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MANUAL DO PROFESSOR

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Emília Amaral • Mauro Ferreira Ricardo Leite • Severino Antônio

MANUAL DO PROFESSOR

Novas Palavras

Novas Palavras

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ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR LÍNGUA PORTUGUESA

Emília Amaral • Mauro Ferreira Ricardo Leite • Severino Antônio

ISBN 978-85-96-00367-4

ENSINO MÉDIO 9

788596 003674

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COMPONENTE CURRICULAR LÍNGUA PORTUGUESA

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Novas Palavras ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR

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LÍNGUA PORTUGUESA

Emília Amaral Doutora em Educação (área de Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte) pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. Mestre em Letras (área de Teoria Literária) pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Professora do Ensino Médio e do Ensino Superior. Consultora nas áreas de literatura, leitura e produção de textos há mais de 30 anos.

Mauro Ferreira do Patrocínio Especialização em Metodologia do Ensino pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. Professor do Ensino Fundamental, Ensino Médio e de cursos pré-vestibulares durante 22 anos. Dedica-se à realização de palestras para professores e estudantes universitários e à criação de obras didáticas.

Ricardo Silva Leite Mestre em Letras (área de Teoria Literária) pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas. Licenciado em Letras (Português/Francês) pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Oswaldo Cruz”. Professor do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e de cursos pré-vestibulares há mais de 30 anos.

Severino Antônio Moreira Barbosa Doutor em Educação (área de Filosofia e História da Educação) pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. Professor do Ensino Médio e do Ensino Superior há 40 anos e autor de vários livros.

3a edição São Paulo – 2016

MANUAL DO PROFESSOR

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Copyright © Emília Amaral, Mauro Ferreira do Patrocínio, Ricardo Silva Leite, Severino Antônio Moreira Barbosa, 2016 Lauri Cericato Flávia Renata P. A. Fugita Angela C. D. C. M. Marques Ana Paula Figueiredo, Irene Catarina Nigro, Maria Aiko Nishijima, Nathalia de Oliveira Matsumoto, Roberta Vaiano Assessoria Suelen Rocha M. Marques Gerente de produção editorial Mariana Milani Coordenador de produção editorial Marcelo Henrique Ferreira Fontes Coordenadora de arte Daniela Máximo Projeto gráfico Juliana Oliveira Projeto de capa Bruno Attili Foto de capa Thais Falcão/Olho do Falcão Modelos da capa: Andrei Lopes, Angélica Souza, Beatriz Raielle, Bruna Soares, Bruno Guedes, Caio Freitas, Denis Wiltemburg, Eloá Souza, Jardo Gomes, Karina Farias, Karoline Vicente, Letícia Silva, Lilith Moreira, Maria Eduarda Ferreira, Rafael Souza, Tarik Abdo, Thaís Souza Edição de arte Sonia Alencar e Suzana Massini Diagramação Essencial design, Bruna Nunes, Débora Jóia, José Aparecido Amorim, Salvador Consales, Wlamir Miasiro Tratamento de imagens Ana Isabela Pithan Maraschin Coordenadora de ilustrações e cartografia Marcia Berne Ilustrações André Ducci, Felipe Nunes, Marcos Guilherme Coordenadora de preparação e revisão Lilian Semenichin Supervisora de preparação e revisão Viviam Moreira Revisão Amanda di Santis, Carina de Luca, Célia Regina Camargo, Juliana Rochetto, Marcella Arruda, Veridiana Maenaka Coordenador de iconografia e licenciamento de textos Expedito Arantes Supervisora de licenciamento de textos Elaine Bueno Iconografia Elizete Moura Santos, Gabriela Araújo, Paloma Klein Diretor de operações e produção gráfica Reginaldo Soares Damasceno Diretor editorial Gerente editorial Editora Editoras assistentes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Novas palavras 1.o ano / Emília Amaral...[et al.]. — 3. ed. — São Paulo : FTD, 2016. — (Coleção novas palavras) Outros autores: Mauro Ferreira do Patrocínio, Ricardo Silva Leite, Severino Antônio Moreira Barbosa Componente curricular: Língua portuguesa ISBN 978-85-96-00366-7 (aluno) ISBN 978-85-96-00367-4 (professor) 1. Português (Ensino médio) I. Amaral, Emília. II. Patrocínio, Mauro Ferreira do. III. Leite, Ricardo Silva. IV. Barbosa, Severino Antônio Moreira. V. Série. 16-03483

CDD-469.07 Índices para catálogo sistemático: 1. Português : Ensino médio 469.07

Reprodução proibida: Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Todos os direitos reservados à

Em respeito ao meio ambiente, as folhas deste livro foram produzidas com fibras obtidas de árvores de florestas plantadas, com origem certificada.

EDITORA FTD S.A. Rua Rui Barbosa, 156 – Bela Vista – São Paulo-SP CEP 01326-010 – Tel. (0-XX-11) 3598-6000 Caixa Postal 65149 – CEP da Caixa Postal 01390-970 www.ftd.com.br E-mail: central.atendimento@ftd.com.br

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Impresso no Parque Gráfico da Editora FTD S.A. CNPJ 61.186.490/0016-33 Avenida Antonio Bardella, 300 Guarulhos-SP – CEP 07220-020 Tel. (11) 3545-8600 e Fax (11) 2412-5375

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Apresentação Caro aluno, Neste livro, você será continuamente convidado a refletir sobre as habilidades fundamentais associadas ao desenvolvimento da linguagem: falar, ler e escrever. Juntos, tomaremos contato com uma grande variedade de textos, de diferentes gêneros, para nos inspirarmos na criação e no aprimoramento de nossa própria produção; vamos ler, reler e avaliar com nossos interlocutores — o(a) professor(a), os colegas, os amigos... — os textos lidos e produzidos, os conceitos aprendidos e incorporados. Assim, texto a texto, aula a aula, iremos nos aperfeiçoando como seres capazes de linguagem e como participantes ativos do nosso mundo. A leitura e a escrita são, sem dúvida, um modo privilegiado de interferirmos na realidade, de interagirmos com os outros; no entanto, será importante também refletirmos a respeito da linguagem falada, conhecê-la melhor, ter consciência de que a fala e a escrita se complementam, não se opõem, e de que ela, a fala, constitui uma modalidade de expressão com características específicas e regras próprias. Em Literatura, nosso estudo estará sempre associado às artes plásticas e privilegiará os gêneros literários fundamentais: poesia lírica e épica, crônica, conto, romance, teatro etc. Vamos comparar a produção de autores clássicos com a de escritores e poetas contemporâneos, sobretudo quando tratamos das grandes escolas literárias, cujos autores e textos alimentam nosso imaginário, ampliam nossos horizontes e aprofundam nossas formas de ver o mundo e a nós mesmos. Em Gramática, as reflexões sobre as diferentes maneiras de falar e de escrever se desenvolverão com o estudo das estruturas que estabelecem a organização e o sentido dos textos que constituem o nosso “mundo da leitura”: charges, tirinhas, piadas, anúncios publicitários, letras de música, textos jornalísticos, poemas... Nas aulas de Literatura, de Gramática e de Leitura e produção de textos, desafios serão propostos e conteúdos específicos serão desenvolvidos, porém próximos entre si, pois falaremos de como se estrutura e como funciona a linguagem e dos caminhos que ela percorre na diversidade de suas possibilidades expressivas e comunicativas. Afinal, ela é o principal recurso de que dispomos para sermos de fato quem somos. Este é o objetivo maior deste livro: que você, ao transformá-lo em seu parceiro de aprendizagens, tenha um posicionamento ativo: leia, goste, não goste; ache fácil, ache difícil; mas sempre releia, repense, reformule, persista, pois assim é que gradativamente conquistará novas habilidades de usos da linguagem, que certamente contribuirão para seu sucesso escolar, profissional e humano. Vamos começar?

Os autores

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SUMÁRIO Literatura Capítulo 1

Literatura: a arte da palavra

10

Capítulo 3

O texto literário

36

Primeira leitura O tocador de alaúde, de H. M. Sorgh 11 Interior holandês I, de Joan Miró 12 O ouro do azul, de Joan Miró 12

Primeira leitura Balada do amor através das idades, de Carlos Drummond de Andrade 37

Leitura O que é arte?, de H. W. Janson

A leitura do texto literário

13

Os níveis de leitura

Leitura Invasão de privacidade 14

O texto e o leitor

Um caso limite — a fotografia

15

E mais... 15 A literatura

16

Leitura Andorinha 17 As andorinhas de Antônio Nobre, de Cassiano Ricardo 17 E mais... 19 Resumindo o que você estudou 19 Atividades 19

Capítulo 2

E mais... 39 39

40

41

As expectativas do leitor

41

Leitura Dom Casmurro, de Machado de Assis Capítulo CXXII – O enterro 42 Capítulo CXXIII – Olhos de ressaca 43 Capítulo CXXIV – O discurso 43 Estratégias de leitura

44

Leitura A serra do Rola-Moça, de Mário de Andrade 46 E mais... 47 Resumindo o que você estudou 47

Literatura e realidade: representação e invenção 21

Primeira leitura Pausa, de Mario Quintana Literatura e realidade

22

24

E mais... 24

Atividades 48

Capítulo 4

Os gêneros literários

50

Primeira leitura Soneto 2, de Tite de Lemos 51 Os gêneros literários 52 As características do gênero épico ou narrativo

Leitura rio: o ir, de Arnaldo Antunes 25 Forma e conteúdo 26 26

As características do gênero lírico

Leitura O entendimento dos contos, de Carlos Drummond de Andrade 27

Leitura Quando ela passa, de Fernando Pessoa 57

Funções da literatura

Leitura Preto e Branco, de Luis Fernando Verissimo

Verossimilhança

28

Leitura Algumas variações sobre um mesmo tema, de Mario Quintana 29 Não há vagas, de Ferreira Gullar 30 Profissão de fé, de Olavo Bilac 31

57

As características do gênero dramático

58

58

E mais... 60 Noções de versificação Metrificação

61

62

Regras básicas de metrificação e de escansão

Resumindo o que você estudou 32

Resumindo o que você estudou 64

Atividades 33

Atividades 65

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52

Leitura Majestic Hotel, de Sergio Faraco 54 E mais... 56

62

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A poesia lírica 68

Primeira leitura Todas as cartas de amor são..., de Álvaro de Campos 69 A poesia lírica

70

Leitura Cidadezinha qualquer, de Carlos Drummond de Andrade 71 A lírica amorosa

72

Características do teatro de Gil Vicente

116

Características estéticas do teatro popular

116

Leitura Auto da barca do Inferno (Quadro: o Fidalgo), de Gil Vicente 117 Outro momento seminal: o teatro de Martins Pena 120

Leitura Cantiga de amigo, de Martim Codax 73 E mais... 74 Leitura Cantiga sua partindo-se, de João Ruiz de Castelo Branco 75 Leitura de imagem Um exemplo de pintura renascentista

O iniciador do teatro em língua portuguesa 116

77

A primavera, de Sandro Botticelli 77 Leitura Soneto, de Luís de Camões 78 Leitura Soneto, de Álvares de Azevedo 79 Leitura Artes de amar, de Antonio Carlos Secchin 80

Leitura O noviço (fragmento), de Martins Pena 120 A renovação do teatro popular no século XX 123 Leitura Auto da Compadecida (fragmento do ato I), de Ariano Suassuna 123 E mais... 126 Resumindo o que você estudou 127

Felipe Nunes

Capítulo 5

Atividades 127

Resumindo o que você estudou 81 Atividades 81

Capítulo 6

A crônica

84

Primeira leitura A moça rica, de Rubem Braga 85 Leitura Para Maria da Graça, de Paulo Mendes Campos 89 E mais... 92 Resumindo o que você estudou 93 Atividades 93

Capítulo 7

O conto

98

Primeira leitura Carolina, de Edgard Telles Ribeiro 99 E mais... 101 Leitura Felicidade clandestina, de Clarice Lispector 101 E mais... 104 Leitura A armadilha, de Murilo Rubião 105 Resumindo o que você estudou 108 Atividades 108

Capítulo 8

O teatro

111

Primeira leitura Todo o Mundo e Ninguém, de Gil Vicente 112 Leitura de imagem Hieronymus Bosch, um pintor contemporâneo de Gil Vicente 115 O carro de feno, de Hieronymus Bosch 115

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Gramática Capítulo 1

Gramática... gramáticas... 130

Introdução 131 As diferentes gramáticas Leitura inicial

A língua portuguesa — origens e geografia

131

131

Da teoria à prática 171 Ponto de partida 171 Agora é sua vez 172

A gramática da língua 133 A outra gramática

135

Variedades linguísticas

136

A variedade culta formal

E mais... 175

136

A variedade coloquial-popular

Capítulo 3

138

Fatores que influenciam a adequação

Função metalinguística

144

145

182

Expressão idiomática, paráfrase, polissemia e ambiguidade 185

146

146

Expressão idiomática Paráfrase

185

186

Polissemia

187

Ambiguidade

Da teoria à prática 152 Ponto de partida 152 Agora é sua vez 153

190

Resumindo o que você estudou 192 Atividades 193

157

Noções de variações linguísticas 159

A variação sociocultural A variação situacional

159 160

161

A variação geográfica

158

Da teoria à prática 195 Ponto de partida 195 Agora é sua vez 196

Capítulo 4

Introdução 159 Variações linguísticas

A variação histórica

180

Parônimos

Resumindo o que você estudou 148 Atividades 148

Capítulo 2

178

Antônimos

Resumindo o que você estudou 183 Atividades 184

145

Função fática 147

E mais...

Sinônimos

178

Homônimos 181

Função referencial (ou informativa)

Função poética

142

143

Função emotiva (ou expressiva)

177

Significação das palavras

141

176

177

O que é semântica?

Adequação e inadequação linguística

Função apelativa (ou conativa)

Noções de semântica

Introdução

Resumindo o que você estudou 139 Atividades 139

Funções da linguagem

164

O português de Portugal e o português brasileiro 165 Resumindo o que você estudou 167 Atividades 167

163

Figuras de linguagem

198

Introdução 199 Sentido denotativo e sentido conotativo Figuras de linguagem (1.º grupo) 201 Comparação Metáfora

202

203

Metonímia (e sinédoque)

204

Personificação (prosopopeia) Antítese (e paradoxo/oximoro) Hipérbole

205 206

206

Eufemismo Ironia

199

207

208

Elipse

211

Pleonasmo

212

Polissíndeto

212

Onomatopeia Anáfora

213

Aliteração Assonância

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213

Ilustrações: Felipe Nunes

Resumindo o que você estudou 208 Atividades 209 Figuras de linguagem (2.º grupo) 211

214 214

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215

O conceito de classe gramatical

As classes gramaticais do português

Da teoria à prática 217 Ponto de partida 217 Agora é sua vez 218 E mais... 221

Capítulo 5

Substantivo e adjetivo Substantivo 262 Conceito

Acentuação gráfica

Introdução

258

A variação da classe gramatical nos enunciados 259

262

Grau do substantivo

As regras de acentuação gráfica Regras gerais de acentuação

263

Flexões do substantivo: gênero e número

223

Para que serve a acentuação gráfica?

261

Classificação geral do substantivo

222

260

223

Resumindo o que você estudou 266 Atividades 267

224

225

Adjetivo

270

Resumindo o que você estudou 228 Atividades 228

Conceito

As regras de acentuação gráfica (continuação) 230

A posição do adjetivo em relação ao substantivo 272

Regras complementares de acentuação

Flexões do adjetivo: gênero e número

230

Grau do adjetivo

Da teoria à prática 235 Ponto de partida 235 Agora é sua vez 236

Estrutura e formação de palavras

Introdução

239

240

Classificação dos morfemas

241

Classificação das palavras quanto à formação 242 Como nascem as palavras da língua? 242 Palavras primitivas, derivadas e compostas 243

Processos de formação de palavras (1.a parte) 243 Derivação

243

Resumindo o que você estudou 247 Atividades 247 Processos de formação de palavras (2.ª parte) 249 Composição

249

Outros processos de formação de palavras 249

Resumindo o que você estudou 250 Atividades 251

Artigo Numeral

240 Artigo

271

273

274

Resumindo o que você estudou Atividades 277 Da teoria à prática 280 Ponto de partida 280 Agora é sua vez 281 E mais... 285

Capítulo 8

Os elementos estruturais das palavras

270

Outros caracterizadores do substantivo

Resumindo o que você estudou 232 Atividades 233

Capítulo 6

264

265

276

286

287

Conceito e classificação

287

Principais empregos do artigo

288

Resumindo o que você estudou 290 Atividades 290 Numeral Conceito

292 292

Classificação dos numerais

292

Principais empregos dos numerais

Resumindo o que você estudou 294 Atividades 294 Da teoria à prática 296 Ponto de partida 296 Agora é sua vez 296

293

Felipe Nunes

Resumindo o que você estudou Atividades 215

Da teoria à prática 253 Ponto de partida 253 Agora é sua vez 254 E mais... 256

Capítulo 7 Introdução

Substantivo Adjetivo 257 258

Classes gramaticais

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258

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Leitura e produção de textos Capítulo 1

Gêneros textuais

300

Releitura 327 A notícia 328

Primeira leitura Selfies 301 Em tom de conversa

O lide

301

E mais... 302 O autorretrato e as selfies Anotações 303

302

Releitura

E mais... 306

Títulos de jornal

307

Capítulo 2

E mais... 331

307

Linguagens: entre textos, entre linhas 309

Primeira leitura Então tá, de Leticia Wierzchowski e Marcelo Pires 310 Releitura

310

Atividades: Produção 311 Multiplicidade de linguagens A relação texto-contexto

311

311

Atividades: Leitura 311 E mais... 312 Atividades: Leitura e produção

313

Critérios de avaliação e reelaboração

314

Resumindo o que você estudou 314 Atividades: Leitura e produção 315

Capítulo 3

A enumeração e os gêneros textuais 316

Primeira leitura Memória dos dias comuns, de Fabrício Corsaletti 317 Em tom de conversa 317 Enumeração 317 Leitura Traduzir-se, de Ferreira Gullar

318

Em tom de conversa 318 Atividades: Produção 318 A enumeração e os gêneros textuais

Atividades Leitura e produção 321 E mais... 321 Critérios de avaliação e reelaboração

330

330

Atividade: Leitura 331

Resumindo o que você estudou 307 Atividades: Leitura e produção

329

Atividade: Leitura 329 Estrutura de um jornal

303

Critérios de avaliação e reelaboração

328

Leitura Índia proíbe pássaro na gaiola, de Jornal Agora São Paulo 329

Atividades: Produção 302

Atividades: Leitura e produção

328

A notícia e outros gêneros

322

319

Critérios de avaliação e reelaboração

331

Resumindo o que você estudou 332 Atividades: Leitura e produção 332

Capítulo 5

Crônica e poema em jornais

333

Primeira leitura O buraco da memória, de Carlos Heitor Cony 334 Em tom de conversa 335 Releitura 335 Atividade: Produção 335 E mais... 336 Leitura Depois, de Ruth Manus 337 Em tom de conversa 338 Releitura 338 Atividade: Produção 339 Critérios de avaliação e reelaboração 339 Resumindo o que você estudou 339 Atividades: Leitura e produção 340

Capítulo 6

Linguagem e ponto de vista

Primeira leitura Suriá, de Laerte 343 Em tom de conversa 343 Releitura 343 Atividades: Leitura e produção 344 Critérios de avaliação e reelaboração Resumindo o que você estudou 346 Atividades: Leitura e produção 347

342

346

Referências e lista de siglas 348

Resumindo o que você estudou 323

Capítulo 4

Notícia

326

Primeira leitura Vira-lata salva bebê, de Revista IstoÉ 327 Em tom de conversa

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Felipe Nunes

Atividades: Leitura e produção 323

327

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Felipe Nunes

LITERATURA

CAPÍTULO 1 CAPÍTULO 2 CAPÍTULO 3 CAPÍTULO 4 CAPÍTULO 5 CAPÍTULO 6 CAPÍTULO 7 CAPÍTULO 8

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| Literatura: a arte da palavra | Literatura e realidade: representação e invenção | O texto literário | Os gêneros literários | A poesia lírica | A crônica | O conto | O teatro

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Literatura: a arte da palavra

capítulo

1

Para iniciar os estudos de literatura, você é convidado, neste capítulo, a refletir primeiramente sobre o que é arte, observando algumas pinturas e discutindo um texto que nos aproxima de uma possível definição. Essa reflexão o conduzirá para a compreensão da literatura como arte da palavra.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livro • KUBRUSLY, Cláudio. O que é fotografia. São Paulo: Brasiliense, 1983 (Primeiros Passos). • MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. • MORICONI, Italo (Org). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. Filmes • MAIS estranho que a ficção. Produção: Lindsey Doran. Direção de Marc Foster. EUA: Columbia Pictures Entertainment, 2006. Sites • GOOGLE CULTURAL INSTITUTE. Museus do mundo – Coleções. Disponível em: <http://tub.im/ykdw35>. Acesso em: 18 abr. 2016. • SALGADO, Sebastião. Mudando o mundo das crianças. Unicef. Disponível em: <http://tub.im/c648no>. Acesso em: 18 abr. 2016. • PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Acervo artístico. São Paulo, 2016. Disponível em: <tub.im/m2ti9o>. Acesso em: 18 abr. 2016.

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Professor(a), a atividade da seção “E mais...”, das páginas 15 e 19, requer preparação antecipada.

PRIMEIRA LEITURA

SORGH, Hendrick Martensz. O tocador de alaúde,1661. Óleo sobre painel, 51,5 cm × 38,5 cm. Found collection Rijksmuseum, Amsterdã. Foto: Glow Images

Iniciamos agora o curso de literatura, que se desenvolverá nos próximos anos. Será um curso diferente. Afinal, seu objeto é uma arte — a arte da palavra. Todas as informações e explicações que ele lhe fornecer serão importantes, mas o mais importante mesmo, o essencial, é que você desenvolva sua sensibilidade e sua capacidade de observação e de leitura. Neste capítulo, discutiremos um pouco sobre o que é arte e o que é literatura. Por isso, apresentamos, para primeira “leitura” (com aspas, dando à palavra o significado amplo de “interpretação” de qualquer realidade, não apenas de decodificação do texto escrito), a reprodução de três pinturas: uma de um pintor holandês do século XVII, e duas de um consagrado artista catalão do século XX.

SORGH, H. M. O tocador de alaúde, 1661.

Hendrick Martensz Sorgh (1610-1670) Pintor holandês do século XVII, nascido em Roterdã, especializado em representações de cenas de interior, da vida doméstica, marinhas, históricas e retratos.

Literatura: a arte da palavra

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MIRÓ, Joan. O ouro do azul. 1967. Óleo sobre tela, 205 cm × 173 cm. Fundação Joan Miró. Barcelona. Foto: Alamy/Fotoarena © Successión Miró/AUTVIS, Brasil, 2016

MIRÓ, Joan. Interior holandês I. 1928. Óleo sobre tela, 92 cm × 73 cm. Museu de Arte Moderna de Nova York. Foto: Album/Fotoarena © Successión Miró/ AUTVIS, Brasil, 2016

MIRÓ, Joan. Interior holandês I, 1928.

MIRÓ, Joan. O ouro do azul, 1967.

Joan Miró 1893-1983) Artista catalão, nascido em Barcelona. Foi pintor, ceramista, gravurista. Sua obra está ligada ao Surrealismo.

Surrealismo: movimento artístico do século XX que pretendia, segundo André Breton, “resolver a contradição até agora vigente entre sonho e realidade pela criação de uma realidade absoluta, uma suprarrealidade”.

Em tom de conversa Seguindo as orientações do(a) professor(a), exponha para seus colegas as impressões que as pinturas lhe causaram. Eis um pequeno roteiro para organizar a conversa: • Você gostou das pinturas? De qual mais gostou? De qual gostou menos? Por quê? • Que relação se percebe entre O tocador de alaúde, pintada por Sorgh no século XVII, e Interior holandês I, pintada por Miró no século XX? Ajude seus colegas a encontrar detalhes semelhantes nas duas obras. • Observando as duas primeiras pinturas, qual delas lhe parece mais fiel à realidade representada e qual mais a “distorce”? E a terceira, o que ela representa? • Para muitas pessoas, o principal valor artístico de uma obra de arte reside na fidelidade da representação, ou seja, na grande semelhança entre ela e a realidade retratada. Você concorda com esse critério de julgamento das obras de arte? Por quê?

PARA VER NA REDE

Para conhecer outras obras de Sorgh e Miró, visite os sites: Obras de Sorgh • Disponível em: <http:// tub.im/3udeam>. Acesso em: 18 abr. 2016. Obras de Miró • Disponível em: <http:// tub.im/is36xf>. Acesso em: 18 abr. 2016. • Disponível em: <http:// tub.im/fpwk2z>. Acesso em: 18 abr. 2016.

Respostas pessoais.

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CAPÍTULO 1

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LEITURA

Professor(a), antes da leitura do próximo texto, é importante promover uma discussão sobre qual é o conceito de arte na perspectiva cultural dos alunos.

Neste texto, o historiador da arte Horst Waldemar Janson procura esclarecer o que é arte. Não é uma tarefa simples nem fácil. Observe que o autor relativiza constantemente as definições, ou melhor, as aproximações da ideia de arte: “para nós”, “antes de mais nada”, “muitas vezes”, “costuma ser definida”.

O que é arte? “Por que isto é arte?” “O que é arte?” Poucas perguntas provocarão polêmica mais acesa e tão poucas respostas satisfatórias. Embora não cheguemos a nenhuma conclusão definitiva, podemos ainda assim lançar alguma luz sobre estas questões. Para nós, arte é, antes de mais nada, uma palavra, uma palavra que reconhece quer o conceito de arte, quer o fato de sua existência. Sem a palavra, poderíamos até duvidar da própria existência da arte, e é um fato que o termo não existe na língua de todas as sociedades. No entanto, faz-se arte em toda a parte. A arte é, portanto, também um objeto, mas não é um objeto qualquer. A arte é um objeto estético, feito para ser visto e apreciado pelo seu valor intrínseco. As suas características especiais fazem da arte um objeto à parte, por isso mesmo muitas vezes colocado à parte, longe da vida cotidiana, em museus, igrejas ou cavernas. E o que se entende por estético? A estética costuma ser definida como “o que diz respeito ao que é belo”. JANSON, H. W. História geral da arte. Adaptação e preparação do texto para a edição brasileira de Maurício Balthazar Leal. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 11-12.

Releitura

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS A primeira coisa a se dizer é que arte hoje pode ser muitas coisas. Diferentemente do que ocorria até fim do século XIX ou meados do século XX, em que a palavra “arte” significava “obra”. E as obras artísticas tinham características muito específicas, carregavam a ideia de serem obras únicas, com valores transcendentes, e não um valor imediato que se refere à vida e ao cotidiano. No entanto, à medida que os processos experimentais nas artes se desenvolveram de maneira rápida e violenta, a partir das décadas de 1950 e 1960, mais especificamente a partir da Pop Art, houve uma grande explosão de linguagens e tendências, o que ampliou o sentido da ideia de arte. Desse modo, não há um conceito de arte fechado. A arte é aquilo que você encontra como arte. O que isso quer dizer? A arte não pode ser avaliada, sem considerar o lugar em que ela foi produzida, ou seja, em seu contexto. UTUARI, Solange; LIBÂNEO, Daniela; SARDO,Fábio; FERRARI, Pascoal. Por toda parte. São Paulo: FTD, 2015. p. 40. (Coleção 360°)

Escreva no caderno

1. Identifique as afirmações que podem ser corretamente deduzidas do texto de H. W. Janson (releia o texto, ou partes dele, todas as vezes que julgar necessário). a) Não existe um conceito de arte. Trata-se apenas de uma palavra utilizada para encobrir esse vazio conceitual. b) É tal a complexidade do conceito de arte que nem mesmo os especialistas conseguem chegar a uma definição satisfatória e consensual. c) Se em nossa cultura existe a palavra arte e realidades identificadas como obras de arte, então existe um conceito e realizações humanas que concretizam esse conceito. Mas podemos duvidar de que seja um conceito universal, existente em todas as culturas. d) Sendo a arte um objeto estético, podemos dizer que tudo que é belo pode ser considerado arte. e) Para ser considerado obra de arte, um objeto deve ser belo, perfeito e adequado à utilidade prática para a qual foi produzido. f) Ao afirmar que o objeto estético é “feito para ser visto e apreciado pelo seu valor intrínseco”, Janson exclui da definição de arte as funções práticas e utilitárias que as obras possam ter. Literatura: a arte da palavra

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2. Ao comentar os quadros de Sorgh e Miró, você discutiu um critério de julgamento muito comum: o principal valor artístico de uma pintura estaria na fidelidade da representação, ou seja, a obra de arte deveria imitar a aparência do mundo real. Escreva, agora, um pequeno texto respondendo novamente à questão: Você concorda com esse critério de julgamento? Em sua resposta, leve em consideração a definição de arte dada por H. W. Janson.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS “Por que isto é arte?” “O que é arte?”. Poucas perguntas provocarão polêmica mais acesa e tão poucas respostas satisfatórias”. Veja algumas definições de arte formuladas por artistas e especialistas: “Isto é arte? Arte é isto.” (Waltércio Caldas Jr.) “Se alguém chama isto de arte, então é arte.” (Donald Judd) “A arte pode ser ruim, boa ou indiferente, mas qualquer que seja o adjetivo empregado, temos que chamá-la arte. A arte ruim é arte, do mesmo modo que uma emoção ruim é uma emoção.” (Marcel Duchamp) “Chegou a hora da antiarte. Com as apropriações eu descobri a inutilidade da chamada elaboração da obra de arte. Está na capacidade do artista declarar se isso é ou não uma obra de arte. Tanto faz que seja uma coisa ou uma pessoa viva.” (Hélio Oiticica)

Resposta pessoal.

Valor intrínseco: é dado pelas características da obra independentemente de sua utilidade e instrumentalidade. Para reconhecer esses valores, perguntamos o que é e como é a obra (sua estrutura, as relações internas). Valor extrínseco: é dado pelas finalidades que não fazem parte de sua constituição. Toda obra possui valores extrínsecos e eles são importantes. Mas não são eles que tornam arte uma obra. Um poema de protesto é obra de arte, mas não pela sua finalidade. Se o fosse, um manifesto publicado em um jornal também o seria.

MORAIS, Frederico. Arte é o que eu e você chamamos arte: 801 definições sobre arte e o sistema da arte. Rio de Janeiro: Record, 2002.

LEITURA Observe a sequência de cinco fotografias tiradas por um fotógrafo amador. São, portanto, obras de um artista amador. Observe-as atentamente e depois responda às questões.

Invasão de privacidade 2

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Fotos: Arquivo do autor

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Em tom de conversa • As fotos registram a mesma cena, mas não são iguais. Para você, qual delas registra a cena com mais clareza e fidelidade? Qual a registra com menos fidelidade? Explique. Os alunos provavelmente responderão às questões se reportando às diferenças de nitidez, de abrangência e de distância.

• Agora eleja duas fotos: a de que você mais gosta e a de que menos gosta. Procure explicar suas escolhas. Resposta pessoal.

• Discuta com seus colegas as seguintes afirmações sobre as fotos. Apenas uma delas está correta.

O conjunto de fotos intitulado “Invasão de privacidade”:

Para ser uma obra de arte, o objeto não depende da identidade ou da qualidade de quem o produz (artista profissional ou artista amador).

a) não pode ser considerado obra de arte, pois foi produzido por um fotógrafo amador.

b) deve ser considerado obra de arte, porque focaliza uma bela ave cujo olhar desamparado impressiona o observador. O status de arte independe das qualidades e da beleza do que é representado na obra. c) constitui uma obra de arte, pois o fotógrafo fez escolhas e tomou decisões para conseguir certos efeitos estéticos, acentuados na sequência narrativa em que as imagens estão organizadas. Afirmação correta, pois descreve algumas das qualidades intrínsecas que dão ao conjunto de fotos o status de obra de arte.

d) não constitui obra de arte, pois a sequência e, principalmente, a última imagem comprovam a imperícia e as indecisões do fotógrafo. Afirmação incorreta, pois a nela é feita um julgamento de qualidade. A obra de arte pode ser boa ou ruim, sem deixar de ser arte.

e) não pode ser considerado obra de arte por apresentar um assunto banal, sem intenção estética. Argumento semelhante ao feito para a afirmação b; ademais, a intenção estética está na obra, não em seu assunto, ou seja, na ave retratada.

UM CASO LIMITE — A FOTOGRAFIA No texto que você leu, H. W. Janson afirma que “A arte é um objeto estético, feito para ser visto e apreciado pelo seu valor intrínseco” e que “A estética costuma ser definida como ‘o que diz respeito ao que é belo’”. Não podemos afirmar que uma foto é um objeto estético apenas por retratar algo belo – por exemplo, um pôr do sol. Se essa fosse a razão, então o próprio pôr do sol seria uma obra de arte. Seguindo as explicações de Janson, podemos concluir que a escolha de um assunto não garante a produção de uma obra de arte pelo fotógrafo, mas também não significa dizer que a fotografia, por si mesma, não possa ser considerada arte. A fotografia é uma técnica muito recente. Foi inventada nos meados do século XIX. Por muito tempo foi discutido se o fotógrafo poderia produzir arte com ela. Afinal, basta enquadrar, “clicar” e, mecanicamente, o “assunto” fica registrado, com extrema fidelidade. Se pensarmos nos milhares de fotos que são tiradas a cada momento (atualmente, com as máquinas digitais, podemos falar de milhões), a dúvida é procedente. As fotos tiradas para documentar um evento, como um aniversário, talvez não sejam o que chamamos de obra de arte. A fotografia pode ajudar nossa reflexão, por produzir objetos limítrofes entre a arte e a não arte.

E MAIS...

NAVEGAR É PRECISO

Apresentação oral – Imagens: valores extrínsecos e intrínsecos Ver sugestões de encaminhamento em Conversa com o professor.

Reúna-se com seu grupo para desenvolver o seguinte trabalho, que culminará em uma apresentação para os colegas. 1. Preparação – Pesquisa e discussão em grupo. • 1o. momento: distribuição das tarefas para a realização de uma pesquisa de imagens (pintura e fotografia) que chamem a atenção por seus valores intrínsecos ou extrínsecos. A pesquisa pode ser feita em sites, livros de arte, enciclopédias ou revistas.

A partir da pop art (década de 1960), a arte contemporânea ampliou os horizontes das práticas estéticas, concentrando-se mais nos processos artísticos do que nos resultados, nas obras acabadas. Novos movimentos – como a arte conceitual, o minimalismo, a body art, a performance, as instalações e os multimeios – desafiam os conceitos da arte tradicional e mesmo da arte moderna. Procure na internet e veja com seus amigos o vídeo Der Lauf der Dinge (em inglês: The way things go), dos artistas alemães Peter Fischlii e David Weiss.

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• 2o. momento: escolha de duas dessas imagens para análise mais detalhada; discussão dos elementos intrínsecos e extrínsecos que predominam em cada imagem escolhida. • 3o. momento: preparação do material visual (cartazes, projeção de slides, lousa etc.) e ensaio da apresentação, obedecendo às regras estabelecidas pelo(a) professor(a). 2. Apresentação – O grupo deve apresentar as imagens escolhidas e explicar os elementos intrínsecos e extrínsecos que predominam em cada uma. 3. Avaliação – O grupo deve avaliar o trabalho e o desempenho dos participantes.

A LITERATURA A arte da literatura existe há alguns milênios. Entretanto, sua natureza e suas funções continuam objeto de discussão, principalmente para os artistas. Como qualquer outra arte, é uma criação humana; por isso sua definição constitui uma tarefa tão difícil. O homem, como ser histórico, tem anseios, necessidades e valores que se modificam constantemente. Suas criações — entre elas a literatura — refletem seu modo de ver a vida e de estar no mundo. Assim, ao longo da História, a literatura foi concebida de diferentes maneiras. Mesmo os limites entre o que é e o que não é literatura variaram com o tempo. Tentemos, portanto, a definição mais abrangente possível, que atenda à concepção da literatura em nosso tempo:

Literatura é a arte que utiliza a palavra como matéria-prima de suas criações.

No poema ao lado, Cassiano Ricardo procura definir a poesia, parodiando a definição de ilha dos antigos livros de Geografia. O poeta parece diferenciar a linguagem da poesia da linguagem comum, que a cerca “por todos os lados”. Mas a poesia só pode brotar da palavra, arduamente trabalhada no poema. Uma obra literária — um poema, um conto, um romance... — tem alguma coisa em comum com um quadro ou uma canção, embora seja muito diferente destes. A obra de arte tem um valor intrínseco — uma qualidade estética — que a distingue das obras realizadas com finalidades práticas. Do mesmo modo, a obra literária é essencialmente diferente dos textos produzidos em nossa vida prática, como cartas, relatórios ou este texto didático que você está lendo agora. Ela possui valores intrínsecos ou valores estéticos, que são construídos com as palavras. Ela (re)inventa a realidade com as palavras. Leia os textos a seguir e constate essa afirmação.

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Poética 1 Que é a Poesia? uma ilha cercada de palavras por todos os lados. 2 Que é Poeta? um homem que trabalha o poema com o suor do seu rosto. Um homem que tem fome como qualquer outro homem. RICARDO, Cassiano. Jeremias sem-chorar. 2 ed. rev. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968. p. 11.

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LEITURA Professor(a), explicar para os alunos que o texto 1 tem a grafia de Portugal.

TEXTO 2 / F L PA / G l o w I m a b lin yH

Nome científico: Delichon urbica. [...]

As andorinhas de Antônio Nobre

am

Andorinha

ge s

TEXTO 1

To n

Distribuição

As andorinhas podem ser encontradas na Europa, Ásia, Norte da África e Médio Oriente.

Hábitos A andorinha-dos-beirais anuncia, no território português, a chegada da Primavera e o adeus ao frio do Inverno. Além da sua grande resistência e capacidade de orientação, a andorinha é uma ave que exibe uma grande agilidade enquanto voa, o que lhe permite fazer voos rasantes sem qualquer perigo para a sua integridade física. Durante o tempo em que nos visita, esta simpática ave faz o seu ninho, ou reconstrói o antigo, no sítio onde ela própria nasceu. Se esse espaço estiver ocupado, então, sim, procura outro lugar, nunca muito longe do ninho original. Os ninhos das andorinhas são feitos de palhas e lama. A andorinha vai transportando estes materiais no bico, até sentir que o seu ninho está perfeito e suficientemente resistente para acolher uma nova geração de aves, a sua prole. De manhã e ao fim da tarde, essas aves enchem os nossos céus de movimento, numa busca incessante de alimento, comendo todos os insectos que com ela cruzam o ar, pois são insectívoras.

Reprodução As fêmeas fazem uma postura de 4 ou 5 ovos, que depois são incubados durante cerca de 14 a 16 dias. Passado o tempo da incubação, nascem os jovens, cuja alimentação é feita por ambos os progenitores. Com a chegada do Outono, e quando a temperatura começa a baixar, as andorinhas juntam-se em grandes bandos e voam então para o Sul, à procura de temperaturas mais altas no continente africano. Algumas voam da Europa Ocidental até a África do Sul para voltar na primavera seguinte.

Tamanho e esperança de vida

– Nos – fios – ten sos – da – pauta – de metal – as – an/ – do/ ri/ nhas – gritam – por – fal/ ta/ – de uma – cl’ave – de – sol RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. p. 66.

FIQUE SABENDO

Antônio Nobre (1867-1900) Poeta considerado um dos mais expressivos criadores do Simbolismo em Portugal.

As andorinhas medem cerca de 13 a 15 cm (comprimento) e podem viver cerca de 8 anos. Andorinha-dos-beirais. Disponível em: <http://bicharada.net/ animais/animais.php?aid=122>. Acesso em: 18 abr. 2016.

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Releitura

Escreva no caderno

O texto 1 é uma ficha informativa, semelhante a um verbete de enciclopédia de um site. O texto 2 é um poema do poeta brasileiro 1. a)“Durante o tempo em que nos visita [...]”; “Com a chegada do Outono, e Cassiano Ricardo. quando a temperatura começa a baixar, as andorinhas juntam-se em grandes e voam então para o Sul, à procura de temperaturas mais Responda às questões. bandos altas no continente africano. Algumas voam da Europa Ocidental até a África do Sul para voltar na primavera seguinte.”

1. A andorinha-dos-beirais é uma ave migratória.

a) Que frases e expressões do texto 1 fazem referência a essa característica? b) Utilizando seus conhecimentos de geografia, indique os meses em que se iniciam o inverno e o verão no hemisfério norte. Inverno: dezembro; verão: junho.

2. O poema possui uma só frase, cujas sílabas se separam formando os 24 versos. a) Na sua opinião, que imagem essa configuração visual do poea) Resposta pessoal. Sugestão: As sílabas assim ma sugere ao leitor? 2. separadas sugerem a imagem das andorinhas pousadas nos fios elétricos, ou de telégrafo.

b) Leia o significado de metáfora ao lado e explique o sentido que a expressão “pauta de metal” apresenta no poema. Com base nessa metáfora, reinterprete a imagem visual que você identificou na resposta ao item a. c) Por que o poema diz que as andorinhas gritam? Não seria mais apropriado dizer que cantam ou solfejam? (Para responder, leia ao lado o significado da palavra clave.) 3. Os dois textos referem-se a andorinhas europeias (Antônio Nobre, referido no título do poema, é um poeta português; portanto, suas andorinhas são europeias). a) Cassiano Ricardo poderia ter escrito apenas que “as andorinhas gritam por falta de uma clave”, ou seja, de uma clave qualquer, de sol, de fá ou de dó. Qual o outro sentido que a palavra sol sugere, no contexto? Tomando por base sua resposta, interprete: por que, realmente, as andorinhas gritam quando pousadas nos fios elétricos? b) Uma das informações que lemos na ficha informativa (texto 1) está também presente no poema, mas de modo implícito, apenas sugerido. Em que época do ano se passa a cena de “As andorinhas de Antônio Nobre”? 3. b) Passa-se no outono ou no inverno, pois elas

Comentário

sentem frio, “gritam por falta de uma cl’ave de sol”. Sabemos, pelo texto 1, que as andorinhas ausentam-se de Portugal durante essas estações.

Podemos tirar algumas conclusões desse exercício de leitura: • Os textos não literários têm função pragmática, como o texto 1. Eles buscam precisão e clareza informativa. A forma e a linguagem em que são escritos subordinam-se a esses valores comunicativos, referenciais. Mais importante que a beleza — eles podem ser belos! —, é a sua funcionalidade. Por isso, seus autores buscam uma linguagem denotativa.

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2. b) Sugestão: Pauta é o conjunto das cinco linhas (pentagrama) em que se escrevem as notas musicais em uma partitura. O poeta vê os fios elétricos ou de telégrafo como se formassem uma pauta musical. As sílabas e as andorinhas passam a sugerir a imagem das notas musicais distribuídas no pentagrama. 2. c) Resposta possível: Como a pauta não possui uma clave, as notas, representadas pelas andorinhas, não têm um valor estabelecido em uma escala. Assim, os sons emitidos por elas não formam propriamente uma música, uma melodia, uma combinação bem estruturada e harmoniosa. O resultado é confuso, formado de gritos distintos uns dos outros.

PARA NÃO ESQUECER

Metáfora, em sentido estrito, é a substituição do significado de uma palavra por outro, a partir de uma semelhança. Disso resulta a acumulação de dois significados diferentes na mesma palavra. Em sentido amplo, é qualquer uso de palavra em sentido figurado. Exemplo: “Amar é a mais alta constelação”. Sentido metafórico é o sentido figurado atribuído a uma palavra ou expressão pelo processo da metáfora.

A metáfora, uma figura de linguagem, é trabalhada no capítulo 4 de Gramática.

clave: é o sinal colocado no início da pauta musical. Há três claves: de sol ( ), de fá ( ) e de dó ( ). É a clave que determina o nome das notas distribuídas na pauta e o grau de elevação de cada uma na escala musical (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si). Portanto, uma pauta sem clave poderia ser lida de três modos diferentes. 3. a) A palavra sol sugere também o nome do astro, Sol, ou os seus raios e o seu calor. Portanto, as andorinhas gritam, realmente, porque sentem frio, sentem falta do sol.

PARA NÃO ESQUECER

Denotação é a relação literal e objetiva entre a palavra e o conceito que ela representa, sem sentidos derivativos ou figurados. Exemplo: pauta = pentagrama = linhas em que se escrevem as notas musicais. Conotação é o conjunto de sugestões que uma palavra agrega ao seu sentido literal (denotativo), por associações linguísticas (sonoras, estilísticas, semânticas ou apenas contextuais). Exemplo: pauta de metal = pentagrama de metal (denotação) = fios elétricos (extensão de significado, conotação).

Os conceitos de denotação e conotação são trabalhados no capítulo 4 de Gramática.

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• Os textos literários são obras de arte e, portanto, possuem valores intrínsecos (valores estéticos e expressivos, ligados ao próprio texto, como objeto artístico). Os autores buscam uma linguagem conotativa e polissêmica. “Clave de sol”, além de se referir ao símbolo de notação musical ( ), sugere também o Sol, sua luminosidade e seu calor. Esse acúmulo de significados e sugestões intensifica a expressividade do texto, que não se dirige apenas à inteligência do leitor, mas também à sua sensibilidade, sua afetividade e sua imaginação.

PARA NÃO ESQUECER

Polissemia (ou polivalência) é a multiplicidade de referências da palavra em um contexto. No texto literário, o sentido brota da tensão entre os diferentes significados. Exemplo: sol = símbolo musical; Sol (o astro) = luz, calor.

E MAIS...

Fazendo conexões A paródia é um dos processos mais comuns de recriação de obras. Pesquise na internet e encontre exemplos de paródias de obras de arte famosas. Procure também imagens das obras originais, as parodiadas. Escolha as mais interessantes para mostrar e comentar para seus colegas.

O aluno poderá facilmente encontrar na internet recriações paródicas de obras famosas como O grito, de Munch, Mona Lisa e Santa Ceia, de Leonardo Da Vinci, de muitos quadros impressionistas e pós-impressionistas.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Neste capítulo vimos que é muito difícil responder às perguntas: O que é arte? O que é literatura? Embora não possamos dar respostas totalmente satisfatórias, podemos refletir sobre elas e atingir alguma compreensão dessas atividades humanas tão complexas. • A arte é feita em toda parte; portanto, ela é uma atividade essencial para o ser humano. • A arte é uma atividade estética e possui valores intrínsecos (valores referentes ao próprio objeto artístico). • Literatura é arte. Portanto, é uma atividade estética, com valores intrínsecos. A obra literária diferencia-se das obras de função puramente pragmática. • A literatura tem como matéria-prima a palavra, isto é, a linguagem verbal.

Atividades

Escreva no caderno

O aniversário, 1915.

MAGRITTE, René. Clarividência. 1936. Óleo sobre tela, 56 × 65 cm. Galerie Isy Brachot, Bruxelas © Photothèque R. Magritte, Magritte, René/AUTVIS, Brasil, 2016

CHAGALL, Marc. O aniversário. 1915. Óleo sobre tela, 80,6 × 99,7 cm. Museu de Arte Moderna, Nova York. Foto: VG-Bild-Kunst Bonn/Fine Art Images/Glow Images © Chagall, Marc/ AUTVIS, Brasil, 2016.

1. Observe atentamente o quadro de Marc Chagall (artista russo, 1887-1985) e o de René Magritte (artista belga, 1898-1967).

Clarividência, 1936.

1. a) O quadro de Chagall distorce mais intensamente as formas da natureza. A perspectiva é deformada, as proporções não são respeitadas e, principalmente, as figuras humanas têm forma e posição insólitas: além de distorcidas, flutuam no ar, desrespeitando a lei da gravidade. No quadro de Magritte, a perspectiva, o jogo de luz e sombras e as formas das figuras são representados de modo mais fiel à realidade. Literatura: a arte da palavra

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1. b) O modelo do pintor não é uma ave, mas um ovo. Portanto, ainda que a forma da ave não apresente grandes deformações, ela distancia-se da realidade que lhe serviu de modelo. Ao invés de representar o ovo, o pintor o substituiu pelos pensamentos e sentimentos que teve ao contemplá-lo e pintou a ave que nasceria dele. Daí o título do quadro. O artista vê a realidade com uma luz diferente da do olhar comum. Como um vidente, ele vê além da superfície percebida pelos sentidos. Ele é capaz de prever os acontecimentos: no ovo, já vê a futura ave.

a) Qual dos dois quadros distorce mais intensamente as formas da natureza? Justifique. b) No segundo quadro, vemos Magritte pintando, numa tela, a figura de uma ave. Explique por que, apesar da fidelidade da representação da ave, podemos dizer que o pintor foge ao senso comum e satisfaz aquela necessidade da “recriação das coisas em imagens, para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser mais vivida”. A partir de sua resposta, explique o título Clarividência, dado ao quadro por Magritte.

PARA NÃO ESQUECER Clarividência é a qualidade ou caráter de clarividente; faculdade pela qual o médium, sem empregar os sentidos, toma conhecimento do mundo exterior. Clarividente é aquele que vê com clareza; dotado de perspicácia e intuição; prudente; diz-se da pessoa que prevê os acontecimentos.

c) No quadro de Chagall, as figuras humanas são deformadas e flutuam no ar. Faça uma interpretação da liberdade com que Chagall representou o casal de amantes no dia do aniversário.

O título Clarividência, do quadro de Magritte, é traduzido muitas vezes como Perspicácia, em português. Responda a estas duas questões sobre ele: 2. (UERJ) Pode-se definir “metalinguagem” como a linguagem que comenta a própria linguagem, fenômeno presente na literatura e nas artes em geral.

O quadro A perspicácia, do belga René Magritte, é um exemplo de metalinguagem porque: a) destaca a qualidade do traço artístico. b) mostra o pintor no momento da criação. c) implica a valorização da arte tradicional. d) indica a necessidade de inspiração concreta. 3. (UERJ) O quadro produz um estranhamento em relação ao que se poderia esperar de um pintor que observa um modelo para sua obra.

Esse estranhamento contribui para a reflexão principalmente sobre o seguinte aspecto da criação artística: a) perfeição da obra.

c) representação do real.

b) precisão da forma.

d) importância da técnica.

4. (Enem/MEC) Leia o que disse João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, sobre a função de seus textos: Falo somente com o que falo: a linguagem enxuta, contato denso; falo somente do que falo: a vida seca, áspera e clara do sertão; falo somente por quem falo: o homem sertanejo sobrevivendo na adversidade e na míngua. Falo somente para quem falo: para os que precisam ser alertados para a situação da miséria no Nordeste.

Para João Cabral de Melo Neto, no texto literário,

4. Seria interessante mostrar para os alunos que os valores intrínsecos (estéticos) não eliminam a importância de valores extrínsecos, como a denúncia de desigualdades sociais. Quando a obra é bem realizada, os valores extrínsecos tornam-se intrínsecos, passam a fazer parte da estrutura da obra.

a) a linguagem do texto deve refletir o tema, e a fala do autor deve denunciar o fato social para deterRecomendamos ao(à) professor(a) a leitura do capítulo “Crítica e sociologia” do minados leitores. livro Literatura e sociedade, de Antonio Candido (11. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010).

b) a linguagem do texto não deve ter relação com o tema, e o autor deve ser imparcial para que seu texto seja lido. c) o escritor deve saber separar a linguagem do tema e a perspectiva pessoal da perspectiva do leitor. d) a linguagem pode ser separada do tema, e o escritor deve ser o delator do fato social para todos os leitores. e) a linguagem está além do tema, e o fato social deve ser a proposta do escritor para convencer o leitor.

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1. c) Resposta possível: Chagall quis pintar o amor e a felicidade, não simplesmente um homem e uma mulher se beijando. Por isso, as leis da natureza são suspensas: o casal flutua, como se não existisse a gravidade, ou como se a felicidade lhes desse uma leveza incomum. Assim, também, o corpo ganha tal elasticidade que não há CAPÍTULO 1 obstáculos físicos à realização do beijo.

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3. 8 3 u, .1 h o de P a ne c to an t s e S - A r K ey s o t e eau x an / x i m Q u s B ge o n e de r id l. D s é e B r ie . M u o t o d b G a cm . F dr e 4 5 n ç a xan , 2  Fr a e l A 3 S , l, 3 M P pe C A pa D E obre os Ó le

Literatura e realidade: representação e invenção

capítulo

2

Neste capítulo você vai ler vários textos que permitirão aprofundar o entendimento sobre o que é literatura, dando continuidade às reflexões iniciadas no capítulo anterior.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Filmes e Vídeos • DOM QUIXOTE. Direção: Orson Welles. Espanha, 1992. • FILME do Desassossego. Direção: João Botelho. Portugal, 2010. • DOM QUIXOTE de La Mancha. Produção: Great Books; Denise Schrier Cetta. Vídeo (46min57s). Disponível em: <http://tub.im/ ywkyc5>. Acesso em: 7 jun. 2016. • MORTE e vida severina. Produção: TV GLOBO. Minissérie. Disponível em: <http://tub.im/7w3nsp>. Acesso em:7 jun. 2016. • GUARDADOR de rebanhos. Produção: Grupo de Teatro Novo Caminho. Vídeo (71min50s). Disponível em: <http://tub.im/ make58>. Sites • ARNALDO ANTUNES. Disponível em: <http://tub.im/wprkbq>. Acesso em: 7 jun. 2016. • FERNANDO PESSOA. Disponível em: <http://tub.im/p3nfvo>. Acesso em: 7 jun. 2016. • INSTITUTO MOREIRA SALLES. Carlos Drummond de Andrade. Disponível em: <http://tub.im/pfii7m>. Acesso em: 7 jun. 2016. • INSTITUTO MOREIRA SALLES. Mario Quintana. Disponível em: <http://tub.im/wkg7ra>. Acesso em: 7 jun. 2016.

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PRIMEIRA LEITURA Pausa Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura de coisas feitas, ou na feitura de minhas próprias coisas, surpreendo-me a indagar com que se parecem os óculos sobre a mesa. Com algum inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas? Com algum ciclista tombado? Não, nada disso me contenta ainda. Com que se parecem mesmo? E sinto que, enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema, a inquietação perdurará. E, enquanto o meu Sancho Pança, cheio de si e de senso comum, declara ao meu Dom Quixote que uns óculos sobre a mesa, além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa, são, de fato, um par de óculos sobre a mesa, fico a pensar qual dos dois — Dom Quixote ou Sancho? — vive uma vida mais intensa e portanto mais verdadeira... E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagens, para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser mais vivida. Esse enigma, eu o passo a ti, pobre leitor. E agora? Por enquanto, ante a atual insolubilidade da coisa, só me resta citar o terrível dilema de Stechetti: “Io sonno un poeta o sonno un imbecile?” Alternativa, aliás, extensiva ao leitor de poesia... A verdade é que a minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele. E daí? — Mas o melhor — pondera-me, com a sua voz pausada, o meu Sancho Pança —, o melhor é repor depressa os óculos no nariz.

Dom Quixote e Sancho Pança: personagens da novela Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, escritor espanhol do século XVI. Os dois personagens representam os dois lados da alma e do comportamento de todo ser humano: Dom Quixote é o símbolo do idealismo, do sonho, da imaginação, do espírito de aventura; Sancho Pança, do realismo, do espírito prático, dos interesses imediatos.

Luis Humberto/Coleção Abril/Latinstock

Stechetti: pseudônimo do escritor italiano Olindo Guerrini (1845-1916), autor da frase “lo sonno un poeta o sonno un imbecile?” (Eu sou um poeta ou sou um imbecil?).

Pausa. In: A vaca e o hipogrifo, de Mario Quintana, Alfaguara, Rio de Janeiro. © by Elena Quintana

André Ducci

Mario Quintana (1906-1994)

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Poeta suI-rio-grandense, buscou sempre uma poesia simples e despojada. Publicou mais de uma dezena de livros, entre os quais se destacam: A rua dos cata-ventos (1940), Espelho mágico (1948), O aprendiz de feiticeiro (1950), Caderno H (1973), Apontamentos de história sobrenatural (1976), A vaca e o hipogrifo (1977), Esconderijos de tempo (1980).

CAPÍTULO 2

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Em tom de conversa Participe de uma conversa com os colegas, orientada pelo(a) professor(a), sobre a crônica de Mario Quintana. Externe suas impressões sobre o texto, destacando os trechos de que mais gostou, ou de que não gostou, e explicando por quê. Apresente as dúvidas que possam ter surgido durante a leitura, para que os colegas e o(a) professor(a) o(a) ajudem a resolvê-las. Eis algumas questões que podem aquecer e orientar a conversa: • Qual é o tema central da crônica?

A utilidade (ou a importância) da poesia (ou da literatura).

• No texto, qual é a pergunta que traduz esse tema de modo radical? • Como você responderia a essa pergunta? Por quê?

Resposta pessoal.

A pergunta é “Sou um poeta ou sou um imbecil?”. Espera-se que os alunos leiam nessa citação de Stechetti algo como “se sou poeta e se a poesia é inútil, então meus esforços são uma imbecilidade”.

• Que outras perguntas você formularia para traduzir esse tema? Resposta pessoal. Exemplos: A poesia é importante? Quintana pergunta sobre a importância de escrever poesia. E a leitura de poesia, é importante? É inútil? Sou um leitor ou um imbecil?

Releitura

Escreva no caderno

Para responder às questões a seguir, releia o texto de Mario Quintana quantas vezes for necessário. Consulte também as informações destacadas nos boxes. 1. Quais são as duas atividades que o autor interrompe ao pousar os óculos sobre a mesa? Responda traduzindo o trocadilho do autor interrompe a leitura de obras alheias (“leitura de coisas primeiro parágrafo. Ofeitas”) ou a criação de suas próprias obras (“feitura de minhas

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS Ler infatigavelmente o texto analisado é a regra de ouro do analista [...] A multiplicação das leituras suscita intuições que são o combustível neste ofício.

próprias coisas”).

CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: caderno de análise literária. São Paulo: Ática, 2000. p. 6.

2. Que imagens ocorrem ao autor ao contemplar os óculos sobre a mesa? A imagem de um inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas e a de um ciclista tombado.

3. A inquietação provocada pela necessidade de captar a “imagem-poema” dos óculos leva o autor a pensar em sua profissão de escritor e de poeta. Mais ainda, leva-o a pensar na função da poesia. Seu senso comum (representado pela referência a Sancho Pança) entra em conflito com o seu senso poético (Dom Quixote). 3. a) Segundo o senso comum, os óculos são apenas aquilo que parecem ser: duas lentes fixadas em uma armação.

a) O que são os óculos, segundo o senso comum?

b) Segundo o autor, por que existe em nós a necessidade de recriar as coisas e a vida em imagens poéticas? Porque as imagens dão mais vida às coisas e a poesia intensifica a experiência de viver.

c) O autor consegue explicar essa necessidade?

PARA NÃO ESQUECER

Senso comum é o saber informal, adquirido diretamente da experiência cotidiana, da vida, diferentemente do saber formal científico, que requer longo processo de aprendizagem escolar. Senso poético ou artístico é a maneira especial e original de ver a realidade.

Não, para ele essa necessidade é um “eterno mistério”, um “enigma”.

4. Diante da “insolubilidade da coisa”, o autor resolve passar o problema para o leitor. Segundo ele, qual é a função do poeta? O poeta não tem a função de resolver e sim de propor enigmas, de fazer o leitor pensar, e não de pensar por ele.

5. “[…] o melhor é repor depressa os óculos no nariz.” Qual é o o senso prático do autor aconselhando-o a devolver os óculos ao seu lugar e uso comum, e a retomar o trabalho, significado desse conselho? Édeixando de lado as questões insolúveis, como a função do poeta e da literatura, que lhe ocorrem à mente. Literatura e realidade: representação e invenção

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LITERATURA E REALIDADE Como vimos no capítulo anterior, a obra literária, utilizando a palavra, recria a realidade, a vida. Essa definição focaliza dois aspectos opostos, mas complementares, da arte literária: a criação e a representação. Por um lado ela é invenção. O autor cria uma realidade imaginária, fictícia, utilizando, como matéria-prima, a linguagem. Por outro, o universo da ficção mantém relações intensas com o mundo real, com o conhecimento e a experiência de vida, tanto do autor como do leitor. Assim, a literatura é também imitação da realidade. A inquietação relatada por Mario Quintana em sua crônica é exemplar: como escritor, não lhe basta descrever minuciosamente o par de óculos, fazendo dele um retrato fiel, realista. Isso seria apenas uma redundância, uma confirmação do senso comum, ou seja, a repetição daquilo que todos já sabem sobre um par de óculos. Ele precisa de mais: “captar a implícita imagem-poema” desse par de óculos. Para isso, ele poderia condensar, na mesma representação, um par de óculos, um inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas, um ciclista tombado. Representação e invenção. No primeiro capítulo vimos uma gradação do distanciamento da obra de arte em relação à realidade: o quadro de Hendrick Martensz Sorgh, embora possua qualidades estéticas intrínsecas (composição, distribuição de cores e formas, harmonias e contrastes) é muito realista, ou naturalista, na representação de uma cena da vida doméstica. Joan Miró reinventa esse quadro, distanciando-se da realidade empírica (o mundo que conhecemos) e acentuando a realidade pictural, que só existe dentro dos limites das molduras e resulta da disposição especial e única das cores e das formas sobre a tela. No segundo quadro de Miró, O ouro do azul, a realidade referencial praticamente desaparece. O efeito poético que ele provoca resulta tão somente do jogo de cores e formas, do ritmo, do movimento. Trata-se de uma pintura não figurativa, abstrata. Uma gradação semelhante ocorre na literatura. Mas, diferentemente de outras artes, como a música e a pintura, a obra literária nunca consegue ser absolutamente abstrata. A realidade do mundo e da vida está sempre presente, por mais que o autor invente, modifique, deforme, combine. Por trás das “imagens-poema” — um inseto ou um ciclista tombado —, realidades literárias construídas pelo autor por meio da combinação de palavras, há sempre a referência a coisas reais, como um par de óculos sobre a mesa.

E MAIS... Os poemas “Autopsicografia” e “Isto” estão entre os mais conhecidos do poeta Fernando Pessoa:

AUTOPSICOGRAFIA

ISTO

O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.

Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração.

E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama o coração.

Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê!

PESSOA, Fernando. Cancioneiro. In: Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983. p. 98-99.

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CAPÍTULO 2

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2. Respostas pessoais. Exemplos possíveis de interpretação: as letras r e i giram em torno do centro (o) formando uma imagem de círculos concêntricos como num redemoinho (alguns talvez vejam esses círculos como propagação de ondas); as letras formam também os raios de um círculo, representando o fluir do rio (pode-se dar significados simbólicos à palavra rio, como, por exemplo, vida); a letra o representa o centro, para onde tudo caminha e de onde tudo parte, repetindo o palíndromo do título;

Em conversa com seus colegas: Espera-se que os alunos concluam que a realidade pode ser representada na obra literária, mas, quando se torna literatura, poesia, ela ficcionaliza, torna-se invenção, ou, nas palavras de Pessoa, torna-se “fingimento”. • explique como você compreendeu os versos “chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”. • indique um verso que sirva de possível resposta à pergunta: se os poetas escrevem “fingimentos”, que utilidade existe em ler poesia? O verso “Na dor lida sentem bem” — ou seja, a poesia permite um distanciamento em relação às nossas dores e uma projeção que nos ajuda a compreendê-las e suportá-las.

• indique e comente versos do poema “Isto” que poderiam exemplificar a necessidade de “recriação das coisas em imagens, para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser mais vivida”, mencionada por Os versos “Eu simplesmente sinto / Com a imaginação” e toda a segunda estrofe (tudo o que acontece ao sujeito Mario Quintana. lírico, sonho ou realidade, tem um sentido mais profundo, e esse sentido é que é lindo; esse sentido, oculto sob o terraço da realidade, é revelado pela imaginação poética).

Fabio Seixo/Agência O Globo

LEITURA Observe como o texto a seguir, a um tempo poema e imagem, permite diversas possibilidades de leitura. FIQUE SABENDO

rio: o ir

ANTUNES, Arnaldo. Como é que chama o nome disso: antologia. São Paulo: Publifolha, 2006. p. 146-147.

O poema de Arnaldo Antunes tem a forma visual de uma mandala, uma figura abstrata e simbólica. À primeira vista, parece que é apenas isso: uma brincadeira, uma ilustração geométrica feita com letras. A leitura, no entanto — e leitura significa cuidado, paciência, procura, desvelamento de sentidos possíveis —, revela que há, nessa invenção formal, aparentemente “decorativa”, uma dimensão ampla de representação de ideias, de significação.

Releitura

Escreva no caderno

Arnaldo Antunes: No caso do 2 ou + corpos no mesmo espaço [livro de AA, de 1997, a que pertence o poema “rio: o ir”] existe um pouco essa ideia de fazer a parte de uma palavra indicar outra, ou parte de outra [...] Você acaba lendo dois ou mais discursos no mesmo espaço sintático. Sugestões de palavras dentro de outras, a partir da maneira como elas vão se quebrando nos versos. Esse procedimento, que aparece em vários poemas do livro, me sugeriu o título. ANTUNES, Arnaldo. Entrevista. In: ______. Como é que chama o nome disso: antologia. São Paulo: Publifolha, 2006. p. 352.

Arnaldo Augusto Nora Antunes Filho (1960-) Compositor, poeta, cantor e performista (video jockey) paulista. Participou do grupo de rock Titãs até 1992. Entre seus discos solo, citam-se: As coisas (1992 – prêmio Jabuti de 1993), Nome (1995), Ninguém (1996), Paradeiro (2001), Qualquer (2006); entre seus livros: Ou e (1983), Psia (1996), Tudos (1990), 2 ou + corpos no mesmo espaço (1997), Como é que chama o nome disso (2006).

1. Espera-se que os alunos percebam as direções da leitura. A segunda parte do título (o ir) é o reflexo espelhado da primeira (rio). Pode-se lê-lo, portanto, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, com o mesmo resultado. Explique aos alunos que essas palavras ou frases que se podem ler nas duas direções são chamadas de palíndromo ou anacíclico.

Esta atividade é um convite à construção/descoberta de significados a partir da forma.

1. Explique o modo como Arnaldo Antunes compôs o título do poema. 2. Os poemas geralmente se organizam em versos e estrofes. Este, no entanto, forma um desenho, semelhante ao de uma mandala. Que significados você interpreta a partir da disposição das letras e das palavras nessa mandala?

FIQUE SABENDO

Mandala é um diagrama composto de formas geométricas concêntricas, utilizado no hinduísmo, no budismo, nas práticas psicofísicas da ioga e no tantrismo como objeto ritualístico e ponto focal para meditação. [Do ponto de vista religioso, o mandala é considerado uma representação do ser humano e do universo — Dicionário Houaiss.]

pode-se ainda ver no palíndromo a representação de um paradoxo: a ida (o ir parte do centro) é um retorno (o rio volta para o centro), contrapondo-se à frase de Heráclito: “não nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio”; a disposição das palavras pode sugerir também uma rosa dos ventos, cujas direções cardeais Literatura e realidade: representação e invenção estão invertidas, apontando o centro, e as colaterais, o distanciamento (essas direções são indicadas pela letra R, voltada para o centro — rio —, ou para fora — o ir).

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FORMA E CONTEÚDO Na obra literária, o como (o modo, a forma, o significante, a escolha e a ordem das palavras etc.) é tão importante quanto o quê (o que o texto diz, o conteúdo referencial, o significado). Na verdade, um não existe sem o outro. Forma e conteúdo são abstrações correlatas e recíprocas, ou seja, uma implica necessariamente a outra. No capítulo anterior, ao ler o poema “As andorinhas de Antônio Nobre”, você viu que a separação das sílabas, formando, cada uma, um verso (forma), já é conteúdo, ou seja, uma imagem concreta das andorinhas pousadas nos fios e das notas musicais grafadas na pauta. Se desmanchássemos os versos, as palavras continuariam as mesmas, mas a imagem visual das andorinhas desapareceria. O poema perderia grande parte de sua força expressiva: “Nos fios tensos da pauta de metal as andorinhas gritam por falta de uma cl’ave de sol”. Do mesmo modo, a forma visual em que Arnaldo Antunes dispôs as letras e as palavras na construção de seu poema é, por si mesma, responsável pela produção do conteúdo, ou seja, dos significados que você e seus colegas desentranharam do texto. O autor pode partir de uma inspiração, de uma intuição, de uma ideia, da observação de uma realidade — coisa ou acontecimento —, de um sentimento, de uma inquietação para criar a obra. Mas são apenas pontos de partida. Como diz Mario Quintana, é necessário ainda encontrar a “implícita imagem-poema”, ou seja, a forma, o “como” dizer, para que esses pontos de partida se tornem conteúdos e... tenham vida. O autor pode também partir da própria forma, como ocorreu no poema de Arnaldo Antunes. O palíndromo “rio: o ir”, uma brincadeira com as palavras, um manuseio de letras, se desdobrou em outras formas visuais e produziu conteúdos, significados.

Verossimilhança Por tudo que foi dito até agora, fica claro que a relação entre a literatura e a realidade é muito complexa. É comum leitores perguntarem se uma história narrada em um conto ou em um romance realmente aconteceu. A principal razão dessa pergunta é o fato de que os elementos da narrativa (personagens, ações, espaço) parecem muito verdadeiros, dando à ficção aparência de relato de acontecimentos reais. A pergunta, portanto, não deve ser se os acontecimentos narrados são reais, verdadeiros, mas se são verossímeis. Nem sempre as obras narram acontecimentos que seriam possíveis no mundo real. Nenhum leitor perguntaria, por exemplo, se a história do vampiro, narrada no romance Drácula, realmente aconteceu. No entanto, é uma obra escrita com técnicas descritivas e estratégias narrativas tão realistas, que produzem um efeito de verdade e provocam inquietação e medo no leitor durante a leitura. Apesar de narrar coisas extraordinárias, impossíveis de acontecer no mundo real, essa obra possui verossimilhança. Para resolver essa aparente contradição, devemos distinguir dois tipos de verossimilhança.

Verossimilhança externa é a que resulta da semelhança entre o mundo criado pela obra e o mundo real. A história de Drácula não possui verossimilhança externa, pois no mundo real não existem seres que sobrevivem eternamente, como mortos-vivos, sustentados pelo sangue de suas vítimas.

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O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS Verossimilhança Distinguimos uma verossimilhança interna à própria obra, conferida pela conformidade com seus postulados hipotéticos e pela coerência de seus elementos estruturais: a motivação e a causalidade das sequências narrativas, a equivalência dos atributos e das ações dos personagens, a isotopia, a homorritmia, o paralelismo, etc.; e uma verossimilhança externa, que confere ao imaginário a caução formal do real pelo respeito às regras do bom senso e da opinião comum. Se faltar a verossimilhança interna, dizemos que a obra é incoerente ou aloucada, aproximando-se do não-sentido; se faltar a verossimilhança externa, entramos no domínio do gênero fantástico [...]. D’ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto 1: Prolegômenos e teoria narrativa. São Paulo: Ática, 1995. p. 20.

CAPÍTULO 2

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Verossimilhança interna é a que resulta das convenções do gênero literário e da coerência e da coesão entre os diversos elementos internos da obra.

FIQUE SABENDO

Verossímil é semelhante à verdade; possível de acontecer.

Assim, por exemplo, no mundo ficcional das narrativas maravilhosas, como os contos de fada, lobos podem falar, ratos e abóboras podem virar carruagens, uma princesa e todo o seu reino podem dormir por cem anos. Esses acontecimentos extraordinários são coerentes com as convenções do gênero, são verossímeis no mundo da fantasia.

LEITURA As obras literárias geralmente buscam a verossimilhança externa (a aparência de autenticidade) e/ou a verossimilhança interna (coerência). Mas esse atributo — ser verossímil — não é uma condição necessária para a qualidade da criação literária. Há mesmo obras consideradas geniais cujos efeitos estéticos advêm do absurdo, da incoerência, da inverossimilhança. Observe como isso ocorre no texto que você vai ler a seguir.

O entendimento dos contos — Agora você vai me contar uma história de amor — disse o rapaz à moça. — Quero ouvir uma história de amor em que entrem caravelas, pedras preciosas e satélites artificiais. — Pois não — respondeu a moça, que acabara de concluir o mestrado de Contador de Histórias, e estava com a imaginação na ponta da língua. — Era uma vez um país onde só havia águas e mais águas, e o Governo como tudo mais se fazia em embarcações atracadas ou em movimento, conforme o tempo. Osmundo mantinha uma grande indústria de barcos, mas não era feliz, porque Sertória, objeto dos seus sonhos, se recusava a casar com ele. Osmundo ofereceu-lhe um belo navio embandeirado, que ela recusou. Só aceitaria uma frota de dez caravelas, para si e para seus familiares. Ora, ninguém sabia fazer caravelas, era um tipo de embarcação há muito fora de uso. Osmundo apresentou um mau produto, que Sertória não aceitou, enumerando os defeitos, a começar pelas velas latinas, que de latinas não tinham um centavo. Osmundo, desesperado, pensou em afogar-se, o que fez sem êxito, pois desceu no fundo das águas e lá encontrou um cofre cheio de esmeraldas, topázios, rubis, diamantes e o mais que você imagina. Voltou à tona para oferecê-lo à rígida Sertória, que virou o rosto. Nada a fazer, pensou Osmundo; vou transformar-me em satélite artificial. Mas os satélites artificiais ainda não tinham sido inventados. Continuou humilde satélite de Sertória, que ultimamente passeava de uma lancha para outra, levando-o preso a um cordão de seda, com a inscrição “Amor imortal”. Acabou. — Mas que significa isso? — perguntou o moço, insatisfeito. — Não entendi nada. — Nem eu — respondeu a moça — mas os contos devem ser contados, e não entendidos: exatamente como a vida. O ENTENDIMENTO DOS CONTOS – In: Contos Plausíveis, de Carlos Drummond de Andrade, Companhia das Letras, São Paulo; Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond — www.carlosdrummond.com.br

Literatura e realidade: representação e invenção

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1. Espera-se que os alunos indiquem o atendimento aos parâmetros estabelecidos pelo moço como a grande dificuldade do desafio. Comentário possível: os “ingredientes” propostos formam um conjunto de difícil combinação numa história verossímil e coerente. A inclusão de caravelas e pedras preciosas em uma história de amor provavelmente não traria dificuldade, mas o terceiro elemento complica a possibilidade da coerência, pois caravelas e satélites artificiais pertencem a épocas muito distantes uma da outra. 2. Não. Embora a contadora tenha conseguido incluir todos os elementos exigidos pelo rapaz, a narrativa não resultou muito verossímil. A inclusão do terceiro elemento ficou forçada, pois não é comum (inverossimilhança externa) os amantes Escreva desiludidos ameaçarem virar satélites artificiais, e, principalmente, caravela: pequena e rápida no caderno não o fariam quando esses artefatos nem existiam (explicar que se embarcação de velas latinas trata de um anacronismo — desajuste de cronologia que consiste na atribuição a uma utilizada nos séculos XV e XVI; época de características próprias de outra — e, portanto, de quebra da coerência interna).

Releitura

1. Qual seria a grande dificuldade contida no desafio do moço? Comente, considerando a exigência de verossimilhança nas narrativas. 2. A contadora conseguiu atender aos parâmetros estabelecidos pelo rapaz e inventar uma história verossímil? Explique.

3. O rapaz afirma que não entendeu nada, mas, apesar da aparente falta de sentido da história, o final é muito irônico. Que relação existe entre a imagem de Osmundo preso a Sertória por um cordão de seda e a inscrição “Amor imortal”? 4. A coerência nem sempre é um atributo das narrativas, como vimos na história contada pelo personagem. E a vida, costuma ser coerente? Explique sua resposta.

Comentário

4. Na correção, leve os alunos a compreender que a coerência é uma característica do pensamento, da linguagem e das ações humanas. Em um texto, a coerência é a harmonia entre os elementos e as partes que o compõem. A vida não é um texto, não é uma história. Nela, os acontecimentos e as coisas são o que são, não se organizam, não têm começo, meio e fim.

Na narração de Sertória, Carlos Drummond de Andrade tira proveito da inverossimilhança para produzir efeitos de humor e de ironia. Um dos grandes recursos dos textos de humor, aí incluídas as piadas que correm em narrativas orais, de

vela latina: vela triangular que trabalha no sentido proa-popa do barco.

PARA NÃO ESQUECER Ironia consiste em dizer, geralmente com dubiedade, o contrário do que se pensa. O humor crítico da ironia resulta da percepção da ambiguidade ou da relação contraditória entre o enunciado e seu conteúdo. A ironia só pode ser percebida em seu contexto. Ex.: elogiar a inteligência de alguém que acaba de cometer um erro grosseiro.

boca em boca, é o nonsense, o absurdo, a surpresa das soluções inesperadas que contrariam qualquer expectativa motivada pela coerência textual. Mas textos “sérios” também trabalham com a inverossimilhança para mostrar, por contraste, os absurdos da própria vida e do mundo.

FUNÇÕES DA LITERATURA

A ironia, uma figura de linguagem, é trabalhada no capítulo 4 de Gramática.

3. As histórias de amor têm geralmente um final feliz: “e foram felizes para sempre”. Mas, na história da contadora, “amor imortal” é apenas uma inscrição, pois a situação de Osmundo desmente o final feliz, que implicaria a correspondência amorosa. Sertória o exibe numa situação humilhante de submissão, conduzido pela coleira como um pequeno animal de estimação. Portanto, a inscrição “amor imortal” deve ser entendida como “submissão absoluta”.

Para que serve a arte? Para que serve a literatura? As respostas a essas perguntas variam com o tempo e com as pessoas. Evidentemente, a função de uma obra literária depende dos objetivos e das intenções do autor. Mas os leitores também têm maneiras diferentes de ler e são levados a abrir um livro por motivos diferentes. Alguns buscam na literatura apenas um divertimento sem grandes consequências para a vida; outros, um meio de transformação e de aperfeiçoamento. Uns consideram a obra literária apenas um artefato estético, criado para a contemplação da beleza; já outros esperam que seja um veículo de análise e de crítica em relação à sociedade e à vida.

• A obra pode ser um instrumento de fuga da realidade. Qualquer leitura que se faz como distração possui essa mesma função evasiva. Ao lermos, por exemplo, uma história de aventuras, fugimos de nossa vidinha monótona, sempre igual, e embarcamos em um navio pirata, lutamos ao lado de um super-herói, amamos pessoas bonitas... sonhamos. • Muitas vezes, o autor procura brincar com as palavras, isto é, fazer com elas um jogo de experiências sonoras e visuais, de relações surpreendentes. A obra tem, nesse caso, uma função lúdica. É o caso do poema “rio: o ir”, de Arnaldo Antunes. Descobrimos nele vários possíveis significados, a partir dos quais podemos construir interpretações sobre a vida. Mas o jogo, a brincadeira com as palavras é o que ele oferece antes de tudo ao leitor. • Certos autores e mesmo certas épocas literárias distinguem-se pela importância que atribuem à perfeição formal de suas obras. Os temas passam para um segundo plano, só interessando a beleza estética. Quando isso ocorre, a literatura aliena-se da realidade. É o que chamamos de arte pela arte, característica marcante, por exemplo, do Parnasianismo, movimento literário do final do século XIX.

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CAPÍTULO 2

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• No extremo oposto estão os autores que se dedicam a uma literatura engajada, isto é, comprometida com a defesa de posicionamentos ideológicos — ideias políticas, filosóficas ou religiosas. Isso não impede que produzam grandes obras, desde que não as reduzam a panfletos, a meros instrumentos de propaganda, pelo desprezo da forma e do trabalho com a palavra. Uma tendência atual valoriza as produções literárias de membros de grupos específicos e centradas em suas problemáticas culturais e sociais: literatura marginal, literatura feminina/feminista, literatura negra, literatura gay etc.

LEITURA TEXTO 1

Algumas variações sobre um mesmo tema I As vacas voam sempre devagar porque elas gostam da paisagem. Porque, para elas, o encanto único de uma viagem olhar, olhar... II Partir... tão bom! Mas para que chegar? III o melhor de tudo é embarcarmos num poema... Carlos Drummond, um dia, me pôs de passageiro num poema seu*. Ah, seu Carlos maquinista, até hoje ainda não encontrei palavra para agradecer-lhe... Mas que longa, longa viagem será! IV E das janelinhas do trenzinho-poema abanaremos para os brotinhos do futuro. Ui, como serão os brotinhos do século XXIII, meu Deus do Céu? Pergunta boba! Em todas as épocas da História um brotinho é um brotinho é um brotinho... V Tenho pena, isto sim, dos que viajam de avião a jato: só conhecem do mundo os aeroportos... E todos os aeroportos do mundo são iguais, excessivamente sanitários e com anúncios de Coca-Cola. VI Nada há, porém, como partir na lírica desarrumação da minha cama-jangada onde escrevo noite adentro estes poeminhas com a esferográfica: a tinta — quem diria? — é verde, verde... (o que não passará, talvez, de mera coincidência) ALGUMAS VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA — In: Apartamentos de História Sobrenatural, de Mario Quintana, Alfaguara, Rio de Janeiro; © by Elena Quintana.

* Trata-se do poema “Quintana’s Bar” de C. D. de Andrade. Os dois poetas, Quintana e Drummond, “viajam” no tempo e no espaço da imaginação poética. Literatura e realidade: representação e invenção

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TEXTO 2

Não há vagas O preço do feijão não cabe no poema. O preço do arroz não cabe no poema. Não cabem no poema o gás a luz o telefone a sonegação do leite da carne do açúcar do pão O funcionário público não cabe no poema com seu salário de fome sua vida fechada em arquivos. Como não cabe no poema o operário que esmerila seu dia de aço e carvão nas oficinas escuras — porque o poema, senhores, está fechado: “não há vagas”. Só cabe no poema o homem sem estômago a mulher de nuvens a fruta sem preço O poema, senhores, não fede nem cheira

José Ribamar Ferreira Gullar (1930) Nascido em São Luís do Maranhão. Poeta, jornalista e crítico de arte. Participou do Concretismo, com o qual rompeu em 1956 para criar seu próprio grupo de vanguarda, o Neoconcretismo. Principais obras: A luta corporal (1954), Poemas neoconcretos (1958), Dentro da noite veloz (1975), Poema sujo (1976).

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Cecilia Acioli/ILUSTRADA/Folhapress

GULLAR, Ferreira. Dentro da noite veloz. In . Toda poesia (1950-1999). 9. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000. p. 162.

CAPÍTULO 2

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Biblioteca Nacional Digital

TEXTO 3

Profissão de fé [...] Invejo o ourives quando escrevo: Imito o amor Com que ele, em ouro, o alto-relevo Faz de uma flor.

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918)

Imito-o. E, pois, nem de Carrara A pedra firo: O alvo cristal, a pedra rara, O ônix prefiro.

Poeta carioca integrante do Parnasianismo. Escreveu também contos, crônicas e atuou como jornalista. Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira no 15.

Por isso, corre, por servir-me, Sobre o papel A pena, como em prata firme Corre o cinzel. [...] Torce, aprimora, alteia, lima A frase; e, enfim, No verso de ouro engasta a rima, Como um rubim.

ourives: joalheiro que trabalha com ouro;

Quero que a estrofe cristalina, Dobrada ao jeito Do ourives, saia da oficina Sem um defeito. [...]

cinzel: instrumento cortante para esculpir;

Carrara: cidade italiana onde se produz o melhor mármore branco;

altear: tornar alto ou mais alto; limar: polir, corrigir; engastar: encravar em ouro, prata etc;

Assim procedo. Minha pena Segue esta norma, Por te servir, Deusa serena, Serena Forma! [...]

rubim: variante de rubi, pedra preciosa.

FIQUE SABENDO

BILAC, Olavo. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/ download/texto/bi000179.pdf>. Acesso em: 20 abr. 2016.

Em tom de conversa

Os alunos devem relacionar o texto 1 com a função evasiva (é interessante discutir o significado das palavras viajar e viagem, na linguagem coloquial — sofrer alucinação, fantasiar, devanear), o texto 2 com a literatura engajada e o texto 3 com a arte pela arte.

Releia o tópico Funções da literatura e comente os três poemas que você acabou de ler. As questões a seguir podem orientar seus comentários: • Qual é a principal função da poesia (e, portanto, da literatura) para cada um dos autores, conforme se pode inferir da leitura dos poemas? • Qual dos poemas se opõe frontalmente aos outros em relação ao que considetexto 2 opõe-se à função evasiva da poesia preconizada pelo texto 1 e ao ram importante na poesia? Oesteticismo valorizado quase religiosamente pelo texto 3.

• Que comparação se pode fazer entre a última estrofe do texto 2 e o poema ou, melhor, sarcasticamente, utilizando linguagem bastante vulgar para um poema (pelo de Bilac? Ironicamente, menos essa seria a opinião de Bilac), a última estrofe do texto 2 dá a impressão de referir-se explicitamente

Parnasianismo é a tendência literária que teve grande prestígio no Brasil no final do século XIX e primeiras décadas do XX. Caracteriza-se pela valorização do acabamento formal e pelo preciosismo vocabular e refinamento das construções sintáticas. Buscando o máximo de objetividade, privilegia o descritivismo na elaboração dos poemas. Foi o principal alvo das críticas dos autores modernistas, a partir da segunda década do século XX.

ao texto 3. A eleição de temas elevados e a preocupação com a beleza e a perfeição estética distanciam a poesia da realidade e a tornam inútil, indiferente, inconsequente, alienada — “não fede nem cheira”. Pode-se discutir a validade dessa posição, que exige da obra um comprometimento com as questões Literatura e realidade: representação e invenção sociais e recusa a preocupação com os valores puramente estéticos.

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Releitura

Escreva no caderno

Do texto 1 1. Segundo o título, o poema desenvolve “algumas variações sobre um mesmo tema”. Qual é esse tema? É o tema da “viagem” pela imaginação poética. 2. Na primeira variação, o autor usou o verbo voar em sentido figurado, criando uma metáfora. Que sentidos podemos atribuir ao verbo nesse contexto?

Metáfora é a figura de linguagem em que se substitui o significado de uma palavra por outro, a partir de uma semelhança. Esta figura de linguagem é trabalhada no capítulo 4 de Gramática.

O verbo sugere significados acumulados: movimentar-se devagar; viajar devagar; viajar pela imaginação ou na contemplação da paisagem.

3. Quintana se refere a dois tipos de viajante. Quais são eles?

4. Viajando em seu “trenzinho-poema”, o poeta tem pena de quem viaja de avião a jato. Por quê? 3. Os viajantes que só buscam um destino, um ponto de chegada, e aqueles que se

Do texto 2

interessam pela viagem em si mesma, pelas imagens que o passeio proporciona. 4. Porque quem viaja de avião só conhece os aeroportos, isto é, os pontos de partida e de chegada.

5. Releia o poema de Ferreira Gullar e responda:

5. a) A voz que fala no poema dirige-se a uma plateia, a um auditório. Nas últimas estrofes o vocativo “senhores” refere-se a esses ouvintes.

a) A quem se dirige a voz que fala no poema? Justifique sua resposta com elementos do texto. 5. b) O poema imita a linguagem dos oradores, dos discursos proferidos em tribunas. O tom

FIQUE SABENDO

A voz que fala em um poema é chamada eu lírico. O eu lírico, assim como o narrador, não deve ser confundido com a pessoa do autor.

é eloquente, até agressivo, com o intuito de convencer os ouvintes.

b) Que tipo de linguagem o poema imita? Qual é o tom dessa linguagem? 6. As duas primeiras estrofes apresentam listas de conteúdos para os quais “não há vagas” no poema. Que tipo de conteúdos são esses?

Do texto 3

6. São os conteúdos que se referem à vida real, à vida prática, aos problemas sociais.

7. Assim como o poema de Ferreira Gullar, o de Olavo Bilac é metalinguístico, a) Bilac almeja criar poemas formalmente perfeitos, como as joias é um poema que fala da poesia. 7. produzidas pelos ourives. Para ele, a forma é tudo, uma deusa a quem ele deve servir.

a) Qual é a qualidade que Bilac almeja atingir na produção de sua poesia? b) No primeiro capítulo vimos que a matéria-prima da criação literária é a palavra. Considerando a comparação com o trabalho do ourives, podemos inferir o tipo de linguagem que Bilac pretende utilizar. Que tipo é esse? c) Bilac demonstra preocupação com o conteúdo referencial dos poemas?

FIQUE SABENDO

Metalinguagem — linguagem cujo foco é o próprio código linguístico, ou seja, tem como referente a própria linguagem. A metalinguagem, ou função metalinguística, é trabalhada no capítulo 1 de Gramática.

7. b) Uma linguagem de alto nível, de vocabulário requintado e raro, como a matéria-prima utilizada pelos joalheiros: ouro, prata e pedras preciosas. 7. c) Não. Desde que a forma seja perfeita, o conteúdo não importa. O ourives trabalha minuciosamente para produzir a joia, um ornamento, que RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU é apenas a representação de uma flor.

Neste capítulo prosseguimos e aprofundamos o estudo de alguns temas que foram iniciados no capítulo anterior, concentrando-nos na arte da palavra, ou seja, na literatura. • Na obra literária, como em toda arte, forma e conteúdo são categorias inseparáveis: uma produz constantemente a outra. • A literatura reflete as relações do homem com o mundo. Como essas relações mudam, historicamente, a literatura também muda. • A literatura é invenção, mas mantém uma relação viva e tensa com o mundo real. • A obra literária produz um ilusão de verdade, de realidade, que chamamos de verossimilhança: verossimilhança externa (semelhança entre o mundo criado pela obra e o mundo real) e verossimilhança interna (coerência e coesão entre os elementos internos da obra, e destes com as convenções do gênero literário). • A literatura é praticada, tanto pelos autores quanto pelos leitores, com múltiplas funções. Nos extremos, pode ser pura evasão (fuga da realidade) ou instrumento de propaganda (arte engajada). Uma forma de evasão é a literatura voltada apenas para seus valores intrínsecos (arte pela arte).

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CAPÍTULO 2

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Atividades

Escreva no caderno

Leia os textos a seguir e responda às questões de 1 a 4.

TEXTO 1

TEXTO 2

Latifúndio

Latifúndio [...] Propriedade constituída de grande extensão de terras, geralmente mal exploradas. — Encicl. Os latifúndios são caracterizados pela ausência de cultura ou por cultura de tipo extensivo, pela carência ou extrema penúria dos investimentos fundiários, pela falta de estradas e pelo agrupamento do habitat em aldeias afastadas umas das outras.

Não quero mais me lamentar mesmo porque não tenho mais de quê. Se o sabiá voou ficou-me o bem-te-vi. Se o amor acabou fica o estamos aí. Eu tenho a grama do jardim e mais tenho-me a mim. PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 1978. p. 23.

GRANDE enciclopédia Delta Larousse. Rio de Janeiro: Delta, 1974.

TEXTO 3

Morte e vida severina [O retirante] ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO — Essa cova em que estás, com palmos medida, é a conta menor que tiraste em vida. — É de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe deste latifúndio. — Não é cova grande, é cova medida, é a terra que querias ver dividida. — É uma cova grande para teu pouco defunto, mas estarás mais ancho que estavas no mundo.

1. Apenas os textos 1 e 3 são obras literárias, pois somente eles utilizam esteticamente a palavra como matéria-prima da criação literária. Neles, o termo latifúndio é constituído por imagens poéticas. No texto 2, a linguagem não tem motivações estéticas e inventivas, mas práticas: o autor busca definir com exatidão o conceito de latifúndio.

MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Organização de Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 183-184.

Literatura e realidade: representação e invenção

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1. Os três textos fazem referência ao latifúndio. Todos podem ser classificados como obras literárias? Explique. 2. b) O sabiá é a imagem do amor; o bem-te-vi é a 2. Releia os versos 4, 5 e 6 do texto 1.

imagem da sobrevivência à perda do amor, que permanece apenas na memória. (O verso “Se o sabiá voou” tem como intertexto uma canção popular que diz “Sabiá lá na gaiola/ fez um buraquinho/ voou voou voou”.)

a) Há um paralelismo entre os versos 4, 5 e o verso 6. Esquematize esse paralelismo. “o sabiá voou” (está para) “o amor acabou”; “ficou-me o bem-te-vi.” “fica o estamos aí.” b) Com base no paralelismo estabelecido, qual é o significado das imagens constituídas pelas referências às aves? 3. Escreva uma interpretação do título-tema do texto 1, com base na segunda estrofe e na definição de latifúndio apresentada no texto 2. 4. Explique o sentido irônico que a palavra “latifúndio” adquire no texto 3. 5. (Enem/MEC) Ferreira Gullar, um dos grandes poetas brasileiros da atualidade, é autor de “Bicho urbano”, poema sobre a sua relação com as pequenas e grandes cidades.

Bicho urbano Se disser que prefiro morar em Pirapemas ou em outra qualquer pequena cidade do país estou mentindo ainda que lá se possa de manhã lavar o rosto no orvalho e o pão preserve aquele branco sabor de alvorada. A natureza me assusta. Com seus matos sombrios suas águas suas aves que são como aparições me assusta quase tanto quanto esse abismo de gases e de estrelas aberto sob minha cabeça.

PARA NÃO ESQUECER

Paralelismo é a relação simétrica das palavras do texto. Pode ser: • semântico: corresponde ao emprego de palavras correlatas, que apresentam um sistema lógico de elementos, de conexão de ideias. • sintático: corresponde a frases ou versos que apresentam a mesma estrutura sintática, que possuam um encadeamento de funções sintáticas idênticas.

3. Resposta possível: Perdido o amor, resta ao eu lírico a solidão de seu mundo particular. A “grama do jardim” reflete o sentido de “latifúndio”, como imagem do território pessoal de “cultura extensiva”, repetitiva, monótona e desinteressante. O eu lírico possui a si mesmo — território de grande extensão —, mas vive o isolamento próprio dos grandes latifúndios (falta de estradas, aldeias afastadas). 4. A ironia consiste no fato de que o lavrador, que trabalhou a terra sempre como empregado, ansiando pela partilha dos latifúndios, recebe, enfim, sua propriedade. Mas a parte que ele recebe, agora só sua, de nada lhe servirá, pois é apenas a cova para seu enterro.

GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1991.

Embora não opte por viver numa pequena cidade, o poeta reconhece elementos de valor no cotidiano das pequenas comunidades. Para expressar a relação do homem com alguns desses elementos, ele recorre à sinestesia, construção de linguagem em que se mesclam impressões sensoriais diversas. Assinale a opção em que se observa esse recurso. a) “e o pão preserve aquele branco / sabor de alvorada.” b) “ainda que lá se possa de manhã / lavar o rosto no orvalho” c) “A natureza me assusta. / Com seus matos sombrios suas águas” d) “suas aves que são como aparições / me assusta quase tanto quanto” e) “me assusta quase tanto quanto / esse abismo / de gases e de estrelas”

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CAPÍTULO 2

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6. (Enem/MEC) Erico Verissimo relata, em suas memórias, um episódio da adolescência que teve influência significativa em sua carreira de escritor. Lembro-me de que certa noite — eu teria uns quatorze anos, quando muito — encarregaram-me de segurar uma lâmpada elétrica à cabeceira da mesa de operações, enquanto um médico fazia os primeiros curativos num pobre-diabo que soldados da Polícia Municipal haviam “carneado”. [...] Apesar do horror e da náusea, continuei firme onde estava, talvez pensando assim: se esse caboclo pode aguentar tudo isso sem gemer, por que não hei de poder ficar segurando esta lâmpada para ajudar o doutor a costurar esses talhos e salvar essa vida? [...] Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto. VERISSIMO, Erico. Solo de clarineta. Tomo I. Porto Alegre: Editora Globo, 1978.

Neste texto, por meio da metáfora da lâmpada que ilumina a escuridão, Erico Verissimo define como uma das funções do escritor e, por extensão, da literatura, a) criar a fantasia.

c) denunciar o real.

b) permitir o sonho.

d) criar o belo.

e) fugir da náusea.

7. (Enem/MEC)

Negrinha Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças. Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo. Ótima, a dona Inácia. Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. [...] A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos – e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo – essa indecência de negro igual. LOBATO, M. Negrinha. In: MORICONI, I. Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000 (fragmento).

A narrativa focaliza um momento histórico-social de valores contraditórios. Essa contradição inferese, no contexto, pela a) falta de aproximação entre a menina e a senhora, preocupada com as amigas. b) receptividade da senhora para com os padres, mas deselegante para com as beatas. c) ironia do padre a respeito da senhora, que era perversa com as crianças. d) resistência da senhora em aceitar a liberdade dos negros, evidenciada no final do texto. e) rejeição aos criados por parte da senhora, que preferia tratá-los com castigos. Literatura e realidade: representação e invenção

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capítulo

3

O texto literário A leitura de qualquer texto exige atenção, sensibilidade e perspicácia. O leitor precisa interrogar o texto, problematizar a leitura. Neste capítulo você vai perceber que a leitura do texto literário requer ainda maior acuidade. E estudará algumas estratégias para melhorar seu desempenho de leitor.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livros • CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007. • LACERDA, Rodrigo. O fazedor de velhos. São Paulo: Cosac & Naify, 2008. • PENNAC, Daniel. Como um romance. Rio de janeiro: Rocco, 1998. • ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Brasília, DF: Ministério da Cultura, [20--]. Disponível em: <http://tub.im/h72tup>. Acesso: 18 abr. 2016. Filmes ESCRITORES da liberdade. Direção: Richard LaGravenese. Estados Unidos, 2007. SOCIEDADE dos poetas mortos. Direção: Peter Weir. Estados Unidos, 1989. NUNCA te vi, sempre te amei. Direção: David Hugh Jones. Inglaterra, 1987. Sites MACHADO DE ASSIS. Disponível em: <http://tub.im/nhe2nd>. Acesso: 18 abr. 2016.

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Professor(a), a atividade da seção “E mais...”, das páginas 39 e 47, requerem preparação antecipada.

Estadão Conteúdo

PRIMEIRA LEITURA Balada do amor através das idades Eu te gosto, você me gosta desde tempos imemoriais. Eu era grego, você troiana, troiana mas não Helena. Saí do cavalo de pau para matar seu irmão. Matei, brigamos, morremos. Virei soldado romano, perseguidor de cristãos. Na porta da catacumba encontrei-te novamente. Mas quando vi você nua caída na areia do circo e o leão que vinha vindo, dei um pulo desesperado e o leão comeu nós dois. Depois fui pirata mouro, flagelo da Tripolitânia. Toquei fogo na fragata onde você se escondia da fúria de meu bergantim. Mas quando ia te pegar e te fazer minha escrava, você fez o sinal da cruz e rasgou o peito a punhal... Me suicidei também.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) Poeta mineiro, nascido em Itabira, publicou seu primeiro livro, Alguma poesia, em 1930. Tornou-se um dos principais poetas do século XX em nossa língua. Além de poesia, escreveu também contos e crônicas.

mouro: habitante da Mauritânia, antiga região ao norte da África; Tripolitânia: região da Líbia, norte da África. No século XVII foi um dos centros da pirataria no Mediterrâneo;

Depois (tempos mais amenos) fui cortesão de Versailles, espirituoso e devasso. Você cismou de ser freira... Pulei muro de convento mas complicações políticas nos levaram à guilhotina.

fragata: antigo navio a vela, de três mastros, menor que o bergantim;

Hoje sou moço moderno, remo, pulo, danço, boxo, tenho dinheiro no banco. Você é uma loura notável, boxa, dança, pula, rema. Seu pai é que não faz gosto. Mas depois de mil peripécias, eu, herói da Paramount, te abraço, beijo e casamos.

Paramount: nome de um dos primeiros e maiores estúdios cinematográficos de Hollywood, fundado em 1912; produziu grandes clássicos do cinema, sobretudo dramas e aventuras, com artistas famosos.

bergantim: antiga embarcação a vela e remo; cortesão: homem que pertencia à corte; boxar: boxear, praticar o boxe;

Balada do Amor Através das Idades. In: Alguma poesia, de Carlos Drummond de Andrade, Companhia das Letras, São Paulo. Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond – www.carlosdrummond.com.br.

O texto literário

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Em tom de conversa

Professor(a), conduza a discussão desta pergunta até que os alunos concluam que os pequenos episódios podem ser interpretados como idealizações, ou projeções, que o eu lírico faz das dificuldades de sua vida amorosa.

Exponha aos colegas as suas impressões e o entendimento do poema. Procure formular com clareza o seu pensamento. Ouça também o que eles têm a dizer. Troquem ideias. Procurem resolver, coletivamente, as dúvidas que o poema tenha suscitado. Algumas perguntas podem ajudá-lo nessa conversa: • Você achou esse poema diferente, ou mesmo estranho? Por quê? • Que sentido você dá à história narrada no poema? • Na última estrofe, o moço considera-se um “herói da Paramount”. Que interpretação do conjunto das estrofes/episódios pode ser feita com base nessa referência ao cinema?

Releitura

Escreva no caderno

1. A balada pode ser descrita como um poema de cunho narrativo, isto é, que conta uma pequena história em seu desenvolvimento temporal. A expressão “através das idades”.

Que elemento do título sugere esse caráter narrativo do poema de Drummond? 2. Responda. a) Em que tempo foi empregada a maior parte das formas verbais? O que isso revela sobre os fatos?

Pretérito perfeito do indicativo (saí, brigamos, morremos, encontrei, fui etc.). Isso revela que os fatos já aconteceram e foram totalmente concluídos no passado.

b) Qual é o tempo verbal de gosto, gosta? Explique o que esse tempo verbal revela sobre o sentimento do eu lírico. O tempo é o presente do indicativo. O emprego desse tempo verbal revela que o sentimento nascido no passado perdura. 3. Cada estrofe é um pequeno episódio ou uma aventura dos amantes, com começo, meio e fim. Identifique, em todas as estrofes, o lugar e a época em que se desenrola cada um desses episódios. © DEA / G CARGAGNA/Keystone

1.ª estrofe: Grécia, no tempo mítico da Guerra de Troia; 2.ª estrofe: Roma, no início da era cristã; 3.ª estrofe: África, Mediterrâneo, época da pirataria moura do século XVII; 4.ª estrofe: França, final do século XVIII, Revolução Francesa; 5.ª estrofe: estúdio cinematográfico Paramount, século XX.

Catacumba de Priscila, em Roma, Itália, século III.

4. Compare os episódios das cinco estrofes quanto ao seu desenlace.

As quatro primeiras terminam tragicamente, com a morte dos amantes; apenas a última tem um final feliz, com o casamento deles.

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CAPÍTULO 3

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1. Espera-se que os alunos percebam que os temas são muito semelhantes: a projeção do sentimento amoroso nas fantasias da criança (“João e Maria”) e do adolescente (“Balada...”). Em ambos, essas fantasias estão ligadas aos heróis e aventuras de filmes (em “João e Maria”, as brincadeiras infantis revivem os faroestes, filmes de guerra, de reis e princesas).

E MAIS...

Discussão

2. A expressão “agora eu era” é uma fórmula de abertura de narrativa, utilizada pelas crianças em brincadeiras de “faz de conta” (substantivo usado na última estrofe). A sucessão dos advérbios do presente (agora... agora...) traduz as mudanças das situações vividas no faz de conta, ou na encenação; o verbo no pretérito imperfeito sugere a irrealidade da situação. A fórmula equivale portanto, mas de modo mais expressivo, a “agora é como se seu fosse” (observar, na 3.ª estrofe, a combinação da fórmula com o verbo “fingir”).

Encontre em disco, CD ou na internet a letra e a música “João e Maria”, de Sivuca e Chico Buarque de Hollanda. Ouça-a, seguindo a letra. Discuta as seguintes questões com seus colegas: 1. Que semelhanças temáticas você nota entre a letra da música e o poema “Balada do amor através das idades”?

2. Explique o uso da expressão “agora eu era”, em que parece haver uma incoerência temporal. Relacione essa expressão com um substantivo empregado na última estrofe. 3. Interprete o sentido das palavras quintal (metonímia) e noite (metáfora) na última estrofe: Agora era fatal Que o faz de conta terminasse assim Pra lá deste quintal Era uma noite que não tem mais fim Pois você sumiu no mundo Sem me avisar E agora eu era um louco a perguntar O que é que a vida vai fazer de mim. BUARQUE, Chico; SIVUCA. “João e Maria”. 1977. Disponível em: <http://chicobuarque.com.br/ construcao/mestre.asp?pg=jooemari_77.htm>. Acesso em: 25 maio 2016. O quintal é o lugar das brincadeiras da infância, e, no texto, representa, por metonímia, a própria infância; o substantivo noite é uma metáfora comum para representar a infelicidade, a tristeza, a desesperança (é um lugar-comum, e está consignado nos dicionários como um dos significados dessa palavra). Os versos significam, portanto, que, na vida adulta (pra lá da infância) só há infelicidade.

A metonímia e a metáfora, figuras de linguagem, são trabalhadas no capítulo 4 de Gramática.

PARA NÃO ESQUECER

Metonímia é o emprego de uma palavra por outra, com base numa relação de dependência ou contiguidade (a parte pelo todo, o efeito pela causa, o continente pelo conteúdo, o autor pela obra etc.).

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS Como qualquer artista, Chico não tem as chaves de sua criação. Quando fez a letra de “João e Maria”, de Sivuca, por exemplo, não entendeu o que ele mesmo tinha querido dizer com o verso “e o meu cavalo só falava inglês”; levou o enigma a Francis Hime, que arriscou: “Eu acho que é um cavalo muito educado”. WERNECK, Humberto. Notas sobre João e Maria. Disponível em: <http://chicobuarque.com.br/ construcao/mestre.asp?pg=notas/n_jooemari. htm>. Acesso em: 11 mar. 2016. © Copyright Humberto Werneck, Gol de letras, em Chico Buarque Letra e Música, Cia. das Letras, 1989.

4. Compare e comente o final das duas histórias de amor, o da “Balada...”, de Drummond, e o da letra “João e Maria”.

4. No poema de Drummond, cada episódio tinha final trágico, mas a história teve um final feliz, com o casamento dos namorados. Em “João e Maria” ocorre o contrário: nas brincadeiras da infância havia felicidade, mas na vida adulta (o “agora” real), o faz de conta não é mais possível, e os namorados se separam (saem do “quintal” para a “noite que não tem mais fim”).

A LEITURA DO TEXTO LITERÁRIO Vimos, no primeiro capítulo, que a linguagem literária é polissêmica. Isso significa que o texto, construído com ela, se abre a diferentes interpretações, que não se excluem mutuamente. Essa polivalência (em contraposição à univalência buscada pela linguagem científica) não é um defeito. Pelo contrário, é ela que torna o texto denso, rico, provocativo, expressivo... O leitor de uma obra literária deve evitar dois riscos: 1. O de buscar uma única interpretação legítima e verdadeira de um texto literário. Essa interpretação é redutora, pois anula a riqueza expressiva da obra, neutraliza a tensão que se estabelece entre dois sentidos possíveis, ou mais, muitas vezes até mesmo opostos. Há na literatura brasileira um “caso” famoso e exemplar: o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Nele, Bentinho, já velho, revê seu passado

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e procura compreender o fracasso do grande amor de sua vida. A narração e a interpretação dos fatos e dos comportamentos, restritas ao ponto de vista do personagem-narrador, tornam-se suspeitas. Para Bentinho, Capitu o traiu com Escobar, o grande amigo dele, mas o leitor não pode participar dessa certeza. Muitos críticos caíram na armadilha do autor, decidindo-se pela condenação ou pela absolvição de Capitu. Essas interpretações, opostas, são redutoras, pois dissolvem a ambiguidade essencial e empobrecem o livro. A complexidade dos comportamentos humanos fica reduzida a um simples caso de culpa: o adultério de Capitu ou o ciúme doentio de Bentinho. 2. O de considerar que qualquer interpretação é válida. Há boas e más leituras. Corretas e incorretas. Mais profundas e mais superficiais. Uma interpretação só terá validade se for sustentada por elementos do texto, pelas possibilidades de leitura que ele mesmo oferece.

Os níveis de leitura Um leitor poderia dizer que o poema “Balada do amor através das idades” é a narração de uma história absurda: um casal de namorados morrendo e ressurgindo durante alguns milênios até conseguir a felicidade no século XX. Mas, sem dúvida, essa seria uma leitura muito superficial. Na discussão sobre a última estrofe do poema, você e seus colegas devem ter chegado a interpretações bem mais profundas e interessantes. Há, portanto, diferentes níveis de leitura de um texto literário. Esquematizando, diremos que são basicamente dois: • A leitura superficial, horizontal, que se limita à compreensão dos elementos mais imediatos e concretos do texto. Por meio dela o leitor apreende o significado literal, ou aquilo que o texto diz explicitamente. Por exemplo: o namorado foi pirata mouro da Tripolitânia, no século XVII, e sua amada, sendo cristã, suicidou-se para que ele não a raptasse. Isso é o que o texto diz literalmente. Sem o domínio desse primeiro nível de significação, o leitor não pode passar para um segundo nível. • A leitura em profundidade, ou leitura vertical, requer a interpretação dos elementos de significação literal. O leitor busca aquilo que o texto quer dizer. Nesse nível, o texto se revela plurissignificativo: o namorado, homem do século XX, identificando-se com os personagens dos filmes a que assiste, imagina ser o herói dessas aventuras. Podemos também entender que o poema não fala de um caso particular de amor, mas do amor em geral, de todas as épocas. Podemos ainda avançar nossa interpretação e inferir que a balada ironiza as relações amorosas de hoje, opondo à visão que temos do amor de outras épocas, heroico, cheio de aventuras e trágico, o amor prosaico dos tempos da liberdade sexual e da igualdade entre os sexos. Essas interpretações, e outras mais que você tenha dado ao poema de Drummond, não se excluem. Todas elas preenchem as possibilidades significativas do texto.

Leitura horizontal • o que o texto diz • significado literal (o namorado atravessa séculos procurando realizar seu amor)

Leitura vertical • o que o texto quer dizer • significado interpretado (o namorado projeta sua experiência amorosa nos personagens heroicos do cinema; o poema contrasta o amor do século XX ao amor heroico e trágico do passado)

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CAPÍTULO 3

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O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS A fala ou discurso é, no uso cotidiano, um instrumento da informação e da ação e não exige, no mais das vezes, atitude interpretativa. A significação das palavras, nesse caso, tem por base o jogo de relações configuradoras do idioma que falamos. A fala comum se caracteriza pela transparência. O mesmo não acontece com o discurso literário. Este se encontra a serviço da criação artística. O texto da literatura é um objeto de linguagem ao qual se associa uma representação de realidades físicas, sociais e emocionais mediatizadas pelas palavras da língua na configuração de um objeto estético. O texto repercute em nós na medida em que revele emoções profundas, coincidentes com as que em nós se abriguem como seres sociais. O artista da palavra, copartícipe da nossa humanidade, incorpora elementos dessa dimensão que nos são culturalmente comuns. Nosso entendimento do que nele se comunica passa a ser proporcional ao nosso repertório cultural, enquanto receptores e usuários de um saber comum. O discurso literário traz, em certa medida, a marca da opacidade: abre-se a um tipo específico de descodificação ligado à capacidade e ao universo cultural do receptor. Já se percebe o alto índice de multissignificação dessa modalidade de linguagem que, de antemão, quando com ela travamos contato, sabemos ser especial e distinta da modalidade própria do uso cotidiano. Quem se aproxima do texto literário sabe a priori que está diante de manifestação da literatura. PROENÇA FILHO, Domício. A linguagem literária. São Paulo: Ática, 1990. p. 13.

[...] o desprezo por copiar o real significa desviar-se dele, deformá-lo, mentir, “fingir” a realidade, ou inventar outra realidade, à sua imagem e semelhança, mas individualizada e “autêntica” a seu modo. Entendida como o universo interior onde estão armazenados e transfigurados os produtos da percepção sensível e emotiva da realidade ambiente, a ficção aqui entra em cena. Por isso podemos dizer Literatura é ficção. E se entendermos os conteúdos da ficção como compostos de imagens” deformadas e transfundidas do mundo real, pode-se admitir como evidência que ficção e imaginação se equivalem, e um termo pode ser tomado pelo outro. [...] De onde a Literatura empregar palavras polivalentes como expressão dos conteúdos da imaginação, ou da ficção. Por outros termos, é um tipo de conhecimento, fundado na imaginação, expresso pela palavra escrita e/ou comunicada oralmente, de valor multívoco ou individual. Em suma: Literatura é a expressão dos conteúdos da ficção ou da imaginação, por meio da palavra de sentido múltiplo e pessoal. MOISÉS, Massaud. A criação literária: poesia e prosa. São Paulo: Cultrix, 2012. p. 21.

O texto e o leitor Na crônica de Mario Quintana, no capítulo 2 (página 22 deste livro), lemos a seguinte afirmação: “A verdade é que a minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele.” Quintana não sugere que toda obra deva ser um complicado enigma e cada leitura, uma penosa decifração. Sua frase apenas caracteriza a obra literária como uma provocação. Isso nos faz pensar sobre o papel desempenhado pelo leitor em sua relação com o texto: • A obra literária constitui uma estrutura significante (que significa, que carrega significados). Os seus significados se concretizam no momento da leitura. • O leitor, por sua vez, não é um elemento passivo, nem apenas recebe “coisas feitas”. A ele compete tornar vivos os significados que existem potencialmente na obra. • A leitura, portanto, também consiste em um ato criativo.

As expectativas do leitor No momento da leitura, o leitor põe em movimento todas as suas capacidades intelectuais e afetivas: inteligência, cultura, informações, domínio da língua, experiências de vida e, sobretudo, sensibilidade. O conjunto de suas experiências culturais e o conhecimento das convenções literárias geram expectativas de toda ordem em relação ao texto. O prazer da leitura pode advir tanto da satisfação dessas expectativas quanto das surpresas provocadas por desdobramentos inesperados. O texto possui inúmeros índices (indícios, pistas), que permitem a formulação de hipóteses e antecipações. Nem sempre essas previsões são conscientes, podendo até ser relativas tanto a longas sequências do texto como a sequências mínimas. Por exemplo, na segunda estrofe da “Balada do amor através das idades”, o verso “dei um pulo desesperado” abre duas possibilidades: a da vitória ou a da derrota do herói. Certamente, o leitor espera a vitória, mas é surpreendido pela informação seca e direta: “e o leão comeu nós dois”. É importante lembrar que muitas vezes o autor “planta” pistas falsas para acentuar tanto a expectativa quanto a surpresa. As narrativas policiais e de suspense são exemplares nesse procedimento de despiste. Se o leitor adivinhasse tudo, grande parte dos efeitos emocionais e intelectuais da leitura se perderia. O texto literário

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LEITURA

Capítulo CXXII / O enterro A viúva... Poupo-vos as lágrimas da viúva, as minhas, as da outra gente. Saí de lá cerca de onze horas; Capitu e prima Justina esperavam-me, uma com o parecer abatido e estúpido, outra enfastiada apenas. 1

André Ducci

A seguir, você lerá três pequenos capítulos de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Já na primeira leitura fique bastante atento aos índices e às atitudes do personagem-narrador.

— Vão fazer companhia à pobre Sanchinha; eu vou cuidar do enterro. 2

3

Assim fizemos. Quis que o enterro fosse

pomposo, e a afluência dos amigos foi numerosa. Praia, ruas, Praça da Glória, tudo eram carros, muitos deles particulares. A casa não sendo grande, não podiam lá caber todos; muitos estavam na praia, falando do desastre, apontando o lugar em que Escobar falecera, ouvindo referir a chegada do morto. José Dias ouviu também falar dos negócios do finado, divergindo alguns na avaliação dos bens, mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno. Elogiavam as qualidades de Escobar. Um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco; estávamos em março de 1871. Nunca me esqueceu o mês nem o ano. 4

Como eu houvesse resolvido falar no cemitério,

escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José Dias, que as achou realmente dignas do morto e de mim. Pediu-me o papel, recitou lentamente o discurso, pesando as palavras, e confirmou a primeira opinião; no Flamengo espalhou a notícia. Alguns conhecidos vieram interrogar-me: 5

— Então, vamos ouvi-lo?

6

— Quatro palavras.

7

Poucas mais seriam. Tinha-as escrito com

receio de que a emoção me impedisse de improvisar. No tílburi em que andei uma ou duas horas, não fizera mais que recordar o tempo do seminário, as relações de Escobar, as nossas simpatias, a nossa amizade, começada, continuada e nunca interrompida, até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas. De quando em quando enxugava os olhos. O cocheiro aventurou duas ou três perguntas sobre a minha situação moral; não me arrancando nada, continuou o seu ofício. Chegando a casa, deitei aquelas emoções ao papel; tal seria o discurso.

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CAPÍTULO 3

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1893. Coleção Particular

Capítulo CXXIII / Olhos de ressaca 8

Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-

-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas... 9

As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa,

olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.

Capítulo CXXIV / O discurso 10

— Vamos, são horas...

11

Era José Dias que me convidava a fechar o ataúde. Fechamo-lo, e eu

peguei numa das argolas; rompeu o alarido final. Palavra que, quando cheguei à porta, vi o sol claro, tudo gente e carros, as cabeças descobertas, tive um daqueles meus impulsos que nunca chegavam à execução: foi atirar à rua caixão, defunto e tudo. No carro disse a José Dias que se calasse. No cemitério tive de repetir a cerimônia da casa, desatar as correias, e ajudar a levar o féretro à cova. O que isto me custou imagina. Descido o cadáver à cova, trouxeram a cal e a pá; sabes disto, terás ido a mais de um enterro, mas o que não sabes nem pode saber nenhum dos teus amigos, leitor, ou qualquer outro estranho,

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) Poeta, contista, cronista, romancista, autor de teatro e crítico literário, Machado de Assis é considerado um dos mais importantes escritores brasileiros. Sua obra desenvolveu-se em duas fases, a romântica e a realista. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Os romances Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro e o livro de contos Várias histórias estão entre suas principais obras.

é a crise que me tomou quando vi todos os olhos em mim, os pés quietos, as orelhas atentas, e, ao cabo de alguns instantes de total silêncio, um sussurro vago, algumas vozes interrogativas, sinais, e alguém, José Dias, que me dizia ao ouvido: 12

— Então, fale.

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Era o discurso. Queriam o discurso. Tinham jus ao discurso anunciado.

Maquinalmente, meti a mão no bolso, saquei o papel e li-o aos trambolhões, não todo, nem seguido, nem claro; a voz parecia-me entrar em vez de sair,

Escobar: ex-colega de Bentinho no seminário, torna-se seu maior amigo; José Dias: agregado da casa de Dona Glória, mãe de Bentinho; Sancha: esposa de Escobar.

as mãos tremiam-me. Não era só a emoção nova que me fazia assim, era o próprio texto, as memórias do amigo, as saudades confessadas, os louvores à pessoa e aos seus méritos; tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal. Ao mesmo tempo, temendo que me adivinhassem a verdade, forcejava por escondê-la bem. Creio que poucos me ouviram, mas o gesto geral foi de compreensão e de aprovação. As mãos que me deram a apertar eram de solidariedade; alguns diziam: “Muito bonito! muito bem! Magnífico!” José Dias achou que a eloquência estivera na altura da piedade. Um homem, que me pareceu jornalista, pediu-me licença para levar o manuscrito e imprimi-lo. Só a minha grande turvação recusaria um obséquio tão simples. ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. In: . Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 1, p. 926.

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4. b) Escobar morreu por afogamento. Segundo o narrador, Capitu parecia querer “tragar também o nadador da manhã” com seus “olhos de ressaca”, como a vaga do mar. (A dedução é fácil, mas o aluno deve entender o significado do substantivo ressaca e a tão expressiva imagem dos olhos de Capitu).

Releitura

Escreva no caderno

5. c) Bentinho imediatamente parou de chorar, concentrando-se apenas na observação do comportamento da esposa. Essa atitude indica que Bentinho é um homem extremamente ciumento e um marido inseguro. Sua dor pela morte do maior amigo transformou-se em ódio, como se percebe em seu desejo de atirar o caixão e o defunto à rua (§ 11).

1. Retorne aos parágrafos indicados nos itens a seguir e identifique os personagens a que se referem as palavras destacadas. a) § 1: uma com o parecer abatido e estúpido, outra enfastiada apenas b) §7: duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas c) § 9: Fiquei a ver as dela sem o pranto nem palavras desta.

uma: a Capitu; outra: à prima Justina.

duas criaturas: aos dois amigos, Escobar e o narrador.

dela: a Capitu desta: à viúva.

2. Qual é o sujeito do verbo querer, na frase “Quis que o enterro fosse pomposo, e a afluência dos amigos Refere-se ao narrador; é, portanto, um verbo em primeira pessoa (embora Sancha seja mencionada um pouco foi numerosa” (§ 3)? antes, o tópico desse trecho é o narrador, que vai providenciar o enterro). 3. A partir do contexto, depreenda o significado das palavras destacadas nos seguintes trechos: a) “mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno” (§ 3).

Conjunto das dívidas.

b) “No tílburi em que andei uma ou duas horas” (§ 7). Tipo de carro urbano, do século XIX, puxado a cavalo. c) “O cocheiro aventurou duas ou três perguntas sobre a minha situação moral” (§ 7). Estado de espírito, de ânimo. d) “Olhos de ressaca” (título do capítulo CXXIII — para depreender o significado, relacione-o com o parágrafo 9). Refluxo da vaga do mar, depois de se chocar com o litoral. e) “Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida” (§ 8).

Cerimônia e orações que se fazem antes do enterro.

f) “e ajudar a levar o féretro à cova” (§ 11). Caixão mortuário. g) “Tinham jus ao discurso anunciado” (§ 13). Direito. 4. Nestes capítulos que você está lendo, o narrador não se refere explicitamente ao modo como Escobar morreu (a narração desse acontecimento é feita no capítulo anterior — CXXI / “A catástrofe”). Mesmo assim, interpretando alguns indícios, você pode inferir o que ocorreu. a) A partir de expressões usadas pelo narrador nos parágrafos 3 e 7, deduza se a morte de Escobar era espededuzir que foi uma morte repentina, tomando de surpresa os parentes e amigos, a partir das expressões desastre (§ 3) rada ou foi repentina. Pode-se e um lance da fortuna (lance: acontecimento inesperado; fortuna: destino, acaso). b) As pessoas apontavam, na praia, o lugar onde Escobar falecera (§ 3).

Relacione essa passagem com o título e com o final no capítulo CXXIII e deduza a causa da morte de Escobar. 5. Releia, no item 1 do tópico “A leitura do texto literário” (p. 39), o comentário sobre o romance Dom Casmurro. Em seguida, retorne aos capítulos que está analisando e responda: a) Qual é a primeira palavra utilizada pelo narrador a sugerir o adultério de Capitu? b) Essa palavra refere-se a um fato categórico ou a uma interpretação do narrador?

O advérbio apaixonadamente, no parágrafo 8.

c) Qual foi a atitude de Bentinho, em seguida? Que característica do personagem essa atitude indica? 5. b) Refere-se à interpretação que ele fez do comportamento de Capitu, à avaliação de que sua esposa parecia sofrer mais que a viúva do defunto. (Observar que Bentinho interpreta todas as atitudes de Capitu como sinais de culpa: as lágrimas são manifestações da paixão; o enxugar os olhos, o olhar “a furto” para as pessoas e a solicitude para com a viúva, como gestos de disfarce.)

ESTRATÉGIAS DE LEITURA Para ler bem um texto, utilizamos algumas estratégias e procedimentos que aumentam a eficiência da leitura e facilitam a compreensão. Evidentemente, o recurso mais importante é, sempre, a concentração. Nossa atenção deve ser dirigida para o que é fundamental e para o que esperamos encontrar no texto. Nos textos não literários (como os textos informativos, científicos, ou da vida prática) há informações mais e menos importantes. Já nos textos literários, tudo pode ser importante, mesmo os pequenos detalhes. Por exemplo, a locução “de ressaca”, escolhida por Machado

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de Assis para qualificar os olhos de Capitu, não é um pormenor que possamos desconsiderar, pois ela amplia e intensifica nossa percepção do caráter de Capitu e da força de atração que ela exercia sobre as pessoas, pelo menos na avaliação insegura e ciumenta de Bentinho. O bom leitor é o que sabe interrogar o texto. Veja alguns dos procedimentos e estratégias que o leitor hábil costuma utilizar: • Avançar e recuar Com grande frequência, mesmo os leitores mais atentos precisam retornar a trechos anteriores do texto para recuperar informações específicas necessárias à continuação da leitura ou à compreensão de alguma passagem mais complexa. • Parar e resumir Essa é também uma prática que aumenta a eficiência da leitura. Não se trata, necessariamente, de produzir resumos escritos, mas de recapitular o que já foi lido, para prosseguir, sobretudo após alguma interrupção longa na leitura. Algumas estratégias permitem fazer inferências importantes, tanto para o entendimento da camada mais superficial e literal do texto, quanto para aprofundar a interpretação: • Formular hipóteses de significado a partir do contexto Nem sempre temos um dicionário à mão para consultar. Mas o leitor competente pode deduzir o significado aproximado de uma expressão, observando o contexto em que ela se encontra. Foi o que você fez na questão 3 da Releitura do fragmento de Dom Casmurro. • Recuperar os significados dos anafóricos Esse procedimento é semelhante ao primeiro (retornar a trechos anteriores para recuperar informações). Na questão 1 da Releitura você recuperou o significado de alguns termos anafóricos utilizados por Machado de Assis. • Preencher as elipses As frases geralmente ocultam termos que podem ser depreendidos a partir das relações sintáticas e semânticas. Os leitores fazem isso com certo automatismo, mas pode ocorrer a necessidade de uma pequena parada para reflexão e análise. Na questão 2 da seção Releitura, você revelou o sujeito oculto do verbo querer. Um leitor desatento poderia pensar que esse sujeito fosse Sancha, mencionada um pouco antes (“Sanchinha”). • Interpretar subentendidos Nos fragmentos de Dom Casmurro que você leu, o narrador não narra a morte de Escobar. No entanto, relacionando alguns indícios, você pôde deduzir, na questão 4, que sua morte foi repentina, inesperada, sem causas naturais (doenças), e deveu-se a um acidente no mar, mais especificamente a um afogamento. • Identificar índices e fazer previsões (antecipações)

PARA NÃO ESQUECER

Termo anafórico é o termo gramatical (geralmente um pronome ou um advérbio) que retoma o referente de uma palavra ou expressão usada anteriormente no mesmo texto. Exemplo: na frase “uma com o parecer abatido e estúpido, outra enfastiada apenas”, os pronomes uma e outra são termos anafóricos pois se referem, respectivamente, a Capitu e à prima Justina, personagens citadas anteriormente. Elipse é a supressão de um termo da oração, que pode ser facilmente subentendido pelo contexto linguístico ou pela situação.

O autor distribui, ao longo do texto, muitos indícios do que virá na continuação. Quando você se deparou com o advérbio apaixonadamente, no capítulo CXXIII A elipse, uma figura de de Dom Casmurro, deve ter pensado: “aí tem coisa!” — prevendo a crise de linguagem, é trabalhada no ciúme que acometeria Betinho. Mas atenção: essa estratégia de leitura não é capítulo 4 de Gramática. um simples jogo de adivinhação e os leitores não são obrigados a acertar. Com frequência não acertam. Mesmo assim, é uma estratégia essencial para a compreensão mais aguda do texto e para uma fruição mais intensa. Nas novelas policiais, por exemplo, os autores costumam semear índices que levam o leitor a errar em suas previsões. E é isso que torna a leitura tão interessante. O texto literário

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LEITURA A serra do Rola-Moça

Eles eram do outro lado, Vieram na vila casar. E atravessaram a serra, O noivo com a noiva dele Cada qual no seu cavalo. Antes que chegasse a noite Se lembraram de voltar. Disseram adeus pra todos E se puseram de novo Pelos atalhos da serra Cada qual no seu cavalo.

Ismar Ingber/Pulsar Images

A Serra do Rola-Moça Não tinha esse nome não...

Os dois estavam felizes, Na altura tudo era paz. Pelos caminhos estreitos Ele na frente, ela atrás. E riam. Como eles riam! Riam até sem razão. A Serra do Rola-Moça Não tinha esse nome não. As tribos rubras da tarde Rapidamente fugiam E apressadas se escondiam Lá embaixo nos socavões, Temendo a noite que vinha. Porém os dois continuavam Cada qual no seu cavalo, E riam. Como eles riam! E os risos também casavam Com as risadas dos cascalhos, Que pulando levianinhos Da vereda se soltavam, Buscando o despenhadeiro.

Parque estadual da Serra do Rola-Moça, Ibirité (MG), 2013.

[...] E a Serra do Rola-Moça Rola-Moça se chamou. ANDRADE, Mário de. Noturno em Belo Horizonte. Poesias completas. 4. ed. São Paulo: Martins, 1974. p. 132.

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CAPÍTULO 3

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Releitura

Escreva no caderno

1. O aluno pode imaginar um final trágico, em que o cavalo da moça se precipita no despenhadeiro, ou outro, em que os dois noivos se precipitam, ou, ainda, em que a moça se precipita, mas sobrevive à queda. De todo modo, os índices do poema só permitem a previsão da queda.

Na transcrição do poema, a penúltima estrofe foi substituída por reticências [...] e você não pôde ler o final 2. O aluno pode indicar: o nome que a serra recebeu após a da história. passagem dos noivos; o presságio sugerido na descrição do

1. Formule duas hipóteses sobre o desenlace dessa história de amor. 2. Indique dois índices que permitiram a formulação das previsões. Professor(a), ver nas Orientações Específicas, em Conversa com o Professor, na transcrição a estrofe suprimida.

entardecer (as nuvens vermelhas que se escondiam, temendo a noite); a conjunção adversativa porém, que contrasta a despreocupação e o descuido dos noivos com o temor manifestado pelas nuvens; o paralelo estabelecido entre a alegria dos noivos descuidados e as “risadas” dos cascalhos que se precipitavam no despenhadeiro (lembrar que leviano (levianinhos) pode significar “leve”, mas também “que tem leviandade, irresponsável, desajuizado”).

E MAIS... Machado de Assis é um mestre em enganar o leitor para surpreendê-lo no final. Experimente ler o conto “A cartomante” e veja a habilidade com que ele faz isso. Esse conto é o primeiro do livro Várias histórias. Você pode baixar a edição em PDF no seguinte endereço: <http://tub.im/s256q6>. Acesso em: 8 jun. 2016. Em sua leitura, procure aplicar algumas das estratégias aprendidas neste capítulo. Anote suas dúvidas, para que seus colegas o ajudem a resolvê-las. Observe, sobretudo, como Machado de Assis “engana o leitor”: cria uma expectativa (o percurso de Camilo, após receber o bilhete de Vilela), em seguida, relaxa essa expectativa (com a previsão otimista da cartomante), para, no último parágrafo, surpreender o leitor.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU 1. Vimos, neste capítulo, que a linguagem literária é multívoca, polivalente. • Devemos evitar tanto a leitura redutora, que elimina a riqueza do texto e as possibilidades de outras interpretações, quanto a leitura fantasiosa, sem sustentação em elementos do texto. • A leitura de compreensão (nível horizontal, superficial) possibilita a leitura de interpretação (nível vertical, profundo). 2. A leitura é um ato criativo. • É o leitor quem atualiza as potencialidades de significação de um texto literário. Para isso, ele deve mobilizar todas as suas capacidades intelectuais e afetivas — inteligência, sensibilidade, cultura, domínio da língua, vivências, conhecimento de mundo. 3. O leitor competente utiliza alguns procedimentos e estratégias que tornam a leitura mais eficiente. • A concentração e a atenção voltada aos detalhes permitem compreender as relações que se estabelecem dentro do texto e realizar as mais diversas inferências (preencher elipses, interpretar subentendidos, formular hipóteses de significados, observar índices e fazer previsões e antecipações a partir deles).

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Atividades

Escreva no caderno

O amor e a razão Pinta-se o Amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacó, nunca chega à idade de uso de razão. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino, que vem a ser? Uma vontade com afetos, e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos Pintores do Amor lhe vendaram os olhos. In:

VIEIRA, Antônio. Sermão do mandato. . Sermões. Org. de Alcir Pécora. São Paulo: Hedra, 2001. Tomo 1. p. 345.

1. Considerando o contexto, depreenda o significado das seguintes palavras: a) febricitante; b) frenético; c) variar; d) tresvariar.

a) Febril, que tem febre, exaltado, apaixonado. b) Tomado de frenesi, delirante, exaltado.

c) Mudar, diversificar (no caso, trocar o objeto do amor). d) Praticar desatinos, loucuras, alucinar, desatinar, estar fora de si. (Explicar que o prefixo tres- é uma variação de trans- e significa além de, para além de. Portanto, tresvariar significa variar para além da medida.)

2. Em português, a ordem direta dos termos da oração costuma ser sujeito + verbo + complementos (objeto direto e indireto). Considere a frase “Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma” e: a) identifique o sujeito e o complemento do verbo conquistar, em cada ocorrência; b) reescreva-a na ordem direta. 3. Sendo parte de um sermão, esse fragmento possui uma estrutura argumentativa: uma afirmação central e os argumentos com que o pregador procura convencer o ouvinte. Copie a afirmação central do fragmento. “Usar de razão, e amar, são duas coisas

GÉRARD, François. Cupido e Psiquê. 1798. Óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris.

GÉRARD, François. Cupido e Psiquê. 1798. Óleo sobre tela, 186 × 132 cm. Museu do Louvre, Paris. Foto: Corel Stock Photo

Leia o seguinte fragmento de um sermão de Antônio Vieira, autor barroco luso-brasileiro que viveu no século XVII.

Padre Antônio Vieira (1608-1697) Padre jesuíta, nascido em Portugal, mas que morou em Salvador (BA) durante grande parte de sua vida. Por isso, é estudado nas literaturas portuguesa e brasileira. Foi um político muito sagaz a serviço da Coroa portuguesa. É famoso por seus sermões (perto de 200), considerados um dos pontos mais altos da criação estilística da língua portuguesa. Sua obra pertence ao Barroco.

FIQUE SABENDO

Barroco é a tendência artística e literária dos séculos XVII e XVIII, marcada pela inquietação e pelo pessimismo. Desenvolveu-se como expressão da Contrarreforma, movimento religioso da Igreja Católica em reação à Reforma Protestante. Nas obras literárias caracteriza-se pelo extremo rebuscamento da linguagem, em frases tortuosas, e pela profusão das imagens e figuras de linguagem. O padre Antônio Vieira é considerado um dos principais representantes do Barroco em nossa língua.

que não se juntam.”

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2. a) 1ª. ocorrência — sujeito: o amor; objeto direto: tudo; 2ª. ocorrência — sujeito: o amor (oculto); objeto direto: uma alma. 2. b) O amor conquista tudo quando conquista uma alma. CAPÍTULO 3

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4. Que argumento o autor usa para justificar sua afirmação de que o amor autor justifica sua afirmação dizendo que, mesmo não chega jamais à idade da razão? Oultrapassando os sete anos, o amor não atinge a idade da razão porque amor e razão são inconciliáveis.

5. Quando o amor conquista uma alma, qual é o primeiro derrotado? O primeiro derrotado é o entendimento, isto é, a razão.

6. Segundo Vieira, o delírio (“entendimento frenético”) é consequência necessária da febre (“vontade febricitante”). Identifique duas frases do texto que repetem, em outras imagens, esse mesmo argumento. 7. Comente o trocadilho: “O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar, se é amor”.

Os textos nunca dizem tudo. Com frequência os autores fazem alusões, sem as desenvolver ou explicar, supondo que elas estão muito claras para o leitor. Se este não possui as informações necessárias, deve buscá-las fora do texto, ou perderá parte das possibilidades significativas e expressivas da obra. Foi o que ocorreu na primeira frase do fragmento do sermão de Vieira, onde lemos: “ainda que [o amor] passe dos sete anos, como o de Jacó, nunca chega à idade de uso de razão”. Vieira supõe que seu ouvinte, ou seu leitor, compreenda a comparação com o amor de Jacó. Você conhece a história do amor de Jacó por Raquel, personagens da Bíblia, que inspirou muitos artistas e poetas? Em vez de fazer uma pesquisa para se informar, leia o soneto de Camões que conta esse caso.

6. “Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento”; “Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo”. 7. Comentário pessoal. A firmeza torna o amor fiel e constante; mas nenhum amor verdadeiro deixará de ter uma dimensão de loucura, de desvario.

idade de uso da razão: segundo o costume, considera-se que uma criança começa a fazer uso da razão, isto é, a distinguir o certo do errado, aos 7 anos; Amor: no texto, as duas ocorrências dessa palavra grafada com maiúscula constituem uma personificação e referem-se a Cupido, o deus do amor na mitologia latina (na grega, Eros). O texto afirma que ele é representado sempre como um menino. Na verdade, ora é representado como menino, ora como adolescente.

Soneto Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prémio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, passava, contentando se com vê-la; porém o pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos lhe fora assi negada a sua pastora, como se a não tivera merecida;

8. Exemplo de paráfrase: Jacó trabalhou durante sete anos, como pastor, para Labão, com a única intenção de conquistar a mão de sua bela filha Raquel. Passou todo esse tempo apenas contentando-se com a visão da amada, mas sustentado pela esperança de, ao final, recebê-la como esposa. Mas Labão, com astúcia, lhe entregou Lia, a outra filha. O pastor, assim enganado, sentiu como se não tivesse merecido sua pastora. Mas recomeçou a servir Labão por outros sete anos, dizendo que trabalharia ainda mais, se a vida não fosse tão curta para um amor tão longo.

começa de servir outros sete anos, dizendo: — Mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida. CAMÕES, Luís Vaz de. Lírica completa: vol. II – Sonetos. Prefácio e notas de Maria de Lurdes Saraiva. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1980. p. 168.

8. Escreva uma pequena paráfrase do soneto, contando a história do amor de Jacó como você a compreendeu. 9. Agora você pode explicar a comparação feita por Vieira: “ainda que [o amor] passe dos sete anos, como o de Jacó, nunca chega à idade de uso possível: O segundo período de espera não é explicável pela razão; só a de razão”. Explicação irracionalidade própria da paixão o justificaria. Assim, o amor nunca “amadurece”, é sempre

PARA NÃO ESQUECER

Paráfrase é a interpretação ou nova apresentação de um texto, com outras palavras, de modo a torná-lo mais inteligível. A paráfrase é trabalhada no capítulo 3 de Gramática.

infantil e irracional.

O texto literário

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a, t el re na sob toare e ch F o ua m / e g lb u l e o d e: A Ó . 12 Foto 19 u . u e. c o uniq s Mo . M e m aus e r achh h l M u L enb ly. s si s eu Wa . M u , K Y cm I N S ,3 ND 10 9 K A ,5 × 9 10

Os gêneros literários

capítulo

4

No capítulo anterior você viu que, no momento da leitura, o leitor põe em movimento todas as suas experiências e conhecimentos, que geram expectativas em relação ao texto. As convenções literárias, consolidadas no decorrer de muitos séculos, fazem parte desses conhecimentos importantes para uma boa leitura. Dentre essas convenções incluem-se as características dos diversos gêneros literários, tipos e formas de textos, assunto que você vai estudar neste capítulo.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Sites • INFOESCOLA. Gêneros literários. Disponível em: <http://tub.im/fv65us>. Acesso em: 19 abr. 2016. • JORNAL DE POESIA. Disponível em: <http://tub.im/5uw3cw>. Acesso em: 19 abr. 2016. • REVISTA BULA. Poesia. Disponível em: <http://tub.im/vtncyt>. Acesso em: 19 abr. 2016.

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Professor(a), as atividades da seção “E mais...”, das páginas 56 e 60, requerem preparação antecipada.

PRIMEIRA LEITURA Soneto 2

Tite de Lemos (Nilton Lisboa Lemos Filho) (1942-1989)

14 tortuosas linhas, 13 labirintos sem fim e sem começo, 12 portas lacradas, 11 vezes forçadas, talvez 10, até me esqueço.

Poeta da Geração de 70, letrista de MPB, dramaturgo e jornalista carioca. Principais obras: A liça, a serra, a bola (teatro); Marcas do Zorro, Corcovado Park, Caderno de sonetos, Outros sonetos do caderno (poesia).

9 questões de lógica celeste ou 8 jogos de adivinhação, 7 ou 6 tentativas, todas vãs, de escutar o que ainda não disseste. 5 metáforas jogadas fora quando quero dizer-te que te adoro. 4 rimas rebeldes, 3 tropeços, 2 tombos e no entanto, finalmente, nada que não pudesse resolver-se em 1 simples bilhete adolescente. LEMOS, Tite de. Outros sonetos do caderno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 11.

Em tom de conversa

1. Espera-se que os alunos infiram as conotações, um tanto pejorativas: imaturo, muito emocional (patético) e, até, ridículo. Assim, o eu lírico manifesta desprezo pela poesia amorosa, pois ela também seria “adolescente” e menos eficiente que um bilhete para cumprir a finalidade de declaração de amor.

Exponha sua opinião sobre as seguintes questões e discuta-as com seus colegas: 1. A última palavra do soneto é o adjetivo adolescente, usada como atributo do substantivo bilhete. Que conotações esse adjetivo possui nesse contexto? O que o eu lírico pensa a respeito da poesia amorosa? 2. Para o eu lírico, o soneto é uma forma fixa

presa a muitas regras; por isso, produzi-lo é uma

2. Uma das características desse poema é a metalinguagem. Como o eu lírico “tarefa” muito difícil, que exige um grande julga o trabalho de escrever um soneto? esforço, nem sempre com bons resultados.

3. Não se deve confundir o eu lírico de um poema com a pessoa real do autor. Considerando que, até aqui, você interpretou o pensamento do eu lírico no poema, reflita agora sobre as intenções do poeta Tite de Lemos ao criar esse soneto com esse eu lírico. O que ele pretendia? Você considera que ele teve Os alunos devem identificar as intenções do poeta: descrever as sucesso e atingiu seus objetivos? 3.dificuldades e os riscos de compor um soneto e ironizar o uso da poesia para realizar declarações de amor. Espera-se que, a partir dessa identificação, concluam que Tite de Lemos teve sucesso, pois o soneto resultou muito irônico: o trabalho imenso da composição conseguiu menos que um simples bilhete adolescente. Escreva 1. Esses números representam os 14 versos que compõem o no caderno poema. Estão em ordem decrescente para marcar, em contagem regressiva, a lenta, dificultosa, realização do texto.

Releitura

1. Neste texto há uma série de números escritos em algarismos, e não em letras, como seria normal em um poema. Explique o que esses números representam e por que eles estão em ordem decrescente. 2. O autor deu o título genérico de Soneto, que, em vez de aludir ao tema do poema, como é comum, alude à forma fixa em que ele foi escrito. Observando o texto, explique quais são as características de um soneto. Espera-se que o aluno indique o número de versos (14) e a distribuição deles em quatro estrofes, duas de quatro e duas de três versos.

3. O eu lírico desse poema é um poeta, ou seja, alguém que está escrevendo o soneto. Ele quer fazer uma declaração de

a) Qual é a motivação do eu lírico para compor o soneto? amor por meio do soneto. b) Ele se considera bem-sucedido? Explique. Ele considera que não foi bem-sucedido, que é muito

Os conceitos de denotação e conotação foram trabalhados anteriormente (capítulo 1) e são trabalhados no capítulo 4 de Gramática.

PARA NÃO ESQUECER

Metalinguagem é a linguagem que tem como função falar do código, ou seja, tem a própria linguagem como referente. Assim, o soneto de Tite de Lemos, por exemplo, tem uma função metalinguística porque se refere à sua própria escritura. A metalinguagem, ou função metalinguística, é trabalhada no capítulo 1 de Gramática.

PARA NÃO ESQUECER

Eu lírico é o “eu”, o sujeito, a voz em primeira pessoa que fala no poema.

difícil compor o soneto e que o resultado não ficou bom. Conclui que teria sido mais fácil e eficaz fazer sua declaração amorosa por meio de um bilhete.

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Comentário O título do poema de Tite de Lemos leva o leitor que conhece as características convencionais da forma fixa chamada soneto a esperar um texto composto em quatorze versos, distribuídos em dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (de três versos). Um conhecimento mais profundo dessa forma poética permite ao leitor compreender as alusões do eu lírico, ao mencionar as dificuldades da composição, como a sintaxe muito elaborada, com frequência forçada pela metrificação e pelos esquemas rítmicos; a necessidade de conciliar o apuro formal com a expressão poética e a aparência de naturalidade, de modo que o poema não resulte artificial ou obscuro; a necessidade de encontrar rimas expressivas e de FIQUE SABENDO criar imagens originais e surpreendentes; a importância da “chave de ouro” com Chave de ouro que se deve concluir o soneto. ou fecho de ouro Sabendo da importância que os sonetistas, desde o Renascimento, dão ao corresponde ao último fecho de ouro, o leitor pode compreender a grande ironia contida na última estrofe verso do soneto, que deve do soneto de Tite de Lemos: depois de tanto esforço, o eu lírico conclui que essa ser o ponto culminante, o remate perfeito, e conter forma tão rebuscada e difícil de expressão poética é menos eficiente que um simples a ideia fundamental bilhete de amor escrito por um adolescente. Ou seja, a chave de ouro “fechou” as desenvolvida nas estrofes. possibilidades do poema que ela deveria iluminar.

OS GÊNEROS LITERÁRIOS Uma antiga tradição, que remonta a Platão e a Aristóteles (século IV a.C.), estabeleceu uma classificação básica em três gêneros, que englobam inúmeras categorias menores comumente chamadas subgêneros. É importante frisar que a inclusão de determinada obra em um dos gêneros tem por base suas características predominantes. Uma obra classificada como narrativa, por exemplo, pode ter, e certamente terá, características dos outros gêneros. Veja, abaixo, os gêneros literários. • épico (ou narrativo) gêneros

• lírico • dramático

O gênero lírico se faz o mais das vezes em versos, mas os outros dois — o narrativo e o dramático — também podem ser escritos nessa forma, embora modernamente se prefira a prosa.

As características do gênero épico ou narrativo Podemos definir a obra narrativa como o relato de acontecimentos, imaginários ou não, que se sucedem no tempo e se situam num espaço, envolvendo um ou mais personagens. O tempo da narrativa, por definição, é o passado, pois o narrador, em geral, conta o que já aconteceu: o caso foi assim; era uma vez... Naturalmente, esse passado pode ser muito recente, e os acontecimentos podem ainda estar em processo, atingindo o presente do narrador. Por outro lado, não se deve confundir esse passado com o tempo verbal utilizado pelo narrador. Com muita frequência se usa o verbo no presente, como se o fato passado estivesse acontecendo no momento em que é narrado. Outra característica essencial desse gênero é a presença de um narrador, que não deve ser confundido com o autor da obra. O narrador é um elemento intrínseco ao texto criado pelo autor. Há inúmeros subgêneros narrativos, diferenciados pela extensão, complexidade, amplitude da visão de mundo, temática etc. Exemplos: epopeia, romance, conto, novela, poema narrativo, crônica, fábula, mito.

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CAPÍTULO 4

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Características do gênero épico

FIQUE SABENDO

• mais objetivo que o lírico • relato de acontecimentos imaginários ou ficcionados • mediação por um narrador (foco narrativo) • tempo: passado • progressão temporal • personagens

Com frequência, o nome do subgênero é acrescido de um atributo que delimita um tema ou uma estrutura consagrada pela tradição: romance social, novela de cavalaria, narrativa de mistério, conto policial, ficção científica.

Tipos de narrador Para contar uma história, o narrador pode se posicionar de maneiras diversas. Assim, dependendo da perspectiva do narrador, uma obra literária pode ter: • Foco narrativo em terceira pessoa O narrador é apenas uma voz que não se identifica; em outras palavras, quando o narrador não é um personagem. • Foco narrativo em primeira pessoa ou narrador-personagem O narrador é um dos personagens que vivem a história. O narrador pode ainda ser: • Observador O narrador assume um ponto de vista exterior, como quem presencia ou testemunha os acontecimentos. • Onisciente O narrador conhece e revela o interior dos personagens, seus pensamentos e suas emoções.

Tipos de discurso O narrador relata acontecimentos e ações, descreve lugares, objetos e personagens, faz comentários e desenvolve reflexões. Ele é o mediador entre os fatos ocorridos no passado e o leitor. Mesmo os discursos dos personagens — o que eles falam ou pensam — são mediados, ou seja, relatados, pela voz do narrador. Há basicamente três modos de construção dos discursos dos personagens: • Discurso direto O narrador apenas reproduz, sem modificações, as falas ou os pensamentos dos personagens. Nesse caso, o autor utiliza algumas marcas convencionais, como os dois-pontos, a mudança de parágrafo, o travessão, as aspas. Observe o exemplo: Depois de abraçar o filho, um abraço tão apertado que quase o sufocou, a mãe tirou da bolsa um embrulhinho e disse: — Olha o que eu trouxe para o meu mimoso!

• Discurso indireto O narrador “traduz” a fala do personagem, colocando-se como intermediário ou intérprete. Veja o mesmo exemplo, transformado em discurso indireto: Depois de abraçar o filho, um abraço tão apertado que quase o sufocou, a mãe tirou da bolsa um embrulhinho. Mostrando-o, disse que o trouxera para o seu filhinho mimoso.

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Observe que, na transformação do discurso direto para o indireto: — trocamos os dois-pontos e o travessão pela conjunção que; — excluímos a forma verbal do imperativo (olha), pois ela só poderia ser usada pela mãe, no momento da fala,

e a substituímos pelo verbo mostrar no gerúndio (mostrando); — mudamos o verbo trazer da primeira para a terceira pessoa (eu trouxe — [ela] trouxera); — substituímos a forma verbal do pretérito perfeito do indicativo (passado recente: trouxe) para o pretérito

mais-que-perfeito (trouxera); • Discurso indireto livre Uma forma híbrida dos dois processos anteriores. O autor insere fragmentos de discurso direto no discurso indireto. Para esse tipo de discurso, não há convenções rígidas, variando muito as técnicas e as soluções criadas pelos autores. O exemplo que demos para os discursos direto e indireto é adaptação de um trecho, em discurso indireto livre, de um conto de Sergio Faraco, que você lerá a seguir. Veja o texto original: “[...] quando ela chegou com o pratinho da janta, preocupada, esbaforida, e depois de abraçá-lo, um abraço tão apertado que quase o sufocou, tirou da bolsa um embrulhinho e olha o que eu trouxe para o meu mimoso.

Observe nesse exemplo que a frase destacada refere-se à fala de um personagem, mas insere-se no discurso do narrador sem nenhum anúncio (um verbo como disse, falou, exclamou) e sem as marcas gráficas convencionais do discurso direto (dois-pontos, travessão ou aspas).

LEITURA Majestic Hotel Para Paulo Hecker Filho

Entre cadernos velhos e brinquedos, na cômoda, encontrou um soldadinho de chumbo que dava por perdido. Pegou-o rapidamente, com receio de ter-se enganado, mas era ele, sim, aquele que trouxera de Porto Alegre, e que lindo soldadinho, com capacete de espigão, boldrié, mochila e espingardinha. Fazia tanto tempo aquilo... Não, nem tanto tempo assim, quatro ou cinco anos, talvez, ainda se lembrava do trem sacudindo e apitando, da buliçosa gare da estação, do carro de praça e, com mais nitidez, das sacadas que uniam os dois blocos do Majestic Hotel, onde o velho despenteado lhe dera um puxão no braço. Nunca lhe disseram e tampouco perguntou por que tinham feito aquela viagem. Decerto era para consultar um médico, que outro motivo levaria à capital uma jovem mulher e seu filhinho? Também nunca soube por que, no hotel, ela não o levara uma só vez ao restaurante. Ficava no quarto, de repente ela aparecia com um pratinho encoberto por um guardanapo. Achava que estava doente, por isso não ia ao restaurante. Mas num daqueles dias ela o levou a uma rua espigão: haste pontiaguda comprida, cheia de gente, e ele supôs, contente, que talvez já estivesse curado. que encima certos modelos de capacete militar; Que rua grande, que rua enorme e era preciso caminhar, caminhar... teriam ido ao boldrié: correia usada a médico? Não se lembrava. Mas lembrava-se muito bem da volta ao hotel, os dois de tiracolo para sustentar mãos dadas e ele orgulhoso de estar ao lado dela, tão bonita e cheirosa que ela era. espada, outras armas ou Passaram depois numa praça com um laguinho e um cavalo de pedra e estandarte; talim, talabarte, também ali havia pessoas demais, só que sentadas e pareciam de pedra como tiracolo; o cavalo do laguinho. E outras em pé, paradas, e outras movendo-se lentamente gare: estação de estrada pelos caminhos da praça, e outras dormindo sobre jornais nos canteiros, e no de ferro; o autor emprega a meio desse exército de caras pôde notar que um homem os seguia e os olhava. expressão “gare da estação” no sentido de “plataforma”. Não que os olhasse.

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CAPÍTULO 4

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André Ducci

Olhava para ela. Assustado, segurou a mão dela com força. Continuaram andando e depois da praça olhou para trás e lá estava o mesmo homem, destacando-se dos outros, como um general à frente daquele exército. Queria apressar-se, puxando-a, mas a mão dela resistia e seus próprios pés, como nos pesadelos, grudavam no chão. Quando, por fim, chegaram no hotel e pediram a chave, ficou espiando a porta e viu, com a respiração suspensa, que o homem entrava também e ainda olhava para ela. Teve a impressão, não a certeza, de que ela sorria levemente. Queria avisá-la, cuidado, ele quer te roubar de mim e de papai, mas não se animava, receoso de que sorrisse novamente aquele sorriso perigoso. Subiram. No quarto, vigiava-a. Ela se ausentou por uns minutos, retornou de banho tomado e começou a vestir-se para sair outra vez. Vou buscar tua comidinha, amor. Penteou-se, perfumou-se e calçou o sapatinho alto, de tiras pretas, que mostrava seus dedinhos delicados — tão delicados que, só de vê-los, aumentava sua inquietação. Não sabia que horas eram, achava que era dia e no entanto ela o fez deitar-se e que ficasse bem comportadinho, não abrisse a janela nem a porta e muito menos fosse àqueles sacadões altíssimos. Deitado, esperava, e ouvia vozes no corredor e portas que batiam e ouvia também arrulhos de pombas e, às vezes longe, às vezes perto, a correria dos bondes a rinchar. E tinha medo, fome, tinha falta de ar e ela não voltava. A cama conservava o cheiro dela e ele, abraçado ao travesseiro, suplicava: “Volta, mamãe”. E ela não voltava. E quando lhe ocorreu que ela poderia não voltar, desceu da cama, abriu a porta e seguiu pelo corredor, na esperança de avistá-la das sacadas. Subiu na grade e, sem entender, viu que era noite. Depois pensou que talvez tivesse dormido sem sentir, ou talvez já fosse noite antes e, por causa das luzes, pudesse ter pensado que era dia. Foi então que apareceu o velho de cabelo em pé e quis pegar seu braço. Correu para o canto da sacada, ia gritar, mas o velho foi embora e em seguida veio um empregado do hotel, que o levou de volta ao quarto e permaneceu junto à porta aberta, sentado num banquinho, conversando, rindo, dizendo que tinha um filho de seu tamanho chamado José Pedro. José Pedro, isso. O pai de José Pedro só se retirou quando ela chegou com o pratinho da janta, preocupada, esbaforida, e depois de abraçá-lo, um abraço tão apertado que quase o sufocou, tirou da bolsa um embrulhinho e olha o que eu trouxe para o meu mimoso. Não quis abrir, sentido, e ela mesma o fez. Gostaste, amor? Ele olhou e já não estava mais sentido. Estava feliz. Afinal, ela tinha voltado e com ela não viera um general, só aquele soldadinho envolto no perfume dela, tão bonitinho, o mesmo que agora ele apertava na mão e que, entre as lembranças do Majestic Hotel, era sua única certeza.

Sergio Faraco (1940-) Contista e cronista sul-rio-grandense, nascido em Alegrete. Recebeu diversos prêmios, dentre os quais o Galeão Coutinho, da União Brasileira de Escritores (1988), e o Prêmio Nacional de Ficção, da Academia Brasileira de Letras (1999). Obras: Hombre (1978), Manilha de espadas (1984), Noite de matar um homem (1986), O chafariz dos turcos (1991), Lua com sede (1993), Dançar tango em Porto Alegre (1998) e Contos completos (2010).

Vinicius Faraco Ferreira

FARACO, Sergio. Dançar tango em Porto Alegre e outros contos escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 1998. p. 90-94.

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b) Espera-se que os debatedores concluam que se trata de reminiscências. O personagem não consegue recordar completamente os acontecimentos. Há fatos de que ele nunca soube (como onde e com quem a mãe esteve quando o deixou sozinho no quarto do hotel); outros que ele não compreende (como o motivo da viagem ou por que nunca era levado ao restaurante do hotel); outros, ainda, que só restaram em fragmentos na memória: a viagem de a) Não. As lembranças do personagem são contadas por um narrador não trem ou o passeio pelas ruas. No final identificado. O conto tem o foco narrativo em terceira pessoa. O narrador é do conto, lemos que o soldadinho de onisciente, pois conhece e relata os pensamentos e sentimentos do personagem. chumbo, “entre as lembranças do Reúna-se com seu grupo e prepare a discussão sobre o conto de Sergio Faraco. Majestic Hotel, era sua única certeza”.

E MAIS...

Discussão

Apresentamos alguns tópicos a serem abordados, mas você deve propor outros, sobretudo formular suas dúvidas para que os colegas o ajudem a resolvê-las. a) Reflita sobre o foco narrativo do conto e responda: é o personagem que narra os acontecimentos passados no Hotel Majestic? Classifique o foco narrativo e explique. b) Leia, no boxe ao lado, as definições dos termos memória, lembrança, recordação, reminiscência.

Determine e explique qual seria a melhor classificação dos pensamentos do personagem do conto sobre os acontecimentos do passado. c) Embora o narrador se atenha às lembranças fragmentárias do menino, podemos adivinhar, sugerida nas entrelinhas, uma outra história, não contada.

Observando os índices espalhados pelo texto, reconstitua essa história subentendida. Terminado o prazo para a preparação, o(a) professor(a) estabelecerá as regras para a discussão geral entre os grupos. c) Alguns índices importantes: a inexistência de um motivo para a viagem (a hipótese de uma doença não se confirma,

pois o menino não se lembra de ter sido levado a um Procedimentos médico); a retenção do filho no quarto, sem nunca ter sido Para que um debate tenha bons resultados, os participantes devem:

• falar com clareza e objetividade; • ouvir os colegas com atenção e respeito; • buscar argumentos convincentes;

levado ao restaurante, sugere um comportamento clandestino da mãe; o olhar insistente de um homem no meio da multidão (“Olhava para ela”); o fato de esse homem tê-los seguido até o hotel; a impressão de que a mãe retribuía o sorriso do homem; o modo como a mãe se preparou apenas para ir buscar comida; a longa ausência da mãe quando saiu a pretexto de buscar comida; o presente que a mãe levou ao filho.

• saber reconhecer a validade dos argumentos dos outros debatedores.

PARA NÃO ESQUECER

Memória é a faculdade de conservar e experimentar de novo estados de consciência passados. Lembrança é o resultado do exercício da memória; apresentação, pela memória, de ideias adquiridas. Recordação é a lembrança reavivada; ato de trazer à lembrança as ideias confiadas à memória. Reminiscência é a lembrança inconsciente, vaga, impressão ligeira que ficou de coisa lida, ouvida, vista, de ideias e noções que foram presentes em tempos remotos. Fonte de pesquisa: NASCENTES, Antenor. Dicionário de sinônimos. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 303.

Não se deve confundir “debate” com “combate”. O objetivo não é “sair vencedor”, mas colaborar para um resultado comum (neste caso, o aprofundamento da compreensão e da interpretação do texto lido).

Releitura

Escreva no caderno

1. No primeiro parágrafo, a voz é do narrador. Percebemos, no entanto, que algumas coisas que ele diz são pensamentos e sentimentos do personagem e não dele, narrador. Que trecho pode ser considerado discurso mas era ele, sim, aquele que trouxera de Porto Alegre, e que lindo soldadinho, com capacete de espigão, indireto livre? “[...] boldrié, mochila e espingardinha.” 2. “Decerto era para consultar um médico, que outro motivo levaria à capital uma jovem mulher e seu filhinho?” a) A quem deve ser atribuído esse raciocínio? Ao personagem do menino. b) Reescreva o trecho em discurso direto, utilizando uma pontuação adequada.

Resposta possível: O menino então pensou: “Decerto era para consultar um médico. Que outro motivo levaria à capital uma jovem mulher e seu filhinho?”.

c) Reescreva o trecho em discurso indireto.

Resposta possível: O menino então supôs que era para consultar um médico, pois não haveria outro motivo que levasse à capital uma jovem com seu filhinho.

d) Releia suas respostas aos itens b e c e explique a diferença entre essas construções e a construção original feita pelo autor. Na construção do item b, o raciocínio é claramente atribuído ao personagem. No item c, o pensamento do personagem é traduzido pelo narrador. No texto original essas duas formas se misturam, aproximando o personagem do narrador e, consequentemente, do leitor.

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CAPÍTULO 4

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As características do

FIQUE SABENDO

gênero lírico

Características do gênero lírico

Na obra lírica, um sujeito que chamamos eu lírico, sujeito lírico, voz lírica ou voz poética exprime suas emoções. (Por emoções entendemos todas as experiências psíquicas: sejam os mais profundos sentimentos e sensações, sejam as mais variadas reflexões e concepções de mundo.) É, dos três gêneros literários, o mais subjetivo. Em razão da intensidade da expressão, as obras líricas tendem a ser concisas e a acentuar o ritmo e a musicalidade da linguagem. Consequentemente, o gênero lírico realiza-se, em geral, em forma de poema em versos. A partir do século XIX desenvolveu-se um subgênero chamado poema em prosa, muito cultivado na literatura dos nossos dias. Embora não sejam escritas em versos, as obras desse subgênero têm a intensidade e a concisão da poesia. O texto a seguir é um exemplo de poema lírico.

• subjetivo por excelência; • expressão do mundo interior (espaços, coisas, pessoas do mundo objetivo são evocações) de um eu (sujeito lírico); • tempo: preponderância do presente; • sem progressão temporal.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS O poema em prosa [...] desentranha-se da ideia de poema, do impulso poético, o conteúdo ganha forma e unidade. Seja composto de cinco linhas, seja de duas ou mais páginas, cada poema deve forjar o tema e os recursos aos quais se propôs. Ao desfrutar de liberdade formal, atinge um horizonte de possibilidades para a expressão, reguladas, no entanto, pelo desafio da concisão. É possível inclusive recorrer à descrição ou à narração de algum fato ou ocorrência diária, mas de modo breve e elíptico. PAIXÃO, Fernando. Arte da pequena reflexão: poema em prosa contemporâneo. São Paulo: Iluminuras, 2014. p. 27.

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LEITURA

Quando ela passa Quando eu me sento à janela P’los vidros que a neve embaça Vejo a doce imagem dela Quando passa... passa... passa... Lançou-me a mágoa seu véu: – Menos um ser neste mundo E mais um anjo no céu. Quando eu me sento à janela, P’los vidros que a neve embaça Julgo ver a imagem dela Que já não passa... não passa... PESSOA, Fernando. Cancioneiro. In: ______. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1969. p. 103.

Fernando Pessoa (1888-1935) Principal poeta do Modernismo português, atribuiu seus poemas a diversos heterônimos (os principais: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, além de Fernando Pessoa, ele mesmo) que são personae literárias, com estilo e visão de mundo próprias, e mesmo com biografia. Autor de obra muito extensa, seu único livro publicado em vida foi o poema “Mensagem”.

Os gêneros literários

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Releitura

O conceito de substantivo abstrato foi desenvolvido no capítulo 7 de Gramática

Escreva no caderno

1. Os sentimentos são nomeados por substantivos abstratos.

a) O eu lírico do poema nomeia seu sentimento apenas uma vez. Que substantivo ele utilizou?

Mágoa.

b) Faça uma pequena lista de substantivos abstratos que possam nomear os sentimentos expressos no poema (se necessário, forme locuções, antepondo as palavras “sentimento de” ou “sentimento por” aos substantivos abstratos). Resposta possível: saudade, tristeza, melancolia, sentimento pela perda, pela separação, pela ausência, pela morte. 2. Como você estudou, mesmo que uma obra se inclua em um dos gêneros — narrativo, lírico ou dramático —, ela pode ter características dos outros dois. O poema de Fernando Pessoa possui alguma característica do Sim. Podemos entender uma pequena história, ou seja, o desenrolar de acontecimentos no tempo: um homem gênero narrativo? Explique. senta-se frequentemente à janela e vê uma mulher passar; a morte da mulher; o homem continua sentando-se à janela e tem a ilusão de ver a mulher passar. Além disso, há personagens (o homem, a mulher) e um lugar, um espaço (a janela embaçada pela neve).

3. A partir das respostas dadas às questões anteriores, responda:

a) Esse poema foi escrito primordialmente para contar uma história ou como expressão intensa dos sentiComo expressão dos sentimentos e disposições psíquicas de um mentos e das disposições psíquicas de um sujeito (eu lírico)? sujeito. Os elementos narrativos do poema estão em função da expressão dos sentimentos.

b) Qual é a classificação mais adequada para esse texto: poema lírico-narrativo ou poema narrativo-lírico? Poema lírico-narrativo.

As características do gênero dramático Na obra dramática, os fatos são apresentados diretamente ao espectador, sem intermediários. Não é necessária a voz de um narrador, como na obra narrativa. Pertencem ao gênero dramático as obras escritas em verso ou em prosa para a representação teatral. Assim, embora o texto possa ser objeto de leitura, sua realização plena como obra de arte só pode ocorrer no palco, onde cada personagem é representado por um ator, que (re)vive o papel em cada novo espetáculo. Enquanto o tempo próprio da narrativa é o passado, o tempo da obra dramática é o presente. O discurso direto (o diálogo ou o monólogo) é a forma básica da linguagem dramática. É por meio do diálogo que ocorre o entrechoque dos personagens, realizando-se a característica essencial do gênero, que é o conflito.

FIQUE SABENDO

Características do gênero dramático • conflito entre subjetividades — personagens — diálogo • ação (acontecimentos) • apresentação direta sem a mediação de um narrador • representação por atores, • concretização do espaço (cenário) • tempo: presente da ação • progressão temporal

LEITURA O texto que você lerá a seguir é uma crônica de jornal. Observe, no entanto, que essa crônica tem todas as características do gênero dramático.

Preto e Branco “Escrevo peças porque escrever diálogos é a única maneira respeitável de você se contradizer.” Tom Stoppard

Um palco vazio. Entram dois homens, um vestido de preto e o outro vestido de branco. Eles representam os dois lados do Autor. Isso a plateia já sabe porque está escrito no programa. Pelo Autor. Ou por um dos lados do Autor, já que o outro era contra. O outro lado do Autor queria que o espectador deduzisse no transcorrer do diálogo que os dois atores representam a mesma pessoa, porque, na sua opinião, dar

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Neco Varella/ILUSTRADA/Folhapress

opinião, dar muitas explicações para a plateia subverte a relação de cumplicidade misturada com hostilidade que deve existir entre palco e público, e nada destrói este clima mais depressa do que o público descobrir que está entendendo tudo. Os dois lados do Autor discutiram muito sobre isto e prevaleceu o lado que queria ser perfeitamente claro, mesmo com o perigo de frustrar o público. Palco vazio. Dois homens, representando os dois lados do Autor. Um todo de preto, o outro todo de branco. Homem de Branco — Preto. Homem de Preto — Branco. Branco — Por que não cinza? Preto — Vem você com essa sua absurda mania de conciliação. Essa volúpia pelo entendimento. Essa tara pelo meio-termo! Branco — Se não fosse isso, nós não estaríamos aqui. Foi minha moderação que nos manteve longe de brigas. Foi minha ponderação que nos preservou. Se eu fosse atrás de você... Preto — Nós teríamos vivido! Pouco, mas com um brilho intenso. Teríamos dito tudo que nos viesse à cabeça. Distinguido o pão do queijo com audácia. Posto pingos destemidos em todos os “is”. Dado nome completo a todos os bois! Branco — Em vez disso, fomos civilizados. Isto é, contidos e cordatos. Preto — E temos os tiques nervosos para provar. Branco — Você preferiria ter dito a piada que magoaria o amigo? A verdade que destruiria o amor? O insulto que nos levaria ao Pronto-Socorro, setor de traumatismo? Preto — Preferiria. Para poder dizer que não me calei. Para poder dizer “Eu disse!”. Branco — Ainda bem que não é você que manda em nós. Preto — Não, é você. Sempre fazemos o que você determina. Ou não fazemos.

Luis Fernando Verissimo (1936-) Jornalista e escritor sul-rio-grandense, nascido em Porto Alegre. Ganhou grande popularidade com suas crônicas, cujos temas, de um humor incisivo e irônico, abrangem todos os setores da vida brasileira, sobretudo o dia a dia da classe média. Algumas obras tornaram-se verdadeiros best-sellers, como O analista de Bagé (1981), Outras do analista de Bagé (1982), A velhinha de Taubaté (1983) e Comédias da vida privada (1994). É filho do escritor Erico Verissimo.

Não dizemos. Não vivemos! Estou dentro de você, fazendo, dizendo e vivendo só em pensamento. Se ao menos eu pudesse sair aos sábados... Branco — Para que, para nos matar? Pior, para nos envergonhar? Preto — Melhor se envergonhar pelo dito e o feito do que pelo não dito e o adiado. Você sabe que cada soco que um homem não dá encurta a sua vida em 17 dias? E cada vez que um homem pensa em sair dançando um bolero e se controla, seu fígado aumenta? E cada... Branco — Bobagem. Ainda bem que eu sou o verdadeiro nós. Preto — Não, eu sou o verdadeiro você. Branco — Você só é nós em pensamento. Você é a minha abstração. Preto — Sou tudo o que em nós é autêntico e não reprimido. Ou seja: você é a minha falsificação. Branco — Você não é uma pessoa, é uma impulsão. Preto — Você não é uma pessoa, é uma interrupção. Branco — Mas quem aparece sou eu. Preto — Então o que eu estou fazendo neste palco, e ainda por cima de malha justa? Branco — Você só está aqui como uma velha tradição teatral, o interlocutor. Um artifício cênico, para o Autor não falar sozinho. “Escrever diálogos é a única maneira respeitável de você se contradizer.” Tom Stoppard. Preto — Quer dizer que eu só entrei em cena para dizer... Branco — Branco. E eu... Preto — Preto. Por quê?

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Branco — Para mostrar à plateia que todo homem é a soma, ou a mescla, das suas contradições. Que no fim o destino comum de todos, cremados ou não cremados, não é ser branco ou preto, é ser cinza. Preto — Mostrar a quem? Branco — À pla... Onde está a plateia?! Preto — Foram todos embora. Branco — Será porque não entenderam o diálogo? Preto — Acho que foi porque entenderam. “Preto e Branco”, de Luis Fernando Verissimo, publicado no jornal O Estado de São Paulo, dia 25 de novembro de 2001, Caderno 2. © by Luis Fernando Verissimo.

Releitura

Escreva no caderno

Professor(a), veja sugestão de atividade em Conversa com o professor.

1. Releia a epígrafe utilizada por Verissimo e responda: que características do gênero dramático motivam Tom Stoppard a escrever peças de teatro? Explique. 2. Uma peça de teatro geralmente não tem narrador. Seu texto é constituído essencialmente de diálogos. O autor, no entanto, entremeia o texto de rubricas. Essas rubricas têm características narrativas e descritivas. Identifique, na crônica, o parágrafo que parodia a rubrica de um texto teatral. O primeiro parágrafo. 3. O primeiro parágrafo atribui um significado alegórico aos personagens, que representam os dois lados ou personalidades a) A cor branca simboliza a clareza, a moderação, a ponderação, conflitantes do autor. 3. o espírito conciliador, cordato, propenso ao entendimento. a) Que características do autor são simbolizadas pela cor branca, atribuída ao primeiro personagem? b) E pela cor preta, atribuída ao segundo personagem?

1. As características são o diálogo — forma básica da linguagem dramática — e o conflito. Segundo Stoppard, o diálogo teatral é uma maneira de o autor se contradizer, ou seja, de discutir e conflitar consigo mesmo.

PARA NÃO ESQUECER

Rubrica é a anotação feita pelo autor, dando indicações sobre o cenário, a caracterização dos personagens, os movimentos de cena etc. Não deve ser confundida com a voz de um narrador. Significado alegórico é o significado simbólico, próprio da alegoria. Alegoria é a representação de conteúdos abstratos (ideias, pensamentos, qualidades) por meios concretos, figurados. Cada elemento da alegoria representa um elemento ou aspecto da ideia representada. Explica-se também a alegoria como um conjunto estruturado de metáforas.

A cor preta simboliza a sinceridade, a autenticidade, o respeito à verdade, a audácia, a coragem, a emoção, o impulso.

E MAIS...

Discussão O grupo deve discutir as questões propostas e indicar dois alunos para apresentar as conclusões à classe, seguindo as orientações do(a) professor(a). 1. No texto “Pausa” (capítulo 2, página 22), Mario Quintana afirma ter duas personalidades, identificadas como Dom Quixote e Sancho Pança; a crônica que você acaba de ler personifica, no Preto e no Branco, os dois lados de um autor. Discuta com seus colegas: que cor — branca ou preta — se deve atribuir a Dom Quixote? E a Sancho Pança? Por quê? 2. Por que o texto “Preto e Branco” pode ser considerado uma paródia de uma peça teatral?

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CAPÍTULO 4

1. Espera-se que os alunos concluam que a cor preta deve ser atribuída a Dom Quixote, e a branca, a Sancho Pança. Dom Quixote é o que ousa sentir e sonhar, do mesmo modo que o Preto representa, na crônica, o impulso de viver, sem repressão e sem moderação. Dom Quixote vê o lado poético, o mistério das coisas; considera que deve fazer o leitor pensar, e não pensar por ele. Assim, também, o Preto defende que o autor não deve dar muitas explicações, deixando que a plateia deduza os significados da representação. Sancho Pança simboliza o senso comum; assim como o Branco, quer ser sempre absolutamente claro, moderado, contido, conciliador.

PARA NÃO ESQUECER

Paródia é a obra que imita, na maioria das vezes de forma satírica, o tema e/ou a linguagem de uma outra.

2. O texto “Preto e Branco” foi publicado como crônica em um jornal, mas Verissimo adotou todas as características do gênero dramático (atores representando personagens no palco, conflito, diálogo, discurso direto, sem intermediação ou interferência de narrador), para fazer uma paródia. Essa imitação do teatro tem uma intenção crítica e até zombeteira.

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NOÇÕES DE VERSIFICAÇÃO Embora a versificação seja mais frequente em obras do gênero lírico, também pode ocorrer nos gêneros narrativo e dramático. Vejamos alguns elementos de versificação e da estrutura de um poema, enquanto lemos o texto de Gregório de Matos.

Soneto Ao Conde de Ericeira D. Luiz de Menezes pedindo louvores ao poeta, não lhe achando ele préstimo algum

Um soneto começo em vosso gabo; Contemos esta regra por primeira, Já lá vão duas, e esta é a terceira, Já este quartetinho está no cabo.

gabo: elogio, enaltecimento; regra: cada uma das linhas do papel pautado; linha escrita; cheia; aqui, verso;

verso

Na quinta torce agora a porca o rabo: A sexta vá também desta maneira, Na sétima entro já com grã canseira, E saio dos quartetos muito brabo.

préstimo: utilidade, serventia (no contexto, por extensão, qualidade);

estrofe

rimas

Agora nos tercetos que direi? Direi que vós, Senhor, a mim me honrais, Gabando-vos a vós, e eu fico um rei. Nesta vida um soneto já ditei, Se desta agora escapo, nunca mais; Louvado seja Deus, que acabei. MATOS, Gregório de. Obra poética. Edição de James Amado; preparação e notas de Emanuel Araújo. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992. v. 1. p. 129.

estar no cabo: estar no fim, acabar.

PARA NÃO ESQUECER

Verso é cada linha de um poema, apresentando um certo padrão rítmico e melódico. Verso metrificado ou medido tem a extensão determinada pelo número de sílabas. Verso livre não se submete a padrão de contagem de sílabas. Estrofe corresponde a cada conjunto de versos, com unidade de sentido e/ou de ritmo, em que se divide o poema. Rima é a repetição ou semelhança de sons (vogais ou consoantes), geralmente a partir da última tônica das palavras (rabo/brabo). Pode ocorrer no final ou no interior (rima interna) do verso. Verso branco ou solto não possui rima.

Gregório de Matos Guerra (1636-1695) Baiano, contemporâneo do Pe. Antônio Vieira, sua poesia, considerada a mais importante de todo o período colonial brasileiro, sobreviveu em cópias manuscritas. Estudou em Portugal, mas voltou para Salvador em 1682, onde se tornou um poeta boêmio. Famoso por suas sátiras e por sua poesia erótica, ficou conhecido como o Boca do Inferno. Sendo, porém, um autor barroco, sua obra é múltipla, surpreendente e paradoxal, incluindo poemas de temática amorosa, religiosa e de reflexão moral. Em 1694 foi deportado para Angola, talvez por causa de suas sátiras. Pôde retornar no ano seguinte, mas para Recife, onde morreu aos 59 anos. Os dois poemas têm em comum a realização na mesma forma fixa, o soneto. Nos dois casos eles buscam atingir uma finalidade prática; o de TL, a de declaração de amor, o de GM, a de fazer o enaltecimento de alguém. Ambos são metalinguísticos, ou seja, referem-se constantemente a si mesmos e ao processo dificultoso da composição de cada verso e estrofe; ambos enumeram seus passos — o de TL, os versos (linhas) em ordem decrescente; o de GM, os versos (regras) e as estrofes

Em tom de conversa

O soneto de Gregório de Matos faz parte de uma longa tradição. Na literatura espanhola barroca (século XVII), o poema “Un soneto me manda hacer Violante”, de Lope de Vega, tem um processo metalinguístico muito semelhante. E o soneto de Tite de Lemos? Discuta com seus colegas as semelhanças que você percebe entre ele e o poema de Gregório de Matos. O que eles têm em comum, considerando a linguagem, a intenção ou finalidade, a temática e os resultados?

NAVEGAR É PRECISO

Pesquise na internet e leia o soneto de Lope de Vega (“Un soneto me manda hacer Violante”). Compare-o com o de Gregório de Matos e observe que o autor brasileiro seguiu o modelo espanhol bem de perto. Isso não constitui plágio. No século XVII o conceito de autoria ainda estava se firmando e era comum a apropriação de modelos.

(quartetos e tercetos), em ordem crescente. O resultado de ambos é uma grande ironia. O eu lírico do poema de TL não consegue fazer sua declaração, a não ser indiretamente, concluindo que o esforço foi inútil e um simples bilhete teria tido melhor resultado; o de GM, ainda mais irônico (trata-se de um poema satírico), descreve o esforço passo a passo, sem fazer um elogio sequer ao Conde; assim “vazio”, Os gêneros literários termina com o poeta dando graças a Deus por ter realizado a façanha.

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Metrificação Nos poemas, a intensidade da expressão é obtida especialmente pelo ritmo e pela musicalidade. Tradicionalmente, e até o final do século XIX, a metrificação, padrão perceptível e recorrente, era um dos principais processos de construção rítmica. Só a partir do Simbolismo e, em particular, do Modernismo, surgiu o verso livre nas literaturas em língua portuguesa. No verso livre, sem o apoio dos esquemas métricos, intensifica-se o uso de outros recursos, como a aliteração (repetição de fonemas consonantais), a assonância (repetição de fonemas vocálicos), a anáfora (repetição de uma palavra no início dos versos), o paralelismo (repetição de versos e de estruturas sintáticas, com ou sem modificações), a reiteração (repetição de palavras) etc.

As moças (fragmento) Sofrei! ... A própria dor é uma felicidade, E ei-las partindo. Longe de mim. Voo de moças! Voo de moscas assustadas... E vão se debater ansiosas na vidraça... E A MÃO QUE AS VAI PEGAR! E fiquei a me rir... Rindo das moças, das moscas, da vida... das lágrimas nos olhos pequeninos. ANDRADE, Mário de. Losango cáqui. In: ______. Poesias completas. 4. ed. São Paulo: Marins, 1974. p. 92.

Neste poema de Mário de Andrade, os versos possuem extensões muito diferentes, variando de duas a doze sílabas. Além dos recursos visuais (como os recuos expressivos de alguns versos em relação à margem), o poeta usou recursos rítmicos e melódicos como a aliteração (voo — voo — vão — vidraça), o trocadilho (moças — moscas), a repetição de palavras (voo — voo, rir — rindo), a anáfora (das moças — das moscas, da vida — das lágrimas). No século XX, algumas vanguardas redefinem o verso, dando-lhe outras funções. É o que ocorre, por exemplo, na poesia visual concretista das décadas de 1950/1960 e de que vimos um exemplo, mais tardio, no poema “rio: o ir”, de Arnaldo Antunes (página 25).

Regras básicas de metrificação e de escansão A arte de declamar depende em grande parte da capacidade de destacar os elementos do metro, sem prejudicar o entendimento, marcando as tônicas dominantes (cesuras) de cada verso.

Versificação ou metrificação (ou, ainda, métrica) é o conjunto de normas que regulam a construção do verso medido. Nas línguas românicas e, portanto, em português, a metrificação se faz pela contagem das sílabas. Escansão (verbo: escandir) é a técnica de decompor o verso, para verificar sua métrica.

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CAPÍTULO 4

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1. Contam-se as sílabas até a última tônica. Assim, se o verso termina por palavra paroxítona ou proparoxítona, sobram, respectivamente, uma ou duas sílabas finais, que não entram na contagem. 2. Considera-se sempre a pronúncia, nunca a grafia das sílabas. Assim, a vogal final de uma palavra pode unir-se à vogal inicial da palavra seguinte, em uma única sílaba, como normalmente ocorre em nossa pronúncia. Com base nessas duas regras, podemos deduzir que as sílabas métricas não coincidem com as sílabas gramaticais. Exemplo: observe a contagem das sílabas gramaticais (13) e das sílabas métricas (10) de um verso do soneto: Já lá vão duas, e esta é a terceira,

Contagem das sílabas gramaticais: Já

vão

du

as

e

es

ta

é

a

ter

cei

ra

1

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3

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13

ra

Contagem das sílabas métricas: Já

vão

du

as

e es

ta é

a

ter

cei

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2

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uma sílaba

última sílaba tônica

uma sílaba

Na língua portuguesa os versos metrificados variam entre uma e doze sílabas métricas. As medidas mais prestigiadas são, entre os versos curtos, as redondilhas (redondilha menor, de cinco sílabas, e maior, de sete sílabas); entre os versos longos, o decassílabo (de dez sílabas) e os alexandrinos (de doze sílabas). Os versos redondilhos são típicos da poesia popular, conferindo aos poemas um ritmo muito marcado e certo toque de simplicidade. O poema “Quando ela passa”, de Fernando Pessoa (página 57), possui essas características. Já os decassílabos e os alexandrinos são geralmente utilizados na poesia mais requintada. Nos sonetos, desde sua invenção no Renascimento, predominam os versos decassílabos. Versos decassílabos Conforme a posição da sílaba tônica dominante, o verso decassílabo pode ser heroico (acentos na 6a. e na 10a. sílaba) ou sáfico (acentos na 4a., na 8a. e na 10a. sílaba):

Qua

tor

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tor

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6

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Heroico

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Sáfico

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Releitura

Escreva no caderno

Retomemos agora a leitura dos sonetos de Gregório de Matos e de Tite de Lemos. 1. O soneto criado por Gregório de Matos e o soneto criado por Tite de Lemos referem-se à dificuldade de se compor os versos. Vamos conferir como eles se saíram. Para isso, faça a escansão dos seguintes versos, não deixando de assinalar as tônicas dominantes. a) Gregório de Matos: “Na quinta torce agora a porca o rabo”. Na

quin

ta

tor

ce

go

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4

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6

por

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8

bo

10

b) Tite de Lemos: “ou 8 jogos de adivinhação”.

ou

oi

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jo

gos

de a

di

vi

nha

4

ção, 10

c) Explique se os poetas conseguiram ou não respeitar as regras que você acabou de estudar. 2. Utilizando letras, faça o esquema de rimas do soneto de Gregório de Matos (em ordem alfabética, atribua 1. c) Gregório de Matos seguiu as regras rigorosamente (observar que o uma letra a cada rima). A-B-B-A; A-B-B-A; C-D-C; C-D-C.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

verso tem a possibilidade de leitura como heroico ou como sáfico; a leitura em voz alta, marcando-se bem, primeiramente, a tonicidade das 4ª., 8ª. e 10ª. sílabas mostrará que o poeta pretendeu escrever um decassílabo sáfico, ao contrário do que demonstra uma leitura focada na tonicidade da 6ª. e 10ª. sílabas, típicas do verso heroico). Já Tite de Lemos não acentuou nem a 8ª. nem a 6ª. sílaba. Assim, o verso sáfico ficou sem o segundo acento dominante (esse defeito de versificação chama-se “verso de pé quebrado”).

O repertório acumulado e o conhecimento da tradição literária abrem caminhos para a leitura profunda. As características dos três gêneros literários e dos inúmeros subgêneros geram expectativas e previsões que contribuem para a qualidade da leitura. Há três gêneros literários básicos, estabelecidos pela tradição: • o gênero épico ou narrativo — em que fatos e acontecimentos, envolvendo personagens, evoluem no tempo e são relatados por um narrador, em primeira ou em terceira pessoa; • o gênero lírico — caracterizado pela subjetividade, pela expressão das emoções de um eu lírico; • o gênero dramático — a que pertencem os textos escritos para a representação teatral. O espectador presencia o desenrolar dos acontecimentos e a evolução dos conflitos, representados pelos atores, sem necessidade da mediação de um narrador. A forma básica desse gênero é o diálogo. Na língua portuguesa, a tradição estabelecia que os versos deviam ser metrificados obedecendo a regras bastante rigorosas. A partir do final do século XIX, e sobretudo no século XX, tornou-se comum o uso do verso livre (sem metrificação).

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NAVEGAR É PRECISO

O repente ou cantoria é um gênero de poesia popular cantada, típico de certas regiões brasileiras. Geralmente é realizado por dois repentistas que improvisam alternadamente as estrofes, utilizando um esquema métrico predeterminado. Faça uma pesquisa na internet e ouça alguns repentes. Recolha algumas estrofes e faça a escansão, verificando a métrica utilizada pelo repentista. Exemplo: <http:// tub.im/njng6h>.

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3. b) A palavra é o advérbio aqui. Interpretação possível: O poema se inicia com o eu e se encerra com o aqui. Ao mesmo tempo que o eu lírico está encerrado no mundo, cercado por infinitas camadas, ele também encerra o mundo e é o centro para o qual tudo converge, até a luz das estrelas mais distantes. 2. a) Primeiro segmento: “Eu... ar”; segundo segmento: “e debaixo... correndo”; terceiro segmento: “e o lento... aqui”. O primeiro segmento corresponde às camadas Escreva que envolvem o corpo (pele, roupas, ar); o segundo, às camadas que estão abaixo do no caderno corpo, na Terra; o terceiro, às que estão acima, no Universo. 2. b) Primeiro segmento: coberto de (3 vezes); segundo segmento: preposições: Leia o texto e responda às questões de 1 a 5. debaixo de (2 vezes) e sob (1 vez); terceiro segmento: preposições: por cima de e depois de.

Atividades Eu

Eu coberto de pele coberta de pano coberto de ar e debaixo de meu pé cimento e debaixo do cimento terra e sob a terra petróleo correndo e o lento apagamento do sol por cima de tudo e depois do sol outras estrelas se apagando mais rapidamente que a chegada de sua luz até aqui. ANTUNES, Arnaldo. As coisas. São Paulo: Iluminuras, 1993. p. 45.

1. Você conhece muitos poemas e talvez até saiba alguns de cor. Que diferenças mais nítidas você pertexto de Arnaldo Antunes foi escrito em um único bloco, sem divisão em versos e cebe entre eles e o texto de Arnaldo Antunes? Oestrofes. Estrutura-se em um único período, que se desenvolve sem nenhum sinal de pontuação, da maiúscula inicial até o ponto final.

2. O poema é composto de um único parágrafo, mas podemos identificar três segmentos, correspondentes aos conjuntos de camadas que envolvem o eu no Universo. a) Divida o texto e indique as palavras iniciais e finais dos três segmentos. Explique sucintamente cada conjunto de camadas. b) A sucessão das camadas que envolvem o eu é marcada pela repetição de palavras e pelo uso de preposições. Identifique essas ocorrências em cada segmento do texto. c) A conjunção coordenativa aditiva e.

c) Que conjunção foi utilizada de forma repetitiva pelo poeta? Como ela se classifica? d) Que sentido a repetição enfática dessa conjunção atribui ao poema? 3. O pronome eu é a palavra central do texto.

d) A repetição enfatiza a sucessão ou o acréscimo de camadas que envolvem o eu lírico.

3. a) Resposta possível: O eu lírico se vê como o centro do mundo, envolvido, por baixo e por cima, pelo mundo, como se este se dispusesse em torno dele, em camadas cada vez mais distantes, desde a sua pele até as estrelas mais longínquas.

a) Interprete e explique como o eu lírico se vê em relação ao mundo.

b) A palavra eu é a primeira do poema. Que outra palavra retoma o significado desse pronome? Que interpretação se pode dar à localização do pronome e dessa palavra no texto? 4. A expressão das emoções na poesia lírica não é necessariamente direta e explícita. Que sentimentos do eu lírico em relação ao seu “ser/estar no mundo” podemos interpretar em nossa leitura? 5. Faça o que se pede.

Resposta possível: Podemos interpretar o sentimento de solidão e as sensações de encerramento e de pequenez. Até a luz do sol e das estrelas se apaga, impedida de transpor tantas camadas que envolvem o eu lírico.

a) Experimente copiar o texto, dividindo-o em versos. Faça a divisão que você achar mais expressiva. b) Observe o resultado. O que você considera que mudou, no que se refere aos efeitos pretendidos pelo autor? 6. O texto a seguir comenta a cobertura jornalística da guerra civil de 2012, na Síria, contra o regime 5. b) Resposta possível: O poema perde parte do impacto sobre o leitor. O volume compacto do texto original se desfez e, com de Bashar al-Assad. ele, parte da sensação de um sujeito encerrado sob as camadas sucessivas e ininterruptas do mundo.

Guerra na Síria é narrada em primeira pessoa Com o cerco ao trabalho da imprensa imposto pelo regime de Bashar Assad, a guerra na Síria é narrada em primeira pessoa. A oposição recorre a fotos e vídeos feitos com telefone celular. São imagens de pouca qualidade, que percorrem o mundo retransmitidas via internet por ativistas sírios que deixaram o país, mas não a oposição. 5. a) Divisão possível: Eu / coberto de pele / coberta de pano / coberto de ar / e debaixo de meu pé cimento / e debaixo do cimento terra / e sob a terra petróleo correndo / e o lento apagamento do sol por cima de tudo / e depois do sol outras estrelas se apagando / mais rapidamente que a chegada de sua luz / até aqui. Os gêneros literários

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A agência oficial de notícias síria, Sana, também abastece a rede com imagens de ataques sofridos, danos materiais e, sobretudo, a dor de militares e seus familiares atingidos pela brutalidade da guerra. Assim, cada lado apresenta sua versão da história, o que não dissipa dúvidas sobre a confiabilidade das imagens, já que são feitas e divulgadas por sujeitos diretamente envolvidos. Folha de S.Paulo, 17 jul. 2012. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ mundo/54938-guerra-na-siria-e-narrada-em-primeira-pessoa.shtml>. Acesso em: 22 abr. 2016. Fornecido pela Folhapress

Depreende-se do texto que: a) Com o cerceamento ao seu trabalho na Síria, os jornalistas têm usado recursos próprios da ficção. Essa ficcionalização torna as notícias pouco confiáveis. b) Os relatos sobre a guerra na Síria não são confiáveis porque a narrativa histórica deve ser objetiva e não pode ser feita em primeira pessoa. c) A referência à narração em primeira pessoa é metafórica: com ela o jornalista quer dizer que as fotos que documentam a guerra não são feitas por jornalistas profissionais (3ª. pessoa), mas pelos cidadãos sírios, personagens desse conflito (1ª. pessoa). d) A referência à narração em primeira pessoa é uma denúncia do subjetivismo e da parcialidade da agência oficial de notícias síria – Sana. e) A baixa qualidade da documentação visual torna a cobertura da guerra pouco confiável. 7. (Enem/MEC) Quem não passou pela experiência de estar lendo um texto e defrontar-se com passagens já lidas em outros? Os textos conversam entre si em um diálogo constante. Esse fenômeno tem a denominação de intertextualidade. Leia os seguintes textos:

I. Quando nasci, um anjo torto Desses que vivem na sombra Disse: Vai Carlos! Ser “gauche” na vida ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. Rio de Janeiro: Aguilar, 1964.

II. Quando nasci veio um anjo safado O chato dum querubim E decretou que eu tava predestinado A ser errado assim Já de saída a minha estrada entortou Mas vou até o fim. BUARQUE, Chico. Letra e música. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.

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CAPÍTULO 4

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III. Quando nasci um anjo esbelto Desses que tocam trombeta, anunciou: Vai carregar bandeira. Carga muito pesada pra mulher Esta espécie ainda envergonhada. PRADO, Adélia. Bagagem. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

Adélia Prado e Chico Buarque estabelecem intertextualidade, em relação a Carlos Drummond de Andrade, por: a) reiteração de imagens. d) negação dos versos. b) oposição de ideias. e) ausência de recursos. c) falta de criatividade. 8. (Enem/MEC)

À garrafa Contigo adquiro a astúcia de conter e de conter-me. Teu estreito gargalo é uma lição de angústia. Por translúcida pões o dentro fora e o fora dentro para que a forma se cumpra e o espaço ressoe. Até que, farta da constante prisão da forma, saltes da mão para o chão e te estilhaces, suicida, numa explosão de diamantes. PAES, J. P. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.

A reflexão acerca do fazer poético é um dos mais marcantes atributos da produção literária contemporânea, que, no poema de José Paulo Paes, se expressa por um(a) a) reconhecimento, pelo eu lírico, de suas limitações no processo criativo, manifesto na expressão “Por translúcida pões”. b) subserviência aos princípios do rigor formal e dos cuidados com a precisão metafórica, como se observa em “prisão da forma”. c) visão progressivamente pessimista, em face da impossibilidade da criação poética, conforme expressa o verso “e te estilhaces, suicida”. d) processo de contenção, amadurecimento e transformação da palavra, representado pelos versos “numa explosão / de diamantes”. e) necessidade premente de libertação da prisão representada pela poesia, simbolicamente comparada à “garrafa” a ser “estilhaçada”.

Os gêneros literários

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A poesia lírica

capítulo

5

Neste capítulo dedicado inteiramente à poesia, elegemos um tema específico, o mais frequente no gênero lírico, em todos os tempos, mesmo na atualidade: a lírica amorosa. Lendo, analisando e interpretando poemas de épocas sucessivas, você verá a evolução desse tema na literatura em língua portuguesa.

Vai poesia doutor? Quem sabe um pouco de amor? Marcelo Mira. “Poeta”.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livro • GULLAR, Ferreira. O prazer do poema: antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014. Filme • SOCIEDADE dos poetas mortos. Direção: Peter Weir. EUA, 1990. Sites • ALGUMA POESIA. Disponível em: <http://tub.im/vj577n>. Acesso em: 20 abr. 2016. • ALICE RUIZ. Disponível em: <http://tub.im/eof7ka>. Acesso em: 20 abr. 2016. • AUGUSTO DE CAMPOS. Disponível em: <http://tub.im/coteb9>. Acesso em: 20 abr. 2016. • FERNANDO PESSOA. Disponível em: <http://tub.im/ec2hve>. Acesso em: 20 abr. 2016.

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Professor(a), a atividade da seção “E mais…” da página 74 requer preparação antecipada.

PRIMEIRA LEITURA Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas. As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas. Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas. Quem me dera o tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.

FIQUE SABENDO

Álvaro de Campos é um heterônimo de Fernando Pessoa. Caracterizado como um poeta modernista, teria sido um engenheiro naval formado em Glasgow; depois de trabalhar em Londres, teria retornado a Portugal, ao ficar desempregado. Seus poemas, em versos livres, exprimem as crises do homem moderno urbano, alternando estados de euforia e depressão, entusiasmo e desilusão.

A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.) PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. In:______. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983. p. 333.

1. O adjetivo adolescente foi usado para qualificar bilhete. No contexto esse adjetivo ganhou conotações especiais, sugerindo, com certa intenção depreciativa, que os bilhetes de amor são muito emocionais, patéticos, ou, pelo menos, próprios de pessoas imaturas. (Professor(a), explique que essa conotação resulta da transferência do atributo do autor do bilhete para o próprio bilhete. Pode-se comentar com os alunos que essa figura de linguagem que atribui a um substantivo uma qualidade que pertence a outro chama-se hipálage e pode ser considerada um tipo de metonímia.)

Em tom de conversa Você já conhece Fernando Pessoa e sabe que ele criou vários heterônimos, que são outros eus do poeta — ou eus líricos com características de poetas ficcionais, com biografia e tudo (página 57). Este poema pertence ao heterônimo Álvaro de Campos. Exponha para seus colegas suas impressões sobre o poema e como você o entendeu. Em especial, discuta as questões seguintes: 1. Retorne ao poema de Tite de Lemos no início do capítulo anterior (página 51) e procure lembrar o uso que o autor fez do adjetivo adolescente no último verso e as conotações que esse adjetivo adquiriu. 2. Indique um verso ou uma expressão do poema de Álvaro de Campos que possa ser relacionada com o adjetivo adolescente utilizado por Tite de Lemos. Explique a relação que você fez. Os alunos podem indicar um dos seguintes versos: “Também escrevi em meu tempo cartas de amor”, “Quem me dera o tempo em que escrevia”, “As minhas memórias” (ou uma das expressões neles destacadas). Espera-se que, na explicação, relacionem essas referências ao passado com o tempo em que o sujeito lírico agia livre das censuras e de um excessivo senso do ridículo, ou seja, agia pelos impulsos típicos da adolescência.

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4. Respostas pessoais. Se houver consenso de que os poemas de amor são ridículos, complique a discussão perguntado sobre as letras de música, cujos temas predominantes são o amor e os conflitos amorosos. Leve-os também a refletir sobre a diferença entre a poesia amorosa “namoradeira”, ou seja, feita com o intuito prático da declaração e da conquista, e a poesia que apenas tematiza o amor.

3. O substantivo cartas de amor e o adjetivo ridículas. Possível comentário: essas repetições são tantas (em todas as estrofes; só o substantivo não se repete na última), que destacam o tema central do poema a ponto de parecer uma ideia fixa do eu lírico.

3. O que mais chama a atenção do leitor nesse poema é a reiteração. Quais são as duas expressões mais repetidas? Comente o efeito dessas repetições. 4. Para você, as cartas de amor são ridículas? E os poemas de amor?

Releitura

Escreva no caderno

1. A palavra que divide o poema em segmentos opostos é a conjunção adversativa mas, na 4ª. estrofe, bem no centro do poema. O adjetivo ridículas¸ antes qualificador de cartas de amor, desloca-se agora para criaturas que nunca escreveram cartas de amor. Pode-se, portanto, entender uma negação implícita da afirmação anterior sobre cartas de amor.

1. A intensa repetição parece paralisar o poema na expressão da mesma ideia: as cartas de amor são ridículas. No entanto, no meio do poema há uma palavra que o divide em dois segmentos que exprimem pensamentos opostos. Localize essa palavra e explique o deslocamento que ocorre em seguida, ou seja, o que passa a ser considerado como ridículo. 2. Releia a última estrofe.

2. a) Esdrúxulo: 1. (gramática) o mesmo que proparoxítono; 2. (informal) fora dos padrões comuns e que causa espanto ou riso; esquisito, extravagante, excêntrico.

PARA NÃO ESQUECER

Reiteração é a figura de linguagem que consiste na repetição expressiva de palavra ou frase, ou de uma mesma ideia por meio de sinônimos.

a) Pesquise em dicionários os significados da palavra esdrúxulo. empregou o adjetivo nos dois sentidos. Em relação ao b) Em qual sentido Álvaro de Campos empregou esse adjetivo? Ele substantivo palavras, o adjetivo é ambíguo, podendo ter os dois em relação a sentimentos, c) Qual é a classificação da palavra ridículo quanto à posição da sílaba tônica? significados; só é possível o sentido informal: É uma palavra proparoxítona, ou seja, uma palavra esdrúxula.

3. O poema começa com uma afirmação categórica e universal: “Todas as cartas de amor são ridículas”. Considerando as respostas que você deu à questão 2, explique como o eu lírico anula, ironicamente, essa afirmação na última estrofe.

esquisito, que causa riso.

Como o adjetivo ridículo é uma palavra esdrúxula (proparoxítona), e todas as palavras esdrúxulas são ridículas, então atribuir essa característica às cartas de amor é que é ridículo. A palavra ridículo é que é ridícula (extravagante, que provoca o riso) e também, portanto, o sentimento negativo em relação às cartas de amor. Observar que essa estrofe é colocada entre parênteses, como um comentário ao texto.

A POESIA LÍRICA No capítulo anterior você já estudou as características básicas que diferenciam os três grandes gêneros literários clássicos: épico, lírico e dramático. Vamos recordar rapidamente:

Épico

Lírico

Dramático

Prosa ou poesia

Geralmente poesia

Prosa ou poesia

Evolução de acontecimentos e conflitos no tempo

Expressão do mundo interior — sentimentos

Evolução de ações e conflitos no tempo

Passado

Presente

Narrador (1ª. ou 3ª. pessoa) (mediação)

Eu lírico

Sem mediação (representação direta por atores)

O mais objetivo

O mais subjetivo

Conflito entre subjetividades

O centro do poema lírico é o eu. Tudo converge para ele ou dele irradia. Isso não significa, no entanto, que sempre encontraremos essa voz em primeira pessoa em derramada confissão de sentimentos, como tantas vezes ocorre no Romantismo:

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PARA QUE SABER?

Poema e poesia — com frequência esses dois termos são usados como sinônimos. Porém, em sentido mais específico, poema é a obra, ou o texto composto em versos. A poesia, mais difícil de ser definida, pode ser explicada como o estado de espírito, os sentimentos e as sensações provocados pela fruição do poema. Por isso se fala também de poema em prosa: o texto, geralmente curto, que, embora escrito em prosa (não em verso), provoca estados de poesia.

CAPÍTULO 5

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Oh! Que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais.

Que amor, que sonho, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!

ABREU, Casimiro de. Meus oito anos. Primaveras. In: GRANDES poetas românticos do Brasil. 5. ed. São Paulo: Discubra, 1978. p. 358. tomo I.

Dessa característica decorrem todas as outras — o tempo presente, a pequena extensão do texto, a musicalidade e o ritmo muito marcado, a linguagem extremamente conotativa e ambígua. Observe, na coluna do gênero lírico, que o campo relativo ao tempo foi deixado em branco. A forma verbal predominante nos poemas líricos é a do presente. Mas, a rigor, não se pode falar de tempo, não no mesmo sentido em que se fala nos outros gêneros. Enquanto expressão da subjetividade, não há na lírica o fluir do tempo na direção do futuro, mas um presente absoluto que se renova a cada leitura. É o tempo da vivência interior, da lembrança sempre atual e plena. Pode-se dizer que na lírica há uma suspensão do tempo. É importante sempre ter em conta que os gêneros literários constituem uma classificação criada a partir da observação das obras literárias existentes. Não são, portanto, fórmulas ou regras a que os autores devam se sujeitar. As características podem se misturar de tal modo que fica difícil definir o gênero a que determinada obra pertence. Com frequência os poetas lançam mão de elementos narrativos e descritivos e o eu lírico se disfarça por trás de uma aparente objetividade. A emoção, o “estado de poesia”, brota sem arroubos, sem emocionalismos, e irradia-se, inundando a vida, como diz Drummond: Mas a poesia deste momento Inunda minha vida inteira. (Alguma poesia)

Casimiro de Abreu (1839-1860) Poeta carioca da segunda geração romântica. O título de sua principal obra, Primaveras, alude à juventude do autor, que morreu de tuberculose aos 21 anos de idade. Seus poemas mais conhecidos são “Meus oito anos”, “Amor e medo” e “A valsa”.

FIQUE SABENDO

Romantismo é o movimento literário do século XIX marcado pelo individualismo e pela subjetividade. Com frequência as obras resvalam para o emocionalismo, o sentimentalismo. No Brasil, oficialmente, essa escola teve vigência entre as décadas de 1830 e 1870. Os principais poetas românticos foram Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Castro Alves.

A estrofe tão emocional de Casimiro de Abreu fala de bananeiras e laranjeiras.

LEITURA Leia agora um poema de Carlos Drummond de Andrade.

Cidadezinha qualquer Casas entre bananeiras Mulheres entre laranjeiras Pomar amor cantar. Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. Um burro vai devagar.

Devagar... as janelas olham. Eta vida besta, meu Deus. CIDADEZINHA QUALQUER – In: Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade, Companhia das Letras, São Paulo; Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond – www.carlosdrummond.com.br.

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Releitura

Escreva no caderno

1. c) As frases formadas com repetições de estruturas: nos dois primeiros versos: substantivo + preposição + substantivo; na segunda estrofe: artigo + substantivo + verbo + advérbio, e repetem-se os mesmos verbos e advérbios nos três versos.

1. d) Espera-se que os alunos percebam o efeito de monotonia, de vazio, de pasmaceira. A sensação de que nada muda, de que tudo é sempre lento e sempre igual.

1. Neste poema, a linguagem é predominantemente descritiva. a) A descrição da cidadezinha é objetiva ou subjetiva? Explique.

A descrição é bastante objetiva. As frases estão centradas nos detalhes observados na cidade e não no sujeito que observa.

b) Repare que a primeira estrofe é constituída só de frases nominais (sem verbo), enquanto as frases da segunda são verbais. Com base nessa diferença, pode-se dizer que na segunda estrofe a descrição é dinâmica? Embora o verbo ir denote movimento, a descrição não se torna dinâmica na segunda estrofe. A repetição do

verbo e do advérbio conotam lentidão; ou seja, a ênfase não é dada ao movimento (dinamismo), mas à lentidão.

c) Observe como são formadas as frases (versos) nas duas primeiras estrofes. O que chama a atenção no modo como foram estruturadas? d) Que sensação despertam no leitor essa descrição e a linguagem utilizada pelo poeta?

2. O último verso é o que mais revela a presença do eu lírico no poema. Que efeito ele produz verso constitui uma surpresa para o leitor. Já habituado à descrição aparentemente objetiva da cidadezinha e já tomado pela no leitor? Comente. Esse sensação de monotonia, de quase paralisia, depara-se subitamente com um comentário em linguagem coloquial. É como se o eu lírico não se contivesse e deixasse explodir o sentimento represado na descrição da cidade.

3. Com base nas respostas às questões anteriores, reformule, se julgar necessário, a resposta ao item a da primeira pergunta, e escreva um comentário sobre o poema.

A lírica amorosa

Espera-se que os alunos relativizem a consideração de que a descrição é objetiva. O uso repetido das mesmas estruturas frasais e sobretudo do advérbio devagar têm um efeito intensificador e traem a subjetividade do eu lírico, revelando seus sentimentos em relação à monotonia da cidade. Essa aparente objetividade, portanto, foi o recurso utilizado para envolver o leitor na mesma sensação de vazio e de monotonia. O último verso revela esse envolvimento, ao interrompê-lo bruscamente.

Seja o amor como o tempo – não se gaste e, se gasto, renasça, noite clara que acolhe a treva, e é clara novamente. IVO, Lêdo. Soneto puro. In: ______ . Poesia completa: 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004. p. 206.

A poesia lírica pode abordar qualquer tema, tanto as mais complexas questões existenciais e sociais quanto as mais comezinhas experiências da vida cotidiana. O que a distingue não é o assunto, mas a pulsão emocional provocada por sua linguagem. Apesar disso, ou talvez por isso, o tema mais frequente da poesia lírica, em todos os tempos, é o amor. O amor idealizado, platônico, mas também o amor sensual; o desejo e a realização física; a felicidade e a frustração amorosa. Enfim, as experiências individuais do amor e a reflexão sobre o amor. Os poemas selecionados para leitura nas próximas páginas são uma pequena amostra da diversidade e da riqueza desse tema através dos tempos.

As cantigas trovadorescas Na literatura em língua portuguesa, devemos buscar as origens da poesia na Idade Média, a partir do final do século XII. Nessa época ainda não existia a língua portuguesa que falamos hoje, mas o galego-português, falado na Galiza e no norte de Portugal. Os poemas compostos pelos trovadores eram chamados de cantigas, porque não se destinavam à leitura, mas a serem cantados em público e acompanhados por instrumentos musicais. As chamadas cantigas de amor, de origem aristocrática, exprimiam o sentimento masculino e idealizavam o amor e a mulher por meio de uma linguagem simbólica que repercutia as rígidas convenções da sociedade feudal (o amor cortês, a vassalagem amorosa). As cantigas de amigo, de origem popular, exprimiam os anseios amorosos da mulher, eram mais realistas, e seus temas refletiam as vivências cotidianas da população rural e urbana.

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CAPÍTULO 5

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LEITURA Leia atentamente a cantiga abaixo, com o auxílio da tradução literal.

Cantiga de amigo Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo? E ai Deus, se verra cedo! Ondas do mar levado, se vistes meu amado? E ai Deus, se verra cedo! Se vistes meu amigo, o por que eu sospiro? E ai Deus, se verra cedo! Se vistes meu amado, por que ei gram coidado? E ai Deus, se verra cedo! Ondas do mar de Vigo, acaso vistes meu amigo? Queira Deus que ele venha cedo! Ondas do mar agitado, acaso vistes meu amado? Queira Deus que ele venha cedo!

Martim Codax

Acaso vistes meu amigo, aquele por quem suspiro? Queira Deus que ele venha cedo! Acaso vistes meu amado, por quem tenho grande cuidado (preocupação)? Queira Deus que ele venha cedo! CODAX, Martim. In: GONÇALVES, Elsa. A lírica galego-portuguesa. Lisboa: Comunicação, 1983. p. 161.

Em tom de conversa

Trovador-jogral da época de Afonso III (meados do século XIII). Conhecem-se sete cantigas de sua autoria, as únicas das quais se conservaram as notações musicais.

Vigo: cidade portuária da Galiza.

2. Os alunos podem imaginar histórias de amor, mas é importante que formulem hipóteses ancoradas nos índices dados pelo texto: o namorado está ausente e ela, preocupada, quer notícias. Ele pode ter partido para a pesca, ou em viagem comercial, ou mesmo para a guerra. Seu “gram coidado” sugere que ele já deveria ter voltado, ou que sua viagem oferece riscos.

Exponha para os colegas suas impressões sobre a cantiga e discuta com eles as seguintes questões: 1. Qual é o significado da palavra amigo na cantiga?

Namorado.

2. Que história de amor pode estar por trás das perguntas que a moça dirige às ondas do mar? 3. Essa cantiga é feita de poucos versos, que se repetem com algumas modificações.

A qual característica da poesia medieval está relacionado esse processo repetitivo? Esse processo repetitivo está relacionado ao fato de a poesia medieval ser cantada. A repetição intensifica o ritmo e facilita a memorização e é comum nas músicas populares. Observar uso do refrão, também característico da música. A poesia lírica

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E MAIS... Muitas das características das cantigas de amor e de amigo podem ser reencontradas nas letras de música popular de nossa época. Pesquisa 1. Pesquise letras de música popular cujo tema seja o amor. Você pode se orientar por seu conhecimento anterior e seu gosto, mas também é interessante fazer novas descobertas e ampliar seu repertório. 2. Reuna-se com alguns colegas. Escolha duas letras e apresente a ele. 3. Ajude seu grupo a selecionar duas das músicas apresentadas pelos participantes, a analisar os textos escolhidos e a escrever um roteiro da apresentação do trabalho para a classe.

Análise A análise das duas letras de música popular escolhidas pelo grupo deve focalizar:

NAVEGAR É PRECISO

Existem reconstituições das cantigas, realizadas por grupos especializados em música medieval, e até coreografias criadas com base na obra de Martim Codax, como as do Grupo Corpo para o balé Sem mim. Vale a pena visitar o site <http://tub.im/kjs5ar>. (acesso em: 20 abr. 2016) e pesquisar na internet as cantigas apresentadas e seu autor.

1. Informações sobre a música (gênero, época do lançamento, intérprete, sucesso obtido etc.) e sobre o autor e/ou intérprete. 2. Interpretação do tema ou motivo (por exemplo: saudade, queixa, ciúme, amor não correspondido, briga, reconciliação etc.). 3. Semelhanças das letras com as características das cantigas trovadorescas: eu lírico (feminino, como nas cantigas de amigo, ou masculino, como nas de amor), concepção realista ou idealizada do amor, recursos rítmicos (rimas, uso de repetições, presença ou ausência de refrão).

Apresentação É importante escrever um roteiro, atribuindo funções aos participantes e marcando o tempo necessário a cada apresentador. O uso de recursos audiovisuais variados (cartazes, lousa, projeção de slides, projeção de vídeos e clipes, reprodução eletrônica de música, interpretação ao vivo etc.) tornará a apresentação mais interessante. Quaisquer que sejam os recursos, o grupo não deve perder de vista que o centro do trabalho é a análise das letras de música.

A poesia escrita No século XV, último da era medieval, o português já começara a adquirir características de língua autônoma. As produções poéticas separaram-se da música, embora ainda fossem declamadas nos salões dos palácios (por isso são chamadas de poesia palaciana). Dessa época em diante, cada vez mais, a poesia destina-se à leitura individual e solitária. A invenção da imprensa (meados do século) e a multiplicação dos livros acentuarão essa caraterística. Sem o apoio da pauta e dos instrumentos musicais, a dimensão sonora dos poemas, limitada ao uso da palavra escrita, exige recursos expressivos mais requintados.

LEITURA O texto que você vai ler a seguir é considerado um dos mais belos poemas da lírica amorosa em língua portuguesa. Procure sentir o tom de profunda tristeza que o ritmo confere ao poema.

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CAPÍTULO 5

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Cantiga sua partindo-se Senhora, partem tão tristes meus olhos por vós, meu bem, que nunca tão tristes vistes outros nenhuns por ninguém. Tão tristes, tão saudosos, tão doentes da partida, tão cansados, tão chorosos, da morte mais desejosos cem mil vezes que da vida. Partem tão tristes os tristes, tão fora d’esperar bem, que nunca tão tristes vistes outros nenhuns por ninguém. BRANCO, João Ruiz de Castelo. In: SPlNA, Segismundo. Presença da literatura portuguesa: Era Medieval. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1966. p. 12.

Em tom de conversa 1. Exponha para os colegas suas impressões sobre o poema. Destaque os versos de que mais gostou e explique por quê. Resposta pessoal. 2. Explique como você entendeu o poema. Organize sua explicação a partir das seguintes perguntas: a) Qual é a situação causadora dos sentimentos expressos pelo eu lírico? Espera-se que os alunos identifiquem a partida da amante, a separação. b) Que interpretação você dá ao verso “tão fora d’esperar bem”? 1. Metonímia (sinédoque): “partem tão tristes / meus olhos por vós”. Ao dizer que seus olhos partem, o sujeito lírico designa a parte (os olhos) pelo todo (ele). O efeito expressivo dessa sinédoque advém do fato de o eu lírico concentrar-se, ou Escreva resumir-se nos olhos, no momento da no caderno despedida: ele todo se tornou olhos.

Releitura

As questões a seguir foram formuladas para dirigir sua atenção para os recursos estilísticos utilizados pelo poeta. Ao final, releia o poema em voz alta, procurando enfatizar esses recursos e sentir a força expressiva do conjunto. 1. Toda a linguagem e a expressividade desse poema organizam-se em torno de uma metonímia ou, mais especificamente, de uma sinédoque. Identifique-a na primeira estrofe e escreva um pequeno comentário sobre ela. 2. Na segunda estrofe, há uma longa amplificação da tristeza, que Os adjetivos enumerados são tristes, saudosos, culmina em uma hipérbole.a)doentes, cansados, chorosos e desejosos. a) Quais são os adjetivos enumerados na amplificação? b) Qual palavra, já tendo aparecido em versos anteriores, é repetida insistentemente nessa estrofe? Classifique-a gramaticalmente e explique o efeito que ela provoca no contexto. c) Identifique os versos que apresentam hipérbole e reescreva-os na ordem sintática direta. Cem mil vezes mais desejosos da morte que da vida.

João Ruiz de Castelo Branco Viveu na segunda metade do século XV. É um dos inúmeros poetas do Cancioneiro geral. “Cantiga sua partindo-se” é, merecidamente, um dos mais conhecidos poemas do período humanista. A delicadeza expressiva dessa pequena cantiga bastou para perpetuar o nome desse autor.

FIQUE SABENDO

Cancioneiro geral é o livro que reúne poemas escritos em castelhano e em português entre os séculos XV e XVI.

2. b) Os alunos devem interpretar o verso como expressão da desesperança: o eu lírico não acredita que a separação seja apenas temporária. Na verdade, o verso traz a possibilidade de outra interpretação, que afeta o sentido de todo o texto. Na poesia medieval, a expressão “fazer bem” significa corresponder ao amor e, “às vezes, eufemismo por: entregar-se a mulher fisicamente ao homem” (VIEIRA, Yara Frateschi. Poesia medieval. São Paulo: Global, 1987. p. 196.). Se dermos ao verso esse sentido, a “partida” pode ser interpretada como uma ruptura amorosa por não ter a mulher correspondido aos desejos do eu lírico.

PARA NÃO ESQUECER

Metonímia — figura de linguagem que consiste na substituição de uma palavra por outra, quando entre elas existe contiguidade (vizinhança) de sentidos que permite essa troca. Sinédoque — tipo de metonímia em que a palavra que indica o todo de um ser é substituída por outra que indica apenas uma parte dele. Hipérbole — figura de linguagem que consiste no emprego de palavras que indicam exagero.

A metonímia, a sinédoque e a metáfora, figuras de linguagem, são trabalhadas no capítulo 4 de Gramática.

PARA NÃO ESQUECER

Amplificação é a figura de estilo que consiste no desdobramento de uma palavra ou uma ideia, desenvolvendo vários dos seus aspectos. A técnica mais utilizada é a da enumeração.

2. b) A palavra é tão e classifica-se como advérbio de intensidade. A repetição enfatiza as características expressas pelos adjetivos do texto. A poesia lírica

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3. Ao longo do poema ocorre a repetição de um adjetivo. a) Que adjetivo é esse?

Tristes.

b) Qual é o efeito pretendido com a repetição desse adjetivo?

Pretende-se dar ênfase ao sentimento do eu lírico, amplificá-lo.

c) Há um momento em que o autor torna o adjetivo mais expressivo, substantivando-o. Transcreva o verso em que isso ocorre. Qual é o efeito dessa substantivação?

“Partem tão tristes os tristes”. Observar que “os tristes” está substituindo “os olhos”; portanto a qualidade tornou-se a substância, os olhos identificaram-se com a própria tristeza. (Pode-se refazer a cadeia: eu lírico = olhos = os tristes (a própria tristeza); portanto eu lírico = tristeza).

Comentário

Em “Cantiga sua partindo-se”, João Ruiz de Castelo Branco retoma os temas tradicionais das cantigas trovadorescas, ampliando-os e enriquecendo-os com procedimentos rítmicos e expressivos notadamente mais requintados. Observe: • as aliterações (repetição expressiva de fonemas consonantais), como a repetição do fonema /t/ ao longo de todo o poema: “Senhora, partem tão tristes”; • as assonâncias (repetição expressiva de fonemas vocálicos), como /o/ em “chorosos, / da morte mais desejosos”; • as reiterações (repetição expressiva de palavras), como acontece com a palavra tristes, repetida seis vezes ao longo do poema, e com o advérbio de intensidade tão, repetido dez vezes, das quais cinco na segunda estrofe; • as rimas internas, como em “tristes vistes”, produzindo um eco.

A racionalização do amor

Luís Vaz de Camões (1524/25?-1580) A biografia do maior vulto da literatura portuguesa é envolta em lendas: a perda do olho direito na batalha de Ceuta (Marrocos), a vida boêmia, as brigas, a prisão e o desterro na Índia e em Macau, a paixão por uma chinesa (Dinamene), o retorno, o naufrágio, o final da vida na miséria — nada foi jamais reconstituído por falta de documentação. Sua poesia lírica está reunida no livro Rimas, publicado 15 anos após sua morte. Os Lusíadas, o principal poema épico de nossa literatura, é um verdadeiro monumento às conquistas marítimas de Portugal nos séculos XV e XVI. Essa obra foi publicada em 1572, quando o poeta ainda era vivo.

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No Renascimento (século XVI), os poetas buscam um equilíbrio entre razão e emoção, entre razão e imaginação. Mesmo na lírica amorosa, procuram dar um tom de impessoalidade à dicção poética por meio da reflexão sobre o amor ideal. Camões foi o maior poeta renascentista e um dos principais autores de toda a literatura em língua portuguesa. Sua poesia amorosa está ligada a uma concepção neoplatônica do amor. Isso quer dizer que, para Camões, o Amor (com inicial maiúscula) é um ideal superior, único e perfeito, o Bem supremo pelo qual ansiamos. Mas, seres decaídos e imperfeitos, somos incapazes de atingir esse ideal. Resta-nos a contingência do amor físico (com inicial minúscula), simples imitação do Amor ideal. A constante tensão entre esses dois polos gera toda a angústia e insatisfação da alma humana.

FIQUE SABENDO

Renascimento ou Classicismo No sentido mais amplo, é o movimento cultural que, em sua grande diversidade de manifestações, muitas vezes conflitantes, concretiza historicamente a mentalidade renovadora antimedieval. Em sentido mais estrito, é a assimilação da cultura greco-latina promovida pelos humanistas.

CAPÍTULO 5

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Le itu ra de im ag em Um exemplo de pintura renascentista O florentino Sandro Botticelli (Sandro di Mariano Filipepi, c. 1445-1510) foi um dos grandes pintores renascentistas italianos. Dentre suas obras destacam-se as belíssimas Madonnas e os quadros com motivo mitológico como O nascimento de Vênus, Palas e o Centauro, Vênus e Marte e A primavera. Uma das características do Classicismo em todas as artes é a constante utilização alegórica da mitologia greco-latina. O quadro A primavera, reproduzido a seguir, é bastante enigmático. Ele teria sido pintado por encomenda de Lorenzo de Medici, o Magnífico, como presente para as núpcias de seu sobrinho Lorenzo. O tema, portanto, deveria ser o casamento. Para isso, Botticelli recorreu à mitologia latina, criando uma alegoria da primavera, estação do amor e da fecundidade. Observe o quadro, acompanhando as setas e as explicações. Isolada no centro do quadro, Vênus, deusa do amor e da beleza, preside, como uma rainha, os acontecimentos em sua corte.

Cupido, de olhos vendados, dispara sua seta em uma das três Graças.

Zéfiro, deus do vento, assopra sobre a ninfa Clóris.

BOTTICELLI, Sandro. A primavera. c. 1478. Têmpera sobre madeira, 203 × 314 cm. Galeria degli Uffizi, Florença

A cena acontece no Jardim de Vênus, muito florido, alegoria do amor e do casamento. O pintor representou neste quadro quase 500 espécies de plantas.

Mercúrio levanta o caduceu, expulsando as nuvens (paz no amor).

As três Graças — Aglae, Talia e Eufrosina —, cobertas apenas por um véu transparente, representam a sedução.

Segundo um relato de Ovídio, ao sopro de Zéfiro, Clóris transforma-se em Flora.

Zéfiro representa a paixão, o desejo carnal. Não podendo possuir Clóris, transforma-a na deusa das flores, da primavera e da fecundidade (alegoria da idealização do amor). A poesia lírica

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LEITURA Soneto Busque Amor novas artes, novo engenho, para matar-me, e novas esquivanças; que não pode tirar-me as esperanças, que mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho! Vede que perigosas seguranças! Que não temo contrastes nem mudanças, andando em bravo mar, perdido o lenho. Mas, conquanto não pode haver desgosto onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê. Que dias há que n’alma me tem posto um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei por quê. CAMÕES, Luís de. Rimas. Texto estabelecido, revisto e prefaciado por Álvaro J. da Costa Pimpão. Coimbra: Atlântida, 1973. p. 118.

Releitura

Escreva no caderno

A metáfora e a metonímia, figuras de linguagem, são trabalhadas no capítulo 4 de Gramática. No capítulo 1, foi vista a metáfora e, no 3, a metonímia.

2. Oximoro: “perigosas seguranças”. Possível interpretação: Camões pretendeu exprimir a perplexidade do eu lírico diante do absurdo de sua situação: a esperança de não sofrer mais por não ter mais esperança.

1. Qual é a métrica usada por Camões no soneto? Comprove sua resposta fazendo a escansão de um verso. Versos decassílabos. Resposta pessoal. Sugestão: “Bus / que A / mor / no / va / sar / tes, / no / vo en / ge / nho”

2. Na segunda estrofe há um oximoro (ou paradoxo). Identifique-o e explique o que Camões quis exprimir com ele. 3. No oitavo verso, o autor utiliza uma metáfora náutica: “andando em bravo mar, perdido o lenho.”. Metáforas como essa são lugares-comuns na poesia renascentista. Procuremos entendê-la: “bravo mar” é metáfora de “vida agitada”; “lenho” é “navio”, por metonímia. No contexto do poema, o que o “lenho”, Representa a esperança perdida. A perda da ou navio, perdido representa? esperança é o “naufrágio” do sujeito lírico.

4. É grande a intensidade emocional desse soneto. Entretanto Camões equilibra a expressão do desespero amoroso com o raciocínio (lembre-se de que o Classicismo procura o equilíbrio entre razão e emoção), desenvolvendo um discurso em tese e antítese. O pior mal que o Amor poderia causar ao sujeito

a) Resuma a tese apresentada nos quartetos. lírico seria tirar-lhe as esperanças. Como ele já não as possui, nada mais deve temer. b) A antítese começa com a conjunção adversativa mas. Resuma a contradição apresentada no primeiro terceto. Apesar da impossibilidade lógica de os seus desgostos aumentarem, o

PARA NÃO ESQUECER

Oximoro — figura de linguagem que justapõe dois termos que se contradizem. Exemplo: “Mas que [o amor] seja infinito enquanto dure” (Vinicius de Moraes) — neste verso, a expressão “enquanto dure” contradiz a outra, “seja infinito”, pois o infinito não acaba, não pode ter prazo de duração. Antítese — figura de linguagem que se caracteriza pelo emprego de palavras de significados opostos.

Amor lhe reserva ainda um grande mal, invisível, escondido na alma.

5. O que conclui o sujeito lírico nos dois últimos versos do soneto? O sujeito lírico conclui que é incapaz de compreender o processo amoroso.

A explosão dos sentimentos No final do Renascimento rompe-se o equilíbrio entre razão e emoção, o que já pode ser percebido na lírica camoniana. O Barroco, nos séculos XVII e XVIII, será a expressão de profundos conflitos existenciais e religiosos (capítulo 3, página 48). Na poesia amorosa, a idealização do amor convive, lado a lado, com poemas brejeiros e mesmo licenciosos. Gregório de Matos, o poeta boêmio apelidado Boca do Inferno (capítulo 4, página 61) chegou a essa definição do amor:

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CAPÍTULO 5

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Isto, que o Amor se chama, este, que vidas enterra, [...] este, que o ouro despreza, faz liberal o avarento, é assunto dos poetas: [...] Arre lá com tal amor! isto é amor? é quimera, que faz de um homem prudente converter-se logo em besta. O Amor é finalmente Um embaraço de pernas, Uma união de barrigas, Um breve tremor de artérias. Uma confusão de bocas, Uma batalha de veias, Um reboliço de ancas, Quem diz outra coisa, é besta. MATOS, Gregório de. Gregório de Matos: obra poética. Edição James Amado. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992. v. II.

Mas é no século XIX, com o Romantismo, quando a literatura passou a valorizar o individualismo, que houve uma verdadeira explosão sentimental na lírica amorosa, como no exemplo que vimos na poesia de Casimiro de Abreu.

Garnier, M.J./Biblioteca Nacional Digital

LEITURA Soneto Pálida, à luz da lâmpada sombria, Sobre o leito de flores reclinada, Como a lua por noite embalsamada, Entre as nuvens do amor ela dormia! Era a virgem do mar! na escuma fria Pela maré das águas embalada! Era um anjo entre nuvens d’alvorada Que em sonhos se banhava e se esquecia! Era mais bela! o seio palpitando... Negros olhos as pálpebras abrindo... Formas nuas no leito resvalando... Não te rias de mim, meu anjo lindo! Por ti — as noites eu velei chorando, Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo! AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. Rio de Janeiro: Garnier, 1994. p. 46.

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852) Pertence à segunda geração romântica, chamada de Ultrarromantismo. Como seus companheiros de geração, teve uma vida muito curta (foi vitimado pela tuberculose e por um tumor no abdome, causado por uma queda de cavalo). Toda a sua obra, escrita entre 1848 e 1852, no período em que estudou na Faculdade de Direito de São Paulo, foi publicada postumamente. As obras mais importantes são Lira dos vinte anos (poesia) e Noite na taverna (contos).

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Releitura

Escreva no caderno

1. O poeta utilizou sete pontos de exclamação e três reticências. O excesso desses sinais tem por objetivo acentuar o tom emocional, a admiração. As reticências são sugestivas do pensamento erótico não verbalizado.

1. Observe no poema os sinais de pontuação. Que efeito de sentido o poeta pretendeu provocar com eles? 2. Por ser um sonho, a mulher desse soneto possui imagens cambiantes, isto é, sua descrição muda ao longo do texto. a) Identifique algumas dessas imagens nas duas primeiras estrofes.

A mulher é pálida e está reclinada sobre um leito de flores; ela dorme entre as nuvens do amor; é embalada pela maré; é um anjo entre nuvens d’alvorada.

b) Há alguma contradição entre essas imagens que caracterizam a mulher? Explique. 3. Leia a seguinte afirmação de Mário de Andrade:

Sim. Na segunda estrofe ela se caracteriza pela pureza, é uma virgem e um anjo. Contraditoriamente, na terceira estrofe ela se caracteriza pela beleza física, pela nudez e pela sensualidade.

Álvares de Azevedo sofreu como nenhum, apavoradamente, o prestígio romântico da mulher. Pra ele a mulher é uma criação absolutamente sublime, divina e... inconsútil. O amor sexual lhe repugnava, e pelas obras que deixou é difícil dizer que tivesse experiência dele. ANDRADE, Mário de. Amor e Medo. In: ______ . Aspectos da literatura brasileira. 6. ed. São Paulo: Martins, 1978. p. 202.

• Qual verso do soneto exprime a timidez e a insegurança do sujeito lírico diante da mulher? Comente. “Não te rias de mim, meu anjo lindo!”. Mesmo sendo apenas fruto de sua imaginação, o eu lírico teme que a mulher o considere ridículo e se ria de sua declaração de amor.

“Hoje sou moço moderno”

Agência O Globo

A reação aos excessos do subjetivismo veio com o Parnasianismo, movimento literário do final do século XIX, que privilegiou a objetividade e a perfeição formal. No século XX, com as vanguardas modernistas, houve uma explosão de criatividade e de renovação, mas a lírica amorosa não desapareceu. Antes, renovou-se, multiplicando seus temas e sua dicção. Você leu dois poemas de Fernando Pessoa, um dos poetas mais originais da literatura em língua portuguesa, que falam do amor. Leu também a “Balada do amor através das idades” de Carlos Drummond de Andrade. Hoje, na era da cibernética e das redes sociais, o amor continua em pauta. E os poetas continuam a falar dele.

LEITURA Artes de amar A Suzana Vargas

paixão e alpinismo

sensação simultânea de céu e abismo

Antonio Carlos Secchin (1952-)

paixão e astronomia

mais do que contar estrelas vê-las à luz do dia

amor antigo e matemática

equação rigorosa: um centímetro de poesia dez quilômetros de prosa

Carioca, professor universitário, ensaísta, crítico literário e poeta. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2004. Alguns de seus livros de poesia: Ária de estação, Elementos, Diga-se de passagem, Poema para 2002, Todos os ventos e 50 poemas escolhidos pelo autor.

SECCHIN, Antonio Carlos. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 49.

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1. O poema foi composto em duas colunas, como uma tabela ou uma ficha catalográfica das artes ou técnicas de amar. A primeira coluna apresenta um índice ou classificação, relacionando o amor a algumas artes ou técnicas (alpinismo, astronomia e matemática); a segunda descreve as artes de amar classificadas na primeira.

Em tom de conversa Discuta com seus colegas as seguintes questões sobre o poema “Artes de amar”: 1. Os versos foram dispostos visualmente de uma maneira pouco usual. O que essa disposição sugere, se a relacionarmos com o título do poema? 2. As descrições das três artes de amar são feitas por imagens muito sugestivas, que se abrem à interpretação do leitor. Escolha uma delas e explique para seus colegas como você a interpretou. Ouça os comentários sobre sua interpretação interpretações: 1. Alpinismo: o amor como aventura radical, e comente as dos seus colegas. Possíveis o amor como vertigem, o deslumbramento da visão do céu, a sensação de

FIQUE SABENDO

O título do poema “Artes de amar” remete ao da obra Ars amatoria (Arte de amar) de Ovídio, escritor latino (43 a.C.18 d.C.) — coleção de poemas eróticos em três volumes sobre a arte (técnica) da sedução.

atingir grandes alturas e o risco da precipitação no abismo. 2. Astronomia: o amor como sonho, como relação com o infinito, com o inatingível, como capacidade de ver o sublime mesmo nos momentos em que o mundo próximo e real se impõe com sua claridade. 3. Matemática: o desgaste do amor que perdura, tornando-se corriqueiro, VOCÊ ESTUDOU prosaico, banal, mas conservando ainda alguma poesia (encantamento).

RESUMINDO O QUE

Neste capítulo você fez uma revisão das características básicas diferenciadoras dos três gêneros literários clássicos, para, em seguida, aprofundar o conhecimento da poesia lírica. • A poesia lírica distingue-se por ser expressão profunda da subjetividade e da emoção. Dessa característica decorrem todas as outras — a pequena extensão do texto, a musicalidade e o ritmo muito marcado, a linguagem extremamente conotativa e ambígua, como você percebeu nas leituras dos poemas. • Nem sempre o eu lírico se patenteia no poema. O autor pode lançar mão de uma linguagem objetiva, utilizar os tipos textuais narrativo e descritivo, deixando a voz lírica implícita no texto. • A lírica amorosa é o subgênero poético mais cultivado em toda a história da literatura e continua presente na produção poética do século XXI. Você fez uma pequena viagem pela história, visitando alguns poemas de diferentes épocas. Nessa viagem, constatou a variedade da expressão do amor, que vai variando da idealização e do sonho ao realismo mais cru, do emocionalismo derramado à racionalização do sentimento.

Atividades

Escreva no caderno

Ainda hoje, tantos séculos depois que foi escrito, o poema de João Ruiz de Castelo Branco continua impressionando os leitores. José Saramago, um dos principais autores portugueses da atualidade, “dialoga” com ele no poema que você vai ler a seguir.

Lembrança de João Roiz de Castel’Branco Não os meus olhos, senhora, mas os vossos, Eles são que partem às terras que não sei, Onde memória de mim nunca passou, Onde é escondido meu nome de segredo. Se de trevas se fazem as distâncias, E com elas saudades e ausências, Olhos cegos me fiquem, e não mais Que esperar do regresso a luz que foi. João Roiz de Castel’Branco by José Saramago. Copyright © José Saramago 1966, used by permission of the Wylie Agency (UK) Limited.

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1. Ainda que o título do poema de Saramago não fizesse uma referência explícita à cantiga de Castelo Branco, o leitor poderia identificar, já nos primeiros versos, o seu intertexto. Por quê? Saramago utiliza a mesma metonímia criada por Castelo Branco (os olhos que partem) e chama a amada de “senhora”.

2. Podemos dizer que os dois primeiros versos “corrigem”, expressivamente, os versos de João Ruiz de Castelo Branco. Explique essa correção.

Os dois primeiros versos constituem uma expressiva “correção” da “Cantiga sua partindo-se”, pois, agora, é a amada quem parte.

PARA NÃO ESQUECER

Intertexto é o texto preexistente a outro texto, ao qual este se reporta e recorre em sua elaboração.

3. O tema da partida ou da despedida é recorrente na poesia portuguesa medieval. No século XV, ele se inclui no contexto histórico e social da aventura marítima, que deslocou tantos portugueses para terras distantes. Como você interpreta o verso “Eles são que partem às terras que não sei”, do poema de Saramago? Resposta pessoal. O aluno deve perceber que a imagem “terras que não sei” remete ao significado da separação e do abandono definitivo, que se confirma no 3º. e no 4º. versos. Não se trata de uma despedida temporária, mas da ruptura e da impossibilidade do amor.

4. Em “Cantiga sua partindo-se”, a expressão da tristeza culmina em uma hipérbole. Qual é, no poexpressão máxima do seu desespero ema de Saramago, a expressão máxima do desespero do sujeito lírico? Adá-se nos dois últimos versos, em que o

sujeito lírico deseja ficar cego para não mais esperar inutilmente o retorno da luz, representada pela amada.

Leia o poema e responda às questões de 5 a 7.

Soneto Ó tu do meu amor fiel traslado Mariposa, entre as chamas consumida, Pois se à força do ardor perdes a vida, A violência do fogo me há prostrado. Tu de amante o teu fim hás encontrado, Essa flama girando apetecida, Eu girando uma penha endurecida, No fogo, que exalou, morro abrasado. Ambos, de firmes, anelando chamas, Tu a vida deixas, eu a morte imploro Nas constâncias iguais, iguais nas famas. Mas, ai!, que a diferença entre nós choro; Pois acabando tu ao fogo, que amas, Eu morro, sem chegar à luz, que adoro. MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. São Paulo: Cultrix, 1981. p. 225.

fiel traslado: fiel tradução, isto é, imagem fiel; prostrado: abatido; apetecida: desejada, intensamente cobiçada; penha: rocha, penhasco; anelar: desejar.

5. O poema desenvolve uma imagem — ou o “fiel traslado” — do amor: a mariposa girando em torno da chama de uma lâmpada ou de uma vela. a) O que a mariposa representa nessa imagem? b) E a chama?

Representa o amante, o sujeito lírico.

Representa a mulher amada, aquela que atrai o sujeito lírico.

6. A metáfora da pedra, ou da penha, como no texto, também é um lugar-comum utilizado na linguagem cotidiana: “coração de pedra”. Por que o sujeito lírico diz que morre “girando uma penha endurecida”? Porque a mulher amada não corresponde ao seu amor. 7. Até a terceira estrofe, o poema desenvolve a imagem detalhando as semelhanças entre o amor e a atração que a chama exerce sobre a mariposa. Por que, então, apesar de todas as semelhanças, a situação do amante é pior do que a da mariposa, segundo se depreende da última estrofe? Porque a mariposa morre, mas atinge o fogo que a atrai, enquanto o amante morre inutilmente, sem nunca atingir a luz, isto é, sem conquistar a mulher amada.

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8. (Enem/MEC)

da sua memória mil e mui tos out ros ros tos sol tos pou coa pou coa pag amo meu

Trabalhando com recursos formais inspirados no Concretismo, o poema atinge uma expressividade que se caracteriza pela a) interrupção da fluência verbal, para testar os limites da lógica racional. b) reestruturação formal da palavra, para provocar o estranhamento no leitor. c) dispersão das unidades verbais, para questionar o sentido das lembranças. d) fragmentação da palavra, para representar o estreitamento das lembranças. e) renovação das formas tradicionais, para propor uma nova vanguarda poética.

ANTUNES, A. 2 ou + corpos no mesmo espaço. São Paulo: Perspectiva, 1998.

9. (Enem-MEC)

Cântico VI Tu tens um medo de Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres de amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de morrer. E então serás eterno.

A poesia de Cecília Meireles revela concepções sobre o homem em seu aspecto existencial. Em Cântico VI, o eu lírico exorta seu interlocutor a perceber, como inerente à condição humana, a) a sublimação espiritual graças ao poder de se emocionar. b) o desalento irremediável em face do cotidiano repetitivo. c) o questionamento cético sobre o rumo das atitudes humanas. d) a vontade inconsciente de perpetuar-se em estado adolescente. e) um receio ancestral de confrontar a imprevisibilidade das coisas.

MEIRELES, C. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1963 (fragmento).

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A crônica No capítulo anterior, você fez um passeio pela poesia lírico-amorosa, dos tempos antigos aos atuais. Neste capítulo, vamos conhecer a crônica, um gênero textual que transita entre o jornalismo e a literatura, que entretém, diverte, emociona e costuma ser de fácil acesso, pois apresenta muitas vezes uma linguagem despojada e um tom de oralidade. A crônica é nossa entrada na literatura em prosa, depois do passeio poético do capítulo anterior.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livros • ANDRADE, Carlos Drummond de et al. Para gostar de ler: crônicas. São Paulo: Ática, 1988. v. 1 a 5. • CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. Recontado por Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1992. • SANTOS, Joaquim Ferreira dos. (Org. e indrod.) As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. Sites • CMAIS. Sabor da crônica. Disponível em: <http://tub.im/2ddp6k>. Acesso em: 13 abr. 2016. • INSTITUTO MOREIRA SALLES. Cadernos de Literatura Brasileira disponíveis on-line. 27 maio 2015. Blog do IMS. Disponível em: <http://tub.im/skiq3p>. Acesso em: 13 abr. 2016.

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PRIMEIRA LEITURA A moça rica A madrugada era escura nas moitas de mangue, e eu avançava no batelão velho; remava cansado, com um resto de sono. De longe veio um rincho de cavalo; depois, numa choça de pescador, junto do morro, tremulou a luz de uma lamparina. 2 Aquele rincho de cavalo me fez lembrar a moça que eu encontrara galopando na praia. Ela era corada, forte. Viera do Rio, sabíamos que era muito rica, filha de um irmão de um homem de nossa terra. A princípio a olhei com espanto, quase desgosto: ela usava calças compridas; fazia caçadas, dava tiros, saía de barco com os pescadores. Mas na segunda noite, quando nos juntamos todos na casa de Joaquim Pescador, ela cantou [...], como todos nós, e cantou primeiro uma coisa em inglês, depois o Luar do sertão e uma canção antiga que dizia assim: “Esse alguém que logo encanta deve ser alguma santa”. Era uma canção triste. 3 Cantando, ela parou de me assustar; cantando, ela deixou que eu a adorasse com essa adoração súbita, mas tímida, esse fervor confuso da adolescência – adoração sem esperança, ela devia ter dois mais do que eu. E amaria o rapaz de suéter e sapato de basquete, que costuma ir ao Rio, ou (murmurava-se) o homem casado, que já tinha ido até à Europa e tinha um automóvel e uma coleção de espingardas magníficas. Não a mim, com minha pobre flaubert, não a mim, de calça e camisa, descalço, não a mim, que não sabia lidar nem com um motor de popa, apenas tocar um batelão com meu remo. 4 Duas semanas depois que ela chegou é que a encontrei na praia solitária; eu vinha a pé, ela veio galopando a cavalo; vi-a de longe, meu coração bateu adivinhando quem poderia estar galopando sozinha a cavalo, ao longo da praia, na manhã fria. Pensei que ela fosse passar me dando apenas um adeus, esse “bom-dia” que no interior a gente dá a quem encontra; mas parou, o animal resfolegando e ela respirando forte, com os seios agitados dentro da blusa fina, branca. São as duas imagens que se gravaram na minha memória desse encontro: a pele escura e suada do cavalo e a seda branca da blusa; aquela dupla respiração animal no ar fino da manhã. 5 E saltou, me chamando pelo nome, conversou comigo. Séria, como se eu fosse um rapaz mais velho do que ela, um homem como os de sua roda, com calças de palm-beach, relógio de pulso. Perguntou coisas sobre peixes; fiquei com vergonha de não saber quase nada, não sabia os nomes dos peixes que ela dizia, deviam ser peixes de outros lugares mais importantes, com certeza mais bonitos. Perguntou se a gente comia aqueles cocos dos coqueirinhos junto da praia — e falou de minha irmã, que conhecera, quis saber se era verdade que eu nadara desde a ponta do Boi até perto da lagoa. 6 De repente me fulminou: “Por que você não gosta de mim? Você me trata sempre de um modo esquisito...”. Respondi, estúpido, com a voz rouca: “Eu não”. 7 Ela então riu, disse que eu confessara que não gostava mesmo dela, e eu disse: “Não é isso”. Montou o cavalo, perguntou se eu não queria ir na garupa. Inventei que precisava passar na casa dos Lisboa. Não insistiu, me deu um adeus muito alegre; no dia seguinte foi-se embora. 8 Agora eu estava ali remando no batelão, para ir no Severone apanhar uns camarões vivos para isca; e o relincho distante de um cavalo me fez lembrar a moça bonita e rica. Eu disse comigo — rema, bobalhão! — e fui remando com força, sem ligar para os respingos da água fria, cada vez com mais força, como se isto adiantasse alguma coisa.

André Ducci

1

BRAGA, Rubem. Os melhores contos. Seleção de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Global, 1997.

flaubert: marca de espingarda; palm-beach: marca de calças.

A crônica

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No capítulo 2, você leu uma bela crônica de Mario Quintana, em que o autor tematiza a poesia, a literatura, o seu ofício, enfim, por meio de imagens poéticas e reflexões sofisticadas, metalinguísticas. Neste capítulo, nosso eleito para você aprofundar os seus conhecimentos sobre o gênero é Rubem Braga, o melhor e mais completo cronista brasileiro. A perfeição de suas crônicas é tão reconhecidamente grande que elas também são classificadas como contos. Embora tratem de experiências vividas, pessoais, como ocorre nas crônicas em geral, elas apresentam uma sofisticação literária que procuraremos notar. Vamos conversar sobre essa crônica, de certa forma homenageando o gênero, que tem muitas vezes esse tom descontraído, típico dos “causos’’ populares. 1. Qual é, na sua opinião, o episódio central do texto?

A rememoração do encontro do narrador-personagem com uma “moça bonita e rica”, mais velha, mais viajada e mais livre que as outras que conhecia.

2. Que sentimentos esse episódio causa ao narrador-personagem quando este está contando a história? Por quê? Sentimentos de melancolia e de arrependimento por não ter conseguido viver com a moça a aventura que desejara.

3. O texto lido apresenta um tom subjetivo que se justifica pelo clima de rememoração nostálgica e principalmente pelo fato de ser contado por um narrador-personagem. a) O leitor percebe a estratégia pela palavra eu. b) “— rema, bobalhão! —’’

a) Por meio de que palavra do primeiro parágrafo o leitor percebe esta estratégia? b) Identifique a expressão presente no último parágrafo que reforça a afirmação sobre o estado de espírito do narrador-personagem, com uma pitada de humor. 4. O que você já ouviu sobre “conversa de pescador”? Você acha que a história contada na crônica “A moça rica” tem que ver com este tipo de história? Por quê? Resposta pessoal. Professor(a), lembrar aos alunos como são famosas as conversas de pescador,

Editora Abril

Em tom de conversa

Rubem Braga (1913-1990) Formado em Direito e Jornalismo, passou a vida viajando e escrevendo, entre Minas, São Paulo, Porto Alegre e muitos outros lugares. Foi correspondente do Diário Carioca, na Europa, durante a Segunda Guerra. Desde a década de 1930, ficou famoso no Brasil, pelo encantamento sempre renovado de suas crônicas. Publicou o primeiro livro em 1936, O conde e o passarinho, ao qual muitos outros se seguiram e têm sido sempre reeditados, graças à fineza e à originalidade de sua prosa.

justamente por criarem fatos, aumentarem os tamanhos dos peixes pescados, das aventuras vividas, inventarem histórias mirabolantes de amor etc. “A moça rica” tem que ver com esse universo, pela ambientação do texto e pelo seu tom de “causo” popular, de rememoração de um episódio lírico, em que o narrador sentiu-se “um bobalhão”, o que se configura simultaneamente como uma situação de humor.

Releitura

Escreva no caderno

1. Considere o trecho “A madrugada era escura nas moitas de mangue, e eu avançava no batelão velho; a) Professor(a), seria interessante incentivar os alunos a inferir significados de palavras remava cansado, com um resto de sono’’. desconhecidas por meio da leitura atenta: mangue (“espécie de lama escura e mole”) e batelão (“canoa pequena”) são bons exemplos.

a) Quais hipóteses você estabelece para os significados das palavras mangue e batelão? b) Quais verbos de ação, no trecho transcrito, indicam a situação inicial da narrativa? Tendo em vista o modo e o tempo em que se encontram, justifique sua resposta. 1. b) Os verbos são “avançava” e “remava”. Eles estão no pretérito imperfeito do indicativo, que indica tempo passado cujas ações não estão concluídas, o que é adequado à situação inicial da narrativa, pois pressupõe novas ações.

c) Transcreva dois acontecimentos do primeiro parágrafo que dão velocidade à narrativa e explique, do ponto de vista do modo e do tempo verbal, como ocorre esta progressão. 2. Observe que, a partir do segundo parágrafo, a história é interrompida para que ocorra uma rememoração. a) Qual fato desencadeia a rememoração? Por quê?

1. c) Os acontecimentos são “veio um rincho de cavalo” e “tremulou a luz de uma lamparina”. Como os verbos estão no pretérito perfeito do modo indicativo, que indica ações concluídas, a narrativa avança, tendo como pano de fundo o pretérito imperfeito.

b) Quais características da moça assustaram o narrador-personagem no primeiro encontro? Considere o 2. b) A moça era rica e, além disso, usava calças compridas, título do conto para justificar sua resposta.

2. a) A rememoração é desencadeada por um rincho de cavalo, pois, ao ouvi-lo, o narrador-personagem se lembra da moça que encontrara galopando na praia, quando eram adolescentes.

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fazia caçadas, dava tiros e saía de barco com os pescadores. Essas características assustaram o narrador-personagem, pois pareceram a ele muito ousadas.

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6. Resposta pessoal. Sugestão: Já adulto, o narrador-personagem se dá conta com certo humor misturado a outros sentimentos de que, naquele episódio de sua adolescência, comportou-se de maneira infantil e insegura impedindo a oportunidade de a moça aproximar-se dele. encontro ocorreu na noite 3. Quando ocorreu o segundo encontro entre o narrador-personagem e a moça? Este seguinte à do primeiro encontro.

a) Neste encontro, a moça transformou o susto do narrador-personagem em “adoração súbita, mas tímida, esse fervor confuso da adolescência”. Identifique o trecho do parágrafo que mostra o que aconteceu. “Cantando, ela parou de me assustar; cantando, ela deixou que eu a adorasse...”

b) Que razões justificam o sentimento de falta de esperança do narrador-personagem em relação à moça? Como a moça era mais rica e mais velha, o narrador-personagem, adolescente, julgou que ela se interessaria por outros rapazes, mais maduros e sofisticados.

4. Quanto ao terceiro encontro: a) Em que momento ele se deu? Este encontro se deu duas semanas depois do segundo encontro. b) Copie em seu caderno a passagem do texto em que o narrador-personagem descreve as duas imagens as duas imagens que se gravaram na minha memória desse encontro: a pele deste último encontro que guardou na memória. “São escura e suada do cavalo e a seda branca da blusa; aquela dupla respiração animal no ar fino da manhã”.

5. Em relação às imagens identificadas na questão anterior, escolha entre a opção I e II e, em seu caderno, copie a escolhida: I. As imagens sugerem desejo sexual, por meio do jogo de identificação e contraste entre a moça e o cavalo. II. O cavalo e a moça são seres que não podem ser igualados, como ocorre em “dupla respiração animal”, tanto por pertencerem a espécies diferentes quanto pelo contraste entre ambos. 6. Comente o desfecho da crônica lida, procurando explicar a razão pela qual o narrador-personagem diz a si mesmo “— rema, bobalhão!” quando volta ao presente. 7. Considerando que o narrador-personagem é um pescador e, além disso, está deslocado fisicamente, isto é, encontra-se num deslocamento espacial no decorrer da narrativa, leia as alternativas e copie em seu caderno a incorreta: I. Ao contar um episódio vivido, o narrador recriou o passado, por meio de uma linguagem subjetiva e coloquial. II. A atividade de pescar é um tipo de divertimento ou distração que pode propiciar o devaneio, o surgimento de lembranças e a vontade de contar histórias. III. O deslocamento espacial e as situações de viagem também desencadeiam movimentos de volta ao passado. IV. O narrador da crônica utilizou a condição de pescador para inventar acontecimentos pouco prováveis.

FIQUE SABENDO

O enredo não linear O texto de Rubem Braga é tecido por meio de uma lembrança, provocada por um incidente banal, que desperta os sentidos e, com eles, a memória. Assim, a cena inicial da narrativa — um homem cansado, remando em busca de isca para pescar — é suspensa para dar lugar a outra cena, vinda do passado: o encantamento que sentiu por certa moça, de quem não conseguiu se aproximar. Chama-se flashback a quebra da linearidade temporal da narrativa. Por meio dela, torna-se possível voltar a um tempo anterior àquele que está sendo narrado e, posteriormente, retornar a ele, com alguma conclusão em relação ao que foi rememorado. Este recurso exemplifica o enredo não linear, pois permite um mergulho no passado, provocado por algo que acontece no presente do ato de narrar.

V. Nesta crônica, o tema da rememoração é tratado com leveza e lirismo, despertando a imaginação e a sensibilidade do leitor. 8. Releia o texto e responda:

8. a) Trata-se da frase “A princípio a olhei com espanto, quase desgosto”. O tempo verbal nela utilizado é o pretérito perfeito do modo indicativo e o elemento de coesão indicador do começo da história é “A princípio”.

a) Qual frase do segundo parágrafo se destaca das outras por acelerar a narrativa? Identifique o tempo verbal utilizado nesta frase e também o elemento de coesão indicador do começo da história lembrada pelo narrador-personagem.

FIQUE SABENDO

Coesão e progressão narrativa O conjunto de fatores por meio dos quais uma história apresenta coesão e progressão constitui a coerência.

A crônica

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8. b) Esta conjunção indica que o segundo encontro entre o narrador-personagem e a moça seria oposto ao primeiro, pois ela, que o havia espantado, agora o seduz por meio de seu canto.

b) Considere este trecho: Mas na segunda noite, quando nos juntamos todos na casa de Joaquim Pescador, ela cantou [...], como todos nós, e cantou primeiro uma coisa em inglês, depois o Luar do sertão e uma canção antiga que dizia assim: “Esse alguém que logo encanta deve ser alguma santa”.

Explique a razão pela qual o trecho inicia com a conjunção mas. c) No interior do período a coesão se faz predominantemente por coordenação ou subordinação? Explique. 8. c) Professor(a), leve os alunos a compreender que, neste período, a coesão se faz por coordenação, pois o conectivo que liga as orações é predominantemente aditivo: “e cantou primeiro uma coisa em inglês, depois o Luar do sertão e uma canção antiga [...]’’.

9. Observe que, no fragmento lido no item b, há um trecho entre aspas. Copie, em seu caderno, a justificativa incorreta em relação a ele: I. O trecho está entre aspas por ser uma citação de uma das canções cantadas pela moça. II. O trecho possui menos importância, por ser a última canção mencionada no fragmento. III. A melodia a que o trecho corresponde é percebida pelas repetições de sons e rimas internas. IV. O trecho reforça a criação feita pelo narrador-personagem de uma imagem mais lírica e suave da moça. V. O trecho antecipa a paixão do narrador-personagem pela moça, que se explicita posteriormente. 10. Releia o quarto parágrafo e identifique tais elementos, respondendo às seguintes questões: a) A cena acontece em qual lugar e em qual tempo? O lugar é uma praia solitária e o tempo é uma manhã fria. b) Transcreva a primeira reação que a visão da moça desencadeia no narrador-personagem. “[...] meu coração bateu adivinhando quem poderia estar galopando sozinha a cavalo [...]” c) Para reconhecer o modo como os elementos descritivos auxiliam na construção da atmosfera do texto, associe os trechos apresentados às características da história, relacionando números e letras: I. cenário romântico II. condições atmosféricas propícias ao encontro, à proximidade física III. referência ao sentimento de estar apaixonado IV. erotismo, sensualidade A. “meu coração bateu adivinhando”.

III

B. “o animal resfolegando e ela respirando forte, com os seios agitados dentro da blusa fina, branca”. IV C. “aquela dupla respiração animal no ar fino da manhã”.

II

D. “Duas semanas depois que ela chegou é que a encontrei na praia solitária”. I 11. Releia este trecho: “Ela então riu, disse que eu confessara que não gostava mesmo dela [...]. Montou o cavalo, perguntou se eu não queria ir na garupa. Inventei que precisava passar na casa dos Lisboa”.

Copie, em seu caderno, os elementos indicadores de progressão temporal nele presentes. O conectivo “então” é um desses indicadores, por dar a ideia de conclusão. Além dele, há os verbos no

FIQUE SABENDO

A presença de elementos descritivos Note que o terceiro encontro é contado por meio de uma cena lírica e sensual, de grande beleza e expressividade. Ele se organiza por meio do contraponto entre as ações do narrador-personagem e as da moça: “eu vinha a pé, ela veio galopando a cavalo; vi-a de longe [...]. Pensei que ela fosse passar me dando apenas um adeus [...]; mas parou [...]. E saltou, me chamando pelo nome, conversou comigo”. Essas ações são entremeadas por elementos descritivos, que criam a atmosfera lírica da cena.

pretérito perfeito do modo indicativo: “riu”, “disse”, “montou”, “perguntou”, “inventei”.

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CAPÍTULO 6

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Comentário Crônicas são textos em geral leves e breves, publicados em jornais e revistas e que posteriormente podem ser reunidos em livros. Elas são escritas para distrair e levar a pensar, por meio de um tom subjetivo e coloquial, capaz de envolver e muitas vezes emocionar o leitor. Quanto ao assunto, as crônicas podem variar bastante. Podem basear-se em experiências vividas, experiências de que se ouviu falar ou, ainda, experiências imaginadas. A estruturação das crônicas também apresenta diversidade: as crônicas em geral são narrativas, mas podem apresentar sequências descritivas ou dissertativas. Ou, ainda, essas sequências textuais podem ser articulados, frequentemente com predominância da narração. Além disso, há crônicas líricas ou sentimentais, crônicas humorísticas e crônicas reflexivas, que discutem temas políticos, existenciais e esportivos, por exemplo. Em geral, as crônicas caracterizam-se pelo clima de “conversa entre amigos”, o que as aproxima da naturalidade da fala, embora a criação deste efeito não as simplifique. Em “A moça rica”, a escolha das palavras triviais, o tom extremamente sutil, o lirismo pungente, a riqueza de imagens sensuais e afetivas e o ritmo descritivo-narrativo do texto, enfim, embalando na canoa as lembranças do passado, revelam a rara qualidade literária de Rubem Braga. Suas crônicas foram estudadas como contos pela crítica literária justamente por apresentarem características deste gênero de narrativa ficcional. Nelas, o escritor recria cenas do cotidiano por meio de um tipo de prosa que retoma a tradição oral, lembrando os “causos imemoriais” contados por narradores anônimos, que constituem a seiva das grandes obras literárias de todos os tempos. Vamos, agora, ler e estudar outra crônica, das mais belas e inesquecíveis para jovens e adultos.

LEITURA

Professor(a), para enriquecer esta abordagem, proponha a leitura ou releitura do livro Alice no País das Maravilhas. Em seguida, solicite a um aluno, ou a um pequeno grupo, que conte a história de Alice para, assim, serem apresentados elementos deste intertexto. Também é possível propor que se organizem em grupos, contem o episódio da história mencionado na crônica e expliquem como se relacionam (a intertextualidade).

Para Maria da Graça Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é, o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura, acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca. Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”. Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrastes essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira. A sozinhez (esquece essa palavra feia que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!”. O importante é que conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta. Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes consequências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo. Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave. A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes ao A crônica

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dia: “Oh, I beg your pardon!”. Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosse eu?”. Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não sabe quem venceu. Se tiveres que ir a algum lugar, não te preocupes com a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste. Disse o ratinho: “Minha historia é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só um jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos, irremediáveis, Maria. Os milagres acontecem sempre na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero Arli Goulart/Estadão Conteúdo/AE

dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente. E escuta essa parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo como hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor. Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões. Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”. Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira da nossa dor, Maria da Graça. PARA MARIA DA GRAÇA — In: O Amor Acaba, de Paulo Mendes Campos, Companhia das Letras, São Paulo; © by herdeiros de Paulo Mendes Campos.

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Paulo Mendes Campos (1922-1999) Poeta, tradutor e cronista de primeira grandeza, Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte. Nos anos 1940, participou ativamente de uma geração literária que se destacou em nossa literatura. O grupo mineiro a que também pertenceram Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Helio Pellegrino, João Etienne Filho e Murilo Rubião. No Rio de Janeiro, para onde se radicou, colaborou em vários jornais, por meio de uma prosa cuja busca obsessiva pelo instante mais precioso invariavelmente encontra a poesia. Entre seus livros, destaca-se O Amor acaba – Crônicas líricas e existenciais (1999).

CAPÍTULO 6

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4. Resposta pessoal. Sugestão de resposta: Trata-se de um texto escrito como se fosse uma dedicatória, gênero em geral destituído de paragrafação. Além disso, o tom lírico, subjetivo, informal do texto — como mostram as palavras bobice, sozinhez e Mariazinha, por exemplo — dá a impressão de que foi, de fato, escrito a uma determinada pessoa e “ao correr das letras”, como se faz, muitas vezes, numa dedicatória.

Em tom de conversa

1. Esta crônica parece com qual outro gênero textual? Justifique.

A crônica “Para Maria da Graça” parece com uma dedicatória, pois é oferecida a uma menina que fez quinze anos, Maria da Graça.

2. Qual a finalidade dessa crônica?

Parece funcionar como um guia de leitura do livro que veio junto, Alice no País das Maravilhas, e, ao mesmo tempo, um guia de leitura da própria vida.

3. Na crônica, os intertextos exemplificam ideias, noções que o narrador quer dizer a Maria da Graça sobre a vida. Escolha um de que você goste. Resposta pessoal. 4. Não há parágrafos na crônica. Elabore uma hipótese para justificar esse fato. 5. Considerando que há crônicas líricas ou sentimentais, crônicas humorísticas e crônicas reflexivas, que discutem temas políticos, existenciais e esportivos, por exemplo, como você classifica a crônica “Para Maria da Graça”? Por quê? A crônica pode ser classificada reflexiva, considerando que o tema nela desenvolvido é existencial ou metafísico, pois trata de aspectos da vida.

Releitura

Escreva no caderno

1. A crônica, dado seu caráter ref lexivo, existencial, desenvolve-se associando lições ou ensinamentos sobre a vida com passagens do livro Alice no País das Maravilhas, que servem como argumentos. Leia os trechos a seguir (a, b e c) e, em seu caderno, associe cada um deles aos argumentos indicados em I, II e III: a) “Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas”. b) “Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade”.

FIQUE SABENDO

Quando uma obra de arte ou uma obra literária dialoga com outra, dizemos que ocorre intertextualidade. Intertexto é a presença de vestígios, partes, influências ou mesmo recortes de um texto A em um texto B.

c) “Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: ‘Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?’.” I. O significado do livro, para o narrador.

I. “Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas”.

II. O significado que lhe é possível transmitir.

II. “Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.”

III. Uma passagem do livro que exemplifica o que foi dito.

III. “Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?”

2. Releia o trecho entre as linhas 9 a 11 e observe estas frases: “Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível” e “Quem sou eu no mundo?”. Em sua opinião, qual o sentido de cada uma delas? 3. No trecho “Pois viver é falar de corda em casa de enforcado” há uma expressão idiomática — falar de corda em casa de enforcado. Considerando o contexto da crônica, como você interpreta esta expressão? Comece explicando a função de pois.

2. Resposta pessoal. Professor(a), aceite a resposta dos alunos desde que coerente com o contexto da crônica. Propicie uma discussão sobre as duas frases considerando que na frase “Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível”, o narrador está referindo-se aos momentos de estranheza, “sozinhez”, tristeza, por exemplo, já na frase “Quem sou eu no mundo?”, menciona a pergunta mais importante na vida de todo 3. Pois tem a função de ser humano, aquela de que não devemos fugir e que nos torna mais fortes, quando causa e retoma a NAVEGAR É PRECISO procuramos respondê-la. afirmação de que “A gente vive errando em relação ao A crônica “Para Maria da Graça” apresenta elementos intertextuais com a história narrada no próximo e o jeito é pedir livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Essa mesma história foi transposta para desculpas sete vezes ao dia”, justamente porque linguagem cinematográfica. Se quiser conhecer o resultado dessa transposição, você pode assistir sabemos pouco da vida em a esses dois filmes: Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland ou Tim Burton’s Alice relação à experiência de vivê-la, pois viver é in Wonderland), dirigido por Tim Burton, produção estadunidense-britânica (2010), e Alice (Neˇco delicado, é perigoso e faz z Alenky), com roteiro e direção de Jan Švankmajer, produção tcheca (1988). recordar situações tristes, assim como “falar de corda em casa de enforcado” suscita recordações tristes. A crônica

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4. Consideremos outra expressão idiomática: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato.

Você acha que esta expressão tem que ver com o que foi discutido na questão anterior? Por quê?

Tem que ver, sim, pois errar em relação ao próximo significa, principalmente, não perceber seu ponto de vista, o que costumamos fazer com frequência.

PARA NÃO ESQUECER

Alegoria é a representação de ideias, pensamentos e qualidades por meios concretos, figurados.

5. Nesta crônica, Maria da Graça está vivendo um rito de passagem, de criança para moça, e o narrador a presenteia com um livro e reflexões que pretendem ajudá-la neste momento de fronteira, por meio de Resposta pessoal. Sugestão: O que está em jogo aqui é como emocionalmente nos deixamos enganar: confundindo o alegorias e parábolas.

Agora, releia este trecho:

pequeno com o grande, ou o inverso. Especialmente no primeiro caso, podemos sofrer desnecessariamente. O autor recomenda o humor e a coragem para superarmos essas situações. Aliás, o humor e a desconfiança desses exageros (confundir rinocerontes com camundongos) são os últimos ensinamentos da crônica, cujo conteúdo humano e cuja linguagem despojada se afinam para dar-lhe ao mesmo tempo leveza e densidade.

E escuta essa parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo como hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.

Interprete esta parábola, ou seja, explique o que ela significa para você.

E MAIS... Você gostou da crônica? E da anterior, escrita por Rubem Braga? Converse com seus colegas a respeito de ambas (suas semelhanças e diferenças) e, com o auxílio do professor, procure outras crônicas que tratem de assuntos de seu interesse. Lembre-se: Não há limite temático para uma crônica e elas são breves, de leitura acessível, prazerosa, muito eficazes na iniciação seria interessante estimular os alunos a pesquisar crônicas de bons leitores. Professor(a), no jornal, na internet, em revistas, por exemplo, e trazer o material para

FIQUE SABENDO

Parábola é uma breve narrativa em que se usam alegorias ou um conjunto estruturado de metáforas para transmitir uma lição moral. Algumas das parábolas mais famosas são as bíblicas, especificamente as parábolas de Jesus, histórias com elementos comuns da cultura daquele tempo que tinham como objetivo ensinar preceitos de Deus.

ler, divulgar para os colegas e inserir no mural da classe.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS A crônica não é um gênero maior. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor. ‘Graças a Deus’, — seria o caso de dizer, porque sendo assim ela fica perto de nós. E para muitos pode servir de caminho não apenas para vida, que ela serve de perto, mas para a literatura [...] Por meio dos assuntos, da composição aparentemente solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo o dia. Principalmente porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser mais natural. Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição. CANDIDO, Antonio. A vida ao rés-do-chão. In: PARA gostar de ler. São Paulo: Ática, 1984. v. 5.

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CAPÍTULO 6

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Neste capítulo, você começou a trabalhar o gênero crônica, localizado entre o jornalismo e a literatura. A crônica tem a leveza, a brevidade do primeiro e a riqueza de sentidos proporcionada pela linguagem metafórica da segunda. Rubem Braga, o maior cronista brasileiro, mostrou, na primeira crônica estudada, como a simplicidade, a naturalidade da linguagem, a leveza e o humor fazem parte de sua prosa, cujo lirismo e conteúdo humano saltam aos olhos. Paulo Mendes Campos, por sua vez, mostrou em “Maria da Graça”, a hibridez da crônica, que abarca qualquer tema, qualquer tom, qualquer situação discursiva, inclusive assumindo o tom dialógico do gênero dedicatória. No estudo de Rubem Braga, relembramos alguns elementos da narrativa: narrador-personagem, enredo não linear, modos de apresentação de personagens, discurso direto e indireto. No estudo de Paulo Mendes Campos, exploramos a relação texto-intertexto, e, com muita sensibilidade, a importância da crônica “não apenas para vida, que ela serve de perto, mas para a literatura”, no dizer do mestre Antonio Candido, como instrumento de humanização.

Atividades

Escreva no caderno

1. (Enem/MEC)

A História, mais ou menos Negócio é o seguinte. Três reis magrinhos ouviram um plá de que tinha nascido um Guri. Viram o cometa no Oriente e tal e se flagraram que o Guri tinha pintado por lá. Os profetas, que não eram de dar cascata, já tinham dicado o troço: em Belém, da Judeia, vai nascer o Salvador, e tá falado. Os três magrinhos se mandaram. Mas deram o maior fora. Em vez de irem direto para Belém, como mandava o catálogo, resolveram dar uma incerta no velho Herodes, em Jerusalém. Pra quê! Chegaram lá de boca aberta e entregaram toda a trama. Perguntaram: Onde está o rei que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Quer dizer, pegou mal. Muito mal. O velho Herodes, que era um oligão, ficou grilado. Que rei era aquele? Ele é que era o dono da praça. Mas comeu em boca e disse: Joia. Onde é que esse guri vai se apresentar? Em que canal? Quem é o empresário? Tem baixo elétrico? Quero saber tudo. Os magrinhos disseram que iam flagrar o Guri e na volta dicavam tudo para o coroa. VERISSIMO, L. F. O nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1994.

Na crônica de Veríssimo, a estratégia para gerar o efeito de humor decorre do(a): a) linguagem rebuscada utilizada pelo narrador no tratamento do assunto. b) inserção de perguntas diretas acerca do acontecimento narrado. c) caracterização dos lugares onde se passa a história. d) emprego de termos bíblicos de forma descontextualizada. e) contraste entre o tema abordado e a linguagem utilizada.

A crônica

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Texto para a próxima questão:

O coração roubado Eu cursava o último ano do primário e como já estava com o diplominha garantido, meu pai me deu um presente muito cobiçado: Coração, famoso livro do escritor italiano Edmondo de Amicis, bestseller mundial do gênero infantojuvenil. Na página de abertura lá estava a dedicatória do velho, com sua inconfundível letra esparramada. Como todos os garotos da época, apaixonei-me por aquela obra-prima e tanto que a levava ao grupo escolar da Barra Funda para reler trechos no recreio. Justamente no último dia de aula, o das despedidas, depois da festinha de formatura, voltei para a classe a fim de reunir meus cadernos e objetos escolares, antes do adeus. Mas onde estava o Coração? Onde? Desaparecera. Tremendo choque. Algum colega na certa o furtara. Não teria coragem de aparecer em casa sem ele. Ia informar à diretoria quando, passando pelas carteiras, vi a lombada do livro, bem escondido sob uma pasta escolar. Mas... era lá que se sentava o Plínio, não era? Plínio, o primeiro da classe em aplicação e comportamento, o exemplo para todos nós. Inclusive o mais limpinho, o mais bem penteadinho, o mais tudo. Confesso, hesitei. Desmascarar um ídolo? Podia ser até que não acreditassem em mim. Muitos invejavam o Plínio. Peguei o exemplar e o guardei em minha pasta. Caladão. Sem revelar a ninguém o acontecido. Lembro do abraço que Plínio me deu à saída. Parecia segurando as lágrimas. Balbuciou algumas palavras emocionadas. Mal pude retribuir, meus braços se recusavam a apertar o cínico. Chegando em casa minha mãe estranhou que eu não estivesse muito feliz. Já preocupado com o ginásio? Não, eu amargava minha primeira decepção. Afinal, Plínio era um colega que devíamos imitar pela vida afora, como costumava dizer a professora. Seria mais difícil sobreviver sem o seu exemplo. Por outro lado, considerava se não errara em não delatá-lo. “Vocês estão todos enganados, e a senhora também, sobre o caráter de Plínio. Ele roubou meu livro. E depois ainda foi me abraçar...”.. Curioso, a decepção prolongou-se ao livro de Amicis, verdadeira vitrina de qualidades morais dos alunos de uma classe de escola primária. A história de um ano letivo coroado de belos gestos. Quem sabe o autor não conhecesse a fundo seus próprios personagens? Um ingênuo como nossa professora. Esqueci-o. Passados muitos anos reconheci o retrato de Plínio num jornal. Advogado, fazia rápida carreira na Justiça. Recebia cumprimentos. Brrr. Magistrado de futuro o tal que furtara meu presente de fim de ano! Que toldara muito cedo minha crença na humanidade! Decidi falar a verdade. Caso alguém se referisse a ele, o que passou a acontecer, eu garantia que se tratava de um ladrão. Se roubava já no curso primário, imaginem agora... Sempre que o rumo de uma conversa levava às grandes decepções, aos enganos de falsas amizades, eu contava, a quem quisesse ouvir, o episódio do embusteiro do Grupo Escolar Conselheiro Antônio Prado, em breve desembargador ou secretário de Justiça. — Não piche assim o homem — advertiu-me minha mulher. — Por que não? É um ladrão! — Mas quando pegou seu livro era criança. — O menino é o pai do homem — rebatia, vigorosamente. Plínio fixara-se como um marco para mim. Toda vez que o procedimento de alguém me surpreendia, a face oculta de uma pessoa era revelada, lembrava-me irremediavelmente dele. Limpinho. Penteadinho. E com a mão de gato se apoderando de meu livro. Certa vez tomara a sua defesa: — Plínio, um ladrão? Calúnia! Retire-se da minha presença! Quando o desembargador Plínio já estava aposentado mudei-me para meu endereço atual. Durante a mudança alguns livros despencaram de uma estante improvisada. Um deles, Coração, de Amicis. Saudades. Havia quantos anos não o abria? Quarenta ou mais? Lembrei da dedicatória de meu falecido pai. Ele tinha boa letra. Procurei-a na página de rosto. Não a encontrei. Teria a tinta se apagado? Na página seguinte havia uma dedicatória. Mas não reconheci a caligrafia paterna. “Ao meu querido filho Plínio, com todo amor e carinho de seu pai”. REY, Marcos. O coração roubado. In: MACEDO, Adriano (Org.). Retratos da escola. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. p. 69-71.

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CAPÍTULO 6

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2. (Cefet-MG) O título do texto produz um efeito de sentido gerado pela a) omissão de um termo. b) ambiguidade da expressão. c) organização dos vocábulos.

Professor(a), o título “Coração roubado” tanto pode aludir ao livro Coração do escritor italiano Edmondo de Amicis, que o narrador acreditou que lhe teria sido roubado pelo colega de escola, como caracterizar metaforicamente a sensação de arrependimento pelos danos irreversíveis que provocou por julgar o amigo injustamente.

d) uso denotativo das palavras.

Texto para a próxima questão:

O exercício da crônica Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida emocionalmente despertados pela concentração. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado. MORAES, V. Para viver um grande amor: crônicas e poemas. São Paulo: Cia. das Letras, 1991.

3. (Enem/MEC) Predomina nesse texto a função da linguagem que se constitui a) nas diferenças entre o cronista e o ficcionista. b) nos elementos que servem de inspiração ao cronista. c) nos assuntos que podem ser tratados em uma crônica. d) no papel da vida do cronista no processo de escrita da crônica. e) nas dificuldades de se escrever uma crônica por meio de uma crônica.

Texto para a próxima questão:

O padeiro Levanto cedo, faço a higiene pessoal, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento — mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lockout, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo. Está bem. Tomo meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando: — Não é ninguém, é o padeiro! Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?

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Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou por uma outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém... Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê--lo para explicar que estava falando com um colega, ainda menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação do jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já levando na mão um dos exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno. Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estavam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi uma lição daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”. E assoviava pelas escadas. Rubem Braga, Ai de ti, Copacabana. Rio de Janeiro:Editora do Autor, 1960. Adaptado.

4. (IFSP) A expressão − pão dormido − foi empregada com sentido a) denotativo, indicando que os padeiros, por causa da greve, adulteraram a receita do pão. b) denotativo, indicando que o pão entregue aos moradores estava fora de validade. c) conotativo, indicando que o pão a ser consumido não estava fresco. d) conotativo, indicando que os padeiros reduziram o trabalho noturno durante a greve. e) conotativo, indicando que a massa do pão precisa descansar para que o fermento aja.

Texto para a próxima questão

O negócio Grande sorriso do canino de ouro, o velho Abílio propõe às donas que se abastecem de pão e banana: — Como é o negócio? De cada três dá certo com uma. Ela sorri, não responde ou é uma promessa a recusa. — Deus me livre, não! Hoje não... Abílio interpelou a velha: — Como é o negócio? Ela concordou, o que foi melhor, a filha também acertou o trato. Com a dona Julietinha foi assim. Ele se chegou: — Como é o negócio? Ela sorriu, olhinho baixo. Abílio espreitou o cometa partir. Manhã cedinho saltou a cerca. Sinal combinado, duas batidas na porta da cozinha. A dona saiu para o quintal, cuidadosa de não acordar os filhos. Ele trazia capa de viagem, estendida na grama orvalhada.

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Ela sorriu, olhinho baixo. Abílio espreitou o cometa partir. Manhã cedinho saltou a cerca. Sinal combinado, duas batidas na porta da cozinha. A dona saiu para o quintal, cuidadosa de não acordar os filhos. Ele trazia capa de viagem, estendida na grama orvalhada. O vizinho espionou os dois, aprendeu o sinal. Decidiu imitar a proeza. No crepúsculo, pum-pum, duas pancadas fortes na porta. O marido em viagem, mas não era dia do Abílio. Desconfiada, a moça chegou à janela e o vizinho repetiu: — Como é o negócio? Diante da recusa, ele ameaçou: — Então você quer o velho e não quer o moço? Olhe que eu conto! TREVISAN, D. Mistérios de Curitiba. Rio de Janeiro: Record, 1979 (fragmento).

5. (Enem/MEC) Quanto à abordagem do tema e aos recursos expressivos, essa crônica tem um caráter a) filosófico, pois reflete sobre as mazelas sofridas pelos vizinhos. b) lírico, pois relata com nostalgia o relacionamento da vizinhança. c) irônico, pois apresenta com malícia a convivência entre vizinhos. d) crítico, pois deprecia o que acontece nas relações de vizinhança. e) didático, pois expõe uma conduta a ser evitada na relação entre vizinhos. 6. (Enem/MEC) Há qualquer coisa de especial nisso de botar a cara na janela em crônica de jornal — eu não fazia isso há muitos anos, enquanto me escondia em poesia e ficção. Crônica algumas vezes também é feita, intencionalmente, para provocar. Além do mais, em certos dias mesmo o escritor mais escolado não está lá grande coisa. Tem os que mostram sua cara escrevendo para reclamar: moderna demais, antiquada demais. Alguns discorrem sobre o assunto, e é gostoso compartilhar ideias. Há os textos que parecem passar despercebidos, outros rendem um montão de recados: “Você escreveu exatamente o que eu sinto”, “Isso é exatamente o que falo com meus pacientes”, “É isso que digo para meus pais”, “Comentei com minha namorada”. Os estímulos são valiosos pra quem nesses tempos andava meio assim: é como me botarem no colo — também eu preciso. Na verdade, nunca fui tão posta no colo por leitores como na janela do jornal. De modo que está sendo ótima, essa brincadeira séria, com alguns textos que iam acabar neste livro, outros espalhados por aí. Porque eu levo a sério ser sério... mesmo quando parece que estou brincando: essa é uma das maravilhas de escrever. Como escrevi há muitos anos e continua sendo a minha verdade: palavras são meu jeito mais secreto de calar. LUFT, L. Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Os textos fazem uso constante de recursos que permitem a articulação entre suas partes. Quanto à construção do fragmento, o elemento a) “nisso” introduz o fragmento “botar a cara na janela em crônica de jornal”. b) “assim” é uma paráfrase de “é como me botarem no colo”. c) “isso” remete a “escondia em poesia e ficção”. d) “alguns” antecipa a informação “É isso que digo para meus pais”. e) “essa” recupera a informação anterior “janela do jornal”.

A crônica

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PRIMEIRA LEITURA

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O conto Este capítulo tem por objetivo ler, comentar e incorporar algumas peculiaridades do gênero conto, em nosso passeio pela literatura em prosa. Contos são narrativas curtas e densas, podem ser líricos, de terror, fantásticos, de mistério e de aventura, por exemplo. Todos eles, quando de boa qualidade, proporcionam instantes inesquecíveis de iluminação, descobertas, fantasia. Além disso, serão retomados outros elementos da narrativa: tipos de narrador em terceira pessoa, tipos de enredo e tempo e espaço narrados.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livros • MORICONI, Italo (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. Vídeo • O ENFERMEIRO. Direção: Mauro Farias. Brasil, 1999. Disponível em: <http://tub.im/49evie>. Acesso em: 22 abr. 2016. Média-metragem inspirado em obra de Machado de Assis. Sites • INSTITUTO MOREIRA SALLES. Clarice Lispector. Disponível em: <http://tub.im/bunhwb>. Acesso em: 22 abr. 2016. • INSTITUTO MOREIRA SALLES. Cadernos de Literatura Brasileira. Disponível em: <http://tub.im/skiq3p>. Acesso em: 22 abr. 2016. Artigo • FREITAS, Eber. Escritores indicam Lygia. Disponível em: <http://tub.im/mx839s>. Acesso em: 22 abr. 2016.

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Professor(a), a atividade da seção “E mais...” da página 101 requer preparação antecipada.

PRIMEIRA LEITURA

Carolina A uma distância prudente, o pai pressentia as tempestades por que seu filho de onze anos passaria pela vida afora: o menino se apaixonara por uma amiga da mesma idade — que tivera a delicadeza de corresponder a seus sentimentos —, mas dela se cansara num piscar de olhos. Não contente, falara com orgulho mal disfarçado desse cansaço ao melhor amigo, de quem então ouvira a frase tranquilizadora: “As mulheres são todas iguais”. Por acaso, o pai também escutara — e se espantara com a infinidade de espelhos que se estilhaçavam a seu redor. Pensara: Triste amizade. 2 Não fosse uma disciplina pessoal que a idade a duras penas injetara em suas veias, suspenderia o minúsculo idiota pela camiseta para gritar-lhe — o que exatamente? 3 O primeiro sinal da paixão, o pai se recordava agora, ocorrera alguns dias antes, durante o jantar, e também tomara a forma de uma incontinência verbal: 4 — Acho que estou a fim da Carolina. 5 A fim? Seu radar de pai solteiro, em geral ágil e confiável, não lograra impedir o tom aflito de sua voz, que soara como um balido de ovelha: 6 — É...? 7 Carolina era de fato deslumbrante em seus mais mínimos detalhes, da cor marfim de sua pele à fragilidade de seus pés. Existem crianças quase irreais de tão perfeitas, avaliava o pai em sua tristeza, relembrando o tom de sua voz, a finura de sua cintura e a textura dourada de seus cabelos. E o filho, em sinal provável de estupor pela facilidade com que atingira seu objetivo — teria a luz sido excessiva? —, abria agora mão desse pequeno núcleo de perfeição, transformando o pai em testemunha involuntária e impotente de sua perda. 8 Por que assustar-se e ser infiel a si próprio desde tão cedo? 9 E agora lá iam os dois, o filho e o amigo iluminado, com suas chuteiras enlameadas e suas bolas de futebol, resmungando palavras de ordem que repetiriam anos a fio por bares e botequins. Dois homúnculos a quem a vida ainda puxaria por inúmeras vezes as orelhas. Nada a fazer, a não ser torcer. Nesse turbilhão de equívocos, eram forjadas guerras e epidemias. 10 — Papai, estamos indo jogar bola. Tudo bem? 11 Bolas, bares, bombas. Medo e busca de poder... Vontade de dispensar o amigo com o ligeiro pontapé, agachar-se ao lado do filho e implorar: Meu filho, vem cá... André Ducci

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RIBEIRO, Edgard Telles. O livro das pequenas infidelidades. São Paulo: Record, 2004.

O conto

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mesquinho) e da expressão popular “puxar as orelhas”, colocada em sentido claramente metafórico.‘’E agora lá iam os dois, o filho e o amigo iluminado, com suas chuteiras enlameadas e suas bolas de futebol, resmungando palavras de ordem que repetiriam anos a fio por bares e botequins. Dois homúnculos a quem a vida ainda puxaria por inúmeras vezes as orelhas. Nada a fazer, a não ser torcer. Nesse turbilhão de equívocos, eram forjadas guerras e epidemias”. 1. O narrador não é um dos personagens, Escreva pois conta-a em terceira pessoa, mas do no caderno ponto de vista de um determinado personagem: o pai de um garoto, o qual vê no comportamento leviano do filho, com tristeza e impotência, um espelho de si próprio e do mundo masculino, de que faz parte.

Releitura

1. Reveja o estudo sobre o narrador no capítulo 4 e responda: Na sua opinião, de que posição o narrador conta a história? Qual o seu ponto de vista? Por quê?

Oscar Elías/Album/Latinstock

2. O narrador é onisciente seletivo, pois conhece e expressa o que se passa na interioridade do pai em relação ao filho, como se percebe em “A uma distância prudente, o pai pressentia as tempestades por que seu filho de onze anos passaria pela vida afora: o menino se apaixonara por uma amiga da mesma idade — que tivera a delicadeza de corresponder a seus sentimentos —, mas dela se cansara num piscar de olhos. Não contente, falara com orgulho mal disfarçado desse cansaço ao melhor amigo, de quem então ouvira a frase tranquilizadora: ‘As mulheres são todas iguais’”. Professor(a), destacar mais um exemplo deste tipo de narrador aos alunos, no parágrafo 9, comentando o caráter depreciativo do diminutivo ‘’homúnculo’’ (homem pequeno, vil,

2. No caso deste conto, como em muitos textos da literatura dos séculos XX e XXI, há um tipo de narrador que denominamos onisciente seletivo, que escolhe um personagem e por meio de sua interioridade analisa os outros. Justifique e exemplifique esta afirmação. 3. Em “Por acaso, o pai também escutara — e se espantara com a infinidade de espelhos que se estilhaçavam a seu redor. Pensara: Triste amizade”. Interprete o significado da metáfopessoal. Sugestão: Essa metáfora mostra uma identificação por ra do espelho. Resposta projeção entre o pai, o filho, o amigo do filho, todos representando o estilhaçamento, isto é, a fragmentação, no sentido de precariedade, do mundo masculino.

4. Transcreva do primeiro parágrafo o fragmento que fornece indício da ação principal que transcorre no conto e da qual derivam as demais. “o menino se apaixonara por uma amiga da mesma idade”. 5. Observe que o conto organiza-se em torno da ação transcrita na questão anterior. No entanto, nele há passagens descritivas. Uma delas caracteriza a personagem Carolina. a) Identifique essa passagem. b) Na sua opinião, como essa descrição contribui para a compreensão do sentido do conto? 6. Você acha que o fato de o título do conto corresponder ao nome da menina confirma o ponto de vista com que a história é narrada? Por quê? Sim, porque Carolina representa, no texto, o contraponto com as atitudes do filho, o alvo de preocupação do pai.

7. Releia o sétimo parágrafo e comente com seus colegas em que medida a oposição entre o mundo feminino, representado por Carolina, e o mundo masculino fica clara. Resposta pessoal. 8. Em “teria a luz sido excessiva?’’, não se sabe se a fala é do narrador ou do personagem, configurando, assim, o discurso indireto livre (visto no capítulo 4).

Leia os fragmentos a seguir e procure descrever os efeitos produzidos por este discurso: Não fosse uma disciplina pessoal que a idade a duras penas injetara em suas veias, suspenderia o minúsculo idiota pela camiseta para gritar-lhe — o que exatamente? Por que assustar-se e ser infiel a si próprio desde tão cedo? E agora lá iam os dois, o filho e o amigo iluminado, com suas chuteiras enlameadas e suas bolas de futebol, resmungando palavras de ordem que repetiriam anos a fio [...].

Edgard Telles Ribeiro (1944-) Nasceu em 1944, em Valparaiso, Chile, onde seu pai era Cônsul do Brasil. Escritor, diplomata, jornalista, cineasta e professor de cinema, seu romance de estreia, O criado-mudo, foi lançado nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. Teve um conto (do livro No coração da floresta) incluído em antologia sobre literatura latino-americana contemporânea lançada nos EUA pela Plume/ Penguin Books. O romance Olho de rei (2006) recebeu o prêmio da Academia Brasileira de Letras para Melhor Obra de Ficção 2006. A figura de linguagem metáfora, vista no capítulo 1 — Literatura: a arte da palavra — é trabalhada no capítulo 4 de Gramática.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS O conto [...] contém um só drama, um só conflito [...], uma só história [...]. Todas as demais características decorrem dessa unidade originária: rejeitando as digressões e as extrapolações, o conto flui para um único objetivo, um único efeito. MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974.

5. a) “Carolina era de fato deslumbrante em seus mais mínimos detalhes, da cor marfim de sua pele à fragilidade de seus pés” e “Existem crianças quase irreais de tão perfeitas, avaliava o pai em sua tristeza, relembrando o tom de sua voz, a finura de sua cintura e a textura dourada de seus cabelos.” 5. b) A descrição sobre a menina por quem o filho apaixonou-se sugere delicadeza, perfeição, o que reforça a preocupação do pai em relação à superficialidade e à capacidade de violência do mundo masculino.

Ao mesmo tempo, o narrador-personagem interpreta negativamente a atitude do amigo do filho, que diz “As mulheres são todas iguais”, e as próprias – “se espantara com a infinidade de espelhos que se estilhaçavam a seu redor” —, num jogo de espelhamento e projeção.

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CAPÍTULO 7

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E MAIS... Proposta de atividade para ser pesquisada, debatida e depois transformada em comentário escrito.

Tema para debate

Na crônica o autor costuma relatar acontecimentos do dia a dia, falar de alguém ou de algum tema subjetivamente, com emoção e sentimentos. Ao fazê-lo, utiliza recursos expressivos que textos como os de Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, lidos no

Por que denominamos crônicas os textos lidos no capítulo anterior e conto o texto “Carolina”? capítulo anterior, mostraram aproximar a crônica da literatura em prosa, e portanto do conto.

LEITURA

No primeiro caso, “A moça rica”, sobretudo pelo efeito de naturalidade e pelo tom de conversa informal conseguidos com habilidade de mestre. No segundo, “Para Maria da Graça”, pela abundância de imagens e outros procedimentos que inundam a prosa de um lirismo condensado, típico da experiência poética. Já o conto é uma narração ficcional ou literária, marcada pela criação de personagens, enredo, tempo, espaço e principalmente do narrador: a voz que traz ao leitor o ponto de vista em jogo na narrativa. As principais características do conto são a concisão, a concentração e a brevidade.

Vamos ler mais um conto, identificar os sentidos da história e observar outras características deste gênero.

Felicidade clandestina Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. 2 Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem de Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”. 3 Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. 4 Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. 5 Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. 6 Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. 7 No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar nas ruas do Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. 8 Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. 9 E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. 1

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Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. 11 Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! 12 E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser”. Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. 13 Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. 14 Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por uns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. 15 Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. 16 Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante. LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 9-12.

Arquivo EM/D.A Press. Brasil

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Clarice Lispector (1920-1977) Nascida na Ucrânia, mas tendo sido criada no Recife, Maceió e Rio de Janeiro, Clarice Lispector se sentia profundamente brasileira. Estreou em 1944, aos 21 anos, com o romance Perto do coração selvagem, que foi reconhecido pela crítica como algo novo e fascinante em nossa literatura. O livro de contos Laços de família e os romances A paixão segundo G. H. e A hora da estrela consolidaram a sua posição de uma das maiores escritoras do século XX.

Em tom de conversa Releia o conto observando os elementos indicados a seguir, além de outros que chamaram sua atenção: • tema central • linguagem • aspectos psicológicos das personagens Em seguida convide seus colegas para uma leitura em voz alta e posterior discussão sobre esses aspectos, ampliando sua compreensão do texto e sua habilidade interpretativa. Ao terminar a discussão, escreva em seu caderno suas impressões a respeito do conto e compartilhe suas opiniões com os colegas. Professor(a), seria proveitoso conversar sobre o conto com os alunos em linhas gerais, antes da leitura mais analítica.

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CAPÍTULO 7

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3. b) A personagem antagonista é a filha do dono da livraria. Ela ocupa essa posição aparentemente, isto é, pelo olhar da narradora-personagem, por sentir inveja da beleza das colegas. Professor(a), oriente os alunos a considerar, no terceiro parágrafo, o trecho “Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres”. 5. A personagem antagonista tinha um pai dono de livraria. Ela se vingava das colegas deixando de lhes dar Escreva no caderno livros, mesmo quando faziam aniversário; em vez disso, entregava a elas cartões-postais da loja do pai, com paisagens da própria cidade onde viviam: Recife.

Releitura

1. Nos três parágrafos iniciais, o conto apresenta as personagens de forma direta, isto é, descrevendo-as fisicamente, e também de forma indireta, por meio de suas ações e comportamentos. a) As características físicas da primeira personagem mencionada na história são fornecidas por meio de quais indicadores? Os indicadores são que a menina era gorda, baixa, sardenta, tinha cabelos muito crespos e arruivados e tinha um busto enorme. b) Identifique o fragmento do terceiro parágrafo em que as outras personagens são caracterizadas por meio da descrição de traços físicos opostos aos mencionados na resposta ao item a. O fragmento “nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres”.

2. Em “Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas”, o uso da primeira pessoa do plural integra a narradora-personagem em um grupo. Na sua opinião, trata-se de qual grupo? Resposta pessoal. Sugestão: Provavelmente se trata de um grupo de colegas de escola, da mesma classe social da narradora-personagem.

3. Quem é a protagonista da história? A protagonista da história é a narradora.

a) Qual característica dessa personagem é ressaltada no primeiro e terceiro parágrafos? A característica ressaltada em ambos os parágrafos é o fato de ser apaixonada por livros.

b) Quem é a personagem antagonista? Identifique-a, explicando a razão pela qual ela ocupa essa posição. 4. Em “Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, imperdoavelmente sugere a ideia de causa (porque de cabelos livres”, qual palavra sugere a ideia de causa? Onósadvérbio éramos bonitinhas). 5. Segundo a narradora-personagem, qual a única vantagem da personagem antagonista sobre as outras personagens e como ela utilizava essa vantagem para se vingar das colegas? 6. Identifique, no terceiro parágrafo, a frase em que a narradora-personagem antecipa o enredo da história, assumindo o foco narrativo na primeira pessoa do singular. A frase é “Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo”. 7. O conto apresenta enredo linear, e os três primeiros parágrafos correspondem à situação inicial da narrativa. a) Relacionando a situação inicial com o desenvolvimento do enredo, qual tom caracteriza o conto — passional, satírico, fúnebre, épico ou romântico? O conto caracteriza-se pelo tom passional. 7. b) Primeiro parágrafo: “Mas possuía o

que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria”; segundo parágrafo: “Pouco aproveitava. E nós menos ainda”; e terceiro Identifique os parágrafos referentes à complicação, justificando sua resposta. parágrafo: “Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me Em qual parágrafo ocorre o clímax ou ponto culminante da história? Por quê? submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia”.

b) Releia os parágrafos iniciais e copie um trecho que comprove a sua resposta. c) d)

8. Embora o enredo do conto seja linear, ele é elaborado por meio da rememoração do passado, pois quem 7. c) Trata-se dos parágrafos conta a história é uma pessoa adulta, como se percebe nas seguintes passagens: 4 a 10, pois neles a 7. d) No décimo primeiro parágrafo, pois nele se insere um elemento novo, que precipita o desfecho do conto: a mãe da personagem antagonista descobre o comportamento perverso da filha.

Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

narradora-personagem conta a “tortura chinesa” a que foi submetida pela personagem antagonista, durante o período em que esperou o empréstimo do livro Reinações de Narizinho.

A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. 8. Para a narradora-personagem, a felicidade parece ser “clandestina”, ou seja, ilegal, ilegítima, proibida por se tratar de um sentimento constantemente adiado “para o dia seguinte”.

Relacionando as passagens lidas, interprete em que sentido a felicidade é “clandestina”, para a narradora-personagem. A fim de elaborar sua resposta, procure no dicionário o significado do adjetivo clandestino.

9. Em “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”, a narradora-personagem refere-se à presença do livro em sua vida como um ritual de passagem da adolescência para a afirmação refere-se ao livro como objeto erótico, à paixão por obtê-lo como antecipação da maturidade. Justifique essa afirmação. Essa paixão que, quando mulher, a narradora-personagem sentiria pelo homem a quem amasse. 10. Observe que a narradora-personagem inicialmente se autodescreve como parte do grupo das colegas (personagens auxiliares) que se opõem à personagem antagonista. Identifique outra personagem da história que exerce o papel de personagem auxiliar e explique a função que ocupa na narrativa. Trata-se da mãe da menina; sua função na narrativa é libertar a narradora-personagem da “tortura chinesa” a que foi submetida pela filha.

11. Nos parágrafos de 6 a 10 há uma sucessão de fatos que corresponde a uma espécie de “esticamento do tempo”. Transcreva uma frase do trecho que mostra o jogo cujo efeito é ressaltar as emoções da narradora-personagem. Resposta pessoal. Sugestão: “O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico”.

O conto

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12. Leia os fragmentos do conto “Felicidade clandestina” e as afirmações a respeito deles: • primeiro fragmento No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar nas ruas do Recife.

• segundo fragmento Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por uns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.

I. No primeiro fragmento, a casa representa um espaço de privação para a narradora-personagem; no segundo, representa um espaço de prazer intenso. II. No primeiro fragmento, a descrição do modo como a narradora-personagem andava nas ruas do Recife sugere a sua personalidade desatenta, imaginativa e fantasiosa. III. No segundo fragmento, por meio do ato de fingir que não sabia o lugar onde guardara o livro, a narradora-personagem cria um jogo erótico de adiamento e aproximação da felicidade.

Leia as frases e copie a correspondente aos fragmentos e às afirmações: E mais...: Primeiro item: De acordo com: Novo Dicionário Aurélio. Versão 5.0. Edição revista e atualizada, Expressionismo: Art.Plást. Arte e técnica de pintura, São corretas as afirmações I e II, em relação aos dois fragmentos. desenho, escultura, etc., que tende a deformar ou a exagerar a realidade por meios que expressam os sentimentos e a percepção de maneira intensa e direta. Sobre os dois fragmentos, são corretas as afirmações II e III. [...] P. ext. Qualquer manifestação artística em que o conteúdo emocional e as reações subjetivas exercem forte São corretas as afirmações I e III, em relação aos dois fragmentos. domínio sobre o convencionalismo e a razão. Caricatura: Desenho que, pelo traço, pela escolha dos detalhes, acentua ou revela certos aspectos caricatos de pessoa ou As três afirmações, em relação aos fragmentos, são corretas. fato. [...] Reprodução deformada de algo [...]. Pessoa ridícula pelo aspecto ou pelos modos. Segundo item: 1ª ˙ passagem: “Tinha um busto enorme, enquanto nós todas éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os bolsos da blusa, por cima do busto, com balas”. 2ª passagem: “O ˙

a) Sobre os fragmentos, é correta apenas a afirmação I. b) c) d) e)

E MAIS...

Protagonista versus antagonista

plano secreto da filha do dono da livraria era tranquilo e diabólico”. 3ª passagem: “Ela sabia que era tempo indefinido, ˙ enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso”.

Você percebeu que o conto de Clarice Lispector apresenta foco narrativo em primeira pessoa, centralizando-se no ponto de vista da narradora, que também é a protagonista da história. Como vimos, ela conta os fatos de forma passional, demonstrando forte envolvimento emocional com eles. Em frases como “Ela era toda pura vingança, chupando balas com barulho”, a narradora-personagem reduz a filha do dono da livraria ao sentimento de vingança, além de ridicularizá-la, por meio de uma imagem que se aproxima do estilo expressionista e da caricatura. • Procure no dicionário os significados de expressionismo e caricatura. • Em seguida, escolha três passagens do texto em que, na sua opinião, a descrição da personagem antagonista aproxima-se tanto do expressionismo quanto da caricatura. • A primeira dessas passagens deve priorizar os traços físicos da personagem, a segunda, os traços psicológicos e a terceira deve apresentar ambos os traços (físicos e psicológicos).

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Terceiro item: Professor, enfatizar que a narradora-personagem focaliza o conto na personagem antagonista, exercendo o seu direito de vingança e reparação. Entretanto, ao mesmo tempo, conta em primeira pessoa uma história sobre a paixão por histórias, como se vê em passagens como esta: “Na minha ânsia de ler, [...] os livros que ela não lia”. O que é reforçado no quinto parágrafo: “Era um livro grosso [...] vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”. CAPÍTULO 7 A descrição antecipa a última frase do texto, por mostrar o livro como um objeto de prazer físico, sensorial.

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Comentário A narrativa psicológica O enredo do conto “Felicidade clandestina” é criado por meio da ênfase em aspectos psicológicos dos seres humanos na fase da adolescência. Nele há uma exploração do universo interior dos personagens, destacando sentimentos intensos, como a inveja, o desejo de vingança, o sadismo, a voracidade, a paixão erótica pelos livros. Já em “Carolina”, a adolescência também é enfatizada, mas com o objetivo de abordar, de forma extremamente crítica e ao mesmo tempo delicada, aspectos psicológicos da formação do universo masculino. Essas histórias e muitas outras enriquecem nossa trajetória como leitores, pois organizam esteticamente experiências humanas e assim nos permitem compreendê-las de forma envolvente e significativa, ampliando como vemos o mundo, as pessoas e também como nos vemos no mundo, entre as pessoas.

LEITURA A armadilha 1

Alexandre Saldanha Ribeiro. Desprezou o elevador e seguiu pela escada,

apesar da volumosa mala que carregava e do número de andares a serem vencidos. Dez. 2

Não demonstrava pressa, porém seu rosto denunciava segurança de uma

resolução irrevogável. Já no décimo pavimento, meteu-se por um longo correEditora Companhia das Letras

dor, onde a poeira e detritos emprestavam desagradável aspecto aos ladrilhos. Todas as salas encontravam-se fechadas e delas não escapava qualquer ruído que indicasse presença humana. 3

Parou diante do último escritório e perdeu algum tempo lendo uma frase,

escrita a lápis, na parede. Em seguida passou a mala para a mão esquerda e com a direita começou a girar a maçaneta, que custou a girar, como se há muito não fosse utilizada. Mesmo assim não conseguiu franquear a porta, cujo madeiramento empenara. Teve que usar o ombro para forçá-la. E o fez com tamanha violência que ela veio abaixo ruidosamente. Não se impressionou. Estava muito seguro de si para dar importância ao barulho que antecedera a sua entrada numa saleta escura, recendendo a mofo. Percorreu com os olhos os móveis, as paredes. Contrariado, deixou escapar uma praga. Quis voltar ao corredor, a fim de recomeçar a busca, quando deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no chão, mas um terror súbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante sereno, apontava-lhe um revólver. Conservando a arma na direção do intruso, ordenou-lhe que não se afastasse. 4

Também a Alexandre não interessava fugir, porque jamais perderia a

oportunidade daquele encontro. A sensação de medo fora passageira e logo substituída por outra mais intensa, ao fitar os olhos do velho. Deles emergia uma penosa tonalidade azul.

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Revista Problemas Brasileiros/Folhapress

Naquela sala tudo respirava bolor, denotava extremo desmazelo, inclusive

5

as esgarçadas roupas do seu solitário ocupante. 6

— Estava à sua espera — disse, com uma voz macia.

7

Alexandre não deu mostras de ter ouvido, fascinado com o olhar do seu

interlocutor. Lembrava-lhe a viagem que fizera pelo mar, algumas palavras duras, num vão de escada. 8

O outro teve que insistir:

9

— Afinal, você veio.

10

Subtraído bruscamente às recordações, ele fez um esforço violento para

não demonstrar espanto: 11

— Ah, esperava-me? — Não aguardou resposta e prosseguiu exaltado,

como se de repente viesse à tona uma irritação antiga: — Impossível! Nunca você poderia calcular que eu chegaria hoje, se acabo de desembarcar e ninguém está informado de minha presença na cidade! Você é um farsante, mau farsante. Certamente aplicou suas velhas técnicas e pôs espias no meu encalço. De outro modo seria difícil descobrir, pois vivo viajando, mudando de lugar e nome. 12

— Não sabia das suas viagens nem dos seus disfarces.

13

— Então, como fez para adivinhar a data da minha chegada?

14

— Nada adivinhei, apenas esperava a sua vinda. Há dois anos, desta cadeira,

na mesma posição em que me encontro, aguardava-o certo de que você viria. 15

Por instantes, calaram-se. Preparavam-se para golpes mais fundos ou para

desvendar o jogo em que se empenhavam. 16

Alexandre pensou em tomar a iniciativa do ataque, convencido de que

somente assim poderia desfazer a placidez do adversário. Este, entretanto, percebeu-lhe a intenção e antecipou-se: 17

— Antes que me dirija outras perguntas, e sei que tem muitas a fazer-me,

quero saber o que aconteceu com Ema. 18

— Nada — respondeu, procurando dar à voz um tom despreocupado.

19

— Nada?

20

Alexandre percebeu a ironia e seus olhos encheram-se de ódio e humilha-

ção. Tentou revidar com um palavrão. Todavia, a fineza e a tranquilidade que

Murilo Eugênio Rubião (1916-1991)

Embora tenha se formado na Faculdade de Direito, Murilo Rubião optou pelo jornalismo, tornando-se redator da Folha de Minas e diretor da Rádio Inconfidência. Posteriormente, ingressou no mundo da política, sempre como assessor. Em 1947, lançou seu primeiro livro de contos, O ex-mágico, que não teve maior repercussão. Já em 1974, a publicação de O pirotécnico Zacarias, deu-lhe súbita fama. Nos anos posteriores, a sua obra curta, obsessivamente reescrita e sistematicamente comparada com a de Franz Kafka, passou a ser vista como a mais significativa manifestação da literatura fantástica no Brasil. Influenciou diversos autores brasileiros, como José J. Veiga e Moacyr Scliar.

iam na face do outro venceram-no. 21

— Abandonou-me — deixou escapar, constrangido pela vergonha.

E numa atitude inútil de demonstrar um resto de altivez, acrescentou: — Disso você não sabia! 22 Um leve clarão passou pelo olhar do homem idoso: 23 Calculava, porém desejava ter certeza. [...] RUBIÃO, Murilo. A casa do girassol vermelho e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Releitura

Escreva no caderno

1. Sobre o foco narrativo: Não. Ele apenas narra a história, sem participar a) O narrador do texto também é personagem da história? Justifique. dela como personagem. b) O texto apresenta narrador onisciente ou narrador observador? Comente esta resposta, tendo em vista o modo como a história é contada. O narrador é observador e esta característica — não saber previamente nada sobre os personagens — intensifica o mistério que caracteriza a narrativa.

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CAPÍTULO 7

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3. a) Parágrafo 2 — “Já no décimo pavimento, meteu-se por um longo corredor, onde a poeira e detritos emprestavam desagradável aspecto aos ladrilhos. Todas as salas encontravam-se fechadas e delas não escapava qualquer ruído que indicasse presença humana”. Parágrafo 5 — “Naquela sala tudo respirava bolor, denotava extremo desmazelo, inclusive as esgarçadas roupas do seu solitário ocupante”. 2. Sobre os personagens: 2. a) Alexandre Saldanha Ribeiro parece ser o protagonista, embora ao longo da história fiquemos em dúvida sobre essa afirmação, pois o outro personagem, que, por dedução, deveria ser o antagonista, demonstra certa superioridade sobre o a) Identifique o protagonista e o antagonista do texto.inimigo, certa consistência que nos leva a julgar que há neste conto uma ambiguidade em relação a esta categoria.

b) No conto, os personagens realizam um encontro que ambos consideravam necessário, impreterível. Dê a b) A razão do encontro é uma mulher, Ema, sua opinião sobre a razão do encontro, sugerida em certo momento. 2. conhecida pelos dois personagens, Alexandre e o

personagem mais idoso, cujo nome não é mencionado. 3. Sobre o espaço e o tempo: a) Cite dois fragmentos da história que mostram como a descrição espacial contribui com a criação do clima sombrio que a caracteriza. b) Qual fala de um dos personagens enfatiza a estagnação temporal que auxilia a produzir o efeito de imo14 — “Nada adivinhei, apenas esperava a sua vinda. Há dois anos, desta cadeira, na mesma posição em que me bilidade do conto? Parágrafo encontro, aguardava-o certo de que você viria”.

4. O conto caracteriza-se por apresentar um enredo com suspense. Copie um trecho que justifique essa Sugestões de resposta: Parágrafo. 2 — “Já no décimo pavimento, meteu-se por um longo corredor, onde a poeira e detritos emprestavam caracterização. 4. desagradável aspecto aos ladrilhos. Todas as salas encontravam-se fechadas e delas não escapava qualquer ruído que indicasse presença

humana”. Parágrafo. 3 — “começou a girar a maçaneta, que custou a girar, como se há muito não fosse utilizada. Mesmo assim não conseguiu franquear a porta, cujo madeiramento empenara”; “a sua entrada numa saleta escura, recendendo a mofo”; e “deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a”.

5. Agora, chegou o momento de conhecer o desfecho do conto “A armadilha”:

Começava a escurecer. Um silêncio pesado separava-os e ambos volveram para certas reminiscências que, mesmo contra a vontade deles, sempre os ligariam. O velho guardou a arma. Dos seus lábios desaparecera o sorriso irônico que conservara durante todo o diálogo. Acendeu um cigarro e pensou em formular uma pergunta que, depois, ele julgaria desnecessária. Alexandre impediu que a fizesse. Gesticulando, nervoso, aproximara-se da mesa: — Seu caduco, não tem medo que eu aproveite a situação para matá-lo? Quero ver sua coragem, agora, sem o revólver. — Não, além de desarmado, você não veio aqui para matar-me. — O que está esperando, então?! — gritou Alexandre. — Mate-me logo! — Não posso. — Não pode ou não quer? — Estou impedido de fazê-lo. Para evitar essa tentação, após tão longa espera, descarreguei toda a carga da arma no teto da sala. Alexandre olhou para cima e viu o teto crivado de balas. Ficou confuso. Aos poucos, refazendo-se da surpresa, abandonou-se ao desespero. Correu para uma das janelas e tentou atirar-se através dela. Não a atravessou. Bateu com a cabeça numa fina malha metálica e caiu desmaiado no chão. Ao levantar-se, viu que o velho acabara de fechar a porta e, por baixo dela, iria jogar a chave. Lançou-se na direção dele, disposto a impedi-lo. Era tarde. O outro já concluíra seu intento e divertia-se com o pânico que se apossara do adversário: — Eu esperava que você tentaria o suicídio e tomei a precaução de colocar telas de aço na janela. A fúria de Alexandre chegara ao auge: — Arrombarei a porta, jamais me prenderão aqui! — Inútil. Se tivesse reparado nela, saberia que também é de aço. Troquei a antiga por essa. — Gritarei, berrarei! — Não lhe acudirão. Ninguém mais vem a este prédio. Despedi os empregados, despejei os inquilinos. E concluiu, com a voz baixa, como se falasse apenas para si mesmo: — Aqui ficaremos, um ano, dez, cem ou mil anos. RUBIÃO, Murilo. A casa do girassol vermelho e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

6. E, então, considerando o título e o tom de suspense, em sua opinião, o desfecho condiz com o que se pessoal. Professor(a), converse com os alunos sobre a relação entre estes elementos e a construção do desfecho. desenvolve no conto? Resposta Espera-se que eles mencionem que o desfecho condiz com o que é desenvolvido no conto. O conto

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Neste capítulo, você viu que, embora a crônica tenha como imperativo a brevidade, o conto pode radicalizar essa característica, condensando sentidos, recursos estilísticos, imaginação e sensibilidade em poucas páginas. O conto trabalha sobre um restrito lapso de tempo e espaço, buscando a objetividade, abordando o tema de modo direto e deixando de lado pormenores secundários. A unidade de ação e de tom é seu grande desafio. O contista conjuga imaginação, observação e experiência com o contínuo corte do texto. Assim, atinge o efeito final, o objetivo básico: surpreender e magnetizar o leitor. Além de ter visitado três contistas de primeira grandeza, Edgard Telles Ribeiro, Clarice Lispector e Murilo Rubião, você acabou de estudar os principais elementos da narrativa: narrador, personagens, enredo, tempo, espaço.

Atividades

Escreva no caderno

1. (Enem/MEC) Tudo era harmonioso, sólido, verdadeiro. No princípio. As mulheres, principalmente as mortas do álbum, eram maravilhosas. Os homens, mais maravilhosos ainda, ah, difícil encontrar família mais perfeita. A nossa família, dizia a bela voz de contralto da minha avó. Na nossa família, frisava, lançando em redor olhares complacentes, lamentando os que não faziam parte do nosso clã. [...] Quando Margarida resolveu contar os podres todos que sabia naquela noite negra da rebelião, fiquei furiosa [...]. É mentira, é mentira!, gritei tapando os ouvidos. Mas Margarida seguia em frente: tio Maximiliano se casou com a inglesa de cachos só por causa do dinheiro, não passava de um pilantra, a loirinha feiosa era riquíssima. Tia Consuelo? Ora, tia Consuelo chorava porque sentia falta de homem, ela queria homem e não Deus, ou o convento ou o sanatório. O dote era tão bom que o convento abriu-lhe as portas com loucura e tudo. ‘’E tem mais coisas ainda, minha queridinha”, anunciou Margarida fazendo um agrado no meu queixo. Reagi com violência: uma agregada, uma cria e, ainda por cima, mestiça. Como ousava desmoralizar meus heróis? TELLES, L. F. A estrutura da bolha de sabão. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Representante da ficção contemporânea, a prosa de Lygia Fagundes Telles configura e desconstrói modelos sociais. No trecho, a percepção do núcleo familiar descortina um(a) a) convivência frágil ligando pessoas financeiramente dependentes. b) tensa hierarquia familiar equilibrada graças à presença da matriarca. c) pacto de atitudes e valores mantidos à custa de ocultações e hipocrisias. d) tradicional conflito de gerações protagonizado pela narradora e seus tios. e) velada discriminação racial refletida na procura de casamentos com europeus.

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CAPÍTULO 7

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Texto para as questões 2 e 3. Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos. Antonio Candido. Dez livros para entender o Brasil. Teoria e Debate. Ed. 45, 01/07/2000.

2. (Fuvest-SP) Traduz uma ideia presente no texto a seguinte afirmação: a) O efeito de um livro sobre o leitor é condicionado pela quantidade de informações que o texto veicula. b) A recepção de um livro pode ser influenciada pela situação vivida pelo leitor. c) A verdadeira erudição não dispensa a leitura dos bons manuais escolares. d) A leitura de um livro a qual tem finalidades meramente práticas prejudica a assimilação do conhecimento. e) O reconhecimento do valor de um livro depende, primordialmente, dos sentimentos pessoais do leitor. 3. (Fuvest-SP) Constitui recurso estilístico do texto: I. a combinação da variedade culta da língua escrita, que nele é predominante, com expressões mais comuns na língua oral; II. a repetição de estruturas sintáticas, associada ao emprego de vocabulário corrente, com feição didática; III. o emprego dominante do jargão científico, associado à exploração intensiva da intertextualidade. Está correto apenas o que se indica em: a) I. d) III. b) II. e) I e III. c) I e II. 4. Reconheça o tipo de foco narrativo e o tipo de narrador do trecho deste conto:

Foco narrativo em terceira pessoa; narrador observador.

Curvado no guidão lá vai ele numa chispa. Na esquina dá com o sinal vermelho e não se perturba — levanta voo bem na cara do guarda crucificado. No labirinto urbano persegue a morte com o trim-trim da campainha: entrega sem derreter sorvete em domicílio. É sua lâmpada de Aladino a bicicleta e, ao sentar-se no selim, liberta o gênio acorrentado ao pedal. Indefeso homem, frágil máquina, arremete impávido colosso, desvia de fininho o poste e o caminhão; o ciclista por muito favor derrubou o boné. TREVISAN, Dalton. Desastres do amor. Rio de Janeiro: Record, 2015.

O conto

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5. (Enem/MEC)

O peru de Natal O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres. ANDRADE, M. In: MORICONI, I. Os cem melhores contos brasileiros do século. São Paulo: Objetiva, 2000 (fragmento).

No fragmento do conto de Mário de Andrade, o tom confessional do narrador em primeira pessoa revela uma concepção das relações humanas marcada por a) distanciamento de estados de espírito acentuado pelo papel das gerações. b) relevância dos festejos religiosos em família na sociedade moderna. c) preocupação econômica em uma sociedade urbana em crise. d) consumo de bens materiais por parte de jovens, adultos e idosos. e) pesar e reação de luto diante da morte de um familiar querido. 6. (Fuvest-SP) Vestindo água, só saído o cimo do pescoço, o burrinho tinha de se enqueixar para o alto, a salvar também de fora o focinho. Uma peitada. Outro tacar de patas. Chu-áá! Chu-áá... — ruge o rio, como chuva deitada no chão. Nenhuma pressa! Outra remada, vagarosa. No fim de tudo, tem o pátio, com os cochos, muito milho, na Fazenda; e depois o pasto: sombra, capim e sossego... Nenhuma pressa. Aqui, por ora, este poço doido, que barulha como um fogo, e faz medo, não é novo: tudo é ruim e uma só coisa, no caminho: como os homens e os seus modos, costumeira confusão. É só fechar os olhos. Como sempre. Outra passada, na massa fria. E ir sem afã, à voga surda, amigo da água, bem com o escuro, filho do fundo, poupando forças para o fim. Nada mais, nada de graça; nem um arranco, fora de hora. Assim. João Guimarães Rosa. O burrinho pedrês, Sagarana.

Em trecho anterior do mesmo conto, o narrador chama Sete-de-Ouros de “sábio”. No excerto, a sabedoria do burrinho consiste, principalmente, em a) procurar adaptar-se o melhor possível às forças adversas, que busca utilizar em benefício próprio. b) firmar um pacto com as potências mágicas que se ocultam atrás das aparências do mundo natural. c) combater frontalmente e sem concessões as atitudes dos homens, que considera confusas e desarrazoadas. d) ignorar os perigos que o mundo apresenta, agindo como se eles não existissem. e) escolher a inação e a inércia, confiando inteiramente seu destino às forças do puro acaso e da sorte.

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CAPÍTULO 7

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O teatro

capítulo

8

C DO

A partir da leitura de alguns fragmentos de peças teatrais, você entrará em contato com a obra de Gil Vicente, o iniciador do teatro em língua portuguesa, e com a de dois autores que, no Brasil, deram continuidade ao teatro de inspiração popular — Martins Pena, no século XIX, e Ariano Suassuna, no século XX.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livros • MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: Alfaguara: Objetiva, 2007. • SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014. • SUASSUNA, Ariano. O santo e a porca. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007. Sites • DESVENDANDO O TEATRO. Disponível em: <http://tub.im/hv3kry>. Acesso em: 20 abr. 2016. • DOMÍNIO PÚBLICO. Peças de Martins Pena. Disponível em: <http://tub.im/4vcwym>. Acesso em: 20 abr. 2016. Vídeos • Farsa de Inês Pereira, peça de Gil Vicente. Disponível em: <http://tub.im/djyya4>. Acesso em: 20 abr. 2016. • Auto da Alma, peça de Gil Vicente. Disponível em: <http://tub.im/iefi2s>. Acesso em: 20 abr. 2016. • Pranto de Maria Parda, peça de Gil Vicente. Disponível em: <http://tub.im/3vtnf6>. Acesso em: 20 abr. 2016. • Auto da Índia, peça de Gil Vicente. Disponível em: <http://tub.im/3incro>. Acesso em: 20 abr. 2016. • Morte e vida severina. Direção: Afonso Serpa. Produção: Fundação Joaquim Nabuco; TV Escola. Desenho: Miguel Falcão. Vídeo (55min17s). Disponível em: <http://tub.im/zs79ii>. Acesso em: 20 abr. 2016.

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Professor(a), a atividade da seção “E mais...”, na página 126, requer preparação antecipada.

PRIMEIRA LEITURA Todo o Mundo e Ninguém Dinato Acabemos. Belzebu Por darmos alguma conta ao deus rei Lucifer, põe-te tu a escrever tudo quanto aqui se monta e quanto virmos fazer; porque o fim do mundo é perto e para o que nos hão de dar cumpre-nos ter que alegar; pois para provar o certo escreve quanto passar. Entra Todo o Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando alguma cousa que se lhe perdeu; e logo após ele um homem, vestido como pobre, este se chama Ninguém, e diz: Ninguém Que andas tu aí buscando? Todo o Mundo Mil cousas ando a buscar: delas não posso achar, porém ando porfiando por quão bom é porfiar. Ninguém Como hás nome, cavaleiro? Todo o Mundo Eu hei nome Todo o Mundo, e meu tempo todo inteiro sempre é buscar dinheiro, e sempre nisto me fundo. Ninguém Eu hei nome Ninguém, e busco a consciência. Belzebu Esta é boa experiência: Dinato, escreve isto bem. Dinato Que escreverei, companheiro? Belzebu Que Ninguém busca consciência, e Todo o Mundo dinheiro. Ninguém E agora, que buscas lá? Todo o Mundo Busco honra muito grande. Ninguém E eu virtude, que Deus mande que tope com ela já. Belzebu Outra adição nos acude: escreve logo aí, a fundo, que busca honra Todo o Mundo e Ninguém busca virtude. Ninguém Buscas outro mor bem qu’esse? Todo o Mundo Busco mais quem me louvasse tudo quanto eu fizesse. Ninguém E eu quem me reprendesse em cada cousa que errasse. Belzebu Escreve mais. Dinato Que tens sabido?

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porfiar: lutar por algo, insistir, procurar obter; honra: respeito social, distinção social; ma (quem ma dê), mo (sem mo ninguém estorvar): contrações de pronomes pessoais: me + a, me + o; aviso: sabedoria; cuidado.

CAPÍTULO 8

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Almeida Gartret/Teatro Nacional D. Maria II

Belzebu Que quer em extremo grado Todo o Mundo ser louvado e Ninguém ser repreendido. Ninguém Buscas mais, amigo meu? Todo o Mundo Busco a vida e quem ma dê. Ninguém A vida não sei que é, a morte conheço eu. Belzebu Escreve lá outra sorte. Dinato Que sorte? Belzebu Muito garrida: Todo o Mundo busca a vida, e Ninguém conhece a morte. Todo o Mundo E mais queria o paraíso, sem mo ninguém estorvar. Ninguém E eu ponho-me a pagar quanto devo para isso. Belzebu Escreve com muito aviso. Dinato Que escreverei? Belzebu Escreve que Todo o Mundo quer paraíso, e Ninguém paga o que deve. Todo o Mundo Folgo muito d’enganar, e mentir nasceu comigo. Ninguém Eu sempre verdade digo, sem nunca me desviar. Belzebu Ora escreve lá, compadre, não sejas tu preguiçoso. Dinato Quê? Belzebu Que Todo o Mundo é mentiroso, e Ninguém diz a verdade. Ninguém Que mais buscas? Todo o Mundo Lisonjear. Ninguém Eu sou todo desengano. Belzebu Escreve, ande lá, mano. Dinato Que me mandas assentar? Belzebu Põe aí mui declarado, não te fique no tinteiro: Todo o Mundo é lisonjeiro, e Ninguém desenganado. [...]

Gil Vicente (c. 1465-c. 1537) Considerado o fundador do teatro em língua portuguesa. Poucos fatos são tidos como certos em sua controvertida biografia. Em 1502 apresentou sua primeira peça, o Monólogo do vaqueiro ou Auto da visitação, na câmara da rainha dona Maria, em comemoração ao nascimento do príncipe, futuro rei D. João III. A partir dessa primeira criação, ainda muito simples, até o ano de 1536, desenvolveu uma vasta obra com mais de 40 peças conhecidas. Situado na transição entre a Idade Média e o Renascimento, sua dramaturgia pertence a uma vertente popular, embora escrita e representada no ambiente da corte. A moral religiosa mistura-se à crítica dos costumes, a alegoria edificante à caricatura e à sátira. Suas obras mais conhecidas: Auto da barca do inferno, Farsa de Inês Pereira, O velho da horta, Quem tem farelos?, Auto da Lusitânia.

VICENTE, Gil. Auto da Lusitânia. ln: SPINA, Segismundo. Obras-primas do teatro vicentino. São Paulo: Difel: Edusp, 1970. p. 316-318.

Em tom de conversa 1. Este texto é um quadro de uma peça de teatro escrita no século XVI. Você teve dificuldades com a linguagem do autor? Exponha-as aos colegas para que eles e o(a) professor(a) o ajudem a compreender melhor o texto. Resposta pessoal. Professor(a), faça algumas perguntas para verificar a compreensão de passagens do texto.

O teatro

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2. Você considera que uma representação desse texto seria anacrônica nos dias de hoje ou a temática mantém alguma atualidade, depois de quatro séculos? Justifique sua opinião. Resposta pessoal. Espera-se que o aluno identifique alguns temas, como a importância dada ao dinheiro e ao lucro a qualquer preço, que mantêm a atualidade do texto.

3. Gil Vicente criou essa peça para representá-la na corte, em comemoração ao nascimento do príncipe D. Manuel, filho do rei D. João. Pelo que você entendeu do texto, com que outras finalidades o autor o escreveu? Divertir a plateia,

PARA QUE SABER?

Anacrônico: em desacordo com os usos da época; contrário ao que é moderno.

provocar o riso; satirizar a sociedade portuguesa (sobretudo os membros da corte, uma vez que a peça seria apresentada para eles); moralizar, criticando os ricos comerciantes (Todo o Mundo é caracterizado como rico mercador).

Releitura

Escreva no caderno

O texto “Todo o Mundo e Ninguém” é uma passagem do Auto da Lusitânia, representado pela primeira vez na corte de D. João III, em 1532. Nessa época Portugal vivia um período de luxo e riqueza, em consequência do comércio ultramarino.

Retome, no capítulo 4 deste volume, as definições de alegoria e rubrica.

1. Como é comum na arte medieval, o texto de GiI Vicente apresenta uma cena alegórica. (Veja um exemplo de pintura alegórica medieval na página seguinte.) Os personagens dão concretude a ideias abstratas. Releia a rubrica da cena e observe a relação entre o nome e a caracterização de cada um. A partir dessa Chamando de Todo o Mundo o personagem vestido de rico mercador e de Ninguém o relação, explique a crítica feita aos costumes da época. que está vestido como pobre, o autor pretende criticar a generalização do estilo luxuoso de vida entre os portugueses da época. O aluno pode comentar a avidez da riqueza (2ª. fala de T.M.); e a valorização da posição social (3ª. fala de T.M.).

2. Os efeitos cômicos dessa cena resultam em grande parte dos contrastes entre os personagens. Ao longo do texto, acumulam-se as oposições entre os valores procurados por Todo o Mundo e por Ninguém. Anote em duas listas esses valores opostos. Todo o Mundo, vestido ricamente: dinheiro, honra (boa posição social), louvor, vida, paraíso, mentira, lisonja; Ninguém, vestido como pobre: consciência, virtude, repreensão, morte, pagamento de dívidas, verdade, desengano.

3. No teatro grego havia um coro de personagens que comentava as cenas da peça. a) Qual é o personagem da cena “Todo Mundo e Ninguém” que exerce função semelhante à do coro grego? Esse personagem é Belzebu.

3. b) Na dimensão ficcional, Belzebu é testemunha do diálogo entre Todo o Mundo e Ninguém e deve relatá-lo a seu superior, Lúcifer. Na estrutura da peça, sua função é comentar as falas dos personagens, interpretando de modo genérico seu significado simbólico e cristalizando a alegoria para a plateia.

b) Qual é a sua função específica na peça para o funcionamento da alegoria?

4. A presença física dos dois personagens contrasta com seus significados genéricos e abstratos, insistentemente lembrados por Belzebu. Compare a frase do personagem Ninguém — “[Eu] busco a consciência” — com a frase de Belzebu — “Que ninguém busca consciência”. Explique o contraste que se estabelece entre elas. Na primeira, o personagem, cujo nome é Ninguém, representado e visto pela plateia na pessoa de um ator, individualiza a ação de buscar ou o desejo de ter consciência; no comentário de Belzebu, ninguém é um pronome indefinido (não mais o nome de um personagem) e generaliza a ação ou o desejo; na primeira, a busca, ou desejo, é afirmada (‘eu busco’); na segunda, é negada (‘ninguém busca’).

Comentário Embora seja um fragmento de uma peça, esse quadro possui unidade, podendo ser lido ou representado isoladamente, sem perda de significação ou prejuízo da compreensão. Trata-se de um texto exemplar das características do teatro alegórico de Gil Vicente. Como leitores, só podemos imaginar o contraste que a plateia percebe entre as figuras concretas dos personagens e as ideias abstratas que eles representam. Esse é o funcionamento da alegoria nesse quadro: a plateia vê e ouve dois homens — seus movimentos, trejeitos, vozes, trajes — e conhece seus nomes. Mas é Belzebu que atualiza, ou lembra, constantemente, seus significados alegóricos, traduzidos nos pronomes indefinidos e genéricos todo o mundo e ninguém. A sátira realiza-se aqui por meio de uma grande ironia, em que os opostos se tornam idênticos: dizer “todo o mundo se veste ricamente” é o mesmo que dizer “ninguém se veste pobremente”; “todo o mundo só pensa em ganhar dinheiro” é o mesmo que “ninguém pensa em valores morais (consciência)” — ou seja, “todo o mundo sim” é igual a “ninguém não”.

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CAPÍTULO 8

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Le itu ra de im ag em Hieronymus Bosch, um pintor contemporâneo de Gil Vicente As alegorias do pintor flamengo Hieronymus Bosch (c. 1450-1516) misturam, a cenas minuciosamente realistas, personagens e situações estranhamente fantásticos. Desse contraste irônico, brota uma das mais impressionantes manifestações críticas da vida europeia do século XV, período de transição, dividido entre os valores tradicionais (medievais) e os modernos (humanistas). Em oposição ao monte de feno, a figura de Cristo, distante, representando a vida espiritual e a salvação.

Este é o painel central. O carro é puxado na direção do painel da direita, que representa o inferno. BOSCH, Hieronymus. O carro de feno. c. 1500. Óleo sobre painel, 135 × 100 cm. Museu do Prado, Madri

A luxúria: casal de amantes e seus alcoviteiros. – O Bem (anjos) e o Mal (demônio). O carro de feno, que domina o centro do quadro, simboliza os bens materiais, a riqueza terrena.

A multidão, em desespero, assalta o carro de feno. Como diz Belzebu no texto de Gil Vicente, “Que Ninguém busca consciência, e Todo o Mundo, dinheiro”.

Dignitários da nobreza e do clero.

Figuras monstruosas, animalescas, conduzem o carro.

A falsa religiosidade.

Tríptico O carro de feno, painel central, cerca de 1500. O teatro

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O INICIADOR DO TEATRO EM LÍNGUA PORTUGUESA Por sua força satírica, a cena do Auto da Lusitânia que você leu atravessou quatro séculos e continua extremamente atual. O teatro de Gil Vicente era primitivo e rudimentar. As peças eram representadas em um salão do palácio real, possivelmente sobre um tablado, sem cenário, cortinas ou recursos especiais de iluminação. Como se explica, então, sua grande eficiência comunicativa? A resposta está na maestria com que o autor usava a palavra. Todo o efeito desse teatro advém da representação dos conflitos pelos atores e da linguagem usada com grande expressividade. A força do teatro vicentino é a que brota de sua poesia, do uso da linguagem popular, dos jogos de palavra surpreendentes. Assim, o riso que ele provocava nos salões palacianos do século XVI se faz ainda ouvir, no século XXI, nas representações e adaptações das peças que continuam a ocorrer, tanto em Portugal como no Brasil. Suas obras marcaram toda a história do teatro em língua portuguesa e continuam influenciando dramaturgos importantes de nossa época.

Características do teatro de Gil Vicente 1. Mentalidade medieval As primeiras décadas do século XVI foram um período de grandes transformações na Europa. Começava a Era Moderna, com a formação dos grandes impérios ultramarinos de Portugal e Espanha, o princípio do mercantilismo e o desencadeamento da Reforma protestante. Em meio a todas essas mudanças, o teatro vicentino ainda reflete o pensamento medieval por sua moral religiosa (a justificativa do bem pela necessidade da redenção eterna) e pelo ideal social hierárquico. Sua concepção de mundo permaneceu essencialmente teocêntrica. 2. Teatro popular Gil Vicente não se deixou influenciar pelas novidades estéticas introduzidas pelo Renascimento. Sua obra é a síntese das tradições medievais e populares.

Características estéticas do teatro popular a) Teatro alegórico. Representação de ideias abstratas por meio de personagens, situações e coisas concretas. b) Teatro de tipos. Os personagens não são indivíduos singulares nem possuem traços psicológicos complexos; pelo contrário, apenas reúnem os caracteres mais marcantes de sua classe social, de sua profissão, de seu sexo, de sua idade... Quando esses traços são exagerados e grotescos, dizemos que o autor fez um personagem caricatural ou simplesmente uma caricatura. c) Teatro cômico e satírico. As peças de Gil Vicente, em sua maioria, são comédias de costumes, seguindo o lema latino ridendo castigat mores (pelo riso corrigem-se os costumes). d) Teatro de quadros. Em geral, os autos desenvolvem-se por uma sucessão de cenas relativamente independentes, sem formar propriamente um enredo, ou seja, uma história que, depois de apresentada, se complica até um ponto culminante e um desfecho. e) Rupturas da linearidade do tempo e despreocupação com a verossimilhança. No teatro clássico, que se iniciava à época de Gil Vicente, foi tal o cuidado com a verossimilhança, que se estabeleceram regras rigorosas, como a das três unidades — ação, tempo e lugar (a ação deveria ter um só foco dramático, ocorrer em um período máximo de 24 horas e em um único lugar). Gil Vicente desconhece essas regras. Mesmo nas farsas, peças que já possuem um enredo, como O velho da horta ou a Farsa de Inês Pereira, a sucessão cronológica dos acontecimentos é frequentemente inverossímil ou mesmo absurda.

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CAPÍTULO 8

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LEITURA Auto da barca do Inferno (Quadro: o Fidalgo) ARGUMENTO — Representa-se na obra seguinte uma prefiguração sobre a rigorosa acusação que os inimigos fazem a todas as almas humanas, no ponto que por morte de seus terrestres corpos se partem. E por tratar desta matéria põe o autor por figura que no dito momento elas chegam a um profundo braço de mar, onde estão dois batéis: um deles passa para a Glória, outro, para o Purgatório. É repartida em três partes: de cada embarcação, uma cena. Esta primeira é da viagem do Inferno. Vem o FIDALGO e, chegando ao batel infernal, diz: Fidal

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Esta barca onde vai ora, que assi’stá apercebida? Diabo Vai para a ilha perdida e há-de partir logo ess’ora. Fidal Para lá vai a senhora? Diabo Senhor, a vosso serviço. Fidal Parece-me isso cortiço... Diabo Porque a vedes lá de fora. Fidal Porém, a que terra passais? Diabo Para o inferno, senhor. Fidal Terra é bem sem sabor. Diabo Quê? E também cá zombais? Fidal E passageiros achais para tal habitação? Diabo Vejo-vos eu em feição para ir ao nosso cais... Fidal Parece-te a ti assi... Diabo Em que esperas ter guarida? Fidal Que deixo na outra vida quem reze sempre por mi. Diabo Quem reze sempre por ti!... Hi! Hi! Hi! Hi! Hi! Hi! Hi!... E tu viveste a teu prazer cuidando cá guarecer porque rezam lá por ti?! Embarca! Ou ... embarcai! que haveis de ir à derradeira... Mandai meter a cadeira, que assim passou vosso pai. Fidal Quê? Quê? Quê? E assim lhe vai?! Diabo Vai ou vem, embarcai prestes. Segundo lá escolhestes, assim cá vos contentai. Pois que já a morte passastes, haveis de passar o rio. Fidal Não há aqui outro navio? Diabo. Não, senhor, que este fretastes, e primeiro que expirastes me tínheis dado sinal. Fidal Que sinal foi esse tal?

FIQUE SABENDO

Auto: gênero teatral típico da Idade Média — “designa uma peça breve, de tema religioso ou profano [...]: equivaleria a um ato que integrasse espetáculo maior e completo; daí o apelativo que recebeu: auto”. MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1978. p. 49.

Farsa: subgênero de peça teatral cômica, caracterizada pelo exagero, o jogo de equívocos e as situações ridículas.

FIQUE SABENDO

Auto da barca do Inferno, escrito em 1517, é uma das obras mais representativas do teatro vicentino. Como em tantas outras peças, nesta o autor aproveita a temática religiosa como pretexto para a crítica de costumes. Num braço de mar estão ancoradas duas barcas. A primeira, capitaneada pelo diabo, faz a travessia para o inferno; a segunda, chefiada por um anjo, vai para o céu. Uma a uma vão chegando as almas dos mortos — um fidalgo, um onzeneiro (agiota), um parvo (bobo), um sapateiro, um frade levando a sua amante, uma alcoviteira, um judeu, um corregedor (juiz), um procurador (advogado do Estado), um enforcado e quatro Cavaleiros de Cristo (cruzados) que morreram em poder dos mouros. Todos tentam evitar a barca do diabo, mas apenas o parvo e os cruzados conseguem embarcar para o céu.

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Diabo Fidal

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Do que vós vos contentastes. A estoutra barca me vou. — Hou da barca, para onde is? Ah, barqueiros, não me ouvis?! Respondei-me! Hou-lá! Hou!... — Por Deus, aviado estou! Quanto a isto é já pior. Que gericocins, salvanor! Cuidam cá que sou eu grou. Que mandais? Que me digais, pois parti tão sem aviso, se a barca do paraíso é esta em que navegais. Esta é; que lhe buscais? Que me deixeis embarcar; sou fidalgo de solar, é bem que me recolhais. Não se embarca tirania neste batel divinal. Não sei por que haveis por mal que entre minha senhoria. Pra vossa fantasia mui pequena é esta barca, Para senhor de tal marca não há aqui mais cortesia? Venha prancha e atavio! Levai-me desta ribeira! Não vindes vós de maneira para entrar neste navio. Essoutro vai mais vazio: a cadeira entrará, e o rabo caberá e todo o vosso senhorio. Ireis lá mais espaçoso, vós e... vossa senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso; e porque, de generoso, desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos quanto mais fostes fumoso. À barca, à barca, senhores! Oh! Que maré tão de prata! Um ventozinho que mata e valentes remadores! (cantando):Vos me veniredes a la mano; a la mano me veniredes, e vos veredes peixes nas redes. Ao inferno todavia! Inferno há aí para mi?! Ó triste! Enquanto vivi nunca cri que o aí havia. Tive que era fantasia;

v. 3 v. 15 v. 18 v. 24 v. 27 v. 30 v. 39

v. 43 v. 46 v. 48

v. 57 v. 63 v. 73 v. 82 v. 90

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ilha perdida: inferno; em feição: com feitio, com jeito; guarida: proteção (entenda-se: com que te defendes do castigo); guarecer: sarar, curar; aqui: salvar-se; à derradeira: afinal; E assim lhe vai?: E isso é verdade? sinal: primeira parte do pagamento. Entenda-se a passagem: antes mesmo de expirar, o fidalgo “fretou” o navio para o inferno e pagou a passagem com a vida de pecados com que se contentou; is: ides (ir, 2ª. pess. pl. pres. ind.); aviado estou: hoje diríamos “estou arrumado!”, “estou mal arranjado!”; Que gericocins, salvanor!: esta exclamação tem sido interpretada como “grito, e ninguém me ouve; estes asnos não me respondem”; fidalgo de solar: fidalgo antigo, de nobre linhagem; fantasia: presunção, vaidade; rabo: cauda do manto; fumoso: vaidoso; peixes nas redes: Feliz, o diabo canta uma canção popular; o verso alude às almas “pescadas” pela rede do diabo; nunca cri que o aí havia: nunca acreditei que o inferno existia.

CAPÍTULO 8

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1. Elementos que os resumos devem ter: 1º· segmento: local – batel do inferno; personagens – fidalgo e diabo; atitudes – do diabo, zombaria; do fidalgo, presunção, recusa de embarcar; 2º· segmento: local – batel do paraíso; personagens – fidalgo e anjo; atitudes: do fidalgo, presunção de direito ao embarque; do anjo, ironia, recusa do direito ao embarque; 3º· segmento: retorno à barca do inferno; personagens – fidalgo e diabo; atitudes: do fidalgo – arrependimento; aceitação do embarque para o inferno; do diabo – alegria e zombaria.

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Diabo

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folgava ser adorado; confiei em meu estado e não vi que me perdia. Venha essa prancha e veremos esta barca de tristura. Embarque vossa doçura, que cá nos entenderemos... Tomareis um par de remos, veremos como remais; e, chegando ao vosso cais, nós vos desembarcaremos. [...]

1. a) Resposta possível: A peça é uma representação de como poderá ser o julgamento das almas após a morte dos seres humanos. 1. b) Significa “representar figuradamente”. O autor representa concretamente, por meio de personagens e cenário simbólicos, o julgamento (salvação ou condenação) das almas após a morte. Um tema abstrato é representado “em figura” (figuradamente). Portanto, a expressão pode ser traduzida por “põe em alegoria”, “alegoriza”.

VICENTE, Gil. Auto da barca do Inferno. In: SPINA, Segismundo. Obras-primas do teatro vicentino. São Paulo: Difel: Edusp, 1970. p. 108-111. 2. a) Os símbolos são o manto (a que o diabo se refere como “rabo”) e a cadeira, símbolos do poder e da dignidade, da fidalguia. Professor(a), explique que em cena (quadro) anterior há um pajem que carrega a cadeira do fidalgo.

Em tom de conversa

2. b) Nos versos 72 e 73, o anjo se refere zombeteiramente ao manto como rabo. Ele interpreta ironicamente o significado dos dois símbolos como sinais da empáfia, da arrogância do fidalgo. Essa interpretação fica evidente na inclusão de “todo o vosso senhorio” (poder, autoridade, grandeza) entre as coisas que caberão no batel.

1. Este quadro do Auto da barca do Inferno pode ser dividido em três segmentos, conforme o desenrolar da ação: • 1º· segmento: do verso 1 ao 41 • 2º· segmento: do verso 42 ao 81 • 3º· segmento: do verso 82 ao 105 2. Faça um resumo do segmento que lhe for indicado pelo(a) professor(a). O resumo deve ter um narrador em terceira pessoa e não pode ter discurso direto. 3. Em seguida, se for chamado, apresente seu resumo aos colegas. Se não for, participe da discussão sobre os resumos apresentados pelos colegas e, com base em seu resumo, ajude-os a corrigi-los e a completá-los.

3. a) Essa forma de tratamento é usada duas vezes pelo anjo, nos versos 74 e 76 (o diabo utiliza o tratamento senhor). Trata-se de um tratamento convencional e cerimonioso, utilizado, na época, para os nobres (antigos senhores). O anjo o emprega irônica e zombeteiramente, para referir-se à arrogância do fidalgo, à sua pretensa grandeza, que já não tem sentido depois da morte. O efeito de ironia, de zombaria evidencia-se na transformação do pronome em Escreva substantivo (vosso senhorio, v. 74) e na reticência entre vosso e senhorio (comentar que as reticências nesse no caderno caso indicam uma hesitação, como se o anjo duvidasse da adequação do tratamento).

Releitura

1. Releia o argumento, que precede o texto da peça.

3. b) Os pronomes de tratamento são utilizados em relação ao interlocutor (2ª. pessoa, vossa senhoria) ou como referência a alguém (3a pessoa, sua senhoria). Como formas protocolares, indicam respeito à dignidade da posição ocupada pelo interlocutor. Usada pelo fidalgo em referência a si mesmo (1ª. pessoa), provoca um

a) Reescreva, com suas palavras, o tema da peça. b) Considerando as explicações sobre as características do teatro de Gil Vicente, comente o significado da efeito de humor, como caricatura da presunção da classe social, mostrando sua expressão pôr em figura. incapacidade para perceber que seus privilégios já não existem após a morte. 2. Em uma alegoria, todos os detalhes da representação devem contribuir para a significação simbólica do conjunto. No Auto da arca do inferno, os personagens portam símbolos que permitem à plateia identificar a profissão ou a classe social que cada um representa. Por exemplo, o onzeneiro (agiota) usa um barrete (chapéu de pano) e carrega uma grande bolsa de moedas; o sapateiro usa um avental e segura as formas de sapatos. a) Quais são os símbolos que identificam o fidalgo como personagem típico de sua classe social? b) Comente o modo como o anjo refere-se a esses símbolos. 3. Observe as ocorrências do pronome de tratamento vossa senhoria. a) Qual é a intenção do anjo ao empregá-lo como forma de tratamento? b) No verso 62, qual efeito resulta do uso desse tratamento pelo próprio fidalgo? Explique. 4. As obras de tradição popular, sobretudo as moralistas, como as fábulas, costumam explicitar uma lição ou ensinamento (moral da história). a) Nesse quadro do Auto da barca do Inferno, a “moral da história” é explicitada por um personagem. Localize-a e indique os versos em que ocorre. b) Considerando que as peças de Gil Vicente eram apresentadas nos salões da corte, comente a posição assumida pelo teatrólogo em relação à nobreza.

FIQUE SABENDO

Pronomes de tratamento são pronomes de referência ao interlocutor: você, o senhor. Geralmente são de uso cerimonioso e protocolar: vossa majestade, vossa alteza e vossa senhoria, por exemplo.

4. a) A moral da história é anunciada pelo fidalgo entre os versos 92 e 98, sobretudo os dois últimos: “confiei em meu estado / e não vi que me perdia”. 4. b) Espera-se que os alunos reconheçam a coragem de G.V. em fazer críticas tão contundentes à presunção, à arrogância e aos privilégios dos nobres, e em apresentá-las, no ambiente da corte, diretamente a eles. Essas críticas são também um índice do respeito que a corte tinha por Gil Vicente.

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OUTRO MOMENTO SEMINAL: O TEATRO DE MARTINS PENA No decorrer do período colonial, o teatro praticamente inexistiu na literatura brasileira. Excetuando-se as peças escritas com finalidade catequética pelo Pe. José de Anchieta, no século XVI, as poucas manifestações teatrais não deixaram marcas e não formaram uma tradição. Considera-se Martins Pena, autor do período romântico, como verdadeiro iniciador do teatro brasileiro, pela importância, pela extensão e pela qualidade da obra. As peças de Martins Pena, sobretudo as comédias de costumes, retratam a vida brasileira, rural e urbana, das camadas populares. Como as farsas de Gil Vicente, têm as características do teatro popular, com fortes traços caricaturais e satíricos.

LEITURA O noviço (fragmento) Ato 1 — Cena V Entra EMÍLIA, vestida de preto, como querendo atravessar a sala. FLORÊNCIA — Emília, vem cá. EMÍLIA — Senhora? FLORÊNCIA — Chega aqui. Ó menina, não deixarás este ar triste e lagrimoso em que andas? EMÍLIA — Minha mãe, eu não estou triste. (Limpa os olhos com o lenço.) FLORÊNCIA — Aí tem! Não digo? A chorar. De que chora? EMÍLIA — De nada, não senhora. FLORÊNCIA — Ora, isto é insuportável! Mata-se e amofina-se uma mãe extremosa para fazer a felicidade de sua filha, e como agradece esta? Arrepelando-se e chorando. Ora, sejam lá mãe e tenham filhos desobedientes... EMÍLIA — Não sou desobediente. Far-lhe-ei a vontade; mas não posso deixar de chorar e sentir. (Aqui aparece à porta por onde saiu, Ambrósio, em mangas de camisa, para observar.) FLORÊNCIA — E por que tanto chora a menina, por quê? EMÍLIA — Minha mãe... FLORÊNCIA — O que tem de mau a vida de freira? EMÍLIA — Será muito boa, mas é que não tenho inclinação nenhuma para ela. FLORÊNCIA — Inclinação, inclinação! O que quer dizer inclinação? Terás, sem dúvida, por algum francelho frequentador de bailes e passeios, jogador do écarté e dançador de polca? Essas inclinações é que perdem muitas meninas. Esta cabecinha ainda está muito leve; eu é que sei o que me convém: serás freira. EMÍLIA — Serei freira, minha mãe, serei! Assim como estou certa que hei de ser desgraçada. FLORÊNCIA — Histórias! Sabes tu o que é o mundo? O mundo é... é... (À parte:) Já não me recordo o que me disse o Sr. Ambrósio que era o mundo. (Alto:) O mundo é... um... é... (À parte:) E esta? (Vendo Ambrósio junto da porta:) Ah, Ambrósio, dize aqui a esta estonteada o que é o mundo. AMBRÓSIO (adiantando-se) — O mundo é um pélago de enganos e traições, um escolho em que naufragam as felicidades e as doces ilusões da vida... E o convento é porto de salvação e ventura, único

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CAPÍTULO 8

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abrigo da inocência e verdadeira felicidade... Onde está minha casaca? FLORÊNCIA — Lá em cima no sótão. (Ambrósio sai pela direita. Florência para Emília:) Ouviste o que é o mundo, e o convento? Não sejas pateta, vem acabar de vestir-te, que são mais que horas. (Sai pela direita.) Cena VII CARLOS, com hábito de noviço, entra assustado e fecha a porta. EMÍLIA (assustando-se) — Ah, quem é? Carlos! CARLOS — Cala-te. EMÍLIA — Meu Deus, o que tens, por que estás tão assustado? O que foi? CARLOS — Aonde está minha tia, e o teu padrasto? EMÍLIA — Lá em cima. Mas o que tens? CARLOS — Fugi do convento, e aí vêm eles atrás de mim. EMÍLIA — Fugiste? E por que motivo? CARLOS — Por que motivo? Pois faltam motivos para se fugir de um convento? O último foi o jejum em que vivo há sete dias... Vê como tenho esta barriga, vai a sumir-se. Desde sexta-feira passada que não mastigo pedaço que valha a pena. EMÍLIA — Pobre Carlos, como terás passado estes seis meses de noviciado! CARLOS — Seis meses de martírio! Não que a vida de frade seja má; boa é ela para quem a sabe gozar e que para ela nasceu; mas eu, priminha, eu que tenho para a tal vidinha negação completa, não posso! EMÍLIA — E os nossos parentes quando nos obrigam a seguir uma carreira para a qual não temos inclinação alguma, dizem que o tempo acostumar-nos-á. CARLOS — O tempo acostumar! Eis aí porque vemos entre nós tantos absurdos e disparates. Este tem jeito para sapateiro: pois vá estudar medicina... Excelente médico! Aquele tem inclinação para cômico: pois não senhor, será político... Ora, ainda isso vá. Estoutro só tem jeito para caiador ou borrador: nada, é ofício que não presta. Seja diplomata, que borra tudo quanto faz. Aqueloutro chama-lhe toda a propensão para a ladroeira; manda o bom senso que se corrija o sujeitinho, mas isso não se faz: seja tesoureiro de repartição, fiscal, e lá se vão os cofres da nação à garra... Essoutro tem uma grande carga de preguiça e indolência e só serviria para leigo de convento, no entanto vemos o bom do mandrião empregado público, comendo com as mãos encruzadas sobre a pança o pingue e ordenado da nação. EMÍLIA — Tens muita razão; assim é. CARLOS — Este nasceu para poeta ou escritor, com uma imaginação fogosa e independente, capaz de grandes cousas, mas não pode seguir a sua inclinação, porque poetas e escritores morrem de miséria, no Brasil. E assim [o] obriga a necessidade a ser o mais somenos amanuense em uma repartição pública e a copiar cinco horas por dia os mais soníferos papéis. O que acontece? Em breve matam-lhe a inteligência e fazem do homem pensante máquina estúpida, e assim se gasta uma vida! É preciso, é já tempo que alguém olhe para isso, e alguém que possa. EMÍLIA — Quem pode nem sempre sabe o que se passa entre nós, para poder remediar; é preciso falar. CARLOS — O respeito e a modéstia prendem muitas línguas, mas lá vem um dia que a voz da razão se faz ouvir, e tanto mais forte quanto mais comprimida. EMÍLIA — Mas Carlos, hoje te estou desconhecendo... CARLOS — A contradição em que vivo tem-me exasperado! E como queres tu

3028-LIT-V1C08-LA-F003_ Imagem de Luís Carlos Martins Pena. NOVO.

Luís Carlos Martins Pena (1815-1848) Iniciou sua carreira em 1838 com a encenação de sua primeira peça, O juiz de paz na roça. No intervalo de uma década (o autor faleceu em 1848, com 33 anos apenas, vitimado pela tuberculose), escreveu 28 peças, entre comédias e dramas. Suas principais obras (O juiz de paz na roça, A família e a festa na roça, O Judas em sábado de aleluia, Quem casa quer casa, O noviço, todas comédias) mantêm ainda hoje o interesse do público e são frequentemente representadas por companhias de teatro. O noviço foi adaptada como novela de televisão em 1975 e O namorador, para o cinema em 1978.

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que eu não fale quando vejo, aqui, um péssimo cirurgião que poderia ser bom alveitar; ali, um ignorante general que poderia ser excelente enfermeiro; acolá, um periodiqueiro que só serviria para arrieiro, tão desbocado e insolente é, etc., etc. Tudo está fora de seus eixos...

arrepelar-se: puxar-se os cabelos, lastimar-se; francelho: indivíduo elegante, que afeta costumes franceses; tagarela;

EMÍLIA — Mas que queres tu que se faça?

pélago: abismo, mar;

CARLOS — Que não se constranja ninguém, que se estudem os homens e que haja uma bem entendida e esclarecida proteção, e que, sobretudo, se despreze o patronato, que assenta o jumento nas bancas das academias e amarra o homem de talento à manjedoura. Eu, que quisera viver com uma espada à cinta e à frente do meu batalhão, conduzi-lo ao inimigo através da metralha, bradando: “Marcha... (Manobrando pela sala, entusiasmado:) Camaradas, coragem, calar baionetas! Marche, marche! Firmeza, avança! O inimigo fraqueia... (Seguindo Emília, que recua, espantada:) Avança!”

escolho: recife;

EMÍLIA — Primo, primo, que é isso? Fique quieto! [...]

Releitura

mandrião: preguiçoso, indolente; pingue: gordo, nutrido, farto; somenos: inferior, sem importância, de menor importância; amanuense: escrevente, copista; alveitar: veterinário prático, não formado; periodiqueiro (pejorativo): que escreve artigos em periódicos (jornais); arrieiro: tropeiro, guia de animais de carga;

PENA, Martins. Teatro de Martins Pena. Edição crítica de Darcy Damasceno. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1956. p. 296 ss. v. 1. (Comédias).

Escreva no caderno

borrador: pintor de paredes;

patronato: proteção, patrocínio para colocação em emprego ou em cargo público.

1. Espera-se que o aluno mencione o poder masculino irrestrito (exercido pelo pai e por outros parentes, como o tio de Carlos, padrasto de Emília e marido de Florência) que exigia obediência incondicional, decidia sobre o futuro dos filhos e sobrinhos, por exemplo, e determinava a profissão que deviam seguir, sem levar em conta suas inclinações e escolhas pessoais. Podem também apontar a posição da mulher no casamento (Florência não só aceitava como defendia as decisões do marido).

1. As comédias de costumes retratam satiricamente os hábitos, ideias e valores de um grupo social. Quais são os costumes familiares e os valores educacionais da época satirizados no texto? 2. a) As interrupções das frases, marcadas pelas reticências, mostram que Florência não tem ideias próprias. Para convencer a filha,

2. Sobre a Cena V: procura reproduzir o que ouvira de Ambrósio, mas, por não ter compreendido, precisa repetir as palavras exatas, das quais não se lembra. 2. b) Ambrósio define o mundo como um lugar de grandes perigos e o convento como o lugar

a) Explique as reticências da fala de Florência. da salvação. Para isso, utiliza metáforas grandiloquentes, pomposas, feitas de palavras difíceis, como pélago e escolho. Assim, os lugares-comuns, as ideias banais, ganham a b) Explique a seguinte afirmação: A linguagem usada por Ambrósio em seu pequeno discurso tem a finalidade de pensamentos originais e profundos para os interlocutores ingênuos, como Florência. de enganar os interlocutores ingênuos. aparência 3. As “falas à parte”, indicadas entre parênteses, traduzem o pensamento da personagem, como se 3. Para provocar o riso, a comédia de costumes utiliza diversos recursos e convenções teatrais ingênuos e exagerados: o disfarce (por exemplo, em uma cena Carlos se disfarça com as roupas de Rosa, primeira mulher de Ambrósio), ocultação de personagens, revelação... Uma convenção frequentemente utilizada é a da “fala à parte”. Releia a fala em que Florência tenta explicar a Emília o que é o mundo e, com base nesse trecho, explique a convenção apenas murmurasse, baixinho, consigo mesma. Toda a plateia ouve essas falas, mas, por convenção, os outros personagens não as da “fala à parte”. ela escutam. Professor(a), explique que essa quebra do realismo na encenação provoca efeitos de humor justamente por criar um contraste entre o pensamento real do personagem que fala, conhecido pela plateia, e a ignorância dos personagens que contracenam com ele.

4. Como sempre ocorre nas comédias de costumes, os personagens de O noviço são tipos bem marcados, de fácil reconhecimento pela plateia. Defina, em poucas palavras, o tipo que cada personagem desse trecho 4. Resposta possível: Emília: mocinha ingênua, filha obediente; Carlos: herói esperto, órfão enganado pelos tutores, da peça representa. noviço sem vocação; Florência: viúva rica e ingênua, presa fácil de caça-dotes; Ambrósio: vilão vigarista ambicioso, caça-dotes inescrupuloso.

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PARA QUE SABER?

FIQUE SABENDO

João Caetano (1808-1863) Ator, diretor e empresário teatral brasileiro. Criador do grupo Teatro Nacional João Caetano, constituído apenas de atores brasileiros, foi responsável pela renovação da arte dramática no Brasil. Publicou dois livros sobre a arte de representar (Reflexões dramáticas e Lições dramáticas) e, em 1860, criou uma escola gratuita de arte dramática. No decorrer de sua carreira encenou várias das principais obras de nosso teatro romântico. Foi em decorrência de seu estímulo, em 1838, que Martins Pena iniciou sua carreira.

Na comédia O noviço, Florência, uma viúva carioca, casa-se com Ambrósio, um espertalhão que já era casado no Ceará, sua terra natal. Apaixonada, não percebe que o único objetivo do novo marido é aproveitar-se de seu dinheiro. Para afastar os herdeiros, Ambrósio manda o sobrinho, Carlos, para um convento e planeja fazer o mesmo com Emília, filha da nova esposa. Ao longo dos três atos, assistimos às espertezas e trapalhadas de Carlos, que se esforça para desmascarar e derrotar o falso tio e poder casar-se com a prima Emília, por quem está apaixonado.

CAPÍTULO 8

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5. a) O tema é a incompetência dos maus profissionais, o desajuste entre a capacidade ou a vocação dos indivíduos e o trabalho que exercem. 5. b) Para ele não há, em princípio, boas ou más profissões, mas bons e maus profissionais. Boa profissão é aquela que se adapta às habilidades e à vocação ou inclinações do profissional.

5. Martins Pena utiliza os personagens para emitir suas próprias opiniões a respeito de certas questões sociais de sua época. É o que ocorre na Cena VII, em que a fala de Carlos, aparentemente dirigida a Emília, é na verdade um longo e enfático discurso destinado à plateia. 5. c) Ele considera normal que quem tivesse vocação para cômico se tornasse político (“Ora, ainda isso

a) Qual é o tema do discurso de Carlos? vá”). Portanto, para ele, os políticos não deviam ser levados a sério, não mereciam crédito. Os funcionários públicos seriam desonestos e ladrões (tesoureiros e fiscais) ou preguiçosos e indolentes (mandriões). b) A partir dos exemplos dados por Carlos, como se definiria a “boa profissão”? c) Pelas falas de Carlos, podemos deduzir o que o autor pensava das pessoas que exerciam cargos públicos em sua época. Explique o que ele pensava dos políticos, dos diplomatas e dos funcionários públicos. 6. Para Carlos/Martins Pena, haveria solução para os males que ele aponta? 7. A peça foi escrita e representada em 1845. Passados já quase duzentos anos, você considera que a fala de Carlos foi ultrapassada pela evolução da sociedade brasileira ou ainda tem validade em nossos dias? Para ele a solução seria o respeito às escolhas profissionais dos indivíduos, segundo suas habilidades e inclinações e o Justifique sua resposta. 6. fim da prática do patronato, ou apadrinhamento para os cargos públicos. 7. Resposta pessoal. O tema aqui proposto pode ser objeto de uma boa discussão em sala de aula.

A RENOVAÇÃO DO TEATRO POPULAR NO SÉCULO XX Ainda no século XIX, muitos autores, como França Jr. (1838-1890) e Artur Azevedo (1855-1908), deram continuidade ao teatro popular e à comédia de costumes, que se firmaram como tradição na dramaturgia brasileira. Na segunda metade do século XX, um autor tem especial importância: o paraibano Ariano Suassuna. Grande defensor da cultura popular nordestina, suas obras são influenciadas pela literatura de cordel, pelo teatro medieval de Gil Vicente e pela tradição barroca ibérica, sobretudo o autor Calderón de la Barca.

LEITURA Auto da Compadecida (fragmento do ato I) PALHAÇO — O distinto público imagine à sua direita uma igreja, da qual o centro do palco será o pátio. A saída para a rua é à sua esquerda. (Essa fala dará ideia da cena, se se adotar uma encenação mais simplificada e pode ser conservada mesmo que se monte um cenário mais rico.) O resto é com os atores. Aqui pode-se tocar uma música alegre e o Palhaço sai dançando. Uma pequena pausa e entram Chicó e João Grilo. JOÃO GRILO — E ele vem mesmo? Estou desconfiado, Chicó. Você é tão sem confiança! CHICÓ — Eu, sem confiança? Que é isso, João, está me desconhecendo? Juro como ele vem. Quer benzer o cachorro da mulher para ver se o bicho não morre. A dificuldade não é ele vir, é o padre benzer. O bispo está aí e tenho certeza de que o Padre João não vai querer benzer o cachorro. JOÃO GRILO — Não vai benzer? Por quê? Que é que um cachorro tem de mais? CHICÓ — Bom, eu digo assim porque sei como esse povo é cheio de coisas, mas não é nada demais. Eu mesmo já tive um cavalo bento. JOÃO GRILO — Que é isso, Chicó? (Passa o dedo na garganta) Já estou ficando por aqui com suas histórias. É sempre uma coisa toda esquisita. Quando se pede uma explicação, vem sempre com “não sei, só sei que foi assim”. CHICÓ — Mas se eu tive mesmo o cavalo, meu filho, o que é que eu vou fazer? Vou mentir, dizer que não tive? JOÃO GRILO — Você vem com uma história dessas e depois se queixa porque o povo diz que você é sem confiança. CHICÓ — Eu, sem confiança? Antônio Martinho está aí para dar as provas do que eu digo.

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JOÃO GRILO — Antônio Martinho? Faz três anos que ele morreu. CHICÓ — Mas era vivo quando eu tive o bicho. JOÃO GRILO — Quando você teve o bicho? E foi você quem pariu o cavalo, Chicó? CHICÓ — Eu não. Mas do jeito que as coisas vão, não me admiro mais de nada. No mês passado uma mulher teve um, na serra do Araripe, para os lados do Ceará. JOÃO GRILO — Isso é coisa de seca. Acaba nisso, essa fome: ninguém pode ter menino e haja cavalo no mundo. A comida é mais barata e é coisa que se pode vender. Mas seu cavalo, como foi? CHICÓ — Foi uma velha que me vendeu barato, porque ia se mudar, mas recomendou todo cuidado, porque o cavalo era bento. E só podia ser mesmo, porque cavalo bom como aquele eu nunca tinha visto. Uma vez corremos atrás de uma garrota, das seis da manhã até as seis da tarde, sem parar nem um momento, eu a cavalo, ele a pé. Fui derrubar a novilha já de noitinha, mas quando acabei o serviço e enchocalhei a rês, olhei ao redor, e não conhecia o lugar em que estávamos. Tomei uma vereda que havia assim e saí tangendo o boi... JOÃO GRILO — O boi? Não era uma garrota? CHICÓ — Uma garrota e um boi. JOÃO GRILO — E você corria atrás dos dois de uma vez? CHICÓ, irritado — Corria, é proibido? […] JOÃO GRILO — Padre João! Padre João! PADRE, aparecendo na igreja — Que há? Que gritaria é essa? Fala afetadamente com aquela pronúncia e aquele estilo que Leon Bloy chamava “sacerdotais”. CHICÓ — Mandaram avisar para o senhor não sair, porque vem uma pessoa aqui trazer um cachorro que está se ultimando para o senhor benzer. PADRE — Para eu benzer? CHICÓ — Sim. PADRE, com desprezo — Um cachorro? CHICÓ — Sim. PADRE — Que maluquice! Que besteira! JOÃO GRILO — Cansei de dizer a ele que o senhor não benzia. Benze porque benze, vim com ele. PADRE — Não benzo de jeito nenhum. CHICÓ — Mas padre, não vejo nada de mal em se benzer o bicho. JOÃO GRILO — No dia em que chegou o motor novo do major Antônio Morais o senhor não o benzeu? PADRE — Motor é diferente, é uma coisa que todo mundo benze. Cachorro é que eu nunca ouvi falar. CHICÓ — Eu acho cachorro uma coisa muito melhor do que motor. PADRE — É, mas quem vai ficar engraçado sou eu, benzendo o cachorro. Benzer motor é fácil, todo mundo faz isso, mas benzer cachorro? André Ducci

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JOÃO GRILO — É, Chicó, o padre tem razão. Quem vai ficar engraçado é ele e uma coisa é benzer o motor do major Antônio Morais e outra benzer o cachorro do major Antônio Morais. PADRE, mão em concha no ouvido — Como? JOÃO GRILO — Eu disse que uma coisa era o motor e outra o cachorro do major Antônio Morais. PADRE — E o dono do cachorro de quem vocês estão falando é Antônio Morais? JOÃO GRILO — É. Eu não queria vir, com medo de que o senhor se zangasse, mas o major é rico e poderoso e eu trabalho na mina dele. Com medo de perder meu emprego, fui forçado a obedecer, mas disse a Chicó: o padre vai se zangar. PADRE, desfazendo-se em sorrisos — Zangar nada, João! Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar? Falei por falar, mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro! JOÃO GRILO, cortante — Quer dizer que benze, não é? PADRE, a Chicó — Você o que é que acha? CHICÓ — Eu não acho nada demais. PADRE — Nem eu. Não vejo mal nenhum em se abençoar as criaturas de Deus. JOÃO GRILO — Então fica tudo na paz do Senhor, com cachorro benzido e todo mundo satisfeito. PADRE — Digam ao major que venha. Eu estou esperando. Entra na igreja. CHICÓ — Que invenção foi essa de dizer que o cachorro era do major Antônio Morais? JOÃO GRILO — Era o único jeito de o padre prometer que benzia. Tem medo da riqueza do major que se pela. Não viu a diferença? Antes era “Que maluquice, que besteira!”, agora “Não vejo mal nenhum em se abençoar as criaturas de Deus!” CHICÓ — Isso não vai dar certo. Você já começa com suas coisas, João. E havia necessidade de inventar que era empregado de Antônio Morais? JOÃO GRILO — Meu filho, empregado do major e empregado de um amigo do major é quase a mesma coisa. O padeiro vive dizendo que é amigo do homem, de modo que a diferença é muito pouca. Além disso, eu podia perfeitamente ter sido mandado pelo major, porque o filho dele está doente e pode até precisar do padre. CHICÓ — João, deixe de agouro com o menino, que isso pode se virar por cima de você. SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 13. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. p. 25.

Ariano Suassuna (1927-2014) Bel Pedrosa/Folhapress

Professor, poeta, ensaísta, romancista e dramaturgo paraibano. Participou da criação do Teatro do Estudante do Pernambuco, do Teatro Popular do Nordeste e do Movimento Armorial. Principais obras: Romance da Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai e volta e História do rei degolado nas caatingas do sertão / Ao sol da onça caetana (romances), Auto da Compadecida, O santo e a porca, O casamento suspeitoso, Farsa da boa preguiça (teatro).

FIQUE SABENDO

O Auto da Compadecida congrega motivos das narrativas de cordel, como a celebração do enterro religioso de um cachorro, um gato que “descomia” dinheiro e um instrumento musical que ressuscitava os mortos. O enredo é cheio de peripécias: o adultério da mulher do padeiro com Chicó; as espertezas do protagonista, João Grilo, para conseguir que o cachorro da patroa tenha um enterro religioso, celebrado em latim e a morte dos personagens, inclusive de João Grilo, pelo cangaceiro Severino de Aracaju. No terceiro ato, a alma dos personagens é julgada, como no Auto da barca do Inferno, por Jesus e pelo diabo (o Encourado). O protagonista consegue a intercessão da Virgem Maria, e ninguém é condenado ao inferno — o cangaceiro e seu ajudante vão para o céu, e todos os outros para o purgatório. João Grilo consegue a graça de retornar a sua vida terrena.

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1. O Palhaço, dirigindo-se diretamente ao público, como os mestres de cerimônia de circo, faz anúncios e comentários sobre a encenação (metalinguagem). Em sua fala no fragmento lido, ele explica o cenário que deve ser imaginado pela plateia. Professor(a), aqui se pode comparar a simplicidade cenográfica dessa peça com a do Auto da barca do Inferno. 2. João Grilo, o protagonista, é um rapaz pobre, muito astucioso e matreiro, cheio de expedientes para enganar as pessoas e sair de apuros (lembrar a recorrência desse tipo nos contos populares, como Pedro Malasartes). Chicó, contador de lorotas, mentiroso compulsivo e ingênuo. Padre João, vigário de paróquia do interior (do sertão), preocupado com a aparência, interesseiro e adulador dos ricos e poderosos.

Releitura

Escreva no caderno

1. As falas do Palhaço têm função metalinguística. Com base no fragmento que você leu, explique o papel dele na peça. 2. Como sempre ocorre no teatro popular, os personagens do Auto da Compadecida são personagens típicos e mesmo caricaturais. O exagero da caracterização garante o reconhecimento dos estereótipos pela plateia e o efeito de humor pretendido. Indique suscintamente as características dos três personagens que figuram no fragmento lido. 3. a) b) c) 4.

Retome no capítulo 4 deste volume a definição de metalinguagem.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

Foi em 1957 que o jovem escritor, ainda circunscrito ao Nordeste, onde havia recebido vários prêmios, irrompeu no Rio de Janeiro e em São Paulo, conquistando logo as companhias profissionais. Ao mérito artístico juntou-se um aspecto que deve ser ressaltado em nossa literatura: trata-se de Sobre a linguagem dos personagens, responda: uma dramaturgia católica, na melhor tradição Qual o sentido da expressão sem confiança com que João que esse teatro fixou em todo o mundo, vindo confiança: “não merecedor de confiança, não confiável”. Em das formas medievais, em que se assinalam Grilo qualifica Chicó? Sem outros contextos significaria “falto de confiança, indeciso, desconfiado”. os caracteres populares e folclóricos e uma Qual é o sentido do verbo ter na frase “Mas era vivo quando eu religiosidade simples, sadia, irreverente e tive o bicho”? Qual o sentido interpretado por João Grilo, para presidida pela Graça, com a condenação dos verbo ter, na frase, apresenta o sentido comum de “possuir”; zombar de Chicó? OJoão maus e a salvação dos bons. É certo que Grilo interpretou como “dar nascimento, parir”. as numerosas lendas nordestinas reúnem A que se refere o pronome demonstrativo isso no trecho “Isso os predicados que podem servir de base é coisa de seca”?Refere-se ao fato absurdo de uma mulher ter dado à luz um cavalo. Observar que a um teatro popular e religioso, desde que na frase “uma mulher teve um”, na fala de Chicó, o verbo ter significa “parir”. Escreva um comentário sobre a referência à seca na fala de passando pelo crivo artístico.

João Grilo.

MAGALDI, Sábato. Panorama do teatro brasileiro.

6. ed. São Paulo: Global, 2004. p. 236. 5. Ao contar a história do cavalo, Chicó é surpreendido em contradição por João Grilo. Explique o argumento que ele utilizou argumento é uma nova contradição, um novo absurdo. Quando era vivo, Antônio Martinho poderia ter sabido da posse do cavalo bento, para se justificar. Seu mas agora, morto, não poderia testemunhar o fato – “Mas era vivo quando eu tive o bicho”.

6. Leia o comentário de Sábato Magaldi, em “O que dizem os especialistas”. Como conciliar a afirmação de que se trata de uma dramaturgia católica com as críticas ao comportamento do clero, figuradas na pessoal. Espera-se que os alunos comentem a presença terrível da seca na vida caracterização do padre como personagem típico? 4.dosResposta sertanejos, ao ponto de circularem histórias absurdas a respeito de suas consequências — segundo João Grilo, mulheres procriam animais porque a alimentação deles é mais barata e porque podem ser vendidos.

E MAIS... Professor(a), sugerimos que os alunos realizem uma dramatização dos textos, para que comparem a linguagem e

a adaptação feita por Drummond para conseguir os mesmos efeitos expressivos que Gil Vicente. Representação teatral percebam Drummond utiliza gírias da sua época: “estás a fim”, “o cara”, “o papai”, “der uma mancada”, “levar um pito”, “sou

Em 1977, portanto mais de quatro séculos depois da primeira representação do Auto da Lusitânia, o poeta Carlos Drummond de Andrade publicou sua versão do diálogo de Gil Vicente, atualizando sua linguagem. O texto de Drummond está no livro Discurso da primavera. Você pode encontrá-lo também na internet. Participe da representação da cena “Todo o Mundo e Ninguém” — na versão original de Gil Vicente ou na versão moderna, de Carlos Drummond de Andrade. O grupo deve decidir coletivamente a caracterização dos personagens e distribuir as funções e os papéis: vidrado em”, “troco”, “bicho”, “jogo confete”, “puxa-saco”. Gil Vicente escreveu teatro popular e utilizou esse tipo de linguagem para • atores; obter efeitos cômicos. Assim, a adaptação só conseguiria os mesmos efeitos se utilizasse o coloquial do século XX, inclusive as gírias. • ponto (encarregado de socorrer os atores com falhas de memória, “soprando” o texto e dando as “deixas”); • diretor (encarregado de organizar os ensaios e discutir com o grupo as soluções para os problemas da representação); • produtores (encarregados de providenciar os materiais necessários para a representação). Se o grupo preferir, pode escolher outro texto de Gil Vicente, como um quadro do Auto da barca do Inferno, ou trechos de O velho da horta ou da Farsa de Inês Pereira. Sob a orientação do(a) professor(a), o texto pode ser adaptado à linguagem coloquial de nossa época. Outra sugestão interessante pode ser a representação do terceiro ato do Auto da Compadecida. Cenas das peças de Martins Pena também podem ser adaptadas para uma representação teatral simples mas eficiente.

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CAPÍTULO 8

6. Resposta pessoal. Os alunos devem perceber que Magaldi fala também de uma religiosidade simples e sadia. Como católico, Suassuna condena certos valores do clero, obediente às normas de um catolicismo oficial, preocupado com aparências, que desconsidera as necessidades e a sensibilidade das camadas mais simples e humildes do povo. Ele condena o clero bajulador dos poderosos, que prescreve uma regra para os pobres e outra para os ricos.

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Neste capítulo você conheceu uma das vertentes mais antigas e fecundas do teatro em língua portuguesa: o teatro de feição popular. Sua origem remonta ao teatro medieval e, mais especificamente, à obra de Gil Vicente, escrita no começo do século XVI. O teatro popular de Gil Vicente caracteriza-se pela comicidade, pela sátira e pela simplicidade cenográfica. Os maiores efeitos de humor são resultantes do uso magistral da linguagem pelo autor. Personagens alegóricos, personagens típicos e estereótipos caricaturais são também marcas desse teatro que exerceram grande influência nas produções dos séculos seguintes, até nossos dias. Você conheceu também o iniciador do teatro brasileiro, no século XIX. Martins Pena escreveu comédias de costume que são representadas até hoje com grande sucesso. No século XX, Ariano Suassuna retoma e reaviva a tradição do teatro popular. Você leu um trecho de sua peça mais conhecida e constatou que seus recursos teatrais dão continuidade às características mais fecundas do teatro popular desde seus primórdios.

NAVEGAR É PRECISO

Filme Auto da Compadecida (direção de Guel Arraes, Brasil, 2000). Baseado na peça homônima de 1955 de Ariano Suassuna, recebeu, no Grande Prêmio Cinema Brasil, do Ministério da Cultura, as premiações de melhor diretor, melhor roteiro, melhor lançamento e melhor ator para Matheus Nachtergaele.

2. Os personagens nem chegam a ter nome que os individualizem. São uma moça bonita, em idade de casamento, e um velho, que vive uma paixão temporã. Com finalidade moralizante, Gil Vicente exagera as características e o comportamento do velho, tornando-os ridículos e caricaturais.

Atividades

Escreva no caderno

Leia o fragmento da farsa O velho da horta e responda às questões de 1 a 3. Entra a moça na horta e diz o Velho Senhora, benza-vos Deus. Moça Deus vos mantenha, Senhor. Velho Onde se criou tal flor? Eu diria que nos céus. Moça Mas no chão. Velho Pois damas se acharão, que não são vosso sapato. Moça Ai! Como isso é tão vão, e como as lisonjas são de barato. [...] Velho Grão fogo d’amor m’atiça, ó minha alma verdadeira! Moça E essa tosse? Amores de sobreposse serão os da vossa idade: o tempo vos tirou a posse. Velho Mais amo, que se moço fosse com a metade. [...]

Moça

Já perto sois de morrer: donde nasce esta sandice, que, quanto mais na velhice, amais os velhos viver? VICENTE, Gil. O velho da horta. In: . Obras completas de Gil Vicente. 5. ed. Lisboa: Sá da Costa, 1974. p. 142.

1. Que tipo de verso, comum na poesia do século XV, Gil Vicente utiliza nessa farsa? Ele utiliza o verso de sete sílabas, chamado redondilha maior.

2. Explique a seguinte afirmação: Os personagens dessa farsa, como, em geral, todos os personagens de Gil Vicente, representam tipos sociais. 3. Releia o primeiro galanteio do velho e a primeira réplica da moça. a) Que figura de linguagem constituem as expressões nos céus e no chão? Constituem uma antítese. b) Que efeito produz o emprego dessa figura de linguagem na fala dos personagens? Produz o humor do texto.

O teatro

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3. c) A expressão nos céus exprime a visão idealizada que o velho tem do objeto de seu amor. Para ele, a moça é uma flor, cuja beleza não pode ter origem terrena. A expressão no chão traduz a atitude realista da moça, que não tem os mesmos sentimentos. É como se ela convidasse o velho apaixonado a pôr os pés no chão, a cair na realidade. A réplica tem um tom zombeteiro, sarcástico, pois a moça considera ridícula a linguagem apaixonada do hortelão.

c) As duas expressões traduzem a atitude e o sentimento de cada personagem nessa tentativa de conquista amorosa. Explique essas atitudes e esses sentimentos. 4. (Enem/MEC) TEXTO I

O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria; como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias mas isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria. Como então dizer quem fala ora a Vossas Senhorias? MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1994 [Fragmento.]

TEXTO II

João Cabral, que já emprestara sua voz ao rio, transfere-a, aqui, ao retirante Severino, que, como o Capibaribe, também segue no caminho do Recife. A autoapresentação do personagem, na fala inicial do texto, nos mostra um Severino que, quanto mais se define, menos se individualiza, pois seus traços biográficos são partilhados por outros homens. SECCHIN, Antônio Carlos. João Cabral: a poesia do menos. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999.

Com base no trecho de Morte e vida Severina (texto I) e na análise crítica (texto II) observa-se que a relação entre o texto poético e o contexto social a que ele faz referência aponta para um problema social expresso literariamente pela pergunta: “Como então dizer quem fala / ora a Vossas Senhorias?”. A resposta à pergunta expressa no poema é dada por meio da a) descrição minuciosa dos dados biográficos do personagem-narrador. b) construção da figura do retirante nordestino. c) representação, na figura do personagem-narrador, de outros Severinos que compartilham sua condição. d) apresentação do personagem-narrador como uma projeção do próprio poeta, em sua crise existencial. e) descrição de Severino, que, apesar de humilde, orgulha-se de ser descendente do coronel Zacarias.

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CAPÍTULO 8

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Felipe Nunes

GRAMÁTICA

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CAPÍTULO 1

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Gramática... gramáticas... Noções de variações linguísticas Noções de semântica Figuras de linguagem Acentuação gráfica Estrutura e formação de palavras Substantivo • Adjetivo Artigo • Numeral

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capítulo

1

Gramática... gramáticas...

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livro • TERRA, Ernani. Linguagem, língua e fala. São Paulo: Scipione, 2009. Ensaio • PERINI, Mário. Os dois mundos da expressão linguística (reflexões sobre falar e escrever). In: amanhã e outros mistérios. São Paulo: Parábola, 2008.

. A língua do Brasil

Filmes/Vídeos • LÍNGUA: vidas em português. Produção: Paris Filmes, TVZero, Sambascope e Costa do Castelo. Direção: Victor Lopes. Brasil/ Portugal, 2004. • O ESCAFANDRO e a borboleta. Produção: Paris Filmes. Direção: Julian Schnabel. França, 2007. • TAPETE vermelho. Produção: LapFilme. Direção: Luiz Alberto Pereira. Brasil, 2006. Site • MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA. Disponível em: <http://tub.im/ap9pyo>. Acesso em: 18 jan. 2016.

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INTRODUÇÃO

Professor(a), a atividade da seção “E mais...” da página 157 requer preparação antecipada.

No título do capítulo, talvez você tenha estranhado um pouco o plural “gramáticas”. Afinal... existe mais de uma “gramática”? Para refletirmos a respeito dessa pergunta, vamos inicialmente ler um pequeno texto humorístico:

Di novo! Ao terminar uma das primeiras aulas do ano para uma agitada turminha do Ensino Fundamental, o professor avisa aos alunos: — Na próxima aula, vamos estudar um pouco de gramática da língua portuguesa... Antes mesmo que ele acabasse de falar, um aluno “reclama”: — Ah... professor... Di novo! Purtugueis nóis já sabe...

Já faz alguns anos; por isso, você provavelmente não se lembra de que, algum tempo depois de iniciada sua vida escolar, um de seus professores do Ensino Fundamental apresentou a você a “gramática”. A partir daí, todos os seus professores de Língua Portuguesa foram, pouco a pouco, tentando lhe ensinar as “regras gramaticais”. Esse processo pode ter-se desenvolvido por meio de diferentes métodos de ensino, mas aconteceu com você e com todos que frequentam — ou já frequentaram — a escola. É por isso que, se perguntarmos a qualquer pessoa o que é “gramática”, ela talvez responda, meio em tom de brincadeira: “É uma coleção imensa de regras que eu nunca consegui aprender.”, ou poderá dizer: “É um livro que ensina as regras de português.”. Se também perguntarmos a uma pessoa quantas regras de gramática ela conhece, as respostas serão mais ou menos assim: “Nenhuma.”, “Umas duas ou três.”, “No máximo, uma meia dúzia.”. E você? Quantas regras de gramática acha que sabe? Não se surpreenda, mas, com certeza, tanto você quanto o aluno da historinha acima dominam mais de mil regras gramaticais. É isso mesmo: mais de mil! Talvez até muito mais... Umas 1 500!* E é por aí que vai começar a nossa conversa... *Professor(a), a respeito dessa estimativa quanto ao número de regras da língua portuguesa, ver o texto “As regras do idioma” da página 134.

AS DIFERENTES GRAMÁTICAS Leitura inicial

Professor(a), se considerar oportuno, sugere-se conversar com os alunos a respeito das características da crônica, gênero textual que será abordado, neste volume, em Literatura (no capítulo 6) e em Leitura e produção de textos (no capítulo 5).

A crônica a seguir será nosso ponto de partida para uma breve reflexão a respeito de certas características e determinados usos da língua portuguesa. Leia-a com atenção.

Santos nomes em vão Drama verídico e gerado por virgulazinhas mal postas, cúmplices de tantas reticências. Praxedes é gramático. Aristarco também. Com esses nomes não poderiam ser cantores de rock. Os dois trabalham num jornal — Praxedes despacha as questiúnculas à tarde; Aristarco, à noite. Um jamais concordou com uma vírgula do outro e é lógico que seja assim. Seguem correntes diversas. A gramática tem isso: é democrática. Permitindo mil versões, dá a quem sustenta uma delas o prazer de vencer novecentas e noventa e nove. Professor(a), após a leitura inicial, é interessante solicitar aos alunos que tentem explicar oralmente a relação entre o mandamento “Não tomarás seu Santo Nome em vão.” (“Santo Nome” = Deus; “em vão” = inutilmente) e o título da crônica, que é irônico. “Santos nomes em vãos” (“Santos nomes” = Aristarco e Praxedes; “em vãos” (no plural) = “detalhes irrelevantes”, “minúcias”, “sutilezas”). Gramática... gramáticas... 131

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DREWNICK, Raul. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 6 mar. 1988. Caderno 2.

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2. b) O narrador parodia as posições conservadoras dos dois gramáticos, criticando a forma como eles pensam. Assim, ao empregar a expressão “dos ignorantes e dos mutiladores do idioma” (que é nitidamente preconceituosa), deixa claro que ela é comumente usada por Aristarco e Praxedes, e não por ele. 3. O boy concluiu que um dos gramáticos — Praxedes — falava as “duas línguas” porque certamente entendeu algumas das palavras (“brasileiras”) que ele usou, mas não entendeu outras (“estrangeiras”). Concluiu também que Aristarco só falava “estrangero” porque não compreendeu nada do que ele havia dito. Djalma Vassão/Gazeta Press

Praxedes é um santo homem. Aristarco também. Assinam listas, compram rifas, ajudam quem precisa. E são educados. A voz dos dois é mansa, quase um sussurro. Mas que ninguém se atreva a discordar de um pronome colocado por Praxedes. Ou de uma crase posta por Aristarco. Se a conversa ameaça escorregar para os verbos defectivos ou para as partículas apassivadoras, melhor escapar enquanto dá. Porque aí cada um deles desanda a bramir como um leão. Adversários inconciliáveis, têm um ponto em comum, além da obsessão pela gramática: não são nada populares. Na frente deles, as pessoas ficam inibidas, quase não conversam. Porque nunca sabem se dizem bom-dia ou bons-dias, se meio quilo são quinhentos gramas ou é quinhentas gramas, se é meio-dia e meio ou meio-dia e meia, se nasceram em Santa Rita do Passa Quatro ou dos Passam Quatro. Para que os dois não se matem, o chefe pôs cada um num horário. Praxedes, mais liberal (vendilhão, segundo Aristarco), trabalha nos suplementos do jornal, que admitem uma linguagem mais solta. Aristarco, ortodoxo (quadradão, segundo Praxedes), assume as vírgulas dos editoriais e das páginas de política e economia. [...] Sempre estiveram a um passo do quebra-pau. Hoje, para festa dos ignorantes e dos mutiladores do idioma, parece que finalmente vão dar esse passo. É dia de pagamento e eles se encontraram na fila do banco. Um intrigante vem pondo fogo nos dois já há um mês e agora ninguém duvida: nunca saberemos quem é o melhor gramático, mas hoje vamos descobrir pelo menos quem é mais eficiente no braço. Aristarco toma a iniciativa. Avança e despeja: — Seu patife, biltre, poltrão, pusilânime. Praxedes responde à altura: — Seu panaca, almofadinha, calhorda, caguincha. Aristarco mete o dedo no nariz de Praxedes: — É a vossa progenitora! Praxedes toca o dedo no nariz de Aristarco: — É a sua mãe! Engalfinham-se, rolam pelo chão, esmurram-se. Quando o segurança do banco chega para apartar, é tarde. Praxedes e Aristarco estão desmaiados um sobre o outro, abraçados, como amigos depois de uma bebedeira. O guarda pergunta à torcida o que aconteceu. Um boy que viu tudo desde o começo explica: — Pra mim, esses caras não é bom da bola. Eles começaram a falá em estrangero, um estranhô o outro, os dois foram se esquentando, se esquentando, e aí aquele ali, ó, que também fala brasileiro, pôs a mãe no meio. Levô uma bolacha e ficô doido: enfiô o braço no focinho do outro. Aí os dois rolô no chão. Para a sorte do boy, Aristarco e Praxedes continuavam desacordados.

2. a) Ele é contrário; ironiza os dois gramáticos (o título da crônica e a frase sob ele deixam claro isso); a palavra “questiúnculas” (1o parágrafo) é pejorativa, revela menosprezo; “melhor escapar enquanto dá” e “bramir” (urrar) sugerem que os dois são agressivos, intolerantes. Expressões como “quebra-pau”, “quem é mais eficiente no braço” e “pergunta à torcida” são tipicamente populares e evidenciam que o narrador tem outro ponto de vista relativamente aos usos da língua.

Raul Drewnick (1938-) Cronista paulistano, publica seus textos em revistas e jornais brasileiros. Escreveu diversos livros infantojuvenis, entre eles A grande virada e A hora da decisão, e também um livro de crônicas intitulado Depois de Madonna. Gosta de escrever sobre esportes, sobretudo futebol, e as histórias das pessoas comuns que observa em seu dia a dia.

verídico: verdadeiro, real;

poltrão: covarde;

questiúncula: questão irrelevante, sem importância;

pusilânime: aquele que é moralmente fraco, sem caráter;

bramir: urrar, gritar;

calhorda: canalha;

vendilhão: aquele que, por dinheiro, faz coisas imorais;

caguincha: covarde;

ortodoxo: aquele que segue rigorosamente uma regra ou doutrina;

progenitora: mãe;

biltre: patife, desprezível;

engalfinhar: agarrar, numa briga, o adversário.

CAPÍTULO 1

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Releitura

Escreva no caderno

Relativamente ao texto,

1. Aristarco é mais conservador. Ele é responsável pela revisão dos editoriais, das páginas de política e de economia (seções dos jornais cujos textos são redigidos com maior rigor gramatical); ele acusa Praxedes de ser “vendilhão”, porque esse é liberal (aceita uma linguagem mais “solta”, isto é, mais próxima da popular). Além disso, Aristarco emprega o tratamento “vós” (“vossa progenitora”), que não é mais usado no Brasil. Professor(a), fica a seu critério definir se as respostas às perguntas serão responda às perguntas a seguir. dadas por escrito e individualmente ou respondidas/discutidas coletivamente pela turma.

1. Qual dos dois gramáticos é mais purista, isto é, mais conservador, mais apegado à tradição no uso da língua portuguesa: Praxedes ou Aristarco? Justifique com elementos do texto.

2. Ao longo da crônica, o narrador faz pequenos comentários e emprega determinadas palavras e expressões as respostas desta que revelam o posicionamento dele em relação aos dois personagens. Professor(a), atividade estão na página 132.

a) O narrador é favorável ou contrário ao modo como Praxedes e Aristarco veem a gramática? Justifique com passagens do texto. b) No quinto parágrafo, o narrador usa a expressão “dos ignorantes e dos mutiladores do idioma”. Levando em conta a resposta ao item anterior, explique se essa expressão revela um posicionamento do narrador relativamente aos usos da língua ou se, ao empregá-la, ele está parodiando (imitando de forma cômica, irônica) o posicionamento dos dois gramáticos. 3. A palavra boy (forma reduzida do inglês office-boy) nomeia jovens que trabalham em escritórios levando e trazendo documentos, fazendo serviços bancários, organizando arquivos etc. Segundo o relato do boy, os dois gramáticos falavam “em estrangero” e só um deles falava também “brasileiro”. Como ele 4. a) Professor(a), os alunos deverão apresentar suas opiniões pessoais. concluiu que um dos dois falava as “duas línguas”? Professor(a), a resposta desta atividade está na página 132.

4. Releia os dois últimos parágrafos da crônica e responda:

Depois da exposição teórica da próxima seção, em que são apresentados os diferentes conceitos de gramática, os alunos serão orientados a repensar a resposta que tiverem dado a essa pergunta.

a) Você acha que o boy sabe ou não sabe gramática? Justifique. b) O que o cronista dá a entender com a última frase do texto?

4. b) Ele dá a entender que, se os dois gramáticos não estivessem desmaiados, ficariam indignados com o modo de falar do boy, e que possivelmente dariam uma “bronca” nele e “corrigiriam” a fala do rapaz.

A gramática da língua Se apresentássemos a fala do boy a diferentes falantes do português, muitos deles afirmariam que o personagem não sabe gramática (talvez até mesmo você tenha pensado assim...). Alguns poderiam dizer: “Ele não sabe português.”, ou “Ele não sabe falar.”, ou ainda “Ele fala errado.”. Haveria, inclusive, opiniões nitidamente preconceituosas, tais como “Ele fala feio.” ou “Ele é ignorante.”. Afirmações desse tipo são o resultado de uma confusão que geralmente ocorre entre língua, gramática e gramática normativa. O boy, na verdade, sabe — e muito bem — falar português, tanto é que ele explicou o que havia acontecido e todos o entenderam perfeitamente. E qual foi a língua que ele usou para se comunicar? A língua portuguesa, é claro! Como todo falante de um idioma, o boy relatou os fatos que presenciou empregando uma “forma de falar” que ele está acostumado a usar em seu dia a dia. Mas... E quanto à gramática? Afinal, o personagem sabe ou não sabe gramática? Para refletirmos a respeito dessa pergunta, vamos retomar este trecho da fala dele:

Esses caras não é bom da bola. É claro que o boy, usando essas mesmas palavras, poderia ter escolhido outras maneiras de construir a frase. Assim, por exemplo:

• Não é bom da bola esses caras. • Da bola esses caras não é bom. • Esses caras da bola não é bom.

FIQUE SABENDO

Linguagem, língua e fala • Linguagem — qualquer sistema de sinais convencionais (código) por meio do qual os seres humanos podem realizar atos de comunicação. Pode ser: • Verbal — seu sistema de sinais são as palavras orais ou escritas. • Não verbal — seu sistema de sinais são imagens (ex.: sinais de trânsito, foto, pintura) ou sons (ex.: música). • Língua — forma particular de linguagem utilizada por uma determinada comunidade (um povo) para se comunicar por meio de palavras faladas ou escritas (ex.: língua portuguesa, língua espanhola etc.). • Fala — maneira individual de acordo com a qual cada pessoa utiliza concretamente sua língua.

Gramática... gramáticas...

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Mas, com certeza, ele não usaria as palavras numa ordem como esta:

*Esses não bola da bom é caras.

Professor(a), sugere-se evitar esclarecer, neste momento, que os asteriscos indicam construção agramatical. Fazer esse esclarecimento somente ao final desta página, como indicado.

Ele também nunca se expressaria assim:

*Esse caras não é boa dos bola. E por que o boy jamais falaria assim? Ele não usaria as palavras dessas duas maneiras porque, desde que nasceu e começou a ouvir e, depois, a falar, ele foi internalizando, isto é, foi aprendendo, na prática, que construções como essa não são válidas no português; não respeitam o que chamamos de “sistema de regras de funcionamento da língua portuguesa”. É esse sistema de funcionamento interno que recebe o nome de gramática da língua. É pela prática diária, como falantes e ouvintes, que todos nós — você, eu, o aluno da piadinha inicial, o boy da crônica... — assimilamos, internalizamos o conjunto das mais de mil (talvez 1 500) regras de funcionamento de nossa língua. A respeito dessa nossa maravilhosa capacidade de aprender as regras do idioma e utilizá-las adequadamente, veja o que dizem dois linguistas: 1. Tecer teias e falar A linguagem é uma habilidade complexa e especializada, que se desenvolve espontaneamente na criança [...]. As pessoas sabem falar mais ou menos da mesma maneira como as aranhas sabem tecer teias. A atividade de tecer teias não foi inventada por nenhum gênio-aranha desconhecido e não depende de uma educação adequada nem de aptidão para a arquitetura ou para a construção civil. As aranhas tecem teias de aranha porque têm cérebros de aranha, que lhes dão o impulso e a competência para tecê-las. PINKER, Steven. apud CHIERCHIA, Gennaro. Semântica. Campinas: Editora da Unicamp; Londrina: Eduel, 2003. p. 28-29.

2. As regras do idioma [...] os falantes e ouvintes de uma mesma língua observam um número não pequeno de regras — mil a mil e quinhentas é uma estimativa já admitida —, ao falarem e ouvirem. Tais regras constituem um sistema [...]. É a esse sistema que se dá o nome de gramática de uma língua [...]. O normal é que um indivíduo normal internalize praticamente todas as regras de sua língua já ao atingir doze-treze anos. HOUAISS, Antônio. O que é língua. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 19. (Primeiros Passos).

Nosso conhecimento prático, como falantes do português, permite-nos, então, estabelecer uma clara diferença entre “Esses caras não é bom da bola.” e “*Esses não bola da bom é caras.”. Assim: Professor(a), sugere-se esclarecer, neste momento, que o asterisco indica construção agramatical.

Esses caras não é bom da bola.

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 É uma construção gramatical (linguisticamente válida, pois obedece às regras de organização do idioma, ou seja, está de acordo com o sistema interno de funcionamento do português).

*Esses não bola da bom é caras.

É uma construção agramatical (não é linguisticamente válida, pois não obedece às regras próprias do sistema interno de funcionamento do português).

CAPÍTULO 1

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A outra gramática A crônica “Santos nomes em vão”, que você leu nas páginas 131 e 132, termina assim:

“Para a sorte do boy, Aristarco e Praxedes continuavam desacordados.” Com essa frase, o narrador dá a entender que, se os dois gramáticos ouvissem a fala do boy, certamente ficariam indignados, criticariam o seu “jeito de falar” e “corrigiriam” aquilo que, do ponto de vista deles, seriam “erros de português”. Eles diriam, por exemplo, que a frase “Os dois rolô no chão.” está errada e que o certo é “Os dois rolaram no chão.”. Essas duas construções, no entanto, são a mesma frase, uma vez que dizem a mesma coisa e são, ambas, absolutamente compreensíveis para falantes da língua portuguesa. A única diferença entre elas é que “Os dois rolaram no chão.”, além de ter sido estruturada de acordo com a gramática (sistema de funcionamento) da língua, foi também construída segundo as regras da gramática normativa. A gramática normativa é um conjunto de orientações e regras que, para O QUE DIZEM estabelecer seus critérios de “certo” e “errado”, toma como “modelo”, como refeOS LINGUISTAS rência, a maneira como o idioma veio sendo empregado, ao longo do tempo, por [...] Uma receita de bolo usuários considerados, na perspectiva dessa gramática, falantes “exemplares” da não é um bolo [...]. Também língua: romancistas e poetas consagrados, gramáticos tradicionais, juristas impora gramática não é a língua. A tantes, jornalistas influentes e outros usuários cultos do idioma. língua é um enorme iceberg Assim, frases como “Pra mim, esses caras não é bom da bola.” e “Os dois rolô flutuando no mar do tempo, e a gramática normativa no chão.”, por não se enquadrarem nos “modelos” tradicionais de uso do idioma, é a tentativa de descrever são consideradas incorretas na perspectiva da gramática normativa. Essas apenas uma parcela mais mesmas frases, por outro lado, são consideradas corretas do ponto de visvisível dele, a chamada ta linguístico, já que obedecem às regras de funcionamento do idioma e todos norma culta. Essa descrição, compreendem as ideias que elas expressam. é claro, tem seu valor e seus méritos, mas é parcial (no Então, veja:

Gramática internalizada Sistema de regras que constituem a estrutura de funcionamento da língua e que são assimiladas naturalmente — pela prática — por todos os falantes do idioma.

Gramática normativa Teoria que, tomando como referência os usos tradicionais do idioma, descreve e propõe um conjunto de normas e orientações para se falar/escrever em situações formais de comunicação.

sentido literal e figurado do termo) e não pode ser autoritariamente aplicada a todo o resto da língua [...].

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 49. ed. São Paulo: Loyola, 2007. p. 9-10.

Se considerarmos, nessas duas perspectivas de análise, as formas de construir uma das frases analisadas anteriormente, teremos: 1. Os dois rolô no chão.

2. Os dois rolaram no chão.

• Na perspectiva da gramática internalizada " válida • Na perspectiva da gramática normativa " inválida • Na perspectiva da gramática internalizada " válida • Na perspectiva da gramática normativa " válida

Observe que a construção de uma frase de acordo com a gramática internalizada pode, eventualmente, estar “errada” na perspectiva da gramática normativa (construção 1), ou pode estar “certa”, nessa mesma perspectiva (construção 2). Por sua vez, toda frase construída conforme a gramática normativa estará, é claro, sempre de acordo com a gramática internalizada. Bem... Agora que você já sabe que existe mais de uma “gramática”, parece ser o momento oportuno para rever e, se necessário, reformular a resposta que você propôs para a pergunta 4. a da seção “Releitura” (página 133). Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas (item 2 da seção “Complementação teórica” do capítulo 1), a distinção entre norma e regra. Gramática... gramáticas...

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VARIEDADES LINGUÍSTICAS A variedade culta formal Vimos, na seção teórica anterior, que a gramática normativa considera “correta” a construção “Os dois rolaram no chão.” e “incorreta” a construção “Os dois rolô no chão.”. Mas... Se essas duas “formas de dizer” exprimem a mesma ideia, se qualquer falante do idioma pode compreendê-las perfeitamente, por que a gramática normativa só aceita como correta a primeira construção? Afinal, quais critérios são empregados por essa gramática para definir o que é “certo” e o que é “errado” na língua? Os parâmetros e regras que determinam a norma (padrões de uso) da língua portuguesa foram sendo estabelecidos e fixados ao longo do tempo, principalmente pela ação de dois instrumentos sociais: a escola e os meios de comunicação (livros, jornais, revistas, noticiários de rádio e TV etc.). Convém lembrar que, antigamente, frequentar a escola e comprar livros e jornais eram privilégios de poucos, ou, como se diz popularmente, eram “coisas de rico”. A escola tradicional e, por influência direta dela, também os meios de comunicação sempre consideraram “modelar” — digna de ser imitada — a variedade linguística empregada em situações formais por falantes das classes sociais urbanas cujos integrantes, por terem elevado nível de escolaridade e maior influência política, tinham, consequentemente, maior prestígio social. Essa variedade, denominada variedade (ou língua ou norma) culta formal, foi a que, ao longo do tempo, serviu de base para o estabelecimento da norma-padrão, um amplo conjunto teórico de regras e orientações tradicionalmente sistematizadas nos livros de gramática normativa. A variedade culta formal tem emprego em situações muito específicas e é usada principalmente na escrita. Os documentos oficiais (leis, sentenças judiciais etc.), os relatórios e os livros científicos, os contratos empresariais, os editoriais de jornal, os discursos em determinadas situações sociais e as solicitações de emprego são exemplos de textos em que essa variedade é usualmente empregada.

FIQUE SABENDO

Uma língua oferece a seus usuários diferentes formas de realização, isto é, diferentes “jeitos de falar e escrever”, e, segundo a linguística, não existe uma forma “melhor” (certa) ou “pior” (errada) de empregar uma língua. A variedade culta é apenas uma entre as várias formas de usar a língua. A escolha dessa variedade como “modelo” é convencional; baseia-se em critérios ideológicos (sociais, culturais, políticos e econômicos). Assim, não se pode considerar que exista uma “língua única” e que ela coincida com a norma culta. A língua é, na verdade, um conjunto de diferentes variedades linguísticas, cada uma delas associada às particularidades da realidade social, econômica, cultural, regional etc. dos falantes que utilizam essa variedade.

As variedades da língua culta: língua culta formal e língua culta informal O trecho abaixo, extraído de uma entrevista dada por uma socióloga, exemplifica o emprego da variedade culta em sua modalidade formal (língua culta formal). Leia-o. Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas (seção “Complementação teórica” do capítulo 1), o item “Discurso”.

Vale observar que o preconceito ao homem e à mulher do campo, até agora em vigência, traz também embutido o desprezo, tão inculcado nas classes médias e altas, ao trabalho braçal. Observa-se em nosso país que o de mais valor é o fazer saber e não o saber fazer, a cultura do ócio, o dolce far niente, de uma moral aristocrática antiga [...]. Não se misturando “às coisas do povo” [...], as elites de classe média, corroborando o que acontece nas classes altas, ficam de bem com os padrões dominantes os quais, eventualmente, lhes poderiam acenar com uma promoção social, no granjeamento, na excitação e desfrute de suas benesses. O POPULAR. Entrevista com Célia Tolentino. Goiânia, 4 jul. 2002, Caderno Magazine, capa apud CATELAN, Álvaro; COUTO, Ladislau. Mundo caipira: história da música caipira no Brasil. Goiânia: Kelps: UCG, 2005. p. 34.

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Como você pôde notar, a socióloga, ao falar, optou pelo emprego de frases mais longas, por ordenações pouco comuns das palavras e por um vocabulário mais elaborado e específico, adequando assim seu “modo de falar” à situação de comunicação: uma entrevista tratando de um tema relacionado à profissão dela. Isso não significa, no entanto, que, ao usarmos a língua culta, somos obrigados a empregar um vocabulário mais “difícil” e frases “complicadas”. Dentro da própria variedade culta existe a possibilidade de adequarmos nosso nível de linguagem, isto é, podemos falar/escrever de maneira mais formal ou menos formal, dependendo do contexto em que se realiza o ato de comunicação. A respeito dessa flutuação no nível de formalidade da língua culta, veja o que diz um linguista: A língua culta formal, por ser empregada quase que exclusivamente na escrita, é mais “fixa” ao longo do tempo, ou seja, modifica-se menos que a língua culta informal, que se usa mais na comunicação falada. Um exemplo dessa diferença: a gramática normativa propõe, para o padrão culto, as formas: eu vou, tu vais, ele vai, nós vamos, vós ides, eles vão; no entanto, na maior parte do Brasil, a língua culta falada emprega: eu vou, ele/você/a gente vai, nós vamos, vocês/eles vão. É nesse português, distanciado da tradição, que são apresentados os noticiários de rádio e TV, que são compostas, em sua maioria, as músicas populares, que os professores dão suas aulas; é esse o português que acaba também sendo empregado nos textos escritos cotidianos (jornais, revistas, anúncios publicitários etc.).

FIQUE SABENDO

Contexto É a situação particular em que se desenvolve o ato de comunicação. O contexto é formado por elementos linguísticos (o discurso) combinados a elementos não linguísticos (o local, o assunto, o número de interlocutores, o tipo de relação — pessoal, social, profissional — entre eles etc.).

Fonte de pesquisa: TRASK, R. L. Dicionário de linguagem e linguística. Tradução e adaptação: Rodolfo Ilari. São Paulo: Contexto, 2004. p. 327.

O texto a seguir, por exemplo, foi traduzido do espanhol para a variedade culta informal de nosso idioma. A forma como vivemos e nossos valores são a expressão da sociedade na qual vivemos. E a gente se agarra a isso. Não digo isso por ser presidente do Uruguai hoje. Pensei muito sobre isso. Passei mais de dez anos [preso]* na solitária. Tive tempo. Em sete anos nem sequer li um livro. Tive muito tempo para pensar. E descobri o seguinte: Ou você é feliz com pouco, com pouca bagagem — pois a felicidade está em você — ou não consegue nada. Isso não é a apologia da pobreza, mas da sobriedade. Só que inventamos uma sociedade de consumo... E a sociedade tem de crescer ou acontece uma tragédia. Inventamos uma montanha de consumos supérfluos. Compra-se e descarta-se. Mas o que se gasta é tempo de vida. Quando compro algo — ou você compra — não pagamos com dinheiro, pagamos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ter aquele dinheiro. Mas tem um detalhe: tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade. Trecho de entrevista de José Mujica (conhecido como Pepe Mujica), ex-presidente do Uruguai, transcrito do filme Human (França, 2015), de Yann Arthus-Bertrand.

As variedades — formal e informal — da língua culta, por serem típicas de falantes urbanos de maior nível de escolaridade e de maior influência social, são denominadas também normas urbanas de prestígio.

PARA VER NA REDE

Se você quiser assistir, na íntegra, ao emocionante documentário Human, acesse o seguinte link: <http://tub.im/xqnzxs>. Acesso em: 18 jan. 2016. [José Mujica passou mais de 15 anos na prisão quando era integrante da guerrilha que lutava contra a ditadura civil-militar que governou o Uruguai entre 1973 e 1985.] Gramática... gramáticas...

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A variedade coloquial-popular Leia este pequeno texto:

Ponto de vista O pai, depois de analisar o relatório de notas que o filho havia trazido da escola, chama o garoto e diz, irritado: — Pô, filhão! Você tá pisando na bola! Suas notas vão de mal a pior! Cria vergonha na cara! Tá na hora de você tomar conta do seu nariz! Você sabia que, quando eu tinha a sua idade, eu era um dos melhores alunos da turma? E o garoto, sem muito entusiasmo: — Puxa, paizão, legal, heim? Mas, com bem menos idade do que o senhor tem hoje, um carinha chamado Lawrence Bragg * já tinha faturado um prêmio Nobel de Física. Texto de domínio público. [Lawrence Bragg, físico australiano, recebeu o Nobel em 1915, com apenas 25 anos.]

O QUE DIZEM OS LINGUISTAS A linguagem não é usada apenas para transmitir informações. Uma das outras funções da linguagem é a de comunicar ao ouvinte a posição que o falante ocupa ou acha que ocupa na sociedade em que vive. As pessoas falam para serem “ouvidas”, para serem respeitadas e para exercer influência no ambiente em que se realizam seus discursos (atos linguísticos). As “regras de linguagem” levam em conta as relações sociais entre os interlocutores. Todo falante tem que agir de acordo com essas regras, isto é, tem que “saber”: a) quando pode falar e quando não pode; b) que “assuntos” podem ser abordados; c) que variedade linguística é adequada à situação de comunicação. Fonte de pesquisa: GNERRE, Maurizzio. Linguagem, escrita e poder. São Paulo: Martins Fontes, 1987. p. 3-4.

Orlandeli - Grump

Nesse diálogo — uma conversa entre pai e filho —, a situação de comunicação é informal. Em situações como essa, os interlocutores tendem a fazer uso de uma variedade linguística denominada não padrão, coloquial ou coloquial-popular. Essa variedade, comumente empregada pela maioria das pessoas em suas relações sociais do dia a dia, caracteriza-se principalmente pela despreocupação dos falantes com muitas das regras da gramática normativa — emprego de plurais, de concordâncias, de flexão dos verbos etc. — e pela presença frequente de expressões populares, de frases feitas e de gírias. É por meio da variedade coloquial que nos comunicamos de maneira espontânea e informal com nossos familiares, vizinhos, colegas e amigos. Na tirinha abaixo, por exemplo, o personagem, ao pedir ajuda ao sobrinho para entender as novas regras do acordo ortográfico da língua portuguesa, expressa-se por meio dessa variedade linguística.

ORLANDELI. Grump: Tive uma ideia... Jan. 2009.

É claro que, mesmo quando nos comunicamos em situações informais, podemos optar pelo uso da variedade culta, uma vez que usar essa variedade não significa falar/escrever “difícil”, com palavras pouco comuns e frases complexas; significa, sim, falar/escrever de acordo com as orientações da gramática normativa.

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU As diferentes gramáticas • Gramática internalizada Sistema de regras próprias do idioma que comandam sua estrutura e funcionamento e determinam se uma construção é ou não linguisticamente válida. Exemplos: “Chega-se a Marte, mas não se chega ao próximo.” (J. Saramago) " válida Ao chega-se Marte mas a próximo chega não se. " inválida • Gramática normativa Teoria que, tomando como referência os usos tradicionais — “exemplares” — do idioma, descreve e propõe um sistema de normas e orientações para se falar/escrever em situações formais de comunicação.

Variedades linguísticas • Língua (ou variedade) culta • Empregada, em situações mais formais, por integrantes dos grupos sociais de maior nível de escolaridade e de maior influência social, política e econômica; • Variedades da língua culta: língua culta formal e língua culta informal; • Caracteriza-se principalmente pela presença de estruturas frasais mais complexas, pelo vocabulário mais elaborado (menos “comum”) e, em sua variedade formal, pela adequação rigorosa às regras da gramática normativa. • Língua (ou variedade) coloquial-popular • Empregada cotidianamente nas situações informais de comunicação por integrantes de todos os grupos sociais; • Caracteriza-se pelo vocabulário mais “comum”, pelo emprego de frases de estrutura simples, pela pouca (ou nenhuma) observância às regras da gramática normativa e pela presença de frases feitas, expressões populares e gírias.

Atividades

Escreva no caderno

Professor(a), conforme o exposto em Conversa com o professor na seção “Pressupostos teóricos e metodologia” (item “O encaminhamento didático dos conteúdos”), os exercícios da seção “Atividades” objetivam, principalmente, sedimentar conceitos teóricos essenciais, nomenclatura e/ou regras apresentados no tópico em estudo.

1. Compare, quanto aos aspectos linguísticos, as construções destes quatro itens:

1. 2. 3. 4.

As repente, garotas festa, estavam da gostando mas elas de, embora foram. As garotas estavam gostando da festa, mas, de repente, elas foram embora. As minas estavam curtindo a festa, mas, de repente, elas vazaram. As mina tava curtino a festa, mas, de repente, elas vazô.

Assinale a afirmação correta: a) A organização da estrutura textual do item 1, embora incomum, é linguisticamente válida, pois qualquer leitor é capaz de reordenar suas palavras e, assim, depreender o sentido da mensagem. b) Na perspectiva da gramática normativa, são válidos os itens 2, 3 e 4, uma vez que, nos três, o sentido da mensagem é basicamente o mesmo. c) Do ponto de vista estritamente linguístico, apenas os itens 1 e 4 não são válidos. d) Comparados a 2, os itens 3 e 4 apresentam um grau crescente de afastamento em relação à variedade culta da língua. e) Os itens 3 e 4 exemplificam construções linguísticas usualmente empregadas por falantes incapazes de expressar suas ideias com clareza e objetividade. Gramática... gramáticas...

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Professor(a), se considerar oportuno, comentar com os alunos que o Modernismo foi um movimento artístico-literário revolucionário, que se iniciou oficialmente com a Semana de Arte Moderna, em 1922, e, de certa forma, até hoje influencia a literatura e a cultura brasileiras. O estudo dessa escola literária e de seus principais autores será desenvolvido no volume 3 desta coleção.

2. O Manifesto da Poesia Pau-Brasil, redigido em 1924 pelo escritor Oswald de Andrade, é um texto no qual são apresentadas inúmeras ideias e sugestões a respeito de uma nova maneira de ver o Brasil e de fazer literatura brasileira. O manifesto, que passou a servir como referência para muitos escritores modernistas brasileiros, tem, entre suas propostas, a seguinte: A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica.* A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos. *relativa à neologia (criação de novas palavras)

ANDRADE, Oswald de. A utopia antropofágica. 3. ed. São Paulo: Globo, 2001. p. 42. (Obras completas de Oswald de Andrade).

Agora leia os cinco trechos dos textos a seguir, todos de escritores modernistas brasileiros. Depois, responda aos itens a e b. TEXTO 1

TEXTO 2

[...] O grito do bicho era “eu sou macho” e cocoreco e bico de pato. E fazia aquela ginga de mão, você manja, n’é?[...]

Taína-Cã deu uma chegadinha no céu, foi até o corgo Berô, fez oração e botando uma perna em cada barreira do corgo esperou assuntando a água. [...] Taína-Cã não era coroca não! Taína-Cã era mas um rapaz muito brabo mucudo*e de nação carajá. [...] *musculoso, forte

ANTÔNIO, João. Mariazinha Tiro a Esmo. In: . Malhação do Judas Carioca. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 7.

TEXTO 3

Caminha a vida ao meu lado com o seu odor marinho, ardiloso sol da tarde que me aquece como se fosse a própria eternidade [...] IVO, Lêdo. O pássaro predatório. In: . Mar oceano: poesia. Rio de Janeiro: Record, 1987. p. 19.

ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Madri: Allca XX, 1997. p. 161.

TEXTO 4

[...] andava eu na casa dos trinta e tantos e meu novo viver pedia costela. Uma prima, filha do sepultado tio Tomé de Azeredo, ficou toda ensabonetada para meu lado. Morava longe, mas ao sentir cheiro de casamento, voou em trem de ferro e veio desabar [na minha casa] na rua da Jaca. [...] A prima não servia — um bambu vestido era mais encorpado do que ela [...] CARVALHO, José C. de. O coronel e o lobisomem. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977. p. 16-17.

TEXTO 5

[...] A gente via Brejeirinha: primeiro, os cabelos, compridos, lisos, louro-cobre; e, no meio deles, coisicas diminutas: a carinha não-comprida, o perfilzinho agudo, um narizinho que-carícia. Aos tantos, não parava, andorinhava,* espiava agora — o xixixi e o empapar-se da paisagem — as pestanas til-til. [...] *andorinhava (neologismo): inquieta como uma andorinha

ROSA, João Guimarães. Partida do audaz navegante. In: . Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 167.

a) Em qual (quais) desses textos não é possível identificar a adoção da proposta do Manifesto da texto 3. Não há, no trecho, termos característicos da língua oral, nem neologismos, nem desvios Poesia Pau-Brasil? No em relação à norma-padrão.

b) Transcreva, do(s) outro(s) fragmento(s), algumas marcas linguísticas indicativas de que o autor incorporou em seu texto a proposta do manifesto. Ver palavras/expressões sublinhadas nos textos.

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4. b) Espera-se que os alunos não concordem com essa análise. O falante sabe “falar” e, embora não domine a variedade culta, domina perfeitamente a gramática internalizada (estrutura de funcionamento) da língua, o que lhe permite comunicar-se com clareza, expressividade e senso crítico.

3. (Unifesp-SP) Leia os versos do poeta Manoel de Barros. Professor(a), ver na pág. 154, informações sobre o poeta Manoel de Barros.

1 Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas. 2 Respeito as oralidades. Eu escrevo o rumor das palavras. Não sou sandeu* de gramáticas. *sandeu: tolo Só sei o nada aumentado. Versos extraídos de O Livro das Ignorãças.

a) b) c) d) e)

Os versos transcritos em 1 e 2 assinalam que o eu lírico: se ressente das imposições das gramáticas, que comprometem a sua criatividade. reconhece a necessidade de fazer poesia, lembrando-se de atender ao normativismo. condena a expressão linguística que materializa textos sem a beleza das frases. propõe formas alternativas de expressão sem apegar-se ao rigor das normas gramaticais. busca a doença das palavras como forma de repensá-las e ajustá-las à ideia de belo.

4. O trecho a seguir reproduz a fala de um operário. Leia-o e responda aos itens de a a c. Os nossos salário, cum relação ao que nóis fazemo e o lucro que os outros tem, é insignificante. Por que acontece isso? Eu tenho que trabaiá trezentos e sessenta e cinco dia por ano. O outro não trabaia nem... nem cem dia, ganha muito mais. Porque eu sô a máquina que dô descanso pra ele. RAINHO, Luís Fernando. Os peões do Grande ABC. Petrópolis: Vozes, 1980. p. 199.

a) Identifique no texto as duas diferenças mais evidentes em relação ao padrão formal da língua portuguesa. b) Suponha que alguém, depois de ler esse texto, dissesse o seguinte: “Essa pessoa não sabe falar; não sabe gramática, por isso comete muitos erros.”. Você concordaria com essa opinião? Justifique. c) O fato de o falante do texto não se expressar de acordo com as regras da gramática normativa não o impede de ter senso crítico em relação ao problema que ele analisa. Qual é esse problema e que opinião ele tem a respeito?

4. a) 1. Ausência de plural nos nomes/substantivos: nossos salário, cem dia. 2. Diferença na pronúncia de algumas palavras: cum — com; nóis — nós; trabaiá — trabalhar; trabaia — trabalha; sô/dô — sou/dou. 4. c) Ele analisa a exploração a que é submetido em seu trabalho: trabalha muito e ganha muito menos do que quem não trabalha tanto quanto ele (a última frase sugere que o falante esteja se referindo ao patrão). Seu posicionamento evidencia sua indignação/revolta; ele não aceita passivamente a situação.

ADEQUAÇÃO E INADEQUAÇÃO LINGUÍSTICA

Quando uma pessoa se comunica com outra(s), para que esse ato se realize com eficiência, é necessário que ela seja capaz de fazer a adequação, isto é, o “ajuste” da linguagem à situação de comunicação. Leia, por exemplo, a parte inicial de um comunicado enviado pela escola aos pais de um dos alunos:

Queridos papais: O Duduzinho é um garoto hiperativo. Esse tipo de personalidade é comum no contexto de uma sociedade que apresenta diversos estímulos, nem todos condizentes com personalidades em formação, como o caso em questão. As modernas técnicas pedagógicas recomendam processos ludoterápicos que visam à transformação criativa desses impulsos. Gramática... gramáticas...

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A linguagem desse trecho está perfeitamente adequada à situação de comunicação: além das palavras afetivas, são empregados termos específicos do universo pedagógico e educacional para analisar a personalidade do garotinho e sugerir formas de contornar os problemas de comportamento que ele apresenta na escola. Agora leia a continuação do mesmo bilhetinho:

Mas o negócio é o seguinte: nós tentamos o diabo com esse moleque maldito. Ninguém aqui aguenta mais esse pequeno canalha. Façam o favor de não trazê-lo amanhã, nem nunca mais, pô! BONASSI, Fernando. Bilhetinho de escola. In:

Nesse trecho, fica muito evidente a mudança no nível da linguagem, que passa a ser deselegante, até ofensiva, revelando a perda de paciência da escola por causa do comportamento do menino. É óbvio que esse trecho seria totalmente inadequado se uma escola realmente o enviasse aos pais de um aluno. Fica claro, então, que não se trata de um texto real, autêntico, e sim humorístico, e que o autor, de propósito, alterou bruscamente o registro para criar o efeito de humor do bilhetinho.

. 100 coisas. São Paulo: Angra, 2000. p. 30.

FIQUE SABENDO

Registro Em linguística, a palavra registro é empregada para designar o “jeito de falar/escrever”, isto é, o conjunto de características da linguagem que o falante escolhe para se comunicar em uma situação específica. Em cada situação, o falante se expressa de um jeito, ou seja, ele muda o registro para ajustar/adequar sua linguagem à situação de comunicação, às vezes até mesmo misturando em um mesmo ato de fala elementos textuais (palavras, expressões, formas de construir as frases etc.) de registros diferentes.

Fatores que influenciam a adequação Os atos de comunicação têm finalidades variadíssimas e realizam-se nas mais diferentes circunstâncias, por isso são também muito variados os elementos contextuais que influenciam na maneira como a linguagem deve ser ajustada à situação de comunicação. Há, por exemplo, situações em que a relação entre os interlocutores é descontraída, pessoal; nesses casos, é mais adequado o emprego de uma linguagem mais popular. Outras vezes, quando a relação entre eles é mais formal, impessoal, é mais pertinente o emprego da variedade culta formal da língua. Dentre os fatores que influenciam a adequação, destacam-se:

A relação falante-ouvinte Não se fala da mesma maneira com um amigo e com um estranho; não se fala do mesmo modo com um adulto e com uma criança.

A situação de comunicação Não se fala da mesma maneira em uma situação formal e em uma situação informal.

O assunto Referir-se, por exemplo, à morte de uma pessoa amiga requer uma linguagem diferente da usada para lamentar a derrota do time de futebol.

O ambiente Não se fala do mesmo jeito em um templo religioso e em uma festa com amigos.

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*Professor(a), a respeito das relações e implicações entre “gêneros textuais” e “suportes”, sugere-se consultar a obra Produção textual, análise de gêneros e compreensão, de Luiz Antônio Marcuschi (Editora Parábola).

O efeito pretendido (intencionalidade)

FIQUE SABENDO

Para se fazer um elogio ou agradecimento, fala-se de um jeito; para ofender, chocar ou ironizar alguém, usam-se outras formas de expressão.

O gênero textual * Um relatório médico, por exemplo, requer, em sua redação, uma linguagem bem diferente da usada em anúncios publicitários. * O suporte (base física ou virtual com formato específico na qual o texto é fixado)

A linguagem de uma mensagem de texto transmitada pelo celular tem características diferentes da empregada em embalagens de produtos. Esses fatores geralmente ocorrem combinados entre si, para que nossos atos de comunicação tenham a eficiência desejada, precisamos sempre levá-los em consideração não só quando falamos, mas, evidentemente, também quando escrevemos.

Gêneros textuais São “modelos gerais” que orientam a organização dos textos (orais e escritos) por meio dos quais nos comunicamos na sociedade da qual fazemos parte. Todo gênero textual tem suas características definidas pelo conteúdo temático, pelo seu estilo de linguagem e pela sua estrutura (construção composicional). Todo e qualquer texto sempre se organiza em determinados gêneros textuais. A quantidade de gêneros textuais existentes é enorme. Veja alguns exemplos: notícia, bilhete, telefonema, sermão, placas de trânsito, lista de compras, testamento, piada, regras de jogos, romance, atestado de saúde etc.

FUNÇÕES DA LINGUAGEM

Editoria de arte

Quando nos comunicamos com alguém, transmitimos ao nosso interlocutor uma determinada mensagem (“ideia”), que, sob a forma de um código (por exemplo: língua portuguesa), é levada até ele por meio de um canal ou veículo de comunicação. Veja nesta ilustração:

• Quem escreve — Lucinha. • Quem lê — Fernando.

Oi, Fernando. O relatório tá quase pronto; te mando amanhã. Bjs. Lucinha

• Mensagem — O relatório tá quase pronto; te mando amanhã. Bjs. • Código — língua portuguesa escrita. • Canal — computador/internet.

Um ato de comunicação se realiza, portanto, pela articulação de cinco elementos básicos. Veja o quadro:

Elemento do ato de comunicação

Papel no ato de comunicação

Emissor

Quem fala (ou escreve, desenha, faz os gestos etc.).

Receptor

Quem ouve (ou lê, interpreta os gestos etc.).

Mensagem

O conteúdo daquilo que o emissor comunica.

Código

Sistema utilizado pelo emissor para compor a mensagem (p. ex.: língua oral/escrita, língua de sinais, pintura, placas de trânsito).

Canal

Meio ou veículo por meio do qual a mensagem é transmitida (p. ex.: ar, papel, telefone, TV, internet).

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Professor(a), sugere-se comentar que o Cubismo é um movimento artístico que, na pintura, caracteriza-se por representar os objetos e seres em sua totalidade, revelando a um só tempo seus diferentes ângulos. Assim, os personagens são mostrados de frente e de perfil e parecem fragmentados.

Em nossas relações na sociedade, utilizamos a linguagem para as mais diferentes finalidades. Nós a usamos, por exemplo, para transmitir/receber informações, construir representações mentais do mundo, convencer outras pessoas, expressar nossos sentimentos, estabelecer/manter relações sociais etc. Dizemos, por isso, que a linguagem tem diferentes funções. As funções da linguagem subdividem-se em seis tipos, dependendo do elemento de comunicação no qual a mensagem está predominantemente centrada. Vamos, então, conhecer essas funções, suas características e suas finalidades.

Função referencial (ou informativa) PICASSO, Pablo. Guernica. 1937. Óleo sobre tela, 349,3  776,6 cm. Museu Reina Sofia, Madri. Foto: The Art Archive/Corbis/Latinstock © The Art Archive/Corbis

Você já ouviu falar de Guernica? Para conhecê-la, observe a cena deste quadro e leia o texto abaixo.

Guernica (1937), do pintor espanhol Pablo Picasso.

A guerra civil espanhola (1936-1939) dividiu de forma brutal o povo espanhol: de um lado, os republicanos; de outro, os fascistas do general Franco, que mais tarde seria ditador do país. Durante a guerra, Franco ordenou o bombardeio aéreo de uma pequena cidade espanhola. O ataque, que matou mais de 1 600 pessoas, inspirou o pintor espanhol Pablo Picasso a criar, empregando técnicas do estilo cubista, uma das pinturas mais significativas da arte mundial. Ele deu a ela o nome da cidadezinha destruída: Guernica. O quadro, um imenso painel de 3,5 m por 7,8 m, passou a simbolizar uma das mais expressivas denúncias contra os horrores e a estupidez daquela guerra e, por extensão, de todas as guerras.

NAVEGAR É PRECISO

Pablo Picasso, pintor e escultor espanhol que viveu entre 1881 e 1973, é considerado um dos principais representantes da arte moderna mundial. Se você quiser saber mais sobre o quadro Guernica, um dos mais famosos do pintor, acesse <http://tub.im/bhunjw>. Aproveite para fazer uma visita virtual e conhecer outras obras desse importante artista.

Agora você já sabe o que é Guernica: uma cidade espanhola e uma importante obra de arte do mundo contemporâneo. Sabe também o que aconteceu naquela cidade em um determinado momento da história. A finalidade do texto acima é, portanto, informar o leitor a respeito de um acontecimento histórico e de uma obra de arte inspirada nele. Note, então, que, nesse caso, a linguagem foi empregada para fazer referência a elementos do mundo e transmitir uma informação, uma mensagem direta, objetiva, que só pode ser entendida pelo leitor em um sentido específico, único. Dizemos, por isso, que a linguagem foi empregada em sua função referencial ou informativa. A função referencial, por ter como foco o próprio conteúdo da mensagem, é a função que predomina em noticiários (de TV, rádio e internet), jornais impressos, revistas de informação, textos técnicos, contratos, relatórios etc.

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Ronald Martins

Função apelativa (ou conativa) Leia o texto ao lado e observe que nele a linguagem verbal e a linguagem visual combinam-se na construção de uma mensagem que procura “falar diretamente” com o leitor, ou seja, ela é centrada no destinatário e busca interferir no comportamento dele, alertando-o dos riscos à vida representados pelo consumo de bebida alcoólica. Essa função da linguagem, que se chama apelativa (ou conativa), por falar diretamente ao destinatário, caracteriza-se pela presença das formas tu, você, vocês (explícitas ou subentendidas no texto), por vocativos (chamamentos) e por formas verbais no imperativo, isto é, formas que expressam pedido, recomendação, aviso, ordem etc. A função apelativa é muito usual em anúncios publicitários, placas de aviso, textos de horóscopo etc.

Função emotiva (ou expressiva) Leia estes trechos de uma letra de música:

Meu mundo é hoje Eu sou assim, Quem quiser gostar de mim, Eu sou assim. [...] Meu mundo é hoje, Não existe amanhã pra mim. Eu sou assim, Assim morrerei um dia. Não levarei arrependimentos Nem o peso da hipocrisia. [...] Meu mundo é hoje (Wilson Batista/José Batista) © 1966 by Copacor Edições Musicais Ltda. ADDAF.

FIQUE SABENDO

O predomínio de uma função Quando se trata de identificar, em um texto, uma determinada função da linguagem, dizemos que ela predomina naquele texto (ou em determinada parte dele). Isso porque dificilmente uma função ocorre isoladamente; o mais comum é que em um texto se combinem duas ou mais funções da linguagem.

Nesses versos, o aspecto mais relevante da mensagem é o próprio emissor. Por meio de pronomes (eu, mim) e de verbos na primeira pessoa (sou, morrerei, levarei), ele expõe seu mundo interior, sua subjetividade, seu modo de pensar e de ver a vida. Quando uma mensagem é centrada no próprio emissor, com a finalidade de evidenciar seus sentimentos e emoções, dizemos que nela predomina a função emotiva (ou expressiva) da linguagem. Na função emotiva/expressiva, é comum o emprego de interjeições — palavras e expressões que exprimem estado de espírito — e de reticências e pontos de exclamação (na linguagem escrita) como recursos para enfatizar os sentimentos do emissor. Veja, no bilhete abaixo, mais um exemplo do emprego da função emotiva/expressiva da linguagem.

Paty, arrependi de ter ido na festa! Credo! Que chatice, hein? Que som mais sem graça aquela galera curte, né? Mico geral! Na próxima (se tiver!), tô fora!!! Rê Gramática... gramáticas...

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Função metalinguística Leia este texto: A língua que falamos (nós todos, operários, professores, mecânicos, médicos e manicures) é bastante diferente da língua que escrevemos (isto é, aqueles dentre nós que têm a formação necessária para a tarefa de escrever). Assim, na cantina dizemos Me dá um quibe, mas na língua escrita isso seria Dê-me um quibe. Note-se que se trata de duas formas de expressão igualmente adequadas, cada qual em seu contexto. Seria bastante estranho chegarmos na cantina e dizermos Dê-me um quibe — o falante ia parecer pedante, até mesmo antipático (“quem esse cara tá pensando que é?”). PERINI, Mário A. Gramática do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2010. p. 19.

No texto acima, a linguagem foi empregada para analisar aspectos da própria linguagem, explicando e exemplificando diferenças entre a língua falada e a língua escrita e enfatizando a importância da adequação linguística. Ou seja, nesse texto a linguagem está centrada no próprio código linguístico. Quando, em um texto — ou trecho de texto —, predomina essa finalidade da linguagem, dizemos que ela está empregada em sua função metalinguística. No texto abaixo, também predomina nitidamente a função metalinguística, uma vez que a autora usa a linguagem para falar sobre as dificuldades e sobre a importância do ato de escrever.

Escrever Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva. [...] É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação. Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada. [...] LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. 4. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994. p. 136.

Função poética

TEXTO 1

Mar azul Mar azul marco azul Mar azul marco azul barco azul Mar azul marco azul barco azul arco azul Mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul

Paul Hill / TTL

Leia estes três textos:

GULLAR, Ferreira. Os melhores poemas de Ferreira Gullar. Seleção de Alfredo Bosi. São Paulo: Global, 1983. v. 2. p. 47.

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TEXTO 2

TEXTO 3

Quem cabritos vende e cabra não tem De algum lugar lhes vêm. Ditado popular.

Cigarra Diamante. Vidraça. Arisca, áspera asa risca o ar. E brilha. E passa.

Esse ditado dá a entender que alguém está obtendo alguma coisa de forma desonesta. Se a pessoa vende os filhotes da cabra sem ter as cabras para procriar, é sinal de que ela rouba os cabritos para vender.

ALMEIDA, Guilherme de. Cigarra. In: VOGT, Carlos (Sel.). Os melhores poemas de Guilherme de Almeida. São Paulo: Global, 1993. p. 87.

O que esses textos têm em comum? Nos três, a linguagem foi trabalhada para produzir determinados efeitos expressivos e, assim, despertar maior interesse do leitor. Releia os textos — se possível em voz alta — e perceba que houve preocupação em combinar as palavras de maneira pouco comum, organizando a sonoridade, o ritmo das frases e as rimas para que a mensagem ganhasse mais destaque, mais ênfase. Essa função da linguagem, que é centrada na mensagem, denomina-se função poética. A função poética evidencia-se mais comumente na poesia, nos slogans publicitários e também em textos de origem popular (ditados, cantigas, trava-línguas etc.).

Função fática Leia esta transcrição de uma “conversa” telefônica entre duas pessoas:

— Alô! — Alô... Pois não... Quem fala? — Desculpa... A ligação tá ruim... — Alô! Alô... Tá cortando... — Melhorou? Tá me ouvindo agora? Alô... — Com quem você quer falar? — Quem?... Desculpa... Não consigo te ouvir... — Caiu! (Oh, por-ca-ri-a de celular!)

Marcos Guilherme

— Por favor, aqui é a Cris. Quero falar...

Nessa “animadíssima conversa”, a linguagem foi empregada pelos dois falantes apenas para tentar estabelecer e manter o contato entre eles; não houve efetivamente nenhuma comunicação. Eles usaram a linguagem para verificar se a via de comunicação entre ambos estava estabelecida. A essa função da linguagem dá-se o nome de função fática. A função fática é, portanto, centrada no canal (meio de contato entre os falantes) e evidencia-se quando a linguagem serve para iniciar, manter, retomar ou concluir o ato de comunicação. Palavras e expressões como “alô!”, “oi!”, “tudo bem?”, “certo?”, “claro!”, “né?”, “tá ligado?”, “e aí?”, “fui!”, “tchau” e “até mais” caracterizam essa função da linguagem. Gramática... gramáticas...

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

Adequação linguística Conjunto de ajustes que o falante, buscando maior eficiência em seu desempenho linguístico, deve fazer em sua forma de falar/escrever, considerando os diferentes elementos que compõem o ato de comunicação: o interlocutor, o assunto, a situação, o efeito pretendido etc.

Funções da linguagem As funções da linguagem são classificadas conforme o foco da mensagem, ou seja, conforme o elemento do ato de comunicação no qual a mensagem está predominantemente centrada.

Função da linguagem Referencial (ou informativa) Apelativa (ou conativa) Emotiva (ou expressiva)

Foco da mensagem o assunto

o destinatário

Intenção do emissor Transmitir, de forma objetiva, dados, notícias, conhecimentos; predomina nos textos informativos. Expressar apelo, ordem, pedido, buscando interferir no modo de agir/pensar do destinatário; é comum nos textos publicitários.

o emissor

Exprimir emoções e sentimentos do próprio emissor da mensagem; predomina nos textos de caráter subjetivo, pessoal.

Metalinguística

o código linguístico

Discutir aspectos da própria linguagem; é usual em textos de ensino de línguas, dicionários etc.

Poética

a própria mensagem

Criar efeitos expressivos e estéticos; predomina na poesia.

Fática

o canal de comunicação

Estabelecer, manter ou concluir um ato de comunicação; evidencia-se principalmente no início e no final da mensagem, quando o emissor pretende iniciar ou finalizar o ato de comunicação.

Atividades

Escreva no caderno

1. Um ato de comunicação se realiza com mais eficiência quando o emissor — aquele que fala ou escreve — é capaz de adequar sua linguagem ao contexto. Em cada um dos itens a seguir, identifique qual das formas de expressão é mais adequada à situação de comunicação descrita. a) Em uma loja, um vendedor conversa com uma cliente, que tenta conseguir um desconto: 1. Ó, dona... Não dá... O preço é esse mesmo... Se eu quebrar o seu galho e maneirar no preço, o gerente vai virar um bicho e aí ele pode me ferrar legal.

2. Desculpe, senhora, mas o preço é esse mesmo. Se eu der um desconto não autorizado, o gerente vai me advertir e eu posso até ser demitido.

b) Em uma sala de aula, um aluno pede que um colega lhe empreste uma caneta: 1. Por obséquio, poderias fazer a fineza de emprestar-me a tua caneta? Devolvê-la-ei assim que a desocupar.

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2. Por favor, me empresta aí a tua caneta. É rapidinho; te devolvo já, já.

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c) Em uma solenidade de formatura, um professor faz um discurso: 1. É indescritível minha satisfação ao ver esses jovens atingindo uma meta pela qual despenderam tantos esforços e incontáveis horas de dedicação aos estudos.

2. Tô feliz demais em ver essa moçada faturando um diploma depois de ter ralado tanto e ficado com o nariz enfiado nos livros tanto tempo que nem dá pra dizer direito.

d) Um rapaz, respondendo, por escrito, à seguinte pergunta num processo de seleção para emprego: O que você acha necessário para progredir profissionalmente em nossa empresa, caso seja contratado? 1. O jeito é pegar firme, dar o sangue, encarar de frente os problemas; tem também que jogar limpo, sem sacanear os colegas de trabalho.

2. Conjecturo que se faz mister laborar com afinco, sobrepujar as vicissitudes e não utilizar subterfúgios antiéticos prejudiciais aos colegas de trabalho.

3. Penso ser necessário ter disposição para o trabalho, dedicar-se bastante, buscar soluções para os eventuais problemas e ser ético, leal em relação aos colegas de trabalho.

2. (Enem/MEC) Leia o texto:

A História, mais ou menos Negócio seguinte. Três reis magrinhos ouviram um plá de que tinha nascido um Guri. Viram o cometa no Oriente e tal e se flagraram que o Guri tinha pintado por lá. Os profetas, que não eram de dar cascata, já tinham dicado o troço: em Belém, da Judeia, vai nascer o Salvador, e tá falado. Os três magrinhos se mandaram. Mas deram o maior fora, Em vez de irem direto para Belém, como mandava o catálogo, resolveram dar uma incerta no velho Herodes, em Jerusalém, Pra quê! Chegaram lá de boca aberta e entregaram toda a trama. Perguntaram: Onde está o rei que acaba de nascer? Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo. Quer dizer, pegou mal. Muito mal. O velho Herodes, que era um oligão, ficou grilado. Que rei era aquele? Ele é que era o dono da praça. Mas comeu em boca e disse: Joia. Onde é que esse guri vai se apresentar? Em que canal? Quem é o empresário? Tem baixo elétrico? Quero saber tudo. Os magrinhos disseram que iam flagrar o Professor(a), o termo “oligão” significa xingamento Guri e na volta dicavam tudo para o coroa. para alguém desastrado, inábil, de acordo com o [...] Dicionário de Porto-Alegrês, disponível em: <http://tub.im/hfx7pp>. Acesso em: 2 maio 2016.

VERISSIMO, L. F. O nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1994.

Na crônica de Verissimo, a estratégia para gerar o efeito de humor decorre do(a): a) linguagem rebuscada utilizada pelo narrador no tratamento do assunto. b) inserção de perguntas diretas acerca do acontecimento narrado. c) caracterização dos lugares onde se passa a história. d) emprego de termos bíblicos de forma descontextualizada. e) contraste entre o tema abordado e a linguagem utilizada.

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3. Leia este texto transcrito de uma revista. Frans Lanting/Corbis/Latinstock

A florzinha de dez quilos Ela se chama raflésia, e é a maior flor do mundo. Foi descoberta em 1818, na ilha de Sumatra, Indonésia. Desde então são conhecidas cerca de 20 espécies distintas de raflésias. O exemplar dessa foto é uma Rafflesia keithii [...]. Além de causar espanto pelo seu tamanho — mais de um metro de diâmetro, com peso de cerca de dez quilos — essa espécie se caracteriza por possuir cinco pétalas de consistência similar ao couro, nas cores laranja e creme. As raflésias são plantas parasitas dotadas de órgãos vegetativos que se desenvolvem nas raízes da planta hospedeira. [...] A raflésia é linda. Mas é melhor não cheirá-la: essa flor gigante emana um odor de carne podre, ótimo para atrair um minúsculo inseto que cuida da sua polinização e também para manter a distância os predadores herbívoros. PLANETA. São Paulo: Ed. Três, ed. 307, out. 2005, p. 9.

Considerando as características da linguagem desse texto, identifique como correta ou incorreta cada uma das afirmações a seguir. a) Nesse texto, o assunto, a seleção lexical e a presença de termos técnicos evidenciam que a revista Planeta tem como principal público leitor os cientistas especializados em botânica, ramo da biologia que estuda as plantas. Incorreta. b) Embora no texto haja termos da linguagem científica, algumas expressões da linguagem coloquial, tais como “f lorzinha”, “além de causar espanto” e “é melhor não cheirar”, indicam que ele é destinado a leitores “comuns”, e não somente a especialistas no assunto abordado. Correta. c) No título do texto, o diminutivo “florzinha”, associado à expressão “dez quilos”, cria um efeito de sentido inadequado a um texto de caráter técnico-científico, antecipando, assim, aos leitores que ele terá um tom mais informal, coloquial. Correta.

FIQUE SABENDO

Léxico, vocabulário e campo lexical • Léxico — é o conjunto de todas as palavras e expressões de um idioma. • Vocabulário — é o conjunto de palavras e expressões que cada falante seleciona do léxico para se comunicar oralmente ou por escrito. • Campo lexical — é qualquer conjunto de palavras relacionadas a uma determinada área do conhecimento. Ex.: As palavras “gol”, “pênalti”, “escanteio”, “atacante”, “goleiro”, “impedimento” etc. integram o campo lexical da linguagem do futebol.

d) Predominam no texto palavras e expressões do campo lexical da (Há vários termos da botânica — flor, pétalas, plantas parasitas, órgãos botânica.Incorreta vegetativos, raízes, planta hospedeira, polinização —, mas eles não predominam no texto.) e) Nesse texto, evidencia-se a função referencial da linguagem, por meio da qual o autor transmite aos leitores informações objetivas sobre determinada espécie vegetal. Correta.

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4. Em “Fogo na mata mata” — função referencial/informativa (informa/lembra que, quando a vegetação pega fogo, acontecem mortes) e função poética (enfatiza a expressividade por meio do jogo sonoro e de sentido com a repetição de “mata”, que, pela ordem, significa “floresta/vegetação” e “causa a morte”); em “Proteja o meio ambiente/Evite as queimadas” — função apelativa (por meio dos imperativos — proteja, evite — incentiva uma atitude do leitor, no sentido de que ele se conscientize dos perigos dos incêndios e ajude a evitá-los.)

FOGO NA MATA MATA

Nico Jacobs/Shutterstock.com

4. Em um texto, embora geralmente predomine uma das funções da linguagem, o mais comum é que diferentes funções sejam combinadas entre si, buscando-se, com isso, dar maior expressividade à mensagem. Leia, por exemplo, este texto:

Proteja o meio ambiente. Evite as queimadas. Nele, combinam-se três funções da linguagem. Indique em que parte do texto cada uma delas ocorre, nomeie-as e justifique sua resposta. Cartaz do IBAMA/CETAS

5. Uma campanha publicitária institucional do Ibama destinada a combater os maus-tratos a animais fez uso de cartazes como o reproduzido ao lado, no qual se combinam a linguagem verbal (palavras) e a visual (imagem). Considerando o emprego desses recursos de comunicação e a articulação entre eles na construção da mensagem, identifique a afirmação incorreta: a) A palavra “eles”, no alto do cartaz, faz referência a todos os animais, não apenas aos papagaios que são vítimas de maus-tratos. b) A diferença na cor e na tipologia (formato e tamanho da letra) da palavra “crime”, no alto do cartaz, constitui um recurso eficiente para enfatizar, no contexto, o significado dessa palavra. c) Nesse texto, a linguagem verbal é empregada em duas de suas funções: a função referencial (na parte superior), que se caracteriza por apresentar informações, e a função apelativa/conativa (na parte inferior), por meio da qual o leitor é incentivado a participar da campanha contra os maus-tratos aos animais. d) A imagem impactante do papagaio com as perninhas mutiladas intensifica a força expressiva da mensagem, ampliando a possibilidade de engajamento do leitor na campanha. e) Predomina no cartaz a função emotiva da linguagem, uma vez que, por meio da imagem do papagaio com as perninhas mutiladas, procura-se sensibilizar, emocionar o leitor. A função é “emotiva” quando centrada nas emoções/subjetividade do emissor, não quando procura causar “emoções” no leitor destinatário.

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DA TEORIA À PRÁTICA Professor(a), ver em Conversa com o professor, no item “O encaminhamento didático dos conteúdos”, os objetivos da seção Ponto de partida.

Angeli. Folha de S.Paulo, São Paulo, 31 nov. 1993

Ponto de partida As tiras humorísticas publicadas em jornais, revistas e na internet costumam explorar determinados recursos de linguagem, buscando, com isso, criar o efeito desejado, isto é, o humor. Na tirinha ao lado, um dos interlocutores é um deputado, membro de uma comissão criada para investigar um “esquema no orçamento” (desvio de dinheiro público em benefício de pessoas ou empresas). O outro interlocutor é um depoente, pessoa convocada pela comissão para responder a perguntas sobre o assunto. De início, o leitor é levado a pensar que o deputado é um homem honesto, já que ele faz parte de uma comissão que pretende identificar e punir os responsáveis ANGELI. Folha de S.Paulo, São Paulo, 3 nov. 1993. pelo roubo do dinheiro público. Quanto à linguagem, observe que o deputado, ao fazer as três primeiras perguntas, fala de maneira formal, cerimoniosa. Note também que ele não usa “você” ou “o senhor”, e sim “o depoente”, procurando, com isso, estabelecer com seu interlocutor um diálogo impessoal, distanciado, objetivo. Esse “modo de falar” parece sugerir que o deputado, além de saber adequar sua fala à situação de comunicação, é uma pessoa polida, educada, que trata seu interlocutor de maneira civilizada, respeitosa. No entanto, quando o depoente afirma que o próprio deputado é um dos favorecidos pelo esquema de desvio de verbas, a situação muda: o deputado se irrita, perde o controle emocional e passa a se expressar de maneira ameaçadora, usando expressões e palavras inadequadas à situação de comunicação (“está a fim”; “tomar uma bifa [tapa] na orelha”). A mudança de atitude e a variação de registro, que passa repentinamente do formal respeitoso para o coloquial agressivo, revelam que o deputado é, na verdade, uma pessoa grosseira e truculenta; confirmam também a declaração do depoente: o deputado está mesmo envolvido no esquema de desvio de verbas. Esse desfecho, ao pôr em evidência a verdadeira personalidade e o cinismo do deputado, altera as expectativas iniciais do leitor e cria, assim, o efeito de humor crítico da tirinha.

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Agora é sua vez

Escreva no caderno

1. Os trechos a seguir são de autoria de três intelectuais brasileiros: um deles viveu no século XIX; os outros dois, no século passado. Os três foram pessoas cultas, publicaram inúmeros livros e conheciam a fundo a língua portuguesa. Leia-os e responda aos itens de a a c. TEXTO 1

A língua é a nacionalidade do pensamento como a pátria é a nacionalidade do povo. Da mesma forma que instituições justas e racionais revelam um povo grande e livre, uma língua pura, nobre e rica anuncia a raça inteligente e ilustrada. [...] ALENCAR, José de. Ficção completa e outros escritos. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar, 1965. v. 1. p. 399. TEXTO 2

Os delinquentes da língua portuguesa fazem do princípio histórico “quem faz a língua é o povo” verdadeiro moto para justificar o desprezo de seu estudo, de sua gramática, de seu vocabulário, esquecidos de que a falta de escola é que ocasiona a transformação, a deterioração, o apodrecimento de uma língua. Cozinheiras, babás, engraxates, trombadinhas, vagabundos, criminosos é que devem figurar, segundo esses derrotistas, como verdadeiros mestres de nossa sintaxe e legítimos defensores do nosso vocabulário. [...] ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Dicionário de questões vernáculas. São Paulo: Ática, 1996. Verbete “vernáculo”.

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros Vinha da boca do povo na língua errada do povo Língua certa do povo Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Record, [s.d.]. p. 135. Helena Coelho. 2013. Óleo sobre tela, 50  100 cm. Galeria Jacques Ardies, São Paulo

1. a) Texto 2. O autor se opõe totalmente à ideia de que “quem faz a língua é o povo”. Ao afirmar que a escola evita o “apodrecimento da língua” e fazer referência depreciativa a falantes das classes sociais mais pobres, ele revela seu menosprezo pela variedade popular da língua portuguesa.

TEXTO 3

Dia de feira, da pintora brasileira Helena Coelho (1949-).

1. b) Não. Alencar e Napoleão Mendes têm posições mais próximas entre si. O primeiro defende a supremacia da língua “rica”, “nobre”, afirmando que isso revela a inteligência e a “cultura” (ilustrada) do povo; fica subentendido, portanto, o preconceito em relação aos grupos sociais não “ilustrados”; o segundo é radicalmente contrário à valorização das variedades populares. Bandeira, em posição oposta, mostra-se simpático/receptivo à variedade popular e é favorável a que todos a utilizem. 1. c) O gramático era Napoleão Mendes de Almeida. Os pontos de vista explicitados em seu texto evidenciam claramente que ele, ao defender com convicção a variedade padrão e também expressar raivosamente sua aversão às variedades populares, revela sua visão extremamente elitista da língua, típica dos gramáticos puristas/ conservadores.

a) Em qual desses trechos é possível identificar um posicionamento nitidamente preconceituoso em relação a uma das variedades linguísticas do português? Justifique. b) Os três autores expressam a mesma opinião a respeito de como os falantes devem usar o idioma? Justifique. c) Considerando apenas o conteúdo dos textos, é possível identificar qual desses escritores era um gramático? Justifique sua resposta. Gramática... gramáticas...

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Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas. Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito. Eu pensava que fosse um sujeito escaleno. — Gostar de fazer defeito na frase é muito saudável, o Padre me disse. preceptor: mestre, Ele fez um limpamento em meus receios. professor; escaleno: diferente, O padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, estranho, incomum; pode muito que você carregue para o resto ariticum/araticum: nome da vida um certo gosto por nadas... de uma fruta das regiões de E se riu. cerrado. Você não é de bugre? — ele continuou. Que sim, eu respondi. Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas — Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros. Há que apenas saber errar bem o seu idioma. Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de agramática. Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases – In: Meu Quintal é Maior que o Mundo, de Manoel de Barros, Alfaguara, Rio de Janeiro. © by herdeiros de Manoel de Barros

Em relação a esse texto, responda aos itens a seguir: a) De acordo com o autor, o que seria a “agramática”?

Renata Caldas/CB/D.A Press

2. Leia este texto.

Manoel de Barros (1916-2014) Considerado um dos grandes poetas brasileiros, Manoel de Barros só obteve reconhecimento de seu trabalho no fim da década de 1980, muitos anos depois de escrever seu primeiro livro. Sua poesia se caracteriza pela valorização da oralidade e o vocabulário coloquial, muitas vezes se valendo de neologismo, o que confere extrema originalidade a seus poemas.

A “agramática” seria uma gramática diferente (ou uma “falta de gramática”), que possibilitaria escrever de outras maneiras que não aquelas fixadas pela gramática normativa. Usando essa agramática, seria válido criar frases/textos incomuns, inusitados, que contivessem construções/desvios inadmissíveis pela gramática tradicional.

b) Transcreva do texto uma passagem que pode ser usada como exemplo de “agramática”. Como seriam essas passagens se elas fossem redigidas gramaticalmente? 1. “Você não é de bugre?” " Você não é filho/descendente de bugre?; 2. “Que sim, eu respondi”. " Eu respondi que sim.

3. No poema de Manoel de Barros, Padre Ezequiel afirma “Há que apenas saber errar bem o seu idioma”. Considerando esse posicionamento do personagem, leia os dois textos a seguir e responda aos itens a e b. TEXTO 1

Falecimento Faleceu General Batista Nolo, depois de prolongadas cinco e meia da madrugada, a pertinaz* doença de hoje. Com esforço que custou a todos lágrimas de reprimir a morada baixou ao seu último caixão. A viúva deixa o extinto. *Pertinaz: persistente. Falecimento – In: Trinta anos de mim mesmo, de Millor Fernandes, Desiderata, Rio de Janeiro, 2006. p. 106. © by Ivan Rubino Fernandes.

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Anúncio da ABRAD. Criação: Agência 11:21 – Simplicidade Criativa

TEXTO 2

3. a) Espera-se uma resposta afirmativa. No texto “Falecimento”, Millôr desrespeita, propositadamente, certas regras de formação de frase, ou seja, ele “erra”, mas “erra bem”, porque, ao embaralhar os elementos frasais, constrói sentidos inusitados por meio dos quais atinge seu objetivo: criar o humor. No cartaz, a palavra “cérebro”, escrita erradamente de propósito, provoca estranhamento no leitor e, assim, de forma irônica, evidencia que o cigarro prejudica a capacidade intelectual de quem fuma. 3. b) Na fala do personagem, “estrada” refere-se a algo estruturado, convencional, retilíneo; no caso dos textos, significa, portanto, de acordo com a gramática (as regras de funcionamento) do idioma. Para ser uma “estrada”, o texto de Millôr teria de ficar assim, por exemplo: “O General Nolo Batista faleceu hoje às cinco e meia da madrugada, depois de prolongada e pertinaz doença. Com lágrimas que a todos custou esforço reprimir, o caixão baixou à sua última morada. O extinto deixa a viúva.”.

Abrad — Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas

a) Esses textos podem ser exemplos de “errar bem o idioma”? Justifique. b) Padre Ezequiel certamente diria que o texto “Falecimento” é um “desvio”, e não uma “estrada”. Como esse texto deveria ser redigido para que pudesse ser considerado uma “estrada”? 4. Leia estes dois trechos de textos: TEXTO 1

Da fala ao grunhido [...] Outro dia, ouvi um professor de português afirmar que, em matéria de idioma, não existe certo nem errado, ou seja, tudo tá certo. Tanto faz dizer “nós vamos” como “nós vai”. Ouço isso e penso: que sujeito bacana, tão modesto que é capaz de sugerir que seu saber nada vale. Mas logo me indago: será que ele pensa isso mesmo ou está posando de bacana, de avançadinho? [...] A conclusão inevitável é que o professor deveria mudar de profissão porque, se acredita que as regras não valem, não há o que ensinar. Mas esse vale-tudo é só no campo do idioma, não se adota nos demais campos do conhecimento. Não vejo um professor de medicina afirmando que a tuberculose não é uma doença, mas um modo diferente de saúde, e que o melhor para o pulmão é fumar charutos. É verdade que ninguém morre por falar errado, mas, certamente, dizendo “nós vai” e desconhecendo as normas da língua, nunca entrará para a universidade, como entrou o nosso professor. [...] GULLAR, Ferreira. Da fala ao grunhido. Folha de S.Paulo, 25 mar. 2012. Ilustrada, p. E8.

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5. a) Expressões coloquiais: “50 anos (de escrevinhação) nas costas”, “muita gente”, “para dar classe”, “para arrematar”, “Zé”, “show de bola”, “coisa de craque”, “iríamos almoço afora”. Palavras/expressões formais: “impertérrito” (destemido), “abater-se-á”, “urbe” (cidade), “formidanda” (apavorante/amedrontadora), “intempérie” (tempestade), “áugure” (aquele que augura, que consegue prever algo), “pressagiá-lo-ia” (pressagiar — prever, prenunciar), “libentissimamente” (de muito boa vontade, com grande prazer).

TEXTO 2

Existem sempre várias formas de falar uma mesma língua e, portanto, várias normas que correspondem aos diferentes usos. Martinet* (1974) distingue a norma descritiva da prescritiva. De um ponto de vista descritivo (ponto de vista do linguista), diferentes normas de realização de uma mesma língua necessariamente coexistem: o falar dos camponeses e o dos políticos não seguem as mesmas normas. A norma dos puristas ou dos gramáticos constitui-se apenas de uma delas. [...] A norma prescritiva escolhe, entre todos os usos de uma língua, aqueles que são reputados como corretos, o “bom uso”. *André Martinet (1908-1999): linguista francês.

CHARADEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. Coordenação da tradução: Fabiana Komesu. São Paulo: Contexto, 2004. p. 348-349.

4. a) Ele dá a entender que, se não forem respeitadas regras de “certo” e “errado”, as pessoas deixarão de “falar” e passarão a emitir sons desarticulados, como se fossem grunhidos (barulho emitido por certos animais, como os porcos, por exemplo).

a) No texto 1, que relação é possível estabelecer entre o título do texto e o posicionamento irônico do autor a respeito do que é “certo” ou “errado” no idioma? b) As formas “nós vamos” e “nós vai” coexistem no idioma; ou seja, ambas são usadas por falantes da língua portuguesa. Considerando tal fato, responda: o professor a que o autor do texto 1 se refere estava mesmo “posando de bacana, de avançadinho”? c) Considerando as informações do texto 2, responda: o posicionamento do autor do texto 1 baseia-se numa perspectiva descritivista ou prescritivista da de Ferreira Gullar é prescritivista; as expressões “as regras” e “as normas língua. Justifique. Adaperspectiva língua” fazem alusão às regras defendidas pelos puristas (regras da norma-padrão). 5. Leia este texto e responda aos itens de a a c. Com mais de 50 anos de escrevinhação nas costas, descobri algumas ideias que muita gente faz da vida de um escritor. Por exemplo, tem quem ache que os escritores, notadamente entre eles mesmos, só falam difícil, uma proparoxítona para abrir, uma mesóclise para dar classe e um tetrassílabo para arrematar. “Em teu parecer, meu impertérrito amigo”, perguntaria eu ao Rubem Fonseca, durante nosso almoço periódico, “abater-se-á hoje, sobre a nossa urbe, uma formidanda intempérie?” Ao que o Zé Rubem reagiria com uma anástrofe, um mais-que-perfeito fazendo as vezes do imperfeito do subjuntivo e uma aliteração final show de bola, coisa de craque mesmo. “Áugure do tempo fora eu, pressagiá-lo-ia libentissimamente”, responderia ele. “Todavia, de tal não me trato.” E assim iríamos almoço afora, discutindo elevadíssimos assuntos, em linguagem só compreensível por indivíduos especiais. [...] RIBEIRO, João Ubaldo. Vida de escritor. O Estado de S. Paulo, 3 jul. 2011. Disponível em: <http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral, vida-de-escritor-imp-,739964>. Acesso em: 18 jan. 2016.

FIQUE SABENDO

Ironia É uma forma de expressão que possibilita ao ouvinte (ou leitor) perceber, no enunciado, a intenção do emissor (aquele que fala ou escreve) de criticar, censurar, menosprezar ou ridicularizar alguém ou alguma coisa. 4.b) Não. Certamente o professor estava se referindo às possibilidades de uso das duas formas de expressão, que, em seus respectivos contextos de comunicação, são, ambas, linguisticamente certas/corretas, já que obedecem às regras internas de funcionamento do idioma.

PARA LER NA REDE

Se você quiser ler, na íntegra, a crônica “Vida de escritor”, acesse o seguinte link: <http://tub.im/pqr8pr>. Acesso em: 18 fev. 2016.

5. b) O autor utiliza termos específicos da nomenclatura gramatical: proparoxítona, mesóclise, tetrassílabo, anástrofe, mais-que-perfeito, imperfeito do subjuntivo, aliteração.

a) Para criar o efeito de humor nesse texto, o autor vai alternando palavras e expressões coloquiais com palavras e construções gramaticais extremamente formais. Transcreva alguns exemplos dessas duas variedades linguísticas. b) Que outro recurso, relacionado à escolha das palavras empregadas no texto, o autor também utiliza para construir o efeito de humor?

c) Identifique, na última frase, as duas passagens que, de forma irônica, também evidenciam e reforçam o tom humorístico do texto. Explique. 5. c) 1. “discutindo elevadíssimos assuntos”. A expressão é irônica porque conversar com um amigo a

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CAPÍTULO 1

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respeito do tempo (se vai ou não vai chover muito) não é, evidentemente, um “elevadíssimo/importantíssimo assunto”, e sim um assunto banal, corriqueiro, sem qualquer importância. 2. “indivíduos especiais” — o autor não se considera “especial”, ele usa essa palavra para, em tom de brincadeira, caracterizar-se tal como o imaginam as pessoas que acham que os escritores só falam difícil.

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E MAIS...

Os textos: do formal ao informal 1a. parte — Leitura do professor

Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas, os itens: 1) texto para leitura na primeira parte desta atividade (crônica “Aí, galera”); 2) sugestões/orientações relativas ao desenvolvimento da atividade; 3) proposta alternativa de trabalho em grupo.

Inicialmente, seu(sua) professor(a) vai ler um pequeno texto e propor, a respeito dele, algumas perguntas, que deverão ser respondidas oralmente. Ouça atentamente a leitura.

2a. parte — Atividade de pesquisa 1. Objetivo

Selecionar e categorizar textos (orais e escritos) característicos de situações formais ou informais de comunicação. 2. Orientações gerais a) A turma, com a orientação do(a) professor(a), será dividida em grupos. b) Cada grupo irá pesquisar e selecionar sete textos (ou trechos de textos) de diferentes níveis de formalidade/informalidade (muito formal, medianamente formal, pouco formal etc.), que devem ser organizados em sequência (do mais informal ao mais formal). c) Quatro dos textos deverão ser da modalidade escrita e três da modalidade oral. Conforme o caso, deverão ser copiados/fotocopiados ou gravados, para posterior apresentação em classe. d) Outras orientações relativas à seleção dos textos serão apresentadas pelo(a) professor(a). 3. A apresentação para a turma a) Em data a ser definida, os grupos, ou alguns deles, a critério do(a) professor(a), apresentarão seus textos aos demais colegas. b) Os sete textos deverão ser ordenados e apresentados em uma única sequência, do mais informal ao mais formal (ou vice-versa). c) Os integrantes do grupo lerão os textos da modalidade escrita; os textos orais deverão ser apresentados por meio da própria gravação. d) O(A) professor(a) definirá o tempo que cada equipe terá para fazer a apresentação. e) Ao final das apresentações, a turma elegerá, dentre todos os textos, o mais formal e o mais informal. 4. Atividade complementar

A critério do(a) professor(a), será desenvolvida uma atividade complementar com os dois textos escolhidos pela turma.

Gramática... gramáticas...

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capítulo

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Noções de variações linguísticas

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livros • BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2011. • PIRES, Cornélio. Quem conta um conto... Itu: Ottoni, 2002. (Conversa caipira). Ensaios • CHAGAS, Carmen Elena das. O papel social da língua: o poder das variedades linguísticas. Disponível em: <http://tub.im/8pbu3w>. Acesso em: 19 jan. 2016. . A língua do Brasil amanhã e outros mistérios. • PERINI, Mário. A língua do Brasil amanhã (falaremos portunhol?). In: São Paulo: Parábola, 2008. . Língua na mídia. São Paulo: Parábola, 2009. • POSSENTI, Sírio. Internetês. In: Vídeo • LINGUISTA Ataliba Castilho lança livro. Produção: Programa do Jô. Vídeo (22min21s). Disponível em: <http://tub.im/h4bo22>. Acesso em: 19 jan. 2016.

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INTRODUÇÃO

Professor(a), a atividade da seção “E mais...” da página 175 requer preparação antecipada.

No capítulo anterior, vimos que todos os falantes da língua portuguesa conhecem as regras gerais de funcionamento de nosso idioma. Isso não significa, no entanto, que todos utilizem o português de maneira rigorosamente uniforme. As principais diferenças entre os vários modos de falar e escrever português são, em sua maioria, facilmente identificáveis e relacionam-se a inúmeros fatores (situação de comunicação, idade, grupo social, assunto, época etc.) que, geralmente combinados, determinam a maneira individual de expressão dos diferentes falantes. Dizemos, por isso, que o idioma está sempre sujeito a variações linguísticas.

VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS De maneira simplificada, podemos considerar a existência de quatro tipos gerais de variação, conforme mostra o quadro.

Tipo

PARA QUE SABER?

Ter consciência de que a língua apresenta variações possibilita que você se comunique de maneira mais adequada e eficiente ao falar/ouvir e ao escrever/ler; também contribui para que você deixe de lado possíveis preconceitos linguísticos e, assim, passe a respeitar a “maneira de falar” dos demais usuários do idioma, principalmente quando tal maneira não é a mesma que você comumente emprega para se comunicar.

Aspecto a que se relaciona

Variação sociocultural

Grau de escolaridade, gênero, idade, profissão, condições econômicas do falante e grupo social do qual ele faz parte.

Variação situacional

Situação particular, específica, em que o falante utiliza a linguagem.

Variação histórica

Tempo (época) em que o falante vive.

Variação geográfica

Região em que o falante vive.

Vamos, então, conhecer as características gerais dessas variações.

A variação sociocultural *Professor(a), foi mantida a acentuação gráfica do texto original. Estadão Conteúdo

Leia este pequeno texto.

Só os óio* Ao regressar de Mineiros, em Goiás, [...] perdemos a hora de atravessar o Rio dos Bois. Não houve rogos nem promessas que demovessem o balseiro de sua resolução. Eram mais de seis horas e não daria passagem. Tocamos rastro atrás cinco léguas e fomos pedir pouso em casa de um sertanejo pobre, casa de pau a pique [...]. Estávamos em julho e o frio era intenso. Ao pedir o pouso, o caipira perguntou: — Vacê trôxe rede? — Não. — Curchuádo? — Também não. — E cuberta? — Também não trouxe. — Aãã... Intãoce vacê, de durmi, só trôxe os óio? PIRES, Cornélio. Patacoadas: anedotas: simplicidade e astúcias de caipiras. Itu: Ottoni, 2002. p. 71. (Conversa caipira).

Cornélio Pires (1884-1958) Foi um jornalista e escritor que se dedicou a pesquisar, registrar e divulgar a cultura sertaneja e o modo de vida do caipira. Sua atuação contribuiu decisivamente para que a música caipira chegasse aos discos e, posteriormente, às rádios de todo o país.

Noções de variações linguísticas

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São evidentes, nesse texto, as diferenças entre os modos de falar do sertanejo e do narrador-personagem. O linguajar do sertanejo evidencia que ele integra uma parcela da sociedade constituída por falantes economicamente mais pobres; pessoas que, geralmente por morar longe dos centros urbanos, não puderam frequentar a escola ou, quando muito, tiveram acesso a uma escolarização irregular, precária e de baixa qualidade. Por outro lado, o narrador-personagem emprega a variedade culta da língua, o que nos permite concluir que ele frequentou a escola; teve mais contato com os meios de comunicação, com a modalidade escrita da língua (livros, jornais, revistas etc.) e conviveu com pessoas de nível de cultura formal mais elevado. Além do nível de escolaridade, existem vários outros fatores, tais como idade, gênero, profissão, grupo social etc., que também influenciam o linguajar dos usuários do idioma. Esses fatores vinculam-se a aspectos sociais e culturais, por isso as variações geradas por eles denominam-se variações socioculturais.

O QUE DIZEM OS LINGUISTAS Cada variação sociolinguística é definível [...] em termos de um feixe de características, e o que distingue uma de outra é a frequência de uso. Por exemplo, é mais frequente que usuários do PB [português brasileiro] popular não concordem o verbo com o sujeito, e mesmo assim nem sempre! Fazer a concordância é uma característica mais frequente entre os usuários do PB [português brasileiro] culto — mas, igualmente, nem sempre! [...] Quem pratica o português popular não “fala errado” — apenas opera com a variedade correspondente ao seu nível sociocultural. Quem pratica o português culto não “fala certo”, de novo, apenas se serve da variedade correspondente ao seu nível sociocultural. [...] CASTILHO, Ataliba T. de. Nova gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2010. p. 205.

A variação situacional Suponha que um jovem advogado, em um tribunal de júri, diga o seguinte a respeito de uma testemunha que acabou de ser ouvida pelos jurados:

SENHORAS E SENHORES, ACEITEMOS A VERDADE: A TESTEMUNHA NADA ACRESCENTOU AOS FATOS JÁ CONHECIDOS POR TODOS.

Esse falante se expressou usando um registro adequado, uma vez que empregou o padrão formal de linguagem em uma situação formal de comunicação. Se, no entanto, esse advogado estivesse batendo um papo com alguns amigos a respeito do mesmo fato, ele poderia expressar-se assim:

PARA NÃO ESQUECER

Registro é o conjunto de características da linguagem escolhida pelo falante para se comunicar em uma situação específica. Essas características referem-se, por exemplo, à seleção lexical (escolha das palavras e expressões), à estrutura das frases, ao tom de voz que o falante emprega, à relação social que ele tem com o interlocutor, ao conhecimento que esse tem sobre o assunto etc.

Ilustrações: Marcos Guilherme

CARAS, VAMOS CAIR NA REAL: A TESTEMUNHA SÓ ENROLOU.

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CAPÍTULO 2

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Nesse caso, ele estaria se comunicando em uma situação informal, usando, adequadamente, outro registro, bem característico da variedade popular da língua. Essas diferentes formas de uso do idioma por um mesmo falante, em diferentes situações de comunicação, denominam-se variações situacionais.

A variação histórica

Roque Gameiro. In: História da Colonização Portuguesa do Brasil. Porto, 1921

O trecho abaixo é o início de um importante documento da história do Brasil. Leia-o:

Snõr

posto que o capitam moor desta vossa frota e asy os outros capitaães screpuam a vossa alteza a noua do acha mento desta vossa terra noua que se ora neesta naue gaçom achou, nom leixarey tambem de dar disso minha comta a vossa alteza asy como eu milhor poder ajmda que pera o bem contar e falar o saiba pior que todos fazer [...]. CAMINHA, Pero Vaz. Carta a El Rei D. Manuel (ortografia original). 2010. Disponível em: <https://pt.wikisource.org/wiki/Carta_a_El_Rei_D._Manuel_(ortografia_original)>. Acesso em: 19 jan. 2016.

E então, conseguiu ler? Certamente você estranhou a grafia de algumas palavras, mas, com algum esforço, talvez tenha conseguido perceber o sentido da maioria delas. Acontece que era assim mesmo que se escrevia em 1500, quando Pero Vaz de Caminha escreveu sua carta ao rei de Portugal, relatando a chegada dos portugueses ao Brasil. Agora leia uma “versão atualizada” do trecho acima:

Senhor Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que — para o bem contar e falar — o saiba pior que todos fazer.

PARA LER NA REDE

Se você quiser ler, na íntegra, a “versão atualizada” de A carta de Pero Vaz de Caminha, acesse o seguinte link: <http://tub.im/z7oxwo>. Acesso em: 19 jan. 2016.

Comparando os dois trechos anteriores, é fácil perceber que, de 1500 para cá, nosso idioma, como é natural, foi mudando ao longo do tempo. Noções de variações linguísticas

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Agora leia um trecho de um texto publicado, originalmente, há mais de cem anos, tratando de um assunto que continua muito atual:

DEVASTAÇÃO E CONSERVAÇÃO DAS MATTAS Conferencia do dr. Hermann Von Ihering na Universidade Popular de Piracicaba […] O sr. dr. Ihering proferiu perante numeroso e selecto auditório o seguinte discurso: “As plantas e os animaes na sua totalidade formam o que se denomina o mundo orgânico, cujo estudo compete a biologia. Esse mundo podemos comparal-o com um mechanismo em que todos os seres se congregam para funcionar com o auxilio uns dos outros, de modo tão subtil e tão admirável, que nada conhecemos de mais perfeito. É claro que a um mechanismo tão complicado não se podem retirar quaesquer peças, como não se pode tentar modifical-o profundamente sem conseqüencias muito serias. [...]” DEVASTAÇÃO e conservação das mattas. O Estado de S. Paulo, p. 3, 7 fev. 1911. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/ pagina/#!/19110207-11743-nac-0003-999-3-not>. Acesso em: 19 jan. 2016.

E um texto dos dias atuais: [...] Car Starter [...] um dispositivo para o uso no automóvel, preferencialmente em um suporte. O app substitui o layout da tela inicial do aparelho por uma interface pensada para o uso com uma mão só, com botões maiores e atalhos para app de mapas, músicas e contatos. Dá para armazenar dois pontos de interesse onde você vai com mais frequência (por exemplo, casa e trabalho) e, com um toque, traçar a rota até eles. Os botões e atalhos para os demais aplicativos são editáveis. GONZALES, Daniel. Os apps da semana para iOS, Android e Windows Phone. Mundo app, 25 nov. 2013. Blog. Disponível em: <http://blogs.estadao.com.br/ daniel-gonzales/os-apps-da-semana-para-ios-android-e-windows-phone-6/>. Acesso em: 19 jan. 2016.

Esses três textos exemplificam, claramente, que a língua não é estática, imutável. Ao contrário, ela se modifica com o passar do tempo e com o uso. As formas de falar se alteram; mudam-se as palavras, a grafia, as formas de estruturar as frases e, muitas vezes, o significado das palavras. Essas alterações que vão ocorrendo na língua ao longo do tempo recebem o nome de variações históricas.

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FIQUE SABENDO

Arcaísmos e neologismos Ao do longo do tempo, a língua vai mudando, principalmente em seu léxico (conjunto de palavras e expressões) e, assim, muitas palavras vão deixando de ser usadas. Outras, por conta das mudanças sociais, científicas etc., vão sendo incorporadas ao idioma. Palavras que não são mais usadas, como “vosmecê” e “aeroplano”, denominam-se arcaísmos; as novas, como “viralizar” – espalhar-se rapidamente pela internet – denominam-se neologismos.

CAPÍTULO 2

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Ivan Cruz. 2005. Acrílico sobre tela. Coleção particular, 1  1 m.

A variação geográfica Veja as palavras destacadas nestes trechos de textos: E o coração vazio Voa vadio Como uma pipa no ar. CHAVES, Xico; JUCA FILHO; NUCCI, Cláudio; RENATO, Zé. Quem tem a viola. Intérprete: Boca Livre. In: BOCA LIVRE. Songboca: ao vivo. [Rio de Janeiro]: Velas, 1994. Faixa 14.

[...] O céu povoado de inquietas pandorgas. Outros meninos erguem-nas, o dia inteiro [...] LINS, Osman. Nove, novena: narrativas. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 38.

Soltando Pipa IV (2005), do artista plástico Ivan Cruz (1947-).

As palavras pipa e pandorga são variações do nome de um brinquedo, que também pode ser chamado de papagaio, tapioca, maranhão, arraia ou quadrado. Ou seja, o nome do brinquedo muda de um lugar para outro. De região para região do país, não é difícil identificar diferentes formas de uso da língua. Essas diferenças podem ser mais facilmente notadas no aspecto fonético (sonoro) das palavras e, em menor grau, no vocabulário. Em espaços geográficos relativamente pequenos, como um município, também é muito comum haver diferenças entre o falar de moradores urbanos e o de moradores das áreas rurais. Nas regiões urbanas, nas cidades, também pode haver grupos de falantes que utilizam a língua de maneira diferente da utilizada por outros moradores do mesmo local. Leia, por exemplo, este texto: Ni qui fumo — Verbo ir, usado em narrativas. Tem o significado de “assim que fomos”, “quando fomos”. [Alguém] explicando por que não foi a algum compromisso, conta: “Nói já tava indo. Ni qui fumo, tocô a campainha e chegô visita. Daí num deu mai.”.[…] NETTO, Cecílio Elias. Dicionário do dialeto caipiracicabano. Piracicaba: Academia Piracicabana de Letras, 2001. p. 159.

Esse verbete, extraído de um dicionário que explica, humoristicamente, o significado de palavras e termos típicos da região de Piracicaba, no interior do estado de São Paulo, apresenta uma expressão de emprego muito específico da língua, associada ao lugar do país em que vivem os falantes que a utilizam. A esses tipos de diferenças na língua, dá-se o nome de variações geográficas. As variações geográficas, identificáveis quando comparamos a língua portuguesa de diferentes regiões do Brasil, também se dão, de maneira ainda mais evidente, entre o português do Brasil e o português de Portugal. Vamos conhecer, a seguir, alguns aspectos dessas diferenças. Noções de variações linguísticas

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A LÍNGUA PORTUGUESA — ORIGENS E GEOGRAFIA O português, como você sabe, teve origem no latim, por isso é chamado de língua neolatina. Na Roma antiga, sede do poderoso império romano, eram faladas duas variedades de latim: o latim vulgar (língua falada espontaneamente pelo povo) e o latim literário (usado pelos escritores, legisladores e demais pessoas cultas da época). O império romano, durante séculos, pôs em prática uma política de conquistas e expansão territorial. Quando dominavam um povo, os romanos levavam para a nova região conquistada seus costumes, suas leis e, obviamente, sua língua. Como a língua falada no cotidiano era o latim vulgar, essa variedade, com o passar do tempo, misturava-se à língua local, dando origem a uma língua um pouco diferente, que já não era mais o latim. Foi isso que aconteceu na Península Ibérica (onde hoje se localizam Portugal e parte da Espanha) entre o século II a.C. e o século V d.C., período durante o qual os romanos ocuparam a região e dominaram os celtiberos e alguns outros povos que lá viviam. A língua resultante da fusão do latim vulgar com o idioma dos celtiberos foi se modificando e, mais tarde, recebeu influências de idiomas de povos bárbaros e árabes — que, depois dos romanos, também dominaram a península. Aos poucos, essa língua foi se transformando na língua portuguesa. Muitos séculos depois, quando Portugal se tornou um império marítimo, a língua portuguesa se espalhou pelo mundo e veio parar no Brasil. Mas que falantes do português começaram, naqueles tempos, a trazer para cá nosso idioma? A esse respeito, leia o texto a seguir: Ambas as modalidades de português — o popular e o culto — foram trazidas pelos colonos portugueses, com predominância dos falantes do português popular. A história se repetiu também aqui. Afinal, que classe social de romanos invadiu a península ibérica? O alto patriciado romano? Nada disso, foi a massa menos favorecida da população, que esperava tornar-se proprietária das terras conquistadas. E que portugueses enfrentavam no século XVI as incertezas da longa travessia marítima? Os portugueses “bem de vida”? Não, estes financiavam as esquadras e ficavam com grande parte dos lucros. Quem enfrentava os problemas da nova terra, encarava os índios, plantava, construía e procurava ficar rico eram os sem-terra daqueles tempos. [...] De modo que não foi propriamente o português falado nas aulas da Universidade de Coimbra que desembarcou em nossas praias. Era o português popular, não padrão, o primeiro que se fez ouvir nas plagas sul-americanas. Dele deriva, de forma direta, o português brasileiro popular. CASTILHO, Ataliba T. de. Nova gramática do português brasileiro. São Paulo: Contexto, 2010. p. 204, 210.

Esse mesmo processo de expansão da língua portuguesa que ocorreu no Brasil aconteceu também nas demais colônias de Portugal. Atualmente, o português é o idioma oficial de aproximadamente 260 milhões de falantes, distribuídos em oito países. Veja o infográfico da página ao lado.

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CAPÍTULO 2

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CABO VERDE

PORTUGAL

GUINÉ-BISSAU

1,8

513

BRASIL

ANGOLA

206

milhões

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

186

10,4

milhão

mil

mil

milhões

TIMOR LESTE *

MOÇAMBIQUE

24,2

27,2

milhões

Alex Silva

População dos países em que o português é o idioma oficial

1,2

milhões

milhão

Fonte dos dados: THE WORLD BANK. Population, total. 2016. Disponível em: <http://data.worldbank.org/indicator/SP.POP.TOTL>. Acesso em: 25 fev. 2016. (Nota: O mapa acima não está em conformidade com as convenções cartográficas).

*O tétum é o outro idioma oficial do país.

É claro que, em todos esses países, a língua portuguesa, pela convivência com outras línguas também faladas pelos habitantes locais, foi se modificando, incorporando novas palavras, novas expressões, novas estruturas de frases, enfim, foi se adaptando às diferentes realidades linguísticas e tornando-se diferente do português falado em Portugal.

O português de Portugal e o português brasileiro Brasil e Portugal têm, oficialmente, o mesmo idioma. No entanto, muitas vezes, não é fácil entender o que os portugueses falam. As diferenças são nítidas em muitos aspectos: na pronúncia, no significado de determinadas palavras e expressões, em certas construções gramaticais e no vocabulário. Leia, por exemplo, a história em quadrinhos a seguir:

O QUE DIZEM OS LINGUISTAS [...] Do ponto de vista linguístico [...] a língua falada no Brasil já tem uma gramática — isto é, tem regras de funcionamento — que cada vez mais se diferencia da gramática da língua falada em Portugal. Por isso os linguistas [...] preferem usar o termo português brasileiro, por ser mais claro e marcar bem essa diferença. BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 50. ed. São Paulo: Loyola, 2008. p. 40.

Noções de variações linguísticas

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Orlandeli

ORLANDELI. Sabia que acabou de ser assinado o Novo Acordo Ortográfico? Revista da Cultura, outubro de 2008.

Essa “banda desenhada” (esse é, em Portugal, o nome de nossas populares “tirinhas”) faz referência a algumas diferenças de vocabulário entre o português de Portugal e o português brasileiro: em Portugal, bicha é o que nós, aqui, chamados de “fila”; bica é o nome do nosso “cafezinho”, e peúgas significa “meias”. E você conseguiria pelo menos “imaginar” o que é, em Portugal, o “autoclismo da retrete”? Se não tem a menor ideia, leia este trecho de crônica:

O autoclismo da retrete RIO DE JANEIRO – Em 1973, fui trabalhar numa revista brasileira editada em Lisboa. Logo no primeiro dia, tive uma amostra das deliciosas diferenças que nos separavam, a nós e aos portugueses, em matéria de língua. Houve um problema no banheiro da redação e eu disse à secretária: “Isabel, por favor, chame o bombeiro para consertar a descarga da privada”. Isabel franziu a testa e só entendeu as quatro primeiras palavras. Pelo visto, eu estava lhe pedindo que chamasse a Banda do Corpo de Bombeiros para dar um concerto particular de marchas e dobrados na redação. Por sorte, um colega brasileiro, em Lisboa havia algum tempo e já escolado nos meandros da língua, traduziu o recado: “Isabel, chame o canalizador para reparar o autoclismo da retrete”. E só então o belo rosto de Isabel se iluminou. [...] CASTRO, Ruy. O autoclismo da retrete. Folha de S.Paulo, São Paulo, 1.o set. 2007. Opinião. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0109200705.htm>. Acesso em: 19 jan. 2016. Folhapress.

Em algumas regiões do Brasil, para nomear o profissional que trabalha com instalação e manutenção de redes de água, emprega-se o termo “bombeiro”; em outras, usa-se “encanador”. E, como você viu no texto, em Portugal o termo é “canalizador”. E quanto a “autoclismo” e “retrete”? Bem... Esses são termos exclusivos do português de Portugal e, pelo texto, certamente você percebeu o que significam.

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CAPÍTULO 2

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Variações linguísticas • Variação sociocultural — refere-se às diversidades linguísticas relacionadas aos inúmeros aspectos sociais e culturais característicos de cada falante: idade, profissão, gênero, formação escolar, grupo social, nível econômico etc. • Variação situacional — relaciona-se às diferentes formas que um falante pode escolher para se comunicar, dependendo da situação de comunicação. • Variação histórica — relaciona-se às mudanças que, ao longo do tempo, vão acontecendo principalmente na grafia das palavras em geral e também no sentido de certas palavras e expressões do léxico. • Variação geográfica — refere-se às diferenças identificáveis no “modo de falar” (principalmente no vocabulário e no sotaque) das pessoas, dependendo do lugar ou da região em que vivem.

Atividades

Escreva no caderno

1. (UEMG) O trecho a seguir foi extraído do conto “A terceira margem do rio”, de João Guimarães Rosa. No trecho, o narrador descreve o momento em que o pai, de posse de sua canoa, se despede da família. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 32.

A variação linguística negritada nesse trecho do conto é responsável por: a) classificar os personagens em duas categorias: os que sabem e os que não sabem usar os pronomes em quaisquer situações. b) destacar um importante aspecto da oralidade que é responsável pela construção do perfil da personagem humilde e ingênua. c) fornecer informações sobre o nível de escolaridade dos personagens, realçando, assim, a origem humilde dos habitantes ribeirinhos. d) indicar o nível de formalidade e de distanciamento da mãe em relação ao pai, pois o pronome varia do menos ao mais formal.

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2. Leia este texto:

Defesa da inventividade popular [...] contra os burocratas da sensibilidade, que querem impingir ao povo, caritativamente, uma arte oficial, de “boa consciência”, ideologicamente retificada, dirigida. Mas o povo cria, o povo engenha, o povo cavila. O povo é o inventa-línguas, na malícia da maestria, no matreiro da maravilha. O visgo do improviso, tateando a travessia, azeitava o eixo do sol... O povo é o melhor artífice. CAMPOS, Haroldo. Circuladô de Fulô. In: . Isto não é um livro de viagem: 16 fragmentos de Galáxias. São Paulo: Editora 34, 1992. 1 CD encartado no livro Galáxias.

impingir: impor, obrigar a aceitar; caritativamente: sob a forma de caridade; cavilar: distorcer, reinventar o sentido das palavras; matreiro: esperto, sabido; artífice: artesão; aquele que cria coisas.

Indique qual dos seguintes fragmentos não exemplifica o posicionamento do autor desse texto relativamente aos usos da língua. a)

O grito do bicho era “eu sou macho” e cocoreco e bico de pato. E fazia aquela ginga de mão, você manja, né?

d)

ANTÔNIO, João. Mariazinha Tiro a Esmo. In: . Malhação do Judas Carioca. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 7.

b)

Você é baiano se acha compreensível o Curuzu: bairro diálogo, numa esquina do Curuzu: de Salvador — Coléde mermo, broder? Qual a dica/ novidade? O que — É niúma!!! Nenhuma/nada está acontecendo? — Vô pro reggae, táligado?... Vô cumê água com os cara!! Cumé água: beber — Vá nessa, véi! — Falô, maluco. JURA EM PROSA E VERSO. Você é baiano se. [2015?]. Disponível em: <www.juraemprosae verso.com.br/HUMOR-GrandeArquivo DeHumor/Baiano/VoceEBaianoSe.htm>. Acesso em: 19 jan. 2016.

c)

De tanto levar frechada do seu olhar Meu peito até parece sabe o quê Tauba de tiro ao álvaro Não tem mais onde furar. [...] BARBOSA, Adoniran; MOLES, Oswaldo. Tiro ao Álvaro. [2012]. Disponível em: <http://www. vagalume.com.br/demonios-da-garoa/tiro-aoalvaro.html>. Acesso em: 18 mar. 2016.

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Pátria não é só espaço geográfico, é histórico e até melódico. O momento em que a língua portuguesa virou brasileira foi atravessado pela memória e pelos sons dos povos que nos constituíram em séculos de uso tantas vezes musical do idioma. Somos o mérito de nossos erros coletivos de português. Ainda mais, do tom que damos à fala. [...] PEREIRA JUNIOR, Luiz Costa. Com açúcar. Revista Língua Portuguesa, São Paulo: Segmento, p. 5, set. 2006

e)

Aqui é bandido! Plínio Marcos! Atenção, malandrage! Eu num vô pedir nada, vô te dá um alô! Te liga aí: aids é uma praga que rói até os mais fortes, e rói devagarinho. [...] Quem pegá essa praga tá ralado de verde e amarelo [...]. Num tem [...] nem reza brava, nem choro, nem vela, nem ai-jesus. Pegou aids, foi pro brejo! [...] Trecho de texto escrito e interpretado pelo ator e dramaturgo Plínio Marcos. Vídeo exibido na Casa de Detenção de São Paulo, Agência Adag/TV Cultura, 1988.

CAPÍTULO 2

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3. Identifique se a linguagem dos itens a seguir é representativa de variação sociocultural, situacional, histórica e/ou geográfica. Transcreva de cada texto alguns elementos que justifiquem sua resposta. © 2011 Cedraz/Ipress

a)

Variação sociocultural (p. ex.: tô gostano; sirviço; inté; os produto só sai; nas minha mão; impacotadô) e variação geográfica (tratamento “tu”).

CEDRAZ, Antonio. A Turma do Xaxado. Disponível em: <http://www.facebook.com/antonio.Cedraz/photos>. Acesso em: 6 jun. 2016.

b)

c)

Variação situacional (solicitamos, V. Ex.a, determinar, percorre etc.). Jovens do 1.o

Exmo. Sr. Prefeito Municipal, ano do Ensino Médio não usam esse registro, a não ser em situações formais. Nós, abaixo-assinados, alunos do 1o. ano do Ensino Médio do Colégio Alvorada, solicitamos a V. Exª· providências a fim de determinar à Secretaria de Obras Urbanas que proceda à limpeza das margens e do leito do riacho Águas Claras, que, no trecho que percorre a avenida próxima à nossa escola, encontra-se em estado de completo abandono. O lixo e o entulho acumulados no local tornam desagradável o aspecto visual da avenida e também propiciam a proliferação de insetos e ratos que, como se sabe, constituem um risco à saúde das pessoas, principalmente dos jovens e crianças que estudam no colégio.

Grammatica descriptiva é a que expõe os factos da lingua actual. A grammatica descriptiva é pratica quando tem principalmente em vista ensinar a falar e a escrever correctamente; é scientifica quando procura esclarecer varios factos á luz da sciencia da linguagem e da grammatica historica. Variação histórica (grammatica, descriptiva, factos, correctamente, scientifica etc.).

ALI, M. Said. Grammatica secundaria da língua portugueza. São Paulo: Melhoramentos, 1923. p. 58.

d)

Oi, Su... E aí? Beleza? Então, menina... O Fred me mandou a gravação da balada do seu níver. Que arraso! Morri de inveja! Você, então, heim??? Des-lum-bran-te! Aquele vestidinho seu detonou, menina! Tava chiquérrimo! E o gato que não saía da tua cola? Quem era? Rolou ou você Variação sociocultural e situacional — uma jovem/adolescente se só jogou charme? comunicando informalmente com uma amiga sobre um assunto cotidiano Poxa... Vê se dá sinal de vida, né? (E aí?, Beleza?, níver, arraso, detonou etc.). Beijinhos... Lica

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Bill Stott

4. Leia este texto:

a) Que elementos da fala da personagem evidenciam que essa charge foi publicada em Portugal, e não no a ouvir”; “connosco”; Brasil? “estás “miúdos”; “está a arder”.

b) Caso o livro do qual foi extraída a charge viesse a ser publicado no Brasil, que alterações seriam necessárias para adaptar a linguagem ao português brasileiro? Sugestão: Você está (me) ouvindo?; conosco/com a gente; as crianças/os meninos; está pegando fogo.

STOTT, Bill. O mundo louco do futebol. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1994.

5. O escritor Carlos Drummond de Andrade produziu uma crônica na qual usou, propositadamente, uma linguagem desatualizada, com muitos arcaísmos, isto é, palavras e expressões “ultrapassadas”. Leia um trecho dessa crônica:

Antigamente

5. a) Sugestões: 1. Namoravam. 2. Tentando conquistar as moças; paquerando. 3. Eram ignorados; ficavam no “gelo”. 4. Eram recusados (pelas mulheres); levavam o fora. 5. Ter a pretensão de ensinar a alguém algo que essa pessoa já sabe muito bem. 6. Eram bonitas; atraentes; “gatas”.

Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé de alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. [...] Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso punham a mão em cumbuca. Era natural que com eles se perdesse a tramontana. A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que lhe faziam quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso. Verdade seja que às vezes os meninos eram mesmo encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja. As meninas não: verdadeiros cromos, umas teteias. [...] Mas tudo isso era antigamente, isto é, outrora. ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988. p. 1709-1710.

É bem provável que você tenha compreendido o significado de algumas expressões e seja capaz de “traduzi-las” para a linguagem atual; há outras, no entanto, que talvez você só consiga “modernizar”, atualizar, com a ajuda de pessoas mais velhas. Levando isso em conta, responda aos itens de a a d. a) Atualize as expressões a seguir. Use palavras e frases de sua linguagem cotidiana, até mesmo gírias. 1. faziam-lhes pé de alferes 2. arrastando a asa 3. ficavam debaixo do balaio 4. levavam tábua 5. ensinar padre-nosso ao vigário 6. as meninas eram umas teteias

b) Há, no texto, alguma expressão que você e as outras pessoas de sua faixa de idade utilizam para se comunicar? Se houver, transcreva-a(s). Resposta pessoal.

c) Transcreva uma expressão que, pela estranheza, você julga ser a mais antiga do texto. Resposta pessoal. d) Suponha que um amigo seu tenha uma namorada e, conversando com você, diga que ela é “mimosa e prendada”. Como você reagiria em relação a essa forma de falar empregada por ele? 5. d) Resposta pessoal. Espera-se que os alunos respondam que achariam engraçada e/ou estranha a expressão, pois ela não faz parte do universo vocabular dos jovens de hoje, nem corresponde ao modo de ser das garotas.

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CAPÍTULO 2

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DA TEORIA À PRÁTICA Ponto de partida Veja este anúncio publicitário veiculado em um jornal por uma empresa revendedora de automóveis.. Anúncio da Caraigá Veículos Ltda. 1993.

FOLHA DE S.PAULO, São Paulo, 1o. nov. 1993. Acontece, C4, p. 6.

Nesse anúncio, a estratégia de argumentação — tentativa de convencer o leitor a comprar um carro — desenvolve-se em dois níveis. Um desses níveis é o da racionalidade, que fica evidente na recomendação “chegue antes do aumento”. Sabemos que, comprando algo antes do aumento, pagamos um preço menor. O outro nível de argumentação, mais “sutil”, apoia-se na seleção lexical, isto é, na escolha das palavras que constituem o texto. Vejamos como se desenvolve essa seleção. Já no título, a palavra mancebo remete o leitor a um “mundo desatualizado”, porque essa palavra, que significa “rapaz”, não é mais usada. Evidencia-se, assim, logo de início, a intenção de dar ao texto um tom de humor, de brincadeira. Na sequência, outros arcaísmos — palavras e expressões fora de uso — também buscam, com humor, persuadir o leitor de que os preços dos carros anunciados são mesmo antigos, desatualizados — e portanto muito menores que os preços que passarão a vigorar depois dos aumentos. Veja os exemplos: • tempo do onça — tempo muito antigo; • farmácia se escrevia com ph – antigamente, escrevia-se assim: pharmacia; • supimpa — ótimo, muito bom; • de lascar o cano — excelente, incrível, inacreditável; • bagatela — sem valor ou de valor muito baixo; • do barulho — que causa espanto, incredulidade, agitação. Os publicitários que produziram esse texto fizeram uso da variação histórica da linguagem para construir uma mensagem que, com criatividade e um toque de humor, buscou aguçar a empatia do leitor e, assim, torná-lo mais propenso a adquirir um novo carro na revendedora que publicou o anúncio. Noções de variações linguísticas

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Agora é sua vez

Escreva no caderno

1. (Enem/MEC) Leia o texto.

A forte presença de palavras indígenas e africanas e de termos trazidos pelos imigrantes a partir do século XIX é um dos traços que distinguem o português do Brasil e o português de Portugal. Mas, olhando para a história dos empréstimos que o português brasileiro recebeu de línguas europeias a partir do século XX, outra diferença também aparece: com a vinda ao Brasil da família real portuguesa (1808) e, particularmente, com a Independência, Portugal deixou de ser o intermediário obrigatório da assimilação desses empréstimos e, assim, Brasil e Portugal começaram a divergir, não só por terem sofrido influências diferentes, mas também pela maneira como reagiram a elas. ILARI, R.; BASSO, R. O português da gente: a língua que estudamos, a língua que falamos. São Paulo: Contexto, 2006.

Os empréstimos linguísticos, recebidos de diversas línguas, são importantes na constituição do português do Brasil porque a) deixaram marcas da história vivida pela nação, como a colonização e a imigração. b) transformaram em um só idioma línguas diferentes, como as africanas, as indígenas e as europeias. c) promoveram uma língua acessível a falantes de origens distintas, como o africano, o indígena e o europeu. d) guardaram uma relação de identidade entre os falantes do português do Brasil e os do português de Portugal. e) tornaram a língua do Brasil mais complexa do que as línguas de outros países que também tiveram colonização portuguesa.

Adão

2. Leia esta tira humorística e responda aos itens a e b.

ITURRUSGARAI, Adão. Aline. Folha de S.Paulo, São Paulo, 31 ago. 2000.

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CAPÍTULO 2

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a) Pelas afirmações do primeiro personagem, é possível inferir que tipo de relacionamento o segundo tem com a filha dele? Explique. Sim. O segundo personagem deve ser namorado da jovem. Pela relação entre os termos “só”, “aninhos” (diminutivo)

e “muito mais velho”, pode-se concluir que o primeiro personagem está indignado com a possibilidade de sua filha namorar um homem bem mais velho.

b) O humor dessa tira baseia-se na presença de arcaísmos empregados por um dos personagens. Identifique-os e explique de que maneira eles contribuem para produzir a situação humorística. Os arcaísmos “vosmecê” e “parvoíce” (= bobagem, tolice) acabam denunciando que o namorado da jovem, ao usar um linguajar ultrapassado, deve realmente ser bem mais velho que ela.

3. Leia este texto:

[…] Nessa altura do campeonato, você acha que eu vou vestir a camisa da firma? Eu não. O chefe pisou na bola: se ele tivesse pedido antes para mim ou para o Geraldo, que tem cancha, dava pra tirar de letra. Em time que ganha não se mexe! Mas não: deu cartão vermelho ao Geraldo e me botou pra escanteio. Agora que embolou o meio de campo, vem pedir para virar o jogo? Eu não. Vou lá só cumprir tabela... Quem não faz, toma! E o Geraldo, agora, tá com a bola toda e a concorrência, com ele, está show de bola... […] LAUAND, Jean; PEREIRA JUNIOR, Luiz Costa. Jogos da linguagem. Revista Língua Portuguesa. São Paulo, ed. 79, maio 2012.

a) De que campo lexical faz parte a maioria das palavras e expressões desse texto?

Campo lexical do futebol.

b) Considerando o assunto do texto, quem poderia ser o “você” a quem o falante dirige a pergunta inicial? um colega de trabalho. As palavras “firma”, “chefe” e “concorrência” fazem Justifique sua resposta com palavras do texto. Provavelmente parte do campo lexical das relações de trabalho em uma empresa comercial/industrial. c) Nessa situação de comunicação, o falante foi linguisticamente competente, ou seja, conseguiu se expressar de forma eficiente? Justifique. Espera-se uma resposta afirmativa. O falante, usando a linguagem do futebol, expõe com objetividade uma situação que ele e o provável colega estão vivenciando na empresa em que trabalham. Professor(a), se julgar oportuno, cabe comentar que o falante se expressa por meio da linguagem figurada (metáforas), assunto que será tratado no capítulo 4.

© Mauricio de Sousa Produções Ltda.

4. (Unicamp-SP) É sabido que as histórias do Chico Bento são situadas no universo rural brasileiro.

SOUSA, Mauricio de. Chico Bento. 2011. Disponível em: <www.monica.com.br>. 4. a) O recurso consiste em grafar as palavras tentando reproduzir a pronúncia dos personagens (plantando Š prantando; árvore Š arvre; de Š di; esperança Š isperança)

a) Explique o recurso utilizado para caracterizar o modo de falar dos personagens da tira. b) É possível afirmar que esse modo de falar caracterizado na tira é exclusivo do universo rural brasileiro? Justifique. 4. b) Não. Essas variações ocorrem também em regiões urbanas. É comum, nos falantes de determinadas regiões urbanas, a substituição do e por i (ex.: Eli mi contou uma mintira.); a troca do l por r (planta Š pranta) e a exclusão de uma sílaba em certas palavras (chácara Š chacra; aboborinha Š abobrinha). Noções de variações linguísticas

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5. Os três textos a seguir tratam do mesmo tema: o emprego de palavras e expressões estrangeiras na língua portuguesa. Leia-os e responda aos itens de a a d. TEXTO 1

Não tem tradução [...] Essa gente hoje em dia Que tem a mania da exibição Não entende que o samba Não tem tradução No idioma francês In:

[...] Amor, lá no morro, é amor pra chuchu As rimas do morro não são “I love you” E esse negócio de “alô”, “alô boy”, “alô Johnny”, Só pode ser conversa de telefone.

ROSA, Noel. Não tem tradução. Intérprete: Francisco Alves. . Noel Rosa pela primeira vez. v. 4. Rio de Janeiro: Funarte: Velas, 2000.

5. a) As opiniões dos autores são semelhantes: os três criticam o uso excessivo ou inadequado de termos estrangeiros.

TEXTO 2

RIO DE JANEIRO — Há anos, quando se anunciou que haveria um “Rock in Rio 2”, jovens começaram a circular pela cidade usando camisetas com o símbolo do “Rock in Rio 1” e uma frase dizendo: “I was”. Ou seja: “Eu era”. Perguntei-me: por que “Eu era”? No começo, escapou-me a relação entre a imagem e a inscrição. Claro que, depois de árduo exercício intelectual, deduzi que a camiseta queria dizer “Eu fui” ou “Eu estava lá” (no “Rock in Rio 1”), caso em que o correto em inglês seria “I went” ou “I was there”. […] E viva o verbo tó bé. CASTRO, Ruy. Verbo tó bé. Folha de S.Paulo, 3 set. 2011. p. A2. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0309201105.htm>. Acesso em: 19 jan. 2016. 5. b) “Pra chuchu” e “esse negócio” são expressões populares; o autor, ao utilizá-las, enfatiza sua preferência pela “língua brasileira” e, ao mesmo tempo, torna mais evidente sua discordância em relação ao uso de palavras de outros idiomas.

TEXTO 3

[...] O empresário moderno não demite mais, faz um downsizing, ou redimensionamento para baixo da sua empresa. O empregado pode dizer em casa que não perdeu o emprego, foi downsizeado, e ainda impressionar os vizinhos. [...] VERISSIMO, Luis Fernando. A versão dos afogados: novas comédias da vida pública: 347 crônicas datadas. Porto Alegre: L&PM, 1994. p. 77. 5. c) Ser “demitido” (em português) é algo constrangedor/humilhante, mas, quando o empregado é demitido “em inglês”, as pessoas, não sabendo o que isso significa, supõem que o fato ocorrido com ele tenha sido algo importante (“chique”), justamente porque ele se refere ao acontecido usando uma palavra em inglês.

a) Os autores desses três textos têm opiniões semelhantes ou divergentes quanto ao emprego de palavras estrangeiras por falantes do português? b) Com que intenção o autor do texto 1 emprega as expressões “pra chuchu” e “esse negócio”? c) Por que, segundo o autor do texto 3, o empregado “downsizeado” impressionaria os vizinhos? d) Que recurso o autor do texto 2 emprega para deixar claro seu posicionamento em relação ao uso de palavras estrangeiras no cotidiano?

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5. d) Ele reproduz, na última frase, de forma caricaturesca (exageradamente errada) a pronúncia do verbo “to be”, dando a entender que é assim que muitas pessoas pronunciam tal verbo. Com isso, ele ironiza/critica/ridiculariza o fato de essas pessoas quererem se comunicar em inglês CAPÍTULO 2 sem dominar os aspectos básicos desse idioma.

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Professor(a), ver em Conversa com o professor, na seção “E mais...” (Orientações específicas do capítulo 2), os itens: 1) sugestões relativas ao desenvolvimento da atividade; 2) propostas alternativas de trabalho em grupo.

E MAIS...

A língua portuguesa no mundo

Cabo Verde

Brasil

Moçambique

Guiné-Bissau

São Tomé e Príncipe

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Angola

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Neste capítulo, vimos que o português é o idioma oficial de oito países:

Portugal

Timor Leste

Nesta atividade, vamos “viajar” para cada um desses países. 1. Objetivo Conhecer as principais características (sociais, geográficas, culturais, históricas etc.) dos países lusófonos. 2. Orientações gerais a) A turma será dividida em oito grupos e cada um deles ficará encarregado de pesquisar um dos oito países que têm o português como idioma oficial. b) A pesquisa deverá resultar em uma síntese das características do país: localização (no mapa-múndi), aspectos sociais, manifestações artístico-culturais, outro(s) idioma(s) falado(s) além do português, quando e como a língua portuguesa chegou ao país, momentos históricos mais importantes, sistema político, problemas sociais e políticos atualmente enfrentados pelo país, origens desses problemas, posição no ranking mundial de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, que indica o grau de desenvolvimento de cada país em relação aos demais) etc. c) A pesquisa deverá contemplar também as possíveis relações históricas e/ou culturais que o país tem ou teve com o Brasil. 3. A apresentação para a turma a) Em datas a serem definidas pelo(a) professor(a), cada grupo fará para os demais colegas uma apresentação da pesquisa. b) Para que a apresentação seja dinâmica e interessante, sugere-se empregar, se possível, diferentes recursos visuais (mapas, bandeira, fotos, trechos de filmes e vídeos, reprodução de obras de arte de artistas do país) e sonoros (músicas, poesias declamadas, hino etc.). c) Ao final das apresentações, a critério do(a) professor(a), poderá ser desenvolvida uma atividade complementar, aproveitando o material utilizado pelos grupos.

Noções de variações linguísticas

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capítulo

Noções de semântica

3 AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Crônicas • COLASANTI, Marina. A casa das palavras. São Paulo: Ática, 2002. (Para gostar de ler). • MACHADO, Josué. Fugindo do brejo da imprecisão. Revista Língua Portuguesa, ed. 116, 2015. Disponível em: <http://tub.im/2vhwfb>. Acesso em: 7 jun. 2016. • POSSENTI, Sírio. Palavras sem sentido? In: . A cor da língua e outras croniquinhas de linguista. Campinas: Mercado de Letras, 2001. • SABINO, Fernando. Que língua, a nossa! In: . A falta que ela me faz. 8. ed. São Paulo: Record, 1981. Exposição • EXPOSIÇÃO “MENAS” — Museu da Língua Portuguesa. 2012. Produção: Nova Escola. Vídeo (8min26s). Disponível em: <http://tub.im/gjag87>. Acesso em: 7 jun. 2016. Vídeo • ZÉ RAMALHO — Sinônimos. Produção: Zé Ramalho. Vídeo (6min30s). Disponível em: <http://tub.im/7d5okj>. Acesso em: 7 jun. 2016.

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INTRODUÇÃO O que é semântica? Nos dicionários, o conjunto de acepções (sentidos) e informações a respeito de uma palavra denomina-se verbete. Veja este exemplo:

ligação • substantivo feminino 1. junção entre duas ou mais coisas; união, conexão 2. aquilo que serve para ligar; ligamento 3. o que faz que se estabeleça uma relação ou encadeamento entre coisas ou fatos; conexão 4. vínculo, união entre pessoas 5. ação de pôr em comunicação dois circuitos ou redes de eletricidade 6. comunicação através de telegrafia, telefonia, radiofonia etc. LIGAÇÃO. In: NOVO dicionário eletrônico Aurélio. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. Versão 7.0. 1 CD-ROM.

Esses sentidos dependem do contexto em que a palavra for empregada. Suponha, por exemplo, esta manchete de uma notícia de jornal:

Nova rede de transmissão de energia fará a ligação entre os sistemas Sudeste e Nordeste. Nessa frase, o contexto permite-nos concluir facilmente que a palavra “ligação” foi empregada no sentido 5 do verbete: ação de pôr em comunicação duas redes (sistemas) elétricos.

Cartaz da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana - SEMOB/Prefeitura de Natal-RN, 2009

Agora veja o cartaz, em que também aparece essa palavra. E agora? O que significa ligação? Note, inicialmente, que a finalidade do cartaz é alertar para o fato de que usar o celular enquanto se está dirigindo é perigoso; ou seja, “juntar” essas duas ações — dirigir e usar o celular — põe em risco a segurança tanto do motorista quanto das demais pessoas. Assim, “ligação” foi empregada na acepção 3 (relação, conexão entre dois fatos). No entanto, nesse contexto, a presença da palavra celular leva-nos a interpretar a palavra ligação também no sentido de “comunicação por telefone” (acepção 6 do verbete). Esse duplo sentido foi propositadamente explorado para dar maior expressividade à frase, contribuindo, assim, para ampliar a eficiência comunicativa do cartaz. Quando analisamos um determinado elemento textual, buscando identificar seu(s) significado(s) e de que maneira ele(s) contribui(em) para o sentido geral do texto, estamos estudando semântica.

Semântica é o estudo da significação das palavras, expressões e enunciados que constituem os textos. Professor(a), se julgar oportuno, comentar com os alunos que este cartaz circulou em 2005 e que, provavelmente, os valores da infração mencionados foram corrigidos. Noções de semântica

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SIGNIFICAÇÃO DAS PALAVRAS As palavras e as expressões, quando se organizam na estruturação dos enunciados, podem estabelecer umas com as outras determinadas relações de forma ou de sentido. Nesta seção, vamos estudar esses aspectos do léxico de nosso idioma.

Sinônimos

PARA NÃO ESQUECER

O primeiro trecho abaixo é parte de um diálogo entre um pai, que havia recentemente matriculado o filho pequeno numa escolinha de futebol, e o professor que ensinava a garotada; o segundo é a sinopse de um livro. Leia-os e observe as palavras destacadas:

• Léxico — conjunto de todas as palavras e expressões de um idioma. • Vocabulário — conjunto de palavras e expressões que cada falante seleciona do léxico para se comunicar.

Pivete [...] — Então? Já posso fazer um contrato com os italianos? O professor responde de maneira reticente: sim, o guri tem futuro, mas... O pai não quer saber de ponderações: o seu rebento é o sucessor de Pelé e Garrincha e estamos conversados. SCLIAR, Moacyr. Os craques do futuro. In: . Um país chamado infância. São Paulo: Ática, 2002. p. 63.

Lalo, apenas um nome. Na batalha diária pela sobrevivência nas ruas, às vezes isso é tudo o que resta a uma criança. Na infância vivia em meio ao abandono e à violência, quem é filho logo vira pai, e a morte não demora a se apresentar. O enredo da vida de Lalo é o mesmo de milhares de jovens brasileiros, castigados pela dilacerante exclusão social que afeta nosso país. Quantos pivetes ainda continuarão vagando por aí? BRAZ, Júlio Emílio. Pivete. 2. ed. São Paulo: Editora do Brasil, 2008. Quarta capa.

As palavras destacadas — guri, rebento, criança, pivetes — formam um conjunto de sinônimos.

Sinônimos são vocábulos que, empregados em determinado contexto, têm o mesmo significado ou significados muito semelhantes. Note, pela definição, que só é possível perceber se duas palavras são, ou não, sinônimas se elas estiverem contextualizadas. Observe nestas frases: • A falta a uma das provas elimina o candidato do processo seletivo. • A falta a uma das provas exclui

o candidato do processo seletivo. sinônimos

Agora veja a diferença: • Nos rios, a ação química desse poluente elimina várias espécies aquáticas. mata; extingue

• Nos rios, a ação química desse poluente exclui várias espécies aquáticas. não atua sobre; não prejudica

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CAPÍTULO 3

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A escolha de sinônimos

FIQUE SABENDO

Será que, entre dois sinônimos, tanto faz escolher um ou outro? Vamos imaginar que, no primeiro trecho da página anterior, o professor respondesse dessa forma ao esperançoso pai: “Sim, o pivete tem futuro, mas...”. Como você acha que o pai reagiria? Certamente ficaria ofendido, pois “pivete”, embora seja do grupo de sinônimos de “guri”, é um termo mais comumente empregado com sentido depreciativo, significando “menino que, geralmente abandonado pela família, vive pelas ruas, praticando pequenos roubos e outras ações ilegais”. Esse exemplo mostra que duas palavras sinônimas podem ter suas particularidades semânticas, por isso não é indiferente usar uma ou outra; sempre há uma que, num determinado contexto, fica melhor, mais adequada ou é mais conveniente que outra. Além disso, a escolha de uma palavra depende da intenção com que a usamos, pois uma característica fundamental da linguagem está no fato de que ela raramente é “neutra” ou “ingênua”. Quando elaboramos nossos enunciados, fazemos escolhas linguísticas para produzir o sentido que pretendemos e também para influenciar nosso(s) interlocutor(es), interferindo no seu modo de pensar, agir ou sentir.

Campo semântico É todo conjunto constituído por palavras e expressões que, em função do contexto, têm em comum o mesmo significado geral. Por exemplo: “morrer”, “bater as botas”, “falecer”, “findar”, “descansar para sempre”, “vestir o paletó de madeira” e “encontrar-se com Deus” fazem parte do mesmo campo semântico.

Sentido genérico e sentido específico Leia este texto a respeito de uma cidade do arquipélago de Marajó: Maurício Mercer/Folhapress

Marajó tem mais Afuá Ao norte do arquipélago, essa cidade é chamada carinhosamente pelos moradores de Veneza Marajoara. Seu charme particular reside em ser toda construída em palafitas. Casas, escolas, prefeitura, igreja, coreto, hospital e comércio são ligados por passarelas de concreto [...]. O único veículo permitido são as bicicletas. E saiba que a cidade é grande, tem 11 mil habitantes. Outra curiosidade: seu cemitério é constantemente inundado, o que leva os afuenses a dizer que morto por lá morre duas vezes, a última por afogamento. ALMANAQUE Brasil de Cultura Popular. São Paulo: Andreato Comunicação & Cultura, n. 110, jun. 2008. p. 26.

Afuá, cidade do arquipélago de Marajó (PA).

Se compararmos as palavras Marajó e arquipélago, quanto ao sentido, é fácil perceber que arquipélago tem sentido mais geral, mais amplo — existem muitos arquipélagos no mundo —, e Marajó, por se referir a um arquipélago em particular, tem sentido mais específico, mais restrito. Compare também a relação de sentido entre as palavras destes outros dois pares: • cidade (sentido mais geral) «° Afuá (sentido mais específico)

• veículo (sentido mais geral) «° bicicletas (sentido mais específico) Noções de semântica

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Quando uma palavra tem sentido mais restrito que outra, dizemos que ela é um hipônimo dessa outra; inversamente, a que tem sentido mais geral é um hiperônimo da que tem sentido mais restrito.

Hiponímia e hiperonímia são duas relações semânticas que se estabelecem entre pares de palavras ou expressões, sendo uma delas de sentido mais geral (amplo) e outra de sentido mais específico (restrito). Então, no par de exemplos inicial, “Marajó” é hipônimo de “arquipélago”; inversamente, “arquipélago” é hiperônimo de “Marajó”. Essa mesma classificação se aplica às palavras dos outros dois pares de exemplos. Assim: cidade

Afuá

[sentido mais geral]

[sentido mais específico]

hiperônimo

hipônimo

veículo

bicicleta

[sentido mais geral]

[sentido mais específico]

hiperônimo

hipônimo

O emprego de hipônimos e hiperônimos constitui um recurso linguístico muito útil, pois, por meio da restrição ou ampliação do significado de um termo, é possível estabelecer, ao longo de um texto, diferentes vínculos de sentido que contribuem para a coesão textual.

Antônimos Leia este trecho e observe as palavras destacadas: O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 290.

Observe a relação de sentido entre os vocábulos de cada par: • esquenta • sossega

«° esfria «° desinquieta

«° afrouxa • alegria «° tristeza

• aperta

É fácil perceber que os vocábulos de cada par têm sentidos contrários; eles são chamados, por isso, de antônimos.

Antônimos são vocábulos que, em um determinado contexto, têm significados opostos ou aproximadamente opostos.

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FIQUE SABENDO

Coesão textual* É a articulação que se estabelece entre os componentes de um conjunto de enunciados (frases, períodos, parágrafos), ligando-os de forma a criar a estrutura que possibilita a progressividade (continuidade) do texto. A coesão textual se faz por meio de variados recursos linguísticos, tais como: sinônimos, repetições, palavras que se referem a outras ou substituem-nas (por exemplo: ele, este, isto) e palavras que estabelecem relações lógicas entre partes do texto (por exemplo: mas, portanto, consequentemente). *Professor(a), esse é um conceito “didático” bastante simplificado de “coesão”, uma vez que os fatores de conexão (referencial e sequencial) são inúmeros. Se for oportuno, apresentar mais informações para os alunos a respeito de coesão textual e da relação entre esse aspecto do texto e a coerência textual, orientando-os a consultar a parte de Leitura e produção de textos, em que esse assunto é abordado de forma recorrente. Caso tenha maior interesse nesse aspecto constitutivo dos textos e suas relações com a coerência textual, sugere-se consultar as obras Lutar com palavras: coesão e coerência (ANTUNES) e Produção textual, análise de gêneros e compreensão (MARCUSCHI), referidas na seção “Sugestões de bibliografia especializada” das Orientações específicas, em Conversa com o professor.

CAPÍTULO 3

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Nos textos, o jogo com palavras e expressões semanticamente opostas cria a antítese, figura de linguagem que contribui significativamente para intensificar a expressividade da mensagem. Veja estes dois exemplos: Se desmorono ou se edifico, Se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.

“O meu amor faísca na medula, Pois que na superfície ele anoitece.”

MEIRELES, Cecília. Motivo. In: . Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 81.

ANDRADE, Carlos Drummond. Prosa e poesia. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988. p. 270.

Homônimos Fernando Gonsales

Leia esta tira humorística:

GONSALES, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 7 out. 1997.

Nessa tirinha, o efeito de humor baseia-se no emprego de duas palavras “iguais”. No entanto, essas palavras são iguais apenas na forma; no significado, elas são diferentes. Observe: • No primeiro quadrinho: chata — achatada. • No segundo quadrinho: chata — monótona, sem graça. As duas palavras — chata e chata — têm a mesma pronúncia e a mesma grafia, por isso elas formam um par de homônimas. Veja, nas frases a seguir, exemplos de outros tipos de homônimas. • Durante o almoço com os chefes, ele deu o maior vexame. • Às vezes

almoço em uma lanchonete perto da escola. homônimas de mesma grafia, mas de pronúncias diferentes

• O censo econômico apresentou resultados animadores para o país. • O senso de humor de seu amigo é admirável. homônimas de mesma pronúncia, mas de grafias diferentes

Homônimos são vocábulos diferentes que têm ou a mesma grafia e a mesma pronúncia, ou apenas a mesma grafia, ou, ainda, apenas a mesma pronúncia. Noções de semântica

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Professor(a), se julgar oportuno/necessário, cabe comentar com os alunos que os exemplos abaixo estão subdivididos em três grupos: 1.º grupo: homônimos perfeitos (vocábulos iguais na grafia e na pronúncia); 2.º grupo: homônimos homógrafos (iguais apenas na grafia); 3.º grupo: homônimos homófonos (iguais apenas na pronúncia).

• cessão (ato de ceder) sessão (tempo de duração) seção (setor, parte)

• leve (de pouco peso) leve (verbo levar)

• topo (parte alta) topo (verbo topar)

• colher (verbo) colher (utensílio de cozinha)

• acento (sinal gráfico) assento (lugar de sentar)

• torre (prédio alto) torre (verbo torrar)

• espiar (olhar, ver) expiar (pagar por um erro)

• cara (pessoa [gíria]) cara (face, rosto) cara (de alto preço)

• paço (palácio) passo (movimento das pernas) passo (verbo passar) Dálcio

Paço Imperial, no centro histórico do Rio de Janeiro (RJ).

• são (sadio) são (verbo ser) são (santo)

Dalcio

Rogério Reis/Tyba

Veja mais alguns exemplos de palavras homônimas.

DALCIO. Correio Popular, Campinas (SP), 4 maio 2013.

Nesse cartum, a crítica aos baixos salários pagos aos professores apoia-se em um par de homônimas. No primeiro quadro: carteira — móvel escolar; no segundo quadro (subentendida): carteira — pequeno objeto dobrável com capa de couro/plástico e com repartições para guardar dinheiro e/ou documentos.

Parônimos

TR ÁFICO AUTORIZ

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ADO. PRODUTO

PERECÍVEL .

Manuel Lourenço/Olhar Imagem

Veja esta foto e observe a “estranha” informação na parte superior do baú do caminhão:

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“Tráfico autorizado”? É claro que não foi bem isso que o autor do aviso quis dizer. Certamente ele pretendeu informar que o caminhão tinha autorização para trafegar, ou seja, para circular pelas ruas e rodovias, mas acabou confundindo duas palavras de grafias muito semelhantes. Compare-as nestas duas manchetes de jornal:

ONU propõe plano de combate ao tráfico de armas.

Rodovias terão aumento intenso no tráfego.

tráfico: comércio ilegal

tráfego: trânsito, movimento

Essas duas palavras formam um par de parônimos.

Parônimos são vocábulos semelhantes na grafia e na pronúncia. Veja mais alguns pares de parônimos.

• descriminar (absolver) discriminar (distinguir, separar) • eminente (ilustre, importante) iminente (que está para acontecer) • flagrante (evidente, no ato) fragrante (perfumado)

• mandado (ordem judicial) mandato (tempo de cargo público) • ratificar (confirmar) retificar (corrigir) • vultoso (volumoso) vultuoso (inchado)

• infringir (desobedecer, desrespeitar)

• peão (cavaleiro)

infligir (aplicar uma pena/um castigo)

pião (brinquedo)

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Significação das palavras Dependendo das relações de significado e/ou de forma que dois (ou mais) vocábulos estabelecem entre si, eles podem ter quatro classificações. • Sinônimos — vocábulos de sentidos iguais ou aproximados. Ex.: As obras na estrada vão interromper o movimento de veículos. As obras na rodovia vão obstruir o fluxo de veículos. • Antônimos — vocábulos de sentidos opostos. Ex.: Tumultuavam seu coração um profundo amor e um contido ódio. • Homônimos • De mesma grafia e pronúncia. Ex.: cobre (metal) — cobre (verbo). • De mesma grafia apenas. Ex.: molho /ô/ — molho /ó/. • De mesma pronúncia apenas. Ex.: cesta — sexta. • Parônimos — vocábulos semelhantes na pronúncia e na grafia. Ex.: emergir (subir, aparecer na superfície) — imergir (afundar).

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2. a) Sim; “time”, por ter um sentido mais restrito que “clube”, funciona como hipônimo dessa palavra, que, inversamente, tendo sentido mais amplo que “time”, funciona como hiperônimo dela. A maioria dos clubes mantêm, além do(s) time(s), outras modalidades esportivas (natação, lutas etc.) e diversas atividades recreativas para seus associados.

Atividades

Escreva no caderno

2. b) Sim. “Série de problemas”: conjunto de problemas que acontecem um depois do outro, mas sem relação entre eles; “encadeamento de problemas”: sequência de problemas interligados, um provocando (fazendo acontecer) o seguinte e assim sucessivamente.

1. No capítulo “Marcela”, do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, o narrador-personagem — Brás Cubas — relata como se desenvolveu um de seus relacionamentos amorosos. Leia um trecho do capítulo: Gastei trinta dias para ir do Rocio Grande ao coração de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paciência, a um tempo manhoso e teimoso. [...] Teve duas fases a nossa paixão, ou ligação, ou qualquer outro nome, que de nomes eu não curo [...] ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ed. Abril, 2010. p. 62.

Rocio Grande: lugar em que o narrador conheceu Marcela; corcel: cavalo forte, vigoroso e rápido; curar: dar importância; tratar com atenção.

1. a) “corcel do cego desejo” simboliza a ansiedade, a pressa, o desejo incontido (voluptuosidade) do narrador para conquistar Marcela; “asno da paciência” revela que ele mudou de estratégia para conquistá-la: deixou de ser afobado, tornou-se mais calmo, persistente, usando formas mais sutis de sedução.

a) Referindo-se à sua estratégia para conquistar Marcela, o narrador faz uso de duas expressões que se contrapõem: “corcel do cego desejo” e “asno da paciência”. Explique que significado tem, nesse contexto, cada uma delas. 1. b) Não. “Manhoso” significa “que tem manhas, truques, estratégias, b) “Manhoso” e “teimoso” são sinônimos? Justifique.

formas diferentes e sutis de fazer algo”; “teimoso” significa “persistente, que não desiste, que não desanima”.

c) Comparando a carga semântica (força significativa) das palavras “paixão” e “ligação”, é válido afirmar que o narrador-personagem revela certo menosprezo pelo que se passou entre ele e Marcela? c) Sim. “Paixão” tem sentido mais intenso; sugere um sentimento forte, incontido, meio irracional; “ligação” sugere algo menos Justifique. 1.envolvente, mais superficial e passageiro. Ao trocar “paixão” por “ligação” o narrador-personagem subentende que talvez não tenha sido “apaixonado” por Marcela, e sim que teve com ela apenas um envolvimento ou um caso amoroso.

2. Leia este texto e responda aos itens a e b. Respostas no alto da página.

O técnico foi dispensado do clube por conta de uma série, ou melhor, de um encadeamento de problemas que tornaram impossível sua permanência no comando do time.

a) Nesse contexto, time e clube constituem um par de hipônimo-hiperônimo? Justifique. b) Existe diferença de sentido entre “série de problemas” e “encadeamento de problemas”? Justifique. 3. Na crônica “Apólogo brasileiro sem véu de alegoria”, de Antônio de Alcântara Machado, os passageiros de um trem, revoltados com as péssimas condições dos vagões, quebram tudo o que havia dentro deles. Leia esta passagem da narrativa: Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o título de um deles: Os Passageiros do Trem de Maguari Amotinaram-se Jogando os Assentos ao Leito da Estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. MACHADO, Alcântara. Antologia de contos brasileiros. São Paulo: Ediouro, 2000. p. 113.

Nesse trecho, o cronista relata os fatos, dando a eles um tom humorístico. a) O que a frase do cartaz pretendia informar a respeito do incidente?

3. a) A frase pretendia informar aos leitores que os passageiros tinham jogado os bancos (assentos) do trem na ferrovia.

b) Considerando que “decoro” significa “honradez”, “decência”, explique que interpretação do carb) A palavra “assentos” poderia ser interpretada como “nádegas”, o que ofenderia taz “feria de frente o decoro das famílias”. 3. a decência das famílias, ou seja, “feriria o decoro” delas.

c) É correto afirmar que o cronista, para criar o efeito de humor, explorou um caso de homonímia? 3. c) Sim. Ele aproveita a coincidência gráfica e sonora existente entre assento, significando “banco”, e assento, significando “nádegas”. Explique. Essas duas palavras, por terem a mesma grafia e pronúncia, são homônimas (homófonas).

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CAPÍTULO 3

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4. Leia este texto.

Em 79 d.C. um poderoso vulcão mudou a história de um pequeno balneário romano. Durante um dia inteiro, o Vesúvio lançou ao céu uma chuva de cinza e rochas que destruiu Pompeia, matando 16 mil pessoas. A erupção soterrou toda a cidade, possibilitando que as construções e as vítimas da tragédia fossem mantidas intactas por mais de 1600 anos. Em 1749, o local foi acidentalmente reencontrado e tiveram início as escavações arqueológicas que começaram a revelar como era a vida em uma cidade do Império Romano. Fonte de pesquisa: Aventuras na História. São Paulo: Ed. Abril, n. 60, jul. 2008. p. 20.

Nesse texto, vários conjuntos de palavras e expressões evidenciam relações de equivalência quanto ao sentido, constituindo um dos tipos de sinonímia que contribuem para a coesão textual e possibilitam a progressão (continuidade) do relato dos acontecimentos. a) Releia o texto e identifique as palavras e/ou expressões que funcionam como sinônimas dos seguintes elementos textuais: • poderoso vulcão Vesúvio

Christian Goupi

Natureza irada

Moldes de gesso de vítimas do vulcão Vesúvio fotografados no sítio arqueológico de Pompeia, no sul da Itália.

• pequeno balneário romano cidade/Pompeia/local/cidade do Império Romano • chuva de cinza e rochas erupção • pessoas vítimas da tragédia de cinzas e rochas que destruiu Pompeia — • tragédia chuva a erupção soterrou toda a cidade b) Um dos conjuntos referidos no item a é composto por cinco elementos textuais. Reescreva esse conjunto, posicionando seus elementos em ordem decrescente de sentido (do mais genérico para o mais específico). 4. b) Local (mais genérico) Š cidade Š cidade do Império Romano Š pequeno balneário romano Š Pompeia (mais específico).

EXPRESSÃO IDIOMÁTICA, PARÁFRASE, POLISSEMIA E AMBIGUIDADE Expressão idiomática Cartaz da Prefeitura de Timbó, 2013

Leia este anúncio do Procon, órgão público que atua na defesa dos direitos do consumidor. Nesse texto, as palavras levar, gato, por e lebre foram combinadas para formar uma expressão que se apresenta como um “bloco”, uma sequência vocabular de estrutura fixa e de sentido também fixo. Todos sabemos que “levar gato por lebre” quer dizer “adquirir alguma coisa supondo ser de boa qualidade, mas perceber, depois, que se trata de algo de qualidade inferior”, ou seja, significa “enganar-se” (ou “ser enganado”). Esse tipo de expressão, muito comum na linguagem do dia a dia, denomina-se expressão idiomática.

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Expressão idiomática é toda expressão formada por um grupo de palavras que constituem uma estrutura fixa (suas palavras não podem ser mudadas) e de sentido único, invariável. Nas expressões idiomáticas, as palavras formadoras são fixas, não sendo possível substituí-las por outras. Considere, por exemplo, esta frase:

Aquele cara acha que tem o rei na barriga. O conjunto formado pelas cinco palavras destacadas significa “ser convencido, julgar-se melhor que os outros”; se nele trocarmos, por exemplo, a palavra “rei” por “mundo”, o sentido original da expressão se desfaz completamente. As expressões idiomáticas são muito empregadas por todos os falantes, principalmente nas situações informais de comunicação. Veja mais algumas: • comer com os olhos — olhar para alguma coisa, desejando-a muito. • com o rabo entre as pernas — submisso; acovardado. • dar pérolas aos porcos — desperdiçar algo valioso com quem não pode (ou não sabe) aproveitar/apreciar. • empurrar com a barriga — adiar; deixar (algo) para fazer depois. • fingir-se de morto — evitar envolver-se em um assunto/problema. • pôr as barbas de molho — preparar-se para algo desagradável. Junião

• trocar os pés pelas mãos — atrapalhar-se; confundir-se. • unir o útil ao agradável — fazer algo que produz resultados e que dá satisfação. • ver a luz no fim do túnel — perceber a solução/fim de um problema ou situação ruim. Você certamente conhece outras expressões desse tipo que poderiam ser acrescentadas a essa lista, não é?

Paráfrase Compare os textos A e B a seguir:

JUNIÃO. Correio Popular, Campinas (SP), 29 jul. 2009.

TEXTO A

TEXTO B

[...] Quando me acontecer alguma pecúnia, [...] compro uma ilha [...]. Minha ilha (e só de a imaginar já me considero seu habitante) ficará no justo ponto de latitude e longitude que, pondo-me a coberto de ventos, sereias e pestes, nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente. Porque esta é a ciência e, direi, a arte do bem viver; uma fuga relativa, e uma não muito estouvada confraternização. [...]

Quando eu tiver dinheiro, pretendo comprar um lugar sossegado onde viver. Fico imaginando e já me vejo morando lá. Meu refúgio não ficará muito distante, isolado, mas também não ficará muito perto, pois, assim, não serei obrigado a conviver diariamente em sociedade. Acho que encontrar um equilíbrio, um meio-termo entre o distanciamento e uma convivência menos intensa com as outras pessoas, é um jeito sábio de viver.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Divagação sobre as ilhas. In: . Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988. p. 1376.

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O texto B apresenta um vocabulário diferente do empregado em A, mas, usando outro “modo de dizer”, expressa o mesmo posicionamento, o mesmo conteúdo geral do texto A. Dizemos, por isso, que B é uma paráfrase de A.

Paráfrase é todo enunciado (frase, trecho de texto ou texto) que estabelece com outro enunciado uma equivalência geral de sentido. Uma paráfrase pode ser empregada com diferentes finalidades. Por exemplo: • reapresentar, de maneira mais simples, o conteúdo de um texto difícil; • exprimir determinadas intenções em relação a um texto original; • ajudar a memorização de conteúdos de textos quando estamos estudando; • possibilitar a citação de opiniões e ideias sem transcrevê-las literalmente de um texto original. Veja mais um exemplo de paráfrase nestas manchetes esportivas: 1

2

Flamengo goleia Santos no Maracanã.

Santos é goleado pelo Flamengo no Maracanã.

As duas manchetes dão a mesma notícia, a mesma informação. A diferença está no fato de que o redator da manchete 1 escolheu dar mais ênfase (destaque) para o Flamengo, e o redator da manchete 2 optou por dar mais destaque ao Santos. Veja outro exemplo de paráfrase neste trecho de diálogo: — Pai, o tio João... Ele disse que, quando era pequeno, o senhor é quem cuidava dele [...]. O tio João gosta muito do senhor. O senhor é mais velho do que ele quantos anos? — Ué, meu filho. Eu não sou mais velho. Ele é que é mais novo do que eu quatro anos. SILVA, Deonísio. Enchente. In: . Setecontos/setencantos. São Paulo: FTD, 1986. p. 21.

Na fala do pai, as afirmações “não sou mais velho [que ele]” e “Ele é que é mais novo do que eu” são paráfrases porque têm o mesmo sentido geral; no entanto, o personagem, ao parafrasear o que o filho havia falado, tem a clara intenção de afirmar que ele (o pai) e seu irmão não são “velhos”, e sim “novos”.

Polissemia Veja alguns dos muitos sentidos que a palavra balanço pode apresentar, dependendo do contexto em que é empregada.

1. nome de um brinquedo. 2. movimento pendular, de vaivém. 3. levantamento e exame de uma situação; análise. 4. resumo contábil do patrimônio de uma empresa. Noções de semântica

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Agora leia este poema:

Balanço

O QUE DIZEM OS LINGUISTAS

A pobreza do eu a opulência* do mundo A opulência do eu A pobreza do mundo A pobreza de tudo A opulência* de tudo

Polissemia

*opulência: grande luxo, riqueza.

A incerteza de tudo Na certeza de nada. Balanço, In: Corpo, de Carlos Drummond de Andrade, Companhia das Letras, São Paulo. Carlos Drummond de Andrade @ Graña Drummond – www.carlosdrummond.com.br.

A polissemia é uma propriedade fundamental das línguas humanas, que, sem ela, não poderiam funcionar eficientemente. Seria impraticável dar um nome separado a cada “coisa”, incluindo aquelas que nunca vimos. [...] A polissemia confere às línguas a flexibilidade de que elas precisam para exprimir todos os inúmeros aspectos da realidade. Consequentemente, a maioria das palavras são polissêmicas em algum grau. PERINI, Mário. Gramática descritiva do português. São Paulo: Ática, 2000. p. 251-252.

A expressividade desse texto resulta de um jogo com palavras de significados contextualmente opostos: pobreza/opulência, eu/mundo, incerteza/certeza, tudo/nada. Relacionando essas oposições ao título do poema, podemos interpretar a palavra balanço na acepção 2 (movimento pendular, de vaivém), em uma referência às dúvidas e indecisões do eu poemático diante das contradições da vida e do mundo. Também é adequado atribuir à palavra balanço a acepção 3 (levantamento e exame de uma situação), isto é, uma análise — ou reflexão — dos problemas e inquietações pessoais que o eu poemático está vivendo. Ao criar nesse poema um contexto que possibilita atribuir à palavra balanço mais de um significado, o poeta fez uso de um recurso expressivo chamado polissemia. Professor(a), convém comentar com os alunos que eu poemático é o mesmo que eu lírico, voz lírica, sujeito lírico.

Polissemia (polys [muito] + sema [significação] + ia) é o conjunto dos diferentes significados que uma palavra pode apresentar. Os textos a seguir apresentam outros exemplos de polissemia.

Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas (seção “Complementação teórica” do capítulo 3), mais informações a respeito da relação entre os conceitos de polissemia e homonímia.

In: Angeli. Wood & Stock – Em algum lugar do passado. Porto Alegre: L &PM, 2008

TEXTO 1

ANGELI. Wood & Stock: em algum lugar do passado. Porto Alegre: L&PM, 2008.

No último quadrinho, “viajando” pode significar “ausente de casa; em outro lugar” ou “fora da realidade, desconectado do mundo real”. É claro que a cena permite ao leitor perceber em que sentido o personagem usou “viajando”, mas, se o garoto usasse essa mesma palavra no colégio para explicar a ausência do pai às reuniões, muito provavelmente ela seria entendida em outro sentido.

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CAPÍTULO 3

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Anúncio do Governo Federal

TEXTO 2

Na expressão “muitos outros campos”, a palavra “campos” é polissêmica: pode significar “setores, aspectos, atividades econômicas” e também “áreas em que se cultivam produtos agrícolas”.

TAM nas nuvens, n. 13, jan. 2009. p. 37.

Nani

TEXTO 3

NANI. Antologia brasileira de humor. Porto alegre: L&PM, 1976. v. 2. p. 140.

As palavras “direita” e “esquerda” são, nesse contexto, polissêmicas: podem significar “uma das pernas que o soldado deve movimentar ao marchar” ou pode significar “posicionamento político; ideologia”. Esse cartum, publicado na época em que o Brasil vivia sob a ditadura militar, é uma crítica irônica à situação de nosso país naquele período, quando as reuniões e manifestações políticas eram proibidas e violentamente reprimidas pelos governos militares.

NANI. In: MACHADO, Juarez et al. Antologia brasileira de humor. Porto Alegre: L&PM, 1976. v. 2. p. 140.

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Professor(a), o termo polissemia aplica-se apenas a palavras; já o termo ambiguidade aplica-se a frases/enunciados. A ambiguidade de uma frase ocorre, principalmente, por três motivos: 1. Presença de uma palavra polissêmica (ex.: O gerente suspendeu [= puniu/levantou] a assistente). 2. Ordenação sintática inadequada (ex.: Vi o acidente da ponte). 3. Presença de um pronome com mais de um referente (ex.: Paula disse a Sônia que ela havia sido aprovada).

Dizemos que um enunciado apresenta ambiguidade quando é possível atribuir a ele mais de um sentido, mais de uma interpretação. A ambiguidade de um enunciado pode ser uma qualidade ou um defeito em um texto. Na poesia, nos anúncios publicitários, nas histórias de humor, nas brincadeiras entre amigos, nas piadas, o duplo sentido é criado de propósito, como um recurso para tornar a mensagem mais interessante, mais expressiva. Em outros casos, porém, a ambiguidade resulta da falta de habilidade ou cuidado de quem fala (ou escreve) e, nesse caso, é, evidentemente, um elemento prejudicial à clareza e à qualidade do texto. Vamos, então, analisar os “dois lados da moeda” das ambiguidades nos enunciados.

A ambiguidade como recurso expressivo

Dalcio

Os exemplos a seguir mostram como a ambiguidade pode ser um recurso fundamental para a expressividade e para os objetivos do texto. Vamos começar com um cartum:

Acervo do artista

Ambiguidade

Dalcio Machado (1972-) Conhecido apenas como Dalcio, é um ilustrador brasileiro que produz, dentre outros trabalhos, charges para o Correio Popular, jornal de Campinas (SP), sua cidade natal. Começou sua carreira ilustrando capas de livros e revistas e, com seus trabalhos, já ganhou diversos prêmios importantes, como o Salão de Humor de Piracicaba e o Troféu HQ Mix, e mais recentemente a 55a. edição do International Cartoon Festival de Knokke Heist, na Bélgica.

DALCIO. Disponível em: Correio Popular. Campinas (SP), 14 set. 2010. Acesso em: 12 fev. 2016.

No futebol, a expressão “gol de placa” é usada para fazer referência a um gol que, por ter sido muito bonito, merece ser homenageado com uma placa, isto é, com uma inscrição numa placa de metal, para que ele nunca seja esquecido. No cartum acima, o artista explora essa expressão, que, na cena apresentada, pode ser interpretada como “um golaço, um gol que merece uma placa” ou “um gol montado com placas”. Agora observe esta incomum “propaganda eleitoral”:

Anúncio do Egito antigo:

Para faraó, votem em Ramsés II. Os outros são umas múmias.

Ramsés II: um dos mais importantes faraós do Egito.

NUNES, Max. O pescoço da girafa: pílulas de humor. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 28.

O tom humorístico desse “anúncio” já se revela no próprio absurdo do texto: o faraó era uma espécie de “rei” e, portanto, não havia eleição (votação popular) para escolhê-lo. O humor do texto se amplia pela presença da palavra “múmia”, que pode significar “corpo morto e embalsamado/mumificado” ou “pessoa meio parada, lenta para pensar e/ou fazer as coisas”. Essa superposição de sentidos gera uma afirmação óbvia e engraçada: toda múmia (corpo mumificado) é, evidentemente, uma “múmia” (alguém muito parado).

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CAPÍTULO 3

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Veja, agora, um exemplo de ambiguidade neste anúncio publicado por uma empresa de telefonia para divulgar os preços de suas tarifas:

Se alguém anunciar que oferece tarifas melhores que as nossas, não ligue. É engano. Aqui, duas palavras polissêmicas e relacionadas à utilização cotidiana do telefone produziram as ambiguidades que, de forma criativa, tornam mais expressiva a mensagem do anúncio. Uma delas é ligue, que pode significar “fazer a ligação telefônica, telefonar” ou então “dar atenção, acreditar”; a outra é engano, que pode ser entendida como “erro na ligação, tentativa de ligar para um número, mas acabar ligando, equivocadamente, para outro” ou “enganação, mentira, tentativa de iludir”. E, como último exemplo, este poema sobre uma paixão juvenil:

Órion A primeira namorada, tão alta Que o beijo não a alcançava, O pescoço não a alcançava, Nem mesmo a voz a alcançava. Eram quilômetros de silêncio. Luzia na janela do sobradão.

Órion: nome de uma constelação.

Órion, In: Boitempo, de Carlos Drummond de Andrade, Companhia das Letras, São Paulo. Carlos Drummond de Andrade @ Graña Drummond – www.carlosdrummond.com.br.

A “namorada” era como uma estrela da constelação de Órion: infinitamente distante, inacessível. Nesse contexto, podemos interpretar Luzia como uma palavra que significa “brilhava, emitia luz” ou como o próprio nome da “namorada”, que o eu lírico via de longe, na janela alta do sobradão em que ela morava.

A ambiguidade como um problema do texto A ambiguidade, quando constitui um problema para a compreensão de um texto, ocorre, na maioria das vezes, porque a estrutura sintática da frase está mal organizada, ou seja, a ordenação inadequada dos elementos textuais — palavras e expressões — prejudica as relações de sentido que deveriam ser estabelecidas entre eles. Veja, por exemplo, este título de notícia divulgada num portal da internet:

Lei prevê desconto a quem reduziu estômago em restaurantes Noções de semântica

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As palavras da frase apresentada, se consideradas isoladamente umas das outras, não têm duplo sentido; no entanto, a ordenação que foi dada a algumas delas criou uma ambiguidade. Podemos entender que: 1. Pessoas que fizeram cirurgia de redução de estômago terão desconto em restaurantes. 2. Pessoas que foram a restaurantes fazer cirurgia de redução de estômago terão desconto.

É claro que nossa tolerância pragmática possibilita-nos facilmente descartar o sentido 2, já que seria um absurdo alguém ser submetido a uma cirurgia em um restaurante. Como a ambiguidade da frase em estudo é gerada pela ordenação inadequada das palavras, bastaria mudar essa ordem para eliminar o duplo sentido. Assim:

Lei prevê desconto em restaurantes a quem reduziu estômago Veja agora este outro exemplo, em que a ambiguidade cria um sentido um tanto quanto estranho:

Uma das celebridades do programa [...] agitou as colunas sociais no fim de semana. Ela foi clicada no casamento de uma prima com um lindo cachorrinho branco.

FIQUE SABENDO

Tolerância pragmática Nossa capacidade de compreender adequadamente um enunciado não se apoia apenas em seus elementos linguísticos (palavras, expressões, frases) e na organização deles; apoia-se também, em parte, em fatores extralinguísticos (a situação de comunicação, quem é nosso interlocutor, nossa experiência de mundo etc.). Quando a combinação de elementos linguísticos e extralinguísticos produz, no enunciado, um sentido absurdo ou que não combina com a situação de comunicação, nós o “descartamos”, pois concluímos, com certa facilidade, que tal sentido não foi o pretendido pelo enunciador. A essa nossa capacidade linguística damos o nome de tolerância pragmática.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Expressão idiomática, paráfrase, polissemia e ambiguidade • Expressão idiomática — é toda expressão de estrutura e sentido fixos. Exs.: “de fio a pavio”  do começo ao fim; “pisar na bola”  falhar, não fazer algo combinado/prometido. • Paráfrase — um enunciado é paráfrase de outro quando ambos, embora apresentando palavras, expressões e/ou organizações textuais diferentes, estabelecem entre si uma equivalência geral de sentidos. Ex.: Atualmente ele não mora no Brasil. = Nos dias de hoje ele mora no exterior. • Polissemia — característica de palavras que apresentam mais de um significado. O plano econômico da empresa foi aprovado. [plano: projeto] Ex.: plano É mais fácil caminhar em terreno plano. [plano: liso, sem ondulações] • Ambiguidade — possibilidade de duplo sentido nos enunciados. Ex.: “Para não quebrar a cara, use cinto de segurança.” [quebrar a cara: “ferir-se, machucar o rosto” ou “dar-se mal”]

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CAPÍTULO 3

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Atividades

Escreva no caderno

1. Considere este texto de uma campanha publicitária patrocinada por um sindicato de corretores de seguros. Marcos Guilherme a partir de Jan Stromme/Getty Images

Identifique a afirmação incorreta: a) A palavra corretor, fora de contexto, pode significar “aquele que corrige (algo)” ou “profissional que atua como intermediário numa negociação de compra e venda”; na frase dada, ela tem essa segunda acepção. b) Em sua primeira ocorrência, seguro significa “contrato pelo qual uma das partes se obriga a indenizar a outra, caso venha a sofrer algum tipo de prejuízo”. c) Em sua terceira ocorrência, a palavra seguro pode ter o significado referido em b e pode, também, significar “garantido, confiável”. d) A polissemia da palavra seguro, em sua terceira ocorrência, confunde o leitor e, por isso, prejudica a eficiência da mensagem. e) A polissemia da palavra seguro, em sua terceira ocorrência, amplia a possibilidade de interpretação da mensagem, reforçando, assim, sua expressividade.

Lila

2. (UEPB)

http://jornaldaparaiba.globo.com. Consulta em: 11 abr. 2007.

Em relação à charge acima, pode-se inferir que: I. o texto verbal apresenta aspectos que se opõem entre si e partilham da construção do sentido do texto, como um todo. c II. o autor incorpora explicitamente uma intertextualidade da linguagem popular. c III. o leitor deve atribuir um único sentido para o enunciado “a coisa tá ficando preta”.

IV. a temática sugere ao leitor um posicionamento crítico sobre as mudanças no planeta Terra. c

Está(ão) correta(s) apenas a(s) proposição(ões) a)

III e IV

c) I, II e IV

b)

I, II e III

d) II

e) I e III

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3. Leia este texto. Charge de Pelicano. Portal Movimento das Artes, 23/11/2007

SABE, JARBAS... FICO COM O CORAÇÃO PARTIDO QUANDO VEJO ESSAS CRIANÇAS NO SINAL...

Considerando a fala do personagem no contexto do cartum, é possível afirmar que ele: a) é uma pessoa que ainda vai dar com os burros n’água. b) é um tipo de pessoa que não compra gato por lebre. c) Simboliza certos indivíduos que não dão ponto sem nó. d) é um elemento de uma situação que seria cômica, se não fosse trágica. e) tem consciência de que é impossível tapar o sol com a peneira.

DEPOIS VOCÊ MANDA COLOCAR UM INSULFILME MAIS ESCURO, TÁ?

Disponível em: <www.pelicanocartum.net>. Acesso em: 7 jun. 2016.

4. Considere este título de reportagem de um provedor da internet: Escolha o biquíni ideal para seu corpo com preço baixo.

A ordenação dada aos termos desse enunciado possibilita uma interpretação, no mínimo, engraçada. Aponte a alternativa em que a nova redação, com a reorganização dos termos, é a mais adequada para dar a ele o sentido pretendido pelo redator do texto. a) b) c) d) e)

Escolha o biquíni para seu corpo ideal e com preço baixo. Escolha o biquíni para seu corpo com preço baixo e ideal. Escolha o biquíni ideal e com preço baixo para seu corpo. Escolha o biquíni com preço baixo e ideal para seu corpo. Escolha o biquíni ideal para seu corpo com baixo preço.

5. Nas frases abaixo, a estruturação sintática, isto é, a ordenação dos elementos linguísticos que as constituem, gera ambiguidade. 1. Prefira alimentos que informam que não têm colesterol no rótulo. 2. O cachorro escondeu o osso que achou no quintal. 5. a) O sentido é absurdo se entendermos que a frase recomenda que as pessoas devem preferir alimentos cujos rótulos não têm colesterol. Um “rótulo” (pedaço de papel) obviamente não tem colesterol (o que tem colesterol são certos alimentos).

a) Qual dos dois possíveis sentidos da frase 1 é absurdo? Por quê? b) Alterando apenas a ordem das palavras da frase 1, reescreva-a de maneira a eliminar a possibilidade de sentido absurdo. Prefira alimentos que informam, no rótulo, que não têm colesterol. c) Reescreva a frase 2, alterando apenas a ordem de seus componentes lexicais, de maneira a ficar claro que: • o “esconderijo” escolhido pelo cachorro foi o quintal. O cachorro escondeu no quintal o osso que achou. • o osso estava no quintal quando o cachorro o achou. O cachorro escondeu o osso que no quintal achou. / O osso que achou no quintal, o cachorro escondeu.

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CAPÍTULO 3

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DA TEORIA À PRÁTICA Ponto de partida

Caulos. Antologia brasileira de humor. Porto Alegre: L&PM, 1976. v. 1, p. 94

Caulos. Antologia brasileira de humor. Porto Alegre: L&PM, 1976. v. 1, p. 94

Analise atentamente estes dois cartuns:

CAULOS. In: ADAIL et al. Antologia brasileira de humor. Porto Alegre: L&PM, 1976. v. 1, p. 94.

Em ambos, estabelecem-se relações entre as palavras antônimas e as respectivas imagens. No primeiro caso, a imagem mostra pessoas “fracas” carregando pessoas “fortes”. Observe que as pessoas “fortes” usam cartolas, que, simbolizam riqueza, luxo, ostentação. Assim, nesse contexto, as palavras “fraco” e “forte” devem ser interpretadas não como uma característica física, e sim social e econômica. Isso nos permite compreender que o cartum critica uma contradição de nossa estrutura social, na qual os mais “fracos” (pobres) carregam, isto é, sustentam os mais “fortes” (ricos). Evidentemente, numa sociedade mais justa e equilibrada, deveria acontecer o contrário. No segundo cartum, o tema é o modo de pensar e agir das pessoas em geral: elas pensam “verdades”, mas dizem “mentiras”. Por meio dessa contradição, o texto critica o cinismo, a hipocrisia e falsidade que, muitas vezes, podem ser percebidos no caráter ou no comportamento de determinadas pessoas. Os dois textos, portanto, combinam de maneira criativa as imagens e o jogo semântico das palavras para veicular um posicionamento crítico relativo a determinados aspectos da sociedade e, assim, propor ao leitor uma reflexão a respeito do assunto. Noções de semântica

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1. d) Na manchete 3, o vocabulário é nitidamente coloquial, informal (mandachuva = aquele que manda/decide; pega o boné = foi embora, deixou o cargo). Essas expressões caracterizam uma escolha vocabular típica de jornais destinados a leitores das classes mais populares da sociedade.

1. b) A do jornal 2. A palavra czar (título dos antigos imperadores da Rússia) e poder dão a entender que, enquanto ocupou o cargo, o presidente do BC era demasiadamente autoritário e agia como se fosse um poderoso imperador. Escreva no caderno

Agora é sua vez

1. c) A do jornal 1. A expressão “presidente do BC” e a palavra “cargo” têm sentido objetivo, não subentendem nenhuma opinião favorável ou desfavorável à pessoa que ocupava o cargo. Professor(a), se julgar oportuno, comentar com os alunos que essa manchete seria a mais adequada a um jornal sobre economia e negócios ou a uma seção de um jornal específica para esses assuntos.

1. Vimos, na primeira parte deste capítulo, que, se dois (ou mais) vocábulos são sinônimos, não é indiferente usar qualquer um deles; há sempre um mais adequado à situação de comunicação. Isso vale também para os enunciados em geral: o falante escolhe um “modo de dizer” que melhor se ajuste aos seus objetivos, à sua intencionalidade e ao contexto do ato de comunicação. Considere, então, estas três manchetes jornalísticas a respeito da saída de um economista da presidência do Banco Central (BC): JORNAL 1

Presidente do BC deixa o cargo

a) b) c) d)

JORNAL 2

Czar do BC entrega o poder

Mandachuva do Banco Central pega o boné

Responda, justificando de maneira concisa: a) Sim. Embora empreguem diferentes palavras e formas de dizer, as três Elas constituem paráfrases uma da outra? Justifique. 1.transmitem a mesma informação básica, a mesma notícia. Qual das três manchetes expõe claramente uma crítica ao presidente que pediu demissão? Justifique. Qual das três manchetes noticia o fato de forma objetiva e neutra? Justifique. Como você caracterizaria o público-alvo da terceira manchete?

Iotti

2. (Enem/MEC) Leia este texto:

3028-GRA-V1-C03LA-F020_Reprodução de charge – Iotti. NOVO. Professor(a), sugerir aos alunos que observem novamente o quadro Guernica Jornal Zero Hora, 2 mar. 2006. no capítulo 1, página 144.

Na criação do texto, o chargista Iotti usa criativamente um intertexto: os traços reconstroem uma cena de Guernica, painel de Pablo Picasso que retrata os horrores e a destruição provocados pelo bombardeio a uma pequena cidade da Espanha. Na charge, publicada no período de carnaval, recebe destaque a figura do carro, elemento introduzido por Iotti no intertexto. Além dessa figura, a linguagem verbal contribui para estabelecer um diálogo entre a obra de Picasso e a charge, ao explorar a) uma referência ao contexto, “trânsito no feriadão”, esclarecendo-se o referente tanto do texto de Iotti quanto da obra de Picasso.

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JORNAL 3

CAPÍTULO 3

3. a) “Não vão durar nada” pode estar se referindo ao tempo de permanência dos produtos em estoque ou à durabilidade física dos próprios móveis.

b) uma referência ao tempo presente, com o emprego da forma verbal “é”, evidenciando-se a atualidade do tema abordado tanto pelo pintor espanhol quanto pelo chargista brasileiro. c) um termo pejorativo, “trânsito”, reforçando-se a imagem negativa de mundo caótico presente tanto em Guernica quanto na charge. d) uma referência temporal, “sempre”, referindo-se à permanência de tragédias retratadas tanto em Guernica quanto na charge. e) uma expressão polissêmica, “quadro dramático”, remetendo-se tanto à obra pictórica quanto ao contexto do trânsito brasileiro. 3. Certa ocasião, circulou na internet a reprodução de um anúncio publicitário de uma empresa atacadista do qual constava, logo abaixo do preço promocional, a seguinte frase:

MÓVEIS POR ESTES PREÇOS NÃO VÃO DURAR NADA! a) Explique a ambiguidade que ocorre nessa frase. b) De que maneira um dos sentidos da frase contribui para criar um efeito humorístico que funciona como uma “antipropaganda” do produto anunciado?

3. b) A possibilidade de entender que os móveis não terão durabilidade funciona como uma antipropaganda porque produz uma afirmação desfavorável à qualidade deles, indicando que estão com preço baixo justamente porque, quando forem postos em uso, vão se estragar rapidamente. É claro que esse não seria o sentido pretendido pelo enunciador ao elaborar a propaganda, daí o efeito humorístico do texto.

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5. a) “Lavar as mãos”, que pode significar “limpar/tirar com água a sujeira das mãos” ou “ficar indiferente; não se comprometer/envolver com alguma coisa” (no caso, com a proteção à Mata Atlântica).

4. b) A expressão pode ser entendida em seu sentido usual, significando “brincar/divertir-se muito no carnaval (na avenida), até ficar exaurido, ou seja, acabado”; pode também ter um sentido de alerta aos motoristas, dando a entender que, caso consumam bebida alcoólica e saiam dirigindo pelas ruas e avenidas, eles podem “se acabar”, ou seja, sofrer um acidente e morrer.

Cartaz do Ministério das Cidades. Governo Federal, 2012

4. Leia este cartaz do programa Parada (Pacto Nacional pela Redução de Acidentes), uma iniciativa do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) e do Ministério das Cidades: 4. a) No período do carnaval, quando aumentam expressivamente os índices de acidentes automobilísticos decorrentes do consumo de bebida alcoólica pelos motoristas; assim, a campanha visava alertar para o perigo de dirigir alcoolizado.

As campanhas gorvernamentais de conscientização da população geralmente são veiculadas em períodos específicos do ano. Considerando tal fato, responda aos itens de a a c.

a) Em que época do ano foi veiculada a campanha da qual fez parte o cartaz apresentado e qual era o objetivo dela? b) Explique, no contexto do cartaz, a polissemia da expressão “se acabar na avenida”. c) Que outro elemento verbal do cartaz, por ser também polissêmico, contribui para a expressividade da mensagem? Justifique. 4. c) A expressão “pule fora”, que pode ser entendida como “pule o carnaval sem dirigir alcoolizado” ou “deixe de lado a ideia de, durante o carnaval, beber e dirigir”.

Fundação SOS Mata Atlântica

5. (Unicamp-SP) Leia a propaganda (adaptada) da Fundação SOS Mata Atlântica reproduzida abaixo e responda às questões propostas.

a) Há no texto uma expressão de duplo sentido sobre a qual o apelo da propaganda é construído. Transcreva tal expressão e explique os dois sentidos que ela pode ter. b) Há também uma ironia no texto da propaganda, que contribui para o seu efeito reivindicativo, expressa no enunciado: “Aproveita enquanto tem água”. Explique a ironia contida no enunciado e a maneira como ele se relaciona aos elementos visuais presentes no cartaz.

5. b) A sugestão “Aproveita enquanto tem água” é irônica, pois o objetivo do anúncio é justamente alertar para o fato de que, se o leitor “lavar as mãos”, ou seja, ficar indiferente à devastação da Mata Atlântica, de onde provém a água que abastece centenas de cidades, em breve não haverá mais água disponível nem para “lavar as mãos”. Essa possibilidade é reforçada, na imagem, pelas árvores secas e pela gota única que sai da torneira, com uma cor escura Noções de semântica 197 em vez da cor azul que costuma caracterizar a água.

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capítulo

4

Figuras de linguagem

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS E-pub • PEREIRA JUNIOR, Luiz Costa. Figuras de linguagem. São Paulo: Segmento, 2014. Ensaio • CHICO VIANA.COM. O oposto da hipérbole. 2013. Disponível em: <http://tub.im/wg43k8>. Acesso em: 12 fev. 2016.

Site • GARCIA, Afrânio. Figuras de linguagem e ensino. In: SEMANA NACIONAL DE ESTUDOS FILOLÓGICOS E LINGUÍSTICOS, 7, 2005, Rio de Janeiro. Anais eletrônicos... Rio de Janeiro. Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos, 2005. Disponível em: <http://tub.im/2og68h>. Acesso em: 12 fev. 2016. Vídeos • VELOSO, Caetano; GADÚ, Maria. O quereres. Produção: Universal Music Ltda. Vídeo (3min3s). Disponível em: <http://tub.im/ ocbtdf>. Acesso em: 12 fev. 2016. • GILBERTO GIL. Metáfora. Produção: DVD Banda de Dois. Vídeo (5min54s). Disponível em: <http://tub.im/ynpzfw>. Acesso em: 12 fev. 2016

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Professor(a), a atividade da seção “E mais...” da página 221 requer preparação antecipada.

INTRODUÇÃO Em diferentes situações de uso da linguagem, tanto em suas atividades escolares como fora delas, você rotineiramente toma contato com inúmeros recursos estilísticos por meio dos quais muitas vezes a linguagem se manifesta. Com muita frequência, você também faz uso desses recursos para expressar suas opiniões, suas ideias e suas emoções. Neste capítulo, vamos fazer uma sistematização dos principais recursos estilísticos e analisar seus empregos e função expressiva nos diferentes tipos de textos (literários, noticiosos, humorísticos, publicitários etc.).

FIQUE SABENDO

Recursos estilísticos e estilística A linguagem possibilita-nos exprimir não só nossa compreensão de mundo (ideias, conceitos, opiniões etc.), mas também nosso mundo psíquico (emoções e estados de espírito). Quando alguém diz, por exemplo, “Aquele restaurante é um chiqueiro”, esse falante está afirmando que o restaurante é sujo e, simultaneamente, revelando que o lugar lhe causa repulsa, nojo. Às diferentes possibilidades de usar a linguagem para expressar nosso mundo psíquico, damos o nome de recursos estilísticos. A estilística é o ramo da linguagem que estuda esses recursos.

SENTIDO DENOTATIVO E SENTIDO CONOTATIVO O trecho a seguir foi extraído de um texto sobre o início de um dos mais fascinantes e ousados projetos da humanidade. Leia-o. Professor(a), seria interessante sugerir aos alunos que lessem esse belo texto, em sua íntegra, no site citado no final dele.

Blackpixel/Shutterstock.com

Catedrais em busca do desconhecido [...] Na Idade Média, as belíssimas catedrais góticas [...] funcionavam como um veículo de transporte de nossa esfera para a esfera divina. A verticalidade da arquitetura gótica induzia as pessoas a olhar para o alto com respeito e temor, em um rito de passagem entre o nosso mundo, com suas atribulações, e o paraíso medieval cristão, com sua promessa de uma vida eterna e livre de transtornos. [...]

A catedral gótica de Milão, na Itália, tem 157 metros de comprimento, 109 metros de largura e 45 metros de altura.

Após buscarmos a comunhão com Deus por meio de nossas catedrais [...], neste final de milênio nos lançamos Figuras de linguagem

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Estação Espacial Internacional (ISS): do tamanho de um campo de futebol, a ISS, cujo projeto foi concluído em 2011, orbita a Terra a uma velocidade de 27 mil km/h. Marcela Fae/Folhapress

GLEISER, Marcelo. Catedrais em busca do desconhecido. Folha de S.Paulo, 13 dez. 1998. Disponível em: <http:// www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe13129804.htm>. Acesso em: 12 fev. 2016. Folhapress.

NikoNomad/Shutterstock.com

ao espaço, nossa nova fronteira. Nossas catedrais são as espaçonaves, as pontes entre o nosso mundo e esse vasto Universo do qual fazemos parte. No dia 4 de dezembro, a espaçonave americana Endeavour iniciou sua missão mais importante: sua carga era o segundo módulo de construção da Estação Espacial Internacional (ISS), um dos projetos de engenharia mais ambiciosos de todos os tempos. [...] Essa catedral flutuante está sendo construída por 16 países e terá um custo total em torno de US$ 60 bilhões. [...]

Agora compare, nestas passagens do texto, o emprego das palavras destacadas:

1. “Na Idade Média, as belíssimas catedrais góticas [...] funcionavam como um veículo de transporte de nossa esfera para a esfera divina.” 2. “Essa catedral flutuante está sendo construída por 16 países e terá um custo total em torno de US$ 60 bilhões. [...]” Em 1, a palavra destacada apresenta-se em seu sentido usual, comum, “de dicionário”; o contexto da passagem em que ela ocorre permite-nos entender “catedral” como “construção religiosa caracterizada por suas dimensões grandiosas e por sua arquitetura complexa e impressionante”. Dizemos, por isso, que essa palavra está empregada em seu sentido denotativo ou literal. Já o trecho 2 leva-nos a interpretar “catedral” de outra forma. As relações que essa palavra estabelece com os demais elementos textuais deixam claro que ela não se refere a um “tipo de igreja”, e sim a um “maravilhoso equipamento tecnológico que possibilitará à humanidade ampliar seu contato com o Universo”. Dizemos, por isso, que, nesse caso, “catedral” tem sentido conotativo ou figurado. As diferentes possibilidades de emprego conotativo das palavras constituem um amplo conjunto de recursos expressivos a que damos o nome geral de figuras de linguagem. Em um ato de comunicação, as figuras de linguagem evidenciam a intenção ou a necessidade que o falante tem de dizer as coisas de maneira nova, diferente e criativa. O que ele pretende, quando as utiliza, é principalmente surpreender, impressionar ou sensibilizar seu(s) interlocutor(es) e, assim, torná-lo(s) mais atento(s) ao que está falando ou escrevendo.

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Marcelo Gleiser (1959-) Físico, astrônomo, professor universitário e escritor brasileiro, é autor de vários livros para leitores não especializados em ciências. Ganhou em 1998 o Prêmio Jabuti pelo livro A Dança do Universo, cujo tema é a origem do Universo discutida sob as perspectivas científica e religiosa.

PARA QUE SABER?

O conhecimento dos recursos da linguagem figurada não tem, é claro, uma finalidade em si mesmo, ou seja, não se trata de conhecer as figuras apenas para saber classificá-las, dar-lhes um “nome”. O importante, nesse estudo, é identificar os mecanismos linguísticos que dão origem às figuras, compreender como e com que intenção elas são empregadas nos textos e perceber os efeitos de sentido que elas produzem. Esse conhecimento, sem dúvida, ajuda-nos a entender e interpretar melhor os textos (jornalísticos, literários, publicitários, humorísticos etc.); leva-nos também a ser mais sensíveis à beleza da linguagem e ao significado simbólico das palavras. Além disso, um domínio mais amplo dos recursos da linguagem figurada ajuda-nos a expressar de forma diferente e pessoal o que pensamos e sentimos.

CAPÍTULO 4

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Leia, por exemplo, os quatro trechos a seguir, atentando para os elementos textuais destacados e para as informações a respeito de seus autores apresentadas ao final de cada um deles.

TEXTO 1

Os homens não melhoraram, e matam-se como percevejos. Os percevejos heroicos renascem. Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado. E se os olhos reaprendessem a chorar, seria um [segundo dilúvio.

TEXTO 2

[...] O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo. Trecho de uma carta enviada, em 1854, por um chefe indígena estadunidense ao presidente do país.

ANDRADE, Carlos Drummond de. O sobrevivente. In: . Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002. p. 84.

TEXTO 4 TEXTO 3

Aqui viajam doze pneus cheios e um coração vazio.

Eu tinha machucado a perna. Tava de muleta. Mais andá cum perna dos oto num vale a pena. Aí eu cumecei a andá ca minha perna ota veis...

Frase de um caminhoneiro, no para-choque traseiro de seu caminhão.

Juca da Toca, 81 anos, morador solitário de uma caverna numa montanha de Minas Gerais.

Nesses quatro textos é possível identificar diferentes recursos expressivos da linguagem figurada. O texto 1 apresenta versos de um poema; nele, como veremos mais à frente, o autor fez uso de cinco figuras de linguagem. Já os textos 2, 3 e 4 mostram que a utilização das palavras com sentido figurado não é um privilégio dos poetas e escritores, nem mesmo exclusivo das pessoas cultas. Todo falante, de qualquer profissão, idade, classe social, nível de escolaridade, utiliza e sabe interpretar, em maior ou menor grau, o sentido conotativo das palavras. Vamos, a seguir, desenvolver o estudo das principais figuras de linguagem, subdividindo-as em dois grupos.

FIGURAS DE LINGUAGEM (1.º GRUPO) Esse grupo é constituído por figuras que têm sua força expressiva centrada no sentido contextual, ou seja, no sentido que as palavras, expressões e frases adquirem quando participam da constituição dos textos. São elas:

• comparação

• personificação

• eufemismo

• metáfora

• antítese

• ironia

• metonímia

• hipérbole

Professor(a), outras figuras de linguagem, menos relevantes em termos de frequência em textos, são apresentadas em Conversa com o professor, nas Orientações específicas (seção “Complementação teórica” do capítulo 4).

Professor(a), nesta exposição teórica são mostrados os aspectos conceituais e exemplos das figuras desse grupo. As definições sintéticas, para eventuais consultas dos alunos, são apresentadas no quadro de resumo da página 208. Figuras de linguagem

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Comparação Compare estes dois pequenos textos: TEXTO 1

Minha escola A escola que eu frequentava era cheia de grades; O meu mestre, carrancudo, complicado e inacessível.

TEXTO 2

Minha escola A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões. E o meu mestre, carrancudo como um dicionário; Complicado como as Matemáticas; Inacessível como Os Lusíadas de Camões! FERREIRA, Ascenso. Minha escola. In: . Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém. II. Por 20 artistas plásticos pernambucanos. Recife: Nordestal, 1981. p. 80.

Qual desses dois textos é mais expressivo? Sem dúvida, o texto 2, não é mesmo? Note que nele o poeta, para intensificar as desagradáveis lembranças dos tempos em que era estudante, comparou sua escola a uma prisão e também comparou o professor a certos aspectos da vida escolar que não despertavam nele qualquer interesse ou entusiasmo. Na construção desses versos o poeta empregou, então, quatro comparações. A comparação é uma figura de linguagem que se realiza por meio de palavras ou expressões comparativas presentes no enunciado (como, semelhante a, igual a, que nem, tal qual etc.), por isso sua estrutura tem sempre a seguinte forma geral:

A

como / igual a / semelhante a / que nem

Outro exemplo de comparação:

B

Os homens não melhoraram, e matam-se como percevejos. (Carlos Drummond de Andrade)

O trecho a seguir, extraído de um romance, descreve uma mulher durante um incêndio que destruía a casa dela e as de seus vizinhos. Leia-o e observe como o emprego de comparações contribui para realçar aspectos da cena descrita. [...] A Bruxa surgiu à janela da sua casa, como à boca de uma fornalha acesa. Estava horrível; nunca fora tão bruxa. O seu moreno trigueiro, de cabocla velha, reluzia que nem metal em brasa; a sua crina preta, desgrenhada, escorrida e abundante como as das éguas selvagens, dava-lhe um caráter fantástico de fúria saída do inferno. [...]

trigueiro: da cor do trigo maduro; amarelado tendendo ao marrom.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Nobel, 2009. p. 189.

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CAPÍTULO 4

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Metáfora

[Metáfora ž meta (gr.)  mudança/translação/além de; phora (gr.)  transporte.]

Blackpixel/Shutterstock.com

NikoNomad/Shutterstock.com

Reveja estas duas imagens e considere algumas características de cada uma delas.

Características da Estação Espacial • É moderna; • Move-se no espaço; • É colossal, impressionante; • “Conecta” o homem a uma aspiração (o Universo).

Características da catedral gótica • É antiga; • É fixa no chão; • É colossal, impressionante; • “Conecta” o homem a uma aspiração (Deus).

características comuns à catedral e à Estação Espacial Agora releia este trecho do texto “Catedrais em busca do desconhecido”:

“Essa catedral flutuante está sendo construída por 16 países [...].” O autor, percebendo certos pontos em comum entre as características de uma catedral e as da Estação Espacial, estabelece entre ambas uma comparação mental. É claro que a Estação Espacial não é, na realidade, uma “catedral”, mas os pontos de semelhança entre elas possibilitaram que o autor empregasse essa palavra para se referir à Estação Espacial. Ele criou, assim, uma metáfora. Existem dois mecanismos linguísticos que possibilitam a criação de metáforas. Um deles, que ocorre nas metáforas mais usuais, pode ser assim esquematizado: A

verbo “ser”

B

Observe que, nessa estrutura, estão explícitos os dois elementos mentalmente comparados. Veja este exemplo: • A Estação Espacial é a nossa catedral do futuro. A

verbo “ser”

B

O outro mecanismo, que origina metáforas mais elaboradas, consiste em não usar o verbo “ser”, deixando implícita, na própria palavra (ou expressão) metafórica, a referência a um dos elementos comparados. Veja estes dois exemplos: • A garotinha passava horas mergulhada em seus sonhos infantis. • “Os homens não melhoraram, e matam-se como percevejos. Os percevejos heroicos renascem. Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.”

O QUE DIZEM OS LINGUISTAS Temos metáfora toda vez que, indo além da simples apresentação de propriedades comuns, pensamos uma realidade nos termos de outra. O exercício de pensar uma realidade em termos do que ela não é nos leva sempre a alguma descoberta, por isso mesmo a metáfora é uma poderosa fonte de novos conhecimentos e novos comportamentos. Pensar uma realidade em termos de outras proporciona também um prazer estético. ILARI, Rodolfo. Introdução à semântica: brincando com a gramática. São Paulo: Contexto, 2004. p. 109.

(Carlos Drummond de Andrade) Figuras de linguagem

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Compare, então, nos exemplos a seguir, três possibilidades de uso da linguagem figurada: • A estradinha era como uma serpente entre as colinas verdes. comparação

• A estradinha era uma serpente entre as colinas verdes. metáfora

• A estradinha serpenteava entre as colinas verdes. metáfora

A metáfora é, sem dúvida, um recurso fundamental da linguagem poética — e também da linguagem cotidiana —, pois coloca à nossa disposição inúmeras possibilidades de nos expressarmos simbolicamente. Na pintura, na publicidade, em tiras humorísticas, charges, reportagens de revistas etc., as metáforas visuais são muito comuns. Por isso, tão importante quanto ler e interpretar textos verbais é saber “ler” os textos visuais e compreender as mensagens que eles veiculam. Veja, por exemplo, este cartaz de uma campanha promovida pela Organização Internacional do Trabalho:

Anúncio da OIT. Criação Borghierh/Love Propaganda e Marketing. Foto: Alexandre Catan

Pior que não conseguir trabalho é não conseguir sair dele.

E então? Como você interpreta esse texto?

Professor, espera-se que os alunos identifiquem a semelhança entre a disposição vertical das ferramentas e as barras da grade de uma prisão e interpretem o texto como uma referência à situação de escravidão (restrição da liberdade e exploração) a que são submetidos muitos trabalhadores rurais no Brasil.

Metonímia (e sinédoque) [Metonímia ž meta (gr.)  mudança/translação/além de; ónyma (gr.)  nome.]

Suponha esta manchete de jornal:

Fabio Colombini

Palácio do Planalto anuncia construção de novas hidrelétricas

Palácio do Planalto — sede do Poder Executivo do Governo Federal brasileiro.

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Nessa manchete, a expressão “Palácio do Planalto” não pode ser interpretada literalmente, já que ela nomeia um lugar, um prédio em Brasília, e, obviamente, prédios não praticam ações. No entanto, como é lá que são tomadas as decisões administrativas do governo, os noticiários usam “Palácio do Planalto” para substituir expressões como “O presidente da República e seus ministros”, que, por serem longas, são inadequadas para manchetes jornalísticas. A troca entre elementos textuais que apresentam contiguidade de sentidos, isto é, vizinhança/proximidade de sentidos, constitui uma figura de linguagem chamada metonímia.

CAPÍTULO 4

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Outros exemplos de metonímia: • O estádio vaiava insistentemente o juiz da partida. [“estádio” substitui “torcedores” — a troca é possível porque o estádio contém os torcedores.]

• Na torre da pequena igreja do vilarejo, o bronze soava magnificamente.

FIQUE SABENDO

Sinédoque

[Sinédoque ž synekdokhé (gr.)  compreender, abarcar ao mesmo tempo.]

É um tipo particular de metonímia em que a palavra que indica o todo de um ser é substituída por outra que indica apenas uma parte dele. Veja um exemplo nestes versos de Carlos Drummond de Andrade:

[“bronze” substitui “sino” — a troca é possível porque o sino é feito de bronze.]

• O rapaz pediu-nos água; estava com tanta sede que bebeu quatro copos.

E se os olhos reaprendessem a chorar, seria um segundo dilúvio.

[“copos” substitui “água dos copos”; a troca foi possível porque o copo contém a água.]

(Carlos Drummond de Andrade)

[olhos (parte) – pessoas (todo)]

Laerte

Crédito da Imagem

Veja, nesta tirinha, mais alguns exemplos:

Disponível em: <www2.uol.com.br/laerte/tiras>. Acesso em: 7 jun. 2016.

No primeiro quadrinho dessa tirinha ocorrem duas metonímias e uma sinédoque:

Revista Questão Amazônica. Belém: Nacional Editora e Negócios, 2008

• “pão” substitui “alimento/sustento” metonímia (o pão é um tipo de alimento) metonímia (o suor é a consequência do trabalho) • “suor” substitui “trabalho” sinédoque (o rosto é uma das partes do corpo) • “rosto” substitui “corpo” [Prosopopeia ž prosopon (gr.)  rosto; poiein (gr.)  fazer/fabricar/criar.]

Personificação (prosopopeia) A imagem ao lado reproduz a capa de uma revista. Veja nela o título da primeira reportagem. O redator atribuiu ao rio Itapecuru a capacidade de falar, de “gritar por socorro”, considerando-o, dessa forma, um ser vivo, uma pessoa. Esse recurso intensifica a expressividade da frase e chama a atenção do leitor para a urgência de proteger esse belo rio brasileiro. Ao atribuir uma capacidade tipicamente humana a um ser inanimado – o rio –, o redator fez uso de uma personificação, figura de linguagem também chamada prosopopeia. Veja mais um exemplo personificação: • Algumas araras azuis, do alto de umas árvores, trocavam opiniões sobre o amanhecer. [Uma capacidade humana — dar opiniões — é atribuída a seres irracionais.] Figuras de linguagem

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Observe, neste trecho do romance Belém do Grão-Pará, como as personificações tornam mais viva, Professor(a), sugere-se comentar que Dalcídio Jurandir (1909-1979) foi um escritor e jornalista paraense. Seus mais expressiva a cena descrita: romances (Chove nos campos de Cachoeira, Marajó, Belém do Grão-Pará, Passagem dos inocentes, dentre outros) tratam principalmente das pessoas da Amazônia e suas relações com o ambiente natural da região.

O bonde, cuspindo e engolindo gente, mergulhava nas saborosas entranhas de Belém, macias de mangueiras, quintais com bananeiras espiando por cima do muro, uma normalista, feixes de lenha à porta da taberna [...]. (Dalcídio Jurandir)

Antítese (e paradoxo/oximoro) [Antítese ž anti (gr.)  contra; thesis (gr.)  afirmação.] Leia estes versos da música “Eu te amo calado”: Não existiria som se não houvesse silêncio, Não haveria luz se não fosse a escuridão. A vida é mesmo assim Dia e noite, não e sim. [...]

FIQUE SABENDO

Paradoxo (oximoro) É um tipo particular de antítese em que as palavras opostas exprimem ideias que se negam reciprocamente. Exemplo:

SANTOS, Lulu; MOTTA, Nelson. Certas coisas. Intérprete: Lulu Santos. In: SANTOS, Lulu. Tudo Azul. [Rio de Janeiro]: WEA, 1984. 1 CD. Faixa 9.

Amor é fogo que arde sem se ver, É ferida que dói e não se sente, É um contentamento descontente, É dor que desatina sem doer. CAMÕES, Luís de. Camões lírico.

Repare que, nesse trecho da música, os composiRio de Janeiro: Agir, 1974. p. 19. tores, para enfatizar as oposições da vida, aproximam palavras de sentidos contrários: som  silêncio, luz  escuridão, dia  noite, não  sim. Note que as palavras de cada par se opõem, mas ao mesmo tempo também se reforçam, ganhando um significado mais vivo, mais marcante, em razão da presença de sua palavra contrária. Essa figura de linguagem, que se caracteriza pelo emprego de palavras de significados opostos, recebe o nome de antítese. Veja outro exemplo: • Aqui viajam doze pneus cheios e um coração vazio. [Frase no para-choque de um caminhão.] ž hyperbolè (gr.)  Hipérbole [Hipérbole ação de lançar sobre; sobrepor.]

Sergio Lima/Folhapress

Leia o início de uma notícia sobre um problema ambiental:

Diretor do Ibama: “Queimadas vão fazer do Brasil um inferno” Ou os agricultores e pecuaristas interrompem imediatamente as queimadas, ou “eles vão fazer do Brasil um inferno”. Este é o apelo do diretor de Proteção Ambiental do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) [...]. OMS, Carolina. Diretor do Ibama […]. Terra Magazine, 24 ago. 2010. Disponível em: <http://terramagazine.terra.com.br/ interna/0,,OI4638966-EI6586,00.html>. Acesso em: 12 fev. 2016.

Incêndio em área próxima a Brasília (DF), 2010.

Nesse texto, o diretor do Ibama, fazendo uso de uma expressão de sentido exagerado, revela sua preocupação com a grande quantidade de focos de incêndio no país. Ao se expressar por meio de um exagero – uma hipérbole –, o falante teve a intenção de enfatizar a extrema gravidade do problema a que ele se refere.

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CAPÍTULO 4

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Veja outro exemplo de hipérbole: Os homens não melhoraram, e matam-se como percevejos. Os percevejos heroicos renascem. Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado. E se os olhos reaprendessem a chorar, seria um segundo dilúvio. ANDRADE, Carlos Drummond de. O sobrevivente. In: . Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002. p. 84.)

Em nossa linguagem cotidiana, expressões como “morrer de rir”, “explodir de raiva”, “ficar louco da vida”, “explicar um milhão de vezes” etc. são alguns dos “pequenos” exageros que utilizamos para nos comunicar. Na

Gonsales, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 set. 2007

tirinha abaixo, por exemplo, o humor se baseia num jogo de sentidos com uma expressão hiperbólica.

GONSALES, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 set. 2007.

Eufemismo

[Eufemismo ž eu (gr.)  bem/bom; phemè (gr.)  palavras.]

Leia este pequeno texto: Como dizia o pai de um filho burro: “Às vezes tenho que concordar em que meu filho não atingiu o índice normal de aproveitamento para meninos de sua idade”. FERNANDES, Millôr. Trinta anos de mim mesmo. Rio de Janeiro: Desiderata, 2006. p. 82.

Na fala do pai, fica evidente seu “malabarismo” linguístico para tornar menos desagradável e constrangedor admitir que o filho dele é burro. A essa figura de linguagem, que consiste em escolher palavras mais delicadas, suaves ou gentis para fazer referência a fatos constrangedores, desagradáveis ou dolorosos, dá-se o nome de eufemismo. Nos versos a seguir, Camões faz uso de eufemismos para tornar menos dolorosa a referência à morte da mulher amada: Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente, E viva eu cá na terra sempre triste. CAMÕES, Luís de. Rimas. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953. p. 172.

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Ironia

[Ironia ž eironeia (gr.)  interrogação (originalmente, entre os filósofos gregos, era uma estratégia de discussão: fingia-se desconhecer o assunto e fazia-se a interrogação, a ironia, procurando obter do adversário uma resposta contraditória, para então ridicularizá-lo).]

Leia este trecho de poema: Moça linda bem tratada, Três séculos de família, Burra como uma porta: Um amor! [...] ANDRADE, Mário de. Poesias completas. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005. p. 380.

No último verso, o poeta afirma que a moça é “um amor”, mas os versos anteriores criam um contexto que evidencia o contrário: ela tem “três séculos de família”, ou seja, ela é de família tradicional, conservadora, antiquada; além disso, é muito burra. Assim, ao dizer que a moça é “um amor”, o poeta dá a entender que ela é, na verdade, uma pessoa desinteressante, chata, sem graça. Mário de Andrade fez uso de uma figura chamada ironia.

A ironia, por ser um eficiente recurso de crítica, é muito comum em cartuns e em campanhas de conscientização que tratam de problemas e situações do mundo atual. Veja este exemplo:

Jean Galvão. Folha de S. Paulo, 15 maio 2005. Folhapress

Na conhecida história infantil Branca de Neve e os sete anões, a bruxa põe veneno em uma maçã e oferece a fruta para Branca de Neve. No cartum ao lado, o artista cria, com base na história original, uma intertextualidade, da qual emerge a ironia crítica em relação aos alimentos geneticamente modificados e também em relação à linguagem empregada para dissimular determinadas características desses produtos.

GALVÃO, Jean. Folha de S.Paulo, 15 maio 2005.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Sentido denotativo e sentido conotativo • Sentido denotativo (ou literal) – sentido usual, comum das palavras; é independente do contexto em que a palavra é usada. • Sentido conotativo (ou figurado) – sentido particular, “especial” que a palavra adquire em função de um contexto específico em que ela é usada.

Principais figuras de linguagem — 1.o grupo • Metáfora – emprego de uma palavra ou expressão com um sentido diferente do usual, a partir de uma comparação subentendida entre dois elementos. • Metonímia – substituição (troca) de uma palavra por outra, quando entre elas existe uma contiguidade (vizinhança) de sentidos que permite essa troca. • Antítese – uso de palavras (ou expressões) de significados opostos, com a intenção de realçar a força expressiva de cada uma delas. • Eufemismo – forma de suavizar, de tornar menos chocantes palavras ou expressões desagradáveis, dolorosas ou constrangedoras. • Ironia – recurso expressivo por meio do qual se enuncia algo, mas o contexto permite ao leitor (ou ouvinte) entender o oposto do que se está afirmando.

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CAPÍTULO 4

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1. b) A troca foi possível porque “asas” e “bicos” são partes das aves. Trata-se da sinédoque (tipo particular de metonímia em que a palavra que designa o todo é substituída pela que indica uma parte desse todo).

Atividades

Escreva no caderno

1. Leia este trecho do conto “Minha gente”, de Guimarães Rosa.

Professor(a), se julgar oportuno, comente com os alunos que João Guimarães Rosa, escritor mineiro que viveu entre 1908 e 1967, publicou, entre outros livros, o clássico Grande sertão: veredas, um dos mais importantes romances brasileiros.

Pelo rego desciam bolas de lã sulfurina: eram os patinhos novos, que decerto tinham matado o tempo, dentro dos ovos, estudando a teoria da natação. E, no pátio, um turbilhão de asas e bicos revoluteava e se embaralhava, rodeando a preta, que jogava os últimos punhados de milho [...] ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 217.

sulfurina: da cor do enxofre (do latim sulfur), que é amarelo; revolutear: movimentar-se rapidamente dando voltas.

Para intensificar a expressividade da cena descrita, o autor faz uso de vários recursos da linguagem figurada. Releia o texto e responda aos itens de a a d. a) Ao dizer que os patinhos são “bolas de lã”, o autor sugere a existência de aspectos comuns aos patinhos e às bolas de lã. Explicite esses aspectos e nomeie a figura de linguagem empregada nesse caso. 1. a) Tanto os “patinhos novos” (filhotes) como as “bolas de lã” são arredondados, fofos e suaves ao tato. Trata-se de uma metáfora.

b) O autor utiliza as palavras “asas” e “bicos” em lugar de “aves”. Explique por que a troca foi possível e classifique essa figura de linguagem. c) O autor emprega uma prosopopeia, figura de linguagem também chamada personificação. Transcreva o trecho em que ela ocorre e explique-a no contexto do fragmento. d) No texto ocorre uma hipérbole. Transcreva-a e justifique sua resposta. Ivan Cabral

2. (Enem/MEC) Leia esta charge:

CABRAL, Ivan. [Tirinha]. [201-]. Disponível em: <www.ivancabral.com>. Acesso em: 12 fev. 2016.

O efeito de sentido da charge é provocado pela combinação de informações visuais e recursos linguísticos. No contexto da ilustração, a frase proferida recorre à: a) polissemia, ou seja, aos múltiplos sentidos da expressão “rede social” para transmitir a ideia que pretende veicular. b) ironia para conferir um novo significado ao termo “outra coisa”. c) homonímia para opor, a partir do advérbio de lugar, o espaço da população pobre e o espaço da população rica. d) personificação para opor o mundo real pobre ao mundo virtual rico. e) antonímia para comparar a rede mundial de computadores com a rede caseira de descanso da família. 1. c) “Os patinhos [...] tinham matado o tempo [...] estudando a teoria da natação.” A personificação, nesse caso, consiste em atribuir aos patinhos (seres irracionais) capacidades próprias de seres humanos: matar o tempo ( distrair-se) e estudar. 1. d) “Um turbilhão de asas e bicos.” Hipérbole é um exagero intencional, que visa a impressionar o leitor (ou o ouvinte). Os patos disputando o milho não produzem, literalmente, um turbilhão ( = redemoinho; movimento circular rápido, muito intenso).

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3. a) Personificação (prosopopeia). O autor atribui a seres inanimados características humanas e/ou animadas: a água sussurra; os riachos fogem/riem; os rios mostram-se açodados/apressados; a fonte espera os homens e o gado.

3. O trecho a seguir descreve o ambiente natural de uma serra. Leia-o e responda aos itens a e b. [...] Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante... Espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, de entre as patas da égua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta à beira de veredas, jorrava por uma bica, beneficamente, à espera dos homens e dos gados... [...] QUEIROZ, Eça de. A cidade e as serras. São Paulo: Hedra, 2006. p. 183.

5. Os cartuns são textos humorísticos que abordam diferentes aspectos da vida em sociedade, propondo ao leitor uma reflexão crítica a respeito do tema tratado. Considere, então, estes dois cartuns e responda aos itens a e b. TEXTO 1

regatinho: riozinho; seixo: pedregulho; açodado: apressado; fragor: estrondo, barulho; luzidio: brilhante; vereda: caminho estreito, trilha.

Ivan Cabral

3. b) As personificações criam uma imagem viva e dinâmica dos elementos naturais da paisagem. A sensação que se tem é de que existe, na serra, uma agitação prazerosa, um fervilhar de vida alegre, agradável e despreocupada.

a) suas taxas de juros elevadas — com taxas pouco atrativas b) os juros próximos de zero — com taxas que assustavam os investidores c) a política de elevar os juros — com suas taxas muito atrativas d) os juros próximos de zero — com uma das maiores taxas reais do mundo e) em elevação as taxas de juros — indiferente a esse movimento econômico mundial

a) Que figura de linguagem é bastante evidente nesse trecho? Explique.

4. Leia este trecho de texto sobre economia do qual foram suprimidas duas expressões: Um dos economistas mais respeitados do país, Delfim Netto disse, em 2010, que “O Brasil é o último peru com farofa na mesa dos investidores fora do Dia de Ação de Graças”. Delfim se referia ao diferencial de taxas de juros interna e externa. Enquanto praticamente todo o mundo desenvolvido manteve , o Brasil permaneceu .

Disponível em: <www.ivancabral.com>. 26 out. 2016. Acesso em: 6 jun. 2016. TEXTO 2 Duke

b) Comente o efeito expressivo que o autor obtém ao empregar esse recurso estilístico para descrever o ambiente da serra.

ULLER, Leonardo Pires. A hora da renda fixa. Infomoney, 21 out. 2015.

Para que a metáfora empregada pelo economista seja coerente com o restante do texto, as lacunas devem ser preenchidas respectivamente pelas expressões:

a) Que aspecto da sociedade cada um desses textos critica? b) Por meio de que figura de linguagem cada um deles veicula a crítica? Justifique.

5. a) O texto 1 critica o excesso de violência veiculado pela TV; o texto 2 critica o posicionamento político de uma parcela da sociedade que, por ignorar as trágicas consequências da ditadura (1964-1985) para a vida política, cultural e social do Brasil, defende o retorno dos militares ao poder. 5. b) No texto 1, os canos de armas e as bombas saindo da tela da TV constituem uma hipérbole. No texto 2, a crítica emerge de uma 210 CAPÍTULO 4 ironia: o personagem finge surpresa ao ouvir o que o outro diz, pois, obviamente, não é surpreendente que alguém fracasse numa prova se desconhece fatos relevantes da história.

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Professor(a), as definições sintéticas das figuras deste grupo são apresentadas, para eventuais consultas dos alunos, no quadro de resumo da página 215.

FIGURAS DE LINGUAGEM (2.º GRUPO)

As três primeiras figuras que estudaremos nesse grupo – elipse, pleonasmo e polissíndeto – resultam da forma de organização das palavras nos enunciados. As outras quatro – onomatopeia, anáfora, aliteração e assonância – caracterizam-se pelo seu aspecto sonoro, e três dessas quatro – anáfora, aliteração e assonância – constituem recursos importantes para realçar o ritmo e a musicalidade do texto, por isso são mais comuns na linguagem poética.

Elipse [Elipse ž elleipsis (gr.)  omissão.] O texto 1, a seguir, é a fala de um personagem de um conto; o texto 2 é uma reescritura modificada do texto 1. Compare-os. TEXTO 1

— Se chegar depois das três, a casa fechada. A mala na varanda. E o táxi na porta. TREVISAN, Dalton. A trombeta do anjo vingador. Rio de Janeiro: Record, 2008.

TEXTO 2

— Se você chegar depois das três, a casa estará fechada. A mala estará na varanda. E o táxi estará esperando na porta.

No trecho original – texto 1 – para sugerir que o personagem se expressa de forma meio “seca”, ríspida, o autor subentendeu, omitiu algumas palavras; o texto 2, por sua vez, explicita as palavras que foram omitidas. Dizemos, então, que no trecho original ocorreu elipse das palavras “você”, “estará” e “estará esperando”. A elipse é, portanto, uma figura de linguagem que consiste na omissão de uma palavra (ou expressão) que o contexto permite ao leitor (ou ouvinte) identificar com certa facilidade. Outro exemplo de elipse: A criança que fui chora na estrada." [eu (fui)] Deixei-a ali quando vim ser quem sou. " [eu (deixei)/eu (vim)/eu (sou)] PESSOA, Fernando. Mensagem: poemas esotéricos. Madri: Allca XX, 1997. p. 170.

A elipse é um recurso que, em certos casos, contribui para obter do leitor (ou ouvinte) uma atitude mais atenta e participativa em relação ao que lê (ou ouve); em outros casos, contribui para tornar a linguagem mais concisa, isto é, mais “enxuta”. No trecho de poema abaixo, por exemplo, Manuel Bandeira omite, em todos os versos, uma forma do verbo “estar” – estão, estamos, está – e obtém, assim, maior concisão textual. Os cavalinhos correndo, E nós, cavalões, comendo... [...] O Brasil politicando, Nossa! A poesia morrendo... O sol tão claro lá fora, O sol tão claro, Esmeralda, E em minh’alma — anoitecendo! BANDEIRA, Manuel. Rondó dos cavalinhos. In: . Antologia poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. p. 99-100.

Professor(a), se julgar oportuno, comente com os alunos que Manuel Bandeira (1886-1968), poeta pernambucano, é considerado um dos principais escritores modernos brasileiros. Sua poesia é centrada principalmente nas coisas simples e comuns da vida.

Professor(a), se julgar necessário, cabe apresentar o conceito de zeugma: zeugma — tipo particular de elipse que consiste na omissão de um termo já referido. Exemplo: “As casas inda restam, / os amores, mais não” (Carlos Drummond de Andrade). Nesses versos, ocorre zeugma da forma “restam”.

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Pleonasmo Leia estes versos:

[Pleonasmo ž pleonasmòs (gr.)  excesso; abundância.]

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada) Chovia Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. BANDEIRA, Manuel. Poema só para Jaime Ovalle. In: . Belo Belo. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 273.

No quarto verso – “Chovia uma triste chuva de resignação” – o poeta emprega a palavra “chuva” para repetir a ideia já contida no verbo chover (chovia chuva). A intenção dessa repetição é, no caso, intensificar a expressividade do verbo. Chama-se pleonasmo a figura de linguagem em que o significado de um elemento textual é intensificado por meio de outra palavra que expressa uma repetição da ideia já contida nesse elemento. Veja outro exemplo de pleonasmo: [...] tenha pena de sua filha; perdoe-lhe pelo divino amor de Deus. BRANCO, Camilo Castelo. Os brilhantes do brasileiro. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1922. p. 170.

Polissíndeto

FIQUE SABENDO

Pleonasmo vicioso Na variedade popular da língua, são muito comuns pleonasmos como estes: “subir pra cima”, “repetir de novo”, “entrar pra dentro”, “cair um tombo”, “ganhar grátis” etc. Essas expressões, chamadas pleonasmos viciosos, por não intensificarem a ideia, devem ser evitadas quando, em situações mais formais de comunicação, for recomendável o emprego da variedade culta da língua.

[Polissíndeto ž polys (gr.) = muito(s); syndeton (gr.) = unido; ligado.]

Leia este trecho da crônica “O sino de ouro”, de Rubem Braga, e observe as palavras em destaque: [...] É apenas um sino, mas é de ouro. De tarde seu som vai voando em ondas mansas sobre as matas e os cerrados, e as veredas de buritis, e a melancolia do chapadão, e chega ao distante e deserto carrascal, e avança em ondas mansas sobre os campos imensos, o som do sino de ouro. [...]

buriti: espécie de palmeira; carrascal: vegetação semelhante à caatinga, de arbustos com ramos duros e entrelaçados.

BRAGA, Rubem. O sino de ouro. In: . 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 1992. p. 138.

Releia o trecho e você perceberá que o autor, explorando a sonoridade das palavras e principalmente repetindo a conjunção e, consegue dar ao texto um ritmo de continuidade lenta, de fluidez, que sugere o próprio movimento das ondas mansas do sino de ouro. A essa repetição da conjunção dá-se o nome de polissíndeto. O polissíndeto é um recurso eficiente para sugerir fatos que se dão em sequência e sem interrupção. Veja, nestes versos, outro exemplo de polissíndeto: Não tinha havido pássaro nem flores o ano inteiro. nem guerras, nem aulas, nem missas, nem viagens E nem barca e nem marinheiro. MEIRELES, Cecília. Feitiçaria. In: . Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 124.

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Professor(a), quanto à silepse: A silepse (concordância ideológica) é tradicionalmente trabalhada quando se estudam as figuras de linguagem. Por nos parecer didaticamente mais adequado, optamos por apresentá-la no volume 3: silepse de gênero no capítulo 5 CAPÍTULO 4 (Concordância nominal) e silepse de número e de pessoa no capítulo 6 (Concordância verbal). Caso prefira apresentar, neste momento, esses conceitos, ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas, a seção “Complementação teórica” do capítulo 4.

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Onomatopeia

[Onomatopeia ž ónoma (gr.)  nome/palavra; poiein (gr.)  fazer/criar.] © 2009 King Features/Syndicate/Ipress

Leia esta tira humorística:

BROWNE, Dik. Hagar. Folha de S.Paulo, São Paulo, 14 nov. 1995.

Nessa tirinha, smack!, crunch!, grunt! etc. procuram sugerir os “efeitos sonoros”, ou seja, os ruídos que Hagar costuma fazer quando se alimenta. Esse recurso de expressão, que consiste em tentar reproduzir um som ou ruído, chama-se onomatopeia. Veja outros exemplos de onomatopeia: De madrugada, sozinho no velho casarão, ouviu o nheeeeec de uma porta se abrindo. Seu coração disparou – tuc! tuc! tuc! – e seu corpo começou a tremer: brrrr...

Anáfora [Anáfora ž ana (gr.)  partícula que indica “repetição”; phoros (gr.)  que leva, conduz.] Leia este trecho de poema: Maximiliano de Weid-Neuwied. 1816. Aquarela e pena sobre papel, 24,5  40,2 cm. Biblioteca Brasiliana da Robert Bosch GMBH

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome de Ilha de Vera-Cruz. Ilha cheia de graça Ilha cheia de pássaros Ilha cheia de luz. Ilha verde onde havia mulheres morenas e nuas [...] RICARDO, Cassiano. Ladainha. In: . Martim Cererê. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL, 1987. p. 55.

Professor(a), se julgar oportuno, comentar com os alunos que Cassiano Ricardo (1895-1974), poeta paulista, era formado em Direito, tendo atuado também como jornalista. Fez parte do movimento modernista da literatura (que será estudado no volume 3 desta coleção) e de grupos nacionalistas.

O poeta, visando realçar a palavra “ilha”, repete-a no início de quatro versos seguidos. A esse recurso estilístico dá-se o nome de anáfora. A anáfora consiste, portanto, na repetição de uma palavra (ou trecho de frase) no início de uma sequência de orações ou de versos. Essa figura de linguagem, além de intensificar o significado da palavra, é um recurso muito útil para realçar o ritmo e a musicalidade do texto; daí sua presença ser comum em poemas. Veja outro exemplo de anáfora nos versos ao lado, extraídos de uma letra de música.

Eu vou publicar seus segredos Eu vou mergulhar sua guia Eu vou derramar nos seus planos o resto da minha alegria Que é pra ver se você volta Que é pra ver se você vem Que é pra ver se você olha pra mim CALCANHOTO, Adriana. Mentiras. Intérprete: Adriana Calcanhoto. In: . Senhas. [S.l.]: Columbia; Sony Music, 1992. Faixa 2. © MINHA MÚSICA (UNIVERSAL MGB)

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Aliteração

[Aliteração ž allitterationem (lat.)  dispor, em sequência, várias palavras iniciadas pelo mesmo som.]

Leia os versos, se possível em voz alta, atentando para os sons representados pelas letras em destaque: O vento varria as folhas. O vento varria os frutos. O vento varria as flores...

E a minha vida ficava Cada vez mais cheia De frutos, de flores, de folhas.

BANDEIRA, Manuel. Canção do vento e da minha vida. In: . Poesias completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1940. p. 168.

Uma única leitura é suficiente para revelar um aspecto interessante desse trecho: a sonoridade. A repetição de sons semelhantes (som “vê”, representado pela letra v, e som “fê”, representado pela letra f) cria um efeito sonoro que, ao mesmo tempo, realça a musicalidade dos versos e sugere o barulho do vento. Essa figura de linguagem denomina-se aliteração. A aliteração é, então, um recurso sonoro que se caracteriza pela repetição regular de um determinado som consonantal, ou de sons consonantais semelhantes. Veja, no poema ao lado, outro exemplo de aliteração:

Assonância

o v o n o v e l o novo no velho o filho em folhos na jaula dos joelhos infante em fonte f e t o f e i t o dentro do centro CAMPOS, Augusto de. OVONOVELO (1955). Viva vaia: poesia 1949-1979. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 94.

[Assonância ž assonantia (lat.)  correspondência de sons.]

Leia estes versos da letra de um frevo, atentando para a sonoridade de suas vogais:

Vivendo em paz Quem acende um fogo novo Cruza a crise, colhe a calma Alegra a alma desse povo Vive em paz e harmonia Abre as portas da alegria [...] ABREU, Tuzé; VELOSO, Caetano. Vivendo em paz. Intérprete: Caetano Veloso. In: . Velô. Rio de Janeiro: Polygram Discos, 1984.

Nesses versos da letra de um frevo, a expressividade sonora é resultado de aliterações e também de um jogo com os sons abertos (a, é, i, ó) e fechados (ã, ê, ô, u) das vogais. Esse jogo sonoro, que por meio da distribuição regular e alternada de vogais abertas e fechadas realça a sonoridade do texto, denomina-se assonância. Nos textos, principalmente em poemas, é frequente o emprego de assonâncias para sugerir um determinado som ou ruído.

Bomba atômica que aterra! Pomba atônita da paz! Pomba tonta, bomba atômica Tristeza, consolação Flor puríssima de urânio Desabrochada do chão. MORAES, Vinicius de. A bomba atômica. In: . Antologia poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. p. 146-149.

AP/Glow Images

Leia, por exemplo, este trecho de poema:

Cidade japonesa de Hiroshima, arrasada pela bomba atômica em 6 de agosto de 1945.

Nos três primeiros versos, Vinicius de Moraes combina criativamente assonâncias – õ, a, ô, ê, é – e aliterações – /b/, /p/, /t/ para produzir um efeito de sonoridade que sugere o barulho da explosão da bomba.

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CAPÍTULO 4

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Principais figuras de linguagem — 2.o grupo • Polissíndeto – repetição da conjunção (geralmente e ou nem). • Onomatopeia – emprego de palavras que procuram imitar determinados sons ou ruídos. • Anáfora – repetição de uma palavra (ou expressão) em uma sequência de frases (geralmente de versos). • Aliteração – disposição, em sequência, de um conjunto de palavras nas quais uma consoante (ou consoantes semelhantes) se repete(m), criando um efeito de sonoridade. • Assonância – disposição, em sequência, de um conjunto de palavras nas quais um som vocálico se repete, geralmente alternando sonoridade aberta com sonoridade fechada, criando um efeito sonoro expressivo. 1. a) Em 1: “salvar” (omitido no 3.º verso); em 2: “nós” (omitido no 2.º verso). Professor(a), se julgar oportuno, cabe comentar que se trata, mais especificamente, de zeugma (tipo particular de elipse que consiste na omissão de um termo já referido). 1. b) Polissíndeto (repetição da conjunção). Em 2, repete-se a conjunção “e”; em 3, a Escreva conjunção “nem”. no caderno 1. c) Anáfora (repetição de palavra/expressão) no início de uma série de frases ou versos. Em 1, repete-se “salvar”; em 2, “E todas sete”. Professor(a), no trecho 2 é válido considerar como parte da anáfora a repetição de “sete”, que, embora não ocorra no início dos versos, Leia estes trechos de textos: tem uma distribuição que contribui para o ritmo/musicalidade do texto.

Atividades 1.

TEXTO 1

Salvar a infância e a saúde, Salvar a arte, de quem censura, A democracia da ditadura, Salvar o belo, salvar o nobre, Salvar o aço (e algum cobre). FERNANDES, Millôr. Poeminha nacionalista salvatágio. In: . Papáverum Millôr. São Paulo: Círculo do Livro, [1967?]. p. 260.

TEXTO 2

Sete quedas por nós passaram E não soubemos amá-las, E todas sete foram mortas, E todas sete somem no ar, Sete fantasmas, sete crimes, Dos vivos golpeando a vida Que nunca mais renascerá. ANDRADE, Carlos Drummond de. Adeus a sete quedas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 9 set. 1982. Caderno 2, Capa. TEXTO 3

E nem piratas, nem borrascas, nem dragões Vão me impedir de ser feliz De levantar a minha âncora e partir. RAMIL, Kleiton; RAMIL, Kledir. Navega coração. Intérpretes: Kleiton e Kledir (participação especial: Céu da Boca). In: . Deu pra ti. Rio de Janeiro: Ariola, 1982.

Considerando os recursos de linguagem figurada empregados pelos poetas nos três fragmentos, responda aos itens de a a d.

a) Elipse é uma figura de linguagem que consiste em omitir/subentender uma palavra ou expressão, geralmente com o objetivo de tornar mais conciso (“enxuto”) o enunciado. Identifique exemplos dessa figura nos textos 1 e 2. b) Em 2 e em 3 identifica-se um recurso de linguagem que, além de estabelecer a conexão (articulação) entre partes do texto, contribui para a cadência/ritmo dos versos. Dê o nome dessa figura e aponte-a em ambos os fragmentos. c) Em 1 e em 2 há um outro recurso expressivo que também realça o ritmo dos versos. Nomeie essa figura de linguagem e aponte sua ocorrência nesses dois trechos. d) No texto 1, a palavra “cobre”, se correlacionada a “aço”, deve ser interpretada em sentido denotativo (literal), significando tipo de minério; no entanto, ao empregá-la entre parênteses, Millôr Fernandes teve a intenção de, por meio de uma metonímia, pôr em evidência o sentido informal dessa palavra. Esclareça qual é esse sentido e explique a metonímia. 2. Nos versos apresentados na página a seguir, o poeta Da Costa e Silva faz uso de uma assonância e de duas aliterações com o objetivo de reproduzir um determinado conjunto de sons. Leia o trecho, de preferência em voz alta, observando que nele foram omitidas duas palavras:

1. d) A metonímia consiste na troca entre palavras de sentidos contíguos/vizinhos. Millôr usa “cobre” para substituir “dinheiro”. Na linguagem informal “cobre” substitui “dinheiro”, porque antigamente as moedas (o dinheiro) eram feitas de cobre; então, nessa relação de contiguidade, o nome do objeto (moeda) é substituído pelo material de que ele era feito (cobre).

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Figuras de linguagem

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Professor(a), para não antecipar a resposta para o aluno, foi suprimida a fonte do trecho. Trata-se do poema “Engenho de madeira”, de Da Costa e Silva (In: VALLE, Oswaldo de Souza. Antologia de grandes poetas norte-brasileiros. [S.I.]: Jangada, 1970. p. 104).

Ringe e range, rouquenha, a rígida ; E, ringindo e rangendo, a a triturar, Parece que tem alma, adivinha e desvenda A ruína, a dor, o mal que vai, talvez, causar...

Considerando o efeito sonoro sugerido pelas figuras citadas, indique a alternativa cujas palavras completam adequadamente as lacunas. a) cachoeira — pedra

d) moenda — cana

b) foice — vegetação

e) serra — madeira

c) ventania — plantação 3. Leia este trecho de uma crônica: A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. COLASANTI, Marina. Eu sei, mas não devia. . A casa das palavras. In: São Paulo: Ática, 2002. p. 67-68. (Para gostar de ler).

Nesse trecho, a autora faz uso de determinados recursos de linguagem por meio dos quais revela: a) Uma sensação de prazer de viver, intensificada pelo emprego expressivo de pleonasmos que ressaltam a multiplicidade de acontecimentos da vida cotidiana. b) O prazer de participar de uma sociedade consumista, expresso por meio de hipérboles que realçam os exageros das atitudes cotidianas. c) Uma atitude de desesperança e descrença em relação à sociedade, expressa pelas referências irônicas às atitudes cotidianas. d) Uma sensação de pressa e angústia, intensificada pelo emprego expressivo de um polissíndeto que enfatiza a circularidade sem fim das ações cotidianas. e) Uma sensação de alegria, expressa pelo emprego de metáforas que simbolizam a liberdade que cada pessoa tem para tomar suas próprias decisões na sociedade.

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4. Leia este poema.

Redundâncias Ter medo da morte é coisa dos vivos o morto está livre de tudo o que é vida. Ter apego ao mundo é coisa dos vivos para o morto não há (não houve) raios rios risos. E ninguém vive a morte quer morto quer vivo mera noção que existe só enquanto existo. GULLAR, Ferreira. Redundâncias. In: . Muitas vozes: poemas. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010. p. 48.

Na composição desse poema, Ferreira Gullar faz uso da função referencial da linguagem para expor seus conceitos (ideias) a respeito da morte; ao mesmo tempo, ele explora a função poética, por meio da qual elabora a estrutura artística do texto, a fim de obter expressividade estética. Identifique a alternativa em que a análise de um desses aspectos não está de acordo com o que se pode observar no poema. a) No plano conceitual, evidencia-se o emprego intensivo de antíteses: “morte × vida”, “vivos × morto”, “vive × a morte”. b) Nos quatro primeiros versos, a presença alternada de vogais fechadas (“ê”, “ô”, “u”) e abertas (“ó”, “i”, “a”, “é”) cria uma assonância que contribui para a sonoridade da estrofe. c) Em “raios rios risos” a aliteração (repetição de sons consonantais) cria um efeito sonoro que enfatiza a cadência (ritmo regular) do verso. d) Os versos 5 e 6 repetem a estrutura sonora dos versos 1 e 2, criando, assim, uma anáfora que contribui para a cadência do poema. e) O título “Redundâncias”, que significa “repetições”, remete apenas ao aspecto sonoro do poema, e não à reflexão conceitual que o poeta propõe para o leitor.

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DA TEORIA À PRÁTICA Ponto de partida Leia os versos abaixo; depois, leia e analise o cartum. A suntuosa Brasília, a esquálida Ceilândia contemplam-se. Qual delas falará primeiro? Que tem a dizer ou a esconder uma em face da outra? [...]

Glauco/Folha Imagem

ANDRADE, Carlos Drummond de. Favelário nacional. In: . Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1985. p. 122.

Você identifica o ponto em comum entre os versos e o cartum? Nos versos de Drummond, o adjetivo suntuosa — luxuosa, rica — caracteriza Brasília; em contraposição, esquálida — pobre, desarrumada — caracteriza Ceilândia, cidade-satélite da capital. O poeta denuncia, por meio dessa antítese, o enorme contraste econômico e social entre as duas cidades vizinhas. Brasília e Ceilândia podem simbolizar, no contexto dos versos, dois “brasis” distintos: um muito rico e outro pobre, em que as pessoas lutam cotidianamente para superar as dificuldades da vida. No cartum, a desigualdade social e econômica brasileira se explicita por meio de duas figuras de linguagem: uma antítese e uma ironia. A antítese combina imagens (observe as diferenças nas roupas dos GLAUCO. Ano-novo. Folha de S.Paulo, São Paulo, 26 dez. 2000. personagens) e linguagem verbal: Paris, Londres e Japão — lugares em que tudo é caríssimo — contrapõem-se a lixão. A ironia se revela no acontecimento que a família pretende “comemorar”: o Ano-Novo. Tradicionalmente, essa data é vista como um momento de mudanças, de novos planos para o futuro; no entanto, as dificuldades econômicas e a falta de perspectivas para a solução dos problemas sociais farão com que, para muitos, o Ano-Novo seja, ironicamente, apenas mais um “ano velho”. Assim, tanto os versos como o cartum criticam uma situação que costuma ser chamada, metaforicamente, de “abismo social”: enquanto uma pequena e privilegiada parcela da sociedade vive no luxo e pode se dar a caros caprichos consumistas — comemorar o Ano-Novo no exterior, por exemplo —, uma grande parte dos brasileiros vive em condições de extrema dificuldade; muitos deles até mesmo buscando no lixo os recursos para sua sobrevivência. Figuras de linguagem

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Agora é sua vez

Escreva no caderno

Cartaz do CEDECA-BA

1. (Enem/MEC) Leia este texto:

a) b)

c) d)

e) Disponível em: <www.portaldapropaganda.com.br>. Acesso em: 29 out. 2013 (adaptado).

2. (UFMG) Leia o texto.

Livros que libertam

Os meios de comunicação podem contribuir para a resolução de problemas sociais, entre os quais o da violência sexual infantil. Nesse sentido, a propaganda usa a metáfora do pesadelo para informar crianças vítimas de abuso sexual sobre os perigos dessa prática, contribuindo para erradicá-la. denunciar ocorrências de abuso sexual contra meninas, com o objetivo de colocar criminosos na cadeia. dar a devida dimensão do que é o abuso sexual para uma criança, enfatizando a importância da denúncia. destacar que a violência sexual infantil predomina durante a noite, o que requer maior cuidado dos responsáveis nesse período. chamar a atenção para o fato de o abuso infantil ocorrer durante o sono, sendo confundido por algumas crianças com um pesadelo.

Nesse contexto, “libertam” pode ser uma alusão à diminuição da pena dos detentos que, ao lerem os livros, terão mais cedo o acesso à liberdade; sairão da prisão. Em outro sentido, pode aludir à possibilidade de os condenados, mesmo estando presos, terem acesso, pela leitura, a diferentes fontes de informação/conhecimentos/novas experiências que só existem fora do presídio e, dessa forma, mental/espiritualmente eles poderão experimentar a sensação de liberdade.

Programa de leitura em penitenciárias federais prevê redução de pena para cada obra lida e resenhada pelos detentos. Um programa do Ministério da Justiça irá distribuir 816 livros para penitenciárias federais do país com o intuito de estimular a leitura entre os detentos e, de quebra, reduzir-lhes a pena. O programa de redução, porém, até agora foi implantado em apenas duas penitenciárias: Catanduvas (PR) e Campo Grande (MS). Presos considerados de “alta periculosidade”, como Fernandinho Beira-Mar (condenado a 120 anos), poderão ler obras como O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry, a trilogia Crepúsculo, de Stephenie Meyer, De malas prontas, de Danuza Leão, além do “sugestivo” 1001 filmes para ver antes de morrer, de Steven Jay Schneider. Na penitenciária do Paraná, por exemplo, para cada livro que o detento ler e apresentar uma resenha (no prazo de 12 dias), o juiz pode conceder uma redução de até quatro dias. Cerca de 60 presos já participam do projeto na unidade, que propôs a leitura de Crime e castigo, de Dostoiévski, e Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. Revista Língua Portuguesa. São Paulo: Segmento, ano 7, n. 77, p. 8, mar. 2012.

O tom opinativo do título da reportagem “Livros que libertam” é acionado pelo trabalho com a linguagem. Explique em que consistem as leituras metafóricas presentes no título “Livros que libertam”. 3. Leia este título de notícia e responda aos itens de a a c da próxima página.

Festival oferece degustação de 500 rótulos de cervejas em São Paulo Disponível em: <http://culinaria.terra.com.br/festival-oferece-degustacao-de-500-rotulos-de-cervejasem-sp,72bac620c2f51410VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html>. Acesso em: 12 fev. 2016.

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CAPÍTULO 4

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3. c) Espera-se uma resposta afirmativa. Em rótulos constam o nome/marca do produto, suas características, “tipo” etc. Assim, entre “rótulo” e “tipo/marca” (“de cerveja”, no caso da frase) estabelece-se uma relação de contiguidade/vizinhança de sentidos que possibilita a troca de um termo por outro. Essa troca entre termos de sentidos contíguos é o que caracteriza a metonímia.

a) “Degustação” é o ato de “degustar”. O que significa “Degustar alguma coisa”?

3. a) “Degustar” significa “provar, experimentar com calma e prazer o sabor de alguma coisa”.

b) Vimos, no capítulo anterior, que tolerância pragmática é a capacidade que temos de desconsiderar e/ou descartar um determinado sentido de um enunciado quando esse sentido se mostra inadequado e/ou absurdo. Se não fizermos uso dessa habilidade linguística, que sentido absurdo (e engraçado) pode b) Pode-se imaginar que as pessoas que forem ao festival vão ter a oportunidade de comer (ou lamber) ser atribuído ao título da notícia? 3. os rótulos (pedaço de papel impresso) das cervejas. c) Para uma compreensão adequada da frase da notícia, precisamos levar em conta que nela se faz uso de uma metonímia. Você concorda com essa afirmação? Justifique.

Henfil - Bandeira Copyright

4. O primeiro cartum abaixo é de autoria de Henfil; o segundo, de Lailson. O quadro é um exemplo de “natureza-morta”, estilo de pintura em que se representam objetos inanimados (frutas, pães, garrafas, pequenos utensílios domésticos etc.). Observe as três imagens, analisando-as atentamente.

Professor(a), orientar os alunos para que observem um detalhe genial no primeiro cartum: no canto superior direito da imagem, um personagem enrola/recolhe o fio que dá forma ao losango da bandeira, sugerindo o desaparecimento total do símbolo maior do país.

Lailson – Natureza Morta

Paul Cézanne. c. 1895. Óleo sobre tela, 74  93 cm. Instituto de Arte de Chicago, Chicago

4. a) Os dois criticam a devastação ambiental no Brasil. No cartum de Lailson, há também uma crítica à inoperância do Ibama, órgão governamental responsável pela proteção aos recursos naturais e ao meio ambiente. No de Henfil, é um homem de cartola, um “poderoso”, que atua na desconstrução do símbolo nacional.

Cesto de maçãs (c. 1895), do pintor francês Paul Cézanne (1838-1906), um exemplar de natureza-morta.

Agora responda aos itens de a a c. a) Quanto ao objetivo dos dois cartuns, qual é o ponto em comum entre eles? b) No cartum de Lailson, a expressão “natureza-morta”, inscrita na plaquinha sob o quadro, ganha uma conotação irônica. Explique por quê. c) No cartum de Henfil, a inscrição “ordem e progresso” também adquire conotação irônica? Justifique.

4. b) O sentido irônico da expressão se dá porque o quadro apresenta a natureza (no caso, uma floresta) literalmente morta, destruída, diferentemente do sentido que essa expressão tem quando se refere às pinturas em que são representados objetos (seres inanimados). 4. c) Sim. A destruição das florestas, a extração e exportação das riquezas minerais e a poluição da natureza (representada pela Figuras de linguagem fumaça das chaminés) sugerem que o país está regredindo, e não vivendo uma fase de “ordem” e muito menos de “progresso”.

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Candido Portinari. 1944. Óleo sobre tela, 190 × 180 cm. Museu de Arte de São Paulo, São Paulo. Reprodução autorizada por João Candido Portinari

5. Candido Portinari, entre as inúmeras obras que criou, produziu uma série de quadros que retratam, de forma contundente, um aspecto da realidade social brasileira. Observe um dos quadros dessa série e, abaixo dele, uma charge sobre o mesmo tema.

NAVEGAR É PRECISO

Candido Portinari, artista plástico que viveu entre 1903 e 1962, é um dos pintores brasileiros que conquistaram grande prestígio internacional. Se você quiser saber mais sobre o quadro Retirantes, um dos mais representativos da obra de Portinari, ou conhecer outras pinturas dele, acesse <http://tub. im/2xxsv2> (acesso em: 6 jun. 2016).

Retirantes (1944), do pintor brasileiro Candido Portinari (1903-1962).

Nilson Azevedo. Em Antologia Brasileira de Humor J a Z. Vol 2.

Metonímia — na fala do homem (troca de palavras de sentidos vizinhos/contíguos: o nome do autor, Portinari, substitui “quadro de Portinari”); antítese (visual) — contrapõem-se a ostentação/luxo dos participantes da festa e a miséria das pessoas que passam diante da janela aberta; ironia — evidencia-se pela relação entre a fala do homem e o que ele supõe estar vendo: a abundância em que ele vive o torna tão distante da realidade social que ele confunde a realidade concreta (as pessoas famintas passando na rua) com uma representação artística que retrata e denuncia essa realidade (quadro de Portinari).

AZEVEDO, Nilson. In: Antologia brasileira de humor J a Z. Porto Alegre: L&PM, 1976. v. 2. p. 151.

Para interpretar adequadamente a crítica social expressa por essa charge, é necessário relacionar a fala do homem à cena como um todo e identificar, nessa relação, a presença de três figuras de linguagem — metonímia, antítese e ironia —, que se realizam verbal ou visualmente. Aponte a ocorrência dessas três figuras e explique como elas contribuem, conjuntamente, para a construção do sentido crítico da charge.

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CAPÍTULO 4

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E MAIS...

Figuras de linguagem nos textos do cotidiano Leia este trecho de uma música do compositor cubano Pablo Milanés, com versão para o português de Chico Buarque: A História é um carro alegre Cheio de um povo contente Que atropela indiferente Todo aquele que a negue É um trem riscando trilhos Abrindo novos espaços Acenando muitos braços Balançando nossos filhos MILANÉS, Pablo; BUARQUE, Chico. Canción por la unidad latinoamerica. Intérpretes: Milton Nascimento; Chico Buarque. In: NASCIMENTO, Milton. Clube da esquina 2. Rio de Janeiro: EMI Odeon, 1978. 2 discos sonoros. Disco 2, faixa 2.

Muito bonito, não é mesmo? O emprego da linguagem figurada, como vimos neste capítulo, é essencial para tornar mais expressivo o conteúdo da mensagem. Seja num poema, seja numa música e mesmo em nossas falas cotidianas, as figuras de linguagem, quando bem empregadas, dão um “toque especial”, um “sabor diferente” ao texto. Nesta atividade, vamos explorar mais um pouco a eficiência comunicativa, a expressividade e a beleza desses recursos linguísticos.

1. Objetivo Selecionar figuras de linguagem em textos do cotidiano e analisar a contribuição dessas figuras para a expressividade da mensagem. 2. Orientações gerais para a realização da atividade a) A turma deverá ser dividida em grupos de trabalho. b) Os grupos deverão pesquisar em jornais, revistas, sites, discos, programas de TV etc. e selecionar quatro textos ou trechos de textos de diferentes gêneros (poemas, títulos de notícias, anúncios publicitários, músicas, tiras humorísticas, piadas, entrevistas, bate-papos, discursos, textos religiosos etc.) nos quais a expressividade da mensagem se apoie em recursos de linguagem figurada. c) Se possível, os textos escritos deverão ser fotocopiados; os orais, gravados. d) Entre os quatro trechos selecionados, deve-se escolher aquele que, na opinião do grupo, representa o emprego mais interessante, mais criativo da linguagem figurada. Em seguida, esse trecho deverá ser reescrito em linguagem denotativa, isto é, usando palavras em sentido literal, eliminando, assim, as figuras de linguagem. 3. A apresentação para a turma Em data a ser combinada, os grupos (ou alguns dos grupos) apresentarão para a turma os textos selecionados. A exposição deverá abordar os seguintes aspectos: a) Identificação da(s) figura(s) usada(s) e sua classificação. b) Expressividade/eficiência comunicativa do texto, em função da(s) figura(s) nele presente(s). c) Possíveis casos de figuras muito comuns (“batidas”) e que, por isso, não atraem eficientemente a atenção dos destinatários. d) Apresentação do texto que o grupo elegeu como o mais criativo, justificando a escolha. e) Exposição, lado a lado, do texto mais criativo e sua “versão” em linguagem denotativa, e comentários sobre as diferenças mais evidentes entre eles: qual é mais interessante, atraente, original, mais gostoso de ler, ouvir etc. 4. Montagem de um painel Concluídas as apresentações, a turma poderá montar, com os textos mais interessantes, uma exposição para que os alunos das demais turmas possam lê-los.

Figuras de linguagem

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capítulo

Acentuação gráfica

5 AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livros • CADORE, Luiz Agostinho. Uso da acentuação gráfica. Barueri: Manole, 2007. • PROENÇA FILHO, Domicio. Nova ortografia da língua portuguesa: manual de consulta. Rio de Janeiro: Record, 2012. Ensaios • MORENO, Cláudio. Dicionário não é lei. In: . O prazer das palavras: um olhar bem-humorado sobre a língua portuguesa. Porto Alegre: L&PM, 2007. v. 1. • POSSENTI, Sírio. Reforma da escrita não é reforma da língua. In: . A cor da língua e outras croniquinhas. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2001. Vídeos • CONSTRUÇÃO – Chico Buarque. Produção: Biscoito Fino. Vídeo (4min3s). Disponível em: <http://tub.im/tigryo>. Acesso em: 13 fev. 2016. • ORLANDELI, Walmir Américo. Grump e o Acordo Ortográfico. [2008?] Disponível em: <http://tub.im/fogc2h>. Acesso em: 13 fev. 2016.

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INTRODUÇÃO PARA QUE SERVE A ACENTUAÇÃO GRÁFICA?

2. carijo

1. órix

[Carijo (paroxítona) = jirau (armação de varas) onde são dispostos os ramos da erva-mate para secagem.]

3. féretro

6. rubrica

4. Nobel

Atelier Sommerland/Alamy/Glow Images

5. bafari

1. Mari Swanepoel/Shutterstock.com; 2. Joel Vieira; 3. Marcos Guilherme; 4. NielsDK/ImageBroker/Glow Images; 5. imageBROKER RM/Saverio Gatto/Diomedia; 6. Século XV. Coleção particular. Foto: The Granger

Imagine que você fosse convidado a ler, em uma situação formal de comunicação, um texto no qual aparecessem as palavras abaixo. Como você as pronunciaria?

Certamente você teve mais segurança ao pronunciar as palavras 1 e 3, porque se orientou pela presença do acento gráfico; mas, nas outras quatro, que não são acentuadas, você precisou “pensar” um pouco, não foi? Agora, observe a ilustração ao lado e leia a palavra abaixo dela, escrita, por enquanto, sem qualquer preocupação quanto ao acento gráfico. Muito provavelmente você ficou em dúvida quanto à pronúncia dessa palavra, não ficou? Isso aconteceu porque ela é bem rara, e você, por talvez nunca tê-la ouvido, pode ter considerado como a tônica (sílaba mais “forte”) qualquer uma de suas três sílabas. Assim:

• na antepenúltima sílaba (proparoxítona) " silfide • na penúltima sílaba (paroxítona) " silfide • na última sílaba (oxítona) " silfide

Silfide.

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Se você for pesquisar essa palavra em um dicionário, encontrará o seguinte: sílfide • substantivo feminino 1. gênio feminino do ar na mitologia céltica e germânica da Idade Média; 2. mulher esbelta e delicada; 3. imagem vaporosa de mulher; 4. figura feminina indistinta.

sílfide " (proparoxítona) Mas... E quando a palavra não tem acento, como saber qual é sua sílaba tônica? Para analisar essa possibilidade, vamos considerar outra palavra, já adequada quanto à acentuação gráfica:

Tule — tipo de tecido fino, geralmente de seda. Embora seja uma palavra pouco comum, é bem provável que você a tenha pronunciado corretamente: “tule” (paroxítona). Para pronunciá-la assim, você utilizou uma informação que já tem sobre a acentuação das palavras: para ler como oxítona uma palavra terminada em -e, ela precisa apresentar acento gráfico (ex.: café, jacaré etc.). Como “tule” não tem acento, ela não é oxítona; então, só pode ser paroxítona. As duas palavras analisadas — sílfide e tule — permitem a seguinte conclusão:

A acentuação gráfica tem uma finalidade prática: orientar o leitor quanto à pronúncia correta das palavras que lê. Tanto a presença do acento (nas palavras que o exigem) quanto sua ausência (nas palavras que não o admitem) são fundamentais para indicar a pronúncia.

NAVEGAR É PRECISO

Academia Brasileira de Letras — Busca no vocabulário Quando você tiver alguma dúvida em relação ao acento gráfico ou à grafia de uma palavra, acesse o site da Academia Brasileira de Letras, <http://tub.im/ ki5uyc>, e clique no ícone VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa). Nessa página, você poderá verificar o registro dos vocábulos da língua portuguesa, sua grafia e sua classe gramatical. Ricardo Azoury/Pulsar

Lendo esse verbete e orientando-se pela presença do acento gráfico, você sabe pronunciar a palavra de forma correta:

Prédio da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, RJ, 2006.

AS REGRAS DE ACENTUAÇÃO GRÁFICA As regras que orientam a acentuação gráfica das palavras foram estabelecidas em 1943 e passaram por algumas pequenas alterações em 1971. Depois, em 1990, os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste — aprovaram um acordo que reformou e unificou a ortografia da língua portuguesa. O acordo, que no Brasil passou a vigorar em 2009, fixou, então, as regras atualmente em vigência. Para estudarmos as regras de acentuação, vamos subdividi-las em dois grupos:

• 1.º grupo: Regras gerais 224

• 2.º grupo: Regras complementares

CAPÍTULO 5

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Regras gerais de acentuação As regras de acentuação desse grupo tratam das palavras monossílabas, oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas e determinam a presença ou a ausência do acento gráfico na maioria absoluta das palavras de nosso idioma.

1. Palavras monossílabas tônicas Observe, nas monossílabas tônicas a seguir, as terminações em destaque e a presença (ou ausência) do acento gráfico.

chá

vi

tu

gás

rês

bis

nós

cru

dá-lo

lê-lo

li-os

pô-los

nus

Podemos, então, enunciar assim a regra de acentuação para esse tipo de palavra: FIQUE SABENDO

Monossílabas átonas e monossílabas tônicas

Acentuam-se as palavras monossílabas tônicas terminadas em: • a(s) • e(s) • o(s)

• Monossílabas átonas — são as monossílabas pronunciadas “fracamente”, isto é, com pouca intensidade; elas nunca são acentuadas. Ex.: Ela estava na festa de aniversário, mas não a vi. • Monossílabas tônicas — são aquelas pronunciadas com mais intensidade. Ex.: Tu não tens dó de Célia, mas ela não é má pessoa.

Professor(a), o Acordo Ortográfico de 1990 não introduziu nenhuma alteração na acentuação gráfica das monossílabas tônicas.

2. Palavras oxítonas Nos grupos de oxítonas abaixo, observe a terminação destacada e a presença (ou ausência do acento gráfico).

Sabará ananás rapaz

Guaporé convés lucidez

desapareci lambaris matriz

bisavô retrós veloz

urubu chuchus reluz

Belém armazéns parabéns

Gerson Gerloff/Pulsar

REGRA 1

Associando a presença ou a ausência do acento gráfico nas terminações dessas oxítonas, podemos enunciar assim a regra para esse tipo de palavra: REGRA 2

Acentuam-se as palavras oxítonas terminadas em: • a(s) • e(s) • o(s) • em/ens Pórtico de Guaporé, no Rio Grande do Sul (RS).

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3. Palavras paroxítonas Observe as terminações destacadas nas palavras paroxítonas a seguir e a presença do acento gráfico na sílaba tônica de todas elas.

louvável

hífen

repórter

sótão

cônsul

nêutron

Vítor

bênçãos

júri

húmus

tórax

órfã

tênis

bônus

fórceps

ímãs

álbum

farmácia

área

comício

fóruns

frágeis

tréguas

cáries

As palavras desses quadros exemplificam todos os casos de acentuação relativos às palavras paroxítonas. Veja, então, a regra para esse tipo de palavra: REGRA 3

Acentuam-se as palavras paroxítonas terminadas em: •l •n •r • ps • ã(s) • i(s) • u(s) •x • ão(s) • um/uns • ditongos orais ( s)

Complementos teóricos 1. Ditongo — encontro de dois sons vocálicos na mesma sílaba. Ex.: fai-xa, fa-lou, dis-tân-cia, a-frou-xei, mis-té-rio. 2. Existem palavras paroxítonas que apresentam os grupos ee ou oo. Palavras desse tipo enquadram-se na regra geral das paroxítonas e, por isso, não são acentuadas. Veja alguns exemplos: • creem (cre-em), deem (de-em), leem (le-em), veem (ve-em), releem (re-le-em), reveem (re-ve-em), descreem (des-cre-em) ž paroxítonas com terminação -em não recebem acento. Exemplos: jovem, aparecem, nuvem. • enjoo (en-jo-o), voos (vo-os), coroo (co-ro-o), destoo (des-to-o) ž paroxítonas terminadas em -o(s) não recebem acento. Exemplos: reforço, meninos, refresco, curvos.

Critério prático para acentuar as paroxítonas Já vimos, na introdução deste capítulo, que a acentuação gráfica tem por objetivo orientar o leitor quanto à pronúncia correta das palavras. Tanto a presença do acento gráfico como sua ausência dão essa orientação. Compare, por exemplo, estas duas palavras:

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jacá

jaca

[tipo de cesto feito de cipó]

[nome de uma fruta]

A presença do acento na última sílaba indica ao leitor que ele deve pronunciar tal sílaba com mais “força” que a outra; ao fazer isso, ele pronuncia a palavra como oxítona: jacá.

A ausência do acento na última sílaba indica ao leitor que não se trata de uma palavra oxítona (se fosse oxítona, teria o acento). Assim, ele pronuncia com mais “força” a penúltima sílaba, ou seja, como uma palavra paroxítona: jaca .

CAPÍTULO 5

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Vamos comparar mais alguns pares de palavras em que a presença ou a ausência do acento gráfico é determinada pelas duas regras anteriores: regra 2 (oxítonas); regra 3 (paroxítonas). • gravatá

gravata

oxítona em a(s) é acentuada (regra 2)

centavo

oxítona em o(s) é acentuada (regra 2)

• armazém

Artur Keunecke/Pulsar

• bisavô

paroxítona em a(s) não é acentuada (regra 3)

paroxítona em o(s) não é acentuada (regra 3)

item

oxítona em em/ens é acentuada (regra 2)

• funil

paroxítona em em/ens não é acentuada (regra 3)

Gravatá — nome de uma planta e também de uma cidade pernambucana.

frágil

oxítona em l não é acentuada (regra 2)

• resolver

paroxítona em l é acentuada (regra 3)

repórter

oxítona em r não é acentuada (regra 2)

paroxítona em r é acentuada (regra 3)

Esses exemplos mostram que as regras 2 e 3 se aplicam de maneira invertida e complementar. Assim: Se a oxítona terminada em certa letra é acentuada

ª

a paroxítona com mesma terminação não é acentuada.

Se a oxítona terminada em certa letra não é acentuada

ª

a paroxítona com mesma terminação é acentuada.

Portanto, para acentuar as paroxítonas, não é necessário memorizar todas as terminações apresentadas na regra 3; basta aplicar invertidamente a regra 2 (das oxítonas). Vamos então considerar, por exemplo, as palavras hífen, pólen, éden, próton e íon (e seus plurais) e aplicar o critério da inversão: • Oxítona terminada em -n não tem acento (reveja a regra 2), então paroxítona terminada em -n precisa ter: hífen, pólen, éden, próton, íon. • Oxítona terminada em -ens tem acento (regra 2), então paroxítona terminada em -ens não precisa ter: hifens, polens, edens. • Oxítona terminada em -ons não tem acento (regra 2), então paroxítona terminada em -ons precisa ter: prótons, íons.

Complementos teóricos 1. O critério prático de inversão oxítona 1 paroxítona não é válido para as paroxítonas terminadas em ditongo (+s), que sempre são acentuadas. Exs.: tolerância, frágeis, comércio. 2. Palavras paroxítonas terminadas em -am nunca são acentuadas. Ex.: voltam, dificultam.

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NASA/ESA/A. Simon, Goddard Space Flight Center

4. Palavras proparoxítonas Considere estas proparoxítonas e observe o que elas têm em comum:

transatlântico

técnico

quadrúpede

câmara

Júpiter

ínterim

relêssemos

pósitron

Então, a partir desses exemplos, podemos generalizar a acentuação das proparoxítonas: Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar, tem 1 300 vezes o tamanho da Terra.

REGRA 4

Acentuam-se todas as palavras proparoxítonas, independentemente de suas terminações.

Professor(a), o Acordo Ortográfico de 1990 não alterou a regra das proparoxítonas.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Regras gerais de acentuação Recebem acento gráfico as palavras: 1. Monossílabas tônicas terminadas em -a(s), -e(s), -o(s). Exs.: gás, crê, nós. 2. Oxítonas terminadas em: -a(s), -e(s), -o(s), -em/ens. Exs.: voltará, vocês, robô, manténs, convém, Itanhaém. 3. Paroxítonas terminadas em: -l, -i(s), -n, -u(s), -r, -x, -ps, -ão(s), -ã(s), -um/uns, ditongo (+ s). Exs.: potável, oásis, pólen, vírus, néctar, fênix, fórceps, sótãos, órfã, fórum, álbuns, fósseis. 4. Proparoxítonas — todas. Exs.: lógico, cibernético, desânimo, catástrofe, Antártida. 1. a) biquínis — bátis (tipo de arbusto) — ianomâmi (subgrupo indígena da Amazônia) — cáqui (nome de uma cor)

Atividades

1. b) sulfite — belvedere (terraço elevado; mirante) — almocreve (condutor de animais de carga) — hermitage (tipo de vinho)

Escreva no caderno

1. Vimos, no item “Critério prático para acentuar as paroxítonas”, da exposição teórica, que a regra das oxítonas e a das paroxítonas se aplicam de maneira complementar e invertida. Em cada uma das séries a seguir, a primeira palavra é oxítona e já está corretamente acentuada; as outras quatro são paroxítonas. Aplicando o critério da inversão oxítonas 1 paroxítonas, transcreva e acentue as paroxítonas que exigem acento gráfico. a) saputi " biquinis – batis – ianomami – caqui b) ateliê " sulfite – belvedere – almocreve – hermitage

reciclável — pênsil (suspenso por cabos) — jângal (floresta) — inconsútil

c) corpanzil " reciclavel – pensil – jangal – inconsutil (sem costuras ou emendas; inteiriço)

d) patamar " carater – nectar – conteiner –cariaster caráter — néctar — contêiner — cariáster (conjunto de cromossomos) e) reféns " jovens – itens – germens – abdomens Todas já estão corretas. f) pirex " torax – latex – onix – larix tórax — látex — ônix (pedra semipreciosa) — lárix (nome de um tipo de árvore) Professor(a), as palavras incomuns deste exercício possibilitam mostrar aos alunos que, conhecendo a pronúncia de uma palavra, mesmo que desconhecida, é possível determinar se ela deve ou não receber acento gráfico.

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CAPÍTULO 5

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Professor(a), há outra grafia possível para abdômen: abdome.

2. Compare a acentuação das formas de singular e de plural das palavras destes dois grupos: Grupo 1 armazém — armazéns

Grupo 2

vaivém — vaivéns refém — reféns

hífen — hifens pólen — polens abdômen — abdomens

a) Quanto à posição da sílaba tônica, qual é a diferença entre as palavras dos dois grupos? As do grupo 1 são oxítonas; as do grupo 2, paroxítonas.

b) Por que as palavras do grupo 1 recebem acento gráfico tanto na forma de singular quanto na de plural? Porque, segundo a regra, tanto as oxítonas terminadas em -em quanto as terminadas em -ens devem ser acentuadas.

c) Justifique o acento gráfico das formas de singular do grupo 2. Paroxítonas terminadas em -n devem ser acentuadas. d) Comparando as formas de plural dos dois grupos, explique por que hifens, polens e abdomens Pela complementaridade/inversão das duas regras, como oxítonas terminadas em -ens (armazéns, vaivéns, não recebem acento gráfico. reféns) recebem acento, as paroxítonas de mesma terminação (hifens, polens, abdomens) não precisam ser acentuadas. [Outros exemplos: jovens, homens, nuvens, mensagens.]

3. Na tirinha abaixo, o personagem faz referência à eliminação do trema, uma das mudanças determinadas pelo Acordo Ortográfico de 1990. Leia-a e justifique o acento gráfico das palavras acentuadas. Orlandeli – Grump

[Cabular = faltar, não comparecer.]

5. Considere as palavras a seguir, já adequadas quanto à acentuação gráfica:

1. xamata [tipo de manto de seda] 2. lucanari [nome de um peixe da região amazônica] 3. dossel [armação de tecido sobre tronos, camas etc.] a) b) c) d) e)

Elas são, pela ordem: proparoxítona — paroxítona — oxítona paroxítona — paroxítona — oxítona oxítona — oxítona — paroxítona paroxítona — oxítona — oxítona paroxítona — proparoxítona — paroxítona

Arquivo pessoal

4. As palavras a seguir, de uso raro na língua portuguesa, foram transcritas sem os eventuais acentos gráficos. Orientando-se pela indicação entre parênteses, transcreva as que exigem acento e acentue-as. a) hiporquema (paroxítona) — tipo de canto coral da Grécia antiga. b) penfigo (proparoxítona) — nome de uma doença. pênfigo c) rego (oxítona, com “o” fechado) — pano que mulheres enrolam na cabeça. regô (comparar com “rego” — sulco para escoamento de água) d) senembu (oxítona) — camaleão. e) alcacer (paroxítona) — fortaleza; palácio fortificado. alcácer f) palafrem (oxítona) — cavalo elegante e adestrado. palafrém g) sifonoforo (proparoxítona) — tipo de animal marinho. sifonóforo Walmir Americo Orlandeli (1974-) Ilustrador brasileiro. Dos seus livros publicados, destaca-se Grump, ganhador do prêmio HQ Mix. Grump, um de seus personagens mais conhecidos, é protagonista de uma série de tiras e cartuns em que são discutidas as regras do Novo Acordo Ortográfico.

3. já (monossílaba tônica terminada em -a); visionário (paroxítona terminada em ditongo); ortográfico (proparoxítona); gênios (paroxítona terminada em ditongo); é (monossílaba tônica terminada em -e); gramática (proparoxítona). Acentuação gráfica

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6. Nas palavras escritas, tanto a presença quanto a ausência do acento gráfico orientam o leitor em relação à pronúncia correta. Considere, então, esta palavra, já adequadamente escrita quanto à acentuação gráfica:

masseter (nome de um músculo da face) [Masseter — oxítona com o e aberto.

b) c) d) e)

MedicalRF/Easypix

a)

A respeito da pronúncia dessa palavra, identifique a afirmação incorreta: Ela não é proparoxítona, pois, se fosse, teria acento no a, já que toda palavra desse tipo é acentuada graficamente. Ela não é paroxítona, pois, caso fosse, teria acento na sílaba se, já que paroxítonas terminadas em -r recebem acento gráfico. Ela é oxítona e, como termina em -r, não é acentuada, pois oxítonas com essa terminação não recebem acento gráfico. Ela é oxítona, mas, pela grafia, não é possível saber se a vogal da sílaba ter tem pronúncia aberta (/é/) ou fechada (/ê/). Para obter essa informação, é necessário consultar um dicionário. Nada se pode concluir a respeito da sílaba tônica dessa palavra, pois somente em palavras acentuadas graficamente é possível identificar esse tipo de sílaba.

AS REGRAS DE ACENTUAÇÃO GRÁFICA (CONTINUAÇÃO) Na primeira parte deste capítulo, estudamos as quatro regras gerais de acentuação, que determinam a presença ou a ausência do acento gráfico nas monossílabas tônicas, nas oxítonas, nas paroxítonas e nas proparoxítonas. Vamos, agora, conhecer as demais regras, que tratam de casos mais específicos de acentuação das palavras.

Regras complementares de acentuação 5. Acentuação dos ditongos abertos éi, ói, éu Os ditongos abertos éi, ói e éu, dependendo da palavra em que ocorrem, podem ou não ser acentuados. Observe, nos grupos de palavras a seguir, a presença ou a ausência do acento gráfico nesses três ditongos.

Monossílabas méis, réis dói, róis céu, véus

Oxítonas a-néis, cor-déis cor-rói, len-çóis cha-péus, es-car-céu

Paroxítonas i-dei-a, pla-tei-a he-roi-co, ji-boi-a

Esses três grupos de exemplos possibilitam a seguinte conclusão: REGRA 5

Os ditongos abertos éi, ói e éu: • são acentuados em monossílabas e em oxítonas; • não são acentuados em paroxítonas.

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FIQUE SABENDO

1. Ditongo fechado e ditongo aberto • Ditongo fechado é pronunciado com a boca mais fechada. Exs.: cadeira, bois, perdeu. • Ditongo aberto é pronunciado com a boca mais aberta. Ex.: caixa, papéis, herói, colmeia, asteroide, povaréu. 2. Hiato é o encontro de dois sons vocálicos, cada um em uma sílaba. Exs.: ca-o-lho, hin-du-ís-mo, Ra-ul.

Professor(a), o Acordo Ortográfico de 1990 eliminou o acento dos ditongos abertos ei e oi das palavras paroxítonas (e somente delas). CAPÍTULO 5

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6. As vogais i e u na segunda vogal do hiato As palavras a seguir são apresentadas com suas respectivas divisões silábicas. Observe os hiatos em destaque e a presença ou a ausência do acento gráfico nas vogais i e u.

ieus pa-ís a-te-ís-mo ba-la-ús-tre Cra-te-ús

i e u com outra letra ra-iz pos-su-ir Ra-ul tran-se-un-te

i e u seguidas de nh ra-i-nha ven-to-i-nha mo-i-nho gra-u-nha

Tambaú: cidade paulista; Crateús: cidade cearense; graunha: semente de uva. Ivan Cosenza de Souza © Henfil

i e u sozinhas ro-í-do ra-í-zes gra-ú-na Tam-ba-ú

Esses quatro grupos de exemplos possibilitam inferir a regra de acentuação do i e do u quando essas vogais participam de hiato: REGRA 6

Nos hiatos, o i e o u são acentuados desde que: • representem a 2.a vogal do hiato; • apareçam sozinhos (ou seguidos de s) na sílaba tônica; • não estejam seguidos de nh.

Graúna é o nome de um pássaro e da irônica e questionadora personagem criada pelo cartunista Henfil.

Complementos teóricos

A acentuação do i e do u na segunda vogal do hiato apresenta duas particularidades, que ocorrem em pouquíssimas palavras do idioma. São elas: 1. Se o i ou o u aparecem depois de ditongo: • Em palavras paroxítonas, não são acentuados. Exs.: cau-i-la (= mesquinho), fei-u-ra. • Em palavras oxítonas, são acentuados. Exs.: Pi-au-í, tui-ui-ú. 2. Nas palavras em que o i ou o u se repetem no hiato, essas vogais não recebem acento. Exs.: va-di-i-ce, xi-i-ta, su-cu-u-ba (nome de uma árvore).

FIQUE SABENDO

7. Verbos ter e vir Esses dois verbos apresentam uma particularidade em algumas de suas formas. Compare os dois quadros:

3.ª pessoa do singular: “e” Ele tem Ele vem

3.ª pessoa do plural: “ê” Eles têm Eles vêm

Então: REGRA 7

Acentua-se o e das formas verbais têm e vêm, indicativas de plural.

Compare a diferença na grafia e na acentuação destes dois grupos de formas verbais: 1. Crer, dar, ler e ver • Ele crê — Eles creem • Ele lê — Eles leem • Ele vê — Eles veem • Que ele dê — Que eles deem 2. Ter e vir • Ele tem — Eles têm • Ele vem — Eles vêm

Acentuação gráfica

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Complemento teórico Nos verbos derivados de ter (manter, conter, deter etc.) e de vir (intervir, convir, provir etc.), a 3.a pessoa do singular passa a receber acento agudo — pela regra das oxítonas terminadas em -em — e a 3.a pessoa do plural preserva o circunflexo das formas originais têm e vêm. Exemplos: • Ele mantém " Eles mantêm

• Ele intervém " Eles intervêm

• Ele contém " Eles contêm

• Ele convém " Eles convêm

• Ele detém " Eles detêm

• Ele provém " Eles provêm

8. Acento diferencial Em 2009, começaram a vigorar no Brasil as novas regras de ortografia definidas pelo acordo aprovado em 1990 pelos países integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Uma das novas regras definidas pelo acordo determina que o acento diferencial é obrigatório somente em duas palavras do idioma, para diferenciá-las de suas respectivas homônimas. Veja, a seguir, esses casos e os exemplos.

Forma acentuada • pôr (verbo; significa “colocar”) • pôde (indica tempo passado) • Você vai pôr a carta no correio?

«°

Forma não acentuada • por (preposição) • pode (indica tempo presente) O ônibus não passa por esta rua.

acento obrigatório; significa “colocar”

• Ontem ela não pôde vir aqui.

«°

preposição (sem acento)

Por favor, quem pode me ajudar?

acento obrigatório; indica tempo passado

sem acento; indica tempo presente

Professor(a), se julgar necessário, comentar que em apenas duas palavras o acento diferencial é opcional: 1. “dêmos, demos” (1.a pessoa do plural do presente do subjuntivo). Ex.: Você exige que nós dêmos/demos apoio à sua proposta?/ 2. “fôrma/forma” (recipiente, molde). Ex.: O cozinheiro tirou o bolo da fôrma/forma.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Regras complementares de acentuação gráfica 1. Acentuação dos ditongos abertos éi, ói, éu Esses três ditongos: • são acentuados em monossílabas (exs.: réis, dói, céus) e em oxítonas (exs.: pastéis, corrói, Ilhéus); • não são acentuados em paroxítonas (exs.: europeia, paranoico, assembleia, ovoide). 2. Hiato com i ou u na segunda vogal O i e o u, na segunda vogal do hiato, são acentuados desde que sozinhos (ou  s) na sílaba e sem nh depois (exs.: graúdo, atraída, Luís, faísca, carnaúba). 3. Formas dos verbos ter e vir • No singular: e " [ele] tem; [ele] vem. • No plural: ê " [eles] têm; [eles] vêm. 4. Acento diferencial obrigatório Somente as palavras pôr ( colocar) e pôde (passado do verbo “poder”) recebem, obrigatoriamente, o acento diferencial.

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CAPÍTULO 5

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Atividades

Escreva no caderno

1. Considere este conjunto de palavras:

2. O sistema é de antes de 2009. Antes da reforma ortográfica, qualquer palavra com ditongo aberto éu, éi, ói (na tônica) era acentuada; depois, só as monossílabas (céu, dói etc.) e as oxítonas (troféu, infiéis, rouxinóis, Niterói etc.) permaneceram com acento; as paroxítonas (estreia, paranoico, jiboia, geleia, tireoide etc.) deixaram de ser acentuadas.

Amazônia — amazônico — reciclável — acarajé — herói —ajudá(-la) — Grajaú — Nélson — vitalício — Itajaí — Mossoró — ônix — conhecê(-lo) — Uberlândia — lápis — Petrópolis — cordéis — atraí(-los) — profético — Paraíba — Itaúna — troféu Identifique quais delas são acentuadas pela: ajudá(-la), a) regra das oxítonas; acarajé, Mossoró, conhecê(-lo)

b) regra das paroxítonas;

Amazônia, reciclável, Nélson, vitalício, ônix, Uberlândia, lápis

c) regra das proparoxítonas;

Itajaí, Paraíba, d) regra da segunda vogal do hiato; Grajaú, atraí(-los), Itaúna

e) regra dos ditongos abertos. herói, cordéis, troféu

amazônico, Petrópolis, profético

2. Como você sabe, o sistema de correção gramatical dos programas de edição de texto, ao identificar uma palavra com erro de acentuação, automaticamente acrescenta ou elimina o acento gráfico. Um estudante, ao digitar uma série de palavras em um computador, não colocou acento gráfico em nenhuma delas e observou que o sistema de correção acrescentou os acentos. Assim:

céu — estréia — paranóico — troféu — jibóia — infiéis — geléia — rouxinóis — dói — Niterói — tireóide O Acordo Ortográfico de 1990, que entrou em vigor em 2009, alterou algumas regras de acentuação. Veja uma dessas alterações: • Regra antes do acordo: “Acentuam-se todos os ditongos abertos éu(s), éi(s), ói(s).” • Regra depois do acordo: “Acentuam-se os ditongos abertos éu(s), éi(s), ói(s) em monossílabas e oxítonas.” Reveja as palavras digitadas pelo aluno e responda: o sistema de correção do editor de texto que ele usou é atual ou foi produzido antes de 2009? Justifique. 3. Um estudante, ao escrever uma crônica, resolveu dar a uma personagem o mesmo nome de uma simpática cidade do Rio de Janeiro que ele havia visitado durante as férias, mas ficou em dúvida em relação ao acento gráfico. Então, fez aos colegas a seguinte pergunta: [“Porciúncula” significa “pequena porção”, “pequena parte”].

— A palavra Porciuncula precisa ser acentuada?

Qual dos seguintes colegas respondeu corretamente à pergunta do aluno? a) André: Como é um nome próprio o acento gráfico é opcional. b) César: A palavra precisa ser acentuada porque o u é a 2.a vogal do hiato. c) Ângela: Ela não pode ser acentuada porque o u, embora seja a 2.a vogal do hiato, forma sílaba com a letra n, o que impede o emprego do acento. d) Íris: Pela regra da 2.a vogal do hiato, a palavra realmente não pode ser acentuada; porém, sendo uma proparoxítona, ela deveria ser acentuada. Em casos como esse, em que há divergência entre duas regras, o acento gráfico é facultativo. e) Márcia: Pela regra da 2.a vogal do hiato, essa palavra não pode ter acento, mas pela regra das proparoxítonas, ela precisa ser acentuada. Quando uma regra impede a presença do acento e outra o exige, prevalece a regra que exige o acento. A palavra deve, portanto, ser acentuada: Porciúncula. 3. Professor(a), é interessante comentar com os alunos que os nomes próprios seguem normalmente as regras de acentuação (ver exemplos dos nomes das alternativas). Individualmente, no entanto, cada pessoa escreve seu nome conforme foi originalmente grafado na certidão de nascimento.

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4. Considere as palavras do quadro abaixo, já adequadamente escritas quanto à acentuação gráfica, e assinale a afirmação incorreta.

1. tulipa

2. calembur

3. ruim

4. ibero

5. mister

a) Se a palavra 1 fosse proparoxítona, teria acento no u; se fosse oxítona, teria acento no a. A sílaba tônica, portanto, é o li e a palavra é paroxítona. b) Raciocínio semelhante ao aplicado à palavra 1 vale para a palavra 4. c) Para que a palavra 2, que significa “trocadilho”, tivesse a tônica no lem, essa sílaba deveria ter acento no e, pois paroxítona terminada em -r é acentuada. Trata-se, portanto, de uma palavra oxítona. d) Na língua coloquial, a palavra 3 é pronunciada com a tônica no u (ruim); na variedade culta formal, no entanto, ela é oxítona, mas não recebe acento gráfico pois o i, embora seja a segunda vogal do hiato, não está sozinho na sílaba. e) Na palavra 5, que significa “profissão ou intuito; necessidade”, a vogal tônica é o i, ou seja, a palavra é paroxítona. [No item e: se a tônica fosse o “i”, ela seria paroxítona terminada em -r, por isso teria acento; nessa palavra o “e” é aberto e tônico: mister /é/; não se trata da palavra inglesa “mister” (equivalente a senhor, em português).]

5. As palavras a seguir são nomes de cidades brasileiras e todas devem ser acentuadas. Transcreva-as colocando os acentos e reunindo-as em grupos, de acordo com as regras de acentuação referidas nos itens de a a e.

Candoi ´ (PR)

Itau´ (RN)

Coreau´ (CE)

^ (SC) Agron omica

Canta´ (RR)

Caem ´ (BA)

Adrianopolis ´ (PR) Cerqueira Cesar ´ (SP)

Codo´ (MA) Florai´ (PR)

Tiete^ (SP)

Barra do Chapeu ´ (SP)

Alc

^ antara

(MA)

Col i´der (MT) Chu i´ (RS) Elo´ i Mendes (MG) F^ enix (PR) Agrol^ andia (SC) Gurinhem ´ (PB)

Xex´eu (PE)

a) Regra das oxítonas (5 palavras). Cantá — Gurinhém — Tietê — Caém — Codó

b) Regra das paroxítonas (4 palavras). (Cerqueira) César — Fênix — Colíder — Agrolândia

c) Regra das proparoxítonas (3 palavras). Agronômica — Adrianópolis — Alcântara

d) Regra do i/u na segunda vogal do hiato (4 palavras). Coreaú — Floraí — Chuí — Itaú

e) Regra dos ditongos abertos (4 palavras). Candói — Xexéu — Elói (Mendes) — (Barra do) Chapéu

6. Reescreva as frases de acordo com o exemplo. Se necessário, consulte a regra 7 (página 231).

• Ele [manter] o ritmo na corrida, mas os outros não [manter]. • Ele mantém o ritmo na corrida, mas os outros não mantêm. a) Ela [rever] seus textos, mas seus colegas não [rever]. revê — reveem b) Quem [reler] o texto entende melhor; mas poucos o [reler]. relê — releem c) Esta proposta [convir], mas as outras não [convir]. convém — convêm d) Esta caixa [conter] livros; as outras [conter] roupas. contém — contêm

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CAPÍTULO 5

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DA TEORIA À PRÁTICA Ponto de partida Vimos, na exposição teórica deste capítulo, que a finalidade da acentuação gráfica é orientar o leitor quanto à pronúncia das palavras. Vamos então supor que, em uma situação formal de comunicação, você precisasse ler um texto para uma plateia e nele encontrasse as seguintes palavras, já corretamente acentuadas: 1. pudica (pessoa recatada, tímida, envergonhada); 2. boêmia (vida alegre e despreocupada; vadiagem); 3. condor (tipo de águia da Cordilheira dos Andes); 4. gratuito (que não exige pagamento); 5. misantropo (pessoa que sente aversão à convivência com outras pessoas).

Antes de continuar, responda: como você as pronunciaria? Aplicando as regras de acentuação estudadas, você deveria raciocinar assim, em cada caso: 1. pudica — se fosse proparoxítona teria acento no u (pois toda proparoxítona é acentuada); se fosse oxítona, teria acento no a. A sílaba tônica, portanto, é o di e a palavra é pronunciada assim: pudica (paroxítona). Ma

2. boêmia — como o e está acentuado, ele é a vogal tônica; a pronúncia, portanto, é bo-ê-mia. (Obs.: Na variante coloquial, essa palavra é pronunciada com a tônica no mi. Assim: bo-e-mi-a.)

rk

3. condor — se fosse paroxítona, estaria acentuada no con (paroxítona terminada em -r tem acento); como não tem acento, não é paroxítona; disso se conclui que a pronúncia é condor (oxítona).

Jo

ne

s

Condor.

4. gratuito — a palavra não tem acento, então não se pode pronunciar “gra-tu-í-to”, porque o i ficaria na segunda vogal do hiato e a palavra teria que ter acento. A pronúncia, portanto, é gra-tui-to (com a tônica no u). 5. misantropo — a pronúncia não pode ser com a tônica no san — “misantropo” —, pois, nessa hipótese, a palavra seria proparoxítona e precisaria ter acento; também não pode ser com a tônica no po, pois ela seria oxítona terminada em -o, o que exigiria o acento gráfico. Resta, portanto, a pronúncia como paroxítona: misantropo.

Você percebeu como a acentuação gráfica é importante quando precisamos falar em público, em situações formais de comunicação? Acentuação gráfica

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Agora é sua vez

Escreva no caderno

1. Existem palavras que são pronunciadas de maneiras um pouco diferentes, dependendo do falante que as emprega. É o caso, por exemplo, do nome dado à grade de metal usada para assar carne: alguns dizem grêlha (com e fechado), outros dizem grélha (com e aberto).

Levando em conta esse fato, ao escrever essa palavra, de acordo com as regras de acentuação, você deverá: a) colocar acento (agudo ou circunflexo) no e, para indicar como você, individualmente, pronuncia essa palavra. b) colocar qualquer um dos dois acentos no e, já que as duas pronúncias coexistem. c) colocar sempre acento agudo, pois a pronúncia correta é com e aberto. d) colocar sempre acento circunflexo, pois a pronúncia correta é com e fechado. e) não colocar acento algum, pois, independentemente de a vogal tônica e ser aberta ou fechada, palavras paroxítonas terminadas em -a não recebem acento gráfico. 2. Leia este trecho do conto “Uma história de mil anos”, de Monteiro Lobato. Stubblefield Photography/Shutterstock.com

Hu...hu... É como [...] soluça a juriti. Dois hus — um que sobe, outro que desce. O destino do u!... Veludo verde-negro transmutado em som — voz das tristezas sombrias. Os aborigines, maravilhosos dominadores das coisas, possuiam o senso impressionista da onomatopeia. Urutáu, urú, urutú, inambú — que sons definirão melhor essas criaturinhas solitarias, amigas da penumbra e dos recessos? LOBATO, Monteiro. Negrinha. São Paulo: Brasiliense, 1959. p. 90.

transmutado: modificado, transformado;

Juriti.

recesso: lugar discreto, escondido, resguardado.

As regras de acentuação atualmente em vigor foram estabelecidas em 1943 e passaram por algumas pequenas alterações em 1971 e em 1990. Monteiro Lobato não concordava com o sistema de acentuação de 1943 e, por isso, não o utilizava em seus textos. O fragmento citado, extraído de uma obra do escritor publicada em 1959, está transcrito com a acentuação original usada por Lobato. a) Esse trecho contém sete palavras em desacordo com as atuais regras de acentuação. Transcreva-as, tal como elas estão grafadas no texto. Aborigines, possuiam, urutáu, urú, urutú, inambú, solitarias. b) Escreva essas palavras, corrigindo-as quanto à acentuação. c) O Formulário Ortográfico de 1943 determinava que os ditongos abertos éu, éi e ói, na sílaba tônica, deveriam ser sempre acentuados. O Acordo Ortográfico de 1990 eliminou o acento desses ditongos em palavras paroxítonas. Por essa nova regra, que palavra do texto voltou a ser escrita tal como Monteiro Lobato a escrevia? 2. b) aborígines (proparoxítona); possuíam (i na segunda vogal do hiato); urutau/uru/urutu/inambu (oxítonas terminadas em -u

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não têm acento); solitárias (paroxítona terminada em ditongo  s). 2. c) Lobato escrevia onomatopeia (sem acento), desrespeitando o Formulário de 1943, em vigor na época da publicação de seu livro; segundo o Formulário, a grafia correta era “onomatopéia”. Como o Acordo de 1990 eliminou o acento desses ditongos em paroxítonas, a CAPÍTULO 5 palavra onomatopeia (paroxítona: o-no-ma-to-pei-a) voltou a ser escrita sem o acento no ditongo aberto.

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3. No texto a seguir, foram omitidos os acentos gráficos de todas as palavras que deveriam ser acentuadas. Identifique essas palavras, transcreva-as e acrescente, em cada uma, o acento necessário. Folhapress

1921 Rio de Janeiro

Pixinguinha Anunciam que o conjunto Os Batutas atuara em Paris e espalha-se a indignação na imprensa brasileira. O que vão pensar do Brasil os europeus? Acharão que este pais e uma colonia africana? No repertorio dos Batutas não ha arias de opera nem valsas, e sim maxixes, lundus, corta-jacas, batuques, cateretes, modinhas e recem-nascidos sambas. Esta e uma orquestra Acompanhado de outros músicos, Pixinguinha, de negros que tocam coisas de negros: os artigos exortam o um dos mais respeitados instrumentistas e governo a que evite tamanho desprestigio. Imediatamente o compositores brasileiros, toca saxofone em um Ministerio das Relações Exteriores esclarece que Os Batutas festival de música (1955). não vão em missão oficial nem oficiosa. Pixinguinha, um dos negros do conjunto, e o melhor musico do Brasil. Ele sabe disso, e o assunto não lhe interessa. Esta muito ocupado buscando em sua flauta, com endiabrada alegria, os sons roubados dos passaros. 3. atuará — país — é — colônia — repertório — há — árias — ópera — cateretês — recém — é — desprestígio — Ministério — é — músico — está — pássaros

GALEANO, Eduardo. O século do vento. Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 84. (Memória do fogo, 3.)

TEXTO 1

HENFIL. A volta do Fradim: uma antologia histórica: charges. São Paulo: Geração Editorial, 1994.

Avani Stein/Folhapress

Ivan Cosenza de Souza © Henfil

4. O texto 1, abaixo, é do cartunista Henfil (1944-1988); o texto 2, da próxima página, é do jornalista e escritor contemporâneo Ruy Castro e já foi apresentado no capítulo 2. Leia-os.

Henfil (1944-1988) Henfil (1944-1988), nome artístico de Henrique de Souza Filho, foi um jornalista, escritor e talentoso cartunista mineiro. Seus cartuns, publicados principalmente no jornal O Pasquim, evidenciavam seu posicionamento crítico em relação à situação social e econômica do Brasil de sua época e sua incansável oposição à ditadura militar que governava o Brasil. Henfil, que era hemofílico, faleceu aos 43 anos, vítima de Aids, contraída provavelmente numa transfusão de sangue.

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5. a) O contexto (uma aula sobre a reforma ortográfica) possibilita entender que a professora faz uma pergunta metalinguística, esperando que os alunos apontassem a mudança no aspecto gráfico de uma palavra da frase: frequente, que antes do acordo ortográfico era escrita com trema, passou a ser grafada sem esse sinal.

TEXTO 2

RIO DE JANEIRO — Há anos, quando se anunciou que haveria um “Rock in Rio 2”, jovens começaram a circular pela cidade usando camisetas com o símbolo do “Rock in Rio 1” e uma frase dizendo: “I was”. Ou seja: “Eu era”. Perguntei-me: por que “Eu era”? No começo, escapou-me a relação entre a imagem e a inscrição. Claro que, depois de árduo exercício intelectual, deduzi que a camiseta queria dizer “Eu fui” ou “Eu estava lá” (no “Rock in Rio 1”), caso em que o correto em inglês seria “I went” ou “I was there”. […] E viva o verbo tó bé. CASTRO, Ruy. Verbo tó bé. Folha de S.Paulo, 3 set. 2011. p. A2. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0309201105.htm>. Acesso em: 13 fev. 2016.

Considere o cartum de Henfil e o texto de Ruy Castro e responda aos itens a seguir: a) (Vunesp/SP) Tomando como referência o sistema ortográfico, explique por que Henfil, ao aportuguesar, com intenção irônica, a expressão inglesa “my brother”, colocou o acento agudo em “bróder”. O acento agudo se justifica por se tratar de uma palavra paroxítona terminada em -r na qual o “o” tem pronúncia aberta (tal como em repórter, por exemplo).

b) Se as palavras da expressão “tó bé” (texto 2) existissem em português e fossem pronunciadas da forma como o autor pretendeu indicar, elas realmente seriam acentuadas graficamente? Justifique. Sim. O acento se explicaria pelo fato de serem, ambas, monossílabas tônicas; uma terminada em -o (tal como “nó” e “pó”), e outra terminada em -e (tal como “pé” e “fé”).

c) Qual é o ponto em comum entre esses dois textos, considerando a opção dos autores pelo “aportuguesamenambos o aportuguesamento tem a intenção de criticar, por meio da ironia, o processo de aculturação do brasileiro, to” de termos do inglês? Em submetido à influência do inglês. No cartum o “aportuguesamento”, e a consequente ironia, evidencia-se pela grafia; no texto de Ruy Castro, pela forma caricaturesca de reproduzir a pronúncia do verbo to be.

5. O Acordo Ortográfico de 1990 determinou, entre outras pequenas alterações nas regras de acentuação, a eliminação do trema, que era usado no “u” dos grupos que, qui, gue, gui quando neles o “u” tem pronúncia átona, como em consequente, tranquilo, aguenta e pinguim. A respeito dessa alteração em REFORMA ORTOGRÁFICA nosso sistema ortográfico, leia o cartum ao lado:

a) Que resposta a professora esperava que seus alunos apresentassem para a pergunta que ela faz à turma?

Renato Machado

Você já aprendeu, no capítulo 1, que, em sua função metalinguística, a linguagem é usada para analisar/discutir a própria linguagem e, em sua função referencial, é usada para transmitir informações e tem foco no próprio conteúdo da mensagem. Considerando essas possibilidades de uso da linguagem e o contexto do cartum, responda aos itens a seguir.

Renato Macedo. Disponível em: <http://www.revistaumacoisa.com>. Acesso em: 7 jun. 2016.

b) A resposta do aluno evidencia que ele pode ter interpretado a pergunta da professora de diferentes maneiras. Quais são elas e qual das possíveis interpretações é fundamental para criar o efeito de humor crítico do cartum?

5. b) Ele pode ter entendido que a professora se referia a uma mudança ortográfica na frase; nesse caso, sua resposta possibilita duas interpretações: 1.ª) Ele ignora que, antes da reforma, frequente tinha trema e, depois, deixou de tê-lo, por isso ele não identifica mudança na frase da lousa; 2.ª) Ele sabe que frequente perdeu trema, mas como o sentido dessa palavra não mudou, ele afirma que no sentido da frase nada mudou. Por outro lado, ele pode estar se referindo ao 238 CAPÍTULO 5 oconteúdo informativo/referencial da frase e (re)afirmando que o ensino público sempre foi e continua sendo tratado com descaso. Essa é a interpretação que, reforçada pelo aspecto visual decadente da sala de aula,faz emergir o sentido crítico do cartum.

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capítulo

6

Estrutura e formação de palavras

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livros • CARVALHO, Nelly. O que é neologismo. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Primeiros Passos). • FALCÃO, Adriana. Pequeno dicionário das palavras ao vento. São Paulo: Salamandra, 2013. Crônica • CASTRO, Ruy. Uma parede no fundo. Folha de S.Paulo, 12 set. 2012. Disponível em: <http://tub.im/ai984c>. Acesso em: 13 fev. 2016. Site • INSTITUTO INTERNACIONAL DA LÍNGUA PORTUGUESA. Disponível em: <http://tub.im/g7kugc>. Acesso em: 13 fev. 2016.

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INTRODUÇÃO

Professor(a), a atividade da seção “E mais...” da página 256 requer preparação antecipada.

Veja alguns significados da palavra estrutura, transcritos de um dicionário:

estrutura • substantivo feminino

1 organização, disposição e ordem dos elementos essenciais que compõem um corpo (concreto ou abstrato) Ex.: e. de uma empresa; e. da célula 2 aquilo que dá sustentação a alguma coisa; armação, arcabouço Ex.: e. de um prédio; e. do corpo humano 3 objeto construído Ex.: estruturas de concreto armado [...] ESTRUTURA. In: HOUAISS, Antônio (Org.). Dicionário eletrônico Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

FIQUE SABENDO

Morfologia (morphé = = forma + logia = estudo) é a parte da gramática que estuda a palavra sob o ponto de vista de sua forma. A morfologia tem por objetivos: • Identificar, na estrutura das palavras, os elementos (as “partes”) que as constituem. • Determinar o processo de formação, isto é, o mecanismo linguístico que deu origem às palavras. • Determinar a classe gramatical das palavras e estudar suas possíveis flexões, isto é, suas variações de forma.

As palavras são constituídas por “partes”, isto é, por elementos formadores que se combinam adequadamente para dar a elas uma estrutura. Neste capítulo, vamos identificar esses elementos estruturais e estudar como eles se combinam para constituir as palavras.

OS ELEMENTOS ESTRUTURAIS DAS PALAVRAS © 2011 King Features Syndicate/Ipress

Leia esta tira humorística:

BROWNE, Chris. Hagar. Folha de S.Paulo, São Paulo, 13 jun. 1991.

Se você consultar um dicionário, encontrará lá a palavra vegetariano — “que ou quem se alimenta exclusivamente de vegetais” —, mas não encontrará frugivorista, palavra empregada pelo garoto para se referir a seus novos hábitos alimentares.

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CAPÍTULO 6

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Embora frugivorista não conste dos dicionários, é possível, a partir dos elementos significativos mínimos que entram em sua formação, compreender o que ela quer dizer e entender por que Hagar, que adora carne, ficou tão decepcionado com a “nova” alimentação do filho. Observe:

frugi

+

Elemento que significa “produto da terra; do campo”.

vor

ista

+

Elemento que significa “que come; que se alimenta de”.

Elemento que significa “adepto, praticante, seguidor”.

Essa palavra é, portanto, formada por três elementos significativos, ou morfemas, que, reunidos, dão-lhe forma e significado: frugivorista quer dizer “adepto/praticante de uma alimentação constituída de produtos do campo (cereais, frutas etc.)”. Ou seja, a alimentação do garoto pouco vai mudar... A análise da palavra acima leva-nos ao seguinte conceito:

Morfemas são as menores unidades linguísticas que se combinam para constituir a estrutura formal e a significação das palavras. Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas (seção “Complementação teórica” do capítulo 6) o item “Morfema”.

Classificação dos morfemas Em uma palavra, dependendo de sua estrutura, podem ocorrer diferentes tipos de morfemas, cada um com um nome e com uma função específica. Veja o quadro:

Morfema

Função na estrutura da palavra

Exemplos

Radical

Exprime o significado básico da palavra; a ele juntam-se outros morfemas.

invencível desatentamente

Prefixo

Junta-se antes do radical para formar uma nova palavra.

invencível desatentamente

Sufixo

Junta-se depois do radical para formar uma nova palavra.

invencível desatentamente

Desinências nominais

Juntam-se a nomes, indicando o gênero (masculino/feminino) e o número (singular/plural).

gatinha gatinhas

Desinências verbais

Indicam a pessoa gramatical, o número, o tempo e o modo nas formas verbais.

cantávamos cantávamos

Vogais temáticas

São as vogais a, e e i que, nas formas verbais, posicionam-se entre o radical e as desinências.

cantávamos venderiam partissem

Complementos teóricos 1. Existem palavras formadas unicamente pelo radical. Exs.: paz, flor, rua. 2. Duas ou mais palavras formadas a partir de um mesmo radical denominam-se palavras cognatas. Exs.: amigo, amizade, inimigo, amistoso, amigavelmente. 3. Vogais e consoantes de ligação são elementos estruturais que, em certas palavras, posicionam-se entre dois morfemas para tornar a pronúncia dessas palavras mais eufônica, isto é, mais agradável ao ouvido. Exs.: • café (radical) + cultura (radical) “cafecultura” cafeicultura • pau (radical) + ada (sufixo) “pauada” paulada

PARA QUE SABER?

Saber identificar os morfemas (principalmente radical, prefixo e sufixo) que constituem os vocábulos é um pré-requisito indispensável para o estudo dos processos de formação de palavras.

Professor(a), se julgar necessário, cabe enfatizar que as vogais/consoantes de ligação não são morfemas, pois não têm conteúdo semântico nem exprimem informação gramatical (gênero, número, tempo etc.).

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CLASSIFICAÇÃO DAS PALAVRAS QUANTO À FORMAÇÃO Como nascem as palavras da língua?

Marcos Guilherme

Há muitos anos, um alto representante do Governo Federal, referindo-se à impossibilidade de haver alterações em um plano econômico implementado pelo governo, fez a seguinte afirmação: “O plano é imexível”. Naquela ocasião, surgiram muitas brincadeiras e piadas com a palavra “imexível”, porque, embora sua formação seguisse um mecanismo muito comum nas palavras do português — prefixo + radical + sufixo —, ela era “estranha” à língua; era um neologismo. O tempo passou, a palavra foi sendo usada por outros falantes e acabou incorporada ao idioma. Atualmente “imexível” aparece em dicionários e faz parte do VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras). É mais ou menos assim que muitas palavras vão nascendo. É claro que nem toda palavra nova passa automaticamente a fazer parte do idioma; muitas não “pegam”; outras, no entanto, são rapidamente incorporadas ao vocabulário dos falantes e, depois, dicionarizadas. A língua portuguesa atual é constituída por quase 400 mil palavras. É evidente que, por volta de 1300, quando o português passou a existir como um idioma independente, ele não tinha essa enorme quantidade de vocábulos. Com o passar do tempo, no entanto, o léxico — conjunto de palavras e expressões da língua — foi sendo ampliado, na maioria absoluta dos casos, pela criação de novas palavras a partir de elementos já existentes no próprio idioma e, em menor parte, pela inclusão de palavras emprestadas de outras línguas. Apenas como curiosidade, veja a origem de algumas palavras do nosso idioma:

Palavra

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O QUE DIZEM OS LINGUISTAS Neologismo (neo = = novo + logos = palavra) significa palavra nova. Estão os neologismos ligados a todas as invenções nos diversos ramos de atividade humana, seja arte, técnica, ciência, política e economia. [...] Ao incorporá-los a meu vocabulário ativo e incluí-los na minha linguagem, sinto-me participante do mundo, das suas evoluções e seus problemas. CARVALHO, Nelly. O que é neologismo. São Paulo: Brasiliense, 1984. p. 8.

Professor(a), se julgar necessário/ oportuno, cabe comentar que morfemas como o diminutivo -inho e expressões fixas como “bater as botas” também fazem parte do léxico (cf. PERINI, Mário A. Gramática descritiva do português. São Paulo: Ática, 1996).

Idioma(s) de origem

sambódromo

quimbundo [uma língua africana] (“samba”) + grego (“-dromo”)

mexer

latim

imexível

latim (“i-”) + latim (“mexer”) + latim (“-ível”)

abajur

francês

planalto

latim (“plano”) + latim (“alto”)

deletar

inglês (to delete) + latim (“-ar”)

samurai

japonês

alface

árabe

pitanga

tupi

CAPÍTULO 6

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Palavras primitivas, derivadas e compostas Fabio Colombini

Se considerarmos as palavras quanto à sua formação, podemos subdividi-las em três grandes grupos. Veja, por exemplo, os destaques nestes versos:

O dia abriu seu para-sol bordado De nuvens e de verde ramaria. E estava até um fumo, que subia, Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado. (Mario Quintana)

fumo: fumaça. Amanhecer no Pantanal mato-grossense.

As palavras “dia”, “nuvens” e “verde”, por não se formarem a partir de outras palavras da língua, denominam-se primitivas; “bordado”, “ramaria”, “minuciosamente” e “desenhado” formaram-se a partir de outras palavras já existentes (bordar, rama, minúcia, desenhar), por isso denominam-se derivadas; “para-sol” originou-se da junção de duas palavras que já existiam (para + sol), por isso é uma palavra composta. Portanto, quanto à formação, uma palavra pode ser:

Palavra primitiva Palavra que não se formou a partir de outra já existente no idioma.

Palavra derivada Palavra formada a partir de uma única palavra (ou radical) do idioma.

Palavra composta Palavra formada por duas (ou mais) palavras ou radicais já existentes.

Existem também no idioma muitas palavras formadas, conjuntamente, por composição e derivação. Veja estes exemplos: • norte + rio + grand[e] + ense • rádio + tele + graf + ista

norte-rio-grandense radiotelegrafista

PARA QUE SABER?

Conhecer os processos que formam as palavras possibilita compreendê-las melhor quanto ao seu conteúdo significativo e, muitas vezes, quanto à intenção com que elas foram usadas num ato de comunicação (uma conversa, uma notícia, um anúncio publicitário, um trecho de poesia ou romance etc.). Isso você poderá verificar facilmente em vários exercícios deste capítulo.

PROCESSOS DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS (1a. PARTE) A partir de palavras primitivas, podem-se criar outras palavras por diferentes mecanismos de derivação ou de composição. Vamos, a seguir, conhecer esses processos.

Derivação

Professor(a), a respeito da distinção entre derivação e flexão, ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas, o item 2 da seção “Complementação teórica”.

Derivação é um processo geral que possibilita formar uma palavra nova — a derivada — a partir de uma única outra palavra já existente. Dependendo de como se realiza, a derivação subdivide-se em cinco tipos: prefixal, sufixal, parassintética, imprópria e regressiva. Estrutura e formação de palavras

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Derivação prefixal Esse processo dá origem a novas palavras segundo este esquema geral:

derivada prefixal

prefixo + palavra primitiva Exemplos:

Professor(a), se julgar oportuno, cabe comentar que certas palavras se formam por derivação prefixal a partir de outras que já apresentam prefixo. Ex.: cobrir " descobrir " redescobrir.

•  des  fazer

desfazer

prefixo

derivada prefixal

palavra primitiva

•  semi  círculo prefixo

semicírculo

palavra primitiva

derivada prefixal

Derivação sufixal Esquema geral da derivação sufixal:

palavra primitiva + sufixo

Professor(a), cabe comentar que a derivação sufixal pode ocorrer a partir de palavra que já apresenta sufixo. Ex.: ponta " ponteiro " ponteirinho.

•  árvor[e]  edo palavra primitiva

arvoredo derivada sufixal

sufixo

•  jardim  agem palavra primitiva

sufixo

jardinagem Paulo Fridman/Pulsar

Exemplos:

derivada sufixal

derivada sufixal

Palácio de Cristal, no Jardim Botânico, em Curitiba (PR).

Complemento teórico

Existem palavras formadas por derivação prefixal seguida de derivação sufixal (ou vice-versa). Exemplo: religar [derivação prefixal] •

religação [derivação prefixal e sufixal]

ligar ligação [derivação sufixal]

Derivação parassintética Nesse processo, um prefixo e um sufixo juntam-se simultaneamente à palavra (ou radical) primitiva. Temos, então, o seguinte esquema geral:

prefixo + palavra primitiva + sufixo

derivada parassintética

Exemplos: • es + fri[o] + ar prefixo

sufixo

palavra primitiva

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esfriar

derivada parassintética

• en + frac[o] + ecer prefixo

sufixo

enfraquecer derivada parassintética

palavra primitiva

CAPÍTULO 6

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Qual a característica básica da parassíntese? O que caracteriza a parassíntese é o fato de o prefixo e o sufixo juntarem-se simultaneamente à palavra primitiva. Vamos considerar, por exemplo, a formação da palavra desalmado: • des + alma " desalma Como não existe essa palavra na língua, conclui-se que não pode ter ocorrido a junção individual, isolada do prefixo.

• alm[a] + ado " almado Essa palavra também não existe na língua, portanto não ocorreu a junção só do sufixo.

Agora veja: • des + alm[a] + ado " desalmado Como essa palavra existe na língua, conclui-se que a junção dos dois afixos (prefixo e sufixo) foi simultânea, caracterizando uma parassíntese.

A maioria absoluta das palavras formadas por parassíntese são verbos. Veja outros exemplos: • en + charco + ar " encharcar

• a + sócio + ar " associar

• es + claro + ecer " esclarecer

Complemento teórico Como diferenciar parassíntese de derivação prefixal e sufixal ? Critério prático Elimine o prefixo e o sufixo da palavra em estudo e observe: • Se, com pelo menos uma dessas eliminações, a palavra preservar um sentido, trata-se de uma derivação prefixal e sufixal. Exs.: infelizmente (existe infeliz; existe também felizmente); improvável (embora não exista “improv[a]”, existe provável). • Se, feitas separadamente as eliminações do prefixo e do sufixo, a palavra deixar de ter sentido, trata-se de formação por parassíntese. Exs.: anoitecer (não existe “anoit[e]”, nem “noitecer”); subterrâneo (não existe “subterr[a]” nem “terrâneo”). FIQUE SABENDO

Derivação imprópria Sabemos que nos dicionários, imediatamente depois de cada palavra, aparece indicada a classe gramatical a que mais comumente ela pertence. Por exemplo: brilhante — adj. — Que brilha, reluzente, cintilante. Essa indicação informa ao leitor que “brilhante” é uma palavra da classe gramatical dos adjetivos.

No entanto, dependendo de como a frase é construída, a palavra pode se transferir de sua classe usual (“comum”) para outra classe gramatical. Assim, por exemplo: • Ela ganhou um brilhante de presente. Nessa frase, essa palavra é substantivo (dá nome a um objeto). Ocorreu, então, uma mudança da classe da palavra: adjetivo " substantivo.

Esse mecanismo, que consiste em mudar uma palavra de uma classe gramatical para outra, sem alterar a sua forma, denomina-se derivação imprópria.

Substantivação A ocorrência mais comum de derivação imprópria se dá quando uma palavra de uma classe gramatical qualquer passa para a classe dos substantivos. Para isso, basta antepor um artigo ou pronome à palavra. Assim: • viver (verbo) — o viver (substantivo) • sofrer (verbo) — meu sofrer (substantivo) • não (advérbio) — um não (substantivo) Esse processo denomina-se substantivação, e as palavras que passam a substantivo denominam-se palavras substantivadas.

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Veja outros exemplos de derivação imprópria: • Não adianta falar grosso, que você não me assusta! Essa palavra, no dicionário, é adjetivo (atribui característica aos seres — ex.: livro grosso), mas, nessa frase, associa-se ao sentido do verbo, indicando o modo de falar, por isso funciona como advérbio. Essa mudança de classe (adjetivo " advérbio) constitui uma derivação imprópria.

• No Pantanal, o nascer das estrelas torna lindas as noites escuras. No dicionário “nascer” é verbo, mas nessa frase funciona como substantivo, pois dá nome ao momento em que alguma coisa surge, começa.

Derivação regressiva Esse processo de derivação dá origem a substantivos indicadores de ação, pelo acréscimo das vogais -a, -e ou -o ao radical de verbos. Os substantivos que assim se formam denominam-se derivados regressivos. Veja, neste quadro, alguns exemplos:

Verbo

Radical do verbo

Vogal acrescida ao radical

Derivado regressivo [substantivo indicador de ação]

vender

vend-

a

venda

empatar

empat-

e

empate

inventar

invent-

o

invento

Empregando esses derivados regressivos em frases, teríamos, por exemplo: • Se você concordar, concluiremos amanhã a venda do prédio. • No final do jogo, a seleção conseguiu o empate com a seleção do Uruguai. • É verdade que seu amigo quer patentear um invento genial que ele criou?

Museu Rodin, Paris. Foto: Jose Peral/Easypix

Complementos teóricos 1. Todos os substantivos formados por derivação regressiva terminam em a/e/o e são indicadores de ação (“resgate”, “ataque”, “beijo”, “compra” etc.). Se, no entanto, a palavra dá nome a um objeto ou substância (“lâmina”, “piche”, “prego” etc.), ela não é derivada regressiva. Compare os exemplos: • Com um beijo ele se despediu da namorada e partiu. Substantivo indicador de ação (terminado em -o) " derivado regressivo formado a partir do verbo “beijar”, que é palavra primitiva.

• O fogo espalhou-se rapidamente pelo interior do museu. Substantivo (terminado em -o), mas não indica ação " não é derivado regressivo (é palavra primitiva).

2. Existem também muitos substantivos indicadores de ação que se formam por derivação sufixal, e não por derivação regressiva. Veja estes exemplos: • levantamento

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• preparação

• pisadela

• demissão

O beijo, do francês Auguste Rodin (1840-1917).

CAPÍTULO 6

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Classificação das palavras quanto à formação • Primitiva: não se forma de outra palavra. Ex.: plano, simples. • Derivada: forma-se de outra palavra da língua. Ex.: desfolhar (des + folh[a] + ar). • Composta: forma-se de duas ou mais palavras. Ex.: pontiaguda (ponta + aguda).

Processos de formação de palavras (1ª. parte) Derivação A derivação pode ser de cinco tipos: • Prefixal: prefixo + palavra primitiva. Exs.: desleal, imperfeito, subentender, entrelinhas. • Sufixal: palavra primitiva + sufixo. Exs.: bondade, definição, envolvimento, patriotismo. • Parassintética: prefixo + palavra primitiva + sufixo. Exs.: esclarecer, aproximar, envelhecer, esvaziar. • Imprópria: a palavra muda de classe, sem alterar a forma. Exs.: viver (verbo)

o viver (substantivo).

• Regressiva: forma substantivos indicadores de ação, pelo acréscimo de a/e/o ao radical de verbos. sustento (derivado regressivo). Exs.: sustent[ar] (verbo)

Atividades

Escreva no caderno

1. (Unifesp-SP) Leia esta opinião a respeito de um projeto de adaptação que visa a facilitar a leitura de obras de Machado de Assis:

É melhor que o sujeito comece a ler através de uma adaptação bem-feita de um clássico do que seja obrigado a ler um texto ilegível e incompreensível segundo a linguagem e os parâmetros culturais atuais. Depois que leu a adaptação, ele pode pegar o gosto, entrar no processo de leitura e eventualmente se interessar por ler o Machadão no original. Agora, dar uma machadada em um moleque que tem PS3, Xbox, 1 000 canais a cabo e toda a internet à disposição é simplesmente burrice. (Ronaldo Bressane, http://entretenimento.uol.com.br)

Os dois termos em destaque, derivados por sufixação, reportam a Machado de Assis. Tal recurso atribui aos substantivos, respectivamente, sentido de:

a) pejo e intimidade.

d) simpatia e ironia.

b) ironia e simpatia.

e) tamanho e humor.

c) humor e reverência. 2. Considere as duas palavras do quadro a seguir e, a respeito de suas estruturas mórficas, assinale a afirmação correta.

escurecer — esclarecer a) Elas se formaram a partir de um par de antônimos — escuro  claro —, por isso seus significados também são antônimos. b) Ambas apresentam o prefixo es-, que tem, nas duas, o mesmo valor semântico. [Escurecer não apresenta prefixo; apenas sufixo -ecer.]

c) Ambas apresentam o prefixo es-, mas em cada uma delas esse prefixo tem um valor semântico diferente. d) A primeira é formada por dois morfemas: radical + sufixo; a segunda, por três: prefixo + radical + sufixo. [Escur[o] + ecer " escurecer; es + clar[o] + ecer " esclarecer.]

e) As duas apresentam os mesmos tipos de morfemas.

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armado) e prefixal (des + armado desarmado); “desalmado” formou-se por derivação 5. c) Não. “Desarmado” formou-se por derivação sufixal (arma + ado desalmado), uma vez que o prefixo e o sufixo agregam-se simultaneamente à palavra primitiva (não existe, por exemplo, “almado”). parassintética (des + alma + ado

3. Leia este trecho do poema “Num planeta enfermo”, de Carlos Drummond de Andrade. [...] Pesadelo? Sinal dos tempos? Jeito novo de punir cidades, pois a Bíblia esgotou os castigos de água e fogo? Entre flocos de espuma detergente vão se findar os dias lentamente de pecadores e não pecadores se pecado é viver entre rios sem peixe e chaminés sem filtros e monstrimultinacionais, onde quer que a valia valha mais do que a vida? [...] ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Nova Aguilar: Rio de Janeiro, 1988. p. 784-785.

A respeito da palavra monstrimultinacionais (verso 8), identifique a afirmação correta: a) A relação de sentido entre esse neologismo e os demais elementos contextuais evidencia que a palavra foi criada pelo poeta com a intenção de enaltecer a importância das grandes empresas para o desenvolvimento de uma região, apesar dos problemas ambientais gerados por elas. b) O neologismo é uma referência valorativa; enaltece as dimensões físicas gigantescas das empresas e o imenso poder econômico de que essas corporações internacionais dispõem. c) No neologismo, o primeiro elemento formador acrescenta à palavra original uma carga semântica de valor negativo, denunciando a postura inconsequente das grandes empresas, que, ávidas por lucros, não se preocupam com os danos ambientais provocados por suas atividades industriais. d) Nesse contexto, a palavra em questão não funciona como neologismo, uma vez que seu significado pode ser adequadamente depreendido pelo leitor. e) Nada se pode afirmar a respeito do neologismo, porque, sendo ele uma palavra inventada pelo poeta, não tem um significado compreensível para o leitor.

5. d) Sim. “Desalmado” formou-se por parassíntese, assim como “espalhar” (es + palha + ar). Em cada uma delas, o prefixo e o sufixo agregam-se simultaneamente à palavra primitiva. Professor(a), convém comentar que não existe o verbo “palhar”.

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4. No conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de Guimarães Rosa, o protagonista, Nhô Augusto, é um sertanejo briguento, valentão e cruel. Certa ocasião, jagunços inimigos o espancam cruelmente e marcam sua pele com ferro em brasa. Abandonado para morrer, é salvo por um casal, mãe Quitéria e pai Serapião. Leia um trecho do conto em que Nhô Augusto conversa com mãe Quitéria: — Desonrado, desmerecido, marcado a ferro feito rês, mãe Quitéria, e assim tão mole, tão sem homência, será que eu posso entrar no céu?! ROSA, João Guimarães. A hora e a vez de Augusto Matraga. In: . Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 385.

Uma das características do estilo literário de Guimarães Rosa é a criação de neologismos por meio dos quais se revelam aspectos peculiares de seus personagens ou do que ele narra 4. a) Neologismo: homência (radical homem + sufixo ou descreve. -ência). Esse mesmo morfema ocorre, por exemplo, em carência, ausência, dormência, paciência etc.

a) Transcreva o neologismo desse trecho, identifique seus morfemas e indique pelo menos duas outras palavras dicionarizadas que também sejam formadas por esses mesmos elementos 4. b) O personagem afirma que está “desonrado, desmerecido, mórficos. marcado a ferro [...], tão mole”, ou seja, ele se sente humilhado, rebaixado, sem força física e moral. “Homência”, portanto,

b) Que sentido(s) tem(têm), nesse contexto, esse contrapõe-se a essas características, sugerindo neologismo? significações associadas a honra, dignidade, respeito dos outros, altivez, ânimo, força física, entusiasmo moral etc.

5. Considere estas quatro palavras:

1. desarmado

3. espalhar

2. desalmado

4. espelhar

a) Identifique, se houver, o sufixo de cada uma delas. 1. -ado; 2. -ado; 3. -ar; 4. -ar. b) Identifique, se houver, o prefixo de cada uma delas. 1. des-; 2. des-; 3. es-; 4. Não tem prefixo. c) As palavras 1 e 2 formaram-se pelo mesmo processo? Justifique. Resposta no alto da página. d) E as palavras 2 e 3? Justifique. e) E as palavras 3 e 4? Justifique. 5. e) Não. “Espalhar” formou-se por derivação parassintética (es + palha + ar); “espelhar”, por derivação sufixal (espelho + ar). Em “espelhar” o es não é prefixo; é a sílaba inicial da palavra primitiva “espelho”.

CAPÍTULO 6

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PROCESSOS DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS (2ª. PARTE) Na primeira parte deste capítulo, estudamos os diferentes casos de derivação; agora vamos conhecer a composição e também alguns outros processos secundários de formação de palavras.

Composição André Seale/Pulsar

Observe a formação das duas palavras destacadas neste quadro:

• passa + tempo " passatempo • plano + alto " planalto As palavras passatempo e planalto têm, quanto à formação, uma semelhança e uma diferença: • A semelhança: cada uma delas é composta por outras palavras já existentes no idioma. • A diferença: as duas palavras que formam passatempo, ao se juntarem, não sofreram alteração alguma; dizemos por isso que elas foram justapostas. Já na formação de planalto, uma das palavras sofre alteração em sua forma: a palavra plano perdeu o o; dizemos, por isso, que as duas se aglutinaram. Assim, classificando, quanto à formação, as duas palavras em estudo, temos:

Planalto sobre o Cânion Fortaleza em Cambará do Sul (RS).

• passatempo " composta por justaposição • planalto " composta por aglutinação A composição, portanto, pode ser de dois tipos:

Composição por justaposição

Composição por aglutinação

As palavras que se unem não sofrem alteração e continuam a ser

Pelo menos uma das palavras que participa da composição

faladas (e escritas) exatamente como eram antes da composição.

sofre alteração em sua pronúncia (e em sua grafia).

Exemplos:

Exemplos:

• cata-vento (cata + vento)

• alviverde (alvoX + verde)

• malmequer (mal + me + quer)

• outrora (outraX + hXora)

Outros processos de formação de palavras Além da derivação e da composição, que são os dois processos básicos de formação de palavras, existem alguns outros que, embora sejam menos produtivos, também contribuem para a formação de novas palavras no idioma. Estrutura e formação de palavras

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Veja o quadro:

Processo de formação

Conceito

Hibridismo

Forma palavras por meio da combinação de elementos mórficos (radicais, sufixos etc.) de idiomas diferentes. Exs.: televisão " tele (grego) + visão (latim) surfista " surf (inglês) + ista (latim)

Onomatopeia

Sigla

Palavras formadas pelas letras iniciais das várias palavras que compõem um nome. Exs.: Enem — Exame Nacional do Ensino Médio Projeto Tamar — (Tartaruga Marinha) Consiste em reduzir o tamanho de uma palavra até um limite mínimo que não impeça a sua compreensão. Exs.: motocicleta " moto microcomputador " micro Gabriel Castro/Arquivo pessoal

Redução vocabular

Processo que forma palavras que imitam sons ou ruídos. Ex.: Só à noite o tique-taque do relógio me incomodava.

Duke

Eduardo dos Reis Evangelista (1973-)

DUKE. Disponível em: <www.dukechargista.com.br>. Acesso em: 13 fev. 2016. Nessa charge, as onomatopeias estão reproduzindo ruídos que os proprietários desses carros consideram que sejam “sons musicais”; o personagem, no entanto, parece ter uma ideia um pouco diferente, não é?

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Processos de formação de palavras (2ª. parte)

Eduardo dos Reis Evangelista, o Duke, é um ilustrador e cartunista brasileiro. Foi premiado com o Troféu HQ Mix e é o organizador do BH Humor, o Salão Internacional de Humor Gráfico de Belo Horizonte. Duke publica suas charges no jornal O tempo — Super Notícia e também na Revista CNT.

Composição Os tipos de composição são dois: • Composição por justaposição — as palavras que se juntam não se alteram, mantendo sua integridade sonora e gráfica. Exs.: girassol, pé-de-meia. • Composição por aglutinação — pelo menos uma das palavras que se juntam sofre alteração. Exs.: pernalta (perna + alta); pontiaguda (ponta + aguda);

Outros processos de formação de palavras • Hibridismo — reunião de elementos de idiomas diferentes. Exs.: goiabeira (tupi + latim); internet (latim + inglês). • Onomatopeia — palavras que imitam sons/ruídos. Exs.: Na internet, com alguns cliques, abre-se um mundo sem fronteiras. • Sigla — palavra constituída pelas letras iniciais de outras que formam um nome. Ex.: ONU (Organização das Nações Unidas). • Redução vocabular — palavra resultante da diminuição de algumas sílabas de uma palavra maior. Exs.: cine (cinema); pneu (pneumático).

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CAPÍTULO 6

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Atividades

Escreva no caderno

1. Considere estes dois verbetes, transcritos do Dicionário Houaiss eletrônico: 1. boquirroto • adjetivo e substantivo masculino que ou quem não consegue guardar segredos; indiscreto, boca-rota 2. boca-rota • adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros m.q. boquirroto

Relativamente a essas duas formas, assinale a afirmação incorreta: a) Sabendo-se que roto(a) significa “esburacado(a), rasgado(a)”, conclui-se que em ambas ocorre um processo metafórico de atribuição de sentido.

b) Elas constituem formas variantes, isto é, grafias ligeiramente diferentes de uma mesma palavra, tal como acontece também com muitas outras palavras: loira — loura, relampear — relampejar — relampadejar — relampaguear etc. c) Ambas formaram-se por composição, processo geral segundo o qual duas ou mais palavras (ou radicais) já existentes se combinam para constituir uma nova palavra. d) A primeira formou-se por composição por aglutinação; a segunda, por composição por justaposição. e) Como se trata da mesma palavra, ambas se formaram pelo mesmo processo: composição por justaposição.

2. Em uma prova escolar, uma das questões perguntava se as palavras planalto e chuveiro eram formadas pelo mesmo processo e pedia aos alunos que justificassem a resposta. Um dos estudantes Apenas parcialmente. Em planalto ocorreu composição por aglutinação (plano + alto), mas em chuveiro não se juntam duas respondeu o seguinte: palavras/radicais, portanto não houve composição; trata-se de um caso de derivação sufixal (radical chuv + sufixo eiro).

As duas são formadas por composição por aglutinação, porque nas duas aconteceu alteração na forma de uma das palavras: “plano” perdeu o “o” e “chuva” perdeu o “a”. Pergunta-se: A resposta dada por esse aluno está correta? Justifique. 3. No trecho de texto a seguir, o narrador descreve uma paisagem vista do interior de um carro em movimento. Leia-o.

Botafogo etc. Beiramarávamos em auto pelo espelho de aluguel arborizado das avenidas marinhas sem sol. Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam o verde dos montes interiores. No outro lado azul da baía a Serra dos Órgãos serrava. Barcos. [...] Copacabana era um veludo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas da cidade. Botafogo etc. In: Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswaldo de Andrade, Editora Globo, São Paulo. © Oswald de Andrade.

Considere as palavras abaixo, presentes no texto, e responda aos itens de a a d da próxima página. 1. auto 4. marinhas

2. espelho

3. arborizado

5. bandeiranacionalizavam

Professor(a), se considerar oportuno, comentar com os alunos que Oswald de Andrade (1890-1954) foi um poeta paulistano. Desde cedo entrou em contato com a cultura de vanguarda, tendo sido um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922. Estrutura e formação de palavras

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3. d) “bandeiranacionalizavam” (flexão do verbo “bandeiranacionalizar”) formou-se por dois processos: composição por justaposição e derivação sufixal (bandeira + + nacional + -izar). É importante observar que, na forma “bandeiranacionalizavam”, o “-iz” é a parte invariável do sufixo e “-avam” é a desinência verbal.

a) Como se classifica, quanto à formação, a palavra 2? 3. a) Espelho é primitiva (não se formou de outra da língua).

3. b) Arborizado — 1ª. derivação: árvore (latim: arborem) +

b) Qual delas se formou por duas derivações sucessivas? Justifique. + izar " arborizar; 2ª. derivação: arborizar + ado " arborizado. c) As palavras 1 e 4 formaram-se pelo mesmo processo? Justifique.

3. c) Não; “auto” formou-se por redução vocabular (a partir de automóvel); “marinhas” formou-se por derivação sufixal (mar + inhas).

d) Descreva o processo de formação do neologismo e explique, no contexto do trecho, o que ele significa.

No romance O coronel e o lobisomem, o narrador-protagonista, chamado Ponciano de Azeredo Furtado, narra suas aventuras e façanhas como proprietário da fazenda Sobradinho, que ele herdara do avô. No trecho abaixo, Ponciano relata o momento em que, algum tempo depois de receber a herança, ele e seu advogado estão finalmente concluindo a documentação que definia as divisas de suas terras com as dos fazendeiros vizinhos. Leia-o e responda às questões 4 e 5.

Marcos Guilherme

Valeu a pena o trabalho. Pernambuco Nogueira, a poder de leis e artimanhas, não só limpou as propriedades de agravos e roubalheiras, como adentrou suas leis em terra que não era minha. Refuguei: — Sou lá homem disso, doutor! Quero só o que é meu. Mas um aguardenteiro de nome Cicarino Dantas, com engenho de cachaça em Paus Amarelos, quis jogar a demanda no terreno do atrevimento. Avisaram a ele: — Esse Ponciano é o tal que em dia dos antigos estuporou um valentão de circo de cavalinhos. Deu de ombros. Não levava medo de homem, coisa que acabou desde a inventoria do pau-de-fogo. Era camarada vingancista e garantiu que o coronel do Sobradinho não pegava o tempo das águas com vida no corpo. Como fosse mês de agosto, aproveitei para fazer ironização: — Pois diga a esse boi de chocalho que ainda tenho mês e meio para rebentar o chifre dele. CARVALHO, José Cândido de. O coronel e o lobisomem. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. p. 19-20.

Professor(a), se julgar oportuno, comentar com os alunos que José Cândido de Carvalho (1914-1989) foi um escritor modernista brasileiro. Iniciou a carreira como jornalista e obteve grande reconhecimento por conta de sua obra O coronel e o lobisomem.

4. Considere, no texto, as palavras roubalheiras (1o. parágrafo) e aguardenteiro (3o. parágrafo) e res4 a) • Não. Roubo(s) refere-se a uma (ou algumas) ocorrência(s) em que se praticou a ação de roubar; roubalheira ponda aos itens a e b. indica uma grande quantidade de roubos, realizados de forma continuada, sistemática, aberta, escandalosa.

a) O verbo roubar é uma palavra primitiva, da qual derivam as palavras roubo e roubalheira. Identifique o processo de formação dessas duas derivadas. a) roubo [substantivo indicador de ação e terminado em o] " derivação regressiva; roubalheira " derivação sufixal.

• No contexto da narrativa, seria válido substituir roubalheiras por roubos? Justifique. por aglutinação: água + ardente " aguardente; b) Em relação à palavra aguardenteiro: b) 12.)o.) composição derivação sufixal: aguardente + eiro " aguardenteiro. o

• Essa palavra originou-se por dois processos de formação ocorridos em sequência. Quais foram eles? • Considerando que aguardente é sinônimo de cachaça, seria adequado, no contexto da narrativa, substituir aguardenteiro por cachaceiro? Justifique. Não. O personagem era aguardenteiro (fabricante de

aguardente); cachaceiro tem carga semântica negativa e geralmente é empregada em relação a quem bebe aguardente de forma assídua e descontrolada.

5. No penúltimo parágrafo, o coronel Ponciano emprega três palavras que, embora não estejam dicionarizadas, podem ser facilmente compreendidas pelo leitor, por analogia com outras palavras de significação equivalente. a) Transcreva do texto essas três palavras e relacione a cada uma delas a palavra dicionarizada correspondente. Inventoria (dicionarizada: “invenção”); vingancista (dicionarizada: “vingativo”); ironização (dicionarizada: “ironia”). b) Considerando as características da personalidade do coronel que podem ser percebidas no texto, que imagem ele pretendeu passar de si próprio ao usar as palavras referidas em a?

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Ao usar tais palavras (que o coronel supõe existirem), ele procura exibir sua capacidade de “falar difícil” para passar uma imagem de pessoa refinada, culta; que “fala bem”. Essas palavras, por não existirem, reforçam/evidenciam a ideia de que Ponciano é uma pessoa rude e de escassa formação intelectual. Professor(a), esse item explora, sem nomenclatura específica, o conceito de ethos. A respeito desse conceito, ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas, o item 4 da seção “Complementação teórica” do capítulo 6).

CAPÍTULO 6

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DA TEORIA À PRÁTICA Ponto de partida O trecho a seguir foi extraído de um texto de crítica musical que analisa o CD Le cinema, do violinista Gidon Kremer. Leia-o.

Photodisc/Getty Images

O mais recente CD de Kremer [...] intitula-se justamente “Le Cinema”. Traz dez peças em que o Stradivarius de 1734 [...] faz uma viagem inusitada. Em se tratando de objeto de arranjo, a linha melódica é transcrita geralmente para apenas uma das quatro cordas do violino. É a opção pela simplicidade, em que o virtuoso se torna um instrumentista simples, linear, tendo ao fundo apenas o piano de Oleg Maisenberg [...].

Stradivarius: marca famosa de violino.

Mas — e o detalhe é importante — Kremer não cai no populismo hollywoodiano. Não “pavarottiza” seu violino. Nada a ver com uma suposta produção de “minhas trilhas musicais inesquecíveis”. O repertório é austero. [...]

KREMER não “pavarottiza” seu violino. Folha de S.Paulo, São Paulo, 9 jun. 1998. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq09069813.htm>. Acesso em: 12 fev. 2016.

Esse texto é uma análise crítica claramente favorável ao trabalho do violinista. Vários indícios textuais permitem essa conclusão. Inicialmente, o autor afirma que Kremer fez opção pela simplicidade (note que não caberia aí a palavra “simplismo”, que teria uma carga semântica negativa); a seguir, substitui o nome do pianista por um sinônimo elogioso: o virtuoso (músico talentoso e técnico). Ao dizer que Kremer se mostra “simples, linear”, subentende que o músico não quis ser exibicionista, preferiu não “enfeitar” ao executar as músicas. Três referências comparativas têm a intenção de mostrar que a simplicidade do músico não significa simplismo. Inicialmente, o autor afirma que Kremer não apela, não “cai no populismo hollywoodiano” (referência a filmes de Hollywood feitos para agradar ao grande público e que visam primordialmente ao lucro). Depois, o crítico emprega o neologismo pavarottiza, palavra que ele criou a partir de “Pavarotti” (Luciano Pavarotti,*cantor lírico italiano), para, com ela, valorizar Kremer ao mesmo tempo que deprecia Pavarotti. O neologismo insinua que, diferentemente de Kremer, Pavarotti populariza sua arte para ter mais público e, assim, ganhar mais dinheiro. Por fim, o autor usa a expressão “minhas trilhas musicais inesquecíveis”, que, nesse contexto, ganha sentido irônico-pejorativo; diferentemente do trabalho de Kremer, essas trilhas musicais seriam coletâneas de músicas de qualidade discutível, que atendem ao gosto pouco exigente do grande público. Gidon Kremer está, portanto, na opinião do autor, em outro patamar; seu talento o coloca em outro nível artístico, e é aí que está seu valor como violinista. *Luciano Pavarotti morreu em 2007. Estrutura e formação de palavras

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Agora é sua vez

Escreva no caderno

1. (Enem/MEC) TEXTO 1

TEXTO 2

Um ato de criatividade pode contudo gerar um modelo produtivo. Foi o que ocorreu com a palavra sambódromo, criativamente formada com a terminação -(ó)dromo (= corrida), que figura em hipódromo, autódromo, formas que designam itens culturais da alta burguesia. Não demoraram a circular, a partir de então, formas populares como rangódromo, beijódromo, camelódromo.

Existe coisa mais descabida do que chamar de “sambódromo” uma passarela para desfile de escolas de samba? Em grego, -dromo quer dizer “ação de correr, lugar de corrida”, daí as palavras autódromo e hipódromo. É certo que, às vezes, durante o desfile, a escola se atrasa e é obrigada a correr para não perder pontos, mas não se desloca com a velocidade de um cavalo ou de um carro de Fórmula 1.

AZEREDO, J. C. Gramática Houaiss da língua portuguesa. São Paulo: Publifolha, 2008.

GULLAR, F. Disponível em: www1.folha.uol. com.br. Acesso em: 3 ago. 2012.

Há na língua mecanismos geradores de palavras. Embora o texto 2 apresente um julgamento de valor sobre a formação da palavra sambódromo, o processo de formação dessa palavra reflete: a) o dinamismo da língua na criação de novas palavras. b) uma nova realidade limitando o aparecimento de novas palavras. c) a apropriação inadequada de mecanismos de criação de palavras por leigos. d) o reconhecimento da impropriedade semântica dos neologismos. e) a restrição na produção de novas palavras com o radical grego. Arquivo do autor

2. Considere esta foto de uma placa de publicidade:

a) Nesse contexto, a palavra autonível sugere, por semelhança sonora, uma outra palavra. Qual é essa palavra? Automóvel. b) A semelhança referida em a cria um interessante jogo de sentidos. Explique em que consiste esse jogo de sentidos e comente como ele contribui para a expressividade do anúncio. O elemento formador auto, de autonível, tem, em praticamente todo o país, a mesma pronúncia que alto (adjetivo), o qual, associado a nível, significa “elevado”. Assim, autonível informa, por semelhança sonora, que a loja vende automóveis e, simultaneamente, dá a entender que os carros que ela comercializa são de boa qualidade, isto é, de alto nível.

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CAPÍTULO 6

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4. c) Hitlerocidade é formada pela junção de “Hitler” e “atrocidade” (palavra que remete à violência e à barbárie da Segunda Guerra Mundial, iniciada por Hitler). Bandeira está se referindo ao aspecto semântico da palavra “monstro”, associado a Hitler e a toda a violência e destruição que ele pregou e promoveu; a ela associa-se “esplêndido”, numa referência à originalidade e à criatividade do escritor ao inventar uma palavra inusitada, que assusta, surpreende e provoca o leitor.

3. Em uma partida da etapa semifinal de uma Copa do Brasil, o Grêmio, que seus torcedores chamam de “Imortal”, foi eliminado da competição pelo Atlético Paranaense. No dia seguinte, torcedores do Internacional, rival do Grêmio no Rio Grande do Sul, publicaram na internet este irônico pedido: Cedido por www.parasemprecolorado.com.br

3. a) Eles quiseram deixar claro que tinham consciência de que a palavra usada não existe na língua portuguesa; ou seja, eles fizeram uso de um neologismo.

a) O que os autores dessa brincadeira pretenderam evidenciar em relação à palavra usada entre aspas? b) Compare “imorrível” com, por exemplo, “invencível” e “indiscutível” e explicite o valor semântico do prefixo e do sufixo nessas palavras. Depois, dê o significado de “imorrível”. c) De que forma a expressão “de novo” reforça o sentido irônico do neologismo? 3. b) Nessas palavras o prefixo in- exprime ideia de “negação”; o sufixo -ível exprime ideia de “possibilidade”. Assim, “imorrível” significa “que não pode morrer; que não morre”.

4. Leia o texto a seguir.

3. c) A expressão “de novo” subentende que em outra(s) ocasião(ões) o Grêmio já havia morrido e que o fato de o time “morrer” (ser desclassificado) mais de uma vez mostra que, diferentemente do que dizem seus torcedores, ele, comprovadamente, não é imortal (“imorrível”).

Tenho um amigo que não vai com Guimarães Rosa escritor: — Gosto de prosa pão pão, queijo queijo”, diz ele. “Rosa é torcicoloso”. Respondo-lhe que também gosto de prosa pão pão, queijo queijo, mas Rosa, como Joyce, há que aceitar-se como exceções. [...] Rosa inventa palavras, deforma-as, desintegra-as, recompõe-nas, faz alquimias, cirurgia plástica, sei lá o que seja. [...] já fez hitlerocidade, monstro esplêndido. BANDEIRA, Manuel. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986. p. 16.

4. b) Torcicoloso (torcicolo + -oso) — derivação sufixal; significando, nesse contexto, que Guimarães Rosa escreve de forma complicada, tortuosa, cheia de inversões, de neologismos, de elementos que dificultam a compreensão.

“Pão pão, queijo queijo” significa de forma simples,

a) Explique o significado da expressão idiomática “pão pão, queijo queijo”. direta, clara, objetiva; sem subentendidos e sem dificuldades para se entender.

b) Dê o processo de formação do neologismo torcicoloso e, a partir da oposição entre essa palavra e a expressão “pão pão, queijo queijo”, explique o sentido que ela tem na fala do amigo de Manuel Bandeira. c) Que palavras Guimarães Rosa reuniu para formar o neologismo hitlerocidade? O que Bandeira quer dizer ao caracterizar essa palavra como um “monstro esplêndido”?

Anúncio da Almap/BBDO

5. Certa ocasião, foram instalados nas ruas de São Paulo alguns outdoors com estes dizeres:

Explicite a crítica contida nesse texto e comente por meio de que recursos expressivos essa mensagem foi construída. A frase “Chega de enchente.” remete ao problema das inundações, as quais, na época das chuvas, atormentam a vida dos moradores e geram o caos na cidade. A expressividade baseia-se na original combinação de duas onomatopeias: blá, blá, blá refere-se à atitude que “eles” (os políticos/administradores) têm em relação ao problema: apenas falam, explicam, justificam, mas não resolvem nada; enquanto isso, a população (“nós”) se “afoga” (glub, glub, glub) nas inundações. Estrutura e formação de palavras

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E MAIS...

Entre palavras...

Professor(a), ver em Conversa com o professor, na seção “E mais...” (Orientações específicas do capítulo 6), o texto “Palavras, palavras, palavras” (a ser lido na primeira parte dessa atividade) e orientações relativas a ele.

O escritor Carlos Drummond de Andrade diz em uma crônica: Entre coisas e palavras — principalmente entre palavras — circulamos. A maioria delas não figura nos dicionários de há 30 anos, ou figura com outra acepção. A todo momento impõe-se tomar conhecimento de novas palavras e combinações de. Você que me lê, preste atenção. Não deixe passar nenhuma palavra ou locução atual, pelo seu ouvido, sem registrá -la. Amanhã, pode precisar dela. E cuidado ao conversar com seu avô; talvez ele não entenda o que você diz. ANDRADE, Carlos Drummond de. Entre palavras. In: . Prosa e poesia. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988. p. 1794.

Nesta atividade, vamos nos divertir um pouco entre palavras “antiguinhas”, fora de uso, e palavras “moderninhas”.

1ª. parte — Leitura do professor Inicialmente, seu(sua) professor(a) vai ler um texto e, a respeito dele, vai propor à turma uma pequena atividade. Ouça a leitura com atenção. 2ª. parte — Atividade de pesquisa 1. Objetivo Pesquisar e selecionar arcaísmos e neologismos. 2. Orientações gerais para a realização da atividade a) A pesquisa deverá ser realizada por duplas de alunos. b) Cada dupla deverá coletar, de textos orais ou escritos, uma palavra (ou expressão) que possa ser considerada arcaísmo e uma que seja exemplo de neologismo. c) O texto com o neologismo deverá ser apresentado em seu contexto e poderá ser reproduzido em fotocópia do original, em gravação de texto oral, impresso da internet ou transcrito à mão. Já o arcaísmo deverá ser apresentado, necessariamente, em fotocópia do trecho de texto do qual ele faz parte. 3. Apresentação dos exemplos coletados a) Em data a ser definida, as duplas — ou algumas delas, a critério do(a) professor(a) — apresentarão as palavras selecionadas. Um dos integrantes da dupla exibirá o neologismo, explicando seu significado e lendo um fragmento do texto no qual ele aparece; o outro integrante mostrará o arcaísmo. b) Ao final das apresentações, a turma poderá escolher coletivamente: • o s dois arcaísmos que considerarem mais interessantes (pela sonoridade ou pelo significado, pelo uso, pela impressão de que são realmente muito antigos e fora de moda, por serem engraçados etc.); • o s dois neologismos que considerarem mais interessantes (expressivos, criativos, funcionais, surpreendentes etc.). c) Os trechos em que ocorrerem as palavras “vencedoras”, reunidos com outros dos quais constem palavras também “interessantes”, poderão compor um painel para que os alunos das demais turmas possam lê-los.

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CAPÍTULO 6

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Classes gramaticais

capítulo

7

Substantivo Adjetivo

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Ensaio • MORENO, Cláudio. O plural dos compostos. In:

. O prazer das palavras. Porto Alegre: L&PM, 2007. v. 1.

Crônicas . Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988. • ANDRADE, Carlos Drummond de. Entre palavras. In: • CONY, Carlos Heitor. Adjetivos e centavos. Folha de S.Paulo, 3 jan. 2006. Opinião. Disponível em: <http://tub.im/qbsnus>. Acesso em: 19 fev. 2016.

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INTRODUÇÃO

Professor(a), a atividade da seção “E mais...”, da página 285, requer preparação antecipada.

No capítulo anterior vimos que a morfologia é a parte da gramática que tem por objetivos:

• Identificar, na estrutura das palavras, os morfemas (elementos estruturais) que as constituem e determinar os processos de formação que dão origem a elas. • Determinar a classe gramatical da qual a palavra faz parte e estudar suas possíveis flexões, isto é, suas variações de forma. Neste capítulo, vamos iniciar o estudo dessa segunda parte da morfologia.

CLASSES GRAMATICAIS O conceito de classe gramatical Graúna, de Henfil. O Globo, Rio de Janeiro, 27 abr. 2003

Leia estes quadrinhos:

HENFIL. Graúna. O Globo, Rio de Janeiro, 27 abr. 2003.

A palavra estranho aparece na fala de dois dos personagens e cada um deles empregou essa palavra com uma finalidade diferente. Compare-a no segundo e no terceiro quadrinhos: • “Os ‘estranhos’ somos nós!” Palavra que dá nome a quem não é conhecido em um determinado lugar.

• “Eu pareço uma pessoa estranha?” Palavra que atribui uma característica à palavra pessoa.

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CAPÍTULO 7

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Em cada uma das duas ocorrências citadas, a palavra estranho tem usos diferentes, por isso tem também diferentes classificações gramaticais: no primeiro caso, como a finalidade dessa palavra é dar um nome, ela é substantivo; no segundo, como atribui uma característica, ela é adjetivo. Se reunirmos, em um conjunto, todas as palavras que dão nome a algo (ou a alguém), teremos a classe gramatical dos substantivos; reunindo as palavras que servem para atribuir características, teremos outra classe ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas (seção “Complementação teórica”), gramatical: a dos adjetivos. Professor(a), outros aspectos relativos às classes de palavras (ou partes do discurso). Então:

Classe gramatical é o conjunto formado por todas as palavras que têm a mesma finalidade. Professor(a), usaremos o termo “enunciado” considerando-o do ponto de vista sintático: “O enunciado é definido como a unidade de comunicação elementar, uma sequência verbal investida de sentido e sintaticamente completa [...]”. (CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2004. p. 196.)

A variação da classe gramatical nos enunciados

Nos dicionários, cada palavra e o conjunto de seus possíveis significados formam um verbete. Assim, por exemplo: forte 1. adj. Que tem força, vigor; vigoroso. 2. s.m. Construção militar que protege um lugar estratégico. 3. adv. Com força; fortemente.

Observe que, além de informar as acepções (significados) da palavra forte, o verbete indica também a classe gramatical de que ela faz parte quando assume cada um desses significados. Assim, ao consultarmos o dicionário, ficamos sabendo que, dependendo do enunciado em que essa palavra for empregada, ela poderá ser: adj. (adjetivo), s.m. (substantivo masculino) ou adv. (advérbio). Veja essas possibilidades nos três exemplos a seguir: • O brilho forte das estrelas refletia-se nas águas do majestoso rio.

Van Gogh. 1888, óleo sobre tela, 72,5 × 92 cm. Museu d’orsay, Paris

adj. — adjetivo (caracteriza o substantivo brilho).

NAVEGAR É PRECISO

O quadro Noite estrelada sobre o Ródano integra a coleção de pinturas do Museu d’Orsay, em Paris. Para conhecer outras obras de Van Gogh, acesse <http://tub.im/8z8fzu> (acesso em: 19 fev. 2016). Trata-se da seção do museu virtual do artista que apresenta inúmeras obras criadas por ele. Sugere-se que você se reúna com um(a) colega e, juntos, acessem o site e realizem uma breve atividade, agrupando os diferentes “tipos” de telas (paisagens, naturezas-mortas, retratos etc.), observando-as, por exemplo, quanto às características e cores predominantes. Será uma oportunidade para vocês conhecerem um pouco mais do trabalho desse pintor, que é considerado um dos gênios da arte mundial.

Noite estrelada sobre o Ródano (1888), obra do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890). [Ródano — rio europeu que percorre a Suíça e a França.] Substantivo • Adjetivo

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• O forte dos Reis Magos é uma das atrações turísticas de Natal. s.m. — substantivo [masculino] — (nome atribuído a uma construção militar).

• O caminhão perdeu o freio e bateu forte contra o muro. adv. — advérbio (acrescenta ao verbo bater uma ideia de modo/intensidade).

A classificação gramatical de uma palavra muda, varia, dependendo das relações que essa palavra estabelece com outras com as quais se combina para formar os enunciados.

Rogério Reis/Tyba

A análise dessa palavra, nesses três enunciados, leva-nos à seguinte conclusão:

Forte dos Reis Magos (RN).

As classes gramaticais do português As palavras da língua portuguesa distribuem-se em dez classes gramaticais, também chamadas de classes morfológicas. O quadro a seguir apresenta uma sistematização dessas dez classes e, resumidamente, a finalidade básica de cada uma delas nos enunciados.

Classe gramatical

Finalidade básica nos enunciados

Exemplos

Substantivo

Dar nome a seres, coisas, lugares, conceitos etc.

Um lindo balão azul sobrevoou a região.

Adjetivo

Caracterizar o substantivo.

Um lindo balão azul sobrevoou a região.

Artigo

Anteceder o substantivo para determiná-lo de modo geral ou particular.

Um lindo balão azul sobrevoou a região.

Numeral

Indicar quantidade.

Comprei três peixes por vinte reais.

Pronome

Substituir ou acompanhar o substantivo.

Célia, eu te ajudarei. (te " Célia) Sabes minha opinião sobre teus planos.

Verbo

Exprimir um acontecimento e situá-lo no tempo.

Um lindo balão azul sobrevoou a região. Amanhã terminaremos o trabalho?

Advérbio

Indicar circunstâncias (tempo, lugar, modo etc.) do fato verbal.

Agora vivo tranquilamente aqui. tempo modo lugar

Preposição

Ligar duas palavras.

Conjunção

Ligar orações.

O dia está frio, mas está muito bonito.

Interjeição

Exprimir emoções e sentimentos súbitos.

Nossa! Vejam que balão lindo!

Confio em você; fique perto de mim.

Professor(a), as relações morfossintáticas (relações entre as palavras de uma determinada classe gramatical e as possíveis funções sintáticas que elas podem exercer) serão tratadas nos capítulos 4 a 6 do volume 2 desta coleção, que são destinados ao estudo da sintaxe da oração.

O estudo das classes gramaticais, que vamos iniciar a seguir, tratará, neste capítulo, de duas classes: substantivo e adjetivo; no próximo, veremos o artigo e o numeral. Os outros seis grupos serão estudados no volume 2 desta coleção.

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CAPÍTULO 7

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SUBSTANTIVO E ADJETIVO Leia este trecho de texto:

Em defesa dos adjetivos Muitas vezes nos mandam cortar nossos adjetivos. O bom estilo, conforme dizem, sobrevive perfeitamente sem eles; bastariam o resistente arco dos substantivos e a flecha dinâmica e onipresente dos verbos. Contudo, um mundo sem adjetivos é triste como um hospital no domingo.

maleável: que pode ser moldado facilmente; adaptável, flexível.

A luz azul se infiltra pelas janelas frias, as lâmpadas fluorescentes emitem um murmúrio débil. Substantivos e verbos bastam apenas a soldados e líderes de países totalitários. Pois o adjetivo é o imprescindível avalista da individualidade de pessoas e coisas. [...] Vida longa ao adjetivo! Pequeno ou grande, esquecido ou corrente. Precisamos de você, esbelto e maleável adjetivo que repousa delicadamente sobre coisas e pessoas e cuida para que elas não percam o gosto

PARA LER NA REDE

revigorante da individualidade. [...] ZAGAJEWSKI, Adam. Em defesa dos adjetivos. Piauí, São Paulo, n. 52, p. 47, jan. 2011.

Se você quiser ler, na íntegra, o interessante texto “Em defesa dos adjetivos”, acesse o seguinte link: <http://tub.im/d55928>. Acesso em: 19 fev. 2016.

Nesse texto, para defender a importância e a beleza dos adjetivos, o autor emprega diversas vezes a combinação nome + característica do nome. Veja, por exemplo, estes casos:

flecha

dinâmica/onipresente

nome

mundo triste

características do nome

gosto

nome

característica do nome

revigorante característica do nome

nome

Outras vezes, o autor inverte essa ordem, empregando, então, a combinação característica do nome + nome. Por exemplo:

bom estilo característica do nome

resistente arco nome

característica do nome

imprescindível característica do nome

nome

avalista nome

Em todos esses casos, o autor combinou substantivo (nome) + adjetivo (característica do nome), ou, em outra ordem, adjetivo + substantivo. Para conhecer as características gerais das palavras que fazem parte dessas duas classes gramaticais, vamos estudá-las separadamente nas páginas a seguir. Substantivo • Adjetivo

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SUBSTANTIVO Conceito © 2009 King Features Syndicate/Ipress

Leia esta tira humorística:

RECHIN, Bill; WILDER, Don. A Legião. Diário da Manhã, Goiânia, 22 maio 2008.

Agora veja estas palavras do diálogo: • telefone(s) — nome de um aparelho de comunicação. • tempo — nome de um período específico da vida. • papai — nome afetivo usado pelos filhos em relação aos pais. • parte — nome que se dá a uma fração de um todo. • vez(es) — nome que se dá a uma certa ocasião, a um certo momento. • minuto — nome de uma das unidades de medida do tempo. Todas essas palavras são substantivos.

Substantivo é a palavra que designa alguém ou alguma coisa, isto é, que dá nome a seres, coisas, lugares, objetos, sentimentos, ações, acontecimentos, conceitos etc. Nessa definição, é importante observar que o substantivo não nomeia apenas os seres reais (faca, pão, cidade, poeta, Brasil...) ou imaginários (fantasma, dragão, alma...), uma vez que também são substantivos as palavras que dão nome a: • ações — beijo, chute, ameaça, correção, filtragem... • sensações — fome, dor, frio... • sentimentos — amor, paixão, dó, saudade... • conceitos físicos — velocidade, distância, tempo... • conceitos socioculturais — beleza, vaidade, bravura... Uma característica típica do substantivo é que a ele podem ser associadas outras palavras que modificam, especificam e/ou restringem seu significado. Veja estes exemplos: Todas as paixões juvenis contribuem para nosso amadurecimento emocional. Palavras associadas ao substantivo paixões.

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Palavras associadas ao substantivo amadurecimento.

CAPÍTULO 7

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Classificação geral do substantivo O substantivo, dependendo do aspecto segundo o qual é considerado, admite diferentes classificações. Os quadros abaixo apresentam, para consulta, essas classificações. a) Quanto à designação:

Comum

Próprio

Nomeia todos os seres de uma mesma espécie. Nomeia, individualmente, um determinado ser. Exs.: livro, computador, rodovia. Exs.: Isabel, Uruguai, Pará.

b) Quanto à formação:

Primitivo

Derivado

Não se origina de outra palavra. Exs.: livro, Isabel, fantasma.

Origina-se de outra palavra. Exs.: computador, paraense, livraria.

c) Quanto à forma:

Simples

Composto

Formado por uma única palavra. Exs.: livro, fantasma, desligamento.

Formado por mais de uma palavra. Exs.: lobisomem, sexta-feira, flor-de-maio.

d) Quanto ao tipo de ser nomeado:

Concreto

Abstrato

Nomeia seres (reais ou imaginários) de existência própria. Exs.: livro, fantasma, Deus, Isabel.

Nomeia ações (ex.: abraço), sensações (ex.: dor), sentimentos (ex.: medo), conceitos (ex.: beleza) etc.

Complemento teórico A classificação substantivo concreto não se relaciona ao sentido usual da palavra “concreto” (real, físico, visível). Substantivos como Deus, alma, fada, saci, dragão, assombração, fantasma etc., embora nomeiem seres que não existem na realidade material, podem ser considerados como tendo existência autônoma, própria, por isso classificam-se como substantivos concretos.

Substantivos coletivos

Coletivo

Enrico Marone/Pulsar

Chama-se coletivo todo substantivo comum que, mesmo no singular, dá nome a um agrupamento de seres de uma mesma espécie. Veja, no quadro, alguns exemplos:

Agrupamento de

acervo

obras de arte

alcateia

lobos

cardume

peixes

elenco

atores

esquadra

navios de guerra

esquadrilha

aviões

horda

invasores, aventureiros

Cardume de cotingas, em Caravelas (BA).

Substantivo • Adjetivo

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Professor(a), a respeito da não inclusão do grau como uma das flexões do substantivo, ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas, a seção “Complementação teórica” do capítulo 7.

Flexões do substantivo: gênero e número

O substantivo é uma palavra variável, isto é, uma palavra que pode ter sua forma alterada para exprimir determinados aspectos gramaticais. Observe, por exemplo, as variações de forma do substantivo menino:

menina Flexão para mudar o gênero: masculino " feminino.

FIQUE SABENDO

meninos Flexão para mudar o número: singular " plural.

As flexões do substantivo podem indicar, portanto, gênero e número. O quadro abaixo apresenta os aspectos mais importantes das duas flexões do substantivo.

Flexões do substantivo Gênero Quanto ao gênero, o substantivo pode ser:

Número Número é a flexão do substantivo que

• Masculino — substantivo que admite o artigo o(s). exprime a quantidade de seres que ele nomeia.

Exs.: [o] pintor; [os] abismos.

Assim:

• Feminino — substantivo que admite o artigo a(s). • Singular

Exs.: [a] pintora; [as] lembranças.

A flexão geral masculino-feminino A maioria dos substantivos forma o feminino pelo acréscimo da desinência -a na forma do masculino, que, geralmente, requer adaptação em sua terminação. Exemplos: • pintor " pintora

O substantivo está no singular quando nomeia um único ser ou um conjunto de seres considerados como um todo. Exs.: • menina • lua • cardume

A flexão não cria uma nova palavra; apenas cria, por meio de desinências específicas (-a, para o feminino; -s para o plural), uma nova forma da mesma palavra. Essa nova forma, por não ser outra palavra, não precisa aparecer no dicionário. Assim é que, no dicionário, aparece, por exemplo, aluno, mas não aparece aluna, nem alunos, porque essas formas são apenas flexões de aluno, e não outras palavras.

• Plural

O substantivo no plural nomeia mais de um ser ou mais de um conjunto de seres. Exs.: • meninas • luas • cardumes

• mestre " mestra

A flexão de plural A formação do plural dos substantivos se faz segundo regras bastante variadas, Substantivos sem flexão de gênero dependendo da terminação do substantivo no Muitos substantivos não apresentam flexão singular. Exemplos: (alteração na terminação) para indicar o feminino, • cidadão " cidadãos porque este é expresso por uma palavra específica, • corrimão " corrimãos/corrimões diferente da forma masculina. Exemplos: • pardal " pardais • homem " mulher • jirau " jiraus • cavaleiro " amazona • cônsul " cônsules • cavalheiro " dama • fêmur " fêmures • valentão " valentona

Plural dos substantivos compostos Quando o substantivo composto não tem hífen, sua flexão de plural se faz como se ele fosse uma palavra simples. Por exemplo: rodapé " rodapés; girassol " girassóis. Quando se trata de compostos que apresentam hífen, o plural se faz, na maioria dos casos, de acordo com a seguinte regra geral.

O plural de um substantivo composto é a reunião das formas de plural das palavras que o constituem.

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FIQUE SABENDO

A flexão [das palavras] não é universal. O vietnamita, por exemplo, não tem flexão de qualquer espécie; todas as suas palavras são completamente invariáveis quanto à forma. No outro extremo, algumas línguas da América do Norte têm sistemas flexionais de uma complexidade impressionante, em que o mesmo verbo pode aparecer em centenas de formas diferentes. TRASK, R. L. Dicionário de linguagem e linguística. Trad. e adap. Rodolfo Ilari. São Paulo: Contexto, 2004. p. 113.

CAPÍTULO 7

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Veja estes dois exemplos: plural de urso

• urso-polar

plural de polar

• sempre-viva

ursos polares

plural de sempre plural de viva

[não existe] vivas

ursos-polares

sempre-vivas palavra que não tem plural, por isso mantém-se invariável.

¢ Complementos

à regra geral Eric Gevaert/Shutterstock.com

1. Se os elementos formadores são ligados por preposição (“de”, “com”, “sem”...), apenas a primeira palavra vai para o plural. águas-de-colônia. Ex.: água-de-colônia 2. Se o segundo elemento indica finalidade do primeiro, ou semelhança com ele, pode-se aplicar tanto a regra geral como flexionar apenas o primeiro. Exs.: navios-escolas ou navios-escola • navio-escola “escola” indica a finalidade do “navio”

micos-leões ou micos-leão

• mico-leão

“leão” indica a semelhança do “mico”

3. Compostos em que aparece verbo. • Verbo + outra palavra — o verbo fica no singular. cata-ventos. Ex.: cata-vento • Verbos repetidos — plural nos dois ou só no segundo elemento. corres-corres ou corre-corres (plural mais usual). Ex.: corre-corre • Verbos de sentidos contrários — os dois continuam no singular. os perde-ganha. Ex.: o perde-ganha

Mico-leão, uma joia da natureza em risco de extinção.

Grau do substantivo Quando empregamos, por exemplo, o substantivo livro, estamos nomeando um objeto de tamanho normal, comum. Quando queremos nomear um livro de tamanho aumentado, usamos livrão ou livro grande (ou enorme/imenso). Analogamente, para nomear um livro de tamanho diminuído, podemos escolher entre livrinho e livro pequeno. A essa possibilidade de aumentar ou diminuir a dimensão do ser nomeado pelo substantivo damos o nome de grau. O substantivo pode, portanto, apresentar-se no grau aumentativo ou no grau diminutivo, e essas possibilidades são expressas por dois diferentes processos. Assim:

Aumentativo e diminutivo sintéticos Nesse processo, juntam-se ao substantivo certos sufixos que exprimem ideia de aumento ou de diminuição no tamanho do ser. Veja estes exemplos: • panela + ão " panelão • rico + aço " ricaço • grão + ulo " grânulo • boca + arra " bocarra • livro + inho " livrinho • sala + eta " saleta • corpo + zil " corpanzil • burro + ico " burrico

Aumentativo e diminutivo analíticos Nesse processo, associam-se ao substantivo certos adjetivos que exprimem o sentido de aumento ou de diminuição. Veja estes exemplos: • praça enorme • grande manifestação • inseto diminuto • imenso país • barco pequeno • minúscula cidade Substantivo • Adjetivo

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Valor expressivo das formas sintéticas Além de indicarem aumento ou diminuição no tamanho do ser, o aumentativo e o diminutivo sintéticos são também empregados pelo falante para expressar determinados sentimentos em relação ao ser nomeado ou revelar certas opiniões em relação a ele. Veja estes casos: • Carinho, ternura – Exs.: Filhão, sua mãezinha te mandou um beijo e um abração. • Admiração – Ex.: A partida de vôlei que vimos ontem foi um jogaço inesquecível! • Ironia – Ex.: Aquele escritorzinho é muito convencido; julga-se um novo Machado de Assis. • Desprezo – Ex.: Ela não tinha medo de caminhar à noite pelas ruelas da vila.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Classe gramatical É o conjunto formado por todas as palavras que têm a mesma finalidade. Existem dez classes:

• substantivo • adjetivo

• artigo • numeral

• pronome • verbo

• advérbio • preposição

• conjunção • interjeição

A variação da classe gramatical A classe gramatical de uma palavra não é fixa; ela pode variar de um enunciado para outro. Compare: • Ele mora em um local distante. «° A falta de escolas é um problema local. adjetivo

substantivo

• Daqui a pouco vai amanhecer. «° Aqui, o amanhecer é um momento mágico. verbo

substantivo [palavra substantivada]

Substantivo Classifica-se como substantivo toda palavra que dá nome aos seres em geral (exs.: circo, América, Deus, paraíso) e a ações (ex.: desmatamento), sensações (ex.: dor), sentimentos (ex.: paixão), conceitos físicos (ex.: rapidez), conceitos socioculturais (ex.: honra) etc.

Flexões do substantivo O substantivo apresenta duas flexões:

Gênero Masculino Exs.: sobrinho, freguês, irmão, conde.

Número Feminino

Singular

Exs.: sobrinha, freguesa, Exs.: praça, cordel, irmã, condessa. corrimão.

Plural Exs.: praças, cordéis, corrimãos/corrimões.

• Plural dos substantivos compostos Regra geral: o plural de um substantivo composto é a reunião das formas de plural das palavras que o constituem, desde que essas palavras, isoladamente, tenham plural. Veja os exemplos: lobos-marinhos • vice-prefeito vice-prefeitos • lobo-marinho tem plural

tem plural

não tem plural

tem plural

Graus do substantivo • Formas sintéticas: substantivo + sufixo. Exs.: cavalão, cavalinho, murão, muralha, murinho, mureta. • Formas analíticas: substantivo + adjetivo. Exs.: fruta enorme, árvore pequena, letra minúscula.

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CAPÍTULO 7

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Atividades

Escreva no caderno

Editora Kelps

1. (UFT-TO) Leia esta capa da obra de Osmar Casagrande:

A partir do jogo feito pelo autor com as palavras “cômodos” e “versos” e as partículas entre parênteses “in” e “di”, várias leituras são possíveis. Isto posto, considere as afirmativas. I. Em cômodos diversos, a palavra diversos modifica um substantivo, indicando que há na casa mais de um aposento. II. Em cômodos versos, a palavra cômodos tem a função de qualificar o substantivo versos, permitindo a leitura de que os versos são agradáveis. III. A expressão arquitetura poética, que se encontra na capa, remete às possíveis leituras: cômodos diversos, incômodos diversos, cômodos versos e incômodos versos.

Assinale a alternativa correta. a) Apenas I está correta.

d) Apenas II e III estão corretas.

b) Apenas II está correta.

e) Todas estão corretas.

c) Apenas I e II estão corretas.

Fernando Gonsales

2. Releia esta tira humorística, já apresentada no capítulo 3.

GONSALES, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 7 out. 1997.

a) No primeiro quadro ocorre uma derivação imprópria: uma palavra que geralmente faz parte de uma determinada classe gramatical foi empregada em outra. Identifique essa palavra e indique a mudança de classe ocorrida. “Antigos”. A classe básica de “antigos” é adjetivo (carro antigo, casas antigas etc.); na fala do personagem, ela exerce o papel de substantivo, significando “pessoas que viveram em épocas passadas”.

b) A palavra chata, em suas duas ocorrências (primeiro e terceiro quadros), faz parte da mesma classe classe gramatical é a mesma: adjetivo (nos dois casos “chata” caracteriza o substantivo gramatical e tem o mesmo significado? Justifique. A“Terra”); o significado é diferente: na primeira ocorrência, significa “plana, reta, sem curvatura”; na segunda, “monótona, desinteressante, entediante, sem graça”. Marcos Guilherme

3. Em uma clínica veterinária, um cartaz afixado em uma das paredes fazia esta interessante sugestão:

Substantivo • Adjetivo

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A inversão da ordem das palavras nas expressões “amigo cachorro” e “cachorro amigo”: a) praticamente não altera o sentido dessas expressões, constituindo apenas um jogo de palavras para produzir um efeito humorístico na frase. b) atribui à palavra “cachorro”, nas duas expressões, um valor semântico pejorativo, depreciativo. c) altera de adjetivo para substantivo a classe gramatical de “cachorro”, mas não altera a classe de “amigo”. d) altera de substantivo para adjetivo a classe gramatical de “amigo”, mas não altera a de “cachorro”. e) altera a classe gramatical das duas palavras para dar a entender que os cães, diferentemente das pes4. b) Incorretas: degrais e troféis; formas corretas: degraus e troféus. Na maioria das soas, são sempre leais a seus donos. regiões do Brasil, na língua falada as terminações al e au se confundem; el e éu também. 4. Nos itens de a a c, faça o que se propõe.

O aluno flexionou corretamente varal e foi induzido pela semelhança sonora da terminação a flexionar degrau da mesma maneira. Analogamente, ele flexionou troféu tendo por base o plural de coronel.

a) Flexione no plural os substantivos simples de cada grupo:

• cirurgião — campeão — cidadão — escrivão cirurgiões — campeões — cidadãos — escrivães • projétil — cônsul — álcool — mal projéteis — cônsules — alcoóis — males • canil — réptil — fogaréu — carrossel canis — répteis — fogaréus — carrosséis • contêiner — caráter — júnior — sênior contêineres — caracteres — juniores — seniores [Professor(a), “projétil” admite também o plural pouco usual “projetis”; réptil admite “reptis” (também pouco usual).]

b) Em uma prova escolar, uma das questões pedia que os alunos flexionassem no plural estes quatro substantivos:

• varal

• degrau

• coronel

• troféu

• coronéis

• troféis

• Um aluno apresentou a seguinte resposta:

• varais

• degrais

Identifique a(s) palavra(s) que esse aluno flexionou incorretamente e indique a(s) forma(s) adequada(s). A seguir, baseando-se nas terminações das formas no singular, explique o que levou o aluno a se confundir ao flexionar esses substantivos no plural. c) Muitos substantivos terminados em -ão admitem mais de uma forma de plural. Considerando as indicações entre parênteses, flexione os seguintes:

• ancião (3 formas) • aldeão (3 formas) • ermitão (3 formas)

• anão (2 formas) • corrimão (2 formas) • vulcão (2 formas)

anciãos/anciães/anciões; aldeãos/aldeães/aldeões/ermitãos/ermitães/ermitões; anões/anães; corrimãos/corrimões; vulcãos/vulcões

5. Considere as informações a respeito de cada grupo de substantivos compostos e flexione-os no plural. a) Seguem a regra geral de plural dos substantivos compostos:

• guarda-noturno • obra-prima • meio-irmão • contra-argumento guardas-noturnos — obras-primas — meios-irmãos — contra-argumentos

b) O segundo elemento indica a finalidade do primeiro:

• carta-convite • cidade-dormitório • pombo-correio • texto-legenda cartas-convites/cartas-convite — cidades-dormitórios/cidades-dormitório — pombos-correios/pombos-correio — textos-legendas/textos-legenda.

c) O segundo elemento exprime semelhança do primeiro:

• peixe-pedra • fruta-pão • manga-rosa • bambu-cana peixes-pedras/peixes-pedra — frutas-pães/frutas-pão — mangas-rosas/mangas-rosa — bambus-canas/bambus-cana

• O primeiro elemento é verbo:

• guarda-roupa • talha-mar • vale-tudo guarda-roupas — talha-mares — vale-tudo (invariável)

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CAPÍTULO 7

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6. Considere esta série de substantivos:

nódulo — minidicionário — bandeirola — cavalete — nozinho — megaloja — rapazote — ferrão — portinhola — faroizinhos — supersafra — serrote a) Transcreva desse grupo:

cavalete — ferrão — serrote

• Os substantivos que, embora apresentem sufixos, não exprimem ideia de aumento ou diminuição. • Os substantivos cujos sufixos diminutivos realmente exprimem ideia de diminuição. nódulo — bandeirola — nozinho — rapazote — portinhola — faroizinhos

• Os substantivos em que o grau (aumentativo ou diminutivo) é expresso por prefixos, e não por sufixos. minidicionário — megaloja — supersafra • O substantivo que apresenta dois sufixos diminutivos. portinhola (porta + inh + ola) b) Agora considere esta opinião do escritor e humorista Millôr Fernandes:

“Língua torta: portão menor que porta.”

“Portão”, por ter sufixo aumentativo (-ão), deveria exprimir aumento: porta grande. Como existem “portões” menores que portas (grau normal), Millôr afirma que, nesse aspecto, a língua é “torta”, ou seja, errada.

Explique a crítica bem-humorada que Millôr faz ao empregar essa frase. 7. Leia este texto, transcrito de um dicionário de linguagem: A questão-chave em matéria de flexão é que a aplicação da flexão nunca resulta numa palavra nova, mas apenas em uma forma diferente da mesma palavra. Em contraste com isso, a derivação produz novas palavras que o dicionário precisará registrar mediante entradas independentes. TRASK, R. L. Dicionário de linguagem e linguística. Trad. e adap. Rodolfo Ilari. São Paulo: Contexto, 2004. p. 113.

Agora considere estes quatro verbetes transcritos de um minidicionário. casa — s.f. Morada; vivenda; mansão; lar; habitação. casarão — s.m. Casa grande; aument. de casa. casebre — s.m. Casa pequena e velha ou arruinada; pardieiro. casinha — s.f. Casa pequena. BUENO, Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. São Paulo: FTD, 2007. p. 152.

a) Observe que essas palavras, como é usual nos dicionários, aparecem no singular. Por que, nos dicionários, é suficiente apresentar as palavras no singular, não sendo necessário apresentá-las flexionadas no plural? Porque a palavra, se flexionada no plural, não é outra palavra; ela tem exatamente o mesmo significado que a forma singular. O singular e o plural de uma palavra são apenas formas diferentes, uma vez que o plural não muda o significado da palavra.

b) Por que, em um dicionário, não é suficiente apresentar apenas a palavra casa, sendo necessário apresão palavras independentes, diferentes; cada uma tem sentar também as formas casarão, casebre e casinha? Porque um significado específico, particular.

Derivação sufixal (cas[a] +

c) Que processo de formação de palavras deu origem a casarão, casebre e casinha? sufixo -arão, -ebre e -inha, respectivamente).

d) Baseando-se no texto inicial e nos itens anteriores, responda: o grau (aumentativo e diminutivo) dos substantivos constitui um caso de flexão ou de derivação? Justifique. Trata-se de derivação, já que forma novas palavras, cada uma com seu sentido específico. Se fosse um caso de flexão, não resultaria, conforme afirma o trecho transcrito de Trask, em novas palavras e, consequentemente, não haveria mudança de sentido.

Substantivo • Adjetivo

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ADJETIVO Conceito Leia este pequeno texto e observe o quadro abaixo: Monet foi o principal pintor impressionista, e esta é a obra mais importante do Impressionismo — uma paisagem moderna, pintada em estilo moderno, em pequena dimensão, sem nenhuma história para contar, nem lição moral para comunicar. É uma fiel representação das impressões e sensações que os olhos experimentam.

NAVEGAR É PRECISO

Claude Monet é considerado o gênio do Impressionismo. Admite-se que a partir do nome de um de seus quadros, chamado Impressão: nascer do sol, tenha se criado o termo “Impressionismo”, que designa o movimento artístico do qual Monet fez parte. As principais obras desse artista estão expostas em dois grandes museus franceses: o Museu D’Orsay e o Marmottan Monet, que podem ser visitados virtualmente por meio destes sites: <http://tub. im/dzq8nn> e <http://tub. im/t3xe8g> (acesso em: 19 fev. 2016). Também é interessante visitar o site <http://tub.im/apqpr2>, no qual é possível visualizar os jardins de Giverny, que foram tema de diversas telas do artista.

Claude Monet. 1873. Óleo sobre tela. 55 cm × 74,5 cm. Galerias Courtauld, Somerset House, Londres. Foto: Peter Barritt/Alamy/Latinstock

CUMMING, Robert. Para entender a arte. São Paulo: Ática, 1996. p. 84.

Efeito do outono em Argentuil (1873), do francês Claude Monet (1840-1926).

No texto acima, o autor emprega determinados substantivos aos quais associa outras palavras que lhes atribuem características. Veja algumas delas: • principal pintor impressionista

substantivo

substantivo

• paisagem moderna substantivo

• obra importante

• pequena dimensão substantivo

Todas essas palavras — principal, impressionista, importante, moderna, pequena — funcionam, nesse texto, como adjetivos.

Adjetivo é a palavra que se associa a substantivos para expressar características, qualidades ou estados dos seres.

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CAPÍTULO 7

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O adjetivo é um recurso essencial para dar expressividade ao texto quando se descreve uma pessoa, um objeto ou uma paisagem. Releia o trecho a seguir, já apresentado no capítulo 4, e observe como a escolha dos adjetivos contribui decisivamente para criar a impressionante “imagem” da personagem, uma mulher louca, durante um incêndio. [...] A Bruxa surgiu à janela da sua casa, como à boca de uma fornalha acesa. Estava horrível; nunca fora tão bruxa. O seu moreno trigueiro, de cabocla velha, reluzia que nem metal em brasa; a sua crina preta, desgrenhada, escorrida e abundante como as das éguas selvagens, dava-lhe um caráter fantástico de fúria saída do inferno. [...] trigueiro: da cor do trigo maduro; amarelado tendendo ao marrom.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Nobel, 2009. p. 189.

Outros caracterizadores do substantivo Além do adjetivo, existem outras duas estruturas gramaticais que podem ser associadas ao substantivo para especificá-lo ou atribuir-lhe características. São elas: a locução adjetiva e a oração adjetiva.

Locução adjetiva Compare os destaques nestas duas frases:

1. Você gostaria de visitar um castelo medieval? 2. Você gostaria de visitar um castelo da Idade Média?

David Reed/Alamy/Latinstock

Em 1, o substantivo “castelo” é caracterizado pelo adjetivo medieval; em 2, ao substantivo “castelo” associa-se a expressão da Idade Média. Essa expressão, por desempenhar o mesmo papel que o adjetivo — caracterizar o substantivo —, exerce o papel de locução adjetiva.

Locução adjetiva é toda expressão — formada por preposição (de, com, sobre etc.) + outra(s) palavra(s) — que, como o adjetivo, associa-se ao substantivo para caracterizá-lo. Veja outros exemplos de locução adjetiva: • Na biblioteca da escola há livros sobre os castelos medievais. locução adjetiva

locução adjetiva

Castelo construído no século XV, Inglaterra.

Oração adjetiva Considere este enunciado: • Deve ser emocionante visitar castelos que foram construídos na Idade Média. substantivo

oração adjetiva

O segmento sublinhado recebe o nome de oração porque contém uma estrutura verbal: “foram construídos”. A oração “que foram construídos na Idade Média” caracteriza o substantivo “castelos”, funcionando, inteira, como se fosse um adjetivo; daí o nome oração adjetiva. Substantivo • Adjetivo

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Existem, portanto, três estruturas gramaticais que podem se associar ao substantivo para caracterizá-lo. Veja mais um exemplo: petrolíferas. adjetivo • O Brasil está descobrindo novas áreas locução adjetiva de petróleo. oração adjetiva que contêm petróleo.

A posição do adjetivo em relação ao substantivo A posição usual do adjetivo é depois do substantivo, formando sequências do tipo substantivo + adjetivo. Nessas sequências, o adjetivo exprime, de maneira direta e objetiva, a característica do substantivo. Por exemplo: • Sob o sol claro de abril, duas pombas brancas admiram a beleza do dia. Muitas vezes, no entanto, o falante, para enfatizar o adjetivo e/ou atribuir a ele um valor mais pessoal, mais subjetivo, inverte a ordem normal, criando sequências do tipo adjetivo + substantivo. Veja este exemplo: • Em sua curta vida, o delirante explorador viveu fantásticas aventuras.

Venha para sua nova casa nova

Daniel Cymbalista

Agora considere o folheto publicitário abaixo, distribuído para anunciar o lançamento de um prédio de apartamentos.

P Construção em fase final P Totalmente financiado P Mude em dezembro P Lazer completo P Segurança 24 horas Observe que o adjetivo nova muda de sentido: anteposto ao substantivo — nova casa — significa “outra, diferente da casa atual”; posposto ao substantivo — casa nova — significa “recém-construída, que nunca foi habitada”. Essa alteração de sentido do adjetivo, provocada pela mudança de sua posição em relação ao substantivo, pode ocorrer também com muitas outras palavras dessa classe gramatical. Veja mais alguns exemplos: • falso médico — indivíduo que, sem ser médico, pratica a medicina. médico falso — indivíduo formado em medicina e que não é sincero; é fingido. • mau aluno — aluno desinteressado; que não se dedica ao estudo. aluno mau — aluno perverso, cruel, maldoso. • velho amigo — amigo de há muito tempo; de longa data. amigo velho — amigo de idade avançada.

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CAPÍTULO 7

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Flexões do adjetivo: gênero e número

Professor(a), a respeito da não inclusão do grau como uma das flexões do adjetivo, ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas, a seção “Complementação teórica” do capítulo 7.

O adjetivo, tal como acontece com o substantivo, pode apresentar duas flexões. Assim:

gênero

número

masculino — feminino

singular — plural

Essas duas flexões possibilitam estabelecer a concordância do adjetivo com o substantivo ao qual ele se associa. Observe neste exemplo:

lindos

pássaros

amarelos

adjetivo

substantivo

adjetivo

[masc. – plural]

[masc. – plural]

[masc. – plural]

concordância

concordância

Plural dos adjetivos compostos Adjetivo composto é aquele formado por duas ou mais palavras (ou radicais). Geralmente o composto é formado por outros adjetivos ou pela reunião de um adjetivo com um substantivo. Veja estes exemplos: • tratado anglo-franco-italiano

• tecido azul-piscina

adjetivo composto formado por três adjetivos: anglo, franco e italiano

adjetivo composto formado por “adjetivo-substantivo”

A flexão de plural desse tipo de palavra se faz por uma regra geral bem simples. Veja o quadro:

Plural dos adjetivos compostos No plural de um adjetivo composto, somente o último adjetivo formador — o da direita — vai para o plural. Se o último elemento formador não for adjetivo, o composto é invariável. Exemplo:

adjetivo

• tratado anglo-franco-italiano adjetivo composto no singular

tratados anglo-franco-italianos adjetivo composto no plural

Agora vamos considerar os adjetivos compostos verde-claro e verde-musgo e observar, nos exemplos a seguir, a diferença que eles apresentam na flexão de plural. tapete verde-claro singular

tapetes verde-claros plural

tapete verde-musgo singular

tapetes verde-musgo invariável

Por que verde-claro tem plural, mas verde-musgo é invariável? Observe que “claro” é adjetivo (ex.: dia claro), por isso, conforme a regra geral, no adjetivo composto esse elemento vai para o plural: verde-claros. Já “musgo” não é adjetivo (e sim substantivo), por isso, conforme a regra, não vai para o plural e, consequentemente, o adjetivo composto fica invariável. Substantivo • Adjetivo

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Complementos teóricos 1. Os adjetivos azul-marinho e azul-celeste são invariáveis. Exs.: camisas azul-marinho; bandeiras azul-celeste. 2. O adjetivo surdo-mudo tem plural nos dois elementos, e não só no último (como determina a regra geral). Ex.: crianças surdas-mudas. 3. As expressões adjetivas formadas por cor + de + substantivo são invariáveis, inclusive quando o segmento “cor de” fica subentendido. Exs.: parede cor de terra paredes cor de terra; uniforme [cor de] cinza uniformes cinza.

Concordância do adjetivo com o(s) substantivo(s)

Professor(a), as demais regras de concordância nominal serão sistematizadas no capítulo 5 do volume 3.

Vimos, anteriormente que, quando o adjetivo caracteriza apenas um substantivo, ele concorda com esse substantivo em gênero (masculino — feminino) e em número (singular — plural). Assim, por exemplo:

trânsito

confuso

cidades

tranquilas

substantivo [masc. e sing.]

adjetivo [masc. e sing.]

substantivo [fem. e plural]

adjetivo [fem. e plural]

Na organização dos enunciados, no entanto, é muito comum que um único adjetivo se posicione antes ou depois de um grupo de substantivos para caracterizá-los conjuntamente. Assim, podem se formar sequências destes dois tipos: • adjetivo + substantivo + substantivo + ...

• substantivo + substantivo + ... + adjetivo

Nesses casos, a flexão do adjetivo para concordar com os substantivos varia, dependendo da posição que ele ocupa em relação ao grupo de substantivos. Compare os quadros:

Adjetivo antes dos substantivos O adjetivo concorda, sempre, somente com o primeiro substantivo da série. Exemplos: • Nas conversas com o neto, ele só falava de antigos amigos, aventuras e amores. • Nas conversas com o neto, ele só falava de antigas aventuras, amigos e amores.

Adjetivo depois dos substantivos O adjetivo pode opcionalmente: 1. Concordar só com o último substantivo da série. Ex.: Na longa viagem pela selva, eles enfrentaram frio e fome extrema. 2. Concordar, no plural, com o conjunto de substantivos. Ex.: Na longa viagem pela selva, eles enfrentaram frio e fome extremos.

Observe, no último exemplo, que, se o adjetivo concorda com um conjunto de substantivos de gêneros diferentes — “frio” (masculino) e “fome” (feminino) —, ele vai para o plural e para o masculino (extremos), não importando, nesse caso, a posição do substantivo masculino na série.

Grau do adjetivo Compare os empregos do adjetivo “interessante” nestes dois enunciados:

1. O documentário a que assistimos hoje foi mais interessante que o filme de ontem. 2. A TV Escola apresentou outro documentário interessantíssimo.

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Nas duas frases da página anterior, o adjetivo não só caracteriza o substantivo “documentário” como também expressa a intensidade dessa característica. Comparando os exemplos, é fácil observar que, em cada caso, a intensificação do adjetivo se faz por meio de diferentes mecanismos gramaticais. Assim: • Em 1 — Ao adjetivo “interessante” associa-se a palavra intensificadora “mais”: mais interessante. • Em 2 — Ao adjetivo “interessante” associa-se o sufixo intensificador -íssimo: interessantíssimo. A esses recursos gramaticais que possibilitam exprimir a intensidade com que o adjetivo caracteriza o substantivo, damos o nome de grau. O adjetivo pode apresentar-se em dois graus: comparativo e superlativo.

Grau comparativo Estabelece uma relação de comparação entre duas características de um mesmo ser, ou compara uma determinada característica atribuída a dois seres. Há três tipos de grau comparativo, conforme mostra o quadro. De superioridade Este verão está mais quente que chuvoso. O documentário foi mais interessante que o filme.

Grau comparativo

De igualdade Este verão está tão quente quanto chuvoso. O documentário foi tão interessante quanto o filme. De inferioridade Este verão está menos quente que chuvoso. O documentário foi menos interessante que o filme.

FIQUE SABENDO

No estudo dos graus do adjetivo, você não precisa se preocupar com os “nomes” que os diferentes graus recebem, pois mais importante que saber classificá-los é compreender como o emprego de um adjetivo em um determinado grau contribui para o sentido do enunciado.

Grau superlativo Indica que uma característica é atribuída em máxima (ou mínima) intensidade ao substantivo. Subdivide-se, como mostra o quadro, em absoluto e relativo. Superlativo absoluto — indica que a característica é atribuída a um ser isoladamente e, dependendo da forma como se apresenta, subdivide-se em: • analítico: palavra intensificadora + adjetivo. Ex.: O documentário foi muito interessante. • sintético: adjetivo + sufixo intensificador. O documentário foi interessantíssimo. Superlativo relativo — a característica é atribuída a um ser, relacionando-a a outros seres que também apresentem tal característica. Pode ser de: • superioridade: o/a mais [adjetivo] de. Ex.: Aquela região era a mais rica do estado. • inferioridade: o/a menos [adjetivo] de. Ex.: Ele é o menos irresponsável da turma.

Complementos teóricos Na variedade culta formal do idioma, o adjetivo não admite aumentativo nem diminutivo. Na linguagem popular, no entanto, é comum os falantes empregarem adjetivos com sufixos aumentativos ou diminutivos para obter determinados efeitos de sentido. Veja alguns exemplos: • O atacante de nosso time é muito lento, pesadão. • O namorado dela é bem bonitão, hein?! • O carro é velho, mas até que é bonzinho. • Paula não viajou porque o bebê dela está doentinho.

Substantivo • Adjetivo

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Adjetivo Palavra que se associa a substantivos para atribuir aos seres características, qualidades ou estados. Importante: Lembre-se de que a classe gramatical de uma palavra só pode ser determinada se ela estiver combinada com outra(s), formando enunciados. Compare as formas destacadas nas frases de cada par: • O brasileiro é muito otimista. «° O povo brasileiro é muito otimista. substantivo (nome geral das pessoas que nascem no Brasil)

adjetivo (caracteriza o substantivo “povo”)

• Sua consulta médica foi desmarcada? «° Conheço a médica que atende naquela clínica. adjetivo (caracteriza o substantivo “consulta”)

substantivo (nome geral de pessoas formadas em medicina)

Locução adjetiva Expressão formada por preposição (de, em, sobre etc.) + outra(s) palavra(s) que exerce(m) o papel de adjetivo, caracterizando os seres.

Ex.: Olhava tristemente as águas agora poluídas do rio em que nadava na infância.

Caracterizadores do substantivo • Adjetivo — Ex.: Uma violenta enchente destruiu a velha ponte. • Locução adjetiva — Ex.: Notícias sobre política não atraem a atenção dos alienados. • Oração adjetiva — Ex.: Todo livro que lemos amplia nossos horizontes culturais.

Flexões do adjetivo O adjetivo, tal como o substantivo, pode ter duas flexões:

Gênero

Número

Masculino

Feminino

Singular

Plural

Ex.: dia claro

Ex.: noite clara

Ex.: rio limpo

Ex.: rios limpos

Plural dos adjetivos compostos Regra geral: somente o último adjetivo (o da direita) vai para o plural. Se o último elemento não for adjetivo, o composto é invariável (não tem plural). Veja estes exemplos: • acordo sino-russo adjetivo

• ação sobre-humana adjetivo

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acordos sino-russos plural do composto

ações sobre-humanas plural do composto

• tecido azul-escuro adjetivo

• tecido azul-piscina substantivo

tecidos azul-escuros plural do composto

tecidos azul-piscina adjetivo composto invariável

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Atividades

Escreva no caderno

1. No trecho a seguir, extraído do romance A cidade e as serras, o narrador relata a atitude de seu amigo e personagem principal da trama, Jacinto de Tormes, com quem passeia por um ponto turístico de Paris. Leia-o, observando a palavra destacada: Mas a basílica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto, por um impulso bem jacíntico, caminhou gulosamente para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o céu cinzento, na planície cinzenta, a cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de caliça e telha. E, na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais tênue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado, era todo o vestígio visível de sua vida magnífica.

caliça: camada de pó de cal que recobre uma superfície.

QUEIRÓS, Eça de. A cidade e as serras. São Paulo: Nova Cultural, 2003. p. 70.

A respeito do adjetivo jacíntico, empregado pelo narrador, pode-se afirmar que: a) consiste num evidente erro gramatical, dada a inexistência dessa palavra, de acordo com as prescrições normativas. b) constitui uma tentativa de marcar a personalidade peculiar de Jacinto, certamente caracterizada pela impulsividade. c) ironiza Jacinto, pois o caracteriza como um ser impulsivo, de ações bruscas, irrefletidas e afetadas. d) está relacionada ao advérbio bem, que lhe reforça o sentido de algo genérico e comum. e) a rigor, no período em questão, caracteriza o substantivo Jacinto, mencionado anteriormente. 2. Em um programa esportivo na TV, em que os participantes debatiam o uso de doping por atletas de diferentes esportes e as técnicas de detecção de substâncias proibidas no organismo, um especialista em toxicologia disse o seguinte:

Esse exame só é usado para cavalos, que correm com doses cavalares de substâncias proibidas e por isso são fáceis de descobrir por meio dessa técnica tradicional. a) O especialista empregou uma palavra que, se interpretada literalmente, levaria a um sentido óbvio. Transcreva essa palavra, aponte sua classe gramatical e explique por que o sentido — adjetivo (caracteriza o substantivo “doses”). O sentido seria óbvio porque se são cavalos que correm com seria óbvio. “cavalares” essas doses, obviamente elas são cavalares, ou seja, de cavalos. b) Para compreender adequadamente o que o falante pretendeu dizer, é necessário levar em conta que ele fez uso de uma figura de linguagem. Explique de que figura se trata e justifique sua resfez uso de uma hipérbole (exagero intencional), para enfatizar que, em cavalos, são aplicadas doses excessivamente altas de posta. Ele substâncias proibidas.

Substantivo • Adjetivo

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3. a) Porco passageiro quer dizer “animal (um suíno) que participou de uma viagem”; passageiro porco quer dizer “indivíduo (pessoa) que não tem higiene, que faz sujeira”.

3. b) Em porco passageiro, porco é substantivo (nome) e passageiro é adjetivo (qualificação); em passageiro porco, passageiro é substantivo e porco, adjetivo.

3. Leia este trecho de notícia:

Porco passageiro não é passageiro porco

Marcos G

uilherme

Um porco passageiro alvoroçou o voo 107 da companhia US Airways, que saiu da Filadélfia com destino a Seattle, nos EUA. Note-se que não se trata de um passageiro porco, mas de um porco passageiro mesmo. Pesando 135 quilos, ele viajou com suas duas donas [...] na primeira classe. [...]

PORCO passageiro não é passageiro porco. ISTO É, São Paulo: Editora Três, n. 1 623, 8 nov. 2000. Disponível em: <http://www.terra.com.br/istoe-temp/1623/1623semana_2.htm>. Acesso em: 19 fev. 2016.

a) Explique a diferença de sentido entre porco passageiro e passageiro porco. b) Que alterações nas classes gramaticais geraram a mudança de sentido referida no item a? c) Crie um título bem-humorado para a notícia, supondo que, durante a viagem, o “ilustre” passageiro tenha feito uma enorme sujeira dentro do avião. Resposta pessoal. Sugestões: 1. Porco porco suja avião da US Airways. 2. Porco passageiro era porco mesmo. 3. Porco passageiro faz porcaria em avião.

4. Leia este trecho de romance, em que o narrador descreve duas mulheres irmãs, moradoras da cidadezinha de Oliveira:

[...] As duas manas Lousadas! Secas, escuras e gárrulas como cigarras, desde longos anos, em Oliveira, eram elas as esquadrinhadoras de todas as vidas, as espalhadoras de todas as maledicências, as tecedeiras de todas as intrigas. E na desditosa cidade não existia nódoa, pecha, bule rachado, coração dorido [...], vulto a uma esquina, bolo encomendado nas Matildes, que os seus olhinhos furantes de azeviche sujo não descortinassem — e que a solta língua, entre os dentes ralos, não comentasse com malícia estridente! [...]

gárrulo: tagarela; esquadrinhador: que sonda ou vigia; pecha: defeito, falha; azeviche: (fig.) de cor muito escura; estridente: ruidoso, barulhento.

QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. São Paulo: Escala, 2005. p. 77.

a) A posição normal do adjetivo é depois do substantivo; no entanto, muitas vezes, para que sua força expressiva se intensifique, ele é anteposto ao substantivo. Transcreva do trecho os três casos em que o narrador faz uso desse recurso. longos anos; desditosa cidade; solta língua b) Na terceira frase do texto, há uma série de substantivos muito díspares, isto é, de campos semânticos muito diferentes entre si. Em sua opinião, o que o narrador pretendeu sugerir com essa sequência de nomes? Ao citar a série de elementos tão díspares (como “bule rachado” e “coração dorido”), o narrador procura sugerir que todo e qualquer aspecto do cotidiano da vida na cidadezinha estava sujeito à vigilância, às críticas e às fofocas maldosas das irmãs Lousadas.

c) Transcreva os adjetivos que o narrador emprega para caracterizar as personagens ou aspectos relativos a elas. Depois, explique que efeito expressivo ele pretendeu obter ao empregá-los. Secas, escuras, gárrulas, esquadrinhadoras, espalhadoras, tecedeiras, furantes, sujo, solta, ralos, estridente. Esses adjetivos têm significados fortemente negativos, e o autor, ao escolhê-los, procurou claramente depreciar as irmãs Lousadas, mostrá-las como pessoas fofoqueiras, repulsivas e desprezíveis.

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5. b) A locução adjetiva pode se associar ao substantivo comida (comida com pouca gordura) ou ao substantivo gato (gato com pouca gordura).

Professor(a), este exercício foi originalmente proposto, de forma um pouco diferente, em um dos vestibulares da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-SP). Distribute by Universal Press Syndicate

5. Leia esta tira humorística.

5. c) 1ª. possibilidade — alterando a ordem das palavras: “Comida com pouca gordura para gato.”; 2ª. possibilidade — introduzindo uma pausa na fala (representada, na escrita, por vírgula): “Comida para gato, com pouca gordura”.

a) Classifique, quanto à classe gramatical, a expressão com pouca gordura.

com pouca gordura — locução adjetiva

b) O efeito de humor da tirinha decorre da possibilidade de a expressão com pouca gordura estabelecer, nesse contexto, duas relações de sentido. Quais são elas? c) Sem acrescentar novas palavras, proponha duas formas de construir a frase usada pelo personagem no primeiro quadrinho, de maneira a evitar a interpretação que Garfield deu a ela. 6. Nas frases a seguir, flexione os adjetivos destacados, de maneira a estabelecer a concordância adequada com o(s) substantivo(s) que esses adjetivos caracterizam. Se houver duas possibilidades de concordância, cite-as. a) [Velho], mas ainda [útil], desafiavam o tempo e o enorme rio, as barcaças de madeira.

Velhas — úteis

b) Os buracos na estrada, as curvas e a neblina tornavam [perigoso], na época em que meu pai era caminhoneiro, a viagem até o porto. perigosa c) As gerações do futuro desfrutarão de tecnologias e inventos [fantástico].

fantásticos

d) As gerações do futuro desfrutarão de inventos e tecnologias [fantástico]. fantásticas/fantásticos e) Esse livro analisa as concepções [político-econômico] das elites brasileiras.

político-econômicas

f) Você estava engraçadíssimo de bermuda roxa e com aquelas meias [amarelo-ouro] e sapatos [vinho]! amarelo-ouro (adjetivo invariável); vinho (sapatos [cor de] vinho) © King Features Syndicate/Ipress

7. Leia este diálogo entre Hagar e seu amigo Eddie Sortudo e identifique a afirmação incorreta.

BROWNE, Chris. Hagar. Folha de S.Paulo, São Paulo, 15 out. 1993.

a) Nesse contexto, o diminutivo carinha tem carga semântica depreciativa. b) Hagar poderia substituir carinha novo por novato, mas esse substantivo não evidenciaria o menosprezo que ele sente por Gork. c) Para intensificar uma das características que atribui a Gork, Hagar fez uso do adjetivo no grau comparativo de superioridade. [“mais bobo que”]. d) Ao fazer o agradecimento, Eddie evidencia que, até aquele momento, ele próprio se considerava o cara mais bobo que Hagar conhecia. e) Mesmo que o interlocutor de Hagar fosse uma mulher, o adjetivo do último quadrinho continuaria sendo obrigado, ou seja, não apresentaria flexão de gênero. [Obrigado(a) — adjetivo variável em gênero; concorda com o

sexo do falante; homem diz “obrigado”, mulher diz “obrigada”.]

Substantivo • Adjetivo

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DA TEORIA À PRÁTICA Ponto de partida No texto “Em defesa dos adjetivos” (página 261), o autor propõe: Vida

longa ao adjetivo! Pequeno ou grande, esquecido ou corrente. Precisamos de você, esbelto e maleável adjetivo que repousa delicadamente sobre coisas e pessoas e cuida para que elas não percam o gosto revigorante da individualidade.

© King Features Syndicate/Ipress

Vamos, então, ler uma historinha em que um “maleável adjetivo” é o responsável pelo “gosto revigorante da individualidade” e pelo prazer do humor inteligente.

BROWNE, Dik. Hagar. Folha de S.Paulo, São Paulo, 20 jun. 1991.

Em sua primeira fala, Hagar emprega três adjetivos: grande, imenso e felizes. Os dois primeiros caracterizam, respectivamente, os substantivos “casa” e “navio” e, com eles, Hagar parece sugerir que os vikings são felizes em sua vida modesta; não são ambiciosos, nem se apegam a coisas materialmente valiosas. No segundo quadrinho, Hagar parece reafirmar essa ideia, ao empregar a expressão “pequenas coisas”. Observe que o adjetivo pequenas anteposto ao substantivo coisas ganha sentido de “simples, insignificantes, sem valor”. No último quadrinho — como costuma acontecer nas tirinhas humorísticas — vem a surpresa. Hagar faz uma lista das coisas que tornam os vikings felizes: rubis, diamantes, moedas de ouro etc. Nesse momento, o leitor precisa reinterpretar o adjetivo pequenas, atribuindo-lhe o sentido de “diminutas”, “de tamanho reduzido”, já que rubis, diamantes etc. são, fisicamente, de dimensões reduzidas, porém muito valiosos e, por isso, não são “pequenas coisas”; são “coisas pequenas”. Esse jogo semântico, que se apoia na alteração do significado de um “maleável adjetivo”, é que surpreende o leitor e provoca o riso. Então... Vida longa aos adjetivos, não é mesmo?

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Agora é sua vez

Escreva no caderno

1. No trecho a seguir, o pouco modesto coronel Ponciano Furtado, que você já “conheceu” no capítulo anterior, relata como salvou um garotinho que corria o risco de morrer afogado numa enchente. Leia-o. [...] Certa feita, salvei, a rogo dele, uma besteirinha mal saída dos cueiros que foi expelir urina e perdeu o caminho de casa. Estava eu no sono [...], quando a voz de Sinhozinho chamou já dentro do quarto: — Ponciano! Ponciano! Larguei a cama e caí nos ermos. Era de madrugadinha. O corisco alumiava rogo: pedido; no alto e na terra era aquele lençol de chuva que não dava permissão de ninermo: lugar desabitado; guém ver uma rês ou mesmo arvoredo a um lance de cinco braças no adiante corisco: relâmpago; do nariz. [...] lapa: laje de pedra que De uma lapa, que a diluviada ameaçava sorver, retirei, com o ajutório de forma um abrigo; Sinhozinho, o desaparecido — foi minha mão botar o traquinista em lugar sediluviada: chuvarada; guro e de logo, no imediato, aquela manta de água aparecer e tudo afundar. E, sorver: engolir/destruir; enquanto acamava o salvado [...] dei o serviço por acabado: manta de água: enxurrada muito forte. — A bem dizer, Sinhozinho, o menino nasceu de novo. [...]. CARVALHO, José Cândido de. O coronel e o lobisomem. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. p. 21. Professor(a), o conceito de coesão textual foi apresentado no capítulo 3 (página 211).

Existem no idioma certos recursos que possibilitam estabelecer a coesão textual. Um desses recursos consiste na retomada de uma palavra do texto por meio de seu(s) sinônimo(s). No trecho acima, por exemplo, o narrador emprega cinco substantivos para se referir ao garoto que ele havia salvado. a) Identifique e transcreva esses substantivos.

Besteirinha, desaparecido, traquinista, salvado e menino.

b) Os substantivos que você identificou no item a são sinônimos, mas, como geralmente acontece nas séries sinonímicas, eles não têm exatamente o mesmo significado. Então, transcreva: I. a palavra que tem carga semântica neutra, isto é, que não exprime uma ideia positiva nem negativa a I. menino; II. besteirinha (sugere que o menino respeito do personagem que foi salvo da enchente. era pequeno e, para ele — narrador

—, de pouca importância; alguém insignificante); traquinista (“arteiro/traquinas” — o narrador dá a entender que o menino estava fazendo arte, coisa errada).

II. as duas palavras que exprimem uma opinião (juízo de valor) do narrador. Justifique.

c) Como se justificam, nesse contexto, os sentidos dos dois outros sinônimos que não foram citados no Desaparecido relaciona-se ao fato de o menino ter sumido de casa quando foi fazer xixi; salvado relaciona-se ao fato de ele ter sido tirado do item b? buraco, ter sido salvo pelo narrador. Governo do Estado do Espírito Santo. Criação: Agência Criativa

2. Uma campanha em defesa do respeito à escola pública fez uso do texto abaixo.

Substantivo • Adjetivo

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3. b) O efeito de humor decorre, em parte, do próprio fato descrito — uma cena típica das narrativas românticas (um jovem conduz em seu cavalo uma donzela com os cabelos ao vento) — e, principalmente, dos adjetivos escolhidos: imponente, íngreme, fogoso, apaixonado, formosa. Esses adjetivos, além de seus próprios significados, ganham maior ênfase semântica porque são antepostos aos substantivos, realçando assim a pretensa “grandiosidade e emotividade” da cena descrita.

a) Se o título desse texto for interpretado com sentido óbvio, que classe gramatical tem a palavra privada? Privada funciona como adjetivo. O sentido seria “Escola pública não é (escola) privada/ Justifique. particular”. Se a escola é pública, obviamente não pode ser escola privada.

b) Se o título for interpretado em seu sentido crítico, qual passa a ser a classe gramatical de privada? Relacione essa função gramatical da palavra à crítica expressa pela frase. 3. Compare estes dois textos e responda aos itens a e b.

2. b) Privada passa a substantivo, significando “lugar em que as pessoas fazem as necessidades fisiológicas” ou “vaso sanitário”. Assim, a frase exprime um posicionamento de contestação, de indignação em relação à maneira como a escola é tratada e reivindica respeito por ela.

TEXTO 1

TEXTO 2

No fundo o castelo. No primeiro plano a ladeira que conduz ao castelo. Descendo a ladeira numa disparada o ginete. Montado no ginete o caçula do castelão de capacete com plumas. E atravessada no ginete a donzela entregando ao vento os cabelos cor de carambola.

No fundo o imponente castelo. No primeiro plano a íngreme ladeira que conduz ao castelo. Descendo a ladeira numa disparada louca o fogoso ginete. Montado no ginete o apaixonado caçula do castelão inimigo de capacete prateado com plumas brancas. E atravessada no ginete a formosa donzela desmaiada entregando ao vento os cabelos cor de carambola.

3. a) Trecho II, devido à presença intensiva de adjetivos que, associados aos substantivos — castelo, ladeira, ginete, disparada, caçula, donzela —, exprimem características específicas desses elementos.

ginete: cavalo de raça; castelão: dono do castelo.

MACHADO, Antônio de Alcântara. Carmela. In: . Contos paulistanos. São Paulo: Ed. Unesp, 2012. p. 24.

a) Qual dos dois trechos permite ao leitor visualizar com mais detalhes a cena descrita? Por quê? b) No texto 2, Antônio de Alcântara Machado, escritor modernista, refere-se a uma imagem na capa de um livro que a personagem Carmela tem nas mãos. Ao descrever a cena da capa, o autor faz uma paródia (imitação irônica, em tom de gozação) das descrições românticas tradicionais. Explique como ele obtém, no trecho, o efeito de humor irônico. 4. Estão reproduzidos a seguir um pequeno texto a respeito de uma campanha publicitária e um outdoor que 4. a) Peça, no caso, indica “peça publicitária” e refere-se a “um outdoor”; novo fez parte dela. Leia-os e responda aos itens a e b. concorrente refere-se ao “Palladium Shopping Center”, que foi inaugurado e passou a ser concorrente do Shopping Total.

Total dá boas-vindas ao Palladium

Outdoor do Shopping Total

A Exclam Comunicação criou um outdoor para o Shopping Total de Curitiba saudando o Palladium Shopping Center, que foi aberto ao público nesta sexta-feira, 9 de maio. Com o título “Caríssimo Palladium, seja bem-vindo”, a peça reforça o posicionamento de shopping de descontos do Total, que está localizado próximo ao novo concorrente.

a) No texto, a que elemento textual se refere a palavra peça? E a expressão novo concorrente? b) Uma das características das campanhas publicitárias que se destacam nos meios de comunicação consiste no emprego criativo da linguagem em enunciados que veiculam duplos sentidos e/ou ideias subentendidas. Identifique, no outdoor, a palavra que foi empregada com essa finalidade e comente o duplo efeito que pode significar: 1. “muito querido; que merece afeto e consideração”; 2. “careiro, que cobra ela cria na mensagem da frase. Caríssimo preços exagerados”. Interpretada como “querido, estimado”, a palavra sugere que o Total está recebendo de

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maneira gentil/cortês o Palladium (novo concorrente). Interpretada como “careiro”, dá a entender que o Palladium cobra preços altos pelos seus produtos. Esse sentido é que leva o leitor a reinterpretar ironicamente o outro sentido, pois quem vende caro raramente é “estimado, querido”.

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5. (Unicamp-SP) Leia o texto.

5. a) Em “notícias que são de interesse público”, a palavra público é adjetivo, significando “que é de todos” e atribuindo uma característica/ qualificação ao nome interesse. Se o masculino interesse fosse substituído pelo feminino participação, teríamos “participação pública”, evidenciando que “público(a)” concorda com o nome a que se refere, caracterizando-se, assim, como adjetivo. Em “interesse do público, ou de um certo público”, a palavra é substantivo e está nomeando um “conjunto de pessoas”. Nessa ocorrência, a presença do artigo anteposto (do) também sinaliza que público é substantivo.

6. b) Pode-se pensar velho como adjetivo, significando “de longo tempo” ou “que já conhecemos há muito tempo” e amigo como substantivo. Assim, a expressão passa a significar “pessoa com quem há muito tempo mantemos vínculos de amizade”. Esse sentido se superpõe ao sentido principal, criando um jogo semântico que enfatiza a proposta do projeto: tratar os velhos como se eles fossem, já de longo tempo, nossos amigos.

Há notícias que são de interesse público e há notícias que são de interesse do público. Se a celebridade “x” está saindo com o ator “y”, isso não tem nenhum interesse público. Mas, dependendo de quem sejam “x” e “y”, é de enorme interesse do público, ou de um certo público (numeroso), pelo menos. As decisões do Banco Central para conter a inflação têm óbvio interesse público. Mas quase não despertam interesse, a não ser dos entendidos. O jornalismo transita entre essas duas exigências, desafiado a atender às demandas de uma sociedade ao mesmo tempo massificada e segmentada, de um leitor que gravita cada vez mais apenas em torno de seus interesses particulares. BARROS E SILVA, Fernando. O jornalista e o assassino. Folha de S.Paulo, versão on-line, 18 abr. 2011. Acesso em: 20 dez. 2011.

5. b) A expressão interesse público se refere a fatos/decisões etc. que dizem respeito a toda uma sociedade e que, por isso, interessa (ou deveria interessar) a todos os integrantes dessa sociedade, ou, pelo menos, deveria ser do conhecimento de todos. A expressão interesse do público se refere a fatos a respeito dos quais uma determinada parcela da sociedade, em função de seus interesses/ motivações particulares, procura se informar.

a) A palavra público é empregada no texto ora como substantivo, ora como adjetivo. Exemplifique cada um desses empregos com passagens do próprio texto e apresente o critério que você utilizou para fazer a distinção. b) Qual é, no texto, a diferença entre o que é chamado de “interesse público” e o que é chamado de “inte6. a) Como a entidade se propõe a apoiar os idosos, deve-se interpretar resse do público”? velho como alguém de idade já avançada e amigo como uma característica dessa pessoa. Ou seja, velho amigo significa “pessoa idosa com quem mantemos vínculos de amizade ou que devemos tratar de forma amigável, carinhosa”.

Projeto Velho Amigo: www.velhoamigo.org.br

6. Leia este texto de uma organização de assistência social:

Disponível em: <www.velhoamigo.org.br>. Acesso em: 19 fev. 2016.

a) Considerando a “missão” do projeto, qual é o sentido básico, principal, que se evidencia na expressão velho amigo? b) A expressão que dá nome ao projeto admite a possibilidade de ser interpretada em outro sentido, no qual se modificam as classes gramaticais de velho e de amigo. Qual é esse sentido e como ele contribui para reforçar a proposta de atuação da entidade? c) De que maneira a imagem que integra o logotipo do projeto se associa à sua missão?

A silhueta da árvore, por sua dimensão — observar que ela é frondosa, grande —, pode tanto simbolizar a chegada ao ponto máximo da vida (no caso, a velhice) como ser uma referência à ideia de proteção, de sombra, de acolhimento que ela pode oferecer, representando, assim, a proposta do projeto: acolher e apoiar os idosos. Substantivo • Adjetivo

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Arquivo BHTRANS

7. Há alguns anos, a prefeitura de Belo Horizonte (MG) desenvolveu nas ruas da cidade uma criativa campanha de educação para o trânsito. A estratégia da campanha consistia em posicionar junto aos veículos estacionados irregularmente um enorme cartaz, de aproximadamente 80 cm × 1,5 m, com uma bem-humorada “bronca” para os motoristas desses veículos. Veja um dos cartazes:

No contexto dessa imagem, o substantivo papelão pode ser entendido em três diferentes sentidos. a) Associado ao comportamento de certos motoristas que param seus carros em vagas exclusivas para defisentido, papelão significa “comportamento deseducado, grosseiro, cientes, qual é o sentido dessa palavra? Nesse inaceitável”; algo que vai contra procedimentos sociais considerados corretos. b) Que aspecto do cartaz deve ser levado em conta para que o substantivo papelão realmente expresse a 7. b) Deve-se levar em conta o tamanho do cartaz. Suas dimensões ideia de aumentativo do substantivo papel? c) Qual é o outro sentido de papelão nesse contexto?

exageradas provocam o deslocamento de sentido da palavra papelão para a ideia de que se trata de um “papel grande em suas dimensões”.

8. Em sua variedade culta formal, a língua portuguesa não prevê formas aumentativas e diminutivas para o adjetivo. Na linguagem coloquial, no entanto, é comum que os falantes, buscando determinados efeitos expressivos, empreguem adjetivos no aumentativo e no diminutivo. Considerando tal fato, responda aos itens a e b a seguir. a) Leia o trecho de poema abaixo e comente o efeito expressivo criado pelos adjetivos que, nesses versos, foram empregados no diminutivo. Pequenininho e lindinho exprimem afetividade, sugerindo que o apartamento é agradável, confortável, aconchegante; em baratinho, o sufixo diminutivo exprime intensidade, indicando que o apartamento é muito barato.

7. c) A palavra papelão pode se referir ao tipo de material de que foi feito o cartaz. Nesse sentido, papelão é um tipo de papel grosso, rígido e, em geral, de cor amarronzada, usado para fabricação de caixas, embalagens etc.

Pequenininho lindinho baratinho enfim aquele apartamento para quem gosta de diminutivos e já decidiu o tamanho da família. ANDRADE, Carlos Drummond de. Diamundo. In: . Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988. p. 381.

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CAPÍTULO 7

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Miguel Paiva

b) Agora leia esta tira humorística:

3028-GRA-V1-C07-LA-F022_Reprodução de tirinha de Miguel Paiva. REAPROVEITAMENTO da página 304 do livro Novas Palavras, volume 1 (PNLD 2015). ISBN 978-85-322-8478-5.

Disponível em: <www.facebook.com/miguelplp/>. Acesso em: 7 jun. 2016.

E então? O que cada um dos personagens quer dizer ao usar o adjetivo no diminutivo? Nesse contexto, os adjetivos no diminutivo exprimem concessão, ou seja, o rapaz, na verdade, não acha bonito o corpo da moça; então, usa bonitinho, dando a entender que “não é bonito, mas também não é feio”. A moça, por sua vez, sugere que o caráter do rapaz não é o ideal, é apenas aceitável, “passável”. Esses sentidos se reforçam, nos dois casos, pela presença da partícula até.

E MAIS...

Um texto só com substantivos... Será que dá? Neste capítulo, você aprendeu que os substantivos são palavras que usamos para dar nomes às coisas, às pessoas, aos sentimentos etc. Se assim é, um texto formado só por substantivos não deve ser realmente um texto; não deve passar de um amontoado de palavras sem um “sentido geral”, não é mesmo? Ou será que não? Professor(a), ver em Conversa com o professor, na seção “E mais...” Vamos tentar?

Orientações para o desenvolvimento da atividade

(Orientações específicas do capítulo 7), as orientações para esta atividade e o texto “Circuito fechado”, a ser encenado na etapa 1.

1. Um pouco de teatro a) O(A) professor(a) vai convidar um(a) integrante da turma para encenar uma sequência de situações do cotidiano, usando apenas mímica. b) No instante em que o(a) colega iniciar a representação, o(a) professor(a) vai escrever, na lousa, apenas os dois primeiros substantivos da sequência que deverá ser adivinhada pela classe. c) Os demais colegas deverão observar atentamente a encenação e, à medida que ela for se desenvolvendo, tentarão nomear, usando substantivos, os objetos de que o personagem faz uso ou aos quais faz referência em cada situação/cena. Isso deve ser feito individualmente, por escrito e em silêncio. Os substantivos devem ser registrados em sequência linear. 2. Leitura da produção de alguns alunos Ao final da encenação, o(a) professor(a) pedirá que alguns integrantes da turma leiam a sequência de substantivos que produziram. 3. Leitura do(a) professor(a) Nessa etapa, o(a) professor(a) fará, para a turma, a leitura da sequência que foi encenada pelo(a) aluno(a) e, em seguida, algumas perguntas relativas ao resultado da atividade.

Substantivo • Adjetivo

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Classes gramaticais

capítulo

8

Artigo Numeral

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livro • BACCEGA, Maria Aparecida. Artigo e crase. São Paulo: Ática, 1989. Artigo • PEREIRA JUNIOR, Luiz Costa. Cartaz mal escrito vira caso de polícia na Paraíba. Revista Língua Portuguesa, jun. 2015. Disponível em: <http://tub.im/umikeh>. Acesso em: 19 fev. 2016. Vídeo • ENGENHEIROS do Hawaii – Números. Produção: DHVEVO. Vídeo (3min 23s). Disponível em: <http://tub.im/57z449>. Acesso em: 19 fev. 2016.

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ARTIGO Conceito e classificação

Uma lanchonete da Zona Sul carioca está lançando uma novidade: o sanduíche Epa!. A pessoa compra o sanduíche, abre o pão e grita: “Epa! Cadê o queijo?”. A lanchonete serve Epa! de várias qualidades: Epa! de presunto, Epa! de galinha e Epa! de sardinha.

Marcos Guilherme

Leia este texto humorístico, atentando para os elementos textuais sublinhados:

NUNES, Max. O pescoço da girafa: pílulas de humor por Max Nunes. Sel. e org. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 43.

Observe esta diferença nas palavras que, nesse texto, acompanham as duas ocorrências do substantivo lanchonete:

1ª. ocorrência

2ª. ocorrência

uma lanchonete

a lanchonete

O autor, inicialmente, antepõe a palavra uma ao substantivo lanchonete porque é a primeira vez que ele vai citar esse substantivo; o leitor, até aí, não tem informação a respeito de que lanchonete o autor está falando; então, a palavra uma torna genérico, indefinido o sentido do substantivo. Depois, na segunda vez que o substantivo é citado, o leitor já sabe de que lanchonete se trata; ela já foi referida, definida no texto, por isso aparece a forma “a lanchonete”. As palavras uma e a são, nesse texto, dois artigos.

Artigo é a palavra que se coloca antes do substantivo para determiná-lo de modo geral (indefinido) ou particular (definido).

FIQUE SABENDO

Lembre-se de que a classe gramatical de uma palavra depende das combinações que ela estabelece com as demais palavras da frase. Como veremos adiante, a palavra a, além de ser artigo, pode ser pronome ou preposição; o pode ser artigo ou pronome; um pode ser artigo, numeral ou pronome.

A partir desse conceito básico de artigo, podemos subdividir essa classe gramatical em dois grupos:

• Artigos definidos: o, a, os, as. • Artigos indefinidos: um, uma, uns, umas. Quanto ao tipo de artigo — definido ou indefinido — que antecede um substantivo, é importante considerar que o caso analisado (uma lanchonete " a lanchonete) representa o emprego mais geral dessas duas formas de artigo; isso porque nem sempre é necessário que apareça primeiro o artigo indefinido, para só depois aparecer o definido. Artigo • Numeral

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Veja, por exemplo, estas outras ocorrências, no próprio texto de Max Nunes: • “o sanduíche Epa!” — nesse caso, o substantivo sanduíche ainda não havia sido referido no texto, mas, mesmo assim, usa-se o artigo o (definido), porque o substantivo está também “definido” pelo seu próprio nome: Epa!.

• “abre o pão [...] Cadê o queijo?” — nesses dois casos, o emprego do artigo definido se justifica pelo fato de que, pelo contexto, tanto o pão quanto o queijo já estão claramente definidos: trata-se, obviamente, do pão com que é feito o sanduíche e do queijo que deveria haver dentro dele. Ame o verde.

Principais empregos do artigo A substantivação O artigo sempre aparece associado ao substantivo. Assim, se for associado a uma palavra de qualquer outra classe gramatical, essa palavra passará a desempenhar o papel de substantivo. Esse fato gramatical, como vimos no capítulo 6, denomina-se substantivação. No cartaz ao lado, por exemplo, as palavras verde, vermelho, amarelo e azul, que geralmente são adjetivos, aparecem precedidas de artigos, designando os próprios nomes das cores. Essas palavras funcionam, portanto, como substantivos. o verde substantivo

o vermelho

o amarelo

substantivo

substantivo

o azul

O vermelho. O amarelo. O azul. Preserve a natureza em todas as suas cores.

substantivo

Vamos analisar outro exemplo: A palavra longe, no dicionário, é classificada como advérbio e a palavra cantar como verbo. No enunciado abaixo, no entanto, por estarem determinadas por artigo, elas funcionam como substantivos. Ao longe, ouvia-se o cantar de um pássaro. substantivo

substantivo

Determinação do gênero e do número de substantivos O artigo, além de definir ou indefinir o substantivo, pode ser também empregado para identificar o gênero (masculino/feminino) e/ou o número (singular/plural) de palavras dessa classe gramatical. Veja alguns exemplos: • o dilema (substantivo masculino); • o vírus (substantivo masculino e singular); • os vírus (substantivo masculino e plural); • uma rádio (substantivo feminino); • um rádio (substantivo masculino).

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Anúncio do Ministério do Esporte e Turismo, Governo Federal

• “A pessoa (compra)” — o artigo definido, nesse caso, antecede um substantivo que serve para nomear genericamente todo um grupo de elementos (os fregueses da lanchonete).

FIQUE SABENDO

[...] a maioria absoluta das palavras não tem gênero natural, mas apenas gramatical. Isto é, são masculinas umas e femininas outras por mera convenção, por hábito, por causa da terminação, nuns casos, por certas analogias obscuras, noutros. O mais das vezes, só por meio do artigo é que sabemos ou indicamos que uma palavra é masculina ou feminina. MELO, Gladstone Chaves de. Iniciação à filologia portuguesa. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1967. p. 185.

CAPÍTULO 8

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Substantivos que não admitem artigo Existem certos tipos de substantivos que, geralmente, recusam a presença do artigo. Veja, no quadro, os principais casos e alguns exemplos:

Substantivos que não admitem artigo

Exemplos

Nomes de cidades.

Em maio, visitaremos Uberaba e Brasília.

Nomes de pessoas conhecidas, famosas.

Leonardo da Vinci foi inventor e artista. Seu compositor favorito é Villa-Lobos?

Substantivo casa significando “residência, moradia”.

Largou o emprego e voltou para casa. Os adolescentes não gostam de ficar em casa.

Substantivo terra com sentido oposto a “embarcado, a bordo”.

Ele ama o mar; não gosta de ficar em terra.

Substantivos precedidos de cujo(s), cuja(s).

Este é o contrato cujas cópias lhe pedimos.

Condé Nast Archive/Constantin Constantin Constantin Joffe/Corbis/Latinstock

Complemento teórico Os nomes de cidades, de pessoas famosas e a palavra casa, quando caracterizados por uma palavra ou expressão, exigem a anteposição do artigo. Veja estes exemplos: • Em maio, visitaremos a Uberaba de nossos avós. caracterizador

• Seu compositor favorito é o brasileiríssimo Villa-Lobos. caracterizador

• Largou o emprego e voltou para a casa dos pais. caracterizador

• Os adolescentes gostam de ficar na casa dos amigos. caracterizador

Heitor Villa-Lobos (1887-1959), maestro, compositor e educador brasileiro.

Empregos opcionais de artigo Existem dois casos em que é indiferente empregar ou não o artigo. Veja o quadro.

O artigo é opcional

Exemplos Sabia que o Marcelo viajou? Sabia que # Marcelo viajou?

Antes de pronomes possessivos (meu, sua, nossas etc.).

Apoio a sua decisão de voltar. Apoio # sua decisão de voltar.

Dalcio

Antes de nomes de pessoas de nossas relações sociais e/ou familiares.

DALCIO. Disponível em: <dalciomachado.blogspot.com.br>. Acesso em: 6 jun. 2016. Nesse contundente cartum, os possessivos foram empregados sem artigo — “meu Iphone” e “meu Iphome”; poderiam também ser precedidos pelo artigo: “o meu Iphone” e “o meu Iphome”.

Artigo • Numeral

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Artigo Palavra que se antepõe ao substantivo para determiná-lo de maneira geral ou particular. • Classificação • Artigos definidos: o/os, a/as " individualizam o substantivo. • Artigos indefinidos: um/uns, uma/umas " generalizam o substantivo. • Substantivação — toda palavra à qual se associa um artigo passa a integrar a classe gramatical dos substantivos. Compare: À tarde, ouvíamos o sino badalar.

Causava-lhe certa tristeza o badalar do sino. substantivo

verbo

Talvez chova hoje à tarde.

Ela respondeu com um talvez enigmático à pergunta da amiga. substantivo

advérbio

Atividades

Escreva no caderno

1. Compare estes dois textos e identifique a afirmação correta: TEXTO 1

TEXTO 2

É do conhecimento de todos que as poucas leis brasileiras sobre crimes ambientais não funcionam.

É do conhecimento de todos que poucas leis brasileiras sobre crimes ambientais não funcionam.

a) Os dois textos expressam uma crítica desfavorável às leis brasileiras sobre crimes ambientais. b) Os dois textos expressam uma crítica favorável às leis brasileiras sobre crimes ambientais. c) Segundo o texto 1, embora a quantidade de leis sobre crimes ambientais seja pequena, elas são eficientes. d) O texto 2 é uma crítica desfavorável às leis brasileiras sobre crimes ambientais, pois dá a entender que elas são em pequena quantidade e, além disso, não funcionam. e) O texto 2 é uma crítica elogiosa às leis brasileiras sobre crimes ambientais, pois dá a entender que elas, em sua maioria, são eficientes. 2. Leia este trecho de texto e responda aos itens de a a c da próxima página. [...] Tudo quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na semiescuridade. Engoliu um mosquito; baixou a cabeçorra; tragou um cascudinho; mergulhou de novo [...]. Daí a pouco, da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes como dois vaga-lumes. Um sapo-cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os olhos esbugalhados presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos fosforescentes se aproximavam mais e mais, como dois pequenos holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado. [...] grelar: olhar fixamente.

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LIMA, Jorge de. Calunga. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997. p. 125.

CAPÍTULO 8

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2. a) Não. O narrador, no início, refere-se ao cururu que engoliu o mosquito e depois, ao se referir ao que viu a serpente, ele emprega “um sapo-cururu grelou-os”. Se fosse o mesmo, ele teria empregado “o sapo-cururu grelou-os”.

a) O sapo que engoliu o mosquito é o mesmo que ficou deslumbrado com a beleza dos olhos da serpente? Justifique. Resposta acima. b) Explique como o emprego do artigo definido o, na última frase do texto, contribui para a coesão textual. Resposta acima. c) Compare os destaques nestas passagens do c) Em 1, embora seja a primeira citação do substantivo texto: 2. “olhos”, ele não pode vir acompanhado do indefinido uns, pois

a palavra dois quantifica com exatidão o substantivo. Se o artigo fosse usado, haveria incoerência: “uns dois olhos”. Em 2, o artigo definido se justifica pelo fato de a expressão 1. “Daí a pouco, da bruta escuridão, surgi“dois olhos” já ter sido referida ram dois olhos luminosos [...].” anteriormente e ser, assim, do 2. “Os dois olhos fosforescentes se aproconhecimento do leitor. ximavam [...].”

2. b) O artigo definido em “o sapo” remete ao mesmo “sapo” referido anteriormente no texto. Entende-se que se trata do sapo que havia olhado para a cobra; ele já é, portanto, determinado, conhecido pelo leitor.

4. Leia este poema levando em consideração as palavras destacadas e, relativamente aos recursos linguísticos e expressivos nele presentes, identifique a afirmação incorreta:

Soneto da perdida esperança 1

Perdi o bonde e a esperança. Volto pálido para casa. A rua é inútil e nenhum auto passaria sobre meu corpo.

5

Vou subir a ladeira lenta Em que todos os caminhos se fundem. Todos eles conduzem ao Princípio do drama e da flora.

Justifique a ausência do artigo em 1 e a sua presença em 2. 3. O artigo, como sabemos, concorda com o substantivo em gênero e número. Essa concordância, no entanto, só ocorre sistematicamente nos enunciados — orais e escritos — da variedade culta da língua. Na variedade popular, a relação artigo-substantivo apresenta características próprias. Como exemplo, leia o trecho abaixo, que reproduz a fala de uma pessoa: O pai dos menino procurou eles e não achou; então ele ficou preocupado, porque nas mata da região as onça anda atacando tudo que serve de comida. Só de tarde, quando eles vieram com os peixe, contaram que tinha ido nas lagoa do outro lado da fazenda.

a) Identifique todos os casos em que, nessa fala, a relação de concordância entre o artigo e o substantivo é idêntica à que ocorre na variedade culta. o pai, da região, da fazenda b) Agora identifique todos os casos em que a relação artigo-substantivo diverge da concordância que essas palavras estabelecem na língua culta. dos menino, nas mata, as onça, os peixe, nas lagoa c) Observe as ocorrências que você identificou nos itens a e b e enuncie a regra que, na variedade popular, os falantes aplicam na utilização do artigo.

10

Não sei se estou sofrendo ou se é alguém que se diverte por que não? na noite escassa com um insolúvel flautim. Entretanto há muito tempo nós gritamos: sim! ao eterno.

Soneto da Perdida Esperança. In: Brejo das Almas, de Carlos Drummond de Andrade. Companhia das Letras, São Paulo. © Carlos Drummond de Andrade Graña Drummond www.carlosdrummond.com.br

a) Na primeira e na segunda estrofes, os artigos definidos destacados individualizam os substantivos aos quais se associam, atribuindo a cada um deles um caráter único e conhecido; é como se o leitor já soubesse, com antecedência, que esses elementos fazem parte da rotina do eu lírico. b) O conteúdo semântico do conjunto de adjetivos do texto contribui decisivamente para criar a atmosfera de tristeza, desesperança e vazio existencial que emerge do poema. [perdida, pálido, inútil,

lenta, escassa, insolúvel.]

c) A associação do adjetivo lenta ao substantivo ladeira (verso 5) cria uma expressão de sentido inusitado, incomum, que realça a vagarosidade com que o eu lírico pretende “subir a ladeira”. d) Em noite escassa (verso 11) e insolúvel flautim (verso 12), os adjetivos exprimem percepções subjetivas do eu lírico que não podem ser captadas sensorialmente, isto é, pelos sentidos físicos. e) As palavras insolúvel (verso 12) e eterno (verso 14), que originalmente são adjetivos, constituem casos de substantivação. [Eterno é caso de

substantivação: “ao eterno”; insolúvel não, pois funciona como adjetivo, caracterizando o substantivo flautim.] 3. c) Se o substantivo expressa ideia de singular, o artigo mantém-se no singular (como na variedade culta). Se o substantivo expressa ideia de plural, o artigo vai para o plural e o substantivo se mantém no singular; é, portanto, o artigo que marca/indica o plural. Professor(a), enfatizar que isso não constitui “erro”; trata-se de outra maneira de relacionar as palavras, outra regra de linguagem Artigo • Numeral 291 aplicável em outra variante linguística e perfeitamente adequada a ela.

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NUMERAL Conceito Fabio Colombini

Leia este texto e observe os destaques:

Biodiversidade A palavra “biodiversidade”, que designa a diversidade da vida — plantas, animais, fungos e micro-organismos existentes na Terra ou em uma região —, foi usada pela primeira vez nos anos 1980 pelo biólogo norte-americano Thomas Lovejoy, que fez pesquisas na Floresta Amazônica. As estimativas quanto ao número de espécies hoje existentes variam de cinco milhões a trinta milhões, mas o que se conhece é apenas uma fração diminuta desse tesouro: cerca de um milhão e setecentas mil espécies. Nas florestas tropicais encontra-se mais da metade das espécies de seres vivos do planeta. Elaborado a partir do livro: SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE. Nos caminhos da biodiversidade paulista. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo, 2007. p. 11.

Nesse texto, as palavras em destaque são exemplos de numerais.

Numeral é a palavra que contém ideia de número, exprimindo uma quantidade definida de seres (pessoas, coisas etc.), ou indicando a posição/ordem que um ser ocupa em uma determinada sequência.

Classificação dos numerais Um numeral, dependendo de sua finalidade específica, pode ter uma das classificações a seguir:

Cardinal

Indica uma quantidade determinada (exata) de seres. Ex.: “As estimativas quanto ao número de espécies hoje existentes variam de cinco milhões a trinta milhões [...].”

Ordinal

Indica a posição ocupada por alguém (ou por alguma coisa) em uma determinada sequência. Ex.: “A palavra ‘biodiversidade’ [...] foi usada pela primeira vez nos anos 1980 [...].”

Multiplicativo

Exprime a multiplicação de uma quantidade. Ex.: Não há muito tempo, a Mata Atlântica tinha o triplo do tamanho que tem hoje.

Fracionário

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Exprime uma divisão, um fracionamento de uma quantidade. Ex.: “Nas florestas tropicais encontra-se mais da metade das espécies de seres vivos do planeta.”

CAPÍTULO 8

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Cardinais femininos e masculinos • Admitem forma feminina somente os cardinais um/uma, dois/duas e as centenas a partir de duzentos (duzentas, trezentas, quatrocentas etc.).

Junião.

Principais empregos dos numerais

Ex.: Naquela escola estudam trezentas crianças. • Os cardinais milhão, bilhão etc. são masculinos. Ex.: A festa reuniu dois milhões de pessoas. [E não: “duas” milhões de pessoas.]

A palavra um(a) pode ser artigo indefinido ou numeral. É artigo quando admite plural (uns) e feminino (umas); é numeral quando indica quantidade e pode ser trocada por outro numeral (dois/duas, três...). No cartum ao lado, uma é numeral, pois exprime quantidade. JUNIÃO. Diário do Povo, Campinas (SP), nov. 2011.

Coletivos que exprimem ideia de número Existem palavras que exprimem ideia de uma quantidade fixa de elementos. Tais palavras, embora contenham sentido de número, são substantivos de sentido coletivo, e não numerais. Alguns exemplos:

• dupla • quarteto

• dúzia • década

• quinzena • quinquênio

• centena • milhar • século • milênio

Cardinais e ordinais como recurso expressivo É comum, principalmente na variedade coloquial, o emprego de cardinais e ordinais em expressões de sentido intencionalmente exagerado, constituindo hipérboles. Veja estes exemplos: • Não insista, Isabela! Você sabe que tenho mil motivos para não ir até lá! • Ontem eu pedi a eles, pela centésima vez, a cópia do contrato.

Cardinais e ordinais na numeração de soberanos, papas, séculos Os numerais podem ser representados por dois tipos de algarismos:

Algarismos arábicos: 1, 2, 3, 4, 5...

Algarismos romanos: I, II, III, IV, V...

Em referência a soberanos, papas, séculos, partes de uma obra etc., é usual o emprego dos algarismos romanos, que, em certos casos, devem ser lidos como ordinais; em outros, como cardinais. Veja, no quadro, as distinções:

Numeral posicionado antes do substantivo Lê-se sempre como ordinal. Assim: primeiro, segundo, terceiro, décimo primeiro, vigésimo etc.

Numeral posicionado depois do substantivo • Até X Lê-se como ordinal (primeiro, segundo, terceiro, ... décimo). • Acima de X Lê-se como cardinal (onze, doze, vinte e um etc.).

Veja alguns exemplos na próxima página. Artigo • Numeral

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lê-se terceiro (ordinal), pois está antes do substantivo.

• Já estamos no XXI século, mas a miséria persiste em várias regiões do mundo. lê-se vigésimo primeiro (ordinal), pois está antes do substantivo.

• Henrique VIII foi um soberano inglês controverso e cruel. lê-se oitavo (ordinal), pois está após o substantivo e é menor que X.

• Pio XII foi papa durante vinte anos. lê-se doze (cardinal), pois está após o substantivo e é maior que X.

Henrique VIII reinou na Inglaterra de 1509 a 1547.

Hans Holbein. Séc. XVI. Thyssen-Bornemisza Museum, Madri

• No III século d.C., o Império Romano do Ocidente entrou em declínio.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Numeral Palavra que exprime quantidade (exata, multiplicada ou fracionada) ou posição em uma série. Classificação • Cardinais — indicam quantidades exatas. Ex.: Durante as férias, vou ler os três livros que o professor de História me emprestou. • Ordinais — indicam posição em uma sequência. Ex.: No último campeonato brasileiro, o Cruzeiro ficou em quarto lugar; o Vitória, em quinto. • Multiplicativos — indicam múltiplos de quantidades. Ex.: Na reforma da casa, ele gastou o dobro do previsto; mas depois vendeu-a pelo triplo do que ela valia antes. • Fracionários — indicam divisões de quantidades. Ex.: Por conta da crise econômica mundial, o ambicioso empresário perdeu dois terços de sua fortuna. Leitura dos numerais • Se o numeral aparece antes do substantivo " deve ser lido como ordinal. Ex.: II República " leitura: Segunda República. • Se o numeral aparece depois do substantivo: • até dez, deve ser lido como ordinal. Ex.: século V " leitura: século quinto. • de onze em diante, deve ser lido como cardinal. Ex.: século XIII " leitura: século treze.

Atividades

Escreva no caderno

1. A palavra um(a) pode ser artigo indefinido ou numeral. É artigo quando admite plural (uns) e feminino (umas); é numeral quando indica quantidade e pode ser trocada por outro numeral (dois/duas, três...). Leia, então, este breve texto humorístico e identifique a afirmação adequada a respeito dele.

Segurança Assaltante: Se disser uma palavra, morre! Assaltado: Mas eu nem sei qual é a palavra! NUNES, Max. O pescoço da girafa: pílulas de humor por Max Nunes. Sel. e org. Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 45.

a) O primeiro falante emprega a palavra uma como artigo; o segundo a interpreta corretamente como artigo.

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b) O primeiro falante emprega uma como numeral; o segundo a interpreta adequadamente como numeral. c) O primeiro falante emprega uma como numeral, mas o segundo a interpreta como artigo. d) O primeiro falante emprega uma como artigo, mas o segundo a interpreta como numeral. e) Como o primeiro falante emprega “uma palavra” e o segundo emprega “a palavra”, não é possível identificar a classe gramatical de uma.

CAPÍTULO 8

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2. A hipérbole, como sabemos, é uma figura de linguagem que consiste em exagerar propositadamente o sentido de uma palavra ou expressão para impressionar o interlocutor e prender sua atenção, causando-lhe espanto, susto, comoção etc. Somente em uma das alternativas abaixo o numeral não foi empregado para exprimir uma hipérbole. Identifique-a. a) “Carolina, / [...] / De tudo lhe dei para aceitar 3. a) “duas milhões de pessoas” — “milhão” é palavra masculina, o que exige que, na língua culta, o numeral a ela associado seja flexionado no Mil versos cantei pra lhe agradar masculino, para estabelecer a concordância de gênero. Assim: mais de dois milhões de pessoas. Agora não sei como explicar [...]” (Chico Buarque) 3. b) Ele supôs, erroneamente, que o núcleo da expressão “mais de b) “[...] Queria querer gritar / Setecentas mil vezes dois milhões de pessoas” fosse a palavra “pessoas” (feminina) e associou a ela a palavra “duas” (feminina). Como são lindos / Como são lindos os burgueses E os japoneses /Mas tudo é muito mais... [...]” (Caetano Veloso) c) “Nos tempos de meu Pai, sob estes galhos, Como uma vela fúnebre de cera, Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos.” (Augusto dos Anjos) d) “[...] e um raio de sol nos teus cabelos Como um brilhante que partindo a luz explode em sete cores Revelando então os sete mil amores Que eu guardei somente pra te dar, Luíza [...]” (Tom Jobim) e) Será que, entre os bilhões e bilhões de estrelas que existem no Universo, não haverá uma em torno da qual orbite um planeta com vida inteligente? 3. Em um telejornal, um repórter que fazia, ao vivo, a cobertura de um evento religioso disse o seguinte: A cidade está tomada por uma imensa multidão de fiéis. Mais de duas milhões de pessoas participam, neste domingo, da festa do Círio de Nazaré aqui em Belém. A festa, que faz parte do Patrimônio Cultural da Humanidade, é um dos maiores eventos religiosos do mundo.

Nesse trecho, há uma passagem que não está adequada à variedade culta da língua. a) Identifique-a e comente por que ela não está de acordo com a norma-padrão. b) Faça uma hipótese para explicar o que teria levado o repórter a se confundir. 4. O trecho a seguir, do qual foram suprimidas três passagens, foi extraído de um artigo a respeito de um disco recém-lançado por Roberto Carlos. Leia-o.

[...] O Rei lançou um novo disco. Ou melhor, , já que de seu repertório. [...] O repertório é : Emoções, Detalhes, As curvas da estrada de Santos e outras joias que Sua Majestade já lançou trocentas vezes em trocentos álbuns. Ao público, resta comprar a enésima gravação de O Portão ou Ilegal, Imoral ou Engorda, incluídas (no disco).

Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada>.

Baseando-se nas palavras que, nesse trecho, foram empregadas com valor de numeral, aponte a alternativa que apresenta as três passagens suprimidas do texto original: a) uma obra-prima — moderniza os arranjos — mais refinado que nos discos anteriores. b) um trabalho raro — reinterpreta magistralmente sucessos — mais homogêneo. c) um novo disco novo — traz ótimos arranjos de seus sucessos — mais introspectivo. d) um novo disco velho — não passa de mais uma recauchutagem — mais velho que pão fatiado. e) um trabalho inesperado — revisita poucos sucessos — surpreendente.

Artigo • Numeral

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DA TEORIA À PRÁTICA Ponto de partida Leia este trecho de notícia de jornal: Corinthians e Palmeiras, com reservas, jogam pelo Paulista

Enfim, um clássico, mas não o clássico... Pensando na Libertadores, times, que podem se enfrentar 19 vezes nesta temporada, vão poupar parte de seus titulares hoje à tarde. [...] COBOS, Paulo; MELLO, Fernando. Enfim, um clássico [...] Folha de S.Paulo, 7 maio 2000. Esporte, p. 1.

Em futebol, a palavra clássico dá nome a um jogo entre dois times tradicionalmente fortes e rivais, o qual atrai grande interesse dos torcedores e da imprensa esportiva. Segundo o texto, Corinthians e Palmeiras realizarão um jogo que a notícia chama de “clássico”. Mas será uma partida sem graça, rotineira, sem grandes expectativas, o que se evidencia pelas expressões “com reservas”, “podem se enfrentar 19 vezes nesta temporada”, “vão poupar parte de seus titulares”. Daí a presença do artigo indefinido “um clássico”. Se, ao contrário, os times fossem disputar “o clássico”, seria um jogo decisivo, que despertaria muito interesse, e sua realização certamente traria grandes emoções para os torcedores dos dois times. Assim, na frase “Enfim, um clássico, mas não o clássico”, o contraponto evidenciado pelo emprego do artigo indefinido e do artigo definido é essencial para informar adequadamente ao leitor a respeito das expectativas que cercam a realização do jogo.

Agora é sua vez

Escreva no caderno

Junião

1. Leia o trecho abaixo, extraído de um romance; depois reveja o cartum, já apresentado no capítulo 3, e responda aos itens de a a c: A manhã era linda. [A borboleta] veio por ali, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é azul para todas as asas. Passa e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. (Machado de Assis) Disponível em: <http://www.juniao.com.br>. Acesso em: 6 jun. 2016.

a) Qual é, no texto, a diferença de sentido entre um homem e o homem?

“um homem” significa “pessoa; indivíduo (ou representante) da espécie humana”; “o homem” significa “ser humano; a própria espécie humana”.

b) Qual dos dois sentidos referidos em a tem a palavra homem no título do cartum? Em “Homem sonha em voltar à Lua”, a palavra “homem” tem sentido de “ser humano; raça/espécie humana”.

c) É válido afirmar que os extraterrestres do cartum, assim como a borboleta, não sabiam o que é o ser humano? Justifique. Não. No texto, o narrador afirma que a borboleta, por nunca ter tido contato com pessoas, desconhecia do que o ser humano é capaz

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(não conhecia seu comportamento, suas atitudes etc.). No cartum, o extraterrestre, ao se “prevenir” espalhando lixeiras, revela saber que o ser humano não cuida bem do meio ambiente, espalha lixo e suja a natureza; ou seja, ele “sabe” o que é o ser humano.

CAPÍTULO 8

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© 2004 Thaves / Dist. by Universal Uclick for UFS

2. Leia esta tira de humor:

2. a) A roupa (uma pele de animal enrolada no corpo), os cabelos e barba longos e desgrenhados evidenciam que os personagens vivem na Idade da Pedra, período em que os humanos habitavam cavernas e construíam com pedras suas ferramentas, armas etc.

THAVES, Bob. Frank & Ernest. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 15 fev. 2005.

a) O que a caracterização dos personagens — roupas, cabelos e barba — procura evidenciar? Resposta acima.

b) Na fala do personagem, há duas locuções adjetivas. Numa delas, o artigo foi omitido; na outra, foi utilizado. Transcreva essas locuções. Idade de pedra; Idade do bronze. c) Explique por que a omissão do artigo em uma das locuções é fundamental para criar o efeito de humor usar “Idade de pedra”, o falante generaliza a palavra “pedra” para incluir, entre todas as pedras, as preciosas, como o diamante. Se ele da tirinha. Ao usasse “Idade da pedra”, a expressão ficaria com sentido de “período da história humana”, e não seria possível fazer a correlação com “diamantes”.

3. Leia este trecho de notícia publicada na internet:

“Sou sim o padrão de beleza no Brasil”, diz Preta Gil em desfile Preta Gil será a grande estrela do desfile do Victor Dzenk, que acontece nesta quarta-feira (23) na favela da Rocinha, no Fashion Business. A cantora [...] chegou ao local e falou um pouco sobre o mundo fashion e os padrões de beleza impostos por ele. Preta enfatizou que é contra a existência do segmento plus size. “Eu acho terrível essa moda plus size. Essa coisa de falar pra gordinha que ela tem que comprar só nessa loja. É mais uma ditadura”. No entanto, Preta contou que essa questão está resolvida. “Já superei a ditadura da beleza. Hoje posso dizer que sou sim um padrão de beleza no Brasil”. [...] NOVAES, Marina. “Sou sim [...]”. Uol, 23 maio 2012. Radar Fashion. Disponível em: <http://forum.jogos.uol.com.br/preta-gil-sou-sim-opadrao-de-beleza-no-brasil_t_2026862>. Acesso em: 19 fev. 2016. 3. a) Sim. “Falou um pouco” significa “comentou, opinou, conversou informalmente; bateu um papo rápido”; “falou pouco” significa “não disse praticamente nada; foi lacônica; preferiu não dizer muita coisa; manteve-se praticamente em silêncio”.

a) Releia: “A cantora [...] chegou ao local e falou um pouco sobre o mundo fashion [...]”. Haveria alguma diferença de sentido se, nesse trecho, a expressão “falou um pouco” fosse substituída por “falou pouco”? Explique. b) O título da notícia reproduz inadequadamente a última fala de Preta Gil. Compare os dois trechos e comente a diferença entre eles, no que se refere ao possível nível de imodéstia, de presunção da cantora. 3. b) Se a cantora tivesse afirmado “sou sim o padrão de beleza no Brasil” (no título), ficaria evidenciado um grau máximo de sua imodéstia; ela estaria

afirmando não haver, no Brasil, nenhum outro padrão de beleza, a não ser o dela. No entanto, ela afirma “sou sim um padrão de beleza”, subentendendo, portanto, haver outros “padrões”. No contexto de sua fala, a cantora declara ser uma referência de beleza para as mulheres acima do peso, o que, evidentemente, pode soar como uma opinião pouco modesta de si mesma. Artigo • Numeral

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4. Trata-se da palavra segunda (opinião). Geralmente, quando uma pessoa recebe o diagnóstico de um médico e não se sente muito segura a respeito, procura outro profissional para saber a opinião dele, ou seja, ela busca uma “segunda opinião”. A última fala do Dr. Zook, no entanto, leva-nos a reinterpretar a pergunta que ele faz a Hagar como: “Você gostaria de saber o que eu acho de verdade?”.

© 2014 King Features Syndicate/Ipress

4. Na tirinha abaixo, Hagar está passando por uma consulta com o Dr. Zook, médico que cuida da saúde dele. Leia-a.

BROWNE, Dik. Hagar. O melhor de Hagar, o horrível. Porto Alegre: L&PM Pocket, [20--].

No contexto desse diálogo, que palavra empregada pelo médico é essencial para criar o efeito humorístico 5. a) A frase parece sugerir que ele é rico e tem vontade de tornar-se pobre; parece que da tirinha? Justifique sua resposta. ele está exprimindo o desejo de, no futuro (um dia), vir a ser pobre. Comparar “um dia”, na frase, com, por exemplo: Um dia visitarei a África (ou seja, “futuramente”).

5. A ilustração abaixo reproduz a traseira de um caminhão e as duas frases que nela apareciam inscritas. Editoria de arte

a) O que a primeira frase, isoladamente, parece sugerir a respeito do dono do caminhão? b) Lendo as duas frases em conjunto, a que conclusões o leitor pode chegar a respeito do dono do 5. b) Duas conclusões: 1. O dono do caminhão é pobre caminhão? (diferentemente do que parecia sugerir a primeira frase isoladamente). 2. Ele já está farto de viver na pobreza.

c) Que palavra da primeira frase é fundamental para criar o efeito de humor do texto? Justifique sua resposta baseando-se na(s) classificação(ões) gramatical(is) que essa palavra admite nesse contexto.

5. c) Palavra um. Na primeira frase (lida isoladamente), um funciona como artigo indefinido; significando “qualquer dia”, “um dia qualquer no futuro”. Já na segunda frase, a expressão “ser pobre todo dia” se opõe a “um dia” e obriga o leitor a

Em Facebook: #blackfraude

6. Nos Estados Unidos, sempre na última sexta-feira de novembro, acontece a chamada Black Friday (sexta-feira negra), evento promovido pelo comércio varejista que, nesse dia, oferece descontos significativos em a palavra um, atribuindo-lhe o sentido de “apenas um seus produtos, atraindo, assim, milhares de consumidores. reinterpretar (dia)”; ou seja, o leitor precisa interpretá-la como numeral.

Esse evento começou a ser promovido também no Brasil, principalmente nas lojas que vendem pela internet. Numa dessas ocasiões, em referência à estratégia de venda adotada por parte dessas lojas, muitos internautas postaram “anúncios” semelhantes ao reproduzido ao lado. Leia-o e responda aos itens a e b. a) Que crítica a frase “Tudo pela metade do dobro” faz à estratégia de vendas colocada em prática por certas lojas participantes do evento? b) Considerando a resposta ao item anterior, explique o trocadilho que o “anúncio” faz com o nome original da campanha de vendas.

6. a) A frase critica/ironiza a atitude desonesta dessas lojas, que procuram enganar os potenciais compradores, aumentando antecipadamente o preço de seus produtos e, depois, afirmando, durante a promoção, que eles estão com desconto. A expressão “metade do dobro” significa que o preço é o “normal”, ou seja, não está sendo oferecido, na verdade, desconto algum. 6. b) O nome original da promoção (Black Friday) possibilita uma aproximação sonora com “black fraude” (fraude negra), termo que, com sentido 298 CAPÍTULO 8 bem diferente do original e forte carga semântica negativa, reforça a ironia crítica da expressão “Tudo pela metade do dobro”, explicitando, com mais ênfase, a má-fé das lojas que utilizam o artifício dos falsos descontos para tentar enganar os consumidores.

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Felipe Nunes

LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS

| CAPÍTULO 2 | CAPÍTULO 3 | CAPÍTULO 4 | CAPÍTULO 5 | CAPÍTULO 6 |

CAPÍTULO 1

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Gêneros textuais Linguagens: entre textos, entre linhas A enumeração e os gêneros textuais Notícia Crônica e poema em jornais Linguagem e ponto de vista

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Gêneros textuais

capítulo

1

O objetivo deste capítulo é conhecer os colegas e ser conhecido por eles. Além disso, vamos estudar elementos de alguns gêneros textuais, isto é, a forma como nos comunicamos por meio da linguagem verbal — a fala, a escuta, a escrita e a leitura.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Sites • ARTE CÊNICA. A origem do xaxado [20--]. Disponível em: <http://tub.im/zvxmkc>. Acesso: em: 30 maio 2016. • SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Disponível em: <http://tub.im/f2nt9m>. Acesso em: 30 maio 2016. Artigo • STURM, Heloisa Aruth. Do selfie ao unselfie: a prática do autorretrato nas redes sociais. Disponível em: <http://tub.im/p3fc4k>. Acesso em: 30 maio 2016. Livro CANTON, Katia. Espelho de artista (autorretrato). 3. ed. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

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Professor(a), a atividade da seção “E mais ...” da página 302 requer preparação antecipada.

PRIMEIRA LEITURA

Fotos: Acervo pessoal

Observe estas selfies:

A mesma menina tirou duas selfies, quer dizer, duas fotos de si mesma — uma “espontânea’’, outra “trabalhada”, para obter uma boa imagem, para ser bem-vista. Assim temos feito ultimamente, no celular e na internet: construímos a imagem como queremos ser vistos. FIQUE SABENDO

Em tom de conversa 1. O que mais você mais gostou nas selfies? Por quê?

Respostas pessoais.

2. Na sua opinião, a selfie “trabalhada” apresenta um efeito melhor que a “espontânea”? Ou não? Por quê? Observe as duas e compare-as. Preste atenção nos detalhes! 3. Você costuma tirar selfies? Em geral, gosta do resultado? Você as coleciona? Como?

Assim como as selfies são um modo de apresentação, também é possível nos apresentarmos por meio da linguagem verbal. Nessa apresentação, podemos empregar um texto espontâneo ou um texto “caprichado”, como fez a menina cujas selfies você observou. Em outras palavras: podemos “rascunhar” algumas linhas de autoapresentação, “ajeitá-las” e depois estabelecer a versão definitiva, falada ou escrita.

Gêneros textuais

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Atividades

Escreva no caderno

Produção 1. Você vai elaborar uma “selfie verbal” para que seus ouvintes ou leitores saibam um pouco a seu respeito.

Siga estas etapas: 1a. Organize seu texto em parágrafos. No primeiro mencione como têm sido suas experiências com a linguagem verbal: falar/ouvir e ler/escrever. 2a. Responda às perguntas abaixo: a) Você gosta de falar? E de ouvir? b) Gosta de escrever? E de ler? c) Enfim, como são para você a fala, a escuta, a leitura e a escrita? 3a. Em outro parágrafo, explique por que você gosta dessas práticas ou não. Responda: a) Sente dificuldade em alguma? Como tenta superar essa dificuldade? b) Tem satisfação em alguma? Em qual? Por quê? a 4. Tente lembrar uma história ou experiência relacionada à escuta, à fala, à leitura ou à escrita, por exemplo: a) Uma história emocionante que alguém lhe contou; b) O primeiro livro que leu sem indicação do(a) professor(a)... c) Registre-a em outro parágrafo. 5a. Por fim, escreva sobre suas facilidades e dificuldades, seus objetivos e suas expectativas relacionadas a falar/ouvir e ler/escrever. 2. Faça um rascunho do seu texto, isto é, planeje-o. Organize-o de modo a transmitir sua experiência e garantir sua compreensão por seu leitor ou seu ouvinte. Releia e altere o que for necessário.

E MAIS... As artistas brasileiras Anita Malfatti e Tarsila do Amaral produziram autorretratos no início do século XX. Faça uma pesquisa na internet e conheça os trabalhos por elas realizados. Observe os autorretratos destas mulheres artistas e explique, oralmente, o que diferencia o semblante delas na pintura da feição da pessoal. Espera-se ser mencionado que nos autorretratos de menina nas selfies. Resposta Anita Malfatti e de Tarsila do Amaral a preocupação não é o “capricho” para ser bem-vista, mas sim a expressividade artística por meio do emprego de cores e traços.

O AUTORRETRATO E AS SELFIES Equivalente a autorretrato, em português, o termo selfie é uma redução do self-portrait, da língua inglesa. O autorretrato constitui um dos gêneros da pintura e foi muito empregado por diversos artistas, dentre eles Pablo Picasso. Neste gênero de pintura, o artista representa-se por meio de desenho, pintura ou gravura.

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PICASSO, Pablo Autorretrato. c. 1901. Óleo sobre tela, 73,5 × 60,5 cm. Coleção particular. Foto: Painting/Alamy/Glow Images

3. Apresente-se, então, por meio do seu texto, lendo-o em voz alta ou deixando que seja lido por um colega.

Autorretrato de Pablo Picasso, 1901.

CAPÍTULO 1

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ANOTAÇÕES As anotações para preparar uma fala e/ou outros tipos de registros ou comentários no caderno de leitura e produção de textos constituem o primeiro gênero textual de que você vai se lembrar, pois se trata de uma prática de trabalho constante e de excelentes resultados. Daí a necessidade de você ter e utilizar sistematicamente um caderno de leitura e produção de textos. Por meio das anotações, você vai se aprimorando na habilidade de escrita simplesmente escrevendo e refletindo sobre o que escreveu, escrevendo de novo e assim sucessivamente. Seu rascunho vai se tornando sistemático e cada vez mais imprescindível.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS O gênero anotação Anotação (apontamento, comentário, nota): escritos breves, em estilo telegráfico e cheios de abreviações, como apontamentos de aulas, notas, recados, observações, em forma de rascunho. COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. São Paulo: Autêntica, 2008. p. 31.

Atividades

Escreva no caderno

Leitura e produção 1. Faça uma lista de ideias que lhe forem ocorrendo. 2. Procure organizar essas ideias em uma ordem que faça sentido. Por exemplo, ponha no mesmo grupo as que se coordenam, e procure elementos que as subordinem em um plano mais amplo. Ou as esquematize, sempre procurando separar o conceito, a ideia, o tema, dos argumentos ou das seções secundárias. O importante é que você tenha confiança em suas anotações: em primeiro plano, o que acha mais importante, depois, as características ou decorrências, desdobramentos daquele tópico. 3. Considere os elementos de I a V e identifique-os nos textos a seguir para reconhecer o gênero de cada um.

FIQUE SABENDO

Este é um exemplo de processo de classificação. Há outras formas de anotação. O importante é a anotação tornar-se frequente, pois, empregando-a, aprende-se a planejar tanto o que se for falar quanto o que se for escrever.

PARA QUE SABER?

Na leitura e na produção de textos, faça as perguntas de I a V. Elas constituem uma baliza para o seu texto ter coerência, coesão e comunicabilidade, ou seja, para ser compreendido. Essas indagações definem como você vai falar ou escrever.

TEXTO 1

[...] É impossível não se comunicar verbalmente por algum gênero, assim como é impossível não se comunicar verbalmente por algum texto. Isso porque toda manifestação verbal se dá sempre por meio de textos materializados em algum gênero. Em outros termos, a comunicação verbal só é possível por algum gênero textual. MARCUSCHI, Luís Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola, 2008. p. 154.

Gêneros textuais

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I. Um especialista em linguagem, Luís Antônio Marcuschi.

Elementos da interlocução I. Quem fala/escreve? II. O quê?

II. A proximidade entre gênero e texto, já que “toda manifestação verbal se dá sempre por meio de textos materializados em algum gênero”.

IV. Com qual finalidade?

IV. Levar os leitores/interessados a aprender o assunto.

V. Em qual suporte?

V. No livro Produção textual, análise de gêneros e compreensão.

III. A quem?

III. Aos leitores de seu livro.

TEXTO 2

(Enem/MEC) Só há uma saída para a escola se ela quiser ser mais bem-sucedida: aceitar a mudança da língua como um fato. Isso deve significar que a escola deve aceitar qualquer forma da língua em suas atividades escritas? Não deve mais corrigir? Não! Há outra dimensão a ser considerada: de fato, no mundo real da escrita, não existe apenas um português correto, que valeria para todas as ocasiões: o estilo dos contratos não é o mesmo do dos manuais de instrução; o dos juízes do Supremo não é o mesmo do dos cordelistas; o dos editoriais dos jornais não é o mesmo do dos cadernos de cultura dos mesmos jornais. Ou do de seus colunistas. POSSENTI, S. Gramática na cabeça. Revista Língua Portuguesa, ano 5, n. 67, maio 2011 (adaptado).

Sírio Possenti defende a tese de que não existe um único “português correto”. Assim sendo, o domínio da língua portuguesa implica, entre outras coisas, saber: a) descartar as marcas de informalidade do texto. b) reservar o emprego da norma-padrão aos textos de circulação ampla. c) moldar a norma-padrão do português pela linguagem do discurso jornalístico. d) adequar as formas da língua a diferentes tipos de texto e contexto. e) desprezar as formas da língua previstas pelas gramáticas e pelos manuais divulgados pela escola. Elementos da interlocução I. Quem fala/escreve?

I. Quem formulou esta questão da prova. Professor(a), comentar com os alunos que a atividade faz parte do Enem 2014.

IV. Com qual finalidade? IV. Para medir o

II. O quê?

II. Uma questão de múltipla escolha V. Em qual suporte? sobre a tese de que não existe um V. Na folha da prova do Enem. III. A quem? único português correto. III. Aos participantes do Enem.

grau de conhecimento dos participantes sobre a diversidade dos gêneros textuais.

TEXTO 3

(Enem/MEC) Óia eu aqui de novo xaxando Óia eu aqui de novo para xaxar Vou mostrar pr’esses cabras Que eu ainda dou no couro Isso é um desaforo Que eu não posso levar Que eu aqui de novo cantando Que eu aqui de novo xaxando Óia eu aqui de novo mostrando Como se deve xaxar

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CAPÍTULO 1

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Vem cá morena linda Vestida de chita Você é a mais bonita Desse meu lugar Vai, chama Maria, chama Luzia Vai, chama Zabé, chama Raqué Diz que eu tou aqui com alegria BARROS, A. Óia eu aqui de novo. Disponível em: <www. luizluagonzaga.mus.br>. Acesso em: 5 maio de 2013

A letra da canção de Antônio de Barros manifesta aspectos do repertório linguístico e cultural do Brasil. O verso que singulariza uma forma característica do falar popular regional é: a) “Isso é um desaforo.” b) “Diz que eu tou aqui com alegria.” c) “Vou mostrar pr’esses cabras.” d) “Vai, chama Maria, chama Luzia.” e) “Vem cá morena linda / vestida de chita.” Elementos da interlocução

I. Quem formulou esta questão da prova. Professor(a), comentar com os alunos que a atividade faz parte do Enem 2014.

I. Quem fala/escreve?

III. A quem?

V. Em qual suporte?

III. Aos participantes do Enem. V. Na folha da prova do Enem. II. Uma questão de II. O quê? múltipla escolha sobre uma IV. Com qual finalidade? canção regionalista, em que há uma palavra que IV. Para medir o grau de conhecimento do demonstra, especialmente, de que região se trata. candidato sobre variedades linguísticas, que se relacionam com gêneros textuais.

Donaldo Hadlich/Frame/Folhapress

4. Responda a estas perguntas-síntese:

Apresentação do Grupo Xaxado Cabras de Lampião, de Serra Talhada (PE), em foto de 2016.

• • • •

Os textos de 1 a 3 pertencem ao domínio discursivo da educação; um corresponde ao gênero textual didático (1) e dois ao gênero prova (2 e 3).

A qual domínio discursivo pertencem os textos de 1 a 3? Quais assuntos neles são contemplados? Texto 1: gêneros textuais; Texto 2: norma-padrão da língua; Texto 3: xaxado. Como foi seu desempenho ao responder às questões? Resposta pessoal. A partir de suas respostas, anote no que você precisa investir para prosseguir seu estudo de leitura e produção de textos eficazmente. Resposta pessoal.

Gêneros textuais

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E MAIS... 1. Imagine uma situação mais formal de autoapresentação para uma destas situações: • Você decidiu trabalhar na área esportiva de sua escola e teve vontade de inscrever-se para reforçar a equipe de voluntariado. • Você vai tentar fazer um estágio no setor de música e/ou teatro de sua escola, pois admira ambos os grupos. • Você quer estabelecer uma “ponte” entre a sua escola e a comunidade. Para isso resolveu realizar um debate com pessoas que podem ajudá-lo a descobrir como esse projeto pode ser viabilizado. • Você está interessado em criar um grupo na escola que possa oferecer um curso extra sobre internet ou língua estrangeira. • Você está pensando em realizar um projeto, com caráter interdisciplinar, cujo tema central é a relação entre a escola, a comunidade e o mundo do trabalho. 2. Leia um exemplo de apresentação para ter uma ideia de como fazer a sua. São Paulo,

/

/

.

Senhor(a) diretor(a)

chamamento e nome da escola identificação

da escola,

Meu nome é H. A. Acabei de passar para o 1º ano do Ensino Médio desta Escola, onde tenho me destacado nos estudos desde o Ensino Fundamental, como pode ser comprovado pelo histórico

escolha de dados relevantes para a autoapresentação, tendo em vista o objetivo proposto

escolar anexo. Aprecio muito o trabalho realizado na escola, de um modo geral. Mas acho que ela comporta e mesmo demanda mais projetos. Assim, gostaria de lhe fazer um pedido para 2016, sobre o qual venho pensando há tempos, no setor de

entrada direta no assunto

.

Nestes anos, além de me dedicar aos estudos para fazer a prova do Enem a fim de entrar num curso de Engenharia, gostaria de começar a obter uma experiência profissional concreta, visando

reafirmação mais aprofundada do objetivo proposto

posteriormente conjugá-la com minha graduação. Tenho considerado nossa comunidade um espaço que me parece adequado para que eu possa ser mais útil do que tenho sido, o que também acontece com alguns colegas igualmente animados.

justificativa

Espero, assim, que essa função a que me proponho possa enriquecer ainda mais a interessante proposta que já realizamos. Aguardando uma resposta, despeço-me atenciosamente,

despedida

H. A. (Aluno do Ensino Médio)

assinatura

3. Não esqueça: é preciso pensar nos elementos contextuais que definem muitas características do texto: a quem você vai se apresentar, com qual objetivo, empregando qual suporte, por exemplo. Também é preciso estabelecer a quem será entregue seu texto, ou seja, com quem gostaria de compartilhar sua produção. 4. Faça o rascunho manuscrito ou digitado, releia-o, refaça o que considerar necessário, peça a um(a) colega e ao(à) professor(a) que o leiam. Se for preciso, ajuste seu texto antes de entregá-lo à pessoa que pode viabilizar sua proposta na escola.

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CAPÍTULO 1

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Critérios de avaliação e reelaboração

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Os gêneros são inúmeros — bilhetes, receitas, notícias, relatórios, torpedos, aulas, conversas, discussões, passagens de ônibus, verbetes de dicionário, piadas, poemas, contos, crônicas e sentenças judiciais, por exemplo. Eles estão à nossa disposição para que aprendamos a utilizar a linguagem na comunicação, nos vários domínios discursivos existentes. Saber fazer anotações e revê-las, para melhorá-las, constitui uma prática eficaz para desenvolvimento do processo de aquisição e domínio da linguagem, oral e escrita, em seus vários contextos.

Atividades

Filipe Frazao/Shutterstock.com

Falar e escrever são processos de trabalho com a linguagem. Desenvolver a imaginação criadora é muito prazeroso, mas não significa que seja fácil. É fundamental realizar um trabalho com a linguagem. Não existe texto que nasça pronto: é necessário produzi-lo e, depois, reescrevê-lo, quantas vezes for necessário para uma comunicação eficaz; a cada palavra é preciso lutar em busca da melhor forma de expressão. Leia em voz alta o que escreveu, discuta as produções com seus interlocutores para perceber o ritmo do texto, identificar as repetições excessivas e as palavras que podem ser melhoradas. Refaça os trechos que julgar problemáticos, corte o que considerar desnecessário, repetitivo, num exercício em que você pratique continuamente as posições de autor, ouvinte e leitor de sua própria produção, seja ela escrita ou falada.

Supremo Tribunal Federal, em Brasília (DF), em foto de 2015.

Escreva no caderno

Leitura e produção 1. Imagine que a sua vida é um texto, acompanhado de uma selfie. Qual seria o título? Quais seriam as palavras-chave, ou seja, as mais importantes do texto de sua existência? Como seria essa selfie? Resposta pessoal. 2. (Enem/MEC) Embora particularidades na produção mediada pela tecnologia aproximem a escrita da oralidade, isso não significa que as pessoas estejam escrevendo errado. Muitos buscam, tão somente, adaptar o uso da linguagem ao suporte utilizado: “O contexto é que define o registro de língua. Se existe um limite de espaço, naturalmente, o sujeito irá usar mais abreviaturas, como faria no papel”, afirma um professor do Departamento de Linguagem e Tecnologia do Cefet-MG. Da mesma forma, é preciso considerar a capacidade do destinatário de interpretar corretamente a mensagem emitida. No entendimento do pesquisador, a escola, às vezes, insiste em ensinar um registro utilizado apenas em contextos específicos, o que acaba por desestimular o aluno, que não vê sentido em empregar tal modelo em outras situações. Independentemente dos aparatos tecnológicos da atualidade, o emprego social da língua revela-se muito mais significativo do que seu uso escolar, conforme ressalta a diretora de Divulgação Científica da UFMG: “A dinâmica da língua oral é sempre presente.

Gêneros textuais

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Não falamos ou escrevemos da mesma forma que nossos avós”. Some-se a isso o fato de os jovens se revelarem os principais usuários das novas tecnologias, por meio das quais conseguem se comunicar com facilidade. A professora ressalta, porém, que as pessoas precisam ter discernimento quanto às distintas situações, a fim de dominar outros códigos. SILVA JR., M. G.; FONSECA, V. Revista Minas Faz Ciência, n. 51, set.-nov. 2012 (adaptado).

Na esteira do desenvolvimento das tecnologias de informação e de comunicação, usos particulares da escrita foram surgindo. Diante dessa nova realidade, segundo o texto, cabe à escola levar o aluno a: a) interagir por meio da linguagem formal no contexto digital. b) buscar alternativas para estabelecer melhores contatos on-line. c) adotar o uso de uma mesma norma nos diferentes suportes tecnológicos. d) desenvolver habilidades para compreender os textos postados na web. e) perceber as especificidades das linguagens em diferentes ambientes digitais. 3. (Enem/MEC)

Yaô Aqui có no terreiro Pelú adié Faz inveja pra gente Que não tem mulher No jacutá de preto velho Há uma festa de yaô Ôi tem nêga de Ogum De Oxalá, de Iemanjá Mucama de Oxóssi é caçador Ora viva Nanã Nanã Buruku Yô yôo Yô yôoo No terreiro de preto velho iaiá Vamos saravá (a quem meu pai?) Xangô! VIANA, G. Agô, Pixinguinha! 100 Anos. Som Livre, 1997.

A canção “Yaô” foi composta na década de 1930 por Pixinguinha, em parceria com Gastão Viana, que escreveu a letra. O texto mistura o português com o iorubá, língua usada por africanos escravizados trazidos para o Brasil. Ao fazer uso do iorubá nessa composição, o autor: a) promove uma crítica bem-humorada às religiões afrobrasileiras, destacando diversos orixás. b) ressalta uma mostra da marca da cultura africana, que se mantém viva na produção musical brasileira. c) evidencia a superioridade da cultura africana e seu caráter de resistência à dominação do branco. d) deixa à mostra a separação racial e cultural que caracteriza a constituição do povo brasileiro. e) expressa os rituais africanos com maior autenticidade, respeitando as referências originais.

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CAPÍTULO 1

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Linguagens: entre textos, entre linhas

capítulo

2

Para continuar esta travessia ao mesmo tempo prática e teórica pelo reino de imagens e palavras, você vai entrar em contato com gêneros em que é empregada a linguagem verbal e com gêneros em que se empregam as linguagens não verbal e verbal.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Artigos • DUARTE, Vânia Maria do Nascimento. O e-mail: um gênero textual do meio eletrônico. Disponível em: <http://tub.im/vr24gj>. Acesso em: 30 maio 2016. • MÓDOLO, Marcelo; BRAGA, Henrique. Receitas de bolos em rótulos de alimento viram objeto de análise em mestrado. Revista Língua Portuguesa, nov. 2014. Disponível em: <http://tub.im/4rgonx>. Acesso em: 30 maio 2016. Vídeo • AS CANÇÕES. Direção: Eduardo Coutinho. Brasil, 2011. Duração: 1h30min. Sites • ABRINQ. Website da Fundação Abrinq. Disponível em: <http://tub.im/k7cz9f>. Acesso em: 30 maio 2016. • CONAR. Website do Conselho Nacional da Autorregulação Publicitária. Disponível em: <http://tub.im/zqoazr>. Acesso em: 30 maio 2016.

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3. As partes são “Subject: Então está combinado... / Date: Thu, 10 Dec 1998 20:09:27 – 0200 / From: “leticia” <leticiaw@netmarket.com.br> / To: “Marcelo Pires” <pires@wbrasil.com.br> e “Subject: Então tá / Date: Thu, 10 Dec 1998 22:31:0 + 000 / From: Marcelo Pires <pires@wbrasil.com.br> / Organization: W/Brasil Publicidade Ltda. / To: leticia <leticiaw@netmarket.com.br>” e o texto que segue cada uma destas partes: “Bem, amanhã [...] Um beijo e até sábado. Lê” e “Letícia, Claro [...] Beijos, Marcelo”. A função da primeira e da terceira partes é indicar o assunto do e-mail, a data em que foi enviado, a autoria e a quem é dirigido; a segunda e a quarta partes constituem a mensagem, isto é, aquilo que os personagens escreveram um ao outro.

Editoria de Arte

PRIMEIRA LEITURA

Subject: Então está combinado... Date: Thu, 10 Dec 1998 20:09:27 – 0200 From: “leticia” <leticiaw@netmarket.com.br> To: “Marcelo Pires” <pires@wbrasil.com.br>

Bem, amanhã cedo vou pra praia, mas está combinado. Me ligue às 19:30, que já estarei em casa. Espero que a minha companhia seja interessante o suficiente para valer a viagem... Só uma coisa, para fins de identificação, você é loiro, moreno, mulato, azul, ou está verde de tanto peregrinar pelos restaurantes paulistas? Por favor, faça aí um breve resumo da sua pessoa, fisicamente falando. O resto, já imagino, mesmo que de leve. Sabe, isso me parece assim como ler um livro sem ver a capa. Claro, o conteúdo é que importa, mas a capa sempre enfeita. Um beijo e até sábado. Lê Subject: Então tá Date: Thu, 10 Dec 1998 22:31:0 + 000 From: Marcelo Pires <pires@wbrasil.com.br> Organization: W/Brasil Publicidade Ltda. To: leticia <leticiaw@netmarket.com.br> Letícia, Claro que valerá a viagem. Como você vai me reconhecer? Pegue uma foto do Brad Pitt. Rasgue ela. Pegue uma foto do George Clooney. Rasgue ela. Pegue uma foto do Antonio Banderas. Rasgue ela. Daí controle a vontade de jantar com eles, não comigo. Puxe o ar e preste atenção: eu tenho os cabelos castanhos claros. Os olhos azuis. Não, não chego a 1 e 80. Vivo de preto, branco ou azul. Não uso óculos. Não uso dentadura. Não uso piercing. Com quem gosto, sou simpático. Serei com você, portanto. É mais ou menos isso. Para você me reconhecer, estarei pulando em um pé só, piscando os olhos freneticamente, mexendo os dois braços como se quisesse voar, enquanto ponho a língua pra fora e balbucio “huuuummmm”. Pronto, agora ficou fácil. Boa viagem, Letícia. Ligo pra você às 7 e meia. Adorei que você aceitou o convite. A vida assim vale a pena. Beijos, Marcelo. ENTÃO TÁ – In: eu@teamo.com.br, de Leticia Wierzchowski e Marcelo Pires, L&PM, Porto Alegre, RS; © by Leticia Wierzchowski e Marcelo Pires

Releitura

Escreva no caderno

1. Qual assunto se desenvolve no texto? A combinação do encontro de dois jovens.

2. O que é incorreto afirmar em relação ao texto? Identifique a(s) alternativa(s). a) Trata da correspondência, por e-mail, entre os personagens Letícia e Marcelo. b) Caracteriza-se pelo emprego da linguagem informal, como pode ser verificado em “O resto, já imagino, mesmo que de leve”, por exemplo. c) Escrito em 3a. pessoa (narrador observador), apresenta a fala dos personagens introduzida por verbo elocucional. d) Não é dirigido a destinatário específico. 3. Graficamente o texto organiza-se em quatro partes. Observeas e explique a função delas. 4. Antes de ser compilada em livro, a correspondência entre Letícia e Marcelo provavelmente esteve em qual suporte?

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PARA NÃO ESQUECER

Elementos da interlocução • Quem fala/escreve? • O quê? • A quem? • Com qual finalidade? • Em qual suporte? A resposta a essas perguntas é uma estratégia para planejar seu texto e assegurar que ele seja produzido com coerência e coesão; elas asseguram a comunicabilidade. Essas perguntas definem como você vai falar ou escrever e ajudam a compreender o texto, seja ele falado ou escrito.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS O termo e-mail (eletrônico mail), como gênero, [define-se] como mensagem eletrônica escrita, geralmente, trocada entre usuários de computador ou de celular que possuam internet. Assim, ele é bem rápido, fácil de ser usado e praticamente substitui o espaço da carta manuscrita e que circula pelos correios. É um gênero com características próprias, embora possa ter um formato textual semelhante a uma carta, um recado, um fax. Não há perda de tempo, nem fórmulas convencionais. Vai-se diretamente ao assunto, sem obrigatoriedade de começos formais, como acontece também no bilhete. COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. p. 88-89.

Antes de ser compilada em livro, a correspondência provavelmente esteve na tela do computador/ no monitor de algum dispositivo eletrônico.

CAPÍTULO 2

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Atividades

Escreva no caderno

Produção 1. Imagine o encontro entre os personagens. Como terá sido? O que terá acontecido? Escreva um texto, em 1a. pessoa, incorporando o ponto de vista de Letícia ou de Marcelo, e conte o episódio a uma amiga cética em relação a relacionamentos virtuais tornarem-se reais. Resposta pessoal. 2. Assuma a posição de um dos personagens – Letícia ou Marcelo – e redija um e-mail a um(a) amigo(a) íntimo(a) contando o que aconteceu no encontro.

Rubens Chaves/Pulsar

MULTIPLICIDADE DE LINGUAGENS As linguagens são o principal traço humano do nosso “vasto mundo”, como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade. Graças à sua multiplicidade de configurações, as linguagens possibilitam ao ser humano sentir, pensar, sonhar, falar, ler, escrever, dialogar e criar.

A relação texto-contexto Antes de ouvir, ler ou produzir um texto, oral ou escrito, é necessário compreender a importância do contexto (ou situação de comunicação) em que ele está envolvido. Para utilizar todos os recursos disponíveis numa situação de comunicação, é importante ter em mente quem fala, o que fala, a quem, com qual finalidade, como e qual suporte utilizou. Esses elementos permitem identificar Pedra do Ingá: monumento arqueológico brasileiro, no município de Ingá (PB), onde e o gênero do texto transmitido ou, em sentido inverso, o gênero veem inscrições ruprestes. Foto de 2007. de texto adequado à mensagem que você quer transmitir. Esses elementos definem a linguagem, a estruturação textual e os recursos expressivos que deverão ser utilizados no texto a ser elaborado, seja a narrativa de uma história, o relato de um fato, uma argumentação, uma instrução, uma exposição de conhecimentos ou um poema.

Atividades

Escreva no caderno

Leitura Adão Iturrusgarai

1. Leia a tirinha.

ITURRUSGARAI, Adão. Mundo monstro. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 mar. 2009. Ilustrada.

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2. a) O humor é obtido por meio da fala do rapaz, que parece concordar com a solicitação da namorada propondo-lhe, em vez de uma conversa presencial, que entre no MSN (sigla de The Microsoft Network, programa que permitia conversas instantâneas pela internet). Na tirinha, a intenção da moça é dialogar presencialmente, reforçada por um elemento gráfico: a grafia da palavra conversar, com as letras em “ascensão” e mais escuras.

a) Qual é o seu suporte? O suporte é o jornal (impresso ou virtual). b) Explique como os personagens são descritos.

Um dos personagens é descrito como consumista; o outro, como apreciador de literatura.

c) Em sua opinião, o questionamento que nela se desenvolve é humorístico, irônico ou político? Por quê? 1. c) O questionamento é humorístico, pois a uma sucessão de marcas mencionadas pelo personagem consumista, que fala sem parar, o outro responde “Dostoiévski” (nome de um autor russo).

2. Leia esta outra tirinha.

1. d) Caracterização de diferentes valores entre jovens: consumismo versus literatura/leitura/cultura.

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Adão Iturrusgarai

d) Qual pode ser considerado o tema?

ITURRUSGARAI, Adão. Mundo monstro. Folha de S.Paulo, São Paulo, 17 jun. 2008. Ilustrada.

a) Explique como é obtido o humor. b) Qual pode ser considerado o tema? Substituição da vida real pela virtual.

3. Considere as duas tirinhas e o texto lido na seção “Primeira leitura”. Explique o que há de semelhante entre eles e o que os diferencia. Para tanto, considere os personagens, as linguagens, o suporte e o nível de língua empregado.

FIQUE SABENDO

Nível da língua De acordo com o contexto, a língua é empregada de diferentes maneiras, em níveis distintos. Usam-se, por exemplo, determinadas palavras ou expressões mais formais ou informais conforme a situação; algumas são usadas para indicar “abrandamento” (eufemismo), outras, exagero (hipérbole), assim como ironia e construções relacionadas a um determinado grupo social (jargão).

3. Resposta pessoal, desde que consideradas as características dos textos: os três textos referem-se ao comportamento dos jovens brasileiros de hoje; nos três, a linguagem é predominantemente informal, aproximando-se da oralidade; os três apresentam diálogo entre personagens. Diferenças: o e-mail é composto por linguagem verbal; as tirinhas, por linguagem não verbal e verbal; o suporte do e-mail é a tela/o monitor, e das tirinhas, o jornal.

E MAIS...

Debate 1. Para participar do debate provido(a) de algumas informações, leia, no quadro a seguir, a descrição de alguns perfis de jovens que se assemelham em um ponto: gostam de consumir. Compulsivo: compra somente pelo fato de comprar. Exibido: compra para mostrar para os outros o que comprou. Sofredor: sofre porque gostaria de comprar mais do que pode. Indeciso: fica horas olhando o produto, deixa a loja de pernas para o ar, o vendedor louco, e raramente acaba comprando alguma coisa. Guloso: não resiste quando a compra é para encher a barriga.

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Duro: não tem dinheiro para comprar nada. Alienado: segue todas as novas ideias e modismos, e acaba se tornando escravo do consumismo. Grife: só compra porque a marca é muito conhecida. Internauta: vive ligado na internet para ver o que está à venda. IACOCCA, Liliana; IACOCCA, Michele. O livro do adolescente: discutindo ideias e atitudes com o jovem de hoje. São Paulo: Ática, 2002. p. 35.

CAPÍTULO 2

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2. Considere o tema que será debatido e leia o roteiro. Tema: A relação entre os jovens e o consumo na sociedade contemporânea

Roteiro • Preparação Reúna-se com seus colegas e sigam as etapas: 1ª. Enumerem os aspectos positivos e os negativos da relação entre os jovens e o consumo. 2ª. Justifiquem tais aspectos a partir da avaliação de experiências vivenciadas, mencionando as razões concretas por que uns aspectos são positivos e outros negativos. 3ª. Estabeleçam as conclusões, isto é, cheguem a um consenso sobre um pró e um contra do consumo. • Resumo: anotem as conclusões. • Discussão: os grupos reúnem-se para uma discussão mais ampla, apresentando em plenário as conclusões a que chegaram, a fim de ampliá-las com a contribuição dos aspectos levantados por todos os grupos.

Atividades

Escreva no caderno

Leitura e produção 1. Leia o texto a seguir.

Receitas para ficar doente Não é difícil sofrer do coração. Basta ter uma vida sedentária, preocupar-se com as mínimas coisas, sobrecarregar-se de responsabilidades, iludir-se com os objetivos de vida estabelecidos pela nossa sociedade e perseguir ideais como fama, fortuna e poder. No entanto, a doença só surgirá se você se alimentar com abundância, ingerindo bastante gordura animal, leite, ovos, açúcar e sal refinado. Dicas especiais: • Jamais faça exercícios. • More em locais poluídos. • Fume bastante. • Leve uma vida muito ativa e sob constante tensão. • Evite o lazer. • Assista à televisão deitado e comendo biscoitos doces, nos fins de semana, o que o ajudará também a ter barriga e varizes. • Consuma bastante açúcar branco e doces em geral, não esquecendo dos refrigerantes. • Coma sempre muito, várias vezes ao dia. • Engorde bastante, pois assim o coração terá de esforçar-se para cumprir suas funções habituais. [...] BONTEMPO, Márcio. Como sofrer do coração. In: ______. Receitas para ficar doente. São Paulo: Hemus, 1988. p. 146-147.

2. Considere o título do texto e os parágrafos que o seguem e explique o efeito proporcionado no leitor. O leitor é surpreendido pelo que é proposto no texto (fazer tudo o que não deve ser feito para não sofrer do coração).

3. Considerando a resposta dada na atividade 2, é correto afirmar que o texto lido é uma paródia? texto “Receitas para ficar doente” constitui uma paródia do gênero receitas culinárias, pois, além de Justifique sua resposta. Ofazer referência a elas (no título), prescreve ações, atitudes que asseguram a doença no coração e fornece os “ingredientes” (dicas).

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7 a). Foram empregadas a linguagem não verbal e a verbal, pois imagens, cores e palavras constroem a mensagem: um menino segurando um cartaz, em que se lê “#desarme” (à moda do Twitter); uma mão com o polegar em riste, que corresponde ao “curtir” do Facebook e, além desses elementos da internet, o emprego reiterado do apelo ao leitor para não usar arma (função conativa da linguagem): “Não caia nesta armadilha/Não use”, dentre outras.

4. Comente os seguintes elementos em relação ao texto “Receitas para ficar doente”: 4. Nível de língua formal e irônico; linguagem verbal; foco narrativo • nível de língua em terceira pessoa; finalidade: divertir o leitor e persuadi-lo a desempenhar atitudes benéficas à saúde (especialmente do coração) • linguagem 6. Professor(a), além de observar elementos do • foco narrativo gênero receita, os alunos, nesta atividade, poderão histórias de suas origens, sua família e, quem • finalidade (para quê?) trocar sabe, trazer a receita preparada para a classe experimentar, num momento “festivo” de fechamento da atividade ou do capítulo. Alimentos e atitudes que afetam o coração.

5. Qual é o tema do texto?

6. Mostre aos colegas e ao(à) professor(a) sua receita preferida, enfatizando a lista de ingredientes e as instruções sobre como fazê-la. • Pesquise a origem da sua receita (“suas raízes”). Como ela chegou até você? Conte tudo que souber de interessante sobre ela. Resposta pessoal

Instituto Sou da Paz

7. Observe o texto a seguir.

a) Comente a linguagem empregada no texto. b) Qual nível de língua caracteriza o texto? O texto caracteriza-se pelo nível formal e publicitário.

FIQUE SABENDO

O texto elaborado de modo que sugira outro se classifica como paródia. Nela, o emprego dos elementos do outro texto, “o imitado”, proporciona um efeito, muitas vezes, irônico ou crítico.

PARA QUE SABER?

De acordo com as definições da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios — PNAD, a família é o conjunto de pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência, residentes na mesma unidade domiciliar e, também, a pessoa que mora só em uma unidade domiciliar. Por meio de indicadores sobre famílias, obtidos principalmente da PNAD 2014, pretende-se delinear as características principais dos arranjos familiares e unipessoais no país. BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Diretoria de Pesquisas. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira. Rio de Janeiro: IBGE, 2015.

c) Comente as semelhanças e as diferenças entre este texto e o “Receitas para ficar doente”. Semelhanças: em ambos os textos o nível de língua é predominantemente formal e é apresentado tom

prescritivo. Diferenças: no texto “Receitas para ficar doente”, o nível de língua é irônico e parodia uma receita, por meio da linguagem verbal apenas; no texto sobre desarmamento, o nível da língua é publicitário, com emprego da linguagem não verbal e da linguagem verbal.

Critérios de avaliação e reelaboração Escrever é reescrever. Não existe texto sem leitor. É um processo que implica planejamento e revisão. Planeje o que vai escrever, faça um rascunho de seu texto, leia-o e releia-o a fim de rever se conseguiu se expressar como queria. Quando seu texto estiver pronto, mostre-o aos colegas e ao(à) professor(a). Ouça e considere diversas opiniões a respeito dele. Não tenha medo da leitura que eles fizerem, pois sem ela não há sentido no ato de escrever. Essa prática é muito enriquecedora; devagar ela vai transformando o medo que todos temos da censura em consciência da necessidade de diálogo, de troca, de interação.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU Neste capítulo, você leu, reconheceu e produziu diversos gêneros textuais (orais e escritos), percebendo suas finalidades comunicativas, os espaços em que circulam na sociedade e seus recursos de linguagem específicos. Você já sabe o quanto os gêneros são diversos e de uso fundamental nos domínios discursivos da sociedade. Assim, bilhete, conversa informal, telefonema, bate-papo, sermão, cardápio de restaurante, placas de trânsito, certidão de nascimento, carteira de identidade, regras de jogo, edital, ordem de prisão, horóscopo, lista de compras, resumo, resenha constituem exemplos dos inumeráveis gêneros com os quais convivemos.

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CAPÍTULO 2

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Atividades

Escreva no caderno

Leitura e produção 1. (Enem/MEC)

S.O.S. Português Por que pronunciamos muitas palavras de um jeito diferente da escrita? Pode-se refletir sobre este aspecto da língua com base em duas perspectivas. Na primeira delas, fala e escrita são dicotômicas, o que restringe o ensino da língua ao código. Daí vem o entendimento de que a escrita é mais complexa que a fala, e seu ensino restringe-se ao conhecimento das regras gramaticais, sem a preocupação com as situações de uso. Outra abordagem permite encarar as diferenças como um produto distinto das duas modalidades da língua: a oral e a escrita. A questão é que nem sempre nos damos conta disso. SOS Português. Nova Escola, São Paulo: Editora Abril, Ano XXV, nº 231, abr. 2010 (fragmento adaptado).

O assunto tratado no fragmento é relativo à língua portuguesa, e foi publicado em uma revista destinada a professores. Entre as características próprias desse tipo de texto, identificam-se as marcas linguísticas próprias do uso: a) regional, pela presença do léxico de determinada região do Brasil. b) literário, pelas conformidades com as normas da gramática. c) técnico, por meio de expressões próprias de textos científicos. d) coloquial, por meio do registro de informalidade. e) oral, por meio do uso de expressões típicas da oralidade. 2. Pense num jingle publicitário do rádio ou da televisão e compare com o texto publicitário sobre desarmamento (atividade 7, página 314), observando as semelhanças e as diferenças. Escreva um texto No texto publicitário impresso, busca-se a persuasão descritivamente, apontando, de maneira expondo o que você observar. Sugestão: concisa e o mais marcante possível, as características “sedutoras” do produto oferecido; no texto publicitário Ormuzd Alves/Folhapress

oral, a concisão e a sonoridade constituem os elementos fundamentais na fixação da mensagem.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS Legenda: texto breve, objetivo, em cujo enunciado predomina a frase nominal, que serve para acrescentar informações à imagem publicada ou ratifica a informação dada visualmente. Pode ser inserido ao lado, abaixo ou dentro dessa imagem (foto, gráfico, ilustração etc.). COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. p. 124.

3. Suponha dois contextos diferentes para a abordagem do tema trabalho infantil. • Observe a foto e elabore: • uma legenda para uma narrativa ficcional. Respostas pessoais. • uma legenda para uma notícia de jornal. Linguagens: entre textos, entre linhas

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capítulo

3

A enumeração e os gêneros textuais Neste capítulo, você vai conhecer e praticar uma das possibilidades para organizar as ideias e as palavras: a enumeração, empregada em diversos gêneros textuais.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Livros • BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 1997. Vídeo • BLADE Runner, o caçador de androides. Direção: Ridley Scott. Estados Unidos, 1982. Sites • ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Ferreira Gullar: Biografia. [20--]. Disponível em: <http://tub.im/6f6okd>. Acesso em: 18 maio 2016. • ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Disponível em: <http://tub.im/ctm2gd>. Acesso em: 18 maio 2016.

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Professor(a), a atividade da seção “E mais…” da página 321 requer preparação antecipada.

PRIMEIRA LEITURA Memória dos dias comuns a tia Eduarda o tio Lito as aulas de Kumon a casa do Gago o Fraquinho a gata sem olho do Frango as orelhas enormes do presidente do Rotary Club o futebol que eu jogava tão mal o Jeovan colega de escola os oito pratos de macarrão ir para o sítio de bicicleta tantos lambaris os barulhos de serra elétrica o cheiro de carne com batatas às onze horas vindo da cozinha a panela de pressão [...] CORSALETTI, Fabrício. In: SARMATZ, Leandro (Org.). Poesia do dia: poetas de hoje para leitores de agora. Ilustrações: Leandro Velloso. São Paulo: Ática, 2008. p. 64.

Em tom de conversa

Resposta pessoal. Sugestão de resposta: O poema organiza-se com uma sequência de versos, sem o recurso da estrofe, e apresenta uma série de recordações de infância, como pessoas, bichos, elementos do cotidiano. Cada leitor, ao ler os versos, resgata suas lembranças.

• Como está organizado esse poema? Qual é a sequência das ideias? Qual é o tema?

ENUMERAÇÃO A enumeração é organizada sem introdução, desenvolvimento e conclusão. Os elementos são dispostos em sequência, formando uma lista, sem indicação de exemplos; cada elemento disposto representa várias possibilidades para desenvolver um tema. Por isso, os elementos possuem uma relação de analogia, de semelhança; há entre eles uma relação de proximidade, todos pertencem a um mesmo conjunto. Os elementos enumerados relacionam-se também em complementaridade, pois, se reunidos, formam uma ideia mais ampla, um tema mais abrangente. O emprego da enumeração possibilita desenvolver a habilidade de evocação: imagem suscita imagens, ideia suscita ideias... A enumeração constitui uma técnica eficaz para escrever livremente e um dos recursos empregados em literatura, principalmente na poesia moderna. A enumeração e os gêneros textuais

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Leitura

Esse poema, organizado com versos e estrofes, desenvolve-se formando um “autorretrato”; vão sendo enumerados elementos de facetas distintas do eu lírico. Por meio da enumeração, exploram-se elementos/características de uma das facetas e, depois, da outra — “Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém”. Deve ser considerado que, na organização das estrofes e do poema, os dois-pontos introduzem ideias opostas. Prevalece o desenvolvimento das facetas opostas, contrárias; o tema, portanto, é a contradição, o ser contraditório.

Leia outro poema, em que também foi empregada a enumeração:

Traduzir-se Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo.

Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.

Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem.

Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão.

Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente.

Traduzir-se uma parte na outra parte — que é uma questão de vida ou morte — será arte?

GULLAR, Ferreira. Toda a poesia. 11. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999. p. 335.

Em tom de conversa Como esse poema desenvolve-se? Qual é o seu tema?

Atividades

Escreva no caderno

Produção Vamos realizar alguns exercícios que trabalham simultaneamente a linguagem e a capacidade de pensar. 1. Escolha um dos temas a seguir e crie seu texto por enumeração: Felicidades e “antifelicidades”; Cenas de infância; Uma volta pela rua; Um dia na minha vida; Centro de cidade grande; Uma cidadezinha do interior; Na janela de um ônibus; Cenas de Carnaval. a) Depois de reler seu texto, dê-lhe um título. b) Agora experimente alterar algumas das sequências que criou, aproximando elementos semelhantes. Depois, junte os elementos diferentes. Compare as várias versões de seu texto e escolha a que lhe parecer mais significativa. c) Mostre seu texto aos colegas e leia o deles. 2. Faça um autorretrato, organizado por enumeração, apresentando dois lados de sua vida, de sua personalidade. Escolha três das sugestões a seguir e produza seus textos. • O lado visível (que a todos é dado conhecer) e o lado invisível (que só você conhece). • O lado do que você sente e o lado do que pensa. • O lado de ontem — o que você foi e como você era — e o lado de hoje — como está sendo; ou, ainda, o lado de hoje e o lado de amanhã — como você será daqui a algum tempo. • O lado das coisas de que você gosta e o lado das coisas de que não gosta. • O lado do que você faz no dia a dia e o lado do que gostaria de fazer. 3. Elabore uma enumeração, sem nenhuma sequência linear (um elemento não é consequência do anterior), sobre um sonho sem lógica, sem enredo, daqueles “malucos”, sem “significado”, mas que continuam por muito tempo em nossa memória. Resposta pessoal.

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CAPÍTULO 3

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A enumeração e os gêneros textuais Muitas vezes, na vida cotidiana, encontramos textos que apresentam enumeração. Vamos ler alguns exemplos que fazem uso do processo enumerativo.

Enquete

FIQUE SABENDO

Enquete

Ficção científica

É uma pesquisa baseada em opiniões sobre determinado assunto.

Fonte: Folha de S.Paulo. Pesquisa realizada pelo jornal inglês The Guardian. São Paulo, 27 ago. 2004. Ilustrada.

Filme de Ridley Scott. Blade Runner. EUA. 1982. Foto: The Hollywood Archive/Keystone Brasil

O clássico Blade Runner — o caçador de androides, do diretor britânico Ridley Scott, foi eleito o melhor filme de ficção científica de todos os tempos por 60 dos mais importantes cientistas do mundo, consultados pelo jornal britânico The Guardian. [...] Cinco filmes líderes 1 — Blade Runner (1982) 2 — 2001: Uma odisseia no espaço (1968) 3 — Guerra nas estrelas (1977) / O império contra-ataca (1980) 4 — Alien (1979) 5 — Solaris (1972) [...]

O ator Rutge Hauer em cena do filme Blade Runner (1982).

Ensaio Entendo aqui por humanização [...] o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. [...] Portanto a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis da cultura. A distinção entre cultura popular e cultura erudita não deve servir para justificar e manter uma separação iníqua, como se do ponto de vista cultural a sociedade fosse dividida em esferas incomunicáveis, dando lugar a dois tipos incomunicáveis de fruidores. Uma sociedade justa pressupõe o respeito aos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

Ensaio Prosa livre que discorre sobre tema/ assunto específico (científico, histórico, filosófico etc.) sem esgotá-lo, reunindo dissertações menores, menos definitivas que um tratado formal, feito em profundidade, como o é uma dissertação ou uma tese. Caracteriza-se pela visão de síntese e tratamento crítico, predominando o estilo expositivo-argumentativo.[...] COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. São Paulo: Autêntica, 2008. p. 92.

CANDIDO, Antonio. Novos escritos. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1977. p. 249, 262 a 263.

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Artigo

Estado de S. Paulo. Consumo consciente começa a ganhar espaço. Vera Dantas. 13 mar. 2004.

Comportamentos típicos do consumidor consciente

A maior parte dos consumidores no País ainda é muito pouco comprometida com o consumo consciente, mas um percentual significativo, em torno de 43%, começa a ter um procedimento diferente. Eles já adotam vários comportamentos típicos de consumo consciente, como o de evitar deixar lâmpadas acesas em ambientes desocupados, o de fechar a torneira ao escovar os dentes, separar o lixo para reciclagem e de pedir nota fiscal na hora da compra, entre outras atitudes. A conclusão é do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, que, pela primeira vez, numa ampla pesquisa em parceria com a Indicator GfK, procurou no mercado brasileiro formas de identificar e caracterizar o consumidor conforme o grau de adesão ao consumo consciente. O levantamento foi feito em nove regiões metropolitanas e duas capitais, e a pesquisa mapeou quatro grupos de consumidor: os conscientes (6%), os comprometidos (37%), os iniciantes (54%) e os indiferentes (3%). DANTAS, Vera. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 mar. 2004. Caderno de Economia/Negócios.

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O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

Artigo Num jornal, revista ou periódico, texto de opinião, dissertativo ou expositivo, forma um corpo distinto na publicação, trazendo a interpretação do autor sobre um fato de tema variado. [...]. A estrutura composicional desse tipo de texto varia bastante [...] mas sempre desenvolve, implícita ou explicitamente, uma opinião sobre o assunto, com um fecho conclusivo, a partir da exposição das ideias ou da argumentação/ refutação construídas. COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. p. 34.

CAPÍTULO 3

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Atividades

Escreva no caderno

Leitura e produção As atividades de 1 a 3 relacionam-se aos textos lidos anteriormente no tópico “A enumeração e os gêneros textuais”. 1. Texto Ficção científica a) Forme um grupo com alguns colegas e façam uma enquete dos filmes de ficção científica que estão marcando época, nestes últimos 10 anos. Cheguem a um consenso para que a classe possa assistir a um filme escolhido por todos. Resposta pessoal. b) Após ter assistido ao filme, redija um comentário enumerando suas “qualidades” — os aspectos interessantes — e seus “defeitos” — os aspectos menos interessantes. Resposta pessoal. 2. Texto de Antonio Candido, trecho do livro Novos escritos a) Antonio Candido enumera os traços que entende essenciais à humaniza“O exercício de reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, ção. Quais são eles? o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso

PARA NÃO ESQUECER

b) Qual o pressuposto de uma sociedade justa, para ele?

Ensaio

É aquela que pressupõe respeito aos direitos humanos.

da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor.’

c) E para você? Enumere alguns pontos sobre o tema que julga relevantes e leia aos colegas e ao(à) professor(a) o resultado de sua reflexão. Não deixe de ouvir a opinião deles para que ocorra uma boa discussão. Resposta pessoal, desde que coerente com o texto lido.

3. Texto Comportamentos típicos do consumidor consciente

Trata-se de um gênero breve, que expressa ideias, críticas e reflexões éticas e filosóficas sobre algum tema.

a) Pesquisa oral. Converse com os moradores e frequentadores de seu bairro sobre os principais problemas que nele ocorrem. Elabore perguntas que tratem dos aspectos que você quer contemplar em sua pesquisa, por exemplo: “Qual é a sua opinião sobre a oferta de lazer noturno?”. Registre, em forma de lista, as respostas obtidas — as opiniões — e organize-as pelo processo enumerativo. b) Publique essas opiniões, num jornal do bairro ou na internet, para criar um blog com o nome do bairro e permitir tanto outras opiniões como sugestões para a resolução dos problemas mencionados. Resposta pessoal.

E MAIS... Leia o texto a seguir, organizado com a estratégia da enumeração.

Conheça os novos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU Objetivo 1: Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. Objetivo 2: Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável. Objetivo 3: Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. Objetivo 4: Assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. Objetivo 5: Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Objetivo 6: Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos. Objetivo 7: Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos.

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Objetivo 8: Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos. Objetivo 9: Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação. Objetivo 10: Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles. Objetivo 11: Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. Objetivo 12: Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis. Objetivo 13: Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos. Objetivo 14: Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. Objetivo 15: Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade. Objetivo 16: Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis. Objetivo 17: Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Conheça os novos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. 25 set. 2015. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/conheca-os-novos-17objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-da-onu/>. Acesso em: 18 maio 2016.

1. Qual elemento linguístico, empregado ao longo do texto, caracteriza a enumeração? Cada parágrafo inicia com a palavra Objetivo seguida da numeração correspondente (entre 1 e 17).

2. Qual a autoria deste texto e a quem ele é dirigido? Considere seu suporte e o assunto de que trata para do texto é da Organização das Nações Unidas (ONU), e ele é dirigido a todos os cidadãos (considerar no nome da entidade elaborar a resposta. Aqueautoria o produziu a expressão Nações Unidas e a relevância do tema: objetivos de desenvolvimento sustentável) e a quem acessar o site da entidade.

3. No site em que podem ser lidos os 17 objetivos, entre o título e os objetivos, há a seguinte frase: A abreviação ODS, por meio da inicial das palavras (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e “todos os países do mundo”, respectivamente.

Os ODS devem ser implementados por todos os países do mundo durante os próximos 15 anos, até 2030.

• Qual elemento recupera a informação do título e qual relaciona-se a quem ele é dirigido?

4. Com base nos ODS, enumere em três colunas ações que são ou poderiam ser realizadas em sua casa, sua escola, seu bairro, em prol do desenvolvimento sustentável.

Resposta pessoal.

Critérios de avaliação e reelaboração O título e a coerência textual Um texto é coerente quando o leitor ou ouvinte consegue interpretá-lo, (re)construir o seu sentido. O título é a porta de entrada do texto e, ao mesmo tempo, a sua condensação mais rapidamente vislumbrada pelo leitor. Ele constitui, portanto, um fator importante de coerência textual. Um bom título deve, em primeiro lugar, ser adequado ao tema. Pode antecipar o assunto a ser tratado, ou sugeri-lo, de modo a instigar a curiosidade do leitor. Em qualquer dos casos, o título precisa ser coerente com o assunto e o modo como ele é tratado, isto é, com sobriedade, ironia, humor...

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CAPÍTULO 3

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RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU A enumeração é um procedimento de composição que nos permite organizar e manifestar o que pensamos, sentimos, imaginamos, tanto na linguagem escrita quanto na linguagem oral, nos mais diversos contextos de produção textual. Além disso, ela é um procedimento constitutivo de gêneros discursivos, tais como artigos (acadêmicos ou não), ensaios, enquetes, infográficos apresentando resultados de pesquisas, enfim, listagens de todos os tipos.

Atividades

Escreva no caderno

Leitura e produção 1. (UFMG)

Leia estes trechos: TRECHO 1

O título deve ser claro e corresponder exatamente ao conteúdo do texto que ele resume e interpreta; precisa atrair o leitor e conquistá-lo. CAMPOS, P. C. Imagem no jornalismo. Disponível em: <http://www.ecibernetico.com.br/ colunaradar/Artigos/imagem_jornalismo.htm>. Acesso em: 29 out. 2012.

TRECHO 2

Piada de português Depois de instituir a chamada oral para os alunos do Instituto Rio Branco (IRB) sobre temas relativos à África e à América Latina, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, voltou a criar polêmica ao suspender o caráter eliminatório da prova de inglês no exame de ingresso na carreira diplomática. Com a portaria, Amorim pretende remover um “fator elitista” para possibilitar a brasileiros de todas as regiões do País critérios de concorrência mais equânimes. A partir deste ano, o idioma inglês será apenas classificatório. [...] Para o ministro, o inglês como matéria eliminatória tendia a favorecer candidatos de famílias mais abastadas e filhos de diplomatas. Amorim acha fundamental o domínio do idioma estrangeiro, mas entende que ele só é necessário antes de o diplomata assumir seu primeiro posto no exterior. Agora, a formação ficará por conta dos professores do IRB. FORTES, L. Época, Rio de Janeiro, 17 maio 2005. p. 42.

Com base na recomendação jornalística expressa no trecho 1, analise a relação entre o título e o conteúdo do trecho 2. Resposta pessoal. Sugestão de resposta: A relação entre o título e o conteúdo do trecho apresentado não parece adequada, pois, embora tente atrair o leitor, o título não corresponde de forma clara ao que diz o referido trecho.

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2. (UFF-RJ)

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas. Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci. Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão, aves, pessoas humildes, árvores e rios. Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar entre pedras e lagartos. Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou abençoado a garças. Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que fui salvo. Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado. Os bois me recriam. Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço coisas inúteis. No meu morrer tem uma dor de árvore.

Roberto Tetsuo Okamura/Shutterstock.com

Retrato falado

Garça do pantanal.

BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 1993. p. 207.

O texto Retrato falado traça um perfil poético do eu lírico, destacando seu modo de ser e seu entendimento do mundo à sua volta.

Assinale a opção que corresponde à relação entre o título do poema e o desenvolvimento do texto. a) O texto reconstitui literalmente os traços fisionômicos e outros sinais característicos do poeta tal como estes se apresentam na realidade, como num retrato falado. b) O texto afasta o título do seu sentido referencial, ao elaborar poeticamente um retrato com elementos do passado do eu lírico. c) O texto apresenta somente elementos objetivos, conforme explicita a definição de retrato falado no dicionário. d) O texto exemplifica, pela recriação poética, um retrato falado, em um sentido objetivo. e) O texto justifica o título ao empregar-se o termo “moral” na acepção de conjunto de regras e preceitos característicos de determinado grupo social. 3. (Enem/MEC)

A diva Vamos ao teatro, Maria José? Quem me dera, Desmanchei em rosca quinze kilos de farinha, tou podre. Outro dia a gente vamos. Falou meio triste, culpada, e um pouco alegre por recusar com orgulho. TEATRO! Disse no espelho. TEATRO! Mais alto, desgrenhada. TEATRO! E os cacos voaram sem nenhum aplauso. Perfeita. PRADO, A. Oráculos de maio. São Paulo: Siciliano, 1999.

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CAPÍTULO 3

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Os diferentes gêneros textuais desempenham funções sociais diversas, reconhecidas pelo leitor com base em suas características específicas, bem como na situação comunicativa em que ele é produzido. Assim, o texto A diva: a) narra um fato real vivido por Maria José. b) surpreende o leitor pelo seu efeito poético. c) relata uma experiência teatral profissional. d) descreve uma ação típica de uma mulher sonhadora. e) defende um ponto de vista relativo ao exercício teatral. 4. (Enem/MEC)

14 coisas que você não deve jogar na privada Nem no ralo. Elas poluem rios, lagos e mares, o que contamina o ambiente e os animais. Também deixa mais difícil obter a água que nós mesmos usaremos. Alguns produtos podem causar entupimentos: • cotonete e fio dental; • medicamento e preservativo; • óleo de cozinha; • ponta de cigarro; • poeira de varrição de casa; • fio de cabelo e pelo de animais; • tinta que não seja à base de água; • querosene, gasolina, solvente, tíner. Jogue esses produtos no lixo comum. Alguns deles, como óleo de cozinha, medicamento e tinta, podem ser levados a pontos de coleta especiais, que darão a destinação final adequada. MORGADO, M.; EMASA. Manual de etiqueta. Planeta Sustentável, jul.-ago. 2013 (adaptado).

O texto tem objetivo educativo. Nesse sentido, além do foco no interlocutor, que caracteriza a função conativa da linguagem, predomina também nele a função referencial, que busca: a) despertar no leitor sentimentos de amor pela natureza, induzindo-o a ter atitudes responsáveis que beneficiarão a sustentabilidade do planeta. b) informar o leitor sobre as consequências da destinação inadequada do lixo, orientando-o sobre como fazer o correto descarte de alguns dejetos. c) transmitir uma mensagem de caráter subjetivo, mostrando exemplos de atitudes sustentáveis do autor do texto em relação ao planeta. d) estabelecer uma comunicação com o leitor, procurando certificar-se de que a mensagem sobre ações de sustentabilidade está sendo compreendida. e) explorar o uso da linguagem, conceituando detalhadamente os termos utilizados de forma a proporcionar melhor compreensão do texto.

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Notícia

capítulo

4

Neste capítulo, vamos focalizar o gênero notícia no contexto jornalístico e afins (revistas etc.). Existem vários gêneros neste contexto; vamos começar a conhecê-lo melhor via notícia.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS Sites • ARAÚJO, Ana Paula de. Notícia. InfoEscola, 2016. Disponível em: <http://tub.im/qgpckd>. Acesso em: 30 maio 2016. • NERY, Alfredina. Notícia: a estrutura do texto jornalístico. UOL Educação, 31 jul. 2005. Disponível em: <http://tub.im/ks8emb>. Acesso em: 30 maio 2016. Vídeo • BASTIDORES de redações de jornal impresso. Programa Vitrine. São Paulo: TV Cultura, 2013. Disponível em: <http://tub.im/dzoya9>. Acesso em: 30 maio 2016. Filme • O JORNAL, Direção: Ron Howard. Estados Unidos, 1995.

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Professor(a), a atividade da seção “É mais...” da página 331 requer preparação antecipada.

Alfredo Risk/Futura Press

PRIMEIRA LEITURA

Vira-lata salva bebê Uma cadela vira-lata que acabava de dar cria salvou no Quênia um bebê recém-nascido e abandonado no meio do mato. Ela achou o bebê a cerca de um quilômetro do cesto onde estava sua própria ninhada. Atravessou uma cerca de arame farpado e, sem machucar a criança, carregou-a pela boca e a deixou junto aos seus filhotes. A criança foi encontrada e hospitalizada. Foi batizada de Angel pelas enfermeiras. VIRA-LATA salva bebê. IstoÉ, São Paulo, n. 1857, 18 maio 2005.

Em tom de conversa 1. As matérias veiculadas em jornais e revistas sempre objetivam interessar seus leitores. a) Por que, na sua opinião, essa notícia é de interesse dos leitores?

1. a) Por se tratar de uma história pouco comum, que comove pelo heroísmo e pela solidariedade da cadela.

b) Na sua opinião, que tipo de leitor se interessaria por essa notícia?

Gente que se interessa por animais e suas histórias.

2. Pense em diferentes suportes para uma notícia. a) Qual é o suporte da notícia que você leu?

Revista IstoÉ.

b) Cite outros elementos que podem ser considerados suportes de textos. Tela de computador, tela de quadro, para-choque de caminhão e ônibus etc.

Releitura

Escreva no caderno

1. Releia atentamente cada período da notícia e conclua: quem é a protagonista? Por quê?

É a cadela vira-lata, pois ela ocupa o papel de sujeito nos três períodos iniciais, sendo destacados seus atos heroicos, como “sem machucar a criança”.

2. Na sua opinião, em que medida o título contribui com a objetividade da notícia? O título é conciso e objetivo, sintetizando o conteúdo da notícia.

3. Que elemento destoa da objetividade da notícia? a) Períodos curtos e linguagem simples. b) Linguagem concisa (predomínio de substantivos a adjetivos). c) Presença do posicionamento do enunciador perante o fato enunciado. d) Variante culta da linguagem, uso da 3a. pessoa do singular.

Professor(a), comente com os alunos que, embora o enunciador tenha o seu ponto de vista sobre a notícia, ele empregará a 3.a pessoa, pois a credibilidade de texto está ligada à isenção do enunciador, à sua imparcialidade diante dos fatos.

4. Leia atentamente as informações a seguir:

I. O uso da variante culta da linguagem, no jornal, justifica-se pelo seu caráter informativo e formador de opinião. Já a simplicidade e a concisão resultam da demanda tanto da quantidade quanto da multiplicidade de leitores. II. Três fatores tornam uma notícia legível e interessante: períodos curtos, palavras simples (com um mínimo de prefixos e sufixos) e informações pertinentes. III. Em uma notícia ou em uma reportagem, a redação em 3a. pessoa aumenta a credibilidade da informação. Está(ão) correta(s): a) Apenas a I.

c) A II e a III.

b) Apenas a II.

d) A I e a III.

e) Todas as alternativas.

Notícia

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A NOTÍCIA Em nosso trabalho sobre como se produz um texto jornalístico, começaremos pela notícia, que consiste em informar sobre um acontecimento, considerado importante ou interessante para um determinado público. O ineditismo, a atualidade e a veracidade são aspectos fundamentais da notícia. Trata-se, portanto, de um gênero de relato que abrange uma variedade grande de leitores. Por isso, a notícia precisa ser clara, objetiva, sucinta e o mais esclarecedora possível, sem apresentar, portanto, o posicionamento de quem enuncia os fatos. As informações que aparecem na notícia sempre destacam os aspectos principais de um fato em relação aos de interesse secundário, que, inclusive, podem ser suprimidos, no caso de faltar espaço na página. O repórter vive em busca de uma história, da qual destaca elementos que considera importantes para sua composição: os agentes, as vítimas (quem, com quem), as ações (o quê), os complementos (como, quando, onde, por quê). Assim, ele imprime uma ordem à história, suprimindo grande parte da sequência temporal, para torná-la simples, interessante.

O lide A palavra lide, que significa cabeça, abertura do texto da notícia ou da reportagem, é proveniente do inglês lead — guiar, encabeçar, conduzir, induzir. O lide apresenta sucintamente o assunto ou destaca o fato essencial, o clímax da história. Sua forma de apresentação pode variar, mas é regra na imprensa que os principais aspectos de um fato estejam logo no início do texto. O lide integral (lide + sublide), mais comum no Brasil, está concentrado geralmente nos dois primeiros parágrafos e responde às perguntas básicas 3 Q (o quê, quem, quando) + C (como) + PQ (por quê).

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS Embora seja a síntese da notícia e da reportagem, não existe um modelo para a redação do lide. Ele pede que se responda às questões principais em torno do acontecimento (o quê, quem, quando, como, onde, por quê — não necessariamente nessa ordem). O texto do lide dependerá sobretudo da própria argúcia do jornalista para descobrir, no conjunto de sua apuração, aquilo que é o ponto mais forte, atual e de mais amplo interesse em relação à realidade que está vivendo. MANUAL da redação da Folha de S.Paulo. São Paulo: Publifolha, 2015. p. 28-29.

A notícia e outros gêneros A notícia, principalmente pelo lide, pode ser o ponto de partida de outros gêneros jornalísticos, como a reportagem. Esta vai além do que a notícia informou, buscando as raízes e os desdobramentos do fato. Enquanto as notícias dos jornais (televisivos, impressos e on-line) lidam com o imediatismo dos acontecimentos cotidianos, a reportagem caracteriza-se pelo aprofundamento e análise dos temas; por isso, é mais comum em revistas de publicação periódica, mas ocasionalmente pode ser veiculada também na TV e na internet. Para relatar um fato, o jornalista precisa apurar o máximo de informações possível, nunca deve omitir informações e deve contar o que aconteceu da maneira mais neutra possível, sem ser tendencioso.

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O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS O sublide (sub-lead ), diferentemente do lide, é uma invenção brasileira, que corresponde ao parágrafo seguinte ao lide, no qual se agrupam os fatos que têm importância inferior à do lide. É o “jeitinho brasileiro’’ no modelo da pirâmide, que funciona como pescoço: dá sustentação à cabeça, faz sua conexão com o tronco e hospeda informações menores. JORGE, Thais de Mendonça. Manual do foca: guia de sobrevivência para jornalistas. São Paulo: Contexto, 2015. p. 134.

CAPÍTULO 4

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Leitura

Folhapress

Leia atentamente a notícia e responda ao que se pede.

1. Quem: A corte de Nova Deli, na Índia. O quê: Decidiu que “pássaros têm direito de viver com dignidade fora de gaiolas, voando livremente”. Quando: Não consta do texto. Como: Por decisão do juiz Manmohan Singh ficou estabelecido que comercializar pássaros em gaiolas é uma violação dos direito das aves. Por quê: Pela posição do juiz de que “todos os pássaros do céu têm o direito fundamental de voar no céu e que nenhum ser humano tem direito de detê-los em gaiolas, com fins comerciais ou quaisquer outros”.

Índia proíbe pássaro na gaiola. Agora São Paulo, 28 maio 2015.

Releitura

1. Identifique no lide e no sublide os seguintes dados: Quem? O quê? Quando? Como? Por quê? 2. Que elemento não verbal está presente na notícia? Com que finalidade? 3. O que há em comum entre as notícias apresentadas até agora? Justifique.

Ambas as notícias apresentam um tema ecológico, de valorização e defesa de animais: a da cadela vira-lata e a dos pássaros.

Atividade

2. Trata-se da cor vermelha. Ela realça a palavra gaiola, presente no título. Também é utilizada num resumo anterior à notícia, composto com letras maiores, o que aumenta o interesse por ela.

Escreva no caderno

Leitura Luiz Pinto. Em Jornal Pessoal. Edição no 333, 1a quinzena, novembro/2004. Acervo do Jornal Pessoal

• Observe a charge, leia o texto e depois faça o que se pede.

Colarinhos na cadeia A elite paraense está em polvorosa. Senadores, empresários, políticos e figurões estão indo parar na cadeia, algumas vezes algemados. São acusados de enriquecer desviando dinheiro público. Essa é uma novidade no panorama de impunidade, que até então prevalecia. Pelo menos neste aspecto, o Brasil parece que mudou. No 333. Novembro de 2004/1a quinzena.

JORNAL Pessoal. 1a. quinzena, n. 333, ano XVIII. In: IMPRENSA oficial: vozes da democracia: histórias da comunicação na redemocratização. São Paulo, 2006. p. 286.

Notícia

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a) Quem: A elite paraense. O quê: Está em polvorosa. Quando: Não consta do texto. Como: Senadores, empresários, políticos e figurões estão sendo presos, algumas vezes algemados. Identifique os dados do lide. Por quê: Por causa da acusação de enriquecer desviando dinheiro público. vel relatar um fato de modo neutro, Na sua opinião, é possível ser totalmente neutro ao relatar um fato? b) Não. É possímas fatores como a escolha das Com que intenção o relato pode ser mais tendencioso ou menos tendencioso? palavras, por exemplo, indicam um posicionamento do enunciador.

a) b) c) d) As notícias, em geral, vêm acompanhadas de uma imagem. Observe com atenção a charge que acompanha o texto. Qual é o papel dela no contexto da notícia? Chamar a atenção do leitor para ela, dar-lhe destaque e ilustrar os fatos. e) Embora o gênero notícia se caracterize pela objetividade, como estamos vendo, ele apresenta marcas é uma novidade no panorama da opinião do jornalista. Exemplifique essa afirmação com duas frases do texto. e)da“Essa impunidade […]. Pelo menos neste aspecto, o Brasil parece que mudou.” f) A expressão “em polvorosa” lhe parece necessária ou pertinente? Por quê? Resposta pessoal. Professor(a), seria interessante mostrar aos alunos que essa expressão destaca muito mais o ponto de vista do enunciador do que os fatos. Por isso, num texto tão curto, torna-se desnecessária.

ESTRUTURA DE UM JORNAL

c) O relato pode ser mais — ou menos tendencioso — dependendo da intenção sensacionalista, de espetacularização da notícia e de pretensão de aumento significativo da venda dos jornais e até de intenção ideológica, de levar o leitor ou o ouvinte a considerar certos fatos em detrimento de outros.

Nos jornais é possível encontrar uma infinidade de gêneros textuais. O jornalismo informativo traz notas, notícias, reportagens, entrevistas; já no jornalismo opinativo estão os editoriais, comentários, artigos de opinião, resenhas, crônicas, cartas do leitor, anúncios de serviços e propagandas publicitárias. Apesar de apresentar, na sua maioria, textos com linguagem verbal, no jornal há também textos com linguagem não verbal — como a pintura, a fotografia e as artes gráficas —, além da mista (linguagem verbal e não verbal), como caricatura, charge, cartum, tirinhas e história em quadrinhos. Dentre esses últimos destacam-se aqueles que se sobressaem pela predominância do humor. 1. Caricatura: retrato humano (ou de objeto) que exagera ou simplifica traços, acentua detalhes ou realça defeitos, com a finalidade de provocar riso, ironia. Enquadra-se no gênero opinativo, pois consiste em uma crônica visual. 2. Charge: crítica humorística de um fato ou acontecimento específico. É a reprodução gráfica de uma notícia, já conhecida do público, se