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O que sobra de uma viagem


Elio Somaschini

O que sobra de uma viagem Histórias de um velejador em solitário

1ª Edição

Joinville, 2016


© 2016 Elio Somaschini Os direitos dessa edição estão reservados à Editora Grafar Ltda. As fotografias são do autor.

Capa: Tuco Egg Diagramação: Editora Grafar Ltda.

Ficha Catalográfica S693

Somaschini, Elio O que sobra de uma viagem: histórias de um velejador em solitário / Elio Somaschini - 1.ed. Joinville: Grafar, 2016. 160p.: Il.; 21cm ISBN 978-85-63723-11-6 1. Viagens - Narrativas pessoais. I. Título. CDD 910.4 (22.ed.) CDD 910

Elaborada por: Maria Isabel Schiavon Kinasz – CRB 9-626

Editora Grafar Ltda. Rua XV de Outubro, 4792 – Rio Bonito 89239-700 – Joinville – SC www.editoragrafar.com.br vendas@editoragrafar.com.br


Sumário

Prefácio

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Apresentação

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O Céu

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Um homem muito inteligente

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La República Bolivariana de Venezuela

20

Tordi titi

23

Um grande velejador

26

Providência

32

A música

35

Uma estrela companheira

39

Um cientista

47

Culturas

50

Uma história para pensar

52

Arquitetura

59

Lacônicos

68

Malta

73

Um povo doce e pouco conhecido

75

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Férias no Mediterrâneo

78

Nomes e palavras

82

A bicicleta

90

Se a escola tivesse rodas

102

Os primeiros polinizadores

106

Momentos fugazes

110

O Efeito Elio

113

Surreal

118

O pão

122

Que garota!

127

Quando o café é delicioso?

130

A famosa Escola de Sagres

137

Epílogo

141

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Prefácio

J

á parou para pensar que os anos que passamos na infância parecem ter durado uma eternidade, e os de hoje nos atropelam cada vez mais rápido? Talvez seja porque quando éramos crianças cada pequeno detalhe do nosso universo era novo, uma descoberta, desde um formigueiro ao incrível e mágico ambiente de trabalho do nosso pai. Conforme crescemos, criar situações que façam com que cada um dos nossos anos sejam preenchidos com memórias significantes e nossas vidas saiam do piloto automático, não é tão simples. Mas algumas pessoas conseguem. Eu estava na ilha da Cotia, em Paraty, no barco de um amigo neozelandês chamado John Lee Diamond, quando surge um cara nadando e sorrindo, cumprimentando-nos em inglês com sotaque italiano. Ele subiu a bordo e tivemos umas duas horas de conversa, pois eu precisava ir a São Paulo, mas fiquei fascinado com histórias incríveis de velejadas em lugares pouco usuais para velejadores brasileiros. O brilho nos olhos, os detalhes dos relatos e sua simpatia ao contar histórias são magnéticos. Era alguém que observava a vida como uma criança, mesmo os pequenos detalhes de cada história pareciam algo novo e interessante. Sabia que precisava fazer um episódio com ele no #SAL. Que, aliás, até hoje é um dos melhores. 7


Este não é um livro sobre relatos de uma aventura nunca antes realizada. É sobre uma série de histórias fascinantes vividas por alguém que tem um olhar muito sensível sobre os lugares e as pessoas que encontra. É bem possível passar por uma série de países e voltar com tão pouco que caiba em uma mala ou duas. O que sobra de uma viagem depende muito mais do viajante do que do destino. Quem sabe viajar se deixa transformar pela sua jornada, chegando diferente do que quando partiu. Sabe absorver culturas e ideias como uma esponja e não chega com a missão de julgar. A dica que ganhamos do Elio de como chegar em um lugar novo é a síntese disso: de braços abertos com um sorriso no rosto e dizendo “eu vim para aprender”. Mas o que sobra desta viagem, não são só as histórias e personagens fantásticos que o Elio nos traz, mas também o exemplo de sua determinação em ir atrás de um sonho. Largar tudo para viver uma aventura como esta é algo muito difícil de fazer. Somente quem esteve quase lá sabe a real força necessária para transpor este muro que cerca as nossas vidas normais. Aí certamente vem a pergunta: vale a pena? Este livro tem parte da resposta. Adriano Plotzki Dutra

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Apresentação

A

s histórias que conto a seguir, não são sobre as tempestades ou os tantos perigos que enfrentei. Isso não tem importância nenhuma para as outras pessoas. As tempestades fazem parte da vida, e sair delas é uma questão de bom senso e honestidade em relação à natureza. As tempestades no mar são duras, castigam, não permitem erros e, navegando em solitário como faço, os erros podem custar a vida. Por isso, nunca desafiei a natureza, sempre a respeitei e tentei sempre manter a integridade do meu barco, o Crapun, que significa “cabeça dura”. O Crapun, um Beneteau First 40.7, é um barco relativamente frágil, veloz, nervoso, arisco e desenhado para ser um vencedor em regatas curtas. Portanto, não é o barco ideal para um velejador em solitário. Mas é o que tenho e com ele, ao longo dos nove anos vividos a bordo, estabeleceu-se uma relação de confiança, carinho e simbiose. Sim, simbiose, pois se ele quebrar numa tempestade, eu perco a vida. Se eu estiver bem, conseguirei tirá-lo das piores situações e ele me abrigará. Um depende do outro para viver. Sentimo-nos bem juntos, e juntos fomos a lugares recônditos deste planeta, vimos e vivemos aventuras lindas, momentos intensos, momentos de dor, longos intervalos de alegria. 9


Nesses anos, que passaram como se fosse um sonho, nunca tive um resfriado, uma dor de cabeça, uma dor de dente e nem um dia de tristeza. Mesmo durante os dois únicos acidentes que tive, sabia que sairia daquela situação e poderia deixar o Crapun de novo em sua melhor forma. Aliás, com a experiência adquirida e alguns trabalhos feitos nele, posso afirmar com segurança que ele está muito melhor agora do que quando o comprei. Ele hoje é um barco evoluído, maduro, resistente, dócil aos meus comandos e extremamente confiável. Para entender o motivo de ter me deixado seduzir pelo desejo de escrever estas histórias, creio que seja necessário conhecer um pouco sobre o ser humano Elio. Nasci em Seregno, uma cidadezinha no norte da Itália, acima de Milão e aos pés dos Alpes. A minha paixão desde criança sempre foi olhar as estrelas, e tive como heróis homens como Galileu, Giodano Bruno, Tycho Brahe, e outros tantos que criaram as bases do conhecimento moderno. Aos onze anos vim ao Brasil para reunir-me com meu pai que já havia migrado para cá e iniciado uma vida nova aos 52 anos de idade; ele era marceneiro de profissão. Foram anos duros, mas deliciosos. Aos poucos fui abrindo meu espaço e me dediquei a estudar física e, com isso, passei a conhecer um pouco mais sobre a natureza. Quanto mais estudo, mais me sinto pequeno diante de tanta beleza. Aos 28 anos descobri a vela através do windsurf e, com minha velha prancha a vela Windglider, fiz todas as barbaridades possíveis e imagináveis. Depois dela veio o Hobie Cat, que serviu de base para conceitos diferentes de velejada. Aí o sonho começou a tomar forma. Eu estava com saudades do lugar onde havia nascido, da cultura que se embrenhara em mim quando criança, e 10


sonhava rever os lugares queridos da minha infância. A oportunidade apareceu quando, após 25 anos no Brasil, pude voltar à Itália para fazer um trabalho junto a um grande professor de matemática da Universidade de Roma. Consegui adiantar o trabalho e tirei uma semana de férias para poder voltar à minha cidade natal. O coração batia forte, iria rever as ruas, as casas, sentir os cheiros, ver as cores que haviam impressionado minhas retinas. Mas ela não era mais a cidade que eu tinha na memória! As pessoas já não cantavam mais enquanto caminhavam pelas ruas. Elas, no inverno, usavam só casacos negros e passavam umas pelas outras sem nenhum sorriso no rosto. As cores das pessoas não existiam mais. Onde fora parar aquela cidade que eu amava? Decidi então que após voltar ao Brasil, trabalharia para conseguir um dia comprar um veleiro, pois queria conhecer o mundo e, em particular, queria conhecer as minhas origens. O meu desejo era entender as origens da sociedade europeia que acabou gerando a atual sociedade das Américas, da Austrália e, por consequência, da Nova Zelândia. Essa busca tinha que ser feita no Mediterrâneo. Lá estava a origem. Nas minhas andanças durante essa busca, algumas pessoas me marcaram profundamente, e sobre elas dediquei algumas páginas. Foram pessoas que me fizeram refletir sobre valores, conceitos de moral, que mostraram características marcantes e que marcaram minha mente. Fatos, histórias, pesquisas em museus e bibliotecas, convivência com pessoas simples do campo ou das pequeníssimas cidades da orla e aventuras pelo interior de países quase desconhecidos, permitiram que eu pudesse evoluir. Não foram os lugares de glamour que me impressionaram positivamente, 11


foram coisas simples e profundas que deram vida à minha aventura. O meio de transporte durante essa aventura foi o Crapun. Isso requereu conhecimentos de navegação e o domínio das técnicas de velejar, mas navegar é muito mais do que velejar. Navegar é usar a vela para se deslocar de maneira segura de um lugar a outro. Para isso eu não uso instrumentos eletrônicos: as estrelas são o meu guia, elas me dizem onde estou e com isso sei aonde devo ir. É mais ou menos como o homem sempre se moveu: integrado à natureza. Por isso também a energia elétrica a bordo do Crapun serve somente para a geladeira, para as luzes de navegação e para o piloto automático que conduz o barco nas horas em que estou dormindo amarrado ao convés, durante as travessias mais longas. É sobre todas essas coisas que escrevi, coisas que sobraram da minha viagem. Passei para o papel não o que outros me contaram, mas um pouco do que vivi e aprendi. Procuro fazer com que o leitor viaje em pensamento, sinta empatia com a situação e possa, quiçá, sentir as emoções que senti. Portanto, este livro poderá ser útil aos velejadores que desejam conhecer um pouco mais sobre como velejar, principalmente num mar difícil como é o Mediterrâneo, e para que todos, velejadores ou não, percebam que a grande maioria das pessoas no mundo são pessoas boas que querem viver, amar e ser felizes. Talvez você tenha o sonho de conhecer o mundo, ou apenas pretenda encontrar a si mesmo. Para iniciar esta viagem não espere até que tudo esteja em ordem, não encontre em coisas que faltam as desculpas para não iniciá-la. Apenas solte as amarras e inicie a viagem sem olhar para trás. O céu à sua frente é sempre mais azul e, creia-me, chegar 12


numa cidade de veleiro é entrar pela sua porta da frente, é descobri-la na sua forma mais bela, é ver a cidade sorrindo e convidando. Espero ajudar a alcançar essa meta. Elio Somaschini e Crapun Dezembro, 2015.

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O Céu

E

u nasci numa pequena cidade ao norte de Milão, norte da Itália. Depois fui viver no Brasil, para onde meu pai decidiu imigrar e, aos poucos, levar o resto da família. Sempre é uma fase difícil na vida de qualquer pessoa quando ela decide ir a um país diferente para recomeçar a vida e, com muito trabalho, tentar dar aos filhos um futuro melhor. Os imigrantes são pessoas heroicas, dignas de toda a nossa admiração e estima. Eles deixam para trás seus amigos, pais, irmãos e outros parentes. Partem para lugares distantes, munidos apenas de esperança e desejo de construir um mundo melhor, sabendo que provavelmente nunca mais retornarão. Numa época em que as comunicações não existiam ou eram extremamente difíceis, reuniam seus poucos pertences, embarcavam em navios para viajar em condições longe de serem as ideais. Quando chegavam ao destino, encontravamse em um lugar com língua diferente, costumes diferentes, regras sociais diferentes, e só tinham como suporte sua capacidade de trabalho e o amparo daqueles que vieram nas mesmas condições. Eles eram determinados, fortes e sonhadores. Quando chegou a minha vez de deixar o lugar onde nasci, para ir a um lugar que eu só conhecia pelo mapa, fui tomado por um conjunto de fortes emoções. 14


Faltando um mês para que eu embarcasse no navio que me levaria ao Brasil, um familiar comprou um abacaxi, fruta que eu não conhecia e que custava muito. Mostrou-a e disse que não me deixaria experimentá-la, pois havia gasto muito dinheiro para adquiri-la e que eu, ao chegar no Brasil, poderia comprá-la a preço baixíssimo e comer dela todos os dias. Sonhei várias vezes com o abacaxi durante a viagem. Ao chegar no porto de Santos, meu pai estava me esperando e fui com ele para São Paulo num caminhãozinho que ele havia alugado. Durante o caminho, subindo a Via Anchieta, ele foi me contando as coisas maravilhosas do País que seria minha nova pátria. Ele me disse que aqui as plantas dão frutos duas vezes por ano, que existem madeiras maravilhosas que ele desconhecia. Afirmou que no estado de São Paulo, os rios correm para o interior em vez de correrem em direção ao mar e que isso deixava a terra fértil e avermelhada e a viagem foi transcorrendo com todas as coisas que ele me contava. Porém, duas coisas ele não me contou. A primeira era que a Lua estava de ponta-cabeça em relação a como a gente a via na Europa, e que algumas estrelas e constelações que a gente via por lá, aqui não eram visíveis, enquanto outras, que eu desconhecia, eram visíveis. Eu estava muito triste. Não podia mais ver a Estrela Polar. Ela era minha amiga, eu “falava” com ela quando era criança. A Ursa Maior e a Menor eram o meu porto seguro por onde começava minhas viagens pelo céu, agora não existiam mais. Chorava muito e sempre reclamava desejando voltar ao meu lugar de nascimento, até que uma noite meu pai realmente não aguentou mais as reclamações do filho chorão. Durante o jantar, que religiosamente era às sete e trinta da noite e que deveria sempre reunir a família, quando 15


choramigando mais uma vez eu reclamei dizendo que queria voltar à minha cidade natal, ele deu um forte tapa na mesa fazendo os pratos pularem, olhou-me nos olhos e disse: “esse país nos recebeu de braços abertos e agora é a nossa pátria”. Engoli as lágrimas, abaixei os olhos e tratei de mudar meu modo de pensar. Nunca o havia irritado tanto. Os anos se passaram e eu tive, como sempre, muita sorte na vida. Com a ajuda do pessoal do Planetário de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, aprendi sobre as belezas do céu do hemisfério Sul. Descobri a existência das Nuvens de Magalhães, passei a usar o Cruzeiro do Sul como referencial e me aprofundei na leitura dos céus. O céu no Sul é maravilhoso. Quando digo aos meus amigos europeus que quando a Lua adquire a forma da letra C, isso significa que ela está crescente e quando ela faz um D, está decrescente, eles ficam boquiabertos, pois para eles é o contrário. Posso deduzir disso que pratos de sopa pulando, educam filhos... Os anos foram passando e quarenta e cinco são muitos, mas foi após esse tempo que eu pude realizar o sonho de navegar com o Crapun. Sozinho, eu, o Crapun, o Oceano, o Céu, os peixes, os golfinhos, as baleias, as lulas, as calmarias, as tempestades, as correntes marítimas... Ora, isso não é sozinho! Olha quanta companhia, olha quanto tenho para aprender, olha o quanto eles me ensinam. Claro que um dos meus objetivos foi poder navegar no Mediterrâneo para rever o Céu da minha infância, entender as origens da minha cultura, a história dos povos que por lá viveram e vivem e que deram como resultado os conceitos que regaram minha mente na infância. Velejar talvez seja a forma mais lenta, desconfortável, cara e sacrificada de ir de um lugar a outro, mas ela permitiu 16


que eu fosse vendo aos poucos um Céu se unindo ao outro. O meu Céu de adulto, aos poucos, se transformando no meu Céu de criança, dando muito sentido à minha vida. Por essa e outras é que, quando alguém me pergunta se vale a pena velejar, eu apenas olho, sorrio e digo: Sim!

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Um homem muito inteligente

N

a enseada da Tapera, na ilha Grande, conheci uma figura única. Um gaúcho que vivia com a esposa a bordo de um pequeno veleiro. Ele se aproximou de mim e disse que queria construir um refratômetro e, por ter recebido a informação de que eu sou físico, queria saber se eu poderia orientá-lo. Imaginem minha cara de espanto! Alguém pede como construir um instrumento para medir o índice de refração da água, numa praia, numa ilha, no Brasil! Só podia ser uma pessoa especial. Ele me disse que estava preocupado com o aumento da poluição das águas na baía de Angra e que poderia medir isso pela alteração do índice de refração. Expliquei como construir e, depois, disse-lhe que essa não era uma forma adequada de medir poluição. Continuamos nos vendo nos dias seguintes e nos tornamos amigos. Ele construiu o tal refratômetro e, depois de uns dias, eu me despedi para iniciar minha viagem. Várias vezes me lembrei dele. A imagem que eu tenho dele é de uma pessoa inteligente, muito perspicaz, mas que, infelizmente, não pôde seguir os estudos formais. Uma pessoa brilhante assim poderia facilmente ter-se tornado um grande cientista, um grande pesquisador, porém as cir18


cunstâncias o levaram para outros rumos. Sua mente era realmente acima da média. Gosto de pessoas assim. Nove anos depois, em Porto Belo, Santa Catarina, eis que reencontro essa pessoa querida. Fiquei muito feliz, e fomos à padaria tomar um café. Conversa vai, conversa vem, e ele, depois de contar que já não tinha mais veleiro e que estava em terra, confessoume que quando iniciei a viagem comentou com a sua esposa: “Esse cara não passa do Rio de Janeiro, vai voltar em seguida”. Ainda bem que ele estava errado! Demos boas risadas por isso. Fiquei então pensando em quantos velejadores de Iate Clubes sonham em fazer uma viagem mais longa e nunca se atrevem a pôr o nariz no mar aberto. Sempre têm uma desculpa para isso: falta comprar um radar, preciso de um tanque de combustível maior, sem piloto de vento não dá, preciso de trilho para a mestra, e assim vai. A lista é interminável. Mas, na maioria das vezes o que falta não é nada disso. O que falta é dar o “click” e soltar as amarras. Isso é difícil!

19


La República Bolivariana de Venezuela

A

viagem que o Crapun tinha que fazer era desde Aruba até o cabo de La Vela, na Colômbia. No meio do caminho existe um conjunto de algumas pequenas ilhas que são essencialmente rochedos e pertencem à Venezuela. Não tinha nenhuma vontade de parar por lá, pois estava farto das autoridades daquele país. Eu já havia criado a Primeira Lei de Elio, que diz: “O índice de corrupção de um país é proporcional à quantidade de papéis que se deve preencher ao chegar com um veleiro”, e aquele país era um dos exemplos que confirmavam experimentalmente a Primeira Lei. Alguns amigos velejadores haviam comentado que, talvez devido à distância que as ilhas se encontravam do continente ou, talvez, pelo fato de ser raro alguém parar lá, os militares daquela ilha eram simpáticos. E como uma parada naquele local dividiria a jornada até a Colômbia, tornando o trajeto menos cansativo, rumei para lá. Dois rochedos, um grande e um pequeno emergem das águas cristalinas do mar do Caribe, bem juntos um do outro. No maior foi construído um farol e uma base para a Guarda Costeira, e entre os rochedos foram jogadas pedras, formando com isso uma pequena baía. Desde um rochedo até o outro foi esticada uma corda grossa e, quem chega, simplesmente 20


amarra o barco nessa corda ficando ao abrigo das ondas e pode dormir sossegado. Para minha alegria, ao chegar lá, encontrei amarrados dois barcos de amigos meus. Um deles era de um italiano que havia crescido nos Estados Unidos, o outro era um catamarã Lagoon 42 de um argentino que havia vivido no Canadá. Como eu gostava muito deles, chamei-os pelo rádio e eles me indicaram como parar ao seu lado. Disseram-me que no dia seguinte iriam conhecer a base militar e o farol, sempre acompanhados por algum cicerone venezuelano. Claro, decidi ir com eles! A visita foi muito agradável e o local maravilhoso, natureza pura e intocada. Na hora de voltarmos ao barco, o nosso cicerone disse que o chefe queria falar conosco, e lá fomos nós para a sala dele. O chefe, muito sorridente e educado, disse que precisaríamos preencher alguns papéis por mera formalidade. Fui o primeiro a me oferecer para isso. Ele tirou da gaveta alguns blocos, como as antigas notas fiscais usadas pelo comércio no Brasil décadas atrás, e começou o interrogatório: “Nome do Barco”, resposta “Crapun”. “Bandeira”, resposta “Brasileira”. “Número de matrícula”, resposta “Olha, não sei de cor pois os documentos, tanto do barco como os meus, estão a bordo. Mas assim que chegar lá, passo via rádio as informações”. “Tem motor?” Opa, essa era uma pergunta interessante. Será que existem hoje em dia muitos velejadores que velejam pelo oceano e não têm motor? Resposta “Sim”. “Marca e modelo”, resposta “Volvo MD 2040”. “Número de série do motor”. Quase caí de costas! Nunca alguém havia me perguntado isso! Inventei um número comprido qualquer, e ele escreveu! 21

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O que sobra de uma viagem: histórias de um velejador em solitário  

Elio Somaschini conta histórias sobre o seu convívio com pessoas e sobre coisas que aprendeu a respeito dos povos que encontrou ao navegar a...

O que sobra de uma viagem: histórias de um velejador em solitário  

Elio Somaschini conta histórias sobre o seu convívio com pessoas e sobre coisas que aprendeu a respeito dos povos que encontrou ao navegar a...

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