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Alfredo

Boulos Júnior

MANUAL DO PROFESSOR

História Sociedade & Cidadania

História

Sociedade & Cidadania

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ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR HISTÓRIA

Alfredo Boulos Júnior

ISBN 978-85-96-00353-7

ENSINO MÉDIO 9

788596 003537

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MANUAL DO PROFESSOR

COMPONENTE CURRICULAR HISTÓRIA

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História

Sociedade & Cidadania

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ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR

HISTÓRIA

Alfredo

Boulos Júnior

Doutor em Educação (área de concentração: História da Educação) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mestre em Ciências (área de concentração: História Social) pela Universidade de São Paulo. Lecionou na rede pública e particular e em cursinhos pré-vestibulares. É autor de coleções paradidáticas. Assessorou a Diretoria Técnica da Fundação para o Desenvolvimento da Educação – São Paulo.

2a edição São Paulo – 2016

MANUAL DO PROFESSOR

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Copyright © Alfredo Boulos Júnior, 2016 Lauri Cericato Flávia Renata P. A. Fugita João Carlos Ribeiro Jr., Maiza Garcia Barrientos Agunzi Carolina Bussolaro Suélen Rocha M. Marques, Leslie Sandes, Juliana Marques Morais Gerente de produção editorial Mariana Milani Coordenadora de arte Daniela Maximo Projeto gráfico Juliana Carvalho Projeto de capa Bruno Attili Foto de capa Rubens Chaves/Pulsar Editor de arte Felipe Borba Diagramação Anderson Sunakozawa, Carolina Ferreira, Dayane Martins, Débora Jóia, Claritas Comunicação, Helena Mariko, Ponto Inicial Tratamento de imagens Eziquiel Racheti Ilustrações e cartografia Ilustradores: Alex Argozino, Getulio Delphim, Ilustra Cartoon, Luis Moura, Manzi, Mário Pita, Mozart Couto, Rmatias, Roberto Melo Cartografia: Alexandre Bueno, Carlos Vespucio, Renato Bassani Coordenadora de preparação e revisão Lilian Semenichin Supervisora de preparação e revisão Viviam Moreira Revisão Aline Araújo, Carina de Luca, Claudia Anazawa, Felipe Bio, Fernando Cardoso, Lívia Perran, Lucila Segóvia, Marcella Arruda, Pedro Fandi, Sônia Cervantes, Veridiana Maenaka Coordenador de iconografia e licenciamento de textos Expedito Arantes Supervisora de licenciamento de textos Elaine Bueno Iconografia Daniel Cymbalista, Graciela Naliati Diretor de operações e produção gráfica Reginaldo Soares Damasceno Diretor editorial Gerente editorial Editores assistentes Assistente editorial Assessoria

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Boulos Júnior, Alfredo História sociedade & cidadania, 1o ano / Alfredo Boulos Júnior. — 2. ed. — São Paulo : FTD, 2016. — (Coleção história sociedade & cidadania) Componente curricular: História ISBN 978-85-96-00352-0 (aluno) ISBN 978-85-96-00353-7 (professor) 1. História (Ensino médio) I. Título. II. Série. 16-03476

CDD-907 Índices para catálogo sistemático: 1. História : Ensino médio 907

Reprodução proibida: Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Todos os direitos reservados à

A fotografia registra um aspecto da edição de 2015 do São João de Campina Grande (PB). Nela vemos componentes de uma das muitas quadrilhas que acontecem naquele que é considerado o maior São João do Brasil. A força e o brilho dessa festa popular atraem turistas de várias partes do país. Essas quadrilhas são formadas por alunos das escolas públicas e privadas da cidade.

Em respeito ao meio ambiente, as folhas deste livro foram produzidas com fibras obtidas de árvores de florestas plantadas, com origem certificada.

EDITORA FTD Rua Rui Barbosa, 156 – Bela Vista – São Paulo-SP CEP 01326-010 – Tel. (0-XX-11) 3598-6000 Caixa Postal 65149 – CEP da Caixa Postal 01390-970 www.ftd.com.br E-mail: central.atendimento@ftd.com.br

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Impresso no Parque Gráfico da Editora FTD CNPJ 61.186.490/0016-33 Avenida Antonio Bardella, 300 Guarulhos-SP – CEP 07220-020 Tel. (11) 3545-8600 e Fax (11) 2412-5375

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APRESENTAÇÃO

Caro(a) aluno(a), Um dia desses coloquei-me no seu lugar e fiquei pensando em como você iria se sentir no primeiro contato com este livro de História. Imaginei, então, algumas perguntas que você faria: “Será que esse livro é chato?”; “Será que é bacana?”; “Será que vou começar a gostar de História?”; “Será que vou continuar gostando de História?”; “Será que tem o que eu preciso aprender para passar no Enem e/ou Vestibular?” Isto sem contar aquelas perguntas de sempre, que alguns certamente farão: “mas para que serve a História?”; “Pra que eu tenho de saber ‘o que já passou’?”. Olha, vamos imaginar que você esteja debatendo com os seus colegas sobre um assunto do seu gosto, seja qual for: amor, saúde, esporte, viagem, festa, um show que vai estrear, ou outro assunto qualquer. Pois bem, se você quiser compreender melhor qualquer um desses assuntos (e argumentar com mais segurança) é só lembrar que todos eles possuem uma história, que faz parte de outras tantas histórias, passadas e presentes. Ou seja, a História lhe dá o privilégio de debater qualquer assunto em uma perspectiva temporal; e isto a distingue das demais disciplinas. Aprender a pensar historicamente vai ajudá-lo(a) a se compreender melhor, a entender o seu meio social e o mundo em que você vive. Vai ajudá-lo(a) também a perceber as mudanças em um mundo em que elas ocorrem numa velocidade jamais imaginada; e, ao mesmo tempo, a captar aquilo que continua parecido ao que era no tempo em que nossos avós eram crianças. Assim, aos poucos, você vai ganhar condições de enfrentar esse mundo ligado em rede, no qual, e por isso mesmo, temos de estar o tempo todo “conectados”. Em resumo: a História vai ajudá-lo a compreender em vez (ou antes) de julgar. Mas, então, eu devo estudar História somente porque ela é útil? Também; mas não só. O estudo da História nos permite ainda conhecer a aventura humana sobre a Terra. E isto é uma fonte de prazer. Bem, já falei demais para uma apresentação (nós, professores, geralmente nos entusiasmamos quando temos a palavra). Agora eu quero convidá-lo a folhear e, depois, a ler o livro que fizemos com carinho e para você! O Autor

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COMO ESTÁ ORGANIZADO SEU LIVRO? Muito tempo depois... Em meados do século XX os seres humanos descobriram a internet, que, inicialmente, era usada somente para fins militares. No início dos anos de 1970, os seres humanos desenvolveram a tecnologia da telefonia celular, fato que impactou fortemente a vida social. San Rostro/age fotostock/Easypix

Robert Harding/Image Forum

ABERTURA DE UNIDADE

Técnicas, tecnologias e vida social Ariel Skelley/Blend Images/Easypix

UNIDADE

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Cada unidade é iniciada com uma abertura em página dupla. Nessas aberturas são apresentados, por meio de imagens e textos, os temas que serão trabalhados.

Acima, imagem de uma teleconferência. Abaixo, jovem acessando a internet pelo celular. Christin Gilbert/age fotostock/Easypix

Acima, mulheres colhendo e cortando alimento para animais. Etiópia, 2015. À direita, mulher em plantação de uvas. Champagne, França, 2012. Tecnologia:

palavra de origem grega com significado abrangente. Dependendo do contexto, a tecnologia pode significar: máquinas e/ ou ferramentas; um método de produção; a aplicação de determinados recursos para se resolver um desafio; o estágio de conhecimento de uma determinada cultura.

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na) podem ser consideradas mais importantes do que os domínios do fogo e/ou da agricultura (citados na página anterior)? » Será que as conquistas recentes in-

fluenciaram mais a vida social do que as antigas? » Se o domínio do fogo e da agricultura

foram tão importantes para a humanidade, por que então chamar de Pré-História o tempo em que essas conquistas aconteceram?

UNIDADE 1 | TÉCNICAS, TECNOLOGIAS E VIDA SOCIAL

UNIDADE 1 | TÉCNICAS, TECNOLOGIAS E VIDA SOCIAL

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História, cultura, patrimônio e tempo

H. Armstrong Roberts/ClassicStock/Getty Images

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ABERTURA DE CAPÍTULO

Contrário ao espírito de competição adotado pela nobreza, Confúcio propunha relações baseadas no respeito à tradição, na tolerância e no culto aos antepassados. Para ele, a família constituía a base da sociedade. E a família ideal é aquela em que os jovens respeitam os mais velhos, os filhos obedecem aos pais, a esposa obedece ao marido e aos sogros, e o imperador cultua seus antepassados.

As aberturas dos capítulos propõem a discussão dos temas que serão trabalhados nas páginas seguintes.

DIALOGANDO

DIALOGANDO Desafios propostos ao longo do texto para discutir imagens, gráficos, tabelas e textos.

Observando essas quatro imagens, podemos perceber algumas mudanças relacionadas à tecnologia, ao modo de se vestir e de namorar. Segundo historiadores especializados no estudo do presente, algumas dessas mudanças – como as tecnológicas – vêm se processando em alta velocidade e têm causado um grande impacto nas nossas vidas, alterando os modos como a gente se comunica, estuda, trabalha e namora.

GLOSSÁRIO Explicação de um termo-chave ou conceito.

» Que diferenças você percebe na maneira de se comunicar, de se vestir e de

namorar dos jovens que aparecem nas fotos? UNIDADE 1 | TÉCNICAS, TECNOLOGIAS E VIDA SOCIAL

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Xixinxing/Getty Images

Thais Falcão/Olho do Falcão

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bikeriderlondon/Shutterstock/Glow Images

Fernando Favoretto/Criar Imagem

Observe as imagens a seguir.

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nia celular (representadas nesta pági-

Ao longo de milênios os seres humanos foram desenvolvendo técnicas e tecnologias com as quais foram vencendo desafios e se multiplicando. Uma de suas primeiras conquistas importantes foi a técnica de fazer o fogo, o que lhes permitiu iluminar cavernas, cozinhar alimentos, proteger-se do frio e manter os animais afastados. Tempos depois, desenvolveram a técnica da agricultura (cultivo intencional de alimentos). O domínio do fogo e o advento da agricultura se deram durante o período conhecido como Pré-História, que vai do aparecimento dos primeiros seres humanos sobre a Terra, por volta de 2 milhões a.C., até a invenção da escrita, em cerca de 3000 a.C.

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Capítulo 1

» As conquistas da internet e da telefo-

a) O que se pode observar quanto ao papel do idoso na família chinesa, com base nesta foto? b) Você considera a família importante para a manutenção do equilíbrio social? c) Qual a importância da família na sua vida? Família chinesa reunida para a refeição em fotografia de 2013. Note a presença de pessoas de três gerações, fato comum nos lares chineses.

Ao longo do tempo, observou-se uma seleção e apropriação das ideias de Confúcio por parte do Império Chinês; os Han, por exemplo, diziam que, assim como os filhos devem obedecer aos pais, o povo deve ser obediente ao imperador. No século II a.C., o confucionismo tornou-se a doutrina oficial do Império Chinês e matéria obrigatória dos concursos públicos. Da China, o confucionismo se expandiu para outras áreas do Oriente, especialmente Japão, Coreia e Vietnã.

O taoismo A China antiga viu florescer também o taoismo, filosofia cujas bases estão contidas no Tao te ching, o livro do caminho e da virtude, atribuído ao pensador Lao Tse (século VII a.C.). O taoismo se opõe à ostentação e ao luxo e propõe uma vida simples e em harmonia com a natureza; só aquele que vive com simplicidade é feliz e pode atingir o Tao. Essas ideias, provavelmente, contribuíram para atrair trabalhadores do campo e das cidades para as fileiras do taoismo e para torná-lo popular na China. A valorização de uma vida em permanente contato com a natureza inspirou a pintura de paisagens. O taoismo propõe uma vida que alterne rotinas de trabalho com descanso e lazer. Segundo o taoismo, tudo o que ocorre no Universo resulta de diferentes interações, combinações entre o yin e o yang, duas forças/ energias opostas e complementares. Essa visão se aplica também ao corpo humano, o que ajuda a explicar por que ele serviu de base para a acupuntura, uma técnica da medicina tradicional chinesa.

Dica! Documentário que aborda os ensinamentos e a filosofia do confucionismo e do taoismo. [Duração: 48 minutos]. Acesse: <http://tub. im/8cf6vx>.

Tao:

o significado da palavra tao é objeto de debates entre os estudiosos; a versão mais aceita é a de que signifique “caminho”.

DIALOGANDO Por que será que os imperadores Han transformaram o confucionismo em religião oficial do império e perseguiram o taoismo?

CAPÍTULO 6 | CIVILIZAÇÃO CHINESA

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Equador

d) A que tempo o mapa se refere? e) Em grupo. Debatam, reflitam e respondam. Sua observação do mapa e seus estudos sobre a África confirmam ou negam a ideia de uma África “sem história”? Postem o resultado da sua reflexão no blog da turma.

Tombuctu GANA

OCEANO ATLÂNTICO

AIR

Takedda Gao Agadés HAUSSÁ

Bilma Lago Chade

Oió AKAM BENIN Ibo Ifé Fernando Pó Golfo da Guiné

Rotas comerciais transaarianas

ÁSIA ETIÓPIA

DARFUR

o de Golf

Ád

en

SIDAMA Congo Rio

LAGOS

Lago Vitória

OCEANO ÍNDICO

CONGO LUANDA LUBA Lago Malaui

Limites aproximados do deserto Limites aproximados da floresta

Suakin

GRANDE ZIMBÁBUE Trópico de Capricórnio

MONOMOTAPA

Um quadro que apresenta informações extras sobre os conteúdos dos capítulos trabalhados.

MA DA GA SC AR

Galam Cabo Verde Futa Jalon Serra Leoa

PARA SABER MAIS

o e lh er m rV

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c) Como essas informações estão representadas?

Uma seção que traz textos estimulantes sobre os conteúdos estudados e propõe a discussão sobre esses temas.

Allmaps

Argel Túnis Fez KAIRUAN M a r M editerr âneo Marrakesh MARROCOS IFRIQIYA Trípoli TAFILELT Cairo Ghadames EGITO Fezzan TUAT Ghat Taodeni

âncer Idjill Teghazza

o Ri

b) Que outras informações importantes o mapa nos fornece?

20º L

EUROPA

Trópico de C

Ma

a) Qual o assunto do mapa?

Sahel Maiores fontes de ouro Maiores fontes de sal Maiores fontes de noz-de-cola

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Fonte: MELLO E SOUZA, Marina de. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2006. p. 13.

Impérios do Sahel Império:

“Unidade política que congrega várias outras unidades, que podem ser compostas por povos diferentes entre si que mantêm suas formas de governar locais, mas prestam obediência ao poder central, controlado pelo chefe de todos os chefes” (MELLO e SOUZA, Marina de. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2006. p. 16).

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A partir do século VII, com a expansão dos árabes muçulmanos no norte da África, os berberes do deserto foram islamizados e, enquanto levavam e traziam suas mercadorias, difundiram o islamismo entre os povos negros da África ocidental; em alguns casos, a religião de Maomé se impôs, em outros se mesclou às religiões tradicionais da região, ocorrendo mais uma africanização do islamismo do que propriamente uma islamização dos africanos. Foi justamente na África ocidental marcada pela mescla do islamismo com religiões tradicionais africanas que se formaram dois importantes impérios africanos sudaneses: o de Gana e o do Mali, apresentados a seguir.

Para saber mais No trecho a seguir, o historiador Marcelo Rede, professor de História Antiga da Universidade de São Paulo, fala sobre os poemas épicos atribuídos a Homero.

Ilíada e Odisseia

Os gregos antigos, em sua quase totalidade, acreditavam que esses poemas fossem obra de um único e genial poeta, chamado Homero. Hoje, sabemos que isso não é verdade. A Ilíada e a Odisseia são, certaVaso grego com mente, fruto de uma longa tradição oral em que os representação de Ulisses e as poetas (chamados de aedos) declamavam os episódios sereias em técnica de figuras da guerra de Troia e as aventuras de Odisseu. Esses vermelhas, c. 400 a.C. relatos eram cantados, acompanhados por música, e passados de geração em geração, tendo sofrido muitas alterações e adaptações. Só mais tarde, cerca de 550 a.C., os poemas foram escritos pela primeira vez. [...] Ilíada – Ílion é o mesmo que Troia. A Ilíada, poema épico atribuído a Homero, possui mais de 15 mil versos e conta episódios da guerra de Troia. O motivo da guerra foi o rapto de Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta, por Páris, príncipe de Troia. Para vingar o insulto, os gregos cercaram a cidade por dez anos e acabaram por destruí-la. Odisseia – É o segundo livro que os gregos atribuíam ao poeta Homero. Tem cerca de 12 mil versos e seu nome vem de Odisseu, rei de Ítaca, também conhecido por Ulisses. A Odisseia conta as aventuras de Odisseu em seu retorno à terra natal, depois do fim da guerra de Troia. Enquanto Odisseu esteve ausente, por vinte anos, vários pretendentes assediaram sua linda mulher, Penélope, e ambicionaram tomar posse de sua casa e suas riquezas. Ao chegar, Odisseu vingou-se, matando-os. REDE, Marcelo. A Grécia antiga. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 16-17.

Do oikos à cidade-Estado No Período Homérico, com o fim dos palácios, os reis perderam o poder e a aristocracia se fortaleceu. A base da organização social passou a ser o oikos: uma grande família (pais, primos, avós), seus dependentes e seus bens, como casas, terras e animais. Os membros do oikos acreditavam pertencer a um ancestral comum, fosse ele um ser humano ou um deus. A produção do oikos era voltada para a subsistência, e o que sobrava era acumulado pelo seu chefe. Com o passar do tempo, o chefe do oikos maior e mais rico ganhou poder, tornou-se rei e passou a governar auxiliado por uma assembleia de guerreiros saídos dos outros grupos familiares. Essa assembleia, formada por guerreiros com igual poder de decisão, deu origem à cidade-Estado, uma forma de organização política própria das sociedades mediterrâneas.

O Império de Gana Situado no ocidente africano, ao norte dos rios Senegal e Níger, o Império de Gana era conhecido como “terra do ouro”, tal a quantidade de ouro que circulava por suas terras. Segundo o historiador José Rivair de Macedo, o Reino de Gana foi fundado no século IV pelo povo soninquê mas sua história, até o século VIII, ainda é pouco conhecida. Sabe-se que, no século VIII, o Império de Gana possuía uma grande extensão e dominava política e economicamente uma variedade de povos.

UNIDADE 4 | DIVERSIDADE RELIGIOSA: O RESPEITO À DIFERENÇA

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c. 400 a.C. Vaso. Coleção particular. Foto: Album/Oronoz/Latinstock

Mapa do comércio transaariano (século X)

Observe o mapa com atenção:

Rio Ni

Para refletir

PARA REFLETIR

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Aristocracia:

palavra que em grego significa “governo dos melhores”. Aristocracia é um grupo formado por pessoas ou famílias que, por herança ou concessão, possuem o poder ou uma série de privilégios sobre as demais pessoas.

Sociedades mediterrâneas:

sociedades que se formaram em torno do mar Mediterrâneo.

CAPÍTULO 7 | O MUNDO GREGO: DEMOCRACIA E CULTURA

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ATIVIDADES ESCREVA NO CADERNO.

egípcios. Com base na citação, na figura e nos conhecimentos sobre o Antigo Império, explique um elemento que transmita a noção de poder ligada aos Faraós no Egito Antigo.

Retomando

1. (UEL-PR – 2015) Leia a citação e analise a figura a seguir.

Questões variadas sobre os conteúdos dos capítulos para serem realizadas individualmente ou em grupo. Uma forma de rever aquilo que foi estudado.

2. (UEG-GO – 2015) Leia o texto a seguir.

II. Leitura e escrita em História

Amanheces formoso no horizonte celeste, Tu, vivente Aton, princípio da vida! Quando surgiste no horizonte do oriente Inundaste toda a terra com tua beleza. [...] Ó Deus único, nenhum outro se te iguala! Tu próprio criaste o mundo de acordo com tua vontade, Enquanto ainda estavas só.

Construir é uma atividade fundamental para o soberano egípcio.

rayints/Shutterstock/Glow Images

DESPLANCQUES, S. Egito Antigo. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 28. Coleção L&PM Pocket. Série Encyclopaedia.

a. Leitura de imagem As pinturas a seguir foram feitas em rocha e se encontram em sítios arqueológicos do Nordeste. A primeira está em Lajeado de Soledade, no município de Apodi, no estado do Rio Grande do Norte. A segunda está no Parque Nacional Serra da Capivara, no município de São Raimundo Nonato, no estado do Piauí; este parque foi tombado pelo Iphan em 1991. Observe as imagens com atenção.

HINO A ATON. In: PINSKY, Jaime. 100 textos de História Antiga. São Paulo: Contexto, 2009. p. 56-57.

O faraó Amenófis IV (1377-1358 a.C.), como parte de uma estratégia política que visava diminuir o poder da classe sacerdotal egípcia, realizou uma reforma religiosa que teve como principal tópico a a) adoção do Deus dos hebreus, que se encontravam escravizados no Egito, mas tendo José como um importante membro da corte.

b) E na imagem da direita? d) O artista que pintou a capivara e seu filhote conseguiu transmitir a ideia de movimento? e) Quando terão vivido os seres humanos que elaboraram essas pinturas?

b. Leitura e escrita de textos

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VOZES DO PASSADO

d) imposição do monoteísmo, adotando o culto oficial a um deus único e proibindo adoração às outras deidades do panteão egípcio.

A História também possui uma história. Na Antiguidade, encontramos os primeiros historiadores. Escolhemos um texto antigo do historiador Deodoro da Sicília (ilha que hoje pertence à Itália), que viveu durante o século I a.C. Leia-o com atenção.

3. (Enem/MEC) O Egito é visitado anualmente por milhões de turistas de todos os quadrantes do planeta, desejosos de ver com os próprios olhos a grandiosidade do poder esculpida em pedra há milênios: as pirâmides de Gizeh, as tumbas do Vale dos Reis e os numerosos templos construídos ao longo do Nilo. O que hoje se transformou em atração turística era, no passado, interpretado de forma muito diferente, pois

A utilidade da História Em todas as circunstâncias da vida, dever-se-ia acreditar que a história é a mais útil das disciplinas. Aos jovens ela confere a prudência dos adultos. Em relação aos velhos ela redobra e multiplica a experiência já adquirida. Ela transforma uma pessoa comum em alguém digno de governar, e, em relação aos governantes, ela os inclina a façanhas admiráveis [...]. Graças aos elogios que estes merecerão depois de sua morte, ela estimula os militares a correrem riscos pela Pátria! E desvia os criminosos do caminho do mal pelo medo de serem mal vistos pelas gerações futuras!

UNIDADE 2 | CIDADES: PASSADO E PRESENTE

Leitura de imagem

Seção que permite o estudo de imagens relacionadas aos temas dos capítulos.

c) Dê o significado dos termos: pintura rupestre; sítio arqueológico; Iphan.

c) imposição de deuses estrangeiros trazidos do Oriente, levados para o Egito por meio das rotas comerciais favorecidas pelo faraó.

A citação da historiadora Sophie Desplancques faz alusão ao Egito Antigo, especificamente ao período conhecido como Antigo Império, considerado uma fase de estabilidade política por parte significativa da historiografia, bem como uma “idade de ouro” de sua civilização, por parte dos próprios

»

a) O que se vê na imagem da esquerda?

b) definição de que o próprio faraó Amenófis IV, que adotou o nome de Akhenaton, seria o deus único dos egípcios.

Disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/thumb/6/6c/Egypt.Giza.Sphinx.02.jpg/800pxEgypt.Giza.Sphinx.02.jpg>. Acesso em: 2 out. 2014.

Leitura e escrita em História

Ricardo Azoury/Olhar Imagem

I. Retomando

Joao Prudente

ATIVIDADES

SICÍLIA, Deodoro da. A utilidade da História. In: PINSKY, Jaime (Org.). 100 textos de história antiga. 4. ed. São Paulo: Contexto, 1988. p. 149. LY-HIS-EM-3027-AL-V1-U02-C04-065-083-ML-LA-G18.indd 78

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UNIDADE 1 | TÉCNICAS, TECNOLOGIAS E VIDA SOCIAL

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II. Leitura e escrita em História

b. Cruzando fontes

Leitura e escrita de textos

Interpretação de diferentes gêneros textuais. Para completar o estudo dos temas, são propostas atividades de pesquisa ou escrita de um texto.

› Fonte 1

O texto a seguir faz parte de uma entrevista concedida pelo professor Marcelo Rede, em abril de 2003, ao Jornal da USP, logo após a Guerra do Iraque.

Victor Meirelles. A Primeira Missa no Brasil. 1860. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Belas Artes

Leitura e escrita de textos

A fonte 1 é uma imagem icônica sobre a primeira missa no Brasil. Já a fonte 2 é um texto atual sobre o mesmo tema. Leia as fontes 1 e 2 com atenção.

VOZES DO PRESENTE

Quem responde pelos danos da cultura? Jornal da USP – Com a guerra praticamente terminada, que balanço se pode fazer dos danos causados ao patrimônio cultural do Iraque? Marcelo Rede – [...] Evidentemente, a guerra em si causa danos irreparáveis ao patrimônio cultural, com a destruição física devido aos bombardeios e à ocupação massiva do território por tropas. [...] A extensão dos estragos da atual campanha sobre os sítios arqueológicos ainda não é totalmente conhecida. No entanto, o problema maior é a situação geral que se origina da guerra. O empobrecimento do país, a desorganização administrativa, tudo acaba contribuindo para que as condições de preservação do patrimônio histórico se deteriorem consideravelmente. [...] JU – Entre as mais de cem mil peças que teriam sido retiradas pelos saqueadores do Museu Arqueológico de Bagdá, quais seriam as mais valiosas? MR – O saque do Museu Arqueológico de Bagdá representa uma perda irreparável. Trata-se do maior acervo de peças da antiga civilização mesopotâmica que existe. [...] Algumas fontes falam de Parte da cabeça mais de cem mil peças roubadas ou destruídas. [...] Mas não são de uma escultura apenas as grandes obras de arte que contam. Cada objeto no mujogada entre outros seu, por mais simples, é uma fonte preciosa de informações para o fragmentos de estudo das sociedades antigas. O pior é que o Museu de Bagdá é um obras destruídas grande depósito de objetos e textos cuneiformes que foram escavaapós o saque de 13 dos recentemente ou apreendidos pela Justiça e nem sequer foram de abril de 2003 ao maior museu publicados. Toda essa informação estaria perdida para sempre. [...] arqueológico do JU – A destruição de patrimônio cultural da humanidade é criIraque, localizado me. Quem deve responder pelos saques no Iraque? [...] em Bagdá. MR – [...] Segundo as notícias, o único prédio público em que os marines fizeram um cordão de isolamento foi o Ministério do Petróleo. No mínimo, as tropas de ocupação foram coniventes e negligentes e devem, a meu ver, ser responsabilizadas pelas perdas do patrimônio cultural iraquiano. [...]

Patrick Baz/AFP Photo/Image Forum

»

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› Fonte 2 [...] Se os bonés vermelhos, os chapéus de linho, os guizos, os anéis de metal e os terços de contas brancas que os portugueses distribuíam os deixavam muito felizes, os índios não entendiam por que os visitantes obrigavam alguns dos seus, que aliás tratavam com a maior brutalidade, a passarem a noite em suas aldeias. Os indígenas ignoravam que se tratava de degredados, esses condenados de direito comum que deviam se meter na vida dos indígenas para arrancar deles o máximo de informações. Uma assembleia solene dos portugueses feita numa pequena ilha provocou o interesse de uma multidão de índios do Brasil, que amontoados na praia, assistiram de longe, sem saber, à primeira missa católica. Para marcar sua participação distante numa cerimônia que parecia tão importante para os portugueses, os indígenas começaram a dançar, pular, tocar corneta. GRUZINSKI, Serge. A passagem do século: 1480-1520: as origens da globalização. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 71.

a) O que se vê na obra de Meirelles?

JORNAL DA USP, São Paulo, ano XVIII, n. 640, mar./abr. 2003. Disponível em: <www.usp.br/ jorusp/arquivo/2003/jusp640/pag0607.htm>. Acesso em: 20 abr. 2016.

b) Pesquise: a que gênero de pintura pertence essa obra e com que intenção teria sido feita? Você pode acessar: <http://tub.im/oagg72> e <http://tub.im/qkjqmn>.

d) O que se pode concluir, e está explícito, comparando a fonte 1 à fonte 2? e) A fonte 1 diverge da fonte 2 no tocante à reação dos indígenas à Primeira Missa; qual dessas versões você considera mais convincente?

UNIDADE 2 | CIDADES: PASSADO E PRESENTE

CAPÍTULO 13 | TEMPOS DE REIS PODEROSOS E IMPÉRIOS EXTENSOS

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III. Integrando com Língua Portuguesa

Integrando com... Nesta seção, a História e outras áreas do conhecimento se encontram, o que permite ampliar ou complementar o que foi visto no capítulo.

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As armas e os barões assinalados, Que, da ocidental praia lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram;

Cessem do sábio grego e do troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram, Que eu canto o peito ilustre lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta. [...]

2 E também as memórias gloriosas Daqueles reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando: Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

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6 E vós, ó bem-nascida segurança Da lusitana antiga liberdade. E não menos certíssima esperança De aumento da pequena cristandade Vós, ó novo temor da maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, (Dada ao mundo por Deus, que todo o [mande Pera do mundo a Deus dar parte grande); [...]

Luís de Camões. Os Lusíadas. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1980. p. 75-77 e 79.

Reflexão sobre temas como meio ambiente, ética e solidariedade. As atividades visam estimular o exercício da cidadania. Esta seção encerra o estudo da unidade.

GRANDELLE, Renato. Parque da Serra da Capivara, no Piauí, está ameaçado. O Globo, 17 set. 2015. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/parque-da-serra-dacapivara-no-piaui-esta-ameacado-1-16800318>. Acesso em: 19 abr. 2016.

a) O texto se destina às autoridades, aos arqueólogos, aos estudantes ou ao público em geral? b) Qual o principal problema enfrentado pelo Parque Nacional segundo a reportagem? c) Qual tem sido a consequência do problema apontado no texto?

c) Como se pode explicar no poema a presença de divindades do paganismo, como Netuno e Marte, sendo os portugueses um povo cristão?

d) Em dupla. Pesquisem para identificar os principais problemas vividos pelo Parque Nacional, além da falta de verbas. Postem o trabalho de vocês no blog da turma.

d) Por que Os Lusíadas são classificados como uma obra renascentista?

e) Em grupo. Elaborem um texto sobre o Parque Nacional e os problemas que enfrenta na atualidade. Cada grupo pode se dedicar a um tema: A história do Parque; A luta de Niède Guidon para transformá-lo em um polo turístico; A questão do desmatamento; A questão da caça comercial; A questão da preservação do patrimônio.

e) Os Lusíadas, do português Luís Vaz de Camões, é um clássico da literatura ocidental. Pesquise e escreva um pequeno texto sobre essa obra e seu autor.

IV. Você cidadão!

Sites para pesquisa: 1. <http://tub.im/hs6014>.

Em grupo: Vimos que no livro Utopia, Thomas Morus descreve uma sociedade ideal: justa e fraterna. Dialoguem, reflitam e respondam: que sugestões vocês dariam para construirmos uma sociedade mais justa e mais fraterna do que a nossa? Compartilhem postando as sugestões do grupo no blog da turma.

2. <http://tub.im/y75fg5>. 3. <http://tub.im/qkho58>. CAPÍTULO 2 | A AVENTURA HUMANA: PRIMEIROS TEMPOS

UNIDADE 4 | DIVERSIDADE RELIGIOSA: O RESPEITO À DIFERENÇA

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Você cidadão!

Parque da Serra da Capivara, no Piauí, está ameaçado Até o fim do ano, o Parque Nacional da Serra da Capivara pode sofrer um golpe pesado. A Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), parceira do governo federal na manutenção da unidade, prepara-se para fechar as portas. Em 2014, seus cofres receberam apenas R$ 860 mil, verba insuficiente para zelar pela infraestrutura que sustenta o acesso e a pesquisa em mais de mil grutas rupestres, dispersas por 130 mil hectares no interior do Piauí. Nem o status de Patrimônio Cultural da Humanidade assegurou a entrada de recursos. Se a penúria significar uma ameaça às cavernas pré-históricas, o título atual poderia mudar para “patrimônio em perigo”. Pouco tempo atrás, a equipe de Niède Guidon, de 82 anos, que preside a fundação, contava com 270 funcionários. Hoje, são 50. Segundo a arqueóloga, a demissão dos empregados remanescentes implicaria no pagamento de indenizações. Para isso, seria necessário encerrar as atividades até dezembro. — Eu não sei mais o que fazer — admite a arqueóloga. — A fundação surgiu em 1986 porque, sete anos antes, o parque foi criado e não havia funcionários do governo federal. A área estava tomada por caçadores e extrativistas. As pesquisas científicas trazem resultados fantásticos, mas os trabalhos não podem ser sustentados sem uma estrutura básica.

b) Várias estrofes de Os Lusíadas abordam a expansão do reino luso e da fé cristã. Isso pode ser considerado ficção ou tem fundamento histórico? Justifique sua resposta.

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O Parque Nacional Serra da Capivara fica no sudeste do Piauí, a 530 km de Teresina, capital do Estado. O Parque possui uma superfície de 129 140 ha e um perímetro de 214 km, ocupando áreas dos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. Em 1991 a Unesco incluiu-o na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. O texto a seguir é uma reportagem sobre esse patrimônio. Leia-o com atenção.

a) Uma característica das epopeias greco-romanas é a ação centralizada num herói, como Ulisses, da Odisseia, e Enéas, da Eneida. Nesse aspecto, em que o poema Os Lusíadas é diferente?

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II. Você cidadão!

Luís Vaz de Camões (1524-1580) levou uma vida cheia de aventuras amorosas e militares e destacou-se como um dos maiores poetas da Língua Portuguesa. Leia com atenção um trecho de sua obra Os Lusíadas. 1

Cruzando fontes

c) Responda com base na fonte 2: qual foi a tática usada pelos portugueses para melhor conhecer os indígenas?

a) O texto citado pode ser classificado como literário, jornalístico ou jurídico? b) Ao ser perguntado sobre os danos causados pelos bombardeios, o entrevistado fala das consequências da guerra para o patrimônio cultural do Iraque. Quais são elas? c) Analise a atitude das forças militares estadunidenses com relação ao saque efetuado ao patrimônio histórico mesopotâmico.

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Uma seção que permitirá a você se aproximar do trabalho de um historiador, por meio da análise e da comparação de diferentes fontes.

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SUMÁRIO UNIDADE 1 - TÉCNICAS, TECNOLOGIAS E VIDA SOCIAL

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Capítulo 1 – História, cultura, patrimônio e tempo.................................................................. . . . . . . . . . . . . . 12 O que a História estuda? ...................................... 13 As fontes da História ........................... ................... 13 Cultura ..................................................... ................... 15 Patrimônio cultural .............................. ................... 15 O conceito de patrimônio ..................................... 15 A valorização das matrizes africana e indígena .... 18 Cuidando do nosso patrimônio cultural ............... 19 Tempo ...................................................... ................... 19

O tempo cronológico ................................. . . . . . . . . . . . . 20 Tempo histórico e diferentes tempos ..... . . . . . . . . . . . . 21 O tempo e suas durações .......................... . . . . . . . . . . . . 22 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . . . 23 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . . . 23 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . . . 26 III. Integrando com Sociologia............... . . . . . . . . . . . . . 27

Capítulo 2 – A aventura humana: primeiros tempos ................................................................ . . . . . . . . . . . . . 28 O que podemos aprender com os fósseis? ........... 30

Os hominídeos .......................................................... 31 Os primeiros povoadores da Terra........................ 33

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The Bridgeman Art Library/Keystone

Fine Art Images/Heritage Images/Getty Images

Caçadores e coletores ............................................ 33 O domínio do fogo .............................. ................... 34 Agricultores e pastores....................... ................... 34 Agricultura, uma descoberta revolucionária........ 35 Da aldeia à cidade ................................ ................... 36 O comércio........................................... ................... 36 O processo de centralização do poder ................ 37

Trabalhando os metais .............................. . . . . . . . . . . . . 37 .................... . . . . . . . . . . . . 38 Hipóteses sobre o caminho dos seres humanos para a América ................ . . . . . . . . . . . . . 38 Arqueologia brasileira: descobertas recentes . . . 39 Os estudos de Niède Guidon ..................... . . . . . . . . . . . . 39 O que se sabe sobre os paleoíndios? ...... . . . . . . . . . . . . 40 Caçadores e coletores ............................... . . . . . . . . . . . . . 41 Agricultores e ceramistas ......................... . . . . . . . . . . . . . 44 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . . . 45 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . . . 45 II. Você cidadão!..................................... . . . . . . . . . . . . . 47

Trajetórias do Homo sapiens

Gamma-Rapho via Getty Images

Pré-História: um conceito discutível ................ 29 Os primeiros habitantes da Terra ...... ................... 30

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Boaz Rottem/Age Fotostock/Keystone

Egyptian Museum, Cairo. The Bridgeman Art Library/Keystone

c.2650-2550 a.C. Coleção particular. Foto: Akg-Images/Latinstock

UNIDADE 2 - CIDADES: PASSADO E PRESENTE

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Capítulo 3 – Mesopotâmia ......................................................................................................................... . . . . . . . . . . . . . 50 A Mesopotâmia...................................... ................... 51 Os sumérios e os acádios ................... ................... 51 Os amoritas ......................................... ................... 53 Os assírios............................................................... 55 Os caldeus............................................................... 55 O campo e a cidade na Mesopotâmia................... 56

O comércio externo.................................... . . . . . . . . . . . . 57 Sociedade, impostos e oferendas ............. . . . . . . . . . . . . 58 Religião, mitologia e família .................... . . . . . . . . . . . . 58 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . . . 60 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . . . 60 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . . . 62

Capítulo 4 – África antiga: Egito e Núbia ........................................................................................ . . . . . . . . . . . . . 63 O Império Egípcio................................. ................... 65 O Antigo Império ................................................... 65 O Médio Império .................................................... 66 O Novo Império ...................................................... 66 A vida social no Antigo Egito ............ ................... 67 Religião................................................ ................... 69 As artes ................................................ ................... 71 As ciências.............................................................. 71 A civilização núbia.................................................. 72

O Reino de Kush ........................................ . . . . . . . . . . . . . 72 A formação do reino ................................. . . . . . . . . . . . . . 72 A escolha do rei ........................................ . . . . . . . . . . . . . 73 A candace: o papel da rainha-mãe.......... . . . . . . . . . . . . . 73 A vida econômica e social ....................... . . . . . . . . . . . . . 74 O declínio de Kush e a ascensão de Axum . . . . . . . . . . 76 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . . . 78 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . . . 78 II. Integrando com Língua Portuguesa . . . . . . . . . . . . . 79

Capítulo 5 – Hebreus, fenícios e persas............................................................................................ . . . . . . . . . . . . . 80 Os hebreus ................................................................. 81 Fontes para o estudo dos hebreus..... ................... 81 A narrativa bíblica .............................. ................... 83 A Palestina .......................................... ................... 83 Hebreus no Egito ................................................... 84 A disputa pela Palestina .................... ................... 85 A monarquia hebraica ......................... ................... 85 A divisão dos hebreus ........................ ................... 86 Religião e cultura ............................... ................... 87

Fenícios: um povo de navegadores e comerciantes ..................... . . . . . . . . . . . . 88

As cidades-Estado fenícias ....................... . . . . . . . . . . . . . 89 O alfabeto fenício ..................................... . . . . . . . . . . . . . 90 Os persas....................................................... . . . . . . . . . . . . . 91 A administração de Dario I ....................... . . . . . . . . . . . . 92 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . . . 93 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . . . 93 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . . . 94

Capítulo 6 – Civilização chinesa ............................................................................................................ . . . . . . . . . . . . . 96 As culturas yangshao e longshan ........................ 97 História política do Império Qin ...... ................... 98 O Império Chinês ................................ ................... 98 ........................................................ 99 Os avanços técnicos ............................................ 100 Os Sui-Tang ............................................ ................. 100 A sociedade Tang ................................ ................. 101 O budismo ............................................. ................. 102 O budismo na China ............................ ................. 103 A dinastia Song..................................... ................. 104 A China no ano 1000 ........................................... 104

A dinastia Han

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Papel e impressão de livros na China ..... . . . . . . . . . . . 105

Povos nômades conquistam a China ..... . . . . . . . . . . 106 Filosofia, religião e medicina tradicional . . . . . . . . 106 O confucionismo ........................................ . . . . . . . . . . 106 O taoismo ................................................... . . . . . . . . . . 107 A acupuntura ............................................. . . . . . . . . . . . 108 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . 109 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . 109 II. Integrando com Geografia ................. . . . . . . . . . . 110 III. Você cidadão! ..................................... . . . . . . . . . . 111

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Séc. V a.C. Agora Museum, Atenas. Foto: PhotoScala/Glow Images

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UNIDADE 3 - DEMOCRACIA: PASSADO E PRESENTE

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Capítulo 7 – O mundo grego: democracia e cultura ................................................................... . . . . . . . . . . 114 A civilização cretense........................................... 115 A civilização micênica.......................................... 116 Do oikos à cidade-Estado .................... ................. 117 A colonização grega ............................................. 118 Atenas, o berço da democracia ......... ................. 119 A tirania................................................................ 120 A democracia ........................................................ 120 O governo de Péricles .......................................... 121 Esparta, um acampamento em armas ............... 122 Política em Esparta ............................. ................. 122 Uma educação voltada para a guerra ................. 123 Cultura ..................................................... ................. 124 Deuses e heróis .................................................... 124 Religião e cidadania ............................................ 125 Os Jogos Olímpicos ............................................. 126

As artes ......................................................... . . . . . . . . . . . 126 O teatro ..................................................... . . . . . . . . . . . 126 As artes plásticas ....................................... . . . . . . . . . . 127 A filosofia ..................................................... . . . . . . . . . . . 129 História .......................................................... . . . . . . . . . . 131 Medicina........................................................ . . . . . . . . . . . 131 Guerras greco-pérsicas ou médicas ......... . . . . . . . . . . 132 Guerra do Peloponeso ................................ . . . . . . . . . . . 133 Os macedônios ............................................. . . . . . . . . . . 133 O império de Alexandre .............................. . . . . . . . . . . 133 O helenismo .................................................. . . . . . . . . . . 135 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . 136 I. Retomando ......................................... . . . . . . . . . . 136 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . 138 III. Integrando com Biologia .................. . . . . . . . . . . . 139

Capítulo 8 – Roma antiga .............. ............................................................................................................ . . . . . . . . . . 140 Localização e povoamento .................................. 141 Roma: lenda e realidade ...................................... 141 O tempo dos reis.................................................... 142 A presença etrusca em Roma .............................. 142 A vida política e social no tempo da realeza .... 143 A República romana ............................. ................. 144 Principais magistrados ........................................ 144 Patrícios versus plebeus ..................... ................. 145 Roma, senhora do mundo antigo ..................... 146 A questão agrária ................................. ................. 148 As reformas dos Graco ......................................... 148 A ascensão dos militares .................... ................. 149 O Primeiro Triunvirato ......................................... 150 O Segundo Triunvirato ......................................... 151

A Pax Romana .............................................. . . . . . . . . . . . 151 Sociedade e moradias no Império ........... . . . . . . . . . . 152 Espaços de diversão e lazer ...................... . . . . . . . . . . 153

O legado romano......................................... . . . . . . . . . . . 155 A engenharia romana ................................ . . . . . . . . . . 155 O direito romano ....................................... . . . . . . . . . . . 157 A religião romana ........................................ . . . . . . . . . . 157 O advento do cristianismo ........................ . . . . . . . . . . 157 O Império contra os cristãos e suas catacumbas ..................................... . . . . . . . . . . 159 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . 160 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 160 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . 162

Capítulo 9 – A crise de Roma e o Império Bizantino ................................................................ . . . . . . . . . . 163 A crise no mundo romano .................. ................. 164 Soluções para a crise ........................................... 165 Os germanos ........................................................... 166 Migrações e invasões germânicas ...................... 167 O Império Bizantino ............................................. 168 A política no Império Bizantino......................... 168 O governo de Justiniano ..................................... 169 A Revolta de Niké ............................... ................. 169

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A questão iconoclasta ................................ . . . . . . . . . . 170 Cisma do Oriente ....................................... . . . . . . . . . . . 171 A arte bizantina .......................................... . . . . . . . . . . . 172 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . 173 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 173 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . 174 III. Você cidadão!..................................... . . . . . . . . . . . 175

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UNIDADE 4 - DIVERSIDADE RELIGIOSA: O RESPEITO À DIFERENÇA

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Capítulo 10 – Os francos e o feudalismo .......................................................................................... . . . . . . . . . . 178 Idade Média: conceito e periodização ............. 179 Os francos ............................................... ................. 180 Os reis indolentes ............................... ................. 181 O Império Carolíngio ........................... ................. 182 Renascimento carolíngio .................... ................. 184 O nascimento do Ocidente medieval ................ 185 O feudalismo ........................................................... 185 As relações de suserania e vassalagem.............. 186 A sociedade feudal.............................. ................. 186 A economia feudal .............................. ................. 188 Mudanças no feudalismo .................... ................. 190 O revigoramento do comércio e das cidades ..... 191 As feiras medievais ............................. ................. 192

As cidades medievais .................................. . . . . . . . . . . 192

As corporações medievais ........................ . . . . . . . . . . . 193 As cidades ganham autonomia ................ . . . . . . . . . . . 194 O poder da Igreja no medievo ................. . . . . . . . . . . . 194 Esforços em favor do cristianismo ........... . . . . . . . . . . 195 As Cruzadas ............................................... . . . . . . . . . . . 195 A crise do século XIV.................................. . . . . . . . . . . 199 A Guerra dos Cem Anos ............................. . . . . . . . . . . 200 Rebeliões camponesas.............................. . . . . . . . . . . . 201 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . 202 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 202 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . 204

Capítulo 11 – Civilização árabe-muçulmana .................................................................................. . . . . . . . . . . 205 A Península Arábica .............................................. 206 Maomé e o islamismo ........................................... 207 O islã .................................................................... 208 A sucessão de Maomé: xiitas versus sunitas ..... 210 Uma expansão fulminante ................ ................. 211

Economia no Império Islâmico ............... . . . . . . . . . . . 212 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . 215 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 215 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . 216

Capítulo 12 – Formações políticas africanas ................................................................................. . . . . . . . . . . 217 As fontes da história africana ............................ 218 África: aspectos físicos ....................................... 219 O comércio pelo Saara......................... ................. 219 Impérios do Sahel ................................................. 220 O Império de Gana .............................. ................. 220 O Império do Mali ............................... ................. 221 O Mali de Sundiata Keita.................... ................. 223 Economia e política ............................................. 224 Os bantos................................................ ................. 225 O Reino do Congo .............................. ................. 226 Os congos e os portugueses ............................... 227

Os bantos no Brasil................................... . . . . . . . . . . . 228

Os iorubás...................................................... . . . . . . . . . . 230 História e mitologia .................................. . . . . . . . . . . 231 Ilê-Ifé ......................................................... . . . . . . . . . . 232 A cidade de Oyo ......................................... . . . . . . . . . . 232 Reino de Benin ......................................... . . . . . . . . . . . 233 Iorubás no Brasil ....................................... . . . . . . . . . . 234 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . 236 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 236 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . 238

Capítulo 13 – Tempos de reis poderosos e impérios extensos ............................................ . . . . . . . . . . 239 A formação das monarquias nacionais ............. 240 A monarquia inglesa ............................................ 240 A monarquia francesa ......................... ................. 243 O absolutismo........................................ ................. 245 O mercantilismo .................................... ................. 247 Absolutismo e mercantilismo na França de Luís XIV .......................................... 248 O mercantilismo em outros países .... ................. 249 As monarquias ibéricas ....................... ................. 251

As Grandes Navegações .............................. . . . . . . . . . . 252 O pioneirismo português .......................... . . . . . . . . . . . 253 As navegações espanholas ........................ . . . . . . . . . . 257 Navegações inglesas, francesas e holandesas . . . 258 Mudanças relacionadas às Grandes Navegações 258 Atividades ..................................................... . . . . . . . . . . . 259 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 259 II. Leitura e escrita em História ............ . . . . . . . . . . . 260

Capítulo 14 – Renascimento e reformas religiosas .................................................................... . . . . . . . . . . 262 O ambiente histórico do Renascimento ........... 263 O humanismo ......................................... ................. 265 Itália, berço do Renascimento ........................... 266 O Trecento, o Quattrocento e o Cinquecento ...... 266

O Renascimento em outras regiões da Europa ... 270 Flandres (Bélgica e parte da atual Holanda)..... 270 Inglaterra............................................. ................. 271 Portugal ............................................... ................. 271 Espanha ................................................................ 272 Alemanha e França .............................................. 273 Renascimento científico ...................................... 273 A Reforma protestante ........................ ................. 274 Motivações da Reforma ...................... ................. 274 A Alemanha de Lutero ........................ ................. 275

A doutrina luterana ................................... . . . . . . . . . . 276 As revoltas camponesas ............................ . . . . . . . . . . 277 A origem do termo “protestante” ........... . . . . . . . . . . 277 O calvinismo na Suíça ............................... . . . . . . . . . . 278 A Reforma na Inglaterra............................ . . . . . . . . . . 279 A Contrarreforma ........................................ . . . . . . . . . . 280 Os jesuítas ................................................. . . . . . . . . . . . 281 O Concílio de Trento ................................. . . . . . . . . . . . 281 A Inquisição ............................................... . . . . . . . . . . 282 Atividades ...................................................... . . . . . . . . . . 283 I. Retomando .......................................... . . . . . . . . . . 283 II. Leitura e escrita em História ............. . . . . . . . . . . 285 III. Integrando com Língua Portuguesa . . . . . . . . . . . . 286 IV. Você cidadão! ..................................... . . . . . . . . . . . 286

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................... 287

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San Rostro/age fotostock/Easypix

Robert Harding/Image Forum

UNIDADE

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Técnicas, tecnologias e vida social

Acima, mulheres colhendo e cortando alimento para animais. Etiópia, 2015. À direita, mulher em plantação de uvas. Champagne, França, 2012. Tecnologia:

palavra de origem grega com significado abrangente. Dependendo do contexto, a tecnologia pode significar: máquinas e/ ou ferramentas; um método de produção; a aplicação de determinados recursos para se resolver um desafio; o estágio de conhecimento de uma determinada cultura.

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Ao longo de milênios os seres humanos foram desenvolvendo técnicas e tecnologias com as quais foram vencendo desafios e se multiplicando. Uma de suas primeiras conquistas importantes foi a técnica de fazer o fogo, o que lhes permitiu iluminar cavernas, cozinhar alimentos, proteger-se do frio e manter os animais afastados. Tempos depois, desenvolveram a técnica da agricultura (cultivo intencional de alimentos). O domínio do fogo e o advento da agricultura se deram durante o período conhecido como Pré-História, que vai do aparecimento dos primeiros seres humanos sobre a Terra, por volta de 2 milhões a.C., até a invenção da escrita, em cerca de 3000 a.C.

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Professor: com o domínio do fogo e da agricultura – inovações ocorridas na chamada “Pré-História” –, os seres humanos aumentaram seu domínio sobre a natureza, ganharam força para sobreviver em ambientes inóspitos e se espalharam pelo planeta. A internet e a telefonia celular, tecnologias desenvolvidas no

Muito tempo depois...

Ariel Skelley/Blend Images/Easypix

Em meados do século XX os seres humanos descobriram a internet, que, inicialmente, era usada somente para fins militares. No início dos anos de 1970, os seres humanos desenvolveram a tecnologia da telefonia celular, fato que impactou fortemente a vida social.

Acima, imagem de uma teleconferência. Abaixo, jovem acessando a internet pelo celular. Christin Gilbert/age fotostock/Easypix

» As conquistas da internet e da telefo-

nia celular (representadas nesta página) podem ser consideradas mais importantes do que os domínios do fogo e/ou da agricultura (citados na página anterior)? » Será que as conquistas recentes in-

fluenciaram mais a vida social do que as antigas? » Se o domínio do fogo e da agricultura

foram tão importantes para a humanidade, por que então chamar de Pré-História o tempo em que essas conquistas aconteceram?

século XX, por sua vez, também impactaram fortemente a vida social. Embora o contexto e as condições em que essas inovações foram produzidas tenham sido diversos, o paralelo entre o impacto causado por elas é um recurso que pode ajudar o aluno a relativizar a noção de “Pré-História”, conceito hoje bastante questionado pelos estudiosos de História Antiga. UNIDADE 1 | TÉCNICAS, TECNOLOGIAS E VIDA SOCIAL

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Professor: sugerir que os estudantes descrevam as imagens, ressaltando diferenças e semelhanças. Essa pode ser uma forma de explorar aquilo que é específico da História, o tratamento de um tema em uma perspectiva temporal.

Capítulo 1

História, cultura, patrimônio e tempo

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Thais Falcão/Olho do Falcão

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bikeriderlondon/Shutterstock/Glow Images

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H. Armstrong Roberts/ClassicStock/Getty Images

1

Fernando Favoretto/Criar Imagem

Observe as imagens a seguir.

Observando essas quatro imagens, podemos perceber algumas mudanças relacionadas à tecnologia, ao modo de se vestir e de namorar. Segundo historiadores especializados no estudo do presente, algumas dessas mudanças – como as tecnológicas – vêm se processando em alta velocidade e têm causado um grande impacto nas nossas vidas, alterando os modos como a gente se comunica, estuda, trabalha e namora.

» Que diferenças você percebe na maneira de se comunicar, de se vestir e de

namorar dos jovens que aparecem nas fotos? 12

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Talvez você esteja curioso para saber qual foi a intenção ao apresentarmos as imagens da página anterior. Pois bem, introduzimos o assunto com elas porque as mudanças ocorridas nas sociedades humanas são justamente o objeto de estudo da História. Mas é preciso dizer que a História não se restringe ao estudo das mudanças; investiga também as permanências, as continuidades, ou seja, aquilo que atravessou o tempo sem se modificar substancialmente. Um exemplo de permanência são as manifestações de machismo na sociedade brasileira atual. Diante de uma barbeiragem no trânsito, por exemplo, é comum ouvirmos: “Só podia ser mulher”. O machismo contido nessa fraFac-símile da capa do livro se é um comportamento antigo; está presente nas terras onde História das mulheres no Brasil. hoje é o Brasil há séculos; ou seja, é uma permanência. De modo simplificado, podemos dizer, então, que a História estuda as DIALOGANDO mudanças e as permanências, as experiências coletivas, a longa aventura a) Qual é a sua dos seres humanos sobre a Terra, o passado e o presente, bem como as opinião sobre o machismo? relações entre um e outro. Daí adotarmos o conceito formulado pelo histob) Por que esse riador Marc Bloch: História é o estudo dos seres humanos no tempo.

Respostas pessoais. Professor: as questões visam estimular o debate sobre a persistência dessa forma de discriminação e dominação social. Na obra História das mulheres no Brasil, organizada pela historiadora Mary Del Priore, os autores traçam um panorama de como nasceram, viveram e morreram as mulheres, do Brasil colonial aos dias atuais.

As fontes da História

O passado está morto e não se pode ressuscitá-lo ou “desenterrá-lo”; então, só se pode conhecer o passado (e o presente) por meio de vestígios (marcas, pistas deixadas pelos seres humanos na sua passagem pela Terra). Para compreender um fato ou episódio, os historiadores se utilizam de todos os vestígios disponíveis: textos gravados em pedra ou papel; imagens dos mais diferentes tipos; relatos orais; objetos da cultura material, entre outros. Esses vestígios são chamados de fontes históricas. Veja os principais tipos dessas fontes: » escritas: um documento oficial (por exemplo, o texto de uma lei), uma carta, um artigo de jornal ou revista, uma letra de música, um poema. Art. 2o Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social. BRASIL. Lei no 11.340, de 7 de agosto de 2006. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília,DF, 7 ago. 2006. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ _ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 21 abr. 2016.

comportamento tem resistido ao longo do tempo?

Cultura material:

tudo o que é feito ou consumido pelo ser humano.

Dica! Vídeo sobre a escrita da História; possibilita também retomar e consolidar o conceito de fontes históricas. [Duração: 15 minutos]. Acesse: <http://tub. im/4h5hn6>.

Fonte histórica escrita: trecho da Lei Maria da Penha.

CAPÍTULO 1 | HISTÓRIA, CULTURA, PATRIMÔNIO E TEMPO

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Contexto Editora

O que a História estuda?

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fotos antigas ou atuais, caricaturas, desenhos, reproduções de cenas de filmes, de histórias em quadrinhos.

» orais: depoimentos de pes-

Palê Zuppani/Pulsar Imagens

soas sobre os mais diferentes aspectos da vida. Esses depoimentos, colhidos muitas vezes a partir de entrevistas feitas pelo próprio historiador, colaboram para registrar a memória pessoal e coletiva. Observação: a entrevista com um adulto ou um idoso de sua família pode ser uma importante Fonte histórica oral: estudante fonte para o conhecimento gravando uma entrevista. São Caetano da sua própria história. do Sul (SP), 2013. » cultura material: restos de moradias, de sepulturas, de móveis, de artefatos domésticos (panelas, colheres, pratos), de instrumentos de trabalho (enxada, foice, pá), de instrumentos de guerra (lanças, espadas, facas) e de caça (pontas de lanças, flechas etc.).

Fernando Favoretto/Criar imagem

Fonte histórica imagética: fotografia de uma família brasileira reunida para ouvir programação de rádio, 1942.

Jonathan Blair/Corbis/Latinstock

Abaixo, arqueólogos mergulhadores coletam artefatos (objetos da cultura material) encontrados em um navio naufragado no século XI, na Turquia, 1977. Abaixo e à direita, arqueólogos trabalhando para obter objetos da cultura material no sítio arqueológico do Boqueirão da Pedra Furada, São Raimundo Nonato (PI), 2010.

» imagéticas: reproduções de pinturas,

1942. Coleção particular. Foto: Acervo Iconographia

Memória:

segundo o historiador Pedro Paulo Funari: “A memória, por definição, é uma recriação constante no presente, do passado enquanto representação, enquanto imagem impressa na mente”. (FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Antiguidade clássica: a História e a cultura a partir dos documentos. São Paulo: Editora da Unicamp, 2003. p. 16.)

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Cultura

conceitos e as ideias religiosas ou artísticas se realizarem. RIBEIRO, Darcy. Noções de coisas. São Paulo: FTD, 1995. p. 34.

O antropólogo Darcy Ribeiro. Bruno Cecim/Futura Press

Chama-se cultura tudo o que é feito pelos homens, ou resulta do trabalho deles e de seus pensamentos. [...] Uma casa qualquer, ainda que material, é claramente um produto cultural, porque é feita pelos homens. A mesma coisa pode-se dizer de um prato de sopa, de um picolé ou de um diário. Mas estas são coisas de cultura material, que se pode ver, medir, pesar. [...] A fala, por exemplo, que se revela quando a gente conversa, e que existe independentemente de qualquer boca falante, é criação cultural. Aliás, a mais importante. Sem a fala, os homens [...] não poderiam se entender uns com os outros, para acumular conhecimentos e mudar o mundo como temos mudado. [...] Além da fala, temos as crenças, as artes, que são criações culturais, porque inventadas pelos homens e transmitidas uns aos outros através de gerações. Elas se tornam visíveis, se manifestam, através de criações artísticas, ou de ritos e práticas [...], em que a gente vê os

Acervo Folhapress

Em rodas de bate-papo, a palavra cultura é usada geralmente como sinônimo de grande conhecimento. É comum ouvirmos dizer “fulano de tal tem cultura” para significar que ele possui um grande conhecimento. Mas o sentido da palavra cultura que queremos que você conheça aqui é outro. O texto a seguir foi retirado do livro do antropólogo Darcy Ribeiro, ilustrado por Ziraldo Alves Pinto. Leia-o com atenção.

O chargista e escritor Ziraldo Alves Pinto.

Patrimônio cultural Usamos a palavra patrimônio com frequência para nos referirmos aos bens que temos (um carro, por exemplo) e que devemos declarar no imposto de renda. Mas o sentido da palavra patrimônio sobre o qual queremos que você reflita é outro; queremos que pense em patrimônio como sinônimo daquilo que tem especial valor, embora nem sempre tenha preço.

Dica! Vídeo sobre o conceito de cultura. [Duração: 3 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ s8ivcw>.

O conceito de patrimônio Pois bem, reconhecendo a importância de certos bens para nós, brasileiros, o governo de Getúlio Vargas baixou um decreto, em 30 de novembro de 1937, que definia patrimônio como: [...] o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação é de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico [...], bibliográfico ou artístico. BRASIL, Artigo 1o. In: BRASIL. Decreto–Lei no 25, de 30 de novembro de 1937. DOU, Brasília, DF, 6 dez. 1937. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto_lei/del0025.htm>. Acesso em: 31 maio 2016.

CAPÍTULO 1 | HISTÓRIA, CULTURA, PATRIMÔNIO E TEMPO

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Cândido Neto

Caetano Barreira/Olhar Imagem

Julio Jacobina/DP/D.A Press

Como se pode ver, essa definição priorizava o patrimônio edificado, como, por exemplo, um museu, e associado a “fatos memoráveis” da história do Brasil, como, por exemplo, a Proclamação da República. Esse conceito de patrimônio orientou a política de preservação da época, que valorizava apenas os bens culturais de “pedra e cal” e ligados à história oficial, como, por exemplo, o Museu Paulista, em São Paulo, o Museu da República, no Rio de Janeiro, e o Museu do Estado de Pernambuco, em Recife. Para essa política de preservação, os outros bens cultuFachada do Museu do Estado de rais não mereciam ser conservados e, por isso, durante muito Pernambuco, um lugar de memória. tempo, foram esquecidos, o que levou muitos deles à deterioRecife (PE), 2007. ração ou ao desaparecimento. Nos anos de 1980, durante o processo de redemocratização do Brasil, o conceito de patrimônio foi reformulado e ampliado. Grupos organizados da sociedade civil conseguiram convencer os constituintes a introduzir o tema patrimônio nos debates que resultariam na Constituição brasileira de 1988. Durante esses debates, percebeu-se que era necessário diferenciar os bens de natureza material dos de natureza imaterial; e chegou-se à seguinte definição: bens de natureza material são bens palpáveis, como edificações (casas, sepulturas etc.), instrumentos de trabalho e de guerra, conjuntos urbanos, sítios de valor histórico paisagístico, artístico, arqueológico, entre outros; já os bens de natureza imaterial são bens não palpáveis, como, por exemplo, uma dança, uma festa, o modo de fazer uma comida ou um ritual, as criações científicas, artísticas e tecnológicas, entre outros. A seguir apresentamos um exemplo de bem de natureza material e outro de natureza imaterial.

A cidade de Goiás, conhecida também como Goiás Velho, é um importante bem de natureza material e testemunho da colonização da região nos séculos XVIII e XIX. Fotografia de 2007.

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A cajuína é uma bebida não alcoólica produzida a partir do suco de caju. O modo de fazê-la e as práticas socioculturais associadas a ela constituem um bem cultural imaterial que tem suas raízes nos rituais de hospitalidade dos produtores piauienses. Geralmente, as garrafas de cajuína eram dadas de presente ou servidas às visitas, e também oferecidas em casamentos e aniversários. Os rótulos acima não representam marcas registradas.

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Ao final dos debates da Constituinte foi aprovada, em outubro de 1988, uma nova Constituição para o Brasil, que em seu Artigo 216 afirma: Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial [...], portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira [...]. BRASIL, Artigo 216. In: BRASIL. Constituição Federal de 1988, de 5 de outubro de 1988. DOU, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 31 maio 2016.

Essa nova definição de patrimônio, introduzida pela Constituição, apresentou duas inovações significativas: uma foi contemplar todos os grupos formadores da sociedade brasileira (indígenas, africanos e outros); outra foi incluir bens de natureza imaterial, que dizem respeito a saberes, modos de fazer e ofícios, a exemplo do exercido pelas artesãs de Goiabeiras, no Espírito Santo.

Para refletir O texto a seguir foi escrito por dois historiadores, Sandra C. A. Pelegrini e Pedro Paulo Funari. Leia-o com atenção:

As panelas são tomadas como suportes imprescindíveis ao cozimento da moqueca capixaba, reconhecida como um prato típico ou como sistema culinário característico da população do Espírito Santo. Elas possuem vários tamanhos e formatos: caldeirões, panelas de fundo, de pirão, de moqueca, de caldo e travessa para servir. Nesse contexto, o plano de salvaguarda desse ofício envolve não só ações atinentes à organização e à capacitação das paneleiras, mas, principalmente, medidas que visam à sustentabilidade ambiental desse ofício. Por meio da educação patrimonial e ambiental, as artesãs são conscientizadas de que a continuidade desse ofício depende da preservação dos insumos provenientes do meio ambiente, ou seja, do barro extraído do Vale do Mulembá e do tanino, extraído do manguezal, e empregado na coloração das panelas de barro. [...] Os dados fornecidos pela Associação das Paneleiras de Goiabeiras (APG) revelam que, na atualidade, os artefatos são comercializados no Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Pará, Rio Grande do Sul, Rondônia, entre outros) e no exterior (Austrália, Estados Unidos e França) e possuem um selo de controle de qualidade.

João Prudente/Pulsar Imagens

Ofício das Paneleiras de Goiabeiras

Produção artesanal de panelas de barro na Associação das Paneleiras de Goiabeiras, Vitória (ES), 2011. Insumo:

material utilizado na feitura ou no desenvolvimento de um produto.

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a) É o modo de fazer a moqueca capixaba, prato típico da população do Espírito Santo. Professor: comentar que, diferentemente da moqueca baiana, a moqueca capixaba não leva azeite de dendê. b) O plano de salvaguarda prevê dois conjuntos de ações: um voltado à organização e à capacitação das paneleiras; e outro, à conscientização das artesãs de que a sobrevivência do ofício depende da preservação de dois insumos essenciais: o barro do Vale do Mulembá e o tanino, usado na coloração das panelas.

Como podemos observar, a APG atua como uma espécie de cooperativa e assiste juridicamente às paneleiras de modo a otimizar os negócios e orientar a comercialização dos produtos artesanais. PELEGRINI, Sandra C. A.; FUNARI, Pedro Paulo. O que é patrimônio cultural imaterial. São Paulo: Brasiliense, 2013. p. 76-78. (Coleção Primeiros Passos).

a) O Ofício das Paneleiras de Goiabeiras – patrimônio imaterial – está associado à salvaguarda de um outro bem imaterial (intangível). Qual é? b) O que se pode concluir sobre o plano de salvaguarda do Ofício das Paneleiras e Esse trabalho possibilitou uma comercialização em maior escala (mercado interno e que está explícito no texto? c)externo) e mais lucrativa dos artefatos produzidos pelas artesãs de Goiabeiras. c) Que indícios há no texto de que o trabalho de salvaguarda do ofício teve um efeito positivo para as paneleiras e suas famílias? d) A responsabilidade pela salvaguarda desse patrimônio imaterial é do Iphan, das Resposta pessoal. Professor: comentar que o apoio da próprias artesãs ou de todos nós? Justifique. d)sociedade como um todo é indispensável à preservação deste e de outros patrimônios imateriais igualmente importantes. O ofício das artesãs de Goiabeiras ajuda a manter dezenas de famílias envolvidas na feitura de panelas. O modo de fazer as panelas foi aprendido com os indígenas e vem passando de mãe para filha há centenas de anos.

A valorização das matrizes africana e indígena

Renato Soares / Imagens do Brasil

Abaixo, a Arte Kusiwa, sistema de representação gráfica próprio dos povos indígenas Wajãpi, do Amapá, que sintetiza seu modo particular de conhecer, conceber e agir sobre o Universo. A Arte Kusiwa foi inscrita no Livro de Registro das Formas de Expressão, do Iphan, em 2002. No ano seguinte, recebeu da Unesco o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Ao lado, o prédio do Museu do Samba Carioca, em Mangueira (RJ), 2015. O samba de partido alto, o samba de terreiro e o samba-enredo integram as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, Patrimônio Cultural Imaterial desde 2007. Essas modalidades de samba expressam a riqueza do legado de matriz africana no Brasil.

Adilson B. Liporage/Opção Brasil Imagens

Durante muito tempo, zelou-se apenas pelos bens culturais associados aos descendentes de europeus e à história oficial, como, por exemplo, o prédio do Museu Imperial, localizado na cidade de Petrópolis (RJ), que guarda mobiliário, textos, obras de arte e objetos da família imperial portuguesa. Mas, com a Constituição de 1988, a política de preservação passou a zelar, também, pelos bens culturais associados a outros grupos humanos, como os indígenas e os africanos, igualmente importantes na formação da sociedade brasileira. Entre os exemplos de bem cultural de raiz africana estão as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro: partido alto, samba de terreiro e samba-enredo; e entre os exemplos de bem cultural de matriz indígena está a Arte Kusiwa praticada pelos indígenas Wajãpi.

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A proteção e valorização das expressões afro-brasileiras e indígenas contribuem para o fortalecimento da autoestima, da identidade e da autoconfiança desses grupos e garantem a eles o direito à memória. 1 e 2

Cuidando do nosso patrimônio cultural

Luca Atalla/Pulsar Imagens

Em 1937, com o objetivo de cuidar, valorizar e divulgar nosso patrimônio cultural, o governo brasileiro fundou o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que hoje é um órgão do Ministério da Cultura. Além de gerir o patrimônio cultural brasileiro, o Iphan também é encarregado de zelar pelos bens nacionais reconhecidos pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como Patrimônios da Humanidade.

1. Dica! Vídeo com imagens de época abordando o samba carioca, sua história e suas diversas modalidades. [Duração: 56 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ nnoxon>. 2. Dica! Documentário sobre o registro do patrimônio imaterial. [Duração: 11 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ tra27s>.

Vista aérea da Igreja São Francisco de Assis, também conhecida como Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte (MG). Obra do arquiteto Oscar Niemeyer, foi inaugurada em 1943 e tombada em 1997 pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Fotografia de 2015.

Quando um bem de reconhecido valor cultural se encontra ameaçado, por exemplo, os técnicos do Iphan são chamados para protegê-lo, e o fazem de diversas formas; uma delas é o tombamento. A partir da data do tombamento, o bem estará sob os cuidados do referido órgão, que deve impedir a sua destruição ou descaracterização.

Tempo

Tombamento:

ato realizado pelo Poder Público, nos níveis federal, estadual ou municipal, visando preservar bens de natureza material e imaterial.

Uma das primeiras coisas que fazemos ao levantar da cama é consultar o relógio para sabermos que horas são; isso quando não somos acordados pelo despertador do celular. Mas nem sempre foi assim. Ao longo do tempo, os seres humanos criaram diferentes instrumentos de medição do tempo. Acredita-se que o mais antigo deles tenha sido o relógio de sol, inventado pelos egípcios há mais de 4 mil anos. Mais tarde foram desenvolvidos outros instrumentos, como a clepsidra, a ampulheta, o relógio mecânico e o relógio digital. CAPÍTULO 1 | HISTÓRIA, CULTURA, PATRIMÔNIO E TEMPO

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Rob Wilson/Shutterstock/Glow Images

Rubens Chaves/Pulsar Imagens

À esquerda, relógio mecânico, na torre da Igreja Matriz de Santo Antônio, no centro histórico de Tiradentes (MG), 2014. À direita, painel com relógio digital.

O tempo cronológico Tempo cronológico:

medição adotada pelos historiadores; tempo que depende de calendários e é marcado geralmente por relógios.

Cortez Editora

Dica! Uma breve história do tempo, documentário de Errol Morris (Reino Unido, Estados Unidos e Japão, 1991). [Duração: 84 minutos].

Na escrita da História, os seres humanos sempre tiveram de resolver o problema de dispor os acontecimentos no tempo (eras, períodos, anos). Os indígenas Terena, por exemplo, que vivem no Mato Grosso do Sul, dividem sua história em dois períodos: um primeiro período, a que chamam de “tempo da servidão”, que vai da Guerra do Paraguai (1864-1870), quando tiveram suas terras invadidas por fazendeiros, até a década de 1910, quando elas foram demarcadas pelo governo; e um segundo período, que vai da demarcação de suas terras até os dias atuais. Outros povos, cada um com sua cultura, criaram calendários próprios. Para dar início à contagem do tempo, cada povo escolheu uma data importante para ele. Os judeus, por exemplo, começam a contar o tempo a partir da criação do mundo, que para eles se deu no ano 3760 a.C. Já os muçulmanos contam o tempo a partir da ida de Maomé da cidade de Meca para Medina (na atual Arábia Saudita), fato ocorrido em 622 d.C. Os cristãos, por sua vez, escolheram o nascimento de Cristo para dar início à contagem do tempo. Como se pode notar, o tempo cronológico é uma invenção dos seres humanos e resulta de uma combinação entre eles. Mas os historiadores não se interessam apenas pelo tempo cronológico, não se restringem a situar os fatos no tempo; interessam-se também pelas mudanças e permanências que se verificaram nas sociedades humanas ao longo do tempo. A esse tempo das transformações e continuidades damos o nome de tempo histórico. Assim como o tempo, o espaço também é importante em História. Veja o que uma historiadora diz sobre o assunto:

Fac-símile da capa do livro Ensino de História: fundamentos e métodos.

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Os historiadores, além de se preocuparem em situar as ações humanas no tempo, têm a tarefa de situá-las no espaço. Não se pode conceber um “fazer humano” separado do lugar onde esse fazer ocorre. [...] Mudanças do espaço realizadas pelos homens assim como as memórias de “lugares” também integram esse conhecimento. BITTENCOURT, Circe Maria F. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2005. p. 207-208.

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Hulton Archive/Getty Images

Renoit Tessier/Reuters/Latinstock

Desde o momento em que acordamos até a hora em que vamos dormir, consultamos o relógio várias vezes: para saber o horário de ir para o colégio, de almoçar, de estudar, de encontrar um amigo ou uma amiga... Mas nem sempre os seres humanos se guiaram por relógios e horários. Muitos povos (do passado e do presente) organizam o seu dia a dia, isto é, distribuem o tempo baseados nos fenômenos naturais, como o nascer do Sol, as fases da Lua, a época das chuvas, a chegada da primavera etc. Esses povos se guiam, portanto, pela observação da natureza; daí dizermos que eles vivem no tempo da natureza. É o caso, por exemplo, dos Kayabi (indígenas que vivem na região do rio dos Peixes, no norte do estado de Mato Grosso). No século XVIII, surgiram, na Inglaterra, as primeiras fábricas, locais em que homens, mulheres e crianças trabalhavam de 14 a 18 horas por dia e os horários (de Cerâmica do povo Asurini, que entrar, de parar para comer, de ir ao banheiro) eram rihabita próximo a Altamira (PA). gorosamente controlados. Esses operários associavam o Assim como os Kayabi, o povo Asurini é falante de língua do tronco Tupi. tempo à vida deles dentro das fábricas. Por isso, se diz Fotografia de 2009. que eles viviam no tempo da fábrica.

Rogério Reis/Pulsar Imagens

Tempo histórico e diferentes tempos

À esquerda, vemos operários montando automóveis nos Estados Unidos, em 1928. À direita, robôs em linha de montagem em Paris, França, em 2015. As duas imagens representam momentos diferentes da indústria automobilística em países que adotam o capitalismo, fenômeno de longa duração.

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Lincon Zarbietti/O Tempo/Futura Press

Hoje, com os avanços e a popularização da informática, criou-se uma nova maneira de perceber e sentir o tempo. Graças à internet, é possível enviar uma mensagem para a China em alguns segundos, dialogar com pessoas de países distantes vendo seus rostos na tela do computador, realizar uma cirurgia a distância com a ajuda de um robô. Esses “milagres” da informática e da robótica afetam todas as pessoas, mesmo as que não têm computador em casa. Por isso, há quem diga que hoje vivemos um novo tempo: o tempo da informática.

Festival Internacional de Robótica realizado em Belo Horizonte (MG), 2014.

DIALOGANDO Classifique os episódios históricos a seguir conforme sua duração: a) Guerra Fria (1945-1989); b) escravidão moderna; c) conquista pela seleção brasileira de futebol da Copa do Mundo de 1958. a) Média duração. b) Longa duração. c) Curta duração.

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Assim, ao comparar o modo e os ritmos de vida dos indígenas da nação Kayabi com o nosso modo de viver e estar no mundo, fica evidente que o calendário é uma construção cultural.

O tempo e suas durações Ao se debruçar sobre a História, o historiador francês Fernand Braudel percebeu que os fenômenos históricos possuem durações de ritmos variados e, com base nisso, classificou-os em fenômenos de curta, média e longa duração. » Curta duração: o fato breve, com data e lugar determinados, como a descoberta de uma vacina, a criação da internet, a eleição de um presidente. » Média duração: episódios como a Revolução Francesa (1789-1799), o Regime Militar (1964-1985), entre outros. Tais fenômenos são chamados de conjunturais, pois resultam de flutuações no interior de uma estrutura. » Longa duração: fenômenos como o cristianismo ocidental, o capitalismo, entre outros. Tais fenômenos são chamados de estruturais, e, para compreendê-los, é preciso inseri-los na longa duração.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (UERN – 2014) A história é doadora de uma memória aos alunos, o que permite, ao mesmo tempo, que eles se apropriem de um patrimônio gerador de identidade [...] A formação de um cidadão esclarecido repousa sobre a apropriação de uma cultura comum e criadora de identidade, concedendo uma melhor compreensão do mundo contemporâneo de que eles são herdeiros. [...] O ensino da história participa também da formação intelectual mais geral, que consiste em formar e exercer o espírito crítico [...] Trata-se de habituar-se a levar em consideração o caráter relativo das sociedades humanas, segundo seu lugar e sua época, assim como, apreender a sua diversidade e saber respeitá-la. Audigier, 2001.

Tendo em vista as finalidades do estudo da história, é correto afirmar que a) no setor cultural, o papel da história consiste na hierarquização das sociedades, a partir do arsenal de cultura por elas produzidas. b) em termos gerais, a história precisa favorecer à formação do indivíduo como sujeito histórico, com responsabilidades civis e sociais. c) em termos intelectuais, a história contribui para a perpetuação da ordem social, uma vez que agrega valores às sociedades vigentes. d) no aspecto cívico, a história permanece como ciência que colabora com a laicidade do estado e com o papel de obediência do cidadão. 1. Resposta: b.

2. (UECE – 2015) Para escrever a História é necessário reunir fontes ou testemunhos, que são objetos e documentos – restos do passado – que

ajudam a compreender um contexto em determinado período. Sobre as fontes documentais, é correto afirmar que a) não variam de modo algum; devem ser documentos escritos e registrados pela autoridade competente da época e do local do qual fazem parte. b) são criadas e elaboradas criteriosamente para fins de escrita por arqueólogos, etnólogos, paleógrafos e paleontólogos. c) são várias, como as escritas, as orais, as narrativas e os mitos populares, e diferentes tipos de imagens. 2. Resposta: c. d) são os mapas geográficos e históricos, e as linhas temporais, cronologias específicas dos calendários geomorfológicos. 3. (Enem/MEC – 2014) A Praça da Concórdia, antiga Praça Luís XV, é a maior praça pública de Paris. Inaugurada em 1763, tinha em seu centro uma estátua do rei. Situada ao longo do Sena, ela é a intersecção de dois eixos monumentais. Bem nesse cruzamento está o Obelisco de Luxor, decorado com hieróglifos que contam os reinados dos faraós Ramsés II e Ramsés III. Em 1829, foi oferecido pelo vice-rei do Egito ao povo francês e, em 1836, instalado na praça diante de mais de 200 mil espectadores e da família real. NOBLAT, R. Disponível em: www.oglobo.com. Acesso em: 12 dez. 2012.

A constituição do espaço público da Praça da Concórdia ao longo dos anos manifesta o (a) a) lugar da memória na história nacional. 3. Resposta: a. b) caráter espontâneo das festas populares. c) lembrança da antiguidade da cultura local. d) triunfo da nação sobre os países africanos. e) declínio do regime de monarquia absolutista. CAPÍTULO 1 | HISTÓRIA, CULTURA, PATRIMÔNIO E TEMPO

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4. (Enem/MEC) Não só de aspectos físicos se constitui a cultura de um povo. Há muito mais, contido nas tradições, no folclore, nos saberes, nas línguas, nas festas e em diversos outros aspectos e manifestações transmitidos oral ou gestualmente, recriados coletivamente e modificados ao longo do tempo. A essa porção intangível da herança cultural dos povos dá-se o nome de patrimônio cultural imaterial. Internet: <www.unesco.org.br>.

Qual das figuras abaixo retrata patrimônio imaterial da cultura de um povo?

Pelourinho. Bill Ramsden/Shutterstock/Glow Images

d)

Cataratas do Iguaçu.

e)

Bumba meu boi. Pius Lee/Shutterstock/Glow Images

Cristo Redentor.

4. Resposta: c.

c)

Carlos Goldgrub/Opção Brasil Imagens

b)

Ivan F. Barreto/Shutterstock/Glow Images

Mark Schwettmann/Shutterstock/Glow Images

a)

Esfinge de Gizé.

5. (Enem/MEC) A Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desenvolveu o projeto Comunidades Negras de Santa Catarina, que tem como objetivo preservar a memória do povo afrodescendente no sul do país. A ancestralidade negra é abordada em suas diversas dimensões: arqueológica, arquitetônica, paisagística e imaterial. Em regiões como a do Sertão de Valongo, na cidade de Porto Belo, a fixação dos primeiros habitantes ocorreu imediatamente após a abolição da escravidão no Brasil. O Iphan identificou nessa região um total de 19 referências culturais, como os conhecimentos tradicionais de ervas de chá, o plantio agroecológico de bananas e os cultos adventistas de adoração. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/portal/montarDetalheConteudo. do?id=14256&sigla=Noticia&retorno=detalheNoticia>. Acesso em: 1 jun. 2009. (com adaptações).

O texto acima permite analisar a relação entre cultura e memória, demonstrando que:

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a) as referências culturais da população afrodescendente estiveram ausentes no sul do país, cuja composição étnica se restringe aos brancos. b) a preservação dos saberes das comunidades afrodescendentes constitui importante elemento na construção da identidade e da diversidade cultural do país. 5. Resposta: b. c) a sobrevivência da cultura negra está baseada no isolamento das comunidades tradicionais, com proibição de alterações em seus costumes. d) os contatos com a sociedade nacional têm impedido a conservação da memória e dos costumes dos quilombolas em regiões como a do Sertão de Valongo. e) a permanência de referenciais culturais que expressam a ancestralidade negra compromete o desenvolvimento econômico da região. 6. (Enem/MEC – 2014)

Queijo de Minas vira patrimônio cultural brasileiro O modo artesanal da fabricação do queijo em Minas Gerais foi registrado nesta quinta-feira (15) como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O veredicto foi dado em reunião do conselho realizada no Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte. O presidente do Iphan e do conselho ressaltou que a técnica de fabricação artesanal do queijo está “inserida na cultura do que é ser mineiro”. Folha de S. Paulo, 15 maio 2008.

Entre os bens que compõem o patrimônio nacional, o que pertence à mesma categoria citada no texto está representado em: 6. Resposta: e. b)

c)

Conjunto arquitetônico e urbanístico da cidade de Ouro Preto (MG).

Pedro Américo. 1893. Óleo sobre tela. Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora

d)

Sítio arqueológico e paisagístico da Ilha do Campeche (SC).

e)

Tiradentes esquartejado (1893), de Pedro Américo.

João Prudente/Pulsar Imagens

Mosteiro de São Bento (RJ).

Tales Azzi/Pulsar Imagens

Robert Napiorkowski/ Shutterstock/Glow Images

Rubens Chaves/Pulsar Imagens

a)

Ofício das Paneleiras de Goiabeiras (ES).

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II. Leitura e escrita em História a. Leitura de imagem

PROFESSOR, VER MANUAL.

a) Na imagem da esquerda veem-se figuras com motivos geométricos: pontos agrupados, linhas, triângulos, círculos, linhas paralelas, entre outros. Professor: os estudiosos classificam as pinturas rupestres do Brasil em dois grandes grupos: obras com motivos naturalistas e obras com motivos geométricos. Esta figura, portanto, pertence ao segundo grande grupo.

Ricardo Azoury/Olhar Imagem

Joao Prudente

As pinturas a seguir foram feitas em rocha e se encontram em sítios arqueológicos do Nordeste. A primeira está em Lajeado de Soledade, no município de Apodi, no estado do Rio Grande do Norte. A segunda está no Parque Nacional Serra da Capivara, no município de São Raimundo Nonato, no estado do Piauí; este parque foi tombado pelo Iphan em 1991. Observe as imagens com atenção.

b) Na imagem vê-se a representação de uma capivara e seu filhote, pintura que se transformou

a) O que se vê na imagem da esquerda? em símbolo do Parque Nacional Serra da Capivara. Professor: a obra é um exemplo de

pintura rupestre com motivo naturalista e em estilo Várzea Grande. As pinturas rupestres assim classificadas retratam figuras de animais como onça, pássaros, peixes, insetos. Neste estilo predomina o uso da cor vermelha.

b) E na imagem da direita?

c) Dê o significado dos termos: pintura rupestre; sítio arqueológico; Iphan.

d) O artista que pintou a capivara e seu filhote conseguiu transmitir a ideia de movimento?

c) Pinturas rupestres: pinturas feitas em rochas por povos que viveram há milhares de anos. Sítio arqueológico: local no qual os seres humanos deixaram algum vestígio de suas atividades, como uma ferramenta de pedra lascada, uma fogueira na qual assaram sua comida, uma pintura, uma sepultura, a simples marca de seus passos. Iphan: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Professor: o Iphan foi criado em 13 de janeiro de 1937 pela Lei no 378, no governo de Getúlio Vargas, e hoje está vinculado ao Ministério da Cultura.

e) Quando terão vivido os seres humanos que elaboraram essas pinturas?

b. Leitura e escrita de textos VOZES DO PASSADO

d) Sim; como se pode ver, a pintura sugere movimento; mãe e filhote avançam na mesma direção e transmitem a impressão de estarem correndo; o filhote parece estar fazendo um esforço grande para acompanhar a mãe. O interior do corpo é todo pintado, o que transmite a impressão de volume; já os membros e a cabeça do animal são representados por meio de uns poucos traços.

A História também possui uma história. Na Antiguidade, encontramos os primeiros historiadores. Escolhemos um texto antigo do historiador Deodoro da Sicília (ilha que hoje pertence à Itália), que viveu durante o século I a.C. Leia-o com atenção.

A utilidade da História Em todas as circunstâncias da vida, dever-se-ia acreditar que a história é a mais útil das disciplinas. Aos jovens ela confere a prudência dos adultos. Em relação aos velhos ela redobra e multiplica a experiência já adquirida. Ela transforma uma pessoa comum em alguém digno de governar, e, em relação aos governantes, ela os inclina a façanhas admiráveis [...]. Graças aos elogios que estes merecerão depois de sua morte, ela estimula os militares a correrem riscos pela Pátria! E desvia os criminosos do caminho do mal pelo medo de serem mal vistos pelas gerações futuras! SICÍLIA, Deodoro da. A utilidade da História. In: PINSKY, Jaime (Org.). 100 textos de história antiga. 4. ed. São Paulo: Contexto, 1988. p. 149.

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e) Durante muito tempo a data da chegada do ser humano à América opôs os estudiosos, mas, em 2006, o cientista francês Eric Boeda comprovou que os artefatos de pedra encontrados pela arqueóloga brasileira Niède Guidon foram feitos por seres humanos que viveram, onde hoje é o estado do Piauí, entre 33 e 58 mil anos atrás. UNIDADE 1 | TÉCNICAS, TECNOLOGIAS E VIDA SOCIAL Ficava assim comprovada a tese da arqueóloga de que o povoamento da América é muito mais antigo do que se supunha.

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a) Monte uma ficha com os seguintes elementos do texto: título, autor, época, fonte de onde foi retirado, conteúdo. b) O texto se destina aos jovens ou ao público em geral? c) Como o autor justifica a sua afirmação de que a História é a mais útil de todas as disciplinas? d) Que visão o autor do texto tem da História? e) Em dupla. Debatam, reflitam e respondam: vocês concordam com essa visão da História?

III. Integrando com Sociologia

PROFESSOR, VER MANUAL.

Em grupo. Pesquisem e produzam uma apresentação sobre o tema “cultura jovem hoje”. Cada grupo pesquisará um dos seguintes assuntos: Grupo 1: modos de se vestir dos jovens (semelhanças e diferenças entre jovens de diferentes partes do mundo); Grupo 2: modos de se comunicar oralmente e/ou por escrito (mensagens de texto via celular, postagens em redes sociais); Grupo 3: modos de se relacionar afetivamente (“ficar”, curtir, namorar, entre outros); Grupo 4: modos de se divertir (shows, festas, baladas, cinemas, jogos, esportes radicais, entre outros); Grupo 5: modos de estudar (estudar conectado, assistindo à TV, comendo, conversando ao celular, entre outros). Depois de apresentar suas pesquisas na forma de um painel, debatam com os colegas as seguintes questões:

»

Quais as semelhanças e diferenças entre os jovens de hoje? (Incluir nesse universo os agrupamentos juvenis chamados pelos sociólogos de “tribos urbanas”: os desportistas radicais, os metaleiros, as patricinhas, os nerds, os emos, os góticos, os geeks, os rastas, os praticantes de cultura hip-hop, entre outros).

»

Quanto aos traços comuns, vocês consideram o consumismo uma característica da juventude atual? Você se considera consumista?

Fontes para a pesquisa: 1. <http://tub.im/w62wxz> (trabalha o tema da cultura jovem em uma perspectiva histórica acentuando as continuidades). 2. <http://tub.im/unbtz8> (apresenta as várias tribos explicitando suas características). 3. <http://tub.im/su886f> (exibe, por meio de sequências, imagens das tribos urbanas).

» Postem o trabalho no blog da turma. CAPÍTULO 1 | HISTÓRIA, CULTURA, PATRIMÔNIO E TEMPO

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Professor: o objetivo aqui é alertar os alunos para a importância do diálogo permanente entre o passado e o presente; como disse Marc Bloch, o passado não pode ser modificado, mas o conhecimento sobre o passado muda constantemente. Sugerimos também chamar a atenção para a importância das descobertas científicas para a História. A maneira exata como ocorreram a evolução e o surgimento do homem atual continua sendo um enigma a desafiar os cientistas.

Capítulo 2

A aventura humana: primeiros tempos

Leia a notícia com atenção. [...] Um grupo de pesquisadores apresentou nesta quinta-feira (10) na África do Sul os remanescentes fósseis [...] que podem ser de uma espécie do gênero humano desconhecida até agora. A criatura foi encontrada na caverna conhecida como Rising Star (estrela ascendente), 50 km a nordeste de Johanesburgo, onde foram exumados os ossos de 15 hominídeos. O primata foi batizado de Homo naledi. Em língua sotho, “naledi” significa estrela, e Homo é o mesmo gênero ao qual pertencem os humanos modernos. Os fósseis foram encontrados em uma área profunda e de À esquerda, o vice-presidente da África do Sul Cyril difícil acesso da caverna, na área Ramaphos e, à direita, o professor Lee Berger, com uma arqueológica conhecida como réplica do crânio do Homo naledi durante a revelação “Berço da Humanidade”, consida recente descoberta, em Maropeng, na África do Sul, derada patrimônio mundial pela setembro de 2015. Unesco. Por se situar num depósito sedimentar onde as camadas geológicas se misturam de maneira complexa, os cientistas ainda não conseguiram datar o primata descoberto [...]. O Museu de História Natural de Londres classificou a descoberta como extraordinária. [...] Os trabalhos que levaram à descoberta foram patrocinados pela National Geographic Society, dos EUA, e pela Fundação Nacional de Pesquisa da África do Sul.

Stefan Heunis/AFP Photo/Image Forum

Nova espécie do gênero humano é descoberta na África do Sul

NOVA espécie do gênero humano é descoberta na África do Sul. G1, São Paulo, 10 set. 2015. Ciência e saúde. Disponível em: <http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2015/09/antiga-especie-do-genero-humano-e-descoberta-na-africa-do-sul.html>. Acesso em: 18 abr. 2016.

» O que são fósseis? O que podemos saber por meio deles? » Qual a importância da descoberta do Homo naledi para nós hoje? » Não se conhece a maneira exata como ocorreram a evolução e o advento do

Homo sapiens. A descoberta desse fóssil pode contribuir para isto? 28

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Pré-História: um conceito discutível

Editoria de arte

Observação: nesta obra, por questão de espaço, as linhas do tempo não obedecem a uma escala.

PRÉ-HISTÓRIA

IDADE ANTIGA

IDADE MÉDIA

IDADE MODERNA

Do surgimento do gênero Homo, há cerca de 2 milhões de anos, até a invenção da escrita, ocorrida por volta de 3000 a.C.

De 3000 a.C. até a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C.

De 476 até a invasão da cidade de Constantinopla (atual Istambul) pelos turcos, em 1453.

De 1453 até o início da Revolução Francesa, em 1789.

Stockbyte/Getty Images

Lesueur Brothers. c. 1792. Guache sobre cartão. Musée de la Ville de Paris, Musée Carnavalet, Paris

Danny Lehman/Corbis/Latinstock

Lili Strauss/AP Photo/Glow Images

Séc. II. Museu do Vaticano, Cidade do Vaticano. Foto: Corel Stock Photo

Os historiadores do século XIX dividiram a longa aventura dos seres humanos sobre a Terra em dois períodos: Pré-História e História. Segundo eles, a Pré-História começaria com o aparecimento dos humanos, há cerca de 2 milhões de anos, e teria fim com a invenção da escrita, ocorrida por volta de 3000 a.C. Já a História se estenderia do aparecimento da escrita aos dias atuais. Nessa visão tradicional, a História é dividida em quatro idades: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea.

IDADE CONTEMPORÂNEA De 1789 até os dias atuais.

Editora Contexto

Repare que essa periodização considera as sociedades sem escrita (ágrafas) sociedades sem história. Nessa abordagem, a Pré-História é vista como algo menor, uma espécie de ensaio para a História. É que os criadores dessa periodização, os historiadores do século XIX, consideravam o documento escrito muito mais importante do que os outros. Veja o que se disse sobre o assunto: [...] Um historiador da Escola Metódica do século XIX teria certeza de que o documento é, em essência, o texto escrito: a carta, o tratado de paz, o testamento etc. [...] PINSKY, Carla B.; LUCA, Tânia Regina de. O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009. p. 14.

Os historiadores atuais já não aceitam essa visão, pois para eles: » as fontes não escritas (como entrevistas, imagens, restos de moradia) são tão importantes quanto as escritas para o conhecimento das sociedades humanas; » as conquistas humanas anteriores à escrita (como o domínio do fogo, a invenção da roda, a prática da agricultura) são tão relevantes quanto as posteriores;

Fac-símile da capa do livro O historiador e suas fontes.

CAPÍTULO 2 | A AVENTURA HUMANA: PRIMEIROS TEMPOS

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» os povos que não desenvolveram a escrita também possuíram uma história movimentada, que precisa e pode ser mais bem conhecida. Muito antes da invenção da escrita os seres humanos já enterravam sementes, por exemplo, com a intenção de vê-las germinar; com esse gesto, faziam história. Por isso, acredita-se, hoje, que a Pré-História é parte da História e que os homens pré-históricos – seres dotados de imaginação, inteligência e sentimentos típicos da nossa espécie – também fizeram história.

Os primeiros habitantes da Terra Todos os seres humanos, independentemente de sua Em sua opinião, o desenho a seguir, sobre a evolução das espécies, origem ou aparência física, faé historicamente correto? zem parte de uma mesma espécie que, para a ciência atual, surgiu na África e foi fruto de uma longa evolução. Mas é preciso ter cuidado: afirmar que houve evolução não significa dizer que houve uma progressão linear do mais antigo Resposta pessoal. hominídeo até o homem atual. Professor: essa ilustração é uma visão completamente Segundo Robert Foley, especialista no assunto, “evolução é a muequivocada da história dança no decorrer do tempo”. Portanto, evolução (mudança) não signibiológica: “Essa falsa equação entre evolução e progresso fica progresso; hoje se sabe que muitas espécies surgiram, coexistiram reflete uma [...] invenção imaginária e não uma conclusão e desapareceram. biológica. A fonte básica dessa tendência é [...] aquele desejo Para saber como viviam os primeiros seres humanos, os historiadores humano de nos vermos como ponto alto da história da vida se valem da ajuda de outros estudiosos como os paleontólogos – cien[...] por destino biológico” tistas que buscam conhecer as formas de vida vegetal e animal por (CAPELATO, 2007. p. 89). meio dos fósseis. Getulio Delphim

DIALOGANDO

O que podemos aprender com os fósseis?

Dica! Palestra sobre paleontologia questionando o evolucionismo e o teste do carbono-14. [Duração: 39 minutos]. Acesse: <http://tub. im/paaekt>.

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Fósseis são vestígios de organismos ou plantas que se conservaram sem perder as suas características básicas. No caso dos animais, as partes duras do corpo (como ossos e dentes) costumam, geralmente, resistir mais à decomposição; mas há casos, embora raros, em que a parte mole do corpo também é preservada. Esse foi o caso dos mamutes encontrados praticamente inteiros e congelados na Sibéria. Ao contrário do que se pode imaginar, o aparecimento de um fóssil é uma raridade. Um esqueleto humano completo é mais raro ainda. A regra na natureza é que um organismo que existiu há milhares ou milhões de anos simplesmente se decomponha sem deixar vestígio algum.

UNIDADE 1 | TÉCNICAS, TECNOLOGIAS E VIDA SOCIAL

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Os fósseis nos permitem obter informações importantes sobre um organismo que viveu há milhares ou milhões de anos. Observe a imagem abaixo e perceba como cada parte de um esqueleto humano pode nos fornecer informações relevantes. The Bridgeman Art Library/Keystone

Um dente pode indicar se o indivíduo alimentava-se de carne ou somente de vegetais; dentes de leite e definitivos ajudam a estimar a idade em esqueletos de criança.

O tamanho do crânio pode informar a espécie do gênero Homo.

A pélvis ajuda a identificar o sexo. A pélvis masculina costuma ser mais pesada e mais estreita que a da mulher. A pélvis feminina é larga e achatada para permitir o parto.

O tamanho de um osso pode nos dizer se o esqueleto era de um adulto ou de uma criança. Os ossos podem comprovar fraturas, amputações e golpes na cabeça.

Escavação em Ozbaki, Irã, década de 1990.

Os hominídeos Para a teoria evolucionista, os seres humanos pertencem à ordem dos primatas, isto é, mamíferos cujos membros possuem cinco dedos, sendo o primeiro oponível aos demais, o que lhes possibilita pegar, agarrar; e olhos voltados para a frente permitindo a visão binocular (em que existe foco com profundidade de campo, em função das diferentes imagens formadas por cada um dos dois olhos). Da evolução dos primatas se originaram os primeiros hominídeos, indivíduos com algumas características humanas. É consenso entre os cientistas que os primeiros fósseis de hominídeos são os de australopithecus, que viveram na África, ao sul do deserto do Saara, há cerca de 5 milhões e meio de anos. Os fósseis desses hominídeos informam que eles andavam sobre os dois pés e apresentavam postura ereta, porém sua capacidade cerebral não ultrapassava 500 cm3. Com o tempo, por meio do processo de seleção natural algumas espécies se extinguiram e outras sobreviveram. As sobreviventes deram origem ao gênero Homo, surgido há cerca de 2 milhões de anos; a esse gênero de maior capacidade cerebral pertence a espécie humana.

Dica! Documentário sobre um fóssil de um menino africano. [Duração: 44 minutos]. Acesse: <http://tub. im/t5ux5c>.

CAPÍTULO 2 | A AVENTURA HUMANA: PRIMEIROS TEMPOS

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Abaixo, apresentamos espécies de hominídeos do gênero Homo e algumas de suas características. ESPÉCIES DE HOMINÍDEOS DO GÊNERO HOMO Modo de vida

Volume do crânio

Homo habilis Cerca de 2,2 milhões de anos atrás.

É considerado o primeiro representante do gênero Homo; sabia fazer utensílios de pedra, com os quais caçava pequenos animais, o que lhe permitiu incluir a carne em sua dieta. Daí o seu nome que, em latim, significa “homem hábil”, “habilidoso”, “engenhoso”.

Homo erectus Cerca de 1,5 milhão de anos atrás.

É descendente direto do Homo habilis. Aperfeiçoou instrumentos de pedra, com os quais caçava animais grandes. Foi o primeiro a aprender a usar o fogo, conseguindo, com isso, adaptar-se a regiões frias da Europa e da Ásia.

Homo sapiens neanderthalensis Cerca de 200 mil anos atrás. Seus fósseis foram encontrados na região de Neander, na Alemanha.

Muitos dos restos do homem de Neanderthal foram encontrados em cavernas, daí a expressão “homem das cavernas”. Acredita-se que ele tenha evoluído ao mesmo tempo que o humano moderno. Seu desaparecimento ainda é objeto de debates. O homem de Neanderthal praticava a coleta e a caça em grupos de 20 ou 30 pessoas, fazia sepulturas para seus mortos cobertas com pedra e terra. Por isso, acredita-se ter sido a primeira espécie a realizar cerimônias religiosas.

Homo sapiens sapiens Cerca de 100 mil anos atrás.

+/- 650 cm3

Ilustrações: Luís Moura

Espécie

+/- 1 000 cm3

Pesquisas recentes indicam que o volume craniano do Homo sapiens neanderthalensis é igual ou maior do que o do Homo sapiens sapiens.

+/- 1 500 cm3 É a espécie da qual fazemos parte. Originou-se na África há pouco mais de 100 mil anos e depois se espalhou por todos os continentes, adaptando-se a qualquer ambiente.

Fine Art Images/Heritage Images/Getty Images

Lascaux, França.

Altamira, Espanha.

The Bridgeman Art Library/Keystone

Gamma-Rapho via Getty Images

A grande capacidade cerebral do Homo sapiens sapiens (duas vezes sabido), espécie à qual pertencemos, ajudou-o a desenvolver a fala e uma série de habilidades manuais e artísticas, como as demonstradas nos desenhos em cavernas de vários lugares da Terra.

Tassili n’Ajje, Argélia.

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Pascoal Goetgheluck/SPL/Latinstock

A maneira exata como ocorreram a evolução e o surgimento do homem atual continua sendo um enigma a desafiar os cientistas. O que se sabe com certeza é que a evolução não ocorreu de forma linear; cada espécie de hominídeo tem sua história, e ela não pode ser vista como degrau de uma escada em cujo topo está o Homo sapiens atual. O homem de Neanderthal, por exemplo, desapareceu há mais ou menos 40 mil anos, enquanto o Homo sapiens sapiens teria surgido há cerca de 100 mil anos. 1 e 2

Os primeiros povoadores da Terra Nos dias atuais, ao nascermos já encontramos uma série infinita de objetos cercando nossa vida de conforto. Os primeiros povoadores, diferentemente de nós, tiveram de inventar os objetos de que necessitavam para sobreviver, sem saber ao certo se conseguiriam comida e tampouco se seriam atacados por animais. Para conhecer a vida desses povos, os pesquisadores usam materiais encontrados em escavações, como restos de construções, esqueletos, pinturas. E, com base nessas descobertas, os pesquisadores dividiram a chamada Pré-História em dois períodos, como mostrados na linha do tempo abaixo.

Medição do crânio de um homem de Neanderthal no Museu de História Natural de Paris, França, 2010.

Editoria de arte

The Bridgeman Art Library/Keystone

The Bridgeman Art Library/Keystone

Observação: nesta obra, por questão de espaço, as linhas do tempo não obedecem a uma escala.

PALEOLÍTICO Surgimento do gênero Homo c. 2 milhões de anos

Repare que a divisão da Pré-História em dois períodos se baseia nas técnicas e nos materiais que nossos antepassados usavam para fazer seus utensílios.

NEOLÍTICO Invenção da agricultura 10 mil a.C.

Descoberta de metais 5 mil a.C.

Invenção da escrita 3 mil a.C.

Caçadores e coletores Durante o Paleolítico (palavra que significa “pedra antiga”), os grupos humanos usaram osso, madeira e pedra para fazer suas ferramentas: lanças (para a caça), arpões (instrumento destinado a usos diversos, como caça submarina) e pedras cortantes, que serviam como machados e facas com os quais abatiam animais, coletavam frutos e faziam suas vestes. Por viver da

1. Dica! Documentário abordando o nascimento da mente humana e os primeiros Homo sapiens. [Duração: 50 minutos]. Acesse: <http://tub. im/tgrstc>. 2. Dica! Documentário sobre os neandertais. [Duração: 44 minutos]. Acesse: <http://tub. im/xjfojs>.

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caça, da pesca e da coleta, eles foram chamados de caçadores e coletores. Os homens do Paleolítico eram nômades, isto é, não tinham moradia fixa; sempre que a caça, os peixes e os frutos de uma região começavam a rarear, eles se mudavam para outra área em busca de alimentos. Os homens se tornaram caçadores muito mais eficientes com a descoberta do arco e da flecha, ocorrida ainda no Paleolítico. Manejando-os com destreza, eles caçavam animais velozes, como a lebre, o veado e os pássaros.

O domínio do fogo Outra conquista decisiva do Paleolítico foi a descoberta do fogo. Desde muito tempo o homem obtinha o fogo mergulhando galhos em incêndios florestais causados por raios. Há cerca de 500 mil anos, descobriu como produzir o fogo. Com o domínio do fogo, a vida dos seres humanos mudou muito. Agora eles podiam se aquecer, sobreviver em regiões geladas, ter luz à noite, afugentar animais perigosos e cozinhar ou assar os alimentos. Cozida, a carne tornava-se mais digestiva e podia ser conservada por mais tempo. Isso tudo colaborou para evitar os longos períodos de fome e para aumentar o tempo de vida dos grupos humanos daquela época.

Agricultores e pastores

c. 1200 a.C. Marfim. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Dica! Diversão e reflexão nesse vídeo sobre o domínio do fogo. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ hzrmqd>.

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No período Neolítico, os humanos passaram a polir a pedra aumentando, com isso, a eficiência e a durabilidade de suas ferramentas e armas. Entre as grandes conquistas desse período estão a agricultura e a domesticação de animais; por isso os grupos humanos daqueles tempos ficaram conhecidos como agricultores e pastores. Por volta de 10000 a.C., quando se iniciava o Neolítico, ocorreu uma grande mudança climática: o volume de chuvas aumentou, resultando no enchimento dos lagos, as temperaturas se elevaram e as camadas de gelo que cobriam a superfície terrestre recuaram. O degelo afetou duramente os animais habituados a climas frios, como os bisões e os mamutes, e muitos deles desapareceram. Os seres humanos, então, dedicaram-se a caçar animais pequenos ou de médio porte, como cabritos, porcos e pássaros. Para caçá-los, abater e separar a pele da carne, aperfeiçoaram suas ferramentas de trabalho (como lâminas de corte, machados, serras com dentes de pedra). Também melhoraram sua capacidade de pesca, Escultura em marfim de um bisão, c. 12000 a.C.

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desenvolvendo arpões de diversos tipos e construindo canoas com troncos inteiros de árvores. Nas aldeias neolíticas, o trabalho era dividido de acordo com o sexo e a idade. As mulheres dedicavam-se à agricultura, ao preparo dos alimentos e cuidavam das crianças. Já os homens cuidavam dos rebanhos, caçavam, pescavam, construíam e respondiam pela segurança do grupo. As crianças, ao que parece, ajudavam os pais nas tarefas diárias.

Agricultura, uma descoberta revolucionária Enquanto aguardavam os homens retornarem de uma caçada ou pescaria, as mulheres devem ter percebido que as sementes que os pássaros transportavam de um lugar para o outro germinavam, dando origem a uma nova planta. Assim, foram elas provavelmente que primeiro enterraram sementes com o propósito de vê-las germinar, dando início, assim, à prática da agricultura (cultivo intencional). O desenvolvimento da agricultura causou uma verdadeira revolução na história da humanidade, daí ser conhecida como revolução agrícola. No Oriente Médio, há evidências do cultivo de cereais como o trigo e a cevada há cerca de 8 mil anos a.C. Outros cultivos muito antigos são o milho, na América; o sorgo, na África; e o arroz, na Ásia. Assim, com base no estudo de fósseis de plantas, os cientistas acreditam que a agricultura se desenvolveu em diversos lugares quase ao mesmo tempo. Paralelamente, os seres humanos iniciaram a domesticação de animais, como cães, ovelhas e bois. Estes eram também utilizados para acionar carros de boi usados no transporte de produtos e pessoas. A agropecuária não substituiu a caça e a coleta. Ambas sempre coexistiram, ou seja, muitos grupos humanos desenvolveram a agropecuária, mas continuaram a praticar a caça e a coleta; e ainda hoje há grupos que praticam tão somente a caça e a coleta. A prática da agricultura teve um impacto grande sobre a vida social; entre as mudanças que essa prática favoreceu, cabem citar: » a sedentarização: para semear, cuidar das plantas e aguardar o tempo da colheita, os seres humanos tinham de permanecer um longo tempo em um mesmo lugar, o que favoreceu a fixação dos grupos humanos em determinado território (sedentarização); » a produção de novos instrumentos de trabalho: o machado de pedra com cabo de madeira, para derrubar árvores; a enxada, para carpir o terreno e abrir clareiras na mata; a foice, para cortar ervas e colher cereais; » a invenção da cerâmica (barro modelado e cozido): com a prática da agricultura, os grupos humanos passaram a necessitar de recipientes

Milho:

um grupo de pesquisadores, liderados pela cientista Dolores Piperno, descobriu indícios de que, há pelo menos 8 700 anos, o milho já era cultivado no sudeste do México.

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Cairo. Egyptian Museum. The Bridgeman Art Library/Keystone

nos quais pudessem armazenar as sobras e cozinhar cereais, como o trigo e a cevada. Então, foram feitos vasos, potes, jarros e panelas, usando-se a cerâmica; » o crescimento da população: com o advento da agricultura, a diversificação da produção e a melhoria na conservação dos alimentos, a população cresceu e as pessoas passaram a viver mais tempo. Surgiram as primeiras aldeias e desenvolveu-se a vida comunitária.

Da aldeia à cidade

Oleiro egípcio fabricando um vaso de cerâmica. Arte da 5a dinastia do Antigo Império.

Para atender às necessidades alimentares da população que crescia, os humanos inventaram o arado puxado por bois e técnicas novas de adubação e irrigação, passando então a produzir mais alimentos do que consumiam. Com a produção de excedentes, uma parte da população das aldeias foi liberada do trabalho na agricultura, passando a se dedicar a trabalhos como modelar vasos de cerâmica, tecer, fazer armas de ferro. Verificaram-se então uma crescente divisão e a especialização do trabalho: uns construíam casas, outros teciam, outros confeccionavam redes, potes e panelas e havia ainda os que caçavam e pescavam.

O comércio

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À esquerda, vaso em cerâmica pintada de c. 2600-2300 a.C. À direita, machado neolítico de c. 2000-1800 a.C.

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c.2600-2300 a.C. Lowe Art Museum, Miami. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Com a especialização, as pessoas passaram a trocar aquilo que faziam por aquilo de que necessitavam: trocavam trigo por tecido, tecido por vaso, vaso por machado, e, assim, nasceu o comércio. Com o tempo, essas trocas deixaram de ser feitas pelos produtores desses objetos e passaram a ser feitas pelo comerciante – um personagem novo, que teria importante papel na História.

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O processo de centralização do poder Com o crescimento da população das aldeias, seus chefes passaram a disputar entre si as melhores terras. O vencedor dessas disputas passou a controlar um número maior de terras, de pessoas e de impostos. Com isso, foi ganhando poder e impondo sua autoridade, até tornar-se rei. A residência do rei era o palácio, local de onde ele e seus funcionários planejavam e controlavam a produção de alimentos, a construção de grandes obras, a defesa do reino, a cobrança de impostos, a aplicação da justiça. Enfim, tomavam decisões que afetavam muitas pessoas ao mesmo tempo. Esse processo de centralização do poder é chamado de processo de formação do Estado. Assim, algumas aldeias neolíticas se transformaram em cidades. Segundo estudos recentes, a cidade se distingue da aldeia neolítica por três características básicas: maior divisão do trabalho, comércio feito com regularidade e centralização do poder. A necessidade de água para a agricultura e de vias para o transporte de pessoas e produtos ajuda a explicar o fato de as primeiras cidades terem surgido próximo aos grandes rios, como o Tigre e o Eufrates, na Mesopotâmia; o Nilo, no Egito; o Indo, na Índia; e o Azul e o Amarelo, na China. Observe o mapa.

Como as primeiras civilizações se localizavam nas proximidades dos grandes rios, tornaram-se conhecidas como civilizações fluviais.

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ANATÓLIA

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As primeiras cidades

Civilização

OCEANO ÍNDICO

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OCEANO PACÍFICO

Cidades 90° L

ANATÓLIA

Região

Fonte: A AURORA da humanidade. Rio de Janeiro: Time-Life Livros, 1993. p. 130-131. (História em Revista).

Trabalhando os metais Aproximadamente em 5000 a.C., os seres humanos desenvolveram a metalurgia, ou seja, a técnica de trabalhar os metais. Inicialmente trabalharam o cobre, com o qual faziam utensílios e enfeites. Mas, por ser flexível, o cobre não podia ser usado na confecção de instrumentos de trabalho, como enxada, armas ou lança. Impelidos pela necessidade de ter ferramentas e armas mais resistentes, os humanos inventaram o modo de obter o bronze – liga resultante da fusão CAPÍTULO 2 | A AVENTURA HUMANA: PRIMEIROS TEMPOS

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DIALOGANDO

do cobre com o estanho; depois aprenderam a forjar o ferro – metal cuja resistência é ainda maior. Aprendendo a manipular metais, os humanos aperfeiçoaram suas armas (espadas e escudos) e ferramentas de trabalho (pás, enxadas, arados). Durante esse processo, por volta de 3000 a.C., inventaram a roda com a qual fizeram os primeiros carros de boi.

Como a prática da agropecuária pode ter influenciado a vida das crianças e dos idosos?

Trajetórias do Homo sapiens

A melhoria na alimentação, decorrente da agropecuária, favoreceu o aumento do número de crianças e o cuidado maior com os mais velhos, as principais vítimas do abandono, no tempo em que o homem se deslocava constantemente em busca de alimentos.

Analisando o material genético de pessoas de diferentes partes do mundo, os estudiosos concluíram que os primeiros seres humanos surgiram na África e, do continente africano, em um processo que durou dezenas de milhares de anos, povoaram a Europa, a Ásia e posteriormente a América.

Hipóteses sobre o caminho dos seres humanos para a América Os cientistas concordam quanto à origem africana do Homo sapiens sapiens, mas o caminho por ele percorrido para chegar à América e a data em que isso ocorreu continuam provocando acalorados debates. Uma das hipóteses é a de que os humanos chegaram à América por terra depois de atravessar o Estreito de Bering, localizado entre a Sibéria (Rússia) e o Alasca (Estados Unidos). A travessia teria se dado durante a última glaciação, quando as águas do mar baixaram, e formou-se uma ponte de terra e gelo ligando a Ásia à América. Outra hipótese é a de que tenham chegado à América por mar depois de atravessar o oceano Pacífico, navegando de ilha em ilha. Outra hipótese ainda é a de que parte deles chegou caminhando depois de atravessar o Estreito de Bering e outra parte, navegando pelo Pacífico.

Glaciação:

fenômeno climático caracterizado pela redução drástica da temperatura e pelo avanço das geleiras. A última glaciação ocorreu entre 25 000 e 9000 a.C.

150° L e Be r

OCEANO GLACIAL ÁRTICO Círculo Polar Ártico

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SIBÉRIA

Allmaps

Prováveis caminhos dos povoadores da América

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EUROPA

AMÉRICA DO NORTE

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OCEANO ATLÂNTICO

Trópico de Câncer

DESERTO DO SAARA

OCEANO PACÍFICO

AMÉRICA CENTRAL

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OCEANO ATLÂNTICO

ÁFRICA

NOVA GUINÉ

OCEANO ÍNDICO

AMÉRICA DO SUL POLINÉSIA

Trópico de Capricórnio

OCEANIA Travessia pelo Estreito de Bering Travessia pela Oceania

SIBÉRIA

Região

Círculo Polar Antártico

OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO 0

2 570 km

Fonte: NAQUET-VIDAL, Pierre; BERTIN, Jacques. Atlas histórico: da Pré-História a nossos dias. Lisboa: Círculo de Leitores, 1987. p. 18.

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Inscrições rupestres de 5000 a.C. em Santana do Riacho (MG). Fotografia de 2011. Ayrton Vignola/Folhapress

Em 1999, o estudioso brasileiro Walter Neves surpreendeu a comunidade científica internacional ao revelar para o mundo o mais antigo fóssil humano conhecido até então na América: tratava-se do crânio encontrado no sítio Lapa Vermelha IV, em Lagoa Santa, Minas Gerais, e que pertencia a uma jovem, que viveu há cerca de 11 500 anos; os arqueólogos a batizaram de Luzia. Conforme nos conta Walter Neves, Luzia foi descoberta em 1975 por uma missão franco-brasileira coordenada pela arqueóloga Annete Laming-Emperaire, que morreu precocemente sem divulgar o achado. Walter Neves retomou a pesquisa de Annete e sua equipe e divulgou o extraordinário achado em 1999. Recorrendo à tecnologia da informática, estudiosos da Universidade de Manchester, na Inglaterra, reconstituíram a cabeça de Luzia. Walter Neves descobriu que a morfologia craniana do povo de Luzia era semelhante à de alguns povos nativos da África e da Austrália. Com base nessa descoberta, ele e seu colega Mark Hubbe passaram a defender a ideia de que a América foi povoada por populações fisicamente distintas: uma população com características semelhantes às dos africanos e australianos, que teria sido a primeira a chegar à América, e outra com características similares às dos asiáticos (chineses, japoneses), que chegou depois (essa população teria dado origem aos povos indígenas do Brasil).

João Prudente/Pulsar Imagens

Arqueologia brasileira: descobertas recentes

Ao lado de uma reconstituição de Luzia, o antropólogo Walter Neves examina, em seu laboratório na USP, parte de um crânio de c. 7000 a.C. encontrado na região de Lagoa Santa (MG). Fotografia de 2005. Sítio arqueológico:

local que guarda vestígios da presença humana, como restos de moradias, ossos de animais, plantas comestíveis e medicinais.

Luzia:

nome dado em homenagem a Lucy, um dos mais antigos fósseis humanos, descoberto na África.

Morfologia craniana:

forma e feição do crânio.

Os estudos de Niède Guidon Já para a cientista Niède Guidon, há provas da presença humana no sítio arqueológico da Pedra Furada, em São Raimundo Nonato, Piauí, há mais de 50 mil anos. Sua tese se baseia em datações feitas de carvões originados de fogueiras e pedras lascadas produzidas por seres humanos que viveram onde hoje é o estado do Piauí.

Dica! Vídeo sobre a cidade de Pedro Leopoldo, o berço de Luzia, com depoimento do arqueólogo Walter Neves. [Duração: 11 minutos]. Acesse: <http://tub.im/hqfsiv>.

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1. Dica! Vídeo com entrevista da arqueóloga Niède Guidon. [Duração: 27 minutos]. Acesse: <http://tub.im/p4kp4z>.

Os paleoíndios, nome que se dá aos povoadores mais antigos das terras onde hoje é o Brasil, encontraram uma realidade muito diferente da atual; predominavam campos de vegetação baixa (caatingas e cerrados), florestas relativamente menores e invernos rigorosos, sobretudo no Sul. Esses humanos davam grande importância ao fogo; e faziam grandes fogueiras para aquecer seus corpos, cozinhar e afugentar animais perigosos. No Centro-Oeste e no Nordeste, os cerrados ofereciam pastos para manadas de grandes animais, hoje extintos, como mastodontes (espécie de elefantes), preguiças (com até 6 metros de comprimento), camelídeos (como a macrauquênia), cavalos, renas, tatus-gigantes e o tigre-dentes-de-sabre. Por volta de 9500 a.C., alguns desses grandes mamíferos como o mastodonte e a macrauquênia desapareceram sem deixar parentes. Já a preguiça-gigante tem parentesco com os bichos-preguiça da nossa fauna atual.

Earl Scott/Getty Images

2. Dica! Vídeo com imagens das escavações realizadas por Niède Guidon e sua equipe. [Duração: 18 minutos]. Acesse: <http://tub. im/9g63ky>.

O que se sabe sobre os paleoíndios?

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À esquerda, esqueleto de um tigre-dentes-de-sabre. À direita, representação de um tatu-gigante.

Natural History Museum, London/SPL/Latinstock

Beto Barata/AE

A arqueóloga brasileira Niède Guidon, diretora-presidente da Fundação Museu do Homem Americano, durante entrevista em 2011 para falar das obras do aeroporto de São Raimundo Nonato, no interior do Piauí.

Outros arqueólogos, porém, contestaram Niède Guidon, argumentando que o carvão encontrado por ela pode ter sido resto de incêndios florestais e que as lascas de pedra podem ser consequência da decomposição das rochas; assim, tanto os pedaços de carvão quanto as pedras podem ser resultado de fenômenos naturais, e não da ação humana. 1 Em 2006, porém, a polêmica mudou de rumo, pois o estudioso francês Eric Boeda, um dos maiores especialistas do mundo em tecnologia lítica (de pedra) pré-histórica, comprovou que os artefatos de pedra encontrados pela arqueóloga brasileira eram obra humana e têm entre 33 mil e 58 mil anos. Ficava assim comprovada a tese de Niède Guidon de que o povoamento da América do Sul é muito mais antigo do que se supunha. Enquanto os cientistas ampliam suas investigações e realizam descobertas, o(s) caminho(s) usado(s) pelos primeiros humanos para che2 garem à América continua(m) a ser um desafio para a Arqueologia.

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Caçadores e coletores Os “descobridores do Brasil” sobreviviam da caça, da pesca e da coleta de frutos, como a castanha e o pinhão; abrigavam-se em cavernas, faziam pinturas em suas paredes e lascavam pedras para fazer machados. Além disso, davam grande importância ao fogo; faziam fogueiras para aquecer seus corpos, cozinhar, afugentar animais perigosos e quebrar pedras, com as quais faziam suas ferramentas e armas. Entretanto, entre 9500 e 8000 a.C., quando as temperaturas se elevaram, os grandes animais desapareceram, e os humanos tiveram de se adaptar a climas mais quentes e buscar novos alimentos. Isso os estimulou a aperfeiçoar suas armas e ferramentas de trabalho. Entre os primeiros habitantes das terras onde hoje é o Brasil estão o povo de Lagoa Santa, o povo de Umbu e Humaitá, além dos povos dos sambaquis.

Dica! Portal do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Acesse: <http://tub. im/in82mg>.

O povo de Lagoa Santa

Os povos de Umbu e Humaitá Por volta de 9500 a.C., a área que corresponde ao Sul e Sudeste do Brasil foi ocupada pelo povo da tradição Umbu: caçadores e coletores de grande mobilidade no seu território. Os indivíduos da tradição Umbu

Thais Falcão/Olhar Imagem

Entre 1834 e 1844, o estudioso dinamarquês Peter Lund descobriu, ao norte de Belo Horizonte (MG), um crânio batizado de Homem de Lagoa Santa. Mais de um século depois, uma equipe franco-brasileira encontrou nas cavernas da região sepulturas e a maior coleção de esqueletos humanos das primeiras populações da América. O povo de Lagoa Santa enterrava seus mortos em pequenas covas e as cobria de pedra para protegê-las dos animais. Na parte iluminada de seus abrigos, trabalhava fazendo artefatos como machados de pedra lascada, conchas de caramujo perfuradas, anzóis de osso, entre outros. Aos poucos, adquiriu a técnica do polimento e aperfeiçoou seus instrumentos de trabalho. A análise dos dentes do povo de Lagoa Santa sugere que sua dieta se baseava mais em vegetais que em proteínas animais. Pelos esqueletos encontrados, sabemos que o povo de Lagoa Santa era, geralmente, baixo, magro e tinha uma expectativa de vida curta: a maioria das crianças morria cedo, pouquíssimos adultos atingiam os 30 anos de idade. Gruta da Lapinha, Área de Preservação Ambiental em Lagoa Santa (MG), 2005. Lagoa Santa possui grande número de sítios arqueológicos que, geralmente, são abrigos sob rocha. O estudo desses sítios é importante para o conhecimento dos grupos humanos que lá viveram.

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À esquerda, bolas de boleadeira e, à direita, pontas de flecha.

Biface:

utensílio do paleolítico, do formato de uma grande amêndoa, que consiste num fragmento de rocha (ger. sílex) lascado e aplainado dos dois lados, para formar uma extremidade afilada e cortante, e a outra extremidade arredondada, para ser segura pela mão ou ser encabada.

Na mesma região, nas matas que beiravam os grandes rios, viveram outros grupos de caçadores/coletores: os povos da tradição Humaitá que, além de caçar e pescar, praticavam também a coleta de frutos silvestres, especialmente o pinhão, abundante nas florestas da região. Esse povo, ao que parece, desconhecia o arco e a flecha, mas fazia artefatos de pedra robustos usados como machados e cunhas para trabalhar a madeira. Exemplo disso eram os bifaces construídos por eles, alguns longos, retos e quase quadrados, outros curvos em forma de bumerangue (lâmina recurvada de madeira dura).

Os povos dos sambaquis Os povos dos sambaquis eram povos que viviam dos recursos existentes no mar, entre os quais as conchas; eles as recolhiam e depois de comer os moluscos deixavam-nas no chão. Com o passar do tempo, elas iam se acumulando e formando colinas de conchas onde os sambaquianos construíam suas moradias. A essas colinas damos o nome de sambaquis.

Sambaquis são sítios arqueológicos; este, de cerca de 4500 anos, está situado em Laguna, Santa Catarina. Fotografia de 2014.

Zig Koch/Pulsar Imagens

Cunha:

ferramenta de metal ou madeira dura que se insere no vértice de um corte para melhor fender algum material (como madeira ou pedras), bem como para calçar, nivelar ou ajustar uma peça qualquer.

Enrico Marone/Pulsar Imagens

Enrico Marone/Pulsar Imagens

eram habilidosos no trabalho em pedra: faziam raspadores, facas bifaciais e pontas de flechas, que variavam conforme o animal que pretendiam caçar; também usavam o osso para fabricar artefatos, como agulhas, anzóis e enfeites. Além disso, o povo de Umbu difundiu duas importantes inovações tecnológicas: o uso do arco e flecha (com o qual caçavam animais velozes, como veados, emas ou pássaros) e o uso da boleadeira (arma composta de duas ou três bolas de pedra ligadas entre si por tiras de couro).

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Dica! Documentário sobre os sambaquis do litoral paranaense, com o depoimento de importantes estudiosos no assunto. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http://tub. im/a8kqfs>.

Marisco:

Zoólito em basalto, Rio Grande do Sul, cerca de 2 mil anos atrás. Os objetos líticos se caracterizam por representar diferentes animais (peixes, aves e mamíferos) e pela concavidade em forma de recipiente.

Zoólito em forma de peixe, sambaqui de Santa Catarina, c. 6000 a.C.

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Museu Nacional – UFRJ. Romulo Fialdini/Tempo Composto

designação comum de todos os animais invertebrados marinhos que podem servir de alimento ao homem.

Museu Paulista da Universidade de São Paulo. Romulo Fialdini/ Tempo Composto

Os sambaquis formados pelo acúmulo intencional de conchas e terra estão localizados em praias ou áreas ribeirinhas em várias partes do mundo. No Brasil, encontram-se distribuídos pelo litoral brasileiro, do Rio Grande do Sul até a Bahia, e do Maranhão até o Pará. Os povos dos sambaquis também praticavam a caça e a coleta, mas a base da sua dieta eram os peixes e, sobretudo, os vários tipos de moluscos (animal de corpo mole, sem ossos, quase sempre coberto por uma concha). Eles comiam os moluscos e, com as conchas, faziam essas colinas artificiais a que chamamos “sambaquis”, palavra originária do tupi ta’mba, sa’mba, que significa “concha”, + qui, que significa “amontoado”. Por disporem de uma fartura de alimentos, os sambaquianos formavam grupos populosos que se fixavam em um mesmo lugar por períodos prolongados. Nos sambaquis, as pessoas construíam cabanas, guardavam armas e utensílios domésticos, faziam rituais funerários e sepultavam seus mortos. Os povos dos sambaquis possuíam estatura baixa, cabeça volumosa e produziam artefatos de pedra lascada e polida, incluindo-se aí esculturas com forma animal (peixes, pássaros, antas) e, mais raramente, humana. Em Santa Catarina, especialmente em Joinville (norte) e em Laguna (sul), onde estão os sambaquis de maior porte, descobriram-se elaboradas esculturas em pedra, os zoólitos (do grego zôion, que significa “animal”, + líthos, que significa “pedra”). O Museu Arqueológico de Joinville reúne mais de 10 mil peças arqueológicas da região. Há cerca de 2 mil anos, os povos dos sambaquis desapareceram; segundo os arqueólogos, isso teria ocorrido por dois motivos básicos: a coleta abusiva de mariscos e a chegada de grupos de agricultores tupis-guaranis, que os absorveram ou eliminaram.

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Agricultores e ceramistas Os arqueólogos atuais consideram a Amazônia um centro independente fruto de sabor de domesticação de plantas; lá foram domesticadas importantes plantas agradável e alto valor corantes, medicinais e alimentícias, como a mandioca e a pupunha. Os nutritivo extraído de uma palmeira primeiros habitantes da região amazônica descobriram que, ao prensar e nativa dos trópicos torrar a raiz da mandioca, conseguiam extrair o veneno nela contido; asúmidos americanos, a pupunheira. É um sim, transformaram espécies venenosas em alimentos comestíveis, a exemalimento tido como básico em algumas plo do beiju e da tapioca. Na atualidade, a mandioca – raiz de grande valor regiões. O fruto é nutritivo – é muito consumida no Brasil todo. consumido cozido, prestando-se também Segundo a arqueóloga Anna Roosevelt, os povos amazônicos desenvolveà extração de óleo e à ram a prática da agricultura por volta de 5000 a.C., passando então a proprodução de farinha. duzir seu próprio alimento. Quase ao mesmo tempo, desenvolveram também a técnica da cerâmica, argila modelada e cozida ao fogo; os objetos cerâmicos, impermeáveis e duros, tinham formas variadas e serviam para transportar água, armazenar e cozinhar alimentos e também como urna funerária. Na Amazônia, encontramos as cerâmicas mais antigas de toda a América do Sul; em sítios do estado do Pará, os arqueólogos encontraram vasos que datam de 5000 a 3500 a.C., época em que a agricultura ainda não havia se consolidado. As cerâmicas amazônicas parecem ter sido feitas por artesãos especializados, indício da existência de sociedades complexas e aldeias populosas governadas a partir de um centro de poder. Uma das principais tradições cerâmicas da “Pré-História brasileira” encontra-se onde hoje é a cidade de Santarém, no Pará; daí o nome cultura de Santarém. Repare como a peça ao lado é original e bem elaborada. Outra tradição cerâmica notável foi a que se desenvolveu na foz do rio Amazonas, na Ilha de Marajó. Ali, agricultores e ceramistas ergueram grandes casas isoladas, habitadas por cerca de 100 ou 150 pessoas cada uma. Além de praticarem a agricultura, eles se aproveitavam também da rica fauna ali existente; esses primeiros povoadores deixaram poucos vestígios da sua passagem pela ilha. A partir do século IV, no entanto, começou a florescer ali uma cultura exuberante, que alguns arqueólogos chamam de civilização marajoara. Os marajoaras se defendiam de inundações erguendo morros artificiais chamados tesos, sobre os quais construíam suas moradias. Pelos restos de suas moradias, sabemos que eles se concentravam na parte ocidental da ilha, próximo às margens dos rios. Mas os marajoaras ainda foram pouco estudados; até o presente, a Urna antropomorfa da principal fonte para o estudo desse povo é a sua cerâmica, cujos cultura marajoara feita em cerâmica e encontrada na desenhos são sofisticados e coloridos com linhas pretas e vermeregião do rio Amazonas (AM). lhas sobre um fundo branco.

Museu Paraense Emílio Goeldi, B

Pupunha:

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UNIDADE 1 | TÉCNICAS, TECNOLOGIAS E VIDA SOCIAL

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2. a) Jornalístico; um dos indícios de que o texto é jornalístico é a existência do lead que, no caso, sintetiza a notícia informando: “Tráfico de fósseis leva 50% de tesouro do Araripe”. 2. b) Resposta pessoal. Espera-se que o aluno aponte que a venda ilegal de fósseis para o exterior causa enorme prejuízo à pesquisa sobre a Pré-História no

ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

a) desconhecerem a escrita. 1. Resposta: a. b) manterem relações comerciais. c) viverem sob a forma de Estado.

Brasil. O texto informa que os

brasileiros têm de ir ao I. Retomando pesquisadores exterior a fim de estudar fósseis

1. (UEMA – 2015)

d) dominarem as técnicas agrícolas.

(exemplares de referência) vendidos geralmente por uma ninharia a colecionadores ou museus estrangeiros.

e) ocuparem as margens dos grandes rios.

Arte rupestre é o mais antigo tipo de arte da História. Também é conhecida como gravura ou pintura rupestre. Esse tipo de arte teve início no período Paleolítico Superior e é encontrada em todos os continentes. O estudo da arte rupestre favoreceu o conhecimento de pesquisadores em relação aos hábitos dos povos da Antiguidade e a sua cultura. As matérias-primas utilizadas para a expressão artística dos povos da antiguidade eram pedras, ossos e sangue de animais. O sangue, assim como o extrato de folhas de árvores, era utilizado para tingir, constituindo o que devem ser as mais primitivas expressões artísticas, conforme a imagem abaixo.

Granger/Glow Images

Fonte: Disponível em: <http://vivendo-historia. blogspot.com.br/2010/03/arte-rupestre.html>. Acesso em: 19 jun. 2014. (adaptado)

2. Leia o texto a seguir com atenção. Tráfico de fósseis leva 50% de tesouro do Araripe Pesquisadores acabam de mapear o tamanho do estrago que o comércio ilegal de fósseis na bacia do Araripe, no Nordeste, já causou à ciência brasileira. Das 41 espécies de vertebrados terrestres extintos já descobertas no Araripe, 21 têm seus exemplares de referência armazenados em museus do exterior. Ou seja, cientistas do país precisam ir para a Europa, os Estados Unidos e o Japão para poder estudar tais bichos direito. [...] Embora o número de holótipos surrupiados tenha sido mapeado só agora, a situação já é conhecida há anos. Para os pesquisadores, o único jeito de contorná-la é dar alternativas de renda à população pobre da área, que hoje repassa os fósseis a atravessadores por uma ninharia. LOPES, Reinaldo José. Folha de S.Paulo, 25 jul. 2010. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ ciencia/772408-trafico-de-fosseis-leva-50-de-tesourodo-araripe.shtml>. Acesso em: 19 abr. 2016.

a) Quanto ao gênero, o texto é historiográfico, literário, jornalístico, filosófico ou jurídico? Explique.

Durante muito tempo, os povos que assim se expressavam foram conhecidos como “pré-históricos”. Essa denominação, hoje em desuso entre a maioria dos historiadores, mas ainda presente nos livros didáticos, está diretamente relacionada ao fato de esses povos

b) Considerando o afirmado no texto e os seus conhecimentos sobre os fósseis, analise o impacto desse tipo de comércio ilegal para o estudo da Pré-História no Brasil. c) Em dupla. Pesquisadores sugerem melhorar a renda da população pobre da bacia do Araripe a fim de inibir ou evitar o tráfico ilegal de fósseis; que outras sugestões vocês dariam para combater esse tipo de crime?

2. c) O objetivo é estimular o posicionamento crítico do aluno e a sua criatividade na busca de soluções para esse problema que impacta e cria empecilhos à pesquisa científica no Brasil.

CAPÍTULO 2 | A AVENTURA HUMANA: PRIMEIROS TEMPOS

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5. Professor: a visita com alunos a uma exposição museológica tem um grande potencial pedagógico, desde que seja criteriosamente planejada, monitorada e avaliada. Outra possibilidade é visitar um museu histórico ou de etnologia, ou ainda de antropologia. No caso da visita a esses museus use o mesmo roteiro.

3. Esta imagem foi encontrada em uma rocha no deserto da Líbia, no norte da África. Erich Lessing/Album/Latinstock

e) contestam a teoria de que o povoamento da América teria iniciado há 18 mil anos. 4. Resposta: e.

5. Vivência: visita a um museu de Ciências Humanas na sua cidade ou estado. Para planejá-la vamos seguir alguns passos recomendados pelos educadores do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Adriana Mortara Almeida e Camilo de Mello Vasconcellos:

a) Dê um título à imagem.

3. a) Resposta pessoal.

b) Ela pode ter sido elaborada no Paleolítico? Justifique. 4. (Enem/MEC) Segundo a explicação mais difundida sobre o povoamento da América, grupos asiáticos teriam chegado a esse continente pelo Estreito de Bering há 18 mil anos. A partir dessa região, localizada no extremo noroeste do continente americano, esses grupos e seus descendentes teriam migrado, pouco a pouco, para outras áreas, chegando até a porção sul do continente. Entretanto, por meio de estudos arqueológicos realizados no Parque Nacional da Serra da Capivara (Piauí), foram descobertos vestígios da presença humana que teriam até 50 mil anos de idade. Validadas, as provas materiais encontradas pelos arqueólogos no Piauí: a) comprovam que grupos de origem africana cruzaram o oceano Atlântico até o Piauí há 18 mil anos. b) confirmam que o homem surgiu primeiramente na América do Norte e, depois, povoou os outros continentes. c) contestam a teoria de que o homem americano surgiu primeiro na América do Sul e, depois, cruzou o Estreito de Bering.

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d) confirmam que grupos de origem asiática cruzaram o Estreito de Bering há 18 mil anos.

- Definir os objetivos da visita; (...) - Visitar a instituição antecipadamente (...); - Preparar (...) para a visita através de exercícios de observação, estudo de conteúdos e conceitos; - Coordenar a visita de acordo com os objetivos propostos ou participar de visita monitorada, coordenada por educadores do museu; - Elaborar formas de dar continuidade à visita quando voltar à sala de aula; - Avaliar o processo educativo que envolveu a atividade, a fim de aperfeiçoar o planejamento das novas visitas, em seus objetivos e escolhas. BITTENCOURT, Circe. O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2006. p. 114.

Sites de alguns museus arqueológicos brasileiros 1. São Paulo – Museu de Arqueologia e Etnologia da USP: <http://tub.im/in82mg>. 2. Sergipe – Museu de Arqueologia de Xingó: <http://tub.im/a6jbf4>. 3. Rio de Janeiro – Museu Nacional/UFRJ: <http://tub.im/9h2xi7>. 4. Paraná – Museu Paranaense: <http://tub.im/ m7vxax>. 5. Mato Grosso do Sul – Museu Salesiano de História Natural: <http://tub.im/z68zxa>. 6. Goiás – Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás: <http://tub. b) Não. Foi pintada no Neolítico, que é quando im/8e6z2w>. 3. o homem desenvolveu a prática da pecuária, a

domesticação e criação de animais. Segundo Graça Proença: “As mais antigas figuras feitas pelo ser humano foram desenhadas em paredes de rocha, sobretudo em cavernas. Esse tipo de arte é chamado de rupestre, do latim rupes, rocha. Já foram encontradas imagens rupestres em muitos locais, mas as mais estudadas são as UNIDADE 1 | TÉCNICAS, TECNOLOGIAS E VIDA SOCIAL das cavernas de Lascaux e Chauvet, França, de Altamira, Espanha, de Tassili, na região do Saara, África, e as do município de São Raimundo Nonato, no Piauí, Brasil”. (PROENÇA, Graça. Descobrindo a história da arte. São Paulo: Ática, 2005. p. 6).

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II. Você cidadão!

PROFESSOR, VER MANUAL.

O Parque Nacional Serra da Capivara fica no sudeste do Piauí, a 530 km de Teresina, capital do Estado. O Parque possui uma superfície de 129 140 ha e um perímetro de 214 km, ocupando áreas dos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. Em 1991 a Unesco incluiu-o na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. O texto a seguir é uma reportagem sobre esse patrimônio. Leia-o com atenção.

Parque da Serra da Capivara, no Piauí, está ameaçado Até o fim do ano, o Parque Nacional da Serra da Capivara pode sofrer um golpe pesado. A Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), parceira do governo federal na manutenção da unidade, prepara-se para fechar as portas. Em 2014, seus cofres receberam apenas R$ 860 mil, verba insuficiente para zelar pela infraestrutura que sustenta o acesso e a pesquisa em mais de mil grutas rupestres, dispersas por 130 mil hectares no interior do Piauí. Nem o status de Patrimônio Cultural da Humanidade assegurou a entrada de recursos. Se a penúria significar uma ameaça às cavernas pré-históricas, o título atual poderia mudar para “patrimônio em perigo”. Pouco tempo atrás, a equipe de Niède Guidon, de 82 anos, que preside a fundação, contava com 270 funcionários. Hoje, são 50. Segundo a arqueóloga, a demissão dos empregados remanescentes implicaria no pagamento de indenizações. Para isso, seria necessário encerrar as atividades até dezembro. — Eu não sei mais o que fazer — admite a arqueóloga. — A fundação surgiu em 1986 porque, sete anos antes, o parque foi criado e não havia funcionários do governo federal. A área estava tomada por caçadores e extrativistas. As pesquisas científicas trazem resultados fantásticos, mas os trabalhos não podem ser sustentados sem uma estrutura básica. GRANDELLE, Renato. Parque da Serra da Capivara, no Piauí, está ameaçado. O Globo, 17 set. 2015. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/sociedade/sustentabilidade/parque-da-serra-dacapivara-no-piaui-esta-ameacado-1-16800318>. Acesso em: 19 abr. 2016.

a) O texto se destina às autoridades, aos arqueólogos, aos estudantes ou ao público em geral? b) Qual o principal problema enfrentado pelo Parque Nacional segundo a reportagem? c) Qual tem sido a consequência do problema apontado no texto? d) Em dupla. Pesquisem para identificar os principais problemas vividos pelo Parque Nacional, além da falta de verbas. Postem o trabalho de vocês no blog da turma. e) Em grupo. Elaborem um texto sobre o Parque Nacional e os problemas que enfrenta na atualidade. Cada grupo pode se dedicar a um tema: A história do Parque; A luta de Niède Guidon para transformá-lo em um polo turístico; A questão do desmatamento; A questão da caça comercial; A questão da preservação do patrimônio.

Sites para pesquisa: 1. <http://tub.im/hs6014>. 2. <http://tub.im/y75fg5>. 3. <http://tub.im/qkho58>. CAPÍTULO 2 | A AVENTURA HUMANA: PRIMEIROS TEMPOS

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UNIDADE

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Cidades: passado e presente › Fonte 2 Marcia Minillo/Olhar Imagem

Edson Grandisoli/Pulsar Imagens

› Fonte 1

Córrego Carandiru em São Paulo (SP), 2014. Ciclistas pedalando na ciclofaixa da Avenida Paulista, São Paulo (SP),2014. Fotografia aérea capta o contraste entre construções pobres e prédios de alto padrão na capital paulista, 2004.

Tuca Vieira/Folhapress

› Fonte 3

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› Fonte 4 O texto a seguir é de Carlos Leite, arquiteto, pós-doutorado em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Politécnica da Califórnia. Leia-o com atenção. Há 100 anos, apenas 10% da população mundial vivia em cidades. Atualmente, somos mais de 50%, e até 2050, seremos mais de 75%. A cidade é o lugar onde são feitas todas as trocas, dos grandes e pequenos negócios à interação social e cultural. Mas também é o lugar onde há um crescimento desmedido das favelas e do trabalho informal: estima-se que dois em cada três habitantes estejam vivendo em favelas ou sub-habitações. E é também o palco de transformações dramáticas que fizeram emergir as megacidades do século 21: as cidades com mais de dez milhões de habitantes já reúnem 10% da população mundial. [...] É nessas megacidades do futuro que o mundo precisa se reinventar, dividir riqueza para alcançar padrões mais justos e equilibrados de desenvolvimento. Padrões mais sustentáveis não apenas nos necessários desafios ambientais, mas também sociais e econômicos — que se reflitam não mais nos indicadores financeiros, mas em IDH’s [...]. O desafio do desenvolvimento futuro está nas cidades: 2/3 do consumo mundial de energia e aproximadamente 75% de todos os resíduos gerados ocorrem nas cidades. [...]

Professor: a intenção foi estimular a reflexão sobre a vida urbana no presente para interessar o aluno pelo estudo do tema no passado. O problema registrado pela fonte 2 é a falta de infraestrutura (esgoto a céu aberto); já a fonte 3 evidencia o luxo e a pobreza convivendo lado a lado na megacidade de São Paulo. Na fonte 4, o autor aponta a necessidade de superar esse problema para se conseguir sustentabilidade.

IDH:

O IDH é obtido combinando-se fatores como esperança de vida ao nascer, anos de escolaridade e renda per capita, entre outros. O IDH de um país vai de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1 melhores são as condições do país; quanto mais próximo de 0, piores elas são.

LEITE, Carlos. Cidades 2010 + 25. Revista aU, ago. 2010. Disponível em: <http://au.pini.com.br/ arquitetura-urbanismo/197/artigo181306-1.aspx>. Acesso em: 11 maio 2016.

Leia as imagens, o texto, reflita sobre o assunto e tente responder:

» A fonte 1 mostra uma das diversas formas de lazer em São Paulo; já as fontes 2 e 3 mostram alguns dramas da cidade de São Paulo; quais são eles? » Que relação se pode estabelecer entra a fonte 3 e a fonte 4? » Dentre os problemas das megacidades citados no texto, quais atingem também a sua cidade (ou a cidade mais próxima)? » Reúna-se com o seu grupo e, depois de debater os principais problemas das megacidades, proponham por escrito possíveis soluções para eles. Ao final da unidade, retomem esse debate. UNIDADE 2 | CIDADES: PASSADO E PRESENTE

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Professor: retomar com os alunos que a Arqueologia - ciência que estuda os povos a partir da sua cultura material – auxilia decisivamente no estudo da História. Escavando sítios arqueológicos (cena à esquerda) descobrem-se objetos, como esses mostrados à direita, que, quando classificados, catalogados e devidamente interrogados, fornecem importantes informações sobre o povo que os criou.

Capítulo 3

Mesopotâmia

c.2650-2550 a.C. Coleção particular. Foto: Akg-Images/Latinstock

James L. Stanfield/National Geographic/Getty Images

À esquerda vemos arqueólogos trabalhando nas ruínas de um palácio, centro de poder e residência do rei na Antiguidade. À direita, manequim com brincos, colares e gargantilha, objetos da cultura material sumeriana de cerca de 2500 a.C.

Escavação arqueológica na Síria, país que tem parte de seu território nas terras ocupadas no passado pelos povos da Mesopotâmia, 1980.

Manequim do Museu do Iraque com joias e enfeites de c. 2500 a.C. encontrados nas Tumbas Reais de Ur.

» Que relação se pode estabelecer entre a imagem da esquerda e a da direita? » Os objetos da cultura material ajudam a contar a história de um povo; o que essas joias contam sobre os sumérios? » O que você sabe sobre este e outros povos da Mesopotâmia? 50

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A Mesopotâmia Mesopotâmia foi o nome dado pelos gregos às terras do Oriente Médio cortadas pelos rios Tigre e Eufrates, que nascem nas montanhas da Armênia e deságuam no Golfo Pérsico. A região encontrava-se cercada por montanhas e desertos, possuía uma vegetação pobre e um clima quente e seco durante a maior parte do ano; esses elementos tornavam a região desfavorável à vida humana. Mas graças ao aproveitamento das águas dos rios Tigre e Eufrates, por meio do trabalho coletivo e direcionado, a Mesopotâmia transformou-se em um polo de atração para diferentes povos e berço de culturas ricas e variadas. Entre esses povos cabem citar os sumérios, os acádios, os amoritas, os assírios e os caldeus. 1 e 2 Alexandre Bueno

Mesopotâmia e divisão política atual 45° L

ARMÊNIA

1. Dica! Documentário sobre as cidades da antiga Mesopotâmia. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub. im/3obcxm>. 2. Dica! Vídeo que pode ajudar no conhecimento da geografia e da história da Mesopotâmia. [Duração: 59 minutos]. Acesse: <http://tub. im/g5n7gi>.

AZERBAIJÃO

AZERBAIJÃO

TURQUIA

Mesopotâmia:

palavra de origem grega que significa “entre rios” (mésos = “meio”, “centro”; potamós = “torrente”, “água que se precipita”, “rio”).

Mar Cáspio

35° N

T Rio

SÍRIA

igre

LÍBANO Mar Mediterrâneo

IRÃ IRAQUE

EGITO

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ISRAEL

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JORDÂNIA

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KUWAIT ARÁBIA SAUDITA

Mesopotâmia Fronteiras do atual Iraque

Golfo Pérsico

0

220

Essa estátua de Gudeia, rei da cidade de Lagash, é de cerca de 2150 a.C. e encontra-se no Museu do Louvre, em Paris.

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2011. p. 5.

Os sumérios e os acádios Os sumérios se estabeleceram no sul da Mesopotâmia por volta de 4000 a. C. e, tirando proveito das águas dos rios Tigre e Eufrates, desenvolveram a agricultura irrigada e a criação de gado. Para irrigar as áreas mais distantes, construíam canais e, para armazenar as águas das cheias, faziam diques. A agricultura, a pecuária e as técnicas de controle das águas estimulavam a sedentarização e a produção de alimentos, o que favoreceu o crescimento da população, a especialização do trabalho e o comércio, feito com regularidade. Assim, durante o 4.o milênio a.C., surgiram as cidades mesopotâmicas de Ur, Uruk, Eridu e Lagash, que estão entre as primeiras do mundo.

c. 2150 a.C. Diorito. Museu do Louvre, Paris. Foto: Photo Scala/Glow Images

Repare que hoje a maior parte da região mesopotâmica está ocupada pelo Iraque.

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De Agostini Picture Library/ De Agostini/Getty Images

Ilustração que procura reconstituir o que pode ter sido o Grande Zigurate da cidade de Ur. Esse monumento religioso foi construído por volta de 2100 a.C. e consagrado ao deus Nanna, que equivale a Sin, deus da Lua.

Pelo fato de serem independentes e de possuírem governo próprio, as cidades mesopotâmicas são chamadas, pelos historiadores, de cidades-Estado. Cada cidade possuía uma divindade protetora e um rei, que era visto como servidor dessa divindade. O rei vivia em um palácio, do qual governava. Em volta de suas cidades, os sumérios erguiam muralhas altas e extensas com várias torres defensivas. Próximo à cidade, ficavam os pomares, as hortas e as áreas de cultivo. E dentro das cidades, as casas, as ruas, as pontes, o palácio, os templos religiosos e os zigurates. Os palácios eram habitados por reis e tinham grande importância social, pois eram centros de poder e de riqueza e indícios da diferenciação social existente nas primeiras cidades da Suméria. Outro centro de poder mesopotâmico eram os templos, moradas dos deuses com várias repartições que serviam como casas, armazéns e oficinas. Havia ainda os zigurates, monumentos religiosos na forma de pirâmides em degraus cujas funções são pouco conhecidas: não são tumbas funerárias (como no Egito) nem templos, no sentido de lugar de reunião de fieis.

A escrita

Dica! Documentário sobre o nascimento da escrita. [Duração: 27 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ qy3pn4>

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Durante muito tempo se disse que a escrita surgiu primeiramente na Mesopotâmia. Ela teria sido o resultado de uma invenção tópica e genial dos sumérios. Novos achados arqueológicos, no entanto, indicam que a escrita se desenvolveu, ao mesmo tempo, em diferentes partes do mundo; há registros de escritas muito antigas na Suméria, no Egito, na Índia e na China. Qualquer um desses lugares pode ter sido o berço da escrita. Na Suméria o advento da escrita não ocorreu de uma hora para outra; resultou de um longo processo com diversos estágios. Acredita-se que a necessidade de controlar os recebimentos e pagamentos (realizados pelos templos e palácios) e a circulação de produtos (trigo, animais e utensílios) deu origem à escrita. Inicialmente, a escrita sumeriana era um conjunto de desenhos que representavam um bem (uma cabra, uma ovelha) e sinais que indicavam as quantidades e as medidas. Com o tempo, foi se tornando mais elaborada e complexa: estava criada, assim, a escrita cuneiforme, cujos primeiros registros são de cerca de 3000 a.C. Os sumérios escreviam em tabuinhas de argila úmida, que depois eram colocadas ao sol para secar. Para escrever, usavam a ponta de um estilete de extremidade triangular, com o qual faziam sinais em forma de cunha. Por isso, esse tipo de escrita recebeu o nome de escrita cuneiforme.

UNIDADE 2 | CIDADES: PASSADO E PRESENTE

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2250 a.C. Museu do Louvre, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

O brilho das cidades-Estado sumeiranas durou cerca de 650 anos; depois, elas foram conquistadas pelos acádios, um povo semita cuja língua tinha parentesco com o árabe e o hebraico. Os acádios incorporaram práticas e saberes dos sumérios, inclusive a escrita cuneiforme, e ficaram conhecidos por terem desenvolvido um calendário lunar de doze meses, sendo cada mês dividido em semanas de sete dias. Assim como outros povos da Mesopotâmia, os acádios expandiram seu território e, em cerca de 2350 a.C., Sargão, rei da cidade de Acad, fundou o Império Acádio, o primeiro da região. Esse império, cuja capital era Acad, durou cerca de 250 anos. Abalado por rebeliões internas, foi invadido por guerreiros nômades que provocaram a sua desintegração. Estela intitulada Vitória de Naram-Sin, 2250 a.C. Nela vê-se Sin, rei de Acad. Susa, atual Irã.

Império:

na Antiguidade, era o conjunto de cidades ou regiões subordinadas ao governante da cidade mais poderosa. Os impérios se utilizavam da guerra, do saque e da pilhagem, além da aliança política para a conquista de territórios.

Os amoritas Por volta de 1900 a.C., os amoritas, povo vindo do deserto da Arábia, venceram o Império Acádio e se estabeleceram no centro-sul da Mesopotâmia. Lá fundaram a cidade da Babilônia, que passou a ser o principal polo de força na Mesopotâmia. Da Babilônia, os amoritas se expandiram e construíram o Primeiro Império Babilônico, que teve seu período áureo no reinado de Hamurabi (1792-1750 a.C.). Seu império se estendia desde a Assíria, no norte, até a Caldeia, no sul. A Babilônia tornou-se um grande centro político, cultural e religioso. Hamurabi ficou conhecido por liderar a expansão do império e por administrá-lo com eficiência. As principais realizações de seu governo foram o incentivo à agricultura por meio da construção de açudes e canais de irrigação; a unificação da língua e da religião; a organização de um conjunto de leis, o Código de Hamurabi, que, embora não seja o primeiro conjunto de leis escritas, é um dos mais conhecidos. Este código trata dos mais variados assuntos, desde a regulamentação das profissões até as normas a respeito do casamento e da assistência aos pobres e às viúvas, entre outros.

Dica! Documentário sobre a civilização sumeriana. [Duração: 51 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ mkpboy>.

CAPÍTULO 3 | MESOPOTÂMIA

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Para refletir

c. 1900 a.C. Escultura em diorita. Museu do Louvre, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

O Código de Hamurabi

Cabeça do rei Hamurabi (c. 1792-1750 a.C.). Awilum:

homem livre, com cidadania plena.

Muskênum:

pessoa pertencente a um grupo social intermediário entre os homens livres e os escravos.

O Código de Hamurabi define vários tipos de crimes e a penalidade correspondente a cada um deles. Eis algumas de suas leis: §1 – Se um awilum acusou um (outro) awilum e lançou sobre ele (suspeita de) morte mas não pôde comprovar: o seu acusador será morto. [...] §6 – Se um awilum roubou um bem (de propriedade) de um deus ou do palácio: esse awilum será morto; e, aquele que recebeu de sua mão o objeto, será morto. [...] §8 – Se um awilum roubou um boi ou uma ovelha ou um asno ou um porco ou um barco: se é de um deus ou do palácio, deverá pagar trinta vezes; se é de um muskênum, indenizará dez vezes. Se o ladrão não tem com que pagar, ele será morto. [...] §16 – Se um awilum escondeu em sua casa um escravo ou uma escrava fugitivo do palácio ou de um muskênum [...] o dono dessa casa será morto. [...] §229 – Se um pedreiro edificou uma casa para um awilum, mas não reforçou o seu trabalho e a casa, que construiu, caiu e causou a morte do dono da casa, esse pedreiro será morto. §230 – Se causou a morte do filho do dono da casa, matarão o filho desse pedreiro. §231 – Se causou a morte de um escravo do dono da casa, ele dará ao dono da casa um escravo equivalente. [...] BOUZON, Emanuel. O Código de Hamurabi. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 46, 51, 53, 58, 194.

a) O texto citado pode ser classificado como historiográfico, jurídico, filosófico ou texto é jurídico. [Embora seja o mais extenso, e um dos mais conhecidos, o Código de Hamurabi não é o corpo de literário? a)leisOmais antigo do Oriente Antigo.] b) O parágrafo 229 do Código de Hamurabi é uma expressão da pena de Talião. A pena de Talião pode ser sintetizada na expressão “olho por olho, dente por dente”. No parágrafo 229 o pedreiro que Explique. b)causou a morte de uma pessoa (mesmo que involuntariamente) deve pagar o seu erro com a própria vida.

c) Conclui-se que a sociedade babilônica tratava com

c) O que se pode concluir com base no parágrafo 16? radical severidade aquele que ousasse dar guarida a um

escravo fugido; se fosse pego, pagava com a própria vida.

d) O que se pode dizer sobre a sociedade babilônica do tempo de Hamurabi, com base d) Primeiramente, que havia diferentes grupos sociais; em segundo lugar, que os nos parágrafos 229, 230 e 231? indivíduos livres (com cidadania plena), os indivíduos com cidadania restrita e os escravos recebiam um tratamento bastante desigual.

Após o governo de Hamurabi uma série de povos, entre os quais os hititas, conquistaram a Babilônia, causando a desintegração do império. Enquanto isso no norte da Mesopotâmia, os assírios ganhavam poder e espaço.

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Os assírios, povos de origem semita, ocuparam a região do norte da Mesopotâmia onde fundaram a cidade de Assur. Eles viviam em uma região de trânsito intenso de povos que entravam pelo vale mesopotâmico ou saíam dele. Habitando uma área de passagem, recorriam à guerra para defender seu território; nesse processo, se aperfeiçoaram como guerreiros: passaram a usar o ferro em suas armas e desenvolveram os carros de guerra com rodas de aros e, apoiados na cavalaria e em uma infantaria aguerrida, partiram para a Fragmento de um relevo representando o exército assírio conquista de terras e povos tornanem uma batalha e que estava no Palácio de Assurbanípal, em Nínive, c. 645 a.C. Os assírios reforçaram esses carros com do-se senhores de um imenso impépeças de ferro e substituíram os burros por cavalos. Com isso, rio, com capital na cidade de Nínive. ganharam mobilidade, transformando um carro usado como meio O Império Assírio abrangia a de transporte em uma arma de combate. Os assírios chegaram a esculpir belíssimos altos-relevos, ainda hoje muito admirados. Mesopotâmia, a Síria, a Palestina, a Os temas prediletos eram a guerra e o esporte. Fenícia e o Egito (observe o mapa dos impérios mesopotâmicos à página 56). Os assírios justificavam suas conquistas de terras e povos afirmando que essa era a vontade de Assur, seu principal deus. Com isso buscavam legitimar sua política expansionista. Mas o que tornou os assírios de fato conhecidos foi a violência com que tratavam seus adversários. Os povos conquistados eram escravizados e vítimas de amputações, torturas e outros suplícios. Durante o reinado de Assurbanípal (668-626 a.C.), o império ganhou uma grande biblioteca, as estradas foram ampliadas e/ou recuperadas, mas, ao mesmo tempo, aumentaram os impostos e a violência usada na sua cobrança. Essa política opressiva levou os povos dominados a promoverem uma série de rebeliões contra o Império Assírio, que se desintegrou quando os caldeus (habitantes da Babilônia), aliados aos medos (vindos do planalto do Irã), tomaram a cidade de Nínive, a capital, em 612 a.C.

c.645 a.C. Pedra. Museu do Louvre, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Os assírios

Os caldeus Os caldeus, ou novos babilônios, também tiveram seu período de brilho na Mesopotâmia. No reinado do imperador caldeu Nabucodonosor (604562 a.C.), os caldeus conquistaram a Síria, a Fenícia e o Reino de Judá e constituíram o Segundo Império Babilônico. Durante essa expansão CAPÍTULO 3 | MESOPOTÂMIA

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Séc. XX. Gravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

45° L

Allmaps

Impérios mesopotâmicos (cerca de 5000 a 539 a.C.) Domínio da civilização suméria Extensão máxima do Primeiro Império Babilônico Extensão máxima do Império Acádio Extensão máxima do Império Assírio Extensão máxima do Segundo Império Babilônico (Caldeu)

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Os Jardins Suspensos da Babilônia em uma representação de c. 1920. Segundo o historiador e arqueólogo Marcelo Rede, não há provas escritas e nem arqueológicas da existência desses jardins monumentais.

militar, a cidade de Jerusalém foi invadida, milhares de hebreus foram aprisionados e levados para a Babilônia como escravos. Posteriormente, uma grande revolta ocorrida em Judá foi duramente reprimida por Nabucodonosor que, em 587 a.C., mandou destruir Jerusalém e deportou milhares de hebreus. Com uma parte da riqueza tomada dos povos vencidos, o imperador Nabucodonosor promoveu a reconstrução da cidade de Babilônia, escolhida para ser sua capital. E, nela teria realizado importantes obras de engenharia como os famosos Jardins Suspensos da Babilônia. Assim como seus antecessores, o Segundo Império Babilônico também foi abalado por revoltas internas e, estando enfraquecido, foi conquistado pelos persas chefiados por Ciro, o Grande, em 539 a.C.

Mar Morto

Jerusalém

30° N

DESERTO DA ARÁBIA

Golfo Pérsico

PÉRSIA

0

230 km

Fonte: VIDAL-NAQUET, Pierre; BERTIN, Jacques. Atlas histórico: da Pré-história aos nossos dias. Lisboa: Círculo de Leitores, 1990. p. 29.

O campo e a cidade na Mesopotâmia

Dica! Documentário sobre Nabucodonosor II e o Império Babilônico. [Duração: 41 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ wcboia>.

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Os povos mesopotâmicos praticavam a agricultura, a criação de animais, o artesanato e o comércio. Nos campos da Mesopotâmia, as famílias cultivavam, sobretudo, a cevada (cereal usado na produção da cerveja), o trigo (usado na feitura do pão) e o gergelim (planta de sementes oleaginosas da qual se extraía o óleo usado na alimentação e iluminação). Ao lado de suas casas, plantavam árvores frutíferas, como a tamareira; e, nos espaços entre as plantações de cereais, cultivavam legumes e hortaliças. Os mesopotâmios também praticavam a pecuária; criavam bois, porcos, ovelhas, cabras. Dessas criações,

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O comércio externo Os povos mesopotâmicos também comerciaram com diversos outros povos do mundo antigo. Como a região carecia de pedras, madeiras e metais, seus comerciantes percorriam longas distâncias em direção ao Ocidente e ao Oriente, no encalço dessas matérias-primas importantes para sua economia. Montar uma caravana para lugares distantes, porém, era um empreendimento custoso e arriscado; por isso, durante muito tempo essas expedições foram organizadas pelos templos e palácios, ou seja, pelos sacerdotes e pela realeza. Posteriormente, passaram às mãos de particulares enriquecidos, mas continuaram a ser controladas e taxadas pelo governo. Observe o mapa dos produtos importados pelos mesopotâmios.

Séc. VIII. Marfim. Coleção particular. Foto: Werner Forman /Universal Images Group/Getty Images

extraíam a gordura, a carne, a lã, o leite (e seus derivados, como a coalhada e o queijo). Os bois ajudavam a arar a terra e, assim como os jumentos, também puxavam carroças. No campo, havia artesãos que faziam potes de cerâmica, cestos de fibras vegetais; instrumentos de pedra, madeira ou metal. O artesanato praticado no campo era, até certo ponto, rudimentar, mas já nas cidades havia artesãos especializados na confecção de tecidos, cerâmica, artefatos de ferro, mármore, madeira, joias, perfumes, cremes de beleza e bijuterias; todos esses produtos eram muito apreciados pelos povos vizinhos. Os habitantes do campo trocavam seus produtos entre si e com os moradores das cidades; assim, na Mesopotâmia, o comércio interno ligava o campo à cidade.

Relevo em mármore encontrado em um palácio assírio em que se vê uma vaca amamentando uma bezerra, século VIII a.C.

Alexandre Bueno

Produtos obtidos pelos mesopotâmios em outras regiões 30° L

60° L

Mar de Aral

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35° N

Trópico de Câncer

PÉRSIA

Golfo Pérsico

PLANALTO IRANIANO

Mar Arábico 0

420

Fonte: REDE, Marcelo. A Mesopotâmia. São Paulo: Saraiva, 1997. p. 20.

O uso de produtos raros nas construções, nas vestimentas e em colares, brincos e pulseiras conferia prestígio aos seus donos. A posição geográfica da Mesopotâmia fez dela, durante milênios, uma intermediária natural entre o Ocidente e o Oriente.

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Sociedade, impostos e oferendas

O Estandarte de Ur é uma caixa de madeira que traz esculpida em suas duas faces inúmeras figuras. Foi encontrada no sul da Mesopotâmia, no cemitério da cidade de Ur. O tema das cenas mostradas nessa face da caixa é um banquete real em comemoração à vitória na guerra. Na faixa superior, vemos o rei e seus convidados bebendo e sendo servidos por criados, enquanto um músico e um cantor empenham-se em entretê-los. O rei é o terceiro da esquerda para a direita.

2600-2400 a.C. Madeira, lápis-lazúli e concha. Museu Britânico, Londres. Foto: Erich Lessing/Album/L

As sociedades mesopotâmicas eram hierarquizadas e marcadas pela desigualdade. No topo estava o rei, a autoridade máxima e o comandante militar em caso de guerra. A realeza recebia impostos que a população pagava na forma de produtos e os utilizava para abastecer seus celeiros ou no pagamento de seus funcionários. Na figura a seguir vemos uma cena comum na Mesopotâmia: a população contribuindo com uma festa da realeza.

Por meio da arrecadação de impostos e da guerra, o rei foi se fortalecendo e impôs sua autoridade; prova disto é que por volta de 2600 a.C., surgiu na Mesopotâmia um novo tipo de edifício; o palácio, uma construção grandiosa que continha a residência do rei, oficinas, armazéns e espaço reservado ao treinamento militar. Abaixo do rei na hierarquia social vinham os sacerdotes, os altos funcionários e os grandes comerciantes. A maioria da população era composta de trabalhadores livres do campo e das cidades. Estes tinham de arcar com o próprio sustento e ainda realizar trabalhos obrigatórios em obras coordenadas pelo rei: construção de palácios, templos, muros, pontes, canais de irrigação e diques. Eles eram obrigados a entregar parte do que produziam para os palácios (na forma de impostos) e para os templos (na forma de oferendas). Havia ainda as pessoas escravizadas (prisioneiros de guerra ou pessoas que não puderam pagar suas dívidas), mas elas nunca constituíram a maioria da população, como aconteceu na Grécia e em Roma durante a Antiguidade.

Religião, mitologia e família Os mesopotâmios eram politeístas e os seus deuses possuíam forma e sentimentos humanos. Entre os deuses estão: Shamach, deus do Sol;

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Dentro do imaginário mesopotâmico, os deuses apreciavam os mesmos alimentos que os homens: produtos da agricultura e pecuária. Estas provisões eram oferecidas cotidianamente nos templos, na forma de sacrifícios [...] ou de oferendas de produtos vegetais e bebidas. Por isso, o culto religioso é composto de abundantes oferendas alimentares a divindades, que gozam de uma vida ociosa e agradável, onde o banquete tem um lugar importante [...]. POZZER, Kátia M.P. Uma história da festa: culinária e música na Mesopotâmia Antiga. Textura: Revista de Letras e História. Canoas: Editora da ULBRA, n. 11, p. 54, jan./jun. 2005. Disponível em: <http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/txra/article/viewFile/757/578>. Acesso em: 18 abr. 2016.

Gipsita. Iraq Museum, Bagdá, Iraque. Album Art/Latinstock

Estátuas de adoradores em que vemos uma figura masculina, à esquerda, e uma figura feminina, à direita. Ambas são de c. 2700 a.C.

Séc. XVIII a.C. Bronze e Ouro. Museu do Louvre, Paris. Foto: DeAgostini/Getty Images

Enlil, deus do vento e das chuvas; Ishtar, deusa do amor e da fecundidade, Marduk, deus supremo dos babilônios e Assur, principal deus assírio. Cada cidade possuía um deus protetor, que, por vezes, era transformado em deus supremo quando a cidade protegida por ele tornava-se capital de um império. Quando os babilônios constituíram impérios, por exemplo, o deus Marduk passou a ser a principal divindade de toda a Mesopotâmia. Os mesopotâmios criaram mitos para responder a perguntas que os afligiam tais como: quem criou o mundo e como? E os seres humanos, por quem foram criados? De onde viemos e para onde vamos? Os historiadores atuais consideram os mitos um registro valioso sobre a vida e a visão de mundo de um povo. Assim sendo, são tidos como uma importante fonte histórica. Um desses mitos — criado pelos sumérios — buscava explicar a criação do mundo. Segundo ele, inicialmente o que havia era o Mar imenso, que eles consideravam uma divindade, a deusa Nammu. Desse Mar, não se sabe como, nasceram o Céu e a Terra. Estes se uniram originando vários deuses. Um desses deuses, Enlil, passou a reinar sobre a Terra; e outro, An, tornou-se o rei do Céu. Depois, esses deuses se uniram e criaram a mata, os rios, as montanhas, os vales, o trabalho, e tudo o que decorre dele. Outro mito mesopotâmico abordava a criação do homem. Segundo esse mito o homem foi criado pelo deus Enki. Este deus decidiu fazê-lo porque não havia quem trabalhasse para os deuses e, por isso, estes não conseguiam se fartar de comida e bebida, como gostariam. Foi exatamente por isso que o deus Enki criou a humanidade: para substituir os deuses no trabalho. Esse mito desempenhou um duplo papel nas sociedades mesopotâmicas: primeiro, estimulava as pessoas a trabalharem; segundo, apresentava como um dever de cada uma delas trabalhar para sustentar os deuses, ou seja, os sacerdotes e os reis, que tinham o privilégio de receber os impostos pagos aos templos e aos palácios. Para os mesopotâmios os deuses eram imprevisíveis; ora ajudavam os seres humanos, ora se irritavam e os destruíam. Por isso, era necessário agradá-los fazendo oferendas. Como observou a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Katia Maria Paim Pozzer:

Estátua de um fiel orador oferecida ao deus Amurrum (c. 1800 a.C.).

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (Unesp-SP – 2015) animais e metal não eram usados com tanta frequência, mas também auxiliavam na escrita. Freitas Neto, 2011.

c. 3100–2900 a.C. Argila. Coleção particular

A maior parte das regiões vizinhas [da antiga Mesopotâmia] caracteriza-se pela aridez e pela falta de água, o que desestimulou o povoamento e fez com que fosse ocupada por populações organizadas em pequenos grupos que circulavam pelo deserto. Já a Mesopotâmia apresenta uma grande diferença: embora marcada pela paisagem desértica, possui uma planície cortada por dois grandes rios e diversos afluentes e córregos. Marcelo Rede. A Mesopotâmia, 2002.

A partir do texto, é correto afirmar que a) os povos mesopotâmicos dependiam apenas da caça e do extrativismo vegetal para a obtenção de alimentos. b) a ocupação da planície mesopotâmica e das áreas vizinhas a ela, durante a Antiguidade, teve caráter sedentário e ininterrupto. c) a ocupação das áreas vizinhas da Mesopotâmia tinha características nômades e os povos mesopotâmicos praticavam a agricultura irrigada. 1. Resposta: c. d) a ocupação sedentária das regiões desérticas representava uma ameaça militar aos habitantes da Mesopotâmia. e) os povos mesopotâmicos jamais puderam se sedentarizar, devido às dificuldades de obtenção de alimentos na região. 2. (UERN – 2013) Os escribas sumérios usavam tábuas de argila para seus escritos, que eram feitos principalmente com a ajuda de estiletes de madeira. Os instrumentos, obtidos através de ossos de

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Disponível em: http://universodahistoria.blogspot.com. br/2010/07/escrita-cuneiforme.html.

Os sumérios, famosos pela invenção da escrita cuneiforme, tanto quanto os acádios e babilônicos, pertencem ao grupo de povos da antiguidade denominados como a) ocidentais. b) subsaarianos. c) mediterrâneos. d) mesopotâmicos. 2. Resposta: d. 3. (UECE) Os sumérios foram os primeiros habitantes da Mesopotâmia. Eles se autodenominavam “as cabeças negras” e a região na qual habitavam denominavam de “terra de Sumer”. Sobre este povo, assinale o correto. a) Eram nômades, voltados para a guerra e a conquista de novos territórios. Ao contrário de outros povos, repudiavam o comércio, não possuíam uma cultura definida ou uma religião organizada, com um panteão e seus ritos.

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b) Oriundos de diversos grupos étnicos, vindos do deserto da Síria, começaram a penetrar aos poucos nos territórios da região mesopotâmica em busca de terras agricultáveis. Eram conhecidos pela sua habilidade no comércio. c) Eram sedentários. Agricultores, realizaram obras de irrigação e canalização dos rios. Construíram as primeiras cidades fortificadas que funcionaram como cidades-Estados. Utilizavam técnicas de metalurgia e a escrita. 3. Resposta: c. d) Eram, sobretudo, comerciantes e artesãos. Sem nenhuma aquisição cultural significativa. Fundaram um império unitário com um regime político único. Descendentes dos semitas, foram os primeiros a buscar uma religião monoteíta. 4. (UECE – 2015) O rei Sargão foi um conquistador cuja memória permaneceu nas lendas e narrativas dos povos mesopotâmicos. Dizia-se que ele havia sido abandonado pela mãe nas águas do Rio Eufrates em um cesto de juncos, e foi salvo pela deusa Ishtar e assim tornou-se o iniciador de um grande império. Sobre o rei Sargão é correto afirmar que a) destruiu a cidade de Ebla em 2300 a.C. b) inventou um tipo de escrita muito sofisticada. c) foi derrotado por Gilgamesh rei de Uruk. d) fez de Acádia a capital do seu império. 4. Resposta: d.

5. (UCS-RS) O Código Hamurabi, um bloco de pedras com 2,25 metros de altura, encontra-se hoje no Museu do Louvre, em Paris. Dos muitos artigos de lei nele gravados, cerca de 250 já foram decifrados. Com isso, informações sobre a sociedade mesopotâmica puderam ser reveladas. FIGUEIRA, D. História. São Paulo: Ática, 2003. p. 26.

Analise, quanto à sua veracidade (V) ou falsidade (F), as afirmativas abaixo sobre a sociedade mesopotâmica e o seu código de leis: a) A chamada Lei de Talião (talionis, em latim, significa “tal” ou “igual”) apareceu pela primeira vez no Código de Hamurabi. Ela pregava o princípio do “olho por olho, dente por dente”, ou seja, ao infrator aplicava-se um castigo proporcional ao dano causado. b) O Código de Hamurabi trata dos mais variados assuntos relativos à vida cotidiana. Abrange, entre outros temas, a regulamentação e o exercício das profissões, fixando a remuneração dos trabalhadores e as normas a respeito do casamento, da assistência às viúvas, aos órfãos, aos pobres, etc. c) Na maioria das sociedades atuais, a Lei de Talião não é mais aplicada. No entanto, há países do Oriente Médio em que ainda se paga olho por olho, literalmente. Na Arábia Saudita, no Iêmen e em alguns dos Emirados Árabes, ladrões têm as mãos cortadas. d) Todas as anteriores. 5. Resposta: d. e) Nenhuma das anteriores. 6. (Uespi-PI – 2014) As sociedades do Antigo Oriente deixaram muitas contribuições para a humanidade. A respeito das descobertas realizadas por estes povos, é CORRETO afirmar que: a) os sumérios foram os povos responsáveis pela descoberta e difusão do alfabeto. b) os fenícios dominaram a escrita denominada de hieróglifos, difundida pelo mundo oriental e ocidental. c) os hebreus tiveram entre suas principais características o desenvolvimento do comércio marítimo e a fixação de moradia. d) os egípcios foram povos de muito destaque na Antiguidade, sobressaindo-se principalmente pela invenção da escrita cuneiforme. e) os babilônicos destacaram-se entre os povos mesopotâmicos pela construção dos jardins suspensos e pelo código de Hamurabi. 6. Resposta: e. CAPÍTULO 3 | MESOPOTÂMIA

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II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE O texto a seguir faz parte de uma entrevista concedida pelo professor Marcelo Rede, em abril de 2003, ao Jornal da USP, logo após a Guerra do Iraque.

Patrick Baz/AFP Photo/Image Forum

Quem responde pelos danos da cultura? Jornal da USP – Com a guerra praticamente terminada, que balanço se pode fazer dos danos causados ao patrimônio cultural do Iraque? Marcelo Rede – [...] Evidentemente, a guerra em si causa danos irreparáveis ao patrimônio cultural, com a destruição física devido aos bombardeios e à ocupação massiva do território por tropas. [...] A extensão dos estragos da atual campanha sobre os sítios arqueológicos ainda não é totalmente conhecida. No entanto, o problema maior é a situação geral que se origina da guerra. O empobrecimento do país, a desorganização administrativa, tudo acaba contribuindo para que as condições de preservação do patrimônio histórico se deteriorem consideravelmente. [...] JU – Entre as mais de cem mil peças que teriam sido retiradas pelos saqueadores do Museu Arqueológico de Bagdá, quais seriam as mais valiosas? MR – O saque do Museu Arqueológico de Bagdá representa uma perda irreparável. Trata-se do maior acervo de peças da antiga civilização mesopotâmica que existe. [...] Algumas fontes falam de Parte da cabeça mais de cem mil peças roubadas ou destruídas. [...] Mas não são de uma escultura apenas as grandes obras de arte que contam. Cada objeto no mujogada entre outros seu, por mais simples, é uma fonte preciosa de informações para o fragmentos de estudo das sociedades antigas. O pior é que o Museu de Bagdá é um obras destruídas grande depósito de objetos e textos cuneiformes que foram escavaapós o saque de 13 dos recentemente ou apreendidos pela Justiça e nem sequer foram de abril de 2003 ao maior museu publicados. Toda essa informação estaria perdida para sempre. [...] arqueológico do JU – A destruição de patrimônio cultural da humanidade é criIraque, localizado me. Quem deve responder pelos saques no Iraque? [...] em Bagdá. MR – [...] Segundo as notícias, o único prédio público em que os marines fizeram um cordão de isolamento foi o Ministério do Petróleo. No mínimo, as tropas de ocupação foram coniventes e negligentes e devem, a meu ver, ser responsabilizadas pelas perdas do patrimônio cultural iraquiano. [...] JORNAL DA USP, São Paulo, ano XVIII, n. 640, mar./abr. 2003. Disponível em: <www.usp.br/ jorusp/arquivo/2003/jusp640/pag0607.htm>. Acesso em: 20 abr. 2016.

a) O texto citado pode ser classificado como literário, jornalístico ou jurídico? b) Ao ser perguntado sobre os danos causados pelos bombardeios, o entrevistado fala das consequências da guerra para o patrimônio cultural do Iraque. Quais são elas? c) Analise a atitude das forças militares estadunidenses com relação ao saque efetuado ao patrimônio histórico mesopotâmico.

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Capítulo 4

África antiga: Egito e Núbia

Observe as imagens e leia o texto a seguir, escrito por um egiptólogo.

As duas imagens são da mesma pessoa, a mulher-faraó Hatchepsut, que governou o Egito efetivamente entre 1498 e 1483 a.C. Ela é vista pelos egiptologistas como um dos faraós que mais obteve sucesso durante seu reinado.

Egyptian Museum, Cairo. The Bridgeman Art Library/Keystone

The Bridgeman Art Library/Keystone/Coleção particular

Professor: não era estranho ao universo dos antigos egípcios a existência de mulheres em funções como a de administradora, sacerdotisa e rainha; algumas delas chegaram inclusive a ocupar o posto de faraó, o maior da sociedade do Egito antigo. Hatchepsut, 5a faraó da 18a dinastia, reinou por 15 anos e foi uma das mais bem-sucedidas neste elevado cargo.

Hatchepsut, uma mulher-faraó Hatchepsut é uma das vedetes da história egípcia. [...] O “dossiê Hatchepsut” contém um certo número de documentos que permitem reconstituir alguns dos episódios da aventura daquela que foi uma grande esposa real, regente, e depois Faraó. Contrariamente a uma ideia preconcebida, Hatchepsut não foi nem a primeira nem a única mulher Faraó, inscreve-se numa linhagem de mulheres no poder cuja estatura política não chocava os egípcios. Se a notoriedade de Hatchepsut eclipsou a das regentes e das mulheres-faraós que a precederam, isso deveu-se à duração do seu reinado e à relativa abundância de documentação arqueológica referente à mesma. [...] JACQ, Christian. As egípcias: retratos de mulheres do Egito faraônico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. p. 73-74.

» O conteúdo desse texto é novidade para você? » Você conhece pessoas que aderiram à egiptomania? » Os antigos egípcios criaram uma civilização fascinante entre dois desertos. Mais de seis mil anos depois, ela continua inspirando obras e ditando modas, inclusive no Brasil. O que você sabe sobre ela? CAPÍTULO 4 | ÁFRICA ANTIGA: EGITO E NÚBIA

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Alexandre Bueno

Egito e Kush 30° L Mar Mediterrâneo

Ri o Ni

Neste capítulo vamos estudar duas civilizações que floresceram nas margens do rio Nilo: a egípcia e a núbia.

REINO DO EGITO Trópico de Câncer

lo

NÚBIA

2ª. Catarata

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4ª. Catarata 5ª. Catarata

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3ª. Catarata

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Embora esteja situado no nordeste do continente africano, o Egito quase nunca é associado à África.

ÁSIA

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1ª. Catarata

REINO Djebel Napata Barkal DE Méroe KUSH 6ª. Catarata Nil o io

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10° N

0

360 km

Fonte: MOKHTAR, Gamal (Ed.). História geral da África: África antiga. 2. ed. Brasília: Unesco, 2010. v. 2. p. 216.

Por volta de 5000 a.C., os habitantes das margens do Nilo aprenderam a canalizar e direcionar as águas desse rio e deram início à prática da agricultura e do pastoreio em volta de suas aldeias. Com base na observação da natureza, criaram um calendário que dividia o ano em três estações de quatro meses: período das cheias, da semeadura e da colheita. Todos os anos, entre junho e novembro, chuvas torrenciais caíam sobre a nascente do rio Nilo e ele, então, transbordava, inundando suas margens. A partir de novembro, as águas do rio regressavam ao seu leito deixando as terras cobertas por uma rica camada de húmus (substância lodosa composta de restos animais e vegetais), que funcionava como adubo natural preparando a terra para o cultivo. A terra fertilizada pelo húmus era semeada e, entre abril e junho, ocorriam as colheitas. Observe o gráfico abaixo. O que se pode concluir observando o gráfico? Conclui-se que, entre junho e novembro, as águas do rio Nilo começavam a subir e, no início de novembro, retornavam ao seu leito.

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O regime do rio Nilo

pés 30

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DIALOGANDO

25 20 15 10 5 0 jun.

jul.

ago.

set.

out.

nov.

dez.

jan.

fev.

mar.

abr.

maio

Fonte da pesquisa: CASSON, Lionel. O antigo Egito. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959. p. 34.

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Por meio de disputas e/ou alianças para conseguir terra e poder, as aldeias das margens do Nilo foram se agrupando em nomos, unidades administrativas chefiadas por nomarcas. A divisão do território egípcio em nomos permanece por toda a história do Egito antigo. As lutas e/ou alianças entre os nomarcas levaram à formação de dois grandes reinos: o Alto Egito, localizado no sul, e o Baixo Egito, situado no norte. Esses reinos permaneceram separados até por volta de 3100 a.C., quando, segundo a tradição, um personagem chamado Menés, rei do Alto Egito, conquistou o Baixo Egito e fundou o Império Egípcio. Menés se tornou o primeiro faraó (modo como os antigos egípcios chamavam o rei) e o fundador da primeira dinastia (sucessão de reis de uma mesma família). Tinha início, assim, o Império Egípcio. A história política do Império Egípcio costuma ser dividida em três períodos entremeados pelos “períodos intermediários”, caracterizados pelo enfraquecimento do poder dos faraós (descentralização). Esse enfraquecimento decorria geralmente da desorganização do Estado, de revoltas contra impostos abusivos e de lutas internas entre os nomarcas. Observe a linha do tempo abaixo.

Jorge Fernandez/ LightRocket via Getty Images

O Império Egípcio

Estátua de Ramsés II (12791213 a.C.), faraó da 19a dinastia, sentado em frente a um dos portões do Templo de Luxor, no Egito.

Unificação do Egito

Editoria de arte

3100 a.C.

Conquista persa 2680 a.C.

2180 a.C. ANTIGO IMPÉRIO

2040 a.C.

1o Período intermediário

1780 a.C.

MÉDIO IMPÉRIO

1580 a.C.

2o Período intermediário

1070 a.C.

NOVO IMPÉRIO

656 a.C.

525 a.C.

3o Período intermediário

Observação: nesta obra, por questão de espaço, as linhas do tempo não obedecem a uma escala.

O Antigo Império Durante esse período, o território egípcio esteve dividido em 42 nomos, administrados por nomarcas que deviam obediência aos faraós reinantes. Inicialmente, a capital era Tínis; a partir da terceira dinastia passou a ser Mênfis, cidade construída no delta do rio Nilo, especialmente para este fim. O Antigo Império foi um período de relativa estabilidade política e de prosperidade econômica. Parte da riqueza proveniente dos impostos recolhidos pelo Estado foi usada para construir as colossais pirâmides na cidade de Gizé: Quéops, Quéfren e Miquerinos (nome de poderosos faraós do Antigo Império). Quéops, a mais alta e volumosa das pirâmides, tinha ao ser construída 146 metros de altura, o equivalente a um prédio de 48 andares. A pirâmide de Quéfren tinha 135 metros, e a menor, a de Miquerinos, possuía 66 metros. Dentro das pirâmides colocavam-se pinturas, esculturas e um

Nomos:

espécie de província, cujos habitantes adoravam o mesmo deus e seguiam os mesmos ritos. Os nomarcas (administradores dos nomos) tinham autonomia (maior ou menor) conforme o poder do faraó reinante.

Imposto:

no Egito antigo, os impostos eram pagos na forma de produtos que eram armazenados nos celeiros do Estado.

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Flickr RF/Getty Images

sem-número de objetos destinados a acompanhar o faraó na outra vida. Alguns analistas consideram que a arte egípcia é, em grande parte, marcada pela expectativa da vida após a morte. Essas pirâmides que têm nomes de faraós seriam uma prova de que a vida para os egípcios era, entre outras coisas, uma preparação para a eternidade. O texto a seguir é da professora Margaret Bakos, Ph.D. em Egiptologia. Leia-o com atenção:

Esfinge e pirâmide de Quéfren, em Gizé, Egito, fotografia de 2012.

A esfinge egípcia [...] possui corpo de leão, mas a cabeça pode ser tanto humana quanto de algum animal. Esculpidas em monólitos de vários tamanhos, eram consagradas a Amon ou Rá, guardiões dos templos e dos túmulos, simbolizando poder, sabedoria e eternidade. Na construção antropozoomórfica, representa a união entre a realeza e a invencibilidade do leão e a personalidade humana, evidenciada na expressão serena, mas austera, do rosto da esfinge. Obra do faraó Quéfren (3098 a.C.), restaurada na 18a dinastia por Tutmés IV, a esfinge de Gizé é, sem dúvida, a maior e mais conhecida de todas. Entre as patas do imenso corpo de leão, havia um templo subterrâneo, onde os oráculos se reuniam.

BAKOS, Margaret. Egiptomania: o Egito no Brasil. São Paulo: Paris Editorial, 2004. p. 49.

O Médio Império Por volta de 2040 a.C., os governantes da cidade de Tebas tomaram o poder e reunificaram o Egito, dando início ao Médio Império, um período de grande brilho da civilização egípcia. Os faraós desse período incentivaram a atividade cultural e econômica, intensificando seu comércio com a Núbia, região situada ao sul, rica em minerais e habitada por povos negros. Durante o Médio Império, o governo egípcio ordenou a construção de um palácio (o Labirinto) e do lago Méris, um enorme reservatório. Depois, disputas pelo poder entre os próprios egípcios enfraqueceram o Estado, facilitando a penetração dos hicsos, povo da Ásia central que invadiu o Egito por volta de 1750 a.C. e o dominou por cerca de 170 anos.

O Novo Império O Novo Império se iniciou com a vitória sobre os hicsos e a reunificação do Egito. Após constituir um poderoso exército formado por infantaria e cavalaria e apoiado por carros de guerra, os egípcios conquistaram o Reino de Kush, na Núbia, ao sul, a Fenícia, a Palestina e a Síria, a nordeste, e estenderam seu domínio até o rio Eufrates, na Mesopotâmia, a leste. Daí, o Egito estabeleceu um lucrativo comércio com todas essas regiões e com a ilha de Creta. O controle sobre

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Robertharding/Masterfile/Image Forum

rotas comerciais e povos rendeu aos egípcios riquezas enormes, como testemunham os templos de Luxor e Karnak, erguidos na cidade de Tebas, capital do Egito na época. Já a maioria da população vivia oprimida por impostos abusivos e trabalho forçado, o que ocasionou uma série de revoltas contra o poder faraônico. Essas revoltas somadas às disputas internas e à reação dos povos dominados levaram ao enfraquecimento do Estado que, em 525 a.C., foi conquistado pelos persas. A partir de então, o Egito foi dominado por vários outros povos: gregos e romanos, na Antiguidade; árabes muçulmanos, na Idade Média; e britânicos, no século XIX. Somente em 1922 o Egito voltou a ser independente.

Na sociedade egípcia, o indivíduo geralmente nascia e morria dentro do mesmo grupo social, ou seja, era uma sociedade rigidamente estratificada e com pouca mobilidade social. O faraó, considerado pelos egípcios um “deus vivo”, era a maior autoridade administrativa, religiosa e militar do império. Era também dono de quase todas as terras, possuía muitos funcionários e recebia enorme quantidade de impostos. Sua figura era tão respeitada que os súditos não podiam chamá-lo pelo nome; então se dirigiam a ele de forma indireta, chamando-o de faraó, que quer dizer “casa-grande” ou “casa real”.

Altos funcionários e sacerdotes Abaixo do faraó estavam os altos funcionários do governo (vizir e escribas, por exemplo) e os sacerdotes. O vizir, que depois do faraó era o que tinha maior autoridade no império, supervisionava a polícia, a justiça e a cobrança de impostos; já os escribas trabalhavam para o Estado, os templos e o Exército. Para se tornar um escriba frequentavam escolas especiais, onde aprendiam cálculo, leitura e escrita, e com isso conseguiam controlar os impostos arrecadados, os rebanhos, as áreas cultivadas e a safra do ano; enfim, toda a vida econômica do Egito antigo. Os sacerdotes, por sua vez, ocupavam-se dos serviços religiosos e geriam os templos. Eles constituíam um grupo poderoso e rico; sua riqueza vinha das terras que possuíam e das oferendas feitas aos deuses nos templos sob sua direção; tinham, além disso, milhares de trabalhadores a seu serviço.

Dica! Documentário biográfico sobre Ramsés II. [Duração: 43 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ pgohag>.

Estátua de um escriba sentado, pintada em calcário e pertencente à 4a dinastia.

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Museu Egípcio, Cairo. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

A vida social no Antigo Egito

Vista aérea do Templo de Luxor e da Mesquita de Abu el-Haggag, em Tebas, Egito, 2010. Ao fundo, vê-se o rio Nilo.

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Artesãos, comerciantes e militares

1333-1323 a.C. Calcita, ouro e pedras. Museu Egípcio, Cairo. Foto: Werner Forman. Archive/Glow Images

Os artesãos egípcios fabricavam e coloriam o vidro (acredita-se que eles foram os inventores do vidro); com o couro faziam calçados, escudos, assentos; com o papiro confeccionavam cordas, esteiras, sandálias e papel; com o bronze faziam armas, alavancas, cunhas, parafusos, talhadeiras e serras eficientes. Confeccionavam também tecidos, com destaque para os de linho, além de vasos, esculturas, pinturas e joias de ouro e pedras preciosas conhecidas em todo o mundo antigo. Com as conquistas e a expansão do comércio durante o Novo Império, aumentou muito o número de comerciantes. Carregados de trigo, linho e papiro, os barcos egípcios saíam do porto de Mênfis (no delta do Nilo) e iam até a ilha de Creta, a Palestina, a Fenícia e a Síria. Na Fenícia, os egípcios iam buscar o cedro, madeira preciosa que utilizavam para fazer casas, caixões mortuários, navios, carruagens, esculturas e brinquedos variados. Os fenícios, por sua vez, exportavam para outros lugares o papiro que adquiriam do Egito. O comércio externo era feito pelo mar Mediterrâneo e pelo mar Vermelho. O comércio interno era feito pelo rio Nilo; as trocas eram in natura, isto é, produto por produto, já que os egípcios não desenvolveram o uso de moeda. As trocas aconteciam, geralmente, nos mercados das cidades portuárias egípcias, como Mênfis. O grupo dos militares se fortaleceu durante as guerras de conquista que o Egito antigo moveu contra seus vizinhos. A maioria deles lutava em troca de terras e de outras riquezas tomadas dos vencidos.

Em Tumba de Sennedjem. 13141200 a.C. Vale dos Artesãos, Tebas

Representação, em ouro, pedras preciosas e vidros, de um dos muitos barcos graciosos com os quais os egípcios deslizavam pelo rio Nilo levando e trazendo mercadorias.

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Camponeses e escravos A atividade econômica que ocupava o maior número de pessoas no Egito antigo era a agricultura. Os camponeses, chamados no Egito antigo de “felás”, constituíam a maioria da população e trabalhavam muitas horas por dia. Cultivavam principalmente o trigo, usado para fazer pães e bolos, e a cevada, usada na fabricação da cerveja. Além disso, eles realizavam todo tipo de serviço nas propriedades dos faraós, dos sacerdotes e dos altos funcionários públicos, como arar, semear, plantar e colher; afugentar animais e ladrões; transportar produtos; construir O camponês ara o campo com a ajuda de uma junta de bois, enquanto sua esposa o segue lançando sementes à terra. Atribui-se aos egípcios a invenção do primeiro arado puxado por boi, por volta de 3100 a.C.

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Religião

c. 1275 a.C. Papiro. Museu Britânico, Londres

A religião estava presente tanto na vida pública quanto na vida privada dos antigos egípcios; e eram comuns as oferendas aos deuses para pedir ou agradecer. Os antigos egípcios eram politeístas, ou seja, acreditavam em vários deuses que tinham forma humana (Osíris), humana e animal (Hórus – homem com cabeça de falcão) ou somente a forma animal (Anúbis – que tinha a feição de um chacal). Desde muito tempo, os antigos egípcios cultuavam o Sol, chamado por eles de Rá. Quando a capital do império foi transferida para a cidade de Tebas, Rá foi identificado como o deus tebano Amon, surgindo daí Amon-Rá, que os egípcios passaram a ver como o “rei dos deuses” e criador do Universo. Enquanto Amon-Rá era o mais cultuado oficialmente, Osíris era o mais popular dos deuses egípcios. Os egípcios acreditavam que, ao morrer, todo indivíduo devia comparecer ao Tribunal de Osíris para ser julgado. Era Anúbis quem conduzia o morto até Osíris. Lá, em um dos pratos da balança, colocava-se o coração do morto e, no outro, uma pena. Se o coração tivesse peso igual ou menor que o da pena, o indivíduo seria salvo por Osíris e iria para os Campos da Paz, onde conviveria com outras almas iluminadas. Caso contrário, iria para uma espécie de purgatório ou tornar-se-ia uma alma perdida. Ammit, representada na imagem à direita da balança, comeria o coração caso ele fosse mais pesado que a pena. Sem o coração, o corpo não poderia viver no pós-morte.

715-332 a.C. Harrogate Museums, Inglaterra. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

e consertar moradias. A qualquer momento eles podiam ser convocados pelo Estado para trabalhar em obras públicas, como, por exemplo, estradas, reservatórios, canais e pirâmides. Apesar disso, os camponeses viviam em más condições, pois, além de entregar ao senhor da terra parte da colheita, tinham de pagar pesados impostos ao Estado. Os escravos, obtidos geralmente nas guerras de conquista, eram utilizados em serviços pesados como o trabalho nas pedreiras, nas minas e na construção de grandes obras, como as pirâmides. Máscara de Anúbis, deus da mumificação e guardião das tumbas.

Dica! Documentário sobre a religiosidade no Egito antigo. [Duração: 44 minutos]. Acesse: <http://tub. im/g285a4>

As cenas que vemos estão pintadas em um papiro do Livro dos mortos e retratam o julgamento do coração de um escriba de nome Hanufer. Em caso de absolvição no Tribunal de Osíris, a “alma”, chamada pelos egípcios de “ba”, poderia retornar ao corpo, mas para isso era preciso que o corpo estivesse conservado; isso explica por que os egípcios desenvolveram a técnica da mumificação.

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National Museum of Denmark. Prisma/UIG via Getty Images

Mumificação é a técnica de conservação do corpo por meio da retirada do cérebro e das vísceras, desidratação, utilização de ervas aromáticas e enfaixamento com tecidos de linho. A transformação do corpo de um morto em múmia dependia das posses da pessoa; os mais pobres, geralmente, enterravam seus mortos na areia do deserto. Já os ricos – especialmente os faraós – eram mumificados por técnicos especializados nesse ofício. Depois disso, a múmia era colocada dentro de vários sarcófagos, um maior que o outro, e conduzida ao túmulo; junto dele os egípcios deixavam uma variedade de objetos, como alimentos, cadeiras, armas, estátuas e joias – considerados necessários ao morto. Além disso, deixavam textos que o morto devia usar para pedir sua absolvição a Osíris. Posteriormente, esses textos foram reunidos em um conjunto único: o Livro dos mortos.

Dica! Documentário sobre o Livro dos mortos. [Duração: 90 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ydcocg>.

Sarcófago e múmia (664-630 a.C.). A mumificação possibilitou aos egípcios maior conhecimento da anatomia humana e das substâncias químicas usadas nesse processo.

Para saber mais

c. 1340 a.C. Estuque/Gesso. Museu Egípcio, Berlim. Foto: Ruggero Vanni/Corbis/Latinstock

A reforma de Akhenaton

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Durante o Novo Império, o faraó Amenófis IV promoveu uma reforma religiosa radical: aboliu o culto a vários deuses e implantou o culto a um só deus, o deus Aton, simbolizado pelo disco solar. Amenófis IV mudou seu nome para Akhenaton, servidor de Aton, e fundou uma nova capital. Adotando o monoteísmo, Akhenaton visava, entre outras coisas, limitar o poder dos sacerdotes que administravam os templos dedicados aos numerosos deuses egípcios. Sua reforma religiosa, porém, não prosperou, por causa da força dos sacerdotes e da enorme popularidade dos deuses egípcios. Com a morte do faraó reformador, restabeleceu-se o politeísmo no Egito. Esta cabeça do faraó Akhenaton (c. 1340 a.C) é parte de uma escultura feita provavelmente sob encomenda. Seu autor, o conhecido escultor Tutmés, vivia na corte do faraó e é descrito em textos de época como o “favorito do rei”.

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Turistas em frente ao Grande Templo de Abu-Simbel em fotografia de 2010. A imagem do faraó Ramsés II, em tamanho gigantesco, e os hieróglifos esculpidos nas colunas desse templo, exaltando seus feitos, evidenciam a estreita relação entre arte e poder no Egito antigo. J. F. Champollion. Séc. XIX. Litografia. Coleção particular. Foto: G. dagli Orti/De Agostini/Getty Images

Os antigos egípcios praticaram uma arte monumental, solene e marcada por intensa religiosidade. Eles não se restringiram a homenagear seus deuses e representaram também cenas do cotidiano e imagens de pessoas comuns. Na arquitetura, destacam-se as pirâmides, como as de Quéops, Quéfren e Miquerinos, e os templos religiosos, como os de Abu-Simbel. Segundo alguns intérpretes, essa arte exprime a fixação dos egípcios pela expectativa da vida após a morte. No campo da escultura, predominavam as estátuas de postura rígida e solene, rosto sereno e braços cruzados sobre o peito ou estendidos. Os escultores egípcios acreditavam que, além de conservar o corpo de um morto, deveriam imortalizá-lo por meio de uma escultura fiel às suas características físicas. Já os pintores egípcios retrataram vários aspectos da vida social do seu país, como, por exemplo, cenas de caça, de trabalho, de guerra. Suas pinturas obedeciam a regras rígidas, entre as quais a regra da frontalidade, presente nas obras egípcias com grande frequência. Pela regra da frontalidade, um dos olhos e o tronco são mostrados sempre de frente para o observador, enquanto a cabeça, as pernas e os pés aparecem de perfil.

Kumar Sriskandan/Alamy/Latinstock

As artes

As ciências As ciências egípcias buscaram resolver problemas práticos, como calcular a área de uma construção, prever a periodicidade das cheias do Nilo e encontrar a cura para uma doença. Na Matemática, os egípcios aprenderam a operar com três das quatro operações fundamentais: soma, subtração e divisão e, embora não possuíssem um símbolo para o zero, foram os inventores do sistema decimal. Sabiam também calcular a área do triângulo, do retângulo, do trapézio e o volume dos sólidos. Na Medicina, eles dominaram conhecimentos de anatomia humana, reconheceram a importância do coração e seu relacionamento com outros órgãos do corpo e desenvolveram técnicas para tratar de fraturas, anestesiar o paciente e realizar pequenas cirurgias, por exemplo, a da catarata. No campo da Astronomia, sua contribuição fundamental foi a criação do calendário solar de 365 dias divididos em 12 meses de 30 dias, mais cinco dias de festa.

Pintura egípcia encontrada no Templo de Abu-Simbel em que é possível perceber a aplicação da regra da frontalidade.

Dica! Documentário enfocando a arte e a arquitetura no Egito antigo. [Duração: 45 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ hxo8i9>.

CAPÍTULO 4 | ÁFRICA ANTIGA: EGITO E NÚBIA

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Kenneth Garrett/National Geographic Image Collection. Coleção particular

Estátuas de reis cuxitas, com até 7 metros de altura, encontradas na capital núbia de Kerma, Sudão. Os faraós desta dinastia usavam uma coroa com duas serpentes que se erguiam sobre suas frontes para indicar que reinavam ao mesmo tempo sobre Kush e Egito. Eles se consideravam sucessores dos faraós egípcios e também ordenaram a construção de pirâmides para lhes servirem de túmulos.

A civilização núbia Na África, ao sul do Egito, floresceu uma outra civilização interessante, a civilização núbia, que se desenvolveu entre a primeira e a sexta catarata do rio Nilo. A Núbia foi um importante elo entre os povos da África central e os do mar Mediterrâneo; uma prova arqueológica disso é uma cabeça de bronze do imperador romano Augusto, encontrada recentemente em território núbio.

O Reino de Kush No interior do território da Núbia, formou-se o Reino de Kush. Conforme as provas arqueológicas, a história de Kush está estreitamente ligada à do Egito: os arqueólogos encontraram grande número de objetos egípcios (vasos e pérolas) em terras núbias e produtos núbios (marfim, ouro, ébano – madeira de cor escura) em terras egípcias, prova de que o contato comercial e cultural entre eles foi intenso. Sabe-se também que, por volta de 1530 a.C., o Reino de Kush foi conquistado pelo Egito. Mais tarde, em 730 a.C. ocorreu o contrário: os cuxitas conquistaram o Egito, dando início à 25a dinastia, conhecida também como dinastia dos faraós negros. Essa dinastia teve fim em 644 a.C., quando os assírios invadiram e conquistaram Tebas, que à epoca era a capital do Egito. Os cuxitas, então, retornaram para o sul e estabeleceram a capital de seu reino na cidade de Napata e, mais tarde, em 580 a.C., na cidade de Méroe. 1 e 2

A formação do reino 1. Dica! Documentário sobre os reinos da África. [Duração: 58 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ iks366>. 2. Dica! Vídeo sobre as formações políticas africanas, com depoimento de Kabengele Munanga. [Duração: 15 minutos]. Acesse: <http://tub. im/g7hxsu>.

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Os cuxitas, assim como os egípcios, construíram diques (para represar as águas do rio Nilo) e canais (para levá-las a áreas mais distantes), criando, assim, condições para a prática da agricultura. Essa prática, como vimos, favoreceu o surgimento de povoações permanentes, do artesanato, do comércio feito com regularidade e das cidades. Por volta de 2000 a.C., como desdobramento de um processo de disputas e alianças, essas aldeias passaram a obedecer a um único líder, o rei, dando origem ao Reino de Kush. Apesar de ter mantido estreitas relações comerciais e culturais com o Egito, o Reino de Kush conservou sua originalidade, que pode ser percebida em algumas de suas características principais, como: » o sistema de escolha do rei; » o papel das rainhas-mães; » a estabilidade e a longa duração de suas dinastias.

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A escolha do rei

A candace: o papel da rainha-mãe No Reino de Kush, as mulheres ocupavam posições políticas de destaque, tendo ascendência inclusive sobre o clero, como se pode concluir em exame de fontes iconográficas. Denominada “senhora de Kush”, a mãe do rei adotava a nora, ganhando assim grande poder e influência no governo do filho. Algumas delas chegaram a assumir a chefia do Estado com o título de candace, kandake, ou rainhas-mães reinantes. Duas delas, Amanirenas e Amanishaketo, destacaram-se no enfrentamento ao Império Romano. Amanishaketo (42 a.C.-12 a.C.) conseguiu um acordo com o imperador romano Otávio Augusto que isentava os cuxitas do pagamento de impostos aos romanos. Segundo o historiador africano Joseph Ki-Zerbo, os fatores que contribuíram para a estabilidade política e a longevidade desse reino foram: o sistema de escolha do rei; o controle da monarquia cuxita sobre as riquezas minerais existentes no subsolo cuxita; e a marcante participação da mulher na política.

Candace:

título derivado da palavra meroíta ktke ou kdke, que significa “rainha-mãe”; algumas rainhas usavam também outro título, o de qere, que quer dizer “chefe”.

Representação de uma candace do Reino de Kush, inspirada em um desenho contido no livro do historiador senegalês Cheikh Anta Diop (19231986).

Mário Pita

Enquanto no Egito o filho sucedia o pai, em Kush o rei era escolhido de modo peculiar. Inicialmente, os líderes das comunidades elegiam aquele que consideravam ser o mais preparado para exercer a realeza. Depois, lançando sementes ao chão, perguntavam se o deus da cidade concordava com a escolha e pelo desenho que se formava ficavam sabendo da resposta. Essa consulta ao deus legitimava a escolha; o escolhido era homenageado com uma procissão que terminava com a festa de coroação do novo rei. O rei tinha uma guarda permanente para protegê-lo e era auxiliado por um grupo de altos funcionários, como o chefe de tesouro, o escriba-mor e o comandante militar. No Reino de Kush, os militares eram valorizados, o que era de se esperar, tendo o poderoso Egito como vizinho. Em caso de necessidade, todos os homens eram convocados para a guerra. O Exército cuxita, composto de infantaria e cavalaria, era constantemente convocado, seja para defender as fronteiras, seja para conquistar terras e riquezas.

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A vida econômica e social Metáfora:

figura de linguagem que consiste no emprego de uma palavra com sentido que não lhe é comum ou próprio. Compara-se, por exemplo, um exército sem líder a um rebanho sem pastor.

Sorgo:

originário da África, provavelmente da Núbia, o sorgo mede até 1,7 metro de altura e é um cereal rico em proteínas, parecido com o milho, mas com grãos menores. É usado na alimentação de animais e de pessoas e na fabricação de barras de cereais, farinha, álcool, entre outros.

O shaduf é uma longa haste de madeira que se movimenta sobre um tripé. Em uma extremidade é colocada uma pedra e, na outra, um balde, o que facilita o trabalho manual de retirada da água dos rios. Fotografia de c. 1963, no Sudão.

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Gilles Mermet/Akg-Images/Latinstock

Paul Almasy/Corbis/Latinstock

Dica! Vídeo com imagens dos faraós e das pirâmides da cidade real de Méroe. [Duração: 3 minutos]. Acesse: <http://tub.im/kankns>.

A economia do Reino de Kush era diversificada. Durante o tempo em que Napata foi a capital de Kush, a pecuária representava a principal fonte de subsistência da população. Os cuxitas criavam búfalos, bois, vacas, carneiros, cabras e, em menor número, cavalos e jumentos, usados como animais de carga. Os camelos só foram introduzidos bem mais tarde, no fim do século I. A importância da pecuária pode ser comprovada por imagens, por metáforas contidas em textos meroítas parcialmente traduzidos e pelo fato de a riqueza do rei, dos sacerdotes e dos aristocratas ser avaliada em quantidade de cabeças de gado. No século IV a.C., com a mudança da capital de Napata para Méroe, houve um aumento da área de terra irrigada; assim a agricultura ganhou maior importância e foram construídas redes de canais e bacias de irrigação; isso ajuda a explicar por que um dos emblemas da realeza da época meroíta era um cetro em forma de enxada, semelhante ao que havia no Egito. Inicialmente, os cuxitas irrigavam a terra com o shaduf; posteriormente (por volta do século III a.C.), desenvolveram a saqia. Observe as imagens. Os cuxitas cultivavam o trigo, a cevada, o sorgo, a lentilha, além de hortas e pomares com diferentes frutas. Além disso, plantavam algodão, usado por seus artesãos na confecção de tecidos muito apreciados em outras partes do mundo antigo.

Fotografia atual de uma saqia, roda-d’água movida por animais (bois ou jumentos) que permite ao agricultor captar água com menos esforço e em menor tempo do que com o shaduf. Egito, 1995.

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O Reino de Kush era rico em minérios, sobretudo ouro. Estima-se que Kush tenha produzido na Antiguidade cerca de 1 milhão e 600 mil quilos de ouro. Escavações recentes em Méroe revelam estátuas e muros folheados a ouro e vestígios de antigas minerações entre o rio Nilo e o mar Vermelho. O ouro era a principal moeda de troca nas relações comerciais que os cuxitas mantiveram com o Egito e Roma. Além de ouro, o solo cuxita era rico em pedras preciosas e semipreciosas, como ametista, rubi, jacinto, crisólita. Há evidências de que o conhecimento da fusão do ferro e de seu manuseio teve origem em Méroe. Há, no entanto, quem questione essa tese; novas escavações são necessárias para se resolver essa questão tão importante para a história africana. O historiador grego Heródoto descreve Méroe como uma “grande cidade”, fato confirmado pelas escavações recentes. Além de capital do reino e residência das candaces, Méroe foi porto do rio Nilo, centro comercial e local de passagem das caravanas de comerciantes que a cruzavam em várias direções. Por tudo isso, Méroe é considerada um dos berços da civilização na África.

90-50 a.C. Museu de Belas Artes, Boston. Foto: Culture Images/Otherimages

Ouro, ferro e pedras preciosas

Joia cuxita confeccionada com características egípcias.

O artesanato meroíta era bastante original e independente dos modelos trazidos de fora. Nas cidades cuxitas, havia grande número de artesãos especializados em construção e decoração, como se pode observar ao analisar os vestígios dos templos, pirâmides e palácios da cidade de Méroe. Os principais ramos do artesanato cuxita eram a cerâmica, a marcenaria, a tecelagem e a joalheria. No tocante à arte cerâmica, havia duas tradições: a que era feita manualmente por mulheres, e que continua sendo praticada hoje na África; e a cerâmica feita por homens com o uso do torno. A cerâmica torneada possuía estilos variados e destinava-se, sobretudo, à exportação e ao consumo das camadas privilegiadas; já a cerâmica feita por mulheres era consumida pelas camadas populares. Outro ramo do artesanato em que os cuxitas se destacaram foi a marcenaria. Os marceneiros cuxitas faziam móveis variados, como camas, cadeiras, porta-joias, além de instrumentos de corda e de percussão; os tecelões cuxitas faziam panos de linho e de algodão; e os curtidores tratavam peles e couros com os quais produziam sacolas, roupas e sapatos.

Séc. I a.C. Ouro. Neues Museum. Berlim. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

O artesanato

Bracelete de ouro da candace Amanishaketo, séc. I a.C. Padrão meroíta.

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Merecem destaque também os joalheiros cuxitas pela graciosidade dos broches, colares, braceletes, brincos e anéis encontrados, sobretudo, nos túmulos reais. Essas joias eram feitas em ouro, prata e pedras preciosas e possuíam acabamento refinado, alternando o padrão egípcio e o meroíta, como pode ser visto nas joias reproduzidas nesta página. Os artesãos cuxitas combinavam também marfim e ouro.

O comércio Além de comercializar seus produtos com outras partes da África, sobretudo o Egito, o Reino de Kush negociava com os países da orla do mar Mediterrâneo. De Méroe, as caravanas de mercadores seguiam por terra até o mar Vermelho e pelo rio Nilo até o Egito. Essa rota fluvial era a mais importante do nordeste africano. Interessados no controle das rotas comerciais, e como medida de segurança, os reis cuxitas mandavam erguer fortalezas e cavar poços ao longo delas. Os principais produtos de exportações cuxitas eram o ouro, o marfim, o incenso, o ébano, os óleos e as pedras preciosas. Do Egito, eles compravam papiro, pérolas e artefatos de uso diário.

O declínio de Kush e a ascensão de Axum Por volta do século III d.C., o Reino de Kush foi empobrecendo, as pirâmides de seus reis foram se tornando mais rústicas e menores e ocorreu um enfraquecimento do comércio exterior. Entre as razões desse declínio, podemos citar a perda do controle das rotas comerciais para outro povo e os conflitos internos. No ano de 330, o Reino de Kush foi conquistado por outro reino africano, denominado Axum, localizado no norte da atual Etiópia. Na época, a civilização axumita já havia aderido ao cristianismo, introduzido pelos romanos quando ocuparam o nordeste da África; isso explica por que a Etiópia é considerada o país cristão mais antigo da África Subsaariana. Nigel Pavitt/Getty Images

Comparadas às do Antigo Império egípcio, as pirâmides cuxitas são pequenas. A maior delas, a de Taraca, no cemitério de Nuri, tem na base apenas 29 m de lado, enquanto a de Quéops apresenta 228 m. Fotografia de 2012.

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Para refletir

A importância da história da África O texto a seguir foi escrito pelo africanista Alberto da Costa e Silva. Leia-o com atenção. Preocupados com nós próprios, com o que fomos e somos, deixamos de confrontar o que tínhamos por herança da África com a África que ficara no outro lado do oceano, tão diversificada na geografia e no tempo. No entanto, a história da África – ou, melhor, das várias Áfricas –, antes e durante o período do tráfico negreiro, faz parte da história do Brasil. [...] O estudo da história da África, de uma perspectiva brasileira, nos ajudará a responder [...] a muitas [...] perguntas. Talvez tenhamos até mesmo melhores condições de entendimento afetivo para contar, explicando, como se crioulizaram as duas margens do Atlântico, como se estabeleceram certos padrões culturais comuns nas cidades e vilarejos costeiros ligados pelo tráfico. Na habitação. Na cozinha. Nas vestimentas. Nas festas. Em quase todos os modos de vida. [...] A história da África é importante para nós, brasileiros, porque ajuda a explicar-nos. Mas é importante também por seu valor próprio e porque nos faz melhor compreender o grande continente que fica em nossa fronteira leste de onde proveio quase a metade de nossos antepassados. Não pode continuar o seu estudo afastado de nossos currículos, como se fosse matéria exótica. Ainda que disto não tenhamos consciência, o obá do Benim ou o Angola a Quiluanje estão mais próximos de nós do que os antigos reis da França.

Marco Antônio Sá/Pulsar Imagens

a) Ele escreveu para o público em geral, como se pode concluir observando a linguagem utilizada e o tratamento dado ao tema. b) São muitas as palavras de origem africana que estão presentes na língua portuguesa; originaram-se de línguas banto as palavras: caçula, cafuné, cochilo, mochila, quitanda, quitute, entre outras; na culinária podemos citar as seguintes iguarias: acarajé, vatapá, caruru, quibebe, entre outras; no tocante às festas: o jongo, a congada, o maracatu, entre outras. c) Resposta pessoal. Professor: no Brasil podemos citar: o samba de roda, o afoxé, a umbigada e a capoeira; há quem defenda também que o frevo é uma dança trazida pelos africanos da Costa do Marfim. Na Jamaica, ilha da América Central, nasceu o reggae e, nos Estados Unidos, surgiu o break dancing, elemento da cultura hip-hop.

Menino do grupo Terno de Congo Verde e Preto na Festa de Nossa Senhora do Rosário, em Goiânia (GO), 2013. Obá:

palavra iorubá que quer dizer rei, soberano.

Angola a Quiluanje:

em língua quimbundo quer dizer soberano de Quiluanje (nome de uma localidade de Angola).

SILVA, Alberto da Costa e. Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Editora da UFRJ, 2003. p. 238 e 240.

a) O autor desse trecho escreveu para o público em geral, para os especialistas em História ou para as autoridades? b) Cite alguns elementos das culturas africanas presentes na língua, na culinária e nas festas do Brasil. c) Pesquise e indique dois estilos de dança de matriz afro nascidos no Brasil e dois outros que se originaram em outras partes da América. d) O livro citado foi publicado na mesma década (2001-2010) em que o Estado brasileiro promulgou as Leis nos 10.639/03 e 11.645/08. O que dizem essas leis? d) A Lei no 10.639/03 torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-brasileira em todas as escolas brasileiras, públicas e particulares, do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Além disso, essa lei inclui o Dia da Consciência Negra no calendário escolar (20 de novembro). Já a Lei no 11.645/08 acrescenta também a obrigatoriedade do estudo da história e das culturas dos povos indígenas. Professor: comentar que estas leis estimulam o reconhecimento da pluralidade étnico-cultural do Brasil; ou seja, a percepção do Brasil como um país multicultural e plurirracial.

CAPÍTULO 4 | ÁFRICA ANTIGA: EGITO E NÚBIA

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (UEL-PR – 2015) Leia a citação e analise a figura a seguir. Construir é uma atividade fundamental para o soberano egípcio.

rayints/Shutterstock/Glow Images

DESPLANCQUES, S. Egito Antigo. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 28. Coleção L&PM Pocket. Série Encyclopaedia.

egípcios. Com base na citação, na figura e nos conhecimentos sobre o Antigo Império, explique um elemento que transmita a noção de poder ligada aos Faraós no Egito Antigo. 2. (UEG-GO – 2015) Leia o texto a seguir. Amanheces formoso no horizonte celeste, Tu, vivente Aton, princípio da vida! Quando surgiste no horizonte do oriente Inundaste toda a terra com tua beleza. [...] Ó Deus único, nenhum outro se te iguala! Tu próprio criaste o mundo de acordo com tua vontade, Enquanto ainda estavas só. HINO A ATON. In: PINSKY, Jaime. 100 textos de História Antiga. São Paulo: Contexto, 2009. p. 56-57.

O faraó Amenófis IV (1377-1358 a.C.), como parte de uma estratégia política que visava diminuir o poder da classe sacerdotal egípcia, realizou uma reforma religiosa que teve como principal tópico a a) adoção do Deus dos hebreus, que se encontravam escravizados no Egito, mas tendo José como um importante membro da corte. b) definição de que o próprio faraó Amenófis IV, que adotou o nome de Akhenaton, seria o deus único dos egípcios. c) imposição de deuses estrangeiros trazidos do Oriente, levados para o Egito por meio das rotas comerciais favorecidas pelo faraó.

Disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/ commons/thumb/6/6c/Egypt.Giza.Sphinx.02.jpg/800pxEgypt.Giza.Sphinx.02.jpg>. Acesso em: 2 out. 2014.

A citação da historiadora Sophie Desplancques faz alusão ao Egito Antigo, especificamente ao período conhecido como Antigo Império, considerado uma fase de estabilidade política por parte significativa da historiografia, bem como uma “idade de ouro” de sua civilização, por parte dos próprios

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d) imposição do monoteísmo, adotando o culto oficial a um deus único e proibindo adoração às outras deidades do panteão egípcio. 2. Resposta: d.

3. (Enem/MEC) O Egito é visitado anualmente por milhões de turistas de todos os quadrantes do planeta, desejosos de ver com os próprios olhos a grandiosidade do poder esculpida em pedra há milênios: as pirâmides de Gizeh, as tumbas do Vale dos Reis e os numerosos templos construídos ao longo do Nilo. O que hoje se transformou em atração turística era, no passado, interpretado de forma muito diferente, pois

1. O aluno deve descrever uma característica da noção de poder ligada aos faraós no Egito antigo presente na fotografia. Entre outros elementos, poderia citar que o faraó concentrava muito poder, resultando em variadas atribuições: ele era o chefe do exército e liderava as tropas em guerras; a preservação e a ampliação das fronteiras do UNIDADE 2 | CIDADES: PASSADO E PRESENTE Império Egípcio; o comando do governo; sendo considerado de origem divina, era o senhor das terras, dos bens e dos homens. Enfim, os trabalhos de construção das edificações mostradas na imagem documentam o imenso poder do faraó no Egito antigo.

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a) significava, entre outros aspectos, o poder que os faraós tinham para escravizar grandes contingentes populacionais que trabalhavam nesses monumentos. 3. Resposta: a. b) representava para as populações do alto Egito a possibilidade de migrar para o sul e encontrar trabalho nos canteiros faraônicos. c) significava a solução para os problemas econômicos, uma vez que os faraós sacrificavam aos deuses suas riquezas, construindo templos.

4. (UECE) O Reino de Kush foi o berço onde se desenvolveram importantes civilizações e culturas. Teve um papel determinante como elo cultural entre diferentes povos do Mediterrâneo e aqueles da África subsaariana. Dentre suas características destaca-se o modo como o rei era eleito e o papel da mulher na política. Apenas uma alternativa é verdadeira.

d) representava a possibilidade de o faraó ordenar a sociedade, obrigando os desocupados a trabalharem em obras públicas, que engrandeceram o próprio Egito. e) significava um peso para a população egípcia, que condenava o luxo faraônico e a religião baseada em crenças e superstições.

a) O Reino de Kush foi o lendário rival da antiga Núbia africana. b) A história de Kush está estreitamente ligada à história do Egito. 4. Resposta: b. c) O Reino de Kush não consta nos relatos de Heródoto sobre a África. d) A economia cuxita foi precária devido à pobreza do solo e à escassez de água.

II. Integrando com Língua Portuguesa

PROFESSOR, VER MANUAL.

Em grupo. Imaginem que vocês trabalham em uma agência de turismo e precisam produzir materiais diversos para estimular as pessoas a viajarem para o Egito. Cada grupo irá trabalhar com um tipo de texto específico (argumentativo; publicitário; jornalístico; literário; ou oral). Grupo 1. Elaboração de um artigo de opinião defendendo um ponto de vista sobre o Egito após a queda da ditadura de Hosni Mubarak (1981-2011). Grupo 2. Criação de um panfleto e um fôlder sobre a terra dos faraós. Grupo 3. Confecção de uma reportagem ilustrada sobre os pontos turísticos do país. Grupo 4. Produção de um cordel sobre o Egito. Grupo 5. Seminário sobre a arte egípcia, com destaque para a escultura e a pintura. Fontes para a pesquisa: 1.

Sobre a arte egípcia: <http://tub.im/wufb33>.

2.

Sobre a história do Egito: <http://tub.im/28ayrz>.

3.

Sobre as pirâmides: <http://tub.im/ao8td4>.

4.

Sobre o Museu Egípcio e Rosacruz, em Curitiba (PR): <http://tub.im/aoyfe5>.

»

Postem o resultado dos trabalhos no blog da turma. CAPÍTULO 4 | ÁFRICA ANTIGA: EGITO E NÚBIA

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Hebreus, fenícios e persas

Capítulo 5

Veja, abaixo, objetos que integram a cultura material dos hebreus, fenícios e persas.

Museu Naval, Milão. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Professor: a proposta aqui é estimular o estudo da história e da cultura de um povo com base em sua cultura material. A menorá é um dos principais símbolos da fé judaica, além de ser o brasão do Estado de Israel, criado em 1948. Já a miniatura de um barco fenício sugere que os fenícios eram um povo de navegadores. O detalhe em bronze representando Zoroastro é um indício da importância desse personagem para os persas.

Menorá, o candelabro de sete braços dos hebreus.

Kuni Takahashi/Getty Images

Daniel Augusto Jr./Olhar Imagem

Miniatura de barco fenício.

Detalhe em bronze de uma das portas do Templo Real de Chac-Chac, no Irã, que mostra o profeta persa Zoroastro.

» O que se pode saber sobre os hebreus por meio da menorá? » O que essa miniatura de barco sugere sobre os fenícios? » E essa representação de Zoroastro, o que pode informar sobre os persas?

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UNIDADE 2 | CIDADES: PASSADO E PRESENTE

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Os hebreus A história dos hebreus tem especial significado para nós, ocidentais, porque constitui importante elo entre as civilizações do Oriente Próximo e a civilização ocidental; além disso, foi entre os hebreus que surgiu e se desenvolveu o monoteísmo ético, que serviu de base tanto para o judaísmo (religião dos hebreus) quanto para o cristianismo (religião da maioria dos brasileiros). Leia a seguir o texto de Jaime Pinsky, historiador brasileiro de origem judaica, sobre a grande contribuição dos hebreus à civilização: o monoteísmo ético. [...] Monolatria é o culto a um único deus, embora acreditando-se na existência de outros; isto era muito comum na Antiguidade, com os deuses de cada tribo, cada clã ou mesmo cada povo. Monoteísmo já é a crença na existência de apenas um deus, não sendo os outros, porventura cultuados, senão falsos deuses. Já o monoteísmo ético é a crença em um deus único, que dita normas de comportamento e exige uma conduta ética por parte de seus seguidores. PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2001. p. 115-116.

Fontes para o estudo dos hebreus

DP RM/Alamy/Glow Images

Nancy Louie/Getty Images

Os cinco livros bíblicos – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio – constituem a Torá, a Bíblia hebraica. Os cristãos, por sua vez, denominam esses cinco primeiros livros de Pentateuco. A Torá é uma das fontes usadas pelos historiadores atuais no estudo dos hebreus.

DIALOGANDO Usando suas palavras, diferencie monolatria de monoteísmo. Monolatria é o culto a um único deus, embora se acreditando na existência de outros. Monoteísmo é a crença na existência de um deus único; os outros seriam falsos deuses.

Dica! Videoaula que recria a versão da história dos hebreus presente na Bíblia. [Duração: 15 minutos]. Acesse: <http://tub. im/7wcrjn>.

A leitura da Torá é vista pelos judeus de hoje, herdeiros da tradição hebraica, como uma aproximação com Deus. Por isso, eles realizam cerimônias de iniciação dos jovens nessa leitura. Nas fotos, vemos um aspecto do bar mitzvah, cerimônia de iniciação dos meninos na leitura da Torá, e um aspecto do bat mitzvah, cerimônia equivalente, para as meninas.

CAPÍTULO 5 | HEBREUS, FENÍCIOS E PERSAS

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Para refletir O texto a seguir é do historiador Jaime Pinsky. Leia-o com atenção.

Fábio Guinalz / Fotoarena

A Bíblia serve à História? É preciso ter presente que a Bíblia tem um comproBíblia: palavra que vem do misso básico com a unidade do povo hebreu e não com latim biblia (pequenos a narrativa fiel de acontecimentos. Hoje em livros), e uma dia até autores religiosos, cristãos e judeus, referência ao nome grego de uma cidade duvidam, se não da existência física dos três síria, famosa por sua patriarcas (Abrahão, Isaac, Jacó), ao menos indústria de papiros, Biblos. da genealogia que estabelece a sucessão entre eles (Abrahão pai de Isaac pai de Jacó). O fato de questionarmos a historicidade de alguma personagem não significa que não possamos tirar da história contada informações que nos interessem. O narrador acaba referindo-se a costumes e padrões de comportamento que caracterizam uma época e dizem respeito também a mitos que derivam de uma região. Assim, não há contradição entre questionar a historicidade de personagens bíblicos, colocar em dúvida alguns dos fatos milagrosos ali narrados e O historiador utilizar o material como fonte para o trabalho do historiador. e professor Jaime Pinsky. PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2001. p. 108-109. (Repensando a História).

a) O texto acima pode ser classificado como historiográfico, religioso ou literário? a) O texto é historiográfico e foi escrito por um historiador com grande conhecimento da cultura hebraica.

b) O texto é dirigido aos especialistas em História, aos religiosos, às autoridades ou b) O texto é voltado aos estudantes. [Comentar que o livro do qual o texto foi extraído é classificado aos estudantes? como material de apoio didático.] c) Ele responde afirmativamente, c) Como o autor responde à pergunta contida no título do texto?

pois, por meio dos textos bíblicos, podemos conhecer a história, os costumes, os padrões

d) A Bíblia pode ser considerada a única fonte histórica importante para o conhecimento dos hebreus? de comportamento, a ética, os mitos do povo judeu e da região onde ele transitou no passado distante. d) Não, ela é uma delas. Faz parte do ofício do historiador o cruzamento de diferentes fontes. Assim procedendo, ele poderá construir uma narrativa mais fiel da história dos hebreus. [Diferentemente do que ocorre com a narrativa histórica, a narrativa bíblica não tem compromisso com a evidência.]

Outras fontes para o estudo dos hebreus são as de cultura material encontradas em escavações arqueológicas e escritos de pessoas que viveram em tempos antigos, como o historiador judeu Flávio Josefo (37-100), nascido em Jerusalém. Dono de sólida formação intelectual, esse historiador judeu atuou inicialmente como soldado, ocasião em que chegou a combater os romanos. Apesar de ter sido aprisionado por eles, escapou com vida graças à proteção do imperador Vespasiano. No ano 70, Flávio Josefo assistiu à destruição do Templo de Jerusalém; no ano seguinte mudou-se para Roma, onde adotou o nome de Titus Flavius Josephus, pelo qual ficou conhecido. Em Roma, escreveu e publicou suas obras, entre as quais cabe citar Antiguidades judaicas, publicada em grego, em 20 volumes. Testemunha ocular de passagens importantes da história, Flávio Josefo forneceu importantes informações sobre

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personagens e episódios envolvendo judeus e romanos e a vida dos primeiros cristãos. Embora fosse admirador dos romanos e da cultura greco-romana, procurou também valorizar os judeus de seu tempo, apresentando-os como povo religioso e civilizado.

A narrativa bíblica Conta a Bíblia que os hebreus viviam do pastoreio nas proximidades da cidade de Ur, na Mesopotâmia. Certo dia, por volta de 1800 a.C., Deus confiou a um pastor hebreu, de nome Abraão, a missão de conduzir seu povo na busca por boas pastagens para seu rebanho. Abraão, sua gente e seus rebanhos deixaram, então, a Mesopotâmia e, depois de muito caminhar, chegaram em Canaã (Palestina) e lá se fixaram. Segundo a Bíblia, aquela era a terra que Deus reservara aos hebreus, a Terra Prometida. Veja no mapa o provável percurso dos hebreus. Allmaps

A trajetória dos hebreus Mar Cáspio

A grande marcha de Abraão (c. 1800 a.C.) Primeiras instalações dos pastores hebreus

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Regiões férteis

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Outro itinerário possível

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Haran

O Êxodo do Egito com Moisés (c. 1250 a.C.)

Tânis

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Siquém Jericó Jerusalém Hebron

Rio Jordão

Damasco

Mar Mediterrâneo

Babilônia

CALDEIA Ur

Cades

30° N

Mênfis

Rio Nilo

Ezion-Geber

Golfo Pérsico

DESERTO DA ARÁBIA

MONTE SINAI

Mar Vermelho

0

175

40° L

A Palestina era uma estreita faixa de terra cortada pelo rio Jordão; na versão bíblica, o patriarca Abraão e sua gente partiram de Ur, na Caldeia, e passaram pelas cidades da Babilônia, de Mari, Haran, Aleppo, Hamath e Damasco até se fixarem em Canaã.

Fonte: VIDAL-NAQUET, Pierre; BERTIN, Jacques. Atlas histórico: da Pré-História aos nossos dias. Lisboa: Círculo de Leitores, 1990. p. 39.

A Palestina O texto a seguir sobre a Palestina ajuda-nos a formar uma ideia do cenário em que se desenrolou a história dos antigos hebreus; ele foi escrito por Mario Liverani, professor de Oriente próximo na Universidade de Roma. Leia-o com atenção. A Palestina é um país modesto e fascinante. Modesto pelos recursos naturais [...]; fascinante pela estratificação histórica da paisagem [...]. [...] A Palestina situa-se quase toda na faixa semiárida (com precipitações entre 400 e 250 mm anuais). [...] Há um único rio digno desse nome, o Jordão [...] com seus dois afluentes perenes da esquerda [...] que [...] vão se perder na bacia fechada e salgadíssima do mar Morto. A agricultura, portanto, não é irrigada (exceto em pequenos “oásis” em torno das fontes), mas pluvial, ou seja, depende das incertas precipitações [...] – às CAPÍTULO 5 | HEBREUS, FENÍCIOS E PERSAS

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Hazem Bader/AFP Photo/Image Forum

vezes [...] benévolas, às vezes punitivas. O contraste com o vizinho Egito, onde a água é um “dado de fato” perene que não produz ansiedade, era absolutamente evidente. [...] Nem todo o território pode ser utilizado para as culturas agrícolas. As únicas campinas [...] estão no médio vale do Jordão e na planície de Yizre’el; a faixa costeira é arenosa e salina; [...]. Todo o resto são colinas e montanhas, outrora cobertas de bosques, mas depois desnudadas pela ação do homem e da cabra [...] Cenário adequado para um pastoreio de [...] gado miúdo (ovelhas e cabras) e para uma agricultura de pequeno formato [...] de dimensões [...] familiares e de vilas em miniatura, como num presépio. [...] Os metais são, na verdade, muito escassos (o cobre da Arábia está fora do território palestino propriamente dito), não há pedras semipreciosas (a turquesa do Sinai está ainda mais distante), não há madeira nobre (como no Líbano) [...] As caravanas que percorrem a “via do Mar”, que liga o delta do Egito à Síria, têm pressa de atravessar um país pobre e à espreita. [...] Comparada a outras zonas do Oriente Próximo, como o Egito e a Mesopotâmia [...] que no passado foram sedes de celebradas civilizações, de grandes formações estatais, de metrópoles monumentais, a Palestina oferece um espetáculo decididamente modesto.

Homem pastoreia um rebanho de ovelhas em um vilarejo de Susya, Palestina, 2015.

Clã:

aglomeração de famílias que são ou se presumem descendentes de um ancestral comum.

Hicsos:

povo da Antiguidade, originário da Síria, que se estabeleceu na metade oriental do delta do Nilo no século XVIII a.C. Os faraós egípcios chamavam esses invasores asiáticos de “chefes estrangeiros”.

LIVERANI, Mario. Para além da Bíblia: história antiga de Israel. São Paulo: Paulus Editora, 2008. p. 27-30.

Nesse ambiente acanhado que caracteriza o território da Palestina, os hebreus praticavam o pastoreio e a agricultura. As famílias organizaram-se em clãs, cujos chefes eram chamados de patriarcas. Ainda segundo a Bíblia, os primeiros patriarcas foram Abraão, Isaac e Jacó. Este último teve seu nome mudado para Israel, por isso seus descendentes foram chamados de israelitas.

Hebreus no Egito Ainda segundo o relato bíblico durante um longo período de seca e fome, os hebreus foram forçados a emigrar para o Egito, na época sob o domínio dos hicsos. Enquanto durou essa dominação, os hebreus progrediram, chegando a ocupar posições de destaque na sociedade egípcia. Mas, com a expulsão dos hicsos, em cerca de 1550 a.C., os hebreus foram escravizados pelos faraós, sob a acusação de colaborarem com os invasores. Depois de longo período de cativeiro, liderados pelo patriarca Moisés, os hebreus se rebelaram, abandonaram o Egito e retornaram à Palestina. Essa saída em massa dos hebreus do Egito é chamada de êxodo (palavra que em grego significa “saída”). Segundo a Bíblia, foi durante uma caminhada de cerca de 40 anos que Moisés recebeu de Deus, no Monte Sinai, duas tábuas com os Dez Mandamentos (Decálogo). O primeiro deles dizia:

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UNIDADE 2 | CIDADES: PASSADO E PRESENTE

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“Não terás outros deuses diante de mim”; este mandamento é a base da crença dos hebreus em um só Deus, Jeová ou Iahweh.

A disputa pela Palestina Na sua volta à Palestina, os hebreus travaram uma luta árdua e prolongada contra outros povos lá estabelecidos, como os cananeus e os filisteus. Na época, os hebreus estavam divididos em 12 tribos e eram comandados pelos juízes, nome que eles davam aos seus chefes militares, políticos e religiosos. O primeiro juiz hebreu foi Josué, que iniciou a luta pela reconquista da Palestina; depois vieram outros, como Sansão – conhecido por sua força extraordinária – e Samuel – reconhecido sacerdote.

Filisteus:

povo da Ásia Menor estabelecido no litoral sul da Palestina.

A monarquia hebraica Dica! Documentário abordando o êxodo dos hebreus no Egito à luz da História. [Duração: 59 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ cqybds>.

Para saber mais A Bíblia e a arqueologia A ideia de que o Templo de Salomão era monumental foi extraída da Bíblia. Alguns historiadores atuais discordam dessa ideia e dizem que, com base em pesquisa arqueológica, a Jerusalém da época de Salomão Representação do século XX era uma cidade pequena, acanhada, com poucos hado Palácio e do Templo de bitantes e sem capacidade nenhuma de realizar obras Salomão em Jerusalém. monumentais. Assim, para esses historiadores, a representação do templo mostrada nessa imagem é uma invenção sobre o passado; o governo de Salomão, dizem eles, não tinha condições de realizar uma obra dessa dimensão.

CAPÍTULO 5 | HEBREUS, FENÍCIOS E PERSAS

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Escola italiana. Séc. XX. Litogravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

A continuidade da luta pela Palestina exigia unidade de comando; por isso, em 1010 a.C., as 12 tribos hebraicas uniram-se sob o comando de Saul, aclamado como primeiro rei hebreu. Seu sucessor foi Davi, em cujo reinado completou-se a reconquista da Palestina; na ocasião, Jerusalém foi escolhida para capital do reino. Salomão, filho e sucessor de Davi, promoveu o comércio com a Fenícia, a Síria e o nordeste da África e aliou-se aos comerciantes fenícios. No seu reinado, a introdução do arado de ferro causou aumento da produtividade agrícola, contribuindo, assim, para um crescimento demográfico. Além disso, Salomão teria mandado realizar inúmeras grandes obras, entre elas um palácio real e, ao lado dele, o monumental Templo de Jerusalém. Mas, para custear essas grandiosas obras e o luxo de sua corte, o rei Salomão aumentou impostos, provocando, com isso, concentração da riqueza e enorme insatisfação popular.

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A divisão dos hebreus Allmaps

Reinos de Israel e Judá 35°° L

FENÍCIA Mar da Galileia

Rio Jordão

Mar Mediterrâneo

Samaria REINO DE ISRAEL

Jericó

31° N

us

Jerusalém

fili

ste

Belém Hebron Mar Morto

REINO DE JUDÁ

Reino de Israel Reino de Judá Invasões assírias (séculos IX a VI a.C.)

0

45 km

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2001. p. 8.

Inicialmente, a capital do Reino de Israel era Bichen. Mais tarde, com a construção de Samaria, essa se tornou a capital.

Profanação:

desrespeito ou violação do que é considerado sagrado por um grupo ou povo.

Com a morte de Salomão, em 930 a.C., a insatisfação do povo e as disputas internas pelo poder levaram à divisão do reino em duas unidades: Reino de Israel, formado por 10 tribos e com capital em Samaria, e Reino de Judá, composto de duas tribos, com capital em Jerusalém. Em 722 a.C., o Reino de Israel foi conquistado pelos assírios. Já o Reino de Judá sobreviveu até 587 a.C., quando foi arrasado pelos caldeus, que destruíram o Templo de Jerusalém e levaram milhares de hebreus como prisioneiros para a Babilônia; esse episódio ficou conhecido como Cativeiro da Babilônia. Quando os persas conquistaram a Babilônia, em 539 a.C., permitiram que os hebreus regressassem a Judá; muitos, então, retornaram e lá reconstruíram o Templo de Jerusalém. Nos séculos seguintes, esses descendentes de Judá (judeus) foram conquistados sucessivamente por vários povos, entre os quais os romanos. Inconformados com a opressão romana, os hebreus promoveram uma das maiores revoltas ocorridas no interior do poderoso império. Veja como um historiador se refere a ela: [...] Entre 66 e 70 d.C., toda a Judeia, liderada por sua população mais pobre, revoltou-se contra o domínio romano e contra o que considerava a profanação do templo. Após uma guerra especialmente sangrenta, Jerusalém foi tomada, a população massacrada e o templo destruído. Foi a maior revolta de um centro político e de uma etnia na história do Império. [...] GUARINELLO, Norberto Luiz. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2014. p. 146.

Algumas décadas após essa repressão violenta, em 132-135 d.C, os judeus promoveram outra grande revolta contra o poder romano, que foi igualmente reprimida com violência; teve início então a diáspora judaica – dispersão dos judeus pelo mundo.

Shahriar Erfanian/Flickr Vision/Getty Images

Judeu orando no Muro das Lamentações, um vestígio que se acredita pertencer ao último Templo de Jerusalém, 2011. Interessante notar que, até o começo de 2016, mulheres e homens não podiam rezar juntos nesse local. A partir desse ano ficou decidido que haverá três espaços: para homens, para mulheres e misto.

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Religião e cultura

Para os cristãos, o salvador é Jesus Cristo; já para os judeus, o salvador ainda está por vir. [Lembrar que tanto o cristianismo quanto o judaísmo são religiões salvacionistas.]

DIALOGANDO Tanto o judaísmo quanto o cristianismo acreditam na vinda de um salvador. Quem é ele na visão dos cristãos? E na visão dos judeus?

Dica! Documentário abordando a história do judaísmo. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub. im/irb3oh>.

Fotos: Rubens Chaves/Pulsar Imagens

Mesmo dispersos, os judeus se conservaram fiéis aos seus hábitos, tradições e valores. E, reunidos em comunidades, ergueram sinagogas – locais de oração, de culto e de instrução religiosa –, que funcionavam como importantes elementos de coesão grupal. Diferentemente de muitos povos antigos, que eram politeístas, os judeus desenvolveram a crença no monoteísmo. Consideravam-se um povo eleito, pelo fato de, segundo eles, o Criador ter-lhes revelado a sua lei por meio da Torá. Os judeus foram os criadores do monoteísmo ético, ou seja, a crença de que Deus exige de seus seguidores a obediência a uma moral rígida. A ideia hebraica de Deus marcou muito a civilização ocidental. Essa religião, baseada no monoteísmo e na obediência à Bíblia judaica, é chamada de judaísmo. Uma característica do judaísmo é interferir profundamente no cotidiano de seus seguidores, como se pode concluir observando o uso diário que os judeus fazem do quipá, visto como sinal da presença divina na vida humana. Os profetas, homens tidos como inspirados por Deus, capazes de comunicar suas mensagens e realizar profecias, exerceram papel decisivo na consolidação do monoteísmo judaico. Os profetas anunciaram também a vinda de um messias, um enviado de Deus para conduzir seu povo à salvação eterna.

Vista externa e interna da sinagoga Kahal Zur Israel, a mais antiga das Américas, na cidade de Recife, em Pernambuco. Atualmente, o prédio abriga o Centro Cultural Judaico do estado. Fotografias de 2007.

A comunidade judaica reivindica um parentesco em linha direta com os hebreus da Antiguidade. No entanto, a tese é questionada por parte dos historiadores. De uma forma ou de outra, o legado dos antigos hebreus é CAPÍTULO 5 | HEBREUS, FENÍCIOS E PERSAS

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PhotoStock-Israel/age fotostock/Easypix

preservado e revitalizado pela comunidade judaica dos dias atuais de diversas maneiras. Uma delas são as várias festas para preservar a memória e as tradições. Conheça algumas delas: » Shabat (Dia do Descanso): existe para lembrar o trecho da Torá que diz que Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou. O shabat começa na sexta-feira, com o pôr do sol, e termina no início da noite de sábado. » Pessach (Páscoa judaica): comemora a libertação dos hebreus depois do longo período de cativeiro no Egito ocorrido há milênios. Em todo o mundo, as famílias judaicas reúnem-se para a ceia ritual, leem trechos da história dos hebreus e refletem sobre o significado da liberdade. » Shavout: comemora o recebimento da Torá no Monte Sinai. Isto, segundo a Torá, ocorreu sete semanas após a saída do Egito; daí o shavout ser conhecido como Festa das Semanas. As comemorações incluem a leitura do Decálogo (Dez Mandamentos) nas sinagogas. » Simchat Torá (Alegria da Torá): são dois dias muito alegres dedicados à comemoração da Torá (a Lei Mosaica). » Rosh Hashaná: é a comemoração do Ano-Novo. A festa inclui reuniões familiares nas quais se comem alimentos especiais, como a maçã com mel, a fim de “adoçar” o novo ano. » Yom Kippur (Dia do Perdão): é o dia mais sagrado e solene do calendário judaico. É um dia de jejum, reflexão e orações, de pedir perdão por promessas feitas a Deus, mas não cumpridas. Família à mesa durante tradicional refeição do Pessach (Páscoa judaica), 2015.

Dia Karanouh/Alamy/Latinstock

Vista aérea da cidade de Beirute, Líbano. Fotografia de 2009.

Fenícios: um povo de navegadores e comerciantes Os fenícios ocupavam um território extenso e estreito (200 quilômetros de comprimento por 40 quilômetros de largura), situado entre as montanhas do Líbano e o mar Mediterrâneo. Essas terras correspondem ao que hoje é o Líbano e uma parte da Síria. Nos vales cortados por pequenos rios, os fenícios criavam gado e cultivavam trigo, videiras (com as quais faziam vinho) e oliveiras (para produzir azeite). Das florestas, extraíam o cedro, madeira nobre que usavam para fazer navios resistentes, que compunham frotas numerosas e adaptadas à navegação de longa distância. A ocorrência de montanhas que barravam o avanço pelo interior, a carência de terras férteis para a agricultura e a existência de bons portos naturais estimularam

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a navegação e o comércio marítimo entre os fenícios. Isso ajuda a explicar por que, desde cedo, eles se voltaram para o mar. 1

As cidades-Estado fenícias A Fenícia nunca foi um reino, como Israel, ou um império, como o Egito. Os fenícios viviam em cidades independentes umas das outras; cidades que, por possuírem um governo independente, são chamadas de cidades-Estado. O governo das cidades fenícias era formado por um rei, auxiliado por um conselho de mercadores e/ou armadores. As cidades-Estado fenícias, como Ugarit, Biblos, Beritos (Beirute), Sídon e Tiro, disputavam com poderosos vizinhos, como os egípcios e os assírios, as melhores rotas marítimas e o comércio pelo mar Mediterrâneo. Entre 1400 e 700 a.C., três cidades fenícias exerceram liderança comercial e marítima sucessivamente. A primeira foi Biblos, cujos comerciantes vendiam cedro para os egípcios e deles compravam rolos de papiro, a matéria-prima do “papel” da época; mais tarde, a palavra biblos, que é como os gregos chamavam o papiro, passou a significar “livro”. Depois, foi a vez de a cidade de Sídon impor sua supremacia controlando o comércio no mar Egeu e negociando intensamente com os gregos. 2 Por fim, a liderança marítimo-comercial na Fenícia foi assumida pela cidade-Estado de Tiro, cujos marinheiros alcançaram as ilhas da Sicília e da Sardenha e o extremo ocidental do Mediterrâneo e, navegando pelo Atlântico, chegaram até onde 1. Dica! Documentário hoje é a Inglaterra (ao norte) e a costa ocidental da África (ao sul). sobre os fenícios. Durante o tempo em que se destacaram como navegadores e comercian- [Duração: 52 minutos]. tes, os fenícios fundaram colônias por toda a orla do mar Mediterrâneo. Acesse: <http://tub. Uma das mais prósperas era Cartago. Os fenícios comerciavam com suas im/uygwc4>. colônias produtos próprios, como toras de cedro, joias (de ouro, prata e 2. Dica! Vídeo marfim), vidros e tecidos de algodão, bem como produtos de outros povos, explicativo sobre a sociedade fenícia. como papiro, vasos e azeite. Acesse: <http://tub. im/cun8qi>. Observe o mapa.

Allmaps

A colonização dos fenícios (cerca de 1400 a.C.)

Armador:

20° L

dono de estaleiro, construtor de navios.

EUROPA

Colônia: Mar Negro

Córsega Is. Baleares

Cádiz

40° N

Sardenha

Málaga

ÁSIA Sicília

Cartago

GRÉCIA

Siracusa

Rodes

Chipre

Creta Tiro

ÁFRICA

Biblos Beirute Sídon

Mar Mediterrâneo

Fenícia Colonização fenícia Colônias fenícias Rotas comerciais

entreposto comercial ou área de povoamento.

0

340 km

Observe as colônias fenícias no mapa: várias delas, como Chipre, Sicília, Cádiz e, especialmente, Cartago, alcançaram grande prosperidade.

Fonte: HILGEMANN, Werner; KINDER, Hermann. Atlas histórico mundial. Madri: Istmo, 1983. p. 38.

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Séc. VIII a.C. Marfim. Museu do Iraque. Bagdá. Foto: Werner Forman Archive/Glowimages

Arte fenícia do século VIII a.C. Neste entalhe em marfim, vê-se uma leoa saltando sobre um núbio e cravando os dentes em sua garganta. Repare no movimento e na expressividade das figuras. Havia duas peças idênticas a essa: uma no Museu Britânico, outra no Museu do Iraque; esta última desapareceu durante os saques e pilhagens a obras de arte ocorridos por ocasião da Guerra do Iraque em 2003.

Pictograma:

desenho simplificado e estilizado que representa objetos ou seres.

Ideograma:

símbolo que retrata uma ideia, um acontecimento; os ideogramas podem ser formados com base em pictogramas.

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Além de manter intenso comércio com suas colônias, os fenícios circulavam por todo o mar Mediterrâneo e por parte do oceano Atlântico. Os fenícios também produziam um artesanato diferenciado e conhecido no mundo antigo. Seus artesãos confeccionavam joias, perfumes e artefatos de pedra, vidro, cerâmica, metal e marfim ou resultantes da combinação desses materiais. Os tecidos decorados e as estátuas de madeira que os fenícios produziam não resistiram ao tempo; já as obras de arte feitas de materiais resistentes, como ouro, prata ou marfim, compõem hoje os acervos de importantes museus europeus. Artefatos fenícios encontrados nos sítios arqueológicos da cidade de Ugarit vêm nos permitindo conhecer melhor a arte e a história fenícia a partir de sua cultura material. Por habitarem uma região de passagem entre a Ásia, a África e a Europa, as cidades fenícias mantiveram trocas culturais intensas com diferentes povos. Mas, por isso mesmo, também tornaram-se presa fácil dos grandes impérios da Antiguidade, como o egípcio, o persa e o macedônico, e, mais tarde, o romano. Em 64 a.C., as cidades fenícias foram conquistadas por Roma. Com isso, a história política da Fenícia chegava ao fim, mas as contribuições dos fenícios à humanidade, como o seu alfabeto, continuam influenciando o cotidiano de bilhões de pessoas ao redor do mundo.

O alfabeto fenício Os primeiros sistemas de escrita de que se tem notícia surgiram na China, na Mesopotâmia e no Egito. Tais sistemas se valiam de pictogramas, a exemplo dos mesopotâmicos e egípcios, e de ideogramas, como no caso dos chineses. As escritas pictográficas e ideográficas eram complexas, possuíam milhares de caracteres e eram somente praticadas por um número pequeno de profissionais especializados (escribas ou membros da realeza). Hoje é difícil continuar a considerar os fenícios como “inventores” do alfabeto, pois outros candidatos vêm sendo revelados pela Arqueologia e pelos estudos epigráficos, entre os quais podemos citar o protocananita. Mas é certo que o alfabeto desenvolvido e divulgado pelos fenícios significou uma revolução no campo da comunicação. Por volta de 1100 a.C., os fenícios da cidade de Ugarit, buscando facilitar o comércio e agilizar a comunicação, desenvolveram um alfabeto. Em vez dos milhares de ideogramas, como os que usam os chineses, os fenícios propunham 22 sinais, cada um deles correspondendo a um som, e não a uma ideia ou palavra. A escrita alfabética fenícia era, portanto, muito mais simples e prática do que a mesopotâmica ou a chinesa, o que contribuiu para democratizar a informação e o conhecimento, antes reservados a uns

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Getulio Delphim

poucos privilegiados. As 22 letras do alfabeto fenício eram consoantes. Os gregos acrescentaram a elas as vogais. Assim, o alfabeto fenício serviu de base para o grego, que deu origem ao latino, no qual se baseia o alfabeto 1 que usamos atualmente. No primeiro friso vemos caracteres do alfabeto fenício copiados de uma placa de argila do século V a.C., encontrada na ilha de Sardenha, atual Itália; no segundo e terceiro frisos, os caracteres do alfabeto grego e o correspondente de cada um deles no alfabeto latino.

1)

4)

2)

5)

Alan Carvalho

Nos dias atuais muitos internautas usam uma linguagem com abreviaturas como “tb” em vez de “também”, e ícones para expressar sentimentos; como para “tudo bem”, e para “beijinhos”.

Fernando Favoretto/Criar Imagem

DIALOGANDO

a) 1. Em terra de cego quem tem um olho é rei. 2. Quem não chora não mama. 3. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando. 4. Quem semeia vento colhe tempestade. 5. A união faz a força.

Adolescentes brasileiros trocando mensagens pelo celular, 2014.

3)

a) Você seria capaz de identificar os ditados populares escritos por meio desses emoticons? b) Por que será que essa linguagem tem sido tão usada pelos jovens? c) Você considera que o uso intensivo dessa linguagem pode dificultar a apropriação da língua culta, tão necessária à vida em sociedade?

Os persas

b) Resposta pessoal. Professor: essa linguagem atende à necessidade de rapidez e agilidade, que são muito importantes na comunicação pela internet. c) Resposta pessoal. Professor: estimular a aquisição e o uso da língua culta, destacando a sua importância na vida em sociedade e para a inserção do jovem no mundo profissional.

A Pérsia localizava-se no imenso Planalto do Irã, entre o mar Cáspio, ao norte, e o Golfo Pérsico, ao sul. Ali, por volta de 2000 a.C., estabeleceram-se diferentes povos, entre os quais os medos (ao norte) e os persas (ao sul). Os primeiros a constituir um reino foram os medos (século VII a.C.) e, durante esse processo, submeteram os persas, governados na época pela dinastia dos aquemênidas. 2 Por volta de 550 a.C., no entanto, o rei persa Ciro, o Grande, venceu os medos e impôs seu domínio aos habitantes do Planalto do Irã, fundando assim o Império Persa. Depois, com o objetivo de conquistar riquezas e povos, o rei Ciro montou um poderoso exército, dotado de cavalaria e carros de guerra. Seus sucessores, os imperadores Cambises e Dario I, comandaram novas conquistas e, com isso, o Império Persa atingiu sua extensão máxima, abrangendo terras que iam do Egito, a oeste, até a Índia, a leste. Observe o mapa a seguir.

1. Dica! Documentário sobre a história dos alfabetos. [Duração: 27 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ u2syei>. 2. Dica! Vídeo sobre o Império Persa. [Duração: 22 minutos]. Acesse: <http://tub. im/xad4pn>.

CAPÍTULO 5 | HEBREUS, FENÍCIOS E PERSAS

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Allmaps

Expansão do Império Persa (550 a 486 a.C.)

O Império Persa em sua máxima extensão. Assim como outros grandes impérios da Antiguidade, o persa abrigava grande diversidade de povos, línguas, hábitos e religiões. Fonte: KINDERSLEY, Dorling. World History Atlas. Londres: DK Publishing, 2005.

A administração de Dario I

c. 550-330 a.C. Pedra. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Detalhe da entrada do Palácio de Dario (Persépolis, atual Irã), em que se vê esse rei lutando com um leão.

Para controlar um território gigantesco e caracterizado por enorme diversidade étnica e cultural, Dario I dividiu o Império Persa em províncias chamadas satrapias e nomeou um administrador – o sátrapa – para cada uma delas. O sátrapa era uma espécie de governador civil, mas não tinha autoridade militar; as forças militares de cada província eram comandadas por um homem da confiança do rei. Além disso, o rei enviava às províncias regularmente inspetores com uma poderosa guarda, a fim de investigar a conduta do governo; esses inspetores eram conhecidos como “olhos e ouvidos do rei”. Para agilizar o comércio, o deslocamento de tropas e a comunicação em todo o império, Dario I ordenou a construção de uma ampla rede de estradas, das quais a mais famosa era a Estrada Real, que ligava Susa a Sardes e tinha 2 600 quilômetros de extensão. Além disso, criou um sistema de correio que se valia de corredores profissionais a cavalo. Cada um deles era responsável por um trecho da estrada; passando a mensagem ou encomenda um para o outro, os corredores reais faziam o trajeto de Susa a Sardes (2 600 quilômetros) em apenas 8 dias. Portanto, corriam em média 325 km por dia. Em 313 a.C., o Império Persa, sob o comando de Dario III, caiu diante do exército de Alexandre, o Grande, da Macedônia.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (PUC-SP) Diáspora é o termo que designa a dispersão dos hebreus por várias regiões do mundo, após serem expulsos de seu território no século II. Somente depois de 1948, com a criação do Estado de Israel, esse povo pôde voltar a se reunir num mesmo país. Entretanto, essa reconquista vem sendo, há quase meio século, motivo de contendas entre os israelenses e o povo ocupante daquela região. O ano de 1995, talvez, seja o marco do apaziguamento desses conflitos, uma vez que acordos têm sido realizados pelos seus líderes, sob a chancela da diplomacia internacional – o que, infelizmente, não impediu o assassinato do primeiro-ministro de Israel. O povo que provocou a dispersão dos hebreus no século II e o povo que manteve o confronto com os israelenses desde 1948 são, respectivamente: a) b) c) d) e)

os egípcios e os iranianos. os romanos e os palestinos.1. Resposta: b. a) Êxodo: saída em massa os palestinos e os egípcios. 2. dos hebreus do Egito. os romanos e os iranianos. 2. b) Diáspora: dispersão do povo judeu pelo mundo, os egípcios e os palestinos. motivada por violenta

repressão desencadeada pelos romanos para punir judeus rebeldes. [Hoje, o termo “diáspora” é aplicado também à história de outros povos; usa-se, por exemplo, a expressão “diáspora a) Êxodo. africana” para significar a dispersão forçada dos para a América como escravos.] b) Diáspora. africanos trazidos 2. c) Monoteísmo ético: crença em um c) Monoteísmo ético. deus único, que dita normas de comportamento e exige uma conduta ética por parte de seus seguidores.

2. Conceitue:

3. (Unesp-SP) Na região onde atualmente se encontra o Líbano, instalou-se, no III milênio a.C., um povo semita, que passou a ocupar a estreita faixa de terra, com cerca de 200 quilômetros de comprimento, apertada entre o mar e as montanhas. Várias razões os levaram ao comércio marítimo, merecendo destaque sua proximidade geográfica com o Egito; a costa, que oferecia lugares para bons portos; e os cedros, principal riqueza, usados na construção de navios. O contido nesse parágrafo refere-se ao povo: a) fenício. 3. Resposta: a. b) hebreu.

5. a) Em linhas gerais, o texto confirma o que o mapa mostra, ou seja, que os fenícios comerciavam com áreas de toda a orla do Mediterrâneo. [Notar que, segundo o texto, os fenícios recebiam também mercadorias da Arábia; o fato, no entanto, não está representado no mapa.] c) sumério. 5. b) Não; segundo Ezequiel, o comércio fenício “enriquecia os reis da terra”. [Comentar que vários profetas foram críticos severos da injustiça social presenciada por d) hitita. eles e dirigiram duras críticas à soberba e ao luxo dos reis.] e) assírio 5. c) Espanha, Ásia Menor, Síria, Israel, Arábia.

4. (UFPR) As condições geográficas da Fenícia, região mediterrânea, determinaram a dupla vocação dos fenícios de: a) comerciantes e industriais; b) mercadores e navegantes; c) agricultores e comerciantes; d) mercadores e agricultores; e) comerciantes e artesãos. 4. Resposta: b. 5. No texto a seguir, o profeta Ezequiel fala sobre o comércio praticado pela cidade fenícia de Tiro. Leia-o com atenção. Os de Tarsis (Espanha) traficavam contigo com todas as espécies de riquezas, fornecendo aos teus mercados prata, ferro, estanho e chumbo. Javan (Jônia, na Ásia Menor) negociava contigo, dando-te em troca escravos e utensílios de bronze e ferro forjado. A Síria fornecia teus mercados de [...] púrpura, bordados, linho fino, coral e rubis. Judá e Israel permutavam contigo trigo [...] mel, azeite e bálsamo. Damasco fornecia-te vinho e lã branca. [...] Pelo comércio das mercadorias que saíam para além dos mares, fartavas povos numerosos; pela grandeza do teu comércio, enriquecias os reis da terra. EZEQUIEL. In: ISAAC, Jules. Oriente e Grécia. Trad. Lycurgo G. da Motta. São Paulo: Mestre Jou, 1964. p. 105.

a) O texto de Ezequiel confirma ou nega o que está representado no mapa da colonização fenícia apresentado neste capítulo? Justifique. b) Para Ezequiel, a riqueza gerada pelo comércio fenício beneficiava a muitos? c) Localize em um mapa atual os lugares com os quais os fenícios negociavam. 6. (UFRN) Na Antiguidade, durante o reinado de Ciro I (559-529 a.C.), os persas construíram um vasto império e governaram diferentes povos, CAPÍTULO 5 | HEBREUS, FENÍCIOS E PERSAS

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6. Resposta: c.

adotando uma política que respeitava as diferenças culturais e religiosas. Esse modo de proceder está exemplificado no fato de a) incorporarem a cultura sumeriana, especialmente os registros da nova língua semítica em caracteres cuneiformes. b) arregimentarem entre os caldeus, após a conquista da Babilônia, os sátrapas,

administradores encarregados das províncias imperiais. c) libertarem os judeus cativos na Babilônia, que retornaram à Palestina e reconstruíram o templo de Salomão e o culto a Iavé. d) difundirem no Egito o culto de Ahura-Mazda, que, integrando-se às ideias religiosas egípcias, deu origem ao maniqueísmo.

II. Leitura e escrita em História PROFESSOR, VER MANUAL.

c. 1900. Vidro. Museu Smith, Chicago. Foto: Brian Cahn/Zuma Press/Corbis/Latinstock

Leitura e escrita de texto VOZES DO PASSADO

O poema abaixo é atribuído ao rei Salomão. Leia-o com atenção.

Cântico dos cânticos Ela: Como és belo, meu amado, como és encantador. Nosso leito está florido, de cedro são as vigas de nossas casas, de cipreste o nosso teto. Eu sou a flor do campo e o lírio dos vales. Ele: Como o lírio entre espinhos, assim é minha amada entre as moças. Ela: Como a macieira entre as árvores dos bosques, assim é o meu amado entre os moços. À sombra de quem eu tanto desejara me sentei, e seu fruto é doce ao meu paladar. [...] Sustentai-me com bolos de uvas, revigorai-me com maçãs, porque desfaleço de amor. Sua mão esquerda está sob minha cabeça e sua direita me abraça. Ele: Eu vos conjuro, mulheres de Jerusalém, pelas corças e gazelas do campo, que não desperteis nem façais acordar a amada, até que ela o queira. CÂNTICO DOS CÂNTICOS, 1, 16-17; 2, 1-7. Disponível em: <http://www. cnbb.org.br/documento_geral/Canticos.pdf>. Acesso em: 10 set. 2012.

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Rei Salomão em um vitral que faz parte do acervo do Museu Smith, em Chicago, Estados Unidos. Esse museu é o único que possui janelas de vidro colorido. Fotografia de 2012. Cipreste:

árvore ornamental de ramos verde-amarelados.

Conjurar:

no poema, “eu vos conjuro” tem o sentido de “eu vos peço”.

Corça:

fêmea do veado.

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a) O texto da página anterior pode ser classificado como historiográfico, filosófico, jurídico, jornalístico ou literário? b) Qual é o assunto do texto? c) Qual seria o significado de “Cântico dos cânticos”? d) Que outro título você daria a esse texto? Justifique. e) Pesquise e elabore uma minibiografia sobre o autor do texto.

VOZES DO PRESENTE O texto a seguir foi escrito pelo professor David Asheri, professor da Universidade de Jerusalém. Leia-o com atenção.

Séc. 5 a.C. Coleção particular. Foto: Gianni Dagli Orti/Corbis/Latinstock

O Império Persa é um conglomerado pluriétnico: nasceu da incorporação de reinos inteiros, anteriormente estabilizados e com profundas raízes tradicionais. Assim, [...] é propriamente em volta da tensão constante, ou da relação de força entre o “Grande Rei” e os poderes provinciais [sátrapas] – ou seja, entre o poder central e os poderes deslocados na periferia – que se organiza toda a história, interna e externa, do Império Persa: a sucessão ao trono, as crises dinásticas, a devolução dos poderes, as tendências centrífugas, o autonomismo, as rebeliões de sátrapas etc. É, em definitivo, o atrito entre centro e periferia que caracteriza a estrutura e a evolução deste conglomerado gigantesco de povos, línguas, religiões e civilizações e que constitui também o seu calcanhar de Aquiles. Na falta de homogeneidade linguística e Leão alado em ouro, exemplar da cultural, a única força capaz de conter este cultura material do Império Persa. conglomerado é o poder central: se este abandona a presa, as forças centrífugas deCentrífuga: sagregadoras tomam imediatamente a dianteira. que se afasta do centro. As tendências centrípetas do governo central sobressaem Centrípeta: em todos os setores da administração. O centro tende a conque procura aproximartrolar todas as esferas da atividade civil, religiosa e militar, tan-se do centro. to por meio de medidas normativas, editos e ordens quanto Edito: mediante a autorização real para iniciativas ou petições locais. decreto ou ordem. ASHERI, David. O estado persa: ideologias e instituições no império aquemênida. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 41.

a) O texto acima pode ser classificado como jornalístico, jurídico, literário ou historiográfico? b) Como o autor do texto conceitua o Império Persa? c) Na visão do autor, qual é a chave para entendermos a história do Império Persa? Justifique. d) Faça uma pesquisa para saber o nome do país que ocupa hoje as terras da antiga Pérsia, a religião professada pela maioria do povo e a língua falada por eles. CAPÍTULO 5 | HEBREUS, FENÍCIOS E PERSAS

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Civilização chinesa

Capítulo 6

AFP China Xtra/Image Forum

A fotografia é de 2012 e mostra uma multidão em um parque aquático em Suining, na província de Sichuan, na China.

Urbana Rural

90 80 70

Editoria de arte

China: população rural e urbana (%) 100

60 50 40 30 20 10 0 1950

1960

1970

1980

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2000

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2020

2030

2040

2050

Fonte: ONU. World urbanization prospects. Disponível em: <http://esa.un.org/unpd/wup/Country-Porfiles/>. Acesso em: 4 jun. 2016.

» O que a imagem sugere a você?

Professor: buscamos interessar os alunos pelo estudo do passado chinês a partir de dados sobre a política chinesa na atualidade. Com cerca de 1,4 bilhão de habitantes, a China possui aproximadamente 20% da população mundial. Apesar de a taxa de crescimento populacional ter caído nos últimos anos e de em 2015 o governo chinês ter posto fim à política do filho único, permitindo que cada casal tenha dois filhos, o tamanho e a projeção de crescimento da população chinesa continuam preocupando os demógrafos. Além disso, milhões de chineses estão migrando do campo para a cidade.

» O que se pode concluir com base nesse gráfico? » Você já tinha essas informações sobre a China? » O que mais você sabe sobre a China?

» Você tem notícias sobre as relações entre o Brasil e a China na atualidade? » E sobre o passado da China, o que você sabe?

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A civilização viva mais antiga do mundo nasceu provavelmente nas planícies férteis do vale do rio Huang-Ho, ou rio Amarelo. Ali, desde 5000 a.C., os chineses se aproveitavam das águas desse rio e do solo de loess para cultivar cereais, como o painço, e criar animais, especialmente porcos e cachorros. A partir de 3000 a.C., passaram a cultivar também o arroz (que logo se tornou um produto fundamental para os chineses) e a criar bois e cabras. Observe o mapa.

Allmaps

China antiga: povos e cultivos (6000 a 2500 a.C.) Núcleos de povoamento chinês 6000 a 5000 a.C. 6000 a 4000 a.C.

Solo de loess:

terra fértil de coloração amarela, rica em calcário, e formada por sedimentos depositados pela ação dos ventos e das chuvas.

Painço:

cereal originário da China. Algumas espécies são usadas na alimentação de animais e outras, na alimentação humana. O painço é da mesma família do sorgo, sendo hoje muito usado no preparo de sopas, pães e cozidos.

5000 a 2500 a.C. Área de solo de Ioess (poeira amarela) Antigo cultivo de painço

Adolescentes da etnia Han, 2012. Mais de 90% dos chineses pertencem a essa etnia. Além desse grupo étnico, há dezenas de outros relativamente pouco numerosos, como os nipo-coreanos, os indo-europeus, os tibeto-birmaneses, os malaio-polinésios.

MANCHÚRIA

Limite aproximado de Baikal repartiçãoLago de arroz selvagem Cultivo primitivo de arroz irrigado

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OCEANO PACÍFICO

0

Boaz Rottem/Age Fotostock/Keystone

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DESERTO DE GOBI 40° N

375

110° L

Fonte: ATLAS da História do mundo. São Paulo: Folha de S.Paulo: Times Books, 1995. p. 62.

As culturas yangshao e longshan Escavações arqueológicas feitas no vale do rio Amarelo revelam que, por volta de 2000 a.C., as aldeias chinesas eram grandes e numerosas e seus habitantes produziam artefatos em cerâmica, usados no armazenamento e preparo de alimentos (como vasos e panelas) e no transporte e consumo de água (como moringas e taças). Por meio de objetos da cultura material, ficamos sabendo também que, naquele tempo, os chineses produziram duas culturas notáveis: yangshao (cerâmica pintada) e longshan (cerâmica negra). CAPÍTULO 6 | CIVILIZAÇÃO CHINESA

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c. 2500 a.C. Cerâmica. Museu de Arte da Ásia Oriental, Bath. Foto: Heritage-Images/Glow Images

500-300 a.C. Cerâmica. Museu de Arte e História, Xangai. Foto: Werner Forman Archive/Glow Images

Em ambos os vasos, pode-se constatar a perícia dos artesãos chineses. Yangshao e longshan são nomes aplicados também aos grupos humanos que produziram essas culturas, bem como aos estilos de cerâmica criados por eles. Pedras espiraladas desenterradas pelos arqueólogos sugerem que os antigos chineses Vaso da cultura as usavam como rocas de fiar; os fios, provalongshan. velmente, eram empregados na confecção de tecidos com os quais eles faziam suas roupas. Restos de casulos de bichos-da-seda indicam que eles já conheciam a seda.

Vaso da cultura yangshao. Terracota:

argila cozida em forno.

História política do Império Qin

O IMPÉRIO QIN 221 a.C.

DINASTIA HAN

206 a.C.

DIVISÃO DA CHINA EM VÁRIOS REINOS

220 d.C.

DINASTIA TANG 618

ERA DAS CINCO DINASTIAS 906

DINASTIA SONG 960

DINASTIA DOS MONGÓIS 1279

Editoria de arte

Observação: Nesta obra, por questão de espaço, as linhas do tempo não obedecem a uma escala.

O império chinês foi fundado após uma disputa de poder entre líderes de sete principados independentes em que se dividia a China na época. A disputa se encerrou em 221 a.C., com a vitória do príncipe de Qin, Shi Huang Di (que, em chinês, quer dizer “Primeiro Imperador”).

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c. 221-210 a.C. Terracota. Shaanxi History Museum, China. Foto: Tim Graham/Easypix

O Império Chinês Ao assumir o poder, Shi Huang Di unificou o território chinês e, a seguir, tomou uma série de medidas visando enfraquecer a nobreza e centralizar o poder: obrigou os chefes dos antigos principados a se mudarem para a capital e a entregarem suas armas para que fossem derretidas; adotou um sistema único de pesos e medidas e uma moeda única; padronizou a escrita; definiu leis para o país inteiro e introduziu os concursos para o preenchimento de cargos públicos (os empregos no governo até então eram privilégio da nobreza). Shi Huang Di coordenou também grandes obras de irrigação e deu continuidade à construção da Grande Muralha para se defender de invasores. Além disso, com base em suas crenças, mandou construir um exército de terracota composto de cerca de 7 mil guerreiros, muitos deles acompanhados de cavalos, a fim de proteger seu túmulo e servi-lo depois da morte. Um soldado do famoso exército de terracota. Essas estátuas foram encontradas em 1974, por camponeses do condado de Lintong, e declaradas pela Unesco Patrimônio Cultural da Humanidade. As figuras de tamanho natural, esculpidas individualmente, eram dispostas em posição marcial, para guardar o imperador Huang Di no além-túmulo. Este soldado provavelmente tinha em suas mãos uma lança e um escudo. Nessa grande obra foram utilizados cerca de 700 mil trabalhadores forçados.

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A dinastia Han Com a morte de Shi Huang Di, as disputas pelo poder foram vencidas por Liu Bang, o primeiro imperador da dinastia Han, em 206 a.C. Os Han fortaleceram o poder real, aliando-se à nobreza e valendo-se de seus exércitos particulares; adotando o recrutamento obrigatório de homens com idade de 30 anos para servirem o exército; e estabelecendo uma língua oficial para todo o país, o mandarim. Uma vez fortalecidos, lançaram ofensivas sistemáticas contra seus vizinhos e alargaram o território chinês em direção à Mongólia (ao norte do império), ao centro e ao sul da Ásia. As conquistas territoriais fizeram com que a influência chinesa na Ásia aumentasse, fato confirmado por achados arqueológicos, como machados, armas (espadas, bestas) e fragmentos da cerâmica Han nas áreas conquistadas. Enquanto ampliavam seu território, os chineses expandiram também seu comércio exterior com a Índia e com as possessões orientais do Império Romano. Fontes chinesas informam que no ano 166 uma embaixada de mercadores romanos esteve na China, atraída pela seda, artigo chinês mais cobiçado no Ocidente. Desde então, o comércio entre o Oriente e o Ocidente se intensificou. Caravanas chinesas partiam do vale do rio Amarelo, carregadas de sedas, joias, vidros, estatuetas e pedras preciosas, seguindo pela chamada Rota da Seda até os portos do Oriente Próximo; de lá, mercadores de diferentes origens distribuíam esses produtos por todo o Império Romano. Observe o mapa.

Repare que os caminhos terrestres da seda tinham como ponto inicial as cidades chinesas de Luoyang e/ou Chang’an e, como pontos de chegada, as cidades de Trebisonda, no Mar Negro, e Tarso e Beritos, no Mediterrâneo Oriental. Beritos era o nome que se dava na época à atual cidade de Beirute (capital do Líbano).

Allmaps

Rota da seda (século II a.C.)

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Trópico de Câncer

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Mar Negro

OCEANO ÍNDICO

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Caminhos terrestres da seda 110° L

Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 106.

A extraordinária expansão territorial e comercial sob a dinastia Han, a partir da metade do século II a.C., só foi possível graças ao aumento da produção de riquezas que, por sua vez, está associado aos progressos técnicos feitos pelos chineses na época. CAPÍTULO 6 | CIVILIZAÇÃO CHINESA

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Christian Kober/Easypix

Os avanços técnicos

Fotografia de 2008 em que se vê uma garota carregando baldes em frente a uma roda-d’água na antiga cidade de Lijiang, considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, e que se encontra na atual província de Yunnan, sudeste da China. O moinho movido a água, tão usado no Brasil colonial para moer a cana, é uma invenção chinesa.

Os chineses desenvolveram a metalurgia do ferro e passaram a produzir ferramentas agrícolas (pás, enxadas) mais eficientes, fator que, somado ao uso generalizado do arado puxado por bois, ajudou a aumentar a produtividade na agricultura. O aumento da oferta de alimentos favoreceu o crescimento da população e liberou pessoas para trabalharem em outras atividades, como o artesanato de cobre, com o qual se faziam as moedas e o comércio. Durante a dinastia Han, os chineses inventaram também o carrinho de mão, o papel e o moinho movido a água. Com a queda dos Han, em 220 d. C. o Império Chinês se dividiu em vários reinos independentes, abrindo-se um período marcado por guerras internas e invasões, que durou cerca de quatro séculos. No século VI, enquanto a Europa Ocidental vivia um período de descentralização política e de consolidação do cristianismo, na China, com a ascensão do Sui-Tang, o poder voltou a se concentrar nas mãos do imperador e assistiu-se ao fortalecimento do budismo.

Os Sui-Tang Produtividade:

no texto, capacidade de obter alimentos em menos tempo, utilizando o mesmo espaço.

Budismo:

religião indiana que entrou na China por volta do século I e atingiu o auge de sua popularidade entre os séculos VI e VIII.

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Nos três séculos de duração dessa dinastia, a China se beneficiou de uma série de reformas implementadas por seus imperadores, entre as quais: » a reconstrução, por volta do ano 600, de duas importantes capitais do império, Chang’an, a principal, e Luoyang, a secundária. Essas duas cidades ganharam avenidas largas e arborizadas, um centro administrativo e extensas muralhas; » a construção de uma rede de canais navegáveis, de cerca de 40 m de largura, destinados a ligar diferentes regiões econômicas da China; » a sistematização de textos jurídicos (em 624 foi redigido um código de leis, o primeiro a chegar completo até nós); » a distribuição equitativa de lotes de terra vitalícios entre os camponeses. O objetivo era dar a cada família camponesa a superfície de terra indispensável à subsistência e ao pagamento dos impostos; » a reorganização e o treinamento dos exércitos imperiais para o caso de guerras prolongadas.

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C. 618-906. Cerâmica. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Esse conjunto de importantes reformas possibilitou o progresso alcançado pela China durante os séculos seguintes. Organizado e dotado de cavalaria e milícias treinadas, o Império Tang partiu para a guerra de conquista. E, em algumas décadas, incorporou pelas armas ou por acordos uma vasta área, que ia do Reino de Silla (Coreia), a leste, até a Pérsia, a oeste, sendo detido pelo Império Islâmico, em 751, na batalha de Talas. Maior e mais rico, o Império Chinês tornou-se uma das potências daqueles tempos. As conquistas realizadas durante a dinastia Tang contaram com a ajuda decisiva de um animal, o cavalo, e de uma antiga arma do exército, a cavalaria. No início da dinastia Sui-Tang, os exércitos chineses dispunham, ao todo, de cerca de 5 mil cavalos. Cinquenta anos depois, os campos de criação governamentais reuniam a incrível soma de 700 mil cavalos. Essa paixão por cavalos, típica do período Sui-Tang, reflete-se também na pintura (alguns artistas chineses da época especializaram-se na pintura equestre) e na escultura (várias delas representam figuras humanas a cavalo).

Cavalo de cerâmica da dinastia Tang encontrado em uma tumba na Província de Henan, China.

A sociedade Tang Mandarim:

funcionário pertencente ao grupo dos letrados e admitido por concurso.

c. 618-907. Terracota. Xi’an Beilin Museum, China. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Na época dos Tang, o imperador governava por meio de decretos, nomeando e demitindo pessoas a seu bel-prazer. Já a nobreza era o grupo mais rico e prestigiado da sociedade: parte dos nobres possuía terras, indústrias (fundições e fiações) e lojas comerciais; outra parte vivia em grandes propriedades cultivadas por centenas e até milhares de camponeses. Dessa nobreza tradicional saíam os altos funcionários: coletores de impostos, juízes, chefes de polícia e mandarins. Eles moravam em residências confortáveis, localizadas no campo, e cultivavam o hábito de jogar xadrez. Outro grupo com riqueza e prestígio na época era o dos mercadores, muitos dos quais estrangeiros, já que os Tang facilitaram a entrada deles no país. Muitos deles enriqueceram exportando para a Europa produtos de luxo, sobretudo a seda e a porcelana, que eram pagos pelos europeus com metais preciosos (ouro ou prata). Outra parte lucrava com um ativo comércio interno, que se valia dos rios e de uma rede de estradas para o escoamento de suas mercadorias. Nos núcleos urbanos, havia ainda artesãos reunidos em corporações, trabalhadores especializados, como guardas, cozinheiros e músicos, e trabalhadores braçais, que transportavam mercadorias e pessoas, construíam e consertavam estradas e cuidavam da limpeza pública. Havia ainda os escravizados (geralmente, ex-prisioneiros de guerra ou indivíduos que deviam à Justiça). Os camponeses, por sua vez, eram o grupo social mais numeroso. Trabalhavam em troca de parte da colheita, do nascer ao pôr do sol, nas

Estela em terracota representando um músico, Dinastia Tang.

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Pascal Deloche/Godong/Corbis/Latinstock

plantações de arroz, chá, cereais e frutas e alimentavam-se basicamente de carne de porco ou de peixe e arroz. Eram obrigados também a trabalhar em obras públicas, como canais de irrigação, muralhas, além de servirem como soldados nas guerras de conquista. Nos períodos de enchentes, secas prolongadas ou guerras, os camponeses eram os mais prejudicados e se revoltavam com frequência. A sociedade chinesa estava assim constituída quando foi influenciada por uma religião vinda da Índia, o budismo.

O budismo

Detalhe de pintura de um templo budista em Seul (Coreia do Sul), com o menino Sidarta Gautama ao centro. Fotografia de 2008.

DIALOGANDO a) Você consegue se concentrar ao fazer as atividades do dia a dia? b) Você considera isso importante? Por quê? Respostas pessoais. Professor: aproveitar as questões para refletir com o aluno sobre a atitude dele nas aulas, já que a concentração é fundamental para uma aprendizagem significativa.

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O budismo desenvolveu-se a partir dos ensinamentos do jovem príncipe Sidarta Gautama, que nasceu em terras então pertencentes à Índia, por volta de 565 a.C. Conta a tradição que Sidarta foi criado no palácio de seu pai, em um ambiente de luxo e conforto, e cercado de pessoas jovens, alegres e saudáveis. Para que não conhecesse os aspectos tristes da vida, foi proibido pelo pai de ultrapassar as muralhas do palácio. Certo dia, porém, o jovem Sidarta saiu do palácio a fim de conhecer outras pessoas e lugares. Em um de seus primeiros passeios, avistou um homem muito velho e enrugado, que caminhava com o auxílio de uma bengala. Depois, encontrou um homem com o rosto cheio de feridas causadas por uma doença grave, e, em um terceiro passeio, deparou-se com um cadáver do qual faltavam partes que tinham sido devoradas por lobos. Essas três visões – a da velhice, a da doença e a da morte – chocaram Sidarta tão profundamente que ele decidiu abandonar a vida de luxo e conforto e buscar uma resposta para a pergunta: “Por que os seres humanos sofrem?”. Contam que, a partir daí, ele passou a se dedicar à meditação e que, enquanto meditava, se transformou no Buda, o “Iluminado”. Uma verdade para o Buda é que o ser humano sofre; outra verdade é que a causa do sofrimento é o desejo. E outra verdade ainda é que é possível deixar de sofrer renunciando ao desejo e controlando o ego. Assim, ao libertar-se de todo desejo, a pessoa deixa de sofrer e alcança o nirvana, isto é, a “perfeita consciência”, um estado de completa paz e felicidade. Além disso, a alma não morre com a pessoa, ela continua a viver em outro corpo, a fim de pagar por erros de vidas passadas. Alcançando o nirvana, a pessoa não terá mais de reencarnar (renascer em outro corpo), pois já estaria livre de todo sofrimento. Para chegar ao nirvana, Buda aconselhava seguir oito regras, entre as quais compreender, falar e agir corretamente; ser esforçado; viver de modo sóbrio; ser justo e ter concentração para realizar o que é necessário. Valorizando a simplicidade, a sabedoria e a não violência, o budismo alastrou-se rapidamente pela Ásia, alcançando o Tibete e a China, e, posteriormente, a Coreia e o Japão.

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O budismo na China Lowell Georgia/Corbis/Latinstock

Depois da morte de Buda, seus ensinamentos foram disseminados pelo continente asiático. Na China, o budismo foi introduzido no século I e atingiu o auge da popularidade durante a dinastia Tang, entre os séculos VI e VIII. Os mosteiros budistas contavam com grandes bibliotecas, verdadeiros centros de saber e de ensino. Na China, os comerciantes foram os responsáveis pela introdução do budismo. Por isso, os primeiros centros budistas foram erguidos nas áreas comerciais das grandes cidades, como Chang’an. Os chineses adaptaram o budismo à sua cultura. Os mosteiros eram centros de cultura laica e religiosa, chinesa e budista, mas eram também grandes propriedades agrícolas livres de impostos, fato que, com o tempo, passou a incomodar as autoridades. Os monges chineses eram poetas, pintores, calígrafos e artesãos habilidosos na transformação do cobre em estátuas e objetos de culto.

O governo chinês contra o budismo Com o crescimento do budismo na China, a autonomia e o privilégio dos monges passaram a ser considerados uma ameaça ao Estado que, por sua vez, começou a persegui-los. As principais razões da perseguição ao budismo na China foram: » o governo chinês acusava o budismo de ser uma religião de estrangeiros e a causa do enfraquecimento moral e econômico da China; » os mosteiros budistas eram ricos em terras e em metais com os quais os monges faziam objetos como sinos e estátuas, em uma época em que o Estado tinha dificuldades financeiras e falta de cobre para cunhar suas moedas; » os monges e as monjas não pagavam impostos sobre as terras e construções que possuíam; » ao se converter ao budismo, uma religião pacifista, as pessoas negavam-se a servir o exército chinês, em uma época de guerras.

Na China, durante o período Tang, o budismo conheceu seu apogeu. Essa religião fazia parte da cultura e da política chinesas na época. Na imagem acima, de 1981, imensa escultura de Buda na região de Luoyang.

Nesse contexto, o governo fez um inventário dos bens dos mosteiros e baixou um decreto imperial, em 845, confiscando terras, metais e moedas que faziam parte do patrimônio dos monges. Além disso, obrigou 260 mil religiosos – monges e monjas – a retornar à vida laica e obedecer às leis civis passando, portanto, a ter de pagar impostos. Investiu contra 4 600 mosteiros, que foram destruídos ou transformados em prédios públicos e mandou demolir 40 000 espaços budistas de culto. CAPÍTULO 6 | CIVILIZAÇÃO CHINESA

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André Perazzo/Folhapress

Jose Fuste Raga/Corbis/Latinstock

Com isso, o budismo sofreu graves prejuízos na China; o grande mosteiro com seus domínios, seus moinhos e seus lagares foi fortemente abalado pelo Decreto de 845. Na dinastia Song, contudo, a religião budista se recuperou parcialmente na China e, ao longo do tempo, aumentou o número de adeptos em outras partes do mundo.

À esquerda, estátua de Buda na cidade de Kamakura, Japão, 2010. À direita, estátua de Buda no templo Zu Lai, em Cotia (SP), 2006.

A dinastia Song Séc. XII. Cerâmica. Metropolitan Museum of Art, Nova York. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Com o objetivo de pôr fim às disp disputas e guerras internas, que vinham ocorrendo na China havia décadas, Zhao Knangyin, comandante da guarda do palácio, tomou o poder por meio de um golpe e fundou a dinastia Song (960-1279). Durante o governo dessa dinastia, o sistema de concursos tornou-se uma fonte importante de fornecimento de funcionários para o serviço público. Estes eram selecionados com base no diploma e em concursos rigorosos; daí se dizer que sob os Song a China foi governada por uma elite letrada.

A China no ano 1000

Jarro de cerâmica da dinastia Song, século XII.

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Por volta do ano 1000, a China da dinastia Song viveu um tempo de grande prosperidade: a produção agrícola aumentou graças ao desenvolvimento da cultura do arroz. Mais bem alimentada, a população cresceu, alcançando a casa dos 100 milhões de habitantes. Esse crescimento incentivou a vida urbana, destacando-se, nesse processo, a cidade de Kaifeng, a capital dos Song. Além de servir como centro político e administrativo, Kaifeng era um ponto de comércio e turismo, possuindo hospedarias, lojas e oficinas de artesanato e estabelecimentos que serviam bebidas e pratos requintados.

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A elite para lá se dirigia utilizando o riquixá. Sua população, incluindo centro e subúrbio, chegava a 1 milhão de habitantes. Os alimentos chegavam a Kaifeng por estradas de pedras bem construídas, ou por via fluvial (rios e canais), em barcaças, o que ativou o comércio interno. Outro setor que cresceu foi a indústria, que se aproveitava do carvão mineral e do ferro. O crescimento industrial e comercial, por sua vez, estimulou o comércio externo, principal fonte de arrecadação do Império Song. Com até doze velas, os veleiros chineses, os maiores do mundo na época, percorriam longas distâncias abarrotados de seda, porcelanas e papel. As viagens nos veleiros chineses se tornaram mais seguras com o uso da pólvora e da bússola, inventadas pelos próprios chineses, na época. A bússola, uma agulha magnética permanentemente apontada para o norte, foi utilizada pela primeira vez nos veleiros chineses por volta de 850. Da China, a invenção espalhou-se por diversas partes do mundo. A pólvora aparece pela primeira vez em um livro chinês de 1044. Inicialmente, os chineses a usaram para fazer fogos de artifício, mas ainda durante a dinastia Song foi empregada para fins militares, em rifles e foguetes e, por fim, em canhões que defenderam Kaifeng de ataques externos.

Papel e impressão de livros na China

veículo leve, de duas rodas, puxado por um homem a pé; é originário do Japão, mas também utilizado em vários locais do Oriente.

Litogravura que representa o chinês Pi-Sheng trabalhando com seus “tipos móveis”. Os europeus só viriam conhecer a tipografia por volta de 1456, mais de 400 anos depois dos chineses.

H. M. Burton. c. 1915. Coleção particular. Foto: Bettmann/Corbis/Latinstock

O papel foi inventado pelos chineses por volta do século I, a partir de uma mistura de casca de amoreira, fibras de bambu e água. Durante a dinastia Song, aperfeiçoou-se o processo de produção do papel e desenvolveu-se a técnica da impressão. Enquanto na Europa os monges passavam meses copiando à mão livros ditados por seus colegas, os chineses já imprimiam livros por meio de duas técnicas que eles próprios inventaram: a xilogravura (palavra de origem grega que significa “gravar em madeira”) e a tipografia. O mais antigo registro escrito com a técnica da xilogravura é uma página de uma oração budista, impressa na China, em 868, por Wang Chiech. Na xilogravura, o primeiro passo era entalhar os diversos caracteres em um único bloco de madeira, deixando em relevo aquilo que se pretendia imprimir. Depois, o trabalhador aplicava tinta nas partes altas do bloco e colocava a página sobre ele, pressionando-a com uma almofada. A seguir, punha a página impressa para secar em um varal. Já no caso da tipografia, o trabalhador esculpia cada ideograma em um bloco; a seguir, acomodava os blocos em uma caixa na posição vertical, de modo a formar frases com sentido. Aplicava, então, a tinta e imprimia a página; o número de páginas impressas variava com a quantidade de exemplares pretendida. A tipografia, inventada por Pi-Sheng em 1041, só chegou à Europa por volta de 1456.

Riquixá:

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No entanto, a tipografia, para os chineses, era muito trabalhosa, pois, enquanto nosso alfabeto tem apenas 26 caracteres, a escrita chinesa faz uso de milhares. Assim sendo, na China dos Song, os livros eram impressos usando-se quase sempre a técnica da xilogravura, mais simples, mais barata e mais adequada aos ideogramas chineses.

Povos nômades conquistam a China Mongol:

grupo nômade de exímios cavaleiros que viviam nas estepes localizadas ao norte da China.

Apesar de rico e poderoso, o Império Song não resistiu a sucessivos ataques de povos nômades e, posteriormente, à invasão dos mongóis. Em 1207, Gengis Khan, imperador mongol, uniu grupos nômades sob sua liderança e invadiu a China pelo norte, incendiando dezenas de cidades e espalhando o pavor entre os chineses. Em 1279, seu neto, Kublai Khan, completou a conquista da China, estabeleceu sua capital em Beijing e adotou um nome chinês para sua dinastia (Yuan), que governou até 1368. Foi durante a dinastia mongol que o europeu Marco Polo visitou a China; sua viagem foi registrada por escrito no Livro das maravilhas, que continua atraindo os leitores pela riqueza e precisão das informações e por sua importância como fonte para o conhecimento da China.

Filosofia, religião e medicina tradicional Duas filosofias importantes na história passada e presente da China são o confucionismo e o taoismo.

O confucionismo

Dica! Animação sobre a vida de Confúcio. [Duração: 14 minutos]. Acesse: <http://tub. im/sy4fr8>.

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A filosofia de Kung Fu-Tzu (551 a.C.- 479 a.C.) – que os missionários jesuítas do século XVII chamavam, em latim, Confucius, e nós, em português, denominamos Confúcio – influenciou enormemente os chineses, inclusive os imperadores da dinastia Han. Esse sábio chinês não deixou nada escrito; dele temos apenas o que chegou até nós por meio da tradição oral e de uma coletânea de textos, o Lunyu, redigido por seus discípulos após sua morte. Mestre de uma tradição de escribas que se propunham a formar homens de bem, Confúcio dava grande importância ao aperfeiçoamento individual, isto é, ao domínio dos gestos, das ações e dos sentimentos. Para Confúcio, a virtude é resultado de um esforço individual, e não uma qualidade inata aos nobres, como até então era considerada. A ideia do esforço individual para alcançar a virtude fundamentou a decisão imperial de introduzir os concursos para preenchimento de vagas no funcionalismo público. A sabedoria, segundo Confúcio, poderia ser atingida respeitando-se as regras da vida social (Yi), o próximo e a si mesmo, e valorizando a reciprocidade (Chi).

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Contrário ao espírito de competição adotado pela nobreza, Confúcio propunha relações baseadas no respeito à tradição, na tolerância e no culto aos antepassados. Para ele, a família constituía a base da sociedade. E a família ideal é aquela em que os jovens respeitam os mais velhos, os filhos obedecem aos pais, a esposa obedece ao marido e aos sogros, e o imperador cultua seus antepassados. DIALOGANDO

Xixinxing/Getty Images

a) Nota-se que os idosos têm um papel de destaque, seja pelo protagonismo demonstrado na cena, seja pelas roupas com que se apresentam vestidos. Para Confúcio, os filhos, mesmo quando casados, deviam cuidar dos pais especialmente quando idosos ou doentes. b) Resposta pessoal. Professor: chamar a atenção para a existência dos vários modelos de família existentes na sociedade brasileira. c) Resposta pessoal.

a) O que se pode observar quanto ao papel do idoso na família chinesa, com base nesta foto? b) Você considera a família importante para a manutenção do equilíbrio social? c) Qual a importância da família na sua vida? Família chinesa reunida para a refeição em fotografia de 2013. Note a presença de pessoas de três gerações, fato comum nos lares chineses.

Ao longo do tempo, observou-se uma seleção e apropriação das ideias de Confúcio por parte do Império Chinês; os Han, por exemplo, diziam que, assim como os filhos devem obedecer aos pais, o povo deve ser obediente ao imperador. No século II a.C., o confucionismo tornou-se a doutrina oficial do Império Chinês e matéria obrigatória dos concursos públicos. Da China, o confucionismo se expandiu para outras áreas do Oriente, especialmente Japão, Coreia e Vietnã.

O taoismo A China antiga viu florescer também o taoismo, filosofia cujas bases estão contidas no Tao te ching, o livro do caminho e da virtude, atribuído ao pensador Lao Tse (século VII a.C.). O taoismo se opõe à ostentação e ao luxo e propõe uma vida simples e em harmonia com a natureza; só aquele que vive com simplicidade é feliz e pode atingir o Tao. Essas ideias, provavelmente, contribuíram para atrair trabalhadores do campo e das cidades para as fileiras do taoismo e para torná-lo popular na China. A valorização de uma vida em permanente contato com a natureza inspirou a pintura de paisagens. O taoismo propõe uma vida que alterne rotinas de trabalho com descanso e lazer. Segundo o taoismo, tudo o que ocorre no Universo resulta de diferentes interações, combinações entre o yin e o yang, duas forças/ energias opostas e complementares. Essa visão se aplica também ao corpo humano, o que ajuda a explicar por que ele serviu de base para a acupuntura, uma técnica da medicina tradicional chinesa.

Dica! Documentário que aborda os ensinamentos e a filosofia do confucionismo e do taoismo. [Duração: 48 minutos]. Acesse: <http://tub. im/8cf6vx>.

Tao:

o significado da palavra tao é objeto de debates entre os estudiosos; a versão mais aceita é a de que signifique “caminho”.

DIALOGANDO Por que será que os imperadores Han transformaram o confucionismo em religião oficial do império e perseguiram o taoismo?

Os imperadores Han fizeram uso político do confucionismo afirmando que, da mesma forma que o filho deve obedecer ao pai, o povo deve ser obediente ao imperador; já o taoismo tinha grande penetração entre os camponeses, que se rebelaram contra o império.

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Conforme uma estudiosa de cultura chinesa:

Editoria de arte

[...] O símbolo yin-yang, que está na base da visão de mundo chinesa. Yin é a energia feminina e é representada pela metade preta. Yang é a energia masculina e corresponde à cor branca. As duas forças estão em constante interação e têm elementos da outra. A parte branca possui um ponto preto, o que indica que pode se transformar em seu oposto e vice-versa. TREVISAN, Cláudia. Os chineses. São Paulo: Contexto, 2009. p. 141.

Taiji, representação das energias opostas yin e yang, que conservam o equilíbrio do Universo.

Pontos (de acupuntura):

A palavra “acupuntura” vem do latim acus, que significa “agulha”, e punctura, que significa “picada”. Para a acupuntura, o ser humano é um todo feito, simultaneamente, de matéria e energia. Essa energia, chamada pelos chineses de Chi, circula pelo organismo por meio de meridianos (linhas imaginárias na superfície do corpo), e os bloqueios/interrupções na circulação dessa energia é que dariam origem aos distúrbios/doenças. A técnica da acupuntura consiste em harmonizar o corpo e a mente, liberando os canais pelos quais a energia vital corre. O tratamento é feito por meio da inserção de agulhas finíssimas em determinados pontos dos canais e a diferentes profundidades. Os chineses, ao longo de milhares de anos, identificaram centenas de pontos de acupuntura, 365 dos quais foram classificados em 14 grupos principais. São 12 os meridianos primordiais que comandam órgãos como pulmão, intestino grosso, estômago, baço. A acupuntura foi introduzida no Brasil pelos imigrantes japoneses que vieram trabalhar nas lavouras de café, no século XIX. A Organização Mundial da Saúde lista 40 doenças para as quais a acupuntura é indicada. Em 1995, foi reconhecida no Brasil como especialidade médica e, desde 1998, está incluída no Sistema Único de Saúde (SUS). Estudos recentes indicam que o número de pacientes que buscam a acupuntura nas unidades do SUS vem crescendo consideravelmente nos últimos anos. Alberto Guglielmi/Zumapress/Easypix

Ulrich Baumgarrten via Getty Images

pontos estratégicos nos canais pelos quais passa a energia vital (Chi).

A acupuntura

À esquerda, modelo masculino em plástico com as marcações dos pontos de acupuntura. À direita, mulher sendo submetida a um tratamento de saúde por meio da acupuntura. A técnica é indicada para o tratamento de vários distúrbios e no alívio à dor.

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1. a) A afirmação sugere que a China possui uma influência enorme no mundo atual; no Brasil, por exemplo, tem aumentado o número de escolas que ensinam o mandarim. [A escrita chinesa é ideográfica: cada caractere representa uma ideia. Já a escrita ocidental é fonética: cada letra equivale a um som.] 1. b) Resposta pessoal. [A intenção é estimular a reflexão sobre um povo com cultura, escrita e valores bem diferentes da cultura ocidental.]

ATIVIDADES I. Retomando

ESCREVA NO CADERNO.

1. c) De acordo com a autora do livro de onde o texto foi extraído, a solução dada pelos chineses foi a utilização de um sistema de escrita chamado pinyin, que

1. Leia o texto a seguir com atenção e responda ao é a representação em alfabeto romano que se pede.

A escrita

do idioma chinês falado. Assim, a expressão “eu como” é chinesa representada, no sistema de escrita pinyin, “wo chi fan”.

A escrita chinesa foi durante séculos uma muralha invisível para os estrangeiros que tentavam compreender o Império do Meio [...]. Hoje ela continua a ser um desafio imenso para os forasteiros, mas, à diferença do passado, é possível aprender mandarim em qualquer grande cidade do mundo. [...] Para ser capaz de ler um jornal, uma pessoa deve saber no mínimo dois mil caracteres e um chinês educado deve dominar pelo menos quatro mil. Memorizar cada um é o único caminho para aprendê-los e é surpreendente que a China tenha um índice de analfabetismo de apenas 10% com um sistema de escrita tão complicado. As crianças começam a se familiarizar com os caracteres por volta dos três anos, bem antes de as crianças ocidentais serem apresentadas ao alfabeto, e dedicam muito mais tempo a estudá-los. [...] TREVISAN, Cláudia. Os chineses. São Paulo: Contexto, 2009. p. 63-64.

a) A autora diz que é possível aprender mandarim em qualquer grande cidade do mundo; o que essa afirmação sugere? b) Comente a atitude dos chineses diante do desafio de ter de conhecer no mínimo 2 mil caracteres para conseguir ler um jornal. c) Pesquise e descubra de que forma os chineses escrevem com o computador, já que é impraticável um teclado com 4 mil caracteres. 2. Os camponeses exerceram um papel de destaque ao longo de toda a história milenar da

China. Justifique, com exemplos retirados da China imperial. 3. (UFSC-2012) Várias sociedades antigas se desenvolveram ao longo de rios. Sobre elas, assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S). 01. As antigas China e Índia também são consideradas sociedades hidráulicas e se favoreceram, respectivamente, dos rios Amarelo e Indo. 02. A China antiga foi rica em pensadores, como Sun Tzu, Confúcio e Lao-Tsé. Uma obra conhecida até hoje e que foi produzida no seio desta sociedade é o tratado militar A arte da guerra. 04. A Mesopotâmia, região localizada entre os rios Tigre e Eufrates, foi assim batizada pelos gregos por ficar entre os dois rios. 08. Vários povos formavam o que conhecemos por Mesopotâmia. Entre os principais, figuram aqueus, jônios, eólios e dórios. 16. O Egito foi uma sociedade expansionista desde o período inicial de sua unificação política, o que levou aquela sociedade a estender suas conquistas até o território que hoje conhecemos como Paquistão. 32. O ciclo agrícola proporcionado pelo rio Nilo se refletiu nas concepções mitológicas dos egípcios antigos. 3. Somatória correta: 39 (1, 2, 4, 32). 4. (UFAL) A milenar cultura chinesa, sob as diversas dinastias que estiveram no seu governo, produziu artefatos dos quais até hoje somos beneficiários. A dinastia Han, por exemplo, na qual boa parte das medidas inspirava-se nas ideias de Confúcio: a) foi marcada pelo desenvolvimento tecnológico e comercial, dos quais se sobressaem a introdução do arado puxado por bois, a utilização de instrumentos de ferro, a construção de canais de irrigação e o estabelecimento da chamada “rota da seda”. 4. Resposta: a. b) promoveu o desenvolvimento tecnológico, como a utilização do arado puxado por bois e a construção da “grande muralha da China”.

2. Na China imperial os camponeses eram o grupo social mais numeroso; cultivavam a terra dos nobres em troca de parte da colheita, trabalhavam em obras públicas e serviam como soldados nas guerras.

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5. a) Ela não “nasceu” grande, nem foi obra de uma única dinastia. Acredita-se que sua construção começou na dinastia Chou e teve continuidade na época dos sete principados, quando cada um deles ergueu suas próprias muralhas para se defender dos outros. Depois, o imperador Shi Huang Di deu ordem para derrubar essas várias muralhas e construir uma única. Nos séculos seguintes os trabalhos foram retomados. Mas foi na dinastia Ming (1368-1644) que a muralha atingiu sua extensão máxima e a forma que tem hoje.

Sinopics/Getty Images

c) estreitou as relações comerciais com outras regiões asiáticas, sofreu a invasão dos exércitos de Gengis Khan e instituiu um calendário de 365 dias. d) favoreceu o desenvolvimento do comércio, estreitando-se as relações com outras regiões, embora tenha sido marcada, principalmente, pela instituição de um sistema de pesos e medidas unificado. e) pode ser identificada pela instituição de um calendário de 365 dias, pela criação de uma escrita primitiva e pela utilização de conchas do mar como moedas de troca. 5. A imagem que você vê é da Grande Muralha da China, a maior edificação do planeta. Ela corta o território chinês, de leste a oeste, por 5 mil quilômetros. Faça uma pesquisa rápida e responda ao que se pede. Em seguida, construa um texto ilustrado e poste seu trabalho no blog da turma.

Aspecto atual da Grande Muralha da China, em fotografia de 2009.

a) Será que essa muralha foi obra de uma única dinastia? b) Com que objetivo ela teria sido construída? c) Quem a construiu? d) Em 1987, a Muralha da China foi considerada pela Unesco patrimônio cultural mundial. Você sabe o que significa patrimônio cultural?

5. b) Seu objetivo inicial era defender a China dos ataques dos hunos e, é claro, fortalecer o poder de seus imperadores. 5. c) Não se sabe quanto tempo nem quantos trabalhadores foram usados na construção da muralha; diz a tradição que foi um milhão. Há quem diga que depois de algum tempo de trabalho o imperador Huangdi mandava matar os trabalhadores utilizados na construção, para que não contassem a ninguém sobre a Grande Muralha. 5. d) Patrimônio cultural é o conjunto de todos os bens de natureza material e imaterial de um país.

II. Integrando com Geografia Leia o texto a seguir com atenção. PROFESSOR, VER MANUAL.

A longevidade da civilização e do Império Chinês

Algumas civilizações da Antiguidade tiveram duração menor (Egito e Mesopotâmia) e outras, maior (Índia e China), assim como os impérios correspondentes. A China é o caso de civilização de maior duração e isto se deve a vários fatores, que foram se conjugando ao longo do tempo. A posição geográfica da China, no Extremo Oriente, foi um fator de proteção diante das invasões, comparativamente às áreas de trânsito mais fácil. As conquistas de Alexandre alcançaram o Egito, a Mesopotâmia, a Pérsia, a Índia, mas não a China, que estava longe demais. [...] Além da posição geográfica vantajosa, outros fatores se combinaram para permitir uma vida rica e duradoura à civilização chinesa: 1) a gênese e expansão da agricultura intensiva de arroz; 2) o nascimento de filosofias civilizatórias e tolerantes, como o taoismo e o confucionismo (século VI a.C.); e 3) o surgimento e a consolidação da administração pública que precocemente deu origem a um estado nacional (século III a.C.). A “civilização do arroz” [...] teve importância essencial na vida material da China e da Índia e por extensão nas áreas abrangidas pelas chamadas chuvas de monção. As duas civilizações nasceram em extensas planícies fluviais, de grande fertilidade agrícola, capazes de comportar altas densidades populacionais. Além da importância na vida material, a civilização do arroz, nascida na exuberância natural da Ásia das Monções (chuvas abundantes e rios caudalosos com grandes planícies férteis), teve papel importante na vida espiritual dos seus habitantes, dando origem às religiões e filosofias fortemente pacifistas e tolerantes [...]. MAMIGONIAN, Armen. As bases naturais e sociais da civilização chinesa. In: MAMIGONIAN, Armen; BASTOS, José Messias (Org.). Geografia Econômica: Anais de Geografia Econômica e Social, Florianópolis: UFSC, n. 1, jul. 2008. Disponível em: <http://www.geoeconomica.ufsc.br/files/2010/03/Geografia-Economica.pdf>. Acesso em: 18 dez. 2012.

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a) O texto na página anterior pode ser classificado como literário, dissertativo, jurídico ou jornalístico? Justifique. b) Entre os fatores geográficos apontados para explicar a longevidade da civilização chinesa, qual você considerou mais importante? Justifique sua escolha. c) Segundo o autor, a “civilização do arroz” teve importância material e espiritual na vida dos chineses. De que forma ele justifica essa afirmação?

III. Você cidadão! Nesta unidade vimos a importância da água para as chamadas civilizações fluviais, como a do Egito e a da China. Neste texto vamos pensar sobre a importância da água nos dias atuais.

Água doce e limpa: de “dádiva” à raridade Estudiosos preveem que em breve a água será causa principal de conflitos entre nações. Há sinais dessa tensão em áreas do planeta como Oriente Médio e África. Mas também os brasileiros, que sempre se consideraram dotados de fontes inesgotáveis, veem algumas de suas cidades sofrerem falta de água. A distribuição desigual é causa maior de problemas. [...] O Brasil concentra em torno de 12% da água doce do mundo disponível em rios e abriga o maior rio em extensão e volume do Planeta, o Amazonas. Além disso, mais de 90% do território brasileiro recebe chuvas abundantes durante o ano e as condições climáticas e geológicas propiciam a formação de uma extensa e densa rede de rios [...]. Essa água, no entanto, é distribuída de forma irregular, apesar da abundância em termos gerais. A Amazônia, onde estão as mais baixas concentrações populacionais, possui 78% da água superficial. Enquanto isso, no Sudeste, essa relação se inverte: a maior concentração populacional do País tem disponível 6% do total da água. [...]

Alternativas A água disponível no território brasileiro é suficiente para as necessidades do País, apesar da degradação. Seria necessário, então, mais consciência por parte da população no uso da água e, por parte do governo, um maior cuidado com a questão do saneamento e abastecimento. Por exemplo, 90% das atividades modernas poderiam ser realizadas com água de reúso. Além de diminuir a pressão sobre a demanda, o custo dessa água é pelo menos 50% menor do que o preço da água fornecida pelas companhias de saneamento, porque não precisa passar por tratamento. SOCIOAMBIENTAL. História da água em São Paulo. [2006?]. Disponível em: <https://www.socioambiental.org/esp/agua/pgn/>. Acesso em: 31 maio 2016.

a) Com base nas suas leituras sobre o assunto e neste texto é possível afirmar que a água será a causa principal de conflitos entre nações? Justifique. b) Qual o problema apontado no texto no tocante à reserva de água doce que o Brasil detém? c) Na sua cidade tem havido falta de água? Em caso positivo, relate o ocorrido. d) Organizem um seminário para debater três pontos: » a importância da água de reúso; » planejamento e gestão do uso da água pelo governo; » o que cada um de nós pode fazer para economizar o precioso líquido. A seguir postem as conclusões do debate no blog da turma. CAPÍTULO 6 | CIVILIZAÇÃO CHINESA

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UNIDADE

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Democracia: passado e presente

Cícero Lopes/CB/D.A Press

No Brasil atual, os cidadãos podem votar nos seus representantes (vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidente). Além disso, os cidadãos têm também liberdade de ir e vir e podem manifestar-se livremente. Com base nesses direitos, será que é possível concluir que vivemos em uma democracia plena? Não; entre os limites da democracia brasileira está a grande desigualdade social entre ricos e pobres, homens e mulheres, negros e brancos. Além disso, há ainda o fantasma da corrupção que ameaça a sociedade e a política brasileira há muito tempo.

Você já deve ter ouvido falar que os antigos gregos foram os inventores da democracia. A palavra tem, inclusive, origem grega; demos = “povo”; kratos = “poder”; democracia, portanto, significa “poder do povo”. Mas, como veremos nesta unidade, a democracia dos antigos gregos era muito diferente da nossa. Apesar disso, tal como nós, eles também se preocuparam em defender sua democracia dos maus políticos. Para isso criaram o ostracismo, que consistia em expulsar da cidade por 10 anos qualquer pessoa que representasse uma ameaça à democracia. Observe as imagens da página seguinte.

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Heritage Images/Getty Images

C. 250 a.C. Pedra. Museus Capitolinos, Roma. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Pedaço de cerâmica, encontrado em escavações arqueológicas, no qual se vê escrito o nome de um político condenado ao ostracismo.

Demóstenes: orador brilhante e defensor incondicional da democracia ateniense. Professor: a intenção aqui foi partir do presente para interessar o aluno pelo estudo do passado, com destaque para o modelo de democracia criada pelos antigos gregos. Buscou-se também fornecer elementos para o tratamento do tema em uma perspectiva temporal. Ao final da unidade, sugerimos retomar o tema e propor ao alunado que compare o modelo grego ao modelo brasileiro, atento às diferenças e semelhanças entre um e outro; pode-se comentar, por exemplo, que tanto na Grécia antiga quanto no Brasil republicano foram criados mecanismos de defesa da democracia. Os antigos gregos criaram o ostracismo, nós inventamos a Lei da Ficha Limpa, entre outros. Esse debate inicial sobre o presente pode ajudar na decolagem do trabalho sobre o assunto.

O ostracismo era um mecanismo de defesa da democracia ateniense; você conhece algum mecanismo de defesa da democracia brasileira? Ao final desta unidade você terá mais condições de estabelecer pontes entre o passado e o presente no tocante à democracia. Agora, para esquentar esse debate inicial sobre a democracia brasileira:

» Faça uma breve pesquisa sobre como era a vida no tempo em que o Bra-

sil esteve sob uma ditadura militar (1964-1985) e estabeleça diferenças entre aqueles tempos e os tempos atuais no tocante à participação dos brasileiros na vida política. » Interprete: o que o autor da charge da página anterior quis criticar? » Alguns analistas consideram a corrupção um mal endêmico/enraizado na

cultura política brasileira. E você, o que pensa sobre o assunto? » Ao final do estudo desta unidade, reúna-se com o seu grupo e levantem o

maior número possível de informações sobre a democracia ateniense e a democracia brasileira e estabeleçam um paralelo entre uma e outra. Dica: a democracia ateniense era direta e a democracia brasileira é representativa. UNIDADE 3 | DEMOCRACIA: PASSADO E PRESENTE

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Professor: buscou-se estimular o interesse pela Grécia antiga, a partir de um dos mais importantes legados dos antigos gregos: o teatro. Os teatros gregos, a exemplo do apresentado na imagem, possuíam excelente acústica e eram formados das seguintes partes: auditório – arquibancada em formato semicircular; orquestra – espaço circular abaixo do auditório, em que ficava o coro, isto é, um conjunto de cantores e/ou dançarinos; palco – plataforma levemente elevada, em que ficavam os atores. O teatro grego atraía multidões; os concursos teatrais eram assistidos geralmente por milhares de pessoas.

Auditório

Orquestra

Palco

Christian Goupi/Easypix

Pronomos. C. 410 a.C. Cerâmica. Museu Arqueológico, Nápoles. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Capítulo 7

O mundo grego: democracia e cultura

Na imagem à esquerda, detalhe de um vaso grego de 410 a.C. com representação de atores gregos e suas famosas máscaras. À direita, o teatro de Epidauro, na Grécia, em fotografia recente. Neste espaço foram encenadas peças imortais criadas pelos gregos da Antiguidade, a exemplo de Édipo Rei, de Sófocles.

» Você sabia que na Grécia Antiga o teatro fazia parte da educação e era

gratuito? » Sabia também que as peças escritas pelos autores gregos continuam sendo

encenadas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil? » Por que será que o teatro grego continua exercendo um fascínio tão grande

quase 2 500 anos depois de sua criação? » Que outros aspectos da cultura dos antigos gregos você conhece?

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UNIDADE 3 | DEMOCRACIA: PASSADO E PRESENTE

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Allmaps

Grécia antiga (século VI a.C.) 20° L

Trácia Tarento

NIA Tasos CALCÍDICA Imbros

Ô ED

C MA Córcira EPIRO

Crotona

Dórios TESSÁLIA

Mar de Mármara 40° N

Lemnos

Mar Egeu Lesbos Termópilas ETÓLIA Delfos EUBEIA Erétria Quios Patras Tebas Cefalônia BEÓCIA Maratona ACAIA Corinto Atenas Zante ÉLIDA Samos Micenas ÁTICA Olímpia Argos Tenos Icária Mileto PELOPONESO Messena Paros Naxos Esparta MESSÊNIA LACÔNIA Milos

NIA

CA

AR

A Grécia antiga abrangia as terras da Península Balcânica e um grande número de ilhas situadas à sua volta. Além disso, ao longo do tempo os gregos ocuparam uma extensa faixa de terra na Ásia Menor (Grécia asiática), a porção sul da Península Itálica e a ilha da Sicília (Magna Grécia). O litoral grego é bastante recortado, possui bons portos naturais e é facilmente navegável, o que certamente contribuiu para estimular a navegação e o comércio marítimo.

Sicília

Mar Jônico

Siracusa

Rodes

Mar Mediterrâneo 0

135

Creta

Cnossos Festo

km

Grécia continental

Grécia asiática

Grécia insular

Magna Grécia

Fonte: PARKER, Geoffrey. Atlas da história universal. Lisboa: Verbo, 1996. p. 115.

C. 1550 a.C. Afresco. Palácio de Cnossos, Creta. Foto: G. Nimatallah/De Agostini/Getty Images

Os antigos gregos foram muito influenciados por uma civilização que se formou tendo como centro a ilha de Creta, a maior das ilhas gregas do mar Egeu. Por volta de 2000 a.C., a ilha de Creta começou a ser ocupada por povos orientais que incorporaram os nativos e fundaram importantes povoados, como Festo, Mália e Cnossos. Inicialmente, os cretenses se dedicavam ao cultivo de cereais e olivas, à criação de bois, porcos e cabras e à pesca. Posteriormente, voltaram-se para a navegação e o comércio marítimo e, apoiados em uma poderosa esquadra naval, chegaram a dominar o comércio pelo mar Mediterrâneo; um de seus principais parceiros comerciais foi o Egito faraônico, ao sul. O polo organizador da vida social cretense eram os palácios, construções monumentais que, além de abrigarem o rei e sua corte, eram centros políticos, religiosos e culturais. Os palácios eram sustentados com os produtos dos tributos pagos pela população. Cada palácio possuía vários andares, escadarias amplas, salas, templos e armazéns para guardar produtos provenientes de impostos ou do comércio. No auge de seu poderio, as cidades cretenses se comunicavam entre si por meio de boas estradas, utilizando-se de carros puxados por cavalos.

eFesenko/Shutterstock/Glow Images

A civilização cretense

Acima, ruínas do Palácio de Cnossos, na ilha de Creta. Ao lado, afresco conhecido como Príncipe dos lírios, localizado em parede desse palácio, século XVI a.C.

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1. Dica! Documentário sobre a civilização cretense e seus palácios, com destaque para o de Cnossos. [Duração: 90 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/zvy3gi>. 2. Dica! Documentário sobre a civilização micênica e os impactos históricos deixados. [Duração: 25 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ ynfabs>.

Mário Pita

3. Dica! Vídeo sobre a civilização micênica que aborda, entre outros temas, a guerra e a arquitetura. [Duração: 9 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/9r327j>.

Caracteres da escrita Linear B.

Poema épico:

poema que exalta os feitos de um povo, como Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, que exalta atos heroicos do povo português. Tanto na sociedade cretense quanto na micênica, o palácio ocupava uma posição de centralidade não só na esfera política, mas também na econômica e na cultural.

DIALOGANDO Identifique um importante elemento comum à sociedade cretense e à sociedade micênica.

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Os cretenses desenvolveram uma escrita própria a que o estudioso inglês Arthur Evans chamou de Linear A. Essa escrita ainda não foi decifrada, mas já se sabe que não era grega. Por volta de 1450 a.C., muitos povoados cretenses foram destruídos por incêndios. Não se sabe, porém, os motivos desses incêndios; uma possibilidade é que tenham sido causados pelos aqueus que, na época, invadiram e con1 quistaram Creta.

A civilização micênica Inicialmente, os aqueus ocuparam o sul da Grécia e fundaram várias cidades, sendo Micenas a principal delas; daí o nome dado à sua civilização. Ao expandirem-se pelo mar Mediterrâneo, eles entraram em contato com os cretenses, com quem aprenderam novas técnicas de construção naval e o trabalho com metais. Tais recursos os ajudaram a conquistar Creta. A partir de 1400 a.C., o palácio (incluindo a residência real, templos, oficinas e armazéns) passou a ser o principal centro de poder nas cidades aqueias; diferentemente dos cretenses, os palácios aqueus eram murados e construídos no alto de colinas. A grandeza desses palácios indica o poder que esse povo chegou a ter. Escavações arqueológicas mostram também que os aqueus comerciavam com regiões distantes. No palácio de Micenas, foram encontradas tabuinhas com uma escrita criada por eles e denominada Linear B. Tal escrita parece ter sido usada para anotar os impostos pagos pela população, os cereais armazenados, a distribuição de bens, as cabeças de gado. Ao decifrá-la, na década de 1950, os estudiosos descobriram que se tratava de um ramo da língua grega. Os aqueus, portanto, escreviam em grego. Por volta de 1200 a.C., os palácios aqueus foram destruídos, mas não se sabe por que isso aconteceu. Sabe-se, entretanto, que nessa mesma época três outros povos aparentados com os aqueus invadiram a região: os jônios e os eólios, que ocuparam a Grécia continental, e os dórios, que se instalaram na ilha de Creta. Aqueus, jônios, eólios e dórios são os antepassados dos antigos gregos. Com a destruição dos palácios micênicos, ocorreu um empobrecimento material, alguns povoados foram abandonados, e a escrita desapareceu por cerca de 300 anos. Esse longo tempo (de 1200 a 900 a.C.) é chamado de Período Homérico, pois a principal fonte usada pelos historiadores dedicados ao seu estudo são dois longos poemas épicos atribuídos ao poeta grego Homero. 2 e 3

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Para saber mais

c. 400 a.C. Vaso. Coleção particular. Foto: Album/Oronoz/Latinstock

No trecho a seguir, o historiador Marcelo Rede, professor de História Antiga da Universidade de São Paulo, fala sobre os poemas épicos atribuídos a Homero.

Ilíada e Odisseia

Os gregos antigos, em sua quase totalidade, acreditavam que esses poemas fossem obra de um único e genial poeta, chamado Homero. Hoje, sabemos que isso não é verdade. A Ilíada e a Odisseia são, certaVaso grego com mente, fruto de uma longa tradição oral em que os representação de Ulisses e as poetas (chamados de aedos) declamavam os episódios sereias em técnica de figuras da guerra de Troia e as aventuras de Odisseu. Esses vermelhas, c. 400 a.C. relatos eram cantados, acompanhados por música, e passados de geração em geração, tendo sofrido muitas alterações e adaptações. Só mais tarde, cerca de 550 a.C., os poemas foram escritos pela primeira vez. [...] Ilíada – Ílion é o mesmo que Troia. A Ilíada, poema épico atribuído a Homero, possui mais de 15 mil versos e conta episódios da guerra de Troia. O motivo da guerra foi o rapto de Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta, por Páris, príncipe de Troia. Para vingar o insulto, os gregos cercaram a cidade por dez anos e acabaram por destruí-la. Odisseia – É o segundo livro que os gregos atribuíam ao poeta Homero. Tem cerca de 12 mil versos e seu nome vem de Odisseu, rei de Ítaca, também conhecido por Ulisses. A Odisseia conta as aventuras de Odisseu em seu retorno à terra natal, depois do fim da guerra de Troia. Enquanto Odisseu esteve ausente, por vinte anos, vários pretendentes assediaram sua linda mulher, Penélope, e ambicionaram tomar posse de sua casa e suas riquezas. Ao chegar, Odisseu vingou-se, matando-os. REDE, Marcelo. A Grécia antiga. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 16-17.

Do oikos à cidade-Estado No Período Homérico, com o fim dos palácios, os reis perderam o poder e a aristocracia se fortaleceu. A base da organização social passou a ser o oikos: uma grande família (pais, primos, avós), seus dependentes e seus bens, como casas, terras e animais. Os membros do oikos acreditavam pertencer a um ancestral comum, fosse ele um ser humano ou um deus. A produção do oikos era voltada para a subsistência, e o que sobrava era acumulado pelo seu chefe. Com o passar do tempo, o chefe do oikos maior e mais rico ganhou poder, tornou-se rei e passou a governar auxiliado por uma assembleia de guerreiros saídos dos outros grupos familiares. Essa assembleia, formada por guerreiros com igual poder de decisão, deu origem à cidade-Estado, uma forma de organização política própria das sociedades mediterrâneas.

Aristocracia:

palavra que em grego significa “governo dos melhores”. Aristocracia é um grupo formado por pessoas ou famílias que, por herança ou concessão, possuem o poder ou uma série de privilégios sobre as demais pessoas.

Sociedades mediterrâneas:

sociedades que se formaram em torno do mar Mediterrâneo.

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A cidade-Estado, ou pólis, como a chamavam os gregos, se desenvolveu às margens do mar Mediterrâneo e em um ambiente marcado por inovações, como a difusão do uso do ferro; o advento de construções monumentais em pedra; o uso da escrita alfabética; e a fabricação de artigos de bronze. A cidade-Estado grega era composta basicamente de três elementos: » um território agrícola, habitado por famílias camponesas que possuíam a propriedade individual da terra, onde produziam trigo, uva, vinho e azeite para a sobrevivência e para a troca; » um núcleo urbano que incluía os templos, a praça do mercado (onde a comunidade se reunia em assembleia), as oficinas de artesãos, as lojas do pequeno comércio e o porto por onde se fazia comércio com o exterior; no caso de Atenas, por exemplo, o principal porto era o Pireu; » uma acrópole (cidade alta, cidadela) que servia como defesa e símbolo da unidade territorial.

A colonização grega Na Grécia, a partir do século VIII a.C., o uso do ferro na fabricação de ferramentas agrícolas e a diversificação econômica provocaram um aumento da população e a necessidade de mais terras para o cultivo. Mas a maior parte das terras férteis estava nas mãos dos grandes proprietários, pois muitos pequenos proprietários pediam empréstimos a eles e acabavam tendo de entregar sua terra, sendo escravizados por não conseguirem saldar a dívida. A concentração de terras nas mãos de poucos, a escravização por dívidas e o interesse em conseguir ferro – material escasso na Grécia – estimulou os gregos a buscarem novas terras. Assim, entre 750 e 550 a.C., os gregos se dispersaram pelo mar Mediterrâneo e fundaram mais de 150 novas cidades, as colônias.

Allmaps

A colonização grega (750-550 a.C.) 20° L

celtas

Mar Negro

Odessa

A

UL

ILÍRIA

IT

TRÁCIA

A

Tarento

Lesbos

LÍDIA NA A AGÉCI M R Agrigento G Siracusa

NUMÍDIA

40° N

Bizâncio

IC

ÁL Nápoles

Estreito de Gibraltar

ÁSIA MENOR

Samos Corinto

Atenas

Esparta

Mileto Rodes Chipre

Creta

Mar Mediterrâneo

Grécia Áreas de colonização grega Cidades-mães Colônias gregas

io ásp rC Ma

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Marselha

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Cirene 0

Apolônia Baska

330

FENÍCIA

Náucratis

EGITO

Fonte: HILGEMANN, Werner; KINDER, Hermann. Atlas historique. Paris: Perrin, 1996. p. 46.

As colônias gregas tinham um governo próprio e, portanto, eram independentes da cidade-mãe. Mantinham com ela apenas laços comerciais e culturais (língua, religião e costumes). Cada colônia grega era uma cidade independente, uma pólis, assim como a sua cidade-mãe. Essa expansão/ colonização de novas terras difundiu a civilização grega do mar Negro, a leste, ao Estreito de Gibraltar, a oeste.

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As cidades-Estado gregas eram muitas; a seguir, vamos estudar as histórias de duas das mais importantes entre elas: Atenas e Esparta.

Atenas, o berço da democracia

Christopher Furlong/Getty Images

Atenas é a cidade grega sobre a qual temos mais conhecimento, graças à variedade e quantidade de fontes escritas, imagéticas e arqueológicas de que dispomos. Foi erguida pelos jônios, por volta do século X a.C., no alto de uma colina, a poucos quilômetros do mar Egeu; a cidade possuía bons portos naturais, o que estimulou os atenienses a se voltarem desde cedo para a navegação, a pesca e o comércio marítimo. Inicialmente, Atenas foi governada por um rei, auxiliado por um conselho de aristocratas chamado Areópago, e por um grupo de magistrados que formavam o Arcontado; os arcontes eram escolhidos entre os aristocratas de maior prestígio. Com o passar do tempo, no entanto, o rei foi perdendo poder e a aristocracia (os “eupátridas”, palavra de origem grega que quer dizer “bem-nascidos”) assumiu o comando da cidade. Com isso, Atenas deixou de ser uma monarquia e passou a ser uma oligarquia, isto é, governo de uma minoria. Na Atenas daquele tempo, só uma minoria tinha acesso ao poder e podia ocupar cargos públicos. Insatisfeitos com essa situação, os arVista geral da acrópole de Atenas, Grécia. Fotografia tesãos, comerciantes e soldados exigiam de 2015. A cidade-Estado grega era uma área geográfica participação política na vida da cidade; os e política independente, com governo, moeda e deuses próprios. Mas era também um Estado em que os cidadãos pequenos proprietários, por sua vez, exidecidiam o que e como fazer por meio da política; daí ser giam a redistribuição das terras e o fim da chamada de cidade-Estado. escravidão por dívidas. A insatisfação social gerou lutas violentas em Atenas. O legislador e jurista Sólon (que viveu entre os séculos VII e VI a.C.), visando contornar a crise, promoveu em 594 a.C. uma reforma que: Dica! Documentário » cancelou as dívidas contraídas pelos camponeses; que ajuda a conhecer » extinguiu a escravidão por dívidas entre os cidadãos atenienses; e a refletir sobre os » dividiu os cidadãos em quatro categorias, de acordo com o grau de limites da democracia [Duração total: riqueza agrícola, e estabeleceu que só os mais ricos podiam ocupar grega. 97 minutos]. Dividido cargos importantes no governo. Ou seja, Sólon substituiu o critério em duas partes. Para a de nascimento pelo de riqueza. Além disso, para diminuir a força primeira parte, acesse: <http://tub.im/ do Areópago, criou dois órgãos: a Boulé, conselho composto de 400 fzo9s2>. membros e encarregado de preparar as leis; e a Eclésia, assembleia popular cuja função era votar aquelas leis. CAPÍTULO 7 | O MUNDO GREGO: DEMOCRACIA E CULTURA

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Para refletir Leia com atenção esta reflexão do legislador Sólon. Iníquos são os corações dos governantes do povo, que um dia padecerão de muitos sofrimentos por seu enorme orgulho (hybris); pois não sabem conter seus excessos [...] Enriquecem com ações injustas, e roubam para si a torto e a direito, sem respeitar a propriedade sagrada ou a pública [...]. Iníquos:

malévolos, injustos.

SÓLON apud DEMÓSTENES. In: VAN ACKER, Maria Tereza Vanna. Grécia: a vida cotidiana na cidade-Estado. São Paulo: Atual, 1994. p. 60. (História geral em documentos).

a) Qual é o assunto principal desse texto?

a) O assunto principal é o comportamento antiético dos governantes.

b) Sólon dirige duas críticas aos governantes. Quais são elas? c) Qual o significado, no texto, de “propriedade sagrada”?

b) Críticas ao orgulho e à prática do que hoje chamamos de “enriquecimento ilícito”.

c) Sólon está se referindo aos templos erguidos em homenagem aos deuses da cidade, pois alguns deles possuíam um oráculo.

d) Na imprensa brasileira são frequentes as notícias sobre governantes corruptos. Reflita e opine sobre o escândalo mais recente de que você teve notícia nos telejornais. d) Resposta pessoal. Professor: estimular atitudes de indignação diante da prática da corrupção e do enriquecimento ilícito.

Ao suprimir a escravidão por dívidas, Sólon atendeu a um importante pleito dos pequenos proprietários; a terra, porém, continuou nas mãos de poucos e a participação política manteve-se reduzida. Com isso, os conflitos sociais persistiram gerando um clima de insegurança e instabilidade, propiciando o advento da tirania.

A tirania Por volta do século VI a.C., surgiu na Grécia antiga uma nova forma de governo, a tirania; tirano era um governante que tomava o poder à força e valia-se do apoio popular para exercê-lo de modo autoritário. Geralmente, ele governava em favor dos mais pobres, mas sem respeitar as leis e usando a violência contra os adversários. O primeiro e mais importante tirano ateniense foi Psístrato (560-527 a.C.), que confiscou terras dos aristocratas e distribuiu-as entre os pobres, concedeu empréstimos aos pequenos agricultores, construiu portos, canais, bibliotecas, incrementou o comércio exterior de Atenas e permitiu ao homem comum acesso à vida cultural. Depois, seus filhos Hípias e Hiparco assumiram a tirania sem conseguir, no entanto, dar continuidade à obra do pai.

A democracia A partir de 508 a.C., o arconte Clístenes, que chegou ao poder com o apoio popular, introduziu em Atenas uma série de reformas de grande impacto político e social. Antes dele, Atenas estava dividida em quatro tribos controladas pelas famílias aristocráticas locais. Clístenes ampliou para 10 o número de tribos e as organizou de modo que cada uma delas fosse formada por pessoas de diferentes condições sociais e lugares (litoral, montanha, planície). Com a criação de tribos

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» Assembleia do Povo (Eclésia), que votava as leis, escolhia os magistrados, decidia em que gastar o dinheiro público. Dela, faziam parte todos os cidadãos de Atenas, isto é, todos os homens livres com mais de 18 anos e filhos de pais atenienses.

» Conselho dos Quinhentos (Boulé), formado por 500 cidadãos es-

Séc. V a.C. Agora Museum, Atenas. Foto: PhotoScala/Glow Images

territoriais e não mais baseadas em laços de parentesco, Clístenes diminuiu a força das famílias aristocráticas e aumentou a do povo comum, chamado pelos gregos de demos. Além disso, ele aumentou o número de membros da Boulé de 400 para 500 e introduziu o sorteio para o preenchimento de cargos; para ele, todo cidadão podia e devia ocupar cargos no governo da cidade por um ou dois anos; depois disso, devia ser substituído por outro, escolhido também por sorteio. Estava criada, assim, a democracia ateniense. Os principais órgãos da democracia ateniense na época de Clístenes eram: Pedaço de cerâmica em que se escrevia o nome das pessoas que seriam exiladas.

Para defender sua democracia, Clístenes criou o ostracismo, que consistia em expulsar da cidade por 10 anos qualquer pessoa que representasse ameaça à democracia. Com as reformas de Clístenes, todos os cidadãos, fossem ricos ou pobres, podiam participar diretamente do governo. Daí dizer-se que ele é o “pai da democracia”. A democracia grega era direta e aberta à participação de todos os cidadãos; o cidadão comparecia à Ágora (praça pública) para discutir e votar: erguia o braço para dizer sim e mantinha-o junto ao corpo, para dizer não. Em Atenas, no entanto, somente os homens livres, filhos de pai e mãe atenienses, eram considerados cidadãos. Os escravos, as mulheres e os estrangeiros não tinham direito à cidadania e, portanto, não podiam participar da política. Na época de Clístenes, por exemplo, a cidade possuía 400 mil habitantes, dos quais 40 mil, ou seja, apenas 10%, eram cidadãos e participavam da vida política da cidade.

O governo de Péricles No governo de Péricles (495-429 a.C.), a democracia ateniense foi aperfeiçoada: criou-se um Tribunal Popular composto de 6 mil cidadãos para julgar toda espécie de causas. Os membros do Tribunal

John Hios/Akgimages/Latinstock

colhidos por sorteio anualmente (com isso, tanto os ricos quanto os pobres tinham a mesma chance de ser eleitos). Sua função era preparar os projetos para serem votados pela Eclésia. Os projetos aprovados eram colocados em prática pelos estrategos: 10 cidadãos eleitos por um ano.

Péricles, líder político e orador, aperfeiçoou a democracia e investiu em obras e melhorias para os cidadãos atenienses.

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Dica! Documentário sobre os melhores momentos da Atenas antiga. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ oriem9>.

DIALOGANDO

Péricles pôs em prática essa sua ideia ao criar a mistoforia – remuneração para os ocupantes de cargos públicos – e possibilitar aos mais pobres condições para participação na vida política da cidade.

Esparta, um acampamento em armas Esparta era uma cidade diferente de Atenas em vários aspectos. Enquanto Atenas teve uma história marcada pela sua proximidade com o mar e por uma produção cultural intensa, Esparta situava-se no interior, rodeada por montanhas e voltada basicamente para a vida militar. Esparta foi fundada pelos dórios no século IX a.C., na planície da Lacônia, e desde cedo mais parecia um acampamento em armas. Assim, quando a escassez de terras férteis afetou as cidades gregas, entre VIII e VII a.C., os espartanos usaram a força para conquistar a vizinha Messênia e transformaram a maioria dos seus habitantes em escravos.

c. 480 a.C. Mármore. Museu Arqueológico, Esparta. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Segundo o historiador grego Tucídides, Péricles assim se manifestou sobre a participação política do povo: “A pobreza não impede que pela obscuridade de sua situação um homem que possa prestar serviço à cidade o faça”. Que relação se pode estabelecer entre essa fala de Péricles e sua prática como governante de Atenas?

eram eleitos por sorteio e ficavam no cargo por um ano; depois disso, eram substituídos por outros, eleitos também por sorteio. Esse rodízio era uma característica importante da democracia ateniense. Nesse Tribunal popular, o júri fazia o papel de juiz, isto é, dava a palavra final. Além disso, Péricles instituiu a remuneração para os ocupantes de cargos públicos (mistoforia), o que permitia aos mais pobres deixarem o trabalho por um tempo para participar da política. Péricles promoveu também a reconstrução da parte alta de Atenas, realizou várias obras públicas e estimulou o desenvolvimento intelectual e artístico, especialmente o do teatro. Por isso, o tempo em que Péricles liderou Atenas é chamado de “O século de Péricles”.

Busto em mármore do guerreiro Leônidas, 480 a.C.

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Política em Esparta No aspecto político, Esparta também teve uma trajetória bem diferente da de Atenas. Boa parte do poder de fato pertencia à Gerúsia (Gerousía, em grego), um grupo de 30 anciãos (gerontes), com mais de 60 anos e com poder vitalício, do qual faziam parte dois reis. Os gerontes propunham leis, julgavam causas, decidiam pela paz ou pela guerra. Outro órgão importante era o Eforato (Éphoros, em grego). Formado por cinco membros (éforos), eleitos por um ano e sem direito à reeleição, o eforato era responsável pela educação, pela mobilização das tropas e, além disso, podia convocar a Gerúsia e a Apela (Apellá, em grego, assembleia formada por cidadãos espartanos com 30 anos ou mais). A Apela votava, sem discutir, as propostas da Gerúsia; quase sempre concordava com elas.

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Com base nessas características, é possível dizer que, apesar da existência dos reis, o sistema político de Esparta era uma oligarquia. Após a conquista da Messênia, havia em Esparta três grupos sociais diferenciados: » os espartanos descendiam dos dórios, possuíam as melhores terras e somente eles eram considerados cidadãos; mantinham uma disciplina rígida e se dedicavam, sobretudo, à vida militar; » os periecos eram descendentes de populações conquistadas pelos dórios; dedicavam-se ao artesanato, ao comércio e ao cultivo de um pequeno lote nos arredores da cidade; » os hilotas eram escravos cedidos pelo Estado para trabalhar nas terras e casas dos espartanos; constituíam a maioria da população e revoltavam-se com frequência.

Caniços:

esteiras feitas de taquara.

O filósofo grego Plutarco (45-120 d.C.), autor de Vida de Licurgo, deixou-nos informações minuciosas sobre a vida dos espartanos, desde a infância até a vida adulta. Conta-nos ele que, quando uma criança nascia, era conduzida à presença dos mais velhos para ser examinada; caso fosse saudável, era devolvida aos pais, mas, se apresentasse alguma deficiência, era atirada no precipício. O garoto saudável era criado com a mãe até os 7 anos; depois disso, passava a morar com outros meninos de sua idade em acampamentos do Estado. Neles, a partir dos 12 anos, era submetido a uma série de constrangimentos: recebia pouca comida, uma única túnica para se cobrir e dormia sobre caniços. Além disso, era estimulado a agir com coragem e esperteza, até mesmo a roubar, para conseguir alimento. Mas, se fosse pego roubando, era castigado severamente e em público. A transição da infância para a adolescência se dava aos 16 anos, idade em que o jovem passava por uma série de rituais e provas, sendo a krypteia a mais terrível delas. Conta-nos Plutarco que:

Krypteia:

do grego kryptós (“escondido”, “oculto”), representava a fase em que os jovens se escondiam durante o dia e saíam à noite para matar hilotas.

Modelo de traje de personagem da peça Helena de Esparta.

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Leon Bakst. C. 1920. Grafite e aquarela. Ashmolean Museum, Inglaterra. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Uma educação voltada para a guerra

[...] os chefes dos jovens levavam aqueles que lhes pareciam à primeira vista inteligentes durante certo tempo ao campo, em cada ocasião de modo diferente, com punhais e apenas a comida indispensável, e sem mais nada. Eles, durante o dia, espalhados por lugares

Dica! Documentário sobre a vida espartana. [Duração: 90 minutos]. Acesse: <http://tub. im/h8udv8>.

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O número de hilotas era muito maior que o de espartanos; segundo alguns historiadores, havia seis hilotas para cada espartano, daí a decisão dos espartanos de não deixar que a população de hilotas crescesse, matando-os.

DIALOGANDO

encobertos, se escondiam e descansavam; de noite, descendo aos caminhos, matavam a quantos hilotas surpreendiam [...] os éforos [governantes com cargos anuais] assim que tomavam posse nas suas funções declaravam-lhes guerra [aos hilotas] para que ficasse

Como você explica essa decisão dos espartanos de aniquilar o maior número possível de hilotas?

justificado matá-los. FLORENZANO, Maria Beatriz B. Nascer, viver e morrer na Grécia antiga. São Paulo: Atual, 1996. p. 36.

Cultura A fragmentação política foi uma das características da Grécia antiga. As populações gregas organizavam-se, como vimos, em cidades cujos cidadãos se autogovernavam, porém falavam a mesma língua e partilhavam uma cultura comum. Essa cultura marcou profundamente o modo de pensar, viver e sentir no Ocidente; daí a relevância dela para nós.

Deuses e heróis

c. 430 a.C. Mármore. Glytothek, Alemanha. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Séc. II a.C. Mármore. Museu Benaki, Atenas. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

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À esquerda, Zeus, deus da justiça, o deus soberano. À direita, Hera, esposa de Zeus e protetora das uniões legítimas.

c. 420 a.C. Mármore. Museu do Vaticano, Cidade do Vaticano. Foto: The Granger Collection/Glow Images

Olimpo:

montanha mais alta da Grécia, com 2 917 m de altura.

Os antigos gregos davam grande importância à religião e, como muitos povos antigos, eram politeístas, isto é, acreditavam em vários deuses. Segundo relatos antigos, os deuses gregos habitavam o Olimpo e eram imortais. Porém, possuíam reações tipicamente humanas: sentiam amor, ódio, ciúme, inveja, casavam-se e tinham filhos. Eles acreditavam que os deuses tanto podiam ajudar quanto prejudicar suas vidas; por isso ofereciam presentes (na forma de alimentos, por exemplo), orações e festas ao deus a quem pediam ajuda. Zeus era o mais poderoso dos deuses gregos; no Olimpo, ele era soberano e, entre os seres humanos, presidia a justiça. Quando estava furioso, lançava raios e trovões. Hera, a esposa de Zeus, era a protetora dos casamentos, das uniões legítimas, e dividia com seu esposo a soberania sobre os deuses. Do relacionamento entre Zeus e Hera nasceu Ares, o deus da guerra.

Cabeça de estátua romana do deus Ares.

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Antonio Marsure. Mármore. Coleção particular. Foto: Elio Ciol/Corbis/Latinstock

Havia ainda outros nove deuses, totalizando 12 deuses conhecidos. São eles: Ártemis, deusa da caça; Afrodite, deusa do amor e da beleza; Poseidon, deus dos mares; Atena, deusa da sabedoria; Deméter, deusa da fertilidade e das colheitas; Apolo, deus da música; Hefesto, deus do fogo e da metalurgia; Hermes, deus mensageiro; e Héstia, deusa dos lares. Igualmente importantes, e por vezes aparecem entre os 12 deuses do Olimpo, são Hades, senhor do reino dos mortos; Hebe, deusa da juventude; e Dionísio, deus do vinho.

Religião e cidadania

Cabeça da deusa Hebe, século XIX. Peter Rubens. c. 1611-12. Óleo sobre tela. Philadelphia Museum of Art, EUA. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

No mundo grego, o culto público aos deuses era parte integrante do funcionamento da cidade. Cada cidade cultuava seus deuses protetores em templos que eram erguidos para eles. Todos os atos cívicos incluíam oferendas aos deuses, e, ao longo do ano, os gregos faziam festas religiosas com procissões e cultos públicos. Os atenienses, por exemplo, veneravam Atena, a deusa protetora de sua cidade, e a quem eram consagrados o Partenon e o templo de Atena Niké. A cada quatro anos ocorria uma procissão em homenagem a essa deusa, que contava com a participação de toda a população ateniense. Por isso se diz que a religião dos antigos gregos era uma religião cívica. Alguns templos religiosos possuíam um oráculo, um sacerdote ou uma sacerdotisa que aconselhavam as pessoas por meio da adivinhação. Os gregos também cultuavam os heróis, isto é, semideuses nascidos geralmente do relacionamento entre deuses e mortais; herói podia ser também um personagem muito respeitado por seus feitos. Os heróis tinham ascendência divina, mas eram mortais. Os gregos contavam interessantes histórias sobre seus deuses e heróis. Essas narrativas são chamadas de mitos e seu conjunto recebe o nome de mitologia. A mitologia grega é rica e variada. Um mito grego conta que Prometeu (que significa “astuto”) roubou o fogo celeste para dá-lo aos homens. Por isso, foi condenado por Zeus a ficar acorrentado no alto de um rochedo, onde todos os dias um pássaro vinha comer-lhe um pedaço do fígado. A história, no entanto, tem final feliz: Prometeu foi salvo por outro herói, de nome Hércules, cuja fama se deve à sua enorme força. Já Édipo ganhou fama em virtude de sua inteligência. Segundo o mito, a cidade de Tebas vivia aterrorizada por uma Esfinge, que devorava todos aqueles que não conseguiam decifrar o enigma: “Qual o animal que anda com quatro patas ao amanhecer, duas ao meio-dia e três ao entardecer?”. Édipo conseguiu decifrá-lo ao responder: o homem, pois, quando bebê, engatinha; quando adulto, caminha ereto; e, quando idoso, apoia-se em uma bengala para caminhar. Com isso, a Esfinge foi derrotada e Édipo foi transformado em herói de Tebas.

Prometeu acorrentado, c. 1611-1612. Mitologia:

conjunto de relatos por meio dos quais um povo busca explicar a origem do mundo, dos seres humanos e de fenômenos como a chuva, a geada, o fogo etc. A mitologia grega gira em torno das aventuras dos deuses e dos heróis.

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Outros heróis povoam a mitologia grega, como Perseu, o vencedor da Medusa; Teseu, que matou o Minotauro; Héracles (ou Hércules), a quem foram impostos 12 trabalhos. As festas gregas em homenagem aos deuses incluíam festivais de música, poesia e competições esportivas, como os famosos Jogos Olímpicos.

c. 530 a.C. Vaso. Museu de Copenhagen. Foto: Granger Collection/ Glow Images

Os Jogos Olímpicos

Ezra Shaw/Getty Images

Cinco atletas durante os Jogos Olímpicos da Antiguidade são representados nessa ânfora de figuras negras atribuída a Eufiletos, c. 530 a.C.

Fotografia da final da prova dos 100 metros rasos para mulheres, Olimpíadas de Londres, 2012.

Os Jogos Olímpicos eram uma homenagem a Zeus, o deus soberano, e, assim sendo, tinham um significado essencialmente religioso. Os atletas de todo o mundo grego treinavam com afinco para se encontrar durante os jogos que ocorriam a cada quatro anos, tendo o primeiro deles ocorrido na cidade de Olímpia em 776 a.C. Quando se aproximava a data de sua realização, a guerra era interrompida em todo o mundo grego. Os habitantes de todas as cidades podiam viajar livremente, sem medo de serem agredidos ou detidos, pois estavam sob a proteção de Zeus. Atacar um atleta que se dirigia a Olímpia para participar daquele evento religioso e esportivo era considerado um sacrilégio. Inicialmente, os jogos aconteciam em um campo de luta, em espaço aberto; posteriormente passaram a ser realizados no ginásio, um centro esportivo fechado, equipado com banheiros, vestiários e salas de aula, onde se praticavam leitura, escrita, música e oratória. A recompensa pela vitória em uma competição era simbólica: os vencedores ganhavam uma coroa com folhas de louro e eram recebidos com enorme entusiasmo na volta a sua cidade, na qual, por vezes, erguiam-se estátuas em homenagem a eles. Proibidos às mulheres, que não podiam participar nem como atletas nem na plateia, os Jogos Olímpicos continuaram a ser realizados por quase mil anos!

As artes Medusa:

mulher monstruosa, cujos cabelos eram serpentes, e que tinha o poder de transformar em pedra qualquer pessoa para quem olhasse.

Minotauro:

ser híbrido de homem e touro.

Sacrilégio:

ato de desrespeitar uma pessoa ou coisa sagrada; irreverência, profanação.

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Os antigos gregos produziram artes expressivas, duradouras e centradas no ser humano como corpo, comportamento e ideais.

O teatro O teatro grego nasceu em Atenas no fim do século VI a.C., durante os festivais dionisíacos, acontecimento religioso e cívico em homenagem ao deus Dionísio; o ponto alto das festividades era o concurso de teatro. As peças eram encenadas ao ar livre, começavam pela manhã e iam até o entardecer; havia juízes, e as melhores exibições eram premiadas.

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De Agostini/Getty Images

Os espetáculos teatrais atraíam milhares de pessoas de diferentes estratos sociais, pois, em Atenas, frequentar o teatro fazia parte da educação. Em dia de espetáculo, os governantes atenienses suspendiam todas as outras atividades e permitiam aos mais pobres assistir às encenações gratuitamente. Somente os homens podiam atuar no teatro grego; para o papel feminino, os atores usavam máscaras, perucas e adequavam a voz ao personagem interpretado; os figurinos tinham cores vivas para que pudessem ser vistos de longe. Os gregos foram os criadores de dois gêneros teatrais consagrados: a tragédia e a comédia. Entre os autores gregos de tragédia destacam-se Ésquilo, Sófocles e Eurípedes; já no gênero comédia, o mais conhecido é Aristófanes. O tema da tragédia era em geral a mudança drástica na vida das pessoas; a comédia usava o humor para criticar os costumes, satirizar os políticos e questionar o funcionamento das instituições. A tragédia utilizava uma linguagem rebuscada, enquanto a comédia permitia o uso de palavrões. Um estudo recente afirma que as mulheres também iam ao teatro, mas sempre acompanhadas de seus maridos. Apresentação de uma peça teatral no teatro Odeon de Herodes Aticcus, em Atenas, uma construção do século II d.C. Em 1987, foi transformado pela Unesco em Patrimônio Mundial da Humanidade. Fotografia de 2015.

As artes plásticas Na Grécia antiga, a arquitetura, a escultura e a pintura eram artes feitas para a coletividade; daí serem expostas, principalmente, nos espaços públicos, como templos, fontes, praças e teatros. Por esse motivo, empregavam nessas construções – especialmente nos templos – materiais duráveis, como o mármore. A maioria dessas obras era encomendada e paga pelo governo da cidade, muitas delas servindo para indicar os exemplos a serem seguidos na vida cívica; além disso, eram feitas para ser vistas e para demonstrar a capacidade de seus realizadores. Por isso, o exterior dos prédios era decorado com relevos e esculturas. CAPÍTULO 7 | O MUNDO GREGO: DEMOCRACIA E CULTURA

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3

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Getulio Delphim

Arquitetura

Colunas em estilo dórico (1), jônico (2) e coríntio (3).

Três estilos arquitetônicos (o dórico, o jônico e o coríntio) constituem importante legado dos antigos gregos à civilização ocidental. As diferenças entre os três estilos estão principalmente na coluna e no capitel: » no estilo dórico, a coluna era grossa e se apoiava diretamente no degrau mais elevado, e o capitel era simples; » no estilo jônico, o capitel era ornamentado, a coluna era mais fina, sugerindo leveza, e se apoiava sobre uma base decorada; » no estilo coríntio, o capitel era rebuscado, a coluna possuía inúmeros sulcos verticais e se apoiava sobre uma base de formas circulares e lisas.

Escultura Capitel:

arremate superior de uma coluna.

Período Clássico:

Museu Arqueológico Nacional, Nápoles. Foto: DEA/G. Nimatallah/De Agostini/Getty Images

período compreendido entre os séculos VI e IV a.C.; coincide com o fortalecimento da democracia ateniense.

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Como vimos, as esculturas gregas serviam sobretudo para embelezar os locais públicos e eram também quase sempre obras encomendadas: os escultores gregos do Período Clássico procuravam reproduzir a figura humana de maneira fiel, harmoniosa, de modo que transmitissem ao observador uma ideia de movimento. Sobre a estatuária grega, disse um historiador: A escultura grega também tinha o homem no seu centro de preocupações e, em seus grandes momentos, tanto no século V a.C. como posteriormente, ela caracterizou-se por representar o movimento e os indivíduos. Enquanto a estatuária egípcia e oriental, em geral, representavam deuses e reis com formas perfeitas e imóveis, os gregos passaram a mostrar os movimentos, os músculos, como é o caso de uma estátua que figurava um atleta. [...] Assim como nas outras artes, a estatuária grega serviu de inspiração para as correntes artísticas ocidentais posteriores. FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2009. p. 73-74. (Repensando a história).

Cópia romana de Doríforo, estátua esculpida pelo artista grego Policleto. Seu autor pretendeu transmitir a ideia de movimento (o personagem parece estar caminhando), assim como reproduzir, de maneira fiel, as proporções e a anatomia da figura humana.

Pintura A pintura em cerâmica foi muito valorizada pelos antigos gregos; os vasos gregos (usados para armazenar e transportar alimento e decorar ambientes) chamam a atenção pelas cores, pela beleza e são fontes importantes para o conhecimento histórico. As pinturas reproduzem,

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em geral, cenas da mitologia ou do cotidiano dos antigos gregos (esporte, amor, trabalho). Os gregos desenvolveram duas importantes técnicas de pintura: a técnica de figuras negras e a de figuras vermelhas. Exéquias é considerado o maior pintor da técnica de figuras negras. O artista pintava os personagens de preto e o fundo permanecia com a cor natural da argila. Andócines, aluno de Exéquias, inverteu o esquema de cores: pintou o fundo de preto e deixou as figuras com a cor avermelhada da argila ateniense. Com a inversão das cores, o artista consegue conferir vivacidade às figuras.

A filosofia Durante muito tempo, os antigos gregos recorreram à mitologia para explicar o Universo, os seres humanos e os acontecimentos. Por volta do século VI a.C., o ambiente de debates presente nas cidades gregas favoreceu o surgimento de pensadores que não se limitavam às explicações mitológicas, mas buscavam respostas na realidade física. Os homens que assim procediam foram chamados de físicos pois empenharam-se racionalmente em compreender os fenômenos naturais (o termo grego physis significa natureza). Esses pensadores responderam à pergunta sobre a origem do Universo de maneira variada. Para Tales de Mileto, o elemento gerador foi a água; para Anaxímenes, o ar; para Heráclito, o fogo; e para Empédocles, os quatro elementos: ar, água, fogo e terra. Pouco a pouco, esses pensadores, empenhados em usar meios racionais para demonstrar suas afirmações, migraram do mito à razão. Nascia assim a filosofia, palavra que em grego quer dizer “amor à sabedoria”. A filosofia pode ser definida como uma reflexão sobre o mundo, os seres humanos e os fenômenos. O nascimento da filosofia na Grécia ocorreu ao mesmo tempo que o desenvolvimento da pólis (séculos VIII a VI a.C.), quando os gregos começaram a organizar suas cidades-Estados, debater os problemas que os afligiam e tentar entender o Universo. Nesse contexto, e pouco a pouco, o pensamento lógico foi ocupando o lugar do mito.

Sócrates Sócrates (469-399 a.C.) propunha o diálogo como caminho para chegar ao conhecimento. Por meio de perguntas pensadas, Sócrates levava a pessoa com a qual estava dialogando a perceber que ignorava o assunto. Ao refletir sobre a virtude, por exemplo, Sócrates procurava, inicialmente, retirar de seu interlocutor a convicção de que ele sabia o que era virtude; posteriormente, e por meio de novas perguntas, esforçava-se para que ele fosse chegando ao conceito ou à definição de virtude. Esse método socrático que levava o interlocutor a duvidar do que sabia e a ir construindo um conceito é chamado de maiêutica. Uma premissa do método socrático está contida na afirmação atribuída a ele: “Só sei que nada sei”. Outra questão importante para Sócrates era o autoconhecimento; daí outra frase atribuída a ele: “Conhece-te a ti mesmo”. Por contrariar ideias tradicionais a respeito da virtude, Sócrates passou a ser visto como uma ameaça; os governantes de Atenas, então, o acusaram de corromper a juventude da cidade e o condenaram a beber cicuta, veneno que provocou sua morte. Sócrates não deixou nada escrito. Suas ideias chegaram até nós por meio de seu discípulo, Platão. CAPÍTULO 7 | O MUNDO GREGO: DEMOCRACIA E CULTURA

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Platão

c. 428-348 a.C. Pedra. Museus Capitolinos, Roma. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Platão (427-348 a.C.) fundou em Atenas uma escola de filosofia chamada Academia, na qual se estudavam filosofia, matemática e se praticava ginástica. Platão era radicalmente contrário à democracia ateniense; para ele, uma pessoa comum não tinha capacidade de fazer parte do governo da cidade; confiar o governo a ela era o mesmo que permitir a um aprendiz que pilotasse um navio durante uma tempestade. Segundo Platão, o governo de uma cidade deveria ser entregue aos filósofos, isto é, aos poucos indivíduos com capacidade para tratar os problemas humanos com sabedoria; esses filósofos-governantes não buscariam o poder ou a riqueza, mas o bem e a justiça. Para Platão, o mundo dos fenômenos (o que se pode ver ou tocar) é ilusório; já o mundo das ideias universais é verdadeiro, e nele é possível encontrar as ideias universais de verdade, bem, bondade, justiça. A mais importante dessas ideias para Platão era a ideia de bem. Eis o que um historiador diz sobre o assunto: Busto de Platão, c. 428-348 a.C.

Platão via o mundo dos fenômenos como instável, transitório e imperfeito, enquanto o seu reino das Ideias era eterno e universalmente válido. Cada pessoa em particular partilha de uma forma imperfeita e limitada da Ideia de homem; os homens vêm e vão, mas a Ideia de Homem persiste eternamente. Assim, a verdadeira sabedoria é obtida através do conhecimento das Ideias, e não através de reflexões imperfeitas sobre as Ideias percebidas pelos sentidos.

Detalhe de Escola de Atenas, afresco renascentista pintado por Rafael Sanzio. Platão, com o dedo da mão direita erguido, acena para a importância das ideias, enquanto Aristóteles, também com a mão direita, aponta para a terra para sugerir a importância da experiência.

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 1985. p. 74.

Rafael Sanzio (detalhe). 1510-1511. Afresco. Museu do Vaticano, Cidade do Vaticano

Aristóteles e a lógica Aristóteles (384-322 a.C.) foi discípulo de Platão e era dotado de grande curiosidade científica, como demonstra a abrangência de sua obra e sua influência no pensamento ocidental. À semelhança de Platão, Aristóteles também defendia a necessidade de conhecer os princípios ou ideias universais; mas discordava dele quanto ao fato de que essas ideias habitavam um mundo superior. Para Aristóteles, essas ideias existiam nas próprias coisas, e só se podia conhecê-las por meio da experiência. Enquanto Platão valorizava a razão, Aristóteles considerava indispensável o uso dos sentidos e da experiência para se chegar ao conhecimento. Com isso, Aristóteles estimulou o desenvolvimento das ciências baseadas na observação, na experiência e no registro, como a física e a biologia, a zoologia e a botânica.

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Aristóteles contribuiu também para a sistematização da lógica, conjunto de regras e procedimentos necessários ao desenvolvimento do raciocínio e da argumentação. Além disso, escreveu sobre arte e política; é dele a ideia de que o “homem é um animal político”.

História Na Grécia antiga, verificou-se o desenvolvimento da História. Heródoto viveu no século V a.C. e assumiu quase sempre uma postura crítica em suas narrativas. Ele viajou por muitos lugares em diversos continentes e optou antes por compreender os fatos do que por julgá-los, atitude própria do historiador. Em sua principal obra, denominada Histórias, Heródoto investigou pessoalmente vários episódios por ele narrados e mostrou capacidade de observação e espírito crítico. Na sua narrativa, utilizou-se principalmente de fontes escritas (livros e documentos oficiais) e orais (relatos de testemunhos). Em alguns trechos da obra, porém, Heródoto reproduz crenças de sua época, como a intervenção dos deuses na vida humana. Além disso, ao abordar uma guerra entre gregos e persas, mostrou-se totalmente favorável aos gregos. Já o historiador ateniense Tucídides concentrou sua narrativa na ação humana e esforçou-se para ser imparcial. Desconfiou dos relatos que ouviu, negou a participação dos deuses no curso da História e buscou descobrir as múltiplas razões de determinado episódio.

Medicina Na Grécia antiga, a medicina ensaiou também seus primeiros passos. Veja o que a professora Lesley Dean-Jones diz sobre o assunto:

DEAN-JONES, Lesley. In: CARTLEDGE, Paul. História ilustrada da Grécia antiga. São Paulo: Ediouro, 2009. p. 429. (História ilustrada).

Séc. V a.C. Mármore. Coleção particular. Foto: De Agostini/Getty Images

[...] Em meados do século V a.C., é possível identificar o desenvolvimento de uma forma científica de medicina [...]. A mágica é inteiramente evitada. Os próprios deuses só podem restaurar a saúde de acordo com as leis naturais, e estas podem ser aprendidas e aplicadas pelos humanos. Relevo em mármore que representa Hipócrates tratando de uma mulher doente, século V a.C.

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Este esforço de observação do corpo e da doença teve como principal representante Hipócrates, estudioso nascido na ilha grega de Cós, em 460 a.C. Hipócrates contribuiu decisivamente para os seguintes conhecimentos: » as doenças possuíam causas naturais; antes dele, as doenças eram vistas como fatalidade e não havia interesse em investigar o corpo humano; » o médico podia prever a evolução de uma doença mediante o acompanhamento de determinado número de casos; » o estilo de vida e a dieta são importantes tanto para a conservação da saúde quanto para a recuperação física de uma pessoa. Por tudo isso, Hipócrates é considerado o precursor da medicina ocidental.

Guerras greco-pérsicas ou médicas A riqueza das cidades gregas como Atenas, Esparta e Tebas acabou atraindo a cobiça do então poderoso Império Persa. Por volta do ano de 490 a.C., os persas, liderados por Dario, atacaram as cidades gregas. Estas, por sua vez, deixaram de lado suas diferenças e se uniram contra o inimigo comum. Atenas, detentora da melhor frota naval, e Esparta, dona da melhor força terrestre, lideraram a luta contra os persas. Nos onze anos de duração das guerras greco-pérsicas ocorreram quatro batalhas importantes:

Ken Welsh/Alamy/Latinstock

» Maratona (490 a.C.): batalha marítima vencida pelos gregos, sob

Estátua de Leônidas em um monumento em homenagem à vitória dos gregos na Batalha de Termópilas, Grécia.

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o comando do ateniense Milcíades. » Termópilas (480 a.C.): batalha terrestre vencida pelos persas, comandados por Xerxes; nessa batalha, os espartanos, liderados por Leônidas, resistiram até o último homem depois de terem sido cercados no desfiladeiro das Termópilas. » Salamina (480 a.C.): batalha marítima vencida pelos atenienses liderados por Temístocles. » Plateias (479 a.C.): batalha vencida pelos gregos, liderados por Pausânias. Vencidas as guerras, os atenienses convenceram as outras cidades gregas a se unirem, alegando que os persas poderiam voltar a atacá-las. Formou-se então a Confederação de Delos: união das cidades gregas sob a liderança de Atenas. As guerras foram vencidas pelos gregos. Pelo Tratado de Susa (449 a.C.), que pôs fim à guerra, os persas reconheciam o domínio dos gregos no Mar Egeu e comprometiam-se a não mais atacá-los.

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Guerra do Peloponeso Imperialismo: Na guerra contra os persas, as cidades gregas tinham se unido segundo o historiador Norberto na Confederação de Delos sob a liderança de Atenas. Cada cidade da Guarinello, o imperialismo antigo Confederação de Delos era obrigada a enviar para Atenas soldados, foi principalmente político e militar, ou seja, não foi um imperialismo navios ou dinheiro. Isso acabou levando para Atenas grande volucapitalista, pois dele estavam me de recursos, o que contribuiu para que a cidade exercesse seu ausentes características essenciais do imperialismo contemporâneo, como a imperialismo. O governante ateniense Péricles usou os recursos busca por mercados e matérias-primas e da Confederação de Delos para fazer uma série de reformas urbanas investimentos de capitais em países com mão de obra barata. e políticas em Atenas, fortalecendo, assim, a liderança ateniense. Esparta reagiu ao imperialismo ateniense, aliando-se a outras cidades descontentes, como Tebas e Corinto, e formando com elas a Liga do Peloponeso; a rivalidade entre Atenas e Esparta e suas respectivas aliadas evoluiu para a guerra. A Guerra do Peloponeso (434-404 a.C.) foi uma luta de gregos contra gregos. De um lado, estavam Atenas e suas aliadas; de outro, Esparta e suas aliadas. A vitória coube a Esparta, que se aproveitou disso para impor seu domínio às outras cidades gregas. Estas reagiram e, lideradas por Tebas, venceram Esparta militarmente. Essas guerras sucessivas entre as cidades gregas causaram milhares de mortos, crise econômica, esvaziamento das cidades e grande aumento da fome. Enfraquecidas, as cidades gregas não resistiram ao ataque do exército de Felipe II, rei da Macedônia, que, em 338 a.C., invadiu e conquistou a Grécia.

Os macedônios Museu Arqueológico Nacional, Taranto. Foto: Mondador Electa/The Bridgeman Art Library/Keystone

Os macedônios viviam no norte da Grécia, falavam o grego e viam a si próprios como gregos. A forma de governo era a monarquia hereditária; para legitimar seu poder, o rei macedônio dizia ser descendente do herói Hércules, filho de Zeus. Após a conquista da Grécia, Felipe II da Macedônia foi sucedido por seu filho Alexandre (356-323 a.C.), que à época tinha apenas 20 anos de idade.

O império de Alexandre Alexandre teve educação refinada; foi discípulo de Aristóteles, filósofo com quem aprendeu valores e conhecimentos dos antigos gregos. Dono de sólida formação intelectual e militar, Alexandre marchou com 40 mil soldados sobre o Oriente e, depois, sobre a África e, por meio de sucessivas conquistas, organizou o maior império conhecido até aquela época. O império de Alexandre tinha por limites o Egito (na África), a Trácia (na Europa) e a Índia (na Ásia). Observe o mapa da página seguinte.

Representação de Alexandre na batalha de Issos contra os persas. Alexandre morreu aos 33 anos de idade e, por causa de suas conquistas, ficou conhecido como Alexandre, o Grande, ou Alexandre Magno.

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O império de Alexandre (325 a.C.) Allmaps

50° L

MACEDÔNIA Pela GRÉCIA

Atenas

TRÁCIA

Mar Negro

Alexandria de Issos

Mar Mediterrâneo

Tiro

Alexandria de Margiana

ASSÍRIA

Chipre

Alexandria

Alexandria do Cáucaso Alexandria de Ária

Ecbátana

Niceia

Damasco Jerusalém

Santuário de Amon

420

Alexandria Eschate

Sardes ÁSIA MENOR Éfeso

Susa

Babilônia

Alexandria (Kandahar)

PÉRSIA

Mênfis

Alexandria Sogdiana

Persépolis

EGITO

Alexandria l Go

Alexandre deu o nome de Alexandria a numerosas cidades do seu império. A mais conhecida localizava-se no Egito e tornou-se famosa pela sua biblioteca – a maior do mundo antigo. Tempos depois essa biblioteca foi destruída em um incêndio.

0

Mar Cáspio

Issos Creta

Mar de Aral

ARÁBIA

fo

Pé rsic o

Patala

ÍNDIA

Trópico de Câncer

Grécia

Império de Alexandre – séc. IV a.C.

Macedônia na época de Alexandre

Campanha de Alexandre

Cidades fundadas por Alexandre

Fonte: ARRUDA, José Jobson de A. Atlas histórico básico. São Paulo: Ática, 1999. p. 9.

Como seu pai, Alexandre foi um político habilidoso: respeitou as tradições e religiões dos povos conquistados, admitiu jovens persas no seu exército, estimulou o casamento de seus soldados com mulheres orientais (ele próprio se casou com a filha mais velha de Dario, rei dos persas, a quem havia derrotado); além disso, incentivou ao máximo as trocas culturais entre os diferentes povos de seu império. Veja o que um historiador disse sobre Alexandre: Quando Alexandre morreu, em 323 a.C., aos 33 anos, seu vasto domínio foi disputado e dividido por seus generais, que tentaram criar dinastias próprias. Depois de quarenta anos de luta, surgiram três grandes reinos [...]. Em cada um dos novos reinos helenísticos, a forma política adotada foi a das monarquias orientais: o poder concentrado no soberano absoluto, que governava com o apoio de sua corte, de uma vasta rede de funcionários, e procurava transmitir o cargo a seus descendentes. O rei era a principal fonte do poder e da justiça, controlava grande parte da riqueza econômica e chegou mesmo a ser objeto de adoração por parte de seus súditos. O próprio Alexandre foi considerado filho de Zeus. [...] Quando Roma entrou em contato com as cidades gregas do sul da Itália e da Sicília e, por volta de meados do século II a.C., conquistou finalmente a própria Grécia, a cultura romana foi profundamente influenciada pelo Helenismo. As ideias e os comportamentos dos antigos gregos foram assimilados especialmente por pessoas da elite romana. No entanto, os romanos não reproduziram simplesmente a cultura grega; adaptaram-na segundo seus gostos e suas necessidades, em uma realidade totalmente diferente. A Grécia das cidades-Estado estava morta. REDE, Marcelo. A Grécia antiga. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 44.

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O helenismo

c. 225-200 a.C. Mármore. Museu Nacional Romano, Roma.

Helenismo: Tendo aprendido a conhecer a cultura grega com os antigos gregos seu mestre Aristóteles, Alexandre Magno procurou denominavam sua terra de Hélade e se divulgá-la por todo seu império. Assim, algumas autodenominavam cidades fundadas por ele na Ásia, África e Europa helenos; daí a palavra transformaram-se em centros de difusão da língua “helenismo”. e dos conhecimentos gregos. Nesse processo, ocorreu um entrelaçamento da cultura grega com as culturas orientais, nascendo daí a cultura helenística, ou, simplesmente, helenismo. Uma característica marcante da arte helenística é a dramaticidade, a expressividade e o preciosismo. Observe a escultura ao lado. À frente de seu império, Alexandre deu grande incentivo à busca do conhecimento e à investigação científica. A cidade de Alexandria, no Egito, chegou a possuir a maior biblioteca da Antiguidade, com cerca de 700 mil volumes. Além de preservar um acervo valiosíssimo, a Biblioteca de Alexandria sediava debates e trocas de conhecimentos entre sábios orientais e A imagem é a cópia romana gregos. Entre os mais importantes cientistas helenísticos estão da escultura grega O soldado gálata e sua mulher (século III Aristarco de Samos, astrônomo grego que lançou a hipótese de a.C.). Veja o que uma estudiosa que a Terra gira em torno do Sol muitos anos antes que fosse diz a respeito dessa obra: “A comprovada; Euclides, que desenvolveu a geometria e fundou cena representa o momento em que um soldado grego mata a primeira escola de matemática de Alexandria; e Arquimedes. a mulher para não entregá-la Nascido na colônia grega de Siracusa, na Sicília, por volta de ao inimigo e se prepara para o suicídio. Além da beleza, o 285 a.C., Arquimedes contribuiu decisivamente para o desenconjunto revela, de qualquer volvimento da geometria, da aritmética e da física. A ele são lado que seja visto, forte atribuídas, por exemplo, importantes invenções, como o paradramaticidade. O soldado olha para trás, como que desafiando fuso e a roda dentada. Conta-se que ele ajudou a defender sua o inimigo que se aproxima, cidade de um ataque romano, incendiando os navios do inimigo e está pronto para enterrar a espada no pescoço. Ao mesmo com espelhos refletores. tempo, segura por um dos braços Sua descoberta mais conhecida é a lei sobre a perda de peso o corpo inerte da mulher, que que os corpos sofrem ao serem submersos em água. Partindo escorrega para o chão. O outro braço da mulher, já sem vida, desse princípio, ele teria auxiliado o rei de Siracusa a descobrir contrasta com a perna tensa do uma trapaça de que fora vítima ao encomendar uma coroa de marido. A dramaticidade é obtida ouro puro. Aplicando sua descoberta de que era possível caljustamente pelos contrastes: vida e morte, homem e mulher, o nu cular a densidade de um objeto a partir do volume de água por e as vestes, força e debilidade”. ele deslocado, Arquimedes concluiu que a coroa entregue ao rei (PROENÇA, Graça. Descobrindo a história da arte. São Paulo: Ática, de Siracusa tinha mistura de outros metais e que, portanto, ela 2005. p. 32). valia menos e o rei havia sido enganado.

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1. a) Eram sociedades em que o polo organizador da vida social era o palácio; daí os historiadores atuais as denominarem de sociedades palacianas.

ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. O texto a seguir é do professor Marcelo Rede. Leia-o com atenção. As características gerais das sociedades cretenses e micênica eram muito parecidas com as das civilizações do Oriente Próximo da mesma época, por exemplo, o Egito e a Mesopotâmia. Eram sociedades em que o palácio tinha papel central, não apenas como instituição de poder, mas também na vida econômica e cultural. Tanto no período cretense como no micênico, os palácios foram responsáveis por numerosas atividades econômicas (artesanato, agricultura, pastoreio, trocas), e parte da produção lhes era destinada na forma de tributo. O poder real, por sua vez, devia ser legitimado pela religião [...] Essas sociedades organizadas em torno de palácios continuaram existindo por todo o Oriente Próximo durante o 1o milênio, mas desapareceram na Grécia. Essa é uma diferença fundamental da trajetória histórica grega, que marcará sua originalidade. REDE, Marcelo. A Grécia Antiga. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 13. (Que história é esta?).

a) De que forma o autor caracteriza as sociedades cretense e micênica? b) Segundo o texto, qual era o papel do palácio naquelas sociedades? 2. (Fuvest-SP – 2016) O aparecimento da pólis constitui, na história do pensamento grego, um acontecimento decisivo. Certamente, no plano intelectual como no domínio das instituições, só no fim alcançará to-

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das as suas consequências; a pólis conhecerá etapas múltiplas e formas variadas. Entretanto, desde seu advento, que se pode situar entre os séculos VIII e VII a.C., marca um começo, uma verdadeira invenção; por ela, a vida social e as relações entre os homens tomam uma forma nova, cuja originalidade será plenamente sentida pelos gregos. Jean Pierre Vernant. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Difel, 1981. Adaptado.

De acordo com o texto, na Antiguidade, uma das transformações provocadas pelo surgimento da pólis foi a) o declínio da oralidade, pois, em seu território, toda estratégia de comunicação era baseada na escrita e no uso de imagens. b) o isolamento progressivo de seus membros, que preferiam o convívio familiar às relações travadas nos espaços públicos. c) a manutenção de instituições políticas arcaicas, que reproduziam, nela, o poder absoluto de origem divina do monarca. d) a diversidade linguística e religiosa, pois sua difusa organização social dificultava a construção de identidades culturais. e) a constituição de espaços de expressão e discussão, que ampliavam a divulgação das ações e ideias de seus membros. 2. Resposta: e. 3. (Enem/MEC – 2014) Compreende-se assim o alcance de uma reivindicação que surge desde o nascimento da cidade na Grécia antiga: a redação das leis. Ao escrevê-las, não se faz mais que assegurar-lhes permanência e fixidez. As leis tornam-se bem comum, regra geral, suscetível de ser aplicada a todos da mesma maneira. VERNANT, J. P. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992 (adaptado).

Para o autor, a reivindicação atendida na Grécia antiga, ainda vigente no mundo contemporâneo, buscava garantir o seguinte princípio:

1. b) O palácio era centro de poder e também o responsável pela organização das atividades econômicas (agricultura, pastoreio, artesanato etc.); para governar o rei valia-se dos tributos recebidos da população.

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6. a) O professor poderá estabelecer com os alunos critérios para a aceitação ou não de uma candidatura fazendo um paralelo com a legislação vigente no Brasil, por exemplo a chamada Lei da Ficha Limpa, aprovada pelo Legislativo em 2010.

a) Isonomia – igualdade de tratamento aos cidadãos. 3. Resposta: a. b) Transparência – acesso às informações governamentais. c) Tripartição – separação entre os poderes políticos estatais. d) Equiparação – igualdade de gênero na participação política. e) Elegibilidade – permissão para candidatura aos cargos públicos.

6. b) Recomenda-se, antes do início da apresentação das propostas, a intervenção do professor para que se trabalhem com os alunos conceitos como os de ideologia, demagogia e seus desdobramentos.

a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim. E por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: Tudo é um.

4. (Enem/MEC – 2015)

NIETZSCHE, F. Crítica moderna. In: Os pré-socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

O que implica o sistema da pólis é uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder. A palavra constitui o debate contraditório, a discussão, a argumentação e a polêmica. Torna-se a regra do jogo intelectual, assim como do jogo político.

O que, de acordo com Nietzsche, caracteriza o surgimento da filosofia entre os gregos? a) O impulso para transformar, mediante justificativas, os elementos sensíveis em verdades racionais.

VERNANT, J. P. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Bertrand, 1992 (adaptado).

b) O desejo de explicar, usando metáforas, a origem dos seres e das coisas.

Na configuração política da democracia grega, em especial a ateniense, a ágora tinha por função

c) A necessidade de buscar, de forma racional, a causa primeira das coisas existentes. 5. Resposta: c.

a) agregar os cidadãos em torno de reis que governavam em prol da cidade.

d) A ambição de expor, de maneira metódica, as diferenças entre as coisas.

b) permitir aos homens livres o acesso às decisões do Estado expostas por seus magistrados.

e) A tentativa de justificar, a partir de elementos empíricos, o que existe no real.

c) constituir o lugar onde o corpo de cidadãos se reunia para deliberar sobre as questões da comunidade. 4. Resposta: c. d) reunir os exércitos para decidir em assembleias fechadas os rumos a serem tomados em caso de guerra. e) congregar a comunidade para eleger representantes com direito a pronunciar-se em assembleias. 5. (Enem/MEC – 2015) A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: 6. c) Sugerimos que se busquem modelos já utilizados pela mídia em campanhas para presidente da República. O mediador deverá organizar o tempo e conceder o direito de réplica, entre outros. Você pode consultar: <http://tub.im/a674a8>. 6. d) Caberá ao professor definir com os alunos a forma como se dará a eleição do representante de sala (direta ou indireta, aberta ou secreta). 6. e) A exemplo do que fizeram os atenienses ao criarem o ostracismo, o professor deverá estabelecer com os alunos as possíveis penas para o representante e os eleitores que não apresentarem uma postura condizente com suas responsabilidades.

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6. Vivência. Vamos praticar a democracia na escola elegendo o representante da sala! Etapas a) Escolha dos candidatos. b) Apresentação das “propostas de governo” dos candidatos. c) Organização de um debate entre os candidatos. d) Eleição do representante de sala. e) Fiscalização. f) Elabore um relatório expondo sua experiência no âmbito da democracia representativa. Poste os produtos dessa atividade no blog da turma. 6. f) Professor: o objetivo é fazer que o aluno vivencie em sala de aula aspectos da democracia representativa que lhe permitam compreender algumas de suas características, e perceber-se como alguém capaz de contribuir para a criação de uma sociedade mais participativa e crítica.

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II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE O ideal de beleza vem mudando ao longo da História. Nos tempos da Grécia antiga, a beleza residia na harmonia entre o exterior e o interior; corpo e espírito; força e inteligência. No texto a seguir, uma historiadora aborda tempos mais recentes. Leia-o atentamente.

1910.

Denkou Images/Alamy/Otherimages

Filme de Billy Wilder. O Pecado Mora ao Lado. EUA. 1955. Foto: Photo12/Glow Images

Vintage Images/Archive Photos/Getty Images

A ditadura dos padrões de beleza

1955.

2010.

[...] No início do século XX, tem início a moda da mulher magra. Não foi apenas uma moda, foi também [...] obsessão pelo emagrecimento [...] Na Europa, de onde vinham todas as modas, a entrada da mulher no mundo do exercício físico, do exercício sobre bicicletas, nas quadras de tênis, nas piscinas e praias, trouxe também a aprovação de corpos esbeltos, leves e delicados. Tinha início a perseguição ao chamado embonpoint, os quilinhos a mais, mesmo que discreto. [...] [...] A chamada “boa aparência” impunha-se. Os bons casamentos sobretudo dependiam dela. Olhos e boca, agora, graças ao batom industrial, passam a ser o centro de todas as atenções. [...] Graças ao cinema americano, novas imagens femininas começam a multiplicar-se. [...] Não era mais Paris quem a ditava, mas os estúdios de Hollywood. Nas páginas de revistas como Cinearte podiam encontrar-se, às dezenas, artigos com títulos sugestivos como: “O que as estrelas vestem?”, “Cabelos curtos ou compridos?”, “A volta das saias compridas”, [...] [...] Ora, o poder de sedução de estrelas do cinema marcou toda uma geração de mulheres, servindo de modelo para a imagem que queriam delas mesmas.

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[...] Envelhecer começa a ser associado à perda de prestígio e ao afastamento do convívio social. Associa-se gordura diretamente à velhice. É a emergência da lipofobia. Não se associava mais o redondo das formas – as “cheinhas” – à saúde, ao prazer, à pacífica prosperidade burguesa que lhes permitia comer muito, do bom e do melhor. A obesidade começa a tornar-se um critério determinante de feiura [...] A gordura opunha-se aos novos tempos que exigiam corpos ágeis e rápidos. [...] [...] as transformações do corpo da mulher brasileira foram brutais. Uma radicalização compulsiva e ansiosa a empurrou nos últimos dez anos, e a segue empurrando para a tríade abençoada pela mídia: ser bela, ser jovem, ser saudável! Graças à supremacia das imagens, instaurou-se a tirania da perfeição física. Hoje, todas querem ser magras, leves, turbinadas. Num mundo onde se morre de fome, grassa uma verdadeira lipofobia. [...] [...] Tornar-se um saco de ossos parece o ideal da mulher contemporânea, mulher que habita um mundo onde milhares morrem de fome. Regimes obsessivos associados à estética do corpo multiplicam-se nas revistas femininas que consagram às mulheres números inteiros com terríveis títulos do tipo: “última chance antes do verão!”. [...] O resultado dessa onda é que os casos de bulimia e anorexia nervosa não param de se multiplicar entre jovens europeias. [...] A indústria cultural ensina às mulheres que cuidar do binômio saúde-beleza é o caminho seguro para a felicidade individual. [...] Perguntadas por que “malham”, as mulheres respondem: [...] – Para lutar contra a lei da gravidade, meu bem... – Vivo em função disso. Igual à criança quando vicia nas coisas. [...] Nessa perspectiva, o sujeito serve ao corpo em vez de servir-se dele. [...] PRIORE, Mary Del. Corpo a corpo com a mulher: pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. 2. ed. São Paulo: Senac, 2000. p. 66, 73-75, 79, 82-83, 90, 92-93, 96.

a) Qual o assunto principal do texto? b) Que relação a autora estabeleceu entre cinema, imprensa e moda no início do século XX? c) Com base na sua observação da realidade, você concorda que nos últimos dez anos “a preocupação com a beleza tem suplantado a preocupação com a saúde”?

III. Integrando com Biologia Em grupo. Ultimamente a imprensa tem noticiado mortes de modelos em consequência de bulimia ou anorexia nervosa. Pesquisem sobre essas doenças e produzam um texto ilustrado com casos verídicos noticiados na imprensa. Postem o resultado no blog da turma.

Sites para a pesquisa na internet: 1. <http://tub.im/dtmqet> 2. <http://tub.im/2qy3dn> 3. <http://tub.im/czww3d> CAPÍTULO 7 | O MUNDO GREGO: DEMOCRACIA E CULTURA

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Roma antiga

Capítulo 8

Você sabia que muitos provérbios que usamos no dia a dia foram criados pelos antigos romanos? Eis alguns deles: “Gosto não se discute” (De gustibus non est disputandum); “Quem com ferro fere com ferro será ferido” (Qui gladio ferit gladio perit); “Em terra de cego, caolho é rei” (Beati monoculi in regno caecorum)... Filme de Ridley Scott. Gladiador. 2000. EUA. Foto: DreamWorks/Courtesy Everett Collection/Easypix

Professor: Comentar que estudar os antigos romanos é importante para a compreensão da sociedade em que vivemos; e isto implica uma postura de valorização do conhecimento sobre a Roma antiga nas escolas de Ensino Fundamental e Médio. Como observou um especialista: “A verdade é que há muito pouca informação

Os atores Connie Nielsen e Joaquin Phoenix em uma cena do filme Gladiador, 2000. sobre Roma antiga e, ainda menos, sobre a nossa relação com a Antiguidade Romana. Esse é um problema que não se restringe a nós, comuns mortais, mas afeta igualmente a imprensa e os chamados formadores de opinião, aqueles que fazem a nossa cabeça [...]”. FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Roma: vida pública e vida privada. São Paulo: Atual, 1993. p. 4. (História geral em documentos).

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» Se a presença romana em nossa língua e cultura é tão

marcante, por que conhecemos pouco da nossa relação com a Roma antiga? » Quem eram os antigos romanos? » Será que as imagens do cinema que os associam a homens

violentos correspondem à realidade?

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Localização e povoamento A Península Itálica, na qual está situada a cidade de Roma, é uma longa faixa de terra em forma de bota, que avança pelo mar Mediterrâneo. Segundo as fontes arqueológicas, a Península Itálica foi ocupada sucessivamente por diferentes povos: os primeiros foram os itálicos, entre os quais se encontravam os sabinos e os latinos. Depois vieram os etruscos, povo comerciante que se estabeleceu a noroeste da península; mais tarde, os gregos, que ocuparam o sul da península e a Sicília. Observe o mapa.

Dica! Compilação de imagens, mapas e artefatos antigos sobre os povos etruscos e latinos. Acesse: <http://tub.im/ tnch23>.

Allmaps

Povoadores da Península Itálica (500 a.C.) 10° L

Itálicos Etruscos Gregos Cartagineses povos

Córsega

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Mar Adriático

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Ao norte, a Península Itálica é limitada pelos Alpes (um conjunto de montanhas); a leste é banhada pelo mar Adriático; a oeste, pelo mar Tirreno; e ao sul, pelo mar Mediterrâneo.

s sabino vols équos co Roma lat s sa ino s os mni co ta Mar s s Tirreno 40° N

Sardenha

lucanos

Tarento

Velia

Crotona Mar Jônico

Cartago

Sicília Agrigento

Siracusa 0

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Fonte: ATLAS da história do mundo. São Paulo: Folha/Times Books, 1995. p. 86.

Roma: lenda e realidade Roma, segundo uma lenda, foi fundada por dois irmãos, Rômulo e Remo, salvos das águas do rio Tibre por uma loba, que os criou. Logo após a fundação da cidade, os dois irmãos se desentenderam: Rômulo matou Remo e tornou-se o primeiro rei de Roma.

Séc. V. Museus Capitolinos, Roma. Foto: Atlantide Phototravel/Corbis/Latinstock

Mar Mediterrâneo

Representação dos gêmeos Rômulo e Remo sendo amamentados pela loba. Arte etrusca, século V.

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É pouco o que se sabe sobre a origem histórica de Roma, inclusive sobre a data de sua fundação. É certo, no entanto, que no século X a.C., na região do Lácio (Itália Central), havia numerosos povos, entre os quais os latinos, que habitavam aldeias situadas às margens do rio Tibre, e que a principal atividade era a prática do pastoreio; no verão, eles levavam seus rebanhos para pastar nas montanhas e, no inverno, os reconduziam para as planícies. Sabe-se ainda que, durante o século VIII a.C., essas aldeias se uniram originando a cidade de Roma; os historiadores acreditam que essa união tenha sido uma estratégia dos latinos para se defender do ataque de seus vizinhos, os sabinos. Tradicionalmente, a história de Roma é dividida em três períodos sucessivos: Monarquia, República e Império.

753 a.C.

509 a.C. MONARQUIA

27 a.C. REPÚBLICA

Divisão do Império em Ocidental e Oriental

395 d.C.

Queda do Império Romano do Ocidente

476 d.C.

IMPÉRIO

Editoria de arte

Nascimento de Cristo

Observação: nesta obra, por questão de espaço, as linhas do tempo não obedecem a uma escala.

O tempo dos reis Há evidências suficientes que comprovam a existência histórica da monarquia romana. Já no tocante a quem eram os reis de Roma, lenda e realidade se misturam. Segundo a tradição, Roma foi governada por sete reis; os quatro primeiros, latinos e sabinos, e os três últimos, etruscos. Os etruscos eram um povo de navegadores e comerciantes que habitava a Etrúria, território situado a noroeste de Roma (veja o mapa da página anterior); a civilização etrusca influenciou muito a civilização romana.

A presença etrusca em Roma

Séc. VI a.C. Terracota. Museu do Louvre, Paris. Foto: Gianni Dagli Orti/Album Art/Latinstock

Casal de esposos; arte etrusca do século VI a.C.

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Por volta de 600 a.C., enquanto se expandiam em direção ao sul da Itália, os etruscos entraram em Roma como comerciantes e artesãos e, por meio de alianças com as famílias locais, ascenderam socialmente e conquistaram o governo da cidade. São numerosos os vestígios arqueológicos que comprovam o domínio etrusco em Roma.

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Durante o tempo em que governaram Roma, os etruscos promoveram a drenagem de pântanos (permitindo a ocupação de regiões antes inabitáveis) e construíram templos, como o do Capitólio; uma grossa e extensa muralha, a Muralha Serviana; e uma ponte ligando as duas margens do Tibre. Assim, Roma, que, até então, era uma aldeia de pastores, tornou-se um centro urbano organizado, próspero e protegido por uma espessa muralha. Os romanos assimilaram dos etruscos o hábito de usar toga; de utilizar litores (oficiais que protegiam a autoridade máxima em público); a crença na possibilidade de ler o futuro pelo movimento dos pássaros no céu; o uso da abóbada e do arco nas construções. Enquanto os gregos usavam colunas e viga mestra, os etruscos utilizavam o arco em suas construções, elemento que os romanos incorporaram à sua arquitetura.

Abóbada:

cobertura encurvada construída geralmente com pedras ou tijolos que se apoiam uns nos outros, de modo que suportem o próprio peso e os externos.

A vida política e social no tempo da realeza Na época da realeza, a sociedade romana era composta basicamente de quatro grupos sociais: » os patrícios (pater, que significa “pais” de família): membros das famílias mais ricas e os únicos com direitos políticos; » os plebeus (plebeius, que significa “do povo”): pequenos agricultores, artesãos ou comerciantes que, além de não terem direitos políticos, podiam ser escravizados por dívidas; » os clientes: eram servidores ou protegidos do chefe de uma família com grande poder e prestígio que era chamado de patrono. Eles trocavam serviços por proteção, comida, roupa e moradia. Quanto mais clientes um patrono possuísse, maior o seu prestígio social e político; » os escravizados: pessoas capturadas em guerras ou reduzidas à escravidão por dívidas (esses em maior número). Politicamente, o rei (rex, em latim) era a maior autoridade religiosa e militar da cidade de Roma. Seu poder, no entanto, não era hereditário; em caso de morte, era o Senado que indicava seu sucessor; e a indicação era referendada ou não pela Assembleia. Além disso, o poder do rei era limitado pelo Senado (órgão dominado por patrícios, grupo que dizia descender das famílias mais antigas de Roma) e por uma Assembleia formada de guerreiros com idade até 45 anos. Os patrícios sempre reagiram ao domínio etrusco sobre Roma; em 509 a.C., aproveitando-se do envolvimento dos etruscos em guerras, os patrícios expulsaram o rei etrusco Tarquínio, o Soberbo, e transformaram Roma em uma República. CAPÍTULO 8 | ROMA ANTIGA

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A República romana O termo Res Publica significa “a coisa pública” e é aplicado como antônimo de “privado”. Com a instalação da República em Roma, os patrícios passaram a monopolizar o poder, reservando para si os principais cargos políticos; o governo romano passou a ser exercido por magistrados, pelo Senado e por assembleias.

Principais magistrados

Edil

Censor Cônsul

Pretor

Roberto Melo

Questor

Ilustração dos principais magistrados feita com base em fontes romanas.

Os principais magistrados eram dois cônsules, eleitos por um ano; um deles comandava o Exército, o outro administrava a cidade e presidia o Senado. Havia ainda os pretores, subordinados aos cônsules e responsáveis pela aplicação da justiça; os censores, que contavam a população e a classificavam de acordo com suas posses; os questores, que cuidavam da arrecadação dos impostos e das despesas públicas; os edis, que respondiam pelo policiamento, pelo abastecimento, pela conservação das ruas e pela organização dos espetáculos públicos; e o ditador, que governava Roma com plenos poderes por um período de seis meses e era escolhido pelo Senado em caso de grave ameaça à República (guerra, por exemplo). O Senado, formado por 300 membros vitalícios, controlava o tesouro público, dirigia a política externa e a guerra; zelava pela religião e pelos interesses da cidade; era consultado antes de qualquer decisão importante envolvendo a cidade de Roma, daí ser considerado, por alguns, como o principal órgão da República romana. Somente os patrícios podiam ocupar os mais altos cargos da República: o de magistrado e o de senador. As assembleias eram três: a Assembleia das tribos, reunião dos cidadãos conforme o local de residência ou a origem (elegia os questores e os edis); a Assembleia da plebe, representada exclusivamente por plebeus, votava assuntos de interesse da plebe; e a Assembleia centuriata, reunião dos cidadãos em centúrias (unidades do exército) segundo o grau de riqueza (votava as declarações de guerra e os acordos de paz e elegia as magistraturas mais elevadas, como cônsules e pretores).

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Patrícios versus plebeus

Séc. I a.C. Mármore. Museos Capitolinos, Roma. Foto: G. Nimatallahi/De Agostini/Album/Latinstock

No exército romano, cada homem custeava seu próprio armamento; assim, os plebeus, com suas poucas posses, montavam centúrias com muitos homens e armamento básico; já os patrícios organizavam centúrias com poucos homens e armamento completo. Como o voto era por centúria e havia mais centúrias patrícias do que plebeias, os patrícios acabavam sempre vencendo e impondo sua vontade. O total de centúrias era 193; para conseguir a maioria eram necessários 97 votos.

Ao excluírem os outros grupos do exercício do poder, os patrícios encontraram forte resistência por parte dos plebeus, que eram maioria na Roma antiga. Como cidadãos, os plebeus contribuíam para a riqueza de Roma, pagavam impostos e serviam ao exército; mas, apesar disso, eram excluídos do direito de participação no governo. A exclusão se repetia Patrício romano na vida social: o casamento entre plebeus e patrícios era proibido. Além carregando dois disso, ao serem convocados para lutar nas guerras de conquista travadas bustos de membros de sua família. por Roma, os plebeus tinham de abandonar suas pequenas propriedades Arte romana do e, com isso, se endividavam e acabavam perdendo a terra e a liberdade, século I a.C. ou seja, eram escravizados. Cientes da sua importância tanto para a economia quanto para a segurança de Roma, os plebeus iniciaram uma luta por igualdade de direitos. Para pressionar os patrícios, eles se retiravam de Roma e ameaçavam não participar mais do exército. Assim, por meio de sucessivas revoltas, os plebeus foram conquistando direitos. Observe: » Tribunato da Plebe (494 a.C.) – Os plebeus ganharam o direito de eleger um tribuno da plebe, magistrado encarregado de defender os interesses da plebe e com poder de anular leis prejudiciais a esse grupo social. » Lei das Doze Tábuas (450 a.C.) – As primeiras leis escritas (na verdade, eram inscrições em placas de bronze) da história de Roma. Com leis escritas, ficava muito difícil para os patrícios interpretá-las conforme seus interesses. De certa maneira, regulava os direitos de propriedade, entre outros, e confirmava privilégios dados a patrícios. » Lei Canuleia (445 a.C.) – Permitia o casamento entre patrícios e plebeus. » Leis Licínias Séxtias (367 a.C.) – Uma das leis determinava que um dos dois cônsules tinha de ser plebeu. A outra cancelava parte da dívida que os plebeus tinham com os patrícios. » Lei Poetélia Papiria (326 a.C.) – Lei que proibiu a escravidão por dívidas. » Lei Hortência (286 a.C.) – Permitia que leis fossem aprovadas pela Assembleia da plebe; assim, as decisões tomadas pelos plebeus em suas assembleias passaram a valer para todos os cidadãos. A luta da plebe por direitos estendeu-se por mais de 200 anos e beneficiou, sobretudo, os plebeus mais ricos, os únicos que conseguiam o cargo de magistrado ou o de senador. Outra via de ascensão dos plebeus foi o casamento entre seus filhos e os das famílias patrícias. Formou-se, assim, um novo grupo social, o Nobilitas, composto por patrícios e plebeus enriquecidos. CAPÍTULO 8 | ROMA ANTIGA

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Roma, senhora do mundo antigo Província:

território conquistado fora da Península Itálica e que devia pagar impostos a Roma.

Editora Record

Reprodução da capa do gibi Asterix e a surpresa de César. Asterix e Obelix, personagens criados por René Goscinny e Albert Uderzo, são habitantes de uma aldeia que resistiu ao Império Romano. A obra Asterix, um sucesso em várias partes do mundo, não tem nenhum compromisso com a evidência, é ficção.

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Enquanto os plebeus lutavam por direitos, Roma investia na expansão de seus domínios por meio da guerra. Desde cedo os romanos se armaram para se defender dos ataques de seus vizinhos; mas com o recrudescimento das lutas sociais e o fortalecimento político da plebe, os romanos passaram a guerrear, sobretudo, para obter bens (terras e outras riquezas) e controlar rotas de comércio. Os povos vencidos eram transformados em aliados e eram obrigados a fornecer soldados para Roma; já as terras conquistadas dos adversários eram transformadas em “terra pública” (ager publicus, em latim), para a fortuna e a glória de Roma. Assim, entre os séculos V e III a.C., por meio de guerras e acordos políticos, as legiões romanas, formadas por infantaria, artilharia e cavalaria, conquistaram quase toda a Península Itálica. Com a conquista da Itália, Roma se transformou em uma potência militar e econômica. E não tardou para que entrasse em conflito com outra potência da época, Cartago, uma colônia fundada pelos fenícios no norte da África, que prosperou por meio do comércio marítimo. A disputa por terras e rotas de comércio no Mediterrâneo ocidental deu origem a três guerras entre Roma e Cartago, as guerras púnicas, assim denominadas porque os romanos chamavam os cartagineses de punici (de poenici, ou seja, de origem fenícia). Romanos e cartagineses se enfrentaram em três guerras consecutivas entre 264 e 146 a.C.; a vitória nessas guerras coube aos romanos, que ao término do conflito destruíram a cidade de Cartago, escravizaram seus sobreviventes e transformaram o território cartaginês em uma província romana. A seguir, os romanos voltaram-se para o leste, onde dominaram a Macedônia, a Grécia e parte da Ásia Menor; depois conquistaram a Gália, sob o comando do general Júlio Cesar, ocuparam o Egito e o norte da África. Assim, em fins do século I a.C., Roma tinha se tornado senhora das terras em volta do Mediterrâneo, mar que os romanos passaram a chamar de Mare Nostrum (“nosso mar”). Os territórios conquistados por Roma foram transformados em províncias. O denário, a moeda de prata romana, tornou-se a moeda circulante na Itália e nas províncias. As conquistas romanas provocaram uma série de profundas mudanças na Roma antiga, tais como: » enriquecimento do Estado romano (terras, minas, rebanhos, dinheiro de impostos e outros bens obtidos nas províncias);

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» ascensão dos cavaleiros, novo grupo social formado de homens en-

Dica! Documentário sobre os costumes na Roma antiga. Duração de 45 minutos. Acesse: <http://tub.im/ ide65e>.

Mosaico. Museu Hermitage, São Paulo. Foto: Alamy/Glow Images

riquecidos com o comércio, a cobrança de impostos nas províncias e os serviços prestados a Roma; o nome deriva do fato de os indivíduos poderem pertencer à cavalaria por serem ricos; a cavalaria exigia dos seus integrantes armas e equipamentos caros. » aumento considerável do escravismo. Com as conquistas, milhares de prisioneiros de guerra foram levados para a Itália como escravos; » concentração das terras conquistadas, já que as maiores e melhores terras foram apropriadas pelos patrícios e pelos cavaleiros. » Roma tornou-se uma cidade cosmopolita, isto é, passou a reunir indivíduos de diferentes povos e culturas. Entre esses povos estavam os gregos, cuja influência se fez sentir nas artes, na vida intelectual e religiosa. As terras e os escravos aprisionados nas guerras originaram na Itália grandes propriedades escravistas voltadas para a produção de vinho e azeite de oliva, a serem vendidos para as províncias. Nas propriedades romanas havia, muitas vezes, centenas de escravizados, pessoas vindas de diferentes partes dos domínios romanos. Os escravos constituíam a maioria dos trabalhadores, mas havia também um número considerável de homens livres, geralmente dependentes. O administrador da grande propriedade era um capataz, geralmente um escravo com direitos que outros não tinham, como o de casar-se. No mundo greco-romano era comum os escravizados desempenharem ofícios socialmente prestigiados, como o de preceptor dos filhos da elite romana. A pequena propriedade camponesa foi prejudicada, mas não desapareceu; sem condições de competir com a grande propriedade, passou a produzir para a subsistência ou para abastecer mercados locais. Durante a República, ocorreram três grandes revoltas escravas no mundo romano: duas delas na Sicília, de 136 a 132 a.C., e de 104 a 101 a.C.; a outra, no sul da Itália, de 73 a 71 a.C. Esta última foi tema de filme, de história em quadrinhos e é conhecida como a Revolta de Espártaco. Mosaico do século I que representa um copeiro a serviço de uma família romana. Os escravizados eram pessoas de diversas origens: europeus, asiáticos e africanos, que trabalhavam em minas, pedreiras, atividades agropastoris e também em serviços domésticos, como indicado na imagem. Trabalhavam ainda como cozinheiros, médicos, músicos, dançarinos e professores dos filhos dos ricos. Na Roma antiga, os escravos podiam ser vendidos, surrados, queimados com ferro em brasa e, até mesmo, crucificados. A escravidão romana, no entanto, não se baseava apenas na violência. Um escravo podia obter a liberdade por serviços prestados. E, uma vez livre, podia tornar-se cidadão e, portanto, ter direito de voto.

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A questão agrária Infantaria:

tropa ou grupo de soldados que lutam a pé, sem montaria.

Reforma agrária:

conjunto de medidas que buscam tornar a posse e o uso da terra acessíveis a um maior número de pessoas ou famílias.

As guerras de conquista tiveram um significado diferente para patrícios e cavaleiros, de um lado, e para pequenos agricultores, de outro. Os patrícios apossaram-se da maior parte das terras e montaram fazendas escravistas; os cavaleiros enriqueceram com a cobrança de impostos e o comércio; já para os pequenos agricultores, as guerras geralmente significavam perdas. Primeiro, porque muitos morriam combatendo na infantaria; segundo, porque, ao retornar da guerra, depois de uma ausência prolongada, os camponeses muitas vezes encontravam a sua propriedade invadida; terceiro, porque a divisão do espólio (riquezas tomadas do inimigo) era feita de acordo com o armamento de cada um; os mais ricos e mais bem armados ficavam, portanto, com a maior parte do espólio. Além disso, a concorrência das fazendas escravistas e dos produtos vindos das províncias a preços baixos arruinou muitos pequenos proprietários que, sem ter meios de extrair sua subsistência do campo, se mudaram para as cidades.

Pierre Jules Cavelier, 1861. Mármore. Museu d’Orsay, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

As reformas dos Graco Nesse co contexto marcado pelo empobrecimento dos agricultores soldados e pela migração em massa para a cidade, Tibério Graco, eleito tribuno da plebe em 133 a.C., propôs uma reforma agrária que: » limitava o tamanho das terras públicas que um indivíduo podia possuir (lembre-se de que os ricos se apossavam delas ilegalmente); » determinava a distribuição de lotes de terras entre os cidadãos pobres. A proposta de lei recebeu o apoio dos camponeses, mas foi mal 3027-HIS-V1-U03-C08-F008 recebida pelos grandes proprietários, que temiam ser expropriados; a tensão em Roma aumentou, e Tibério Graco foi perseguido e morto durante uma assembleia. Em 123 a.C., o irmão de Tibério, Caio Graco, foi eleito tribuno da plebe e propôs leis que previam: » a distribuição de trigo para os cidadãos a preços reduzidos; » a extensão da cidadania a alguns povos aliados dos romanos; » a obrigação de o Estado romano pagar o equipamento dos homens que iam à guerra. Com essas leis, Caio Graco se tornou bastante popular e, com Escultura em mármore em que isso, passou a ser perseguido pelas forças do Senado. Diante da crescente se veem Cornélia pressão, Caio pediu que um escravo o matasse. Com a morte dos irmãos e seus dois filhos, Tibério e Caio Graco, a questão agrária continuou sem solução e as disputas pelo poder Graco. tornaram-se cada vez mais violentas.

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Para refletir Os ricos tomavam a maior parte das terras públicas e, confiantes de que ninguém nunca as retomaria, começavam a avançar nos lotes vizinhos e nos poucos acres dos pobres camponeses das redondezas, às vezes pela persuasão, outras pela força, de forma que, ao final, estavam em Camponeses transportam vinho suas mãos imensas propriedades rurais, em uma carroça. Relevo do século II. no lugar dos antigos pequenos lotes camponeses. Usavam escravos como agricultores e pastores, pois temiam que, se usassem mão de obra livre, os camponeses fossem obrigados a parar o serviço para servir o Acres: exército. A posse de escravos era altamente rentável, pois unidade de medida havia muitos à disposição e, não estando sujeitos à leva miusada na Roma antiga. litar, podiam multiplicar-se em cativeiro. Assim, os poderoPersuasão: sos tornaram-se ricos ao extremo e a Itália estava repleta convencimento. de escravos, enquanto decrescia a população livre, abatida pela pobreza, pelos impostos e pelo serviço militar.

Séc. II. Relevo. Museum of Roman Civilization, Roma. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

O texto a seguir é do historiador romano Apiano (95-165). Leia-o com atenção.

APIANO apud PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi. História da cidadania. São Paulo: Contexto, 2009. p. 59.

a) O historiador Apiano descreve um processo econômico ocorrido na Roma antiga. O processo de concentração de terras, por meio do qual os grandes proprietários enriqueciam, Que processo foi esse? a)enquanto os pequenos proprietários se viam despojados de suas propriedades e empobrecidos. b) Como o historiador explica o fato de os ricos preferirem os escravos aos homens livres para trabalhar em suas propriedades? c) Que relação se pode estabelecer entre o processo descrito pelo historiador romano e as propostas dos irmãos Graco? b) Segundo ele, os ricos temiam que os camponeses tivessem de abandonar o

A ascensão dos militares As vitórias consecutivas nas guerras de conquista deram poder e prestígio aos militares. Mas como as guerras eram cada vez mais demoradas e distantes, foi se tornando difícil convencer os camponeses a abandonar suas terras para participar de campanhas militares. Eleito cônsul pela primeira vez em 107 a.C., o general romano Mário instituiu o pagamento de salário a soldados, o que levou à profissionalização do exército romano. Consequentemente, o exército romano passou a ser composto cada vez mais por soldados de origem não romana.

Séc. I. Museu Nacional Arqueológico, Espanha. Foto: De Agostini/Getty Images

trabalho para servirem ao exército romano, fato comum na história da República romana. Professor: comentar que, para os pequenos agricultores, as guerras geralmente significavam perdas de terras e de outros bens. c) A relação está no fato de que os irmãos Graco se opuseram frontalmente a esse processo de concentração de terras e de empobrecimento dos agricultores soldados; daí terem proposto uma reforma agrária que previa a distribuição de terras entre os cidadãos pobres.

Estátua de uma vestimenta militar, século I d.C.

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1. Dica! Vídeo sobre a passagem da República ao Império. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub.im/b9jd9b>. 2. Dica! Documentário sobre o comportamento do general Júlio César. [Duração: 43 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ crke5r>. 3. Dica! Vídeo que reconta a traição de Brutus e o assassinato de Júlio César. [Duração: 5 minutos]. Acesse: <http://tub.im/zo42fn>.

Além de receber salário de seus comandantes, esses soldados permanentes também dependiam deles para obter parte de um saque, promoção na carreira ou lotes de terra ao concluírem seu tempo no Exército. Como era de se esperar, esses soldados passaram a ser mais leais a seus comandantes do que ao Estado romano. Com isso, os comandantes militares se fortaleceram e passaram a lutar entre si pelo poder, transformando o mundo romano em um palco de inúmeras guerras civis. Entre 107 a.C. e 100 a.C., o general Mário, que tinha o apoio dos “populares”, foi eleito cônsul por seis vezes. Depois, o consulado foi ocupado pelo general Lúcio Sila, homem de confiança do Senado. Em 88 a.C., Sila, apoiado em suas tropas, entrou em Roma fazendo-se aclamar ditador perpétuo. Era a primeira vez que isso acontecia em Roma; pelas leis da República só se poderia instalar a ditadura se a sociedade estivesse correndo perigo. Sila se fez ditador por tempo ilimitado (a palavra “ditador” assumia, assim, o significado dos dias atuais). Mandou matar partidários de Mário, e um clima marcado por conspirações e assassinatos tomou conta de Roma. 1

O Primeiro Triunvirato 100-44 a.C. Mármore. Museu de História da Arte, Viena. Foto: Justus Göpel/ AKG-Images/Album/Latinstoc

Nesse cenário, emergiram novos comandantes militares com pretensões ao poder: Crasso, um dos homens mais ricos da Itália, e vencedor da revolta escrava liderada por Espártaco; Pompeu, que se destacara por suas vitórias militares no Oriente; e o sobrinho de Mário, Júlio César. Em 60 a.C., Crasso, Pompeu e Júlio César fizeram um acordo secreto, mais tarde chamado Primeiro Triunvirato, e assumiram o comando do mundo romano. Júlio César e suas tropas partiram, então, para conquistar a Gália; Crasso dirigiu-se ao Oriente, também em campanha militar; e Pompeu, sozinho em Roma, recebeu amplos poderes do Senado. Depois de conquistar a Gália, Júlio César voltou a Roma, venceu as forças de Pompeu e tomou o poder. Valendo-se do cargo de ditador, que forçou o Senado a lhe conceder, promoveu um amplo programa de reformas: » distribuiu terras a milhares de ex-soldados; » coibiu abusos dos governadores de províncias e dos cobradores Escultura em de impostos; mármore do político, » melhorou a distribuição de trigo à plebe de Roma; escritor e general Júlio » introduziu o calendário Juliano, que divide o ano em 365 dias; César. Como ditador, » promoveu a construção de um fórum. ele autorizou a emissão de uma moeda de ouro No entanto, um grupo de senadores contrários ao ditador o acusou de com a sua efígie e, em trair a República e de querer ser rei, e, em 44 a.C., Júlio César foi assassipúblico, usava sempre o nado. Descobriu-se que ele havia deixado no seu testamento uma quantia traje triunfal: um manto de púrpura e uma coroa em dinheiro a cada romano, o que aumentou ainda mais sua popularidade de louros. e motivou uma violenta perseguição aos seus assassinos. 2 e 3

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Filme de Joseph L. Mankiewicz. Cleópatra. 1963. EUA. Foto: Bettmann/Corbis/Latinstock

O Segundo Triunvirato Com a morte de César, o Senado continuou perdendo força, e outros três militares formaram o Segundo Triunvirato. Eram eles: Caio Otávio (o filho adotivo de Júlio César), Marco Antônio (cônsul) e Lépido (chefe da cavalaria). Otávio ficou com o Ocidente, Marco Antônio, com o Oriente, e Lépido, com a África. Otávio destituiu Lépido de seu posto na África. A seguir, apresentando-se como defensor das tradições romanas, acusou Marco Antônio de trair Roma ao se casar com Cleópatra, rainha do Egito. A disputa entre eles teve fim quando Caio Otávio venceu o exército de Marco Antônio na Batalha de Ácio, em 31 a.C., invadiu o Egito e o transformou em uma província de Roma. Cleópatra e Marco Antônio se suicidaram, e Caio Otávio assumiu o comando do mundo romano.

A Pax Romana Ao assumir o poder, Caio Otávio apresentou-se como defensor da paz e conservou as instituições republicanas, procurando dar uma aparência de legalidade ao regime. Mas, paralelamente, por meio de uma série de manobras políticas, acumulou títulos e poderes, entre os quais o de Príncipe (líder do Senado e o primeiro dos cidadãos); o de Augusto (venerado); e o de Imperador (comandante supremo dos exércitos). Otávio Augusto, nome pelo qual Caio Otávio passou a ser chamado, podia propor e vetar leis, convocar o Senado e as assembleias e intervir militarmente em Roma, na Itália, e em todas as províncias romanas. Assim, em 27 a.C., tinha início o período conhecido como Império Romano. O governo do imperador Otávio Augusto (27 a.C.-14 d.C.) promoveu uma série de reformas de grande impacto social que aumentaram sua popularidade: » organizou o Império, definiu seus limites e fortaleceu suas fronteiras enviando tropas para defendê-las; » distribuiu terras aos seus soldados, instituiu uma aposentadoria para os militares veteranos e regulamentou a distribuição de trigo à plebe; » assumiu a administração de algumas províncias, entre as quais o Egito, importante fornecedor de trigo para Roma; as demais foram confiadas à administração do Senado;

Cena do filme Cleópatra em que se vê a atriz Elizabeth Taylor no papel da famosa rainha do Egito. Os olhos claros, os cabelos lisos e o nariz afilado da atriz construíram uma imagem absolutamente idealizada da rainha egípcia Cleópatra. O filme espelha, assim, muito mais o tempo em que ele foi realizado (década de 1960) do que a época que pretendeu retratar.

Dica! Trailer oficial do filme Cleópatra (1963) com a atriz Elizabeth Taylor. [Duração: 6 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/y4hz3m>.

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» modernizou a cidade de Roma, que passou a ser administrada por um

Mausoléu:

tumba grandiosa, normalmente construída para um líder ou uma figura importante.

Dica! Vídeo que destaca a história da fundação do Império Romano e da difusão do cristianismo. [Duração: 45 minutos]. Acesse: <http://tub. im/s4dnnd>.

prefeito, e ganhou um corpo de bombeiros para combater os incêndios quase diários que afligiam sua população; » financiou a construção de uma série de obras que valorizavam a sua imagem, como o Fórum de Augusto, o Altar da Paz e um mausoléu para a família imperial. Com esse conjunto de medidas, o governo de Otávio Augusto inaugurou um período de estabilidade política conhecido como Pax Romana, que se prolongou por mais de 200 anos. Durante esse longo período, as principais cidades do Império foram modernizadas, ganhando estradas, teatros, edifícios públicos, aquedutos e fontes. Por volta de 117 d.C., no governo do imperador Trajano, o Império Romano adquiriu sua máxima extensão.

OCEANO ATLÂNTICO

eslavos

BRITÂNIA germanos

40

°N

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HISPÂNIA

Mar Cáspio

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DALMÁCIA Roma

MÉSIA

Mar Negro

ARMÊNIA PONTO PENÍNSULA DÔ E GALÁTIA Sardenha ITÁLICA MAC IA M ÉC ES ÁSIA MENOR GR OP Sicília Crotona Atenas OT Cartago Siracusa ÂM Esparta SÍRIA IA Chipre Creta Mar Damasco NU Mediterrâneo MÍ DI Jerusalém Cirene A Alexandria PENÍNSULA CIRENAICA ARÁBICA Córsega

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Império Romano em sua maior extensão

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Estima-se que o Império Romano tinha na época cerca de 55 milhões de habitantes, dos quais 8 milhões viviam na Itália, sendo um milhão em Roma. Como se pode observar, o Império Romano possuía dimensões gigantescas: estendia-se desde a Península Ibérica, a oeste, até a Mesopotâmia, a leste; e desde a Britânia, ao norte, até o Egito, ao sudeste. As legiões mais bem armadas ficavam estacionadas nas proximidades dos rios Reno e Danúbio.

Allmaps

Império Romano: extensão máxima (século II)

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 27.

O período da Pax Romana, vivido pelo Império nos séculos I e II, foi também um tempo de crescimento econômico e, particularmente, de expansão e dinamização do comércio. Entre os fatores que favoreceram essa expansão, podemos citar: a existência de portos bem equipados, uma rede de estradas bem planejadas e o uso de uma moeda única (o denário) em todo o Império.

Sociedade e moradias no Império A sociedade imperial romana apresentava grande disparidade entre ricos e pobres, cidadãos, não cidadãos e escravos. Em outras palavras, era uma sociedade rigidamente estratificada. As mulheres, embora possuíssem alguns

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Clifford Pember. Séc. XX. Ashmolean Museum, Inglaterra. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

direitos, como a posse de propriedade, eram geralmente subordinadas aos homens. Os atributos valorizados na mulher eram serem donas de casa, castas e modestas; já os homens eram respeitados por sua dedicação à vida pública e à família. O casamento tinha como principal finalidade a geração de herdeiros. A desigualdade na sociedade imperial romana refletia-se também nos diversos tipos de moradia: a villa, moradia dos homens ricos do campo; a domus, moradia dos ricos nas cidades; e a insula, moradia dos pobres. » Villa: grande propriedade rural com consModelo do século XX baseado na descrição truções decoradas com mosaicos e pinturas de Plínio, o Jovem, de como era a sua villa murais; as villae (plural de villa) chegavam a localizada próxima a Roma. ter dezenas de aposentos e eram geralmente circundadas por uma área agrícola na qual se cultivavam videiras, oliveiras, árvores frutíferas, como figueira e amoreira, e hortas. Dica! Vídeo em 3D » Domus: casa térrea e espaçosa, que servia de residência às famílias 1. que permite conhecer ricas nas cidades. A domus possuía aberturas no teto, várias salas, por dentro, e em quartos, jardim, sala de banquetes e algumas paredes decoradas com detalhes, a domus, a residência da nobreza pinturas. O conhecimento sobre a arquitetura dessa moradia foi possível na Roma antiga. [Duração: 3 minutos]. graças às ruínas encontradas em Pompeia. 1 » Insula: moradia popular de quatro ou cinco andares, cujos cômodos, Acesse: <http://tub. im/s26him>. sem água e claridade natural, eram alugados à população pobre; por 2. Dica! Vídeo que vezes, um único cômodo abrigava uma família inteira. As insulae (plu- ajuda a conhecer o ral de insula) não possuíam esgoto nem sanitário, e os seus diversos espaço urbano e vários andares eram ligados por uma escada externa. As lamparinas para ilu- dos mais importantes monumentos da Roma minação causavam incêndios frequentes; construídos uns próximos aos antiga. [Duração: 50 outros, esses prédios desmoronavam ou pegavam fogo com facilidade minutos]. Acesse: por serem feitos de materiais pouco resistentes, como argila e madeira. <http://tub.im/ vjea83>. No andar térreo, aberto para a rua, havia lojas comerciais e tavernas, que também eram alugadas. 2

Espaços de diversão e lazer Os romanos do tempo do Império tinham vários espaços de diversão e lazer, entre os quais cabe citar as termas, os anfiteatros, os circos e os teatros. As termas, isto é, os banhos públicos, eram locais concorridos e apreciados por pessoas de diferentes idades que lá iam para se banhar e conversar. Em geral, as pessoas ricas banhavam-se entre as 14h e 16h. Já as mais humildes se banhavam após esse horário. As primeiras termas foram construídas no século I e, em pouco tempo, passaram a fazer parte da paisagem da maioria das cidades do Império. Elas eram planejadas para oferecer conforto CAPÍTULO 8 | ROMA ANTIGA

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(Detalhe) Séc. I a.C. Afresco. Museu de Arte Romana, Espanha. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Afresco do Teatro Merida em que se vê um gladiador lutando com um leão, século I a.C. Os gladiadores eram geralmente escravos, mas os indivíduos livres e muito pobres também aceitavam lutar nos anfiteatros, com a esperança de receber a recompensa (joias e moedas de prata ou ouro) dada aos vencedores. Havia empresários especializados, os lanistas (palavra de origem etrusca), que enriqueciam recrutando, selecionando e treinando gladiadores. Gladiador:

escravo, condenado ou indivíduo livre e pobre que, geralmente, treinava em escolas de gladiadores para combater outros homens ou animais, a fim de divertir o público.

Dica! Viagem virtual ao Circo Máximo Romano. [Duração: 1 minuto].Acesse: <http://tub.im/ t356mh>.

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aos seus frequentadores; as maiores, como as Termas de Caracala, em Roma, possuíam área para exercícios físicos, biblioteca e lojas comerciais. Os anfiteatros – espaços de glória e de morte – abrigavam lutas entre gladiadores, e entre estes e as feras (urso, tigre, leopardo, leão). Os anfiteatros romanos possuíam uma arena oval, rodeada por fileiras de assentos semelhantes às dos estádios de futebol atuais. O maior deles era o Coliseu de Roma, com capacidade para 45 mil espectadores sentados e cerca de 5 mil em pé. No seu subsolo, ficavam as salas destinadas aos gladiadores, às feras e à maquinaria que permitia as mudanças de cenário na arena. Havia também um dispositivo usado para encher a arena de água de modo a permitir a realização de combates navais. Os espetáculos começavam ao amanhecer e iam até o pôr do sol. Desde a República, os espetáculos eram patrocinados por políticos, homens ricos e eram gratuitos para o público. DIALOGANDO Em sua opinião, os espetáculos da Roma antiga podem ser considerados um instrumento de controle social? Por quê? Sim, pois distraíam e ocupavam a população, ajudando, assim, a manter a ordem social e o status quo.

Outro espaço de lazer eram os circos, onde se davam as corridas com carros puxados por cavalos, uma paixão popular no Império Romano. Havia corridas de biga (carros puxados por dois cavalos) e de quadriga (carros puxados por quatro cavalos). O maior circo romano era o Circo Máximo, que no fim do Império acomodava cerca de 250 mil pessoas. Chamados de aurigas, os corredores eram, geralmente, homens escravizados, mas havia também homens livres que corriam em troca de recompensa material. As corridas eram sempre perigosas, sobretudo na ultrapassagem e nas curvas, mas, para os homens livres, eram também lucrativas. Elas aconteciam nas principais cidades do Império, eram patrocinadas pelo governo, e sua entrada era gratuita. Os aurigas vestiam uma túnica leve e larga (para que não prendesse seus movimentos), capacete para a proteção da cabeça e chicote para incitar os cavalos a correrem. Os espetáculos eram acompanhados por bandas de música, as apostas eram altas, e as torcidas se dividiam por cores: verde, azul, branco, vermelho. Como a rivalidade entre torcidas geralmente terminava em violência, havia policiais para evitar ou reprimir brigas durante os espetáculos.

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DIALOGANDO A violência nos espetáculos para o grande público é, como se vê, um fenômeno do passado e do presente. Que sugestão você daria para diminuir a violência nos estádios de futebol do Brasil? Resposta pessoal. Professor: o objetivo aqui é estimular a reflexão sobre a violência praticada pelas torcidas uniformizadas e disseminar a cultura da paz.

Muito menos concorridos do que os espetáculos de luta entre os gladiadores e as corridas com cavalos eram as peças apresentadas nos teatros. Neles, encenavam-se tragédias, comédias, além de espetáculos improvisados e maliciosos, mais ao gosto popular.

O legado romano Passados 2 mil anos, é possível perceber a presença dos antigos romanos na nossa maneira de pensar, sentir, falar e organizar a vida em sociedade. Dos romanos herdamos, entre outros, conhecimentos de engenharia e princípios jurídicos, isso sem contar que nossa língua originou-se do latim, a língua falada pelo povo em Roma.

A engenharia romana No campo da tecnologia, os romanos herdaram conhecimentos e técnicas dos etruscos e gregos e também desenvolveram os seus próprios. Foram os romanos, por exemplo, os inventores do caementum, uma espécie de cimento, que resulta da mistura de cal (dos egípcios) com a pozolana, uma cinza vulcânica do monte Vesúvio. Além disso, eles souberam misturar essa espécie de cimento com areia, cascalho e água, obtendo assim o que chamamos hoje de concreto. Valendo-se do cimento, do concreto, e de conhecimentos de geometria e cálculo, os romanos fizeram obras de engenharia notáveis por sua resistência e tamanho, como aquedutos, estradas e anfiteatros. Aquedutos são canais que servem ao transporte de água que, após ter sido recolhida em nascentes e poços, é levada até as cidades. Inicialmente, os aquedutos eram simples canais que ficavam na superfície do terreno ou canalizações feitas de terracota ou chumbo. Posteriormente, os romanos conceberam e executaram aquedutos aéreos suportados por arcos; no início do século I, Roma possuía mais de uma dezena de aquedutos para abastecer sua população crescente. Fruto da engenhosidade romana, esses aquedutos sustentados por imensos arcos são encontrados ainda hoje nas regiões que foram antigamente dominadas pelo Império Romano. As estradas romanas eram cuidadosamente planejadas e foram construídas, sobretudo, para fins militares (deslocamento de tropas e dos mensageiros imperiais por todo o Império); o comércio também foi incrementado graças a essa engenharia. O mundo romano era todo cortado por estradas; CAPÍTULO 8 | ROMA ANTIGA

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Mário Pita

daí o dito popular: “Todos os caminhos levam a Roma”. Por serem bem construídas, as estradas romanas resistiram ao tempo e algumas delas continuam a ser utilizadas por pessoas e veículos até hoje; em alguns lugares são ainda os melhores caminhos disponíveis.

Dica! Viagem virtual pela Roma antiga. [Duração: 10 minutos]. Acesse: <http://tub. im/7jjvuc>.

Construção de uma estrada romana em uma ilustração do livro Construção de uma cidade romana, de David Macaulay. Inicialmente, os trabalhadores estaqueavam e cavavam uma valeta de cada lado; em seguida, eles assentavam fileiras de blocos com as quais formavam a borda da calçada. Depois, cavavam uma valeta mais profunda entre as duas bordas, que ia sendo preenchida por camadas de pedras cada vez menores. A estrada era levemente abaulada no centro para que a água da chuva escoasse para as valetas.

Mozart Couto

No campo da engenharia, os romanos também desenvolveram guindastes potentes e ágeis para o desembarque de mercadorias que chegavam a Roma vindas de diferentes partes do mundo. Veja o que diz um historiador: Na cidade de Roma, [...] grandes quantidades de produtos eram recebidas diariamente no porto, no rio Tibre, desembarcadas e armazenadas em Desembarque de vasos para o transporte de azeite no depósitos. Depois disso, os produtos porto do rio Tibre, o principal do Império. O guindaste que se eram encaminhados a diversos mervê na imagem foi projetado pelos antigos romanos. Desenho com base na obra do historiador Pedro Paulo Funari. cados, sendo o mais central um imponente edifício, ainda muito bem conservado, com diversos andares. O Mercado de Trajano, que assim ficou conhecido graças ao imperador Trajano (início do século II d. C.), possuía em seu interior um sem-número de lojas que vendiam de tudo a uma verdadeira multidão de compradores. FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Roma: vida pública e vida privada. São Paulo: Atual, 1993. p. 37. (História geral em documentos).

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O direito romano

Resposta pessoal. Professor: pode-se discutir a redução da maioridade penal à luz desse princípio romano. Aproveitar o assunto para trabalhar os conceitos de justiça e equidade. Partir de um exemplo retirado do cotidiano para estimular o debate.

Os antigos romanos tinham grande interesse por tudo o que se referia à justiça; a palavra justiça, inclusive, vem de jus, que em latim significa “direito”, “equidade”, “justiça”. As crianças aprendiam desde cedo noções de direito e eram ensinadas a obedecer às leis; os jovens, por sua vez, eram estimulados na escola a falar bem em público e a conhecer as leis; os homens de negócio também deviam ter esse conhecimento para serem respeitados. Os romanos não se preocuparam apenas em fazer leis, mas também em torná-las públicas. A Lei das Doze Tábuas (450 a.C.), por exemplo, foi gravada em bronze e exposta no local em que os oradores se dirigiam ao Senado. Os romanos se empenharam também em compilar e divulgar decretos e decisões judiciais. Essas compilações receberam o nome de códigos e serviram de base para códigos de diferentes países, como Itália, Escócia, África do Sul e Brasil. Por isso se diz que, entre os povos antigos, os romanos foram os que mais contribuíram para fundar uma ciência jurídica.

DIALOGANDO Segundo o Direito romano: “Na aplicação de penalidades, contam a idade e a inexperiência da parte culpada”. Você considera isto justo?

Evangelho:

significa “boa-nova”. A boa-nova anunciada nos evangelhos é que Deus enviou Jesus para salvar a humanidade.

A religião romana

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Durante muito tempo, os romanos foram politeístas e animistas, ou seja, acreditavam em várias divindades que eles diziam habitar as matas, as rochas, as águas. Além disso, cultuavam divindades domésticas, a quem chamavam “lares”, por acreditar que elas protegiam o lar da família; divinizavam o imperador e praticavam a adivinhação por meio do voo dos pássaros e da leitura das vísceras dos animais. Posteriormente, ao se expandirem militarmente, os romanos entraram em contato com os gregos e assimilaram seus deuses, passando a chamá-los por nomes latinos. Afrodite, a deusa grega do amor e da beleza, por exemplo, recebeu o nome de Vênus.

O advento do cristianismo Na época em que Jesus nasceu, a Palestina era uma província romana habitada por diferentes povos (arameus, judeus, romanos, gregos etc.). A principal fonte para se conhecer a vida de Jesus são os evangelhos,, livros escritos por seus seguidores por volta do ano 70, que, depois, foram agregados a outros textos e deram origem ao Novo Testamento, a segunda parte da Bíblia. Os evangelhos são narrativas sobre a vida e os ensinamentos de Jesus. É pouco o que se sabe sobre a história de Jesus antes que ele começasse a expressar suas ideias por volta do ano 30. Por essa época, ele

Estátua de Vênus, conhecida como Frejus. Cópia romana de um trabalho da Escola Fidiana do final do século V a.C.

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Francesco di Giorgio Martini (detalhe). c. 1495. Têmpera sobre painel. Pinacoteca Nacional, Siena. F Filme de Jean-Claude La Marre. A cor da cruz. EUA. 2006. Foto: 20th Century Fox/Everett Collection/K

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começou a pregar, em aramaico, em aldeias e cidades palestinas, nas quais se apresentava como o Messias, o Salvador, e pedia a todos que demonstrassem amor a Deus e ao próximo, abandonando os sentimentos de orgulho, inveja e egoísmo. Veiculando ideias de igualdade e fraternidade e falando de modo compreensível, Jesus foi reunindo à sua volta pessoas humildes, como o pescador Pedro, que passaram a segui-lo por toda parte e a divulgar suas ideias. No entanto, a crítica de Jesus à prática do comércio nas casas de oração e a sua crescente popularidade provocaram a ira dos sacerdotes responsáveis pelo Templo de Jerusalém. Não tardou, então, para Representação renascentista que ele fosse condenado (século XV). à morte na cruz (crucificação), acusado de pregar contra os deuses romanos e de dizer-se rei dos judeus. A sua condenação foi pedida por pessoas incitadas pelos sacerdotes. Após sua morte, seus seguidores passaram a se reunir e a divulgar que ele era o “Cristo”, isto é, o Salvador que os judeus esRepresentação estadunidense peravam e que morrera na Representação francesa (2006). (1961). cruz para que os justos fossem salvos. Estabelecia-se Não há nenhum registro da real aparência física de Jesus, o fundador do assim uma separação clara cristianismo. Essas três imagens são representações de Jesus em diferentes lugares e tempos. Elas nos estimulam a pensar sobre a força que uma entre cristãos e judeus. imagem tem na construção de uma “verdade”. Não por acaso, a imagem de Ambos acreditam em um Jesus que nos vem à mente é, quase sempre, a que foi veiculada pelo cinema Deus único e universal; estadunidense. mas para os cristãos o Messias esperado é Jesus, aquele que recompensa os justos com a felicidade Messias: termo que, em eterna; já os judeus acreditam que o Messias ainda está por vir. hebraico, significa Os apóstolos começaram a espalhar a boa-nova (“evangelho”, em grego) “o ungido”. No sentido religioso, é e a conquistar novos adeptos para o cristianismo. Dois deles se destacaram associado ao Salvador. em defesa da causa cristã: Saulo – que, inicialmente, perseguiu os cristãos e, depois de ser batizado, adotou o nome romano de Paulo – se tornou um divulgador incansável das ideias cristãs; e Pedro, que, segundo o evangelho, foi escolhido por Jesus para chefiar sua Igreja. UNIDADE 3 | DEMOCRACIA: PASSADO E PRESENTE

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Paulo pregava o evangelho para todos e não somente para os judeus, pois acreditava que a proposta de Cristo era de uma religião universal. Assim, com a determinação de seus pregadores, o cristianismo espalhou-se rapidamente por todo o mundo romano e, por volta do ano 64, começou a ser duramente perseguido pelas autoridades de Roma; Pedro e Paulo estiveram entre os primeiros mártires cristãos a serem sacrificados em Roma. Os cristãos eram perseguidos por não reconhecerem os deuses romanos, por negarem a divindade do imperador, por celebrarem seus cultos e por defenderem a ideia de um Deus único. A promessa cristã de que a exploração a que os pobres eram submetidos teria fim, Sala dos afrescos em uma catacumba situada em e de que o paraíso seria a recompensa Roma. Aos poucos, a ideia de um paraíso na Terra, que empolgou os primeiros cristãos, foi sendo substituída pela para os justos, atraiu para o cristianisesperança do paraíso após a morte. Fotografia de c. 2000. mo muitas pessoas de diferentes povos (judeus, gregos, romanos). Enquanto isso, imperadores romanos redobravam a perseguição aos cristãos. Para fugir às perseguições do Estado romano, os cristãos reuniam-se em catacumbas, galerias subterrâneas em que oravam e se- Dica! Documentário sobre o imperador pultavam seus mortos. A última e maior das perseguições foi ordenada Constantino e o pelo imperador Diocleciano (244-311), responsável pela destruição de nascimento do cristianismo. casas de oração. [Duração: 45 minutos]. Apesar das perseguições, o cristianismo, que antes era a religião dos Acesse: <http://tub. im/8z3hnt>. humildes, foi ganhando seguidores entre os ricos e até mesmo entre as autoridades romanas. Até que, em 313, o imperador Constantino baixou o Édito de Milão, documento que concedia liberdade de culto aos cristãos. Antes de morrer, Constantino resolveu batizar-se também. Depois dele, a maioria dos imperadores romanos aderiu ao cristianismo. Com o imperador Teodósio, em 380, o cristianismo foi transformado em religião oficial do Império Romano. Visto por muito tempo como religião dos pobres e perseguidos, tornava-se a partir de então uma religião de Estado e aqueles que a rejeitavam eram chamados de “pagãos”. CAPÍTULO 8 | ROMA ANTIGA

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O Império contra os cristãos e suas catacumbas

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (UFAM – 2016) No período republicano (509 a 31 a.C.), a estrutura do poder em Roma se concentrou em instituições como o Senado, as assembleias e as magistraturas que abrangiam o conjunto dos cargos do poder executivo, como os dos cônsules, pretores, questores e edis. Sobre as instituições da República romana analise as afirmativas a seguir: I. O Senado compunha-se de 300 membros vitalícios, escolhidos entre os cidadãos mais importantes da República romana. Inicialmente apenas entre os patrícios.

Durante a realeza, e nos primeiros anos republicanos, as leis eram transmitidas oralmente de uma geração para outra. A ausência de uma legislação escrita permitia aos patrícios manipular a justiça conforme seus interesses. Em 451 a.C., porém, os plebeus conseguiram eleger uma comissão de dez pessoas – os decênviros – para escrever as leis. Dois deles viajaram a Atenas, na Grécia, para estudar a legislação de Sólon. COULANGES, F. A cidade antiga. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 2. Resposta: b.

II. Em Roma destacaram-se três tipos de assembleias: a assembleia por centúrias, a por tribos e os concílios da plebe.

A superação da tradição jurídica oral no mundo antigo, descrita no texto, esteve relacionada à

III. A participação política dos cidadãos na Roma republicana se dava, principalmente, através das assembleias: com a participação das mulheres e ex-escravos (libertos).

b) extensão da cidadania aos homens livres.

IV. Os pretores eram encarregados da justiça, do recenseamento dos cidadãos, da organização de festas cívicas e religiosas e do policiamento urbano. V. Os cônsules (em número de dois), principais magistrados da República, comandavam o exército, dirigiam o Estado e convocavam o Senado. Assinale a alternativa correta: a) Somente as afirmativas I, II e III estão corretas. b) Somente as afirmativas I, II e V estão corretas. 1. Resposta: b. c) Somente as afirmativas I, III e IV estão corretas. d) Somente as afirmativas II, III e V estão corretas. e) Somente as afirmativas II, IV e V estão corretas.

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2. (Enem/MEC – 2013)

a) adoção do sufrágio universal masculino. c) afirmação de instituições democráticas. d) implantação de direitos sociais. e) tripartição dos poderes políticos. 3. (Enem/MEC) O fenômeno da escravidão, ou seja, a imposição do trabalho compulsório a um indivíduo ou a uma coletividade, por parte de outro indivíduo ou coletividade, é algo muito antigo, e, nesses termos, acompanhou a história da Antiguidade até o século XIX. Todavia, percebe-se que tanto o status quanto o tratamento dos escravos variaram muito da Antiguidade greco-romana até o século XIX em questões ligadas à divisão do trabalho. As variações mencionadas dizem respeito: a) ao caráter étnico da escravidão antiga, pois certas etnias eram escravizadas em virtude de preconceitos sociais; b) à especialização do trabalho escravo na Antiguidade, pois certos ofícios de prestígio eram frequentemente realizados por escravos; 3. Resposta: b.

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c) ao uso dos escravos para a atividade agroexportadora, tanto na Antiguidade quanto no mundo moderno, pois o caráter étnico determinou a diversidade de tratamento; d) à absoluta desqualificação dos escravos para trabalhos mais sofisticados e à violência em seu tratamento, independentemente das questões étnicas; e) ao aspecto étnico presente em todas as formas de escravidão, pois o escravo era, na Antiguidade greco-romana, como no mundo moderno, considerado uma raça inferior. 4. (Fuvest-SP – 2014) César não saíra de sua província para fazer mal algum, mas para se defender dos agravos dos inimigos, para restabelecer em seus poderes os tribunos da plebe que tinham sido, naquela ocasião, expulsos da Cidade, para devolver a liberdade a si e ao povo romano oprimido pela facção minoritária. Caio Júlio César. A Guerra Civil. São Paulo: Estação Liberdade, 1999, p. 67.

O texto, do século I a.C., retrata o cenário romano de a) implantação da Monarquia, quando a aristocracia perseguia seus opositores e os forçava ao ostracismo, para sufocar revoltas oligárquicas e populares. b) transição da República ao Império, período de reformulações provocadas pela expansão mediterrânica e pelo aumento da insatisfação da plebe. 4. Resposta: b. c) consolidação da República, marcada pela participação política de pequenos proprietários rurais e pela implementação de amplo programa de reforma agrária.

e) decadência do Império, então sujeito a invasões estrangeiras e à fragmentação política gerada pelas rebeliões populares e pela ação dos bárbaros. 5. (Enem/MEC) “Somos servos da lei para podermos ser livres.” (Cícero)

“O que apraz ao príncipe tem força de lei.” (Ulpiano)

As frases anteriores são de dois cidadãos da Roma Clássica que viveram praticamente no mesmo século, quando ocorreu a transição da República (Cícero) para o Império. Tendo como base as duas sentenças, considere as afirmações: I. A diferença nos significados da lei é apenas aparente, uma vez que os romanos não levavam em consideração as normas jurídicas. II. Tanto na República como no Império, a lei era o resultado de discussões entre os representantes escolhidos pelo povo romano. III. A lei republicana definia que os direitos de um cidadão acabavam quando começavam os direitos de outro cidadão. IV. Existia, na época imperial, um poder acima da legislação romana. Estão corretas, apenas: a) I e II; b) I e III; c) II e III; d) II e IV; e) III e IV.

5. Resposta: e.

d) passagem da Monarquia à República, período de consolidação oligárquica, que provocou a ampliação do poder e da influência política dos militares. CAPÍTULO 8 | ROMA ANTIGA

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II. Leitura e escrita em História PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE Leia este texto sobre o Exército romano e responda ao que se pede. [...] O exército sempre foi uma instituição essencial para os romanos. Durante os primeiros cinco séculos, Detalhe de esculturas que representam desde a fundação de Roma até as resoldados romanos, século II. formas do general Mário, em 111 a.C., o exército romano era composto por todos os cidadãos e, por isso, era chamado de “exército de camponeses”. [...] A participação no exército era obrigatória e, portanto, as guerras retiravam do trabalho no campo contingentes significativos de homens. A infantaria era a base do exército romano e foi a principal responsável pelo sucesso de Roma na conquista da Península Itálica. [...] Os romanos desenvolveram técnicas militares elaboradas, a começar por seus acampamentos, verdadeiras cidades protegidas por muros. Ali havia enfermarias, latrinas, saunas, cozinhas, fábricas de armamentos. No exército estavam, também, engenheiros e trabalhadores que construíam pontes sobre rios caudalosos em poucos dias, assim como as estradas que permitiam uma mobilidade excepcional. Até hoje, graças à Arqueologia, podemos conhecer os acampamentos, estradas e armas feitas pelos militares romanos. O exército dividia-se em legiões, unidades que agrupavam aproximadamente três mil infantes, 1 200 homens de assalto e trezentos cavaleiros, comandadas no mais alto nível pelos cônsules e pelos pretores, chamados de generais, em latim imperatores, “aqueles que mandam”. Os generais vencedores eram socialmente muito respeitados e tinham direito a honras importantes, tais como desfilar em triunfo com suas tropas pela cidade de Roma. Os aristocratas romanos orgulhavam-se de suas tradições que valorizavam a bravura militar [...]. O exército sempre foi um elemento central para o domínio romano. Parcere subjectis et debellare superbos, “poupar os que se submetem e debelar os que resistem”, este é o lema romano, bem expresso pelo poeta Virgílio na sua obra Eneida (6,851-3).

Séc. II. Museu do Vaticano, Cidade do Vaticano. Foto: Corel Stock Photo Corel Stock Photo

Leitura e escrita de textos

FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2007. p. 87-88 e 92.

a) O que foram as reformas do general Mário, em 111 a.C., citadas pelo autor do texto? b) O autor afirma que “as guerras retiravam do trabalho no campo contingentes significativos de homens”. Qual o efeito disso para os camponeses? c) De que forma o autor demonstra que o exército foi uma instituição essencial para os romanos? d) Debatam, reflitam e respondam: o lema romano “poupar os que se submetem e debelar os que resistem” continua sendo empregado na atualidade?

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Professor: no passado Istambul tinha o nome de Bizâncio e foi a capital do Império Bizantino até o século IV d.C. Conhecida também como Constantinopla, foi tomada pelos turcos em 1453 e passou a se chamar Istambul, tornando-se a capital do Império Otomano. A cidade, que foi um bastião do cristianismo, passou a

A crise de Roma e o Império Bizantino

Capítulo 9 ser um reduto muçulmano. A maior parte da sua população é muçulmana, porém a presença numérica de cristãos e judeus na cidade também é significativa. Por sua localização, Istambul foi e ainda é um importante elo de ligação comercial entre o Ocidente e o Oriente.

O texto a seguir é do geógrafo Joaquim Nery Filho; leia-o com atenção. [...] Istambul é a cidade, estrategicamente, mais bem localizada do mundo. Fica exatamente entre a Europa e a Ásia, onde os dois continentes são separados apenas pelo pequeno Estreito de Bósforo. [...] O Estreito de Bósforo liga o Mar de Mármara e Estreito de Dardanelos ao Mar Negro [...]. Possui cerca de 30 km de extensão e uma largura mínima de apenas 550 m. Em Istambul, a Ponte do Bósforo possui 1 074 m de comprimento. NERY FILHO, Joaquim. Istambul: a cidade mais bem localizada do mundo. Um pouquinho de cada lugar, 6 nov. 2011. Disponível em: <http://umpouquinhodecadalugar. com/2011/11/06/istambul-–-a-cidade-mais-bem-localizada-do-mundo/>. Acesso em: 6 abr. 2016. Michael Weber/Glow Images

Vista do Estreito de Bósforo e de partes da cidade de Istambul: o lado europeu e o asiático, 2012.

Istambul – A cidade mais bem localizada do mundo

» Você sabia que a Istambul de hoje é uma cidade que congrega diferentes

culturas e religiões? » No passado, Istambul foi capital do Império Bizantino e, depois, do Impé-

rio Otomano; você tem vontade de conhecê-la? » Você sabia que ela é a única cidade do mundo localizada em dois continentes? CAPÍTULO 9 | A CRISE DE ROMA E O IMPÉRIO BIZANTINO

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Durante os séculos I e II d.C., o Império Romano viveu uma época de relativa estabilidade política e de intensa produção artística e cultural. A partir do século III, no entanto, teve início uma crise prolongada, resultante de fatores internos e externos, que o levou à desagregação.

Séc. II a.C. Ferro e bronze. The Israel Museum, Jerusalem. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Elmo em ferro e bronze de um legionário do tempo de Trajano (98-117).

A crise no mundo romano Internamente, o problema eram os gastos crescentes com a administração do gigantesco Império: gastos com funcionários, manutenção de estradas, salários de soldados distribuídos por suas extensas fronteiras. Após a Dinastia dos Severos (193-235 d.C.), os soldos aumentaram sucessivas vezes. Para fazer frente a essa situação, os imperadores utilizavam, geralmente, dois mecanismos: o aumento de impostos e a desvalorização da moeda. Como se usava moeda em vez de cédula, a desvalorização era feita diminuindo-se a quantidade de ouro ou prata em cada moeda. Se para os imperadores a desvalorização da moeda trazia economia de metal, para a população significava alta nos preços (inflação), carestia e falta de confiança na moeda do Império, o que acabou provocando várias revoltas populares.

Para refletir Em 300 d.C, um oficial romano de nome Dionísio, ao saber que o imperador ia desvalorizar a moeda, escreveu para Ápio, um funcionário seu que trabalhava na propriedade de sua família. Eis um trecho da carta. Leia-o com atenção: De Dionísio para Ápio, Saudações. A fortuna de nossos mestres deu ordens para que as moedas italianas sejam desvalorizadas. Gaste, portanto, todo o dinheiro italiano que você tem, e compre para mim todos os produtos a qualquer preço... Mas eu lhe aviso que se tentar me enganar eu não o deixarei fugir. Rezo para que você tenha saúde, meu irmão. (Papiro Ryland, 607, 300 d.C.) MACHADO, Carlos A. Ribeiro. Roma e seu Império. São Paulo: Saraiva, 2000. p. 34. (Que história é esta?).

a) Qual foi a recomendação de Dionísio a Ápio? Por quê?

a) Ele recomendou que comprasse produtos para ele, pois as moedas que estavam em poder dele passariam a valer menos.

b) A informação que Dionísio demonstra possuir pode ser considerada privilegiada? b) Sim, pois sendo ele um oficial, recebeu a notícia antes que chegasse à maioria da população do Império.

A partir do século III, a crise agravou-se em virtude de um fator externo: a pressão sobre o Império Romano se intensificou, tanto no Oriente quanto no Ocidente. No Oriente, os adversários eram os partas, descendentes dos

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Germanos:

habitantes da Germânia, uma região da Europa Central, parcialmente limitada pelos mares Báltico e do Norte e pelos rios Reno, Danúbio e Vístula.

Séc. IV-V d.C. Mosaico. Museu do Bardo, Cartago. Foto: Gilles Mermet/AKG Images/Latinstock

persas; no Ocidente, os germanos. Esses povos não falavam a língua nem adotavam os costumes dos romanos, por isso eram chamados de bárbaros. À pressão constante nas fronteiras somou-se a instabilidade política no coração do Império. Com o agravamento da situação socioeconômica e o aumento da insegurança, os moradores das cidades perderam a capacidade de sobrevivência: não conseguiam mais encontrar trabalho, pagar aluguel ou comprar comida. Além disso, tornaram-se alvo de ataques dos germanos, que há tempos vinham entrando no Império de variadas formas. Muitos então deixaram as cidades e foram para o campo em busca de segurança e trabalho. Assim, o artesanato e o comércio declinaram, as cidades se esvaziaram e o Ocidente europeu viveu um processo de ruralização; a vida urbana, porém, reduziu-se não só pelo esvaziamento das cidades, mas também pela destruição de muitas delas, por ataques e pilhagem, e pelo acentuado declínio demográfico causado pela fome, pelas doenças e pela guerra. Roma, que no século I tinha cerca de um milhão de habitantes, chegou ao século V com menos de 300 mil. No campo, as terras cultiváveis estavam nas mãos de grandes proprietários; então os pobres que para lá foram tiveram de trabalhar para esses proprietários no sistema de colonato: o colono cultivava uma parcela pequena das terras do proprietário e, como pagamento pelo uso dessa terra, entregava a ele parte da sua colheita. Além da mão de obra dos colonos, as grandes propriedades do Império continuaram utilizando nas suas lavouras pessoas escravizadas e semilivres.

Soluções para a crise Diante da crise prolongada, do gigantismo do território dominado por Roma e das pressões nas suas fronteiras, tornava-se cada vez mais difícil manter a unidade do Império. Nesse clima de instabilidade generalizada, os assassinatos de imperadores tornaram-se um fato corriqueiro e os generais do exército, apoiados por seus soldados, passaram a disputar o cargo de imperador pelas armas. Muitos imperadores dos séculos IV e V eram generais nascidos nas províncias que tomaram o poder à força, fenômeno conhecido como anarquia militar. Alguns imperadores buscaram soluções para enfrentar essa crise econômica, política e militar. A fim de conter a crise e melhorar a defesa do Império, o imperador Diocleciano criou, em 285, a tetrarquia,

Mosaico do século IV em que se veem o senhor de uma grande propriedade, sua residência e trabalhadores a seu serviço. Em primeiro plano, vê-se o senhor recebendo tributo do colono.

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Peter Thompson/Heritage Images/Getty Images

governo de quatro imperadores, cada um responsável por uma grande região. Com essa repartição, o Império passou a ter quatro capitais, enquanto Roma (que deixara de ser a sede do Império) e o Senado perdiam o lugar de destaque ocupado até então. O governo de Roma passou a ser composto dos imperadores Diocleciano, Valério, Maximiliano e Constantino. Com essa reforma, Diocleciano conseguiu tornar o Império mais governável e reunir forças para repelir invasões; mas, ao abdicar por motivo de doença, em 305, reinstalou-se a anarquia militar. Em 324, depois de uma violenta disputa entre generais do exército, o Império voltou a ter um único imperador: Constantino (313-337), que combateu os invasores e, ao mesmo tempo, por medida de segurança, mudou a capital do Império de Roma para Bizâncio. Essa cidade foi reconstruída e, em sua homenagem, passou a ser chamada de Constantinopla. Outra tentativa de defender o Império e melhorar sua administração foi posta em prática pelo imperador Teodósio: em 395 ele dividiu o território romano em duas partes:

Estátua do imperador romano Constantino, em frente à Catedral de York, na Inglaterra, 2013. Na Antiguidade, York era uma importante base militar romana. A estátua está localizada onde Constantino teria sido proclamado imperador por seus soldados em 306, após a morte de seu pai.

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» Império Romano do Oriente, com capital em Constantinopla; e » Império Romano do Ocidente, com capital em Ravena, depois transferida para Milão. Apesar disso, a penetração dos germanos, por meios pacíficos ou violentos, se intensificou.

Os germanos Os povos germanos habitavam a Germânia, região da Europa situada ao norte dos rios Reno e Danúbio. Eles constituíam vários grupos, como os jutos, os anglos, os saxões, os lombardos, os francos, os alamanos, os suevos, os godos, os borgúndios, os vândalos. Os achados arqueológicos indicam que os germanos eram povos guerreiros, e as fontes escritas informam que eles valorizavam a disposição para a luta, a fidelidade e a coragem nos campos de batalha. Os jovens guerreiros formavam um bando comandado por um chefe ao qual prestavam juramento de fidelidade; esse bando recebia o nome de comitatus. Ao se envolverem em constantes guerras, os chefes desses bandos foram ganhando riqueza e poder, e alguns deles se tornaram reis. Culturalmente, os germanos eram diferentes entre si, mas em comum tinham uma dedicação quase integral à guerra e à agricultura. A frâncica, instrumento típico dos germanos, servia ao mesmo tempo como arma e como uma ferramenta de trabalho: na guerra, servia como lança e, na agricultura,

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Séc. V. Archaeological And Art Museum, França. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

era usada para revolver e preparar a terra para o plantio. Outro ponto comum entre esses povos é o fato de não terem leis escritas; as leis e tradições de cada grupo eram transmitidas oralmente, ao longo do tempo, dos mais velhos para os mais novos. Por isso, o direito germano é chamado de direito consuetudinário, ou seja, baseado nos costumes.

Do século I ao V, os germanos e os romanos mantiveram contatos frequentes e, muitas vezes, pacíficos; a presença crescente de germanos no Bracelete, Império Romano devia-se mais a migrações do que a invasões. Boa parte fivela e fecho de ouro, dos germanos entrou no Império Romano como soldado ou camponês. objetos presentes no sepultamento Para defender suas extensas fronteiras, o Império Romano abriu seu principesco de exército aos germanos, de modo que, já no século IV, uma considerável um chefe guerreiro parcela desse exército era constituída por esse povo. Alguns chegaram germano. Note que os germanos, povos que os ao consulado e ingressaram na família imperial; outros se tornaram romanos chamavam de homens fortes do governo central. “bárbaros”, possuíam Os germanos entraram também como lavradores para trabalhar nas um artesanato refinado. terras dos romanos em decorrência do acentuado declínio demográfico resultante da crise do século III. E aconteceu, ainda, de povos inteiros se instalarem no Império por meio de um contrato: o povo ganhava o direito de se fixar na terra e, em troca, fornecia ao Império certo nú- Dica! Documentário sobre as primeiras guerras mero de soldados (os chamados federados). dos romanos contra os Na segunda metade do século IV, um fato novo precipitou os aconteci- germanos. [Duração: 44 minutos]. Acesse: <http:// mentos: os hunos, um povo de cavaleiros nômades vindo da Ásia e dedi- tub.im/ydzy96>. cado à caça e à rapinagem, se lançaram sobre os germanos; estes, por sua vez, multiplicaram seus ataques ao Germanos no Império: migrações Império. Durante um desses ataques, e invasões (séculos I ao V) Império Romano Alarico, chefe dos visigodos, sitiou do Ocidente Roma exigindo 4 mil libras de ouro, Império Romano do Oriente armas para seu exército e sua nomeaFronteira entre os dois impérios ção como cônsul. Diante da recusa, ele 375 Datas e rotas de penetração saqueou a cidade durante três dias de OCEANO agosto de 410 e depois partiu. ATLÂNTICO Aos poucos, os germanos come3027-HIS-V1-U03-C09-M001 çaram a vencer os romanos em váMar Negro rias frentes: a Gália foi invadida pelos visigodos, burgúndios, francos, ÁSIA alamanos e hunos; a África, pelos vândalos; a Península Itálica, pelos 0 420 ÁFRICA lombardos; a Britânia, pelos anglos, jutos e frísios. Fonte: DUBY, Georges. Grand atlas historique. Paris: Larousse, 1999. p. 37 0°

450

Mar do Norte

jutos

Mar Báltico

450

anglos

BRITÂNIA

saxões lombardos

450

Londres

375

°N

9

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Baleares

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Ravena

PENÍNSULA ITÁLICA

Massília (Marselha)

Córsega

426

Verona

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Sardenha

Roma

410

Adrianópolis

Constantinopla

410

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visigodos

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Tolosa (Toulouse)

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Allmaps

Migrações e invasões germânicas

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1. Dica! Documentário abordando o fim do império e o início do império Árabe. [Duração: 45 minutos]. Acesse: <http://tub. im/wk8rt3>.

O Império Bizantino O Império Bizantino era extenso; abrangia a Grécia, o Egito e as províncias da Síria-Palestina, da Mesopotâmia e da Ásia Menor. Além disso, abrigava um mosaico de povos e culturas e, embora em Constantinopla as pessoas falassem várias línguas, a língua oficial do Império Bizantino era o grego. O nome “bizantino” deriva de Bizâncio, antiga colônia grega que, por sua excelente localização, foi elevada a capital pelo imperador Constantino em 330 e rebatizada de Constantinopla. Conhecida como Porta do Oriente, a cidade de Constantinopla estava entre a Europa e a Ásia, e todo trânsito de mercadorias entre o mar Negro e o mar Mediterrâneo passava obrigatoriamente por ali. A cidade era, por isso, um dos maiores centros comerciais e urbanos do mundo, recebendo pessoas e mercadorias de diversas partes do Oriente e do Ocidente. Além disso, tinha a protegê-la o fato de ser cercada de água por três de seus lados. Geralmente, os historiadores abordam os aspectos políticos, artísticos, sociais e religiosos das sociedades humanas como forma de facilitar sua compreensão. Mas, na realidade, esses aspectos não existem isoladamente; ao contrário, são interligados e interdependentes. Além disso, no estudo de cada sociedade, é possível perceber um elemento-chave que articula os demais e nos ajuda a compreender o todo; no caso do Império Bizantino, esse elemento é a religião. Era a religião cristã que fundamentava o poder do imperador, direcionava o dia a dia das pessoas, fornecia os temas das obras de arte e legitimava a política externa. Séc. XV. Gravura. Biblioteca Nacional, Madrid. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

2. Dica! Saiba mais sobre o processo de penetração dos germanos no Império Romano. [Duração: 4 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ k35e4n>.

Em 476, finalmente, a capital do maior Império da Antiguidade caiu nas mãos dos hérulos, “bárbaros” chefiados por Odoacro. Com isso, chegava ao fim o Império Romano do Ocidente. Já o Império Romano do Oriente sobre1e2 viveu ainda cerca de mil anos, com o nome de Império Bizantino.

Miniatura do século XV que representa Constantinopla. Como sugere a imagem, a cidade era cercada de água por três de seus lados, um importante fator de proteção.

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A política no Império Bizantino O Estado bizantino era tido como uma organização celeste na Terra, uma teocracia – do grego theos (Deus), kratos (poder). O imperador considerava-se representante de Deus, intérprete infalível das coisas divinas e humanas e, portanto, autoridade maior em assuntos terrenos e espirituais. Era ele também que escolhia o patriarca de Constantinopla, o cargo mais alto na Igreja Bizantina e o segundo no Império. O patriarca, homem de confiança do imperador, legislava em matéria eclesiástica e o assessorava

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Basileus:

na política. Com o título de basileus, o imperador era visto por seu povo como uma divindade, uma figura sagrada, separada dos demais homens. Seu poder absoluto e ilimitado fazia dele um autocrata.

em grego, aquele que possui autoridade suprema.

Itália:

O governo de Justiniano The Bridgeman Art Library/Keystone

O governo do imperador Justiniano (527-565) foi decisivo na história do Império Bizantino. Como basileus, Justiniano esforçou-se para reunificar o Império Romano, reconquistando as terras perdidas para os germanos. Para isso, aparelhou e treinou as forças bizantinas e, após ofensivas bem-sucedidas, retomou parte do norte da África aos vândalos, a Itália, aos ostrogodos e o sul da Espanha, aos visigodos, passando, com isso, a controlar também o mar Mediterrâneo. Para custear os gastos com essas guerras de conquista, Justiniano ordenou constantes aumentos de impostos, que recaíam sobre a população; além disso, ao cobrar os impostos, a burocracia imperial empregava muitas vezes métodos violentos. Essa situação gerou descontentamento e revolta.

os habitantes da Roma antiga chamavam a Itálica de Itália.

Alexandre Bueno

Império Bizantino (século VI)

Colônia Lutécia

Milão

N

visigodos Córsega

Córdoba Ceuta

eslavos

burgúndios

Sardenha

Ravena

Mar Negro

ILÍRIA TRÁCIA

Roma PENÍNSULA Brindisi ITÁLICA

Cesareia Cartago

ÁFRICA

Mar Cáspio

lombardos

Sicília

ÁSIA MENOR Antioquia

Atenas Mar Mediterrâneo

Constantinopla

Rodes

Chipre

Creta

Trípoli

Cirene

Jerusalém Alexandria

Império Bizantino (século VI) Reinos germânicos

15º L

EGITO

bes

francos 40°

Imperador Justiniano com um modelo da Catedral de Santa Sofia nas mãos em um mosaico do século X.

ára

OCEANO ATLÂNTICO

0

460

As conquistas bizantinas no Ocidente duraram até o século seguinte, quando os árabes dominaram quase toda a região.

Fonte: DUBY, George. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 34.

A Revolta de Niké A mais popular das revoltas contra o poder imperial bizantino teve início em um domingo do ano de 532, no Hipódromo de Constantinopla. O estádio estava lotado, e os torcedores se dividiam entre Verdes, de tendência popular, e Azuis, de perfil aristocrático. Verdes e Azuis eram, ao mesmo tempo, agremiações esportivas e partidos políticos. Alguns imperadores bizantinos se fortaleciam estimulando a rivalidade entre os dois

Hipódromo:

imenso estádio em que se realizavam corridas de quadrigas, carros de duas rodas puxados por quatro cavalos.

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1. Dica! Vídeo sobre a revolta de Niké. [Duração: 3 minutos]. Acesse: <http://tub. im/k9zhu7>. 2. Dica! O documentário Justiniano, o último dos romanos apresenta aspectos da vida privada e da vida pública do personagem central. [Duração: 25 minutos]. Acesse: <http://tub. im/6knvbd>.

partidos; outros favoreciam um deles, o que acabava gerando a revolta do preterido. Raramente os dois partidos se uniam, mas foi o que aconteceu naquele domingo em que o imperador Justiniano e sua esposa Teodora estavam no Hipódromo, torcendo pelos Azuis. No intervalo entre duas corridas, os Verdes organizaram uma manifestação contra a alta nos impostos e o abuso de autoridade; os Azuis se juntaram a eles e marcharam para o palácio imperial aos gritos de Niké! Niké!, que significa “vitória”; daí o nome dado a essa revolta popular. A revolta e a violência se espalharam pela cidade, mas o imperador ordenou uma cruel repressão que ocasionou um incêndio gigantesco e resultou na morte de 35 mil rebeldes. 1 Durante seu governo, Justiniano preocupou-se também com as bases legais da vida em sociedade. Para isso, encarregou juristas de reunir e atualizar as principais leis romanas. Esse trabalho resultou no Corpus Juris Civilis, obra extensa formada de quatro partes: 1a.) Código de Justiniano – reunião das leis romanas desde o século II; 2a.) Novelas – leis lançadas pelo próprio Justiniano; 3a.) Digesto – pareceres dos juristas romanos; 4a.) Institutos – manual de direito para estudantes. O Corpus Juris Civilis possibilitou ao Ocidente o conhecimento do direito romano e serviu de base para muitos códigos civis atuais, inclusive o 2 brasileiro.

a) São o imperador Constantino IX e sua esposa, a imperatriz Zoé. Professor: comentar que a coroa é um indicativo do cargo ocupado por eles no Império Bizantino. b) Indica que o imperador e sua esposa são figuras sagradas. No Império Bizantino, a auréola era reservada aos santos e personagens divinos.

a) Observe os personagens ao lado de Jesus; quem são eles? b) E o círculo em volta da cabeça deles, o que pode indicar?

The Bridgeman Art Library/Keystone

DIALOGANDO

Cristo Pantocrator (Cristo Todo-Poderoso), século XI. A imagem é de um mosaico, técnica bastante apreciada no Império Bizantino.

A questão iconoclasta A religião cristã exercia forte influência tanto na esfera pública quanto na particular. As festas públicas, como a da inauguração de Constantinopla, e as particulares, como a do aniversário de uma pessoa, tinham sempre uma dimensão religiosa; o aniversário de uma pessoa, por exemplo, era festejado duas vezes ao ano: uma no dia do nascimento e outra no dia consagrado ao santo que tinha

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Séc. XIV. Sergiev Posad State History and Art Museum, Russia. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

o mesmo nome da pessoa. A arquitetura e a decoração das igrejas bizantinas contribuíam para que o fiel sentisse a presença do sagrado. A cúpula imensa representava o céu, e no interior da cúpula, em mosaico ou pintura, o Cristo Pantocrator olhava para os fiéis. Na missa, passagens da Bíblia eram teatralizadas a fim de envolver os fiéis. Os cânticos e rituais apelavam aos sentimentos e não à razão. Outra expressão da religiosidade bizantina era a crença nas relíquias e nos milagres alcançados por meio delas. Por conta da religiosidade bizantina, os ícones, imagens pintadas ou esculpidas de Cristo, da Virgem e dos Santos eram um importante estímulo à devoção. Os principais fabricantes de ícones eram os monges, que enriqueciam com essa atividade. Em 726, por opção religiosa e por se opor ao crescente prestígio e riqueza dos monges, o imperador bizantino Leão XIII proibiu o culto às imagens religiosas (ícones) e ordenou a destruição dessas imagens por todo o Império. A população bizantina se dividiu entre os que eram favoráveis e os que eram contrários a ícones (os iconoclastas). Sob a liderança dos monges, explodiram por todo o Império revoltas populares contra a destruição de imagens religiosas. Como o imperador reagia ordenando a repressão a essas revoltas, essa disputa – conhecida como questão iconoclasta – desembocou em uma guerra civil que se prolongou até 843. Naquele ano, após várias idas e vindas, a imperatriz Irene restabeleceu o direito de culto às imagens.

Ícone bizantino no qual se vê a representação da Virgem Maria e do menino Jesus, século XIV.

Cisma do Oriente Com o decorrer do tempo, o cristianismo bizantino foi se diferenciando do cristianismo ocidental (romano): entre os bizantinos, a língua falada na celebração religiosa era o grego, e, entre os cristãos ocidentais, era o latim; os rituais bizantinos apelavam aos sentimentos, enquanto os romanos eram menos emocionais; outra diferença ainda era que, ao contrário dos romanos, os bizantinos não acreditavam que houvesse purgatório. Enquanto isso, as relações entre o papado (romano) e o patriarcado (bizantino) foram piorando, pois tanto o papa quanto o patriarca se consideravam dirigentes supremos de toda a cristandade. Essa rivalidade crescente entre Roma e Bizâncio motivou excomunhões de parte a parte e acabou levando ao rompimento: em 1054 a igreja cristã se dividiu em duas: Igreja Católica Apostólica Romana, chefiada pelo papa, e Igreja Cristã Ortodoxa Grega, dirigida pelo patriarca. A separação entre as duas igrejas é conhecida como o Cisma do Oriente. A tensão entre as duas igrejas se intensificou nos séculos seguintes. No século XV, quando o Império Bizantino viu-se seriamente ameaçado pelos turcos, o então comandante bizantino recusou a sugestão de pedir auxílio dos ocidentais dizendo: prefiro ver em Constantinopla o turbante muçulmano que um chapéu cardinalício.

Relíquias:

pedaços de corpos de santos ou objetos que fizeram parte da vida deles. Por exemplo, a sandália de Jesus, a túnica de Maria, uma parte do corpo de São Pedro.

Cristandade:

comunidade cristã; conjunto de povos que se declaram cristãos.

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Conforme o Império foi expandindo suas fronteiras, o cristianismo ortodoxo dos bizantinos também se expandiu; alguns povos eslavos, como os russos, os búlgaros, os sérvios e os croatas, converteram-se ao cristianismo ortodoxo. A partir do século XI, no entanto, o Império Bizantino começou a perder território para diferentes povos: os eslavos conquistaram os Bálcãs, os normandos tomaram suas possessões italianas, e os turcos se apoderaram da Síria e da Ásia Menor. Com a perda desses ricos territórios, o Império perdia também os impostos, os soldados e os navios que essas regiões lhe forneciam. Cada vez mais fragilizado, o Império estava reduzido à cidade de Constantinopla quando, em 1453, foi conquistada por balas de canhão, armamento moderníssimo para a época, que os turcos otomanos lançaram sobre ela.

A arte bizantina

Artur Bogacki/Shutterstock/Glow Images

Viacheslav Lopatin/Shutterstock/Glow Images

Dica! Vídeos que possibilitam viagens virtuais, e em 3D, pela Basílica de Santa Sofia. [Duração: 5 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/osn799>.

A arte bizantina absorveu elementos gregos, romanos e orientais, mas sua singularidade reside no fato de ser o primeiro estilo de arte cristã e de possuir forte inspiração religiosa. O imperador, a imperatriz e as autoridades do Império também eram representados em mosaicos, e, para dar uma ideia de santidade desses personagens, os artistas lhes colocavam auréolas envolvendo suas cabeças. Entre os bizantinos, a arte do mosaico chegou a níveis de excelência; esses não tinham função apenas decorativa, visavam sobretudo ensinar às pessoas que não sabiam ler (que eram maioria no Império Bizantino) passagens importantes da Bíblia. No campo da arte ainda merece atenção a arquitetura, cujo exemplo mais bem-acabado é a Basílica de Santa Sofia (Igreja da Sagrada Sabedoria, ou Hagia Sofia), uma construção grega e ao mesmo tempo oriental que podemos ver nas imagens a seguir.

À esquerda, vista externa e à direita, vista interna da Basílica de Santa Sofia, em Istambul. Construída entre 532 e 537, Santa Sofia possui uma cúpula com 32 metros de diâmetro e 60 metros de altura, que dá a impressão de estar suspensa no ar. Sua decoração interna foi feita em mosaico, habilidosa junção de pequenos pedaços de pedra ou vidro com cores vivas que dá a ideia de profundidade. As quatro colunas externas (minaretes) foram acrescentadas posteriormente, quando os turcos muçulmanos dominaram Constantinopla, em 1492. Em 1935, a Basílica foi transformada em museu.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (Fuvest-SP – 2016) Os impérios do mundo antigo tinham ampla abrangência territorial e estruturas politicamente complexas, o que implicava custos crescentes de administração. No caso do Império Romano da Antiguidade, são exemplos desses custos: a) as expropriações de terras dos patrícios e a geração de empregos para os plebeus. b) os investimentos na melhoria dos serviços de assistência e da previdência social. c) as reduções de impostos, que tinham a finalidade de evitar revoltas provinciais e rebeliões populares. d) os gastos cotidianos das famílias pobres com alimentação, moradia, educação e saúde. e) as despesas militares, a realização de obras públicas e a manutenção de estradas. 1. Resposta : e.

2. (Unicamp-SP – 2014) O termo “bárbaro” teve diferentes significados ao longo da história. Sobre os usos desse conceito, podemos afirmar que: a) Bárbaro foi uma denominação comum a muitas civilizações para qualificar os povos que não compartilhavam dos valores destas mesmas civilizações. 2. Resposta: a. b) Entre os gregos do período clássico o termo foi utilizado para qualificar povos que não falavam grego e depois disso deixou de ser empregado no mundo mediterrâneo antigo. c) Bárbaros eram os povos que os germanos classificavam como inadequados para a conquista, como os vândalos, por exemplo. d) Gregos e romanos classificavam de bárbaros povos que viviam da caça e da coleta, como os persas, em oposição aos povos urbanos civilizados.

3. (UFG-GO – 2014) Leia o verbete a seguir. Vândalo (do latim vandalus). S. m. 1. Membro de um povo germânico de bárbaros que, na Antiguidade, devastaram o Sul da Europa e o Norte da África. 2. Fig. Aquele que destrói monumentos ou objetos respeitáveis. 3. Fam. Indivíduo que tudo destrói, quebra, rebenta. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI: dicionário da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. (Adaptado).

O verbete “vândalo” indica que o mesmo termo adquire diferentes significados. O sentido predominante no dicionário citado, e amplamente empregado na cobertura midiática das recentes manifestações no Brasil, decorre da prevalência, na cultura ocidental, de uma 3. Resposta: a.

a) visão de mundo dos romanos, que, negando a cultura dos povos germânicos, consolidou a dicotomia entre civilização e barbárie. b) mentalidade medieval, que, após a queda do Império Romano, se apropriou da herança cultural dos povos germânicos conquistadores, valorizando-a. c) concepção renascentista, que resgatou os valores cristãos da sociedade romana, reprimidos desde as invasões dos povos bárbaros. d) imagem construída por povos dominados pelo Império, que identificaram os vândalos como símbolo de resistência à expansão romana. e) percepção resultante dos conflitos internos entre os povos germânicos que disseminou uma imagem negativa em relação aos vândalos. 4. (UECE – 2015) No ano de 2006, os líderes religiosos, o Papa Católico Bento XVI e o Patriarca Ecumênico Ortodoxo Bartolomeu I, encontraram-se em Istambul, na Turquia. O encontro marcou a reaproximação entre Católicos e Ortodoxos, e renovou os compromissos em CAPÍTULO 9 | A CRISE DE ROMA E O IMPÉRIO BIZANTINO

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continuar o caminho da unidade dos cristãos e o diálogo entre ambas as religiões. A ruptura entre Católicos e Ortodoxos a) ocorreu em 330 com a transferência da capital do Império Romano para Constantinopla. b) foi conduzida pelo Imperador bizantino Justiniano, que governou entre 527 e 565.

5. (Unesp-SP) A civilização bizantina floresceu na Idade Média, deixando, em muitas regiões da Ásia e da Europa, testemunhos de sua irradiação cultural. Assinale a importante e preponderante contribuição artística bizantina que se difundiu, expressando forte destinação religiosa: a) Adornos de bronze e cobre;

c) deu-se devido às desavenças entre católicos e o poder imperial, pela cobrança de indulgências.

b) Aquedutos e esgotos;

d) aconteceu em 1054 e ficou conhecida como Cisma do Oriente. 4. Resposta: d.

d) Mosaicos coloridos e cúpulas arredondadas;

c) Telhados e beirais recurvados;

5. Resposta: d.

e) Vias calçadas com artefatos de couro.

a) A pintura representa o momento crucial de uma luta de gladiadores numa arena da Roma Antiga. Ao centro, vê-se um gladiador vitorioso olhando para a plateia enquanto pisa, com o pé direito, no pescoço de um dos adversários derrotados. Seu olhar se volta para o público como se perguntasse o que fazer. As mulheres vestidas de branco, bem como os espectadores atrás delas, respondem apontando o polegar para baixo; numa versão popularizada pelo cinema, estariam incitando o gladiador vitorioso a matar seu adversário. Sabemos que um deles ainda está vivo porque seu braço direito está levantado como se implorasse ao público para salvar sua vida. b) Historicamente corretas: a bancada onde ficava o imperador com colunas decoradas por águias esculpidas em ouro; o integrante da guarda pretoriana de uniforme vermelho (que era de fato a cor do

II. Leitura e escrita em História Leitura de imagem

Jean-Léon Gérôme, 1872. Óleo sobre tela. Phoenix Art Museum

A imagem é de uma pintura a óleo intitulada Pollice verso (“Polegar para baixo”), que foi produzida em 1872 pelo artista francês Jean-Léon Gérôme e faz parte do acervo do Museu de Arte de Phoenix, no Arizona (EUA). uniforme usado por esses militares), indicando que o imperador tinha comparecido ao espetáculo. Historicamente Observe-a com atenção. incorretas: o gladiador vitorioso está sendo mostrado com algumas armas e acessórios que pertencem a sua categoria e outras não pertencentes a ela. O capacete, por exemplo – no qual se vê um peixe estilizado –, era próprio da categoria dele, a dos mirmillo. Em latim “peixe” é murma, fato que originou o nome dessa categoria. Já o escudo redondo e o gládio (espada curta) que ele está portando pertencem à categoria dos hoplomachus (lê-se “hoplomacus”). O gladiador vitorioso deveria estar portando um grande escudo retangular e uma espada longa. c) Sim; o artista conseguiu recriar a atmosfera dos espetáculos que ocorriam nos anfiteatros romanos; embora a pintura seja “muda”, ela sugere o “som” e a agitação do público nas arquibancadas. A sensação de movimento é transmitida, sobretudo, por meio dos gestos e das expressões fisionômicas dos personagens. É como se, por meio do quadro, o artista tivesse “ressuscitado” a plateia de um anfiteatro da Roma Antiga. d) Resposta pessoal. Esta questão pode ser mais bem discutida com o auxílio da área de Filosofia. pintura?

a) O que se vê na b) Na obra há algumas informações historicamente corretas e outras historicamente incorretas. Tente dar um exemplo de cada uma delas. c) Em sua opinião o artista conseguiu transmitir a ideia da agitação e de movimento que caracterizavam as lutas de gladiadores nos anfiteatros romanos? d) Reflita e opine: você considera a crueldade uma característica particular dos antigos romanos ou algo próprio dos seres humanos?

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UNIDADE 3 | DEMOCRACIA: PASSADO E PRESENTE

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III. Você cidadão!

PROFESSOR, VER MANUAL.

Nesta unidade trabalhamos a democracia criada pelos gregos do passado. No texto a seguir, vamos conhecer um modelo atual de democracia. Leia-o com atenção. Pelo quinto ano consecutivo, a Noruega foi considerada o país mais democrático do mundo, segundo o Índice de Democracia 2014, publicado pela The Economist Intelligence Unit (EIU) [...]. O país escandinavo obteve 9,93 pontos em uma escala de 10 pelo terceiro ano consecutivo. A presença do país no topo da lista já é mais tradição do que surpresa entre os 165 países e dois territórios que o índice contempla. A Noruega conseguiu a pontuação máxima em quatro dos cinco fatores avaliados pela medição (processo eleitoral e pluralismo; liberdades civis; funcionalidade do governo; participação política; e cultura política). Mas o que permitiu que o país nórdico se tornasse o mais democrático do mundo? [...] Os especialistas consultados pela BBC concordam que instituições públicas fortes, uma cultura baseada na confiança e na baixa desigualdade são essenciais. “Um estado forte com pouca corrupção e favoritismo gera confiança e tem os instrumentos necessários para contribuir para baixar a desigualdade através de altos impostos que criam bons serviços públicos”, diz Benedicte Bull, líder da Rede Norueguesa de Estudos Latino-americanos (Norlarnet). No país, a igualdade parece ser um conceito-chave. “A Noruega é um país com uma forte cultura igualitária, cujas origens estão na religião protestante, de ter sido um país pobre e austero e de ter uma profunda tradição de proximidade entre o poder público e a sociedade”, avalia Mariano Aguirre, diretor do Centro Norueguês para a Construção da Paz (NOREF), com sede em Oslo. “Também acho que temos uma cultura de participação que vem de muito tempo atrás. Ela surgiu com os grandes movimentos sociais (de trabalhadores, movimentos laicos, etc.) do século XIX e alguns, pelo menos, continuam sendo fortes”, completa Bull. [...] O QUE faz da Noruega o país mais democrático do mundo? IG, 31 jan. 2015. Disponível em: http://ultimosegundo.ig. com.br/mundo/2015-01-31/o-que-faz-da-noruega-o-pais-mais-democratico-do-mundo.html. Acesso em: 17 abr. 2016.

a) Avalie o critério usado para medir o Índice de Democracia de um país. Qual deles você considera desnecessário e qual você acrescentaria? b) O que se pode afirmar e está explícito no texto sobre a relação entre o Estado, impostos e serviços públicos? c) Reflita e opine. Você considera que a relação entre a confiança no governo e baixa desigualdade são fatores decisivos para o sucesso de uma democracia? Justifique. d) Em grupo. Debatam, reflitam e organizem uma lista com sugestões concretas e explícitas para melhorar a democracia brasileira. Postem-na no blog da turma. CAPÍTULO 9 | A CRISE DE ROMA E O IMPÉRIO BIZANTINO

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UNIDADE

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Diversidade religiosa: o respeito à diferença Levi Bianco/Olhar Imagem

› Fonte 1

Católicos em uma missa no Santuário de Nossa Senhora Aparecida (SP), 2011.

Marcos Corazza/Olhar Imagem

› Fonte 2

Seguidores de religiões de matriz africana exercendo sua religiosidade na Praia do Rio Vermelho, Salvador (BA), 2013.

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Daniel Cymbalista/Pulsar Imagens

› Fonte 3

Multidão de evangélicos durante a 23a Marcha para Jesus, na Avenida Tiradentes. São Paulo (SP), 2015.

As fontes 1, 2 e 3 são manifestações de adeptos de diferentes denominações religiosas. A fonte 1 mostra a denominação com o maior número de adeptos no Brasil, o catolicismo; já a fonte 2 é uma manifestação dos adeptos de religiões afro-brasileiras; a fonte 3 é uma passeata dos evangélicos, na Marcha para Jesus.

» Observe o que vem ocorrendo na sua cidade, no seu bairro, na sua escola:

pessoas de religiões diferentes têm se respeitado? » E você, tem respeitado o colega cuja religião é diferente da sua? » Debatam e opinem: o que podemos fazer para melhorar o relacionamento

entre pessoas de diferentes religiões no Brasil? Elaborem propostas para difundir o respeito à diferença no campo religioso e a cultura da paz; postem suas sugestões no blog da turma. UNIDADE 4 | DIVERSIDADE RELIGIOSA: O RESPEITO À DIFERENÇA

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Professor: a ideia é chamar a atenção para a importância da universidade, uma das criações mais elaboradas do Ocidente medieval. Durante boa parte da Idade Média, as únicas escolas eram as dos mosteiros ou das catedrais e os professores eram monges ou padres. No século XII, percebendo que a prática do comércio exigia o conhecimento da escrita e do cálculo, os burgueses passaram a financiar a criação de escolas leigas, isto é, desvinculadas da Igreja. As universidades daquela época eram diferentes das de hoje. Eram associações de professores ou de alunos que se reuniam para defender seus interesses frente às autoridades.

Capítulo 10

Os francos e o feudalismo Mauricio Simonetti/Pulsar Imagens

Observe a imagem com atenção.

A Universidade de Bolonha, por exemplo, se originou de uma associação de estudantes, que tomaram para si a organização e a gestão da universidade, que era forte na área de Direito. Já a Universidade de Paris foi criada por uma associação de professores e destacava-se na área da Medicina. Inicialmente, as universidades medievais não possuíam instalações próprias. Eram universidades “ambulantes”. As aulas

Fachada da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em Uberaba (MG), 2010. muitas vezes eram dadas em lugares como celeiros ou na beira de estradas: onde o professor ia, os alunos o acompanhavam em verdadeiras viagens. Com o tempo, as universidades passaram a alugar salas para suas aulas. A universidade medieval era constituída, geralmente, por quatro faculdades: Direito, Medicina, Artes (mais tarde chamada de Letras) e Teologia (que na época era muito ligada à Filosofia). A primeira universidade da Europa foi a de Bolonha (1088), depois foram

» Você já visitou uma universidade?

» Sabia que o número de brasileiros que conseguem concluir um curso uni-

versitário ainda é pequeno? » Sabia, também, que a universidade possui autonomia para organizar o ensi-

no, a duração dos estudos, as modalidades de exames, entre outras questões? E que essa instituição, onde jovens do mundo todo desejam estudar, é uma invenção medieval?

fundadas várias outras, como a de Paris e Montpellier (França), Oxford e Cambridge (Inglaterra), Salamanca (Espanha) e Coimbra (Portugal). Uma característica primordial da universidade, do passado e do presente, é a autonomia: dentro dos muros da universidade se permitia e ainda se permite a liberdade de pensamento e de ensino.

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UNIDADE 4 | DIVERSIDADE RELIGIOSA: O RESPEITO À DIFERENÇA

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Idade Média: conceito e periodização

Para refletir O termo “Idade Média” foi inventado por pensadores europeus chamados de humanistas que viveram na segunda metade do século XV. A ideia era dar um nome ao período intermediário entre o que eles chamavam de “Idade Antiga” e a época em que eles viviam, a qual eles deram o nome de “Idade Moderna”. Isso mesmo, esses pensadores que viveram na segunda Doutores e pacientes em um hospital. Manuscrito Gaddiano, metade do século XV se julgac. 1542. vam “modernos”, palavra que para eles significava ser “atual”, “de hoje”. Tais pensadores admiravam os gregos e romanos da “Idade Antiga”, mas tinham desprezo pelo que chamaram de “Idade Média”. E manifestavam esse desprezo chamando-a de “Idade das Trevas”, “Noite dos 1 000 anos” etc. Apesar disso, essa periodização e o preconceito em torno da Idade Média persistiram até os nossos dias.

C. 1542. Miniatura. Biblioteca Medicea Laurenziana, Italia. Foto: Iberfoto/Mary Evans/Easypix

Para alguns historiadores, a Idade Média é um período da história europeia de cerca de mil anos, que tem início em 476, com a deposição do último imperador romano do Ocidente, e termina em 1453, com a queda de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente. Essa periodização, que tem como marco inicial o século V e o final do século XV, tem recebido várias críticas. Nós a apresentamos por ser muito usada em livros, revistas e jornais.

Atualmente muitos historiadores questionam essa periodização e a visão negativa que os humanistas tinham da Idade Média. E argumentam que o medievo foi uma época de muitas e importantes criações, como a universidade, os óculos, o garfo, o uso de vidros nas janelas e o livro (tão útil a uma formação cidadã). Já o historiador francês Jacques Le Goff não se restringiu a criticar essa periodização tradicional; propôs uma nova: uma “longa Idade Média”, que iria do século IV ao XIX. Para ele, os aspectos que caracterizam essa “longa Idade Média” são:

» do ponto de vista das ideias, a hegemonia do cristianismo e da crença na luta entre Deus e o Diabo;

CAPÍTULO 10 | OS FRANCOS E O FEUDALISMO

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» sob o ângulo social, a existência de três grupos principais: sacerdotes, guerreiros e camponeses; » no que diz respeito à saúde, o medo da peste e o aparecimento dos primeiros hospitais; » quanto aos transportes, a grande importância da carroça e do cavalo; » com relação à cultura, a lenta alfabetização e a crença no milagre. a) O texto pode ser classificado como literário, historiográfico ou filosófico? b) Qual era a visão dos humanistas a respeito da Idade Média? Explique. c) Como a Idade Média é vista pelos historiadores atuais? d) Reflita e opine sobre a periodização proposta por Jacques Le Goff. a) O texto é historiográfico, e foi feito com base nos escritos de medievalistas, isto é, historiadores especializados no medievo. b) Eles tinham uma visão negativa da Idade Média e referiam-se a ela como “Noite dos 1 000 anos”, “Idade das Trevas” etc. A explicação para esse preconceito é que, para os humanistas, a produção cultural do medievo não tinha valor. Ao mesmo tempo que eles negavam a importância da produção medieval, valorizavam o ideário e a produção cultural greco-romana. c) A Idade Média é vista hoje como um período da História tão criativo quanto os demais; no texto são citadas algumas das mais importantes criações medievais, como os óculos, a universidade, o uso de vidros nas janelas, o livro, a imprensa, entre outras.

Meroveu:

chefe lendário considerado o primeiro grande líder dos francos. d) Resposta pessoal. Professor: comentar que toda periodização é uma convenção. E, como tal, reflete os valores e as referências culturais dos povos que a criaram. A divisão da História em Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea, por exemplo, é eurocêntrica: leva em conta somente o Ocidente europeu e ignora os povos do Oriente.

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Vimos no capítulo anterior que, depois de um longo processo em que se alternaram migrações e invasões, os povos germanos se instalaram nas terras antes pertencentes ao Império Romano do Ocidente e lá fundaram vários reinos independentes, entre eles: o Reino dos Anglo-Saxões, o Reino Suevo, o Reino Visigodo, o Reino da Burgúndia, o Reino Ostrogodo, o Reino Vândalo e o Reino Franco. Quase todos os reinos germânicos tiveram vida curta e uma história tumultuada por disputas internas e assassinatos. Suas fronteiras se deslocavam quase constantemente em razão das lutas entre vizinhanças. Alguns desses reinos, como o dos vândalos e o dos ostrogodos, logo desapareceram. Um desses reinos, no entanto, prosperou e destacou-se dos demais por sua longevidade e poder: o Reino Franco.

Os francos Depois de atravessar o rio Reno e usando o poder das armas, os francos se estabeleceram na Gália trazendo com eles suas crenças e seus hábitos guerreiros, enfim, sua cultura. Nos primeiros anos do século V, uma disputa armada entre os próprios francos levou ao poder um chefe militar de nome Clóvis, o primeiro da dinastia merovíngia, nome esse em homenagem a um ancestral de Clóvis, chamado Meroveu. No poder, o rei Clóvis (481-511) estabeleceu a capital do seu reino em Lutécia, cidade que deu origem a Paris, e, à frente de seus guerreiros, conquistou terras dos burgúndios e dos visigodos. Esses povos tiveram seus bens saqueados, e o produto desses saques foi dividido entre os guerreiros francos. Mas a violência não foi a única estratégia usada pelo rei Clóvis. Para contar com a força dos burgúndios, o rei franco casou-se com a princesa do Reino da Burgúndia, a cristã Clotilde, e, com isso, diminuiu a resistência ao domínio franco. O sucesso do expansionismo franco não se deveu apenas à perícia dos seus guerreiros, mas também, e principalmente, à aliança do rei Clóvis com

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1. Dica! Documentário com entrevistas de historiadores e encenações sobre os francos. [Duração: 45 minutos]. Acesse: <http://tub.im/uw45cc>. 2. Dica! Videoaula sobre os francos com o professor Rodolfo Neves. [Duração: 18 minutos]. Acesse: <http://tub.im/cuq2x4>.

Master of Saint-Gilles. C. 1500. Madeira. Coleção particular. Foto: Akg-Images/Latinstock

a Igreja cristã, solidificada em 496, quando ele se converteu ao cristia1e2 nismo.

O batismo de Clóvis em uma versão renascentista, c. 1500. Repare que o artista pintou o rei Clóvis nu, atento às características do corpo humano. Influenciado por Clotilde, Clóvis converteu-se ao cristianismo, ganhando apoio político e moral dos dirigentes da Igreja, que, em contrapartida, passaram a contar com o poder e as armas da monarquia franca.

O Estado, como entidade política, tal como o conhecemos hoje, era desconhecido dos francos; na visão deles, o reino era propriedade particular do rei. Esse modo de ver acabou tumultuando a administração do reino e facilitando a ocorrência de uma série de traições, seguidas de assassinatos de membros da realeza. Além disso, os sucessores de Clóvis dedicavam boa parte do seu tempo a festas, passeios, torneios de esgrima e caçadas, tornando-se conhecidos, por isso, como reis indolentes. Esses dois fatores colaboraram para o enfraquecimento do poder real e para a passagem da administração do reino às mãos do prefeito do palácio ou mordomo do paço, um alto funcionário da monarquia com poderes de chefe de governo. Um desses prefeitos do palácio, Carlos Martel, e seus guerreiros conseguiram barrar o avanço dos árabes muçulmanos na Europa Ocidental, vencendo-os na batalha de Poitiers, em 732. Com a morte de Carlos Martel, seu filho Pepino, o Breve (assim chamado por causa de sua baixa estatura), deu um golpe: aprisionou o legítimo herdeiro do trono e proclamou-se rei dos francos. Com isso, iniciou uma nova dinastia, chamada mais tarde de dinastia carolíngia, em homenagem a seu principal representante, o rei Carlos Magno. Interessado no poderio militar dos francos, o papa Zacharias reconheceu Pepino, o Breve, como rei e, em troca, pediu a ele ajuda militar contra os bizantinos e os lombardos que tinham atacado a Península Itálica e ameaçavam tomar a sede do papado, em Roma. Pepino, o Breve, e seus guerreiros invadiram, então, a Itália, venceram os lombardos e os bizantinos ali instalados e, em 756, doaram à Igreja parte das terras conquistadas. Dessa doação originou-se o Patrimônio de São Pedro, também chamado de Estados da Igreja, que foram incorporados aos domínios do papado. DIALOGANDO A usurpação do trono por Pepino, o Breve, foi aceita pelo papa Zacharias. Qual o significado dessa atitude do papa?

Plinio Lepri/AP Photo/Glow Images

Os reis indolentes

Vista geral do atual Estado do Vaticano, sede da Igreja católica, que se originou das terras doadas pelos reis da dinastia carolíngia. Fotografia de 2004.

Aceitando a usurpação do trono, o papa legitimou o poder de Pepino, o Breve, e de seus sucessores.

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O Império Carolíngio Dica! Documentário sobre a vida de Carlos Magno. [Duração: 25 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ dr45no>.

Sucedendo seu pai Pepino, o Breve, Carlos Magno (742-814), um rei guerreiro, dirigiu expedições militares contra outros povos, o que lhe possibilitou conquistar riquezas fabulosas e grandes porções de terra. E, ao mesmo tempo, estreitou seus laços com a Igreja, como evidencia o documento a seguir.

Para refletir Leia o documento a

a) O autor do texto é Carlos Magno. b) Ele se dirige ao papa, representante máximo da Igreja católica; no texto, os pagãos seriam povos de outras religiões, como os saxões, adversários do Império Carolíngio; já os infiéis seriam os muçulmanos. c) A proposta de Carlos Magno de estabelecer com o papa um “pacto inviolável” em que cada uma das partes tem deveres para com a outra. d) Deveres de Carlos Magno e seu exército: defender e expandir o cristianismo por meio das armas. Dever papa: interceder junto a Deus para que Carlos Magno e seu exército seguir com atenção. do alcançassem o sucesso.

Deveres de Carlos Magno e do Papa (796) Albrecht Dürer. C.1511-13. Óleo sobre painel. Germanisches Nationalmuseum, Nuremberg

[...] Assim como fiz um pacto com o bem-aventurado predecessor (Adriano I) [...], desejo estabelecer com Vossa Santidade um pacto inviolável de fé e caridade [...]. O nosso dever é, com o auxílio da divina piedade, defender por toda a parte com as armas a Santa Igreja de Cristo, tanto das incursões dos pagãos como das devastações dos infiéis, e fortificá-la no exterior e no interior pela profissão da fé católica. É vosso dever, Santíssimo Padre, levantar as mãos para Deus, como Moisés, para auxiliar o nosso exército de maneira que, por vossa intercessão e pela vontade e graça de Deus, o povo cristão obtenha para sempre a vitória sobre os inimigos do Seu Santo nome, e o nome do Nosso Senhor Jesus Cristo seja glorificado em todo o mundo. MAGNO, Carlos apud PEDRERO-SÁNCHES, M. Guadalupe. História da Idade Média: textos e testemunhas. São Paulo: Unesp, 2000. p. 69-70.

a) Quem é o autor do texto? Carlos Magno, obra de Albrecht Dürer, século XVI. Repare que ele o pintou portando a cruz (aliança com a Igreja) em uma das mãos e a espada (guerra), na outra.

b) A quem o autor do texto se dirige e a quem ele se refere quando diz “incursões dos pagãos” e “devastações dos infiéis”? c) Qual é a ideia central do texto? d) Quais seriam, segundo o texto, os deveres de cada uma das partes envolvidas no pacto? e) Em dupla. Avaliem e comentem o “pacto inviolável de fé e caridade” proposto por Carlos Magno.

e) Resposta pessoal. Professor: comentar que o pacto de fé e caridade feito com o representante máximo da Igreja católica serviu para legitimar a política guerreira e expansionista do Império Carolíngio. Para estimular o debate, pode-se levantar com os alunos a seguinte questão: a expansão do Império Carolíngio foi movida pela fé ou pela cobiça?

Na noite de Natal do ano 800, Carlos Magno consolidou sua aliança com a Igreja, fazendo-se coroar imperador pelo papa. Ao coroar o imperador, o papa usou as mesmas palavras reservadas aos imperadores romanos na noite da sagração. Com isso, o chefe da Igreja e o imperador tentavam

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restabelecer o Império Romano do Ocidente. O Império Carolíngio recebia o apoio da Igreja; ela, por sua vez, aumentava seu poder e sua influência. Tendo sua ação guerreira legitimada pela Igreja, Carlos Magno e seus guerreiros ampliaram suas conquistas e constituíram um império de enormes dimensões. Veja o mapa.

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O Império Carolíngio (século VIII) 0°

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Dica! Vídeo sobre o reinado de Carlos Magno, sua coroação e suas batalhas. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/wjgh77>.

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OCEANO ATLÂNTICO

Mar do Norte

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Córsega Córdoba Granada

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Creta d i t e r r â n e o

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Império Carolíngio Império Bizantino Domínios muçulmanos (o islã) Áreas sob influência carolíngia

0

400

O Império Carolíngio abrangia as terras das atuais França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça, Áustria, Hungria, Eslováquia, República Tcheca, além de parte da Itália e da Espanha.

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2001. p. 38.

Durante a expansão militar que liderou, Carlos Magno adotou um antigo costume germânico de doar terras e privilégios aos nobres que o serviam e lutavam com ele. Em troca dos bens recebidos, esses nobres se tornavam seus vassalos, isto é, se ligavam a ele por laços de dependência e fidelidade. Essa relação entre nobres recebe o nome de vassalagem – vínculo de dependência pessoal, que se baseava em compromissos recíprocos, embora desiguais. Se, por um lado, isso unia o rei aos nobres, por outro, ao receber terras e privilégios, esses nobres ganhavam um grande poder em seus domínios. No reinado de Carlos Magno, o império conheceu certa estabilidade, e isso se deveu, em boa parte, à sua administração. Para melhor controlar o reino, Carlos Magno dividiu-o em províncias e entregou sua administração a duques, marqueses e condes, isto é, nobres escolhidos entre os homens de sua confiança. Na hierarquia que definia as relações entre a nobreza, os duques eram os mais próximos do rei e os que recebiam as maiores porções de terra, os ducados; os marqueses administravam as marcas (nome dado aos territórios situados nas fronteiras do império ou áreas de conflito); os condes administravam territórios menores; todos, cada qual em seu domínio, tinham o direito de cobrar impostos e deviam fazer cumprir as decisões do rei. Para ter controle sobre esses administradores, Carlos Magno ampliou os poderes dos Missi Dominici (Enviados do Senhor), funcionários reais que iam periodicamente aos ducados, marcas e condados, para fiscalizá-los e informar a situação ao rei. A administração carolíngia valia-se também de capitulares, documentos escritos contendo ordens e comunicados do rei sobre os mais diversos assuntos. CAPÍTULO 10 | OS FRANCOS E O FEUDALISMO

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Ambrosius Benson, 1500. Óleo sobre tela. Museu Lázaro Galdiano, Madri. Foto: The Granger Collection/

Renascimento carolíngio

Os monges copistas passavam muitas horas nas bibliotecas dos mosteiros copiando textos que os colegas lhes ditavam em voz alta. Foi graças ao trabalho paciente desses monges que a obra de importantes autores gregos e romanos, como Tucídides, Sêneca e Cícero, chegou até nós. Esta pintura do século XV mostra São Jerônimo fazendo a primeira tradução da Bíblia para o latim.

Allmaps

Divisão do Império Carolíngio (Tratado de Verdun, em 843) 0°

Reino de Carlos, o Calvo Reino de Lotário Reino de Luís, o Germânico

Mar do Norte

Estados da Igreja 50°

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Mar Mediterrâneo

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Roma Sardenha

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 36.

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No seu império, Carlos Magno valorizou a educação e o conhecimento. E preocupou-se também em preparar funcionários com capacidade administrativa. Com esse intuito, criou várias escolas nos conventos, nos bispados e uma delas no seu próprio palácio. As primeiras preparavam os jovens para a carreira religiosa; já a escola do palácio, chamada, por isso, de Escola Palatina, preparava os filhos da nobreza para assumir a administração do reino. Lá, eles aprendiam latim (língua empregada nos documentos oficiais), religião, gramática, aritmética, música e geometria. Além disso, Carlos Magno reuniu na sua corte estudiosos de diferentes partes da Europa, como Alcuíno de York (teólogo e professor anglo-saxão), autor de uma versão oficial da Bíblia, Paulo Diácono (gramático e historiador lombardo), Eginardo (historiador franco, biógrafo e secretário do imperador), entre outros. Esse clima favorável à cultura facilitou também a atuação dos monges copistas, que passavam um tempo enorme trancados nas bibliotecas dos mosteiros copiando manuscritos greco-romanos que lhes eram ditados em voz alta pelos colegas. Com esse trabalho paciente e meticuloso, os monges permitiram que importantes obras da Antiguidade clássica chegassem até nós. Todo esse movimento cultural ocorrido na época de Carlos Magno ficou conhecido como Renascimento Carolíngio. Carlos Magno foi sucedido por seu filho Luís, o Piedoso (814-840), que se dedicou mais à religião do que à política e teve dificuldade em manter a unidade do império. Após a morte de Luís, seus três filhos passaram a disputar o trono pelas armas. Depois de alguns anos de luta, eles assinaram o Tratado de Verdun, em 843. Por esse acordo de paz, o Império Carolíngio ficava dividido em três partes: a parte ocidental coube a Carlos, o Calvo; a parte oriental coube a Luís, o Germânico; e a parte central, que vai do Mar do Norte ao centro da atual Itália, coube a Lotário.

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O nascimento do Ocidente medieval Segundo o medievalista brasileiro Hilário Franco Jr., o Ocidente medieval nasceu da conjugação de três fatores que se influenciaram mutuamente ao longo dos séculos: as heranças romanas, as heranças germânicas e o cristianismo. Entre as heranças romanas, temos: » o colonato (relação de trabalho em que o trabalhador utiliza uma parcela de terra e, em troca, tem de entregar ao proprietário parte da sua colheita); » o caráter sagrado da monarquia, ou seja, a ideia romana de que o monarca era sagrado perdurou por toda a Idade Média. Entre as heranças germânicas, temos: » o comitatus, grupo de guerreiros que juravam fidelidade a um chefe, a quem deviam servir e honrar; » o direito consuetudinário, isto é, baseado na tradição e nos costumes. O cristianismo, por sua vez, foi o terceiro fator decisivo na formação do Ocidente medieval, pois propiciou a ligação entre romanos e germanos e deu unidade à civilização medieval.

Medievalista: historiador especializado no estudo da Idade Média.

O feudalismo Vimos que, para montar expedições guerreiras, Carlos Magno pedia auxílio militar aos nobres (duques, marqueses, condes etc.), que, em troca dos serviços prestados, recebiam do rei um feudo (palavra de origem germânica que significa “bem de importância”). O feudo era, muitas vezes, uma grande área de terra com camponeses. Mas não se restringia a isto. Leia o que um medievalista brasileiro diz: O feudo não era necessariamente um bem imóvel, podendo ser um direito, como cobrar pedágio numa ponte, numa estrada ou num rio. Podia ser um certo cargo remunerado [...]. Podia ser uma determinada quantia paga periodicamente [...], em moeda, cabeças de gado ou sacas de trigo. [...] Como o contrato feudo-vassálico implicava direitos e obrigações recíprocos, o rompimento do acordo por uma das partes era considerado felonia (“traição”). [...] FRANCO JR., Hilário. Feudalismo: uma sociedade religiosa, guerreira e camponesa. São Paulo: Moderna, 1999. p. 33-34.

Com a morte de Carlos Magno, os vassalos dele e seus descendentes passaram a fazer o mesmo; isto é, a doar um feudo a outro homem em troca de fidelidade e dependência pessoal. Ao receberem terras e/ou cargos, os nobres foram se fortalecendo, enquanto os monarcas se enfraqueciam. Com isso, consolidou-se na Europa ocidental o feudalismo (sistema de organização econômica, social e política baseado nos laços de fidelidade e de dependência entre suserano e vassalo). CAPÍTULO 10 | OS FRANCOS E O FEUDALISMO

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As relações de suserania e vassalagem Anônimo. Séc. XIII. Iluminura. Archives Départementales de Perpignan, França

Aquele que doava o feudo era chamado de suserano, e o que recebia era denominado vassalo. Por exemplo, se um duque doasse um feudo a um marquês, ele passaria a ser suserano do marquês e este, seu vassalo. Caso esse marquês doasse um feudo a um conde, passaria a ser seu suserano e, ao mesmo tempo, continuava sendo vassalo do duque. Dessa forma, os nobres estabeleciam entre si relações de suserania e vassalagem, por meio das quais se comprometiam a ajudar um ao outro. A doação de um feudo se dava por meio do juramento de fidelidade, que ocorria durante uma cerimônia chamada de homenagem. O trecho a seguir faz parte de um juramento de fidelidade feito durante a cerimônia.

Iluminura do século XIII representando o juramento de fidelidade de um vassalo ao seu suserano.

Dica! Audiovisual que trata dos grupos sociais medievais e das relações de poder entre eles. [Duração: 58 minutos]. Acesse: <http://tub. im/5i3me2>.

Vilão:

camponês livre, isto é, que não era preso à determinada terra, podendo escolher o lugar onde desejasse trabalhar.

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Prometo, por minha fé, ser, a partir deste instante, fiel ao conde Guilherme e guardar-lhe contra todos e inteiramente a minha homenagem, de boa fé e sem engano. BRUGES, Gilberto de. História da morte de Carlos, o Bom, conde de Flandres. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de História. Lisboa: Plátano. v. 1. p. 139-140.

A partir desse juramento, um passava a ter obrigações com o outro: » o vassalo devia apresentar-se sempre que fosse chamado por seu suserano; dar ajuda financeira para o casamento da filha de seu suserano, para armar o filho cavaleiro e para pagar o resgate, caso o filho do suserano fosse raptado ou aprisionado; comparecer ao tribunal para depor a favor do senhor, caso fosse convocado; » o suserano, por sua vez, devia ajudar o seu vassalo em caso de conflito e comparecer ao tribunal para depor a favor dele. Tanto o suserano quanto o vassalo obrigavam-se a cumprir o juramento de fidelidade. Cada senhor era a autoridade máxima dentro de seu feudo. Era ele quem julgava os infratores, aplicava as penas, cobrava impostos e cunhava sua própria moeda. Por isso se diz que o poder político era descentralizado; duas outras características do sistema feudal eram: produção voltada para a subsistência e forte presença do cristianismo. O modelo clássico de feudalismo existiu somente em partes da Europa, que correspondem especialmente ao que é hoje a França e a Alemanha.

A sociedade feudal Segundo o medievalista Georges Duby, a sociedade feudal estava dividida em três ordens: a dos que oram (o clero), a dos que guerreiam (a nobreza), e a dos que trabalham (servos, vilões e escravos).

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Os que oram

Abade:

[...] De fato, a chegada dos bárbaros não a prejudicou, pelo contrário, muitos indivíduos, diante da insegurança geral de então, entregaram suas terras ao patrocinium da Igreja. A recomendação de Santo Agostinho (354-430) era seguida com frequência: todo cristão deveria deixar à Igreja em testamento “a parte de um filho”; e caso não tivesse descendentes, deveria nomeá-la sua única herdeira. Por outro lado, graças ao celibato clerical, o patrimônio eclesiástico não era dividido ou alienado. Alargado pelas conquistas de Carlos Magno, esse patrimônio representava, no século IX, uma terça parte das terras cultivá1 veis do Ocidente cristão. FRANCO JR., Hilário. A Idade Média: o nascimento do Ocidente. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2005. p. 71-72.

Os que guerreiam Os nobres tinham poder e prestígio, que variavam segundo sua posição, expressa no título que possuíam: rei, conde, duque, marquês ou cavaleiro. O rei também era um nobre e, como tal, se tornava por vezes vassalo de outro rei. Assim, os nobres da Europa ocidental se ligavam uns aos outros por laços de dependência e fidelidade. Sendo o nobre um guerreiro, e tendo o monopólio das armas, ele oferecia proteção e exigia ser sustentado por aqueles que viviam em suas terras e lhe deviam obediência. O trabalho manual era visto pelos nobres como algo indigno; as principais ocupações da nobreza eram a guerra, as caçadas e os torneios. Os torneios funcionavam como uma espécie de ensaio para as guerras e eram extremamente cruéis. Em registros da época – por exemplo, as novelas de cavalaria – é comum lermos que o herói derrubou seu adversário do cavalo, cortou-lhe a cabeça e ofereceu-a a uma donzela. 2

Monge:

do grego monakhós, que significa “solitário”. Os monges eram indivíduos que se retiravam do convívio social e se dispunham a servir a Deus vivendo em solidão e contemplação.

Patrocinium: administração.

Novela de cavalaria:

gênero literário narrativo típico da Idade Média. De autor desconhecido, a novela de cavalaria narrava, geralmente, aventuras heroicas de cavaleiros andantes.

1. Dica! Documentário sobre o poder da crença e da fé no período medieval. [Duração: 50 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ q5hjz6>. 2. Dica! Documentário sobre as inovações na guerra e na sociedade durante o período medieval. [Duração: 80 minutos]. Acesse: <http:// tub.im/5brioe>.

Rudiger Manesse. C. 1300. Miniatura. Universidade de Heidelberg, Alemanha. Foto: Album Art/Latinstock

O clero era formado pelo papa, cardeais, bispos, abades, monges e párocos. Suas funções eram ministrar sacramentos, fornecer orientação espiritual e amparar os necessitados. Os membros do clero cobravam para ministrar sacramentos, como o batismo e o casamento, mas retiravam sua sobrevivência basicamente da renda de suas terras. Muitos membros do clero possuíam grandes propriedades em que trabalhava um grande número de camponeses. Veja o que o historiador Hilário Franco Jr. diz sobre os oratores (nome dado aos clérigos por serem especialistas da oração).

dirigente de uma abadia (conjunto de construções onde vivem monges e monjas).

Rodolfo I, da família real Habsburgo, enfrenta um outro nobre num torneio medieval. As damas assistem ao combate, em obra de c. 1300.

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Os que trabalham Na Idade Média, os campos da Europa ocidental eram cultivados por diferentes trabalhadores (os laboratores), entre os quais cabe citar os servos da gleba, os vilões e os escravos. Uma grande parte do campesinato era formada por servos da gleba. Segundo o historiador Hilário Franco Jr., [...] os servos eram trabalhadores dependentes. Recebiam do senhor lotes de terra, os mansos, de cujo cultivo dependia sua sobrevivência e em troca da qual realizavam o pagamento de determinadas taxas àquele senhor.

C. 1500. Iluminura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

FRANCO JR., Hilário. A Idade Média: o nascimento do Ocidente. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2005. p. 91.

Camponeses cortando trigo em iluminura de 1500.

Além de terem sua liberdade seriamente limitada, os servos estavam sujeitos à autoridade judicial do senhor. Eles executavam os mais variados tipos de tarefas, como arar a terra, tecer, erguer casas, caçar, entre outras. Já os vilões eram camponeses livres que cultivavam pequenos lotes de terra de sua propriedade. Vivendo em uma sociedade violenta, em que se sucediam torneios e saques, os vilões acabavam muitas vezes tendo de entregar a um senhor seu lote de terra em troca de proteção. Havia também os escravizados, pessoas que podiam ser doadas ou vendidas, pois pertenciam a um senhor. Os escravizados eram utilizados, geralmente, em serviços domésticos, nas moradias de leigos ou religiosos. Os filhos de uma escrava viviam na mesma condição que a mãe. O número de escravizados era reduzido se comparado ao dos servos. O maior número de escravizados estava no sul da Europa. Resta dizer ainda que a sociedade feudal é conhecida como sociedade estamental, pois a posição social do indivíduo era dada, geralmente, pelo nascimento, não havendo quase chance de ascensão social; geralmente as pessoas nasciam e morriam em um mesmo grupo.

A economia feudal

Dica! Vídeo com revisão sobre o feudalismo e o mundo medieval. [Duração: 5 minutos]. Acesse: <http://tub. im/5od8xm>.

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A economia feudal baseava-se na agricultura (trigo, cevada, ervilha etc.) e no pastoreio (carneiros, porcos e bois), sendo voltada, sobretudo, à subsistência. A unidade de produção no feudalismo era o senhorio. Hilário Franco Jr. chama a atenção para a diferença entre senhorio e feudo. O feudo era uma “cessão de direitos” que podia ou não incluir o senhorio. O senhorio era uma terra que dava a seu detentor o poder de explorá-la e cobrar tributos. Veja um exemplo de senhorio representado no desenho na próxima página.

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Terras comunais: floresta e pastagens usadas por todos os habitantes do feudo.

Castelo de pedra: o castelo era, ao mesmo tempo, moradia e fortaleza. Lá, o senhor vivia com sua família, recebia convidados e estabelecia alianças com seus pares. O castelo é, talvez, o elemento que melhor expressa a fragmentação do poder político existente no feudalismo.

Manso senhorial: terras onde tudo o que se produzia era do senhor.

Manso servil: terras que os camponeses usavam para sobreviver e cumprir as obrigações para com o senhor.

Das rendas do senhorio vivia toda a sociedade feudal, do servo ao senhor.

Trabalho e obrigações

Fonte: LOYN, Henry R. (Org.). Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

Manzi

Por volta do ano 1000 a maioria dos habitantes do Ocidente medieval vivia em senhorios. Como essas terras eram muitas vezes doadas durante a transmissão de um feudo, habituou-se, por simplificação, a chamá-las de feudos. O senhorio estava dividido, geralmente, em três áreas: » manso senhorial: terras exclusivas do senhor, nas quais toda a produção era reservada a ele; » manso servil: faixas de terra que os camponeses usavam para extrair sua sobrevivência e cumprir suas obrigações para com o senhor; » terras comunais: florestas e pastagens usadas por todos e que se destinavam geralmente à extração da madeira e ao pastoreio. Em troca de proteção senhorial e do direito de usar a terra para o seu próprio sustento, os servos tinham uma série de obrigações para com o senhor. As principais obrigações eram: » a corveia: trabalho gratuito no manso senhorial durante alguns dias por semana (durante dois ou três dias). Toda produção aí obtida ia para o celeiro ou para a mesa do senhor. Além de trabalhar nas plantações do senhor, o servo devia construir ou consertar caminhos, reparar pontes, cortar e carregar madeira, entre outras funções; » a talha: obrigação de entregar ao senhor uma parte (30% ou 40%) do que produzia no manso servil, faixa de terra reservada a seu uso; » a banalidade: pagamento em produtos que o servo devia ao senhor pelo uso do forno, do moinho, das prensas e de outros equipamentos do senhorio; » a mão morta: pagamento feito pelo servo quando seu pai morria, para manter o direito de utilizar a terra; » o censo: pagamento em dinheiro ao qual estavam obrigados os vilões. Além de todas essas obrigações, o servo tinha ainda de pagar o dízimo (10%) da sua produção à Igreja. CAPÍTULO 10 | OS FRANCOS E O FEUDALISMO

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Mudanças no feudalismo A partir do século XI, o Ocidente europeu passou por um conjunto de mudanças que transformou o modo de viver e de pensar de suas populações.

Terras para a agricultura e inovações técnicas Uma dessas mudanças foi a expansão das áreas de cultivo por meio da derrubada de florestas, da drenagem de pântanos e/ou da obtenção de terras por meio de diques e/ou barragens. Nos tempos do feudalismo, o espaço cultivado era restrito, havendo grandes áreas de mata virgem, das quais as pessoas retiravam alimentos (caça, coleta vegetal, entre outros) que complePousio: tavam sua dieta. prática agrícola que consiste em Outra mudança importante foi o surgimento ou difusão de algumas inovadeixar uma parte ções técnicas, entre as quais merecem destaque: da terra sem cultivo, todo ano » o uso da charrua: um arado com rodas e uma relha de ferro. Além de alternadamente, ser um tipo de arado mais pesado, a charrua também era mais eficiente, a fim de que o solo recupere a pois permitia revolver a terra e trazer para cima os nutrientes acumulafertilidade. dos nas camadas inferiores; » a adoção do sistema trienal, isto é, a divisão da terra cultivável em três campos, deixando apenas um deles em pousio. Antes era adotado o sistema bienal, no qual metade da terra ficava em pousio. Além disso, a cada Dica! ano mudava-se o produto cultivado nos campos em uso. A adoção do sisteDocumentário sobre a formação ma trienal aumentou a extensão da área produtiva e permitiu uma variedado sistema feudal de maior de cultivo de grãos (trigo, centeio, cevada e aveia) e leguminosas na Europa. [Duração: 50 (ervilhas, lentilhas e favas), que acrescentavam proteínas à dieta humana; minutos]. Acesse: » a utilização do cavalo na agricultura, graças à mudança no sistema de <http://tub.im/ atrelagem desse animal. Antes, as correias eram colocadas no pescoço do y2txdh>. cavalo, onde pressionavam a jugular e a traqueia, sufocando-o. A partir do século X, passou-se a atrelá-lo pelo peito, o que aumentou muito o seu rendimento e sua resistência (o cavalo desloca-se mais rápido que o boi e consegue trabalhar até duas horas a mais por dia). O aumento da área cultivada e o surgimento e/ou difusão de inovações técnicas aumentaram a produtividade agrícola. Com isso, as pessoas passaram a se alimentar melhor e a viver mais, e as mortes por inanição e/ou doença diminuíram. Esses fatores foram, ao mesmo tempo, causa e efeito do crescimento extraVelino que mostra um camponês ensinando seu ordinário da população entre os anos 1000 e filho a arar o campo, século XIII. 1300. Observe o gráfico da página seguinte. Dique:

Escola espanhola. Séc. XIII. Velum. Biblioteca Monasterio del Escorial, Madrid. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

construção sólida para represar águas correntes e impedir sua entrada ou saída.

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50 000

população em milhares

50 000 40 000

35 000

30 000

26 000

DIALOGANDO

22 000 20 000

Em que intervalo de tempo a população aumentou mais?

10 000 0

Editoria de arte

Estimativa do crescimento populacional no Ocidente medieval

1000

1100

1200

1300

anos

Entre 1200 e 1300.

Fonte: FRANCO JR., Hilário. As Cruzadas. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p. 17-18.

O revigoramento do comércio e das cidades Com o aumento da produtividade agrícola não havia mais necessidade de tanta gente ocupada na agricultura. Assim, muitos trabalhadores deixaram o campo e buscaram outro meio de vida. Alguns se dedicaram ao artesanato, produzindo, por exemplo, sapatos, roupas, artefatos de ferro e móveis. Outros passaram a viver como mercadores ambulantes (iam de um lugar a outro vendendo e comprando produtos). Além disso, as trocas entre as populações do meio rural e as do meio urbano estimularam o artesanato, o comércio e o crescimento das cidades. A partir do século XI, o comércio externo europeu, até então limitado e de pouco alcance, ganhou um grande impulso. Os três mais importantes polos comerciais na Europa da época eram: » Polo 1 – Cidades italianas – Oriente. Os mercadores italianos de Pisa, Gênova e Veneza compravam especiarias (pimenta, cravo, canela, entre outras) e artigos de luxo (sedas e porcelanas) nos portos de Constantinopla, Antioquia e Trípoli e os revendiam com grande lucro na Europa. » Polo 2 – Ligava o sul ao norte da Europa. Havia duas rotas importantes nesse polo: uma ligando Gênova a Bruges e outra unindo Veneza a Hamburgo. A primeira dessas duas rotas passava pela região de Champagne (França), na qual se realizavam importantes feiras. » Polo 3 – Cidades do norte europeu entre si e com outros centros do oeste e do leste europeu. O comércio entre as cidades do norte da Europa, como Bruges (parte da atual Bélgica), Bremen e Hamburgo (norte da atual Alemanha), e pelo mar Báltico, como Lübeck, era intenso. Essas cidades também comerciavam com cidades situadas a leste, como Novgorod, na Rússia, e a oeste, como Londres, na Inglaterra. CAPÍTULO 10 | OS FRANCOS E O FEUDALISMO

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Oslo

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Terrestres

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Marítimas Feira Área comercial de Champagne

Provins Bar-sur-Aube

Santiago de Compostela

Lisboa

Frankfurt

Pisa

Mar Negro

Roma

Toledo

Mar Cáspio

EUROPA

Augsburgo

Veneza Florença

Gênova

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Kiev

Leipzig

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Paris

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Bremen Amberes

Troyes

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Moscou

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OCEANO ATLÂNTICO

Novgorod

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Mar do Norte

Londres

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Rotas comerciais

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Principais rotas comerciais – século XIV

Constantinopla Nápoles

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Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2001. p. 64-65.

As feiras medievais Com o aquecimento do comércio surgiram também as feiras, eventos que duravam de 15 a 60 dias, ocorriam uma ou duas vezes ao ano e reuniam mercadores de várias partes do mundo. As feiras mais famosas ocorriam na região de Champagne, em cidades como Troyes, Bar-sur-Aube e Lagny, e atraíam mercadores de várias partes do globo; nelas era comum ver, por exemplo, um veneziano vendendo seda chinesa, um inglês oferecendo lã, um nativo da cidade de Bruges oferecendo madeira. Nessas feiras a moeda passou a ser o meio mais usado para se adquirir um produto. Como cada comerciante comparecia à feira com a moeda de sua região, e como as moedas tinham valores diferentes, surgiram os cambistas, pessoas que faziam o câmbio, isto é, a troca do dinheiro. Como os cambistas examinavam e trocavam as moedas apoiados em um banco de madeira, eles receberam o nome de banqueiros. Em pouco tempo, os banqueiros passaram a fazer o que ainda hoje fazem: guardar dinheiro e fornecer empréstimos a juros. Dica! Documentário sobre as origens das cidades, desde a Antiguidade, passando pelo período medieval até o atual. [Duração: 52 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ rux8vm>.

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As cidades medievais Nos primeiros séculos da história medieval havia cidades pequenas, sob a autoridade de um bispo ou um nobre, com poucos moradores, que viviam principalmente do trabalho agrícola ou, mais raramente, do artesanato. A partir do século XI, no entanto, ocorreu o crescimento de algumas cidades, antes acanhadas, bem como a criação de outras. Algumas delas originaram-se em torno das feiras; outras, às margens de rios; outras, ainda, ao redor do castelo de um nobre, como a cidade francesa de Aveyron. Veja a imagem a seguir.

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Eric Teissedre/Photononstop/Corbis/Latinstock

1. Dica! Vídeo nos mostrando um tour pela cidade alemã de Burghausen, em seus aspectos medievais. [Duração: 9 minutos]. Acesse: <http://tub. im/87wdcd>. 2. Dica! Tour pela cidade alemã de Lübeck, uma das principais cidades da Liga Hanseática. [Duração: 4 minutos]. Acesse: <http://tub. im/siijao>.

Esta foto atual mostra o castelo em torno do qual a cidade de Aveyron se desenvolveu, bem como as antigas muralhas que separam o núcleo original do povoado que se formou além da muralha e que era chamado de “burgo”. Por essa razão, esse grupo de artesãos, mercadores e banqueiros que lá vivia passou a ser chamado de burguesia.

As corporações medievais

Corporações de ofício:

na Idade Média eram conhecidas apenas como “ofícios” (métiers, na França, e ghilds, na Inglaterra). Manuscrito inglês. Século XV. Coleção particular

Em muitas cidades medievais existiam associações profissionais denominadas corporações de ofício. Essas corporações tinham três finalidades básicas: garantir aos seus associados o monopólio de uma determinada atividade; amparar seus membros na velhice ou em casos de invalidez ou doença; e defender seus interesses perante o governo da cidade. Havia duas modalidades de corporações de ofício: as corporações de comerciantes, também chamadas de “ligas”, eram as mais antigas e englobavam várias cidades. A mais rica delas foi a Liga Hanseática que, com seus numerosos navios, chegou a dominar o comércio no norte da Europa. Fundada pelos mercadores da região onde hoje é a Alemanha, em 1161, ela conheceu seu apogeu nos 100 anos seguintes, quando chegou a congregar dezenas de cidades distribuídas por uma faixa de 1 500 quilômetros no eixo Novgorod-Reval-Lübeck-Hamburgo-Bruges-Londres. Havia também as corporações de artesãos: a dos tecelões, a dos tintureiros, a dos ferreiros, entre outras. Elas eram dirigidas por um grupo de mestres que estabeleciam as regras para o ingresso e a permanência na profissão, fiscalizavam seu cumprimento e controlavam a quantidade, a qualidade e o preço final dos produtos. Um tecelão jamais poderia cobrar um preço mais alto nem usar um fio de qualidade inferior à do seu companheiro. Evitava1e2 -se, assim, a concorrência entre os membros de um mesmo ofício.

Nessa imagem de um manuscrito inglês do século XV, veem-se um trabalhador talhando uma pedra (à esquerda), outro trabalhando como carpinteiro (à direita) e um mestre observando e fiscalizando o desempenho dos dois.

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As cidades ganham autonomia DIALOGANDO As cidades medievais apresentavam diversos problemas, como incêndios constantes; ruas tortas, esburacadas e sujas; insegurança à noite, por falta de iluminação; água poluída; ocorrência de doenças; entre outros. Um ou mais desses problemas afligem sua cidade atualmente? Em caso afirmativo, que sugestão você daria para resolvê-los? Resposta pessoal. Professor: vários desses problemas, como poluição da água e falta de segurança, atingem muitas cidades brasileiras. Buscou-se mostrar a permanência no tempo e no espaço de alguns antigos problemas urbanos.

Secular:

palavra que deriva do latim saeculum e que significa “mundo”.

Dica! Documentário abordando a vida secreta dos papas medievais. [Duração: 48 minutos]. Acesse: <http://tub.im/fscdo2>.

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Grande parte das cidades medievais se desenvolveu nas terras pertencentes a um nobre ou a um membro do clero, que as governava geralmente de modo autoritário: cobrava impostos abusivos, estabelecendo multas e exigindo que os moradores trabalhassem no conserto de pontes e estradas. Reagindo a isto, os habitantes das cidades, especialmente artesãos e comerciantes, lutaram de várias formas por autonomia administrativa (direito de comuna). Algumas vezes esse direito de comuna foi conquistado por meio de rebeliões violentas; outras vezes, mediante a compra da carta de franquia (carta garantida pelo rei que dava aos moradores o direito de administrar a sua cidade). De posse dessa carta, os moradores escolhiam seus próprios representantes, que eram, geralmente, artesãos, comerciantes ou banqueiros.

O poder da Igreja no medievo Durante a lenta e profunda crise vivida pelo Império Romano, a vida na Europa se desorganizou e suas populações foram tomadas pela insegurança e pelo medo. Nesse contexto, a Igreja era a única instituição capaz de oferecer proteção e ajuda a essas populações. Nos primeiros tempos, o sustento da Igreja provinha de esmolas dadas pelos fiéis. Posteriormente, ela passou a acumular um patrimônio crescente, originário de doações em terras e dinheiro que recebia dos fiéis. No século IV, a Igreja ganhou o direito à isenção de impostos e a um tribunal próprio. Em 445, desejando prestigiar a sua capital, o imperador romano Valentiniano III concedeu ao bispo de Roma autoridade sobre os outros bispos. Com o nome de Leão I (440-461), esse bispo passou a se chamar papa. Leão I era herdeiro e representante do apóstolo Pedro, tido como o primeiro bispo de Roma e cujo corpo se acreditava estar enterrado naquela cidade. Abaixo do papa estavam os bispos e, abaixo deles, os padres e os párocos. Os padres, bispos e o papa estavam em contato direto com o mundo: realizavam missas, batismos, casamentos, entre outros sacramentos. Por isso eram chamados de clero secular. Era comum que bispos tivessem a posse de grandes áreas de terra com centenas de trabalhadores. O acúmulo de terras por parte da Igreja adveio de doações mas também de que o clero não perdia bens por motivo de casamento, herança ou torneios, como ocorria com a nobreza medieval. Os membros do clero, como se sabe, não podiam se casar; em caso de morte de um membro, seus domínios territoriais continuavam pertencendo à Igreja.

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Voto de pobreza:

Antonio Bazzi. 1503. Afresco. Coleção particular

Esforços em favor do cristianismo

Cedo, uma parte do clero abandonou os ensinamentos de Cristo e se entregou a uma vida de luxo e de ociosidade, atitude esta que provocou protestos e atos de rebeldia. Alguns cristãos decidiram, então, servir a Deus vivendo em solidão e contemplação. Eles se retiravam e iam viver em grutas ou mosteiros (comunidades isoladas), daí seus membros serem chamados de monges. No Ocidente, a primeira grande experiência de vida monástica deu-se com Bento de Núrsia (São Afresco de Antonio Bazzi, Bento), que, em 529, fundou o feito entre 1503 e 1508. Mosteiro de Monte Cassino (Itália) Na imagem, vemos monges beneditinos descobrindo uma e criou uma regra específica de vifonte nas montanhas. da para os monges. A Regra de São Bento se baseava no preceito ora et labora (oração e trabalho), pois seu autor entendia que orar é uma forma de trabalhar, e o trabalho, uma forma de oração. De acordo com a Regra de São Bento, os monges deviam fazer votos de pobreza pessoal, de obediência a seus superiores e de castidade (abstenção de relações sexuais). A Regra de São Bento serviu de inspiração para o regulamento de várias outras ordens religiosas criadas na Idade Média, como a Ordem dos Franciscanos, a das Clarissas, a dos Dominicanos, a das Carmelitas, a dos Agostinianos. Os membros dessas ordens (monges ou freiras) formam o clero regular, isto é, que obedece a uma regra. O trabalho desses religiosos foi de grande importância no período medieval: levaram o Evangelho ao campo, ensinaram técnicas agrícolas aos camponeses, mantiveram orfanatos, leprosários, escolas, hospitais e asilos. Os monges se dedicaram também a estudar e a copiar textos greco-romanos nas enormes bibliotecas de seus mosteiros e abadias.

As Cruzadas Desde o início da Idade Média, os cristãos fizeram peregrinações a centros religiosos para pagar promessas, pedir uma graça ou como forma de penitência. Os três centros mais frequentados pelos peregrinos cristãos daqueles tempos eram Roma, Santiago de Compostela e Jerusalém. 1 e 2

é um compromisso professado por religiosos pelo qual eles renunciam à posse e/ou ao uso de todo e qualquer bem material.

Obediência:

o abade eleito pelos monges devia receber deles total obediência.

Regra:

em latim, regula; por isso, o religioso que pratica uma regula é chamado de “regular”.

Abadia:

comunidade dirigida por um abade ou uma abadessa. O termo “abadia” pode-se confundir com mosteiro, e este diz mais respeito ao tipo de casa onde vivem monges; abadia refere-se mais ao estatuto administrativo.

Penitência:

sacrifício feito como expiação dos pecados.

1. Dica! Documentário sobre o poder da Igreja na sociedade medieval. [Duração: 10 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ yeaqos>. 2. Dica! Documentário que possibilita uma reflexão sobre as Cruzadas. [Duração: 92 minutos]. Acesse: <http://tub.im/kmexps>.

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Para saber mais Jerusalém, a “cidade da paz”?

Lucas Vallecillos/age fotostock/Easypix

Zoonar/D Babenko/age fotostock/Easypix

O nome Jerusalém vem do hebraico Yerushalayim e significa “cidade da paz”, o que é, no mínimo, curioso, se considerarmos que ela tem sido palco de consecutivas guerras e objeto de disputa entre as três grandes religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Os judeus vão em busca de suas sinagogas; os cristãos, de suas igrejas; e os muçulmanos, de suas mesquitas. Para os judeus, Jerusalém tem especial importância por ter sido a capital do Reino de Judá, sede do Templo de Jerusalém, e pelo que sobrou desse templo: o Muro das Lamentações, monumento no qual os seguidores do judaísmo oram, agradecem e pedem graças. Para os cristãos, a cidade é sagrada por ser o local em que Jesus padeceu e foi morto. Lá está a Basílica do Santo Sepulcro, local em que Jesus teria sido sepultado, e a Via Sacra, o caminho por ele percorrido enquanto carregava a cruz. Milhares de peregrinos visitam esses lugares todos os anos, num movimento iniciado há séculos. Para os muçulmanos, Jerusalém é uma cidade santa, pois lá se encontra a mesquita que abriga o Domo da Rocha, isto é, o rochedo no qual Maomé teria alçado voo aos céus montado em um animal alado.

Dica! Saiba mais sobre a história de Jerusalém, cidade considerada sagrada para as três maiores religiões do mundo. [Duração: 65 minutos]. Acesse: <http://tub.im/yhoyyw>.

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Domo da Rocha (Mesquita de Omar), local sagrado para os muçulmanos, 2012.

Basílica do Santo Sepulcro, local sagrado para os cristãos, 2013. Marc Homedes-Palau/age fotostock/Easypix

Muro das Lamentações, local sagrado para os judeus, 2014.

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Jerusalém continuava recebendo muitos peregrinos quando foi conquistada pelos turcos muçulmanos, em 1071, que proibiram as visitas de cristãos ao túmulo de Jesus. O papa Urbano II reagiu à proibição dizendo: [...] Trata-se de um negócio de Deus. É preciso que sem demora vocês partam em socorro de seus irmãos do Oriente [...]. Como a maior parte de vocês já sabe, os turcos invadiram aquela região [...]. Por isso, eu os exorto [chamo] e suplico – e não sou eu quem os exorta, mas o próprio Senhor – a socorrer os cristãos e a levar aquele povo para bem longe de nossas terras. A todos os que partirem e morrerem no caminho, em terra ou mar, ou que perderem a vida combatendo os pagãos, será concedida a remissão dos pecados. [...] Que sejam doravante cavaleiros de Cristo os que não eram senão bandoleiros [...].

O discurso do papa teve alcance imediato. Já no ano seguinte começava o movimento das Cruzadas, expedições militares organizadas pela Igreja e apoiadas por importantes reis europeus, que deixaram a Europa entre os séculos XI e XIII com a finalidade de retomar a “Terra Santa”. As Cruzadas reuniam milhares de pessoas de diferentes origens, condições sociais e idades. Alguns iam a cavalo e bem armados, mas a maioria ia a pé e desarmada. Essas expedições combinaram motivos religiosos, econômicos e sociais. » Os dirigentes da Igreja esperavam pacificar a Europa cristã desviando a violência da nobreza guerreira para fora do continente. » Os nobres europeus sem terra (pois na época somente o primeiro filho recebia herança) esperavam obter terras e outras riquezas no Oriente. » Os mercadores europeus pretendiam aumentar seu comércio com o Oriente e conseguir privilégios nas cidades conquistadas pelos cruzados. » As pessoas comuns buscavam obter a salvação, dando um sentido religioso para a sua existência.

Guillaume Caoursin. 1483. Velum. Bibliotheque de L’Arsenal, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

URBANO II apud FRANCO JR., Hilário. As Cruzadas. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p. 26-27.

Ilustração do mestre-cardeal de Bourbon, extraída da obra A História do cerco de Rhodes, de 1483. As forças turcas se preparam para a batalha contra os cruzados que se encontram do outro lado do muro de Rhodes.

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Primeira Cruzada (1096-1099): liderada por nobres vindos de várias partes da Europa, era composta de 50 mil homens das mais diferentes origens. Recebeu ajuda dos bizantinos (cristãos ortodoxos) e conseguiu conquistar Jerusalém. Os cruzados agiram com extrema violência, massacrando moradores de bairros judeus e muçulmanos. Segunda Cruzada (1147-1149): foi liderada pelo rei da França e o imperador da região onde é hoje a Alemanha. Essa cruzada foi vencida pelos muçulmanos. Terceira Cruzada (1189-1192): essa Cruzada não conseguiu vencer os muçulmanos, que na época haviam reconquistado Jerusalém. Mas obteve um acordo com os muçulmanos que voltou a permitir aos cristãos a realização de peregrinações a Jerusalém. Quarta Cruzada (1201-1204): foi motivada principalmente pela cobiça e não pela fé. Os comerciantes de Veneza ajudaram os cruzados fornecendo navios, alimentos e dinheiro. Em troca, exigiam que eles atacassem Constantinopla, cidade cristã, só porque seus comerciantes eram concorrentes. E foi o que de fato aconteceu. Os mercadores italianos – venezianos e genoveses – obtiveram várias ilhas no mar Egeu e passaram a dominar parte do comércio pelo Mediterrâneo. Depois dessas quatro primeiras Cruzadas foram organizadas outras quatro, sem que se conseguisse a retomada de Jerusalém.

A Cruzada das crianças A notícia de que Constantinopla – uma cidade cristã – tinha sido saqueada pelos componentes da Quarta Cruzada abalou profundamente a cristandade europeia. Muitos cristãos passaram a dizer que não se podia confiar nos adultos e que somente as crianças, inocentes e puras, poderiam reconquistar Jerusalém. Com esse objetivo, 50 mil crianças foram colocadas em navios que saíram do porto de Marselha (França), em 1212, rumo a Jerusalém. O fim dessa expedição foi trágico: muitas crianças morreram antes de desembarcar e milhares delas foram escravizadas e vendidas.

O impacto das Cruzadas O objetivo inicial das Cruzadas não foi atingido: Jerusalém logo voltou para as mãos dos muçulmanos. As Cruzadas, no entanto, provocaram uma série de importantes mudanças socioeconômicas na Europa: » a abertura de novas rotas comerciais, possibilitando aos europeus aumentar sua participação no comércio de especiarias e artigos de luxo pelo Mediterrâneo, mar antes controlado pelos muçulmanos; » o aumento do comércio entre Ocidente e Oriente e na Europa. Com isso, os comerciantes europeus e suas cidades prosperaram;

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» a violência e a cobiça de parte dos cruzados geraram um clima de intolerância e animosidade entre Ocidente e Oriente que se prolongou por muito tempo. » enfraquecimento da nobreza; muitos nobres voltaram do Oriente empobrecidos e boa parte deles morreu nas Cruzadas. O norte francês, que forneceu grande número de cruzados, foi uma das regiões que mais perderam nobres. 1

A crise do século XIV Vimos que, entre os séculos X e XIII, a Europa progrediu animada pelo crescimento econômico, pelo desenvolvimento urbano e pela ascensão da burguesia (artesãos e comerciantes). No século XIV, entretanto, o Ocidente europeu foi sacudido por uma crise prolongada e de grande impacto social. Os historiadores atribuem essa crise a diversos motivos: » a produção agrícola medieval já não conseguia atender às necessidades da população, que vinha crescendo em ritmo acelerado; » limites técnicos da agricultura medieval não permitiam grandes safras de alimentos; além disso, algumas áreas de uso comum passaram a ser utilizadas para a criação de ovelhas e a extração de lã; » a retração econômica gerou crises de fome e mortes, e a subnutrição facilitou a ocorrência de doenças (daí o ditado medieval: “Depois da fome, a peste come”); » as péssimas condições de higiene (não havia serviços de coleta de lixo – este era lançado às ruas – nem de esgoto, tampouco água encanada). Aproveitando-se da falta de higiene, os ratos faziam ninhos nas casas. A fome e as péssimas condições de higiene facilitaram a ocorrência de uma terrível epidemia, conhecida na época como “Grande Peste”, que atingiu toda a Europa, desde Portugal, a oeste, até a Rússia, a leste. Estima-se que entre 1347 e 1350 essa epidemia tenha matado cerca de um terço da população europeia. 2 A maioria dos historiadores concorda que a peste era transmitida aos seres humanos por pulgas que picavam ratos contaminados. DIALOGANDO

1. Dica! Seleção de cenas do filme Cruzada (2005), do diretor Ridley Scott. [Duração: 35 minutos]. Acesse: <http://tub. im/7t2xcc>. 2. Dica! Desenho animado sobre a Grande Peste e a Guerra dos Cem Anos. [Duração: 26 minutos]. Acesse: <http://tub. im/zoayx9>.

Epidemia:

doença que se espalha rapidamente em uma localidade e acomete, ao mesmo tempo, um grande número de pessoas.

Resposta pessoal. Professor: estimular o debate sobre atitudes preconceituosas em relação a pessoas com Aids.

Na Idade Média, muitos viam a doença como castigo, penitência por um pecado cometido. Os leprosos, por exemplo, eram isolados e fechados para cumprir sua “penitência”. É possível comparar a atitude medieval em relação ao leproso com algumas atitudes atuais em relação a pessoas com Aids?

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Para saber mais O texto a seguir é do medievalista francês Georges Duby. Bernt Notke (detalhe). c.1440-1509. Óleo sobre tela. Museu de Arte da Estônia. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Quando um terço [...] da população desaparece subitamente, as consequências sociais e psicológicas são gigantescas. Os que permanecem são muito menos numerosos para repartir o bolo, as heranças, as fortunas. A epidemia determinou uma elevação geral do nível de vida. [...] Durante meio século, a peste permaneceu no estado endêmico, com retornos em quatro ou cinco anos, até por volta de 1400, quando o organismo huDetalhe da pintura Dança macabra, de Notke mano finalmente desenvolveu anBernt (c. 1440-1509). ticorpos que lhe permitiram resistir. [...] Na minha opinião, é no campo cultural que as repercussões do choque são mais visíveis. O macabro instala-se na literatura e na arte. Propagam-se imagens trágicas, o tema do esqueleto, da dança macabra. A morte está em toda parte. DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. São Paulo: Editora Unesp/Imprensa Oficial do Estado, 1999. p. 86-87.

A Guerra dos Cem Anos Outro fator de aceleração da crise do século XIV na Europa foi a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), um conflito armado entre a França e a Inglaterra que se estendeu por 116 anos e foi interrompido várias vezes (inclusive pela Grande Peste). Entre as principais razões dessa guerra estão a disputa pela rica região de Flandres (parte da atual Bélgica) e a pretensão do rei da Inglaterra Eduardo III de ser também o rei da França. A Guerra dos Cem Anos foi um exemplo típico de guerra medieval: um conflito no interior da nobreza por títulos e senhorios. Isso explica a ambição do rei Eduardo III em possuir também a Coroa da França e os bens e privilégios daí decorrentes. Inicialmente, os ingleses alcançaram importantes vitórias e conquistaram parte do território francês, inclusive sua capital; uma das mais importantes vitórias inglesas foi a batalha de Azincourt (1415). Poucos Anos depois, o rei Carlos VII da França reagiu e, com um poderoso exército, conseguiu retomar Paris; a partir da capital francesa, organizou o governo e a cobrança de impostos, aumentando assim o seu poder. Nesse contexto, emerge a lendária figura de Joana d’Arc, uma camponesa que, depois de passar por vários testes diante dos teólogos do Palácio, conseguiu convencer o rei de que ouvira vozes vindas dos céus que lhe incumbiam de libertar a França dos ingleses e coroar o rei.

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Sob o comando de Joana d’Arc, o exército francês obteve vitórias extraordinárias, como na batalha de Orleans, em 1429. No ano seguinte, porém, Joana caiu em uma armadilha e foi vendida aos ingleses, que a entregaram a um tribunal da Inquisição; acusada de herege e de só andar com roupas de homem, foi queimada viva aos 19 anos de idade. Muitos séculos depois, em 1920, ela foi canonizada pela Igreja e se tornou padroeira da França. Com o final da guerra, vencida pelos franceses, em 1453, a cavalaria perdeu o peso que tinha diante do surgimento dos arqueiros e do advento das armas de fogo, especialmente o canhão. Com isso, o poder militar da nobreza, que se assentava nos laços de suserania e vassalagem, no manejo 1, 2 e 3 da espada e da lança, também ficou reduzido.

Séc. XV. Iluminura. Coleção particular. Foto: ullstein bild via Getty Images

Rebeliões camponesas O aumento do número de mortes causadas, sobretudo, pela Grande Peste ou pela Guerra dos Cem Anos provocou o despovoamento dos campos, a falta de mão de obra e a desorganização da produção agrícola. Essa situação atingiu duramente a nobreza, que reagiu exigindo mais trabalho dos camponeses e aumentando as taxas pagas por eles. Além disso, na mesma época, os monarcas medievais criaram novos impostos gerais. Esse contexto opressivo gerou várias revoltas populares, entre as quais a Jacquerie, na França (1358), e a Revolta de Watt Tyler, na Inglaterra (1381). A Jacquerie, revolta ocorrida entre maio e junho de 1358, teve início nas proximidades de Paris e se propagou rapidamente por outros territórios franceses. Segundo Hilário Franco Jr., o movimento francês pode ser explicado pela crise conjuntural resultante da Grande Peste, dos impostos crescentes e dos problemas decorrentes da Guerra dos Cem Anos (desorganização da produção, insegurança, novos impostos, entre outros). Os milhares de camponeses que participaram da Jacquerie incendiaram castelos, mataram nobres e queimaram documentos que os obrigavam ao pagamento de taxas aos nobres. Estes reagiram e, de posse de melhores armas e de treinamento militar, sufocaram a revolta, matando milhares de rebeldes. Na Revolta de Watt Tyler, a crescente carga de impostos também teve um peso decisivo. Entre 1377 e 1380, o governo inglês autorizou por três vezes a cobrança de um imposto geral “por cabeça” para cobrir os gastos da guerra contra a França. Além disso, os senhores ingleses sobrecarregavam os camponeses com trabalho forçado e taxas. Cerca de 10 mil camponeses ingleses marcharam até Londres para exigir do rei Ricardo II a diminuição do número e do valor dos impostos. Inicialmente, o rei simulou concordância, mas, em seguida, convocou outros nobres e reprimiu brutalmente a revolta. Embora os camponeses franceses e ingleses tenham sido vencidos, a Jacquerie e a Revolta de Watt Tyler contribuíram para abalar a instituição da servidão no Ocidente europeu.

Joana d’Arc, século XV. Jacquerie:

o nome deriva de Jacques Bonhomme, termo pejorativo que era usado pela nobreza francesa para diminuir o camponês. O termo pode ser traduzido por pobretão; “joão-ninguém”.

1. Dica! Vídeo didático sobre a Guerra dos Cem Anos. [Duração: 3 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ z3bhbe>. 2. Dica! Documentário sobre Joana d’Arc. [Duração: 22 minutos]. Acesse: <http://tub. im/7h2uro>. 3. Dica! Documentário sobre a inquisição medieval. [Duração: 43 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ nn5e5g>.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (UECE – 2015) A primeira maneira de integrar-se é tornar-se cristão. Assim, no início do século X, o chefe normando Rollon aceita ser batizado. Ele muda de nome, adotando o de seu padrinho, Robert. Com ele, todos os guerreiros que o cercam mergulham nas águas do batismo. Por volta do ano 1000, o duque da Normandia chama um homem que sabia escrever bem o latim, formado nas melhores escolas – o portador da cultura carolíngia mais pura. Encomenda-lhe uma história dos normandos. Nela vemos como se deu a integração, ao menos, entre os aristocratas. Eles firmaram com as famílias dos países francos casamentos que foram, com o cristianismo, o fator essencial do enfraquecimento das disparidades étnicas e culturais. Tornavam-se realmente participantes da comunidade do povo de Deus assim que começassem a compreender alguns rudimentos de latim e se pusessem a construir igrejas na tradição carolíngia. DUBY, G. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Trad. Eugênio Michel da Silva e Maria Regina L. Borges-Osório. São Paulo: Editora Unesp, 1998.

Segundo o texto de G. Duby, o batismo de Rollon é nitidamente a) um ato político. 1. Resposta: a. b) uma necessidade para o casamento. c) uma reivindicação de nacionalidade. d) um aprendizado da língua latina. 2. (Unesp-SP – 2014) Observemos apenas que o sistema dos feudos, a feudalidade, não é, como se tem dito frequentemente, um fermento de destruição do poder. A feudali-

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dade surge, ao contrário, para responder aos poderes vacantes. Forma a unidade de base de uma profunda reorganização dos sistemas de autoridade […]. Jacques Le Goff. Em busca da Idade Média, 2008.

Segundo o texto, o sistema de feudos a) representa a unificação nacional e assegura a imediata centralização do poder político. b) deriva da falência dos grandes impérios da Antiguidade e oferece uma alternativa viável para a destruição dos poderes políticos. c) impede a manifestação do poder real e elimina os resquícios autoritários herdados das monarquias antigas. d) constitui um novo quadro de alianças e jogos políticos e assegura a formação de Estados unificados. e) ocupa o espaço aberto pela ausência de poderes centralizados e permite a construção de uma nova ordem política. 2. Resposta: e. 3. (Unesp-SP – 2016) Eis dois homens a frente: um, que quer servir; o outro, que aceita, ou deseja, ser chefe. O primeiro une as mãos e, assim juntas, coloca-as nas mãos do segundo: claro símbolo de submissão, cujo sentido, por vezes, era ainda acentuado pela genuflexão. Ao mesmo tempo, a personagem que oferece as mãos pronuncia algumas palavras, muito breves, pelas quais se reconhece “o homem” de quem está na sua frente. Depois, chefe e subordinado beijam-se na boca: símbolo de acordo e de amizade. Eram estes – muito simples e, por isso mesmo, eminentemente adequados para impressionar espíritos tão sensíveis às coisas – os gestos que serviam para estabelecer um dos vínculos mais fortes que a época feudal conheceu. Marc Bloch. A sociedade feudal, 1987.

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Séc. XII. Miniatura. Coleção particular

rência as duas coisas a um só tempo, um homem que, profissionalmente, tem uma atividade de professor e erudito, em resumo, um intelectual – esse homem só aparecerá com as cidades. LE GOFF, J. Os intelectuais na Idade Média. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

O surgimento da categoria mencionada no período em destaque no texto evidencia o(a) a) apoio dado pela Igreja ao trabalho abstrato. (www.mcu.es)

Miniatura do Liber feudorum Ceritaniae, século XIII.

O texto e a imagem referem-se à cerimônia que a) consagra bispos e cardeais.

b) relação entre desenvolvimento urbano e divisão do trabalho. 5. Resposta: b. c) importância organizacional das corporações de ofício.

b) estabelece as relações de vassalagem.

d) progressiva expansão da educação escolar.

c) estabelece as relações de servidão.

e) acúmulo de trabalho dos professores e eruditos.

3. Resposta: b.

d) consagra o poder municipal. e) estabelece as relações de realeza. 4. (UFRGS-RS – 2014) Sobre o sistema feudal na Idade Média, é correto afirmar que 4. Resposta: b. a) a economia é agrícola e pastoril, descentralizada e voltada para o mercado externo. b) a sociedade estrutura-se como uma pirâmide, cuja base é formada pelos servos; o meio, pela nobreza; e a parte superior, pelo clero. c) a burguesia é a classe social econômica e politicamente mais poderosa. d) a Igreja Católica consolida seu poder após o declínio do feudalismo. e) a suserania e a vassalagem constituem-se em relações políticas entre os servos e os membros do clero. 5. (Enem/MEC – 2015) No início foram as cidades. O intelectual da Idade Média – no Ocidente – nasceu com elas. Foi com o desenvolvimento urbano ligado às funções comercial e industrial – digamos modestamente artesanal – que ele apareceu, como um desses homens de ofício que se instalavam nas cidades nas quais se impôs a divisão do trabalho. Um homem cujo ofício é escrever ou ensinar, e de prefe-

6. (Enem/MEC – 2015) A casa de Deus, que acreditam una, está, portanto, dividida em três: uns oram, outros combatem, outros, enfim, trabalham. Essas três partes que coexistem não suportam ser separadas; os serviços prestados por uma são a condição das obras das outras duas; cada uma por sua vez encarrega-se de aliviar o conjunto... Assim a lei pode triunfar e o mundo gozar da paz. ADALBERON DE LAON. In: SPINOSA, F. Antologia de textos históricos medievais. Lisboa: Sá da Costa, 1981.

A ideologia apresentada por Adalberon de Laon foi produzida durante a Idade Média. Um objetivo de tal ideologia e um processo que a ela se opôs estão indicados, respectivamente, em: a) Justificar a dominação estamental / revolta camponesa. 6. Resposta: a. b) Subverter a hierarquia social / centralização monárquica. c) Impedir a igualdade jurídica / revoluções burguesas. d) Controlar a exploração econômica/ unificação monetária. e) Questionar a ordem divina / Reforma Católica. CAPÍTULO 10 | OS FRANCOS E O FEUDALISMO

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II. Leitura e escrita em História Cruzando fontes

PROFESSOR, VER MANUAL.

Escola francesa. Séc. XV. Miniatura. Biblioteca Nacional, Paris. Foto: Everett - Art/Shutterstock/Gl

› Fonte 1

› Fonte 2 O texto a seguir foi escrito pelo bispo Adalberon de Laon no início do século XI. Leia-o com atenção.

O domínio da fé é uno, mas há um triplo estatuto na Ordem. A lei humana impõe duas condições: o nobre e o servo não estão submetidos ao mesmo regime. Os guerreiros são protetores das igrejas. Eles defendem os poderosos e os fracos, protegem todo mundo, inclusive a si próprios. Os servos por sua vez têm outra condição. Esta raça de infelizes não tem nada sem sofrimento. Quem poderia reconstituir o esforço dos servos, o curso de sua vida e seus inumeráveis trabalhos? Fornecer a todos alimento e vestimenta: eis a função do servo. Nenhum homem livre pode viver sem eles. Quando um trabalho se apresenta e é preciso encher a despensa, o rei e os bispos parecem se colocar sob a dependência de seus servos. O senhor Miniatura pertencente ao Códex do rei é alimentado pelo servo que ele diz Carlos VIII. França, século XV. alimentar. Não há fim ao lamento e às lágrimas dos servos. A casa de Deus, que parece una, é portanto tripla: uns rezam, outros combatem e outros trabalham. Todos os três formam um conjunto e não se separam: a obra de uns permite o trabalho dos outros dois e cada qual por sua vez presta seu apoio aos outros. FRANCO JÚNIOR, Hilário. Feudalismo: uma sociedade religiosa, guerreira e camponesa. São Paulo: Moderna, 1999. p. 27.

a) Quais os grupos representados na árvore, na fonte 1? b) De que lugar “social” o autor do texto da fonte 2 fala? c) Como o autor da fonte 2 define as funções dos nobres? E a dos servos? d) As fonte 1 e 2 são divergentes ou complementares?

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Capítulo 11

Civilização árabe-muçulmana

A polêmica do véu islâmico na Europa Símbolos religiosos devem ser permitidos no local de trabalho? [...] Em alguns países europeus, o uso de um véu no local de trabalho é motivo frequente de discussão. Embora os veredictos já proferidos se refiram, em grande parte, somente ao serviço público, as proibições legais e o debate aberto também afetam o setor privado, como mostram os seguintes exemplos. França. Entre os franceses, a questão do véu já foi decidida há um século: na república laica, a lei de 1905 sobre a separação da Igreja e do Estado proíbe a todos os funcionários públicos o uso de símbolos de filiação religiosa durante o exercício de suas funções. Por esse motivo, não existe nenhuma professora muçulmana usando o hijab. Reino Unido. Os britânicos se mostram tolerantes diante da religião. Muçulmanas usando o véu islâmico estão por todas as partes – seja no supermercado, nos departamentos de venda de importantes casas comerciais ou nos restaurantes. Também funcionários públicos, como policiais ou professoras, podem usar símbolos religiosos durante o exercício profissional. [...] PABST, Sabrina. Véu islâmico volta a ser tema em tribunal da UE. DW, 16 mar. 2016. Disponível em: <http://www.dw.com/pt/v%C3%A9u-isl%C3%A2mico-volta-a-ser-tema-em-tribunal-da-ue/a-19120086>. Acesso em: 31 mar. 2016. Luigi Narici/AGF/Isuzu Imagens

Professor: sugerimos aproveitar este fato pontual, a proibição do véu islâmico, para refletir sobre questões maiores, como as relações entre religião e política; o impacto dos ataques terroristas na França (2015) e na Bélgica (2016) sobre os europeus; a intolerância religiosa no mundo de hoje, entre outras. A ideia é estimular o alunado a argumentar em favor de um

Venda de carne produzida de acordo com as regras da religião islâmica, em um supermercado da Itália, em 2010; note que as promotoras de venda são muçulmanas.

» Formem dois grupos: um favorável ao uso do véu islâmico nos locais de tra-

balho, o outro, contrário a ele; e, com a mediação do professor, debatam o assunto. Ao final do debate postem os melhores argumentos no blog da turma.

ponto de vista, familiarizá-lo com essa importante questão da atualidade e evidenciar que o uso da violência não é solução para os problemas humanos, levando-o a valorizar a cultura da paz, tal como pretendido pela ONU.

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A Península Arábica O berço da civilização árabe-muçulmana foi a Península Arábica, extensa faixa de terra em forma de retângulo, limitada ao norte pela Palestina, a oeste pelo mar Vermelho, a leste pelo Golfo Pérsico e, ao sul, pelo mar Arábico. Allmaps

Península Arábica (século VI) Mar Cáspio

ANATÓLIA

Mar Mediterrâneo

DESERTO DA SÍRIA

MO NT ES

AL

Trópico de

Yatreb

Câncer

o e lh rm r Ve Ma

Oásis:

pequenas áreas férteis no deserto em razão da existência de água.

PE

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DESERTO DE NAFUD

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HADRAMAUT Mar Arábico

Estepe:

área mais ou menos plana, seca, em que predominam as gramíneas.

Pé rsi co

NEJD

NS

A

HEDJAZ Meca

Z S RO AG

CRESCENTE FÉRTIL

EGITO

0

380 50º 50ºLL

Fonte: HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 29.

O clima da região é quente e seco e seu território é formado, em sua maior parte, por desertos, com oásis, e por estepes. No século VI, a Península Arábica era habitada por povos semitas que falavam diferentes dialetos do árabe e adotavam estilos de vida variados. No deserto viviam povos nômades criadores de camelos, carneiros ou cabras e tradicionalmente conhecidos como beduínos. Em torno dos oásis viviam povos sedentários que praticavam a agricultura, cultivando palmeiras e figueiras, plantas aromáticas, como o bálsamo, e cereais, como o trigo. Havia ainda pequenos vilarejos habitados por artesãos e comerciantes que promoviam feiras com regularidade. À esquerda, vê-se um oásis no deserto. À direita, tuaregues dirigem uma tradicional caravana de camelos carregada com barras de sal retiradas de uma mina situada no norte do Mali. O ponto de chegada é a cidade de Timbuktu, no mesmo país. Brent Stirton/Reportage by Getty images

Frank Lukasseck/Corbis/Latinstock

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Com o tempo, os comerciantes árabes prosperaram e passaram a praticar o comércio de longa distância: montados em camelos, seguiam rumo ao noroeste até Constantinopla e, em direção ao leste, até a Índia. Nas rotas comerciais que passavam pelo noroeste da Arábia, bordejando o mar Vermelho, surgiram os dois mais importantes centros urbanos da região: Meca e Yatreb. A cidade de Meca era governada por comerciantes e, há tempos, se destacava como centro religioso que recebia peregrinos vindos de diferentes partes da Arábia. Na época, os árabes eram politeístas e se dirigiam a Meca com frequência em busca da Caaba, santuário em forma de cubo que abrigava imagens dos vários deuses cultuados por eles. No interior desse templo estava, e ainda está, a Pedra Negra, que eles diziam ter caído do céu com uma cor natural e que teria escurecido em razão dos pecados da humanidade. A Caaba, com sua valiosa Pedra Negra, era administrada por comerciantes da tribo coraixita, na qual nasceu Maomé, o maior líder religioso na história dos povos árabes.

Maomé nasceu em Meca, na Arábia Ocidental, por volta de 570. Os membros da tribo coraixita eram mercadores e mantinham negócios com diferentes áreas da Arábia e também frequentavam a Caaba, o santuário da cidade. Há poucas informações sobre os primeiros anos da vida de Maomé; sabe-se, porém, que aos 15 anos ele passou a trabalhar como condutor de caravanas, viajando para lugares distantes, como a Síria e a Palestina, e travou contato com duas das mais importantes religiões monoteístas: o judaísmo e o cristianismo. Aos 25 anos, Maomé se casou com Cadija, uma viúva comerciante, e assumiu o comando dos seus negócios. Com o tempo, no entanto, Maomé passou a alternar os negócios com os retiros espirituais. Conta a tradição que, aos 40 anos, ele avistou um anjo que o convocou a tornar-se mensageiro de Deus. Maomé começou então a anunciar profecias, tais como: “O mundo está chegando ao fim”; “Deus todo-poderoso irá julgar os seres humanos”; “Aqueles que, durante a vida, se submeterem à vontade de Deus podem confiar na sua misericórdia na hora do julgamento”.

Escola turca. Séc. XVI. Guache sobre papel. Topkapi Palace Museum, Istanbul

Maomé e o islamismo

Esta pintura turca do século XV é uma representação de Maomé e do arcanjo Gabriel. Repare que não se vê o rosto de Maomé, pois os muçulmanos fazem restrições à reprodução da figura humana.

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Dica! Vídeo com informações que ajudam a ampliar o conhecimento sobre as crenças dos povos árabes. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http://tub. im/5ver9b>.

Alá:

entre os muçulmanos, designação de Deus.

Afirmando a existência de um único Deus, Maomé atraiu um número crescente de seguidores, os muçulmanos, do árabe muslim, que significa “submetido a Deus”. Conforme o número de muçulmanos crescia, a relação entre Maomé e os comerciantes coraixitas piorava. Eles se negavam a vê-lo como mensageiro de Deus e diziam que zombava de seus deuses, passando por isso a persegui-lo. Maomé decidiu então sair de Meca e fixar-se em Yatreb, um oásis situado a 300 quilômetros ao norte da Península Arábica, que depois passou a se chamar Medina, cidade do profeta. Essa fuga do profeta de Meca para Medina é denominada de hégira. O ano em que ela ocorreu (622) é considerado o primeiro ano do calendário muçulmano. Segundo o historiador inglês Albert Hourani, o termo hégira não tem apenas o sentido negativo de fuga de Meca, mas também o positivo da busca de proteção, estabelecendo-se em um lugar seguro. Em Medina, Maomé continuou pregando a existência de um só Deus e conquistando adeptos, tanto entre a população da cidade quanto entre os beduínos do deserto. Até que, em 630, dizendo que Alá lutava ao lado deles, Maomé e seus seguidores marcharam para Meca, e, lá chegando, destruíram as estátuas dos deuses locais e reservaram a Caaba à adoração de um único Deus. A conquista de Meca por Maomé e seus seguidores marcou o nascimento do islã, palavra derivada do árabe que significa “submissão total a Deus”. Meca passou a ser, a partir daí, o centro da devoção muçulmana. Nos anos seguintes os muçulmanos conquistaram uma parte considerável da Arábia que passou a ser governada por Maomé. Ao falecer, em 632, Maomé tinha fundado uma nova religião monoteísta e unido os árabes do deserto e das cidades em um Estado árabe, de perfil teocrático. Maomé não deixou nada escrito. Após sua morte, Abu Bakr, seu sucessor imediato, ordenou a junção de tudo o que havia sido escrito sobre os ensinamentos de Maomé em um único livro, o Corão, também conhecido como Alcorão (do árabe Al-Kuran), que quer dizer “O livro”. Escrito numa linguagem muitas vezes literária, o Corão fala do caminho que conduz a Deus, origem de todo o poder e bondade. Os muçulmanos creem que o Corão é a vontade de Deus revelada a Maomé por um anjo.

O islã A religião criada por Maomé é chamada islã ou islamismo. Já seus seguidores são chamados de islamitas, maometanos ou muçulmanos. O islamismo se apoia em cinco pontos principais, conhecidos como Pilares do Islamismo: » Crer que há só um Deus, Alá, e seguir os ensinamentos de Maomé, seu profeta. » Orar cinco vezes ao dia, com o rosto voltado para Meca.

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» Dar aos necessitados uma ajuda proporcional aos bens que possui. » Jejuar durante os 30 dias do Ramadã (mês do jejum); o fiel não deve

nono mês do calendário muçulmano (mês do jejum).

Marcia Minillo/Olhar Imagem

Amr Abdallah Dalsh/Reuters/Latinstock

ingerir alimento nem água do nascer ao pôr do sol. » Ir a Meca em peregrinação ao menos uma vez na vida, caso tenha saúde e recursos para isso.

Ramadã:

Peregrinos muçulmanos circundam a Caaba e oram na mesquita no segundo dia do Eid al-Adha (Festa do Sacrifício) em Meca, 2012. Um ícone do mundo islâmico é a mesquita, onde se destaca o minarete, torre alta na qual o sacerdote (muezim) conclama os fiéis para as orações diárias com o rosto voltado para Meca.

Muçulmanos em oração, na Mesquita Brasil, em São Paulo, 2015. Na sua prática religiosa, os muçulmanos pensam como comunidade, vão a Meca em grupo, jejuam durante um mesmo mês e fazem preces coletivas (salat), como a que se vê na foto.

O pertencimento a uma comunidade de fiéis implicava o dever dos muçulmanos de cuidarem uns dos outros, além de protegerem e ampliarem a comunidade. A jihad, guerra contra os que ameaçavam a comunidade — fossem eles de fora ou de dentro —, era uma obrigação importantíssima. O dever da jihad não era uma obrigação do indivíduo, mas de toda comunidade, de fornecer um número considerável de combatentes para a vitória da causa. CAPÍTULO 11 | CIVILIZAÇÃO ÁRABE-MUÇULMANA

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Para refletir Em 632, Maomé fez sua última visita a Meca, e o discurso que ali proferiu foi registrado nos textos tradicionais como a declaração final de sua mensagem: Sabei que todo muçulmano é irmão do outro, e que os muçulmanos são irmãos; devia-se evitar a luta entre eles, e o sangue vertido em tempos pagãos não devia ser vingado; os muçulmanos deviam combater todos os homens, até que dissessem: Só há um Deus. [...] HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras. 1994. p. 36.

a) Qual é o significado do trecho: “[...] os muçulmanos deviam combater todos os homens, até que dissessem: Só há um Deus”? b) Para alguns, jihad significa guerra santa (a propagação do islã pela força); para outros, jihad (cuja tradução literal é “esforço em favor de Deus”) seria o compromisso religioso dos muçulmanos de levar uma vida de acordo com o islamismo. Qual das duas interpretações você considera mais convincente?

a) A afirmação admite dupla interpretação e remete à polêmica questão sobre o significado de “guerra santa” para os muçulmanos. b) A questão é polêmica; para alguns, o Corão não aprova a conversão pela força; para outros, a jihad consistiu em uma prática guerreira visando à conversão.

Dica! Documentário abordando os segredos do alcorão e a história do islamismo. [Duração: 45 minutos]. Acesse: <http://tub. im/c49x7f>.

Sunita:

seita cujos seguidores se baseiam na Suna, texto sagrado para os muçulmanos e que reúne obrigações e preceitos baseados nas palavras e feitos de Maomé e dos quatro primeiros califas.

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A sucessão de Maomé: xiitas versus sunitas A morte de Maomé gerou um vazio político e religioso e um momento de grande conflito na comunidade islâmica. Depois de intensas disputas, Abu Bakr, parente de Maomé, foi eleito califa (do árabe khalifa, isto é, “sucessor do profeta”). Os quatro primeiros califas foram eleitos entre os parentes de Maomé e são considerados pela maioria dos muçulmanos rashidun (ou seja, “corretamente guiados”). Em 661, com a morte de Ali, o quarto califa, marido de Fátima, filha de Maomé, os muçulmanos se dividiram quanto à sucessão: para uns, somente um membro da família de Maomé podia sucedê-lo. Para outros, isso não era necessário. A disputa terminou quando Ibn Abi Sufiyan, um governante da Síria, que não era parente de Maomé, proclamou-se califa e foi aceito como tal. Descontentes com a vitória do califa sírio, parte dos muçulmanos formou a seita xiita, para a qual somente os parentes de Maomé podem liderar os muçulmanos. Além disso, para os xiitas, o verdadeiro líder (político e religioso) possui proteção divina contra o pecado e o erro. Outra parte dos muçulmanos, porém, apoiou Ibn Abi Sufiyan no cargo de califa e formou a seita sunita. Em 2016, a porcentagem de muçulmanos sunitas era de 87% a 90%; já a dos xiitas era de 10% a 13%. O Irã e o Iraque estão entre os poucos países de maioria xiita. Já a Indonésia, país com maior número de muçulmanos no mundo, é de maioria sunita.

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Agung Kuncahya B/Xinhua via Zumapress/Easypix

Muçulmanos orando durante a Festa do Sacrifício, em Jacarta, Indonésia, 2015.

Uma expansão fulminante Maomé, como vimos, uniu os povos árabes em torno de uma mesma religião e sob um mesmo Estado. Durante o governo do segundo califa, iniciou-se a expansão para além da Arábia. Ele e seus sucessores levaram às últimas consequências a jihad com vistas à conquista de pessoas para o islamismo. Com a morte de Ali – o quarto califa –, o poder passou às mãos dos omíadas, importante família da cidade de Meca, cujo governo se estendeu de 661 a 750. Continuando a expansão muçulmana, os omíadas foram em direção à Ásia central e ao norte da África. Partindo do continente africano, conquistaram a Península Ibérica (711), mas, ao tentarem expandir seus domínios em direção ao restante da Europa, foram detidos pelos guerreiros francos, liderados por Carlos Martel, na batalha de Poitiers, em 732. Depois disso, os abássidas, partidários da seita xiita, apossaram-se do califado. Durante seu longo reinado (751-1258) consolidaram o islamismo e mudaram a capital do império para Bagdá, no atual Iraque. O império vivia seu apogeu. Em cem anos, a contar da morte de Maomé (632), os muçulmanos formaram um imenso império que ia desde as terras onde hoje é a China (a leste) até onde atualmente está situado Portugal (a oeste). Um dos fatores que favoreceram a expansão foi o interesse em conquistar terras e postos-chave do comércio internacional, visando com isso poder e riqueza. Outro fator importante foi a relativa tolerância religiosa dos árabes em relação aos povos vencidos, que podiam manter sua própria religião, desde que reconhecessem o poder do islã e pagassem tributos.

Dica! Documentário sobre o apogeu do império árabe. [Duração: 54 minutos]. Acesse: <http://tub. im/ewyfbg>.

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A expansão muçulmana 60°L

OCEANO ATLÂNTICO

ÁSIA

EUROPA M

io sp Cá ar

Mar Negro

Roma

Barcelona

Constantinopla

PENÍNSULA IBÉRICA

Antioquia

Cartago

Ri oE

Mar Mediterrâneo

MAGREB Trípoli

Alexandria

Go

lfo

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o elh

Meridiano de Greenwich

erm rV

590

PÉRSIA

Ma

0

Bagdá

Jerusalém

ÁFRICA

Trópico de Câncer

ufr ate s

Rio Nilo

Cairo EGITO

Rio re Tig

Málaga

Medina Mar Arábico

Meca

Até a morte de Maomé (632)

OCEANO ÍNDICO

Primeiros califas (632-661) Omíadas (661-750)

Fonte: PEDRERO-SÁNCHEZ, Maria Guadalupe. A Península Ibérica entre o Oriente e o Ocidente: cristãos, muçulmanos e judeus. São Paulo: Atual, 2002. p. 6. (A vida no tempo).

DIALOGANDO Em sua opinião, qual dos fatores é decisivo para explicar a rapidez com que o Império Islâmico se expandiu na Idade Média?

Além disso, o Império Islâmico foi favorecido pelo enfraquecimento do Império Bizantino e do Império Persa em função das guerras que travaram entre si, bem como pela opressão exercida por bizantinos e persas sobre os povos sob seu domínio. Muitos desses povos chegaram a ver os muçulmanos como libertadores.

Nascimento de Maomé

Morte de Maomé

Morte de Ali

570

632

661 OS QUATRO PRIMEIROS CALIFADOS

751 OS OMÍADAS

1258 OS ABÁSSIDAS

Editoria de arte

Allmaps

Observação: nesta obra, por questão de espaço, as linhas do tempo não obedecem a uma escala. Professor: o objetivo da questão é levar o aluno a optar por um dos fatores relacionados no texto e a justificar sua opção. Aproveitar a oportunidade para comentar sobre a importância de se considerar a multiplicidade de fatores em História.

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Economia no Império Islâmico Durante sua rápida expansão, o Império Islâmico apoderou-se de importantes rotas comerciais (marítimas e terrestres) que ligavam o Oriente ao Ocidente e, dessa forma, os árabes se tornaram intermediários privilegiados no comércio entre essas duas regiões. O artesanato árabe-muçulmano também era muito apreciado na Europa por sua variedade e qualidade. Algumas cidades do império eram especializadas na produção de determinados artigos: Damasco, na Síria, era conhecida por seu tecido estampado; Bagdá, no atual Iraque, por seus vidros, joias e sedas; Marrakesh, no norte da África, por seus artefatos de couro; Toledo, na Espanha, por suas espadas de ferro, entre outras.

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dbimages/Alamy/Glow Images

Mulheres comprando tecidos em Damasco, Síria, 2008. Os tecidos de Damasco eram e ainda são famosos.

Os muçulmanos praticavam também a agricultura intensiva com a ajuda de engenhos hidráulicos e mecânicos destinados à irrigação do solo. Eles introduziram na Europa o plantio de árvores frutíferas, como a laranjeira e a tamareira; hortaliças, como a hortelã; temperos, como o açafrão; e cultivos comerciais de larga aceitação até então desconhecidos na Europa, como o arroz, a cana-de-açúcar e o algodão. Os muçulmanos destacaram-se também na criação de cavalos.

Para saber mais O texto a seguir é de Oswaldo Truzzi, professor da Universidade Federal de São Paulo. Leia-o com atenção. Os árabes se adaptaram muito bem ao Brasil. E o Brasil a eles. Seja por sua profunda influência em Portugal, seja pela forte imigração no último século, a cultura árabe tem presença garantida na história e na sociedade brasileiras. […] Foram os árabes que introduziram na Europa coisas tão básicas como os algarismos decimais – em substituição aos romanos, difíceis de usar para cálculos –, jogos, como o xadrez, e a própria arte caligráfica, pois encaravam a palavra escrita como o meio por excelência da revelação divina. Na culinária, difundiram o uso do café, de doces próprios e produtos de pastelaria, do azeite, em substituição à proibida gordura de porco, e de muitos outros temperos, como o açafrão, a noz-moscada, o cravo, a canela e pimentas. […]

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Mehmet Cetin/Shutterstock/Glow Images

S h u Ve r e s h c t ter s tock hagin D m /Glo w Im itr y/ age s

Paulo Fridman/ Pulsar Imagens

Na música, o alaúde teve vasta descendência nas Américas, procriando verdadeiras famílias de instrumentos caribenhos, o bandolim e o cavaquinho brasileiros, a charanga do altiplano andino e o banjo dos negros norte-americanos. […] A aridez dos solos desérticos capacitou-os como mestres nas técnicas agrícolas e de irrigação, importando para a Europa o moinho d’água, avô do engenho colonial, […] O segundo movimento marcante foi a chegada direta de imigrantes, sobretudo sírios e libaneses, a partir do final do século XIX. […] […] Sua principal ocupação nos países de origem havia sido a agricultura, mas por aqui abraçaram como profissão o comércio. Perseguiam a autonomia de gerir seu próprio negócio, ainda que este Alaúde. fosse minúsculo a ponto de caber em uma caixa de vendedor ambulante. […] Os árabes mascateavam também pelas zonas rurais, mas fixaram-se sobretudo nas cidades. […] De mascates a pequenos comerciantes, depois varejistas, atacadistas e industriais. Vencidas as dificuldades da primeira geração, os pioneiros trataram de buscar para seus filhos a ascensão socioeconômica via educação. Queriam vê-los como doutores – especialmente médicos e advogados –, e assim muitos o fizeram. […] Outra peculiaridade que ilustra essa integração vigorosa é a incorporação de iguarias à culinária local. […] Algumas receitas difundidas pelos imigrantes integram hoje a dieta habitual da classe média Cavaquinho. brasileira, como o quibe, a esfiha, o tabule, a coalhada, o babaganouche, o pão sírio e a lentilha. […] Até hoje, mais de um século após a vinda dos primeiros imigrantes, nas entrevistas colhidas entre os mais velhos, entre aqueles capazes de olhar para trás conscientes das dificuldades enfrentadas e do caminho percorrido, o balanço da trajetória e da vida não deixa de registrar depoimentos emocionados. “Na vida brasileira a gente adquire desde a infância uma tolerância que não existe lá [...] Eu estou satisfeito da minha vida, confio no Brasil, aqui é minha terra”. TRUZZI, Oswaldo. Os árabes se adaptaram muito bem ao Brasil. E o Brasil a eles. Revista de História, 8 jul. 2009. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/sentindo-se-em-casa>. Acesso em: 31 mar. 2016.

Banjo.

DIALOGANDO Você conhece quatro palavras portuguesas de origem árabe usadas no nosso dia a dia no Brasil? Professor: são muitas as respostas possíveis, por exemplo: sorvete, azulejo, algodão, alfândega, algoritmo, cifra, álcool, limão, alfinete, entre outras.

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3. a) A hégira foi a mudança de Maomé para Medina em busca de proteção. b) Resposta pessoal. O objetivo aqui é estimular a capacidade de o aluno argumentar por escrito em defesa de um ponto de vista.

ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (UFJF-MG) O islamismo, religião fundada por Maomé e de grande importância na Unidade árabe, tem como fundamento: a) o monoteísmo, influência do cristianismo e do judaísmo, observado por Maomé entre povos que seguiam essas religiões. 1. Resposta: a. b) o culto dos santos e profetas através de imagens e ídolos. c) o politeísmo, isto é, a crença em muitos deuses, dos quais o principal é Alá. d) o princípio da aceitação dos desígnios de Alá em vida e a negação de uma vida pós-morte. e) a concepção do islamismo vinculado exclusivamente aos árabes, não podendo ser professado pelos povos inferiores. 2. (Enem/MEC) Existe uma regra religiosa, aceita pelos praticantes do judaísmo e do islamismo, que proíbe o consumo de carne de porco. Estabelecida na Antiguidade, quando os judeus viviam em regiões áridas, foi adotada, séculos depois, por árabes islamisados, que também eram povos do deserto. Essa regra pode ser entendida como:

iriam datar o início da era muçulmana, é conhecida como a Hégira: a palavra não tem apenas o sentido negativo de fuga de Meca, mas o positivo da busca de proteção, estabelecendo-se num lugar que não o seu próprio. HOURANI, Albert. Uma história dos povos árabes. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 34.

a) Para esse historiador, o que foi a hégira? b) Para outros historiadores, a hégira significa a fuga de Maomé para Medina. Qual dessas interpretações você julga mais convincente? 4. (UEL-PR) A religião muçulmana, que contribuiu para unificar os povos de origem árabe e lhes forneceu amparo espiritual ao longo de sua expansão, a) inspirava a forma de governo parlamentar, pois os líderes religiosos reuniam-se numa assembleia proporcional. b) pregava o politeísmo na medida em que reconhecia a adoração de vários deuses. c) retirava a sua orientação dos textos considerados sagrados, contidos no Corão. 4. Resposta: c. d) reconhecia em Maomé o único e verdadeiro Deus a ser adorado pelos islamitas. e) tinha, como seu mais importante centro espiritual, a cidade de Bagdá.

b) um indício de que a carne de porco era rejeitada em toda a Ásia.

5. (UEMS) A história do Mediterrâneo é a história das migrações populacionais e da circulação de valores de culturas diferentes. Sobre a expansão árabe, a partir da unificação islâmica na Idade Média, é correto afirmar:

c) uma certeza de que do judaísmo surgiu o islamismo.

a) A doutrina islâmica não permitiu a criação de um Estado teocrático.

d) uma prova de que a carne do porco era largamente consumida fora das regiões áridas.

b) O Jihad, ou guerra santa, foi usado como justificativa para o expansionismo árabe.

e) uma crença antiga de que o porco é um animal impuro.

c) Conquistadores não permitiam que os povos conquistados continuassem a praticar sua fé.

a) uma demonstração de que o islamismo é um ramo do judaísmo tradicional.

3. No texto a seguir, o historiador inglês Albert Hourani analisa a hégira. Leia-o com atenção. [...] Essa mudança para Medina, a partir da qual as gerações posteriores

5. Resposta: b.

d) Medina tornou-se o centro das peregrinações islâmicas. e) Iatreb era o centro das peregrinações islâmicas, onde se localiza a Caaba, o monumento sagrado dos muçulmanos.

2. Resposta: e. Resolução: O intenso contato entre as culturas do Oriente Próximo e as do Oriente Médio, e as trocas culturais daí resultantes, ajudam a explicar o fato de os praticantes do judaísmo e os do islamismo acreditarem que o porco seja um animal impuro.

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II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE O islamismo vem crescendo nas últimas décadas e hoje é a segunda maior religião do mundo. Leia as fontes a seguir.

Distribuição dos muçulmanos pelo mundo (projeção 2020) Vespúcio Cartografia

› Fonte 1

0º Círculo Polar Ártico

OCEANO ATLÂNTICO

Trópico de Câncer

População por país (em %) inferior a 1

OCEANO PACÍFICO

OCEANO PACÍFICO

Meridiano de Greenwich

Equador

Trópico de Capricórnio

de 1 a 19 de 20 a 39 de 40 a 59 de 60 a 79

Círculo Polar Antártico

0

maior que 80

› Fonte 2

OCEANO ÍNDICO

3 380

Fonte: PEW RESEARCH CENTER. Disponível em: <http://pewrsr.ch/1r2t3j0>. Acesso em: 1 jun. 2016.

POPULAÇÃO MUNDIAL MUÇULMANA EM 2014 População por continente

Total da população em 2014 (em bilhões)

Porcentagem de muçulmanos

População muçulmana (em milhões)

África

1 096,6

53,04%

581,58

Ásia

4 319,96

32,16

1 389,5

Europa

739,31

7,6%

56,18

América

957,6

2,22%

10,11

Oceania

38,04

0,67%

1,77

Total

7 151,51

28,26%

2 038,4

Fonte de pesquisa: Fundação Carnegie para a Paz Mundial. Disponível em: <http://muslimpopulation.com/World/>. Acesso em: 31 mar. 2016.

a) O que as fontes informam sobre os muçulmanos? b) Qual o continente com o maior número de muçulmanos? c) Cite quatro países da África com mais de 90% de muçulmanos. d) Pesquise: qual o país com o maior número de muçulmanos? Dica: esse país não é árabe. e) Observando o mapa e a tabela, é possível concluir que nem todo muçulmano é árabe, e que nem todo árabe é muçulmano. Elabore um comentário sobre o assunto.

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UNIDADE 4 | DIVERSIDADE RELIGIOSA: O RESPEITO À DIFERENÇA

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Professor: dando continuidade ao esforço de educadores, africanistas e ativistas para levar as histórias e as culturas africanas para as salas de aula, começamos este capítulo focando a estatuária africana, que foi, e ainda é, admirada em todo o mundo. A arte dos povos bantos e iorubás atingiu um grau de excelência em

Formações políticas africanas

Capítulo 12

formações políticas africanas como o Reino do Congo e as cidades-reino iorubás. Mas essa arte refinada não se restringiu à África; atravessou o Atlântico e inspirou artistas por toda a América, com destaque para Estados Unidos, Cuba e Brasil.

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OCEANO ATLÂNTICO

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Iorubá – Máscara em bronze de um rei iorubá, século XVI, Nigéria.

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Gana – Escultura em terracota da cultura akan, século XVI.

OCEANO ÍNDICO

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Zona de agricultores e pastores bantos em 500 Primeiros estados

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Alwa (350-1505) Gana (700-1205)

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DESERTO DE CALAHARI

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Escola africana. Séc. XVII-XVIII (detalhe). Madeira e Bronze. Musée du Quai Branly et des Arts. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

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Escola africana. Terracota. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

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Séc. XVI. Bronze. Coleção particular. Foto: The Art Archive/Alamy/Glow Images

30°LL 30°

EUROPA 0° OCEANO ATLÂNTICO

Meridiano

Vespúcio Cartografia

África: formações políticas

Takrur (800-1100) Estados árabes muçulmanos (em 750) Estados posteriores

0

Etiópia (fundada em 1100)

920

Mali (1200-1500) Songai (1450-1590) Congo (em 1500)

Principais cidades do lorubo

Benin – Escultura em bronze de Idia, a mãe de Obá, século XVI.

Escola africana. Madeira. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Iorubo

Séc. XVI. Bronze. Museu Britânico, Londres. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Benin (em 1500)

Fonte: HAYWOOD, John. Atlas histórico do mundo. Colónia: Könemann, 2001. p. 101.

Mali – Escultura em madeira e metal da cultura dogon, séculos XVII-XVIII.

Congo – Escultura em madeira da cultura Luba, século XVIII, República Democrática do Congo.

A arte africana foi e ainda é admirada em todo o mundo; ela serviu de inspiração para artistas reconhecidos internacionalmente, a exemplo do espanhol Pablo Picasso.

» De qual dessas obras você gostou mais? » Os artistas que as produziram pertencem a povos dos quais descendem mi-

lhões de brasileiros; o que se pode saber sobre eles observando sua arte? Que relação temos com eles? CAPÍTULO 12 | FORMAÇÕES POLÍTICAS AFRICANAS

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A África que os europeus medievais conheciam era a região situada ao norte do deserto do Saara, ou seja, a parte do continente banhada pelo mar Mediterrâneo (África mediterrânica). Já as terras abaixo desse imenso deserto, a África subsaariana, eram um grande ponto de interrogação para eles: nos mapas da época, eram chamadas de Terra incógnita. Esse desconhecimento somado às teorias racistas formuladas pelos europeus do século XIX levou a que se forjassem visões estereotipadas e preconceituosas da África e de seus habitantes. Uma das mais recorrentes é a que apresenta a África como um continente “sem história”; nessa versão, os povos africanos são chamados de “tribos” e suas línguas, de “dialetos”. Estudos e pesquisas desenvolvidos no século XX, sobretudo após as independências africanas, vêm nos permitindo conhecer a rica e movimentada história da África e dos africanos no Brasil. Ibn Battuta:

As fontes da história africana A história da África subsaariana entre os séculos VII e XVI é conhecida por meio de quatro fontes principais: » fontes escritas africanas – a documentação vem se avolumando à luz de novas pesquisas; » fontes escritas árabes – roteiros de viagem, crônicas, textos enciclopédicos escritos por indivíduos do mundo árabe-muçulmano, com destaque para o relato de Ibn Battuta a respeito de sua viagem ao Império do Mali, depois de atravessar o deserto do Saara; » fontes orais – relatos que chegaram até nós, principalmente por meio dos griôs: poetas, músicos e cantores que conservam e transmitem canções e histórias de seu povo; » fontes arqueológicas – as escavações vêm crescendo nas últimas décadas. World Pictures/Phot/Easypix

nasceu em 1304, na cidade de Tânger, no Marrocos. Seguidor do islamismo de tradição sunita, foi um grande viajante. Iniciou suas viagens por Meca e depois percorreu vários pontos da África, da Ásia e da Europa, entrando em contato com diversos povos e culturas. O material recolhido em suas viagens está reunido em uma obra de nome Rihla, um documento raro com informações históricas sobre o modo de vida de muitos povos no século XIV.

Pinturas rupestres em um sítio arqueológico no Mali. Entre as figuras zoomórficas destaca-se a cobra ao centro da imagem, 2014.

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Rio N il o

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Observe o mapa da África e repare que o deserÁfrica: vegetação 30°LL 30° to do Saara divide o continente. Ele está situado EUROPA 0° Mar Mediterrâneo entre o Atlântico, a oeste, e o mar Vermelho, a leste, e é atravessado pelo rio Nilo, a leste. Ao Trópico de Câncer sul do Saara está o Sahel, nome que se dá à longa ÁSIA D E S E RT O D O S A A R A Rio faixa de terra africana que vai desde o oceano Se Rio SAHEL Atlântico até o mar Vermelho. O Sahel, formado em grande parte por savanas e cerrados, é uma Equador área de ocupação antiga. 0° Lago Vitória Lago o i O deserto do Saara era habitado por povos nôOCEANO R Tanganica OCEANO ÍNDICO mades chamados de berberes. Esses povos, como ATLÂNTICO Lago Malauí ambez os azenegues e os tuaregues, controlavam as rotas oZ Ri Florestas comerciais (e seus oásis) que ligavam o Sahel ao o Limp Trópico de Capricó DESERTO DE Ri Savanas r ni o o CALAHARI norte africano e à bacia mediterrânica. No oeste e Estepes O r a n ge Ri o Vegetação mediterrânea sul do Sahel viviam povos negros, chamados, geDeserto 0 1 075 Oásis nericamente, de sudaneses, como os bambaras, Fonte: MELLO E SOUZA, Marina de. os fulas, os mandingas, os hauçás, entre outros. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2006. p. 13. A extensa área habitada por eles era chamada de Sudão (em árabe, Biladal-Sudan, que significa “terra de negros”). O Sudão ocidental é cortado por dois importantes rios: o rio Senegal e o rio Níger; ambos nascem nas terras altas de Futa Djallon, mas, enquanto o rio Senegal corre em direção ao litoral e deságua no Atlântico, o Níger avança pelo interior e só mais à frente, após uma curva de noventa graus, segue para o Atlântico, onde deságua. Esses rios permitiam que os povos do Sahel tivessem água para suas necessidades básicas e também para fertilizar a terra e cultivar cereais, legumes e verduras. Além disso, serviam como via de locomoção e transporte. Em canoas ágeis feitas com troncos de árvores, os povos do Sahel transportavam as cargas que chegavam em lombos de camelos dos portos do mar Mediterrâneo ou que para lá seguiam.

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África: aspectos físicos

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O comércio pelo Saara O comércio entre os povos negros do Sahel, os do norte africano e os da bacia do Mediterrâneo era antigo e incluía ouro, pessoas escravizadas e sal (produto escasso no território e em alguns pontos da África, tão valioso quanto o ouro). A partir do século IV, o camelo, animal adaptado ao ambiente do deserto, possibilitou e incentivou o comércio transaariano, quando passou a ser usado sistematicamente no transporte de mercadorias e pessoas pelo deserto. Com o uso do camelo, o deserto do Saara deixou de ser um mar de areia que separava os povos do Sahel dos povos da bacia mediterrânica e tornou-se uma ponte que unia as duas regiões. CAPÍTULO 12 | FORMAÇÕES POLÍTICAS AFRICANAS

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a) O mapa descreve as principais rotas comerciais que atravessavam o Saara, ligando a região do Sahel ao norte africano e à bacia do Mediterrâneo. b) O mapa informa os limites aproximados do deserto, da floresta e da região do Sahel. E também a localização das maiores fontes de sal, ouro e noz-de-cola, três importantes produtos comercializados na época.

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Galam Cabo Verde Futa Jalon Serra Leoa

Equador

d) A que tempo o mapa se refere? e) Em grupo. Debatam, reflitam e respondam. Sua observação do mapa e seus estudos sobre a África confirmam ou negam a ideia de uma África “sem história”? Postem o resultado da sua reflexão no blog da turma.

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OCEANO ATLÂNTICO

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c) Como essas informações estão representadas?

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b) Que outras informações importantes o mapa nos fornece?

Argel Túnis Fez KAIRUAN M a r M editerr IFRIQIYA âneo Marrakesh MARROCOS Trípoli TAFILELT Cairo Ghadames EGITO Trópico de Fezzan TUAT Câncer Idjill Teghazza Ghat Taodeni

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a) Qual o assunto do mapa?

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OCEANO ÍNDICO

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Limites aproximados do deserto Limites aproximados da floresta

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Observe o mapa com atenção:

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Para refletir

Sahel Maiores fontes de ouro Maiores fontes de sal Maiores fontes de noz-de-cola

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1 075

Fonte: MELLO E SOUZA, Marina de. África e Brasil africano.

c) Estão representadas por meio de linhas coloridas para indicar limites aproximados São Paulo: Ática, 2006. p. 13. e símbolos de diferentes cores para identificar as maiores fontes de sal, ouro e noz-de-cola. d) O mapa se refere ao século X. e) Resposta pessoal. Professor: a pergunta quer colaborar para desconstruir visões estereotipadas da África, como esta que a associa a um continente parado no tempo, sem história.

Impérios do Sahel

Império:

“Unidade política que congrega várias outras unidades, que podem ser compostas por povos diferentes entre si que mantêm suas formas de governar locais, mas prestam obediência ao poder central, controlado pelo chefe de todos os chefes” (MELLO e SOUZA, Marina de. África e Brasil africano. São Paulo: Ática, 2006. p. 16).

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A partir do século VII, com a expansão dos árabes muçulmanos no norte da África, os berberes do deserto foram islamizados e, enquanto levavam e traziam suas mercadorias, difundiram o islamismo entre os povos negros da África ocidental; em alguns casos, a religião de Maomé se impôs, em outros se mesclou às religiões tradicionais da região, ocorrendo mais uma africanização do islamismo do que propriamente uma islamização dos africanos. Foi justamente na África ocidental marcada pela mescla do islamismo com religiões tradicionais africanas que se formaram dois importantes impérios africanos sudaneses: o de Gana e o do Mali, apresentados a seguir.

O Império de Gana Situado no ocidente africano, ao norte dos rios Senegal e Níger, o Império de Gana era conhecido como “terra do ouro”, tal a quantidade de ouro que circulava por suas terras. Segundo o historiador José Rivair de Macedo, o Reino de Gana foi fundado no século IV pelo povo soninquê mas sua história, até o século VIII, ainda é pouco conhecida. Sabe-se que, no século VIII, o Império de Gana possuía uma grande extensão e dominava política e economicamente uma variedade de povos.

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Escola africana. Séc. XVII-XVIII (detalhe). Madeira e ouro. Coleção particular. Foto: Bildarchiv Han

Gana era a um só tempo o nome do reino e o do título atribuído ao governante supremo. Entre os séculos IX e XI, os domínios de Gana incluíam as áreas de Galan, Falemé e Bambuk, onde estavam situadas as maiores minas de ouro do ocidente africano. O soberano tinha o título de gana (palavra que deu nome ao reino). Entre os funcionários do Império havia indivíduos encarregados de distribuir a justiça, controlar o tesouro e guardar armas, além de um número grande de serviçais e intérpretes. Havia também sacerdotes reais especializados na realização do culto a uma divindade-serpente (Wagadu-ida), que protegia a dinastia reinante. Uma particularidade do Reino de Gana era o fato de que a sucessão era matrilinear; assim sendo, em vez de os filhos sucederem os pais, os sobrinhos sucediam aos tios (irmãos da mãe). Durante o seu período de maior esplendor, no século IX, o Império de Gana constituiu-se no principal fornecedor do ouro comercializado via Saara. Estima-se que anualmente saíam de Gana em direção ao mar Mediterrâneo em média 5,5 toneladas de ouro. Naquela época, Kumbi Saleh, a capital de Gana, possuía duas áreas distintas; em uma delas viviam os mercadores de religião muçulmana, com suas tendas e mesquitas; na outra ficava o Palácio Real, as casas dos funcionários do governo e de pessoas comuns, que professavam religiões tradicionais. Os habitantes de Gana praticavam a agropecuária, a pesca e um comércio intenso através do Saara (que também rendia dividendos ao governo). Pássaro em Mas a principal receita do Império vinha dos impostos cobrados dos povos ouro, séculos dominados ou que reconheciam sua hegemonia. Circulavam pelo território XVII-XVIII, Gana. do Império o cobre, os búzios (que recebiam o nome de cauris), tecidos O ouro marcou a de algodão e de seda e o sal das minas de Tagaza, que eram trocados história do Império de Gana, no por marfim, ouro e escravizados. Segundo os cronistas muçulmanos, cada passado, e continua carregamento de sal que entrasse nos domínios de Gana pagava um dinar sendo decisivo (moeda muçulmana) de imposto; e cada um que saísse, pagava dois dinapara a economia da República de Gana, res. Graças à sua riqueza, o Império de Gana conseguia manter um exércino presente. to numeroso, calculado, com algum exagero por um viajante da época, em 200 mil homens, que em sua maior parte eram arqueiros ou lanceiros. O que minou o poder de Gana foi a ofensiva dos berberes muçulmanos provenientes de Marrakech, no Marrocos. Eles vinham movendo uma jihad contra os povos considerados pagãos, a exemplo dos soninquês. Em 1054 os berberes tomaram Awdagost e, em 1076, conquistaram Kumbi Saleh que, com isso, perdeu sua posição de centralidade. Com a queda dos centros de poder ganense, abriu-se uma disputa por hegemonia entre os povos da região, que foi vencida pelos sossos em 1203. A hegemonia dos sossos porém foi efêmera. Sob a liderança do príncipe Sundiata Keita, os malineses venceram os sossos na Batalha de Kirina, em 1235, organizando na região um novo centro de poder.

O Império do Mali O núcleo inicial do Império do Mali originou-se nas terras situadas entre os rios Senegal e Níger e habitadas pelos mandingas. CAPÍTULO 12 | FORMAÇÕES POLÍTICAS AFRICANAS

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Para saber mais Os mandingas Diáspora:

Nome étnico, que inclui um extenso grupo de povos da África ocidental, falantes de línguas aparentadas, pertencentes ao grande grupo linguístico Mandê, como os Bambaras, da República do Mali; os Mandinkas, de Gâmbia e países vizinhos; os Diúlas ou Diolas, de Burkina e Costa do Marfim (em várias das línguas do grupo, a palavra dyula significa “mercador itinerante”); bem como os Kurankos, Konos e os povos Vai, de Serra Leoa e Libéria. [...] Fortemente atingidos pelo tráfico, sua diáspora se localiza, ao que consta, principalmente nas Antilhas e nos EUA. LOPES, Nei. Enciclopédia brasileira da diáspora africana. São Paulo: Selo Negro, 2004. p. 414.

Paule Sux/hemis.fr/Alamy/Latinstock

Paule Sux/hemis.fr/Image Forum

palavra de origem grega que significa dispersão. Designando, de início, principalmente o movimento espontâneo de dispersão dos judeus pelo mundo, hoje se aplica também à desagregação que, compulsoriamente, por força do tráfico de escravos, espalhou negros africanos por todos os continentes.

À esquerda, mulher de etnia mandinga carregando criança, 2007. À direita, mulher dessa mesma etnia com os cabelos enfeitados com cauri, sudoeste de Bamaco, Mali, 2007.

Boa parte do que sabemos sobre o Império do Mali chegou até nós pelos griôs, que, por conservarem e transmitirem o saber tradicional, eram chamados de “bibliotecas vivas”. Foi por meio dos griôs, e de achados arqueológicos, que ficamos sabendo que o Império do Mali teve seu núcleo original organizado pelos povos mandingas.

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Stefano Torrione/Hemis/Glow Images

Na imagem de 2007, vemos uma dupla de griôs: um homem (músico) e uma mulher (cantora de músicas tradicionais malinesas). No passado, os griôs eram procurados por muitos reis africanos para trabalharem como professores particulares de seus filhos. Eles ensinavam arte, conhecimento de plantas, tradições, história e davam conselhos aos jovens príncipes. Preservar e transmitir conhecimentos da história de seu povo/país eram funções de uma modalidade de griô, mas havia também os griôs músicos, cantores, recitadores e aqueles que exerciam funções sacerdotais.

O Mali de Sundiata Keita Etnia: Segundo a tradição, o Império do Mali se formou em torno da figura “Noção usada para lendária do príncipe Sundiata Keita. Ele e seus guerreiros teriam vencido distinguir um grupo de outro, a partir da língua os sossos, seus opressores, na batalha Kirina, e depois, submeteram vários e da história comuns a outros povos – como os soninquês, os fulas, os dogons, entre outros, e consum mesmo grupo, da sua localização num tituíram o Império do Mali. À semelhança de outros Estados centralizados determinado espaço, africanos, o Império do Mali abrigava um mosaico de etnias. da ideia de origem comum que une todos, No comando do império, Sundiata Keita converteu-se ao islamismo e asda adoção das mesmas sumiu o título de mansa. A conversão de Sundiata ao islamismo é vista por crenças e modos de vida” (MELLO E SOUZA, historiadores atuais como uma estratégia desse líder africano para integrar Marina de. África e Brasil seu império ao circuito mercantil islâmico. Sundiata Keita era um conheafricano. São Paulo: cedor dos costumes e tradições de seu povo, e, embora tivesse aderido ao Ática, 2006. p. 35). Mansa: islamismo, permitia que a população continuasse a praticar as religiões tratítulo que, entre dicionais e a cultuar seus deuses. Na Corte real, inclusive, conviviam lado os seguidores do islamismo, equivalia ao a lado especialistas no Corão e os djeli (griôs), portadores e transmissores de imperador. dos conhecimentos milenares acumulados por seu povo. Segundo a tradição, muitos costumes malineses foram ditados por Sundiata Keita. O Mali absorveu terras e povos do Império de Gana e, no século XIV, durante seu apogeu, estima-se que tenha chegado a ter cerca de 45 milhões de habitantes. Dono de um poder soberano, Sundiata dividiu o império em províncias, algumas delas aliadas, como Gana, que continuou mantendo autonomia relativa, e outras subordinadas e governadas por um representante do imperador mandinga. Para se prevenirem de possíveis ataques e pilhagens, os malineses estabeleceram a capital de seu império na cidade de Niani, localizada na região sul. Niani dispunha de duas importantes estradas e rotas de comércio: uma que a ligava ao norte e outra ao nordeste do império. Nessa última, floresceram duas grandes cidades negras, Tombuctu e Djenné. Localizada nas margens do rio Níger, o terceiro maior da África, a cidade de Tombuctu servia como ponto de chegada e de partida das caravanas comerciais que ligavam o Mali ao norte africano e ao mar Mediterrâneo. Com isso, logo ganhou grande projeção comercial e riqueza. Ao longo CAPÍTULO 12 | FORMAÇÕES POLÍTICAS AFRICANAS

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do século XIV, Tombuctu se destacou também como centro intelectual, abrigando dezenas de escolas corânicas e a mesquita de Sankoré, em cujo prédio funcionava a universidade de mesmo nome, que se mantém em atividade até hoje. O apogeu da dinastia Keita se deu no governo do mansa Kanku Mussa (13071332), que se valeu de um exército disciplinado para ampliar as fronteiras do império Dica! e consolidar sua administração. A fim de dar visibilidade ao Império do Mali, pois Documentário percebia seu isolamento, e cumprir sua obrigação como muçulmano, Kanku Mussa resobre o Mali e suas heranças alizou a peregrinação a Meca, acompanhado de extensa comitiva. Durante a viagem, culturais que presenteou com ouro outros soberanos, comprou mercadorias com pepitas de ouro e permanecem até doou esse metal precioso a pessoas necessitadas; de tal modo que o preço do ouro na hoje. [Duração: 24 minutos]. região atravessada por sua comitiva caiu consideravelmente por mais de uma década. Acesse: <http:// No retorno da viagem, o imperador afro-islâmico trouxe arquitetos para erguer mestub.im/m7c5tr>. quitas e professores para lecionar nas escolas corânicas de Djenné e Tombuctu.

Economia e política

Escola africana. Séc. XVII-XVIII. Dallas Museum of Art. Foto: Heritage Images/Corbis/Latinstock

Os malineses praticavam a agricultura (milhete, algodão, inhame, feijão, entre outros), o pastoreio (ovinos, bovinos e caprinos) e o artesanato, por meio do qual produziam uma variedade de artefatos de cobre. Cada grupo de artesãos tinha seu representante junto ao imperador. Os mercadores malineses, chamados de wangara, comercializavam tanto os produtos vindos do norte africano e do mar Mediterrâneo, como sal, artigos de luxo (louças, talheres, espadas, joias) e armas de metal, como os produzidos no interior do império, como objetos de marfim, ouro ou cobre, corantes, essências e noz-de-cola, muito cobiçada na época. Mas a riqueza maior do Império do Mali vinha do controle imperial das minas de ouro de Bambuk e Bure, das rotas de comércio transaarianas e dos tributos extraídos dos povos vencidos. Politicamente, o Império do Mali possuía também suas singularidades: o imperador governava assistido por um conselho e por dois altos funcionários, o chefe das forças armadas e o senhor do tesouro, que era responsável pela guarda dos depósitos de ouro, marfim, cobre e pedras preciosas. O poder do antigo Mali se devia ao seu poderoso exército composto de arqueiros, lanceiros e cavaleiros; ao controle exercido sobre áreas de extração do ouro; a uma estrutura administrativa eficiente, com representantes nas áreas sob domínio e à política de tolerância religiosa de seus governantes. O Mali, maior império africano daqueles tempos, conservou sua hegemonia na região até a metade do século XV, quando começou a declinar por conta das disputas internas entre suas lideranças e da emergência de um novo centro de poder, o Império de Songai, que conquistou Tombuctu em 1470. Escultura malinesa de metal atribuída ao Mestre de Ogol, Mali.

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Os bantos Banto:

tronco linguístico com dezenas de famílias e cerca de 470 línguas. Essas línguas são faladas hoje por cerca de 100 milhões de indivíduos concentrados em territórios ao sul da linha do equador, entre eles, Congo, Angola e Moçambique. Por extensão, os povos que falam essas línguas são chamados de bantos.

Flickr RF/Getty Images

Rogério Neves

Já nas terras africanas ao sul do Sahel, viviam e ainda vivem os bantos, povos com uma origem comum e que falam línguas aparentadas e de matriz banto. Acredita-se que, por volta de 1500 a.C., os bantos tenham deixado as terras onde hoje é a República de Camarões e se espalhado por toda a África oriental, central e do sul. Esse movimento migratório durou cerca de 2 500 anos e foi o maior da história da África subsaariana. Durante esse deslocamento, eles domesticaram plantas e animais, construíram moradias em diferentes ambientes e se misturaram aos povos nômades que ali viviam ou os desalojaram.

À esquerda, mulher angolana falante da língua umbundo, 2015. À direita, mulher carioca descendente de povos da região congo-angolana, 2016.

Os bantos eram povos agricultores e tinham domínio da técnica de produção do ferro, usado por eles para fazer instrumentos de trabalho e armas de guerra; isto os colocava em vantagem sobre os povos que desconheciam a técnica da metalurgia e ajuda a explicar sua vitória sobre outros povos. Leia o que um africanista diz sobre o assunto: Desde pelo menos 600 a.C., a África conhecia a metalurgia do ferro. Os nativos adotavam uma técnica de preaquecimento dos fornos (que só seria desenvolvida na Europa no século XIX), que lhes permitia obter um ferro, e também um aço, de alta qualidade, comparável, e até superior, em alguns casos, ao que saía das usinas europeias. O produto africano apresentava, contudo, uma desvantagem, que derivava da dimensão dos seus fornos: suas barras eram pequenas. Por isso, na forja, os africanos faziam enxadas e facas, mas não grandes espadas. Nem capacetes. Nem couraças. SILVA, Alberto da Costa e. A África explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2012. p. 28.

Entre a foz do rio Zaire, ao norte, e a foz do rio Kwanza, ao sul, nas terras abrangidas hoje pela República Democrática do Congo, República Popular do Congo e República de Angola floresceram importantes formações políticas bantas, entre elas o Reino do Congo (séculos XIII ao XVIII). CAPÍTULO 12 | FORMAÇÕES POLÍTICAS AFRICANAS

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Olfert Dappe. C. 1635-1689. Gravura. Biblioteca Nacional, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Gravura extraída da obra Descrição da África, de Olfert Dapper, c. 1686, que mostra vista de Mbanza Congo, capital do Reino do Congo. Como observou um historiador: “Nos documentos deixados pelos primeiros agentes da monarquia portuguesa, por comerciantes e missionários enviados ao Congo, toda a região é qualificada de ‘reino’, os governantes de ‘reis’, as demais lideranças locais como ‘vassalos’ e as áreas próximas a Mbanza Congo como ‘províncias’. Ao fazer isso, os portugueses projetavam a realidade que eles conheciam na Europa para a África, mas na prática as diferenças entre os seus modelos de governo e o dos africanos eram significativas” (MACEDO,

O Reino do Congo No início do século XV, o Reino do Congo abrangia terras ocupadas hoje pelo norte de Angola, sul da República do Congo e sudoeste da República Democrática do Congo. Segundo uma tradição, no final do século XIII, o grupo bacongo se sobrepôs a outros grupos menores falantes das línguas umbundo e quicongo. Um herói lendário, de nome Nimi-a-Lukeni, teria expandido seus domínios submetendo chefes locais por meio de guerras, alianças e a extração de tributos; assumiu então o título de mani Congo (senhor do Congo), edificou seu Palácio na localidade de Mbanza Congo e entregou cada área conquistada a um dos membros de sua linhagem. Sob a liderança do mani Congo Nimi-a-Lukeni, as áreas conquistadas foram transformadas em províncias, e cada uma delas controlava várias aldeias, nas quais se conservou o poder das famílias que as tinham fundado, de modo a não afrontar a tradição e conseguir, assim, um equilíbrio de poder. A sede do poder central era Mbanza Congo. Ali, o mani Congo era auxiliado por 12 conselheiros, quatro dos quais do sexo feminino; eles dividiam o encargo de controlar a justiça, o tesouro, o comércio e o recebimento de impostos.

Economia e sociedade

No Reino do Congo, os homens caçavam, pescavam, coletavam alimentos e abriam clareiras na mata para os José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 85). cultivos agrícolas com seus machados de ferro. Mas o trabalho na agricultura, desde a semeadura até a colheita, era realizado por mulheres. Elas cultivavam legumes, tubérculos (batata-doce), Ráfia: nome dado às diversas espécies de frutas (banana, laranja, figo e ameixa) e cereais, a fibras de palmeiras exemplo do sorgo. Além disso, criavam carneiros, cabras, galinhas e bovinos. do gênero Raphia, usadas geralmente Os congos também se dedicavam ao artesanato; forjavam o ferro, com o na feitura de sacos qual faziam instrumentos de trabalho (pás, enxadas etc.) e armas (lanças e para o transporte de pequenas cargas. espadas); teciam panos coloridos com folhas de ráfia e eram hábeis escultores, tanto no trabalho em cobre quanto em madeira. O comércio no Reino do Congo era intenso; da capital partiam as caravanas que iam ao interior buscar ou levar produtos, com especial destaque para o ferro, o sal e o gado. Os preços eram fixados pelas autoridades. Aldeias (lubatas) e cidades (mbanzas) pagavam tributos em espécie: os habitantes do nordeste contribuíam com alimentos e tecidos de ráfia; os da costa e do sul, com sal; os do sudeste, com cobre; os da ilha de Luanda, com nzimbos (espécie de concha marinha que servia como moeda e

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era pescada na ilha de Luanda). O rei controlava rigidamente a extração e circulação do nzimbo. Em troca dos tributos recebidos, o rei oferecia proteção material e espiritual, pois ele também era considerado um intermediário entre seus súditos e os espíritos dos ancestrais.

Os congos e os portugueses

Dia a dia, os traficantes estão raptando nosso povo – crianças deste país, filhos de nobres e vassalos, até mesmo pessoas de nossa própria família. [...] Essa forma de corrupção e vício está tão difundida que nossa terra acha-se completamente despovoada. [...] Neste nosso reino, só precisamos de padres e professores, nada de mercadorias, a menos que sejam vinho e farinha para a Missa. [...] É nosso desejo que este reino não seja um lugar de tráfico ou de transporte de escravos. HOCHSCHILD, Adam. O fantasma do rei Leopoldo: uma história de cobiça, terror e heroísmo na África colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 22.

O rei de Portugal, Dom João III, não respondeu à carta de Afonso I, embora nas correspondências anteriores o chamasse de “irmão”. O rei africano percebeu então que o rei português via o Congo como um espaço para expandir a fé católica e conseguir escravizados. O tráfico de escravizados se intensificou, atraindo novos comerciantes portugueses, enriquecendo os envolvidos no negócio e atendendo os anseios de consumo da nobreza conga que dele participavam. A partir de então, as relações entre o Reino de Portugal e o do Congo foram se deteriorando e este começou a se desestruturar.

Escola africana. Séc. XIX. Metropolitan Museum of Art, Nova York. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Os portugueses, comandados por Diogo Cão, chegaram ao Congo em 1483. Oito anos depois chegava a embaixada portuguesa, que estabeleceu contatos com o mani Congo Nzinga Kuwo. Seu filho, Nzinga Mbemba, aliou-se aos portugueses, venceu o irmão na disputa pela sucessão ao trono e assumiu o poder com o nome de Afonso I, do Congo. Uma estratégia muito usada pelos europeus na África foi estimular o conflito entre africanos e apoiar (com armas de fogo) um dos lados para obter vantagens. No reinado de Afonso I (1507-1542), o Congo adotou o catolicismo como religião oficial, o nome da capital, Mbanza Congo, foi mudado para São Salvador, e nela foram erguidas várias igrejas, com a ajuda de profissionais e de recursos portugueses. O rei Afonso enviou parentes para estudar em Lisboa, esperando estreitar suas relações comerciais e culturais com os portugueses. No entanto, ele logo concluiu que o governo português tinha dois objetivos principais na África: escravos e metais preciosos. Inicialmente, parte da nobreza conga julgou possível exercer o controle sobre o comércio de pessoas e extrair vantagens dele, mas logo percebeu que isso era impossível. O rei, então, escreveu várias cartas ao rei de Portugal, como esta que se lê a seguir. Escultura em madeira do século XIX. A figura feminina é mostrada com cesto na cabeça sugerindo o que de fato acontecia: o trabalho na agricultura, em muitas sociedades de matriz banto, era reservado à mulher. Parte do território da República do Congo pertenceu ao Reino do Congo.

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Em 1665, os congos organizaram uma revolta contra o domínio português, mas foram vencidos na batalha de Mbwila (palavra que se pronuncia “ambuíla”). Instalou-se no Reino do Congo, então, uma crise quase permanente e acentuou-se seu declínio, que pode ser atribuído, entre outros fatores: à intensificação do tráfico e ao despovoamento daí resultante; ao aumento das guerras internas; e à alteração do equilíbrio de poderes após a chegada dos europeus (portugueses e holandeses).

Os bantos no Brasil Segundo os historiadores David Eltis e Hebert Eltis, a maioria dos milhões de africanos entrados no Brasil entre os séculos XVI e XIX era da região congo-angolana e falante de línguas bantas, como o quimbundo, o quicongo e o umbundo. Isto ajuda a explicar porque essas línguas estão entre as que mais influenciaram o português falado no Brasil. O termo bantu – usado para definir os grupos humanos que habitavam a região centro-sul do continente africano – é uma combinação de ntu (ser humano), acrescido do prefixo ba, que designa plural, ou seja, seres humanos ou pessoas. Era esse termo que os povos bantos usavam para se autoidentificar.

Para saber mais Ana Carolina Fernandes/Folhapress

O texto a seguir é do africanista Alberto da Costa e Silva. Leia-o com atenção.

Poeta, ensaísta e historiador Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, posa para fotografia sentado na cadeira número nove da ABL, no Rio de Janeiro (RJ), 2006. Enfadonha: cansativa.

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De que a presença africana em nossa cultura é profunda, talvez o melhor testemunho esteja no português que falamos, no idioma no qual expressamos o que pensamos, sentimos e somos. As línguas africanas, especialmente o quimbundo (ou idioma dos ambundos), o quicongo (ou língua dos congos), o umbundo (ou idioma dos ovimbundos) e o iorubá, marcaram profundamente não só o vocabulário do português do Brasil, mas também [...] a construção das frases, e a fonética, ou a maneira como pronunciamos as palavras. Poucos se dão conta de que os verbos cochichar, cochilar, fungar, xingar e zangar, os substantivos bagunça, [...] caçula, cafuné, [...] carimbo, fuxico, fuzarca, garapa, lenga-lenga, molambo, quitanda, quitute, sunga e tanga, os adjetivos capenga, dengoso, encabulado e zonzo e numerosíssimos outros termos que usamos no dia a dia são de origem africana. E o que fazem os portugueses, quando têm de zangar com o caçula dengoso que estava cochilando durante uma lenga-lenga como esta? Eles se irritam ou se aborrecem com o benjamim manhoso que dormitava durante esta conversa enfadonha.

SILVA, Alberto da Costa e. A África explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2012. p. 156-157.

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Beto Barata/AE

A matriz banto da nossa cultura também está presente no jogo de capoeira, no jongo, no congado e em várias outras manifestações da vida social brasileira. No Brasil, entre os criadores de obras de arte tributárias dessa matriz cultural estão Nei Lopes e Martinho da Vila, ambos do Rio de Janeiro. Nascido em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, Nei Lopes (1942) é bacharel em Direito pela UFRJ, escritor, compositor e cantor, pesquisador das culturas de matriz africana e autor de vários livros sobre o assunto, entre os quais Dicionário de Antiguidade Africana e Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, publicação com cerca de nove mil verbetes. Nei Lopes é talvez o maior especialista brasileiro em culturas de matriz banto no Brasil. A partir de 1981, paralelamente à música, ele vem se dedicando à pesquisa e ao estudo de temas africanos que incluem história, filosofia e literatura. No campo musical, como autor e intérprete, assinou alguns dos sambas mais representativos do gênero, como Um sorriso negro, composto em parceria com Dona Ivone Lara, além de criações que mergulham no universo cultural afro-brasileiro como “Afrolatinô”; ”Ginga”; “Angola”; “Primo do Jazz”. Por meio da música e de seus escritos construiu pontes sobre o Atlântico reatando laços que ligam a África ao Brasil. Martinho José Ferreira nasceu em Duas Barras (RJ) em um sábado de Carnaval de 1938. E ainda menino mudou-se com a família para a cidade do Rio. Trabalhou desde cedo exercendo diversas ocupações, inclusive as de sargento-escrevente, datilógrafo e contador do Ministério da Guerra. E cedo também começou a compor e a cantar profissionalmente. Em 1969 lançou seu primeiro álbum, intitulado Martinho da Vila, que lhe rendeu reconhecimento e projeção no mundo musical. Por essa mesma época entrelaçou a sua história à da sua escola de coração, a Unidos da Vila Isabel, para a qual, desde então, compôs vários enredos e sambas-enredos. Com o enredo “Kizomba, a Festa da Raça”, de sua autoria, a escola foi campeã do grupo especial, em 1988. Nos anos de 1990, por influência de seu sogro, tomou gosto pela literatura e, de lá para cá, lançou vários livros, entre os quais Joana e Joanes: um romance fluminense, publicado também em Portugal. Em 2014 foi eleito para a Academia Carioca de Letras, e passou a ocupar a cadeira de no 6.

Nei Lopes participa de show do músico Guinga com convidados, na capital paulista, em 2003.

Wilton Junior/AE

Dica! Entrevista com Nei Lopes sobre sua carreira, questões raciais e música no Brasil. [Duração: 8 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ pptxd8>.

Martinho da Vila compôs e gravou diversos estilos de samba, além de outros gêneros como frevo, coco e “sembas”, gênero musical angolano. Fotografia de 2012.

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Os iorubás

Marmaduke St. John/Alamy/Latinstock

Fabio Colombini

Os iorubás e sua arte também foram e continuam sendo decisivos na formação cultural do Brasil; estudá-los pode nos ajudar a compreender aspectos importantes de nossa história e cultura. Os iorubás são hoje um dos três maiores grupos étnicos da República da Nigéria, vivem no oeste do país, em partes da República do Benin e da República do Togo. A história dos iorubás, no entanto, não se restringe à África; é parte também da história das Américas, especialmente das de Cuba e do Brasil.

Na imagem maior, nigerianos de etnia iorubá com roupas próprias de sua cultura em Santa Ana, Califórnia (EUA), 2014. Na menor, a baiana Lucicleide vestida com trajes da cultura iorubá em 2012. A semelhança não é casual; os iorubás trazidos para o Brasil entravam por Salvador e marcaram a cultura material e espiritual da Bahia.

Orixá:

Hoje sabemos que a mitologia ajuda-nos a conhecer a história de um povo. O mito iorubá, dado a seguir, chegou até nós através da tradição oral e ajuda-nos a compreender vários aspectos da vida social dos iorubás.

“s.m. designação genérica das divindades do panteon iorubá ou nagô-queto” (CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005. p. 309).

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As origens dos iorubás narradas a partir da tradição oral Em um tempo imemoriável a Terra não existia, era uma região coberta apenas por água e pântanos, um lugar desabitado e inóspito. […] Porém, certa vez, o criador dos orixás, Olorun, mandou chamar à sua presença seu filho mais velho, chamado Obatalá. Eram tempos de transformação e o senhor supremo do cosmos

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ordenou a criação de um mundo abaixo do seu. Para executar a tarefa, Obatalá recebeu um saco com terra e uma galinha com pés de cinco dedos [...]. [...] No dia da criação, Obatalá e seus Imalés iniciaram a jornada até o local escolhido para criar a Terra. Seu destino final estaria além das fronteiras do Orun, sendo preciso a permissão de Eshu, o senhor dos caminhos, das fronteiras e da comunicação, para atravessar tais limites. Obatalá, porém, havia se esquecido da oferenda de Eshu, que ofendido com o ato lançou sobre este um de seus feitiços. Uma sede terrível dominou Obatalá, que com seu cajado, o opaxorô, tocou em um dendezeiro que começou a verter vinho de palma. O orixá embriagou-se e adormeceu. [...] Odudua acompanhava a tudo de perto. Após se certificar que Obatalá adormecera, Odudua apanhou o saco de terra e a galinha e foi procurar o pai de todos os Orixás para contar o ocorrido. Vendo que Odudua falava a verdade, Olorun entregou a ele a tarefa de criar o mundo. Com as oferendas feitas ele [...] o mar ou as águas intermináveis, e despejou o conteúdo do saco. Em seguida, lançou a galinha sobre o montículo formado, esta ciscou e espalhou a terra para todos os cantos. Neste momento, Odudua exclamou: Ilè nfè! Naquele local surgiria mais tarde a primeira cidade, o “umbigo” do mundo, chamada de Ifé, cuja população descenderia de Odudua [...]. No Orun, Obatalá ao despertar ficou sabendo do ocorrido. Procurou Olorun para narrar sua versão da história. Era tarde demais, o mundo já havia sido criado. Como punição pelo erro, ele e todos seus descendentes, foram proibidos para sempre de beber vinho de palma e comer azeite de dendê. Porém, Olorun reservou a Obatalá outra missão. Ele deveria criar os seres vivos que habitariam o mundo. Desta vez Obatalá cumpriu as oferendas e realizou as Odudua: divindade iorubá a ordens recebidas. Do barro modelou o homem a quem o sopro de quem se atribui a Olorun deu vida. O mundo estava formado e habitado. [...]. criação do mundo. OLIVA, Anderson Ribeiro. A invenção dos iorubás na África Ocidental. Reflexões e apontamentos acerca do papel da história e da tradição oral na construção da identidade étnica. Estudos Afro-Asiáticos, v. 27, n. 1-3, jan./dez. 2005, p. 149-150. Disponível em: <<http://repositorio.unb. br/bitstream/10482/6223/1/ARTIGO_Inven%C3%A7%C3%A3oIorub%C3%A1s%C3%81frica.pdf>>. Acesso em: 11 abr. 2016.

História e mitologia Africanistas acreditam que a rivalidade entre os orixás Obatalá e Odudua, em torno da criação da Terra, revelariam disputas políticas havidas entre líderes de carne e osso, com esses mesmos nomes, no início da história dos iorubás. Segundo esses estudiosos, os iorubás, representados pelo deus Ododua, venceram um povo chamado Igbo, cujo deus criador era Obatalá que, por isso, devia subordinar-se a ele. Segundo o historiador Robert Smith, o mito de origem dos iorubás pode ter sido criado por um grupo que ascendeu ao poder na época da fundação da cidade para justificar/legitimar a imposição de uma nova forma de governo: a monarquia de origem divina. Os reis das cidades iorubás afirmavam ser parentes de Odudua, o primeiro rei de Ifè e criador da Terra; diziam ser, portanto, descendentes de um deus. Para o historiador Benjamim Ray, desde o século X os povos falantes de língua iorubá viviam onde hoje é o oeste da Nigéria e em partes do Togo e do Benim atuais. Escavações arqueológicas confirmam que um dos primeiros centros urbanos iorubás, a cidade de Ilê Ifé, teria se originado no final do século IX e início do X. CAPÍTULO 12 | FORMAÇÕES POLÍTICAS AFRICANAS

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Escola africana. Séc. XII-XV. Cobre. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Cabeça do Oni Obalufon, Ifé, Nigéria, séculos XII-XV. A arte de matriz iorubá merece especial atenção não apenas por sua qualidade estética, mas por ser importante fonte para o conhecimento dos iorubás. Essas cabeças humanas em metal continuam impressionando o observador até hoje, por seus traços realistas e variedade de expressões.

Alafin:

cargo de governante máximo na cidade de Oyo.

Embora vivessem em uma região de florestas, os iorubás construíram uma civilização marcadamente urbana; entre as principais cidades iorubás daquela época estavam Ilê Ifé, Keto e Oyo. As cidades iorubás sempre foram alvo de admiração dos africanistas, a exemplo de Basil Davidson, que fala em seus escritos sobre a capacidade extraordinária dos iorubás de erguer cidades de avenidas retas e mercados movimentados em meio a uma floresta. Apesar de compartilharem uma mesma língua e possuírem uma base cultural comum, os iorubás não chegaram a compor um Estado centralizado, à semelhança dos antigos malineses; as suas cidades eram cidades-Estado ou cidades-reino, como preferem alguns especialistas no assunto. As cidades iorubás não formaram uma unidade política; eram independentes umas das outras.

Ilê-Ifé Tanto a história quanto a mitologia apontam Ifé como capital espiritual dos iorubás. Seu governante tinha o título de Oni e, além de administrar e distribuir justiça, era responsável pelos cultos religiosos visando a boas colheitas. Ifé possuía ascendência religiosa sobre as demais cidades do iorubo. O Oni de Ifé e o Alafin de Oyo atuavam, confirmando ou não no cargo as lideranças de outras cidades iorubás, como Keto e Illa, por exemplo; quando alguém chegava ao poder em uma dessas cidades tinha de ter o consentimento deles para ser empossado no cargo. Um elemento decisivo na vida econômica dos iorubás era o comércio; seus comerciantes (mulheres e homens) circulavam por terra e pelos rios levando pimenta, noz-de-cola, além de produtos de couro, metal e madeira confeccionados por seus artesãos e cobiçados em terras próximas e distantes. O próprio desenho das cidades iorubás revela a importância da atividade comercial na vida deles, já que quase todas elas tinham praças e indícios de que nelas havia um grande mercado. Essas cidades possuíam também bairros bem demarcados, área para a realização de cerimônias religiosas, palácio real e espaços de convívio social. Ifé, cidade sagrada dos iorubás, sua capital religiosa, teve seu período de maior esplendor entre os séculos XII e XV, e até hoje é vista por eles como o umbigo do Universo, local onde tudo começou. Daí a ascendência espiritual de Ifé sobre outros núcleos de base cultural iorubá na África e no Brasil.

A cidade de Oyo Situada ao norte de Ifé, a cidade de Oyo foi fundada entre os séculos XI e XIII. Segundo a mitologia iorubá, seu fundador e primeiro rei foi Oraniã. Seu filho de nome Xangô, transformado mais tarde em senhor da justiça, sucedeu ao pai e gerou uma enorme descendência. Na cidade-reino de Oyo a maior autoridade era o Alafin. Apesar de o Alafin de Oyo ser considerado

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detentor de poder divino, ele não tinha imunidade contra eventuais descalabros cometidos em seu governo. Se houvesse desvios de recursos, as lideranças dos bairros intervinham exigindo que ele desse satisfação de seus atos. A partir do século XV, a cidade ganhou projeção econômica e uma liderança política sobre as demais cidades iorubás. Essa liderança de Oyo devia-se ao fato de a cidade estar situada numa área de savana, e, portanto, mais propícia à agricultura; possuir um artesanato desenvolvido com bairros especializados em curtume, serralheria e fundição e à força de seus comerciantes, que colocavam seus produtos em couro, bronze e ferro nos mercados de outras cidades. Outra vantagem de Oyo era a sua potente cavalaria que, sob o comando do Alafin, dava poder e proteção à cidade. Por conta da mosca-tsé-tsé não se conseguia criar cavalos na região; então, esses animais eram trazidos de longe pelos comerciantes de Oyo. Houve um tempo em que Oyo chegou a se impor a outras cidades da região, exigindo, inclusive, que lhe pagassem impostos.

Curtume:

estabelecimento onde se curte couro.

Serralheria:

oficina onde se fazem peças em ferro.

Mosca-tsé-tsé:

mosca transmissora da doença do sono.

Dendê:

Reino de Benin Outro centro de poder iorubá foi o Reino de Benin, que se formou por volta do século XII. Sua capital, de ruas retas e avenidas largas, também se chamava Benin e encantava os viajantes. O líder máximo da cidade tinha o título de Obá e considerava-se descendente de Odudua. O comércio da cidade de Benin envolvia a venda de peixe seco, inhame, cobre, sal, dendê, couro e carne, além de escravizados obtidos geralmente por meio de guerras. Assim como ocorria com Ifé e Oyo, a base da economia da cidade de Benin era o comércio.

“palmeira ou fruto da palmeira. Óleo-vermelho (azeite de dendê) obtido da palmeira-dendê, de grande uso na culinária afro-brasileira e baiana” (CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares africanos na Bahia: um vocábulo afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005. p. 219).

Reino de Benin – Séc. XII

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OCEANO ATLÂNTICO

A cidade de Benin era cortada por importantes rotas comerciais que conduziam ao litoral, ao leste e ao norte da África.

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Fonte: SCARAMAL, Elisse (Org.). Para estudar a história da África. Anápolis: Núcleo de Seleção – UEG, 2008. p. 44.

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Escola africana. Bronze. Rijksmuseum. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Escola africana. Séc. XVII. Bronze. Museu de Etnologia, Viena. Foto: Bildarchiv Hansmann/Interfoto/L

À esquerda, escultura em bronze de uma princesa com joias, século XVII. À direita, guerreiro representado em uma placa de bronze encontrada na antiga capital do Reino de Benin.

Os artistas do Benin produziram uma arte refinada e rica em detalhes: marfins na forma de cabos de faca e olifantes (trompas feitas de presas de elefantes e esculpidas com cenas do dia a dia) e uma variedade grande de esculturas de bronze. Tradição e mudança se combinavam nas cidades iorubás. Os mitos são reveladores dessas histórias africanas, anteriores à chegada e à ocupação do território pelos europeus. Com a chegada e permanência dos europeus na costa africana, elas passaram por modificações drásticas. Observa um estudioso do assunto que: Um exemplo claro destas modificações [...] foi a guerra travada entre o Daomé e os reinos iorubás, inclusive Oyo, no final do século XVIII e início do XIX. Além de significar o declínio da influência política e econômica de Oyo, o conflito foi reflexo da expansão da economia escravista do Daomé, incentivada pelos traficantes de escravos do Atlântico [...] OLIVA, Anderson Ribeiro. A invenção dos iorubás na África Ocidental. Reflexões e apontamentos acerca do papel da história e da tradição oral na construção da identidade étnica. Estudos Afro-Asiáticos, v. 27, n. 1-3, jan./dez. 2005, p. 165. Disponível em: <http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/6223/1/ARTIGO_InvençãoIorubásÁfrica.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2016.

Iorubás no Brasil Segundo o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger, foi por volta de 1830, quando os muçulmanos destruíram a cidade de Oyo, que milhares de iorubás foram trazidos para o Brasil como escravizados e seu porto de entrada foi Salvador. Entre os iorubás aqui chegados havia grande número de sacerdotes, líderes políticos, artesãos e artistas, que foram empregados, sobretudo, em trabalhos urbanos e domésticos, na cidade de Salvador e no Recôncavo Baiano. Embora trazidos à força e em condições adversas os iorubás fizeram história e arte em solo brasileiro. Presente em todo território brasileiro, a arte de matriz iorubá tem como principal polo de irradiação a Bahia, como se pode perceber nos cantos, danças e ritmos variados de blocos como Olodun, Ilê Ayê e Filhos de Gandhy. Percebem-se as marcas da matriz iorubá também nas obras de artistas plásticos brasileiros de origem africana como Rubem Valentim, Aguinaldo Manoel dos Santos, Heitor dos Prazeres, Manoel Bonfim, Emanoel Araújo, Waldeloir Rego e Mestre Didi.

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Emídio Bastos/Opção Brasil Imagens

Integrantes do Filhos de Gandhy na Lavagem do Bonfim, Salvador (BA), 2003.

Obra de Carybé. Entalhe em madeira da figura de Ifá, que na cosmovisão iorubá é o orixá responsável pela adivinhação e por desvendar o destino dos que o consultam. A obra encontra-se no Museu Afro-Brasileiro de Salvador (BA).

Romildo de Jesus/Futura Press

Carybé. 1968. Madeira. Museu Afro-Brasileiro, Salvador. Foto: Julian Kumar/Godong/Corbis/Latinstock

No campo das artes plásticas ainda cabe citar também artistas de grande envergadura que não descendem de africanos mas produziram arte de matriz iorubá, a exemplo de Mário Cravo Júnior, Calazans Neto e Carybé. Carybé (1911-1997), nome artístico de Hector Julio Paride Bernabó, pintor brasileiro de origem argentina, radicado na Bahia. Suas obras, tanto pinturas como desenhos, esculturas e talhas, trabalham temas retirados da vida social e religiosa na Bahia. Ilustrou também obras literárias, como Macunaíma, de Mário de Andrade, e O sumiço da santa, de Jorge Amado.

Escultura de autoria de Deoscóredes Maximiliano dos Santos (19172013), conhecido como Mestre Didi, em Salvador. A obra tem 7 metros de altura e é um marco da arte de matriz iorubá no Brasil.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (UFRGS-RS) O islamismo teve significativo papel no desenvolvimento das sociedades africanas, estabelecendo com elas uma duradoura relação de trocas culturais, econômicas e políticas. A esse respeito, assinale a alternativa que representa todas as informações corretas sobre a presença do Islã na África antes do século XVI. a) A difusão do Islã ocorreu apenas a partir do litoral da África oriental e deveu-se aos contatos estabelecidos pelos comerciantes árabes chamados kharimis com os povos de etnia shawii que ocupavam as cidades banhadas pelo Oceano Índico. 1. Resposta: b.

b) Na África ocidental, a presença do Islã nos antigos Estados de Mali e de Songai deveu-se em grande parte aos contatos estabelecidos e mantidos através do comércio transaariano. c) A Núbia e a Etiópia foram submetidas pelos muçulmanos em meados do século VII e ficaram sujeitas ao baqt, instituição imposta pelos vencedores que estipulava a remessa periódica de populações escravizadas para a capital do califado omíada. d) A vitória dos povos soninkê, do poderoso reino de Gana, sobre os muçulmanos no início do século VIII explica por que o islamismo não se difundiu nos territórios situados abaixo do deserto do Saara. e) O Egito permaneceu sob influência cristã até o século X, e até esse momento serviu como núcleo de resistência cristã ao avanço dos muçulmanos provenientes da Península Arábica e da Síria. 2. Localizada nas margens do rio Níger, o terceiro maior da África, a cidade servia como ponto de chegada e de partida das caravanas comerciais que ligavam o Mali ao norte africano e ao Mediterrâneo. Com isso, logo ganhou grande

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projeção comercial e riqueza. Ao longo do século XIV, se destacou também como centro intelectual, abrigando dezenas de escolas corânicas e a mesquita de Sankoré, em cujo prédio funcionava e ainda funciona a universidade de mesmo nome. A que cidade o texto está se referindo? a) Niani; b) Tombuctu;

2. Resposta: b.

c) Djenné; d) Aldaghust; e) Walata.

3. Resposta: c. Correção: A base da economia malinesa era a mineração (ouro e bronze); a agricultura (milhete, inhame, algodão etc.) e o pastoreio (bovinos, ovinos e caprinos).

3. Corrija a alternativa errada e a reescreva no caderno. a) À frente do povo mandinga, Sundiata Keita conseguiu vencer outros povos da região e passou a reinar sobre o Império do Mali, em cerca de 1235. b) No poder, Sundiata Keita converteu-se ao islamismo, organizou o seu império dividindo-o em províncias e fixou sua capital em Niani.

c) A base da economia malinesa era o comércio exterior, isto é, o comércio feito com outros países. d) O imperador do Mali ouvia seus auxiliares, sempre que precisava tomar uma decisão importante. 4. (FGV-SP) Leia o texto. Após os primeiros contatos particularmente violentos com a África negra, os portugueses viram-se obrigados a mudar de política, diante da firme resistência das populações costeiras. Assim, empenharam-se, principalmente, em ganhar a confiança dos soberanos locais. Os reis de Portugal enviaram numerosas missões diplomáticas a seus homólogos da África ocidental. Assim, entre 1481 e 1495, D. João II de Portugal enviou embaixadas ao rei do Futa, ao koi de Tombuctu e ao mansa do Mali. Duas missões diplomáticas foram enviadas ao Mali, mostrando a

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5. Resposta pessoal. Uma das estratégias mais usadas pelos portugueses no Congo foi estimular o conflito entre os líderes africanos e apoiar um dos lados a fim de obter vantagens. Nzinga Mbemba, por exemplo, aceitou a aliança com os portugueses e, com armas de fogo fornecidas por eles, venceu seu irmão na disputa pelo trono e assumiu o poder com o nome de Afonso I, do Congo. Inicialmente, esse rei africano julgou ser possível ter o controle do comércio com os portugue-

importância que o soberano português atribuía a esse país. A primeira partiu pelo Gâmbia, a segunda partiu do forte de Elmina. O mansa que as recebeu, Mahmud, era filho do mansa Ule (Wule) e neto do mansa Musa. (...). Madina Ly-Tall, O declínio do Império do Mali. In Djibril Tamsir (editor), História geral da África, IV: África do século XII ao XVI

No contexto apresentado, o Império português mudou a sua estratégia política, pois a) encontrou um povo que desconhecia o uso da moeda na prática comercial. b) descobriu tribos que não passaram pelas etapas do desenvolvimento histórico, como o feudalismo. c) reconheceu a presença de um Estado marcado por sólidas estruturas políticas. 4. Resposta: c. d) identificou a tendência africana em refutar todas as influências externas ao continente. e) percebeu na África, em geral, a produção voltada apenas para as trocas ritualísticas. 5. Escreva um texto sobre a relação entre os congos e os portugueses seguindo o roteiro: a) estratégia usada pelos portugueses para penetrar no Congo; b) reação do mani Nzinga Mbemba à chegada dos portugueses; c) objetivos do governo português no Congo; d) reação de Nzinga ao perceber que o comércio de pessoas havia escapado ao seu controle. 6. (Unesp-SP) Leia o texto para responder às questões. Os africanos não escravizavam africanos, nem se reconheciam então como africanos. Eles se viam como membros de uma aldeia, de um conjunto de aldeias, de um reino e de um grupo que falava a mesma língua, tinha os mesmos costumes e adorava os mesmos deuses. (...) Quando um chefe (...) entregava a um navio europeu um

grupo de cativos, não estava vendendo africanos nem negros, mas (...) uma gente que, por ser considerada por ele inimiga e bárbara, podia ser escravizada. (...) O comércio transatlântico (...) fazia parte de um processo de integração econômica do Atlântico, que envolvia a produção e a comercialização, em grande escala, de açúcar, algodão, tabaco, café e outros bens tropicais, um processo no qual a Europa entrava com o capital, as Américas com a terra e a África com o trabalho, isto é, com a mão de obra cativa. (Alberto da Costa e Silva. A África explicada aos meus filhos, 2008. Adaptado.).

Ao caracterizar a escravidão na África e a venda de escravos por africanos para europeus nos séculos XVI a XIX, o texto a) reconhece que a escravidão era uma instituição presente em todo o planeta e que a diferenciação entre homens livres e homens escravos era definida pelas características raciais dos indivíduos. b) critica a interferência europeia nas disputas internas do continente africano e demonstra a rejeição do comércio escravagista pelos líderes dos reinos e aldeias então existentes na África. c) diferencia a escravidão que havia na África da que existia na Europa ou nas colônias americanas, a partir da constatação da heterogeneidade do continente africano e dos povos que lá viviam. 6. Resposta: c. d) afirma que a presença europeia na África e na América provocou profundas mudanças nas relações entre os povos nativos desses continentes e permitiu maior integração e colaboração interna. e) considera que os únicos responsáveis pela escravização de africanos foram os próprios africanos, que aproveitaram as disputas tribais para obter ganhos financeiros.

ses, do qual fazia parte o tráfico de escravizados. Logo percebeu, porém, que os objetivos do governo português na África eram apenas dois: escravos e pessoas para converter ao catolicismo. Então, escreveu várias cartas ao rei de Portugal, Dom João III, denunciando o despovoamento de seu reino em razão da captura e do comércio de pessoas. CAPÍTULO 12 | FORMAÇÕES POLÍTICAS AFRICANAS

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II. Leitura e escrita em História PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE O texto a seguir foi escrito por Marta Heloísa Leuba Salum, professora Doutora do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Leia-o com atenção.

DANITA DELIMONT STOCK/Easypix

Leitura e escrita de textos

África: cultura material, filosofia e religião [...] Na visão judaico-cristã […] os africanos foram tidos como povos animistas, isto é, aqueles que atribuem vida às coisas e seres inanimados, e acreditando que plantas e animais são dotados de “alma”, sendo portanto capazes de agir como seres humanos. Isso não é verdade e deturpa as formas autênticas de concepção do mundo dos africanos, colocando-os como inferiores, ou “primitivos”. O que ocorre, na verdade, é que na África tradicional […] tudo que está presente para o Homem tem uma força relativa à força humana, que é o princípio Baobá em Okavango, da “força vital”, ou do axé – expressão iorubá usada Botsuana, 2014. no Brasil. As árvores, as pedras, as montanhas, os astros e planetas exercem influência sobre a Terra e a vida dos humanos, e vice-versa. Enquanto os europeus queriam dominar as coisas indiscriminadamente, os africanos davam importância a elas, pois tinham consciência de que elas faziam parte de um ecossistema necessário à sua própria sobrevivência. As preces e orações feitas a uma árvore, antes dela ser derrubada, era uma atitude simbólica de respeito à existência daquela árvore, e não a manifestação de uma crença de que ela tinha um espírito como dos humanos. Ainda que se diga de um “espírito da árvore”, trata-se de uma força da Natureza, própria dos vegetais, e mais especificamente das árvores. Assim, os humanos e os animais, os vegetais e os minerais enquadravam-se dentro de uma hierarquia de forças, necessária à Vida, passíveis de serem manipuladas apenas pelo Homem. Isso, aliás, contrasta com a ideia de que os povos africanos mantinham-se sujeitos às forças naturais, e, portanto, sem cultura. [...] SALUM, Marta Heloísa Leuba. África: culturas e sociedades. Disponível em: <http://www.arteafricana.usp.br/ codigos/textos_didaticos/002/africa_culturas_e_sociedades.html>. Acesso em: 11 abr. 2016.

a) b) c) d)

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Que crítica a autora dirige à visão judaico-cristã de que sociedades tradicionais africanas são animistas? Como os iorubás veem a relação entre sociedade e natureza? Justifique. Você conhece outros povos com a mesma visão de mundo? Em dupla. Debatam, reflitam e elaborem um comentário sobre a atitude dos iorubás de orar em frente a uma árvore em sinal de respeito. E, a seguir, postem o comentário de vocês no blog da turma.

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Professor: o destaque dado à rainha é um indício de que a obra foi encomendada; e de fato foi, pois, na época, Gower era pintor oficial da Rainha Elisabeth I. A mão direita apoiada sobre o globo sugere o imenso poder que a rainha possuía no contexto da época. Repare que seus dedos repousam sobre o continente americano: foi no reinado de Elisabeth I que a Inglaterra assumiu a liderança nas navegações e no comércio internacional e deu início à colonização da América do

Capítulo 13

Tempos de reis poderosos e impérios extensos

A imagem que você vê é de uma pintura de 1588, atribuída a George Gower e intitulada Retrato Norte. As cenas que mostram a esquadra inglesa e a espanhola referem-se ao da Armada. Observe-a com atenção. episódio da arrasadora vitória inglesa sobre a Invencível Armada de Felipe II. A vitória George Gower. 1588. Óleo sobre tela. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

dos ingleses sobre os espanhóis no mar ocorreu durante o reinado de Elisabeth I e a

» A imagem da rainha Elisabeth I ocupa a maior parte da tela; isto pode ser

considerado como indício de que a obra foi encomendada? » Note que a mão direita da rainha está apoiada sobre um globo terrestre; o

que o artista quis dizer com isso? » Ao fundo e à esquerda vê-se a esquadra inglesa navegando impávida e, à

direita, no mesmo plano, a esquadra espanhola naufragando. A que episódio histórico essas cenas se referem? » Você considera o título Retrato da Armada adequado a essa pintura? » Que outro título você daria a ela? Que relação esta obra tem com o tema

do capítulo? » Em que contexto foi produzida?

tela que estamos analisando foi realizada em comemoração a esse fato. Chamar a atenção do aluno para o fato de que a personagem que está ao centro e em primeiro plano é a rainha e não a Armada. A obra foi produzida durante o reinado de Elizabeth I, um ícone do absolutismo, que é vertebral neste capítulo.

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Hoje é comum ouvirmos um europeu dizendo “sou francês”, “sou inglês” ou “sou português”, mas nem sempre foi assim. Na Europa do ano 1000, por exemplo, isso soaria estranho, pois os Estados Nacionais, como França, Inglaterra ou Portugal, ainda não haviam se formado. Naqueles tempos, a pessoa que nascesse em uma aldeia, vila ou cidade se considerava um membro daquela comunidade, não mais que isso. A partir do século XI, essa situação começou a mudar.

René Mattes/Hemis.fr/Image Forum

A formação das monarquias nacionais

Coroa, símbolo da monarquia, confeccionada entre os séculos X e XI.

A partir do século XI, assistiu-se no Ocidente europeu ao revigoramento do comércio e das cidades e ao surgimento de um novo grupo social, a burguesia, formada basicamente por artesãos e mercadores. Entretanto, a existência de nobres com direito de cunhar sua própria moeda e de cobrar taxas de quem passasse por seus domínios encarecia as mercadorias, dificultando os negócios da burguesia. Os burgueses, então, percebendo que o rei poderia ajudá-los a ter sucesso nos negócios, se aproximaram dele oferecendo-lhe doações e empréstimos. O rei, por sua vez, passou a favorecê-los fazendo leis que protegiam o comércio e concedendo-lhes cargos na administração do reino. Enquanto isso, com o fracasso das Cruzadas, muitos nobres voltaram do Oriente empobrecidos; outros morreram pelo caminho ou em combate, o que causou o desaparecimento de muitas linhagens nobres. A nobreza, então, também se aproximou do rei, visando manter privilégios, receber pensões e conseguir altos postos no exército real. Os camponeses, por sua vez, passaram a ver o rei como alguém capaz de protegê-los contra os abusos da nobreza. Aos poucos, por meio de doações recebidas dos mercadores, da arrecadação de impostos e da venda de cargos, o rei conseguiu recursos para contratar um corpo de funcionários e montar um exército assalariado e permanente. Assim, ganhou força para estabelecer uma moeda única e leis comuns para todo o reino e, com isso, foi impondo sua autoridade a todos os súditos. O fortalecimento gradual do poder dos reis entre os séculos XI e XV é conhecido como processo de formação do Estado Moderno. Em cada país da Europa, esse processo teve tempo e ritmos próprios. Vejamos, a seguir, como se deu esse processo na Inglaterra, na França, em Portugal e na Espanha.

A monarquia inglesa Em 1066, Guilherme, o Conquistador, duque da Normandia (região ao norte da França), venceu os saxões na Batalha de Hastings e se tornou rei da Inglaterra com o título de Guilherme I. A seguir distribuiu terras àqueles que o auxiliaram nessa conquista e nomeou funcionários reais (os xerifes) para administrar os condados (shires). Além disso, exigiu que toda

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a nobreza jurasse fidelidade ao rei e proibiu as guerras particulares entre os nobres. Com isso diminuiu o poder da nobreza e fortaleceu o poder real. A conquista da Inglaterra sob o comando de Guilherme foi representada de maneira sugestiva e criativa na tapeçaria de Bayeux.

Acima, normandos fazendo comida, a caminho da Inglaterra. Ao lado, representação da Batalha de Hastings. As forças de Guilherme estão representadas pelo cavaleiro armado com lança e os anglo-saxões são mostrados com machado e escudos. A obra foi bordada em uma tela de cerca de 70 metros de comprimento e atualmente está exposta no Museu de Bayeux, norte da França. Pelo fato de ser uma sequência de figuras dispostas de modo a formar uma narrativa, e pela combinação de textos e imagens, a tapeçaria de Bayeux é considerada por muitos estudiosos uma precursora das histórias em quadrinhos atuais.

Escola francesa. Séc. XI. Tapeçaria. Museu da Tapeçaria de Bayeux, França. Foto: Ronan Pictures/Prin

Escola francesa. Séc. XI. Tapeçaria. Museu da Tapeçaria de Bayeux, França. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Henrique II (1154-1189) deu continuidade à centralização do poder, exigindo que as questões fossem julgadas pelo tribunal do rei e não pelos tribunais da nobreza (locais). Os juízes reais percorriam as diferentes partes do reino julgando e registrando suas decisões que, depois, eram usadas como orientação para casos futuros. Dessa forma, um direito comum a todo o reino foi aos poucos substituindo o direito de cada localidade. Esse direito serviu como força unificadora e proporcionou aos ingleses um sistema de justiça menos parcial. O filho de Henrique II, Ricardo Coração de Leão (1189-1199), esteve ausente durante a maior parte do seu reinado, lutando na Terceira Cruzada. O irmão de Ricardo, conhecido como João Sem Terra (1199-1216), envolveu-se em guerras longas e onerosas, e, em função delas, perdeu parte significativa das terras que sua família possuía na França; daí seu apelido. Para cobrir gastos militares com essas guerras, o rei João obrigou seus vassalos a pagar tributos cada vez maiores e puniu severamente os que se negaram a pagar. Reagindo a isto, os nobres se rebelaram obrigando esse rei a assinar a Magna Carta (1215), um documento decisivo na história da formação do Estado moderno inglês.

Dica! Ricardo Coração de Leão, filme de Steffano Milla (Alemanha, 2013).

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Para saber mais Magna Carta C. 1860. Cromolitogravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Leia com atenção alguns trechos da Magna Carta.

Cromolitogravura de c. 1860. Nesta representação do século XIX, o rei João é mostrado assinando a Magna Carta sob o olhar vigilante dos barões. A cena nos ajuda a imaginar aquilo que de fato aconteceu: a pressão da nobreza sobre o rei.

DIALOGANDO

João, pela graça de Deus, rei da Inglaterra, senhor da Irlanda, duque da Normandia e da Aquitânia, conde de Anjou, aos arcebispos, bispos, abades, condes, barões [...], viscondes [...], servidores e a todos os ofícios e fiéis, saúde. [...] 1 – Em primeiro lugar […] confirmamos pela presente carta, por nós e pelos nossos herdeiros, perpetuando, que a Igreja da Inglaterra seja livre e conserve integralmente os seus direitos e intangíveis as suas liberdades […] 12 – Nenhum imposto ou pedido será estabelecido no nosso reino sem o consenso geral, exceto para resgatar a nossa pessoa, para armar cavaleiro o nosso filho mais velho e para casar, pela primeira vez, a nossa filha mais velha e, neste caso, que a contribuição seja razoável. [...] 14 – Para obter o consenso geral a fim de lançar um pedido ou imposto fora dos três casos sobreditos, mandaremos convocar individualmente os arcebispos, bispos, abades, condes e grandes barões por meio de cartas, e além disto mandaremos convocar […] todos nossos vassalos diretos [...] e em todas as nossas cartas indicaremos o motivo da convocação […] 42 – Estará permitido no sucessivo, a todas as pessoas, sair do nosso reino, e voltar a ele livremente e em segurança, por terra e por mar, salvada a nossa fidelidade, exceto em tempo de guerra, por pouco tempo, pelo bem comum do reino. […] PEDRERO-SÁNCHEZ, Maria Guadalupe. História da Idade Média: textos e testemunhas. São Paulo: Unesp, 2000. p. 234-235 e 237.

O que se pode concluir da leitura desse trecho da Magna Carta? Quem o rei consultaria, em caso de necessidade? Pode-se concluir que o documento limitava o poder do rei, sobretudo quanto a novos impostos. O rei consultaria o clero e a nobreza.

Henrique III (1216-1272) desrespeitou a Magna Carta, impondo a cobrança de novos impostos, o que provocou uma nova revolta da nobreza. A burguesia também participou dessa revolta e, com isso, ganhou o direito de fazer parte do Grande Conselho que, em 1265, passou a ser chamado de Parlamento. Na época, o rei convocava e dissolvia o Parlamento e também propunha o assunto a ser debatido, fosse ele judicial, político ou financeiro.

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Escola inglesa. Séc. XIII. Manuscrito. Coleção particular. Foto: De Agostini/Getty Images

Com o tempo, o Parlamento ganhou força e foi dividido em duas câmaras: a Câmara dos Lordes, integrada por representantes da alta nobreza (barões e duques) e do clero, e a Câmara dos Comuns, formada por representantes da pequena nobreza e da burguesia.

Dica! Vídeo sobre a formação da monarquia e do império britânico. [Duração: 44 minutos]. Acesse: < http://tub. im/6osn9m>.

Iluminura do século XIII, em que se vê o rei inglês Eduardo I (1272-1307), filho de Henrique III, dirigindo uma reunião do Parlamento. Era comum o rei se envolver em guerras; e como a criação de novos impostos dependia da aprovação do Parlamento, o rei recorria a ele em busca de apoio; o Parlamento, por sua vez, usava seu poder para aumentar sua influência. Assim criou-se na Inglaterra uma tradição segundo a qual o poder de governar não cabia apenas ao rei, mas ao rei e ao Parlamento juntos.

Durante muito tempo, o atual território francês esteve nas mãos de vários senhores; o rei era apenas um deles. Com Felipe Augusto (1180-1223), essa situação começou a mudar: ele incorporou terras imensas por meio da compra, de casamentos arranjados e da guerra. Além disso, instituiu também o cargo de bailio, funcionário real encarregado de cobrar os impostos e impor as decisões do tribunal do rei a todos os habitantes do reino; com isso, diminuía a força dos tribunais da nobreza. Para a capital do reino, Felipe Augusto escolheu a cidade de Paris. O rei Luís IX (1226-1270), conhecido depois como São Luís, deu continuidade a esse processo determinando que a moeda real fosse aceita em todo o território francês por meio de uma ordem real; leia o seu conteúdo: Que nenhuma moeda seja aceita no reino, a partir da festa de São João [...] fora da moeda do rei, e que ninguém venda, compre e faça negócios senão com esta moeda. E a moeda do rei pode e deve correr no seu reino inteiro, sem oposição de outras moedas particulares que possam existir. PEDRERO-SÁNCHEZ, Maria Guadalupe. História da Idade Média: textos e testemunhas. São Paulo: Editora Unesp, 2000. p. 243.

Escola inlgesa (detalhe). Pedra policromada. Igreja de São Pedro, Normandia. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

A monarquia francesa

Estátua do Rei Luís IX feita de pedra policromada no século XIV, na Igreja de São Pedro. Normandia (França).

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Esse rei estimulou também o comércio e a arrecadação de impostos, o que lhe permitiu ter um grupo maior de funcionários a seu serviço. Além disso, permitiu que todo aquele que fosse condenado por um tribunal da nobreza pudesse apelar ao tribunal do rei. Felipe IV, o Belo (1285-1314), fortaleceu o poder real, exigindo que os membros da Igreja também pagassem impostos. Como o papa Bonifácio VIII se opôs a essa decisão, o rei convocou os Estados Gerais, assembleia formada por representantes da nobreza, do clero e da burguesia, que se reuniu em 1302 para debater o assunto.

REINO DA ESCÓCIA

REINO DA ESCÓCIA Mar do

Norte

Mar do Norte

PAÍS DE GALES

PAÍS DE GALES

REINO DA INGLATERRA

DA INGLATERRA

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REINO DE LEÃO

DA FRANÇA

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OCEANO ATLÂNTICO

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Reino da França (1230) Allmaps

Reino da França (1173)

REINO DA FRANÇA IMPÉRIO GERMÂNICO

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OCEANO ATLÂNTICO

REINO DE PORTUGAL

REINO DE CASTELA

REINO DE ARAGÃO

CALIFADO ALMÔADA

40° N

CALIFADO ALMÔADA

IMPÉRIO GERMÂNICO

REINO DE NAVARRA

40° N

Mar Mediterrâneo

Mar Mediterrâneo

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Fonte: MCEVEDY, Colin. Atlas da História Medieval. São Paulo: Verbo, 1990. p. 71-79.

No mapa da esquerda, vê-se o território do Reino da França antes de Felipe Augusto (1180-1223); no da direita, o Reino da França depois dele. Perceba que no seu reinado o território tornou-se cerca de três vezes maior.

A Guerra dos Cem Anos e as guerras de religião do século XVI também colaboraram para o fortalecimento do poder real na Europa. Na França, a Guerra dos Cem Anos estimulou a fidelidade ao rei Carlos VII, que confiou a liderança dos seus exércitos à camponesa Joana D’Arc. O rei e a camponesa passaram então a ser vistos como símbolos de uma identidade em construção. O “outro” eram os ingleses, diferentes nos costumes, na língua e no vestuário.

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Franz Hogenberg. Séc. XVI. Gravura. Coleção particular. Foto: De Agostini/Getty Images

As guerras de religião – nome dado aos sangrentos conflitos político-religiosos entre católicos e huguenotes (calvinistas franceses) ocorridos na segunda metade do século XVI – foram alimentadas por poderosas famílias nobres que armavam e pagavam homens para lutarem entre si e pelo poder. O conflito entre duas dessas famílias, a dos Guise, católica, e a dos Bourbon, protestante, resultou em uma série de episódios sangrentos. Um deles ocorreu na França na noite de 24 de agosto de 1572, quando a rainha Catarina de Médici, interessada em afirmar o poder monárquico, ordenou a matança indiscriminada de protestantes. A violência se estendeu ao interior do país ocasionando a morte de trinta mil protestantes. O episódio ficou conhecido como Noite de São Bartolomeu.

A Noite de São Bartolomeu e o assassinato do Almirante Gaspard de Coligny, gravura de Franz Hogenberg, 1572.

Na França, as guerras entre católicos e protestantes chegaram ao fim no reinado de Henrique IV que, ao assumir o trono em 1589, renunciou ao protestantismo com a célebre frase: “Paris bem vale uma missa”. E, nove anos depois, assinou o Édito de Nantes que concedia liberdade religiosa aos protestantes.

O absolutismo Algumas monarquias europeias evoluíram em direção ao absolutismo, uma forma histórica de organização do poder que se desenvolveu no Ocidente europeu entre os séculos XV ao XVIII. O absolutismo possui, portanto, tempo e lugar definidos. Nas monarquias absolutistas o rei podia convocar o exército, criar e cobrar impostos, nomear e demitir funcionários, interferir na esfera religiosa e declarar guerra a um outro reino. É preciso dizer, no entanto, que apesar de concentrarem enorme soma de poder, os reis absolutistas encontravam freios às suas ações nas concepções morais, nos costumes da época e na ânsia de poder de alguns de seus

Absolutismo:

regime político em que o detentor do poder o exerce sem dependência de outros poderes.

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Mulher acusada de feitiçaria, que devia provar sua inocência enquanto era submetida ao afogamento. Ilustração de John Ashton, século XVIII, colorizada posteriormente.

Escola inglesa. Xilogravura. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

ministros. Outro limite ao poder absoluto dos reis era a existência de privilégios e imunidades dados a indivíduos, grupos sociais e corporações. Entre os fatores que contribuíram para o estabelecimento do absolutismo estão: o aperfeiçoamento da imprensa, a Reforma Protestante e a política de caça às bruxas. A imprensa melhorou o sistema de comunicação, oportunizando maior controle dos súditos pelo rei. A Reforma Protestante questionou o poder universal do papa, favorecendo, assim, o fortalecimento do poder real. A caça às bruxas foi uma política usada pela monarquia contra as populações camponesas: num primeiro passo, os reis acusavam um grande número de camponeses (homens e, sobretudo, mulheres) de praticarem a feitiçaria. Depois, com a desculpa de combater essa prática, os condenavam à morte na fogueira, na forca ou por afogamento. Dessa forma, espalhavam o terror entre as populações camponesas e estendiam a autoridade real a todo o reino.

Conforme os reis europeus foram impondo sua autoridade, surgiram pensadores empenhados em justificar o absolutismo. Entre eles, Thomas Hobbes e Jacques Bossuet. Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês e autor de Leviatã, afirma que no começo dos tempos todos os homens viviam em estado natural, Dica! Animação inspirada sem se sujeitarem a nenhum poder; obedeciam apenas a seus próprios no livro Leviatã. interesses e apetites. Essa situação, segundo ele, envolvia concorrência, [Duração: 15 minutos]. Acesse: <http://tub. desconfiança e desejo de glória; assim sendo, vivia-se numa guerra perpé- im/984m9x>. tua de “cada um contra cada um” e de “todos contra todos”; na época “o homem era o lobo do homem”. Com o objetivo de evitar a destruição da espécie humana, os homens optaram por transferir o seu poder a um homem ou a uma assembleia de homens, que reduziriam suas “vontades a uma só vontade”. É como se cada súdito dissesse aos outros que autorizava e transferia a esse homem ou assembleia de homens o direito de governar a todos ao mesmo tempo. Segundo Hobbes, seria essa a origem e a

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natureza do Leviatã, “Deus mortal” a quem devemos nossa paz e nossa segurança. E, esse governo, assim constituído, era o único capaz de possibilitar que as pessoas vivessem felizes e satisfeitas. Jacques Bossuet (1627-1704), bispo francês e autor de Política tirada da Sagrada Escritura, defendia que o poder do rei emana de Deus. Logo, o monarca seria o representante de Deus na Terra e, portanto, infalível; o maior crime que um súdito podia cometer seria o de traição ao rei (lesa-majestade), o que era considerado sacrilégio. Para Bossuet, portanto, o direito do rei tem origem divina, daí sua teoria ser chamada de Teoria do Direito Divino dos Reis. Em uma outra obra intitulada Discurso sobre a história universal, Bossuet afirmou que os impérios eram guiados pela “divina providência” desde a sua formação até sua queda. Por isso, ele propunha uma espécie de divisão de trabalho entre o Deus imortal – a quem se devia o funcionamento do universo – e o Deus mortal – que recebeu do primeiro a missão de dirigir os impérios e, consequentemente, todos os súditos.

O mercantilismo Entre os séculos XV e XVIII, alguns monarcas absolutistas europeus adotaram o mercantilismo: conjunto de ideias e práticas econômicas por meio das quais as monarquias europeias visavam conseguir poder e riqueza para o Estado. O absolutismo e o mercantilismo coexistiram no tempo e no espaço. Entre as características do mercantilismo podemos citar: » o metalismo: crença segundo a qual a riqueza de um país é proporcional à quantidade de metais preciosos que ele consegue acumular. Jean Bodin, jurista francês daquele período, resumiu essa crença dizendo: “a abundância de ouro e prata é a riqueza de um país”; » a balança comercial favorável: princípio derivado do metalismo. Acreditava-se que, sendo o dinheiro feito de ouro ou prata, só se poderia retê-lo num país importando o mínimo e exportando o máximo, mantendo assim a balança comercial favorável; » o protecionismo: para manter a balança comercial favorável, os países incentivavam o comércio, a indústria e a marinha mercante nacionais, protegendo-os da concorrência estrangeira. Recomendava-se, por exemplo, o aumento dos impostos sobre os produtos estrangeiros a fim de torná-los mais caros, favorecendo os produtos nacionais. Arne Hodalic/Corbis/Latinstock

Estas peças, confeccionadas em ouro e prata, foram encontradas nos escombros do galeão espanhol Nossa Senhora do Rosário, naufragado em 1590 nas costas de Cuba. No governo do rei Felipe II, esse galeão fazia a rota da América para a Espanha, onde muitas vezes aportou com um carregamento milionário. A crença no metalismo foi um traço da política econômica desse rei espanhol.

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Absolutismo e mercantilismo na França de Luís XIV O rei Luís XIV (1661-1715) concentrou enorme poder: julgava e punia, emitia ordens e fiscalizava a sua execução, nomeava colaboradores e decidia pessoalmente pelo Estado francês. Daí a frase atribuída a ele: “L’état c’est moi” (o Estado sou eu). Durante seu governo, Luís XIV usou a força do exército real e, ao mesmo tempo, cuidou minuciosamente da construção da sua imagem pública para fortalecer sua autoridade. Isto explica porque Luís XIV foi o rei com o maior número de representações (pinturas, gravuras, estátuas etc.) na história do Ocidente. Leia o que o historiador Peter Burke diz sobre o assunto.

Jorge Zahar Editora

Para saber mais A fabricação do rei Entre as mais importantes representações [...] do rei estavam seus retratos. [...] Essas pinturas eram também tratadas como substitutos do rei. O famoso retrato pintado por Rigaud, por exemplo, fazia as vezes do monarca na sala do trono, em Versalhes, quando ele não estava lá. Dar as costas ao retrato era uma ofensa tão grande quanto dar as costas ao rei. Outros retratos presidiam festividades em homenagem ao rei nas províncias. Ocorria-lhes até ser carregados em procissão, como a imagem de um santo. A comparação não é tão exagerada quanto pode parecer, pois algumas vezes o rei foi representado como São Luís. BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Trad. Maria Luiza X. A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. p. 20.

Fac-símile da capa do livro de Peter Burke A Fabricação do Rei. A pintura mostrada na capa é a do famoso quadro “Luís XIV, rei da França”, de Hyacinthe Rigaud, pintado em 1701.

Luís XIV também buscou se manter no poder, manipulando as tensões entre a nobreza e a burguesia. Para atrair a nobreza, concedeu-lhe pensões, empregos bem remunerados e ordenou a construção do luxuoso palácio de Versalhes, com mais de 700 aposentos, para onde transferiu sua corte e a sede do governo. Nesse palácio abrigava milhares de nobres que levavam uma vida ociosa e caracterizada pelo luxo e pela ostentação. Para agradar a burguesia, Luís XIV nomeou para ministro das Finanças Jean Baptiste Colbert, membro de uma família burguesa, que adotou uma política mercantilista conhecida como colbertismo.

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Situado a 20 km de Paris, o palácio de Versalhes é hoje um museu que guarda importantes vestígios da história e da arte do século XVII europeu. Luís XIV procurou fazer de Versalhes uma extensão da sua personalidade, um símbolo de seu poder, um documento dos seus anos de glória. Na época, o rei mandou publicar e distribuir muitas gravuras do palácio. Criado para ser a sede do governo e a casa do rei, hoje é Patrimônio Cultural e Artístico da Humanidade. A imagem mostra um detalhe da Sala dos Espelhos desse palácio.

Visando obter riqueza e poder para o Estado, Colbert interveio na economia: protegeu o comércio exterior; taxou as importações e diminuiu os impostos sobre as exportações; incentivou as manufaturas francesas, sobretudo as de artigos de luxo (joias, móveis e sedas), e criou novas manufaturas (as manufaturas reais); atraiu mão de obra especializada, convidando artesãos estrangeiros para trabalhar na França; concedeu privilégios a companhias de comércio que exploravam riquezas em outros continentes, a exemplo Garry Black/Radius Images/Latinstock da Companhia Francesa das Índias Ocidentais. A política mercantilista adotada por Colbert estimulou a economia da França, mas não conseguiu equilibrar as contas do país, principalmente por 1. Dica! Vídeo causa dos gastos escandalosos da corte, das sucessivas guerras travadas pela sobre a história França e da fuga de capitais motivada pela intolerância religiosa do rei que, da construção do em 1685, assinou o Édito de Fontainebleau, que proibiu a liberdade de culto palácio de Versalhes. [Duração: 10 minutos]. aos protestantes, levando muitos deles a saírem da França com seus capitais Acesse: <http://tub. im/6i4kgo>. e a ir para outros países, como Suíça, Inglaterra ou Holanda. 1 e 2

O mercantilismo em outros países

2. Dica! Tour virtual tridimensional pelo palácio de Versalhes. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http://tub. im/kn6asv>.

O mercantilismo variou no tempo e no espaço. No século XVI, a Espanha foi considerada a nação mais rica da Europa. Durante o reinado de Felipe II (1556-1598), visando acumular metais preciosos (metalismo), a Espanha intensificou a exploração do ouro e da prata na América, à custa do trabalho forçado dos ameríndios. No entanto, em pouco tempo, os metais preciosos acumulados pelos espanhóis foram desperdiçados em guerras por hegemonia na Europa. Uma delas foi a que o rei espanhol Felipe II moveu contra a Inglaterra, em razão da pirataria inglesa na América. O rei espanhol enviou contra a Inglaterra a “Invencível Armada” (com 130 navios), que foi praticamente destruída pelos ingleses. Na Inglaterra, as ideias mercantilistas começaram a ser aplicadas durante a dinastia Tudor (14851603), especialmente no reinado de Elisabeth I (1558-1603), época áurea do absolutismo inglês. Elisabeth I incentivou o comércio marítimo, a marinha (mercante e de guerra) e as atividades manufatureiras de seu país. Além disso, concedeu monopólios, prêmios e isenção de impostos às manufaturas inglesas e sobrecarregou de impostos os produtos estrangeiros, sobretudo os tecidos franceses. No reinado de Elisabeth I, a monarquia inglesa também obteve lucros extraordinários incentivando e custeando a pilhagem na América, na África e na Ásia. O famoso pirata Francis Drake, por exemplo, recebeu das mãos da rainha a licença oficial para praticar assaltos no mar e em terra. CAPÍTULO 13 | TEMPOS DE REIS PODEROSOS E IMPÉRIOS EXTENSOS

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Para refletir Leia o texto a seguir com atenção. Séc. XIX. Gravura. Coleção particular. Foto: The Granger Collection/Glow Images

Terror nos mares

a1) A pirataria de software pode ser definida como o ato de copiar, fabricar, utilizar ou reproduzir um software com direitos autorais. Estima-se que hoje em dia, para cada cópia autorizada de software, existam cerca de 100 cópias piratas no mercado. a2) Os prejuízos da pirataria de software, para a sociedade, são muitos; no campo econômico, provoca a diminuição da arrecadação de impostos, e, consequentemente, dos investimentos estatais na economia, afetando inclusive os níveis de emprego. Encarece, também, os preços dos softwares devidamente licenciados. No campo científico, retarda o processo de desenvolvimento de novas tecnologias. No âmbito individual, dificulta ao usuário a realização de atualizações e a obtenção de um serviço de suporte eficiente.

Piratas e corsários existem desde o mundo antigo. [...] No século XVI, [...] abriu-se um novo e mais amplo espaço para ações de pilhagem: o oceano Atlântico. A partir de então, a intensificação da disputa territorial e marítima dos países europeus levou a uma maior delimitação das fronteiras entre pirataria e corso. Enquanto a pirataria era protagonizada por indivíduos que atuavam sozinhos ou em grupos, sem qualquer respaldo oficial – e cujo objetivo era a pilhagem pura e simples –, o corso era um empreendimenFrancis Drake, pirata e corsário inglês, to planejado, inserido num contexto de prestando homenagem à rainha Elisabeth I, guerra entre duas ou mais Coroas, e recede quem recebia licença para praticar da bia o aval dos governantes [...]. simples pilhagem a empreendimentos [...] O objetivo do corso não era tanto altamente lucrativos para a Coroa inglesa. a destruição do comércio do adversário, e sim o seu sequestro por meio do assalto a portos e cidades, do apresamento de embarcações em alto-mar, do confisco de suas mercadorias. Em geral os navios corsários pertenciam a comerciantes particulares ou reunidos em parcerias, e eram armados ora para o comércio, ora para o corso, de acordo com a conjuntura, ora de paz, ora de guerra. Em alguns casos, o rei colocava a Marinha Real à disposição dos empreendimentos corsários, organizando-se expedições que combinavam recursos estatais e privados. BICALHO, Maria Fernanda. Revista Nossa História. São Paulo: Vera Cruz, p. 19-20, jan. 2006.

a) Em dupla. Debatam, reflitam e respondam. A pirataria nos mares foi uma prática comum entre os séculos XV e XVIII. Nos dias atuais, a palavra pirataria tem sido usada para práticas ilícitas em várias áreas da economia; exemplo disso é a expressão “pirataria de software”. a1) Em que consiste esse tipo de “pirataria”? a2) Quais as consequências dessa prática para a sociedade? a3) Que sugestões vocês dariam para coibi-la? b) Postem suas conclusões no blog da turma. a3) Resposta pessoal. O importante aqui é estimular a conscientização do aluno com relação aos prejuízos que esse tipo de crime causa à sociedade. A legislação brasileira que coíbe a pirataria de software é explícita: a pena vigente atualmente no país é de dois anos para usuários, quatro anos para o vendedor do software, além da multa que pode chegar até a 2 mil vezes o valor do produto.

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As monarquias ibéricas A monarquia portuguesa e a espanhola se formaram no contexto das lutas dos cristãos contra os árabes muçulmanos na Península Ibérica. Com a invasão muçulmana, no século VIII, a liderança cristã refugiou-se no norte da Península Ibérica e fundou os reinos de Leão, Castela, Navarra e Aragão (veja os mapas seguintes). A partir do século X, animada pelo espírito das Cruzadas e pelas desavenças entre os próprios muçulmanos, a liderança cristã iniciou as lutas de Reconquista. As lutas pela expulsão dos árabes da Península Ibérica foram chamadas de Reconquista cristã, pois o objetivo dos cristãos era justamente reconquistar as terras perdidas. 1

1. Dica! Vídeo sobre a Reconquista cristã. [Duração: 50 minutos]. Acesse: <http://tub. im/iphw5y>. 2. Dica! Documentário sobre a formação e a consolidação da monarquia nacional portuguesa. [Duração: 45 minutos]. Acesse: <http://tub.im/sbd87s>.

Mapas: Allmaps

Reconquista da Península Ibérica

Fonte: HILGEMANN W; KINGER, H. Atlas historique. Paris: Perrin, 1992. p. 182.

Os mapas representam diferentes momentos da Reconquista; observe que, a partir do século XI, os cristãos vão retomando os territórios sob o controle árabe-muçulmano (setas azuis). Nesse processo secular de lutas, formaram-se os reinos de Portugal e da Espanha.

No século XI, o nobre guerreiro Henrique de Borgonha entrou na luta contra os árabes muçulmanos e, como recompensa, recebeu do rei de Leão e Castela uma grande propriedade: o Condado Portucalense. Seu filho, Afonso Henriques, continuou a luta contra os árabes e, fortalecido por vitórias seguidas, rompeu com o Reino de Leão e Castela, em 1139, e proclamou a independência do Condado Portucalense, que passou a se chamar Reino de Portugal. Afonso Henriques sagrou-se rei, o primeiro de Portugal, e deu início à dinastia de Borgonha. Os reis dessa dinastia continuaram engajados nas lutas da Reconquista e, em 1249, conseguiram incorporar o Algarve, na região sul. Completou-se assim a formação do Reino de Portugal. 2 CAPÍTULO 13 | TEMPOS DE REIS PODEROSOS E IMPÉRIOS EXTENSOS

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Séc. XVI. Madeira policromada. Monasterio de las Descalzas Reales, Madrid. Foto: Album Art/Latinstock.

Enquanto isso, no restante da Península Ibérica, as lutas contra os árabes prosseguiam sob a liderança dos reinos cristãos de Castela e de Aragão. Ambos possuíam cidades portuárias movimentadas, como Valência e Barcelona (em Aragão), e uma burguesia próspera que fornecia dinheiro para a Reconquista. Em 1469, os reis cristãos Fernando (do Reino de Aragão) e Isabel (do Reino de Castela) se casaram e uniram suas terras e seus esforços no combate aos árabes. Finalmente, em 1492, os exércitos de Fernando e Isabel reconquistaram Granada, o último reduto árabe na Península Ibérica, o que significou um passo decisivo na formação do Reino da Espanha.

Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, os reis católicos.

As Grandes Navegações Especiarias:

do latim species que significa espécie. Na época, era o nome dado a um produto geralmente de pequeno porte e alto valor comercial; os europeus as utilizavam, principalmente, para temperar e conservar a carne e, também, para a feitura de remédios e perfumes.

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No século XIV, como vimos anteriormente, o cenário europeu foi de crise prolongada, marcada por fome, doenças, guerras e diminuição drástica da população. Além disso, o esgotamento das minas europeias de metais preciosos limitava a oferta de moedas de ouro e prata e inibia o comércio interno europeu. Já o comércio de longa distância – que se fazia pelo mar Mediterrâneo – era quase todo controlado por mercadores italianos e árabes. Os produtos comercializados eram as especiarias (pimenta, cravo, canela, gengibre, mostarda, noz-moscada, entre outros) e artigos de luxo (tecidos de algodão da Índia, tapetes da Pérsia, seda e porcelana da China, pérolas do Japão). Em caravanas de camelos e embarcações, os árabes traziam esses produtos do Oriente até as cidades de Cairo e Alexandria, no nordeste da África, e Tiro e Antioquia, na Ásia menor. Ali, os mercadores italianos os compravam e revendiam na Europa com grande lucro.

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Allmaps

Rota das especiarias (1401-1500) 30° L

60° L

EUROPA Gênova

Veneza

Mar de Aral C ar

Constantinopla GRÉCIA Sardes

ANATÓLIA TURQUIA

Éfeso

Mar Mediterrâneo

io

Atenas

p ás

Roma

Antioquia Tiro Gaza

ÁSIA

ARÁBIA

Palmira

Damasco

Alexandria

Bagdá Ctesifonte

Cairo

Susa

30° N

Apologos Leuceccome 3027-HIS-V1-U04-C13-M004

Ormuz

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ÍNDIA

Golfo de Omã

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Trópico de Câncer

Medina Gidá Meca

Mascate PENÍNSULA ARÁBICA

ÁFRICA

OMÃ Salalah

Muza Aden Zélia

0

45° N

M

Mar Negro

Mar Arábico

Costa do Malabar

Goa 15° N

Calicute

Canã

Cochin

Cabo das especiarias

OCEANO ÍNDICO

510

Fonte: AMADO, Janaína; FIGUEIREDO, Luiz Carlos. A magia das especiarias: a busca de especiarias e a expansão marítima. São Paulo: Atual, 1999. p. 11. (Nas ondas da história).

No século XIV os portugueses já participavam do comércio de especiarias orientais pois os mercadores italianos tinham fundado entrepostos comerciais em cidades portuguesas como Porto e Lisboa, onde as especiarias orientais eram negociadas com comerciantes portugueses; estes, por sua vez, fazendo uso de sua eficiente frota de navios, as revendiam em Londres (Inglaterra) e no norte da Europa. Para ampliar sua participação no rico comércio mundial de especiarias, os portugueses teriam de evitar o Mediterrâneo e buscar um novo caminho para o Oriente, navegando pelo Atlântico. A busca pelas riquezas orientais na fonte foi o principal motor das Grandes Navegações. Outro importante móvel foi o desejo europeu de converter ao cristianismo os nativos de outros continentes e combater os infiéis (nome dado aos árabes muçulmanos).

O pioneirismo português O pioneirismo português, no movimento chamado de Grandes Navegações, deveu-se basicamente aos seguintes fatores: » Portugal foi o primeiro país europeu a ter uma monarquia centralizada; um Estado moderno em que os mercadores associaram-se ao rei no negócio envolvendo comércio e navegação de longa distância. » A Revolução de Avis – Em 1383, aproveitando-se da morte do rei português Dom Fernando, o rei de Castela tentou usurpar o trono de Portugal, mas o povo português, liderado pela

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Representação da Batalha de Aljubarrota, decisiva para a vitória da Revolução de Avis, século XV. Portulano:

nome dado aos documentos medievais produzidos nos séculos XIV e XV, nos quais eram descritas as rotas marítimas com distâncias e ilustrações dos lugares costeiros. Eram chamados também de “livros do mar”.

Séc. XV. Biblioteca Britânica, Londres. Foto: British Library Board/The Bridgeman Art Library/Keystone

burguesia, sublevou-se e venceu os castelhanos no movimento conhecido como Revolução de Avis (1383-1385). O chefe desse movimento, Dom João, mestre da ordem militar de Avis, sagrou-se rei com o título de Dom João I. Retribuindo a ajuda recebida, os reis da dinastia de Avis deram apoio ao comércio e à navegação, principais negócios da burguesia portuguesa na época.

» A experiência em navegação oceânica – Em função da posição geográfica e da baixa produtividade agrícola de seu país, os portugueses praticavam há tempos a pesca em alto-mar (de sardinha, atum e bacalhau), o que trazia riqueza às suas cidades, como Porto, Setúbal e Lisboa, e alimento para sua população. » O empenho em aprimorar conhecimentos e técnicas náuticas – Os portugueses aperfeiçoaram mapas e portulanos e adaptaram a bússola e o astrolábio às suas embarcações (esses dois instrumentos permitiam calcular a latitude – a direção norte-sul). Além disso, inventaram a caravela – embarcações que conseguiam aproveitar os ventos contrários, e eram ligeiras e fáceis de manobrar; entravam em rios, contornavam bancos de areias e zarpavam com velocidade em caso de um ataque. » A popularização do escrito com a invenção da imprensa – Textos descrevendo viagens fantásticas incentivavam as pessoas a se aventurarem em busca de riqueza, fama e glória. Os portugueses iniciaram sua investida no além-mar quando Dom João I organizou uma grande expedição para a conquista do Norte da África, que resultou na tomada de Ceuta em 1415, cidade na qual os italianos compravam dos árabes os produtos trazidos por eles do Oriente. Entretanto, Ceuta não deu aos portugueses os lucros esperados, pois os árabes passaram a evitar a cidade conquistada desviando suas caravanas para outros centros comerciais. Além disso, o custo para manter a cidade conquistada era elevado. Diante disso, os portugueses decidiram planejar com mais cuidado a expansão pelo Atlântico, chamado na época de “Mar Tenebroso”. Com o apoio de estudiosos, construtores de navios e capitães experientes, os portugueses deram início ao périplo africano, isto é, o contorno da África para chegar ao Oriente.

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Editora Contexto

Para saber mais Quem financiou a aventura marítima portuguesa O texto a seguir foi escrito pelo historiador Fábio Pestana Ramos. [...] lançar-se ao mar era empreitada dispendiosa e arriscada, que demandava recursos, muitos recursos, os quais o país não possuía. A solução encontrada foi contrair empréstimos de banqueiros italianos e de mercadores estrangeiros instalados nas cidades do Porto e de Lisboa, mas também de judeus portugueses pertencentes à burguesia comercial. [...] Expulsos da Espanha em 1492, os judeus que puderam contribuir individualmente com uma certa quantia foram Fac-símile recebidos sob as graças do rei D. João II, em Portugal, onde da capa do livro a comunidade cresceu e prosperou, embora fosse sempre No tempo das mantida segregada do resto da população. Desde então, especiarias, de Fábio Pestana sempre que faltavam recursos, era prática usual da Coroa Ramos, publicado acirrar as perseguições, obrigando os judeus detentores de em 2006. capital a investir nas novas rotas comerciais, sob pena de expropriação dos bens. Contratos eram assinados com a Coroa, prevendo juros mais baixos na concessão de empréstimos em troca de doação de terras das novas colônias, o que muitos judeus viram como uma boa oportunidade para fugir das perseguições em Portugal. [...] As aplicações dos judeus foram fundamentais para a constituição da armada dos navios responsáveis pelo descobrimento do caminho para a Índia, e, mais tarde, para o fortalecimento da rota do Brasil. RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias: o império da pimenta e do açúcar. São Paulo: Contexto, 2006; p. 40-41.

Observe os principais fatos ocorridos na exploração da costa ocidental africana.

Cronologia » 1419 – Os portugueses chegaram às Ilhas da Madeira. » 1443 – Atingiram a Ilha de Arguim, junto ao rio do Ouro e, no ano seguinte, o rio Senegal. Quatro anos depois, criaram a primeira feitoria e iniciaram o comércio com os africanos, que envolvia principalmente ouro em pó, escravizados, armas de fogo e pólvora. » 1456 – Chegaram às Ilhas do Cabo Verde e montaram engenhos de produção de açúcar utilizando mão de obra africana escravizada.

Feitoria:

entreposto administrativo e comercial de Portugal em terras de além-mar; fortificação militar, que podia assumir função comercial e que visava controlar a circulação naval em possessões portuguesas.

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» 1482 – Ergueram o castelo de São Jorge da Mina e, nesse mesmo ano, chegaram à foz do rio Zaire, iniciando a exploração do Congo. Logo a seguir, a Coroa portuguesa estabeleceu o monopólio sobre as transações com ouro na África. » 1488 – Bartolomeu Dias contornou o Cabo das Tormentas, situado no extremo sul da África. Para valorizar o feito, o rei de Portugal D. João II mudou o nome do local para Cabo da Boa Esperança. » 1498 – Vasco da Gama chegou a Calicute, na Índia, iniciando relações comerciais diretas com a região. Essa viagem realizava o sonho português de atingir uma das mais importantes fontes de especiarias. Vasco da Gama retorna a Portugal trazendo consigo a pimenta e outras especiarias, proporcionando lucro excepcional aos investidores. » 1500 – Dom Manuel, o Venturoso, enviou uma nova frota às Índias, sob o comando de Pedro Álvares Cabral, que chegou aonde hoje é Porto Seguro, na Bahia, em 22 de abril daquele mesmo ano. Hoje se sabe que, dois anos antes, o governo português já sabia da existência de terras no hemisfério ocidental. Dica! Documentário sobre as origens das Em seguida, os portugueses atingiram Moçambique (1507), na costa grandes embarcações oriental na África; Macau (1517), na China; e Kyushu (1542), no Japão. que fizeram as Portugal ergueu, assim, um imenso império marítimo-comercial com posprimeiras navegações. [Duração: 47 minutos]. sessões banhadas por três oceanos (Atlântico, Índico e Pacífico) e passou a Acesse: <http://tub. controlar as rotas africanas do ouro e da pimenta, das especiarias indianas im/29de7z>. e do pau-brasil.

Allmaps

Expansão ultramarina portuguesa (séculos XV e XVI) 90° O

90° L

Círculo Polar Ártico

ÁSIA OCEANO ATLÂNTICO

AMÉRICA DO NORTE

PORTUGAL Lisboa Açores Ceuta Madeira

Trópico de Câncer

AMÉRICA CENTRAL OCEANO PACÍFICO

Trópico de Capricórnio

Círculo Polar Antártico

CABO VERDE

AMÉRICA DO SUL

Pequim CHINA

Calicute

GUINÉ ÁFRICA São Jorge da Mina CONGO Melinde

JAPÃO Kyushu

Macau

ÍNDIA

Cabo Bojador

Málaca

FILIPINAS

OCEANO PACÍFICO 0°

MOÇAMBIQUE

Porto Seguro

Cabo da Boa Esperança

Meridiano de Greenwich

Equador

EUROPA

OCEANO ÍNDICO

OCEANIA

Rotas dos navegadores portugueses

0

2 400

Vasco da Gama Pedro Álvares Cabral Primeira viagem até o Japão

Fonte: ARRUDA, José Jobson de A. Atlas histórico básico. 17. ed. São Paulo: Ática, 2001. p. 19.

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As navegações espanholas Enquanto Portugal buscava o caminho marítimo para o Oriente navegando em direção ao leste, a Espanha, sua principal concorrente, esforçava-se para 1. Dica! Documentário atingir o mesmo objetivo navegando para o oeste. Em 1492, os reis espanhóis sobre o navegador Fernando e Isabel aprovaram um ousado plano do navegador genovês Cristóvão Cristóvão Colombo. Colombo. Colombo estava disposto a chegar ao Oriente pelo Ocidente, dando a [Duração: 48 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ volta ao redor do mundo, pois acreditava na esfericidade da Terra. 1 e 2 wsqsex>. Naquele mesmo ano, ele partiu, a serviço da Espanha, com três caravelas – 2. Dica! Vídeo sobre a Santa Maria, Pinta e Niña. Durante a viagem contou com fortes ventos favorá- história de Américo Vespúcio. [Duração: veis à travessia do Atlântico. 2 minutos]. Acesse: No dia 12 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo desembarcou na Ilha de <http://tub.im/caey8o>. Guanaani (San Salvador), na América Central. Como pensou ter chegado às Índias, chamou de índios os diferentes povos que habitavam essas terras há milhares de anos. O engano de Colombo foi desfeito anos depois, quando Américo Vespúcio comprovou que o continente encontrado era novo para os europeus. Em sua homenagem, o continente foi batizado de América, ou “terras de Américo”. Como parte da disputa pelas terras e rotas descobertas e por descobrir, os reis de Espanha e Portugal assinaram, em 1494, o Tratado de Tordesilhas, que contou com a mediação do papa Alexandre VI. O acordo estipulava que, a 370 léguas a oeste do arquipélago do Cabo Verde, passaria um meridiano imaginário. As terras situadas a oeste desse meridiano pertenceriam à Espanha; as localizadas a leste seriam de Portugal.

Allmaps

Domínios de Portugal e da Espanha até 1580 90° O

90° L

Círculo Polar Ártico

EUROPA PORTUGAL Açores

ESPANHA

ÁSIA

Madeira

OCEANO PACÍFICO

AMÉRICA

Equador

Trópico de Capricórnio

Linha do Tratado de Tordesilhas

Trópico de Câncer

JAPÃO CHINA

370 léguas

Macau

ÍNDIA

CABO VERDE

OCEANO PACÍFICO

GUINÉ

ÁFRICA

OCEANO ATLÂNTICO

Sumatra

ANGOLA

Java

MOÇAMBIQUE

OCEANIA

MADAGASCAR

OCEANO ÍNDICO

Domínios de Portugal 0

2 400

Domínios da Espanha

Círculo Polar Antártico

Fonte: FRANCO JR., Hilário; ANDRADE FILHO, Ruy de O. Atlas: história geral. São Paulo: Scipione, 1995. p. 37.

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Animados pelo sucesso de Colombo, os reis espanhóis financiaram outras expedições: » 1500 – Vicente Iañes Pinzón chegou ao Amazonas, batizando-o de Mare Dulce, isto é, Mar Doce. » 1513 – Vasco Nuñez Balboa alcançou o oceano Pacífico. » 1519-1522 – Fernão de Magalhães (navegador português a serviço da Espanha) iniciou a primeira viagem de circum-navegação; Sebastião del Cano completou essa viagem, comprovando, assim, a esfericidade da Terra.

Navegações inglesas, francesas e holandesas Inglaterra, França e Holanda rejeitaram o Tratado de Tordesilhas e se lançaram às viagens exploratórias. O rei francês Francisco I referiu-se a esse tratado dizendo: “Desconheço a cláusula do testamento de Adão que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha”. Em 1497, navegando a serviço da Inglaterra, o genovês Giovanni Caboto tentou em vão descobrir uma passagem para o Oriente pelo extremo norte. Nessa viagem, Caboto explorou alguns portos da América do Norte. Em 1534, o navegador francês Jacques Cartier fez o mesmo e, depois de explorar o rio São Lourenço, tomou posse, em nome do rei da França, de parte dos atuais Canadá e Estados Unidos. Na época, tanto ingleses quanto franceses praticavam a pirataria, erguendo várias feitorias na África e na Ásia. Os franceses chegaram a invadir o Brasil duas vezes. A Holanda lançou-se às navegações só no final do século XVI, mas, em poucas décadas, conquistou áreas ricas em especiarias em diversos continentes: região do Cabo (África); Java, Ceilão (atual Sri Lanka) e Ilhas Molucas (Ásia); Nova Amsterdã (atual Nova York); Antilhas e nordeste do Brasil (América).

Mudanças relacionadas às Grandes Navegações As Grandes Navegações provocaram transformações significativas no cenário mundial, entre as quais: » a tomada de consciência, pelos europeus, do tamanho da Terra e da enorme diversidade cultural dos povos; assim, os seres humanos tiveram de conviver cada vez mais com as diferenças entre eles; » o extraordinário crescimento do volume e do valor do comércio internacional; » o declínio das cidades italianas e a ascensão dos países banhados pelo oceano Atlântico, como Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda, considerado a principal via de comércio; » a construção de vastos impérios coloniais pelos europeus e a apropriação da riqueza dos povos africanos, asiáticos e americanos; » o início de um longo processo de globalização; povos que se desconheciam entraram em contato uns com os outros; » o fortalecimento do poder absoluto dos reis.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

d) o gosto estético refinado do rei, pois evidencia a elegância dos trajes reais em relação aos de outros membros da corte.

I. Retomando 1. (UFRGS-RS – 2013) Leia o segmento abaixo. O rei tomou o lugar do Estado, o rei é tudo, o Estado não é mais nada. Ele é o ídolo a quem se oferecem as províncias, as cidades, as finanças, os grandes e os pequenos, em uma palavra, tudo. JURIEN, Pierre. Apud ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Rio de Janeiro, Zahar, 2001. p. 133.

Essa afirmação de um contemporâneo de Luís XIV, na França, diz respeito a uma forma de governo que ficou conhecida como a) monarquia constitucional. b) autocracia despótica oriental. c) autocracia parlamentar. d) monarquia absolutista. 1. Resposta: d. e) tirania teocrática. Séc. XVI. Coleção particular

2. (ENEM/MEC – 2012)

e) a importância da vestimenta para a constituição simbólica do rei, pois o corpo político adornado esconde os defeitos do corpo 2. Resposta: e. pessoal. 3. (Enem/MEC) O que se entende por Corte do antigo regime é, em primeiro lugar, a casa de habitação dos reis de França, de suas famílias, de todas as pessoas que, de perto ou de longe, dela fazem parte. As despesas da Corte, da imensa casa dos reis, são consignadas no registro das despesas do reino da França sob a rubrica significativa de Casas Reais. N. Elias. A sociedade de corte. Lisboa: Estampa, 1987.

Algumas casas de habitação dos reis tiveram grande efetividade política e terminaram por se transformar em patrimônio artístico e cultural, cujo exemplo é: a) o palácio de Versalhes; 3 Resposta: a. b) o Museu Britânico; c) a catedral de Colônia; d) a Casa Branca; e) a pirâmide do faraó Quéops.

Charge anônima. BURKE, P. A fabricação do rei. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

4. (Enem/MEC – 2014)

Na França, o rei Luís XIV teve sua imagem fabricada por um conjunto de estratégias que visavam sedimentar uma determinada noção de soberania. Neste sentido, a charge apresentada demonstra a) a humanidade do rei, pois retrata um homem comum, sem os adornos próprios à vestimenta real. b) a unidade entre o público e o privado, pois a figura do rei com a vestimenta real representa o público e sem a vestimenta real, o privado. c) o vínculo entre monarquia e povo, pois leva ao conhecimento do público a figura de um rei despretensioso e distante do poder político.

Todo homem de bom juízo, depois que tiver realizado sua viagem, reconhecerá que é um milagre manifesto ter podido escapar de todos os perigos que se apresentam em sua peregrinação; tanto mais que há tantos outros acidentes que diariamente podem aí ocorrer que seria coisa pavorosa àqueles que aí navegam querer pô-los todos diante dos olhos quando querem empreender suas viagens. J. P. T. Histoire de plusieurs voyages aventureux. 1600. In: DELUMEAU, J. História do medo no Ocidente: 1300-1800. São Paulo: Cia. das Letras, 2009 (adaptado).

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Esse relato, associado ao imaginário das viagens marítimas da época moderna, expressa um sentimento de a) gosto pela aventura.

b) c) d) e)

fascínio pelo fantástico. temor do desconhecido. 4. Resposta: c. interesse pela natureza. purgação dos pecados.

II. Leitura e escrita em História a. Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE Leia o texto a seguir com atenção.

A Corte Hoje o nome “Versailles” evoca não somente uma construção mas [...] em particular a ritualização da vida cotidiana do rei. [...] Luís podia comer mais formalmente (o grand couvert) ou menos formalmente (o petit couvert) [...] Essas refeições eram encenações perante uma audiência. Era uma honra ser autorizado a ver o rei comer, honra ainda maior receber uma palavra sua durante a refeição, honra suprema ser convidado a servi-lo ou a comer com ele. Todos os presentes usavam chapéu, exceto o rei, mas o tiravam para falar com este quando lhe dirigia a palavra, a menos que estivessem à mesa. [...] os observadores registravam que todos os atos do rei eram planejados “até o mínimo gesto”. Os mesmos eventos se produziam todos os dias nas mesmas horas, a tal ponto que uma pessoa poderia acertar seu relógio pelo rei. Havia normas [...] para a participação nesse espetáculo – quem tinha direito a ver o rei, a que horas e em que partes da corte, se tal pessoa podia se sentar numa cadeira ou num tamborete (tabouret) ou tinha que permanecer de pé. [...] Luís esteve no palco durante quase toda a sua vida [...]. Os objetos materiais mais intimamente associados ao rei também Genuflexão: se tornavam sagrados [...]. Assim, era uma ofensa dar as costas ação de dobrar o ao retrato do rei [...], entrar em seu quarto de dormir vazio sem joelho em sinal de fazer uma genuflexão ou conservar o chapéu na sala em que a reverência. mesa estava posta para o seu jantar. BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994. p. 99-102.

a) Quanto ao gênero, o texto é historiográfico, literário, jornalístico, filosófico ou jurídico? b) A qual conclusão a leitura do texto permite chegar, considerando o que está explícito? c) Pela etiqueta vigente na Corte de Luís XIV, o ato de dar as costas ao retrato do rei era considerado uma ofensa. O que isso sugere sobre a figura do rei?

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b. Cruzando fontes A fonte 1 é uma imagem icônica sobre a primeira missa no Brasil. Já a fonte 2 é um texto atual sobre o mesmo tema. Leia as fontes 1 e 2 com atenção.

Victor Meirelles. A Primeira Missa no Brasil. 1860. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Belas Artes

› Fonte 1

› Fonte 2 [...] Se os bonés vermelhos, os chapéus de linho, os guizos, os anéis de metal e os terços de contas brancas que os portugueses distribuíam os deixavam muito felizes, os índios não entendiam por que os visitantes obrigavam alguns dos seus, que aliás tratavam com a maior brutalidade, a passarem a noite em suas aldeias. Os indígenas ignoravam que se tratava de degredados, esses condenados de direito comum que deviam se meter na vida dos indígenas para arrancar deles o máximo de informações. Uma assembleia solene dos portugueses feita numa pequena ilha provocou o interesse de uma multidão de índios do Brasil, que amontoados na praia, assistiram de longe, sem saber, à primeira missa católica. Para marcar sua participação distante numa cerimônia que parecia tão importante para os portugueses, os indígenas começaram a dançar, pular, tocar corneta. GRUZINSKI, Serge. A passagem do século: 1480-1520: as origens da globalização. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p. 71.

a) O que se vê na obra de Meirelles? b) Pesquise: a que gênero de pintura pertence essa obra e com que intenção teria sido feita? Você pode acessar: <http://tub.im/oagg72> e <http://tub.im/qkjqmn>. c) Responda com base na fonte 2: qual foi a tática usada pelos portugueses para melhor conhecer os indígenas? d) O que se pode concluir, e está explícito, comparando a fonte 1 à fonte 2? e) A fonte 1 diverge da fonte 2 no tocante à reação dos indígenas à Primeira Missa; qual dessas versões você considera mais convincente? CAPÍTULO 13 | TEMPOS DE REIS PODEROSOS E IMPÉRIOS EXTENSOS

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Professor: observando a obra pintada por Michelangelo Buonarroti (1475-1564) no teto da Capela Sistina, no Vaticano, pode-se destacar a exuberância da figura feminina; a musculatura das costas, a sensação de movimento e o brilho das cores; a proporção e o volume dos corpos. O realismo na representação da

Capítulo 14

Renascimento e reformas religiosas 1497. Gravura. Coleção particular

Michelangelo Buonarroti. C. 1508-1510. Afresco. Capela Sistina, Cidade do Vaticano

figura humana presente nessa obra foi um traço comum aos artistas do Renascimento. Com a ajuda das ciências, pessoas, paisagens e objetos passaram a ser representados de forma realista. Já a gravura da direita mostra a turbulência em alto-mar e o edifício de uma Igreja Católica naufragando; portanto, o objetivo do artista foi sugerir a crise vivida pela Igreja Católica naquela época, que teve como um de seus desdobramentos o protestantismo. Comentar que uma das fontes

A imagem acima é uma gravura feita em 1497.

A imagem ao lado é um afresco de Michelangelo pintado alguns anos depois.

» O que mais chamou a sua atenção na obra de Michelangelo? » Como a figura humana está representada nessa obra? » Você a considerou realista? » Essa obra é um ícone do Renascimento; o que você sabe sobre esse movimento? » E a gravura à direita, o que mostra? » Sabe a que igreja pertence esse edifício que está naufragando? » A crise que a imagem sugere resultou no movimento protestante; o que

você sabe sobre esse movimento? » O Renascimento e a Reforma, movimentos a que essas imagens estão associa-

das, ocorreram na mesma época; que relação se pode estabelecer entre eles?

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de inspiração de Martinho Lutero, responsável pela Reforma protestante na Alemanha, foram as críticas dirigidas à Igreja por humanistas como Erasmo de Roterdã. Não é exagero dizer, portanto, que Lutero levou tais críticas às últimas consequências.

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Séc. XIV. Iluminura. Nationalbibliothek, Viena. Foto: Alinari via Getty Images

O Renascimento pode ser entendido como um movimento cultural, de amplas repercussões no tempo e no espaço, que floresceu na Europa entre os séculos XIV e XVI. Decisivo na conformação do mundo moderno, ele foi estimulado por uma série de mudanças socioculturais e políticas.

O ambiente histórico do Renascimento

Leonardo da Vinci. c. 1492. Tinta sobre papel. Galeria da Academia, Veneza

Vimos que, a partir do século XI, a Europa Ocidental foi palco de uma série de mudanças: crescimento da população, avanço técnico, aumento da produtividade agrícola e do comércio entre o Ocidente e o Oriente e ascensão da burguesia (mercadores, armadores, banqueiros). A burguesia ascendia socialmente e trazia consigo novos valores e novas atitudes. O cálcu“Vendendo arroz”, c. 1400. Iluminura do livro lo, indispensável ao sucesso das atividades burTacuinum Sanitatis em que se vê um mercador guesas, tornou-se fundamental. Comerciantes e vendendo arroz; observe ao lado dele uma balança. banqueiros eram, antes de tudo, calculadores do tempo, do espaço e dos riscos. No campo das atitudes, o coletivismo medieval foi cedendo lugar ao DIALOGANDO individualismo, que, para os renascentistas, era algo positivo, sinônimo Você considera que de capacidade individual, talento e criatividade de cada um. o cálculo continua Todas essas mudanças inspiraram sendo importante no mundo atual? uma nova visão de mundo, da arte Você seria capaz e do conhecimento, impulsionando, de citar exemplos assim, um movimento de grande redisso? novação cultural, único na história Respostas pessoais. do Ocidente: o Renascimento. Veja Professor: comentar que o cálculo é empregado nas mais um resumo das principais caracterísdiferentes atividades do dia a dia. ticas desse movimento. Este desenho é » Inspiração no passado greum estudo das co-romano. Os renascentistas proporções do corpo consideravam a arte dos antigos humano feito pelo artista e cientista gregos e romanos expressiva e Leonardo da Vinci perfeita e admiravam o conhepara o livro De cimento acumulado por eles. Architectura, de Marco Vitruvio, Por isso propunham o estudo 1492. da produção greco-romana. CAPÍTULO 14 | RENASCIMENTO E REFORMAS RELIGIOSAS

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a) Essa ideia deve-se aos renascentistas que percebiam a época vivida por eles como sendo de ruptura com a época anterior. b) Os homens que viveram entre os séculos XIV e XVI acreditavam que, ao desconsiderar a arte e o conhecimento produzidos na Idade Média e revalorizar as obras greco-romanas da Antiguidade clássica, estavam fazendo renascer a cultura. Daí o nome Renascimento.

» Antropocentrismo. O ser humano passa a ser o centro das atenções. Anteriormente predominava o teocentrismo medieval, a ideia de que tudo converge para Deus e de que o homem é apenas um ser corrompido pelo pecado. Lembre-se, no entanto, de que, longe de serem ateus, os renascentistas eram cristãos, mas queriam interpretar a Bíblia à luz do conhecimento e da experiência herdados da Antiguidade. Tinham interesse por tudo o que era humano e viam o homem como uma fonte inesgotável de energia e talento para a ação, a virtude e a glória. » Hedonismo. A visão do corpo como fonte de prazer e de beleza, em contraposição à visão medieval de que o corpo era fonte de perdição e pecado. » Uma nova concepção de tempo. Na Idade Média predominava a concepção cristã de tempo, idealizada por Tomás de Aquino e outros teólogos medievais. Eles consideravam que o tempo pertence a Deus. Por isso, nenhuma pessoa podia emprestar dinheiro a juros, pois isso seria “vender o tempo” (cobrar pelo tempo em que o dinheiro esteve emprestado). Os renascentistas rompem com essa concepção. Para eles, o tempo pertence ao homem e este pode usá-lo em benefício próprio para se aperfeiçoar, conhecer, experimentar e, inclusive, para enriquecer.

Para refletir Conceito e preconceito

c) De um lado, é visto como ruptura; de outro, como continuidade da arte e da cultura produzidas na Idade Média. d) Resposta pessoal. Professor: infelizmente são vários os exemplos, entre os quais podemos citar a expressão “só podia ser mulher”, usada quando alguém comete alguma imperícia no trânsito; “baianada”, usada no Sudeste para significar erro. O uso de expressões iguais a essas são um indício de forte preconceito, e a escola é um espaço privilegiado para trabalhar todo tipo de preconceito, seja ele de raça, gênero, origem ou classe social.

Renascimento foi o nome que os renascentistas deram à época vivida por eles e sentida como sendo de ruptura com a época anterior, a Idade Média, que eles chamavam de “Idade das Trevas”, “longa noite dos mil anos”. Os renascentistas acreditavam que, ao desconsiderar a arte e o conhecimento produzidos na Idade Média e revalorizar as obras greco-romanas da Antiguidade, estavam fazendo renascer a cultura. Daí o nome Renascimento. Mais tarde esse termo generalizou-se e passou a ser usado sem nenhum senso crítico, endossando a ideia de que a Idade Média teria sido um período de “decadência” entre dois outros de grande esplendor. Hoje, a maioria dos historiadores já não aceita essa visão preconceituosa; o Renascimento, por sua vez, já não é visto apenas como ruptura, mas também como continuidade da arte e do conhecimento produzidos na Idade Média. a) Segundo o texto, a quem se deve a ideia de que a Idade Média foi a Idade das Trevas? E o que explica isso? b) Qual a origem do nome Renascimento? c) Como o Renascimento é visto pelos historiadores atuais? d) Vimos que a expressão Idade das Trevas usada pelos renascentistas para se referirem à Idade Média é um indício de forte preconceito que eles tinham em relação às pessoas que viveram na época anterior à deles. Pesquise expressões preconceituosas usadas hoje no dia a dia e comente-as.

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O humanismo Em um ambiente de grande efervescência cultural, próprio do Renascimento, desenvolveu-se o humanismo, movimento intelectual que propunha o estudo dos autores antigos (gregos e romanos) para, a partir deles, construir um novo conhecimento do homem e do mundo. Com essa perspectiva, humanistas buscaram renovar o padrão de ensino e o currículo das universidades medievais que, na época, ofereciam basicamente três carreiras: direito, medicina e teologia. O conhecimento nesses centros de estudo era fortemente influenciado pela Igreja e baseava-se no princípio da autoridade; ou seja, bastava que um doutor da Igreja, ou alguém apoiado em suas ideias, fizesse uma afirmação para que ela fosse considerada verdadeira. Os humanistas rejeitaram essa visão de mundo, defendendo o uso da razão e da experiência para se chegar à verdade. Petrarca, um dos mais notáveis representantes do humanismo, propôs o ideal do imitatio (imitação dos antigos). Mas, para ele, imitatio não era sinônimo de repetição, e sim de inspiração, isto é, de criação a partir das obras greco-romanas. Petrarca considerava que a idade de ouro dos antigos, submersa sob o “barbarismo” medieval, deveria ser recriada pelos pensadores e artistas de seu tempo. Inicialmente, o termo humanista era usado apenas para os eruditos dispostos a reformar o currículo das universidades. Posteriormente, aplicou-se a todos os que criticavam a cultura dominante e se esforçavam para criar uma nova cultura centrada na capacidade de realização do indivíduo. Imbuídos desse ideal, os humanistas opuseram-se às verdades da Igreja medieval, desafiando seu domínio cultural e propondo um novo currículo universitário que incluía história, matemática e literatura.

Humanistas:

intelectuais que se dedicaram aos estudos da língua e da cultura greco-romana e se inspiravam nelas para produzir suas obras.

Hans Holbein. 1527. Óleo sobre tela. Galeria Nacional de Retratos, Londres

O escritor e jurista Thomas Morus (1478-1535), autor de Utopia, foi um dos humanistas mais ativos de seu tempo. Nesta obra, ele descreve uma ilha imaginária habitada por uma sociedade justa, fraterna, tolerante e racionalmente organizada. Seu objetivo, com isso, era o de criticar a injustiça, a cobiça, a intolerância e a irracionalidade observadas em sua época. Os humanistas sobreviviam do trabalho nas universidades, como mestres dos filhos de famílias ricas ou nas cortes dos reis. Morus atuou, por exemplo, na corte do rei inglês Henrique VIII. Os humanistas eram exímios conhecedores das línguas clássicas (o grego e o latim).

CAPÍTULO 14 | RENASCIMENTO E REFORMAS RELIGIOSAS

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Itália, berço do Renascimento Mecenas:

nome do conselheiro do imperador romano Otávio Augusto (27 a.C.-14 d.C.). Estudioso, o imperador procurou cercar-se de artistas e letrados. O substantivo próprio Mecenas deu origem a mecenato, palavra usada para a proteção dada às artes, ciências e letras por pessoas ricas.

1. Dica! Documentário sobre a poderosa família dos Médici. [Duração total: 109 minutos]. Dividido em duas partes. Para a primeira parte, acesse: <http://tub.im/ vvh6fy>. 2. Dica! Saiba mais sobre Giotto. [Duração: 5 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ kesqkc>.

As cidades italianas de Florença, Siena, Milão e Bolonha podem ser consideradas como o berço do Renascimento. Em busca de visibilidade, os homens ricos dessas cidades procuravam construir novas imagens de si e da sociedade, imagens que os representassem em posições de poder e prestígio. Com esse propósito, patrocinavam artistas, cientistas e letrados. Aos pintores pagavam para que pintassem quadros nos quais eram retratados sozinhos, em primeiro plano, ou em meio a personagens bíblicos. A nobreza e o clero italianos seguiram o exemplo da burguesia. Burgueses, príncipes e papas que patrocinavam as artes e as ciências eram chamados de mecenas. Entre os grandes mecenas da época estavam os membros de famílias poderosas, como os Médici, de Florença; os Sforza, de Milão; e os Bentivoglio, de Bolonha. 1

O Trecento, o Quattrocento e o Cinquecento Costuma-se dividir o Renascimento italiano em três fases: o Trecento (século XIV); o Quattrocento (século XV); e o Cinquecento (século XVI). O Trecento corresponde à fase inicial de elaboração da cultura renascentista, quando serão gestados e divulgados alguns dos padrões e valores da nova arte e do pensamento humanista. Na Itália desse período destacam-se Giotto, Duccio e Cimabue, na pintura; e Dante, Petrarca e Boccaccio, na literatura. Giotto (1267-1337) é o grande mestre do Trecento na pintura. Ele procurava conferir volume a suas imagens e destacar sua tridimensionalidade, alcançando, assim, um efeito de profundidade em suas composições. 2 Observe a cena. Giotto. Séc. XIV. Afresco. Scrovegni Chapel, Padua, Itália. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Joaquim entre os pastores. Giotto di Bondone. Séc. XIV. Afresco da Capela dos Scrovegni, Pádua, Itália. Rompendo com a estética e a hierarquia rígida da pintura medieval, Giotto fez dos seres humanos o foco principal da sua pintura. Note que, nesta imagem, as figuras humanas são maiores que as árvores. Além disso, exibem sua individualidade por meio de expressões, vestes e posturas diferenciadas. Perceba também como a expressão de cada uma delas revela seu estado de espírito e a figura do religioso é humanizada. Sua religiosidade evoca o franciscanismo, tão difundido à época entre os mais pobres. A origem humilde da maioria dos pintores desse período ajuda a explicar essas disposições de espírito.

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UNIDADE 4 | DIVERSIDADE RELIGIOSA: O RESPEITO À DIFERENÇA

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Domenico di Michelino. Séc. XV. Têmpera sobre painel. Duomo, Florença

Dante Alighieri, escritor renascentista italiano, autor da Divina comédia.

Sergey Borisov/Alamy/Latinstock/2015

Na literatura, destacaram-se: » Dante Alighieri (1265-1321) – prosador, poeta e autor da Divina comédia. Esse poema é uma combinação de características medievais e modernas. Com relação ao conteúdo e à visão do mundo, a obra é medieval: descreve a viagem imaginária de Dante pelo Reino dos Mortos, passando pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, onde se encontra com sua amada Beatriz. Mas em outros dois aspectos a obra é moderna: o poema é escrito em toscano (que daria origem ao italiano), e não em latim, como se fazia na Idade Média, e os personagens que aparecem na narrativa de Dante, assim como as figuras de Giotto, possuem características singulares e reais: são altos, baixos, gordos, magros, por exemplo. » Giovanni Boccaccio (1313-1375) – considerado o criador da prosa artística dos tempos modernos. Sua obra mais conhecida, Decameron (palavra de origem grega que significa “dez dias”), reúne 100 pequenos contos narrados por dez jovens que fugiam de Florença para escapar da peste de 1348. Sua descrição dos mais diversos sentimentos humanos (amor, ciúme, astúcia...) é realista. Os personagens buscam a conquista amorosa que se consuma no ato carnal. Durante o Quattrocento – a época de ouro do Renascimento – a cidade de Florença tornou-se o principal polo cultural da Europa. Isso se deve em parte ao fato de ter sido governada 1434-1492 pelos Médici, uma família de ricos banqueiros e comerciantes florentinos que criaram um ambiente propício às artes e aos estudos. Lourenço de Médici, o Magnífico, foi um mecenas arrojado e o maior colecionador de obras de arte do seu tempo, tendo incentivado sistematicamente a produção cultural e artística. Entre os nomes de destaque do Quattrocento italiano está o pintor, escultor e arquiteto Felipo Brunelleschi. Um de seus mais importantes trabalhos foi a cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore, obra que realizou sob encomenda. Ela é tida como um documento material da riqueza e do poder da burguesia florentina à época.

A imagem é uma vista atual da cidade italiana de Florença de cuja catedral sobressai a monumental cúpula projetada por Brunelleschi.

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Professor: o objetivo é familiarizar os alunos com debates sobre ética e vida pública.

DIALOGANDO Você considera válido um governante usar um meio ilícito para beneficiar o povo?

Agnolo Bronzino’s. 1565-1569. Óleo sobre tela. Coleção particular. Foto: G. Nimatallah/DEA/Getty Images

Dica! Vídeo sobre o livro O príncipe. [Duração: 50 minutos]. Acesse: <http://tub. im/fmesup>.

Retrato de Lourenço de Médici, o Magnífico, século XVI, a quem Maquiavel dedicou a obra O príncipe. Era comum mecenas pagarem pintores para retratá-los sozinhos ou na companhia dos santos. Sfumato (técnica do esfumaçamento):

representação do fundo do quadro com uma paisagem, cujas formas e coloração vão esmaecendo até se diluírem por completo.

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Outro grande artista do Quattrocento foi o escultor Donattello (13861466) que, com seu talento e técnica, marcou sua época. Seus personagens têm força psicológica e suas obras têm um sentido de monumentalidade. No campo das artes visuais, destacou-se Sandro Botticelli (1445-1510), que representa bem a combinação original entre o mundo greco-romano e o cristão. Durante o Quattrocento assistiu-se à superação da técnica do afresco pela técnica do quadro produzido em cavalete e as telas substituíram o quadro em madeira, facilitando o trabalho dos pintores. A partir de então, as obras podiam ser transportadas, o que intensificou sua comercialização. No Cinquecento, Florença declinou mas continuou se envolvendo em disputas comerciais e guerras com outras cidades da Itália (nelas se confrontavam exércitos mercenários chefiados pelos condottieri, chefes de tropas). Nesse ambiente turbulento, marcado por conspirações e golpes políticos, foi que o florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527) escreveu O príncipe, um manual sobre como deve agir o governante que deseja conquistar e manter o poder. Maquiavel é considerado por muitos o fundador da política como ciência. Sua principal obra, O príncipe, tem sido objeto de debates frequentes. Para alguns, Maquiavel criou a ideia de que os fins justificam os meios, isto é, qualquer meio é válido para se chegar ao poder; para outros, ele apenas registrou sua longa experiência na vida pública. Roma passou a ser o principal centro de produção renascentista no Cinquecento. Os papas Julio II (1510-1513) e Leão X (1513-1521), este último filho de Lourenço de Médici, criaram um ambiente de luxo e requinte cultural, propício à produção artística, e atraíram para Roma artistas da estatura de Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo Buonarroti (14751564) e Rafael Sanzio (1483-1520). A influência desses artistas foi decisiva e marcou praticamente toda a arte ocidental até o início do século XX. Eles incorporaram os aperfeiçoamentos técnicos e descobertas formais que vinham se multiplicando desde Giotto e lhes deram um acabamento refinado e, ao mesmo tempo, rico de significações. » Leonardo da Vinci foi cientista, inventor e artista, tendo pesquisado e contribuído em diversas áreas do conhecimento, como anatomia, física, botânica, geologia e matemática. Além disso, elaborou esboços de máquinas semelhantes aos atuais helicópteros, aviões, submarinos, tanques motorizados, metralhadoras, entre outras. Como pintor, trabalhou de forma primorosa a caracterização psicológica de seus personagens, além de usar com maestria o jogo de luz e sombra, a técnica da perspectiva e a do esfumaçamento (sfumato). Por meio desta última, produzia a impressão de uma neblina envolvendo os personagens em um clima de mistério e encantamento.

UNIDADE 4 | DIVERSIDADE RELIGIOSA: O RESPEITO À DIFERENÇA

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1. Dica! Vídeo sobre a trajetória e as obras de Leonardo da Vinci. [Duração: 29 minutos]. Acesse: <http://tub. im/tan764>. 2. Dica! Documentário sobre as obras de Da Vinci. [Duração: 53 minutos]. Acesse: < http://tub.im/ zpw4kk>. 3. Dica! Sequência de imagens da obra Pietá. [Duração: 4 minutos]. Acesse: <http://tub. im/5967wu>. 4. Dica! Conheça mais sobre Rafael Sanzio neste documentário. [Duração: 30 minutos]. Acesse: <http://tub. im/xd8djk>.

Michelangelo. Séc. XVI. Afresco. Cappela Sistina, Vaticano. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Sandro Botticelli. c. 1508. Óleo sobre velum. Museu do Louvre, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Exemplos bem acabados do talento e da capacidade técnica de Da Vinci são a Gioconda (Monalisa), A Virgem dos rochedos, A última ceia 1e2 e A Virgem e a criança com Santa Ana. » Michelangelo Buonarroti foi escultor, pintor e arquiteto, tendo trabalhado inicialmente sob a proteção do mecenas Lourenço, o Magnífico. Aos 23 anos já esculpia a Pietá e, três anos depois, o colossal Davi. Conhecido como “poeta do corpo”, pela forma magistral como o representava, Michelangelo imortalizou-se ao pintar afrescos nas paredes e no teto da Capela Sistina (Vaticano). São centenas de figuras, algumas enormes, cuja produção custou ao artista quase cinco anos de muito trabalho. As cenas retratadas são episódios da Bíblia, da história do povo hebreu, desde a criação do mundo e do homem 3 até o juízo final. » Rafael Sanzio usou com talento uma série de técnicas herdadas de seus antecessores, o que explica a perfeição das suas figuras – religiosas e/ou da mitologia greco-romana. Por isso tornou-se retratista oficial dos homens ricos do período e o modelo, por excelência, da arte oficial até o início do século XX. O equilíbrio, a harmonia e a serenidade exibida por seus personagens fazem dele um mestre no 4 controle das emoções.

À esquerda, A Virgem e a criança com Santa Ana (Sant’anna), de Leonardo da Vinci, 1508. À direita, detalhe do afresco O juízo universal, de Michelangelo Buonarroti. Michelangelo é conhecido com razão como o “poeta do corpo” (observe o movimento e a exuberância de um corpo pintado por ele) e tornou-se célebre pelos afrescos pintados no teto da Capela Sistina, em Roma. Neste, vemos representada em destaque uma figura masculina que o pintor chamou de Cristo juiz. Note a humanização da figura de Cristo, representado ao centro.

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No campo da literatura italiana, o Cinquecento viu surgir autores de epopeias como Ludovico Ariosto (Orlando furioso) e Torquato Tasso (Jerusalém libertada).

O Renascimento em outras regiões da Europa 1. Dica! Conheça mais sobre a vida e obras de Jan van Eyck. [Duração: 17 minutos]. Acesse: <http://tub. im/yzq2b5>. 2. Dica! Trailer do filme O moinho e a cruz (2012), que aborda a vida de Bruegel. [Duração: 2 minutos]. Acesse: <http://tub. im/5au69h>.

Flandres (Bélgica e parte da atual Holanda) Na literatura destacou-se o filósofo humanista cristão Erasmo de Roterdã (1466-1536), autor de Elogio da loucura, obra na qual dirige duras críticas à sociedade e à Igreja do seu tempo. Na pintura, os flamengos (naturais das terras onde hoje é a Bélgica e a Holanda) inovaram na arte do retrato, introduzindo o perfil e o retrato conjugal. Introduziram também as naturezas-mortas e as pinturas de paisagens, ambas de grande sucesso até nossos dias. Um artista flamengo, conhecido como Mestre de Flemalle, foi o criador da técnica da pintura a óleo, aperfeiçoada por dois artistas da mesma região, os irmãos Jan van 1 Eyck (1390-1441) e Hubert van Eyck (1366-1426). Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569), inovou retratando com cores vivas cenas camponesas e do cotidiano popular, como se pode observar em várias de suas obras, como Casamento rústico, Brincadeiras de crianças, A 2 dança do casamento, entre outras. Pieter Bruegel, O Velho. c. 1525-69. Óleo sobre painel. Detroit Institute of Arts. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

A dança do casamento, de Pieter Bruegel, c. 1566.

A expansão marítima luso-espanhola e a consequente descoberta de novas rotas comerciais ligando a Europa ao Oriente colaboraram para a decadência econômica das cidades italianas e a ascensão de outras cidades europeias. Além disso, o aperfeiçoamento da imprensa por Johannes Gutenberg, em meados do século XV, facilitou o aumento da produção e circulação de obras renascentistas por toda a Europa, bem como o crescimento do número de leitores. Esses fatores contribuíram para que o Renascimento se expandisse a partir da Itália para outras regiões da Europa.

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Realidade e fantasia se misturam na obra do mais original dos mestres flamengos: o pintor Hieronymus Bosch (1450-1516). Suas pinturas, como O jardim das delícias, As tentações de Santo Antão e A nave dos loucos, focam paisagens e personagens fantásticos que habitavam o imaginário medieval. A obra de Bosch contém uma crítica severa à transgressão moral, presente na sociedade de seu tempo.

No Renascimento inglês destacou-se o pensador e pesquisador Francis Bacon (1561-1626), autor de Novum Organum e sistematizador do método indutivo, segundo o qual o conhecimento deve apoiar-se na experiência, e não na teoria. No teatro, despontou William Shakespeare (15641616), autor de Romeu e Julieta, a história de amor ocidental que mais ganhou adaptações no teatro, nos quadrinhos e no cinema. Por meio de seus personagens psicologicamente bem caracterizados, o dramaturgo inglês nos coloca questões de alcance universal e atemporal, o que certamente ajuda a explicar a atualidade da sua obra. Shakespeare tem uma história semelhante à da burguesia londrina. Por meio do trabalho, da disciplina e da moderação nos gastos, conseguiu riqueza e prestígio social, terminando seus dias como um empresário de sucesso. Isso ajuda a explicar por que, nas suas três grandes tragédias (Macbeth, Hamlet e Henrique IV), ele valorizou a ordem estabelecida e representou o caos e a desordem como ameaças a ela. Além disso, o dramaturgo mostrou simpatia por uma monarquia forte e uma moral rígida.

Filme de Kenneth Branagh. Hamlet. 1996. ING. Foto: Album Cinema/Latinstock

Inglaterra

Cena do filme Hamlet (1996).

Portugal Nas artes gestuais destaca-se o dramaturgo Gil Vicente (c.1470-c.1536), cuja obra exalta os ideais cristãos, guerreiros e aristocráticos da nobreza. Criador do teatro nacional português, Gil Vicente produziu uma obra volumosa, recheada por disputas, fantasias, muita aventura e com grande aceitação nos meios populares. Mas o Renascimento português foi marcado por Luís Vaz de Camões (1524-1580), um dos maiores poetas e escritores de todos os tempos. Camões é autor de Os Lusíadas, epopeia que enaltece os feitos do povo lusitano no mar e em terras distantes, mas que também prevê as perdas causadas por sua ambição ilimitada.

Dica! Documentário sobre a vida de Camões. [Duração: 54 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ bydq97>.

CAPÍTULO 14 | RENASCIMENTO E REFORMAS RELIGIOSAS

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Espanha Dica! Documentário sobre a obra Dom Quixote. [Duração: 47 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ g6uxxn>.

Mosaico. Sevilha. Foto: Calle Montes/Photononstop/Latinstock

Detalhe de um mosaico localizado na cidade espanhola de Sevilha, 2011. A imagem representa os dois principais personagens da obra: D. Quixote e seu fiel escudeiro, Sancho Pança, diante dos moinhos de vento (vistos ao fundo) que se dispunham a enfrentar.

Chama atenção no Renascimento espanhol o pintor Domenico Theotokopoulos, chamado El Greco (1541-1614). Sua obra se caracteriza pela representação alongada da figura humana e pelo uso de tons frios, recursos que acentuam a espiritualidade dos personagens retratados, envolvendo-os em uma atmosfera mística. Sua tela mais famosa é Funeral do conde de Orgaz. » Miguel de Cervantes (1547-1616) é autor de Dom Quixote de La Mancha, um clássico da literatura universal, e também um dos livros mais lidos no mundo: em número de traduções a obra só perde para a Bíblia. Um dos personagens centrais do romance é Dom Quixote, um nobre sonhador, que sai em busca de justiça e de um mundo melhor. Por meio desse personagem, Cervantes satiriza as novelas de cavalaria (obras que tematizam feitos heroicos de cavaleiros que, de espada em punho, colocam em risco a própria vida para defender os oprimidos, os injustiçados, as donzelas em perigo, as viúvas desamparadas e os preceitos da fé cristã). Outro personagem central na obra é o escudeiro de Dom Quixote, de nome Sancho Pança, que, diferentemente de seu amo, tem grande atração pelo modo de vida burguês e representa o apego aos valores materiais. Cervantes usa a ironia e o humor para criticar tanto a nobreza, na figura de Dom Quixote, quanto a burguesia, representada por Sancho Pança. Mas o romance ultrapassa a crítica a dois modos de vida e a diferentes tempos e nos coloca uma questão essencial da existência humana: a ambivalência entre a busca da objetividade e a presença da subjetividade, do sonho e da fantasia na vida de cada um.

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Alemanha e França Na Alemanha renascentista, a forma mais espetacular de arte visual foi a gravura sobre metal ou madeira. Albrecht Dürer (1471-1528), o mais talentoso gravurista do Renascimento alemão, era dotado de uma técnica primorosa; por isso, conseguiu fixar com riqueza de detalhes cenas e personagens do mundo real e do sobrenatural. Na França destacou-se o humanista François Rabelais (1484-1553), autor de obras como Gargântua e Pantagruel, nas quais defendia a liberdade e condenava tudo o que conduzisse à dominação de uma pessoa sobre outras. Essas obras foram consideradas pelo estudioso russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) como uma enciclopédia da cultura popular. Para ele, Rabelais 1 é o mais popular dos grandes autores renascentistas.

1. Dica! Documentário sobre o Renascimento e as transformações do mundo moderno. [Duração: 44 minutos]. Acesse: <http://tub. im/i62b4w >. 2. Dica! Documentário sobre Galileu e seus estudos. [Duração: 112 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ cz2wf6>.

Durante o Renascimento, as verdades defendidas pelos filósofos da Igreja vão sendo contestadas pela observação metódica e pelo emprego da experiência, atitude que mais tarde seria chamada de científica. O espírito crítico e o estudo sistemático da natureza e do ser humano impulsionaram um extraordinário avanço da ciência, com destaque para a astronomia, a matemática, a física e a medicina. Um dos maiores cientistas da época foi Nicolau Copérnico (1473-1543), matemático e físico polonês que descreveu os movimentos da Terra e formulou a teoria do heliocentrismo (o Sol como centro do sistema planetário). O ex-frade dominicano Giordano Bruno (1548-1600) também era favorável àquela teoria e à ideia de que o Universo não é estático. Depois de debater suas teses com doutores de várias universidades europeias, tentou demonstrá-las para o papa. Resultado: Giordano Bruno foi condenado por crime de heresia e queimado numa fogueira. Mas foi Galileu Galilei (1564-1642) o cientista que comprovou a teoria do heliocentrismo, proposta por Copérnico. Usando um pequeno telescópio aperfeiçoado por ele mesmo, Galileu verificou que a Terra era apenas mais um astro, entre bilhões de outros, a girar em torno do Sol. Na época, a Igreja defendia o geocentrismo (a Terra no centro do sistema planetário). Por defender o heliocentrismo, Galileu foi julgado por um tribunal da Igreja e, para escapar à morte, negou sua descoberta. Somente em 1992 a Igreja 2 suspendeu a pena canônica imposta ao criador da física moderna. O médico belga Andreas Vesalius, autor da obra De humani corporis fabrica (1543), revolucionou a ciência médica ao elaborar a descrição mais precisa e detalhada da anatomia humana feita até então. A produção artística e científica do Renascimento atravessou o tempo e continua influenciando as artes e as ciências dos nossos dias.

Andreas Vesalius. 1543. Ilustração. Coleção particular

Renascimento científico

Uma das principais descobertas de Vesalius é a de que há pequenas diferenças de indivíduo para indivíduo no que diz respeito à anatomia humana.

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A Reforma protestante

2. Dica! Trecho do filme Lutero que trata da venda de indulgências. [Duração: 6 minutos]. Acesse: <http://tub. im/7znip9>.

Xilogravura de Joerg Breu, c. 1530. A cena mostra a venda de indulgências. À direita e abaixo, vê-se uma pessoa carregando a cruz, e a outra, a bandeira do papado. Vê-se, ainda, um religioso lendo o documento que garante ao comprador a remissão dos pecados. À esquerda, o pecador deposita o total de moedas para a compra da sua “salvação”. O homem que recebe as moedas é provavelmente um banqueiro, pois a Igreja também fez alianças com eles para a arrecadação de dinheiro na Europa. Exemplo disso eram os fuggers, banqueiros alemães que tinham o direito de cobrar indulgências e obtinham um terço da arrecadação por esse serviço.

Motivações da Reforma Como vimos, durante os séculos conhecidos como Idade Média, a Igreja era a instituição mais rica e poderosa do Ocidente medieval. O papa – a maior autoridade da Igreja – intermediava conflitos entre grandes senhores, celebrava acordos entre países, interferia na escolha de reis, entre outras funções. Durante o processo de formação das monarquias nacionais europeias, o poder do papa – líder de todos os cristãos na Europa – tornou-se uma ameaça ao poder dos reis em suas respectivas nações. Os reis entendiam que o fato de o papa cobrar vários impostos em toda a Europa e carrear o dinheiro para Roma empobrecia seus respectivos reinos. A burguesia em ascensão também estava insatisfeita com a doutrina oficial da Igreja católica, que se opunha ao empréstimo de dinheiro a juros (usura) e ao livre estabelecimento de preços de mercadorias. Entre os populares havia muita insatisfação com os representantes da Igreja. O clero era acusado também de lucrar com o comércio de artigos religiosos e de não respeitar o celibato (muitos padres tinham mulher e filhos). Bispos e padres eram vistos vendendo relíquias, como pedaços de madeira, dizendo que pertenciam à cruz de Cristo, por exemplo. Além disso, arrecadavam o dinheiro com a venda de indulgências, isto é, o perdão dos 2 pecados em troca de uma doação em dinheiro à Igreja. Jorg Breu, o Velho. C. 1530. Xilogravura. Coleção particular

1. Dica! Documentário sobre a Reforma protestante. [Duração: 46 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ b6fyy4>.

Enquanto o Renascimento se disseminava da Itália para outros países da Europa, um movimento religioso e político aflorou nas terras da atual Alemanha. A nova atitude diante do conhecimento e do mundo, que inspirou artistas e cientistas, contribuiu também para abalar as “verdades” defendidas pela Igreja e criar rachaduras no seu edifício. Para melhor compreender a Reforma protestante é preciso considerar que suas motivações religiosas aparecem entrelaçadas 1 às de ordem política, social, econômica e cultural.

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A Alemanha de Lutero A Alemanha de Martinho Lutero era uma região predominantemente feudal e possuía um clero rico e poderoso. Politicamente, era formada por uma série de condados, ducados, principados e cidades independentes, que reconheciam apenas uma lealdade limitada ao imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Portanto, lá não existia um poder central com força para conter abusos. Isso ajuda a explicar por que ali algumas autoridades da Igreja praticavam o comércio de artigos religiosos de forma mais ostensiva. Foi nessa Alemanha, politicamente dividida e economicamente explorada por representantes do clero, que Lutero começou a pregar suas ideias. Depois de ter estudado Direito por algum tempo por influência do pai, Lutero ingressou no curso Teologia e tornou-se monge agostiniano. Durante o tempo em que esteve no convento, preocupado com a salvação de sua alma, se dispôs a jejuar e a fazer penitência, chegando inclusive a se autoflagelar. Enquanto isso, visando juntar recursos para construir a Basílica de São Pedro, em Roma, o papa Leão X incumbiu os dominicanos de vender indulgências. Esse foi o estopim da Reforma protestante. Na Alemanha, o frade dominicano João Tetzel prometia que todo aquele que confessasse seus pecados e desse dinheiro à Igreja romana receberia uma indulgência plena, isto é, o perdão de todos os pecados.

Dica! Versão protestante sobre a atuação do reformador John Wycliffe. [Duração: 14 minutos]. Acesse: <http://tub. im/99zaqm>.

CAPÍTULO 14 | RENASCIMENTO E REFORMAS RELIGIOSAS

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Ulrich von Richental. Séc. XV. TInta sobre papel. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Muitos cristãos, percebendo que parte do clero estava afastada dos ensinamentos de Cristo, tentaram reformar a Igreja sem desligar-se dela e acabaram por originar novas ordens religiosas, como a dos franciscanos e a das clarissas. Outros movimentos pleitearam mudanças religiosas e sociais radicais, tendo sido chamados, por isso, de heréticos. Foram considerados heréticos os movimentos liderados por John Wycliffe (1320-1384), na Inglaterra, e por Jan Huss (1369-1415), em Praga (na atual República Tcheca). Wycliffe, teólogo e tradutor da Bíblia para o inglês, atacava a opulência e a corrupção do clero e defendia a apropriação das terras da Igreja pelo governo. Huss, professor da Universidade de Praga e tradutor da Bíblia para o tcheco, por sua vez, tornou-se muito popular entre as camadas pobres da população por A execução de Jan Huss no Concílio seus ataques à cobiça e ao desregramento da Igreja. de Constança. Vendo que o movimento hussita crescia, as autoridades da Igreja acusaram Jan Huss de heresia e ordenaram que fosse queimado na fogueira, em 6 de julho de 1415.

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1. Dica! Seleção de cenas do filme Lutero sobre a vida e a obra desse reformador. [Duração: 7 minutos]. Acesse: <http://tub. im/ysxt2c>. 2. Dica! Documentário sobre a reforma luterana. [Duração: 29 minutos]. Acesse: <http://tub.im/ bktaaa>.

Séc. XIX. Gravura. Coleção particular. Foto: Ullstein bild via Getty Images

Litogravura do século XIX que mostra o teólogo e reformador Martinho Lutero. Note que ele valoriza a Bíblia, a única fonte de verdade na doutrina luterana.

Isso foi visto como um abuso por muitos. Reagindo à venda de indulgências, Martinho Lutero afixou, na porta da Igreja de Wittenberg, 95 teses contendo suas principais críticas à Igreja. Leia a seguir algumas teses de Lutero: Tese 24. [...] a maior parte do povo está sendo [...] necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena. Tese 27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando. [...] Tese 32. Serão condenados [...], juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência. [...] Tese 75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem [...] é loucura. Tese 86. Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior que a dos mais ricos Crassos [romanos ricos], não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta [...] Basílica de São Pedro, em vez de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis? LUTERO. In: SEFFNER, Fernando. Da Reforma à Contrarreforma: o cristianismo em crise. 7. ed. São Paulo: Atual, 1993. p. 36-37. (História geral em documentos).

As 95 teses foram traduzidas do latim para o alemão e em pouco tempo tiveram ampla aceitação popular. O papa Leão X, por sua vez, publicou uma bula na qual ordenava a queima pública das obras de Lutero, exigia que ele se retratasse no prazo de 60 dias e o ameaçava de excomunhão. Lutero não voltou atrás no que tinha dito e, no Natal de 1520, queimou a bula papal em praça pública. O papa, então, o excomungou. Em apoio ao papa, em 1521, o imperador Carlos V convocou a Dieta de Worms, uma assembleia formada por príncipes, para julgar Lutero. No entanto, Lutero conquistou o apoio da maioria dos príncipes e foi absolvido. O imperador, porém, o considerou herege e mandou queimar seus escritos. Lutero, por sua vez, refugiou-se no castelo de um amigo e lá traduziu a Bíblia para o alemão, o que permitiu a muitas pessoas o acesso direto às mensagens bíblicas. Muitos príncipes alemães aderiram à Reforma e confiscaram as terras da Igreja em seus principados. Com o apoio desses príncipes, Lutero fundou uma Igreja para a qual elaborou uma nova doutrina. 1 e 2

A doutrina luterana Principais pontos da doutrina luterana:

1. A justificação pela fé. Para Lutero, somente a fé em Deus salva (as boas obras não têm importância para a salvação: elas são apenas um sinal da graça de Deus). 2. A Bíblia é a única fonte da verdade; daí a importância de se traduzi-la para a língua do povo de cada região ou país.

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UNIDADE 4 | DIVERSIDADE RELIGIOSA: O RESPEITO À DIFERENÇA

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3. Sacerdócio universal. Todo cristão é capaz de interpretar a Bíblia por si mesmo. 4. O celibato clerical, a ideia de que o papa é infalível e o culto às imagens não têm fundamento. 5. O Batismo e a Eucaristia (Comunhão ou Santa Ceia) são os únicos dois sacramentos.

6. O ofício religioso deve ser ministrado na língua nacional e não em latim.

1525. Gravura. Coleção particular

Alguns aspectos do luteranismo, como a leitura individual do Novo Testamento no qual Cristo mostra seu comprometimento com os pobres e oprimidos, atraíram e motivaram as massas camponesas a se revoltarem.

As revoltas camponesas Liderados por pastores e pelo pregador Thomas Munzer, os camponeses alemães promoveram várias revoltas entre 1523 e 1525, que exigiam o fim da servidão e a posse comunitária da terra. Lutero negou seu apoio à revolta. Diante disso, esses camponeses radicalizaram seus atos, atacando castelos e cidades e distribuindo terras e alimentos entre os pobres. Ao saber do ocorrido, Lutero lançou um panfleto violento condenando drasticamente a revolta e Munzer, o seu principal líder. Após inúmeros conflitos sangrentos, os exércitos da nobreza reprimiram e mataram milhares deles, inclusive Thomas Munzer.

A origem do termo “protestante”

Esta gravura de 1525 representa um aspecto das revoltas camponesas na Alemanha. À esquerda vemos três camponeses, dois deles com instrumento de trabalho nas mãos e outro com um estandarte em que se vê Cristo crucificado. Os personagens à direita parecem ser seus opositores; repare que um deles aparece com a espada na cintura. Ao fundo vemos outros camponeses, um anjo e a Virgem Maria. Inicialmente, os camponeses abraçaram algumas ideias de Lutero e alimentaram a esperança de se libertar de seus senhores. Mas não foi isso que aconteceu.

O luteranismo continuou avançando rapidamente. Diante disso, o imperador católico Carlos V reuniu a Dieta de Spira (1529), visando conter a expansão da nova doutrina. O imperador proibiu o culto protestante nos principados católicos e exigiu que os principados luteranos permitissem aos católicos a celebração da missa. Os príncipes luteranos protestaram; daí o nome de protestantes dado aos adeptos das igrejas surgidas a partir da Reforma. As divergências entre os príncipes alemães deram origem a guerras religiosas que se prolongaram até 1555. A assinatura da Paz de Augsburgo estabeleceu o princípio cujus regio ejus religio, ou seja, “a religião de uma região será a mesma que a do seu príncipe”. Concluía-se, assim, o rompimento da unidade religiosa da Europa Ocidental.

CAPÍTULO 14 | RENASCIMENTO E REFORMAS RELIGIOSAS

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Para saber mais O luteranismo e o livro impresso Editora Ática

Entre 1517 e 1520, as trinta publicações de Lutero venderam com toda a probabilidade mais de 300 mil exemplares [...] Diferentemente do que ocorrera com as heresias de Wycliffe [...], o luteranismo foi, desde o início, uma criação do livro impresso. Pela primeira vez, na história da humanidade, um grande público ledor julgava a validade de ideias revolucionárias por meio de um veículo de massa que usava tanto a língua vernácula como as artes do jornalista e do cartunista. EISENSTEIN, Elizabeth L. A revolução da cultura impressa: os primórdios da Europa moderna. São Paulo: Ática, 1998. p. 167. (Múltiplas escritas).

DIALOGANDO Fac-símile da capa do livro A revolução da cultura impressa, de Elizabeth L. Eisenstein.

Você considerou o argumento da autora convincente? Por quê? Sim; pois ela fornece dados que comprovam sua afirmação de que o luteranismo foi uma criação do livro impresso.

O calvinismo na Suíça Conforme o luteranismo foi se espalhando e ganhando adeptos, foram surgindo novas visões dentro dele. Uma dessas visões é a do reformador francês João Calvino (1509-1564). Como Lutero, Calvino acreditava que a salvação acontece apenas pela fé, rejeitava o culto às imagens e admitia apenas dois sacramentos: o Batismo e a Eucaristia. A base de sua doutrina, porém, era a crença na predestinação absoluta: as pessoas nada podiam fazer para mudar seu destino. Alguns indivíduos estavam predestinados à salvação eterna; outros, à morte eterna. Para Calvino, acordar e dormir cedo, gastar com moderação, dedicar-se inteiramente à oração e ao trabalho, não participar de jogos de azar e não ingerir bebidas alcoólicas eram indícios de salvação; o indivíduo que assim agisse dava mostras de ser um eleito de Deus. Ao valorizar o enriquecimento por meio do trabalho sistemático, de uma vida regrada e de moderação nos gastos, o calvinismo legitimava o estilo de vida metódico e racional da burguesia nascente, favorecendo assim o desenvolvimento do capitalismo. Por isso, o sociólogo alemão Max Weber, autor de A ética protestante e o espírito do capitalismo, disse que existe uma relação estreita entre calvinismo e capitalismo.

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Dica! Vídeo sobre a Reforma na Suíça. [Duração: 14 minutos]. Acesse: <http://tub.im/a4xaew>.

Jean Perrissin. c. 1564. Biblioteca Pública e Universitária de Genebra

Em 1541, Calvino se tornou a principal figura do governo genebrês e impôs uma rígida disciplina moral e religiosa a todos os seus habitantes, proibindo festas, teatro e jogos de azar. Os que desrespeitassem as regras impostas pagavam multas, eram excomungados ou mesmo punidos com a morte. Incentivando a racionalidade no trabalho e o hábito de poupar, o calvinismo fornecia uma justificação religiosa para o ideário burguês. Isso contribuiu para que a nova doutrina se espalhasse pela Europa Ocidental. Na Escócia, os calvinistas foram chamados de presbiterianos; na Inglaterra, de puritanos; na França, de huguenotes.

Nos templos calvinistas, como este que se vê na imagem, não havia esculturas ou pinturas. O púlpito e o pastor ocupavam posição de destaque. É que, para Calvino, o culto devia resumir-se a “quatro paredes e um sermão”. Note que as mulheres cobriam a cabeça e usavam roupas longas, uma forma de demonstrar que possuíam a moral rígida que Calvino exigia de seus seguidores. Pintura de Jean Perrissin, c. 1564. Arthur Hopkins. Séc. XIX. Óleo sobre tela. Gallery Oldham, Inglaterra. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

A Reforma na Inglaterra Na Inglaterra, a Reforma foi conduzida por um rei de nome Henrique VIII (1491-1547). Por querer se divorciar de Catarina de Aragão, Henrique VIII pediu ao papa a anulação de seu casamento, alegando que, depois de várias tentativas, ela não lhe dera um filho homem para ser herdeiro do trono. Pressionado pelo imperador Carlos V (Espanha e Sacro Império) – que era sobrinho da rainha Catarina –, o papa negou ao rei a autorização. Afrontando a autoridade do papa, Henrique VIII casou-se com Ana Bolena (1533), que já estava grávida de quatro meses. No mesmo ano, o papa anulou o novo casamento e excomungou o rei inglês. Obra do século XIX sobre um episódio do século XVI, envolvendo a agitada vida amorosa do rei Henrique VIII. A cena é uma representação em que se vê ele ao lado de Ana Bolena.

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Dica! Vídeo que aborda a biografia de Henrique VIII. [Duração: 12 minutos]. Acesse: <http://tub. im/ao5bby>.

O parlamento inglês colocou-se ao lado de Henrique VIII e aprovou o Ato de Supremacia de 1534. Por esse ato, o rei tornava-se o chefe supremo da nova Igreja nacional, batizada então de Igreja anglicana. O rei passava a acumular ao mesmo tempo poder político e religioso. Com seu poder aumentado, Henrique VIII confiscou todos os mosteiros e as propriedades da Igreja, que foram vendidos ou dados de presente a famílias nobres e burguesas que o apoiaram. Esses grupos tornaram-se grandes defensores do anglicanismo. A Igreja anglicana conservou a doutrina católica, com algumas alterações, e a hierarquia eclesiástica: o clero inglês passou a ser visto como aliado do rei. Isso motivou uma série de conflitos entre os anglicanos (partidários da religião oficial) e os puritanos (calvinistas ingleses). Nos séculos seguintes, os puritanos, duramente perseguidos por rainhas e reis ingleses, emigraram em massa para a América do Norte.

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Áreas de domínio católico Áreas de domínio luterano Áreas de domínio calvinista Áreas de domínio anglicano

Fonte: MICELI, Paulo. História moderna. São Paulo: Contexto, 2013. p. 80.

A Contrarreforma Reagindo ao avanço do protestantismo pela Europa, a Igreja católica iniciou um movimento para se fortalecer, divulgar o catolicismo e deter o avanço das ideias protestantes. Esse movimento ficou conhecido como Contrarreforma ou Reforma católica e foi levado adiante pelos jesuítas e pelo Concílio de Trento e fez uso da Inquisição para intimidar seus adversários.

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Os jesuítas A Ordem dos Jesuítas, denominada também Companhia de Jesus, foi fundada pelo ex-capitão espanhol Inácio de Loyola, em 1534, e reconhecida pelo papa Paulo III seis anos depois. O principal objetivo dos jesuítas era a propagação do catolicismo por meio da pregação, do ensino e da catequese dos nativos do além-mar. Para isso, fundaram colégios e missões em várias partes do mundo, como Portugal, Índia, China, Brasil, entre outros. Inácio de Loyola converteu-se ao catolicismo no hospital, quando se recuperava de um ferimento em uma batalha. O papa Paulo III submeteu Inácio e mais nove companheiros a um exame público de doutrina. Depois disso, concedeu-lhes a faculdade de pregar e confessar no mundo inteiro sem ter de pedir permissão aos bispos locais. A imagem representa o encontro entre o papa e o fundador da Companhia de Jesus. Autor desconhecido (detalhe). Séc. XVI. Chiesa del Gesu, Roma. Foto: Roger Viollet/Glow Images

Assim como Inácio de Loyola, os padres jesuítas tinham sólida formação cultural, disciplina rigorosa e intensa atividade militante. Isso explica o modo de atuação dos “soldados de Cristo” no projeto de catequese desenvolvido por eles na América, na África e na Ásia, onde criaram uma rede de colégios. Na Europa, os jesuítas atuavam em várias frentes e foram o braço direito do papa durante o Concílio de Trento.

O Concílio de Trento Convocado pelo papa Paulo III, o Concílio de Trento (1545-1563) sofreu várias interrupções em razão de guerras, de reduzido número de participantes e de uma peste que se abateu sobre a região. Esse concílio tomou uma série de resoluções que governaram a Igreja por séculos: » reconheceu como crime a prática da venda de indulgências; » conservou os sete sacramentos e o culto à Virgem Maria e aos Santos; » reafirmou o poder do papa e a doutrina católica, com base na Bíblia e na tradição (e não somente na Bíblia, como desejavam os protestantes); » fixou regras para a formação dos padres (seminários) e dos regulares (clausura); » reeditou o Index (relação de livros que os católicos ficavam proibidos de ler).

Dica! Documentário sobre a trajetória dos jesuítas como missionários e educadores. [Duração total: 20 minutos]. Dividido em duas partes. Para a primeira parte, acesse: <http:// tub.im/6mi94f>.

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Pedro Berruguete (detalhe). C. 1450. Museu do Prado, Madri. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

A Inquisição Com o avanço da Reforma protestante, o papa Paulo III reativou uma antiga instituição medieval: o Tribunal do Santo Ofício, também chamado de Inquisição. Em 1542, ele criou o primeiro tribunal permanente. Na Espanha, a Inquisição era subordinada à realeza e não ao papado, e os reis a usaram para se fortalecer. Por exemplo, em 1492, por recomendação da Inquisição, os reis espanhóis expulsaram os judeus da Espanha. Com o domínio espanhol sobre Portugal e suas colônias (entre 1580 e 1640), muitos inquisidores foram enviados para Bahia, Pernambuco, Itamaracá e Paraíba com a missão de prender cristãos-novos.

Queima de livros hereges, detalhe da obra São domingos e os albigenses, de Pedro Berruguete, c. 1450. Inquisição:

instituição medieval criada pela Igreja, em 1231, para combater hereges, ou seja, aqueles que se desviavam da sua doutrina. Em 1821, o governo de Portugal extinguiu a Inquisição no país.

Cristão-novo:

judeu convertido ao cristianismo.

Dica! Documentário sobre os instrumentos de tortura utilizados pela Inquisição. [Duração: 43 minutos]. Acesse: <http://tub. im/sm9hvx >.

Depois disso, as visitas do Santo Ofício prosseguiram, sobretudo em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, onde os inquisidores inventavam culpados e os encaminhavam ao Tribunal de Lisboa. No Brasil, porém, a atuação da Inquisição foi menos intensa do que na América espanhola, região que contava com tribunais próprios. As maiores vítimas da Inquisição foram hereges, judeus, protestantes, mulheres tidas como bruxas, bígamos e acusados de blasfêmia. A Inquisição prendeu ricos e pobres; muitos foram julgados e condenados à perda dos bens (terra, casa, móveis), à prisão perpétua e, às vezes, à morte na fogueira. Quando alguém era preso pela Inquisição, ele e seus descendentes até o quarto grau ficavam impedidos de ter acesso a empregos públicos, títulos, honrarias e distinções. Enfim, onde quer que tenha atuado, a Inquisição agiu de modo violento e intolerante. DIALOGANDO Nos dias atuais temos visto exemplos de intolerância religiosa em várias partes do mundo. Você seria capaz de dar um exemplo? E no Brasil, isso também tem acontecido? O que você pensa sobre a intolerância religiosa? Resposta pessoal.

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ATIVIDADES

ESCREVA NO CADERNO.

I. Retomando 1. (Enem/MEC – 2013)

› Texto 1 Há já algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princípios tão mal assegurados não podia ser senão mui duvidoso e incerto. Era necessário tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente a fim de estabelecer um saber firme e inabalável. DESCARTES, R. Meditações concernentes à Primeira Filosofia. São Paulo: Abril Cultural, 1973 (adaptado).

d) buscar uma via para eliminar da memória saberes antigos e ultrapassados. e) encontrar ideias e pensamentos evidentes que dispensam ser questionados. 2. (Enem/MEC – 2013) Nasce daqui uma questão: se vale mais ser amado que temido ou temido que amado. Responde-se que ambas as coisas seriam de desejar; mas porque é difícil juntá-las, é muito mais seguro ser temido que amado, quando haja de faltar uma das duas. Porque dos homens se pode dizer, duma maneira geral, que são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos de lucro, e enquanto lhes fazes bem são inteiramente teus, oferecem-te o sangue, os bens, a vida e os filhos, quando, como acima disse, o perigo está longe; mas quando ele chega, revoltam-se. MAQUIAVEL, N. O príncipe. Rio de Janeiro: Bertrand, 1991.

› Texto 2 É o caráter radical do que se procura que exige a radicalização do próprio processo de busca. Se todo o espaço for ocupado pela dúvida, qualquer certeza que aparecer a partir daí terá sido de alguma forma gerada pela própria dúvida, e não será seguramente nenhuma daquelas que foram anteriormente varridas por essa mesma dúvida. SILVA, F. L. Descartes: a metafísica da modernidade. São Paulo: Moderna, 2001 (adaptado).

A exposição e a análise do projeto cartesiano indicam que, para viabilizar a reconstrução radical do conhecimento, deve-se a) retomar o método da tradição para edificar a ciência com legitimidade. b) questionar de forma ampla e profunda as antigas ideias e concepções. 1. Resposta: b. c) investigar os conteúdos da consciência dos homens menos esclarecidos.

A partir da análise histórica do comportamento humano em suas relações sociais e políticas, Maquiavel define o homem como um ser a) munido de virtude, com disposição nata a praticar o bem a si e aos outros. b) possuidor de fortuna, valendo-se de riquezas para alcançar êxito na política. c) guiado por interesses, de modo que suas ações são imprevisíveis e inconstantes. 2. Resposta: c. d) naturalmente racional, vivendo em um estado pré-social e portando seus direitos naturais. e) sociável por natureza, mantendo relações pacíficas com seus pares. 3. (UFRGS – 2014) Os humanistas dos séculos XV e XVI procuraram validar os modelos antigos nas artes, na filosofia, na política, na literatura, desviando-se das derivações medievais. Nesse sentido, as inovações do Renascimento podem ser definidas como retomada de concepções antigas e criações inéditas. CAPÍTULO 14 | RENASCIMENTO E REFORMAS RELIGIOSAS

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Considere os seguintes autores e respectivas obras. I.

Maquiavel e a obra O Príncipe – Thomas Morus e a obra Utopia

II. Montaigne e a obra Ensaios – Rousseau e a obra O contrato social III. Da Vinci e a obra Mona Lisa – Michelângelo e a obra Moisés Quais são desse período? a) Apenas I. b) Apenas II. c) Apenas III. d) Apenas I e II. e) Apenas I e III.

3. Resposta: e.

4. (UEG – 2014) Para chegar a conclusões decisivas sobre o sentimento religioso dos homens do Renascimento temos de seguir outro caminho. É pela sua cultura intelectual que temos de explicá-la. Estes homens modernos, que representam a civilização italiana do tempo, nasceram religiosos como os ocidentais da Idade Média, mas seu poderoso individualismo tornou-os totalmente subjetivos. BURCKHARDT, Jacob. A civilização da renascença italiana. Lisboa: Presença, s.d. p. 392.

Por meio da reflexão citada acima é possível inferir de que forma os homens do Renascimento puderam produzir a) obras arquitetônicas como a Basílica de São Pedro, em estilo românico, caracterizada pela mistura de técnicas medievais e renascentistas trazidas do Oriente. b) livros como O bestiário, nos quais os animais eram representados como símbolos da presença de Deus na natureza e na vida dos homens que se convertiam à fé cristã.

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c) obras de arte, como os afrescos da Capela Sistina, de Michelangelo, onde figuras da tradição religiosa eram representadas nuas, em poses que exaltavam o corpo humano. 4. Resposta: c.

d) livros como O manual do inquisidor, escrito por Bernardo Gui, nos quais se ensinava a torturar e matar inocentes de modo cruel e gratuito em nome de Deus e da Igreja. 5. (UEL – 2015) Nas obras Comentariolus e Revolução das Orbes Celestes, Nicolau Copérnico formulou uma teoria que desafiou os dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana, ao conceber um novo modelo. Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, os valores culturais do Renascimento. a) Coloquialismo, fundamentalismo e escatologia. b) Formalismo, relativismo e misticismo. c) Gnosticismo, hermetismo e sofismo. d) Heliocentrismo, antropocentrismo e racionalismo. 5. Resposta: d. e) Teocentrismo, aristotelismo e quiliasmo. 6. (Unesp-SP – 2016) As reformas protestantes do princípio do século XVI, entre outros fatores, reagiam contra 6. Resposta: a. a) a venda de indulgências e a autoridade do Papa, líder supremo da Igreja Católica. b) a valorização, pela Igreja Católica, das atividades mercantis, do lucro e da ascensão da burguesia. c) o pensamento humanista e permitiram uma ampla revisão administrativa e doutrinária da Igreja Católica. d) as missões evangelizadoras, desenvolvidas pela Igreja Católica na América e na Ásia. e) o princípio do livre-arbítrio, defendido pelo Santo Ofício, órgão diretor da Igreja Católica.

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7. (UESPI – 2014) A Reforma Protestante rompeu a unidade cristã existente na Europa e deu origem a uma reforma religiosa na Igreja Católica, a chamada Contra-Reforma. A esse respeito, julgue os itens adiante, colocando (V) para “VERDADEIRO” ou (F) para “FALSO” nos parênteses: ( ) O combate ao lucro e à usura, bases da vida comercial e financeira que se dinamizava ao final da Idade Média, mostrava o descompasso da Igreja romana em relação às transformações ocorridas na sociedade. ( ) As ideias de Lutero centravam-se na salvação pela fé e na leitura direta e interpretação pessoal do Evangelho, além de contestarem a supremacia da Igreja sobre o Estado. ( ) Exaltando o trabalho e a poupança na conduta humana, Calvino consagrava valores morais e políticos defendidos pela burguesia mercantil. ( ) A Contra-Reforma significou a tentativa da Igreja Católica de reorganizar-se com base em princípios liberais: abrandamento da hierarquia clerical e da autoridade papal, tolerância quanto aos hereges e abandono das práticas de censura. ( ) Nenhuma opção é verdadeira. A sequência correta, de cima para baixo, é: a) V, V, V, F e F. 7. Resposta: a. c) F, F, F, F e V. e) F, F, F, V e F. b) V, V, V, V e F. d) V, F, V, F e F.

II. Leitura e escrita em História Leitura e escrita de textos

PROFESSOR, VER MANUAL.

VOZES DO PRESENTE Leia o texto a seguir com atenção: O envolvimento do povo na Reforma foi tanto causa quanto consequência da participação da mídia. A invenção da impressão gráfica solapou o [...] monopólio de informação da Igreja medieval [...], e algumas pessoas tinham consciência disso na época. [...] Graças ao novo meio, Lutero não pode ser silenciado da mesma maneira como o foram os primeiros hereges, a exemplo do reformador tcheco Jan Huss (13691415), cujas ideias em diversos aspectos eram parecidas com as de Lutero e que foi morto na fogueira. Nesse sentido, a impressão gráfica converteu a Reforma em uma revolução permanente. Na realidade, pouco teria ajudado à Igreja Católica queimar Lutero como herege, uma vez que seus escritos estavam Solapou: disponíveis em grande número e a preços bastante razoáveis. abalou. (BURKE, Peter; BRIGGS, Asa. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2006; p. 82-83.)

a) O texto é historiográfico, literário, filosófico ou jornalístico? b) Que relação os autores do texto estabelecem entre impressão gráfica e Reforma? c) Em dupla: No Brasil atual o número de evangélicos tem crescido a olhos vistos. Isso pode ser atribuído ao uso que as igrejas evangélicas têm feito da mídia? CAPÍTULO 14 | RENASCIMENTO E REFORMAS RELIGIOSAS

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III. Integrando com Língua Portuguesa Luís Vaz de Camões (1524-1580) levou uma vida cheia de aventuras amorosas e militares e destacou-se como um dos maiores poetas da Língua Portuguesa. Leia com atenção um trecho de sua obra Os Lusíadas. 1

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As armas e os barões assinalados, Que, da ocidental praia lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo reino, que tanto sublimaram;

Cessem do sábio grego e do troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram, Que eu canto o peito ilustre lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta. [...]

2 E também as memórias gloriosas Daqueles reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando: Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

6 E vós, ó bem-nascida segurança Da lusitana antiga liberdade. E não menos certíssima esperança De aumento da pequena cristandade Vós, ó novo temor da maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, (Dada ao mundo por Deus, que todo o [mande Pera do mundo a Deus dar parte grande); [...]

Luís de Camões. Os Lusíadas. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1980. p. 75-77 e 79.

a) Uma característica das epopeias greco-romanas é a ação centralizada num herói, como Ulisses, da Odisseia, e Enéas, da Eneida. Nesse aspecto, em que o poema Os Lusíadas é diferente? b) Várias estrofes de Os Lusíadas abordam a expansão do reino luso e da fé cristã. Isso pode ser considerado ficção ou tem fundamento histórico? Justifique sua resposta. c) Como se pode explicar no poema a presença de divindades do paganismo, como Netuno e Marte, sendo os portugueses um povo cristão? d) Por que Os Lusíadas são classificados como uma obra renascentista? e) Os Lusíadas, do português Luís Vaz de Camões, é um clássico da literatura ocidental. Pesquise e escreva um pequeno texto sobre essa obra e seu autor.

IV. Você cidadão! Em grupo: Vimos que no livro Utopia, Thomas Morus descreve uma sociedade ideal: justa e fraterna. Dialoguem, reflitam e respondam: que sugestões vocês dariam para construirmos uma sociedade mais justa e mais fraterna do que a nossa? Compartilhem postando as sugestões do grupo no blog da turma.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Sugestões de leitura complementar CARDOSO, Ciro Flamarion. A cidade-estado antiga. São Paulo: Ática, 1990. CARDOSO, Ciro Flamarion. Antiguidade oriental: política e religião. São Paulo: Contexto, 1997. D’AMORIM, Eduardo. África: essa mãe quase desconhecida. São Paulo: FTD, 1997. D’HAUCOURT, Geneviève. A vida na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1994. FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense. 2001. FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2002. FUNARI, Pedro Paulo; PELEGRINI, Sandra C. A. Patrimônio histórico e cultural. São Paulo: Zahar, 2006. GIORDANI, Mário Curtis. História da África: anterior aos descobrimentos. Petrópolis: Vozes, 1997. GIORDANI, Mário Curtis. História do Império Bizantino. São Paulo: Vozes, 2001. GIORDANI, Mário Curtis. História do mundo Árabe medieval. Petrópolis: Vozes, 1985. GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. GUERRA, Andreia et al. Galileu e o nascimento da ciência moderna. São Paulo: Atual, 2005. JOHNSON, Paul. Egito Antigo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009. LEAMIRE, André. História do povo hebreu. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.

LEWIS, Bernard. Os Árabes na história. Lisboa: Editorial Estampa, 1990. LOPES, Marcos Antônio. O absolutismo: política e sociedade na Europa moderna. São Paulo: Brasiliense, 1996. LUIZETTO, Flávio. Reformas religiosas. São Paulo: Contexto, 1994. MACDONALD, Fiona. Como seria sua vida na Grécia antiga? São Paulo: Scipione. 1996. MACEDO, José Rivair. A mulher na Idade Média. São Paulo: Contexto. 1997. MEGGERS, Betty J. A América pré-histórica. São Paulo: Paz e Terra, 1985. NEVES, Eduardo Góes. Arqueologia da Amazônia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. OLMO, Maria José Acedo del. No tempo do feudalismo. São Paulo: Ática, 2004. REZENDE FILHO, Cyro de Barros. Guerra e poder na sociedade feudal. São Paulo: Ática, 1999. RIBEIRO, Renato Janine. A etiqueta no Antigo Regime: do sangue à doce vida. São Paulo: Brasiliense, 1983. SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. São Paulo: Brasiliense, 2006. SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento. São Paulo: Atual, 1995. SOURDEL, Dominique. História do povo árabe. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia antiga. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

Bibliografia ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges (Dir.). História da vida privada: do Império Romano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. ASHERI, David. O estado persa: ideologias e instituições no império aquemênida. São Paulo: Perspectiva, 2006. BAKOS, Margaret (Org.). Egiptomania: o Egito no Brasil. São Paulo: Paris Editorial, 2004. BICALHO, Maria Fernanda. In: Revista Nossa História. São Paulo: Vera Cruz, jan. 2006. BITTENCOURT, Circe Maria F. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2005. BOUZON, Emanuel. O Código de Hammurabi. Petrópolis: Vozes, 2003. BRASIL. Lei no 11.340, de 7 de agosto de 2006. DOU, Brasília, DF, 7 ago. 2006. BRUGES, Gilberto de. História da morte de Carlos, o Bom, conde de Flandres. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de História. Lisboa: Plátano. v. 1. BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.

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BURKE, Peter; BRIGGS, Asa. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. CAPELATO, Maria Helena et al. História e cinema: dimensões históricas do audiovisual. São Paulo: Alameda, 2007. p. 89. CARDOSO, Ciro Flamarion S.; VAINFAS, Ronaldo (Orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1999. CARDOSO, Ciro Flamarion S.; VAINFAS, Ronaldo (Orgs.). Os métodos da história. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1983. CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares africanos na Bahia: um vocábulo afro-brasileiro. Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2005. DUBY, Georges. Ano 1000 ano 2000 na pista de nossos medos. São Paulo: Editora UNESP/Imprensa Oficial do Estado, 1999. EISENSTEIN, Elizabeth L. A revolução da cultura impressa: os primórdios da Europa moderna. São Paulo: Ática, 1998. (Múltiplas escritas). FLORENZANO, Maria Beatriz B. Nascer, viver e morrer na Grécia antiga. São Paulo: Atual, 1996. FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média: o nascimento do Ocidente. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2005.

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