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Alfredo

Boulos Júnior

Sociedade & Cidadania

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MANUAL DO PROFESSOR

História Sociedade & Cidadania

História

ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR HISTÓRIA

Alfredo Boulos Júnior

ISBN 978-85-96-00355-1

ENSINO MÉDIO 9

788596 003551

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MANUAL DO PROFESSOR

COMPONENTE CURRICULAR HISTÓRIA

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História

Sociedade & Cidadania

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ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR

HISTÓRIA

Alfredo

Boulos Júnior

Doutor em Educação (área de concentração: História da Educação) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mestre em Ciências (área de concentração: História Social) pela Universidade de São Paulo. Lecionou na rede pública e particular e em cursinhos pré-vestibulares. É autor de coleções paradidáticas. Assessorou a Diretoria Técnica da Fundação para o Desenvolvimento da Educação – São Paulo.

2a edição São Paulo – 2016

MANUAL DO PROFESSOR

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Copyright © Alfredo Boulos Júnior, 2016 Lauri Cericato Flávia Renata P. A. Fugita João Carlos Ribeiro Jr., Maiza Garcia Barrientos Agunzi Carolina Bussolaro Juliana Marques Morais, Leslie Sandes, Suélen Rocha M. Marques Mariana Milani Daniela Maximo Juliana Carvalho Bruno Attili Gerson Gerloff/Pulsar Felipe Borba Anderson Sunakozawa, Carolina Ferreira, Dayane Martins, Débora Jóia, Claritas Comunicação, Helena Mariko, Ponto Inicial Tratamento de imagens Eziquiel Racheti Ilustrações e cartografia Ilustradores: Alex Argozino, Getulio Delphim, Ilustra Cartoon, Luis Moura, Manzi, Mário Pita, Mozart Couto, Rmatias, Roberto Melo Cartografia: Alexandre Bueno, Carlos Vespucio, Renato Bassani Coordenadora de preparação e revisão Lilian Semenichin Supervisora de preparação e revisão Viviam Moreira Revisão Aline Araújo, Carina de Luca, Claudia Anazawa, Felipe Bio, Fernando Cardoso, Lívia Perran, Lucila Segóvia, Marcella Arruda, Pedro Fandi, Sônia Cervantes, Veridiana Maenaka Coordenador de iconografia e licenciamento de textos Expedito Arantes Supervisora de licenciamento de textos Elaine Bueno Iconografia Daniel Cymbalista, Graciela Naliati Diretor de operações e produção gráfica Reginaldo Soares Damasceno Diretor editorial Gerente editorial Editores assistentes Assistente editorial Assessoria Gerente de produção editorial Coordenadora de arte Projeto gráfico Projeto de capa Foto de capa Editor de arte Diagramação

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Boulos Júnior, Alfredo História sociedade & cidadania, 2o ano / Alfredo Boulos Júnior. — 2. ed. — São Paulo : FTD, 2016. — (Coleção história sociedade & cidadania) Componente curricular: História ISBN 978-85-96-00354-4 (aluno) ISBN 978-85-96-00355-1 (professor) 1. História (Ensino médio) I. Título. II. Série. 16-03477

CDD-907 Índices para catálogo sistemático: 1. História : Ensino médio 907

Reprodução proibida: Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Todos os direitos reservados à

Aspecto de uma apresentação do grupo Jongo de Piquete (SP), em 2007. O Jongo é uma manifestação cultural de raiz banto que se desenvolveu durante a expansão da cafeicultura pelo Vale do Paraíba, no interior paulista. Ele inclui canto, dança e percussão de tambores. Em 2005, foi registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Imaterial do Brasil. Em respeito ao meio ambiente, as folhas deste livro foram produzidas com fibras obtidas de árvores de florestas plantadas, com origem certificada.

EDITORA FTD Rua Rui Barbosa, 156 – Bela Vista – São Paulo-SP CEP 01326-010 – Tel. (0-XX-11) 3598-6000 Caixa Postal 65149 – CEP da Caixa Postal 01390-970 www.ftd.com.br E-mail: central.atendimento@ftd.com.br

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Impresso no Parque Gráfico da Editora FTD CNPJ 61.186.490/0016-33 Avenida Antonio Bardella, 300 Guarulhos-SP – CEP 07220-020 Tel. (11) 3545-8600 e Fax (11) 2412-5375

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APRESENTAÇÃO

Caro(a) aluno(a), Um dia desses coloquei-me no seu lugar e fiquei pensando em como você iria se sentir no primeiro contato com este livro de História. Imaginei, então, algumas perguntas que você faria: “Será que esse livro é chato?”; “Será que é bacana?”; “Será que vou começar a gostar de História?”; “Será que vou continuar gostando de História?”; “Será que tem o que eu preciso aprender para passar no Enem e/ou Vestibular?” Isto sem contar aquelas perguntas de sempre, que alguns certamente farão: “mas para que serve a História?”; “Pra que eu tenho de saber ‘o que já passou’?”. Olha, vamos imaginar que você esteja debatendo com os seus colegas sobre um assunto do seu gosto, seja qual for: amor, saúde, esporte, viagem, festa, um show que vai estrear, ou outro assunto qualquer. Pois bem, se você quiser compreender melhor qualquer um desses assuntos (e argumentar com mais segurança) é só lembrar que todos eles possuem uma história, que faz parte de outras tantas histórias, passadas e presentes. Ou seja, a História lhe dá o privilégio de debater qualquer assunto em uma perspectiva temporal; e isto a distingue das demais disciplinas. Aprender a pensar historicamente vai ajudá-lo(a) a se compreender melhor, a entender o seu meio social e o mundo em que você vive. Vai ajudá-lo(a) também a perceber as mudanças em um mundo em que elas ocorrem numa velocidade jamais imaginada; e, ao mesmo tempo, a captar aquilo que continua parecido ao que era no tempo em que nossos avós eram crianças. Assim, aos poucos, você vai ganhar condições de enfrentar esse mundo ligado em rede, no qual, e por isso mesmo, temos de estar o tempo todo “conectados”. Em resumo: a História vai ajudá-lo a compreender em vez (ou antes) de julgar. Mas, então, eu devo estudar História somente porque ela é útil? Também; mas não só. O estudo da História nos permite ainda conhecer a aventura humana sobre a Terra. E isto é uma fonte de prazer. Bem, já falei demais para uma apresentação (nós, professores, geralmente nos entusiasmamos quando temos a palavra). Agora eu quero convidá-lo a folhear e, depois, a ler o livro que fizemos com carinho e para você! O Autor

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ABERTURA DE UNIDADE

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› Fonte 4

Terra e liberdade

Pedro Ladeira/SambaPhoto

UNIDADE

COMO ESTÁ ORGANIZADO SEU LIVRO? No Brasil, a luta por terra e liberdade é secular; mobilizou, e continua mobilizando, pessoas e grupos de várias partes do país. Entre esses grupos estão os remanescentes de quilombos ou “terra de pretos”: comunidades organizadas politicamente para garantir seu direito à terra e a viver segundo suas tradições e costumes. › Fonte 1 Remanescentes de quilombos: a luta pela terra

Cada unidade é iniciada com uma abertura em página dupla. Nessas aberturas são apresentados, por meio de imagens e textos, os temas que serão trabalhados.

As comunidades quilombolas viveram na invisibilidade desde os tempos de sua formação. Não eram contempladas por políticas públicas específicas e sequer eram citadas pela legislação em vigor. A situação foi alterada com a promulgação da Constituição Federal, em 1988, que concedeu a esses grupos sociais o direito sobre suas terras e sobre seu patrimônio. O primeiro item está definido no Art. 68, [...] Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. Sergio Amaral/Olhar Imagem

› Fonte 3 Lineu Kohatsu/Olhar Imagem

Ricardo Funari/Olhar Imagem

› Fonte 2

Fonte 4: comunidade quilombola dos Kalunga, durante festa religiosa no Vão do Moleque, próximo a Cavalcante (GO), 2006. Fonte 5: agricultura com arado em comunidade quilombola, Pelotas (RS), 2008.

› Fonte 5

COMUNIDADES quilombolas de Minas Gerais no século XXI. História e resistência. Organizado por Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva. Belo Horizonte: Autêntica/CEDEFES, 2008. p. 51.

» Conforme sugerem as imagens, existem remanescentes de quilombos em diversos pontos do território brasileiro; você já visitou alguma dessas comunidades? » Que relação há entre o texto e as imagens dessas duas páginas? » Hoje, além dessas comunidades, povos indígenas e trabalhadores rurais de diversos pontos do Brasil lutam por terra. Como terão sido essas lutas

Na fonte 2, casa no quilombo Itamatatiua em Alcântara (MA), 2009. A fonte 3 registra a Festa Marujada no Quilombo Mangal e Barro Vermelho, município Sítio do Mato (BA), 2015.

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UNIDADE 4 | TERRA E LIBERDADE

UNIDADE 4 | TERRA E LIBERDADE

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Emancipação política do Brasil

Observe com atenção estas duas imagens. Compare o gesto da personagem central, a posição do cavalo, o agrupamento de soldados em círculo com suas espadas erguidas, entre outros aspectos.

As aberturas dos capítulos propõem a discussão dos temas que serão trabalhados nas páginas seguintes.

Pedro Américo. 1888. Óleo sobre tela. Museu Paulista da USP, São Paulo

Independência ou Morte!, tela pintada pelo artista brasileiro Pedro Américo em 1888.

O golpe da maioridade

GLOSSÁRIO Explicação de um termo-chave ou conceito.

Imagem de Dom Pedro com 12 anos de idade; repare que, antes mesmo de assumir o trono, ele é mostrado como comandante em chefe das Forças Armadas. Dois anos depois, com 15 anos incompletos, ele assumiu o poder. Justiça:

pela Reforma do Código do Processo Criminal, aprovada em 3 de dezembro de 1841, o ministro da Justiça – como representante do imperador – passava a ser responsável pela nomeação dos chefes de polícia, dos comandantes da Guarda Nacional e de quase todos os magistrados.

DIALOGANDO Desafios propostos ao longo do texto para discutir imagens, gráficos, tabelas e textos.

Agora responda:

» O quadro do brasileiro, feito 13 anos depois do quadro do artista francês,

pode ser considerado um plágio? » Ou será que ambos seguiram o padrão da época para pinturas históricas? » Como você chegou à sua conclusão? UNIDADE 3 | CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

DIALOGANDO Observe a charge de Angelo Agostini. a) Quem seriam os “cascudos” mostrados na charge? b) O que a charge ironiza?

Interessados em derrubar os conservadores e manter privilégios ameaçados por rebeliões, como a Balaiada e a Farroupilha, os liberais passaram a divulgar que só um imperador poderia “salvar a nação” da desordem. Como Pedro de Alcântara contava com apenas 14 anos, eles lançaram uma campanha em jornais e revistas em prol da antecipação da maioridade, que logo ganhou o apoio de boa parte da população. Em pouco tempo, as manobras dos liberais e a força da propaganda surtiram efeito. Em 23 de julho de 1840, a Assembleia votou a maioridade de Dom Pedro de Alcântara e o aclamou imperador do Brasil. Com o Golpe da Maioridade e a ascensão dos liberais ao poder, iniciava-se o reinado de Dom Pedro II, que se estendeu por quase meio século (1840-1889).

Eleições: violência e fraude No poder, os liberais praticaram todo tipo de fraude para garantir a vitória nas eleições para a Câmara dos Deputados: pagaram valentões para surrar eleitores, roubaram urnas e qualificaram crianças, escravizados e defuntos como eleitores. Com isso, venceram as eleições que, por incluírem a violência, ficaram conhecidas como eleições do cacete. Derrotados, os conservadores pressionaram o imperador para que anulasse as eleições. Ele o fez e, a seguir, inaugurou o rodízio entre os partidos, nomeando, em 1841, um novo ministério de perfil conservador que deu continuidade à centralização política, aumentando a força do Estado sobre a Justiça e a polícia nas províncias.

Dica! Documentário sobre a vida de D. Pedro II. [Duração: 30 minutos]. Acesse: <http://tub.im/64rtcj>.

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UNIDADE 4 | TERRA E LIBERDADE

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Uma seção que traz textos estimulantes sobre os conteúdos estudados e propõe a discussão sobre esses temas.

Leia o texto a seguir com atenção. As línguas da América Latina

Crime de lesa-majestade:

Keith Levit/Age Fotostock/Easypix

PARA REFLETIR

Para refletir

crime cometido contra a autoridade suprema de um Estado.

PARA SABER MAIS

Muita gente pensa que nos países da América Latina são faladas apenas duas línguas, espanhol e português. Mas na realidade há centenas, ainda que um grande número delas esteja em risco de extinção. [...] Há dois países onde não só o casMulher inca falante do idioma quíchua, telhano, mas também certas línguas Peru, 2010. indígenas têm estatuto oficial: Peru e Paraguai. No Peru, o quéchua e o aimara são reconhecidos como oficiais pela Constituição, mas num papel secundário: na prática, são reconhecidas apenas para serem usadas e ensinadas dentro das respectivas comunidades indígenas e não há nenhuma tentativa séria de tratá-las como línguas nacionais. Já no Paraguai, o guarani é realmente a segunda língua nacional, ensinada em todas as escolas. [...] Existe um curioso preconceito segundo o qual as línguas indígenas são “afetivas”, “sentimentais”, ao passo que as línguas europeias são “lógicas”, “racionais”. Isso nada tem a ver com as línguas em si, mas com a forma como são aprendidas e usadas pelos bilíngues. O índio “ladino” (isto é, que fala uma língua latina) e o mestiço latino-americano geralmente aprendem a língua indígena com a mãe e com seus companheiros de infância e a usam em contextos íntimos, familiares ou de amizade [...]. Pelo contrário, uma língua como o castelhano (ou outra europeia qualquer) é aprendida na escola [...] e o [indivíduo] bilíngue o continua usando em esferas relacionadas com a racionalidade e a impessoalidade: as repartições públicas, a relação com os superiores, o comércio nas grandes cidades [...]. São raras as [...] tentativas de traduzir textos científicos modernos para essas línguas [...].

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Acusados de cometer crime de lesa-majestade, a maioria dos rebeldes foi condenada ao degredo (exílio) nas colônias portuguesas na África. Segundo a versão oficial, Cláudio Manuel da Costa cometeu suicídio na cadeia; no entanto, há indícios de que ele foi morto por seus interrogadores. Tiradentes pagou com a vida. Enforcado em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, foi esquartejado e teve as partes do seu corpo distribuídas pelos lugares por onde pregou a libertação das Minas Gerais.

Para saber mais A obra Tiradentes esquartejado, pintura a óleo de Pedro Américo, foi produzida na Itália, em 1893, quatro anos após a proclamação da República no Brasil. Nesse contexto, havia uma preocupação dos republicanos em revisitar o passado colonial, eleger um herói nacional e criar ou recriar mitos de origem e de fundação. O artista, com seu pincel, ajudou na transformação da figura de Tiradentes em herói republicano.

Um quadro que apresenta informações extras sobre os conteúdos dos capítulos trabalhados.

Observe que as partes do corpo do mártir da Independência estão dispostas de modo que lembram o mapa do Brasil. O artista quis, provavelmente, sugerir um elo indissolúvel entre o herói-mártir e a Pátria.

Pedro Américo. 1893. Óleo sobre tela. Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora

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Félix Émile Taunay. 1838. Óleo sobre tela. Museu Imperial

Jean-Louis Ernest Meissonier. c. 1875. Óleo sobre tela. Metropolitan Museum of Art, Nova Yorque

ABERTURA DE CAPÍTULO

A Batalha de Friedland, tela pintada pelo artista francês Ernest Meissonier em 1875.

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Angelo Agostini. Séc. XIX. Coleção particular

Capítulo 10

em solo americano em séculos passados? » Nesta unidade vamos estudar uma parte importante dessas histórias.

Note também que Pedro Américo pintou a cabeça de Tiradentes ao lado do corpo crucificado de Jesus Cristo. Com isso, ele pretendia assemelhá-lo ao maior mártir do Cristianismo. Além disso, sabe-se hoje que, na época de Tiradentes, os condenados eram executados sem cabelo e sem barba, mas, mesmo assim, o pintor representou o inconfidente com barba e cabelos longos, usando mais esse recurso para cristianizá-lo. Como observou o historiador José Murilo de Carvalho na obra A formação das almas, o apelo à tradição cristã do povo brasileiro contribuiu para o êxito de Tiradentes como herói republicano.

COSTA, Antonio Luiz Monteiro Coelho da. As línguas da América Latina. Como é a América Latina, 24 maio 2012. Blogue. Disponível em: <http://www.comoaamericalatina. blogspot.com.br/2012/05/as-linguas-da-america-latina.html>. Acesso em: 6 abr. 2016.

a) O texto acima pode ser classificado como jornalístico, literário, historiográfico ou filosófico? b) O autor se dirige a um público especializado ou a um público em geral? Justifique.

A Conjuração Baiana

c) Em dupla. De acordo com o texto, podemos afirmar que no Peru a língua indígena reconhecida como oficial possui o mesmo prestígio que o espanhol? Justifique.

Enquanto os principais envolvidos na Conjuração Mineira eram homens de negócio e intelectuais de origem europeia, os rebeldes baianos eram em sua maior parte mestiços e/ou negros e pobres. Como muitos deles exerciam o ofício de alfaiate, a Conjuração Baiana (1798) ficou conhecida também como Revolta dos Alfaiates.

d) Segundo o autor, as línguas indígenas são “naturalmente” afetivas?

CAPÍTULO 1 | AMÉRICA INDÍGENA

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UNIDADE 3 | CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

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ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando

Retomando

1. Leia o texto a seguir com atenção: Não acreditamos ser possível [...] fechar questão quanto ao movimento de 1789, como se ele fosse uno [...], íntegro em seus propósitos [...] e estratégias.[...] Um dos temas centrais de dissenso entre os inconfidentes era precisamente o fato de que, enquanto alguns eram mesmo movidos por elevadas aspirações políticas reformadoras, para outros, [...] o objetivo da Inconfidência era apenas a suspensão da derrama, efetivamente obtida em 14 de março de 1789. A partir dessa premissa, é possível entender e explicar o arrefecimento dos ânimos e relativo enfraquecimento do levante antes mesmo Dissenso: discordância. da repressão que se abateu Arrefecimento: sobre os revoltosos [...] a perda do entusiasmo, partir de maio de 1789. do ânimo.

Questões variadas sobre os conteúdos dos capítulos para serem realizadas individualmente ou em grupo. Uma forma de rever aquilo que foi estudado.

FURTADO, João Pinto. A Inconfidência Mineira: um novo tempo ou reedição dos motins do Antigo Regime? In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos (Org.). História de Minas Gerais: as minas setecentistas. Belo Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, 2007. v. 2. p. 636.

a) De que forma o autor do texto caracteriza o movimento de 1789? b) Que distinção ele faz entre os inconfidentes quanto aos seus objetivos? c) Para o autor do texto, o que explica a perda de entusiasmo por parte dos conjurados a partir de março de 1789? d) Com base no que você estudou, qual era outro ponto de divergência entre os inconfidentes? e) Em dupla. Debatam, reflitam e opinem: qual era a motivação dos conjurados: as ideias de reforma inspirados no Iluminismo ou a suspensão da derrama? Justifique. 2. (Unicamp-SP – 2016) A aquarela do artista João Teófilo, aqui reproduzida, dialoga com a pintura de Pedro Américo, “Tiradentes esquartejado” (1893). Sobre a obra de João Teófilo, publicada na capa de uma revista em 2015, é possível afirmar que:

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II. Leitura e escrita em História a. Leitura de imagem A imagem é um detalhe da pintura mural de Diego Rivera intitulada Guerra de independência do México. Observe-a com atenção. a) Quem são os padres que ocupam o centro da cena e quem é o imperador retratado no canto esquerdo? b) Como esses personagens estão representados? c) Há ainda na parte inferior do mural uma cena que merece destaque. Qual é ela? d) Pesquise e escreva um pequeno texto sobre esse mural e seu autor. (http://www.revistadehistoria.com.br/revista/edicao/118.)

a) Trata-se de uma obra baseada em um quadro do gênero da pintura histórica, sendo que no trabalho de Pedro Américo o corpo de Tiradentes no patíbulo afasta-se da figura do Cristo, exemplo maior de mártir. b) Utilizando-se das mesmas formas do corpo esquartejado de Tiradentes pintado por Pedro Américo, o autor limita o número de sujeitos esquartejados e acentua o tom conservador da aquarela. c) A imagem fala sobre seu contexto de produção na atualidade, utilizando-se do simbolismo de Tiradentes, e procura ampliar a presença de negros como sujeitos sociais nas lutas coloniais e antiescravistas. d) Tiradentes consolidou-se como um mártir nacional no quadro de Pedro Américo, daí a necessidade do pintor de retratar seu corpo esquartejado. A obra de João Teófilo mostra que os mártires, embora negros, são um tema do passado.

VOZES DO PRESENTE O texto a seguir é da historiadora Maria Lígia Prado. Em busca da participação das mulheres nas lutas pela independência política da América Latina [...] Algumas conclusões preliminares podem ser apresentadas; em primeiro lugar, a participação política das mulheres durante as lutas pela independência precisa ser levada em consideração, pois sua presença e comportamento estão muito além do que a historiografia até hoje apontou. [...] Em segundo lugar, ressalte-se que a despeito dessa atuação bastante visível, em nenhum dos países latino-americanos operou-se a transformação de uma dessas mulheres em heroína nacional [...]. As homenagens e o reconhecimento oficial da participação das mulheres como “fundadoras da pátria” são extremamente restritos. A mais destacada, neste particular, parece ser a boliviana, Juana Azurduy de Padilla; no aeroporto de Sucre que também leva seu nome – ganhou uma estátua que a representa montada a cavalo, ameaçando os realistas com ar desafiador. [...] 6/8/16 11:37 PM

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II. Leitura e escrita em História

UNIDADE 3 | CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

Os provérbios a seguir são africanos (região do Golfo da Guiné) e foram recolhidos pelo escritor, pesquisador e compositor Nei Lopes, um dos maiores conhecedores das culturas e das histórias da África e dos afro-brasileiros. Leia-os com atenção.

VOZES DO PASSADO

1. A chuva lava a pele do leopardo, mas não remove as pintas. [...]

Observe as fontes 1 e 2 e responda.

2. Uma mentira [...] estraga mil verdades. [...] 4. A fome tanto dá no escravo quanto no rei. [...]

Mahommah Gardo Baquaqua. Séc. XIX. Coleção particular

O trecho a seguir foi escrito por Mahommah Gardo Baquaqua, um africano nascido onde hoje é o Benin e trazido para Pernambuco como escravo, em 1847. Depois de conseguir a liberdade, ele escreveu um livro do qual retiramos o trecho a seguir: Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de um lado, e as mulheres de outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar de pé, éramos obrigados a nos agachar ou nos sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos. Comida e bebida eram escassos na viagem, havendo dias em que os escravos não ingeriam absolutamente nada. Houve um pobre companheiro que ficou tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Foi levado ao convés, e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que tenha sido jogado ao mar.

5. A ruína de uma nação começa nas casas do seu povo. [...] 7. O rio de águas tranquilas, esse é que é mais perigoso. [...] 8. O dinheiro é traiçoeiro feito espada de dois gumes. [...] 9. Quem fala sem parar fala besteira. [...] 10. Chuva fina, mas constante, faz o rio transbordar. [...] 11. Quem vai nos ombros dos outros não sente a longa distância. [...] 12. Não saber é ruim; não querer saber é pior. [...] 13. Tentar e falhar não é preguiça. LOPES, Nei. Kitábu: O livro do saber e do espírito negro-africanos. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2005. p. 187-190.

a) Encontre no dicionário o significado do termo provérbio e verifique em que sentido ele se aplica ao provérbio número 9. b) Os provérbios são transmitidos, geralmente, de boca a boca e integram o conjunto de saberes de um povo. Reflita e opine sobre o provérbio de número 6. c) Em dupla. O provérbio de número 5 relaciona a situação de uma nação às condições do povo que nela vive. Vocês consideram essa relação pertinente? Justifique sua resposta com base nos seus conhecimentos de História.

› Fonte 2 Observe com atenção o desenho de um navio de 1830 especializado no tráfico de escravos reproduzido na página 82.

d) Interprete o provérbio de número 11 e justifique a sua interpretação. e) Em grupo. Parte do que sabemos deve-se ao que aprendemos com os mais velhos. Registrem por escrito os contos, adivinhas, receitas e provérbios que vocês aprenderam com eles; postem o resultado do trabalho no blog da turma.

a) Qual é o assunto do texto? b) Segundo o autor, como era o tratamento dispensado aos escravizados no navio negreiro?

f) Em dupla. A música do compositor e cantor cearense Antonio Belchior, Como os nossos pais, se tornou famosa na voz de Elis Regina. Pesquisem a letra dessa canção e respondam: até que ponto vocês agem de modo diferente do de seus pais, e até que ponto agem como eles?

c) Reflita e opine: o fato de o autor ter viajado em um navio negreiro como escravo torna o seu relato mais confiável? Justifique. d) Agora observe a imagem (fonte 2) com atenção; ela reforça ou nega a descrição feita por Baquaqua na fonte 1? Justifique. UNIDADE 2 | DIVERSIDADE E PLURALISMO CULTURAL

CAPÍTULO 4 | AFRICANOS NO BRASIL: DOMINAÇÃO E RESISTÊNCIA

Fac-símile da capa de Os Bestializados, de José Murilo de Carvalho. Tribofe:

gíria da época que significa trapaça, enganação, engodo. Em 1891, Artur Azevedo lançou uma revista denominada O tribofe, cujo conteúdo continha forte crítica social e por meio do humor ironizava o comportamento do fluminense.

Havia tribofe na política, na bolsa, no câmbio, na imprensa, no teatro, nos bondes, nos aluguéis, no amor. Não se obedecia nem à lei dos homens, nem a de Deus. Como diria o próprio tribofe: “Ah, minha amiga, nesta boa terra os mandamentos da lei de Deus são como as posturas municipais... Ninguém respeita!” [...] Havia consciência clara de que o real se escondia sob o formal. [...] Perdia-se o humor apenas quando o governo buscava impor o formal, quando procurava aplicar a lei literalmente. Nesses momentos o entendimento [...] era quebrado, o poder violava o pacto, a constituição não escrita. Então tinha de recorrer à repressão, ao arbítrio, o que gerava a revolta em resposta. Mas [...] eram momentos de crise, não o cotidiano. O povo sabia que o formal não era sério. Não havia caminhos de participação, a República não era para valer. Nessa perspectiva, o bestializado era quem levasse a política a sério, era o que se prestasse à manipulação. Num sentido [...], a política era tribofe. Quem apenas assistia, como fazia o povo do Rio por ocasião das grandes transformações realizadas a sua revelia, estava longe de ser bestializado. Era bilontra.

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CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 140, 159-160.

RIBEIRO, Berta G. A contribuição dos povos indígenas à cultura brasileira. In: GRUPIONI, Luís Donizete Benzi. A temática indígena na escola. 2. ed. Brasília: MEC/Unesco, 1998. p. 199-203.

b) Na visão do autor, a República incluiu o povo ou o manteve excluído da política? Justifique.

Criança ianomâmi carregando cacho de pupunha madura na Aldeia do Kona, Santa Isabel do Rio Negro (AM), 2011.

b) Em que trecho do texto fica evidente a existência de trocas culturais entre indígenas e europeus?

d) Você considerou convincente o argumento do autor? Justifique.

c) Na segunda metade do século XIX surgiram na Europa novos tipos de indústrias, que tinham a borracha como matéria-prima essencial. Que indústrias eram essas?

b. Cruzando fontes

d) Reflita e elabore um comentário sintético sobre a ideia defendida pela autora no texto.

› Fonte 1

e) Em grupo. A demarcação das terras indígenas tem ocasionado conflitos violentos: de um lado estão os povos indígenas e seus aliados; eles argumentam ter direito à terra que tradicionalmente ocupam e que esse direito é garantido por lei. De outro lado estão indivíduos e grupos interessados nas terras reivindicadas pelos indígenas; eles argumentam que “tem terra demais para pouco índio”. Debatam, reflitam e opinem sobre essa disputa e justifiquem a posição tomada por vocês. Postem o resultado do debate no blog da turma.

O texto a seguir é da professora da Universidade de São Paulo Emília Viotti da Costa. Leia-o com atenção. O rápido crescimento das plantações de café fez do trabalho o problema mais urgente. Como podiam os fazendeiros satisfazer suas necessidades de trabalho após a interrupção do tráfico de escravos? [...] Os fazendeiros das áreas em expansão haviam encontrado a resposta na imigração. [...] Como eles não se organizaram para defender a instituição, a escravidão foi abolida por um ato do Parlamento sob os aplausos das galerias. Promovida principalmente por brancos, ou por negros

CAPÍTULO 3 | A AMÉRICA PORTUGUESA E A PRESENÇA HOLANDESA

UNIDADE 4 | TERRA E LIBERDADE

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Reflexão sobre temas como meio ambiente, ética e solidariedade. As atividades visam estimular o exercício da cidadania. Esta seção encerra o estudo da unidade.

a) Em sua opinião, a autora do texto conseguiu comprovar o que afirma?

c) Como o autor do texto responde à pergunta contida no título?

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Você cidadão!

O conhecimento e a contribuição indígena à cultura brasileira As principais plantas de que se alimenta, ou que utiliza industrialmente a humanidade, foram descobertas e domesticadas pelos ameríndios. Tais são, entre as alimentícias: a batata [...], originária do Peru, erroneamente chamada inglesa; a mandioca [...]; o milho [...]; a batata-doce [...]; o tomate [...]; feijões e favas, como o amendoim [...]; fruteiras como o cacau [...], o abacaxi [...], o caju [...], o mamão [...]; amêndoas como a castanha-do-pará [...]. Inúmeras espécies vegetais, objeto de coleta por parte dos índios, foram adotadas pelos colonizadores europeus, passando a ser cultivadas, algumas em larga escala, desempenhando hoje relevante papel na economia mundial. [...] A borracha [...], dentre todas, inicia o ciclo industrial moderno. Conhecida pelos índios, que a utilizavam para fazer bolas, seringas e impermeabilizar objetos, a borracha só foi realmente “descoberta” pela civilização ocidental na segunda metade do século XIX.

a) O que Aristides Lobo quis dizer com “o povo assistiu bestializado à proclamação da República”?

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III. Você cidadão!

Cruzando fontes

Uma seção que permitirá a você se aproximar do trabalho de um historiador, por meio da análise e da comparação de diferentes fontes.

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Edson Sato/Pulsar Imagens

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Editora Cia. das Letras

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Nesta seção, a História e outras áreas do conhecimento se encontram, o que permite ampliar ou complementar o que foi visto no capítulo.

6. O ódio é uma doença sem remédio. [...]

VIEIRA, Leonardo. Historiadores traduzem única autobiografia escrita por ex-excravo que viveu no Brasil. O Globo, Rio de Janeiro, 27 nov. 2014. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/ historiadores-traduzem-unica-autobiografia-escrita-por-ex-escravo-que -viveu-no-brasil-14671795#ixzz3Kja8UxlC>. Acesso em: 11 mar. 2016.

Livro escrito por Mahommah Gardo Baquaqua.

92

Integrando com...

3. Se a floresta te abriga, não a chame de “selva”.

› Fonte 1

Interpretação de diferentes gêneros textuais. Para completar o estudo dos temas, são propostas atividades de pesquisa ou escrita de um texto.

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III. Integrando com Língua Portuguesa

Leitura e escrita de textos

Leitura e escrita de textos

Leitura de imagem

Seção que permite o estudo de imagens relacionadas aos temas dos capítulos.

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b. Leitura e escrita de textos

UNIDADE 3 | CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

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Leitura e escrita em História

Diego Rivera. La guerra de la independencia de México. 1810. Mural. Palácio Nacional, México, DF.

ATIVIDADES

João Teófilo. Aquarela. Coleção particular

ATIVIDADES

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SUMÁRIO UNIDADE 1

NÓS E OS OUTROS: A QUESTÃO DO ETNOCENTRISMO

10

Capítulo 1 – América indígena... ............................................................................................................ . . . . . . . . . . . . 12 Povos americanos ................................. ................... 13 Os astecas............................................... ................... 13 A sociedade asteca ............................. ................... 14

Os maias..................................................................... 15 As cidades-Estado maias .................... ................... 16 Sociedade, economia e arte .................................. 17 Os incas................................................... ................... 18 Economia inca ..................................... ................... 19 O ayllu e a mita ..................................................... 20 A sociedade incaica ............................................... 20 Indígenas nas terras onde hoje é o Brasil ........ 22 Diferenças entre os indígenas .............................. 22

As línguas indígenas................................. . . . . . . . . . . . . . 23 As artes indígenas ..................................... . . . . . . . . . . . . 24 Semelhanças entre os indígenas ............ . . . . . . . . . . . . . 24

Encontro e desencontro: os portugueses e os tupiniquins ................... . . . . . . . . . . . . 25 Demografia e terra ..................................... . . . . . . . . . . . . . 26 Problemas dos indígenas hoje.................. . . . . . . . . . . . . 27 As lutas dos povos indígenas .................. . . . . . . . . . . . . . 27 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . . . 29 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . . . . 29 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . . . 31

Capítulo 2 – Colonizações: espanhóis e ingleses na América .............................................. . . . . . . . . . . . . 32 A Conquista ............................................................... 33 A conquista das terras astecas ............................. 33 A conquista das terras incas.............. ................... 34 As razões da conquista: um novo olhar............... 36 A economia colonial ............................................... 38 O trabalho forçado dos ameríndios ... ................... 38 A mineração ........................................................... 39 A agropecuária ....................................................... 40 Manufatura, artesanato e mercado interno ......... 41 O controle sobre o comércio colonial .................. 41 A administração colonial ....................................... 42

A sociedade colonial.................................. . . . . . . . . . . . . . 43 A ocupação da América inglesa ............... . . . . . . . . . . . . 43 Os primeiros colonos ................................ . . . . . . . . . . . . . 44

As Treze Colônias ........................................ . . . . . . . . . . . . . 46 As colônias do Centro-Norte .................... . . . . . . . . . . . . . 47 As colônias do Sul .................................... . . . . . . . . . . . . . 48 A organização política das Treze Colônias . . . . . . . . . . 48 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . . . 49 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . . . . 49 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . . . 51

Capítulo 3 – A América portuguesa e a presença holandesa ............................................... . . . . . . . . . . . . 52 Do escambo à colonização .................................... 53 Administração colonial ....................... ................... 54 As capitanias hereditárias..................................... 54 O Governo-Geral ..................................................... 55 Câmaras Municipais .............................. ................... 58 A economia colonial ............................................... 59 O produto................................................................ 59 O capital ................................................................. 59 A mão de obra ........................................................ 60 Diversificação agrícola: fumo, aguardente, pecuária, algodão e cacau ............... 61 Sociedades coloniais............................................... 63 A sociedade colonial açucareira ........................... 63 Os trabalhadores assalariados............................... 65

Os holandeses conquistam a independência . . . . . . . 66 A guerra pelo açúcar e pelo tráfico atlântico . . . . . 67 Invasão da Bahia ....................................... . . . . . . . . . . . . 67 Invasão de Pernambuco ............................ . . . . . . . . . . . . 68 O governo de Nassau ................................. . . . . . . . . . . . . 68 A Restauração em Portugal ....................... . . . . . . . . . . . . 70 A luta contra os holandeses .................... . . . . . . . . . . . . . 70 Os holandeses nas Antilhas ..................... . . . . . . . . . . . . . 71 A Guerra dos Mascates ............................... . . . . . . . . . . . . 71 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . . . 72 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . . . . 72 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . . . 74 III. Você cidadão!..................................... . . . . . . . . . . . . . 75 Palê Zuppani/Pulsar

Renato Soares/ Pulsar Imagens

Renato Soares/Pulsar Imagens

Holandeses no Nordeste ........................... . . . . . . . . . . . . . 66

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UNIDADE 2

DIVERSIDADE E PLURALISMO CULTURAL

76

Capítulo 4 – Africanos no Brasil: dominação e resistência ................................................... . . . . . . . . . . . . 78 O início da roedura ................................................. 80 Guerra e escravidão ............................ ................... 80 A travessia .............................................................. 82 A dança dos números ............................................ 82 O trabalho escravo .................................................. 84 A violência ................................................................ 85

A resistência ................................................ . . . . . . . . . . . . . 85 Os quilombos ............................................. . . . . . . . . . . . . . 86 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . . . 90 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . . . . 90 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . . . 92 III. Integrando com Língua Portuguesa . . . . . . . . . . . . . . 93

Capítulo 5 – Expansão e ouro na América portuguesa ............................................................ . . . . . . . . . . . . 94 Os soldados ............................................................... 95 Os jesuítas ................................................................. 96 A Revolta de Beckman........................................... 97 Os bandeirantes ....................................................... 98 São Paulo, capital bandeirante............................. 98 As bandeiras ........................................................... 99 A caça ao indígena ............................. ................... 99 O sertanismo de contrato................... ................. 101 A busca de ouro e de diamantes ........................ 101 Diamantes: descoberta e controle.... ................. 104 Os caminhos do ouro e dos diamantes ............ 106 Mudanças no território colonial......................... 107

A sociedade do ouro .................................. . . . . . . . . . . . 108

Os potentados ............................................ . . . . . . . . . . 108 As camadas médias ................................... . . . . . . . . . . . 108 Os escravizados .......................................... . . . . . . . . . . 109 Os homens livres pobres............................ . . . . . . . . . . 109 A pecuária colonial ..................................... . . . . . . . . . . 110 O gado no Sul............................................ . . . . . . . . . . . 111 As novas fronteiras .................................... . . . . . . . . . . 112 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . 114 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . . 114 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . 116

Capítulo 6 – A Revolução Inglesa e a Industrial .......................................................................... . . . . . . . . . 117 O processo revolucionário inglês ...... ................. 118

A vida dos trabalhadores fora das fábricas . . . . . . . 129 Os trabalhadores vão à luta ...................... . . . . . . . . . . 129 Atividades.................................................. . . . . . . . . . . 131 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . . 131 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . 133 III. Integrando com Biologia .................. . . . . . . . . . . . 134 IV. Você cidadão! ..................................... . . . . . . . . . . . 135

Bertrand Gardel/Hemis/ Alamy/Glow Images

Mudanças na sociedade inglesa.......................... 118 O absolutismo dos Stuart .................................... 119 Revolução Puritana .............................................. 120 A República de Cromwell .................... ................. 122 A restauração da monarquia ............................... 123 A Revolução Gloriosa .......................... ................. 123 A Revolução Industrial ........................ ................. 125 Por que a Inglaterra foi a primeira a se industrializar? ............................... 125 Máquinas industriais e sistema fabril ................ 125 A vida dos trabalhadores no interior das fábricas .......................................... 128

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Marco Ugarte/AP Photo/Glow Images

UNIDADE 3

CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

136

Capítulo 7 – O Iluminismo e a formação dos Estados Unidos ............................................. . . . . . . . . . 138 A Ilustração ........................................... ................. 139 Progresso, otimismo e ciência ........................... 139 Pensadores iluministas........................ ................. 140 Voltaire e a liberdade de pensamento ............... 140 Montesquieu e a teoria dos três poderes........... 141 Rousseau e a vontade geral ................................ 141 A Enciclopédia......................................................... 142 Iluminismo e economia ....................................... 143 Adam Smith e o liberalismo econômico .......... 144

O despotismo esclarecido ......................... . . . . . . . . . . . 144 As relações entre a Inglaterra e as Treze Colônias da América do Norte ...... . . . . . . . . . . . 146 O movimento de independência .............. . . . . . . . . . . 148 A guerra pela independência ................... . . . . . . . . . . . 150 Os primeiros anos dos Estados Unidos ... . . . . . . . . . . 150 Repercussões da independência ............. . . . . . . . . . . . 151 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . 153 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 153 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . 155

Capítulo 8 – A Revolução Francesa e a Era Napoleônica ......................................................... . . . . . . . . . 156 O Antigo Regime na França................ ................. 157 A sociedade .......................................................... 157 A economia e a política ..................... ................. 158 A Revolução em marcha....................................... 160 A Assembleia Nacional Constituinte . ................. 160 A monarquia constitucional ............... ................. 162 A Convenção Nacional ........................ ................. 162 O governo jacobino ............................................. 163 O Diretório ........................................... ................. 164

O significado da Revolução Francesa ...... . . . . . . . . . . . 165

O governo de Napoleão ............................. . . . . . . . . . . . 165 O expansionismo bonapartista ................. . . . . . . . . . . 167 A resistência ao militarismo bonapartista . . . . . . . . 169

O Congresso de Viena e o princípio da legitimidade .......................... . . . . . . . . . . 171 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . 173 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 173 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . 175

Capítulo 9 – Independências: Haiti e América espanhola ..................................................... . . . . . . . . . 176 As sociedades hispano-americanas ................... 177 As lutas sociais na América ................................ 178 A Revolta de Túpac Amaru ................. ................. 178 A Revolta dos Comuneros.................................... 179 O caso do Haiti: América francesa ..................... 180 A crise nos domínios espanhóis da América .. 181 As tropas de Napoleão invadem a Espanha .... 183

As guerras da independência na América . . . . . . . . 184 San Martín e Bolívar ................................. . . . . . . . . . . . 184 O caso do México ...................................... . . . . . . . . . . . 187 Independências e fragmentação .............. . . . . . . . . . . 188 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . 190 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 190 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . 192

Capítulo 10 – Emancipação política do Brasil ............................................................................... . . . . . . . . . 194 A administração de Pombal ............... ................. 195 Revoltas na Colônia .............................................. 196 A Conjuração Mineira .......................................... 196 A Conjuração Baiana........................... ................. 198

A família real no Brasil e a interiorização da metrópole ............................... 200 A abertura dos portos brasileiros e seus desdobramentos ...................... ................. 201 Administração joanina ....................... ................. 201

O Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarve. . . . . 202 A Insurreição Pernambucana ................... . . . . . . . . . . . 203 A Revolução do Porto e o Brasil ............. . . . . . . . . . . . 204 A regência de Dom Pedro ......................... . . . . . . . . . . . 206 A ruptura com Portugal.............................. . . . . . . . . . . 207 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . 208 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 208 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . 210

Capítulo 11 – O reinado de Dom Pedro I: uma cidadania limitada .................................. . . . . . . . . . 211 As lutas pela independência ............................... 212 O reconhecimento da independência ............... 214 A formação do Estado brasileiro ....... ................. 215 A Constituição do Império ................. ................. 216 A Confederação do Equador ................................ 218

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Dom Pedro perde apoio e popularidade . . . . . . . . . . . 220 Oposição na Câmara e na imprensa.......... . . . . . . . . . . 221 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . 223 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 223 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . 224 III. Você cidadão!..................................... . . . . . . . . . . . 225

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UNIDADE 4

TERRA E LIBERDADE

226

Capítulo 12 – Regências: a unidade ameaçada ............................................................................. . . . . . . . . . 228 O avanço liberal ..................................................... 229 O Ato Adicional de 1834 ..................................... 230 As rebeliões nas províncias ................................. 233 A Cabanagem ........................................................ 233 A Guerra dos Farrapos ......................................... 234 A Revolta dos Malês ............................................ 238

A Sabinada ................................................. . . . . . . . . . . 239 A Balaiada ................................................. . . . . . . . . . . . 240 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . 242 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 242 II. Integrando com Língua Portuguesa .. . . . . . . . . . . 243

Capítulo 13 – Modernização, mão de obra e guerra no Segundo Reinado ................... . . . . . . . . . 245 O golpe da maioridade ........................ ................. 246

Eleições: violência e fraude ................................ 246 As revoltas liberais de 1842 ............................... 247 A Rebelião Praieira ............................. ................. 247 O poder do monarca no Império Brasileiro ..... 248 Os partidos do Império: diferenças e semelhanças .................. ................. 249 Economia do Segundo Reinado .......................... 249 O café assume a liderança .................................. 249 Açúcar, algodão e borracha ................................ 252 Modernização no Império .................................... 252 Café e ferrovias .................................................... 253 A Tarifa Alves Branco e a Lei Eusébio de Queirós .................... ................. 254

A questão da mão de obra no Império .. . . . . . . . . . . 255

A Lei Eusébio de Queirós e a Lei de Terras. . . . . . . . 255 O tráfico interno e o debate sobre o trabalhador nacional ................... . . . . . . . . . . . 256 Imigrantes no Brasil .................................. . . . . . . . . . . . 257 O sistema de parceria idealizado pelo Senador Vergueiro ............................. . . . . . . . . . . 258 Colonos nas fazendas de café .................. . . . . . . . . . . . 259 Alemães, italianos e poloneses no Sul .... . . . . . . . . . . 259 Um começo difícil ...................................... . . . . . . . . . . 260 Guerras entre os sul-americanos .............. . . . . . . . . . . 260 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . 264 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 264 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . 266

Capítulo 14 – Abolição e República ..................................................................................................... . . . . . . . . . 267 O processo de abolição ........................................ 268 A resistência negra ............................. ................. 268 O abolicionismo .................................. ................. 269 A vida dos recém-libertos .................. ................. 273 O processo que conduziu à República .............. 274 O republicanismo ................................................. 274 A Questão Religiosa ............................................. 275 A Questão Militar ................................ ................. 275

A proclamação da República ..................... . . . . . . . . . . 277 O governo de Deodoro da Fonseca ........... . . . . . . . . . . 279 Constituição e cidadania na jovem República . . . 280 O governo de Floriano Peixoto ................ . . . . . . . . . . . 281 A Revolução Federalista ............................ . . . . . . . . . . 281 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . 282 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 282 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . 283 III. Você cidadão! ................................... . . . . . . . . . . . 285

Pedro Ladeira/SambaPhoto

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................................................................................................287

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UNIDADE

Professor: nesta abertura de unidade buscamos pensar as relações entre “nós” e os “outros”, extraindo exemplos do presente. Imagens de curiosidade, estranhamento e de violência física (em um estádio de futebol do Brasil) podem despertar os estudantes para a reflexão sobre o outro; a alteridade é um tema

1

Nós e os outros: a questão do etnocentrismo

Os grupos humanos sempre reagiram (e reagem) das formas mais variadas às diferenças que percebiam (e percebem) entre eles e os outros; desde a curiosidade e a admiração (fonte 1), o estranhamento e o riso diante do diferente (fonte 2), até a rivalidade e a violência física e psicológica (fonte 3). A reação mais frequente de cada grupo humano em sociedade tem sido a de valorizar ao máximo suas formas de pensar e agir coletivamente e, ao mesmo tempo, desvalorizar as do outro. A esse comportamento damos o nome de etnocentrismo. › Fonte 1 DavidEnglish Photos/Alamy/Latinstock

Gonzalo Azumendi/Easypix

› Fonte 2

O Pensador, escultura de Auguste Rodin; note que a menina olha para ela com admiração e encantamento. Museu de Belas Artes Legion of Honor, Califórnia, Estados Unidos, 2007.

Visão infantil, escultura de John Davies; note que a estátua provoca o estranhamento e o riso nos garotos. Museu de Belas Artes de Bilbao, Espanha, 2010.

Acervo Folhapress

› Fonte 3

10

A fotografia retrata uma briga entre torcidas organizadas, fato cada vez mais comum nos estádios de todo o país. Essas brigas, combinadas, por vezes, pela internet, têm resultado em mutilações e mortes de jovens torcedores. Apesar das penalidades impostas aos agressores, a intolerância, a hostilidade e a violência continuam fazendo vítimas, disseminando o medo e inibindo a ida aos estádios. São Paulo (SP), 2014.

complexo, escorregadio, mas indispensável quando o que se quer é a construção de uma sociedade cidadã e pacífica. Ao longo da unidade, o aluno terá a oportunidade de estudar essas relações no passado, com destaque para os encontros/desencontros entre europeus e ameríndios no século XVI. Lembrar que a conquista europeia da América foi recheada de violência e desdobrou-se em UNIDADE 1 | NÓS E OS OUTROS: A QUESTÃO DO ETNOCENTRISMO um dos maiores genocídios ocorridos na história da humanidade.

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Leia o texto a seguir em que especialistas escrevem sobre o etnocentrismo. › Fonte 4 Além da fome, [...] das doenças, da desigualdade, um dos graves problemas que o mundo contemporâneo enfrenta é a intolerância entre os povos. A dificuldade em encarar a diversidade humana conduz à negação dos valores culturais alheios e supervalorização do “grupo do eu”, visão e atitude que chamamos de etnocentrismo [...]. Uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é existência. [...] De um lado, conhecemos um grupo do “eu”, o “nosso” grupo, que come igual, veste igual, gosta de coisas parecidas, conhece problemas do mesmo tipo, acredita nos mesmos deuses, casa igual, mora no mesmo estilo, distribui o poder da mesma forma, empresta à vida significados em comum e procede, por muitas maneiras, semelhantemente. Aí, então, de repente, nos deparamos com um “outro”, o grupo do “diferente” que, às vezes, nem sequer faz as coisas como as nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. E, mais grave ainda, este “outro” também sobrevive à sua maneira, gosta dela, também está no mundo e, ainda que diferente, também existe. [...] O grupo do “eu” faz, então, da sua visão a única possível ou, mais discretamente se for o caso, a melhor, a natural, a superior, a certa. O grupo do “outro”, o grupo do diferente fica, nessa lógica, como sendo engraçado, absurdo, anormal ou ininteligível. (ROCHA, Everardo. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 7-9.)

Essa visão do outro produz distorções, preconceitos, agressividades, equívocos, hostilidades, intolerância e, inclusive, xenofobia. A história contemporânea nos revela inúmeros acontecimentos cruéis que foram motivados por esta impossibilidade de respeito à diferença.

Xenofobia:

é o medo do “outro” levado ao extremo. O que veio de fora, o estranho ou o estrangeiro é alguém capaz de contaminar, destruir o lugar em que se vive. Esta fobia produz um medo que induz à intolerância, ao crime, à agressão e inclusive às guerras.

ASSIS, Cássia Lobão; NEPOMUCENO, Cristiane Maria. Estudos contemporâneos de cultura. Campina Grande: UEPB/UFRN, 2008. Disponível em: <http://www.ead.uepb.edu.br/ arquivos/cursos/Geografia_PAR_UAB/Fasciculos%20-%20Material/Estudos_Contemporaneos _Cultura/Est_C_C_A15_J_GR_260508.pdf>. Acesso em: 28 abr. 2016.

» Você já ouviu expressões etnocêntricas como, por exemplo, “programa de

índio” ou “o brasileiro é um bicho preguiçoso”, e outras do gênero? Já viu alguém fazendo “cara de nojo” ao ver uma pessoa comer algo que ele jamais comeria? Já presenciou um gesto de desprezo diante de um determinado gênero de música? Você já foi vítima de uma atitude etnocêntrica? Já praticou o etnocentrismo ao se referir a uma pessoa ou povo? UNIDADE 1 | NÓS E OS OUTROS: A QUESTÃO DO ETNOCENTRISMO

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Professor: a intenção, aqui, é evidenciar e valorizar as permanências de indivíduos e culturas indígenas nas sociedades latino-americanas atuais, a fim de motivar o aluno ao estudo do passado e do presente dos povos indígenas da América.

América indígena

Capítulo 1

Os povos ameríndios possuem culturas próprias e diferentes umas das outras. Essa diversidade pode ser melhor aprendida observando-se o mapa.

Bill Schildge/Age Fotostock/Easypix

Allmaps

Patrick Frilet/Hemis/Corbis/Latinstock

América – séc. XVI

Círculo Polar Ártico

Jovem asteca, México, 2012.

OCEANO ATLÂNTICO Principais grupos linguísticos

Trópico de Câncer

Jovem maia, México, 2012.

OCEANO Esquimó-aleutino PACÍFICO

Na-Dene Justin Setterfield/Getty Images

Iroqueses Algonquino-Wakash Uto-Astecas

OCEANO PACÍFICO

Fabio Colombini

Equador

Sioux-Dakota

Trópico de Capricórnio

Maias Aruak Chibcha Karib Tupi-Guarani Jê Quíchua

0

2 560

Outros

Mulher inca, Peru, 2014.

Luis Salvatore/Pulsar Imagens

70º O

Fonte: HISTÓRIA das civilizações. São Paulo: Abril, 2001. v. 3. p. 113.

Meninos guaranis, São Paulo (SP), 2011.

Menina kaiapó, Alto Paraíso de Goiás (GO), 2014.

» As imagens são recentes e retratam indivíduos pertencentes a diferentes povos

ameríndios; quais as diferenças entre eles? » O que esses povos têm em comum? Que línguas falam? » Como viviam antes da chegada de Colombo na América (1492)? » Que problemas têm enfrentado no relacionamento com a sociedade envolvente? 12

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Povos americanos Sabe-se que os povos ameríndios eram numerosos. Mas, sobre o total da população na época do contato com o europeu em 1492, temos apenas uma estimativa. Observe a tabela. POPULAÇÃO AMERÍNDIA (EM MILHÕES) População Percentual Região estimada da população 7,7 América do Norte 4 400 000 37,3 México 21 400 000 9,9 América Central 5 650 000 10,2 Caribe 5 850 000 20,1 Andes 11 500 000 14,8 Planícies da América do Sul 8 500 000 Total 57 300 000 100,0

Império Asteca:

nunca foi uma unidade política; era, na verdade, um conjunto de povos com diferentes graus de subordinação aos astecas. Alguns pagavam tributos, mas tinham uma relativa autonomia; outros eram apenas governados e, outros, ainda, só pagavam tributos à força, quando eram vítimas de expedições punitivas promovidas pelos astecas.

Fonte de pesquisa: LOCKHART, James; STUART, B. Schwartz. A América Latina na época colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 57.

Entre todos os povos que viviam na América antes de Colombo, daremos especial atenção aos astecas, maias, incas e tupis.

Os astecas Os astecas viveram em Aztlán (daí o seu nome), no norte da América, até por volta do século XII, quando deixaram sua região de origem em busca de terras férteis. No início do século seguinte, depois de muito caminhar, chegaram ao Vale do México, à beira do lago Texcoco, e, em 1325, fundaram a cidade de Tenochtitlán. Aos poucos, por meio da guerra e de alianças políticas, os astecas subjugaram diversos povos da região. Assim, a cidade de Tenochtitlán passou a ser a cabeça do que se convencionou chamar de Império Asteca. Diego Rivera. 1945-1952. Afresco. Palácio Nacional, Cidade do México. Foto: Art Archive/Otherimages

Dica! Tour virtual tridimensional por Tenochtitlán. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ fwvhqa>.

Detalhe de A grande cidade de Tenochtitlán, afresco do muralista mexicano Diego Rivera (18861957). Rivera inovou ao valorizar a matriz indígena na história do México, numa época em que os livros de História daquele país mostravam os espanhóis como “os únicos construtores” da nação. O movimento das pessoas, o tipo de trabalho e a existência de mercadorias expostas à venda mostradas em primeiro plano indicam tratar-se de um mercado. O detalhe mostra os canteiros flutuantes, as chinampas, ilhas artificiais feitas sobre estacas fixas no fundo do lago. A fertilidade dessas terras pantanosas garantia a produção de alimentos para os habitantes da cidade lacustre. Cortada por canais e aquedutos, ruas largas e retas, Tenochtitlán provocou enorme admiração nos conquistadores espanhóis nascidos em cidades relativamente menores, de ruas tortas e estreitas.

CAPÍTULO 1 | AMÉRICA INDÍGENA

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100°O 100° O

A dominação e os tributos exigidos pelos astecas geravam revolta. Além disso, no coração do Império Asteca havia a cidade de Tlaxcala, inimiga ferrenha dos astecas.

Zacatecas Chichimecas OCEANO ATLÂNTICO Tula Golfo do México

Tenochtitlán (Cidade do México)

Menoza Code. Séc. XVI. Universidade de Oxford. Foto: De Agostini/Getty Images

20° N

Lista de tributos pagos pelos povos submetidos aos astecas, século XVI.

Allmaps

Império Asteca (início do século XVI)

Acapulco

Teotihuacán Tlaxcala Puebla Veracruz

Oaxaca

Mayapán

PENÍNSULA DE YUCATÁN Uaxactum Tikal

0

Chichén-Itzá Tulum

Uxmal

Mar do Caribe

Golfo de Tehuantepec

225

Copán Império Asteca em 1519 Núcleos maias

OCEANO PACÍFICO

Fonte: BETHELL, Leslie (Org.). História da América Latina colonial. São Paulo: Edusp, 2004. v. 1. p. 56.

Os povos submetidos aos astecas tinham de cultuar o deus Huitzilopochtli – deus da guerra, das tempestades e do Sol. E eram obrigados também a pagar tributos tais como: penas raras (do pássaro Quetzal, por exemplo), pedras preciosas (como o jade), tecidos de algodão, madeira, mantos, esteiras, colares e cacau, com o qual faziam o tão apreciado xocoatl (chocolate). Caso se recusassem a pagar os tributos eram castigados com expedições punitivas – que incluíam saques e rapto de pessoas para oferecer em sacrifício aos deuses. Isto explica por que os povos sob o domínio asteca se rebelavam com frequência. O povo de Cuctlaxtlan, por exemplo, chegou a aprisionar os coletores de impostos astecas em uma casa à qual atearam fogo.

A sociedade asteca

Dica! Documentário sobre a formação do império asteca e as invenções desse povo. [Duração: 44 minutos]. Acesse: <http://tub. im/uiuagf>.

14

O Império Asteca apresentava uma sociedade complexa e estratificada. O imperador, considerado um ser semidivino, concentrava enorme poder e riqueza. Essa riqueza provinha, sobretudo, dos impostos (na forma de pedras preciosas, tecidos, cereais e outros), que se acumulavam no palácio imperial, onde eram registrados pelos escribas. Em tempo de escassez, os celeiros imperiais eram abertos para que se distribuíssem alimentos e roupas ao povo. Pelo fato de o imperador ser o comandante do exército e, ao mesmo tempo, o mais alto sacerdote, alguns historiadores afirmam que o Império Asteca era uma monarquia militar teocrática. Os nobres ocupavam as funções administrativas, militares e religiosas e, geralmente, levavam uma vida regrada e sem vícios. A bebida, bem como o luxo e a ostentação, eram reprovados socialmente e punidos com rigor. Os nobres com funções administrativas no governo eram isentos de

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Os maias estão entre as civilizações mais antigas da América. Seus ancestrais viviam nas montanhas da atual Guatemala desde 2500 a.C. A civilização maia se desenvolveu na confluência entre a América do Norte e a América Central, mais precisamente na Península de Yucatán, numa área em que se encontram cinco estados do México atual, quase toda a Guatemala, parte de El Salvador, parte de Honduras e Belize. Observe o mapa ao lado.

Códice Florentino, Bernardino de Sahagun, c. 15401585. O primeiro e o terceiro guerreiros pertenciam à ordem dos águias e o do meio integrava a ordem do jaguar; todos eles serviam ao deus Sol.

Dica! Documentário analisando o encontro de culturas entre os astecas e os espanhóis. [Duração: 44 minutos]. Acesse: <http://tub. im/n2ktnv>.

Principais cidades maias Allmaps

Os maias

Bernardino de Sahagun. Séc. XVI. Codex/The Field Museum Library

impostos e seus filhos tinham direito a uma educação diferenciada. Suas residências eram construídas e mantidas pelo governo. Parte da nobreza se dedicava à guerra; os guerreiros que conseguiam se destacar ingressavam em prestigiadas ordens militares, como a dos águias e a dos jaguar, que serviam ao deus Sol. Parte dos sacerdotes também saía da nobreza. Sua principal função era organizar e conduzir o culto aos deuses e interpretar suas vontades. Tal como os sacerdotes do Egito antigo, os astecas acumulavam riquezas em terras e joias doadas pelo imperador ou por particulares. Outra camada social era a dos comerciantes, chamados de pochtecas; eles enriqueciam por meio de trabalho mas procuravam dissimular a riqueza, pois se demonstrassem ser ricos eram perseguidos pela nobreza. Eles transmitiam sua profissão de pai para filho. Havia ainda os artesãos que desempenhavam atividades como a ourivesaria, a joalheria e o trabalho com plumas. Eles estavam agrupados em corporações e cada uma delas tinha um conjunto de tradições e um deus próprio. Eles trabalhavam tanto em suas casas quanto nos palácios e residências da nobreza. E, assim como os comerciantes, transmitiam seu ofício aos filhos. Já os camponeses eram o grupo mais numeroso da sociedade asteca. Ao se casarem, recebiam um lote de terra onde construíam uma casa e passavam a cultivar milho, feijão, pimenta, abóbora, cacau, tomate, entre outros. No entanto, eram obrigados a pagar pesados impostos, prestar o serviço militar e trabalhar gratuitamente na conservação de estradas e canais e na construção de diques e monumentos. Com poucas chances de ascensão social, os camponeses podiam passar a vida no mesmo pedaço de terra, saindo apenas quando chamados ao serviço das armas. Na base da pirâmide social estavam os escravos, que eram geralmente prisioneiros de guerra.

90º L

OCEANO ATLÂNTICO

Mayapán Golfo do México

Chichén-Itzá

Uxmal

YUCATÁN

20ºº N 20

Palenque Piedras Negras

Copán

Tikal Mar das Antilhas

0

130

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2011. p. 236.

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Habitando um meio inóspito, esses povos se deslocavam pela selva em busca de alimentos (caça, pesca e colheita). Posteriormente, domesticaram plantas como o milho, a pimenta e o feijão, e se estabeleceram na Península de Yucatán, local em que os arqueólogos descobriram, em meio à floresta tropical, as cidades de Tikal e Copán. Depois, os maias ocuparam também cidades já existentes, como Uxmal e Chichén-Itzá, situadas ao norte.

Estela maia de cerca de 732 a.C. encontrada na cidade de Copán, atual Honduras. A estela é uma coluna com inscrições e figuras de deuses ou personagens históricos usada para adornar urnas mortuárias.

As cidades-Estado maias

2. Dica! Documentário sobre a construção da cidade maia de Palenque. [Duração: 43 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ vtw2yj>.

Vista geral do centro cerimonial da cidade maia de Palenque, 2011. Note que o conjunto arquitetônico emerge da exuberante floresta tropical. O centro cerimonial era destinado ao culto dos deuses, à prática do comércio (troca de bens agrícolas, artesanais e sagrados) e também à celebração das festas maias. Fotografia de Marcelo Lambert, estudioso da história e da cultura dos povos astecas, incas e 2 maias.

Assim como os antigos gregos, os maias viviam em cidades-Estado, ou seja, cidades com governo, leis e costumes próprios. Em caso de guerra contra um inimigo comum, as cidades maias se organizavam em confederações, mas nunca chegaram a constituir um império, a exemplo das astecas e das incas. As grandes e sofisticadas construções maias e o deslocamento de enormes blocos de pedra revelam seus conhecimentos de engenharia e cálculo. As pirâmides serviam de esteio para os templos religiosos aos quais se chegava por meio de uma escadaria íngreme. Algumas pirâmides, como a de Tikal, tinham mais de 60 m de altura. Muitas cidades maias surgiram em torno dos centros cerimoniais. 1 The Granger Collection/Glow Images

1. Dica! Documentário sobre a civilização maia. [Duração: 43 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ kd382p>.

Marcelo Lambert

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Sociedade, economia e arte A sociedade maia era hierarquizada. Os grupos sociais mais favorecidos (governantes, sacerdotes e comerciantes) viviam em palácios e templos suntuosos situados em torno dos centros cerimoniais e eram sustentados pelas famílias de agricultores e artesãos espalhadas pelas aldeias existentes na floresta. Esses habitantes das florestas só se dirigiam aos centros cerimoniais para a prática da religião, do comércio, ou em dias de festa. A agricultura tinha grande importância na vida dos maias. A maioria da população trabalhava no cultivo de feijão, abóbora, algodão, cacau, abacate e milho. Este último era a base de sua alimentação. Por volta do século IX, os maias abandonaram suas cidades subitamente. Para alguns, as razões do abandono foram flagelos naturais, como epidemias, secas prolongadas, inundações, terremotos, furacões. Para outros, as causas do abandono das cidades maias foram tragédias provocadas pelo próprio ser humano, tais como invasões violentas, pressão de grupos periféricos, insurreições populares. Os conhecimentos e práticas dos maias foram incorporados pelos astecas e outros povos do Vale do México, que conquistaram as cidades maias por volta de 1400.

Dica! Documentário sobre as profecias dos maias. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub. im/7ri9ma>.

Para saber mais Os povos da Mesoamérica, particularmente os maias, conseguiram atingir uma precisão extraordinária em seus cálculos astronômicos. Veja o que diz um especialista. A astronomia e o calendário Todos os grandes povos da Mesoamérica sentiram-se poderosamente fascinados pelo mistério do cosmo: a recorrência [...] dos fenômenos celestes, o ritmo infatigável das estações e a influência destas nas diversas fases da cultura do milho; o próprio ciclo da vida e da morte, do dia e da noite em sua alternância [...] necessária. [...] Desde os primeiros séculos de nossa era (talvez mesmo a partir do grande desenvolvimento olmeca) esses povos possuíram [...] dois calendários dos quais se serviam simultaneamente; um calendário ritual de 260 dias divididos em 13 grupos de 20 dias; e um calendário solar, [...] civil, de 365 dias mais uma fração [...] comportando 18 grupos de 20 dias mais cinco dias adicionais, geralmente considerados nefastos. Os dias de cada um desses calendários, permutando-se de forma cíclica segundo uma ordem determinada, terminavam por fazer os dois calendários se reencontrarem no mesmo ponto de partida a cada 52 anos, quando recomeçava o ciclo. [...].

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Paul Steeger/age fotostock/Easypix

Para administrar esses cálculos, foi concebido um sistema simples e engenhoso – tendo por base o número 20 – reduzindo-se ao emprego de dois símbolos: o ponto para a unidade, a barra para o cinco, mais um signo em forma de concha alongada equivalente a “zero”, ou melhor, significando ausência de valor. Esses signos prestavam-se facilmente à composição de números inteiros, podendo ultrapassar o milhar. Segundo esse sistema mesoamericano, o valor de posição crescia progressivamente, nas colunas verticais, de baixo para cima. [...] GENDROP, Paul. A civilização maia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p. 36-37.

O observatório El Caracol, em Chichén Itzá, no México, foi construído por volta de 1050. Esse sólido edifício de pedra com argamassa e plataformas nos quatro lados era usado como observatório de astronomia. Fotografia de 2013.

Os incas DIALOGANDO Os incas justificavam a dominação sobre outros povos dizendo que o objetivo era tirá-los da barbárie e levar-lhes a “civilização”. Você conhece outros povos que usaram esse mesmo argumento, antes ou depois, para justificar suas conquistas? Os romanos na Antiguidade e os europeus no século XIX.

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Acredita-se que, enquanto caminhavam à procura de terras férteis, os incas chegaram ao interior da Cordilheira dos Andes por volta do século XIII. Naquelas terras altas, começaram suas vidas como camponeses e pastores e ergueram a cidade de Cuzco. Aos poucos, no entanto, ampliaram seus domínios aliando-se aos povos da região ou submetendo-os. Em 1438, fundaram um império, que teve Pachakuti como primeiro imperador. No processo de formação do seu império, os incas assimilaram elementos de outras culturas, inclusive o quéchua, a língua que mais tarde espalhariam pelos Andes. O Império Inca expandiu-se consideravelmente graças às sucessivas conquistas. Ele era dividido em várias regiões administrativas, cujos governadores deviam prestar contas de seus atos ao imperador. A interligação entre as regiões do império era feita por uma eficiente rede de estradas construídas nas encostas das montanhas. Jovens eram treinados desde a infância para correr por elas, levando e trazendo informações e produtos por longas distâncias. As principais estradas incas ligavam o interior a Cuzco, uma cidade planejada que servia como capital do império incaico. Veja o que disse sobre ela um cronista espanhol do século XVI:

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Era grande e majestosa e deve ter sido fundada por gente capaz e inteligente. Tem ruas muito boas, embora estreitas, e as casas estão construídas de maciças pedras, belamente unidas [...] Cuzco era a cidade mais rica das Índias, pelo grande acúmulo de riquezas que chegavam a ela com frequência, para incrementar a grandeza dos nobres. LEÓN, Pedro Cieza de, 1553 apud NEVES, Ana Maria Bergamin; HUMBERG, Flávia R. Os povos da América: dos primeiros habitantes às primeiras civilizações urbanas. São Paulo: Atual, 1996. p. 77-80. (História geral em documentos).

Antes de começar uma construção, os incas produziam uma maquete de argila e pedra que os ajudava a formar uma ideia da obra depois de pronta. Na construção, usavam grandes blocos de pedra, que eram cortados e encaixados uns nos outros sem a necessidade de uma substância colante. Restam, ainda hoje, construções incas intactas e um número grande de vestígios delas em cidades como Cuzco, Lima e Quito. Em Machu Picchu existem edificações em que se pode ver o modo de organização dos bairros de uma cidade inca. 1 e 2

Economia inca

nome dado à parte americana do Império espanhol.

Maquete:

representação em escala reduzida de uma obra de arquitetura ou engenharia a ser executada.

1. Dica! Documentário sobre a cidade de Machu Picchu. [Duração: 52 minutos]. Acesse: <http://tub. im/qtc5sy>. 2. Dica! Documentário analisando a arquitetura da cidade de Machu Picchu no Peru. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ kjz2rs>.

Abaixo, vista dos terraços e construções de Machu Picchu, 2012. À esquerda, uma lhama, no mesmo local, em 2013.

Alex Robinson/JAI/Corbis/Latinstock

HEMIS.FR/Image Forum

Habitando regiões montanhosas, os incas adotavam a irrigação sistemática e construíam terraços na forma de uma imensa escada para a prática da agricultura. Nos degraus mais altos, cultivavam espécies vegetais resistentes ao frio, como a batata; nos do meio, milho, abóbora e feijão; nos mais baixos, semeavam as árvores frutíferas. Com isso, conseguiam colheitas variadas e fartas o ano inteiro. Os incas se dedicavam também ao pastoreio: criavam a lhama, animal de carga com grande resistência, além da alpaca e do guanaco, dos quais obtinham a lã e o leite.

Índias ocidentais:

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O ayllu e a mita A maioria da população inca era composta de famílias camponesas que trabalhavam na agricultura ou no pastoreio. Um conjunto de famílias unidas por laços de parentesco ou aliança formava o ayllu, unidade social básica, cujo chefe chamava-se kuraka. As terras de cada ayllu eram divididas em três partes: uma pertencia ao imperador, outra aos deuses (isto é, aos sacerdotes) e uma terceira parte, aos camponeses que ali viviam. Além de trabalhar na agropecuária, as famílias do ayllu eram obrigadas à mita – prestação de serviços gratuitos para o governo, como semear, plantar e beneficiar frutos, construir e consertar estradas e templos, entre outros. Além da mita, os camponeses pagavam um tributo em espécie e tinham de fazer vestimentas, calçados e armas para serem usados em tempos de guerra. Os produtos iam para os armazéns do Estado e eram distribuídos quando invernos rigorosos, epidemias ou inundações provocavam a falta de alimentos.

Allmaps

Apogeu do Império Inca – 1532

A sociedade incaica

75º O Equador

Quito

Cajamarca Chanchan Chavín Cuzco

Lima Pachacamac Ica Nazca

OCEANO PACÍFICO

Pucara La Paz Tiahuanaco

Trópico de Capricórnio

Império Inca 1463 1471 1493 1525 Limites do Império em 1532 Cidades incas Cidades atuais

Tucumán

Santiago 0

435

No topo da sociedade incaica estava o imperador, intitulado Inca, o “filho do Sol”, reverenciado e respeitado por todos. Abaixo dele, a nobreza, da qual saíam os governantes, os sacerdotes e os chefes militares. Entre os grupos intermediários estavam os médicos, os contabilistas, os projetistas, os guerreiros, os artesãos (tecelões, tapeceiros, ceramistas, ourives). Esses grupos profissionais – além do imperador e dos nobres – viviam em cidades e eram ajudados pelo governo. Já os camponeses, que constituíam a maioria da população, moravam em aldeias rodeadas por campos de cultivo e de pastoreio e viviam oprimidos por diferentes tributos. No Império Inca, a religião – que tinha como principal cerimônia o culto ao deus Sol – e a língua oficial, o quíchua, eram obrigatórias.

Fonte: KINDER, Hermann; HERGT, Manfred; HILGEMANN, Werner. Atlas histórico mundial: de los orígenes a nuestros días. 22. ed. Madrid: Akal, 2007. p. 234.

Situado ao longo da Cordilheira dos Andes, o Império Inca abrangia terras hoje pertencentes ao Equador, ao Peru, à Bolívia, ao Chile e ao norte da Argentina.

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Dica! Vídeo sobre os astecas, os maias e os incas. [Duração: 49 minutos]. Acesse: <http://tub.im/sk24na>.

UNIDADE 1 | NÓS E OS OUTROS: A QUESTÃO DO ETNOCENTRISMO

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Para refletir Leia o texto a seguir com atenção. As línguas da América Latina

Keith Levit/Age Fotostock/Easypix

a) O texto é jornalístico. Professor: comentar que ele possui um lead (abertura por meio da qual se apresenta o assunto de modo resumido) e um corpo no qual o autor desenvolve o conteúdo veiculado na abertura. b) O autor se dirige ao público em geral; por isso seu texto é fluente e utiliza uma linguagem simples e objetiva.

Muita gente pensa que nos países da América Latina são faladas apenas duas línguas, espanhol e português. Mas na realidade há centenas, ainda que um grande número delas esteja em risco de extinção. [...] Há dois países onde não só o casMulher inca falante do idioma quíchua, telhano, mas também certas línguas Peru, 2010. indígenas têm estatuto oficial: Peru e Paraguai. No Peru, o quéchua e o aimara são reconhecidos como oficiais pela Constituição, mas num papel secundário: na prática, são reconhecidas apenas para serem usadas e ensinadas dentro das respectivas comunidades indígenas e não há nenhuma tentativa séria de tratá-las como línguas nacionais. Já no Paraguai, o guarani é realmente a segunda língua nacional, ensinada em todas as escolas. [...] Existe um curioso preconceito segundo o qual as línguas indígenas são “afetivas”, “sentimentais”, ao passo que as línguas europeias são “lógicas”, “racionais”. Isso nada tem a ver com as línguas em si, mas com a forma como são aprendidas e usadas pelos bilíngues. O índio “ladino” (isto é, que fala uma língua latina) e o mestiço latino-americano geralmente aprendem a língua indígena com a mãe e com seus companheiros de infância e a usam em contextos íntimos, familiares ou de amizade [...]. Pelo contrário, uma língua como o castelhano (ou outra europeia qualquer) é aprendida na escola [...] e o [indivíduo] bilíngue o continua usando em esferas relacionadas com a racionalidade e a impessoalidade: as repartições públicas, a relação com os superiores, o comércio nas grandes cidades [...]. São raras as [...] tentativas de traduzir textos científicos modernos para essas línguas [...]. COSTA, Antonio Luiz Monteiro Coelho da. As línguas da América Latina. Como é a América Latina, 24 maio 2012. Blogue. Disponível em: <http://www.comoaamericalatina. blogspot.com.br/2012/05/as-linguas-da-america-latina.html>. Acesso em: 6 abr. 2016.

a) O texto acima pode ser classificado como jornalístico, literário, historiográfico ou como informa o autor, a língua indígena é reconhecida para ser ensinada apenas nas comunidades indígenas e filosófico? c)nãoNão; há empenho por parte das autoridades para que ela seja considerada língua nacional. b) O autor se dirige a um público especializado ou a um público em geral? Justifique. c) Em dupla. De acordo com o texto, podemos afirmar que no Peru a língua indígena reconhecida como oficial possui o mesmo prestígio que o espanhol? Justifique. d) Segundo o autor, as línguas indígenas são “naturalmente” afetivas? d) Não; isto deriva do modo como as línguas indígenas são aprendidas e usadas pelos falantes bilíngues. Eles geralmente aprendem a falar a língua indígena com a mãe e a utilizam em ambientes íntimos. Já a língua europeia é aprendida na escola e usada em ambientes que exigem certa formalidade, a exemplo das repartições públicas.

CAPÍTULO 1 | AMÉRICA INDÍGENA

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Indígenas nas terras onde hoje é o Brasil Dica! Documentário produzido pelo Museu do Índio sobre os indígenas brasileiros. [Duração: 24 minutos]. Acesse: <http://tub. im/rge3nm>.

O conhecimento acumulado sobre os indígenas do Brasil é pouco disseminado entre nós, o que leva muitas pessoas a reproduzir juízos extraídos do senso comum. Um equívoco, por exemplo, é ver os povos indígenas como parados no tempo, como muitas vezes vemos em noticiários, jornais e revistas. As sociedades indígenas passaram por mudanças significativas. São histórias de milhares de anos, marcadas por confrontos e alianças, deslocamentos, conquistas e perdas; enfim uma história tão movimentada e interessante quanto a de outros povos. Os dados sobre a população indígena em 1500, quando os portugueses aqui chegaram, são divergentes. Alguns dizem que havia de 2 a 4 milhões de indígenas. Outros afirmam que poderia variar de 6 a 10 milhões. Outros, ainda, mais ponderados, acham que seria de 3,5 a 6 milhões. De uma forma ou de outra, eram milhões de índios, agrupados em centenas de povos falantes de cerca de 1 300 línguas.

Diferenças entre os indígenas

Hércules Florence. 1828. Aquarela. Academia de Ciências da Rússia, Moscou

Francis Castelnau. 1850-1859. Gravura. Biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, São Paulo

Os povos indígenas são diferentes entre si, como se pode notar comparando a aparência física de cada grupo, as línguas que falam, as artes que praticam, seus modos de construir casas e seus rituais.

Repare nas diferenças físicas entre os indígenas representados nesta página. As representações que os pintores europeus fizeram desses povos são quase sempre idealizadas, mas suficientes para marcar as diferenças entre eles. Cortes de cabelo, adornos, pintura corporal e arte plumária expressam uma grande diversidade sociocultural. As pinturas são do século XIX e foram feitas por Francis Castelnau (imagem à esquerda) e Hércules Florence (à direita).

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As línguas indígenas Um elemento importante da cultura de um povo é a língua; as línguas são agrupadas em famílias e estas, em troncos. As línguas latinas, celtas, germânicas e eslavas, por exemplo, originaram-se todas de um mesmo tronco, o indo-europeu. O quadro a seguir é uma representação de línguas e famílias pertencentes ao tronco indo-europeu. Eslávico

espanhol

TRONCO INDO-EUROPEU Germânico bretão inglês

português

irlandês

holandês

polonês

francês etc.

gaulês etc.

alemão

tcheco etc.

Latim

Celta

russo

norueguês etc. Fonte de pesquisa: TEIXEIRA, Raquel F. A. As línguas indígenas no Brasil. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi; SILVA, Aracy Lopes da. A temática indígena na escola: novos subsídios para professores de 1o e 2o graus. Brasília: MEC/Unesco, 1998. p. 300.

Usando esse mesmo tipo de classificação para as línguas indígenas, a estudiosa Raquel F. Teixeira afirma que no Brasil há dois troncos linguísticos principais: o Tupi (o mais conhecido) e o Macro-jê. O tronco Tupi tem cerca de 10 famílias, e o Macro-jê, aproximadamente 12. Observe o esquema relativo ao tronco Tupi.

akwáwa amanayé

xipáya

Tupi-guarani

modo de um povo viver e interagir com o seu meio. Cada povo possui uma cultura própria, e nenhuma é superior a outra.

DIALOGANDO

sueco

TRONCO TUPI Arikém Juruna karitiana juruna

Cultura:

Você sabe por que a língua portuguesa é chamada de neolatina? Porque deriva do latim, que era falado pelo povo da Roma antiga.

Mondé aruá

DIALOGANDO

cinta-larga

anambé

gavião Fonte de pesquisa: TEIXEIRA, Raquel F. A. As línguas indígenas no Brasil. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi; SILVA, Aracy Lopes da. A temática indígena na escola: novos subsídios para professores de 1o e 2o graus. Brasília: MEC/Unesco, 1998. p. 300.

Ao chegar às terras onde hoje é o Brasil, os portugueses encontraram povos falantes de línguas do tronco Tupi. Veja no quadro abaixo a semelhança de algumas palavras faladas ainda hoje e pertencentes a essas línguas. LÍNGUA TUPINAMBÁ

LÍNGUA PARINTINTIN

LÍNGUA TAPIRAPÉ

LÍNGUA GUARANI

Pedra

Itá

Itá

Itã

Itá

Fogo

Tatá

Tatá

Tãtã

Tatá

Onça

Jáguareté

Djágwára

Txãwãrã

Jágwareté

Jacaré

Jacaré

Djakaré

Txãkãré

Djakaré

Fonte de pesquisa: TEIXEIRA, Raquel F. A. As línguas indígenas no Brasil. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi; SILVA, Aracy Lopes da. A temática indígena na escola: novos subsídios para professores de 1o e 2o graus. Brasília: MEC/Unesco, 1998. p. 299.

No nosso dia a dia, usamos, sem perceber, muitas palavras de origem Tupi. Jacaré, por exemplo, é uma delas. Diga quais das palavras a seguir são de origem indígena: abacaxi, açaí, amendoim, arara, babaçu, bacurau, beiju, caju e curumim. Todas elas. As espécies frutíferas citadas (abacaxi, açaí e caju) foram domesticadas por indígenas.

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As artes indígenas Além da língua, outro elemento de diferenciação entre os povos indígenas são as artes praticadas por eles. Segundo um estudo sobre o assunto: [...] As formas de manipular pigmentos, plumas, fibras vegetais, argila, madeira, pedra e outros materiais conferem singularidade à produção ameríndia, diferenciando-a da arte ocidental, assim como da produção africana ou asiática. Entretanto, não se trata de uma “arte indígena”, e sim de “artes indígenas”, já que cada povo possui particularidades na sua maneira de se expressar e de conferir sentido às suas produções. [...]

Renato Soares/Pulsar Imagens

Renato Soares/Pulsar Imagens

INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA). Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/ pt/c/no-brasil-atual/modos-de-vida/artes>. Acesso em: 7 fev. 2016.

Acima, arte plumária Kayapó em fotografia de 2008. Já à direita, pintura corporal no rosto de uma menina Kayapó da aldeia Moykarakô, São Felix do Xingu (PA), 2015.

Semelhanças entre os indígenas Entre os povos indígenas há também semelhanças acentuadas: » Cada grupo indígena se identifica como uma sociedade específica (kaiapó, guarani, ianomâmi, botocudo, kalapalo e outras); » A posse da terra e dos recursos nela existentes é coletiva. Nas sociedades indígenas a terra é de quem trabalha nela. Enquanto um grupo estiver plantando, colhendo, caçando e pescando numa determinada área, seus recursos e frutos lhe pertencem. Depois, outro grupo pode vir a ocupar essa mesma área e se beneficiar dela; » A divisão do trabalho é feita por sexo e idade. Isto é, há tarefas que são masculinas, como derrubar a mata e preparar a terra para o plantio, cuidar da segurança do grupo, caçar, pescar, construir moradias; e outras que são femininas, como plantar, colher, transportar, fazer farinha, cestos, redes, cozinhar e cuidar das crianças. As crianças ajudam os adultos em tarefas compatíveis com sua idade; » Todos os indivíduos de um povo têm acesso às condições e aos conhecimentos necessários à sua realização pessoal e sobrevivência, ou seja, nas sociedades indígenas, o conhecimento é socializado.

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Fabio Colombini

Fabio Colombini

Ricardo Teles/Pulsar Imagens

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Fig. 1: construção de oca, Aldeia Kamayurá, Parque do Xingu, Mato Grosso, 2014. Fig. 2: colheita da mandioca, povo indígena barasano, Manaus (AM), 2014. Fig. 3: mulher Kalapalo preparando beiju, Aldeia Aiha, também no Parque do Xingu, 2011.

Encontro e desencontro: os portugueses e os tupiniquins

Pau-brasil:

Os primeiros contatos entre os tupiniquins e os portugueses nas terras onde hoje é Porto Seguro, na Bahia, em 1500, foram mediados pelo estranhamento. Segundo o escrivão da armada de Cabral, Pero Vaz de Caminha, esses habitantes eram pardos, não usavam qualquer vestimenta e traziam consigo arcos e setas. Os tupiniquins, certamente, também estranharam o modo de se vestir e de falar dos portugueses. Nas primeiras décadas do século XVI, os contatos entre os tupis e os portugueses foram sobretudo amistosos; os indígenas foram parceiros comerciais dos lusos trocando com eles pau-brasil, uma madeira abundante no litoral brasileiro, por objetos úteis a eles, como machados, pás, foices, facas, espelhos. Outra forma de relacionamento amigável foram os casamentos de portugueses com mulheres tupis. Ocorreu, ainda, a aliança dos europeus com alguns grupos indígenas para guerrear contra outros; os portugueses, por exemplo, aliaram-se aos tupiniquins para guerrear contra os tupinambás, fazê-los prisioneiros e escravizá-los. A partir de 1532, e sobretudo após a instalação do Governo Geral, em 1549, porém, os portugueses passaram a capturar os índios para empregá-los como escravos nos engenhos de produção de açúcar e nos afazeres domésticos. Daí a violência passou a predominar nas relações entre os colonizadores e os povos indígenas. Esses povos, por sua vez, reagiram à escravização por meio de revoltas coletivas, da violência individual, do saque e da fuga para o Sertão. Mas os colonizadores acabaram vencendo pela força e conquistando para si as terras indígenas. As guerras de apresamento, as grandes fomes que geralmente acompanhavam essas guerras, a escravização e, sobretudo, doenças, como gripe, sarampo, tuberculose e varíola, causaram a morte de dezenas de milhares de indígenas.

espécie de madeira nativa da Mata Atlântica: tem o tronco recoberto de espinhos, o interior avermelhado, e pode atingir até 30 m de altura e 1,5 m de diâmetro.

Tuberculose:

infecção que se manifesta nos pulmões, sistema nervoso, intestino e rins. É transmitida por leite contaminado, pela saliva e pela manipulação de objetos. Os sintomas são emagrecimento e tosse.

Varíola:

doença infecciosa caracterizada por febre alta e erupções na pele, com formação de bolhas com pus. Costuma deixar marcas.

DIALOGANDO Você sabe por que, no caso dos indígenas, as doenças mataram mais do que as armas de fogo? Os indígenas não tinham defesas naturais (imunidade) contra as doenças. Além disso, elas se manifestavam como epidemias, atingindo muitas pessoas de uma só vez. Não havendo quem cuidasse dos doentes, muitos morriam por inanição, como explicou a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha.

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Demografia e terra Dica! Documentário baseado na obra do sociólogo Darcy Ribeiro sobre o povo brasileiro, com foco nos indígenas. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http://tub. im/fois4r>.

Contrariando previsões fatalistas segundo as quais os povos indígenas estariam em extinção, a população indígena vem crescendo em um ritmo acelerado. Observe a tabela. CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO INDÍGENA (1991-2010) Ano

População

% sobre o total

1991

294 000

0,2

2000

734 000

0,4

2010

817 000

± 0,42 Fonte: CIMI. Brasília, 2011.

DIALOGANDO As terras indígenas correspondem hoje a cerca de 14% do território nacional. Para alguns grupos, no Brasil “há terra demais para pouco índio”. Para outros, os índios devem possuir as terras que tradicionalmente ocupam. E você, o que pensa sobre o assunto?

O número de pessoas que se declararam indígenas em 2010 foi 11% maior que o registrado no Censo de 2000.

Em 2010, os cerca de 817 mil índios contabilizados pelo censo do IBGE no país estavam distribuídos em mais de 305 etnias, que falam 274 línguas, das quais apenas metade foi estudada e é, de fato, conhecida. Com relação às terras indígenas, mais de 80% delas encontram-se na região Norte. Segundo o Instituto Socioambiental havia no Brasil, em 2016, 700 terras indígenas (TIs), a maior parte dela na Amazônia Legal. Conheça a situação dessas terras observando a tabela: SITUAÇÃO JURÍDICA DAS TIS NO BRASIL (2016) SITUAÇÃO

NÚMERO DE TIS

EXTENSÃO (HECTARES)

Em Identificação/Com restrição de uso a não índios*

121

1 088 744

Identificada

36

5 506 314

Declarada

67

3 831 830

Homologada

476

106 800 598

Total geral

700

117 227 486

Resposta pessoal.

*A extensão neste grupo refere-se às TIs em revisão ou às com restrição de uso. Fonte de pesquisa: INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA). Povos indígenas no Brasil. Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/c/0/1/2/situacao-juridica-das-tis-hoje>. Acesso em: 2 maio 2016.

Em identificação: é quando a Funai, que é o órgão indigenista federal, inicia estudos para definir se a terra é, de fato, tradicionalmente ocupada por um ou mais povos indígenas. Identificada: é aquela terra sobre a qual já se possui estudo realizado pela Funai e publicado no Diário Oficial da União. Declarada: são as terras aprovadas pelo Ministro da Justiça, que autoriza a sua demarcação por meio de uma Portaria. Homologada: terras cuja demarcação foi homologada por meio de um decreto assinado pelo presidente da República.

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Um dos principais problemas dos povos indígenas na atualidade é conseguir o reconhecimento do seu direito às terras em que habitam. O reconhecimento dessas terras pelo Estado tem ocasionado disputas acirradas, o que contribui para aumentar violência e as mortes no campo. De um lado, estão os indígenas e seus aliados; de outro, os fazendeiros, grileiros, madeireiros, posseiros e garimpeiros que não reconhecem os territórios de ocupação tradicional como terra indígena. 1 Outro problema é a invasão das áreas indígenas (já delimitadas) por fazendeiros, posseiros, madeireiros e garimpeiros desejosos de explorar as riquezas nelas existentes. Mais um problema, ainda, é que os povos indígenas são numerosos, falam línguas diferentes e estão espalhados por áreas distantes umas das outras, o que dificulta a luta deles por direitos. 2

Palê Zuppani/Pulsar

Problemas dos indígenas hoje

Cacique Tafukumã, da nação Kalapalo, na Aldeia Aiha, em Querência (MT), 2009.

1. Dica! Documentário sobre a aldeia indígena Ribeirão Silveira, em Bertioga (SP). [Duração: 27 minutos]. Acesse: <http://tub.im/gjq2e4>. 2. Dica! Vídeo produzido pela ONU abordando os suicídios e o desespero de indígenas Tupi-Guarani no Brasil. [Duração: 9 minutos]. Acesse: <http://tub.im/pta6nc>.

As lutas dos povos indígenas As organizações em defesa da causa indígena têm crescido em importância e representatividade. Parte delas são organizações indigenistas, como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), órgão oficial da Igreja católica, e o Instituto Socioambiental (ISA), uma organização da sociedade civil de interesse público. Outra parte é formada por organizações lideradas pelos próprios indígenas. Algumas dessas organizações estão ligadas a uma só aldeia, como a Associação Xavante de Pimentel Barbosa, no estado do Mato Grosso; outras reúnem vários povos localizados ao longo de determinado rio ou região, como a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn); outras ainda possuem uma representação maior e mais variada, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), formada por mais de uma centena de povos. Em nível nacional, foi constituída a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que reúne representantes de organizações indígenas de todo o país e que, nos últimos anos, vem liderando manifestações em defesa dos direitos indígenas.

Organizações indigenistas:

organizações voltadas à causa indígena.

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Escola indígena com estudantes do povo saterê-maué, em Manaus (AM), 2014. Atualmente vêm sendo desenvolvidos métodos de ensino e aprendizagem, conteúdos e materiais didáticos adequados à educação escolar indígena. A educação oferecida por estas escolas quer ajudar o aluno a consolidar sua identidade étnica, valorizar o conhecimento tradicional, sua língua e a história do grupo ao qual pertence. Note que a professora mostrada na imagem também é indígena.

Já se foi o tempo de missionários, juristas e políticos decidirem o destino dos índios. Isso cabe a eles. A eles cabe o direito de decidir seu futuro, resolver o que querem mudar e o que pretendem manter. A nós, cabe lutar por uma sociedade que saiba respeitar a diferença e conviver com ela, possibilitando a todos o acesso à plena cidadania. MEC/Seed/SEF. Cadernos da TV Escola: Índios no Brasil 3. Brasília, 2001. p. 40. Fabio Colombini

Dica! Documentário sobre a luta dos povos indígenas do rio Xingu contra a construção da usina de Belo Monte. [Duração: 10 minutos]. Acesse: <http://tub. im/zdkxnk>.

As lutas dos povos indígenas têm rendido frutos. Sua participação ativa nos trabalhos que deram origem à Constituição de 5 de outubro de 1988 foi importante para a aprovação de várias leis de seu interesse. Uma das principais conquistas dessa Constituição foi o reconhecimento de seu direito à diferença, ou seja, o direito de ser índio e de permanecer como tal. Outra conquista foi o reconhecimento de seu direito à terra. O caput do artigo 231 da Constituição de 1988 afirma que “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições [...]”. Diz ainda o mesmo artigo: “São reconhecidos aos índios [...] os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. Além disso, o parágrafo 2o do artigo 210, dessa mesma Constituição, assegura aos povos indígenas um Ensino Fundamental regular em língua portuguesa, respeitando a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem, incentivando, assim, a educação escolar indígena. A Constituição de 1988 estimulou também a capacitação de professores indígenas para atuar junto às suas populações. Em 1991, a responsabilidade pela educação escolar indígena passou para as secretarias estaduais e municipais de educação. Em 1999, o MEC estabeleceu normas de funcionamento das escolas indígenas e as diretrizes curriculares destinadas ao ensino bilíngue da história e da ciência desses povos. Enfim, mobilizados e atuantes, os povos indígenas têm conquistado espaços importantes no cenário político local e nacional. Por meio de suas próprias organizações, e do apoio de seus aliados, avançam na conquista de sua cidadania. Uma cidadania da qual estiveram excluídos por séculos. Como observado em um texto do Ministério da Educação:

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

Assinale a alternativa que contém a associação correta.

I. Retomando

a) I-b, II-d, III-e, IV-a, V-c.

1. (Unemat-MT – 2015)

c) I-c, II-d, III-e, IV-b, V-a.

b) I-c, II-a, III-d, IV-e, V-b.

Tenochtitlán, uma cidade de canais, praças e mercados, pirâmides, templos, palácios, lojas e residências, que começou numa ilha no lago Texcoco e estendeu-se para as praias mais próximas com as quais se comunicava por estradas. Na época da conquista espanhola, ela era uma orgulhosa metrópole de 200 mil habitantes, tão soberba que o conquistador Bernal Diaz del Castillo registrou que mesmo “aqueles que estiveram em Roma ou Constantinopla dizem que em termo de conforto, regularidade e população nunca viram algo semelhante”. PINSKY, Jaime et al. História da América através de textos. 3. ed. São Paulo: Contexto, 1991. Adaptado.

A cidade de Tenochtitlán era o centro de qual Império? a) Inca. b) Asteca.

d) Tolteca. 1. Resposta: b.

e) Tupinambá.

c) Maia. 2. (UEL-PR – 2014) As cidades antigas, construídas por diversas sociedades, expressaram através do tempo sua cultura, arquitetura, ciência e modo de vida. Muitas se tornaram monumentos ao ar livre, nos quais se desenvolveram pesquisas arqueológicas que abasteceram de objetos históricos as maiores coleções museográficas europeias. Relacione as cidades, na coluna da esquerda, com as suas respectivas sociedades, na coluna da direita.

d) I-e, II-a, III-d, IV-b, V-c. e) I-e, II-c, III-a, IV-d, V-b.

2. Resposta: e.

3. (UFSM-RS) A população inca vivia em pequenas coletividades agropastoris, as aldeias. Essas aldeias eram de vários tamanhos e habitadas por famílias unidas por laços de parentesco ou aliança, formando um conjunto denominado: a) Curaca.

d) Halach Uinic.

b) Ayllu.

e) Batab.

3. Resposta: b.

c) Calpulli. 4. (UFRGS-RS – 2012) O decréscimo populacional dos povos indígenas instalados no litoral da América portuguesa durante o século XVI resultou, entre outros fatores, de surtos epidêmicos. Considere as afirmações a seguir, relativas a essa catástrofe demográfica. I.

A dizimação da população indígena gerou uma crise demográfica e ocasionou o desaparecimento de grupos ameríndios.

II. Houve inúmeros movimentos migratórios indígenas, forçados ou voluntários, para o interior do Brasil; para fugirem das epidemias e da escravização. III. O despovoamento do litoral brasileiro durante o primeiro século de ocupação conferiu uma dimensão trágica à colonização. Quais estão corretas?

(I) Biblos

(a) Suméria

a) Apenas I.

(II) Chichén-Itza

(b) Persa

b) Apenas II.

(III) Lagash

(c) Maia

c) Apenas I e III.

(IV) Machu-Picchu

(d) Inca

d) Apenas II e III.

(V) Pasárgada

(e) Fenícia

e) I, II e III.

4. Resposta: e.

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7. a) Sim, porque o autor expressa a visão de mundo dominante no Ocidente cristão daquela época e julga o “outro”, no caso os indígenas, tomando por bases suas próprias crenças e valores. Seu etnocentrismo fica evidente quando ele os acusa de desonestos, preguiçosos (“mui descansados”), relapsos (“não têm cuidado de cousa alguma”) e de só se dedicarem a comer, beber e matar gente.

5. (Enem/MEC – 2015) A língua de que usam, por toda a costa, carece de três letras; convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e dessa maneira vivem desordenadamente, sem terem além disto conta, nem peso, nem medida. GÂNDAVO, P. M. A primeira história do Brasil: história da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2004 (adaptado).

A observação do cronista português Pero de Magalhães de Gândavo, em 1576, sobre a ausência das letras F, L e R na língua mencionada, demonstra a a) simplicidade da organização social das tribos brasileiras. b) dominação portuguesa imposta aos índios no início da colonização. c) superioridade da sociedade europeia em relação à sociedade indígena. d) incompreensão dos valores socioculturais indígenas pelos portugueses. 5. Resposta: d. e) dificuldade experimentada pelos portugueses no aprendizado da língua nativa. 6. (Enem/MEC) Em geral, os nossos tupinambá ficam bem admirados ao ver os franceses e os outros dos países longínquos terem tanto trabalho para buscar o seu arabotã, isto é, pau-brasil. Houve uma vez um ancião da tribo que me fez esta pergunta: “Por que vindes vós outros, mairs e perós (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra?” (LÉRY, J. Viagem à Terra do Brasil. In: FERNANDES, F. Mudanças Sociais no Brasil. São Paulo: Difel, 1974)

O viajante francês Jean de Léry (1534-1611) reproduz um diálogo travado, em 1557, com um ancião tupinambá, o qual demonstra uma diferença entre a sociedade europeia e a indígena no sentido a) do destino dado ao produto do trabalho nos seus sistemas culturais. 6. Resposta: a. b) da preocupação com a preservação dos recursos ambientais. c) do interesse de ambas em uma exploração comercial mais lucrativa do pau-brasil. d) da curiosidade, reverência e abertura cultural recíprocas. e) da preocupação com o armazenamento de madeira para os períodos de inverno. 7. (Vunesp-SP) Leia os textos seguintes.

› Texto 1 Etnocentrismo: tendência para considerar a cultura de seu próprio povo como a medida para todas as outras. (Novo Dicionário Aurélio.)

› Texto 2 [Os índios] não têm fé, nem lei, nem rei (...). são mui desumanos e cruéis, (...) são mui desonestos e dados à sensualidade (...). Todos comem carne humana e têm-na pela melhor iguaria de quantas pode haver (...). Vivem mui descansados, não têm cuidado de cousa alguma se não de comer e beber e matar gente. (Pero de Magalhães Gandavo. Tratado da Terra do Brasil, século XVI.)

a) O texto no 2 pode ser considerado etnocêntrico? Justifique sua resposta. b) Comente algumas das consequências, para as populações indígenas, da chegada dos portugueses à América.

7. b) Os indígenas foram vítimas das guerras de conquista e apresamento; das grandes fomes que geralmente acompanham as guerras; da desestruturação social; da escravização, e, sobretudo, das doenças, como gripe, sarampo, tuberculose, varíola e malária, que provocaram a morte de dezenas de milhares de pessoas.

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II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

JTB Photo/UIG via Getty Images

VOZES DO PRESENTE O texto a seguir é de um historiador especializado no tema; leia-o com atenção.

O império do Sol Muito longe [...] na Cordilheira e nas costas do Pacífico, estendia-se um outro mundo, o Tahuantinsuyu [...]. Era um império repleto de cidades imponenVista de Machu Picchu, em Cuzco, 2013. tes – enormes cidadelas, onde circulava Situadas no Peru, a 2 560 m de altitude, as um exército de funcionários –, cortado ruínas são hoje um dos mais instigantes por estradas que passavam por cristas sítios arqueológicos do mundo. e abismos graças a inúmeras pontes de cipós e milhares de escadarias de pedra. Por todo lado havia Cristas: postos de parada, que eram ao mesmo tempo albergues e elevações. depósitos, à beira desses itinerários trilhados pelos correios Albergues: oficiais ou chasqui, enviados pelos representantes do Inca. lugares de hospedagem. Todas as estradas terminavam na capital do império, Cuzco. Esse outro mundo era o dos incas e dos povos a eles submetidos. [...] [...] O império inca era composto por um mosaico de povos e de paisagens naturais, dispersos num quadro montanhoso que dificultava a comunicação. Sua expansão encontrava obstáculos. “Enquanto no norte e no sul o império dominava imensas regiões, era detido a oeste e a leste por duas fronteiras: uma, oceânica [...], outra, geopolítica, onde elementos naturais e pessoas resistiam melhor que em outro lugar à política expansionista imperial. [...] A força dos incas é primeiramente o império de uma língua, o quéchua, imposta às populações tributárias e ensinada aos chefes dos grupos derrotados. É também o resultado de um centralismo estatal e de uma política de deportação que fixava nas regiões controladas pelo Império Inca as etnias oriundas das regiões insubmissas. É a eficácia de uma rede viária de vinte mil quilômetros que cobria a maior parte do país. Por fim, é um laço ideológico e religioso, o culto ao Sol Inti, que não parava de reafirmar a superioridade do Inca. GRUZINSKI, Serge. A passagem do século: 1480-1520: as origens da globalização. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 76-78. (Virando séculos).

a) b) c) d)

O texto é literário, filosófico, jornalístico ou historiográfico? Como o autor descreve o Império Inca? Como o autor do texto explica o poder dos incas? Em dupla. Na visão de vocês, quais dessas razões têm maior potencial explicativo? CAPÍTULO 1 | AMÉRICA INDÍGENA

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Capítulo 2

Colonizações: espanhóis e ingleses na América

A fonte 1 é texto da historiadora Janice Theodoro; já a fonte 2 é uma imagem atual da Igreja e Convento de Santo Domingo, localizados em Cuzco, cidade que um dia foi capital dos incas. › Fonte 1 O colonizador, como se fosse um escultor, talhou a América na forma em que havia imaginado. Destruía pirâmide para construir igrejas, derrubava habitações para obter o desenho da praça ou o traçado desejado para as ruas, jogava pedras nos canais para que os cavalos pudessem circular melhor na cidade. Reconstituía-se tudo o que era possível para que o núcleo urbano lembrasse a Europa. THEODORO, Janice. Descobrimentos e renascimento. São Paulo: Contexto, 1991. p. 63.

Hemis/Alamy/Glow Images

› Fonte 2 Professor: o texto confirma a imagem e ambos se complementam. Como disse o historiador Cleber Cristiano Prodanov: “Os espanhóis pouco se importaram com a arte e as formas dos incas; destruíram tudo que não fosse a imagem da Europa. Portanto, além de obterem riquezas, os europeus consideravam importante destruir as formas de representação dos americanos, mostrar sua fragilidade, humilhar seu imperador e seus deuses, liquidá-los também moralmente [...].” (THEODORO, Janice. Descobrimentos e renascimento. São Paulo: Contexto, 1991. p. 46)

Igreja e Convento de Santo Domingo del Cuzco, Cuzco, Peru, 2014.

Observando a imagem percebe-se que os espanhóis construíram a Igreja e Convento de Santo Domingo sobre os três primeiros e resistentes degraus de um monumento inca: o Templo do Sol, que tinha a forma de uma pirâmide e era dedicado ao deus Sol.

» Com que intenção os espanhóis teriam feito isso? » Que relação se pode estabelecer entre o texto e a imagem? » O que essas fontes informam sobre a conquista espanhola da América?

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A Conquista Os espanhóis iniciaram a ocupação das terras da América pelas ilhas chamadas de Guanaani pelos nativos e renomeadas pelos espanhóis como São Salvador. Mas os metais preciosos encontrados nesses locais eram insuficientes para saciar a “sede de ouro e prata” que moveu aqueles europeus a virem para a América.

Escola espanhola. Séc. XVII. Óleo sobre painel. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Em 1519, o oficial espanhol Hernán Cortez desembarcou no litoral do México com 508 soldados, 16 cavalos e 14 canhões. Logo que estabeleceram contatos com os ameríndios, Cortez e seus homens descobriram que o Império Asteca oprimia e explorava os povos submetidos ao seu domínio. E que, por conta disso, os astecas tinham muitos inimigos, entre os quais estavam os tlaxcaltecas, aguerridos habitantes da cidade-Estado de Tlaxcala. De sua parte, os espanhóis buscaram aliar-se aos povos insatisfeitos com os astecas. Os tlaxcaltecas, por sua vez, também viram na aliança com os espanhóis uma possibilidade de destruir o Império Asteca. Foi assim que espanhóis, tlaxcaltecas e muitos outros adversários dos astecas marcharam sobre Tenochtitlán, a capital do Império Asteca, a fim de conquistá-la. Movidos pela crença de que tinham direito às terras americanas e contando com a ajuda de milhares de aliados indígenas, Cortez e suas forças venceram os homens de Montezuma (governante asteca) e conquistaram Tenochtitlán (1521). Não se sabe ao certo o número de indígenas que auxiliou Cortez a tomar a capital asteca; historiadores especializados acreditam que na primeira investida espanhola esse número tenha sido de 6 mil homens; e que na investida final contra a capital asteca tenha chegado a 200 mil aliados indígenas, que nada receberam em troca.

SPL/Latinstock /Coleção particular

A conquista das terras astecas

Batalha de Tepexic. Esta imagem é uma cópia de um dos 80 desenhos que constam do Lienzo de Tlaxcala, obra extraordinária feita por artistas indígenas da cidade de Tlaxcala no século XVI. Note que Hernán Cortez é desenhado a cavalo enquanto seus aliados batalham a pé.

Esta pintura do século XVII representa a conquista de Tenochtitlán pelos espanhóis. Como a imagem sugere, a aliança dos espanhóis com dezenas de milhares de nativos foi importante fator da Conquista. Note que o autor da obra destaca os espanhóis mostrando-os em primeiro plano e numa posição superior a de seus aliados indígenas.

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A conquista das terras incas DIALOGANDO Qual terá sido a reação dos incas diante da atitude de Pizarro? Resposta pessoal. Professor: comentar que os incas estranharam que um líder pudesse mentir. Entre eles o líder era visto como um ser semidivino e que, portanto, só falava a verdade.

1. Dica! Documentário sobre a conquista do México liderada por Cortez. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ x5i7g5>.

Christian Vinces/Shutterstock

2. Dica! Documentário sobre a conquista do Império Inca pelos espanhóis. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ bdx59u>.

Animado pela descoberta de ouro e prata nas terras astecas, Francisco Pizarro partiu do Panamá e chegou à cidade inca de Tumbez, em 1532. Dali, ele e seus homens se deslocaram para Cajamarca, onde aprisionaram o imperador inca Atahualpa. A seguir, Pizarro prometeu libertar o imperador inca em troca de todo o ouro que coubesse no quarto onde ele estava preso. Os incas pagaram o resgate, mas Pizarro não cumpriu o prometido e ordenou a morte de Atahualpa na fogueira. Pizarro e seus homens se aproveitaram também da desunião entre os próprios incas motivada pela disputa do trono inca entre os irmãos Atahualpa e Huáscar, cujo pai havia morrido acometido por varíola. Além disso, Pizarro, à semelhança de Cortez, também se aliou a povos nativos insatisfeitos com a dominação exercida sobre eles. Os wankas, um povo guerreiro do sul do atual Peru, e vários outros povos indígenas ajudaram na conquista espanhola de Cuzco, a capital inca, em 1533. Dois anos depois, Pizarro fundou a Ciudad de los Reyes, atual Lima, que veio a ser capital do novo domínio espanhol. Os auxiliares de Pizarro projetaram Lima seguindo o modelo das cidades espanholas. Na praça central ergueram a igreja, os prédios públicos e, a partir dela, construíram ruas retas e casas que lembravam as da Espanha. Quanto mais próximo da praça residia uma família, maior era o seu prestígio. Ou seja, a localização da residência em relação à praça simbolizava o status social de cada família. Próxima à costa do oceano Pacífico e distante de Cuzco, Lima contava inclusive com uma instituição de ensino superior, a Universidade de São Marcos, fundada em 1551, e existente até hoje. 1 e 2

Igreja e Convento de São Francisco na principal praça do Centro Histórico de Lima, cuja construção se iniciou no século XVI. Fotografia de 2012.

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Para refletir A resistência indígena Ao contrário do que se disse durante muito tempo, os ameríndios reagiram ao domínio espanhol de diversas formas: praticando o suicídio, revoltando-se, fugindo para a mata sozinhos ou em grandes grupos, e também por meio das armas.

Lynn Johnson/National Geographic/Getty Images

A resistência inca no sul do Peru, por exemplo, durou quase 40 anos. Protegidos pela muralha de neve da Cordilheira dos Andes, eles resistiram aos espanhóis de 1532 a 1572. Só com muito esforço e com a ajuda de efetivos vindos da Espanha foi que os espanhóis conseguiram vencer os incas. Na ocasião, o lendário Túpac Amaru, considerado o último líder da resistência inca, foi aprisionado e decapitado pelos espanhóis.

Homens, mulheres e crianças indígenas se reúnem para homenagear seus ancestrais em Cuzco, no Peru, 1989. As pedras nas quais eles se apoiam são restos de uma muralha erguida pela resistência inca aos espanhóis.

a) Escolha a alternativa correta e responda oralmente. O texto apresenta uma crítica a) Alternativa 4. à ideia presente no mito: b) A imagem reforça e documenta o afirmado no texto, pois descendentes de indígenas

assistem a uma celebração acomodados ou apoiados em pedras que faziam parte de uma muralha erguida pelos incas para lutar contra os conquistadores espanhóis. c) Essa atitude de negação do indígena como sujeito de sua história deveu-se a uma multiplicidade de fatores, entre os quais cabe destacar: 2. da cordialidade espanhola; » durante muito tempo a história de viés positivista apoiou-se em documentos escritos; os povos ágrafos eram considerados povos parados no tempo, sem história; 3. do indígena receptivo; » a historiografia de filiação positivista produziu uma história eurocêntrica, apresentando os indígenas sempre 4. do pacifismo indígena diante do europeu; como coadjuvantes; além disso, postulou que, mais cedo ou mais tarde, o processo civilizatório levaria à completa 5. da miscigenação entre espanhóis e indígenas. integração dos indígenas a nossa sociedade, ou ao seu A imagem nega, reforça ou relativiza o afirmado pelo texto? desaparecimento.

1. da democracia racial;

b)

c) Tente responder: por que, durante muito tempo, a resistência indígena durante a conquista europeia da América esteve ausente dos livros escolares?

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Para saber mais Editora Civilização Brasileira

O texto a seguir é do historiador Matthew Restall, leia-o com atenção. Uma declaração clássica é a de [...] que “a história da Conquista do México foi concluída com a rendição da capital”. Embora a frase esteja de acordo com a vasta maioria do que foi escrito sobre a Conquista, desde o século XVI até o presente, após a destruição de Tenochtitlán os espanhóis não haviam conquistado o México; haviam tão somente desmembrado o Império Asteca. [...] [...] Enquanto isso, a presença hispânica no restante da região coberta pelo Império Asteca era mínima – e seu controle sobre a área mais ampla que viria a ser o México moderno, praticamente nulo. Na verdade, os espanhóis sequer haviam posto os pés na maioria dos territórios do que seria a Nova Espanha colonial [...]. No início da década de 1520, Cortés aparentemente acreditava [...] que Michoacán fora Fac-símile da capa subjugada e encontrava-se sob o domínio hispânico – muido livro Sete mitos da to embora [...] a população nativa considerasse seu império conquista espanhola, de a potência dominante da região. [...] Portanto, ao mesmo Matthew Restall. O livro desfaz mitos e lança tempo em que 1521 representou o fim da guerra [...] contra luz sobre uma questão o Império Asteca, assinalou também o princípio das guerras que sempre preocupou de conquista na maior parte do México e Mesoamérica [...]. historiadores: o que explica [...] De par com o tênue domínio do México central pea conquista espanhola da los espanhóis em 1521, o controle do Peru era quase ineAmérica? xistente em 1532 (não obstante a captura e execução de Atahuallpa) [...]. O Estado inca independente subsistiu até seu governante, Túpac Amaru, ser executado pelos hispânicos em 1572 – e, mesmo depois disso, porções significativas dos Andes continuaram fora do controle colonial direto. RESTALL, Matthew. Sete mitos da conquista espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. p. 136-137.

As razões da conquista: um novo olhar Mito da completude:

para o historiador Matthew Restall, a ideia de que a conquista foi imediata e total é um mito ao qual ele dá o nome de mito da completude.

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Como se viu, a conquista de Tenochtitlán, em 1521, e de Cuzco, em 1533, não significou a conquista dos impérios asteca e inca como um todo. A ideia de que a tomada das capitais asteca e inca significou a queda desses impérios não condiz com a realidade; é o que o historiador Matthew Restall chama de “mito da completude”. A conquista espanhola da América indígena foi lenta e parcial, prolongando-se por dezenas de anos e até mesmo séculos. Em várias regiões da América, os espanhóis enfrentaram uma dura resistência indígena; a conquista espanhola do Chile, por exemplo, só se consolidou no século XIX.

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A Conquista espanhola da América pode ser explicada por um conjunto de fatores interdependentes, entre os quais cabe citar: ram mais indígenas do que as armas de fogo. Os corpos dos ameríndios não possuíam defesas contra doenças como varíola, sarampo, gripe, entre outras. O imperador inca Huayna Capac e, em seguida, seu sucessor, morreram por terem contraído varíola antes da chegada de Pizarro a Cuzco. Lembre-se também de que essas doenças se manifestavam na forma de pandemia, acometendo milhares de pessoas ao mesmo tempo, o que provocava muitos óbitos por inanição. As pandemias de varíola e de sarampo foram responsáveis pela morte de milhões de indígenas ainda nas primeiras décadas do século XVI. » o proveito que os espanhóis tiraram da desunião entre os diferentes grupos de ameríndios. Lembre-se aqui de que os indígenas não se viam como “índios” ou “nativos” e sim como membros de um grupo específico, seja ele asteca, inca, tlaxcalteca ou wanka. E que também travavam guerras uns com os outros. Essa desunião entre os nativos foi incentivada e manipulada pelos invasores. Dois exemplos de como a desunião dos nativos favorecia os espanhóis foram a atuação dos intérpretes nativos e a colaboração de alguns governantes indígenas que, com isso, esperavam beneficiar suas próprias linhagens e comunidades, em prejuízo das demais. » a tecnologia bélica dos espanhóis. As armaduras de ferro dos espanhóis protegiam o corpo inteiro e contra elas as flechas indígenas se mostravam inúteis. As espadas de aço eram mais eficientes do que as armas de obsidiana dos guerreiros nativos. Com elas os espanhóis lutavam por horas e matavam muitos nativos. Os espanhóis chegados com Cortez dominavam também o uso da pólvora para fins militares e combatiam com arcabuzes e canhões. Lembre-se, no entanto, de que a superioridade bélica proporcionada pelas armas dos espanhóis foi decrescendo ao longo da Conquista, à medida que os indígenas se apossavam da mesma tecnologia. O cavalo, por exemplo, era desconhecido dos nativos da América, mas em pouco tempo seu uso foi assimilado por grupos indígenas entre os quais se destacaram os araucanos, que logo se tornaram conhecidos como exímios cavaleiros. » as visões de mundo dos astecas e incas eram muito diferentes das dos espanhóis. A guerra para os astecas incluía a realização de cerimônias que antecediam as batalhas – que eliminavam a possibilidade de ataques de surpresa – e a captura

Pedro Subercaseaux. Sem data. Coleção particular

» as doenças trazidas pelos europeus. Os vírus e as bactérias trazidos pelos espanhóis mata-

Detalhe de O jovem Lautaro, obra do século XIX. O líder araucano Lautaro continua presente no imaginário popular chileno. Nas terras onde hoje é o Chile, os indígenas araucanos ofereceram dura e longa resistência aos espanhóis. Os araucanos aprenderam com os espanhóis a usar o cavalo como arma de guerra e ficaram conhecidos pela maestria com que utilizavam esse animal em diversas situações.

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de inimigos para posterior execução ritual, em vez de matá-los no ato. Os conquistadores ficavam indignados com o aparente desprezo dos indígenas pela vida humana, contido nos rituais de “sacrifício” humano; para os astecas, porém, o desrespeito era dos espanhóis, que assassinavam nativos em massa e abatiam não combatentes. Além disso, o mundo indígena era cheio de regras, como a de um líder não poder mentir. Atahualpa estranhou ter continuado prisioneiro de Pizarro após ter pago o ouro que resgataria a sua liberdade. » os espanhóis sabiam muito mais sobre os nativos da América do que estes sobre eles. Os espanhóis procuraram se informar a respeito das desavenças e disputas entre os indígenas e estimularam a guerra entre eles, aliando-se a um dos grupos. Vencida a guerra, se apossavam de tudo e subjugavam, inclusive, seus aliados.

A economia colonial A colonização da América espanhola foi impulsionada por nobres sem fortuna, comerciantes, aventureiros e pelos reis da Espanha, ou seja, por interesses públicos e privados, e se insere no contexto do mercantilismo. A crença no metalismo, por exemplo, ajuda a explicar por que os espanhóis daquele tempo manifestavam tanta sede de ouro. A mineração – sobretudo a da prata e a do ouro – foi a principal atividade econômica em boa parte da América espanhola. Concorreu para isso a forte capacidade da mineração de provocar efeitos multiplicadores sobre os outros setores da economia, como a agricultura, a pecuária, a manufatura e o comércio.

O trabalho forçado dos ameríndios Na América espanhola, predominou o trabalho forçado dos indígenas sob duas formas: a mita e a encomienda. A mita, hábito inca adaptado pelos espanhóis, era a obrigação que os indígenas tinham de trabalhar durante 4 meses por ano em troca de baixos salários. Esses trabalhadores (os mitayos) recebiam por seu trabalho cerca de um terço do salário de um trabalhador livre daquela época. Parte do salário era paga em moeda (ou metal) e parte, em alimentos, tecidos e bebidas. Muitos deles se viciavam no consumo de álcool e acabavam morrendo. Já a encomienda era o direito dado a um colono espanhol de exigir do indígena trabalho forçado ou tributos em gênero por certo período. Com o correr do tempo, esse privilégio passou a ser hereditário. Em troca do direito sobre a mão de obra indígena, o encomendero devia pagar tributos à metrópole e dar aos índios assistência material e religiosa, isto é, cristianizá-los. Mas, na prática, milhares de índios morriam de fome e sem ter aprendido uma única oração cristã. Originária da Espanha, a encomienda foi nervo e vida na América de colonização espanhola.

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A mineração

Theodor de Bry. Sec. XVI. Coleção particular. Foto: Akg-Images/Latinstock

Na América, os espanhóis iniciaram a extração de metais preciosos pela ilha de Hispaniola (atuais Haiti e República Dominicana). O ouro ali encontrado, no entanto, era ouro de aluvião e se esgotou rapidamente. Foi somente em 1545, com a descoberta das minas de prata de Potosí (atual Bolívia) e, no ano seguinte, das de Zacatecas (atual México), que a mineração veio a ser o setor mais dinâmico da economia colonial. Na exploração e no transporte da prata, os espanhóis utilizavam os mitayos (índios obrigados ao cumprimento da mita). O trabalho consistia na extração e também na fundição do minério, em fornos de elevadíssima temperatura. Para a tarefa de refinar a prata, se recorria à mão de obra de africanos escravizados, que utilizavam técnicas de fundição trazidas de suas terras de origem. Embora em menor proporção, o uso de africanos escravizados subsistiu no Peru já independente até meados do século XIX. As riquezas minerais de Potosí fizeram das elites da região, por algum tempo, as pessoas mais ricas das Américas, com renda anual de milhares de pesos. O subsolo da América espanhola era considerado propriedade da Espanha: os mineradores obtinham apenas concessões de exploração. As obras de perfuração e beneficiamento do minério e o elevado custo do mercúrio exigiam elevados capitais, o que acabou restringindo o número de mineradores e facilitando o controle sobre essa atividade.

Ouro de aluvião: ouro depositado nas margens ou no leito dos rios e de fácil extração.

Esta gravura de Théodore de Bry (1590) mostra pessoas conduzindo lhamas carregadas de prata. Elas deixavam as terras altas da cordilheira andina depois de um longo percurso e chegavam ao litoral da América banhado pelo Atlântico. De lá a prata era embarcada para o porto de Sevilha, na Espanha.

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A agropecuária

Séc. XVIII. Gravura. Coleção particular. Foto: The Granger Collection/Glow Images

Engenho de produção de açúcar na região das Antilhas em uma gravura do século XVIII. No canto superior direito, vê-se a casa do fazendeiro; no canto inferior direito, as habitações dos escravos; ao centro, as plantações de cana e, no canto inferior esquerdo, a casa onde se fabricava o açúcar.

A agropecuária foi praticada em extensas áreas do território americano. A unidade produtora básica nos campos coloniais foi a fazenda (hacienda), grande propriedade rural voltada para a policultura. Entre as plantas mais cultivadas estavam o milho, a batata, o cacau, e o tabaco (nativas da América) e a cana-de-açúcar (introduzida na América pelos europeus); além disso, criava-se gado de corte e de transporte (como mulas e cavalos). Sua produção destinava-se ao mercado local, intercolonial ou à exportação para a Espanha. Os trabalhadores dessas fazendas eram obrigados a comprar no armazém da propriedade (tienda de raya) aquilo de que necessitavam (roupas, calçados, alimentos), e, assim, se tornavam prisioneiros por dívida. A fazenda exigia pouco capital para seu funcionamento, e se inseria em circuitos mercantis que abrangiam extensas áreas do território colonial. Era a fazenda hispano-americana, por exemplo, que abastecia as minas situadas no México e em Potosí. Com o declínio da mineração, no século XVIII, a agropecuária se desenvolveu ainda mais e as regiões dedicadas a essas atividades tornaram-se mais dependentes das vendas para a Europa. Na América colonial espanhola, desenvolveu-se também a plantation, grande propriedade rural monocultora voltada para o mercado externo. Existiu um grande número de plantations em áreas como Santo Domingo e Cuba (açúcar, tabaco), e Venezuela (cacau). A mão de obra das plantations era formada basicamente por africanos escravizados. Sua produção era quase toda destinada a comércio atlântico. Estudos recentes indicam que a produção de alimentos pelos escravizados e o comércio desses alimentos foram importantes no conjunto da economia colonial da América hispânica.

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Manufatura, artesanato e mercado interno

O controle sobre o comércio colonial O comércio e a navegação entre a Espanha e suas colônias americanas eram controlados pela Casa de Contratação, com sede em Sevilha, na Espanha, desde 1503. Esse órgão administrava o comércio com a América pelo sistema de portos únicos. Os navios que faziam a rota Espanha-América só podiam entrar ou sair do território espanhol por um único porto, o de Sevilha. Na América, os únicos portos autorizados a fazer comércio com a Espanha eram os de Havana (Cuba), Vera Cruz (México), Cartagena (Colômbia) e Porto Belo (Panamá). O controle do comércio colonial era feito também pelo sistema de frotas e galeões. Os navios que iam da América para a Espanha ou que vinham de lá para cá tinham de viajar juntos (frotas), protegidos por outros navios fortemente armados (galeões). As frotas e os galeões vinham e voltavam carregados de mercadorias duas vezes por ano. Assim, a Espanha mercantilista conseguia controlar tanto o que entrava nas suas colônias quanto o que saía delas, auferindo lucros

Obraje:

oficina que utiliza o trabalho manual para produzir tecidos, artigos de couro, cigarros, charutos, entre outros.

O porto de Sevilha, c. 1580, detalhe da obra de Sanchez Coello (15311589). A imagem desse porto ajuda a imaginar o que pode ter sido o movimentado comércio entre a Espanha e suas colônias na América.

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Alonso Sanchez Coello. Séc. XVI. Óleo sobre tela (detalhe). Museo de America, Madrid. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

O elevado preço dos fretes marítimos e a lentidão dos transportes terrestres acabaram estimulando o florescimento do artesanato e da manufatura chamada na América espanhola de obraje. As principais obrajes produziam tecidos de lã (cobertores, ponchos, xales) e eram instaladas próximas a mercados consumidores, como Quito, que vendia às minas de Nova Granada (Colômbia), e Tucumán (no noroeste da atual Argentina), que destinava seus tecidos a Potosí. Assim, se desenvolveu desde cedo na América colonial espanhola um mercado interno próspero. Já o artesanato era praticado por trabalhadores reunidos em corporações de ofício e por artesãos independentes. As corporações com maior prestígio, como a dos tecelões e ferreiros, só admitiam brancos ou mestiços; outros ramos menos valorizados socialmente, como o dos pedreiros ou carpinteiros, admitiam índios e negros.

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extraordinários. Esse monopólio do comércio colonial acabou provocando uma reação esperada: o contrabando, muito praticado em toda a América espanhola.

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A administração colonial

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O principal órgão da administração espanhola na América foi o Conselho Real e Supremo das Índias, criado por Carlos V, em 1524. Com sede na Espanha, esse órgão era encarregado de todas as questões coloniais de ordem legislativa, eclesiástica, militar ou jurídica. Inicialmente, com o objetivo de economizar recursos, a Coroa espanhola transferiu a particulares o direito de administração dos territórios conquistados. O indivíduo que recebia o benefício era chamado de adelantado (adiantado) e tinha amplos poderes civis e militares. Cortez e Pizarro, por exemplo, eram adelantados. Com a adoção desse sistema, a Coroa transferiu para particulares o ônus da colonização e estimulou a conquista de terras e povos. Eles tinham de enviar para a Espanha um quinto de toda a riqueza das terras conquistadas por eles. Com o avanço da colonização, as riquezas americanas foram sendo reveladas. A metrópole decidiu, então, anular as concessões feitas aos adelantados e ampliar seu poder de controle sobre o território americano. Isso ajuda a explicar por que no decorrer do tempo a Espanha criou quatro vice-reinos: o de Nova Espanha, o do Peru, o de Nova Granada e o do Rio América Espanhola (séculos XVI a XVIII) da Prata. E criou também as 90° O VICE-REINO DA Capitanias Gerais. As princiNOVA ESPANHA CAPITANIA (1535) GERAL DA FLÓRIDA pais foram: Cuba, Guatemala, Trópico de Câncer CAPITANIA Venezuela e Chile, todas situaGERAL DE CUBA das em áreas militarmente CAPITANIA CAPITANIA GERAL DA estratégicas. Observe o mapa GERAL DA VENEZUELA GUATEMALA VICE-REINO DE ao lado. NOVA GRANADA Equador 0° (1717) Nas principais cidades havia OCEANO ainda as Câmaras Municipais. VICE-REINO PACÍFICO DO PERU (1542) Essas câmaras – chamadas de Trópico de Capricórnio cabildos ou ayuntamientos VICE-REINO DO RIO – eram responsáveis pela seOCEANO DA PRATA (1776) CAPITANIA ATLÂNTICO gurança interna e pela admiGERAL DO CHILE nistração local. Os vereadores eram quase sempre os filhos de espanhóis nascidos na América, que no final do pe0 1 355 ríodo colonial passaram a ser chamados de criollos. Fonte: THE TIMES Atlas of the World History. Londres: Times Books, 1990. p. 161. UNIDADE 1 | NÓS E OS OUTROS: A QUESTÃO DO ETNOCENTRISMO

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A sociedade colonial hispano-americana era formada basicamente por: chapetones ou peninsulares (colonos nascidos na Espanha), criollos (filhos de espanhóis nascidos na América), mestiços (filhos de peninsulares ou de criollos com indígenas ou africanas), indígenas (maioria da população) e negros escravizados. Essa sociedade possuía hierarquia rígida e pouca mobilidade social (a dificuldade de ascensão social era grande). Os brancos, nascidos na Espanha ou na América, eram minoria e concentravam em suas mãos poder, riqueza e privilégios. Possuíam os melhores cargos na administração pública, na Igreja, nas forças militares e na Justiça. Eram também os donos das fazendas, minas e manufaturas. Os índios, negros e mestiços eram maioria e sobreviviam do trabalho forçado, mal remunerado ou escravo. Na hierarquia social, um indivíduo era visto segundo seu maior ou menor grau de semelhança física com o espanhol, e a discriminação contra índios e negros era acentuada.

Martinez. Séc. XVIII. Aquarela. Biblioteca Real, Madri. Foto: Album/Oronoz/Latinstock

A sociedade colonial

Espanhol a cavalo na América, século XVIII. Códice Trujillo del Perú.

A ocupação da América inglesa Durante quase todo o século XVI, os ingleses demonstraram pouco interesse pela América do Norte. A primeira experiência de colonização se deu no reinado de Elizabeth I, da dinastia Tudor. Ele concedeu permissão a sir Walter Raleigh para que iniciasse a colonização da América. A primeira expedição foi liderada por ele e aportou em 1584 na costa leste da América, em uma terra que batizou de Virgínia, em homenagem a Elizabeth, a rainha virgem. À semelhança do que ocorreu na América espanhola, a Coroa delegou a particulares os encargos da colonização, reservando para si uma parte de eventuais descobertas de ouro e prata. O início da vida desses primeiros colonos que vieram para a América inglesa não foi fácil, pois tiveram de enfrentar a fome, o frio, as doenças e a resistência dos indígenas à ocupação de suas terras. Esses fatores levaram ao fracasso a primeira experiência de colonização inglesa em terras americanas. No século XVII, porém, a Inglaterra e sua crescente burguesia decidiram ativar os negócios coloniais. Assim, para ocupar efetivamente a costa atlântica da América, o rei inglês Jaime I criou, em 1601, duas Companhias de Comércio: a Companhia de Londres, que ocuparia a região Sul, e a Companhia de Plymouth, que ficaria com o Norte. Essas companhias eram formadas por capitalistas interessados em lucrar com o transporte de pessoas

Companhia de Comércio:

empresa capitalista voltada ao transporte de pessoas e mercadorias, composta, majoritariamente, de membros da burguesia inglesa.

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Robert Walter. 1857. Óleo sobre tela. Brooklyn Museum of Art. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Dica! Documentário sobre os primeiros ingleses que chegaram à América do Norte. [Duração: 43 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ i9nsvj>.

Peregrinos deixando a Inglaterra rumo à América. Nessa obra de 1857, o pintor Robert Walter Weir os representa portando a Bíblia e orando.

DIALOGANDO Por que os “pais peregrinos” do Mayflower foram considerados os únicos fundadores da nação norte-americana?

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e mercadorias. E, por isso, lançaram uma propaganda prometendo terras férteis e uma nova vida àqueles que embarcassem para a América. O primeiro povoado permanente na América do Norte foi Jamestown (1607), na Virgínia. Posteriormente foram criadas outras colônias, formando as Treze Colônias, que deram origem aos Estados Unidos da América.

Os primeiros colonos As pessoas atraídas pela propaganda das Companhias de Comércio eram de diversas origens e condições sociais: aventureiros, degredados, mulheres para serem leiloadas como esposas, órfãos e crianças raptadas... Havia também: » Camponeses sem terra – trabalhadores pobres seduzidos pelas promessas feitas pelas Companhias de Comércio de terras férteis e abundantes àqueles que embarcassem para a América. Sem ter como pagar a passagem, os camponeses aceitavam embarcar como servos temporários. A servidão temporária (indenturent servant) consistia em trabalhar gratuitamente por quatro ou cinco anos na propriedade americana de quem havia pago a passagem do imigrante. » Grupos religiosos protestantes – puritanos, batistas, quakers, fugidos da perseguição que a monarquia inglesa movia a todos os que contrariavam sua religião (o anglicanismo) e sua política absolutista. Em 1620, um grupo de puritanos ingleses deixou a Inglaterra a bordo do Mayflower e desembarcou no litoral de Massachusetts, onde fundou um núcleo próspero de colonização: New Plymouth. Eram pouco mais de 100 pessoas com alto grau de instrução. Os “pais peregrinos” (Pilgrim Fathers) viam a si próprios como um grupo eleito por Deus para colonizar a América. A crença religiosa colaborou para manter a identidade e a coesão do grupo, ajudando-o a superar os obstáculos iniciais de adaptação à nova terra. Ao contrário dos colonos portugueses da América, que viam o trabalho como uma atividade a ser exercida por etnias consideradas inferiores (indígenas e negros), grande parte dos colonos ingleses encarava o trabalho como algo edificante. Entre os puritanos, por exemplo, predominou a visão do reformador João Calvino, para quem o ócio é pecado e enriquecer trabalhando é indício de que o indivíduo será salvo. Outra característica do grupo dos puritanos foi seu interesse pela educação. Foram eles que criaram,

Professor: comentar que ocorreu uma apropriação da memória da colonização: só a parte wasp (em inglês, branco, anglo-saxão e protestante) da população foi valorizada, enquanto os indígenas, os africanos e os vários grupos europeus foram mantidos no esquecimento.

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em 1636, a Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts, para formar futuros dirigentes de suas igrejas nas colônias. » Outras populações – além dos ingleses, milhares de outros europeus – alemães, escoceses, irlandeses e franceses – também se mudaram para a América do Norte na esperança de uma vida melhor. Além desses grupos europeus vindos por vontade própria, foram trazidos da África Ocidental milhares de africanos escravizados. Isso ajuda a explicar por que, entre 1620 e 1720, a população das Treze Colônias passou de 2500 pessoas para cerca de 3 milhões, sem contar a população indígena.

Edward S. Curtis/Corbis/Latinstock

Para saber mais Indígenas na vida real e no cinema

Indígena da nação Apache, 1904. Hulton Archive/Getty Images

A América inglesa, do Atlântico até o Pacífico era habitada por centenas de grupos indígenas, como os Cherokees, iroqueses, algonquinos, comanches e apaches. A história desses povos foi profundamente afetada pela chegada dos europeus. Dentre os grupos indígenas com os quais os colonos tiveram mais contato inicialmente, podemos destacar os iroqueses e os algonquinos. Ambos viviam nas florestas temperadas das Colônias do Norte e também onde é hoje o Canadá. Esses e outros grupos indígenas nunca foram integrados à colonização inglesa. Na América portuguesa, a escassez de mulheres brancas estimulou a união entre colonos e mulheres indígenas. Já no caso da América do Norte essa união não era estimulada. Houve miscigenação, mas em muito menor grau do que na América portuguesa. Por isso, os historiadores atuais apontam a falta de um projeto de integração dos indígenas norte-americanos no processo de colonização da América inglesa. Os indígenas resistiram ao avanço dos colonos europeus sobre suas terras por meio de violentos ataques a eles. Durante a colonização, esses conflitos se intensificaram e alguns deles culminaram em acordos de demarcação de terras. Em decorrência desses acordos surgiram, também, as reservas indígenas, áreas destinadas exclusivamente a indígenas. No entanto, muitos desses acordos foram violados, e as áreas das reservas indígenas, desrespeitadas.

Quanah Parker, indígena da nação Comanche, em fotografia do fim do século XIX.

CAPÍTULO 2 | COLONIZAÇÕES: ESPANHÓIS E INGLESES NA AMÉRICA

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As Treze Colônias COLÔNIAS ORIGINAIS Fundada por

Ano

Virgínia

Companhia de Londres

1607

New Hampshire

Companhia de Londres

1623

Massachusetts (Plymouth)

John Mason e outros separatistas puritanos

16201630

Maryland

Lord Baltimore

1634

Connecticut

Emigrantes de Mass

1635

Rhode lsland

Roger Williams

1636

Carolina do Norte

Emigrantes da Virgínia

1653

Nova York

Holanda

1613

Nova Jersey

Barkeley Carteret

1664

Carolina do Sul

Nobres ingleses

1670

Pensilvânia

William Penn

1681

Delaware

Suécia

1638

Geórgia

George Oglethorpe

1733

Fonte: KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2007. p. 44.

en ço

90º O

Allmaps

As Treze Colônias (século XVIII) Lo ur

Grandes Lagos

Ri o

Sã o

MASSACHUSETTS (MAINE) NEW HAMPSHIRE

NOVA YORK

PENSILVÂNIA Filadélfia

MASSACHUSETTS Boston RHODE ISLAND CONNECTICUT Nova York NOVA JERSEY DELAWARE

MARYLAND

Te rri tór ios ind ígen as

Rio Missi ssíp i

O mapa mostra as Treze Colônias que deram origem aos Estados Unidos da América. Dez delas foram fundadas por britânicos. Nova York, cujo primeiro nome foi Nova Amsterdã, era originalmente holandesa. Delaware foi colonizada por suecos. Todas elas passaram depois ao domínio britânico.

Nome

Apesar de estarem submetidas às leis inglesas e pagarem impostos à metrópole, as Treze Colônias da América do Norte viveram, durante o século XVII, uma relativa autonomia; isso possibilitou, por exemplo, desenvolverem a prática de se reunir em assembleias para tomarem decisões que envolviam seus interesses. Mas, apesar das semelhanças, as Treze Colônias apresentavam acentuadas diferenças socioeconômicas entre si, o que permite aos historiadores dividi-las em três grupos: colônias do Norte (ou Nova Inglaterra), colônias do Centro e colônias do Sul.

VIRGÍNIA

Jamestown Yorktown

OCEANO ATLÂNTICO

CAROLINA DO NORTE

30º

N

CAROLINA DO SUL GEÓRGIA

Colônias do Norte Colônias do Centro

Golfo do México

Colônias do Sul Territórios indígenas

0

305

Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício et al. Atlas histórico escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 62.

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As colônias do Centro-Norte As colônias do Centro-Norte da costa Atlântica, área de clima temperado, semelhante ao europeu, desenvolveram-se com base na policultura (trigo, maçã, batata, milho), na pequena propriedade e na mão de obra familiar ou servil. Além disso, produziram também manufaturas feitas de lã, couro, ferro e madeira. Esses produtos eram exportados para diferentes lugares; era o chamado comércio triangular. Veja como esse lucrativo comércio funcionava: » Passo 1 – usando navios próprios, os colonos do Norte compravam melaço das Antilhas e o transformavam em rum. » Passo 2 – essa bebida era levada para a costa ocidental da África e trocada, usualmente, por africanos escravizados. » Passo 3 – os escravizados eram vendidos para o Sul da América do Norte e para as Antilhas, de onde os navios voltavam carregados com mais melaço. Donas de uma economia diversificada e de um comércio exterior lucrativo, as colônias do Norte (também chamadas de Nova Inglaterra) mantinham certa autonomia em relação à metrópole. Observe o mapa.

Dica! Vídeo sobre o comércio triangular na colonização inglesa. [Duração: 3 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ ka2nmk>.

Allmaps

O comércio triangular (século XVIII) 90° O

Nova York Filadélfia Norfolk

Charleston 30° N

30° O

Boston Newport

inha, peixe e carne a, far deir ma r, melaço e c as, açúca ana moed s vo ra

AMÉRICA DO NORTE

60° O

OCEANO ATLÂNTICO

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Trópico de Câncer os

PORTO RICO

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COSTA COSTA DO DO MARFIM OURO

Principais portos nas colônias

Equador

Áreas de colonização inglesa (Treze Colônias) Treze Colônias para a África África para a América Central América Central para as Treze Colônias e vice-versa

AMÉRICA DO SUL

0

930

Fonte: NARO, Nancy P. S. A formação dos Estados Unidos. 3. ed. São Paulo/Campinas: Atual/Editora da Unicamp, 1987. p. 15. (Discutindo a História).

O comércio triangular enriqueceu as colônias do Centro-Norte e fortaleceu-as diante da metrópole inglesa; além disso, contribuiu também para que ganhassem capacidade de decidir com autonomia.

CAPÍTULO 2 | COLONIZAÇÕES: ESPANHÓIS E INGLESES NA AMÉRICA

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As colônias do Sul O Sul – região de clima quente e planícies extensas – produziu, desde cedo, gêneros agrícolas de larga aceitação na Europa, como o fumo, o algodão e o anil. Desde cedo também os fazendeiros sulistas trouxeram escravizados da África Ocidental para trabalharem nas suas plantações. Assim, o Sul foi sendo ocupado por plantations (grandes propriedades escravistas que cultivavam um único produto, como o algodão, por exemplo). Com isso, formou-se na região uma sociedade aristocrática e caracterizada por grande desigualdade social. Os sulistas vendiam fumo, algodão e anil para a Inglaterra e compravam dela quase tudo de que necessitavam: desde ferramentas e livros até garfos, facas, entre outros. Essa dependência econômica em relação à metrópole inibia o afloramento de ideias de independência política. Currier and Ives. 1884. Coleção particular. Foto: PhotoQuest/Getty Images

Litogravura de 1884 representando uma plantação de algodão no Mississippi. A imagem mostra os dois principais grupos sociais do sul das Treze Colônias: os fazendeiros e os negros escravizados trabalhando em diversas ocupações.

Assembleia:

órgão eleito pelos homens livres, os únicos com direito de votar e de ser votados.

Governador:

em algumas colônias os governadores eram nomeados pela monarquia inglesa e tinham o poder de anular (vetar) as leis contrárias aos interesses metropolitanos; em outras eram eleitos pelos próprios colonos e não tinham direito de veto.

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A organização política das Treze Colônias Se no plano socioeconômico as Treze Colônias possuíam diferenças acentuadas entre si, no aspecto político-administrativo tinham mais semelhanças do que diferenças. Cada colônia tinha uma assembleia encarregada de fixar os impostos locais, votar o orçamento do governo colonial e elaborar leis, que eram submetidas ao governador. Participando intensamente da vida política, os colonos foram desenvolvendo sentimentos de autonomia em relação à metrópole e hábitos de autogoverno, decisivos nas lutas pela Independência.

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ESCREVA NO CADERNO.

ATIVIDADES I. Retomando

derretidas e transformadas em moedas de ouro ou prata, com a efígie do rei da Espanha.

1. Interprete a seguinte afirmação: Os espanhóis pouco se importaram com a arte e as formas dos incas; destruíram tudo que não fosse a imagem da Europa. Portanto, além de obterem riqueza, os europeus consideravam importante destruir as formas de representação dos americanos, mostrar sua fragilidade, humilhar seu imperador e seus deuses, liquidá-los também moralmente [...] PRODANOV, Cleber Cristiano. O mercantilismo e a América. São Paulo: Contexto, 2001. p. 46. (Repensando a História Geral).

2. (UFPel-RS) Naquele tempo, não havia doenças, nem febres, nem doenças dos ossos ou de cabeça [...]. Naquele tempo, tudo estava em ordem. Os estrangeiros mudaram tudo quando chegaram. De fato, por mais saudosismo que possa expressar esse lamento, parece mesmo que as doenças do Velho Mundo foram mais frequentemente mortais nas Américas do que na Europa. O missionário alemão chegou inclusive a escrever no finalzinho do século XVIII que os índios morrem tão facilmente que só a visão ou o cheiro de um espanhol os fazem passar deste para outro mundo. Umas quinze epidemias dizimaram a população do México e do Peru. FERRO, Marc. História das colonizações das conquistas às independências - séculos XIII a XIX. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

Os documentos denunciam as doenças provocadas pelos agentes do

Codex Florentino. C. 1540. Litogravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

1. Com essa afirmação o historiador Prodanov quer chamar a atenção para outro móvel da Conquista, além da busca obsessiva por ouro e prata: o desejo europeu de impor aos ameríndios seu modo de vida, valores e crenças. Um exemplo disso é que as estátuas de deuses indígenas levadas para a Europa eram rapidamente

a) Colonialismo espanhol que dizimaram populações nativas na América, na Idade Moderna. 2. Resposta: a. b) Colonialismo português em suas possessões, entre os séculos XVI e XVIII. c) Imperialismo ibérico e dos Países Baixos exterminando as populações incas, maias e astecas, na Idade Contemporânea. d) Mercantilismo europeu nas colônias anglo-saxônicas, desde o final da Idade Média. e) Colonialismo lusitano no México e no Peru, a partir do século XVI. 3. (Unesp-SP) [...] como puder, direi algumas coisas das que vi, que, ainda que mal ditas, bem sei que serão de tanta admiração que não se poderão crer, porque os que cá com nossos próprios olhos as vemos não as podemos com o entendimento compreender. Hernán Cortés. Cartas de Relación de la Conquista de Mexico, escrituras de 1519 a 1526.

O processo de conquista do México por Cortés estendeu-se de 1519 a 1521. A passagem acima manifesta a reação de Hernán Cortés diante das maravilhas de Tenochtitlán, capital da Confederação Mexica. A reação dos europeus face ao novo mundo teve, no entanto, muitos aspectos, compondo admiração com estranhamento e repúdio. Tal fato decorre:

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a) do desinteresse dos conquistadores pelas riquezas dos Astecas.

em moeda (ou metal), a fim que pudessem pagar o tributo régio.”

b) do desconhecimento pelos europeus das línguas dos índios.

III. “Na hacienda praticou-se, largamente, o sistema de endividamento de trabalhadores, a fim de retê-los na propriedade. [...] o trabalhador recebia como salário um crédito na tienda de raya (onde retirava alimentos, roupas, etc.), além de um lote mínimo de subsistência.”

3. Resposta: c.

c) do encontro de padrões culturais diferentes. d) das semelhanças culturais existentes entre os povos do mundo. e) do espírito guerreiro e aventureiro das nações europeias. 4. (Unesp-SP) A mineração foi a atividade econômica mais importante da América Espanhola durante o período colonial. Múltiplos fatores condicionaram a formação e a decadência dos complexos mineradores do altiplano andino e do planalto mexicano. Assinale a modalidade de mão de obra que predominou nas minas de prata dos referidos complexos, durante os séculos XVI e XVII. a) Indígena, submetida compulsório. 4. Resposta: a.

ao

trabalho

b) Negra, submetida ao trabalho escravo. c) Europeia, no regime de trabalho assalariado. d) Indígena, adaptada ao trabalho livre. e) Indígena, no regime de trabalho voluntário. 5. (UFMG) Leia estes trechos em que se trata das relações de trabalho nas colônias espanholas da América: I. As aldeias eram distribuídas entre os conquistadores, “que passavam a explorar-lhes o sobretrabalho sem, contudo, escravizar os índios. [...] podiam exigir tributos em gêneros[...] ou prestações de trabalho...” Os colonizadores deveriam, em contrapartida, defender as aldeias e evangelizar os índios. II. “Cada comunidade deveria fornecer, periodicamente, uma quantidade de trabalhadores para as atividades coloniais [principalmente nas minas]. [...] Pelo trabalho[...], os índios deveriam receber um salário, parte do qual obrigatoriamente

50

VAINFAS, Ronaldo. Economia e sociedade na América Espanhola. Rio de Janeiro: Graal, 1984. p. 61-4.

Considerando-se as formas de exploração do trabalho indígena neles descritas, os trechos I, II e III referem-se, respectivamente, a) peonaje, ejidos e plantation; b) ayllu, plantation e obrajes; c) encomienda, mita e peonaje; 5. Resposta: c. d) obrajes, ayllu e ejidos. 6. (FGV-SP) A conquista colonial inglesa resultou no estabelecimento de três áreas com características diversas na América do Norte. Com relação às chamadas “colônias do sul” é correto afirmar: a) Baseava-se, sobretudo, na economia familiar e desenvolveu uma ampla rede de relações comerciais com as colônias do Norte e com o Caribe. b) Baseava-se numa forma de servidão temporária que submetia os colonos pobres a um conjunto de obrigações em relação aos grandes proprietários de terras. 6. Resposta: c.

c) Baseava-se numa economia escravista voltada principalmente para o mercado externo de produtos, como o tabaco e o algodão. d) Consolidou-se como o primeiro grande polo industrial da América com a transferência de diversos produtores de tecidos vindos da região de Manchester. e) Caracterizou-se pelo emprego de mão de obra assalariada e pela presença da grande propriedade agrícola monocultora.

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a) À esquerda, vê-se o chefe asteca, Montezuma; em sua frente, à direita, está o líder espanhol Hernán Cortez. Repare que o líder indígena e seus acompanhantes vestem-se com trajes tradicionais dos astecas: tangas, mantos sobre os ombros e sandálias; Cortez, por sua vez, aparece vestido à moda da nobreza espanhola do século XVI. Tanto Montezuma quanto Cortez aparecem sentados em cadeiras bem trabalhadas, mas o último encontra-se sobre um tablado. b) Na cena ela tem o dedo indicador apontado para os indígenas e, ao que parece, está traduzindo o que eles dizem para Cortez. Ela sabia falar o nahuatl, língua oficial do Império Asteca e logo aprendeu a falar também o espanhol. Para muitos mexicanos, Malinche foi uma traidora, pois passou para o lado dos espanhóis. Até hoje, no México, quando se quer dizer que alguém é antimexicano, diz-se que é “malinchista”.

II. Leitura e escrita em História a. Leitura de imagem

Lienzo of Tlascala. Coleção particular. Foto: Akg-Images/Latinstock

A imagem abaixo é uma pintura em tecido que integra um conjunto formado de 80 cenas, chamado Lienzo de Tlaxcala. Esse trabalho foi elaborado por artistas da cidade de Tlaxcala, no século XVI, em comemoração à vitória dos tlaxcaltecas e espanhóis sobre os astecas. a) Observe o vestuário, a postura e os acompanhantes dos líderes mostrados na pintura. Quem são eles?

b) A índia que se vê ao lado de Cortez é Malinche, uma jovem que tinha sido aprisionada pelos astecas e presenteada aos espanhóis logo que eles chegaram à América. Por isso, Malinche guardava um forte ressentimento dos astecas. No decorrer do tempo, ela decidiu trocar o nome para Marina, adotou o cristianismo e tornou-se mulher de Cortez, seu braço direito, intérprete, guia e conselheira. O que Malinche parece estar fazendo? c) Com base nessa pintura é possível concluir se o primeiro encontro formal entre astecas e espanhóis foi violento ou amistoso? Explique. d) Qual a importância para a História dessa e de outras pinturas do Lienzo de Tlaxcala?

b. Leitura e escrita de textos VOZES DO PRESENTE

c) A pintura informa que o primeiro encontro formal entre espanhóis e ameríndios foi amistoso, como se pode ver pelos presentes que os astecas estão oferecendo aos espanhóis. O cocar, ao centro e no alto, destinado a Cortez, juntamente com outros presentes que se encontram no chão: pedras preciosas, aves típicas daquela região da América, gaiolas com pássaros (provavelmente desconhecidos dos espanhóis) e uma outra gaiola, no canto inferior esquerdo, com um animal de maior estatura. d) Essas pinturas expressam sensibilidades e técnicas de artistas indígenas, bem como as rivalidades entre os próprios ameríndios no interior do Império Asteca à época da Conquista.

O texto a seguir é historiográfico e foi escrito pelo professor Leandro Karnal. Leia-o com atenção. [...] Mais de uma vez os autores empregaram a expressão “genocídio” para caracterizar o massacre que as populações indígenas sofreram na América do Norte. Isto não é incorreto nem diferente do que ocorria em todo o resto da América. A ideia europeia de colonização significou uma mortandade imensa por todo o território da América. KARNAL, Leandro. Estados Unidos: da colônia à independência, 5. ed. São Paulo: Contexto, 1999. p. 44. (Repensando a História geral).

PROFESSOR, VER MANUAL.

a) Dê o significado de “genocídio”. b) Construa um período aplicando esse termo ao contexto da colonização da América.

CAPÍTULO 2 | COLONIZAÇÕES: ESPANHÓIS E INGLESES NA AMÉRICA

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A América portuguesa e a presença holandesa Professor: o Brasil é hoje o produtor de açúcar mais competitivo do mundo, responsável por cerca de 40% do produto comercializado no mercado internacional. Além disso, está entre os maiores produtores mundiais de cana-de-açúcar, matéria-prima usada também para fazer rapadura, cachaça, álcool combustível e, mais recentemente, biodiesel. Diferentemente do que ocorria no Nordeste colonial, em que a produção de açúcar contava apenas com a força humana, animal ou da água, boa parte da produção atual é mecanizada. Em São Paulo, por exemplo, cerca de 85% da produção de cana-de-açúcar já é feita por colheitadeiras. Isso significa menos empregos para boias-frias, trabalhadores agrícolas contratados apenas na época da safra e cujo trabalho é considerado extenuante. Fontes para os dados: <https://www.fao.org.br/download/PA20142015CB. pdf> e <http://www.iea.sp.gov.br/out/LerTexto.php?codTexto=13601>. Acessos em: 17 mar. 2016.

Paulo Fridman/Pulsar Imagens

Paula Simas/Olhar Imagem

Capítulo 3

Acima, colheita de cana na Usina Serra Grande, em Alagoas, 1993. Ao lado, aspecto de uma usina situada em Piracicaba (SP), 2006.

As imagens mostram a colheita e o transporte de açúcar da cana em usinas; a menor é de uma usina de Alagoas e, a maior, é de uma usina paulista.

» Você já viu uma usina de açúcar e de álcool em funcionamento? » Como é chamado o trabalhador mostrado na figura menor? » No Brasil, o açúcar é um cultivo recente ou antigo? » Como se obtinha o açúcar antes de sua produção em usinas? » Quais derivados de cana o Brasil produz atualmente? Quem trabalha

na sua produção? 52

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No primeiro contato com as terras americanas, os portugueses não encontraram os metais preciosos que tanto cobiçavam, conforme informou Pero Vaz de Caminha em carta ao rei de Portugal, e tampouco especiarias com grande aceitação na Europa, como as africanas e as orientais.

Do escambo à colonização

Giovani Battista Ramusio. 1556. Xilogravura. Coleção particular

Para melhor conhecer a Nova Terra, a Coroa portuguesa enviou para cá expedições exploradoras e de reconhecimento que confirmaram a existência de pau-brasil, árvore típica da Mata Atlântica. E, ao perceber seu valor comercial, a Coroa logo arrendou a exploração da valiosa madeira a um grupo de mercadores que, em troca, se comprometiam a erguer no litoral do Brasil uma feitoria – armazém fortificado no qual era guardada a madeira até que as naus chegassem para buscá-la. Inicialmente, os mercadores portugueses obtinham o pau-brasil mediante o escambo (comércio feito sem o uso de dinheiro) com os Tupiniquim. Estes forneciam a madeira, que eles próprios haviam cortado e transportado por vários quilômetros até o litoral e, em troca, recebiam dos portugueses machados, facas, canivetes, espelhos e outros produtos úteis a eles.

Dica! Vídeo apresentando o pau-brasil e o local onde foi fundada a primeira feitoria. [Duração: 28 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ hkjmrg>.

Representação de 1556 do escambo entre portugueses e indígenas. Um português vestido de azul oferece uma espécie de cálice a um indígena que traz no ombro uma tora de pau-brasil. Ao centro, outros indígenas trabalham no corte e transporte da madeira, usando machados que obtinham no escambo. Note que há navios a vela chegando para buscar o pau-brasil. O desenho é raro, mas a cena é típica das primeiras décadas da presença portuguesa no Brasil.

Os franceses também praticavam o escambo do pau-brasil no litoral do Brasil; seus aliados eram os Tupinambá (rivais dos Tupiniquim). Reagindo à concorrência francesa, o governo português enviou duas expedições policiadoras (em 1516 e em 1526), comandadas por Cristóvão Jacques, que combateram os franceses em vários pontos do litoral do Brasil. Mas logo percebeu que era quase impossível policiar um litoral com a extensão do brasileiro. CAPÍTULO 3 | A AMÉRICA PORTUGUESA E A PRESENÇA HOLANDESA

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Engenho:

unidade de produção colonial especializada na elaboração de derivados da cana-de-açúcar, como o próprio açúcar, o melado e a aguardente.

Além do perigo representado pela ameaça francesa, havia também o interesse dos portugueses nas riquezas desta parte da América. Por isso, a monarquia portuguesa encabeçada por D. João III enviou para cá, em 1530, a expedição de Martim Afonso de Souza, que combateu os franceses, explorou o litoral do Brasil até o Rio da Prata, fundou São Vicente, em 1532 (a primeira vila), e ergueu o primeiro engenho destinado à produção de açúcar. Teve início, assim, a colonização portuguesa na América. 1

Administração colonial Durante sua longa história, o Império Português – que abrangia terras como Macau, na China; Goa, na Índia; Angola, na África; e Brasil, na América – adotou diferentes formas de administração nas suas colônias. A primeira delas foi o sistema de capitanias hereditárias, utilizado inicialmente nas ilhas portuguesas do oceano Atlântico e, depois, no Brasil e em Angola. 2

As capitanias hereditárias

1. Dica! Vídeo abordando as relações entre portugueses e indígenas em 1530. [Duração: 24 minutos]. Acesse: <http://tub. im/i9gq5z>. 2. Dica! Documentário sobre os primeiros tempos da colonização portuguesa. [Duração: 27 minutos]. Acesse: <http://tub. im/8ksvyz>.

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Esse sistema consistia na doação a particulares (os capitães donatários) do direito de administrar e tirar proveito econômico de imensos lotes de terra na costa brasileira. Eram 15 capitanias e 12 donatários, isso porque alguns deles, como Martim Afonso de Souza e seu irmão, Pero Lopes de Souza, receberam mais de uma capitania. As primeiras foram doadas por Dom João III, em 1534, a homens que tinham prestado serviços ao Império Português na África, no Oriente ou em Portugal. Dois documentos básicos organizavam juridicamente o sistema de capitanias: a carta de doação e o foral. A carta regulamentava a doação do cargo de donatário e o foral fixava seus direitos e deveres. Os deveres do donatário eram: » promover a economia e a ocupação da terra; » organizar a defesa militar; » divulgar a fé cristã em sua capitania. E os direitos do donatário eram: » administrar todas as marinhas de sal, moendas d’água e quaisquer outros engenhos, que se levantassem na capitania, não podendo pessoa alguma fazê-lo sem licença sua, e sem lhe pagar imposto; » utilizar escravos em número indeterminado, podendo enviar cada ano 39 para Lisboa e dispor deles livremente, sem pagar imposto algum; » retirar para si a vintena (5%) de que render o pau-brasil, assim como toda espécie de drogas e especiarias; » cobrar impostos sobre os engenhos de açúcar; » julgar os habitantes da capitania, podendo, inclusive, condenar à morte indígenas, negros e homens livres pobres, e impor degredo de até 10 anos aos “homens de cabedal”;

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Allmaps

Capitanias hereditárias (1534-1536) 40º O 40ºO Equador

PIAUÍ

CEARÁ

MARANHÃO 2

MARANHÃO 1

TERRAS NÃO DISTRIBUÍDAS

fazenda) a quem tivesse recursos para produzir. A sesmaria era propriedade privada do sesmeiro e local onde o engenho era erguido. O donatário (administrador) também tinha direito a uma sesmaria. Apesar de conceder direitos aos donatários, o rei procurava manter o controle sobre eles. Em pouco tempo, porém, o sistema de capitanias deu sinais de crise. Excetuando-se Pernambuco (Nova Lusitânia), Bahia e São Vicente, que progrediram embaladas pela produção de açúcar, as demais fracassaram por razões como: falta de dinheiro para o progresso e a defesa da capitania; grande extensão das terras; falta de comunicação entre as capitanias; resistência indígena à escravização e à ocupação de seu território; ataques de corsários. Diante desse malogro (sistema descentralizado), a Coroa decidiu implantar, em 1548, um sistema centralizado: o Governo-geral. As capitanias continuaram existindo, mas passaram a ser subordinadas ao Governo-Geral, principal representante do rei de Portugal no Brasil. Para cargos de governador-geral eram escolhidos homens que tinham servido o Império Português na África ou no Oriente, parentes de poderosos ou os que mantinham negócios com eles. Assim, foram se formando no interior do império redes de poder baseadas no favor, no parentesco e em interesses privados.

RIO GRANDE DO NORTE 1 RIO GRANDE DO NORTE 2

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OCEANO ATLÂNTICO

ILHÉUS

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SÃO VICENTE 2

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Fonte: REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL. ano 10, n. 108, set. 2014, p. 12.

Uma pesquisa recente feita pelo engenheiro Jorge Cintra, professor de Informações Espaciais na USP, descobriu que as capitanias do norte foram divididas de forma vertical e não horizontal, como até pouco tempo se pensava. Essa pesquisa muda a maneira de se ver a configuração do Brasil nas primeiras décadas.

O Governo-Geral

Degredado:

Por sua posição geográfica estratégica, o rei Dom João III escolheu a Bahia para sede do Governo-Geral. Para o cargo de primeiro governador do Brasil nomeou Tomé de Souza, que recebeu do rei parte dos poderes pertencentes aos donatários; era ele agora o chefe da administração e o comandante militar da Colônia. Tomé de Souza chegou à Bahia, em 1549, acompanhado de três auxiliares: o capitão-mor, que cuidava da defesa, o ouvidor-mor, encarregado da justiça, e o provedor-mor, responsável pelas finanças. Com ele vieram também cerca de mil pessoas: um arquiteto, vários pedreiros, carpinteiros, degredados, funcionários, soldados e jesuítas chefiados por Manuel da Nóbrega.

pessoa expulsa de Portugal sob a acusação de pequenos furtos, promessas de casamento não cumpridas, adultério, feitiçaria. Conforme afirmou o historiador Ronaldo Vainfas: “[...] A imagem dos degredados como grandes assassinos ou perigosos ladrões não resiste, assim, às evidências da documentação”. (VAINFAS, 2000, p. 181)

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Autor desconhecido. Biblioteca Municipal Mario de Andrade, São Paulo

a) Como o indígena que está de frente para Tomé de Souza foi representado? b) Qual o significado de seu gesto? c) Há indícios na imagem da religião dos portugueses? d) O que a imagem sugere sobre o encontro entre indígenas e portugueses?

Tão logo chegaram, Tomé de Souza e seus homens iniciaram a disputa da terra com os indígenas, destruindo várias de suas aldeias e escravizando-os. Nas terras tomadas dos indígenas deram início à construção da cidade de São Salvador, primeira capital do Brasil, fundada em 1549. O primeiro governador e seus auxiliares incentivaram a construção de engenhos e introduziram o gado bovino trazido de Cabo Verde e distribuído aos colonos como retribuição por serviços prestados. Ubirajara Machado/Olhar Imagem

DIALOGANDO

a) O indígena foi representado com barba, roupa e traços europeus. b) Seu gesto é de quem está rendendo homenagem ao governador português. Na vida real, os indígenas disputaram Salvador palmo a palmo com Tomé de Souza e seus soldados. c) Sim, à direita, vê-se um bispo da Igreja Católica com uma cruz alta nas mãos. d) A imagem sugere que os indígenas se renderam aos portugueses e, com isto, constrói uma representação enviesada do encontro entre eles.

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Igreja de Nossa Senhora d’ Ajuda, Porto Seguro (BA). A imagem de Nossa Senhora d’ Ajuda foi trazida pelos jesuítas que acompanharam Tomé de Souza. Para acomodar a imagem foi erguida, em 1550, uma construção simples feita de madeira e coberta com folhas de palma. Em 1772, a capela foi reconstruída com pedra e cal. Depois disso, passou por diversas reformas até assumir o desenho atual, como se vê nesta fotografia de 2015.

Duarte da Costa (1553-1558), o segundo governador do Brasil, veio com a missão de solidificar o domínio português sobre a Nova Terra, combater os franceses e catequizar os indígenas e/ou esmagar sua resistência. Para o trabalho de catequese, trouxe com ele outro grupo de jesuítas, entre os quais estava José de Anchieta. Com a ajuda de indígenas, cujos filhos estudavam no colégio jesuíta de São Vicente, José de Anchieta e Manuel da Nóbrega ergueram no planalto de Piratininga uma construção rústica para abrigar uma escola. Essa escola, o Colégio de São Paulo, deu origem à vila e, depois, à cidade de São Paulo.

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Delfim Martins/Pulsar Imagens

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3. Igreja Matriz (atual Praça da Sé) 4. Casa do Senado (atual Largo São Francisco)

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2. Igreja do Colégio (atual Pátio do Colégio)

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1. Residência de Tibiriçá (atual Largo São Bento)

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Planta de Piratininga (1560)

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Fonte: ROSS, Jurandyr. Geografia do Brasil. São Paulo: Edusp, 1995. p. 441.

À esquerda, vê-se a planta de Piratininga, embrião da vila e, depois, cidade de São Paulo. À direita, fotografia de 2014 do Pátio e da Igreja do Colégio, reconstruídos no século XX com base em documentos iconográficos do século XVII. Em frente à Igreja do Colégio vê-se um monumento chamado “Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo”, obra de Amadeo Zani. Ele é composto de um pedestal e uma coluna em granito, encimada por uma figura feminina em bronze, que representa a cidade de São Paulo coroando seus fundadores.

O governo de Duarte da Costa foi bastante tumultuado por conflitos entre colonos e jesuítas (estes se opunham à escravidão indígena) e pela invasão da baía da Guanabara. Ali, em 1555, um grupo de huguenotes (calvinistas franceses), que tinham o apoio do rei da França, fundou uma colônia comercial, de nome França Antártica. Aliando-se aos Tupinambá, os franceses ganharam força para enfrentar os portugueses, que, por sua vez, eram aliados dos tupiniquins. Com a ajuda dos Tupinambá, os franceses permaneceram no local por 12 anos. O incentivo às rivalidades e disputas entre os povos indígenas foi uma estratégia muito usada pelos europeus com o objetivo de dominação e ocupação do território americano. O terceiro governador, Mem de Sá (1558-1572), também usou dessa estratégia e, aliando-se a grupos como os Guainá e os Temiminó, venceu a Confederação dos Tamoios, organização dos nativos revoltados com a dominação portuguesa. Mem de Sá empenhou-se também em apoiar os jesuítas nas tarefas de aldear e converter os indígenas e pediu à metrópole reforços para combater a colônia francesa instalada no Rio de Janeiro. No transcorrer da luta contra os franceses, Estácio de Sá, comandante das tropas enviadas de Portugal e sobrinho do governador, fundou um forte, próximo ao Pão de Açúcar, embrião da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (1565). CAPÍTULO 3 | A AMÉRICA PORTUGUESA E A PRESENÇA HOLANDESA

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Luís do Santos Vilhena. 1775. Biblioteca Nacional do Brasil

Câmaras Municipais A monarquia portuguesa criou também órgãos locais de administração nas principais vilas e cidades brasileiras: as Câmaras Municipais, sendo a primeira a da cidade de Salvador. Geralmente, as câmaras eram compostas de três ou quatro vereadores: um procurador, um escrivão e um tesoureiro, além de funcionários nomeados conforme a necessidade. Estudando as câmaras municipais de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, descobriu-se que essas câmaras eram formadas não só por proprietários de terras, mas também por comerciantes. Descobriu-se também que, para um indivíduo ser vereador era preciso ter “pureza de sangue”, ou seja, não podia descender de negros, judeus ou mouros. As câmaras tinham poder de decisão sobre diversos setores da vida pública: administravam o espaço urbano e a área rural; realizavam obras públicas (estradas, pontes, calçadas); cuidavam da conservação das ruas, da limpeza e da arborização da cidade; cobravam impostos; e eram responsáveis pelo abastecimento de gêneros e cultivos da terra. A partir de 1711, assistiu-se ao declínio da autonomia das Câmaras, pois a Coroa começou a enviar funcionários para gerir os assuntos fiscais das cidades.

Autor desconhecido. Séc. XIX. Coleção particular

Jorge Araújo/Folhapress

Este mapa é uma representação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e foi feito por Luís dos Santos Vilhena (17441814), que morava em Salvador, onde trabalhava como professor de grego e latim.

Dois anos depois da fundação do Rio de Janeiro, a França Antártica foi vencida e os franceses foram expulsos. Mem de Sá conseguiu, assim, equacionar os problemas herdados do governo anterior e, quando morreu, em 1572, na Bahia, era um homem rico e prestigiado. Naquele mesmo ano, visando facilitar o controle e a defesa do Brasil, o rei de Portugal dividiu o território colonial em dois governos: Governo do Norte, com capital em Salvador, e Governo do Sul, com capital no Rio de Janeiro. Em 1578, não atingindo o objetivo desejado, o rei voltou atrás, reunificando a Colônia e mantendo Salvador como capital. Mais tarde, em 1621, a Coroa voltou a dividir o território colonial em duas áreas administrativas: Estado do Maranhão, com capital em São Luís (que, em 1751, passaria a se chamar Estado do Grão-Pará e Maranhão, com capital em Belém), e Estado do Brasil, com capital em Salvador.

Nessa fotografia de 2000, vemos o edifício da Câmara de Salvador, que foi restaurado e conservou suas características coloniais. Observe no detalhe o mesmo edifício em fotografia do século XIX.

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A economia colonial

Frans Post e G. Marcgraf. C. 1643. Coleção particular

Ao se decidir pela colonização do Brasil, iniciada por volta de 1530, a Coroa portuguesa tinha pela frente três desafios: escolher o produto que seria usado para impulsionar o aproveitamento econômico da terra; buscar capital para financiar a produção; e conseguir mão de obra adequada ao trabalho.

Detalhe do mapa de Georg Marcgraf e Johanes Blaeus, de 1643, que representa um engenho de açúcar e a divisão do território brasileiro em capitanias hereditárias. O trabalho de arte é do pintor e gravurista Frans Post.

O produto O produto escolhido para dar início à colonização foi o açúcar de cana, especiaria de elevado valor na Europa. Os portugueses tinham experiência anterior com o açúcar nas suas possessões atlânticas: Ilha da Madeira, de Cabo Verde e ilhas de São Tomé e Príncipe. Os engenhos dessas regiões já empregavam a mão de obra africana escravizada. Da Ilha da Madeira vieram as mudas e os profissionais capacitados para trabalhar no Engenho do Governador, de Martim Afonso de Souza, em São Vicente (SP). A partir daí construíram-se vários engenhos, especialmente no Nordeste, onde a cana encontrou solo e clima favoráveis ao seu cultivo.

Dica! Documentário sobre as condições atuais de trabalho nas plantações de cana-de-açúcar do interior paulista. [Duração: 30 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ z7xaog>.

O capital O custo de instalação de um engenho era elevado, pois implicava a aquisição de moenda, bois e trabalhadores. O dinheiro aplicado nos primeiros engenhos do Brasil foi emprestado por comerciantes portugueses, holandeses e/ou italianos. Já a partir do século XVII, os capitais investidos na economia canavieira foram obtidos na própria Colônia. CAPÍTULO 3 | A AMÉRICA PORTUGUESA E A PRESENÇA HOLANDESA

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No caso da Bahia, os empréstimos para a montagem de engenhos foram concedidos, em sua maior parte, pela Santa Casa de Misericórdia local, formada pela elite da região. Em busca de prestígio social, os membros dessa elite faziam doações à Santa Casa, que acumulava, assim, uma volumosa poupança. De posse desse dinheiro, a Santa Casa concedia empréstimos a quem pretendesse montar um engenho. Os favorecidos eram sempre os amigos ou parentes dos senhores de terras ou dos grandes comerciantes da localidade. 1

A mão de obra

1. Dica! Documentário sobre a produção de açúcar e a presença holandesa no Nordeste. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ o7wvh5>. 2. Dica! Documentário sobre a produção e a cultura do açúcar em Pernambuco. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http://tub.im/j2kfsq>.

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Imagem de um líder indígena Munduruku feita por Hercule Florence durante a Expedição Langsdorff, no século XIX.

Debret. Séc. XIX. Litogravura. Coleção particular

Hercule Florence. Séc. XIX. Aquarela. Coleção particular

Guerra justa:

nome que os colonos davam à guerra que faziam aos indígenas com o objetivo de escravizá-los.

Durante a maior parte do século XVI, os engenhos usaram como escravos os indígenas capturados por meio das chamadas guerras justas. Em fins do século XVI e início do XVII, no entanto, os indígenas foram sendo substituídos por africanos escravizados. Entre as principais razões da substituição da mão de obra indígena pela africana estão: » a escassez de mão de obra devido à alta mortalidade da população indígena e a dificuldade crescente em obter novos cativos; » a habilidade dos africanos em funções como mestre de açúcar, purgador, ferreiro, caldeireiro etc. Os portugueses já tinham se utilizado dos seus serviços nos engenhos da Ilha da Madeira e de Cabo Verde. Alguns historiadores apontam também a alta lucratividade do tráfico de africanos. O tráfico atlântico dava lucros aos envolvidos no negócio, fossem eles traficantes europeus, chefes africanos, mercadores do Brasil ou reis de Portugal (que cobravam impostos sobre esse comércio). 2

Detalhe de uma obra de Jean Baptiste Debret, século XIX.

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a) O texto é historiográfico e foi escrito por dois especialistas em história econômica (João Fragoso e Manolo Florentino) e uma especialista em história da família, a professora Sheila de Castro Faria. b) O texto é uma contribuição de três historiadores à análise da economia colonial. Eles afirmam que o tamanho dos engenhos e o número de escravos por engenho variaram muito. De fato, houve pequenas, médias e grandes unidades de produção de açúcar, e a maioria delas possuía menos de 20 escravos. Esses novos estudos chamam também a atenção para a importância da produção de alimentos e do mercado interno na economia colonial brasileira. c) Com base em pesquisas em arquivos públicos, museus e em um farto material bibliográfico, que abrange desde dissertações e teses até monografias e obras nacionais e estrangeiras sobre o assunto. d) Resposta pessoal. Professor: a intenção aqui é estimular o gosto A economia colonial não era só plantation pela pesquisa e enfatizar a importância dela na vida profissional.

Para refletir

Durante muito tempo se disse que a economia colonial baseava-se exclusivamente na plantation, isto é, na grande propriedade escravista e monocultora, cuja produção se destinava ao mercado externo. Estudos recentes, no entanto, trazem novas contribuições. Se, por um lado, a lavoura canavieira foi o principal setor da economia colonial brasileira, o tamanho dos engenhos e o número de escravos por engenho variaram muito. Houve pequenas, médias e grandes unidades de produção de açúcar, e a maioria delas possuía menos de 20 escravos. Esses novos estudos chamam também a atenção para a importância da produção de alimentos e do mercado interno na economia colonial brasileira. Leia o que dizem sobre o assunto os pesquisadores João Fragoso, Manolo Florentino e Sheila de Castro Faria. [...] Apesar da ênfase dada à agroexportação, a economia colonial não se esgotava nas plantações de açúcar voltadas para o mercado europeu. [...] Assim, por exemplo, no Recôncavo Baiano, ao lado da atividade açucareira, havia os pequenos e médios produtores de alimentos que, utilizando o trabalho familiar e/ou escravo, abasteciam os engenhos e as cidades. Algo semelhante ocorria no Rio de Janeiro do século XVII. Além da produção de mantimentos nas próprias áreas açucareiras, ao longo do século XVII e no seguinte, [...] os agricultores de São Paulo, do sul da Bahia, do Espírito Santo e, posteriormente, os do Maranhão passariam a orientar as suas atividades para um comércio intercapitanias, esboço de um incipiente mercado interno colonial. FRAGOSO, João et al. A economia colonial brasileira (séculos XVI-XIX). São Paulo: Atual, 1998. p. 49. (Discutindo a História do Brasil).

a) O texto acima pode ser classificado como jornalístico, historiográfico, filosófico ou literário? b) Quais são as principais ideias contidas no texto? c) Em dupla. Como os autores do texto podem ter feito essas descobertas? Expliquem. d) Você já deve ter descoberto algo importante por meio de pesquisa. Conte de modo resumido como foi essa sua experiência.

Diversificação agrícola: fumo, aguardente, pecuária, algodão e cacau A lavoura canavieira foi, como se sabe, o principal setor da economia colonial. Mas no Brasil se produziam também outros gêneros, como fumo, aguardente, carne, couro, farinha, algodão, além de cacau, castanha-do-pará e salsa, que serviam tanto à exportação quanto ao mercado interno colonial. CAPÍTULO 3 | A AMÉRICA PORTUGUESA E A PRESENÇA HOLANDESA

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Inacio Teixeira/Pulsar Imagens

Fabio Colombini

Fernando Bueno/Pulsar Imagens

Cacau. Fabio Colombini

Algodão.

Mandioca.

Milho.

O tabaco (ou fumo), planta domesticada pelos indígenas da América e usada por eles em determinados rituais, logo se tornou um produto de grande aceitação no território colonial. No século XVII, era o segundo colocado na pauta das exportações brasileiras, sobretudo por sua estreita vinculação com o tráfico de africanos. Enquanto o fumo de primeira e de segunda qualidade era consumido internamente ou vendido para a Europa, o fumo de terceira era a moeda que os traficantes usavam para conseguir escravos na África. Por ser mais simples e menos onerosa do que a lavoura de cana-de-açúcar, a lavoura fumageira se difundiu rapidamente pela Bahia e por Sergipe (então comarca baiana), Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Tal como o fumo, a cachaça produzida em engenhos ou engenhocas também era um produto muito consumido na colônia. O algodão, o cacau e o anil, por sua vez, ganharam importância como produtos de exportação na segunda metade do século XVIII. Na época, com a Revolução Industrial, as indústrias inglesas de tecidos passaram a comprar grandes quantidades de algodão das áreas correspondentes hoje aos estados do Maranhão, Pernambuco, Ceará e Pará. No Brasil colonial, a falta de alimentos e o seu elevado preço incentivou pequenos lavradores a se dedicarem às plantações de mandioca, milho e feijão, entre outros. Por vezes, propriedades que utilizavam escravos como mão de obra também produziam alimentos destinados à venda. Esses eram vendidos tanto para a população dos engenhos quanto para a das cidades brasileiras; seu destino, portanto, era o mercado interno. A pecuária colonial, por sua vez, foi responsável pela ocupação de boa parte do sertão do Brasil e se constituiu num setor decisivo da economia colonial.

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Para saber mais Durante muito tempo se acreditou na vigência do Pacto Colonial, ou seja, que o Brasil colonial só vendia para sua metrópole Portugal e comprava somente dela aquilo de que necessitava. O texto a seguir, da professora Sheila de Castro Faria, traz novidades sobre o assunto. Leia-o com atenção. Colônia sem pacto colonial [...] No lugar da imagem de colonos engessados pela metrópole, vem à tona um grande dinamismo nas relações comerciais dos principais portos do Brasil com o rio da Prata, no sul da América, com Costa da Mina, Angola e Moçambique, na África e com Índia, Goa e Macau na Ásia. [...] Colonos do Brasil, portanto, comercializavam diretamente com outras regiões, furando a ideia de “pacto colonial”. Por outro lado, os comerciantes que forneciam escravos para o Brasil no século XVIII negociavam diretamente com traficantes e chefes locais da África. Eram esses comerciantes, residentes no Brasil, que [...] detinham Monopólio: o monopólio do lucrativo tráfico negreiro — e não a metrópole. exclusividade. FARIA, Sheila de Castro. Colônia sem pacto. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 3, n. 34, p. 71, jul. 2008.

Sociedades coloniais No Brasil colonial existiram várias regiões econômicas, em torno das quais se formaram múltiplas sociedades com características próprias: a paulista do século XVII (com seus bandeirantes e indígenas) era, por exemplo, muito diferente da açucareira nordestina. Embora diferentes e espalhadas por todo o território, elas tinham pelo menos duas características comuns: a escravidão, presente em quase todo o território colonial, e uma hierarquia excludente que garantia direitos, poder e prestígio a poucos.

A sociedade colonial açucareira Mesmo sendo essencialmente escravista, a sociedade colonial açucareira possuía certa complexidade: os senhores de engenho eram livres e brancos e os trabalhadores das plantações eram, geralmente, negros escravizados, quase sempre africanos. Mas, entre os administradores, técnicos e artesãos, havia indivíduos escravos, libertos, livres, brancos, mestiços e negros.

Dica! Vídeo baseado na obra Casa-grande e Senzala, de Gilberto Freyre. [Duração: 9 minutos]. Acesse: <http://tub.im/3kjnir>.

Os senhores de engenho Donos da cana e das terras, os senhores de engenho faziam parte do grupo dominante da sociedade açucareira e se consideravam a “nobreza da terra”, conforme palavras do historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello. CAPÍTULO 3 | A AMÉRICA PORTUGUESA E A PRESENÇA HOLANDESA

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No início do século XVII, eles já constituíam um grupo social razoavelmente estruturado e unido por casamentos entre seus membros. Esses proprietários exerciam o poder localmente, tanto na esfera pública (ocupando alguns cargos nas Câmaras Municipais) quanto na esfera privada, na qual buscavam impor sua vontade a todos os habitantes do engenho. Daí dizer-se que a família senhorial no Brasil daqueles tempos era patriarcal. Havia ainda homens livres que arrendavam terras do senhor de engenho para cultivar a cana; mas, por falta de recursos, eram obrigados a moê-la no engenho do proprietário, por isso, eram chamados de “lavradores obrigados”. Em troca, eles entregavam ao senhor parte do açúcar obtido e ainda pagavam a ele o aluguel pelo uso da terra.

Editora Nova Fronteira

Os comerciantes

O mercador de escravos Francisco Félix de Souza era filho de português com uma indígena. Ainda jovem, viajou para a África onde construiu uma fortuna com a venda de escravizados para o Brasil.

Se a propriedade da terra dava poder e prestígio ao seu possuidor, o comércio possibilitava riqueza. Grandes comerciantes enriqueciam ao vender produtos locais, como açúcar, tabaco e algodão, para a Europa e revender produtos chegados de Portugal, como vinho, queijos e doces. Outros comercializavam a produção colonial destinada ao mercado interno, como bois, mulas, cachaças, farinha, milho, marmelada, entre outros. Mas muitas fortunas foram feitas com o comércio de africanos. Enriquecidos por meio do tráfico atlântico, comerciantes estabelecidos em cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife usavam navios próprios e forneciam empréstimos aos senhores de engenho para a compra de escravos e/ou equipamentos. Dessa forma, alguns conseguiam comprar terras e montar engenhos; outros casavam com filhas de senhores de engenho e, com isso, passavam a pertencer à nobreza da terra.

Os escravizados Na célebre frase do padre Antonil, os africanos escravizados eram “as mãos e os pés dos senhores de engenho”. Apesar disso, na sociedade colonial açucareira, seus direitos eram praticamente inexistentes, como afirma um historiador: [...] Incapazes de firmar contratos, dispor de suas vidas e possuir bens, defender-se e à sua família dos maus-tratos do proprietário, testemunhar contra homens livres, escolher seu trabalho e empregador, e limitados pela lei e pelos costumes de inúmeros outros modos, os cativos permaneceram [...] em situação mais desvantajosa na sociedade. SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial – 1550-1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 214.

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Editora Cia. das Letras

Fac-símile da capa do livro Segredos internos, de Stuart B. Schwartz.

Debret. Séc. XIX. Litogravura. Coleção particular

Debret. Séc. XIX. Litogravura. Coleção particular

Com base no estudo de um grande engenho colonial, Stuart B. Schwartz concluiu que a população escravizada estava assim distribuída: escravos do campo (agricultores, criadores e condutores de boiadas, pescadores, caçadores, carroceiros etc.) constituíam 80% do total; trabalhadores dedicados à fabricação e ao beneficiamento do açúcar correspondiam a 10%; os domésticos (cozinheiras, faxineiras, camareiras etc.) e artesãos (oleiros, pedreiros, ferreiros), juntos, compunham os outros 10%. É importante lembrar, porém, que os escravos de campo e os domésticos também trabalhavam na fabricação do açúcar. De dia, eles faziam as tarefas costumeiras. À noite carregavam cana e lenha, transportavam formas, purificavam, trituravam e encaixotavam o açúcar.

Os negros escravizados trabalhavam também construindo casas e chafarizes, transportando mercadorias e/ou pessoas, comerciando pelas estradas e vilas.

Os trabalhadores assalariados Desde o início, os senhores de engenho contrataram assalariados para dividir com os escravos a tarefa no engenho, para trabalhar em funções especializadas, como a de mestre de açúcar (responsável pela qualidade do açúcar) ou a de carpinteiro, pedreiro, ferreiro, entre outros. Ou ainda para realizar tarefas que os donos de engenho não confiavam a escravos, como o de feitor (encarregado de vigiar e punir os escravos). Por isso se diz que o conhecimento e o serviço dos trabalhadores assalariados eram decisivos para o funcionamento dos engenhos.

Dica! Documentário abordando a riqueza e a complexidade da sociedade açucareira nordestina. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/93oaaw>.

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Georg Marcgraf. 1648. Gravura. Coleção particular

Nesta obra de 1648, vê-se o mestre de açúcar trabalhando enquanto é observado por um feitor.

Dentre eles, os feitores e os especialistas no fabrico do açúcar eram os mais bem remunerados e respeitados. O salário desses trabalhadores era anual e, quando pago em dinheiro, chamava-se soldada seca. Geralmente, o alojamento e a alimentação eram descontados do salário dos trabalhadores livres, o que limitava significativamente seus ganhos.

Holandeses no Nordeste

Países Baixos espanhóis:

nome que se dava ao território ocupado hoje por Holanda e Bélgica.

Dica! Vídeo sobre a União Ibérica e a conquista do Nordeste brasileiro pelos holandeses. [Duração: 14 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ emhgf5>.

No século XVII, os holandeses invadiram o Nordeste açucareiro por duas vezes. Para compreendermos as razões dessas invasões, precisamos relacioná-las ao contexto europeu do século anterior. No início do século XVI, a região onde é hoje a Holanda pertencia ao Império Espanhol e fazia parte dos chamados Países Baixos espanhóis; a região era próspera e se destacava por suas manufaturas, sua indústria naval e sua marinha mercante. O Império Espanhol, que, à época, era imenso, ficou ainda maior em 1580; naquele ano, o rei português D. Henrique morreu sem deixar herdeiros. Abriu-se, então, uma disputa pelo trono português; o vencedor foi um parente do rei morto de nome Felipe II, rei da Espanha que, com isso, tornou-se também rei de Portugal. O controle da Espanha sobre Portugal e suas colônias ficou conhecido como União das Coroas Ibéricas e durou até 1640. Os domínios de Felipe II eram tão vastos que na época se dizia que neles “o sol nunca se punha”. Durante esse período, os adversários da Espanha tornaram-se também adversários de Portugal; foi este o caso, por exemplo, dos Países Baixos espanhóis.

Os holandeses conquistam a independência Para custear suas guerras na Europa, Felipe II da Espanha aumentou os impostos cobrados nos Países Baixos espanhóis e lançou violenta campanha de perseguição aos protestantes ali residentes. Os habitantes de sete províncias do norte dos Países Baixos – protestantes em sua imensa maioria – reagiram entrando em guerra contra a Espanha. Em 1581, proclamaram a independência, constituindo a República das Províncias Unidas – ou simplesmente Holanda.

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A guerra pelo açúcar e pelo tráfico atlântico Após a independência, os mercadores holandeses continuaram minando o poderio espanhol e, em 1602, criaram a Companhia das Índias Orientais, que visava à conquista dos domínios luso-espanhóis na Ásia. Diante disso, Felipe II reagiu proibindo os holandeses de comerciar com Portugal e suas colônias. Os holandeses, então, decidiram invadir as colônias portuguesas na África e na América. Para isso criaram, em 1621, a Companhia das Índias Ocidentais, que tinha como principais alvos o controle sobre o açúcar do Nordeste do Brasil – maior produtor mundial de açúcar, na época – e os postos de fornecimento de escravos no território africano.

Invasão da Bahia

Sergio Pedreira/Pulsar Imagens

A primeira invasão dos holandeses ocorreu na Bahia, que, além de possuir muitos engenhos em pleno funcionamento, era o centro político do Brasil. Eles chegaram a Salvador em maio de 1624 com 3 300 homens, uma frota de 26 navios e 450 canhões. Prenderam o governador português e o substituíram pelo holandês Van Dorth. A população luso-brasileira, por sua vez, retirou-se para o interior e lá organizou a resistência. O líder dessa resistência, o bispo Dom Marcos Teixeira, apresentava a luta contra os holandeses como uma cruzada contra os hereges, uma vez que, como vimos, os invasores eram protestantes. Uma das táticas da resistência foi a guerra de emboscadas: divididos em pequenos grupos, os combatentes saíam das matas e se lançavam sobre o inimigo de surpresa, impedindo assim seu avanço rumo à região dos engenhos. A Espanha, por sua vez, enviou ao Nordeste do Brasil uma esquadra com 52 navios e 12 mil homens, comandados por Dom Fradique de Toledo Osório, que forçou os holandeses a bater em retirada, em 1625. Dois anos depois, no entanto, eles voltaram a atacar: liderados por Pieter Heyn, saquearam o porto de Salvador levando consigo açúcar, fumo, algodão e pau-brasil. E, Imagem de 2014 do Forte de Santo Antônio na volta para a Holanda, capturaram a froda Barra, construído no século XVII e ta de prata espanhola, que transportava a conhecido hoje como Farol da Barra. O forte foi erguido para defender a cidade de Salvador produção anual desse metal do vice-reida invasão holandesa em 1624. nado do Peru para a Espanha.

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Invasão de Pernambuco

Frans Post (detalhe). 1661. Óleo sobre madeira. Coleção particular

Com os saques realizados, os holandeses reuniram recursos e invadiram novamente o Nordeste açucareiro, mas dessa vez o alvo foi Pernambuco. Em fevereiro de 1630, desembarcaram no litoral pernambucano e conquistaram Olinda e Recife com relativa facilidade. Sob a liderança de Matias de Albuquerque, a população local destruiu tudo o que pudesse ser útil aos invasores (armazéns, navios, construções) e se retirou para o interior. Lá, ergueu o Arraial do Bom Jesus, quartel-general de onde deviam partir os ataques aos holandeses. A tática da resistência luso-brasileira foi, uma vez mais, a guerra de emboscadas; composta de um grande número de indígenas, negros e brancos pobres, essa resistência empenhou-se em controlar o interior, onde estavam os engenhos, e isolar os invasores no litoral. De acordo com os documentos portugueses, os invasores foram ajudados por moradores locais, entre os quais Domingos Fernandes Calabar. Exímio coEngenho de açúcar, óleo nhecedor da região, como tantos outros mamelucos, negros e sobre madeira do artista holandês Frans Post, mostra escravizados ameríndios, Calabar colaborou com os holandeses como guia. trabalhando no transporte e na Nos combates que se seguiram os holandeses foram consemoagem da cana em um engenho guindo vitórias: conquistaram o Forte dos Reis Magos, no Rio real. Na época, as capitanias do Nordeste possuíam, juntas, cerca Grande do Norte; a cidade de Filipeia (hoje João Pessoa), na de 150 engenhos, que produziam Paraíba; e, em 1635, o Arraial do Bom Jesus, no interior pernampor volta de 700 mil arrobas de bucano. Diante disso, Matias de Albuquerque ordenou a queima açúcar ao ano. dos canaviais e retirou-se com suas tropas para Alagoas. Antes, DIALOGANDO porém, conseguiu prender Calabar e mandou executá-lo. Segundo o historiador a) Você conhece pernambucano Evaldo Cabral de Mello, um especialista no assunto, o motivo da a expressão execução de Calabar foi “queima de arquivo”, pois ele “sabia demais”. “queima de Os holandeses passaram a ser os novos donos do Nordeste. Na região arquivo”? onde se deu a guerra do açúcar, a situação era desoladora: plantações b) Já ouviu falar queimadas, gado morto, engenhos destruídos e escravos em fuga; muitos de algum crime deles haviam se refugiado no Quilombo dos Palmares, em terras do atual mais recente estado de Alagoas. Para voltar a lucrar com o açúcar do Brasil, os holandeque tenha ses precisavam reativar a produção e organizar a administração nas áreas ocorrido por conquistadas. Para isso, em 1637, o conde João Maurício de Nassau-Siegen esse motivo? foi nomeado governador dos domínios da Holanda na região. a) Resposta pessoal. b) Suspeita-se que o assassinato do empresário Paulo Cesar Farias, homem forte do governo de Fernando Collor de Mello, tenha sido “queima de arquivo”.

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O governo de Nassau Adotando uma política de conciliação de interesses, Maurício de Nassau tomou três medidas decisivas para a sua administração: forneceu aos

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senhores de engenho empréstimos e crédito para a compra de equipamentos e de escravos, conseguindo assim o apoio de boa parte desses senhores; defendeu a tolerância religiosa: Nassau era protestante, mas permitiu que católicos e judeus praticassem suas religiões livremente, animando-os a colaborar com os holandeses; ordenou a tomada de importantes entrepostos de escravos do litoral africano. Em 1641, os domínios holandeses abrangiam territórios que iam de Sergipe ao Maranhão e incluíam os mais importantes entrepostos de escravos africanos no século XVII. Negociando escravos e açúcar, os holandeses ampliaram enormemente seus lucros. 1 e 2

1. Dica! Documentário sobre o domínio holandês no Nordeste. Acesse: <http://tub.im/x52d6p>. 2. Dica! Vídeo sobre Maurício de Nassau e as transformações artísticas e culturais do Brasil holandês. Acesse: <http://tub. im/wrhkgf>.

Hans Von Manteuffel/Opção Brasil Imagens

Nassau empenhou-se também em incentivar a produção cultural, trazendo para o país pintores, como os paisagistas Albert Eckhout e Frans Post, que retrataram plantas, animais, pessoas e edificações do Nordeste do Brasil. Além de pintores, ele trouxe cientistas que se dedicaram ao estudo da região, como Georg Marcgraf, que documentou a flora e a fauna, e o médico Willem Piso, que pesquisou doenças características da região. Trouxe também letrados, como Elias Herckman, que escreveu um precioso relato sobre a Capitania da Paraíba. O governo de Nassau instalou sua capital em Recife e ali realizou uma série de importantes obras: calçou ruas; abriu canais por onde transitavam barcas, mercadorias e pessoas; drenou áreas alagadiças; construiu pontes que ligavam o antigo porto à Ilha de Antônio Vaz e esta ao continente. Nessa ilha, criou um jardim botânico, um zoológico e construiu o Palácio das Torres (Palácio de Friburgo), residência oficial e sede do governo. A esse conjunto de obras deu-se o nome de Cidade Maurícia (atualmente bairro de Santo Antônio).

Albert Eckhout. Séc. XIX. Óleo sobre tela. Coleção particular

Artistas e cientistas do Brasil holandês

Retrato de mestiço, do artista holandês Albert Eckhout.

Vista aérea do bairro de Santo Antônio em Recife (PE). Nela vemos, em primeiro plano, o Palácio do Governo rodeado por grandes árvores e, atrás dele, o prédio do Teatro Santa Isabel. Fotografia de 2013.

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A Restauração em Portugal Enquanto os holandeses lucravam com o açúcar do Brasil, Portugal encontrava-se exaurido economicamente e responsabilizava a União Ibérica por essa situação. Diante disso, os portugueses promoveram uma revolta separatista, em 1640, e se libertaram da Espanha no episódio conhecido como Restauração. Dom João IV, da dinastia de Bragança, ocupou o trono de Portugal e, no ano seguinte, firmou com a Holanda um acordo de paz por 10 anos. No Brasil, em busca de lucros, a Companhia das Índias Ocidentais retirou Nassau do governo em 1644 e enviou novos governantes para cá com a missão de cobrar o dinheiro emprestado aos senhores de engenho e restringir o crédito dado a eles.

A luta contra os holandeses

André Vidal de Negreiros Henrique Dias Felipe Camarão

Vitor Meirelles. 1879. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Os novos governantes do Brasil holandês mostraram-se intolerantes. Confiscaram terras dos senhores de engenho endividados e proibiram a livre prática da religião católica. Reagindo a isso, os senhores luso-brasileiros engajaram-se, em 1645, numa guerra contra os holandeses: a Insurreição Pernambucana. Nos confrontos que se seguiram, os luso-brasileiros conseguiram vitórias surpreendentes, entre elas a Primeira Batalha de Guararapes, em 1648. No mesmo ano, a esquadra de Salvador Correia de Sá, organizada com recursos de mercadores cariocas, partiu do Rio de Janeiro e conseguiu retomar os entrepostos de escravos da Ilha de São Tomé e de Luanda e Benguela, em Angola. No ano seguinte, uma nova vitória: a Segunda Batalha de Guararapes, que foi decisiva no curso da luta. A guerra se prolongou até 1654, quando os luso-brasileiros venceram os holandeses na Campina da Taborda (Pernambuco), forçando-os a deixar o país.

O negro liberto Henrique Dias, líder de um batalhão de negros, o índio de etnia potiguar Felipe Camarão, líder dos índios potiguares, e André Vidal de Negreiros, filho de um senhor de engenho nascido na Paraíba, lutaram lado a lado na guerra contra os holandeses. Esse fato foi usado para a construção da falsa ideia de que o Brasil é o resultado da “união das três raças”. Essa ideia foi veiculada ao longo do tempo em livros, revistas, jornais e pinturas, como A Batalha de Guararapes, feita por Vitor Meirelles (1832-1903) em 1879, em que os três personagens citados aparecem combatendo juntos. Tudo isso ajudou a forjar a ideia de que a convivência entre brancos, negros e índios foi pacífica, o que não corresponde aos fatos. Apesar de ter havido momentos de colaboração, a convivência entre esses grupos humanos em território colonial foi tensa e pontilhada de conflitos.

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Os holandeses nas Antilhas Em 1661, Holanda e Portugal assinaram a Paz de Haia. Por esse acordo, Portugal teria de pagar à Holanda a vultosa indenização de 4 milhões de cruzados. No ano seguinte, a Inglaterra cobrou a ajuda militar e diplomática dada a Portugal, que foi obrigado a lhe ceder duas de suas possessões: Tânger, no norte da África, e Bombaim, na Índia. A Holanda perdeu o Brasil, mas não desistiu do negócio do açúcar: os holandeses levaram seus capitais e suas técnicas de produção para as Antilhas (Suriname e Curaçao), onde montaram engenhos bem-sucedidos e passaram a concorrer com os produtores do Brasil.

A Guerra dos Mascates Frans Post. c. 1650-1655. Óleo sobre tela. Coleção particular

Em razão da queda nos preços do açúcar do Brasil no exterior e dos prolongados anos de guerra contra os holandeses, os senhores de engenho de Olinda contraíram dívidas com os grandes comerciantes portugueses. Estes, por sua vez, cobravam juros extorsivos e tomavam terras dos devedores e, assim, faziam fortuna. Com o passar do tempo, as tensões entre os devedores, de um lado, e os credores, de outro, transformaram-se em rivalidade declarada. Com a intenção de ridicularizar os comerciantes de Recife, os senhores de engenho de Olinda os apelidaram de mascates. Vista panorâmica de Olinda, de Frans Post, c. 1650-1655. Embora viessem enriquecendo, esses comerciantes tinham pouco poder político, pois, em Pernambuco, havia uma só Mascate: vendedor ambulante que Câmara Municipal, a de Olinda, que era controlada pelos senhores de engenho comercializa mercadorias locais. Em busca de poder e prestígio, pediram ao rei de Portugal que seu de baixo valor. Pelourinho: povoado fosse elevado à vila, ganhando assim uma Câmara Municipal própria. uma coluna de pedra Com sua solicitação atendida em 1710, ergueram durante a noite um pelourinho ou madeira erguida em praça pública; era no centro de Recife. símbolo de autonomia Os senhores de engenho olindenses reagiram invadindo Recife e destruinadministrativa e, do o pelourinho. Alguns deles, como Bernardo Vieira de Melo, clamavam por ao mesmo tempo, lembrava a escravidão um governo autônomo para Pernambuco. Mas a maioria dos senhores de (os escravos eram engenho queria apenas garantir sua participação no governo da Capitania. amarrados a ele para serem castigados Como resposta a isso, os comerciantes de Recife partiram para a guerra publicamente). – a Guerra dos Mascates –, que se desenrolou entre 1710 e 1711. A metrópole interveio no conflito enviando um novo governador a Pernambuco, Felix José Machado, que anunciou o perdão geral aos envolvidos. Quando os proprietários olindenses se desarmaram, o novo governador perseguiu seus líderes, a começar por Bernardo Vieira de Melo, que foi preso e condenado pelo crime de lesa-majestade. Foi a primeira vez que a Coroa portuguesa contrariou de forma explícita os interesses dos senhores de engenho, conhecidos como “nobreza da terra”. CAPÍTULO 3 | A AMÉRICA PORTUGUESA E A PRESENÇA HOLANDESA

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (Enem/MEC – 2013) De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa. Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares [...]. Porém o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. Carta de Pero Vaz de Caminha. In: MARQUES, A.; BERUTTI, F.; FARIA, R. História moderna através de textos. São Paulo: Contexto, 2001.

A carta de Pero Vaz de Caminha permite entender o projeto colonizador para a nova terra. Nesse trecho, o relato enfatiza o seguinte objetivo: a) Valorizar a catequese a ser realizada sobre os povos nativos. 1. Resposta: a. b) Descrever a cultura local para enaltecer a prosperidade portuguesa. c) Transmitir o conhecimento dos indígenas sobre o potencial econômico existente. d) Realçar a pobreza dos habitantes nativos para demarcar a superioridade europeia. e) Criticar o modo de vida dos povos autóctones para evidenciar a ausência de trabalho. 2. (Uespi-PI – 2014) A armada de Martim Afonso de Sousa, que deveria deixar Lisboa a 3 de dezembro de 1531, vinha com poderes extensíssimos, se comparados aos das expedições anteriores, mas tinha

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como finalidade principal desenvolver a exploração e limpeza da costa, infestada, ainda e cada vez mais, pela atividade dos comerciantes intrusos. HOLANDA, Sérgio Buarque de. As Primeiras Expedições. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. (org). História Geral da Civilização Brasileira. Tomo I, Volume 1. São Paulo: DIFEL, 1960. p. 93.

Com base nesta citação, assinale a opção que indica corretamente os principais objetivos das primeiras expedições portuguesas às novas terras descobertas na América: a) expulsar os contrabandistas de pau-brasil e combater os holandeses instalados em Pernambuco. b) garantir as terras brasileiras para Portugal, nos termos do Tratado de Tordesilhas, e expulsar os invasores estrangeiros. 2. Resposta: b. c) instalar núcleos de colonização estável, baseados na pequena propriedade familiar, e escravizar os indígenas. d) estabelecer contatos com as civilizações indígenas locais e combater os invasores franceses na Bahia. e) nenhuma das opções está correta. 3. (UFF-RJ) Os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda. Antonil, Cultura e Opulência do Brasil, 1711, livro 1, Capítulo IX.

Assinale a opção que, baseada na citação do jesuíta Antonil, justifica corretamente os fundamentos da sociedade colonial. a) A sociedade colonial se resumia ao mundo da casa-grande e da senzala, espaços fundamentais de um mundo rural mediado pelos engenhos açucareiros. b) O ideal de sociedade colonial, segundo os inacianos, era o de uma sociedade de missões, o que explica a crítica do jesuíta Antonil à escravidão.

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c) A estrutura social do Brasil Colônia era fundamentalmente escravista, uma vez que os setores essenciais da economia colonial, a exemplo da agro-manufatura do açúcar, dependiam do trabalho escravo, sobretudo dos africanos. 3. Resposta: c. d) A sociedade escravista erigida na Colônia sempre foi condenada pelos jesuítas que, a exemplo de Antonil, desejavam ardorosamente que índios e africanos se dedicassem ao mundo de Deus. e) A sociedade colonial possuía duas classes, senhores e escravos, polos antagônicos do latifúndio ou da “fazenda” mencionada por Antonil. 4. (Enem/MEC) Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Salvador padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez, servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. VIEIRA, A. Sermões. Tomo XI. Porto: Lello & irmão. 1951 – Adaptado.

O trecho do sermão do Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre a Paixão de Cristo e a) a atividade dos comerciantes de açúcar nos portos brasileiros.

b) a função dos mestres de açúcar durante a safra de cana. c) o sofrimento dos jesuítas na conversão dos ameríndios. d) o papel dos senhores na administração dos engenhos. e) o trabalho dos escravos na produção de açúcar. 4. Resposta: e.

5. (Fuvest-SP – 2015) Se o açúcar do Brasil o tem dado a conhecer a todos os reinos e províncias da Europa, o tabaco o tem feito muito afamado em todas as quatro partes do mundo, em as quais hoje tanto se deseja e com tantas diligências e por qualquer via se procura. Há pouco mais de cem anos que esta folha se começou a plantar e beneficiar na Bahia [...] e, desta sorte, uma folha antes desprezada e quase desconhecida tem dado e dá atualmente grandes cabedais aos moradores do Brasil e incríveis emolumentos aos Erários dos príncipes. André João Antonil. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. São Paulo: EDUSP, 2007. Adaptado.

O texto acima, escrito por um padre italiano em 1711, revela que a) o ciclo econômico do tabaco, que foi anterior ao do ouro, sucedeu o da cana-de-açúcar. b) todo o rendimento do tabaco, a exemplo do que ocorria com outros produtos, era direcionado à metrópole. c) não se pode exagerar quanto à lucratividade propiciada pela cana-de-açúcar, já que a do tabaco, desde seu início, era maior. d) os europeus, naquele ano, já conheciam plenamente o potencial econômico de suas colônias americanas. e) a economia colonial foi marcada pela simultaneidade de produtos, cuja lucratividade se relacionava com sua inserção em mercados internacionais. 5. Resposta: e.

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6. (UPE – 2015) A primeira metade do século XVII em Pernambuco foi marcada pela invasão holandesa à capitania. A presença holandesa em Pernambuco durou 24 anos, de 1630 a 1654. A invasão foi motivada por vários fatores, dos quais podemos destacar 6. Resposta: c. a) o sucesso da colonização holandesa no sul da América, especialmente nas possessões espanholas, e a vontade da Holanda em expandir seus domínios no Novo Mundo. b) a necessidade do algodão, produto amplamente produzido na capitania de Pernambuco, desde

II. Leitura e escrita em História

o século XVI, por parte das indústrias têxteis holandesas. c) o bloqueio do acesso holandês pela Coroa Espanhola ao comércio do açúcar produzido em Pernambuco, durante a União Ibérica. d) a presença maciça de tropas holandesas na Bahia, desde 1625. e) os interesses dos comerciantes e senhores de engenho locais em comercializar com os holandeses, em detrimento dos portugueses.

PROFESSOR, VER MANUAL.

Leitura e escrita de textos VOZES DO PRESENTE A escravidão dificultou o amor entre os escravos, mas não foi forte o suficiente para impedir os sentimentos que brotavam no coração deles. Muitas vezes, depois de um dia de trabalho exaustivo, eles fugiam e andavam horas para visitar a namorada ou outras pessoas queridas sem se importar se seriam ou não castigados por isso. Além disso, geralmente, os escravizados constituíam família. Veja o que uma historiadora diz sobre esse assunto.

Amor e família Durante muitos anos, os historiadores acharam que o sistema escravista havia massacrado de tal forma homens e mulheres escravos que eles se tornaram um grupo absolutamente dominado e sem vontade própria. Para esses historiadores, não havia sido dada ao escravo nem mesmo a oportunidade de constituir família, organização básica de apoio e de identidade social para todos os seres humanos. Os senhores não teriam permitido que escravos casassem. Em suma, os historiadores acreditavam que eles eram tratados como “coisa” ou, no máximo, como animais para quem só valia a vontade do dono. Diversos estudos atuais, entretanto, vêm demonstrando que a situação não era bem assim. Boa parte dos escravos constituía família, sendo essa importantíssima para suas vidas. Concluíram ainda que aos senhores interessava que eles se unissem em família para melhor se adequar à vida no cativeiro. Revelaram também que separar filhos pequenos de seus pais era atitude rara. Crianças de até doze anos de idade, na quase totalidade dos casos, viviam com seus pais ou, pelo menos, com suas mães. FARIA, Sheila de Castro. Viver e morrer no Brasil Colônia. 1. ed. São Paulo: Moderna, 1999. p. 16. (Desafios).

a) Explique as diferenças entre as duas visões sobre os escravizados citadas no texto. b) O que se descobriu recentemente sobre a vida pessoal dos escravizados? c) Em dupla. Segundo a autora, a família é uma organização básica de apoio e identidade social para todos os seres humanos. Vocês concordam com essa afirmação? O que a família é para vocês?

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III. Você cidadão! As principais plantas de que se alimenta, ou que utiliza industrialmente a humanidade, foram descobertas e domesticadas pelos ameríndios. Tais são, entre as alimentícias: a batata [...], originária do Peru, erroneamente chamada inglesa; a mandioca [...]; o milho [...]; a batata-doce [...]; o tomate [...]; feijões e favas, como o amendoim [...]; fruteiras como o cacau [...], o abacaxi [...], o caju [...], o mamão [...]; amêndoas como a castanha-do-pará [...]. Inúmeras espécies vegetais, objeto de coleta por parte dos índios, foram adotadas pelos colonizadores europeus, passando a ser cultivadas, algumas em larga escala, desempenhando hoje relevante papel na economia mundial. [...] A borracha [...], dentre todas, inicia o ciclo industrial moderno. Conhecida pelos índios, que a utilizavam para fazer bolas, seringas e impermeabilizar objetos, a borracha só foi realmente “descoberta” pela civilização ocidental na segunda metade do século XIX. RIBEIRO, Berta G. A contribuição dos povos indígenas à cultura brasileira. In: GRUPIONI, Luís Donizete Benzi. A temática indígena na escola. 2. ed. Brasília: MEC/Unesco, 1998. p. 199-203.

Edson Sato/Pulsar Imagens

O conhecimento e a contribuição indígena à cultura brasileira

Criança ianomâmi carregando cacho de pupunha madura na Aldeia do Kona, Santa Isabel do Rio Negro (AM), 2011.

a) Em sua opinião, a autora do texto conseguiu comprovar o que afirma? b) Em que trecho do texto fica evidente a existência de trocas culturais entre indígenas e europeus? c) Na segunda metade do século XIX surgiram na Europa novos tipos de indústrias, que tinham a borracha como matéria-prima essencial. Que indústrias eram essas? d) Reflita e elabore um comentário sintético sobre a ideia defendida pela autora no texto. e) Em grupo. A demarcação das terras indígenas tem ocasionado conflitos violentos: de um lado estão os povos indígenas e seus aliados; eles argumentam ter direito à terra que tradicionalmente ocupam e que esse direito é garantido por lei. De outro lado estão indivíduos e grupos interessados nas terras reivindicadas pelos indígenas; eles argumentam que “tem terra demais para pouco índio”. Debatam, reflitam e opinem sobre essa disputa e justifiquem a posição tomada por vocês. Postem o resultado do debate no blog da turma. CAPÍTULO 3 | A AMÉRICA PORTUGUESA E A PRESENÇA HOLANDESA

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Rogério Reis/Olhar Imagem

Delfim Martins/Pulsar Imagens

UNIDADE

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Diversidade e pluralismo cultural

Maracatu Rural de Nazaré da Mata (PE), 2013. Delfim Martins/Pulsar Imagens

O Boi Garantido no Festival de Parintins (AM), 2010.

Cavalhada em Pirenópolis (GO), 1999.

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Gabriel Santos/Tyba

Desfile da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis. O desfile abordou a história contada por um griot. Rio de Janeiro (RJ), 2015.

G. Evangelista/Opção Brasil/Imagens

Professor: segundo um historiador: “Cultura não é apenas o conjunto de manifestações artísticas. Envolve as formas de organização do trabalho, da casa, da família, do cotidiano das pessoas, dos ritos, das religiões, das festas etc.”. (BEZERRA, Holien Gonçalves. Ensino de História: conteúdos e conceitos básicos. In: KARNAL, Leandro. História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 2005. p. 46)

Dança típica alemã, Gramado (RS), 2012.

» As fotografias destas páginas são de festas tradicionais. Cada uma delas é

típica de uma região do Brasil; você sabe qual? » Ora, sabendo que festas são formas de expressão de um determinado povo/

lugar e, portanto, pertencem ao campo da cultura, é possível concluir que o Brasil possui enorme diversidade cultural? » O que é cultura para você? E diversidade cultural, o que é? » Em grupo. Pesquisem sobre uma festa importante do seu estado e elaborem

um pequeno vídeo acompanhado de um texto explicativo sobre ela. Postem o trabalho no blog da turma. UNIDADE 2 | DIVERSIDADE E PLURALISMO CULTURAL

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Professor: Fig. 1: Milton Santos (1926-2001), geógrafo, cientista e professor universitário com uma enorme contribuição no campo da Geografia e da reflexão sobre cidadania. Fig. 2: Ludmilla, cantora e compositora de funk melody, durante apresentação na edição 2014 da festa junina beneficente no Retiro dos Artistas no Rio de Janeiro (RJ), cujo objetivo é arrecadar fundos para a manutenção da casa que hoje abriga 62 artistas em idade avançada. Fig. 3: Hugo Pessanha, judoca

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Hamilton Zambiancki/Futura Press

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Glaucon Fernandes/AE

Flávio Florido/Folhapress

Observe estas fotografias.

representante do Brasil numa final com Kirill Denisov, da Rússia, durante Grand Slam de Judô realizado no Ginásio do Maracanãzinho, 2010, no Rio de Janeiro (RJ). Fig. 4: Emicida, rapper e compositor, em um show no Hard Rock Café, em Curitiba (PR), 2015.

Celso Pupo/Fotoarena

Capítulo 4

Africanos no Brasil: dominação e resistência

Dois elementos são comuns a todas essas pessoas: são afrodescendentes e alcançaram reconhecimento social e prestígio nas suas respectivas áreas de atuação profissional.

» Você conhece essas personalidades? » Sabe em que áreas elas atuam? » O que você sabe sobre os ancestrais desses brasileiros?

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Editora Contexto

Estudiosos da Hoje, os estudiosos da história da África e dos afro-brasileiros conhistória da África cordam que a escravidão era praticada na África antes da chegada dos e dos afroeuropeus ao litoral do continente, no século XV. -brasileiros: Alberto da Costa Segundo a historiadora Leila Leite Hernandez, na África o indivíduo poe Silva, José Rivair dia ser escravizado por quatro motivos principais: Macedo, Marina de Mello e Souza, Leila » guerra: essas guerras se davam entre diferentes povos envolvidos em Leite Hernandez, Nei disputas por terra, poder e/ou prestígio. Os vencidos eram escravizaLopes, entre outros. dos ou vendidos pelos vencedores. » fome: quando a fome se abatia sobre um grupo, ocorria de famílias inteiras oferecerem a si mesmas como escravas em troca de alimentos e moradia. » punição judicial: em algumas sociedades tradicionais africanas, os criminosos eram condenados à escravidão. Fac-símile da capa do livro História » penhora humana: o indivíduo era escravizado como uma espécie de da África, de garantia para o pagamento de débito. José Rivair Mas é consenso também entre os estudiosos da África que a escravidão Macedo. africana possuía características próprias. Observa o historiador José Rivair Macedo que, diferentemente do que ocorria na Grécia e na Roma Antiga, nas sociedades tradicionais africanas, os escravizados eram minoria; além disso, a escravidão africana tinha características próprias: a perda da liberdade pessoal não era completa, e os cativos eram integrados ao grupo dos vencedores em posições subalternas. 3027-HIS-V2-U02-C04-F005 Em muitos casos podiam casar-se com pessoas livres e, com o tempo, ascender socialmente tornando-se comerciantes, ministros ou funcionários da Corte de um poderoso. Nas sociedades tradicionais africanas, os descendentes de escravizados tinham os mesmos direitos das pessoas livres, podendo, inclusive, comprar e herdar bens.

Para refletir O texto a seguir foi escrito pelo africanista Alberto da Costa e Silva. Leia-o com atenção. Os africanos escravizavam africanos? Os africanos não escravizavam africanos, nem se reconheciam então como africanos. Eles se viam como membros de uma aldeia, de um conjunto de aldeias, de um reino e de um grupo que falava a mesma língua, tinha os mesmos costumes e adorava os mesmos deuses. Eram, ainda que pudessem ignorar estes nomes – que muitas vezes lhes eram dados por vizinhos ou adversários –, mandingas,

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Editora AGIR

a) Não; os africanos não se reconheciam como africanos. Eles se viam como membros de um determinado povo (iorubá, ibo, daomeano ou congo), uma determinada comunidade, linhagem, grupo linguístico ou reino; e assim sendo eles escravizavam seus adversários ou os estranhos. Professor: os africanos passaram a adquirir consciência de sua africanidade durante as lutas pela independência de seus países, ou seja, durante o processo de sua emancipação política frente aos Estados europeus.

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Fac-símile da capa do livro A África explicada aos meus filhos, de Alberto da Costa e Silva.

fulas, bijagós, axantes, daomeanos, vilis, iacas, caçanjes, lundas, niamuézis, macuas, xonas – e escravizavam os inimigos e os estranhos. Quando um chefe efique de Velho Calabar vendia a um navio europeu um grupo de cativos ibos, não estava vendendo africanos nem negros, mas ibos, uma gente que, por ser considerada por ele inimiga e bárbara, podia ser escravizada. E quando negociava um efique condenado por crime, vendia quem, por força da sentença, deixara de pertencer ao grupo. O comércio transatlântico de escravos era controlado pelos grandes da terra, pelos poderosos da Europa, da África e das Américas. Fazia parte de um processo de integração econômica do Atlântico, que envolvia a produção e a comercialização, em grande escala, de açúcar, algodão, tabaco, café e outros bens tropicais, um processo no qual a Europa entrava com o capital, as Américas com a terra e a África com o trabalho, isto é, com a mão de obra cativa. SILVA, Alberto da Costa e. A África explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2012. p. 88-89.

a) Com base no texto é correto afirmar que “africanos” escravizavam “africanos” para b) Ele o insere no processo de integração vendê-los como escravos? Justifique. econômica do Atlântico Sul, que envolvia a b) Em que contexto o autor insere o tráfico atlântico?

produção e a venda de gêneros tropicais, como açúcar, algodão e café, além de crianças, homens e mulheres escravizados.

c) Interprete: o comércio transatlântico era controlado pelos “grandes da terra”.

O início da roedura Dica! Vídeo sobre a história dos africanos e seus descendentes. [Duração: 12 minutos]. Acesse: <http://tub. im/j54vfn>.

c) O autor está se referindo aos grupos com riqueza e poder, a exemplo dos comerciantes de escravos da Europa, do Rio de Janeiro e de Salvador ou os chefes de linhagens africanas, que se envolviam em guerras para obter e vender os adversários.

Na África, a dinâmica e a intensidade da escravidão mudaram radicalmente depois da chegada dos europeus ao litoral africano. Em 1443, os portugueses ergueram uma feitoria em Arguim, na costa ocidental, que funcionou como um ponto de comércio de africanos escravizados. Posteriormente, foram erguidos outros entrepostos de escravizados perto dos rios Senegal e Gâmbia (1456), e em São Jorge da Mina (1482), no Golfo da Guiné.

Guerra e escravidão Inicialmente, europeus armados obtinham escravos no litoral da África por meio do sequestro. Mas logo a captura e a venda de africanos passaram a ser um negócio grande e rentável, envolvendo europeus, americanos e africanos e as duas margens do oceano Atlântico. Entenda o seu funcionamento acompanhando o roteiro:

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» Passo 1: traficantes europeus ou americanos forneciam manufaturados europeus (armas de fogo, pólvora) ou americanos (tabaco e aguardente) a chefes africanos. Em troca, exigiam prisioneiros de guerra. » Passo 2: de posse de armas/pólvora, os chefes africanos provocavam guerras a fim de ampliar seu poder e obter mais prisioneiros. » Passo 3: os novos prisioneiros eram trocados por mais armas/pólvora trazidas pelos traficantes, as quais alimentavam novas guerras. Os prisioneiros de guerra serviam como moeda de troca para os chefes africanos e como mercadoria para os traficantes. Por várias vezes, a Coroa portuguesa interveio militarmente em disputas e conflitos entre africanos para manter no governo autoridades africanas coniventes com o tráfico e a escravidão; tanto no Reino do Ndongo (Angola) quanto no Reino do Congo, os portugueses auxiliaram na imposição de monarcas dóceis ligados aos interesses do tráfico atlântico. Conforme os europeus foram dominando a América, a partir do século XVI, a demanda por escravos cresceu muito. Diante disso, europeus, americanos (inclusive brasileiros) e africanos organizaram dos dois lados do oceano um enorme e lucrativo empreendimento envolvendo a obtenção, o transporte e o comércio de africanos pelo Atlântico. Com o tráfico atlântico teve início o processo de roedura do continente africano.

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Portos de embarque de africanos (séculos XVI a XIX)

Fonte: SOUZA, Marina de Mello e. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2007. p. 86.

Tráfico atlântico:

nome dado ao comércio de homens e mulheres pelo Atlântico entre os séculos XVI e XIX.

Processo de roedura:

expressão de Joseph Ki-Zerbo, professor de metodologia da História da África, para caracterizar a penetração e a exploração colonialista na África.

Boa parte dos povos africanos entrados no Brasil saiu dos portos de Benguela, Luanda e Cabinda, no Centro-Oeste da África. Outra parte saiu da África ocidental, pelos portos de Lagos, Ajudá e São Jorge da Mina. E um número menor, pelo porto de Moçambique, no sudeste africano. Os africanos trazidos do Congo, do Ndongo (Angola) e de Moçambique eram de origem banto e desembarcaram principalmente em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Da África ocidental, entre a Nigéria e o Senegal atuais, saíram os sudaneses, entre os quais se destacam os iorubás, entrados no Brasil por Salvador e conhecidos como “nagôs”, na Bahia, e os jejes, que desembarcaram nas costas do Maranhão.

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A travessia

Ilustração mostrando como os escravizados viajavam: amontoados em porões e com poucas condições de sobrevivência. Até o Rio de Janeiro, as viagens duravam cerca de 45 dias a partir da Costa da Mina; de 33 a 40 dias a partir da região congo-angolana; cerca de 75 dias a partir de Moçambique.

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Robert Walsh e T. Kelly. 1830. Litogravura. Coleção particular

Aglomerados nas feitorias em barracões de madeira ou pedra, os escravizados aguardavam a chegada dos navios negreiros, que só partiam depois de completada a carga, para garantir a lucratividade da viagem. Amontoados em seus porões, eram mal alimentados e tinham de respirar um ar viciado que favorecia a ocorrência de doenças e o contágio. A sede também era comum nesses navios, que carregavam poucas pipas de água para não ocupar espaço e evitar excesso de peso.

Essas péssimas condições de viagem ocasionavam mortes por inanição e desidratação. Mesmo assim, os lucros dos traficantes eram altos. Chegando às costas brasileiras, os escravos eram examinados, avaliados e negociados. Um adulto do sexo masculino valia o dobro de um do sexo feminino e três vezes mais que uma criança ou um idoso.

A dança dos números Com base em pesquisa rigorosa, os historiadores estadunidenses Hebert Klein, da Universidade de Columbia, e David Eltis, da Universidade Emory, afirmam que cerca de 12,5 milhões de africanos deixaram a costa da África rumo à América entre 1500 e 1867. Destes, 4,9 milhões desembarcaram no Brasil. Segundo esses especialistas, as regiões de origem dos quase 5 milhões de africanos desembarcados no Brasil eram três: » A África ocidental – região que vai do Senegal à Nigéria atuais que forneceu 10% do total de africanos entrados no Brasil. » O Centro-Oeste africano – onde estava situada a colônia portuguesa de Angola, 73% desse total. » O Sudeste africano – onde estava situada a colônia portuguesa de Moçambique, 17% restantes. Mas com o auxílio de geneticistas, esses historiadores estão revendo seus dados. Analisando o material genético compartilhado por brasileiros e africanos, os geneticistas Sérgio Danilo Pena (UFMG) e

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Christian Knepper/Opção Brasil Imagens

Marco Antônio Sá/Pulsar Imagens

Maria Cátira Bortolini (UFRGS) descobriram que a proporção de africanos oriundos da África ocidental pode ter sido de duas a quatro vezes maior que o contabilizado até o momento. Pena e sua equipe analisaram amostras de sangue de 120 paulistas que se autoclassificaram como negros e descobriram que, quatro de cada dez deles, apresentavam material genético típico da África ocidental. Maria Cátira e Tábita Hünemeier (UFRGS), por sua vez, analisaram 94 negros cariocas; desses, 31% eram originários da África ocidental, sendo que a maioria, como já se sabia, veio mesmo do Centro-Oeste, região congo-angolana. Essa é também a região de origem da maioria dos 107 negros gaúchos analisados por elas; apenas 18% deles eram da África ocidental. Independentemente da sua região de origem, esses milhões de africanos que aqui chegaram trouxeram, além de sua força de trabalho, suas ricas culturas e seus modos de viver e de expressar sentimentos.

Antonio Queiros/A Tarde/Futura Press

Manifestação da cultura banto: Grupo Jongo de Piquete – dança de roda de origem africana com acompanhamento de tambores e solista. Piquete (SP), 2007.

Tambor de Crioula, manifestação da cultura jeje no Maranhão, 2008.

Manifestação da cultura de origem iorubá, em 2003: dançarinas do Ilê Aiyê, bloco afro que nasceu no Curuzu, no bairro da Liberdade, em Salvador (BA). O Ilê Aiyê preserva e recria importantes elementos da cultura iorubá e desenvolve um trabalho social reconhecido nacionalmente.

Dica! Vídeo que aborda a história do comércio de seres humanos sendo contada através das vozes de escravizados. [Duração: 34 minutos]. Acesse: <http://tub.im/95qvmz>.

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O trabalho escravo

Vendedoras ambulantes, aquarela de J. C. Guillobel, c. 1814.

A escravidão existiu em todo o território colonial e os escravizados trabalhavam nas mais diferentes ocupações. No engenho eram eles que realizavam a maioria das tarefas, desde semear a cana até controlar a qualidade do açúcar. Na época do plantio, os escravos trabalhavam geralmente das 5 da manhã às 6 da tarde; na época da safra (corte e beneficiamento da cana) chegavam a trabalhar 18 horas por dia. A mulher ajudava o homem no cultivo da terra, na colheita e no transporte da cana; além disso, fazia serviços domésticos, cuidava dos doentes, realizava partos e servia como ama de leite. Nas cidades, homens e mulheres vendiam os mais diversos tipos de mercadoria: quitutes, cestos, lenha. Muitas delas eram originárias de regiões da África com grande número de comerciantes do sexo feminino. Obtido mediante coação, o trabalho escravo incluía, por vezes, as manhãs dos domingos e feriados, usadas para serviços gerais, como reparo de edificações e conserto de cercas e estradas. No Brasil, a intensa utilização de escravos levou a uma inversão de valores: o trabalho passou a ser visto pelas pessoas livres como desonroso; como coisa de escravo.

J. C. Guillobel. 1812-1816. Aquarela. Acervo Coleção Geyer, Museu Imperial

Para saber mais Alimentação A comida servida aos escravos era, geralmente, escassa e pobre em proteínas. Recebiam diariamente uma cuia de feijão com gordura ou toucinho e uma porção de farinha de mandioca ou de milho; e só raramente rapadura e charque. Quase não tinham acesso a frutas, apesar de ser um alimento abundante em boa parte do território colonial. Havia propriedades, no entanto, em que os escravizados cultivavam seus próprios alimentos e, até mesmo, negociavam as sobras. Dessa maneira, o proprietário economizava na alimentação e diminuía as tensões entre ele e seus cativos. O excesso de trabalho, somado a uma alimentação precária e aos maus-tratos, acarretava sérios problemas de saúde como anemias, diabetes, hipertensão e envelhecimento precoce.

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A violência Onde houve escravidão, houve violência. Os castigos aplicados eram muitos e variados; incluíam os rotineiros, como a palmatória, até os mais especializados, como a máscara de flandres. Outros tipos de violência impostos ao escravo, como os xingamentos e a repressão às suas manifestações religiosas e às suas festas, certamente contribuíram para o alto índice de mortalidade e a baixa expectativa de vida verificados entre os cativos.

A resistência O trabalho estafante, a violência física e psicológica, a liberdade negada quando os escravizados conseguiam juntar dinheiro para comprá-la, tudo isso provocou respostas. Eles reagiam fisicamente fazendo “corpo mole” no trabalho, quebrando ferramentas, incendiando plantações, agredindo feitores e senhores. Chegaram, inclusive, a praticar o suicídio. Os escravizados resistiram também, culturalmente, fundando irmandades, praticando religiões de matriz afro e a capoeira ou promovendo festejos como o congado.

Dica! Documentário sobre a memória dos descendentes de escravos no Brasil. [Duração: 8 minutos]. Acesse: <http://tub. im/2g8kac>.

Irmandades:

associações organizadas por leigos e sediadas em igrejas católicas; para que uma irmandade funcionasse, era necessário que fosse acolhida por uma igreja e tivesse seus estatutos aprovados por uma autoridade eclesiástica.

Bertrand Gardel/Hemis/Alamy/Glow Images

Demonstração de capoeira em praia de Salvador (BA), 2005. A capoeira, uma manifestação cultural em que os jogadores dançam e lutam ao mesmo tempo, foi um meio de resistência dos negros escravizados. Nela, a malícia é mais importante do que a força física. Na capoeira, mandingueiro é aquele que tem maior capacidade de enganar o adversário.

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Ricardo Teles/Pulsar Imagens

Festejo da Assunção de Nossa Senhora, promovido pela Irmandade da Boa Morte, na Bahia, 2010. Essa irmandade é formada exclusivamente por mulheres negras com mais de 40 anos e está estabelecida na cidade de Cachoeira. Estima-se que tenha sido fundada por volta de 1820.

Entre as irmandades criadas pelos negros no tempo da escravidão estão a de São Benedito, a do Rosário dos Pretos e a de Nossa Senhora da Boa Morte, que continua em atividade até hoje. Essa irmandade recebe gente de todo lugar no mês de agosto, quando homenageia Nossa Senhora da Boa Morte, com festejos e rituais que se prolongam por vários dias. No passado, ao mesmo tempo em que cultuavam orixás e santos católicos, as irmandades se empenhavam em arrecadar dinheiro para a compra de alforrias.

Os escravizados reagiam também coletivamente, fugindo e formando quilombos. 1

Os quilombos

1. Dica! Trailer do filme Besouro, de João Daniel Tikhomiroff. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http://tub. im/tsi26c>. 2. Dica! Vídeo sobre a dominação e a resistência dos escravizados. [Duração: 14 minutos]. Acesse: <http://tub. im/wz3qkp>. 3. Dica! Vídeo sobre a história do Quilombo dos Palmares. [Duração: 7 minutos]. Acesse: <http://tub. im/6vffod>.

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Os quilombos não foram um fenômeno isolado; proliferaram por toda a América escravista. Na América espanhola, receberam o nome de palenques; na inglesa, maroons; na francesa, grand marronage; na América portuguesa, quilombos ou mocambos. Situados, geralmente, em lugares de difícil acesso, os mocambos mantinham relações ambíguas com a sociedade: às vezes faziam comércio com ela; outras vezes, negavam-se a realizar qualquer tipo de contato. Existiram muitos quilombos pelo Brasil todo. A maioria deles é ainda pouco conhecida. O historiador Carlos Magno definiu quilombo como “negação da ordem escravista”. Daí o enorme empenho das autoridades coloniais em combatê-lo permanentemente. 2

O Quilombo dos Palmares Palmares é considerado o maior, mais importante e mais duradouro quilombo da América colonial: durou cerca de 100 anos (1597-1694). Ele nasceu de escravizados fugidos de engenhos nordestinos que se estabeleceram na Zona da Mata, cerca de 70 quilômetros do litoral, entre o fim do século XVI e início do XVII; a região pertence atualmente ao estado de Alagoas. 3

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Principais sítios palmarinos (século XVII) No mapa, vê-se representado o mocambo de Macaco, capital do Quilombo dos Palmares.

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OCEANO ATLÂNTICO 10° S

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Fonte: REIS, João José; SANTOS, Flávio. Liberdade por um fio. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 30.

Uma pesquisa importante sobre Palmares é a da professora Yeda Pessoa de Castro, para quem a maioria dos negros palmarinos era de origem banto. Leia o que ela diz: [...] os empréstimos léxicos africanos no português do Brasil, associados ao regime de escravatura, são em geral étimos bantos (quilombo, senzala, mucama, por exemplo); depois Zumbi, Ganga-Zumba, nomes dos líderes de Palmares, são títulos tradicionalmente atribuídos a chefes locais no domínio banto. CASTRO, Yeda Pessoa de. In: MOURA, Clóvis. Quilombos: resistência ao escravismo. 2. ed. São Paulo: Ática, 1989. p. 45. (Série Princípios).

A população palmarina aumentou consideravelmente com as invasões holandesas no Nordeste (1624-1654), durante as quais muitos aproveitaram para fugir da escravidão. Segundo João José Reis, nesse período Palmares chegou a ter 15 mil habitantes. Lá havia casas, ruas, capelas, paliçadas e grandes construções reservadas às autoridades. Os palmarinos praticavam a policultura, possuíam oficinas e fundições e, além de ferramentas, produziam também peças de cerâmica e de madeira. Geralmente, a produção de cada povoação era distribuída entre seus membros. As sobras eram guardadas para épocas de guerra, má colheita, ou para serem comercializadas nos lugares mais próximos, como Porto Calvo, Serinhaém e Alagoas.

Casa de quilombo no Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas, 2010. Arqueólogos que trabalham na Serra da Barriga descobriram um grande vaso cerâmico, que, segundo o professor Pedro Paulo Funari, pode ter sido feito pelos palmarinos para armazenar comida, conforme costume banto, ou pelos indígenas que habitavam o quilombo.

Maira Vilela/Futura Press

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A guerra Zumbi:

nome derivado de Nzumbi, título banto concedido a um chefe militar e religioso.

Dica! Zumbi, canção de Jorge Ben Jor. Acesse: <http://tub.im/ hpig3y>.

Festa em homenagem ao Dia da Consciência Negra na Escola Municipal Pastor Alcebíades Ferreira de Mendonça, no Quilombo de Sobara, município de Araruama (RJ), 2015. Em primeiro plano, veem-se crianças vestidas com trajes que lembram os de alguns povos africanos e um cartaz com a figura de Zumbi. Em 1978, os diversos movimentos negros do país proclamaram o 20 de novembro – dia da morte de Zumbi – como o Dia Nacional da Consciência Negra. A data serve como reflexão a respeito do racismo à brasileira e das possíveis soluções para esse problema nacional.

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Os senhores de engenho e as autoridades locais consideravam Palmares um “sério perigo” e enviaram diversas expedições contra o quilombo. A maioria dessas expedições foi rechaçada pelos palmarinos. Em uma delas, a de 1675, o sobrinho do rei de Palmares Ganga-Zumba – um jovem guerreiro chamado Zumbi – demonstrou pela primeira vez sua capacidade de liderança e disposição de luta, e pouco tempo depois foi proclamado rei de Palmares. Diante do fracasso repetido das expedições enviadas contra Palmares, as autoridades contrataram o bandeirante Domingos Jorge Velho, conhecido caçador de indígenas, para comandar a destruição do grande quilombo. Em troca, Jorge Velho exigiu prisioneiros de guerra, tecidos, dinheiro e o perdão pelos crimes que havia cometido. Esse tipo de negócio entre bandeirantes e poderosos era chamado de sertanismo de contrato. Em fevereiro de 1694, depois de 42 dias de cerco, os mercenários conseguiram romper com balas de canhão a muralha de madeira que protegia a capital. Macaco foi incendiada, muitos quilombolas morreram sob o fogo cerrado do inimigo, alguns se lançaram de precipícios e 500 foram capturados e vendidos. Zumbi conseguiu escapar com outros quilombolas e resistiu por vários meses. Mas, no dia 20 de novembro de 1695, traído por um homem de sua confiança, foi capturado e executado; sua cabeça foi exposta em local público para lembrar a punição reservada aos que ousassem desafiar o poder escravista e monárquico. Cesar Diniz/Pulsar Imagens

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Acima, loja de artesanato do Povoado Engenho II, na comunidade quilombola Kalunga, em Cavalcante (GO), 2015. Abaixo, crianças brincam com bola de pano no Quilombo Soledade, em Caxias (MA), 2014. Cesar Diniz/Pulsar Imagens

Para muitos, os quilombos só existem nos livros de História. Mas a realidade é outra. Atualmente, por todo o território nacional, existem comunidades formadas predominantemente por descendentes de escravos, conhecidas como remanescentes de quilombos. As terras dessas comunidades foram obtidas como herança de quilombolas, por meio da compra efetuada por ex-escravos, da doação de um senhor (em vida ou por testamento), ou como prêmio por serviços prestados em lutas oficiais (como a Guerra do Paraguai). Essas terras, chamadas tradicionalmente de “terras de pretos”, são denominadas hoje de remanescentes de quilombos. Estima-se que a população total dessas comunidades seja de 80 mil pessoas; em algumas delas, a língua falada conserva termos africanos. Em 1988, diante da pressão dos movimentos negros brasileiros e das comemorações pelo centenário da Abolição, o artigo 68 da Constituição brasileira reconheceu a propriedade definitiva das terras ocupadas por comunidades quilombolas afirmando:

João Prudente/Pulsar Imagens

Remanescentes de quilombos

Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm>. Acesso em: 11 mar. 2016.

No entanto, apesar da existência da lei, poucos remanescentes de quilombos receberam títulos de propriedade do Estado brasileiro. E hoje lutam para conseguir documentos que comprovem sua ascendência escrava e seu direito hereditário à terra. Em sua luta, porém, têm enfrentado vários obstáculos, como a cobiça de fazendeiros e grileiros por suas propriedades, a lentidão da Justiça brasileira e a carência de recursos e de acesso a profissionais competentes para representá-los juridi1e2 camente.

1. Dica! Reportagem abordando os ecos da escravidão no Brasil. [Duração: 54 minutos]. Acesse: <http://tub.im/28b5zt>. 2. Dica! Documentário sobre os cinco quilombos remanescentes no Brasil. [Duração: 19 minutos]. Acesse: <http://tub.im/92ek7s>.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (Fuvest-SP – 2014) O tráfico de escravos africanos para o Brasil a) teve início no final do século XVII, quando as primeiras jazidas de ouro foram descobertas nas Minas Gerais. b) foi pouco expressivo no século XVII, ao contrário do que ocorreu nos séculos XVI e XVIII, e foi extinto, de vez, no início do século XIX. c) teve início na metade do século XVI, e foi praticado, de forma regular, até a metade do século XIX. 1. Resposta: c. d) foi extinto, quando da Independência do Brasil, a despeito da pressão contrária das regiões auríferas. e) dependeu, desde o seu início, diretamente do bom sucesso das capitanias hereditárias, e, por isso, esteve concentrado nas capitanias de Pernambuco e de São Vicente, até o século XVIII. 2. (Olimpíadas da Unicamp-SP) A revista Ciência Hoje publicou a seguinte notícia:

O Brasil no Atlântico Sul O historiador Luis Felipe de Alencastro defende que, nos séculos XVI e XVII, o Brasil foi um polo de produção escravista dependente e organicamente ligado a Angola, um outro polo produtor de mão de obra escrava para a agricultura brasileira. A formação do Brasil, portanto, seria um resultado da relação entre esses dois países. “A nossa História não está restrita ao nosso território”, afirma o autor. Tendo o Atlântico Sul como ligação, a trajetória do Brasil dos séculos XVI e XVII está intimamente ligada à de Angola. Com uma ocupação portuguesa efetiva, esse país teve

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seus reinos independentes dizimados e limitou-se a desenvolver uma economia complementar à brasileira. A prioridade era o fornecimento de escravos para o mercado brasileiro, e atividades que pudessem concorrer com a agroindústria exportadora do Brasil não eram incentivadas. Sob esse aspecto, Alencastro sustenta que o Brasil, tradicionalmente visto como um país explorado, também explorou. “Angola foi pilhada pelos brasileiros, ou pelos colonos deste enclave lusitano”, afirma o historiador. Isso ocorreu por meio de guerras com o intuito de aumentar o tráfico de escravos.

Baseado nesta reportagem, pode-se pensar sobre o Brasil colônia: 2. Resposta: a.

a) o Atlântico sul relacionava a América e a África, logo a formação do Brasil não se restringiu apenas ao binômio Brasil-Portugal. b) o tráfico de escravos foi um negócio formador do território brasileiro. c) Angola foi explorada e colonizada por brasileiros. d) o trabalho compulsório no Brasil colônia foi formado pelo tráfico de escravos africanos e também por “negros da terra”. 3. (Fuvest-SP – 2015) Uma observação comparada dos regimes de trabalho adotados nas Américas de colonização ibérica permite afirmar corretamente que, entre os séculos XVI e XVIII, a) a servidão foi dominante em todo o mundo português, enquanto, no espanhol, a mão de obra principal foi assalariada. b) a liberdade foi conseguida plenamente pelas populações indígenas da América espanhola e da América portuguesa, enquanto a dos escravos africanos jamais o foi. c) a escravidão de origem africana, embora presente em várias regiões da América espanhola, esteve mais generalizada na América portuguesa. 3. Resposta: c.

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d) não houve escravidão africana nos territórios espanhóis, pois estes dispunham de farta oferta de mão de obra indígena. e) o Brasil forneceu escravos africanos aos territórios espanhóis, que, em contrapartida, traficavam escravos indígenas para o Brasil.

religião. Há razões para pensar que os africanos, quando misturados e transportados ao Brasil, não demoraram em perceber a existência entre si de elos culturais mais profundos. (SLENES, R. Malungu, ngoma vem! África coberta e descoberta do Brasil. Revista USP, n. 12, dez./jan./fev. 1991-92 – Adaptado).

4. (Enem/MEC – 2013) A recuperação da herança cultural africana deve levar em conta o que é próprio do processo cultural: seu movimento, pluralidade e complexidade. Não se trata, portanto, do resgate ingênuo do passado nem do seu cultivo nostálgico, mas de procurar perceber o próprio rosto cultural brasileiro. O que se quer é captar seu movimento para melhor compreendê-lo historicamente. MINAS GERAIS. Cadernos do Arquivo 1: Escravidão em Minas Gerais. Belo Horizonte: Arquivo Público Mineiro, 1988.

Com base no texto, a análise de manifestações culturais de origem africana, como a capoeira ou o candomblé, deve considerar que elas a) permanecem como reprodução dos valores e costumes africanos. b) perderam a relação com o seu passado histórico.

4. Resposta: c.

c) derivam da interação entre valores africanos e a experiência histórica brasileira.

d) contribuem para o distanciamento cultural entre negros e brancos no Brasil atual. e) demonstram a maior complexidade cultural dos africanos em relação aos europeus.

5. (Enem/MEC) Torna-se claro que quem descobriu a África no Brasil, muito antes dos europeus, foram os próprios africanos trazidos como escravos. E esta descoberta não se restringia apenas ao reino linguístico, estendia-se também a outras áreas culturais, inclusive à da

Com base no texto, ao favorecer o contato de indivíduos de diferentes partes da África, a experiência da escravidão no Brasil tornou possível a a) formação de uma identidade afro-brasileira. 5. Resposta: a.

cultural

b) superação de aspectos culturais africanos por antigas tradições europeias. c) reprodução de conflitos entre grupos étnicos africanos. d) manutenção das características culturais específicas de cada etnia. e) resistência à incorporação de elementos culturais indígenas. 6. (Fuvest-SP) No Brasil, os escravos: 1. trabalhavam tanto no campo quanto na cidade, em atividades econômicas variadas; 2. sofriam castigos físicos, em praça pública, determinados por seus senhores; 3. resistiam de diversas formas, seja praticando o suicídio, seja organizando rebeliões; 4. tinham a mesma cultura e religião, já que eram todos provenientes de Angola; 5. estavam proibidos pela legislação de efetuar pagamento por sua alforria. Das afirmações acima, são verdadeiras apenas: a) 1, 2 e 4; b) 3, 4 e 5; c) 1, 3 e 5; d) 1, 2 e 3;

6. Resposta: d.

e) 2, 3 e 5. CAPÍTULO 4 | AFRICANOS NO BRASIL: DOMINAÇÃO E RESISTÊNCIA

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II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PASSADO Observe as fontes 1 e 2 e responda.

› Fonte 1 Mahommah Gardo Baquaqua. Séc. XIX. Coleção particular

O trecho a seguir foi escrito por Mahommah Gardo Baquaqua, um africano nascido onde hoje é o Benin e trazido para Pernambuco como escravo, em 1847. Depois de conseguir a liberdade, ele escreveu um livro do qual retiramos o trecho a seguir: Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de um lado, e as mulheres de outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar de pé, éramos obrigados a nos agachar ou nos sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos. Comida e bebida eram escassos na viagem, havendo dias em que os escravos não ingeriam absolutamente nada. Houve um pobre companheiro que ficou tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca do homem que nos trazia água. Foi levado ao convés, e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que tenha sido jogado ao mar. Livro escrito por Mahommah Gardo Baquaqua.

VIEIRA, Leonardo. Historiadores traduzem única autobiografia escrita por ex-excravo que viveu no Brasil. O Globo, Rio de Janeiro, 27 nov. 2014. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/ historiadores-traduzem-unica-autobiografia-escrita-por-ex-escravo-que -viveu-no-brasil-14671795#ixzz3Kja8UxlC>. Acesso em: 11 mar. 2016.

› Fonte 2 Observe com atenção o desenho de um navio de 1830 especializado no tráfico de escravos reproduzido na página 82.

a) Qual é o assunto do texto? b) Segundo o autor, como era o tratamento dispensado aos escravizados no navio negreiro? c) Reflita e opine: o fato de o autor ter viajado em um navio negreiro como escravo torna o seu relato mais confiável? Justifique. d) Agora observe a imagem (fonte 2) com atenção; ela reforça ou nega a descrição feita por Baquaqua na fonte 1? Justifique.

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III. Integrando com Língua Portuguesa Os provérbios a seguir são africanos (região do Golfo da Guiné) e foram recolhidos pelo escritor, pesquisador e compositor Nei Lopes, um dos maiores conhecedores das culturas e das histórias da África e dos afro-brasileiros. Leia-os com atenção. 1. A chuva lava a pele do leopardo, mas não remove as pintas. [...] 2. Uma mentira [...] estraga mil verdades. [...] 3. Se a floresta te abriga, não a chame de “selva”. 4. A fome tanto dá no escravo quanto no rei. [...] 5. A ruína de uma nação começa nas casas do seu povo. [...] 6. O ódio é uma doença sem remédio. [...] 7. O rio de águas tranquilas, esse é que é mais perigoso. [...] 8. O dinheiro é traiçoeiro feito espada de dois gumes. [...] 9. Quem fala sem parar fala besteira. [...] 10. Chuva fina, mas constante, faz o rio transbordar. [...] 11. Quem vai nos ombros dos outros não sente a longa distância. [...] 12. Não saber é ruim; não querer saber é pior. [...] 13. Tentar e falhar não é preguiça. LOPES, Nei. Kitábu: O livro do saber e do espírito negro-africanos. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2005. p. 187-190.

a) Encontre no dicionário o significado do termo provérbio e verifique em que sentido ele se aplica ao provérbio número 9. b) Os provérbios são transmitidos, geralmente, de boca a boca e integram o conjunto de saberes de um povo. Reflita e opine sobre o provérbio de número 6. c) Em dupla. O provérbio de número 5 relaciona a situação de uma nação às condições do povo que nela vive. Vocês consideram essa relação pertinente? Justifique sua resposta com base nos seus conhecimentos de História. d) Interprete o provérbio de número 11 e justifique a sua interpretação. e) Em grupo. Parte do que sabemos deve-se ao que aprendemos com os mais velhos. Registrem por escrito os contos, adivinhas, receitas e provérbios que vocês aprenderam com eles; postem o resultado do trabalho no blog da turma. f) Em dupla. A música do compositor e cantor cearense Antonio Belchior, Como os nossos pais, se tornou famosa na voz de Elis Regina. Pesquisem a letra dessa canção e respondam: até que ponto vocês agem de modo diferente do de seus pais, e até que ponto agem como eles? CAPÍTULO 4 | AFRICANOS NO BRASIL: DOMINAÇÃO E RESISTÊNCIA

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Professor: o autor das cartas chama de “louco chefe” o governador das Minas, Luís da Cunha Menezes, o “Fanfarrão Minésio”. Nesta sua obra, Gonzaga critica a exploração e o sofrimento dos presos utilizados na construção da cadeia (hoje abrigando o Museu da Inconfidência de Ouro Preto) vista na fotografia à esquerda. Note que o autor considera a construção inteiramente dispensável em sua magnitude, com mão de obra constituída por prisioneiros sem culpa formada e forçados

Capítulo 5

Expansão e ouro na América portuguesa

a trabalhar a mando do despótico governador. Por terem sido feitos com base na vivência do autor e conjurado Tomás Antônio Gonzaga, esses versos podem ajudar o alunado a formar uma ideia do viver mineiro no século XVIII.

O trecho a seguir foi extraído de Cartas chilenas, obra que apresenta três personagens principais: Critilo, pseudônimo de Tomás Antônio Gonzaga, o autor da obra; Doroteu, pseudônimo do escritor Cláudio Manuel da Costa, o destinatário da carta; e o fictício governador chileno Fanfarrão Minésio, pseudônimo de Luís da Cunha Menezes, que governou Minas Gerais de 1783 a 1788. Leia-o com atenção. Rubens Chaves/Pulsar Imagens

Ora pois, louco chefe, vai seguindo a tua pretensão, trabalha embora por fazer imortal a tua fama: levanta um edifício em tudo grande, um soberbo edifício, que desperte a dura emulação na própria Roma. Em cima das janelas e das portas põe sábias inscrições, põe grandes bustos, que eu lhe porei, por baixo, os tristes nomes dos pobres inocentes que gemeram ao peso dos grilhões, porei os ossos daqueles que os seus dias acabaram, sem Cristo e sem remédios, no trabalho. [...] RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos. História de Minas Gerais: as Minas setecentistas. Belo Horizonte: Autêntica/Companhia do Tempo, 2007. v. 2, p. 331.

Emulação:

competição, disputa, concorrência.

Grilhões:

argolas de ferro ligadas entre si e usadas para prender a vítima.

Museu da Inconfidência, no alto da fotografia, inaugurado em 1944 na antiga Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica. Ouro Preto (MG), 2007.

» Interprete: a quem o autor das Cartas chilenas se refere quando diz: “louco

chefe”? O que ele critica nesse trecho? » A obra diz respeito à vida em Ouro Preto colonial; o que ela desvela sobre a

sociedade do ouro no século XVIII? O que você sabe sobre aqueles tempos?

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Até o fim do século XVI, a colonização portuguesa da América restringiu-se ao litoral, seja pela dificuldade de se avançar pelo interior (febres, animais peçonhentos, mata fechada), seja pela resistência que os povos indígenas ofereciam à ocupação de suas terras. Nos séculos seguintes, porém, a colonização portuguesa ganhou o sertão e outros pontos do litoral. Esse grande movimento colonizador está associado à ação dos soldados, dos jesuítas, dos bandeirantes e dos criadores de gado.

Os soldados

Rubens Chaves/Pulsar Imagens

Desde o início do século XVI, piratas e corsários europeus assaltavam a costa da América, em busca de riquezas. Com a União das Coroas Ibéricas, a partir de 1580, a pirataria no litoral brasileiro se intensificou, pois, estando sob domínio espanhol, o Brasil passou a atrair também os inimigos da Espanha. O governo luso-espanhol, por sua vez, reagia enviando expedições e erguendo fortes em pontos estratégicos do território colonial. Conheça os principais fortes: » Forte de Filipeia de Nossa Senhora das Neves (agosto de 1585), em torno do qual se formou um povoado que deu origem à atual cidade de João Pessoa, capital da Paraíba. » Forte dos Reis Magos (1598), localizado em uma posição que possibilitava observar o mar, o rio Potengi e as matas vizinhas. Erguido sobre arrecifes para firmar a construção, o forte está na origem da cidade de Natal, fundada dois anos depois. Vista aérea do Forte dos Reis Magos, em Natal (RN), 2014.

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» Forte de São Luís (1612), que está na origem da cidade de São Luís, capital do Maranhão. O forte foi fundado por calvinistas franceses que, interessados no açúcar nordestino, tentavam estabelecer aqui uma colônia comercial (a França Equinocial). Para essa empreitada, eles tiveram o apoio do rei da França e contaram com o auxílio dos Tupinambá, inimigos dos portugueses. A França Equinocial, no entanto, durou pouco tempo; três anos depois, forças luso-espanholas já tinham conseguido expulsar os franceses do Maranhão.

David Ferreira/ Futura Press

Em primeiro plano vemos os muros do forte em torno do qual se formou a cidade de São Luís; ao fundo, o Palácio dos Leões, sede do governo do Estado do Maranhão, 2014.

» A origem da cidade de Fortaleza, capital do Ceará, é alvo de debate entre os historiadores. Para uns, ela teria nascido em torno do Forte de São Tiago, fundado em 1604, na Barra do Ceará. Para outros, sua origem é o Forte de Schoonenborch, fundado pelos holandeses em 1649. Quando os holandeses foram expulsos do Nordeste, os luso-brasileiros mudaram o nome do forte para Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção. Daí o nome de Fortaleza. » Forte do Presépio de Santa Maria de Belém (1616), localizado na Baía do Guajará. Ele deveria proteger o pequeno povoado português, a Feliz Lusitânia, que deu origem à cidade de Belém, capital do Pará. Desde cedo, Belém comandou uma ampla rede que deveria se estender para o interior, controlando todo o movimento de entrada e saída de produtos da região. » Outro marco decisivo da conquista portuguesa da Amazônia foi o Forte de São José do Rio Negro, que começou a ser construído em 1669 e deu origem à cidade de Manaus, capital do Amazonas. O nome Manaus é uma referência aos indígenas Manaó, habitantes do local.

Os jesuítas Os jesuítas vieram dispostos a difundir o cristianismo nas terras americanas, converter indígenas e integrá-los à civilização ocidental; para isso atravessaram o oceano Atlântico. Inicialmente, concentraram-se no litoral, onde fundaram colégios nas principais vilas e cidades brasileiras. Mas, conforme os indígenas foram sendo vencidos no litoral e se refugiaram no sertão, os jesuítas também se deslocaram para lá com suas missões. As principais se localizavam no interior da Amazônia e da região sul, áreas densamente povoadas por populações indígenas.

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Área de apresamento de indígenas Missões portuguesas Missões espanholas Grande bandeira de Antônio Raposo Tavares

Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 24.

Nas missões, os jesuítas e os indígenas se comunicavam pela língua geral baseada no tupi. Os indígenas realizavam trabalhos na agricultura, no artesanato e na pecuária. Cultivavam cereais, frutas, erva-mate; extraíam drogas do sertão como cacau, baunilha, guaraná, plantas medicinais, madeiras e óleos; e produziam mobílias, objetos de couro e esculturas em madeira. Muitos desses produtos eram exportados para a Europa com grande lucro, o que permitiu aos jesuítas acumularem grande patrimônio. Por serem contrários à escravidão do indígena, os soldados de Cristo entraram em atrito com os colonos em vários pontos do território; no Maranhão esse atrito foi a principal razão da Revolta de Beckman.

Gerson Sobreira/Terrastock

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Escultura em madeira policromada representando Jesus Cristo, trabalho feito por indígenas de São Miguel das Missões (RS). Fotografia de 2010.

Soldados de Cristo:

denominação dada aos jesuítas pelo fato de se pautarem por hierarquia e disciplina rígida que lembra a dos militares.

A Revolta de Beckman Constituído em 1621, o estado do Grão-Pará e Maranhão compreendia, na época, todas as terras situadas entre o Rio Grande do Norte e o Pará. No estado do Grão-Pará e Maranhão, o indígena era a principal força de trabalho na agricultura, no pastoreio, no transporte e na coleta das drogas do sertão: cacau, baunilha, salsaparrilha, castanha-do-pará, guaraná, além de plantas aromáticas e medicinais. O trabalho de extração e transporte dessas riquezas era feito principalmente por indígenas. Em 1680, os jesuítas, liderados pelo padre Antônio Vieira, conseguiram a aprovação, pela Coroa portuguesa, de uma lei proibindo a escravização de indígenas. Contrariados, os colonos reagiram exigindo da Coroa uma solução para o problema da mão de obra. CAPÍTULO 5 | EXPANSÃO E OURO NA AMÉRICA PORTUGUESA

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Dica! Vídeo sobre a Revolta de Beckman. [Duração: 5 minutos]. Acesse: <http://tub. im/n8ggpk>.

Johannes Vingboons. Séc. XVII. Óleo sobre tela. Arquivo Nacional, Holanda

Maranhão, obra do pintor holandês Johannes Vingboons (1616-1670); a obra mostra uma vista de São Luís e foi produzida em 1665.

O governo português, então, concedeu o monopólio do comércio regional à Companhia de Comércio do Maranhão (1682), que, em troca, assumia o compromisso de trazer 10 mil escravos africanos para a região, à razão de 500 por ano, e de vendê-los a preços reduzidos. A Companhia, porém, além de não trazer os africanos para o Maranhão, vendia mercadorias de má qualidade a preços exorbitantes, usava medidas e pesos falsificados e pagava preços baixos pelos produtos que comprava. Em fevereiro de 1684, os colonos maranhenses, liderados por um rico senhor de engenho, Manuel Beckman, destituíram o governador e invadiram o Colégio dos Jesuítas e os armazéns da Companhia de Comércio, ambos localizados em São Luís; o episódio deu início à Revolta de Beckman. Portugal reagiu enviando soldados que sufocaram o movimento e executaram Manuel Beckman. Mas, ao mesmo tempo, atendeu aos interesses dos colonos: extinguiu a Companhia de Comércio do Maranhão e suspendeu a proibição de se escravizar indígenas. Sabendo, no entanto, que essas medidas desagradariam aos jesuítas, o governo português concedeu-lhes garantias legais para continuarem atuando na região.

Os bandeirantes Enquanto na capitania de Pernambuco os engenhos de produção de açúcar progrediam a olhos vistos, na capitania de São Vicente eles vinham declinando. Por isso, boa parte da população vicentina subiu a Serra do Mar e se estabeleceu no planalto paulista. Lá, liderados pelo padre José de Anchieta, inauguraram um colégio e deram início a um povoado, São Paulo do Campo de Piratininga.

São Paulo, capital bandeirante Na passagem do século XVI para o XVII, São Paulo era uma vila relativamente pobre, que produzia para a subsistência e não tinha como importar aquilo de que necessitava. A população era, em sua maioria, formada de mamelucos (mestiço de branco com índio) e assimilara muito da cultura tupi. Os paulistas deslocavam-se a pé ou de canoa (até por volta de 1630, o cavalo ainda não tinha sido introduzido no planalto paulista); andavam descalços; dormiam em redes e falavam

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J. Washt Rodrigues. Séc. XIX. Aquarela. Coleção particular

o tupi, língua predominante na região até o século XVIII. Além disso, cultivavam seus alimentos, costuravam suas roupas e fabricavam seus artefatos de caça e de pesca. Muito do que sabiam aprenderam em contato com os indígenas. Sendo homens rudes, resolveram à sua maneira o problema da falta de mão de obra: desde muito cedo organizaram bandeiras para buscar no sertão um “remédio para seus males”, como se dizia na época.

As bandeiras As bandeiras eram expedições com organização e disciplina militar, que partiam geralmente de São Paulo, a fim de capturar indígenas e encontrar metais preciosos. Essas expedições eram lideradas por jovens paulistas. Eram os pais ou sogros desses jovens que custeavam as bandeiras e forneciam o chumbo e a pólvora, esperando receber, em troca, metade dos indígenas aprisionados.

A caça ao indígena Desde o século XVI, os paulistas aprisionavam indígenas para utilizá-los em suas lavouras. A partir de 1620, porém, com o crescimento das plantações de trigo na região, intensificou-se a procura por mão de obra. Os paulistas organizaram, então, grandes bandeiras em direção ao Sul, onde estavam localizadas as missões – amplos aldeamentos indígenas, relativamente isolados dos núcleos urbanos, administrados pelos padres jesuítas. Nesses aldeamentos, era grande o número de indígenas da nação Guarani – exímios agricultores, e, por isso, muito cobiçados desde o início da colonização. As principais bandeiras de caça ao índio, chefiadas por Manuel Preto e Antônio Raposo Tavares, destruíram em apenas 10 anos (1628-1638) as missões de Guairá (Paraná), Itatim (Mato Grosso do Sul) e Tape (Rio Grande do Sul). Milhares de guaranis foram aprisionados, e o gado se dispersou pelas campinas do Sul. Guairá era uma região de acesso relativamente fácil – distante de São Paulo por volta de 50 dias de viagem. Com a expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro e da África, regularizou-se a importação de trigo português, o que abalou a produção paulista desse cereal. Além disso, os indígenas, munidos de armas de fogo cedidas pelos jesuítas, venceram duas batalhas importantes contra os paulistas: a de Caasapaguaçu (1638) e a Mbororé (1641). Outros povos indígenas como os guaianazes e os guarulhos, habitantes do planalto paulista, também ofereceram dura resistência aos bandeirantes; a força dessas resistências contribuiu para o declínio do bandeirismo de caça ao índio.

Acampamento bandeirante para plantio de roças, aquarela de Ivan Washt Rodrigues. As alianças entre paulistas e índios ajudam a explicar a formação econômica e social do interior da Colônia.

Dica! Vídeo sobre Raposo Tavares, um dos bandeirantes famosos de nossa história. [Duração: 7 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ u7j4mp>.

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Para refletir Renato Soares/Pulsar Imagens

As bandeiras que desbravaram os sertões mineiros estavam interessadas em ouro, pedras preciosas e terra para cultivo de alimentos, como feijão, milho e mandioca. Os povos indígenas da região foram vistos pelos colonos como invasores violentos. Na verdade, Coroado, Puri, Botocudo, Kamakã, Pataxó, Panhame, Maxakali, entre outros, reagiam à escravização e à ocupação de suas terras. Veja o que a historiadora Maria Leônia Chaves de Rezende diz sobre o assunto. Criança Pataxó da aldeia Velha, Caraíva (BA), 2014.

O ouro vermelho de Minas Gerais

Primeiro nome das terras de Minas Gerais, no início do século XVIII, foi Minas dos Cataguases, uma referência ao grupo indígena de procedência Jê que habitava vastas regiões dos sertões. [...] Se a história de Minas é relacionada à busca de riquezas minerais e à Inconfidência Mineira, ela também esteve essencialmente associada aos índios – o “ouro vermelho”, como a eles se referiam os colonizadores. Afinal, a história de Minas é também uma crônica de uma guerra silenciosa e de incontáveis embates entre colonos e índios nos sertões e nas vilas. [...] Durante a segunda metade do século XVIII, dezenas de bandeiras devassaram todo o território, em uma guerra não declarada que afugentou, exterminou, aprisionou e escravizou populações indígenas de diversas procedências étnicas. Criavam-se, assim, condições para a apropriação e a exploração das terras que se tornaram uma das maiores benesses para participantes dessas campanhas. A violência contra os índios não ocorreu apenas no início da corrida do ouro, como imaginaram alguns, mas persistiu ao longo de todo o século XVIII. É verdade que os diversos povos nativos da região – incluindo Coroado, Puri, Botocudo, Kamakã, Pataxó, Maxakali, Caiapó, entre outros – encontraram-se, no fim, em minoria de armas e homens, atacados por doenças e obrigados a se deslocarem continuamente, em face da diminuição da terra e dos recursos naturais. Mesmo assim, eles lutaram tenazmente, sobretudo no caso dos caiapós no oeste e dos botocudos no leste da capitania, em territórios de grande interesse do poder colonial. RESENDE, Maria L. Chaves de; LANFER, Hal. O ouro vermelho de Minas Gerais. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 1, n. 10, p. 58-60, maio/jun. 2006.

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a) O que movia as expedições militares aos sertões de Minas? b) Como os grupos indígenas foram vistos pelos bandeirantes que lideravam essas e pedras preciosas; terra e índios. expedições? a)b) Ouro Os indígenas foram vistos como “invasores”, quando, na verdade, eles reagiam à ocupação de suas terras. c) De que formas essas expedições aos sertões de Minas afetaram os indígenas que lá Muitos deles foram mortos em razão das armas de fogo e das doenças contraídas no contato com os integrantes viviam? c)dessas expedições; além disso, esses grupos perderam a maior parte de seu território. d) Reflita e opine: a contribuição dos povos indígenas foi decisiva para a a formação da sociedade colonial das regiões auríferas? d) Sim. Professor: perseguidos em uma guerra não declarada nos sertões e arraiais, os índios resistiram e contribuíram para a formação das sociedades coloniais do Centro-Oeste brasileiro.

O sertanismo de contrato Nos séculos XVII e XVIII, os bandeirantes também foram contratados por fazendeiros e autoridades para combater índios ou negros rebelados contra a escravidão. Esse tipo de bandeirismo voltado à repressão de revoltas indígenas e quilombos é chamado de sertanismo de contrato. Uma conhecida bandeira de sertanismo de contrato foi a que destruiu o Quilombo dos Palmares, em 1694.

A notícia de que os espanhóis haviam achado prata e ouro em Potosí (atual Bolívia) e Zacatecas (atual México) animou os habitantes do Brasil colonial, que reviraram terras e rios em busca de metais preciosos. O governo português, por sua vez, também incentivou essa busca financiando entradas – expedições que partiam do litoral brasileiro em busca de riquezas no sertão. Mas foi somente no fim do século XVII, depois de várias incursões sertão adentro, que os paulistas encontraram ouro em grandes quantidades. 1 Principais bandeiras As principais bandeiras mineradoras foram três: a de Antônio Arzão, que encontrou ouro em Sabará (Minas Gerais), em 1693; a de Pascoal Moreira Cabral, em Cuiabá (Mato Grosso), em 1719; e a de Bartolomeu Bueno da Silva, em Vila Boa, no atual estado de Goiás, por volta de 1725. 2 OCEANO 50º O

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A busca de ouro e de diamantes

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Bandeiras de busca de ouro e diamantes

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2. Dica! Vídeo sobre os bandeirantes e a busca pelo ouro. [Duração: 28 minutos]. Acesse: <http://tub.im/e3w74f>.

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1. Dica! Vídeo sobre as entradas e bandeiras. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http://tub.im/hknocc>.

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Missões

Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 24.

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A população das regiões auríferas passou a demandar produtos para sua sobrevivência. Para suprir essa demanda, os paulistas organizaram as monções – expedições comerciais que seguiam de canoa pelos leitos dos rios, para vender alimentos, roupas e instrumentos de trabalho nas regiões mineradoras.

Ouro e fome

A tela representa pessoas se dirigindo para a região das minas. Repare que algumas delas estão calçadas, outras não, o que mostra que eram de diferentes estratos sociais, pois, na época, estar calçado era um sinal de distinção.

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Oscar Pereira da Silva. c. 1920. Óleo sobre tela. Museu Paulista da USP, São Paulo

Assim que a notícia da descoberta do ouro se espalhou, afluíram para os sertões mineiros pessoas das mais diversas origens e condições sociais; vinham de várias partes da colônia (de São Paulo, do Rio de Janeiro e da Bahia), e também de Portugal, onde as autoridades chegaram a fazer leis restringindo a emigração para o Brasil. Contra sua vontade, milhares de africanos escravizados foram trazidos para trabalhar nas minas de ouro. Segundo a historiadora Laura de Mello e Souza, nos primeiros anos da mineração ninguém se preocupava em plantar ou criar animais. Todos se ocupavam apenas com o ouro e, por isso, nos primeiros anos do século XVIII, a região passou por três crises de fome; alimentos como a carne, o milho, a farinha, o sal ou bebidas eram raros e alcançavam preços exorbitantes. A partir de 1720, no entanto, graças à prática da agricultura (milho, feijão, mandioca etc.), da pecuária (porcos, galinhas) e à compra de alimentos de outras regiões brasileiras, a situação começou a melhorar.

A disputa pelas minas

Emboaba:

para alguns, o termo significa “forasteiro”; para outros, é uma palavra de origem indígena que significa “ave de pés cobertos”, apelido dado pelos paulistas aos portugueses pelo fato de eles calçarem botas.

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A desorganização, o autoritarismo e a cobiça por ouro geraram inúmeros conflitos nas Minas Gerais. Um deles opôs os paulistas (que, por terem descoberto esse metal, se consideravam com direitos exclusivos sobre a região) aos forasteiros (portugueses e pessoas de outras partes da colônia), os dois lados ávidos pelo controle do comércio local e do ouro. Os forasteiros, chamados de emboabas e liderados pelo comerciante e pecuarista português Manuel Nunes Viana, foram proibidos de entrar na região e reagiram pegando em armas; o conflito se estendeu por dois anos (1707-1709) e ficou conhecido como Guerra dos Emboabas. Durante os conflitos, os emboabas aclamaram Manuel Nunes governador de todas as

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ão Fra ncis co

Minas, até que a Coroa enviasse um Áreas de mineração no Brasil (século XVIII) outro mandante com essas atribuiVICE-REINO DE NOVA GRANADA ções. Durante as lutas que se seguiram, um destacamento paulista foi Equador 0ºº 0 traído e massacrado pelos inimigos as zon Rio Ama no Rio das Mortes, episódio conhecido como Capão da Traição. Ao final do conflito, vencido pelos emboabas, a Coroa portuguesa VIC EVila Real Salvador RE (Cuiabá) enviou ao Rio de Janeiro um novo I OCEANO Vila Bela Vila Boa Arraial do Tijuco ATLÂNTICO governador e, para melhor controlar (Diamantina) a b í a n a Par oR Ribeirão de Nossa Senhora io GranSabará de a Colônia, criou a Capitania de São OCEANO do Carmo (Mariana) ná Rio São João Vila Rica PACÍFICO Tie del Rei (Ouro Preto) o Paulo e das Minas de Ouro (1710) Ri apricórnio Rio de Janeiro Trópico de C São Paulo que até então faziam parte da Capitania do Rio de Janeiro. Além disso, determinou que os povoados Rio da mais populosos da nova capitania Prata Área de extração de ouro 0 510 fossem elevados a vila, a primeira Principal área de diamantes 40º O das quais foi a de Ribeirão de Nossa Fonte: ATLAS geográfico do Brasil. Rio de Janeiro: FAE, 1986. p. 25. Senhora do Carmo, em 1711, atual Mariana; depois surgiram Vila Rica (atual Ouro Preto), Sabará, São João del Rei, Vila Nova da Rainha (Caeté) e Vila do Príncipe (Serro). 1 NO

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Regulamentação, impostos e cobranças Para regulamentar a posse e extração do ouro, Portugal criou, em 1702, o Regimento das Minas de Ouro. Esse documento reservava para o governo português um quinto de todo o metal extraído na região e criava a Intendência das Minas, órgão subordinado a Lisboa e encarregado de fiscalizar as explorações, cobrar tributos e julgar os habitantes das áreas mineradoras. Por lei, as áreas de mineração pertenciam ao rei; por isso, se alguém descobrisse uma jazida, deveria comunicar ao intendente. Este mandava dividir a área em lotes auríferos (as datas) e promovia a sua distribuição. O descobridor tinha direito a duas datas e, a Coroa, a uma, que, depois, ia a leilão. As datas restantes eram distribuídas conforme o número de escravos; aquele que possuísse 12 escravos, ou mais, recebia uma data inteira; os demais recebiam lotes menores. Os principais impostos cobrados pela Intendência eram o quinto real (20% de todo o ouro extraído); o imposto de passagem (sobre homens e animais em trânsito para as minas); o de entrada (sobre mercadorias que entravam para as minas); e os donativos (quantia exigida por Portugal para pagar despesas com eventos especiais, como o casamento de uma princesa 2 ou o terremoto ocorrido em Lisboa, em 1755).

1. Dica! Vídeo que discute e desvenda os mitos da Guerra dos Emboabas. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ w7qak8>. 2. Dica! Vídeo sobre a cobiça do ouro. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http://tub. im/jin7yc>.

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Carlos Julião. c. 1776. Aquarela. Acervo Biblioteca José e Guita Mindlin

A população reage: desvios e revoltas

Detalhe da obra Negras vendedoras, de Carlos Julião, c. 1776. Escravas de ganho a serviço de seus donos ou mulheres alforriadas que sustentavam a família com a venda de seus quitutes, as negras do tabuleiro eram conhecidas também por proteger escravos fugidos e por esconder ouro e diamantes entre os alimentos que vendiam, a fim de ajudar a comprar a carta de alforria. Em 1729, o então governador da capitania, D. Lourenço de Almeida, chegou a baixar uma lei proibindo-as de vender comestíveis ou bebidas com tabuleiros.

1. Dica! Vídeo sobre a Revolta ocorrida em Vila Rica. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/5yx78t>. 2. Dica! Vídeo sobre a história de Vila Rica, atual Ouro Preto. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/p8jqhy>.

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Os habitantes das minas reagiam à opressão fiscal de várias formas: escondiam ouro em pó ou em pepitas nos cabelos, nos dedos dos pés, nos saltos e solas das botas, nas estátuas ocas de santos feitas de madeira. Daí a expressão “santinho do pau oco”: pessoa que tem aparência de santo, mas não é confiável. Escondiam também entre os doces e salgados que carregavam em seus tabuleiros. Com o aumento do contrabando, o governo português apertou o cerco: em 1719, criou as Casas de Fundição, locais onde todo o ouro (em pó ou pepita) da região deveria ser transformado em barras, selado e “quintado”, isto é, retiravam-se dele os 20% correspondentes ao quinto real. A tributação excessiva somada ao alto preço dos alimentos ocasionou várias revoltas nas capitanias do ouro. Uma delas foi a conhecida Revolta de Felipe dos Santos, ocorrida em Vila Rica, em 1720. Seus principais líderes, o tropeiro Felipe dos Santos e o minerador Pascoal da Silva, exigiam a redução dos preços dos alimentos e a anulação do decreto que criara as Casas de Fundição. 1 A revolta foi duramente reprimida, e seus líderes, presos. Felipe dos Santos foi morto e teve seu corpo esquartejado e exposto na margem de uma estrada. O morro onde ficava a mina de ouro de Pascoal da Silva, e que levava o seu nome, foi queimado em noite de vento por ordem do governador da região. Esmagado o movimento, Portugal separou Minas da Capitania de São 2 Paulo; nascia, assim, em 1720, a Capitania de Minas Gerais.

Diamantes: descoberta e controle No início do século XVIII, acharam-se grandes quantidades de diamantes no Arraial do Tijuco, na bacia do rio Jequitinhonha, nordeste da Capitania de Minas Gerais. Logo que soube da existência dessas pedras preciosas, em 1729, a Coroa portuguesa declarou-as propriedade real e expulsou os antigos moradores do local. Nos cinco anos seguintes liberou a exploração dos diamantes a todos os homens brancos que tivessem escravos e recursos para investir, estabelecendo uma taxa sobre cada escravo empregado na extração. Exigiu, também, que sua exportação fosse feita apenas em navios portugueses. Em 1734, a Coroa demarcou extensa área do Arraial do Tijuco criando, assim, o Distrito Diamantino, onde era proibido entrar sem autorização especial. A administração e o policiamento da área foram confiados à Intendência dos Diamantes, órgão com grande poder sobre os habitantes locais. Naquele ano ainda, como o preço do diamante mineiro no exterior havia caído muito, por causa do excesso de oferta, a exploração

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Anônimo, escola portuguesa. Séc. XVIII. Gravura. Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa

das lavras foi suspensa por cinco anos. Em 1739, a mineração de diamantes foi reaberta, mas sob novas regras: estabeleceu-se o sistema de contratos, pelo qual um contratador adquiria o direito de minerar e de cobrar certos impostos por quatro anos. Muitos deles enriqueceram com essa atividade; o contratador João Fernandes de Oliveira tornou-se famoso pela riqueza que conseguiu para Portugal e para si e, sobretudo, por ter se unido maritalmente com uma negra: Francisca da Silva, a famosa Chica da Silva, com quem teve 13 filhos. Diante do enriquecimento ilícito dos contratadores e do contrabando, em 1771, a Coroa portuguesa extinguiu o sistema de contratos e passou a monopolizar a exploração das preciosas pedras por meio da Real Extração dos Diamantes. Naquele mesmo ano também editou o Livro da capa verde, um conjunto de leis específicas para a região. Durante muito tempo se disse que este livro foi um caso atípico, que de tão severo transformou-se no terror da população local. Atualmente, no entanto, a historiografia relativiza essa afirmação. A historiadora Júnia Ferreira Furtado, por exemplo, afirma que: [...] o Regimento veio ampliar ou completar, mas acima de tudo consolidar as leis anteriores [...]. Aproveitando muito da legislação que estava em vigor para toda a Capitania, dela pouco se afastou ou trouxe de novo. Em todos os lugares, a aplicação da lei não se fazia de forma homogênea, sendo que negros, [...] pobres e vadios acabavam sofrendo mais a violência da repressão e as penas mais duras, chegando até à pena de morte. As cadeias viviam superlotadas e em condições subumanas.

Modo de lavar os diamantes, século XVIII. Nessa gravura, vemos escravizados trabalhando na lavagem de diamantes, vigiados por uma autoridade local. No trabalho da mineração, os escravizados entoavam vissungos, palavra que vem do umbundo (língua banta) e que quer dizer “cantiga”, “canto”.

Editora Annablume

As classes mais altas conseguiam se proteger melhor da repressão, muitas vezes se aproveitando do próprio aparelho administrativo. O acúmulo de poderes nas mãos de algumas autoridades [...] as prisões, e a grande autonomia de que dispunham provocavam o aumento das arbitrariedades, abusos e redes de proteção. FURTADO, Júnia Ferreira. O livro da capa verde: o regimento diamantino de 1771 e a vida no distrito diamantino no período da Real Extração. São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: PPGH/UFMG, 2008. p. 69. (Coleção olhares).

Do Arraial do Tijuco, os diamantes eram enviados anualmente para o Reino, sendo escoltados pelo regimento dos dragões até o porto do Rio de Janeiro. Além de praticarem a mineração, as áreas vizinhas ao Tijuco dedicavam-se também à pecuária e ao cultivo de gêneros agrícolas, como mandioca, milho, feijão, arroz, algodão e tabaco, que garantiam boa parte do seu abastecimento, bem como um movimentado comércio que tinha como centro geográfico o próprio Arraial.

Fac-símile da capa do livro de Júnia Ferreira Furtado.

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Os caminhos do ouro e dos diamantes A produção do ouro cresceu significativamente durante os 40 primeiros anos do século XVIII, tendo atingido o auge entre 1736 e 1740. Observe o gráfico.

10 637 11 10 047 9 712 10 8 780 9 8 016 7 500 7 500 8 7 399 7 000 6 659 7 6 500 6 500 6 179 6 5 518 4 884 5 4 410 3 511 3 360 3 249 4 3 2 1 470 1 0 1700 1706 1711 1716 1721 1726 1730 1735 1740 1745 1750 1755 1760 1765 1770 1775 1780 1785 1790 1795 1705 1710 1715 1720 1725 1729 1734 1739 1744 1749 1754 1759 1764 1769 1774 1779 1784 1789 1794 1799

Dica! Reportagem sobre a rota do ouro e dos diamantes. [Duração total: 50 minutos]. Dividido em três partes. Para a primeira parte, acesse: <http://tub.im/uaiaju>.

Editoria de arte

Fonte de pesquisa: MAURO, Féderic (Coord.). O império luso-brasileiro – 17201750. In: SERRÃO, J.; MARQUES, A. H. de Oliveira (Org.). Nova história da expansão portuguesa. Lisboa: Estampa, 1991. v. 8.

Toneladas de ouro

Produção de ouro de Minas Gerais no século XVIII (por quinquênios)

Segundo estudos recentes sobre a economia de Portugal, verificou-se que, entre 1700 e 1715, conforme a produção brasileira de ouro crescia, o comércio entre Portugal e a Inglaterra também crescia expressivamente. Pouco tempo depois, o economista escocês Adam Smith (1723-1790) observou que o comércio luso-britânico crescia em razão do ouro vindo do Brasil, e que quase todo o ouro fundido existente na Inglaterra era de origem brasileira.

Para saber mais Ouro brasileiro em banco inglês Uma parte pequena do ouro produzido no centro-sul do Brasil foi usada na construção de obras monumentais portuguesas, como o Palácio-Convento de Mafra, que levou cerca de 30 anos para ser concluído. A maior parte do metal brasileiro, porém, foi usada para saldar a dívida crescente que Portugal contraiu com a Inglaterra. Para compreender a origem dessa dívida, vamos recuar um pouco no tempo... Ao se libertar do domínio espanhol, em 1640, Portugal temia um novo ataque da Espanha e, por isso, aliou-se à Inglaterra, assinando com ela uma série de acordos que acabaram por subordinar a economia portuguesa aos interesses ingleses. Um deles foi o Tratado de Methuen (1703), pelo qual a Inglaterra facilitava a entrada do vinho português nos seus mercados e Portugal, em troca, permitia a livre entrada dos artigos de lã inglesa. Assim, o Tratado de Methuen inibiu as manufaturas de tecidos portugueses e, além disso, colaborou para que a dívida com a Inglaterra aumentasse. Boa parte dessa

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Acompanhe agora o que um estudioso disse sobre o impacto do ouro nas Gerais. Se o ouro não ajudou Portugal a se desenvolver, qual o seu papel em Minas Gerais? Ali, produziu uma civilização singular nos quadros da Colônia. O ouro [...] vai possibilitar o desenvolvimento de uma realidade marcada pela urbanização, mais significativa que em qualquer outro local da Colônia [...]. A Capitania de Minas Gerais foi a mais populosa da América Portuguesa, tendo o maior contingente de população escrava e o maior contingente de população livre. Sociedade dotada de diversidade econômica e cultural, Minas Gerais, no século XVIII, deveu muito de seu dinamismo à produção mineral, ao ouro e aos diamantes, que, se não trouxeram efetivo desenvolvimento econômico e social, contribuíram para mostrar uma significativa capacidade criativa, no campo artístico e cultural, que são referências decisivas para a construção de nossa plena emancipação.

Acervo do Museu de Arte Sacra de São Paulo. Foto: Romulo Fialdini/Tempo Composto

dívida foi paga com o ouro e os diamantes extraídos do Brasil, o que acabou favorecendo o desenvolvimento industrial da Inglaterra.

Santa Mestra, estátua de madeira dourada do século XVIII, atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

PAULA, João Antônio de. A mineração de ouro em Minas Gerais no século XVIII. In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos. História de Minas Gerais: as minas setecentistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. v. 1. p. 299-300.

Mudanças no território colonial No Brasil, a mineração estimulou uma série de mudanças, entre as quais cabe destacar: » a ocupação e o povoamento de vastas áreas do território; » o desenvolvimento da vida urbana, contribuindo para o nascimento de várias vilas e cidades; » a mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro (1763), único porto por onde o governo português permitia que se embarcasse o ouro; » a consolidação do mercado interno, já que a mineração atraiu para si a pecuária gaúcha, por meio de São Paulo, e a nordestina, por meio do rio São Francisco, integrando diferentes polos da economia colonial. A população dos atuais estados de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás comprou com ouro em pó aquilo de que necessitava: do Nordeste vinham o gado, o couro e a farinha de mandioca; do Sul, cavalos, bois, mulas e charque; de São Paulo, milho, trigo e marmelada; e do Rio de Janeiro, africanos escravizados e artigos europeus (tecidos, ferramentas, entre outros). Em Minas Gerais e em Goiás, ao lado da mineração se desenvolveram a pecuária e a produção de alimentos destinados ao mercado interno. CAPÍTULO 5 | EXPANSÃO E OURO NA AMÉRICA PORTUGUESA

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A sociedade do ouro População da Capitania do Ouro

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Pardos 26% Negros 52% Brancos 22%

Além de ser mais complexa do que a do açúcar, a sociedade do ouro era marcadamente urbana; nas cidades – locais de residência, de serviços, de comércio, de oração e de festa – desenvolveu-se a vida social na região mineradora. Nela, a discriminação contra negros, indígenas e seus descendentes era intensa e o medo e o valor dado às aparências eram enormes. Em 1776, a população da Capitania do Ouro era formada por cerca de 320 mil habitantes, distribuídos conforme o gráfico ao lado. No século XVIII, 78% da população das Minas Gerais era formada de negros e pardos, muitos dos quais, escravizados. Fonte: MELLO E SOUZA, Laura. Desclassificados do Ouro: a pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1986. p. 141.

Os potentados Estudos recentes sugerem que as maiores fortunas nas Minas Gerais pertenciam a grandes comerciantes (potentados), muitos dos quais praticavam também a agiotagem. Manuel Nunes Viana, por exemplo, enriqueceu vendendo gado e carne das suas fazendas nos sertões do São Francisco para os açougues mineiros. Os contratadores de diamantes e alguns funcionários do governo português também conseguiram fazer fortuna. Entre os donos de minas, foram poucos os que conseguiram enriquecer, pois boa parte do que ganhavam servia para o pagamento de impostos. Outra era gasta com a compra de mercadorias caras, como escravos, ferramentas, bebidas (vinho e aguardente) e alimentos importados.

As camadas médias As possibilidades de negócio com o ouro em pó, a demanda de serviços urbanos e a ampliação do mercado consumidor favoreceram o crescimento das camadas médias: taberneiros, sitiantes, militares, artesãos, advogados, padres, garimpeiros, cirurgiões-barbeiros e roceiros. Estes plantavam milho, arroz, feijão, mandioca; cultivavam plantas frutíferas e hortaliças e criavam galinhas e porcos. Nos últimos anos do século XVIII, desenvolveu-se também a criação de vacas leiteiras e a fabricação de queijo. Alguns artistas mineiros como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (escultor e arquiteto), Padre José Maurício (compositor e músico) e Mestre Ataíde (pintor) tiveram reconhecimento em vida e podem ser considerados também integrantes das camadas médias da população.

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Mestre Ataíde. c. 1809. Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, Ouro Preto. Foto: Manoel Novaes

Os escravizados Na base da sociedade colonial mineira estavam os escravizados. Eles trabalhavam na extração do ouro em rios ou galerias subterrâneas, onde comumente ocorriam desabamentos e mortes. Na mineração de diamantes, não era muito diferente: erguiam-se barreiras para represar as águas da bacia do rio Jequitinhonha; como essas se rompiam frequentemente, muitos também acabavam morrendo. Os escravizados trabalhavam na produção de alimentos, na construção de casas, praças e chafarizes, na abertura de estradas, no transporte de pessoas e mercadorias pelas ladeiras acidentadas dos arraiais mineiros e no comércio pelas ruas e lavras. A alimentação dos escravizados era pobre em proteínas. Sua dieta era complementada com sal, fumo e aguardente. O fumo era considerado energizante e a cachaça um incentivo para suportar o trabalho com as pernas mergulhadas na água. Como era de se esperar, a mortalidade entre os negros mineiros era alta. A reposição de mão de obra se fazia por meio de contínua importação de africanos. Mas nessa região os cativos também ofereceram forte resistência à escravidão: foi lá que surgiu o maior número de quilombos. Segundo o historiador Carlos Magno Guimarães, nos anos entre 1710 e 1798 foram descobertos e combatidos 160 desses núcleos.

Glorificação da Virgem, pintada pelo Mestre Ataíde no teto da igreja de São Francisco, em Ouro Preto, é um ícone do barroco mineiro. Artista original, Mestre Ataíde pintou, com cores vivas e alegres, virgens e anjos com traços afro-brasileiros, à semelhança dos de sua companheira e de seus filhos. Nem sempre os pintores mineiros tinham recursos para importar suas tintas; então criavam as suas próprias, misturando terra queimada, leite, clara de ovo e extratos de plantas e flores. Por isso se diz que não existe nas artes plásticas do século XVIII um colorido como o que vemos nas pinturas mineiras.

Os homens livres pobres Nos arraiais mineiros havia um grande número de homens livres e pobres, que sobreviviam de serviços temporários ou de pequenos furtos e passavam boa parte do seu tempo nas vendas conversando, praticando jogos de azar ou brigando. Por não terem ocupação nem posição social definida, foram chamados pela historiadora Laura de Mello e Souza de “desclassificados”. Perseguidos e chamados de vadios pelas autoridades, eles eram convocados por essas mesmas autoridades para realizar serviços considerados inadequados aos escravos, como construir presídios ou estradas, fazer segurança pessoal dos comerciantes ricos, combater revoltas negras e/ou indígenas e participar de bandeiras que saíam em busca de ouro.

Dica! Palestra da historiadora Laura de Mello e Souza a respeito da sociedade mineradora no Brasil colonial. [Duração: 29 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ efsr98>.

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Para saber mais Séc. XVIII. Têmpera sobre madeira. Museu da Inconfidência, Ouro Preto. Foto: Romulo Fialdini/Tempo C

Doença, promessa e arte Trabalhando em condições adversas, e mal alimentadas, as pessoas pobres das regiões mineiras adoeciam com frequência. Nos sertões mineiros era comum as pessoas contraírem reumatismo, malária e infecções pulmonares. Os doentes se tratavam, geralmente, com remédios caseiros. Por vezes, as pessoas encomendavam aos pintores pequenos quadros em que o enfermo aparece deitado numa cama recoberta por uma colcha vermelha, tendo acima a santa ou santo a quem agradeciam a cura de sua doença.

Ex-voto de invocação a São Benedito, século XVIII.

A pecuária colonial

GADO NA COLÔNIA (1700-1710) Rio de Janeiro

60 mil cabeças

Bahia

500 mil cabeças

Pernambuco

800 mil cabeças

São Paulo + Sul

1,5 milhão de cabeças

Como disseram os historiadores João Fragoso, Manolo Florentino e Sheila de Castro Faria, a criação de gado foi uma das principais atividades econômicas da Colônia e um setor básico para o funcionamento da economia colonial como um todo. A pecuária ligava-se necessariamente ao mercado interno, não sendo os animais destinados somente à alimentação, mas também ao trabalho. Daí haverem na Colônia amplas áreas especializadas nessa atividade, como o sertão do rio São Francisco até os rios Tocantins e Araguaia, boa parte do Piauí, do Maranhão, o sertão da Bahia, os campos de Curitiba, o litoral do norte fluminense, o sul de Minas e as campinas do sul do Brasil.

Fonte de pesquisa: LINHARES, Maria Yedda. História Geral do Brasil. 9. ed. São Paulo: Campus, 1990. p. 84.

Gado de corte em propriedade rural de Alta Floresta d’Oeste (RO), 2011.

Ernesto Reghran/Pulsar Imagens

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Caminhos do gado

Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 38.

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O gado no Sul

Debret. Séc. XIX. Litogravura. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

Com a destruição das missões jesuíticas no Sul, o gado se dispersou e reproduziu-se nas extensas planícies da região. Atraídos por esses rebanhos sem dono, os paulistas fundaram no litoral do atual estado de Santa Catarina os povoados de São Francisco, em 1642; Desterro (atual Florianópolis), em 1673; e Laguna, em 1684, dando início à ocupação do Sul. Portugal também tinha interesse em garantir e ampliar seus domínios nessa região. Por isso, em 1680, mandou erguer um povoado, a Colônia do Sacramento, na margem do Rio da Prata, em frente à cidade de Buenos Aires. A imensa área compreendida entre Laguna, no litoral catarinense, e a Colônia do Sacramento, no extremo sul (muito além da Linha de Tordesilhas), era considerada “terra de ninguém”, onde o gado solto se reproduzia livremente.

João Prudente/Pulsar Imagens

No Nordeste, o gado servia para puxar os carros de boi, moer a cana, alimentar a população local e fornecer matérias-primas, principalmente o couro. Nessa época, o curral do gado era o quintal do engenho. Com a expansão da economia açucareira, no entanto, o gado criado nos engenhos passou a ser considerado um problema, pois, além de destruir as plantações, ocupava terras que poderiam ser mais rentáveis se aproveitadas para o plantio da cana. Em 1701, o próprio governo português, interessado nos lucros do açúcar brasileiro, proibiu a criação de gado a menos de 10 léguas do litoral. Assim, aos poucos, o gado foi ganhando o sertão. A pecuária apresentava vantagens econômicas: o gado não precisava de um meio de transporte para conduzi-lo, sobrevivia em regiões áridas e exigia mão de obra reduzida (10 ou 12 vaqueiros eram suficientes para cuidar de um grande rebanho). A expansão da pecuária para o sertão acompanhou geralmente o curso dos rios, com destaque para dois deles: o rio São Francisco (Velho Chico ou rio dos Currais) e o rio Parnaíba (decisivo na ocupação do Piauí). A expansão do gado pelo sertão foi um processo conflituoso, marcado por lutas sangrentas entre os criadores luso-brasileiros e os indígenas. Com o auxílio dos bandeirantes paulistas, os criadores venceram a resistência indígena e o sertão foi ocupado pelas fazendas de gado.

Vaqueiro cavalgando em Serrita (PE), 2010.

Dica! Vídeo sobre o desenvolvimento da pecuária colonial. [Duração: 7 minutos]. Acesse: <http://tub. im/bk3gbd>.

Província de Rio Grande, litogravura de Jean-Baptiste Debret. Para produzir o charque, os trabalhadores abatiam o animal, cortavam a carne em pedaços e a salgavam e secavam para que se conservasse por mais tempo. Pesquisas recentes comprovam a existência de mão de obra escrava tanto nas fazendas de gado do sertão nordestino quanto nas do Sul. Ao lado dos escravizados trabalhavam também nessas fazendas libertos, livres e brancos pobres.

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Fernando Bueno/Pulsar Imagens

Com o advento da mineração no Centro-Sul, os habitantes das minas passaram a comprar animais de carga (cavalos, mulas, jumentos) do Sul. As pastagens da região foram, então, alvo de violentas disputas. Inicialmente, os rebanhos eram reunidos em invernadas, pastagens rodeadas de obstáculos naturais onde o gado engordava, aguardando o momento de seguir viagem. Com o tempo, as terras foram cercadas e formaram-se as estâncias. Açoriano: habitante da ilha dos Posteriormente, os estancieiros aprenderam a produzir o charque. Isso perAçores, pertencente a mitiu a venda da carne para várias partes da Colônia, bem como para o exterior. Portugal e localizada no oceano Atlântico. A maior parte da produção, contudo, era voltada para o mercado interno. A metrópole também se empenhou em ocupar e proteger a “terra de ninguém” situada entre a Colônia do Sacramento e Laguna: em 1737, nas proximidades da Lagoa dos Patos, mandou fundar o Forte do Rio Grande de São Pedro. Três anos depois, para reforçar a presença portuguesa na região, enviou 4 mil açorianos e concedeu a cada família um pequeno lote de terra, instrumentos agrícolas, sementes e animais. Os açorianos ergueram diversas vilas, entre elas Porto dos Casais, atual cidade de Porto Alegre. Isso contribuiu para a Vista do Monumento aos Açorianos, no Largo dos Açorianos. ocupação e incorporação do atual esPorto Alegre (RS), 2014. tado do Rio Grande do Sul.

As novas fronteiras Como vimos, os habitantes da América portuguesa ocuparam terras que, pelo Tratado de Tordesilhas, pertenciam à Espanha. Os espanhóis, por sua vez, também invadiram áreas do Oriente, pertencentes a Portugal. Considerando ter direito às terras conquistadas na América, Portugal fez vários acordos internacionais para oficializar essa conquista. Os mais importantes foram: » Tratado de Utrecht (1713), assinado entre Portugal e França. Estabelecia que o rio Oiapoque, no norte do atual território brasileiro, limitaria a fronteira entre Brasil e Guiana Francesa. » Tratado de Madri (1750), assinado entre Portugal e Espanha. Estabelecia que a Colônia do Sacramento pertencia à Espanha. Em troca, Portugal recebia os Sete Povos das Missões, área situada em terras do atual estado do Rio Grande do Sul. Sete Povos das Missões eram sete grandes aldeamentos organizados pelos jesuítas espanhóis, onde viviam cerca de 30 mil indígenas da nação Guarani. Os Guarani não aceitaram a ideia de ter de se mudar das terras em que viviam, conforme determinava o Tratado de Madri. Por isso, pegaram em armas contra soldados portugueses e espanhóis, dando início à Guerra Guaranítica. Os indígenas resistiram por 17 anos – período em que ganhou fama a atuação do cacique Sepé Tiaraju –, o que obrigou Portugal e Espanha a fazer novos acordos.

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» Tratado de Santo Ildefonso (1777), assinado entre Portugal e Espa-

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Fig. 1: ruínas da Igreja de São Miguel das Missões, sítio arqueológico de São Miguel Arcanjo, no atual estado do Rio Grande do Sul, 2011. Em 1983, a Unesco declarou essas ruínas patrimônio histórico da humanidade. Fig. 2: A cruz acima da lança, em concreto armado, em frente à Prefeitura Municipal de São Luiz Gonzaga (RS), 2013.

Dica! Reportagem sobre a Colônia do Sacramento. [Duração: 4 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ rwopak>.

Alexandre Campbell/Tyba

Prefeitura Municipal de São Luiz Gonzaga/RS

nha. Os espanhóis obtinham o território de Sete Povos das Missões e a Colônia do Sacramento, e devolviam a Portugal algumas terras que haviam ocupado no atual Rio Grande do Sul. Considerando-se prejudicados, os portugueses exigiram da Espanha um novo acordo. » Tratado de Badajós (1801), assinado entre Portugal e Espanha. Os portugueses ficavam com o território de Sete Povos das Missões e a Espanha garantia para si a Colônia do Sacramento. 2

Allmaps

Principais tratados de limites

Como se pode ver no mapa, as fronteiras estabelecidas pelo Tratado de Badajós eram bem parecidas com as fixadas pelo Tratado de Madri. Definia-se, assim, o novo território da América portuguesa. ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 30.

CAPÍTULO 5 | EXPANSÃO E OURO NA AMÉRICA PORTUGUESA

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (Enem/MEC – 2014) O índio era o único elemento então disponível para ajudar o colonizador como agricultor, pescador, guia, conhecedor da natureza tropical e, para tudo isso, deveria ser tratado como gente, ter reconhecidas sua inocência e alma na medida do possível. A discussão religiosa e jurídica em torno dos limites da liberdade dos índios se confundiu com uma disputa entre jesuítas e colonos. Os padres se apresentavam como defensores da liberdade, enfrentando a cobiça desenfreada dos colonos. CALDEIRA, J. A nação mercantilista. São Paulo: Editora 34, 1999 (adaptado).

Entre os séculos XVI e XVIII, os jesuítas buscaram a conversão dos indígenas ao catolicismo. Essa aproximação dos jesuítas em relação ao mundo indígena foi mediada pela a) demarcação do território indígena. b) manutenção da organização familiar. c) valorização dos líderes religiosos indígenas. d) preservação do costume das moradias coletivas. e) comunicação pela língua geral baseada no tupi. 1. Resposta: e. 2. (Unicamp-SP – 2014) A história de São Paulo no século XVII se confunde com a história dos povos indígenas. Os índios não se limitaram ao papel de tábula rasa dos missionários ou vítimas passivas dos colonizadores. Foram participantes ativos e conscientes de uma história que foi pouco generosa com eles. (Adaptado de John M. Monteiro, “Sangue Nativo”, em http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/ sangue-nativo. Acessado em 14/07/2013.)

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Sobre a atuação dos indígenas no período colonial, pode-se afirmar que: a) A escravidão foi por eles aceita, na expectativa de sua proibição pela Coroa portuguesa, por pressão dos jesuítas. b) Sua participação nos aldeamentos fez parte da integração entre os projetos religioso e bélico de domínio português, executados por jesuítas e bandeirantes. c) A existência de alianças entre indígenas e portugueses não exclui as rivalidades entre grupos indígenas e entre os nativos e os europeus. 2. Resposta: c. d) A adoção do trabalho remunerado dos indígenas nos engenhos de São Vicente contrasta com as práticas de trabalho escravo na Bahia e Pernambuco. 3. (UECE) A corrida do ouro em Minas Gerais no final do século XVII trouxe uma riqueza muito grande para a Coroa portuguesa mas também exigiu muitos esforços no sentido de fiscalizar a produção e punir o contrabando. Assinale a expressão correta a respeito das medidas fiscais empreendidas por Portugal na área das minas: a) apesar dos protestos dos fidalgos encarregados da arrecadação, a Coroa portuguesa evitava pressionar os produtores através das derramas, limitando-se a aumentar os impostos. b) sem conseguir se impor aos proprietários das minas, a administração colonial passou a permitir a livre comercialização do ouro, arrecadando impostos nos portos e nas estradas. c) a administração colonial instalou as casas de fundição para regulamentar a produção do ouro e arrecadar mais impostos, obtendo total apoio dos proprietários das minas.

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d) ao aumentar a carga fiscal e as casas de fundição, a Coroa logrou aumentar a arrecadação de impostos, mas provocou a revolta dos proprietários das minas. 3. Resposta: d.

4. (UFRGS-RS – 2013) Leia o enunciado abaixo. A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos como são os das minas, que dificultosamente se poderá dar conta do número de pessoas que atualmente lá estão [...]. Cada ano, vêm nas frotas quantidades de portugueses e de estrangeiros para passarem às minas. Das cidades, vilas e recôncavos e sertões do Brasil, vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios, de que os paulistas se servem. ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. São Paulo: Melhoramentos; Brasília: INL, 1976. p. 167. [1ª edição: 1711].

A descrição acima refere-se à sociedade formada na região das Minas Gerais, no século XVIII. A respeito dessa sociedade, considere as seguintes afirmações. I. A possibilidade de ascensão social era mais facilitada do que na atividade açucareira empreendida no Nordeste.

5. (UFRGS-RS – 2014) Sobre o Tratado de Madri, assinado em 1750 por Portugal e Espanha, considere as seguintes afirmações. I.

A Colônia de Sacramento passou para a Espanha, e os Setes Povos das Missões passaram para Portugal, consagrando o princípio do uti possidetis.

II. A expulsão dos jesuítas foi fator importante para a eclosão da chamada guerra guaranítica (1752-1756), reduzindo os efeitos do Tratado. III. As Missões retornaram para a Província do Paraguai. Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas III. d) Apenas I e II. 5. Resposta: d. e) Apenas I e III. 6. As populações indígenas foram praticamente exterminadas com a chegada dos europeus no continente americano a partir do final do século XV. Mas, apesar da violência da conquista territorial, a resistência indígena nas regiões

II. A riqueza gerada promoveu o desenvolvimento de uma agricultura em grande escala, voltada para a exportação.

brasileiras sempre existiu. Como essa resistên-

III. O desenvolvimento acarretou uma sociedade urbana, heterogênea, composta por comerciantes, funcionários reais, profissionais liberais e escravos.

7. Em dupla. Escrevam um pequeno texto sobre o

Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas I e II. d) Apenas I e III. 4. Resposta: d. e) Apenas II e III.

cia pode ser identificada?

gado no Sul seguindo o roteiro: a) a destruição das missões jesuíticas no Sul e os rebanhos sem dono; b) as “terras de ninguém” entre Laguna (SC) e a Colônia do Sacramento; c) a ocorrência da mineração no Centro-Sul; d) invernadas e estâncias; e) a produção do charque.

6. A resistência indígena pode ser identificada em lutas e enfrentamentos diversos, como na Guerra Guaranítica e em fugas para áreas do interior da Amazônia. 7. O texto fornece elementos para a resposta. A intenção aqui é dar continuidade ao trabalho de estímulo à competência escritora do aluno e ajudá-lo a fixar conhecimentos sobre a ocupação e o povoamento do sul do Brasil. CAPÍTULO 5 | EXPANSÃO E OURO NA AMÉRICA PORTUGUESA

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II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE O texto a seguir é de Paulo Cavalcante, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Foto: Romulo Fialdini/Tempo Composto

Eu quero é ouro!

Barras de ouro do início do século XIX, quintadas na região das Minas.

Descaminhar:

extraviar.

[...] Nas Minas Gerais do final do século XVII e das primeiras décadas do XVIII, todos queriam ouro. A qualquer preço. Os próprios representantes do Estado português – governadores, ouvidores, provedores [...] contribuíam para desviar as riquezas da Fazenda Real (a Receita Federal da época). [...] Como a sociedade colonial era escravista, os trabalhadores negros encarregados da mineração eram vistos como os principais “passadores” [...] de ouro e diamantes. Ouro em pó salpicado no cabelo de mulheres negras, pepitas e diamantes desviados no pequeno comércio dos povoados e das lavras – especialmente pelas chamadas “negras de tabuleiro”, que vendiam comidas e bebidas – também foram modos de descaminhar a riqueza extraída da terra. [...] A maneira mais espetacular de desviar ouro era a falsificação de moedas. Encontravam-se moedas falsificadas de diversos tipos: vazadas [...] com peso reduzido ou fundida com metais considerados baixos (como cobre, níquel e estanho). [...] Mas a fábrica de moeda falsa de que realmente se tem notícia [...] foi obra de [...] Inácio de Souza Ferreira, [...] sob a proteção [...] do próprio governador das Minas Gerais, D. Lourenço de Almeida (1721-1732) [...]. D. Lourenço, a propósito, retornou riquíssimo a Portugal, com bagagem reluzente, no fim do seu governo. Estes sim, e não os escravos, foram os grandes descaminhadores.

CAVALCANTE, Paulo. Eu quero é ouro! Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 4, n. 38, p. 28-30, nov. 2008.

a) O extravio de ouro e diamantes nas Minas Gerais do início do século XVIII era uma prática exclusiva dos escravizados? Justifique. b) Sobre os extravios de riqueza gerada nas Minas do século XVIII, responda: b1) Quem praticava esses extravios? De que forma isto era feito? b2) No texto, o autor afirma que os representantes do governo, e não os escravos, foram os grandes extraviadores. Explique essa afirmação de acordo com o contexto da época.

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Reino Unido atualmente Vespúcio Cartografia

Ben Stansall /WPA Pool/Getty Images

Capítulo 6

A Revolução Inglesa e a Industrial 0°

ESCÓCIA

OCEANO ATLÂNTICO

IRLANDA DO NORTE Belfast

IRLANDA

Mar da Irlanda

PAÍS DE GALES

Edimburgo

REINO UNIDO

Mar do Norte

55° N

INGLATERRA

Cardiff 0

145

Londres

Fonte: WORLD Atlas Reference. London: Dorling Kindersley, 2010. p. 96-97. Professor: partimos de uma imagem e um mapa atuais para verificar o que o aluno sabe sobre o tipo de monarquia adotado no Reino Unido, dar início ao trabalho com o conceito de monarquia parlamentar e o processo que levou ao advento desse regime político na Inglaterra. Na cerimônia registrada na foto, a rainha Elizabeth II apresentou um programa com os seguintes pontos: cortes no orçamento, geração de empregos, construção de casas populares, creches gratuitas e controle da imigração; este programa ajuda-nos a pensar sobre a capacidade de renovação da monarquia parlamentar britânica e de adequação de suas propostas às demandas do mundo atual.

A imagem da esquerda mostra Elizabeth II, a rainha do Reino Unido (representado em um mapa atual à direita). Ela aparece discursando na sessão de abertura do Parlamento de seu país, em maio de 2015.

» Você sabe qual é o tipo de monarquia adotado no Reino Unido atualmente?

Sabe como ele funciona? » Como e quando o país passou a adotar esse tipo de monarquia? » Você conhece outros países que adotam a monarquia na atualidade? CAPÍTULO 6 | A REVOLUÇÃO INGLESA E A INDUSTRIAL

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O processo revolucionário inglês O processo revolucionário que se desenrolou na Inglaterra do século XVII tem suas raízes nas mudanças socioeconômicas que vinham ocorrendo anteriormente. Durante a dinastia Tudor (1485-1603), a política mercantilista de monarcas poderosos, como Henrique VIII e Elizabeth I, ajudou a Inglaterra a se transformar em uma grande potência econômica. Na época, ela liderava o ramo da indústria têxtil e o da produção de carvão; e, no comércio marítimo, perdia apenas para a Holanda. No início do século XVII, os comerciantes, industriais e armadores constituíam uma burguesia próspera e atuante. À época, Londres tinha se transformado na maior cidade da Europa.

Dica! Reportagem sobre aspectos da história da Grã-Bretanha nos séculos XVI e XVII. [Duração: 27 minutos]. Acesse: <http://tub. im/3jt2n5>.

Mudanças na sociedade inglesa sistema socioeconômico caracterizado pela propriedade privada dos meios de produção (terras, fábricas, equipamentos etc.), relações assalariadas de trabalho e produção visando o lucro.

Cercamento:

consistia em cercar as terras de uso comum, de onde os camponeses retiravam sua subsistência, para transformá-las em pastos para a criação de ovelhas (produtoras de lã) ou em áreas de produção de cereais, frutas e vegetais destinados à venda. A prática dos cercamentos se estendeu por um longo período, mas teve momentos de maior intensidade.

Frontispício de A Utopia, de Thomas Morus, 1643.

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Publicado por Jan Blaeu. Séc. XVII. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Capitalismo:

O capitalismo não se restringia às cidades inglesas; chegava também ao campo, onde a pequena nobreza rural – chamada na Inglaterra de gentry – enriquecia praticando a agricultura comercial. Apesar de atuar no meio rural, a gentry se ligava à burguesia das cidades por meio de negócios e casamentos. Os yeomen (pequenos e médios proprietários rurais) também vinham prosperando. A gentry e os yeomen produziam e vendiam tecidos de lã e alimentos que a marinha mercante inglesa comercializava nos quatro cantos do mundo. Para continuar produzindo alimentos e criando ovelhas em quantidades crescentes, eles começaram a cercar os seus domínios, expulsando os camponeses que lá viviam. Essa prática recebeu o nome de cercamento. A ela se referiu Thomas Morus no seu livro A Utopia, ao falar de um estranho país onde as ovelhas devoravam os seres humanos.

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Cornwall Lamorna Cove. Séc. XIX. Óleo sobre tela. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Era comum também a compra de terras por parte da gentry e dos yeomen. Assim, por meio dos cercamentos e/ou da compra, essas camadas sociais foram acumulando terras. E, pouco a pouco, a agricultura de subsistência foi cedendo lugar à agricultura comercial com características capitalistas. No campo, enquanto os yeomen prosperavam, os camponeses empobreciam. Expulsos das terras em que trabalhavam, os camponeses se transformavam em andarilhos, mendigos ou migravam para as cidades, onde se ofereciam para trabalhar por baixíssimos salários nas manufaturas, oficinas ou nos estaleiros.

Camponeses ingleses de um vilarejo. Esta obra do século XIX ajuda-nos a imaginar um fenômeno típico do século XVII, na Inglaterra: a migração de famílias camponesas do campo para as cidades inglesas.

Assim, nas cidades inglesas, especialmente em Londres, se formou, de um lado, uma rica burguesia mercantil e manufatureira e, de outro, uma massa de trabalhadores urbanos e de desempregados. A maior parte da burguesia inglesa era favorável à liberdade de produção e de comércio e considerava a política regulamentadora e monopolista da monarquia inglesa como prejudicial aos seus negócios.

O absolutismo dos Stuart Com a morte de Elizabeth I, em 1603, seu primo, o rei da Escócia, assumiu o trono da Inglaterra como Jaime I (1603-1625), o primeiro da dinastia Stuart. Apoiado na teoria do direito divino dos reis, Jaime ordenou, logo no início do seu reinado, que todos os seus súditos seguissem o anglicanismo, a religião oficial da monarquia inglesa. Essa imposição, aliada à adoção de uma política tributária extorsiva, provocou forte oposição no Parlamento, onde os puritanos tinham muitos representantes. O rei reagiu mandando fechar o Parlamento, pondo em prática seu absolutismo. As violentas disputas entre a Monarquia e o Parlamento, iniciadas no governo de Jaime I, prosseguiram no reinado de seu filho e sucessor Carlos I (1625-1649).

Parlamento:

era composto da Câmara dos Comuns e da Câmara dos Lordes. Na Câmara dos Comuns predominavam os representantes da burguesia e da gentry; na Câmara dos Lordes, o alto clero e a alta nobreza.

CAPÍTULO 6 | A REVOLUÇÃO INGLESA E A INDUSTRIAL

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Lir Anthony van Dyck. 1635. Óleo sobre tela. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Em 1628, reagindo à política fiscal opressiva do rei Carlos I, o Parlamento conseguiu aprovar a Petição de Direitos, que declarava ilegal qualquer tributação sem o seu consentimento e condenava as prisões arbitrárias efetuadas a mando do rei. Em represália, nos 11 anos seguintes, Carlos I governou sem convocar o Parlamento e tomou uma série de medidas arbitrárias: restaurou taxas e tributos que haviam sido extintos, concedeu monopólios, vendeu cargos públicos, impôs multas e criou novos impostos. Um deles, o ship money, pago apenas pelas cidades portuárias, passou a ser de âmbito nacional. A reação ao ship money desencadeou uma onda de protestos em todo o país; muitos líderes da oposição foram encarcerados e mortos a mando do rei. Em 1640, Carlos I convocou o Parlamento para pedir aumento de impostos a fim de sustentar uma guerra contra os escoceses calvinistas, que reagiram à imposição do anglicanismo na Escócia invadindo o norte da Inglaterra. O Parlamento, por sua vez, aproveitando-se da situação de urgência, anulou os impostos solicitados pelo rei e aprovou um ato que impedia a dissolução do Parlamento sem a aprovação dos parlamentares. Sentindo sua autoridade ameaçada, Carlos I passou à ofensiva: invadiu com sua guarda pessoal a Câmara dos Comuns, órgão de maioria puritana, para prender os líderes da oposição. A oposição, no entanto, já havia se retirado do recinto para se unir às forças puritanas armadas na luta contra o absolutismo; tinha início, assim, na Inglaterra, uma guerra civil que se estendeu de 1642 a 1649.

A pintura intitulada Carlos I em três posições é um dos vários retratos que o pintor Anthony van Dyck fez desse rei, seu protetor e mecenas. Repare que Carlos I foi retratado de três ângulos diferentes, de modo a impressionar o observador e evocar a ideia de força e poder de rei absolutista.

Revolução Puritana Do ponto de vista social, a alta nobreza, burgueses favorecidos por monopólios reais e os membros do clero anglicano e católico lutaram ao lado do rei; a burguesia manufatureira e mercantil, a gentry e os yeomen, de religião puritana, lutaram ao lado do Parlamento. Durante a guerra, os integrantes do exército parlamentar, chamados de “cabeças redondas”, por usarem cabelo curto, obtiveram diversas vitórias contra os membros do exército do rei, denominados “cavaleiros”, por causa da sua origem nobre. O exército parlamentar venceu em virtude de sua

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Para saber mais Puritanismo e Revolução Sem ideias não há Revolução. Segundo o historiador Modesto Florenzano, uma das principais bases intelectuais da Revolução Inglesa foi o puritanismo. Puritanos eram os calvinistas Família puritana reunida à mesa. Xilogravura ingleses que lutavam pela purificação da de c. 1600. Igreja e se consideravam “eleitos de Deus”. O puritanismo se desenvolveu, sobretudo, entre a burguesia e a pequena nobreza rural, ou seja, entre o empresariado inglês do campo e das cidades.

C. 1640. Gravura. Coleção particular. Foto: Hulton Archive/Getty Images

Integrante do exército dos “cabeças redondas”, c. 1640. Os puritanos, nome dado aos calvinistas na Inglaterra, acreditavam na predestinação. Muitos desses soldados, como esse representado na imagem ao lado, acreditavam que tinham sido eleitos por Deus para combater no exército de Cromwell.

C. 1600. Xilogravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

superioridade numérica e estratégica (marinha e portos) e da remodelação promovida pelo militar Oliver Cromwell. No regimento sob seu comando, Cromwell substituiu o nascimento (origem) pelo merecimento (eficiência militar) como critério de promoção na carreira militar. Aos poucos, todo o exército adotou esse critério, constituindo, então, o New Model Army (Exército de Novo Tipo). Esse exército remodelado venceu as tropas leais ao rei, definitivamente, na batalha de Naseby (1645). A monarquia foi declarada “desnecessária”, opressiva e perigosa; a Câmara dos Lordes foi abolida; a República foi proclamada; e Cromwell assumiu o governo do país. Carlos I foi julgado pelo Parlamento por crime de traição, mas não reconheceu a autoridade dos parlamentares justificando que tinha recebido seu poder das mãos de Deus. O Parlamento o condenou à morte e ele foi decapitado no início de 1649.

Os puritanos defendiam a independência de juízo baseada na consciência de cada um e na leitura da Bíblia; e estavam convencidos da necessidade de lutar contra a corrupção na Corte e na Igreja. E foi justamente essa “certeza da retidão da causa” um dos principais combustíveis da Revolução contra o absolutismo monárquico na Inglaterra.

CAPÍTULO 6 | A REVOLUÇÃO INGLESA E A INDUSTRIAL

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A República de Cromwell DIALOGANDO Com que intenção Oliver Cromwell teria promulgado os Atos de Navegação? A intenção de Cromwell era fortalecer a marinha inglesa, enriquecer comerciantes e armadores de seu país e atingir a Holanda, que na época era sua principal concorrente nos mares.

Apoiado no exército, Oliver Cromwell (1649-1658), um republicano moderado, foi um dos governantes mais autoritários da história inglesa. Externamente, sufocou o levante dos católicos da Irlanda e o dos separatistas da Escócia; internamente, combateu os movimentos populares puritanos que exigiam reformas radicais. As terras dos partidários do rei e da Igreja anglicana foram confiscadas e vendidas para a burguesia manufatureira, para os gentry e para os yeomen, os vencedores da Revolução Puritana. Para fortalecer o comércio exterior da Inglaterra, Cromwell promulgou, em 1651, os famosos Atos de Navegação. [...] as mercadorias europeias não podiam ser transportadas para a Inglaterra, a não ser em navios ingleses ou em navios do país de origem; do mesmo modo os produtos da Ásia, da América ou da África não podiam ser importados senão pela marinha britânica ou colonial. DEYON, Pierre. O mercantilismo. São Paulo: Perspectiva, 1973. p. 22.

Vista de Londres, c. 1700. A indústria têxtil, a produção de carvão e a política mercantilista dos governantes ingleses contribuíram para a prosperidade de Londres, a maior cidade da Europa no século XVII.

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Escola francesa. c. 1700. Xilogravura colorizada. London Metropolitan Archives. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Dica! O vídeo aborda a crise do absolutismo inglês e as revoluções inglesas. [Duração: 32 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ hwxczv>.

Os Atos de Navegação favoreceram a acumulação de capitais por parte da burguesia britânica e excluíram a Holanda do lucrativo transporte de mercadorias para a (ou da) Inglaterra, precipitando uma guerra entre os dois países (1651-1654). A Inglaterra venceu a Holanda, assumindo a liderança marítimo-comercial no mundo daquela época; a burguesia inglesa ligada ao comércio exterior prosperou. A partir daí, Cromwell aproveitou-se da guerra para tornar seu cargo vitalício e hereditário (1653), impondo seu poder pessoal à nação, com o título de Lorde Protetor da Inglaterra, Irlanda e Escócia. Por isso, cinco anos depois, quando Cromwell morreu, o poder passou às mãos de seu filho Ricardo.

UNIDADE 2 | DIVERSIDADE E PLURALISMO CULTURAL

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A restauração da monarquia

Os diggers exigiam que todas as terras e florestas da Coroa, os terrenos comunais e ociosos fossem cultivados pelos pobres, através da posse comunitária, e que a compra e venda da terra deveria ser proibida por lei.

Editora Cia. das Letras

Ricardo não tinha o apoio do exército e, além disso, mostrava-se incapaz de fazer alianças e de controlar as oposições. Ao mesmo tempo, os movimentos populares liderados por grupos político-religiosos puritanos, como os levellers (niveladores) e os diggers (cavadores), pressionavam por mudanças. Os niveladores surgiram nos quadros do exército parlamentar e, liderados por homens como John Lilburne, o Nivelador, defendiam: » o direito de voto a todos os homens, o fim da Câmara dos Lordes e todo o poder para a Câmara dos Comuns; » a separação entre a Igreja e o Estado; » o fim dos dízimos cobrados pela Igreja anglicana e a proteção à pequena propriedade. Os cavadores pleiteavam uma reforma agrária radical. Esse grupo inspirava-se nas ideias do escritor Gerrard Winstanley, defensor dos ideais de igualdade e fraternidade dos primeiros cristãos. Veja o que um historiador diz sobre esse grupo político:

HILL, Christopher. O eleito de Deus: Oliver Cromwell e a Revolução Inglesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 18.

Temendo a força desses movimentos populares radicais, o Parlamento aprovou a volta à monarquia, convidando o filho de Carlos I (executado pela Revolução Puritana) a ocupar o poder. Com Carlos II (1660-1685), as tensões entre a monarquia e o Parlamento voltaram a dominar a cena política. Embora se declarasse rei por direito divino, Carlos II sabia que era rei por vontade do Parlamento. Mas, uma vez entronado, buscou se impor ao Fac-símile da capa Parlamento: externou seu ódio ao puritano Oliver Cromwell (mande O eleito de Deus, de dou desenterrar o corpo e decepou a cabeça dele publicamente) e Christopher Hill. não escondeu sua simpatia pelo catolicismo. Jaime II (1685-1689), seu irmão e sucessor, foi mais longe: tentou impor o catolicismo aos ingleses desafiando o Parlamento, de maioria protestante. E também aliou-se a Luís XIV, da França, o monarca absolutista mais poderoso da Europa.

A Revolução Gloriosa O Parlamento reagiu às imposições de Jaime II reunindo tropas para destroná-lo. O rei, por sua vez, preferiu deixar o trono a resistir. Os líderes do Parlamento, então, convidaram o príncipe holandês Guilherme de Orange, casado com a filha protestante de Jaime II, a ocupar o trono inglês. Em 1688, Guilherme de Orange entrou na Inglaterra com o seu exército e, por ato do Parlamento, foi declarado rei. Era a Revolução Gloriosa (1688), assim denominada por ter ocorrido sem derramamento de sangue. CAPÍTULO 6 | A REVOLUÇÃO INGLESA E A INDUSTRIAL

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Escola inglesa. Séc. XIX. Ilustração. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

A seguir, o Parlamento aprovou a escolha do soberano. Assim, Guilherme de Orange jurou obedecer à Declaração de Direitos (Bill of Rights, 1689), vigente na Inglaterra até hoje. A Declaração de Direitos limitou o poder do rei, conferiu autoridade e garantias ao Parlamento e assegurou os direitos civis e a liberdade individual a todo cidadão inglês. O processo revolucionário inglês foi inspirado nas ideias do importante pensador político John Locke.

Séc. XIX. Gravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Na imagem vemos um membro do Parlamento entregando aos reis Guilherme de Orange e sua esposa, Maria, a Declaração de Direitos, documento que limitava o poder real.

Para saber mais John Locke e o liberalismo John Locke (1632-1704) ajudou a derrubar o absolutismo na Inglaterra. Locke dizia que todos os homens, ao nascer, tinham os mesmos direitos: direito à vida, à liberdade e à propriedade. Para garantir esses direitos naturais, os homens haviam criado governos. Mas, se o governo tentasse impor o absolutismo, as pessoas poderiam rebelar-se e retirá-lo do poder pela força das armas. Locke defendia o direito de cada pessoa escolher sua religião, apoiar um grupo político, defender suas ideias em público ou por meio da imprensa. Esses direitos individuais deveriam ser respeitados e protegidos pelos governantes. Por essas suas ideias, Locke foi considerado um dos “criadores” do liberalismo na política.

John Locke, filósofo inglês, pregou a ideia de que os governos foram criados para defender os “direitos naturais” dos homens.

O significado da Revolução Gloriosa

Dica! Vídeo sobre John Locke. [Duração: 3 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ bdeveg>.

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A partir da Revolução Gloriosa, tornou-se comum dizer: “o rei reina, mas quem governa é o Parlamento”. Embora a afirmação não deva ser tomada ao pé da letra, o fato é que a Inglaterra deixava de ser uma monarquia absolutista e passava a ser uma monarquia parlamentar. Os ingleses deixavam de ser súditos para tornarem-se cidadãos, com direitos e deveres. Além disso, a Revolução favoreceu o desenvolvimento do capitalismo e, consequentemente, a expansão dos negócios da gentry e da burguesia manufatureira e mercantil, o que ajuda a compreender o pioneirismo inglês na Revolução Industrial.

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A Revolução Industrial A Revolução Industrial pode ser definida como uma transformação sem precedentes no modo de produzir mercadorias, de viver e de pensar, que impressionou muito os homens e as mulheres que a vivenciaram. Essa Revolução teve início na Inglaterra na década de 1760 e se propagou pela Europa nas décadas seguintes. Foi na Inglaterra que se desenvolveram as primeiras máquinas movidas a vapor. Foi lá também que se viram pela primeira vez fábricas enormes que reuniam muitos trabalhadores ocupados na produção sob o olhar vigilante de seus chefes.

Por que a Inglaterra foi a primeira a se industrializar? O pioneirismo inglês deveu-se a um conjunto de fatores inter-relacionados, a saber: » Acúmulo de capitais – A partir do governo de Elizabeth I (1558-1603), a economia inglesa ganhou forte impulso. A Inglaterra acumulou capitais por meio do comércio, da pirataria, da guerra e da exploração colonial. E, na segunda metade do século XVII, assumiu a liderança marítimo-comercial que até então cabia à Holanda. » Modernização da agricultura – O empresariado rural inglês introduziu a rotação continuada de culturas e novas técnicas de drenagem e adubação, que aumentavam a produtividade do solo. Além disso, por meio dos cercamentos, apropriou-se de terras antes utilizadas por camponeses e, com isso, aumentou a oferta de alimentos e de matérias-primas para as cidades. » Mão de obra farta e barata – Sem terra e sem trabalho, os camponeses mendigavam pelas estradas ou iam para as cidades, onde se ofereciam para trabalhar por baixos salários nas fábricas que então começavam a surgir. O desespero levava os desempregados a aceitarem qualquer serviço, pois a Legislação dos Pobres, vigente na Grã-Bretanha à época, determinava que todo indivíduo sem trabalho ou ocupação poderia ser preso e chicoteado. » Abundância de carvão mineral e de ferro no subsolo inglês – O ferro era a matéria-prima básica para construir máquinas, e o carvão mineral era a fonte de energia que garantia seu 1 funcionamento. » O puritanismo – Não condenava o lucro e pregava uma vida voltada para o trabalho e a oração. » A Revolução Gloriosa, que deu estabilidade política e favoreceu o desenvolvimento do capitalismo na Inglaterra. A monarquia parlamentar inglesa tomou várias medidas favoráveis ao crescimento das manufaturas, das empresas rurais e da indústria naval, estimulando, 1. Dica! Vídeo sobre os usos e a importância 2 portanto, os negócios da burguesia. do carvão mineral. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http://tub. im/5c5tp6>.

Máquinas industriais e sistema fabril A industrialização inglesa começou pela indústria de tecidos de algodão. A crescente procura mundial por esses tecidos e o baixo preço da matéria-prima usada na sua confecção estimularam a invenção de máquinas de fiar e de tecer em um curto espaço de tempo. Por volta de 1760, foi disseminado o uso da lançadeira volante inventada por John Kay. Essa máquina permitia tecer peças largas, com menos trabalhadores

2. Dica! Vídeo sobre o começo da Revolução Industrial na Inglaterra. [Duração: 25 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ mjeton>.

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Você já ouviu o ditado “a necessidade é a mãe de todas as invenções”? Você concorda com isso?

e maior velocidade, o que gerou descompasso entre tecelagem e fiação: a quantidade de fios já não atendia à necessidade da tecelagem. A situação se modificou, em 1767, quando o tecelão e carpinteiro James Hargreaves inventou a spinning jenny, uma roda de fiar que permitia a uma só pessoa fiar oito fios por vez. Com a spinning jenny, uma só pessoa realizava o trabalho de 12 fiandeiras. Por ser pequena, ela podia ser instalada em casa; movida manualmente, essa máquina exigia apenas a força do ser humano. William Ibbitt. Séc. XVIII. Litogravura. Coleção particular. Foto: SSPL via Getty Images

DIALOGANDO

Resposta pessoal. Professor: o assunto dá oportunidade a esse debate e para iniciá-lo é interessante perguntar: qual é a origem de uma invenção? Um invento atende, principalmente, à necessidade social de determinado momento histórico.

Representação de um menino trabalhando para limpar resíduos da mule. Museu da Indústria, Trabalho e Têxtil da Bélgica. 2014.

Os fios produzidos na jenny eram, no entanto, finos e quebradiços. Para suprir os tecelões com fios resistentes inventou-se em 1769 a water-frame, uma máquina de fiar movida com água, atribuída a Richard Arkwright. Tendo a água como força motriz, não podia ser instalada nas casas e necessitava de um espaço maior: a fábrica. A water-frame contribuiu, assim, para a consolidação do sistema fabril. Nesse sistema, os trabalhadores labutavam juntos, no mesmo espaço, sob o rígido controle de seus chefes, que ditavam o número de horas diárias e a velocidade da produção. Os fios da water-frame eram resistentes, porém grossos. A solução para isso foi dada pela mule, inventada por Samuel Crompton, em 1779. A mule – uma máquina híbrida (combinação das duas anteriores) – produzia fios finos e resistentes, com os quais se podiam fabricar tecidos de uma leveza

Arterra Picture Library/Alamy/Latinstock

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Cidade inglesa de Sheffield no século XVIII. Naquele tempo, as chaminés das fábricas eram um elemento novo na paisagem. Os grossos rolos de fumaça que saíam dessas chaminés poluíam o ar, dando início ao que hoje chamamos de “questão ambiental”. Industrialização e urbanização caminharam de mãos dadas. Muitas cidades surgiram ou cresceram em torno das fábricas, desordenada e rapidamente, sob o impacto das famílias que vinham do campo, ansiosas por trabalho e uma vida melhor.

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Sem data. Coleção particular. Foto: Bettmann/Corbis/Latinstock

que superava a dos importados da Índia, a maior produtora de tecidos do Oriente. Com a mule, a fiação tornou-se efetivamente uma atividade predominantemente industrial. Se o problema antes era a carência, agora passa a ser o excesso de fios. A solução para esse problema foi o tear mecânico, inventado pelo reverendo Edmund Cartwright, em 1785, cuja capacidade de produção era muitas vezes maior que a do tear manual. Todas essas máquinas tornaram-se muito mais produtivas ao serem acopladas à máquina a vapor, aperfeiçoada por James Watt em 1765. Nessa máquina, a força de expansão do vapor substituía a força do ser humano, do vento ou da água.

Dica! Documentário abordando as principais transformações históricas ocorridas no século XVIII. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ m8kux3>.

As primeiras fábricas de tecidos foram construídas às margens dos rios para aproveitar a energia da água. Com a descoberta da máquina a vapor, isso deixou de ser necessário, e as fábricas passaram então a ser erguidas no centro das cidades. A imagem ao lado representa a experiência de James Watt com a força da expansão do vapor de água.

O uso do vapor exigia máquinas mais resistentes que as de madeira. Essa necessidade foi atendida em 1784, quando Henry Coit conseguiu produzir um ferro resistente, fácil de ser fabricado e barato, que passou a ser utilizado em máquinas, navios e na construção civil. A máquina a vapor e a metalurgia do ferro, por sua vez, impulsionaram a descoberta de dois outros inventos que revolucionaram os meios de transporte em princípios do século XIX: o barco a vapor, desenvolvido por Robert Fulton em 1807, e a locomotiva, idealizada por George Stephenson em 1814. O nome da locomotiva construída por Stephenson era “foguete” (rocket em inglês) porque atingia até 45 quilômetros por hora, velocidade considerada alta na época! Viagens que duravam 12 dias passaram a ser feitas em menos de quatro. Em 1830, era inaugurada a primeira ferrovia, que ligava Liverpool a Manchester. CAPÍTULO 6 | A REVOLUÇÃO INGLESA E A INDUSTRIAL

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Séc. XIX. Gravura. National Museum Of Science And Industry, Londres. Foto: De Agostini/Getty Images

Inauguração da ferrovia Canterbury-Whitstable, em maio de 1830, uma das primeiras da Inglaterra.

Escola inglesa. C. 1835. Ilustração. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Dica! Vídeo sobre as máquinas que tornaram possível a Revolução Industrial. [Duração: 29 minutos]. Acesse: <http://tub. im/77yjcb>.

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O trem e a ferrovia inauguravam uma nova era marcada pela velocidade. O transporte de pessoas e de mercadorias tornou-se mais rápido, mais barato e mais seguro, o que contribuiu para que, no século XIX, a Inglaterra passasse a abastecer com seus produtos boa parte do mercado mundial. Ela tornou-se, como se disse mais tarde, a “oficina do mundo”.

A vida dos trabalhadores no interior das fábricas

As primeiras fábricas eram sujas, mal iluminadas e insalubres. O vapor e o calor das máquinas tornavam o ar quase irrespirável, causando inúmeras doInsalubre: enças respiratórias. O trabalho fabril era disciplinado, repetitivo e exaustivo: que origina doença; prejudicial à saúde. as jornadas duravam de 14 a 18 horas por dia e o trabalhador parava apenas para fazer as refeições rapidamente. O sistema de fábricas aumentou assim a sujeição do trabalho e do trabalhador ao capital e ao capitalista. As primeiras fábricas fizeram uso intenso do trabalho feminino e infantil, pois mulheres e crianças ganhavam cerca de um terço do que era pago a um homem. Os industriais justificavam o emprego de crianças (a partir dos 6 anos de idade) dizendo que sua intenção era livrá-las da fome e da mendicância. Essas crianças, além das tarefas de rotina, realizavam, por vezes, serviços arrisFiandeiras trabalhando com máquinas, c. 1835. A máquina cados, como se enfiar por entre as podia ser alimentada por roda d’água ou a vapor. No canto inferior esquerdo, vê-se uma mulher limpando a parte de baixo da máquina, máquinas para limpá-las ou transtrabalho arriscado e que era feito, geralmente, por crianças. portar pesadas peças. UNIDADE 2 | DIVERSIDADE E PLURALISMO CULTURAL

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A vida dos trabalhadores fora das fábricas Nos primórdios da Revolução Industrial, o contraste entre as moradias dos operários e a de seus patrões era gritante, a começar pela localização. As residências dos industriais ficavam no subúrbio, afastadas dos centros fabris; eram imponentes, ajardinadas, e possuíam várias divisões internas, elementos que documentam a riqueza de seus donos, os maiores beneficiários da industrialização/urbanização que vinha se processando. Os operários moravam próximos das fábricas, no centro, sendo, portanto, as principais vítimas da poluição do ar. As famílias operárias, geralmente numerosas, amontoavam-se em cortiços, com um ou dois cômodos, que eram usados para tudo: dormir, cozinhar, lavar roupas, se alimentar, brincar. As famílias geralmente dividiam entre si um banheiro e uma única torneira, localizados no corredor que dava acesso à rua. As ruas dos bairros operários eram de chão batido, sujas e com esgotos a céu aberto, o que facilitava a ocorrência de epidemias como a cólera, que fez muitas vítimas na época. Como os aluguéis eram caros, quase não sobravam recursos para a alimentação; a principal refeição dos operários reduzia-se, na maioria das vezes, a uma torta de batata. Os bares (pubs) serviam como ponto de encontro para diversões e debates políticos entre os operários. Lá eles conversavam sobre o seu dia a dia, distraíam-se com jogos e também discutiam assuntos de interesse coletivo, como, por exemplo, as condições de trabalho no interior das fábricas.

Dica! Vídeo sobre o combate às doenças da Inglaterra do século XIX. [Duração: 29 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ uhqwuv>.

Cólera:

doença infecciosa gastrointestinal produzida pelo vibrião colérico, uma bactéria em forma de vírgula.

Sabotar:

a palavra “sabotagem”, derivada do francês sabot (tamanco), está ligada às lutas operárias. Revoltado, o operário sabotava o trabalho enfiando seu tamanco entre as engrenagens das máquinas e parando a produção.

Os trabalhadores vão à luta Os trabalhadores reagiram às suas condições de vida e de trabalho de diversas formas; uma das primeiras reações dos operários ingleses foi sabotar e destruir máquinas, consideradas responsáveis por tirar deles o emprego. Na Inglaterra, essa destruição foi atribuída a grupos liderados pelo “general Ludd” (provavelmente o pseudônimo do operário Ned Ludd), daí o nome de ludismo dado ao movimento de trabalhadores que quebravam máquinas, quando suas exigências de melhores salários e condições de trabalho não eram atendidas. Os luditas agiam, geralmente, à noite e em pequenos grupos: armados de martelos, machados e lanças, punham abaixo o portão das fábricas e demoliam as máquinas. O movimento teve início em 1811, na cidade inglesa de Nottingham, e se espalhou rapidamente pelas regiões vizinhas. A repressão aos luditas foi dura: em 1812, o Parlamento aprovou a pena de morte para quem destruísse máquinas, e, no ano seguinte, o governo inglês condenou à forca o também líder George Mellor e mais de uma dezena de seus companheiros. Os trabalhadores passaram a reagir por meio de greves e marchas de protesto e a exigir redução da jornada de trabalho, abolição dos castigos nas fábricas e aumento de salário. A polícia reprimia as manifestações operárias com violência, prendendo e executando seus líderes.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, a quebra de máquinas era uma tática dos luditas para conseguir melhores condições de trabalho e impedir a queda dos salários.

DIALOGANDO Em sua opinião, o que teria levado os luditas a quebrarem máquinas?

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O Parlamento, por sua vez, aprovou leis que proibiam a greve, as associações operárias (trade unions) e as marchas de protesto. Em 1819, na cidade inglesa de Manchester, uma manifestação de protesto com cerca de 80 mil trabalhadores terminou em tragédia: 11 deles foram mortos. O episódio ficou conhecido como Massacre de Peterloo. Pressionado pelo movimento operário, em 1824 o Parlamento britânico reconheceu as trade unions, organizações de trabalhadores que promoviam auxílio mútuo entre os seus associados e que, no fim do século XIX, passaram a atuar como sindicatos (órgãos de defesa da classe trabalhadora). Nos anos 1830, o operariado continuou promovendo marchas de protesto por melhores condições de trabalho, mas passou a lutar também por direitos políticos. Em 1838, os trabalhadores entregaram ao Parlamento a Carta do Povo, um manifesto com mais de 1 milhão de assinaturas no qual exigiam: » voto secreto e extensivo a todos os homens; os cartistas recolhiam milhares de assinaturas nas oficinas, fábricas e associações operárias e organizavam numerosas marchas que cortavam as principais cidades do país, entoando canções de protesto. As petições cartistas foram enviadas ao Parlamento por diversas vezes, mas, apesar de virem acompanhadas de milhares de assinaturas, eram rejeitadas.

Manifestação na porta de uma fábrica em Salford, Inglaterra, em agosto de 1842. Repare que os policiais se valem de cassetetes para reprimir os operários.

» abolição do voto censitário para o Parlamento (do qual até então só podiam fazer parte os ricos);

» pagamento de salários aos deputados para que os trabalhadores também pudessem se candidatar. A luta pela aprovação da Carta do Povo deu origem a um movimento popular com grande força em toda a Inglaterra: o cartismo. As exigências dos cartistas foram recusadas pelo Parlamento, desencadeando ondas de greves, prisões e mortes de líderes operários. As lutas operárias, no entanto, não foram em vão; eis algumas conquistas, parte das quais se devem aos cartistas:

» 1833 – limitação do trabalho das crianças entre 10 e 13 anos a 48 horas semanais; entre 13 e 18 anos, a 69 horas semanais.

» 1842 – proibição do trabalho infantil e feminino nas minas. » 1846 – supressão dos impostos sobre os cereais importados, como o trigo, que encareciam o preço do pão.

» 1847 – estabelecimento da jornada de trabalho de 10 horas diárias. » 1878 – limitação do trabalho das mulheres a 60 horas semanais. » 1919 – estabelecimento da jornada de 8 horas diárias. 1842. Gravura. Coleção particular. Foto: HultonArchive/Illustrated London News/Getty Images

Cartismo:

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (UEL-PR – 2016) Thomas Morus, em sua obra Utopia, criou uma analogia para a sociedade de sua época. Nessa representação da sociedade, caracterizada pelo caos, ovelhas se alimentavam de seres humanos, explicitando, dessa forma, um rompimento do equilíbrio social, no século XVIII. Com base nos conhecimentos sobre as transformações históricas ocorridas nesse período, assinale a alternativa que apresenta, corretamente, a denominação da fase do sistema produtivo e a nação correspondente nesse processo. a) Plantations – Alemanha. b) Dominium – Itália. c) Servidão – Portugal. d) Corveia – França. e) Cercamentos – Inglaterra. 1. Resposta: e. 2. (UFRGS-RS – 2015) Durante o século XVII, a Inglaterra experimentou um período de profundas e violentas transformações políticas, desde a eclosão da Guerra Civil Inglesa (1642-1651) até a Revolução Gloriosa (1688). Entre as principais consequências desse processo, podem ser enumeradas a) a transição do absolutismo para uma monarquia constitucional, e a limitação dos poderes políticos do monarca. 2. Resposta: a. b) a abolição da propriedade privada e a adoção de um sistema de terras comunais em todo o país. c) a independência das treze colônias inglesas da América do Norte e a abertura dos portos ingleses aos navios estrangeiros. d) a derrota militar das forças reformistas e a consolidação do absolutismo monárquico nas mãos de Oliver Cromwell. e) a abolição do anglicanismo e a afirmação do calvinismo como religião oficial da Inglaterra.

3. (UFMG) Durante a Revolução Inglesa, no século XVII, foi formado o Exército de Novo Tipo, liderado por Oliver Cromwell, de que participavam, além da classe mercantil, da gentry, dos pequenos proprietários camponeses e de trabalhadores urbanos, segmentos mais radicais, que defendiam reformas profundas no Estado inglês. É correto afirmar que esses segmentos eram constituídos: a) pelos tories, que visavam ao fechamento do Parlamento e à instituição de um governo popular, e pelos whigs, defensores da abolição da propriedade privada; b) pelos levellers, que reivindicavam a democratização, a extensão do sufrágio e uma maior igualdade perante a lei, e pelos diggers, defensores da posse comum das terras; 3. Resposta: b. c) pelos landlords, que buscavam a implantação do sufrágio universal e a extensão do voto às mulheres, e pelos warlordists, que pregavam a luta armada do povo contra o Parlamento; d) pelos saint-simonistas, que defendiam o fim do sistema monárquico, e pelos owenistas, defensores da abolição da Câmara dos Lordes. 4. (UEL-PR) Um fator que contribuiu decisivamente para o processo de industrialização na Inglaterra do século XVIII foi a) a acumulação de capital resultante da exploração colonial praticada pela Inglaterra através do comércio. 4. Resposta: a. b) a concorrência tecnológica entre ingleses e americanos, que estimulou o desenvolvimento econômico. c) a expulsão das tropas napoleônicas do território inglês, que uniu os interesses nacionais em torno de um esforço de desenvolvimento. d) o movimento ludista na Inglaterra com a destruição das máquinas consideradas obsoletas, ao incentivar a invenção de novas máquinas. CAPÍTULO 6 | A REVOLUÇÃO INGLESA E A INDUSTRIAL

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e) a abertura de mercados na Alemanha e na França para a Inglaterra, por meio de um acordo comercial conhecido por Pacto de Berlim. 5. (Enem/MEC – 2015) Dominar a luz implica tanto um avanço tecnológico quanto uma certa liberação dos ritmos cíclicos da natureza, com a passagem das estações e as alternâncias de dia e noite. Com a iluminação noturna, a escuridão vai cedendo lugar à claridade, e a percepção temporal começa a se pautar pela marcação do relógio. Se a luz invade a noite, perde sentido a separação tradicional entre trabalho e descanso — todas as partes do dia podem ser aproveitadas produtivamente. SILVA FILHO, A. L. M. Fortaleza: imagens da cidade. Fortaleza: Museu do Ceará; Secult-CE, 2001 (adaptado).

Em relação ao mundo do trabalho, a transformação apontada no texto teve como consequência a a) melhoria da qualidade da produção industrial. b) redução da oferta de emprego nas zonas rurais. c) permissão ao trabalhador para controlar seus próprios horários. d) diminuição das exigências de esforço no trabalho com máquinas. e) ampliação do período disponível para a jornada de trabalho. 5. Resposta: e. 6. (Enem/MEC) A Revolução Industrial ocorrida no final do século XVIII transformou as relações do homem com o trabalho. As máquinas mudaram as formas de trabalhar, e as fábricas concentraram-se em regiões próximas às matérias-primas e grandes portos, originando vastas concentrações humanas. Muitos dos operários vinham da área rural e cumpriam jornadas de trabalho de 12 a 14 horas, na maioria das

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vezes em condições adversas. A legislação trabalhista surgiu muito lentamente ao longo do século XIX e a diminuição da jornada de trabalho para oito horas diárias concretizou-se no início do século XX. Pode-se afirmar que as conquistas no início do século XX, decorrentes da legislação trabalhista, estão relacionadas com a) a expansão do capitalismo e a consolidação dos regimes monárquicos constitucionais. b) a expressiva diminuição da oferta de mão de obra, devido à demanda por trabalhadores especializados. c) a capacidade de mobilização dos trabalhadores em defesa dos seus interesses. 6. Resposta: c. d) o crescimento do Estado ao mesmo tempo que diminuía a representação operária nos parlamentos. e) a vitória dos partidos comunistas nas eleições das principais capitais europeias. 7. (UECE – 2016) Atente ao seguinte excerto: De 1815 a 1847, F. Gaillot arrola uma quinzena de casos ocorridos e outros tantos de tentativas abortadas. O ludismo é mais importante em 1848, quando assume feições particularmente graves, à imagem da duração da crise e da esperança despertada pela nova República. PERROT, M. Os excluídos da História. Operários, mulheres, prisioneiros. Trad. Denise Bottmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. p. 37.

Sobre o ludismo, é correto afirmar que a) é um ramo da psicologia voltado para casos extremos de crise política. b) constituiu um partido político na Inglaterra. c) foi um movimento operário de protesto con7. Resposta: c. tra a produção industrial. d) foi uma manifestação de rebeldes franceses a favor da produção fabril.

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Matthias Dunn. 1848. Ilustração. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos VOZES DO PASSADO O texto a seguir foi retirado de um site educacional inglês, contendo depoimentos de pessoas que trabalharam nas fábricas inglesas do século XIX desde a infância. O depoimento a seguir é de John Birley, nascido em Londres em 1805 e que começou a trabalhar com 6 anos de idade. Leia o que ele conta.

Mulher e menino trabalhando em uma mina de carvão, em desenho inglês de 1848.

Nosso horário normal era das cinco da manhã até as nove ou dez da noite; e aos sábados, até as onze, e às vezes meia-noite, e então éramos enviados para limpar o maquinário aos domingos. Não havia tempo para o café da manhã, não podíamos sentar para o jantar e não tinha tempo para tomar chá. Nós íamos para a mina às cinco da manhã e trabalhávamos até quase oito ou nove horas, quando eles traziam nosso café da manhã, que consistia em mingau com bolo de aveia e cebolas pra temperar. O jantar consistia em panqueca cortada em 4 pedaços, separadas em duas pilhas. Uma tinha manteiga e a outra tinha melado. Ao lado das panquecas havia leite. Nós tomávamos o leite e, com um pedaço de panqueca na mão, voltávamos a trabalhar sem sentar. Nós então trabalhávamos até nove ou dez da noite, quando a roda d’água parava. Quando nós parávamos de trabalhar, éramos levados para a casa dos aprendizes, situada a aproximadamente 300 metros da mina. Era uma casa grande de alvenaria, cercada por um muro de dois ou três metros de altura, com uma porta que era mantida trancada. Era capaz de abrigar cerca de cento e cinquenta aprendizes. SIMKIN, John. John Birley. Spartacus Educational, set. 1997. Tradução do autor. Disponível em: <http://spartacus-educational.com/IRbirley.htm>. Acesso em: 26 fev. 2016.

a) Qual o assunto principal do texto? b) O que se pode concluir sobre o trabalho infantil nas fábricas inglesas do início do século XIX e está explícito no texto? c) Por que os empregadores preferiam crianças e mulheres no trabalho fabril? d) Por que, na Inglaterra do século XIX, os empregadores podiam exigir dos aprendizes longas jornadas de trabalho? e) Elabore uma pesquisa sobre o trabalho infantil no Brasil de hoje.

PROFESSOR, VER MANUAL.

Sugestões de sites para trabalhar o assunto: 1. <http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2015/06/brasil-e-o-pais-que-mais-redu ziu-o-trabalho-infantil> 2. <http://www.unicef.org/brazil/pt/media_25610.htm>

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III. Integrando com Biologia › Fonte 1 A primeira vacina A primeira vacina foi descoberta pelo médico inglês Edward Jenner, em 1796. Era uma vacina contra varíola (doença que provoca erupções na pele e deixa cicatrizes). Jenner observou que as pessoas infectadas com a varíola bovina (cowpox) não contraíam a varíola comum (smallpox) e estudou o assunto por vários anos. Em 1796, inoculou com varíola bovina um menino saudável de 8 anos. Algum tempo depois, Jenner expôs o garoto ao contágio com varíola comum e ele não contraiu a doença: seu organismo havia desenvolvido defesas contra a varíola. Estava descoberta a primeira vacina. A reação inicial da comunidade médica foi de indiferença. Dois anos depois, contudo, Jenner divulgou os resultados de sua pesquisa em um livro e conseguiu reconhecimento no meio científico. A vacina criada por Jenner difundiu-se rapidamente na Europa e depois no resto do mundo.

› Fonte 2 Médicos alertam para a vacinação de adolescentes A Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim) lançou ontem um alerta sobre a importância da vacinação de adolescentes [...]. Entre as preocupações está a hepatite B, transmissível por beijos, relações sexuais e sangue, que pode se tornar crônica, levando a complicações como a cirrose. A vacina contra a hepatite B é a primeira a ser dada ao bebê, mas só entrou no Programa Nacional de Imunização a partir de 1998. Quem tem mais de 15 anos pode não ter recebido as doses necessárias. “[...]. É preciso se certificar de que o adolescente tomou as três doses, que garantem a imunidade”, disse o médico Renato Kfouri, presidente nacional da Sbim. Kfouri lembra que “[...] é difícil levar o adolescente à sala de vacina. Ele não se sente vulnerável às doenças.” [...] “A preocupação com o adolescente é que ele enfrenta riscos, não só pela idade, mas pelo comportamento. Ele se expõe mais socialmente, beija mais, tem uma atitude social que aumenta o contato com várias pessoas diferentes e fica mais suscetível”, afirmou Isabella Ballalai, presidente da regional Rio da Sbim. [...] THOMÉ, Clarissa. Médicos alertam para a vacinação de adolescentes. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 27 jun. 2012. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,medicos-alertam-para-a-vacinacao-de-adolescentes-,892039,0.htm>. Acesso em: 8 mar. 2016.

a) Pesquise e apresente uma definição de varíola. b) Responda com base na fonte 2: o que explica a preocupação dos médicos com a incidência da hepatite B entre os adolescentes? c) Em grupo. Segundo Isabella Ballalai, o adolescente “se expõe mais socialmente, beija mais [...] e fica mais suscetível”. Vocês concordam com ela? d) Em grupo. Apresentem sugestões para estimular os adolescentes a se vacinarem.

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IV. Você cidadão! Um seminário realizado em Foz do Iguaçu (PR), nesta semana, reuniu autoridades e especialistas da América Latina para discutir, entre outras questões, como evitar [...] mortes consideradas crime contra a humanidade. [...] O crime é justamente esse: o glotocídio. A cada quinze dias morre o último falante de uma das 6 700 línguas faladas atualmente em 193 países. Com ele desaparece para sempre mais uma língua. Com o objetivo de criar estratégias para fortalecer as línguas ameaçadas na América Latina, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Ministério da Cultura organizaram [...] um encontro [...] no Seminário Ibero-americano da Diversidade Linguística, que reuniu mais de 400 pessoas comprometidas com a luta pelos direitos linguísticos das minorias. [...] Arte plumária Karajá, Das línguas indígenas apenas 11 têm acima de cinco São Paulo (SP), 2008. mil falantes, o que significa que a maioria corre sério risco de extinção. [...] No seminário foi lembrado o drama recente de dois índios. Um deles – Tikuein – único falante da língua Xetá, vivia na aldeia São Jerônimo, norte do Paraná, com índios Kaingang e Guarani. Como estratégia para manter a língua viva, ele falava com o espelho e algumas vezes, caminhando pela aldeia, com um interlocutor fictício [...]. O outro caso foi registrado em 1978 por Zelito Viana no filme Terra de Índio. Ele gravou dona Maria Rosa, que vivia no Posto Indígena Icatu (SP) e era ali a única falante da língua Ofaié Xavante. Quando a fez escutar o que ela mesma havia dito, dona Maria Rosa estabeleceu um diálogo com o gravador, a quem perguntou por seu pai, por sua mãe e no final se despediu do aparelho dizendo: “Até logo, agora não falo mais porque estou rouca, viu?”. A extinção é um risco permanente para as línguas minoritárias, principalmente as indígenas, devido ao reduzido número de falantes e ao uso social restrito. Não existe literatura escrita nessas línguas, nem espaço na mídia. Em cinco séculos, nessas condições, mais de 1100 línguas indígenas desapareceram do mapa do Brasil e outras tantas do continente americano, levando com elas conhecimentos, cantos, rezas, narrativas, poesia, mitos, afetos.

Acervo Memorial da América Latina. Foto: Renato Soares/Pulsar Imagens

O texto a seguir aborda um assunto importante para todos nós. Leia-o com atenção.

BRASIL perdeu mais de 1100 línguas indígenas em 500 anos. Circuito Mato Grosso. Disponível em: <http://circuitomt.com.br/ editorias/brasil/53754-brasil-perdeu-mais-de-1-100-linguas-indigenas-em-500-anos.html>. Acesso em: 25 abr. 2016.

a) Em que consiste o glotocídio e como ele é definido no texto? b) O texto informa que, das línguas indígenas faladas no Brasil, apenas 11 têm acima de 5 mil falantes; o que isso significa? c) Quais foram as estratégias usadas por Tikuein e Maria Rosa para manterem suas línguas vivas? Que avaliação você faz dessas estratégias? d) E você, considera importante manter vivas as línguas indígenas do Brasil? Por quê? e) Em dupla. Façam uma pesquisa e tentem descobrir de que forma a tecnologia auxilia na sobrevivência das línguas indígenas. Postem o resultado da pesquisa no blog da turma. CAPÍTULO 6 | A REVOLUÇÃO INGLESA E A INDUSTRIAL

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UNIDADE

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Cidadania: passado e presente

› Fonte 1

Professor: para o autor da fonte 1 a cidadania envolve direitos civis, políticos e sociais. A intenção nesta abertura de unidade é estimular o debate sobre cidadania a fim de preparar o alunado para exercê-la e, ao mesmo tempo, perceber a historicidade desse conceito. Esse debate inicial pode, por exemplo, ajudar os estudantes a compreenderem o processo que conduziu a passagem do súdito a cidadão durante a Revolução Francesa, tema vertebral dessa unidade.

O texto a seguir foi escrito pelo historiador José Murilo de Carvalho; leia-o com atenção.

Tasso Marcelo/AE

Direitos garantidos pela lei hoje Tornou-se costume desdobrar a cidadania em direitos civis, políticos e sociais. O cidadão pleno seria aquele que fosse titular dos três direitos. Cidadãos incompletos seriam os que possuíssem apenas alguns dos direitos. Os que não se beneficiassem de nenhum dos direitos seriam não cidadãos. Esclareço os conceitos. Direitos civis são os direitos fundamentais à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei. Eles se desdobram na garantia de ir e vir, de escolher o trabalho, de manifestar o pensamento, de organizar-se, [...] de não ser preso a não ser pela autoridade competente e de acordo com as leis, de não ser condenado sem processo legal regular. [...] Sua pedra de toque é a liberdade individual. É possível haver direitos civis sem direitos políticos. Estes se referem à participação do cidadão no governo da sociedade. Seu exercíJosé Murilo de Carvalho é professor da cio é limitado a parcela da população e conUniversidade Federal do Rio de Janeiro, membro siste na capacidade de fazer demonstrações da Academia Brasileira de Ciências e da Academia políticas, de organizar partidos, de votar, de Brasileira de Letras. Fotografia de 2012. ser votado. Em geral, quando se fala de direitos políticos, é do direito do voto que se está falando. [...] Sem os direitos civis, sobretudo a liberdade de opinião e organização, os direitos políticos, sobretudo o voto, podem existir formalmente mas ficam esvaziados de conteúdo e servem antes para justificar governos do que para representar cidadãos. [...] Finalmente, há os direitos sociais. [...]. Eles incluem o direito à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde, à aposentadoria. [...] Os direitos sociais permitem às sociedades politicamente organizadas reduzir os excessos de desigualdade produzidos pelo capitalismo e garantir um mínimo de bem-estar para todos. A ideia central em que se baseiam é a da justiça social. CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. p. 9-10.

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UNIDADE 3 | CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

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› Fonte 3 Adilson B. Liporage/Opção Brasil Imagens

João Prudente/Pulsar Imagens

› Fonte 2

› Fonte 4 Martin Benrnetti/AFP Photo/Image Forum

» Como o autor da fonte 1 define cidadania? » A fonte 2 registra o respeito ao direito

de acessibilidade. A fonte 3 documenta o respeito a um direito contido no Estatuto

da Criança e do Adolescente : o direito de brincar, praticar esporte, divertir-se. A manifestante da fonte 4 está lutando por um direito social, o direito à educação. Fonte 2: pessoa com deficiência visual caminhando sobre piso tátil. O piso tátil é diferenciado por cor e textura e tem a função de orientar pessoas com deficiência visual ou com baixa visão. Fotografia de 2015. Fonte 3: balanço para pessoas com deficiência física, em Petrópolis (RJ), 2015. Fonte 4: manifestação de professores em frente ao Palácio Presidencial La Moneda. Santiago, Chile, 2014.

» Você já viu um cidadão sendo desrespei-

tado? » Alguém já desrespeitou um direito seu? » Você já desrespeitou o direito de outra

pessoa (xingando alguém porque torce pelo time adversário, por exemplo)? UNIDADE 3 | CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

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Professor: a ideia aqui é estimular o aluno a comparar a Wikipédia, uma invenção recente, com a enciclopédia inventada pelos franceses no século XVIII, acentuando as diferenças entre uma e outra. Consideramos importante destacar que a Encyclopédie, modelo para quase todas as enciclopédias posteriores, foi feita por

O Iluminismo e a formação dos Estados Unidos especialistas franceses de diferentes áreas, buscava organizar e sistematizar conhecimento e, além disso, rendeu um lucro fabuloso aos seus produtores. Já a Wikipédia é um empreendimento sem fins lucrativos, tem sido escrita a muitas mãos e vem sendo permanentemente atualizada. Esse paralelo pode alavancar uma aula dialogada sobre o Iluminismo.

Dica! Vídeo sobre a criação da Wikipédia. [Duração: 7 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/w6uzb6>.

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Leia o texto a seguir com atenção.

Robert Schlesinger/dpa/Corbis/Latinstock

Capítulo 7

Wikipédia A Wikipédia é uma enciclopédia multilíngue, on-line, livre, colaborativa, ou seja, escrita internacionalmente por várias pessoas comuns de diversas regiões do mundo, todas elas voluntárias. [...] Este é o fator que distingue a Wikipédia de todas as outras enciclopédias: qualquer pessoa com acesso à internet pode modificar qualquer artigo, e cada leitor é potencial colaborador do projeto. A enciclopédia, sem fins lucrativos, é gerida e operada pela Wikimedia Foundation. Ela está disponível em 272 idiomas [...]. [...] Desde seu início, a Wikipédia tem aumentado sua popularidade e seu sucesso tem feito surgir outros projetos irmãos. [...] WIKIPÉDIA. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia>. Acesso em: 22 fev. 2016.

» Você já consultou a Wikipédia? » Acha interessante que cada leitor seja um colaborador em potencial? » O que você pensa de a Wikipédia não ter fins lucrativos? » Reparou que ela é uma enciclopédia com características singulares? » Sabia que o primeiro modelo de enciclopédia (a Encyclopédie) foi criado

pelos franceses do século XVIII? » Sabia que as ideias contidas na Encyclopédie inspiraram lutas pela indepen-

dência na América? » Que diferenças há entre a enciclopédia criada pelos franceses e a Wikipédia?

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UNIDADE 3 | CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

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O Iluminismo ou Ilustração (palavra mais apropriada segundo os especialistas) foi um movimento de ideias desenvolvidas nos séculos XVII e XVIII, na Europa Ocidental, sendo a França o seu principal centro de produção e divulgação. A principal característica do Iluminismo era a crença na razão humana e no seu potencial. Para os iluministas, os homens só podiam alcançar o esclarecimento e a luz por meio da razão, que deveria ser aplicada a todas as atividades humanas, destruindo a ignorância, combatendo os preconceitos e o fanatismo religioso. Como disse um historiador:

Chassoneris. 1793. Coleção particular

A Ilustração

Princípio de toda verdade, autônoma por definição, a razão iluminista se opõe a tudo que [...] se oculta sob as denominações vagas de “autoridade”, “tradição” e “revelação”. FALCON, Francisco José Calazans. Iluminismo. 4. ed. São Paulo: Ática, 1994. p. 36. (Princípios).

Os iluministas acreditavam que pela razão a humanidade chegaria ao conhecimento que, por sua vez, levaria inevitavelmente ao progresso. Essa crença no progresso constante da humanidade é uma ideia-chave do Iluminismo: com o tempo, a ignorância, o obscurantismo e a superstição – frutos da irracionalidade – iriam ceder lugar ao esclarecimento, às luzes. Para os iluministas, o triunfo da humanidade era uma certeza, daí o otimismo que caracteriza o movimento. Leia as palavras de um historiador sobre o conceito de Iluminismo.

Escola alemã. Séc. XIX. Óleo sobre tela. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Progresso, otimismo e ciência

Para os iluministas, a gestão da sociedade também deveria ser submetida ao império da razão. Note que nesse baralho comemorativo da Revolução Francesa, em vez do rei de paus, vemos a figura do filósofo Rousseau, opositor convicto da monarquia absolutista que ajudou a derrubar.

O conceito remonta ao próprio século XVIII, quando uma série de expressões relacionadas à ideia de luz – em oposição às trevas da ignorância e da intolerância – entrou em circulação. [...] Em 1784, [...], I. Kant (1724-1804) respondeu à indagação de um periódico berlinense sobre o significado do termo [...]“ilustração”. Esta consistiria num processo de esclarecimento, representado pela “saída do homem de sua menoridade”, graças ao uso de seu próprio entendimento. Em sintonia com a crença otimista da época, Kant entendia, assim, as Luzes como um movimento da humanidade em direção a um futuro melhor que buscava uma liberdade de pensamento que viabilizasse, pelo “uso público da razão”, o aprimoramento dos negócios públicos, até então conduzidos no círculo fechado das Cortes. NEVES, Guilherme Pereira. Iluminismo. In: VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. p. 296.

Retrato de Immanuel Kant (1724-1804).

CAPÍTULO 7 | O ILUMINISMO E A FORMAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS

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Lavoisier:

Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794), cientista francês, personagem mais importante no desenvolvimento da química enquanto ciência e autor do livro Elementos de química, publicado em 1789.

Privilégio:

no Antigo Regime, a palavra privilégio não possuía o sentido que tem hoje, de vantagem conseguida sem esforço ou ilegalmente. No Antigo Regime, privilégio era o direito legítimo – concedido ou comprado – de usufruir de um território, um cargo público ou uma pensão, que conferia ao seu possuidor poder, prestígio e riqueza.

François Bouchot. Séc. XIX. Gravura colorida. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Dica! Vídeo com crítica de Voltaire ao fanatismo religioso. [Duração: 3 minutos]. Acesse: <http://tub. im/vvkm4x>.

Os iluministas acreditavam também que o mundo era regido por leis naturais. Conhecer essas leis era sinal de progresso; daí o ardor com que se dedicaram à ciência, o que resultou em importantes descobertas científicas como as realizadas à época por Lavoisier. Por fim, é importante lembrar que o Iluminismo foi também uma reação ao Antigo Regime: monarquias absolutistas em que o rei, a nobreza e o clero acumulavam poder e privilégio. Os iluministas opunham-se ao absolutismo, aos privilégios da nobreza e do clero, à intolerância religiosa e à falta de liberdade de expressão.

Pensadores iluministas Os iluministas ocuparam-se de várias áreas do conhecimento: ciência, técnica, filosofia, literatura, entre outras.

Voltaire e a liberdade de pensamento Um representante de peso da primeira geração iluminista foi o francês François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire (1694-1778), e considerado por muitos como o maior propagandista do novo ideário. Esse filósofo engajou-se nos debates políticos do seu tempo, esgrimindo contra a Igreja Católica e o Antigo Regime. Conhecido por seu anticlericalismo, Voltaire condenava por meio de sátiras, anedotas e ensaios o fanatismo, o preconceito religioso e a infalibilidade do papa. Ele encerrava seus ataques à Igreja com a frase: “Esmagai a infame”. Mas, apesar de tecer duras críticas a essa instituição, ele, assim como a maioria dos iluministas, acreditava na existência de Deus, visto como Ser Supremo, arquiteto ou relojoeiro do Universo. Por seus escritos, Voltaire chegou a ser preso duas vezes. Para evitar uma nova prisão, refugiou-se na Inglaterra. Durante seu exílio escreveu a obra Cartas inglesas, na qual fazia apologia da monarquia constitucional inglesa e do liberalismo político defendido por John Locke. Voltaire também foi um defensor incansável da liberdade de pensamento e de expressão. É atribuída a ele a frase: “Posso não concordar com nenhuma palavra que você disse, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”. Gravura de François Bouchot (18001842) representando Voltaire preso na Bastilha (prisão usada pelos monarcas absolutistas franceses para castigar quem, de alguma forma, opunha-se ao Antigo Regime).

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Outro importante pensador do século XVIII foi o jurista Charles Louis de Secondat, Barão de Montesquieu (1689-1755), autor de O espírito das leis, obra monumental composta de muitos livros e publicada pela primeira vez em 1748. Uma ideia importante dessa obra é a de que as leis mantêm estreitas relações com a história e a realidade do povo submetido a elas. Assim, para Montesquieu, não há leis justas ou injustas, mas leis adequadas ou não a um determinado povo, tempo e lugar. Montesquieu dizia que todo indivíduo que detém o poder tende a abusar dele; portanto, tudo estaria perdido se o mesmo indivíduo exercesse o poder de fazer leis, executar e julgar. Por isso, eram necessárias a separação e a distinção dos poderes. Leia o que o próprio Montesquieu diz sobre o assunto.

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Montesquieu e a teoria dos três poderes

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Perfil de Montesquieu em gravura do século XIX.

A liberdade política [...] é esta tranquilidade de espírito que provém da opinião que cada um tem sobre a sua segurança; e para que se tenha esta liberdade é preciso que o governo seja tal que um cidadão não possa temer outro cidadão. Quando, na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratura, o poder legislativo está reunido ao poder executivo, não existe liberdade; porque se pode temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado crie leis tirânicas para executá-las tiranicamente. Tampouco existe liberdade se o poder de julgar não for separado do poder legislativo e do executivo. Se estivesse unido ao poder legislativo, o poder sobre a vida e a liberdade dos cidadãos seria arbitrário, pois o juiz seria legislador. Se estivesse unido ao poder executivo, o juiz poderia ter a força de um opressor. Tudo estaria perdido se o mesmo homem, ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo exercesse os três poderes [...]. MONTESQUIEU. O espírito das leis. São Paulo: Martins Fontes, 1996. p. 168.

Inspirados em suas ideias, os estadunidenses Alexander Hamilton (1755-1804) e James Madison (1751-1836) formularam a teoria da divisão dos poderes em três: Executivo (para administrar o país e executar as leis), Legislativo (para elaborar e aprovar as leis) e Judiciário (para fiscalizar o cumprimento das leis e julgar os conflitos). Segundo essa teoria, os três poderes só funcionariam adequadamente se fossem autônomos (não interferissem na esfera um do outro) e harmônicos (agissem em comum acordo). Só mediante esse compromisso de respeito mútuo se alcançaria o ideal da moderação.

Rousseau e a vontade geral Por sua originalidade e atualidade, o pensamento do suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo, escritor e compositor musical, continua a ser muito estudado e a despertar debates acalorados em todo o mundo. Em sua obra Emílio ou Da Educação, ele reflete sobre diversos temas a partir da educação de um garoto por seu tutor. CAPÍTULO 7 | O ILUMINISMO E A FORMAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS

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Escola francesa. Séc. XVIII. Ilustração. Bibliotheque Nationale, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Nessa obra, Rousseau inova ao ver a criança como um ser singular e não como um adulto em miniatura, como até então ela era vista. Sua premissa filosófica é a de que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Essa ideia está resumida em uma frase do personagem Emílio: “Tudo é certo em saindo das mãos do Autor das coisas, tudo degenera nas mãos do homem”. Com base nessa premissa Rousseau se coloca contra as rotinas tradicionais destinadas as crianças de sua época, e em prol da felicidade e das necessidades delas. Emílio é uma obra ao mesmo tempo filosófica e pedagógica que, ao ser lida ao longo do tempo, influenciou fortemente práticas e reflexões no campo da pedagogia.

Vontade geral:

para Rousseau, a vontade geral era a integração, e não a simples soma das vontades individuais.

Ilustrações da obra Emílio, uma novela pedagógica de Jean-Jacques Rousseau.

Vontade geral:

para Rousseau, a vontade geral era a integração, e não a simples soma das vontades individuais.

1. Dica! Vídeo sobre a vida e a obra de Rousseau. [Duração: 9 minutos]. Acesse: <http://tub. im/6be2hu>. 2. Dica! Vídeo sobre as ideias de Rousseau e sua influência na história do Brasil. [Duração: 11 minutos]. Acesse: <http://tub. im/3bg6go>.

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Em seu livro Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, Rousseau afirma que a infelicidade humana tem sua origem na propriedade privada, que teria arrancado o indivíduo de sua condição natural (a vida em harmonia com a natureza) e destruído a igualdade entre os homens. Em seu clássico O contrato social, Rousseau diz que, ao se verem ameaçados, os homens concordaram em se organizar politicamente, estabelecendo um contrato social entre eles, que uniu cada um aos demais. Por esse contrato, ficava estabelecido que a vontade geral é soberana, ou seja, só o povo é soberano; o governo é apenas delegado, comissário do povo. Sendo o único detentor da soberania, o povo pode estabelecer e destituir o governo quando julgar necessário; pode limitar, modificar ou retomar o poder quando lhe aprouver. As ideias de Rousseau influenciaram movimentos revolucionários, tanto na Europa como em outros continentes. No continente americano, seu pensamento insuflou, entre outros, o movimento de independência das Treze 1e2 Colônias, na América do Norte, e a Conjuração Baiana, no Brasil.

A Enciclopédia Quando se fala em Iluminismo, nos vem à cabeça imediatamente a Enciclopédia, obra composta de 35 volumes e 2 885 ilustrações, organizada pelo filósofo Denis Diderot (1713-1784) e pelo matemático Jean D’Alembert (1717-1783).

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[...] os editores conseguiram uma fortuna. Com um investimento inicial de 70 mil libras, o lucro pode ter chegado a 2,5 milhões de libras. DARNTON, Robert. O Iluminismo como negócio: história da publicação da “Enciclopédia”, 1775-1800. Trad. Laura Teixeira e Márcia Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 25.

Dica! Animação sobre o século das luzes na Europa dos séculos XVIII e XIX. [Duração: 25 minutos]. Acesse: <http://tub.im/dgkhcz>.

Desenho do século XVIII representando o interior do Café Procope em Paris, ponto de encontro de intelectuais e artistas. As ideias iluministas foram divulgadas também entre os populares, nas ruas, nas praças e nos cafés, e não apenas nos salões dos nobres ou nas residências de burgueses enriquecidos.

Escola inglesa. Séc. XVIII. Desenho. Cabinet Des Arts Graphiques, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Em 1751, quando essa obra começou a ser publicada na França, foi considerada perigosa e chegou a ser proibida e retirada de circulação. A Enciclopédia – cujos verbetes foram escritos por filósofos (como Voltaire e Rousseau), cientistas, artistas, médicos, teólogos e, também, por técnicos – foi concebida e elaborada para ser uma síntese do saber acumulado e, ao mesmo tempo, um poderoso instrumento de sua divulgação. Embora na época o número de leitores fosse proporcionalmente muito menor do que o de hoje, a obra foi um sucesso de vendas. Conforme pesquisa de um historiador atual:

Iluminismo e economia A revolução intelectual iluminista não se restringiu a criticar o absolutismo monárquico: atacou também sua política econômica, o mercantilismo. Seus ataques se voltaram, sobretudo, para a principal característica do mercantilismo: a intervenção do Estado na economia. Os primeiros a criticarem o mercantilismo foram os fisiocratas franceses. A palavra “fisiocracia” – de origem grega, composta de duas outras: physis (natureza) e kratos (riqueza/poder) – pode ser traduzida por “poder da natureza”. Para os fisiocratas, a única fonte de toda riqueza era a terra e a agricultura era a principal atividade econômica. Já a manufatura e o comércio não faziam mais que transformar e trocar as riquezas oriundas da terra; eram, portanto, atividades secundárias. O principal representante da fisiocracia, o economista François Quesnay (1694-1774), compara o organismo econômico ao corpo humano, afirmando que ambos são regidos por leis naturais e que a agricultura é o coração da economia. Para esse autor, a lei mais importante do organismo econômico é a “lei da oferta e da procura”: quando a oferta é maior que a procura, o preço tende a baixar; quando ocorre o oposto, tende a subir. Assim, para ele, se o Estado interviesse na economia, estaria contrariando as “leis naturais”. Para Quesnay, o Estado deveria restringir-se a incentivar o progresso e eliminar as regulamentações mercantilistas. Os fisiocratas criaram uma frase que resume seu pensamento: “laissez-faire, laissez-passer, le monde va de lui-même” (deixai fazer, deixai passar, que o mundo caminha por si mesmo). CAPÍTULO 7 | O ILUMINISMO E A FORMAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS

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Escola inglesa. Séc. XVIII. Gravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Gravura de Adam Smith no livro Os maiores benfeitores da humanidade, de Samuel Adams Drake, século XIX.

Adam Smith e o liberalismo econômico

Os fundamentos do liberalismo na economia foram lançados pelo escocês Adam Smith (1723-1790), considerado por muitos como o fundador da ciência econômica. Em sua obra A riqueza das nações (1776), A. Smith fez uma descoberta científica, uma espécie de ovo de Colombo, qual seja, a de que somente o trabalho cria riqueza (e não o comércio, como acreditavam erroneamente os mercantilistas; ou a agricultura, como pensavam os fisiocratas). Para Smith, o valor do trabalho seria determinado pela lei da oferta e da procura. Essa e outras leis do mercado garantiriam a evolução “natural” e saudável da economia, ou seja, a “mão invisível” do mercado conduziria ao progresso econômico sem que fosse necessária a “mão pesada” do Estado. Adam Smith opunha-se, portanto, à intervenção do Estado e de grupos monopolistas na economia e defendia a livre concorrência e o livre-comércio entre as nações. Se todas as nações comerciassem entre si, dizia ele, todas elas sairiam lucrando, pois cada uma produziria somente aquilo que conseguisse fazer melhor. As nações com perfil mais agrícola se dedicariam à agricultura, e as mais industrializadas se especializariam na indústria. A não intervenção do Estado e a livre concorrência entre indivíduos, empresas e nações constituem os dois postulados básicos do liberalismo econômico. Seus principais defensores – além do próprio Adam Smith – foram Thomas Robert Malthus (1766-1834), David Ricardo (1772-1823) e Stuart Mill (1806-1873), representantes da chamada escola clássica da 1e2 economia.

O despotismo esclarecido 1. Dica! Vídeo sobre a vida e a obra de Adam Smith. [Duração: 6 minutos]. Acesse: <http://tub. im/2h6gzy>. 2. Dica! Vídeo sobre o liberalismo de Adam Smith e o socialismo de Karl Marx. [Duração: 20 minutos]. Acesse: <http://tub. im/7fufsq>.

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As ideias iluministas foram aplicadas por alguns monarcas absolutistas como estratégia de governo. Esses monarcas “esclarecidos” pretendiam modernizar/reformar e enriquecer seus domínios e ampliar seu poder, prestígio e fama. O tipo de governo adotado por eles foi chamado pelos historiadores do século XIX de despotismo esclarecido. Em todos os lugares da Europa onde a experiência foi bem sucedida, isso foi possível porque tais reformas não puseram em risco a sobrevivência do Antigo Regime. É de se notar que, na Europa, só não houve despotismo esclarecido na Inglaterra e na França. Na Inglaterra, porque lá já não existia o absolutismo; e, na França, porque se as reformas tivessem sido efetivadas, elas teriam correspondido, pela situação do país, a uma revolução, a uma superação do Antigo Regime.

UNIDADE 3 | CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

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C. Roechling. 1731. Ilustração. Foto: ullstein bild via Getty Images

Frederico II, da Prússia (1712-1786), foi o déspota esclarecido de maior prestígio na época. Conhecido como Frederico, o Grande, ele era chamado de rei-filósofo, pois deixou escritos filosóficos respeitados pelos intelectuais de seu tempo, a exemplo de Voltaire e outros. Além disso, Frederico II aboliu as torturas aplicadas aos presos em seu país, criou escolas de ensino fundamental, incentivou as letras, as artes e as ciências, empreendeu a modernização de várias regiões da Prússia e dirigiu pessoalmente a reforma de Berlim, capital do país na época. José II, da Áustria (1741-1790), sensível às A imagem de 1731 representa o Rei Frederico II da Prússia inspecionando, com seu secretário, os ideias iluministas, adotou a tolerância religiosa domínios reais, no interior da Prússia. e implementou reformas visando à modernização de seu país. As reformas empreendidas por ele mantiveram intocados, no entanto, o militarismo e a servidão. Catarina II, da Rússia (1729-1796), leitora voraz dos enciclopedistas, também atuou como agente modernizador de seu país: mandou construir escolas, fundou hospitais, dirigiu a reforma da capital (São Petersburgo) e combateu a corrupção nos meios civis e religiosos. Além disso, incentivou a construção de um gigantesco parque industrial metalúrgico que beneficiava ferro e cobre, extraídos das minas situadas nos montes Urais. Marquês de Pombal (1699-1782), ministro do rei Dom José I (1714-1777), foi o representante do despotismo esclarecido em Portugal. Valendo-se de seu enorme poder, decretou a emancipação dos indígenas na América portuguesa; em Portugal, decretou a abolição da escravidão africana e a fundação da Imprensa Régia. Alegando razões de Estado, o marquês ordenou a expulsão dos jesuítas de Portugal e de suas colônias, em 1759, e confiscou seu vasto patrimônio. Com a expulsão dos jesuítas, a frágil organização do ensino no Império Português ficou seriamente prejudicada, e, nos 11 anos seguintes, a educação ressentiu-se da falta de recursos e de profissionais especializados. Diante disso, em 1770, Pombal propôs um novo estatuto para a Universidade de Coimbra. Afinado com as ideias iluministas, promoveu a valorização das ciências naturais, a adoção do método experimental no curso de medicina e a criação das faculdades de filosofia e matemática. O governo pombalino abriu também 837 vagas para o cargo de mestre-régio em Portugal e seus domínios, cabendo ao Brasil apenas 44 delas. Esses professores eram pagos pelo Estado com os recursos oriundos de um novo imposto criado especialmente Dica! Documentário para este fim: o subsídio literário. português sobre a vida A obra modernizadora de Marquês de Pombal imprimiu novos rumos à do Marquês de Pombal. cultura no Império Português, mas manteve praticamente intocados a po- [Duração: 59 minutos]. Acesse: <http://tub. lítica tributária e os privilégios vigentes em Portugal sob o Antigo Regime. im/3j2794>. Os ideais iluministas foram aplicados efetivamente, pela primeira vez, nas Treze Colônias da América do Norte. CAPÍTULO 7 | O ILUMINISMO E A FORMAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS

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As relações entre a Inglaterra e as Treze Colônias da América do Norte Como vimos anteriormente, desde o início da colonização, os habitantes das Treze Colônias da América do Norte desenvolveram sentimentos de autonomia em relação à metrópole e hábitos de autogoverno. A Inglaterra, por sua vez, adotou durante muito tempo a política de negligência salutar, isto é, de não interferência nos assuntos internos das Treze Colônias. A partir da segunda metade do século XVIII, no entanto, o governo inglês mudou sua política colonial, passando a oprimir suas colônias. Entre os fatores que contribuíram para essa mudança de atitude, cabe destacar: » a concorrência que os produtos norte-americanos faziam aos ingleses no mercado externo; » as guerras em que a Inglaterra se envolveu. Uma delas foi a Guerra Franco-Índia, iniciada em 1754, quando os colonos norte-americanos invadiram as terras indígenas situadas além dos Montes Apalaches provocando a reação dos franceses que lá viviam e dos indígenas aliados a eles. Outra foi a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), a mais importante do século XVIII, um conflito armado entre a França e a Inglaterra e seus respectivos aliados na Europa e na América. A Inglaterra venceu essas duas guerras travadas na Europa e na América, mas saiu delas abalada financeiramente. A França, por sua vez, foi derrotada e teve de entregar para a Inglaterra uma parte de suas possessões no Canadá, nas Antilhas e na Índia. Observe o mapa a seguir. 75° O

120° O

CANADÁ

45°

N

Território do Oregon disputado entre a Rússia e a Grã-Bretanha

NOVO MÉXICO

LOUISIANA

OCEANO PACÍFICO VICE-REINADO DA NOVA ESPANHA

AS TREZE COLÔNIAS Rio Mississíp i

Na Guerra Franco-Índia e na Guerra dos Sete Anos, os habitantes das Treze Colônias ganharam experiência na formação de unidades militares e no combate armado, elementos importantes nas lutas travadas contra a metrópole inglesa.

Allmaps

A América do Norte após a Guerra dos Sete Anos (século XVIII)

Possessões espanholas Possessões britânicas Terras francesas perdidas para a Espanha e recuperadas em 1783 Terras francesas perdidas para a Inglaterra Terras espanholas perdidas para a Inglaterra

Golfo do México

OCEANO ATLÂNTICO

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Fonte: VIDAL-NAQUET, Pierre; BERTIN, Jacques. Atlas histórico. Lisboa: Círculo do Livro, 1990. p. 208.

Para recuperar-se das enormes despesas com as guerras em que havia se envolvido, a Inglaterra baixou uma série de novas leis desfavoráveis aos colonos:

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» Lei do Açúcar (1764) – Elevava os impostos sobre o açúcar e deriva-

Currier e Ives. C. 1846. Ilustração. Yale University Art Gallery. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

dos da cana, artigos de luxo, vinho e café importados pelos colonos; além disso, estabelecia que os colonos só poderiam comprar o melaço das Antilhas inglesas e não de quem tivesse o preço mais atraente. Os colonos protestaram, mas não foram ouvidos. » Lei do Selo (1765) – Determinava que todos os contratos, jornais, cartas e documentos públicos deviam receber um selo real; o dinheiro arrecadado com a venda dos selos destinava-se à Coroa inglesa. Os colonos reagiram a essa lei invadindo agências postais, queimando selos e boicotando produtos ingleses. Inspirados nas ideias iluministas, iniciaram um movimento com o lema “No taxation without representation” (Sem representação não pode haver tributação). Os colonos negavam-se a pagar os impostos votados por um Parlamento (no caso, o britânico) no qual não tinham representantes. A Inglaterra recuou, mas no ano seguinte aumentou os impostos sobre o vidro, o papel, os corantes e o chá que os colonos importavam. » Lei do Chá (1773) – O governo inglês adotou outra medida mercantilista: concedeu à Companhia das Índias Orientais o monopólio da venda do chá para as Treze Colônias. A reação foi imediata: 150 colonos disfarçados de indíos invadiram três navios ingleses no porto de Boston e atiraram o chá ao mar. Esse episódio importante no processo de lutas pela independência ficou conhecido como Festa do Chá em Boston (Boston Tea Party). Os colonos justificaram sua ação dizendo que os impostos sobre o chá e o monopólio violavam o direito que tinham de serem taxados apenas por representantes eleitos por eles.

A Festa do Chá em Boston, de N. Currier e J. M. Ives, 1846. Essa é uma das versões da ilustração produzida na epóca por Sarony and Major. O porto de Boston estava situado em Massachusetts e era o mais movimentado das Treze Colônias.

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» Leis Intoleráveis (1774) – O governo inglês respondeu com 1. Dica! Vídeo sobre o processo de independência das Treze Colônias. [Duração: 43 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/g4qr6a>. 2. Dica! Vídeo em espanhol sobre a Declaração de Independência. [Duração: 4 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/fbvv6w>.

Litogravura. Escola inglesa. Séc. XVIII. Coleção particular. The Bridgeman Art Library/Keystone

3. Dica! Documentário sobre a revolução americana e suas influências. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/ydd8a6>.

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várias leis que os norte-americanos chamaram de “intoleráveis”. Uma delas interditava o porto de Boston até que fosse pago o prejuízo causado pelo derramamento do chá; outra determinava a ocupação de Massachusetts pelo exército inglês e restringia o direito de reunião; outra, ainda, determinava que todo ato de rebeldia contra a Inglaterra seria julgado por tribunais ingleses. Revoltados contra a política fiscal inglesa, alguns colonos lançaram bolas de neve contra um quartel inglês. Assustados, os soldados reagiram matando quatro manifestantes. Esse episódio, conhecido como Massacre de Boston, foi amplamente utilizado pela propagan1 da a favor da independência.

O movimento de independência

As “leis intoleráveis” estimularam nos colonos um forte sentimento antimetrópole. Foram criadas várias sociedades secretas, com destaque para a “Filhos da Liberdade”, que uniu os colonos em torno da ideia de independência. Intelectuais e ativistas, adeptos das ideias liberais e iluministas, como Thomas Jefferson, Samuel Adams e Benjamin Franklin, assumiram a liderança do movimento. Nesse contexto, os colonos organizaram o Primeiro Congresso Continental da Filadélfia (1774). Representantes de quase todas as colônias (exceto a da Geórgia) elaboraram uma petição dirigida ao rei protestando contra as medidas adotadas pela Inglaterra nas Treze Colônias. Naquele momento ainda não havia consenso quanto à separação. A resposta da Inglaterra foi ordenar a destruição de um depósito de armas dos colonos. Os colonos reagiram à metrópole e teve início, assim, a Batalha de Lexington e a de Concord (1775), as primeiras da guerra pela independência. Nesse clima de hostilidades crescentes, representantes de todas as colônias se reuniram no Segundo Congresso Continental da Filadélfia (1775 a 1781). Observando a imagem, percebe-se que No meio-tempo um folheto denominado Senso a coroa, símbolo da monarquia, está no chão. comum, de autoria de Thomas Paine, espalhou-se E se nota também que o pé esquerdo de Paine rapidamente pelas Treze Colônias e foi um podeestá prestes a pisá-la, numa clara afronta à monarquia inglesa que, à época, oprimia roso instrumento de propaganda da ideia de indeas Treze Colônias. 2e3 pendência. UNIDADE 3 | CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

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Para refletir O trecho a seguir foi retirado do panfleto de Paine. Curiosamente ele era inglês de nascimento; e, apesar de ter chegado aos Estados Unidos somente aos 37 anos de idade, resumiu com muita propriedade o sentimento de revolta crescente dos colonos norte-americanos contra a Inglaterra. Com 50 páginas de texto, seu panfleto chegou às livrarias em 10 de janeiro de 1776 e logo fez um enorme sucesso. Leia o trecho a seguir com atenção. A Inglaterra é, apesar de tudo, a pátria-mãe, dizem alguns. Sendo assim, mais vergonhosa resulta sua conduta, porque nem sequer os animais devoram suas crias nem fazem os selvagens guerra a suas famílias; de modo que esse fato volta-se ainda mais para a condenação da Inglaterra. [...] A Europa está separada em muitos reinos para que possa viver muito tempo em paz, e onde quer que estoure uma guerra entre a Inglaterra e qualquer potência estrangeira, o comércio da colônia sofre ruínas, por causa de sua conexão com a Grã-Bretanha... Tudo o que é justo ou razoável advoga em favor da separação. O sangue dos que caíram e a voz chorosa da natureza exclamam: Já é hora de separar-nos! Inclusive a distância que o Todo-Poderoso colocou entre a Inglaterra e as colônias constitui uma prova firme e natural de que a autoridade daquela sobre estas nunca entrou nos desígnios do Céu... PAINE, Thomas. In: KARNAL, Leandro. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 1999. p. 85.

a) Como Paine descreve a Inglaterra em seu texto?

a) Diz que apesar de ser a pátria-mãe adota uma conduta vergonhosa com relação a seus filhos.

b) Interprete. A quem Thomas Paine está se referindo quando diz “Nem fazem os b) Ele se refere aos povos indígenas da América do Norte. Professor: comentar selvagens, guerra a suas famílias”? que o uso do termo selvagens desvela a visão que os europeus daquela época tinham dos ameríndios.

c) Que argumentos Thomas Paine utiliza em defesa da separação entre as Treze Colônias e a Inglaterra? d) Reflitam e opinem: qual foi o peso do argumento religioso no sucesso do panfleto c) Argumento 1: o fato de que qualquer guerra em que a Inglaterra se envolvesse prejudicava as Treze de Paine? Justifique. Colônias. Argumento 2: a distância geográfica que o Todo-Poderoso colocou entre a Inglaterra e as Treze Colônias. [Note que o panfleto de Thomas Paine mistura elementos de racionalismo iluminista com argumentos de viés religioso.]

d) O argumento religioso foi decisivo para o sucesso do panfleto, pois os habitantes das Treze Colônias eram em sua maioria puritanos e tinham grande apego à Bíblia e à ideia de que todo cristão deve obediência aos “desígnios do céu”; à vontade do Senhor.

O Segundo Congresso acabou optando pela separação. O comando das tropas foi entregue a George Washington, um rico fazendeiro do Sul. Uma comissão redigiu a Declaração de Independência, publicada em 4 de julho de 1776; seu principal autor foi Thomas Jefferson. O texto da Declaração defendia a resistência à tirania, o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade.

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A tradição política estadunidense elegeu alguns homens como “pais da pátria”, fundadores da Nação, os grandes responsáveis pelo que os Estados Unidos são hoje. Eles foram representados das mais diversas formas em estátuas, pinturas, ilustrações, gibis, e figuram, inclusive, nas notas de dólar, a exemplo das que trazem a imagem de Thomas Jefferson, à esquerda, e de Benjamin Franklin, à direita.

A guerra pela independência

Dica! Documentário sobre os principais eventos e personagens das guerras da independência norte-americana. [Duração: 25 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ z858q6>.

Legalmente, a independência estava proclamada, mas, para conquistá-la, os “patriotas” tiveram de travar uma guerra difícil (1775-1781) contra os “casacas vermelhas” – como eram chamados os soldados ingleses. A vitória dos colonos na Batalha de Saratoga (1777) atraiu o apoio da França e da Espanha, rivais da Inglaterra, que passaram a auxiliá-los com dinheiro, soldados e navios. Animados pela ajuda externa, os colonos redobraram os esforços e venceram a Batalha de Yorktown (1781), decisiva para o desfecho da guerra. Em 1783, pelo Tratado de Paris (ou de Versalhes), a Inglaterra reconheceu a independência das Treze Colônias, a primeira ocorrida no continente americano. Nascia assim um novo país: os Estados Unidos da América.

Os primeiros anos dos Estados Unidos Os primeiros tempos dos Estados Unidos foram difíceis. Os constituintes encontravam-se divididos: alguns, como Thomas Jefferson, defendiam maior autonomia para os estados; outros, como George Washington, eram favoráveis a um governo central forte. A Constituição – em vigor até hoje – foi concluída em 1787 e declarou o país uma República presidencialista e federalista. O federalismo é um conceito-chave dessa Constituição: cada estado passou a ter autonomia para criar leis próprias, organizar forças militares e até mesmo pedir empréstimos no exterior. Ao governo federal, cabia a responsabilidade pela política externa, pela defesa e pelo comércio exterior. Seguindo o modelo proposto por Alexander Hamilton e James Madison, os estadunidenses adotaram a divisão dos poderes em Executivo, Legislativo e Judiciário, que deveriam ser autônomos e harmônicos. Madison e Hamilton

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pensavam a divisão entre os três poderes tendo por base uma sociedade constituída por cidadãos juridicamente iguais. » Poder Executivo – exercido pelo presidente da República, eleito indiretamente; os eleitores de cada estado escolhem seus delegados, que, por sua vez, elegem o presidente da República. » Poder Legislativo – exercido pelo Congresso, composto da Câmara dos Representantes e do Senado. Para que os atos do Legislativo se transformem em lei, é necessária a assinatura do presidente, que possui poder de veto. Este, por sua vez, precisa da aprovação do Congresso para o direcionamento da verba federal e também para a nomeação de altos funcionários, como secretários de Estado e embaixadores. » Poder Judiciário – no âmbito federal é exercido pela Suprema Corte, encarregada de garantir o cumprimento das leis. Com o apoio da maioria dos estados, George Washington foi eleito presidente, o primeiro dos Estados Unidos da América.

Observe a imagem com atenção: a) Quem ou o quê essa mulher representa? b) O personagem sentado e com a pena na mão é o principal autor da constituição dos Estados Unidos. Quem é ele? c) O que está escrito na fita que envolve a figura feminina? d) Logo no início da Constituição estadunidense lê-se: “Nós, o povo dos Estados Unidos”. A palavra “povo” refere-se a todos os estadunidenses daquela época? a) Essa mulher representa a constituição dos Estados Unidos. b) Ele é Thomas Jefferson. c) “Nós, o povo”. d) Não; na prática, a expressão “Nós, o povo dos Estados Unidos...” refere-se apenas aos homens adultos e brancos, que possuíssem certa renda (da terra ou de investimentos). A maioria do povo teria de lutar muito tempo ainda para conquistar a cidadania plena.

Cartaz de 1926 alusivo à independência das Treze Colônias da América do Norte.

Howard Chandler. Poster. Coleção particular. Foto: wim Ink 2, LLC/Corbis/Latinstock

DIALOGANDO

Repercussões da independência A independência estadunidense abalou o prestígio do rei na Inglaterra e provou ser possível fazer valer a soberania popular. Provou também ser possível romper o elo entre governantes e governados quando os primeiros não garantissem aos segundos seus direitos fundamentais. Para as colônias da América espanhola e portuguesa, os Estados Unidos serviriam de inspiração e exemplo de sucesso de luta pela independência. Essa conquista também CAPÍTULO 7 | O ILUMINISMO E A FORMAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS

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repercutiu na França absolutista. Os soldados franceses que haviam lutado na América contra a opressão monárquica voltaram para seu país com ideias republicanas de liberdade e ajudaram a fazer a Revolução Francesa. No entanto, a independência, seguida da Constituição, não permitiu o acesso à cidadania a todos os estadunidenses. Inicialmente, o grupo efetivamente beneficiado com a cidadania foi aquele que possuía certa renda (da terra ou de investimentos) e que dirigiu o movimento pela independência. Esse grupo, conhecido como wasp (abreviatura de branco, anglo-saxão, protestante) era constituído de fazendeiros e comerciantes e passou a ter o controle político do país. Para os povos indígenas, a independência traria prejuízos, pois suas terras, localizadas em sua maior parte a oeste do Mississípi, passaram a ser atacadas pelos proprietários de terra e comerciantes de peles de origem europeia. Os afro-americanos escravizados continuaram na mesma situação: a escravidão persistiria ainda por quase 90 anos. As mulheres, por sua vez, permaneceram excluídas do direito ao voto, só conquistado em 1920, após intensas lutas do movimento feminista. É importante considerar o caráter revolucionário da expressão “todos os homens foram criados iguais”, pois foi a defesa desse princípio que moveu os movimentos pela conquista da cidadania que ocorreram em solo estadunidense daí em diante.

Da esquerda para a direita: Urso em Pé, chefe Sioux, trajado com a roupa cerimonial de seu povo, c. 1885; jovem marinheiro negro em uma fotografia de corpo inteiro, Ohio, 1863; atriz estadunidense Fanny Davenport, c. 1880. Esses personagens representam grupos que foram excluídos da cidadania na Constituição feita para reger os Estados Unidos.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

transparentes aos olhos de um número cada vez maior de pessoas. Modesto Florenzano. As revoluções burguesas, 1982. Adaptado.

I. Retomando 1. (Unimat-MT – 2013) O movimento filosófico denominado Iluminismo surgiu na Europa do século XVIII, baseando-se na crença absoluta da razão como forma única de o homem alcançar a tão sonhada autonomia intelectual, o progresso material, o desenvolvimento das virtudes morais, bem como o aprofundamento do conhecimento científico. Ademais, os pensadores iluministas compartilhavam a ideia de que a razão humana alçaria o homem à sublime condição de dominador absoluto da natureza. A partir das informações contidas no texto, é possível considerar que: 1. Resposta: b. a) Os pensadores iluministas acreditavam no conhecimento religioso como forma de libertar o homem do pensamento mágico-mítico, ascendendo, assim, ao conhecimento científico. b) Os pensadores iluministas depositavam total confiança na capacidade da razão como forma de contraposição ao conhecimento advindo das concepções teocêntricas e do obscurantismo característico do senso comum. c) A confiança depositada pelos iluministas no papel absoluto dos desejos e das vontades humanas surgia como um contraponto à ditadura imposta pela razão humana. d) Como figura proeminente do Iluminismo, o pensador francês Immanuel Kant destacou-se como combatente do pensamento filosófico-científico. e) Os Iluministas desacreditavam por completo no poder da razão para conduzir o homem à liberdade e à felicidade. 2. (Unesp-SP – 2015) O pensamento iluminista, baseado no racionalismo, individualismo e liberdade absoluta do homem, ao criticar todos os fundamentos em que se assentava o Antigo Regime, revelava as suas contradições e as tornava

Entre as críticas ao Antigo Regime mencionadas no texto, podemos citar a rejeição iluminista do: a) princípio da igualdade jurídica. b) livre comércio. c) liberalismo econômico. d) republicanismo. e) absolutismo monárquico. 2. Resposta: e. 3. (Enem/MEC) Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento. A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma condição estranha, continuem, no entanto, de bom grado menores durante toda a vida. KANT, I. Resposta à pergunta: o que é esclarecimento? Petrópolis: Vozes, 1985 (adaptado).

Kant destaca no texto o conceito de Esclarecimento, fundamental para a compreensão do contexto filosófico da Modernidade. Esclarecimento, no sentido empregado por Kant, representa a) a reivindicação de autonomia da capacidade racional como expressão da maioridade. 3. Resposta: a. b) o exercício da racionalidade como pressuposto menor diante das verdades eternas. c) a imposição de verdades matemáticas, com caráter objetivo, de forma heterônoma.

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d) a compreensão de verdades religiosas que libertam o homem da falta de entendimento. e) a emancipação da subjetividade humana de ideologias produzidas pela própria razão. 4. (UFF-RJ) O escritor e filósofo francês Voltaire, que viveu no século XVIII, é considerado um dos grandes pensadores do Iluminismo ou Século das Luzes. Ele afirma o seguinte sobre a importância de manter acesa a chama da razão: Vejo que hoje, neste século que é a aurora da razão, ainda renascem algumas cabeças da hidra do fanatismo. Parece que seu veneno é menos mortífero e que suas goelas são menos devoradoras. Mas o monstro ainda subsiste e todo aquele que buscar a verdade arriscar-se-á a ser perseguido. Deve-se permanecer ocioso nas trevas? Ou deve-se acender um archote onde a inveja e a calúnia reacenderão suas tochas? No que me tange, acredito que a verdade não deve mais se esconder diante dos monstros e que não devemos abster-nos do alimento com medo de sermos envenenados.

Identifique a opção que melhor expressa esse pensamento de Voltaire. a) Aquele que se pauta pela razão e pela verdade não é um sábio, pois corre um risco desnecessário. b) A razão é impotente diante do fanatismo, pois esse sempre se impõe sobre os seres humanos. c) Aquele que se orienta pela razão e pela verdade deve munir-se da coragem para enfrentar o obscurantismo e o fanatismo. 4. Resposta: c. d) O fanatismo e o obscurantismo são coisas do passado e por isso a razão não precisa mais estar alerta. e) A razão envenena o espírito humano com o fanatismo. 5. (Enem/MEC – 2013) Para que não haja abuso, é preciso organizar as coisas de maneira que o

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poder seja contido pelo poder. Tudo estaria perdido se o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo, exercesse esses três poderes: o de fazer leis, o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos indivíduos. Assim, criam-se os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, atuando de forma independente para a efetivação da liberdade, sendo que esta não existe se uma mesma pessoa ou grupo exercer os referidos poderes concomitantemente. MONTESQUIEU, B. Do espírito das leis. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (adaptado).

A divisão e a independência entre os poderes são condições necessárias para que possa haver liberdade em um Estado. Isso pode ocorrer apenas sob um modelo político em que haja a) exercício de tutela sobre atividades jurídicas e políticas. b) consagração do poder político pela autoridade religiosa. c) concentração do poder nas mãos de elites técnico-cientificas. d) estabelecimento de limites aos atores públicos e às instituições do governo. 5. Resposta: d. e) reunião das funções de legislar, julgar e executar nas mãos de um governante eleito. 6. (UFES) A Declaração de Independência das 13 Colônias Inglesas da América do Norte, em 4 de julho de 1776, da qual Thomas Jefferson foi relator, consagrou, em seu texto, o princípio do (a) a) direito de reação à tirania, inspirado em Locke. 6. Resposta: a. b) negação do contrato social, nos termos expostos por Rousseau. c) separação da Igreja do Estado, conforme o pensamento de Mably. d) ilustração monárquica, defendido por Diderot. e) utilitarismo, preconizado por Benthan, Mill e William James.

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Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

NOTIMEX

II. Leitura e escrita em História

VOZES DO PRESENTE O texto a seguir é um trecho do livro O Iluminismo como negócio, do historiador estadunidense Robert Darnton. Leia-o com atenção e responda às questões. [...] É difícil acreditar que os leitores setecentistas não buscavam informação na Enciclopédia, mas seria um anacronismo supor que eles a usavam da mesma maneira que os leitores de hoje em dia consultam as enciclopédias atuais. Diderot e D’Alembert tencionavam informar e ao mesmo tempo iluminar O historiador Robert o espírito. [...] Embora seja impossível penetrar-lhes Darnton estudou o Iluminismo, na mente, podemos entrar em suas bibliotecas e, desde a sua concepção e ocasionalmente, vislumbrá-los debruçados sobre materialização até a sua as páginas da Enciclopédia. Eis, por exemplo, uma difusão. Fotografia de 2014. cena extraída da autobiografia de Stendhal: “Meu pai não me via folhear a Enciclopédia senão com desgosto. Eu tinha a mais inteira confiança nesse livro em razão do afastamento de meu pai e do ódio decidido que ele inspirava aos p[adres] que frequentavam a casa. O vigáriogeral e cônego Rey, grande figura amarfanhada, com cinco p[és] e dez polegadas de altura, fazia uma singular careta ao pronunciar atravessadamente os nomes de Diderot e de D’Alembert. Essa careta dava-me um gozo íntimo e profundo.” Eram essas as sensações de um jovem leitor da Enciclopédia pertencente a uma abastada família burguesa de Grenoble durante a década de 1790. Outros leitores, em cenários diferentes, provavelmente viveram experiências diversas, que jamais poderão ser reconstituídas e catalogadas. Mas seja o que for que sentiram, devem ter sabido que tinham nas mãos uma das obras mais contestadoras de sua época, que prometia reordenar o universo cognitivo e com isso fazer rangerem os dentes dos padres locais – se eles também não fossem assinantes. DARNTON, Robert. O Iluminismo como negócio: história da publicação da “Enciclopédia”, 1775-1800. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 253-254.

a) Qual o significado da palavra anacronismo na primeira frase do texto? Justifique. b) No texto, Stendhal diz que passou a confiar mais na Enciclopédia quando percebeu que ela inspirava ódio nos padres. O que explica essa posição dele? c) Os organizadores da Enciclopédia pretendiam informar e também iluminar o espírito. O que eles entendiam por “iluminar o espírito”? d) Em dupla. Comparem a Enciclopédia dos franceses às atuais, apontando as diferenças: » quanto ao conteúdo; » quanto ao meio usado para acessá-las. CAPÍTULO 7 | O ILUMINISMO E A FORMAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS

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Professor: tanto a imagem quanto o texto são de julho de 2009, e tratam dos desdobramentos da Revolução Francesa na atualidade. A intenção foi usar duas fontes atuais sobre esse importante episódio histórico para iniciar uma aula dialogada sobre o assunto. Pode-se lembrar aos alunos que a Revolução Francesa

A Revolução Francesa e a Era Napoleônica

Capítulo 8 Bastilha:

Leia o texto a seguir com atenção.

Loic Venance/AFP Photo/Image Forum

prisão onde eram encarcerados os adversários do rei.

Comemoram-se, hoje (14), 220 anos da Revolução Francesa. Este movimento exerceu grande influência sobre a liberdade e o respeito dos direitos humanos em todo o mundo. Seus princípios fundamentais estão, hoje, inscritos nas Constituições de todos os países democráticos, inclusive na Constituição Federal (CF) brasileira de 1988 [...]. Sob o mote “liberté, égalité, fraternité”! (liberdade, igualdade, fraternidade!), populares tomaram, em 14 de julho de 1789 [...] a Bastilha [...]. Esses ideais foram absorvidos pelos constituintes brasileiros, que inseriram, na atual Constituição Federal, um extenso rol de direitos e garantias individuais e coletivas, limitando a interferência do poder estatal na vida e dignidade do cidadão [...]. Desde os princípios fundamentais – que consagram a separação dos poderes (art. 1º. ao 4º.) – passando pelos direitos e garantias dos cidadãos no âmbito social, político e econômico (arts. 5º. ao 17), até chegarmos à proteção do meio ambiente e de nossas crianças e adolescentes, que são o futuro do país (arts. 225 a 230), sente-se a presença da centelha revolucionária.

Fotografia da comemoração dos 220 anos da Revolução Francesa, em Paris, França, 2009.

Supremo Tribunal Federal. A Revolução Francesa de 1789 e seus efeitos no Brasil. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe .asp?idConteudo=110843>. Acesso em: 4 mar. 2016.

» O que você sabe sobre a Revolução Francesa? » O que a imagem sugere sobre o significado da Revolução para os franceses? » E o texto, o que informa sobre essa Revolução? » Você considerou o texto relevante? Por quê? » Que importância essa Revolução continua tendo para os brasileiros e demais

latino-americanos?

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repercutiu fortemente na história do Ocidente. Animou, por exemplo, os conjurados baianos, em 1799, no Brasil, e a independência das terras do atual Haiti, na América Central, e, entre tantos outros desdobramentos, influenciou profundamente a Constituição que nos rege, conforme informa o texto.

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O Antigo Regime na França Claude-Guy Halle. Séc. XVII. Óleo sobre tela. Coleção particular. Foto: DEA / G. DAGLI ORTI / Getty

No fim do século XVIII, o Reino da França possuía cerca de 28 milhões de habitantes e os franceses viviam sob o Antigo Regime, conceito-chave para se compreender as sociedades ocidentais entre os séculos XVI e XVIII. No aspecto econômico, essas sociedades sobreviviam basicamente da agricultura e do comércio. Como os instrumentos de trabalho eram rudimentares, a produção agrícola mantinha enorme dependência das condições naturais; assim, chuvas ou secas prolongadas induziam a más colheitas e facilitavam a ocorrência de fomes e epidemias. Socialmente, o clero e a nobreza detinham enormes privilégios e a distinção era tão ou mais importante que a riqueza. As sociedades se caracterizavam por contrastes. Contraste entre o pacato ambiente rural e o dinâmico ambiente urbano; contraste também entre a riqueza dos clérigos e nobres e a pobreza dos camponeses; contraste, por fim, entre a multidão de analfabetos do meio rural e os acanhados núcleos letrados citadinos. E mais, estes contrastes todos eram vistos como naturais, decorrentes da vontade divina. O Antigo Regime desconhecia a ideia de direitos iguais entre os indivíduos; em vez da noção de direito, baseava-se na de privilégio. Um deles era o de nascimento, que distinguia pelo sangue a nobreza; o outro era o de ocupação, que desvalorizava os serviços manuais e elevava aquele que vivia de rendas. Politicamente, as sociedades do Antigo Regime eram governadas por reis absolutistas, que viam a si próprios e eram vistos como representantes de Deus na Terra (absolutismo de direito divino).

Luís XIV (no canto superior direito) recebendo submissão de um nobre; repare na pose, nos gestos e na posição dos pés do rei.

A sociedade A sociedade francesa estava dividida em três ordens ou estados: o Primeiro Estado (o clero); o Segundo Estado (a nobreza); e o Terceiro Estado (camponeses, burguesia e trabalhadores das cidades). O Primeiro Estado – o clero – era composto de cerca de 280 mil pessoas. A riqueza vinha, sobretudo, das terras que o clero possuía, cobrava dízimo, imposto nacional e taxas sobre batismo, casamento e sepultamento. Os cardeais, bispos, arcebispos e abades compunham o alto clero e tinham, geralmente, origem nobre. O baixo clero – padres, frades e monges – era de origem pobre e vivia insatisfeito com os privilégios e os desmandos do alto clero e da nobreza.

Dízimo:

imposto destinado à prática da caridade, mas usado para sustentar o luxo e a ociosidade do alto clero. O dízimo – pago com parte da colheita e do rebanho – era um imposto odiado pelos camponeses.

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Séc. XVIII. Óleo sobre tela. Museu Carnavalet, Paris

Representação de um sans-culotte produzida no século XVIII.

O Segundo Estado – a nobreza – era composto de cerca de 840 mil indivíduos, cuja função principal era “defender a nação”; por isso só os nobres portavam espada. A nobreza era composta de três grupos principais: nobreza cortesã (sustentada pela realeza, vivia em torno do Palácio de Versalhes, a residência do rei), nobreza provincial (estabelecida no interior da França, vivia das rendas da terra onde os camponeses trabalhavam) e nobreza de toga (burgueses que tinham comprado títulos e cargos públicos vendidos pela realeza). A nobreza como um todo vivia à sombra da Corte e/ou do trabalho dos camponeses. O Terceiro Estado – camponeses, trabalhadores urbanos e burguesia – era composto de 26 milhões e 880 mil pessoas. Os camponeses constituíam cerca de 80% da população francesa e pagavam impostos à Monarquia e a seus senhores diretos. Entre os trabalhadores urbanos havia artesãos, operários, cocheiros, carregadores de lenha, entre outros; muitos viviam em Paris e eram conhecidos como sans-culottes. A burguesia francesa era formada pela alta e média burguesias (fabricantes, grandes comerciantes, banqueiros, agiotas e armadores) e pela pequena burguesia (profissionais liberais – advogados, médicos, escritores –, funcionários públicos e lojistas); a pequena burguesia era mais influente politicamente. Os membros do Terceiro Estado produziam riquezas e eram obrigados a pagar quase todos os impostos; não possuíam qualquer privilégio. O Primeiro e o Segundo Estado não produziam riquezas, eram isentos de quase todos os impostos, ocupavam altos cargos e recebiam ricas pensões.

A economia e a política Sans-culottes:

“sem culote”. Culote era uma calça justa que terminava um pouco abaixo do joelho, usada pelos nobres. Como os pobres não usavam esse tipo de calça (e nem tinham os privilégios da nobreza), tornaram-se conhecidos como sans-culottes.

Na França, desde o século XV, o capitalismo vinha se desenvolvendo a passos largos. A burguesia ganhava importância social e prosperava por meio da indústria, do empréstimo de dinheiro a juros e do comércio com o Oriente, a América e a África. Mas o Estado absolutista francês representava um obstáculo aos negócios da burguesia, pois a carga de impostos encarecia os preços das mercadorias; as práticas mercantilistas impediam a livre concorrência (a produção de seda, por exemplo, era monopólio de um pequeno grupo); os diferentes sistemas de pesos e medidas Lesueur Brothers. Séc. XVIII. Gravura. Museu Carnavalet, Paris. dificultavam o comércio Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone interno. Com o tempo, essa situação se agravou e muitas empresas faliram gerando desemprego e fome nas cidades.

Nesta gravura de 1793, ano IV da Revolução Francesa, uma senhora distribui pratos de comida a populares famintos. A imagem sugere a situação de penúria em que vivia o povo francês antes da Revolução.

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Isidore Helman. Séc. XVIII. Gravura. Biblioteca Nacional, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

No campo, o desemprego também atingia os mais pobres; os grandes proprietários vinham introduzindo a agricultura capitalista: cercavam as terras de uso comum (campos, matas e pastos) para produzir cereais em larga escala e, consequentemente, os camponeses que delas sobreviviam ficavam sem terra e sem trabalho. Em virtude da concentração das terras e dos pesados impostos cobrados no campo, a oferta de alimentos era pequena e seus preços, elevados. Com as inundações e secas, frequentes na década de 1780, os preços dos alimentos disparavam, e, como “estômagos famintos não têm ouvidos” – ditado popular da época da Revolução Francesa –, explodiram as famosas jacqueries (revoltas camponesas). Enquanto isso, a dívida do governo do rei Luís XVI aumentava sob o peso dos gastos com a Corte e com as guerras movidas ou apoiadas pela monarquia francesa. Callone, ministro de Luís XVI, chegou a propor que o clero e a nobreza passassem a pagar impostos, mas sua proposta foi rejeitada. Diante da gravidade da situação, Luís XVI convocou os Estados Gerais – assembleia que reunia os três estados: o clero, a nobreza e o Terceiro Estado e que não era consultada há 175 anos. Nessa assembleia, o voto era “por estado”, ou seja, cada estado tinha direito a um voto. Assim, a nobreza e o clero, que eram os grupos dos privilegiados, somavam dois votos contra apenas um do Terceiro Estado. Nessa Assembleia dos Estados Gerais, o Terceiro Estado conseguiu eleger mais deputados do que o clero e a nobreza juntos (578 x 561) e lançou então uma campanha em defesa do voto por cabeça.

Representação da sessão de abertura da Assembleia dos Estados Gerais. Repare que o pintor preocupou-se em demonstrar a rígida hierarquia do Antigo Regime: sobre o estrado, em frente da assembleia, o rei, a família real, os marechais e os duques da França; ao pé do estrado, à mesa, o conselho do rei; no plenário, à direita da mesa, o clero; diante dele, no mesmo plano, a nobreza; no lado oposto ao do rei, os deputados do Terceiro Estado; o povo fica atrás e entre as colunas, nas galerias.

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A Revolução em marcha FASES DA REVOLUÇÃO FRANCESA 1791

ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE

Jogo da Pela:

jogo semelhante ao tênis em quadra coberta.

1792 MONARQUIA CONSTITUCIONAL

1794 CONVENÇÃO NACIONAL

1799 DIRETÓRIO

Editoria de arte

1789

Em 5 de maio de 1789, na sessão de abertura da Assembleia dos Estados Gerais, o rei, com o apoio do clero e da nobreza, declarou que a reunião deveria ser restrita ao exame dos problemas financeiros, omitindo, assim, o debate se o voto seria “por cabeça” ou “por estado”. Assim, a votação continuaria sendo por estado. Os deputados do Terceiro Estado reagiram a esta decisão do rei declarando-se em Assembleia Nacional com o objetivo de escrever e aprovar uma constituição. Luís XVI, por sua vez, mandou fechar a sala em que os deputados se reuniam. Eles, então, invadiram a sala do Jogo da Pela e lá juraram não se separar enquanto não tivessem elaborado uma Constituição para a França.

A Assembleia Nacional Constituinte

Claude Cholat. Séc. XIX. Guache sobre cartão. Museu Carnavalet, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

A tensão entre a Assembleia e o rei aumentou; em 14 de julho de 1789, o povo de Paris invadiu e tomou a Bastilha, a prisão símbolo do absolutismo francês.

A tomada da Bastilha vista por um de seus participantes, Claude Cholat, dono de uma taberna. A queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, representou uma vitória popular e marcou o início da Revolução propriamente dita. O fato mereceu uma infinidade de representações, o que desvela sua enorme importância.

De Paris, a revolução se alastrou para o interior, e, nos meses de julho e agosto de 1789, os camponeses invadiram castelos, saquearam celeiros e atearam fogo nos livros de registros de suas dívidas e dos impostos pagos por eles.

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Sob intensa pressão popular, a Assembleia Nacional Constituinte aboliu a servidão, os dízimos, o direito de mão-morta e a justiça senhorial (todos passavam a obedecer às mesmas leis). Em 26 de agosto de 1789 a Assembleia Nacional aprovou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Esse documento estabelecia o direito à liberdade, à propriedade privada, à segurança, resistência à opressão e o direito à livre comunicação dos pensamentos e das opiniões. Além disso, a Assembleia confiscou os bens da Igreja, colocou-os à venda, e aprovou a Constituição Civil do Clero, que transformou os membros do clero em funcionários públicos, obrigando-os a jurar fidelidade à Nação. Os que aceitaram essa decisão foram chamados de clero juramentado; os que discordaram dela foram denominados clero refratário. O clero refratário se uniu aos milhares de nobres que haviam fugido da França com dinheiro e joias e, no exterior, aliaram-se a monarcas absolutistas para combater a Revolução Francesa.

Mão-morta:

pagamento feito pelo servo quando seu pai morria, para manter o direito de utilizar a terra.

Para refletir Escola francesa. Séc. XVIII. Gravura. Museu Carnavalet, Paris. Foto: Roger-Viollet/Glow Images

No dia 5 de outubro de 1789, diante da falta de pão, milhares de mulheres armadas decidem ir a Versalhes trazer o rei para Paris e garantir com isso o abastecimento da cidade. Veja o que um observador da época escreveu sobre essa marcha das mulheres. As primeiras mulheres chegaram aos portões do castelo às cinco horas [...]. Quiseram obrigar as sentinelas a arrebentar os portões e abri-los. Estas se recusaram: não se abre a porta a desordeiros, a furiosos, muito menos a furiosas [...]. OSTERMANN, Nilse Wink; KUNZE, Iole Carretta. Às armas, cidadãos! A França revolucionária (1789-1799). São Paulo: Atual, 1995. p. 51.

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Gravura mostrando mulheres indo a Versalhes em outubro de 1789. O movimento das mulheres foi vitorioso. O rei e os cortesãos foram obrigados a retornar a Paris e residir no Palácio das Tulherias.

a) Com base no texto é possível afirmar que as mulheres tiveram participação imSim, as mulheres ajudaram a acelerar o processo revolucionário fazendo uma marcha portante na Revolução Francesa? a)vitoriosa ao Palácio de Versalhes a fim de trazer o rei de volta para a capital francesa. b) No texto há um indício sobre o modo como as mulheres eram vistas na França do As mulheres eram vistas como inferiores aos homens. No texto, as sentinelas do castelo século XVIII. Explique. b)estabeleceram uma hierarquia ao dizer “não se abre a porta a desordeiros, a furiosos, muito menos a furiosas” (grifo nosso).

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Escola francesa. Séc. XVIII. Gravura. Museu Carnavalet. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

A monarquia constitucional

A proclamação da República na França, em 1792, deu início a novos tempos que passaram a ser contados por um novo calendário: 1792 passou a ser o Ano I da República Francesa. Na imagem, vê-se escrito: “Unidade Indivisível da República: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Ou a morte”.

DIALOGANDO Qual dos grupos do Terceiro Estado foi mais beneficiado por essa Constituição? A burguesia: o voto passou a ser censitário; os sindicatos e as greves foram proibidos. A burguesia passava a conduzir, então, o processo revolucionário.

Dica! Documentário sobre Robespierre e seu papel na Revolução. [Duração de 90 minutos]. Acesse: <http://tub. im/k7fpb9>.

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Em setembro de 1791 foi aprovada a primeira Constituição francesa, que: » limitou o poder do rei, transformando a França em uma monarquia constitucional; » liquidou o absolutismo francês, dando à Assembleia o poder de fazer e aprovar leis; » confirmou a perda dos privilégios do clero e da nobreza e criou privilégios de outro tipo, como o voto censitário: os franceses foram divididos em cidadãos “ativos” (os que possuíam a renda exigida para votar e ser votado) e “passivos”, ou não votantes (quase 85% da população; pobres, mulheres e não brancos foram excluídos do direito ao voto); » proibiu os sindicatos e as greves. A Constituição desagradou profundamente ao rei da França e aos seus aliados internos (a alta nobreza e o alto clero) e externos (os governos da Áustria e da Prússia); unificadas, essas forças montaram um exército e invadiram a França. A Assembleia Nacional francesa reagiu declarando “a pátria em perigo”; o povo de Paris, por sua vez, marchou sobre o Palácio das Tulherias e prendeu o rei e sua família. Com a ajuda de milhares de voluntários, o exército francês revolucionário venceu o exército estrangeiro na Batalha de Valmy, em 20 de setembro de 1792.

A Convenção Nacional Vencido o exército invasor, elegeu-se uma nova Assembleia Nacional, denominada Convenção, que imediatamente extinguiu a Monarquia e proclamou a República. Abriu-se, então, intensa disputa entre os 750 deputados que compunham a Convenção e que se encontravam divididos em quatro grandes grupos políticos. Os girondinos, que representavam a burguesia industrial e comercial, defendiam o voto censitário, o direito à propriedade privada e eram contrários à participação política de populares na Convenção. Os jacobinos, a exemplo de Robespierre, defendiam um governo central forte, o voto universal e a participação popular na direção do processo revolucionário. Os cordeliers, liderados por Marat e Danton, abraçavam propostas radicais como o fim da propriedade privada e a reforma agrária. Cordeliers e jacobinos sentavam-se nos bancos mais altos do plenário; por isso, esses dois grupos políticos eram conhecidos como montanheses.

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A planície, que era composta de deputados que agiam conforme seus interesses imediatos, ora apoiava os jacobinos, ora os girondinos. Sentavam-se ao centro, nos lugares mais baixos do plenário; daí o nome de “planície”. O rei foi levado a julgamento pela Convenção, fato que dividiu os deputados: os girondinos propunham uma solução conciliatória; já os jacobinos desejavam a execução do rei. A descoberta, no cofre real, do acordo que o rei fizera com monarcas estrangeiros em favor da invasão da França precipitou os acontecimentos; após intensos debates, 683 dos 721 deputados presentes (cerca de 95%) declararam Luís XVI culpado. Em janeiro de 1793, diante de uma multidão de cerca de 20 mil pessoas, o rei foi guilhotinado e sua cabeça exibida ao povo. A execução do rei desencadeou uma série de reações internas e externas. Externamente, várias monarquias europeias, como Áustria, Prússia, Holanda, Espanha e Inglaterra, uniram-se e formaram a Primeira Coligação contra a França revolucionária. Internamente, em meio à grave crise econômica, grupos de sans-culottes armados cercaram a Assembleia Nacional, depuseram os deputados girondinos e colocaram os jacobinos no poder (junho de 1793).

O governo jacobino Os jacobinos organizaram um governo fortemente centralizado, dirigido por Robespierre, e composto de uma série de órgãos especiais; o principal deles, o Comitê de Salvação Pública, concentrava enorme poder. Subordinado a esse órgão, havia o Tribunal Revolucionário, que julgava sumariamente os indivíduos considerados contrarrevolucionários. Para enfrentar a situação caótica em que a França se encontrava e a ameaça externa, o Comitê de Salvação Pública adotou as seguintes medidas: » decretou o alistamento em massa; todos os jovens de 18 a 25 anos, solteiros ou viúvos, foram recrutados para a luta contra os inimigos externos (Segunda Coligação); » tabelou os gêneros de primeira necessidade e elevou os salários; » dividiu as terras dos nobres emigrados em pequenos lotes e as vendeu ou doou aos camponeses; » aboliu a escravidão nas colônias francesas; » instituiu a escola primária pública e obrigatória, como um direito fundamental de todos os franceses, o que permitiu o acesso dos pobres à educação formal. Na esfera política, as lutas entre os jacobinos e girondinos se acirraram e, nesse contexto, Jean-Paul Marat, ídolo dos sans-culottes, foi assassinado pela girondina Charlotte Corday.

Marat era médico e cientista, mas ficou mais conhecido por sua atuação à frente do jornal O Amigo do Povo, no qual defendia ardentemente as causas populares. Lesueur Brothers. c. 1792. Guache sobre cartão. Museu Carnavalet, Paris

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Piloty. Séc. XVIII. Gravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

O governo jacobino reagiu aumentando a repressão e baixando a Lei dos Suspeitos, que suspendia os direitos individuais dos cidadãos, inclusive o direito de defesa, e intensificando o uso da guilhotina. Até Danton, um líder popular da Revolução, foi executado a mando de Robespierre. Iniciava-se assim o Período do Terror (de setembro de 1793 a julho de 1794): milhares de pessoas acusadas de serem inimigas da revolução foram condenadas e guilhotinadas em praça pública. Enquanto isso, o exército francês, liderado por Napoleão Bonaparte e fortalecido pelo ingresso de jovens e de sans-culottes, libertou o porto de Toulon das mãos inglesas e retomou a região da Vendeia, vencendo os contrarrevolucionários.

A cena mostra um girondino condenado à guilhotina sendo conduzido para o patíbulo; uma multidão raivosa parece estar acusando o condenado.

Dica! Animação sobre a Revolução Francesa, enfocando o regime do terror. [Duração de 4 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ d7tprr>.

Conforme os jacobinos intensificavam o uso da violência, foram perdendo o apoio popular e dos deputados aliados ao seu governo. Aproveitando-se do enfraquecimento dos jacobinos, os deputados da planície e os girondinos desfecharam um golpe em julho de 1794 (9 Termidor pelo novo calendário) e retomaram o poder. Robespierre, Saint-Just e outros líderes jacobinos foram presos e guilhotinados sem julgamento. Encerrava-se, assim, a fase mais popular e radical da revolução, e a burguesia retomava o poder.

O Diretório Ao assumir o poder, em 1794, o novo governo liberou os preços dos alimentos e dos aluguéis e restabeleceu a escravidão nas colônias francesas. Além disso, estimulou o crescimento da indústria do algodão, da metalurgia e da mineração, intensificando o desenvolvimento do capitalismo francês. Em 1795, aprovou uma nova Constituição que restabeleceu o voto censitário (que excluía a maioria da população do direito ao voto) e confiou o poder Executivo a um Diretório, formado por cinco deputados escolhidos por sorteio.

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Séc. XIX. Xilogravura. Coleção particular. Foto: Sammlung Rauch/Interfoto/Latinstock

O Diretório combateu duramente seus dois principais adversários: os realistas, empenhados na volta à monarquia, e os novos jacobinos, apoiados pelos sans-culottes. Os monarquistas, ajudados pela Inglaterra, promoviam levantes para levar ao poder o conde de Artois, irmão de Luís XVI; os novos jacobinos faziam oposição ao governo por meio de seus clubes e jornais. Nesse contexto, um jornalista de nome Graco Babeuf encabeçou um movimento popular – a Conspiração dos iguais – que propunha o fim da propriedade privada e a distribuição equitativa da riqueza. O Diretório reagiu decretando uma lei que condenava à morte todos os que eram favoráveis à reforma agrária ou à volta da monarquia (Babeuf e seu grupo foram presos e executados). A seguir, ordenou a ocupação militar de Paris, anulou as eleições e fechou a imprensa oposicionista. Apesar desse esforço para manter a ordem, o Diretório encontrava-se desmoralizado, pois vários de seus membros estavam envolvidos em atos de corrupção. Nesse cenário de violência, instabilidade política e falta de ética os militares ganharam proeminência. Napoleão Bonaparte, conhecido pelo excelente desempenho no combate aos exércitos estrangeiros, passou a ser visto por muitos franceses como o “salvador da pátria”, ou seja, o homem que poria fim ao descalabro em que a França vivia. Em 10 de novembro de 1799 (18 Brumário pelo calendário republicano), Napoleão Bonaparte, desfechou um golpe de Estado, e, apoiado por um grupo político-militar, tomou o poder. 1

Xilogravura que retrata Graco Babeuf, século XIX.

O significado da Revolução Francesa Com o 18 Brumário – golpe de Estado desfechado por Bonaparte – a Revolução Francesa chegou ao fim. Entre suas principais conquistas cabe citar:

» o Antigo Regime foi substituído pela República, e, juridicamente, os súditos passaram à condição de cidadãos;

» a sociedade de ordens cedeu lugar à sociedade de classes; » as leis que estabeleciam distinções baseadas no nascimento foram eliminadas;

» o poder da Igreja diminuiu; » o número de camponeses proprietários aumentou; » as regulamentações mercantilistas e as relações servis foram suprimidas. Consolidava-se, assim, o capitalismo na França.

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O governo de Napoleão Uma nova Constituição criou o consulado, órgão do Poder Executivo formado por três cônsules. O poder de fato, porém, cabia ao primeiro-cônsul, Napoleão Bonaparte, cujo mandato era de 10 anos.

1. Dica! Documentário abordando as conquistas militares de Napoleão no Egito e seus ataques ao Oriente Médio. [Duração de 46 minutos]. Acesse: <http://tub. im/36rvph>. 2. Dica! Uma revisão para melhor compreender o significado da Revolução Francesa. [Duração: 7 minutos]. Acesse: <http://tub. im/yz5g9p>.

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O governo de Bonaparte usou de violência para reprimir seus adversários, fossem eles monarquistas ou republicanos: efetuou execuções e instituiu uma severa censura à imprensa. Visando à estabilidade política, confirmou a abolição dos privilégios da nobreza e do clero, concedeu a 3 milhões de camponeses o título de propriedade das terras que haviam obtido por doação ou compra na época da Revolução. Para reorganizar a economia, em 1800 o governo de Bonaparte criou uma nova moeda, o franco, e fundou o Banco da França, por meio do qual controlava a inflação e fazia empréstimos à indústria e ao comércio. Além disso, construiu estradas e pontes para facilitar o transporte de mercadorias no país. Essas medidas contribuíram para fortalecer o capitalismo francês. Na área da educação, incentivou a escola primária gratuita e obrigatória, criou ginásios e liceus nas grandes cidades e um centro de formação de professores em Observando essa imagem, Paris. Além disso, promoveu a criação de uma universidade, publicada em 1902, percebe-se que subordinada ao Estado, que coordenava as faculdades destio olhar determinado e soberano do primeiro-cônsul, Napoleão nadas a formar quadros técnicos e políticos. Bonaparte, contrasta com a Em 1804, o governo promulgou o Código Civil inexpressividade dos dois outros cônsules. A imagem contribui para Napoleônico, que serviu de base para vários outros códireforçar o mito criado em torno de gos ocidentais, inclusive o brasileiro. Inspirado no Direito sua figura. Romano, esse código estabelecia: Ginásio: » a igualdade de todos perante a lei; equivalente ao que » o direito à propriedade privada; hoje chamamos de Ensino Fundamental II. » a separação entre Estado e Igreja (a partir daí, o casamento só seria legítimo se realizado por um juiz de paz); Liceu: internato que, na » a proibição dos sindicatos e das greves; época, era destinado » a formação das sociedades por ações. a formar ocupantes de altos cargos civis ou Para alguns historiadores, o Código Napoleônico era um instrumento que militares. favorecia, sobretudo, a burguesia. Refletindo o imaginário da época, o código atribuía à mulher uma condição inferior à do marido no tocante à propriedade, ao divórcio e ao adultério. O pai era tutor da esposa e do filho; para se casar, o filho precisava da licença paterna, ainda que tivesse mais de 25 anos. As sucessivas vitórias militares e os progressos na economia e na diploDica! Documentário macia conferiram grande popularidade a Bonaparte. Valendo-se disso e da sobre a ascensão e a história políticointensa propaganda dos seus feitos patrocinada por seu governo, em 1802, -militar de Napoleão Bonaparte promoveu um plebiscito por meio do qual se tornou cônsul Bonaparte. [Duração: 53 minutos]. Acesse: vitalício. Dois anos depois, em nova consulta ao povo, foi aclamado impe<http ://tub.im/ rador por 60% dos eleitores, e, posteriormente, entronizado com o título mu9cns>. de Napoleão I. UNIDADE 3 | CIDADANIA: PASSADO E PRESENTE

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Jacques-Louis David (detalhe). 1806-07. Óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris

Para saber mais

Na imagem maior, vemos uma tela pintada por Jacques-Louis David por volta de 1806 e intitulada Coroação de Napoleão e Josefina. O pintor procurou destacar o exato momento em que Napoleão está prestes a coroar a si mesmo. Enquanto isso, a futura imperatriz aguarda ajoelhada. Com tal gesto, Bonaparte provavelmente quis dizer que nem mesmo o chefe da Igreja estava acima dele. Na imagem menor (esboço feito em 1804), percebemos melhor a expressão arrogante de Napoleão durante o evento.

Jacques-Louis David (detalhe). c. 1804. Estudo. Museu do Louvre, Paris

Napoleão Bonaparte foi coroado no fim de 1804. Durante a cerimônia, Bonaparte surpreendeu a todos: retirou a coroa das mãos do papa, deu as costas a ele e se autocoroou “imperador dos franceses”. A seguir, o próprio coroou Josefina, sua esposa.

O expansionismo bonapartista O período do Império foi marcado pelo expansionismo bonapartista que se fez por meio de guerras consecutivas. No mais das vezes, essas guerras tinham, de um lado, a França de Napoleão e, de outro, a Grã-Bretanha e três importantes países absolutistas (a Prússia, a Áustria e a Rússia). Os Estados absolutistas europeus temiam a propagação das ideias revolucionárias francesas em seus territórios; já a Grã-Bretanha, maior potência naval e industrial daquela época, temia a concorrência da França no mercado europeu. As duas nações capitalistas buscavam ampliar territórios e mercados na Europa e em outros continentes. Isso ajuda a explicar a participação da Grã-Bretanha em quase todas as coligações contra a França. Em 1805, na Batalha de Trafalgar ocorrida no mar, a marinha francesa foi derrotada pela Inglaterra. Mas, por terra, as tropas de Napoleão venceram batalhas importantes, como a de Austerlitz (1805), contra a Áustria e a Prússia e a seguir, reuniu áreas conquistadas na Europa e, com elas, formou a Confederação do Reno. Para impor sua hegemonia à Europa, a França de Napoleão teria de vencer a Inglaterra, que, por ficar em uma ilha, só podia ser atacada por mar. Mas como vencer por mar a “Rainha dos Mares”?

Grã-Bretanha:

até 1801, a Grã-Bretanha era constituída por Inglaterra, País de Gales e Escócia. Em 1801 formou-se o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, um reino constituído por Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda. Hoje, o Reino Unido é formado por Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte.

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A Europa Napoleônica e o Bloqueio Continental (1812) Allmaps

Escola inglesa. Séc. XIX. Litogravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Nesta charge inglesa de 1803, Napoleão é mostrado sobre o Globo e em tamanho muito maior que seu adversário. A imagem ironiza o comportamento megalomaníaco de Napoleão, sua ânsia desenfreada de conquistar terras e povos.

A estratégia adotada por Napoleão foi proibir – por decreto – a Europa continental de comerciar com a Inglaterra. O objetivo desse decreto – conhecido como Bloqueio Continental – era enfraquecer a economia da Inglaterra para, depois, conquistá-la. Muitos países europeus aderiram ao bloqueio; alguns, no entanto, continuaram permitindo a entrada de produtos ingleses em seus territórios e portos. Um desses países foi Portugal, tradicional aliado da Inglaterra. Ao saber da continuidade do comércio anglo-português, Napoleão ordenou a invasão de Portugal, fato que motivou a transferência da família real portuguesa para o Brasil, em 1808. E, nesse mesmo ano, mandou invadir também a Espanha, depôs o rei espanhol Fernando VII e coroou como rei seu irmão José Bonaparte. Adotando a tática de guerrilhas, o povo espanhol ofereceu dura resistência às forças invasoras. As colônias hispano-americanas aproveitaram-se da ocupação francesa na Espanha para iniciar a luta armada pela independência. Napoleão, por sua vez, continuou acumulando vitórias, ao vencer outra coligação contra a França. No exército sob seu comando, Napoleão adotou o recrutamento obrigatório e a premiação por mérito e disseminou a confiança na retidão da causa (os comandantes franceses induziam seus soldados a pensar que cumpriam uma missão, a de divulgar os ideais da Revolução Francesa). Isso tudo colaborou para que Napoleão acumulasse conquistas e se tornasse senhor de um grande império. Por volta de 1812, o Império Napoleônico atingiu sua máxima extensão. Observe o mapa.

Dica! Documentário abordando a construção do império napoleônico. [Duração: 43 minutos]. Acesse: <http://tub. im/854rg3>. Fontes: ATLAS histórico. Barcelona: Editorial Marin, 1995. p. 139; DUBY, Georges. Atlas Historique Mondial. Paris: Larousse, 2011, p. 85.

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A resistência ao militarismo bonapartista

J.A. Klein. Séc. XIX. Gravura. Academia de Belas Artes, França. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

O militarismo bonapartista provocou forte oposição dentro da França e intensa resistência armada no exterior. Na França, o governo era criticado pela morte de milhares de soldados franceses, pela censura prévia à imprensa e pelo uso da educação para a autopromoção do imperador (em cada sala de aula de toda a França havia um grande retrato de Napoleão, e os alunos eram doutrinados para enaltecer seus feitos). No exterior, os povos reagiam à dominação francesa pegando em armas e erguendo a bandeira do liberalismo e do nacionalismo contra o “estrangeiro”, o “invasor”. Os Estados Nacionais do centro e do leste europeu, predominantemente agrários, sofriam prejuízos por não poderem trocar seus gêneros primários por produtos industrializados ingleses, como faziam antes. A Rússia era um desses países e, por isso, no fim de 1810, voltou a comerciar regularmente com a Inglaterra. A resposta de Bonaparte foi invadir a Rússia em 1812, com um exército composto de mais de 600 mil soldados, 180 mil cavalos e centenas de canhões. Diante do avanço dos franceses, os russos adotaram a tática da “terra arrasada”: evitavam o confronto, recuando cada vez mais, e, ao mesmo tempo, destruíam as lavouras e tudo o que pudesse ser útil ao inimigo. Visando conseguir suprimentos, Napoleão rumou com seus homens para Moscou, onde esperava se reabastecer. Mas, para sua surpresa, encontrou as casas vazias e a cidade em chamas. Os próprios moscovitas a haviam incendiado. Um mês depois, o rigorosíssimo inverno russo chegou, obrigando o exército francês a bater em retirada, com seus efetivos drasticamente reduzidos por fadiga, doença, fome e deserção.

Liberalismo:

o ideário liberal na época incluía a defesa da liberdade de pensamento, de expressão e de comércio.

Em dezembro de 1812, o que restava do grande exército francês atravessou a fronteira com a Prússia de volta para casa. A imagem é uma representação da batalha de Berezina, durante sua retirada da Rússia, e as dificuldades enfrentadas diante do rigoroso inverno russo. As carroças, como a que você vê na imagem, atolavam na neve.

A derrota na Rússia quebrou o mito da invencibilidade napoleônica e estimulou a organização de uma nova coligação, formada por Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria. O gigantesco exército dessa coligação venceu as forças de Napoleão na Batalha das Nações, em Leipzig, em outubro de 1813 e, no ano seguinte, invadiu e ocupou Paris, o coração do Império Francês. CAPÍTULO 8 | A REVOLUÇÃO FRANCESA E A ERA NAPOLEÔNICA

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mostrado como um artista que se equilibra entre Madri (a oeste) e Moscou (a leste); a vareta que liga seus pés a essas duas cidades localizadas em posições opostas sugere que seu poder sobre a Europa estava se esfacelando, que o seu imenso império estava desmoronando. Repare que seu cetro – símbolo de poder – e a sua coroa, encimada por uma cruz, estão caindo, sinal de que seus tempos de glória haviam chegado ao fim.

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Escola francesa. Séc. XIX. Gravura. Coleção Particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

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Napoleão teve de abrir mão do trono, mas ganhou plenos poderes sobre a pequena ilha de Elba, na costa da Península Itálica, para onde foi exilado. O trono da França foi entregue a Luís XVIII, irmão do rei guilhotinado durante a Revolução Francesa. Quando a população francesa viu que Luís XVIII (e toda a Corte) voltava(m) ao país e ao trono, desfraldando não a bandeira tricolor da Revolução, mas a bandeira com a flor-de-lis, do Antigo Regime, deu-se conta que precisava retomar A flor-de-lis era símbolo do a luta para reenterrá-lo. rei da França e estava presente nas bandeiras do antigo regime. Napoleão, por sua vez, surpreendeu novamente seus adversários: no início de 1815 fugiu da ilha de Elba, acompanhado de 800 soldados, e desembarcou no litoral da França. A imprensa governista quando soube que Napoleão havia desembarcado no país começou por tratá-lo como monstro e tirano, mas à medida que ele se aproximava de Paris, ia mudando o tratamento até por fim afirmar que “Sua majestade estava sendo esperada a qualquer momento na capital”. As forças enviadas por Luís XVIII para combatê-lo juntaram-se a ele. Napoleão entrou em Paris como herói e reassumiu o trono, Bandeira nacional da França obrigando o rei a fugir. Isto ajuda a explicar a facilidade com criada durante a Revolução Francesa. que Napoleão, fugindo da ilha de Elba, recuperou o poder. Mas, dessa vez, seu governo durou pouco mais de 100 dias. Uma nova coligação (a sétima), liderada uma vez mais pela Inglaterra, venceu o exército napoleônico na Batalha de Waterloo (1815). Dessa vez, Bonaparte foi preso e exilado em Santa Helena, uma ilha minúscula e longínqua sob o domínio inglês, situada no Atlântico Sul, a mil milhas da costa africana, Nesta charge de c. 1814, Napoleão é onde passou os últimos anos de sua vida.

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O Congresso de Viena e o princípio da legitimidade

Escola francesa. Séc. XIX. Gravura. Museu Carnavalet, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Os principais vencedores das guerras napoleônicas – Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia – eram agora os novos senhores da Europa. Essas potências, junto com a França monárquica, reuniram-se no Congresso de Viena, entre 1814 e 1815, com o objetivo de restaurar a velha ordem (que privilegiava a nobreza e o clero). Uma das decisões do Congresso de Viena foi a adoção do princípio da legitimidade, que defendia ser legítima a volta ao poder das famílias que governavam os Estados europeus antes da expansão napoleônica. Assim, as famílias reais destituídas foram recolocadas no trono na França, na Espanha, em Portugal e em vários Estados da Confederação Germânica. Uma figura de destaque no Congresso foi o diplomata francês Charles Talleyrand, que, com sua habilidade, conseguiu restringir as perdas impostas ao seu país pelos vencedores. Apesar disso, a França teve de pagar 700 milhões de francos às grandes potências e teve suas fronteiras drasticamente reduzidas, voltando a ser como antes da expansão napoleônica. Outra figura central no Congresso de Viena foi o príncipe Metternich, da Áustria, que defendia a necessidade de se manter o equilíbrio europeu, a fim de que nenhum Estado sobrepujasse o outro, como ocorrera durante a expansão napoleônica. Para manter o equilíbrio de forças entre as grandes potências, o príncipe propunha compensar de forma equitativa as grandes potências pelos prejuízos sofridos nas guerras napoleônicas (princípio das compensações). Charge exposta na As potências vencedoras – Inglaterra, Áutria, Prússia e Rússia – dividiram Biblioteca Nacional de Viena que mostra entre si territórios situados na Europa e nas antigas colônias europeias.

os representantes das grandes potências dividindo entre si o continente europeu. No balão de fala, junto à balança sustentada pelo estadista austríaco Metternich, está escrito: “le prix de sang”, isto é, “o preço do sangue”. Ou seja, o ganho de territórios que as potências estavam tendo era o pagamento pelo sangue derramado em razão das guerras napoleônicas.

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Ao redefinir o mapa da Europa, apossando-se de territórios europeus, as principais potências obtiveram expressivos ganhos territoriais, mas não respeitaram os interesses nem a autodeterminação dos povos das áreas divididas. Os territórios dos povos alemães que formavam a Confederação Germânica, por exemplo, foram repartidos entre o Império Austríaco e o Reino da Prússia. A Europa após o Congresso de Viena (1815)

30° L

Allmaps

REINO DA NORUEGA

Estocolmo Mar do Norte

REINO UNIDO GR DA GRÃ-BRETANHA E IRLANDA

50° N

OCEANO

BAVIERA

REINO DE PORTUGAL

Pamplona

Marselha Madri

Lisboa

Milão

Veneza Belgrado

REINO DA SARDENHA-PIEMONTE

M a r

235

Roma Nápoles

M e d i t e

ÁFRICA

Bucareste

Mar Negro

ESTADOS DA IGREJA

Barcelona

REINO DA ESPANHA

Budapeste

Gênova

Sevilha Cádiz

0

IMPÉRIO RUSSO

IMPÉRIO AUSTRÍACO

REINO LOMBARDO VÊNETO

SUÍÇA Turim

Toulouse

Viena

Munique

Zurique

Bordéus

N

Moscou

Paris

REINO DA FRANÇA

40°

Riga

REINO Copenhague Mar DA Báltico DINAMARCA

Amsterdã A SSI HANOVER Berlim RÚ P REINO DOS DA PAÍSES INO BAIXOS Colônia Varsóvia RE SAXÔNIA

Londres

ATLÂNTICO

REINO DA SUÉCIA

Mar Adriático Tarento

REINO DAS DUAS SICÍLIAS

r

r

Territórios anexados ao Império Russo ao Império Austríaco ao Reino da Prússia ao Reino da Dinamarca

â

n

ao Reino da Sardenha

e

o

Vários pequenos estados Fronteiras da Confederação Germânica

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2001. p. 86.

Dica! Vídeo-aula sobre o Congresso de Viena, a Restauração e a Santa Aliança. [Duração: 7 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ kzpudo>.

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Na divisão dos territórios coloniais, a principal beneficiada foi a Inglaterra, que obteve possessões em vários continentes, como a região do Cabo, no sul da África, o Ceilão (atual Sri Lanka), próximo à Índia, e a Guiana, na América do Sul. Visando restaurar a antiga ordem, o czar Alexandre I, da Rússia, propôs a criação da Santa Aliança, uma organização militarizada de defesa mútua. Os países que a lideravam (Rússia, Áustria e Prússia) julgavam-se com o direito de intervir e reprimir todo e qualquer movimento liberal, nacionalista ou que objetivasse a independência. Apesar de seu empenho, a Santa Aliança não conseguiu impedir a explosão de movimentos liberais e nacionalistas na Europa e os movimentos de independência na América de colonização espanhola.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (UEG-GO – 2016) Leia o texto a seguir. Socialmente, os sans-culottes representam os citadinos que vivem de seu trabalho, seja como artesãos, seja como profissionais de ofício; alguns, depois de uma vida laboriosa, se tornam pequenos proprietários na cidade, e usufruem as rendas de um imóvel. PÉRONNET, Michel. Revolução Francesa em 50 palavras-chaves. São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 248.

A análise do texto demonstra que os interesses sociais dos sans-culottes, importantes personagens da Revolução Francesa, se confundiam com os a) da pequena burguesia que, apesar das conquistas econômicas, via-se pressionada pelo aumento no custo de vida. 1. Resposta: a. b) dos camponeses, já que ambos lutavam pela abolição dos privilégios feudais no campo e posse de terras coletivas. c) dos membros do baixo clero, uma vez que lutavam por reformas sociais, mas não eram contra a liberdade religiosa. d) da classe dos girondinos, pois apesar das diferenças de classe, ambos os grupos eram politicamente moderados. 2. (UERJ – 2015)

Carta de Convocação dos Estados Gerais Por ordem do Rei. Temos necessidade de nossos fiéis súditos para nos ajudarem a superar todas as dificuldades em que nos achamos e para estabelecer uma ordem constante e invariável em todas as partes do governo que interessam à felicidade dos nossos súditos e à prosperidade de nosso reino. Esses grandes motivos nos determinaram convocar a assembleia dos Estados de todas as pro-

víncias sob nossa obediência, para que seja achado, o mais rapidamente possível, um remédio eficaz para os males do Estado e para que os abusos de toda espécie sejam reformados e prevenidos. Versalhes, 24 de janeiro de 1789. Adaptado de MATTOSO, K. de Q. Textos e documentos para o estudo de história contemporânea. São Paulo: Edusp, 1976.

A convocação dos Estados Gerais deu início à Revolução Francesa, ocasionando um conjunto de mudanças que abalaram não só a França, mas também o mundo ocidental em finais do século XVIII. a) Cite um motivo para a convocação dos Estados Gerais na França, em 1789. b) Apresente duas consequências da Revolução Francesa para as sociedades europeias e americanas. 2. a) O endividamento do Estado 3. (Unicamp-SP – 2015)

francês e a aguda crise econômica e financeira envolvendo o aumento do desemprego, a carestia e a fome.

A igualdade, a universalidade e o caráter natural dos direitos humanos ganharam uma expressão política direta pela primeira vez na Declaração da Independência americana de 1776 e na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Embora se referisse aos “antigos direitos e liberdades” estabelecidos pela lei inglesa e derivados da história inglesa, a Bill of Rights inglesa de 1689 não declarava a igualdade, a universalidade ou o caráter natural dos direitos. Os direitos são humanos não apenas por se oporem a direitos divinos ou de animais, mas por serem os direitos de humanos em relação uns aos outros. Adaptado de Lynn Hunt, A invenção dos direitos humanos: uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 19.

Assinale a alternativa correta. a) A prática jurídica da igualdade foi expressa na Declaração de Independência dos EUA e assegurada nos países independentes do continente americano após 1776.

2. b) A Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, que estabelecia o direito de resistência à opressão, e a livre comunicação dos pensamentos. O rompimento com o Antigo Regime, vigente ainda em várias partes da Europa, mostra que é possível a emergência de uma sociedade formada de cidadãos.

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b) A lei inglesa, ao referir-se aos antigos direitos, preservava a hierarquia, os privilégios exclusivos da nobreza sobre a propriedade e os castigos corporais como procedimento jurídico.

b) O processo revolucionário francês identificou-se com o movimento de independência norte-americana no apoio ao absolutismo esclarecido.

c) No contexto da Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão significou o fim do Antigo Regime, ainda que tenham sido mantidos os direitos tradicionais da nobreza.

c) Tanto nos Estados Unidos quanto na França, as teses iluministas sustentavam a luta pelo reconhecimento dos direitos considerados essenciais à dignidade humana. 4. Resposta: c.

d) Os direitos do homem, por serem direitos dos humanos em relação uns aos outros, significam que não pode haver privilégios, nem direitos divinos, mas devem prevalecer os princípios da igualdade e universalidade dos direitos entre os humanos. 3. Resposta: d. 4. (Enem/MEC) Em 4 de julho de 1776, as Treze Colônias que vieram inicialmente a constituir os Estados Unidos da América (EUA) declaravam sua independência e justificavam a ruptura do Pacto Colonial. Em palavras profundamente subversivas para a época, afirmavam a igualdade dos homens e apregoavam como seus direitos inalienáveis: o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Afirmavam que o poder dos governantes, aos quais cabia a defesa daqueles direitos, derivava dos governados. Esses conceitos revolucionários que ecoavam o Iluminismo foram retomados com maior vigor e amplitude treze anos mais tarde, em 1789, na França. COSTA, Emília Viotti da. Apresentação da coleção. In: Wladimir Pomar. Revolução Chinesa. São Paulo: Unesp, 2003 (com adaptações).

Considerando o texto, acerca da independência dos Estados Unidos e da Revolução Francesa, assinale a opção correta. a) A Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa integravam o mesmo contexto histórico, mas se baseavam em princípios e ideais opostos.

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d) Por ter sido pioneira, a Revolução Francesa exerceu forte influência no desencadeamento da independência norte-americana. e) Ao romper o Pacto Colonial, a Revolução Francesa abriu o caminho para as independências das colônias ibéricas situadas na América. 5. (UFRGS – 2014) O texto abaixo refere-se à Revolução Francesa. O Terror é doravante um sistema de governo, ou melhor, uma parte essencial do governo revolucionário. Seu braço. (...) Ele é também um meio de governo omnipresente, através do qual a ditadura revolucionária de Paris deve fazer sentir sua mão de ferro em todos os lugares, tanto nas províncias quanto nas forças armadas. FURET, François ; OZOUF, Mona. Diccionnaire critique de la Révolution française. Événements. Paris: Flammarion, 1992. p. 298-299.

Considere as seguintes afirmações sobre o denominado Terror. I. O governo jacobino, dirigido por Robespierre, e o Comitê de Salvação Pública foram responsáveis pelo período do Terror. II. O Terror foi uma política de extermínio liderada pelos girondinos de origem burguesa. III. O objetivo dessa política centrava-se na defesa da Revolução contra os inimigos internos e externos. Quais estão corretas? a) Apenas I.

d) Apenas I e II.

b) Apenas II.

e) Apenas I e III.

c) Apenas III.

5. Resposta: e.

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II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE

O texto foi escrito pela historiadora Raquel Stoiani, doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP).

David Jacques Louis. C.1797-98. Óleo sobre tela. Museu do Louvre. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

› Fonte 2

› Fonte 1

Uma preocupação constante de Napoleão Bonaparte foi a construção de sua imagem pública. Enquanto esteve no poder (1799-1815), ele estruturou uma complexa máquina de propaganda. Do homem da paz ao deus da guerra, [...] modificava sua figura pública de acordo com as necessidades do momento. Seus opositores, por sua vez, buscaram desfigurá-lo com o mesmo empenho. [...] Após a morte de Napoleão, o livro Mémorial de Sainte-Helène (1823), de Emmanuel de Las Cases (1766-1842), teve imensa influência na Retrato não finalizado de França. [...]. Começava a surgir a chamada “LenBonaparte, obra de Jacques da Napoleônica”, [...] Ali ele aparece como o filho Louis David, 1797-1798. da Revolução Francesa, o homem que consolidou a posse da igualdade de direitos, que tornou possível a saída da França do feudalismo, glorificando-a com suas vitórias [...]. No início do século XX, Napoleão começa a ser apreciado de forma mais contida, [...] Georges Lefèbvre (1874-1959), em seu Napoléon (1935), enfatiza as realizações positivas do imperador e aprecia a grandeza de sua figura, mas não toma partido e evita julgamentos morais. [...] Tudo indica que o confronto entre as várias interpretações continuará indefinidamente. Diversos Napoleões permanecem flutuando entre a “antiga ordem” e a “nova ordem” – ou entre os valores de antes e depois da Revolução Francesa. [...] STOIANI, Raquel. Mitos de além-túmulo. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 4 abr. 2010. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/mitos-de-alem-tumulo>. Acesso em: 4 mar. 2016.

a) Após a morte de Napoleão, teve início a sua transformação em uma lenda. Que argumentos foram usados para isto? b) Levando em conta o contexto do processo revolucionário francês iniciado em 1789, interprete a afirmação: “Diversos Napoleões permanecem flutuando entre a antiga ordem e a nova ordem – ou entre os valores de antes e depois da Revolução Francesa.” c) O que se vê na fonte 2? d) Relacione o debate histórico em torno da figura de Napoleão (fonte 1) ao modo como ele foi retratado na fonte 2. CAPÍTULO 8 | A REVOLUÇÃO FRANCESA E A ERA NAPOLEÔNICA

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Capítulo 9

Independências: Haiti e América espanhola

» Você conhece a taça mostrada na imagem? » E do personagem representado na moeda, você

Luis Vera/LatinContent/Getty Images

DeAgostini/Getty Images

Professor: com base em elementos materiais, a taça Libertadores da América e a moeda com a efígie de Bolívar, buscou-se estimular o interesse pelas lutas de independência na América espanhola. O nome da taça e da competição é, como se sabe, uma homenagem aos “Libertadores da América”, a exemplo de Simón Bolívar, representado na moeda abaixo. A Copa Libertadores da América começou a ser disputada em 1960 e é a principal competição de futebol da América do Sul. Em 2009, foi anunciada a criação da Copa Libertadores Feminina, e a primeira delas foi disputada no Brasil.

já tinha ouvido falar? » Qual é a relação entre a taça e o personagem

representado na moeda? » Você sabia que, em 2009, foi criado um torneio

equivalente disputado por atletas femininas? 176

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No final do século XVIII, a população hispano-americana era de cerca de 16 milhões de habitantes, que compunham cinco grupos sociais: chapetones (ou peninsulares), criollos, mestiços, indígenas e negros escravizados.

As sociedades hispano-americanas

Diego Rivera. 1931. Mural. Philadelphia Museum of Art. Foto: Corbis/Latinstock

Os chapetones, colonos nascidos na Espanha, desfrutavam de poder e privilégio, ocupando todos os principais cargos administrativos, militares e religiosos. Os criollos, filhos de espanhóis nascidos na América, eram ricos fazendeiros, donos de minas e grandes comerciantes. Alguns possuíam formação universitária. Apesar de terem projeção econômica e social, eram impedidos de ocupar altos cargos no governo, no Exército e na Igreja. Os mestiços eram filhos de espanhóis ou de criollos com indígenas ou africanas. Nascidos quase sempre de relações extraconjugais, eram vistos como ilegítimos e proibidos de usar armas, ouro e roupas de seda. Eles trabalhavam, geralmente, em ocupações de pouco prestígio naquela sociedade: eram pedreiros, carpinteiros, ferreiros, capatazes de fazenda, soldados e padres. Os indígenas constituíam a maioria da população e eram duramente explorados nas minas, fazendas e cidades. Os africanos escravizados eram em número muito menor e viviam no litoral da Colômbia, do Equador e da Venezuela, onde trabalhavam principalmente nas grandes plantações de cacau, e nas Antilhas – ilhas espanholas, francesas, inglesas e holandesas da América Central –, onde trabalhavam, sobretudo, nas plantações de cana-de-açúcar. Indígenas, negros e mestiços sofriam discriminação social e étnica, o que aumentava as tensões no interior das sociedades coloniais hispano-americanas.

Cana-de-açúcar, do mexicano Diego Rivera. Na América colonial espanhola havia estreita relação entre origem e ocupação social: os brancos detinham riqueza, poder e o privilégio de ocupar os melhores cargos; já os mestiços, indígenas e negros faziam geralmente vários tipos de trabalho forçado e/ou serviços mais mal remunerados. A obra explora esse aspecto da realidade.

CAPÍTULO 9 | INDEPENDÊNCIAS: HAITI E AMÉRICA ESPANHOLA

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As lutas sociais na América Ao longo de todo o período colonial ocorreram na América uma série de levantes e rebeliões sociais contra o trabalho forçado (a mita e a encomienda) e mal remunerado, os impostos abusivos cobrados pela Espanha e pela Igreja e a discriminação vigentes nas sociedades coloniais. Vamos apresentar de forma breve duas dessas lutas: a Revolta de Túpac Amaru, no atual Peru, e a Revolta dos Comuneros, na atual Colômbia.

A Revolta de Túpac Amaru Curacas:

Daniel Lainé/Corbis/Latinstock

líderes de povoados indígenas, que descendiam de indígenas.

Homem peruano segurando o retrato de Túpac Amaru, c. 1997. A cidade de Cuzco, que um dia foi capital do Império Inca, é hoje considerada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.

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Como parte de sua política colonial, a Coroa espanhola delegava a curacas a responsabilidade de governar, em nome dela, as populações indígenas do Vice-Reino do Peru. Esses curacas eram batizados com nomes cristãos e estudavam em colégios católicos, onde aprendiam valores e conhecimentos presentes na cultura espanhola. Um desses curacas, José Gabriel Condorcanqui, descendia da nobreza inca e tinha sido finamente educado, tendo frequentado inclusive a Universidade de São Marcos, cujo currículo era semelhante ao da universidade espanhola de Salamanca. Por seu carisma e preparo, Condorcanqui assumiu a liderança de diversos pueblos (povoados) localizados na província de Tinta, no Vice-Reino do Peru. Cada pueblo tinha o dever de pagar à Coroa espanhola um imposto e de enviar um certo número de indígenas para o cumprimento da mita, trabalho forçado realizado durante uma parte do ano. Na segunda metade do século XVIII, as autoridades espanholas aumentaram os impostos cobrados dos pueblos e endureceram o controle sobre esses povoados, diminuindo, com isso, o poder dos curacas. Vendo que a opressão sobre os mitayos (trabalhadores obrigados ao cumprimento da mita) aumentava e que o poder dos curacas tinha diminuído, Condorcanqui tentou negociar com as autoridades. Solicitou que os índios de seus pueblos não tivessem mais de cumprir com a mita nas minas de São Luís do Potosí, região alta e muito fria, na atual Bolívia. Ele justificou seu pedido, argumentando que os mitayos tinham de caminhar meses para chegar às minas, que adoeciam no caminho e que abandonavam suas plantações sem cuidados por longo tempo. E acrescentou que, nas minas, as mortes por soterramento eram frequentes. Nada disto comoveu os representantes da Espanha; Gabriel Condorcanqui adotou o nome de Túpac Amaru, nome do último líder da resistência inca aos espanhóis, e optou então pela revolta. O levante teve início em

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A Revolta dos Comuneros O vice-reinado de Nova Granada também foi palco de uma importante rebelião social: a Revolta dos Comuneros. Essa revolta está estreitamente ligada à política fiscal opressiva adotada pela Espanha na América durante o século XVIII. O estopim da revolta foi um aumento, autorizado pela Espanha em 1780, na lista de impostos pagos pelos colonos. Agricultores e comerciantes da cidade de Socorro, centro têxtil e fumageiro ao norte de Bogotá (Colômbia), deram início ao movimento rebelde. Coletores de impostos foram agredidos, e várias propriedades pertencentes a espanhóis foram invadidas e saqueadas. A liderança criolla formou uma junta denominada El Común; daí o nome da revolta. O movimento ganhou corpo quando o líder José Antonio Galán marchou em direção a Bogotá, centro do poder espanhol, à frente de 15 mil pessoas, indígenas em sua maioria. Diante da radicalização do movimento, as lideranças criollas negociaram a rendição com as autoridades espanholas, em junho de 1781. Fortalecidas pela paz firmada com os criollos e valendo-se da sua superioridade bélica, as forças da repressão esmagaram a revolta. José Antonio Galán foi enforcado e esquartejado. Partes do seu corpo foram exibidas nas cidades que participaram desse movimento. 2 e 3

Realistas:

forças leais à Coroa espanhola.

Nova Granada:

vice-reinado que abrangia os atuais Equador, Colômbia, Venezuela e Panamá.

1. Dica! Animação sobre a revolta liderada por Túpac Amaru. [Duração: 2 minutos.] Acesse: <http://tub.im/ bdm2yp>. 2. Dica! Documentário sobre a Revolta dos Comuneros. Em espanhol. [Duração: 24 minutos.] Acesse: <http://tub.im/ s6b4rg>. 3. Dica! Documentário sobre o processo de independência da Colômbia. Em espanhol. [Duração: 44 minutos.] Acesse: <http://tub.im/ m4k2gj>.

Brasão da cidade de Charalá, Colômbia

novembro de 1780, com a prisão, seguida de enforcamento, do corregedor Antônio Arriaga, autoridade colonial responsável pela cobrança de impostos e pela distribuição dos indígenas nos locais de trabalho. À frente das forças rebeldes, compostas de dezenas de milhares de indivíduos, indígenas em sua maioria, Túpac Amaru marchou em direção a Cuzco, antiga capital inca. Os realistas, no entanto, com reforços chegados de Lima, conseguiram refrear os rebeldes. Túpac Amaru recuou com sua gente para Tinta, onde chegou a assinar um documento abolindo a mita e todas as formas de trabalho forçado nas minas e manufaturas. Em abril, os realistas ajudados por criollos e alguns curacas cercaram os rebeldes provocando muitas baixas entre eles. A seguir, Túpac Amaru e seus principais colaboradores sofreram uma emboscada e foram capturados. Em 18 de maio de 1781, Túpac Amaru foi enforcado na praça central de Cuzco, teve sua língua cortada e seu corpo esquartejado; sua cabeça foi exposta em diferentes pontos da cidade. A Revolta de Túpac Amaru teve importantes desdobramentos no Vice-Reino do Peru: os curacas perderam as prerrogativas que tinham e o medo de um levante da maioria indígena contra uma minoria branca assombrou as elites locais durante muito tempo ainda. 1

O brasão da cidade de Charalá (Colômbia) é uma homenagem ao líder José Antonio Galán e ao movimento comunero.

CAPÍTULO 9 | INDEPENDÊNCIAS: HAITI E AMÉRICA ESPANHOLA

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O caso do Haiti: América francesa Allmaps

Localização do Haiti e da República Dominicana

Fonte: ATLAS geográfico escolar. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. p. 39.

A ilha de São Domingos está situada no mar do Caribe e foi encontrada por Colombo na sua primeira viagem à América. Inicialmente ele a denominou Hispaniola; posteriormente, foi rebatizada com o nome de São Domingos. A porção ocidental da ilha de São Domingos (hoje Haiti) foi ocupada pelos franceses, e a porção oriental (atual República Dominicana) continuou sob domínio dos espanhóis.

Gran marronage:

quilombo; comunidade de escravos fugidos. Existiram quilombos por toda a América; na inglesa recebiam o nome de maroons; na espanhola, palenques; e na francesa, grand marronage (para diferenciar da petit marronage, nome dado à fuga individual).

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Os franceses ocuparam a porção ocidental da ilha de São Domingos no século XVII e lá, utilizando o trabalho de africanos escravizados, montaram grandes fazendas produtoras de artigos tropicais, como café, algodão, índigo e, especialmente, açúcar e rum. No fim do século XVIII, a população de São Domingos era formada por mais de 85% de negros e uma minoria de mestiços e de brancos. A dominação da minoria de senhores de origem europeia sobre os milhares de trabalhadores negros se fazia por meio da violência cotidiana e de doses elevadas de perversidade. A resistência negra na ilha, por sua vez, manifestava-se de diversas formas, inclusive por meio de fugas coletivas e a formação de quilombos, chamados na América francesa de gran marronage. Nesse ambiente tenso, em que os quilombos se multiplicavam, explodiu, em 1791, nas fazendas açucareiras do norte da ilha, um grande levante escravo liderado por Toussaint L’Ouverture (“abertura” em francês). Os rebeldes exigiam melhores condições de trabalho nas plantações e mais tempo para cultivar gêneros agrícolas necessários à sobrevivência.

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A crise nos domínios espanhóis da América

Manuel Cohen/Image Forum

Haiti: No início de 1794, um fato novo ocorrido na França acelerou o curso dos derivado de ahiti, acontecimentos: os jacobinos decretaram o fim da escravidão nas colônias que, na língua aruaque, significa francesas; essa importante decisão da França revolucionária atingiu em cheio a “terra montanhosa”. escravidão centro-americana. Potencializando a lei abolicionista, os libertos de São Domingos se mobilizaram para apoiar a ascensão de L’Ouverture ao poder na parte ocidental da ilha. A seguir, ele e seus homens conquistaram a parte oriental (pertencente à Espanha), onde também aboliram a escravidão. No cargo de governador-geral da ilha entre 1794 e 1802, L’Ouverture tentou reorganizar a economia; mas a oposição, liderada por brancos e mestiços ricos, e a recusa dos ex-escravos de trabalharem para seus antigos senhores frustraram sua tentativa. O processo revolucionário sofreu nova reviravolta com a ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder na França, em 1799. Ele anulou a lei abolicionista e autorizou a invasão da ilha de São Domingos por um Exército de 25 mil homens. L’Ouverture foi preso e enviado para a França, permanecendo ali até sua morte, em 1803. Mas, nos embates que se seguiram, as tropas francesas foram derrotadas e expulsas da ilha; é que muitos africanos traziam consigo da África a experiência do combate em pequenos grupos e surpreendiam Busto de Toussaint L’Ouverture o adversário graças à grande agilidade no deslocamento. (1743-1803), inaugurado em 2005, em Bordeaux (França), obra do artista A resistência popular na ilha continuou, agora, sob o coLudovic Booz. L’Ouverture, líder da mando de Jean-Jacques Dessalines – um ex-escravo que se independência e da luta pela liberdade fez general nas tropas de L’Ouverture. À frente das tropas de no Haiti, destacou-se como estrategista e principal comandante das forças libertação, Dessalines e seus soldados proclamaram a indeque venceram aqueles que desejavam pendência de São Domingos, em 1804, e mudaram o nome da restabelecer a ordem étnica e social na ilha para Haiti, a segunda nação a conseguir a independência ilha de São Domingos. na América e a primeira a combinar independência e abolição. A notícia da vitória dos negros no Haiti logo se espalhou por toda a América, disseminando o medo entre as elites; no Brasil, esse medo, chamado à época de haitianismo, foi particularmente intenso, já que cerca de Dica! Vídeo sobre a revolução escrava que 2/3 da população do país era composta de negros escravizados. deu origem à atual República do Haiti. [Duração: 6 minutos.] Acesse: <http://tub. im/tu72s5>.

No início do século XIX, em um curto espaço de tempo, 1808-1826, ocorreram mudanças significativas na história da América espanhola; o Império Espanhol se desagregou dando origem a um conjunto de países independentes, com leis e governos próprios. De um Império imenso originou-se quase duas dezenas de repúblicas. Para melhor compreender esse processo de emancipação política das colônias espanholas na América é preciso recuar à segunda metade do século XVIII e conhecer as reformas implementadas pelo rei espanhol Carlos III (1759-1788), da dinastia Bourbon. CAPÍTULO 9 | INDEPENDÊNCIAS: HAITI E AMÉRICA ESPANHOLA

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Casamento duplo entre dois colonos nascidos na Espanha (chapetones) e duas mulheres incas, c. 1750. No canto superior esquerdo, o artista representou familiares das noivas e, no canto superior direito, familiares dos noivos.

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Escola espanhola. C. 1750. Painel. Nuestra Senora de Copacabana, Lima. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Anton Raphael Mengs. Museu do Prado. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Disposto a modernizar a Espanha e suas relações com a América espanhola, o déspota esclarecido Carlos III: » impôs monopólios sobre um número crescente de produtos, entre eles o fumo, as bebidas alcoólicas, a pólvora e o sal; proibiu as plantações de vinhedos e olivais e ordenou a destruição das manufaturas têxteis (as obrajes) na América; » pôs em prática um modelo mais eficiente de taxação e arrecadação de impostos. Assim, nos últimos 25 anos do século XVIII, as colônias espanholas na América enviaram para a Espanha, a cada ano, cerca de 10 milhões de pesos em impostos; » extinguiu o sistema de portos únicos vigente desde o início da colonização e autorizou 20 outros portos americanos a comerciarem com a Espanha; intensificando a circulação de mercadorias, Carlos III da Espanha, a Monarquia espanhola aumentava o montante de impostos arreóleo sobre tela, c. 1761. cadados na América; » em 1778, visando evitar o contrabando e aumentar ainda mais a arrecadação de impostos, liberou o livre -comércio entre as colônias espanholas na América, o que, embora fosse prática corrente, não era permitido pela metrópole. Os comerciantes espanhóis e seus representantes nas colônias se consideraram prejudicados pela decisão do monarca, pois iriam perder os lucros que o exclusivo comercial metropolitano lhes proporcionava. Os criollos, por sua vez, consideraram a medida insuficiente pois almejavam o livre-comércio com todos os países do mundo. Ao mesmo tempo em que a Monarquia espanhola aumentava o controle sobre suas colônias americanas, dificultava a ascensão social dos criollos. Nas sociedades hispano-americanas, os principais cargos no governo, no Exército e na Igreja eram reservados aos chapetones. No México de 1808, por exemplo, havia apenas um bispo criollo. Os criollos, mesmo sendo ricos, eram impedidos de ocupar tais cargos. Desde o início da colonização, as sociedades coloniais hispânico-americanas apresentavam uma hierarquia rígida; o lugar de cada pessoa era dado basicamente pelo nascimento. Os indígenas pagavam um tributo específico ao rei e estavam submetidos a diversas formas de trabalho forçado. Embora não fossem a mão de obra predominante, os negros escravizados estavam distribuídos por toda a América espanhola; em maior número nas plantações do Caribe, nas costas da Venezuela e nas minas de ouro da Colômbia. Índios, negros e mestiços faziam os trabalhos mais pesados e eram discriminados por sua origem e cor. Os peninsulares e os criollos detinham riqueza, poder e privilégio.

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As tropas de Napoleão invadem a Espanha

Francisco Goya. Séc. XIX. Água-forte. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

As sociedades hispano-americanas estavam assim organizadas quando, em 1808, um fato novo contribuiu para mudar o curso de suas histórias: as forças de Bonaparte invadiram a Espanha, prenderam o rei Fernando VII e impuseram ao país um novo governo, liderado por José Bonaparte, irmão de Napoleão. Em Madri, os espanhóis pegaram em armas para resistir aos franceses, mas foram reprimidos com muita violência.

“E eles são como bestas selvagens”, prancha 5 da série Os desastres da guerra, de Francisco Goya (1746-1828). Esse artista espanhol, que viveu na época das guerras napoleônicas, representou a luta das mulheres espanholas na resistência aos invasores franceses. Em primeiro plano, vemos uma mulher carregando e protegendo uma criança com a mão esquerda, enquanto combate o invasor com a mão direita, munida de uma lança apenas.

Diante da repressão, a resistência espanhola deslocou-se para Cádiz, no sul da Espanha. E lá convocou as Cortes Constituintes para elaborar uma Constituição para a Espanha. As Cortes incluíam deputados da Espanha e da América espanhola e tomaram decisões importantes para todos os súditos da realeza. Merece menção a fala do deputado mexicano Mejia Lequerica na abertura dos trabalhos; ele pediu: “que a assembleia não se dissolvesse e seus membros não se separassem antes de elaborar uma Constituição”. E assim foi feito. A Constituição aprovada em Cádiz, em 1812: » reconheceu Fernando VII como o legítimo rei da Espanha; » substituiu a Monarquia Absolutista pela Monarquia Constitucional; limitou, assim, a autoridade do rei determinando que, a partir de então, toda lei precisava da aprovação das Cortes; » extinguiu o Tribunal da Santa Inquisição, instrumento usado pela Igreja Católica para exercer sua dominação e punir aqueles que contrariavam seus dogmas; » estabeleceu a liberdade de imprensa e a inviolabilidade de domicílio; » aboliu o tributo pago pelas comunidades indígenas da América e o trabalho forçado, a exemplo da mita; » conferiu o direito de voto a todos os homens independentemente de serem ricos, pobres ou analfabetos. A Constituição de Cádiz representou um avanço com relação aos direitos da pessoa e influenciou as constituições feitas posteriormente na América independente. Com relação às colônias americanas, no entanto, manteve a desigualdade de direitos na representação política.

Cortes Constituintes:

nome dado ao Parlamento, isto é, ao conjunto de deputados encarregados de fazer leis que regeriam a sociedade e limitariam o poder do rei.

Resposta pessoal. Professor: a intenção aqui é chamar a atenção para o lado absurdo e trágico presente em todas as guerras, contribuindo com isso para a disseminação de uma cultura da paz, tal como pretendido pela ONU.

DIALOGANDO Goya definiu a guerra como uma derrota da humanidade. E para você, o que é a guerra?

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As guerras da independência na América Juntas Governativas:

governos locais autônomos formados a partir dos cabildos (câmaras municipais amplamente dominadas pelos criollos).

Thomas Cochrane:

almirante inglês que também participou das lutas para garantir a emancipação política do Brasil.

Assim que chegou à América a notícia de que o trono espanhol estava sem seu legítimo rei por causa da invasão napoleônica, os criollos reagiram formando Juntas Governativas e exércitos para lutar pela independência. As guerras de independência entre os insurgentes e os realistas podem ser divididas em duas fases: » Na primeira fase, de 1810 a 1815, os habitantes das colônias, liderados pelos criollos em cidades como Caracas, Buenos Aires, Bogotá e Santiago, formaram exércitos e obtiveram importantes vitórias contra os realistas. Naqueles anos, as forças de Bonaparte controlavam a maior parte do território espanhol e as lideranças espanholas estavam concentradas na expulsão dos franceses de seu território; » Já a segunda fase, de 1815 a 1824, começou quando o rei Fernando VII – que reassumira o trono espanhol com a queda de Napoleão – anulou a Constituição de Cádiz, reestabeleceu o absolutismo e enviou para a América uma grande expedição com 10 mil homens e 18 navios de guerra para reprimir os movimentos pela independência.

San Martín e Bolívar

Dica! Vídeo didático abordando as ações do Exército dos Andes. Em espanhol. [Duração: 4 minutos.] Acesse: <http://tub.im/ urnrkk>.

José de San Martín liderou o chamado Exército dos Andes, formado por mais de 5 mil homens. Esse Exército foi responsável pela libertação da Argentina (1816) e, em seguida, após vencer as batalhas de Chacabuco e Maipu, libertou também o Chile (1818), que passou a ser presidido por Bernardo O’Higgins, cabeça do movimento de independência chileno. Anos depois, o Exército dos Andes desembarcou no Peru, protegido pelos navios ingleses sob o comando de Thomas Cochrane, e colaborou para a independência daquele país (1821). Outra importante figura das guerras de independência na América foi a do general venezuelano Simón Bolívar. Veja o que duas historiadoras dizem sobre ele:

Para saber mais Simón Bolívar […] Simón Bolívar também teve uma vida repleta de peripécias. Nasceu em Caracas, em 24 de julho de 1783, filho de uma rica e tradicional família de fazendeiros de cacau. Órfão desde muito cedo, foi criado pelo avô, que lhe proporcionou uma esmerada educação de inspiração liberal […]. Como era

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Autor desconhecido. Retrato de Manuela Sáenz. C. 1820. Óleo sobre tela. Coleção particular. Foto: José Caruci/AP Photo

Autor desconhecido. Retrato de Simón Bolívar. Séc. XIX. Ilustração. Coleção particular. Foto: Bettmann/Corbis/Latinstock

comum entre os criollos mais ricos, viajou várias vezes à Europa, tendo passado por França, Itália e Espanha. Neste último país, casou-se com Maria Tereza del Toro que, após oito meses de casada, faleceu em terras venezuelanas, de febre amarela, para grande desgosto do marido. Entre idas e vindas da Europa, instalou-se definitivamente na Venezuela, em 1807, envolvendo-se, desde o início, nos movimentos pela independência. [...] As vitórias e derrotas das forças rebeldes lideradas por Simón Bolívar, no norte da América do Sul, demonstravam a dificuldade da Espanha em vencer os rebeldes e os obstáculos que estes enfrentavam para manter as conquistas. Depois da restauração de Fernando VII, como já foi indicado, Simón Bolívar liderando suas chegou a Nova Granada a grande expedição tropas, século XIX. do general Pablo Morillo para reconquistar os territórios perdidos. A repressão foi muito violenta, indicando num primeiro momento que esta era a estratégia correta. [...] Bolívar e seus generais reorganizaram os exércitos e iniciaram a virada no tabuleiro da guerra, prometendo a alforria aos escravos que se alistassem e terra aos soldados do exército. [...] Diferentemente de San Martín, Bolívar envolveu-se fortemente com as questões do poder político. Exerceu cargos executivos, trabalhou na elaboração de textos constitucionais e deixou muitas cartas e outros escritos versando sobre temas políticos diversos, carregados de ideias e propostas. [...] Bolívar sofreu atentados à sua vida, mas saiu ileso. Em uma das vezes, foi salvo por Manuela Sáenz, sua última companheira. Nascida em Quito, Manuela deixou o marido para seguir Bolívar. Já em vida era conhecida por sua iniciativa, coragem e lealdade ao general. PRADO, Maria Lígia C.; SOARES, Gabriela P. História da América Latina. São Paulo: Contexto, 2014. p. 31-33.

Pintura de Manuela Sáenz, c. 1820. Ela lutou ao lado de Bolívar pela independência na América espanhola. Hoje é vista por muitos latino-americanos como uma das heroínas dos movimentos independentistas na América.

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1. Dica! Narrativa da vida de Simón Bolívar. [Duração: 10 minutos.] Acesse: <http://tub. im/kg2yhj>. 2. Dica! Vídeo sobre a vida de José de San Martín. [Duração: 10 minutos.] Acesse: <http://tub. im/5vov7s>.

A exemplo do que fizera San Martín, Simón Bolívar atravessou a Cordilheira dos Andes à frente de um exército regular e conquistou Bogotá, em 1819. Dois anos depois, proclamou a República da Grã-Colômbia (Colômbia, Venezuela e Equador), da qual se tornou presidente. Mas ao contrário do que desejou Bolívar, essa unidade política se fragmentou e se formaram então as repúblicas da Colômbia, da Venezuela e do Equador. Em 1822, as forças de Simón Bolívar e de José de San Martín se encontraram em Guayaquil, no Equador, para discutir a estratégia de combate e a liderança nas lutas contra as tropas espanholas alojadas no Vice-Reino do Peru. O teor da conversa entre eles ainda hoje é um mistério; mas sabe-se que Simón Bolívar assumiu a liderança das guerras de independência na região. Acompanhado do general Antônio Sucre colaborou para a consolidação da independência do Peru, em 1824, e a conquista da independência da Bolívia, em 1825. 1 e 2

Para refletir

a) Bolívar defende a formação de uma só nação em toda a América (Novo Mundo); uma grande República federativa obediente a um só governo. b) O fato de os hispano-americanos terem origem, língua, costumes e religião comuns.

Ariana Cubillos/AP Photo/Glow Images

O projeto de Bolívar era ver formar-se na América uma confederação republicana, isto é, uma associação de Estados independentes unidos por objetivos de cooperação e defesa. Na célebre Carta da Jamaica, em 1815, Bolívar escreveu: É uma ideia grandiosa pretender formar de todo o Novo Mundo uma única nação com um único vínculo que ligue as partes entre si com o todo. Já que tem uma só origem, uma só língua, mesmos costumes e uma só religião, deveria, por conseguinte, ter um só governo que confederasse os diferentes Estados que haverão de se formar. BOLÍVAR, Simón. In: WASSERMAN, Cláudia (Coord.). História da América Latina: cinco séculos. Porto Alegre: UFRGS, 2000. p. 165.

Pedestres à frente de um mural representando Simón Bolívar, visto como herói no imaginário popular venezuelano. Caracas, Venezuela, 2008.

a) O que Bolívar defende nesse trecho da carta? b) Que argumentos Bolívar utiliza em defesa de sua ideia? c) Em tempos recentes, governantes da Venezuela, como Hugo Chávez e Nicolás Maduro, utilizaram o legado de Bolívar na sua política externa. Por que eles teriam agido assim? c) Hugo Chávez e Nicolás Maduro utilizavam a força do mito bolivariano para legitimar suas políticas externas de crescente oposição aos Estados Unidos. Evocando ideais bolivarianos, defendiam a integração econômica e militar entre os países latino-americanos. O mito bolivariano tem uma penetração enorme entre as camadas populares da Venezuela.

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O caso do México Juan O’Gorman. Séc. XIX. Mural. Coleção particular. Foto: The Granger Collection/Glow Images

A primeira tentativa de emancipação política na América espanhola ocorreu no Vice-Reino da Nova Espanha, em 1810, e foi liderada por Miguel Hidalgo, padre do pequeno povoado de Dolores, próximo às minas de Guanajuato. À frente de milhares de camponeses, o padre iniciou uma rebelião contra o domínio espanhol que clamava por independência e terra para os pobres (inclusive as da Igreja). Nas suas marchas reivindicatórias em direção à Cidade do México, os rebeldes ostentavam estandartes de Nossa Senhora de Guadalupe, uma virgem mestiça, morena como milhões de nativos do México. Os rebeldes venceram os realistas por diversas vezes e libertaram algumas cidades nas quais o padre Hidalgo determinou o fim da escravidão negra e dos tributos indígenas, a exemplo da mita. Na repressão ao movimento, parte da elite criolla uniu-se uma vez mais aos realistas e ajudou a esmagar a revolta. O padre Hidalgo foi preso e fuzilado em julho de 1811. A luta pela independência prosseguiu, então, sob a liderança de um outro padre, Detalhe da pintura mural José Maria Morellos. Ele propunha que se dividissem a terra e o dide Juan O’Gorman, contando nheiro dos mais ricos entre os vizinhos pobres do mesmo povoado. em linguagem pictórica a luta dos indígenas e camponeses A adesão de grande quantidade de indígenas e camponeses (cerca mexicanos liderados pelo padre de 80 mil) às forças de Hidalgo e Morellos se explica pela pobreza Hidalgo. Repare que eles carregam extrema em que vivia a maioria da população. Esse movimento poum estandarte com a imagem da Virgem de Guadalupe, que hoje é pular também foi vencido, e o padre Morellos, fuzilado em 1815. um dos símbolos do México. Esmagada a revolta indígena e popular, a luta por independência continuou, mas sob a liderança da elite criolla. Depois de anos de Vice-Reino da Nova Espanha: lutas, nas quais morreram cerca de 1 milhão de pessoas, a independência unidade administrativa foi obtida (1821). A conquista resultou de um acordo entre as elites locais, fundada em 1535; era a parte mais rica do sob o comando do coronel Agustín de Iturbide, que não por acaso havia Império Espanhol na liderado a repressão aos seguidores de Hidalgo e Morellos. Aproveitando-se América. da situação, Iturbide deu um golpe de Estado e proclamou-se imperador, com o título de Agustín I. Pouco tempo depois, no entanto, os criollos o depuseram e proclamaram a República mexicana. O projeto de independência vitorioso era favorável aos criollos locais. No México independente, a concentração da riqueza e da terra manteve-se inal- Dica! Vídeo sobre a vida de Miguel terada; a maioria da população continuou excluída do direito à cidadania. Hidalgo. [Duração: A América Central esteve unida ao México até 1824, quando proclamou sua in- 8 minutos.] Acesse: <http://tub.im/ dependência com o nome de Províncias Unidas da América Central. Posteriormente, udscxv>. sob forte pressão inglesa e estadunidense, a região se fragmentou em pequenas repúblicas: Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica. CAPÍTULO 9 | INDEPENDÊNCIAS: HAITI E AMÉRICA ESPANHOLA

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Earl Leaf/Michael Ochs Archive/Getty Images

Descendentes de quilombolas tocando banjo e flauta (ao centro) em um remanescente quilombo localizado na Jamaica, em uma fotografia de 1946. A Jamaica, assim como o Haiti, recebeu uma grande quantidade de africanos escravizados que foram trazidos para trabalhar nas plantações e nos engenhos de cana-de-açúcar de seus donos.

Danny Lehman/Corbis/Latinstock

De acordo com a maioria dos analistas, a independência política beneficiou, sobretudo, os criollos, que lideraram o processo de lutas e, ao mesmo tempo, definiram os limites dessa “independência”. Enquanto as elites dos novos países se ocupavam da grande política, a maioria, formada de pessoas pobres, mantinha a esperança de que os tempos que se abriram com a independência lhes trouxessem melhores condições de vida, acesso à terra e participação política. Os povos indígenas e de origem africana e seus descendentes integram essa maioria, que continua lutando por melhores condições de vida, direitos sociais e cidadania plena.

Indivíduos quíchua, povo que já habitava o Vice-Reino do Peru nos tempos de Túpac Amaru. O quíchua, falado nos Andes desde a época do Império Inca, é hoje uma das línguas oficiais do Peru. Fotografia de 2001.

Independências e fragmentação No Congresso do Panamá, em 1826, Simón Bolívar continuou lutando pela unidade latino-americana. No entanto, ela não se concretizou; o que se viu foi a formação de uma América fragmentada, dividida em 19 Estados nacionais (1830), cada qual com um governo próprio. A fragmentação da América em diversas repúblicas tem sido tema de debates entre os historiadores; as razões mais citadas para explicar essa fragmentação são três:

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» os conflitos de interesses entre as elites criollas; » a força dos caudilhos, chefes políticos ou militares locais, com grande poder em sua localidade ou província; » e as pressões da Inglaterra pela fragmentação da América em várias repúblicas.

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Independências na América Latina

Caudilhos:

a historiografia recente entende que o poder do caudilho se constrói por meio de relações nos níveis local, nacional e internacional e se fortalece em contextos históricos específicos nos quais as instituições políticas são frágeis. Uma das características importantes do caudilhismo é o clientelismo – relações pessoais que indivíduos com riqueza, poder e prestígio elevados mantêm com outros relativamente pobres e sem prestígio social. O cliente, um peão, por exemplo, busca conseguir de seu patrão proteção política e econômica e oferece, em troca, sua força de trabalho e lealdade.

Fonte: DUBY, Georges. Atlas Historique Mondial. Paris: Larousse, 2011. p. 243.

A América espanhola se fragmentou em diversas repúblicas, enquanto na América portuguesa, o Brasil independente manteve a Monarquia e a unidade territorial.

Nos novos Estados latino-americanos, a instabilidade política, a pobreza e a exclusão social e a força das elites locais facilitaram a emergência da figura do caudilho. Por vezes, os caudilhos conseguiram reunir sob seu comando as forças de uma região e, até mesmo, de toda uma república. Foi esse o caso da Argentina, onde após a independência, a disputa Dica! Documentário sobre os 200 anos da independência pelo poder político opôs os unitários (favoráveis a centralização) dos países latinoaos federalistas (que defendiam a autonomia das províncias). As -americanos. [Duração: divergências entre eles se desdobraram em guerras civis intermi- 202 minutos.] Dividido em duas partes. Para a primeira tentes. Lá, a presença de caudilhos à frente de grupos armados parte, acesse: <http://tub. impediu a organização de um Estado nacional centralizado até im/7n6wwh>. 1862, quando Bartolomeu Mitre assumiu a Presidência do país como um todo. CAPÍTULO 9 | INDEPENDÊNCIAS: HAITI E AMÉRICA ESPANHOLA

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. Leia as fontes 1 e 2 com atenção.

ria pode ser mudada por sua ação. Deu-lhes o que até hoje permanece como a mais poderosa divisa jamais formulada para política da democracia e das pessoas comuns que ela inaugurou: “liberdade, igualdade, fraternidade”. HOBSBAWM, Eric. Ecos de Marselhesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 124-125.

› Fonte 1 Na porção ocidental da ilha de São Domingos, os franceses montaram grandes fazendas (plantations) com mão de obra de africanos escravizados. Os produtos café, algodão, açúcar e rum, entre outros, eram vendidos ao exterior com grande lucro.

› Fonte 2

1. a) Que, no final do século XVIII, a imensa maioria da população da ilha de São Domingos era formada por negros escravizados (87,75%). Mestiços e brancos juntos somavam apenas 12,25%.

POPULAÇÃO DE SÃO DOMINGOS FINAL DO SÉCULO XVIII Etnia

População

Em %

Negros

500 mil

87,75%

Mestiços

30 mil

5,25%

Brancos

40 mil

7,00%

Total

570 mil

100%

Qual país latino-americano teve sua independência influenciada pela Revolução Francesa? d) Austrália a) Espanha e) Haiti

b) Brasil

2. Resposta: e.

c) Estados Unidos 3. (UFPI) [...] todos os brasileiros, e sobretudo os brancos, não percebem suficientemente que é tempo de se fechar a porta aos debates políticos [...]. Se se continua a falar dos direitos dos homens, da igualdade, terminar-se-á por pronunciar a palavra fatal: liberdade, palavra terrível e que tem muito mais força num País de escravos que em qualquer outra parte [...] In: MOTA, Carlos Guilherme (Org.). 1822: dimensões. São Paulo: Perspectiva, 1972. p. 482.

DONGHI, Halperin. Fonte: GUAZZELLI, César A. B. In: WASSERMAN, Cláudia (Coord.). História da América Latina: cinco séculos. 2. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2000. p. 134.

O texto acima, escrito provavelmente por volta de 1823/1824, é parte de uma carta sobre a independência do Brasil, enviada por um observador europeu a D. João VI.

a) O que se pode concluir pela leitura da fonte 2?

Leia com atenção o texto e, a seguir, assinale a alternativa que expressa a configuração social do processo brasileiro de independência. a) A democracia racial, decorrente de uma intensa miscigenação durante o período colonial, contribuiu para conciliar, logo nos primeiros anos do Império, os interesses dos distintos grupos sociais.

b) Que conclusão se pode tirar comparando a fonte 1 à fonte 2? 2. (Unemat-MT – 2014) A Revolução Francesa foi, de fato, um conjunto de acontecimentos suficientemente poderoso e universal em seu impacto para ter transformado o mundo permanentemente [...] Metade dos sistemas legais do mundo está baseado na codificação legal que a Revolução implantou [...] A Revolução Francesa deu aos povos a noção de que a histó-

b) A “solução monárquica”, através da qual a jovem nação optava por afastar-se de seus vizinhos americanos e adotar modelos políticos europeus, foi historicamente necessária como instrumento de conciliação das raças no Brasil.

1. b) Que a maioria negra era oprimida pela minoria branca, o que tornava a vida social tensa. Professor: entre os franceses e os africanos escravizados havia fortes divergências por motivos étnicos e também socioeconômicos.

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c) O “haitianismo”, temor da elite branca brasileira de que se repetisse no Brasil uma revolução negra, tal qual ocorrera no Haiti, limitou as bases sociais da independência e justificou manifestações como essa da carta transcrita. 3. Resposta: c. d) Em razão de temores como aquele expresso na carta citada, a independência fez-se acompanhar de um processo crescente de enfraquecimento da escravidão. Os mesmos grupos que lideraram o processo de independência liderariam, anos depois, a abolição da escravatura. e) O temor expresso na carta é infundado, pois além de contar com um número pequeno de escravos à época da independência, as relações entre os escravos e seus senhores, no Brasil, sempre foram cordiais, decorrendo justamente disso a noção de “democracia racial”. 4. (Unicamp-SP – 2016) As revoluções de independência na América hispânica foram, ao mesmo tempo, um conflito militar, um processo de mudança política e uma rebelião popular. Rafael Rojas. Las repúblicas de aire. Buenos Aires: Taurus, 2010. p. 11.

São características dos processos de independência nas ex-colônias espanholas na América: a) o descontentamento com o domínio colonial e a agregação de grupos que expressavam a heterogeneidade étnica, regional, econômica e cultural do continente. 4. Resposta: a. b) o caudilhismo, sob a liderança política criolla, e o discurso revolucionário de uma nova ordem política, que assegurou profundas transformações econômicas na América. c) o uso dos princípios liberais de organização política republicana e a criação imediata de exércitos nacionais que lutaram contra as forças espanholas. d) a participação de indígenas e camponeses, determinante para a consolidação do

processo de independência em regiões como o México, e sua ausência nas ações comandadas por Bolívar. 5. (Unesp-SP – 2015) Era o fim. O general Simón José Antonio de la Santísima Trinidad Bolívar y Palacios ia embora para sempre. Tinha arrebatado ao domínio espanhol um império cinco vezes mais vasto que as Europas, tinha comandado vinte anos de guerras para mantê-lo livre e unido, e o tinha governado com pulso firme até a semana anterior, mas na hora da partida não levava sequer o consolo de acreditarem nele. O único que teve bastante lucidez para saber que na realidade ia embora, e para onde ia, foi o diplomata inglês, que escreveu num relatório oficial a seu governo: “O tempo que lhe resta mal dá para chegar ao túmulo.” Gabriel García Márquez. O general em seu labirinto, 1989.

O perfil de Simón Bolívar, apresentado no texto, acentua alguns de seus principais feitos, mas deve ser relativizado, uma vez que Bolívar a) foi um importante líder político, mas jamais desempenhou atividades militares no processo de independência da América Hispânica. b) obteve sucesso na luta contra a presença britânica e norte-americana na América Hispânica, mas jamais conseguiu derrotar os colonizadores espanhóis. c) defendeu a total unidade das Américas, mas jamais obteve sucesso como comandante militar nas lutas de independência das antigas colônias espanholas. d) teve papel político e militar decisivo na luta de independência da América Hispânica, mas jamais governou a totalidade das antigas colônias espanholas. 5. Resposta: d. e) atuou no processo de emancipação da América Hispânica, mas jamais exerceu qualquer cargo político nos novos Estados nacionais. CAPÍTULO 9 | INDEPENDÊNCIAS: HAITI E AMÉRICA ESPANHOLA

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II. Leitura e escrita em História a) Os padres representados ao centro são Miguel Hidalgo e José Maria Morellos, que, na visão do pintor, foram importantes vultos da independência no México; no canto esquerdo, vemos o imperador Iturbide.

A imagem é um detalhe da pintura mural de Diego Rivera intitulada Guerra de independência do México. Observe-a com atenção. a) Quem são os padres que ocupam o centro da cena e quem é o imperador retratado no canto esquerdo? b) Como esses personagens estão representados? c) Há ainda na parte inferior do mural uma cena que merece destaque. Qual é ela? d) Pesquise e escreva um pequeno texto sobre esse mural e seu autor.

b) Padre Hidalgo, o personagem central, traz na mão direita uma corrente partida (que representa a liberdade obtida com o fim do domínio colonial espanhol), e, na mão esquerda, um estandarte com a imagem da Virgem de Guadalupe. À direita de Hidalgo está o padre Morellos, com o braço direito estendido como quem aponta o caminho a seguir: o da libertação, o da independência; gesto idêntico faz a personagem-soldado que está um pouco abaixo, vestindo armadura e portando uma espada na mão direita e uma espingarda na esquerda; além disso, ele aponta para os camponeses armados à sua frente (e de costas para o observador) o caminho a seguir. Finalmente, o imperador Iturbide, no canto esquerdo do mural e com uma coroa na cabeça, é mostrado com o olhar parado, como um simples coadjuvante; alguém sem importância no rumo dos acontecimentos.

Diego Rivera. La guerra de la independencia de México. 1810. Mural. Palácio Nacional, México, DF.

a. Leitura de imagem

c) Na parte inferior do mural e ao centro está uma águia com uma cobra presa ao bico. Essa figura era, segundo a crença dos sacerdotes astecas, um sinal dos deuses de que ali onde estava a águia era o local onde os astecas tinham de fundar a cidade de Tenochtitlán (atual Cidade do México). Hoje, a figura da águia com a serpente em seu bico é um símbolo da nação mexicana e está, inclusive, em sua bandeira. d) A pintura intitulada Guerra de independência do México faz parte de um conjunto de murais em que o artista se propôs a contar a história mexicana, desde antes da chegada dos espanhóis até o presente; e incluiu na sua narrativa imagens do futuro mexicano. Diego Rivera (1886-1957) iniciou essas obras murais Palácio Nacional da Cidade do México, centro do poder político mexicano, em 1929, e as retomou diversas VOZES DO PRESENTE no vezes entre 1935 e 1945, e no início dos anos de 1950. Já se disse que uma obra de arte revela mais sobre o momento histórico em que foi feita do que sobre a história que pretendeu narrar. Nesse sentido, esse O texto a seguir é da historiadora Maria Lígia Prado. mural de Diego Rivera é exemplar. De um lado, expressa a visão do Partido Comunista do México em 1929, que defendia a aliança

b. Leitura e escrita de textos

Em busca da participação das mulheres nas lutas pela independência política da América Latina operário-camponesa para fazer a revolução; de outro, a ideia do artista de que o movimento pela [...]

independência, iniciado com Hidalgo e Morellos, em 1810, tinha finalmente chegado ao poder; daí vermos, no alto (à esquerda), dois presidentes mexicanos (Obregón e Calles), e, à direita deles, três líderes populares.

Algumas conclusões preliminares podem ser apresentadas; em primeiro lugar, a participação política das mulheres durante as lutas pela independência precisa ser levada em consideração, pois sua presença e comportamento estão muito além do que a historiografia até hoje apontou. [...] Em segundo lugar, ressalte-se que a despeito dessa atuação bastante visível, em nenhum dos países latino-americanos operou-se a transformação de uma dessas mulheres em heroína nacional [...]. As homenagens e o reconhecimento oficial da participação das mulheres como “fundadoras da pátria” são extremamente restritos. A mais destacada, neste particular, parece ser a boliviana, Juana Azurduy de Padilla; no aeroporto de Sucre que também leva seu nome – ganhou uma estátua que a representa montada a cavalo, ameaçando os realistas com ar desafiador. [...]

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Marco Ugarte/AP Photo/Glow Images

Finalmente, uma observação sobre a questão de seu comportamento político. O que mais me chamou a atenção foi a transformação de mulheres rebeldes, que desafiaram as instituições mais poderosas – as metrópoles e a Igreja – em modelos exemplares de “bom” comportamento. Josefa Dominguez, “La Corregidora”, por exemplo, “desobedeceu” o marido [...]. Leona Vicário fugiu do convento onde estava presa, auxiliada por três oficiais rebeldes [...]. Maria Quitéria escapou de sua família para se vestir de homem e lutar como soldado, numa decisão premeditada e consciente. Em uma palavra, foram mulheres rebeldes, insubordinadas, agindo fora das regras e das normas, que ganharam respeitabilidade, transformadas em modelos de esposas e mães, glorificadas por todas as virtudes cristãs intimamente trançadas com as virtudes patrióticas. [...]

A fotografia é do detalhe de um mural que se encontrava no Palácio Nacional do México, em 2010. Os três homens, da esquerda para a direita, são Ignacio Jesus Allende, Miguel Hidalgo e José Maria Morellos, e todos eles lutaram pela independência do México. Entre eles há uma única mulher: Leona Vicário, pessoa de posses que auxiliou os rebeldes com dinheiro e informações, tendo sido presa por sua participação nas lutas pela independência.

Em uma palavra, foi esquecido ou ocultado que as mulheres participantes dos movimentos pela independência atuaram num circuito claramente identificado como o da política, motivadas por ideias, sentimentos e crenças que as levaram a romper com os padrões sociais e religiosos vigentes. Sua notável coragem – especialmente nos momentos trágicos da prisão e condenação – indica que estavam preparadas para aceitar as consequências das escolhas efetuadas. PRADO, Maria Lígia C. Em busca da participação das mulheres nas lutas pela independência política da América Latina. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 12, n. 23/24, p. 77-90, set. 1991-ago. 1992. Disponível em: <www.anpuh.org/arquivo/download?ID_ARQUIVO=3713>. Acesso em: 11 abr. 2016.

a) Quanto ao gênero, o texto é informativo, argumentativo ou de ficção?

PROFESSOR, VER MANUAL.

b) A que conclusões a leitura do texto permite chegar considerando o que está explícito? c) A que conclusão a leitura permite chegar considerando o que está implícito (subentendido)? Lembrar que os silêncios de um texto podem ser tão ou mais importantes do que aquilo que é dito. CAPÍTULO 9 | INDEPENDÊNCIAS: HAITI E AMÉRICA ESPANHOLA

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Professor: a questão de saber se a obra Independência ou Morte!, do brasileiro Pedro Américo, é um plágio do quadro A Batalha de Friedland, do francês Ernest Meissonier, divide os estudiosos. A historiadora Cláudia Valladão de Mattos, por exemplo, acentua a semelhança da composição de Independência ou Morte! com

Emancipação política do Brasil

Capítulo 10

Observe com atenção estas duas imagens. Compare o gesto da personagem central, a posição do cavalo, o agrupamento de soldados em círculo com suas espadas erguidas, entre outros aspectos. Jean-Louis Ernest Meissonier. c. 1875. Óleo sobre tela. Metropolitan Museum of Art, Nova Yorque

a versão de A Batalha de Friedland e lembra que Pedro Américo representa Dom Pedro como um estadista que, assim como Napoleão, não mede esforços para realizar seu ideal. Já para a historiadora Myoko Makino, do Museu Paulista, a acusação de plágio é exagerada. As semelhanças entre as duas obras teriam ocorrido porque ambas seguiram o padrão da

Pedro Américo. 1888. Óleo sobre tela. Museu Paulista da USP, São Paulo

A Batalha de Friedland, tela pintada pelo artista francês Ernest Meissonier em 1875. Independência ou Morte!, tela pintada pelo artista brasileiro Pedro Américo em 1888. época para pinturas históricas. Makino lembra que o próprio Meissonier chegou a ver o quadro de Pedro Américo e a elogiar a sua técnica. De uma forma ou de outra, na obra de Pedro Américo há elementos fictícios: em vez de mulas, usadas na época para viagens longas, Pedro Américo pintou cavalos imponentes; no lugar de roupas amarrotadas, uniformes impecáveis; e introduziu o agrupamento de soldados (de uniforme branco) da Guarda

Agora responda:

Imperial, que, na época, ainda não tinha sido criada. Esses elementos todos contribuíram para construir a imagem de heroísmo de Dom Pedro, fixar uma memória da fundação da pátria e, ainda, amenizar a crise real vivida por um Império que se aproximava do fim.

» O quadro do brasileiro, feito 13 anos depois do quadro do artista francês,

pode ser considerado um plágio? » Ou será que ambos seguiram o padrão da época para pinturas históricas? » Como você chegou à sua conclusão?

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Nos capítulos anteriores, acompanhamos a crise do Antigo Regime e do sistema colonial na América espanhola. Neste, vamos ver como se desenrolou essa crise em Portugal e na América portuguesa. Vimos que, ao se libertar do domínio espanhol, em 1640, Portugal aliou-se à Inglaterra, assinando com ela uma série de acordos que acabaram por subordinar a economia portuguesa aos interesses ingleses. Um deles foi o Tratado de Methuen (1703), pelo qual a Inglaterra facilitava a entrada do vinho português nos seus mercados e Portugal, em troca, permitia a livre entrada dos artigos de lã inglesa. Assim, o Tratado de Methuen inibiu as manufaturas de tecidos portugueses e, além disso, colaborou para que a dívida portuguesa com a Inglaterra fosse crescendo. Boa parte dessa dívida foi paga com o ouro e os diamantes extraídos do Brasil. Se, por um lado, isto favoreceu o desenvolvimento industrial da Inglaterra, por outro, aumentou o déficit da balança comercial portuguesa.

A administração de Pombal

Louis-Michel van Loo. Séc. XVIII. Óleo sobre tela. Museu Nacional Soares Dos Reis, Porto. Foto: DeAg

No reinado de D. José I (1750-1777), o ministro e homem forte do governo foi Sebastião José de Carvalho e Mello, o Marquês de Pombal, cuja política à frente do Estado português ficou conhecida como Reformismo Ilustrado. Pombal empenhou-se em fortalecer a economia e o Estado e tirar Portugal da posição de inferioridade em que se encontrava em relação a outros países europeus. Para isso, tomou uma série de medidas que afetaram fortemente Portugal e sua colônia na América, o Brasil. Eis algumas dessas medidas: » incentivou o comércio ultramarino português com o objetivo de acumular e reter capital em seu país; » criou empresas manufatureiras geridas diretamente pelo Estado português; » protegeu os mercadores portugueses da concorrência, constituindo companhias privilegiadas de comércio, a exemplo da Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão (1755) e da Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba (1759); » aumentou o controle sobre a economia brasileira, instituindo o Real Erário, 1761, órgão incumbido de cobrar impostos sobre o ouro brasileiro e combater o contrabando e a sonegação fiscal.

Retrato do Marquês de Pombal. Pintura de Louis-Michel van Loo (1707-1771) e Claude-Joseph Vernet (1714-1789).

CAPÍTULO 10 | EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DO BRASIL

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Exclusivo comercial metropolitano:

obrigatoriedade de a colônia só vender e comprar da metrópole; valendo-se disso, a metrópole impunha preços de venda e de compra, auferindo lucros extraordinários, o que acabava gerando insatisfação e revoltas sociais.

Derrama:

cobrança forçada da dívida em atraso. Em 1751, ficou estabelecido que o Brasil deveria pagar a Portugal 100 arrobas anuais de ouro; caso a cota não fosse completada, seria lançada a derrama.

Dica! Vídeo sobre Tiradentes e a Conjuração Mineira. [Duração: 7 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/7ypvcx>.

Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro. Foto: Rômulo Fialdini

Barras de ouro da Casa de Fundição de Vila Rica.

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A sucessora de D. José I, a rainha D. Maria I (1777-1792), preservou a orientação absolutista e, até certo ponto, deu continuidade à política do Marquês de Pombal. No campo da economia, extinguiu as companhias privilegiadas de comércio, mas continuou combatendo o contrabando e defendendo fortemente o exclusivo comercial metropolitano. Continuou também a perseguir o desenvolvimento manufatureiro de Portugal, motivo por que proibiu as manufaturas de tecidos no Brasil em 1785.

Revoltas na Colônia A opressão da metrópole portuguesa no reinado de D. Maria I e de seu filho Dom João (1792-1816) contribuiu para a ocorrência de vários movimentos de rebeldia no Brasil, entre os quais cabe citar: a Conjuração Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1798) e a Insurreição Pernambucana (1817).

A Conjuração Mineira A partir de 1760, o governo português reagiu ao declínio da produção de ouro no Centro-Sul brasileiro aumentando a vigilância sobre os impostos cobrados na região. Some-se a isso os abusos e desmandos do governador da capitania de Minas Gerais, Luís da Cunha Menezes (1783-1788), e se compreenderá o clima de revolta ali existente na época. Em julho de 1788, chegou a Minas Gerais um novo governador, o Visconde de Barbacena, que tinha sido encarregado de lançar a derrama do quinto do ouro e investigar a vida dos devedores da Fazenda Real. Na época, Minas Gerais devia a Portugal mais de 500 quilos de ouro e não tinha como pagar. A derrama afetava o conjunto da sociedade mineira, pois a metrópole considerava que a dívida era de todos. O clima de revolta tomou conta da população. Em Vila Rica, um grupo de homens ricos e influentes, inspirados nos princípios iluministas, planejou uma conjuração contra a metrópole. Entre os principais articuladores da revolta estavam: Inácio José de Alvarenga Peixoto (dono de jazidas e fazendas); Francisco Paula Freire de Andrade (comandante do Regimento dos Dragões); o padre Oliveira Rolim (chefe político de onde é hoje Diamantina, negociante de pedras e agiota); Tomás Antônio Gonzaga (ouvidor de Vila Rica, o principal posto da magistratura nas Minas); Cláudio Manuel da Costa (o mais rico e prestigiado advogado de Vila Rica,

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Contratador:

indivíduo contratado pela metrópole para arrecadar impostos.

Alferes:

posto equivalente ao de segundo-tenente.

Candido Portinari. 1948-49. Têmpera sobre tela. Memorial da América Latina, São Paulo. Reprodução autorizada por João Candido Portinari

dono de lavras de ouro e de várias lavouras); e Joaquim Silvério dos Reis (conhecido contratador de impostos). Entre os conjurados, estava também o alferes Joaquim José da Silva Xavier (o Tiradentes, maior propagandista da revolta pela Independência).

Detalhe da obra Tiradentes, do pintor paulista Candido Portinari.

Os conjurados planejavam proclamar uma república em Minas Gerais, com capital na próspera São João del Rei, que produzia alimento e gado comercializados com outras capitanias; instalar em Vila Rica uma universidade e uma casa da moeda; introduzir o serviço militar obrigatório e incentivar as manufaturas locais. Segundo o historiador João Pinto Furtado, havia discordância entre os conjurados: alguns deles eram movidos por ideias iluministas e de mudança política; outros tinham como único objetivo a suspensão da derrama (cobrança forçada dos impostos em atraso devidos a Portugal). Os conjurados divergiam também quanto à escravidão: a maioria deles – senhores de terras, mineradores e grandes comerciantes – era favorável à continuidade da escravidão; dois deles apenas, Alvarenga Peixoto e o padre Carlos Correia de Toledo, se disseram favoráveis à abolição. 1 e 2

1. Dica! Vídeo com foco na personagem Joaquim Silvério dos Reis. [Duração: 4 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ sscmq7>. 2. Dica! Vídeo sobre a Conjuração Mineira. [Duração: 14 minutos]. Acesse: <http://tub. im/xa7777>.

Suspensão da derrama, prisão e sentença A revolta não chegou a ocorrer. Segundo estudiosos do assunto, o Visconde de Barbacena suspendeu a derrama antes de o movimento ter sido denunciado por Joaquim Silvério dos Reis e outros. Com as denúncias, iniciaram-se a perseguição e a prisão dos principais envolvidos. Por ordem de D. Maria I, foram abertos dois processos: um no Rio de Janeiro e outro em Minas Gerais. O julgamento se estendeu até o início de 1791, quando então saiu o veredito. CAPÍTULO 10 | EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DO BRASIL

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crime cometido contra a autoridade suprema de um Estado.

Acusados de cometer crime de lesa-majestade, a maioria dos rebeldes foi condenada ao degredo (exílio) nas colônias portuguesas na África. Segundo a versão oficial, Cláudio Manuel da Costa cometeu suicídio na cadeia; no entanto, há indícios de que ele foi morto por seus interrogadores. Tiradentes pagou com a vida. Enforcado em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, foi esquartejado e teve as partes do seu corpo distribuídas pelos lugares por onde pregou a libertação das Minas Gerais.

Para saber mais A obra Tiradentes esquartejado, pintura a óleo de Pedro Américo, foi produzida na Itália, em 1893, quatro anos após a proclamação da República no Brasil. Nesse contexto, havia uma preocupação dos republicanos em revisitar o passado colonial, eleger um herói nacional e criar ou recriar mitos de origem e de fundação. O artista, com seu pincel, ajudou na transformação da figura de Tiradentes em herói republicano. Observe que as partes do corpo do mártir da Independência estão dispostas de modo que lembram o mapa do Brasil. O artista quis, provavelmente, sugerir um elo indissolúvel entre o herói-mártir e a Pátria.

Pedro Américo. 1893. Óleo sobre tela. Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora

Crime de lesa-majestade:

Note também que Pedro Américo pintou a cabeça de Tiradentes ao lado do corpo crucificado de Jesus Cristo. Com isso, ele pretendia assemelhá-lo ao maior mártir do Cristianismo. Além disso, sabe-se hoje que, na época de Tiradentes, os condenados eram executados sem cabelo e sem barba, mas, mesmo assim, o pintor representou o inconfidente com barba e cabelos longos, usando mais esse recurso para cristianizá-lo. Como observou o historiador José Murilo de Carvalho na obra A formação das almas, o apelo à tradição cristã do povo brasileiro contribuiu para o êxito de Tiradentes como herói republicano.

A Conjuração Baiana Enquanto os principais envolvidos na Conjuração Mineira eram homens de negócio e intelectuais de origem europeia, os rebeldes baianos eram em sua maior parte mestiços e/ou negros e pobres. Como muitos deles exerciam o ofício de alfaiate, a Conjuração Baiana (1798) ficou conhecida também como Revolta dos Alfaiates.

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1. Dica! Documentário sobre a história da Bahia. [Duração: 48 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ cgqe46>. 2. Dica! Reportagem sobre a Revolta dos Alfaiates. [Duração: 33 minutos]. Dividido em duas partes. Para a primeira parte, acesse: <http://tub.im/ fbbdma>.

Isonomia:

princípio geral do direito segundo o qual todos são iguais perante a lei.

Autoria desconhecida. 1802. Gravura. Fundação Biblioteca Nacional

Na época, a cidade de Salvador e suas cercanias possuíam um comércio movimentado e cerca de 500 engenhos e lavouras em plena atividade. Mas a riqueza achava-se concentrada e contrastava com a enorme pobreza da maioria dos seus cerca de 60 mil habitantes. Alimentos como carne, sal e azeite subiam de preço constantemente. Roupas, calçados e ferramentas eram produtos caros e, além disso, raros, pois a rainha de Portugal tinha proibido a instalação de manufaturas no Brasil. Os impostos abusivos também contribuíam para aumentar a insatisfação social. Nesse contexto opressivo, em 12 de agosto de 1798 um grupo de rebeldes baianos afixou em locais públicos “avisos”, ou seja, manuscritos anônimos conclamando o “magnífico povo baiano” a participar de uma revolução contra a metrópole. Em seus manuscritos, os rebeldes defendiam: » a proclamação, na Bahia, de uma república semelhante à da França em que todos – brancos, negros ou mestiços – tivessem liberdade e igualdade de tratamento; » a abertura do porto de Salvador para o livre-comércio; » medidas para dinamizar o comércio de pau-brasil, tabaco e açúcar; » a diminuição dos impostos e o aumento dos soldos para 200 réis diários; » aumento da oferta de alimentos (a falta de carne e farinha de mandioca afetava duramente os mais pobres); » isonomia no tocante à ascensão na hierarquia militar; » o fim do preconceito contra negros. Assim que os cartazes dos rebeldes ganharam as ruas, o governador da Bahia, Dom Fernando José de Portugal, ordenou o início das investigações e a prisão de dezenas de rebeldes: alfaiates, soldados, escravos de ganho, além de indivíduos de estratos sociais mais elevados, como o cirurgião Cipriano Barata e o farmacêutico João Ladislau de Figueiredo, em cuja casa funcionava a loja maçônica Cavaleiros da Luz. Estes dois últimos, chamados nos inquéritos de “pessoas de consideração”, foram inocentados; os soldados Lucas Dantas e Luís Gonzaga das Virgens e os alfaiates João de Deus e Manuel Faustino foram enforcados e esquartejados na Praça da Piedade, em Salvador. 1 e 2 Uniforme do Regimento dos Henriques Milicianos, 1802. Luís Gonzaga das Virgens era um dos integrantes desse regimento. Ao examinar a caligrafia dos manuscritos apreendidos na cidade de Salvador, as autoridades descobriram que ele era o autor de alguns dos mais importantes desses manuscritos.

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A família real no Brasil e a interiorização da metrópole Bloqueio Continental:

decreto imposto pelo imperador francês Napoleão Bonaparte proibindo os demais países europeus de comerciar com a Inglaterra ou receber navios ingleses em seus portos.

1. Dica! Reportagem sobre a viagem de fuga da família real portuguesa para o Brasil. [Duração: 19 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ mey7jz>. 2. Dica! Vídeo sobre a fuga da Corte portuguesa para o Brasil. [Duração: 22 minutos]. Acesse: <http://tub.im/czrabc>. 3. Dica! Documentário sobre a vinda da família real portuguesa. Narrativa baseada nas obras do escritor Laurentino Gomes. [Duração: 36 minutos]. Acesse: <http://tub. im/98e3yb>.

Vimos que o governo português não aderiu ao Bloqueio Continental e continuou comerciando com a Inglaterra. Em represália, as tropas napoleônicas invadiram Portugal, e a família real portuguesa teve de se transferir para o Rio de Janeiro. A transferência da Corte não foi uma decisão repentina: há tempos, intelectuais e políticos portugueses propunham a formação de um Império Luso-Brasileiro, com sede no Rio de Janeiro, a fim de proteger os domínios lusos e defendê-los das agressões de potências europeias. Por esses motivos, no final de 1807, o príncipe Dom João, que assumira a regência em razão da doença de sua mãe, D. Maria I, a Louca, sua família e cerca de 10 a 15 mil pessoas embarcaram para o Brasil. Escoltada pela marinha inglesa, a comitiva de Dom João desembarcou em Salvador em 22 de janeiro de 1808 e, um mês e meio depois, chegou ao Rio de Janeiro, que passou a ser então a sede do Império Português, cujo território abrangia terras na Europa, África e Ásia. Durante sua permanência, Dom João e sua corte estabeleceram uma aliança com a elite de São Paulo e do Rio de Janeiro, por meio de negócios entre eles envolvendo terras e comércio de abastecimento, de casamentos com famílias locais e de empregos concedidos por Dom João aos membros dessa elite. Essas relações sociais e mercantis com a elite do Centro-Sul levaram ao enraizamento da Corte portuguesa e à sua intenção de permanecer no Brasil, fenômeno que a historiadora Maria Odila Dias chamou de interiorização da metrópole. 1, 2 e 3 Candido Portinari. 1952. Óleo sobre painel. Banco da Bahia, Salvador. Reprodução autorizada por João Candido Portinari

Quadro de Portinari que representa a chegada da família real portuguesa ao Brasil. Note que nessa versão triunfal o autor valoriza sobretudo o príncipe, que ocupa o centro da tela, com seus trajes elegantes e gestos cuidadosamente pensados.

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Seis dias depois de sua chegada ao Brasil, Dom João decretou a abertura dos portos brasileiros às nações amigas e estipulou o imposto de 24% para as mercadorias estrangeiras. Essa medida inevitável, já que os portos portugueses estavam ocupados pelos franceses, trouxe benefícios para o Brasil, pois, a partir daí, as exportações brasileiras não tinham mais de passar por Portugal, o mesmo acontecendo com os produtos que viessem de outros países para cá. Para a Inglaterra, a abertura dos portos brasileiros foi extremamente vantajosa, pois o governo inglês havia negociado com Portugal certos privilégios no comércio com o Brasil, em troca da proteção dada à família real. Naquele mesmo ano chegaram ao Brasil dezenas de navios estrangeiros, ingleses em sua maioria. Traziam produtos variados: tecidos, caixões, mostruários, ferragens, cristais, perfumes, cachimbos e também artigos de utilidade duvidosa, como patins para gelo, carteiras para notas (no Brasil só havia moedas) e... calçados para neve! Com a abertura dos Em abril de 1808, já instalado na cidade do Rio de Janeiro, Dom João portos e o Tratado de 1810, liberou a indústria no Brasil, isentou do pagamento de impostos as dezenas de navios entraram matérias-primas destinadas a ela (como o ferro) e prometeu subsínos portos brasileiros trazendo mercadorias dios às fábricas de tecidos, lã e algodão. Porém, os resultados dessas inglesas de luxo, como medidas foram inexpressivos, por causa da falta de investimentos na cigarreiras, portas-charuto, indústria e da dificuldade de competir com os produtos estrangeiros. candelabros e louças refinadas, a exemplo das que Em troca da ajuda e da proteção dada à família real portuguesa, o vemos na fotografia acima. governo de Dom João assinou com a Inglaterra, em 1810, os tratados de Aliança e Amizade e Comércio e Navegação, que asseguravam um conjunto de vantagens e privilégios aos ingleses. O principal deles era que, para entrar no Brasil, as mercadorias inglesas deveriam pagar um imposto de 15% (menor inclusive que os 16% pagos pelas portuguesas), enquanto as outras nações continuariam pagando 24%.

Museu da Casa Brasileira, São Paulo. Foto: Romulo Fialdini/Tempo Composto

A abertura dos portos brasileiros e seus desdobramentos

Administração joanina Uma vez instalado, o governo de Dom João empenhou-se em modernizar a cidade do Rio de Janeiro, assemelhando-a a Lisboa. Multiplicaram-se as obras em solo carioca: abriram-se vias para facilitar a circulação de pessoas e mercadorias, construíram-se novas habitações com amplos jardins e janelas envidraçadas, que permitiam a entrada de luz, e instalaram-se importantes órgãos político-administrativos, como o Ministério e o Conselho de Estado, a Intendência da Polícia, o Erário Régio, o Banco do Brasil e a Casa da Moeda. Além disso, foram criadas importantes instituições científico-culturais, como a Imprensa Régia, que publicou livros, folhetos e o primeiro jornal feito no

Dica! Reportagem sobre a economia brasileira nos tempos de Dom João VI. [Duração: 21 minutos]. Acesse: <http://tub. im/mx2c4z>.

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Para saber mais Junto com a comitiva de D. João desembarcaram cerca de 60 mil peças, entre livros, manuscritos, mapas, moedas e medalhas. O acervo foi acomodado nas salas do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, na Rua Direita, hoje Rua Primeiro de Março. Em 29 de outubro de 1810, foi fundada a Real Biblioteca. Ela deu origem à Biblioteca Nacional, que é considerada hoje pela Unesco a maior biblioteca nacional, da América Latina.

Adilson B. Liporage/Opção Brasil Imagens

Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro; a Academia Médico-Cirúrgica; o Teatro Real; o Museu Nacional; o Observatório Astronômico; o Horto Real; a Biblioteca Real (atual Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro); e a Academia de Belas Artes, fundada por sugestão dos membros da Missão Artística e Cultural Francesa, que também vieram para o Brasil no governo de Dom João, em 1816. 1

Vista externa da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 2013.

O Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarve

1. Dica! Animação sobre a vinda da família real portuguesa e as transformações por ela provocadas. [Duração: 57 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ qjansc>. 2. Dica! Reportagem sobre a corrupção no Brasil em 1808. [Duração: 20 minutos]. Acesse: <http://tub. im/cs2u2c>.

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A transferência da Corte para o Rio de Janeiro havia criado uma fratura no Império Português: a metrópole, privada de seu soberano, perdera suas antigas funções; a colônia, por sua vez, exercia agora a função de metrópole. Essa situação acirrou os conflitos de interesses entre as forças políticas que disputavam benefícios e poder no Império Português, independentemente de seus membros serem brasileiros ou portugueses, e estarem lá ou aqui. Nesse contexto, Dom João elevou o Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarve, em 1815, e justificou, assim, sua permanência no Rio de Janeiro, onde seu governo tinha fincado raízes e obtido vantagens para si e seus protegidos. Veja o que uma historiadora diz sobre essa decisão de Dom João: Com essa decisão [...] foi reconhecida a autonomia do Brasil perante o Reino de Portugal. A partir daquele momento, o Reino Unido, como foi chamado, transformava-se, juntamente com os domínios portugueses na África e na Ásia, na expressão política do Império, passando as capitanias a ser designadas províncias do Império. E essa situação inédita foi sacramentada em 1816, quando, com a morte de D. Maria I, o então regente passou a ser o novo rei, D. João VI. 2 OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles. A Independência e a construção do Império: 1750-1824. São Paulo: Atual, 1995. p. 70. (Discutindo a História do Brasil).

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A Insurreição Pernambucana O governo de D. João VI beneficiou, sobretudo, a elite do Rio, São Paulo e Minas, particularmente os produtores e comerciantes dedicados ao abastecimento da Corte. Esses grupos ascendiam sobretudo através de privilégios (como o de cobrar impostos) e da obtenção de títulos de nobreza e de empregos concedidos pelo governo joanino.

Debret. Séc. XIX. Litogravura. Coleção particular

Já os habitantes das outras regiões do Brasil tinham de sustentar com impostos o luxo da Corte e os altos salários pagos por D. João VI ao funcionalismo. Essa política causou uma insatisfação generalizada: o Rio de Janeiro passou a ser visto como uma “nova Lisboa”, sede da metrópole, centro do poder que oprimia e explorava as outras partes do território. Essa insatisfação era mais forte no Nordeste, onde os preços do açúcar e do algodão – os dois principais produtos da região na época – vinham caindo, e a escassez de alimentos e a fome, agravadas pela seca de 1816, atingiam a muitos. No Recife, um dos principais portos do Nordeste, as reclamações giravam em torno dos impostos abusivos, do controle do comércio varejista pelos portugueses e da preferência dada a portugueses sempre que havia promoção de militares. Esse contexto favoreceu a disseminação das ideias liberais vindas da França entre os pernambucanos, que, reunidos nas lojas maçônicas, preparavam a resistência à dominação portuguesa. Em março de 1817, os rebeldes pernambucanos tomaram o poder e proclamaram uma república separada de Portugal e do Rio de Janeiro; a seguir instituíram um governo provisório composto de pessoas de diferentes grupos sociais: o comerciante Domingos José Martins, o padre João Ribeiro Pessoa, o capitão Domingos Teotônio Jorge, o fazendeiro Manuel Corrêa de Araújo e o magistrado José Luiz Mendonça.

O beija-mão na Corte do Rio de Janeiro é uma das 20 pranchas que integram um livro editado em Londres, em 1825, e intitulado Aspectos da vida, modos e costumes portugueses. Não se sabe até hoje quem é o autor do texto e das imagens do livro; sabe-se apenas que ele assina A.P.D.G. No trono maior vê-se sentado D. João VI, representado de maneira caricaturizada. Enquanto um dos súditos beija a mão do rei, os outros aguardam em uma fila enorme. Nessas ocasiões, os súditos aproveitavam para fazer elogios e pedidos ao rei.

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Patriotas:

nome que os rebeldes nordestinos de 1817 davam a si próprios.

Palmatoada:

Daniel Cymbalista

pancada na palma da mão aplicada com palmatória, régua.

Grupo escultórico representando líderes da Revolução Pernambucana de 1817. A obra está localizada no Museu Paulista da Universidade de São Paulo, em São Paulo (SP). Fotografia de 2015.

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A rebelião se alastrou pelas províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e pela comarca das Alagoas, que, na época, pertencia a Pernambuco. Em todas elas os governos locais nomeados pela Coroa foram derrubados e substituídos por governos compostos de patriotas; pela primeira vez na história do Império Português uma área colonial rompia com o governo imperial e passava a se autogovernar. Os pernambucanos tentaram conseguir também o apoio da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, mas não tiveram sucesso. O Governo Provisório pernambucano de 1817 suspendeu vários impostos abusivos (como o imposto do Banco do Brasil e o subsídio militar sobre a carne); aumentou os soldos; concedeu a liberdade de imprensa e de religião e, visando legitimar a rebelião, criou uma bandeira própria. A república liderada por Pernambuco, no entanto, durou apenas 74 dias. As tropas e os recursos mobilizados por D. João VI conseguiram sufocá-la rapidamente. Vários rebeldes, entre eles Domingos José Martins, receberam a pena de morte e foram enforcados. Comerciantes portugueses e proprietários de terra ajudaram na repressão ao movimento, pois temiam o haitianismo, isto é, o medo de levantes escravos bem-sucedidos como os que moveram a luta por liberdade e independência no Haiti. A repressão à Revolução de 1817 visou restabelecer a ordem étnica e social em Pernambuco, o que ajuda a explicar a sua extrema violência; adotando um estilo próprio do Antigo Regime, a repressão condenou os cabeças da rebelião à pena de morte por crime de lesa-majestade; os que tiveram alguma participação considerada política foram condenados à prisão, e para a gente humilde da província (especialmente os negros, mestiços e brancos pobres) foram reservadas penas humilhantes, como açoites e palmatoadas.

A Revolução do Porto e o Brasil Enquanto, no Brasil, D. João VI e seus aliados desfrutavam de poder e privilégio, em Portugal a maioria da população vivia pobremente e enfrentava um misto de crise econômica e caos político por causa: dos prejuízos causados pela ocupação francesa e a transferência da Corte para o Brasil, em 1808; da perda dos lucros do comércio com o Brasil decorrente da abertura dos portos brasileiros; da presença militar inglesa em Portugal, a partir de 1815. É que, com a queda de Napoleão, forças militares inglesas se instalaram no Reino sob o comando do Marechal Beresford, a quem foi dado o título de Lorde Protetor de Portugal.

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Os liberais portugueses acusavam o governo absolutista de D. João VI pelo descontentamento e pela pobreza do povo; e, reagindo a essa situação opressiva, promoveram a Revolução Liberal do Porto (1820), um movimento armado inspirado no ideário iluminista e com amplo apoio popular, empenhado em pôr fim ao Antigo Regime em Portugal. Iniciada na cidade do Porto, espalhou-se rapidamente pelo restante do país, inclusive Lisboa, e modificou inteiramente o quadro político dos dois lados do Atlântico, levando a política para as ruas, as praças e o parlamento. Vitoriosos, os revolucionários organizaram uma Junta governativa e convocaram eleições para compor uma assembleia de deputados, denominada Cortes Constituintes. Em janeiro de 1821, os deputados constituintes começaram a trabalhar na Constituição destinada a limitar o poder absoluto de D. João VI. Assim que a notícia da Revolução do Porto chegou ao Brasil, ocorreram manifestações nas ruas de Belém, Salvador e Rio de Janeiro, exigindo que Dom João aderisse imediatamente à Revolução e à Constituição que estava sendo elaborada pelas Cortes de Lisboa. A elite do Centro-Sul também se posicionou em relação às mudanças ocorridas em Portugal. No Rio de Janeiro, membros de importantes famílias fluminenses e mineiras, como José da Silva Lisboa e Nogueira da Gama, sugeriam que o rei D. João VI voltasse para Lisboa, possibilitando a organização de um império constitucional no Brasil, separado de Portugal e sob a regência do príncipe Dom Pedro. Já um outro grupo político, liderado pelo comerciante fluminense Joaquim Gonçalves Ledo e pelo imigrante José Clemente Pereira, defendia a maior autonomia para o Brasil dentro do Império Português, sem que fosse preciso a separação; para esse grupo a vitória das Cortes de Lisboa sobre o absolutismo era o único meio de efetuar as mudanças políticas necessárias. Debret. Séc. XIX. Litogravura. Coleção particular

Em 26 de fevereiro de 1821, no centro do Rio de Janeiro, uma multidão de manifestantes exigiu a realização de eleições para a escolha dos deputados fluminenses que deviam representar o Rio de Janeiro nas Cortes e o juramento antecipado do rei à Constituição que estava sendo elaborada em Portugal. Entre os líderes do movimento estava Joaquim Gonçalves Ledo. O artista Jean-Baptiste Debret, no século XIX, representou o evento na litogravura ao lado.

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Professor: ressaltar que a intenção de D. João VI era garantir o poder para sua família e ter no Brasil uma autoridade central capaz de reprimir as manifestações pela independência nas províncias brasileiras, evitando, assim, a fragmentação do território.

DIALOGANDO Reflita: qual era a intenção de D. João VI ao deixar no Brasil Dom Pedro como príncipe regente?

Diante das pressões externas, representadas pelo poder das Cortes, e internas (dos grupos de políticos favoráveis e contrários à separação de Portugal), em 26 de abril de 1821, D. João VI partiu com sua família para Lisboa deixando no Brasil seu filho e herdeiro Dom Pedro na condição de 1 príncipe regente.

A regência de Dom Pedro

Oscar Pereira da Silva. S.d. Óleo sobre tela. Museu Paulista da USP, São Paulo

Dom Pedro assumiu em meio à crise econômica e financeira, agravada pelo fato de D. João VI ter levado consigo as reservas do Banco do Brasil, da recusa 1. Dica! Reportagem das províncias, sobretudo do Norte e do Nordeste, em aceitar a sua autoridade sobre a revolução e da insegurança reinante no país. Essa situação levou ao encarecimento do do Porto e o retorno da família real para custo de vida; à diminuição das moedas em circulação (resultante do entesouPortugal. [Duração: ramento de dinheiro) e ao atraso nos pagamentos de soldados e funcionários 22 minutos]. Acesse: <http://tub. públicos. No caso do Rio de Janeiro, as condições financeiras eram ainda mais im/78ogyy>. graves, devido à suspensão das remessas de impostos por parte das províncias. 2. Dica! Reportagem Nesse ambiente de incertezas, deputados brasileiros foram a Lisboa, sobre a personalidade com a expectativa de participar da elaboração da Constituição. 2 de D. Pedro I. [Duração: 14 minutos]. O conflito de interesses se acirrou e, em primeiro de outubro de 1821, Acesse: <http://tub. chegaram ao Rio de Janeiro decretos das Cortes contendo as decisões tomadas im/tqrzcz>. pelos deputados reunidos em Lisboa. Eis algumas delas: » as províncias brasileiras, inclusive o Rio de Janeiro, Sessão das Cortes de Lisboa, de Oscar deveriam ser administradas por Juntas de governo Pereira da Silva. Com a expectativa de eleitas localmente; participar dos trabalhos de elaboração de » as tropas, a polícia e as milícias ficariam sob a ordem de uma Constituição comum a Portugal e ao Brasil, 45 deputados de diferentes regiões um comandante de armas nomeado pela Junta; brasileiras seguiram para Lisboa; mas, lá » tanto a Junta de governo quanto o comandante de armas chegando, foram vaiados e impedidos de deveriam obediência às Cortes de Lisboa; falar. Descobriram, então, que o desejo » a regência de Dom Pedro foi dada como extinta, devendo dos deputados portugueses era de que a o príncipe regente voltar para Portugal imediatamente. sede do Império Português, instalada no Rio de Janeiro, voltasse a ser Lisboa. Tais decretos atingiram em cheio as pretensões do grupo liderado por Nogueira da Gama, que propunha a criação de um império no Brasil separado de Portugal, e as ambições de Dom Pedro de governar esse império. Foi então que, com o apoio de importantes políticos fluminenses e mineiros, Nogueira da Gama e José Bonifácio, uma figura de destaque na política paulista, iniciaram uma campanha visando à permanência de Dom Pedro e ao rompimento com Portugal. Assim, no dia 9 de janeiro de 1822, depois de receber um manifesto pela sua permanência com mais de 8 mil assinaturas, Dom Pedro anunciou sua decisão de permanecer no Brasil, o que pode ser interpretado como uma vitória do grupo de Nogueira da Gama e José Bonifácio. Após o Dia

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Séc. XVIII. Litogravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

do Fico, como ficou conhecido o fato, os jornais ligados a esse grupo político passaram a apresentar as lutas políticas como se fossem disputas entre brasileiros, partidários da Independência, e portugueses, defensores da recolonização, quando na verdade havia brasileiros e portugueses tanto de um lado quanto do outro. Em 13 de maio de 1822, Dom Pedro foi agraciado com o título de Defensor Perpétuo do Brasil, inclinando-se cada vez mais para a ruptura. Naquela data, os grupos da elite fluminense, mineira e paulista tinham chegado a um consenso quanto à Independência com Dom Pedro no cargo de imperador, mas tinham divergências entre si. Observe suas propostas: Nogueira da Gama e José Bonifácio defendiam: » centralização das decisões nas mãos do príncipe e seu ministério no Rio de Janeiro; » subordinação das províncias ao poder central; » ampliação do comércio com as demais nações. Gonçalves Ledo defendia: » maior poder ao Legislativo e, portanto, limitação do poder do príncipe regente; » eleição direta para deputado; » estreitamento das relações políticas e mercantis com Portugal.

A ruptura com Portugal Ainda em agosto, Dom Pedro viajou a São Paulo visando pacificar as disputas políticas locais e fortalecer a posição de José Bonifácio. Voltava da cidade paulista de Santos quando recebeu as cartas das Cortes portuguesas acompanhadas de outras, escritas por sua esposa, Dona Leopoldina, e pelo seu ministro, José Bonifácio. Nas cartas vindas de Portugal, os deputados das Cortes ameaçavam iniciar uma guerra enviando tropas ao Rio de Janeiro, caso o príncipe não voltasse para Lisboa. Já a carta de José Bonifácio dizia que só existiam dois caminhos: ou voltar para Portugal como prisioneiro das Cortes portuguesas ou proclamar a Independência, tornando-se imperador do Brasil. Dom Pedro optou por romper com Portugal e, em 7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga, retirou do chapéu as fitas com as cores vermelha e azul das Cortes portuguesas. O ato de Dom Pedro ficou conhecido como o Grito do Ipiranga. 1 e 2

José Bonifácio, a fundação da pátria, tela de Eduardo de Sá.

1. Dica! Vídeo sobre a vida de José Bonifácio. [Duração: 5 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ oy6ujc>. 2. Dica! Documentário português sobre o Grito do Ipiranga. [Duração: 28 minutos]. Acesse: <http://tub.im/pfxedx>.

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ATIVIDADES I. Retomando

ESCREVA NO CADERNO.

c) A suspensão da derrama, cobrança que certamente exaltaria os ânimos da população de Minas Gerais.

1. Leia o texto a seguir com atenção: Não acreditamos ser possível [...] fechar questão quanto ao movimento de 1789, como se ele fosse uno [...], íntegro em seus propósitos [...] e estratégias.[...] Um dos temas centrais de dissenso entre os inconfidentes era precisamente o fato de que, enquanto alguns eram mesmo movidos por elevadas aspirações políticas reformadoras, para outros, [...] o objetivo da Inconfidência era apenas a suspensão da derrama, efetivamente obtida em 14 de março de 1789. A partir dessa premissa, é possível entender e explicar o arrefecimento dos ânimos e relativo enfraquecimento do levante antes mesmo Dissenso: discordância. da repressão que se abateu Arrefecimento: sobre os revoltosos [...] a perda do entusiasmo, partir de maio de 1789. do ânimo. FURTADO, João Pinto. A Inconfidência Mineira: um novo tempo ou reedição dos motins do Antigo Regime? In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLALTA, Luiz Carlos (Org.). História de Minas Gerais: as minas setecentistas. Belo Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, 2007. v. 2. p. 636.

a) De que forma o autor do texto caracteriza o movimento de 1789? b) Que distinção ele faz entre os inconfidentes quanto aos seus objetivos? c) Para o autor do texto, o que explica a perda de entusiasmo por parte dos conjurados a partir de março de 1789? d) Com base no que você estudou, qual era outro ponto de divergência entre os inconfidentes? e) Em dupla. Debatam, reflitam e opinem: qual era a motivação dos conjurados: as ideias de reforma inspirados no Iluminismo ou a suspensão da derrama? Justifique. 2. (Unicamp-SP – 2016) A aquarela do artista João Teófilo, aqui reproduzida, dialoga com a pintura de Pedro Américo, “Tiradentes esquartejado” (1893). Sobre a obra de João Teófilo, publicada na capa de uma revista em 2015, é possível afirmar que:

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João Teófilo. Aquarela. Coleção particular

1. a) Como um movimento contraditório sem unidade quanto aos seus propósitos e estratégias. Professor: comentar que o mesmo autor afirma que entre os protagonistas da Conjuração de 1789 estavam também pessoas de diferentes camadas sociais. b) Ele os divide em dois grupos: um movido por ideais políticos reformadores; outro que tinha como único objetivo a suspensão da derrama.

(http://www.revistadehistoria.com.br/revista/edicao/118.)

a) Trata-se de uma obra baseada em um quadro do gênero da pintura histórica, sendo que no trabalho de Pedro Américo o corpo de Tiradentes no patíbulo afasta-se da figura do Cristo, exemplo maior de mártir. b) Utilizando-se das mesmas formas do corpo esquartejado de Tiradentes pintado por Pedro Américo, o autor limita o número de sujeitos esquartejados e acentua o tom conservador da aquarela. c) A imagem fala sobre seu contexto de produção na atualidade, utilizando-se do simbolismo de Tiradentes, e procura ampliar a presença de negros como sujeitos sociais nas lutas coloniais e antiescravistas. 2. Resposta: c. d) Tiradentes consolidou-se como um mártir nacional no quadro de Pedro Américo, daí a necessidade do pintor de retratar seu corpo esquartejado. A obra de João Teófilo mostra que os mártires, embora negros, são um tema do passado.

1. d) Divergiam quanto ao fim da escravidão; a maioria deles era favorável à continuidade da escravidão em Minas Gerais. e) Resposta pessoal. Professor: a intenção é estimular o alunado a reunir e organizar argumentos e expressá-los por escrito em defesa de um ponto de vista.

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3. (Fuvest-SP) A invasão da Península Ibérica pelas forças de Napoleão Bonaparte levou a Coroa portuguesa, apoiada pela Inglaterra, a deixar Lisboa e instalar-se no Rio de Janeiro. Tal decisão teve desdobramentos notáveis para o Brasil. Entre eles:

a) incentivado o clamor popular por liberdade.

a) a chegada ao Brasil do futuro líder da Independência, a extinção do tráfico negreiro e a criação das primeiras escolas primárias.

d) obtido o apoio do grupo constitucionalista português.

b) o surgimento das primeiras indústrias, muitas transformações arquitetônicas no Rio de Janeiro e a primeira Constituição do Brasil. c) o fim dos privilégios mercantilistas portugueses, o nascimento das universidades e algumas mudanças nas relações entre senhores e escravos. d) a abertura dos portos brasileiros a outras nações, a assinatura de acordos comerciais favoráveis aos ingleses e a instalação da Imprensa Régia. 3. Resposta: d. e) a elevação do Brasil à categoria de Reino Unido, a abertura de estradas de ferro ligando o litoral fluminense ao porto do Rio e a introdução do plantio do café. 4. (Enem/MEC – 2014) A transferência da corte trouxe para a América portuguesa a família real e o governo da Metrópole. Trouxe também, e sobretudo, boa parte do aparato administrativo português. Personalidades diversas e funcionários régios continuaram embarcando para o Brasil atrás da corte, dos seus empregos e dos seus parentes após o ano de 1808. NOVAIS, F. A.; ALENCASTRO, L. F. (Org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.

Os fatos apresentados se relacionam ao processo de independência da América portuguesa por terem

b) enfraquecido o pacto de dominação metropolitana. 4. Resposta: b. c) motivado as revoltas escravas contra a elite colonial.

e) provocado os movimentos separatistas das províncias. 5. (UFMT) A emancipação política do Brasil deu-se no contexto de insatisfações portuguesas diante da atitude protelatória de D. João VI. A elevação do Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e a Algarves, em 1815, provocou descontentamentos posteriores, até que a solução encontrada envolveu o retorno da Corte para Portugal em 1821. Sobre a temática, assinale a afirmativa correta: a) D. Pedro I, na condição de Príncipe Regente, atendeu aos clamores populares e decidiu desobedecer à convocação das Cortes de Lisboa em manifestação pública, no Rio de Janeiro, no dia 9 de janeiro de 1822. 5. Resposta: a. b) Os partidários da manutenção da Corte Portuguesa no Brasil eram favoráveis à abolição da escravidão, à reforma agrária e ao rompimento definitivo com a antiga metrópole. c) A revolução do Porto, movimento de cunho liberal que eclodiu em 24 de agosto de 1820, tinha intenção de emancipar o Brasil, desmembrando o que ainda estava no império ultramarino português. d) D. João VI retornou a Portugal em 1821, após ter se recusado a atender as manifestações populares que o pressionavam a jurar obediência à nova constituição portuguesa. e) D. Pedro I, profundamente marcado por concepções liberais e democráticas, acatou as deliberações da Assembleia Constituinte de 1822. CAPÍTULO 10 | EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DO BRASIL

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II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE O texto 1 é de Boris Fausto e o texto 2 é uma entrevista com Cecília Helena de Salles Oliveira, ambos professores da Universidade de São Paulo.

› Texto 1 [...] a emancipação do Brasil não resultou em maiores alterações da ordem social e econômica, ou da forma de governo [...] Uma das principais razões dessa continuidade se encontra na vinda da família real para o Brasil e na forma como se deu o processo de Independência. A abertura dos portos por parte de Dom João VI estabeleceu, como vimos, uma ponte entre a Coroa portuguesa e os setores dominantes da colônia, especialmente os que se concentravam no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Os benefícios trazidos para a região fluminense, com a presença do rei no Brasil, vinham incentivar a expansão econômica daquela área, ligada aos negócios do açúcar, do café e do tráfico de escravos [...] A elite política promotora da Independência não tinha interesse em favorecer rupturas que pudessem pôr em risco a estabilidade da antiga colônia. É significativo que os esforços pela autonomia, que desembocaram na Independência, concentraram-se na figura do rei e depois na do príncipe regente. [...] FAUSTO, Boris. História do Brasil. 6. ed. São Paulo: Edusp/Fundação do Desenvolvimento da Educação, 1998. p. 146-147.

› Texto 2 [...] Em primeiro lugar, é preciso desmistificar a ideia de que a Independência foi feita sob o signo da continuidade e a organização do Império carregava as marcas da monarquia portuguesa e das tradições coloniais. O estudo das lutas sociais entre 1820 e 1824 [...] permite compreender a ruptura que a Independência assinalou em relação ao Antigo Regime e à monarquia absolutista portuguesa. Em segundo lugar, quando se leva em conta o intenso debate político da época e o envolvimento de diferenciados setores sociais nessas discussões, é possível perceber, com clareza, que o momento da Independência representou, pela primeira vez no Brasil, a elaboração prática de princípios do liberalismo, definidores de relações de dominação social burguesa, e que a escravidão não era incompatível com a nova ordem social que então se configurava. O que procuro apontar [...] é que a época da Independência teve enorme importância enquanto marco decisivo da formação do Estado liberal no Brasil [...] OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles. A Independência e a construção do Império: 1750-1824. São Paulo: Atual, 1995. p. 2-3. (Discutindo a História do Brasil).

a) Qual é o significado de Independência para o autor do texto 1? b) Ainda para o autor do texto 1, quais foram os grupos sociais beneficiados pela instalação da Corte de Dom João no Rio de Janeiro? c) Qual é o significado da Independência para a autora do texto 2? d) Boris Fausto e Cecília Helena discordam quanto à participação do povo na Independência. Justifique. e) Em grupo: debatam, reflitam e respondam: qual das duas versões sobre o significado da Independência vocês consideram mais convincente?

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Professor: a intenção aqui foi contribuir para estimular a reflexão sobre a participação popular no processo de independência, bem como sobre a memória construída em torno das lutas que ocorreram para sua concretização. É interessante notar que, na visão dos autores do hino, foi o Senhor do Bonfim que conduziu os baianos à vitória.

Capítulo 11

O reinado de Dom Pedro I: uma cidadania limitada

A letra e a música foram compostas em 1923 para a comemoração do centenário da independência da Bahia do jugo português. Os festejos ocorreram em Salvador e rememoraram de diversas formas a vitória do povo baiano nas lutas que culminaram no Dois de Julho de 1823. Esse hino cívico-religioso ganhou popularidade nacional quando foi gravado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, em 1968, no álbum Tropicalia ou Panis et Circencis.

O texto a seguir é um trecho do “Hino do Senhor do Bonfim”, feito para comemorar o centenário da independência da Bahia. Romildo de Jesus/Futura Press

Hino do Senhor do Bonfim João Antonio Wanderlei (música) e Arthur de Sales (letra).

Glória a ti neste dia de glória Glória a ti, redentor que há cem anos Nossos pais conduziste à vitória Pelos mares e campos baianos. [...] Glória a ti nessa altura sagrada És o eterno farol, és o guia És, Senhor, sentinela avançada És a guarda imortal da Bahia. [...] SALES, Arthur. Hino do Senhor do Bonfim. Disponível em: <http://letras.terra.com.br/ caetano-veloso/1087267/hino-do-senhor-dobonfim-print.html>. Acesso em: 5 mar. 2016.

Festejos pelos 192 anos da Independência da Bahia, em Salvador (BA), em 2015. O desfile de 2 de julho teve início no Largo da Lapinha, seguindo até o Centro Histórico. Uma multidão participou dessa festa que atrai pessoas de diferentes condições sociais.

» Você sabia que a Bahia comemora sua independência em 2 de julho? » Sabia que, na Bahia e em várias outras partes do Brasil, as lutas pela

independência foram intensas e prolongadas? » Você sabe se no seu estado ocorreram lutas pela independência? » Como os autores do hino interpretam a independência baiana? » O que a palavra “independência” significa para você? CAPÍTULO 11 | O REINADO DE DOM PEDRO I: UMA CIDADANIA LIMITADA

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No alto, e ao centro, vê-se um grupo de anjinhos sustentando uma esfera coroada em que se lê a letra “P”, de Pedro. O centro da imagem é ocupado pelo trono imperial feito de mármore branco. No braço esquerdo do trono se vê o emblema do comércio e, no direito, o da justiça. Uma mulher sentada, coroada e com a tábua da Constituição apoiada na mão direita representa a Monarquia (note-se que geralmente a Monarquia é representada por um homem).

Debret. Séc. XIX. Litogravura. Coleção particular

Na época, o Sete de Setembro não teve a importância que lhe foi atribuída mais tarde. A data usada para marcar a emancipação política do Brasil era o Doze de Outubro, dia da aclamação de Dom Pedro I. Sua coroação como imperador do Brasil ocorreria em 1o de dezembro de 1822. Como parte dos preparativos desse evento, o Império encomendou ao francês Jean-Baptiste Debret uma pintura, que faria sua estreia em uma apresentação extraordinária no Teatro da Corte. A pintura foi feita por Debret em um Pano de Boca (cortina que fecha o palco nos entreatos de um espetáculo teatral). Observe-a com atenção:

Nessa representação, Debret, um artista a serviço da família imperial, apresenta a Monarquia tropical estendendo seu manto protetor aos vários grupos que formam a sociedade brasileira. Em contrapartida, tais grupos demonstram sua total fidelidade ao governo imperial. A imagem veicula, portanto, a ideia de “união de todos” em torno do Império. É nítida a idealização que Debret faz do Estado nascente como uma união harmônica de negros, índios e descendentes de europeus unidos e dispostos a contribuir para a construção do Império. Assim, a pintura forja uma realidade que interessava ao poder estabelecido.

As lutas pela independência O Império fundado por Dom Pedro I, porém, não teve aceitação pacífica em todas as províncias brasileiras. Na Bahia, no Grão-Pará, no Maranhão, no Piauí e no Ceará houve conflitos armados. Na Bahia, as forças portuguesas, comandadas pelo coronel Madeira de Melo, recusaram-se a aceitar a emancipação política do Brasil e ocuparam Salvador, onde prenderam o líder da resistência baiana, Freitas Guimarães. A resistência baiana se deslocou, então, para a região do Recôncavo.

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Domenico Failutti. Séc. XIX. Óleo sobre tela. Coleção particular

A baiana Maria Quitéria de Jesus Medeiros, representada nesse quadro, foi um personagem importante das lutas populares pela independência da Bahia. Quitéria, “a baiana que ardia de amor pela Pátria”, pediu à irmã as roupas do cunhado, cortou os cabelos, e alistou-se para lutar contra os portugueses do general Madeira de Melo, numa época em que a mulher não podia atuar como soldado. Por seu empenho nos campos de batalha, ela foi condecorada com a Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul (repare a medalha que ela traz no peito). A participação das mulheres nessas lutas nem sempre é lembrada, porque muitas vezes a história é mostrada apenas na ótica masculina.

Lá, em junho de 1822, líderes das cidades de Cachoeira e de Santo Amaro romperam com os portugueses e rumaram para Salvador, onde sitiaram a cidade, impedindo as tropas portuguesas de se abastecer de alimentos. Em outubro, a resistência baiana recebeu reforços vindos do Rio de Janeiro e venceu as tropas de Madeira de Melo, na Batalha de Pirajá, em novembro de 1822. Mas os conflitos só chegaram ao fim em 2 de julho do ano seguinte, quando os portugueses foram expulsos da cidade de Salvador e fugiram para Portugal, pressionados por forças de terra e da esquadra inglesa do almirante Cochrane, oficial inglês contratado por Dom 1 Pedro I. Hoje, o Dois de Julho é, ao mesmo tempo, um evento oficial e popular, das autoridades e das gentes baianas. Inicialmente era uma festa popular por excelência; com o tempo foi ganhando ares oficiais e sendo apropriada e “disciplinada” pelos governantes, embora continue sendo uma festa do povo baiano e o principal mito de origem da Bahia. No Piauí, a emancipação também foi conquistada nos campos de batalha. Em 19 de outubro de 1822, a Câmara de Parnaíba, no norte da província, declarou-se favorável à independência. Com o objetivo de reprimir essa manifestação dos piauienses, tropas portuguesas, sob o comando do general João da Cunha Fidié, partiram de Oeiras, capital do Piauí na época, e se dirigiram para o norte da província. Enquanto isso, no Ceará, forças populares comandadas pelo sertanejo José Pereira Filgueiras tomaram Fortaleza e formaram um governo emancipacionista. Tropas enviadas do Ceará, do Maranhão e da Bahia juntaram-se aos piauienses e se posicionaram nas cercanias da cidade de Campo Maior, dispostas a impedir a passagem das tropas portuguesas de Cunha Fidié, que se dirigiam à capital da província. Lá, cerca de 2 mil nordestinos portando facas, foices, machados, espadas e espingardas velhas enfrentaram os portugueses, armados de canhões e fuzis, na Batalha de Jenipapo. Foram mais de 5 horas de luta, que ocasionaram baixas significativas de lado a lado. Sem treinamento militar e portando armas brancas, ou armas de fogo tomadas dos adversários, os piauienses enfrentaram forças mais numerosas e mais bem equipadas. A determinação durante a luta pode ser explicada pelo fato de que eles lutavam por um ideal: libertar o Piauí do domínio português. 2

1. Dica! Vídeo sobre a Batalha de Pirajá. [Duração: 6 minutos]. Acesse: <http://tub. im/bxqjxd>. 2. Dica! Vídeo sobre a Batalha de Jenipapo. [Duração: 7 minutos]. Acesse: <http://tub. im/863jjp>.

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(2009) Zig Koch/Olhar Imagem

(2014) Cândido Neto/Opção Brasil Imagens

À esquerda, vista externa do Monumento da Batalha de Jenipapo, em Campo Maior (PI), 2014. À direita, vista interna desse mesmo monumento, 2009.

Apesar de não terem conseguido vencer essa batalha, os piauienses enfraqueceram as tropas de Fidié e continuaram a combatê-las em Caxias, no Maranhão, onde elas foram forçadas a se render. Em São Luís, a independência foi aclamada pela população local, que teve o apoio da esquadra do almirante Cochrane para legitimá-la. No Pará, líderes populares locais, como o cônego Batista Campos, invadiram o palácio do governador e assumiram a liderança do movimento. No entanto, as autoridades nomeadas por Dom Pedro I, auxiliadas pelas forças do mercenário John Grenfell, opuseram-se à iniciativa dos paraenses, prendendo e fuzilando a maioria deles. Além dessas atrocidades, lançaram 256 paraenses no porão de um navio, fecharam as escotilhas e atiraram cal virgem sobre eles. Somente quatro sobreviveram. Doutrina Monroe:

a Doutrina Monroe pode ser sintetizada na frase “A América para os americanos”, ou seja, cada país da América deveria se autogerir e não aceitar a interferência europeia. Ao longo do século XIX, ajudou a justificar e legitimar o imperialismo estadunidense na América Latina.

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O reconhecimento da independência Conseguir o reconhecimento da independência também não foi tarefa fácil. As nações absolutistas, que formavam a Santa Aliança, opunham-se ao liberalismo na Europa e ameaçavam frustrar a emancipação política latino-americana. Os Estados Unidos, por sua vez, tinham interesse em proteger a América contra a política intervencionista da Santa Aliança e a influência europeia. Isso ajuda a explicar por que, com base na Doutrina Monroe, os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer a independência política do Brasil, fato ocorrido em 1824.

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Pressionado pela Inglaterra, Portugal reconheceu a emancipação do Brasil em 1825, exigindo para isso: » o pagamento de 2 milhões de libras;

» o título honorário de imperador do Brasil para Dom João VI; » o compromisso de não aceitar a adesão ao Brasil de nenhuma colônia portuguesa na África. Para pagar a dívida assumida com Portugal, o Brasil de Dom Pedro I pediu um empréstimo aos banqueiros ingleses. Estes concordaram em emprestar o dinheiro, mas, como Portugal tinha uma dívida com a Inglaterra, o dinheiro não chegou a sair dos cofres ingleses. A Inglaterra, por sua vez, reconheceu a emancipação política do Brasil em 1827, exigindo em troca: » a renovação por mais 15 anos da cláusula do Tratado de 1810, que fixava em 15% o imposto a ser pago pelos produtos ingleses nos portos brasileiros;

» a extinção do tráfico de africanos no prazo de três anos. Esses acordos, que ampliaram a influência britânica no Brasil do século XIX, foram mal recebidos por políticos brasileiros, colaborando para o enfraquecimento do poder de Dom Pedro I.

Dica! Reportagem sobre a emancipação política do Brasil. [Duração: 52 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ wsztzw>.

A formação do Estado brasileiro Uma Assembleia Constituinte formada de deputados das várias províncias brasileiras começou a se reunir no Rio de Janeiro em maio de 1823, a fim de elaborar uma Constituição. Não tardaram a surgir divergências entre Dom Pedro I e os deputados. No discurso de abertura da Assembleia, ele jurou que só defenderia a futura Constituição “se fosse digna do Brasil e dele próprio”. E, assim, foi revelando seu autoritarismo. O projeto de Constituição, de autoria de Antônio Carlos de Andrada e Silva, irmão de José Bonifácio, dizia que: » o imperador não podia dissolver a Assembleia (Câmara dos Deputados e Senado);

» os senadores seriam indicados pelo imperador, a partir de uma lista tríplice eleita em cada província;

» para ser eleitor, era preciso ter uma renda mínima equivalente a 150 alqueires de farinha de mandioca (com isso, excluía-se da vida política a imensa maioria da população); » os estrangeiros não podiam se candidatar aos cargos de deputado ou senador; o artigo visava afastar do poder os portugueses aliados do imperador. A partir daí aumentaram as divergências entre o imperador e os deputados, com acusações de lado a lado. Os deputados passaram a noite CAPÍTULO 11 | O REINADO DE DOM PEDRO I: UMA CIDADANIA LIMITADA

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N. Whilock. c. 1823. Gravura. Coleção particular

acordados debatendo a situação, por isso aquela noite foi apelidada de Noite da Agonia. Na manhã seguinte, Dom Pedro I tomou uma medida extrema: dissolveu a Assembleia Constituinte e mandou prender vários deputados, entre os quais estavam os irmãos Andrada. A seguir prometeu um novo projeto de Constituição duas vezes mais liberal do que o anterior: [...] o projeto de Constituição que eu lhe hei de breve apresentar; que será duplicadamente mais Liberal, do que o que a extinta Assembleia acabou de fazer COLEÇÃO das leis do Império do Brasil de 1823, p. 85. Disponível em: <www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/ legislacao/publicacoes/doimperio/colecao2.html>. Acesso em: 11 abr. 2016.

Prédio onde se reuniu a Primeira Assembleia Constituinte brasileira, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Outorgada:

constituição que parte da autoridade de governo; já a Constituição promulgada é a que foi discutida e aprovada por uma Assembleia.

Presidente de província:

no Império, o cargo de presidente de província era equivalente ao de um governador de Estado dos dias atuais.

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A Constituição do Império D. Pedro I, no entanto, não convocou uma nova Assembleia, mas nomeou um Conselho de Estado composto por 10 homens de sua confiança para escrever uma Constituição em 40 dias. A primeira Constituição brasileira, e única do Império, foi outorgada em 25 de março de 1824 e definia o governo como uma monarquia constitucional hereditária. O país foi dividido em províncias, cujos presidentes seriam nomeados pelo imperador. Os poderes instituídos nessa Constituição eram quatro: » Poder Executivo: imperador e ministros de Estado. Sua função era administrar o país. » Poder Legislativo: Câmara dos Deputados e Senado. Sua função era elaborar, discutir e aprovar leis. O cargo de deputado era temporário (durava quatro anos); já o de senador era vitalício. Cada província elegia três candidatos, e o imperador nomeava um deles para o cargo de senador. » Poder Judiciário: juízes e tribunais, encarregados da aplicação das leis e do julgamento dos infratores. Os magistrados do Supremo Tribunal eram nomeados pelo imperador. » Poder Moderador: exclusivo do imperador, que podia dissolver a Câmara e convocar eleições para renová-la; nomear presidentes de província; convocar as Forças Armadas; aprovar ou vetar as decisões da Câmara e do Senado. Enfim, o Poder Moderador permitia ao imperador colocar-se acima dos demais poderes. O Conselho de Estado era formado por conselheiros vitalícios nomeados pelo imperador e opinava sobre questões políticas internas e externas do país. O voto era indireto e censitário. Indireto, porque primeiramente os votantes escolhiam os eleitores, que, por sua vez, escolhiam os deputados e os

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senadores. Censitário, porque dependia de rendimentos. Para ser eleitor era preciso ter uma renda anual de no mínimo 100 mil-réis; para ser candidato a deputado, uma renda de 400 mil-réis; e para senador, 800 mil-réis. Não podiam ser eleitores os criados de servir, os menores de 25 anos e os libertos, mesmo tendo renda suficiente. Na Constituição não havia referência às mulheres: elas estavam excluídas dos direitos políticos pelas normas sociais. A religião oficial do Império continuou sendo a católica romana. Qualquer outra religião era proibida, sendo permitido apenas seu culto doméstico, sem forma alguma exterior de templo. Veja a seguir o organograma da Constituição do Império. 1 e 2

de Deus Vontade

Rmatias

Constituição

Nomeia os presidentes de PROVÍNCIA

Poder Moderador

Aclamação dos povo

2. Dica! Vídeo educativo abordando a história das sete constituições brasileiras. [Duração: 8 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ aum38w>.

s

Imperador Nomeia os membros vitalícios do CONSELHO DE ESTADO

PODER LEGISLATIVO

De 1824

Resposta pessoal. Professor: a ideia aqui é refletir sobre o respeito à liberdade religiosa num mundo em que o fanatismo religioso tem provocado uma série de conflitos.

Nomeia as autoridades eclesiásticas da IGREJA OFICIAL católica apostólica romana

Aprova ou não as decisões da ASSEMBLEIA GERAL Nomeia e destitui os ministros do PODER EXECUTIVO

1. Dica! Comentário sobre a primeira Constituição brasileira. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ ovnwc4>.

Nomeia o SENADO VITALÍCIO

Convoca e dissolve a CÂMARA DOS DEPUTADOS

Nomeia e suspende magistrados do PODER JUDICIÁRIO

DIALOGANDO O que você pensa da proibição de um determinado culto ou religião?

O Poder Moderador permitia ao imperador interferir em todos os outros poderes, desempenhando, assim, importante papel na vida política do Império.

Para refletir Constituição e cidadania A Constituição Imperial de 1824 [...] reconheceu os direitos civis de todos os cidadãos brasileiros, diferenciando-os, apenas, do ponto de vista dos direitos políticos, em função de suas posses. [...] além das exigências de renda, impunha-se ao eleitor que tivesse nascido “ingênuo”, isto é, não tivesse nascido escravo. [...]

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Debret. Séc. XIX. Litogravura. Coleção particular

a) Direitos civis são os direitos à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei, consequentemente, o cidadão que possui tais direitos tem garantido o seu direito de ir e vir.

Ao circularem pelas ruas, as pessoas negras podiam ser abordadas a qualquer momento por policiais e, se não tivessem como comprovar sua condição de liberdade, acabavam, quase sempre, sendo vítimas de violência física, verbal e/ou psicológica.

A manutenção da escravidão e a restrição legal do gozo pleno dos direitos civis e políticos aos libertos tornavam o que hoje identificamos como “discriminação racial” uma questão crucial na vida de amplas camadas das populações urbanas e rurais do período. Apesar da igualdade de direitos civis entre os cidadãos brasileiros reconhecida pela Constituição, os brasileiros não brancos continuavam a ter até mesmo o seu direito de ir e vir dramaticamente dependente do reconhecimento costumeiro de sua condição de liberdade. Se confundidos com cativos ou libertos, estariam automaticamente sob suspeita de serem escravos fugidos — sujeitos, então, a todo tipo de arbitrariedade, se não pudessem apresentar sua carta de alforria. MATTOS, Hebe Maria. Escravidão e cidadania no Brasil monárquico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. p. 20-21. (Descobrindo o Brasil).

a) Segundo a autora, a Constituição de 1824 reconheceu os direitos civis de todos os cidadãos brasileiros. Quais são esses direitos? b) Com base no que você estudou e no texto, quais eram as exigências para que um ser eleitor era preciso ter uma renda anual de cidadão pudesse exercer o direito de ser eleitor? b)noPara mínimo 200 mil-réis e ter nascido “ingênuo” (isto é, livre). Professor: comentar que, além do critério censitário, havia também o de nascimento. c) É a ideia de que, embora os libertos tivessem seus direitos civis reconhecidos pela Constituição, na prática eram impedidos de exercê-los. Para circular pelas ruas precisavam trazer consigo a “carta de alforria”.

c) Qual a principal ideia veiculada pelo texto?

Cipriano Barata (1762-1838):

foi deputado pela Bahia nas Cortes Constituintes e, ao voltar de Portugal, decidiu se estabelecer no Recife. Lá usou a imprensa escrita para fazer oposição declarada a Dom Pedro I e, por isso, foi preso.

Goiana:

município pertencente à província de Pernambuco.

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A Confederação do Equador Ao dissolver a Assembleia e impor a Constituição de 1824 ao país, o governo de Dom Pedro I foi alvo de protestos em várias províncias brasileiras. Em Pernambuco, essas críticas eram estampadas em jornais como Sentinela da Liberdade, de Cipriano Barata, e Tiphys Pernambucano, do carmelita Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, ambos com sede na cidade do Recife. Pela imprensa, Frei Caneca incitava os pernambucanos a lutar contra o poder imperial afirmando: “o poder moderador de invenção maquiavélica é a chave mestra da opressão da nação brasileira e o maior obstáculo à liberdade dos povos”. Mulheres pernambucanas também participaram dessa importante luta, escrevendo um documento importante e pouco conhecido, o Manifesto das Mulheres de Goiana, do qual extraímos o trecho a seguir:

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Queridas Compatriotas. O imperador que soube de tal arte iludir-nos, que chegamos a adoralo como Fundador, e Defensor da Liberdade, e Independência do Brazil, trahindo nossa confiansa [...] tirou finalmente a mascara hypocrita com que se disfarçava, e fez ver em toda a claridade, que se nos embalava com a Independência, hera para mais facilmente nos adormecer sobre as suas verdadeiras intenções de nos escravizar [...]. Goyana 10 de fevereiro de 1824 Ao Patriota Goyanense Na Typographia particular do Gabinete Patriotico de Gaoyana

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Some-se a isso o fato de que uma crise econômico-financeira atingia todo o Nordeste devido à queda nos preços externos do açúcar, do fumo e do algodão. Além disso, havia os altos impostos cobrados pelo governo de D. Pedro I; ao mesmo tempo, as altas constantes nos preços dos alimentos e dos aluguéis, e o privilégio dado aos portugueses castigavam a população pobre. Assim, quando Dom Pedro I nomeou um presidente para a província de Pernambuco, que Confederação do Equador (1824) desagradou aos pernambucanos, 40° O estes romperam com o Império e, em 2 de julho de 1824, proclamaOCEANO Fortaleza ATLÂNTICO ÂNTICO ram a Confederação do Equador – uma República sob o comando de CEARÁ Manuel Paes de Andrade. Santa Rosa RIO GRANDE do Jaguaribe Os rebeldes nutriam um forte DO NORTE Natal sentimento antilusitano e recebeIcó PARAÍBA ram o apoio de rebeldes de Alagoas, Juiz PIAUÍ Vila Nova Pilar João Pessoa Vila Real da Rainha do Crato Paraíba, Rio Grande do Norte e Limoeiro Olinda Ceará; além dessas províncias eles Cabo Recife PERNAMBUCO esperavam reunir também, sob um Sirinhaém c i s n c o ra oF Sã Barra Grande governo federativo e republicano, o Rio ALAGOAS Maceió 10° S Piauí e o Grão-Pará. A Confederação BAHIA do Equador contou com a participação de diversas camadas sociais, Tropas revolucionárias republicanas incluindo proprietários rurais do Tropas imperiais Cidade norte da província, comerciantes, 0 125 Batalha com vitória republicana Batalha com vitória imperial homens e mulheres livres pobres e escravizados. Fonte: ATLAS histórico IstoÉ – Brasil 500 anos. São Paulo: Ed. Três, 1998. p. 50.

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BERNARDES, Denis A. de Mendonça. “A gente ínfima do povo e outras gentes na Confederação do Equador”. In: Revoltas, motins, revoluções: homens livres pobres e libertos no Brasil do século XIX. DANTAS, Monica Duarte (Org.). São Paulo: Alameda, 2011. p. 153-154.

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Fac-símile da capa da obra Revoltas, motins, revoluções.

O movimento rebelde foi esmagado por forças terrestres, comandadas pelo brigadeiro Francisco de Lima e Silva, e por forças navais, lideradas pelo almirante Cochrane. A superioridade bélica e o apoio dos senhores de engenho e dos comerciantes, assustados com a ideia de ter de libertar seus escravos, ajudam a explicar a vitória do Império sobre a Confederação do Equador. Um tribunal fiel ao imperador condenou à morte, entre outros, o carmelita Frei Caneca, o liberal João Guilherme Ratcliff e o major Agostinho Bezerra. Condenado à forca, Frei Caneca foi fuzilado, pois as autoridades não encontraram quem aceitasse fazer o papel de carrasco. 1 e 2 Analisando o desfecho desse importante movimento revolucionário pernambucano, um historiador afirmou:

Editora Alameda

A derrota da Confederação do Equador impôs durante alguns anos a ordem imperial centralizadora e conteve os que desejaram uma nação fundada nos princípios da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. É significativo que em Pernambuco, entre 1824 e 1829 apenas um jornal tenha sido criado, o Diário de Pernambuco [...]. Somente a partir de 1826, com a volta de funcionamento da Assembleia Geral do Império, a sociedade foi retomando sua capacidade de mobilização política. Desta resultará a abdicação de D. Pedro I, em 1831. [...] BERNARDES, Denis A. de Mendonça. “A gente ínfima do povo e outras gentes na Confederação do Equador”. In: Revoltas, motins, revoluções: homens livres pobres e libertos no Brasil do século XIX. Monica Duarte Dantas (Org). São Paulo: Alameda, 2011. p. 155-156.

Dom Pedro perde apoio e popularidade

1. Dica! Vídeo sobre Frei Caneca. [Duração: 8 minutos]. Acesse: <http://tub. im/774x7s>. 2. Dica! Documentário sobre a proclamação da Confederação do Equador. [Duração: 15 minutos]. Dividido em duas partes. Para a primeira parte, acesse: <http://tub. im/6nojgt>.

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Ao longo de seu reinado, Dom Pedro I foi perdendo apoio e popularidade, o que pode ser explicado por uma série de fatores: a) A dissolução da Constituinte, a imposição da Constituição de 1824 e o fuzilamento de Frei Caneca. De vários pontos do Império ergueram-se vozes para protestar contra a política centralizadora, autoritária e intervencionista do imperador e de seus aliados portugueses. b) A grave crise econômico-financeira que atingiu o país por um conjunto de razões, como: » o déficit na balança comercial, ao longo dos anos 1820, quando os gastos com as importações foram superiores aos ganhos com as exportações; » a queda nos preços de alguns produtos primários brasileiros, como algodão, couro, cacau e fumo, em razão da concorrência externa e da retração da economia mundial; » a insuficiência das rendas obtidas pelo Império por causa da taxa de apenas 15% cobrada dos produtos importados ingleses desde 1810; » a emissão desenfreada de moedas de cobre, ocasionando aumento generalizado nos preços dos alimentos e dos aluguéis;

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ses. Em 1829, como reflexo dessa crise econômico-financeira, o Banco do Brasil, que havia sido fundado na época de Dom João VI, decretou falência. c) A influência do gabinete secreto, grupo de amigos íntimos do imperador, todos portugueses. Entre eles se encontrava o secretário do Gabinete Imperial, Francisco Gomes da Silva, vulgo Chalaça. d) A questão da Cisplatina. Em 1821, Dom João VI anexou a Banda Oriental ao Brasil com o nome de Província Cisplatina. Em 1825, os cisplatinos – descendentes de índios e espanhóis em sua maioria – separaram-se do Brasil e uniram-se às Províncias Unidas do Rio da Prata – futura Argentina. Esse fato provocou a Guerra da Cisplatina na qual os cisplatinos e argentinos guerrearam contra o Império brasileiro. Nesse conflito, que consumiu muitas vidas e muito dinheiro, o Império foi derrotado, e a Província Cisplatina tornou-se independente com o nome de República Oriental do Uruguai (1828). e) A sucessão do trono português. Com a morte de Dom João VI, em 1826, Dom Pedro I herdou o trono português, mas logo renunciou a ele em favor de sua filha, Maria da Glória. No entanto, Dom Miguel, o irmão de Dom Pedro I, desfechou um golpe de Estado e ocupou o trono que caberia à sobrinha, proclamando-se rei. Dom Pedro I reagiu enviando dinheiro brasileiro para ajudar os constitucionalistas na luta contra seu irmão, em Portugal. Diante disso, no Brasil a oposição liberal passou a acusá-lo de estar mais interessado no trono português do que nos problemas brasileiros.

Oposição na Câmara e na imprensa As críticas mais contundentes ao imperador partiam da Câmara dos Deputados e da imprensa. Na Câmara dos Deputados, as principais vozes da oposição eram de políticos das províncias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, que tinham obtido riqueza e prestígio, mas não conseguiam ocupar espaço no governo imperial. Na imprensa, destacavam-se dois importantes jornais da oposição: Aurora Fluminense, de Evaristo da Veiga, e A Malagueta, de Luís Augusto May, ambos da cidade do Rio de Janeiro. A onda revolucionária de 1830, que derrubou o imperador absolutista Carlos X, na França, repercutiu entre políticos e jornalistas liberais brasileiros, que passaram a comparar Dom Pedro ao imperador francês deposto. A situação piorou com o assassinato do jornalista paulista Líbero Badaró, um dos principais críticos do imperador. Para tentar refrear a oposição, Dom Pedro resolveu visitar algumas províncias.

Domingos António de Sequeira. 1826. Desenho. Museu Nacional de Arte Antiga

» os pedidos de empréstimos aos banqueiros ingle-

Alegoria às Constituições do Brasil (1824) e de Portugal (1826). Litografia de Domingo Antonio de Sequeira representando D. Pedro como um constitucionalista; note que ele é mostrado com a espada apoiada nas constituições. Ao seu lado, sua primogênita, D. Maria da Glória, que, com a abdicação do pai, em 1826, tornou-se rainha de Portugal.

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No Brasil, a euforia tomou conta do ambiente, e de tal modo, que a abdicação foi entendida como um marco inaugural e fundador. Muitos a consideraram uma revolução exemplar, pois fora pacífica e não levara a derramamento de sangue. Outros a chamaram “regeneração brasileira”, tal seu caráter popular. Toda uma memória foi criada em torno do evento, como se ele representasse um tempo novo: a verdadeira independência. O importante é que o Sete de Abril, muito mais do que o Sete de Setembro, consagrou o espaço público como uma arena política [...].

Editora Cia. das Letras

Aurélio Figueiredo. 1890. Óleo sobre tela. Coleção particular

Em Minas Gerais foi recebido com extrema frieza. De volta ao Rio de Janeiro, foi recepcionado pelos comerciantes portugueses, que organizaram Dica! Animação sobre uma grande festa pública, no centro da cidade, para homenageá-lo. Foi o a abdicação de Pedro I. [Duração: 2 minutos]. que bastou para o início de brigas de rua entre “brasileiros” e “portugueAcesse: <http://tub. ses”, todos armados de paus, pedras e garrafas. Os conflitos ocorreram entre im/aqhm5v>. 12 a 15 de março de 1831 e ficaram conhecidos como Noite das Garrafadas. Numa tentativa derradeira de contornar a situação, Dom Pedro I compôs um ministério formado somente de brasileiros. A medida, no entanto, não foi suficiente para serenar os ânimos. Então, Dom Pedro I decidiu endurecer: em 5 de abril de 1831 demitiu o ministério dos brasileiros e formou outro, com elementos de seu círculo íntimo de relações. A resistência não se fez esperar: reunidos no Campo de Santana (atual Praça da República), populares, deputados, jornalistas e militares manifestaram seu descontentamento exigindo Nesta pintura de Aurélio Figueiredo, de cerca de 1890, o a reintegração do ministério deposartista sugere que Dom Pedro I era uma figura soberba. Repare to. D. Pedro I negou o pedido. Ao reque ele é mostrado com a cabeça erguida e estendendo a mão para entregar o documento de sua abdicação. À esquerda ceber a notícia, a multidão voltouvemos um menino loiro, recostado no ombro de sua mãe. Ele -se contra o imperador aos gritos de é Dom Pedro de Alcântara, aquele que, anos depois, viria a ser “Morra o traidor! Às armas cidadãos”. Dom Pedro II. Isolado politicamente, e sob forte pressão popular, Dom Pedro I abdicou, em 7 de abril de 1831, em favor de seu filho Pedro de Alcântara, que tinha apenas 5 anos de idade. O Brasil, então, passou a ser governado por regentes. Fac-símile da capa Veja o que duas estudiosas da História disseram sobre o modo como do livro Brasil: uma o povo recebeu o 7 de abril. biografia.

SCHWARCZ, Lilian M.; STARLING, Heloisa M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 242.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (UFF-RJ) Como “mito de origem nacional” para a Bahia, a Guerra de Independência, de 2 de julho de 1823, é sempre relembrada em festas e comemorações oficiais. Assinale a alternativa que melhor identifica o papel dos baianos no contexto da independência brasileira. a) A articulação revolucionária das camadas populares da capital baiana esteve restrita aos interesses dos libertos e dos homens livres e pobres, sem o apoio de parte dos intelectuais da cidade de Salvador. b) As independências do Brasil e da Bahia ocorreram no mesmo contexto político, sem particularismos locais. Nesse sentido, não é possível considerar a existência de duas datas que marcam a independência do país. c) A sedição de 1798 na Bahia sepultou os desejos separatistas dos baianos e os afastou da política brasileira de 1822. Por essa razão, a população baiana esteve alijada do contexto político da independência. d) A comemoração da independência da Bahia justifica-se, pois, nessa data, as tropas do Exército e da Marinha expulsaram definitivamente os portugueses da cidade do Salvador. e) A independência do Brasil esteve estritamente associada aos interesses ingleses e holandeses, instalados no Brasil e beneficiários da Abertura dos Portos. 1. Resposta: d. 2. (Unesp-SP) O Brasil assistiu, nos últimos meses de 1822 e na primeira metade de 1823, a) ao reconhecimento da Independência brasileira pelos Estados Unidos, pela Inglaterra e por Portugal. b) ao esforço do imperador para impor seu poder às províncias que não haviam aderido à Independência. 2. Resposta: b. c) à libertação da Província Cisplatina, que se tornou independente e recebeu o nome de Uruguai.

d) à pacífica unificação de todas as partes do território nacional, sob a liderança do governo central, no Rio de Janeiro. e) à confirmação, pelas Cortes portuguesas e pela Assembleia Constituinte, do poder constitucional do imperador. 3. (UFRGS-RS – 2013) Em 1824, é outorgada a Constituição do Império do Brasil. Entre suas características, podemos afirmar que a) dividia os poderes do Estado exclusivamente em Executivo, Legislativo e Magistratura. b) separava a Igreja Católica do Estado Laico. c) previa a eleição direta do Primeiro Ministro. d) estabelecia o voto universal e secreto para a população masculina. e) dividia os poderes do Estado em Executivo, Legislativo, Judiciário e Moderador. 3. Resposta: e. 4. (UECE – 2016) No que concerne à Confederação do Equador de 1824, analise as afirmações a seguir, e assinale com V o que for verdadeiro e com F o que for falso. ( ) A Confederação costuma ser considerada um prolongamento da Revolução Pernambucana de 1817. ( ) As propostas liberais, republicanas e federativas serviram de bandeira política para os insurretos. ( ) Os revoltosos propunham a organização de uma república nos moldes dos Estados Unidos da América. ( ) A adesão dos segmentos populares foi fundamental para unir todos os revoltosos. ( ) A imprensa, infelizmente, atuou contra o movimento e nenhum jornal nas províncias envolvidas quis apoiar a causa. A sequência correta, de cima para baixo, é: a) F, V, V, V, F. c) V, F, F, V, F. b) V, F, F, V, V. d) V, V, V, F, F. 5. (Enem/MEC)

4. Resposta: d.

Após o retorno de uma viagem a Minas Gerais, onde Pedro I fora recebido com grande frieza, seus partidários prepararam uma série de manifestações a favor do imperador no Rio de Janeiro, armando

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fogueiras e luminárias na cidade. Contudo, na noite de 11 de março, tiveram início os conflitos que ficaram conhecidos como a Noite das Garrafadas, durante os quais os “brasileiros” apagavam as fogueiras “portuguesas” e atacavam as casas iluminadas, sendo respondidos com cacos de garrafas jogadas das janelas. VAINFAS, R. (Org.). Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008 – Adaptado.

Os anos finais do I Reinado (1822-1831) se caracterizaram pelo aumento da tensão política. Nesse sentido, a análise dos episódios descritos em Minas Gerais e no Rio de Janeiro revela:

a) estímulos ao racismo. b) apoio ao xenofobismo. c) críticas ao federalismo. d) repúdio ao republicanismo. e) questionamentos ao autoritarismo. 5. Resposta: e. 6. Redija um texto argumentativo sobre as razões da abdicação de D. Pedro I. Leve em conta os seguintes pontos: a) A dissolução da Constituinte. b) A crise econômico-financeira. c) O sucesso do trono português.

II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos

d) A oposição na Câmara e na Imprensa. 6. Resposta pessoal. O objetivo da questão é estimular o desenvolvimento da competência escritora a partir de um episódio importante da história brasileira: a abdicação de Pedro I.

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE Leia o texto a seguir com atenção. O primeiro terço do século XIX marcou profundamente a história econômica do Brasil pela combinação de dois movimentos fundamentais. Um era universal: a implantação mundial do capitalismo como modo de produção. Outro, local: a construção de um Estado nacional em meio a esse processo. Em trinta anos, tudo mudou. [...] [...] A ligação entre grandes centros e o mercado interno [...] tinha base no tráfico de escravos. Começando pelo Rio de Janeiro, nas décadas de 1790 e 1800, desembarcaram na cidade cerca de 10 mil escravos por ano, número que dobrou a partir da vinda da corte portuguesa; [...]. Mas essa era uma atividade para poucos. Embora haja registros de 279 traficantes operando entre 1811 e 1830, apenas as 13 maiores empresas [...] eram responsáveis por 42,1% do total de viagens. A mesma concentração acontecia em Salvador. [...] No rol das grandes fortunas, em que estavam os traficantes, havia apenas 37 nomes. [...] Vista estritamente do ponto de vista do porte, a economia metropolitana parecia um simples apêndice da parte colonial. Entre 1796 e 1807, as exportações brasileiras corresponderam a 83,7% do total das exportações de todas as colônias portuguesas para a metrópole: no mesmo período, as reexportações dessas mercadorias foram responsáveis por 56,6% do total das receitas portuguesas no comércio exterior. Na via inversa, o Brasil consumia 78,4% dos produtos enviados por Portugal a todas suas colônias e 59,1% do total dos produtos importados pelo Reino. Mas essa alta participação nos

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negócios metropolitanos era obtida com uma fração relativamente reduzida da produção local. Estudos recentes indicam que algo em torno de 85% da produção total brasileira era consumida no mercado interno, e apenas 15% da produção eram destinados à exportação. Foi nesse cenário econômico que, em rápidos movimentos, ocorreram as grandes transformações do capitalismo e a criação do Estado nacional brasileiro. [...] CALDEIRA, Jorge. O processo econômico. In: Crise colonial e independência 1808-1830. SILVA, Alberto da Costa (coord.) Rio de Janeiro: Mafre e Editora Objetiva, 2011; p. 161; 167-169.

a) Que processos históricos foram detectados pelo autor nos trinta primeiros anos do século XIX? b) Que relação o autor estabelece entre tráfico de escravos e riqueza no Brasil colonial? c) O que se pode concluir sobre o destino da produção colonial brasileira com base no texto?

III. Você cidadão! A Constituição do Império Brasileiro (1824) estendeu a todos os cidadãos o direito à igualdade perante a lei e, consequentemente, o direito de ir e vir livremente. Os negros e mestiços, no entanto, ao circular nas ruas, eram vistos pela polícia como suspeitos de serem escravos fugidos e tinham de mostrar sua carta de alforria para provar que eram livres. Além disso, a abordagem policial era, quase sempre, violenta. O texto a seguir trata da relação da polícia com os cidadãos negros e mestiços nos dias de hoje. Leia-o com atenção. O Brasil é um país pluriétnico e multicultural; todavia [...] extremamente desigual [...]. Instituições e seus representantes, a exemplo da polícia, encarregada de cuidar da segurança das pessoas, costumam dispensar tratamento diferenciado para com os cidadãos e cidadãs conforme a sua cor/raça e classe social. No que se refere à instituição policial [...] “quanto mais escura a pele da pessoa, mais suscetível ela está de ser vítima de uma violência fatal por parte da polícia”. O referido autor acrescenta ainda que “pode-se dizer que a violência policial é discricionária, pois atinge em maior número e com maior violência os negros” [...] ARAÚJO, Jurandir de Almeida. Racismo, violência e direitos humanos: pontos para o debate. Disponível em: <http://www2.faac.unesp.br/ridh/ index.php/ridh/articje/download/177/93>. Acesso em: 17 maio 2016.

a) Como era o tratamento dado a negros e mestiços no Império brasileiro? b) Explique a afirmação: o Brasil é um país pluriétnico e multicultural. c) Segundo o autor, de que forma a polícia brasileira se relaciona com os cidadãos e cidadãs? d) Em dupla. Reflitam e opinem: vocês concordam com o autor quando ele diz que “quanto mais escura a pele da pessoa, mais suscetível ela está de ser vítima de violência por parte da polícia”? Justifiquem e postem a conclusão de vocês no blog da turma. CAPÍTULO 11 | O REINADO DE DOM PEDRO I: UMA CIDADANIA LIMITADA

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UNIDADE

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Terra e liberdade

No Brasil, a luta por terra e liberdade é secular; mobilizou, e continua mobilizando, pessoas e grupos de várias partes do país. Entre esses grupos estão os remanescentes de quilombos ou “terra de pretos”: comunidades organizadas politicamente para garantir seu direito à terra e a viver o texto desta página dupla de abertura chama a atenção para o fato de que essas segundo suas tradições e costumes. Professor: comunidades viviam na invisibilidade: não tinham a atenção do Estado e nem existia nenhum tipo de lei › Fonte 1

que as protegessem de agressões externas (a cobiça de grileiros, por exemplo). A Constituição Federal reconheceu a propriedade definitiva aos quilombolas, além de compelir o Estado à emissão dos títulos. Pode-se comentar também que a Lei de Terras (1850), assunto desta unidade, foi em grande parte alterada em favor dos ocupantes das áreas remanescentes dos quilombos; com o Art. 68 e o Art. 216 iniciou-se o processo de recuperação de espaços usurpados, por meios quase sempre violentos, ao longo de séculos de história.

Remanescentes de quilombos: a luta pela terra As comunidades quilombolas viveram na invisibilidade desde os tempos de sua formação. Não eram contempladas por políticas públicas específicas e sequer eram citadas pela legislação em vigor. A situação foi alterada com a promulgação da Constituição Federal, em 1988, que concedeu a esses grupos sociais o direito sobre suas terras e sobre seu patrimônio. O primeiro item está definido no Art. 68, [...] Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. COMUNIDADES quilombolas de Minas Gerais no século XXI. História e resistência. Organizado por Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva. Belo Horizonte: Autêntica/CEDEFES, 2008. p. 51.

› Fonte 3 Lineu Kohatsu/Olhar Imagem

Ricardo Funari/Olhar Imagem

› Fonte 2

Na fonte 2, casa no quilombo Itamatatiua em Alcântara (MA), 2009. A fonte 3 registra a Festa Marujada no Quilombo Mangal e Barro Vermelho, município Sítio do Mato (BA), 2015.

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Pedro Ladeira/SambaPhoto

› Fonte 4

Sergio Amaral/Olhar Imagem

› Fonte 5

Fonte 4: comunidade quilombola dos Kalunga, durante festa religiosa no Vão do Moleque, próximo a Cavalcante (GO), 2006. Fonte 5: agricultura com arado em comunidade quilombola, Pelotas (RS), 2008.

» Conforme sugerem as imagens, existem remanescentes de quilombos em diversos pontos do território brasileiro; você já visitou alguma dessas comunidades? » Que relação há entre o texto e as imagens dessas duas páginas? » Hoje, além dessas comunidades, povos indígenas e trabalhadores rurais de diversos pontos do Brasil lutam por terra. Como terão sido essas lutas em solo americano em séculos passados? » Nesta unidade vamos estudar uma parte importante dessas histórias. UNIDADE 4 | TERRA E LIBERDADE

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Professor: a ideia é partir da comemoração da Semana Farroupilha para estimular o aluno a conhecer as lutas que os sulistas travaram contra o Império entre 1835 e 1845 e o contexto em que isso ocorreu. Sugerimos trabalhar também a memória construída em torno da Farroupilha e, ao mesmo tempo, evidenciar os laços que unem o passado ao presente. Comentar a presença dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) em muitos estados brasileiros, chamando a atenção para a força da cultura tradicio-

Regências: a unidade ameaçada Joel Vargas/PMPA

Capítulo 12

Leia com atenção esta notícia. Desfile Farroupilha comemora os 180 anos da Revolução

Milhares de pessoas passaram na manhã deste domingo, 20, pela avenida Edvaldo Pereira Paiva (Beira-Rio) para prestigiar o tradicional desfile cívico do 20 de Setembro. Neste ano, o festejo trouxe como tema O Campeirismo e os 180 anos da Revolução Farroupilha. […] Na abertura do desfile, centenas de lideranças comunitárias [...] entraram na avenida cultuando as tradições gaúchas e saudando os participantes da cerimônia. […] Fortunati destacou a importância de cultivar, Desfile da Semana Farroupilha em Porto Alegre (RS), 2015. preservar e fortalecer as tradições gaúchas. “É uma demonstração do quanto nos orgulhamos de Campeiro: relativo ao campo; ser gaúchos […] afirmou. que vive nos campos A Fundação Cultural Gaúcha e o Movimento Tradicionalista gaúchos. Gaúcho, responsáveis pela iniciativa, levaram para a avenida Fortunati: mais de mil voluntários, artistas amadores, [...] que apresensobrenome do então prefeito de Porto taram a teatralização do tema desta edição. Os voluntários inAlegre. tegram Centros e Departamentos de Tradição Gaúcha (CTGs e Cavalaria: DTGs), além de piquetes e grupos ligados ao tradicionalismo. grupo de pessoas [...] coreógrafos [...] coordenaram o espetáculo de teatro a a cavalo. céu aberto. […] cerca de 800 cavalarias e 55 entidades tradicionalistas participaram do desfile cívico. […]

nal gaúcha no Brasil como um todo. Lembrar que no fechamento da Semana Farroupilha ocorrem desfiles, a cavalo ou em charretes, que reúnem em todo o Rio Grande do Sul milhares de pessoas trajando as vestimentas típicas – os homens usam bombachas, botas, lenços e chapéus de aba larga; e as mulheres usam vestidos de prenda, rodados e coloridos, e flores nos cabelos.

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BARROS, Bibiana. Desfile Farroupilha comemora os 180 anos da Revolução. Porto Alegre: Prefeitura de Porto Alegre, 2015. Disponível em: <http://www2.portoalegre.rs.gov.br/ acampamentofarroupilha/default.php?p_noticia=180946&DESFILE+FARROUPILHA +COMEMORA+OS+180+ANOS+DA+REVOLUCAO>. Acesso em: 11 abr. 2016.

» Você sabe por que a data de 20 de setembro é importante

para os rio-grandenses? » O que são CTGs? Qual a sua finalidade? » Para você, preservar uma tradição é importante? Por quê?

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Arnaud J. Pallière. C. 1830. Têmpera. Museu Imperial de Petrópolis

Vimos que, ao se ver isolado politicamente e sob forte pressão popular, D. Pedro I abdicou, em 1831, em favor de seu filho Pedro de Alcântara, que tinha apenas 5 anos de idade. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, a importância da abdicação de D. Pedro I reside no fato de que, a partir daquela data, o governo do Brasil ficou totalmente nas mãos dos brasileiros. Ao ser anunciada a abdicação em praça pública, a multidão lá reunida aclamou de imediato o imperador-criança, confirmando sua opção por manter a Monarquia, apesar da pressão de grupos republicanos ali presentes.

O avanço liberal No dia da abdicação, a Assembleia estava em recesso, por isso os poucos deputados e senadores que estavam no Rio de Janeiro só puderam escolher regentes provisórios. Em junho de 1831, a Assembleia elegeu o brigadeiro Francisco de Lima e Silva, além dos deputados João Bráulio Muniz e José da Costa Carvalho, para O menino Pedro de Alcântara em compor a Regência Trina Permanente. O Ministério da Justiça foi pintura de 1830. entregue ao padre paulista Diogo Antônio Feijó. As lutas políticas contra o autoritarismo de Dom Pedro I uniram grupos de diferentes tendências e interesses e mascararam as divergências entre eles. Depois da abdicação, no entanto, essas divergências voltaram a aparecer e se formaram três grupos políticos. Eles disputavam o poder nas ruas, nos jornais e no Parlamento e tinham interesses, objetivos e líderes próprios. Observe a composição desses grupos políticos. » Restauradores ou caramurus – comerciantes portugueses, altos funcionários públicos e alguns oficiais do Exército. Defendiam a volta de Dom Pedro I ao poder. Eram liderados por Vicente Ferreira de Paula. » Moderados ou chimangos – proprietários rurais, profissionais liberais, padres e militares. Defendiam a manutenção da ordem social e dos privilégios das elites do Nordeste, do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais e também a Monarquia Constitucional. Eram liderados pelo padre Antônio Feijó e por Bernardo Pereira de Vasconcelos. » Exaltados ou farroupilhas – proprietários rurais, profissionais liberais, militares, funcionários públicos modestos e padres. Defendiam a autonomia para as províncias, a nacionalização do comércio, e parte deles era favorável à República. Entre seus líderes estavam Cipriano Barata e Borges da Ferreira. Enquanto os moderados, como Antônio Feijó, defendiam a Monarquia e as hierarquias sociais vigentes, ou seja, a ordem estabelecida, os exaltados tinham propostas que, uma vez vitoriosas, alterariam a ordem vigente. Estando no poder durante a Regência Trina Permanente, os moderados tiveram de enfrentar dois graves problemas: a manutenção da ordem pública e as pressões por maior autonomia das províncias. Para manter a ordem, o governo dos moderados criou, em agosto de 1831, a Guarda Nacional, que imitava a instituição francesa de mesmo nome e, assim como esta, era formada por homens que tinham algo a defender, isto é, os proprietários de terras. CAPÍTULO 12 | REGÊNCIAS: A UNIDADE AMEAÇADA

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a) O que se pode dizer sobre o critério de formação da Guarda Nacional? b) No tempo das Regências, eram comuns o mandonismo local e o uso privado de cargo público. No Brasil de hoje isso ainda acontece? Coronel:

nome dado aos ricos fazendeiros que chefiavam a Guarda Nacional e tinham grande poder político nas suas localidades.

Juiz de paz:

magistrado não remunerado e sem formação profissional específica, eleito localmente em cada distrito.

Dica! Vídeo didático explicando as regências provisória e permanente. [Duração: 6 minutos.] Acesse: <http://tub.im/ hmta6c>.

» » » »

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Só podiam fazer parte da Guarda Nacional cidadãos proprietários; brasileiros com idade entre 21 e 60 anos e renda mínima de 200 mil réis nas quatro maiores cidades e de 100 mil réis no resto do país.

Professor: a) a intenção do governo era armar cidadãos considerados confiáveis (leia-se: dispostos a reprimir as revoltas populares). b) A intenção é levar os alunos a refletir sobre o presente e a se posicionar, aprendendo a argumentar e a contestar argumentações.

Romulo Fialdini/Tempo Composto

DIALOGANDO...

Uniformes da Guarda Nacional, século XIX.

Aos fazendeiros mais ricos foi concedida a patente de coronel da Guarda Nacional, a mais alta de todas elas. Cada um deles organizava um destacamento com homens de sua confiança e com recursos próprios, conseguindo com isso um grande poder local. Em novembro de 1832, o governo dos moderados criou também o Código do Processo Criminal, que instituiu o tribunal do júri e ampliou os poderes dos juízes de paz. Eles podiam julgar algumas ações: prender criminosos, preparar as listas de votantes, presidir mesas eleitorais e ajudar a compor a lista dos jurados. Interessados em ascender socialmente, os juízes de paz geralmente se rendiam aos poderosos que, com isso, evitavam a condenação de seus capangas e clientes. Muitos homens livres pobres, em troca de favores, transformavam-se em clientes e votavam nos candidatos indicados pelos potentados locais.

O Ato Adicional de 1834

Um dos debates que mais empolgou os parlamentares nos anos iniciais da Regência foi a necessidade de reforma na Constituição do Império, considerada tanto pelos moderados quanto pelos exaltados como exageradamente centralizadora. Depois de intensa discussão entre eles, chegou-se a um consenso no Parlamento: aprovou-se o Ato Adicional de 1834, o qual: criou as Assembleias Legislativas Provinciais, concedendo, assim, maior autonomia às províncias; aboliu o Conselho de Estado, órgão bastante impopular que tinha sido criado por D. Pedro I, mas conservou a vitaliciedade do Senado; cedeu ao presidente da província o direito de nomear e transferir funcionários públicos; retirou dos regentes o direito de dissolver a Câmara, uma das principais atribuições do poder Moderador;

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» substituiu a Regência Trina por uma Regência Una; » transformou o Rio de Janeiro em município neutro, capital do Império. Com o Ato Adicional de 1834 e a permissão para que as províncias legislassem sobre gastos e impostos locais, os liberais moderados buscavam diminuir a oposição ao seu governo. 1

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Regência Una Feijó

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Com a morte de D. Pedro I, em 1834, os restauradores perderam a razão de existir; parte deles deixou a política; outra parte se uniu aos moderados que, com isso, fortaleceram-se. Nesse contexto, ocorreram pela primeira vez eleições para chefe do governo. A eleição levou ao poder o padre Diogo Antônio Feijó, que venceu seu opositor por uma margem estreita de votos.

par ticu lar

Diogo Antônio Feijó (1784-1843) foi padre, deputado, senador e ministro da Justiça. Foi o primeiro chefe do poder Executivo brasileiro a ser escolhido em eleição nacional. Era líder da ala progressista do grupo moderado, favorável à descentralização política (maior autonomia para as províncias). Outra de suas bandeiras foi a luta contra o celibato clerical.

Durante seu governo, Feijó teve de enfrentar vários desafios, entre os quais a eclosão de duas das maiores rebeliões regenciais: a Cabanagem, no Norte, e a Farroupilha, no Sul. Para reprimir essas rebeliões nas províncias, Feijó precisava de recursos que deveriam ser aprovados pela Câmara dos Deputados, porém a maioria dessa Câmara movia uma pesada oposição contra ele, que nada podia fazer pois o Ato Adicional de 1834 não o autorizava a dissolvê-la. Além de se oporem a Feijó, os deputados da oposição o acusavam de não reprimir com firmeza as revoltas provinciais e de ser anticelibatário. Em 1837, o deputado e jornalista Evaristo da Veiga, principal aliado de Feijó, faleceu, aumentando ainda mais seu isolamento político. Sem o apoio da maioria da Câmara e de Evaristo da Veiga, e temendo a desintegração do Império, Feijó renunciou em setembro de 1837. 2

Regência Una Araújo Lima Seu sucessor legal, Pedro de Araújo Lima, era, além de um político experiente e formado em Coimbra, senhor de engenho em Pernambuco e politicamente conservador. Ele, que no ano seguinte foi eleito regente com mais de 4 mil votos, também era radicalmente contrário à descentralização política; por isso deu início ao Regresso, uma política de fortalecimento do poder central que tinha o apoio de representantes da cafeicultura e dos grandes comerciantes do Sudeste.

Anticelibatário:

contrário a que os padres se mantivessem solteiros. Feijó era de fato favorável ao casamento dos padres, tema que gerou grande polêmica na época e lhe rendeu vários adversários.

1. Dica! Vídeo didático explicando o que foi e como foi aplicado o Ato Adicional de 1834. [Duração: 7 minutos.] Acesse: <http://tub. im/7j6z8m>. 2. Dica! Vídeo sobre o governo do padre Feijó e as forças políticas atuantes no Brasil da época. [Duração: 9 minutos.] Acesse: <http://tub.im/ nendqk>.

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Os regressistas queriam fortalecer a autoridade central e garantir a unidade do Império e a ordem escravista, pondo fim ao que eles chamavam de “anarquia”. O principal líder dos regressistas, o deputado por Minas Gerais Bernardo Pereira de Vasconcelos, dizia ser preciso deter o “carro da Revolução” e restabelecer a integridade do Império por meio da submissão dos grupos rebeldes, pela força ou por acordos. Para alcançar seu objetivo, adotaram duas ações: de um lado, promoveram o carisma da Monarquia e, de outro, enviaram forças militares para conter as rebeliões que ocorriam nas províncias. Em 1840, os regressistas obtiveram importante vitória ao aprovar a Lei Interpretativa do Ato Adicional, que:

» retirava a autonomia das províncias, permitindo a anulação das leis provinciais;

» aumentava o poder de repressão do governo central. Por quererem conservar a ordem imperial, os regressistas passaram a ser chamados de conservadores, dando origem à primeira organização brasileira a que se pode dar o nome de partido político, o Partido Conservador; seus opositores, então chamados de progressistas, formaram o Partido Liberal.

Para saber mais Na regência de Araújo Lima foi criado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), instituição político-cultural criada com o objetivo de produzir uma história nacional – até então só existia a portuguesa – que desse aos brasileiros um sentimento de pertencimento colaborando para acelerar o processo de formação do Estado Nacional. O IHGB deveria ser o guardião da nossa memória e das fontes para a escrita da história e da geografia nacionais.

Anônimo. 1860. Desenho aquarelado. Coleção particular

Dica! Vídeo sobre o regresso conservador. [Duração: 9 minutos.] Acesse: <http://tub. im/kpmggq>.

Desenho aquarelado, de 1860, que mostra o figurino do uniforme dos membros efetivos do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. O modelo era o do Instituto Histórico de Paris, que serviu de inspiração para o brasileiro.

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As rebeliões nas províncias Allmaps

Insurreição de escravos e rebeliões sociais nas Regências 50° O

VENEZUELA

Cabanagem (1835-1840)

COLÔMBIA 0°

Balaiada (1838-1841)

Equador

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Belém São Luís

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Cachoeira Salvador

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BOLÍVIA

Revolta dos Malês (1835) Sabinada (1837-1838)

OCEANO PACÍFICO Trópico

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de Capr

PARAGUAI

OCEANO ATLÂNTICO

CHILE

Laguna

ARGENTINA

Porto Alegre

Guerra dos Farrapos (1835-1845) 0

URUGUAI

575

Fonte: ATLAS histórico IstoÉ: Brasil 500 anos. São Paulo: Editora Três, 1998. p. 57.

POPULAÇÃO DO GRÃO-PARÁ (1835)

A Cabanagem A província do Grão-Pará, na época da Cabanagem, abrangia terras dos atuais estados do Pará, Amapá, Roraima, Rondônia e Amazonas e tinha uma população estimada em 120 mil habitantes, distribuídos como mostra o gráfico ao lado. A economia do Grão-Pará baseava-se na exploração das drogas do Sertão (castanha-do-pará, cacau, baunilha), de madeiras e de ervas medicinais e na pesca. Os trabalhadores da região eram, em sua maioria, muito pobres, viviam em cabanas e trabalhavam para os fazendeiros ou para os comerciantes portugueses e ingleses, que controlavam o comércio na região. Boa parte desses comerciantes residia em Belém, onde era forte o antilusitanismo e o sentimento de revolta contra as condições de trabalho e o alto custo de vida. Os fazendeiros também estavam insatisfeitos por dois motivos: o presidente da província, nomeado pelo governo central, era quase sempre favorável aos portugueses e, além disso, não se importava com os problemas da população.

Indígenas

33 000

Negros

30 000

Mestiços

42 000

Brancos

15 000

Total

120 000

brancos 12,5% mestiços 35%

indígenas 27,5%

negros 25%

Fonte de pesquisa: FAZOLI FILHO, Arnaldo. O período regencial. 2. ed. São Paulo: Ática, 1994. p. 55.

Presidente da província:

cargo equivalente hoje ao de governador do estado.

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Editoria de arte

Durante as Regências, explodiram nas províncias brasileiras, de norte a sul, rebeliões de grande impacto na história social do país. Pobres e ricos, peões e fazendeiros, indígenas, mestiços, negros e brancos chegaram a se unir contra o governo central, sediado no Rio de Janeiro. Mas seus objetivos não eram os mesmos: enquanto as elites das províncias exigiam maior autonomia, os indígenas, mestiços, negros e brancos pobres lutavam por liberdade e uma vida melhor. As principais rebeliões iniciadas no período regencial foram: » a Cabanagem (1835-1840); » a Guerra dos Farrapos (1835-1845); » a Revolta dos Malês (1835); » a Sabinada (1837-1838); » a Balaiada (1838-1841).

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Lula Sampaio/Opção Brasil Imagens

Ricardo Oliveira/Tyba

Dos tempos da Cabanagem para cá, a área correspondente ao Grão-Pará mudou muito, como se pode ver na fotografia à esquerda, que capta uma vista noturna do bairro Nossa Senhora das Graças, em Manaus (AM), em junho de 2015. Mas ao longo do rio Negro continuam existindo palafitas (veja à direita em uma fotografia também atual), construções semelhantes àquelas em que os cabanos viviam.

Dica! Vídeo sobre a Cabanagem. [Duração: 9 minutos.] Acesse: <http://tub. im/yxr5ij>.

DIALOGANDO O que você pensa sobre condenação sem julgamento prévio? Resposta pessoal. Professor: a questão visa estimular a reflexão sobre a noção de justiça.

Reagindo a essa situação, em 1835, homens ricos e influentes, aliados aos cabanos, invadiram o Palácio do Governo, em Belém, e entregaram a chefia do primeiro governo cabano ao fazendeiro Félix Melcher. Iniciava-se assim a Cabanagem. Melcher, porém, traiu o movimento e prometeu fidelidade ao futuro imperador. Diante disso, outro líder da revolta, Francisco Vinagre, venceu Melcher pelas armas e assumiu o segundo governo cabano. Vinagre, no entanto, acabou fazendo o mesmo que Melcher e entregou o governo da província à autoridade enviada pelo governo regencial sediado no Rio de Janeiro. Mas os cabanos continuaram resistindo no interior. Sob a liderança de Eduardo Angelim, penetraram a região pelos rios, aliciaram ribeirinhos e, fortalecidos, retomaram Belém. O governo do padre Feijó, por sua vez, enviou ao Grão-Pará, em 1836, uma esquadra comandada pelo brigadeiro Soares d’Andrea, que retomou a cidade de Belém. A repressão à Cabanagem foi brutal. Soares d’Andrea mandou prender e fuzilar cabanos sem julgamento prévio. Cerca de 30 mil pessoas (40% da população da província) foram mortas. Os últimos grupos se renderam somente em 1840. Os cabanos chegaram ao poder, mas não conseguiram conservá-lo: as divergências entre seus líderes, a falta de um programa de governo, a inferioridade bélica e uma epidemia de varíola que se alastrou por Belém naquela época contribuíram para o fim da rebelião.

A Guerra dos Farrapos O mais duradouro movimento rebelde do Império foi a Guerra dos Farrapos, ocorrida no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina entre 1835 e 1845.

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Pedro Weingärtner. Séc XIX. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Chegou tarde, do artista porto-alegrense de origem alemã Pedro Weingärtner. A obra mostra o interior de uma casa do Rio Grande do Sul, no século XIX. Repare nas roupas dos personagens.

A população da província de São Pedro do Rio Grande era de cerca de 150 mil pessoas, das quais somente 10% viviam em Porto Alegre, sua capital. No interior, a base da economia era a criação de gado e a produção de charque (carne salgada). Estancieiros e charqueadores lideravam aquela sociedade militarizada que se formou durante os constantes conflitos com os castelhanos nas terras ou nas fronteiras do Rio Grande do Sul. O charque, o gado, bem como outros produtos gaúchos, como couro, sebo e graxa, eram vendidos a outras províncias brasileiras do Centro-Sul e do Nordeste. Ou seja, a produção gaúcha destinava-se sobretudo ao mercado interno. Ocorre que o governo brasileiro cobrava altas taxas do charque rio-grandense e baixas taxas do charque platino importado. Além disso, sobretaxava o sal que os rio-grandenses importavam para fazer seu charque, levando-os a se sentirem duplamente prejudicados. Os rio-grandenses reclamavam também que os presidentes de província nomeados pelo governo eram quase sempre alheios aos seus interesses e que o Rio 1. Dica! Vídeo sobre a Guerra dos Farrapos Grande do Sul servia apenas como fornecedor de cavalos e homens às tropas com contribuição de vários historiadores. do governo nos constantes conflitos por terra e gado na região platina. [Duração: 25 minutos.] Em 20 de setembro de 1835, os farroupilhas, liderados pelo estancieiro Bento Acesse: <http://tub.im/ Gonçalves, romperam com o presidente da província e invadiram Porto Alegre, okw3wf>. 2. Dica! Cenas de dando início à Guerra dos Farrapos. 1 e 2 Em 1836, após importantes vitórias sobre as tropas legalistas, os farroupi- minissérie que tem como pano de fundo a lhas proclamaram a República Rio-Grandense. Guerra dos Farrapos. Em outubro daquele ano, no entanto, vários chefes farroupilhas foram pre- [Duração: 4 minutos.] Acesse: <http://tub.im/ sos, entre eles Bento Gonçalves, que foi levado para a Bahia. Mesmo preso, ele oxfwoz>. foi eleito presidente dessa República, cuja capital era a cidade de Piratini. No 3. Dica! Reportagem ano seguinte, com o auxílio da maçonaria, Bento Gonçalves fugiu da cadeia e abordando a dos reassumiu o comando das forças farroupilhas, que, à época, já contavam com o participação estrangeiros na apoio do revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi. Os farroupilhas invadiram, Guerra do Farrapos. então, Santa Catarina, e, em 24 de julho de 1839, em Laguna, Garibaldi e Davi [Duração: 13 minutos.] Acesse: <http://tub. Canabarro fundaram a República Juliana. Pesquisas recentes indicam que a im/3xphs5>. população de Laguna, em Santa Catarina, colaborou com os rebeldes fornecendo-lhes suporte e participando efetivamente da luta. 3 CAPÍTULO 12 | REGÊNCIAS: A UNIDADE AMEAÇADA

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Resposta pessoal. Professor: lembrar que o governo imperial atendeu a várias exigências dos farroupilhas.

DIALOGANDO

A “paz honrosa” pode ser considerada uma vitória farroupilha? Justifique.

G. Evangelista/Opção Brasil Imagens

1. Dica! Vídeo pedagógico em que uma avó ensina a sua neta sobre a Guerra dos Farrapos. [Duração: 11 minutos.] Acesse: <http://tub.im/i3fnxz>. 2. Dica! Reportagem sobre o Museu de Piratini (RS) apresentando importantes fontes escritas e materiais para o estudo da Guerra dos Farrapos [Duração: 9 minutos.] Acesse: <http://tub. im/cv2dpk>.

Painel Epopeia Rio-Grandense, Missioneira e Farroupilha, em Porto Alegre (RS), 2012. Esta obra de Danúbio Gonçalves é uma homenagem à cavalaria e ao líder farroupilha Bento Gonçalves, figuras decisivas do movimento que agitou o sul do Brasil no século XIX. A cavalaria foi a principal arma dessa luta prolongada.

Em 1842, o Império enviou ao Sul milhares de soldados sob o comando de Luís Alves de Lima e Silva, o Barão de Caxias, para pressionar os chefes daquele movimento que reunia, sob uma mesma bandeira, desde fazendeiros até peões e ex-escravizados. Os farroupilhas não se renderam. Então, para pôr fim à guerra, Caxias, que representava o braço armado do Império, propôs a chamada “paz honrosa”. Por meio deste acordo de paz assinado em 1845: » os rio-grandenses ganharam o direito de escolher seus presidentes de província; » os comandantes farroupilhas poderiam passar ao Exército brasileiro com os mesmos postos que ocupavam nas tropas rebeldes; » o charque platino pagaria 25% a mais de impostos para entrar no mercado brasileiro; » o governo imperial reconheceria a liberdade dos escravos que lutaram 1e2 nas forças farroupilhas como soldados.

Para refletir A participação negra na Guerra dos Farrapos [...] Para arregimentar soldados, os farroupilhas incorporaram escravos às suas fileiras, prometendo em troca a liberdade após o fim do conflito. De olho na alforria, alguns negros fugiram das propriedades onde eram mantidos escravos para aderir à luta. Outros foram cedidos por senhores de terra que apoiavam a revolução. [...]

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a) Sim, pois os escravizados aderiram à causa farroupilha mediante a promessa de que, ao final do conflito, eles obteriam a liberdade. b) “A questão da abolição era controversa entre seus líderes. Ao mesmo tempo em que o governo rebelde prometia liberdade aos escravos engajados e condenava a continuidade do tráfico de escravos, seu jornal oficial, O Povo, estampava anúncios de fugas de cativos.”

Juan Manuel Blanes. Séc. XIX. Óleo sobre tela. Coleção particular

Estima-se que em alguns momentos os lanceiros negros, como ficaram conhecidos estes soldados, tenham representado metade do exército rio-grandense. O africano José, de nação angola, foi um desses homens que sonharam em conquistar a liberdade pegando em armas. [...] [...] Somente nos últimos anos a importância e a dimensão da participação negra neste conflito têm recebido maior atenção. Hoje é possível afirmar com segurança que negros, índios e mestiços desempenharam papel fundamental na Guerra dos Farrapos não somente como soldados, mas também trabalhando em diversos outros setores importantes da economia de guerra, como nas estâncias de gado, na fabricação de pólvora e nas plantações de fumo e erRetrato de um Lanceiro Negro, de Juan Manuel Blanes (1830-1901). va-mate cultivadas pelos rebeldes. Pesquisas recentes apontam para uma Apesar das promessas, em nenhum mointensa participação de negros na Guerra mento a República Rio-Grandense libertou dos Farrapos. seus escravos. A questão da abolição era controversa entre seus líderes. Ao mesmo tempo em que o governo rebelde prometia liberdade aos escravos engajados e condenava a continuidade do tráfico de escravos, seu jornal oficial, O Povo, estampava anúncios de fugas de cativos. Houve uma tentativa de abolição por meio de projeto apresentado na Assembleia Constituinte de 1842 por José Mariano de Mattos (1801-1866), que foi recusado. Anos após o fim do conflito, vários líderes farroupilhas ainda tinham escravos, como Bento Gonçalves (1788-1847), que morreu deixando 53 cativos para seus herdeiros. [...] OLIVEIRA, Vinicius Pereira de; SALAINI, Cristian Jobi. Escravos farrapos. Revista de História, Rio de Janeiro, 19 nov. 2010. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/ artigos-revista/escravos-farrapos>. Acesso em: 7 maio 2016.

a) O engajamento dos escravizados nas fileiras farroupilhas pode ser considerado uma forma de resistência negra na história do Brasil? b) Transcreva o trecho do texto em que fica evidente a divergência entre os líderes farroupilhas no tocante à questão da abolição. c) Debata, reflita e responda: o que explica o “silêncio demorado” em torno da participação dos negros na Guerra dos Farrapos? d) Façam uma pesquisa sobre a participação de negros, indígenas e mestiços na Guerra dos Farrapos e produzam um texto histórico ilustrado sobre o assunto.d) Resposta pessoal. c) Esse silêncio demorado no tocante à participação dos negros pode ser associado ao predomínio de uma história eurocêntrica de viés positivista, seja nos estudos acadêmicos, seja nos livros escolares brasileiros. A invisibilidade dos negros e a recusa em vê-los como sujeitos históricos são desdobramentos do predomínio dessa abordagem na história escrita e ensinada no Brasil. CAPÍTULO 12 | REGÊNCIAS: A UNIDADE AMEAÇADA

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Orixá:

nome dado às divindades do panteão iorubá ou nagô.

Vodum:

Salvador, em 1835, possuía cerca de 65 mil habitantes. Essas pessoas tinham entre si diferenças profundas na maneira de trabalhar, tirar folga e orar. A origem, a condição social e a cor da pele eram outras diferenças importantes para compreendermos por que, na Bahia do século XIX, uma maioria de negros e mestiços era oprimida por uma minoria de brancos. Escravizados ou libertos, os africanos eram as maiores vítimas dessa opressão. Muitos resistiam a isso organizando comunidades de terreiros para cultuar os orixás, os voduns ou os espíritos ancestrais. Outros aderiram ao catolicismo e o praticavam à sua maneira. Outros ainda optaram pelo chamado culto malê, que vinha se tornando popular na capital baiana. Frederic Forbes, Dahoney e Dahomans. S/d. Aquarela. Coleção particular

nome dado às divindades nos cultos jejes; equivalente a inquice, na cultura angola, e orixá, no Ketu.

A Revolta dos Malês

João José Reis

Dica! Vídeo sobre a matriz afro na formação da cidade de Salvador. [Duração: 23 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/85h5uo>.

Acima, vista interna de uma loja, década de 1990, isto é, porão de um sobrado. Em uma dessas lojas, no centro de Salvador, viviam os africanos libertos Manuel Calafate e Aprígio, ambos de origem iorubá e líderes da Revolta Escrava de 1835. Fotografia de João José Reis. À esquerda, aquarela representando Gezo, personagem que havia sido rei do Daomé (atual Benin, na África). Entre os africanos escravizados trazidos para o Brasil havia líderes religiosos, políticos e militares, e até mesmo reis, a exemplo deste representado na imagem.

O culto malê era uma combinação de elementos das religiões africanas e dos princípios muçulmanos contidos no Corão (o livro sagrado dos muçulmanos). Os malês não comiam carne de porco, jejuavam às sextas-feiras e, uma vez por ano, faziam uma dieta especial à base de inhame, língua de vaca, arroz, leite e mel. O tempo de duração desse sacrifício é conhecido como Ramadã (mês do jejum muçulmano). Os negros, escravizados ou livres, eram explorados no trabalho, desprezados por sua cor e perseguidos por causa de suas religiões. Todos entraram no Brasil como cativos e tinham motivos de sobra para deixar de lado diferenças de origem e religião e lutar contra seus opressores. A data escolhida foi 25 de janeiro de 1835, um domingo, dia de homenagem a Nossa Senhora da Guia. A luta pela Bahia durou a noite inteira. Agitando espadas, facas e lanças, os negros enfrentaram soldados armados com garruchas, que fugiam do corpo a corpo, atirando neles de dentro do quartel.

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Abadá:

espécie de túnica usada pelos negros.

Dica! Vídeo produzido pelo Centro de Memória da Bahia sobre a Revolta dos Malês. [Duração: 9 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ hk7oy3>.

Max Haack/Prefeitura de Salvador

Ricardo Teles/Pulsar Imagens

Cerca de 50 africanos morreram durante os combates e muitos outros ficaram feridos, vindo a falecer posteriormente. O tribunal que julgou os rebeldes procurou provar a superioridade dos brancos sobre os negros, dos homens de posses sobre os escravos, da religião católica sobre as outras. Qualquer objeto da África encontrado pela polícia baiana era considerado criminoso. Além dos abadás, rosários e escritos religiosos dos malês, as autoridades apreenderam atabaques, colares de búzios, panos da costa, entre outros. Sufocada a rebelião, os vencedores se lançaram à vingança. Em março de 1835, centenas de africanos libertos foram mandados de volta para a África. A maioria voltou para os lugares de onde veio: Lagos, Nigéria e Daomé. Essas pessoas tinham trabalhado muitos anos para conseguir comprar a carta de alforria. Agora, mesmo os considerados inocentes, eram ilegalmente expulsos da Bahia. O objetivo das autoridades, segundo o historiador João José Reis, era o branqueamento da sociedade livre baiana.

Acima, Festa do Nosso Senhor do Bonfim, no Benin, África, 2011. Essa festa organizada por descendentes de brasileiros, os agudás, foi levada para a África por negros que haviam sido escravizados no Brasil. Ao lado, aspecto da Festa do Senhor do Bonfim, na Bahia, 2015. O ritual, que se repete todos os anos desde 1754, reúne milhares de pessoas e acontece sempre na segunda quinta-feira posterior ao Dia de Reis, no mês de janeiro.

A Sabinada Na Bahia, era grande a insatisfação com a política centralizadora do governo instalado no Rio de Janeiro. Os principais motivos dessa insatisfação eram: o envio obrigatório de rendas para o Rio de Janeiro; a necessidade de fornecer soldados para lutar no Sul; e a prolongada crise de abastecimento que provocava carestia e fome. Em Salvador, o jornal Novo Diário da Bahia, do médico e jornalista republicano Francisco Sabino Vieira, o dr. Sabino, intelectual e conhecedor das ideias iluministas, era o principal porta-voz da oposição ao governo. Em 7 de novembro de 1837, reagindo à notícia de que os baianos seriam convocados para lutar contra os farroupilhas, militares rebeldes tomaram o Forte de São Pedro, em Salvador, obrigando o presidente da província a fugir da cidade. Tinha início a Sabinada, revolta cujo nome se deve ao seu principal líder, Francisco Sabino. CAPÍTULO 12 | REGÊNCIAS: A UNIDADE AMEAÇADA

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Rugendas. Séc. XIX. Gravura. Coleção particular

Romulo Fialdini/ Tempo Composto

Os sabinos proclamaram a independência, mas logo declararam que ela duraria somente até a maioridade de Dom Pedro II. A reação partiu do Recôncavo, onde os proprietários locais organizaram um governo paralelo na cidade de Cachoeira. A Bahia passou, então, a ter dois governos: um na cidade de Cachoeira, controlado pelas forças legalistas, e outro em Salvador, comandado pelos sabinos.

A imagem ao lado representa a Praça da Piedade, tendo ao fundo o Convento de Nossa Senhora da Piedade, em Salvador. Produzida por J. M. Rugendas, a imagem mostra vários grupos da sociedade baiana da época da Sabinada. Em detalhe, acima, cadeirinha de arruar, usada para o transporte de pessoas. Em estilo rococó, com assento de madeira, cabeceira de couro, almofada, essa cadeira encontra-se no Museu Paulista da Universidade de São Paulo.

O governo central então decidiu agir: enviou forças que se juntaram às do Recôncavo e cercaram Salvador por terra, enquanto a Marinha Imperial bloqueava a cidade por mar. Diante do cerco a Salvador e da falta de alimentos, os rebeldes convocaram os escravizados para lutar ao lado deles. Muitos, porém, não atenderam a esse apelo, pois não viam a Sabinada como uma luta deles. De sua parte, muitos proprietários, assustados com a possibilidade de perder seus escravos, passaram a defender o governo central. Com cerca de 4 mil homens, as forças legalistas invadiram a capital baiana e promoveram um verdadeiro massacre. O tribunal que julgou os sabinos ficou conhecido como “júri de sangue”, pois os condenou em massa. Francisco Sabino Vieira foi expulso da Bahia com os outros líderes que sobreviveram ao massacre.

A Balaiada Dica! Comentário do escritor e jornalista Eduardo Bueno a respeito da Sabinada. [Duração: 2 minutos.] Acesse: <http://tub.im/t7sp9i>.

Ocorrida nas terras do atual Maranhão e do Piauí, entre 1838 e 1841, a Balaiada teve suas raízes na luta da população pobre contra a opressão, na luta dos políticos provinciais por autonomia em relação ao Império, nos conflitos por hegemonia na respectiva província e também nas dificuldades econômicas enfrentadas pelo Nordeste no período regencial. As principais dificuldades eram: » o algodão, principal produto maranhense de exportação, vinha perdendo mercado para o algodão do sul dos Estados Unidos. Na década de 1820, o algodão maranhense representava 20,6% do total das exportações brasileiras; no decênio seguinte, caiu para 10,8% desse total;

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» o controle do comércio local pelos portugueses e do comércio exterior pelos ingleses. Esse controle limitava a concorrência, mantinha os preços dos alimentos elevados e prejudicava as manufaturas locais; » a sobrecarga dos escravizados. Cerca de metade da população era de escravos, que tinham de fazer o serviço de muitas pessoas, pois a crise atingia o bolso dos seus senhores e sobrava menos dinheiro para a reposição de mão de obra. Com isso, multiplicavam-se as fugas, e os quilombos cresciam. Quando o regente Araújo Lima foi eleito, os conservadores assumiram os principais postos no Maranhão, inclusive o de presidente da província, passando a usar o recrutamento forçado para enfraquecer os liberais, apelidados na região de bem-te-vis. Nesse contexto, um grupo armado chefiado pelo vaqueiro Raimundo Gomes assaltou a cadeia da Vila do Manga e libertou vários companheiros que estavam presos. A seguir, o grupo lançou um manifesto em que se declarava inimigo dos portugueses e exigia a demissão do presidente da província. Enquanto o grupo de Raimundo Gomes percorria o interior apoderando-se de várias localidades, o movimento ganhava novos líderes, a exemplo do artesão mestiço Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, o Balaio, e o negro Cosme Bento das Chagas, que liderava 3 mil quilombolas fugidos das fazendas maranhenses. Fortalecidos, em meados de 1839, os balaios conquistaram Caxias, a segunda maior cidade do Maranhão, e avançaram em direção ao Piauí, onde, com a ajuda da população local, venceram tropas oficiais enviadas para combatê-los. Inicialmente, os políticos liberais incentivaram os balaios, ao mesmo tempo Balaio: cesto de palha ou que culpavam os conservadores pela “desordem”; esperavam, com isso, desalode outro material. já-los do poder nas próximas eleições. Mas, quando viram que a capital maranhense seria invadida pelos balaios, os liberais se juntaram aos conservadores para pedir reforços ao governo central. Este enviou para o Maranhão cerca de 8 mil homens sob o comando de Luís Dica! Reportagem Alves de Lima e Silva. A repressão ao movimento efetuou torturas, prisões e sobre a importância milhares de execuções sem direito à defesa. Calcula-se que cerca de 11 mil histórica da Balaiada balaios tenham morrido em combate com as tropas imperiais. Quanto aos líde- nos dias atuais. [Duração: 4 minutos.] res, Manuel Francisco dos Anjos morreu lutando, Raimundo Gomes foi expulso Acesse: <http://tub. do Maranhão e Cosme Bento das Chagas acabou preso e enforcado em praça im/ygusg7>. pública para servir de exemplo aos que ousassem desafiar as elites imperiais. Cesar Diniz/Pulsar Imagens

Moisés Saba/Fotoarena

À esquerda, no jardim do Memorial, vê-se a estátua do vaqueiro Raimundo Gomes. Repare que a obra está protegida por uma cerca, provavelmente porque depredações de monumentos têm sido comuns em todo o Brasil. Fotografia de 2014. Abaixo, fachada do Memorial da Balaiada, em Caxias, no Maranhão.

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1. a) Em 1831, D. Pedro I abdicou do trono em favor de seu filho Pedro de Alcântara, que tinha apenas 5 anos de idade. Esse momento representou a consolidação de um processo de rompimento com a Coroa portuguesa, uma vez que o Brasil passou a ser governado por brasileiros.

ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (UFMG – 2013) Leia o trecho: O sete de abril de 1831, mais do que o sete de setembro de 1822, representou a verdadeira independência nacional, o início do governo do país por si mesmo, a Coroa agora representada apenas pela figura quase simbólica de uma criança de cinco anos. O governo do país por si mesmo [...] revelou-se difícil e conturbado. Rebeliões e revoltas pipocaram por todo o país, algumas lideradas por grupos de elite, outras pela população tanto urbana como rural, outras ainda por escravos. CARVALHO, J. Murilo et al. Documentação política, 1808-1840. Brasiliana da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/Nova Fronteira, 2011. s/p.

a) Explique o sentido da frase considerando o seu contexto histórico: “a Coroa agora representada apenas pela figura quase simbólica de uma criança de cinco anos”. b) Apresente dois fatores que contribuíram para as conturbações políticas e sociais que levaram às rebeliões e às revoltas do período. 2. (UFV-MG) Observe a imagem abaixo:

b) objetivava o controle da Corte e da burocracia imperial, alvos frequentes de manifestações populares de descontentamento. c) tinha por finalidade a garantia da segurança e da ordem, defendendo a Constituição, a obediência às leis e a integridade do Império. d) atuava na defesa das fronteiras externas brasileiras, impedindo a expansão dos países platinos em direção ao território brasileiro. 3. (UFRGS-RS – 2014) Durante a regência de Araújo Lima (1837-1840), foram criadas algumas instituições político-culturais, com o objetivo de produzir uma história da nação, que conferisse aos brasileiros um sentimento de pertencimento e de nacionalidade, e assim de auxiliar na centralização e fortalecimento do Estado. Uma dessas instituições foi a) a Guarda Nacional.

3. Resposta: b.

b) o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. c) a Academia Imperial de Belas Artes. d) a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.

Brito e Braga. Séc. XIX. Coleção particular

e) a Academia Brasileira de Letras. 4. (UFC-CE) O período regencial brasileiro (18311840) foi marcado por rebeliões e revoltas, em várias províncias, que expressavam as diferentes lutas políticas e sociais. Em relação à composição dos grupos que participaram da Cabanagem (1835-1840), assinale a alternativa correta.

Brito e Braga, Batalhão de Fuzileiros da Guarda Nacional (1840-1845). Disponível em: http://www.multirio.rj.gov.br/historia. Acesso em: 30 jul. 2009.

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Com relação à Guarda Nacional, criada durante o Império, é CORRETO afirmar que: 2. Resposta: c. a) funcionava como única força armada que podia defender os interesses dos escravistas e coibir a fuga dos escravos.

a) As elites agrárias atuaram no movimento, defendendo uma partilha de terras que incluísse os camponeses. b) Os grupos letrados envolvidos no conflito lutavam em favor da construção de um império único, envolvendo Brasil e Portugal.

1. b) Entre os fatores que contribuíram para as conturbações políticas e sociais do período podemos citar a luta de indígenas, mestiços, negros e brancos pobres por liberdade e melhores condições de vida e o desejo de as elites das províncias terem maior autonomia diante do poder imperial.

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c) Os estrangeiros foram os condutores desses movimentos e expressavam o desagravo em relação ao poder comercial controlado pelos holandeses. d) Os militares revoltosos lutaram contra as elites, pois eram a favor da abolição da escravatura. e) Os elementos oriundos das camadas mais pobres tiveram papel de destaque na liderança do movimento. 4. Resposta: e. 5. (Unesp-SP) A Revolução Farroupilha foi um dos movimentos armados contrários ao poder central no Período Regencial brasileiro (1831-1840). O movimento dos Farrapos teve algumas particularidades, quando comparado aos demais. Em nome do povo do Rio Grande, depus o governador Braga e entreguei o governo ao seu substituto legal Marciano Ribeiro. E em nome do Rio Grande do Sul eu lhe digo que nesta província extrema [...] não toleramos imposições humilhantes, nem insultos de qualquer espécie. [...] O Rio Grande é a sentinela do Brasil, que olha vigilante para o Rio da Prata. Merece, pois, maior consideração e respeito. Não pode e nem deve ser oprimido pelo despotismo. Exigimos que o governo imperial nos dê um governador de nossa confiança, que olhe pelos nossos interesses, pelo nosso progresso, pela nossa dignidade, ou nos separaremos do centro e com a espada na mão saberemos morrer com honra, ou viver com liberdade. Bento Gonçalves [carta ao Regente Feijó, setembro de 1835] apud Sandra Jatahy Pesavento. A Revolução Farroupilha, 1986.

Entre os motivos da Revolução Farroupilha, podemos citar: a) o desejo rio-grandense de maior autonomia política e econômica da província frente ao poder imperial, sediado no Rio de Janeiro. 5. Resposta: a. b) a incorporação, ao território brasileiro, da Província Cisplatina, que passou a concorrer com os gaúchos pelo controle do mercado interno do charque. c) a dificuldade de controle e vigilância da fronteira sul do império, que representava constante ameaça de invasão espanhola e platina. d) a proteção do charque rio-grandense pela Corte, evitando a concorrência do charque estrangeiro e garantindo os baixos preços dos produtos locais. e) a destruição das lavouras gaúchas pelas guerras de independência na região do Prata e a decorrente redução da produção agrícola no Sul do Brasil. 6. A historiadora Claudete Dias Soares escreveu um importante livro demonstrando a participação do Piauí na Balaiada. Os versos a seguir foram retirados desse livro. O que esses versos sugerem? O balaio entrou! O balaio entrou! Cadê o branco? Não há mais branco! Não há mais branco! SOARES, Claudete Maria Miranda Dias. Balaios e bem-te-vis: a guerrilha sertaneja. Teresina: Instituto Dom Barreto, 2002. p. 117. 6. Os versos sugerem que a luta dos balaios se voltou também contra o escravismo e o racismo presentes na sociedade maranhense daquela época. [Como observou uma historiadora: “Em seu momento de maior radicalização, os balaios vão priorizar a reivindicação de direitos iguais para o ‘povo de cor’ (tanto ‘cabras’ quanto ‘caboclos’) [...]” (MATTOS, Hebe Maria. Escravidão e cidadania no Brasil monárquico. p. 28).]

II. Integrando com Língua Portuguesa

O Romantismo é um estilo de arte que fez sua estreia no Brasil em 1836 com a obra Suspiros poéticos e saudades, do carioca Gonçalves de Magalhães. Na época, o Brasil vivia sob a regência do padre Feijó; e no campo da cultura buscava afirmar sua independência. Veja o que se diz sobre o início do Romantismo no Brasil: CAPÍTULO 12 | REGÊNCIAS: A UNIDADE AMEAÇADA

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No Brasil, o início do Romantismo caracteriza-se principalmente pelo tom ufanista em relação à nação brasileira, venerada em sua natureza exuberante e representada por heróis e heroínas indígenas. Em verso e prosa, louvaram-se as façanhas de índios idealizados pelos escritores, que foram tratados na literatura como protagonistas dos primeiros momentos de nossa história. Esse viés [...] caracterizou os poemas da primeira fase do Romantismo Indianismo:

no Romantismo brasileiro, a valorização do índio como um elemento diferenciador da identidade nacional.

e se manifestou também em inúmeros romances indianistas publicados ao longo do século XIX. Assim, a literatura romântica ajudou a determinar e difundir os símbolos representativos da jovem nação brasileira, que recentemente havia conseguido sua liberdade política da metrópole portuguesa, em 1822. TORRALVO, Izeti Fragata; MINCHILLO, Carlos Cortez. Linguagem em movimento. São Paulo: FTD, 2010. p. 32.

A “Canção do exílio”, do poeta maranhense Gonçalves Dias, tornou-se símbolo da nacionalidade. Leia-a com atenção. Minha terra tem palmeiras,

Minha terra tem primores,

Onde canta o Sabiá;

Que tais não encontro eu cá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Em cismar – sozinho, à noite –

Não gorjeiam como lá.

Mais prazer encontro eu lá;

Nosso céu tem mais estrelas,

Minha terra tem palmeiras,

Nossas várzeas têm mais flores,

Onde canta o Sabiá.

Nossos bosques têm mais vida,

Não permita Deus que eu morra,

Nossa vida mais amores.

Sem que eu volte para lá;

Em cismar, sozinho, à noite,

Sem que desfrute os primores

Mais prazer encontro eu lá;

Que não encontro por cá;

Minha terra tem palmeiras,

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Onde canta o Sabiá.

DIAS, Gonçalves. Poesia completa e prosa escolhida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1959. p. 103.

a) Qual o tema da “Canção do exílio”?

PROFESSOR, VER MANUAL.

b) Trechos da “Canção do exílio” foram incorporados ao Hino Nacional. Você saberia dizer quais? c) Segundo o texto citado, “o início do Romantismo caracteriza-se principalmente pelo tom ufanista”. c1) Procure no dicionário o significado do substantivo ufanismo e transcreva-o no seu caderno. c2) Encontre um ou mais exemplos desse sentimento na “Canção do exílio”. d) Em dupla: A “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, é o poema romântico mais citado e parodiado (reescrito com intenção satírica) da literatura brasileira. Pesquisem e transcrevam um exemplo dessa afirmação.

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Cesar Diniz/Pulsar Imagens

Cesar Diniz/Pulsar Imagens

Capítulo 13

Modernização, mão de obra e guerra no Segundo Reinado

Vista do interior da casa-grande da Fazenda Boa Vista, em Bananal, cidade do Vale do Paraíba paulista, 2011.

Professor: essa e outras centenas de fazendas do Vale do Paraíba são documentos materiais do enorme poder que os cafeicultores da região tiveram nos tempos do Império. Em geral, o capital empregado na construção ou reconstrução dessas casas era originário da venda de café para o exterior, café este produzido e transportado por africanos escravizados trazidos aos milhares pelo tráfico atlântico. Sugerimos comentar que a Fazenda Boa Vista é um importante ponto turístico do Vale do Paraíba na atualidade.

Vista externa da mesma casa-grande, 2011. Na fotografia é possível observar seus vários cômodos.

A Fazenda Boa Vista está localizada em Bananal, cidade do Vale do Paraíba paulista, e é hoje um hotel que recebe pessoas de várias partes do Brasil e do mundo. Por volta de 1840, quando D. Pedro II começou a reinar, o café era a principal riqueza dessas terras.

» O que as imagens deste monumento do Brasil-Império mostram e o que escondem? » Com que recursos esta fazenda foi construída ou reconstruída? » Quem trabalhava nas terras dessa fazenda por volta de 1840? CAPÍTULO 13 | MODERNIZAÇÃO, MÃO DE OBRA E GUERRA NO SEGUNDO REINADO

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Félix Émile Taunay. 1838. Óleo sobre tela. Museu Imperial

O golpe da maioridade

Imagem de Dom Pedro com 12 anos de idade; repare que, antes mesmo de assumir o trono, ele é mostrado como comandante em chefe das Forças Armadas. Dois anos depois, com 15 anos incompletos, ele assumiu o poder. Justiça:

pela Reforma do Código do Processo Criminal, aprovada em 3 de dezembro de 1841, o ministro da Justiça – como representante do imperador – passava a ser responsável pela nomeação dos chefes de polícia, dos comandantes da Guarda Nacional e de quase todos os magistrados.

DIALOGANDO

Angelo Agostini. Séc. XIX. Coleção particular

Observe a charge de Angelo Agostini. a) Quem seriam os “cascudos” mostrados na charge? b) O que a charge ironiza?

Interessados em derrubar os conservadores e manter privilégios ameaçados por rebeliões, como a Balaiada e a Farroupilha, os liberais passaram a divulgar que só um imperador poderia “salvar a nação” da desordem. Como Pedro de Alcântara contava com apenas 14 anos, eles lançaram uma campanha em jornais e revistas em prol da antecipação da maioridade, que logo ganhou o apoio de boa parte da população. Em pouco tempo, as manobras dos liberais e a força da propaganda surtiram efeito. Em 23 de julho de 1840, a Assembleia votou a maioridade de Dom Pedro de Alcântara e o aclamou imperador do Brasil. Com o Golpe da Maioridade e a ascensão dos liberais ao poder, iniciava-se o reinado de Dom Pedro II, que se estendeu por quase meio século (1840-1889).

Eleições: violência e fraude No poder, os liberais praticaram todo tipo de fraude para garantir a vitória nas eleições para a Câmara dos Deputados: pagaram valentões para surrar eleitores, roubaram urnas e qualificaram crianças, escravizados e defuntos como eleitores. Com isso, venceram as eleições que, por incluírem a violência, ficaram conhecidas como eleições do cacete. Derrotados, os conservadores pressionaram o imperador para que anulasse as eleições. Ele o fez e, a seguir, inaugurou o rodízio entre os partidos, nomeando, em 1841, um novo ministério de perfil conservador que deu continuidade à centralização política, aumentando a força do Estado sobre a Justiça e a polícia nas províncias.

Dica! Documentário sobre a vida de D. Pedro II. [Duração: 30 minutos]. Acesse: <http://tub.im/64rtcj>.

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a) Os cascudos eram os membros do Partido Conservador. b) A charge ironiza o uso da violência nas disputas entre liberais e conservadores. Professor: comentar que a violência e a fraude foram usadas tanto pelos liberais quanto pelos conservadores.

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As revoltas liberais de 1842 Alijados do poder, os liberais pegaram em armas nas chamadas Revoltas Liberais de 1842. Em São Paulo, foram liderados por Feijó; em Minas, por Teófilo Otoni; e, no Vale do Paraíba fluminense, por Joaquim José de Souza Breves, cafeicultor e proprietário de 30 fazendas e 6 mil escravizados. Sem conseguir ampliar suas bases de apoio, a revolta foi derrotada pelas forças legalistas, comandadas por Duque de Caxias. Seus principais líderes foram deportados para Portugal. Dois anos depois, no entanto, decretou-se a anistia geral.

A Rebelião Praieira

Dica! Reportagem sobre o município de Silveiras (SP), palco de algumas revoltas liberais de 1842. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ xq3xmr>.

Francisco Henrique Carls. 1873. Gravura. Coleção particular

Cavalcanti: Em Pernambuco, durante boa parte da história do Império, o poder esteve eram donos de um nas mãos das famílias tradicionais. Duas dessas famílias, os Rego-Barros e terço dos engenhos pernambucanos. os Cavalcanti, unidas por laços de parentesco, governaram a província de Havia pessoas dessa 1837 a 1844. Durante esse período, usaram o poder público em favor de seus família tanto no Partido interesses, além de colocar seus familiares nos principais cargos públicos, Liberal quanto no gerando assim grande descontentamento popular. Conservador que, em Pernambuco, Outro fator de insatisfação entre os pernambucanos era o controle que tinha seus membros os portugueses exerciam sobre o comércio varejista: em 1844, das 77 casas apelidados de gabiru comerciais, apenas 23 eram de brasileiros. Além disso, os comerciantes (rato grande). portugueses empregavam quase sempre os seus patrícios, o que também era causa de muitos ressentimentos. Com a disposição de arrebatar o poder das mãos das famílias tradicionais, um grupo de liberais formou um novo partido político, o Partido da Praia, assim chamado porque a sede de seu principal jornal, o Diário Novo, ficava na Rua da Esta gravura

do século XIX é um indício de que a sociedade pernambucana dos tempos da Revolução Praieira era altamente hierarquizada. Ao centro, vemos escravizados trabalhando descalços. Na calçada da esquerda, um bacharel com fraque e cartola; na da direita, um homem, que parece ser um fazendeiro, conversando com uma senhora da elite.

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Praia, no Recife. Outros impressos, como o jornal O Repúblico, de Antônio Borges da Fonseca, e a revista O Progresso, de Antônio Pedro de Figueiredo, também clamavam por mudanças sociais. Em 1845, ao ser nomeado presidente da província, o liberal Antônio Chichorro da Gama substituiu 600 autoridades locais, ofereceu cargos aos praieiros e ampliou as bases de seu poder. Anos depois, os conservadores ascenderam ao poder e partiram para o revide. Em 1848, quando 40 proprietários rurais, ligados aos praieiros, foram demitidos e recusaram-se a entregar os cargos na polícia e as armas, teve início a Revolução Praieira. O motivo imediato da Praieira, portanto, foi a disputa de cargos públicos na província de Pernambuco: a luta pelo poder local. A luta começou em Olinda e se estendeu à Paraíba, reunindo trabalhadores temporários, pequenos lavradores, rendeiros e desempregados sob o comando dos senhores de engenho. A Praieira foi influenciada também pela Revolução de fevereiro de 1848, na França, onde vicejavam ideias liberais e socialistas. Algumas dessas ideias estão presentes no Manifesto ao Mundo, de 1o de janeiro de 1849, redigido pelo jornalista Borges da Fonseca durante a luta. No manifesto ele expôs as exigências mais radicais feitas durante a revolta: » o voto livre e universal do povo brasileiro; » a plena liberdade de comunicar os pensamentos por meio da imprensa; » o trabalho como garantia de vida para o cidadão brasileiro; » o comércio a retalho só para cidadãos brasileiros; » a inteira e efetiva independência dos poderes constituídos; » a extinção do Poder Moderador. No campo militar, os praieiros comandados pelo capitão Pedro Ivo, por Felix de Brito Melo ou pelo crioulo Elias, líderes populares da revolta, conseguiram algumas vitórias. Ao tentarem conquistar Recife, no entanto, foram derrotados pelas tropas imperiais. Os principais líderes foram condenados à prisão perpétua, mas acabaram anistiados em 1852. Com a Praieira encerrou-se, por assim dizer, o ciclo de revoltas ocorridas no Império entre 1831 e 1850, e teve início um período marcado por progresso econômico e certa estabilidade política.

O poder do monarca no Império Brasileiro Presidente do Conselho de Ministros:

cargo equivalente ao de primeiro-ministro que foi criado por D. Pedro II em 1847.

Dica! Documentário sobre D. Pedro II. [Duração: 30 minutos]. Acesse: <http://tub. im/89nojh>.

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A constituição do Império, outorgada em 1824, possibilitava ao imperador a concentração de uma enorme soma de poder em suas mãos. O imperador podia dissolver a Câmara e convocar eleições para renová-la; nomear presidentes de província; convocar as Forças Armadas; aprovar ou vetar as decisões da Câmara e do Senado, e perdoar sentenças dadas pelo poder Judiciário. Era o imperador também quem indicava o presidente do Conselho de Ministros. Este, por sua vez, escolhia o ministério (ou gabinete) e o apresentava à Câmara dos Deputados. Se o ministério fosse aprovado pela Câmara, passava a exercer o Poder Executivo. Se fosse reprovado, a decisão caberia a Dom Pedro II, que, geralmente, dissolvia a Câmara e marcava novas eleições, conseguindo, assim, impor sua vontade. Por isso, o historiador José Murilo de Carvalho caracterizou a política imperial como um teatro de sombras. Tanto os políticos quanto as instituições estavam submetidos ao imperador.

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Os dois grandes partidos do reinado de Dom Pedro II – o Liberal e o Conservador – representavam as elites do Império e tinham, entre si, muitos pontos em comum, a saber: o interesse na manutenção da ordem, do escravismo, da unidade territorial e das autoridades constituídas. Tanto uns quanto outros tinham interesse na estabilidade do regime, que mantinha seus privilégios e excluía a maioria da vida política nacional. Isso ajuda a explicar por que o político pernambucano Holanda Cavalcanti afirmou: “Nada tão parecido com um saquarema quanto um luzia no poder”. Era comum também os políticos mudarem de um partido para outro. Havia também algumas diferenças entre eles: os liberais eram favoráveis à descentralização e à maior autonomia das províncias. Já os conservadores defendiam a centralização política como condição para impor a ordem. No entanto, as semelhanças entre eles eram maiores que as Imagem de Dom Pedro II distribuindo favores a diferenças. Prova disso é que, durante o Segundo políticos: prática habitual no Império brasileiro. Reinado, liberais e conservadores chegaram a governar juntos, compondo um mesmo ministério: Saquarema: o Ministério de Conciliação (1853-1857). Esse jogo de alternâncias apelido dado aos conservadores, em função do município e alianças contribuiu para a estabilidade e a longevidade do Império.

Economia do Segundo Reinado A partir de 1834 – quando superou o açúcar como principal produto de exportação brasileiro –, o café uniu o centro político ao centro econômico, contribuindo, assim, para a consolidação do Estado imperial.

O café assume a liderança Introduzido no Brasil via Belém, no Pará, por volta de 1727, o cafeeiro nos primeiros tempos era considerado planta de quintal e servia apenas ao consumo doméstico. No final do século XVIII, os cafezais ocuparam as encostas próximas ao Rio de Janeiro e, em seguida, avançaram pelas terras do Vale do Paraíba fluminense e paulista, o berço da cafeicultura comercial brasileira.

fluminense de Saquarema, no qual os líderes do partido tinham terras e escravizados.

Luzia:

apelido dado aos liberais por ter sido Santa Luzia (MG) o lugar em que eles sofreram sua maior derrota, em 1842.

Dica! Documentário sobre os imigrantes nas plantações de café no norte do Paraná. [Duração total: 19 minutos]. Dividido em duas partes. Para a primeira parte, acesse: <http://tub.im/wb6ipr>.

CAPÍTULO 13 | MODERNIZAÇÃO, MÃO DE OBRA E GUERRA NO SEGUNDO REINADO

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Angelo Agostini. 1886. Desenho. Coleção particular

Os partidos do Império: diferenças e semelhanças

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Thomas Crane. 1882. Desenho. Coleção particular. Foto: Culture Club/Getty Images

Desenho de 1882 mostrando uma família inglesa, em férias, tomando café ao ar livre em um parque de Paris, na França; note que o garçom serve a família que, pelos trajes, parece ser rica.

Na década de 1820, o café tornou-se o terceiro produto da pauta das exportações brasileiras (18,4%), só perdendo para o açúcar (30,1%) e para o algodão (20,6%). Na década de 1830, passou a ser o principal produto brasileiro de exportação (43%) e, na segunda metade do século XIX, chegou a responder por mais de 60% das exportações brasileiras. A expansão da cafeicultura no Vale do Paraíba pode ser explicada pelos seguintes fatores: » abundância de terra e mão de obra escravizada: a terra foi concedida por D. João VI aos cafeicultores em forma de sesmarias e o trabalho cabia aos milhares de africanos escravizados trazidos pelo tráfico atlântico; » mercado externo em expansão: o hábito de beber café tornou-se moda na Europa e nos Estados Unidos, o que gerou um aumento da demanda internacional do produto; » o cafeeiro podia durar 30 anos ou mais, enquanto a cana tinha de ser replantada a cada três anos; » o café se deteriorava menos do que a cana durante o transporte. Da década de 1830 até a de 1880, o café produzido no Vale do Paraíba fluminense e paulista tornou-se a principal riqueza do Império. Daí a expressão muito usada na época: “O Brasil é o Vale”. Enriquecidos, os cafeicultores do Vale, conhecidos como “barões do café”, foram a principal base de sustentação política do Império. Nas fazendas, a mão de obra predominante foi a de africanos escravizados e seus descendentes. Observe a imagem:

Marc Ferrez /Coleção Gilberto Ferrez /Acervo Instituto Moreira Salles

A imagem, de cerca de 1885, mostra escravizados com peneiras e outros instrumentos de trabalho saindo para a colheita de café em fazenda do Vale do Paraíba.

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O Vale do Paraíba foi próspero enquanto produziu café. Em pouco tempo, o desmatamento e a erosão (desgaste da terra pela ação da água das chuvas e outros agentes) foram esgotando o solo. Nessa região, os arbustos de café eram plantados em terrenos altos e muito inclinados. Sem a proteção das árvores na época das chuvas, a enxurrada acabava arrastando a camada fértil do solo. Conforme o solo ia se esgotando, os cafezais seguiam em busca de terras férteis. Partiam, deixando para trás “cidades mortas”, como escreveu Monteiro Lobato. Aos poucos, os cafezais foram deixando o Vale do Paraíba e ocupando o Oeste Paulista, onde o café encontrou a “terra roxa”, solo fértil e ideal para o seu crescimento. Em 1870, a cidade de Campinas, em São Paulo, já produzia mais café do que a cidade de Vassouras, líder do Vale do Paraíba, e pelo porto da cidade de Santos, também em São Paulo, já se exportava mais café do que pelo porto do Rio de Janeiro. Em alguns anos, as ondas verdes de café já cobriam o trecho que vai de Campinas a 1e2 Ribeirão Preto.

1. Dica! Documentário abordando a importância do café na história de São Paulo. [Duração: 28 minutos]. Acesse: <http://tub. im/3ti5jy>. 2. Dica! Documentário que aborda o impacto da produção do café na São Paulo do século XIX. [Duração: 27 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ kqfwuc>.

Allmaps

A expansão cafeeira (séculos XIX e XX)

Fonte: RODRIGUES, João Antonio. Atlas para Estudos Sociais. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1977. p. 26.

Acompanhe a expansão das fazendas de café durante os séculos XIX e XX. Em 1819, o Nordeste concentrava 51,2% da população escravizada do país; em 1870, a maioria dos escravizados (quase 60%) trabalhava no Sudeste.

CAPÍTULO 13 | MODERNIZAÇÃO, MÃO DE OBRA E GUERRA NO SEGUNDO REINADO

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Outros importantes produtos brasileiros de exportação no século XIX, além do café, foram o açúcar, o algodão, couros, peles e a borracha.

Açúcar, algodão e borracha

Dica! Reportagem sobre o apogeu e a queda da produção de borracha na Amazônia. [Duração: 21 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ o3sgid>.

O açúcar ocupou o segundo lugar na pauta das exportações brasileiras durante boa parte do século XIX (entre 1861-1870 ele foi ultrapassado pelo algodão). Na época, o açúcar brasileiro passou a sofrer a concorrência do açúcar extraído da beterraba, produzido na Europa, e também do açúcar de cana, fabricado nas ilhas do Caribe, especialmente em Cuba. Desde os tempos coloniais, o algodão era cultivado sobretudo no Maranhão, em Pernambuco, em Alagoas e na Paraíba. No século XIX, a guerra civil estadunidense (1861-1865) desorganizou a produção algodoeira do sul dos Estados Unidos e possibilitou uma rápida ascensão do algodão brasileiro que, então, passou ao segundo lugar nas exportações brasileiras. Produzida na Amazônia e vendida para o exterior, a borracha servia, principalmente, de matéria-prima na fabricação de pneus para a nascente indústria automobilística. Como se pode observar na tabela a seguir, o boom da borracha começou na penúltima década do século XIX. PRINCIPAIS PRODUTOS DE EXPORTAÇÕES (1820-1890) (PORCENTAGEM SOBRE O VALOR DA EXPORTAÇÃO)

Produtos

1821/30

1831/40

1841/50

1851/60

1861/70

1871/80

1881/90

Café

18,4

43,8

41,4

48,8

45,5

56,6

61,5

Açúcar

30,1

24,0

26,7

21,2

12,3

11,8

9,9

Cacau

0,5

0,6

1,0

1,0

0,9

1,2

1,6

Fumo

2,5

1,9

1,8

2,6

3,0

3,4

2,7

Algodão

20,6

10,8

7,5

6,2

18,3

9,5

4,2

Borracha

0,1

0,3

0,4

2,3

3,1

5,5

8,0

Couros e peles

13,6

7,9

8,5

7,2

6,0

5,6

3,2

Total

85,8

89,3

87,3

89,3

89,1

93,6

91,1

Fonte de pesquisa: FAUSTO, Boris. História do Brasil. 6. ed. São Paulo: Edusp, 1998. p. 191.

Modernização no Império Um dos fatores de modernização do Império na segunda metade do século XIX foi a construção de uma malha ferroviária que agilizou o transporte de mercadorias brasileiras até os portos do litoral. Com apenas 14 km de extensão, a primeira ferrovia foi uma iniciativa do empresário brasileiro Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, em 1854, e ligava a baía de Guanabara à Serra de Petrópolis, no Rio de Janeiro. No Nordeste, a necessidade de escoamento da produção agrícola,

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sobretudo a de açúcar, estimulou um empreendimento pioneiro financiado por capitais ingleses: a construção da Recife and São Francisco Railway, iniciada em Pernambuco, em 1855. Três anos depois era inaugurada esta que é a segunda ferrovia brasileira, e que ligava a capital de Pernambuco ao município do Cabo.

Café e ferrovias

Marc Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles

Já no Centro-Sul, quase toda a malha ferroviária foi construída visando ao escoamento do café. Pensando em agilizar o transporte desse produto, o Barão de Mauá planejou a construção de uma ferrovia ligando Jundiaí a Santos, passando pela cidade de São Paulo. O plano de Mauá se concretizou em 1868, com a inauguração da São Paulo Railway. Os capitais, os técnicos e os materiais usados na construção dessa importante ferrovia eram, no entanto, predominantemente ingleses. A partir de Jundiaí, o avanço dos trilhos foi inteiramente financiado por capitais brasileiros, principalmente dos cafeicultores do Oeste Paulista, que pensavam como empresários: compravam terras, importavam máquinas e investiam na expansão das ferrovias. Assim, conforme as “ondas verdes de café” avançavam, ia se multiplicando o número de ferrovias, como a Paulista, a Mogiana, a São Paulo-Rio e a Ituana. Essa malha ferroviária abriu o interior de São Paulo à cultura do café, diminuiu o custo do transporte, aumentou os lucros dos cafeicultores e transformou o porto de Santos em um grande centro de comercialização do produto. Os grandes fazendeiros deixavam suas fazendas sob a responsabilidade de administradores e construíam casas nas cidades, onde abriam negócios, estimulando, assim, a urbanização e a modernização.

São Paulo Railway:

ela foi chamada também de Estrada de Ferro Santos-Jundiaí.

Trecho da São Paulo Railway, no topo da Serra do Mar em uma fotografia de Marc Ferrez, 1895. No quarto mês de funcionamento, a ferrovia já permitia aos ingleses um lucro de 300%. Com a construção da Santos-Jundiaí, os ingleses garantiram uma posição estratégica que lhes assegurava o controle do escoamento de todo o café produzido no interior paulista.

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A Tarifa Alves Branco e a Lei Eusébio de Queirós

Ismar Ingber/Pulsar Imagens

Sebastien Auguste Sisson. 1859. Litogravura. Coleção particular

Dica! Vídeo didático explicando a Lei Eusébio de Queirós. [Duração: 3 minutos]. Acesse: <http://tub. im/y7ew3w>.

O surto de modernização do Império contou também com a Tarifa Alves Branco (1844) e a Lei Eusébio de Queirós (1850). A Tarifa Alves Branco aumentou os impostos sobre cerca de 3 mil produtos importados. Esses produtos, que antes pagavam 15%, passaram a pagar de 30% a 60% de imposto nas alfândegas brasileiras. Com isso, aumentaram as rendas do governo. A Lei Eusébio de Queirós, por sua vez, proibiu a importação de escravizados, liberando capitais antes usados na sua reposição. Os capitais oriundos do café e parte do capital gasto anteriormente na compra de escravizados passaram a ser aplicados no setor industrial, financeiro e de transportes, dinamizando, com isso, a economia. Foram inauguradas, então, dezenas de indústrias (de tecidos, chapéus, cervejas), várias companhias de seguros, navegação a vapor, estradas de ferro, bancos, empresas de mineração, de transportes urbanos e de gás. O Barão de Mauá, que tinha capital investido em muitas dessas empresas, projetou-se como o maior empresário do Império. Uma das principais iniciativas de Mauá foi a compra de uma pequena fundição e estaleiro com o nome de Ponta da Areia (1846), em Niterói, no Rio de Janeiro. Em pouco tempo, o estabelecimento já fabricava tubos para encanamentos, navios a vapor e trilhos de ferro. Outra importante empresa de Mauá foi a Companhia de Iluminação a Gás da cidade do Rio de Janeiro, que, a partir de 1854, passou a fornecer luz para as ruas e residências da capital do Império.

À esquerda, uma representação do barão de Mauá, empresário pioneiro em várias áreas de negócio no Brasil imperial. Acima, a casa desse barão em Petrópolis (RJ), que hoje abriga a Secretaria de Educação da cidade, 2012.

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A questão da mão de obra no Império

S éc. X I X . G

r av u

r

ar

a. C ole A Inglaterra acumulou enormes lucros com o comércio de africanos çã op pelo Atlântico durante os séculos XVII e XVIII, mas no século XIX passou a combater duramente o tráfico e a escravidão. O que teria levado o governo inglês a essa mudança de atitude? Primeiramente, os interesses da Inglaterra – país líder da Revolução Industrial – em ampliar os mercados consumidores de seus produtos. Com o fim da escravidão, o dinheiro gasto na compra de escravizados poderia ser utilizado na aquisição de manufaturados. Além disso, desde a abertura dos portos, a Inglaterra mantinha um intenso comércio com o Brasil, que se multiplicaria se os trabalhadores brasileiros passassem a receber salários. Acompanhe agora o cronograma sobre a questão pelo fim do tráfico de Tumbeiro (nome dado aos escravizados e a reação do governo brasileiro diante da pressão inglesa: navios negreiros » 1827: A Inglaterra exigiu que o governo de Dom Pedro I extinguisse usados no Brasil o tráfico negreiro no prazo de três anos, como condição para recopor causa da alta taxa de mortalidade nhecer a emancipação política do Brasil. dos escravizados » 1831: Uma lei brasileira declara ilegal o comércio de escravizados transportados) para o Brasil. Essa lei, no entanto, permaneceu letra morta, isto é, sendo atacado pela marinha inglesa, sem valia. em uma gravura do » 1845: O Parlamento inglês aprovou a Bill Aberdeen, lei proposta pelo século XIX. ministro inglês George Aberdeen que autorizava a Marinha inglesa a prender ou bombardear ANO No DE ESCRAVIZADOS os navios negreiros, e a levar os contraventores 19 453 1845 para serem julgados na Inglaterra. A Bill Aberdeen foi uma represália à Tarifa Alves Branco, 50 325 1846 que elevava as taxas sobre os produtos importa56 172 1847 dos e contrariava, assim, os interesses ingleses. 60 000 1848 A tabela ao lado mostra o número de escravizados 54 000 1849 trazidos para o Brasil entre 1845 e 1850. Note que, ao perceber que o tráfico atlântico se aproximava do fim, 23 000 1850 os proprietários passaram a comprar mais africanos Fonte de pesquisa: COSTA, Emília Viotti. para as suas lavouras. Da senzala à colônia. São Paulo: Unesp, 1998.

t ic ula

r. F

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A Lei Eusébio de Queirós e a Lei de Terras Externamente, a marinha inglesa reagia afundando navios suspeitos de contrabandear escravizados. Internamente, o aumento da entrada de africanos no Brasil atemorizava a elite, e o temor da africanização fazia com que ela acabasse por preferir o fim do tráfico. Pressionado interna e externamente, o governo de Dom Pedro II aprovou em 4 de setembro de 1850 a Lei Eusébio de Queirós, que extinguiu CAPÍTULO 13 | MODERNIZAÇÃO, MÃO DE OBRA E GUERRA NO SEGUNDO REINADO

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Dica! Animação explicando o tráfico escravista durante os séculos XVII, XVIII e XIX. [Duração: 4 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ x6n4tk>.

DIALOGANDO Atualmente o Brasil continua sendo um país em que a terra se encontra concentrada nas mãos de poucos?

Christiano Jr. Séc. XIX. Coleção particular

Sim; segundo dados do Incra, a concentração de terras aumentou no Brasil em anos recentes. Entre 2010 e 2014, as grandes propriedades privadas passaram de 238 milhões para 244 milhões de hectares. Quase a metade das propriedades rurais está nas mãos dos grandes fazendeiros.

o tráfico negreiro para o Brasil. Este passava a ser considerado crime, ato de pirataria, e como tal seria julgado. A proibição do tráfico, porém, colocava um problema para os proprietários escravistas: quem iria trabalhar para eles quando a escravidão fosse extinta? Em um país com muita terra disponível, como fazer para que o trabalhador não se estabelecesse como posseiro? Em resposta a esse problema, naquele mesmo ano (setembro de 1850), o governo imperial aprovou a Lei de Terras, que proibia o acesso à terra por doação ou ocupação. Só podia ser dono de uma terra quem a comprasse. Com isso, os imigrantes, os ex-escravizados e os homens livres e pobres ficavam excluídos do acesso à terra, cujos preços eram elevados demais para eles. A única alternativa, então, era trabalhar para os grandes proprietários ou comerciantes. E mais: ao transformar a terra numa mercadoria valiosa, essa lei favoreceu a concentração da propriedade nas mãos de uma minoria.

O tráfico interno e o debate sobre o trabalhador nacional Com o fim do tráfico atlântico, aumentou a exigência de braços para as lavouras do Sudeste. Essa região passou então a comprar escravizados do Norte e Nordeste, onde a oferta de cativos era maior. Além do tráfico interprovincial, utilizou-se também do tráfico intraprovincial, ou seja, da transferência de cativos das áreas mais pobres para as mais ricas. Durante a vigência desses tipos de tráfico, negociaram-se cerca de 400 mil escravizados. Enquanto isso, no Parlamento, as poucas vozes que defendiam o aproveitamento do trabalhador nacional, livre ou liberto, eram abafadas pelo coro da maioria dos políticos do Império em favor da imigração europeia. A elite imperial referia-se aos africanos e a seus descendentes como indisciplinados, preguiçosos e desleais, e, portanto, inaptos para o trabalho livre. Diziam que só a imigração branca daria ao país cidadãos exemplares e, ao imperador, súditos fiéis. Esse discurso que desqualificava a população afro-brasileira baseava-se em teorias produzidas na Europa, segundo as quais negros e mestiços eram “raças inferiores” e a “raça branca” era a única capaz de criar civilização. Essa visão racista da elite imperial fazia do europeu, especialmente o de pele mais clara e católico, o trabalhador preferido. Nessa fotografia de Christiano Júnior, vemos um homem escravizado, 1864-1866.

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Para refletir

a) A avó negra, cuja filha é mestiça, agradece a Deus pelo fato de o seu neto ter nascido branco, isto é, por ter a cor da pele do pai dele. b) A intenção do artista neste quadro é mostrar que a criança branca veio redimir a sua família da “marca de Caim”, isto é, da cor negra. O bebê puxou ao pai: não traz na pele a cor da avó e nem a de sua mãe. Isto explica as mãos erguidas da avó.

O quadro a seguir, chamado por alguns de A redenção de Cam e, por outros, de A marca de Caim, é de autoria de Modesto Brocos y Gomez. A obra é uma pintura a óleo Segundo ele, em 100 anos, a contar de 1910, a população brasileira seria totalmente branca, por meio de intensa e data de 1895. c)miscigenação; assim, os negros e os mestiços desapareceriam das terras brasileiras. a) O que está acontecendo na cena?

d) Segundo a projeção feita pelo IBGE em janeiro de 2016 a população brasileira é de 205.416.315 habitantes, e os negros e pardos somam 53,6% da população.

b) Qual a mensagem transmitida pelo artista? Modesto Brocos y Gomez. 1895. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

c) Esse quadro realiza visualmente a teoria do branqueamento formulada na época pelo médico brasileiro João Batista de Lacerda. Em que consistia essa teoria? d) Em dupla. Pesquisem e descubram qual a porcentagem de negros e pardos na população brasileira segundo o último Censo do IBGE. e) Em grupo. O Brasil é um país que apresenta uma rica diversidade étnica e cultural. Reflitam, debatam e proponham medidas educativas que contribuam para o respeito à diversidade. Postem o trabalho no blog da turma. e) Resposta pessoal.

Imigrantes no Brasil A opção pelo imigrante como solução para o problema de mão de obra estimulou a vinda de milhares de europeus para o Brasil. O que os impulsionou a virem para cá no tempo do Império foi a busca de trabalho e o desejo de ter uma terra própria. Eram, em sua maioria, pessoas pobres, que fugiam das guerras e da carência de terras agricultáveis e vinham para um país jovem, que a propaganda apresentava como um “paraíso”, com muitas terras e clima saudável.

Antônio Rocco, c. 1910. Óleo sobre tela. Pinacoteca do Estado, São Paulo. Foto: Nelson Toledo

Os imigrantes, tela de Antônio Rocco, c. 1910.

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No Império, os portugueses foram os que entraram em maior número. Depois deles, vinham os italianos. Na Primeira República essa situação se inverteu. Observe a tabela. CINCO MAIORES GRUPOS DE IMIGRANTES EUROPEUS E ASIÁTICOS QUE ENTRARAM NO BRASIL ENTRE 1819 E 1940 Nacionalidade

1819-1883

Nacionalidade

1884-1940

Portugueses

223 626

Italianos

1 412 263

Italianos

96 018

Portugueses

1 204 394

Alemães

62 327

Espanhóis

581 718

Espanhóis

15 337

Alemães

170 645

Russos

8 835

Japoneses

185 799

ALVIM, Zuleika. Imigrantes: a vida privada dos pobres do campo. In: NOVAIS, Fernando; SEVCENKO, Nicolau. História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 233.

Livraria Martins Editora/USP

O sistema de parceria idealizado pelo Senador Vergueiro

Fac-símile da capa do livro Memórias de um colono no Brasil, de Thomas Davatz.

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O cafeicultor e político paulista Nicolau Campos Vergueiro foi um pioneiro na introdução de mão de obra imigrante no Brasil; em 1847, ele custeou a vinda de 80 famílias de colonos alemães e suíços para sua Fazenda Ibicaba, em Cordeirópolis, no interior de São Paulo; eles vieram para trabalhar no sistema de parceria; ficou combinado que os imigrantes cuidariam de certo número de pés de café e de uma roça onde cultivariam legumes e verduras para a sua subsistência, e o lucro obtido com a venda do café seria repartido entre os imigrantes e o dono da fazenda. O sistema de parceria, porém, não deu certo. Os imigrantes já chegavam ao Brasil devendo ao fazendeiro o custo da passagem, cujo preço era alto. Além disso, o imigrante comprava fiado aquilo de que necessitava: roupas, remédios e alimentos que eram vendidos a preços elevados no armazém da fazenda. Soma-se a isso o fato de que os imigrantes eram frequentemente desrespeitados, uma vez que a mentalidade dos fazendeiros era escravista. Os colonos da fazenda de Ibicaba reagiram à exploração e aos maus-tratos organizando um movimento reivindicatório, em 1857, conhecido como Revolta de Ibicaba. O líder dessa revolta, o imigrante suíço Thomas Davatz, denunciou com detalhes, em Memórias de um colono no Brasil, a opressão sofrida por ele e seus companheiros. A denúncia teve repercussão na Europa, o que causou desgaste na imagem do sistema de parceria.

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Colonos nas fazendas de café

Rosalbino Santoro. 1903. Óleo sobre tela. Coleção particular

Em 1871, o governo paulista começou a pagar as passagens dos imigrantes que vinham trabalhar para os cafeicultores. Estes, por sua vez, adotaram um novo regime de trabalho: o colonato. Os colonos recebiam um salário anual, podiam plantar gêneros alimentícios e criar animais para consumo próprio e para venda. Com isso, a imigração, principalmente a italiana, intensificou-se na província de São Paulo. Enquanto os italianos dirigiam-se para as fazendas de café, os portugueses e os espanhóis afluíam para as grandes cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, onde atuavam no pequeno comércio, trabalhavam como artesãos (carpinteiro, ferreiro, sapateiro, alfaiate) ou ainda como operários.

Pintura de Rosalbino Santoro intitulada Terreiro de café, 1903. Na tela, o artista recriou o que de fato acontecia em algumas fazendas: imigrantes dividiam o trabalho com os negros. No canto superior direito, vemos a casa-grande e o que parece ser uma capela. À esquerda e ao fundo, vemos as casas dos trabalhadores. Entre os dois trabalhadores à direita, e mais ao fundo, vemos a figura de um capataz inspecionando o trabalho.

Alemães, italianos e poloneses no Sul No Sul, desde cedo, o Império escolheu áreas despovoadas para a criação de colônias, com o objetivo de povoamento, branqueamento da população e consolidação das fronteiras. Uma das primeiras foi a colônia alemã de São Leopoldo, criada em 1824, próxima de Porto Alegre. A colonização alemã também se estendeu a Santa Catarina, onde o pioneiro Hermann Bruno Otto Blumenau fundou a colônia Blumenau. Ele se empenhou em trazer da Alemanha pessoas das mais variadas profissões. Os 17 primeiros colonos chegaram a Blumenau em 2 de setembro de 1850, sendo a maioria deles do meio rural. Dr. Blumenau, como era mais conhecido, tinha uma única exigência: que todos começassem a vida como pequenos proprietários, artesãos, pequenos comerciantes ou exercendo uma profissão liberal. Ele não queria ninguém trabalhando como assalariado para um grande proprietário. Com isso, Otto Blumenau ajudou a implantar no Brasil um novo tipo de colonização, baseada na pequena propriedade e na policultura. Introduziu também um novo tipo de mentalidade, divulgando a ideia de que, por meio do trabalho, era possível melhorar de vida e conseguir autonomia (no Brasil daquela época, o trabalho era visto como coisa de escravizado). 1 e 2

1. Dica! Reportagem sobre a imigração alemã em São Leopoldo (RS). [Duração: 6 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ rf826b>. 2. Dica! Documentário abordando a perseguição sofrida pelos alemães no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. [Duração: 50 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ w8s7hw>.

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Paulo Fridman/Pulsar Imagens

Zig Koch/Opção Brasil Imagens

À esquerda, imigrantes alemãs na Colônia Witmarsum, Palmeira (PR), 2013. Acima, bonecas Frida em loja do parque Vila Germânica, Blumenau, (SC), 2010.

Dica! Vídeo sobre a imigração e o café no Brasil. [Duração: 3 minutos]. Acesse: <http://tub. im/3kj56r>.

Já os italianos começaram a chegar ao Sul por volta de 1875. No Rio Grande do Sul fundaram as colônias de Caxias (hoje Caxias do Sul), Conde D’Eu (atual Garibaldi) e Dona Isabel (hoje Bento Gonçalves). Em pouco tempo, a colonização italiana avançou e se espalhou por todo o nordeste gaúcho. Os poloneses também se fizeram presentes no Sul, sobretudo no Paraná. Entre 1870 e 1920, entraram no Brasil 103 500 poloneses: 43 mil no Paraná, 34 300 no Rio Grande do Sul, 6 700 em Santa Catarina, e os demais em outros estados.

Um começo difícil Alemães, italianos ou poloneses, os imigrantes tiveram um começo difícil no Brasil – lotes reservados a eles ficavam distantes da cidade, as terras nem sempre eram boas para o cultivo dos produtos agrícolas a que estavam acostumados e o isolamento dificultava a adaptação e o progresso. As colônias de imigrantes com base na pequena propriedade e no trabalho familiar resultaram no povoamento de áreas enormes, situadas entre o interior e o litoral das províncias sulistas. Quanto à cultura material, os imigrantes do Sul contribuíram nas técnicas agrícolas, especialmente no uso do arado, da grade e das carroças de quatro rodas. Dedicaram-se à policultura e à suinocultura, no Rio Grande do Sul, e à indústria de laticínios e de conservas, em Santa Catarina. O fabrico de cerveja, vinho, champanhe e conhaque, a cultura do trigo e da erva-mate e a manufatura de tecidos e malhas também foram disseminados pelos imigrantes.

Guerras entre os sul-americanos No Segundo Reinado, o Império Brasileiro envolveu-se também em conflitos na região platina. Cortada por vários rios navegáveis, como o Paraguai, o Paraná e o Uruguai, a região é rica e estratégica, e foi palco de constantes conflitos entre os países sul-americanos. Os rios Paraná e Uruguai desembocam no rio da Prata, que era usado por comerciantes sul-americanos e europeus para fazer

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as mercadorias chegarem aos portos de Buenos Aires e Montevidéu, que, dali, seguiam para o interior ou eram vendidas para a Europa. Os países sul-americanos lutaram entre si pelo controle dos rios, das terras, do gado e, sobretudo, do poder. O Império Brasileiro, por exemplo, interveio diversas vezes na região platina. Em 1851, invadiu o Uruguai para derrubar o blanco Manuel Oribe e colocar no poder o colorado Frutuoso Rivera. No ano seguinte, invadiu a Argentina para depor o caudilho Juan Manoel Rosas. E, anos depois, voltou a invadir o Uruguai para depor Atanásio Aguirre, que era aliado do ditador paraguaio Solano López. O ditador, então, revidou mandando apreender o navio brasileiro Marquês de Olinda, que seguia com destino ao Mato Grosso e, em 13 de dezembro de 1864, declarou guerra ao Brasil dando início à Guerra do Paraguai. 1 e 2 Em janeiro de 1865, como o governo argentino não permitiu que os paraguaios atravessassem seu território para atacar o Rio Grande do Sul, López declarou guerra também à Argentina. Em maio de 1865, o Brasil de Dom Pedro II, a Argentina de Bartolomeu Mitre e o Uruguai de Venâncio Flores formaram a Tríplice Aliança para combater o Paraguai. Para o historiador Ricardo Salles, por exemplo, o Brasil tinha interesse em impedir a formação de um Estado nacional forte nas terras onde hoje estão Uruguai, Paraguai e Argentina, assegurar a livre navegação nos rios da bacia platina e garantir os ganhos territoriais nas áreas de fronteira. A Argentina queria garantir a unidade do país, ameaçada pelo fato de que suas províncias de Entre Rios e Corrientes queriam separar-se e formar países independentes, contando para isso com o apoio do Paraguai.

1. Dica! Documentário sobre a Guerra do Paraguai. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub. im/9fqgtn>. 2. Dica! Vídeo abordando polêmicas sobre a Guerra do Paraguai que até hoje provocam divergências entre Brasil e Paraguai. {Duração: 14 minutos]. Acesse: <http://tub. im/ci3ec7>.

Durante muito tempo, predominou nos livros de História a tese de que Solano López foi uma vítima do imperialismo inglês que, segundo essa versão, seria o principal responsável pela Guerra do Paraguai. Hoje, já não se aceita mais essa versão dos fatos. Com base em extensa documentação, o historiador Francisco Doratioto comprovou que a Guerra do Paraguai foi provocada pelos próprios sul-americanos, e não por pressão da Inglaterra (ou do imperialismo inglês). Sua tese, que é hoje a mais aceita pelos historiadores, está contida na obra de sua autoria intitulada Maldita guerra.

Editora Cia. das Letras

Para saber mais

Fac-símile da capa do livro Maldita guerra, de Francisco Doratioto.

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O Paraguai de Solano López desejava fortalecer-se a ponto de garantir que GOIÁS não seria anexado pelos seus vizinhos MATO GROSSO DO SUL MINAS BOLÍVIA (Argentina e Brasil) e buscava uma saCorumbá GERAIS 20º S ída para o mar. Por isso, López aliou-se Miranda Campo Grande PARAGUAI ao Uruguai e aos rebeldes argentinos SÃO PAULO Cerro Corá com o objetivo de formar um novo país, Capricórnio Trópico de Lomas cujo porto marítimo seria Montevidéu. Avaí Valentinas PARANÁ Itororó Assunção O presidente do novo país seria, é claro, Humaitá Curupaiti ele próprio. Tuiuti SANTA CATARINA Corrientes Passo Riachuelo Numa primeira fase, por meio de mada Pátria RIO GRANDE nobras rápidas, o Paraguai obteve vitóDO SUL rias por terra. Mas, nos rios, a Marinha 30º S ARGENTINA de Guerra brasileira mostrou-se supeOCEANO URUGUAI rior, vencendo os paraguaios em junho ATLÂNTICO de 1865, na batalha naval do Riachuelo, 60° O R io da Prata Território perdido para o Brasil travada no rio Paraná. Em setembro do Território perdido para a Argentina mesmo ano, outra vitória aliada, desta Ofensiva paraguaia (1864-1865) 0 240 Ofensiva aliada (1866-1870) vez por terra, em Uruguaiana, no Rio Algumas das principais batalhas 50° O Grande do Sul. Fontes: CAMPOS, Flávio de; DOLHNIKOFF, Miriam. Atlas: História do Brasil. No decorrer da guerra, o número de São Paulo: Scipione, 1994; ATLAS histórico escolar. Rio de Janeiro: MEC, 1960; CALDINI, Vera; ÍSOLA, Leda. Atlas geográfico Saraiva. São Paulo: Saraiva, 2009. soldados da Tríplice Aliança foi crescendo. As forças brasileiras eram composA Guerra do Paraguai definiu o mapa do Cone Sul, na América Latina. tas pelo Exército, pela Guarda Nacional e pelos Voluntários da Pátria (recrutados à força e, por isso, chamados ironicamente de “voluntários a pau e corda”). Estima-se que os efetivos brasileiros podem ter chegado a 200 mil homens. A superioridade populacional e econômica das forças aliadas também foi decisiva nos rumos da guerra. A segunda fase da guerra foi marcada por importantes vitórias dos aliados, apesar da tenaz resistência paraguaia. Em 1868, sob o comando do Duque de Caxias, as forças aliadas conquistaram a fortaleza de Humaitá e venceram importantes batalhas, como as de Itororó, Avaí, Lomas Valentinas e Angostura, chamadas de dezembradas por terem ocorrido no mês de dezembro. Essas vitórias facilitaram o caminho para Assunção, capital do Paraguai, conquistada em janeiro de 1869. A última fase da guerra, em que se deu a perseguição de Solano López em território paraguaio, é conhecida como Campanha da Cordilheira e foi comandada pelo Conde D’Eu, autor de muitas atrocidades cometidas contra civis paraguaios. O presidente paraguaio foi morto por soldados brasileiros em Cerro Corá, em 1o de maio de 1870.

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Rio Uruguai

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Paraguai Rio

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Guerra do Paraguai (1864-1870)

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Cabichuí. 1868. Coleção particular

Nesta gravura de 1868, publicada em um jornal paraguaio, o ditador Solano López é mostrado a cavalo afugentando, com sua espada, o imperador Pedro II, que é mostrado no chão e de joelhos dobrados. Ao contrário do que mostra a imagem, em 1868, o Paraguai estava perdendo a guerra e Solano López vinha sendo obrigado a recuar.

Um balanço da guerra

Juan Manuel Blanes. 1880. Óleo sobre tela. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Para o Paraguai, a guerra foi um desastre. Segundo o historiador Ricardo Salles, a guerra vitimou 95% da população masculina do país. Além das mortes em combate, muitos civis e militares morriam por causa de epidemias, como o cólera, das más condições de higiene e de habitação, e da fome. O Paraguai perdeu 140 mil quilômetros quadrados de seu território, parte para o Brasil e parte para a Argentina. Economicamente, saiu fragilizado, o que teve implicações que se estendem até os dias atuais. O Brasil incorporou territórios, garantiu a ligação fluvial com o sul do Mato Grosso e conservou a hegemonia na região, mas tudo isso a um custo muito alto. Os dados oficiais falam em 23 917 mortos em combate; mas há estudos que estimam em 100 mil, entre civis e militares. Os gastos com a guerra foram de 614 mil contos de réis, 11 vezes o orçamento do governo brasileiro em 1864. O déficit gerado pela guerra atravessou décadas e ocorreu um aceleramento da dívida externa brasileira, por causa dos empréstimos contraídos com os banqueiros ingleses. A Argentina, que possuía na época 1,5 milhão de habitantes, perdeu 18 mil soldados. Já o Uruguai foi o país que menos teve perdas. Durante a Guerra do Paraguai ocorreram a institucionalização e o fortalecimento do Exército brasileiro. Muitos militares brancos, que haviam lutado ao lado com soldados negros, voltaram da guerra questionando a escravidão e a monarquia que lhe dava suporte. Além disso, a vitória na guerra elevou a autoimagem dos militares brasileiros e os aproximou das ideias e do movimento em favor da República. La Paraguaya, 1880. Repare como o pintor Juan Manuel Blanes recriou o ambiente de desolação e perdas resultantes da guerra em solo paraguaio. Note também a ausência de homens com vida na pintura, o que sugere um fato realmente acontecido: o elevado número de baixas registradas na população masculina paraguaia.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (Unesp-SP – 2012) A maioridade do príncipe D. Pedro foi antecipada, em 1840, para que ele pudesse assumir o trono brasileiro. Entre os objetivos do chamado Golpe da Maioridade, podemos citar o esforço de: a) obter o apoio das oligarquias regionais, insatisfeitas com a centralização política ocorrida durante o Período Regencial. b) ampliar a autonomia das províncias e reduzir a interferência do poder central nas unidades administrativas. c) abolir o Ato Adicional de 1834 e aumentar os efeitos federalistas da Lei Interpretativa do Ato, editada seis anos depois. d) promover ampla reforma constitucional de caráter liberal e democrático no país, reagindo ao centralismo da Constituição de 1824. e) restabelecer a estabilidade política, comprometida durante o Período Regencial, e conter revoltas de caráter regionalista. 1. Resposta: e.

2. (UFPE) O ano de 1848 assistiu a várias revoluções na Europa como, por exemplo, na França e na Itália. O espírito “quarenta e oito”, como se chamou este período, também atingiu o Brasil e, particularmente, Pernambuco. Esta questão diz respeito à Revolução Praieira. ( ) A concentração da propriedade fundiária e o monopólio do comércio a retalho pelos portugueses foram fatores que provocaram a Revolução Praieira. 2. Resposta: V , V , F, V, V. ( ) O Partido da Praia, integrado por liberais pernambucanos, tinha no jornal o DIÁRIO NOVO um instrumento de veiculação de suas ideias políticas. ( ) Joaquim Nabuco, líder abolicionista, logo se tornou um correligionário do jornalista praieiro Borges da Fonseca. ( ) Os revolucionários praieiros pretendiam que

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o Governo interviesse nos fenômenos de produção, distribuição e comércio. ( ) Os revolucionários de Pernambuco lançaram um “Manifesto ao Mundo” esclarecendo suas posições no que diz respeito ao voto universal do povo brasileiro, ao trabalho como garantia de vida para o cidadão brasileiro, ao comércio de retalhos, à reforma do poder judicial dentre outras. 3. (UERN – 2013) O Brasil possui atualmente uma economia forte e sólida. O país é um grande produtor e exportador de mercadorias de diversos tipos, principalmente commodities minerais, agrícolas e manufaturados. As áreas de agricultura, indústria e serviços são bem desenvolvidas e encontram-se, atualmente, em bom momento de expansão. Considerado um país emergente, o Brasil ocupa o 7o lugar no ranking das maiores economias do mundo (dados de 2011). O Brasil possui uma economia aberta e inserida no processo de globalização. Disponível em: www.suapesquisa.com.

O Segundo Reinado é a fase da História do Brasil correspondente ao governo de D. Pedro II, que teve início em 1840, com a mudança na constituição que declarou a maior idade de Pedro de Alcântara, com 14 anos, tornando-o apto para assumir o governo. A administração de D. Pedro II, que durante 49 anos esteve à frente do estado brasileiro, foi marcada por muitas mudanças sociais, políticas e econômicas no Brasil. Quanto à economia do império nesse período, a) destaca-se o grande e definitivo crescimento da atividade industrial. b) observa-se o Brasil em destaque na área da mineração de ouro e prata. c) destaca-se a produção do açúcar, aproveitando os canaviais do Nordeste. d) nota-se que o café tomou posição de liderança nas exportações, possibilitando acúmulo de capital. 3. Resposta: d.

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em defesa da pátria e libertado um povo da escravidão, o voluntário volta ao seu país natal para ver sua mãe amarrada a um tronco horrível de realidade!...

4. (UFRGS-RS – 2012) A Lei no 581 do Império do Brasil, também denominada de Eusébio de Queiróz, foi promulgada em 4 de setembro de 1850. Essa lei a) provocou o confisco dos escravizados ilegais, reprimindo e condenando duramente os senhores de escravizados. 4. Resposta: b.

AGOSTINI. A vida fluminense, ano 3, n. 128, 11 jun. 1870. In: LEMOS, R. (Org.). Uma história do Brasil através da caricatura (1840-2001). Rio de Janeiro: Letras & Expressões, 2001 (adaptado).

c) suspendeu por alguns anos o tráfico transatlântico de escravizados, que foi retomado nas décadas seguintes. d) obrigou os donos de escravizados a indenizarem os africanos que ingressaram no Brasil a partir de 1808. e) regulamentou o tráfico de escravizados, permitindo que apenas africanos do sul do continente pudessem ser trazidos da África.

Angelo Agostini. Séc. XIX. Coleção particular

b) determinou que os traficantes fossem submetidos à jurisdição de um tribunal especial.

5. (UERJ – 2015) A Guerra do Paraguai (1864-1870) foi o conflito externo de maior repercussão para os países envolvidos − Paraguai, Brasil, Argentina e Uruguai −, quer quanto à mobilização e perda de homens, quer quanto aos aspectos políticos e financeiros. Essa guerra foi, na verdade, resultado do processo de construção dos Estados nacionais no rio da Prata e, ao mesmo tempo, marco nas suas consolidações. Adaptado de DORATIOTO, F. F. M. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Os motivos que justificaram a Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança, continuam gerando controvérsias cento e cinquenta anos depois. Apresente dois motivos que expliquem essa guerra, tendo em vista as disputas na região do rio da Prata durante a segunda metade do século XIX. 6. (Enem/MEC – 2014)

Na charge, identifica-se uma contradição no retorno de parte dos “Voluntários da Pátria” que lutaram na Guerra do Paraguai (1864-1870), evidenciada na a) negação da cidadania aos familiares dos cativos. 6. Resposta: a. b) concessão de escravizados.

alforrias

aos

militares

c) perseguição dos escravistas aos soldados negros.

De volta do Paraguai

d) punição dos feitores compulsoriamente.

Cheio de glória, coberto de louros, depois de ter derramado seu sangue

e) suspensão das indenizações aos proprietários prejudicados.

aos

recrutados

5. Entre os motivos da Guerra pode-se citar: disputa pela liderança regional entre o Brasil e a Argentina; controle da navegação pelos rios Paraguai, Paraná e Uruguai; o desejo do Paraguai de conseguir uma saída para o mar.

CAPÍTULO 13 | MODERNIZAÇÃO, MÃO DE OBRA E GUERRA NO SEGUNDO REINADO

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Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

Lula Marques/Folhapress

II. Leitura e escrita em História

VOZES DO PRESENTE O trecho a seguir é uma entrevista concedida pelo professor Francisco Doratioto à Revista de História da Biblioteca Nacional. Leia-o com atenção. RH – O que o Paraguai queria nessa guerra? FD – Fala-se Paraguai por uma questão didática, mas a decisão foi de Solano López. Tratava-se de uma ditadura, mas não na forma contemporânea que conhecemos. Não havia meios de comunicação ou inserção internacional, Francisco Doratioto, como hoje. Uma ditadura hoje, por mais ferrenha que 2012. seja, tem que reagir ao contexto internacional e há algum processo decisório, mas na de Solano López tudo se concentrava nele. No Paraguai não existia jornal, além de um diário oficial, e nem oposição. A oposição estava em cemitérios ou no exílio na Argentina. A população era pequena, o país era fechado ao exterior e ela não tinha acesso a outras informações, que não as oficiais. [...] RH – Qual foi o plano? FD – Começar uma guerra contra o Brasil, em um ataque surpresa a Mato Grosso, para garantir a retaguarda paraguaia, o que ocorreu em dezembro de 1864 e, ao ter negada permissão de Mitre para passar com as tropas por território argentino para invadir o Rio Grande do Sul, Solano López invadiu a província de Corrientes em abril de 1865 e o Rio Grande do Sul em junho. Ao que tudo indica, o plano era vencer Mitre e impor uma derrota militar ao Império no Uruguai. Esse plano era exequível, tanto que os paraguaios chegaram até Uruguaiana e ocuparam Corrientes com facilidade. Só não foram além porque, no Rio Grande do Sul, o coronel Estigarribia desobedeceu a ordem de não entrar nas cidades para não perder tempo na marcha. Mas como Uruguaiana era um centro comercial, os paraguaios nela entraram para saqueá-la, dando tempo aos aliados de se organizarem, sitiarem a cidade e, após combate, obterem a rendição de Estigarribia. GARCIA, Bruno. Entrevista com Francisco Doratioto. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 9, n. 97, p. 40-41, out. 2013.

a) De que forma o autor caracteriza Solano López e que paralelo ele estabelece entre o governante paraguaio e alguns governantes atuais? b) Que elementos o autor cita para comprovar sua visão a respeito de López? Justifique. c) Durante muito tempo Solano López foi visto pela historiografia como vítima do imperialismo inglês e não como um dos causadores da guerra. Qual a posição do autor do texto a respeito disto? Explique. d) Em dupla. O autor do texto destaca a ambição do coronel Estigarribia que, contrariando a ordem de seus superiores, entrou em Uruguaiana para saqueá-la, dando tempo de os aliados se organizarem e contra-atacarem. Debatam e escrevam uma reflexão pessoal com o título “Ambição e guerra”.

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Capítulo 14

Abolição e República

Angelo Agostini. Séc. XIX. Desenho. Coleção particular

Observe a cena com atenção. Professor: a ideia aqui foi estimular o aluno a ler e interpretar imagens com base em uma charge criada por Angelo Agostini. Um indígena, simbolizando a Nação (apoiado por negros rebelados), rompe correntes e chuta a carruagem do Império, lançando ao chão o imperador (com sua coroa, seu livro e sua luneta) e seus seguidores (membros da elite imperial identificados por seus fraques, botas e cartolas). Enfim, a Nação rompe os grilhões e se liberta da monarquia. Dois animais conduzem a carruagem: um cavalo identificado como Dissidência Liberal e um touro denominado Partido Conservador. Não por acaso o título da charge é “A grande degringolada”.

» Quem está atacando a carruagem? » Quem é o personagem à esquerda desenhado próximo a um livro, uma

luneta e uma coroa? » Quem são os personagens de botas e cartolas que estão sendo arremessa-

dos ao chão? » O que o autor da charge quis criticar? CAPÍTULO 14 | ABOLIÇÃO E REPÚBLICA

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O processo de abolição O processo que conduziu à extinção legal da escravidão no Brasil foi longo e contou com ampla participação popular, incluindo-se aí a ação dos próprios escravizados, além de ativistas e intelectuais negros e brancos, chamados, na época, de abolicionistas.

A resistência negra

À esquerda, menino aprendendo a jogar capoeira. A capoeira, que é dança e luta ao mesmo tempo, pode ser considerada também uma forma de resistência negra no campo da cultura. À direita, fac-símile da capa do livro de João José Reis que trata da rebelião escrava de 1835 em Salvador, a maior ocorrida em uma cidade brasileira.

Dica! Entrevista com o historiador João José Reis sobre a escravidão no Brasil. [Duração: 11 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ cmktfm>.

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Editora Cia. das Letras

Christiano Jr. Séc. XIX. Coleção particular

Um exemplo expressivo da resistência à escravidão no século XIX foi o ciclo de revoltas lideradas por africanos ou crioulos na Bahia, entre 1807 e 1835. Segundo o historiador João José Reis, naqueles anos, a Bahia foi palco de mais de 20 revoltas e conspirações promovidas pelos africanos e seus descendentes; etnias envolvidas nessas revoltas foram: haussá em 1887; nagô, haussá e jeje em 1809; haussá de novo, em 1814; etnias diversas em 1816 e, sobretudo, nagô em 1826, 1830 e 1835.

Outro exemplo de resistência negra no Brasil monárquico foi o levante liderado por Manuel Congo, em 1838, na região de Paty do Alferes, Vassouras, que é hoje um município do estado do Rio de Janeiro. Os rebeldes foram perseguidos nas matas da região e recapturados. Justino Benguela, Antônio Magro, Pedro Dias, Belarmino Congo, Miguel Crioulo, Canuto Moçambique e Afonso Angola foram julgados com base no artigo 60 do Código Criminal e condenados a 650 açoites, 50 por dia; Manuel Congo, o líder da insurreição, recebeu a pena máxima e, em 1839, foi enforcado. Além do mais, com o tráfico interprovincial, milhares de escravizados do Norte e Nordeste foram separados de suas famílias para servir no Centro-Sul, onde tinham de trabalhar sob novas regras e por mais horas, de modo a atender à crescente demanda gerada pela expansão da cafeicultura. Diante disso, a resistência se tornou mais ativa: aumentaram as fugas, cresceram os esforços dos escravizados para a compra de sua alforria, multiplicaram-se as ações abertas por eles na Justiça visando provar seu direito à liberdade.

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O abolicionismo

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James Lafayette. 1902. Coleção particular

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Outra força importante no processo que levou à extinção legal da escra- Dica! Vídeo sobre a vidão foi o abolicionismo, movimento social liderado por pessoas de diferen- vida de Luiz Gama. tes etnias e condições sociais e que se estendeu por quase todo o século XIX. [Duração: 12 minutos]. Acesse: <http://tub. Os abolicionistas divulgavam suas ideias por meio de jornais, grupos e as- im/k552er>. sociações e promoviam passeatas, comícios e outras manifestações públicas pelo fim da escravidão. Entre os abolicionistas havia profissionais liberais, como o engenheiro baiano André Rebouças; intelectuais, como o pernambucano Joaquim Nabuco; e o ir ane eJ membros das classes populares, como Luiz Gama. od i R

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Nascido em 1830, na Bahia, Luiz Gama era filho da negra nagô Luiza Mahin e de um comerciante de origem portuguesa. Nascido em Pernambuco em 1849, Joaquim Nabuco era filho de José Tomás Nabuco de Araújo, um destacado senador do Império.

Externamente, a escravidão começou a ser vista como “vergonha da humanidade” na segunda metade do século XVIII; essa condenação da instituição escravista por filósofos, como Diderot, e economistas, como Adam Smith, penetrou fortemente no Brasil somente na segunda metade do século XIX, quando as ideias e práticas liberais já tinham larga aceitação no país. Ao mesmo tempo, o fim da escravidão nos Estados Unidos, em 1865, acentuou o isolamento político do Brasil e deu mais um argumento para os abolicionistas brasileiros. Some-se a isso, ainda, o fato de vários governos estrangeiros pedirem, por meio de seus diplomatas, que D. Pedro II acabasse com a escravidão no Brasil. Internamente, com o fim da Guerra do Paraguai, em 1870, a campanha abolicionista se popularizou e conquistou adeptos inclusive entre os oficiais do Exército, que passaram a ver com grande simpatia os negros que lutaram ao lado deles nos campos de batalha. Além disso, aumentavam as fugas de escravizados para os arredores de cidades que, por serem mais populosas, como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, favoreciam o anonimato. Apesar das pressões externas e internas, o governo de D. Pedro II e a elite imperial defendiam a abolição lenta e gradual. E, com esse objetivo, aprovaram as chamadas leis abolicionistas. CAPÍTULO 14 | ABOLIÇÃO E REPÚBLICA

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São elas: » Lei do ventre livre – Lei no 2.040, de 28 de setembro de 1871: [...] Art. 1o Os filhos de mulher escrava que nascerem no Império desde a data desta lei serão considerados de condição livre. § 1o Os ditos filhos menores ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão a obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de 8 anos completos. Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá opção, ou de receber do Estado a indenização de 600 mil-réis, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos.[...]

Henrique Klumb. c.1860. Biblioteca Nacional

BRASIL. Lei n. 2.040, de 28 de setembro de 1871. Câmara dos deputados. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/internet/ infdoc/conteudo/colecoes/legislacao legimpcd-06/ leis1871/pdf17.pdf#page=6>. Acesso em: 18 mar. 2013.

Terraço do Passeio Público, Rio de Janeiro, c. 1860.

Foram poucos os beneficiados pela Lei do Ventre Livre. Muitos proprietários preferiam continuar se utilizando do trabalho das crianças a receber o dinheiro para libertá-las. DIALOGANDO O que se pode concluir a partir desta tabela? VOTAÇÃO DA LEI DO VENTRE LIVRE NA CÂMARA DOS DEPUTADOS Dica! Reportagem sobre as leis abolicionistas. [Duração: 4 minutos]. Acesse: <http://tub. im/qvac9x>.

Localização

Votos a favor

Votos contra

Províncias do Norte/Nordeste

39

6

Províncias do Centro-Sul

12

30

Fonte de pesquisa: LINHARES, Maria Yedda. História geral do Brasil. 9. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1990. p. 271. Pode-se concluir que a maioria dos deputados do Norte/Nordeste (onde o trabalho escravizado na época tinha menos importância) votou a favor da lei, enquanto os das províncias do Centro-Sul (como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo) onde a cafeicultura estava em expansão colocaram-se, em sua maioria, contra ela.

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Hisako Tanaka/Getty Images

Editora Cia. das Letras

Na década de 1880, a luta pela abolição ganhou corpo. Em 1883, foi fundada a Confederação Abolicionista, que assumiu a proposta de André Rebouças de abolição sem indenização e de doação de terras para os ex-escravizados. Pernambuco viu surgir o Clube do Cupim, associação emancipatória que alforriava e defendia os escravizados contrariando interesses centenários dos poderosos da província. Em São Paulo, o advogado Antônio Bento fundou uma organização secreta chamada Caifazes, também promovia e apoiava a fuga de escravizados. Essa organização protegeu os milhares de escravizados que fugiram das fazendas paulistas em direção aos morros da cidade paulista de Santos, onde formaram o Quilombo do Jabaquara. Esse quilombo, surgido nos últimos anos do período imperial, chegou a reunir cerca de 10 mil quilombolas, entre homens, mulheres e crianças, e era liderado pelo crioulo sergipano Quintino de Lacerda. A população livre local escondia os fugitivos e facilitava a chegada deles ao alto dos morros. O historiador Eduardo Silva trabalha com a ideia de “quilombo abolicionista”, um modelo específico de resistência à escravidão. Seus membros organizavam-se próximo aos grandes centros e seus líderes mantinham relações estreitas com figuras centrais do movimento abolicionista como André Rebouças e Rui Barbosa. Entre os exemplos de quilombos abolicionistas estão o Quilombo do Jabaquara, na cidade paulista de Santos, e o Quilombo do Leblon, no Rio de Janeiro. Na sua obra As camélias do Leblon, Eduardo Silva parte da camélia, flor que simbolizava a luta pela abolição, para evidenciar as relações estreitas entre a campanha abolicionista e o aumento das fugas. As camélias, conhecidas na época como “flores da liberdade”, eram cultivadas, colhidas e distribuídas no Quilombo do Leblon, onde hoje está o bairro do Leblon. À esquerda, fac-símile da capa de As camélias do Leblon.

Angelo Agostini. Séc. XIX. Desenho. Coleção particular

Ajudado pela resistência escrava, o abolicionismo se espalhou rapidamente pelo país, provocando reações nas províncias. No Ceará o jangadeiro Francisco José do Nascimento, o “Dragão do Mar”, se negou a transportar escravizados para o Sudeste, acelerando a abolição na sua província. Em 1884, o Ceará e o Amazonas anteciparam-se ao governo imperial e extinguiram a escravidão; o mesmo fizeram algumas cidades do Rio Grande do Sul. Jangadeiro Francisco José do Nascimento na visão do chargista Angelo Agostini. Note que o chargista, que também era abolicionista, procurou homenagear o jangadeiro em sua obra.

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Senhoras vendendo frutas e legumes nas ruas, em Rio Grande (RS), c. 1910. As duas senhoras vistas ao centro aparentam ter por volta de 60 anos na data em que a fotografia foi publicada. Se tivessem essa idade no ano em que a lei foi publicada teriam de trabalhar mais três anos para conseguir a alforria. A Lei dos Sexagenários livrava os proprietários da obrigação de fornecer comida e moradia para os poucos escravizados que conseguiam chegar aos 60 anos de idade.

Dica! Animação sobre a escravidão e o processo de abolição. [Duração: 20 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ ah3xf5>.

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Fontana. c. 1910. Coleção particular

O governo de Dom Pedro II reagiu à onda abolicionista promulgando uma nova lei. » Lei dos Sexagenários, de 28 de setembro de 1885: declarava livres os escravizados com mais de 60 anos, mas exigia que eles continuassem trabalhando gratuitamente por mais três anos a título de indenização. Além disso, estipulava uma multa de 500 a 1 000 réis para os que protegessem ou acolhessem escravizados fugidos.

Ao contrário do que desejavam seus promotores, a Lei dos Sexagenários provocou a radicalização da luta contra a escravidão: os escravizados começaram a fugir em massa das propriedades de seus donos. Maquinistas colaboravam com as fugas retardando a marcha do trem para que os escravizados pudessem saltar e, escondidos entre as sacas de café, chegassem à cidade. Gráficos negavam-se a imprimir textos defendendo a escravidão. Os militares lançaram um manifesto, em 1887, afirmando que não mais fariam o papel de capitão do mato, isto é, não perseguiriam mais os fugitivos. Sob forte pressão popular, o governo imperial, exercido na época pela princesa Isabel, assinou a Lei Áurea, que declarava extinta a escravidão no Brasil, sem direito de indenização aos senhores e sem nenhuma reparação aos escravizados, que, segundo uma estimativa realizada um ano antes, somavam 723 419 pessoas, pouco menos de 5% da população brasileira. Politicamente a Lei Áurea contribuiu para o desgaste da monarquia: muitos fazendeiros escravistas, inconformados de não terem sido indenizados, aderiram à República. Por isso, foram chamados na época de republicanos de última hora.

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A vida dos recém-libertos

Racismo à brasileira:

racismo disfarçado, implícito, silencioso, não declarado.

Zahar Editora

Nas áreas rurais, parte dos libertos permaneceu nas fazendas e negociou com seus antigos donos salários, parcerias e/ou o direito de ter a própria roça. Outra parte se mudou para as cidades em busca de moradia e emprego. Em cidades como São Paulo, porém, os empregos estáveis foram ocupados, sobretudo, por imigrantes europeus, preferidos pelos empresários da época, cuja visão de mundo era fortemente marcada pelo escravismo. Nesse contexto era, muitas vezes, a mulher negra que garantia a sobrevivência da família cozinhando, lavando e passando para particulares. As escassas oportunidades abertas aos recém-libertos geraram uma desigualdade social muito grande que, com o racismo à brasileira, tornaram a vida dos afrodescendentes mais difícil. Apesar de tantos obstáculos, os libertos amenizavam a luta diária pela sobrevivência organizando-se em grupos de lazer, clubes esportivos e centros religiosos. Para cantar, dançar, festejar ou simplesmente conversar sobre coisas em comum, muitos negros do Rio de Janeiro passaram a se encontrar na Praça Onze, na casa da Tia Ciata, uma baiana que vendia quitutes e roupas típicas. Segundo os historiadores da música, foi lá que nasceu o samba. Entre os mais importantes sambistas da época estão nomes como Donga (autor daquele que é considerado o primeiro samba a ser gravado no Brasil, Pelo telefone), Heitor dos Prazeres, Pixinguinha e João da Baiana.

Para saber mais João da Baiana Carioca filho de migrantes baianos, João Machado Guedes fez parte do que o compositor Martinho da Vila chamou de “santíssima trindade da música brasileira”: João da Baiana, Pixinguinha e Donga. Filho de Tia Perciliana, uma das famosas baianas da Cidade Nova, onde foi criado, João notabilizou-se por popularizar o pandeiro no samba e por ser exímio ritmista no prato-e-faca, herança de sua formação na tradição baiana. João foi um personagem da cidade do Rio de Janeiro. Funcionário da Estrada de Ferro, recusou o convite dos parceiros Pixinguinha e Donga para realizar a primeira turnê internacional de um grupo popular no Brasil – os renomados Oito Batutas. Preferiu a estabilidade do emprego, mas manteve intensa atividade musical. [...]

Fac-símile da capa do livro Almanaque do samba. A pintura que se vê é do compositor, músico e artista plástico Heitor dos Prazeres.

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Como o samba ainda estava procurando seu espaço na sociedade, era muito comum os músicos serem presos pelo simples fato de portarem um instrumento. Certa noite, João da Baiana foi convidado para ir a uma festa no palácio do senador Pinheiro Machado, um dos mandachuvas da política na época. Acabou não comparecendo por ter sido preso pela polícia na Festa da Penha. Acusação: levava um pandeiro a tiracolo. Dias depois, o todo-poderoso senador quis saber por que João não aparecera em sua festa. Sabendo da história, Pinheiro Machado mandou fazer um pandeiro na loja Cavaquinho de Ouro, do seu Oscar, com a dedicatória “A minha admiração, João da Baiana – senador Pinheiro Machado”. Coincidência ou não, o fato é que João nunca mais foi importunado. DINIZ, André. Almanaque do samba: a história do samba, o que ouvir, o que ler, onde curtir. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. p. 30-31.

O processo que conduziu à República Os processos que conduziram o Brasil à abolição e à República foram simultâneos e fortaleceram-se mutuamente.

O republicanismo Ideias republicanas estavam presentes entre os brasileiros há tempos. No século XVIII, inspiraram movimentos contra o domínio português, como a Conjuração Mineira e a Conjuração Baiana, e, no século seguinte, rebeliões do período regencial, como a Balaiada e a Farroupilha. Mas a Monarquia conseguiu reprimir esses dois últimos movimentos em virtude, principalmente, da receita obtida com as exportações de café. No Segundo Reinado, os dois partidos existentes, o Liberal e o Conservador, controlavam o poder enquanto a imensa maioria da população continuava excluída do direito à cidadania. Visando ampliar seu poder político, um grupo de cafeicultores e profissionais liberais (advogados, médicos, professores, engenheiros, jornalistas) lançou no Rio de Janeiro em dezembro de 1870 o Manifesto Republicano. O documento defendia a República e o federalismo e estimulou o surgimento de jornais e partidos republicanos. Em 1873, nascia em Itu, no interior de São Paulo, o Partido Republicano Paulista (PRP). Dos 133 fundadores do PRP, 78 eram grandes cafeicultores do Oeste Paulista. Entre os republicanos percebia-se a existência de três grupos principais. Um deles, liderado por Silva Jardim e Lopes Trovão, abolicionistas convictos, defendia que se chegasse à República por meio de um movimento popular. Outro grupo, liderado por Quintino Bocaiuva, era chamado de evolucionista, pois propunha a transição gradual e pacífica para a República. Um terceiro grupo, Federalismo: que se formou nos meios militares em torno do major Benjamin Constant, comautonomia para as batia a monarquia em nome do progresso e defendia um governo forte. províncias fazerem suas leis, elegerem Além do abolicionismo e do republicanismo, duas outras questões abaseus representantes laram o Império, contribuindo para o seu fim: a Questão Religiosa e a e administrarem suas rendas. Questão Militar.

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A Questão Religiosa A união entre o Estado e a Igreja era regulada pela Constituição de 1824, que concedia ao imperador o padroado, isto é, o direito de nomear religiosos para os principais cargos eclesiásticos (por exemplo, o de bispo), e o beneplácito, o direito de aprovar ou não as bulas papais, que só seriam cumpridas em território nacional mediante o placet (permissão) do imperador. Em 1864, uma bula do papa Pio IX, a Syllabus, condenou veementemente a maçonaria e afirmou a total incompatibilidade entre ser católico e maçom, ao mesmo tempo. O fato contrariou D. Pedro II, pois o Império, desde sua fundação, mantinha relações estreitas com a maçonaria. Com o objetivo de cumprir à risca a decisão do papa, o bispo de Olinda, Dom Vital Maria, e o do Pará, Dom Antônio Macedo Costa, exigiam que as irmandades religiosas expulsassem os maçons de seus quadros. Além disso, D. Vital chegou a afirmar que o imperador era súdito do papa e, como tal, não deveria ter direito ao beneplácito. Fazendo valer o direito que a constituição do Império lhe concedia, D. Pedro II negou seu beneplácito à bula papal e, além disso, em 1874 processou os bispos, que foram condenados, então, a quatro anos de prisão com trabalhos forçados. Um ano depois, em 1875, o papa e o imperador chegaram a um acordo. O imperador perdoou os bispos (eles já haviam cumprido um ano de prisão), e o papa suspendeu as punições dadas às irmandades de Olinda e do Pará. No entanto, a prisão dos bispos abalou a imagem do imperador, e a propaganda republicana tirou proveito dessa situação. Nos seus comícios, os republicanos passaram a acusar o imperador de interferir em assuntos da Igreja e na vida religiosa dos brasileiros.

Bula papal:

carta expedida pelo papa contendo orientações aos católicos.

Maçonaria:

instituição de perfil religioso, político e filantrópico que reúne membros voluntários de diversas crenças e religiões. A princípio, só era acessível ao sexo masculino.

A Questão Militar

Angelo Agostini. Séc. XIX. Desenho. Coleção particular

O poder de Dom Pedro II também foi abalado pela Questão Militar, nome dado a uma série de conflitos entre o exército e o Império, durante a década de 1880. Na época, os militares eram proibidos de se manifestar pela imprensa. O tenente-coronel Sena Madureira e o coronel Cunha Matos contrariaram essa proibição e foram punidos pelo governo imperial. Charge de Angelo Agostini ironizando a recusa de Deodoro da Fonseca em punir oficiais do exército que faziam declarações por meio da imprensa.

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jovens militares de menos de 30 anos que possuíam educação superior e valorizavam o estudo das ciências exatas.

1. Dica! Documentário abordando o declínio do Império e a proclamação da república. [Duração: 35 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ cmccv4>. 2. Dica! Vídeo com falas do historiador Boris Fausto sobre a abolição e as razões que teriam levado à República. [Duração: 7 minutos]. Acesse: <http://tub. im/58four>.

Para saber mais O positivismo Décio Vilares. s.d. Instituto Benjamin Constant, Rio de Janeiro

Mocidade militar:

Diante disso, Sena Madureira escreveu em um jornal republicano rio-grandense contra a proibição de os militares se manifestarem pela imprensa. O ministro da Guerra, que era um civil, exigiu que o general Deodoro da Fonseca, presidente da província do Rio Grande do Sul, punisse Sena Madureira. Deodoro recusou-se a fazê-lo e acabou demitido da presidência da província; Deodoro e Sena Madureira seguiram, então, para o Rio de Janeiro, onde foram recebidos festivamente pelo major Benjamin Constant, líder da mocidade militar e divulgador do positivismo nos quartéis. 1 e 2

O positivismo é um conjunto de ideias sistematizado pelo francês Auguste Comte (1798-1857). Leia o que um historiador escreveu sobre o assunto. O positivismo [...] tem como pressupostos básicos uma crença inabalável na ciência e no primado da razão. A história seria regida por leis imutáveis, científicas ou positivas, [...] sendo que a lei fundamental seria a evolução. A trajetória [...] da humanidade estaria sujeita, para o positivismo, à lei dos três estados: teológico, metafísico e positivo. No primeiro, predominavam as crenças no sobrenatural; no segundo, o penO major Benjamin Constant samento metafísico; no terceiro, (1833-1891) era fluminense. o pensamento científico. A RepúFoi professor de matemática blica seria o regime ideal para a na Escola Militar e o principal transição em busca da fase final, divulgador do positivismo entre pois ajudaria a superar a fase mea mocidade militar. tafísica, típica das monarquias hereditárias. [...] Apesar das diferenças entre os positivistas, havia assuntos em que todos concordavam, dentre eles, a abolição da escravidão e o republicanismo. [...] VAINFAS, Ronaldo (Org.). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 586-587.

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No Brasil, os positivistas defendiam:

» a implantação de uma ditadura republicana; » a ideia de que o progresso depende da ordem; daí o lema positivista inscrito na bandeira brasileira: “Ordem e Progresso”; » a crença de que somente os militares poderiam salvar o país das mãos corruptas 1 dos civis.

A proclamação da República

Pedro Bruno. 1919. Óleo sobre tela. Museu da República, Rio de Janeiro

No dia 9 de novembro de 1889, em clima de forte comoção, Benjamin Constant comandou uma reunião no Clube Militar para discutir a situação do país e pediu plenos poderes para mudar a situação dos militares. A mocidade militar respondeu com uma chuva de aplausos. Pouco a pouco, a “solução militar” para se chegar à República também foi ganhando a simpatia dos republicanos civis. A ligação política entre eles e os militares consolidou-se em 11 de novembro de 1889. Naquele dia, o marechal Deodoro da Fonseca recebeu em sua casa o major Benjamin Constant e o líder do Partido Republicano Paulista (PRP), Quintino Bocaiuva. Nesse encontro decidiram pela derrubada da monarquia. Em 14 de novembro, boatos de que Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant seriam presos precipitaram os acontecimentos. Na manhã de 15 de novembro de 1889, Deodoro da Fonseca liderou um golpe de Estado contra a monarquia, e a tropa comemorou o início da República no Brasil. No entanto, para a população pobre das cidades e do campo, a República recém-proclamada não trouxe nenhuma esperança de uma vida melhor. 2 e 3

1. Dica! Documentário abordando o exílio de D. Pedro II e sua morte. [Duração: 34 minutos]. Acesse: <http://tub. im/uno27n>. 2. Dica! Encenação humorística sobre a proclamação da República. [Duração: 12 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ 5j9bv8 >. 3. Dica! Teleaula sobre o fim do Império e o início da República no Brasil. [Duração total: 12 minutos]. Dividido em duas partes. Para a primeira parte, acesse: <http://tub.im/ jmc9ui>.

A pátria, de Pedro Bruno, 1919. Note que a bandeira republicana, elemento central do quadro, é mostrada como objeto de amor e devoção: ela é abraçada, ela protege, ela abriga seus filhos. Auguste Comte, o idealizador do positivismo, acreditava que só a ordem poderia conduzir ao progresso.

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c) Semelhança: tanto o autor da fonte 1 quanto a autora da fonte 2 veem a proclamação da República como um “golpe” de Estado. Diferença: para Celso Castro, o golpe republicano de 1889 foi organizado e executado pelos militares; já para Emília Viotti o golpe republicano resultou da ação de três forças conjugadas: uma parcela do Exército, os fazendeiros do Oeste Paulista e os representantes das camadas médias. d) Resposta pessoal. Professor: a atividade visa familiarizar os alunos com o debate historiográfico em torno da proclamação da República e estimulá-los a argumentar em defesa de um ponto de vista.

Para refletir › Fonte 1

Zahar Editora

a) Ele a vê como um golpe organizado e executado por militares. b) Na visão dele, foi a juventude militar que seduziu Benjamin Constant e não o inverso. [Celso Castro reuniu uma enorme documentação e apresentou a mocidade militar como principal protagonista no golpe que instalou a República no Brasil.]

O golpe de 1889 – ou a “Proclamação da República”, como passou à história – foi um momento-chave no surgimento dos militares como protagonistas no cenário político brasileiro. [...] Havia muitos republicanos civis no final do Império, mas eles estiveram praticamente ausentes da conspiração. O golpe reFac-símile publicano foi militar, em sua organização e execução. [...] da capa do livro Todas as fontes disponíveis destacam a liderança que BenA Proclamação jamin Constant [...] exercia sobre a “mocidade militar” formada República. da na Escola Militar da Praia Vermelha. Ele seria o [...] “líder” [...] ou “apóstolo” desses militares. [...] Minha perspectiva, no entanto, focaliza não o “líder” [...] mas seus pretensos “liderados” [...]. Ao invés de assistirmos a Benjamin Constant catequizando os jovens da Escola Militar, encontraremos justamente a “mocidade militar” seduzindo-o e convertendo-o para o ideal republicano. Atribuo à “mocidade militar”, portanto, o papel de protagonista da conspiração republicana no interior do Exército. CASTRO, Celso. A proclamação da República. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. p. 8-10. (Descobrindo o Brasil).

› Fonte 2 Em 15 de novembro de 1889, a Monarquia era derrubada por um golpe militar e proclamava-se a República. O movimento resultou da conjugação de três forças: uma parcela do Exército, fazendeiros do Oeste Paulista e representantes das classes médias urbanas que, para a obtenção dos seus desígnios, contaram indiretamente com o desprestígio da Monarquia e o enfraquecimento das oligarquias tradicionais. [...] O ano de 1889 não significou uma ruptura do processo histórico brasileiro. As condições de vida dos trabalhadores rurais continuaram as mesmas; permaneceram o sistema de produção e o caráter colonial da economia, a dependência em relação aos mercados e capitais estrangeiros. COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. 8. ed. São Paulo: Fundação Editora Unesp, 2007. p. 491-492.

a) Como Celso Castro vê a proclamação da República? b) No texto, Celso Castro minimiza o papel de oficiais como o major Benjamin Constant na proclamação da República. Justifique. c) Compare a visão do autor da fonte 1 à da autora da fonte 2 sobre a proclamação da República. d) Em dupla. Qual das versões vocês consideram mais convincente? Justifiquem.

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O período de 1889-1894 é conhecido como República da Espada pelo fato de o país ter sido governado por militares; já o período de 1894-1930 é chamado de República Oligárquica, pois o poder esteve, em grande parte, nas mãos das famílias poderosas de cada estado, as oligarquias estaduais (o termo “oligarquia” vem do grego oligarkhía, que significa “governo exercido por um pequeno número de pessoas ou de famílias”).

O governo de Deodoro da Fonseca Iniciado em 1889, o governo de Deodoro da Fonseca tomou algumas medidas importantes: » separou a Igreja católica do Estado e criou o registro civil para nascimento, casamento e óbito; » secularizou os cemitérios, que deixaram então de ser controlados pela Igreja e passaram ao controle das autoridades municipais; » criou novos símbolos nacionais; a nova bandeira tinha por lema uma máxima de inspiração positivista: a Ordem por base e o Progresso por fim. Deodoro da Fonseca indicou ministros de diferentes tendências republicanas: o Ministério da Guerra foi entregue ao militar positivista Benjamin Constant; o Ministério das Relações Exteriores, ao republicano civil Quintino Bocaiuva; o Ministério da Fazenda, ao intelectual baiano Rui Barbosa.

A reforma e a crise financeira Durante sua gestão, Rui Barbosa promoveu uma reforma financeira visando, sobretudo, à industrialização do Brasil. Como a quantidade de moeda em circulação no país era insuficiente para financiar a arrancada industrial e pagar salários, Rui Barbosa baixou decretos autorizando quatro bancos a emitir dinheiro e a conceder empréstimos àqueles que desejassem abrir uma empresa (1890). Mas, em vez de aquecer a economia, a expansão do crédito propiciou intensa especulação: foram criadas empresas-fantasmas, que só existiam no papel. As ações dessas empresas fictícias eram vendidas na Bolsa de Valores. Tempos depois, quando os acionistas tentavam vender suas ações, percebiam que elas não tinham nenhum valor. O resultado foi uma crise de graves proporções. Os preços das ações despencaram, os pequenos investidores perderam seu dinheiro para os especuladores, e muitas empresas antigas fecharam suas portas. Nos dois primeiros anos da República, a inflação disparou, saltando de 1,1% para 89,9%, e a moeda brasileira perdeu o valor. A crise resultante da política industrialista de Rui Barbosa recebeu o apelido de encilhamento. O nome vem do verbo “encilhar” (colocar arreios ou cilhas no cavalo para prepará-lo para a corrida). Como o clima de jogatina existente no lugar onde os jóqueis encilhavam cavalos e onde os jogadores faziam suas apostas era semelhante ao da Bolsa de Valores, o nome encilhamento estendeu-se à crise. Criticado por muitos, sobretudo pelos representantes da cafeicultura paulista, Rui Barbosa demitiu-se em janeiro de 1891.

Especulação:

prática que consiste em criar uma procura ou oferta artificial de um bem ou de uma mercadoria visando obter lucro.

Bolsa de Valores:

local em que são negociados determinados papéis de empresas e do governo. Os papéis do governo são chamados de títulos e os das empresas, de ações.

Inflação:

aumento generalizado e contínuo dos preços, resultando na perda do poder aquisitivo da moeda.

Dica! Documentário sobre a vida de Rui Barbosa. [Duração: 30 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ rye6ff>.

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Constituição e cidadania na jovem República

Pereira Neto. 1890. Desenho. Coleção particular

Ansiosos para aumentar seu poder, os políticos paulistas influenciaram a Assembleia Constituinte, que aprovou a primeira Constituição republicana. Inspirada no modelo norte-americano, a Constituição de 24 de fevereiro de 1891: » adotou o federalismo: as antigas províncias foram transformadas em estados. E cada um dos então 20 estados da federação passou a ter autonomia para contrair empréstimos no exterior, ter forças militares próprias (as forças públicas estaduais), criar e cobrar impostos. » estabeleceu três poderes: Executivo: exercido pelo presidente da República e por um vice-presidente, eleitos por um período de quatro anos. Legislativo: exercido pelo Congresso Nacional, formado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Judiciário: tinha como órgão máximo o Supremo Tribunal Federal. » restringiu o direito ao voto: somente os homens maiores de 21 anos, brasileiros e alfabetizados podiam votar, desde que não fossem soldados ou membros do clero regular, como monges e frades. As mulheres não tinham direito ao voto. A jovem República, portanto, excluía a maioria do acesso à cidadania. Em 1890, Deodoro foi eleito presidente por meio do voto indireto.

A charge mostra os deputados constituintes que elegeram Deodoro da Fonseca (ao centro, à direita) e Floriano Peixoto (ao centro, à esquerda) para a presidência e a vice-presidência da República, respectivamente. As figuras femininas representam os estados da República.

Dica! Animação sobre o governo de Deodoro da Fonseca. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ zhjbwm>.

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Na presidência, enfrentou forte oposição por ter nomeado um monarquista – o barão de Lucena – para o Ministério da Fazenda e por ter sido responsável pelo encilhamento. Quando os parlamentares da oposição aprovaram um projeto limitando seu poder, Deodoro da Fonseca fechou o Congresso. Diante disso, a oposição ao seu governo cresceu, e a Marinha ameaçou bombardear a cidade do Rio de Janeiro, caso ele não renunciasse. Esse episódio ficou conhecido como Primeira Revolta da Armada (1891). Isolado politicamente, Deodoro da Fonseca renunciou em favor do seu vice, Floriano Peixoto, afirmando que o fazia para evitar uma guerra civil.

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Floriano Peixoto convidou membros do Partido Republicano Paulista (PRP) para compor o ministério e, ao mesmo tempo, favoreceu a população mais pobre reduzindo os aluguéis e tabelando o preço do pão, do feijão, da batata, entre outros. Apesar disso, durante seu mandato, Floriano Peixoto teve de enfrentar muitos inimigos: políticos civis organizaram uma campanha antiflorianista, com base no artigo 42 da Constituição, exigindo novas eleições presidenciais, e oficiais do Exército assinaram o Manifesto dos Treze Generais, exigindo sua renúncia. Esse artigo estipulava que, se o cargo da presidência ou vice-presidência estivesse vago antes de decorridos dois anos do mandato, haveria nova eleição. Como Deodoro governara menos de nove meses, os antiflorianistas reclamavam nova eleição. Floriano reuniu forças para enfrentar os civis e aposentou os generais que queriam depô-lo. 1

A Revolução Federalista Outro desafio enfrentado por Floriano Peixoto foi a Revolução Federalista – uma guerra civil sangrenta resultante da disputa pelo poder no Rio Grande do Sul (1893). De um lado, estavam os seguidores do republicano Júlio de Castilhos (conhecidos como pica-paus). De outro, os adeptos de Gaspar Silveira Martins (apelidados de maragatos). A guerra civil gaúcha esquentou e repercutiu nacionalmente quando os castilhistas receberam o apoio de Floriano Peixoto e os seus adversários, os gasparistas, obtiveram o apoio da Marinha. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, iniciou-se a Segunda Revolta da Armada (1893). Liderada pelo oficial Custódio José de Melo, a Marinha começou a bombardear a cidade do Rio de Janeiro, exigindo a renúncia imediata de Floriano Peixoto e a realização de novas eleições. Buscando unir forças para derrubar o presidente, os oficiais da Marinha deslocaram seus navios para o Sul e se juntaram aos federalistas (os maragatos), que haviam ocupado Desterro, em Santa Catarina. Floriano Peixoto, porém, conseguiu dinheiro com os cafeicultores paulistas, comprou navios, submeteu a Marinha e reprimiu também os federalistas gaúchos. A guerra civil gaúcha só terminou em 1895, um ano depois do fim do mandato presidencial. Mas, quando Floriano Peixoto deixou a presidência, a República estava consolidada. 2

1910. Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte.

O governo de Floriano Peixoto

Por suas atitudes decididas à frente do governo da República, Floriano Peixoto ficou conhecido como Marechal de Ferro.

Desterro:

depois de retomada pelo governo, a cidade de Desterro passou a se chamar Florianópolis, em homenagem a Floriano Peixoto.

1. Dica! Animação sobre o governo de Floriano Peixoto. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http://tub. im/rbw4f5>. 2. Dica! Reportagem sobre a Revolução Federalista. [Duração: 9 minutos]. Acesse: <http://tub. im/4tp9pv>.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (Enem/MEC – 2013) A escravidão não há de ser suprimida no Brasil por uma guerra servil, muito menos por insurreições ou atentados locais. Não deve sê-lo, tampouco, por uma guerra civil, como o foi nos Estados Unidos. Ela poderia desaparecer, talvez, depois de uma revolução, como aconteceu na França, sendo essa revolução obra exclusiva da população livre. É no Parlamento e não em fazendas ou quilombos do interior, nem nas ruas e praças das cidades, que se há de ganhar, ou perder, a causa da liberdade. NABUCO, Joaquim. O abolicionismo [1883]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Publifolha, 2000 (adaptado).

No texto, Joaquim Nabuco defende um projeto político sobre como deveria ocorrer o fim da escravidão no Brasil, no qual a) copiava o modelo haitiano de emancipação negra. b) incentivava a conquista de alforrias por meio de ações judiciais.

As ações desempenhadas pelos negros, nos versos dessa canção, tornaram-se comuns no Brasil, entre outras coisas, porque a) as atividades intelectuais, consideradas supérfluas em fins do século XIX, foram relegadas a um plano secundário pelo Estado e pela sociedade em todos os níveis, limitando, igualmente, a ascensão de negros, mestiços e brancos. b) a Lei Áurea previa que, aos alforriados, seria garantido com exclusividade o exercício de profissões que demandassem habilidade manual, em face do desinteresse dos negros pela ciência. c) a abolição da escravidão se fez sem uma preocupação política de garantir ao povo negro o acesso à cidadania plena e sem a garantia de condições para a conquista da igualdade intelectual. 2. Resposta: c. d) estudos antropológicos de grandes universidades demonstraram que a habilidade manual era inerente ao povo negro, fosse esse de origem africana ou mesmo crioulo e mestiço, nascido no Brasil. 3. (UEG-GO – 2016) Observe a charge a seguir. 2016

1. Resposta: c.

c) optava pela via legalista de libertação. d) priorizava a negociação em torno das indenizações aos senhores. e) antecipava a libertação paternalista dos cativos. 2. (Unimontes-MG – 2014) [...] Mesmo depois de abolida a escravidão // negra é a mão de quem faz a limpeza // lavando a roupa encardida, esfregando o chão // negra é a mão, é a mão da pureza // negra é a vida consumida ao pé do fogão // negra é a mão nos preparando a mesa // limpando as manchas do mundo com água e sabão. [...] GIL, Gilberto. A mão da limpeza. In: www.gilbertogil.com.br/sec-disco-info. Acesso em: 3 abr. 2014.

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Disponível em: <http://www.over mundo com.br/uploads/overblog img/1215630971_ordemeprogresso .jpg>. Acesso em: 9 out. 2015.

A charge ironiza o dístico “ordem e progresso”, presente na atual Bandeira do Brasil. A sua origem e significado remetem a um contexto marcado

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tórica que apontava o fenômeno do sertanismo paulista como o elo decisivo entre a trajetória territorial do Brasil e de São Paulo, concepção essa que se consolidaria entre os historiadores ligados ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo ao longo das três primeiras décadas do século XX.

a) pela presença do catolicismo romano nas instituições políticas do Império Brasileiro e o esforço de preservar a ordem social vigente. b) pela influência do positivismo francês entre os oficiais militares republicanos e uma postura ideológica das elites dirigentes em evitar radicalismos políticos. 3. Resposta: b. c) pelo desejo dos oficiais militares republicanos em romper os laços com a sociedade agrária imperial, inspirando-se no liberalismo norte-americano. d) pelo esforço das elites agrárias paulista e mineira em manter os seus privilégios sociais e políticos, mas, ao mesmo tempo, buscando o progresso econômico. 4. (Enem/MEC – 2015) Iniciou-se em 1903 a introdução de obras de arte com representações de bandeirantes no acervo do Museu Paulista, mediante a aquisição de uma tela que homenageava o sertanista que comandara a destruição do Quilombo de Palmares. Essa aquisição, viabilizada por verba estadual, foi simultânea à emergência de uma interpretação his-

MARINS, P. C. G. Nas matas com pose de reis: a representação de bandeirantes e a tradição da retratística monárquica europeia. Revista do IEB, n. 44, fev. 2007.

A prática governamental descrita no texto, com a escolha dos temas das obras, tinha como propósito a construção de uma memória que a) afirmava a centralidade de um estado na política do país. 4. Resposta: a. b) resgatava a importância da resistência escrava na história brasileira. c) evidenciava a importância da produção artística no contexto regional. d) valorizava a saga histórica do povo na afirmação de uma memória social. e) destacava a presença do indígena no desbravamento do território colonial.

II. Leitura e escrita em História a. Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE Bestializados ou bilontras? O povo assistiu bestializado à proclamação da República, segundo Aristides Lobo; não havia povo no Brasil, segundo observadores estrangeiros, inclusive os bem informados como Louis Couty; o povo fluminense não existia, afirmava Raul Pompeia. Visão preconceituosa de membros da elite [...]? Etnocentria de franceses? [...]

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Fac-símile da capa de Os Bestializados, de José Murilo de Carvalho. Tribofe:

gíria da época que significa trapaça, enganação, engodo. Em 1891, Artur Azevedo lançou uma revista denominada O tribofe, cujo conteúdo continha forte crítica social e por meio do humor ironizava o comportamento do fluminense.

Havia tribofe na política, na bolsa, no câmbio, na imprensa, no teatro, nos bondes, nos aluguéis, no amor. Não se obedecia nem à lei dos homens, nem a de Deus. Como diria o próprio tribofe: “Ah, minha amiga, nesta boa terra os mandamentos da lei de Deus são como as posturas municipais... Ninguém respeita!” [...] Havia consciência clara de que o real se escondia sob o formal. [...] Perdia-se o humor apenas quando o governo buscava impor o formal, quando procurava aplicar a lei literalmente. Nesses momentos o entendimento [...] era quebrado, o poder violava o pacto, a constituição não escrita. Então tinha de recorrer à repressão, ao arbítrio, o que gerava a revolta em resposta. Mas [...] eram momentos de crise, não o cotidiano. O povo sabia que o formal não era sério. Não havia caminhos de participação, a República não era para valer. Nessa perspectiva, o bestializado era quem levasse a política a sério, era o que se prestasse à manipulação. Num sentido [...], a política era tribofe. Quem apenas assistia, como fazia o povo do Rio por ocasião das grandes transformações realizadas a sua revelia, estava longe de ser bestializado. Era bilontra. CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 140, 159-160.

a) O que Aristides Lobo quis dizer com “o povo assistiu bestializado à proclamação da República”? b) Na visão do autor, a República incluiu o povo ou o manteve excluído da política? Justifique. c) Como o autor do texto responde à pergunta contida no título? d) Você considerou convincente o argumento do autor? Justifique.

b. Cruzando fontes › Fonte 1 O texto a seguir é da professora da Universidade de São Paulo Emília Viotti da Costa. Leia-o com atenção. O rápido crescimento das plantações de café fez do trabalho o problema mais urgente. Como podiam os fazendeiros satisfazer suas necessidades de trabalho após a interrupção do tráfico de escravos? [...] Os fazendeiros das áreas em expansão haviam encontrado a resposta na imigração. [...] Como eles não se organizaram para defender a instituição, a escravidão foi abolida por um ato do Parlamento sob os aplausos das galerias. Promovida principalmente por brancos, ou por negros

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cooptados pela elite branca, a abolição libertou os brancos do fardo da escravidão e abandonou os negros à sua própria sorte. COSTA, Emília Viotti da. DA MONARQUIA À REPÚBLICA: momentos decisivos. São Paulo: Ed. Unesp. 2007. p. 366.

› Fonte 2 O trecho a seguir é da professora da Universidade Federal Fluminense Hebe Mattos. Leia-o com atenção. Festejada por milhares de pessoas, a Abolição foi um acontecimento ímpar. Pela primeira vez se reconheceu a igualdade civil de todos os brasileiros. Mesmo que não tenha significado sua imediata efetivação, marca a invenção de uma cidadania brasileira entendida em termos universais. Porém, até o surgimento dos movimentos negros do século XX, a hierarquização racial pouco se modificou. MATTOS, Hebe M. A face negra da Abolição. In: Revista Nossa História, ano 2, n. 19, p. 20 maio 2005.

a) Segundo a autora da fonte 1, qual foi a solução encontrada pelos fazendeiros das áreas onde o café se expandia? b) Para a autora da fonte 1, qual foi o significado da Abolição? c) A autora da fonte 2 concorda com a autora da fonte 1 quanto ao significado da Abolição? Justifique. d) Em dupla: debatam, argumentem: qual das duas interpretações da Abolição é mais convincente? Justifiquem.

III. Você cidadão!

Abolição da chibata: Príncipe guerreiro, d. Obá apreabolição dos castigos sentou-se para lutar na Guerra do físicos ministrados Paraguai (1864-1870), saindo oficial com a chibata (vara usada para surrar (...) do exército, por bravura. Em pessoa ou animal). 1877, fixou residência no Rio de Pincenê: Janeiro, onde passou a fazer camóculos sem haste preso panha por melhores condições de ao nariz por uma mola. vida, igualdade racial, abolição da chibata e da escravatura. Com dois metros de altura, voz firme e modos de soberano, sua figura imponente chamava atenção. Apresentava-se sempre bem vestido, de fraque, cartola, luvas, guarda-chuva, bengala, pincenê de ouro e suas “finas roupas pretas” [...]. A elite da época, ignorando a história da África e os direitos reais africanos, entendia d. Obá II como um subproduto da Guerra do Paraguai [...] uma espécie de veterano resmungão, “meio amalucado”, figura meramente folclórica. Por outro lado, o povo negro reconhecia e se-

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O texto a seguir trata de d. Obá II, filho de um príncipe africano nascido na vila dos Lençóis, no sertão da Bahia, em 1845. Seu nome de batismo era Cândido da Fonseca Galvão.

Fac-símile da capa do livro Dom Obá II D’África, o Príncipe do Povo, de Eduardo Silva.

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guia sua liderança como príncipe real. Escravos, negros libertos do cativeiro e homens negros livres, ou seja, que nunca foram escravos, não só compartilhavam suas ideias como contribuíam financeiramente para a publicação nos jornais. E depois se reuniam em suas modestas casas para ler em voz alta e discutir os artigos. Mas o que interessava tanto aos leitores? D. Obá pensava de um modo bem diverso da elite que via as raças humanas essencialmente diferentes; para ele, pareciam perfeitamente semelhantes, e o valor dos homens não estava na cor da pele, mas no mérito, no valor guerreiro e humano de cada um. Por isso, a defesa da igualdade entre os homens se torna um dos pontos centrais de sua prática política, e a abolição total da escravatura vira sua bandeira de luta pública a partir de 1882. Soldado valoroso, defensor da pátria nos campos da batalha, d. Obá II d’África se sentia com autoridade moral para criticar abertamente a classe dominante e os escravistas [...] E quando sentia que o rumo dos acontecimentos necessitava de uma boa ajuda, apelava para as forças do sincretismo afro-brasileiro: “invoco sempre ao bem estar dos conselheiros enfermos [...] em todas as minhas preces [...] a santa Bárbara e aos mais santos da África [...]”. SILVA, Eduardo. O rei dos excluídos. In: Revista Nossa História, ano 2, n. 19, p. 22-24, maio 2005.

Segundo o texto, o modo como a elite da época via d. Obá é muito diferente do modo como o povo negro o via. Explique: a) Como a elite da época via d. Obá? b) Como o povo negro o via? c) Como o autor do texto explica essa diferença? d) Por que d. Obá atraía tanto os seus leitores? e) Em dupla. Debatam, reflitam e opinem sobre a visão de d. Obá segundo a qual o valor dos homens não estava na cor da pele, mas no mérito, no valor guerreiro e humano de cada um.

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