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MANUAL DO PROFESSOR

3 Edilson Adão • Laercio Furquim Jr.

Geografia em rede

MANUAL DO PROFESSOR

Geografia em rede

3

ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR GEOGRAFIA

Edilson Adão • Laercio Furquim Jr.

ISBN 978-85-96-00363-6

ENSINO MÉDIO 9

788596 003636

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COMPONENTE CURRICULAR GEOGRAFIA

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Geografia em rede ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR

3

GEOGRAFIA

Edilson Adão Cândido da Silva Mestre em Ciências (área de concentração: Geografia Humana) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Bacharel e Licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo Professor de Geografia no Ensino Médio e Superior

Laercio Furquim Júnior Mestre em Ciências (área de concentração: Geografia Humana) pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Bacharel e Licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo Professor de Geografia das redes pública e particular de São Paulo

2a edição São Paulo – 2016

MANUAL DO PROFESSOR

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Copyright © Edilson Adão Cândido da Silva, Laercio Furquim Júnior, 2016

Diretor editorial Lauri Cericato Gerente editorial Flávia Renata P. A. Fugita Editora Angela C. Di Cesare M. Marques Editoras assistentes Rosane Cristina Thahira, Bárbara Berges Colaboradoras Suélen Rocha M. Marques, Carolina Bussolaro Marciano, Daniella Barroso, Leslie Sandes Gerente de produção editorial Mariana Milani Coordenador de produção editorial Marcelo Henrique Ferreira Fontes Coordenadora de arte Daniela Máximo Projeto gráfico Casa Paulistana Projeto de capa Bruno Attili Foto de capa Thais Falcão/Olho do Falcão Modelos da capa: Andrei Lopes, Angélica Souza, Beatriz Raielle, Bruna Soares, Bruno Guedes, Caio Freitas, Denis Wiltemburg, Eloá Souza, Jardo Gomes, Karina Farias, Karoline Vicente, Letícia Silva, Lilith Moreira, Maria Eduarda Ferreira, Rafael Souza, Tarik Abdo, Thaís Souza Supervisores de arte Roque Michel Jr., Daniela Máximo Editora de arte Lidiani Minoda Diagramação Lidiani Minoda, Anderson Sunakozawa, Dayane Santiago Tratamento de imagens Ana Isabela Pithan Maraschin Coordenadora de ilustrações e cartografia Marcia Berne Ilustrações Tarumã, Aluísio C. Santos Infográficos Casa Paulistana Cartografia Allmaps, Alexandre Bueno, DACOSTA MAPAS Coordenadora de preparação e revisão Lilian Semenichin Supervisora de preparação e revisão Viviam Moreira Preparação  Claudia Anazawa, Iracema Fantaguci Revisão Aline Araújo, Carina de Luca, Claudia Anazawa, Fernanda Rodrigues, Fernando Cardoso, Lucila Segóvia, Sônia Cervantes, Tatiana Jaworski Coordenador de iconografia e licenciamento de textos Expedito Arantes Supervisora de licenciamento de textos Elaine Bueno Iconografia Enio Lopes, Rosely Ladeira, Izilda Canosa Diretor de operações e produção gráfica Reginaldo Soares Damasceno Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Silva, Edilson Adão Cândido da Geografia em rede, 3o ano / Edilson Adão Cândido da Silva, Laercio Furquim Júnior. – – 2. ed. – – São Paulo : FTD, 2016. – – (Coleção geografia em rede) Componente curricular: Geografia ISBN 978-85-96-00362-9 (aluno) ISBN 978-85-96-00363-6 (professor) 1. Geografia (Ensino médio) I. Furquim Júnior, Laercio. II. Título. 16-03556 CDD-910.712 Índices para catálogo sistemático: 1. Geografia : Ensino médio 910.712

Reprodução proibida: Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Todos os direitos reservados à

Em respeito ao meio ambiente, as folhas deste livro foram produzidas com fibras obtidas de árvores de florestas plantadas, com origem certificada.

EDITORA FTD S.A. Rua Rui Barbosa, 156 – Bela Vista – São Paulo-SP CEP 01326-010 – Tel. (0-XX-11) 3598-6000 Caixa Postal 65149 – CEP da Caixa Postal 01390-970 www.ftd.com.br E-mail: central.atendimento@ftd.com.br

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Impresso no Parque Gráfico da Editora FTD S.A. CNPJ 61.186.490/0016-33 Avenida Antonio Bardella, 300 Guarulhos-SP – CEP 07220-020 Tel. (11) 3545-8600 e Fax (11) 2412-5375

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Apresentação É com satisfação que apresentamos esta obra de Geografia, fruto de intensa pesquisa e dedicação, cuja intenção é contribuir para que nossa disciplina possa ser melhor compreendida e discutida à luz das transformações que caracterizam o espaço e a sociedade. O objetivo maior da coleção que ora apresentamos é contribuir para que a Geografia possa ser continuamente compreendida e aplicada ao dia a dia. As grandes transformações que permearam as duas últimas décadas do século XX e as duas primeiras do atual repercutiram decisivamente no espaço geográfico contemporâneo. Cabe à Geografia traduzir esses fenômenos que se cristalizam e ao mesmo tempo dinamizam o território, realizando o ponto de encontro entre o passado e o presente. Nos temas trabalhados aqui, a Geografia que propomos analisa os fatos geográficos sob uma perspectiva dinâmica, conectada com a realidade e com o cotidiano. A interação entre os fenômenos, transformando e produzindo o espaço geográfico, dá a tônica da compreensão do mundo atual e a Geografia é ferramenta imprescindível para tal discernimento. Esperamos que o resultado deste nosso trabalho contribua para a formação de jovens críticos e conscientes de sua cidadania para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e menos desigual. Bons estudos! Os autores

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Unidade

II

Conjuntura internacional: outros espaços de poder Questão inicial

ESCREVA NO CADERNO

“[...] as hegemonias regionais são extremamente raras. Com exceção da China, no extremo oriente, na maioria das vezes elas não foram muito duradouras.” HOBSBAWM, Eric. O novo século. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.

• Quais países podem ser considerados potências mundiais nos dias de hoje? E potências regionais?

Abertura de unidade Aluísio C. Santos

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-

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Questão inicial Pergunta que estimula a reflexão inicial, o debate e o levantamento de hipóteses sobre temas que serão abordados na unidade.

Abertura de capítulo Tópicos do capítulo Apresentação dos temas abordados no capítulo. CAPÍTULO 7

Rússia, Japão e Índia: potências distintas

Tópicos do capítulo A evolução política da URSS Rússia: herdeira da União Soviética Japão: da gênese do Estado aos dias atuais Índia: demografia, política e economia

O crescimento econômico, baseado no desenvolvimento industrial e avanço tecnológico, aliado à segunda maior população do mundo, garantem à Índia destaque no cenário mundial como potência em ascensão.

Além de potência econômica e demográfica, a Índia é uma potência militar, pois detém a bomba atômica.

Maior herdeira da União Soviética, a Rússia mantém sua importância no cenário político e militar mundial. É membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e maior detentora de ogivas nucleares, possuindo 47% das ogivas do mundo. ESCREVA NO CADERNO

• Em sua opinião, por que Rússia, Japão e Índia são potências distintas?

Fonte: SIPRI - Stockholm International Peace Research Institute. Disponível em: <http://www.sipri.org/ yearbook/2015/11>. Acesso em: 11 jan. 2016.

No jogo das potências mundiais o Japão conta com sua grande economia, menor apenas que a dos Estados Unidos e da China, baseada China, baseada na na tecnologia e conquista tecnologia e conquista dos dos mercados externos. mercados externos.

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

Ponto de partida

137

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Ponto de partida Problematização inicial que propõe o resgate de conhecimentos prévios sobre o tema do capítulo e a introdução de assuntos que serão abordados. A atividade tem um tom genérico, e não específico.

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4.1.2 A Guerra Irã-Iraque (1980-1988) Ver

Filme de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. Persépolis. França, 2008

Persépolis. Direção: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. França, 2008. Animação, com forte teor político, que retrata a infância da cineasta Marjane Sartrapi no contexto da Revolução Islâmica.

2. Imperialismo e neocolonialismo Pauta musical Sodade, Cesaria Evora. Álbum: Anthology. RCA Victor Europe, 2003. Pauta: Paisagem e cultura africana. Capa do LP Anthology. Cesaria Evora. Rússia, 2003

C. Sappa/De Agostini/Getty Images

Jihad: Traduzido equivocadamente como “guerra santa”, na realidade seria mais correto designar como “resistência santa”, uma vez que o termo adaptado ao português apresenta controvérsias. Em textos de política e geopolítica, normalmente o termo está associado aos momentos de conflito, mas ele tem uma conotação mais ampla e presente no cotidiano muçulmano.

Ao mesmo tempo que o Irã passava pelas turbulências da Revolução Islâmica, também no ano de 1979, no Iraque, o general Saddam Hussein aplicava um golpe de Estado e assumia o poder. Saddam Hussein tinha grandes pretensões, entre elas a de assumir a liderança regional do Oriente Médio. Ele havia aniquilado as demais lideranças do país, especialmente as comunistas. Entretanto, enxergava o Irã como um problema: via na liderança espiritual que Khomeini detinha sobre as massas uma grande ameaça ao seu poder. O temor justificava-se, pois a maioria dos iraquianos é seguidora da vertente xiita, enquanto Saddam era sunita. Ele sabia que essa parcela xiita do Iraque olhava com simpatia os acontecimentos do outro lado da fronteira. As pretensões de Saddam, somadas ao temor a Khomeini, explicam o surpreendente ataque do Iraque ao Irã em 1980 cujo pretexto foram as reivindicações territoriais sobre o Chat el Arab, estuário do encontro entre os rios Tigre e Eufrates, na divisa entre Irã e Iraque, até então navegado em comum acordo entre os dois países. Saddam reivindicava a soberania sobre o canal. O líder do Iraque pressupunha que seria uma guerra fácil e rápida, diante de um Irã bastante enfraquecido por causa da guerra civil recente. E realmente foi o que pareceu no início: o Iraque, bem mais preparado em estrutura militar, contando com mísseis soviéticos, tanques e aviões de combate, contra um Irã fragilizado, avançou e ocupou províncias desse país. Contudo, Saddam Hussein não contava com um fato inusitado. Khomeini demonstrou toda a sua liderança ao conclamar o povo iraniano a uma jihad contra o Iraque. O líder supremo do Irã, acreditava-se, seria descendente do profeta Muhammad (Maomé), e seu chamado foi prontamente atendido. Milhões de xiitas alistaram-se para o que acreditavam ser uma ”resistência santa”. O Irã reequilibrou a guerra e aconteceu o inesperado: partiu para a ofensiva. Foi nesse momento que, temendo gravemente a vitória iraniana, os Estados Unidos e as monarquias do golfo, nem um pouco interessadas em assistir a uma nova vitória fundamentalista, apoiaram o Iraque. Com os apoios militar dos Estados Unidos e financeiro do Kuwait, o Iraque se recompôs, e a guerra entrou em sua fase mais cruel, com centenas de milhares de mortos de ambos os lados, em um conflito fratricida. A guerra terminou apenas em 1988, com um saldo de aproximadamente 1 milhão de mortos, os dois países arrasados e as fronteiras nos mesmos lugares de 1980.

Neocolonialismo: Nome dado à colonização da África e da Ásia no fim do século XIX, que difere historicamente do colonialismo do século XV, aplicado, especialmente, ao continente americano. Este esteve atrelado ao mercantilismo, primeira fase do capitalismo, enquanto o neocolonialismo é produto direto da Revolução Industrial e do capitalismo financeiro.

Estátuas que homenageiam os soldados iraquianos mortos na Guerra Irã-Iraque, 2014. As figuras apontam em direção ao estuário Chat el Arab, na divisa entre os dois países.

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Bôeres: A palavra holandesa boer significa “fazendeiro”. Os bôeres, portanto, eram descendentes de holandeses que viviam no campo.

A Revolução Industrial promoveu o desenvolvimento do capitalismo, o que tornou a Europa pequena demais para suas demandas. O sistema precisava de novas fontes de matéria-prima, mão de obra, novos mercados, fontes energéticas, enfim, daquilo que a Europa não mais podia suprir sozinha. Esse contexto anunciaria o ápice do imperialismo, fazendo da África e da Ásia as vítimas desse novo momento histórico que se tornou conhecido como neocolonialismo. Quase todos os pesquisadores que se dedicam ao estudo da África, pelos mais variados caminhos metodológicos, identificam no neocolonialismo a raiz dos problemas contemporâneos africanos. Esse não é o único fator que explica os problemas sociais, econômicos e políticos do continente, mas é o mais importante. É impossível entender a África atual sem considerar o aspecto decisivo legado pelo imperialismo. Data do período neocolonial a difusão da ideia “o fardo do homem branco”, expressão cunhada por Rudyard Kipling, considerado “o poeta do imperialismo”. Leia a seguir um trecho do poema “The White man’s burden”, publicado em 1899. Tomai o fardo do homem branco – Envia teus melhores filhos – Vão, condenem seus filhos ao exílio Para servirem aos seus cativos; Para esperar, com arreios Com agitadores e selváticos – Seus cativos, servos obstinados, Metade demônio, metade criança. [...]

Tomai o fardo do homem branco – As guerras selvagens pela paz – Encha a boca dos famintos, E proclama, das doenças, o cessar; E, quando seu objetivo estiver perto O fim que todos procuram, Olha a indolência e loucura pagã Levando sua esperança ao chão. [...]

KIPLING, Rudyard. O fardo do homem branco. Fordham University: New York, 1997. (Tradução nossa). Disponível em: <http://legacy.fordham.edu/halsall/mod/kipling.asp>. Acesso em: 2 dez. 2015.

ESCREVA NO CADERNO

Interagindo

No Capítulo 3, vimos que o Destino Manifesto justificava, de certa forma, o extermínio dos indígenas no afã da conquista e da expansão territorial dos Estados Unidos. Que semelhanças você percebe entre essa ideologia estadunidense, o poema de Kipling (acima) e a ilustração de Keppler (abaixo)? Udo J. Kepler.1902.Cromolitografia. Biblioteca do Congresso, Washington

Inserções interativas Indicações e sugestões de sites, filmes, músicas e livros que complementam o assunto desenvolvido nos capítulos. Navegar Indicação de sites que apresentam informações relacionadas aos temas dos capítulos.

Do Cabo ao Cairo, ilustração de Udo J. Keppler, 1902. A figura alegórica da Britânia, mulher vestida de branco, empunhando uma bandeira com a inscrição “Civilização”, guia os britânicos contra os nativos africanos, que seguram uma bandeira com a palavra “Barbárie”, durante a Guerra dos Bôeres (1889-1902).

202

Ver Indicação de filmes e documentários que abordam temas geográficos.

Interagindo Atividade em que o aluno interage com o tema por meio de um questionamento.

Pauta musical Sugestão de músicas que tratam de assuntos relacionados aos capítulos.

Corbis/Latinstock

Ler Indicação de livros relacionados aos temas desenvolvidos nos capítulos.

Visão aérea de mísseis e tanques de combustível em São Cristóvão, Cuba, durante a crise dos mísseis, em 1962.

Embargo: Proibição temporária de comércio. No caso cubano, o embargo foi decretado pelos Estados Unidos como retaliação ao país em optar pelo socialismo e aproximar-se do maior inimigo da potência capitalista. Foi decretado em fevereiro de 1962, e, em dezembro de 2014, foram declaradas as primeiras medidas que podem indicar o fim do embargo, diante da histórica reaproximação entre os dois países.

Cuba tornou-se parceira especial da União Soviética, que passou a subsidiar a economia da ilha; comprava praticamente toda a produção do açúcar cubano e lhe fornecia petróleo e produtos manufaturados a preços módicos. O açúcar, por exemplo, era adquirido por Moscou a um preço cinco vezes acima do mercado internacional. A parceria preferencial com os soviéticos e com os países do Leste Europeu permitiu a Cuba um intenso desenvolvimento social que pôs o país latino-americano em um padrão acima dos demais. Além disso, o subsídio soviético não permitiu que o embargo decretado pelos Estados Unidos contra Cuba surtisse efeito. Durante a existência da União Soviética, Cuba teve o apoio e o patrocínio de que precisou para seu desenvolvimento social. No entanto, dias piores estavam reservados à ilha e não tardaria o momento em que o bloqueio começasse a provocar estragos. ESCREVA NO CADERNO Corbis/Latinstock

Conversando com a... Física! O período da Guerra Fria, como sabemos, foi marcado pelo risco de uma guerra nuclear. A temida bomba atômica simbolizou esse período sombrio. • Procure saber por que a bomba atômica é chamada também de “nuclear” e sobre a letalidade desse tipo de artefato bélico. A produção nuclear exige intenso conhecimento de Física e pode ser utilizada para fins pacíficos ou militares. Dê exemplos das duas utilizações.

Glossário Explicações de verbetes e conceitos específicos.

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Conversando com a...! Bomba atômica – símbolo do medo latente vivido durante décadas – ainda assusta nos dias de hoje. Na fotografia, bomba atômica da variedade Fat Man, do mesmo tipo da lançada sobre Nagasaki, em 1945.

Proposta de diálogo com as outras disciplinas.

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Logomarca Nações Unidas

3. O papel da ONU

A proposta na criação do símbolo da ONU foi utilizar a projeção azimutal a partir do Polo Norte, que tem como propósito uma visão cartográfica baseada na neutralidade, sem nenhum centro geopolítico aparente. Contudo, essa representação é passível de crítica, pois a América do Sul e a África estão nas bordas da projeção.

Países do Eixo: Aliança militar formada por Alemanha, Japão e Itália.

A Organização das Nações Unidas (ONU), composta em 2015 de 193 países, foi fundada em outubro de 1945, no contexto internacional que se abria após o término da Segunda Guerra Mundial. Sua criação teve como principal objetivo evitar guerras e manter a paz mundial. Antes da ONU, fora criada a Liga das Nações, durante a Conferência de Paz, em 1919, após a Primeira Guerra Mundial, que, no entanto, fracassara na tentativa de evitar guerras e foi extinta. O mais recente país a ingressar na ONU foi o Sudão do Sul, em 2011. A criação da ONU não se deu de uma hora para outra. Embora tenha surgido em 1945, seu embrião já podia ser visto em 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial, quando 26 países assinaram um documento intitulado Declaração das Nações Unidas, em que se comprometiam a combater os países do Eixo. Ao término da Segunda Guerra, em 25 de abril de 1945, na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, 51 países assinaram o documento que estabeleceu os princípios do organismo: a Carta da ONU. Esses 51 países são considerados os fundadores da ONU, e o Brasil está entre eles. Em 24 de outubro de 1945, com a ratificação da Carta, era criada oficialmente a organização; o dia 24 de outubro ficou conhecido como o dia da ONU.

Os princípios que regem a ONU • A Organização se baseia no princípio da igualdade soberana de todos os seus membros. • Todos os membros se obrigam a cumprir de boa-fé os compromissos da Carta. • Todos deverão resolver suas controvérsias internacionais por meios pacíficos, de modo que não sejam ameaçadas a paz, a segurança e a justiça internacionais. • Todos deverão abster-se em suas relações internacionais de recorrer à ameaça ou ao emprego da força contra outros Estados. • Todos deverão dar assistência às Nações Unidas em qualquer medida que a Organização tomar em conformidade com os preceitos da Carta, abstendo-se de prestar auxílio a qualquer Estado contra o qual as Nações Unidas agirem de modo preventivo ou coercitivo. • Cabe às Nações Unidas fazer com que os Estados que não são membros da Organização ajam de acordo com esses princípios em tudo quanto for necessário à manutenção da paz e da segurança internacionais. • Nenhum preceito da Carta autoriza as Nações Unidas a intervir em assuntos que são essencialmente da alçada nacional de cada país.

Boxe

ONU. Conheça a ONU. Disponível em: <http://www.nacoesunidas.org/conheca/principios>. Acesso em: 7 dez. 2015.

A ONU possui seis idiomas oficiais (árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo) e apresenta uma estrutura com sete órgãos principais: • Assembleia Geral; • Secretariado; • Conselho de Tutela; • Tribunal Internacional de Justiça; • Conselho de Segurança; • Tribunal Penal Internacional. • Conselho Econômico e Social; Navegar ONU-Brasil <http://tub.im/hy9j2n> No site das Nações Unidas no Brasil é possível encontrar diversas informações sobre o funcionamento da ONU e das agências que atuam no Brasil.

Incursões eventuais quando um tema requer maior detalhamento.

Dois desses órgãos possuem mais evidência na agenda internacional: a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança. A Assembleia Geral da ONU reúne anualmente, no mês de setembro, representantes de todos os países-membros. Trata-se de uma instância consultiva e democrática: cada país, um voto. A função da Assembleia é discutir e encaminhar soluções sobre os principais problemas internacionais, assim como avaliar o orçamento da ONU. A Assembleia é soberana para definir se determinado assunto será encaminhado por maioria simples ou se será submetido a uma aprovação de 2/3 dos membros.

20 Ler

Editora Record

Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência univesal, de Milton Santos. Rio de Janeiro: Record, 2000. A visão do geógrafo sobre a globalização, que inspirou o documentário Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá.

Alberto Buzzola/LightRocket/Getty Images

ção virtual dos agentes sociais e econômicos e não necessariamente é iniciada nos territórios onde as ações vão se dar. Como exemplo, podemos citar uma decisão de investidores estrangeiros de retirar seus investimentos de um país e investi-los em outro. Isso pode gerar uma crise econômica no país que perdeu as aplicações. São decisões tomadas em lugares distantes que interferem no funcionamento de um país. Esta é a marca maior da globalização: uma nítida padronização pautada pelo viés econômico e até cultural em espaços heterogêneos de várias partes do globo. Os pontos e as conexões de horizontalidade e verticalidade constituem verdadeiras redes de relações políticas e econômicas que abrangem as escalas local e global. Paradoxalmente, o mundo está muito longe de apresentar uma solidária padronização social, de igualdade e boas condições de vida. Ao contrário, a globalização é espacialmente seletiva, não ocorre da mesma forma em todos os lugares e, portanto, não inclui toda a população do planeta no acesso e usufruto das conquistas e dos avanços tecnológicos, sociais e econômicos.

Interação entre horizontalidade e verticalidade: jovens aborígines da tribo Taroqo utilizam telefone celular e tablet antes de começar uma dança tradicional em Hualien County, Taiwan, 2015.

Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

Enfoque A grande mutação contemporânea

Diante do que é o mundo atual, como disponibilidade e como possibilidade, acreditamos que as condições materiais já estão dadas para que se imponha a tão desejada mutação, mas seu destino vai depender de como as disponibilidades e possibilidades forem aproveitadas pela política. Na sua forma material, unicamente corpórea, as técnicas talvez sejam irreversíveis, porque aderem ao território e ao cotidiano. De um ponto de vista existencial, elas podem obter um outro uso e uma outra significação. A globalização atual não é irreversível. Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana está, finalmente, começando. A mesma materialidade, atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana. A grande mutação tecnológica é dada com a emergência das técnicas da informação, as quais – ao contrário das técnicas das máquinas – são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que seu uso perverso atual seja subordinado aos interesses dos grandes capitais. Mas, quando sua utilização for democratizada, essas técnicas doces estarão ao serviço do homem. Muito falamos hoje nos progressos e nas promessas da engenharia genética, que conduziriam a uma mutação do homem biológico, algo que ainda é do domínio da história da ciência e da técnica. Pouco, no entanto, se fala das condições, também hoje presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do homem, capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa, e, também, do planeta.

Texto de outro autor que expõe sua opinião sobre o assunto tratado no capítulo, acompanhado de uma atividade.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 10. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2003. p. 173-174.

• O texto defende "outra globalização". Quais as críticas à globalização e as propostas defendidas pelo autor?

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DOMÍNIO CHINÊS

De cada dez objetos produzidos no mundo, veja quantos são feitos na China.

Nas últimas décadas, a China vem se constituindo como a grande fábrica do mundo. Um imenso número de produtos, de calçados a eletrônicos, tem peças fabricadas e montadas (ou ambos os processos) no país asiático.

BRINQUEDOS CALÇADOS CELULARES

OUTROS PAÍSES

PRODUÇÃO MAIS BAIXOS Um dos motivos que garantem a alta produtividade chinesa é o custo de produção, bem menor do que em outros países. Isso é possível por causa de alguns fatores, como: mão de obra numerosa e barata, pouca ou nenhuma legislação de proteção ao trabalhador e enormes incentivos fiscais a empresas que queiram montar ou contratar manufatureiras chinesas.

LOGÍSTICA E

INFRAESTRUTURA Os produtos chineses são distribuídos principalmente por via marítima. Existem também navios transoceânicos abrigando fábricas, que produzem roupas e montam peças simples. A China tem investido pesado em infraestrutura e, até 2020, pretende construir dez aeroportos para facilitar o fluxo de pessoas e mercadorias.

QUALIDADE

PARECE, MAS NÃO É Pouca ou nenhuma proteção aos direitos intelectuais ou autorais é garantida. Assim, a China é o paraíso dos fabricantes piratas.

DISCUTÍVEL O uso de materiais de baixíssima qualidade diminui os custos, mas resulta em produtos frágeis ou até mesmo tóxicos.

POLUINDO O

MEIO AMBIENTE A falta de preocupação com o descarte dos resíduos industriais barateia a produção, mas gera danos ambientais. Um exemplo é o lago Baokou, que recebe resíduos tóxicos de inúmeras fábricas que processam, inclusive, metais pesados. A poluição do lago é uma das responsáveis pelo smog poluído de Pequim.

Atividades

TRABALHO DESUMANO As péssimas condições de trabalho não são coibidas pelo governo chinês. Há relatos de casos de trabalhadores com jornadas de 12 horas por dia, sete dias por semana, submetidos a refeições insalubres, maus-tratos e tortura psicológica.

ESCREVA NO CADERNO

2. Extraia do infográfico uma informação que revele um aspecto positivo e um negativo da economia chinesa.

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RELAÇÕES COMERCIAIS ENTRE BRASIL E CHINA

A China é o parceiro comercial mais importante do Brasil. Os chineses lideram como os principais compradores e vendedores.

Cinco principais países fornecedores ao Brasil, em % (2015) COREIA DO SUL (3,2%)

Cinco principais compradores do Brasil, em % (2015) ALEMANHA (2,7%)

ALEMANHA (6%)

PAÍSES BAIXOS (5,3%)

ARGENTINA (6,1%)

ARGENTINA (6,7%)

ESTADOS UNIDOS (15,4%)

ESTADOS UNIDOS (12,6%)

CHINA (17,9%)

CHINA (18,6%)

COMPOSIÇÃO DAS IMPORTAÇÕES BRASILEIRAS ORIGINÁRIAS DA CHINA EM MILHÕES DE DÓLARES (2014)

1. Não parece um contrassenso que, no país em que o partido comunista está há mais tempo no poder, os trabalhadores tenham condições de trabalho similares à época de exploração capitalista que fez Karl Marx se rebelar e teorizar sobre esse sistema? Qual sua opinião a respeito?

130

CHINA

DESCRIÇÃO

VALOR

Máquinas elétricas

PART.% NO TOTAL

10 898

29,2%

Máquinas mecânicas

7 151

19,1%

Químicas orgânicas

2 232

6,0%

Ferro e aço

1 388

3,7%

Plásticos

1 070

2,9%

Automóveis

1 002

2,7%

978

2,6%

Obras de ferro ou aço Vestuário exceto de malha Filamentos sintéticos Instrumentos de precisão

935 809

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

CUSTOS DE

Infográfico

2,5% 2,2%

780

2,1%

Subtotal

27 244

73,0%

Outros produtos

10 100

27,0%

Total

37 343

100,0%

Fontes: IBIS World. Toy Manufacturing in China: Market Research Report. Disponível em: <http://www.ibisworld.com/industry/china/toy-manufacturing.html>. Acesso em: 4 jan. 2016. MINISTÉRIO do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Balança comercial brasileira: dezembro 2015. Disponível em: <http:// www.mdic.gov.br//portalmdic/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=5266&refr=1161>. Acesso em: 11 jan. 2016. MINISTÉRIO do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. China: comércio exterior, jan. 2015. Disponível em: <www.brasilglobalnet.gov.br/ARQUIVOS/IndicadoresEconomicos/INDChina.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2015.

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Apresenta um tema do capítulo por meio de um esquema ilustrado e dinâmico acompanhado de questões reflexivas.

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A Geografia na... fotografia!

Bettmann/Corbis/Latinstock

4.1.1 Revolução Islâmica (1979)

Aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da Revolução Islâmica, ora durante seu exílio na França. Fotografia de 1982. Aiatolá: Título máximo do clero xiita, líder religioso.

Ler Os iranianos, de Samy Adghirni. São Paulo: Contexto, 2014. Livro que retrata a geografia, a história e a cultura do Irã, desde o Império Persa, passando pelo período do xá Reza Pahlavi e a Revolução Islâmica até os dias atuais. Editora Contexto

A importância que o petróleo adquiriu ao longo do século XX, o fato de o Irã deter a segunda maior reserva mundial do combustível e as ótimas relações do xá com o Ocidente favoreceram a tirania de Mohammad Reza Pahlavi, que transformou o país em um dos mais desiguais em todo o Oriente Médio: ele não demonstrava nenhum constrangimento em deixar evidente o contraste entre a sua riqueza, a luxúria do palácio imperial e a pobreza da população; o xá era conhecido por suas extravagâncias. Esse regime autárquico era amplamente apoiado pelos Estados Unidos; vinha daí, em grande parte, o ódio que as camadas populares nutriam por essa potência. Essa camada popular era, igualmente, a mais arraigada aos valores tradicionais do xiismo. Era nos líderes religiosos e nos comunistas que Reza Pahlavi via a maior ameaça ao seu poder e não hesitou em persegui-los. Comunistas, liberais e religiosos foram presos. O líder espiritual dos xiitas, o aiatolá Ruhollah Khomeini (retratado na fotografia ao lado),exilou-se na França, depois de uma tentativa frustrada de se refugiar no Iraque, que, como o Irã, é um país de maioria xiita. Nos anos 1970, o clima de descontentamento com o regime era intenso. Entre as correntes oposicionistas ao governo, foi a vertente religiosa do xiismo que canalizou de forma mais robusta essa insatisfação popular. Da França, o aiatolá Khomeini conduzia a fúria popular que acabou levando, em 1979, a uma guerra civil que ficou conhecida como Revolução Islâmica. Durante os embates, o exército iraniano, a principal base de apoio ao xá, hesitou em reprimir os populares, o que facilitou a vitória das tropas xiitas perante as tropas leais ao xá. O clero xiita venceu, e o xá Reza Pahlavi refugiou-se no Egito, onde morreu em 1980, depois de um tratamento contra um câncer. O aiatolá Khomeini assumiu o poder e rebatizou o país de República Islâmica do Irã, que desde 1979 apresenta um regime teocrático. Igualmente, desde a revolução, o Irã adotou uma postura antiocidental e antiestadunidense, com quem manteve sérios problemas diplomáticos por três décadas e meia. A situação só amenizou em 2015 com a reaproximação entre o Irã e o ocidente por meio de negociações que envolveram o país persa, Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e União Europeia. A Revolução Islâmica é considerada um marco do fundamentalismo islâmico, pois a ortodoxia xiita adotada serviu de inspiração para muitos outros movimentos islâmicos, xiitas e sunitas. Também significou uma grande ameaça aos demais regimes do Oriente Médio, sobretudo na região do Golfo Pérsico. ESCREVA NO CADERNO

Observe esta fotografia feita pelo fotógrafo iraniano Jalal Sepehr. Os tradicionais tapetes persas estão estendidos em um píer voltado para o horizonte, em uma perspectiva de diálogo. • Em sua opinião, como essa fotografia questiona a relação entre a tradição e as possibilidades de transformações sociais, políticas e religiosas no Irã do mundo atual?

ESCREVA NO CADERNO

Jalal Sepehr/Silk Road Gallery

EXERCÍCIOS ENEM

1. Uma mesma empresa pode ter sua sede administrativa onde os impostos são menores, as unidades de produção onde os salários são os mais baixos, os capitais onde os juros são os mais altos e seus executivos vivendo onde a qualidade de vida é mais elevada.

Obra de arte de Jalal Sepehr, da série Água e Tapetes Persas.

SEVCENKO, N. A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (adaptado).

No texto estão apresentadas estratégias empresariais no contexto da globalização. Uma consequência social derivada dessas estratégias tem sido a) o crescimento da carga tributária. b) o aumento da mobilidade ocupacional. c) a redução da competitividade entre as empresas. d) o direcionamento das vendas para os mercados regionais. e) a ampliação do poder de planejamento dos Estados nacionais.

173

H17 Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de territorialização da produção.

A Geografia na...!

2. Na democracia estadunidense, os cidadãos são incluídos na sociedade pelo exercício pleno dos direitos políticos e também pela ideia geral de direito de propriedade. Compete ao governo garantir que esse direito não seja violado. Como consequência, mesmo aqueles que possuem uma pequena propriedade sentem-se cidadãos de pleno direito. Na tradição política dos EUA, uma forma de incluir socialmente os cidadãos é a) submeter o indivíduo à proteção do governo. b) hierarquizar os indivíduos segundo suas posses. c) estimular a formação de propriedades comunais. d) vincular democracia e possibilidades econômicas individuais. e) defender a obrigação de que todos os indivíduos tenham propriedades.

Forma de explorar e refletir sobre o espaço geográfico por meio de outras linguagens culturais.

H7

Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.

3. Em 2006, foi realizada uma conferência das Nações Unidas em que se discutiu o problema do lixo eletrônico, também denominado e-waste. Nessa ocasião, destacou-se a necessidade de os países em desenvolvimento serem protegidos das doações nem sempre bem-intencionadas dos países mais ricos. Uma vez descartados ou doados, equipamentos eletrônicos chegam a países em desenvolvimento com o rótulo de “mercadorias recondicionadas”, mas acabam deteriorando-se em lixões, liberando chumbo, cádmio, mercúrio e outros materiais tóxicos. Internet: <g1.globo.com> (com adaptações).

A discussão dos problemas associados ao e-waste leva à conclusão de que a) os países que se encontram em processo de industrialização necessitam de matérias-primas recicladas oriundas dos países mais ricos. b) o objetivo dos países ricos, ao enviarem mercadorias recondicionadas para os países em desenvolvimento, é o de conquistar mercados consumidores para seus produtos. c) o avanço rápido do desenvolvimento tecnológico, que torna os produtos obsoletos em pouco tempo, é um fator que deve ser considerado em políticas ambientais. d) o excesso de mercadorias recondicionadas enviadas para os países em desenvolvimento é armazenado em lixões apropriados. e) as mercadorias recondicionadas oriundas de países ricos melhoram muito o padrão de vida da população dos países em desenvolvimento. H28 Relacionar o uso das tecnologias com os impactos socioambientais em diferentes contextos histórico-geográficos.

Exercícios

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado anualmente, é pautado em um conjunto de competências e habilidades. A prova de Ciências Humanas e suas tecnologias, na qual se insere a Geografia, é baseada em um programa de 31 tópicos, circunscritos em cinco eixos do qual se extraem as competências e habilidades. Cada exercício do Enem contido nesta obra vem acompanhado da respectiva habilidade (H). Muitas vezes, um exercício circunscreve-se em mais de uma; nesse caso, indicamos a principal. O quadro completo das competências e habilidades encontra-se nas páginas 287 e 288.

Questões do Enem (com as respectivas habilidades) e de vestibulares.

109

Roteiro de estudo

Atividade em grupo Atividade de pesquisa e discussão coletiva sobre temas específicos. De olho na mídia Proposta para uma leitura crítica da mídia sobre a abordagem de temas geográficos.

LY-GEO-EM-3026-V3-PIN-001-010-LA-G18.indd 7

Atividade em grupo Organizem-se em grupos para pesquisar sobre a temática das relações Brasil-África. Para isso, sigam as orientações a seguir. 1. Consultem os Capítulos 10 e 11 deste livro. Na internet, busquem informações sobre relações diplomáticas, comerciais, históricas e culturais em órgãos oficiais brasileiros e africanos, como o Ministério das Relações Exteriores do Brasil ou de países da África para ampliar os conhecimentos relativos às possibilidades de pesquisa. 2. Pode-se escolher temas como: programas de apoio à cooperação científica; relações comerciais bilaterais ou entre blocos econômicos; conexões e frequência de transportes entre o Brasil e os países africanos; intercâmbios artísticos e culturais; relações étnico-raciais e religiosas; políticas sociais; entre outros temas. 3. Com a orientação do professor, organizem a produção e a apresentação do trabalho e exponham-no para a turma.

1. A África se caracteriza, de modo geral, pela concentração da população no litoral e pela baixa densidade demográfica no interior. Cite um obstáculo de ordem natural e uma causa de origem histórica que dificultaram a ocupação do interior do continente. 2. Costuma-se identificar o deserto do Saara como um divisor natural das duas macrorregiões africanas onde se originaram ou vivem historicamente diferentes povos. Indique quais são essas regiões e alguns dos povos que as habitam. 3. Desde a década de 1990 até 2015, em média, os países africanos apresentaram elevadas taxas de crescimento populacional que contrastavam com a baixa expectativa de vida e, também, com as elevadas taxas de mortalidade infantil. Contudo, é no continente africano que se encontra o maior ritmo de crescimento populacional do mundo. Sendo assim, responda: a) Por que a comparação entre essas taxas pode ser considerada um contraste? b) O que explica o intenso e acelerado crescimento populacional africano diante da elevada taxa de mortalidade infantil e da expectativa de vida?

De olho na mídia

4. Estudos da ONU projetam que a África abrigará o segundo maior contingente populacional do planeta em 2100 e que no continente ocorrerá mais de 50% do crescimento da população mundial no século XXI. a) Do ponto de vista populacional e econômico, indique, com base no que já se verifica hoje em alguns países, o que isso pode significar para o continente. b) Em sua opinião, quais políticas devem ser adotadas para que não se reproduzam as profundas contradições socioespaciais verificadas em outros países pobres que já entraram em tal processo de crescimento?

Leia o texto abaixo e, a seguir, responda às questões. Economia africana melhor do que a global em 2015

Olhar cartográfico O mapa abaixo mostra, segundo dados do Banco Mundial, a média de idade dos habitantes de todos os países em 2010. Analise-o e, a seguir, responda às questões.

Média de idade da população, por país (2010) Allmaps

Olhar cartográfico Atividade de interpretação e leitura de mapas, cartas, tabelas e gráficos.

ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando

0º Círculo Polar Ártico

Trópico de Câncer

OCEANO PACÍFICO

OCEANO PACÍFICO Equador

Média de idade Menor que 20

Trópico de Capricórnio

20,1-25 25,1-30 30,1-35 35,1-40 Maior que 40

Círculo Polar Antártico

OCEANO ATLÂNTICO

OCEANO ÍNDICO

Meridiano de Greenwich

Revisando Questões dissertativas de revisão e fixação do conteúdo do capítulo.

Sem dados

0

2 590

Fonte: THE WORLD BANK. Building Human Capital in Africa. Washington, D.C: The World Bank, s.d. p. 2. Disponível em: <http://siteresources.worldbank.org/ INTHUMDEV/Resources/WBHDbrochureweb.pdf>. Acesso em: 10 mar. 2016.

236

Apesar da queda do preço das matérias-primas e de novos conflitos, a África continua a ter um melhor desempenho econômico do que quase todas as regiões do mundo, de acordo com uma análise feita pelo FMI [Fundo Monetário Internacional]. A economia africana deverá ter crescido 3,62% em termos reais ao longo de 2015. Este valor fica bem abaixo das previsões de abril, que apontavam para 4,17%, mas ainda assim acima da média global, que é de 3,12%. Apesar de os números do crescimento africano terem sido revistos em baixa, continuam a ser relativamente fortes, sobretudo quando comparados com outras regiões. Melhor do que o continente africano, só mesmo a região Ásia-Pacífico. O crescimento da África em 2015 foi conduzido por Marrocos (4,37%), Egito (4,19%) e Nigéria (3,96%). Juntas, estas três economias representam mais de um terço do PIB do continente. Alguns dos países africanos menos desenvolvidos também deverão registrar, ainda assim, um forte crescimento – casos da Etiópia (8,67%) ou da República Democrática do Congo (8,44%), que são também as duas economias do continente que mais crescem. Duas mudanças importantes que levaram à revisão das previsões ainda mais otimistas de abril estão no Burundi, que caiu dos +4,76% para os -7,71%, e na Líbia, que passou dos +4,6% para os -6,09%. Ambos os países são palco de instabilidade e violência crescentes. Outras quedas relevantes foram registadas na Serra Leoa (-12,76% para -23,92%), no Sudão do Sul (+3,59% para -5,33%) e no Congo (+5,16% para +0,99%). A Líbia, juntamente com o Congo e o Sudão do Sul, foi também vítima da queda dos preços do petróleo. O valor do Brent caiu 50% em 2015. Há um ano, estava nos 100 dólares. Por outro lado, a exposição econômica do Congo à China – que representou 35% do comércio entre ambas as partes em 2014, de acordo com dados do Comtrade – está também a fazer sofrer a sua economia. No caso da Serra Leoa, já se sabia que a economia se iria contrair devido ao ebola. No entanto, à epidemia juntou-se a queda do preço do ferro, o que precipitou uma queda muito mais abrupta da economia deste país, de acordo com o FMI. E ainda apesar da queda em termos globais relativamente às primeiras previsões, alguns países africanos tiveram pequenas melhorias nas suas perspectivas de crescimento. Na maioria dos casos trata-se de países que não dependem da exportação do petróleo. Contam-se nesta lista a Costa do Marfim (6,5% para 7%), Senegal (4,65% para 5,10%) e novamente Marrocos (4,37% para 4,87%). ECONOMIA africana melhor do que a global em 2015. África21 online, 8 jan. 2016. Disponível em: <http://www.africa21online.com/artigo.php?a=18375&e=Economia>. Acesso em: 10 mar. 2016.

1. O crescimento econômico africano ocorreu de maneira homogênea em todo o continente? Responda utilizando exemplos citados no texto.

1. Identifique quais grupos de idade prevalecem nos países africanos.

2. Segundo o texto, qual fator central ajuda a explicar o crescimento econômico africano mais elevado do que a média mundial em 2015?

2. Em relação ao envelhecimento da população, qual a principal comparação que pode ser feita ao analisarmos a situação da África com as demais regiões do mundo?

3. Quais fatos estão ligados às dificuldades ou até mesmo à queda no crescimento econômico de alguns países africanos?

237

6/1/16 3:34 PM


Sumário UNIDADE I – G  eopolítica, geoeconomia e poder mundial

4. O poder de fogo da economia estadunidense

60

4.1 A economia contemporânea dos Estados Unidos

61

4.2 E  stados Unidos: potência agrícola

62

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

.............................

11

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Capítulo 1 G  eografia das relações internacionais 12 ................................

...............................................................................................................

4.3 Recursos naturais e energia

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

63

1. O sistema internacional

14

5. A sociedade estadunidense

64

2. Estado

15 18

5.1 A  formação do povo estadunidense

66

18

5.2 A  atmosfera xenófoba

..............................................

.....................................................................................................

2.1 Estado e nação

................................................................

2.2 A  prerrogativa neoliberal

................................

3. O papel da ONU

20

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Roteiro de estudo

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22

.................................

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.......................................

67

Roteiro de estudo

70

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Capítulo 4 A globalização

72

.............................

Capítulo 2 G  eografia do poder mundial

1. Quando começou a globalização? 24

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

2. Globalização: um processo múltiplo 75

26

2.1 A globalização informacional

77

28

2.2 A globalização cultural

79

30

2.3 A globalização geográfica

80

2.4 A globalização política

82

.................................

2. A ordem bipolar da Guerra Fria

....................

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

2.2 A  corrida armamentista: momentos de tensão

31

2.3 A  crise dos mísseis

33

....................

.......................................

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

........................................

.............................................

2.5 A globalização econômica

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

35

3. O comércio mundial contemporâneo

38

4. O Brasil na globalização

......................................................

2.4 S inais de mudanças

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

3. A nova ordem mundial

...............................................

4. A nova ordem reorientada

40

4.1 A “guerra ao terror”

41

...................................

................................................

Roteiro de estudo

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Capítulo 3 E  stados Unidos: a hiperpotência

......................................................

43

46

.....................................................................

............................................

Roteiro de estudo

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Capítulo 5 Globalização e regionalização: os blocos econômicos

.......................................

1. A Doutrina Monroe

..........................................................

2. O Corolário Roosevelt e a política do Big Stick

..........................................................

48 54

2.1 A s intervenções dos Estados Unidos 54 na América ............................................................................

3. A Doutrina Truman e o período da Guerra Fria

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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74

.. . . . . .

1. A  noção de ordem mundial 2.1 Alemanha dividida

..............

1. B  locos de integração econômica

84 86 89

92 94

2. União Europeia: o modelo mais integrado

96

2.1 A crise da zona do euro

98

.........................................................................

......................................

2.2 Integração versus exclusão 57

..................

82

3. O Mercosul

............................

..................................................................................

99

102

6/4/16 4:29 PM


106

3.1 O peso demográfico e a geopolítica interna

147

Roteiro de estudo

107

3.2 A pujante economia

152

Exercícios

109

3.1 A integração das infraestruturas territoriais

...........................

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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UNIDADE II – C  onjuntura internacional: outros espaços 117 de poder .............................

Capítulo 6 China: nova potência118 .

.................................................

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Roteiro de estudo

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Capítulo 8 O  espectro geopolítico 156 do Oriente Médio ..............

1. Uma região geoestratégica

...............................

.....

2.1 O separatismo curdo

............................................

..................................................

....................

1.1 O jugo colonial e a Revolução Chinesa

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

120 120

2. O período Mao Tsé-Tung

123

2.1 A Revolução Cultural

123

.......................................

2.3 O anseio à União Europeia

.........................

3. O conflito israelo-palestino

...............................

3. Deng Xiaoping e as reformas econômicas

125

4. A geografia física e humana na China

132

Roteiro de estudo

134

..........................................................................................

163 163 165 167

3.2 A Guerra dos Seis Dias e as implicações territoriais

168

3.3 O  s Acordos de Oslo

170

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

..................................................

162

3.1 A criação de Israel e a primeira guerra árabe-israelense

...................................

...........................................

158

2. Turquia: entre o Ocidente e o Oriente 161 2.2 A questão cipriota

1. A construção política da China

154

...............................................

3.4 A questão no século XXI: ainda sem solução

171

...................................................

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

.....................................................................

Capítulo 7 R  ússia, Japão e Índia: potências distintas 136 ........

1. Começo, meio e fim da URSS

..........................

1.1 Início

4. O Golfo Pérsico

............................................................................................

138 138

1.2 Auge

139

1.3 Fim

140

4.1 O Irã

.............................................................................................

Roteiro de estudo

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

172 172 178

Capítulo 9 M  undo árabe, Cáucaso 180 e Ásia Central ...........................

1. A Primavera Árabe

182

142

2. O Estado Islâmico: um fenômeno extremista

187

2.1 A gênese do Japão moderno

142

3. A Ásia Central e o Cáucaso

188

2.2 O imperialismo japonês

143

2.3 O Japão no pós-guerra

144

4. Afeganistão e Paquistão: a morada do fundamentalismo 191

2.4 A reconstrução

145

...........................................................................................

..........................................................

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

2. Japão: potência econômica

...............................

...................

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3. Índia: potência econômica, atômica e demográfica

............................................

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....................................................................................

............................... .

...................................................

4.1 Afeganistão

191

4.2 Paquistão

193

......................................................................

.............................................................................

147

Roteiro de estudo

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

194

6/1/16 3:34 PM


Sumário Capítulo 10 Á  frica: o legado colonial

1.1 A formação do EZLN

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

1. A paisagem africana

....................................................

1.1 O quadro climatobotânico

...........................

196

1.2 Fronteiras mexicanas

198

1.3 O  narcotráfico e os fluxos transfronteiriços

199

2. Imperialismo e neocolonialismo

202

3. Questões geopolíticas

206

...............

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

3.1 Sudão: o norte contra o sul

206

3.2 Somália: guerra entre clãs

208

.......................

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

...........................................

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

2. Geopolítica da América Central

.................

2.1 Nicarágua

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

2.2 Cuba: novas perspectivas

.............................

2.3 Haiti: golpe e intervenção

..........................

3. Geopolítica Andina

242 242 244 245 246 246 248 249

3.3 A  ngola: do trauma da guerra à reconstrução nacional

209

3.1 A Venezuela e a herança chavista 249

3.4 Apartheid: o horror branco que vigorou na África do Sul

210

3.2 Colômbia: guerrilhas e narcotráfico

3.5 Nigéria: tensão étnica e religiosa

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Roteiro de estudo

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Capítulo 11 A  nova face da África: crescimento urbano 218 e econômico ..............................

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4. América Platina

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Roteiro de estudo

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2. Dilemas sociais

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222 224

1. T  erritório e política no Brasil

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2. As ações geopolíticas brasileiras

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2.2 A situação das mulheres

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3. Geografia econômica

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3.1 Agricultura africana 3.2 A riqueza mineral

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2.1 Geopolítica da Amazônia

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2.2 A  construção de Brasília e a integração regional

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2.3 Geopolítica platina

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2.1 O problema da Aids

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1.1 Crescimento populacional e urbano na África

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Capítulo 13 G  eopolítica do Brasil

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1. Quadro humano

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3. As relações Sul-Sul

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3.1 O Brics

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3.2 Unasul

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Roteiro de estudo

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4. As relações entre a África e o Brasil 234

Exercícios

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Roteiro de estudo

Referências

3.3 A indústria incipiente

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Capítulo 12 G  eopolítica da América Latina

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1. Distúrbios no México

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 ista de siglas de L exames nacionais

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282 286

 atriz de referência de Ciências M 287 Humanas e suas tecnologias ..............

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I

Markus Matzel/Ullstein Bild/Getty Images

Unidade

Geopolítica, geoeconomia e poder mundial Questão inicial

ESCREVA NO CADERNO

[...] para garantir que nenhuma grande potência consiga alcançar uma posição hegemônica de dominação total, com base na intimidação, na coerção ou no uso absoluto da força, é necessário construir e manter uma balança de poder militar. JACKSON, R.; SORENSEN, G. Introdução às relações internacionais. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. p. 23.

1. Você concorda com essa afirmação? 2. De qual maneira esta imagem contesta tal afirmação? Integrantes das tropas estadunidenses preparam a estátua de Saddam Hussein para derrubá-la. Bagdá, Iraque, 2003.

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CAPÍTULO 1

IMAGO/Fotoarena

Geografia das relações internacionais Sede da Assembleia Geral das Nações Unidas com a projeção das bandeiras de seus países-membros e símbolos dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, em Nova York, Estados Unidos, 2015.

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Tópicos do capítulo Sistema internacional Estado Organização das Nações Unidas (ONU)

Ponto de partida No site da ONU, há o seguinte trecho sobre os países-membros da organização.

ESCREVA NO CADERNO

O direito de tornar-se membro das Nações Unidas cabe a todas as nações amantes da paz que aceitarem os compromissos da Carta e que, a critério da organização, estiverem aptas e dispostas a cumprir tais obrigações. ONU Brasil, 2016. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/conheca/paises-membros>. Acesso em: 29 mar. 2016.

• Em sua opinião, você considera que todos os membros da ONU são realmente amantes da paz, como afirma o texto? Troque ideias com seus colegas sobre isso.

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1. O sistema internacional Navegar

STR New/Reuters/Latinstock

Opera Mundi <http://tub.im/apbejj> O Opera Mundi é um portal de publicações sobre política e notícias internacionais em geral.

Chamamos de sistema internacional o conjunto de Estados existentes. Os Estados estão organizados em territórios delimitados por fronteiras, onde exercem soberania e não obedecem a nenhuma instância de poder. No âmbito externo às fronteiras dos Estados, não existe uma entidade soberana que detenha o monopólio do poder mundial, uma única voz que se projete sobre o sistema internacional. Muitos atribuem à Organização das Nações Unidas (ONU) esse papel, mas é um equívoco, pois, como veremos, a função e os objetivos da ONU são de outra ordem, muito embora a entidade seja importantíssima na manutenção da paz mundial. A ONU, em tese, não tem o poder de interferir nos assuntos internos de um Estado. Além disso, um Estado pode optar por não pertencer à Organização, como foi o caso da Suíça, que aderiu à ONU apenas em 2002. Uma vez que não há uma entidade soberana que exerça o domínio sobre o poder mundial, torna-se necessário que os Estados busquem a coexistência pacífica. A necessidade de convivência em uma sociedade global deu origem ao termo comunidade internacional. No entanto, nem sempre se alcança êxito na busca da coexistência pacífica por meio do diálogo entre as nações. O conflito de interesses entre elas pode levar a guerras. Observe a imagem a seguir.

Guerra da Bósnia (1992-1995): na última década do século XX, a cruel guerra civil nos Bálcãs demonstrou a difícil convivência entre os povos. Fotografia da cidade de Brod, na Bósnia-Herzegovina, em 1995.

A atual concepção de Estado moderno originou-se entre os séculos XVI e XVII, na Europa, quando foram estabelecidos os primeiros Estados soberanos, representando um povo específico sobre um território delimitado. Esses Estados passaram a ter contato entre si, a se relacionar. No ano de 1648, com a assinatura do Tratado de Westphália, também conhecido como Paz de Westphália, nascia o sistema interestatal, de limites definidos entre os Estados. A Igreja e os impérios começam a se enfraquecer. Surgia uma nova forma de organização espacial do poder político. Esse tratado trazia consigo a concepção do Estado territorial, ou seja, um novo tipo de Estado, o Estado moderno, que passou a ter territórios demarcados por fronteiras definidas e governo desvinculado do poder da Igreja. Surgiu então a noção de país. O sistema internacional contemporâneo é marcado por uma forte interdependência entre os Estados, particularmente em questões econômicas num mundo em que o mercado global assume proporções antes jamais vistas. Além dos Estados, o sistema internacional é formado por uma série de organismos internacionais, como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (FMI), Organização Mundial do Comércio (OMC), Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entre outros.

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Não há uma interpretação unânime quanto ao atual estágio de interação que assumiu a comunidade internacional. Para alguns estudiosos, o grau de dependência econômica que caracteriza os Estados é algo positivo, pois permite o aumento de riquezas e dá uma forte dimensão de liberdade e conectividade entre os povos, quando se pretende maximizar as relações comerciais em busca da produtividade e eficiência. Trata-se de uma perspectiva fundamentalmente liberal. Outros, no entanto, entendem que tal relação de interdependência é negativa, pois acentua a diferença entre os países, aumentando o fosso da desigualdade, uma vez que há uma clara relação de exploração dos países pobres pelos ricos nas trocas comerciais. No estudo das Relações Internacionais há correntes teóricas que entendem o sistema internacional de forma distinta, entre as quais se destacam duas escolas. A realista tem uma interpretação hobbesiana do sistema internacional, ou seja, entende-o como um campo conflituoso no qual as relações não permitem maiores cooperações entre os Estados, uma vez que estes estão sempre em busca de poder. Nessa perspectiva, todo Estado tem dois objetivos: primeiro, a autodefesa, ou seja, garantir a sobrevivência; segundo, sobrepor-se aos demais Estados. Essa escola advoga a tese de que o sistema internacional traz em sua natureza uma perspectiva anárquica. Já a escola neoliberal entende o sistema internacional como passível de cooperação entre os Estados, em que o aspecto econômico pode preponderar sobre o político-militar. Ou seja, os neoliberais têm uma perspectiva cooperativa do sistema internacional, ao passo que os realistas o entendem como em permanente conflito. Esse é o debate central vigente nas Relações Internacionais: um mundo que flutua entre a guerra e a paz, entre o conflito e a cooperação. Vimos, portanto, que o sistema internacional é um agrupamento de entidades políticas independentes, os Estados. E, para melhor compreendermos como se dão essas relações interestatais, precisamos conhecer um pouco mais sobre o Estado – categoria política central das ciências humanas.

Navegar Centro Brasileiro de Relações Internacionais <http://tub.im/d7atio> O Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) é um interessante núcleo de divulgação de assuntos internacionais. Possui um imenso acervo de artigos científicos e disponíveis para download.

Hobbesiana: Relativo a Thomas Hobbes, em cuja obra, O Leviatã, difunde a tese de que a convivência humana é repleta de conflitos. Anárquica: Relativo à anarquia, sem uma ordem predefinida, sem uma autoridade constituída.

2. Estado O Estado é o organismo político máximo de uma sociedade, a base de qualquer organização social. Nos dias atuais, a maioria das sociedades está organizada em torno do Estado, que são unidades políticas, territoriais e autônomas que contemplam praticamente toda a população mundial. Todos nós estamos inseridos e ligados a um Estado, chamado de país, do qual somos cidadãos. Os Estados têm o monopólio do poder político no interior de suas fronteiras, pois são unidades soberanas e autoridade máxima. Talvez você não perceba, mas o seu dia a dia obedece a um conjunto de regras estabelecidas por esse agente político. Há ao menos cinco valores básicos e imprescindíveis que o Estado deve defender e garantir: ordem, segurança, liberdade, justiça e bem-estar. Por exemplo, a sociedade espera que o Estado cumpra a função de assegurar a segurança interna e externa. Internamente, o Estado deve impor leis garantidoras da segurança, pois, senão, pode ocorrer barbárie. No plano exterior, vivemos em um mundo formado por Estados armados e há o risco de uma eventual ameaça externa. A maioria dos países apresenta um comportamento pacífico e amigável no sentido de coexistência perante os demais, mas o passado e o presente estão repletos de exemplos no sentido oposto. O Estado tornou-se a categoria teórica central das ciências humanas. Ele está no centro de obras clássicas dos filósofos políticos, como O príncipe, de Maquiavel, O Leviatã, de Hobbes, ou O contrato social, de Rousseau. Uma das vertentes da Geografia, a geopolítica, foi concebida a partir do Estado.

Ler Novas geopolíticas, de José William Vesentini. São Paulo: Contexto, 2000. Livro que faz uma retrospectiva da Geopolítica e apresenta novas correntes.

Geopolítica: Campo de estudo da Geografia (e também de outras ciências sociais), que trata de questões estratégicas ligadas ao território; nos dizeres do jurista sueco Rudolf Kjellén, criador do termo, é a “consciência geográfica do Estado”. Porém, hoje, não é mais uma ferramenta exclusiva do Estado.

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A origem do Estado moderno está na Europa, particularmente na Revolução Francesa (1789), embora as primeiras manifestações de formação estatal tenham ocorrido antes. Posteriormente, esse tipo de organização social e política se tornou hegemônico em todo o mundo. Nessa discussão, três são as categorias políticas que caminham indissociavelmente ligadas: Estado, nação e território. Observe a imagem a seguir. Jean-Pierre Hoüel. Séc. XVIII. Óleo sobre tela. Museu Carnavalet, Paris. Foto: Bridgeman Art Library/Grupo Keystone

Território: Uma dimensão analítica da Geografia Política indissociavelmente ligada à ideia de poder. Na Geografia, não se concebe o território meramente como uma extensão de terras, algo puramente físico, mas também o uso humano e político que dele se faz.

A tomada da Bastilha, 14 de julho de 1789, óleo sobre tela de Jean-Pierre Hoüel. A Revolução Francesa e seus efeitos lançaram as bases do Estado moderno.

Ver

Filme de Andrey Zvyagintsev. Leviatã. Rússia. 2014

O Absolutismo: a ascensão de Luís XIV. Direção: Roberto Rossellini. França, 1996. O filme aborda a trajetória do rei francês Luiz XIV, autor da célebre frase política “O Estado sou eu”. Leviatã. Direção: Andrey Zvyagintsev. Rússia, 2014. Título homônimo à obra de Thomas Hobbes, esse filme narra a história de políticos corruptos de uma pequena cidade russa. É uma crítica velada ao Estado russo dos dias atuais.

Apesar de encontrarmos nas civilizações grega e romana as primeiras nuances do Estado ocidental, quando surgiram as primeiras expressões da política como democracia, república, senado ou tirania, é na transição do feudalismo para o capitalismo durante os séculos XIII e XIV que encontramos um delineamento mais claro da formação dos Estados que perdura até os dias atuais. A passagem do sistema feudal para o absolutismo mercantil rompeu com a fragmentação territorial de até então, dando origem ao Estado territorial, delimitado por fronteiras. O marco que consolida o Estado são as revoluções burguesas, particularmente a Francesa, que originaram uma nova noção de soberania, catalisada na figura do Estado, esse instrumento da sociedade. Cai a imagem do Estado absolutista sintetizado na máxima de Luís XIV, “O Estado sou eu”, e ascende o Estado burguês. Há interpretações diferentes sobre o papel do Estado no conjunto da sociedade. Muitos o veem como o elo da nação e dão a ele um sentido patriótico. Para outros, o Estado tem função administrativa: cuidar do bem-estar, como a previdência e a saúde, por exemplo. Já numa terceira dimensão, é visto como o elaborador de leis e do zelo da ordem. Na prática, o Estado se incumbe simultaneamente de todas essas situações, pois detém o poder político e garante a ordem, uma vez que define a inquestionabilidade do sistema. É importante observar a diferença entre Estado e governo, conceitos próximos e que geram certa confusão. Existem inúmeras discussões e definições teóricas sobre isso, mas podemos afirmar que Estado é a estrutura de poder e representa um povo que habita um território, enquanto governo é o grupo de pessoas que está temporariamente administrando o Estado. Numa democracia, o governo é eleito para administrar o Estado, normalmente por meio de eleições nas quais as pessoas que pretendem governar se organizam em partidos políticos para fazê-lo. Pressupõe-se, portanto, que o governo seja passageiro, transitório, podendo ou não ser reeleito e permanecer mais tempo à frente do Estado. Num regime totalitário, é comum o governo perpetuar-se à frente do Estado. O Estado pode organizar-se como regime monárquico, como no Reino Unido e na Espanha, que são monarquias parlamentaristas. A outra possibilidade é a república; nesse caso, pode ser uma república presidencialista, como Brasil e Estados

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Unidos, ou uma república parlamentarista, como França e Israel. Reis e presidentes são comumente chefes de Estado, enquanto primeiros-ministros são chefes de governo; no presidencialismo, o presidente é simultaneamente chefe de Estado e de governo. As opções de regimes e sistemas variam de país para país. Em todas as sociedades, ter o controle do Estado é ter o poder. Logo, quando um grupo de pessoas ou um segmento da sociedade se instala no Estado, dá as diretrizes e dita a condução da sociedade por meio das várias funções do Estado. Igualmente, o Estado tem conotação de poder econômico por ser responsável pela construção das principais infraestruturas de um país. O mesmo vale para o perfil ideológico, uma vez que por meio do Estado realiza-se a construção do tecido social.

Maurice Quentin de La Tour. 1753. Pastel. Museu de Arte e História, Genebra

ESCREVA NO CADERNO

O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, O Leviatã, de Thomas Hobbes, e O contrato social, de Jean-Jacques Rousseau, são obras clássicas da Política que discutem a Teoria de Estado.

ESCREVA NO CADERNO

As interpretações do Estado Estado é sem dúvida uma palavra polissêmica, e por isso um conceito que apresenta uma diversidade de interpretações. Há exemplos cotidianos do uso de seus múltiplos significados: para alguns é o sentido estritamente administrativo que conta; para outros, Estado é sinônimo de pátria ou de território. De outro ponto de vista, existe quem o veja como um aparelho estritamente de repressão; e quem o aprecie, pelo contrário, pelo seu papel de garantidor da liberdade [...]. O geógrafo Joan-Eugeni Sánchez [...] tenta sistematizar estes significados [...] e propõe quatro acepções básicas: Estado-nação, Estado-poder, Estado-território e Estado-administração. Quanto à primeira, [...] trata-se de uma acepção complexa [...]. Se um Estado é uma instituição política de soberania reconhecida pelo direito, e uma nação é uma comunidade formada por pessoas que compartilham elementos históricos e culturais, há Estados que contêm mais de uma nação, como a Espanha, por exemplo. Há nações, por outro lado, que não são um Estado, tal como a Catalunha. Há ainda nações divididas entre vários Estados (como a Albânia e o Curdistão), e inclusive há aquelas teoricamente compostas por diferentes Estados, como os Estados Unidos da América. Enfim, uma ampla equiparação entre Estado e nação requereria muito mais matizes do que normalmente se apresenta. Outro possível significado do Estado é aquele que o identifica como uma instituição capaz de organizar a coação, [...], bem como a produção e a reprodução em função de determinados modelos e interesses, isto é, o Estado como instrumento de poder. Um instrumento [...] que para uns é necessário e para outros não; para uns é benéfico e para outros, prejudicial. [...] A noção de Estado-território parte da constatação de que todo Estado possui um território sobre o qual exerce a soberania – ou de que todo Estado também é um território. Esse território, delimitado por uma fronteira, contém a cidadania submetida a tal soberania. [...]. Por fim, a acepção Estado-administração refere-se ao Estado como mecanismo burocrático, organizador e gestor de competências. [...] FONT, Joan Nogué; RUFÍ, Joan Vicente. Geopolítica, identidade e globalização. São Paulo: Annablume, 2006. p. 99-100.

Da esquerda para a direita: retrato de Nicolau Maquiavel (detalhe), óleo sobre tela, de Santi di Tito, século XVI; retrato de Thomas Hobbes, óleo sobre tela, de John Michael Wright, 1669-1670; retrato de Jean-Jacques Rousseau, pastel, de Maurice Quentin de La Tour, 1753.

Ver Coração valente. Direção: Mel Gibson. Estados Unidos, 1995. O filme aborda a luta pela soberania escocesa em relação ao Reino Unido. Filme de Mel Gibson. Coração Valente. EUA. 1995

Enfoque

John Michael Wright. 1669-1670. Óleo sobre tela. Galeria Nacional do Retrato, Londres

Estes três filósofos estão entre os grandes pensadores da civilização ocidental e da formulação da “arte da política”. Eles influenciaram enormemente as disciplinas das ciências humanas, como a História, a Sociologia, a Geografia e Filosofia. Utilizando o conceito “Política”, produza um pequeno texto com os conhecimentos que você adquiriu por meio dessas disciplinas. Por exemplo: o cenário político atual e o Estado brasileiro ou outro tema similar.

Santi di Tito. Séc. XVI. Óleo sobre tela. Palazzo Vecchio, Florença

Conversando com a... Filosofia, Sociologia e História!

• Em sua opinião, em qual dessas concepções de Estado o Brasil se enquadra? Justifique sua resposta.

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2.1 Estado e nação

Ler Era dos extremos, de Eric Hobsbawm. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. O livro do historiador britânico faz uma radiografia do breve século XX.

EFE/EFE

Editora Companhia das Letras

O historiador Eric Hobsbawm, um dos maiores estudiosos sobre os significados do termo “nação”, reconhece a dificuldade em defini-lo. Segundo ele, nação é um conjunto de indivíduos que se reconhecem como tal e se veem como “nós”, sabendo identificar quem são os que não pertencem ao grupo, o “eles”. A língua, a etnia, a história comum, a religião, entre outros elementos, propiciam a construção de uma identidade. Os últimos trinta anos foram marcados por um paradoxo: ao mesmo tempo em que a globalização anunciou certa homogeneização do espaço geográfico por meio da integração econômica, fortes movimentos nacionalistas afloraram e culminaram em separatismos. Europa e Ásia concentram as ocorrências mais violentas. E é exatamente no território em que o antagonismo se materializa, num embate entre a globalização que procura a homogeneização e o nacionalismo que tende à fragmentação.

A Espanha é um exemplo de convivência de várias nações, como a Catalunha e o País Basco, em um mesmo Estado. A maioria dos bascos e dos catalães reivindicam a independência em relação à Espanha, que resiste. Na fotografia, as seleções da Catalunha (à direita) e do País Basco (à esquerda) seguram uma faixa com os dizeres “Uma nação, uma seleção”, em jogo realizado em Bilbao, em 2014.

Interagindo

ESCREVA NO CADERNO

Suponha-se que um dia, após uma guerra nuclear, um historiador intergaláctico pouse em um planeta então morto para inquirir sobre as causas da pequena e remota catástrofe registrada pelos sensores de sua galáxia. Ele, ou ela [...], consulta as bibliotecas e arquivos que foram preservados porque a tecnologia desenvolvida do armamento nuclear foi dirigida mais para destruir pessoas que a propriedade. Após alguns estudos, nosso observador conclui que os últimos dois séculos da história humana do planeta Terra são incompreensíveis sem o entendimento do termo “nação” e do vocabulário que dele deriva. O termo parece expressar algo importante nos assuntos humanos. Mas o que exatamente? Aqui está o mistério. HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1780. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p.11.

• Em sua obra Nações e nacionalismo desde 1780, Eric Hobsbawm dedica parte dela à discussão do termo “nação”, enaltecendo sua importância e sua compreensão de que se trata de um mistério. Como você entende a mensagem de Hobsbawm?

2.2 A prerrogativa neoliberal Navegar Mundorama <http://tub.im/jypx3s> Neste site estão disponíveis artigos sobre agenda internacional e da política externa brasileira, além de divulgar livros e pesquisas científicas.

Desde sua consolidação, o Estado foi o ator central no palco das relações internacionais, o agente hegemônico do exercício do poder. Contudo, tal perspectiva de hegemonia passou a ser questionada no último quartel do século XX, particularmente com o advento da globalização, nas décadas de 1980 e 1990. Surge outra perspectiva de interpretação do sistema internacional, que advoga o enfraquecimento do Estado e defende a tese de que este passa a ter outros componentes que compartilham com ele o poder e a ação sobre o sistema.

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Ler Política Externa. São Paulo: Gacint-USP, 2011. Revista de política internacional editada pelo Grupo de Análise de Conjuntura Internacional do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo.

Human Watch Rights e Greenpeace: São importantes ONGs. A primeira atua na área dos direitos humanos; a segunda, na área ambiental.

Logomarca Organização Mundial do Comércio

A ideia de enfraquecimento do Estado como único fio condutor da sociedade passou a ganhar força nas últimas décadas do século XX. Esse momento de forte discurso contra o papel do Estado nas várias instâncias da sociedade (sociais, econômicas e políticas) foi protagonizado pelo neoliberalismo, doutrina econômica que surgiu na década de 1930, quando não logrou êxito, mas que foi intensamente revigorada a partir dos anos 1970-1980. Dois eram os principais dirigentes que, criticando ferozmente a presença do Estado nos mais variados segmentos da sociedade, davam nova força ao neoliberalismo: Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos (1981-1989), e Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica (1979-1990). Os dois líderes conduziram os respectivos governos e a asserção que tinham sobre a esfera internacional com forte enfoque na doutrina liberal. No plano internacional, os neoliberais passaram a advogar, num primeiro momento, o discurso de obsolescência do Estado e, então, sua retirada das relações institucionais. Defendiam a tese de substituí-lo por instituições e organismos no palco das relações internacionais, uma vez que a era de resolução dos conflitos pela via das armas se encerrara; agora era a hora e a vez da diplomacia corporativa. Ganhava força a crença nas instituições como regentes da paz e da organização internacional. Os principais analistas neoliberais afirmavam que a transnacionalização da economia interligara os países e as relações econômicas preponderavam agora sobre as políticas e, portanto, deveriam ser conduzidas por agentes econômicos e comerciais. Novos atores surgiram no teatro internacional: as grandes corporações transnacionais (TNCs), organismos internacionais (OIGs), como o Banco Mundial ou a Organização Mundial do Comércio (OMC), e as mais variadas organizações não governamentais (ONGs), como Human Watch Rights ou o Greenpeace. Na visão neoliberal, o sistema internacional assistia ao arrefecimento do poder militar e a valoração do poder econômico. A prerrogativa neoliberal era de que “os armamentos não teriam o ecletismo do dinheiro”. Anunciavam, portanto, o fim do monopólio estatal no quadro das relações internacionais. A outra escola expoente de interpretação das Relações Internacionais, o realismo, afirmava que, ao contrário do que queriam os neoliberais, a lógica do sistema internacional naqueles anos 1980 continuava sendo ditada pelas relações de poder político e não econômicas. Dessa forma, ocorria um grande debate teórico sobre a interpretação do mundo político: os realistas defendiam a tese de que todo Estado busca poder, logo o sistema é anárquico, pautado por um clima de disputa de todos contra todos, já que não existe uma instância máxima de poder acima dos Estados; enquanto os neoliberais rebatiam afirmando que era possível conciliar interesses comuns entre Estados e a busca de uma cooperação por meio de mecanismos multilaterais de negociação em que vigoram as instituições como organizadoras do sistema. A tréplica dos realistas: pode até haver cooperação, mas ela terá prazo de validade, uma vez que a cooperação pretendida pelos neoliberais se faz pela lógica de mercado e o espírito concorrencial que rege o capitalismo não permite uma relação simétrica entre os Estados; sempre haverá ganhadores e perdedores nas transações e um Estado em desvantagem perde o mais importante: a soberania. A maior contribuição da escola de pensamento neoliberal foi apostar na força das instituições e num mundo regido por elas. Podemos atestar que tal aposta se confirmou, independentemente de concordância ou discordância do perfil das organizações internacionais, elas estão presentes. A escola neoliberal segue acreditando que o espírito das relações internacionais pode ser fonte de cooperação e não de conflito. Contudo, isso não significa que a perspectiva realista ruiu, pois, como se vê, o Estado, a despeito de discursos contrários a ele, segue firme como ator central no palco das relações internacionais.

Símbolo da OMC, organização que tem o objetivo de estimular o comércio internacional e combater o protecionismo, um dos atributos do neoliberalismo.

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Logomarca Nações Unidas

3. O papel da ONU

A proposta na criação do símbolo da ONU foi utilizar a projeção azimutal a partir do Polo Norte, que tem como propósito uma visão cartográfica baseada na neutralidade, sem nenhum centro geopolítico aparente. Contudo, essa representação é passível de crítica, pois a América do Sul e a África estão nas bordas da projeção.

Países do Eixo: Aliança militar formada por Alemanha, Japão e Itália.

A Organização das Nações Unidas (ONU), composta em 2015 de 193 países, foi fundada em outubro de 1945, no contexto internacional que se abria após o término da Segunda Guerra Mundial. Sua criação teve como principal objetivo evitar guerras e manter a paz mundial. Antes da ONU, fora criada a Liga das Nações, durante a Conferência de Paz, em 1919, após a Primeira Guerra Mundial, que, no entanto, fracassara na tentativa de evitar guerras e foi extinta. O mais recente país a ingressar na ONU foi o Sudão do Sul, em 2011. A criação da ONU não se deu de uma hora para outra. Embora tenha surgido em 1945, seu embrião já podia ser visto em 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial, quando 26 países assinaram um documento intitulado Declaração das Nações Unidas, em que se comprometiam a combater os países do Eixo. Ao término da Segunda Guerra, em 25 de abril de 1945, na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, 51 países assinaram o documento que estabeleceu os princípios do organismo: a Carta da ONU. Esses 51 países são considerados os fundadores da ONU, e o Brasil está entre eles. Em 24 de outubro de 1945, com a ratificação da Carta, era criada oficialmente a organização; o dia 24 de outubro ficou conhecido como o dia da ONU.

Os princípios que regem a ONU •• A Organização se baseia no princípio da igualdade soberana de todos os seus membros. •• Todos os membros se obrigam a cumprir de boa-fé os compromissos da Carta. •• Todos deverão resolver suas controvérsias internacionais por meios pacíficos, de modo que não sejam ameaçadas a paz, a segurança e a justiça internacionais. •• Todos deverão abster-se em suas relações internacionais de recorrer à ameaça ou ao emprego da força contra outros Estados. •• Todos deverão dar assistência às Nações Unidas em qualquer medida que a Organização tomar em conformidade com os preceitos da Carta, abstendo-se de prestar auxílio a qualquer Estado contra o qual as Nações Unidas agirem de modo preventivo ou coercitivo. •• Cabe às Nações Unidas fazer com que os Estados que não são membros da Organização ajam de acordo com esses princípios em tudo quanto for necessário à manutenção da paz e da segurança internacionais. •• Nenhum preceito da Carta autoriza as Nações Unidas a intervir em assuntos que são essencialmente da alçada nacional de cada país. ONU. Conheça a ONU. Disponível em: <http://www.nacoesunidas.org/conheca/principios>. Acesso em: 7 dez. 2015.

A ONU possui seis idiomas oficiais (árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo) e apresenta uma estrutura com sete órgãos principais: • Assembleia Geral; • Secretariado; • Conselho de Tutela; • Tribunal Internacional de Justiça; • Conselho de Segurança; • Tribunal Penal Internacional. • Conselho Econômico e Social; Navegar ONU-Brasil <http://tub.im/hy9j2n> No site das Nações Unidas no Brasil é possível encontrar diversas informações sobre o funcionamento da ONU e das agências que atuam no Brasil.

Dois desses órgãos possuem mais evidência na agenda internacional: a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança. A Assembleia Geral da ONU reúne anualmente, no mês de setembro, representantes de todos os países-membros. Trata-se de uma instância consultiva e democrática: cada país, um voto. A função da Assembleia é discutir e encaminhar soluções sobre os principais problemas internacionais, assim como avaliar o orçamento da ONU. A Assembleia é soberana para definir se determinado assunto será encaminhado por maioria simples ou se será submetido a uma aprovação de 2/3 dos membros.

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EDUARDO MUNOZ/REUTERS/Latinstock

É no âmbito da Assembleia que são discutidos alguns dos mais polêmicos assuntos internacionais e que novos membros são admitidos ou expulsos. Tradicionalmente nas reuniões anuais, a Assembleia Geral é aberta pelo chefe de Estado brasileiro, tradição que vem desde a Assembleia inicial realizada em 1947, quando o primeiro a discursar na seção foi o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha. Já o Conselho de Segurança da ONU é tido como a entidade máxima do poder mundial, a instância decisória sobre questões de segurança internacional. Somente ele pode aprovar resoluções relacionadas a guerras. Para entender o porquê disso, é necessário conhecer um pouco melhor sua estrutura e funcionamento. O Conselho de Segurança é constituído por 15 membros, mas com uma flagrante hierarquia de poder: cinco são permanentes e têm o poder de veto; os outros dez são rotativos e não possuem tal poder. Essa situação não configura uma representatividade equânime, mas uma clara relação assimétrica de poder, por isso a reforma do Conselho é um dos temas mais debatidos nas relações internacionais contemporâneas. Os cinco membros permanentes são: Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França. Os outros dez são eleitos pela Assembleia Geral para um mandato de dois anos. O que justifica o status dos membros permanentes é o fato de serem considerados os vencedores da Segunda Guerra Mundial. O Conselho de Segurança da ONU encontra-se em sessão permanente, podendo ser acionado a qualquer momento. O órgão é a última palavra em guerra; é ele quem decide, por exemplo, se haverá, ou não, intervenção armada em algum lugar do globo; também decide sobre sanções e embargos econômicos contra países considerados violadores dos tratados internacionais ou tachados como agressivos; em conjunto com a Assembleia Geral, aprova ou recusa a entrada de algum Estado que deseja tornar-se membro da ONU; aprova ou reprova o envio de “missões de paz” a países em estado de guerra civil. Essas decisões do Conselho são designadas como resoluções. Para uma resolução ser aprovada no Conselho de Segurança, é necessário que os cinco membros permanentes aprovem ou se abstenham (o que não é considerado veto) e mais quatro membros rotativos votem favoráveis, totalizando, então, nove votos. Mesmo que 14 países optem por aprovar uma resolução, caso um dos cinco membros permanentes vete, a resolução está reprovada. Convém ressaltar, no entanto, que o veto é sempre indesejado e as potências evitam ao máximo usar de tal poder para não se expor a desgaste político. Logo, a atuação nos bastidores é intensa para se evitar que uma resolução seja encaminhada antes de um acordo. Contudo, nem sempre há êxito em tal empreitada. O caso da Guerra do Iraque, em 2003, é emblemático. Houve uma rara e incontornável divergência entre Estados Unidos e França, e o país europeu anunciou antecipadamente que vetaria uma intervenção armada ao Iraque. Então, num raríssimo caso desde a criação da ONU em 1945, um país foi atacado sem uma resolução específica para isso. Por ser a instância de maior poder político da ONU e da evidente concentração de poder nas mãos de cinco países, há alguns anos o Conselho de Segurança tem sido alvo de questionamentos, mais especificamente desde 1993, quando se iniciaram trabalhos para a ampliação do Conselho.

Conselho de Segurança: entidade máxima da ONU, mas com estrutura assimétrica de poder. Na fotografia, reunião do Conselho de Segurança, em Nova York, em 2015.

Poder de veto: Poder de vetar uma resolução internacional estabelecida pelo Conselho de Segurança da ONU, condição especial que apenas cinco países têm.

Navegar Ministério das Relações Exteriores <http://tub.im/5t9f57> A página do Ministério das Relações Exteriores, o porta-voz oficial do Brasil no sistema internacional, contém inúmeros textos e informações sobre o contexto político mundial.

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Pauta musical

LP Longe demais das capitais, dos Engenheiros do Hawaii. Brasil, 1986

Toda forma de poder, Engenheiros do Hawaii. Álbum: Longe demais das capitais. RCA, 1986. Pauta: Poder mundial.

Foi nesse contexto que surgiu o G4, grupo de quatro países que anseiam pela reforma do Conselho e por uma vaga como membro permanente: Alemanha, Brasil, Índia e Japão. Paira um certo consenso entre os países que a representatividade do Conselho, por ser inspirada no contexto da Segunda Guerra, não mais responde à realidade internacional contemporânea, caracterizada por maior multilateralismo político e econômico. O Brasil é um dos mais ativos pleiteantes à vaga permanente e brada pela mudança de estrutura de poder do Conselho, argumentando que a agenda internacional não pode estar refém de uma realidade política de 1945. O G4 defende que, além da presença dos quatro países no Conselho, a África também possua um assento permanente representado por um país do continente a ser definido. O mais provável seria a África do Sul, contudo o movimento perdeu força nos últimos anos. Os nós políticos para a reforma do Conselho não serão facilmente desatados. Uma eventual aprovação do aumento de membros permanentes do Conselho deverá ser submetida à Assembleia Geral da ONU, que, por sua vez, deverá ser aprovada por 2/3 dos países que compõem o órgão. ESCREVA NO CADERNO

A Geografia na... música!

Em seu clássico, A era dos extremos, Eric Hobsbawm (1917-2012) escreveu: Não sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto e por quê. HOBSBAWM, E. A era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 562.

Em uma linguagem mais poética, o compositor Cartola (1908-1980) cantou: O mundo é um moinho.

• Com base no que foi discutido neste capítulo, que relação você estabelece entre a afirmação de um intelectual e a letra da canção de um compositor popular?

ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO

1. Por que dizemos que o tema “internacional” é hoje mais presente na vida das pessoas? 2. Como a Geografia pode contribuir para uma melhor compreensão do espaço mundial? 3. Você entende que há uma voz soberana no sistema internacional que detenha o monopólio da autoridade? Justifique. 4. Uma das escolas expoentes de interpretação das Relações Internacionais é o realismo. O que diz o realismo sobre o sistema internacional? 5. No estudo das Relações Internacionais, outra corrente teórica que analisa o sistema internacional é o neoliberalismo. O que defende a prerrogativa neoliberal para o sistema internacional? 6. A Organização das Nações Unidas (ONU), em 2015, era composta de 193 países. O mais recente país a ingressar na ONU foi o Sudão do Sul. Quando foi criada a ONU e sob qual justificativa e contexto? 7. O Conselho de Segurança da ONU é a entidade máxima do poder mundial, a instância decisória sobre questões de segurança internacional. Somente ele pode aprovar resoluções relacionadas a guerras.

Como está estruturado o Conselho de Segurança da ONU nos dias atuais? 8. A ONU vai muito além da mediação internacional, cumprindo importante papel na área social, econômica, cultural, ambiental e de direitos humanos em todo o mundo por meio de suas agências, programas ou fundos. Pesquise quais são as agências da ONU e relacione qual você considera a mais importante. Justifique a sua resposta. 9. A partir da leitura do capítulo, tente explicar em poucas palavras a diferença básica entre Estado e governo.

Olhar cartográfico • Discuta a pertinência da projeção cartográfica do símbolo da ONU e compare-a com as demais projeções que você conhece. Observe que, no contorno do globo, há um símbolo. O que ele representa? Logomarca Nações Unidas

Revisando

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Atividade em grupo A sala será transformada na Assembleia Geral da ONU, que discutirá e decidirá pela reforma, ou não, do Conselho de Segurança da ONU. Cada aluno representará um Estado (país). Assim, o aluno que representar os Estados Unidos deverá justificar sua posição em relação à reforma, aquele que representar o Brasil deverá justificar a aspiração à vaga de membro permanente, tal qual Alemanha, Japão e Índia. Assim, sucessivamente, se posicionarão os representantes tantos quantos forem selecionados.

De olho na mídia Leia o texto abaixo e, depois, responda às questões. Agência da ONU para energia atômica oferece tecnologia nuclear contra vírus Zika Usar a radiação nuclear para eliminar ou reduzir a população do mosquito Aedes aegypti, que transmite o vírus zika, será um dos temas centrais que o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica da Organização das Nações Unidas (Aiea), Yukiya Amano, apresentará a vários países em viagem pelas Américas que começa na segunda-feira [25/01/2016]. O vírus zika está relacionado ao aumento de casos de microcefalia em bebês na América Latina. “A tecnologia para a esterilização de insetos é muito eficaz na redução ou erradicação da população de mosquitos e outros portadores de doenças”, explicou Amano em entrevista na véspera de partir para o Panamá, primeira escala da visita de duas semanas pela região da América Central e México. O diplomata japonês recordou que a agência da ONU para energia atômica, que zela pelo uso pacífico da tecnologia nuclear, tem muita experiência nesta técnica para o controle de pragas. Amano destacou também que a organização tem capacidade para reagir com rapidez a crises deste tipo e deu como exemplo o surto de ebola na África em 2014. Na época, a agência enviou em poucas semanas uma missão aos países africanos afetados. Com o uso de tecnologia nuclear, o tempo necessário para diagnosticar o ebola nesses países foi reduzido de quatro dias para quatro horas. A esterilização nuclear de insetos já teve êxito contra a mosca tsé-tsé, na África, que transmite a chamada “doença do sono” em humanos e afeta também o gado. O diretor da agência da ONU lembrou, no entanto, que a entidade ainda trabalha na aplicação desta técnica sobre os mosquitos transmissores de outras doenças, como o zika, e advertiu que o problema “não será resolvido da noite para o dia”. Além disso, será necessário combinar a esterilização dos mosquitos com outras técnicas e medidas, como o uso de produtos químicos, armadilhas e redes, destacou Amano. Além do Panamá, ele irá à Costa Rica, El Salvador, Nicarágua, Guatemala e o México, com uma intensa agenda de contatos de alto nível. “Estamos interessados nesta região. Estamos interessados em países grandes e pequenos, em países que utilizam a energia nuclear para gerar energia, mas também nos que a usam em doentes com câncer ou a ajudar pequenos agricultores”, acrescentou. Segundo Amano, a tecnologia nuclear pode ser útil para estes países e sua visita servirá para a ONU entender as necessidades de cada nação nessa área. “Estas tecnologias podem ser úteis para eles. E eles têm interesse. Para fazer isto, precisamos entendê-los e ter um bom entendimento com os líderes políticos”. A Agência Internacional de Energia Atômica já desenvolveu técnicas como a mutação de culturas mediante raios gama para conseguir novas variedades de plantas mais resistentes às doenças. Na Guatemala, por exemplo, a agência lançou um projeto para combater o Hemileia vastatrix, fungo que afeta as plantas de café. A entidade também oferece tecnologia e formação médica para a luta contra o câncer na América Central. Amano recordou que a agência atua como intermediária num programa para que oncologistas da região – profissionais e estagiários – possam frequentar cursos de formação e especialização na Espanha. “A formação periódica é necessária porque a tecnologia avança muito rapidamente”. AGÊNCIA da ONU para energia atômica oferece tecnologia nuclear contra vírus zika. EBC Agência Brasil, 23 jan. 2016. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/ noticia/2016-01/agencia-da-onu-para-energia-atomica-oferece-tecnologia-nuclear-contra>. Acesso em: 24 mar. 2016.

1. Vimos no capítulo que as agências da ONU majoritariamente estão a serviço de um mundo melhor. No caso da agência em questão, qual é sua principal finalidade? No caso em destaque, como ela pode ajudar positivamente? 2. O texto fala em diversos países da América Latina. Por que esses países têm um problema comum?

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CAPÍTULO 2

Geografia do poder mundial Os investimentos militares na nova ordem mundial A dissolução da União Soviética e a ascensão dos Estados Unidos como única superpotência global representaram o fim da intensa corrida armamentista entre as duas potências. O período pós-Guerra Fria e surgimento da nova ordem mundial foi marcado pela queda dos investimentos militares estadunidenses e pelo sucateamento do aparato militar soviético.

Tratado de Redução de Armas Estratégicas No início da década de 1990, os Estados Unidos e a Rússia eram detentores de 96% das armas nucleares do mundo. Em 1991, as duas potências assinaram o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START) concordando em reduzir e limitar o uso dos seus arsenais nucleares. Esse acordo representou a diminuição de 30% a 40% no total das forças nucleares estratégicas de cada país.

A desintegração da União soviética

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

Jeeragone Inrut/123rf/Easypix

A queda do Muro de Berlim, em 1989, marca o fim da Guerra Fria. Com o exército soviético desmantelado e a crise social e econômica, várias repúblicas se tornam independentes em 1991, e a URSS é dissolvida. Parte de seu antigo aparato militar, tanques e armas, atualmente está à venda para colecionadores.

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Tópicos do capítulo Ordem mundial Guerra Fria Nova ordem mundial

O ataque terrorista de 11 de setembro e a retomada dos investimentos militares

Spencer Platt/Getty Imag

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Os gastos militares dos Estados Unidos caíram entre 1989 e 2001, no entanto, voltaram a subir no início do século XXI, após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, sob a justificativa da guerra ao terror.

Estados Unidos: superpotência militar Em 2014, os investimentos militares dos Estados Unidos foram de US$ 610 bilhões, correspondendo a 34% do total mundial. A Rússia e a China, respectivamente, em segundo e terceiro lugar nos gastos militares, representam juntas 16,8% das despesas globais. Fonte: SIPRI – Stockholm International Peace Research Institute. Disponível em: <http://www.sipri.org/googlemaps/milex_top_15_2014_exp_map.html>. Acesso em: 2 fev. 2016.

Ponto de partida 1. Em sua opinião, quais foram as mudanças na ordem mundial que resultaram na diminuição de investimentos militares pelos Estados Unidos? 2. Por que, no início do século XXI, os gastos militares dos Estados voltaram a subir e alcançaram o mesmo patamar de 1989?

ESCREVA NO CADERNO

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1. A noção de ordem mundial Bob Daugherty/AP/Glow Images

A expressão nova ordem mundial tornou-se frequente em nosso cotidiano a partir das transformações geopolíticas do final do século XX, mais precisamente quando o ex-presidente estadunidense George Bush, após a derrota do Iraque na Guerra do Golfo, em 1991, empregou o termo, ao declarar que o mundo adentrava em uma nova era regida, segundo ele, por uma nova ordem mundial. Podemos afirmar que ordem mundial é o contexto das relações políticas estabelecidas entre Estados em determinado momento histórico. Quem determina a ordem são as potências, que encaminham os procedimentos nos campos da política e da economia mundial; os demais Estados ficam restritos a se inserir nela. Uma ordem mundial é estabelecida pela segurança coletiva, pelo equilíbrio de poder entre alguns países e pela governança do sistema internacional. Em linhas gerais, observamos três tipos de ordem mundial: • Ordem multipolar – quando existem algumas potências pautando as relações internacionais. É a mais comum das ordens ao longo da história. Foi vigente durante o século XIX e a primeira metade do século XX. Os episódios que envolveram o Imperialismo, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial ocorreram dentro de uma ordem multipolar. Observe o mapa abaixo.

George Bush anuncia a nova ordem mundial, em Washington, Estados Unidos, 1991.

Allmaps

Mundo multipolar 0°

CANADÁ

JAPÃO

ESTADOS UNIDOS MÉXICO

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OCEANO PACÍFICO

RÚSSIA

CHINA

REINO UNIDO ALEMANHA

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FRANÇA

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Imperialismo: Em uma visão restrita e objetiva, é o período histórico que compreendeu a fase mais madura do capitalismo, quando houve a investida europeia em busca de novas áreas para suprir o sistema que adentrava em sua fase industrial. Além do domínio colonial, caracterizou-se pela imposição dos valores ocidentais aos povos subjugados da África e da Ásia. Transcorreu, principalmente, entre a segunda metade do século XIX e meados do XX.

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ÍNDIA

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BRASIL

OCEANO ÍNDICO

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Tró pi c od eC apr icór nio ÁFRICA DO SUL

Nota: Representação sem escala. Fonte: BONIFACE, Pascal; VÉDRINE, Hubert. Atlas do mundo global. São Paulo: Estação Liberdade, 2009. p. 32-34.

Membro permanente do Conselho de Segurança da ONU País pretendente a membro permanente Membro do G-8 (G-7 + Rússia, país convidado de 1998 a 2014)

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160º O

º

URSS e aliados

180

14

16

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EUA e aliados O

L

12 0º

L 0º 14

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JAPÃO

60 ºO

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CHINA

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PORTUGAL IRÃ TURQUIA ESPANHA GRÉCIA IRAQUE ALEMANHA 20 ºO OCIDENTAL

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Fonte: PARKER, Geoffrey (Ed.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A., 1995. p. 292-293.

• ​Ordem unipolar – ordem mais rara de se sobrepor. Ocorre quando uma única potência tem o domínio mundial. Nesse caso, o sistema internacional torna-se hierárquico, ao contrário da regra geral, que é apresentar-se anárquico e dominado por pequeno número de países. Muitos entendem que o início do século XXI se caracterizou como unipolar, pois haveria uma nítida hegemonia estadunidense, conteúdo que estudaremos no próximo capítulo. Contudo, não há consenso sobre essa tese. Observe o mapa abaixo.

Interagindo • Em que ordem você entende que estamos vivendo nesta segunda década do século XXI? ESCREVA NO CADERNO

Mundo unipolar Thulé

País-membro da Otan País aliado dos Estados Unidos

ISLÂNDIA

Círculo Polar Ártico Círculo Polar Ártico Menwith Hill RÚSSIA

BELARUS

Morwenstou

UCRÂNIA ESTADOS UNIDOS

Fort Meade Sugar Grove BERMUDAS

MÉXICO

(EUA)

HONDURAS VENEZUELA COLÔMBIA

BRASIL

PERU

BOLÍVIA

CHILE ARGENTINA

GUAM

MIANMAR

SUDÃO

TAILÂNDIA TAILÂNDIA

CINGAPURA CINGAPURA

OCEANO OCEANO ÍNDICO ÍNDICO OCEANO ATLÂNTICO Geraldton

Geraldton

CANADÁ

Yakima

BERMUDAS

MIDWAY

IÊMEN

Equador DIEGO GARCIA

HAVAÍ HAVAÍ

Principais bases militares CUBA ou “apoios” MÉXICO estadunidenses CUBA MÉXICO

--

PORTO RICO

VENEZUELA COLÔMBIA COLÔMBIA

-- Órbita dos satélites geoestacionários

PERU PERU

OCEANO ÍNDICO

BRASIL BRASIL BOLÍVIA BOLÍVIA

CHILE CHILE

Wailhopai Wailhopai

ARGENTINA ARGENTINA

NOVA NOVA ZELÂNDIA ZELÂNDIA

Círculo Polar Antártico Círculo Polar Antártico

0

MARROCOS MARROCOS

PORTO (EUA) RICO Sistema de HONDURAS (EUA) 1 HONDURAS VENEZUELA vigilância “Echelon”

OCEANO OCEANO PACÍFICO ZIMBÁBUE PACÍFICO Trópico de Capricórnio

Pine Gap Pine Gap

ESTADOS

ESTADOS UNIDOS Intervenção militar Fort Meade UNIDOS Fort Meade Sugar Grove estadunidense depois 1990 BERMUDAS Sugar Grove de

ARÁBIA MIDWAY ÍNDIA SAUDITA OMÃ

FILIPINAS FILIPINAS

AUSTRÁLIA AUSTRÁLIA ÁFRICA DO SUL

Menwith Hill Menwith Hill Morwenstou Morwenstou

CANADÁ País considerado “hostil” pelos estadunidenses Yakima

CAZAQUISTÃO

MONGÓLIA MONGÓLIA COREIA DOCOREIA NORTE AFEGANISTÃO Misawa DO NORTE Misawa IRAQUE MARROCOS CHINA IRÃ PAQUISTÃO JAPÃOEGITO CHINA JAPÃO

Trópico de Câncer Okinawa Okinawa MALI de Câncer PORTO RICOTrópico GUAM MIANMAR

CUBA

ISLÂNDIA ISLÂNDIA

País-membro da PPP (Parceria Para a Paz)

RÚSSIA

RÚSSIA

CANADÁ

Yakima

0° 0° Thulé Thulé

OCEANO OCEANO ATLÂNTICO ATLÂNTICO

MALI MALI

Meridiano de Greenwich Meridiano de Greenwich

Allmaps

OCEANO GLACIAL ÁRTICO OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Meridiano de Greenwich

ANO FICO

Mundo bipolar

100º

HAVAÍ

• O ​ rdem bipolar – ocorre quando o sistema internacional é pautado pela ação de duas potências hegemônicas. Foi a ordem vigente na segunda metade do século XX, marcada pelo antagonismo entre Estados Unidos e União Soviética. Observe o mapa a seguir.

RÚSSIA RÚSSIA BELARUS BELARUS CAZAQUISTÃO UCRÂNIA CAZAQUISTÃO UCRÂNIA AFEGANISTÃO IRAQUE AFEGANISTÃO IRAQUE IRÃ PAQUISTÃO EGITO IRÃ PAQUISTÃO EGITO ARÁBIA ÍNDIA ARÁBIAOMÃ SAUDITA ÍNDIA SAUDITA OMÃ SUDÃO IÊMEN SUDÃO IÊMEN

Equador Equador0° 0°

DIEGO GARCIA DIEGO GARCIA ZIMBÁBUE ZIMBÁBUETrópico

País-membro País-membro da Otan da Otan País aliado dos País aliado dos Estados Unidos Estados Unidos País-membro da País-membro da PPP (Parceria Para a Paz) PPP (Parceria Para a Paz) País considerado “hostil” País considerado “hostil” pelos estadunidenses pelos estadunidenses Intervenção militar Intervenção militar estadunidense depois de 1990 estadunidense depois de 1990 Principais bases militares Principais militares ou “apoios”bases estadunidenses ou “apoios” estadunidenses Sistema de Sistema “Echelon” de 1 vigilância vigilância “Echelon”1 dos satélites -- -- Órbita Órbita dos satélites -- --geoestacionários

geoestacionários

de Capricórnio Trópico de Capricórnio

ÁFRICA DO SUL ÁFRICA DO SUL

3 235

OCEANO OCEANO ÍNDICO ÍNDICO

1 Echelon: sistema de espionagem com sensores e antenas distribuídos ao redor do mundo que rastreia todo tipo de informação tecnológica emitida por ondas e celulares. Esses 0 3 235 dados são enviados à National 0 3 235 Security Agency (NSA), agência de segurança estadunidense.

Fonte: Elaborado com base em: BONIFACE, Pascal; VÉDRINE, Hubert. Atlas do mundo global. São Paulo: Estação Liberdade, 2009. p. 32-34.

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Divergências ideológicas: A ideia de ideologia está relacionada a um apego a crenças e valores políticos de um determinado sistema, no caso, o confronto entre capitalismo e socialismo.

Em 1941, no auge da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética, as três grandes potências, deixaram suas diferenças de lado para enfrentar um inimigo comum: a Alemanha de Hitler. Contudo, essa aliança era circunstancial, pois as divergências ideológicas eram muitas para que continuassem aliados após a guerra. E foi de fato o que se sucedeu. Quando terminou a guerra, emergiram duas novas potências que até então se situavam em um plano menos central em relação ao teatro internacional, frequentemente conduzido por países europeus, em que pese a ascensão estadunidense ser notável desde o início do século XX. Podemos entender que o término da Segunda Guerra Mundial selou o fim da hegemonia de cinco séculos da Europa como principal protagonista do jogo geopolítico mundial. O capítulo diplomático que pôs fim à Segunda Guerra na Europa e anunciou uma nova era foi a Conferência de Potsdam, que ocorreu em julho de 1945 e reuniu as três grandes potências militares aliadas no conflito: Estados Unidos, União Soviética e Reino Unido, representadas nas figuras de seus líderes – Harry Truman, Joseph Stálin e Winston Churchill, retratados na fotografia a seguir. Potsdam consolidou o processo que dividia a Europa em dois blocos de influências distintas: o leste, sob a órbita soviética, e o oeste, sob a influência estadunidense. Iniciava-se uma nova etapa da história. Rapidamente, o cenário do pós-guerra prostrou-se em torno de uma nova realidade, anunciando a divisão do mundo em dois blocos antagônicos, evidenciando uma ordem ditada pelo confronto ideológico entre capitalismo e socialismo. O mundo convertia-se em um “tabuleiro de xadrez geopolítico”, em que os dois jogadores seriam Estados Unidos, representantes máximos do capitalismo, e União Soviética, representante do socialismo. O primeiro-ministro britânico Winston Churchill apresentou o novo cenário, trazendo para o glossário das relações internacionais a expressão cortina de ferro, quando anunciou: “De Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente.”. Uma sucessão de ameaças veladas daria o tom diplomático a partir de então. Era o embrião de uma guerra de propaganda entre os sistemas políticos que as duas novas potências defendiam e difundiam, o início de uma Guerra Fria. Se surgia uma nova ordem no pós-guerra, qual era então a ordem que ruía? Resposta: a ordem multipolar do Imperialismo, que permeou grande parte do século XIX e a primeira metade do século XX.

Corbis/Latinstock

2. A ordem bipolar da Guerra Fria

Conferência de Potsdam, na Alemanha – Churchill, Truman e Stálin (da esquerda para a direita): os gigantes se reúnem para discutir o destino do mundo, em 1945.

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A Europa saía de cena e cedia a vez para os Estados Unidos e a União Soviética, os atores centrais na arena geopolítica; a Europa tornar-se-ia uma coadjuvante em termos de liderança. Os dois países situavam-se, geograficamente, em polos “periféricos” em relação ao velho continente: os Estados Unidos, na América, a oeste do Atlântico, e a União Soviética, euroasiática, na borda oriental da Europa. Durante a Segunda Guerra Mundial, à medida que as forças nazistas eram combatidas e expulsas do flanco oriental da Europa, Stálin colocava as dele. Assim, quando se encerrou a guerra, boa parte do velho continente estava sob o domínio comunista. A União Soviética adquiriu ao seu oeste algo próximo de 600 mil quilômetros quadrados (uma área maior que a França), conquistando territórios da Polônia, países bálticos, Romênia, Tchecoslováquia e Finlândia, apresentados no mapa abaixo. Na verdade, o país recuperava, ali, áreas perdidas após a Primeira Guerra Mundial, na época da Rússia czarista. Para evitar que a outra metade, destruída pela guerra, também fosse dominada pelos soviéticos, os Estados Unidos intervieram na Europa, patrocinando sua reconstrução. Essa estratégia ficou conhecida como Plano Marshall. O mapa a seguir mostra como ficou a configuração territorial da Europa após o término da Segunda Guerra.

Plano Marshall: Foi idealizado pelo secretário de Estado estadunidense George Marshall e visava reconstruir as economias europeias abaladas pela guerra e que naquele momento constituíam presas fáceis diante da investida soviética. Foi conduzido no período 1948-1951 e custou à época 13 bilhões de dólares, o que significa, em termos atualizados, algo próximo de 116 bilhões de dólares.

A Europa do pós-guerra e a expansão soviética 0°

40° L 40° L

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FINLÂNDIA FINLÂNDIA

URSS URSS

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Mar dodo Mar Norte Norte DINAMARCA DINAMARCA

PAÍSES PAÍSES BAIXOS BAIXOS ALEMANHA ALEMANHA BÉLGICA BÉLGICA

OCEANO OCEANO ATLÂNTICO ATLÂNTICO

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POLÔNIA POLÔNIA

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ÁUSTRIA ÁUSTRIA A RI IA NG GR HU HUN ROMÊNIA ROMÊNIA IU I GUOG SOLS ÁLVÁ IA IAVI ITÁLIA ÁR RIA A ITÁLIA Córsega LG Á Córsega BUBULG ALBÂNIA Sardenha ALBÂNIA Sardenha

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Anexações soviéticas Anexações soviéticas Zonas dede ocupação soviética Zonas ocupação soviética Países sob influência soviética Países sob influência soviética França França Zonas dede ocupação francesa Zonas ocupação francesa

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TURQUIA TURQUIA

GRÉCIA GRÉCIA Sicília Sicília

ÁFRICA ÁFRICA

AA URSS antes dada guerra URSS antes guerra

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SUÍÇA SUÍÇA

Creta Creta Reino Unido Reino Unido Zonas dede ocupação inglesa Zonas ocupação inglesa Zonas dede ocupação dos EUA Zonas ocupação dos EUA Outros Estados ocidentais aliados Outros Estados ocidentais aliados

CHIPRE CHIPRE

ÁSIA ÁSIA

0

0

360 360

Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas estratégico y geopolítico: geopolítica de las relaciones de fuerza en el mundo. Madrid: Alianza Editorial, 1984. p. 39.

Estados neutros Estados neutros Cortina de ferro Cortina de ferro

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O Plano Marshall, na realidade, era o desdobramento de uma iniciativa mais ampla perpetrada pelo presidente estadunidense Harry Truman para conter e isolar a União Soviética. Essas iniciativas compuseram uma cartilha geopolítica que levou seu nome: a Doutrina Truman. Em uma famosa fala no Congresso estadunidense, em março de 1947, o presidente proferiu um duro discurso contra a União Soviética, anunciando que os Estados Unidos estavam preparados para defender o ocidente contra a “ameaça socialista”; leia-se União Soviética. No âmbito econômico, a primeira iniciativa foi uma concessão de créditos à Grécia e à Turquia, países que passavam por fortes crises no pós-guerra. A Doutrina Truman anunciou ao mundo qual seria a posição dos Estados Unidos a partir daquele momento, uma mensagem quase oficial de que havia uma nova potência que passaria a dar as cartas do jogo no cenário internacional. A Doutrina ainda pressupunha uma barreira ao expansionismo soviético e com isso anunciava a bipolarização do mundo. Essa doutrina orientou os Estados Unidos por longos anos. Muitas das intervenções estadunidenses foram decorrência de suas diretrizes, como a Guerra do Vietnã, a Guerra da Coreia, a atuação na América Central, entre outras ações.

Ver

Filme de George Clooney. Boa noite e boa sorte. EUA, 2005

Boa noite e boa sorte. Direção: George Clooney. Estados Unidos, 2005. O filme retrata a repressão aos comunistas nos Estados Unidos, denominada macartismo, pois o senador estadunidense Joseph McCarthy foi porta-voz dessa perseguição.

2.1 Alemanha dividida

Tribunal de Nuremberg: Tribunal militar especial montado após a Segunda Guerra Mundial para julgamento de crimes de guerra cometidos pelos principais líderes nazistas.

Os dois grandes derrotados da Segunda Guerra Mundial foram Alemanha e Japão. Ambos foram ocupados por tropas aliadas e, no caso alemão, além da ocupação, o país foi dividido em quatro zonas. Quando a Alemanha se rendeu, em maio de 1945, os líderes nazistas remanescentes foram julgados pelo Tribunal de Nuremberg. Enquanto os antigos líderes eram condenados, o país era ocupado e partilhado por forças estadunidenses e britânicas, na porção ocidental, e soviéticas, na porção oriental; posteriormente, a França também foi contemplada com uma área, na porção ocidental. As zonas estadunidense, britânica e francesa foram unificadas e deram origem a um novo país, a República Federal da Alemanha, em 1949, conhecida como Alemanha Ocidental. Cinco meses depois, a União Soviética, igualmente, anunciou a criação de um novo país: a República Democrática Alemã, na porção oriental da “antiga” Alemanha. Observe o mapa abaixo. A capital Berlim também ficou dividida em duas zonas, Ocidental e Oriental, porém a cidade estava localizada integralmente

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Alemanha dividida

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REPÚBLICA FEDERAL

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REPÚBLICA DEMOCRÁTICA ALEMÃ (RDA)

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0,7 5

POLÔNIA

Breslau (Varsóvia)

TCHECOSLOVÁQUIA

50° N

Alemanha em 1949 FRANÇA

Munique

Regiões cedidas à Polônia Região cedida à URSS

Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas estratégico y geopolítico: geopolítica de las relaciones de fuerza en el mundo. Madrid: Alianza Editorial, 1984. p. 40.

Região do Sarre cedida à França

SUÍÇA

ÁUSTRIA

Limite das Alemanhas Alemães deslocados (em milhões de habitantes)

ITÁLIA

Capital do país Cidade

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von Keussler/dpa/Corbis/Latinstock

na zona soviética; a única forma de contato de Berlim Ocidental com a outra Alemanha era por meio de uma ponte aérea mantida pela ocupação aliada. Mais tarde, para impedir a emigração de alemães para a parte capitalista, em 1961, a União Soviética ergueu o Muro de Berlim, mostrado na fotografia abaixo, que se transformou no maior ícone da Guerra Fria. Em nenhum outro lugar do mundo o conflito leste-oeste foi tão sentido como na Alemanha, situada no limite das duas zonas de fricção do confronto ideológico.

Construção do Muro de Berlim, em 1961.

2.2 A corrida armamentista: momentos de tensão Para intimidar o adversário e simultaneamente persuadir os demais países, alijados da disputa mundial, os Estados Unidos e a União Soviética passaram a investir pesado no campo militar. Configurou-se, então, intensa produção industrial bélica. Contudo, essa corrida armamentista contava agora com um ingrediente tecnológico de altíssimo risco: o componente atômico. Logo, o arsenal de ogivas armazenadas pelas duas superpotências ao longo das décadas de 1950, 1960 e 1970 adquiriu tamanho porte que a humanidade corria o risco de extinção; essa possibilidade ficou conhecida como holocausto nuclear. Atingia-se um verdadeiro “equilíbrio do terror”, expressão cunhada para representar a equidade mundial atômica do período. A esse contexto marcado por forte tensão convencionou-se designar de Guerra Fria. A Guerra Fria apresentou um caráter contraditório, pois, ao mesmo tempo que a possibilidade de destruição em massa era real, foi exatamente essa possibilidade que impediu um confronto armado entre as duas potências. A paz mundial estava, paradoxalmente, garantida pelo equilíbrio do terror. Outra marca do período foi o alinhamento dos países em organizações econômicas ou militares. A Europa ocidental alinhara-se em torno da Comunidade Econômica Europeia, em 1957, e o bloco soviético estava integrado no âmbito do Conselho Econômico para Ajuda Mútua (Comecon). No âmbito militar, formara-se, em 1949, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar comandada pelos Estados Unidos, juntamente com os países europeus e o Canadá. A resposta à Otan veio em 1955 com a criação do Pacto de Varsóvia, liderada pela União Soviética e seus países satélites da Europa oriental.

Ogiva: Projétil ou míssil carregado com artefato nuclear para fins bélicos. Satélite: A ideia de satélite, neste caso, vincula-se ao fato de os países da Europa oriental orbitarem em torno da União Soviética. Não havia uma relação propriamente de aliança, mas sim de submissão à potência.

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Durante a Guerra Fria, eram frequentes as paradas militares soviéticas e a demonstração pública de seu poder de fogo. Na fotografia, desfile militar em Moscou, Rússia, em 1965.

Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latinstock

ESCREVA NO CADERNO

Nasa

A Geografia na... poesia!

A Guerra Fria foi marcada pelo “equilíbrio do terror”, quando o temor de um holocausto nuclear assombrou gerações entre as décadas de 1950 e 1980, principalmente. Em uma triste alusão à bomba atômica, o poeta Vinicius de Moraes escreveu a poesia Rosa de Hiroshima em 1954, convertida em música em 1973 por Gerson Conrad, do grupo Secos e Molhados. Rosa de Hiroshima Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas, oh, não se esqueçam

Na fotografia de fundo do boxe ao lado, cogumelo atômico de Nagasaki, formado pela bomba lançada após três dias do bombardeio a Hiroshima, no Japão, em 1945.

Da rosa, da rosa Da rosa de Hiroshima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A antirrosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa, sem nada

Rosa de Hiroshima, Vinicius de Moraes. In: CÍCERO, Antonio; FERRAZ, Eucanaã (Org.). Nova antologia poética de Vinicius de Moraes. São Paulo: Cia. das Letras (Editora Schwarcz Ltda.). p. 147. 2008. VM EMPREENDIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS LTDA., além de: © VM e © CIA. DAS LETRAS (EDITORA SCHWARCZ).

• Analise o tom melancólico do poeta considerando-se os riscos nucleares e o contexto em que foi escrita a poesia.

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2.3 A crise dos mísseis Ver Treze dias que abalaram o mundo. Direção: Roger Donandson. Estados Unidos, 2000. O filme aborda o episódio conhecido como a crise dos mísseis, ocorrido em 1962, que quase resultou no início de um conflito armado entre os Estados Unidos e a União Soviética. Filme de Roger Donandson. Treze dias que abalaram o mundo. EUA, 2000

Em 1962 ocorreria um dos mais tensos momentos da Guerra Fria: a crise dos mísseis. Esse episódio envolveu três países: Estados Unidos, União Soviética e Cuba. A Revolução Cubana de 1959, liderada por Fidel Castro e Ernesto “Che” Guevara, derrubou a ditadura pró-Washington de Fulgencio Batista, então presidente, que estava no poder desde 1940. Sabedora da antipatia da potência estadunidense pela revolução e temerosa de uma invasão, Havana estreitou imediatamente os laços com Moscou logo após o êxito do movimento. Os Estados Unidos instalaram mísseis na Turquia, posição estratégica para um ataque à União Soviética, em 1961. Cuba dista apenas 200 quilômetros do inimigo dos soviéticos e, em resposta aos estadunidenses, a União Soviética instalou na ilha mísseis nucleares apontados para o norte, conforme apresentado no mapa a seguir. Radares estadunidenses a bordo de aviões U2 detectaram as movimentações soviéticas e o presidente dos Estados Unidos John Kennedy ordenou o cerco naval à ilha. Por sua vez, Moscou iniciou o envio de sua força naval para o mar das Antilhas. A tensão era nítida e as pessoas de todo o mundo acompanharam de forma apreensiva a movimentação das duas potências no ápice de sua tensa relação. O presidente estadunidense pronunciou-se oficialmente à nação, informando-a dos riscos. Não foram poucos os que, temendo pelo pior, iniciaram construções de abrigos subterrâneos, pois os dois países dominavam a tecnologia nuclear e um confronto entre eles era o pior cenário possível para uma guerra.

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A crise dos mísseis 75° O

FLÓRIDA Concentração de forças dos EUA (Exército e Força Aérea) Miami Key West Guanajay Candelária São Cristóvão

Trópico de Câncer

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OCEANO ATLÂNTICO

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Sagua la Grande Remédios Santa Clara CUBA Santiago de Cuba Baía de Guantánamo

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REPÚBLICA DOMINICANA

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Zona de bloqueio estadunidense Bases soviéticas de mísseis móveis e bombardeios Base aérea dos EUA

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Base naval dos EUA Capital de país Capital de província

0

240

Cidade

Fonte: PARKER, Geoffrey (Ed.). Atlas da história do mundo. São Paulo: Empresa Folha da Manhã S.A., 1995. p. 293.

Ambas as potências, no entanto, sabiam que precisavam de uma saída diplomática para a crise, pois conheciam muito bem o significado de um confronto armado naquele momento. Seguiram-se 13 dias até uma solução para o impasse. O acordo se deu quando a União Soviética aceitou retirar seus mísseis de Cuba (apresentados na fotografia na página a seguir), exigindo como contrapartida a não interferência dos Estados Unidos na Revolução Cubana e, igualmente, a retirada de mísseis estadunidenses na Turquia. O não cumprimento dos Estados Unidos da segunda parte do acordo deu uma conotação de derrota política para Nikita Krushev, líder soviético. A partir de então, a ilha caribenha passou a contar com o apoio soviético e se viu livre das intervenções dos Estados Unidos, comuns na ilha desde a sua independência em 1898.

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Visão aérea de mísseis e tanques de combustível em São Cristóvão, Cuba, durante a crise dos mísseis, em 1962.

Embargo: Proibição temporária de comércio. No caso cubano, o embargo foi decretado pelos Estados Unidos como retaliação ao país em optar pelo socialismo e aproximar-se do maior inimigo da potência capitalista. Foi decretado em fevereiro de 1962, e, em dezembro de 2014, foram declaradas as primeiras medidas que podem indicar o fim do embargo, diante da histórica reaproximação entre os dois países.

Cuba tornou-se parceira especial da União Soviética, que passou a subsidiar a economia da ilha; comprava praticamente toda a produção do açúcar cubano e lhe fornecia petróleo e produtos manufaturados a preços módicos. O açúcar, por exemplo, era adquirido por Moscou a um preço cinco vezes acima do mercado internacional. A parceria preferencial com os soviéticos e com os países do Leste Europeu permitiu a Cuba um intenso desenvolvimento social que pôs o país latino-americano em um padrão acima dos demais. Além disso, o subsídio soviético não permitiu que o embargo decretado pelos Estados Unidos contra Cuba surtisse efeito. Durante a existência da União Soviética, Cuba teve o apoio e o patrocínio de que precisou para seu desenvolvimento social. No entanto, dias piores estavam reservados à ilha e não tardaria o momento em que o bloqueio começasse a provocar estragos. ESCREVA NO CADERNO Corbis/Latinstock

Conversando com a... Física! O período da Guerra Fria, como sabemos, foi marcado pelo risco de uma guerra nuclear. A temida bomba atômica simbolizou esse período sombrio. • Procure saber por que a bomba atômica é chamada também de “nuclear” e sobre a letalidade desse tipo de artefato bélico. A produção nuclear exige intenso conhecimento de Física e pode ser utilizada para fins pacíficos ou militares. Dê exemplos das duas utilizações.

Bomba atômica – símbolo do medo latente vivido durante décadas – ainda assusta nos dias de hoje. Na fotografia, bomba atômica da variedade Fat Man, do mesmo tipo da lançada sobre Nagasaki, em 1945.

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2.4 Sinais de mudanças

Igor Gavrilov/Time Life Pictures/Getty Images

Além do episódio da crise dos mísseis, a Guerra Fria teve outros momentos de tensão. Ela, igualmente, custou muito caro aos dois protagonistas, mas o fardo mais pesado coube à União Soviética. Para se sustentar como superpotência, a União Soviética fez uma opção: priorizou a indústria militar e relegou o setor civil ao segundo plano, resultando no desabastecimento de bens de consumo, conforme apresentado na fotografia a seguir. Foi exatamente essa contradição entre uma indústria de bens de produção avançada (que atendia à demanda militar) e aquela de bens de consumo, visivelmente obsoleta, um dos pilares da gravíssima crise do gigante socialista no final dos anos 1980.

As intermináveis filas soviéticas: a produção insuficiente da economia burocratizada soviética não atendia à demanda civil, gerando o racionamento e a escassez de produtos. Fotografia de 1990.

Em um contexto já marcado por uma transição no Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e por uma crise econômica e institucional cada vez mais difícil de esconder da população, é eleito para o cargo mais alto do partido e do país o jovem político Mikhail Gorbachev. Enxergando a delicada situação do país, Gorbachev implementou um amplo programa de reformas. No âmbito político, iniciou uma série de mudanças que se convencionou chamar de Glasnost (transparência, em russo) e, no econômico, igualmente, uma política de reestruturação, ou, em russo, Perestroika. Os ares das mudanças soviéticas sopraram por todo flanco oriental da Europa (e daí para o mundo). Um a um, os regimes pró-Moscou foram caindo, em grande parte por causa do descontentamento popular, que clamava por reformas e liberdade. Na Polônia, o partido anticomunista Solidariedade foi legalizado e o líder sindical Lech Walesa, mais tarde, alcançou a presidência. A Tchecoslováquia iniciou um tranquilo processo de separação, dando origem à República Tcheca e à Eslováquia. Já na Romênia e na ex-Iugoslávia, o processo de transição foi violento e bastante traumático, particularmente nos Bálcãs, onde a Guerra da Bósnia foi extremamente violenta. Na Romênia, o ditador Nicolae Ceausescu tentou resistir às manifestações populares que queriam sua destituição e o fim foi melancólico; Ceausescu foi fuzilado e sua execução, transmitida pela televisão romena. O momento maior das transformações no Leste Europeu ocorreria em 1989, quando os alemães derrubaram o maior símbolo da Guerra Fria, o Muro de Berlim. Essas mudanças anunciavam realmente o rearranjo da ordem mundial. Veja, no infográfico nas páginas seguintes, um exemplo de como o cinema estadunidense veiculou o conflito da Guerra Fria e sua visão em relação à vitória dos Estados Unidos sobre a União Soviética.

Bálcãs: Região montanhosa do Sudeste Europeu. A expressão serve para designar os países que um dia compuseram a Iugoslávia: Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro, Sérvia e as regiões de Kosovo e Voivodina.

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A GUERRA FRIA E O CINEMA ESTADUNIDENSE Durante a Guerra Fria, inúmeros filmes estadunidenses foram produzidos como arma de propaganda. Mocinhos e bandidos representavam a dicotomia entre Estados Unidos e União Soviética. Ivan Drago, personagem do filme Rocky IV, foi um dos mais representativos vilões soviéticos dos filmes estadunidenses que tinham a Guerra Fria como pano de fundo. Neste infográfico, você vai conhecer um pouco mais dessa história.

Cenário: Gue

Referência

ster Stallone Filme de Sylve

World History Archive/A

lamy/Latinstock

s políticas Parte do filme Ro ck de uma luta en y IV, que conta a história tre o estadunide nse Rock y Balboa e o sovi ético URSS. No ginásio Ivan Drago, se passa na onde é realizada são vistas band a disputa, eira Stálin, Mar x e Go s com o rosto de Lênin, Drago é de Cuba rbachev. O treinador de , país comun mundial no boxe ista e referência olímpico.

Um lutador sem

voz Ivan Drago se m antém em silêncio quase todo o film durante e. Quando tem oportunidade de falar, é corta do pela esposa, também atleta e militar, ou po Drago simboliza r seu oficial superior. alguém que não manifestar-se in pode dividualmente, controlado por seus semelhant es e vigiado pelo Estado.

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Pa

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s

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RDA/Rue des

5. lone. Rocky IV. EUA, 198 Filme de Sylvester Stal rett Collection/Keystone Eve y rtes Cou sts/ Arti Fotografia: United

onagem Ivan características co Drago apresenta nsideradas, pelo estadunidenses s , tra do povo soviético ços do sistema e s. O lutador, també oficial do Exércit m o Ve silencioso. Sua de rmelho, é frio, soturno e terminação e di sciplina são apresentadas de de condicionam maneira robotizada, fruto ento e que levaram à pe treinamento exaustivos, rda da personal idade.

Archives/ Latinstock

Um personagem , um sistema O pers

Sucesso sem m

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

. Rocky IV. EU A, 1985 Prod/Photon . Fotografia: Screen onstop/Glow Images

Kommersant Photo/Getty Images

rra Fria O quar to filme da franquia Ro ck y foi la em 1985, mesm o ano em que M nçado ikhail Gorbachev cheg ou ao poder na Soviética. A Gu União erra Fria já dava desgaste, e o sis sinais de te uma paralisia pr ma soviético passava por ofunda. Apesar disso, ai havia muita prop aganda ideológi nda ca e tensão nas re lações políticas.

erec

imento Ivan Drago é ap resentado como o mais perfeito boxead or exaustivo treinam da história, produto do ento e do desenv da tecnologia cie olvimento ntífica e esporti va soviética. Entretanto, em algumas cenas, o atleta recebe injeções, sugerin do que seu dese m seja fruto de do ping e não de se penho u esforço.

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estadu

nidense Os organizadore s da luta oferec Rock y equipam entos com a mai em a s av tecnologia sovi ética, os mesmos ançada por Drago. O es utilizados tadu e solicita uma lo nidense recusa a ofer ta cação rural. Ele tre rigoroso invern o russo: corre em ina no m natureza, levant a pedras e cort eio à a lenha. Valores estaduni

denses

Rock y represen ta trabalho duro, va a perseverança e o lo res caros à so estadunidense. Drago aparenta ciedade um gigante invencível, maior Rock y, incansáv e mais forte. Contudo, el, re golpes de Drag siste bravamente aos o e, por fim, no últim assalto, nocaut eia o adversário o .

Uma vitória dos

Estados

Unidos No fim da luta, a plateia, inicial hostil a Rock y, mente passa a apoiá-lo e a ovacioná-lo, incluindo os líd presentes. Essa eres políticos soviéticos ce conquista dos Es na é uma clara alusão à tados Unidos na Guerra Fria, simbolizada pe la vitória de Ro ck y.

Atividades

Filme de Sylvester Stallone. Rocky IV. EUA, 1985. Fotografia: United Artists/ Courtesy Everett Collection/Keystone

Ronald Grant Archiv Mary Erans/Eas e/ ypix

A superioridade

ESCREVA NO CADERNO

1. Para além da Guerra Fria, representa o confronto entre capitalismo e socialismo. O primeiro sistema é marcado, entre outros pontos, pela propriedade privada dos meios de produção, enquanto o socialismo caracteriza-se essencialmente pela apropriação pública dos meios de produção.

1. O combate entre Drago e Rocky ilustra metaforicamente o embate entre quais sistemas? Caracterize-os.

2. O fato de a União Soviética voltar-se prioritariamente para a disputa ideológica e estratégica contra os Estados Unidos na Guerra Fria fez que praticamente todo o investimento

2. O infográfico informa que “Os organizadores da luta oferecem a Rocky equipamentos com a mais avançada tecnologia soviética”. No entanto, é sabido que a tecnologia soviética foi depauperando-se na fase final da Guerra Fria. Você poderia explicar a razão disso? fosse destinado à tecnologia militar e aos setores de bens de produção, relegando a indústria civil a um segun-

do plano, o que acabou por deixar o país defasado tecnologicamente perante as demais nações ocidentais.

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3. A nova ordem mundial Michael Euler/AP/Glow Images

A ordem mundial do período da Guerra Fria foi caracterizada pelo confronto ideológico entre dois blocos antagônicos que se opuseram por quase meio século. Essa ordem internacional começou a dar sinais de falência quando uma sucessão de episódios impactantes começou a eclodir. Observe a fotografia ao lado e a apresentada na página a seguir. As grandes transformações anunciavam uma transição de ordem e ocorreram, especialmente, no período 19891991, embora toda a década de 1990 seja de profundas alterações no cenário geopolítico internacional. Veja algumas das mudanças que ocorreram no final dos anos 1980 e no início da década de 1990.

Estátua de Lenin ao chão, em Bucareste, 1990. Sinais de mudança no Leste Europeu.

Evento

Ver

Filme de Wolfgang Becker. Adeus, Lenin! Alemanha, 2003

Adeus, Lenin! Direção: Wolfgang Becker. Alemanha, 2003. Uma mulher, que reside na Alemanha Oriental e é defensora dos ideais socialistas durante a Guerra Fria, entra em coma. Quando volta a si, o Muro de Berlim havia caído, porém sua família esconde o fato. Uma visão bem-humorada do fim da Guerra Fria.

Como foi?

A derrubada do Muro de Berlim

No contexto das reformas oriundas da União Soviética, no dia 8 de novembro de 1989, caía o símbolo maior da Guerra Fria. Naquele momento de crise do modelo socialista, soldados assistiram inertes a milhares de manifestantes da Europa oriental derrubando a barreira. Era a reunificação das Alemanhas.

A queda do Leste Europeu

Todos os regimes simpatizantes de Moscou caíram nesse período. A queda do Leste Europeu significou, na prática, o abandono do centralismo estatal e a adoção do modelo de mercado. Alguns países dessa região integram hoje a União Europeia.

A Revolução de Veludo

Separação pacífica entre República Tcheca e Eslováquia, que se iniciou em 1989.

A Guerra do Golfo

Após a invasão do Kuwait pelo Iraque, em agosto de 1990, tropas da ONU lideradas pelos Estados Unidos bombardearam, em fevereiro de 1991, as tropas iraquianas e libertaram o pequeno país do golfo. O mundo assistia naquele momento à ação unilateral dos Estados Unidos e ao silêncio da União Soviética.

O fim do Pacto de Varsóvia

Em março de 1991, depois de longa agonia, uma conferência de ministros dos países-membros do Pacto de Varsóvia anunciava a dissolução da organização militar que rivalizou com a Otan durante a Guerra Fria.

O fim da URSS

Após intensa crise, Gorbachev não conseguiu evitar o fim do imenso país que deixava de existir em dezembro de 1991.

A desintegração da Iugoslávia

A morte do Marechal Tito, a crise do socialismo e o fim da União Soviética foram os ingredientes que deflagraram o processo de dissolução do país, em um traumático e sangrento processo que ficou conhecido como Guerra dos Bálcãs.

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Tom Stoddart Archive/Getty Images

Jovens alemães destroem o Muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria, em 1989.

American way of life: Literalmente, “estilo de vida americano”, expressão difundida a partir da segunda metade do século XX para expressar a proposta de sociedade preconizada pelos Estados Unidos.

Pauta musical Fora da ordem, Caetano Veloso. Álbum: Circuladô. Phonogram/ Philips, 1991. Pauta: Nova ordem mundial. LP Circuladô. Caetano Veloso. Brasil, 1991

A partir dessas transformações, especialmente o fim da União Soviética, o mundo deixava de apresentar uma divisão bipolar. As mudanças em curso, rapidamente, proporcionaram uma alteração na conjuntura do sistema internacional e reconfiguram a ordem, deixando de ser o mundo caracterizado pela disposição em duas frentes rivais, ou seja, a oposição entre capitalismo e socialismo. A sucessão de rupturas alterou o equilíbrio do poder mundial. Em outras palavras, rompeu-se a ordem bipolar internacional. A ideia imposta no princípio da década de 1990 foi a da multipolaridade econômica. Dizia-se então que houve uma substituição da ordem bipolar por outra multipolar. A ideia difundida era: • ​velha ordem mundial – ordem bipolar da Guerra Fria, marcada pelo confronto ideológico entre Estados Unidos e União Soviética e seus respectivos modelos, capitalismo e socialismo. • ​nova ordem mundial – ordem da multipolaridade econômica, caracterizada pela formação e pela expansão de polos econômicos de poder (os blocos regionais) e pela globalização. Com o fim do bloco soviético, encerrou-se também a Guerra Fria. Os Estados Unidos despontavam como a única superpotência. Pairava uma atmosfera de que a ameaça global chegara ao fim, que o modelo capitalista havia vencido o socialista. Adviria a partir de então um momento de paz e harmonia entre os países, pautado pela lógica liberal. Os episódios mundiais dali por diante passavam a ocorrer sob outro prisma e exigiam uma nova leitura. Anunciava-se uma multipolarização econômica, associada ao processo de globalização e formação de blocos, temas que serão estudados nos capítulos seguintes desta unidade. Francis Fukuyama, cientista político estadunidense e professor da Universidade Johns Hopkins, foi o principal porta-voz desse momento que ele denominara de “fim da história”, ou seja, depois de longas décadas de embate entre sistemas distintos, a história chegara ao fim com um vencedor: o capitalismo; seu representante: os Estados Unidos. A grande potência lideraria um mundo por meio de um sistema econômico hegemônico. Esse período dos anos 1990 coincidia com o auge de uma vertente do capitalismo que estudamos anteriormente, o neoliberalismo. Acontece que nem todos estavam dispostos a viver em um mundo sob controle dos Estados Unidos e muitos discordavam do modelo de vida estadunidense ou do American way of life; de várias partes viria forte oposição à proposta daquilo que defendera Fukuyama. Outro analista internacional desse período, cujas ideias muito repercutiram, foi Samuel P. Huntington, que, além da teoria do “choque de civilizações”, apresentou uma nova leitura para a ordem mundial que se pusera no final do século XX: a unimultipolaridade.

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Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

A unimultipolaridade Atualmente há uma única superpotência. Mas isso não significa que o mundo seja unipolar. Um sistema unipolar teria apenas uma superpotência, nenhuma potência de importância significativa e muitas potências de menor grandeza. Dessa forma, a superpotência teria condições de resolver com eficácia questões internacionais importantes, e nenhum tipo de combinação entre outros Estados seria capaz de evitar as decisões assim tomadas. Por vários séculos o mundo clássico sob o governo de Roma e por vezes o Extremo Oriente dominado pela China aproximaram-se desse modelo. Um sistema bipolar, tal como verificado durante a Guerra Fria, é formado por duas superpotências, e as relações entre elas são fundamentais para a política internacional. [...] Já um sistema multipolar conta com várias potências importantes de poderio comparável, que cooperam e concorrem entre si de acordo com modelos que apresentam variações constantes. [...] A política internacional contemporânea não se encaixa em nenhuma dessas configurações. Em vez disso, representa um estranho modelo de características híbridas, um sistema unimultipolar constituído por uma superpotência e diversas potências altamente significativas. A resolução das principais questões internacionais requer ação por parte da única superpotência, desde que, porém, ela conte com a colaboração de outros Estados importantes; essa única superpotência tem poder, entretanto, de vetar as ações sobre questões relevantes adotadas por combinações entre outros Estados. Os Estados Unidos, obviamente, são o Estado com preeminência sobre os demais em todas as esferas de poder [...] sendo capaz de promover seus interesses em praticamente todas as partes do mundo. Em um segundo nível encontram-se as principais potências regionais que predominam em determinadas áreas do planeta sem estar aptas, contudo, a expandir seus interesses e potencialidades de modo tão global como os Estados Unidos. HUNTINGTON, Samuel P. A superpotência solitária. Política Externa. São Paulo: Paz e Terra, 2000. v. 8, n. 4. p. 12-13.

• Por que, de acordo com o autor, nenhum dos modelos de configuração da ordem mundial verificados previamente (unipolar, bipolar e multipolar) se aplica à política internacional contemporânea?

4. A nova ordem reorientada Islamismo: Religião monoteísta surgida no século VII, criada por Muhammad (Maomé) e que tem as mesmas raízes do judaísmo e do cristianismo. Islamismo quer dizer “submissão a Deus” e quem segue essa religião é chamado de muçulmano, que significa “submisso a Deus”.

Navegar Instituto Brasileiro de Relações Internacionais <http://tub.im/dhnxxy> O site do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais fornece subsídios para compreensão do cenário político internacional. Há um link em que o estudante pode acessar a Revista Brasileira de Política Internacional e o Boletim Meridiano, que trazem inúmeros artigos sobre a conjuntura internacional.

Diante da inegável superioridade dos Estados Unidos perante os demais, havia um conjunto de países, ou ao menos grupos dentro desses países, que não queria sofrer interferência dos estadunidenses e se posicionava com uma indisfarçável antipatia e resistência ao país. Foi sobretudo nesses lugares que surgiram grupos extremistas que tinham nos Estados Unidos a inspiração para atos terroristas. Isso era particularmente notado em países de cultura islâmica, embora o islamismo seja uma religião baseada na paz. Em nenhum momento o islamismo advoga apologia à violência. Foram vários os atentados que despontaram no ocaso da Guerra Fria, quase sempre contra alvos estadunidenses, porém fora de seu território e frequentemente em países muçulmanos. No entanto, foi com apreensão poucas vezes vista na história que a comunidade internacional recebeu, pasma, os episódios do fatídico 11 de Setembro: começava o século XXI. Na manhã de 11 de setembro de 2001, ataques terroristas ocorreram contra os símbolos do poder econômico e militar dos Estados Unidos. Quatro aviões foram sequestrados: dois atingiram as torres gêmeas do World Trade Center, que representava a pujança econômica do país; um atingiu o Pentágono, sede do Departamento de Defesa estadunidense; e o último, que tinha como alvo o poder político, provavelmente a Casa Branca, caiu antes na Pensilvânia. Apesar de o alvo ter sido os Estados Unidos, dentre as cerca de 2 800 pessoas que morreram no World Trade Center, 100 no Pentágono e 200 nos aviões, contavam-se cidadãos de mais de 40 países. Observe as fotografias na página a seguir.

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Fotografias: Ray Stubblebine/ Reuters/Latinstock

Em 11 de setembro de 2001, pela primeira vez, os Estados Unidos foram alvejados dentro de seu território contínuo. Atribuiu-se a Osama bin Laden e sua organização, a Al-Qaeda, a autoria dos ataques. A sequência de fotografias retrata o desmoronamento da Torre Norte do World Trade Center.

4.1 A “guerra ao terror” Falcões: Políticos pertencentes à alta cúpula do poder estadunidense durante o governo George W. Bush (2001-2008), vinculados ao Partido Republicano e que apresentavam uma perspectiva altamente agressiva para a resolução de conflitos, inclinados à opção militar em vez da diplomática. Também chamados de neocons (novos conservadores). Fundamentalista: Expressão que se tornou sinônimo de extremismo, terrorismo. Fundamentalista é o sujeito ou grupo que, arraigado aos seus valores, normalmente movido por uma crença religiosa, não aceita outra verdade que não a sua. Embora os islâmicos sejam os mais conhecidos, existem movimentos fundamentalistas judaicos, hinduístas e cristãos. Também há grupos fundamentalistas moderados que atuam na seara parlamentar, como na Turquia, em que o partido político AKP – iniciais, em turco, para Partido da Justiça e Desenvolvimento –, de inspiração islâmica, alçou ao poder.

Shawn Thew/AFP/Getty Images

Chad Hunt/Corbis/Latinstock

Os Estados Unidos estavam com um presidente recém-eleito: George Walker Bush, retratado na fotografia abaixo, representante da ala mais conservadora do Partido Republicano e atrelado aos falcões. A resposta aos ataques não tardou: foi rápida e dura. Inaugurava-se ali uma nova fase da política externa estadunidense, pautada pelo unilateralismo do pós-Guerra Fria. Se quem patrocinou o 11 de Setembro pretendia intimidar os Estados Unidos, o que se viu foi o contrário. Com base em uma nova doutrina que se convencionou designar de “guerra ao terror”, o governo Bush partiu para uma reação altamente rígida. Uma vez identificado Osama bin Laden como mentor dos atentados, os Estados Unidos atacaram o Afeganistão, ainda em 2001. Esse país vivia sob regime da organização considerada “terrorista” pelos Estados Unidos, o Talibã, e que dava guarida à Al-Qaeda, grupo extremista fundado por Osama bin Laden. O Talibã era chefiado por Mulá Omar, aliado e sogro de Osama bin Laden. Os Estados Unidos obtiveram êxito no intuito de derrubar o regime Talibã e empossaram no Afeganistão um presidente aliado, Hamid Karzai, mas a vitória não foi acompanhada de estabilidade, pois o grupo fundamentalista se reorganizou e partiu para a guerrilha, concentrando-se nas montanhas afegãs e paquistanesas. Observe a fotografia abaixo, à direita. A instabilidade segue até hoje. Na Guerra do Afeganistão, em 2001, os Estados Unidos não conseguiram encontrar Bin Laden, que seria morto no Paquistão em 2011, em uma ação do serviço secreto estadunidense.

A Guerra do Afeganistão em 2001, motivada após os ataques em 11 de setembro de 2001, é levada a cabo pelo governo Bush a partir da doutrina da “guerra ao terror”. Na fotografia à esquerda, George W. Bush discursa em Portland, Estados Unidos, em 2002. À direita, soldados estadunidenses no Afeganistão, em 2006.

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Ver

Filme de Michael Moore. Fahrenheit: 11 de setembro. EUA, 2004

Fahrenheit: 11 de setembro. Direção: Michael Moore. Estados Unidos, 2004. Documentário que aborda contradições e aspectos obscuros da família Bush e dos reais interesses que moveram George W. Bush a declarar “guerra ao terror”, que resultou na ocupação militar do Iraque e do Afeganistão.

Jogo de poder. Direção: Doug Liman. Estados Unidos, 2010. Filme que mostra os bastidores da Guerra do Iraque em 2003, quando agentes da CIA mentiram sobre as supostas armas de destruição de Saddam Hussein.

Califa: Palavra de origem árabe que significa “sucessor”. Essa expressão foi difundida especialmente após a morte do profeta Maomé para designar o líder político e religioso que iria sucedê-lo.

Dan Kitwood/Getty Images

Na fotografia, marcha realizada em Paris, França, após o atentado à sede do jornal Charlie Hebdo, em 2015. Os manifestantes protestavam contra o extremismo religioso e defendiam a liberdade de expressão.

Ainda no contexto da “guerra ao terror”, os Estados Unidos entenderam que o Iraque de Saddam Hussein era uma ameaça à paz mundial e um Estado associado ao terrorismo. Aqui cabe uma explicação: Saddam Hussein nunca foi um democrata e perseguia ferozmente os seus adversários. Era um tirano, não um terrorista, e até então o país era um Estado organizado e nunca esteve atrelado ao terrorismo; pelo contrário, o via como ameaça. Ao que se sabe, Saddam Hussein e Osama bin Laden eram inimigos. Não tardou para que o país do Golfo Pérsico fosse atacado, invadido e colocado sob a ocupação das forças estadunidenses e britânicas em 2003. A alegação para os ataques ao Iraque foi a acusação de que Saddam Hussein detinha perigosas armas de destruição em massa. A informação era garantida pela Agência Central de Inteligência (CIA). O regime iraquiano foi derrubado em 2003, mas as tais armas jamais foram encontradas. Anos mais tarde foi confirmado que o principal agente da CIA envolvido no caso havia mentido e dado informações falsas para justificar a invasão do país árabe. Essas informações inverídicas foram a base do discurso de Collin Powel, secretário de Estado dos Estados Unidos, no discurso na ONU para justificar a Guerra do Iraque e que antecedeu os ataques em 2003. Em livros de memórias, o ex-chefe da CIA George Tenet afirma que a central de inteligência se enganou, e Donald Rumsfield, ex-secretário de Defesa, diz que “houve um mal-entendido”. Esse “mal-entendido” custou a vida de mais de 100 mil civis iraquianos e outros tantos milhares de soldados estadunidenses. A invasão ao Iraque de 2003 não surtiu os efeitos desejados. Com a dissolução do regime de Saddam Hussein, o Iraque se transformou, na prática, em uma espécie de abrigo de terroristas de várias partes do mundo. Entre eles, surgiu a AQI (Al-Qaeda no Iraque), fundada pelo jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, próximo de Osama bin Laden, a quem conhecera nas montanhas afegãs nos anos 1980. Após a morte de al-Zarqawi em 2006, o grupo passou a se chamar ISI (Estado Islâmico do Iraque), depois Isis (Estado Islâmico do Iraque e Síria ou Levante) e, em 2014, apenas EI (Estado Islâmico), cujo líder máximo, Abu Bakr al-Baghdadi, se autointitula califa. As ações terroristas do Estado Islâmico nos últimos anos têm impressionado o mundo. Em 2015, a França sofreu duas: em janeiro, contra a sede do jornal satírico Charlie Hebdo e, em novembro, uma série de ataques, entre eles, a uma casa de shows. Em março de 2016, o alvo foi Bruxelas, capital da Bélgica. Os ataques ao aeroporto e a uma estação de metrô deixaram mais de 30 mortos.

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Simultaneamente às transformações geopolíticas que caracterizam o mundo no final do século XX e início do século XXI, uma remultipolarização da ordem econômica em curso trazia novas matizes para a compreensão de mundo. Após o período de flagrante unilateralismo dos Estados Unidos e que culminou com um melancólico fim do governo Bush, a ponto de ser considerado “o pior presidente da história dos Estados Unidos”, seguiu-se em 2008 uma grave crise econômica mundial. Os Estados Unidos aparentemente perdiam a condição de hegemonia inconteste do sistema internacional para passar a compartilhar decisões com algumas potências emergentes. Contudo, ao contrário do que muito se apregoa, parece estar longe o dia em que deixarão de ser grande potência. A tendência mais provável nos próximos anos é de uma certa reorganização do mundo similar ao que se viu antes da Segunda Guerra Mundial, com Estados Unidos, Europa e China na condição de atores centrais do sistema internacional, mas seguidos por potências regionais ascendentes, como são o caso de Índia, Brasil e mesmo Rússia, ainda grande potência militar. É esse cenário do século XXI que estudaremos nos próximos capítulos. ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando

5. Quais foram as transformações que levaram ao término da ordem bipolar da Guerra Fria?

1. Como é estabelecida uma ordem mundial? 2. O primeiro-ministro britânico Winston Churchill apresentou o novo cenário, trazendo para o glossário das relações internacionais a expressão cortina de ferro. O que significa essa expressão? Qual é sua origem?

6. O que diferencia a nova ordem mundial dos anos 1990 da antiga ordem do período 1945-1991?

3. Após a Segunda Guerra Mundial, estabeleceu-se um novo período na história mundial, um cenário favorável à aplicação da geopolítica como ferramenta do poder. O que foi a Guerra Fria e como a geopolítica foi utilizada?

8. A Conferência de Potsdam ocorreu em julho de 1945 e reuniu as três grandes potências aliadas: Estados Unidos, União Soviética e Reino Unido. Por que essa conferência é considerada importante?

4. A Alemanha foi dividida em dois países após a Segunda Guerra Mundial. Explique por que isso ocorreu.

7. O que representaram os episódios do 11 de Setembro? Aponte causas e consequências desse atentado que reorientou a ordem internacional.

9. Caracterize o espaço alemão: a) após o término da Segunda Guerra Mundial; b) após a queda do Muro de Berlim.

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• Observe nos mapas a seguir a evolução das fronteiras no Leste Europeu e apresente suas conclusões.

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1. As fronteiras na Europa: antes da Segunda Guerra Mundial

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Fonte: JORDAN, David; WIEST, Andrew. Atlas da Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Escala, 2009. v. 1, p. 12.

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Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas estratégico y geopolítico: geopolítica de las relaciones de fuerza A URSS antes da guerra Reino Unido en el mundo. Madrid: Alianza Editorial, 1984. p. 39.Zonas de ocupação inglesa Anexações soviéticas Zonas de ocupação soviética

Zonas de ocupação dos EUA

Países sob influência soviética

Outros Estados ocidentais aliados

Estados neutros 3. AsFrança fronteiras na Europa: pós-Guerra Fria

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Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 43.

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Atividade em grupo Muitos dos grupos fundamentalistas existentes no mundo agem em nome de uma fé cega e se dizem muçulmanos. No entanto, a grande maioria dos muçulmanos não se identifica com esses grupos que deturpam os valores do islã. Pesquisem sobre esses grupos fundamentalistas, onde agem e apontem as diferenças entre islamismo e terrorismo.

De olho na mídia A ordem internacional do século XXI foi pautada em grande parte pelo combate à atuação dos grupos considerados extremistas. Atualmente, Estado Islâmico e Al-Qaeda são considerados os mais atuantes, mas há muitos outros. Leia o artigo a seguir e procure entender, com o auxílio do capítulo e de suas leituras, por que tal estratégia extremista move e preocupa grande parte do mundo. Por que a reação ocidental aos ataques terroristas do Estado Islâmico alimenta o grupo Atentados provam que o EI sabe provocar em seus alvos reações que aumentam o número dos seus guerreiros voluntários Previsto por analistas, comentaristas e, principalmente, pelas agências de inteligência, mais um evento terrorista do Estado Islâmico (EI) ocorreu na noite de 13 de novembro de 2015, novamente em Paris. Homens-mártires atiraram para matar pessoas dentro e fora de espaços de entretenimento. Para o EI, nada de pensamento livre e crítico como o do Charlie Hebdo; nada de costumes ocidentais de lazer, turismo, ou outra religião, Estado etc. e tal. Ele forçou o governo francês a decretar o estado de emergência; tentou inibir a presença europeia na guerra declarada contra si no Iraque e na Síria; provocou, acoplado à derrubada de avião russo pela Turquia, o vazamento de informação de que esta seria a maior compradora do petróleo sob sua gestão; fez irradiar uma campanha ocidental intensa contra o recrutamento de jovens europeus por meio de redes sociais; colocou em xeque as medidas de integração promovidas pela Bélgica; avolumou as suspeitas sobre os refugiados que desembarcam nas praias gregas; provocou o reaparecimento de práticas de Estado do nazismo no controle e translado de refugiados; calou os moderados islâmicos pacifistas. O EI pretende instituir seu califado unificador e para tal produz efeitos em fluxos a partir de suas investidas estratégicas pelo terror no ocidente. Dissemina o medo, fomenta a guerra, anula diplomacias e despreza a democracia. Sua conduta também acende imprescindíveis ligações diplomáticas em blocos que opõem adversários de velhos tempos como Rússia e Estados Unidos (aproximados como sempre de Inglaterra e... França), além de almejar submeter os xiitas. Trata-se, enfim, de uma religião cindida politicamente. É um grupo que sabe o que quer e como jogar com as forças organizadas. Deseja levar ao limite as novas tecnologias de combate e, ao mesmo tempo, glorificar seus mártires para instituir uma religião exclusiva. Tem seu exército recrutado de variados modos, mas no principal não se diferencia das forças armadas dos demais Estados. O EI, com sua presença terrorista em 13 de novembro, moveu os jovens franceses a se alistarem nas suas forças armadas. Evidenciou-se com isso que os Estados, sob qualquer regime, estão organizados para guerras, precisam de guerras para manter suas respectivas seguranças, e contam para tal com a adesão da grande maioria da população. Enfim, EI e seus Estados inimigos se equivalem. As elites ocidentais estão interessadas em fraternidade, o terceiro vértice do triângulo equilátero herdeiro da Revolução Francesa, e contam com o pacifismo islâmico para levá-lo a resplandecer. O planeta cada vez mais governado para a democracia de inspiração estadunidense se mantém na rota da boa governança com sua gestão transterritorial afiançada pelo Conselho de Segurança da ONU, forças empresariais, sociedades civis organizadas e parlamentos conectando esforços para a realização do desenvolvimento sustentável até 2030, com ou sem EI. [...] Na Europa, assim como nos Estados Unidos, tudo depende do eficiente monitoramento de pessoas, grupos inimigos, infiltrados, áreas de circulação, controles aéreos, alvos bem delimitados para efeitos de bombas para a boa gestão dos combates ao inimigo declarado. Mas como essa é uma guerra nada convencional, ela produz estados de violências quase incontroláveis, porque o EI é capaz de espantar a qualquer momento. Na manhã de 12 de janeiro de 2016, no bairro turístico de Sultanahmet, próximo à Mesquita Azul, em Istambul, na ambígua Turquia, sucedeu uma terceira ofensiva com mortos – depois de Surouç e do atentado de 10 de outubro próximo à estação de trem de Ancara, durante manifestação pró-criação do Curdistão, deixando outros 97 mortos. Imagina-se que as redes de segurança transterritoriais estejam mapeando possíveis outras miras do EI. Enquanto isso, as populações temerosas clamam por mais segurança e, a seu modo, proporcionam o crescimento dos monitoramentos estatais assim como de forças fascistas, institucionalizadas ou não nos parlamentos. O EI explicita como a Al-Qaeda introduziu um programa de expansão fundamentalista islâmica e que ele sabe, pelo menos até agora, como produzir variadas interfaces tornando difícil sua contenção. Talvez busque, no futuro próximo, uma medida drástica em termos políticos e ambientais. A derrubada do tirano sírio, nesse contexto, não passa de um chiste para a governança planetária. Não há nada de novo no front. PASSETTI, Edson. Por que a reação ocidental aos ataques terroristas do Estado Islâmico alimenta o grupo. Zero Hora, 16 jan. 2016. Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2016/01/por-que-a-reacao-ocidentalaos-ataques-terroristas-do-estado-islamico-alimenta-o-grupo-4952783.html>. Acesso em: 2 fev. 2016.

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CAPÍTULO 3

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

Dieter Spears/Getty Images

Estados Unidos: a hiperpotência

Richard Ellis/Alamy/Latinstock

A Times Square, na cidade de Nova York, é um símbolo do poder de consumo estadunidense. Fotografia de 2014.

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Thaiview/Shutterstock.com

Tópicos do capítulo A Doutrina Monroe O Corolário Roosevelt A Doutrina Truman A economia dos Estados Unidos A sociedade estadunidense

Mais de 68% da matriz energética dos Estados Unidos é composta de combustíveis fósseis. Na fotografia de fundo, campo de exploração de petróleo no Texas, em 2013.

Ponto de partida O estilo de vida estadunidense, ou American way of life, evidencia o poder econômico dos Estados Unidos e a sua condição de hiperpotência global construída ao longo da história por meio de políticas agressivas e controversas. Atualmente, o país apresenta grande dependência de combustíveis fósseis e graves problemas sociais, derivados da desigualdade econômica e do preconceito contra negros e imigrantes. 1. Os Estados Unidos são uma hiperpotência global, caracterizada pelo alto dinamismo econômico. No entanto, nem toda a população desse país é beneficiada pelo estilo de vida estadunidense. Explique as causas dessa desigualdade social. ESCREVA NO CADERNO

Spencer Platt/AFP/Getty Images

2. Por que a dependência de combustíveis fósseis é um fator preocupante para os Estados Unidos?

O morador de rua em Manhattan, uma das áreas mais ricas da cidade de Nova York, representa as desigualdades sociais da maior economia do mundo. Fotografia de 2014.

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Os Estados Unidos terminaram o século XX e iniciaram o século XXI na condição de maior potência mundial, a única hiperpotência. Em que pese já há algum tempo ser anunciado um possível fim da hegemonia estadunidense, a verdade é que, mesmo ao final da segunda década do novo século, o país segue na condição de mais influente do mundo. Os Estados Unidos construíram historicamente a posição de potência completa, ou seja, é: • ​potência econômica, por apresentar o maior PIB mundial e por todo o dinamismo que caracteriza sua economia; • ​potência militar, por construir a maior máquina de guerra de todos os tempos, com o uso, por exemplo, das ogivas nucleares; • ​potência tecnológica, pela imensa capacidade de produção técnica e científica e por concentrar algumas das melhores universidades do mundo; • ​potência política, pelo poder de influência e capacidade de persuasão no sistema internacional e por ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU; • potência cultural, pela imensa difusão mundial de costumes e de produtos culturais de alcance global nas áreas de cinema, música e outras expressões artísticas e literárias. Essa condição especial, adquirida ao longo do tempo pelos Estados Unidos, está associada à história de sua expansão territorial: das treze colônias iniciais, constituídas nos séculos XVII e XVIII, ao quarto maior país do mundo em extensão territorial. Além da pujante economia construída desde meados do século XIX, a geopolítica interna e externa estadunidense (em um primeiro momento isolacionista e depois intervencionista) está por trás do As treze colônias seu grau de desenvolvimento. Observe o mapa ao lado e o apresentado na página a seguir e 90° O compare as mudanças na constituição territorial dos Estados Unidos, desde a formação das treze colônias até a atual organização territorial composta por 50 estados. A Doutrina Monroe, o mais importante conCANADÁ o Superio r Lag junto de pensamentos da política isolacionista dos NOVA HAMPSHIRE Estados Unidos, foi estabelecida em 1823 pelo Lago o Huron Lag MASSACHUSETTS o ri presidente James Monroe. É muito clara em seu tá On N 40° intuito de afastar qualquer cogitação europeia de e RHODE ISLAND Eri go La CONNECTICUT PENSILVÂNIA recolonização da América, diante do contexto de NOVA YORK reorganização do velho continente após o turbuNOVA JERSEY DELAWARE lento período das guerras napoleônicas. Contudo, VIRGÍNIA MARYLAND também traz uma menção de premeditada dubiedade quando externa seu lema: "A América para CAROLINA DO NORTE os americanos". Como toda mensagem velada, há OCEANO um quê de indefinição na frase: seria a Doutrina ATLÂNTICO CAROLINA DO SUL um aviso para que se respeitasse a autonomia dos GEÓRGIA recém-independentes países americanos ou um aviso subliminar das intenções intervencionistas do ascendente país? Lago Michiga

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1. A Doutrina Monroe

Golfo do México 0

295

Fonte: ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de et al. Atlas histórico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: Ministério da Educação: FAE, 1991. p. 70.

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Estados Unidos: divisão político territorial atual 90° O

CANADÁ

Olympia WASHINGTON

40

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°N

OREGON

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DAKOTA DO NORTE Bismarck

MONTANA

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MAINE

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OCEANO PACÍFICO

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FLÓRIDA

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0

20° N

200

Golfo do México

Capital do país Capital do estado

Fonte: UNITED STATES CENSUS BUREAU. Disponível em: <http://www.census.gov/schools/facts>. Acesso em: 10 dez. 2015.

Séc. XX. Cartoon. Coleção particular. Fotografia: The Granger Collection/Otherimages

Um misto das duas intenções, como a história tratou de mostrar, parece explicar melhor esse documento que esboçou a cartilha geopolítica do país. É muito comum entre os estudiosos entender a Doutrina Monroe como um marco da construção do poderio estadunidense, muito embora limites históricos rígidos sejam sempre passíveis de questionamento. Outros remetem ao próprio processo de colonização, que se deu de forma diferenciada no país e ao isolacionismo que caracterizou sua história até a Primeira Guerra Mundial. O Destino Manifesto é outro ingrediente a ser considerado no processo expansionista estadunidense. Uma bem-humorada alusão aos dizeres da Doutrina Monroe. A charge ilustra o momento de declaração da Doutrina Monroe ao mundo, em 1823, mostrando o Tio Sam, símbolo mundialmente conhecido pela personificação do sentimento nacionalista dos Estados Unidos, como guardião e, também, proprietário do continente americano.

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Destino Manifesto

c. 1873. Cromolitografia. Coleção particular. Foto: Corbis/Latinstock

A expressão Destino Manifesto remete a uma teoria estadunidense que advoga a supremacia do povo americano anglo-saxão sobre os demais. Trata-se de um pensamento inspirado no puritanismo protestante que entendia que esse povo era o escolhido por Deus para cumprir uma missão na América. Percebe-se clara a alusão à passagem bíblica que narra a saga do povo hebreu, igualmente escolhido por Deus em busca da terra prometida. Em nome dessa crença, os indígenas do Oeste foram dizimados e os povos adjacentes, subjugados, enquanto se realizavam as conquistas territoriais. O Destino Manifesto coincidiu histórica e filosoficamente com uma crença similar que se propagou entre os europeus (“o fardo do homem branco”) em relação aos povos africanos e asiáticos, dentro da concepção de que eram igualmente submetidos ao imperialismo dos países da Europa. A conquista dos territórios que atualmente fazem parte do oeste e do sul dos Estados Unidos foi realizada sob a ideologia do Destino Manifesto.

Alegoria sobre a ideia do Destino Manifesto, muito difundida no século XIX. Propaga a ideia de progresso guiado pela aura angelical da fé cristã, seguida pelos colonos, contra o suposto atraso civilizacional dos indígenas e mexicanos.

A Doutrina Monroe foi por todo o século XIX e parte do XX a pedra angular da política externa do país. Foi invocada várias vezes nesse período para rechaçar pretensões britânicas, francesas e alemãs na América. Apesar de distintas na concepção (uma de orientação política, outra religiosa), a Doutrina Monroe e o Destino Manifesto muitas vezes se fundiram no propósito de assegurar a aptidão expansionista estadunidense. Dessa fusão brotou a ideia de que era destino dos Estados Unidos se sobrepor aos demais países da América, logo, ocupá-los. Muitas aquisições territoriais se fizeram sob a aura da Doutrina: o Texas, adquirido junto ao México, em 1845; Oregon, em 1846; Novo México, Arizona e Califórnia, tomados do México, que perdeu metade de seu território, em 1848; e o Alasca, que foi comprado junto ao Império Russo ao preço de US$ 7,2 milhões em 1867. Somente a Louisiana foi adquirida junto à França antes da Doutrina, em 1803. Observe o mapa da expansão territorial dos Estados Unido apresentado na página ao lado. Inicialmente isolacionista, a Doutrina assumia uma clara posição de defensora da América, invocando o direito da independência das nações latino-americanas perante as coroas hispânica e portuguesa. Na mensagem oficial enviada ao Congresso, o presidente Monroe deixava claro que não admitiria nenhuma intervenção armada na América por parte dos europeus, pois seria encarada como uma ameaça aos Estados Unidos. Em troca, o país renunciava, igualmente, a qualquer intervenção na Europa.

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Estados Unidos: expansão territorial 100º O

WASHINGTON

CANADÁ MONTANA

OREGON IDAHO

DAKOTA DO MINNESOTA NORTE DAKOTA DO SUL

NEBRASKA NEVADA

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CALIFÓRNIA

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OCEANO PACÍFICO

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MASSACHUSETTS RHODE ISLAND CONNECTICUT

PENSILVÂNIA

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OCEANO ATLÂNTICO

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CAROLINA DO SUL ALABAMA GEÓRGIA MISSISSÍPI

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Golfo do México

Território dos Estados Unidos em 1815

Vendido pelo México (venda Gadsden), 1853

Território cedido pelo Reino Unido, 1818 e 1842

Alasca (vendido pela Rússia), 1867

Flórida (vendida pela Espanha), 1819

Havaí (anexado em 1898)

Texas (anexado em 1845)

Ferrovia

Oregon (cedido por tratado), 1846

Capital do país

160º O

0

375

Território cedido pelo México, 1848

Fonte: HAYWOOD, John. Atlas histórico do mundo. Colônia: Könemann, 2001. p. 181.

Apesar do tom de alerta, os Estados Unidos pouco podiam fazer em relação a práticas intervencionistas europeias que persistiram até o final do século XIX. A partir desse momento, quando se viram fortalecidos economicamente, a Doutrina Monroe se tornou mais efetiva, mudando de uma perspectiva progressista-defensiva para uma conservadora-ofensiva. Deste momento em diante, vários países da América passaram a sofrer intervenções não por parte da Europa, mas da potência emergente do Norte. O infográfico da página a seguir apresenta o processo de formação do território estadunidense e sua configuração geopolítica em uma analogia com as regras e características do futebol americano.

A Geografia na... arte!

ESCREVA NO CADERNO

• Procure saber as razões que levaram a França a presentear os Estados Unidos com uma das maiores obras da humanidade e o respectivo contexto histórico.

Estátua da Liberdade, em Nova York, Estados Unidos, 2015.

KC Alfred/ZUMA Press/Corbis/Latinstock

A Estátua da Liberdade é um patrimônio mundial da Unesco e também considerada uma das sete maravilhas do mundo. O escultor Frederic-Auguste Bartholdi e os arquitetos Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc e Alexandre-Gustave Eiffel (o mesmo que projetou a Torre Eiffel) são os responsáveis pela magnífica obra de proporções impressionantes. O monumento de 1886 é um presente do governo francês ao governo estadunidense.

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CONTANDO AS JARDAS PARA O OESTE

Os esportes coletivos podem dizer muito sobre uma sociedade, pois reúnem uma série de símbolos que, de certa forma, expressam seu funcionamento e seus valores. Veja neste infográfico como o futebol americano, muito popular nos Estados Unidos, reflete a história estadunidense e a maneira como ocorreu a configuração geopolítica do país.

ORIGEM O futebol americano foi criado logo após a Guerra de Secessão (1861-1865), quando os Estados Unidos já haviam delimitado suas fronteiras e ainda recebiam um grande fluxo de imigrantes para ocupar as terras do Oeste.

CONQUISTAR TERRAS

Ainda que o objetivo seja marcar pontos, o aspecto central do jogo é avançar pelo campo. No processo de formação do território estadunidense, também houve uma dinâmica de posse. O governo expandiu as fronteiras para o oeste até o oceano Pacífico, tomando ou comprando terras de indígenas ou de outros países.

CARACTERISTICAS O futebol americano é uma derivação do rúgbi e do futebol criado pelos ingleses. Ao contrário do que acontece neste esporte, a dinâmica de disputa não está centralizada na posse e no trabalho com bola, mas na ocupação e no avanço sobre o território, ainda que o objetivo seja o mesmo: levar a bola até a meta adversária.

100 jardas = 91,44 metros

FUTEBOL AMERICANO: COMO JOGAR Cada time tem 11 jogadores. Duração: 60 minutos com intervalo de 12 minutos 15 minutos 1º quarto

Inversão do lado do campo

15 minutos 2º quarto

Os times realizam movimentos chamados downs (descidas), em que avançam sobre o campo adversário.

Intervalo de 12 minutos e inversão do lado do campo

15 minutos 3º quarto

Cada vez que um time chega à end zone (meta adversária), marca seis pontos e tem direito a um chute a gol, chamado field goal, que vale mais um ponto.

Inversão do lado do campo

15 minutos 4º quarto

O time que fizer mais pontos vence a partida.

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Crédito do infográfico: Casa Paulistana

LIGADOS COM A HISTORIA A relação entre o futebol americano e o processo de ocupação do território estadunidense pode ser feita quando se analisa o nome de alguns times. San Francisco 49ers: o número 49 se refere à corrida do ouro de 1849 na Califórnia. Kansas City Chiefs: o nome faz alusão à população indígena do Kansas. Minnesota Vikings: a palavra “vikings” faz alusão à grande presença de escandinavos na ocupação do território.

OCUPAR O TERRITÓRIO

Posteriormente, o governo incentivou a ocupação desses territórios, vendendo terras a preços baixíssimos, tanto para estadunidenses quanto para imigrantes, principalmente irlandeses, escoceses e italianos.

New Orleans Saints: a Louisiana, estado onde está localizada a cidade de New Orleans, foi comprada da França e possui uma grande população de tradição católica. A flor-de-lis, símbolo do time, era um dos emblemas da família real francesa.

LAND RUN DE OKLAHOMA

Em 1889, o governo ofereceu gratuitamente 160 acres para quem primeiro ocupasse a terra. Milhares de pessoas se amontoaram e disputaram palmo a palmo as demarcações. Esse evento ficou conhecido como land run de Oklahoma.

Acre: Antiga unidade de medida ainda usada em alguns países para mensurar as dimensões de uma superfície agrária. Um acre equivale a 4 046,86 m2.

AS CORES SÃO MERAMENTE ILUSTRATIVAS A REPRESENTAÇÃO ESTÁ FORA DE PROPORÇÃO

Atividades

Washington Redskins: redskin (pele-vermelha, em português) refere-se à população indígena da América do Norte.

ESCREVA NO CADERNO

1. A mais incisiva ideologia para esse fato foi a doutrina do Destino Manifesto que, a partir de preceitos religiosos, praticamente justificava a eliminação física dos indígenas para dar lugares aos anglo-saxões, uma espécie de “povo superior” na ótica do protestantismo. Os nomes dos times mencionados acima, de certa forma,

1. O infográfico faz uma analogia entre o futebol americano e a formação territorial dos Estados remontam a essa fase da história estadunidense. Unidos. Busque no capítulo uma justificativa ideológica decisiva na composição territorial do país e que de certa forma pode ser relacionada à mensagem contida no infográfico.

2. Porque toda a história do expansionismo se fez para o oeste e para o sul, uma vez que a colonização dos Estados Unidos se deu a partir do leste. Num

momento, os Estados Unidos abandonam o isolacio2. “Contando as jardas para o oeste”: por que para o oeste? segundo nismo e partem para o expansionismo que permeou todo o século XX e é vigente até os dias atuais.

3. Qual foi a dinâmica de posse realizada pelo governo no processo de formação do território estadunidense? Primeiramente o governo expandiu as fronteiras, tomando e comprando terras de indígenas e de outros países, em direção ao oceano Pacífico; posteriormente houve o incentivo à ocupação por meio de uma política de colonização.

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2. O Corolário Roosevelt e a política do Big Stick

The Granger Collection, Nova York/Glow Images

O termo corolário contém uma conotação de continuidade, prosseguimento. Logo, a expressão Corolário Roosevelt entende-se como continuidade da Doutrina Monroe, como bem definiu o presidente estadunidense Theodore Roosevelt (1901-1909), que a anunciou em 1904, chamando sua política externa de um “corolário à Doutrina Monroe”. Ted Roosevelt, como se tornou conhecido, assumiu a presidência em 1901 em decorrência do assassinato do presidente William McKinley e impôs uma perspectiva agressivamente expansionista à política externa do país. Foi ele quem difundiu o provérbio “fale suave, mas carregue um grande porrete”. Sua “política do Big Stick”, como ficou conhecida, foi aplicada a partir de seu governo. Anunciava-se que os Estados Unidos deveriam assumir uma posição, “mesmo que relutante”, de combate à “delinquência” de alguns Estados americanos; daí a necessidade da intervenção, já que o que guiava a política externa do país era a Doutrina Monroe. Como, pela lógica estadunidense, essa doutrina impedia a presença europeia nas Américas, era dever dos Estados Unidos impor uma ordem ao continente para evitar turbulências.

Theodore Roosevelt impõe sua nova diplomacia à América. Charge de Louis Dalrymple, 1905.

Interagindo • Sabemos que Barack Obama sucedeu George W. Bush na presidência dos Estados Unidos em 2008. Que pontos comuns você enxerga entre Obama e Bush e entre Wilson e Roosevelt? ESCREVA NO CADERNO

Dentro dessa perspectiva, a intervenção armada foi uma constante durante os dois governos de Ted Roosevelt e também no de seu sucessor, Woodrow Wilson (1913-1921). Ambos os governos no início do século XX são caracterizados pela perspectiva expansionista e interventora, embora opostos na formação política: Roosevelt era um republicano com nuances conservadoras e discurso duro, enquanto Wilson era um humanista, democrata e professor universitário. De maneira contraditória, Wilson acreditava que a democracia era o caminho e precisava ser levada por todos os meios aos países que ainda não haviam optado por esse modelo, mesmo que à ponta de uma baioneta. E assim se sucedeu.

2.1 As intervenções dos Estados Unidos na América

José Martí (1853-1895): Poeta revolucionário e líder da independência de Cuba.

Em 1898, no contexto da independência cubana, os Estados Unidos declararam guerra à Espanha, alegando que um encouraçado seu, o Maine, havia sido bombardeado; posteriormente, descobriu-se tratar de um ataque forjado para justificar a entrada na guerra que, na realidade, os cubanos liderados por José Martí realizavam. Venceram facilmente a Espanha e substituíram a decadente potência colonial no espaço centro-americano.

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Os Estados Unidos ocuparam então militarmente a ilha de Cuba até que se delineasse um governo no país recém-independente. Assim, participaram diretamente de sua independência e, em 1901, foi aprovada a famigerada Emenda Platt, pela qual Cuba aceitava constitucionalmente as ingerências militar e econômica dos Estados Unidos, concedendo o território cubano para instalações de bases militares. Uma das dimensões da Emenda Platt foi a concessão por parte do submisso governo cubano de um trecho da porção oriental da ilha aos estadunidenses, Guantánamo, até o último ano do século, ou seja, 1999. No entanto, como é de conhecimento público, até 2015, a base de Guantánamo continuava sob poder dos Estados Unidos, abrigando diversos prisioneiros e funcionários militares e civis. Veja o mapa a seguir.

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Base e prisão de Guantánamo 80° O

Frota estadunidense

EUA

CUBA

CUBA

Golfo do México

19º 57’ N

BAHAMAS

Baía de Guantánamo

Quartel-general 0

Pista de aterrissagem

145

Câncer Trópico de

OCEANO ATLÂNTICO

Havana

Mar do Caribe

0

1,3

75º 09’ O

CUBA

Capital do país

Fonte: CASA Branca mantém compromisso de fechar Guantánamo. Exame, 5 abr. 2011. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/economia/mundo/noticias/ casa-branca-mantem-compromisso-de-fechar-prisaode-guantanamo--3>. Acesso em: 10 dez. 2015.

Consolidado o domínio estadunidense sobre a ilha, Cuba converteu-se em uma economia monocultora e exportadora de açúcar aos vizinhos do norte. A United Fruit Company, uma empresa agrícola estadunidense, chegou a deter mais da metade do espaço arável de Cuba. Essa situação de uma pseudorrepública alimentícia foi abalada nos anos 1940 por um processo revolucionário na ilha, que culminou com a vitória do movimento liderado por Fidel Castro e Ernesto “Che” Guevara na Revolução Cubana de 1959. Outra ação marcante da Doutrina Monroe, e que se deu sob o governo Roosevelt, está relacionada ao Canal do Panamá. O desejo de ligar os oceanos Atlântico e Pacífico no istmo da América Central já era bastante antigo devido à necessidade de encurtar as distâncias e diminuir os custos do comércio marítimo internacional. Antes da construção do canal, os navios que estavam no Atlântico contornavam toda a América do Sul e enfrentavam os desafios e obstáculos gelados do Estreito de Magalhães, no extremo sul do continente, para chegar ao Pacífico. Para os Estados Unidos a construção do canal também significava uma nova ligação entre a costa leste e a oeste do país pela via marítima. Além da importância geoeconômica, o controle do canal também tinha valor geopolítico. A primeira tentativa de construção foi com a França, por meio da empresa de engenharia do arquiteto Ferdinand de Lesseps, o mesmo que projetara o Canal de Suez. Em 1879, Lesseps adquirira a concessão junto ao governo da Colômbia, país ao qual pertencia o atual Panamá, e no ano seguinte iniciara a obra. Porém, uma epidemia de malária e o insucesso em corrigir a altimetria do relevo para a construção do canal levaram à falência da empresa de Lesseps e interromperam o projeto. Era uma época em que coincidia o declínio francês com a ascensão geopolítica estadunidense.

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Alamy/Fotoarena

Dentro do espectro da Doutrina Monroe, os Estados Unidos estavam atentos à movimentação na região do istmo e à construção do canal. Com a retirada da França, estavam certos de que deveriam dar continuidade à obra. Para isso, ofereceram dez milhões de dólares ao governo colombiano pela concessão do istmo, oferta que foi recusada. Como o país vivia uma crise política, os Estados Unidos aproximaram-se dos colombianos do norte, os panamenhos, e os estimularam a declarar a ruptura com a Colômbia. Os panamenhos organizaram uma revolta no mesmo dia em que um cruzador estadunidense atracou no porto de Colón, dando retaguarda aos revoltosos contra Bogotá, que proclamaram a República do Panamá, imediatamente reconhecida pelos Estados Unidos. Os fuzileiros navais estadunidenses que desembarcaram no Panamá intimidaram tentativas de reação dos colombianos, que assistiram à perda daquela estratégica fração de seu território. A obra foi concluída com patrocínio dos Estados Unidos, que obtiveram junto ao novo governo uma concessão para uso perpétuo do canal. Tal investida foi vital na consolidação geopolítica dos Estados Unidos no continente americano, além de toda a importância econômica que representou a rota Atlântico-Pacífico. O canal esteve sob controle dos Estados Unidos durante todo o século XX. Devido a fortes pressões populares panamenhas, que viam naquela relação uma afronta à soberania do Panamá, foi assinado em 1977 um acordo de devolução do canal ao país, fato que se consumou em 1999. Observe a localização do canal no mapa a seguir. Após se consolidar como potência inconteste na América Latina – com intervenções em Porto Rico (1824), Argentina (1831), México (1845 e 1847), Nicarágua (1857, 1860, 1909, 1919 e 1927), Honduras (1903, 1905, 1919 e 1924), Haiti (1915) e República Dominicana (1916) –, os Estados Unidos se aventuraram em território asiático, promovendo intervenções no Japão, China e Filipinas, entre o final do século XIX e início do XX. A política do Corolário Roosevelt vigorou até o ano de 1930. Atualmente há um projeto de construção do Canal da Nicarágua, idealizado por um consórcio sino-russo, rival dos interesses estadunidenses.

Eclusa de Miraflores no Canal do Panamá, 2014.

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O Canal do Panamá 79° O

A

Colón

1

OCEANO ATLÂNTICO

Eclusas Gatún Dique Gatún

Lago Madden

2 3

PANAMÁ

Lago Gatún

Dique Madden Eclusas 4 Pedro Miguel Eclusas Miraflores

5

CIDADE DO PANAMÁ

O canal do Panamá é formado por um sistema de comportas e três eclusas de elevação, apresentadas no mapa ao lado. Para atravessar os 84 km de extensão do canal, as embarcações demoram de 16 a 20 horas. Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2010. p. 66.

8° N

B 0

OCEANO PACÍFICO

10

Capital do país

A

1

2

3

4

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B

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3. A Doutrina Truman e o período da Guerra Fria Conforme já estudamos, após o término da Segunda Guerra Mundial se seguiu uma nova ordem mundial pautada pela bipolaridade ideológica. O fio condutor desse período foi, em sua maior parte, a Doutrina Truman, que se traduziu em uma política de contenção da União Soviética. Harry Truman assumiu a presidência dos Estados Unidos após a morte de Franklin Delano Roosevelt, durante as conferências que davam conta de reorganizar a Europa e o mundo do pós-guerra. Bem diferente de Roosevelt, que pregava uma coexistência pacífica com a União Soviética, Truman retomaria a tradição estadunidense de se posicionar como vanguardistas do “mundo livre e democrático” e simultaneamente assumir posturas incisivas em intervenções. Em sua visão, surgidos como a grande potência do pós-guerra, os Estados Unidos precisavam bloquear as ações dos “comunistas”. Nesse sentido, tão cedo anunciou-se a nova panorâmica mundial, Truman agiu rápido em importante iniciativa ao término da guerra. Grécia e Turquia estavam com as economias seriamente abaladas e com distúrbios internos, à mercê de caírem sob domínio soviético. O presidente dos Estados Unidos solicitou a aprovação ao Congresso Nacional para um auxílio imediato aos dois países, com a declarada intenção de conter a movimentação comunista, apresentando um plano com seu próprio nome: Doutrina Truman. Por trás da argumentação econômica, havia o início de uma política que seria exitosa em seu fim: a de conter o avanço soviético, a matiz principal da Doutrina Truman, que permearia a política externa estadunidense por décadas e alimentaria a Guerra Fria. A Doutrina Truman deixava muito claro que o mundo estava dividido em dois sistemas: o sistema capitalista, livre e democrático, e o sistema socialista e totalitário.

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A percepção da União Soviética do cerco dos Estados Unidos (1950-1955) Mundo comunista

Equador

Estados Unidos e seus aliados Frotas estadunidenses Conflitos ou crises GUATEMALA 1954

ESTADOS UNIDOS CANADÁ

III Frota

OCEANO PACÍFICO

OCEANO ATLÂNTICO II Frota

EUROPA OCIDENTAL

JAPÃO COREIA DO NORTE COREIA DO SUL 1950

URSS BERLIM 1953 VII Frota CHINA IUGOSLÁVIA GRÉCIA Quemoy-Matsu Taiwan 1948 1947 1950 FILIPINAS TURQUIA AZERBAIJÃO 1946 VI Frota IRAQUE Pacto INDOCHINA de Bagdá TAILÂNDIA 1946 PAQUISTÃO MALÁSIA 1948 IRÃ 1953

OCEANO ÍNDICO

NOVA ZELÂNDIA AUSTRÁLIA

0

2 400

Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas estratégico y geopolítico: geopolítica de las relaciones de fuerza en el mundo. Madrid: Alianza Editorial, 1984. p. 44.

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Sgt. W. M. Compton/Corbis/Latinstock

Essa perspectiva de um mundo bipolarizado foi exposta em março de 1947 durante o discurso de Truman no Congresso dos Estados Unidos, momento que, para muitos, foi o início da Guerra Fria. A ajuda ao exterior era a estratégia da política externa com o objetivo de conter o avanço comunista. É sob esse prisma que se entendem, entre outras iniciativas, o Plano Marshall e a própria constituição da Otan, ambos ainda na década de 1940. As intervenções militares dos Estados Unidos após a Segunda Guerra igualmente estão circunscritas ao teor da Doutrina Truman e, assim, o país se envolveu: na Guerra da Coreia, em 1950; na derrubada de um regime democraticamente eleito no Irã, em 1953, e outro na Guatemala, em 1954; na invasão de Cuba na frustrada tentativa de eliminar Fidel Castro e na Guerra do Vietnã, em 1962. Esta guerra, finalizada em 1975, é considerada um dos maiores traumas na história dos Estados Unidos, pois, com as mortes de soldados estadunidenses (cerca de 58 mil) houve comoção nacional e divergências sobre a necessidade da guerra.

Bettmann/Corbis/Latinstock

A Guerra da Coreia, em 1950, resultou na criação de dois países: Coreia do Sul (capitalista) e Coreia do Norte (comunista). Na fotografia, soldados estadunidenses e prisioneiros norte-coreanos.

Soldados estadunidenses em Bon Bu Dop, Vietnã, 1967.

Sob o estigma da Doutrina Truman, em 1961 os Estados Unidos criavam a Escola das Américas em seu protetorado (Panamá), uma iniciativa para formar militares para combater socialistas que tentassem tomar o poder em seus respectivos países. Após a reviravolta política no Panamá, que redigiu os termos dos tratados da devolução do canal, a Escola também foi convidada a se retirar do país, mudando sua sede para a Geórgia. Na ânsia de conter o inimigo e se sobrepor a ele, desenvolveu-se uma frenética corrida armamentista, entre os Estados Unidos e a União Soviética, que culminou com um arsenal de armas atômicas jamais visto. É bom lembrar que, mesmo antes de se configurar a Guerra Fria (a qual daria o papel de

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Enfoque

Estados Unidos: poderio militar Allmaps

protagonista central nas relações internacionais para os Estados Unidos), foi Harry Truman quem autorizou o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, o único ataque atômico da história até o início do século XXI. Ao estudar a história geopolítica dos Estados Unidos, constatamos que a potência participou de inúmeras guerras, mas sempre em território alheio. Isso, aliado ao sucesso econômico, subsidia a compreensão de como se tornou detentora do grande poder que tem. Observe no mapa ao lado o poderio militar dos Estados Unidos no início dos anos 2000, período em que, pela primeira vez, o país sofreu um ataque externo dentro de seu território contíguo, em 11 de setembro de 2001.

OCEANO GLACIAL ÁRTICO Thulé Thulé

GROENLÂNDIA (DIN)

Círculo Polar Ártico

ISLÂNDIA RÚSSIA

RÚSSIA REINO UNIDO

CANADÁ MONGÓLIA COREIA DO NORTE CHINA

ESTADOS UNIDOS

Misawa

JAPÃO

Midway

Trópico de Câncer Okinawa

Taiwan

TAILÂNDIA

Guam

FILIPINAS

VII Frota Pacífico Ocidental

Havaí

CINGAPURA

II Frota

BERMUDAS Atlântico CUBA

MÉXICO

Guantánamo

PORTO RICO (EUA) VENEZUELA

HONDURAS

COLÔMBIA

INDONÉSIA

BRASIL

OCEANO ÍNDICO

BOLÍVIA

Trópico de Capricórnio AUSTRÁLIA

3 540

OCEANO ATLÂNTICO

V Frota Equador Oceano Índico Países do Golfo Mar Vermelho Diego ZIMBÁBUE Garcia

CHILE

NOVA ZELÂNDIA

0

QUIRGUISTÃO GEÓRGIA UZBEQUISTÃO TURQUIA SÍRIA AFEGANISTÃO VI Frota Mediterrâneo ISRAELIRAQUE IRÃ PAQUISTÃO LÍBIA EGITO ÍNDIA PAÍSES DO SUDÃO IÊMEN GOLFO SOMÁLIA ITÁLIA

III Frota Pacífico

OCEANO PACÍFICO

ALEMANHA

Círculo Polar Antártico

Pessoal militar estadunidense (Apenas são representados os países nos quais os efetivos são superiores a 10 000 homens)

ARGENTINA

70 000 40 000 11 000

ÁFRICA DO SUL

OCEANO ÍNDICO

Países-membros da Otan Outros países aliados dos Estados Unidos, ligados por um acordo bilateral ou militarmente apoiados. Países que pertencem ao sistema de vigilância mundial “Echelon” Bases ou instalações militares

Fonte: GRESH, A. et al. (Dir.). Atlas da globalização. Le Monde Diplomatique. Lisboa: Campo da Comunicação, 2003.

ESCREVA NO CADERNO

A política externa norte-americana

[...] Existe um consenso na análise internacional: o poder global dos Estados Unidos, no início do século XXI, é muito superior ao de todos os Estados nacionais que conseguiram impor sua hegemonia regional ou global desde o século XVI. Fala-se cada vez mais em império, e se tornou um lugar-comum comparar os Estados Unidos com o Império Romano. Os Estados Unidos saíram da Guerra Fria na condição de hiperpotência vitoriosa no campo ideológico e econômico e sem adversários geopolíticos capazes de concorrer no campo militar. Resultado de uma estratégia continuada e consequente de conquista do poder global, que se delineou no início do século XX, se expandiu depois da Segunda Guerra Mundial e alcançou seu pleno sucesso depois de 1991, quando os Estados Unidos chegaram mais perto do que nunca da possibilidade de constituição de um sistema imperial mundial. Logo após a queda do Muro de Berlim, o presidente Bush pai fez um pronunciamento na Assembleia Geral das Nações Unidas em 1990, num tom que lembrava a linguagem e a proposta liberal internacionalista do presidente Woodrow Wilson, em 1918: Nós temos um projeto de uma nova parceria entre as nações que transcende as divisões da Guerra Fria. Uma parceria baseada na consulta mútua, na cooperação e na ação coletiva, especialmente por meio das organizações internacionais e regionais. Uma parceria baseada no princípio da lei e suportada por uma repartição justa dos custos e das responsabilidades. Uma parceria cujos objetivos são aumentar a democracia, a prosperidade e a paz; e reduzir as armas. [...] Declaração que contém todas as ideias-chave do pensamento político hegemônico, na década de 1990: a ideologia da globalização e o projeto liberal de desregulamentação e abertura de todos os mercados e das fronteiras econômicas, para promover a democracia e a paz. [...] Nesse mesmo período, os Estados Unidos consolidaram e expandiram seus acordos e bases militares, incluindo a região da Europa Central, e com uma presença militar efetiva em cerca de noventa países, distribuídos por todos os continentes, menos na Antártida. [...] Nesse sentido, parece cada vez mais claro que, após a Guerra Fria, constituiu-se um grande consenso em torno da estratégia de longo prazo dos Estados Unidos. [...] Sendo assim, do ponto de vista das expectativas dos demais países, pode-se ter certeza de que não haverá um novo período de hegemonia benevolente [...] nem tampouco uma adesão norte-americana a qualquer tipo de “governança multilateral” do mundo, independentemente do partido que encabeçar o governo dos Estados Unidos. FIORI, José Luis. O poder global. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007. p. 134-138.

• De acordo com as ideias do autor, existe a possibilidade de uma adesão dos Estados Unidos a um projeto de poder multilateral? Justifique sua resposta.

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4. O poder de fogo da economia estadunidense O primeiro século após a independência dos Estados Unidos, ocorrida em 1776, foi marcado por um crescimento econômico impressionante. Assim como a economia, a população aumentava, enquanto a democracia avançava. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os Estados Unidos já se configuravam como uma das maiores economias do globo, como mostra a tabela a seguir. Os Estados Unidos e seus principais rivais (1900) EUA

Rival mais próximo

Produção de carvão (toneladas)

262 milhões

219 milhões (Reino Unido)

Exportações (libras esterlinas)

311 milhões

390 milhões (Reino Unido)

Ferro-gusa (toneladas)

16 milhões

8 milhões (Reino Unido)

Aço (toneladas)

13 milhões

6 milhões (Alemanha)

Ferrovias (milhas)

183 000

28 000 (Alemanha)

Prata (onça troy)

55 milhões

57 milhões (México)

Ouro (onça troy)

3,8 milhões

3,3 milhões (Austrália)

Produção de algodão (toneladas)

10,6 milhões

3 milhões (Índia)

Petróleo (barris)

9,5 milhões

11,5 milhões (Rússia)

Fonte: LOWE, Norman. História do mundo contemporâneo. São Paulo: Penso, 2011. p. 479.

Ver

Filme de Michael Hazanavicius. O artista. Bélgica/França, 2011

O artista. Direção: Michael Hazanavicius. Bélgica/França, 2011. Nos "loucos" anos 1920, em plena ascensão da indústria cinematográfica e do cinema falado, um astro do cinema mudo teme pelo fim de sua carreira e o esquecimento de sua obra.

Em muito contribuíram para o desenvolvimento estadunidense as riquezas naturais do país, especialmente ferro, carvão mineral e petróleo, assim como a expansão da malha ferroviária. Simultaneamente, verificava-se o incremento demográfico proporcionado pela imigração, motivada pela imagem que o jovem país transmitia de ser o novo éden econômico (o que representava emprego de mão de obra e mercado em expansão). A emergente indústria estadunidense teve nos impostos sobre a importação a proteção contra a concorrência estrangeira, tão necessária ao programa industrial embrionário. A Primeira Guerra deu grande impulso à indústria, pois os europeus envolvidos no conflito passaram a importar gêneros industrializados dos Estados Unidos. Na Segunda Guerra, isso se repetiria. No período pós-Primeira Guerra, houve nova expansão: a produção industrial dobrou e o comércio e os salários aumentaram, embora não na mesma proporção dos lucros. Na década de 1920, o mercado consumidor do país estava inundado com gêneros de consumo dos mais variados: rádios, refrigeradores, lavadoras, motocicletas e, principalmente, automóveis. Crescia a indústria cinematográfica estadunidense, que passaria a difundir os valores da emergente sociedade: era o início do american way of life. O crescimento econômico foi tão espetacular que a década de 1920 ficou conhecida nos Estados Unidos como “os loucos anos 1920”. O boom econômico era impressionante. A crise de 1929 viria interromper esse aquecimento até então ininterrupto, levando o país e o capitalismo à mais grave crise de sua história, cujas causas foram: • ​Superprodução: o aquecimento da economia estadunidense levou a uma superprodução na agricultura. Havia excesso de trigo, mas não havia compradores para o cereal. A mesma situação valia para outros gêneros agrícolas e para produtos industriais. • E ​ ncolhimento do consumo: durante anos a economia levou a superlucros dos empresários, mas o mesmo não aconteceu aos salários, que, embora aumentassem, não acompanharam o ritmo dos lucros. Assim, a indústria crescia, produzia e, tal qual a agricultura, não encontrava compradores.

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4.1 A economia contemporânea dos Estados Unidos

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• ​Crack da Bolsa de Nova York: em 1929 o valor das ações despencou, e os investidores quiseram vendê-las, mas não acharam compradores. Resultado: desvalorização total. Com as ações das empresas em queda, o empresariado deixou de investir, a produção caiu e veio a demissão em massa, acompanhada de falências em efeito dominó. Indústrias recorreram a empréstimos a bancos e não conseguiram pagá-los. Os bancos, que também deixaram de receber o que emprestaram, faliram. O dólar “virou pó”. Empresários ficaram pobres da noite para o dia e muitos, não tendo estrutura emocional para suportar a guinada repentina em suas vidas, suicidaram-se. Passado o período agudo da crise e reerguidos por um novo modelo econômico, agora com um Estado mais atuante dentro dos moldes keynesianos, conduzido por Franklin Roosevelt, os Estados Unidos retomaram sua produção ainda nos anos 1930 com a elaboração do New Deal e, após a Segunda Guerra, se consolidaram como a maior potência do capitalismo de todos os tempos. Tal hegemonia econômica vem até os dias de hoje.

ves/ Getty Images

• ​Ausência de Estado: levada ao pé da letra a doutrina de Adam Smith (o liberalismo e o discurso contra o Estado), cada empresa era praticamente livre para fazer o que bem entendia junto ao mercado, sem ser importunada por intervenções estatais.

Idealizador do New Deal, o plano de reconstrução estadunidense após a crise de 1929, Franklin Roosevelt foi o único presidente dos Estados Unidos a estar à frente do governo por quatro mandatos consecutivos (19321936-1940-1945); morreu durante o último, em 1945. Foi o presidente durante duas das maiores crises da história: a Depressão dos anos 1930 e a Segunda Guerra Mundial. Em 1947, a Constituição estadunidense vetou a possibilidade de um terceiro mandato a qualquer presidente.

Nesta segunda década do século XXI, os Estados Unidos continuam sendo aquilo que foram durante quase todo o século XX: a maior economia do mundo. Essa afirmação é válida desde 1930. Mesmo que a China seja um real concorrente na disputa pela liderança econômica global, não deixa de ser impressionante os Estados Unidos estarem tantos anos à frente da economia mundial. Em 2015, o PIB estadunidense era da ordem de US$ 17,9 trilhões de dólares, o que representa cerca de 25% da economia mundial. A balança comercial é igualmente grande: apresenta a terceira maior pauta exportadora (depois de China e Alemanha), e é o maior importador. ESCREVA NO CADERNO

Conversando com a... Matemática!

2. Seus dados são apresentados em valores absolutos ou relativos? 3. O que significa a retração observada no período 2008-2009? A média do crescimento do PIB estadunidense entre 2010 e 2014 foi suficiente para suprir as perdas dos anos anteriores?

Crescimento anual do PIB real dos Estados Unidos (2007-2014) Tangente Design

1. A que se refere o gráfico? Que período ele abrange?

% 4 3 2

2,5 1,8

2,3

2,2

2012

2013

2,4

1,6

1 0  0,3

21 22 23

Fonte: WORLD BANK. Disponível em: <http:// data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP. KD.ZG>. Acesso em: 17 mar. 2016.

 2,8

24 2007

2008

2009

2010

2011

2014

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Bill Barksdale/DPA via ZUMA Press/Easypix

4.2 Estados Unidos: potência agrícola

Na fotografia, plantação de algodão no Texas, Estados Unidos, 2014.

Sementes transgênicas: Sementes geneticamente modificadas.

Os Estados Unidos dividem com a China a condição de maior potência agrícola do mundo. A grande extensão de terras agricultáveis, a variedade climática, o alto emprego de tecnologia e uma política governamental de auxílio aos agricultores (subsídios) são fatores que explicam essa condição. A agricultura é essencialmente mecanizada e trabalha em sintonia com a indústria (agroindústria) e com o intenso uso de sementes transgênicas, principalmente junto às planícies que se estendem desde o oeste dos Grandes Lagos até as Montanhas Rochosas, em forma de belts (cinturões agrícolas): corn belt (milho), cotton belt (algodão) e wheat belt (trigo) estão entre os mais conhecidos. Associados à pecuária, temos ainda o dairy belt no Nordeste (laticínio) e o ranching belt (pecuária extensiva do Oeste). Alguns dos principais gêneros produzidos são trigo, milho, soja, algodão, beterraba e cítricos. Na pecuária, destaque para o gado bovino, segundo maior rebanho comercial do mundo, além da avicultura. A sudoeste dos Grandes Lagos temos a associação entre a grande produção de milho (maior do mundo) e a pecuária intensiva bovina, uma vez que o milho, em grande parte, tem como destino a ração de gado. Os Estados Unidos têm a segunda produção tritícola (trigo) do mundo, que ocorre no Centro-Sul (trigo de inverno) e no Norte (trigo de primavera), perdendo apenas para a China, embora sejam os maiores exportadores. O algodão é cultivado ao sul, onde também ocorrem as plantações de produtos tropicais, com destaque para a laranja, que é a segunda maior produção mundial, perdendo apenas para o Brasil. O arroz igualmente é cultivado ao sul. Em 2015, os Estados Unidos seguiam como o maior produtor mundial de soja (acompanhados de perto pelo Brasil), cultivada ao sul dos Grandes Lagos, próximo à produção de milho. Observe, no mapa a seguir, a distribuição espacial dos cinturões agrícolas dos Estados Unidos. A pecuária leiteira (dairy belt) ocorre no Norte e Nordeste, enquanto o Meio-Oeste é tradicional área criadora de gado bovino em forma extensiva.

Capital Capital do do país país Capital Capital do do estado estado Cidade Cidade

Allmaps

Estados Unidos: produção agropecuária

Olympia Olympia Salem Salem

4400 40ºº NN ºN

Helena Helena

Bismarck Bismarck

Augusta Augusta Augusta Montpelier Concord Montpelier Montpelier Concord Concord Boston Albany Boston Albany Boston Albany Hartford Hartford Providence Providence Hartford Providence Madison Madison Nova York York Nova Lansing Madison Lansing Carson City Nova York Lansing Carson City Harrisburg Harrisburg Trenton Trenton Salt Lake City Moines Cheyenne Des Moines Indianápolis Indianápolis Harrisburg Trenton Salt Lake City Cheyenne Des Moines WASHINGTON, DC DC Indianápolis WASHINGTON, Dover Dover WASHINGTON, DC Dover Denver Columbus Columbus Annapolis Lincoln Annapolis Denver Columbus Lincoln Annapolis Springfield Charleston Springfield Charleston Topeka Springfield Charleston Topeka Jefferson Jefferson Jefferson Richmond Richmond City City Frankfort Frankfort Richmond OCEANO OCEANO City Frankfort OCEANO Raleigh Raleigh ATLÂNTICO ATLÂNTICO Raleigh Nashville Nashville Santa Fé ATLÂNTICO Oklahoma City Nashville Santa Fé Oklahoma City Boise Boise

Sacramento Sacramento

OCEANO OCEANO PACÍFICO PACÍFICO

i ti rtÁr rlaÁr oPlao lPo clou rcíur CíC

Mar Mar de de Mar de Bering Bering Bering

Phoenix Phoenix

OCEANO OCEANO OCEANO PACÍFICO PACÍFICO PACÍFICO

00 0

Trópico de Câncer Trópico de Câncer

Austin Austin

20º N 20º N

0 0

130 130

Tallahassee Tallahassee Tallahassee

Golfo Golfo do do México México Golfo do México

140º O O 140º 140º O

Agricultura Agricultura Cereais Cereais Milho Milho Arroz Arroz Uva Uva

Montgomery Montgomery Montgomery Jackson Jackson Jackson Baton Baton Rouge Rouge Baton Rouge

Honolulu Honolulu

Juneau Juneau

865 Juneau 865 865

Colúmbia Colúmbia Colúmbia Atlanta Atlanta Atlanta

Little Rock Rock Little Rock

ccoo co 160º O 160º O

Saint Paul Paul Saint Saint Paul

Pierre Pierre

Miami Miami Miami

00 0

415 415 415

100º O 100º O

Beterraba Beterraba açucareira açucareira Árvores Árvores frutíferas frutíferas Girassol Girassol Tabaco Tabaco

Amendoim Amendoim Soja Soja

Cana-de-açúcar Cana-de-açúcar Algodão Algodão

Criação de gado Pesca Pesca Criação de gado Pesca Portos de pesca Portos Bovino Portos de de pesca pesca Bovino Suíno Suíno Aves Aves

Exploração florestal Exploração Exploração florestal florestal

Vegetação Vegetação Vegetação Florestas Florestas Florestas Agricultura Agricultura Agricultura Pastos Pastos Pastos

Fonte: ATLAS National Geographic. São Paulo: Abril, 2008. p. 37.

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Estados Unidos: PIB por setor (2014) 1,60%

20,60%

4.3 Recursos naturais e energia

77,80%

Primário Secundário Terciário

Fonte: CIA. The world factbook. Disponível em: <https://www.cia.gov/library/ publications/the-world-factbook/geos/ us.html>. Acesso em: 15 dez. 2015.

Patrick Kelly/Craig Daily Press via AP/Glow Images

Na porção oriental do país, junto aos Montes Apalaches, há ocorrência de jazidas carboníferas de altíssima qualidade devido ao teor calórico do carvão mineral. Já ao sul dos Grandes Lagos, verifica-se forte concentração de minério de ferro. A ocorrência desses dois minérios, indispensáveis à primeira fase da Revolução Industrial, foram fatores importantes na industrialização pioneira nos Estados Unidos, verificada no Nordeste do país. Os Estados Unidos detêm uma das maiores concentrações de cobre (atualmente é o segundo produtor mundial). Há ainda reservas consideráveis de minérios menos nobres, como chumbo, zinco, fosfato e enxofre.

Tangente Design

Como ocorre no Brasil, ao redor de grandes aglomerados urbanos, como Nova York ou Los Angeles, há os “cinturões verdes” (green belt) que produzem gêneros básicos para consumo interno. Os Estados Unidos são, simultaneamente, os maiores exportadores e importadores de alimentos do mundo e apresentam importante saldo superavitário no setor. Apesar de ser uma potência agrícola, as atividades agrárias representam apenas 1,6% do PIB estadunidense, o que não deixa de ser significativo diante do tamanho da economia, e o setor primário absorve menos de 5% da população ativa.

No Golfo do México encontra-se uma das maiores concentrações de petróleo em todo o mundo. A abundância do combustível fóssil está por trás da transformação econômica que sofreu o estado do Texas, um dos mais ricos dos Estados Unidos. Inicialmente uma área pecuarista, na metade do século XX converteu-se em grande polo petroquímico e, mais recentemente, também em área de alta tecnologia. Além do Golfo, o petróleo é encontrado no Alasca e junto às Rochosas. Os Estados Unidos situam-se entre os maiores produtores mundiais de petróleo, além de deterem importantes reservas, mas, na condição de maior consumidor mundial, é altamente dependente da importação. A base energética do país está assentada no uso do petróleo, gás natural e carvão mineral e 70% da matriz elétrica é baseada em centrais termelétricas. Os Estados Unidos são, simultaneamente, os maiores produtores e consumidores de energia do mundo. Contudo, o consumo supera a produção e o país se vê obrigado a complementar sua necessidade energética. Em relação à energia elétrica, o país a importa do Canadá, outro grande produtor energético, cuja principal matriz é a hidrelétrica.

Ver Terra Prometida. Direção: Gus Van Sant. Estados Unidos, 2012. O representante de uma companhia petrolífera convence os moradores de um vilarejo na Pensilvânia a explorar gás em suas terras, mas a oposição de uma ambientalista poderá mudar suas intenções. Filme de Gus Van Sant. Terra Prometida. EUA, 2012

Mina de carvão no estado do Colorado, Estados Unidos, 2015.

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No que se refere à energia primária, de 2010 a 2014 o ritmo de produção estadunidense foi crescente e se aproximou ao consumo, diminuindo a importação. Veja no gráfico a seguir a evolução dos dados dos Estados Unidos sobre produção, consumo, exportação e importação de energia primária. Além do uso doméstico e agrícola, grande parte dessa energia é destinada para suprir o imenso parque industrial, que se apresenta polarizado em quatro macrorregiões principais: Nordeste, Sudoeste, Sul e Noroeste, cada qual com sua especificidade.

Navegar Euronews <http://tub.im/uyeaud> O site da Euronews contém links sobre a economia dos Estados Unidos com os mais variados indicadores econômicos e sociais do país.

* BTU é a sigla para Unidade Termal Britânica. 5,5 milhões BTU equivalem à energia produzida a partir de 1 barril de petróleo. 3,412 BTU correspondem a 1 Kwh.

Quadrilhão de BTU*

Tarumã

Estados Unidos: energia primária (1975-2015) 125 100 75 50 25 0 1975

1980

1985

1990

Produção total de energia primária Importação de energia primária

1995

2000

2005

2010

2015

Exportação de energia primária Consumo total de energia primária

Fonte: U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION (EIA). Total energy. Disponível em: <http://www.eia.gov/beta/MER/index. cfm?tbl=T01.01#/?f=A&start=1975&end=2014&charted=4-6-7-14>. Acesso em: 20 jan. 2016.

5. A sociedade estadunidense Com aproximadamente 321 milhões de habitantes, em 2015 os Estados Unidos detinham a terceira maior população da Terra. Porém, devido à extensão territorial (9,3 milhões de km2), a densidade demográfica é considerada baixa (34,5 hab./ km2). Segundo projeções, o país será um dos responsáveis pelo aumento populacional do planeta e o único rico entre os dez mais populosos nos próximos anos, com elevada longevidade tanto para homens quanto para mulheres, como mostra o gráfico da pirâmide etária abaixo.

Idade

Homens

Fonte: CIA. The world factbook. Disponível em: <https://www.cia.gov/library/publications/ the-world-factbook/geos/us.html>. Acesso em: 15 dez. 2015.

Mulheres

Tarumã

Estados Unidos: pirâmide etária (2015) 100 + 95 – 99 90 – 94 85 – 89 80 – 84 75 – 79 70 – 74 65 – 69 60 – 64 55 – 59 50 – 54 45 – 49 40 – 44 35 – 39 30 – 34 25 – 29 20 – 24 15 – 19 10 – 14 5–9 0–4 15

12

9

6

3

0 0 População (em milhões)

3

6

9

12

15

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NASA

Reproduzindo aquilo que ocorre em todos os países de grande extensão territorial, a distribuição demográfica é irregular. Desde a colonização, verificou-se forte concentração na costa leste. Posteriormente, na porção oeste das Rochosas houve intenso incremento demográfico durante o século XX, processo que se mantém até hoje. Já as planícies centrais e do meio-oeste, tradicionalmente, são áreas de baixa densidade demográfica, como é possível verificar na imagem abaixo.

A montagem de imagens obtidas por satélite mostra os Estados Unidos à noite, em 2012. As áreas mais iluminadas correspondem aos grandes adensamentos populacionais.

A área mais densamente povoada encontra-se entre o litoral atlântico e os Grandes Lagos, no Nordeste. Nessa região, há duas megalópoles: a de Bos-Wash, entre Boston e Washington, no litoral (apresentada no mapa a seguir), e a de Chi-pitts, no interior, entre Chicago e Pittsburgh.

Allmaps

Estados Unidos: megalópole de Bos-Wash 75° O

Syracuse

BOSTON Albany

Springfield Providence

Hartford

40°

Scranton Newark

N

NOVA YORK

Trenton Wilmington

OCEANO ATLÂNTICO

FILADÉLFIA

BALTIMORE WASHINGTON

RICHMOND

População (em milhões de habitantes)

Norfolk 0

95

1

2

4

6

Fonte: SIMIELLI, Maria Elena. Geoatlas. 33. ed. São Paulo: Ática, 2010. p. 48.

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No sudoeste dos Estados Unidos, junto ao Estado mais rico e populoso, a Califórnia, encontra-se o segundo maior aglomerado humano do país. Ali, igualmente, surgiu uma importante megalópole: a de San-San, unindo San Francisco a San Diego. Outras duas importantes aglomerações estão no sul, junto ao estado do Texas, com destaque para a cidade de Houston, e no noroeste, em Washington, onde está Seattle. Portanto, a população estadunidense concentra-se majoritariamente nas bordas do país, junto às zonas costeiras, enquanto o interior apresenta baixa densidade demográfica. Veja o mapa a seguir.

Allmaps

Estados Unidos: densidade demográfica (2010) 100° O

CANADÁ WASHINGTON DAKOTA DO NORTE

MONTANA

MINNESOTA

VERMONT

MI C

OREGON

NOVA HAMPSHIRE

AN IG

40°

WISCONSIN

H

DAKOTA DO SUL

IDAHO

NOVA YORK

WYOMING

N

IOWA

NEBRASKA

NEVADA UTAH COLORADO

KANSAS

CALIFÓRNIA

OKLAHOMA

NOVO MÉXICO

ARIZONA

PENSILVÂNIA

INDIANA OHIO ILLINOIS VIRGÍNIA OCIDENTAL VIRGÍNIA MISSOURI KENTUCKY CAROLINA DO NORTE TENNESSEE

MASSACHUSETTS RHODE ISLAND CONNECTICUT NOVA JERSEY DELAWARE MARYLAND

CAROLINA DO SUL

ARKANSAS MISSISSIPI

OCEANO PACÍFICO

MAINE

GEÓRGIA ALABAMA

TEXAS

OCEANO ATLÂNTICO

LOUISIANA MÉXICO

Mar de Bering

Golfo do México

160° O

ALASCA

160° O

Pessoas por milha quadrada

HAVAÍ

60

°N

0

1 040

0

20° N

200

Densidade média: 88,4

FLÓRIDA

2 000 a 69 468,4 500 a 1 999,9 88,4 a 499,9 20 a 88,3 1 a 19,9 0 a 0,9

0

310

Fonte: UNITED STATES CENSUS BOREAU. Disponível em: <http://www2.census.gov/geo/pdfs/maps-data/maps/thematic/us_popdensity_2010map.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2015.

5.1 A formação do povo estadunidense Até o final do século XVI, a costa leste dos Estados Unidos era pouco povoada. Os primeiros aventureiros e refugiados religiosos perseguidos na Europa chegaram apenas no século XVII, com destaque para os protestantes de língua inglesa. O progresso econômico das treze colônias iniciais despertou desentendimentos com a metrópole inglesa, que culminou com a independência dos Estados Unidos em 4 de julho de 1776. Para ocupar o Oeste, o jovem país incentivou a imigração: os Estados Unidos precisavam consolidar o território e, com o velho continente em crise, o imigrante via os Estados Unidos como o novo horizonte de melhores perspectivas. No início do século XIX, vieram ingleses, escoceses, irlandeses, alemães e escandinavos; já no final desse século, com as transformações políticas e econômicas na Europa, passaram a ir para os Estados Unidos imigrantes de praticamente toda a Europa centro-oriental.

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A Primeira Guerra Mundial interrompeu esse surto migratório, mas, tão logo o conflito se encerrou, o processo foi retomado, o que levou o governo a restringir a imigração a um limite anual de 360 mil pessoas e a impor uma cota discriminatória que favorecia a entrada de ingleses, alemães e irlandeses e limitava os “grupos indesejáveis”: asiáticos, latinos e judeus. A crise de 1929 e a depressão dos anos 1930 detiveram a imigração mais que a restrição imposta. Em 1952, foi reformulada a Lei de Cotas, determinando que 80% dos imigrantes deveriam ser de procedência da Europa setentrional ou ocidental e os 20% restantes das demais áreas do mundo. Chineses e japoneses entraram no país a partir da metade do século XIX e concentraram-se na Califórnia. Contudo, foram os asiáticos os primeiros estrangeiros a sofrer discriminação restritiva ainda em 1881. Filipinos, coreanos, indonésios e indianos também compõem o grosso dos imigrantes asiáticos, igualmente com concentração na Califórnia, embora a cidade de Nova York seja uma espécie de “miniatura mundial”, concentrando inúmeras comunidades estrangeiras. Ao longo de todo esse processo, foi sempre uma constante a entrada de mexicanos nos Estados Unidos, na maioria das vezes não computada. As estatísticas continuam comprometidas por dois motivos: o U.S. Census Bureau, órgão demográfico oficial, classifica-os como “brancos”; muitos evitam identificar-se temendo a deportação, uma vez que estão em situação ilegal. Somados a outros latino-americanos que passaram a entrar em grande número após a Segunda Guerra Mundial, os hispânicos constituem hoje a maior comunidade de imigrantes e seus descendentes. A população negra estadunidense, que atualmente é da ordem de 14%, entrou no país a partir do século XVII na condição de mão de obra escrava e concentrou-se especialmente no Sul, onde trabalhou principalmente na lavoura do algodão.

Ver Gran Torino. Direção: Clint Eastwood. Estados Unidos, 2008. Nos subúrbios da cidade estadunidense de Detroit, um veterano solitário da Guerra da Coreia inicia uma relação inusitada com uma família asiática que passa a morar na casa ao lado.

5.2 A atmosfera xenófoba

Michael B. Thomas/AFP/Getty Images

A formação da nação estadunidense se processou em meio a forte diversidade, mas de forma diversa do que ocorreu no Brasil: sem compor uma sociedade multicultural, pois lá não ocorreu um processo intenso de miscigenação, configurando-se, então, uma sociedade multiétnica, mas não multicultural. Alguns entendem que justamente essa discriminação declarada e a xenofobia explícita – afinal, o governo tomou medidas oficiais (que fracassaram) para evitar a miscigenação – incentivaram os movimentos negros à eficiente organização que alcançaram e às grandes conquistas, pois era evidente que eles se encontravam em situação de exclusão. Observe a fotografia abaixo.

Os distúrbios em Ferguson, Missouri, em 2014, expuseram as fissuras raciais existentes na cidade, quando um tribunal absolveu um policial branco da acusação da morte do jovem negro Michel Brown. Após essa decisão judicial, a cidade explodiu em protestos.

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Ver

AP/Glow Images

Filme de Ava DuVernay. Selma: uma luta pela igualdade. Reino Unido, EUA, 2014

Selma: uma luta pela igualdade. Direção: Ava DuVernay. Reino Unido/Estados Unidos, 2014. Filme sobre as históricas marchas realizadas por Martin Luther King em 1965, evidenciando sua incansável luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.

Violência racial, discriminação e segregação acompanham a história do país. As diferenças sociais estadunidenses, as maiores dentre os países ricos, estão ligadas à origem imigratória e à questão racial. Os negros, por exemplo, até a Segunda Guerra Mundial, eram tratados como cidadãos de segunda classe e não tinham direito ao voto, entre outras discriminações. Há uma longa trajetória de resistência negra nos Estados Unidos. A mais famosa, o Movimento pelos Direitos Civis, conduzida pelo reverendo Martin Luther King (1929-1968) – retrato na fotografia no final desta página – intensificou-se nos anos 1950. A bandeira era pela igualdade plena entre negros e brancos, e a reivindicação, por meios não violentos e desobediência pacífica, teve seu auge nos anos 1960. Os indicadores sociais demonstram que a população estadunidense goza de alto padrão de vida. Contudo, tal fato não é extensivo a toda a sociedade, pois os imigrantes, remanescentes indígenas, negros e, especialmente, os hispânicos não apresentam o mesmo padrão. A atmosfera é permeada pela tensão xenófoba, sobretudo quando se considera a difícil convivência em uma sociedade multiétnica com uma vertente ideológico-religiosa na qual se compõe a cultura WASP. O acrônimo diz respeito a uma parcela representativa da sociedade que entende que o verdadeiro estadunidense é Branco, Anglo-Saxão e Protestante, daí a sigla das iniciais (em inglês). Trata-se de uma interpretação anacrônica, pois a preponderância da imigração anglo-germânica deu-se apenas até a independência. Após esse período, os Estados Unidos vieram a se constituir, provavelmente, na sociedade mais diversa em todo o mundo, sendo o país que mais imigrantes recebeu em toda a história, aproximadamente 40 milhões. Obviamente que há entre os brancos quem pense de forma diametralmente oposta, defendendo a pluralidade da sociedade estadunidense e entendendo-a como uma virtude. Mas, de fato, há uma extrema-direita branca racista, atuante e bastante ruidosa. Grupos radicais de direita, como a Ku-Klux-Klan ou o White Power, são tradicionais grupos de extermínio às minorias no país. Constituíram-se em verdadeiros exércitos particulares, ilegais e combatidos, nesse que é o mais armado país em todo o mundo. Há tragédias históricas promovidas por grupos de extrema-direita, como o fatídico atentado contra um prédio público, em Oklahoma, em 1995, perpetrado pelo extremista Timothy McVeigh, simpatizante do White Power. O ato, que matou 168 pessoas, foi realizado em nome de uma crença doentia sobre a “supremacia branca” estadunidense. McVeigh foi preso e condenado à pena capital em 2001.

Na marcha sobre Washington, em 1963, Martin Luther King disse em seu discurso: “Eu tenho um sonho, de que meus quatro filhos um dia viverão em um país onde não sejam julgados pela cor de sua pele, e sim pelo conteúdo de seu caráter”.

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Muro na fronteira entre Estados Unidos e México, construído pelo vizinho rico em 1994 com o intuito de conter, ou ao menos aumentar o controle da entrada de mexicanos nos Estados Unidos. Na fotografia, parte do muro na cidade de Nogales, no Arizona, Estados Unidos, fronteira com o estado de Sonora, México, em 2014.

Norma Jean Gargasz/Alamy/Latinstock

Há várias minorias dispersas pelos Estados Unidos. De acordo com o U.S. Census Bureau, concentram-se sobretudo no Oeste (36%), seguido do Sul (30%) e Nordeste (23%). No Oeste há maior concentração de hispânicos e, em seguida, asiáticos, enquanto no Sul os afrodescendentes compõem a mais forte minoria. A grande presença de imigrantes mexicanos no país é vista com hostilidade por parcela da população estadunidense. Os imigrantes em condições ilegais e mesmo aqueles que possuem cidadania estadunidense sofrem com ações xenófobas. Para reprimir a entrada de mexicanos que buscam trabalho e melhores condições de vida nos Estados Unidos, o governo estadunidense adota uma política de controle na fronteira com o México. Observe a fotografia a seguir.

Tangente Design

Nova York menos branca (2000 e 2010) Brancos

50 45

44,7

44,0

Negros Asiáticos

% da população

40

Hispânicos

35 30

27,0

26,8

25

28,6

Ver Espanglês. Direção: James Brooks. Estados Unidos, 2004. Filme que explora a fusão da cultura mexicana com a estadunidense, dando origem a um idioma híbrido. A imigração mexicana nos Estados Unidos é o pano de fundo para o desenvolvimento do enredo. Filme de James Brooks. Espanglês. EUA, 2004

A segregação se reproduz no âmbito interno de cidades e bairros em todo o país. Atualmente, as principais comunidades de minorias são os hispânicos, negros e asiáticos. Contudo, segundo projeções do U.S. Census Bureau, o que chamamos hoje de “minorias” passará a ser “maioria” em 2042. Em 2010, isso já era realidade em Nova York, conforma mostra o gráfico a seguir.

25,5

20 15 10

9,8

12,7

5 0 2000

2010

Os dados deste gráfico foram reproduzidos tal qual aparecem na reportagem da Folha de S.Paulo, cuja soma não resulta em 100%.

Fonte: FORNETTI, Verena. Censo mostra Nova York mais hispânica e asiática. Folha de S.Paulo, 30 out. 2011. Disponível em: <http://acervo.folha.com.br/fsp/2011/10/30/2/5732011#zoom_in>. Acesso em: 18 mar. 2016.

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ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando

1. A Doutrina Monroe foi estabelecida em 1823 pelo presidente James Monroe. O que significou essa Doutrina para a América Central? 2. O termo corolário contém uma conotação de continuidade, prosseguimento. O que foi o Corolário Roosevelt? 3. Uma das ações mais efetivas e marcantes da Doutrina Monroe e que se deu sob o governo Roosevelt está relacionada ao Canal do Panamá. Explique o contexto de construção e uso do Canal do Panamá. 4. Em 1901, foi aprovada a Emenda Platt. O que foi essa emenda e qual sua relação com a Doutrina Monroe? 5. O Destino Manifesto é outro ingrediente a ser considerado no processo expansionista estadunidense. Qual a visão que muitos estadunidenses tinham da ideia de “Destino Manifesto”? Existem exemplos dessa perspectiva nos dias de hoje? 6. Analise a dependência dos Estados Unidos em relação às matérias-primas e discorra sobre sua disponibilidade de recursos. 7. A que conclusões podemos chegar ao pensar na composição racial da sociedade estadunidense? 8. Com base no texto e no mapa apresentado na página 62, aponte onde ocorre: a) o dairy belt

b) o green belt

c) o ranching belt

d) o cotton belt

9. Estados Unidos e Brasil são dois países marcados pela diversidade cultural, fruto da contribuição de inúmeros povos. Que diferença você vê entre as duas sociedades?

Olhar cartográfico Analise a presença estadunidense no mundo e responda: • Algum outro país apresenta a mobilidade militar dos Estados Unidos? Justifique.

Allmaps

A presença militar dos Estados Unidos 0°

OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Círculo Polar Ártico

ÁSIA

Segunda Frota Resto do Atlântico

AMÉRICA DO NORTE

EUROPA

Estados Unidos

AMÉRICA CENTRAL

Equador

OCEANO PACÍFICO

AMÉRICA DO SUL

Quinta Frota Golfo Pérsico

Quarta Frota Oeste do Atlântico Sul, incluindo o litoral brasileiro

OCEANO ATLÂNTICO

Fonte: DÁVILA, Sérgio. Sob polêmica, EUA reativam sua Quarta Frota. Folha de S.Paulo, 13 jul. 2008. Mundo.

Círculo Polar Antártico

Sétima Frota Oeste do Pacífico e Oceano Índico

ÁFRICA

OCEANO ÍNDICO

OCEANIA Meridiano de Greenwich

Terceira Frota Norte e leste do Pacífico

Trópico de Capricórnio

OCEANO PACÍFICO

Sexta Frota Mediterrâneo

Trópico de Câncer

Primeira Frota Histórica, hoje está fora de operação 0

2 750

OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO

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Muitas iniciativas dos Estados Unidos são polêmicas no cenário internacional. Um grupo defenderá uma dessas iniciativas, enquanto outro irá refutá-la. Por exemplo: a ingerência na independência de Cuba, o controle do Canal do Panamá, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a Guerra do Vietnã. Um grupo buscará argumentos de defesa e o outro, de refutação dessas atitudes.

De olho na mídia Leia o texto a seguir e responda: por que o autor critica a declaração do então embaixador estadunidense na França, Myron Herrick, a respeito de os Estados Unidos não cobiçarem terras ou desejarem novos territórios? Em sua opinião, a crítica do autor é coerente?

TEXTO 1 Em nome do “Destino Manifesto” Desde o século XIX, em nome do “progresso” e da “democracia” ou das “obrigações internacionais”, forças militares e econômicas dos EUA intervieram em países latino-americanos, quando não usurparam território, garantindo seu controle do continente. No dia 22 de fevereiro de 1927, data do aniversário de George Washington, o embaixador dos Estados Unidos na França, Myron Herrick, reuniu num banquete, em Paris, os representantes diplomáticos dos países latino-americanos membros da União Panamericana. “Os Estados Unidos não cobiçam terras.”, declarou em seu speech. “Não desejam novos territórios. Como é do conhecimento de todas as pessoas bem-informadas, os Estados Unidos recusaram durante os últimos quarenta anos, de forma constante e deliberada, ocasiões frequentes e fáceis de expandir seus domínios. Aqueles que nos acusam de propósitos imperialistas ignoram os fatos e não estão sendo sinceros.” Com a memória sem dúvida embotada pelos vinhos e joias da Cidade Luz, ele esquecia deliberadamente o México desmembrado, Cuba acorrentada, o Haiti e a República Dominicana sob controle, o Panamá arrancado da Colômbia, a invasão da Nicarágua, a anexação das Filipinas... No ano de 1823, em sua mensagem ao Congresso, o presidente norte-americano James Monroe lançou a doutrina que iria levar seu nome. Enquanto o império ibérico desmoronava, despertando certos apetites britânicos, Monroe recusava toda e qualquer intervenção europeia em assuntos das Américas. Essa atitude poderia ser considerada vantajosa se, sob o pretexto de lutar contra o colonialismo externo, os Estados Unidos já não estivessem, naquela época, orientando sua política externa para a constituição de um bloco continental a partir do qual pretendiam instaurar sua dominação. LEMOINE, Maurice. Em nome do “Destino Manifesto”. Le Monde Diplomatique, 1o maio 2003. Disponível em: <http://www.diplomatique.org.br/acervo.php?id=784>. Acesso em: 15 dez. 2015.

TEXTO 2 Sabemos que a economia estadunidense foi fortemente afetada pela crise econômica de 2008. No entanto, apresentou razoável recuperação nos últimos anos.

O que diz o texto a respeito dessa retomada e em relação à comparação com os outros três países citados? PIB dos EUA cresce 2,4% no 1º trimestre de 2013, indica 2ª prévia A economia dos Estados Unidos – a maior do mundo – cresceu a uma taxa anual de 2,4% no primeiro trimestre de 2013, em ritmo ligeiramente mais lento que o estimado inicialmente, de acordo com a segunda prévia do Produto Interno Bruto (PIB) feita pelo Departamento de Comércio do governo norte-americano nesta quinta-feira (30). A primeira prévia, divulgada no dia 26 de abril, indicava um crescimento de 2,5%. Houve aceleração frente ao quarto trimestre do ano anterior, quando a economia avançara 0,4%. Em 2012, considerando todos os trimestres, o PIB, que é a soma de todas as riquezas produzidas no país, teve alta de 2,2%. O crescimento foi pressionado pela queda nos gastos do governo e pelas empresas fora do setor agrícola, com encomendas a um ritmo mais lento, de acordo com a agência Reuters. A despesa dos consumidores, que nos Estados Unidos representa mais de dois terços do PIB, cresceu entre janeiro e março a um ritmo de 3,4%, contra os 3,2% calculado pelo governo. A economia norte-americana cresce há 15 trimestres consecutivos. No entanto, a taxa média, pouco acima de 2%, é considerada fraca sob os padrões históricos. A última vez que o PIB norte-americano registrou queda foi no segundo trimestre de 2009, quando recuara 0,3%. Na véspera, o Brasil divulgou o resultado do PIB do primeiro trimestre, cujo crescimento foi de apenas 0,6%, na comparação com os três meses anteriores, e de 1,9%, em relação a igual período de 2012 – resultados que vieram abaixo da expectativa dos economistas. A China, considerada a segunda maior economia do mundo, mostrou crescimento bem maior que o dos EUA em igual período, de 7,7%. O Japão, que segue na terceira posição, teve crescimento anualizado de 3,5% no primeiro trimestre de 2013, superando a expectativa dos economistas.

Variação do PIB dos EUA (em porcentagem por trimestre) Tangente Design

Atividade em grupo

% 5 4,1

4 3

3,1 2,5

2,4 2

2 1,3

1,3

1 0,4 0

2º 2011

1º 2012

1º 2013

Fonte: Departamento do Comércio dos Estados Unidos. PIB dos EUA cresce 2,4% no 1o. trimestre de 2013, indica 2ª prévia. Do G1, em São Paulo, 30 maio 2013. Economia. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/05/pibdos-eua-cresce-24-no-1-trimestre-de-2013-indica-2-previa.html>. Acesso em: 22 dez. 2015.

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CAPÍTULO 4

A globalização

1

A compra de uma camiseta em uma loja no Brasil pode estar inserida no grande fluxo do processo produtivo global.

2 O gerente da rede de lojas entra em contato com seu fornecedor para repor o estoque de camisetas.

A GLOBALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

O desenvolvimento tecnológico criou sistemas de comunicação e de transporte eficientes em todo mundo que permitiram a globalização do processo produtivo e do consumo. A produção de mercadorias, que antes abrangia um país, atualmente pode envolver diversas partes do mundo, em busca de vantagens para o barateamento dos produtos e maior lucro. Veja no infográfico como o processo produtivo global pode abranger o setor têxtil e sua ramificação no Brasil.

8 Em diversos países, especialistas acompanham todo o fluxo de importações e exportações do processo produtivo globalizado e atribuem valores às empresas envolvidas. Estes analistas orientam os investidores em transações no mercado financeiro, considerando o maior retorno dos investimentos.

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Tópicos do capítulo Globalização Comércio mundial contemporâneo O Brasil na globalização

7

O fornecedor pode estar do outro lado do mundo, por exemplo, na China, e encomenda o tecido...

4

No mercado aberto às importações, as indústrias têxteis brasileiras nem sempre têm condições de concorrer com o baixo preço dos produtos importados.

Ponto de partida

... em uma indústria têxtil, em um país que apresenta menor custo de produção devido aos baixos impostos, aos incentivos à produção e à grande exploração do meio ambiente.

6

5

O tecido é enviado para um país...

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

3

... em que as confecções, contratadas pelo fornecedor, produzem camisetas com baixos custos, utilizando mão de obra barata.

ESCREVA NO CADERNO

1. Com base no infográfico e em seus conhecimentos prévios, exponha argumentos indicando por que a produção globalizada apresenta custos menores do que a produção em escala nacional. 2. De que maneira as inovações tecnológicas intensificaram o processo de globalização da produção ao longo do século XX e início do XXI?

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1. Quando começou a globalização? Navegar

Binsar Bakkara/AP/Glow Images

Núcleo de Estudos da Globalização <http://tub.im/5pfjxc> O portal do Núcleo de Estudos da Globalização, ligado à Unesp e ao CNPq, disponibiliza uma infinidade de textos sobre a globalização.

A globalização é um processo múltiplo em que se verificam forte integração e progressiva interdependência entre as economias nacionais. Mas, além dessas características, outras mais podem ser destacadas: a rapidez e a intensidade do fluxo de pessoas, de informações, de produtos, de capital e de transações no mercado financeiro; a sensação de simultaneidade, como ocorre quando eventos internacionais são transmitidos mundialmente; ou outras formas de compartilhar informações com bilhões de pessoas ao mesmo tempo em todo o globo em poucos minutos. Tudo isso viabilizado pelo avançado estágio tecnológico em que vivemos nestes tempos de globalização.

Indonésios assistem a uma partida de futebol da Copa do Mundo, em North Sumatra, na Indonésia, em 2014. O desenvolvimento tecnológico viabilizou a transmissão simultânea, para mais de um bilhão de pessoas, de um dos maiores eventos mundiais da atualidade.

Para alguns autores, a globalização não é nova. Nem novidade. Ela é apenas mais um estágio do capitalismo, dando continuidade a um processo iniciado no século XV. Ali, sim, teria começado a globalização, com a expansão ultramarina e o mercantilismo, que ampliavam em muito o horizonte geográfico do mundo. A Revolução Industrial e a respectiva inovação tecnológica teriam trazido mais dinamismo e velocidade a esse processo nos séculos XVIII e XIX. O desenvolvimento do capitalismo e a constante renovação tecnológica teriam feito a globalização dar largos passos até os dias de hoje. Ao longo desse percurso histórico, aspectos internacionais e mundiais foram se realçando no cotidiano de muitas pessoas em diversos países, mesmo que de forma desigual. Mas tornou-se muito mais nítido nas duas últimas décadas do século XX, quando as relações de interdependência econômica entre diferentes lugares do planeta começaram a ter forte destaque. Pode-se dizer, então, que atualmente esses processos de internacionalização e de mundialização continuam ocorrendo e que são facetas da globalização, pois esta engloba acontecimentos que se mundializam e que se internacionalizam, envolvendo relações entre Estados nacionais. A maneira como ocorrem, atualmente, com intensidade global, é que é nova. A expressão globalização foi utilizada pela primeira vez com esse sentido em 1985, quando o economista britânico Theodore Levitz lançou o livro The globalization of markets (A globalização dos mercados). Naquele momento, o conceito de globalização era impregnado de uma conotação essencialmente econômica, apresentando a ideia de integração dos mercados mundiais e de abertura econômica. É interessante notar que a intensa divulgação do termo globalização ocorreu simultaneamente ao colapso das economias planificadas no mundo socialista, coincidindo com a expansão mundial do capitalismo e a consequente hegemonia de seu modelo no mundo do pós-Guerra Fria.

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2. Globalização: um processo múltiplo No final do século XX, surgiram muitos estudos e obras sobre o fenômeno global. A discussão sobre seu processo e efeitos gerou inúmeros trabalhos e, consequentemente, muitas definições. Não existe uma explicação única e consensual para o conceito. Mas o traço comum às diversas definições é o domínio do caráter descentralizador e de amplitude do processo globalizante.

Enfoque Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

Globalização e Governança Global [...] Em The World is flat [O mundo é plano], Thomas Friedman (2005) descreve um processo de globalização que transformou o mundo numa pista plana. Ele mencionava que houve, na verdade, três processos de globalização no mundo. A Globalização de 1492 a 1800 (chamada por ele de Globalização 1.0), que fez com que o mundo passasse de um tamanho G para um tamanho M, quando os Estados estavam competindo pela conquista imperialista e por recursos naturais. A Globalização do ano 1800 ao ano 2000 (chamada por ele de Globalização 2.0) transformou o mundo de tamanho M para tamanho P, quando empresas saíram numa corrida desenfreada pela conquista de mercados e competição de suas mercadorias, sendo ajustadas por teorias de livre comércio. Entramos numa era da Globalização 3.0, segundo Friedman, que começou por volta do ano 2000 e que tem transformado o mundo de tamanho P em tamanho PP e tem transformado sua geometria, antes arredondada, num campo plano de fácil acesso. Esse estágio de Globalização 3.0 tem tido como marcos a queda do muro de Berlim, a publicização da Netscape (com o oferecimento da internet) e, posteriormente, a interconectividade entre aplicativos e programas de computador (a revolução da indústria da informação). Em Globalização 1.0, eram os Estados que “globalizavam”. Em Globalização 2.0, eram as empresas que “globalizavam”. Em Globalização 3.0, são os indivíduos e pequenos grupos que “globalizam”. [...] Globalização não deixa de ser a transformação do mundo numa visão cosmopolita, que cria uma enorme interdependência entre os Estados, organizações internacionais, empresas e indivíduos. [...] Na ausência de um poder mundial [na globalização], as relações internacionais e o direito internacional têm sido moldados por um novo fenômeno: o da governança global, que muitos têm definido como uma “nova forma de governo”. Governança global é uma expressão em construção desde os anos 1990. Diferencia-se, contudo, da expressão “governo”. [...] [...] Governo identifica-se com a existência de Estados soberanos, refere-se, de forma específica, à legitimidade de governar, às instituições e representantes estatais e interestatais. [...] a expressão “governo” compreende atividades sustentadas por uma autoridade formal, por poderes políticos que assegurem a implementação de políticas devidamente constituídas. Por outro lado, “governança” não compreende uma “instituição”, mas refere-se a atividades sustentadas por objetivos comuns [...] e não necessariamente sustentam-se em poderes políticos para superar seus desafios e alcançar o cumprimento de suas metas. [...] Assim, sob a expressão “governança”, conjugam-se tanto organismos estatais ou interestatais, como instituições privadas, formalizadas ou não, como também organismos não governamentais e conjuntos de regras/normas que identificam alguma área específica. A governança pressupõe, pois, pluralidade de atores, pluralidades de normas, pluralidade de instituições, pluralidade de intenções, pluralidade de ações. Não há poder concentrado, como no caso do Estado. Pelo contrário, o poder é descentralizado e difuso. [...] VIEIRA, Andréia Costa. O diálogo sustentável entre o direito do comércio internacional e o direito à água. 2013. 308 f. Tese (Doutorado em Direito). Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. p. 68-70. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2135/tde-27012015-152818/pt-br.php>. Acesso em: 18 jan. 2016.

1. Por que Thomas Friedman afirma que a globalização transformou o mundo numa pista plana? 2. A governança global aplica-se a qual processo de globalização proposto por Thomas Friedman? Converse com colegas e reúnam argumentos para mostrar se seria possível a governança global nos outros estágios da globalização.

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Atualmente, a globalização deve ser entendida como um processo multifacetado, com forte viés econômico, mas que transcende o âmbito da economia, manifestando-se também em outras dimensões, como a cultura, a informação, a política, o esporte e a geografia. A mundialização dos Jogos Olímpicos é um bom exemplo de como esse processo contempla, mas extrapola, os aspectos econômicos. Nos mapas a seguir, observe que, no início do século XX, os Jogos contavam com a participação de poucos países, quase todos do hemisfério norte. Atualmente, quase todos os países do globo participam daquele que é considerado o maior evento esportivo do planeta.

Allmaps

Processo de mundialização dos Jogos Olímpicos

1912

1936 0°

Círculo Polar Ártico

Círculo Polar Ártico

Estocolmo ESPANHA OCEANO ATLÂNTICO

Trópico de Câncer

OCEANO

OCEANO PACÍFICO Meridiano de Greenwich

Trópico de Capricórnio

Círculo Polar Antártico

OCEANO ÍNDICO

OCEANO 0°

Trópico de Capricórnio

Círculo Polar Antártico

1972

OCEANO ÍNDICO

2008 0°

Círculo Polar Ártico

OCEANO PACÍFICO

Equador PACÍFICO Meridiano de Greenwich

Trópico de Câncer Equador PACÍFICO

Berlim

OCEANO ATLÂNTICO

Círculo Polar Ártico

Munique Trópico de Câncer

OCEANO

OCEANO PACÍFICO

Trópico de Capricórnio

Círculo Polar Antártico

Meridiano de Greenwich

Equador PACÍFICO

OCEANO

OCEANO PACÍFICO

Equador PACÍFICO

OCEANO ÍNDICO

Beijing (Pequim)

OCEANO ATLÂNTICO

Meridiano de Greenwich

Trópico de Câncer

OCEANO ATLÂNTICO

Trópico de Capricórnio

Círculo Polar Antártico

OCEANO ÍNDICO

2016 0°

Círculo Polar Ártico

OCEANO ATLÂNTICO

Trópico de Câncer

OCEANO

OCEANO PACÍFICO

Trópico de Capricórnio

Rio de Janeiro

Círculo Polar Antártico

Participantes dos Jogos Olímpicos

Cidade olímpica

Meridiano de Greenwich

Equador PACÍFICO

Boicote

OCEANO ÍNDICO

Divisão política atual

0

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Fonte: GILLON, P.; GROSJEAN, F.; RAVENEL, L. Atlas do esporte mundial. Negócios e espetáculo: o ideal esportivo em jogo. Paris: Éditions Autrement, 2010. p. 10-11. Com atualizações.

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2.1 A globalização informacional Pauta musical

LP Quanta. Gilberto Gil. Brasil, 1997

Pela internet, Gilberto Gil. Álbum: Quanta. Warner Music, 1997. Pauta: Rede/Globalização.

Raphael Salimena/Folhapress

A dinamização e a sofisticação dos meios de comunicação são marcas da globalização. A internet, o telefone celular, as transmissões por satélite, o cabo e a fibra óptica tornaram a difusão da informação muito rápida e eficaz. A instantaneidade do fato é uma realidade da globalização. Isso tudo fez o ritmo das coisas se alterar enormemente, transformando o mundo e o cotidiano das pessoas; a maioria agora parece correr. O tablet, a internet, o smartphone e as redes sociais são exemplos de mecanismos que tornaram possível a comunicação a qualquer hora entre diferentes lugares, próximos ou distantes. Temos, então, o redimensionamento do tempo e do espaço. Os homens e mulheres de negócios podem agora andar e negociar ao mesmo tempo, pois a informação os acompanha. O capital tem pressa e a globalização informacional responde à altura. O contato entre pessoas de várias partes do mundo pela internet faz a distância e o tempo parecerem mais curtos. Veja, na charge abaixo, uma crítica bem-humorada sobre a onipresença da tecnologia na vida da maioria das pessoas.

A tecnologia está intensamente presente em nossas vidas nos dias de hoje.

Além de utilizar os satélites, a comunicação via internet também ocorre por meio de cabos submarinos de fibra óptica, que interligam os continentes. Observe, no mapa a seguir, que em 2015 a maior densidade de cabos nos países do hemisfério norte do que nos do sul propiciava àqueles países uma maior intensidade de fluxos de informação por meio da internet via cabos submarinos.

Allmaps

O mundo submarino da internet (2015) OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Círculo Polar Ártico

OCEANO ATLÂNTICO

Trópico de Câncer

Equador

OCEANO 0° PACÍFICO

OCEANO PACÍFICO

0 Círculo Polar Antártico

3 720 km

Meridiano de Greenwich

Trópico de Capricórnio

OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO

OCEANO ÍNDICO

Sistema de cabeamento de fibra óptica submarina em serviço em planejamento

Fonte: TELEGEOGRAPHY. Submarine cable mapa 2016. Disponível em: <http://submarine-cable-map-2016. telegeography.com/>. Acesso em: 19 mar. 2016.

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ESCREVA NO CADERNO

Conversando com a... Sociologia!

No final da década de 1960, o professor e filósofo canadense Marshall McLuhan difundiu o termo "aldeia global" para expressar metaforicamente as transformações sociais ocasionadas pelo desenvolvimento dos meios de comunicação no século XX e seus impactos no cotidiano das pessoas. Na década de 1990, o professor e sociólogo brasileiro Octavio Ianni também escreveu sobre esse assunto. Leia o texto a seguir: Quando o sistema social mundial se põe em movimento e se moderniza, então o mundo começa a parecer uma espécie de aldeia global. Aos poucos, ou de repente, conforme o caso, tudo se articula em um vasto e complexo todo moderno, modernizante, modernizado. E o signo por excelência da modernização parece ser a comunicação, a proliferação e generalização dos meios impressos e eletrônicos de comunicação, articulados em teias multimídias alcançando todo o mundo. A noção de aldeia global é bem uma expressão da globalidade das ideias, padrões e valores socioculturais, imaginários. [...] Em decorrência das tecnologias oriundas da eletrônica e da informática, os meios de comunicação adquirem maiores recursos, mais dinamismos, alcances muito mais distantes. Os meios de comunicação de massa, potenciados por essas tecnologias, rompem ou ultrapassam fronteiras, culturas, idiomas, religiões, regimes políticos, diversidades e desigualdades socioeconômicas e hierarquias raciais, de sexo e idade. Em poucos anos, na segunda metade do século XX, a indústria cultural revoluciona o mundo da cultura, transforma radicalmente o imaginário de todo o mundo. Forma-se uma cultura de massa mundial, tanto pelas produções locais e nacionais como pela criação diretamente em escala mundial. São produções musicais, cinematográficas, teatrais, literárias e muitas outras, lançadas diretamente no mundo como signos mundiais ou da mundialização. [...] No âmbito da aldeia global, prevalece a mídia eletrônica como um poderoso instrumento de comunicação, informação, compreensão, explicação e imaginação do que vai pelo mundo. [...] A aldeia global pode ser uma metáfora e uma realidade, uma configuração histórica e uma utopia. [...] IANNI, Octavio. Teorias da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 93-98.

• Você concorda com o autor quando ele diz que o mundo está se transformando numa aldeia global? Por que ele indica que a aldeia global pode ser, simultaneamente, uma metáfora e uma realidade? Como seriam as fronteiras num mundo constituído como uma aldeia global? Você considera que existe uma sociedade global? Numa aldeia global as classes sociais desapareceriam? Converse com seus colegas sobre o texto e essas questões. A seguir, registre suas reflexões sobre o assunto no caderno.

A noção de globalização remonta à ideia de difusão internacional da informação. Por esse motivo, muitos associam essa ideia a um mundo único, o mundo das empresas multinacionais de comunicação, da internet, uma marca da globalização. Ela revolucionou a comunicação mundial e possibilitou que pessoas dos lugares mais distantes se comunicassem. Essa sociedade virtual contava em 2003 com aproximadamente 600 milhões de usuários em todo o planeta. Note que se tratava apenas de 10% da população mundial naquele momento. Em novembro de 2015 esse número já era bem maior: 3,36 bilhões de pessoas, cerca de 46% da população mundial. Essa pesquisa também demonstra que o acesso é extremamente desigual. Desse montante, a maioria dos internautas está na Ásia, até por causa de sua elevada população e também da expansão da rede de infraestruturas pelos territórios.

Tangente Design

Usuários de internet por região (novembro de 2015)

3,7%

0,8%

9,3% 9,8% 48,2% 10,2%

 Ásia  Europa   América Latina / Caribe

18%

 África   América do Norte   Oriente Médio   Oceania / Austrália

Fonte: INTERNET WORLD STATS. Disponível em: <http://www.internetworldstats.com/stats.htm>. Acesso em: 18 jan. 2016.

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Enquanto, em média, nos países considerados desenvolvidos 71% da população tem acesso à internet, nos países em desenvolvimento essa média é de 21%. Essa desigualdade pode ser percebida, pelo menos sob três aspectos: • alta concentração de conexões no hemisfério norte, em detrimento de poucas no hemisfério sul; • nos Estados Unidos, na Europa e no Japão as conexões são bem distribuídas pelos territórios, o que mostra um bom atendimento de infraestrutura por diversos pontos de seus territórios; • no caso brasileiro e de outros países do Sul, pobres ou em desenvolvimento, as conexões se concentram em poucos pontos, onde há mais densidades técnica e populacional, o que indica desigualdade de atendimento dessa infraestrutura informacional e condições de acessibilidade para os habitantes em todas as regiões de seus territórios. Os números da internet são impressionantes e aumentam a cada dia em grande velocidade. Na tabela ao lado, observe alguns deles relativos ao ano de 2014 e imagine a intensidade de fluxo de informações que navegam pela rede mundial de computadores. Em 2014, o e-mail era uma ferramenta de comunicação via internet utilizada, principalmente, no meio corporativo. Tudo isso dinamiza o processo de comunicação como nunca se viu na história e, inevitavelmente, torna a vida "mais rápida".

Interagindo

Navegar Internet World Stats <http://tub.im/ohbapv> No site da Internet World Stats, é possível acessar dados quantitativos sobre a internet. Os números da rede mundial de computadores são impressionantes.

Dados da internet (2014) E-mails enviados e recebidos por dia (média)

196,3 bilhões

Contas de e-mail no mundo

4,1 bilhões

Fonte: THE RADICAL GROUP. Statistics Report, 2014-2018. Disponível em: <http://www.radicati.com/wp/wp-content/ uploads/2014/01/Email-Statistics-Report2014-2018-Executive-Summary.pdf>. Acesso em: 18 jan. 2016.

ESCREVA NO CADERNO

• Os números de usuários da internet aumentam a cada ano. Mas até que ponto esses números representam a democratização da informação? Quais seriam as contribuições da comunicação instantânea – e-mails e redes sociais – para a sociedade? Você já pensou nisso? Converse com seus colegas e escreva um texto em seu caderno com as suas reflexões sobre o assunto.

2.2 A globalização cultural

Tovovan/Shutterstock/Glow Images

Muitos termos da internet são difundidos em inglês. Inclusive, o próprio nome internet, que significa rede internacional. Alguns exemplos: endereços que começam com www (world wide web), que significa rede de alcance mundial, e-mail (correio eletrônico), download (baixar), site (sítio), entre muitos outros. Esse é um ponto de partida para verificarmos se há, realmente, uma interação entre as várias partes do globo ou se a globalização confirma um processo anterior de hegemonia, de imposição cultural. Os críticos da globalização reputam-na uma continuação do imperialismo e da colonização cultural que o Norte impôs ao Sul. De certa forma, é inegável que as principais matrizes da globalização assim se manifestem: tanto a internet como os mercados, os agentes financeiros e os próprios organismos supranacionais têm um diapasão setentrionalista. Há um debate entre os que veem a globalização como algo positivo – acreditam que ela representa um estreitamento das diversidades culturais – e os que a veem como um prejuízo ao humanismo – ao potencializar aquilo que se convencionou designar de crash of cultures (choque de culturas).

Com a globalização da comunicação por meio da internet, seus diversos termos em língua inglesa também se globalizam. Muitos são incorporados ao vocabulário cotidiano dos usuários.

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Pauta musical

Observe e analise criticamente esta charge sobre a globalização. dieKLEINERT.d/PictureAlliance/Otherimagespress

LP Titanomaquia. Titãs. Brasil, 1993

Disneylândia, Titãs. Álbum: Titanomaquia. WEA, 1993. Pauta: Globalização cultural.

ESCREVA NO CADERNO

A Geografia na... charge!

Africano

Asiático

Europeu

Australiano Americano

Globalização

• Que mensagem a charge transmite? Você concorda com essa visão? Apresente argumentos que justifiquem e outros que desabonem a mensagem transmitida pelo autor sobre o conceito de globalização.

2.3 A globalização geográfica

Ver

Filme de Silvio Tendler. Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá. Brasil, 2006

Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá. Direção: Silvio Tendler. Brasil, 2006. Documentário conduzido por uma entrevista com Milton Santos sobre a “globalização desigual”. O professor apontava a possibilidade de uma “outra globalização”, em que países pobres também pudessem ser incorporados pelo processo que até então beneficiava apenas os países ricos.

Não nos esqueçamos do aspecto concreto da globalização, isto é, o planeta em si. O espaço geográfico é agora mais global do que nunca. A ideia de globalização geográfica leva muitos autores a discutir a internacionalização dos lugares. As relações entre local e global em tempos de globalização são bastante complexas. Discute-se hoje o conceito de glocalização: processo em que um local se torna global, seja por sua localização ser instantaneamente mapeada, por satélites, por exemplo, seja pelo grau de suas conexões, como a presença de empresas internacionais ou mesmo de exportação de seus produtos, marcas ou de expansão do conhecimento de sua cultura pelo mundo. Por outro lado, nesse processo, podem-se gerar perdas de tradicionais identidades locais. O indivíduo tem um laço territorial com seu espaço local, ou seja, uma identidade cultural com determinado lugar, que vem perdendo espaço com o processo de globalização. Espaços locais convivem ou cedem lugar para espaços globais. Contudo, em muitos lugares, a força da cultura, dos costumes e das formas de organização social prevalece, resiste e não se perde. Ao contrário, se beneficia das conquistas sociais e tecnológicas da globalização para se fortalecer. É o que o geógrafo Milton Santos chamou de “a força do lugar”. Em sua leitura, Milton Santos trabalha com dois conceitos geográficos aplicados à globalização: horizontalidade e verticalidade. A ideia de horizontalidade está associada à noção de lugar, ou seja, o espaço geográfico apresenta-se envolto em uma relação de solidariedade entre aqueles que coabitam determinado fragmento espacial tomado por uma contiguidade territorial, uma contiguidade física. Já a ideia de verticalidade está associada a uma relação de distância, ou seja, são pontos descontínuos e de comando de ações globais que formam um todo gerido pelos agentes centrais da globalização. A ligação dos pontos se dá por uma intera-

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Ler

Editora Record

Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência univesal, de Milton Santos. Rio de Janeiro: Record, 2000. A visão do geógrafo sobre a globalização, que inspirou o documentário Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá.

Alberto Buzzola/LightRocket/Getty Images

ção virtual dos agentes sociais e econômicos e não necessariamente é iniciada nos territórios onde as ações vão se dar. Como exemplo, podemos citar uma decisão de investidores estrangeiros de retirar seus investimentos de um país e investi-los em outro. Isso pode gerar uma crise econômica no país que perdeu as aplicações. São decisões tomadas em lugares distantes que interferem no funcionamento de um país. Esta é a marca maior da globalização: uma nítida padronização pautada pelo viés econômico e até cultural em espaços heterogêneos de várias partes do globo. Os pontos e as conexões de horizontalidade e verticalidade constituem verdadeiras redes de relações políticas e econômicas que abrangem as escalas local e global. Paradoxalmente, o mundo está muito longe de apresentar uma solidária padronização social, de igualdade e boas condições de vida. Ao contrário, a globalização é espacialmente seletiva, não ocorre da mesma forma em todos os lugares e, portanto, não inclui toda a população do planeta no acesso e usufruto das conquistas e dos avanços tecnológicos, sociais e econômicos.

Interação entre horizontalidade e verticalidade: jovens aborígines da tribo Taroqo utilizam telefone celular e tablet antes de começar uma dança tradicional em Hualien County, Taiwan, 2015. ESCREVA NO CADERNO

Enfoque A grande mutação contemporânea

Diante do que é o mundo atual, como disponibilidade e como possibilidade, acreditamos que as condições materiais já estão dadas para que se imponha a tão desejada mutação, mas seu destino vai depender de como as disponibilidades e possibilidades forem aproveitadas pela política. Na sua forma material, unicamente corpórea, as técnicas talvez sejam irreversíveis, porque aderem ao território e ao cotidiano. De um ponto de vista existencial, elas podem obter um outro uso e uma outra significação. A globalização atual não é irreversível. Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode­-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana está, finalmente, começando. A mesma materialidade, atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana. A grande mutação tecnológica é dada com a emergência das técnicas da informação, as quais – ao contrário das técnicas das máquinas – são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que seu uso perverso atual seja subordinado aos interesses dos grandes capitais. Mas, quando sua utilização for democratizada, essas técnicas doces estarão ao serviço do homem. Muito falamos hoje nos progressos e nas promessas da engenharia genética, que conduziriam a uma mutação do homem biológico, algo que ainda é do domínio da história da ciência e da técnica. Pouco, no entanto, se fala das condições, também hoje presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do homem, capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa, e, também, do planeta. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 10. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2003. p. 173-174.

• O texto defende "outra globalização". Quais as críticas à globalização e as propostas defendidas pelo autor?

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2.4 A globalização política

Nesse momento considera-se importante apresentar e discutir com os alunos os termos multinacional e transnacional. A bibliografia especializada trata transnacional e multinacional como sinônimos. De fato, o que parece mudar é apenas o período: a expressão multinacional ganhou força, especialmente, nas décadas que sucederam a Segunda Guerra Mundial; já transnacional é mais recente e está intimamente vinculado à globalização. Esses termos são utilizados para caracterizar empresas que apresentam forte atuação em escala internacional a partir de uma base nacional, controlando meios de produção e/ou serviços fora do país onde suas sedes estão estabelecidas. No entanto, alguns autores afirmam que o prefixo “multi” pode sugerir que a empresa que atua em vários países não tem uma sede onde são tomadas as principais decisões. Dessa forma, transnacional seria um termo mais apropriado, pois sugere que mesmo atuando em vários países seus interesses estão além das questões nacionais onde possuem filiais. Seriam empresas globais, mas com sede e identidade ligada a um país, geralmente onde ela se originou. É a sede que coordena a acumulação do capital em escala mundial. Tecnicamente, considera-se transnacional uma empresa que controla, no mínimo, uma subsidiária no exterior que detém, ao menos, 10% do montante do capital da empresa.

A dimensão política da globalização revela-se, especialmente, na discussão sobre o Estado: qual é seu papel nos dias de hoje e qual sua função nos ditames da globalização? Podemos partir do princípio de que a globalização é conduzida por um agente híbrido que resulta da relação entre os Estados e as empresas transnacionais, os quais ora se complementam, ora se chocam. Contudo, verifica-se que, comparando o período da Guerra Fria à ascensão da globalização, o Estado perdeu força no cenário das relações internacionais. Grande parte daquilo que antes era regido pelo Estado hoje é conduzido por megaempresas transnacionais, por instituições internacionais (como o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, o FMI, o G8 etc.) e mesmo pelas Organizações Não Governamentais (ONGs), que, muitas vezes, ocupam o lugar do Estado. Na dimensão política da globalização, o Estado perdeu o monopólio sobre as diretrizes nacionais e internacionais e agora as reparte com outros agentes. Contudo, o Estado ainda é a categoria central nas relações internacionais.

2.5 A globalização econômica

Xu Xiaolin/Corbis/Latinstock

A globalização econômica é o viés mais difundido da globalização. Refere-se à abertura global das economias nacionais, caracterizando-se pelo intenso processo de internacionalização da economia com a respectiva descentralização do processo produtivo e o incremento maciço do consumo globalizado. A presença de gêneros importados torna-se cada vez mais frequente no cotidiano das pessoas de várias partes do globo. A descentralização do processo produtivo e a mundialização do consumo são traços marcantes da globalização. Frequentemente, a produção de um gênero industrial envolve diversos países. Tome-se como exemplo uma placa de rede de computador: ela reúne inúmeros componentes produzidos em Taiwan, México, Cingapura, Canadá etc.; será montada na China e estará dentro de um notebook ou tablet, cuja marca pode ser japonesa, e esses, por sua vez, estarão repletos de outras peças produzidas em várias partes do globo. Sua comercialização, igualmente, será feita em lugares diversos do mundo.

Linha de montagem de placas de computador em Hefei, China, 2014.

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Assim, sob esse viés, pode-se definir globalização como um processo multidimensional que ganhou força nas últimas décadas do século XX e que se caracteriza pela internacionalização da economia na produção e no consumo. Consiste numa intensa integração dos mercados e também da informação, da cultura e dos meios de transporte. Tem um caráter fortemente expansionista. A globalização também é empregada como sinônimo de expansão do capital e da liberalização, ou seja, eliminação de taxas restritivas ao comércio global, uma forte marca do atual estágio do capitalismo, o neoliberalismo. Defende, portanto, a privatização, a desregulamentação da economia e a fluidez livre e sem barreiras do capital, realizando a apologia máxima do mercado, o fio condutor da sociedade. Esse é o discurso central das grandes corporações transnacionais e também de alguns organismos internacionais. Os países em desenvolvimento estão apresentando uma crescente importância na economia global. Além de serem os destinos majoritários dos investimentos produtivos das empresas transnacionais, eles também aumentam gradativamente seus investimentos no exterior, sobretudo entre os países do Sul. Suas empresas transnacionais já despontam como algumas das mais importantes do mundo. Considerando as 200 maiores empresas do globo, incluindo as dos ramos produtivo e financeiro, no ano 2000 houve uma forte centralização de seus comandos – 191 delas possuíam sede em apenas nove países, conforme apresentado no primeiro quadro ao lado. Doze anos depois, em 2012, o panorama mudou razoavelmente, como pode ser visto no segundo quadro ao lado. Das 200 maiores empresas do mundo, 191 possuíam sede em 17 países (além de Hong Kong), incluindo alguns em desenvolvimento, como Brasil, China, Rússia, Coreia do Sul e Índia. Os governos cada vez mais cortejam as transnacionais para se instalarem em seus territórios, oferecendo isenções fiscais e outros atrativos para viabilizar a instalação. Há controvérsias sobre os benefícios das transnacionais aos países em que se instalam. Os que as defendem consideram a transferência de tecnologia como o maior benefício que elas podem trazer a uma nação. Já os seus críticos questionam os elevados lucros que elas obtêm em solo estrangeiro, quase nunca pagando salários similares aos do país de origem. Criticam também a forte concentração de poder das corporações que, em sua visão, contribui para o acirramento das desigualdades produzidas pelo capitalismo.

Sedes das maiores transnacionais (2000) Localização

Quantidade de empresas

Japão

62

Estados Unidos

53

Alemanha

23

França

19

Reino Unido

11

Suíça

8

Coreia do Sul

6

Itália

5

Holanda

4

Fonte: ENCICLOPÉDIA do mundo contemporâneo. São Paulo: Publifolha 2000.

Luciana Whitaker/Pulsar

Sedes das maiores transnacionais (2012) Localização

Quantidade de empresas

Estados Unidos

61

Japão

15

Reino Unido

14

França

14

China

13

Alemanha

11

Suíça

10

Austrália

7

Canadá

6

Itália

6

Brasil

6

Rússia

6

Holanda

5

Espanha

5

Hong Kong

4

Coreia do Sul

3

Índia

3

Suécia

2

Fonte: FORBES. The world’s biggest public companies. Disponível em: <http://www. forbes.com/global2000/list>. Acesso em: 19 fev. 2013.

Montadora de veículos em Juiz de Fora (MG), 2014. Esse município oferece incentivos fiscais para atrair empresas.

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BRENDAN MCDERMID/REUTERS/Latinstock

Bolsa de valores de Nova York, Estados Unidos, 2016.

Em tempos de globalização, as grandes corporações internacionais se consolidam como hegemônicas e aceleram cada vez mais sua expansão. Estudos indicam que, em 2015, as dez maiores empresas do mundo apresentaram, juntas, o valor de mercado de 2,68 trilhões de dólares. Para se ter certo parâmetro do significado desse volume, o PIB brasileiro, sétimo do mundo em 2013 e 2014, fechou em cada um desses anos com um montante na casa dos 2,2 trilhões de dólares. Na rota da globalização, os mercados financeiros internacionais ampliam o fluxo dos investimentos, tornando-se cada vez mais sofisticados e complexos. Aproveitam-se da aprimorada rede cibernética, que permite transferir dinheiro de um lugar para outro com um simples clique. Essa facilidade de transferência instantânea de capital é conhecida como volatilização (ou capital volátil): ao menor risco de crise em um país, o dinheiro é imediatamente transportado para um lugar mais seguro. Muitas dessas transações financeiras são feitas por meio das bolsas de valores, onde a internacionalização do capital em tempos de globalização se torna mais evidente.

3. O comércio mundial contemporâneo Navegar Revista Forbes <http://tub.im/iqwwwv> O site da revista estadunidense Forbes disponibiliza inúmeros dados sobre as maiores transnacionais e a globalização.

O comércio mundial contemporâneo é marcado por um ritmo crescente de importações e de exportações em todas as regiões do globo. Muitas delas feitas por empresas nacionais, que difundem seus produtos pelo mundo, no caso das exportações, ou que possibilitam a entrada de produtos estrangeiros em seus territórios de origem. Mas uma marca fundamental do comércio mundial contemporâneo é o papel desempenhado pelas empresas transnacionais. Sobretudo por sua presença espalhada por todo o globo, elas viabilizam fluxos globais de produtos e de produção descentralizada que ocorrem em diversos países. Hoje, a principal forma de atuação dessas empresas se dá por um procedimento conhecido como global sourcing, ou seja, a busca de abastecimento de uma empresa por meio de fornecedores espalhados por várias partes do globo, cada um produzindo e oferecendo as melhores condições possíveis de preço e qualidade naqueles produtos que têm maiores vantagens comparativas.

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REBECCA COOK/Reuters/Latinstock

No início dos anos 1990, a ONU estimou existirem mais de 30 mil empresas classificadas como transnacionais, as quais possuíam mais de 150 mil filiais dispersas pelo mundo. Dessas transnacionais, 35% eram estadunidenses. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), no início dos anos 2000 um terço da capacidade produtiva mundial no setor privado estava sob o controle direto ou indireto das empresas transnacionais (TNCs), por meio de subsidiárias ou filiais locais. As 100 maiores entre essas corporações tinham sede em nações desenvolvidas, mas 50% de suas subsidiárias se localizavam em países em desenvolvimento. Entre elas, 53 localizadas na Europa, 23 nos Estados Unidos e o restante no continente asiático. Quatorze anos depois, em 2014, apesar de o quadro geral se manter, surgiram algumas novas tendências. Em termos quantitativos, as transnacionais ainda se mantiveram majoritariamente em países desenvolvidos; dados da Unctad revelam que, pela primeira vez na história, a China, um país em desenvolvimento, assumiu a liderança em investimentos estrangeiros, seguida por Hong Kong, Estados Unidos, Cingapura e Brasil. Em 2015, no Brasil, os investimentos de empresas estrangeiras superaram as nacionais, devido à desvalorização do real em relação ao dólar, às dificuldades de empresas brasileiras em obter financiamentos, entre outros motivos.

Favorecidas pelo atual estágio das comunicações e dos transportes, as transnacionais instalam suas fábricas em diversas partes do globo, buscando sempre maior dinamismo, produtividade, menor custo e, claro, maior lucro. Na fotografia, painel com propaganda de multinacional alemã em Detroit, Estados Unidos, 2011.

A pesquisa da Unctad indicava que a prioridade de investimentos estrangeiros diretos na produção das transnacionais para os primeiros anos da década de 2010 era a China, e também em países como Índia, Brasil, Estados Unidos, Rússia, México, Reino Unido, Vietnã e Indonésia. Em linhas gerais, os locais destinados a esses novos investimentos são escolhidos em função de: • acesso aos recursos naturais (para indústrias do setor primário); • tamanho do mercado local; • ambiente político estável e favorável aos negócios; • mercado interno em crescimento; • presença de fornecedores e empresas parceiras nos processos produtivo e comercial; • condições de acesso aos mercados regional e global. Além desses itens, essas mudanças se devem, em grande parte, à procura por novas áreas de investimento e produção no mercado globalizado.

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4. O Brasil na globalização Em tempos de globalização, intensifica-se o polêmico debate entre liberalização – permitir deliberadamente a entrada de produtos estrangeiros no país – e protecionismo – limitar ao máximo a entrada desses produtos para fortalecer os nacionais. Muitas empresas nacionais e pesquisadores do tema são contrários ao favorecimento político e econômico que visa à entrada de transnacionais no país, pois alegam que isso prejudicaria a produção nacional. Além disso, alegam que, historicamente, as transnacionais preocupam-se apenas com a alta lucratividade e todo o ganho é remetido ao país sede, pouco se comprometendo com o crescimento econômico e social dos países em que se instalam. Isso acontece em muitos países, em vários setores. Em contrapartida, as empresas transnacionais, ao se instalarem nos mais diversos lugares do planeta, organizam-se em redes e viabilizam os fluxos mundiais de produtos, de informação e de capital. Concentram atividades em alguns locais que se tornam, rapidamente, também mundiais ou globais. A posição do Brasil na divisão internacional do trabalho está se redefinindo dentro desse jogo liberalização versus protecionismo. O país vem atraindo cada vez mais investimentos internacionais em vários setores produtivos. A presença crescente de empresas transnacionais (no campo e na cidade), de grandes bancos internacionais e a política de abertura de mercado ao capital internacional têm sido possíveis graças às linhas gerais da política econômica e às formas de distribuição e uso das infraestruturas territoriais. Mas, por outro lado, muitas empresas brasileiras também se instalam em outros países e se tornam transnacionais, atuando de modo crescente no mercado global. Assim, a economia do Brasil torna-se cada vez mais entremeada à economia internacional. Em 2012, pela primeira vez, entre as 200 maiores empresas do mundo em termos de faturamento anual, seis eram brasileiras e atuavam também fora do país. Em 2014, a entrada de empresas brasileiras em outros países superou bastante o número de saída. Observe o mapa abaixo e o apresentado na página ao lado.

Allmaps

Entrada de empresas no mercado internacional, por países (2014) OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Círculo Polar Ártico SUÉCIA HOLANDA BÉLGICA LUXEMBURGO PORTUGAL

ESTADOS UNIDOS Trópico de Câncer

OCEANO PACÍFICO

CHINA

REPÚBLICA DOMINICANA MÉXICO HONDURAS ILHA DE SÃO MARTINHO (FRA/PBS) MARTINICA (FRA) GUATEMALA

EMIRADOS ÁRABES UNIDOS

ÍNDIA

OCEANO PACÍFICO 0°

OCEANO ATLÂNTICO

BRASIL

TANZÂNIA ANGOLA

BOLÍVIA

Trópico de Capricórnio

COREIA DO SUL

TAIWAN Hong Kong (CHI)

PANAMÁ COLÔMBIA

PERU

Fonte: FUNDAÇÃO DOM CABRAL. Ranking FDC das Multinacionais Brasileiras 2015. p. 56. Disponível em: <https://www.fdc.org. br/blogespacodialogo/ Documents/2015/ ranking_fdc_ multinacionais_ brasileiras2015.pdf>. Acesso em: 19 jan. 2016.

ESPANHA

PARAGUAI URUGUAI

INDONÉSIA

OCEANO MOÇAMBIQUE ÍNDICO

Meridiano de Greenwich

Equador

ALEMANHA POLÔNIA ÁUSTRIA HUNGRIA

0

2 860

OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO

Círculo Polar Antártico

Número de países e outros territórios de entrada por região América América América do Norte Central do Sul 2

6

5

Europa

Ásia

Oriente Médio

África

Total

10

6

1

3

33

86

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Allmaps

Saída de empresas do mercado internacional, por países (2014) OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Círculo Polar Ártico

LUXEMBURGO PORTUGAL

FRANÇA

Trópico de Câncer

OCEANO PACÍFICO

OCEANO PACÍFICO Equador

OCEANO ATLÂNTICO

BRASIL

Número de países de saída por região Europa

África

Total

3

1

4

MOÇAMBIQUE

Meridiano de Greenwich

Trópico de Capricórnio

0

OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO

Círculo Polar Antártico

OCEANO ÍNDICO

FUNDAÇÃO DOM CABRAL. Ranking FDC das Multinacionais Brasileiras 2015. p. 57. Disponível em: <https://www.fdc. org.br/blogespacodialogo/ Documents/2015/ranking_fdc_ multinacionais_brasileiras2015. pdf>. Acesso em: 19 jan. 2016.

3 100

Se considerarmos outros índices além do faturamento, como os ativos (bens e investimentos) e o número de funcionários, pode-se chegar ao chamado índice de transnacionalidade ou de internacionalização de uma empresa. Em 2014, as empresas dos ramos alimentício (frigoríficos), siderurgia, tecnologia da informação (TI), metalurgia, adesivos, construção e de gestão possuíam os maiores índices de transnacionalidade entre as transnacionais brasileiras. Embora muitas empresas estejam se instalando ou adquirindo outras em territórios europeus, a região onde há mais empresas brasileiras é a América do Sul. Em 2013, 75,8% das transnacionais do país declararam ter instalações em países sul-americanos, além do Brasil, é claro. Observe no gráfico abaixo a distribuição das transnacionais brasileiras por diferentes regiões do planeta em 2014, quando confirmou-se a hegemonia de empresas brasileiras instaladas na América do Sul.

Índice de transnacionalidade: Compreende uma escala de zero a um. Quanto mais próximo de um, mais transnacionalizada é a empresa. É calculado com base no total de receita, nos ativos e no número de funcionários de cada empresa no exterior em relação aos totais, incluindo o país em questão. A média desses três índices resulta no índice de transnacionalidade.

% 90 80

Tangente Design

Porcentagem das empresas que possuem subsidiárias ou franquias nessa região

Presença de transnacionais brasileiras no mundo, por região (2014) 81% 70%

70 60 50

36%

40

33%

30

29%

26%

20

21%

16%

10 0

América do Sul

América do Norte

Europa

África

América Central e Caribe

Ásia

Oriente Médio

Oceania

Fonte: FUNDAÇÃO DOM CABRAL. Ranking FDC das Multinacionais Brasileiras 2015. p. 55. Disponível em:<https://www. fdc.org.br/blogespacodialogo/Documents/2015/ranking_fdc_multinacionais_brasileiras2015.pdf>. Acesso em: 19 jan. 2016.

A presença das empresas brasileiras no hemisfério sul reflete uma política de aproximação entre os países nele localizados. O fortalecimento das relações entre esses países vem ocorrendo com assinaturas de acordos e tratados de cooperação entre governos e denominados por cooperação sul-sul. Essa política se acentuou a partir dos anos 2000 como uma alternativa de mercado para os países em desenvolvimento diante das políticas protecionistas de países ricos do Norte.

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Na primeira década do século XXI, houve significativo incremento no número de empresas brasileiras na Ásia. Isso reflete maiores relações comerciais do Brasil com países dessa região e, vale destacar, entre países em desenvolvimento, como China e Índia, além de acordos com países do Oriente Médio, sobretudo no ramo da construção civil. Ao mesmo tempo, as empresas brasileiras aumentaram suas instalações na América Latina, na Oceania e na África. Veja no mapa abaixo a espacialização das transnacionais brasileiras no mundo.

DACOSTA MAPAS

Dispersão geográfica das transnacionais brasileiras (2014) Círculo Polar Polar Ártico Ártico Círculo

Trópico de de Câncer Câncer Trópico

OCEANO OCEANO PACÍFICO PACÍFICO Equador Equador

Noo de de N países países

Apenas 11 Apenas

28 28

De 22 aa 10 10 De

53 53

De 11 11 aa 20 20 De

11 11

De 21 21 aa 30 30 De

66

Mais de de 30 30 Mais

22

0° 0°

OCEANO OCEANO PACÍFICO PACÍFICO Trópico de de Capricórnio Capricórnio Trópico

Círculo Polar Polar Antártico Antártico Círculo

OCEANO OCEANO ÍNDICO ÍNDICO

OCEANO OCEANO ATLÂNTICO ATLÂNTICO

Meridiano de Greenwich

Noo de N de empresas empresas no país país no

00

33540 540

0° 0°

Joerg Boethling/Alamy/Latinstock

Fonte: FUNDAÇÃO DOM CABRAL. Ranking FDC das multinacionais brasileiras 2015. p. 50. Disponível em:<https://www.fdc.org.br/blogespacodialogo/Documents/2015/ranking_fdc_multinacionais_brasileiras2015.pdf>. Acesso em: 19 jan. 2016.

Indústria que produz açúcar, etanol e energia elétrica a partir de biomassa, em Malanje, Angola, 2012. Esta empresa é composta de acionistas brasileiros e angolanos.

As empresas brasileiras do ramo da construção civil têm ampliado consideravelmente sua participação em diversos países e se destacam como algumas das maiores representantes brasileiras no exterior. A concentração da construção das infraestruturas territoriais brasileiras sob a responsabilidade de poucas empresas ao longo do século XX e início de século XXI possibilitou elevada especialização a essas empresas, que hoje competem em nível internacional com as maiores do setor.

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ROTEIRO DE ESTUDO

TARUMÃ

Contudo, foram exatamente as empresas desse setor as mais envolvidas em escândalos de corrupção recentemente no país. Investigações indicavam que muitos de seus executivos atuavam como corruptores há muitos anos com o Estado brasileiro. Com forte impulso proporcionado pelo Estado brasileiro, por financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pelas ações diplomáticas e políticas do governo brasileiro por meio de acordos de cooperação, as empresas de construção civil estão aumentando consideravelmente sua participação mundial. Em termos gerais, considerando todos os segmentos, embora os investimentos das empresas brasileiras sejam grandes e tenha havido significativo aumento nos investimentos externos, muitas delas começam Margem de lucro das transnacionais brasileiras (2012-2014) a direcionar maiores investimentos no mercado interno brasileiro em vez de ampliá-los em 20 outros países. De acordo com dados pesquisados pela 16,3% Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas 15,4% 15,4% 15 Transnacionais (Sobeet) em 2012, as empresas brasileiras reduziram US$ 2,4 bilhões de 12,6% seus investimentos no exterior. Em 2011, a 10,5% redução havia sido de US$ 12,6 bilhões. In% 10 dicadores como lucratividade e crescimento 8,7% de vendas eram maiores no Brasil do que em muitos outros países. Em 2010, a margem de lucro das transnacionais brasileiras no exterior 5 foi de 15,6% ante 20,7% no Brasil. A crise internacional e a lenta recuperação dos Estados Unidos, mais a dinâmica da economia brasileira, ajudaram a explicar tal quadro. Além disso, 0 2012 2013 2014 representantes dessas empresas apontavam o Ano alto custo da carga tributária: pagam-se impostos no país de origem e, ao ingressar os recurMargem de lucro doméstico sos no Brasil, há novas tributações. Margem de lucro no exterior No período entre 2012 e 2014, dados indicam que as empresas transnacionais brasilei- Fonte: FUNDAÇÃO DOM CABRAL. Ranking FDC das Multinacionais Brasileiras 2015. ras obtiveram maior lucro no mercado interno, p. 72. Disponível em:<https://www.fdc.org.br/blogespacodialogo/Documents/2015/ranking_ apesar das oscilações dos ganhos. Observe o fdc_multinacionais_brasileiras2015.pdf>. Acesso em: 19 jan. 2016. gráfico ao lado. ESCREVA NO CADERNO

Revisando

1. Basicamente a globalização é um processo múltiplo em que se verifica forte integração e uma progressiva interdependência entre as economias nacionais. É possível estabelecer um marco para o início da globalização? Justifique sua resposta utilizando exemplos.

2. Em que medida o conceito de glocalização relaciona o global e o local? Escolha um fato tratado ao longo do capítulo como exemplo. 3. Há um avançado estágio tecnológico em que vivemos nestes tempos de globalização. Por que a globalização é considerada um processo múltiplo? 4. Quais são as diferentes dimensões da globalização? Descreva as principais características de cada uma. 5. À globalização o geógrafo Milton Santos associa outros dois conceitos: horizontalidade e verticalidade. Defina e indique como esses dois conceitos se articulam na era da globalização. 6. O que se entende por “força do lugar”?

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ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Olhar cartográfico

O mapa a seguir mostra a presença de jogadores de futebol brasileiros no mercado internacional. Os dados são de 2008. Embora atualmente os dados absolutos possam se mostrar diferentes, a característica geral desse cenário de dispersão de jogadores brasileiros por diferentes países pode ser considerada atual. • É possível afirmar que esses fluxos de jogadores simbolizam a globalização? Justifique sua resposta utilizando argumentos sobre o conceito de globalização e o volume dos dados apresentados no mapa.

Allmaps

Jogadores de futebol brasileiros no exterior (2008) OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Círculo Polar Ártico

Trópico de Câncer

OCEANO PACÍFICO

OCEANO ATLÂNTICO Meridiano de Greenwich

Equador

OCEANO PACÍFICO Trópico de Capricórnio

Jogadores brasileiros

OCEANO ÍNDICO

que deixaram o Brasil em 2008 que retornaram ao Brasil em 2008

Número deAntártico jogadores brasileiros Círculo Polar 1

OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO

0

2 860

5 10 25 50 100

209

0

470

Fonte: GILLON, P.; GROSJEAN, F.; RAVENEL, L. Atlas do esporte mundial. Negócios e espetáculo: o ideal esportivo em jogo. Paris: Éditions Autrement, 2010. p. 55.

Atividade em grupo O mapa da página seguinte mostra como as empresas brasileiras estão instaladas em muitos países em todos os continentes. Analisem esse mapa, identifiquem os países em que não há empresas brasileiras e os contraponham com aqueles em que há participação das transnacionais do Brasil. A partir disso: 1. Construam um gráfico de barras com o número de países por continente com e sem empresas brasileiras. 2. Identifiquem a importância econômica mundial desses países e os relacionem com a presença ou não de empresas brasileiras. 3. Agora, discutam sobre a polêmica entre as políticas liberal e protecionista no mundo atual. 4. Pesquisem em livros e sites do governo do Brasil sobre sua posição. O país é protecionista ou liberal?

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Círculo Polar Ártico

América do Norte Canadá Estados Unidos México

Círculo Polar Antártico

Ásia China Cingapura Coreia do Sul Filipinas

Hong Kong Índia Indonésia Japão Malásia

Rússia Tailândia Taiwan

OCEANO PACÍFICO Trópico de Câncer

Oceania Austrália Nova Caledônia Nova Zelândia

Equador

OCEANO ATLÂNTICO

OCEANO PACÍFICO

OCEANO ÍNDICO

Trópico de Capricórnio

América do Sul Argentina Bolívia Chile Colômbia Equador Paraguai Peru Uruguai Venezuela

0

2 750

OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO

Meridiano de Greenwich

América Central e Caribe Antígua e Barbuda Antilhas Holandesas Aruba Bahamas Barbados Costa Rica Cuba El Salvador Guatemala Honduras Ilhas Cayman Ilha São Martinho Ilha Martinica Nicarágua Panamá Porto Rico Santa Lúcia República Dominicana Trinidad e Tobago

Europa Alemanha Áustria Bélgica Dinamarca Espanha França Holanda Hungria Irlanda Itália Luxemburgo Polônia Portugal Reino Unido Romênia Suécia Suíça Turquia Ucrânia

OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Allmaps

Presença de empresas brasileiras no mundo (2014)

África África do Sul Angola Argélia Cabo Verde Camarões Congo Egito Gabão Gana Guiné Guiné Equatorial

De olho na mídia Leia a matéria do jornal Folha de S.Paulo e discuta com seus colegas qual a crítica central que o papa Francisco faz à globalização. Identifique no texto as críticas apresentadas pelo papa e as registre no caderno. Em que parte do capítulo que estudamos podemos encontrar ideias similares às contidas na fala do papa? Você concorda com o posicionamento do papa apresentado no texto? Papa Francisco condena a "cultura do descartável" da globalização O papa Francisco fez um novo ataque à injustiça econômica neste sábado (28), condenando a “cultura do descartável” da globalização e pedindo novas maneiras de se pensar sobre a pobreza, assistência social, emprego e sociedade. Em discurso para a associação de movimentos cooperativos italianos, ele ressaltou o “crescimento vertiginoso do desemprego” e os problemas que os sistemas de assistência social existentes tiveram para atender às necessidades da saúde pública. Para aqueles que vivem “nas margens existenciais” o sistema atual político e social “parece estar fatalmente destinado a sufocar a esperança e aumentar os riscos e ameaças”, afirmou. O papa, de origem argentina, que tem frequentemente criticado a economia do mercado ortodoxa de estimular a injustiça e desigualdade, disse que as pessoas são forçadas a trabalhar longas horas, às vezes na economia paralela, por

Líbia Malauí Marrocos Mauritânia Moçambique Nigéria Quênia Rep. Democrática do Congo Tanzânia Tunísia Zâmbia

Oriente Médio Arábia Saudita Catar Emirados Árabes Unidos Irã Iraque Israel Kuwait Líbano Omã

Fonte: FUNDAÇÃO DOM CABRAL. Ranking FDC das Multinacionais Brasileiras 2015. p. 52-54. Disponível em:<https:// www.fdc.org.br/ blogespacodialogo/ Documents/2015/ ranking_fdc_ multinacionais_ brasileiras2015.pdf>. Acesso em: 19 jan. 2016.

algumas centenas de euros por mês, porque elas são vistas como facilmente substituíveis. “‘Você não está gostando disso: Então vá para casa’. O que se pode fazer em um mundo que funciona assim? Porque há uma fila de pessoas procurando trabalho. Se você não gostar disso, outra pessoa gostará”, disse, em uma mudança espontânea no texto do seu discurso. “É a fome, a fome que nos faz aceitar o que eles nos dão”, acrescentou. O papa Francisco disse ao público que eles podem ajudar a buscar novos modelos e métodos que poderiam ser um modelo alternativo para a “cultura do descartável, criada pelas potências que controlam as políticas econômicas e financeiras do mundo globalizado”. Talvez atento a um escândalo de corrupção abrangente ligado a algumas cooperativas em Roma, no ano passado, ele atacou aqueles que “prostituem o nome da cooperativa”. Mas sua mensagem geral foi de que a lógica econômica tinha que ser secundária às maiores necessidades da sociedade humana. “Quando o dinheiro se torna um ídolo, ele comanda as escolhas do homem. E assim ele arruína o homem e o condena. Faz dele um escravo”, disse o papa. “O dinheiro a serviço da vida pode ser administrado de maneira certa por cooperativas, com a condição que se trate de uma cooperativa real, onde o capital não tem comando sobre os homens, mas sim os homens sobre o capital”, reforçou. PAPA Francisco condena a ‘‘cultura do descartável’’ da globalização. Folha de S.Paulo, 28 fev. 2015. Disponível em: <http://www1.folha.uol. com.br/mundo/2015/02/1596351-papa-francisco-condena-a-cultura -do-descartavel-da-globalizacao.shtml>. Acesso em: 17 dez. 2015.

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CAPÍTULO 5

Globalização e regionalização: os blocos econômicos

Ucranianos se manifestam na Praça da Independência, em Kiev, em 2 de dezembro de 2013, a favor do ingresso da Ucrânia na União Europeia.

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Tópicos do capítulo Blocos de integração econômica União Europeia Mercosul

Ponto de partida

ESCREVA NO CADERNO

Os blocos regionais de integração econômica não são apenas um desejo dos governos. Em dezembro de 2013, milhões de pessoas foram às ruas de Kiev, capital da Ucrânia, para protestar contra o governo após este anunciar que não assinaria o Acordo de Associação com a União Europeia. Em um mundo cada vez mais globalizado, é fundamental compreender a importância dos blocos econômicos regionais, suas consequências para os países e para a vida das pessoas.

Genya Savilov/AFP/Getty Images

• Em sua opinião, qual é a importância dos blocos regionais no mundo globalizado? Cite algum bloco regional de integração econômica.

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1. Blocos de integração econômica A formação de blocos econômicos regionais, como União Europeia (UE) e Mercado Comum do Sul (Mercosul), é uma característica da globalização que se expandiu notavelmente. Observe, no mapa a seguir, a divisão do mundo por blocos econômicos regionais, também chamados de economias regionais. A relação globalização-regionalização não deixa de ser paradoxal. A finalidade desses blocos é estreitar os laços econômicos entre os países-membros e dificultar a entrada de produtos e serviços oriundos de países ou regiões externos a eles, num procedimento claramente protecionista. Já a ideia de globalização tem um forte discurso de integração comercial, de expansão e descentralização. No entanto, globalização e regionalização são processos simultâneos e um incide no outro.

Allmaps

Economias regionais em um mundo globalizado (2015)

Nota: A Alca (Área de Livre-Comércio das Américas) não foi implementada; é uma proposta que se encontra em negociação. Fonte: BAUER, Barbara. Atlas der Globalisierung. Berlin: Le Monde Diplomatique, 2009. p. 13. Com atualizações.

Existem formas diferentes de organização dos blocos de integração econômica entre países. A inicial é a criação de uma Zona de Preferências Tarifárias (ZPF) também conhecida como Área de Tarifas Especiais (ATE), na qual os países-membros pagam taxas menores do que os não membros para os produtos comercializados entre eles. A outra forma é a Área ou Zona de Livre-Comércio (ZLC), que ocorre quando todas as barreiras tarifárias e não tarifárias entre os países-membros são eliminadas em pelo menos 80% dos produtos comercializados no grupo. Quando os países de uma Zona de Livre-Comércio (ZLC) criam uma Tarifa Externa Comum (TEC) para a importação de produtos de países de fora do grupo, estabelece-se nova forma de integração: a União Aduaneira (UA).

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Tipo

Blocos

Área de Tarifas Especiais (ATE) ou Zona de Preferências Tarifárias (ZPF)

Aladi – Associação Latino-Americana de Integração

Ler A unificação da Europa, de Vamireh Chacon. São Paulo: Scipione, 1993. Obra paradidática que faz um retrospecto do processo de integração europeia. Editora Scipione

Quando, além da TEC e da livre circulação de bens e de capital, acorda-se a livre circulação de pessoas nascidas nos Estados-membros, estabelece-se o Mercado Comum, outra forma de integração econômica. As empresas de seus países-membros podem se instalar em qualquer um deles. É mais profundo que outras formas, como a ZLC e a UA. A União Europeia é o Mercado Comum mais avançado, pois, além de todas as características dos outros blocos, unificou a moeda entre a maioria de seus Estados-membros e elegeu um Banco Central para o bloco, que procura estabelecer acordos de políticas fiscais comuns. Converte-se, assim, na mais completa forma de integração: união econômica e monetária. Alguns dos grandes blocos regionais de integração econômica e suas características estão relacionados no quadro a seguir.

Nafta – Acordo de Livre-Comércio da América do Norte Alca – Área de Livre-Comércio das Américas (não implementada) Zona de Livre-Comércio (ZLC)

CAN – Comunidade Andina

Asean – Associação de Nações do Sudeste Asiático

Apec – Cooperação Econômica Ásia-Pacífico

União Aduaneira (UA)

Sacu – União Aduaneira da África Austral

Conversando com a... Língua Portuguesa!

ESCREVA NO CADERNO

Além dos blocos econômicos, há outras formas de integração entre os países em tempos de globalização. Em 1996, foi formada a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com o intuito de promover o aprofundamento da amizade mútua e de cooperação entre seus membros em áreas como educação, saúde, ciência e tecnologia, cultura, defesa, agricultura, administração pública, comunicações, justiça, segurança, desporto e comunicação social. Também tem como objetivo promover e difundir a língua portuguesa. Os Estados-membros são: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Em 1990, mesmo antes da oficialização da Comunidade, países de língua portuguesa assinaram o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O acordo já está em vigor em alguns países e em outros ainda se aguarda a ratificação por parte de seus governos. Em 2009, o Brasil aderiu oficialmente ao acordo, mas não de forma obrigatória. Em 1o de janeiro de 2016, após seis anos de transição, entrou em vigor a obrigatoriedade da nova regra ortográfica. A partir dessa data, as normas definidas no acordo ortográfico são obrigatórias em textos oficias, documentos, exames vestibulares e concursos. • Você sabe o que é esse acordo ortográfico? De que forma você acha que esse acordo pode fortalecer as relações entre os países de língua portuguesa? Converse com seus colegas, consulte o site <http://tub.im/4qnyp7>, reflita sobre o assunto e registre suas considerações em seu caderno.

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AFP/Otherimages

2. União Europeia: o modelo mais integrado

Jean Monnet: diplomata francês, arquiteto da integração europeia e primeiro presidente da Ceca, em discurso em Paris, em 1955.

Navegar União Europeia <http://tub.im/hnzv4v> O portal da União Europeia disponibiliza para consulta estatísticas, dados, tratados e a legislação vigente. Para quem pretende viajar ou morar em países do bloco, é possível obter informação no link "Viver e fazer negócios na UE".

A Europa refez sua história após o término da Segunda Guerra Mundial, adentrando em nova etapa histórica. A característica mais marcante dessa nova Europa que surgia das ruínas do grande conflito era o desejo integrador, enterrando a era dos regimes totalitários. O objetivo inicial era evitar novas guerras – uma vez que o continente envolveu-se em inúmeras delas – e direcionar-se a uma paz efetiva. Dessa forma, a integração instaurada parece ter dado certo, pois desde então no continente, mesmo com as guerras e conflitos nos Bálcãs, prevaleceram grandes períodos sem guerra. Vale lembrar que a Guerra Fria contribuiu decisivamente para a trégua continental. O pontapé inicial fora dado com três países, ainda em 1944, quando Bélgica, Países Baixos (Netherlands) e Luxemburgo fundaram o que viria a ser o embrião da União Europeia, o Benelux (palavra formada pelas iniciais dos nomes dos três países), acordo econômico que visava, principalmente, facilitar o escoamento da produção de carvão e aço pelo porto de Roterdã. Em 1951, com o Tratado de Paris, fundou-se a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (Ceca), que visava garantir o acesso às jazidas carboníferas e unificar a produção e a comercialização do aço dos seis países-membros: Alemanha, França, Itália e os países do Benelux. Essa iniciativa anunciava tamanha complementaridade entre as indústrias francesa e alemã que inviabilizava qualquer possibilidade de confronto entre as duas potências rivais que haviam travado três guerras em menos de um século. A integração era para valer. No entanto, o momento mais marcante viria em março de 1957: o Tratado de Roma criou a Comunidade Econômica Europeia (CEE), que passou a ser o mais importante bloco de integração jamais visto até então, composto inicialmente dos mesmos países da Ceca, mas claramente liderado por Alemanha e França. Também com o Tratado de Roma era fundada a Comunidade Europeia de Energia Atômica (Euratom), associação formada pelos países da CEE e que buscava uma política energética nuclear comum para fins pacíficos aos europeus. O Reino Unido foi convidado a participar das negociações de Roma, mas manteve seu isolacionismo, já que apostava em outra forma de relação em bloco: a Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth), formada por suas ex-colônias e por ele liderado. O governo britânico reveria sua posição em 1961, quando pedira ingresso na Comunidade, sendo barrado por Charles de Gaulle, então presidente francês, que afirmou ter “sérias dúvidas sobre a boa vontade britânica”. Os britânicos repetiriam o pedido em 1967, que foi novamente vetado. Além da busca ininterrupta por integração, os objetivos mais explícitos dos membros da CEE eram a criação de uma zona aduaneira com isenção tarifária, o que permitiria a livre circulação de produtos entre os países da Comunidade e o estabelecimento de uma Tarifa Externa Comum (TEC) dos países do bloco com outros países que dele não participavam, processo que foi consolidado em 1968. A ampliação da Comunidade se daria em etapas, com o ingresso, em 1973, de Reino Unido, Irlanda e Dinamarca; em 1981, da Grécia; e, em 1986, de Espanha e Portugal. É essa Europa dos 12 países que daria um ousado passo em 1991: a criação da União Europeia. De 1957 a 1991, a CEE avançou bastante no processo de integração, encaminhando medidas como: redução gradual até a eliminação total de tarifas alfandegárias; política agrícola comum, com preferência por produtos do continente; criação do Sistema Monetário Europeu (SME), que idealizou a moeda do bloco, o euro; fundação do Ato Único, legislação jurídica conjunta, reforçando a coesão europeia; criação do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento (Berd), instituição destinada a auxiliar as economias do Leste Europeu em transição para a economia de mercado, entre outras iniciativas.

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Navegar Banco Central Europeu <http://tub.im/pdj55i> Esse site apresenta mapa interativo com informações sobre quando cada país se tornou Estado-membro e o ano de adesão à zona do euro.

Imago/ZUMAPRESS.com/Easypix

Entre dezembro de 1991 e novembro de 1993, em uma série de encontros e reuniões, os líderes europeus encaminharam alterações e avanços no âmbito da integração por meio da assinatura do Tratado da União Europeia, mais conhecido pelo nome da cidade holandesa que sediou o evento: Tratado de Maastricht. Esse documento transformou a Comunidade Econômica Europeia (CEE) em União Europeia (UE), constituída por três instituições centrais: o Parlamento Europeu, que representa os cidadãos e é eleito por eles; o Conselho da União Europeia, que representa os governos e cuja presidência é rotativa entre os países-membros; e a Comissão Europeia, que atende aos interesses gerais do bloco. Na ocasião da assinatura do Tratado de Maastricht, em fevereiro de 1992, também foi anunciado um ousado calendário de atividades, tais como a unificação monetária até 1999, a criação da cidadania europeia e de uma política externa comum: a livre circulação de pessoas no âmbito dos 12 países-membros. Em 1995, integraram a União Europeia a Finlândia, a Suécia e a Áustria. Não foi apenas uma troca de sigla: a partir do Tratado de Maastricht, a unificação europeia passaria do âmbito até então exclusivamente econômico também para o político, modificando e ampliando o caráter da entidade, que buscava agora maior participação no cenário internacional.

A mais ambiciosa medida da União Europeia se materializaria no primeiro dia de 2002, quando a moeda única entrou em circulação. O euro, que surgia para ser uma moeda forte e internacional, passando a concorrer com o dólar estadunidense, foi adotado por 12 dos 15 países-membros. Reino Unido, Suécia e Dinamarca ficaram fora da “zona do euro”, em um primeiro momento, além da Grécia. Por iniciativa do Reino Unido, que seguia resistindo ao aprofundamento da integração, inseriu-se na união monetária uma cláusula que facultava aos países-membros a opção de manter as respectivas moedas nacionais. Em Maastricht discutiu-se também a proposta de uma aliança militar com vistas a um programa de defesa comum, que poderia reduzir a importância da Otan e a influência estadunidense na Europa. Contudo, esse projeto é ainda muito embrionário. Propuseram-se ainda a unificação das leis trabalhistas, criminais, civis e de imigração e a formulação de uma política externa conjunta. Algumas das principais deliberações do Tratado de Maastricht foram as seguintes:

A disposição circular das estrelas na bandeira da União Europeia representa a harmonia. O número de estrelas representa os 12 países do bloco na época de sua criação, mas atualmente não corresponde mais ao número de Estados-membros, que, em 2015, contava com 28 membros, abrangendo mais de 500 milhões de pessoas. Fotografia em Bruxelas, capital da União Europeia, em 2014.

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Ver

Filme de Fatih Akin. Do outro lado. Turquia/Alemanha/Itália, 2007

Do outro lado. Direção: Fatih Akin. Turquia/ Alemanha/Itália, 2007. A questão da entrada da Turquia na União Europeia é abordada nesse filme, que evidencia a realidade de imigrantes turcos na Alemanha.

• F im das fronteiras econômicas entre os 12 países-membros – depois, 15 – com a eliminação total das taxas restritivas de importação; • Estabelecimento de um calendário efetivo para a unificação monetária, o que se confirmou em 2002 com a criação do euro; • Criação de um fundo de assistência aos países mais pobres da Comunidade, como Portugal, Grécia e Irlanda; • Prioridade à importação de produtos agrícolas dos países da União Europeia. A maior ampliação da União Europeia deu-se entre 2004 e 2007, quando entraram 12 novos membros. Com exceção de Chipre e Malta, os demais vieram da antiga órbita de influência soviética: Lituânia, Letônia, Estônia, Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Eslovênia, Hungria, Bulgária e Romênia. A Croácia foi o último país a ingressar no bloco, em 2013, totalizando 28 membros até 2015. Apesar de seu pedido ter sido feito em 1959, a Turquia em 2015 continuava de fora e, desde 2005, espera por aprovação de sua entrada pelo Conselho da União Europeia. Outros países também eram canditatos até 2015, como Macedônia e Montenegro. Observe, no mapa a seguir, os países que compõem a União Europeia e os que fazem parte da zona do euro.

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União Europeia e a zona do euro (2015)

Fonte: BANCO CENTRAL EUROPEU. Mapa da área do euro 1999-2015. Disponível em: <http://www.ecb.int/euro/intro/html/ map.pt.html>. Acesso em: 18 dez. 2015.

2.1 A crise da zona do euro A crise econômica e financeira internacional que assolou o mundo em 2008, seguida por forte recessão em 2009, não poupou os países europeus. Itália, Espanha, Chipre, Irlanda, Portugal e Grécia apresentaram grandes problemas em suas economias nacionais, o que prejudicou a economia do bloco. Tais países apresentavam elevadíssimo grau de endividamento público com instituições financeiras e não conseguiam alavancar suas economias por meio da geração de recursos advindos das próprias produções para saldar as dívidas. Isso seria impossível sem a ajuda de todo o bloco, o que causou polêmicas e divergências entre seus Estados-membros. A crise alastrou-se pela zona do euro e chegou a resvalar na França, por causa da quantidade de empréstimos feitos pelos bancos franceses aos países endividados.

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Hannibal Hanschke/Reuters/Latinstock

A crise mostrou-se mais aguda na Grécia, que precisou solicitar empréstimos aos parceiros europeus e ao FMI, mas não sem antes se submeter aos ajustes fiscais que atingiram toda a sociedade grega. A grave situação fiscal da Grécia é antiga. Começou antes mesmo da adesão à moeda única europeia em 2002, quando, em um primeiro momento, o país fora recusado na zona do euro por não atingir as metas fiscais. Com a grave crise econômica e social e os altos índices de desemprego, entre 2014 e 2015 a situação ficou praticamente insustentável no país. Foram realizadas eleições em que a população elegeu um partido considerado de extrema esquerda, cuja plataforma política era dizer “não” às exigências da União Europeia. Em uma difícil negociação que envolveu o novo governo grego, União Europeia e FMI, chegou-se a um tênue acordo, porém muitos analistas entendiam que a crise grega perduraria ainda por muitos anos (observe a fotografia ao lado). A dura realidade do país, cuja dívida representa 170% do Produto Interno Bruto (PIB), é a principal causa desse ceticismo. Também em 2015, logo após sua reeleição, o premiê britânico David Cameron acenou para aquilo que já havia sido adiantado em 2011 pelo Parlamento britânico: uma possível saída do país da União Europeia, anunciando para os próximos anos a realização de um referendo sobre tal possibilidade. Essa intenção fez que os demais membros da UE olhassem o país com certa desconfiança em relação ao compromisso britânico com o bloco, o que lembra as dúvidas levantadas por Charles de Gaulle na década de 1960.

A grave crise grega afetou todos os países do bloco. Na fotografia, Alexis Tsipras, primeiro-ministro da Grécia, e Angela Merkel, chanceler alemã, em entrevista coletiva após tentativa de acordo econômico entre a União Europeia e a Grécia, na Alemanha, 2015.

2.2 Integração versus exclusão

Pessoas protestam contra o racismo de Estado, a Frente Nacional e a violência policial durante a realização do 15º Congresso da Frente Liberal em Lyon, França, 2014.

JEAN-PHILIPPE KSIAZEK/AFP

A Frente Nacional, partido político francês de extrema direita, com uma plataforma nacionalista, protecionista e xenófoba vem ganhando expressão nos últimos anos e a cada eleição adquire mais adeptos. Chegou a enviar Jean Marie Le Pen, seu líder e fundador, ao segundo turno das eleições presidenciais de 2002. Jean Marie Le Pen dirigiu o partido até 2011 quando foi sucedido por sua filha, Marine Le Pen. A Frente Nacional propõe o retorno da pena de morte e compara os muçulmanos do país à ocupação nazista, clama por severas restrições à imigração e aos direitos de cidadania aos estrangeiros no país, com o slogan "França para os franceses”, e sugere a saída do país da União Europeia. Contudo, enfrentam resistências de parte da população francesa. Observe a fotografia abaixo.

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Lluis Gene/AFP/Getty Images

Em diferentes momentos, nos estádios de futebol na Europa, são registradas ações racistas e xenófobas contra os jogadores de futebol. Na fotografia, jogadores posam com uma faixa (“Não ao racismo") contra o racismo em uma partida entre os times Barcelona e Ajax Amsterdam, no estádio em Barcelona, Espanha, 2014.

Na Itália, Silvio Berlusconi, em 2008, durante seu governo como primeiro-ministro, associou-se à Liga do Norte, partido de inspiração neofascista e xenófobo que tem como principal plataforma política a separação da parte rica da Itália, o norte, da porção considerada pobre, o sul. A Liga do Norte, que dificilmente alcançará tal intento, tenta interferir na vida política do país pela via institucional. Durante o governo Berlusconi, em troca de apoio ao primeiro-ministro, conseguiu impor uma nova política tributária pautada no federalismo, que dificulta a transferência dos impostos arrecadados no norte para o sul. Até então tolerante, a Holanda assistiu, no fim dos anos 1990, à ascensão da extrema direita com um excêntrico político de carreira meteórica: Pim Fortuyn. Tão rápido como surgiu, desapareceu: foi assassinado por um ecologista igualmente intolerante que discordava de suas propostas em relação aos animais. O assassinato de Fortuyn às vésperas das eleições de 2002 provocou forte comoção, e o tiro do ambientalista saiu pela culatra: o recém-fundado partido Lista Pim Fortuyn teve expressiva votação e chegou a compor a coalizão que governou o país (quase sempre composta de democratas-cristãos e social-democratas até então), porém de curtíssima duração. No Reino Unido, a representação parlamentar da extrema direita fica por conta do inexpressivo Partido Nacional Britânico (BNP), que luta por um país branco. Contudo, o controle político está instaurado há décadas entre conservadores e trabalhistas; já os nacionalistas extremados têm tímida participação na vida política. Apesar do grande número de partidos de extrema direita europeia, seu peso político ainda é insignificante no universo global do continente; comportam-se mais como uma minoria ruidosa, porém impotente na via parlamentar. No entanto, nos últimos anos, tem se verificado forte tendência de crescimento desses partidos. Há de se ressaltar que uma parcela dos ultradireitistas não conduz suas aspirações pela via partidária e, sim, por ações extremistas quando a intolerância étnica abandona o campo político e parte para ações violentas. No afã de defender suas convicções, é assim que agem os skinheads e diversas outras facções neonazistas, atuantes, sobretudo, no Reino Unido e na Alemanha. A Espanha é outro país que convive com a onda xenófoba. Já são mais de 4 mil casos racistas por ano no país, e o número de militantes neonazistas cresceu 400% nos últimos dez anos. Como em outros casos, também na Espanha o fenômeno está diretamente ligado ao aumento da imigração e à crise econômica. Embora apenas 2% dos espanhóis se considerem adeptos de partidos de extrema direita e esses tenham alcançado menos de 1% dos votos em eleições recentes, juntamente com Alemanha, França, Suécia e Reino Unido, a Espanha está entre os países em que mais cresceram as agressões racistas. Isso levou a reações de diversas parcelas da população contra manifestações xenófobas e racistas. Observe a fotografia abaixo.

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O fim da bipolaridade antagônica entre capitalismo e socialismo, que pautou a ordem do pós-Guerra Fria, revitalizou o nacional-populismo europeu a partir dos anos 1990 e reacendeu a chama xenófoba, nunca extinta, mas adormecida desde os anos 1930. Partidos populistas como a Frente Nacional, na França, a Liga do Norte, na Itália, ou o Partido da Liberdade, na Áustria, conduziram suas plataformas doutrinárias sobre dois campos ideológicos: um discurso antiglobalização e anti-integração, defendendo a pureza da nacionalidade e a expulsão dos imigrantes contra o pluralismo multinacional encaminhado pela União Europeia; e um fundamentalismo de mercado com o máximo de arraigamento liberal e combate ao Estado interventor – a extrema direita se opõe ao welfare state (Estado de bem-estar social), que assiste, entre outros, africanos e asiáticos. A desarticulação dos socialistas, presença marcante na cena política europeia, também contribuiu para a ascensão populista. Uma das principais cláusulas da Comunidade Europeia diz respeito à livre circulação de pessoas dentro do bloco, a “área ou espaço de Schengen”, do Acordo de Schengen, homônimo da pequena cidade de Luxemburgo, onde foi assinado em 1985 por Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Alemanha e França. Em 1997, expandiu-se para quase toda a União Europeia. Em 2007, com o Tratado de Lisboa, que revisou diversas questões internas ao bloco, institui-se uma política comum de vistos e imigração a países do espaço Schengen. Apesar de ser essencialmente uma iniciativa aos membros do bloco, a circulação de pessoas apresenta algumas exceções: Reino Unido e Irlanda não ratificaram o Acordo Schengen, enquanto os cidadãos da Noruega, Islândia e Suíça, que não são membros do bloco, têm o direito de transitar na Comunidade. Veja o mapa a seguir.

Interagindo Alguns geógrafos afirmam que a globalização atual tem também um caráter impositivo, ou seja, que se sobrepõe aos acontecimentos locais, uma espécie de globalitarismo. Destacam que, nesse processo, às vezes, é necessário que haja certa espetacularidade dos casos em que há vítimas da intolerância para que elas sejam consideradas. • O que você acha dessa afirmação? Você conhece algum exemplo para ilustrar essa situação? ESCREVA NO CADERNO

Ver O barco da esperança (La Pirogue). Direção: Moussa Touré. França/Senegal, 2012. Um jovem senegalês, em busca de uma vida melhor na Europa, embarca em uma piroga, embarcação típica da África e Oceania, com outros imigrantes para realizar uma viagem longa e perigosa pelo oceano Atlântico em direção à Espanha.

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Espaço Schengen (2015) Cír cu lo P

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Fonte: COMISSÃO EUROPEIA. Espaço Schengen. Disponível em: <http://ec.europa.eu/dgs/home-affairs/what-we-do/policies/bordersand-visas/schengen/index_en.htm>. Acesso em: 18 dez. 2015.

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Hafidh/AFP/Getty Images

Cenas como esta, registrada em 2011, são comuns no mar Mediterrâneo, que separa a Europa da África. Em abril de 2015, aconteceu uma das mais graves tragédias quando uma embarcação que transportava imigrantes africanos naufragou na costa líbia, causando a morte de cerca de 700 pessoas.

A Europa assiste a uma grande onda imigratória, sobretudo de pessoas originárias da África e da Ásia. Muitas tentam entrar de forma ilegal no continente, arriscando suas vidas, conforme retratado na fotografia ao lado. Até o início de 2013, a Europa tinha 224 casas de detenção voltadas aos imigrantes, que comportavam até 30 mil detentos à espera do repatriamento. Até aquele momento, o objetivo da Europa era prender e expulsar aqueles que chegassem, para depois analisar os casos daqueles que já haviam entrado. Esta é a parte perversa da globalização. A questão é que a Europa precisa do imigrante: é um difícil dilema. A queda nos índices de natalidade indica que os idosos serão maioria na Europa. A Itália, por exemplo, foi o primeiro país da história a ter uma população acima de 60 anos maior que a de jovens. Outros a seguirão. Esta é uma tendência inegável para um futuro próximo.

Logomarca Mercosul

3. O Mercosul

Antonio Scorza/AFP/Otherimages

O Cruzeiro do Sul compõe o símbolo oficial do Mercosul.

Em 26 de março de 1991, na capital paraguaia, foi assinado o Tratado de Assunção que instituiu o Mercosul, formado inicialmente por Argentina, Brasil Paraguai e Uruguai. O Mercosul, embora traga no nome uma forma mais complexa de integração econômica, ainda é, segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, uma Zona de Livre-Comércio e uma União Aduaneira em fase de consolidação e que caminha para o estabelecimento de um Mercado Comum, com laços mais profundos de integração. No entanto, o Mercosul sequer consolidou-se como União Aduaneira, devido às divergências internas que impediram a adoção de uma Tarifa Externa Comum (TEC). Observe, na imagem abaixo, os então presidentes dos países fundadores do mercosul

Os então presidentes dos quatro países-membros fundadores do Mercosul, que hoje conta com a presença da Venezuela. A partir da esquerda: Luis Alberto Lacalle, do Uruguai, Fernando Collor de Mello, do Brasil, Andrés Rodríguez, do Paraguai, e Carlos Menem, da Argentina. Brasília, 1991.

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A viabilização das proposições comerciais também tem, necessariamente, caráter político: só podem ocorrer em condições de estabilidade regional, sem guerras ou conflitos entre os Estados-membros. Nos documentos do bloco está previsto que seus países devem ter estabilidade política garantida, democracia fortemente instituída e consolidada, respeito ao ambiente e à meta do desenvolvimento sustentável, estado de paz, combate à pobreza, procurar a justiça social e o desenvolvimento econômico de forma igualitária aos seus cidadãos. Foi por ocasião da derrubada do presidente paraguaio, Fernando Lugo, e com base exatamente em argumentos relacionados à estabilidade política e à consolidação da democracia que, em junho de 2012, os Estados-membros do Mercosul, Argentina, Brasil e Uruguai, suspenderam o Paraguai como membro do bloco e das reuniões da União das Nações Sul-Americanas, a Unasul, criada em 2008 e formada por 12 países da América do Sul. Os três Estados-membros entenderam que um impeachment ao então presidente do Paraguai fora na realidade um golpe, visto que ele foi eleito democraticamente e seu processo de impedimento durou menos de 24 horas. O Paraguai ficou suspenso do bloco até abril de 2013, quando ocorreram eleições presidenciais no país. Durante o período de suspensão foi aprovada a entrada da Venezuela, que havia sido barrada pelo Congresso paraguaio, apesar da aprovação dos outros três países-membros. Em 2015, os Estados-membros plenos do Mercosul eram: Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela. Além dos chamados Estados-membros, o bloco admite a participação, com direitos restritos, de países associados, que podem vir a se tornar países-membros. Com isso e visando à intensificação das relações econômicas no Cone Sul do continente americano, outros países ingressaram no bloco como membros associados: Bolívia e Chile (desde 1996), Peru (desde 2003), Equador e Colômbia (desde 2004), Guiana e Suriname (desde 2013). Veja o mapa abaixo. Em 2015, a promoção da Bolívia de Estado associado a Estado-parte acelerou o processo de adesão do país andino à condição de membro do Mercosul, fato que poderá se consolidar em breve.

Navegar Mercosul <http://tub.im/ytqoe8> O site oficial do Mercosul disponibiliza diversos textos e notícias sobre as discussões que envolvem os países-membros.

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Os países do Mercosul (2015) 90° O Trópico de Câncer

MÉXICO

VENEZUELA GUIANA SURINAME

COLÔMBIA

Equador

EQUADOR

OCEANO PACÍFICO

PERU

BRASIL

OCEANO ATLÂNTICO

BOLÍVIA

Trópico de Capricórnio

PARAGUAI CHILE URUGUAI

Membro

ARGENTINA

Estado associado Observador

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Fonte: MERCOSUL. Os países do Mercosul. Disponível em: <www.mercosul.gov.br>. Acesso em: 21 dez. 2015.

O México não pertence ao Mercosul, mas ocupa posição de país observador. Já se cogitou a sua entrada no bloco, o que ampliaria a participação para países latino­ ‑americanos.

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A admissão, em 2012, da Venezuela no Mercosul levantou uma série de discussões polêmicas. No âmbito eminentemente geográfico, mais especificamente geoeconômico, questionava-se o fato de a Venezuela estar ao norte da América do Sul, fazendo fronteira apenas com o Brasil e não com os demais membros, o que poderia beneficiar comercialmente esses dois países em detrimento dos outros. Contudo, os estados do norte do Brasil viram a possibilidade de real integração, já que eram eles que acusavam distanciamento do Mercosul por causa da concentração das atividades no Cone Sul do continente. Membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), a Venezuela concentra a sexta maior reserva de petróleo do mundo, o que é um fator econômico de extremo valor político e logístico para a região e para o bloco.

Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

O texto a seguir é um documento do Ministério das Relações Exteriores do Brasil que apresenta, em linhas gerais, um posicionamento oficial quanto ao comércio internacional brasileiro e ao Mercosul. Leio-o e responda. 1. O teor do texto é uma defesa da opção brasileira no cenário comercial mundial? Qual é essa opção? 2. De acordo com o Itamaraty, por que é importante para o Mercosul ampliar globalmente suas parcerias comerciais? Por que negociar acordos extrarregionais de comércio? A OMC autoriza seus membros a integrar acordos de livre comércio, com base no princípio do “regionalismo aberto” – ou seja, desde que o mecanismo para liberalizar exportações e importações entre as partes de um acordo não desvie excessivamente o comércio com os não-membros do grupo. Os países-membros do Mercosul se comprometeram a negociar em conjunto os acordos de comércio que envolvam concessões tarifárias. Tomada por meio da Decisão nº 32/2000 do Conselho Mercado Comum do Mercosul, essa decisão decorre do objetivo maior de preservar a união aduaneira entre os países do bloco, o que demanda uma política comercial externa comum. Tendo em vista os objetivos de aumentar o acesso a mercados estrangeiros e incrementar a competitividade interna, o Brasil contribui ativamente para as negociações de acordos de comércio entre o Mercosul e parceiros extrarregionais. Entre as modalidades desses acordos estão os de “livre comércio” (redução das tarifas de importação a zero sobre a grande maioria dos bens) e os de “preferências tarifárias” (outorga de preferências nas tarifas de universo menos amplo de bens para os membros do acordo), os últimos podendo ser celebrados por países em desenvolvimento ao amparo da cláusula de habilitação da OMC. No Itamaraty, a negociação desses acordos é responsabilidade do Departamento de Negociações Internacionais e das Divisões de Negociações Extrarregionais do Mercosul, unidades subordinadas à Subsecretaria de Assuntos Econômicos e Financeiros. A negociação de acordos comerciais leva em conta a necessidade de preservar e promover políticas públicas dedicadas ao desenvolvimento nas áreas econômica, social, ambiental, industrial, da ciência e tecnologia e da agricultura familiar, entre outras. Para tanto, é fundamental o constante diálogo entre o governo, os setores produtivos e a sociedade civil. Acordos comerciais podem contribuir para fortalecer a competitividade interna e externa dos setores produtivos nacionais e dos demais países do Mercosul. No plano interno, atraem investimentos estrangeiros diretos, aumentando a oferta de empregos e promovendo transferência de tecnologia. No plano externo, contribuem para expandir nossas exportações e para a integração do Brasil à economia global – o que possibilita não apenas adquirir insumos a custos mais acessíveis, como também exportar a preços mais competitivos. O engajamento do Mercosul nas negociações de acordos comerciais tem grande significado político, pois contribui para consolidar o bloco como protagonista no cenário internacional. Desde sua criação, o Mercosul concluiu acordos comerciais com importantes parceiros extrarregionais: Índia (2004); Israel (2007); União Aduaneira da África Austral – SACU (2009); Egito (2010) e Palestina (2011). Foram também firmados Acordos-Quadro com diversos outros países em desenvolvimento, o que é a primeira etapa para negociação de um acordo comercial. As negociações extrarregionais do Mercosul têm contribuído para a diversificação e a ampliação de mercados para as exportações do Brasil, além de estreitarem as relações econômicas e políticas com parceiros não tradicionais. Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia O Brasil confere prioridade às negociações para um Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia. As negociações foram lançadas em 1995, quando os blocos firmaram um Acordo-Quadro de Cooperação Inter-regional, estabelecendo que as relações birregionais se desenvolveriam em três pilares: diálogo político, cooperação e livre comércio. Em 2010, atingiu-se consenso sobre os parâmetros para o relançamento dessas negociações, havendo um compromisso mútuo de que o acordo seja abrangente, equilibrado e ambicioso. Consultas públicas realizadas em 2012 revelaram o firme apoio do setor privado brasileiro em favor da conclusão das negociações com a União Europeia. Até o momento, as negociações permitiram avanços importantes na definição das regras do futuro acordo e devem passar em breve a uma nova etapa, com a troca das respectivas ofertas de acesso a mercados. MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Por que negociar acordos extrarregionais de comércio? Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=692&catid=130&Itemid=593&lang=pt-BR>. Acesso em: 4 fev. 2016.

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Além das relações comerciais de automóveis, minérios, alimentícios e têxteis, principais produtos negociados entre os países, uma importante e polêmica negociação bilateral dentro do bloco foi realizada em 2010 entre Brasil e Argentina, na primeira gestão da presidente argentina Cristina Fernández Kirchner: um acordo para a produção conjunta de energia nuclear para fins pacíficos. Esse tema sempre levanta discussões sobre os possíveis usos bélicos, o que chocaria frontalmente com os princípios do Mercosul. Do ponto de vista comercial, a Argentina é o maior parceiro do Brasil dentro do bloco. Muito disso se deve ao fato de os dois países serem os mais industrializados da América do Sul e, também, concentrarem os maiores PIBs no bloco. Observe, no gráfico abaixo, a balança comercial de produtos manufaturados entre o Brasil e os outros países-membros do Mercosul.

Tarumã

Balança de manufaturados Brasil-Mercosul, em bilhões de dólares (2005-2014) 30 25

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Importação

Saldo

Fonte: CNI DEFENDE que países do Mercosul permitam flexibilidade para negociar acordos comerciais. Agência de notícias CNI, 16 jul. 2015. Disponível em: <http://www.portaldaindustria.com.br/cni/ imprensa/2015/07/1,66612/cni-espera-quepaises-do-mercosul-permitam-flexibilidade-paranegociar-acordos-comerciais.html>. Acesso em: 4 fev. 2016.

ESCREVA NO CADERNO

A Geografia na... arte!

Cristiano Sant'Anna/Indicefoto.com

A imagem abaixo é de uma obra de Leslie Shows, a instalação Exibição das propriedades, na qual a artista estadunidense mostra diversas bandeiras das quais parecem escorrer tintas de várias cores que se misturam com brasões de famílias pela parede, sugerindo uma separação de questões nacionalistas, ideológicas e históricas das bandeiras dos países, marcas geográficas também com significados ideológicos. Essa obra foi instalada em Porto Alegre, na 8ª. Bienal do Mercosul, em 2011, intitulada Ensaios de geopoética. O tema dessa bienal foi a redefinição crítica da territorialidade pela arte. O evento promove a integração entre os países por meio da arte.

Exibição das propriedades, instalação de Leslie Shows, em Porto Alegre (RS), 2011.

• Em sua opinião, como essa obra questiona a relação política entre os países e, consequentemente, suas organizações em blocos econômicos? O que você acha da proposta da Bienal do Mercosul de integrar os países por meio da arte? Converse com os colegas sobre essas questões e registre suas conclusões no caderno.

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Apesar dos esforços de integração desde a sua criação e da adesão de novos países, o futuro do Mercosul é colocado em xeque por diversos setores econômicos e financeiros dos países-membros em razão da baixa quantidade de trocas comerciais, que ocorrem, sobretudo, em momentos de turbulência política em um dos países. Nesses momentos, os Estados acabam por tomar medidas unilaterais com vistas a proteger suas economias nacionais, como suas indústrias, por exemplo. Algumas dessas ações tornam-se medidas protecionistas, o que causa desconfiança entre os demais membros e a comunidade internacional, além de desequilíbrio nas trocas comerciais entre os Estados-membros. Alguns analistas indicam que o destacado caráter comercialista do bloco é responsável por essa dinâmica. Essas análises são fortalecidas ao se verificar a criação de outro bloco de integração regional que, para muitos, tende a substituir o Mercosul no futuro, por ser mais amplo geograficamente e em seus princípios: a União das Nações Sul-Americanas, criada em 2008.

3.1 A integração das infraestruturas territoriais

Bitola: Largura entre os trilhos de uma via férrea.

Mario Friedlander/Pulsar

Embarcações no rio Paraguai, Corumbá (MS), 2014.

A integração comercial do Mercosul está propiciando a intensificação de transportes no Cone Sul do continente. O chamado Corredor Comercial Sul pretende ampliar a utilização do transporte intermodal (ou multimodal – quando se utilizam mais de duas vias). No entanto, o transporte rodoviário ainda predomina intensamente na circulação das mercadorias do bloco. No que se refere às ferrovias, isso se deve a fatores como a diferença de bitolas, que inviabiliza a efetivação da rede ferroviária. As hidrovias, em fase de ampliação de seus usos, encontram como obstáculos: os altos custos portuários no Brasil; a Usina Hidrelétrica de Itaipu, que dificulta a ligação hidroviária entre Brasil e Argentina; a falta de investimentos de longo prazo e planejamento; a predominância do sistema de transporte rodoviário; e os movimentos contrários à construção de hidrovias, devido aos impactos ambientais causados pela construção dos portos e pela intensificação dos fluxos de embarcações, como a poluição e a erosão em trechos do rio e o desaparecimento de várias espécies de animais. Na região que se situa na Bacia do rio da Prata, duas hidrovias possibilitam o transporte de produtos e enfrentam movimentos contrários dos ambientalistas: a Paraná-Paraguai e a Tietê-Paraná. A hidrovia Paraná-Paraguai começa em Cáceres (MT) no rio Paraguai, que conflui com o rio Paraná na fronteira do Paraguai com a Argentina, e termina no estuário do rio da Prata, percorrendo um trecho de 3 442 km, servindo de via de escoamento de mercadorias do interior do continente para os portos. No território brasileiro, a hidrovia percorre 1 278 km, por onde são transportados, principalmente, minérios de ferro, minério de manganês e soja. A hidrovia Tietê-Paraná interliga Conchas (SP) a São Simão (GO) e a Itaipu, divisa com o Paraguai, totalizando um trecho de 2 400 km. São transportados produtos como soja, cana-de-açúcar, combustíveis, fertilizantes, areia e cascalho no interior do Brasil.

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ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando 1. A formação de blocos regionais, como União Europeia e Mercosul, é uma característica da globalização que se expandiu notavelmente. Como você explica a existência de tantos blocos regionais em pleno processo de globalização? Justifique sua resposta com exemplos. 2. A União Europeia é o bloco mais avançado do ponto de vista da integração econômica e política. Contudo, passa por grandes dificuldades. Aponte três dificuldades e os perigos que representam para a continuidade do bloco. 3. Reino Unido, Suécia e Dinamarca ficaram fora da zona do euro, assim como a Grécia, em um primeiro momento. Qual é a diferença entre zona do euro e União Europeia? 4. Por que alguns países não entraram para a zona do euro? Quais são as suas justificativas? 5. Em 1991, em Assunção, capital paraguaia, os então presidentes do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai assinaram um acordo que visava à formação de um Mercado Comum do Sul, o Mercosul. Explique por que o Mercosul, mesmo tendo mercado comum no nome, não é um mercado comum na prática. 6. Aponte outras experiências de integração regional que você conhece. 7. A crise do euro, que afeta a maior parte da Europa, tem na dívida fiscal de alguns países a causa principal. Explique resumidamente o que é “dívida fiscal”.

Olhar cartográfico O mapa abaixo apresenta as principais organizações de integração regional. 1. Indique uma organização regional que congregue países de mais de um continente. 2. Quais são os três tipos de integração regional apresentados no mapa? Dê exemplos.

DACOSTA MAPAS

Principais organizações de integração regional (2015) 80° L

Círculo Polar Ártico

CEI União Europeia

Nafta Apec

UEMAO

Trópico de Câncer

CCG Cedeao

Asean

Equador

CAN

Cemac

Mercosul

UA

Trópico de Capricórnio

0

Asean Apec Nafta CAN Mercosul CEI CCG UEMAO

Associação de Nações do Sudeste Asiático Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico Acordo de Livre-Comércio da América do Norte Comunidade Andina Mercado Comum do Sul Comunidade dos Estados Independentes

2 750

Cedeao Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental África Central Círculo Polar Antártico Cemac Comunidade Econômica e Monetária da UA União Africana Integração política (Transferência de soberania e de instituições)

Conselho de Cooperação do Golfo

Integração comercial, econômica ou monetária (abandono parcial de soberania)

União Econômica e Monetária do Oeste Africano

Fórum de coordenação

Fonte: DURAND, Marie-Françoise; COPINSCHI, Philippe; MARTIN, Benoît; PLACIDI, Delphine. Atlas da mundialização. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 47. Com atualizações.

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ROTEIRO DE ESTUDO De olho na mídia

Atividade em grupo Em grupos, escolham dois blocos econômicos apresentados no mapa da página 94 e pesquisem sobre as relações existentes entre eles nos âmbitos comercial e político. Considere os seguintes itens: 1. as trocas comerciais entre eles; 2. a afinidade política no âmbito das relações internacionais entre os países-membros de cada bloco; 3. a existência de iniciativa de redução tarifária entre os blocos; 4. a posição comum ou divergente nos fóruns da OMC entre os países-membros de cada bloco.

O texto a seguir apresenta o relato de um médico sobre a crise de refugiados na Europa em 2015 e as medidas adotadas pelo governo alemão. Leia o texto e responda. 1. O médico em seu depoimento aponta como correta a política para refugiados adotada pela chanceler alemã. Considerando aspectos sociais, políticos e econômicos, discuta com seus colegas sobre o posicionamento de Angela Merkel. Vocês concordam com as medidas adotadas? Justifique a resposta. 2. Como as redes sociais podem contribuir para a difusão mundial da realidade dos refugiados que chegam à Europa? Extraia do texto uma passagem que mencione tal fato.

“Nunca vi tanta miséria e desespero” Raphaele Lindemann havia se disposto a escrever um relato de seu trabalho no front da crise migratória: em primeira mão, mas neutro. No entanto, logo o médico alemão percebeu que isso era impossível. Nas últimas quatro semanas, ele vem prestando os primeiros cuidados a requerentes de asilo recém-chegados, num abrigo de emergência. E o que tem presenciado o convence de que a Alemanha está certa em abrir suas fronteiras aos que buscam abrigo da guerra e da miséria. [...] Lindemann é uma das poucas pessoas que presenciam o estado em que os migrantes chegam à Alemanha – antes de serem cadastrados, antes de receberem roupas doadas para se vestir, antes mesmo de poderem tomar uma ducha. “Posso assegurar a vocês que é totalmente impossível, por exemplo, tratar de um pé com frieiras, que marchou mais de 500 quilômetros pelo inverno adentro com sapatos estragados, com meias molhadas, e ver pela perspectiva dos ‘ingênuos óculos cor-de-rosa de gente boazinha’.” “Gente boazinha” (Gutmensch) é um termo empregado pelos detratores dos que defendem e se ocupam dos refugiados – e foi consagrado como “despalavra do ano” em 2015. O relato do jovem profissional de medicina, formado na Universidade de Mainz, prossegue: “Essas pessoas chegam aqui num estado absolutamente desolado e digno de piedade. Certamente vai espantar algumas pessoas que 90% deles não sejam homens jovens e saudáveis. [...] A cada expediente, eu vejo entre 300 e 500 refugiados. Pelo menos a metade são crianças! Há famílias, há idosos e, sim, também há jovens. Por que não? O que todos têm em comum é estarem totalmente esgotados e exaustos. Até então eu nunca tinha visto tanta miséria e desespero de uma vez só.” A certa altura, em sua extensa postagem, ele descreve o tratamento de uma mulher chegada ao abrigo com ambas as pernas inteiramente queimadas. “Não tenho ideia de como ela sequer conseguiu chegar até nós. Precisamos de uma hora só para desprender, das feridas cheias de pus, as bandagens coladas nelas, sujas e malcheirosas. Mas não houve reclamação e não houve nenhuma exigência. Essa mulher irradiava gratidão, por finalmente estar em segurança e por ter quem cuidasse dela.” Lindemann publica suas experiências num momento em que a opinião pública sobre a política para refugiados da chefe de governo alemã está mudando. Quando, numa coletiva de imprensa no fim de agosto, Merkel proferiu a já famosa frase “vamos conseguir”, a maioria da população ficou orgulhosa de ter uma líder tão comprometida em fazer o que é moralmente correto. Contudo, o afluxo de refugiados não arrefeceu, e ainda não há um consenso no nível da União Europeia sobre como lidar com a crise. Para muitos alemães, a guinada ocorreu no Ano Novo: os ataques sexuais em larga escala contra mulheres na cidade de Colônia – imputados, em primeira linha, a jovens migrantes do norte da África – despertaram temor em relação à imigração descontrolada. Desde então, a popularidade de Merkel está despencando: segundo uma pesquisa de opinião recente, 40% dos alemães prefeririam que ela renunciasse. Mas Lindemann nada contra a corrente. “Com o ‘vamos conseguir’ dela, pela primeira vez eu senti algo assim como respeito e reconhecimento pela chanceler federal. Porque, sem pestanejar, ela arriscou a própria carreira política para não deixar aquelas pessoas morrerem diante das nossas fronteiras; e porque ela assumiu o enorme desafio, em vez de jogar seu usual ‘jogo de teflon’ da espera passiva.” O médico postou o texto em [uma rede social] [...] na quinta-feira. Até a manhã desta segunda-feira (01/02), ele já fora partilhado mais de 275 mil vezes, acompanhado por comentários basicamente positivos, enfatizando a importância de preservar a crença de que a Alemanha continua no caminho certo na questão dos refugiados. O relato de Lindemann se encerra com um apelo veemente à solidariedade – e um eco do slogan da chanceler democrata-cristã: “Tem gente sofrendo e morrendo. Agora. E nós podemos evitar isso. Vamos conseguir.” CORBETT, Deanne. “Nunca vi tanta miséria e desespero”. Carta Capital, 3 fev. 2016. ©Deutsche Welle. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/internacional/nunca-vi-tanta-miseria-e-desespero>. Acesso em: 4 fev. 2016.

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EXERCÍCIOS ENEM

1. Uma mesma empresa pode ter sua sede administrativa onde os impostos são menores, as unidades de produção onde os salários são os mais baixos, os capitais onde os juros são os mais altos e seus executivos vivendo onde a qualidade de vida é mais elevada. SEVCENKO, N. A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (adaptado).

No texto estão apresentadas estratégias empresariais no contexto da globalização. Uma consequência social derivada dessas estratégias tem sido a) o crescimento da carga tributária. b) o aumento da mobilidade ocupacional. c) a redução da competitividade entre as empresas. d) o direcionamento das vendas para os mercados regionais. e) a ampliação do poder de planejamento dos Estados nacionais. H17 Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de territorialização da produção. 2. Na democracia estadunidense, os cidadãos são incluídos na sociedade pelo exercício pleno dos direitos políticos e também pela ideia geral de direito de propriedade. Compete ao governo garantir que esse direito não seja violado. Como consequência, mesmo aqueles que possuem uma pequena propriedade sentem-se cidadãos de pleno direito. Na tradição política dos EUA, uma forma de incluir socialmente os cidadãos é a) submeter o indivíduo à proteção do governo. b) hierarquizar os indivíduos segundo suas posses. c) estimular a formação de propriedades comunais. d) vincular democracia e possibilidades econômicas individuais. e) defender a obrigação de que todos os indivíduos tenham propriedades. H7

Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.

3. Em 2006, foi realizada uma conferência das Nações Unidas em que se discutiu o problema do lixo eletrônico, também denominado e-waste. Nessa ocasião, destacou-se a necessidade de os países em desenvolvimento serem protegidos das doações nem sempre bem-intencionadas dos países mais ricos. Uma vez descartados ou doados, equipamentos eletrônicos chegam a países em desenvolvimento com o rótulo de “mercadorias recondicionadas”, mas acabam deteriorando-se em lixões, liberando chumbo, cádmio, mercúrio e outros materiais tóxicos. Internet: <g1.globo.com> (com adaptações).

A discussão dos problemas associados ao e-waste leva à conclusão de que a) os países que se encontram em processo de industrialização necessitam de matérias-primas recicladas oriundas dos países mais ricos. b) o objetivo dos países ricos, ao enviarem mercadorias recondicionadas para os países em desenvolvimento, é o de conquistar mercados consumidores para seus produtos. c) o avanço rápido do desenvolvimento tecnológico, que torna os produtos obsoletos em pouco tempo, é um fator que deve ser considerado em políticas ambientais. d) o excesso de mercadorias recondicionadas enviadas para os países em desenvolvimento é armazenado em lixões apropriados. e) as mercadorias recondicionadas oriundas de países ricos melhoram muito o padrão de vida da população dos países em desenvolvimento. H28 Relacionar o uso das tecnologias com os impactos socioambientais em diferentes contextos histórico-geográficos. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado anualmente, é pautado em um conjunto de competências e habilidades. A prova de Ciências Humanas e suas tecnologias, na qual se insere a Geografia, é baseada em um programa de 31 tópicos, circunscritos em cinco eixos do qual se extraem as competências e habilidades. Cada exercício do Enem contido nesta obra vem acompanhado da respectiva habilidade (H). Muitas vezes, um exercício circunscreve-se em mais de uma; nesse caso, indicamos a principal. O quadro completo das competências e habilidades encontra-se nas páginas 287 e 288.

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ESCREVA NO CADERNO

EXERCÍCIOS

4. Do ponto de vista geopolítico, a Guerra Fria dividiu a Europa em dois blocos. Essa divisão propiciou a formação de alianças antagônicas de caráter militar, como a Otan, que aglutinava os países do bloco ocidental, e o Pacto de Varsóvia, que concentrava os do bloco oriental. É importante destacar que, na formação da Otan, estão presentes, além dos países do oeste europeu, os EUA e o Canadá. Essa divisão histórica atingiu igualmente os âmbitos político e econômico que se refletiam pela opção entre os modelos capitalista e socialista. Essa divisão europeia ficou conhecida como a) Cortina de Ferro. b) Muro de Berlim. c) União Europeia. d) Convenção de Ramsar. e) Conferência de Estocolmo. H7

Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.

5. Um certo carro esporte é desenhado na Califórnia, financiado por Tóquio, o protótipo criado em Worthing (Inglaterra) e a montagem é feita nos EUA e México, com componentes eletrônicos inventados em Nova Jérsei (EUA), fabricados no Japão. [...]. Já a indústria de confecção norte-americana, quando inscreve em seus produtos “made in USA”, esquece de mencionar que eles foram produzidos no México, Caribe ou Filipinas. Renato Ortiz, Mundialização e Cultura

O texto ilustra como em certos países produz-se tanto um carro esporte caro e sofisticado, quanto roupas que nem sequer levam uma etiqueta identificando o país produtor. De fato, tais roupas costumam ser feitas em fábricas – chamadas “maquiladoras” – situadas em zonas francas, onde os trabalhadores nem sempre têm direitos trabalhistas garantidos. A produção nessas condições indicaria um processo de globalização que a) fortalece os Estados Nacionais e diminui as disparidades econômicas entre eles pela aproximação entre um centro rico e uma periferia pobre. b) garante a soberania dos Estados Nacionais por meio da identificação da origem de produção dos bens e mercadorias. c) fortalece igualmente os Estados Nacionais por meio da circulação de bens e capitais e do intercâmbio de tecnologia. d) compensa as disparidades econômicas pela socialização de novas tecnologias e pela circulação globalizada da mão de obra. e) reafirma as diferenças entre um centro rico e uma periferia pobre, tanto dentro como fora das fronteiras dos Estados Nacionais. H18 Analisar diferentes processos de produção ou circulação de riquezas e suas implicações socioespaciais. Texto para a próxima questão: Você está fazendo uma pesquisa sobre a globalização e lê a seguinte passagem, em um livro: A sociedade global As pessoas se alimentam, se vestem, moram, se comunicam, se divertem, por meio de bens e serviços mundiais, utilizando mercadorias produzidas pelo capitalismo mundial, globalizado. Suponhamos que você vá com seus amigos comer Big Mac e tomar Coca-Cola no McDonald’s. Em seguida, assiste a um filme de Steven Spielberg e volta para casa num ônibus de marca Mercedes. Ao chegar em casa, liga seu aparelho de TV Philips para ver o videoclipe de Michael Jackson e, em seguida, deve ouvir um CD do grupo Simply Red, gravado pela BMG Ariola Discos em seu equipamento AIWA. Veja quantas empresas transnacionais estiveram presentes nesse seu curto programa de algumas horas. Adap. Praxedes et alli, 1997. O Mercosul. São Paulo: Ática, 1997.

6. A leitura do texto ajuda você a compreender que: I. a globalização é um processo ideal para garantir o acesso a bens e serviços para toda a população. II. a globalização é um fenômeno econômico e, ao mesmo tempo, cultural. III. a globalização favorece a manutenção da diversidade de costumes. IV. filmes, programas de TV e música são mercadorias como quaisquer outras. V. as sedes das empresas transnacionais mencionadas são os EUA, Europa Ocidental e Japão. Destas afirmativas estão corretas:

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a) I, II e IV, apenas. b) II, IV e V, apenas. c) II, III e IV, apenas. d) I, III e IV, apenas. e) III, IV e V, apenas. H17 Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de territorialização da produção. 7. Os 45 anos que vão do lançamento das bombas atômicas até o fim da União Soviética não foram um período homogêneo único na história do mundo. [...] dividem-se em duas metades, tendo como divisor de águas o início da década de 70. Apesar disso, a história deste período foi reunida sob um padrão único pela situação internacional peculiar que o dominou até a queda da URSS. (HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos. São Paulo: Cia das Letras, 1996).

O período citado no texto e conhecido por “Guerra Fria” pode ser definido como aquele momento histórico em que houve a) corrida armamentista entre as potências imperialistas europeias ocasionando a Primeira Guerra Mundial. b) domínio dos países socialistas do sul do globo pelos países capitalistas do Norte. c) choque ideológico entre a Alemanha Nazista/União Soviética Stalinista, durante os anos 30. d) disputa pela supremacia da economia mundial entre o Ocidente e as potências orientais, como a China e Japão. e) constante confronto das duas superpotências que emergiam da Segunda Guerra Mundial. H7

Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.

8. Projetado na Itália e montado em Indiana, México e França, usando os mais avançados componentes eletrônicos, que foram inventados em Nova Jérsei e fabricados na Coreia. A campanha publicitária é desenvolvida na Inglaterra, filmada no Canadá, a edição e as cópias, feitas em Nova York para serem veiculadas no mundo todo. Teias globais disfarçam-se com o uniforme nacional que lhes for mais conveniente. REICH, R. O trabalho das nações: preparando-nos para o capitalismo no século XXI. São Paulo: Educator, 1994 (adaptado).

A viabilidade do processo de produção ilustrado pelo texto pressupõe o uso de a) linhas de montagem e formação de estoques. b) empresas burocráticas e mão de obra barata. c) controle estatal e infraestrutura consolidada. d) organização em rede e tecnologia de informação. e) gestão centralizada e protecionismo econômico. H17 Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de territorialização da produção. 9. Até o fim de 2007, quase 2 milhões de pessoas perderam suas casas e outros 4 milhões corriam risco de ser despejadas. Os valores das casas despencaram em quase todos os EUA e muitas famílias acabaram devendo mais por suas casas do que o próprio valor do imóvel. Isso desencadeou uma espiral de execuções hipotecárias que diminuiu ainda mais os valores das casas. Em Cleveland, foi como se um “Katrina financeiro” atingisse a cidade. Casas abandonadas, com tábuas em janelas e portas, dominaram a paisagem nos bairros pobres, principalmente negros. Na Califórnia, também se enfileiraram casas abandonadas. HARVEY, D. O enigma do capital. São Paulo: Boitempo, 2011.

Inicialmente restrita, a crise descrita no texto atingiu proporções globais, devido ao(à) a) superprodução de bens de consumo. b) colapso industrial de países asiáticos. c) interdependência do sistema econômico. d) isolamento político dos países desenvolvidos. e) austeridade fiscal dos países em desenvolvimento. H18 Analisar diferentes processos de produção ou circulação de riquezas e suas implicações socioespaciais.

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ESCREVA NO CADERNO

EXERCÍCIOS

10. No final do século XX e em razão dos avanços da ciência, produziu-se um sistema presidido pelas técnicas da informação, que passaram a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando ao novo sistema uma presença planetária. Um mercado que utiliza esse sistema de técnicas avançadas resulta nessa globalização perversa. SANTOS, M. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2008 (adaptado).

Uma consequência para o setor produtivo e outra para o mundo do trabalho advindas das transformações citadas no texto estão presentes, respectivamente, em: a) Eliminação das vantagens locacionais e ampliação da legislação laboral. b) Limitação dos fluxos logísticos e fortalecimento de associações sindicais. c) Diminuição dos investimentos industriais e desvalorização dos postos qualificados. d) Concentração das áreas manufatureiras e redução da jornada semanal. e) Automatização dos processos fabris e aumento dos níveis de desemprego. H16 Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social. 11. O jovem espanhol Daniel se sente perdido. Seu diploma de desenhista industrial e seu alto conhecimento de inglês devem ajudá-lo a tomar um rumo. Mas a taxa de desemprego, que supera 52% entre os que têm menos de 25 anos, o desnorteia. Ele está convencido de que seu futuro profissional não está na Espanha, como o de, pelo menos, 120 mil conterrâneos que emigraram nos últimos dois anos. O irmão dele, que é engenheiro-agrônomo, conseguiu emprego no Chile. Atualmente, Daniel participa de uma “oficina de procura de emprego” em países como Brasil, Alemanha e China. A oficina é oferecida por uma universidade espanhola. GUILAYN, P. Na Espanha, universidade ensina a emigrar. O Globo, 17 fev. 2013 (adaptado).

A situação ilustra uma crise econômica que implica a) valorização do trabalho fabril. b) expansão dos recursos tecnológicos. c) exportação de mão de obra qualificada. d) diversificação dos mercados produtivos. e) intensificação dos intercâmbios estudantis H16 Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social. 12. Em 1961, o presidente De Gaulle apelou com êxito aos recrutas franceses contra o golpe militar dos seus comandados, porque os soldados podiam ouvi-lo em rádios portáteis. Na década de 1970, os discursos do aiatolá Khomeini, líder exilado da futura Revolução Iraniana eram gravadas em fitas magnéticas e prontamente levados para o Irã, copiados e difundidos. HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Cia. das Letras, 1995.

Os exemplos mencionados no texto evidenciam um uso dos meios de comunicação identificado na a) manipulação da vontade popular. b) promoção da mobilização política. c) insubordinação das tropas militares. d) implantação de governos autoritários. e) valorização dos socialmente desfavorecidos H16 Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social.

VESTIBULARES 13. (Fuvest-SP) Logo após a entrada de milhares de imigrantes norte-africanos na Itália, em abril deste ano, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, fizeram as seguintes declarações a respeito de um consenso entre países da União Europeia (UE) e associados. Queremos mantê-lo vivo, mas para isso é preciso reformá-lo. Nicolas Sarkozy.

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Não queremos colocá-lo em causa, mas em situações excepcionais acreditamos que é preciso fazer alterações, sobre as quais decidimos trabalhar em conjunto. Silvio Berlusconi.<http://pt.euronews.net>. Acesso em: julho/2011. Adaptado.

Sarkozy e Berlusconi encaminharam pedido à UE, solicitando a revisão do a) Tratado de Maastricht, o qual concede anistia aos imigrantes ilegais radicados em países europeus há mais de 5 anos. b) Acordo de Schengen, segundo o qual Itália e França devem formular políticas sociais de natureza bilateral. c) Tratado de Maastricht, que implementou a União Econômica Monetária e a moeda única em todos os países da UE. d) Tratado de Roma, que criou a Comunidade Econômica Europeia (CEE) e suprimiu os controles alfandegários nas fronteiras internas. e) Acordo de Schengen, pelo qual se assegura a livre circulação de pessoas pelos países signatários desse acordo. 14. (PUCCamp-SP) A ideia de dona do mundo sempre esteve latente na política externa dos Estados Unidos da América, desde o processo de consolidação de sua independência. Ao longo dos séculos XIX e XX, os governos dos Estados Unidos exerceram intervenções econômicas e político-militares em vários países da América Latina. Os fundamentos teóricos utilizados como justificativas para essas intervenções estavam delineados, entre outros, a) na Emenda Platt, no Corolário Polk e no Plano Ayala. b) na Doutrina Truman, na Emenda Platt e na Doutrina Sandinista. c) no Destino Manifesto, no Corolário Roosevelt e no Bolivarismo. d) na Doutrina Monroe e no Corolário Roosevelt. e) no Plano Ayala, na Doutrina Monroe e no Bolivarismo. 15. (PUC-SP) “A revolução militar é movida pelos EUA fundindo: planejadores do Pentágono, o complexo industrial-militar americano e a tecnologia do Vale do Silício. Os EUA são responsáveis por 40 a 45% dos gastos militares de 189 países do mundo”. KENNEDY, Paul. Poderio bélico dos EUA não garante segurança. Folha de S.Paulo, 12 de setembro de 2002.

Considerando-se essa informação é INCORRETO afirmar que a) as guerras são inerentes à política internacional dos estados modernos; a força militar é argumento decisivo em última instância. b) o uso da força militar organizada como meio de defesa do território e da sociedade é um dado da soberania nacional no mundo moderno. c) os EUA usam seu poderio militar como meio de persuasão na política internacional, alegando a defesa de sua nação e dos valores da liberdade. d) a força militar, embora represente um meio não político de se fazer política internacional, sempre foi utilizada pelas potências, após decisão política na ONU. e) as atuais ações dos EUA em relação ao Iraque são uma demonstração nítida do uso da força militar como meio presente e aceito de se fazer política internacional. 16. (Fuvest-SP) “... a morte da URSS foi a maior catástrofe geopolítica do século. No que se refere aos russos, ela se tornou uma verdadeira tragédia”. Vladimir Putin, presidente da Rússia, abril de 2005

“Para mim, o maior evento do século XX foi o colapso da URSS, que completou o processo de emancipação das nações”

Adam Rotfeld, chanceler da Polônia, abril de 2005

As duas declarações a) coincidem, a partir de pontos de vistas opostos, sobre a importância do desaparecimento da União Soviética. b) revelam que a Polônia, ao contrário da Rússia e dos demais ex-países do Pacto de Varsóvia, beneficiou-se com o fim da União Soviética. c) mostram ainda ser cedo para afirmar que o desaparecimento da União Soviética não foi historicamente importante. d) consideram que o fim da União Soviética, embora tenha sido uma tragédia, beneficiou russos e poloneses. e) indicam já ser possível afirmar, em caráter definitivo, que o fim da União Soviética foi o acontecimento mais importante da história.

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EXERCÍCIOS

ESCREVA NO CADERNO

17. (Fuvest-SP) Jean Galvão/Folhapress

Tendo em vista o que a charge pretende expressar e a data de sua publicação, dentre as legendas propostas abaixo, a mais adequada para essa charge é: a) Suspensão do embargo econômico a Cuba por parte dos EUA. b) Devolução aos cubanos da área ocupada pelos EUA em Guantánamo. c) Fim do embargo das exportações petrolíferas cubanas. d) Retomada das relações diplomáticas entre os EUA e Cuba. e) Transferência de todos os presos políticos de Guantánamo, para prisões norte-americanas. Folha de S.Paulo, 19 dez. 2014.

18. (Fuvest-SP) O local e o global determinam-se reciprocamente, umas vezes de modo congruente e consequente, outras de modo desigual e desencontrado. Mesclam-se e tencionam-se singularidades, particularidades e universalidades. Conforme Anthony Giddens, “A globalização pode assim ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa. Este é um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem se deslocar numa direção inversa às relações muito distanciadas que os modelam. A transformação local é, assim, uma parte da globalização”. Octávio Ianni, Estudos Avançados. USP. São Paulo, 1994. Adaptado.

Neste texto, escrito no final do século XX, o autor refere-se a um processo que persiste no século atual. A partir desse texto, pode-se inferir que esse processo leva à a) padronização da vida cotidiana. b) melhor distribuição de renda no planeta. c) intensificação do convívio e das relações afetivas presenciais. d) maior troca de saberes entre gerações. e) retração do ambientalismo como reação à sociedade de consumo. Leia o excerto para responder às questões de números 19 e 20. O comércio internacional tem sido marcado por uma proliferação sem precedentes de acordos preferenciais de comércio regionais, sub-regionais, inter-regionais e, em especial, bilaterais (denominados Acordos Preferenciais de Comércio – APC). Atualmente, são poucos os países que ainda não fazem parte desses acordos. Com o impasse nas negociações da Rodada Doha da OMC, a alternativa das principais economias do mundo, como Estados Unidos, União Europeia e China, foi buscar a celebração de APC como forma de consolidar e ter acesso a novos mercados. O receio de boa parte dos países desenvolvidos, de economias em transição e em desenvolvimento de perderem espaço em suas exportações levou-os a aderir maciçamente aos APC. Umberto Celli Junior e Belisa E. Eleoterio. O Brasil, o Mercosul e os acordos preferenciais de comércio. In: Enrique Iglesias et al. (Orgs.). Os desafios da América Latina no século XXI, 2015.

19. (Vunesp-SP) É correto afirmar que a Rodada Doha, iniciada pela Organização Mundial do Comércio em 2001, constitui a) um encontro multipolar que procura orientar o modo de produção e as questões relativas à organização, distribuição e consumo nos países centrais e periféricos. b) uma reunião eletiva que busca regularizar os fluxos comerciais entre blocos econômicos e o seu período de duração. c) um conjunto normativo que procura regularizar a exportação de produtos desenvolvidos pelas economias periféricas sem o pagamento de royalties. d) uma cartilha de diretrizes que busca padronizar os custos de produção e os preços finais de produtos agrícolas básicos. e) um fórum internacional que objetiva solucionar impasses em questões tarifárias, sobre patentes e ações protecionistas entre países desenvolvidos e em desenvolvimento 20. (Vunesp-SP) Considerando o contexto dinâmico apresentado pelo excerto, compreende-se a proliferação dos acordos preferenciais de comércio como resultado

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a) dos pactos internacionais de mútuo desenvolvimento econômico, o que leva a investimentos na qualificação da mão de obra em países periféricos. b) do endividamento interno dos países subdesenvolvidos, o que provoca forte pressão internacional pela comercialização de seus produtos primários. c) da crise de superprodução dos antigos centros industriais, o que demanda rápidos acordos para evitar fechamentos de empresas e demissões em massa. d) do enfraquecimento dos antigos blocos econômicos, o que provoca divergências políticas e econômicas em setores produtivos estratégicos de cada país. e) da globalização da economia, o que alimenta uma crescente integração e uma relativa uniformização das condições de existência das sociedades. 21. (Vunesp-SP) O Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – vem negociando cuidadosamente o estabelecimento de mecanismos independentes de financiamento e estabilização, como o Arranjo Contingente de Reservas (Contingent Reserve Arrangement – CRA) e o Novo Banco de Desenvolvimento (New Development Bank – NDB). O primeiro será um fundo de estabilização entre os cinco países; o segundo, um banco para financiamento de projetos de investimento no BRICS e outros países em desenvolvimento. www.cartamaior.com.br. Adaptado.

O Arranjo Contingente de Reservas e o Novo Banco de Desenvolvimento procuram suprir a escassez de recursos nas economias emergentes. Tais iniciativas constituem uma alternativa a) às instituições de crédito privadas, encerrando a sujeição econômica dos países emergentes e evitando a assinatura de termos regulatórios coercitivos sobre as práticas de produção. b) aos bancos centrais dos países do BRICS, reduzindo os problemas econômicos de curto prazo e maximizando o poder de negociação do grupo. c) às instituições criadas na Conferência de Bretton Woods, definindo novos mecanismos de autodefesa e estimulando o crescimento econômico. d) ao norte-americano Plano Marshall, elegendo com autonomia o destino da ajuda econômica e os investimentos públicos em áreas estratégicas. e) à hegemonia do Banco Mundial, deslocando o centro do sistema capitalista e os fluxos de informação para os países em desenvolvimento. 22. (UFMG) Leia este trecho:

Eurocopa & eurocrises

Sempre gostei da Eurocopa. O futebol é um pormenor. As minhas razões são políticas. Gosto da Eurocopa porque ela é a expressão tangível (e bem ruidosa) da diversidade nacional europeia que nenhuma construção federal será capaz de suprimir. Dias atrás, a chanceler Angela Merkel [alemã] declarou em entrevista: a solução para os problemas do euro passa por mais “integração” dos países da zona do euro. [...] Angela Merkel, claro, não lê a imprensa portuguesa. Se lesse, veria o que escreveram a respeito do jogo Alemanha x Portugal (que os portugueses, injustamente, perderam por 1 a 0). A retórica antigermânica era violenta, o que se entende; o país está sob resgate financeiro internacional, com a bênção punitiva da Alemanha. Mas as rivalidades que a Eurocopa oferece não são apenas explicadas por crises econômicas momentâneas. Existem também memórias históricas que persistem em retornar à superfície. Jogos como Polônia x Rússia ou França x Inglaterra são evocações fantasmagóricas de lutas seculares que deixaram sua pegada arqueológica. Quando essas equipes se voltarem a enfrentar na Eurocopa, não será apenas de futebol que a mídia irá falar. [...] Na Europa, não existe um único país; nem sequer, como pretendem os federalistas, diferentes “regiões” que podem fazer parte de um super Estado com capital em Bruxelas. O que existe são nações múltiplas que, na hora do confronto desportivo, regressam a um sentimento primordial de pertença: a uma língua, uma cultura, uma identidade. Coutinho, João Pereira. In: Folha de S.Paulo. p. E6. Ilustrada. 12 de junho de 2012. (Adaptado).

A partir da análise e interpretação desse trecho, FAÇA o que se pede: a) O jornalista português João Pereira Coutinho estabelece uma relação entre o comportamento das torcidas, a história e a situação econômica europeia atual. APRESENTE dois argumentos que comprovam a relação estabelecida pelo autor. b) Pode-se perceber pela leitura do trecho que o jornalista tem uma posição com relação à integração europeia. EXPLIQUE qual é essa posição, justificando-a.

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ESCREVA NO CADERNO

EXERCÍCIOS

23. (UEG-GO) Uma das faces da globalização é a criação de mercados comuns entre grupos de nações chamados de megablocos ou blocos regionais; é uma forma de regionalização dentro do espaço mundial e, ao mesmo tempo, uma forma de aumentar as relações em escala global, pois os países participantes de um bloco têm acesso a vários mercados consumidores, dentro e fora de seu bloco. Sobre alguns dos blocos da América, responda: a) Cite os países que compõem o NAFTA e explique quais são os reflexos dessa organização para o país representante da América Latina. b) A criação da ALCA sofreu várias críticas em função dos prejuízos que pode representar para o Mercosul. Explique. 24. (Fuvest-SP) Se não conseguirmos uma distribuição justa dos refugiados, muitos vão questionar Schengen e isso é algo que não queremos. [Declaração da chanceler alemã, Angela Merkel.] O Estado de S. Paulo, 1º set. 2015.

A Europa vive uma das mais graves crises migratórias de sua história recente. Segundo a Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), são esperados ao menos 1,4 milhão de refugiados entre 2015 e 2016. O Estado de S. Paulo, 19 out. 2015.

Considerando o contexto da União Europeia (UE), as informações acima e as respectivas datas de publicação, responda: a) O que é o Espaço Schengen? b) O que é a Zona do Euro? Cite um país da UE que não faz parte dessa zona. c) Explique qual foi o posicionamento da UE e o papel da Alemanha frente à intensificação desse fluxo migratório.

Capital do país Capital de estado Cidade

100º O

Seattle

Minneapolis

OCEANO PACÍFICO

50º N

Alasca

São Francisco

160º O

ILHAS HAVAÍ Juneau 0

2 400

Buffalo Detroit Cleveland Boston Chicago Nova York Pittsburgh Filadélfia St. Louis WASHINGTON, DC

Denver

Birmingham Atlanta Dallas Houston Nova Orleans

Los Angeles

160º O

60º N

Grandes Lagos

Duluth

Portland

Allmaps

25. (Fuvest-SP) Observe o mapa.

Honolulu

OCEANO ATLÂNTICO

20º N

0

2 400

0

580

Miami

Atlas geográfico escolar. IBGE, 2012.

Com base no mapa e em seus conhecimentos sobre os EUA, a) aponte duas razões da importância geopolítica desse país, na atualidade, considerando sua localização e dimensão territorial; b) explique a importância econômica, para esse país, da região circundada no mapa, considerando os recursos naturais e os aspectos humanos. 0° Círculo Polar Ártico

OCEANO ATLÂNTICO

Trópico de Câncer

Equador

OCEANO PACÍFICO

OCEANO PACÍFICO

Trópico de Capricórnio

Número de zonas francas 319 57

30

15 5 1

Meridiano de Greenwich

a) Apresente dois fatores explicativos para a difusão das zonas francas no mundo contemporâneo. b) Mencione a principal Zona Franca existente no Brasil e aponte uma intenção do Estado brasileiro ao implantá-la como instrumento de uma política territorial.

Allmaps

26. (Unicamp-SP)

OCEANO ÍNDICO

Círculo Polar Antártico 0

3 165

François Bost (Org.). Atlas Mondial des Zones Franches. France: La Documentation Française, 2010. p. 23.

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-

Unidade

II

Conjuntura internacional: outros espaços de poder Questão inicial

ESCREVA NO CADERNO

“[...] as hegemonias regionais são extremamente raras. Com exceção da China, no extremo oriente, na maioria das vezes elas não foram muito duradouras.” HOBSBAWM, Eric. O novo século. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.

Aluísio C. Santos

• Quais países podem ser considerados potências mundiais nos dias de hoje? E potências regionais?

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CAPÍTULO 6

China: nova potência

XINJIANG

Junrong/Shutterstock.com

Para termos uma visão geral da China, podemos dividir o país em cinco grandes regiões: Xinjiang, Mongólia Interior, Tibet, Manchúria e China oriental. Marica van der Meer/Arterra Picture Library/ Alamy/Latinstock

O QUADRO REGIONAL DA CHINA

MONGÓLIA INTERIOR Essa região coincide com um imenso deserto, o de Gobi, e possui um clima inóspito. No entanto, abriga as nascentes do rio Hoang-Ho, um dos mais importantes da China. A minoria mongol habitante dessa região defende a sua anexação à Mongólia.

Tenda tradicional utilizada por pastores nômades mongóis. Fotografia em Wulanbutong, Mongólia Interior, 2014.

Rua comercial na cidade de Kashi, Xinjiang, 2013.

Situada em um extenso planalto semiárido, é uma região rica em petróleo e abriga parte da indústria bélica chinesa. Sua população é composta em grande parte da etnia uigur. O povo uigur segue o islamismo, possui forte identidade com os países vizinhos da Ásia Central e reivindica a independência. No entanto, o movimento separatista uigur é reprimido energeticamente por Pequim.

MANCHÚRIA

XINJIANG

TIBET

MONGÓLIA INTERIOR

CHINA ORIENTAL

Blaine Harrington III/Corbis/Latinstock

TIBET Região montanhosa habitada por população majoritariamente tibetana que reivindica a separação da China, em um movimento organizado e difundido por todo o país. O Tibet foi ocupado pela China em 1951 e, deste então, ocorre a migração de chineses para essa região, com o propósito de tornar os tibetanos minoria em sua própria terra natal. A construção da ferrovia ligando o Tibet à província de Qinghai representa a grande intervenção chinesa no Tibet contemporâneo. Praça Barkhor, Tibet, 2013.

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Nota: O mapa não está em conformidade com as convenções cartográficas.

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Imaginechina/Corbis/Latinstock

Linha de montagem de relógios em Shenzhen, China Oriental, 2015.

Siderúrgica em Dalian, Manchúria, 2014.

STR/AFP/Getty Images

Tópicos do capítulo Revolução Chinesa O período Mao Tsé-Tung As reformas econômicas Geografia física e humana da China

MANCHÚRIA

China Daily/Reuters/Latinstock

Região rica em minério de ferro, manganês e carvão. Foi pioneira no processo de industrialização após a Revolução Chinesa, em 1949, tornando-se a principal área siderúrgica do país.

Ponto de partida

ESCREVA NO CADERNO

• A China é um país de proporções continentais que abriga grande diversidade cultural, ambiental e econômica. Identifique as principais características de cada região chinesa.

CHINA ORIENTAL A mais populosa de todas as regiões; é onde se concentram as grandes cidades chinesas. Nas colinas e planícies dessa região da China encontra-se o maior cinturão agrícola do mundo. No extremo sudeste foram implementadas as primeiras Zonas Econômicas Especiais, no final dos anos 1970, que resultaram em grande desenvolvimento econômico.

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

Campo de plantio de arroz em Daxiang, China Oriental, 2015.

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1. A construção política da China Katie Garrod/JAI/Corbis/Latinstock

Digital Globe/Getty Images

A Grande Muralha da China é uma das obras mais espetaculares da humanidade. Ela foi construída durante o Império Quin, no século II a.C., para evitar as invasões dos grupos nômades mongóis. Na fotografia à esquerda, trecho da muralha na região de Pequim, 2014; à direita, parte da muralha fotografada por um satélite, 2011.

Navegar Rádio Internacional da China <http://tub.im/25nhc9> Portal em português da Rádio Internacional da China (CRI), emissora estatal chinesa que transmite sua programação em diversos idiomas. A missão dessa rádio é apresentar a China ao mundo.

Há aproximadamente 30 anos, as previsões indicavam que, se mantido o ritmo em que se encontrava, a China seria a grande potência econômica do século XXI. Atualmente, o país é a segunda maior economia mundial e, se as novas projeções forem comprovadas, o gigante asiático deverá assumir a dianteira em 2025, ou mesmo um pouco antes. Sua performance dos últimos anos não deixa dúvidas: nenhum país cresceu tanto, mesmo em tempos de crise. Para melhor entender o caminho percorrido pelo "dragão asiático", faz-se necessário focar em três momentos decisivos que perpassaram pelo país no século XX: o jugo colonial, a Revolução Chinesa e as reformas econômicas de 1978.

1.1 O jugo colonial e a Revolução Chinesa O Reino Unido e o Japão subjugaram a China entre o final do século XIX e início do XX. Os japoneses iniciaram sua investida imperialista no Oriente e ocuparam parte da China em 1895. Já os britânicos, desde a primeira Guerra do Ópio (1839-1842), declararam guerra aos chineses por impedirem o negócio da droga comercializada por eles. O resultado foi a vitória britânica que, entre outras reparações de guerra impostas à China, se apropriaram de Hong Kong por meio do Tratado de Nanquim, de 1842. Contra a dominação estrangeira explodiu, entre 1899 e 1901, forte levante popular: a Revolução dos Boxers. O movimento foi reprimido com êxito por britânicos e japoneses, que em nada julgavam útil aos seus interesses a rebelião camponesa. Uma outra resistência chinesa surgiria em 1900, quando nacionalistas fundaram o Kuomitang (Partido Nacionalista), liderado pelo médico Sun Yat-Sen. O partido combatia não somente a cambaleante dinastia imperial, mas também a presença estrangeira, criando uma república, em 1912, regime que não foi reconhecido pelas forças de ocupação britânica e japonesa. Pouco mais tarde, uma nova frente de resistência surgiria: em 1921, foi fundado o Partido Comunista Chinês, o PCCh. Ascendia entre as fileiras comunistas a imagem do líder, Mao Tsé-Tung.

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Conversando com a... História!

Keystone/Getty Images

Além da dominação estrangeira, a China experimentava um momento de instabilidade interna, caracterizada pelas relações incertas entre nacionalistas e comunistas, ora aliados contra o invasor, ora em confronto entre si. Nesse primeiro momento da ambígua resistência chinesa, os nacionalistas organizaram-se e, liderados por Chiang Kay-Shek, priorizaram a perseguição aos comunistas, cujo crescimento entre os camponeses incomodava o Kuomitang. Em 1934, fugindo dessa perseguição, Mao Tsé-Tung e seus seguidores marcharam pelo interior do país, ao norte, percorrendo nove mil quilômetros, em uma das mais conhecidas táticas de guerrilha de todos os tempos, nomeada como a Longa Marcha, também conhecida como a Grande Marcha. ESCREVA NO CADERNO

Veja um trecho do discurso de Mao Tsé-Tung logo após a vitoriosa empreitada de sua marcha: A Longa Marcha é a primeira deste tipo nos anais da história. Ela é um manifesto, uma força de propaganda, uma semeadeira. Ela proclamou ao mundo que o Exército Vermelho [o exército comunista da China, ainda em formação] é um exército de heróis, enquanto os imperialistas e seus vassalos, Chiang Kay-Shek e os de sua laia, são impotentes. MAO, Tsé-Tung. In: SPENCE, Jonathan D. Em busca da China moderna. São Paulo: Companhia. das Letras, 2000. p. 394-395.

Pouco antes, aqui no Brasil, em 1925, acontecia um evento similar ao que Mao iria empreender na China: a Coluna Prestes. Muitos historiadores fazem um paralelo entre esses dois eventos históricos, similares nos objetivos, mas em países tão distantes. As marchas chamam atenção pelo longo trecho percorrido em dois países continentais.

Mao Tsé-Tung (à frente) e Zhou Enlai, líderes do Partido Comunista Chinês, durante a Longa Marcha em 1935.

1. Procure saber o que foi a Coluna Prestes e veja se é, ou não, pertinente a comparação entre os eventos, resumindo suas conclusões em um pequeno texto. 2. Tanto Mao como Luiz Carlos Prestes e Miguel Costa, os líderes da Coluna Prestes, empreenderam uma estratégia territorial infiltrando-se por áreas de domínios naturais de difícil acesso. Analise o aspecto geopolítico da opção estratégica desses líderes por áreas com essas características. Há, nos dias de hoje, atuações similares no mundo?

A invasão japonesa na Manchúria, região rica em minérios localizada no norte da China, seguida da eclosão da Segunda Guerra Mundial, suspendeu os embates entre nacionalistas e comunistas que, em 1937, selaram uma aliança para combater o invasor, pois, apesar das divergências, eles tinham um agressivo inimigo comum. Enquanto combatiam os japoneses, os comunistas chineses aumentaram consideravelmente seu efetivo militar e territorial, promovendo reformas agrárias nas terras conquistadas e, assim, ganhando cada vez mais o apoio da população, majoritariamente rural. As hostilidades entre comunistas e nacionalistas estavam suspensas, mas Chiang Kay-Shek dava mostras de incomodar-se mais com o avanço das tropas de Mao Tsé-Tung e seus companheiros do que com o dos japoneses. Os camponeses, por sua vez, assumiam distintas posturas na guerra. Enquanto Chiang Kay-Shek, conhecedor da inferioridade militar chinesa, não empreendia grandes esforços na resistência aos japoneses, conformando-se em manter algumas áreas longe do domínio nipônico, Mao e seus generais incitavam a população a resistir e a lutar com afinco. Outro fato que contribuiu para a desconfiança camponesa foi ver seus senhores, majoritariamente nacionalistas, selarem acordos com os japoneses, em uma clara colaboração com o invasor. A fama da corrupção nacionalista espalhava-se pela China. Em contrapartida, corriam rumores dos atos de heroísmo comunista, como a Longa Marcha e a forte resistência aos japoneses. Após o desfecho da Segunda Guerra Mundial, com a rendição japonesa e o enfraquecimento das forças britânicas de ocupação, a aliança conjuntural entre nacionalistas e comunistas se encerrou. Teve início uma guerra civil que perdurou de 1945 até 1949.

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China e Taiwan: localização

Filme de Bernardo Bertolucci. O último imperador. China/Inglaterra/França/Itália, 1987

O último imperador. Direção: Bernardo Bertolucci. China/Inglaterra/França/Itália, 1987. Com apenas 3 anos, Pu Ye é condecorado imperador de uma China totalmente subjugada e dominada pelas potências imperialistas. O filme narra os antecedentes da Revolução de 1949.

Os comunistas foram vitoriosos e, em 1o. de outubro de 1949, na Praça da Paz Celestial, Mao Tsé-Tung anunciou a fundação da República Popular da China, uma nação socialista de acordo com a acepção marxista; era o fim de quase 5 mil anos de império. Os nacionalistas, liderados por Chiang Kay-Shek, se deslocaram para a ilha de Taiwan, onde anunciaram a República Nacionalista da China, “Estado” não reconhecido até hoje. Veja a localização das duas repúblicas no mapa a seguir.

Allmaps

Ver

100° L

CHINA

Mar da China Oriental

Trópico d

0

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 47.

TAIWAN (FORMOSA)

OCEANO PACÍFICO

Apesar de a China continental não aceitar a "pseudorrepública", os comunistas priorizaram a organização do novo país. Ademais, para eles seria difícil, naquele momento, vencer os nacionalistas dentro da ilha, que estavam circunscritos a um anel de proteção pelo mar, tornando a logística militar para um ataque à “ilha rebelde” inviável. Essa contenda estende-se aos dias atuais.

Mondadori Portfolio via Getty Images

Revolução Chinesa: milhões de chineses atenderam ao chamado de Mao Tsé-Tung. Na fotografia, Mao e outros líderes desfilam para a multidão na Praça da Paz Celestial, Pequim, em 1950.

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e Câncer

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2. O período Mao Tsé-Tung Após séculos, havia agora na China um poder central e único de fato. Depois de uma rápida reestruturação dentro dos princípios socialistas, realizaram-se amplas reformas, que tinham como mote central a planificação e estatização da economia. A reforma agrária foi o evento central nas inovações, uma vez que a China era majoritariamente rural. Grandes propriedades foram confiscadas pelo Estado e redistribuídas entre os pequenos agricultores. Estimam-se em torno de 300 milhões o número dos camponeses contemplados com módicas áreas – a maior reforma agrária da história. Posteriormente, seriam instituídas cooperativas agrícolas, as comunas, aumentando a produção no campo. A estatização atingiu companhias, bancos, meios de comunicação e demais setores. Também na área de infraestrutura houve forte investimento em desenvolvimento: construção em larga escala de estradas de ferro, usinas hidrelétricas e diques. Na primeira etapa da gestão de Mao Tsé-Tung, foram criados 24 ministérios, com base em uma lista de temas prioritários: agricultura, educação, indústria de bens de produção, indústria leve etc. Assim iniciou-se a fase de planos quinquenais na China. A industrialização nesse país desenvolveu-se a partir da Revolução Chinesa, concentrando-se na Manchúria, onde já existia uma indústria embrionária. No plano político, a China estreitou laços com a União Soviética, apesar do incômodo que Mao causava a Stálin. Os soviéticos buscavam deixar claro quem estava na liderança mundial do socialismo, sendo exatamente essa postura que provocou os primeiros atritos entre os dois países. É bem verdade que, apesar de aliados circunstanciais, Mao e Stálin há décadas divergiam sobre a “revolução do proletariado”. Os dois líderes estavam mais interessados em defender as tradições históricas de seus países do que com as afinidades ideológicas. Mesmo contrariado, Stálin apoiou a causa chinesa, mais do que queria e menos que podia. Enviou técnicos e burocratas para subsidiar a reconstrução da China. Um Tratado de Aliança foi assinado em 1950 e a União Soviética estendeu à China um programa de financiamentos. A ingerência soviética na China incomodou Mao. O país dependia da assistência soviética para a industrialização, expansão das redes de comunicação e energia, mas não queria ver sua soberania ameaçada. Afinal, após anos de luta pela expulsão dos invasores imperialistas e dos próprios nacionalistas, os chineses não pretendiam submeter-se aos soviéticos. Nas reuniões socialistas internacionais, as divergências entre os dois países sobre os rumos do sistema político tornavam-se flagrantes. Outro ponto de discordância: Mao queria a todo custo obter sua bomba nuclear, intenção que a União Soviética refutava. Não tardou para que as hostilidades chegassem a um ponto insustentável. Em 1960, Moscou retirou mais de 1 300 técnicos e consultores soviéticos que prestavam serviço na China; 250 projetos foram cancelados, assim como centenas de contratos. Dois cientistas que cuidavam do projeto atômico chinês, e que tiveram de se retirar do país, antes do embarque recusaram-se a entregar os papéis da pesquisa.

Ler Em busca da China moderna, de Jonathan Spence. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. O historiador Jonathan Spence é uma das autoridades mundiais em China e nessa obra faz um resgate desde os primórdios da civilização chinesa até as reformas econômicas de 1978.

Planos quinquenais: Planos econômicos nos quais eram estabelecidas metas a serem atingidas em cinco anos. Típica conduta de economia planificada.

2.1 A Revolução Cultural Durante os desentendimentos com os soviéticos, Mao Tsé-Tung encaminhou um programa econômico que se revelou um fiasco: o Grande Salto para Frente. O projeto baseava-se em uma tentativa de industrialização forçada, com a instalação de fornos siderúrgicos em áreas rurais, em um híbrido de produção industrial-agrária. Como consequência, houve um grande retrocesso do avanço do primeiro plano quinquenal; contabilizaram-se milhões de mortes em virtude da queda da produção agrícola.

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Ver

Hsinhua/AP/Glow Images

Filme de Chan Kaige. Adeus, minha concubina. China, 1993

Adeus, minha concubina. Direção: Chan Kaige. China, 1993. Aborda os excessos da Revolução Cultural de 1966, mostrando o trabalho de artistas teatrais.

Nem todos os líderes do Partido Comunista Chinês (PCCh) aprovaram o desentendimento com Moscou. Muitos também estavam desapontados com os rumos tomados pela economia desde o fracasso do Grande Salto para Frente e da campanha anterior, das Cem Flores, uma iniciativa de Mao vista como tentativa de composição com as várias vertentes ideológicas do PCCh, mas que, na prática, levou a um confronto com os intelectuais do país, provocando forte convulsão social. Esses reveses, somados às manobras da ala opositora do PCCh, levaram ao afastamento parcial de Mao do poder: ele perdeu a presidência da república, mas manteve-se como secretário-geral do PCCh. Mao não aceitou esse afastamento e tratou de reagir. Como estratégia política, soube canalizar, para benefício próprio, a insatisfação popular que pairava sobre a China no que tangia à condução do país, particularmente dos estudantes, desejosos de maior participação na vida política nacional. Nesse momento, a alta cúpula do PCCh dividia-se, genericamente, entre a linha dura e os revisionistas. Na atmosfera esquerdista reinante na sociedade chinesa, os revisionistas foram acusados de “condescendentes aos valores burgueses” e, por isso, julgados como uma ameaça à revolução. Mao soube aproveitar o contexto em seu favor orquestrando uma campanha contra os revisionistas. O líder chinês iniciou a chamada Revolução Cultural, que a princípio se dizia em prol do proletariado e que propunha aprofundar os valores socialistas contra as tradições chinesas e os ideais burgueses. Formou o numeroso exército vermelho composto majoritariamente por jovens, entre eles milhões de estudantes secundaristas e universitários. Seus soldados invadiam casas à procura de pistas sobre atos e objetos considerados suspeitos e contrários ao socialismo. Instaurou-se um clima de muita tensão, com filhos entregando pais e professores aos soldados de Mao. Políticos e artistas foram perseguidos e diversas obras foram proibidas de serem exibidas no país. Milhares de livros foram queimados, prédios milenares foram destruídos. A revolta explodiu em 1966 e as massas populares se viraram contra os opositores de Mao. Frequentemente, a Revolução Cultural é interpretada como “radical”, em função da violência dos atos. Os adeptos do movimento pró-Mao e a denominada “guarda vermelha” – a vanguarda revolucionária maoísta – sagraram-se vitoriosos. O que se observou, então, foi um verdadeiro expurgo comunista, com a maioria dos adversários de Mao Tsé-Tung destituídos dos principais cargos da vida pública: alguns exilados, outros presos ou até executados. Tudo que fosse visto como ameaça ao sistema socialista chinês deveria ser eliminado, inclusive as pessoas. A ordem foi retomada no início de 1967 e, dali por diante, Mao governou a China com relativa tranquilidade por mais nove anos.

Os jovens constituíram a base da Revolução Cultural. Na fotografia, manifestação em apoio a Mao Tsé-Tung, Pequim, 1966.

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Bettmann/Corbis/Latinstock

Com a intenção de contrabalançar a hegemonia soviética no mundo socialista, a China reorientou suas relações com os Estados Unidos, buscando uma aproximação política e comercial. O auge desse movimento se deu em 1972, quando o presidente estadunidense Richard Nixon visitou a China (veja a fotografia abaixo). Pouco antes, em 1971, o país havia conquistado a vaga de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, desbancando Taiwan, que lá estava desde 1949. Em 1979, Estados Unidos e China reataram relações diplomáticas, não sem antes a potência ocidental romper relações com Taiwan.

3. Deng Xiaoping e as reformas econômicas

O então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, com dirigentes chineses em Pequim, em 1972.

A morte de Mao Tsé-Tung, em 1976, desencadeou um processo de disputa no Partido Comunista Chinês entre os seguidores maoístas e os revisionistas, que se reorganizaram nos anos que antecederam a morte do líder chinês e gradativamente reocuparam importantes cargos públicos, ou seja, estavam fortalecidos. A disputa polarizou-se entre um grupo designado Bando dos Quatro, liderado pela viúva de Mao, Chiang Ching, versus Deng Xiaoping, líder revisionista. Deng Xiaoping, herói da Revolução de 1949 e antigo rival de Mao, perseguido na Revolução Cultural por ser considerado extremamente liberal, ou arquirrevisionista, capitalizou os dividendos políticos desse novo momento e emergiu como o grande vencedor da disputa interna do PCCh, enquanto os maoístas do Bando dos Quatro foram para a prisão. A China entraria em uma nova era e o sucessor de Mao recontaria a história chinesa por outros caminhos. Em 1978, Deng deu início a um amplo programa de reformas econômicas que revolucionaria o país. Eram reformas liberalizantes, basicamente concessões ao capitalismo, iniciativa jamais admitida durante o período Mao. Fora retomado o programa das quatro modernizações, concebido ainda nos idos dos anos 1950, enfatizando a agricultura, a indústria, a ciência e tecnologia e a defesa.

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A nova política econômica estabeleceu, por exemplo: • dissolução parcial das comunas agrícolas e uso privado da terra pelos camponeses; • diferenciação salarial entre os operários nas fábricas, com base no critério de produtividade; • criação da Bolsa de Valores de Pequim (Beijing); • inversão da prioridade industrial, uma vez que a ênfase a partir de então seria na indústria de bens de consumo, ao invés da de bens de produção (que, contudo, também continuou a crescer); • criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEE), que, em um primeiro momento, foram quatro, depois várias outras; • abertura controlada a investimentos estrangeiros em zonas determinadas; • priorização das exportações e busca de mercados externos.

Navegar Câmara Brasil-China <http://tub.im/5222nx> A Câmara Brasil-China é uma organização que promove o comércio entre os dois países e estimula a cooperação nos campos acadêmico e cultural.

China: Zonas Econômicas Especiais (ZEE) Allmaps

105° L

RÚSSIA CAZAQUISTÃO Harbin Changchun

MONGÓLIA

QUIRGUISTÃO

Shenyang Pequim Anshan (Beijing) Dalian Tianjin

Urumqi

ng -H o( Am a r elo)

Baotou

Ho

ÍNDIA

Taiyuan

a

Lanzhou

Jinan

Xi’an

Lianyungang

Trópi co de Câncer

Grandes eixos de comunicação (rodovias e ferrovias)

Chongqing

MIANMAR 0

420

Wenzhou Fuzhou

Xiamen

BANGLADESH Kunming

Tráfego marítimo (de 260 a 400 milhões de toneladas)

Shangai Pudong Ningbo

Wuhan

Changsha

Rio navegável e grande canal

Tráfego marítimo (de 150 a 230 milhões de toneladas)

-Kiang ( Tsé Azu gl)

BUTÃO

Zona Econômica Especial (ZEE) Área de difusão industrial

Ya n

Chengdu

NEPAL

Cidade aberta ao capital estrangeiro

COREIA DO NORTE

COREIA DO SUL Qingdao

Nanquim

Centro industrial

Fushun

VIETNÃ

LAOS TAILÂNDIA

Guangzhou (Cantão) Zhuhai Beihai

Shantou

TAIWAN

Shenzhen HONG KONG Zhanyang

Hainan

OCEANO PACÍFICO

FILIPINAS

Fonte: FERREIRA, Graça M. Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2010. p. 105.

Enquanto viveu, Mao Tsé-Tung pautou-se por “construir a igualdade, mesmo que sacrificando o desenvolvimento”. Deng Xiaoping inverteu a premissa, colocando em primeiro plano o desenvolvimento, mesmo que isso levasse ao comprometimento da igualdade. Essa é a China de hoje: mais forte, mais rica, mais desigual. • Qual a sua percepção sobre a reorientação ideológica encaminhada por Deng Xiaoping? Você entende que ela está correta ou concorda mais com a perspectiva de Mao Tsé-Tung?

ESCREVA NO CADERNO Wally McNamee/Corbis/Latinstock

Interagindo

Deng Xiaoping: “Não importa a cor do gato, importa que apanhe o rato”. Com essa frase, Deng dava demonstrações da reorientação ideológica que seguiria a China. Fotografia de 1979.

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Joint venture: Associação entre empresas por um certo período sem que nenhuma delas perca a autonomia jurídica.

Imaginechina via AP/Glow Images

No contexto de mudanças, a mais importante medida foi a reformulação das orientações econômicas no plano externo. A partir desse momento, a prioridade seria a abertura da economia chinesa, permitindo a entrada de empresas estrangeiras no mercado chinês. A China pretendia com isso modernizar seu defasado processo produtivo e ter acesso a novas tecnologias, por meio de uma associação entre o Estado e o capital externo. Para isso, não hesitou em realizar inúmeras joint ventures com empresas estrangeiras. Nesse sentido, foi decisiva a implementação das ZEE, pois era sobretudo ali que se dava esse processo. Inicialmente, elas se concentraram no Sudeste do país, mas depois subiram por toda a franja litorânea da China. A mais abundante e barata mão de obra do mundo foi, provavelmente, o forte atrativo aos capitais estrangeiros, somados, logicamente, a um mercado em expansão. Grandes empresas internacionais deslocaram para a China as fases produtivas a fim de utilizar a mão de obra, minimizar custos e maximizar lucros, de acordo com a acepção do capitalismo global. O país encerrava uma etapa, em que se priorizou o desenvolvimento interno, para iniciar nova fase de expansão externa, que vem até os dias atuais. Contudo, é bom frisar: essas mudanças chinesas não ocorreram de forma drástica, tudo foi feito em caráter gradual. Assim devem ser entendidas suas mudanças econômicas. O resultado dessas mudanças na primeira década pode ser resumido em uma palavra: crescimento. Foi isso o que se verificou no país. Diante dos ótimos resultados econômicos, em 1984, o 12o Congresso do Partido Comunista Chinês aprovou as acelerações das reformas, o que passaria a ser uma constante nas sucessivas reuniões do partido. E os resultados se repetiram: crescimento na década de 1990 e de 2000, quase sempre em torno da casa de dois dígitos. Desde 1978, a economia chinesa foi a que mais cresceu em todo o mundo, com uma média em torno de 9% ao ano até 2011. Daí em diante, embora o crescimento tenha se mantido alto em relação à média mundial, houve sucessivos decréscimos. O país cresceu 7,7% em 2012 e em 2013; 7,3% em 2014 e 6,9% em 2015. Em determinado momento, o governo chinês assumiu o novo modelo econômico como “socialismo de mercado”, eliminando a ideia anterior de compartilhamento da produção entre os que trabalhavam bem e os que trabalhavam mal. A ordem passou a ser o estímulo à produtividade. Em uma população de mais de um bilhão de habitantes, não é difícil entender o que isso significa: aumento de produção. No início do século atual, a China demonstrava sua força na produção mundial. Veja a tabela na página seguinte.

Os sinais de crescimento estiveram por todos os cantos da China nos últimos tempos: caem velhos edifícios, sobem novos. Tianjin, 2013.

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No processo de abertura que se iniciou no final dos anos 1970, os primeiros a investirem na China foram os “chineses do % da participação % da participação Produto Produto ultramar”, expressão traduzida do inglês mundial mundial overseas chinese, utilizada para designar Brinquedos 75 Micro-ondas 30 os chineses residentes em Hong Kong, Relógios 75 Televisores 30 Taiwan, Macau e Indonésia, que tinham se Calçados 55 Aço 27 tornado promissores empresários no exílio. Câmeras digitais 50 Geladeiras 20 A maior parte dos Investimentos Diretos Contêineres 50 Caminhões 19 Externos (IED) no país veio deles. Monitores 42 Têxteis 17 Durante o período de introdução da Celulares 35 Carros 14 nova economia, o Estado chinês foi remoÔnibus 33 Navios 13 delado, uma vez que na vigência do sociaFonte: EXAME. São Paulo: Abril, ed. 842, n. 9, maio 2005. lismo maoísta ele era absoluto. Contudo, em nenhum momento se cogitou seu enfraquecimento; ao contrário, o Estado foi o condutor do remodelamento da economia chinesa e segue forte na condição de ator central do país. Por exemplo, foi o Estado que patrocinou a nova agriNavegar cultura chinesa, adquirindo a maior parte da produção dos novos proprietários e Embaixada da República destinando-a à população urbana. Várias empresas públicas realizaram associaPopular da China no Brasil ções com empresas estrangeiras e se desenvolveram enormemente. Ressalta-se <http://tub.im/842j88> O portal da embaixada da China que as reformas econômicas não foram acompanhadas de reformas políticas. no Brasil traz as mais variadas O centralismo do Partido Comunista Chinês segue vigente e é imenso o informações sobre o país, com descompasso entre as mudanças econômicas e políticas. Essa é uma diferença destaque especial para as relações sino-brasileiras. capital entre o que aconteceu na China e o que se verificou na Rússia e nos países do Leste Europeu, onde as reformas políticas antecederam as econômicas; muitos atribuem a esse fator o colapso verificado naquela parte da Europa. As políticas internas do PCCh não agradam todos os chineses. Apesar da grande repressão, foram surgindo diferentes formas de protesto contra os rumos do governo, como obras de artistas e a ocupação de áreas públicas por parte da população que reivindicava transformações. Muitas dessas manifestações culminaram em verdadeiros massacres pelo uso das forças armadas. Em 1988 ficou mundialmente conhecido o ato de um homem que se colocou à frente de uma fileira de tanques de guerra, fazendo parar o comboio e arriscando sua própria vida. Abaixo, na seção “A Geografia na... arte!”, conheça mais um exemplo de protesto ao governo chinês. Produção chinesa (participação no montante mundial no começo do século XXI)

A Geografia na... arte!

ESCREVA NO CADERNO

• Analise a manifestação do artista e faça um paralelo entre a arte e a política, nas suas mais variadas dimensões. Compare a posição de Ai Weiwei com a de outros artistas em outros países e/ou em diversos momentos. Em relação à nossa realidade, houve em algum momento da história do Brasil a apropriação da cultura do país por regimes totalitários?

Crédito das imagens: Smithsonian’s Hirshhorn Museum/AP/Glow Images

O artista plástico chinês Ai Weiwei, opositor do regime comunista no país, foi preso em 2011 por criticar o governo. Seus trabalhos e seu ativismo social o levaram a ser considerado nos últimos anos um dos mais influentes artistas do mundo. Nessa sequência de fotografias, ele questiona a apropriação e a usurpação da arte chinesa por um governo totalitário: Ai Weiwei deixa cair um vaso, símbolo da cultura milenar chinesa.

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Peter Turnley/Corbis/Latinstock

Em 1989, os protestos na Praça da Paz Celestial, em Pequim, reivindicavam reformas também políticas, mas não lograram êxito.

Leia o texto abaixo, da seção “Enfoque”, sobre o mecanismo de escolha dos líderes políticos chineses. A seguir, no infográfico, veja os fatores que levaram a China a se tornar um país com uma produção gigantesca de bens de consumo.

Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

Por que o Partido Comunista Chinês desafia a democracia

HE, Qinglian. Por que o Partido Comunista Chinês desafia a democracia. Epoch Times, 17. nov. 2012. Disponível em: <https://www.epochtimes.com.br/por-que-partido-comunista-chines-desafia-democracia/#.Vq-qsbIrLIU>. Acesso em: 1º fev. 2016.

Ler Sobre a China, de Henry Kissinger. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. Livro escrito por diplomata estadunidense que atuou na reaproximação da China com os Estados Unidos trata das relações internacionais contemporâneas e analisa a presença da China na balança do poder mundial. Editora Objetiva

[Em 2011] Na cerimônia de abertura do 18º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCCh), o líder chinês Hu Jintao, que conclui seu mandato, declarou, “Nós não seguiremos o antigo caminho do passado, rígido e estreito, nem tomaremos o mau caminho de mudar nossa bandeira.”. A declaração decepcionou os que esperavam gestos em direção à reforma política e algumas mídias e pessoas voltaram os olhos esperançosos para o novo líder chinês Xi Jinping. No final de 1990, a China entrou num período, que ainda dura, em que pessoas de poder começaram a pilhar fortunas implacavelmente com pouco risco. O sistema atual na China garante o controle total do grupo de interesse do PCCh sobre todos os recursos do Estado em nome do (ou para o) povo. (Os recursos incluem a terra urbana e rural, florestas, rios, minas e outros recursos naturais, bem como os direitos de decisão sobre indústrias especiais.) O Estado, então, decide como alocar receitas desses recursos públicos. A porção que o Estado chinês usa do PIB cresceu de um quarto para um terço, mesmo com o aumento do PIB. Portanto, bens públicos se tornaram uma fonte de riqueza para uns poucos privilegiados e as pessoas próximas a eles. Nas últimas duas décadas, o crescimento da China veio principalmente da terra, mineração, serviços financeiros e do mercado de ações, enquanto os projetos públicos ofereceram inúmeras oportunidades para subornar os oficiais. De “aristocratas vermelhos” e oficiais provinciais aos camaradas das aldeias locais, todos no sistema tem se aproveitado destes recursos públicos. [...] O PCCh é o fazedor das regras, um jogador neste jogo de monopólio, assim como o juiz do comportamento do mercado. Por que razão eles desejariam mudar este sistema único que protege seu próprio grupo? Portanto, os comentários de Hu Jintao sobre não tomar o “antigo caminho do passado, rígido e estreito” dirigia-se ao grupo privilegiado. Na era Mao, embora o governo estivesse no controle total de todos os recursos, os oficiais não foram abençoados com um mercado em que podiam negociar poder por dinheiro e as diferenças entre altos oficiais e populares ainda eram pequenas. Mas agora, a diferença aumentou exponencialmente com a combinação atual de regime totalitário e economia de mercado, enquanto o regime tem todos os recursos do país sob seu rígido controle. Em tal sistema, os oficiais convenientemente fazem parceria com pessoas de negócios para negociar poder por riqueza e depois escondê-la no exterior. As elites poderosas e privilegiadas têm acumulado uma fortuna grande o suficiente para sustentarem uma vida de luxo por várias gerações.

1. Com base na leitura do texto, qual é a opinião da autora sobre a democracia na China? Ela concorda com os rumos políticos e econômicos que o país está tomando? 2. Segundo a autora, quais as relações entre a fala de Hu Jintao sobre não tomar o “antigo caminho do passado, rígido e estreito” com o título do artigo: “Por que o PCCh desafia a democracia”?

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Nas últimas décadas, a China vem se constituindo como a grande fábrica do mundo. Um imenso número de produtos, de calçados a eletrônicos, tem peças fabricadas e montadas (ou ambos os processos) no país asiático.

CUSTOS DE

PRODUÇÃO MAIS BAIXOS Um dos motivos que garantem a alta produtividade chinesa é o custo de produção, bem menor do que em outros países. Isso é possível por causa de alguns fatores, como: mão de obra numerosa e barata, pouca ou nenhuma legislação de proteção ao trabalhador e enormes incentivos fiscais a empresas que queiram montar ou contratar manufatureiras chinesas.

LOGÍSTICA E

INFRAESTRUTURA Os produtos chineses são distribuídos principalmente por via marítima. Existem também navios transoceânicos abrigando fábricas, que produzem roupas e montam peças simples. A China tem investido pesado em infraestrutura e, até 2020, pretende construir dez aeroportos para facilitar o fluxo de pessoas e mercadorias.

QUALIDADE

PARECE, MAS NÃO É Pouca ou nenhuma proteção aos direitos intelectuais ou autorais é garantida. Assim, a China é o paraíso dos fabricantes piratas.

DISCUTÍVEL O uso de materiais de baixíssima qualidade diminui os custos, mas resulta em produtos frágeis ou até mesmo tóxicos.

POLUINDO O MEIO AMBIENTE A falta de preocupação com o descarte dos resíduos industriais barateia a produção, mas gera danos ambientais. Um exemplo é o lago Baokou, que recebe resíduos tóxicos de inúmeras fábricas que processam, inclusive, metais pesados. A poluição do lago é uma das responsáveis pelo smog poluído de Pequim.

Atividades

TRABALHO DESUMANO As péssimas condições de trabalho não são coibidas pelo governo chinês. Há relatos de casos de trabalhadores com jornadas de 12 horas por dia, sete dias por semana, submetidos a refeições insalubres, maus-tratos e tortura psicológica.

ESCREVA NO CADERNO

1. Resposta pessoal, no entanto, o aluno deverá explorar a questão da insalubridade e da superexploração da mão de obra mencionada no infográfico.

1. Não parece um contrassenso que, no país em que o partido comunista está há mais tempo no poder, os trabalhadores tenham condições de trabalho similares à época de exploração capitalista que fez Karl Marx se rebelar e teorizar sobre esse sistema? Qual sua opinião a respeito?

2. Positivo: a impressionante participação da indústria chinesa na produção de alto

2. Extraia do infográfico uma informação que revele um aspecto positivo e um negativo da valor agregado mundial, como no caso de economia chinesa. eletrônicos, brinquedos e celulares. Negativo:

o descaso com o meio ambiente e as péssimas condição de trabalho.

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DOMÍNIO CHINÊS

De cada dez objetos produzidos no mundo, veja quantos são feitos na China.

BRINQUEDOS CALÇADOS CELULARES

OUTROS PAÍSES CHINA

RELAÇÕES COMERCIAIS ENTRE BRASIL E CHINA

A China é o parceiro comercial mais importante do Brasil. Os chineses lideram como os principais compradores e vendedores.

Cinco principais países fornecedores ao Brasil, em % (2015)

ALEMANHA (2,7%)

ALEMANHA (6%)

PAÍSES BAIXOS (5,3%)

ARGENTINA (6,1%)

ARGENTINA (6,7%)

ESTADOS UNIDOS (15,4%)

ESTADOS UNIDOS (12,6%)

CHINA (17,9%)

CHINA (18,6%)

COMPOSIÇÃO DAS IMPORTAÇÕES BRASILEIRAS ORIGINÁRIAS DA CHINA EM MILHÕES DE DÓLARES (2014) DESCRIÇÃO

VALOR

Máquinas elétricas

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

COREIA DO SUL (3,2%)

Cinco principais compradores do Brasil, em % (2015)

PART.% NO TOTAL

10 898

29,2%

Máquinas mecânicas

7 151

19,1%

Químicas orgânicas

2 232

6,0%

Ferro e aço

1 388

3,7%

Plásticos

1 070

2,9%

Automóveis

1 002

2,7%

Obras de ferro ou aço

978

2,6%

Vestuário exceto de malha

935

2,5%

Filamentos sintéticos

809

2,2%

Instrumentos de precisão

780

2,1%

Subtotal

27 244

73,0%

Outros produtos

10 100

27,0%

Total

37 343

100,0%

Fontes: IBIS World. Toy Manufacturing in China: Market Research Report. Disponível em: <http://www.ibisworld.com/industry/china/toy-manufacturing.html>. Acesso em: 4 jan. 2016. MINISTÉRIO do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Balança comercial brasileira: dezembro 2015. Disponível em: <http:// www.mdic.gov.br//portalmdic/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=5266&refr=1161>. Acesso em: 11 jan. 2016. MINISTÉRIO do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. China: comércio exterior, jan. 2015. Disponível em: <www.brasilglobalnet.gov.br/ARQUIVOS/IndicadoresEconomicos/INDChina.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2015.

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4. A geografia física e humana da China Com uma área de 9,5 milhões de km2 e uma população de 1,37 bilhão de habitantes (2015), a China é o terceiro maior país do mundo e o mais populoso. Em linhas gerais, esse país apresenta uma disposição geomorfológica que gradativamente se rebaixa de oeste para leste. Assim, temos a China das terras altas, com cadeias montanhosas e elevados planaltos na vertente ocidental, e a China das terras baixas, com suaves colinas e extensas planícies na porção oriental. Essa disposição do relevo interfere na distribuição de seus 1,37 bilhão de habitantes, com aproximadamente 90% dessa massa demográfica concentrada na fachada leste. Veja os mapas a seguir.

Allmaps

China: relevo 105° 105°L L

NN HHAA NNSS TTI AI A

HoHo g-ganan lo)lo) HoHo araere mm (A(A

DESERTO DESERTODE DE TAKLA TAKLAMAKAN MAKAN UN NLUN KU KUNL

gg ianian é-éK-K -T-sTs nagng zuzlu) l) a YY (A(A

PLANALTO PLANALTODA DACHINA CHINA MERIDIONAL MERIDIONAL XiXJi-ia Jia ngng

Trópico Trópicode deCâncer Câncer

Golfo Golfo dede Tonkin Tonkin

00

510 510

Mar Mar Amarelo Amarelo

PLANÍCIE PLANÍCIEDA DACHINA CHINA

MINYAKONKA MINYAKONKA 7 7590 590mm

HHI EVEREST EVEREST IM M 8 8848 848mm AALL AAI A IA

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 46.

oo g-gH-H lo ) ) oaonanaraerlo e HH mm (A(A

Mar Mar do do Japão Japão

Altitude Altitude (em (emmetros) metros) 44800 800 33000 000 11800 800 11200 200 600 600 300 300 150 150 00

Mar Mardada China China Oriental Oriental

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DHAULAGIRI DHAULAGIRI 8 8172 172mm

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Mar Mardada China China Meridional Meridional

Picos Picos

Golfo Golfo dede Bengala Bengala

RÚSSIA RÚSSIA

Allmaps

China: população (2008) 105° 105°LL

Harbin Harbin

MONGÓLIA MONGÓLIA

CAZAQUISTÃO CAZAQUISTÃO

Shenyang Shenyang Xinjiang Xinjiang

COREIA COREIA DO DO NORTE NORTE

Beijing Beijing (Pequim) (Pequim)

Gansu Gansu

COREIA COREIA DO DO SUL SUL

Qinghai Qinghai

OCEANO OCEANO PACÍFICO PACÍFICO

Xi`an Xi`an

ÍNDIA ÍNDIA

Shangai Shangai

Tibete Tibete

Chengdu Chengdu

NEPAL NEPAL TTrróópp iiccoo dde eC Câânnccee rr

Wuhan Wuhan

Chongqing Chongqing

de de 66 aa 20 20

BUTÃO BUTÃO

de de 44 aa 66

Yunnan Yunnan Guangzhou Guangzhou (Cantão) (Cantão)

Fonte: BONIFACE, Pascal; VÉDRINE, Hubert. Atlas do mundo global. São Paulo: Estação Liberdade, 2009. p. 99.

MIANMAR MIANMAR 00

495 495

Distribuição Distribuição da da população população (em (em milhões milhões de de hab.) hab.)

TAIWAN TAIWAN Hong Hong Kong Kong

VIETNÃ VIETNÃ LAOS LAOS Hainan Hainan

de de 22 aa 44 de de 11 aa 22 de de 0,5 0,5 aa 11 de de 0,1 0,1 aa 0,5 0,5

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Olaf Schubert/Image broker/Glow Images

Os chineses têm, nos registros de sua civilização, uma histórica convivência com os rios, que, em sua maioria, drenam o território em direção ao leste. Por causa de recursos hídricos e solos férteis, há uma imensa população rural concentrada no entorno dos rios. Destacam-se os rios Xi-Jiang (das Pérolas), ao Sul; Yang-Tsé-Kiang (Azul), na faixa central; e Hoang-Ho (Amarelo), ao Norte, que correm paralelos, de oeste para leste, desaguando no oceano Pacífico. É no Yang-Tsé-Kiang que foi concluída, em 2012, a maior usina hidrelétrica do mundo, a Três Gargantas. Na condição de grande potência agrícola mundial, a China tem sua agricultura concentrada junto às planícies e suaves colinas do leste do país, associada aos grandes rios que correm para esse sentido, fertilizando o solo. Há também o solo de loess, muito fértil, formado por sedimentação eólica, encontrado principalmente no entorno do rio Hoang-Ho. Apresentando uma agricultura com forte emprego de mão de obra, destacam-se o trigo no Norte, o arroz no Sul e uma variada gama de gêneros entre essas duas culturas, como milho, algodão, cítricos, cana-de-açúcar, soja, batata, beterraba açucareira etc.

A tradicional agricultura chinesa. Na imagem, terraços de arrozais cultivados nas encostas, em Guangxi, 2012.

A baixa utilização da mecanização vincula-se a uma questão social, pois mecanizar o campo significaria lançar milhões de camponeses ao desemprego, acentuando o já avançado êxodo rural. Como o país tem a maior população da Terra, o governo chinês impôs um severo e eficiente controle demográfico ao país a partir dos anos 1970, que resultou em uma expressiva diminuição da natalidade e redução do crescimento demográfico. As projeções apontam para uma estabilização da população em torno de 1,5 bilhão de habitantes, que deve se manter uniforme no futuro. Segundo a Agência Nacional de Estatísticas da China, em 2011, a população urbana superou a rural no país pela primeira vez. A pesquisa, realizada em 2012, constatou que, no final de 2011, 51,27% da população chinesa vivia em cidades. O país conheceu nas duas últimas décadas um impressionante êxodo rural e a mobilidade demográfica é uma característica marcante da China moderna: aproximadamente 20% dos chineses são migrantes e vivem mais de seis meses longe do registro de residência. Essa migração interna é fruto das transformações verificadas nos últimos anos e está diretamente ligada às melhores perspectivas que as cidades apresentam e à flagrante discrepância social existente entre o camponês e o citadino. A China vive um paradoxo social: ao mesmo tempo em que é o país que mais contribuiu em todo o mundo para a redução da pobreza e da miséria, segundo o Banco Mundial, igualmente foi onde a desigualdade mais cresceu.

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A China apresenta clima bastante variado. No Sudeste predomina o clima subtropical, onde os ventos monçônicos de verão provocam, eventualmente, inundações de grandes proporções. Por conviver milenarmente com essa oscilação entre períodos chuvosos e de estiagem, os chineses tornaram-se autênticos mestres na arte de construir drenagens e sistemas de controle de cheias; por isso são designados como a “civilização hidráulica”. À medida que nos dirigimos para o Nordeste, caem as temperaturas até a área de predomínio do clima continental frio nas imediações da Manchúria. Essa alternância climática é responsável também pela distribuição agrícola dos dois principais cereais produzidos no país: arroz, ao Sul, e trigo, ao Norte. No interior, surgem os climas de montanha, semiárido e árido. Observe essa distribuição no mapa abaixo.

Ventos monçônicos de verão: Ventos sazonais que sopram do oceano Índico em direção ao sul e sudeste asiático nos meses de verão.

100° L

Regiões climáticas Continental frio Subtropical

DACOSTA MAPAS

China: clima

RÚSSIA

Semiárido Árido Tropical Montanha

MONGÓLIA

COREIA DO NORTE

JAPÃO

COREIA DO SUL

QUIRGUISTÃO

OCEANO PACÍFICO

PAQUISTÃO

CHINA

NEPAL ÍNDIA Trópico de C

BUTÃO

TAIWAN

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BANGLADESH MIANMAR

VIETNÃ LAOS

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Fonte: PHILLIPSON, Olly. Atlas geográfico mundial. Curitiba: Fundamento, 2011. p. 84.

ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando 1. Na Revolução Chinesa, milhões de chineses atenderam ao chamado de Mao Tsé-Tung. Explique o que foi a Revolução Chinesa.

5. Em 1978, Deng Xiaoping deu início a um amplo programa de reformas econômicas que revolucionaria o país. Eram reformas liberalizantes, basicamente concessões ao capitalismo. Em seguida, vieram outras. As reformas econômicas na China se deram de forma acelerada ou gradual? Por quê?

2. Taiwan é a República Nacionalista da China. Explique seu surgimento como unidade política e seu status nos dias atuais. 3. Os comunistas sagraram-se vitoriosos e, em 1º de outubro de 1949, diante de um palanque na Praça da Paz Celestial, Mao Tsé-Tung anunciava a fundação da República Popular da China, uma nação socialista segundo a acepção marxista. Cite medidas tomadas durante o período Mao Tsé-Tung na China.

Olhar cartográfico

4. Frequentemente, a Revolução Cultural é interpretada como “radical”, em função da violência dos atos. O que foi a Revolução Cultural?

Elabore um mapa da China, em seu caderno, contrastando as porções ocidental e oriental; explique-as com legendas. Considere aspectos populacionais e físico-territoriais.

6. As ZEE, em um primeiro momento, eram quatro. Depois, surgiram diversas outras. O que são as ZEE? 7. Quais são as perspectivas econômicas para a China nas próximas duas décadas? 8. A China é um grande parceiro comercial do Brasil. Comente as relações comerciais entre os dois países.

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Atividade em grupo A comunidade chinesa está representada em sua cidade? Se sim, procure entrevistar alguns membros e descobrir o que os motivaram a viver no Brasil. Se não houver representantes da comunidade em sua cidade, pesquise sobre a imigração chinesa no Brasil.

De olho na mídia O texto a seguir faz uma análise conjuntural da desaceleração do crescimento econômico da China verificado em meados da década de 2010. Após a leitura do texto, responda às questões. 1. Por que o texto afirma que “a China espirra e o mundo adoece”? 2. Quais as implicações do cenário apontado no texto ao Brasil? Por que o mundo tem medo da desaceleração chinesa? Entenda o que a China provoca nos mercados de ações e de câmbio e quais os impactos no Brasil A China espirra e o mundo adoece. Pode parecer jargão de economistas, mas a frase reflete de alguma forma o que acontece hoje no mundo, particularmente nesta segunda-feira 4 [janeiro de 2016], primeiro dia útil do ano em que o mercado de ações foi surpreendido por um dado da segunda maior economia do planeta, a China. O governo chinês divulgou o Índice de atividade dos gerentes de compra (PMI) do setor industrial da China, que recuou para 48,2 pontos em dezembro, de 48,6 pontos em novembro. O resultado marcou o décimo mês consecutivo de leitura abaixo da linha dos 50,0 pontos, o que indica contração da atividade econômica chinesa. Foi o suficiente para colocar os mercados em polvorosa, com queda nos índices das principais bolsas no mundo. No Brasil, o efeito colateral também foi sentido na BM&FBovespa, que caía 1,75% por volta das 16h30, e no câmbio, cuja cotação ultrapassou os R$ 4,00. O que está por trás desse tropeço chinês é na verdade uma das grandes preocupações dos economistas e analistas do mundo: uma desaceleração da atividade econômica muito maior do que se imaginava na China. PIB Dona de um PIB de US$ 10,35 trilhões segundo o Banco Mundial, e uma população de 1,364 bilhão de habitantes (2014), cuja expectativa de vida é de 75 anos, a China tem dominado a cena do comércio internacional, particularmente nas últimas duas décadas. Ainda segundo dados do Banco Mundial, o crescimento anual do PIB chinês dá uma dimensão clara do fenômeno da desaceleração. Em 2010, a economia chinesa cresceu 10,5% em relação ao ano anterior; em 2011, 9,3%; em 2012, 7,7%; em 2013, novamente 7,7%. No ano passado, a estimativa foi de um crescimento de 7,4% do Produto [Interno Bruto], com perspectivas menores para os anos subsequentes: 7,1% em 2015, 7% em 2016 e 6,9% em 2017. Uma chave para entender o problema está na balança comercial chinesa. Em novembro do ano passado, as exportações chinesas subiram 4,7%, enquanto as importações caíram 6,7%. Ainda assim, os números deixaram o país com superávit recorde de US$ 54,5 bilhões. O detalhe é que os remédios usados para suavizar a contração nas importações chinesas parecem até aqui ineficazes. Após afirmar publicamente por meses que a China não precisava de nenhum grande estímulo econômico, o banco central do país surpreendeu ao cortar os juros em novembro em 0,25 ponto percentual, para 4,35%. A medida tomada à época foi uma tentativa de suavizar o resultado trimestral do PIB naquele momento, 6,9% no trimestre, a expansão trimestral mais fraca desde 2009, no auge da crise financeira. Brasil A desaceleração chinesa não exclui o Brasil. Em 2014 as exportações do país à China somaram US$ 40,6 bilhões, representando um declínio de 12% em comparação com o ano de 2013. Já as importações da China para cá totalizaram US$ 37,3 bilhões, refletindo um pequeno aumento de 0,1%. Com estes resultados, o saldo da balança comercial entre os dois países fechou o ano de 2014 com US$ 3,2 bilhões favoráveis ao Brasil. O Brasil exporta aos chineses principalmente soja, minério de ferro e óleos brutos de petróleo, que, somados, representam 79,8% da pauta. E importa máquinas e aparelhos elétricos e mecânicos, que, somados, corresponderam a 48,4% do montante da pauta. O minério de ferro é um capítulo à parte, cujo sinônimo no Brasil é a Vale, maior exportadora do produto à China. Os últimos dados disponíveis mostram que a China respondeu por 51,6% das vendas de minério de ferro da Vale no segundo trimestre de 2014, que somaram 83,642 milhões de toneladas no período. A Ásia foi destino de 66,4% das vendas no segundo trimestre da mineradora. Um outro setor que merece ressalva é o de veículos automóveis, tratores, ciclos e suas partes, apresentou, também, um declínio em dólares de 3,1% em 2014. Entre os produtos desta categoria, cabe ressaltar a forte diminuição nas importações de automóveis de passageiros e veículos automóveis para usos especiais, que encerraram o ano com quedas, em dólares, de 35,7% e 35,1%, respectivamente. DIAS, Carlos. Por que o mundo tem medo da desaceleração chinesa? IstoÉ Dinheiro, Online, 4 jan. 2016. Disponível em: <http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/economia/20160104/por-que-mundo-tem-medo-desaceleracao-chinesa/330888>. Acesso em: 13 abr. 2016.

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CAPÍTULO 7

Rússia, Japão e Índia: potências distintas

Maior herdeira da União Soviética, a Rússia mantém sua importância no cenário político e militar mundial. É membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e maior detentora de ogivas nucleares, possuindo 47% das ogivas do mundo.

Ponto de partida

ESCREVA NO CADERNO

• Em sua opinião, por que Rússia, Japão e Índia são potências distintas?

Fonte: SIPRI - Stockholm International Peace Research Institute. Disponível em: <http://www.sipri.org/ yearbook/2015/11>. Acesso em: 11 jan. 2016.

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Tópicos do capítulo A evolução política da URSS Rússia: herdeira da União Soviética Japão: da gênese do Estado aos dias atuais Índia: demografia, política e economia

O crescimento econômico, baseado no desenvolvimento industrial e avanço tecnológico, aliado à segunda maior população do mundo, garantem à Índia destaque no cenário mundial como potência em ascensão.

No jogo das potências mundiais o Japão conta com sua grande economia, menor apenas que a dos Estados Unidos e da China, baseada China, baseada na na tecnologia e conquista tecnologia e conquista dos dos mercados externos. mercados externos.

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

Além de potência econômica e demográfi demográfica, a Índia é uma potência militar, pois detém a bomba atômica.

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1. Começo, meio e fim da URSS Ver Dr. Jivago. Direção: David Lean. Estados Unidos, 1965. Filme produzido pelo cinema estadunidense no auge da Guerra Fria e que mostra uma visão contrária à Revolução Bolchevique de 1917.

A União Soviética foi uma superpotência e rivalizou com os Estados Unidos durante a Guerra Fria. Porém, a Rússia, sua sucessora, não apresenta o mesmo status e convive com instabilidades. Sua importância nas relações internacionais deve-se ao seu poderio militar e ao assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi oficialmente extinta em dezembro de 1991. Em seu lugar, criaram-se novos países e redesenharam-se fronteiras, porém o espaço outrora ocupado pela poderosa União Soviética ainda guarda as marcas de um longo passado comum entre esses novos Estados e a Rússia, também denominada Federação Russa, que tenta a todo custo mantê-los sob sua esfera de influência geopolítica, mas assiste incomodada à penetração estadunidense, chinesa e até europeia.

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1.1 Início

Do czarismo de Nicolau II (à esquerda) à república socialista de Lênin (à direita), a Rússia mudou drasticamente sua história no início do século XX.

Czarismo: Tipo de monarquia que vigorou por séculos na Rússia até a derrubada do último czar, Nicolau II, da Dinastia Romanov, em fevereiro de 1917. Czar é o mesmo que “imperador”. No Império russo, o czar era o chefe de Estado e da Igreja ortodoxa. Processos de Moscou: Julgamento e execução sumária durante os anos 1930 de pessoas que eram tachadas de opositores do regime, acusadas de conspiração ou subversão.

O surgimento da URSS em 1922 foi uma consequência direta da Revolução Russa de 1917, também chamada de Revolução Bolchevique. Em fevereiro desse ano, os mencheviques (minoria), ala moderada dos revolucionários, derrubaram o czarismo, mas não obtiveram êxito em seu projeto político, que se baseava na construção de uma nova Rússia com administração burguesa, como uma etapa de transição para alcançar o socialismo num futuro próximo. Os bolcheviques, ala mais arraigada à ortodoxia marxista, eram opositores a essa perspectiva e defendiam que o poder deveria ser exercido diretamente pelos trabalhadores. Eram liderados por Vladimir Ilich Ulianov, conhecido por Lênin, e eram organizados por meio dos soviets (comitês). Os bolcheviques tomaram o poder dos mencheviques em outubro de 1917, consolidando-se como os vencedores da Revolução Russa. O Partido Bolchevique, depois rebatizado como Partido Comunista, assumiu definitivamente o poder; surgia o primeiro país socialista da história. Sob a liderança de Lênin e tendo o marxismo como norte ideológico, as diretrizes clássicas do socialismo foram introduzidas na Rússia: estatização total; planificação econômica e adoção dos planos quinquenais; coletivização das terras com a formação de kolkhozes (cooperativas agrícolas) e sovkhozes (fazendas do governo); entre outras medidas socialistas. Em 1922, Lênin incorporou as repúblicas em torno da Rússia estabelecida desde o período czarista e formou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Com a morte de Lênin, em 1924, teve início uma disputa entre dois outros importantes líderes da Revolução Russa: Josef Stálin e Leon Trótski, que tinham perspectivas marxistas divergentes. Tornaram-se inimigos e Stálin venceu a disputa interna pelo poder do aparelho comunista. Uma vez no poder, Stálin tornou-se absoluto, centralizador e totalitário. Iniciou uma perseguição a seus opositores, especialmente a partir da instalação dos Processos de Moscou. Líderes políticos, intelectuais, membros do Partido Comunista e qualquer pessoa que fosse identificada como “inimiga da revolução”, entre elas camponeses que recusavam a estatização da terra, foram presos, exilados ou executados. Milhares de pessoas foram mortas por serem consideradas opositoras ao regime. Incluem-se nessa lista Leon Trótski, que, temendo a perseguição, exilou-se no México, mas foi assassinado por um agente russo, em 1940, a mando de Stálin.

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Apesar dos métodos questionáveis, é sob a liderança de Stálin que o país passou pelo grande desenvolvimento industrial ao longo das décadas de 1930 e 1940, convertendo-se em superpotência na nova ordem que se iniciaria na segunda metade do século XX. No transcorrer da Segunda Guerra (1939-1945), União Soviética e Estados Unidos foram aliados contra um inimigo comum: a Alemanha liderada por Adolf Hitler. Mas se sabia que essa era uma aliança circunstancial e, tão logo findou a guerra, iniciou-se a intensa disputa que caracterizou a Guerra Fria.

1.2 Auge Cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos disputados na URSS, em 1980. Na arquibancada, a imagem de Lênin; no gramado, a foice e o martelo, símbolos do período soviético.

Tony Duffy/Getty Images

Durante a Guerra Fria, a União Soviética conheceu seus dias de glória e alçou a condição de superpotência, disputando a hegemonia mundial com os Estados Unidos. Neste período, a URSS sediou os Jogos Olímpicos de 1980. Observe a fotografia ao lado. No entanto, essa disputa trouxe consequências graves. Durante a segunda metade do século XX, a União Soviética priorizou totalmente sua indústria de base, pois ela produzia para o setor militar-estratégico. Assim, indústrias dos setores siderúrgico, petroquímico, aeroespacial, militar, entre outras, prosperavam e a URSS figurava entre os grandes produtores mundiais nessas áreas. Para sustentar a posição de superpotência, alguns segmentos foram negligenciados, tornando-se extremamente defasados em relação a outras áreas industrializadas do globo. Esses setores estavam vinculados à indústria de bens de consumo, que atende à demanda civil, e a Rússia sofre as consequências até os dias de hoje.

Allmaps

URSS 90° L

OCEANO GLACIAL ÁRTICO

LETÔNIA

Vilnius

BELARUS

Mar de Kara

Riga

Mar da Sibéria Oriental

Mar de Laptev

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Tallinn

RÚSSIA

Mar de Barents

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ESTÔNIA

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LITUÂNIA

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Minsk Kiev Chisinau

UCRÂNIA MOLDÁVIA

Moscou Mar de Okhotsk

RÚSSIA (parte europeia)

RÚSSIA (parte asiática)

Mar Negro

GEÓRGIA Tbilisi Ierevan Baku Mar Cáspio

Lago Baikal

CAZAQUISTÃO

ARMÊNIA AZERBAIJÃO

Mar de Aral

UZBEQUISTÃO

Ashkhabad

Lago Balkash

Mar do Japão

Tashkent

TURCOMENISTÃO

Bishkek Dushanbe

Alma-Ata

QUIRGUISTÃO

TADJIQUISTÃO

URSS Capital de país

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Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas estratégico y geopolítico: geopolítica de las relaciones de fuerza en el mundo. Madrid: Alianza, 1997. p. 91.

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O arsenal militar da URSS era suficiente para destruir várias vezes o mundo; seus satélites orbitavam no espaço e suas aeronaves investigavam os céus; seu exército contava 1 milhão de soldados; e seu território, de 22 milhões de quilômetros quadrados, era mais que o dobro do segundo maior país do mundo, o Canadá. Os problemas começaram a surgir nos anos 1980. Os setores industrial e agropecuário, sucateados tecnologicamente, começaram a dar mostras de fragilidade. O custo de sustentação do aparato bélico e espacial, assim como o da própria máquina burocrática do Partido Comunista, era alto. As intermináveis filas para adquirir gêneros básicos, a quase ausência de bens de consumo, como eletrodomésticos, e a demora em responder a essa demanda fomentavam uma insatisfação popular que não tardaria a explodir.

Robert Maass/Corbis/Latinstock

1.3 Fim

Gorbachev, líder que mudou o final do século XX, ao lado de uma reprodução da capa da revista Time, que o considerou o Homem da Década. Fotografia de 1990.

É nesse clima de crise já deflagrada, porém não anunciada, que, em 1985, Mikhail Gorbachev, um dirigente reformulador, assume o governo. Rompendo com o tradicionalismo arcaico e com os burocratas do Partido Comunista, Gorbachev logo enxergou que era preciso intervir imediatamente no andamento estrutural do Estado, sob o risco de o país tornar-se totalmente obsoleto diante das inovações tecnológicas em curso em outras partes do globo. Para tirar a União Soviética do ostracismo tecnológico no qual se encontrava e para realizar aquilo que denominou de “modernização do socialismo”, Gorbachev lançou mão de duas revolucionárias medidas. No plano político, encaminhou um processo de abertura e democratização do país, admitindo o pluripartidarismo, as eleições diretas, a abertura dos arquivos stalinistas, entre outras iniciativas. Esse pacote de mudanças políticas recebeu o nome de Glasnost (transparência, em russo). No âmbito econômico, Gorbachev entendeu que era preciso frear a indústria bélica e transferir toda a prioridade para o setor de bens de consumo. A essas reformas econômicas ele denominou Perestroika (reestruturação, em russo). Essas duas iniciativas mudariam o curso da história da União Soviética e do mundo. Como essas medidas não atingiam apenas a União Soviética, mas todo o sistema internacional, Gorbachev teve de dialogar com seu maior rival, os Estados Unidos. Esse país recebeu positivamente as iniciativas, pois a Guerra Fria também era muito custosa a Washington, que assistia de forma incomodada ao espetacular crescimento econômico do Japão, que estava à parte da disputa hegemônica, não tinha pesados gastos militares como os Estados Unidos e a URSS. Portanto, Glasnost e Perestroika foram tanto medidas internas como externas. Porém, nem tudo ocorreu como Gorbachev pretendia. No âmbito político, surgiram dois grupos de oposição que passaram a inviabilizar seu governo. De um lado, a ala stalinista boicotava Gorbachev, acusando-o de irresponsável e de criar medidas incompatíveis com o modelo federativo e de multinações que compunha a União Soviética. Na visão desse grupo, era preciso interromper imediatamente a Glasnost e a Perestroika e retomar o curso anterior, instituído desde 1922. Para isso, era preciso destituir Gorbachev, fato que tentaram, mas fracassaram. De outro lado, surgiram os ultrarreformistas, catalisados na figura de Boris Iéltsin. Eles viam em Gorbachev um empecilho na aceleração das reformas; acusavam-no exatamente do contrário que faziam os conservadores: era muito lento nas transformações que exigia a União Soviética e, igualmente, entendiam que era preciso se desfazer do presidente da federação para impor um ritmo mais acelerado às mudanças.

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E, assim, Gorbachev viu-se no meio de uma disputa antagônica que engessou seu governo. Essa situação foi agravada pela crise econômica que se seguiu e pela eclosão de inúmeras manifestações populares que viam na aproximação com o capitalismo a possibilidade de um futuro melhor. Outro aspecto decisivo foi o estouro de uma crise separatista: pedidos de independência começaram a surgir entre as repúblicas que compunham a União Soviética; as primeiras foram as repúblicas bálticas, Lituânia, Letônia e Estônia, e depois vieram outras. A União Soviética era composta de 15 repúblicas e dentro delas havia inúmeras nacionalidades. Assim, atestando uma indisfarçável situação de ingovernabilidade diante dos imensos protestos e problemas, Mikhail Gorbachev renunciou ao cargo de presidente em 25 de dezembro de 1991. Era o fim da União Soviética. Observe a fotografia abaixo, que retrata a sede do poder russo, e leia a seguir o texto de um historiador brasileiro sobre a renúncia de Gorbachev.

Ler O fim da URSS, de Jacob Gorender. 11. ed. São Paulo: Atual, 2003. O livro explica o apogeu e a desintegração da União Soviética.

N.Chutchikov/Shutterstock.com

Kremlin, em Moscou, na Rússia, 2015. Construído na época dos czares, foi sede do poder da União Soviética e, nos dias de hoje, da Rússia.

Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

Fim da URSS e queda de Gorbachev Do ponto de vista político-social, a vitória de Iéltsin deu sinal verde à nova burguesia e aos adeptos em geral da substituição da economia e planejamento central por uma economia de mercado livre. Uma missão do FMI se instalou em Moscou com a tarefa de ajudar as autoridades e os economistas russos a preparar o caminho de implantação da economia de mercado de tipo capitalista. Logo em seguida, as três repúblicas bálticas se declararam independentes e separadas da União Soviética. A iniciativa de liquidação da União Soviética partiu da Ucrânia. Com 603 mil km2 e 52 milhões de habitantes, a Ucrânia tem uma economia industrial e agrícola equivalente a cerca de um quarto da economia total da antiga União Soviética. Em 1º de dezembro, os eleitores da Ucrânia foram às urnas e deram 90% dos votos a favor da separação. A 9 de dezembro, numa reunião em Minsk, os presidentes Boris Iéltsin, da Rússia, Leonild Kravtchuk da Ucrânia e Stanislaw Shushkevitch da Bielo-Rússia assinaram um documento conjunto no qual declaram que a URSS deixava de existir. Ao mesmo tempo, anunciaram a criação da Comunidade de Estados Independentes (CEI). A CEI não teria caráter estatal, nem poder supranacional. Seria apenas um órgão para a realização de reuniões eventuais entre os representantes de cada país associado. Aberta a adesões, à CEI se associaram as demais repúblicas que ainda integravam a ex-URSS, com exceção da Geórgia. Por conseguinte, um total de onze repúblicas. Na noite de 25 de dezembro de 1991, em pronunciamento transmitido pela televisão, Mikhail Gorbachev tornou pública a renúncia à presidência da União Soviética, entidade já inexistente. A bandeira vermelha da foice e do martelo foi descida do mastro do Kremlin, onde tremulou durante dezenas de anos e, ao seu lugar, subiu a bandeira tricolor da Rússia. GORENDER, Jacob. O fim da URSS. São Paulo: Atual, 1992. p. 97-98.

• Qual a relação entre o fim da URSS e a "substituição da economia e planejamento central por uma economia de mercado livre"?

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Interagindo • A Rússia é a maior herdeira da União Soviética. Considere essa herança no campo territorial, político, militar e social e faça uma comparação entre a União Soviética do passado e a Rússia do presente. Discuta e compare sua resposta com a de seus colegas. ESCREVA NO CADERNO

Após longa crise que atingiu a Rússia por toda década de 1990, fruto da turbulenta transição de uma engessada economia planificada para uma precipitada economia de mercado, o país viu sinais de recuperação no início do século XXI, já sob a presidência de Vladimir Putin. Parte dessa recuperação econômica deveu-se à alta internacional do petróleo, commodity em que a Rússia é muito rica e que se tornou o maior produto de exportação do país. No entanto, tal qual muitos países, sua economia foi atingida pela crise internacional de 2009. Até 2015, o país apresentava dificuldades internas, como a desvalorização de sua moeda, o rublo, e sofria com a queda do preço no mercado internacional de dois de seus principais produtos de exportação, o petróleo e o gás. Os próximos anos dirão se esse membro do Brics terá capacidade de reação econômica. É imprescindível que a Rússia obtenha êxito na árdua tarefa de transferir tecnologia do setor da indústria pesada para a indústria de bens de consumo; esse é o grande desafio do país.

2. Japão: potência econômica Navegar Fundação Japão <http://tub.im/a93453> Fundação vinculada ao Ministério das Relações Exteriores do Japão, tem como missão difundir a cultura japonesa.

Como China e Rússia, que estudamos anteriormente, o Japão também apresenta uma história de fortes mudanças ao longo do século XX. De país quase colonizado pelos Estados Unidos, converteu-se em potência imperialista até o desfecho da Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, foi palco de truculência bélica jamais vista: o lançamento de bombas atômicas sobre seu território. Desde então, o país renunciou à guerra e transformou-se numa das maiores potências econômicas do mundo.

2.1 A gênese do Japão moderno

Samurai: A casta militar da sociedade do sistema xogunato.

Autor desconhecido. Séc. XVII. Coleção Particular

Imagem artística de Tokugawa, o xogum que deu forma de Estado ao Japão.

Desde o século XII até meados do século XIX, o Japão esteve sob o sistema do xogunato, uma espécie de “feudalismo japonês”, em que o poder era dividido em vários núcleos e cada um era liderado pelo xogum, chefe político e militar. Havia um imperador, mas ele estava vinculado à liderança espiritual e era desprovido de poder político efetivo. Formalmente, os xoguns estavam submetidos ao imperador, mas quem tinha o poder de fato era o patriarca do clã. O mais importante xogum em oito séculos foi Ieyasu Tokugawa, que unificou os demais clãs e deu corpo de Estado ao Japão no século XVI: iniciava-se a Era Tokugawa, que durou dois séculos e meio e caracterizou-se pelo isolacionismo total em relação ao resto do mundo; nem sequer trocas comerciais o Japão realizava – era um sistema fechado. Esse isolamento foi quebrado em 1853, quando as canhoneiras do navio estadunidense Commodore Perry bombardearam o Japão e, invadindo a baía de Tóquio, impuseram um tratado que anunciava a chegada do imperialismo estadunidense. Nesse momento da história japonesa, havia um grande descontentamento popular no país por causa da cobrança de altos impostos. Os populares desejavam a restituição do poder total ao imperador, pois temiam a submissão ao imperialismo. Os camponeses, os samurais e uma embrionária classe liberal uniram-se para derrubar o xogunato. Esse período ficou conhecido como Revolução Meiji. Em 1867, os revoltosos venceram e entregaram o poder absoluto e supremo ao imperador da Dinastia Meiji, o jovem Mutsuhito, de apenas 15 anos. Iniciar-se-ia uma transformação revolucionária no Japão.

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Uma rápida modernização foi iniciada. Criou-se um sistema constitucional com os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário sob a égide do imperador e da cultura hierárquica nipônica: ele era o árbitro supremo de todos os poderes. A estrutura política e social do Japão estava amparada na imagem do imperador, à semelhança do próprio Estado e sob um regime assumidamente personalista e hereditário. Criou-se também um sistema de ensino com ênfase na educação, cultura que vem até os dias de hoje. Foi estabelecido, em 1871, um atuante ministério da educação. A industrialização tomou conta do país em inúmeras regiões e o Japão aderiu ao capitalismo nos moldes da cultura asiática, pautado na disciplina e no máximo respeito às hierarquias. O que se via era um misto da cultura ocidental com a oriental no capitalismo tardio, porém extremamente eficiente. Introduziram-se na Era Meiji um moderno sistema bancário e financeiro, claramente inspirado no modelo europeu, e a modernização dos meios de transporte. Nesse contexto, a indústria atingiu rapidamente o conjunto militar. A combinação industrialização-militarização estimulou o país a dar passos maiores. O Japão também iria candidatar-se ao posto de potência imperialista, tendo bem delimitada a área à qual pretendia levar adiante seu incipiente expansionismo: a Ásia.

Pauta musical

LP O eterno deus Mu dança. Gilberto Gil. Brasil, 1989

Do Japão, Gilberto Gil. Álbum: O eterno deus Mu dança. Warner Music, 1989. Pauta: Cultura japonesa.

2.2 O imperialismo japonês

potências à época, enquanto o Japão era um jovem Estado recém-reorganizado. O êxito japonês nessas duas guerras marcou o início de seu imperialismo. Em seguida, invadiu a Coreia (1910) e participou da Primeira Guerra Mundial, ao lado dos aliados contra os alemães. Foi contemplado na partilha do pós-guerra com algumas ilhas no Pacífico. A fase mais agressiva do imperialismo japonês deu-se sob o período de Hiroito, que assumira em 1926. Em 1931 ocorreu uma nova e violenta invasão à Manchúria, região chinesa que o Japão unilateralmente declarou sob sua soberania, fundando a república de Manchukuo, uma base militar criada para estender o imenso império nipônico sobre a Ásia. Essa invasão à Manchúria é motivo de desavenças com a China até hoje. Convém ressaltar que a Manchúria é rica em minérios, elementos ausentes em território japonês. O Japão invadiu ainda a Indonésia, a Malásia, as Filipinas e a Península da Indochina; parte dessas invasões deu-se sob a Segunda Guerra Mundial, que explodiu em meio ao expansionismo japonês. Observe o mapa ao lado. Enquanto a Segunda Guerra assistia nos arredores da Europa a um confronto entre Alemanha versus França, Inglaterra e Rússia, no Pacífico a contenda era entre Japão e Estados Unidos, pela hegemonia nos territórios banhados pelo oceano.

120° L

Allmaps

Após ter organizado uma infraestrutura industrial e militar em prazo recorde, o Japão empreendeu nos últimos anos do século XIX e primeiros do XX duas guerras: contra China e Rússia, respectivamente. Derrotou as duas e lhes tomou territórios: Taiwan, da China, e as Ilhas Sakalinas, antiga pendência com a Rússia no Pacífico norte. A vitória contra a Rússia em 1905 não deixou Expansionismo japonês de ser surpreendente, afinal esse país era uma das RÚSSIA Ilhas Sakalinas

MANCHÚRIA MONGÓLIA Jehol JAPÃO COREIA SHAN TUNG

HOPEI

Mar da China Oriental

OCEANO PACÍFICO

SHANGAI

CHINA

FUMEN

KUANG ncer Trópico de Câ

TUNG Hainan

FORMOSA Taiwan

0

426

Japão em 1920 Protetorado em 1932 Expansão de 1937 a 1939

Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas estratégico y geopolítico: geopolítica de las relaciones de fuerza en el mundo. Madrid: Alianza, 1997. p. 37.

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Embaixada do Japão no Brasil <http://tub.im/pag6fs> O site da embaixada do Japão no Brasil divulga importantes notícias sobre a política externa japonesa.

A Geografia na... história em quadrinhos! O mangá Gen: pés descalços, do quadrinista japonês Keiji Nakazawa – vítima, em 1945, da bomba de Hiroshima, onde vivia – é um clássico mundial. Nakazawa perdeu pai, irmãos e irmãs no ataque e manifestou sua dor nessa obra que ganhou o mundo, sendo traduzida para vários idiomas. Ele e sua mãe sobreviveram à bomba, mas desenvolveram câncer. Quando sua mãe morreu, em 1966, Nakazawa desabafou: "Quando o corpo dela foi cremado, não sobraram seus ossos. Geralmente, eles resistem à cremação, mas o césio tinha devorado seu esqueleto. O ódio ferveu dentro de mim". Foi após esse episódio que surgiu o clássico Gen, quase uma autobiografia. Veja um fragmento ao lado.

ESCREVA NO CADERNO Keiji Nakazawa

Navegar

Seguro de seu bom desempenho, em 1941 o Japão atacou a base militar estadunidense de Pearl Harbour, no Havaí, forçando a entrada dos Estados Unidos na guerra. A partir de 1943, no entanto, ataques fulminantes e ininterruptos da potência ocidental foram minando a resistência nipônica até o fatídico agosto de 1945, quando foram lançadas sobre Hiroshima, no dia 6, e em Nagasaki, três dias depois, duas bombas atômicas. Saldo: 200 mil mortes, milhares de feridos e contaminados pela radiatividade. Terminava ali o expansionismo japonês.

• Nos dias de hoje, existe a possibilidade de a realidade retratada na tira se repetir? Se sim, quais seriam os países que poderiam fazê-lo? O que você pensa sobre o possível uso de armas nucleares?

2.3 O Japão no pós-guerra A rendição japonesa fora anunciada em rede nacional por um Hiroito humilhado e bastante solícito às exigências dos vencedores. O anúncio se dera dentro de uma fragata dos Estados Unidos, ancorada no litoral japonês. Em troca da colaboração, Hiroito manteve o trono, mas perderia o poder; a monarquia japonesa se tornaria meramente decorativa. O imperador também renunciou à divindade. Em seguida, as forças comandadas pelo general estadunidense McArthur ocuparam o Japão e mantiveram-se ali até 1952. Nesse período o país passou por uma adaptação às condições do Ocidente. O Japão foi democratizado. Redigiu-se nova constituição inspirada na estadunidense e criaram-se partidos políticos. O regime passou à monarquia parlamentar e eleições regulares começaram a fazer parte da vida dos japoneses. Há pontos marcantes que foram inseridos na constituição japonesa, como a renúncia constitucional à guerra e a limitação em investimentos militares. Também foi realizada uma reforma agrária.

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Ver Rapsódia em agosto. Direção: Akira Kurosawa. Japão, 1991. O filme mostra as feridas abertas entre Estados Unidos e Japão desde a bomba de Hiroshima. Filme de Akira Kurosawa. Rapsódia em agosto. Japão, 1991

Durante a Era Meiji, o desenvolvimento industrial japonês foi monopolizado pelos zaibatsu, grandes conglomerados privados familiares que estavam à frente do processo desenvolvimentista do Japão. Eles eram poucos e fortes, um claro sistema oligopolístico. Os zaibatsu foram dissolvidos após a Segunda Guerra Mundial, mas continuaram a existir na forma de seus sucessores, os keiretsu, também conglomerados oligopolísticos, porém não mais da forma anterior, quando foram criados de forma indissociável ao próprio Estado. O fato de o Japão renunciar oficialmente à guerra e de limitar em apenas 1% do PIB os investimentos militares não quer dizer que não invista em defesa. Pelo contrário, é um dos países que mais empregam recursos em todo o mundo no campo militar. No novo ordenamento geopolítico que se desenhava após 1945, o Japão alinhou-se politicamente aos Estados Unidos de forma incondicional.

2.4 A reconstrução A reconstrução econômica japonesa foi um fenômeno: em 20 anos o país arrasado pela guerra alçou a posição de segunda maior economia do mundo; esse processo ficou conhecido como o “milagre japonês”. A doutrina econômica que orientou essa reconstrução foi o liberalismo clássico, com o país apostando todas as fichas na agressiva exportação, política que resultou numa ampla rede de parceiros comerciais em todos os continentes, conforme demonstrado no mapa a seguir.

Allmaps

Japão: parceiros comerciais na segunda metade do século XX 0º Círculo Polar Ártico UNIÃO EUROPEIA

CANADÁ

NORUEGA RÚSSIA CHINA

SUÍÇA

COREIA DO NORTE

HUNGRIA ESTADOS UNIDOS

TURQUIA

IRÃ

COREIA DO SUL

ISRAEL Trópico de Câncer

HONG KONG ÍNDIA

MÉXICO

OCEANO PACÍFICO

Países do Golfo: OMÃ TAILÂNDIA KUWAIT CATAR ARÁBIA SAUDITA EMIRADOS ÁRABES UNIDOS CINGAPURA

PANAMÁ VENEZUELA

Equador

Trópico de Capricórnio CHILE

Trocas comerciais do Japão (em bilhões de dólares) 120 60 30 10 2

Círculo Polar Antártico

OCEANO ATLÂNTICO

ÁFRICA DO SUL

OCEANO ÍNDICO

Meridiano de Greenwich

BRASIL

Exportações Importações

TAIWAN FILIPINAS VIETNÃ

OCEANO PACÍFICO

MALÁSIA

INDONÉSIA

AUSTRÁLIA

NOVA ZELÂNDIA

0

2 320

Fonte: GRESH, A. et al. (Dir.). Atlas da globalização Le Monde diplomatique. Lisboa: Campo da Comunicação, 2003. p. 153.

Nos primeiros anos da retomada, o Japão contou com investimentos estadunidenses, pois a potência tinha muitos interesses no país. Em 1951, foi lançado o Plano Colombo, programa de auxílio à reorganização social e estímulo ao desenvolvimento econômico para os países do sul e sudeste da Ásia.

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Marines: Corpo de fuzileiros navais dos Estados Unidos. Câmbio fixo: Câmbio é uma operação financeira baseada em vender ou trocar moedas de outros países. Essencialmente, há dois tipos de controle cambial: fixo e flutuante. O câmbio fixo tem a intervenção das autoridades monetárias, que estabelecem um valor de troca; no flutuante, a moeda oscila de acordo com a dinâmica dos mercados.

O programa contava com forte auxílio financeiro dos Estados Unidos e o Japão era um dos países beneficiados. O país fazia parte da geoestratégia estadunidense de contenção do inimigo soviético, especialmente pela sua localização. Bases e dezenas de milhares de marines foram alocados ao redor do arquipélago japonês, onde estão até hoje. No âmbito econômico, o Japão também tinha atrativos: contava com um imenso mercado consumidor e era detentor de mão de obra privilegiada: qualificada, numerosa, disciplinada e barata. No processo de reorganização econômica, o Japão refez sua indústria de base, tornando-a a maior do mundo. Incorporou e aperfeiçoou a tecnologia ocidental, optando por uma política de câmbio fixo, mantendo a moeda japonesa, o iene, desvalorizado para facilitar as exportações. Com as medidas e as opções econômicas tomadas, o Japão atingiu um ritmo impressionante de crescimento econômico e o manteve por bastante tempo em torno de 9% ao ano. Assim, em meados da segunda metade do século XX, ocupava a posição de segunda força da economia mundial. O sucesso econômico japonês coincidiu com a Guerra Fria. Impedido de participar das questões estratégicas globais, o país apostou tudo na competitividade e na tecnologia, o que incomodou os Estados Unidos, alvo preferido do Japão na agressiva política de conquista de mercados externos. Observe, no mapa abaixo, a cartografia das disputas japonesas e americanas para conseguir êxito comercial em países banhados pelo oceano Pacífico. O que se viu durante as décadas de 1970, 1980 e 1990 foi uma invasão de produtos japoneses no mercado estadunidense. Porém, parece ter sido sintomático o fim da Guerra Fria e o início de dias difíceis para os japoneses. Em 1991, o país mergulhou em uma crise econômica sem precedentes, que, embora com certa recuperação, estende-se até os dias atuais.

Allmaps

A disputa do Japão na Ásia (décadas de 1970 e 1980) 180°

OCEANO GLACIAL ÁRTICO Círculo Polar Ártico

URSS

ALEMANHA

COREIA DO NORTE CHINA

JAPÃO

OCEANO PACÍFICO

ESTADOS UNIDOS

Trópico de Câncer

Equador

OCEANO ÍNDICO

Trópico de Capricórnio

ASEAN*

Ameaça militar ou litígios territoriais

O grande rival Defesa dos interesses japoneses por meio da Asean Laço estratégico Relação bilateral forte

0

2 125

* Associação de Nações do Sudeste Asiático

Fonte: VÉDRINE, Hubert; BONIFACE, Pascal. Atlas do mundo global. São Paulo: Estação Liberdade, 2009. p. 100.

Apesar de alinhados politicamente, Estados Unidos e Japão travaram acirrada disputa comercial ao longo das décadas de 1970 e 1980.

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3. Índia: potência econômica, atômica e demográfica

3.1 O peso demográfico e a geopolítica interna

Allmaps

Índia: político 80º L

AFEGANISTÃO

JAMMU E CAXEMIRA

HIMACHAL PRADESH PAQUISTÃO

PUNJAB

CHINA

CHANDIGARH

UTTARAKHAND

HARYANA NOVA DÉLHI

UTTAR PRADESH

RAJASTHAN Trópico de Câncer

MADHYA PRADESH

DAMAN E DIU

Mar da Arábia

SIKKIM

BUTÃO

ASSAM BIHAR

MEGHALAYA BANGLADESH

JHARKHAND

GUJARAT

20º N

ARUNACHAL PRADESH

NEPAL

DADRA E NAGAR HAVELI

CH H AT T IS G

A Índia é um país emergente e um dos componentes do Brics. No esteio chinês, apresentou um dos melhores desempenhos econômicos em todo o mundo nos últimos anos. Com esse ritmo, provavelmente vai figurar entre as cinco maiores economias mundiais nos próximos dez anos. Deve converter-se também no mais populoso país nas duas próximas décadas. Além disso, é um dos raros detentores da bomba atômica. Tudo isso credencia o país a um papel de destaque no plano das relações internacionais. Observe a localização e a divisão política da Índia no mapa ao lado.

H AR ORISSA

TRIPURA BENGALA OCIDENTAL Go

NAGALAND MANIPUR

MIZORAM MIANMAR

B lfo de engala

MAHARASHTRA

Filme de Mira Nair. Um casamento à indiana. Índia, 2001

TELANGANA Com 1,2 bilhão de habitantes e ainda conOCEANO tando com alto crescimento demográfico (em ÍNDICO GOA ANDHRA PRADESH torno de 1,3% em 2015), a Índia deverá supeIlhas KARNATAKA rar a China em número absoluto de habitantes Andaman e Nicobar PONDICHERRY nos próximos 20 anos. A campanha de controTAMIL NADU LAQUEDIVAS le da natalidade conduzida pelo governo desde KERALA o início dos anos 1950, sugerindo apenas dois SRI 0 335 filhos por casal, não obteve êxito. A demograLANKA Capital do país fia indiana assume proporções preocupantes, não apenas pelo número absoluto, mas pelas Fontes: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 47; MAPS OF INDIA. India political map, 2011. Disponível em: <http://www.mapsofindia.com/culture/indian-languages.html>. precariedades sociais que caracterizam esse Acesso em: 5 jan. 2016. país de contrastes. Semelhante ao Brasil em vários aspectos geográficos, a desigualdade é característica marcante. Mas, ao contrário de nosso país, a desigualdade indiana tem origem religiosa e está arraigada em valores difundidos pelo hinduísmo. Essa religião propõe uma sociedade estamental, hierarquizada e fechada, pautada nas castas, que estabelecem os grupos e a organização social. O sistema de castas foi oficialmente abolido pelo governo indiano, mas a cultura prevalece sobre ditos oficiais e os hinduístas seguem atrelados a ela. Ver O bramanismo, a doutrina hinduísta, estabelece quatro castas principais Um casamento à indiana. com base no corpo do deus Brahma. No topo da pirâmide social estão os Direção: Mira Nair. Índia, 2001. brâmanes, de origem nobre e sacerdotal, que se originaram da cabeça de A partir da narrativa de uma festa Brahma. Logo abaixo vêm os xátrias, oriundos dos braços e descendentes de de casamento, o filme explora características sociais da Índia. antigos guerreiros, a casta militar. Os vaixás, que provêm das pernas, compõem a classe dos comerciantes e dos agricultores; e os sudras, que descendem de antigos escravos e vieram dos pés. A maior parte da população, no entanto, é composta dos párias, também chamados de dalits ou intocáveis. Sem uma casta definida, eles estão à margem da sociedade e ocupam-se das funções mais desqualificadas; eles estariam abaixo dos pés, ou seja, são o próprio pó. Existem ainda inúmeras outras castas derivadas dessas e que compõem subgrupos. A colocação social através das castas está ligada à crença hindu da reencarnação, o eterno retorno da alma à vida.

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Tsering Topgyal/AP/Glow Images

De acordo com essa crença, os que se situam nas castas inferiores estão ali por terem cometido erros em vidas passadas e devem se recolher à sua situação social, se abstendo de melhorá-la. A organização social é rigidamente hierarquizada há mais de 4 mil anos; e os excluídos se conformam com essa condição, se sujeitando aos piores trabalhos e atividades, como um acaso divino. Situação ainda mais difícil é a vivida pelas mulheres das castas socialmente mais baixas. As dalits ficam com as atividades de trabalho mais desvalorizadas e insalubres na luta pela sobrevivência. Observe a imagem a seguir.

Dalits, em Nova Délhi, Índia, 2013.

Allmaps

Diversidade linguística 80º L

AFEGANISTÃO JAMMU E CAXEMIRA

HIMACHAL PRADESH

PAQUISTÃO

PUNJAB

CHINA

CHANDIGARH

UTTARAKHAND

HARYANA NOVA DÉLHI

ARUNACHAL PRADESH

SIKKIM

NEPAL

BUTÃO

UTTAR PRADESH

RAJASTHAN

ASSAM BIHAR

MANIPUR

BANGLADESH Trópico de Câncer

GUJARAT

MADHYA PRADESH

20º N

CH H AT T IS G

Mar da Arábia DAMAN E DIU DADRA E NAGAR HAVELI MAHARASHTRA

H AR

NAGALAND

MEGHALAYA

JHARKHAND BENGALA OCIDENTAL

TRIPURA

MIZORAM

MIANMAR o de Bengala Golf

ORISSA

OCEANO ÍNDICO

TELANGANA

Língua GOA KARNATAKA

ANDHRA PRADESH

PONDICHERRY LAQUEDIVAS

TAMIL NADU KERALA

0

289

SRI LANKA

Canará

Ao

Híndi

Manipuri

Gujaráti

Khasi & Garo

Marata

Tamil

Concani

Malaiala

Bengali

Punjabi

Oriá

Télugo

Caxemíri

Mizo

Assamês

Nepali

Ilhas Andaman e Nicobar

Nissi/Daffla Capital do país

Fonte: MAPS OF INDIA. India political map, 2011. Disponível em: <http://www.mapsofindia.com/culture/indianlanguages.html>. Acesso em: 5 jan. 2016.

A população indiana é marcada pela diversidade linguística. Somam-se ao menos 22 línguas reconhecidas e centenas de dialetos, mas esses números variam tanto diante da falta de consenso quanto ao reconhecimento linguístico. O mapa ao lado apresenta a principal língua adotada em cada estado da Índia. Essa diversidade descende basicamente de dois troncos étnico-linguísticos principais: o ariano, de onde surgiu o tronco indo-europeu, e o dravídico. A língua mais falada é o híndi, mas o inglês também é reconhecido como língua oficial. A constituição indiana aceita e estabelece línguas oficiais distintas aos estados, já que, apesar de maioria, o híndi não se firmou como língua nacional diante da resistência das demais. Na Índia, há também a diversidade religiosa, que traz tensão ao país. A maioria das pessoas, 73% da população, é hinduísta. Há também uma minoria muçulmana (13%) e ainda 5% de cristãos, 2% de sikhs, além de outras minorias. A convivência entre essas religiões é bastante tensa e fator de instabilidade constante, particular-

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mente entre hinduístas e muçulmanos. A diversidade cultural tem fomentado uma rivalidade praticamente irreversível e que se coloca como o grande desafio indiano em busca da estabilidade. A maior consequência dessa realidade é uma infinidade de conflitos regionais e movimentos separatistas. No norte do país está a Caxemira, habitada majoritariamente por muçulmanos que não se identificam com a Índia hinduísta e reivindicam a separação para pertencer ao Paquistão, simpático ao movimento separatista. A Caxemira é motivo de discórdia entre os dois países, que já travaram três guerras ao longo da segunda metade do século XX, antes de possuírem as armas atômicas que agora detêm: a Índia, desde 1974; o Paquistão, desde 1998. Também na fronteira com o Paquistão, pouco mais ao sul, há outro foco separatista: o Punjab, região habitada por sikhs, que reivindicam a independência. Observe, no mapa a seguir, os principais focos separatistas na Índia. O separatismo é violento e já vitimou a primeira-ministra indiana Indira Gandhi. Veja o texto na página a seguir, que noticiou o fato em 1984.

Allmaps

Índia: focos separatistas 80º L

AZAD CAXEMIRA

AFEGANISTÃO

ISLAMABAD

AKSAI CHIN

JAMMU e CAXEMIRA

CHINA

PAQUISTÃO

PUNJAB

NOVA DÉLHI

NEPAL

BUTÃO ASSAM

BANGLADESH Trópico de Câncer

Í N D I A

MIANMAR

od Go l f

e Bengal

a

20º N

Mar da Arábia

OCEANO ÍNDICO

Região separatista

0

234

SRI LANKA

Territórios reivindicados pela Índia Ocupado pelo Paquistão Ocupado pela China Limite da região da Caxemira Capital do país

Fonte: ÍSOLA, Leda; CALDINI, Vera. Atlas geográfico Saraiva. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 97.

A região da Caxemira é compartilhada pela Índia, pelo Paquistão e, em menor parte, pela China. É um ponto que causa tensão, uma vez que os três países são detentores da bomba atômica.

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Ver

Filme Gandhi. Richard Attenborough. Inglaterra/Índia. 1982

Gandhi. Direção: Richard Attenborough. Inglaterra/ Índia, 1982. O filme mostra a liderança de Gandhi na independência da Índia.

Mahatma Gandhi: Líder espiritual e político indiano que pregava a tolerância e convivência harmoniosa entre hinduístas e muçulmanos.

Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

Assassinato de Indira agita a Índia A primeira-ministra indiana Indira Gandhi foi assassinada a tiros, na manhã de ontem [31 de outubro de 1984], em Nova Déli, diante da residência governamental, por dois agentes de sua própria guarda de segurança. Os assassinos – um deles servia há dez anos na segurança da primeira-ministra – pertenciam à seita sikh e foram mortos por outros agentes. Após o anúncio do atentado, os sikhs foram caçados nas ruas das principais cidades do país por multidões que incendiaram lojas e restaurantes. Uma pessoa morreu e centenas ficaram feridas. Rajiv Gandhi, filho de Indira, assumiu a chefia do governo. Como o Mahatma Gandhi, em 1948, Indira foi assassinada num jardim. Ela saía de casa para dar uma entrevista ao ator inglês Peter Ustinov, quando um dos guardas disparou à queima-roupa em seu peito. “Ela tropeçou e caiu”, relatou Sharda Prasad, seu secretário de imprensa. O segundo guarda descarregou então sua submetralhadora contra a primeira-ministra. A agência Associated Press recebeu telefonema anônimo informando que o atentado fora uma vingança contra a sangrenta invasão, ordenada por Indira em junho, do Templo Dourado de Amritsar, quando morreram 800 sikhs. Em todo o mundo, as reações à tragédia foram de pesar, condenação e indignação. O [então] presidente norte-americano, Ronald Reagan, acentuou que “este crime insensato é uma vívida recordação da ameaça terrorista que todos nós enfrentamos”. Em Moscou, a agência Tass acusou a CIA norte-americana de estar implicada no atentado. Washington reagiu, classificando a acusação de “repugnante e irresponsável”. No Vaticano, o Papa fez uma veemente condenação do terrorismo. Em Brasília, o [então] presidente Figueiredo decretou luto oficial de três dias. O corpo de Indira Gandhi ficará exposto à visitação pública até sábado, quando será cremado, numa praça da capital, segundo a tradição hindu. ASSASSINATO de Indira agita a Índia. Folha de S.Paulo, 1º nov. 1984. Disponível em: <http://almanaque.folha.uol.com.br/mundo_01nov1984.htm>. Acesso em: 5 jan. 2016.

Wally McNamee/Corbis/Latinstock

• Esse tipo de conflito étnico-religioso não faz parte do cenário social e político brasileiro; dessa forma, notícias como a retratada no texto podem causar estranhamento. Analise e compare os tipos de violência que ocorrem no Brasil com esse retratado no texto.

Encontro entre Indira Gandhi e o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, em Washington, em 1971.

Navegar Embaixada da Índia <http://tub.im/nso2m2> O site da embaixada indiana no Brasil apresenta informações e notícias sobre a Índia.

O novo primeiro-ministro anunciado na matéria acima, Rajiv Gandhi, assim como a mãe, seria assassinado em 1991, em atentado terrorista cometido por outro grupo separatista: os Tigres Tâmeis. O separatismo tâmil ocorre ao norte da ilha de Sri Lanka, vizinha à Índia, mas parte da população indiana do sul é de origem tâmil e o país envolveu-se na questão durante os anos 1980. O Sri Lanka é composto basicamente de duas etnias rivais: os cingaleses e os tâmeis. O governo de Nova Délhi apoia o governo cingalês e, em troca, recebe o ódio tâmil.

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No leste-nordeste do país, no Assam, há outros focos separatistas, tendo como protagonista a Frente Unida de Libertação do Assam (Ulfa, em inglês), grupo surgido nos anos 1970 e que frequentemente realiza atentados terroristas. Sua bandeira é a independência dos assameses. Além da Ulfa, apenas na região nordeste, existem cerca de 20 grupos extremistas que lutam pela independência de outras unidades indianas. Como vimos, manter a integridade territorial diante de tantas reivindicações separatistas tem sido um grande mérito da Índia, que, apesar desse cenário de tensão nacional e territorial, configura-se como a maior democracia do mundo, realizando eleições regulares, tanto nacional como regional. O país tenta combater os focos separatistas pelo caminho da democracia: em vez de não reconhecer as identidades nacionais, respeita-as e lhes concede o máximo de autonomia possível. Mas não aceita a separação de nenhuma delas. Da autonomia à independência há uma grande distância política. Dependendo da região, esses focos separatistas têm tanto bandeira religiosa como linguística.

Conversando com a... Filosofia!

ESCREVA NO CADERNO

O sagrado, o profano e a geopolítica A Filosofia difere da Teologia quanto ao método, às perspectivas e ao objeto. Contudo, nas humanidades a discussão religiosa está frequentemente presente. Na Geografia isso é particularmente notado na análise dos conflitos territoriais, muitas vezes impregnados de religiosidade, como são os que se passam na Índia, no Paquistão e em Bangladesh, por exemplo. Logo após a independência, em 1947, o Império Britânico da Índia (Raj Britânico) fragmentou-se primeiramente em dois, depois em três novos Estados: Índia, Paquistão e Bangladesh. O ingrediente religioso foi determinante nessa reorganização territorial que originou novos Estados. A intolerância religiosa levou ao assassinato de Mahatma Gandhi, em 1948, por um fundamentalista de sua própria seita. Igualmente motivada pela religião, verificou-se o maior fluxo migratório da história: hinduístas migravam do novo Paquistão para a Índia e muçulmanos faziam o caminho contrário.

Allmaps

Índia, Paquistão e Bangladesh 75º L

AFEGANISTÃO

CAXEMIRA CHINA

PAQUISTÃO NEPAL

BUTÃO BANGLADESH

Trópico de Câncer

ÍNDIA

Mar da Arábia

Golfo de Bengala

MIANMAR

15º N

OCEANO ÍNDICO

0

540

SRI LANKA

Região de conflito

Índia, Paquistão e Bangladesh formaram, um dia, uma só unidade. Fonte: DURAND, Marie-Françoise; COPINSCHI, Philippe; MARTIN, Benoît; PLACIDI, Dephine. Atlas da mundialização. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 136.

1. Considerando o mapa acima, a questão religiosa e alguns pressupostos da Filosofia, pesquise e discuta com os colegas sobre a importância da religião nessa região do globo e seu impacto sobre o território. 2. Pesquise e discuta com seus colegas sobre a independência de Bangladesh e suas razões. 3. Apesar da distinção entre Teologia e Filosofia, são conhecidos filósofos religiosos na história da Filosofia. Procure saber sobre o assunto e discorra, em poucas linhas, sobre os trabalhos desses filósofos.

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3.2 A pujante economia Navegar Consulado da Índia em Minas Gerais <http://tub.im/i3angi> O portal do consulado apresenta informações sobre a economia indiana e suas relações comerciais com o Brasil.

• Norte: cinturão agrícola – região de grande produtividade agrícola, que faz da Índia um dos maiores produtores mundiais, particularmente no Vale do Ganges. Representa 23% do PIB indiano. • Leste: cinturão natural – região com as principais riquezas naturais do país, tais como ferro, manganês, carvão e tório. Representa 18% do PIB. • Oeste: cinturão financeiro – onde se localizam as principais instituições bancárias e financeiras do país. Responde por 27% do PIB. • Sul: cinturão tecnológico – no entorno da região de Bangalore, há os principais centros tecnológicos indianos. Conhecido como o Vale do Silício Asiático, representa 27% do PIB. • Centro: não há um cinturão específico e é a região de menor peso na economia do país. Compõe os restantes 5% do PIB indiano. A Índia é uma potência agrícola, com grande produtividade em diversos gêneros. Destaca-se o cultivo de jardinagem, especialmente no Vale do Ganges, uma das principais áreas agrícolas em todo o mundo. Observe a fotografia a seguir. É grande produtora mundial de arroz, feijão, trigo, milho, algodão, chá, tabaco e diversas frutas, como laranja, limão, banana e mamão. Nas áreas de plantation, surge ainda a cana-de-açúcar e a produção de borracha. Ritesh Shukla/NurPhoto/ZUMA Wire/Easypix Brasil

Jardinagem: Sistema de agricultura de subsistência asiático baseado em pequenas propriedades, grande número de mão de obra e baixa mecanização, mas com forte produtividade.

Com um PIB em torno de 2 trilhões de dólares, em 2014, a Índia inclui-se entre as dez maiores economias do mundo, porém o elevado ritmo de crescimento econômico provavelmente a colocará entre as quatro ou cinco maiores num prazo curto. Economistas falam em 2025, mesmo ano que a China assumiria a dianteira da economia mundial. Essas projeções são feitas com base no ritmo de crescimento que têm apresentado esses dois países, os dois de melhor desempenho nos últimos anos. Em linhas gerais, podemos dividir a Índia em cinturões regionais que, genericamente, podem ser identificados da seguinte maneira:

Plantação de arroz no Vale do rio Ganges, principal área agrícola da Índia, 2015.

A Índia possui o maior rebanho bovino do mundo, mas ressalte-se que, por crenças religiosas, sua população não se alimenta desse tipo de carne; logo, o gado não é abatido. A produção de carne na Índia, uma das maiores do mundo, está vinculada ao rebanho bubalino (búfalos asiáticos). Apesar de ser ainda um país com maioria da população rural (cerca de 65% está no campo), a Índia é industrializada e já se configura como um grande destaque mundial em alguns setores, como o siderúrgico, o farmacêutico e o têxtil. Mas o grande destaque da Índia nos últimos anos tem sido no setor tecnológico, e é de suma importância para isso a excelência acadêmica e científica que o país alcançou nos últimos anos, assim como grande número de mão de obra qualificada. O setor de serviços na Índia acompanha o crescimento econômico e já representa mais da metade do PIB do país.

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Ler

Editora Autêntica

Kim, de Rudyard Kipling. Belo Horizonte: Autêntica, 2014. Por meio das aventuras do pequeno Kim, o autor retrata a Índia do começo do século XX e apresenta detalhes de sua geografia.

Global player: Designação atribuída aos principais atores no cenário geoeconômico em escala global. Para ser considerado um global player um país precisa ter economia fortalecida e muitas de suas empresas atuando com destaque no mercado global.

MANJUNATH KIRAN/AFP

A industrialização indiana iniciou-se logo após a independência, nos anos 1950, e teve o Estado como condutor do processo desenvolvimentista, com fortes aplicações governamentais em indústrias de infraestrutura. Nesse período, os investimentos públicos respondiam por mais de 50% de todo o capital nacional e 90% dos novos projetos. O governo indiano também reduziu drasticamente as importações e a prioridade era a busca da autossuficiência industrial. Num estágio seguinte, que se deu ao longo dos anos 1980, a Índia introduziu um sistema de licenciamento às empresas estrangeiras que contava com maior participação do capital privado na vida econômica do país, com a formação de joint ventures de capital misto (público e privado estrangeiro). Também passou a importar máquinas e equipamentos, visando maior dinamização e modernização de seu parque tecnológico. A crise econômica dos anos 1990 levou a Índia a realizar reformas econômicas e abrir-se à importação, quebrando o protecionismo inaugurado desde o início de sua industrialização. Se, por um lado, isso reduziu a participação do capital nacional na economia, por outro, deu acesso a novas tecnologias e mais competitividade a seus produtos. Foi nesse período que o país percebeu que precisava modernizar-se para defender-se da ameaça chinesa com seus gêneros baratos que invadiam os mercados mundiais. No século XXI, a Índia assumiu definitivamente uma posição de global player, participando da competitividade mundial com papel de destaque. Iniciou-se um processo de aquisição das empresas estrangeiras pelas nacionais, atestando a solidez de seu desenvolvimento, conferindo identidade global às empresas indianas. Com boa parte de sua mão de obra qualificada (a Índia é o país que mais fornece engenheiros ao mundo, por exemplo) e a alta competitividade que adquiriu, a Índia vai tornando-se gradativamente uma força econômica e referência na área tecnológica. O peso demográfico e os investimentos na educação, na ciência e na tecnologia serão componentes importantíssimos nos próximos anos, pois a Índia tem alto percentual de jovens que, uma vez educados, formarão os profissionais qualificados do amanhã. Observe a fotografia a seguir. No entanto, há sérios desafios sociais a serem superados, como a disparidade regional, a forte concentração de renda, o analfabetismo, que, somados aos violentos distúrbios separatistas, representam ameaça à continuidade do desenvolvimento do país.

Universitárias programam um modelo de carro autônomo durante um campeonato de robótica, Bangalore, Índia, 2015. O país está na vanguarda da informática.

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ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando

1. A atualmente denominada Rússia já passou por profundas transformações territoriais e regimes políticos. Em que momento histórico ela deixou de ser monarquia para se tornar república? 2. O surgimento da URSS em 1922 é uma consequência direta da Revolução Russa de 1917, também chamada de Revolução Bolchevique. A qual período histórico está vinculado o auge da União Soviética? 3. A União Soviética era composta de 15 repúblicas e dentro delas havia inúmeras nacionalidades. Aponte fatores que levaram à dissolução da União Soviética. 4. A Rússia é herdeira da União Soviética. Dos 22 milhões de quilômetros quadrados que compuseram o maior país que existiu até hoje, 17 milhões ficaram para a Rússia e os 5 milhões restantes para as demais 14 repúblicas. Compare a Rússia de hoje com a União Soviética de “ontem”. 5. O Japão apresenta uma história de fortes mudanças ao longo do século XX. De país quase colonizado pelos Estados Unidos, converteu-se em potência imperialista até o desfecho da Segunda Guerra Mundial. Muitos países asiáticos guardam rancores históricos do Japão. Por quê? 6. A doutrina econômica que orientou a reconstrução do Japão foi o liberalismo clássico, com o país apostando todas as fichas na agressiva exportação. O que foi o “milagre japonês”? 7. A Índia é um país emergente e um dos componentes do Brics. Por que consideramos esse país uma potência emergente? 8. Quais são as perspectivas da Índia para os próximos anos e seu provável peso nas relações internacionais? 9. Quais os maiores problemas enfrentados pela Índia para alcançar a estabilidade política?

Olhar cartográfico O mapa a seguir mostra a distribuição da taxa de fertilidade na Índia, por estado. Compare-o com as informações sobre os cinturões regionais, apresentadas na página 152. Analise a alta taxa de fertilidade no norte da Índia e a taxa mais baixa no sul e relacione com as atividades econômicas desenvolvidas nessas regiões.

DACOSTA MAPAS

Índia: taxa de fertilidade (2013) 80° L

JAMMU E CAXEMIRA

AFEGANISTÃO

HIMACHAL PRADESH CHANDIGARH JAB

PUN

CHINA

UTTARAKHAND

HARYANA

PAQUISTÃO

NE

PA L

NOVA DÉLHI

RAJASTHAN

BUTÃO ASSAM

ESH LAD NG BA

JHARKHAND

Mar da Arábia

DAMAN E DIU DADRA E NAGAR HAVELI

CHHATTIS GA RH

MADHYA PRADESH

GUJARAT

MAHARASHTRA

MIZORAM

MIANMAR LAOS

Golfo de Bengala

TAILÂNDIA

GOA

1,8 - 1,9

OCEANO ÍNDICO

KARNATAKA

2,0 - 2,3 2,4 - 2,8

MANIPUR TRIPURA

BENGALA OCIDENTAL

ORISSA

ANDHRA PRADESH*

Taxa de fertilidade (%) 1,6 - 1,7

NAGALAND

MEGHALAYA

BIHAR

Trópico de Câncer

ARUNACHAL PRADESH

SIKKIM

UTTAR PRADESH

LAQUEDIVAS

2,9 - 3,1

KERALA

TAMIL NADU

Ilhas Andaman e Nicobar

PONDICHERRY

Fonte: CENSUS OF INDIA. SRS Statistical Report 2013. p. 48. Disponível em:

3,2 - 3,4 Sem dados

Capital do país

*O Estado Telangana foi formado em junho de 2014.

SRI LANKA

0

342

<http://www.censusindia.gov.in/vital_ statistics/SRS_Reports_2013.html>. Acesso em: 28 maio 2015.

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Atividade em grupo Neste capítulo, estudamos, entre outras coisas, as transformações na antiga União Soviética. Anteriormente já havíamos estudado as transformações na China. • Comparem as transformações históricas que sofreram esses dois países ao longo do século XX e apontem possíveis causas do sucesso de um e fracasso do outro.

De olho na mídia TEXTO 1 A matéria a seguir traz subsídios para melhor entendimento sobre o contexto da crise que assolou o Japão a partir de 1991. Após a leitura do texto, responda: 1. Quais são as causas apontadas pelo texto para o início da crise econômica no Japão? 2. Por que a dívida pública japonesa é tão alta? Procure saber se acontece o mesmo em outros países. 3. Que tipo de países tem dívida tão alta? Japão: início da crise econômica [...] Crise econômica – O Japão enfrenta uma crise de grandes proporções nos anos 1990. O crescimento da década anterior – assentado na acelerada automação da indústria – levara os bancos a dispor de muitos recursos, que, investidos no mercado imobiliário e na Bolsa de Tóquio, propiciam a supervalorização de ativos (imóveis, ações etc.) conhecida como bolha especulativa. A crise eclode em 1991, quando os preços desses ativos desabam, dificultando o pagamento dos empréstimos feitos. Sem conseguir receber os créditos, o setor bancário é o mais prejudicado. No decorrer da década, o Produto Interno Bruto (PIB) japonês apresenta baixo crescimento. O país não acompanha a revolução tecnológica da informação e das telecomunicações que leva à criação de empresas gigantes nesse setor, sobretudo nos EUA, na Coreia do Sul e em outros países do Sudeste Asiático. Em 1997, os efeitos da crise financeira na região se fazem sentir no Japão, grande investidor nessas nações. [...] À beira da recessão – O panorama econômico se deteriora em 2001, com a queda das exportações e do consumo interno e o aumento do desemprego, que chega, em meados de 2002, ao recorde de 5,7%. Com o país à beira da recessão, o PIB, em lugar de repetir a taxa de 1,7% de 2000, cai 0,4% em 2001 e 0,7% em 2002. Internamente, as dificuldades são causadas porque o país sofre os efeitos dos sucessivos pacotes de estímulo à economia adotados na década de 1990, que falharam na tentativa de reativar o desenvolvimento e aumentaram a dívida pública – 140% do PIB, a mais alta entre os países industrializados. [...] CONHEÇA o país – Japão. Veja on-line. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/idade/ exclusivo/conheca_pais/japao/cronologia.html>. Acesso em: 12 jan. 2016.

TEXTO 2 O texto abaixo aborda o impacto da crise de 2008 no Bric: Brasil, Rússia, Índia e China (a África do Sul foi inserida em 2011, quando a sigla passou a ser Brics). Dois desses países foram discutidos nesse capítulo e a China foi estudada no capítulo anterior. • Leia o texto e aponte os diferentes reflexos da crise nesses três países e, depois, faça uma comparação com o Brasil. Brasil foi o segundo país dos BRICs mais afetado pela crise, diz CNI O setor industrial da Índia e da China não foi afetado, registrando crescimento de 14,7% e 24,3%, respectivamente. A indústria brasileira foi a segunda mais afetada pela crise econômica internacional entre os quatro países dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), com a queda na produção de 2,5% entre setembro de 2008, véspera do início da crise, e junho último. A Rússia foi a mais prejudicada, com o produto industrial decrescendo 32,1% no período, revela o documento Indústria Brasileira em Foco, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) nesta terça-feira, 31 de agosto. De acordo com o documento, que compara o comportamento da indústria nos países integrantes do BRIC diante da crise econômica internacional, o setor industrial da Índia e da China não foi afetado, registrando crescimento de 14,7% e 24,3% respectivamente. A CNI assinala, na nota, que tais desempenhos demonstram que a retomada da atividade industrial nos BRICs, após a crise, está sendo diferenciada. Diz o documento que depois de forte queda na produção, a indústria russa enfrenta dificuldades para se recuperar. “As indústrias do Brasil, da China e da Índia, por outro lado, apontam ritmo de crescimento similar. A diferença, no caso do Brasil, é que o impacto da crise internacional, no final de 2008, foi muito mais intenso do que na indústria dos outros dois países”, destaca a CNI. O economista da CNI Marcelo de Ávila explica a queda mais acentuada da indústria russa pela alta insegurança jurídica existente no país, devido ainda aos efeitos do regime de transição do comunismo, que ocasionou a retirada de investimentos internacionais. “Houve fuga de capitais na Rússia para cobrir perdas no mercado internacional”, informa. Ávila assinala que, no polo oposto à Rússia, os efeitos praticamente nulos da crise na China se devem, sobretudo, à adoção do câmbio desvalorizado, que não afetou as exportações do país. [...] BRASIL foi o segundo país dos Brics mais afetado pela crise, diz CNI. Redação Carta Capital, 1º set. 2010. Disponível em: <www.cartacapital.com.br/economia/ brasil-foi-o-segundo-pais-dos-brics-mais-afetado-pela-crise-diz-cni>. Acesso em: 12 jan. 2016.

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CAPÍTULO 8

Borna_Mirahmadian/Shutterstock.com

O espectro geopolítico do Oriente Médio

Além da privilegiada localização geoestratégica – entre Ásia, África e Europa –, outro fator que torna o Oriente Médio protagonista no cenário geopolítico mundial é a grande produção de petróleo. No Oriente Médio estão 47,7% das reservas de petróleo e, em 2014, essa região foi a maior produtora desse hidrocarboneto, abastecendo 31,7% de todo o consumo mundial. No entanto, os maiores consumidores em 2014 foram países que não pertencem a essa região, como Estados Unidos (19,9%), China (12,4%), Japão (4,7%) e Rússia (3,5%).

EUROPA

OS PRINCIPAIS PAÍSES PRODUTORES DE PETRÓLEO NO ORIENTE MÉDIO (2014)

ÁFRICA

Participação na produção mundial (em %)

Arábia Saudita

543,4

12,9

Emirados Árabes

167,3

4,0

Irã

169,2

4,0

Iraque

160,3

3,8

Kuwait

150,8

3,6

Catar

83,5

2,0

Omã

46,2

1,1

Pankaj Nangia/AP/ Glow Images

País

Produção diária de barris (em milhares)

Fonte: BP. Statistical Review of World Energy 2015. p. 6-10. Disponível em: <http://www.bp.com/ content/dam/bp/pdf/energy-economics/statistical-review-2015/bp-statistical-review-of-worldenergy-2015-full-report.pdf>. Acesso em: 13 jan. 2016.

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Tópicos do capítulo } Configuração territorial do Oriente Médio } Turquia: posição geoestratégica } O conflito israelo-palestino } A geopolítica do Golfo Pérsico: Irã e Iraque

Mar Negro

Mar Cáspio

Mar Mediterrâneo

ÁSIA

Golfo Pérsico

OCEANO ÍNDICO Nota: O mapa não está de acordo com as convenções cartográficas.

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

o elh rm Ve ar M

Ponto de partida

ORIENTE MÉDIO

ESCREVA NO CADERNO

• Discuta com seus colegas por que o Oriente Médio é considerado uma região geoestratégica.

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1. Uma região geoestratégica

Filme de Stephen Gaghan. Syriana: a indústria do petróleo. EUA, 2005

Syriana: a indústria do petróleo. Direção: Stephen Gaghan. Estados Unidos, 2005. O filme apresenta a visão ocidental sobre a relação entre os negócios do petróleo, o terrorismo internacional e a CIA.

O Oriente Médio é uma espécie de “nó geográfico”, pois entrelaça os continentes Ásia, África e Europa. Situa-se fundamentalmente no sudoeste asiático, porém é ligado à África pela Península do Sinai. A maior parte da Turquia está em território asiático, mas ela tem também uma pequena porção situada na Europa; por isso, esse país do Oriente Médio é classificado como euro-asiático. Observe o mapa abaixo. Oriente Médio: político Mar de Aral

45° L

EUROPA

Mar Negro

Allmaps

Ver

Mar Cáspio

TURQUIA (parte europeia)

Ancara TURQUIA

Teerã LÍBANO Beirute

Mar Mediterrâneo

Tel Aviv ISRAEL

SÍRIA Damasco Amã

Bagdá IRÃ

IRAQUE

JORDÂNIA

EGITO (parte africana)

KUWAIT Kuwait Golfo Pérsico BAREIN Manama CATAR Doha Abu Dhabi

EGITO

Riad

Trópico de Câncer

ARÁBIA SAUDITA

rV Ma

OMÃ

o elh erm

ÁFRICA

Sana

0

300

IÊMEN

o Golf

Gol fo de

EMIRADOS ÁRABES UNIDOS

Omã Mascate

Mar da Arábia

OCEANO ÍNDICO

de Áden

Capital do país

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 49.

Rio Eufrates na Síria, 2011. A presença do rio soma-se à paisagem desértica que caracteriza grande parte do Oriente Médio.

A região é circundada pelo mar Negro, ao norte; mar Mediterrâneo, a noroeste; mar Vermelho, a oeste; Golfo de Áden e mar da Arábia, ao sul; golfos de Omã e Pérsico, próximos ao centro; e mar Cáspio, a nordeste. Todos eles dispõem de passagens estratégicas que muitas vezes foram motivo de guerras: o Canal de Suez, o Estreito de Bósforo, o Estreiro de Ormuz, o estuário Chat el Arab e o Estreito el Mandeb são pontos de precisão estratégica e estão na rota marítima do comércio internacional. Relevo acidentado e paisagem desértica dominam a região, embora haja algumas poucas áreas menos castigadas pela aridez, como a orla mediterrânea ou a planície da Mesopotâmia, no Iraque, entre os rios Tigre e Eufrates, drenados em grande parte pelo derretimento das neves das montanhas turcas. Observe a fotografia abaixo.

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Por causa da pobre rede de drenagem – os rios Tigre, Eufrates e Jordão são verdadeiras exceções em disponibilidade hídrica –, a água assume importância vital para povos e Estados. Assim, são muitos os desentendimentos em relação ao controle dos mananciais, como vemos na disputa entre Israel e Síria pelas colinas de Golã ou na tensão que já envolveu Turquia e Iraque pelo controle das águas do rio Tigre. (Observe o mapa a seguir). Muito próximo do Oriente Médio, o Nilo, no Egito, encontra-se na mesma situação, o que tem causado grandes conflitos entre Egito, Sudão e Etiópia, conforme estudaremos mais adiante.

Navegar BBC Brasil <http://tub.im/7xh4z6> O site da BBC (em português) traz matérias e artigos interessantes sobre a conjuntura internacional em geral. Há links especiais sobre o Oriente Médio e a África.

Allmaps

A questão hídrica da Turquia (parte asiática) ao Golfo Pérsico 45° L

Mar Negro

Mar Cáspio

GEÓRGIA

ARMÊNIA AZERBAIJÃO TURQUIA (parte asiática)

Limites do GAP (Great Anatolian Project)

Lago Van

AZB

Lago Tuz

Lago Urmia

CHIPRE LÍBANO Mar Mediterrâneo

SÍRIA Barragem da Unidade

Rio Jordão

Rio

IRAQUE Rio

JORDÂNIA

UZ BE Q

UI ST ÃO

IRÃ

re Tig

ISRAEL

Países que desenvolvem projetos de construção de fábricas de dessanilização da água do mar Estados que controlam o débito do Tigre e do Eufrates Graves problemas ecológicos causados pelas transformações hidráulicas (salinização dos solos, secagem dos pântanos, diminuição de fertilidade dos solos) TURCOMENISTÃO Conflitos internacionais ligados à gestão dos recursos hídricos

Euf ra

tes

30° N

KUWAIT

Lençol freático de Disi Rio

Golfo Pérsico BAREIN

Ma

CATAR

EMIRADOS ÁRABES UNIDOS

o

elh

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Trópico de Câncer

ARÁBIA SAUDITA

rmuz eO

od eit

Es tr

lo Ni

EGITO

SUDÃO

OMÃ

1 000 000

Ilhas Dahlak

IÊMEN

300 000 100 000 ERITREIA

0

225

OCEANO ÍNDICO Fábricas de dessalinização Canalização de água potável Principais barragens Lençol aquífero fóssil

Fonte: GRESH, Alain et al. (Dir.). Atlas da globalização Le Monde Diplomatique. Lisboa: Campo da Comunicação, 2003. p. 168.

Andrew Grant/Dreamstime/Isuzu Imagens

Capacidade das fábricas de dessanilização, em m3 por dia 3 000 000

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Ler

Editora Companhia das Letras

Uma história dos povos árabes, de Albert Hourani. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. Clássico de Albert Hourani que faz um amplo resgate dos povos árabes desde a Arábia pré-islâmica até o século XX.

Abraâmico: Termo relativo a Abraão, o patriarca das três religiões: judaísmo, cristianismo e islamismo.

Religiões do Oriente Médio Mar Negro TURQUIA (parte europeia)

ARMÊNIA

Ancara

60° L UZ BE QU I

Mar Cáspio

GEÓRGIA

AZERBAIJÃO

AZB

TURQUIA

Allmaps

8

Um emaranhado de povos habita essa região. O povo árabe é predominante e presente em vários países, abrangendo, além do Oriente Médio, longos trechos do norte africano. Há também os povos turco (Turquia), judeu (Israel), persa (Irã), curdo (vários países), entre outros. Judaísmo, cristianismo e islamismo são religiões abraâmicas e surgiram no Oriente Médio, nessa ordem. A mais recente delas, o islamismo, é também a predominante. O islamismo surgiu no século VII, criado por Muhammad (Maomé), que difundiu sua crença em grande parte da Península Arábica. Muhammad morreu em 632 sem deixar um sucessor (califa), e isso provocou uma cisão na comunidade muçulmana, que não chegou a um consenso quanto à indicação do substituto do profeta. Data desse fato a divisão religiosa entre sunitas e xiitas, pois os que defendiam que alguém ligado à família do profeta deveria ser seu sucessor queriam empossar o primo e genro de Muhammad, Ali, casado com sua filha Fátima. Eles ficaram conhecidos como “os partidários de Ali”, ou xiitas, do árabe shi’at’Ali. Outra corrente defendia que o sucessor não deveria ser necessariamente alguém ligado a Muhammad por laços sanguíneos, mas sim filosóficos e espirituais, ou seja, que seguisse o “exemplo de vida” do profeta, a suna, do árabe ahl as-sunnah, ou “os que seguem as práticas proféticas”. Assim surgiu a corrente hoje majoritária do Islã, o sunismo. Veja, no mapa a seguir, a distribuição dos seguidores das três religiões abraâmicas no Oriente Médio.

ST

ÃO

TURCOMENISTÃO

GRÉCIA Nicósia

Mar M editerr âne

CHIPRE

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LÍBANO Beirute

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Damasco

Bagdá

Tel Aviv

ISRAEL

Mashhad

Teerã

Mosul

SÍRIA

Amã

IRÃ

IRAQUE

JORDÂNIA

KUWAIT Kuwait Go lfo

30° N

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BAREIN LÍBIA

EGITO

Manama

CATAR

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Medina

ARÁBIA SAUDITA

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Ma

Trópico de Câncer

CHADE

Abu Dhabi

EMIRADOS ÁRABES UNIDOS

Mascate

OMÃ Cristãos Muçulmanos xiitas Muçulmanos sunitas Muçulmanos xiitas e sunitas

SUDÃO ERITREIA

Sana

OCEANO

Judaísmo Capital do país Cidade

IÊMEN ÍNDICO

ETIÓPIA

DJIBUTI

0

320

Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas estratégico y geopolítico: geopolítica de las relaciones de fuerza en el mundo. Madrid: Alianza Editorial, 1984. p. 40.

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Allmaps

Turquia: localização estratégica 35° L

BULGÁRIA TURQUIA (parte europeia)

ARMÊNIA

O expresso Berlim-Bagdá, de Sean McMeekin. São Paulo: Globo, 2011. O projeto da estratégica ferrovia Berlim-Bagdá é o tema desse livro, que mostra as pretensões germânicas na disputa territorial pelo espólio otomano durante a Primeira Guerra Mundial.

AZERBAIJÃO AZB

TURQUIA (parte asiática)

GRÉCIA

Ler

Mar Cáspio

GEÓRGIA

Ancara

Estreito de Dardanelos

GRÉCIA

RÚSSIA Mar Negro

Estreito de Bósforo

Atatürk: líder da Revolução dos Jovens Turcos, que criou a Turquia moderna, em fotografia de c. 1916.

Editora Globo

Situada na zona de contato entre Europa e Ásia, a Turquia configura-se como uma espécie de “península” do Oriente Médio. O destaque que teve ao longo dos anos, desde tempos remotos, está relacionado a essa posição geoestratégica. Observe o mapa a seguir. A Turquia atual é produto do rearranjo territorial realizado após o desfecho da Primeira Guerra Mundial, quando um dos mais duradouros reinos de todos os tempos ruiu: o Império Otomano. Nascia a Turquia moderna, com os contornos atuais. O país estava fadado, simplesmente, a desaparecer, mas Mustafa Kemal, o Atatürk (em português, pai dos turcos), liderou uma revolta (a Revolução dos Jovens Turcos) que resguardou a sobrevivência turca, mas com um território bem menor. O líder que emergia com o novo país aproximou a Turquia do Ocidente, dando as costas ao Oriente. A Turquia de Atatürk, diferentemente do que se viu durante os oito séculos do Império Otomano, separou o Estado da Igreja, tornando-o laico perante a nação majoritariamente muçulmana. Nos últimos tempos, o país tem sido governado por um partido religioso moderado, e essa reaproximação entre política e religião preocupa grande parte da sociedade turca. A Turquia do século XX optou pela neutralidade, mas não conseguiu resistir à pressão dos Estados Unidos para que integrasse a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), pois sua posição geográfica era demasiadamente importante para lhe conferir imparcialidade no mundo da Guerra Fria: os Estados Unidos queriam a Turquia na aliança militar antissoviética como forma de dificultar a saída do inimigo pelos mares a oeste.

Keystone/Getty Images

2. Turquia: entre o Ocidente e o Oriente

IRÃ

SÍRIA

CHIPRE

LÍBANO

Mar Mediterrâneo

IRAQUE ISRAEL JORDÂNIA

30° N

0

236 km

Ve Ma rm r elh o

ARÁBIA SAUDITA

lfo Go sico r Pé

KUWAIT EGITO

Capital do país

Conversando com a... Sociologia!

Os estreitos de Bósforo e Dardanelos são de natureza estratégica, pois permitem o acesso aos mares Negro e Mediterrâneo. Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 49. ESCREVA NO CADERNO

Secularismo é um conceito amplo que reflete as relações entre religião, cultura, vida social e política. Uma de suas definições se refere a um sistema de doutrinas que defendem a separação institucional entre a Igreja e o Estado na condução de um país. Isso significa que quem defende o secularismo não aceita um Estado teocrático ou que seja governado por um partido religioso. Aqueles que defendem a ideia o fazem ressaltando que a crença dos indivíduos é um elemento estruturante da vida social e que, portanto, deve ser considerada nas definições políticas do Estado. • Qual é a sua opinião sobre isso? Converse com seus colegas sobre as relações entre religião e política e entre Igreja e Estado na construção de políticas e ações estruturadoras da sociedade.

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2.1 O separatismo curdo }}

Ver

Os curdos formam a maior nação do mundo sem Estado. Estima-se em 26 milhões de habitantes o total de curdos vivendo na mesma região há aproximadamente 5 mil anos e com forte tradição tribal. Trata-se de um povo do tronco etnolinguístico persa, igualmente derivado do tronco indo-europeu. Quando as fronteiras foram constituídas no Oriente Médio, logo após a Primeira Guerra Mundial, esse povo assistiu, decepcionado, à criação de novos países árabes, persa e judeu, não sendo contemplado com um Estado próprio. Isso é fruto direto da intervenção franco-britânica no rearranjamento territorial da região nos anos 1920 e que selou o destino histórico-territorial do Oriente Médio, cujas consequências perduram até os dias de hoje. Os curdos são majoritários na região que ocupam, hoje distribuídos naquilo que se convencionou pertencer a Turquia, Irã, Iraque, Síria e Armênia. (Observe o mapa a seguir). Entretanto, eles estão nesse local bem antes da existência dessas delimitações. Há ainda minorias curdas no Líbano, na Geórgia e na Europa. O sonho desse povo é ver a criação do próprio Estado: o Curdistão. Há até mesmo um movimento separatista antigo que luta por isso. Os curdos são perseguidos na Turquia, no Irã e no Iraque. Nos anos 1940, organizou-se no Iraque um movimento nacionalista duramente reprimido pela monarquia da época. Nos anos 1980, o movimento foi retomado, dessa vez de forma mais intensa na Turquia. Com os desdobramentos da Guerra do Iraque em 2003 e o consequente esfacelamento do regime vigente, os curdos reorganizaram-se em Kirkuk, onde o movimento tornou-se mais bem aparelhado, porém com forte objeção turca às pretensões de independência. Um dos principais argumentos curdos reside no fato de esse povo viver naquele lugar há bem mais tempo que os turcos, que lá chegaram por volta do século X. A Turquia não aprova a criação do Curdistão, e tudo indica que essa contenção ainda irá durar por muitos anos. No norte do Iraque, os curdos são uma força de resistência às ofensivas do Estado Islâmico, iniciadas em meados da década de 2010. À medida que os combatentes curdos resistem ao avanço do Estado Islâmico, eles ganham força e simpatia local e internacional, que são incentivos para as pretensões de independência curda, auRÚSSIA mentando as preocupações GEÓRGIA turcas com essa possibilidade.

Filme de David Lean. Lawrence da Arábia. Reino Unido, 1963

Lawrence da Arábia. Direção: David Lean. Reino Unido, 1963. Épico que narra o front oriental da Primeira Guerra Mundial, quando os árabes lutaram ao lado da Inglaterra contra os otomanos, acreditando que, após o desfecho do conflito, teriam sua independência.

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A presença curda 40º L

Tbilisi

Mar Negro

Mar Cáspio

ARMÊNIA

TURQUIA

AZB

Tunceli

Elazig

Lago Van Diyarbakir Urumiya

Badinam

Mosul

Alepo Latakia

Rio E

terr âne o

Mahabad Teerã IRÃ

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LÍBANO

Ma rM

Lago Urmia

Kirkuk

Rio

35º N

Arbil

uf

s te ra

SÍRIA

AZERBAIJÃO

Ierevan

Erzurum

Damasco IRAQUE

Bagdá

Área de ocupação da população curda

Karbala JORDÂNIA

Capital do país

Mar Morto

Cidade

ISRAEL Basra 0

130

ARÁBIA SAUDITA

KUWAIT

Golfo Pérsico

Fonte: SMITH, Dan. O atlas do Oriente Médio: conflitos e soluções. São Paulo: Publifolha, 2008. p. 91.

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Chipre 33º L

Zona sob controle da República de Chipre Zona neutra sob o controle das Nações Unidas Zona ocupada pela Turquia desde 1974 Base militar do Reino Unido Capital do país Capital do distrito

Mar

Mediterrâneo Kyrenia

Famagusta

NICÓSIA 35º N

Larnaca Paphos Limassol 0

30

Fonte: CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY (CIA). Cyprus: Physiography. Disponível em: <https://www.cia.gov/library/publications/resources/cia-mapspublications/map-downloads/Cyprus_Physiography.pdf>. Acesso em: 6 jan. 2016.

Roberto Contini/Alamy/Latinstock

Outro tema latente na geopolítica turca é a questão cipriota. O Chipre é um país independente reconhecido pela ONU e membro da União Europeia (UE). No entanto, guarda conflitos históricos com a Turquia, que mantém uma presença militar no norte da ilha, onde, de acordo com os turcos, localiza-se a República Turca do Chipre do Norte, um Estado autodeclarado desde 1975, mas reconhecido apenas por Ancara. (Observe o mapa ao lado.) Trata-se de uma questão nacional, já que em toda a ilha do Chipre 80% da população tem ascendência grega, diferentemente dessa minoria turca do norte do país. Por causa desse problema histórico, Turquia e Grécia mantêm tensas relações. Contudo, os últimos anos mostraram uma reaproximação entre os países rivais, ambos inseridos em um novo contexto geopolítico: a Turquia, governada por um partido fundamentalista islâmico moderado, redesenha sua estratégia, tentanto se firmar como potência regional; a Grécia, atravessando grave crise econômica, busca conter gastos militares e a sua sobrevivência como nação. Por trás dessa questão está o ingrediente religioso, uma vez que a Turquia é um país cuja população é 99% muçulmana, enquanto na Grécia a maioria das pessoas é cristã-ortodoxa. Observe, na fotografia abaixo, a influência grega em Chipre.

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2.2 A questão cipriota }}

Ver

Filme de Tassos Boulmetis. O tempero da vida. Turquia/Grécia, 2005

O tempero da vida. Direção: Tassos Boulmetis. Turquia/ Grécia, 2005. O filme aborda a cultura turca e a relação histórica entre gregos e turcos.

A influência da cultura grega pode ser vista na arquitetura (construções pintadas de branco e azul), na culinária e na religião cipriotas. Igreja grega no Chipre, em 2013.

2.3 O anseio à União Europeia }} A Turquia é o mais antigo pleiteante à União Europeia, bem antes da ampliação dos anos 1990. Ainda na década de 1960, quando a então Comunidade Econômica Europeia tinha pouco mais de dez anos, a Turquia iniciou as negociações para fazer parte do bloco. Entretanto, o que a história mostrou é que o país muçulmano não é bem-vindo a essa comunidade de maioria cristã. Apesar disso, a Turquia jamais desistiu.

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U. Baumgarten via Getty Images

Os obstáculos são vários, entre eles: • a questão cultural entre a Turquia muçulmana e a Europa cristã; • a distribuição das cadeiras do Parlamento europeu, que é realizada de acordo com o peso demográfico de cada país. O eventual ingresso turco já lhe daria a condição de segundo país mais populoso da União Europeia, em razão do alto crescimento vegetativo; em poucos anos, a população turca deve superar a da Alemanha; • a Turquia faz fronteira com o Iraque e o Irã. Isso significa que a União Europeia, igualmente, passaria a fazer fronteira com regimes pouco democráticos; • a questão cipriota, já que o Chipre é membro pleno da União Europeia e sua relação com a Turquia é tensa; • o histórico de intervenções militares no governo, sempre uma sombra ao regime parlamentar turco; • a questão da imigração: contam-se aproximadamente 1 milhão de turcos e outras centenas de milhares de curdos na Alemanha. “Como seria então a imigração turca caso a Turquia entrasse na União Europeia?”, perguntam os alemães. Observe a fotografia abaixo.

A grande quantidade de imigrantes turcos na Alemanha levanta muitas dúvidas a respeito do futuro desse processo se a Turquia fosse incluída na União Europeia. Na fotografia, feira turca em Berlim, Alemanha, 2015.

Nos últimos anos, a Turquia retomou sua importância por meio de uma agressiva política externa, após um período em que manteve uma postura de mera expectadora. Essa recente expressão que o país adquiriu pode ser resultado dos anos de crise do bloco europeu. Nessa nova fase, a Turquia, que sempre foi, entre os países muçulmanos, aquele com melhor relação com o Estado de Israel, afasta-se cada vez mais do país judeu e tem sido, no universo islâmico, o maior questionador da política israelense. Isso se tornou mais claro após os incidentes ocorridos em 2010 envolvendo uma fragata turca que levava ajuda humanitária a palestinos e pretendia chegar à Faixa de Gaza, mas foi interceptada por forças israelenses que invadiram a embarcação, deixando vários mortos. A Turquia guarda uma história de rivalidade com o Irã desde os tempos dos embates entre o Império Otomano (turco) e o Império Persa (iraniano). Contudo, nessa nova fase da diplomacia turca, o país tem procurado uma reaproximação com o regime dos aiatolás.

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3. O conflito israelo-palestino Durante séculos, a região hoje conhecida como Oriente Médio esteve sob o domínio do Império Otomano. No fim da Primeira Guerra Mundial, o fragilizado império foi o grande derrotado ao lado da Alemanha. Reino Unido e França assumiram o comando de grande parte da região e, no auge do imperialismo, estenderam seus domínios, estabelecendo mandatos. O mandato da Palestina coube ao Reino Unido, assim como o do Iraque e o da Transjordânia; a França herdou a Síria e o Líbano.

Conversando com a... História!

Palestina: Parte do Oriente Médio que abarca atualmente o Estado de Israel, mas chamada de Palestina pelos árabes.

ESCREVA NO CADERNO

O período final do Império Otomano aconteceu durante a Segunda Era Constitucional do Império Otomano. Durante a Primeira Guerra Mundial, na região do Oriente Médio, a batalha aconteceu entre as Forças Aliadas, formadas pela Grã-Bretanha, França e Rússia, e as Forças Centrais, formadas basicamente pelo Império Otomano. O Império Otomano foi bem-sucedido no início da guerra. Os Aliados foram derrotados nas batalhas de Galipoli, Iraque e Bálcãs. No entanto, alguns territórios anteriormente perdidos foram reconquistados. A Revolução Russa também foi um fator favorável para a reconquista de territórios Otomanos, como Trabzon e Erzurum. As ofensivas incessantes dos ingleses mostraram-se decisivas e o Império Otomano acabou sendo derrotado em 1917. ALTMAN, Max. Hoje na História: 1920 – Império Otomano e nações aliadas da Primeira Guerra Mundial assinam tratado de paz. Opera Mundi, 10 ago. 2010. Disponível em: <http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/5582/ conteudo+opera.shtml>. Acesso em: 6 jun. 2016.

Retome seus estudos de História, converse com seus colegas e responda às questões. 1. Quando se constituiu o Império Otomano? 2. Qual é a importância do Império Otomano para os árabes muçulmanos? 3. Quais foram os impactos na configuração territorial árabe com o fim do Império Otomano?

Simultaneamente aos acontecimentos no Oriente Médio, durante a Primeira Guerra Mundial desenvolvia-se na Europa uma articulação bem-sucedida entre líderes da comunidade judaica: o projeto para a criação de um Estado judeu. Esse movimento ficou conhecido como sionismo, uma referência ao monte Sião, em Jerusalém, na Palestina, cujo idealizador foi o jornalista austríaco-judeu Theodor Herzel. O sionismo era uma tentativa de viabilizar a criação de um “lar nacional” para reunir esse povo que há séculos vivia disperso por toda a Europa, onde muitas vezes era violentamente perseguido. A elite judaica concluiu que chegara a hora de dar fim àquela situação de discriminação e penúria à qual estava submetido o seu povo. Também era motivo de preocupação que esse preconceito pudesse chegar até ela. A competente mobilização política e a força econômica da comunidade judaica europeia estreitaram os laços com o alto gabinete britânico e, em 1917, um histórico documento era divulgado pelo ministro das relações exteriores do Reino Unido da Grã-Bretanha, a Declaração Balfour. Secretaria do Ministério das Relações Exteriores 2 de novembro de 1917 Estimado Lord Rothschild: […] O governo de sua majestade vê com beneplácito o estabelecimento na Palestina de um lugar nacional para o povo judeu e fará o quanto estiver em seu poder para facilitar a realiazação desse objetivo, ficando claramente entendido que não se tomará nenhuma medida que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas da Palestina, ou dos direitos e estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país. Lhe agradecerei se puser esta declaração a conhecimento da Federação Sionista. Atenciosamente, Arthur James Balfour GOMES, Aura Rejane. A questão da Palestina e a fundação de Israel. 2001. Dissertação (Mestrado em Ciência Política)–Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo, 2001. p. 20-21. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8131/tde-24052002-163759/pt-br.php>. Acesso em: 6 jan. 2016.

Navegar Ministério das Relações Exteriores – Departamento do Oriente Médio <http://tub.im/4injrt> O site do Departamento do Oriente Médio, do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), traz documentos oficiais da relação Brasil-Oriente Médio, informações sobre a região, acervo bibliográfico e links.

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O passo seguinte do sionismo foi organizar a migração de judeus europeus para a Palestina. Veja na tabela abaixo a evolução dessa migração. Observe como os números aumentam após a remodelação territorial imposta ao Oriente Médio depois da Primeira Guerra Mundial. Migração de judeus europeus para a Palestina Período

Número de imigrantes

1822-1903

20 000-30 000

1904-1914

35 000-40 000

1919-1923

35 000

1924-1931

82 000

1932-1938

217 000

1939-1945

92 000

1946-1948

61 000

Fontes: SALEM, Helena. Palestinos, os novos judeus. Rio de Janeiro: Eldorado, 1977; DAVIS, J. A paz evasiva. Rio de Janeiro: DLEA, 1970.

As migrações aumentaram muito nos anos 1920 e 1930, e não tardaram a eclodir os primeiros conflitos entre os nativos e os judeus imigrantes. Os camponeses palestinos não aceitaram bem aquela chegada repentina e numerosa de judeus europeus à sua terra, diferentes daqueles judeus com os quais conviviam há séculos. Muitos palestinos vendiam suas propriedades ao judeu que chegava sem saber do projeto que estava por trás daquela apropriação gradual de terras.

No começo do século passado, havia uma nítida maioria árabe na Palestina.

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A Palestina às vésperas do mandato britânico (1920) 34º L

Mandato britânico após 1923 Cidades palestinas Aldeias palestinas Cidades judaicas Colonatos judaicos Cidades mistas

Acre Safed

Haifa

Mar da Galileia

Nazaré

Tiberíades Jenin

Beit Shean

Tulkaren Qalkilya

Mar Mediterrâneo

Notas: 1882-1918: administração turca na Palestina; 1919-1948: administração britânica na Palestina.

Tel Aviv Jaffa

Nablus

Lydda

Ramlah

Ramallah Jericó

31º N

Jerusalém Belém Gaza

Mar Morto

Hebron (Al-Khalil)

Diante da hostilidade árabe contra o judeu imigrado, o Reino Unido tentou intervir, mas não obteve êxito. Simultaneamente, desenhavam-se os preparativos para a Segunda Guerra Mundial, e a ascensão nazista na Alemanha foi o pior dos mundos para os judeus europeus. Isso resultou em um aumento da emigração, conforme mostra a tabela anterior. Com o maior número de migrações, aumentou também a tensão na Palestina por causa da revolta dos árabes, inconformados com a absorção gradativa de sua terra pelos judeus. O Reino Unido ia se perdendo no cenário que armara: prometer uma terra já habitada a outro povo que anseia em ter seu tão sonhado Estado. Observe o mapa ao lado. A Segunda Guerra Mundial durou de 1939 a 1945. Nesse período, travou-se uma “guerra” particular na Palestina entre os contrastantes interesses árabes e judeus. Convém ressaltar que a organização judaica era bem maior: apresentava ampla vantagem nos campos político, econômico e militar. Os judeus eram poucos, mas organizados; já os árabes, muitos, porém desorganizados.

Beersheba 0

20

Fonte: GRESH, Alain et al. (Dir.). Atlas da globalização Le Monde Diplomatique. Lisboa: Campo da Comunicação, 2003. p. 175.

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3.1 A criação de Israel e a primeira }} guerra árabe-israelense

34º L O término da Segunda Guerra Mundial anunciou uma LÍBANO nova ordem mundial – ascendia a era da bipolaridade e dos interesses antagônicos entre as duas potências que surgiam: SÍRIA Estados Unidos e União Soviética. Outro ícone decisivo do novo Mar da Galileia ordenamento que se anunciava era a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), para onde se transferiram as deciMar Mediterrâneo sões mais importantes do sistema internacional. Assim, a tensa situação entre árabes e judeus na Palestina inseriu-se na nova Jerusalém lógica internacional e foi encaminhada para o âmbito da ONU, CISJORDÂNIA (cidade internacional) 31º N a pedido do Reino Unido, que anunciava sua retirada da região. Mar GAZA Em 1947, a ONU encaminhou uma solução propondo a Morto partilha da Palestina em dois Estados: um Estado judeu, com 14,1 mil quilômetros quadrados, correspondendo a 56% da Palestina e compreendendo uma população de 995 mil habitantes, sendo uma metade composta de árabes e a outra de EGITO TRANSJORDÂNIA judeus; e um Estado árabe, correspondendo a 43% da Palestina, com 11,5 mil quilômetros quadrados e 735 mil habitantes: 725 mil árabes e 10 mil judeus. Observe o mapa ao lado e veja Estado Palestino nos gráficos a seguir a balança demográfica na época da parEstado Judeu tilha. Logo após a retirada das tropas britânicas da Palestina, 0 50 Zona internacional em 15 de maio de 1948, o judeu polonês David Ben-Gurion declarou a independência de Israel e tornou-se o primeiro cheFonte: LE MONDE DIPLOMATIQUE. Cartes e Graphiques. Disponível em: <www. fe de governo israelense. monde-diplomatique.fr/cartes/annexionisraelienne95>. Acesso em: 6 jan. 2016. Com a recusa árabe à partilha da ONU, os países da região declararam guerra a Israel no dia seguinte de sua independência. A vitória nessa primeira guerra, em 1948, seria a primeira de muitas conquistas israelenses perante os árabes. Para os israelenses, ela é celebrada como a Vitória da Independência; já os palestinos a consideram a al Nakba (a catástrofe).

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A partilha da Palestina (1947)

Tangente Design

Composição da população segundo a resolução das Nações Unidas relativa à divisão da Palestina Judeus Judeus 10000 10000 Árabes Árabes 497 000 497 000

Judeus Judeus 498000 498000

Árabes Árabes 725000 725000

Estado judeu Estado judeu

Árabes Árabes 105000 105000

Estado árabe Estado árabe

Judeus Judeus 100000 100000

Jerusalém Jerusalém

Tangente Design

População e territórios na Palestina (1947-1949)

Árabes Árabes 68,3% 68,3%

Judeus Judeus 31,7% 31,7%

1947 1947 Porcentagem da população Porcentagem da população

Árabes Árabes 42,9% 42,9%

Árabes Árabes 31,9% 31,9%

Judeus Judeus 56,4% 56,4%

Jerusalém Jerusalém 0,7% 1947 0,7% Participação dos1947 territórios propostos Participação dos pelaterritórios ONU propostos pela ONU

Jerusalém Jerusalém 0,7% 0,7%

Judeus Judeus 67,4% 67,4%

1949 Participação1949 dos territórios Participação dos territórios após a anexação israelense após ade anexação israelense outras terras de outras terras

Fonte dos gráficos: CENTRO DE INFORMACIÓN DEL CONSEJO MUNDIAL POR LA PAZ, 1987.

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Com a vitória, os israelenses incorporaram uma vasta área do território árabe-palestino definido pela ONU; após a guerra, Israel passou de 14 mil para 20 mil quilômetros quaPaís de refúgio Refugiados registrados drados. O Estado palestino desapareceu do mapa, sendo o Jordânia 1 979 580 restante incorporado por Jordânia e Egito. Os palestinos tornaram-se apátridas, vivendo sob a custódia israelense (60%). Líbano 436 154 Os que partiram refugiaram-se nos países árabes vizinhos, e Síria 486 946 alguns poucos foram para a Europa e a América. Em relatório de 2012, a Agência das Nações Unidas de Cisjordânia 727 471 Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA), da ONU, Faixa de Gaza 1 167 572 criada especialmente para atender os refugiados palestinos, Total 4 797 723 revelou novos dados, mostrados na tabela ao lado. No exílio, os palestinos organizaram-se para voltar à Palestina, Fonte: UNRWA – Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos. Disponível em: <http://www.unrwa.org/ o que, na interpretação israelense, seria a destruição de seu Estauserfiles/20120317152850.pdf>. Acesso em: 28 mar. 2016. do. Primeiro surgiu o movimento designado Al Fatah, embrião da Organização para Libertação da Palestina (OLP), principal entidade representativa desse povo, fundada em 1964 e que, a partir de 1969, estaria sendo chefiada pelo mais importante líder palestino: Yasser Arafat. A OLP congregava as mais diversas correntes e facções (diplomáticas ou armadas), muitas vezes divergentes. No entanto, todos viam na organização a entidade única e representativa dos interesses palestinos. A identificação entre palestinos e OLP foi imediata.

Os palestinos refugiaram-se, em sua maioria, na Jordânia, no Líbano e na Síria. Na fotografia, campo de refugiados de Jabalia, em Gaza, em 1957.

Guerra de Suez: Guerra ocorrida em 1956 que envolveu egípcios, israelenses, britânicos e franceses pelo controle do Canal de Suez.

Navegar UNRWA <http://tub.im/v82ewj> A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA) é um organismo que ampara os palestinos desde 1948. Acesse o site, disponível em inglês, para conhecer o trabalho da UNRWA.

AP/Glow Images

Número de refugiados palestinos registrados na UNRWA até janeiro de 2012

3.2 A Guerra dos Seis Dias }}

e as implicações territoriais

Os árabes nunca aceitaram as derrotas para Israel (em 1956, na Guerra de Suez sofreram nova derrota). Ao longo dos anos 1960, pairava sobre o Oriente Médio um forte desejo de revanche. Os principais líderes regionais tentavam atrair os trunfos políticos da insatisfação árabe, produto da nítida sensação de inferioridade militar. Havia também um intenso sentimento de comoção e solidariedade para com os palestinos. Gamal Abdul Nasser, presidente do Egito, foi quem melhor tirou proveito desse clima político. Com um discurso agressivo, propagando a “vingança árabe”, o líder egípcio ocupava as rádios do Oriente Médio para contagiar o mundo árabe e islâmico. Alardeava que a “vitória árabe estava próxima”: os judeus seriam “atirados ao mar”. Simultaneamente, aumentavam as incursões da guerrilha palestina em território israelense.

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A Guerra dos Seis Dias e a ocupação israelense

O

34º L

B LÍ

AN

SÍRIA Mar da Galileia

Mar Mediterrâneo

Rio Jor dão

Os árabes ameaçavam, mas quem agiu foi Israel: em 5 de junho de 1967, fez ataques-surpresa simultaneamente ao Egito, à Síria e à Jordânia, os países árabes mais fortes, destruindo quase toda a aviação árabe no solo. Depois, mobilizou sua força terrestre com centenas de tanques, infantaria, guarnições bem armadas; paraquedistas dominaram o Canal de Suez. Foi uma ação fulminante e humilhante. O nome do conflito, Guerra dos Seis Dias, revela a dimensão da disparidade de forças entre os dois lados. Houve nova derrota árabe, mas agora com implicações bem mais sérias. Israel impôs sua superioridade militar. Além de incorporar uma vasta área territorial, ocupou as colinas de Golã (Síria), a Cisjordânia (Jordânia), a Faixa de Gaza (Egito) e a Península do Sinai (Egito). Observe essas áreas no mapa ao lado e uma cena da guerra na fotografia abaixo.

31º N

ISRAEL

Mar Morto

EGITO

JORDÂNIA

Colinas de Golã. Pertenciam à Síria. São a mais importante área de manancial da região. Áca ba Go lfo

z ue eS

Península do Sinai. Pertencia ao Egito. Foi devolvida, posteriormente, mediante os Acordos de Camp David, em 1979.

de

fo d

Faixa de Gaza. Pertencia ao Egito. Zona árida, de intensa atuação da guerrilha palestina contra alvos israelenses.

G ol

Cisjordânia. Pertencia à Jordânia. Importante zona fértil, guarda grande valor religioso para o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

ARÁBIA SAUDITA 0

90

Mar Vermelho

Fonte: Elaborado com àbase em: ATLAS geográfi co escolar. ed. Colinas de Golã. Pertenciam Síria. São a mais importante área de6.manancial Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 49. da região. Cisjordânia. Pertencia à Jordânia. Importante zona fértil, guarda grande valor religioso para o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Faixa de Gaza. Pertencia ao Egito. Zona árida, de intensa atuação da guerrilha palestina contra alvos israelenses. Guerra dos Seis Dias: a inconteste

supremacia israelense. Na fotografia,

Península do Sinai. Pertencia ao Egito. Foi devolvida, posteriormente, mediante os soldados israelenses capturam Acordos de Camp David, em 1979.

David Rubinger/GPO via Getty Images

palestinos, em 1967, em Rafah, na Faixa de Gaza.

Ver

Filme de Eran Riklis. Lemon tree. Israel/ Alemanha/França, 2008

Nesses territórios ocupados, Israel iniciou, em 1967, um processo de colonização com judeus de várias partes do mundo. Esse processo continua até hoje e é a razão de um dos principais conflitos no Oriente Médio. Os palestinos e os demais povos árabes jamais aceitaram esse fato e reivindicam a devolução desses territórios. Esse é um dos conflitos mais ativos em todo o mundo. A guerra de 1967 acabou semeando ódio em uma região já envolta em problemas antigos. As colônias judaicas multiplicaram-se na Cisjordânia, em Gaza, Golã e no Sinai. A Península do Sinai foi posteriormente devolvida aos egípcios, em 1979, conforme os Acordos de Camp David, mantidos entre o primeiro-ministro israelense Menahen Begin e o presidente egípcio Anwar al Sadat, a quem os árabes acusaram de traidor. Sadat foi assassinado anos depois.

Lemon tree. Direção: Eran Riklis. Israel/Alemanha/França, 2008. Uma viúva palestina vê sua plantação de limões ameaçada quando um dirigente político do governo israelense torna-se seu vizinho e sua plantação passa a representar um risco à segurança do político.

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Ver

Filme de B. Z. Goldberg, Justine Arlin, Carlos Bolado. Promessas de um novo mundo. Israel/EUA, 2001

Promessas de um novo mundo. Direção: B. Z. Goldberg, Justine Arlin e Carlos Bolado. Israel/ Estados Unidos, 2001. O documentário apresenta relatos de crianças palestinas e judias que expõem sua visão sobre o conflito israelo-palestino.

A ONU condenou a ocupação israelense por meio da Resolução nº 242, aprovada em 1967, que exigia o pronto restabelecimento das fronteiras anteriores à guerra. Essa resolução passaria a ser o guia das reivindicações palestinas desde então.

Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

A Resolução nº 242 O Conselho de Segurança [...], enfatizando a inadmissibilidade da aquisição de território pela guerra e a necessidade de trabalhar por uma paz justa e duradoura na qual cada Estado na região possa viver em segurança [...] afirma a aplicação dos seguintes princípios: (I)  evacuação das forças armadas israelenses dos territórios ocupados no recente conflito; (II) encerramento de todas as reivindicações ou estados de beligerância e respeito pelo reconhecimento da soberania, integridade territorial e independência política de cada Estado da região e de seu direito a viver em paz dentro de fronteiras seguras e reconhecidas [...]. Nações Unidas, 22 de novembro de 1967. CENTRO DE INFORMAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS NO BRASIL. Rio de Janeiro: Nações Unidas, 1988. p. 11.

• Com base no texto, redija um parágrafo sobre as determinações da Resolução nº 242 e a evolução da ocupação por Israel na Guerra dos Seis Dias.

3.3 Os Acordos de Oslo }} Gary Hershorn/Reuters/Latinstock

O problema palestino remonta ao início do século XX, mas podemos afirmar que as tensões contemporâneas estão diretamente relacionadas aos desdobramentos da Guerra dos Seis Dias, sem desconsiderar, contudo, outros momentos importantes desde 1947, quando houve a partilha da Palestina. Em 1993, realizou-se pela primeira vez nos jardins da Casa Branca, Estados Unidos, um acordo envolvendo os dois lados em litígio: Yitzhak Rabin, primeiro-ministro israelense, e Yasser Arafat, presidente da OLP. Eles assinaram o Plano de Paz, cujas negociações iniciaram-se em Oslo, Noruega. Na realidade, esse foi o desfecho de uma rodada de negociações iniciada em Madri, em 1991, intitulada Conferência pela Paz no Oriente Médio, mas que na época não obteve êxito. O pano de fundo dos acordos era “trocar terra por paz”, ou seja, Israel se comprometia a devolver gradualmente as terras ocupadas, e os palestinos reconheceriam o direito de existência do Estado judeu. Desse processo, nasceu a Autoridade Nacional Palestina (AP), que passou a ser a voz oficial dos palestinos. Rabin tentava assim evitar as violentas ações dos grupos extremistas, como o Hamas e a Jihad Islâmica, cujas ações em solo israelense causavam graves transtornos e muitas mortes. O Plano de Paz suscitou descontentamentos de ambos os lados. Muitos palestinos afirmavam que ele não trazia a tão sonhada soberania e que não teriam autonomia para administrar as regiões previstas na devolução. Do lado de Israel, judeus fundamentalistas acusaram o primeiro-ministro de traidor por acenar com a devolução (mesmo que parcial) de territórios. Rabin foi assassinado por um desses fundamentalistas judeus em 1995, durante um comício na Praça da Paz, em Tel Aviv, justamente designado “Sim à paz, não à violência”. Em seu último discurso, Rabin proferiu as seguintes palavras, antes de ser morto:

Acordos de Paz de 1993: os dois proponentes foram agraciados com o Prêmio Nobel da Paz daquele ano. Mas o que se viu de fato foi muita celebração e pouca eficácia. O Plano de Paz não passou de uma carta de intenções não cumpridas. Na fotografia, o então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, com os líderes de Israel, Yitzhak Rabin, à esquerda, e da Palestina, Yasser Arafat, à direita, após assinatura dos Acordos de Paz, nos Estados Unidos, em 1993.

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PAZ AGORA. O último discurso de Rabin. Disponível em: <http://www.pazagora.org/1995/11/o-ultimo-discurso-de-rabin/>. Acesso em: 6 jan. 2016.

3.4 A questão no século XXI: ainda sem solução }} Mesmo após a assinatura dos Acordos de Paz de 1993, a tensão só aumentava em Israel e nos territórios ocupados. Partidos contrários à devolução de terras ganharam força do lado israelense, enquanto a alternativa extremista se fortaleceu do lado palestino. Ainda assim, a situação continuava indefinida. Nesse contexto, durante a realização da Assembleia Geral da ONU de 2011, o presidente da Autoridade Nacional Palestina (AP), Mahmoud Abbas, solicitou a adesão do Estado palestino como membro pleno da ONU, possibilidade repudiada por Israel e pelos Estados Unidos, seu principal aliado. Depois de anunciar que defendia um Estado palestino com as fronteiras anteriores a 1967, o presidente Barack Obama hesitou, afirmando que o caminho aos palestinos é o diálogo com Israel e não uma declaração unilateral no âmbito da ONU. Em dezembro de 2012, a Palestina foi reconhecida por maioria na Assembleia Geral da ONU como Estado observador não membro das Nações Unidas. Dos 138 votos, de um total de 193, apenas Estados Unidos, Canadá, República Tcheca, Palau, Nauru, Micronésia, Ilhas Marshall e Panamá foram contrários ao reconhecimento da Palestina. Em 2011, os palestinos já haviam alcançado importante vitória diplomática, conseguindo a adesão à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), agência da ONU. Essa conquista foi repudiada e retaliada pelos Estados Unidos, que suspenderam sua contribuição financeira à agência. A maior reivindicação palestina é a devolução da Cisjordânia, atualmente composta de aproximadamente 2,7 milhões de habitantes, sendo 2,3 milhões de palestinos e aproximadamente 470 mil judeus. Essa devolução é a maior relutância israelense, e esse conflito israelo-palestino tende a prosseguir. Entre outros, os principais obstáculos para um acordo de paz são: • a persistente construção de assentamentos judaicos em terras consideradas palestinas nos Acordos de 1993; • a questão de Jerusalém, cidade sagrada para judeus e palestinos. Os palestinos reivindicam a porção oriental da cidade para capital do futuro Estado, possibilidade rechaçada por Israel, que considera Jerusalém a capital indivisível do Estado judeu; • o retorno dos refugiados palestinos do exílio, calculado em aproximadamente 4,8 milhões, condição não aceita por Israel. Isso alteraria profundamente a balança demográfica da região. Por sua vez, nenhum dirigente palestino pretende negar o direito do retorno de seu povo; • boa parte dos aproximadamente 300 mil colonos judeus que vivem na Cisjordânia, alguns desde 1967, quando se iniciou a colonização, é da linha ultraortodoxa do judaísmo e não aceita viver sob um governo palestino. Foi um desses colonos, Ygal Amir, quem assassinou Yitzhak Rabin; • trata-se de uma região extremamente árida, onde a questão da água é vital. A principal fonte hídrica é o rio Jordão, que seria, em grande parte, de soberania palestina; • as ações terroristas de grupos extremistas palestinos são outro forte fator de instabilidade.

Interagindo Na Assembleia Geral da ONU, ao se pronunciar, em 2011, o líder palestino Mahmoud Abbas afirmou: Os assentamentos são o âmago da política colonialista e a causa primária do colapso do processo de paz. NA ONU, líder palestino diz que ‘chegou a hora de ganhar a liberdade’. Rede Brasil Atual, 23 set. 2011. Disponível em: <www.redebrasilatual.com.br/mundo/ 2011/09/na-onu-lider-palestino-diz-quechegou-a-hora-de-ganhar-a-liberdade>. Acesso em: 5 maio 2016.

• Os palestinos consideram essa prática o maior entrave à paz, enquanto o governo israelense não entende assim e afirma ser um direito do povo judeu resolver seu problema de moradia. E você, o que pensa sobre isso? ESCREVA NO CADERNO

Ver Paradise now. Direção: Hany Abu-Assad. França/Alemanha/ Holanda/Palestina, 2005. Filme que demonstra, pela lente do cinema, o sentimento interior de um palestino angustiado que opta por transformar-se em um homem-bomba. Filme de Hany Abu-Assad. Paradise now. França/Alemanha/Holanda/Palestina, 2005

Permitam-me dizer que estou profundamente emocionado. Eu gostaria de saudar a cada um de vocês, que vieram nesta noite para se manifestar contra a violência e pela paz. Este governo, que eu tenho o privilégio de chefiar, com meu amigo Shimon Peres, tomou a decisão de dar uma chance à paz – uma paz que solucionará a maior parte dos problemas de Israel.

Navegar Paz Agora <http://tub.im/35xxby> O movimento judaico Paz Agora tem uma perspectiva pacifista sobre as turbulências do Oriente Médio e posicionamento crítico em relação aos principais líderes israelenses. No site está disponível um mapa interativo da colonização da Cisjordânia.

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4. O Golfo Pérsico

Allmaps

Golfo Pérsico 45° L

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KUWAIT Kuwait

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25° N

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Trópico de Câncer

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O Golfo Pérsico é uma imensa bacia sedimentar e, como estudamos anteriormente, o petróleo está associado a esse tipo de província geológica. O hidrocarboneto é a principal fonte energética da humanidade, em que pese a polêmica sobre seus efeitos ao ambiente. E, no caso desse golfo, estudos indicam que ele guarda cerca de 47,7% das reservas mundiais, o que o torna uma região estratégica e imprescindível ao mundo contemporâneo; em grande parte, o petróleo foi o combustível do capitalismo no século XX. É sobretudo sob essa ótica que devemos analisar os acontecimentos do Golfo Pérsico nas últimas décadas, marcado por fatos impactantes.

Mascate

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Capital do país

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 49.

4.1 O Irã }} Xá: Título da nobreza persa dado à autoridade suprema; similar a imperador ou rei. Déspota: Líder que exerce o poder de forma tirânica, sem sucessão e quase sempre contra a vontade popular.

Em um passado mais recente, podemos buscar as raízes do Irã moderno no pós-Primeira Guerra Mundial. Logo após essa guerra, eclodiu um movimento nacionalista que pôs fim ao longevo Império Persa da Dinastia Kadjar. O líder desse movimento foi o general do exército persa Reza Khan, que rebatizou o país de Irã, tornando-se a autoridade máxima, o novo xá. Reza Khan se autorrebatizou Reza Pahlavi (do persa, Pelvi, que significa “iraniano”) e iniciou um regime constitucional. O novo regime mostrou-se fortemente nacionalista e avesso à presença estrangeira no país; a petrolífera britânica Anglo Iranian Oil Company, mais tarde British Petroleum (BP), foi a primeira empresa a explorar o petróleo na região, após a descoberta de jazidas. Seu estilo autoritário e nacionalista incomodou as potências. Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, Pahlavi optou pela neutralidade, mas não obteve êxito: Reino Unido e União Soviética, alegando supostas proximidades do Irã com os nazistas, invadiram o país em 1941 e forçaram o xá a abdicar em favor de seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, líder mais solícito à vontade estrangeira, que não hesitou em contribuir com as potências em troca de apoio e consentimento de suas atitudes tirânicas. Na Guerra Fria, o líder iraniano alinhou o país aos Estados Unidos, que passariam a ter forte influência sobre o Irã e todo o Golfo Pérsico. Contudo, houve um empecilho às potências e a Mohammad Reza Pahlavi: a eleição para primeiro-ministro de Mohammad Mossadegh, que nacionalizou a exploração do petróleo iraniano. Um acordo entre as potências e o xá levou à queda de Mossadegh em 1953. Foi decisiva nesse episódio a atuação da CIA, que fez uma intervenção no Irã conhecida como Operação Ajax, uma das primeiras ações da central de inteligência estadunidense. Mossadegh foi deposto e enviado à prisão perpétua, onde morreu em 1967. Ao longo da segunda metade do século passado, Mohammad Reza Pahlavi tornou-se um dos mais conhecidos déspotas em todo o mundo.

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A Geografia na... fotografia!

Aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da Revolução Islâmica, ora durante seu exílio na França. Fotografia de 1982. Aiatolá: Título máximo do clero xiita, líder religioso.

Ler Os iranianos, de Samy Adghirni. São Paulo: Contexto, 2014. Livro que retrata a geografia, a história e a cultura do Irã, desde o Império Persa, passando pelo período do xá Reza Pahlavi e a Revolução Islâmica até os dias atuais. Editora Contexto

A importância que o petróleo adquiriu ao longo do século XX, o fato de o Irã deter a segunda maior reserva mundial do combustível e as ótimas relações do xá com o Ocidente favoreceram a tirania de Mohammad Reza Pahlavi, que transformou o país em um dos mais desiguais em todo o Oriente Médio: ele não demonstrava nenhum constrangimento em deixar evidente o contraste entre a sua riqueza, a luxúria do palácio imperial e a pobreza da população; o xá era conhecido por suas extravagâncias. Esse regime autárquico era amplamente apoiado pelos Estados Unidos; vinha daí, em grande parte, o ódio que as camadas populares nutriam por essa potência. Essa camada popular era, igualmente, a mais arraigada aos valores tradicionais do xiismo. Era nos líderes religiosos e nos comunistas que Reza Pahlavi via a maior ameaça ao seu poder e não hesitou em persegui-los. Comunistas, liberais e religiosos foram presos. O líder espiritual dos xiitas, o aiatolá Ruhollah Khomeini (retratado na fotografia ao lado),exilou-se na França, depois de uma tentativa frustrada de se refugiar no Iraque, que, como o Irã, é um país de maioria xiita. Nos anos 1970, o clima de descontentamento com o regime era intenso. Entre as correntes oposicionistas ao governo, foi a vertente religiosa do xiismo que canalizou de forma mais robusta essa insatisfação popular. Da França, o aiatolá Khomeini conduzia a fúria popular que acabou levando, em 1979, a uma guerra civil que ficou conhecida como Revolução Islâmica. Durante os embates, o exército iraniano, a principal base de apoio ao xá, hesitou em reprimir os populares, o que facilitou a vitória das tropas xiitas perante as tropas leais ao xá. O clero xiita venceu, e o xá Reza Pahlavi refugiou-se no Egito, onde morreu em 1980, depois de um tratamento contra um câncer. O aiatolá Khomeini assumiu o poder e rebatizou o país de República Islâmica do Irã, que desde 1979 apresenta um regime teocrático. Igualmente, desde a revolução, o Irã adotou uma postura antiocidental e antiestadunidense, com quem manteve sérios problemas diplomáticos por três décadas e meia. A situação só amenizou em 2015 com a reaproximação entre o Irã e o ocidente por meio de negociações que envolveram o país persa, Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e União Europeia. A Revolução Islâmica é considerada um marco do fundamentalismo islâmico, pois a ortodoxia xiita adotada serviu de inspiração para muitos outros movimentos islâmicos, xiitas e sunitas. Também significou uma grande ameaça aos demais regimes do Oriente Médio, sobretudo na região do Golfo Pérsico.

Bettmann/Corbis/Latinstock

4.1.1 Revolução Islâmica (1979)

ESCREVA NO CADERNO

Observe esta fotografia feita pelo fotógrafo iraniano Jalal Sepehr. Os tradicionais tapetes persas estão estendidos em um píer voltado para o horizonte, em uma perspectiva de diálogo.

Jalal Sepehr/Silk Road Gallery

• Em sua opinião, como essa fotografia questiona a relação entre a tradição e as possibilidades de transformações sociais, políticas e religiosas no Irã do mundo atual?

Obra de arte de Jalal Sepehr, da série Água e Tapetes Persas.

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4.1.2 A Guerra Irã-Iraque (1980-1988) Ver

Filme de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. Persépolis. França, 2008

Persépolis. Direção: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. França, 2008. Animação, com forte teor político, que retrata a infância da cineasta Marjane Sartrapi no contexto da Revolução Islâmica.

C. Sappa/De Agostini/Getty Images

Jihad: Traduzido equivocadamente como “guerra santa”, na realidade seria mais correto designar como “resistência santa”, uma vez que o termo adaptado ao português apresenta controvérsias. Em textos de política e geopolítica, normalmente o termo está associado aos momentos de conflito, mas ele tem uma conotação mais ampla e presente no cotidiano muçulmano.

Ao mesmo tempo que o Irã passava pelas turbulências da Revolução Islâmica, também no ano de 1979, no Iraque, o general Saddam Hussein aplicava um golpe de Estado e assumia o poder. Saddam Hussein tinha grandes pretensões, entre elas a de assumir a liderança regional do Oriente Médio. Ele havia aniquilado as demais lideranças do país, especialmente as comunistas. Entretanto, enxergava o Irã como um problema: via na liderança espiritual que Khomeini detinha sobre as massas uma grande ameaça ao seu poder. O temor justificava-se, pois a maioria dos iraquianos é seguidora da vertente xiita, enquanto Saddam era sunita. Ele sabia que essa parcela xiita do Iraque olhava com simpatia os acontecimentos do outro lado da fronteira. As pretensões de Saddam, somadas ao temor a Khomeini, explicam o surpreendente ataque do Iraque ao Irã em 1980 cujo pretexto foram as reivindicações territoriais sobre o Chat el Arab, estuário do encontro entre os rios Tigre e Eufrates, na divisa entre Irã e Iraque, até então navegado em comum acordo entre os dois países. Saddam reivindicava a soberania sobre o canal. O líder do Iraque pressupunha que seria uma guerra fácil e rápida, diante de um Irã bastante enfraquecido por causa da guerra civil recente. E realmente foi o que pareceu no início: o Iraque, bem mais preparado em estrutura militar, contando com mísseis soviéticos, tanques e aviões de combate, contra um Irã fragilizado, avançou e ocupou províncias desse país. Contudo, Saddam Hussein não contava com um fato inusitado. Khomeini demonstrou toda a sua liderança ao conclamar o povo iraniano a uma jihad contra o Iraque. O líder supremo do Irã, acreditava-se, seria descendente do profeta Muhammad (Maomé), e seu chamado foi prontamente atendido. Milhões de xiitas alistaram-se para o que acreditavam ser uma ”resistência santa”. O Irã reequilibrou a guerra e aconteceu o inesperado: partiu para a ofensiva. Foi nesse momento que, temendo gravemente a vitória iraniana, os Estados Unidos e as monarquias do golfo, nem um pouco interessadas em assistir a uma nova vitória fundamentalista, apoiaram o Iraque. Com os apoios militar dos Estados Unidos e financeiro do Kuwait, o Iraque se recompôs, e a guerra entrou em sua fase mais cruel, com centenas de milhares de mortos de ambos os lados, em um conflito fratricida. A guerra terminou apenas em 1988, com um saldo de aproximadamente 1 milhão de mortos, os dois países arrasados e as fronteiras nos mesmos lugares de 1980.

Estátuas que homenageiam os soldados iraquianos mortos na Guerra Irã-Iraque, 2014. As figuras apontam em direção ao estuário Chat el Arab, na divisa entre os dois países.

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4.1.3 A Guerra do Golfo (1991)

Estado pária: País colocado no isolamento, normalmente sob embargo econômico.

Guerra do Golfo, uma guerra televisionada: na realidade, a guerra durou três dias, embora o Iraque só tenha aceitado o cessar-fogo seis semanas após os primeiros bombardeios. Na fotografia, mísseis antiaéreos riscam o céu de Bagdá, em 1991.

Dominique Mollard/AP/Glow Images

Irã e Iraque ficaram arrasados em virtude da guerra. O Iraque encontrava-se em situação pior, pois, além de destruído, estava endividado com seu grande credor: o Kuwait. Durante a Guerra Irã-Iraque, as monarquias do Golfo Pérsico não escondiam sua preferência pelo Iraque, mas o Kuwait foi o único país a apoiá-lo e, por isso, foi declarado inimigo pelo Irã. Durante a guerra, os petroleiros kuwaitianos navegavam nas águas do golfo com a bandeira estadunidense, temendo os ataques do Irã. Terminada a guerra e diante da situação na qual se encontrava, Saddam Hussein voltou-se contra o pequeno país do golfo: queria que o Kuwait perdoasse a dívida e ainda o acusou de explorar petróleo no lado iraquiano da fronteira, cobrando por isso indenizações. Saddam também recorreu a uma pendência histórica desde o período do Império Otomano, alegando que, na realidade, o Kuwait não passava da 19a. província iraquiana: nunca existira como Estado, logo era direito iraquiano readquiri-lo. Além de todos esses fatores, devemos lembrar que o Kuwait era detentor da quarta maior reserva de petróleo na época. Por isso, o Iraque invadiu o Kuwait em agosto de 1990. A ONU deu um ultimato a Saddam Hussein para retirar suas tropas do país, o que não foi cumprido pelo líder iraquiano. Assim, em fevereiro de 1991, eclodiu a Guerra do Golfo, que consistiu em um ataque às tropas iraquianas estacionadas no pequeno país do golfo; o apelo era pela libertação do Kuwait. A guerra foi rápida. Os Estados Unidos lideraram uma coalizão de 32 países; foi uma preocupação da potência dar conotação de “coalizão internacional” à operação denominada “Tempestade no deserto”, mas, na prática, foram as forças estadunidenses que comandaram as operações. Observe a fotografia a seguir. As tropas iraquianas foram expulsas, o Iraque, derrotado e colocado sob sanções da ONU, o que gradativamente arruinou sua economia. Essa situação levou o Iraque a se tornar um dos países mais pobres da região, apesar de suas privilegiadas reservas de petróleo e água. Entretanto, Saddam Hussein continuou no poder; os esforços para derrubá-lo foram parcos. Tornar­‑se-ia o Iraque, a partir de 1991, um Estado pária no sistema internacional.

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4.1.4 A Guerra do Iraque (2003) Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, iniciou uma série de discursos insinuando que o Iraque produzia armas de destruição em massa. Esses discursos estavam inseridos nas diretrizes de sua política externa, na época pautada pela “guerra ao terror” e combate ao chamado “eixo do mal”, expressão cunhada por Bush para se referir aos “Estados vilões”, Irã, Iraque e Coreia do Norte, com os respectivos programas nucleares. Tudo isso levou a primeira década do novo século a um forte unilateralismo praticado pela única grande potência. O jornalista paquistanês Tariq Ali relata no texto a seguir a propaganda de medo que antecedeu a invasão estadunidense ao Iraque.

Ler Bush na Babilônia: a recolonização do Iraque, de Tariq Ali. Rio de Janeiro: Record, 2003. Essa obra do escritor paquistanês radicado na Inglaterra apresenta detalhes da história recente do Iraque e de como Saddam Hussein passou de aliado a inimigo estadunidense.

Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

US Army, HO/AP/Glow Images

O presidente Bush, apoiado pelas redes de televisão domesticadas, viera reforçando a questão das armas nos sete meses anteriores à invasão. A propaganda caiu sobre o público estadunidense como uma tonelada de tijolos, mas fora do país poucos acreditaram nos exageros. Ainda assim, a Casa Branca persistiu e os redatores dos discursos de Bush ficaram muito ocupados com esse tema, como se revela na seguinte compilação: Agora mesmo o Iraque está expandindo e melhorando as instalações que foram usadas para a produção de armas biológicas.

Discurso nas Nações Unidas, 12 de setembro de 2002.

O Iraque acumulou armas químicas e biológicas e está reconstruindo as instalações usadas para fazer mais dessas armas. Temos fontes que nos revelam que Saddam Hussein autorizou recentemente os comandantes de tropas iraquianas a usar armas químicas – as mesmas que o ditador diz não ter. Discurso no rádio, 5 de outubro de 2002.

O regime iraquiano [...] possui e produz armas químicas e biológicas. Está procurando armas nucleares. Discurso em Cincinati, estado de Ohio, 7 de outubro de 2002.

Nossos agentes de serviço de informações estimam que Saddam Hussein tinha matérias-primas para produzir até 500 toneladas de sarin, gás mostarda e agentes dos nervos VX. Discurso do Estado da União, 28 de janeiro de 2003.

Saddam Hussein foi capturado em 2003, julgado e executado por um tribunal que ele negou reconhecer até o momento de sua morte. Problemático sob o domínio de Saddam, o Iraque não vivenciou dias melhores desde então.

As informações [...] não deixam dúvida de que o regime do Iraque continua a possuir e esconder algumas das armas mais letais já inventadas. Discurso à Nação, 17 de março de 2003. ALI, Tariq. Bush na Babilônia: a recolonização do Iraque. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 159-160.

• Em sua opinião, como a propaganda política pode convencer a população a apoiar uma guerra?

Tariq Ali dizia na época que George W. Bush havia preparado um clima de demonização mundial contra Saddam Hussein para justificar os ataques, considerando-o uma grande ameaça à paz mundial. Especialistas também afirmavam que o Iraque não tinha condições de desenvolver armas de destruição em massa por causa do estado de penúria em que o país se encontrava após o embargo. Essas armas alardeadas por Bush jamais foram encontradas. Mesmo não tendo conseguido a aprovação de uma resolução específica no Conselho de Segurança da ONU para atacar o Iraque, os Estados Unidos iniciaram os ataques ao país do golfo no dia 19 de março de 2003. Era a primeira vez que acontecia um ataque dessa ordem sem a aprovação da ONU desde sua criação, em 1945. Na realidade, Bush já havia avisado anteriormente sobre suas intenções: Os Estados Unidos irão se empenhar incessantemente para angariar apoio da comunidade internacional; no entanto, não hesitaremos em agir sozinhos, se necessário, para exercer nosso direito de autodefesa, agindo de forma preventiva [...] para evitar que eles causem danos ao nosso povo e a nosso país. BUSH, George W. A estratégia de segurança nacional dos EUA: documento enviado ao Congresso dos Estados Unidos em 20 de setembro de 2002. Revista Política Externa, v. 11, n. 3, p. 78, 2002/2003.

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Bush foi alertado pelo chefe das inspeções da ONU no Iraque, o sueco Hans Blix, de que não tinha elementos para afirmar a existência dessas terríveis armas no país; ainda assim, os Estados Unidos iniciaram a guerra. “Nenhuma arma ou substância proibida foi encontrada. Não posso saltar para a conclusão de que elas existam”, afirmou Blix, em fevereiro de 2003. Anos mais tarde, seriam contestadas as denúncias da CIA, pondo um fim dramático no governo Bush. Em menos de um mês, Bagdá foi bombardeada. As tropas iraquianas não tinham condições de resistir à aliança estadunidense-britânica, principais protagonistas da “aliança”. O Estado iraquiano ficou completamente destruído, transformando-se em um abrigo das mais variadas vertentes terroristas, que viram nesse país o lugar ideal para se estruturarem. Milhares de mortes foram contabilizadas desde então, e o país foi entregue a uma luta fratricida interna envolvendo os vários grupos lá presentes, com frequentes atentados terroristas, seja contra alvos britânicos e estadunidenses, seja entre os próprios grupos rivais. No meio dessa violência, estava a sociedade civil. O Iraque é marcado pelas hostilidades entre três grupos rivais: os árabes xiitas, os árabes sunitas e os curdos. Os árabes xiitas, concentrados no sudeste do país, são a maioria e representam aproximadamente 60% da população de 35 milhões de habitantes. Os árabes sunitas somam 20% e habitam a porção intermediária, no centro do Iraque. Já os curdos sunitas representam 15% da população iraquiana e vivem ao norte, na zona de contato com outros países que também apresentam minoria curda. Os demais grupos somam 5% da população. A convivência entre eles é litigiosa, e por essa razão não está afastada a possibilidade da fragmentação do Iraque. O mapa a seguir retrata a diversidade étnica e a localização dos grupos populacionais no Iraque. Em 18 de dezembro de 2011, sob o governo de Barack Obama, então presidente dos Estados Unidos, ocorreu a retirada das últimas tropas estadunidenses do território iraquiano. Era o fim de quase nove anos de ocupação militar, desde a derrubada de Saddam Hussein.

Allmaps

Iraque: diversidade étnica e religiosa 45° L

Mar Cáspio

TURQUIA Lago Urmia

Zakho Dahuk Mosul

Arbil Kirkuk

SÍRIA

Sulaymaniyah re Tig

35° N

Rio

DESERTO Rio Eufrates

Tikrit

Anah

Samarra

IRÃ Ramadi Fallujah

Rutbah

BAGDÁ Kut

Karbala Hillah Najaf

Amarah

Diwaniah Samawah Basra

Nasiriah

Localização dos grupos populacionais (2005)

Zubair

Árabes xiitas

DESERTO

Árabes sunitas

KUWAIT

Curdos Assírios, caldeus e armênios

Golfo Pérsico

Turcomenos Mandeus

ARÁBIA

População esparsa Capital do país Cidade

0

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SAUDITA

Fonte: SMITH, Dan. O atlas do Oriente Médio. São Paulo: Publifolha, 2008. p. 87.

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ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando

1. A Turquia ascende como destaque regional e por sua política externa bastante atuante. Aponte alguns problemas internos da geopolítica turca.

2. Os árabes nunca aceitaram as derrotas para Israel, e o conflito árabe-israelense é intenso na região. Pelo que você aprendeu neste capítulo, quem tem direito às terras que os judeus chamam de Israel e os árabes, de Palestina? Ou você entende que é plenamente possível uma conciliação e convivência entre os lados envolvidos? 3. Em 1947, a ONU encaminhou uma solução propondo a partilha da Palestina em dois Estados. Qual é a importância da ONU no problema israelo-palestino? 4. Em 5 de junho de 1967, Israel realizou ataques-surpresa simultaneamente ao Egito, à Síria e à Jordânia, os países árabes mais fortes. Discuta a importância territorial da Guerra dos Seis Dias. 5. Os Estados Unidos intervieram no conflito Irã-Iraque. Como o Irã tornou-se inimigo dos Estados Unidos e por quê? 6. A guerra Irã-Iraque durou oito anos, deixou um saldo de aproximadamente 1 milhão de mortos, e os dois países saíram arrasados. O que motivou essa guerra? 7. O Iraque invadiu o Kuwait em agosto de 1990. Quais foram os motivos alegados por Saddam Hussein para invadir o Kuwait? 8. A Guerra do Golfo foi uma guerra televisionada: na realidade, durou três dias, embora o Iraque só tenha aceitado o cessar-fogo seis semanas após os primeiros bombardeios. Como ficou a situação do Iraque depois da Guerra do Golfo? 9. Mesmo sem a aprovação de uma resolução específica no Conselho de Segurança da ONU para atacar o Iraque, os Estados Unidos iniciaram os ataques ao país do golfo no dia 19 de março de 2003. Era a primeira vez que acontecia um ataque dessa ordem sem o consentimento da ONU desde sua criação, em 1945. Analise o contexto internacional que antecedeu a Guerra do Iraque em 2003.

Olhar cartográfico Observe o mapa abaixo sobre a ocupação da Cisjordânia e, em seguida, responda às questões. 1. Por que a Cisjordânia está sendo cercada por muros? 2. Observe a localização de Jerusalém e explique por que a cidade ocupa uma área estratégica.

Allmaps

Cisjordânia (2013) 35° L

Mar Mediterrâneo

Jenino

Netânia Tulkarm

Tel Aviv

Jerusalém

Rio J ordão

Petah Tikva

Linha verde de 1948

Nablus

Kalkilya

Ariel

Território sob controle palestino Território sob controle israelense e palestino

32° N

Holon Rishon Le Zion

Território sob controle israelense Colônias israelenses

CISJORDÂNIA

Cidade

JORDÂNIA

Ramallah

ISRAEL

Jericó

Muro de separação entre Israel e Cisjordânia Muro construído Muro em construção ou projeto

Ashdod

Jerusalém

Qiriat Gat

Belém

Mar Morto

Hebron

0

15

Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2013. p. 103.

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Atividade em grupo Qual é a posição do Brasil quanto à criação de um Estado palestino? Pesquisem essa questão e, após chegarem a uma conclusão, apresentem um parecer, favorável ou contrário, sobre a posição oficial do país, com justificativas.

De olho na mídia A política externa do presidente estadunidense Barack Obama (2009-2016) alcançou ao menos duas importantes iniciativas históricas: a reaproximação dos Estados Unidos com Cuba e com o Irã; essa última é tema da matéria a seguir. Os acordos sobre o programa nuclear iraniano e o fim das sanções econômicas contra o Irã também envolveram Rússia, Alemanha, França, Reino Unido e União Europeia. Leia o texto, retome as informações apresentadas no capítulo e responda: em sua opinião, a reaproximação do Ocidente com o Irã foi acertada? Justifique sua resposta abordando aspectos econômicos e geopolíticos. EUA e UE revogam sanções após Irã cumprir acordo nuclear

Leonhard Foeger/Reuters/Latinstock

Os EUA e a União Europeia anunciaram neste sábado [16/1/2015] a revogação de sanções econômicas em vigor há anos contra o Irã, abrindo caminho para o país persa se integrar à economia mundial. A decisão foi tomada como consequência de acordo nuclear fechado no ano passado, e após a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), braço da ONU, certificar que o país persa cumpriu as obrigações a que se comprometeu. O anúncio ocorreu horas depois de o Irã ter libertado quatro americanos, incluindo o repórter do The Washington Post Jason Rezaian, em troca de sete iranianos presos ou indiciados nos EUA. O estudante americano Matthew Trevithick também foi solto, mas sem relação com o acordo, segundo os EUA. “As sanções econômicas e financeiras multinacionais estão revogadas”, anunciou a chefe de política externa da União Europeia, Federica Mogherini, durante entrevista em Viena com o chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, que liderou as negociações nos últimos anos com Zarif, afirmou: “Hoje marca o momento em que o acordo nuclear passa de uma promessa ambiciosa para uma ação direta”. Com a revogação das sanções, o Irã voltará a ter acesso a US$ 100 bilhões de bens congelados. A medida também permitirá ao país se beneficiar de novas oportunidades comerciais, financeiras e no setor do petróleo. Para o diretor-geral da AIEA, Yukiya Amano, a certificação dada pela agência a Teerã significa que “as relações entre o Irã e a AIEA entram em uma nova fase”. Sob o acordo de 14 de julho, o Irã concordou em desmantelar programas que poderiam ser usados para fabricar armas atômicas em troca do fim das sanções. O pacto coloca várias atividades da nação sob supervisão da AIEA por 15 anos, com a opção de que punições sejam reimpostas se o Irã descumprir os compromissos. [...] EUA E UE REVOGAM sanções após Irã cumprir acordo nuclear. Folha de S.Paulo, 16 jan. 2015. Fornecido pela Folhapress. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/ 01/1730377-eua-e-uniao-europeiamlevantam-sancoes-contra-o-ira.shtml>. Acesso em: 22 fev. 2016.

O chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, e a chefe de política externa da União Europeia, Federica Mogherini, durante entrevista coletiva em Viena, Áustria, em 2016. Na ocasião, Mogherini anunciou a revogação das sanções econômicas ao Irã.

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CAPÍTULO 9

Mundo árabe, Cáucaso e Ásia Central

os barris de pólvora do mundo ÁSIA CENTRAL

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

CÁUCASO

Ponto de partida

AFEGANISTÃO MUNDO ÁRABE

PAQUISTÃO

ESCREVA NO CADERNO

• Identifique quais aspectos inserem o mundo árabe, o Cáucaso e a Ásia Central, o Afeganistão e o Paquistão no cenário geopolítico mundial.

Nota: O mapa não está em conformidade com as convenções cartográficas. Fontes: HAYWOOD, John. Atlas histórico do mundo. Colônia: Könemann, 2001. p. 220-221; ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 32.

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Tópicos do capítulo } Primavera Árabe } Estado Islâmico } Cáucaso e Ásia Central } Afeganistão, Paquistão e o fundamentalismo islâmico

MUNDO ÁRABE A Primavera Árabe trouxe perspectivas de mudanças com a queda de regimes totalitários. No entanto, as consequências não foram as esperadas pelo mundo: a ascensão do grupo Estado Islâmico, a guerra civil na Síria e a retomada do poder pelos militares no Egito. Lefteris Pitarakis/AP/Glow Images

Cáucaso e Ásia Central

Michael Evstafiev/AFP/Getty Images

Antiga zona de influência da URSS, é uma região cobiçada pelas potências em razão das reservas de petróleo na bacia sedimentar do mar Cáspio. No Cáucaso esse cenário é agravado pelos movimentos separatistas e a “guerra dos dutos” entre a Rússia e a Europa.

Fugindo da guerra civil, sírios atravessam a fronteira entre a Síria e a Turquia, 2015.

pAQUISTÃO E AFEGANISTÃO

Combatentes chechenos durante a guerra contra a Rússia, em Grozny, 1995. A Chechênia, inserida no Cáucaso, é uma das repúblicas da Federação Russa e reivindica sua independência desde o fim da URSS.

Aamir Qureshi/Getty Images

Kate Brooks/Corbis/Latinstock

Esses países apresentam grande instabilidade política e abrigam as raízes de grupos extremistas islâmicos. A preocupação mundial é que esses grupos tenham acesso à bomba atômica paquistanesa.

Integrantes da Al-Qaeda na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, 2002. Simulação da bomba atômica em desfile pelas ruas da cidade de Karachi, no Paquistão, em 1999, organizado pelo Pasban, ala jovem do grupo fundamentalista Jamaat-e-Islami.

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Fethi Belaid/AFP/Getty Images

1. A Primavera Árabe

Tunísia, berço do levante árabe. Após os episódios, o país assistiu às primeiras eleições livres promovidas pela Primavera Árabe, vencidas pelos partidos islâmicos. Na fotografia, manifestação popular em Túnis, em 2011.

Em 2011, eclodiu uma série de levantes em diversos países do norte africano e Oriente Médio, que ficaram conhecidos como Primavera Árabe. Essencialmente, o movimento foi fruto da indignação popular contra regimes totalitários havia décadas no poder no mundo árabe e que pouco contribuíram para conquistas sociais. O processo iniciou-se na Tunísia, em dezembro de 2010, quando um jovem ambulante teve suas frutas e legumes apreendidos pela polícia local. Inconformado com sua situação de desempregado, com a corrupção e com a repressão que imperava no país, ateou fogo ao próprio corpo, o que o levou à morte. O episódio escancarou o clima de indignação e penúria pelo qual passava o país, presidido por uma ditadura familiar desde 1987. Esse fato levou a uma onda de revolta contra o regime que saqueava o país havia anos: o ditador Zine el Abidine Ben Ali cairia no início de 2011. A partir daí, o movimento alastrou-se de forma rápida e contagiante por todo o mundo árabe. Observe a fotografia ao lado e o mapa a seguir.

Allmaps

O mundo árabe 0°

TUNÍSIA Mar Mediterrâneo

MARROCOS

SÍRIA LÍBANO IRAQUE

JORDÂNIA ARGÉLIA

KUWAIT

LÍBIA EGITO

Trópico de Câncer

lho

SUDÃO

EMIRADOS ÁRABES UNIDOS

ARÁBIA SAUDITA

r me

r Ve

Ma

MAURITÂNIA

CATAR

BAREIN

OMÃ IÊMEN DJIBUTI

OCEANO ATLÂNTICO

Mundo árabe: mais de 250 milhões de habitantes no Oriente Médio e no Norte da África. Fonte: HAYWOOD, John. Atlas histórico do mundo. Colônia: Könemann, 2001. p. 220-221.

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905

Meridiano de Greenwich

SOMÁLIA Equador

OCEANO ÍNDICO COMORES

Liga dos Estados Árabes

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Kaled Desouji/AFP/Getty Images

A segunda mobilização da Primavera Árabe ocorreu no Egito, contra o regime de Hosni Mubarak, líder apoiado pelos Estados Unidos. Foi um movimento espontâneo e anárquico que causou a queda do ditador meses depois. Ao contrário da Tunísia, o Egito é um país central na geopolítica do Oriente Médio e de todo o mundo árabe. Desde tempos remotos esteve no centro da história dos povos árabes. Exerceu papel de mediador no conflito israelo-palestino, o que foi visto com desconfiança por grande parte da população crítica das ações israelenses. Na visão de muitos egípcios, Mubarak era condescendente demais com Israel e Estados Unidos. O Egito é marcado por um interessante mosaico estratégico. Como “ponte geográfica" entre África e Ásia, o país faz parte do cenário regional do Oriente Médio e da África setentrional. O Canal de Suez, construído no final do século XIX, ainda hoje é uma importante rota do petróleo mundial, apesar de sua obsolescência. Internamente, a sombra do fundamentalismo é problema antigo. Após o assassinato do presidente Anwar al Sadat, em 1981, Hosni Mubarak, o então vice-presidente que assumiu o comando do país, também foi vítima de atentado do terror islâmico, em 1995; ele escapou por pouco. Com o objetivo de prejudicar as finanças do país, os extremistas realizaram atentados contra turistas nas pirâmides do Egito nos anos 1990. Al-Gama’a al-Islamiyya, Jihad Islâmica e a tradicional Irmandade Islâmica (ou Fraternidade Muçulmana) são os mais importantes grupos. Os dois primeiros são fundamentalmente extremistas, enquanto o último tem uma longa trajetória política na história do Egito. Apesar da atuação parlamentar, a Irmandade foi colocada na clandestinidade tanto por Gamal Abdul Nasser (presidente do Egito de 1956 a 1970) como por Mubarak. Sua bandeira é a construção de um Estado islâmico no Egito. Foi taxado como grupo terrorista por esses governos, mas tem respaldo popular. Já recorreu a métodos extremistas, porém renunciou a tais propósitos. Com a realização das eleições parlamentares após a queda de Mubarak, o partido ligado à Irmandade foi o mais votado e elegeu o presidente Muhammad Mursi em 2011. Seu slogan: “o Islã é a solução”. No entanto, o presidente eleito ficou apenas um ano no poder e foi derrubado por um golpe de Estado (veja a fotografia abaixo). Questionáveis eleições foram convocadas, e os militares, maior força política do país, voltaram ao poder em 2013 na figura do general Abdul al-Sisi. A Líbia é outro país inserido nesse contexto de transformações no mundo árabe. Lá se configurou o lado mais violento das revoltas, culminando com a execução do líder líbio, Muammar Kadafi, que estava há mais de 40 anos no poder.

Egípcios em rua do Cairo na época do golpe de Estado realizado por militares, em 2013.

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Mark III Photonics/Shutterstock/Glow Images

O viés violento da Primavera Árabe mostrou-se intensamente na Líbia, onde seu excêntrico ditador foi executado. Na fotografia, Muammar Kadafi em visita à Ucrânia, em 2008.

Nesse período, Kadafi (retratado na fotografia ao lado) oscilou entre a inimizade e a proximidade com as potências ocidentais. Chamado de “cachorro louco” pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Ronald Regan (1981-1989), e colocado no isolamento ao longo dos anos 1990, encaminhou uma reaproximação com líderes europeus e com outro ex-presidente estadunidense, George W. Bush (2001-2009). Além do interesse pelo petróleo do país, a busca por obtenção de informações sobre a rede terrorista Al-Qaeda foi uma justificativa dada por líderes ocidentais para a reaproximação com Kadafi, após os atentados terroristas aos Estados Unidos em 2001. Kadafi foi derrubado por um movimento armado que se iniciou na parte oriental do país. Os insurgentes foram gradativamente se organizando e contaram com o apoio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que lhes dera retaguarda aérea enquanto as forças terrestres avançavam até Trípoli, sede do poder. Kadafi fugiu para o interior até ser capturado e, em seguida, executado. ESCREVA NO CADERNO

A Geografia na... charge!

A charge ironiza os interesses ocidentais na intervenção da crise líbia que levou à queda do regime de Muammar Kadafi.

Rice

• Que interpretação você faz dessa imagem?

Ver Kadafi, nosso melhor inimigo Direção: Antoine Vitkine. França, 2011. Documentário baseado na figura lendária do general Muammar Kadafi. Charge de Rice, publicada em 2011.

Pauta musical

LP Vazio Tropical. Wado. Brasil, 2013

Primavera Árabe, Wado. Álbum: Vazio Tropical. Oi Música, 2013. Pauta: Primavera Árabe.

Outro país importante na história dos povos árabes é a Síria, cuja capital, Damasco, foi sede do primeiro califado árabe, o Omíada. O país também foi atingido pela Primavera Árabe em ondas de protestos contra o governo de Bashar al-Assad, que assumira o poder em 2000, substituindo seu pai, Hafez al-Assad, que, por sua vez, ficara 30 anos no comando do país. Os protestos iniciaram em março de 2011 e tomaram, rapidamente, forma de uma guerra civil que se estende até os dias atuais (2016). O conflito sírio envolveu diretamente os Estados Unidos e a Rússia, convertendo-se em uma questão estratégica global. O regime pró-Moscou de al-Assad contava com a antipatia dos Estados Unidos e da França. A interferência e a divergência dos interesses das potências mundiais na Síria levou à crise chamada de “mini guerra mundial”. A Rússia realizou diversos ataques, em 2015 e 2016, contra opositores do regime de al-Assad, enquanto Estados Unidos e Turquia apoiavam rebeldes anti-Damasco. Ao mesmo tempo, os curdos, que vivem em uma área entre o norte do Iraque, Síria, Irã e Turquia, aproveitavam o momento de instabilidade para organizar uma possível independência. Mas os governos desses países, principalmente da Turquia, não admitem essa possibilidade.

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Navegar Revista Fórum <http://tub.im/fjbigt> O site da revista Fórum contém um texto de Immanuel Wallerstein, sociólogo estadunidense, que analisa os rumos da Primavera Árabe.

Mesquita danificada na Síria, país central na geopolítica do Oriente Médio. Fotografia de Douma após bombardeio em dezembro de 2012.

Karm Seif/Shaam News Network/Reuters/Latinstock

De acordo com estimativas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), até 2015, a guerra civil síria gerou quatro milhões de refugiados e sete milhões deslocados dentro da Síria. Os números de mortos são desencontrados: enquanto a ONU divulgou 250 mil, o jornal britânico The Guardian mencionava 470 mil, calculados com base nos dados do Centro Sírio para Pesquisa Política. A Síria é um complexo mosaico cultural, onde há várias comunidades religiosas e a distribuição do poder não reflete essa realidade. O presidente sírio é membro de um clã minoritário, os alauitas, enquanto o país é majoritariamente sunita, embora haja outras comunidades islâmicas e cristãs. Tal qual o Egito e ao contrário da Líbia, a Síria é fundamental para o equilíbrio do Oriente Médio, pois está localizada no centro da região não apenas geograficamente, mas também no que se refere às questões culturais e políticas: é rival de Israel, com o qual, inclusive, tem pendências territoriais em relação às Colinas de Golã. Além disso, tem uma aliança velada com o Irã contra Israel; apoia o regime do Hezbollah, força política e militar no Líbano, igualmente anti-israelense, além de ter uma histórica influência no país libanês. A importância estratégica da Síria a colocou no centro das preocupações das revoltas árabes e o confuso cenário geopolítico tinha nesse país um elemento decisivo para o futuro da região. No primeiro semestre de 2016, os principais atores envolvidos na Síria tentavam delinear um acordo para por fim à guerra. Inicialmente vista como esperança por dias melhores ao mundo árabe, a Primavera Árabe síria, somada aos distúrbios do Iraque, trouxe à cena o grupo Estado Islâmico (ou Organização do Estado Islâmico), novo protagonista na geopolítica do Oriente Médio.

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Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

O professor John V. Pavlik, da Universidade Estadual de Nova Jersey, nos Estados Unidos, publicou em 2011, um texto que trata de uma temática cada vez mais atual: as relações entre as mídias sociais, o jornalismo e a democracia. O trecho apresentado abaixo aborda a questão citando a utilização das mídias sociais durante a Primavera Árabe. Leia-o atentamente e, a seguir, responda às questões. A Primavera Árabe e as mídias sociais [...] A mídia social desempenhou um papel central nestes movimentos sociais e protestos políticos. [...] Os cidadãos utilizaram as mídias sociais e os telefones celulares para comunicar e compartilhar informações além de organizar as suas atividades, e às vezes passar a perna nas autoridades. [...] As mídias noticiosas tradicionais funcionaram para colocar o fluxo da consciência das mídias sociais num contexto e numa perspectiva mais amplos, além de fornecerem informações adicionais. As mídias noticiosas impressas e eletrônicas entregaram as notícias dos distúrbios na região para o resto do mundo e enquadraram o conflito no contexto histórico, político etc. Os jornalistas profissionais fizeram entrevistas com uma gama de fontes diversas, incluindo fontes oficiais do governo, fontes dos rebeldes e fontes de cidadãos particulares, para adicionar a coerência às imagens fragmentadas e às vezes conflitantes vindas de lugares como a Praça Tahrir, no Cairo. William H. Dutton, diretor do Oxford Internet Institute, realizou uma pesquisa que indica que os indivíduos conectados na rede estão se tornando o que ele chama um “quinto estado” (Dutton, 2009). Da mesma forma que a mídia noticiosa vem atuando historicamente como um quarto estado, na fiscalização dos três estados ou poderes do governo, o público capacitado pelas mídias móveis e sociais age atualmente muitas vezes independentemente - como uma fiscalização do governo pelos cidadãos com base na reportagem das notícias. Além disso, uma pesquisa realizada em Moscou, na Rússia, indica que as mídias noticiosas tradicionais têm dificuldade na concorrência com as mídias sociais em termos de velocidade com relação às notícias “quentes” (Zassoursky, 2010). [...] O enorme número de jornalistas/cidadãos que colhem e distribuem notícias com seus dispositivos móveis e outras mídias digitais capacitadas pela internet frequentemente supera muito a força de trabalho das mídias noticiosas tradicionais. Naturalmente, os jornalistas/cidadãos podem muitas vezes errar na apresentação dos fatos, e

daí dependem dos mecanismos de autocorreção da internet e das mídias sociais. Esta história de sinergia entre as mídias sociais e a transparência on-line na Primavera Árabe continuou na Síria, na Líbia e em outros lugares na região. No Egito, as autoridades tentaram acabar com os distúrbios ao cortar o serviço da internet. Ironicamente, esta ação poderá ter alimentado ainda mais a revolta, ao tornar os cidadãos mais raivosos. Num estudo da situação na Praça Tahrir, Navid Hassanpour, da Universidade de Yale, achou que a interrupção da cobertura celular e da internet no dia 28 exacerbou os distúrbios de três maneiras principais. Implicou muitos cidadãos apolíticos que não sabiam ou não se interessavam nos distúrbios; obrigou mais comunicação cara a cara, i.e., mais presença física nas ruas; e finalmente descentralizou efetivamente a rebelião no dia 28 através de novas táticas híbridas de comunicação, produzindo um atoleiro muito mais difícil de controlar e reprimir que uma única reunião enorme em Tahrir (Hassanpour, 2011). Com um bilhão de pessoas usando as mídias sociais e uma estimativa de cinco bilhões de telefones celulares em uso no mundo inteiro (World Bank, 2011), o potencial impacto cumulativo das mídias móveis noticiosas e sociais na democracia é profundo. As provas sugerem que esta tão espalhada tecnologia digital poderia promover não apenas o desenvolvimento econômico, mas também a participação política onde outra infraestrutura fica limitada. As quase onipresentes mídias digitais móveis podem dar poder ao indivíduo, e potencialmente acabar com a divisão digital e a brecha de informações. Com um diálogo ativo e interativo entre os jornalistas profissionais e os indivíduos conectados à rede, chamados de jornalistas-cidadãos por algumas pessoas, é possível diminuir a brecha de conhecimentos em assuntos de importância pública. Há a possibilidade de fazer com que os cidadãos se dediquem à democracia digital.

PAVLIK, John V. A tecnologia digital e o jornalismo: as implicações para a democracia. Brazilian Journalism Research. v. 7, n. II, 2011. p. 107109; 111-112. Disponível em: <http://bjr.sbpjor.org.br/bjr/article/viewFile/340/314>. Acesso em: 12 maio 2016.

1. Por que William H. Dutton indica que os indivíduos conectados à rede internacional de computadores estão se tornando um “quinto estado”? Em sua resposta, utilize exemplos do texto sobre o uso das redes sociais nos eventos da Primavera Árabe. 2. Tomando como exemplo os casos mencionados na Primavera Árabe, qual é a importância das redes sociais na divulgação de bandeiras políticas e ideológicas ou como instrumento de mobilização? Você participa de debates políticos on-line ou já foi a manifestações que foram divulgadas por meio de postagens em redes sociais?

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2. O Estado Islâmico: um fenômeno extremista

Handout/Alamy/Latinstock

O frágil governo iraquiano que se seguiu após a queda do regime de Saddam Hussein, em 2003, não foi reconhecido pelos principais grupos que formam a população do Iraque: os árabes xiitas, os árabes sunitas e os curdos. A ausência de um Estado organizado e de um ponto de equilíbrio entre esses grupos rivais levaram à divisão do país e a uma guerra sectária: entre 2003 e 2006 mais de seis mil civis foram mortos em atentados. Nesse cenário instável, novos grupos extremistas se instalaram no território iraquiano, como o Jamma Jamma’ at al Tawhid, de orientação sunita, fundado pelo jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, seguidor de Osama bin Laden, que lutava contra a monarquia jordaniana e contra o novo governo iraquiano. Quando irrompeu a guerra civil no Iraque, al-Zarqawi rebatizou seu grupo como AQI (Al-Qaeda no Iraque) e passou a realizar diversos atentados contra alvos estadunidenses, britânicos e xiitas. Com a morte de al-Zarqawi em 2006, em uma ação das forças dos Estados Unidos, o grupo passou a se chamar ISI (Estado Islâmico do Iraque) e se distanciou da Al-Qaeda. Na Síria, entre 2011 e 2012, diversos grupos se rebelaram contra o governo de Bashar al-Assad no contexto da Primavera Árabe. Dentre eles estava uma frente da Al-Qaeda que atuava no território sírio, a milícia al-Nusra. Essa selava uma aliança com o ISI. No entanto, com os desdobramentos da guerra civil síria as relações entre o ISI e a Al-Qaeda se deterioraram e surgiu o Isis ou Isil (Estado Islâmico do Iraque e da Síria ou Levante). O novo grupo tem como principal proposta a criação de um califado entre os territórios sírio e iraquiano. Ele não reconhece as fronteiras atuais do Oriente Médio, pois as considera delimitações de uma ordem colonial ainda vigente e contra a qual lutam. Em 2014, o líder do Isis, Abu Bakr al-Baghdadi, anunciou a mudança da nomenclatura do grupo para Estado Islâmico e a fundação de um califado do qual ele se autoproclamou o califa, ambos não reconhecidos pela comunidade internacional. Como vimos anteriormente, a expressão “califa” tem a conotação político-religiosa de sucessor do profeta Maomé.

As ações do Estado Islâmico aterrorizam a população da Síria e do Iraque. Na fotografia, integrantes do Estado Islâmico exibem tanques militares e bandeiras do grupo em cidade no norte da Síria, 2014.

Interagindo

ESCREVA NO CADERNO

• Vimos nesse capítulo e no anterior que a ordem política do mundo árabe foi bastante modificada nos últimos anos. O que aconteceu com muitos dos países dessa região em termos de estabilidade? Em sua opinião a queda dos regimes totalitários, como aconteceu no Iraque, na Líbia e na Tunísia, foi benéfica aos povos árabes? Justifique a sua resposta.

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3. A Ásia Central e o Cáucaso Desde a dissolução soviética, em 1991, a estratégica região que se estende desde o Cáucaso, limite leste europeu, até a Ásia Central tornou-se alvo de disputa entre quatro gigantes da geopolítica mundial: Rússia, Estados Unidos, China e União Europeia. Entre o Cáucaso e a Ásia Central, encontra-se o mar Cáspio. Observe essa região no mapa abaixo.

Allmaps

O Cáucaso e a Ásia Central 60° L

RÚSSIA

CAZAQUISTÃO 0

315

GEÓRGIA

ARMÊNIA AZERBAIJÃO

TURQUIA

AZB

UZ BE QU IS

Mar Cáspio

TURCO MEN IS T

QUIRGUISTÃO TÃ

O

40° N

Mar de Aral

TADJIQUISTÃO

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IRAQUE

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AFEGANISTÃO

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SÍRIA U

CHINA

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Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 32.

Navegar Mundorama <http://tub.im/dcb65s> O site Mundorama realiza divulgação científica na área de relações internacionais. No link indicado há um bom texto sobre a geopolítica na Ásia Central.

A chamada Ásia Central compreende centralmente Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Uzbequistão e Turcomenistão. Já o Cáucaso compreende Geórgia, Armênia, Azerbaijão e parte do território russo, incluindo também a Chechênia, uma república separatista russa. Mapas anteriores a 1991 trazem as duas áreas incluídas nos domínios da União Soviética. Durante a Guerra Fria, o Cáucaso, o mar Cáspio e a Ásia Central, na prática uma contiguidade geográfica, formavam uma indiscutível zona de influência soviética. A falência da superpotência em dezembro de 1991 lançou incertezas sobre o futuro da região, que se tornou momentaneamente órfã de uma potência dominante num momento em que se anunciava forte demanda energética mundial e redescobria-se a importância petrolífera do mar Cáspio. Assim, Estados Unidos e Europa (sob severa vigilância chinesa) trataram de acomodar-se da melhor forma possível nos arredores da região, para desconforto da Rússia, ocupada em administrar suas crises internas. Além das potências mundiais, potências regionais também se circunscrevem à região: Índia, Paquistão e Irã têm interesse nos arredores do mar Cáspio. Há uma explicação estratégica para isso: especula-se que a bacia sedimentar caspiana seja o segundo maior reduto petrolífero do mundo. Em um mundo cada vez mais dependente de energia, a cobiça pelas principais fontes petrolíferas e por gás natural pautam os passos das potências. É nesse contexto que devemos entender o interesse que têm nessa região Estados Unidos, China, União Europeia e também a Rússia, que a considera sua zona de influência geopolítica desde a época do Império Russo.

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ESCREVA NO CADERNO

Conversando com a... Biologia!

Entre o Cazaquistão e o Uzbequistão situa-se o mar de Aral. Durante a vigência da União Soviética, seus principais tributários, Sir Daria e Amu Daria, tiveram suas águas desviadas para projetos de irrigação do cultivo do algodão. Até então, a pesca era a principal atividade da população local, mas desde os anos 1940 o cultivo do algodão passou a ter prioridade em detrimento da atividade pesqueira. Essa região, então, foi dominada pela aridez. Essa iniciativa causou um dos maiores desastres ambientais do mundo e é claramente um exemplo a jamais ser seguido: de quarto maior lago interior do mundo o Aral esteve à beira do desaparecimento. A tragédia é fruto exclusivamente de uma equivocada intervenção humana na natureza. Sinônimo de tragédia ambiental do século XX, notícias recentes veiculam que, por intervenção do governo do Cazaquistão com obras de recuperação ambiental, o mar de Aral apresentou considerável diminuição da salinidade, retomada lenta de seu volume e reaparecimento de aves nativas: o mar recusou-se a desaparecer e vem se revitalizando. 1. Uma intervenção como essa pode causar quais danos à vida marinha?

Xinhua/Photoshot/Easypix

2. A recomposição da vida marinha pode ser refeita com a retomada do volume das águas do mar de Aral?

Navios encalhados naquilo que um dia foi mar: o leito do Aral hoje se confunde com as areias dos desertos da Ásia Central. Fotografia de 2015, Uzbequistão.

A Europa é dependente do fornecimento de gás natural russo, em grande parte colhido extraído à bacia do Cáspio. Um sistema de dutos interliga o mar Cáspio ao mar Negro, possibilitando o abastecimento europeu. Esses dutos passam por território russo, onde há cobrança de taxas, que representam importante captação de recursos para Moscou. Como parte de uma manobra geopolítica estadunidense-europeia, formou-se um consórcio, com o propósito de desviar a rota dos dutos do território russo, minimizando a dependência europeia, porque, apesar de remota, existe sempre a possibilidade de a Rússia “fechar as torneiras do gás” durante o inverno, quando o consumo é maior. Esse temor muitas vezes está nas veladas ameaças russas quando da negociação do preço do gás. A Rússia, por sua vez, atua contrariamente à construção de novos dutos que possam minar esse seu trunfo estratégico. No entanto, o gigante euro-asiático tem sérios problemas no Cáucaso, rota dos dutos. A Chechênia é uma república separatista que, desde a desintegração soviética, reivindica sua independência. Duas guerras já foram travadas por esse motivo: uma vencida pela Chechênia, em 1996, outra pela Rússia, três anos mais tarde, quando o país russo já estava sob a égide de Vladimir Putin. A Chechênia segue sob soberania russa, mas os distúrbios são constantes e promovidos por violentos grupos separatistas, na maioria, vinculados ao terror islâmico. Outro imbróglio russo refere-se à difícil relação com a Geórgia, com a qual travou uma guerra em 2008. Há uma disputa territorial entre os dois países envolvendo duas províncias: a Abkházia e a Ossétia do Sul, que se recusam a pertencer à Geórgia. Esta, por sua vez, estreitou os laços com Europa e Estados Unidos, oferecendo seu território para passagem dos dutos até o Velho Continente. A Rússia, naturalmente, tem feito tudo para inviabilizar o intento.

Navegar The Great Game <http://tub.im/h44zty> O site The Great Game traz interessantes textos, em português, sobre a geopolítica da Ásia Central e do Cáucaso.

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Yuri Tutov/AFP/Getty Images

Os trágicos atentados em Beslan, Ossétia do Norte, em 2004, são sintomáticos da tensão no Cáucaso. Esse foi um entre tantos atentados na Rússia realizado pelos grupos separatistas da Chechênia.

A Europa percorreu o caminho da diplomacia do dinheiro, oferecendo apoio econômico e buscando captar a Geórgia para sua esfera de influência, considerando, inclusive, a possibilidade de o país integrar a União Europeia. Mas a Rússia já se manifestou contrária à entrada da Geórgia e da Ucrânia no bloco europeu e dificilmente assistirá calada à investida, pois considera que da União Europeia à Otan a distância é muito curta. Apesar da resistência russa, em 2005 foi inaugurado o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, um sistema de dutos desde o Vale do Baku, no Azerbaijão, até o Mediterrâneo turco, atravessando territórios da Geórgia e da Turquia e contornando o território russo. Veja o mapa abaixo. Esse projeto de US$ 3,5 bilhões e 1 700 km de extensão, foi encabeçado pela British Petroleum e custeado por um consórcio intercontinental (Estados Unidos-Europa). Atualmente escoa um milhão de barris de petróleo por dia. Uma inconteste derrota geopolítica para a Rússia. A Geórgia está envolvida ainda em três outros projetos estratégicos europeus: a Traceca (iniciais em inglês de Transport Corridor Europe-Caucasus-Asia), um complexo de transportes intermodais ligando a Europa à Ásia; o Corredor Energético Transcaucasiano; e a Rede de Telecomunicações Transcaucasiana.

UCRÂNIA Novorossisk

DACOSTA MAPAS

Cáucaso: jazidas de petróleo e oleodutos KALMÍKIA

JAZIDA DE MAIKOP

RÚSSIA

Maikop ADIGUEIA

Grozny INGUCHÉTIA ABKHÁZIA

Makhatchkala

OSSÉTIA DO NORTE OSSÉTIA DO SUL

Mar Negro Soupsa

GEÓRGIA

ADJARIA

Mar Cáspio

CHECHÊNIA DAGUESTÃO

Derbent

42° N

Tbilisi

AZERBAIJÃO ARMÊNIA TURQUIA

NAGORNO-KARABAKH

JAZIDA DE BAKU Baku

Ierevan Jazidas de petróleo Oleoduto Movimento separatista Capital do país Cidade

para Ceyhan (Turquia)

NAKHITCHEVAN

IRÃ 45° L

0

85 km

Fonte: FERREIRA, Graça M. L. Atlas geográfico. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2010. p. 98.

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4. Afeganistão e Paquistão: a morada do fundamentalismo Afeganistão e Paquistão tiveram seus nomes, nos últimos tempos, atrelados ao fundamentalismo islâmico, particularmente após os episódios do 11 de Setembro. O terrorista Osama bin Laden estava ligado à história recente dos dois países. Ao Afeganistão, pois a organização por ele criada, a Al-Qaeda, responsável pelos atentados, nasceu e se fortaleceu nesse país; foi de lá que partiram as ordens para os ataques aos alvos estadunidenses. Ao Paquistão, porque era lá, em 2011, que o líder terrorista estava refugiado e foi executado em uma ação das tropas dos Estados Unidos.

Filme de Mike Nichols. Jogos do poder. EUA, 2007

Ao sul da Ásia Central e a leste do O mosaico étnico afegão Oriente Médio, o Afeganistão situa-se em 60° L UZBEQUISTÃO QUIRGUISTÃO uma zona montanhosa, junto à cordilheiCHINA ra do Himalaia e estende-se do Irã à ChiTADJIQUISTÃO na. É um país localizado em uma área de transição entre o Oriente Médio, a Ásia TURCOMENISTÃO Central e a Ásia de Monções. Alguns mapas o situam no Oriente Médio, outros na Ásia Central. Do ponto de vista cultural, o AfeganisJalalabad ÍNDIA tão é marcado por uma forte tradição triIRÃ KABUL bal e dividido em vários grupos: Pashtuns PAQUISTÃO AFEGANISTÃO (grupo majoritário), Tadjiques, Hazarás, Pashtuns (38%) Kandahar Uzbeques, entre outros, todos de tradiTadjiques (25%) 0 165 Hazarás* (19%) ção islâmica. Veja no mapa ao lado onde Uzbeques (6%) estão localizados esses grupos que comOutros (12%) 30° N Capital do país põem o mosaico étnico afegão. Capital da província O país entrou para a cena geopolítica do * Originários da antiga Pérsia, hoje Irã. mundo ao sofrer uma invasão da União So- Fonte: ALMANAQUE ABRIL 2011. São Paulo: Abril, 2011. p. 379. G ol fo viética em 1979. Naquele contexto da GuerPé rs ico ra Fria, os Estados Unidos não hesitaram em apoiar os guerrilheiros muçulmanos que resistiam à invasão comunista. Além dos Estados Unidos, Paquistão, China, Arábia Saudita e Irã forneceram armas e dinheiro aos mujahedins, como são Ver conhecidos esses guerrilheiros, que venceram os soviéticos. Surpreendendo o mundo, a União Soviética se retirou do país em 1989. Jogos do poder. Direção: Mike Nichols. Estados Unidos, 2007. No contexto dessa invasão soviética e da resistência afegã, um novo Aborda a intervenção secreta ingrediente foi adicionado ao cenário regional: para financiar a frente, os dos Estados Unidos quando guerrilheiros passaram a contar com o tráfico internacional de drogas, torapoiaram milicianos islâmicos no Afeganistão, invadido pela União nando-se o Afeganistão o maior produtor mundial de papoula, matéria-priSoviética, em 1979. ma do ópio e da heroína, duas drogas produzidas no país desde então. Ao período da invasão soviética seguiu-se uma guerra civil e o Afeganistão ficou dividido entre grupos inimigos armados, mas o grupo que emergiu dos mujahedins, o Talibã, outrora apoiado pelos Estados Unidos, passou a dominar a maior parte do país e instaurou um regime fundamentalista, com base na corrente sunita, altamente violento e arbitrário, tornando-se um dos maiores violadores dos direitos humanos, particularmente dos direitos das mulheres, em todo o mundo.

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4.1 Afeganistão }}

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A expressão talibã (ou taleban) provém do dialeto Pasthun e significa “estudante de religião”. A origem do famoso grupo remonta à época da invasão soviética, quando Estados Unidos e o serviço de inteligência do Paquistão recrutaram inúmeros desses estudantes para fazer frente à invasão soviética. No entanto, o grupo cresceu demais e fugiu ao controle. No dilacerado Afeganistão, alcançaram o poder em 1996 e eliminaram as demais frentes que igualmente combateram a União Soviética; alguns líderes de outros grupos capturados pelo Talibã foram executados violentamente em praça pública. Templos remanescentes budistas, bibliotecas, televisores, vídeos e tudo aquilo que fugia à crença ortodoxa muçulmana no país foram destruídos. Os homens foram proibidos de raspar a barba, e as mulheres, as maiores vítimas desse obscuro regime, tiveram todo tipo de direito eliminado, sendo-lhes imposta a padronização da vestimenta, o uso da burca. Observe a fotografia abaixo.

Ler

WAKIL KOHSAR/AFP

Editora Civilização Brasileira

O Afeganistão depois do Talibã, de Adriana Carranca. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. O livro, por meio de 11 histórias afegãs, retrata o período entre a invasão dos Estados Unidos até a morte de Osama bin Laden.

Burca, marca registrada no obscuro Afeganistão talibã. Na fotografia, mulheres afegãs em um mercado em Shirin Tagab, 2015.

Ver A caminho de Kandahar. Direção: Mohsen Makhmalbaf. França/Irã, 2001. Documentário que retrata a guerra civil que levou o Talibã ao poder antes dos ataques estadunidenses ao Afeganistão em 2001.

Durante a expansão talibã rumo ao interior, diplomatas iranianos foram presos e assassinados, quase provocando uma guerra entre o Irã, xiita, e o Afeganistão, sunita, o que seria catastrófico para o mundo islâmico. Nesse período de ascensão, o Talibã tinha o apoio dos Estados Unidos e do Paquistão, enquanto o Irã era seu maior inimigo. Já no final dos anos 1990, ficou claro para os Estados Unidos que de aliados os talibãs passavam a inimigos: o saudita Osama bin Laden, refugiado no Afeganistão dominado pelo Talibã, cujo chefe supremo, o mulá Omar, era seu sogro, foi o principal suspeito de vários atentados contra alvos estadunidenses: embaixadas no Quênia e na Tanzânia. Após os eventos de 11 de Setembro, quando a responsabilidade dos atentados de 2001 foi atribuída ao terrorista da Al-Qaeda, os Estados Unidos atacaram o Afeganistão. Apesar de, inicialmente, não capturarem Osama bin Laden nem o mulá Omar, conseguiram êxito em derrubar o regime extremista do Talibã. Contudo, não conseguiram a estabilização do país, que ficou marcado por constantes atentados e um frágil regime pró-Estados Unidos. Em maio de 2011, após uma década de perseguições, o governo dos Estados Unidos anunciou que suas tropas assassinaram Osama bin Laden dentro de sua casa, no Paquistão.

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UZ BE

QU

AAMIR QURESHI/AFP

I ST Situado na mesma zona montanhosa que o Afeganistão, ÃO Paquistão o Paquistão pode ser considerado um dos mais perigosos paí70° L ses do mundo. Veja sua localização no mapa ao lado. Essa CHINA afirmação tem três motivos: é um país marcado pela instabilidade política, com governos frágeis e um histórico de golpes militares e assassinatos dos principais líderes; abriga diversos grupos extremistas islâmicos; detém a bomba atômica. Islamabad AFEGANISTÃO O país é fruto da divisão político-religiosa que se seguiu à independência, ao fim do domínio britânico na Índia, em 1947. Naquele momento, ocorreu a divisão do vasto territóÍNDIA Multan rio sob jugo britânico em dois novos países: Índia e Paquistão. 30° N PAQUISTÃO Por causa da intolerância religiosa, não foi possível a convivência pacífica entre hinduístas e muçulmanos, contrariando IRÃ os ideais de tolerância defendidos por Mahatma Gandhi. O Paquistão foi composto de duas porções territoriais separadas pela Índia: Paquistão e Paquistão Oriental. Em 1971, o Paquistão Oriental deu origem ao atual Bangladesh. OCEANO 0 225 Capital do país Cidade O país é permeado por tensões e convive com uma paz ÍNDICO muito tênue. Inimigo histórico da Índia, com a qual já travou Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 47. três guerras ao longo da segunda metade do século XX, disputa com a rival a região da Caxemira. A preocupação da comunidade internacional refere-se à perigosa combinaMadrassas: Escolas religiosas ção entre extremismo islâmico e capacidade atômica. Muitos entendem que a islâmicas. presença dos Estados Unidos no Afeganistão se deve em grande parte ao temor de que a Al-Qaeda ou o Talibã, presentes no Paquistão, tenham acesso às bombas atômicas do país. Simultaneamente a essa realidade, o Paquistão é o país que apresenta o maior número de madrassas em todo o mundo, de onde saiu grande parte, por exemplo, dos militantes talibãs. Observe a fotografia a seguir. Após os atentados do 11 de Setembro e a consequente “guerra ao terror”, o país entrou para a linha de frente do contencioso por fazer parte do mesmo conjunto geopolítico que o vizinho Afeganistão; sabe-se que, apesar de ter governado o Afeganistão por anos, as raízes talibãs estão no Paquistão. Aliado dos Estados Unidos desde os tempos da Guerra Fria, essa amizade enfraqueceu-se recentemente. Argumentando combater terroristas da Al-Qaeda e do Talibã, os Estados Unidos com frequência invadem o território paquistanês sem consulta ao governo. A ação dos Estados Unidos que executou Osama bin Laden comprova isso. Militares estadunidenses entraram no espaço aéreo paquistanês sem pedir autorização ao governo do país.

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4.2 Paquistão }}

Em razão da ausência do Estado paquistanês, muitas vezes as mães recorrem às madrassas para a educação das crianças. Embora o Islamismo seja uma religião baseada na paz, a memorização acrítica do Alcorão pode produzir futuros extremistas. Na fotografia, crianças em seminário religioso, em Islamabad, Paquistão, 2015.

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ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando 1. Em 2011, explodiu a chamada Primavera Árabe. O que foi esse movimento?

2. O processo da Primavera Árabe iniciou-se na Tunísia, em dezembro de 2010, e se estendeu por diversos países. Destaque um caso da Primavera Árabe em particular e discorra sobre ele. 3. A Primavera Árabe pode ser entendida como o fato novo que surgiu para reorientar alguns países do Oriente Médio. Qual era o temor das potências de que a Primavera Árabe atingisse o Golfo Pérsico? 4. Explique as circunstâncias do surgimento do Estado Islâmico. 5. O Cáucaso compreende Geórgia, Armênia, Azerbaijão e parte do território russo, incluindo também a Chechênia, uma república separatista russa. Quais questões estratégicas envolvem o Cáucaso? 6. Uma das consequências dos ataques estadunidenses ao Afeganistão, em 2001, é a desestabilização desse país, que ficou marcado por sofrer constantes atentados e pelo frágil regime pró-Estados Unidos. Quais as razões de os Estados Unidos terem atacado o Afeganistão em 2001? 7. Situado na mesma zona montanhosa que o Afeganistão, o Paquistão pode ser considerado um dos mais perigosos países do mundo. Por que afirmamos ser o Paquistão um país perigoso?

Olhar cartográfico O surgimento do Estado Islâmico resulta dos episódios geopolíticos da Guerra do Iraque, em 2003, e da guerra civil na Síria, agravada especialmente a partir de 2012. O grupo, que se organizou rapidamente, assombra o Ocidente com suas ações extremamente violentas. O mapa abaixo apresenta a origem de estrangeiros recrutados pelo Estado Islâmico. Estima-se que 12 mil combatentes de quase 80 países viajaram para a Síria e para o Iraque. Observe o mapa e responda às questões. 1. Qual a procedência desses combatentes e a situação política de seus países de origem? 2. Pela conjuntura do que estudamos, em sua opinião há possibilidade de o Estado Islâmico fazer o caminho inverso, ou seja, migrar de sua área de origem, países do Oriente Médio, para a área de fornecimento principal de combatentes, principalmente países do Norte da África?

DACOSTA MAPAS

Origem dos combatentes estrangeiros na Síria e no Iraque (2014) 0° Círculo Polar Ártico

SÍRIA IRAQUE Trópico de Câncer

OCEANO PACÍFICO

OCEANO PACÍFICO Equador

Trópico de Capricórnio

No de combatentes estrangeiros 3 000 1 500 500 100 Menos de 50

Círculo Polar Antártico

OCEANO ÍNDICO

Meridiano de Greenwich

OCEANO ATLÂNTICO

0

2 480

Fonte: MAPAS explicam batalha do “EI” pela Síria e pelo Iraque. BBC Brasil, 16 out. 2014. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141015_mapas_ siria_lab>. Acesso em: 7 jan. 2016.

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Atividade em grupo A Al-Qaeda é uma organização criada por Osama bin Laden e, até onde se sabe, responsável pelos atentados de 2001 contra os Estados Unidos. O Talibã surgiu no contexto da invasão soviética no Afeganistão, quando os Estados Unidos e o serviço de inteligência do Paquistão recrutaram inúmeros estudantes para combater a invasão soviética. Reúnam-se em grupos e discorram sobre: 1. Quais as relações atuais da Al-Qaeda e do Talibã com o Afeganistão e o Paquistão? 2. E com os demais países da Ásia Central e do Oriente Médio? 3. Quais as principais justificativas desses grupos para as suas ações terroristas? Quais suas principais reivindicações? 4. Qual a relação dos Estados Unidos com o surgimento do Talibã? 5. Após responder às questões acima, apontem as considerações do grupo sobre as justificativas que essas organizações dão para suas ações. Ao final, registrem no caderno a síntese da discussão.

De olho na mídia

A matéria abaixo permite uma reflexão sobre as diferentes versões apresentadas de um fato quando o assunto é política nacional e internacional. Leia o texto, atente para o conflito da informação sobre a morte de Osama bin Laden e expresse sua opinião ao responder à pergunta: quem traz uma versão mais plausível, o jornalista, ou o governo estadunidense? EUA desmentem artigo sobre papel do Paquistão em morte de Bin Laden [...] A Casa Branca rejeitou de forma categórica nesta segunda-feira as afirmações “sem fundamento” do jornalista americano Seymour Hersh, que afirmou que o governo americano mentiu a respeito das condições nas quais matou em maio de 2011 Osama bin Laden no Paquistão. “Há muitas inexatidões e afirmações sem fundamentos neste artigo para responder ponto por ponto”, afirmou Ned Price, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional (NSC). No último domingo (11/5), Hersh revelou que a operação foi trabalho conjunto entre os governos dos Estados Unidos e do Paquistão, que teria mantido o líder da Al-Qaeda prisioneiro desde 2006. Na versão oficial da Casa Branca, Bin Laden estava foragido e se escondia na cidade de Abottabad, no norte do Paquistão. De acordo com o relato de Hersh, as autoridades paquistanesas mantinham Bin Laden preso para ser usado em negociações com dois grupos terroristas que atuam no país, a Al-Qaeda e o Talibã. O paradeiro do líder teria sido revelado ao governo americano por um oficial de inteligência paquistanês em troca de recompensa de US$ 25 milhões. A operação, segundo Hersh, não foi uma situação de perigo para os oficiais da marinha americana, mas um cenário controlado. Havia um combinado com as autoridades do Paquistão para que não interferissem; um oficial do país acompanhou os agentes dos Estados Unidos durante a missão para mostrar o caminho dentro da mansão em que Bin Laden estava. Hersh também afirma que, durante os cinco anos em que o terrorista ficou escondido em Abottabad, os gastos foram financiados pela Arábia Saudita, país de origem de Osama. Ao reafirmar que esta investigação foi “uma operação americana de cabo a rabo”, Ned Price ressalta que “apenas um pequeno círculo” de autoridades americanas estava ciente e que o presidente Barack Obama havia decidido, desde o início, não informar outros governos, incluindo o paquistanês. Seymour Hersh se destacou no passado, entre outros, por ter revelado dados sobre o massacre de My Lai durante a guerra do Vietnã o escândalo da prisão de Abu Ghraib no Iraque, mas as controvérsias que vários de seus artigos recentes afetaram sua imagem nos Estados Unidos.

Polêmica antiga Em 2012, o WikiLeaks divulgou ao jornal espanhol Público e-mails que contestam a versão oficial da disposição do corpo de Bin Laden. A empresa privada de segurança, a Stratfor global intelligence, conhecida como “CIA na sombra”, foi o alvo do vazamento. Um dos diretores, Fred Burton, enviou mensagem dizendo que fora informado que “trouxemos o corpo. Graças a Deus”. O e-mail estava intitulado como OBL. Ainda de acordo com as informações vazadas no WikiLeaks, o corpo teria sido transportado em um avião da CIA. Na versão oficial relatada em 2011. EUA DESMENTEM artigo sobre papel do Paquistão em morte de Bin Laden. AFP, 11 mai. 2015. Disponível em: <http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2015/05/11/interna_mundo,482741/eua-desmentem-artigo-sobrepapel-do-paquistao-em-morte-de-bin-laden.shtml>. Acesso em: 24. fev. 2016.

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CAPĂ?TULO 10

Peter Horree/Alamy/Latinstock

Ă frica: o legado colonial

Mercado de especiarias na cidade de Marrakech, Marrocos, 2013.

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Eric Lafforgue/Alamy/Latinstock

Tópicos do capítulo A paisagem africana Imperialismo e neocolonialismo Questões geopolíticas

Mineração de ouro na República Democrática do Congo, 2014. Essa mina, denominada Kibali, é explorada por uma empresa inglesa e uma sul-africana.

Ponto de partida

Pete Jones/Reuters/Latinstock

Processo de secagem do café em Jimma, Etiópia, 2013. O café é um dos principais produtos de exportação desse país.

ESCREVA NO CADERNO

• As fotografias desta abertura mostram alguns aspectos da herança imperialista europeia na África. Quais são eles? Que outros legados você poderia citar?

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1. A paisagem africana Por ser o único continente atravessado simultaneamente pela linha do equador e pelo meridiano de Greenwich, a África possui terras em todos os hemisférios. A natureza de seus 30 milhões de quilômetros quadrados apresenta singularidades próprias, como compartimentação compacta, uniformidade na distribuição bioclimática e litoral pouco recortado.

Allmaps

África em todos os hemisférios 0º Círculo Polar Ártico

Hemisfério Norte OCEANO ATLÂNTICO

Trópico de Câncer

Hemisfério Ocidental

ÁFRICA

OCEANO PACÍFICO Trópico de Capricórnio

Meridiano de Greenwich

Equador

Hemisfério Oriental

OCEANO PACÍFICO 0º

OCEANO ÍNDICO

Hemisfério Sul Círculo Polar Antártico

0

4 130

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 34. Magreb: Expressão árabe que significa “ocidente”, em contraposição a Mashreq, “oriente”. Essa região compreende o Marrocos, a Argélia e a Tunísia.

O que separa a África da Europa é o mar Mediterrâneo. Nas imediações do Estreito de Gibraltar, os dois continentes estão tão próximos que de um lado se avista o outro. Em relação à Ásia, é o mar Vermelho que delimita os dois continentes. Na verdade, não há uma separação física entre África e Ásia, mas sim artificial: o Canal de Suez. A oeste, a África é banhada pelo oceano Atlântico e, a leste, pelo Índico. No extremo sul do continente, ocorre o encontro entre esses oceanos, proporcionando uma posição estratégica privilegiada à África do Sul, localizada na confluência entre eles. A homogeneidade geomorfológica do relevo africano é interrompida por algumas formações montanhosas, como a Cadeia do Atlas, no Magreb, região noroeste da África, cujas altitudes representam um empecilho à entrada de ventos marítimos úmidos. Na porção oriental, junto aos maciços Etíope e Oriental, localizam-se as maiores altitudes, como o monte Quilimanjaro (5 895 m), ponto culminante do continente, e o monte Quênia (5 199 m), enquanto na vertente ocidental as altitudes são mais modestas. É também na vertente oriental africana que estão situadas as grandes fossas tectônicas. Por se localizarem em zonas superúmidas, ao longo dos séculos foram preenchidas com as águas das chuvas, dando origem aos grandes lagos africanos, que se diferem na origem dos grandes lagos americanos ou finlandeses; estes de origem glacial, aqueles, tectônica. A hidrografia africana é marcada pela distribuição irregular, isto é, ao mesmo tempo que concentra dois dos dez maiores rios do mundo – o rio Nilo, na franja oriental, e o rio Congo, na África equatorial –, apresenta vasta área com carência hídrica. O terceiro rio mais importante é o Níger. No geral, a África dispõe de uma rede hidrográfica modesta em razão da extensa zona árida, ao norte e ao sul. Com 6 825 km, o rio Nilo nasce no Lago Vitória, em uma zona climática superúmida, mas depois atravessa uma vasta área árida com afluentes intermitentes, em especial os da margem esquerda. Nasce com o nome de Nilo Branco e, no maciço etíope, recebe vasta quantidade de água de seu afluente Nilo Azul, fluindo para o norte em direção ao Egito, onde tem sua foz no Mediterrâneo em forma de delta.

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A zona do delta tem uma área de 23 mil km2 com uma extensa rede de canais. Em boa parte de sua extensão, o Nilo é navegável e, ao longo da história, sempre foi importante via de tráfego fluvial. Cerca de 90% da população do Egito vive às margens do Nilo, incluindo os habitantes da capital, Cairo. Seu regime hidrológico apresenta duas cheias anuais: o início da subida das águas ocorre em junho, atingindo a intensidade máxima em setembro; o nível mais baixo ocorre entre fevereiro e junho. Isso determina a produção agrícola local, pois, ao transbordar e ocupar a várzea, o Nilo deposita ali grande parte dos sedimentos e detritos orgânicos carreados ao longo de seu trajeto, adubando naturalmente o solo. Quando a água reflui, o solo está pronto para o cultivo. No entanto, desde a construção da Usina de Assuã no início dos anos 1970, esse regime natural foi comprometido levando à perda da qualidade do solo.

Ver

Filme de Bob Rafelson. As montanhas da lua. EUA, 1990

As montanhas da lua. Direção: Bob Rafelson. Estados Unidos, 1990. No filme, um geógrafo britânico em busca da nascente do Nilo envolve-se em aventuras no continente africano no século XIX.

1.1 O quadro climatobotânico Costuma-se dizer que a linha do equador é “o espelho da África” por “refletir”, tanto ao norte quanto ao sul, as mesmas paisagens naturais. Isso se deve ao fato de o continente estar dividido pela linha imaginária e, de modo geral, de o clima e a vegetação apresentarem relativa simetria ao longo das latitudes ao norte e ao sul do equador. A África é atravessada pela linha do equador, pelo Trópico de Capricórnio e pelo Trópico de Câncer. Cerca de dois terços do território situam-se na zona tropical; portanto, as variações sazonais são pequenas e as temperaturas médias apresentam-se sempre acima dos 20 ºC, ou seja, o continente africano apresenta um clima predominantemente tropical, com algumas variações. Observe os mapas a seguir que mostram a localização intertropical da África. África: clima

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Trópico de Câncer

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Trópico de Câncer

DACOSTA MAPAS

DACOSTA MAPAS

África: vegetação

Equador

Equador

OCEANO ÍNDICO

OCEANO ATLÂNTICO

OCEANO ATLÂNTICO

OCEANO ÍNDICO

Regiões climáticas Subtropical Mediterrâneo Semiárido Árido

Trópico de Capricórnio

Tropical 0

Trópico de Capricórnio

Equatorial úmido

1 180

0

De montanha

Floresta pluvial tropical

Vegetação arbustiva desértica

Savana africana

Vegetação de transição da savana para o semidesértico

Savana tropical

Estepe desértica e vegetação arbustiva

Floresta pluvial subtropical e temperada Vegetações tropicais complexas

Deserto

1 236

20° L

20° L

Fonte: PHILLIPSON, Olly. Atlas geográfico mundial. Curitiba: Fundamento, 2011. p. 72.

Pradarias e estepes temperadas Floresta mediterrânea e arbustos

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 61.

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Apesar da uniformidade das temperaturas, o mesmo não ocorre com a pluviosidade, que apresenta forte variação regional e de ano para ano. O continente convive com estiagens cíclicas. Nas imediações da linha do equador, ocorrem o clima equatorial e sua exuberante floresta, que se estendem praticamente do Índico ao Atlântico, apesar de mais rarefeitos no leste. Ao redor do Congo, de Ruanda, do Gabão, entre outros, surge uma combinação fisiográfica entre o clima equatorial, a floresta equatorial e a bacia hidrográfica do Congo. Contornando a zona equatorial, existe um clima tropical mais úmido, onde também ocorre a floresta tropical africana. No entanto, é o clima tropical típico e com menor pluviosidade que predomina na maior parte do continente. Nessas áreas, chove durante o verão, enquanto o inverno se apresenta seco. É no clima tropical que se desenha a formação mais característica da África: as savanas, que cobrem a maior parte do território e são o hábitat da rica fauna africana, como leões, girafas, zebras, elefantes, rinocerontes, entre tantos outros animais.

Girafa e zebras na savana, Tanzânia, 2014.

Os climas árido e semiárido ocorrem nos dois hemisférios, onde se destacam dois grandes desertos: o Saara, ao norte, e o Kalahari, ao sul. No clima semiárido, há as estepes, enquanto no árido há formações desérticas e até mesmo ausência de vegetação nas partes hiperáridas. O que difere o clima árido do semiárido é a pluviosidade. No semiárido, a pluviosidade fica entre 250 mm e 500 mm, enquanto no clima árido ela nunca atinge 250 mm, podendo, até mesmo, ficar abaixo de 100 mm. Na orla setentrional e, predominantemente, no extremo sul do continente, ocorre o clima mediterrâneo, com vegetação homônima. A principal característica desse clima são verões secos e invernos chuvosos, exatamente o oposto do clima tropical.

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1.1.1 As zonas áridas da África O deserto do Saara, o maior do mundo, abrange uma imensa área de 9 milhões de quilômetros quadrados na porção norte da África. Sua existência é uma combinação entre a geomorfologia e a dinâmica atmosférica. A Cadeia do Atlas barra a umidade oriunda do oceano, enquanto a presença de uma zona de alta pressão atmosférica (centro dispersor de umidade) faz que os ventos sejam predominantemente secos. Praticamente só existe vegetação nos arredores do Saara, junto aos oásis. Trata-se de um deserto quente, onde a temperatura por volta das 13 horas pode atingir mais de 50 ºC, dificultando ou mesmo inviabilizando a vida humana. A amplitude térmica é altíssima, pois, como a areia não retém calor, à meia-noite a temperatura cai para próximo de 0 ºC. Na periferia sul do Saara, verificou-se um dano ambiental há alguns anos. A população local retirou grande parte das estepes para cultivo de subsistência, provocando a ampliação do Saara, ou seja, um processo de desertificação. A essa área expandida do Saara dá-se o nome de Sahel. Contudo, imagens recentes de satélites mostram que o Sahel estaria retrocedendo e uma recolonização da vegetação nativa estaria ocorrendo, minimizando o dano ambiental. No sul da África, junto à Namíbia e a Botsuana, localiza-se o deserto de Kalahari, que é consequência direta da atuação da corrente fria de Benguela, a qual atua na costa ocidental africana e é a principal responsável pela formação desse deserto de aproximadamente 600 mil km2.

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Deserto de Kalahari 20° L

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O Kalahari é produto direto da atuação da corrente fria de Benguela, reproduzindo aquilo que acontece nas baixas latitudes do hemisfério sul. O mesmo fenômeno ocorre com a corrente de Humboldt, que atua na América do Sul, responsável pela formação do deserto do Atacama; e com a corrente circumpolar Antártica, que atua na Oceania, responsável pela formação do Grande Deserto Vitória, na Austrália.

Fonte: WORLD Atlas: essential. London: Dorling Kindersley, 2011. p. 69.

ÁFRICA DO SUL Cidade do Cabo 0

330

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Capital do país

Saara, o maior deserto do mundo. Argélia, no norte da África, 2015.

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2. Imperialismo e neocolonialismo Pauta musical

Capa do LP Anthology. Cesaria Evora. Rússia, 2003

Sodade, Cesaria Evora. Álbum: Anthology. RCA Victor Europe, 2003. Pauta: Paisagem e cultura africana.

Neocolonialismo: Nome dado à colonização da África e da Ásia no fim do século XIX, que difere historicamente do colonialismo do século XV, aplicado, especialmente, ao continente americano. Este esteve atrelado ao mercantilismo, primeira fase do capitalismo, enquanto o neocolonialismo é produto direto da Revolução Industrial e do capitalismo financeiro. Bôeres: A palavra holandesa boer significa “fazendeiro”. Os bôeres, portanto, eram descendentes de holandeses que viviam no campo.

A Revolução Industrial promoveu o desenvolvimento do capitalismo, o que tornou a Europa pequena demais para suas demandas. O sistema precisava de novas fontes de matéria-prima, mão de obra, novos mercados, fontes energéticas, enfim, daquilo que a Europa não mais podia suprir sozinha. Esse contexto anunciaria o ápice do imperialismo, fazendo da África e da Ásia as vítimas desse novo momento histórico que se tornou conhecido como neocolonialismo. Quase todos os pesquisadores que se dedicam ao estudo da África, pelos mais variados caminhos metodológicos, identificam no neocolonialismo a raiz dos problemas contemporâneos africanos. Esse não é o único fator que explica os problemas sociais, econômicos e políticos do continente, mas é o mais importante. É impossível entender a África atual sem considerar o aspecto decisivo legado pelo imperialismo. Data do período neocolonial a difusão da ideia “o fardo do homem branco”, expressão cunhada por Rudyard Kipling, considerado “o poeta do imperialismo”. Leia a seguir um trecho do poema “The White man’s burden”, publicado em 1899. Tomai o fardo do homem branco – Envia teus melhores filhos – Vão, condenem seus filhos ao exílio Para servirem aos seus cativos; Para esperar, com arreios Com agitadores e selváticos – Seus cativos, servos obstinados, Metade demônio, metade criança. [...]

Tomai o fardo do homem branco – As guerras selvagens pela paz – Encha a boca dos famintos, E proclama, das doenças, o cessar; E, quando seu objetivo estiver perto O fim que todos procuram, Olha a indolência e loucura pagã Levando sua esperança ao chão. [...]

KIPLING, Rudyard. O fardo do homem branco. Fordham University: New York, 1997. (Tradução nossa). Disponível em: <http://legacy.fordham.edu/halsall/mod/kipling.asp>. Acesso em: 2 dez. 2015.

Interagindo

ESCREVA NO CADERNO

Udo J. Kepler.1902.Cromolitografia. Biblioteca do Congresso, Washington

No Capítulo 3, vimos que o Destino Manifesto justificava, de certa forma, o extermínio dos indígenas no afã da conquista e da expansão territorial dos Estados Unidos. Que semelhanças você percebe entre essa ideologia estadunidense, o poema de Kipling (acima) e a ilustração de Keppler (abaixo)?

Do Cabo ao Cairo, ilustração de Udo J. Keppler, 1902. A figura alegórica da Britânia, mulher vestida de branco, empunhando uma bandeira com a inscrição “Civilização”, guia os britânicos contra os nativos africanos, que seguram uma bandeira com a palavra “Barbárie”, durante a Guerra dos Bôeres (1889-1902).

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Embora a presença europeia na África se fizesse notar desde o século XV, é especialmente a partir do século XIX que essa dominação se tornaria mais intensa. Entre 1884 e 1885, ocorreu o evento histórico mais significativo dessa fase do capitalismo, que praticamente selou o destino africano: a Conferência de Berlim, encontro entre as potências europeias e os Estados Unidos com o objetivo de realizar a partilha da África. Entre os participantes, os principais colonizadores da África foram Reino Unido, França, Bélgica, Alemanha, Espanha, Portugal, Itália e Holanda. Veja a seguir o mapa à esquerda. Outros não chegaram a adquirir territórios, como Estados Unidos (enviaram ex-escravos para a Libéria), Suécia, Império Otomano (que já detinha o controle sobre parte da África mediterrânea) e Império Austro-Húngaro. Essa partilha entre os países europeus traçou fronteiras arbitrárias que não respeitaram limites naturais nem culturais, ou seja, os povos africanos foram totalmente desprezados. Uma das consequências foi juntar povos inimigos no mesmo país e separar povos irmãos. Muitos dos conflitos étnico-tribais existentes na África hoje estão diretamente ligados a esse fato histórico.

Centro de Estudos Africanos <http://tub.im/cv7wns> O Centro de Estudos Africanos, da Universidade de São Paulo, divulga a realidade africana por meio de cursos, publicações e palestras.

África: político (2015) 20° L

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Allmaps

A partilha da África (1885)

Navegar

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Mar Mediterrâneo

MARROCOS

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UNIÃO DA ÁFRICA DO SUL

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Fonte: ATLAS da história do mundo. São Paulo: Folha da Manhã, 1995. p. 236.

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Gaborone Pretória Maputo SUAZILÂNDIA Mbabane Bloemfontein LESOTO REP. DA Maseru ÁFRICA DO SUL Cidade do Cabo

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 45. Com atualizações.

Conversando com a... História! A Revolução Industrial produziu uma aceleração do capitalismo com a consequente necessidade de novas fontes de matéria-prima, de mercados consumidores e de formas de exploração da mão de obra. Esse cenário deu corpo ao que se convencionou designar como imperialismo, tendo a África e a Ásia como os novos alvos da expansão do capital. • Com base no que foi estudado anteriormente e em seus conhecimentos de História, discuta a colonização europeia na África a partir do século XIX, considerando as causas e as consequências desse fato.

ESCREVA NO CADERNO Akg-Images/Latinstock

Portugueses

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Gravura em madeira de Adalbert von Rössler, representando a Conferência de Berlim [s.d.].

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A instauração do sistema colonial na África atendeu a interesses exclusivamente europeus. Nos melhores solos, introduziu-se a plantation visando produzir gêneros tropicais para abastecer a Europa. Com uma infinita riqueza mineral, os recursos africanos foram expropriados pelas companhias europeias em ritmo alucinante. As estradas de ferro eram construídas para ligar diretamente as jazidas aos portos sem nenhuma preocupação de integração regional. Ler História geral da África. Brasília: Unesco, Secad/MEC, UFSCar, 2010. Coleção composta de oito volumes que apresenta a história geral da África desde a Pré-História, passando pelo imperialismo e neocolonialismo até chegar ao século XX.

Rodésia: Atual Zimbábue. Abissínia: Atual Etiópia. Leão de Judá: Expressão bíblica metafórica que tem conotação de “esperança”. Segundo estudiosos cristãos, “Leão de Judá” é o próprio Jesus.

Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

Neocolonialismo e imperialismo na África [...] Se alguém merece o título de pai do novo imperialismo, esse homem é provavelmente Leopoldo II, rei da Bélgica. Em 1876 Leopoldo tomou posse do rico território do rio Congo, na África (aproximadamente dez vezes maior que a Bélgica), e conservou praticamente sob seu domínio pessoal até 1908, quando o vendeu por gorda quantia ao governo belga. Pouco depois de Leopoldo II ter dado o exemplo, a Inglaterra e a França começaram a mostrar um interesse mais profundo que nunca pelo desmembramento da África. A primeira estabeleceu um protetorado no Egito por volta de 1882 e subsequentemente apossou-se do Sudão Egípcio, da Rodésia, de Uganda e da África Oriental Inglesa a título de colônias. Em 1902, ao cabo de três anos de guerra, os ingleses lograram conquistar as repúblicas dos bôeres (Estado Livre de Orange e Transval), que em 1909 foram anexadas à Colônia do Cabo e a Natal para formar o domínio da África do Sul, com governo próprio. Os planos da França relativos ao território africano já vinham de 1830, quando esse país estabeleceu o controle sobre alguns portos argelinos. Em 1857 os franceses tinham conseguido conquistar e anexar o resto da Argélia. Mas os seus esforços para fundar um império no Continente Negro não tomaram realmente vulto senão em 1881. Nesse ano ocuparam a Tunísia e a partir de então se instalaram progressivamente no Saara, no Congo Francês, na Guiné Francesa, no Senegal e no Daomé. Em 1905 quase todos os melhores territórios da África achavam-se monopolizados pelos belgas, ingleses e franceses. A entrada da Alemanha e da Itália na competição pelas colônias africanas foi retardada pela complexidade dos seus problemas internos. Ambas essas nações tinham recentemente completado longas campanhas de unificação e ainda estavam envolvidas em sérias disputas com o papado. [...] Em 1884 [a Alemanha] proclamou o protetorado alemão sobre o Sudoeste Africano, feito que apossou-se, em rápida sucessão, da África Oriental Alemã, do Camerum [Camarões] e da Togolândia. Cerca de 1888 os italianos chegaram à conclusão de que eles também precisavam ter uma parte do que ainda restava da África. Estabeleceram uma cabeça de ponte na Somália, situada na costa oriental, e dali tentaram reduzir a um protetorado a Abissínia, país limítrofe. O resultado foi uma das derrotas mais desastrosas já sofridas por uma nação moderna. As forças italianas foram tão completamente destroçadas pelos abissínios em Ádua, no ano de 1896, que até 1935 a Itália não fez novas tentativas para conquistar o Leão de Judá. Suas únicas aquisições importantes em território africano, entre 1896 e 1914, foram Trípoli e a Cirenaica, que conquistou aos turcos em 1912 e uniu sob a nova denominação de Líbia. Séc. XIX. Coleção particular. Foto: Look and Learn /Elgar Collection / Bridgeman Images/Keystone

BURNS, Edward M. História da civilização ocidental. Porto Alegre: Globo, 1964. p.752-753.

Cartão-postal com foto mostrando uma plantação de abacaxi em Natal, África do Sul, século XX.

• Por que o autor afirma ser o rei da Bélgica o “pai do novo imperialismo”?

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Pauta musical

Capa do LP Canto das três raças. Clara Nunes. Brasil, 1976

Canto das três raças, Clara Nunes. Álbum: Canto das três raças. EMI-Odeon, 1976. Pauta: Exploração africana.

Campo de refugiados ruandeses na Tanzânia, 1994. Muitas guerras tribais da África atual são produto da intervenção europeia no continente, como é o caso do conflito entre tutsis e hutus em Ruanda.

A Geografia na... tira!

ESCREVA NO CADERNO

O herói idealizado pelo Ocidente no continente negro, que enfrentava de forma destemida os perigos da selva, era branco. O personagem criado por Edgard Rice Burroughs, em 1912 popularizou-se logo após o período das independências africanas. • Qual é a sua interpretação desse contexto? Que tipo de relação você percebe entre esse herói e o imperialismo?

Editora Ebal

Karsten Thielker/AP/Glow Images

A presença europeia na África perdurou até o fim da Segunda Guerra Mundial. Com a nova ordem erigida após 1945 e o surgimento da Organização das Nações Unidas (ONU), os domínios coloniais começaram a ruir, por causa do enfraquecimento das antigas potências coloniais e também da melhor organização e articulação dos movimentos pró-independência dentro das colônias. As jovens nações que emergiram, porém, saíam da condição de colônia para a de país dependente e acabaram se endividando. Após conquistar a independência, a partir dos anos 1950, boa parte dos líderes que ascenderam ao poder selou acordos com os antigos colonizadores, como foi o caso do antigo Zaire, atual República Democrática do Congo, onde a ditadura de Joseph-Desiré Mobutu sempre esteve atrelada aos interesses das grandes multinacionais da mineração. Quando o governo Mobutu caiu, em 1997, sua fortuna pessoal era avaliada em mais de 5 bilhões de dólares, depositada no exterior. Ele manteve por anos o controle das jazidas de diamantes do país, as maiores reservas mundiais. À medida que enriquecia, porém, o povo mergulhava na miséria. A independência dos países africanos ocorreu em meio à Guerra Fria; logo, não é difícil concluir que esse continente se inseriu no contexto da bipolaridade ideológica que pautou a segunda metade do século XX. A maioria dos conflitos que surgiram na África passou a mesclar rivalidades tribais e disputas ideológicas do capitalismo versus socialismo. Assim, foram inevitáveis as guerras civis que eclodiram por todo o continente.

Ver Hotel Ruanda. Direção: Terry George. Reino Unido/ África do Sul/Itália, 2004. O filme aborda o conflito entre tutsis e hutus na África central nos anos 1990.

Capa do gibi Tarzan, editado na década de 1970.

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3. Questões geopolíticas Durante a segunda metade do século XX, era difícil encontrar algum lugar da África que não estivesse sob guerra civil. Praticamente todos esses casos estavam, de uma forma ou de outra, atrelados à herança colonial, aos conflitos étnico-tribais e à inserção no confronto ideológico da Guerra Fria. No entanto, apesar da manutenção de um quadro generalizado de tensões na maior parte do continente, a primeira década do século XXI apontou para uma redução significativa dos conflitos. Dois fatores contribuíram para o relativo otimismo de alguns estudiosos da África: o crescimento e o melhor desempenho econômico, além do avanço no processo de democratização. Como ainda há muitos conflitos no continente que não foram solucionados, pode parecer estranho falar em “melhor desempenho econômico” e “avanço no processo de democratização”. Contudo, para melhor entendermos a realidade atual da África, é necessário abordar alguns dos principais conflitos e suas raízes históricas.

3.1 Sudão: o norte contra o sul

Sharia: Lei do Alcorão que rege algumas sociedades islâmicas.

Trópico de Câncer

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Crédito da imagem de satélite: © 2015 Landsat, Data SIO, NOAA, U.S. Navy, NGA. GEBCO, Dados do mapa © 2015 Auto Navi, Google, Inst. Geogr. Nacional, Mapa GISrael, ORION-ME

Sudão e Sudão do Sul

Crédito do mapa: Alexandre Bueno

Animista: Crença religiosa que parte do pressuposto de que todos os seres vivos e outros elementos da natureza têm anima (alma). Há vários tipos de rituais animistas presentes em grande parte das tribos africanas, que creem na divindade de rios, chuvas, montanhas, animais ou florestas.

Em 8 de julho de 2011, o mundo assistiu ao nascimento de um novo país: o Sudão do Sul. Esse evento liga-se histórica e geograficamente ao fato de que o Sudão sempre esteve dividido em duas partes: o norte, muçulmano, e o sul, cristão-animista. Ex-domínio britânico, a sociedade sudanesa é das mais diversas: há mais de 500 grupos étnicos distintos falando mais de 100 idiomas. Árabes e núbios, seguidores do Islã, concentram-se no norte e somam aproximadamente 50% do conjunto demográfico. Na outra metade está distribuído grande número de grupos minoritários. A convivência entre o norte e o sul nunca foi amistosa e é tensa desde a independência do país, em 1956, mas se deteriorou ainda mais nos anos 1980, quando o governo resolveu adotar a sharia em todo o país. As regiões não muçulmanas ao sul não aceitaram a imposição da lei corânica e, em 1983, surgiu na porção meridional do país um grupo de unidade nacional para se contrapor ao norte muçulmano, o Movimento Popular de Libertação do Sudão (MPLS), anti-islâmico e socialista. Sua bandeira é o respeito à pluralidade religiosa e o combate à proposta teocrática do governo. Derivou-se um braço EGITO armado do MPLS, o Exército Popular de Libertação do Sudão (EPLS). O país mergulhava em uma guerra civil com um claro contraste regional: norte versus sul. O governo central assumia uma SUDÃO ERITREIA postura fundamentalista ao impor os valores do Islã a toda a sociedade. Aí residiam DJIBUTI o furor e a reação das demais comunidades contrárias ao governo, levando a guerra ciSOMÁLIA vil a tomar proporções violentas.

CHADE

ETIÓPIA

REPÚBLICA CENTRO-AFRICANA

20º L

SUDÃO DO SUL

REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO

0

UGANDA

QUÊNIA

Fonte: SUDÃO do Sul se torna o mais novo país do mundo. BBC Brasil, 8 jul. 2011. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2011/07/110708_sudao_do_sul_ independencia_mm.shtml>. Acesso em: 2 mar. 2016.

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Observe na imagem de satélite de 2015 as características da vegetação presente no Sudão e no Sudão do Sul. O Sudão abrange uma região desértica, cortada pelo vale do Nilo, enquanto no Sudão do Sul predominam as áreas verdes com florestas tropicais.

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O quadro sudanês inseriu-se no contexto internacional do fim do século XX. Os Estados Unidos viram-se diante de um dilema, pois a frente opositora tinha inspirações marxistas, que a potência tanto combatera, mas era a única opção ante um governo que estreitava os laços com a Al-Qaeda, liderado então por Osama bin Laden. Durante os anos de guerra civil, milícias cristãs atacavam aldeias muçulmanas do norte. Por sua vez, o governo central realizava uma política de isolamento das comunidades cristãs e animistas, dificultando sua sobrevivência em uma área de natureza desfavorável por causa das frequentes estiagens. No decorrer deste conflito, o Sudão também enfrentou longas secas que prejudicaram a produção agrícola, principal meio de subsistência da população. O que se seguiu a essa triste combinação foi uma crise humanitária de proporções assustadoras: de 1983 até 2005, aproximadamente 2 milhões de pessoas morreram no Sudão vítimas da guerra civil e da seca, enquanto outros 6 milhões tornaram-se refugiados. Somados, esses números representavam 25% da população do país. Após 20 anos de guerra civil, em 2005, foi assinado um efetivo acordo de paz entre o governo e os rebeldes do sul, que tiveram como porta-voz o MPLS. A negociação surpreendeu a comunidade internacional pela plena aceitação das duas partes envolvidas quanto ao que parecia impossível: a divisão do Sudão em dois Estados distintos. O acordo previa que essa decisão caberia a um plebiscito soberano, cuja realização seria marcada para dali a seis anos, em que a porção sul decidiria pela independência ou não em relação ao norte. Enquanto isso, cada parte do Sudão manteria leis e exércitos próprios, embora tendo de conviver no mesmo território. Foi fator decisivo para a realização dos acordos a descoberta de petróleo no país, com grande parte localizada no sul. Para uma exploração conjunta, os líderes de ambos os lados optaram por uma reaproximação. A decisão do plebiscito realizado em 2011 não deixou dúvidas quanto ao futuro: 99% dos sul-sudaneses votaram pela independência. Apesar do clima de euforia, o Sudão do Sul nasceu como um dos mais pobres países do mundo, com 90% de sua população de 9 milhões de habitantes vivendo com meio dólar por dia, taxa de mortalidade infantil em torno de 10%, índice de analfabetismo feminino de 84%, a maior parte das crianças fora da escola, a mais alta taxa de mortalidade em partos do mundo, entre outros preocupantes indicadores sociais. Nas questões geopolítica e territorial, seguiam indefinidos os pontos mais tensos da fronteira com o Sudão ao norte, especialmente quanto às áreas ricas em petróleo na região de Abyei: o sul tem a maior parte do petróleo (85% das reservas), mas é o norte que detém os oleodutos, além da infraestrutura para o refino e o transporte. Em menos de dois anos, o recente país já mergulhava em profunda crise política e humanitária, fruto da disputa pelo poder entre os líderes nacionais de etnias distintas. O Sudão do Sul é um emaranhado de grupos étnicos e dois deles estavam representados no poder: o presidente do país (Salva Kirr) era do grupo dinka, enquanto seu vice, Riek Machar, do grupo nuer. Os desentendimentos e as divergências levaram a uma retomada da guerra civil similar à outrora pré-independência, mas agora exclusiva da porção sul. Membros da etnia nuer partiram para a luta armada com formação de milícias e conquistaram algumas cidades estratégicas. Desde 2014 o jovem Sudão do Sul mergulhou em um cenário de caos com inconclusivas tréguas entre rebeldes e governo. No meio desse embate a população civil era vítima do ódio étnico que teve como consequências assassinatos em massa, estupro de meninas, castração de meninos. Fugindo da violência, os deslocados internos já somavam mais de 1,5 milhão em 2016, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur); a ONU acusava ambos os lados de cometer atrocidades. A sonhada independência não trouxe dias melhores àquele povo.

Comemoração durante cerimônia de independência do Sudão do Sul, em Juba, capital do novo país, 2011.

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Feisal Omar/Reuters/Latinstock

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Chifre da África

3.2 Somália: guerra entre clãs

A Somália localiza-se no leste africano, na região conhecida como Chifre da África, que engloba ainda Etiópia, Eritreia e Mar ERITREIA Vermelho Djibuti, países marcados nas últimas décadas por instabilidade ÁSIA SUDÃO Asmara política. As cenas degradantes da condição humana que comumente são vistas nessa região estão indissociavelmente ligadas den eÁ d o a uma triste combinação: guerra e seca. Nos últimos anos, na DJIBUTI Golf Lago Djibuti Tana Somália, além desses dois elementos, a situação foi agravada 10° N pela chegada do extremismo islâmico. O país é afetado por estiagens cíclicas. Depois da seca de Adis-Abeba ETIÓPIA 1997, que levou milhares de somalis à morte e suscitou um breve cessar-fogo entre os clãs que disputavam o controle do país, SUDÃO DO SUL OCEANO ocorreu, entre 2011 e 2012, a mais severa seca dos últimos 50 ÍNDICO SOMÁLIA anos, tornando a situação ainda mais caótica. Lago Turkana UGANDA Durante os longos anos de guerra civil, muitos clãs autodeclaMogadíscio QUÊNIA raram suas independências, fazendo surgir pseudopaíses não reconhecidos pela ONU nem por nenhum país. Diante da total auLago Capital do país 0 310 Vitória sência do Estado e do cenário posto, a navegação marítima nas Chifre da África imediações do litoral da Somália tornou-se zona de risco por causa Fonte: U. S. DEPARTMENT OF ESTATE. Horn of Africa: map. Disponível em: <http://www.state.gov/p/af/rt/hornofafrica/169532.htm>. Acesso em: da proliferação de piratas somalis realizando frequentes assaltos, 2 mar. 2016. inclusive de petroleiros. É possível identificar como marco na história contemporânea da Somália o ano de 1991, quando, em uma transição entre ordens internacionais, caía o regime militar pró-Moscou no país. A aliança entre rebeldes durou somente até a derrubada do governo: o único ponto que os unia era o ódio que nutriam pelo antigo regime. Uma vez derrubado o governo, partiram para uma intensa disputa pelo poder. Aldeia devastada pela guerra no Os aproximadamente 20 clãs que habitam a Somália não entraram em um distrito de Bakara, Somália, 2011. acordo sobre a composição de um novo governo e, armados, partiram para o Assim como ocorre no Sudão e na Etiópia, guerra e seca também confronto. Aqui cabe um registro: não se trata de uma guerra étnica, pois a afligem os somalis. Somália é um raro caso de uniformidade étnico-linguística no continente africano. A população é majoritariamente somali, e apenas uma pequena parte fala árabe, embora pertença ao mesmo tronco étnico dos demais, ou seja, é o mesmo povo falando línguas distintas. Apesar da homogeneidade, o país vive em uma guerra civil há mais de 20 anos, e os protagonistas centrais são os clãs rivais. Uma conferência em 2004, que contou com quase todos os chefes dos clãs, levou a um acordo mais consistente e elegeu um parlamento. Criou-se um governo transitório, cuja composição obedeceria à proporcionalidade demográfica das tribos, mas que, por motivos de segurança, permaneceria instalado provisoriamente no Quênia, país que patrocinou o mais bem-sucedido acordo de paz até então. 45° L

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3.3 Angola: do trauma da guerra à reconstrução nacional Enquanto foi colônia portuguesa, Angola assistiu ao surgimento de dois importantes grupos contestatórios e de libertação nacional, porém de orientações ideológicas distintas. De um lado, de inspiração marxista, estava o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), liderado por Agostinho Neto, cujo discurso era o de contemplar toda a população com a proposta de uma Angola plural, ou seja, além das origens tribais. De outro, surgiu a União Nacional pela Independência Total de Angola (Unita), liderada por Jonas Savimbi, cujo apoio maior vinha da tribo ovimbundu, do sul do país. Havia ainda uma terceira força, a Frente Nacional pela Libertação de Angola (FNLA), porém de atuação mais modesta que as outras duas. Assim que findou o domínio português, em 1975, os dois principais grupos entraram em atrito, e Angola ingressou em uma longa guerra civil, opondo as organizações e inserindo o país no contexto da Guerra Fria. Quando eclodiu o conflito, o marxista MPLA passou a ter apoio logístico direto de Cuba e indireto da União Soviética. Para não permitir a vitória do MPLA, os Estados Unidos financiaram e apoiaram a FNLA usando como intermediário o general Joseph-Desiré Mobutu e a Unita, por meio da África do Sul, através de um corredor territorial pela atual Namíbia, na época um domínio sul-africano. Estava nítida em Angola uma reprodução em pequena escala da Guerra Fria. Em confrontos no sul, o MPLA, com a ajuda de soldados cubanos, derrotou o exército sul-africano. O desfecho dessa primeira fase da guerra civil angolana foi a vitória do MPLA, de Agostinho Neto, que assumiu a Presidência do país, depois sucedido por José Eduardo dos Santos. A Unita aderiu à luta armada contra o novo governo, e a FNLA dissolveu-se. Os conflitos persistiram ao longo das décadas de 1970 e 1980. As transformações internacionais do início dos anos 1990 refletiram-se em Angola. A dissolução soviética e a imediata crise cubana, assim como o fim do apartheid na África do Sul e a independência da Namíbia, reconfiguraram o contexto angolano e culminaram no Acordo de Paz de Lisboa, em 1991, que definiu um imediato cessar-fogo entre o governo do MPLA e a Unita, além de propor eleições, sob a supervisão da ONU. As eleições ocorreram em 1992 e apontaram a vitória de José Eduardo dos Santos, do MPLA, contra Jonas Savimbi, da Unita. Mesmo sob a observação de mais de 400 inspetores internacionais, Savimbi não aceitou o resultado do pleito e retomou então os combates. A violência instaurou-se de novo em Angola, para a frustração da maioria da população, transformando-o no país de maior número de mutilados em todo o mundo, pois o uso frequente de minas, armas proibidas pela Convenção de Genebra, foi uma das estratégias utilizadas nas guerrilhas. O recrudescimento da guerra teve como consequência uma média de mil mortes diárias no auge do conflito, que apresentou uma média de 20 mil mortes por ano.

Ver Capitão Phillips. Direção: Paul Greengrass. Estados Unidos, 2013. O filme conta a história real do sequestro do navio cargueiro, comandado pelo capitão Phillips, por piratas somalis. Filme de Paul Greengrass. Capitão Phillips. EUA, 2013

Um plebiscito para impor uma ordem institucional estava previsto para os anos seguintes, mas a violência extrema não permitiu sua realização. Passados mais de 20 anos desde o início do conflito, persiste a guerra civil, que levou o país ao colapso, sem a mínima infraestrutura administrativa. Há um governo eleito, fruto dos acordos de 2004, mas está refugiado no Quênia, pois não conseguiu assumir. O quadro tornou-se ainda mais obscuro nos últimos anos com o fortalecimento da organização extremista Al-Shabab (“A juventude”, em árabe), que, ligada à Al-Qaeda, domina boa parte do país e impõe a sharia nas regiões que controla.

Convenção de Genebra: Nome genérico para uma série de acordos e tratados firmados entre 1864 e 1949 com o intuito de minimizar conflitos e preservar a integridade de soldados e reféns capturados.

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Essa construção atingida por balas na área rural de Angola, em 2014, é um testemunho da violência das guerras civis angolanas.

A partir desse momento, a guerra civil de Angola não era mais produto da ingerência internacional, mas sim de responsabilidade exclusiva da Unita e de seu líder, Jonas Savimbi, um autêntico “senhor da guerra”, alcunha para designar alguns líderes tribais africanos marcados pela agressividade militar. Savimbi controlava boa parte das jazidas de diamantes angolanos e, com isso, comprava armas para a guerra. O conflito perdurou até 2002, quando Savimbi morreu em combate e a Unita se rendeu. Seus combatentes foram anistiados e muitos deles aceitos no exército oficial angolano. Um clima contagiante de reconciliação nacional pairou no país. Desde então, Angola, um país que enfrentou longa guerra civil, tenta retomar seu curso normal de vida e, movida pelo clima de reconstrução nacional, apresentou o notável crescimento de, em média, dois dígitos ao longo da primeira década do século XXI. A exploração de diamantes e outros recursos minerais, o setor de serviços e as boas perspectivas de prospecção de petróleo são os destaques da economia angolana. No entanto, esses mesmos diamantes têm suscitado a prática de um crime bastante conhecido na África: o tráfico das pedras. Angola apresenta em seu litoral condições geológicas similares às da Bacia de Santos, onde recentemente foram descobertas grandes riquezas petrolíferas. A expectativa é que ocorra o mesmo por lá. A China tornou-se sua grande parceira comercial.

3.4 Apartheid: o horror branco que vigorou na África do Sul

Ler

Editora Brasiliense

Apartheid: o horror branco na África do Sul, de Francisco José Pereira. São Paulo: Brasiliense, 1985. Relançamento da clássica coleção Tudo é História, que aborda, didaticamente, a questão do apartheid.

A África do Sul é a segunda maior economia do continente. No entanto, apresenta grandes problemas sociais, em grande parte consequência da forte herança do apartheid, regime racista institucionalizado que vigorou de 1948 ao início dos anos 1990. Condenado pela ONU, que manteve durante anos o Comitê Especial Antiapartheid, e pela comunidade internacional, esse regime causou terror pela truculência policial contra os civis africanos e pela dominação de uma minoria branca perante a maioria negra. Durante a maior parte da vigência desse regime, a população sul-africana apresentou uma composição de 70% de africanos (também denominados negros ou, nos dizeres do regime, “pessoas de cor”), 18% de brancos e 12% de asiáticos e mestiços. Nos dias atuais, mudou um pouco essa configuração, com um ligeiro aumento de negros e diminuição percentual dos brancos. Da população negra, as etnias zulu e xhosa são as mais numerosas, seguidas por inúmeras outras, enquanto os brancos são de descendência europeia, principalmente holandesa, mas também inglesa, francesa e alemã. Durante anos pairou a pergunta sobre a opinião pública: como uma forte maioria deixou-se dominar por uma flagrante minoria?

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Ver Um grito de liberdade. Direção: Richard Attenborough. Estados Unidos/Reino Unido, 1987. O filme narra a resistência do líder antiapartheid Steve Biko, preso e assassinado pela polícia do regime, e do jornalista Donald Woods, ambos sul-africanos, que eram contrários ao regime racista. Filme de Richard Attenborough. Um grito de liberdade. EUA/Reino Unido, 1987

Para entender isso, é necessário um resgate histórico do processo de colonização e do contexto da chegada dos europeus à África do Sul. Os primeiros foram os portugueses, quando o navegador Vasco da Gama, na busca de um caminho alternativo para as Índias, contornou o Cabo da Boa Esperança, no fim do século XV. Os portugueses fundaram Durban, mas não se fixaram no sul da África. O efetivo processo de colonização começaria mais tarde, com a chegada dos holandeses e de sua Companhia Holandesa das Índias Orientais, em 1652. Os holandeses, conhecidos como bôeres, fundaram colônias e estabeleceram empreendimentos agropastoris, não sem antes entrar em atrito com os nativos e os expulsarem para o interior, onde ficavam as piores terras. Posteriormente também foram para o interior, apropriando-se das terras férteis ocupadas pelos xhosas. Os africanos que tinham suas terras tomadas eram convertidos em trabalhadores dos bôeres em condição de semiescravidão. Esse domínio holandês vigorou até 1795, quando os ingleses chegaram e entraram em atrito com os holandeses pela posse da atual África do Sul. A região do Cabo da Boa Esperança foi dominada em 1814 e tornou-se parte do Império Britânico, atraindo a partir de então muitos colonos britânicos e iniciando um longo período de conflito entre holandeses e britânicos. Insatisfeitos e enfraquecidos, os bôeres iniciaram uma migração para o norte, porção ocupada pelos zulus, que foram expulsos. Nesse processo, os holandeses fundaram duas autodeclaradas “repúblicas”: Transvaal e Orange, entre 1835 e 1846. O Reino Unido não reconheceu as pseudorrepúblicas, ainda mais porque estavam sendo descobertas imensas riquezas de ouro e diamante no norte. O choque de interesses entre os britânicos e os descendentes de holandeses resultou na Guerra dos Bôeres, vencida pelo Reino Unido, que se apropriou das jazidas, mas conservou as terras para os bôeres. Em 1910, todas essas áreas (Cabo, Durban, Orange e Transvaal) tornaram-se um só país: a União Sul-Africana, sob o domínio do Império Britânico, obtendo a mesma condição de autonomia do Canadá e da Austrália. Cinquenta anos depois, em 1961, o país seria convertido em república, cortando os laços monárquicos com o Reino Unido.

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África do Sul 20° L

ZIMBÁBUE

BOTSUANA

MOÇAMBIQUE

Trópico de Capricórnio

PRETÓRIA (cap. administrativa)

NAMÍBIA

Johanesburgo

OCEANO ATLÂNTICO

SUAZILÂNDIA

BLOEMFONTEIN (cap. jurídica)

LESOTO

CIDADE DO CABO (cap. legislativa) Capital do país Cidades principais

Durban

OCEANO ÍNDICO

East London Porto Elizabeth 0

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Entre o Atlântico e o Índico: a África do Sul está em uma posição geográfica estratégica de confluência oceânica.

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 45.

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3.4.1 Surge o apartheid

Pauta musical

Capa do LP Festa das raças. Matinho da Vila. Brasil, 1988

Kizomba, Martinho da Vila. Álbum: Festa das raças. CBS, 1988. Pauta: Resistência antiapartheid e antirracismo.

Capa do LP Não é azul, mas é mar. Djavan. Brasil, 1987

Soweto, Djavan. Álbum: Não é azul, mas é mar. Sony BMG, 1987. Pauta: Resistência antiapartheid.

O desenvolvimento da economia mineira sul-africana conduziu o país a um forte aporte financeiro que melhorava o nível de vida dos colonizadores e de seus descendentes. O restante da população, porém, não era beneficiado por esse desenvolvimento. A histórica divergência entre bôeres e britânicos não interferiu no desejo comum de explorar a mão de obra africana, ou seja, as diferenças ficavam de lado quando o assunto era oprimir os negros. Desde o princípio da presença europeia na África do Sul, foram os bôeres os mais intolerantes e contrários à igualdade racial. Quando o Reino Unido aboliu o trabalho escravo, em 1835, os bôeres se revoltaram, pois eles sempre acreditaram na “supremacia branca” como uma vontade divina; a Igreja Reformada Holandesa, oficial na África do Sul, corroborava essa crença com um discurso espiritual pautado na supremacia do homem branco perante os demais, citando até mesmo passagens bíblicas que justificavam a diferença. Outras igrejas cristãs foram contrárias a essa postura. Esse discurso racista arraigado e a perseguição aos não brancos eram diretrizes do Partido Nacional, que aglutinava a população bôer. De maioria rural, conservadores extremados, nacionalistas, os bôeres apresentavam maior crescimento demográfico em relação aos britânicos urbanos. E foi no momento em que houve aumento do contingente populacional bôer (60%, na época) que ocorreram as eleições de 1948. A partir daí a história sul-africana sofreria uma alteração, com um forte golpe para os africanos. Como o sistema eleitoral não permitia que os negros votassem, o Partido Nacional venceu as eleições para não mais perdê-las durante a vigência do regime segregacionista, com o mote eleitoral: “preservar a raça branca da ameaça negra”. Uma vez no poder, o novo governo encaminhou uma nova Constituição pautada no apartheid, que se tornou a política oficial da África do Sul e institucionalizou o desenvolvimento em separado entre “brancos” e “não brancos”. A fundamentação ideológica do regime partia do pressuposto de que a raça branca é superior. Isso definiria as novas relações sociais a partir de então. A estrutura que sustentou o apartheid se baseava em três pilares principais: a) educação – o negro africano quase não tinha acesso à educação e, quando o tinha, era em condições muito precárias; b) política – o negro africano era totalmente alijado do processo eleitoral e, portanto, da participação política; c) terra – os brancos de origem europeia detinham as maiores e melhores terras do país. Veja no boxe abaixo algumas das atrocidades que existiram na África do Sul de 1948 a 1992.

Algumas características do apartheid • O voto era permitido apenas aos brancos e asiáticos (sobretudo trabalhadores indianos), ou seja, 70% da população do país não participava do processo eleitoral. • Havia total separação entre negros e brancos em todos os níveis: bairros, praias, praças, bancos públicos, ônibus, vagões de trens, escadas de acesso, cafés, banheiros públicos. • As crianças brancas e negras estudavam em escolas separadas e, obviamente, de qualidade muito distinta. O alto índice de analfabetismo da população negra na África do Sul nos dias atuais é uma consequência disso. • Nas zonas rurais, foram criadas “reservas” aos negros, que não poderiam sair delas sem a autorização dos patrões. • Lei de passe: qualquer deslocamento dos negros fora de sua “reserva rural” ou de seu distrito urbano só era permitido com o devido passe; caso contrário, eles poderiam ser presos. • Era ilegal uma pessoa branca e outra negra tomar chá juntas, em lugares públicos, a não ser com autorização oficial para fazê-lo. • Os casamentos inter-raciais eram proibidos e não eram reconhecidos na África do Sul. • Os negros eram proibidos de participar de júris populares.

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Massacre de Soweto, em 1976: uma triste lembrança do regime racista.

Mandela discursa em estádio de futebol em Soweto, Johanesburgo, após sua libertação, em 1990. AP/Glow Images

Desde o início da colonização, a população africana resistiu, mas a superioridade econômica e, sobretudo, bélica dos europeus foi determinante para garantir a posse e o domínio da África do Sul, como, aliás, ocorreu em todo o continente. A histórica rivalidade tribal africana também contribuiu para enfraquecer a população nativa. O colonizador conseguiu manipular muito bem os desentendimentos entre xhosas e zulus. Contudo, organizou-se ainda no início do século XX uma forte entidade negra, o Congresso Nacional Africano (CNA). Havia outras, mas essa foi a mais atuante. No entanto, na África do Sul, fazer oposição ao sistema sempre foi muito difícil em razão da extrema violência das autoridades, que não hesitavam em executar os manifestantes. Foi o que ocorreu nos massacres de Sharpeville, em 1960, e de Soweto, em 1976, quando a polícia, simplesmente, abriu fogo contra os manifestantes, matando dezenas de pessoas. Igualmente, as leis do apartheid dificultavam a mobilização, uma vez que era proibida a reunião de mais de dez africanos em lugares públicos, pois se configurava suspeita de conspiração contra o regime. Líderes antiapartheid eram presos, torturados ou assassinados. Foi assim com Nelson Mandela, detido de 1962 a 1990, acusado de subversão; e com Steve Biko, preso, torturado e executado pela polícia sul-africana, que alegou suicídio de Biko na prisão. A ONU e muitos países tentaram, sem sucesso, boicotar a África do Sul. As maiores potências discursavam contra o apartheid, mas faziam altos negócios com o país, especialmente os Estados Unidos e o Reino Unido. A África do Sul é um dos países mais ricos do mundo em minérios, e este era o grande trunfo de seus dirigentes brancos. No entanto, no fim dos anos 1980 o regime começou a dar sinais de que não suportaria as pressões internacionais e internas. A mobilização popular estava chegando a um nível insustentável, e mesmo uma parcela branca não defendia mais aqueles preceitos, pois os considerava uma legislação obsoleta. Depois de 28 anos preso, Nelson Mandela foi solto, durante o governo de Frederik de Klerk, trazendo mudanças para a África do Sul e o mundo. Não que fosse desejo do presidente, no entanto ele entendeu que chegara a hora de pôr fim ao regime do apartheid. A alternativa a isso era a perspectiva de uma guerra civil. Assim foram convocadas eleições para 1994 e dado o direito de voto aos negros. Aconteceu o que todos imaginavam: no dia em que os negros africanos votassem, a África do Sul seria governada pelo representante da maioria. Nelson Mandela foi eleito como candidato do CNA, que se convertera em partido. Era o fim do apartheid, mas as injustiças e os problemas sociais estabelecidos por esse regime ainda perduram na África do Sul.

Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images

3.4.2 O fim do apartheid

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Navegar

3.5 Nigéria: tensão étnica e religiosa

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Centro Brasileiro de Estudos Africanos <http://tub.im/pqdw8z> O centro de pesquisa vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul apoia os estudos acadêmicos relacionados à África e apresenta um interessante portal com notícias relacionadas à política e à economia do continente.

A Nigéria está localizada na parte oeste da África, junto ao Golfo da Guiné. Possui grandes riquezas petrolíferas, sendo, inclusive, membro da Organização dos Países Exportadores do Petróleo (Opep). O país detém a maior economia do continente, sendo considerado uma potência regional. Apesar dos bons indicativos econômicos, a Nigéria convive há décadas com tensões internas. Essencialmente, duas são as razões principais dos conflitos nigerianos: o ódio entre cristãos e muçulmanos e os interesses divergentes das inúmeras etnias que vivem no país. Estima-se que haja aproximadamente 200 etnias, sendo os hauçás, os fulânis e os iorubás os mais numerosos. Outra forte minoria são os ibás, que, em 1966, tentaram alçar sua região, Biafra, à condição de país independente, porém sem sucesso. O resultado dessa tentativa de separação foi uma violenta guerra civil que perdurou até 1970. Os cristãos, os muçulmanos e os animistas são os Nigéria: distribuição da população islâmica (2012) principais grupos religiosos da Nigéria, nos quais estão distribuídas centenas de etnias. Os cristãos e os mu10° L MALI çulmanos praticamente se equivalem em número, com 45% de seguidores do total da população de aproxiNÍGER madamente 182 milhões; o restante é animista. Desde sua independência, em 1960, a Nigéria tem alternado governos democraticamente eleitos CHADE com sucessivos golpes militares. Nas duas últimas BENIN décadas, o país se mostrou mais estável politicamente: o número de golpes diminuiu e a via eleitoral se 10° N ABUJA fortaleceu, mas as tensões por causa das diferenças étnicas e religiosas persistem. População muçulmana (em %) Os muçulmanos estão concentrados no norte, en0 1-19 quanto o sul é predominantemente cristão; há uma zona 20-39 intermediária designada “cinturão do meio”. Apesar da 40-59 CAMARÕES 60-79 aparente liberdade de rito, paira uma atmosfera de in80-100 tolerância religiosa no país, sobretudo naqueles estados Estado que adota OCEANO a sharia 0 210 ATLÂNTICO que adotaram a sharia e que contam com minorias crisCapital do país tãs insatisfeitas com essa iniciativa. Fonte: AFROBAROMETER. Bad luck for Além da tensão étnica e religiosa, o aspecto ecoNigeria. The Economist, 7 fev. 2015. nômico também contribui para a instabilidade. Detentora de grandes reservas Disponível em: <http://www.economist.com/ news/middle-east-and-africa/21642236petrolíferas, a Nigéria não conseguiu ao longo de cinco décadas de exploração discredited-ruling-party-faces-its-greatestdo combustível oferecer uma qualidade de vida satisfatória à população. As cielectoral-test-yet-bad-luck>. Acesso em: 4 mar. 2016. fras oriundas do petróleo são razoáveis, cerca de US$ 250 bilhões anuais; contudo, em torno de 70% da população (segundo a ONU) vive na linha da pobreza, ao passo que algumas elites locais constituíram imensas fortunas.

3.5.1 Boko Haram É nesse contexto de instabilidade e de forte polarização étnico-religiosa, somado ao crescimento do extremismo em várias partes do mundo islâmico, que o terrorismo também chegou à Nigéria, representado pelo Boko Haram, que na língua hausa significa “a educação ocidental é proibida”. O grupo foi fundado por Mohammed Yusuf em 2002, mas hoje é liderado por Abubakar Shekau. Depois de estar filiado à Al-Qaeda, recentemente jurou fidelidade ao Estado Islâmico. Age com a tradicional característica do terror, espalhando o pânico e a incerteza. Estima-se que o grupo tenha executado mais de dez mil vítimas, principalmente na Nigéria, mas também em países vizinhos como Camarões e Chade, além de ser a causa de mais de um milhão de deslocados internos no país.

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Segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur), “[...] Ao contrário dos refugiados, os deslocados internos (IPDs em seu acrônimo inglês) não atravessaram uma fronteira internacional para encontrar segurança mas permaneceram em seu país natal. Mesmo se fugiram por razões semelhantes às dos refugiados (conflito armado, violência generalizada, violações de direitos humanos), legalmente os deslocados internos permanecem sob a proteção de seu próprio governo, ainda que este governo possa ser a causa da fuga [...].” AGÊNCIA DA ONU PARA REFUGIADOS (ACNUR). Fugindo em sua própria terra. 2001-2016. Disponível em: <http:// www.acnur.org/t3/portugues/quem-ajudamos/ deslocados-internos>. Acesso em: 13 abr. 2016.

Stringer/AFP

O Boko Haram tem praticado atentados violentíssimos com frequência. Por exemplo, durante as celebrações natalinas em 2011, realizou vários atentados simultâneos a igrejas católicas, matando dezenas de fiéis. Três anos mais tarde, o grupo chocou o mundo com o sequestro de centenas de meninas entre 16 e 18 anos de um colégio no estado de Borno, onde o Boko Haram nasceu. Assim como o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, o Boko Haram proclamou o estabelecimento de um estado islâmico no nordeste da Nigéria em uma área que compreende aproximadamente 15 cidades. Muitos entendem que o Boko Haram é fruto das frágeis instituições políticas nigerianas, um país com tradição de golpes militares e casos de corrupção. Somente em 2016, a Nigéria conseguiu pela primeira vez em sua história fazer a transição democrática de um governo derrotado nas urnas por outro. A pobreza extrema da população muçulmana da porção norte do país associada a governos militares com histórico de violência contra a população civil é outro agravante.

REUTERS/Latinstock

Milhares de nigerianos são obrigados a deixar suas casas em consequência das ações do Boko Haram. Na fotografia, deslocados internos (pessoas deslocadas dentro do próprio país) aguardam a entrega de alimentos no campo de Dikwa, no estado de Borno, Nigéria, 2016.

Um natal em lágrimas: atentado terrorista, reivindicado pelo Boko Haram, em igreja católica em Abuja, Nigéria, 2011. A difícil convivência entre cristãos e muçulmanos é um dos fatores de desestabilização no país.

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ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando

1. O continente africano apresenta particularidades próprias, como compartimentação territorial maciça, uniformidade na distribuição bioclimática, litoral pouco recortado. Destaque outros pontos da geografia física africana, mencionando relevo, clima, hidrografia e vegetação. 2. Costuma-se afirmar que a linha do equador é “o espelho da África”. Por quê? 3. “O Egito é uma dádiva do Nilo.” (Heródoto, século V). Reveja no capítulo o trecho que trata sobre o rio Nilo e justifique a frase do historiador grego. 4. Embora a presença europeia na África fez-se notar desde o século XV, é especialmente a partir do século XIX que essa dominação se tornou mais intensa. Que relação você vê entre a presença europeia na África e a situação política, econômica e social do continente nos dias de hoje? 5. Escolha um problema geopolítico africano e discorra sobre ele em poucas linhas, expondo sua opinião sobre a questão.

Olhar cartográfico Observe a distribuição pluviométrica africana nos mapas abaixo e aponte a razão de as chuvas ocorrerem em períodos distintos nos hemisférios norte e sul do continente.

Dezembro a fevereiro

Allmaps

África: chuvas

Junho a agosto

Trópico de Câncer

Trópico de Câncer

Precipitação (mm)

3 000

2 400

Meridiano de Greenwich

Meridiano de Greenwich

2 700 Equador

Equador

2 100 1 800 1 500 1 200

Trópico de Capricórnio

900

Trópico de Capricórnio

600 0

1 310 0º

300

0

1 310 0º

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 59.

Atividade em grupo Organizem-se em grupos de quatro alunos. Cada equipe ficará responsável por uma das regiões africanas a seguir. • África setentrional (Marrocos, Argélia, Mauritânia, Tunísia, Líbia)* • Vale do Nilo (Egito e Sudão) • África ocidental (Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Camarões, Gabão)* • África oriental (Quênia, Tanzânia, Uganda, Burundi) • Chifre da África (Etiópia, Somália, Eritreia, Djibuti) • África central (República Democrática do Congo, Congo, Ruanda, República Centro-Africana)* • África austral (Angola, Zâmbia, Zimbábue, Moçambique, Botsuana, África do Sul)*

* Alguns dos países dessa região.

O produto dessa pesquisa resultará em um dossiê composto de um conjunto de quatro relatórios abordando aspectos ambientais, sociais, econômicos e geopolíticos da região escolhida. Cada grupo fará uma breve apresentação de 15 ou 20 minutos sobre as principais constatações observadas na região pesquisada.

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De olho na mídia Leia a matéria a seguir sobre o Boko Haram e depois relacione o significado do nome do grupo com a notícia. Se necessário, retome o item 3.5.1 deste capítulo. Grupo radical Boko Haram impede um milhão de crianças de ir à escola A ação do grupo radical Boko Haram impede mais de um milhão de crianças de ir à escola, informa o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), acrescentando que a questão educacional vai alimentar ainda mais o radicalismo na Nigéria e nos países vizinhos. Mais de duas mil escolas estão fechadas na Nigéria, em Camarões, no Chade e Níger – os quatro países mais afetados pelos ataques do grupo – e centenas de outros estabelecimentos foram atacados ou incendiados pelos jihadistas, segundo a instituição. O presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, tinha dado ao exército prazo até o fim deste ano para controlar o grupo islamita. A pouco tempo do fim do prazo, os radicais do Boko Haram, que juraram fidelidade ao grupo radical Estado Islâmico, continuam os ataques tanto na Nigéria quanto nos países vizinhos. Há duas semanas, no entanto, ele advertiu que as operações militares contra a rebelião do Boko Haram – cujo nome significa “a educação ocidental é proibida” – poderão durar mais tempo que o previsto. Mas, mesmo no caso de o exército ser bem-sucedido, analistas lembram que o governo terá de lidar com o tumulto social decorrente de uma geração de crianças que não têm ido à escola. “Quanto mais tempo [as crianças] não forem à escola, maior é o risco de serem maltratadas, raptadas e recrutadas por grupos armados”, disse Manuel Fontaine, diretor regional do Unicef para a África Ocidental e Central. A ação do Boko Haram e a repressão por parte das forças de segurança deixaram 17 mil mortos e 2,6 milhões de deslocados desde 2009, informa a agência France Presse.

AFOLABI SOTUNDE/REUTERS/Latinstock

GRUPO radical Boko Haram impede 1 milhão de crianças de ir à escola. EBC Agência Brasil, 22 dez. 2015. Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-12/ grupo-radical-boko-haram-impede-1-milhao-de-criancas-de-ir-escola>. Acesso em: 16 maio 2016.

Crianças frequentam a escola no campo para deslocados internos localizado na cidade Yola, no nordeste da Nigéria, 2015. Este campo abriga pessoas que fugiram de ataques realizados pelo Boko Haram.

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CAPÍTULO 11

AFP

A nova face da África: crescimento urbano e econômico

Lagos, capital da Nigéria, 2015.

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Tópicos do capítulo Quadro humano Dilemas sociais Economia Relações África-Brasil

Ponto de partida 1. Uma característica atual da África é que vários países estão apresentando forte ritmo de crescimento urbano. Como Lagos, na Nigéria, retratada na fotografia, apresenta-se nesse cenário? 2. Que elementos da paisagem de Lagos você destacaria nessa imagem?

ESCREVA NO CADERNO

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1. Quadro humano Com 1,2 bilhão de habitantes, a África é o segundo continente mais populoso do mundo, mas, em linhas gerais, apresenta baixa densidade demográfica. A população se concentra majoritariamente nas bordas litorâneas, em especial nas costas setentrional e ocidental, enquanto os maiores vazios demográficos estão no interior. Os principais aglomerados populacionais estão localizados na orla mediterrânea, no Baixo Nilo, no litoral do Golfo da Guiné, no sul da África do Sul, no litoral moçambicano e no interior da Etiópia. Observe, no mapa a seguir, a desigual distribuição da população africana. EUROPA

0° a r

Casablanca

Trópico de Câncer

d

Argel

Fez

Casablanca

Kano

ÁSIA Ma

Bamako

Kaduna Cartum

o

Abuja Kano

elh

Ogbomosho Ibadan Kumasi Ouagadougou Niamei

er m rV

Dacar Conacri

101 a 250 Mais de 1 000

Adis-Abeba Iaoundé

Abidjan Bamako

Equador

Conacri

Kumasi

Mais de 1 000 11 Abidjan

Equador

Accra Ibadan Lomé Benin City Lagos Accra Lomé Benin City Lagos

Kaduna

Iaoundé Brazzaville

OCEANO Luanda ATLÂNTICO

1

Notas: Apenas aglomerações Capital do país com mais de 1 milhão de habitantes são mostradas. Cidade Dados baseados nas estimativas de 2009.

Mogadíscio Adis-Abeba

Kinshasa Nairóbi

Campala

Douala Luanda

Nairóbi

Campala

Douala Abuja

OCEANO Mombasa ÍNDICO Mogadíscio

Dar Es Salaam

Mbuji-Mayi Kinshasa

OCEANO Mombasa ÍNDICO

Brazzaville

5

Capital do país 2

Lubumbashi

Dar Es Salaam

Mbuji-Mayi Harare

Meridiano de Greenwich Meridiano de Greenwich

OCEANO Trópico de Capricórnio

Notas: Apenas aglomerações com mais de 1 milhão de habitantes são mostradas. Dados baseados nas estimativas de 2009.

Totemismo: Crença e práticas rituais que se baseiam na existência de uma ligação espiritual entre as pessoas e um totem.

Cartum

o elh

Ouagadougou Niamei

er m rV

51501 a 100 a 1 000

Fonte: UNDESA. World Urbanization Prospects: the 2009 Revision, 2010; CIESIN. Socioeconomic Data and Applications Center online database, jan. 2011. Disponível em: <http://www.grida. no/graphicslib/detail/population-distributionin-africa_1709>. Acesso em: 21 jan. 2016.

Ma

Ogbomosho

26251 a 50 a 500

Cidade

ÁSIA Cairo

Dacar

1 11

Cairo

i t Alexandria e r r â n e o

Trípoli

Trópico de Câncer

Grandes aglomerados urbanos 5 2 (milhões de habitantes)

i t Alexandria e r r â n e o

MTrípoli

Rabat

6 101 a 25a 250

251 aaglomerados 500 Grandes urbanos 501 de a 1habitantes) 000 (milhões

Argel

e

1 51 a 5a 100

Fez0°

M a r

Densidade populacional (habitantes por km2) 1a5 Densidade populacional 6 a 25 (habitantes por km2) 26 a 50

EUROPA

Allmaps

e

M África: densidade demográficaM (2009) Rabat d

ATLÂNTICO Harare Johanesburgo

0

810

810

Maputo Antananarivo

Pretória

Trópico de Capricórnio

0

Antananarivo

Lubumbashi Pretória

Durban

Cidade do Cabo Johanesburgo

Port Elizabeth

Maputo

Durban Cidade do Cabo Port Elizabeth

Há no continente duas macrorregiões delimitadas pelo deserto do Saara: ao norte, a chamada África branca ou setentrional, composta essencialmente de povos árabes, mas também tuaregues, berberes e abissínios; ao sul, a África negra ou subsaariana, com uma variada gama de povos e línguas. Os negros constituem aproximadamente dois terços da população africana. Pertencem ao tronco melanoafricano e são divididos em inúmeros grupos étnico-linguísticos, sendo os bantos e os sudaneses os dois principais. Entre os bantos há aproximadamente 275 línguas distintas; entre os sudaneses, 400. Os grupos bantos ocupam a vertente atlântica e todo o centro-sul africano; os sudaneses se concentram ao sul do Saara. Existem ainda outros grupos com raízes distintas, como pigmeus, hotentotes, bosquímanos e hovas, cada qual com suas respectivas derivações linguísticas. Como vemos, a África é um emaranhando de vasta riqueza cultural. Em geral, a prática religiosa dos povos subsaarianos é constituída de rituais tribais, como o animismo e o totemismo, enquanto na África setentrional predomina o islamismo, presente na região desde a expansão islâmica no século VII. Já a presença europeia na África legou forte influência do cristianismo, que se manifesta por meio de suas diversas vertentes em muitos países, como Nigéria, Sudão, Egito e África do Sul.

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Anadolu Agency/Getty Images

Philippe Lissac/Godong/Corbis/Latinstock

Ainda hoje os brancos remanescentes da colonização europeia formam minorias em várias partes da África. Ao norte, esses “africanos de origem europeia” descendem essencialmente de franceses e italianos e são católicos, enquanto, ao sul, a presença maior é de descendentes de ingleses e holandeses, protestantes em sua maioria. Angola, Moçambique e Guiné-Bissau apresentam descendentes de portugueses católicos. Na vertente índica, há pequenos grupos remanescentes de indianos.

Muçulmanos em mesquita, Túnis, Tunísia, 2015.

ERIC LAFFORGUE/Alamy/Latinstock

dianajarvisphotography.co.uk/Alamy/Latinstock

Celebração católica em Túnis, Tunísia, 2013.

Homens guiando um zangbeto, guardião do espírito da noite para os animistas, Porto-Novo, Benin, 2015.

Totens simbolizando antepassados, Guiné-Bissau, 2015. ESCREVA NO CADERNO

Interagindo

Allmaps

Etnias africanas (2015) 0° Mar Mediterrâneo

Golfo Pérsico

Trópico de Câncer

ar

M r Ve lho

me

O neocolonialismo do século XIX e a consequente arbitrariedade na constituição das fronteiras, somados às lutas nacionais de independência, provocaram uma série de conflitos entre povos diferentes, muitas vezes rivais, que foram obrigados a conviver no mesmo território. O resultado foi uma infinidade de guerras étnicas e tribais que se alastram pela África até os dias de hoje. Compare o mapa ao lado com o da partilha da África, que está na página 203 do capítulo anterior. Qual é a sua conclusão sobre o estabelecimento das fronteiras na África?

Equador

OCEANO ATLÂNTICO

Fonte: ALMANAQUE Abril. São Paulo: Abril, 2015. p. 351.

Meridiano de Greenwich

Trópico de Capricórnio

OCEANO ÍNDICO

0

1057

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1.1 Crescimento populacional e urbano na África

Pauta musical

Anton_Ivanov/Shutterstock.com

Dumbanengue, Dice. Álbum: Dumbanengue. Maning Mose, 2015. Pauta musical: Desigualdades socioespaciais urbanas em Moçambique.

Entre 2010 e 2015, a África teve um incremento populacional de 2,55% ao ano, a maior taxa de crescimento entre as principais regiões do planeta no período, o que levou o continente a abrigar cerca de 1,2 bilhão de pessoas, ou seja, 16% da população mundial. As previsões da ONU para as próximas décadas indicam continuidade nessa tendência: mesmo que a taxa de fecundidade caia, como se prevê, da média atual de 4,7 filhos por mulher para 3,1 em 2050 e para 2,2 em 2100, estudos indicam que a maior parte do crescimento da população mundial entre 2015 e 2050 ocorrerá no continente africano. Na segunda metade do século XXI, a África será a única grande região do planeta a apresentar significativo crescimento populacional, ultrapassando a marca de 4,3 bilhões de habitantes ou cerca de 40% da população mundial em 2100. Observe, na tabela a seguir, as projeções de crescimento populacional em grandes regiões do planeta feitas pela ONU para o século XXI. População mundial e grandes regiões Região

População (milhões) 2015

2030*

2050*

2100*

Mundo

7 349

8 501

9 725

11 213

África

1 186

1 679

2 478

4 387

Ásia

4 393

4 923

5 267

4 889

Europa

738

734

707

646

América Latina e Caribe

634

721

784

721

América do Norte

358

396

433

500

Oceania

39

47

57

71

SAUL LOEB/AFP

* Projeção. Fonte: UNITED NATIONS. World Population Prospects: the 2015 Revision. New York: United Nations, 2015. p. 1. Disponível em: <http://esa.un.org/unpd/ wpp/publications/files/key_findings_wpp_2015.pdf>. Acesso em: 7 mar. 2016.

O acelerado ritmo de urbanização segue acompanhado da falta de planejamento e da ineficiente política pública de distribuição de renda. As grandes cidades africanas, como Luanda, capital de Angola, crescem em meio a contrastes socioespaciais, com concentração de riqueza e muitos bolsões de pobreza. Em cima, região próspera em Luanda, 2013. Embaixo, bairro pobre na capital angolana, 2014.

Além do acelerado crescimento populacional, os países africanos vêm apresentando nas últimas décadas fortes índices de concentração urbana. Em 1990, 24 cidades africanas tinham mais de um milhão de habitantes; em 2015, esse número dobrou. Naquele ano, a Nigéria era o país mais populoso da África, com mais de 182 milhões de habitantes. Estima-se que chegue a 2050 com cerca de 400 milhões de habitantes, desigualmente distribuídos pelo território, mas com grande concentração urbana, sobretudo em Lagos. Estudos das Nações Unidas preveem que, entre 2015 e 2100, as populações de Angola, Burundi, Malawi, Mali, Níger, República Democrática do Congo, Tanzânia, Somália, Uganda e Zâmbia aumentarão pelo menos cinco vezes. Especialistas da ONU indicam que o crescimento populacional se concentrará nos países mais pobres e, sobretudo, nas cidades.

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África: população rural e urbana em 2000, 2005 e 2025* 2000

518,07 (64%)

2005 558,77 (62%)

África: aglomerados urbanos mais populosos (2016) Ranking mundial

Área urbana/ país

População estimada

Densidade demográfica (hab./km2)

17º

Cairo/Egito

15 910 000

9,0

24º

Lagos/Nigéria

12 830 000

9,0

27º

Kinshasa/República Democrática do Congo

11 380 000

19,5

53º

Luanda/Angola

6 955 000

7,1

81º

Nairóbi/Quênia

4 930 000

8,9

Fonte: DEMOGRAPHIA World Urban Areas: 12th Annual Edition: 2016. p. 21-22. Disponível em: <http:// www.demographia.com/db-worldua.pdf>. Acesso em: 7 mar. 2016. Fonte: UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAM (UNEP). Africa: Atlas of Our World Changing Environment. Nairobi: Unep, 2008. p. 14. Disponível em: <http://www.unep.org/ dewa/africa/africaAtlas/PDF/en/Africa_Atlas_Full_en.pdf>. Acesso em: 7 mar. 2016.

Tarumã

Na passagem do século XX para o XXI, apenas 36% dos habitantes do continente viviam em cidades. Em 2025, serão 48% e, até o final do século, a África terá uma população majoritariamente urbana. Observe o gráfico ao lado. A cada ano o contingente populacional nos grandes aglomerados urbanos ao redor das principais cidades aumenta em decorrência da migração. É o que ocorre, por exemplo, no Cairo (Egito), em Lagos (Nigéria) e em Kinshasa (República Democrática do Congo). Em 2015, essas cidades já estavam entre os 30 aglomerados urbanos mais populosos do planeta, como é possível observar na tabela a seguir.

294,39 (36%)

347,16 (38%)

2025* 644,58 (48%)

699,91 (52%)

População em milhões e porcentagem Rural

Urbana

*Projeção.

A Geografia na... arte!

Jonathan Irish/National Geographic Creative/The Bridgeman Art Library/KEYSTONE BRASIL

Uma das consequências do acelerado processo de urbanização na África é o surgimento de um novo estilo de vida em decorrência da migração de milhões de pessoas que partem do campo em direção às cidades. Costumes e tradições são afetados, dando origem a novos conflitos e interações socioculturais. A fotografia ao lado, registrada em Johanesburgo, na África do Sul, mostra duas torres de refrigeração cujas superfícies aparecem decoradas com grafite. Para ter uma ideia de suas dimensões, compare-as com o homem que caminha e com os veículos automotores, que parecem minúsculos diante de sua grandiosidade. Nas torres de refrigeração, veem-se manifestações artísticas que expressam visões sobre a cidade sul-africana. Analise a imagem e indique elementos ligados ao meio rural e outros que se referem ao meio urbano. Depois, relacione-os com o processo citado no primeiro parágrafo.

ESCREVA NO CADERNO

Torres de refrigeração em Johanesburgo, África do Sul, 2013.

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2. Dilemas sociais Ler

Companhia das Letras

E se Obama fosse africano?: ensaios, de Mia Couto. Companhia das Letras: São Paulo, 2011. O livro do escritor moçambicano reúne artigos que apresentam uma crítica sobre o cenário contemporâneo da África.

A África subsaariana é a região mais pobre do planeta e a única que regrediu economicamente se comparada aos anos 1960. É possível detectar vários problemas nessa região: intermináveis guerras civis, altos índices de pobreza extrema, de acordo com agências da ONU, agricultura estagnada, fome e subnutrição crônica, elevada taxa de mortalidade infantil, doenças tropicais epidêmicas e o crescimento da Aids, a maior tragédia dos últimos 40 anos. O quadro de penúria social revela-se anualmente com os dados do IDH divulgados pelo Pnud: os países da África ocupam as piores posições, mesmo comparados a países muito pobres de outras regiões, como o Haiti e o Afeganistão, os mais pobres da América Latina e da Ásia, respectivamente. Em 2014, dos 44 países que faziam parte do grupo com os números do IDH mais baixos, 36 eram africanos. IDH 2014: os dez piores

Fonte: UNDP. Human Development Report 2015: Work for Human Development. Disponível em: <http://hdr.undp.org/sites/ default/files/2015_human_development_ report_1.pdf>. Acesso em: 8 mar. 2016.

Edwin Remsberg/Corbis/Latinstock

O uso de instrumentos rudimentares é um dos fatores que influenciam na baixa produtividade da agricultura africana. Na fotografia, lavrador utilizando arado, Somenkong, Lesoto, 2015.

Ranking

País

IDH

179º

Mali

0,419

180º

Moçambique

0,416

181º

Serra Leoa

0,413

182º

Guiné

0,411

183º

Burkina Faso

0,402

184º

Burundi

0,400

185º

Chade

0,392

186º

Eritreia

0,391

187º

República Centro-Africana

0,350

188º

Níger

0,348

Essa situação não se delineou de uma hora para outra – é produto da história. E, mais uma vez, é necessário ressaltar: está vinculada ao neocolonialismo, somada a outros fatores intrínsecos ao continente. A situação dos países subsaarianos é mais grave se considerarmos que a população ainda é, em grande parte, rural e não tem as condições necessárias para ser autossuficiente: a produção agrícola não supre a necessidade desses países, que acabam recorrendo à importação de alimentos, mesmo sem ter condições econômicas. São várias as razões da produção deficitária, que interfere na questão alimentar e leva a fome à população mesmo no campo: condições desfavoráveis às colheitas, prejudicadas em razão das extensas zonas áridas; relevo acidentado em longos trechos; solos pobres com muitas florestas; técnicas rudimentares; escassos solos férteis com cultivos voltados à exportação, e não à produção de gêneros básicos; plantações destruídas por milícias inimigas nos conflitos civis que assolam o continente.

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Zoom Dosso/AFP

Meio século após a independência dos países da África subsaariana, essa região continua sendo essencialmente exportadora de gêneros agrícolas e minérios e importadora de gêneros industrializados. Comparada com a segunda região mais pobre do mundo – o Sul e o Sudeste asiáticos –, fica evidente sua situação crítica: os rendimentos per capita correspondem a apenas um terço dos da região asiática e são menores ainda que os do terceiro bolsão de pobreza mundial – a América Latina. No quesito desigualdade, no entanto, a América Latina supera a África subsaariana. Embora as Nações Unidas venham se mobilizando para enfrentar o desafio de reduzir a pobreza no continente africano por meio de iniciativas como a Declaração do Milênio, a Agência das Nações Unidas de Luta contra a Aids (Unaids) ou a Comissão Econômica das Nações Unidas para a África (CEA), elas têm se mostrado ineficazes na reversão do quadro social estabelecido. O quadro social africano foi agravado nos últimos anos pela epidemia do ebola. Causada por vírus, essa doença tropical provoca febre hemorrágica com alto grau de letalidade. Afetou, sobretudo, a parte ocidental do continente africano, atingindo especialmente Libéria, Serra Leoa, Nigéria e Guiné. Por causa da gravidade do surto em 2014, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a epidemia do ebola como caso de emergência pública sanitária mundial. No entanto, espera-se que esse degradante quadro social possa ser minimizado nos próximos anos com o bom desempenho macroeconômico que tem se verificado no continente, como será melhor explicitado no item 3.

Outdoor com campanha de combate ao ebola, Monróvia, Libéria, 2015.

2.1 O problema da Aids Desde a descoberta da Aids nos anos 1970, a África foi o continente mais assolado pela doença. O relatório de 2011 da Unaids apontou que dos 34 milhões de soropositivos no mundo quase 70% encontravam-se em solo africano. É na porção austral da África subsaariana que esse quadro é mais dramático: Botsuana, Zimbábue, Zâmbia e África do Sul estão entre os países que enfrentam os maiores problemas com a doença. Em Botsuana e Zimbábue, 25% da população estava contaminada com o vírus HIV, enquanto a África do Sul tinha o maior número de infectados em todo o mundo: quase 6 milhões, pouco mais de 10% da população de 50 milhões de habitantes. Na Zâmbia, a expectativa média de vida foi reduzida de 65 anos para 35 por causa dessa doença. Na maioria dos países da África austral, a pirâmide etária tem se redesenhado por causa da Aids, que aumenta a mortalidade e diminui a perspectiva de vida, provocando, portanto, um afunilamento na pirâmide. Entretanto, após três décadas de dados pessimistas e agravamento da situação, as estatísticas do relatório de 2011 apontam para uma melhora sutil do quadro geral, com redução do número de infectados no mundo e também na África, embora nesse continente a situação ainda seja preocupante.

Navegar Unaids <http://tub.im/2vb4o3> A Unaids é uma agência da ONU de luta contra a Aids que divulga dados e estudos, assim como planos para o combate e a prevenção dessa doença.

2.2 A situação das mulheres Outra característica do continente africano é a situação de desigualdade das condições sociais entre mulheres e homens. Conheça, no infográfico a seguir, algumas das dificuldades enfrentadas pelas mulheres e suas conquistas.

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A mulher na a á frica:

Mulheres

Casa Paulistana

Guiné

Malawi

Idade 40 35 30 25 20 15

Homens

ESCOLARIDADE Na África, a maioria das mulheres não tem acesso à educação. Em muitos países africanos, em razão da falta de recursos e por questões culturais, as famílias optam por mandar apenas os meninos à escola. População sem escolaridade, por sexo, em % (1995-2007)

42%

24%

Crédito do infográfico: Casa Paulistana

Fontes: Escolaridade e casamento: ONU. The World’s Women 2010: Trends and Statistics. Nova York: ONU, 2010. p. 50 e 14 (respectivamente). Mão de obra: Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Disponível em: <www.oecd.org/dev/poverty/ womeninafrica.htm>. Acesso em: 5 maio 2016.

Idade média da população de alguns países ao casar-se (2002-2006)

Chade

O trabalho das mulheres é responsável por 70% dos alimentos produzidos no continente. Apesar disso, elas possuem somente 10% de toda a renda e são donas de apenas 1% das propriedades. Em geral, trabalham três horas a mais do que as mulheres na Europa e nas Américas. Em muitos países africanos, mesmo sendo a mão de obra predominante no trabalho agrícola, não podem sequer tomar empréstimos bancários para financiar suas lavouras.

Em diversos países africanos, é comum que as mulheres sejam obrigadas a casar ao saírem da infância. Muitas vezes engravidam nos primeiros anos da adolescência, levando-as a ter abortos naturais e até a morrer. Com apenas 11% da população mundial, o continente possui quase 50% dos casos de morte durante a gestação.

Mali

MÃO DE OBRA

CASAMENTO

Níger

O continente africano apresenta uma imensa diversidade cultural e diferentes situações sociopolíticas. No entanto, uma triste realidade une praticamente todos os países da África: a desigualdade de condições entre mulheres e homens. Diante dessa situação, a luta das mulheres tem sido constante e, com isso, muitos avanços foram conquistados.

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desafios e conquistas RUANDA E TANZÂNIA

LIBÉRIA

Para minimizar a desigualdade de gênero, Ruanda e Tanzânia adotaram leis que obrigam a presença de um número mínimo de mulheres no parlamento e nas câmaras locais. Em Ruanda, o fato de o parlamento ser composto de muitas representantes femininas facilitou a aprovação de diversas leis de combate à violência contra a mulher.

Nota: O mapa não está em conformidade com as convenções cartográficas.

Vatican Pool/Getty Images

Em 2005, Ellen Johnson Sirleaf foi a primeira mulher eleita presidente de um país africano. Em 2011, ela foi laureada com o Prêmio Nobel da Paz e reeleita presidente. Um dado curioso é que, em ambas as eleições, venceu o ex-jogador de futebol George Weah, considerado um dos heróis nacionais por ter sido eleito o melhor do mundo em 1995 e por comandar uma fundação que auxilia vítimas da guerra civil.

MALAWI Em 2012, Joyce Banda foi a primeira mulher a ser eleita presidente no Malawi. Ela já havia sido ministra das Relações Exteriores e vice-presidente, sendo uma histórica ativista pelo direito das mulheres no país.

VIOLÊNCIA SEXUAL A África do Sul é considerada a capital mundial do estupro. Organizações internacionais de direitos humanos estimam que uma em cada quatro mulheres já tenha sido violentada. Essa situação é ainda mais grave para mulheres homossexuais, pois estão sujeitas a gangues que costumam praticar o que chamam de “estupros corretivos”. A violência sexual faz aumentar o número de casos de Aids, uma epidemia que assola o país.

Sudarsan Raghavan/The Washington Post/Getty Images

Ellen Johnson Sirleaf, 2014.

Joyce Banda, 2012. 1. Em ambos os casos verifica-se que a igualdade de gênero não é plena. Contudo, apesar de necessitar ainda de muitos avanços, a situação da mulher apresentou alguma melhoria no Brasil. Um exemplo é a maior participação na esfera política do país, demonstrada pela eleição de sua primeira presidente. Na África, igualmente, ocorreram certos avanços em pontos isolados, mas, como vimos no infográfico, muitas atrocidades ainda são cometidas contra as mulheres.

Atividades

ESCREVA NO CADERNO

1. Que analogia você faria entre a situação da mulher africana e a da brasileira? 2. Não é só na África ou no Brasil que a mulher está ausente das grandes decisões, isso ocorre no mundo todo: há uma inegável hegemonia masculina à frente das grandes corporações e organismos internacionais, por exemplo. Em sua opinião, por que isso ocorre? Reflita e discuta com seus colegas sobre como seria o mundo se houvesse maior presença feminina à frente das decisões econômicas, ambientais, políticas e militares.

2. Resposta pessoal. No entanto, o aluno deve atentar para a clara desigualdade de gênero existente no mundo e refletir sobre quais mudanças positivas poderiam ser colocadas em prática no âmbito econômico, ambiental, político e particularmente militar se a presença feminina fosse mais marcante. 227

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3. Geografia econômica A África adentrou o século XXI demonstrando notáveis índices de crescimento econômico. Segundo organismos como o Pnud, OCDE e o Banco de Desenvolvimento Africano (2015), enquanto nas duas últimas décadas do século XX a média de crescimento do continente girava em torno de 2%, o período 2001-2014 registrou um crescimento médio de 5%, acima da média mundial de 4%, perdendo apenas para as economias emergentes asiáticas que registraram 8%. O principal fator desse desempenho deve-se à demanda mundial por commodities minerais, principal produto de exportação africana. No entanto, a queda inesperada do preço do petróleo e de outros minérios após a crise de 2008-2009 diminuiu esse fluxo. O principal destino das exportações africanas são China e Europa, essa última bastante atingida pela crise. Outro fator que prejudicou o desempenho africano foi a epidemia de ebola na porção ocidental do continente, assim como as intermináveis guerras civis que assolam muitos países do continente. Mas, em linhas gerais, no âmbito econômico o continente africano apresentou uma perspectiva favorável.

Tarumã

Crescimento econômico da África (2002-2016) 7

Taxa de crescimento (%)

6 5 4 3 2 1 0

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16

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Ano África

Nota: (e) estimativa; (p) projeções Fonte: AFRICAN DEVELOPMENT BANK, ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT, UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME. Regional Development and Spatial Inclusion. African Economic Outlook, 2015. New York: UNDP, 2015. p. 1.

Com um histórico de intensa exploração no período neocolonial, a complicada inserção no contexto da Guerra Fria e as inconclusas guerras civis, a África tornou-se o mais pobre dos continentes ao longo dos últimos séculos, mas o ressurgimento econômico africano verificado recentemente faz muitas organizações acreditarem na sustentabilidade do desenvolvimento desse continente. Some-se ao cenário otimista as projeções de crescimento demográfico e de sua população economicamente ativa, enquanto nas demais regiões do mundo irá acontecer o contrário. A tendência é que tal perspectiva contribua para o aquecimento das economias e do mercado de trabalho. No entanto, a África não é homogênea e esses índices econômicos mostram-se bastante desiguais, com algumas economias se destacando muito, como em Angola, na Guiné, na África do Sul e na Nigéria, enquanto outras permanecem estagnadas, como nos países da região do Sahel e da África central.

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Tarumã

Projeção do crescimento da força de trabalho (2010-2050) 1 000 830

800

Milhões

600 400

317

200 80

2150

0 2200 África subsaariana

Norte da África

China

296

Índia

Europa

33

Estados Unidos

Fonte: AFRICAN DEVELOPMENT BANK, ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT, UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME. Regional Development and Spatial Inclusion. African Economic Outlook, 2015. New York: UNDP, 2015. p. 14.

WANG ZHAO/AFP

Convém lembrar que esse desempenho econômico está associado ao crescimento chinês. A China investiu solidamente em muitos países africanos em busca de commodities, mas também tem patrocinado o desenvolvimento industrial de alguns deles, com claras intenções geopolíticas e econômicas em se estabelecer como hegemônica na África. Um exemplo dessa parceria sino-africana foi o anúncio em 2016 de um fundo bilionário de investimento da ordem de US$ 10 bilhões focado na aplicação de recursos na indústria, no desenvolvimento tecnológico e de infraestrutura, evidenciando a cooperação entre as partes. Antes a China já havia anunciado um recurso de US$ 20 bilhões para investir em obras estruturais no continente, como portos, ferrovias, usinas, exploração mineral, entre outras. No entanto, os progressos obtidos nas duas últimas décadas não foram suficientes para alcançar a desejada estabilidade econômica nem tampouco solidificar postos de trabalhos que garantissem o pleno emprego. Muito ainda há que se construir em termos de desenvolvimento estrutural e essa é a prioridade de dirigentes e organizações.

Os presidentes de Angola, José Eduardo dos Santos, e da China, Xi Jinping, em Pequim, 2015: a parceria China-África alavancou a economia do continente.

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3.1 Agricultura africana

Allmaps

África: uso do solo EUROPA Casablanca

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Trópico de C ân

A agricultura é a atividade mais importante para os africanos, pois absorve 60% da mão de obra e representa 25% do PIB continental. No entanto, essa atividade enfrenta problemas. Veja alguns deles a seguir. • Condições naturais adversas: grandes superfícies áridas, extensas áreas em processo de desertificação, relevo montanhoso nas bordas continentais e solo de baixa fertilidade prejudicam o bom desempenho agrícola. • Precariedade tecnológica: métodos arcaicos de produção e ausência de mecanização. • Guerras civis: muitas vezes milícias inimigas destroem reciprocamente a produção do grupo rival. • Monocultura: os melhores solos são utilizados quase sempre para a produção de gêneros de exportação em detrimento dos gêneros básicos. Temos, portanto, na África, duas formas básicas de agricultura: a de subsistência e a comercial. A maior parte da população volta-se à agricultura de subsistência com técnicas rudimentares e quase sempre utilizando o método da agricultura itinerante, que esgota rapidamente o solo. Os principais produtos cultivados são aqueles consumidos localmente, como a mandioca, o milho, o arroz e a batata. Já a agricultura comercial traz alguns problemas por não priorizar a população africana, e sim a exportação, quase sempre para a Europa. Os europeus, tal qual fizeram na América colonial, introduziram na África a cultura da plantation, baseada na exploração de gêneros tropicais em grandes propriedades, com produção voltada à exportação. Esse tipo de agricultura se mantém nos dias de hoje, sobretudo, na região do Golfo da Guiné. Os principais produtos da agricultura comercial africana são o café, o cacau, o algodão e o amendoim. Convém lembrar que, até a introdução da plantation, essas áreas eram produtoras de mandioca, milho e banana. Outra importante região agrícola é o Baixo Nilo, onde a associação entre solos férteis e a agricultura de irrigação torna-o uma importante área produtora de algodão e cereais. Quanto   à   pecuária,   o 20° L Argel continente   africano   não Mar Mediterrâneo prima   por   importantes Alexandria rebanhos   nem   apresenta Cairo tradição   nessa   atividade, restringindo-se a casos isoLago ÁSIA Nasser lados   como   a   criação   de gado ovino para subsistência.

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760

Fonte: OLLY, Phillipson. Atlas geográfico mundial. São Paulo: Fundamento, 2014. p. 74.

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3.2 A riqueza mineral

ESCREVA NO CADERNO

A África possui um dos maiores redutos minerais do mundo, e a indústria extrativa é uma das principais fontes de divisas. Para encaminhar uma exploração mineral sustentável está em processo de constituição o Centro Africano de Desenvolvimento de Recursos Minerais (AMDCC), que faz parte de um processo de consolidação de uma estratégia comum dos países africanos de catalisar em uma entidade única o controle dessa exploração. Uma vez que o continente é considerado a grande reserva mineral do planeta, dirigentes esforçam-se para alcançar um ambiente favorável à exploração e que seja revertida em benefício dos povos africanos. Muitos países detêm um papel de destaque na exploração mineral. Guiné, por exemplo, concentra a maior reserva mundial de bauxita, matéria-prima para produzir alumínio. A República Democrática do Congo tem a maior concentração mundial de cobalto, sendo grande fornecedora da China, o maior refinador. Congo e Botsuana possuem a segunda e a terceira maiores reservas mundiais de diamantes, respectivamente, ficando atrás apenas da Austrália. A África do Sul é um dos países mais ricos em todo o mundo em recursos minerais, configurando-se aquilo que os geólogos consideram uma “anomalia geológica”, tamanha a riqueza e a diversidade de minerais. O país concentra 80% de todo manganês mundial, 72% do cromo, 88% da platina, 40% do ouro e 27% do vanádio e ainda possui grandes reservas de minério de ferro, carvão, urânio, cromo, entre outros.

Conversando com a... Química!

Chris Ratcliffe/Bloomberg via Getty Images

A África surge como uma das principais áreas do mundo em reservas de diamantes. Países como República Democrática do Congo, Botsuana e Serra Leoa, entre outros, possuem as maiores reservas mundiais logo após a Austrália, primeira colocada. O diamante é o mineral com maior grau de dureza encontrado na natureza. Em que camada da Terra ele se forma? Qual sua composição química? Qual sua importância econômica e geopolítica para os países africanos?

Diamantes extraídos de mina em Botswana, 2012.

EUROPA 0°

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Minérios na África

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Fonte: OLLY, Phillipson. Atlas geográfico mundial. São Paulo: Fundamento, 2014. p. 74.

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RIEGER Bertrand/Hemis/Corbis/Latinstock

Entre as muitas riquezas minerais do continente, destacamos: • ouro: África do Sul, Serra Leoa, Costa do Marfim e Zimbábue; • diamante: República Democrática do Congo, Botsuana, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim e Senegal; • petróleo: Líbia, Nigéria, Argélia, Angola, Gabão e Sudão; • gás natural: Egito, Líbia, Argélia e Guiné Equatorial; • carvão: África do Sul, Zimbábue e Zâmbia; • bauxita: Guiné-Bissau, Serra Leoa e Gana; • urânio: Marrocos, Níger e África do Sul.

Plataforma de petróleo em Port Gentil, Gabão, 2014.

3.3 A indústria incipiente A África não é um continente industrializado. As condições históricas não permitiram o desenvolvimento industrial e, a partir da segunda metade do século XX, as poucas indústrias que se estabeleceram foram dos ramos mais modestos: alimentos, bebidas, têxtil e fumo, sempre atrelados à matéria-prima agrícola africana. As indústrias têxteis e as que se voltam para a demanda interna desenvolveram-se no Egito, no Quênia, na República Democrática do Congo e na África do Sul. A indústria de bebidas estabeleceu-se na Argélia e a do fumo, na África do Sul e no Egito. Atualmente, as principais indústrias africanas estão atreladas ao setor de mineração, com fortes investimentos chineses na indústria e em obras de infraestrutura. Na Etiópia, a China patrocina a construção da maior represa do continente. No Congo, atua na indústria da extração do cobalto e, em Uganda, na indústria têxtil. Angola se tornou um dos principais parceiros chineses na África cuja atuação é forte na área petrolífera. O mesmo ocorre na Nigéria e no Sudão. Destacam-se nos dias de hoje no continente a indústria extrativa, têxtil, moveleira e de calçados. A África do Sul é o país mais industrializado do continente (embora seja a segunda economia; a primeira é a Nigéria) com forte destaque para a indústria extrativa e para a presença de multinacionais desde a época do apartheid. Destacam-se como centros industriais a Cidade do Cabo, Pretória e Johanesburgo. O gráfico na página seguinte mostra a participação de cada setor na economia da África do Sul.

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3,20%

Tarumã

Participação dos setores na economia sul-africana 2,30%

3,50% 21,80% 5,70%

Serviços financeiros

9,20%

Indústria Serviços governamentais

10,20%

16,50%

Comércio Mineração Transporte e comunicação Serviços pessoais Construção

13,20%

Agricultura

14,40%

Eletricidade e água

Fonte: CONSULADO GERAL DA REPÚBLICA DA ÁFRICA DO SUL, 2015. Disponível em: <http://www.africadosul.org.br/ comercio.html>. Acesso em: 9 mar. 2016.

Simon Maina/AFP

Um setor em forte expansão na África em termos tecnológicos é a telefonia móvel: são mais de 600 milhões de africanos que possuem ao menos um celular e com acesso a serviços de internet no aparelho. O impacto de tal fenômeno é considerável, pois afeta diretamente a dinâmica da comunicação, além dos serviços financeiros, integrando a economia africana ao resto do mundo. A previsão de indústrias do setor é que até 2019 a África tenha 930 milhões de aparelhos (mais de quatro vezes a população brasileira). No entanto, ao menos nos dias de hoje, os celulares são fabricados fora da África. Uma inovação tecnológica em fase de testes no continente que desperta o interesse de transnacionais estrangeiras é a utilização de aviões-robôs para transportar cargas de até 10 kg e que podem percorrer até 120 quilômetros. O objetivo é levar medicamentos e alimentos para as aldeias isoladas.

A tecnologia chegou: cena comum na África de hoje, mesmo nos vilarejos mais distantes. Na fotografia, homem da etnia Massai usa o celular, Kajiado, Quênia, 2015.

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ESCREVA NO CADERNO

Enfoque

José Flávio Sombra Saraiva, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, é um dos principais africanistas brasileiros. No artigo a seguir, ele tece um tom bastante otimista sobre o continente. Leia o texto e extraia dele alguns trechos com abordagens positivas sobre mudanças econômicas e sociais e compare com o que você estudou no capítulo, afirmando se as posições do autor são ou não pertinentes. A África na ordem internacional do século XXI: mudanças epidérmicas ou ensaios de autonomia decisória? [...] A África subsaariana, ou África negra, considerada a região mais pobre do mundo, cresce entre 5% e 6% ao ano desde 2003. Adaptações macroeconômicas à globalização moveram as economias de todo o continente para equilíbrios na área da gestão dos negócios dos Estados. Alvissareiras são as inflações médias, contidas na faixa de 6% desde 2003, e as exportações que avançam, em 2006 e 2007, na proporção de 43% a 45% do PIB. Reformas econômicas liberalizantes e redução de vulnerabilidades externas geradas por saldos exportadores e crescente atração de investimentos externos diretos são fatos, entre outros, celebrados como de sinalização de sustentabilidade econômica pelos africanos e que ainda surpreendem os elaboradores dos relatórios das agências internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Há razões para otimismo em todas as regiões da África. O ambiente anima a confiança dos mercados. Na média da África negra, os investimentos internos equivalem a 19,4% do PIB, percentual muito próximo do Brasil, embora considerado baixo para a sustentabilidade do crescimento econômico. O vetor da elevação do crescimento interno é visível desde 2002 e tende a crescer nos próximos anos, mesmo ante a crise financeira que se desenha no contexto do capitalismo norte-americano. A África vem sendo escolhida como parte das prioridades para novas áreas e carteiras de empréstimos do Banco Mundial. Há preocupações, no entanto, no campo social, que variam de país a país, por meio de políticas de construção de metas de redução da pobreza. Há também a atenção dos setores financeiros em alguns países africanos com a eventua­ lidade de um novo ciclo de endividamento interno advindo principalmente das políticas financeiras engendradas pela política chinesa na África, que tem interesse estratégico no continente para compra de petróleo, commodities agrícolas e exploração de recursos minerais. Mas há, sobretudo, o sentimento de que nos últimos sete anos, justamente os primeiros do novo século, a África vem superando o drama histórico das guerras intestinas e internacionais. O número de países africanos com conflitos armados internos caiu de 13 para 5, nos últimos seis anos, apesar da dramaticidade do caso do Darfur. Os conflitos foram a mais importante causa imediata da pobreza no continente. A redução dramática dos mesmos faz pensar que os recursos, quase da ordem de US$ 300 bilhões queimados nos conflitos entre 1990 e 2005, podem agora ser dirigidos às políticas de redução da pobreza e da miséria. Há, ao mesmo tempo, uma onda democratizante dos regimes políticos em várias partes da África. Um processo tardio, mas relevante, de consolidação de instituições e governos na África com bases menos autocráticas e com algum apelo às noções da democracia é fato relevante para a elevação da confiança internacional. SARAIVA, José Flávio Sombra. A África na ordem internacional do século XXI: mudanças epidérmicas ou ensaios de autonomia decisória? Revista Brasileira de Política Internacional. Brasília: Ibri, 2008. v. 51, n. 1.

Ver Atlântico negro: na rota dos orixás. Direção: Renato Barbieri. Brasil, 1998. O documentário aborda raízes culturais comuns no Brasil e em países africanos, como Benin e Nigéria. Mostra como, ao longo do tempo, essas raízes vêm se transformando, em uma dinâmica e movimento próprios da cultura viva. De um lado, o documentário apresenta a intensa influência africana na religiosidade brasileira, mostrando as raízes da cultura jeje-nagô na origem do candomblé e do Tambor de Minas. De outro, mostra influências brasileiras em países africanos, como o caso dos descendentes de escravos baianos que, em Benin, procuram manter aspectos das tradições religiosas adquiridas no Brasil colonial.

4. As relações entre a África e o Brasil Os primeiros contatos entre o Brasil e a África ocorreram no século XVI com a introdução da mão de obra escravizada via tráfico negreiro, trazida das ilhas do Atlântico, como São Tomé e Príncipe, Madeira, Cabo Verde e Açores. Em decorrência da chegada de milhares de africanos escravizados ao longo de três séculos, o Brasil é o segundo país em número de afrodescendentes do mundo, só superado pela Nigéria. Por si só essa informação já traduz a importância que a África tem para o país. No entanto, a aproximação entre os dois é recente: no âmbito diplomático, a primeira visita de um presidente brasileiro à África ocorreu apenas em 1983, quando João Baptista Figueiredo foi à Nigéria, Guiné-Bissau, Senegal, Argélia e Cabo Verde; estreitamentos comerciais e políticos mais sólidos só ocorreram a partir de 2003, quando o Brasil redirecionou sua política externa para uma nova perspectiva Sul-Sul. Embora as relações entre o Brasil e a África tenham aumentado substancialmente nas duas primeiras décadas deste século, elas ainda são tímidas. Basta lembrar que até hoje não há uma linha aérea nacional direta entre o Brasil e aquele continente; todos os voos entre o Brasil e a África são feitos por companhias estrangeiras.

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Para melhor entender as relações Brasil-África, faz-se necessário desconstruir a visão negativa e calamitosa que se consolidou no país a respeito da África. Não que se devam omitir os problemas que efetivamente existem no continente, mas há uma perspectiva ascendente da realidade africana que é pouco explorada. O Brasil tem importante participação e muito a ganhar com esse novo momento africano. As relações econômicas são promissoras, e as iniciativas empresariais podem ser muito bem-sucedidas naquele mercado emergente. Os graves problemas sociais não devem ofuscar o atual momento de estabilização e de crescimento econômico, ou mesmo as diversas iniciativas de redução da pobreza que ocorreram no âmbito da ONU em relação à África. Com o crescimento da perspectiva Sul-Sul, o comércio entre o Brasil e a África aumentou consideravelmente: de US$ 6 bilhões em 2003 para US$ 26 bilhões em 2014. Mais de seiscentos projetos de cooperação técnica foram assinados entre 2003 e 2014 em 43 nações africanas, e 19 embaixadas foram abertas ou reabertas. Mesmo antes disso, nos anos 1990, foi encaminhada uma importante iniciativa com o intuito de constituir um bloco composto de Brasil, Índia e África do Sul, o Ibas. Essa inserção brasileira recente na África fez que o país fosse visto pelos africanos como um soft power.

Navegar Instituto Brasil África <http://tub.im/qhkmd8> O Instituto Brasil África é uma organização autônoma que visa promover, por meio de iniciativas privadas e governamentais, ações no âmbito da integração entre o Brasil e a África nos mais variados campos: social, político, comercial, cultural. Entre seus membros diretivos constam professores universitários, líderes empresariais e políticos. Soft power: “Poder brando”, termo criado pelo teórico Joseph Nye Jr., utilizado nas relações internacionais para inferir a capacidade diplomática de atuação e convencimento de um Estado sobre outro. A atuação “branda” se opõe ao estilo hard power, mais caracterizado por intervenções drásticas e militares.

Embaixada brasileira em Dar Es Salaam, Tanzânia, 2016.

Nos últimos dez anos, aproximadamente 500 empresas brasileiras instalaram-se na África contando com a retaguarda de bancos públicos como o BNDES e o Banco do Brasil. Um dos objetivos dessa aproximação era alcançar maior projeção internacional, apostando no apoio do grande número de países africanos, e, com isso, buscar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Essa estratégia não obteve êxito, mas os países do continente ajudaram a eleger brasileiros para outros cargos internacionais importantes, como a presidência da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). No comércio bilateral, o petróleo continua sendo o principal produto comercializado entre os dois lados: 71% de todo o conjunto importado da África vem do hidrocarboneto. O Brasil, por sua vez, exporta essencialmente produtos inNo âmbito do Ibas, existe o Fundo para o Alívio da Fome e da Pobreza dustrializados para o continente. (conhecido como Fundo Ibas), que financia projetos de desenvolvimento

O Ibas é uma iniciativa para o estreitamento das relações entre três países emergentes: Índia, Brasil e África do Sul. Entre as metas do grupo destacam-se a ação conjunta em instâncias internacionais, a cooperação comercial, científica e cultural dentro da perspectiva Sul-Sul. Debates sobre questão de gênero também estão contemplados. O Ibas atua como um fórum de diálogo governamental e desde que foi oficializado em 2003 na Declaração de Brasília já ocorreram cinco fóruns de debates entre as três nações. Nos encontros internacionais, o Ibas busca posições conjuntas nas reuniões de chefes de Estado. Um exemplo ocorreu durante a Rodada de Doha quando os três países atuaram conjuntamente (no âmbito do G-20) na questão do combate ao dumping e aos subsídios agrícolas praticados por países ricos. IBAS – Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul

Cortesia da Embaixada Dar es Salam, Tanzânia

O Ibas

em países pobres. Cada membro do Ibas destina anualmente US$ 1 milhão ao fundo, que é administrado pelo Escritório de Cooperação Sul-Sul, atrelado à ONU. Até 2015, havia sido captado US$ 25 milhões, que foram aplicados em diversos projetos. Países como Burundi, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Haiti, Serra Leoa e Palestina foram beneficiados por investimentos do Fundo. Essa iniciativa do Ibas recebe amplo apoio das Nações Unidas.

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ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando

1. A África se caracteriza, de modo geral, pela concentração da população no litoral e pela baixa densidade demográfica no interior. Cite um obstáculo de ordem natural e uma causa de origem histórica que dificultaram a ocupação do interior do continente. 2. Costuma-se identificar o deserto do Saara como um divisor natural das duas macrorregiões africanas onde se originaram ou vivem historicamente diferentes povos. Indique quais são essas regiões e alguns dos povos que as habitam. 3. Desde a década de 1990 até 2015, em média, os países africanos apresentaram elevadas taxas de crescimento populacional que contrastavam com a baixa expectativa de vida e, também, com as elevadas taxas de mortalidade infantil. Contudo, é no continente africano que se encontra o maior ritmo de crescimento populacional do mundo. Sendo assim, responda: a) Por que a comparação entre essas taxas pode ser considerada um contraste? b) O que explica o intenso e acelerado crescimento populacional africano diante da elevada taxa de mortalidade infantil e da expectativa de vida? 4. Estudos da ONU projetam que a África abrigará o segundo maior contingente populacional do planeta em 2100 e que no continente ocorrerá mais de 50% do crescimento da população mundial no século XXI. a) Do ponto de vista populacional e econômico, indique, com base no que já se verifica hoje em alguns países, o que isso pode significar para o continente. b) Em sua opinião, quais políticas devem ser adotadas para que não se reproduzam as profundas contradições socioespaciais verificadas em outros países pobres que já entraram em tal processo de crescimento?

Olhar cartográfico O mapa abaixo mostra, segundo dados do Banco Mundial, a média de idade dos habitantes de todos os países em 2010. Analise-o e, a seguir, responda às questões.

Allmaps

Média de idade da população, por país (2010) 0º Círculo Polar Ártico

Trópico de Câncer

OCEANO PACÍFICO

OCEANO PACÍFICO Equador

Trópico de Capricórnio

20,1-25 25,1-30 30,1-35 35,1-40 Maior que 40

Círculo Polar Antártico

OCEANO ÍNDICO

Meridiano de Greenwich

Média de idade Menor que 20

OCEANO ATLÂNTICO

Sem dados

0

2 590

Fonte: THE WORLD BANK. Building Human Capital in Africa. Washington, D.C: The World Bank, s.d. p. 2. Disponível em: <http://siteresources.worldbank.org/ INTHUMDEV/Resources/WBHDbrochureweb.pdf>. Acesso em: 10 mar. 2016.

1. Identifique quais grupos de idade prevalecem nos países africanos. 2. Em relação ao envelhecimento da população, qual a principal comparação que pode ser feita ao analisarmos a situação da África com as demais regiões do mundo?

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Atividade em grupo Organizem-se em grupos para pesquisar sobre a temática das relações Brasil-África. Para isso, sigam as orientações a seguir. 1. Consultem os Capítulos 10 e 11 deste livro. Na internet, busquem informações sobre relações diplomáticas, comerciais, históricas e culturais em órgãos oficiais brasileiros e africanos, como o Ministério das Relações Exteriores do Brasil ou de países da África para ampliar os conhecimentos relativos às possibilidades de pesquisa. 2. Pode-se escolher temas como: programas de apoio à cooperação científica; relações comerciais bilaterais ou entre blocos econômicos; conexões e frequência de transportes entre o Brasil e os países africanos; intercâmbios artísticos e culturais; relações étnico-raciais e religiosas; políticas sociais; entre outros temas. 3. Com a orientação do professor, organizem a produção e a apresentação do trabalho e exponham-no para a turma.

De olho na mídia Leia o texto abaixo e, a seguir, responda às questões. Economia africana melhor do que a global em 2015 Apesar da queda do preço das matérias-primas e de novos conflitos, a África continua a ter um melhor desempenho econômico do que quase todas as regiões do mundo, de acordo com uma análise feita pelo FMI [Fundo Monetário Internacional]. A economia africana deverá ter crescido 3,62% em termos reais ao longo de 2015. Este valor fica bem abaixo das previsões de abril, que apontavam para 4,17%, mas ainda assim acima da média global, que é de 3,12%. Apesar de os números do crescimento africano terem sido revistos em baixa, continuam a ser relativamente fortes, sobretudo quando comparados com outras regiões. Melhor do que o continente africano, só mesmo a região Ásia-Pacífico. O crescimento da África em 2015 foi conduzido por Marrocos (4,37%), Egito (4,19%) e Nigéria (3,96%). Juntas, estas três economias representam mais de um terço do PIB do continente. Alguns dos países africanos menos desenvolvidos também deverão registrar, ainda assim, um forte crescimento – casos da Etiópia (8,67%) ou da República Democrática do Congo (8,44%), que são também as duas economias do continente que mais crescem. Duas mudanças importantes que levaram à revisão das previsões ainda mais otimistas de abril estão no Burundi, que caiu dos +4,76% para os -7,71%, e na Líbia, que passou dos +4,6% para os -6,09%. Ambos os países são palco de instabilidade e violência crescentes. Outras quedas relevantes foram registadas na Serra Leoa (-12,76% para -23,92%), no Sudão do Sul (+3,59% para -5,33%) e no Congo (+5,16% para +0,99%). A Líbia, juntamente com o Congo e o Sudão do Sul, foi também vítima da queda dos preços do petróleo. O valor do Brent caiu 50% em 2015. Há um ano, estava nos 100 dólares. Por outro lado, a exposição econômica do Congo à China – que representou 35% do comércio entre ambas as partes em 2014, de acordo com dados do Comtrade – está também a fazer sofrer a sua economia. No caso da Serra Leoa, já se sabia que a economia se iria contrair devido ao ebola. No entanto, à epidemia juntou-se a queda do preço do ferro, o que precipitou uma queda muito mais abrupta da economia deste país, de acordo com o FMI. E ainda apesar da queda em termos globais relativamente às primeiras previsões, alguns países africanos tiveram pequenas melhorias nas suas perspectivas de crescimento. Na maioria dos casos trata-se de países que não dependem da exportação do petróleo. Contam-se nesta lista a Costa do Marfim (6,5% para 7%), Senegal (4,65% para 5,10%) e novamente Marrocos (4,37% para 4,87%). ECONOMIA africana melhor do que a global em 2015. África21 online, 8 jan. 2016. Disponível em: <http://www.africa21online.com/artigo.php?a=18375&e=Economia>. Acesso em: 10 mar. 2016.

1. O crescimento econômico africano ocorreu de maneira homogênea em todo o continente? Responda utilizando exemplos citados no texto. 2. Segundo o texto, qual fator central ajuda a explicar o crescimento econômico africano mais elevado do que a média mundial em 2015? 3. Quais fatos estão ligados às dificuldades ou até mesmo à queda no crescimento econômico de alguns países africanos?

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CAPÍTULO 12

Geopolítica da América Latina

Cerca na fronteira entre o México e os Estados Unidos, em Tijuana (México), construída pelo governo estadunidense para evitar a entrada de imigrantes ilegais mexicanos. Fotografia de 2012.

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Louie Palu/Zuma Press/Glow Images

Tópicos do capítulo }}Movimentos revolucionários }}Fronteiras e narcotráfico }}Herança chavista }}América Platina

Ponto de partida

ESCREVA NO CADERNO

• Muitos dos que defendem um mundo mais harmônico sustentam a premissa de que “precisamos de mais pontes e menos muros”. Qual é a sua percepção sobre essa frase e a relação dela com a imagem?

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1. Distúrbios no México Ao longo da última metade do século XX e início do XXI, duas regiões do México ganharam destaque internacional em decorrência das conflitantes situações geopolíticas que nelas se desenrolam. Chiapas é uma delas, um estado mexicano localizado no sul do país e que faz fronteira com a Guatemala. A outra, no extremo norte, é toda a faixa de fronteira entre o país latino e os Estados Unidos. Observe a localização dessas regiões no mapa a seguir. Há mais de 500 anos, desde a colonização espanhola, os povos indígenas padecem com a violência que assolou todo o território que corresponde, hoje, ao México. Mas a resistência desses povos sempre esteve presente. Em diversos momentos eles se indignaram contra as imposições colonizadoras e fizeram levantes contra o governo e a elite, pois eram escravizados para o trabalho nos grandes latifúndios do país. Pode-se considerar que foi a partir dos anos 1930 que as atuais bases da estrutura dos movimentos políticos de Chiapas começaram a se formar. Naquele momento o México, de economia eminentemente rural, passava por grandes transformações políticas. As turbulências eram, sobretudo, resultado dos movimentos revolucionários que buscavam firmar políticas nacionalistas. Na época, o então presidente Lázaro Cárdenas nacionalizou empresas estrangeiras que atuavam no país, sobretudo as de petróleo, o que aumentou o histórico de conflitos com os Estados Unidos, que detinham grande parte dessas empresas.

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México: político 100º O

BAJA CALIFORNIA

ESTADOS UNIDOS SONORA

CHIHUAHUA

Tróp ico

BAJA CALIFORNIA SUR de C ânce

COAHUILA SINALOA

r

ZACATECAS 20º N

SAN LUIS POTOSÍ

NAYARIT

Golfo do México

NUEVO LEÓN

DURANGO

AGUASCALIENTES

TAMAULIPAS GUANAJUATO QUERÉTARO HIDALGO CIDADE DO MÉXICO

JALISCO

OCEANO PACÍFICO

COLIMA MÉXICO MORELOS

YUCATÁN

TLAXCALA

MICHOACÁN PUEBLA

GUERRERO

VERACRUZ-LLAVE TABASCO

OAXACA

CAMPECHE

CHIAPAS

QUINTANA ROO

BELIZE

GUATEMALA HONDURAS 0

200

Capital do país

EL SALVADOR

Fonte: GIRARDI, Gisele; ROSA, Jussara Vaz. Atlas geográfico do estudante. São Paulo: FTD, 2011. p. 94.

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Refinaria de petróleo, no México, na região de Chiapas, em 1979.

Richard Melloul/Sygma/Corbis/Latinstock

Na década de 1910, por meio de intensas lutas, uma ação política marcou a história do país: a Revolução Mexicana, que levou à reforma agrária. Daí até a década de 1930, mais de 70 milhões de hectares de terra foram redistribuídos a pequenos produtores. Mudara, assim, de maneira radical, a estrutura fundiária do país. As grandes descobertas científicas após a Segunda Guerra Mundial resultaram em grandes avanços tecnológicos, que propiciaram o surgimento de fertilizantes industriais e maquinaria agrícola especializada, o que possibilitou um significativo aumento na produtividade do campo. Esse processo ficou conhecido como Revolução Verde. Apesar disso, a economia rural em Chiapas foi decrescendo e perdendo importância, especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970. As pequenas propriedades rurais (os ejidos) não conseguiam aplicar as novas técnicas de produção agrícola e, por conseguinte, não obtinham bons resultados financeiros. Assim, concorrer com os grandes proprietários ficou cada vez mais difícil, e os latifúndios começaram a predominar no espaço agrário do país. Só que, dessa vez, com a utilização de avançadas tecnologias e, consequentemente, com menos trabalhadores rurais, o que contribuiu fortemente para o aumento do desemprego no campo. A partir dos anos 1970, Chiapas se tornou uma região de grande exploração de petróleo e de geração de eletricidade. Muitos trabalhadores rurais buscavam emprego nas atividades correlacionadas, enquanto outros se dirigiram às florestas da região para tentar sobreviver sem serem assalariados.

No início da década de 1970, por decreto presidencial, metade da floresta de Chiapas (cerca de 614 mil hectares) foi entregue a apenas uma etnia quase extinta, os lacandones, em detrimento das demais (muito mais numerosas) que viviam na região. Ao mesmo tempo, foi criada, por políticos e madeireiros, a Companhia Florestal Lacandona S.A., que iniciou uma intensa e exclusiva exploração de madeira por meio de acordos com os lacandones. Essa ação política foi orquestrada pelo governo federal mexicano e por grandes empresários que ambicionavam explorar a floresta e, para isso, era necessário retirar os indígenas do caminho. Com ajuda governamental, a Companhia começou a expulsar os indígenas e os demais habitantes da área, na maioria mestiços migrantes de outras regiões, propondo realocá-los em lugares distantes da floresta. Muitos fugiram, mas a maioria ficou e enfrentou a situação. A partir daí teve início um grande conflito por terras e contra a exploração capitalista da madeira, que perdura até os dias atuais.

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AFP/Getty Images

AP/Glow Images

1.1 A formação do EZLN }}

Keith Dannemiller/Corbis/Latinstock

Emiliano Zapata (à esquerda) foi um líder revolucionário que lutou nas décadas de 1920 e 1930 pela libertação do México das interferências e invasões estadunidenses. O subcomandante Marcos (à direita), nome adotado por um ex-professor universitário, uniu-se à causa indígena e resgatou, junto com outros líderes, os ideais de Zapata e estratégias de guerrilhas, em busca de uma política mexicana autônoma e independente dos Estados Unidos.

A ação do EZLN com o slogan "Hoje dissemos basta!" (janeiro de 1994), em resposta ao Nafta, teve uma reação imediata do exército mexicano. Na fotografia, guerrilheiros zapatistas, em 1994.

Ver A jaula de ouro. Direção: Diego Quemada-Díez. México/Espanha, 2013. O filme conta a história de três adolescentes que saem da Guatemala com o objetivo de atravessar o México e entrar ilegalmente nos Estados Unidos.

Aos habitantes de Chiapas se uniram diversos líderes: políticos de oposição, religiosos e indígenas de várias etnias. Esses grupos se organizaram politicamente e logo suas posições extrapolaram as questões regionais. Muitos desses ativistas políticos vinham de movimentos organizados, como o Forças de Libertação Nacional (FLN), criado na década de 1960. Seus integrantes acusavam o governo e o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que ficou décadas no poder, de serem subservientes e de estarem entregando o território mexicano aos interesses político-econômicos dos Estados Unidos. Durante a década de 1980 ocorreu a formação de um grupo armado revolucionário na floresta de Chiapas: o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), constituído por ampla maioria de indígenas, seguida por mestiços, e sob a liderança, dentre outras, de um ex-professor universitário, o subcomandante Marcos. A gota-d’água para o início das ações ocorreu em 1994, no dia em que foi anunciado o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta). O Exército Zapatista de Libertação Nacional declarou guerra ao governo do México, presidido por Carlos Salinas, e seguiu tomando algumas localidades estatais. A intenção era ocupar a capital Cidade do México, o que foi impedido pelo exército. Após dias de conflito, com dezenas de mortos, feridos, prisões e sequestros, iniciaram-se as tentativas de acordos de paz. Esses tensos episódios deixaram o país politicamente frágil, o que levou seu vizinho do norte, os Estados Unidos, a reforçar suas áreas de fronteira com o México. Desde o início dos conflitos até os anos 2010, diversos acordos e negociações ocorreram entre os sucessivos governos do México e o EZLN, que pleiteia reforma constitucional pautada, segundo eles, em valores democráticos, de justiça social, liberdade e paz e buscam a autogestão para o estado de Chiapas.

1.2 Fronteiras mexicanas }} O México faz fronteira apenas com três países: Guatemala e Belize, ao sul, e Estados Unidos, ao norte. As duas fronteiras são áreas de intensas preocupações geopolíticas. Pela fronteira sul, sobretudo com a Guatemala, os principais motivos de tensão são as acusações de tráfico de drogas, de armas e de pessoas, especialmente mulheres e crianças. Ao contrário da fronteira norte, fortemente vigiada, principalmente pelos Estados Unidos, a defesa da fronteira sul é destituída de grandes aparatos fiscalizadores. São poucos os pontos de fiscalização ao longo da fronteira do México com a Guatemala. Por suas matas há rotas clandestinas por onde transitam traficantes, contrabandistas e imigrantes ilegais.

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Alfredo Estrella/AFP/Getty Images

A fronteira do México com os Estados Unidos é uma das que mais simbolizam a rigidez da drástica marca de limites territoriais no mundo atual. Ela é configurada por uma cerca que separa os países ao longo de toda sua extensão e começou a ser construída em 1991 como tentativa de impedir o intenso fluxo de entrada de imigrantes ilegais mexicanos para os Estados Unidos. Ano após ano a migração de mexicanos para os estados localizados ao norte do país aumentava. Na década de 1990 viviam nas áreas fronteiriças 15% da população do país. Nos anos 2000, já eram 20%. Uma das ações que dispararam essa concentração populacional foi a instalação, em território mexicano, de empresas dos Estados Unidos, as maquiladoras, em cidades-gêmeas. Essas empresas têm suas sedes administrativas nas cidades estadunidenses e as unidades de produção nas cidades mexicanas vizinhas. Esse mecanismo proporciona às empresas um custo menor, pois a mão de obra e os impostos em território mexicano são mais baixos do que os praticados do lado estadunidense da fronteira. Além disso, essas empresas podem transportar equipamentos e peças para os Estados Unidos sem pagar taxas nem impostos de importação, pois tais produtos não serão comercializados no México. Além da atração populacional gerada pelas maquiladoras, estudiosos sobre o tema chamam a atenção para o fato de que esses intensos e crescentes fluxos para o norte do país estão atrelados à pretensão de mexicanos de migrarem clandestinamente para o vizinho rico do norte. Segundo Censo realizado em 2010 nos Estados Unidos, a população de hispânicos no país era de quase 51 milhões, a maioria composta de mexicanos.

A fotografia mostra um trecho da fronteira entre o México e os Estados Unidos: a cidade mexicana de Tijuana (à esquerda) e a estadunidense de San Diego (à direita). A fronteira é marcada por um muro que separa a riqueza da pobreza. Fotografia de 2013.

Imigrantes guatemaltecos cruzando a fronteira em direção ao México, em 2013.

Ver Minha família. Direção: Gregory Nava. Estados Unidos, 1995. Três gerações veem a história de uma família de imigrantes mexicanos se transformar no território da Califórnia.

Cidades-gêmeas: Cidades de diferentes países, mas com áreas urbanas contínuas.

Interagindo Milhares de mexicanos já morreram tentando atravessar ilegalmente a fronteira com os Estados Unidos. Aproximadamente 20 milhões de mexicanos vivem ilegalmente no país, subempregados e sob o constante risco de serem detidos e deportados. • Que razões você acredita que levam pessoas a migrar em situações precárias de um país para outro?

Frederic J. Brown/AFP/Getty Images

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1.3 O narcotráfico e os }}

fluxos transfronteiriços

Outra preocupação dos Estados Unidos com os fluxos transfronteiriços tem sido o crescente tráfico de drogas. Isso porque grandes cartéis produtores de drogas vêm usando cada vez mais o território mexicano para produção e escoamento de drogas que adentram o território estadunidense. Os Estados Unidos e a Europa são os principais destinos da cocaína originada do Peru, Bolívia e Colômbia, seus maiores produtores mundiais. O México é uma importante rota para a droga chegar aos consumidores estadunidenses. Veja o mapa a seguir.

Allmaps

Principais fluxos de cocaína (2013) 0º Círculo Polar Ártico

CANADÁ

OCEANO PACÍFICO Trópico de Câncer

AUSTRÁLIA

ESTADOS UNIDOS

OCEANO PACÍFICO

CHINA MÉXICO

Caribe

CABO VERDE

América Central

CHINA Equador

Europa Ocidental e Central

CATAR OMÃ

ÍNDIA

Oeste da África

VENEZUELA COLÔMBIA

CINGAPURA

CANADÁ ESTADOS UNIDOS COLÔMBIA PERU CHILE ARGENTINA BRASIL

HONG KONG

CINGAPURA

EQUADOR

HONG KONG

PERU

AUSTRÁLIA

BRASIL

BOLÍVIA PARAGUAI CHILE

Trópico de Capricórnio

ÁFRICA DO SUL

AUSTRÁLIA

Meridiano de Greenwich

ARGENTINA

Círculo Polar Antártico

OCEANO ÍNDICO

OCEANO ATLÂNTICO

Fluxos de cocaína para países ou regiões (origem/destino) Principais rotas de tráfico Outras rotas de tráfico 0

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Fonte: UNODC. World Drug Report, 2015. p. 51. Disponível em: <https://www.unodc. org/documents/wdr2015/World_Drug_ Report_2015.pdf>. Acesso em: 8 jan. 2016.

Países de origem mais citados nos casos individuais de apreensão de drogas

Além da crescente participação mexicana, na geografia mundial do narcotráfico são três os grandes centros produtores de drogas. A Colômbia responde por 80% da produção mundial de cocaína, cuja matéria-prima – a folha de coca – é nativa da região andina. Já a região denominada Triângulo Dourado, na Península da Indochina, e o Afeganistão são os maiores produtores de papoula, matéria-prima da heroína. Os principais destinos são países com elevada renda per capita, como os Estados Unidos e os europeus. O narcotráfico, isto é, a produção, a distribuição e o comércio de drogas, converteu-se nas duas últimas décadas em um dos mais rentáveis negócios do planeta. Segundo estimativas do Programa das Nações Unidas para o Controle Internacional de Drogas (UNDCP), órgão ligado à ONU, o negócio da droga no mundo movimenta algo em torno de US$ 500 bilhões por ano. Mas a própria ONU afirma que essa quantia pode estar subestimada, pois, como o narcotráfico é uma atividade clandestina, a apuração de dados é imprecisa. Segundo especialistas, a tendência da cifra é sempre aumentar. Alguns falam em US$ 750 bilhões, e outros, em US$ 1 trilhão.

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2. Geopolítica da América Central Desde que os Estados Unidos desenvolveram sua projeção externa, a América Central foi a primeira área a cair sob sua esfera de influência geopolítica. Além da proximidade da potência, sua privilegiada posição geográfica entre os oceanos Atlântico e Pacífico lhe confere interessante status geoestratégico, conforme é possível observar no mapa a seguir.

Allmaps

América Central: político 90º O

AMÉRICA DO NORTE

Golfo do México

OCEANO ATLÂNTICO

Nassau

B Trópico de Câncer

Havana

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Belmopán

Tegucigalpa

Guatemala São Salvador

EL SALVADOR

NICARÁGUA Manágua

L. Nicarágua 0

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Capital do país GRANDES Região ANTILHAS

COSTA RICA São José

OCEANO PACÍFICO

Panamá

PANAMÁ

AMÉRICA DO SUL

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 39.

A situação geográfica centro-americana foi particularmente valorizada no contexto da Guerra Fria, quando o confronto ideológico capitalismo versus socialismo estendeu-se pela região. É nessa conjuntura que devemos circunscrever a leitura geopolítica regional das guerras civis em Cuba (1959), Nicarágua (chamada de Revolução Sandinista – 1979-1988), El Salvador (1979-1991) etc. O Canal do Panamá, construído no início do século XX, foi igualmente peça-chave no jogo geoestratégico e uma das prioridades estadunidenses na geopolítica regional. Em El Salvador, a estrutura fundiária marcada pela concentração de terras em mãos de poucos fazendeiros foi o motivo dos distúrbios geopolíticos. Houve forte acirramento envolvendo, de um lado, a oligarquia rural apoiada por um governo militar e, de outro, movimentos sociais apoiados pela Igreja Católica, que tem naquela região o berço da Teologia da Libertação, e a guerrilha de esquerda FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional). Contudo, os levantes contrários à presença estadunidense na região e os respectivos movimentos de libertação nacional são anteriores à Guerra Fria, como são os casos de El Salvador, com o líder Farabundo Martí, e da Nicarágua, com Augusto César Sandino, ambos marxistas e que militaram juntos por uma América Central socialista mesmo antes da Guerra Fria.

Teologia da Libertação: Vertente da Igreja Católica que difundiu uma leitura marxista da Bíblia, realizando uma clara opção pelos pobres. Apresenta forte perspectiva política em sua atuação religiosa e incomodou severamente o Vaticano devido ao seu caráter ativista. O Papa João Paulo II perseguiu duramente essa corrente religiosa.

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2.1 Nicarágua }}

Combate nas ruas de León, Nicarágua, em 1979, durante a guerra civil, que opôs sandinistas e contrarrevolucionários.

Esquerda e direita: As expressões remontam à Revolução Francesa (1789), quando os jacobinos, tidos como revolucionários e desejosos de transformações sociais e políticas, sentaram-se à esquerda na Assembleia, enquanto os gerondinos, contrários à monarquia, mas com o intento de assegurar o poder à burguesia, sentaram-se à direita. Convencionou-se designar desde então quem tem perspectiva revolucionária como “esquerdista”, enquanto o rótulo de “direitista” ficou com aqueles de postura conservadora. Muitos entendem que quem tem uma perspectiva socialista é de esquerda e quem defende o capitalismo, de direita. Mas essa visão é um tanto quanto simplista.

A Nicarágua dos anos 1970 e 1980 foi marcada pela guerra civil que envolveu de um lado o regime totalitário de Anastácio Somoza (1936-1979), apoiado pelos Estados Unidos, e de outro o movimento Sandinista, amparado nas ideias de Augusto César Sandino, líder revolucionário dos anos 1930. Em 1979, o movimento revolucionário Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) tomou o poder, apoiado pelos intelectuais do país, pela ala progressista da Igreja Católica – a Teologia da Libertação –, e por liberais descontentes com a ditadura familiar de Somoza. A Nicarágua sandinista passou a sofrer ingerência externa: de um lado, com o apoio cubano e, do outro, dos Estados Unidos, que patrocinaram um grupo contrarrevolucionário com o claro objetivo de derrubar o governo. Assim, o país mergulhou num clima duradouro de guerra civil que se encerrou no final dos anos 1980, quando foi assinado um acordo envolvendo as partes. As eleições de 1990 puseram fim ao conflito.

2.2 Cuba: novas perspectivas }} Cuba foi o único regime propriamente socialista do continente americano. O sistema foi adotado após a Revolução Cubana, de 1959, liderada por Fidel Castro e Ernesto Guevara, quando foi derrubado o regime de Fulgencio Batista, o último dos muitos tiranos cubanos apoiados pelos Estados Unidos. Era o auge da Guerra Fria e, após tornar-se socialista e aproximar-se da União Soviética, Cuba entrou definitivamente na celeuma central da Guerra Fria, no embate capitalismo-socialismo, esquerda-direita. Os Estados Unidos, contrários à opção cubana, lideraram em 1962 um embargo contra a ilha caribenha e a expulsão do país da Organização dos Estados Americanos (OEA), constituindo-se como o mais duradouro no mundo contemporâneo. No entanto, na condição de aliada da outra superpotência, a URSS, Cuba pouco sentiu o boicote, pois os soviéticos atendiam a maior parte de suas necessidades industriais, além de se comprometerem com a compra de praticamente todo o estoque de açúcar cubano, o principal produto de sua pauta de exportação, e outros gêneros agrícolas, pagando acima do preço do mercado internacional.

Fidel Castro discursa para a multidão, em frente ao palácio presidencial em Havana, Cuba, em 1959.

Harold Valentine/AP/Glow Images

Embargo: Boicote, bloqueio e sanções comerciais com a intenção de isolar determinado país.

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Jonathan Ernst/Reuters/Latinstock

Durante anos o subsídio por parte da União Soviética rendeu à ilha condiVer ções para investir na área social. O país avançou nessa área entre as décadas Che. Parte 1: O argentino e de 1960 e 1980; os indicadores confirmavam o alto padrão alcançado pelo país Parte 2: Guerrilha. Direção: nas áreas da saúde, educação e esportes. Steven Soderbergh. Estados Unidos/França/Espanha, 2008. Contudo, as transformações dos anos 1990, que levaram ao fim da União O filme, dividido em duas partes, Soviética e à queda dos regimes socialistas aliados do Leste Europeu, repercutidestaca os momentos importantes ram fortemente no país. Com o desaparecimento do grande aliado, o embargo da vida de Ernesto “Che” Guevara, líder revolucionário que imposto pelos Estados Unidos começou a surtir efeito, somado a uma precária atuou ao lado de Fidel Castro na estrutura manufatureira; a economia do país foi gradativamente entrando em Revolução Cubana. colapso e encontra-se ainda numa situação bastante delicada. Verificou-se uma tímida abertura do regime cubano nos últimos anos, como a aceitação da propriedade privada dos meios de produção e o funcionamento de pequenos negócios, ou mesmo a demissão de funcionários públicos. Em 2006, alegando motivos de saúde e idade avançada, o líder Fidel Castro afastou-se da presidência da República e foi substituído por seu irmão, Raúl Castro. No final de 2014, os Estados Unidos e Cuba iniciaram um processo inédito de reaproximação. O “descongelamento das relações diplomáticas”, termo diplomático utilizado nas relações internacionais, foi recebido com otimismo pelo governo brasileiro, União Europeia, países latino-americanos e Vaticano. O grande passo para a reaproximação reside na retomada das relações diplomáticas promovidas pelos Estados Unidos. Entretanto, o fim do embargo econômico não cabe ao presidente estadunidense e sim ao Congresso dos Estados Unidos. Na Assembleia Geral da ONU de 2015, 191 países votaram a favor do fim do embargo e apenas dois países foram contra: Estados Unidos e Israel. Até o início de 2016, essa medida ainda não havia sido encaminhada para a aprovação dos congressistas. No entanto, um importante passo foi dado: embaixadas foram abertas nos respectivos territórios depois de vários meses de negociações, e Obama realizou a primeira visita de um presidente estadunidense em quase 90 anos. Possivelmente esteja na política externa seu maior legado: a reaproximação com Cuba e Irã, inimigos O histórico aperto de mão entre Raúl Castro e Barack Obama no encontro da Cúpula das Américas, em 2015, no Panamá. declarados da grande potência.

Conversando com a... Sociologia!

ESCREVA NO CADERNO

Em uma clássica obra, o cientista político italiano Norberto Bobbio, defensor da dicotomia esquerda-direita, afirmou: [...] nesses últimos anos, tem sido repetidamente afirmado, ao ponto mesmo de se converter em lugar-comum, que a distinção entre direita e esquerda – que por cerca de dois séculos, a partir da Revolução Francesa, serviu para dividir o universo político em duas partes opostas – não tem mais nenhuma razão para ser utilizada. BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Unesp, 1995. p. 32.

A síntese da tese do pensador no transcorrer do livro é que nos dias de hoje quem luta por transformação social e pela igualdade pode ser considerado de esquerda, enquanto aqueles que a combatem, de direita. Outros questionam sua tese, afirmando não mais haver lugar para “essa visão restrita”. • E você, o que pensa? Ainda está vivo o debate político esquerda versus direita ou foi ultrapassado pelas grandes transformações internacionais e os debates atuais se fazem de outra maneira? Como Cuba se insere no debate contemporâneo?

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2.3 Haiti: golpe e intervenção }}

Edwin Remsberg/VW Pics/ZUMAPRESS.com/Easypix Brasil

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Desde a renúncia imposta ao presidente Jean-Bertrand Aristide, em 2004, o Haiti está sob intervenção das tropas internacionais da ONU (a Minustah – Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti), lideradas pelo Brasil. O Haiti tem uma longa tradição de regimes totalitários e insere-se no contexto intervencionista estadunidense na América Central. Trata-se de um país com aproximadamente 98% da população composta por negros, porém com as elites políticas brancas, essas, quase sempre alinhadas com as Forças Armadas. Durante boa parte da segunda metade do século XX, o Haiti (país insular cuja fronteira única ocorre com a República Dominicana, conforme pode ser visto no mapa abaixo) foi governado pela ditadura familiar dos Duvalier, apoiada pelos Estados Unidos. François Duvalier, o “Papa Doc”, governou de 1957 até sua morte, em 1971, e, posteriormente, seu filho, Jean-Claude Duvalier, o “Baby Doc”, governou de 1971 até 1985, quando se exilou na França. A ditadura dos Duvalier caracterizou-se pela extrema violência e perseguição a qualquer tipo de oposição. Tradicional aliado dos Estados Unidos, o governo do Haiti era considerado uma espécie de contraposição ao regime socialista cubano. As crises internas e a onda liberalizante trazida pela nova ordem internacional levaram o país às eleições Haiti livres em 1990, vencidas pelo ex-padre Jean-Bertrand 70° O Aristide, marxista ligado à Teologia da Libertação. A extrema miséria, a falta de recursos e de apoio externo e, principalmente, o incômodo causado pelo presidenCUBA te às elites locais levaram o país a um golpe militar e a uma intensa crise social e política. O embargo da ONU Gonaives 20° N forçou o governo golpista de Raul Cedras a renunciar HAITI OCEANO e Aristide retornou do exílio. Porém, não teve o direito REPÚBLICA ATLÂNTICO DOMINICANA PORTO de recomeçar seu governo, apenas deu sequência ao PRÍNCIPE tempo que faltava (pouco mais de um ano) para finaMar das Antilhas lizar o mandato, em 1995. Na realidade, o governo (Mar do Caribe) golpista ficara mais tempo no poder. O ex-padre retornaria à presidência nas eleições de Capital do país 2000, quando venceu com mais de 90% dos votos. Cidade 0 115 Rodovia Contudo, forças contrárias e herdeiros políticos de Duvalier produziram nova crise no país em 2004, que Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 39. culminou com a renúncia e o exílio de Aristide na África do Sul. O ex-presidente nunca admitiu a renúncia e afirma que foi, na realidade, deposto. O país mergulhou novamente no caos e adentrou ao clima de guerra civil, com uma violenta e interminável luta entre facções rivais dos guetos haitianos. A ONU interveio no mesmo ano. O que muito se afirma nos meios acadêmicos, intelectuais e mesmo midiático é que a comunidade internacional calou-se perante o golpe que destituiu um presidente democraticamente eleito e nada fez para reempossá-lo, inclusive o governo brasileiro. Em vez disso, compôs-se uma coalisão internacional de forças (os capacetes azuis da ONU), liderada pelo Brasil, e convocou-se novas eleições. As eleições presidenciais que elegeram Michel Joseph Martelly, em 2011, foram marcadas pelo O Haiti é um país com Estado muito fraco e faltam quase todos os serviços retorno ao país dos ex-presidentes Jean-Bertrand de saneamento básico, como é possível ver nesta fotografia de uma área de Aristide e Jean-Claude Duvalier. periferia em Porto Príncipe (2013).

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Capa LP Água do céu-pássaro. Ney Matogrosso. Brasil, 1975

A América Andina é o conjunto regional sulAmérica Andina -americano que tem como traço comum a Cor60º O Caracas dilheira dos Andes. É formada por seis países: GUIANA FRANCESA VENEZUELA Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e (FRA) GUIANA Bogotá Chile. Veja o mapa ao lado. SURINAME COLÔMBIA Quito Equador Historicamente, essa região é marcada por 0º fortes turbulências geopolíticas e a presença de EQUADOR governos militares foi recorrente. Nas últimas PERU três décadas ocorreram esforços rumo à demoBRASIL cratização, mas a instabilidade frequentemenLima BOLÍVIA te ameaça tal bandeira. OCEANO La Paz Entre os países andinos, o Chile vem se conPACÍFICO Sucre vertendo no mais estável deles, bem como o de PARAGUAI melhores indicadores sociais, comprovados peio icórn r p a eC CHILE ic o d los índices de distribuição de renda, mortalidade Tróp ARGENTINA infantil, entre outros. Depois de vivenciar duranURUGUAI Santiago te 17 anos a ditadura de Augusto Pinochet, o país assistiu à redemocratização nos anos 1990. OCEANO Peru e Equador são países pobres e basiATLÂNTICO camente exportadores de gêneros primários: o Peru se destaca pela pesca e exportação de América Andina chumbo, enquanto o Equador é grande exporCordilheira dos Andes 0 813 tador de banana. Capital do país Ambos assistiram a mudanças políticas nos últimos anos: o Equador com correntes mais à Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 41. esquerda e o Peru com governos de centro. No caso peruano, elas ocorreram por caminhos distintos do que pregavam, nos anos 1980, as guerrilhas peruanas de esquerda, Sendero Luminoso e Tupac Amaru, que propunham a luta armada como forma de instaurar regimes marxistas. Tradicionalmente dominada por uma classe política conservadora e pela Pauta musical presença constante de governos militares antidemocráticos, a Bolívia, país de América do Sul, Ney população majoritariamente indígena, sempre teve à frente dos governos a miMatogrosso. Álbum: Água do céu-pássaro. Continental, 1975. noria branca, inferior a 20% da população do país. Foi Evo Morales, um índio Pauta: Unidade latino-americana. aimará, quem quebrou a hegemonia da elite boliviana e chegou ao poder em 2005. Líder cocalero, socialista e próximo do ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tão logo assumiu a presidência adotou medidas polêmicas, como a nacionalização dos recursos naturais do país. Governou com forte perspectiva popular e reformas sociais e por isso envolveu-se em atritos e polêmicas, não só com a elite local, mas, às vezes, com outros países, como a Colômbia e o Brasil. Em 2016, Evo Morales fracassou na tentativa de se prolongar no poder quando a proposta de alteração constitucional para sua reeleição não foi aprovada.

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3. Geopolítica Andina

3.1 A Venezuela e a herança chavista }} A Venezuela possui a maior reserva mundial de petróleo e situa-se entre os maiores produtores. Tudo o que acontece no país tem de ser compreendido à luz dessa realidade e de toda a importância que o petróleo ainda representa para o mundo atual. Inegavelmente, é com a figura do líder Hugo Chávez a partir dos anos 1990 que o país tornou-se tema constante nas relações internacionais. Seu estilo de fazer política reconfigurou o cenário regional latino-americano, especialmente o tom desafiador que teceu à potência estadunidense enquanto esteve à frente do poder. O polêmico presidente morto em 2013 roubou a cena no debate "direita-esquerda" na América Latina, com uma parte enaltecendo sua posição e outra criticando-o veementemente.

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Cuba Debate/Xinhua Press/Corbis/Latinstock

Hugo Chávez chegou à presidência da Venezuela em 1998. Uma vez eleito, convocou um referendo sobre eleições constituintes, que ocorreram em 1999, e redigiu-se uma nova Constituição. A nova carta impôs uma série de mudanças ao país, tais como o direito à reeleição presidencial, ampliação do mandato do presidente de quatro para seis anos, convocação de novas eleições e mudança do nome do país para República Bolivariana da Venezuela. Hugo Chávez seria ainda eleito mais três vezes: em 2000, 2006 e 2012. Verificava-se que o líder carismático contava com forte respaldo popular, embora sob uma ferrenha oposição de setores tradicionais, como a Fedecámaras (sindicato patronal do país) e a mídia local. No plano internacional, Hugo Chávez teve uma série de controvérsias com os Estados Unidos, particularmente Fidel Castro e Hugo Chávez conversam em Havana, 2011. durante os governos de George W. Bush, e estreitou os laços diplomáticos do país com Cuba, China, Rússia e Irã, numa clara demonstração de afastamento dos Estados Unidos. Entretanto, as celeumas políticas em nada afetaram as firmes relações comerciais entre Venezuela e a potência estadunidense, que seguiu sendo seu principal parceiro comercial e cliente na compra de petróleo. Para se ter uma ideia, as relações comerciais entre Brasil e Venezuela em 2013 giraram em torno de US$ 5 bilhões, enquanto a relação Venezuela-Estados Unidos, em US$ 56 bilhões. Quando se reelegeu pela última vez, em 2012, Hugo Chávez já estava se tratando de um câncer. Venceu as eleições, mas não assumiu, pois a doença se agravara. Foi transferido para Cuba, onde realizou seus tratamentos médicos, mas dessa vez não resistiu, falecendo em 2013. Foram marcadas novas eleições vencidas por seu vice, Nicolás Maduro. Começava uma nova era para a Venezuela: a do chavismo sem Chávez. Em 2016, a crise persistia no país com a possibilidade de um referendo revogatório que poderia interromper o mandato de Maduro.

Enfoque

ESCREVA NO CADERNO

Só o diálogo salva a Venezuela [...] O apoio ao chavismo, expresso em votos, saiu reduzido a menos da metade (na verdade, um terço ou menos) do total do eleitorado [eleições parlamentares em dezembro de 2015 na Venezuela]. As péssimas condições econômicas por que passa a Venezuela, com inevitável impacto social – às quais os erros de gestão e os exageros doutrinários do atual governo não são obviamente estranhos –, seguramente afetaram a base de sustentação do modelo (se é que se pode chamá-lo assim) que vinha prevalecendo até aqui. Mas as demandas por maior equidade e por autonomia política, que inspiraram o chavismo, continuarão a existir, ainda que de modo subjacente por algum tempo. O grande desafio que se coloca para o povo venezuelano e, especialmente, para os líderes das várias facções será encontrar formas de conciliar os anseios legítimos por democracia e liberdade com as aspirações por reformas sociais efetivas. Para isso, será necessário superar as animosidades que se criaram ao longo dos últimos anos e pelas quais os dois lados são responsáveis. Afinal, o fracassado golpe de 2002 não foi uma criação do imaginário chavista. [...] De nada adiantará [...] reviver conflitos ideológicos do passado, que tanto mal causaram à nossa região, responsáveis que foram por décadas de obscurantismo. Um acordo propiciado pelo diálogo deverá permitir o prosseguimento do embate democrático, sem demonizações, de ideias e programas sobre o futuro do grande país, a um tempo andino, amazônico e caribenho. AMORIM, Celso. Só o diálogo salva a Venezuela. Carta Capital, 16. jan. 2016. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/revista/884/so-o-dialogo-salva-a-venezuela>. Acesso em: 2 abr. 2016.

• Por que o autor afirma que “conciliar os anseios legítimos por democracia e liberdade com as aspirações por reformas sociais efetivas” se configura como desafio para o povo venezuelano e para os chefes das facções?

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3.2 Colômbia: guerrilhas e narcotráfico }} Jaime Saldarriaga/Reuters/Latinstock

Para entendermos o cenário colombiano precisamos considerar o envolvimento dos seguintes atores políticos: o governo, as guerrilhas, os paramilitares e o narcotráfico. O atrito entre eles mergulhou o país numa profunda e violenta instabilidade nas últimas décadas. A instabilidade colombiana remonta a um passado já distante, os anos 1930, quando os partidos Conservador (PC) e Liberal (PL) travavam ferrenha disputa se alternando no poder. Desde então, a Colômbia teve raros momentos estáveis. Assassinatos recíprocos de candidatos aos postos políticos mais importantes levaram o país a uma guerra civil. Essa crise adentrou as décadas de 1930, 1940 e 1950. Em 1958 foi assinado um acordo em que se estabeleceu uma alternância oligárquica no poder entre conservadores e liberais, compondo conjuntamente com uma junta militar. Ao contrário de outros países sul-americanos, como Argentina, Brasil e Uruguai, a Colômbia nunca teve uma tradição de partidos socialistas ou comunistas. Essa ausência de partidos populares acabou por produzir, paradoxalmente, o surgimento de bandoleiros locais e uma espécie de banditismo social, uma forma espontânea e anárquica de demonstrar a insatisfação do povo. Tal cenário agravava o já confuso quadro político. É nesse contexto caótico que surgem em 1964 as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), peça-chave nos acontecimentos políticos do país na segunda metade do século XX. Configurou-se como uma nova opção política, mas não pela via partidária e sim pela luta armada, por meio de uma guerrilha organizada nas áreas rurais. As Farc tinham uma bandeira política clara para a Colômbia: instaurar uma república marxista, nos moldes cubanos. Eram tempos de Guerra Fria e tal surgimento tem de ser analisado sob esse prisma. Nesse período aparecem outras duas facções da luta armada: o Exército de Libertação Nacional (ELN), de inspiração guevarista (de Che Guevara), e o Exército Popular de Libertação (ELP), de inspiração maoísta (de Mao Tsé-Tung). O cenário ficou ainda mais nebuloso quando, nos anos 1970, instalaram-se na Colômbia alguns dos mais importantes cartéis da droga, transformando o país no maior produtor mundial de cocaína. Beneficiando-se do tradicional cultivo da coca na região andina, seu refino tornou-se um negócio lucrativo para as quadrilhas internacionais, que focam no maior mercado consumidor de drogas do mundo: os Estados Unidos. Os cartéis das cidades de Cali e Medellín tornaram-se poderosos. A ONU estima em muitos bilhões de dólares os negócios movimentados pelo narcotráfico em todo o mundo, os chamados “narcodólares”. A Colômbia é presença marcante nesse cenário. O espectro geopolítico colombiano tornou-se cada vez mais confuso. Em determinado momento pairou sobre as guerrilhas a acusação de que, para conseguir fundos para patrocinar sua luta armada, elas passaram a vender serviço de proteção para que os traficantes pudessem escoar a produção de droga. Patrocinada por fazendeiros locais, surge uma alternativa armada para se contrapor às guerrilhas de esquerda: os paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), organização de extrema direita. Não são poucas as denúncias de que o próprio exército colombiano (e por vezes até membros do governo) contribuiu para o crescimento desse grupo, uma vez que o propósito era o mesmo: atacar as guerrilhas de esquerda. Uma espécie de “força paralela” para atuação conjunta, daí a expressão “paramilitares”. As relações entre a AUC e o narcotráfico, igualmente, são fortíssimas. Este é o imbróglio geopolítico colombiano, que resultou em um dos países mais violentos do mundo e com taxas altíssimas de homicídio. Os Estados Unidos, o maior centro receptor da droga produzida na Colômbia, envolveram diretamente no conflito em 2000, quando Andrés Pastrana e Bill Clinton, na época presidentes da Colômbia e dos Estados Unidos, respectivamente,

Guerrilheiros das Farc em treinamento nas montanhas de Jambalo, na província de Cauca, Colômbia, em 2012.

Navegar Memorial da América Latina <http://tub.im/nacefb> O portal do Memorial da América Latina disponibiliza as mais variadas informações culturais sobre essa região, com destaque especial para o acervo bibliográfico disponível on-line.

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selaram uma aliança de combate ao narcotráfico: o Plano Colômbia, estimado em US$ 5 bi70º O lhões de dólares. Não são poucos os analistas que denunciam ser mera fachada o interesse Cartagena dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico. Malambo A verdadeira razão seria a instalação de bases PANAMÁ próximas à estratégica região amazônica. VENEZUELA Notadamente, as Farc se enfraqueceram nos últimos anos. No auge de suas ações, COLÔMBIA chegaram a dominar 40% do território coPalanquero lombiano, conforme apresentado no mapa OCEANO BOGOTÁ ao lado, mas a organização parece ter sentido Málaga PACÍFICO duramente as transformações dos anos 1990 Apiay e a perda do paradigma ideológico da GuerToleimada ra Fria. Isolando-se na selva e partindo para Larandia atos questionáveis, como o sequestro de civis, Equador 0º foi perdendo apoio popular e no universo da BRASIL EQUADOR esquerda. Denúncias do envolvimento com o narcotráfico para arrecadar fundos também Bases estadunidenses tornaram-se constantes, embora a organizaÁrea de atuação das Farc ção as negue. As mortes dos principais líderes PERU 0 205 Capital do país da organização, como o fundador Pedro AnFonte: ALMANAQUE ABRIL 2015. São Paulo: Abril, 2015. p. 435. tonio Marin, o Tirofijo (2008), e Alfonso Cano (2011), igualmente contribuíram para o declínio, além de uma investida mais agressiva do governo colombiano apoiado pelos Estados Unidos. Em março de 2013, rodadas de negociações realizadas em Havana (Cuba) para um definitivo acordo de paz entre as Farc e o governo encontravam-se bastante avançadas. Até então, estas eram as conversações mais promissoras realizadas em décadas. Em janeiro de 2016, tais negociações ainda estavam em andamento. Em face disso, o Conselho de Segurança da ONU estabeleceu a formação de uma missão política na Colômbia para acompanhar o processo de desarmamento em caso de assinatura de acordo de paz entre as Farc e o governo colombiano.

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Colômbia: áreas ocupadas pelas Farc durante os anos 2000

4. América Platina O subconjunto regional da América Platina é constituído por Argentina, Uruguai e Paraguai. O traço comum desses três países é a bacia hidrográfica do rio da Prata (Platina). Sob esse aspecto, o Brasil também pode, parcialmente, ser considerado platino, pois boa parte de seu território está circunscrito a essa bacia hidrográfica. Contudo, devido às suas dimensões territoriais e, além de platino, ser igualmente amazônico e atlântico, o Brasil forma uma unidade à parte nessa subdivisão sul-americana. Argentina e Uruguai têm mais semelhanças culturais entre si, já o Paraguai possui um outro viés cultural, fortemente marcado pela presença indígena, com boa parte da população, inclusive, falando o guarani. Esses três países têm um passado recente igualmente marcado por regimes antidemocráticos; conviveram com ditaduras militares ao longo dos anos 1970-1980. Mas nos dias de hoje, sem dúvida, é o Paraguai que mais convive com ameaças à democracia. Argentina e Uruguai, em que pese problemas de ordem social, apresentam razoável estabilidade democrática. Já do vizinho platino não se pode dizer o mesmo. Em 2012, o Paraguai teve mais um sombrio capítulo em sua jovem e frágil democracia, quando o governo eleito de Fernando Lugo foi deposto. Ao vencer as eleições em 2008, Lugo pôs fim a uma hegemonia de sessenta anos do conservador Partido Colorado no poder. Ex-padre, com viés socialista e igualmente

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Esta é a escultura Mão, de Oscar Niemeyer (19072012), um dos mais respeitados arquitetos de todos os tempos. Fica exposta no saguão do Memorial da América Latina, em São Paulo. A cartografia artística em baixo-relevo utilizada por Niemeyer, representando a América Latina, traz no vermelho o sangue a escorrer de um passado de exploração colonial. A palma da mão estendida significa união, solidariedade e esperança aos povos latino-americanos, uma palma aberta para acolher os povos irmãos. Os seguintes dizeres de Niemeyer acompanham a escultura: “Suor, sangue e pobreza marcaram a história desta América Latina tão desarticulada e oprimida. Agora urge reajustá-la num monobloco intocável, capaz de fazê-la independente e feliz”.

ESCREVA NO CADERNO Douglas Cometti/Folhapress

A Geografia na... arte!

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ligado à Teologia da Libertação, Lugo realizava um goAmérica Platina: Argentina, Uruguai e Paraguai verno popular, porém em clima tenso. 60º O O Congresso paraguaio era de maioria oposicionista e GUIANA VENEZUELA FRANCESA dominado por latifundiários incomodados com a política (FRA) GUIANA COLÔMBIA SURINAME agrária do presidente, que apoiava o pequeno camponês Equador 0º e pressionava o latifúndio que caracteriza esse país platiEQUADOR no; o Paraguai apresenta uma das piores distribuições de BRASIL terras em todo o mundo, com 80% dos camponeses ocuPERU pando apenas 6% das terras, enquanto o agronegócio da OCEANO OCEANO BOLÍVIA ATLÂNTICO soja e o gado dominam a maior parte. Logo, o núcleo do PACÍFICO conflito assenta-se na questão da terra. Nos últimos anos, PARAGUAI Assunção o agronegócio esteve em crescimento no Paraguai e, à órnio apric C e CHILE ico d Tróp medida que a soja se expandia, os pequenos camponeses ARGENTINA URUGUAI eram expulsos de suas terras, engrossando o número de Montevidéu Buenos Aires miseráveis nas cidades. Lugo foi eleito em meio à tensão social exatamente para frear esse processo. Uma polêmica lei aprovada pelo ex-presidente, que proibia a venda de terras num raio inferior a 50 quilômetros da América Platina 0 980 fronteira paraguaia e as nacionalizava em nome da seguCapital do país rança e soberania do país, levou ao aumento da tensão e foi o mote para uma votação em prazo recorde, 24 horas, Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012, p. 41. instituir um impeachment a ele. O impeachment foi entendido por muitos como um golpe disfarçado, e assim, muitos líderes latino-americanos não reconheceram o novo governo de Frederico Franco. O Paraguai foi imediatamente suspenso do Mercosul, fato que levou à entrada da Venezuela, pois era exatamente o Congresso paraguaio que barrava a entrada do país andino no bloco. Com exceção da Colômbia, os demais países latino-americanos condenaram a destituição. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), atrelada à OEA, afirmou em documento: “É uma paródia da justiça e um atropelamento do Estado de direito remover um presidente em 24 horas sem garantias para se defender”. O Brasil viu-se em uma desconfortável situação, pois ao mesmo tempo que condenou o “golpe” e deu apoio a Lugo, a política de Estado brasileiro defendeu os “brasiguaios”, agricultores brasileiros no Paraguai que estavam envolvidos na questão e, contrários à política agrária de Lugo, reconheceram imediatamente o novo governo.

• Qual a sua interpretação da afirmação de Niemeyer? E da imagem? Você concorda com o que afirma o arquiteto? Existem na América Latina tentativas em rumar na contramão do que ele afirma ser “tão desarticulada e oprimida”? Mão, escultura de Oscar Niemeyer, São Paulo (SP), fotografia de 2012.

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ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando

1. A América Andina é formada por seis países – Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Chile e Bolívia. A América Latina envolve todos os países da América, com exceção de Canadá e Estados Unidos. Destaque uma característica geopolítica central da América Latina e descreva os principais aspectos que assemelham os países da América Central e da América Andina. 2. A Missão de Paz pelo Haiti, conhecida como Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), foi instituída em 2004. Qual o papel do Brasil na Missão de Paz no Haiti? 3. O clima de tensão que ronda a Colômbia decorre de longa data. Identifique as raízes dos distúrbios e como evoluiu o país a partir de então. 4. Como se encontra a Venezuela nos dias atuais, após a morte de Hugo Chávez? 5. A Teologia da Libertação é considerada uma vertente progressista da Igreja Católica. Busque no capítulo qual foi a participação dessa corrente nas tensões centro-americanas e porque ela foi importante.

Atividade em grupo Escolha, com o seu grupo, um país da América Central ou da América Andina e faça uma pesquisa considerando os tópicos a seguir. Depois, apresente os resultados aos demais colegas. 1. Conflitos atuais da política interna do país escolhido. 2. Histórico de guerras de que o país participou. 3. Posicionamento do país em algumas das principais resoluções da ONU, como a Guerra do Iraque, sanções a Cuba etc. 4. Histórico das relações políticas com os Estados Unidos. 5. Com base nesses dados, tente elaborar características centrais dos perfis geopolíticos do país indicado.

Olhar cartográfico De 1879 a 1893, ocorreu a Guerra do Pacífico, confronto armado entre Chile e Bolívia, envolvendo também o Peru. Os países disputavam o controle da exploração do deserto do Atacama, de onde se extraía o salitre usado como fertilizante. Embora o território fosse de posse boliviana, a exploração se iniciou com trabalhadores chilenos contratados por empresas inglesas. O porto de Antofagasta, que à época também era posse territorial da Bolívia, garantia aos bolivianos saída para o mar. • Compare os dois mapas e indique as alterações territoriais na Bolívia, no Chile e no Peru, destacando as consequências sofridas pela Bolívia nessa configuração territorial.

Bolívia (2015) 60º O

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Bolívia: antes de 1893

60º O

PERU

PERU

LA PAZ (cap. administrativa)

BRASIL BOLÍVIA

SUCRE

SUCRE (cap. legislativa)

OCEANO PACÍFICO

(cap. legislativa)

OCEANO PACÍFICO

PARAGUAI

rnio e Capricó Trópico d

de Trópico

PARAGUAI

Capricórn

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CHILE

ARGENTINA CHILE

BRASIL

BOLÍVIA

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Capital do país

Fonte: KINDER, Hermann; HILGEMANN, Werner. The Penguin Atlas of World History: From the French Revolution to the Present. London: Penguin Books Ltd., 2003. v. 2. p. 92.

ARGENTINA 0

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Capital do país

Fonte: GIRARDI, Gisele; ROSA, Jussara Vaz. Novo atlas geográfico do estudante. São Paulo: FTD, 2005. p. 87.

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De olho na mídia Leia o texto a seguir, que trata dos motivos da reaproximação dos Estados Unidos de Cuba, e responda às questões abaixo. 1. Quais são os motivos apontados para a reaproximação entre Estados Unidos e Cuba? 2. Você concorda com a perspectiva do autor do texto? Justifique sua resposta. Uma guinada imprevista Aconteceu nesta semana a mais profunda transformação em décadas nas relações entre os Estados Unidos e Cuba. Elas foram anunciadas simultaneamente pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro. Mas por que agora? Por que esta mudança histórica – numa política vigente há mais de meio século – não aconteceu há três anos, ou há cinco, ou por que não esperou outros cinco anos a mais? A resposta curta é que a mudança foi impulsionada por uma convergência surpreendente entre a biologia e a tecnologia. A primeira determinou o envelhecimento tanto dos irmãos Castro e de outros líderes da revolução como de seus opositores exilados na Flórida, além de alterar os equilíbrios políticos dentro do regime cubano e da própria política eleitoral norte-americana. A biologia também interveio com o câncer que causou a morte do presidente venezuelano Hugo Chávez. Seu desaparecimento contribuiu para aumentar o caos institucional que fez desse país petroleiro um benfeitor menos seguro para Cuba. O outro elemento, a tecnologia – especialmente as inovações na extração de petróleo e gás de xisto – permitiu que os Estados Unidos revolucionassem o mapa energético mundial, provocando uma queda no preço do petróleo e minando a capacidade venezuelana de sustentar um país em bancarrota. Cuba precisava de uma alternativa econômica e, surpreendentemente, acabou por encontrá-la em seu arqui-inimigo, os Estados Unidos. Isso diz muito sobre o prognóstico a respeito da Venezuela que os bem-informados cubanos fazem quando decidem abandonar seu generoso e incondicional país-títere para se abrir aos investimentos, ao comércio e ao turismo provenientes dos EUA. Os Estados Unidos instituíram em 1961 o embargo econômico a Cuba, numa resposta às expropriações de empresas e cidadãos norte-americanos. A pretensão de derrubar o regime de Fidel Castro se tornou explícita na Lei Helms-Burton, que endureceu o embargo ao submeter a ditadura a sanções internacionais. Não funcionou. A Lei Helms-Burton não só não alcançou seus objetivos como, além disso, reduziu as opções de política externa da Casa Branca. Tanto o Governo de Bill Clinton como o de Bush viram tolhida a sua capacidade de modificar uma lei elaborada mais em função de estreitos cálculos da política interna norte-americana do que de uma visão mais ampla dos interesses nacionais dos Estados Unidos no continente. A avançada idade dos irmãos Castro (Fidel tem 88 anos, e Raúl, 83) e o surgimento do debate sobre uma sucessão cada vez mais próxima contribuíram para modificar os cálculos do regime. O envelhecimento do exílio cubano nos Estados Unidos (cuja média etária é de 40 anos, comparados aos 27 anos do conjunto da população hispânica) também criou condições mais favoráveis para uma aproximação entre os Estados Unidos e Cuba. Na Flórida, essa mudança demográfica deu lugar a uma nova paisagem política. A geração de exilados cubanos que se opunha ferozmente a qualquer liberalização da política com relação a Cuba se viu substituída por um novo grupo populacional de eleitores cubano-americanos mais jovens e mais dispostos a explorarem novas opções na relação entre seu antigo país e seu país atual. A mudança de atitude é evidente, especialmente entre cubano-americanos de segunda e terceira geração, que chegaram depois de 1980 procurando mais uma oportunidade econômica do que um lugar onde se refugiar das perseguições políticas, como havia sido o caso de grande parte da onda imigratória anterior. Os mais jovens, que chegaram aos EUA há menos tempo, sabem que a arruinada economia cubana precisa desesperadamente de um reajuste. Poucos acreditam que Cuba irá se abrir tão cedo ao livre mercado, muito menos se transformar numa democracia. Mas o presidente Raúl Castro foi muito explícito em suas críticas ao sistema econômico atual, expressando sua preferência pelo “modelo chinês”, em que uma economia mais aberta coexiste com um sistema político fechado. O regime de Castro está há muito tempo adiando reformas que fortaleceriam a economia da ilha, mas que significariam admitir o fracasso da revolução. Adotar as mesmas políticas que passou tanto tempo denunciando continua sendo um passo grande demais para muitos membros da cúpula cubana, especialmente para Fidel. [...] NAÍM, Moisés. Uma guinada imprevista. El País, 21 dez. 2014. © Moisés Naím/Ediciones El País, sl 2014. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/20/internacional/1419110260_325676.html>. Acesso em: 8 jan. 2016.

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CAPÍTULO 13

Geopolítica do Brasil

Kiko Sierich/Futura Press

Pedro França/AFP/Glow Images

Soldados brasileiros patrulham o rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, 2014.

Ponte da Amizade, entre as cidades de Foz do Iguaçu, no Brasil, e Ciudad del Este, no Paraguai, em 2015.

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Tópicos do capítulo }}Amazônia: projetos de proteção }}Brasília e a integração regional }}Geopolítica na bacia Platina }}Relações Sul-Sul: Brics e Unasul

Ponto de partida

ESCREVA NO CADERNO

1. As fronteiras são importantes para a defesa da soberania de um país. Nas imagens são apresentadas três áreas fronteiriças brasileiras. Identifique as diferenças entre elas e explique por que devem ter atenção do Estado.

Chiba Yasuyoshi/AFP/Getty Images

2. Por que, do ponto de vista geopolítico, a Amazônia pode ser considerada estratégica para o Brasil?

Rodovia que interliga as cidades gêmeas Corumbá e Puerto Quijarro, na fronteira entre Brasil e Bolívia, 2013.

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Neste item pode ser discutido com os alunos a diferença entre limite territorial e fronteira. Os limites demarcam até onde vai a extensão de um território e onde começa o território vizinho; as fronteiras são áreas interiores que abarcam os limites e avançam para áreas internas próximas ao limite territorial. Pode-se afirmar que os limites são tidos como linhas e, como tal, não podem ser habitadas. Já as fronteiras, consideradas faixas, podem ser habitadas. A fronteira terrestre do Brasil adentra no território numa faixa de 150 km de largura, ao longo dos 15 719 km de linha divisória entre o Brasil e os países vizinhos. A definição da largura dessa faixa está relacionada com a política de defesa do território brasileiro.

1. Território e política no Brasil

Para muitos estudiosos do tema, é a assinatura do Tratado de Tordesilhas o marco inicial da geopolítica brasileira, uma vez que foi a partir da disputa Grupo Retis da Coroa portuguesa com a hispânica que se iniciou a formação territorial <http://tub.im/7d74cz> do Brasil. Na página do Grupo Retis, Desde a época em que o Brasil era colônia de Portugal, passando pelo vinculado ao departamento de Geografia da Universidade Federal período em que se tornou independente, primeiro com o Império e depois já do Rio de Janeiro, há informações como uma República, as disputas territoriais sempre estiveram na perspectiva sobre projetos de geopolítica, da elite política brasileira, em busca da ampliação do território. Isso envollimites e fronteiras na América do Sul e faixas de fronteira no ve estratégias desenvolvidas no campo da diplomacia e, assim, ao longo do território brasileiro. tempo foi elaborada uma verdadeira geopolítica brasileira. Nesse sentido, entre os que estiveram na vanguarda dessa perspectiva, pode-se destacar a importância do pensamento e das proposições de Alexandre de Gusmão, no período colonial, de José Bonifácio, no Brasil Imperial e, no Brasil República, de José Maria Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco. Esses homens são considerados os pioneiros da geopolítica brasileira, pois traçaram projetos territoriais que visavam à soberania e à integração territorial brasileira. Alexandre Gusmão teve atuação decisiva no Tratado de Madri de 1750, contornando as ESCREVA NO desavenças entre Portugal e Espanha, pelas imprecisas fronteiras da época, e CADERNO definindo grande parte dos atuais limites fronteiriços da porção ocidental do Interagindo Brasil. José Bonifácio foi o primeiro a propor a transferência da capital para o interior do Brasil, o que resultaria, em meados no século XX, na construção • Qual a importância da definição e defesa das fronteiras de Brasília. Barão do Rio Branco solucionou pela via diplomática os graves no processo de formação problemas de delimitação das fronteiras do território brasileiro, ainda penterritorial? dentes nos primeiros anos do século XX. É a partir da década de 1930, com os estudos que destacavam a Brasil: áreas fronteiriças projeção continental brasileira na 50º O VENEZUELA GUIANA GUIANA América do Sul, elaborados pelo FRANCESA (FRA) SURINAME acadêmico Everardo Backheuser e COLÔMBIA pelo militar Mário Travassos, que o RR AP Equador 0º pensamento geopolítico brasileiro começou a se apresentar de forma Letícia sistematizada. AM Tabatinga CE PA Benjamin Constant MA RN Na década seguinte, influenciaPB da pela Segunda Guerra Mundial, a PI PE AC atenção geoestratégica brasileira se AL RO TO voltava mais detidamente à proteção SE PERU BA mais eficiente de nossas fronteiras. MT Assim, o brigadeiro Lysias Rodrigues DF BOLÍVIA propunha reforçar a presença braGO sileira nas regiões fronteiriças. Para MG OCEANO MS isso, seria necessário focar em três ES OCEANO ATLÂNTICO ATLÂNTICO SP pontos geopolíticos fundamentais: a RJ PARAGUAI o região do Iguaçu, com destaque para i n r ó c i r PR de Cap Trópico a fronteira entre Brasil e Argentina; a CHILE SC ARGENTINA fronteira entre Brasil e Bolívia; e a RS fronteira em Letícia, nome da cidade Região do Iguaçu colombiana localizada na tríplice fronFronteira Brasil-Bolívia Tríplice fronteira URUGUAI 0 446 teira amazônica entre Brasil, Peru e Cidade Colômbia. Veja o mapa ao lado, que Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 90. mostra esses pontos estratégicos.

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Do ponto de vista militar, da década de 1950 até a de 1980, Golbery do Couto e Silva, reconhecido general do exército brasileiro, teve forte influência na geopolítica do Brasil. Seu pensamento é considerado bastante polêmico por muitos estudiosos, pois Golbery foi mentor do regime militar no país, tendo sido o principal articulador da geopolítica brasileira. Internamente, ele elaborou um amplo arcabouço teórico que cuidava das questões mais sensíveis, como a guarda das fronteiras e a Amazônia. Nesse sentido, também os trabalhos do general apontam para a busca da hegemonia no sul do continente americano. No âmbito global, Golbery não hesitou em tomar partido ao lado dos Estados Unidos no clima da Guerra Fria. Assim, as ideias do general, e que se sobressaíram no pensamento estratégico brasileiro, tiveram forte influência na política externa brasileira, que adotou uma postura de franco alinhamento com os Estados Unidos ao longo dos anos 1960 e 1970, naquilo que ficou conhecido como “aliado preferencial” na busca de uma liderança sul-americana.

O militar Golbery do Couto e Silva durante entrevista, em Brasília (DF), em 1979.

O Brasil na Guerra Fria Durante a primeira fase da Guerra Fria, o Brasil alinhou-se incondicionalmente com os Estados Unidos, assumindo uma clara postura anticomunista. No entanto, a partir da segunda metade dos anos 1970, passou a trilhar uma posição mais autônoma e neonacionalista em sua política externa e a recusar o alinhamento automático com a potência, em que pese o governo autoritário brasileiro da época seguir com uma ideologia francamente de direita e repressora dos movimentos de esquerda. Isso não significou, contudo, um afastamento dos Estados Unidos, mas sim um redirecionamento da política externa, saindo de uma postura de alinhamento automático vigente até então para um alinhamento bilateral com poder de barganha local e que atendia aos interesses brasileiros e estadunidenses na esfera regional. Essa política externa ficou conhecida como pragmatismo responsável e ganhou contornos mais nítidos a partir do governo Geisel (1974-1979). O Itamaraty seguia no plano internacional as prerrogativas geopolíticas formuladas pela Escola Superior de Guerra (ESG), a principal instância de elaboração estratégica do país. O grande ícone geopolítico dessa época eram as ideias do general Golbery do Couto e Silva. Nesse período, o Brasil avançou em direção à hegemonia latino-americana e ao Atlântico Sul, contando com o apoio velado dos Estados Unidos. Nesse contexto, os governos brasileiro e estadunidense davam amplo apoio à sucessão de golpes militares que ocorreram na América Latina. Regionalmente, o Brasil buscava neutralizar a influência da Argentina, atraindo para sua órbita geopolítica a Bolívia, o Paraguai e o Uruguai. Apesar de o regime militar ter se encerrado em 1985 com a posse de José Sarney, o pragmatismo responsável ditou o direcionamento da política externa brasileira até meados dos anos 1990. A política externa nacional atuava simultaneamente em três frentes: o multilateralismo global, o bilateralismo e o regionalismo latino-americano. Nessa década, o Brasil apresentou mudanças graduais em sua política externa, como: • a aproximação com os países do, à época, denominado Terceiro Mundo; • o distanciamento gradual em relação aos Estados Unidos e a aproximação com a Europa, particularmente a Alemanha; • o reconhecimento de potência média, abandonando o discurso anterior de Brasil Potência; • o estreitamento das relações com outras potências médias do mundo.

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2. As ações geopolíticas brasileiras Ler Geopolítica da Amazônia, de Bertha Becker. Revista Estudos Avançados, São Paulo, v. 19, n. 53, jan./abr. 2005. Nesse artigo, disponível no site <http://tub.im/ubwsk2>, são ressaltadas as mudanças estruturais que ocorrem na Amazônia, além do papel decisivo de novos atores, da sociedade civil organizada e da cooperação internacional.

Editora Garamond

Amazônia: geopolítica na virada do III milênio, de Bertha Becker. Rio de Janeiro: Garamond, 2004. Neste livro, a autora aponta os aspectos que reestruturaram as relações de ocupação, exploração e poder na Amazônia na entrada do novo milênio.

Pelo histórico de ocupação territorial do Brasil e por seu longo litoral, o país apresenta uma forte concentração demográfica em sua porção oriental e, consequentemente, baixa densidade demográfica na parte centro-ocidental, onde se acelera o processo de ocupação, seja por crescimento vegetativo seja por migração inter-regional. Nessas regiões mais afastadas do interior brasileiro, localizam-se as fronteiras com diversos países, o que influencia a elaboração da geopolítica interna nacional e as relações com os países limítrofes.

2.1 Geopolítica da Amazônia }} Atualmente a Amazônia é considerada uma das regiões mais importantes do mundo, tanto por sua importância ambiental quanto por sua relevância econômica. Afinal, trata-se da maior floresta tropical e onde, igualmente, se localiza a maior bacia hidrográfica do planeta. Além da grande quantidade de riquezas minerais em seu subsolo e de sua rica vegetação, sabe-se da crescente importância da floresta como fornecedora de matéria-prima para diversos tipos de indústrias, como a química e a farmacêutica. Como a Amazônia também se localiza em outros países, muitas políticas que dizem respeito a questões nacionais internas sobre a região são decididas em função do uso que se faz da floresta e de seus rios naqueles países. Vale lembrar que muitos rios que cortam essa região, inclusive o Amazonas, têm nascentes em territórios externos ao Brasil. Outra questão importante é no que se refere aos fluxos de transporte de pessoas e de mercadorias na região. Um aspecto geopolítico central é a imensa área de fronteira do Brasil que corta o território amazônico. Mesmo com o uso de satélites, é difícil o monitoramento dos fluxos de transporte de pessoas e de mercadorias na região. Por seus rios, trilhas e pistas de pouso passam diversas pessoas de diferentes nacionalidades e tipos de produtos de maneira clandestina, o que indica certa vulnerabilidade. A imensa riqueza amazônica leva a uma crescente cobiça internacional. A floresta é alvo das grandes potências e de empresas multinacionais que visam à sua exploração persistentemente, utilizando diferentes métodos, seja por meio da conquista de patentes de produtos cuja matéria-prima está na floresta, seja pela disseminação de um discurso que traz consigo elaboradas armadilhas geopolíticas, como o que difunde a necessidade da defesa da internacionalização da Amazônia, supostamente em nome da salvação do planeta. Segundo esse discurso, o detentor da maior parte da floresta não teria capacidade técnica, econômica, científica e política de protegê-la, daí a necessidade de internacionalizar seu controle e seus usos. Essa cobiça não é nenhuma novidade, pois ocorre desde o período colonial. Nos dias de hoje, faz-se necessária uma ação mais firme do governo brasileiro no combate à ação de garimpeiros e mineradoras clandestinas, narcotraficantes e grupos guerrilheiros de países vizinhos, traficantes de pedras preciosas, plantas e animais.

2.1.1 Programa Calha Norte (PCN) É nesse contexto de proteção à Amazônia que o Governo Federal brasileiro implantou, em 1985, o Projeto Calha Norte (PCN), atualmente chamado Programa Calha Norte. É um plano brasileiro territorial de defesa baseado na ocupação da faixa fronteiriça amazônica, junto à calha setentrional do rio Amazonas.

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A área de ocupação se estendia por uma faixa de 160 km de largura ao longo das fronteiras com Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela e Colômbia, o que representava uma área de 1,2 milhão de km2, ou seja, 25% da Amazônia Legal. Como a idealização e a concepção do PCN sempre estiveram a cargo dos militares, inicialmente ficou estabelecido que seriam instaladas 84 bases controladas pelo exército brasileiro ao longo dessa zona de fronteira. Segundo o Ministério da Defesa, até 2015 o Programa Calha Norte expandira sua área de atuação. Naquele ano, o PCN abrangia uma área correspondente a 32% do território brasileiro e abarcava 194 municípios de seis estados: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. Sua política englobava, até então, cerca de 8 milhões de habitantes, incluindo 30% da população indígena. Observe o mapa a seguir.

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Área de atuação do Programa Calha Norte (2015) 60° O

OCEANO ATLÂNTICO

RORAIMA AMAPÁ

AMAZONAS

Equador

PARÁ

ACRE

RONDÔNIA OCEANO PACÍFICO

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Fonte: MINISTÉRIO DA DEFESA. Disponível em:<http://www.defesa.gov.br/index.php/programas-sociais/programacalha-norte/8325-area-de-atuacao-do-programa-calha-norte>. Acesso em: 20 fev. 2016.

Os principais argumentos do governo brasileiro para justificar a instalação das bases envolvem estratégias de defesa e manutenção da soberania brasileira na guarda das fronteiras e a diminuição da vulnerabilidade de proteção da Amazônia. A princípio, o projeto era estritamente militar, mas recebeu diversas críticas de parcelas da população brasileira que temiam que as estratégias exclusivamente militares pudessem desconsiderar importantes questões culturais e socioambientais na região. Ao longo de sua implantação, o programa foi incorporando novas políticas e ampliou seus objetivos, considerando que, nesse processo de defesa por meio da estratégia da ocupação do território, é importante desenvolver políticas referentes às questões socioambientais, de sustentabilidade e de apoio às populações ribeirinha e indígena. Os objetivos centrais do PCN são: • aumentar a presença brasileira na região; • ampliar as relações bilaterais com os países vizinhos; • expandir a infraestrutura viária complementar ao transporte fluvial, o mais importante fator de integração regional; • fortalecer a ação dos órgãos governamentais na região, como o Incra e a Funai; • intensificar a demarcação e a fiscalização das fronteiras; • promover a assistência e a proteção às populações indígenas, ribeirinhas e à atividade extrativista.

Incra: Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, órgão oficial criado em 1970, que tem como principal função administrar a política agrária da União. Funai: Fundação Nacional do Índio, criada em 1967; órgão oficial responsável pela política indigenista do Brasil que promove a demarcação de terras e a preservação da cultura indígena.

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2.1.2 Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam)

Benedito Calixto. s.d. Óleo sobre tela. Museu Paulista da Universidade de São Paulo, São Paulo

Nos anos 1990, outro projeto de proteção amazônica surgiria, porém com destacado arrojo tecnológico. O Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam) conta com sensores e radares, uma complexa rede de coleta e de processamento de informações sobre a região. O Sivam foi criado com vistas a controlar o tráfego áereo, monitorar o meio ambiente e combater as ações criminosas na Amazônia por meio de uma rede de sensores remotos e radares, aeronaves e equipamentos de telecomunicação. A instalação e o monitoramento do sistema ficaram a cargo de uma empresa estadunidense, a Raytheon, o que levou o projeto a ser alvo de polêmica, pois alguns setores da sociedade afirmavam que estrangeiros teriam acesso privilegiado a dados sobre a região em nosso território. Entretanto, como os softwares que fazem o sistema funcionar trazem informações sigilosas, sua propriedade intelectual e os respectivos direitos patrimoniais estão a cargo do governo brasileiro: da Secretaria de Assuntos Estratégicos, dos Ministérios da Justiça e o de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Comando da Aeronáutica. Eles são responsáveis pelo controle das operações dos sensores e das informações contidas nos softwares. Nas últimas décadas, porém, diversas falhas do governo brasileiro no monitoramento ambiental da floresta, como mostra o imenso desmatamento atual, têm gerado críticas que contribuem para o discurso internacionalizante da Amazônia.

2.2 A construção de Brasília }} e a integração regional

Arquivo Público do Distrito Federal, Brasília

José Bonifácio de Andrade e Silva: defensor da ideia de levar a capital federal para o interior do Brasil.

Há bastante tempo, independentemente do regime de governo, a classe política brasileira considerou a real possibilidade da transferência da capital do país para o centro do território, numa área equidistante entre as três maiores bacias hidrográficas brasileiras – Amazônica, Platina e do São Francisco – e, também, das fronteiras do país. Em diferentes momentos do século XIX, desde o Império, esse assunto era discutido nas instâncias diplomáticas, mas ganhou grande força após a instauração da República. José Bonifácio defendia uma geopolítica dos transportes para o Brasil na busca de uma consistente e necessária integração regional. O nome Brasília foi sugerido por ele em 1823, quando também defendia que a nova capital deveria se localizar no Centro-Oeste do país. Essa visão reforçava a tese surgida em 1810 que defendia que a capital deveria manter maior distanciamento dos portos e, assim, ser mais protegida de eventuais ataques estrangeiros na costa brasileira. Localizando-se no Centro-Oeste, a grande distância até de fronteiras terrestres e marítimas propiciaria uma situação de defesa natural à capital e aos governantes do país. Contudo, foi apenas em meados do século XX, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek, que enfim se concretizou a ideia da transferência da capital brasileira para o planalto central e o consequente plano de interiorização territorial. Em 1956, Brasília começou a ser construída para, em 1960 ser, finalmente, a nova capital brasileira. Congresso Nacional em construção. Brasília (DF), 1957.

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Nelson Antoine/Fotoarena

A nova capital foi fator determinante na promoção da interiorização e da integração territorial na região Centro-Oeste, proporcionando grande impulso econômico e revolucionando o interior do Brasil. A abertura das estradas, a consequente expansão agrícola, a dinamização industrial, as migrações e os fluxos de negócios ampliaram a rede de integração entre o Centro-Oeste e as demais regiões. Após a construção de Brasília, inaugurou-se a rodovia Belém-Brasília (BR-153) que, cortando o território central brasileiro, permitiu a ampla ligação terrestre entre a Amazônia, o eixo político em Brasília e o eixo econômico do Sudeste. A partir desse momento, o acesso e a ocupação amazônica não mais cessariam. A construção de Brasília é um projeto geopolítico com dois alvos que se complementam: um de ordem política interna que, por certo tempo, blindou os governantes do país, pois a transferência do poder para uma área com baixíssima densidade demográfica, longe das massas e das pressões políticas populares, o oposto do que ocorria no Rio de Janeiro, facilitaria o exercício do poder e outro de ordem geoeconômica (pois proporcionou a integração regional do Centro-Oeste e a interiorização do território brasileiro).

A Geografia na... música!

Rodovia Belém-Brasília, em Aliança do Tocantins (TO), 2011. Ligando o Cerrado à Amazônia.

ESCREVA NO CADERNO

A banda brasileira Paralamas do Sucesso é de Brasília. O cantor e compositor Herbert Viana escreveu: Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei Uma cidade que fabrica sua própria lei Aonde se vive mais ou menos como na Disneylândia Se essa palhaçada fosse na Cinelândia Ia juntar muita gente pra pegar na saída PARALAMAS DO SUCESSO. Luís Inácio (300 picaretas). In: ______. Vamo batê lata. São Paulo: EMI, 1994.

1. Qual a mensagem subliminar sobre a localização de Brasília, quando o compositor escreve “Se essa palhaçada fosse na Cinelândia”? 2. Qual a lógica geopolítica que pode ser depreendida da transferência da capital federal do Rio de Janeiro para o Centro-Oeste? Quem foi o primeiro a cogitar tal possibilidade e quando ela se concretizou? 3. O que o compositor quis dizer com a frase: "A cidade fabrica sua própria lei"?

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O Brasil conta com o maior litoral do oceano Atlântico e tem em seu território grande parte da maior floresta tropical do planeta. Além disso, seu eixo econômico e político está majoritariamente situado na bacia Platina, o que lhe confere uma posição geoestratégica especial no cenário geopolítico sul-americano. Isso praticamente o leva a assumir uma posição de liderança hemisférica no Atlântico Sul. No entanto, a pretensão de hegemonia brasileira esbarrou, historicamente, na Argentina, vizinho platino cuja rivalidade circunscreve-se predominantemente junto à bacia Platina, onde a balança de poder pendeu favoravelmente ora para um, ora para outro país. Contudo, verifica-se que, a partir dos anos 1970, ela vem pendendo favoravelmente para o Brasil. Mesmo com a integração econômica proporcionada pelo Mercosul, Brasil e Argentina mantêm forte rivalidade regional. Durante o período denominado Geopolítica do Prata “milagre econômico”, em que o Brasil 60º O apresentou forte crescimento econôGUIANA mico (final dos anos 1960 e início da FRANCESA VENEZUELA (FRA) década de 1970), o país alardeava o GUIANA COLÔMBIA status de Brasil Potência. De fato, o SURINAME Equador país implementou políticas regionais 0º EQUADOR que infeririam em algumas nações vizinhas. Termos como subimperialismo brasileiro surgiram no cenário da PERU BRASIL política nacional e sul-americana. Brasília Na disputa que se verificou entre os OCEANO BOLÍVIA OCEANO Santa Cruz dois maiores países sul-americanos na PACÍFICO ATLÂNTICO de la Sierra segunda metade do século XX, o Brasil PARAGUAI ná introduziu duas obras de grande enSantos Assunção órnio apric R Usina hidrelétrica vergadura geopolítica e geoeconômica CHILE C e de Itaipu ico d Tróp que o colocaram na dianteira, atraindo ARGENTINA URUGUAI Bolívia e Paraguai para sua órbita de inBuenos Aires R i Montevidéu od fluência: a estrada de ferro Brasil-Bolívia, a Prata Países inseridos na oferecendo uma saída para o mar à Bobacia hidrográfica do rio da Prata lívia, e a binacional usina hidrelétrica de Limites do Brasil Itaipu. O Brasil satelitizava, assim, os dois Estrada de Ferro Brasil-Bolívia modestos países. io

Pa ra

Allmaps

2.3 Geopolítica platina }}

Usina

Capital do país

0

770

Cidade

Bolívia e Paraguai apresentam problemas naturais de saída para o mar, enquanto o Uruguai configura-se como Estado-tampão entre Brasil e Argentina.

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 41.

3. As relações Sul-Sul O Brasil é signatário da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZPCAS), criada em 1986 e composta de 24 países banhados pelo Atlântico Sul na América e na África. Como visto no Capítulo 11, o Brasil busca, assim, estreitar os laços com países africanos, possibilitando a criação de uma zona de livre comércio numa região em que o país tenciona exercer liderança regional. O Brasil possui vínculos históricos, culturais, geográficos e linguísticos com diversos países africanos. Além da África do Sul, também tem dispensado maior atenção àqueles que falam a língua portuguesa. Dentre esses, Angola se destaca não só pelo vínculo linguístico, mas por suas imensas riquezas minerais, como diamante e petróleo. Em troca, empresas brasileiras trabalham na reconstrução de infraestruturas desse país, que passou longos anos imerso

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Allmaps

Países de língua portuguesa na América do Sul e na África 0º

Trópico de Câncer

CABO VERDE GUINÉ-BISSAU Equador

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

OCEANO PACÍFICO

BRASIL

OCEANO ÍNDICO

África parceria do Brasil Atlântico: relações internacionais do Brasil e da África no início do século XXI, de José Flávio Sombra Saraiva. Brasília: Fino Traço, 2012. O livro explica as novas relações diplomáticas, comerciais, culturais e sociais do Brasil com a África.

ANGOLA MOÇAMBIQUE

Meridiano de Greenwich

Trópico de Capricórnio

OCEANO ATLÂNTICO

0

Ler

Fino Traço Editora

numa sangrenta guerra civil. Contudo, nitidamente, o Brasil tem perdido espaço para os chineses em Angola.

1 490

Países de Língua Portuguesa

Fonte: CIN-UFPE. Disponível em: <http://www.cin.ufpe.br/~rac2/portugues/mundo.html>. Acesso em: 11 jan. 2016.

A cada ano vem ganhando força a visão de defensores de uma relação Sul­‑Sul, que é uma nova perspectiva geopolítica e geoeconômica para as próximas décadas. É nesse contexto que se pode entender a formação do Ibas, grupo formado em 2003 por Índia, Brasil e África do Sul. A criação do grupo faz parte da política externa brasileira de incrementar a relação entre países em desenvolvimento. Veja o mapa a seguir. Outra região de interesse estratégico no hemisfério sul é a Antártida, onde o Brasil e mais 28 países possuem bases científicas. Em 1984, foi construída a Estação Antártica Comandante Ferraz, base brasileira que abriga pesquisadores. Em 2013, foi ampliada após um incêndio que destruiu parte da instalação.

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Ibas OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Círculo Polar Ártico

OCEANO PACÍFICO

OCEANO ATLÂNTICO

Trópico de Câncer

ÍNDIA

OCEANO PACÍFICO Equador

Trópico de Capricórnio

0

2 860

Círculo Polar Antártico

Meridiano de Greenwich

BRASIL

OCEANO ÍNDICO ÁFRICA DO SUL

Ibas

OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO

Fonte: BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Brasília. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/index.php?option=com_content&view =article&id=3673:forum-de-dialogo-india-brasil-e-africa-do-sul-ibas&catid=170:chamada-1&lang=pt-BR&Itemid=436>.  Acesso em: 11 jan. 2016

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3.1 O Brics }} Desde que o economista Jim O’Neill criou o termo Brics para se referir às economias de Brasil, Rússia, Índia, China e, posteriormente, África do Sul, a expressão vem sendo adotada constantemente e é notável a importância que assumiu nos últimos anos. Alguns estudiosos entendem que o Brics é muito importante e o consideram, mesmo com a crise econômica que se abatera sobre Brasil e Rússia e da desaceleração de crescimento econômico da China em meados da segunda década do século XXI, o primeiro redirecionamento do eixo econômico mundial estabelecido desde a Conferência de Bretton Woods, em 1944, e que trouxe uma nova ordem monetária ao sistema internacional. Em outras palavras, o Brics seria uma alternativa e até mesmo um desafio à hegemonia do poder mundial estabelecida pela conexão Estados Unidos, Europa, Japão a partir da segunda metade do século XX. Para o Brasil, a alternativa Brics insere-se no aprofundamento das relações Sul-Sul. Em julho de 2014 foi dado um importante passo durante a sexta reunião de Cúpula, realizada na cidade de Fortaleza, com a proposta da criação de um fundo monetário, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), comum aos cinco países e com uma reserva inicial de US$ 100 bilhões. A contribuição inicial de cada país seria: Brasil, US$ 18 bilhões; Rússia, US$ 18 bilhões; Índia, US$ 18 bilhões; África do Sul, US$ 5 bilhões; China, US$ 41 bilhões. O texto a seguir traz importantes informações da visão do governo brasileiro sobre o estreitamento com o Brics.

Enfoque Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul O que faz o Brics? Desde a sua criação, o Brics tem expandido suas atividades em duas principais vertentes: (i) a coordenação em reuniões e organismos internacionais; e (ii) a construção de uma agenda de cooperação multissetorial entre seus membros. Com relação à coordenação do Brics em foros e organismos internacionais, o mecanismo privilegia a esfera da governança econômico-financeira e também a governança política. Na primeira, a agenda do Brics confere prioridade à coordenação no âmbito do G-20, incluindo a reforma do FMI. Na vertente política, o Brics defende a reforma das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança, de forma a melhorar a sua representatividade, em prol da democratização da governança internacional. Em paralelo, o Brics aprofunda seu diálogo sobre as principais questões da agenda internacional. Cinco anos após a primeira Cúpula, em 2009, as atividades intra-Brics já abrangem cerca de 30 áreas, como agricultura, ciência e tecnologia, cultura, espaço exterior, think tanks, governança e segurança da internet, previdência social, propriedade intelectual, saúde, turismo, entre outras. Entre as vertentes mais promissoras do Brics, destaca-se a área econômico­ ‑financeira, tendo sido assinados dois instrumentos de especial relevo na VI Cúpula do Brics (Fortaleza, julho de 2014): os acordos constitutivos do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) – voltado para o financiamento de projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em economias emergentes e países em desenvolvimento –, e do Arranjo Contingente de Reservas (ACR) – destinado a prover apoio mútuo aos membros do Brics em cenários de flutuações no balanço de pagamentos. O capital inicial subscrito do NBD foi de US$ 50 bilhões e seu capital autorizado, US$ 100 bilhões. Os recursos alocados para o ACR, por sua vez, totalizarão US$ 100 bilhões. A coordenação política entre os membros do Brics se faz e continuará a ser feita sem elementos de confrontação com demais países. O Brics está aberto à cooperação e ao engajamento construtivo com terceiros países, assim como com organizações internacionais e regionais, no tratamento de temas da atualidade internacional.

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3.2 Unasul }} Joedson Alves/AFP

Em maio de 2008, foi criada a União das Nações Sul-americanas (Unasul) com o objetivo de promover uma política regional de segurança e defesa visando o fortalecimento da democracia nos países que compõem a América do Sul. Sua criação tem importante significado geopolítico para a região, já que a segurança era um tema tratado no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), entidade com bastante influência política dos Estados Unidos. A criação da Unasul pode ser, portanto, um passo de autonomia regional dos países sul-americanos. A primeira ação da Unasul ocorreu no mesmo ano de sua criação ao atuar na crise separatista de Pando, na Bolívia. Em 2010, agiu na crise entre Colômbia e Venezuela. Em 2012, o Paraguai foi suspenso da Unasul devido à deposição do então presidente Fernando Lugo. A suspensão foi mantida até a organização considerar que fora restabelecida a ordem em território paraguaio, o que ocorreu em 2013, com as eleições democráticas no país. Além de questões relacionadas à segurança e à defesa, a Unasul também discute temas regionais sobre ciência, tecnologia e inovação, cultura, desenvolvimento social, economia e finanças, educação, eleições, infraestrutura, problemas relacionados ao tráfico e consumo de drogas, saúde e segurança cidadã e coordenação de ações contra o crime organizado internacional.

Cúpula de chefes de Estados para a criação da Unasul, em Brasília (DF), 2008.

ESCREVA NO CADERNO

Histórico do Brics A coordenação entre Brasil, Rússia, Índia e China (Bric) iniciou-se de maneira informal em 2006, com reunião de trabalho à margem da abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Em 2007, o Brasil assumiu a organização do encontro à margem da Assembleia Geral e, nessa ocasião, verificou-se que o interesse em aprofundar o diálogo merecia a organização de reunião específica de chanceleres do então Bric (ainda sem a África do Sul). A primeira reunião formal de chanceleres do Bric foi realizada em 18 de maio de 2008, em Ecaterimburgo, na Rússia. Desde então, o acrônimo, criado alguns anos antes pelo mercado financeiro, não mais se limitou a identificar quatro economias emergentes, passando o Bric a constituir uma nova entidade político­‑diplomática. Desde 2009, os Chefes de Estado e de Governo do Brics se encontram anualmente. Nos últimos seis anos, ocorreram seis reuniões de Cúpula, com a presença de todos os líderes do mecanismo: ••I Cúpula: Ecaterimburgo, Rússia, junho de 2009; ••II Cúpula: Brasília, Brasil, abril de 2010; ••III Cúpula: Sanya, China, abril de 2011; ••IV Cúpula: Nova Délhi, Índia, março de 2012; ••V Cúpula: Durban, África do Sul, março de 2013; ••VI Cúpula: Fortaleza, Brasil, julho de 2014. ••[...] BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id= 3672&catid=159&Itemid=436&lang=pt-BR>. Acesso em: 18 jan. 2016.

• Em sua opinião, o Brasil deve estreitar ainda mais seus laços com o Brics ou deve assegurar seu tradicional alinhamento aos Estados Unidos e Europa? É possível compor as duas opções ou você entende que elas são contrastantes e excludentes?

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ESCREVA NO CADERNO

ROTEIRO DE ESTUDO Revisando

5. A Argentina já foi a maior economia sul-americana, mas na metade do século XX perdeu essa posição para o Brasil. Quais episódios de distúrbios geopolíticos envolveram as duas nações ao longo do século XX? Como a construção de Itaipu se enquadra nesse contexto?

1. Qual a importância do pensamento de Golbery do Couto e Silva na geopolítica brasileira? Qual foi seu posicionamento durante a Guerra Fria e como influenciou a posição brasileira? 2. O avanço tecnológico e o monitoramento via satélite alteram a forma de fiscalização das fronteiras brasileiras. Nesse sentido, qual a importância do Programa Calha Norte e do Sivam para o monitoramento das fronteiras no Norte do país?

6. O que significa afirmar que o Brasil exerce uma política externa multilateralista? Dê exemplos de ações multilateralistas e bilateralistas na política externa brasileira.

3. Pode-se considerar que a implantação das faixas de fronteira, o Programa Calha Norte e o Sivam são projetos de ocupação do território brasileiro. O que você acha dessa afirmação? Justifique sua resposta.

7. A cada ano vem ganhando força a visão de defensores brasileiros de uma relação Sul-Sul. Quais são as principais estratégias da política de integração Sul-Sul desenvolvidas pelo governo brasileiro?

4. O que significou, do ponto de vista geopolítico, a transferência da capital brasileira para Brasília na metade do século XX? Qual era a antiga capital?

8. A Antártida é uma região de crescente interesse estratégico para o Brasil. Por quê? Fale sobre a presença brasileira na Antártida.

Olhar cartográfico Analise o mapa abaixo e, a seguir, explique por que a criação de Brasília serviu como política de integração territorial.

Allmaps

Brasil: rodovias (2014) 50° O

ER

IM

BR-174

Equador

Oiapoque

BR

E T RA L NORT E

-21 0

BR-1 56

0 21

P

Macapá

0º Belém São Luís

BR-316

Altamira

Fortaleza

-3 19

Manaus

BR

Teresina BR-

2

Natal

36 4

BR

BRASÍLIA

BR-251

40

53

-0 BR

BR-1

Goiânia

Belo Horizonte

Campo Grande

Vitória

-38

1

BR-262

1

-10

11

6

BR

BR -

Rodovia pavimentada

Capital do estado Cidade

São Paulo

Rio de Janeiro

Trópico d e

Capricór nio

Curitiba

Florianópolis

BR-1 BR-2 90

BR -11 6

Capital do país

16

Rodovia sem pavimentação

-153

BR-101

BR

BR-277

Código federal de rodovia

OCEANO ATLÂNTICO

BR

OCEANO PACÍFICO

B

Salvador

-1 1 6

BR -

Maceió

-

BR-1 5

Cuiabá BR-070 BR-163

70

0 02

BR

BR-0

R-

101

3

64

BR-1 60

4 36

BR-242

Recife

Aracaju

1 01

Palmas

BR-3

B

BR-116

Porto Velho

BR -

BR-116

João Pessoa

BR-230

R-

4

Rio Branco

A IC ÔN AZ AM

BR-1 53

BR-3 6

NS BR- 2 3 0 TR A R O D O VI A

30

BR-163

Lábrea

Marabá

BR-101

B R-

174 BR-

Boa Vista

Porto Alegre

0

445

Fonte: BRASIL. Ministério dos Transportes. Disponível em: <http://www2.transportes.gov. br/bit/01-inicial/07-download/ concessoes2013.pdf>. Acesso em: 11 jan. 2016.

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Atividade em grupo Reúna-se com seu grupo e: 1. Pesquisem na internet, em livros, jornais e revistas declarações de importantes líderes mundiais que destacam o relevante papel do Brasil hoje nos principais fóruns internacionais. 2. Pesquisem na internet, em livros, jornais e revistas eventos que minimizam a importância do Brasil no cenário internacional. 3. Apresentem sua pesquisa aos demais grupos e contextualizem as situações em que as declarações aconteceram. 4. Debatam com os demais grupos as diferentes concepções e, ao final, os principais pontos dos dois posicionamentos.

De olho na mídia Na crise europeia que assolou o continente em 2010 e 2011, o Brasil foi convidado por líderes europeus a emprestar dinheiro a um fundo destinado a socorrer economias do velho continente. Leia o texto e discuta com seus colegas em que medida aumentar o poder de voto no FMI pode ser importante para os países emergentes. O FMI (Fundo Monetário Internacional) disse [...] que seu conselho aprovou reformas que irão transferir um poder de voto maior a países emergentes. “Isso resultará em uma transferência de mais de 6% das parcelas de voto para países emergentes dinâmicos e em desenvolvimento, e mais 6% de países representados demais para os menos representados”, disse o FMI em comunicado. Ter poder de voto no credor mundial é importante porque dá aos países a chance de influenciar decisões sobre como usar o capital do fundo, composto de contribuições de seus membros. O FMI afirmou que os 10 membros com a maior parcela de voto no futuro serão Estados Unidos, Japão e as economias emergentes China, Brasil, Índia e Rússia, assim como França, Alemanha, Itália e Reino Unido. Ao dar mais poder de voto a nações emergentes, “essa reforma resultará em um Fundo que reflete melhor as realidades”, disse o FMI. As economias emergentes já vinham ganhando mais espaço no FMI ao longo dos últimos cinco anos, mas essa transferência de poder de voto significa uma ampla reforma na ordem econômica global estabelecida quando o FMI foi criado, após a Segunda Guerra Mundial. De acordo com o FMI, as mudanças fortalecerão a “legitimidade e a efetividade” da instituição. […] FMI APROVA maior poder de voto para países emergentes, inclusive Brasil. Folha de S.Paulo/Reuters,18 dez. 2010. Disponível em: <http://www1.folha.uol. com.br/mercado/847182-fmi-aprova-maior-poder-de-voto-para-paises-emergentes-inclusive-brasil.shtml>. Acesso em: 11 jan. 2016.

Joker/Hartwig Lohmeyer/Ullstein Bild/Getty Images

FMI aprova maior poder de voto para países emergentes, inclusive Brasil

Bandeiras de todos os membros do Fundo Monetário Internacional (FMI) em prédio do Grupo Banco Mundial em Washington, Estados Unidos, em 2008.

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ESCREVA NO CADERNO

EXERCÍCIOS ENEM

1. No mundo árabe, países governados há décadas por regimes políticos centralizadores contabilizam metade da população com menos de 30 anos; desses, 56% têm acesso à internet. Sentindo-se sem perspectivas de futuro e diante da estagnação da economia, esses jovens incubam vírus sedentos por modernidade e democracia. Em meados de dezembro, um tunisiano de 26 anos, vendedor de frutas, põe fogo no próprio corpo em protesto por trabalho, justiça e liberdade. Uma série de manifestações eclode na Tunísia e, como uma epidemia, o vírus libertário começa a se espalhar pelos países vizinhos, derrubando em seguida o presidente do Egito, Hosni Mubarak. Sites e redes sociais – como o Facebook e o Twitter – ajudaram a mobilizar manifestantes do norte da África a ilhas do Golfo Pérsico. SEQUEIRA, C. D.; VILLAMÉA, L. A epidemia da Liberdade. Istoé Internacional. 2 mar. 2011 (adaptado).

Considerando os movimentos políticos mencionados no texto, o acesso à internet permitiu aos jovens árabes a) reforçar a atuação dos regimes políticos existentes. b) tomar conhecimento dos fatos sem se envolver. c) manter o distanciamento necessário à sua segurança. d) disseminar vírus capazes de destruir programas dos computadores. e) difundir ideias revolucionárias que mobilizaram a população. H9

Comparar o significado histórico-geográfico das organizações políticas e socioeconômicas em escala local, regional ou mundial.

2. Os chineses não atrelam nenhuma condição para efetuar investimentos nos países africanos. Outro ponto interessante é a venda e compra de grandes somas de áreas, posteriormente cercadas. Por se tratar de países instáveis e com governos ainda não consolidados, teme-se que algumas nações da África tornem-se literalmente protetorados. BRANCOLI, F. China e os novos investimentos na África: neocolonialismo ou mudanças na arquitetura global? Disponível em: <http://opiniaoenoticia.com.br>. Acesso em: 29 abr. 2010 (adaptado).

A presença econômica da China em vastas áreas do globo é uma realidade do século XXI. A partir do texto, como é possível caracterizar a relação econômica da China com o continente africano? a) Pela presença de órgãos econômicos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, que restringem os investimentos chineses, uma vez que estes não se preocupam com a preservação do meio ambiente. b) Pela ação de ONGs (Organizações Não Governamentais) que limitam os investimentos estatais chineses, uma vez que estes se mostram desinteressados em relação aos problemas sociais africanos. c) Pela aliança com os capitais e investimentos diretos realizados pelos países ocidentais, promovendo o crescimento econômico de algumas regiões desse continente. d) Pela presença cada vez maior de investimentos diretos, o que pode representar uma ameaça à soberania dos países africanos ou manipulação das ações destes governos em favor dos grandes projetos. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado anualmente, é pautado em um conjunto de competências e habilidades. A prova de Ciências Humanas e suas tecnologias, na qual se insere a Geografia, é baseada em um programa de 31 tópicos, circunscritos em cinco eixos do qual se extraem as competências e habilidades. Cada exercício do Enem, contido nesta obra, vem acompanhado da respectiva habilidade (H). Muitas vezes, um exercício circunscreve-se em mais de uma; nesse caso, indicamos a principal. O quadro completo das competências e habilidades está nas páginas 287 e 288.

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e) Pela presença de um número cada vez maior de diplomatas, o que pode levar à formação de um Mercado Comum Sino-Africano, ameaçando os interesses ocidentais. H7

Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.

3. Em 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou um plano de partilha da Palestina que previa a criação de dois Estados: um judeu e outro palestino. A recusa árabe em aceitar a decisão conduziu ao primeiro conflito entre Israel e países árabes. A segunda guerra (Suez, 1956) decorreu da decisão egípcia de nacionalizar o canal, ato que atingia interesses anglofranceses e israelenses. Vitorioso, Israel passou a controlar a Península do Sinai. O terceiro conflito árabe-israelense (1967) ficou conhecido como Guerra dos Seis Dias, tal a rapidez da vitória de Israel. Em 6 de outubro de 1973, quando os judeus comemoravam o Yom Kippur (Dia do Perdão), forças egípcias e sírias atacaram de surpresa Israel, que revidou de forma arrasadora. A intervenção americano-soviética impôs o cessar-fogo, concluído em 22 de outubro. A partir do texto acima, assinale a opção correta. a) A primeira guerra árabe-israelense foi determinada pela ação bélica de tradicionais potências europeias no Oriente Médio. b) Na segunda metade dos anos 1960, quando explodiu a terceira guerra árabe-israelense, Israel obteve rápida vitória. c) A guerra do Yom Kippur ocorreu no momento em que, a partir de decisão da ONU, foi oficialmente instalado o Estado de Israel. d) A ação dos governos de Washington e de Moscou foi decisiva para o cessar-fogo que pôs fim ao primeiro conflito árabe-israelense. e) Apesar das sucessivas vitórias militares, Israel mantém suas dimensões territoriais tal como estabelecido pela resolução de 1947 aprovada pela ONU. H7

Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.

4. A América Latina dos últimos anos insere-se num processo de democratização, oferecendo algumas oportunidades de crescimento econômico-social num contexto de liberdade e dependência econômica internacional. Cuba continua caracterizada por uma organização própria com restrições à liberdade econômica e política, crescimento em alguns aspectos sociais e um embargo econômico americano datado de 1962. Em 1998, o Papa João Paulo II visitou Cuba e depois disse ao cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana, e a 13 bispos em visita ao Vaticano que apreciou as mudanças realizadas em Cuba após sua visita à ilha e espera que sejam criados novos espaços legais e sociais, para que a sociedade civil de Cuba possa crescer em autonomia e participação. A resposta internacional ao intercâmbio com Cuba foi boa, mas as autoridades locais mostraram pouco entusiasmo, não estando dispostas a abandonar o sistema socialista monopartidário. A maioria dos países latino-americanos tem se envolvido, nos últimos anos, em processos de formação socioeconômicos caracterizados por: a) um processo de democratização à semelhança de Cuba. b) restrições legais generalizadas à ação da Igreja no continente. c) um processo de desenvolvimento econômico com restrições generalizadas à liberdade política. d) excelentes níveis de crescimento econômico. e) democratização e oferecimento de algumas oportunidades de crescimento econômico. H8

Analisar a ação dos Estados Nacionais no que se refere à dinâmica dos fluxos populacionais e no enfrentamento de problemas de ordem econômico-social.

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ESCREVA NO CADERNO

EXERCÍCIOS

5. Com a perspectiva do desaparecimento das geleiras no Polo Norte, grandes reservas de petróleo e minérios, hoje inacessíveis, poderão ser exploradas. E já atiçam a cobiça das potências. KOPP, D. Guerra Fria sobre o Ártico. Le monde diplomatique Brasil. Setembro, n. 2, 2007 (adaptado).

No cenário de que trata o texto, a exploração de jazidas de petróleo, bem como de minérios – diamante, ouro, prata, cobre, chumbo, zinco – torna-se atraente não só em função de seu formidável potencial, mas também por a) situar-se em uma zona geopolítica mais estável que o Oriente Médio. b) possibilitar o povoamento de uma região pouco habitada, além de promover seu desenvolvimento econômico. c) garantir, aos países em desenvolvimento, acesso a matérias-primas e energia, necessárias ao crescimento econômico. d) contribuir para a redução da poluição em áreas ambientalmente já degradadas devido ao grande volume da produção industrial, como ocorreu na Europa. e) promover a participação dos combustíveis fósseis na matriz energética mundial, dominada, majoritariamente, pelas fontes renováveis, de maior custo. H7

Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.

6. A singularidade da questão da terra na África colonial é a expropriação por parte do colonizador e as desigualdades raciais no acesso à terra. Após a independência, as populações de colonos brancos tenderam a diminuir, apesar de a proporção de terra em posse da minoria branca não ter diminuído proporcionalmente. MOYO, S. A terra africana e as questões agrárias: o caso das lutas pela terra no Zimbábue. In: FERNANDES, B. M.; MARQUES, M. I. M.; SUZUKI, J. C. (Orgs.). Geografia agrária: teoria e poder. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

Com base no texto, uma característica socioespacial e um consequente desdobramento que marcou o processo de ocupação do espaço rural na África subsaariana foram: a) Exploração do campesinato pela elite proprietária – Domínio das instituições fundiárias pelo poder público. b) Adoção de práticas discriminatórias de acesso à terra – Controle do uso especulativo da propriedade fundiária. c) Desorganização da economia rural de subsistência – Crescimento do consumo interno de alimentos pelas famílias camponesas. d) Crescimento dos assentamentos rurais com mão de obra familiar – Avanço crescente das áreas rurais sobre as regiões urbanas. e) Concentração das áreas cultiváveis no setor agroexportador – Aumento da ocupação da população pobre em territórios agrícolas marginais. H9

Comparar o significado histórico-geográfico das organizações políticas e socioeconômicas em escala local, regional ou mundial.

7. Voz do sangue Palpitam-me os sons do batuque e os ritmos melancólicos do blue. Ó negro esfarrapado do Harlem ó dançarino de Chicago ó negro servidor do South

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Ó negro da África negros de todo o mundo Eu junto Ao vosso magnífico canto a minha pobre voz os meus humildes ritmos. Eu vos acompanho pelas emaranhadas áfricas do nosso Rumo. Eu vos sinto negros de todo o mundo eu vivo a nossa história meus irmãos. Disponível em: <www.agostinhoneto.org>. Acesso em: 30 jun. 2015.

Nesse poema, o líder angolano Agostinho Neto, na década de 1940, evoca o pan-africanismo com o objetivo de: a) incitar a luta por políticas de ações afirmativas na América e na África. b) reconhecer as desigualdades sociais entre os negros de Angola e dos Estados Unidos. c) descrever o quadro de pobreza após os processos de independência no continente africano. d) solicitar o engajamento dos negros estadunidenses na luta armada pela independência em Angola. e) conclamar as populações negras de diferentes países a apoiar as lutas por igualdade e independência. H7

Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.

8. O principal articulador do atual modelo econômico chinês argumenta que o mercado é só um instrumento econômico, que se emprega de forma indistinta tanto no capitalismo como no socialismo. Porém os próprios chineses já estão sentindo, na sua sociedade, o seu real significado: o mercado não é algo neutro, ou um instrumental técnico que possibilita à sociedade utilizá-lo para a construção e edificação do socialismo. Ele é, ao contrário do que diz o articulador, um instrumento do capitalismo e é inerente à sua estrutura como modo de produção. A sua utilização está levando a uma polarização da sociedade chinesa. OLIVEIRA, A. A Revolução Chinesa. Caros Amigos, 31 jan. 2011 (adaptado).

No texto, as reformas econômicas ocorridas na China são colocadas como antagônicas à construção de um país socialista. Nesse contexto, a característica fundamental do socialismo à qual o modelo econômico chinês atual se contrapõe é a a) desestatização da economia. b) instauração de um partido único. c) manutenção da livre concorrência. d) formação de sindicatos trabalhistas. e) extinção gradual das classes sociais. H18 Analisar diferentes processos de produção ou circulação de riquezas e suas implicações socioespaciais.

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EXERCÍCIOS 9. Allmaps

Texto I 0°

OCEANO PACÍFICO

OCEANO ATLÂNTICO Equador

OCEANO PACÍFICO Meridiano de Greenwich

0

OCEANO ÍNDICO

2 755

Há mais gente vivendo dentro desse círculo do que fora dele

Disponível em: <http://twistedsifter.com>. Acesso em: 5 nov. 2013. Adaptado.

Texto II A Índia deu um passo alto no setor de teleatendimento para países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos e as nações europeias. Atualmente mais de 245 mil indianos realizam ligações para todas as partes do mundo a fim de oferecer cartões de créditos ou telefones celulares ou cobrar contas em atraso. Disponível em: www.conectacallcenter.com.br. Acesso em: 12 nov. 2013 (adaptado).

Ao relacionar os textos, a explicação para o processo de territorialização descrito está no(a) a) Aceitação das diferenças culturais. b) Adequação da posição geográfica. c) Incremento do ensino superior. d) Qualidade da rede logística. e) Custo da mão de obra local. H17 Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de territorialização da produção.

VESTIBULARES 10. (Unicamp-SP) A longa presença de povos árabes no norte da África, mesmo antes de Maomé, possibilitou uma interação cultural, um conhecimento das línguas e costumes, o que facilitou posteriormente a expansão do islamismo. Por outro lado, deve-se considerar a superioridade bélica de alguns povos africanos, como os sudaneses, que efetivaram a conversão e a conquista de vários grupos na região da Núbia, promovendo uma expansão do islã que não se apoia na presença árabe. (Adaptado de ARNAUT, Luiz; LOPES, Ana Mônica. História da África: uma introdução. Belo Horizonte: Crisálida, 2005. p. 29-30)

Sobre a presença islâmica na África, é correto afirmar que: a) O princípio religioso do esforço de conversão, a jihad, foi marcado pela violência no norte da África e pela aceitação do islamismo em todo o continente africano.

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b) Os processos de interação cultural entre árabes e africanos, como os propiciados pelas relações comerciais, são anteriores ao surgimento do islamismo. c) A expansão do islamismo na África ocorreu pela ação dos árabes, suprimindo as crenças religiosas tradicionais do continente. d) O islamismo é a principal religião dos povos africanos e sua expansão ocorreu durante a corrida imperialista do século XIX. 11. (Unicamp-SP) Em discurso proferido em 20 de maio de 2011, o presidente dos EUA, Barack Obama, pronunciou-se sobre as negociações relativas ao conflito entre palestinos e israelenses, propondo o retorno à configuração territorial anterior à Guerra dos Seis Dias, ocorrida em 1967. Sobre o contexto relacionado ao conflito mencionado, é correto afirmar que: a) A criação do Estado de Israel, em 1948, marcou o início de um período de instabilidade no Oriente Médio, pois significou o confisco dos territórios do Estado da Palestina que existia até então e desagradou o mundo árabe. b) A Guerra dos Seis Dias insere-se no contexto de outras disputas entre árabes e israelenses, por causa das reservas de petróleo localizadas naquela região do Oriente Médio. c) A Guerra dos Seis Dias significou a ampliação territorial de Israel, com a anexação de territórios, justificada pelos israelenses como medida preventiva para garantir sua segurança contra ações árabes. d) O discurso de Obama representa a postura tradicional da diplomacia norte-americana, que defende a existência dos Estados de Israel e da Palestina, e diverge da diplomacia europeia, que condena a existência dos dois Estados. 12. (Unifesp-SP) No continente africano encontramos focos de guerras civis e entre países. No chamado Chifre da África, nos últimos anos, foram registrados violentos conflitos entre a) países pela definição de fronteiras, envolvendo Burundi e Ruanda. b) países pelo acesso à água, por parte do Egito e do Sudão. c) brancos e negros na África do Sul. d) lideranças locais na Somália. e) grupos étnicos em Ruanda.

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Equador

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Meridiano de Greenwich

e

OCEANO ATLÂNTICO

M

Allmaps

13. (UFRGS-RS) Observe o mapa a seguir.

OCEANO ÍNDICO

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1 050

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EXERCÍCIOS

As afirmações a seguir retratam algumas das características atuais da área assinalada no mapa. 1. A incidência de indivíduos soropositivos é alta. 2. A maioria da população é negra e professa a religião islâmica. 3. Há grandes reservas de diamantes e ouro. 4. Há atualmente conflitos pela independência, contrários às potências colonizadoras. As duas afirmações que correspondem a características da maioria dos países que integram a área assinalada no mapa são as de números a) 1 e 2. b) 1 e 3. c) 2 e 3. d) 2 e 4. e) 3 e 4. 14. (UFRGS-RS) Uma das áreas marítimas de tensão do Oriente Médio liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. Por situar-se junto ao litoral do Irã, passa por ali boa parte do petróleo que abastece o Ocidente. Essa passagem é o a) Estreito de Ormuz. b) Estreito de Bab el Mandeb. c) Canal de Suez. d) Estreito de Bósforo. e) Estreito de Gibraltar. 15. (UEL-PR) Os conflitos entre árabes, judeus e palestinos têm origem milenar, como milenar é a questão da soberania sobre os escassos recursos hídricos no Oriente Médio. Com base nos conhecimentos sobre o tema “tensões, conflitos, guerras”, é correto afirmar que, na atualidade, há a) conflitos entre os judeus e curdos pelo controle das águas na escassa região do Sahel, dominada por vegetação de savana, que recebe uma precipitação entre 150 e 500 mm por ano. b) conflitos entre as nações palestina e israelense, pelo controle do aquífero localizado no Rift Valley, com altitudes elevadas e depressões ou fossas tectônicas que deram origem a extensos lagos como o Tanganica, o Vitória e o Niassa. c) conflitos entre israelenses e palestinos pelo domínio das águas da bacia do rio Jordão e conflitos entre turcos, sírios e iraquianos pelo controle das bacias hidrográficas dos rios Tigre e Eufrates. d) conflitos entre israelenses, sírios e libaneses, pelo domínio dos recursos hídricos das bacias hidrográficas dos rios Níger e Congo. e) conflitos entre turcos, árabes e palestinos pelo controle das águas dos sistemas lacustres do Tanganica e do Baikal. 16. (Mack-SP) Assinale a alternativa INCORRETA sobre a região do Cáucaso. a) O extremismo islâmico é responsável por movimentos separatistas, como os ocorridos na Tchetchênia. b) A região tem grande importância para a Rússia devido à produção de petróleo. c) Trata-se da principal área produtora de cereais da Rússia. d) Anteriormente integrante da ex-URSS, é atualmente dividida em países independentes e áreas vinculadas à Rússia. e) Marcada por rivalidades étnicas e religiosas, é uma das regiões mais conturbadas do mundo.

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17. (Unimontes-MG) A América Latina não é homogênea. As transformações territoriais importadas pela globalização atingem, de forma diferenciada, cada um dos países. Sobre essas transformações advindas da globalização na América Latina, podemos afirmar que a) o Brasil, principal interlocutor para intermediar os conflitos na América Latina, perdeu espaço para o México. b) a Colômbia fortaleceu suas relações diplomáticas com o Equador, pois ambos produzem e exportam petróleo em grande escala. c) a Venezuela se firmou como oposição à internacionalização da economia latino-americana. d) a economia cubana cresceu devido ao aumento das relações comerciais com os outros países da América Central. 18. (UFPR) Para se compreender a divisão do território brasileiro em estados e, consequentemente, a existência dos estados federados e a desigualdade de seu desenvolvimento, torna-se necessário compreender também o processo de transformação do espaço brasileiro em território, o processo de povoamento, as motivações que o provocaram e os percalços encontrados durante cinco séculos de povoamento. Fonte: ANDRADE, M. C. de. A Federação brasileira: uma análise geopolítica e geossocial. São Paulo: Contexto, 1999.

Com base nesse texto, assinale a alternativa correta. a) Mesmo após cinco séculos de ocupação e povoamento, a divisão dos estados brasileiros e sua configuração atual resultam da implantação das capitanias hereditárias. b) As motivações para o povoamento do território estiveram ligadas à existência dos estados federados e à desigualdade de desenvolvimento existente entre eles. c) Alguns estados brasileiros têm maior população e são considerados mais desenvolvidos pela forma como ocorreu sua divisão. d) A divisão do território brasileiro e suas características podem ser compreendidas pela forma histórica como ocorreu a ocupação e o povoamento do espaço. e) A forma como foram criados os estados federados gerou um país com distribuição populacional e desenvolvimento desiguais. 19. (UFSM-RS) “A viagem terminou num lugar que seria exagero chamar de cidade. Por convenção ou comodidade, seus habitantes teimavam em situá-lo no Brasil; ali, nos confins da Amazônia, três ou quatro países ainda insistem em nomear fronteira um horizonte infinito de árvores; naquele lugar nebuloso e desconhecido para quase todos os brasileiros, um tio meu, Hanna, combateu pelo Brasão da República Brasileira.” No trecho de “Relato de um certo Oriente”, de Milton Hatoum, a referência à “fronteira” associa-se ao(à) a) perspectiva de considerar o Oriente um espaço bem-delimitado geograficamente. b) preocupação de caráter ecológico, denunciada pela precária marcação de limites. c) confinamento de imigrantes, particularmente sírio-libaneses, praticado pelo Brasil naquela época. d) percepção de um espaço flutuante com limites imprecisos. e) legislação de que os limites são demarcados pelos próprios habitantes, no caso, indígenas e seringueiros. 20. (Cesgranrio-RJ) A criação de Brasília, na década de 60, representa uma ação que teve fortes consequências na organização do espaço brasileiro. Assinale a afirmativa que NÃO corresponde a este fato. a) Colocou em pleno Planalto Central uma cidade, hoje com cerca de 1,5 milhão de habitantes, de alto poder de consumo, ampliando o mercado regional.

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EXERCÍCIOS

b) Permitiu melhor planejamento econômico das diversas regiões brasileiras, feito de acordo com as peculiaridades de cada área (Sudene, Sudam, por exemplo). c) Gerou uma malha rodoviária, que dela parte e que permitiu a melhor integração das diversas regiões brasileiras e do conjunto do território nacional. d) Valorizou espaços como os do sul de Goiás, Triângulo Mineiro, leste de Mato Grosso, que desenvolveram suas cidades e sua produção. e) Facilitou, a longo prazo, a ocupação agrícola das áreas dos cerrados, hoje um dos novos espaços incorporados a uma agricultura mais moderna. 21. (Fuvest-SP) O grupo Boko Haram, autor do sequestro, em abril de 2014, de mais de duzentas estudantes, que, posteriormente, segundo os líderes do grupo, seriam vendidas, nasceu de uma seita que atraiu seguidores com um discurso crítico em relação ao regime local. Pregando um islã radical e rigoroso, Mohammed Yusuf, um dos fundadores, acusava os valores ocidentais, instaurados pelos colonizadores britânicos, de serem a fonte de todos os males sofridos pelo país. Boko Haram significa “a educação ocidental é pecaminosa” em haussa, uma das línguas faladas no país. www.cartacapital.com.br. Acessado em: 13 maio 2014. Adaptado.

O texto se refere a) a uma dissidência da Al Qaeda no Iraque, que passou a atuar no país após a morte de Sadam Hussein. b) a um grupo terrorista atuante nos Emirados Árabes, país economicamente mais dinâmico da região. c) a uma seita religiosa sunita que atua no Sul da Líbia, em franca oposição aos xiitas. d) a um grupo muçulmano extremista, atuante no Norte da Nigéria, região em que a maior parte da população vive na pobreza. e) ao principal grupo religioso da Etiópia, ligado ao regime político dos tuaregues, que atua em toda a região do Saara. 22. (Unicamp-SP) No mapa abaixo estão indicados por números três países do Continente Africano. Assinale a alternativa que apresenta corretamente a localização e características desses países.

Meridiano de Greenwich

Allmaps

Equador

OCEANO ATLÂNTICO

OCEANO ÍNDICO

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a) Angola (1) e Moçambique (2) foram colonizados por franceses, enquanto a África do Sul (3) integra atualmente o NAFTA. b) Angola (3) e Moçambique (1) foram colonizados por ingleses, enquanto a África do Sul (2) integra atualmente o G7. c) Angola (1) e Moçambique (2) foram colonizados por portugueses, enquanto a África do Sul (3) integra atualmente os BRICS. d) Angola (2) e Moçambique (3) foram colonizados por portugueses, enquanto a África do Sul (1) integra atualmente os BRICS. 23. (Vunesp-SP) Os espaços à margem da economia mundial são igualmente pouco integrados regionalmente, e a desintegração nacional limita a integração. O comércio intrarregional africano se situa em torno de 10% do que é movimentado e é polarizado em alguns países. Fora a África do Sul, cinco países representam três quartos das exportações intra-africanas. Philippe Hugon. Geopolítica da África, 2009.

A inexpressividade do comércio intrarregional africano deve-se, em parte, a) ao acesso exclusivo a matérias-primas importadas e ao baixo mercado consumidor. b) à pouca diversificação das estruturas produtivas e às divergências socioculturais. c) à manutenção das colônias europeias e à obrigatoriedade da exportação. d) às fronteiras flexíveis e à generalização de economias não monetarizadas. e) aos altos custos no transporte de mercadorias e à ausência de centros urbanos. 24. (Vunesp-SP) Há grande diversidade entre aqueles que procuram inspiração em sua fé no Islã. A monarquia vaabita da Arábia Saudita e os líderes religiosos xiitas do Irã têm profundas discordâncias políticas e divergem igualmente em questões socioeconômicas. Em termos mais amplos, ocorre nos movimentos islamitas um debate sobre se a meta correta é mesmo chegar ao poder estatal, assim como sobre a democracia, a diversidade social, o papel das mulheres e da educação e sobre a maneira de interpretar o Corão. E, embora a maioria dos islamitas aceite a realidade da existência dos atuais Estados e suas fronteiras, uma minoria mais radical procura destruir todo o sistema e estabelecer um califado que abarque a região inteira [do Oriente Médio]. Dan Smith. O atlas do Oriente Médio, 2008.

O argumento principal do texto pode ser ilustrado por meio da comparação entre a) o respeito a todas as orientações sexuais nos países que vivem sob regime islâmico e a perseguição a homossexuais no Paquistão e na Índia. b) o apoio unânime dos grupos islâmicos ao atentado ao World Trade Center, em Nova Iorque, e a invasão militar norte-americana no Iraque. c) a situação e os direitos das mulheres nos países do Ocidente e nas áreas em que prevalecem regimes políticos islâmicos. d) a invasão norte-americana no Afeganistão e o apoio soviético ao regime liderado pelo Talibã naquele país. e) os islâmicos que protestaram contra o atentado à redação do jornal Charlie Hebdo, em Paris, e a ação militar do Estado Islâmico. 25. (Unicamp-SP) Desde o fim dos governos militares, a América do Sul tem tido um dos mais baixos gastos militares no mundo. Mas o fim das crises econômicas que assolaram o subcontinente entre os anos 1997 e 2000 propiciou condições financeiras para a reemergência de projetos das Forças Armadas e o crescimento dos orçamentos militares para a segurança e defesa em diversos países da região. Adaptado de VILLA, Rafael Duarte. Corrida armamentista ou modernização de armamentos na América do Sul: estudo comparativo dos gastos militares. Estudos e Cenários, dez. 2008, p. 48-49. Disponível em: <http://observatorio.iuperj.br e http://necon.iuperj.br>. Acesso em: 25 out. 2010.

a) De quais assuntos se ocupa a agenda de segurança e defesa dos governos nacionais?

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EXERCÍCIOS

b) Quais as principais motivações para a modernização das Forças Armadas por parte dos países sul-americanos? 26. (Unicamp-SP) Leia o trecho e responda às questões: A prática do crime é tão antiga quanto a própria humanidade. Mas o crime global, a formação de redes entre poderosas organizações criminosas e seus associados, com atividades compartilhadas em todo o planeta, constitui um novo fenômeno que afeta profundamente a economia no âmbito internacional e nacional, a política, a segurança e, em última análise, as sociedades em geral. A Cosa Nostra siciliana (e suas associadas La Camorra, Ndrangheta e Sacra Corona Unita), a máfia norte-americana, os narcotraficantes colombianos, os cartéis mexicanos, as redes criminosas nigerianas, a Yakuza do Japão, as tríades chinesas, a constelação formada pelas mafiyas russas, os traficantes de heroína da Turquia, as posses jamaicanas e um sem-número de grupos criminosos locais e regionais em todos os países do mundo uniram-se em uma rede global e diversificada que ultrapassa fronteiras e estabelece vínculos de todos os tipos. Adaptado de CASTELLS, Manuel. Fim de milênio. A era da informação: economia, sociedade e cultura. v. 3. São Paulo: Paz e Terra, 1999, p. 203-204.

a) Com a exceção dos narcóticos, quais são os principais produtos que as organizações criminais transnacionais (ou com conexões internacionais) comercializam? b) A Colômbia apresenta um histórico de violência, com forte presença do crime organizado. Além do narcotráfico, existem grupos guerrilheiros e grupos paramilitares. Entre os grupos guerrilheiros ressaltam-se as FARCs (Forças Armadas Revolucionárias) e o ELN (Exército de Libertação Nacional), que se confrontam com o exército, a polícia e grupos paramilitares. Qual a relação da guerrilha com o narcotráfico? O que é um grupo paramilitar? 27. (UFRJ) As três faces marítimas da África O continente africano se abre a leste para o oceano Índico, a oeste para o oceano Atlântico e ao norte para o mar Mediterrâneo, o que possibilitou no passado – e continua a permitir no presente – a formação das mais diversas redes de relações culturais, econômicas e migratórias com diferentes partes do mundo. No passado, pelo oceano Índico, indianos exploravam rotas comerciais anos antes dos europeus; pelo Atlântico, o oeste africano foi fonte importante para o tráfico negreiro. Mas foi por meio do mar Mediterrâneo que as redes de relações sempre foram mais intensas e conflituosas. Descreva dois tipos atuais de relações entre a África e a Europa, um de natureza conflituosa, outro de natureza não conflituosa. 28. (UFU-MG) Na atualidade, o Oriente Médio representa uma grande região de conflito, sendo denominada pela imprensa como “barril de pólvora”. Sobre esta região, responda: Qual é a importância estratégica/geopolítica e econômica do Oriente Médio para o Ocidente? 29. (UFG-GO) O Estado de Israel foi criado pela ONU em 1948. Desde a sua criação, Israel mantém um conflito permanente com os palestinos. Sobre esse conflito, explique a) a expansão de Israel sobre os territórios palestinos; b) o papel estratégico dos Estados Unidos nesse conflito. 30. (UFRJ) É comum a afirmativa de que a capital brasileira tem uma localização geográfica que se justifica mais pela intenção de centralização espacial do governo do que pelas manifestações populares, tão necessárias aos grandes debates que devem preceder as decisões do Congresso Nacional. Explique por que essa situação atual é inversa à situação vivida pela capital brasileira anterior, tratando da localização geográfica das duas capitais e da lógica demográfica da afirmativa. 31. (Fuvest-SP) Considere o mapa na página a seguir, que representa uma região com histórico de migrações e disputas territoriais e que já abrigou, desde antes da Era Cristã, várias civilizações.

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Allmaps

45º L

Mar Negro M

ar

Cá io sp

Ancara

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35º N

SÍRIA

Mar Mediterrâneo

Damasco

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Áreas do conflito 195

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0

Capital de país

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Principais países da bacia hidrográfica dos rios Tigre/Eufrates

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sic o

Folha de São Paulo, 15 nov. 2015. Adaptado.

a) Mencione duas características da bacia hidrográfica dos rios Tigre/Eufrates, relacionando-as com sua ocupação na Antiguidade. Justifique. b) Identifique um importante conflito que, atualmente, ocorre na área indicada no mapa e apresente uma motivação político-religiosa para esse conflito. 32. (Unicamp-SP) A construção de Brasília liga-se à questão regional do Brasil, que se colocou com intensidade na década de 1950, indicando a necessidade de se corrigirem desequilíbrios regionais. Mas, no Plano Piloto, vive uma minoria da população total de Brasília. O Plano Piloto não existiria sem as cidades-satélites, onde reside a maior parte dos trabalhadores, um contingente de pedreiros, motoristas, auxiliares de escritórios, serventes, encarregados de segurança, balconistas, etc. Brasília, dessa forma, é uma só cidade, do Plano Piloto às cidades-satélites. Assim, torna-se difícil aceitar a ideia de que Brasília foi projetada para antecipar um futuro mais igualitário. José William Vesentini. A capital da geopolítica. São Paulo: Ática, 1986, p. 116-117, 144-145 e 148. Adaptado.

a) Quais os objetivos oficiais para a construção de Brasília? b) Segundo o texto, por que é “difícil aceitar a ideia de que Brasília foi projetada para antecipar um futuro mais igualitário” para a sociedade brasileira? 33. (Unicamp-SP) A Região Autônoma da Rojava é um dos poucos pontos brilhantes a emergir da tragédia dos conflitos que ocorrem no Oriente Médio. Depois de expulsar os agentes do regime de Bashar al-Assad, em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos os seus vizinhos, Rojava não só manteve a sua independência como constitui uma experiência democrática notável. Todavia, mais uma vez os curdos estão cercados: os jihadistas do Estado Islâmico e a maior potência da OTAN na região, a Turquia, querem afogar em sangue a semente da liberdade dos curdos e provar que não pode haver na região um povo livre em que as mulheres e os homens sejam iguais. A defesa da cidade de Kobani é, atualmente, expressão cabal da histórica luta de toda a nação curda para fazer valer seu direito à autodeterminação. N. R. de Almeida, Os curdos numa armadilha histórica. http://outraspalavras.net/posts/os-curdos-numa-armadilha-dahistoria. Acessado em 28/09/2015. Adaptado.

a) O povo curdo totaliza hoje aproximadamente 30 milhões de pessoas. Em quais países estão majoritariamente distribuídos? Qual a principal reivindicação política dos curdos? b) Dê duas características da organização denominada Estado Islâmico e aponte os países em que ela controla territórios e recursos.

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REFERÊNCIAS

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LISTA DE SIGLAS DE EXAMES NACIONAIS Cesgranrio-RJ – Fundação Cesgranrio Fuvest-SP – Fundação Universitária para o Vestibular Mack-SP – Universidade Presbiteriana Mackenzie PUC-SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUCCamp-SP – Pontifícia Universidade Católica de Campinas UEG-GO – Universidade Estadual de Goiás UEL-PR – Universidade Estadual de Londrina UFG-GO – Universidade Federal de Goiás UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais UFPR – Universidade Federal do Paraná UFRGS-RS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro UFSM-RS – Universidade Federal de Santa Maria UFU-MG – Universidade Estadual de Urbelândia Unicamp-SP – Universidade Estadual de Campinas Unifesp-SP – Universidade Federal de São Paulo Unimontes-MG – Universidade Estadual de Montes Claros Vunesp-SP – Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista

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MATRIZ DE REFERÊNCIA DE CIÊNCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS Competência de área

Competência de área

Competência de área

1

Compreender os elementos culturais que constituem as identidades.

H1

Interpretar histórica e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura.

H2

Analisar a produção da memória pelas sociedades humanas.

H3

Associar as manifestações culturais do presente aos seus processos históricos.

H4

Comparar pontos de vista expressos em diferentes fontes sobre determinado aspecto da cultura.

H5

Identificar as manifestações ou representações da diversidade do patrimônio cultural e artístico em diferentes sociedades.

2

 ompreender as transformações dos espaços geográC ficos como produto das relações socioeconômicas e culturais de poder.

H6

Interpretar diferentes representações gráficas e cartográficas dos espaços geográficos.

H7

Identificar os significados histórico-geográficos das relações de poder entre as nações.

H8

Analisar a ação dos Estados Nacionais no que se refere à dinâmica dos fluxos populacionais e no enfrentamento de problemas de ordem econômico-social.

H9

Comparar o significado histórico-geográfico das organizações políticas e socioeconômicas em escala local, regional ou mundial.

H10

Reconhecer a dinâmica da organização dos movimentos sociais e a importância da participação da coletividade na transformação da realidade histórico-geográfica.

3

Compreender a produção e o papel histórico das instituições sociais, políticas e econômicas, associando-as aos diferentes grupos, conflitos e movimentos sociais.

H11

Identificar registros de práticas de grupos sociais no tempo e no espaço.

H12

Analisar o papel da justiça como instituição na organização das sociedades.

H13

Analisar a atuação dos movimentos sociais que contribuíram para mudanças ou rupturas em processos de disputa pelo poder.

H14

Comparar diferentes pontos de vista, presentes em textos analíticos e interpretativos, sobre situação ou fatos de natureza histórico-geográfica acerca das instituições sociais, políticas e econômicas.

H15

Avaliar criticamente conflitos culturais, sociais, políticos, econômicos ou ambientais ao longo da história.

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MATRIZ DE REFERÊNCIA DE CIÊNCIAS HUMANAS E SUAS TECNOLOGIAS Competência de área

Competência de área

Competência de área

4

 ntender as transformações técnicas e tecnológicas e E seu impacto nos processos de produção, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social.

H16

Identificar registros sobre o papel das técnicas e tecnologias na organização do trabalho e/ou da vida social.

H17

Analisar fatores que explicam o impacto das novas tecnologias no processo de territorialização da produção.

H18

Analisar diferentes processos de produção ou circulação de riquezas e suas implicações socioespaciais.

H19

Reconhecer as transformações técnicas e tecnológicas que determinam as várias formas de uso e apropriação dos espaços rural e urbano.

H20

Selecionar argumentos favoráveis ou contrários às modificações impostas pelas novas tecnologias à vida social e ao mundo do trabalho.

5

 tilizar os conhecimentos históricos para compreender U e valorizar os fundamentos da cidadania e da democracia, favorecendo uma atuação consciente do indivíduo na sociedade.

H21

Identificar o papel dos meios de comunicação na construção da vida social.

H22

Analisar as lutas sociais e conquistas obtidas no que se refere às mudanças na legislação ou nas políticas públicas.

H23

Analisar a importância dos valores éticos na estruturação política das sociedades.

H24

Relacionar cidadania e democracia na organização das sociedades.

H25

Identificar estratégias que promovam formas de inclusão social.

6

 ompreender a sociedade e a natureza, reconhecendo C suas interações no espaço em diferentes contextos históricos e geográficos.

H26

Identificar em fontes diversas o processo de ocupação dos meios físicos e as relações da vida humana com a paisagem.

H27

Analisar de maneira crítica as interações da sociedade com o meio físico, levando em consideração aspectos históricos e/ou geográficos.

H28

Relacionar o uso das tecnologias com os impactos socioambientais em diferentes contextos histórico-geográficos.

H29 H30

Reconhecer a função dos recursos naturais na produção do espaço geográfico, relacionando-os com as mudanças provocadas pelas ações humanas. Avaliar as relações entre preservação e degradação da vida no planeta nas diferentes escalas.

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