmãs. O que John queria era sumir dali e esquecer a sua família. Mas não podia, ainda, pois eram elas que faziam o produto que ele vendia. Pelo menos agora elas eram 9

Uma espécie de moto-táxi. São motocicletas ou triciclos adaptados para o transporte de passageiros.

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suas empregadas, ele mandava e elas� cavam sempre atentas às suas ordens. Ainda o consideravam um espertalhão, mas era ele o dono do dinheiro.

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* * * Logo pela manhã, John entrou no aeroporto sem o uniforme da lanchonete. Passou pelos seguranças que o conheciam do dia a dia sem, no entanto, cumprimentá-los. Usava roupas novas e carregava uma mala de mão, parecida com a dos gringos. Entrou pela porta de acesso ao terminal de passageiros sem também saudar o funcionário. Estava irreconhecível, o moço sempre tão educado com os clientes, agora não saudava ninguém. Até os companheiros mais chegados do aeroporto foram por ele evitados. Era como se o John da lanchonete tivesse morrido e, no seu lugar, nasceu este, que não conhecia ninguém, bem vestido e pronto para viajar. Os funcionários percebem que ele tomaria um voo para Lagos, a maior cidade do país, por causa da companhia aérea onde se apresentou para o check-in. Sem bagagens para despachar, pegou o bilhete e se encaminhou para o balcão de inspeção de malas pelo raio-x. Todos comentaram sobre essa aparição inesperada e o jeito muito esquisito de Ugo John. Ninguém no aeroporto soube o que acontecera a ele. Nem sua família fora avisada sobre sua viagem, suas irmãs �cariam sabendo só ao chegarem no estande de tortas para trabalhar. A única pessoa que poderia explicar, além de John, aguardava por ele em Lagos.

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O Filho de Abasi - Gito Wendel  

Nesta ficção, além das histórias de Asuquo e Ugo John, a narrativa se concentra na angústia do pequeno Bassey, menino estigmatizado que enfr...

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