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MANUAL DO PROFESSOR

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Maria Inês Batista Campos Nivia Assumpção

Esferas das linguagens

MANUAL DO PROFESSOR

Esferas das linguagens

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ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR LÍNGUA PORTUGUESA

Maria Inês Batista Campos Nivia Assumpção

Literatura Produção de textos Gramática em uso

ISBN 978-85-96-00373-5

ENSINO MÉDIO 9

788596 003735

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COMPONENTE CURRICULAR LÍNGUA PORTUGUESA

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Esferas das linguagens ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR

LÍNGUA PORTUGUESA

Maria Inês Batista Campos Licenciada em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Mestre em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Pós-doutora pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Estágio pós-doutoral pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Estágio pós-doutoral pela Université Paris 8 – Vincennes-Saint-Denis Professora de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo Pesquisadora dos Grupos de Pesquisa: Linguagem, Identidade e Memória; Estudos do Discurso

Nivia Assumpção Licenciada em Letras – Português pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Professora de Língua Portuguesa na rede particular de Ensino Fundamental e Ensino Médio por vários anos

1a edição São Paulo – 2016

MANUAL DO PROFESSOR

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Copyright © Maria Inês Batista Campos, Nivia Assumpção Lauri Cericato Flávia Renata P. A. Fugita Sílvia Cunha, Daisy Pereira Daniel, Vera Silvia de Oliveira Roselli, Nubia Andrade e Silva, Leonardo Klein Assistente editorial Paula Feijó de Medeiros Assessoria Geraldo Tadeu Souza Gerente de produção editorial Mariana Milani Coordenador de produção editorial Marcelo Henrique Ferreira Fontes Coordenadora de arte Daniela Máximo Projeto gráfico Bruno Attili Projeto de capa Bruno Attili Foto de capa Thais Falcão/Olho do Falcão Modelos da capa: Andrei Lopes, Angélica Souza, Beatriz Raielle, Bruna Soares, Bruno Guedes, Caio Freitas, Denis Wiltemburg, Eloá Souza, Jardo Gomes, Karina Farias, Karoline Vicente, Letícia Silva, Lilith Moreira, Maria Eduarda Ferreira, Rafael Souza, Tarik Abdo, Thaís Souza Editora de arte Marina Martins Almeida Diagramação Ademir Baptista, Débora Jóia, Estudo Gráfico Design, Leandro Brito, Matheus Zati, Salvador Consales, Select Editoração, Simone Borges, Wlamir Miasiro Tratamento de imagens Eziquiel Racheti Coordenadora de ilustrações e cartografia Marcia Berne Cartografia Renato Bassani Coordenadora de preparação e revisão Lilian Semenichin Supervisora de preparação e revisão Viviam Moreira Revisão Adriana Périco, Caline Devèze, Iracema Fantaguci, Lívia Perran, Marcella Arruda, Paulo Andrade, Tatiana Jaworski Coordenador de iconografia e licenciamento de textos Expedito Arantes Supervisora de licenciamento de textos Elaine Bueno Iconografia Graciela Naliati Diretor de operações e produção gráfica Reginaldo Soares Damasceno Diretor editorial Gerente editorial Editores assistentes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Campos, Maria Inês Batista Esferas das linguagens, 1º ano / Maria Inês Batista Campos, Nivia Assumpção. — 1. ed. — São Paulo : FTD, 2016. — (Coleção esferas das linguagens) Componente curricular: Língua portuguesa ISBN 978-85-96-00372-8 (aluno) ISBN 978-85-96-00373-5 (professor) 1. Português (Ensino médio) I. Assumpção, Nivia. II. Título. III. Série. 16-03669

CDD-469.07 Índices para catálogo sistemático: 1. Português : Ensino médio 469.07

Reprodução proibida: Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Todos os direitos reservados à

Em respeito ao meio ambiente, as folhas deste livro foram produzidas com fibras obtidas de árvores de florestas plantadas, com origem certificada.

EDITORA FTD Rua Rui Barbosa, 156 – Bela Vista – São Paulo-SP CEP 01326-010 – Tel. (0-XX-11) 3598-6000 Caixa Postal 65149 – CEP da Caixa Postal 01390-970 www.ftd.com.br E-mail: central.atendimento@ftd.com.br

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Impresso no Parque Gráfico da Editora FTD CNPJ 61.186.490/0016-33 Avenida Antonio Bardella, 300 Guarulhos-SP – CEP 07220-020 Tel. (11) 3545-8600 e Fax (11) 2412-5375

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Apresentação

Caro(a) estudante, seja bem-vindo(a)! A experiência de ouvir e contar histórias até hoje fascina a humanidade. Quem não se encanta com a mágica de reinos de faz de conta, de galáxias distantes? Pois é, os livros nos dão o poder de viajar para outros lugares e para outros tempos (passados ou futuros), a possibilidade de nos transformar em qualquer pessoa. Aprendemos quem somos a partir da relação que estabelecemos com o outro, que vive em situações bem definidas. Esses mundos imaginários são construídos com um material muito sutil: as palavras. Sendo invenção coletiva, elas nos permitem compreender a sociedade e participar dela como cidadãos. Você é nosso(a) convidado(a) a participar de um diálogo com autores a princípio desconhecidos. Aos poucos, no entanto, eles o(a) ajudarão a ampliar seus conhecimentos sobre a língua portuguesa, a leitura e a escrita. Nosso ponto de partida serão situações cotidianas que oferecem base para uma ampla variedade de atividades orais e escritas; elas o(a) auxiliarão a tornar-se competente em escrever textos coerentes, capazes de transmitir conhecimentos e emoções. Nesta obra, os textos literários têm importante papel. Pretendemos ajudar você a desenvolver a capacidade de transformar informações disponíveis na sociedade em conhecimento próprio. Você vai experimentar como um texto literário pode ser lido de várias maneiras e como ele dialoga também com textos de outras épocas. Seu mundo ficará muito mais rico e divertido e você conhecerá autores, personagens e lugares fascinantes. Juntos, faremos uma viagem pela literatura brasileira e portuguesa, passando pela africana em língua portuguesa. Com atividades criativas, você produzirá textos para circular em diferentes esferas: cotidiana, jornalística, publicitária e artística, incluindo as artes plásticas. Vamos aprender a usar a linguagem oral em situações coloquiais e em ocasiões formais. Para que tudo isso seja útil para sua vida, é preciso conhecer melhor a língua que usamos. É surpreendente perceber como a organização da língua nos ajuda a usá-la em todas as situações. “Minha pátria é a língua portuguesa”, escreveu o poeta Fernando Pessoa. Que tal acessarmos esse gigantesco e instigante território? Bons estudos! As autoras

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Conheça o seu livro As unidades Cada volume da coleção é constituído de 9 unidades e cada unidade é composta de 3 capítulos, segundo os eixos: Leitura e literatura; Texto, gênero do discurso e produção; e Língua e linguagem.

Leitura e literatura

Capítulo 13

Crônica como gênero narrativo Oficina de imagens

Texto, gênero do discurso e produção

Língua e linguagem

Capítulo 15

“Olha a laranja!” “Frutas fresquinhas!” Você já foi acordado logo cedo por vendedores de rua gritando essas frases? Parece que isso só acontece na porta de quem quer dormir. Essa técnica de oferecer mercadorias e de divulgar informações tem uma longa tradição na sociedade ocidental. A experiência que passa de pessoa para pessoa é a base da comunicação de todas as sociedades. A presença dos cantadores é importante na manifestação cultural de um povo, uma vez que garante a transmissão de conhecimentos, de fatos históricos ou políticos. Os cantadores populares contam com a capacidade de improvisação, tornando-se autores daquilo que recitam. A produção oral dos poemas ganha também registros escritos, que aparecem em folhetos de impressão simples, conhecidos como cordéis. Esse nome se deve ao fato de os poetas pendurarem seus poemas em cordas, formando varais nas festas e feiras populares.

Ritmo Explorando os mecanismos linguísticos O ritmo da vida Fique atento à sequência de imagens apresentadas e acompanhe seu ritmo! Observe que as fotografias de Pedro Seiblitz flagram o movimento de pernas e pés de jovens subindo uma escada numa favela do Rio de Janeiro. Tal gesto poderia muito bem acontecer em qualquer lugar no momento em que alguém subisse escadas. Pedro Seiblitz

littleny/Shutterstock.com

Torres gêmeas do World Trade Center, Nova York, Estados Unidos, em 1996 e 2001, respectivamente.

Gênero da oralidade: o cordel Ismar Ingber/Pulsar

Sean Adair/Reuters/Latinstock

DPA by Album/Album Art/Latinstock

Capítulo 14

Por trás da fotografia

Literatura de cordel à venda na Nova Feira de São Cristóvão, Rio de Janeiro, em 2014.

(Des)construindo o gênero

Editora Luzeiro

Reservados à Editora todos os direitos de propriedade literária e artística

Memorial do World Trade Center, Nova York, 2012.

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Registrado na Biblioteca Nacional sob o nº 11.958

4. Depois de ler a página de rosto, que novas informações você obteve?

Rodrigo Rainho/Folhapress

Editora Luzeiro

Folheto de cordel: capa e página de rosto Observe a seguir a capa de um folheto de cordel e a página de rosto da obra. Antes de ler um texto do gênero, você entra em contato com a capa, que sinaliza a esfera de circulação em que a atividade do cantador de cordel aparece. Na verdade, não podemos interpretar um texto sem relacioná-lo com seu contexto, incluindo aí o autor VARELLA, D. et al (Org.). Maré, vida na favela. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002. p. 58-59. e o público a que se destina. FAÇA NO Nossos gestos mais simples do dia a dia estão carregados de ritmo, afirmam o médico Drauzio Varella, CADERNO o coreógrafo e terapeuta corporal Ivaldo Bertazzo e a arquiteta-urbanista Paola Berenstein. Observe como 1. Faça um levantamento das informamovimentos de descer ou subir escadas criam uma ginga, uma cadência. Isso acontece por causa da repeções verbais e visuais que aparecem tição dos passos em intervalos regulares, em alternância. Não é à toa que essa sequência de cenas aparece na capa. no capítulo “Quando o passo vira dança”, do livro Maré, vida na favela, de Drauzio Varella. O corpo humano ainda apresenta ritmo na respiração, nos batimentos cardíacos, nos movimentos dos braços ao andar etc. 2. Diante desses dados, que expectativa Também encontramos movimentos ritmados na natureza. A foto a seguir aparece na reportagem “Amazovocê tem acerca do conteúdo do fonas — Selva impõe novo ritmo a visitante que chega à região”, publicada no caderno Turismo do jornal Folha lheto desse cordel? de S.Paulo, de 9 de junho de 2003 (p. F1). Nessa reportagem, há uma espécie de convite ao turista para que troque 3. Leia a página de rosto e transcreva as o ritmo conturbado de sua rotina de trabalho pela calmaria das vitórias-régias boiando sobre as águas dos rios da Amazônia. No caso da foto, a sugestão de ritmo se faz também pela repetição das formas geométricas © Copyright 1959 – Editora Prelúdio Limitada informações nela contidas. São Paulo – Brasil e por sua disposição harmônica no espaço.

5. Observando as informações da capa e da página de rosto, responda: quem são os possíveis leitores desse folheto de cordel?

Capítulo 13 – Crônica como gênero narrativo

Pelos dados observados na capa do folheto, podemos notar que o material foi produzido de maneira artesanal. Atualmente há novas maneiras de comercialização dos folhetos, por meio de editoras e livrarias, e até mesmo por meio digital. Texto, gênero do discurso e produção

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Vitórias-régias boiam em Silves, ilha a 200 quilômetros de Manaus (AM).

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Capítulo 15 – Ritmo

A abertura de unidade apresenta uma imagem e um texto que contextualiza a imagem e seus elementos, explicita o tema integrador e traz uma breve sinopse dos capítulos que compõem a unidade.

Asas da imaginação: indivíduo e consumo © Vladimir Kush

Unidade 3

Abertura de unidade

A sugestão de que a arte continuamente reinterpreta a vida está presente em diversas manifestações da linguagem artística. Na obra O atlas de Wander, do artista russo Vladimir Kush (1965), a árvore insere, ao mesmo tempo, uma referência à natureza e ao conhecimento, já que parte de seu tronco é formada por um livro, tornando-se uma janela para o mundo e para as inúmeras interpretações da realidade; a árvore torna-se produtora da vida (do livro) que se renova. Há, portanto, uma metáfora visual do livro, da arte como algo que possibilita conhecimento. A obra de arte abrange todas as atividades de uma cultura em que se trabalham o sensível e o imaginário, com o objetivo de recuperar a dimensão simbólica de um povo ou de uma classe social. Cada obra é um diálogo permanente entre quem a faz e quem a contempla, num processo de interação discursiva em um tempo e em um espaço definidos. É o conjunto desses elementos que nos permite ler e entender um texto. A imagem constitui uma metáfora dos gêneros literários, que se ramificam em várias temáticas e estimulam o despertar de nossos olhares para a literatura, em sua leitura, produção escrita e os estudos linguísticos. Os gêneros literários articulam linguagem e vida, criando novas relações entre as palavras, estabelecendo associações inesperadas. Ritmo, sons e imagens levam o leitor a conhecer mundos imaginários e prazerosos, nos quais, por meio da poesia ou da prosa, é possível dar asas à imaginação. Nesta unidade, vamos discutir o tema integrador “Asas da imaginação: indivíduo e consumo”. No capítulo de Leitura e literatura, vamos estudar alguns gêneros literários, com o objetivo de recriar o cotidiano por meio das palavras, valorizando características e elementos estilísticos da linguagem literária. Ler e escrever diferentes gêneros literários pode ser um exercício consciente da linguagem, envolvendo a assimilação de aspectos culturais do conhecimento humano. No capítulo de Texto, gênero do discurso e produção, analisaremos o texto publicitário comercial, sua forma composicional e suas estratégias de persuasão para tomarmos uma posição crítica como consumidores e produzirmos alguns anúncios. No capítulo de Língua e linguagem, estudaremos a ambiguidade como recurso linguístico, em que o mesmo texto tem mais de um sentido, exigindo um leitor atento e participativo, capaz de ler nas entrelinhas.

O atlas de Wander, de Vladimir Kush. Óleo sobre tela. 61  53 cm. Coleção particular.

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Capítulo 7 – Gêneros literários

Leitura e literatura

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Os capítulos e suas seções Os capítulos apresentam seções específicas, conforme os eixos Leitura e literatura; Texto, gêneros do discurso e produção; e Língua e linguagem. Leitura e literatura

Capítulo 7

Leitura e literatura Oficina de imagens

Gêneros literários Oficina de imagens

Nos capítulos de Leitura e literatura, a primeira seção é Oficina de imagens, com a proposta de sensibilizar o aluno para o tema de leitura ou texto literário que será apresentado. Há uma variedade de imagens (pinturas, esculturas, fotografias, iluminuras, desenhos, mapas, grafites, cartazes, capas de livros etc.) para auxiliar na sensibilização em relação ao tema e para o desenvolvimento da leitura do texto visual. A Atividade em grupo proposta na seção envolve o cognitivo, o sensitivo e o social.

Observe ao lado a litografia do artista gráfico M. C. Escher e procure dirigir o seu olhar para as formas das janelas, portas, túneis, telhados, escadas e linhas que criam uma linguagem visual, dando composição ao todo da obra. Essa litografia retrata situações inventadas pelo artista para criar ilusões de ótica. Com base na Matemática e na Física, ele reproduziu o triângulo do matemático inglês Roger Penrose (1931) três vezes no interior da gravura. Inicialmente, o que a imagem lhe sugere é que o edifício da base até o topo não encontra nenhum obstáculo, no entanto, a construção tem rachaduras. Dirija novamente seu olhar para A cascata e observe com atenção todo o conjunto. Nessa obra, o artista usa como recurso duas torres que sustentam uma forma geométrica estrelada e que dão a ilusão de ter a mesma altura. No entanto, a torre da direita se mantém um andar mais baixo do que a da esquerda, permitindo que a água passe pelos canais, por causa do desnível. Vamos examinar cada parte. Comece olhando o movimento da água que passa e põe em movimento um moinho. Note que ela sobe em zigue-zague pelas calhas e depois volta para o mesmo lugar. Sabemos que a água não sobe, de modo que Escher distorceu a perspectiva para fazer com que isso tudo pareça possível.

Astúcias do texto

M. C. Escher’s. 1961. Litografia. M. C. Escher’s “Waterfall” © 2016 The M. C. Escher Company-The Netherlands. All rights reserved.

Mudando de perspectiva

A cascata, litografia de M. C. Escher, 30 × 38 cm, 1961.

O que é litografia? Litografia é o processo técnico afim com a gravura. Consiste no traçado de um desenho com lápis gorduroso em pedra calcária, depois tratada com um ácido que torna repelentes à tinta as zonas não protegidas pelo sinal gorduroso. Assim, a tinta adere apenas sobre o desenho traçado, que, prensado, transfere-se à folha de papel.

A segunda seção do capítulo, Astúcias do texto, tem como foco a leitura e a compreensão de textos de vários gêneros: histórias em quadrinhos, charges, notícias de jornal, reportagens, resenhas e, principalmente, produções literárias.

ARGAN, G. C. História da arte italiana: da antiguidade a Duccio. São Paulo: Cosac & Naify, 2004. v. 1. p. 440.

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Maurits Cornelis Escher (1898-1972), artista gráfico holandês, baseou-se em conceitos matemáticos, particularmente na geometria, para criar suas obras com uma perspectiva visual possível apenas no desenho, gerando imagens com efeitos de ilusão de ótica.

© 2016 The M. C. Escher Company-The Netherlands. All rights reserved.

• Inicialmente, o que a imagem lhe sugere quanto ao espaço e às atividades desenvolvidas pelas pessoas nela representadas?

M. C. Escher.

Capítulo 7 – Gêneros literários

Atividade em grupo Material necessário: • uma folha de papel sulfite; • recortes de jornal relacionados a interior de ambientes, pessoas e objetos; • canetas coloridas; • cola e tesoura; • sucatas, como botões e tampinhas de refrigerante.

Na trama dos textos

Modo de fazer: Reúna-se com três colegas e escolham uma das partes da imagem e a copiem numa folha de papel sulfite, mudando alguns objetos de lugar. Colem os recortes de jornais ou de revistas, ou ainda a sucata, sobre a imagem na folha de sulfite. Façam, na parte dessa imagem, intervenções que surpreendam seu interlocutor. Exponham para a classe a obra produzida, explicando os sentidos decorrentes das alterações de perspectiva feitas a partir da litografia de Escher. A exposição pode ser feita no formato de varal.

A finalidade da seção Na trama dos textos é proporcionar um diálogo entre os textos literários e os textos fílmicos, canções, quadrinhos, charges etc.

Astúcias do texto Texto publicitário e texto artístico

Capa criada por João Baptista da Costa Aguiar para o livro Gertrudes e Cláudio, de John Updike.

Anton_Ivanov/Shutterstock.com

Fra Filippo Lippi, 1444. Têmpera sobre madeira. 64,1  41,9 cm. Metropolitan Museum of Art, Estados Unidos. Foto: FineArt/Alamy/Latinstock

Companhia das Letras

Leia os dois textos a seguir. À esquerda, está a capa do livro Gertrudes e Cláudio, do estadunidense John Updike (1932); ao lado, a pintura Retrato de um homem e uma mulher na janela (1440), do italiano Fra Filippo Lippi (1406-1469).

Retrato de um homem e uma mulher na janela, de Fra Filippo Lippi, 1444. Metropolitan Museum of Art, Nova York.

1. Na tela está retratada uma cena doméstica burguesa: o casamento de Angiola Sapiti e Lorenzo Scolari na Itália do século XV. Como estão representados o homem e a mulher (vestimentas, joias)? Qual foi a finalidade dessa pintura para seus contemporâneos?

Teatro de Epidauro, na cidade de Corinto na Grécia, construído por Policleto, o Jovem (350 a.C.). Os teatros gregos eram auditórios ao ar livre, e o espetáculo começava ao amanhecer. Os três maiores autores do teatro grego foram Sófocles, Ésquilo e Eurípedes. Fotografia de 2016.

FAÇA NO CADERNO

2. A pintura do século XV reaparece na capa do livro, mas compondo um cenário do século XII: o casamento da rainha Gertrudes (mãe de Hamlet, personagem da obra homônima de William Shakespeare) com Cláudio, irmão e assassino do rei Hamlet, da Dinamarca. Podemos dizer que a cena doméstica representada na capa do livro é a mesma que a representada na tela de Fra Filippo Lippi? Por quê?

Características do gênero dramático • O texto é escrito para ser encenado no teatro diante do público. Pode ser produzido em verso ou em prosa. • A ação do texto é concentrada em momentos decisivos e em situações determinadas: a descoberta da verdadeira identidade, o sofrimento de uma personagem, a vingança de alguém. • O mundo representado mostra-se por meio dos diálogos, criando uma sequência de cenas e relações de causa e de consequência. • O texto escrito para ser representado traz instruções à parte para o diretor da cena. • As principais formas de manifestação do gênero dramático são a tragédia e a comédia. • A tragédia é de origem grega e apresenta os conflitos humanos, provocando uma reflexão sobre o sentido da existência. • A comédia surgiu na Grécia antiga e estava vinculada a uma festa popular profana: a colheita. Eram usadas máscaras como forma de representação, buscando provocar o riso por meio da caricatura.

3. Compare o quadro do monge florentino Fra Filippo Lippi, pintado em 1440, e a capa do livro, publicado em 2001. a) Aponte a semelhança de conteúdos entre os dois textos. b) Embora a imagem seja a mesma, o retrato de um homem e de uma mulher, os textos têm objetivos diferentes. Qual é a finalidade de cada um deles? c) Que elementos diferenciam os dois textos? Leitura e literatura

Teatro medieval Auto era uma modalidade do teatro medieval, com assunto basicamente religioso. No século XVI, os assuntos passaram a ser também profanos, sérios ou cômicos. Divertiam, moralizavam pela crítica aos costumes e ainda ensinavam as verdades da fé, de modo vivo e acessível. Mesmo com a implantação do teatro clássico no século XVI, o interesse popular pelos autos não acabou. O poeta português Camões chamava seus textos teatrais de autos, embora fosse homem do Renascimento.

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Na trama dos textos Do texto não literário ao texto literário Você já ouviu as expressões “minha vida daria um romance”, “esse filme é um épico” ou “vamos acabar logo com esta novela”? Provavelmente, você compreende o sentido dessas afirmações tendo em vista o contexto em que a conversa acontece. Atualmente, os estudos da linguagem enfatizam a teoria dos gêneros do discurso, produzidos em situações do cotidiano. Com base em uma atividade humana, as pessoas estabelecem interações verbais. O gênero literário romance, criado no século XVIII, incorpora e reelabora diversos gêneros do cotidiano, como cartas, bilhetes, diálogos, piadas, notícias e debates. Ao entrarem no texto literário, os gêneros do cotidiano perdem o vínculo com a realidade e adquirem outro sentido. Não se pode estudá-lo sem estabelecer relações com a esfera da atividade humana em que aparece. O que faz um texto ser considerado romance, conto ou poema? Por que esses textos são considerados literários? Qual é a diferença entre eles e os textos não literários? Leia os dois textos a seguir e observe a diferença de gêneros. Padroeiro da Internet A Internet vai ganhar seu santo protetor. O papa João Paulo II deve em breve nomear Santo Isidoro de Sevilha como padroeiro da rede mundial. Nascido no século 7 em Cartagena, na Espanha, o santo foi um escritor prolífico e versátil. Ele foi o primeiro católico a compilar os conhecimentos universais de seu tempo — daí seu vínculo com a Internet — numa outra obra enciclopédica intitulada Etymologiae, que trata tanto de assuntos religiosos quanto de gramática, medicina, legislação, ciências, geografia e agricultura, entre outros temas. O dia de Santo Isidoro é comemorado em 4 de abril. GLOBO RURAL. Disponível em: <http://globorural.globo.com/edic/185/rep_digitala.htm>. Acesso em: 21 maio 2007.

Leitura e literatura

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Texto, gênero do discurso e produção Na seção (Des)construindo o gênero desenvolvem-se as atividades de produção de texto, iniciando-se com a leitura do gênero a ser estudado (anúncio, notícia, reportagem, cartum, fichamento, resumo, resenha crítica, seminário de pesquisa etc.). Em seguida, passa-se para a identificação de sua esfera de circulação e análise do texto verbal, sua estrutura composicional, vocabulário, organização do texto, suas características e a esfera de recepção.

Gênero publicitário: propagandas institucionais Diversas propagandas circulam diariamente em diferentes meios de comunicação. Acontece que muitas vezes elas não vendem produtos mas propagam informações para conscientizar e instruir a população sobre questões sociais que envolvem todos os cidadãos. As “propagandas institucionais”, de diferentes maneiras, procuram convencer a população a participar de trabalhos voluntários, preservar o meio ambiente, cuidar da saúde, ter acesso à cultura, manter a ética e conhecer as dimensões que ligam o cidadão à vida social. Você já reparou nesse tipo de propaganda? Já leu, no verso de uma embalagem de cigarro, a mensagem “O Ministério da Saúde adverte: [...]”? Em período de férias e no Carnaval, é comum haver muitas campanhas direcionadas principalmente aos jovens, para incentivá-los a usar preservativos e para convencê-los do perigo de dirigir depois de beber.

(Des)construindo o gênero Diálogo entre o verbal e o visual Propaganda institucional Leia a propaganda a seguir, que circulou na revista mensal Ciência Hoje em fevereiro de 2013.

1. Quem é o responsável pela produção dessa campanha publicitária? FAÇA NO

Greenpeace

(Des)construindo o gênero

Capítulo 5

Texto, gênero do discurso e produção

CADERNO

2. Descreva os elementos verbais e visuais que compõem a propaganda. 3. A ampulheta, um dos objetos mais antigos criados para medir o tempo, também é conhecida como relógio de areia. Em geral, simboliza o ciclo da vida, que se conclui com a morte. Reflita sobre a imagem da ampulheta na propaganda e responda: a) A ampulheta se refere à vida de quem? b) Relacione a imagem da ampulheta à afirmação “Não deixe que as florestas do Brasil fiquem no passado.”. Explique o sentido da expressão “ficar no passado” nesse contexto. 4. Quando a areia termina de escoar de uma parte para a outra, a ampulheta pode ser invertida para continuar a medir o tempo. Relacione tal aspecto com o texto verbal da parte inferior do anúncio e responda: a) Qual é o sentido de inverter a ampulheta? Justifique sua resposta com trechos dessa parte da propaganda. b) Quem poderá ser responsável por essa inversão? Explique com elementos do texto. 5. Nessa propaganda, há o uso de formas verbais no modo imperativo. a) Identifique-as e indique qual é o sujeito oculto de cada uma. b) A quem o Greenpeace se dirige? Explique o uso desse modo do verbo.

Linguagem do gênero

Não há mais tempo, as florestas brasileiras estão sendo dizimadas e, se não agirmos agora, elas farão parte do passado. O Brasil pode se desenvolver sem desmatamento. Junte-se ao Greenpeace e faça parte da mudança.

CIÊNCIA HOJE. São Paulo: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, n. 300, jan./fev. 2013. Contracapa, parte interna.

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Capítulo 5 – Gênero publicitário: propagandas institucionais

Na seção Linguagem do gênero, apresentamos os mecanismos linguísticos e discursivos e colocamos em análise o uso que constrói cada gênero.

Linguagem do gênero O texto verbo-visual

Diário de São Paulo

A linguagem que aparece na propaganda mistura formas verbais — uso reiterativo do imperativo — com formas visuais. Os textos verbais apresentam palavras grifadas ou coloridas, maiores ou menores; é uma maneira de dirigir a leitura. Os textos visuais constroem imagens que auxiliam a ver o mundo de maneira diferente. Pela linguagem verbo-visual, o componente cultural se manifesta e se torna o fio condutor para transmitir determinado conhecimento à comunidade-alvo. A propaganda que você vai ler a seguir teve como objetivo divulgar o projeto Estação Luz da Nossa Língua. As obras de restauração da Estação da Luz, em São Paulo, foram iniciadas em 2003 e o espaço abrigou o Museu da Língua Portuguesa de 20 de março de 2006 até o incêndio de grandes proporções em 21 de dezembro de 2015. Muito diferente do texto anterior, este anúncio mantém as marcas composicionais essenciais desse gênero: dirigir-se aos cidadãos de uma cidade, estado, país; divulgar um projeto social; passar informações etc. 1 As obras de restauração

da Estação da Luz, em São Paulo, foram iniciadas.

2 Em breve, a Estação vai

abrigar um grande centro de referência da língua portuguesa. Um projeto para valorizar nosso idioma, nossa identidade e nossa cultura, dentro de um dos mais importantes patrimônios históricos do Brasil.

Praticando o gênero Na seção Praticando o gênero, a proposta é que o aluno use os recursos linguísticos que aprendeu e produza textos com características linguísticas e discursivas do gênero estudado.

3 ESTAÇÃO LUZ DA NOSSA

LÍNGUA

4 Um espaço para unir

todas as línguas que fazem a nossa.

5 Iniciativa: Secretaria

Delfim Martins/Pulsar

DIÁRIO DE S.PAULO. São Paulo, 21 maio 2003. p. A14.

de Estado da Cultura. Fundação Roberto Marinho

6 Parceria: IBM, Correios,

Rede Globo, Secretaria de Estado de Educação, BNDES, Votorantim, Vivo, Lei de Incentivo à Cultura — Ministério da Cultura

7 Apoio: Companhia

Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (SP), exposição temporária em homenagem a Guimarães Rosa, junho de 2006.

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Capítulo 5 – Gênero publicitário: propagandas institucionais

Paulista de Trens Metropolitanos, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Fundação Biblioteca Nacional, Prefeitura de São Paulo, Rohr Estruturas Tubulares

FAÇA NO CADERNO

1. No anúncio, o símbolo do projeto é uma impressão digital que aparece impressa numa página de livro. a) Que relação existe entre a imagem e o projeto? b) Abaixo do símbolo e do nome do projeto, aparece em vermelho uma explicação: “Um espaço para unir todas as línguas que fazem a nossa.”. Quais são as possibilidades de interpretação da palavra “espaço”? 2. Agora, observe a linguagem empregada no título: “Entenda por que você, cê, tu e ocê deve conhecer o projeto.”. a) Sabendo que os pronomes pessoais e os de tratamento que se referem à segunda pessoa do discurso têm a função básica de representar os interlocutores de um enunciado, a quem o texto se dirige? b) Cê e ocê são variações do pronome pessoal você, que se emprega principalmente na linguagem falada, conjugado como ele/ela. Tu é o pronome pessoal da segunda pessoa do singular, a quem o locutor se dirige diretamente. Usados numa sequência e mantido o verbo no singular, qual é o sentido que esses termos produzem? c) Um leitor atento é capaz de captar informações tanto explícitas quanto implícitas. Ao usar “por que”, separado e sem acento, o texto traz uma interrogação indireta implícita. Pela leitura global da propaganda, qual foi o sentido de “por que”? 3. No texto, em letras maiores e vermelhas, aparecem a forma verbal “entenda” (no modo imperativo) e a locução verbal “deve conhecer” (no presente do indicativo, com valor de imperativo). Com que finalidade esse modo temporal foi empregado? A finalidade do gênero propaganda institucional é informar e instruir o leitor a respeito de assuntos de interesse da coletividade e conscientizá-lo acerca de questões das mais diversas ordens (sociais, ambientais, culturais etc.). Para isso, o anúncio se organiza com elementos verbo-visuais. Características da propaganda institucional • Texto curto, para chamar a atenção do leitor. • Linguagem clara, direta e concisa — uso coloquial. • Verbos no imperativo e uso de pronomes pessoais e de tratamento. • Título com o fim de prender a atenção. • Logotipo da instituição, pública ou privada, responsável pela propaganda. • Imagens de fácil compreensão.

Praticando o gênero • Reúna-se com dois colegas para fazer uma propaganda institucional dirigida aos jovens, visando alertá-los para atitudes de desrespeito com os colegas ou com a comunidade. • Listem situações do cotidiano em que vocês observem desrespeito. Em seguida, elaborem a propaganda. • Procurem mostrar a situação com base no texto visual. • Tenham em mente os leitores a quem vocês pretendem alertar. • Observem se a parte verbal do anúncio está de acordo com a visual e se os argumentos verbais são convincentes. • Redijam um título, usando vocabulário apropriado à faixa etária a que se destina, para chamar a atenção sobre a proposta. • Criem um logotipo para o anunciante. • Façam o anúncio numa folha de cartolina, para que possam apresentá-lo ao público. • Se a escola produzir um jornal ou uma revista, conversem com o responsável para reservar um espaço para publicar o anúncio. Caso não tenha um jornal ou uma revista da escola, peçam autorização ao professor para publicar o anúncio no mural da sala de aula ou no quadro que fica no corredor da escola.

Texto, gênero do discurso e produção

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Língua e linguagem Explorando os mecanismos linguísticos Na seção Explorando os mecanismos linguísticos, você vai estudar, com base na leitura de diferentes textos, as diversas estratégias linguísticas de combinação e de seleção articuladas ao sentido dos textos. Os conceitos estudados na seção são ordenados em Sistematizando a prática linguística.

Na seção Usando os mecanismos linguístico-discursivos, estão reunidas as atividades em torno dos aspectos linguísticos explorados no capítulo. Observe dois quadrinhos que acompanham o artigo.

Variações linguísticas

Klebs Junior/Folhapress

Klebs Junior/Folhapress

Capítulo 6

Língua e linguagem

Usando os mecanismos linguístico-discursivos

Explorando os mecanismos linguísticos Variações regionais A identidade do português do Brasil se constrói na diversidade de línguas e falares de muitos povos. Baianos, mineiros, gaúchos, amazonenses, cariocas, paulistas e goianos falam do mesmo modo? HELVÉCIA, Heloísa. Cada um com a sua língua. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 jun. 2003. Caderno Sinapse, p. 10-11.

Variedades linguísticas

2. Consulte o dicionário e tente descobrir o que foi dito nos dois balões.

O linguista José Luiz Fiorin explica:

Antigamente, jargão era a gíria dos marginais, mas hoje há estudos nos quais essa palavra é usada como sinônimo de gíria. Há “uma confusão grande” nesse sentido, afirma o linguista Dino Preti, coordenador científico do Núcleo de Estudo da Norma Linguística Urbana Culta (Nurc) na Universidade de São Paulo (USP). Para ele, jargão é a “linguagem científica ou técnica banalizada”. É uma forma de falar inadequada à situação. “A pessoa quer se promover, mostrar que fala uma linguagem que o outro desconhece, o que disfarça uma ignorância.”

A variação é inerente às línguas, porque as sociedades são divididas em grupos: há os mais jovens e os mais velhos, os que habitam uma região ou outra, os que têm esta ou aquela profissão, os que são de uma outra classe social e assim por diante. O uso de determinada variedade linguística serve para marcar a inclusão num desses grupos, dá uma identidade para seus membros. Aprendemos a distinguir a variação. Quando alguém começa a falar, sabemos se é do interior de São Paulo, gaúcho, carioca ou português. Sabemos que certas expressões pertencem à fala dos mais jovens, que determinadas formas se usam em situação informal, mas não em ocasiões formais. Saber uma língua é conhecer suas variedades. Um bom falante é poliglota em sua própria língua. Saber português não é aprender regras que só existem numa língua artificial usada pela escola. As variantes não são feias ou bonitas, erradas ou certas, deselegantes ou elegantes, são simplesmente diferentes. Como as línguas são variáveis, elas mudam.

Sistematizando a prática linguística As variações linguísticas são específicas de grupos sociais formados por diferentes critérios: idade, região, profissão, classe social etc. Também sofrem interferência de outros fatores, como a época em que são produzidas. Sua adequação está, pois, condicionada às situações de interação desses grupos. Um mesmo falante alterna o uso das variantes conforme o grupo social e a situação de comunicação em que atua: as variantes funcionam como fator de identidade, isto é, caracterizam os membros do grupo. As variações são basicamente de: • vocabulário (palavras); • estrutura sintática (frases); • pronúncia (sons).

FIORIN, J. L. Considerações em torno do projeto de lei no 1.676/99. In: FARACO, C. A. (Org.). Estrangeirismos: guerra em torno da língua. São Paulo: Parábola, 2001. p. 113-114.

Andando pelo Brasil, você encontra diferentes falares: expressões regionais, construções sintáticas de cada lugar, sotaques que constituem a língua portuguesa. Os três textos a seguir mostram a fala do gaúcho, do caipira e do nordestino. Como você fala? Você se considera um poliglota?

As variações efêmeras, com teor metafórico e alto grau de informalidade, são chamadas de gíria. Quando específicas de grupos profissionais, constituem o jargão.

Usando os mecanismos linguístico-discursivos

Texto 1 Leia, a seguir, o fragmento de um conto do gaúcho João Simões Lopes Neto. Morador da cidade, o escritor vivia sempre no campo, recolhendo o linguajar típico dos peões. Criou uma personagem para ser o narrador de seus “causos”, o vaqueano Blau Nunes, um militar que se tornou contador de histórias.

A gíria nossa de cada dia Divirta-se com este uso de gíria colhido do cotidiano pelo cartunista paulistano Fernando Gonsales (1961). Fernando Gonsales

Penar de velhos Um dia, dezembro, sol de rachar, com trovoada armada, andara o guri ninhando numas restingas que havia sobre o fundo da roça, por detrás das casas. O chapéu estava já abarrotado de ovos de tico-tico, de alma-de-gato, de corruíras, canarinhos, sabiás...; era um entrevero bonito de cores e feitios diferentes. De calcita arregaçada, mui espinhado nas canelas e nos braços, o rosto vermelho e a cabeça ardendo, o diabinho ainda gateava num ninho de tesouras, quando, do outro lado da cerca, ouviu o assobio das avestruzes, pastando. Ouviu, e fura aqui, fura ali, varou a cerca para dar fé, bem à sua vontade. Entre a roça e um braço de banhado, que havia, formava-se uma rinconada mui boa para volteada: e foi nisso que o guri pensou. As avestruzes seriam umas oito e uma tropilha de filhotes, já emplumaditos. FAÇA NO CADERNO

LOPES NETO, J. Simões. Penar de velhos. In: ______. Contos gauchescos e lendas do sul. Porto Alegre: L&PM Editores, 2012. p. 197.

1. Observe a pontuação usada no primeiro parágrafo, depois da lista de espécies de pássaros: “sabiás...;”.

GONSALES, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 nov. 2003. Ilustrada, p. E13.

a) O que indicam as reticências no trecho? b) Que outro sinal de pontuação pode ser usado no lugar do ponto e vírgula, com o mesmo efeito?

Língua e linguagem

Língua e linguagem

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Em cena

Em atividade

Na seção Em cena, o foco é o trabalho com a oralidade. Você e seus colegas terão a oportunidade de preparar diversas atividades estruturadas para desenvolver a expressão oral: dramatização, seminário, debates, sarau poético-musical, café literário, entre outras.

Além das atividades propostas para estudo de textos, alguns capítulos contam com a seção Em atividade, que apresenta questões de vestibulares e do Enem.

Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, a palavra gênero significa conjunto de seres ou objetos que possuem a mesma origem ou que se acham ligados pela semelhança de uma ou mais particularidades. Os gêneros do discurso, portanto, são formas discursivas que têm características mais ou menos estáveis, porque são produzidas em situações de comunicação parecidas, em áreas do conhecimento semelhantes. Os textos analisados permitem refletir sobre o uso da língua e das diferentes linguagens em variadas situações de comunicação social. O texto da capa do catálogo e o do cartaz do Museu do Futebol são produzidos em circunstâncias parecidas e com finalidades próximas, mas não são iguais. Eles se materializam de forma única, já que podemos pressupor diferentes tipos de interlocutores para uma exposição de arte e para uma mostra interativa sobre futebol. Em nosso cotidiano, quando lemos determinados textos constituídos em gêneros mais comuns, os reconhecemos rapidamente. Esse reconhecimento permite estabelecer a comunicação de maneira mais eficiente. Se não conhecemos diferentes gêneros, não identificamos inúmeras situações de comunicação que determinados textos integram. Os gêneros do discurso estão vinculados a uma época e a um lugar específicos, havendo um diálogo estabelecido com outros gêneros e com o contexto específico e amplo de produção. O gênero não é imutável e idêntico em todas as situações, como vimos nos cartazes estudados. Ele existe em função das finalidades comunicativas entre os sujeitos no lugar e tempo da interação. Ou seja, os gêneros nascem e morrem conforme o contexto sócio-histórico se modifica, preservando relações com gêneros que já existiram. A leitura de um texto em um gênero específico necessita da compreensão de seu contexto de produção, recepção e circulação, de acordo com as pistas linguísticas deixadas pelo autor. Do contrário, a leitura será fragmentada e, portanto, incompleta.

A VOZ DA CRÍTICA

Não necessariamente o texto tem de falar de um mundo imaginário; sua característica principal está na forma como recria a linguagem, trazendo as expressões do dia a dia para as páginas de um livro ou de um jornal. A variedade de linguagens organizada artisticamente cria o texto literário. Os textos literários ganham vida com a presença de outros gêneros, ditos não literários. Os gêneros não literários são muitos, sendo difícil delimitá-los. Têm características próprias, mas no momento em que aparecem no texto literário transformam-se e aí adquirem outro sentido. Ezra Pound (1885-1972), poeta moderno nascido nos Estados Unidos, explica: A literatura não existe no vácuo. Os escritores, como tais, têm uma função social definida, exatamente proporcional à sua competência como escritores. Essa é a sua principal utilidade. [...] A linguagem é o principal meio de comunicação humana. Se o sistema nervoso de um animal não transmite sensações e estímulos, o animal se atrofia. Se a literatura de uma nação entra em declínio, a nação se atrofia e decai. POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Cultrix, 1977. p. 36.

Em atividade

| Em cena |

FAÇA NO CADERNO

1. (Enem/MEC)

Converse com os colegas sobre a importância da leitura de diferentes textos verbais e verbo-visuais. Para isso, organizem-se em grupos para uma pequena pesquisa. Busquem uma pintura, tirinha em jornais ou revistas ou charge que dialogue com um texto literário. Discutam os possíveis diálogos estabelecidos entre os textos. Observem um exemplo desse diálogo entre o poema Carnaval de Arlequim (Miró) e a tela O carnaval do Arlequim (1924-1925).

Texto 1

A melhor banda de todos os tempos da última semana O melhor disco brasileiro de música americana O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos Não importa contradição O que importa é televisão Dizem que não há nada que você não se acostume Cala a boca e aumenta o volume então.

Arte em exposição Carnaval de Arlequim (Miró) Descobri que a vida é bailarina E que nenhum ponto inerte Anula o viravoltear das coisas

MELLO, B.; BRITTO, S. A melhor banda de todos os tempos da última semana. São Paulo: Abril Music, 2001 (fragmento).

Texto 2

DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Arte em exposição. In: ______. Farewell. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 35.

O fetichismo na música e a regressão da audição Joan Miró. 1924-25, Óleo sobre tela, 6690,5 cm. Knox Art Gallery, Buffalo, Estados Unidos. Foto: Granger/Glow Images © Succession Joan Miró/AUTVIS, Brasil, 2016

Carnaval de Arlequim (Miró) faz parte do poema Arte em exposição, um poema composto de 32 poemas sintéticos que dialogam com a arte.

O carnaval do Arlequim, de Joan Miró (1893-1983). Temos a representação de um quarto com mesa e janela, marcas do cotidiano. O movimento incessante é transmitido por elementos oníricos (insetos soltos brincam no espaço). A figura do Arlequim, rosto redondo e bigodes grandes, traz um olhar triste.

Leitura e literatura

Aldous Huxley levantou em um de seus ensaios a seguinte pergunta: quem ainda se diverte realmente hoje num lugar de diversão? Com o mesmo direito poder-se-ia perguntar: para quem a música de entretenimento serve ainda como entretenimento? Ao invés de entreter, parece que tal música contribui ainda mais para o emudecimento dos homens, para a morte da linguagem como expressão, para a incapacidade de comunicação. ADORNO, T. Textos escolhidos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

A aproximação entre a letra da canção e a crítica de Adorno indica o(a) a) lado efêmero e restritivo da indústria cultural. b) baixa renovação da indústria de entretenimento. c) influência da música americana na cultura brasileira. d) fusão entre elementos da indústria cultural e da cultura popular. e) declínio da forma musical em prol de outros meios de entretenimento. 2. (Enem/MEC)

Sou uma pobre e velha mulher, Muito ignorante, que nem sabe ler. Mostraram-me na igreja da minha terra Um Paraíso com harpas pintado E o Inferno onde fervem almas danadas, Um enche-me de júbilo, o outro me aterra.

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VILLON, F. In: GOMBRICH, E. História da arte. Lisboa: LTC, 1999.

Leitura e literatura

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Atividade em grupo

FAÇA NO CADERNO

1. Reúna-se com mais três colegas e respondam: a) O que as fotografias contam? b) Como é o uso das fotografias em diferentes situações da vida humana? 2. Agora, fotografem cenas do cotidiano, com pessoas, que mostrem problemas sociais. Exponham as fotos em uma sequência, de forma que contem uma história. a) Redijam falas para as personagens das fotos.

Boxes

b) Montem uma pequena encenação dramática de, no máximo, cinco minutos com a narrativa criada. Como FAÇA N O apresentaa encenação deve ser realizada em um curto período, as falas precisam em ser rápidas. da Atividade grupo Antes CADERNO ção, organizem um ensaio, se acharem necessário. 1. O poema “Soneto de amor total” trata do modo de amar. Como o eu poético se comporta em relação ao amor 1. Reúna-se com mais três colegas e respondam: nas várias estrofes? Explique como foi organizada a descrição. a) O que as fotografias contam? Os versos de um poema costumam estar agrupados em estrofes, que recebem denominações próprias de acordo b) Como é o uso das fotografias em diferentes situações da vida humana? FAÇA NO CADERNO

Ao longo dos capítulos, você vai encontrar boxes variados, com informações diversas, como: explicação de conceitos; dados biográficos dos autores estudados; características de determinado gênero, texto ou período com o número de versos que reúnem. O agrupamento de versos que se repete ao longo de um poema e facilita sua Astúcias do texto memorização chama-se refrão, estribilho ou ladainha.e curiosidades 2. Agora, fotografem cenas doabordados cotidiano, com pessoas, que mostremeproblemas sociais. Exponham as fotos links para obras literárias literário; informações adicionais sobre temas no capítulo Há vários tipos de estrofe: em uma sequência, de forma que contem uma história. A• origem dadois palavra “crônica” vem do grego chronos, que ou signifi ca “tempo”. A crônica é um pequeno flade domínio há um glossário que traz o significado de palavras e expressões, a fim de dístico —público. versos; Em alguns textos, • sétima septilha — sete versos; Redijam falas para as personagens fotos. grante do cotidiano, um recorte no espaço e no tempo, por meio do a) tratamento ficcional dispensado aos das temas • terceto — três versos; • oitava — foram oitob) versos; empregadas. uma de pequena dramática de, no máximo, cinco minutos com a narrativa criada. Como explicitar seu sentido no contexto que do dia a dia. No jornal é marcada pela efemeridade; em no livro torna-se umMontem documento época.encenação Sempre perto do • quadra ou surpreende quarteto — quatro versos; • nona — enove a encenação deve ser realizada em um curto período, as falas precisam ser rápidas. Antes da apresentaleitor, a crônica pela linguagem simples, pela graça peloversos; humor. • quintilha — cinco versos; • décima — dez versos. ção, organizem um ensaio, se acharem necessário. • sexteto ou sextilha — seis versos;

O2. discurso narrativo na crônica Como foram distribuídos os versos no “Soneto de amor total”? Informações Leia a crônica de Luis Fernando Verissimo, que recupera um fato histórico: os atentados de 11 de setembro

Link

têmpora: cada umado das Astúcias texto partes laterais da cabeça

Alguns poemas seguem certo padrão de estrutura e por isso são chamados poemas de forma fixa. O soneto

de 2001, lhe emVeja Nova York. aconteceu inimaginável, o que nunca antes tinha lhe acontecido, équando um deles. algunsooutros:

nem nas guerras. Ela foi atacada. Eu estava longe do local, mas senti o seu • balada — trêscom oitavas uma quadra, com repetição da ideia noefitratei nal da estrofe; compreendidas entre o olho, a terror, comovi-me a suae comoção, fui solidário com a sua dor — A origem palavra “crônica” vem do grego chronos, que significa “tempo”. A crônica é um pequeno flaorelha, a da fronte e a bochecha. de•dar o fora o— mais possível. E ou desde então não e voltei mais. Dois anos. umrápido terceto (“mote” motivo inicial) outras estrofes livres (“voltas” quecerca desenvolvem mote); Emvilancete 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos sofreram um atentado que deixou de mil omortos. Dois e no tempo, por meio do tratamento ficcional dispensado aos temas grante do cotidiano, um3recorte no espaço Pessoas que vêm de lá me contam que, fora as suas medidas de segurança, • rondó — só quadras ou quadras e oitavas; do dia a dia. No jornal é marcada pelaa efemeridade; no livro torna-se um documento de época. Sempre perto do aviões foram lançados contra as famosas torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e um contra fachada ela continua a mesma. Tenho saudade dela, mas talvez eu já estivesse mesmo leitor, crônica surpreende pela linguagem do do da Departamento Defesa dos Estados Outroa avião caiu em uma área vazia após umsimples, pela graça e pelo humor. chegando fase vida em que ode homem começa a ficar,Unidos). assim, mais •Pentágono haicainaquela — (sede 17 sílabas distribuídas em três versos. europeu, uma condição que não tem a ver com geografi a e sim com as suas confronto passageiros e terroristas. Veja umentre exemplo de haicai: prioridades e a cor das suas têmporas. No fim, não foi só o que o Bin Laden fez O local do ataque tornou-seesta simbólico. O World Trade Center, complexo de sete edifícios situado em Manhattan, é uma com ela sob os meus olhos, talvez jávida estivesse naviagem hora do rompimento. Só não no coração de Nova York, tinha pena eu precisava ser tão explosivo. estaras torres gêmeas como as mais famosas construções. Erguidas em 1973, abrigavam

O discurso narrativo na crônica

400 empresas de 25 países nossóseus 110 andares. Leia a crônica de Luis Fernando Verissimo, que recupera um fato histórico: os atentados de 11 de setembro de passagem DOIS ANOS, de Luis Fernando Verissimo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Em 2014, foi inaugurado World node lugar dasPaulo: duas torres. 2001, em Nova York. Paulo. Toda poesia. São Companhia das Letras, 2013. p. 313. em 11odeOne setembro de 2003,Trade Caderno Center, 2, p. D2; LEMINSKI, © byconstruído Luis Fernando Verissimo. Releia o soneto de Vinicius de Moraes em voz alta, procurando sentir sua fluência melódica. Note como os FAÇA NO versos CADERNO se harmonizam, ou seja, como têm ritmo. Em 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos sofreram um atentado que deixou cerca de 3 mil mortos. Dois Os poemas são, em princípio, composições baseadas na oralidade, feitos para serem declamados ou cantados. Por clube Birdland: famoso de gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e um contra a fachada Dois anos Por aviões foram lançados contra as famosas torres 1. Costuma-se dizer que a mídia abre janelas para o mundo. ela, ficamos sabendo dos principais acontecimentos isso, devem ser analisados como fenômenos de língua falada. De acordo com esse critério, veja como divisão silábica de Nova York. de Defesa dos Estados Unidos). Outro avião caiu em uma área vazia após um do Pentágono (sede doajazz Departamento nacionais e internacionais nas diferentes atividades Nado mídia impressa, as notícias, reportagens Éprimeiros uma razão inconfessável, confesso. A comunicativas. razão odiosa namorado que redos versos do “Soneto de amor total” fi ca um pouco diferente da estabelecida pela gramática normativa: Texto 3 Charlie Parker: saxofonista etc. tendem a ser janelas informativas, e os artigos, editoriais, resenhas, charges etc. são janelasentre opinativas. A crônica confronto passageiros e terroristas.

jeita a namorada quando sabe que ela foi estuprada. No meu caso, a atitude também circula nessa esfera, mas com características bem diferenciadas. e compositor estadunidense O localsua do ataque tornou-se simbólico. O World Trade Center, complexo de sete edifícios situado em Manhattan, Leia um poema em que uma o escritor nordestino Patativa canta terra natal, o Ceará. machista e irracional tem atenuante: eu meu estava lá,do euAssaré vi o mor ato, não posso teque se recupera tan na crônica to a can (te) muito importante paragêmeas a no coraçãonão de Nova York, tinha as torres como as mais famosas construções. Erguidas em 1973, abrigavam a)A Qual é omo ato histórico de Verissimo? tirá-lo da cabeça. Entre todos os motivos para não ter voltado a Nova York história jazz.110 andares. 400 empresas de 25 países nosdoseus Ohu ma no co ra ção com mais ver da (de) b) Quando e onde esses fatos ocorreram? A triste partida depois do 11/9, este é o pior e o mais forte. Eu presenciei o estupro. Vai levar alEm 2014, foi inaugurado One World Trade Center, construído no lugar das duas torres. Dizzy oGillespie: c)Atempo Com quem narrador dialogando? mo te está co mi co pensando (te) trompetista, gum atéoeu poder encará-la com naturalidade. Eugoe sei, não foi culpamoa dela. Setembro passou, com oitubro emoa novembro, Agora seguiman outra líder detria, orquestra, cantor Toda ostentação, aquela arrogância, tãover rica, a pobrezinha eram Já tamo em dezembro, famia Nuaquela ma sa rea— não li históricos dae compositor 2. Procure reconstruir o sem percurso dopre narrador edio percurso da cidade numaChamando sequência deafatos ante- (de)de jazz razões para atacá-la jeito. Dizem que ela ficou traumatizada, Meu Deus quedaquele é de Começa amas dizê:fora cedentes a 11 de setembro denós? 2001. estadunidense. Birdland: famoso clube de Dois anos falamuito. o pobre do seco Nordeste, Eusei vendo burro, meu jegue e cavalo, isso nãoAssim mudou Tudo que eu gosto nela continua. Mas, não.meu Sou um Escandir ou fazer escansão de um verso éum dividi-lo em sílabas poéticas. ÉTínhamos um parado verifi car como 3. O narrador-personagem apresenta, aparentemente, caso de estupro da namorada. Durante a leitura texto, jazz de Nova York. Com está medo daapeste, Nós vamo a recurso Sã Palo desalmado, certo. Mas não posso. Ainda não dá para encará-la. É uma razão inconfessável, confesso. A razão odiosa do namorado que rese criou o ritmo. essa situação adquire outros sentidos. Explique-os, considerando as expressões: “ela devia ter uns 300 [anos]”; Da fome feroz. Vivê ounuma morrê.ocaCharlie Parker: saxofonista uma longa história. Eu a conheci com 9 anos (ela devia ter uns 300), namorada quando Para verifimedidas car o tamanho ou a métrica de uma verso, contamos ajeita última sílaba tônica, “fora as suas de segurança, ela continua mesma”; foi só oaté que o BinaLaden fez comdesconsiderando ela sob ossabe que ela foi estuprada. No meu caso, a atitude a só“não e compositor estadunidense sião especial. Acabara a guerra mundial — a 2 , a boa — e ela machista estava nae rua, irracional uma eu estava lá, eu vi o ato, não posso meus olhos”. as átonas restantes. A treze do mês eledefez esperiença, vamo a Sã Palo, que tem a coisa tá atenuante: feia, muito importante para a comemorando. Lembro vê-la no Times Square, dançandoNós e beijando maritirá-lo da cabeça. Entre todos os motivos para não ter voltado a Nova York Perdeu sua crença Por terras alêia história do jazz. 4. O cronista usa o recurso da linguagem metafórica comparar “estupro” aaato terrorista, “namorada” nheiros. Depois, quando morei quatro anosaoem Washington, cinco horas deeste é àocidadepois do 11/9, pior e o no mais forte. Professor(a), acervo do Eu presenciei o estupro. Vai levar alpedra de sá.versos aos Nós vamo vagá. Eisde a Nas classifi cação dos embrasileiros. relação aoOnúmero de comum sílabas:entre Dizzy Gillespie: trompetista, de Nova York e “o narrador” que há de cada dupla de elementos? ônibus dela, eu a visitava com frequência, sem dinheiro, mas com todo o vigor tempo até eu poder encará-la com naturalidade. Eu sei, não foi culpa dela. PNBE, encontra-se a obra Mas noutra esperiença com gosto se agarra Se ogum nosso destino não fô tão misquinho, líder de orquestra, cantor •adolescência. monossílabo — uma sílaba; •Parker heptassílabo ou redondilha maiorEsse — sete sílabas; da Numa visitas, de vi 2001, o Charlie o Dizzy Gillespie nosso português: Toda aquela ostentação, aquela arrogância, tão rica, a pobrezinha — não eram Pensando barradessas mermo 5. Ao recuperar o ato na terrorista de 11 de setembro o cronista trouxeeaPro perspectiva decantinho um cidadão brasileiro e compositor de jazz tocando no Birdland. Ou ele já estabeleceu? contei isso? Tivemos muitas • dissílabo — duas sílabas; •com octossílabo — oitopara atacá-la daquelesobre jeito.língua, Dizem que ela ficou traumatizada, mas fora em terras estadunidenses. Que diálogo Discuta dois colegas eexperiências exponha suas ideias.crônicas Dojuntos alegre Natá. Nósrazões torna asílabas; vortá. estadunidense. linguagem e literatura, de juntos. Eu estava lá quando por exemplo. Enão estava lá muito. Tudo que eu gosto nela continua. Mas, sei não. Sou um • trissílabo — três sílabas; mataram o John Lennon, • eneassílabo — nove sílabas; isso mudou João Ubaldo Ribeiro. desalmado, está certo. Mas não • tetrassílabo —o quatro • decassílabo — dez sílabas; Rompeu-se Natá,sílabas; porém barra não E vende o seu burro, o jumento e o posso. cavalo,Ainda não dá para encará-la. Tínhamos O espaço do veio, leitor na crônica longa O só bemou vermeio, Intéuma mermo o história. galo • pentassílabo redondilha menor — cinco sílabas; • hendecassílabo — onze sílabas; Eu a conheci com 9 anos (ela devia ter uns 300), numa ocaNo século XV, a crônica documentava a vida e as realizações de reis e nobres. Desde a metade do século XIX, os sião especial. Acabara a guerra — a 2a, a boa — e ela estava na rua, Nasceu munto além. Vendero também, • hexassílabo — seis sílabas; dodecassílabo — doze sílabas.mundial cronistas passam a narrar episódios comuns para o leitor anônimo, que• queria saber de tudoou umalexandrino pouco: acontecimentos 135 Leitura e literatura Na copa da mata buzina a cigarra, Pois logo aparece feliz fazendêro comemorando. Lembro de vê-la no Times Square, dançando e beijando marimundiais, das pessoas famosas, poemas, textos ficcionais etc. VocêNinguém jávida entrou no ritmo? a abarra, Pormas pôco dinhêro nheiros. Depois, quando No início do séculovê XX, crônica diminuiu de tamanho, ganhou espaço próprio, conservou seu enfoque na morei quatro anos em Washington, a cinco horas de Professor(a), no acervo do Com essa barra regularidade de métrica e de alternância de sílabas fortes Lhe e fracas, eledela, está quase totalmente criado não tem. compra o que tem. ônibus eu a visitava miudezaPois circunstancial, no efêmero e no tom descontraído. A linguagem é informal, mas nem sempre o texto recupera com frequência, sem dinheiro, mas com todo o vigor PNBE, encontra-se a obra no poema. o discurso direto, muitas vezes há uma narrativa indireta com a presença do discurso poético ou paródico. NaNuma maioriadessas visitas, vi o Charlie Parker e o Dizzy Gillespie da adolescência. Esse nosso português: chuva nadoterra descamba janêro, para apresentar ao leitor Emum riba doponto carro junta a famia; das vezes,Sem é a recuperação discurso citado anteriormente outro de se vista. crônicas sobre língua, tocando juntos no Birdland. Ou já contei isso? Tivemos muitas experiências linguagem e literatura, de Depois feverêro, Chegou o triste dia, lá quando mataram o John Lennon, por exemplo. E estava lá juntos. Eu estava Capítulo 15 – Ritmo João Ubaldo Ribeiro. E o mermo verão. Já vai viajá. ParaEntonce compreender que se entende hoje por crônica, fique atento à explicação do crítico literárioterrive, e professor Antonio Candido: o orocêro, pensando consigo, A seca que tudo devora A crônica sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão coisas Diz: isso éestá castigo! Lhe botadas pra forae das pessoas. Características Leitura e literatura Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos Não chove mais não! Da terra natá.candentes, pega o

Conceito

Glossário

150

136

A VOZ DA CRÍTICA

A voz da crítica

Características

O que são gêneros literários?

miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da verdade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas suas formas mais fantásticas, Apela pra maço, que é o mês preferido O carro já corre no topo da serra. sobretudo porque quase sempre utiliza o humor.

A classificação em gêneros literários permite agrupar obras para que o leitor possa saber de que tratam, em quepra época Do Santo querido, Oiando terra,foram escritas, com quem ou o que dialogam. CANDIDO, Antonio. A vida ao rés do chão. In: ______. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Senhô São José. Seu berço, seu lá,Barbosa,de Campinas: Ed. da Unicamp; Rio de Janeiro: Casa de Rui 1992. p. 14. Como organizar e classifi carFundação a variedade textos literários? Se reunirmos vários Mas nada de chuva! Tá tudo sem jeito, Aquele nortista partido de pena, textos, logo reconheceremos que eles têm características comuns. Marcados por Lhe foge do peito De longe inda acena: da fé. Adeus, Ceará! regularidades como a maneira, a época e o lugar em que foram escritos, acabam CapítuloO 13resto – Crônica como gênero narrativo PATATIVA ASSARÉ. A triste partida. In: ______. Ispinho e fulô. São Paulo: Hedra, 2005. p. 46-48. FAÇA NO reunidos em DO um grupo ou gênero. CADERNO Fazer distinções entre os vários textos da literatura é uma ideia que surgiu com 1. Esse é um poema de lamento do eu poético, que migra de sua terra natal em razão o filósofo gregodeAristóteles (384-322 seus estudos cair, tombar;no livro A poética. Foi da seca do Nordeste. Esse lamento é o mesmo muitos nordestinos que sea.C.), veem em descambar: no texto, apresenta o obrigados a migrar para o sulele do país. quem organizou pela primeira vez a distinção entre prosa e poesia. De acordo sentido de “chegar”. a) Destaque as expressões quecom se referem lamento de quem suaao classifi cação, é migra. possível reunir em gêneros literários textos que apresenem riba: em cima. b) Transcreva as expressões quetam marcam a terra de Patativa do Assaré. vagá: vagar, andar sem traços semelhantes. destino. Historicamente, os gêneros literários, 2. Há, nesse poema, muitas variantes linguísticas que caracterizam um grupo social. observados da perspectiva artística, foCite algumas delas e verifique se você as usa na linguagem ram organizados em trêscoloquial. grupos: o lírico, o épico e o dramático. No século XVIII, o romance tornou-se o gênero literário da modernidade. Waldemar Padovani/Estadão Conteúdo

Patativa do Assaré: poeta popular, compositor, cantor e improvisador

Antônio Gonçalves da Silva nasceu na Serra de Santana, Assaré, município do Ceará, em 1909 e faleceu em 2002. Perdeu um olho aos 4 anos e ficou totalmente cego em 1990. Só estudou por cerca de quatro meses. Aos 17 anos, vendeu uma ovelha, comprou uma viola e passou a apresentar-se em festas, Leia umdenunciam dos poemas mais de Vinicius de Moraes. cantando seus próprios versos. Muitos de seus poemas a realidade de gravesconhecidos problemas e injustiças sociais sofridos pelo povo nordestino, sobretudo em função da seca do sertão. Sua fama de poeta e cantador espalhou-se rapidamente. O jornalista Joséda Carvalho lhe deu o apelido de Patativa, Soneto separação nome de uma ave típica do sertão, por causa de sua maneira de cantar. Publicou o primeiro livro em De repente riso fez-se pranto 1956. Perseguido pelo regime militar, não desistiu da militância política.do Foi homenageado pelaoSociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) porSilencioso suas posições democráticas luta pela anistia. e branconacomo a bruma Patativa do Assaré, em 1988.

E dasCearense, bocasestá unidas fez-se a espuma Professor(a), a obra O lenhador, de Catulo da Paixão no acervo do PNBE. E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

Língua e linguagem

De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente.

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Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente.

135

• O autor cria um eu poético que representa suas relações com seu mundo interior, revelando emoções e sentimentos de amor, raiva e ódio por meio das palavras, das imagens e do ritmo recriado. • O assunto predominante é a expressão de sentimentos e de emoções, impressões subjetivas. • As formas poéticas mais usadas são sonetos e canções. • Elementos líricos podem PNBE aparecerao emlongo textos desta Professor(a), prosa. coleçãoescritos você em encontrará in-

Biografia

O gênero lírico

do gênero lírico

59

dicações de obras que compõem acervo Programa Nooinício, erado a música! Nacional Biblioteca da Escola A palavra lírica vem de (PNBE). “lira”. Na Grécia antiga, os poemas eram lidos enquanto era tocado esse instrumento. Na Idade Média, passaram a ser acompanhados pela flauta e pela viola. A partir do século XV, os poemas eram lidos sem acompanhamento

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Sumário Unidade 1

Expressões culturais: o texto e a mídia ...................... 14 Leitura e literatura CAPÍTULO 1

Texto, gênero e discurso ........ 16

Oficina de imagens .............................................................. 16 Retalhos do cotidiano ............................................... 16 Astúcias do texto.................................................................. 17 Atividades humanas e interação ............................... 17 Na trama dos textos ........................................................... 21 Dialogismo: característica básica da linguagem ......... 23 Texto e gênero do discurso .......................................... 23

Em atividade ........................................................................... 26 Texto, gênero do discurso e produção CAPÍTULO 2

Gênero jornalístico: notícia de primeira página.................... 27

(Des)construindo o gênero .............................................. 27 Linguagem do gênero ........................................................ 30 Praticando o gênero ............................................................ 32 Repórter em ação: notícia de primeira página .......... 32 Em atividade ........................................................................... 32 Língua e linguagem CAPÍTULO 3

Tempos verbais .......................... 33

Explorando os mecanismos linguísticos .................. 33 Sistematizando a prática linguística .......................... 35 Tempos em relação ao momento da escrita do texto............................... 36 Tempos em relação ao marco temporal do texto ..... 36 Usando os mecanismos linguístico-discursivos ... 37 Em atividade ........................................................................... 38

Unidade 2

Construção da brasilidade: as raízes e o cidadão ............. 40 Leitura e literatura CAPÍTULO 4

Variedade linguística brasileira .................42

Oficina de imagens .............................................................. 42 O Brasil que não está no mapa................................. 42

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Astúcias do texto.................................................................. 43 Língua portuguesa no Brasil: um projeto em construção ....................................... 43 Na trama dos textos ........................................................... 47 Diálogo entre as línguas faladas no Brasil ................ 47 Contribuições de outras línguas ................................... 47 A raiz indígena .............................................................. 48 Um exemplo: a influência italiana ................................. 49 Outro exemplo: a influência anglo-saxônica ................. 50

Em atividade ........................................................................... 50 Texto, gênero do discurso e produção CAPÍTULO 5

Gênero publicitário: propagandas institucionais ... 52

(Des)construindo o gênero .............................................. 52 Diálogo entre o verbal e o visual............................... 52 Propaganda institucional ............................................... 52

Linguagem do gênero ........................................................ 54 O texto verbo-visual ............................................................... 54 Praticando o gênero ............................................................ 55 Em atividade ........................................................................... 56 Língua e linguagem CAPÍTULO 6

Variações linguísticas .............. 57

Explorando os mecanismos linguísticos .................. 57 Variações regionais ................................................... 57 Variações de grupo social: gírias e jargões ............... 60 Gírias............................................................................. 60 Jargões ......................................................................... 62

Sistematizando a prática linguística .......................... 63 Usando os mecanismos linguístico-discursivos ...... 63 A gíria nossa de cada dia .......................................... 63 Cada grupo fala sua língua. Qual é a sua? ................ 64 Em atividade ........................................................................... 65

Unidade 3

Asas da imaginação: indivíduo e consumo ............. 66 Leitura e literatura CAPÍTULO 7

Gêneros literários ...................... 68

Oficina de imagens .............................................................. 68 Mudando de perspectiva .......................................... 68 Astúcias do texto.................................................................. 69 Texto publicitário e texto artístico............................ 69 Sintetizando .................................................................. 70 O que é texto literário? ................................................. 70

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Em prosa ou em verso?............................................... 71

As origens do gênero narrativo............................... 101

Algumas características de prosa e poesia ................. 71 Um mergulho no dicionário ......................................... 71

Em atividade ........................................................................ 105

O que são gêneros literários? ................................... 72 O gênero lírico .............................................................. 72 O gênero épico ............................................................. 73 Um pouco de história ................................................... 73 O herói épico ............................................................... 74

O gênero dramático ...................................................... 75

Na trama dos textos ........................................................... 79 Do texto não literário ao texto literário ..................... 79 Em atividade ........................................................................... 81 Texto, gênero do discurso e produção CAPÍTULO 8

Gênero publicitário: anúncios comerciais .................83

(Des)construindo o gênero .............................................. 83 A publicidade hoje .................................................... 83 Anúncios classificados.............................................. 84 O passado da publicidade ......................................... 85 Linguagem do gênero ........................................................ 87 Diálogo entre o verbal e o visual............................... 87 Praticando o gênero ............................................................ 88 Fazendo ofertas ........................................................ 88 Em atividade ........................................................................... 90 Língua e linguagem CAPÍTULO 9

Ambiguidade ............................... 91

Explorando os mecanismos linguísticos .................. 91 Ambiguidade em charges e quadrinhos ................... 91 Ambiguidade na literatura e na publicidade ............. 92 Sistematizando a prática linguística .......................... 93 Usando os mecanismos linguístico-discursivos ... 94 A ambiguidade na construção do sentido do texto................................................... 94 Em atividade ........................................................................... 95

Unidade 4

Eu e o outro: subjetividade e ação .............. 96 Leitura e literatura CAPÍTULO 10

O discurso narrativo: histórias de aventuras e desventuras ......98

Oficina de imagens .............................................................. 98 Na esteira das narrativas de amor ............................ 98 Astúcias do texto.................................................................. 99 Entre o real e o fantástico......................................... 99 Tristão e Isolda: uma paixão trágica...................... 100 Na trama dos textos............................................. 101

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De onde vem a novela de cavalaria? .......................... 104

Texto, gênero do discurso e produção CAPÍTULO 11

Gênero oral e escrito: seminário .................................. 106

(Des)construindo o gênero ........................................... 107 Preparando o seminário .......................................... 107 Como fazer a pesquisa? ........................................ 107 Primeiro passo: consulta a fontes de referência ........ 108 Segundo passo: orientação bibliográfica .................... 108 Terceiro passo: anotações da leitura .......................... 110 Quarto passo: citações ............................................... 110

Como redigir o texto-roteiro?.................................. 110 Planejando as etapas da exposição ............................ 110

Como avaliar a apresentação? ............................... 111 Linguagem do gênero ..................................................... 111 Entonação expressiva e recursos linguísticos ........ 111 Praticando o gênero ......................................................... 112 Exposição oral sobre filme...................................... 112 Língua e linguagem CAPÍTULO 12

A língua portuguesa no mundo..................................... 114

Explorando os mecanismos linguísticos ............... 115 Onde se fala o português? ..................................... 115 Plurilinguismo: rumos da língua portuguesa ........... 115 Primeira escala: Cabo Verde ....................................... 115 Segunda escala: Guiné-Bissau.................................... 117 Terceira escala: São Tomé e Príncipe ........................ 118 Quarta escala: Moçambique ....................................... 119 Quinta escala: Angola ................................................. 120 Sexta escala: Timor-Leste .......................................... 123

Quer conhecer seus mais antigos antepassados? ........................................... 124 Mudanças linguísticas ............................................ 125 Mudanças sonoras e gramaticais ........................... 127 Mudanças semânticas ............................................ 128 Sistematizando a prática linguística ....................... 129 Usando os mecanismos linguístico-discursivos ... 129 Palavras e expressões populares da língua portuguesa .................................................. 129 Em atividade ....................................................................... 131

Unidade 5

Arte e sociedade: a literatura e o leitor...........132 Leitura e literatura CAPÍTULO 13

Crônica como gênero narrativo .................... 134

Oficina de imagens ............................................... 134

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Por trás da fotografia .............................................. 134 Astúcias do texto............................................................... 135 O discurso narrativo na crônica .............................. 135 Na trama dos textos ........................................................ 138 Crônica histórica: a tradição e a renovação............ 138 Em atividade ........................................................................ 140

Texto, gênero do discurso e produção

Texto, gênero do discurso e produção

(Des)construindo o gênero ........................................... 171 Do oral para o escrito.............................................. 171 Características do depoimento ............................... 172

CAPÍTULO 14

Gênero da oralidade: o cordel ...................................... 141

Diálogo com os poetas modernos .......................... 166 Em atividade ........................................................................ 168

CAPÍTULO 17

Gênero oral e escrito: depoimento ............................. 170

Avaliação pessoal ............................................................... 174

(Des)construindo o gênero ........................................... 141 Folheto de cordel: capa e página de rosto .............. 141 O texto de cordel .................................................... 142 Linguagem do gênero ..................................................... 144 Marcas da oralidade................................................ 144 Praticando o gênero ......................................................... 145 Elaboração de folheto de cordel ............................. 145 Apresentação oral: varal de cordel.......................... 146 Em atividade ........................................................................ 146

Linguagem do gênero ..................................................... 174 O papel do narrador ................................................ 174 Praticando o gênero ......................................................... 176 Recordar para contar .............................................. 176 Afetos e lembranças.............................................. 177 Cada vida é um documento .................................... 177

Língua e linguagem

Explorando os mecanismos linguísticos .............. 178 Autor × narrador ..................................................... 178 Narrador × leitor ..................................................... 178 Narrador participante .............................................. 179 Narrador não participante ....................................... 179 Uma questão de ponto de vista.............................. 181 Sistematizando a prática linguística ....................... 182 Usando os mecanismos linguístico-discursivos .. 182 Sua vez de narrar .................................................... 182 Em atividade ........................................................................ 183

CAPÍTULO 15

Ritmo .............................................. 148

Explorando os mecanismos linguísticos ............... 148 O ritmo da vida ....................................................... 148 O ritmo dos versos ................................................. 149 Este ritmo enche os olhos .......................................... 151

Outros recursos e outros ritmos ............................ 152 Do verbal ao visual.................................................. 154 O lado poético da publicidade................................. 155 Nomes estranhos, recursos eficazes ..................... 155 Quadrinhos, território de onomatopeias ................. 156 Sistematizando a prática linguística ....................... 156 Usando os mecanismos linguístico-discursivos ....157 Quem não tem um pouco de poeta?...................... 157 Em atividade ....................................................................... 157

Unidade 6

Mundo das linguagens: os textos e os contextos..158 Leitura e literatura CAPÍTULO 16

Epopeia: gênero narrativo.. 160

Oficina de imagens ........................................................... 160 De olho na epopeia paulista.................................... 160 Astúcias do texto............................................................... 161 Bem-vindo ao discurso narrativo: epopeia contemporânea....................................................... 161 A epopeia da língua portuguesa ............................. 161 Na trama dos textos ........................................................ 166

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Língua e linguagem CAPÍTULO 18

Modos de narrar ....................... 178

Unidade 7

Identidade e alteridade: o nativo e o estrangeiro ..184 Leitura e literatura CAPÍTULO 19

Discursos brasileiros: narrativas verbo-visuais .... 186

Oficina de imagens ........................................................... 186 Narrativa cartográfica ............................................. 186 Astúcias do texto............................................................... 187 “Terra à vista!” ....................................................... 187 A carta como documento ........................................... 187 Relatos de viagens .................................................... 188 Discursos de viajantes: xilogravura e pintura ........... 190

Na trama dos textos ........................................................ 191 Releituras da Carta ............................................................. 191 Desmundo: uma radiografia da história do Brasil ...... 192 Em atividade ....................................................................... 193

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Texto, gênero do discurso e produção CAPÍTULO 20

Gênero jornalístico: carta de reclamação ............................... 194

(Des)construindo o gênero ........................................... 195 Voz do cidadão........................................................ 195 Linguagem do gênero .................................................... 198 As pessoas do discurso .......................................... 198 O autor desdobrado .................................................... 198

Praticando o gênero ......................................................... 199 Localize seu espaço................................................ 199 Ocupe seu espaço .................................................. 199 Língua e linguagem CAPÍTULO 21

As pessoas e os pronomes .. 200

Explorando os mecanismos linguísticos ............... 200 Representando papéis ............................................ 200 Pessoas e pronomes ................................................. 202

Sistematizando a prática linguística ...................... 203 As pessoas na interação verbal .............................. 203 Usando os mecanismos linguístico-discursivos .. 203 Os pronomes em carta de reclamação................... 203 Formas de tratamento ........................................... 204 Em atividade ........................................................................ 205

Unidade 8

Novos territórios visuais: inovações e estranhamento ..206 Leitura e literatura CAPÍTULO 22

O discurso poético ................ 208

Oficina de imagens ........................................................... 208 Isso é arte? ............................................................. 208 Astúcias do texto............................................................... 210 Entre duas águas .................................................... 210 Diálogo entre dois ofícios ........................................... 212 Galáxias ........................................................................ 213 “Fome de forma” ....................................................... 213 Viva vaia ..................................................................... 214 Poema sem palavras ou grafismo?............................. 215

Paródia crítica ............................................................... 216 Poesia participante: Na vertigem do dia ................ 216 O discurso poético na contemporaneidade ................ 218 Confissão e poesia ...................................................... 219 Entre o capricho e a invenção ................................. 220 Na trama dos textos ........................................................ 221 Poemas em diálogo ................................................ 221 Em atividade ........................................................................ 222

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Texto, gênero do discurso e produção CAPÍTULO 23

A canção no Tropicalismo .. 223

(Des)construindo o gênero ........................................... 223 Na era dos festivais: entre aplausos e vaias ........... 223 Sem lenço, sem documento .................................. 223 Caldo de cultura ...................................................... 225 A explosão tropicalista: pão e circo ........................ 227 Linguagem do gênero ..................................................... 228 Composição rítmico-visual ...................................... 228 Composição temático-melódica ............................. 229 Praticando o gênero ......................................................... 230 Figurino tropicalista................................................. 230 Festival da canção .................................................. 230 Em atividade ........................................................................ 231 Língua e linguagem CAPÍTULO 24

Concordância verbal .............. 232

Explorando os mecanismos linguísticos ............... 232 Uma primeira reflexão ............................................ 232 Sujeito = núcleo singular + especificação plural..... 233 O sujeito é um nome próprio no plural .................. 234 A concordância com porcentagens ........................ 235 Verbos impessoais, nada de concordância ............. 235 Concordância de verbos na voz passiva sintética ... 236 Sistematizando a prática linguística ....................... 236 Usando os mecanismos linguístico-discursivos .. 237 A concordância está adequada? ............................. 237 Em atividade ........................................................................ 237

Unidade 9

Trajetórias singulares: o artista e o cidadão ................ 238 Leitura e literatura CAPÍTULO 25

Gênero dramático e narrativa contemporânea ...................... 240

Oficina de imagens ........................................................... 240 Arte viva, intervenções urbanas ............................. 240 Astúcias do texto............................................................... 241 Teatro: a tragédia brasileira ......................................... 241 Novas narrativas .......................................................... 244 Zero: literatura sob pressão ....................................... 244 Solte os cachorros: “quem entender a linguagem entende Deus”....................................... 246 O fotógrafo: diálogos com a imagem ........................ 248

Na trama dos textos ........................................................ 250

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Diários de motocicleta: América Latina em duas rodas .............................. 250 Em atividade ....................................................................... 251 Texto, gênero do discurso e produção CAPÍTULO 26

Gêneros digitais: Facebook, Twitter e blog ... 252

(Des)construindo o gênero ........................................... 253 Redes sociais.......................................................... 253 Facebook: do perfil pessoal à fan page ...................... 253 Interatividade e colaboração on-line ........................... 253 Universo digital: leitores e escritores engajados ........ 256

Twitter: microblog em 140 caracteres....................... 260 Conectividade e rapidez.............................................. 260

Blog: vozes do mundo digital ...................................... 262 Dos diários íntimos aos diários virtuais............................ 262 Blog Brasil Acadêmico: espaço colaborativo ................ 263 Particularidades da blogosfera .................................... 264

Linguagem do gênero ..................................................... 265 “Internetês” e língua padrão .................................. 265 Concisão: escrever apenas o indispensável ........... 267 A etiqueta das redes sociais ................................... 268 Interatividade e variação linguística ........................ 269 Como construir um blog? ....................................... 272

Praticando o gênero ......................................................... 273 Protagonistas do mundo digital .............................. 273 Autobiografias no Twitter ....................................... 273 Publique suas ideias ............................................... 274 Blog colaborativo ....................................................... 274 Blog pessoal .............................................................. 274

Comentário: um debate ativo na rede ........................ 275 Em atividade ........................................................................ 276 Língua e linguagem CAPÍTULO 27

Interação na fala..................... 277

Explorando os mecanismos linguísticos ............... 277 Situações de oralidade............................................ 277 O processo comunicativo da conversação ............. 278 Procedimentos de formulação.................................... 278 Língua falada × língua escrita ..................................... 280 Marcadores conversacionais ...................................... 281

Sistematizando a prática linguística ....................... 283 Organização da conversação .................................. 283 Usando os mecanismos linguístico-discursivos .. 284 De ouvido atento à conversa do outro.................... 284 Elaboração da entrevista......................................... 284 Organização dos turnos .......................................... 284 Avaliação da interação face a face .......................... 284 Apresentação em sala de aula ................................ 284

Lista de siglas de universidades e exames nacionais ......................................................286 Sugestões de leitura ......................................................................................................................286 Referências .........................................................................................................................................288

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Ministério da Cultura. Governo Federal

Unidade 1 VEJA SÃO PAULO. São Paulo: Abril, ano 45, n. 30, 25 jul. 2012. p. 45.

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Expressões culturais: o texto e a mídia O objetivo da propaganda ao lado é divulgar o Movimento Hotspot, prêmio de inovação e criatividade criado em 2012 e financiado pelo governo federal e instituições privadas. A frase “Tire sua ideia da gaveta” convida os leitores interessados a expor ideias inovadoras em 11 categorias: ilustração, beleza, design gráfico, design, moda, música, filme e vídeo, fotografia, arquitetura, cenografia e ideia. Cada área proposta requer especificidades para produzir sentido. Assim, a propaganda ressalta a importância de múltiplas linguagens que constituem diferentes atividades humanas. Os diferentes recursos formais da linguagem servem para criar sentido no mundo por meio da produção de textos das várias esferas de atividade: das ciências, da literatura, do jornalismo, da publicidade, da mídia digital, entre outras. Quando lemos um texto e o compreendemos, marcamos um espaço de criação dialógica, no qual construímos nossa história porque conseguimos estabelecer relações de valores entre o que entendemos e o que os outros dizem ou escrevem. Assim, os textos nos permitem conhecer o mundo e a nós mesmos. O que possibilita ao ser humano modificar pensamentos ao longo da história é sua capacidade de produzir textos e atribuir sentidos. Ao criar textos, orais ou escritos, verbais, visuais ou verbo-visuais, podemos trocar informações e experiências, aprender, expressar sentimentos, exercer a cidadania e, sobretudo, imaginar, criar outras realidades, construir fantasias e sonhos. Nesta unidade, vamos discutir o tema integrador “Expressões culturais: o texto e a mídia” com foco na leitura de textos em diferentes esferas de circulação social. No capítulo de Leitura e literatura, você vai estudar alguns conceitos sobre texto, discurso e gênero, com a finalidade de compreender de que modo a linguagem, como objeto de estudo, pode contribuir para sua formação cidadã, na medida em que oferece possibilidades práticas de analisar criticamente a sociedade por meio da produção de diferentes textos, tornando-o capaz de transformar e criar novos sentidos para o mundo contemporâneo. No eixo Texto, gênero do discurso e produção, aborda-se a notícia de primeira página, importante gênero da esfera jornalística. Por sua função de informar o leitor sobre fatos da atualidade, a notícia de primeira página ganha relevância no cotidiano da sociedade. No capítulo de Língua e linguagem, você vai estudar os tempos verbais por meio de seu emprego em diversos textos, incluindo os da esfera jornalística. O estudo desse conteúdo visa a compreender como os tempos verbais são usados para estabelecer os marcos temporais no texto e situar os fatos noticiados como anteriores, concomitantes ou posteriores ao momento da escrita.

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Capítulo 1

Leitura e literatura

Texto, gênero e discurso Oficina de imagens Ben Heine

Retalhos do cotidiano

Pencil vs camera — 55, de Ben Heine. Fotografia tirada em 1o de junho de 2011.

Projeto Pencil vs camera Ben Heine criou este projeto em 2010, reunindo fotografias e desenhos, milimetricamente encaixados. Ao inserir imagens desenhadas dentro de situações reais fotografadas, o artista cria um efeito de composição muitas vezes surreal. 16

Artista visual, criatividade sem limites Artista belga contemporâneo, Ben Heine (1983) nasceu na Costa do Marfim e descreve a si mesmo como um artista visual multidisciplinar. Pintor, ilustrador e fotógrafo, este artista cria surpreendentes desenhos em tamanho natural que parecem ser tridimensionais, fazendo uso de uma técnica chamada anamorfose, isto é, torna a imagem legível, com um efeito 3D, quando vista de um determinado ângulo e a certa distância. Depois de pronto o trabalho, Ben Heine tira fotos de si mesmo interagindo com seu desenho. Ben Heine

A montagem fotográfica foi produzida pelo artista belga Ben Heine, conhecido por articular diferentes linguagens em suas produções, como em seu projeto original Pencil vs camera (em tradução livre, “lápis versus câmera”), no qual ele mistura fotografia e desenho. A mão do artista aparece na foto, inserindo um desenho repleto de imaginação. Ao introduzir uma ilustração em uma fotografia real, o autor explora graficamente uma maneira diferente de enxergar o mundo, destacando um posicionamento particular, um sonho, uma forma poética de olhar para a realidade. Na imagem, o artista fotografa a sua mão segurando o desenho da evolução da espécie humana e se encaixa filmando a cena, posicionando-se na imagem como uma das etapas da evolução humana. Na era digital, tudo é texto. Uma propaganda, uma fotografia, um vídeo, um gráfico, uma conversa produzida oralmente — enfim, toda atividade humana, constituída de diferentes linguagens, com a finalidade de informar, comunicar, produzir sentidos, é um texto. É necessário valorizar a noção de texto no mundo contemporâneo. O texto não é mais exclusividade da escrita, pois combina palavras, imagens, sons, símbolos e gestos, visando produzir discursos, ou seja, expressar valores, ideologias, por meio da linguagem. A linguagem humana tem finalidade comunicativa e, por meio dela, as pessoas produzem diferentes textos para determinados interlocutores, com objetivos específicos, dependendo do contexto social e histórico a que pertencem. Neste capítulo, vamos compreender os conceitos de texto, gênero e discurso, bem como sua relação com os recursos da língua.

Ben Heine, fotografia de 2014.

Capítulo 1 – Texto, gênero e discurso

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Atividade em grupo Reúna-se com dois a quatro colegas e produzam uma montagem fotográfica inspirada na obra do artista Ben Heine. Mãos à obra. Materiais: • Fotos. • Desenho feito por vocês. • Uma rede social como o Instagram. Modo de fazer: • Selecionem, do material elaborado pelos participantes, um desenho que sirva para a organização da montagem fotográfica. • Ponham a fotografia selecionada, procurando construir uma narrativa. • Deem um título a esta montagem fotográfica. • Ponham os nomes dos componentes da criação coletiva. Exposição: Partilhem com os colegas a produção realizada e discutam em classe. Como monitores, expliquem a proposta aos colegas e ao professor.

Astúcias do texto Atividades humanas e interação

Ricardo Teles/Pulsar

Ricardo Correa/Abril Comunicações S/A

Na vida cotidiana, realizamos muitas atividades humanas, como ir à escola, à praia, ao cinema, ao parque ou a um jogo de futebol, por exemplo. Elas constituem diferentes práticas que organizam as nossas relações sociais e variam de acordo com o tempo e a cultura de determinado lugar. Pelas práticas sociais, construímos várias relações com o mundo por meio da linguagem, de modo a estabelecer vínculos, modificá-los e mantê-los. Podemos dialogar com alguém em um bate-papo informal ou na leitura de um livro, no qual entramos em contato com as ideias do autor. Em casa, na rua, na biblioteca, na escola, a linguagem é utilizada na maioria das atividades humanas para produzir textos orais, como um grito de guerra no jogo de futebol ou um discurso no tribunal, e escritos, como anotações de estudo ou relatórios de pesquisa. A seguir, observe algumas fotografias para responder às questões propostas.

Estádio Governador Plácido Castelo, o Castelão, em Fortaleza (CE), 2013.

Apresentação de Maracatu Rural em Aliança (PE), 2015.

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Luis Salvatore/Pulsar

Fernando Favoretto/Criar Imagem

Professor(a), nas atividades a seguir, os alunos poderão apresentar outras respostas, pois o objetivo é levantar conhecimentos prévios relacionados a diferentes atividades humanas e às possibilidades de interação envolvidas em cada prática.

Estudantes em biblioteca de escola municipal no município de Tracuateua (PA), 2013.

Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

Professor e estudante em laboratório de Química de escola localizada no município de São Paulo (SP), 2014.

FAÇA NO CADERNO

Julgamento do Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade da reserva de vagas em universidades públicas, com base no sistema de cotas raciais da Universidade de Brasília (UnB), 2012.

1. De acordo com cada fotografia, descreva as práticas sociais e algumas das atividades humanas envolvidas. 2. Levante hipóteses: que tipo de diálogo pode ser estabelecido em cada atividade humana representada nas fotografias? As fotografias flagram os agentes das relações sociais, responsáveis pela produção de sentidos no mundo. Em todas as nossas atividades, assumimos determinado papel social por meio de uma constante interação com o outro. No diálogo cotidiano, nas manifestações artísticas, nas situações públicas, a interação entre os sujeitos permite a construção de sentidos e estabelece os usos efetivos da linguagem. A interação é o diálogo que se estabelece em todas as atividades humanas. O termo “diálogo” não designa apenas uma conversa face a face, mas assume um sentido mais amplo, no qual um texto oral ou escrito recupera outro texto. Em toda produção realizada pelo ser humano por meio das múltiplas linguagens, sejam verbais, visuais, sonoras etc., sempre direcionamos os usos da linguagem a alguém, que pode estar presente ou ausente. Quando lemos ou escrevemos um texto, ficamos em silêncio, mas nunca sem comunicação, pois estabelecemos um diálogo com as ideias do autor ou recuperamos informações de outros textos produzidos em tempos históricos diferentes, por diversos grupos sociais. Os interlocutores são os participantes de uma situação de interação, seja em um diálogo face a face, seja na leitura ou produção de diferentes textos. Em toda atividade de linguagem, sempre se pressupõe ou se projeta a imagem de ouvintes ou destinatários. Leia as propagandas a seguir.

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Capítulo 1 – Texto, gênero e discurso

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ANER - Associação Nacional de Editores de Revistas ANER - Associação Nacional de Editores de Revistas

PESQUISA FAPESP. São Paulo: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, n. 203, jan. 2013. p. 96-97.

ATREVIDA. São Paulo: Escala, n. 221, jan. 2013. p. 2-3.

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FAÇA NO CADERNO

3. Note que as duas propagandas foram produzidas pelo mesmo anunciante. Descreva as semelhanças (imagens, slogan, logotipo, texto verbal) e as diferenças (esfera de circulação, imagens, título) entre elas. 4. Releia os textos e relacione o conteúdo ao anunciante. Justifique o objetivo das propagandas com elementos dos textos. 5. Leia, a seguir, informações sobre as revistas em que as propagandas foram publicadas. Quem somos Editada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a revista Pesquisa Fapesp foi lançada em outubro de 1999. O objetivo básico da publicação é difundir e valorizar os resultados da produção científica e tecnológica brasileira, da qual a Fapesp é uma das mais importantes agências de fomento. Trata-se da única publicação jornalística do país especializada no segmento de ciência e tecnologia que tem por foco primordial a produção científica nacional, apesar de cobrir pontualmente as novidades internacionais. Por isso, a revista funciona como um polo de contato e reconhecimento contínuo dos pesquisadores brasileiros e como referência indispensável para as editorias de ciência e tecnologia dos veículos de comunicação nacionais. [...] Desde março de 2002, além de ser enviada para uma seleta carteira de assinantes subsidiados composta de pesquisadores, Pesquisa Fapesp conta com assinaturas pagas, recebe publicidade e é comercializada em bancas de jornais no estado de São Paulo e nas principais cidades brasileiras. [...] PESQUISA FAPESP. São Paulo: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, [20-?]. Disponível em: <http://revistapesquisa.fapesp.br/quem-somos>. Acesso em: 23 fev. 2016. Nelson Marcolin/Pesquisa FAPESP

Revista Atrevida [...] traz um conteúdo interativo, divertido e sempre atualizado com os mais recentes assuntos e tendências do mundo teen. Ela veio para atender às expectativas das adolescentes que estão descobrindo o mundo. As páginas da revista Atrevida trazem muita diversão, entretenimento e matérias de comportamento, dividindo com seus leitores os melhores momentos desta fase tão especial da vida. REVISTAS Adolescentes. Revistas, 2012. Disponível em: <http://www.revistas.com.br/revistas-adolescentes.html>. Acesso em: 24 mar. 2016.

• Considerando os diferentes veículos em que as propagandas foram publicadas, explique por que o anun-

ciante fez determinadas modificações.

6. A partir da interação estabelecida entre o anunciante e seus interlocutores, analise o título principal (expressões linguísticas, marcas de plural, relação entre imagem e texto verbal) de cada propaganda e interprete as diferenças entre os sentidos construídos. A interação constitui todas as situações de uso da linguagem. As propagandas analisadas foram produzidas por alguém, para alguém, em determinado tempo e espaço de circulação. Colocadas em diálogo, elas evidenciam valores sociais relacionados aos papéis sociais de diferentes perfis de leitores e revistas. A cada prática social que organiza nossas relações, vinculam-se diferentes textos, pelos quais articulamos palavras, imagens, sons, símbolos, gestos, com a finalidade de expressar valores e ideologias por meio da linguagem. A linguagem é uma atividade humana em permanente evolução, uma vez que é produto da vida social. Dinâmica e concreta, ela tem um lado individual e um social. O indivíduo constrói sua linguagem recuperando textos já produzidos em diferentes tempos históricos pelos mais variados grupos sociais: o político, o religioso, o filosófico, o literário etc. Uma característica constitutiva da linguagem é a interação permanente entre os participantes. Escrito em tempos de internet, o artigo jornalístico atualiza o título literário criado no século XIX, mostrando como a linguagem dialoga com vários textos escritos na mesma época ou em épocas distintas.

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Capítulo 1 – Texto, gênero e discurso

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Na trama dos textos

FAÇA NO CADERNO

Arquivo/CB/D.A Press

1. Leia o texto a seguir, publicado no jornal Correio Braziliense, na seção Diversão&Arte, em 6 de dezembro de 2012.

MORAES, Felipe. As coisas comuns da juventude. Correio Braziliense, Brasília, DF, 6 dez. 2012. Diversão&Arte, capa.

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AÇA NO a) Na seção Diversão&Arte, você encontra essa resenha de livros. Que relação há entre o nome FCADERNO da seção e os textos? b) O texto é uma resenha, gênero cujo objetivo é apresentar e avaliar um objeto cultural, como livros, filmes, peças teatrais, exposições etc. Nessa resenha específica, o autor avalia dois livros direcionados a “jovens adultos”. Explique a expressão “coisas comuns da juventude” usada no título com base na leitura do subtítulo e dos dois primeiros parágrafos da resenha.

2. Relendo o conjunto da página com subtítulo, as capas de livros apresentadas e a indicação do link para a página de jornal, justifique a escolha do título da resenha. O texto analisado permite refletir sobre o conceito de texto não como uma simples somatória de imagens e palavras, mas como um todo de sentido, produto da interação entre interlocutores. Ao ser isolado desse espaço ou fragmentado, esse texto pode assumir um sentido completamente diverso daquele que tem em contexto determinado. A construção de sentidos não pode ser compreendida de modo fragmentado; portanto, todo texto apresenta uma totalidade, já que existe uma conexão entre cada uma das partes que o compõem. Todo texto sempre transmite as visões de mundo de seu autor, de acordo com os objetivos que pretende concretizar. Isso torna evidentes valores ideológicos de determinada cultura e contexto social e histórico, do qual os interlocutores das atividades humanas são partes integrantes. Na resenha “As coisas comuns da juventude”, há uma citação a três livros: O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, A culpa é das estrelas, de John Green, e As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky. O primeiro trecho é de O apanhador no campo de centeio, uma narrativa em primeira pessoa que se passa durante um fim de semana. Holden Caulfield, jovem de 17 anos, vive seus conflitos interiores no mundo no final da Segunda Grande Guerra. Nos primeiros capítulos do livro, também no trecho transcrito a seguir, podemos notar a insatisfação, o desassossego, a contradição inerente ao jovem Holden Caulfield. A composição do nome está impregnada do próprio sentido do título do livro, ou seja, Hold (suporte, fortaleza), Cau-field (prudência-campo de batalha), aquele que está lá como suporte, amparo no campo de batalha: O apanhador no campo de centeio. Aquele que teme e enfrenta, que ama e despreza, que sente e nega sentir. Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lenga-lenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso. Em primeiro lugar, esse negócio me chateia e, além disso, meus pais teriam um troço se eu contasse qualquer coisa íntima sobre eles. São um bocado sensíveis a esse tipo de coisa, principalmente meu pai. Não é que eles sejam ruins — não é isso que estou dizendo — mas são sensíveis pra burro. E, afinal de contas, não vou contar toda a droga da minha autobiografia nem nada. Só vou contar esse negócio de doido que me aconteceu no último Natal, pouco antes de sofrer um esgotamento e de me mandarem para aqui, onde estou me recuperando. […]

David Copperfield: personagem principal da obra de mesmo nome do escritor inglês Charles Dickens (1812-1870), publicada entre 1849 e 1850 em forma de folhetim.

SALINGER, J. D. O apanhador no campo de centeio. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 2015. p. 9.

Jerome David Salinger (1919-2010): Por que ler? Importante escritor da literatura estadunidense, sua obra mais conhecida é o romance O apanhador no campo de centeio, lançado em 1951, que trata dos dramas cotidianos da juventude estadunidense. Escrito em linguagem coloquial e humorística, com jargões típicos dos adolescentes, essa obra revolucionou a escrita literária do pós-guerra e obteve êxito imediato entre a juventude universitária. Dois anos após o lançamento dessa obra, Salinger retirou-se da vida pública para viver no campo. Escreveu, entre outros livros, Fanny and Zooney (1961), Pra cima com a viga, moçada! (1962) e Seymor: uma introdução (1963).

San Diego Historical Society/Getty Images

3. O narrador-personagem tem uma maneira de se apresentar pela forma negativa. Quais são as situações negativas que Holden diz que não vai contar? E o que ele nos conta da sua situação?

Jerome David Salinger, em 1952.

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Capítulo 1 – Texto, gênero e discurso

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[...] Fui dirigindo o carro do Augustus até a minha casa, ele no banco do carona. Ele tocou para mim algumas músicas de que gostava, de um grupo chamado The Hectic Glow, e eram boas, mas como eu não conhecia, não causaram em mim o mesmo efeito que nele. De vez em quando eu dava uma olhada na perna do Augustus, ou no lugar onde ela costumava ficar, tentando imaginar como seria a aparência da perna falsa. Não queria dar muita bola para aquilo, mas dava um pouco. E ele devia sentir a mesma coisa em relação ao meu oxigênio. A doença gera repulsa. Aprendi isso há muito tempo, e achava que o Augustus também tinha aprendido. GREEN, John. A culpa é das estrelas. Tradução de Renata Pettengill. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012. p. 36.

Romancista e vlogger John Green nasceu em 24 de agosto de 1977, em Indianápolis, nos Estados Unidos. É autor dos livros Quem é você, Alasca? (2005), O teorema Katherine (2006), Cidades de papel (2008) e A culpa é das estrelas (2012) — um sucesso de vendas traduzido para 46 idiomas e que ganhou uma adaptação para o cinema em 2014 — e coautor de Deixe a neve cair (2008) e Will e Will, um nome, um destino (2010). Além de romancista, John Green é vlogger e, em parceria com seu irmão, mantém um canal de publicação de vídeos na internet.

Birdie Thompson/AdMedia Corbis/ Latinstock

Leia, a seguir, um trecho do livro A culpa é das estrelas, do estadunidense John Green. Essa obra foi publicada pela primeira vez em inglês em 2010, e no Brasil a tradução saiu em 2012.

John Green, em 2015.

4. Considerando como a resenha apresenta o livro no segundo parágrafo, quem narra esse trecho de A culpa é das estrelas? Por quê?

FAÇA NO CADERNO

Dialogismo: característica básica da linguagem Neste capítulo, você pôde observar as relações existentes entre dois textos. Esse é um modo de entender a linguagem em seu caráter social e dialógico, o que significa compreender o diálogo não só no sentido restrito de conversa entre interlocutores, mas no sentido amplo em que um texto recupera outro. Nos textos produzimos sentidos — todo texto veicula discursos. A palavra “discurso” tem vários significados. No cotidiano, o termo é compreendido como exposição oral, mas, sob o enfoque da ciência da linguagem, o discurso é toda atividade comunicativa, que produz sentidos e se constitui na interação entre falante-ouvinte e escritor-leitor. Os interlocutores de uma situação discursiva são seres situados em determinado tempo e espaço; pertencem a uma comunidade, a um grupo social. Cada texto produzido veicula crenças, valores culturais, sociais, enfim: a ideologia do grupo, da comunidade. Todo discurso, portanto, produz sentidos que expressam posições sociais, culturais e ideológicas dos sujeitos da linguagem. Os discursos produzidos são compreendidos analisando textos, por meio dos quais o discurso se materializa linguisticamente. O texto, oral ou escrito, verbal ou visual, é produto da atividade discursiva e forma um todo significativo, independentemente de sua extensão. O discurso trata de combinações de elementos linguísticos usados pelos sujeitos para expressar pensamentos e agir sobre o mundo; ou seja, refere-se aos usos da língua em um contexto determinado, sendo o espaço de materialização de valores e crenças. O contexto possibilita a compreensão de um texto. Pode ser mais imediato, ao se referir à identificação dos interlocutores, tempo e lugar da interação, finalidade e veículo; e mais amplo, se preocupado com o entorno social, histórico e cultural ao qual o texto se refere. Todo texto é produzido de acordo com a esfera à qual pertence, considerando a escolha das linguagens que serão utilizadas em sua composição expressiva. Para cada atividade humana há esferas específicas de usos da linguagem. O termo esfera refere-se a cada campo de atividade humana no qual ocorrem práticas que organizam formas discursivas de comunicação e respectivas estratégias de compreensão, de acordo com domínios ideológicos específicos (esfera científica, esfera jurídica, esfera jornalística, esfera artística, esfera publicitária etc.).

Texto e gênero do discurso Os textos se constituem conforme o uso que os interlocutores fazem das diferentes linguagens em situações formais ou informais de comunicação. O conhecimento prévio sobre diferentes formas de produção permite compreender e criar textos orais e escritos, verbais ou verbo-visuais, com finalidades específicas, sempre em resposta a outros discursos produzidos socialmente. Leitura e literatura

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IBRAM. Governo Federal

1. Observe a seguir o cartaz de divulgação da 9ª Semana de Museus e um cartaz de divulgação de uma exposição. O cartaz apresenta a Semana de Museus, uma temporada cultural que ocorre anualmente em comemoração do Dia Internacional dos Museus, 18 de maio. Em 2011, o tema escolhido foi “Museu e memória”, e o foco das celebrações foi a reflexão sobre a importância dos museus para a história dos povos e da sociedade. O desenho do cartaz recupera o jogo da memória, uma brincadeira muito popular. No alto do cartaz há peças que apresentam uma série de figuras diferentes, algumas viradas, outras não. Essas peças também aparecem na parte inferior do cartaz, suscitam a ideia de memória, e não de repetição. A Semana de Museus é um evento organizado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), órgão do Ministério da Cultura responsável pela política nacional de museus, cuja proposta é democratizar e preservar os espaços de memória (museus, arquivos, bibliotecas, casas de cultura, redes sociais, galerias etc.).

Museu do Futebol, São Paulo. Governo Federal

Cartaz de divulgação da 9a Semana de Museus, ocorrida entre 16 e 22 de maio de 2011 em diversas cidades brasileiras.

Com bonecos, simuladores, mosaicos e imagens que induzem à ilusão e ao erro, o objetivo da mostra é levar o espectador a ter as mesmas sensações de um juiz na hora de apitar um lance decisivo. Com isso, quer tentar convencer de que a culpa não é do árbitro, mas das percepções do cérebro humano. O cartaz de divulgação da exposição recupera o verde, característico dos campos de futebol. A imagem do juiz sombreada, com uma interrogação na blusa, sugere as possíveis dúvidas de um árbitro de futebol ao apitar uma partida.

Cartaz de divulgação da exposição Será que foi, seu juiz?, realizada no Museu do Futebol, em São Paulo (SP), entre 6 de novembro de 2012 e 7 de abril de 2013.

2. Considerando os textos lidos, identifique onde eles circulam, a que público estão dirigidos e qual é a finalidade de cada um. Descreva algumas semelhanças e diferenças entre eles. 24

FAÇA NO CADERNO

Capítulo 1 – Texto, gênero e discurso

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Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, a palavra gênero significa conjunto de seres ou objetos que possuem a mesma origem ou que se acham ligados pela semelhança de uma ou mais particularidades. Os gêneros do discurso, portanto, são formas discursivas que têm características mais ou menos estáveis, porque são produzidas em situações de comunicação parecidas, em áreas do conhecimento semelhantes. Os textos analisados permitem refletir sobre o uso da língua e das diferentes linguagens em variadas situações de comunicação social. O texto da capa do catálogo e o do cartaz do Museu do Futebol são produzidos em circunstâncias parecidas e com finalidades próximas, mas não são iguais. Eles se materializam de forma única, já que podemos pressupor diferentes tipos de interlocutores para uma exposição de arte e para uma mostra interativa sobre futebol. Em nosso cotidiano, quando lemos determinados textos constituídos em gêneros mais comuns, os reconhecemos rapidamente. Esse reconhecimento permite estabelecer a comunicação de maneira mais eficiente. Se não conhecemos diferentes gêneros, não identificamos inúmeras situações de comunicação que determinados textos integram. Os gêneros do discurso estão vinculados a uma época e a um lugar específicos, havendo um diálogo estabelecido com outros gêneros e com o contexto específico e amplo de produção. O gênero não é imutável e idêntico em todas as situações, como vimos nos cartazes estudados. Ele existe em função das finalidades comunicativas entre os sujeitos no lugar e tempo da interação. Ou seja, os gêneros nascem e morrem conforme o contexto sócio-histórico se modifica, preservando relações com gêneros que já existiram. A leitura de um texto em um gênero específico necessita da compreensão de seu contexto de produção, recepção e circulação, de acordo com as pistas linguísticas deixadas pelo autor. Do contrário, a leitura será fragmentada e, portanto, incompleta.

| Em cena | Converse com os colegas sobre a importância da leitura de diferentes textos verbais e verbo-visuais. Para isso, organizem-se em grupos para uma pequena pesquisa. Busquem uma pintura, tirinha em jornais ou revistas ou charge que dialogue com um texto literário. Discutam os possíveis diálogos estabelecidos entre os textos. Observem um exemplo desse diálogo entre o poema Carnaval de Arlequim (Miró) e a tela O carnaval do Arlequim (1924-1925). Arte em exposição Carnaval de Arlequim (Miró) Descobri que a vida é bailarina E que nenhum ponto inerte Anula o viravoltear das coisas DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Arte em exposição. In: ______. Farewell. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 35. Joan Miró. 1924-25, Óleo sobre tela, 6690,5 cm. Knox Art Gallery, Buffalo, Estados Unidos. Foto: Granger/Glow Images © Succession Joan Miró/AUTVIS, Brasil, 2016

Carnaval de Arlequim (Miró) faz parte do poema Arte em exposição, um poema composto de 32 poemas sintéticos que dialogam com a arte.

O carnaval do Arlequim, de Joan Miró (1893-1983). Temos a representação de um quarto com mesa e janela, marcas do cotidiano. O movimento incessante é transmitido por elementos oníricos (insetos soltos brincam no espaço). A figura do Arlequim, rosto redondo e bigodes grandes, traz um olhar triste.

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Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (ITA-SP) Considere o poema abaixo, de Carlos Drummond de Andrade, à luz da reprodução da pintura de Edvard Munch a que ele se refere. O grito (Munch) A natureza grita, apavorante.

Edvard Munch. 1893. Óleo sobre tela. 9173,5 cm Galeria Nacional, Oslo. Foto: Reserve/Alamy/Latinstock

Doem os ouvidos, dói o quadro.

2. (Enem/MEC) O chat e sua linguagem virtual O significado da palavra chat vem do inglês e quer dizer “conversa”. Essa conversa acontece em tempo real, e, para isso, é necessário que duas ou mais pessoas estejam conectadas ao mesmo tempo, o que chamamos de comunicação síncrona. São muitos os sites que oferecem a opção de bate-papo na internet, basta escolher a sala que deseja “entrar”, identificar-se e iniciar a conversa. Geralmente, as salas são divididas por assuntos, como educação, cinema, esporte, música, sexo, entre outros. Para entrar, é necessário escolher um nick, uma espécie de apelido que identificará o participante durante a conversa. Algumas salas restringem a idade, mas não existe nenhum controle para verificar se a idade informada é realmente a idade de quem está acessando, facilitando que crianças e adolescentes acessem salas com conteúdos inadequados para sua faixa etária. AMARAL, S. F. Internet: novos valores e novos comportamentos. In: SILVA, E. T. (Coord.). A leitura nos oceanos da internet. São Paulo: Cortez, 2003. (adaptado).

Segundo o texto, o chat proporciona a ocorrência de diálogos instantâneos com linguagem específica, uma vez que nesses ambientes interativos faz-se uso de protocolos diferenciados de interação. O  chat, nessa perspectiva, cria uma nova forma de comunicação porque:

O grito, Edvard Munch (1863-1944), Noruega.

O texto de Drummond I. traduz a estreita relação entre a forma e o conteúdo da pintura. II. mostra como o desespero do homem retratado repercute no ambiente. III. contém o mesmo exagero dramático e aterrorizante da pintura. IV. interpreta poeticamente a pintura.

b) disponibiliza salas de bate-papo sobre diferentes assuntos com pessoas pré-selecionadas por meio de um sistema de busca monitorado e atualizado por autoridades no assunto.

Está(ão) correta(s)

d) garante a gravação das conversas, o que possibilita que um diálogo permaneça aberto, independente da disposição de cada participante.

a) apenas I e II. b) apenas I, II e IV. c) apenas II, III e IV. d) apenas III e IV. e) todas. 26

a) possibilita que ocorra diálogo sem a exposição da identidade real dos indivíduos, que podem recorrer a apelidos fictícios sem comprometer o fluxo da comunicação em tempo real.

c) seleciona previamente conteúdos adequados à faixa etária dos usuários que serão distribuídos nas faixas de idade organizadas pelo site que disponibiliza a ferramenta.

e) limita a quantidade de participantes conectados nas salas de bate-papo, a fim de garantir a qualidade e eficiência dos diálogos, evitando mal-entendidos.

Capítulo 1 – Texto, gênero e discurso

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Gênero jornalístico: notícia de primeira página

Folhap ress

Estadão Conteúdo

Vivemos mergulhados em notícias. Acessamos a internet e percebemos que novos acontecimentos surgem a cada momento. O mesmo ocorre quando ligamos o rádio, assistimos ao noticiário televisivo ou lemos o jornal impresso. Esse universo de informações se modifica constantemente. Dependendo da mídia em que circula, a notícia ganha composições tão diferentes que, às vezes, temos dúvida de que estamos diante do mesmo fato.

ress Folhap

Capítulo 2

Texto, gênero do discurso e produção

(Des)construindo o gênero O gênero jornalístico notícia tem por objetivo informar o leitor sobre fatos e acontecimentos. Para transmitir o caráter de verdade, o jornal evita marcas linguísticas, como primeira pessoa do singular, adjetivos, advérbios e verbos de caráter pessoal, opinativo ou valorativo. Notícia e objetividade Nos verbetes a seguir, um manual de redação regula a prática jornalística de sua editoria: Notícia — Puro registro dos fatos, sem opinião. A exatidão é o elemento-chave da notícia, mas vários fatos descritos com exatidão podem ser justapostos de maneira tendenciosa. Suprimir ou inserir uma informação no texto pode alterar o significado da notícia. Não use desses expedientes. Objetividade — Não existe objetividade em jornalismo. Ao escolher um assunto, redigir um texto e editá-lo, o jornalista toma decisões em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções. [...] Isso não o exime, porém, da obrigação de ser o mais objetivo possível. FOLHA DE S.PAULO. Manual da redação. São Paulo: Publifolha, 2001. p. 45 e 88.

Transparência e objetividade nas informações são orientações definidas pelos jornais em seus manuais de redação, o que não significa que sejam alcançadas plenamente. Nas notícias e reportagens, por exemplo, os fatos são retratados segundo o ponto de vista de quem redige e de quem edita, o que marca uma dose de subjetividade nos textos publicados. Abrindo os olhos para a composição do projeto gráfico e comparando diferentes fontes informativas, podemos nos tornar leitores críticos e competentes diante de nossa realidade social. Fique esperto: não se deixe manipular pela mídia. Observe, na próxima página, o projeto gráfico de primeira página de dois jornais de grande circulação no estado de São Paulo — Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo — publicados em 12 de fevereiro de 2016. O destaque do dia é para o mesmo fato — a descoberta de ondas gravitacionais previstas por Einstein 100 anos atrás. Texto, gênero do discurso e produção

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FAÇA NO CADERNO

Estadão Conteúdo

Folhapress

1. Vamos verificar como cada jornal se apresenta a você, leitor. Para começar, examine o cabeçalho dos dois jornais e observe suas semelhanças e diferenças.

FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 12 fev. 2016. p. 1. Folhapress.

O ESTADO DE S. PAULO. São Paulo, 12 fev. 2016. p. 1.

2. Descreva os elementos verbais e visuais que você observou nesses dois trechos de primeira página dos jornais. 3. Analise o tratamento que a notícia recebeu em cada jornal: o espaço ocupado na parte superior da página e a articulação de seus elementos verbais e visuais. Muitas vezes, quando você lê uma notícia, não se dá conta de que a formatação dos elementos verbo-visuais segue um minucioso projeto gráfico determinado pelas empresas jornalísticas. Para exemplificar, conheça, a seguir, a proposta da Folha de S.Paulo. [...] toda edição obedece a um padrão de design formulado no projeto gráfico do jornal. Há regras para a titulação dos textos, para a disposição deles, das fotos e dos infográficos e para a formatação dos diversos elementos que compõem o produto final. Com isso, o jornal como um todo ganha personalidade. Dentro dos limites dessa formatação gráfica, compete à edição buscar as soluções mais criativas para expor os assuntos, seja na elaboração dos títulos, seja na produção das imagens fotográficas e desenhos ou na composição visual do conjunto. Do mesmo modo como ocorre com as reportagens, a edição está sujeita ao olhar crítico do leitor, que desenvolveu mecanismos de interpretação da forma como as notícias estão organizadas no espaço do jornal. FOLHA DE S.PAULO. Manual da redação. São Paulo: Publifolha, 2001. p. 35.

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Capítulo 2 – Gênero jornalístico: notícia de primeira página

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O objetivo dos jornais é informar o leitor e atrair sua atenção. No entanto, cada um tem uma maneira diferente de se apresentar, o que pode ser visto no tratamento dado à notícia que você acabou de ler. 1. [Manchete] título principal, de maior destaque, no alto da primeira página de jornal ou revista, alusivo à mais importante dentre as notícias contidas na edição. [...] INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 1 829.

4. Compare as duas manchetes e explique a diferença entre os dois títulos.

FAÇA NO CADERNO

Cientistas detectam ondas no espaço previstas por Einstein FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 12 fev. 2016. p. 1. Folhapress.

Após cem anos, cientistas detectam ondas gravitacionais de Einstein O ESTADO DE S. PAULO. São Paulo, 12 fev. 2016. p. 1.

A escolha de palavras e a maneira como estão escritas na manchete acabam privilegiando alguns aspectos do fato. Note que as expressões “cientistas detectam ondas” (“ondas no espaço” e “ondas gravitacionais”) e o nome Einstein aparecem nos dois títulos, mas em estruturas sintáticas diferentes. Atente para o fato de não ser utilizado ponto final nas manchetes.

Leia o fragmento da primeira página do jornal O Estado de S. Paulo a seguir e explique as relações entre o conjunto verbal, o enquadramento da foto e a legenda.

Estadão Conteúdo

Legenda é o texto que fica na parte inferior da foto e tem a função de descrevê-la e de destacar alguns aspectos importantes do contexto, a fim de satisfazer a curiosidade do leitor. De preferência, o verbo aparece no presente. Normalmente não se usa ponto final. A legenda não repete as informações contidas na foto.

Cientistas americanos anunciaram ontem uma descoberta histórica: pela primeira vez, foram detectadas as ondas gravitacionais previstas por Albert Einstein em sua Teoria Geral da Relatividade, publicada há cem anos. Segundo David Reitze, do projeto Laser Interferometer Gravitational — Wave Observator (Ligo), as ondas foram observadas em 14 de setembro e o experimento abre “nova janela para o universo”. Mais de mil cientistas de 14 países participaram, incluindo brasileiros. Para obter a façanha, eles observaram a fusão de dois buracos negros. METRÓPOLE/ PÁG. A14

O ESTADO DE S. PAULO. São Paulo, 12 fev. 2016. p. 1.

Texto, gênero do discurso e produção

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Linguagem do gênero Folhapress

Observe, no fragmento do jornal Folha de S.Paulo, que a sequência verbal à esquerda da foto funciona como uma chamada para a notícia detalhada no interior do jornal. Essa indicação aparece com a marca de remissão: Ciência B8.

Físicos americanos anunciaram a primeira detecção de ondas gravitacionais, previstas há cem anos pela teoria da relatividade geral de Albert Einstein. Segundo ela, todo corpo em movimento emite esse tipo de oscilação. O fenômeno detectado por lasers nos EUA ocorreu a mais de 1 bilhão de anos-luz de distância da Terra. As ondas foram geradas pela colisão de dois buracos negros, cujos corpos são tão densos que atraem até a luz. A descoberta torna possível estudar o Universo a partir de uma nova perspectiva. Uma das possibilidades é ter acesso a informações das ondas produzidas pelo Big Bang, explosão que deu origem ao Universo. Ciência B8 FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 12 fev. 2016. p. 1. Folhapress. FAÇA NO CADERNO

1. No texto verbal, identifique: a) o que aconteceu; b) com quem; c) quando;

d) onde; e) como; f ) por quê.

2. Onde se encontra a maioria dessas informações no texto? O lide tem por objetivo introduzir o leitor na reportagem e despertar seu interesse pelo texto já nas linhas iniciais. [...] Imprescindível à valorização da reportagem e útil à dinâmica da leitura contemporânea — por ser uma síntese da notícia e da reportagem —, não existe, no entanto, um modelo para a redação do texto do lide. [...] Se os fatos são urgentes e fortes, eles tendem a impor ao lide um estilo mais direto e descritivo, respondendo às questões principais em torno do acontecimento (o quê, quem, quando, como, onde, por quê, não necessariamente nessa ordem). FOLHA DE S.PAULO. Manual da redação. São Paulo: Publifolha, 2001. p. 28-29.

3. O que justifica o emprego do pretérito perfeito na maioria dos verbos que estão no corpo do texto e do presente no que está na manchete? 30

Capítulo 2 – Gênero jornalístico: notícia de primeira página

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Características da notícia de primeira página Sequência verbal (chamada):

Título:

Legenda:

• organização do texto em duas partes: • apresentação resumida da notícia, que destaca sua — lide na abertura: resumo dos fatos; importância e provoca o — detalhamento dos fatos nos interesse do leitor; períodos seguintes;

• uso de frase curta que acompanha fotografias, gráficos e desenhos;

• uso predominante do tempo pretérito;

• destaque gráfico pelo tamanho • acréscimo de informações à maior das letras; imagem sem repetir o que está contido nela;

• inserção de declarações com valor de autoridade;

• uso de inicial maiúscula apenas na primeira palavra;

• articulação entre o resumo dos primeiros parágrafos e os demais;

• ausência de ponto final;

• uso de linguagem direta, clara;

• uso dos verbos no presente;

• busca de objetividade;

• uso de manchete — título da principal notícia da primeira página;

• respeito à norma-padrão, com correção gramatical e sem gírias;

• uso de sobretítulo — detalhamento do título colocado acima dele;

• fuga às frases feitas, ao vocabulário rebuscado e às expressões de caráter pessoal (primeira pessoa);

• uso de subtítulo — detalhamento do título colocado abaixo dele.

• ausência de ponto final.

• ausência de ideias subentendidas;

• uso de frases simples na ordem direta: sujeito, verbo e complemento.

Texto, gênero do discurso e produção

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Praticando o gênero Repórter em ação: notícia de primeira página Chegou a hora de você e seus colegas viverem a experiência de ser repórter de jornal.

FAÇA NO CADERNO

1. Em grupos de dois ou três alunos, definam para que tipo de jornal vocês farão o trabalho: nome do jornal, tipo de leitor, lugar de circulação. 2. Para esse trabalho, preparem-se: escolham uma notícia que trate de um assunto do interesse de vocês. Antes de produzir o texto, é preciso fazer um levantamento de fatos ocorridos recentemente que mereçam ser noticiados. 3. Escrevam a notícia, ainda em forma de rascunho, considerando o público ao qual ela se dirige e o espaço de circulação. 4. Revejam o texto verbal e visual (manchete, subtítulo ou sobretítulo, foto e legenda), confrontando-o com as características desse gênero jornalístico. O projeto gráfico, como vimos, é constitutivo da notícia; portanto, cuidem da diagramação. 5. Organizem com o professor a divulgação dos trabalhos produzidos.

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (Unicamp-SP) “Robótica não é filme de Hollywood”, diz Nicolelis sobre o exoesqueleto Robô comandado por paraplégico foi mostrado na abertura da Copa. Equipamento transforma força do pensamento em movimentos mecânicos.

Em entrevista ao G1, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis comentou que inicialmente estava previsto um jovem paraplégico se levantar da cadeira de rodas, andar alguns passos e dar um chute na bola, que seria o “pontapé inicial” do Mundial do Brasil. Mas a estratégia foi revista após a Fifa informar que o grupo teria 29 segundos para realizar a demonstração científica. Na última quinta-feira, o voluntário Juliano Pinto, de 29 anos, deu um chute simbólico na bola da Copa usando o exoesqueleto. Na transmissão oficial, exibida por emissoras em todo o mundo, a cena durou apenas sete segundos. O neurocientista minimizou as críticas recebidas após a rápida apresentação na Arena Corinthians: “Tenham calma, não olhem para isso como se fosse um jogo de futebol. Tem que conhecer tecnicamente e saber o esforço. Robótica não é filme de Hollywood, tem limitações que nós conhecemos. O limite desse trabalho foi alcançado. Os oito pacientes atingiram um grau de proficiência e controle mental muito altos, e tudo isso será publicado”, garante. Adaptado de Eduardo Carvalho, “Robótica não é filme de Hollywood”, diz Nicolelis sobre o exoesqueleto. Disponível em: http://g1.globo.com/ ciencia-e-saude/noticia/2014/06/robotica-nao-e-filme-de-hollywood-diz-nicolelis-sobre-o-exoesqueleto.html. Acessado em: 18 jun. 2014.

Considerando a notícia transcrita acima, pode-se dizer que a afirmação reproduzida no título (“Robótica não é filme de Hollywood”) a) reitera a baixa qualidade técnica das imagens da demonstração com o exoesqueleto, depreciando a própria realização do experimento com voluntários. b) destaca a grande receptividade da demonstração com o exoesqueleto junto ao público da Copa, superior à dos filmes produzidos em Hollywood. c) aponta a necessidade de maiores investimentos financeiros na geração de imagens que possam valorizar a importância de conquistas científicas na mídia. d) sugere que os resultados desse feito científico são muito mais complexos do que as imagens veiculadas pela televisão permitiram ver. 32

Capítulo 2 – Gênero jornalístico: notícia de primeira página

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Capítulo 3

Língua e linguagem

Tempos verbais Explorando os mecanismos linguísticos Texto 1

Folhapress

Leia atentamente a legenda da foto e o texto verbal de uma notícia de primeira página do jornal Folha de S.Paulo, de 27 de fevereiro de 2016.

Eleito presidente da Fifa, Infantino fala em ‘nova era’ Gianni Infantino superou em votação o xeque Salman al-Khalifa e é o novo presidente da Fifa. Sucessor de Joseph Blatter, promete resgatar a imagem da entidade, abalada por corrupção, relata Sérgio Rangel, enviado a Zurique. “Estamos começando uma nova era.” Esporte B9

O suíço com ascendência italiana Gianni Infantino, 45, eleito ontem presidente da Fifa. FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 27 fev. 2016, p. 1. Folhapress.

Língua e linguagem

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FAÇA NO CADERNO

Folhapress

1. Observe os elementos que compõem a notícia: a foto em cores e sua legenda, a manchete e a sequência verbal (chamada).

FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 27 fev. 2016. p. 1. Folhapress.

• Construa no caderno um quadro a partir do modelo abaixo para recompor os elementos que integram o texto jornalístico no momento de sua publicação. Quem escreveu o texto?

Para quem?

De que trata?

Quando a notícia foi publicada?

Em que lugar o fato ocorreu?

2. Em relação ao momento da leitura do texto (presente), os fatos narrados ocorreram no passado. A sequência verbal retrata isso por meio de marcadores temporais, que podem ser verbos, advérbios e expressões adverbiais de tempo. a) Destaque os verbos e identifique o tempo empregado. b) Há uma marcação do espaço em que ocorreu a eleição. Que marcas foram usadas para indicar lugar? 3. Note a legenda que está na parte inferior da foto. Ela esclarece o assunto, informando o ocorrido. Em que tempo estão os verbos na legenda? Explique o uso desse tempo verbal. 4. No título, o verbo está no presente do modo indicativo. Explique a relação que há entre o emprego do tempo verbal e a ação narrada. A mesma estratégia de troca de tempos verbais no título pode ocorrer com o tempo futuro. Observe o que afirma o Manual de redação e estilo de O Estado de S. Paulo no verbete “tempos verbais”: 43 — Tempos verbais Como o presente é usado nos títulos para definir uma ação passada, mas recente (da véspera, em geral), ele só pode referir-se ao futuro quando acompanhado da indicação de tempo: Presidente dos EUA chega amanhã. MARTINS FILHO, Eduardo Lopes. Manual de redação e estilo de O Estado de S. Paulo. 3. ed. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1997. p. 289.

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Capítulo 3 – Tempos verbais

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Texto 2 Leia a notícia publicada no jornal O Estado de S. Paulo. Vacina contra dengue já terá testes em fevereiro Butantã fará análises em 13 cidades; Alckmin disse que 250 municípios terão mutirão contra “Aedes” e um mapa virtual indicará criadouros. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou nesta sexta-feira, 29, que os testes com a vacina da dengue, que está sendo elaborada pelo Instituto Butantã, vão começar no próximo mês. O imunizante teve a última fase para testes em humanos liberada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em dezembro do ano passado e será testada em 13 cidades, entre elas São Paulo, Manaus, Belo Horizonte e Recife. “Já estamos há anos, no Instituto Butantã, trabalhando para ter a vacina contra a dengue. Já teve a fase um, a fase dois e a última fase, que é a três, nós esperamos agora, no mês de fevereiro, fazer as primeiras vacinações de voluntários no Hospital das Clínicas contra os quatro tipos de vírus com apenas

uma dose”, disse o governador. Ao todo, 17 mil pessoas de todo o País devem participar do estudo em 14 centros de pesquisa. A estimativa é de que a vacina seja distribuída na rede pública em 2018. Alckmin informou ainda que 250 municípios receberão um mutirão e que um mapa interativo será implantando no site da Secretaria Estadual de Saúde para receber denúncias sobre focos do Aedes aegypti. “No sábado passado, iniciamos pelos 20 municípios de maior incidência e, amanhã, teremos um mutirão em 250 municípios do Estado de São Paulo. No caso dos profissionais (que vão participar), passaremos a pagar diária aos sábados para ganhar tempo e aumentar ao máximo o número de visitas”, disse. O ESTADO DE S. PAULO. São Paulo, 30 jan. 2016. p. 18.

FAÇA NO

CADERNO 1. Releia o título e o subtítulo. a) Em que tempo os verbos foram empregados?

Como os tempos gramaticais não coincidem com o tempo cronológico real, o texto se organiza em torno de um marco temporal; ele indica se o fato já aconteceu ou não. Os tempos gramaticais podem ou não coincidir com ele. No caso da notícia analisada, você pode verificar isso comparando os tempos do título e do subtítulo com os do texto.

b) No contexto, o que expressa esse tempo verbal? 2. Identifique os tempos verbais usados para assinalar os fatos anteriores e posteriores ao marco temporal e explique sua finalidade. 3. Compare: “Vacina contra dengue já terá testes em fevereiro” / “nós esperamos agora”

O advérbio agora marca o acontecimento em relação ao momento da publicação do jornal. No entanto, o texto tem o futuro do presente como marco temporal. Qual é o sentido do uso do tempo presente nessa notícia? Sistematizando a prática linguística Quando alguém expressa uma experiência ou uma sucessão de fatos, utiliza os tempos verbais, os advérbios de tempo (ontem, agora, amanhã etc.) e as expressões adverbiais (no mês passado, no próximo ano etc.) como mecanismos de linguagem. A temporalidade dos fatos pode se relacionar com o momento da escrita do texto ou com o marco temporal expresso no próprio texto. Um fato pode ser considerado, portanto, como anterior, simultâneo ou posterior, quer com o momento da escrita, quer com o marco temporal estabelecido no texto. Para entender o sentido de um texto, é necessário apoiar-se nas expressões de tempo, identificando o dia, o ano e o lugar em que o texto foi publicado. Os advérbios hoje, ontem, amanhã, agora, por exemplo, não têm o mesmo sentido cada vez que são usados. Se se tratar de texto oral, é preciso recuperar a situação de fala. Veja a seguir como os tempos verbais são usados, dependendo da opção feita pelo autor por uma dessas duas orientações: em relação ao momento da escrita e em relação ao marco temporal. Língua e linguagem

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Tempos em relação ao momento da escrita do texto Os tempos usados para situar um fato em relação ao momento da escrita são o presente, o pretérito perfeito e o futuro do presente do modo indicativo. Para situar um fato como simultâneo ao momento da escrita, usa-se o tempo presente do modo indicativo, com sentido pontual ou duradouro: Ex.: Cantareira sai do volume morto sem trazer alívio (FOLHA DE S.PAULO, 31 dez. 2015. p. 1). Note que há uma coincidência entre o momento da escrita, 31 de dezembro de 2015, e o fato noticiado — “Cantareira sai do volume morto”. Para situar um fato como anterior ao momento da escrita, usa-se o tempo pretérito perfeito do modo indicativo: Ex.: Só um time perdeu pontos após racismo (FOLHA DE S.PAULO, 31 ago. 2014. p. D3). Para situar um fato como posterior ao momento da escrita, usa-se o tempo futuro do presente do modo indicativo: Ex.: Fabricantes de bala demitirão funcionários (FOLHA DE S.PAULO, 31 ago. 2014. p. B2).

Tempos em relação ao marco temporal do texto Podemos situar o tempo em relação aos marcadores temporais que aparecem no texto, quer pelas formas verbais flexionadas, quer pelos adjuntos adverbiais ou expressões equivalentes, os pronomes pessoais e os pronomes demonstrativos (isto, isso, aquilo). É preciso reconhecer as expressões e construções que indicam tempo a fim de se compreender o sentido em que elas aparecem no texto; para isso precisa ser considerado o marco temporal. O marco temporal no passado pode também se relacionar a fatos concomitantes, anteriores ou posteriores a ele. O trecho a seguir apresenta o uso de marcos temporais em relação ao fato concomitante. A menor demanda de consumidores no país começa a afetar a alta de preços de bens e serviços. Pequenos sinais foram percebidos em fevereiro em itens como alimentação fora de casa, passagens aéreas e gastos médicos. No mês, o índice oficial de inflação atingiu 0,90%, abaixo do mesmo período em 2015 (1,22%). (FOLHA DE S.PAULO, 10 mar. 2016. A1. Folhapress.)

No trecho a seguir, o marco temporal no passado é empregado em relação a um fato anterior. Governantes costumam justificar a própria verborragia — quando não milhões desperdiçados em publicidade oficial — como obrigação de prestar contas ao cidadão [...] Chalita afirmou, semanas atrás, que a prefeitura criara só em 2015 um total de 50 mil vagas. Dias antes, Haddad dissera ter aberto 90 mil vagas de educação infantil, “recorde da história da cidade”. (FOLHA DE S.PAULO, 10 fev. 2016. Editorial. Folhapress.)

No trecho a seguir, pode-se observar a relação marco temporal no passado e fato posterior. No dia 11 de dezembro passado, o conjunto vocal Os Cariocas fez um show no Centro de Referência da Música Carioca, na Tijuca [...] Dias depois, seu fundador, o pianista e líder, o maestro Severino Filho, sentiu-se mal e foi hospitalizado [...] Em nenhum momento imaginou que aquilo o afastaria do piano. Com a prótese que lhe seria providenciada por sua filha, a atriz Lucia Veríssimo, ele se habituaria a tocar de pé ou aprenderia a pressionar os pedais com o pé esquerdo. (FOLHA DE S.PAULO, 5 mar. 2016. A2.)

O marco temporal no futuro inscrito no texto estabelece uma relação com o momento futuro que pode estar organizado em torno de fatos concomitantes, anteriores e posteriores. O exemplo a seguir apresenta o marco temporal no futuro com acontecimentos concomitantes. O presidente Barack Obama fará uma viagem histórica a Cuba nos dias 21 e 22 de março. Será o primeiro chefe de Estado americano em exercício a visitar a ilha em quase 90 anos. Ele diz que pressionará o regime sobre direitos humanos e que sua ida é parte da normalização da relação entre os dois países. (FOLHA DE S.PAULO, 19 fev. 2016. Capa. Folhapress.)

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Capítulo 3 – Tempos verbais

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O marco temporal no futuro é “nos dias 21 e 22 de março”, e as ações concomitantes a ele são “O presidente Barack Obama fará uma viagem histórica a Cuba” e “Ele diz que pressionará o regime”. Leia esta notícia publicada em um jornal de grande circulação. Nos próximos meses, os dois principais partidos do país, o Democrata e o Republicano, irão definir, por meio de convenções e eleições primárias estaduais, os candidatos que deverão se enfrentar nas urnas no dia 8 de novembro. O Partido Democrata tentará se manter no comando da Casa Branca por mais quatro anos, após os oito anos de Barack Obama [...] (FOLHA DE S.PAULO, 30 jan. 2016. Editorial.)

No primeiro parágrafo, há um marco temporal no futuro — “Nos próximos meses” — e um fato concomitante a ele — “[os dois principais partidos do país] irão definir”. No segundo parágrafo, há um fato no futuro — “tentarão se manter...” — e um marco temporal no futuro, mas anterior — “após os oito anos...”, já que o governo de Obama ainda está em curso no momento referido.

Usando os mecanismos linguístico-discursivos 1. Use o que aprendeu sobre tempos verbais, observando seu emprego em uma resenha. O texto não só informa o leitor sobre a publicação da obra de Balzac, como também apresenta uma reflexão sobre o contexto de FAÇA NO publicação da obra. CADERNO A resenha é um texto opinativo muito comum na esfera jornalística. Suas funções básicas são: apresentar informações a respeito de produtos culturais (livros, discos, filmes, espetáculos etc.) lançados recentemente no mercado e fazer comentários críticos sobre eles. Com isso, a resenha exerce grande influência sobre o leitor. Máximas e pensamentos de Honoré de Balzac Autor: Honoré de Balzac Editora: Martins Fontes Páginas: 192 Honoré de Balzac, autor das oitenta e oito obras que perfazem a Comédia humana, nasceu num momento em que a França não era um bom lugar para se viver e, na primeira metade do século XIX, sentiu na pele duas das piores consequências da Revolução Francesa: a transformação do intelectual num proletário do saber e a herança romântica da submissão do artista aos gostos e vontades do povo, mais exigente e cruel que os mecenas do Antigo Regime. A Comédia humana é o retrato fiel de uma burguesia que se embruteceu lutando para ter acesso à riqueza e ao prestígio. As máximas e pensamentos listados nesse livro são trechos da Comédia humana vertidos para uma linguagem aforista, constituindo um resumo da linha de pensamento crítica e bem-humorada do grande escritor francês. Os aforismos de Balzac formam a síntese das ideias do autor que traçou a gênese do mundo burguês como ele é visto hoje. Além de traduzirem, Regine Schöpke e Mauro Balardi se ocuparam de criar notas que muito auxiliam na leitura. REVISTA CONHECIMENTO PRÁTICO DE LITERATURA. São Paulo: Escala Educacional, n. 36, maio 2011. p. 62.

• Identifique os tempos verbais e explique seu emprego. Você sabe como escrever um título jornalístico? Leia as orientações de um manual de jornal. 1. não use ponto, dois-pontos, ponto de interrogação, exclamação, reticências, travessão ou parênteses [...]; 5. evite a reprodução literal das palavras iniciais do texto; 6. evite verbo no condicional; quando não puder assumir uma informação, atribua-a à fonte. Nos textos noticiosos, o título deve: 1. conter verbo, de preferência na voz ativa; 2. estar no tempo presente, exceto quando o texto se referir a fatos distantes no futuro e no passado; [...] FOLHA DE S.PAULO. Manual da redação. São Paulo: Publifolha, 2001. p. 100-101.

Língua e linguagem

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FA Ç A N O CADERNO

2. A proposta, agora, é que você faça um exercício de jornalismo. Leia o trecho da notícia a seguir, publicada no jornal do O Estado de S. Paulo em 20 de fevereiro de 2016, e crie para ela um título que desperte a atenção dos leitores, observando os tempos verbais. Depois, compare sua produção com a de um colega. Escritor, ensaísta, linguista e filósofo, autor de títulos imortais da literatura, como O nome da rosa, o italiano Umberto Eco faleceu na noite de ontem, aos 84 anos. O ESTADO DE S. PAULO. São Paulo, 20 fev. 2016. p. A1.

Leia as orientações a seguir sobre como preparar uma legenda de foto para um jornal. A legenda não é colocada sob a foto apenas para descrevê-la, embora não possa deixar de cumprir essa função. Por ser um dos primeiros elementos da página que atraem o leitor, merece tanto cuidado quanto os títulos. A legenda fotográfica deve atender à curiosidade do leitor, que deseja saber o que ou quem aparece na foto, o que está fazendo, onde está. Sempre que for cabível, deve usar verbo no presente (o presente do momento em que a foto foi tirada). FOLHA DE S.PAULO. Manual da redação. São Paulo: Publifolha, 2001. p. 76-77.

Chama é mensagem de esperança

Estadão Conteúdo

3. Redija uma legenda para a foto a seguir, publicada na primeira página do caderno Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, em 22 de abril de 2016. A legenda original foi retirada propositadamente para você entrar em ação, mas o título e um trecho da matéria foram mantidos para contextualizar a imagem.

A chama foi acesa seguindo o ritual tradicional no Templo de Hera, construído há 2,6 mil anos. Vestidas de túnicas brancas, atrizes selecionadas para a cerimônia evocaram o nome de Apolo, deus grego do sol. Em um momento de silêncio que interrompeu os cânticos de um coral, Katerina Lehou, no papel de alta sacerdotisa, usou um espelho parabólico para captar os raios solares e acender a tocha olímpica, sob aplausos dos presentes. A chama foi então entregue ao seu primeiro emissário, o ginasta grego Leftheris Petrounias, campeão do mundo em argolas e principal rival do brasileiro Arthur Zanetti no Rio, que a repassou a Giovane, bicampeão olímpico pela seleção de vôlei em Barcelona-1992 e Atenas-2004. O ESTADO DE S. PAULO, São Paulo, 22 abr. 2016. Esportes, A17.

Em atividade

FA Ç A N O CADERNO

1. (UEL-PR) Leia o texto a seguir. — Por que se demorou tanto na casa de banho? — Demorei, eu? Despachei-me enquanto o diabo esfregava o olho! — Esteve a cortar as unhas, eu bem escutei. [...] — Diga-se de paisagem, Constança: eu estava me bonitando para si. — Para mim? COUTO, Mia. O outro pé da sereia. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 229.

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O trecho em negrito revela a) início da ação, uma vez que aponta para o estado da personagem, expresso pelo verbo “estava”. b) continuidade da ação, pois apresenta um evento prolongado, expresso pela palavra “bonitando”. c) momento da ação, já que ela é posterior ao momento da fala, revelado pelo discurso direto. d) simultaneidade de ações, pois, enquanto fala com Constança, a personagem vai se “bonitando”. e) anterioridade de ações, visto que a personagem se dirige a Constança antes de se bonitar.

Capítulo 3 – Tempos verbais

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FAÇA NO CADERNO

2. (ITA-SP) Leia o texto abaixo e identifique a alternativa correta:

b) Justifique o emprego das formas do perfeito, relacionando-as com as formas do presente.

Sonolento leitor, o jogo do Brasil já aconteceu. Como estou escrevendo ontem, não faço ideia do que ocorreu. Porém, tentei adivinhar a atuação dos jogadores. Cabe ao leitor avaliar minha avaliação e dar-me a nota final.

5. (Unicamp-SP) A coluna Marketing da revista Classe, ano XVII, n. 94, 30/08 a 30/10, 2002, inclui as seguintes passagens (parcialmente adaptadas):

(TORERO, José Roberto. Folha de S.Paulo, 13/6/2002, A-1)

Com o uso do advérbio em “Como estou escrevendo ontem...”, o autor: a) marcou que a leitura do texto acontece simultaneamente ao processo de produção do texto. b) adequou esse elemento à forma verbal composta de auxiliar + gerúndio, para guiar a interpretação do leitor. c) não observou a regra gramatical que impede o uso do verbo no presente com aspecto durativo juntamente com um marcador de passado. d) sinalizou explicitamente que a produção e a leitura do texto acontecem em momentos distintos. e) lançou mão de um recurso que, embora gramaticalmente incorreto, coloca o leitor e o produtor do texto em momentos distintos: passado e presente, respectivamente. 3. (FGV-SP) Em qual das alternativas não há a necessária correlação temporal das formas verbais? a) A festa aconteceu no mesmo edifício em que transcorrera o passamento de José Mateus, vinte anos antes. b) Quando Estela descer da carruagem, poderia acontecer-lhe uma desgraça se o cocheiro não dispuser adequadamente o estribo. c) Tendo visto o pasto verde, o cavalo pôs-se a correr sem que alguém pudesse controlá-lo. d) Pelo porte, pelo garbo, todos perceberam que Antônio Sé fora militar de alta patente. e) Se o policial não tivesse intervindo a tempo, teria ocorrido a queda do canhão. 4. (Fuvest-SP) Conclui-se a construção da casa nova. Julgo que não preciso descrevê-la. As partes principais apareceram ou aparecerão; o resto é dispensável e apenas pode interessar aos arquitetos, homens que provavelmente não lerão isto. Ficou tudo confortável e bonito. (Graciliano Ramos, São Bernardo)

No excerto, observa-se o emprego de diferentes tempos verbais, todos pertencentes ao modo indicativo. a) Justifique o emprego das formas do presente.

Os jovens de classe média e alta, nascidos a partir de 1980, foram criados sob a pressão de encaixarem infinitas atividades dentro das 24 horas. E assim aprenderam a ensanduichar atividades. [...] Pressionados pelo tempo desde que nasceram, desenvolveram um filtro e separam aquilo que para eles é o trigo, do joio; ficam com o trigo, e naturalmente, deletam o joio. (p. 26)

a) Explique qual é o sentido da palavra “ensanduichar”no texto e diga por que ela é especialmente expressiva ou sugestiva aqui. b) O texto menciona um ditado corrente, embora não na ordem usual. Qual é o ditado e o que significa? c) A palavra “deletar” confere um ar de atualidade ao texto. Explique por quê. 6. (Fuvest-SP) Décadas atrás, vozes bem afinadas cantavam no rádio esta singela quadrinha de propaganda: As rosas desabrocham Com a luz do sol, E a beleza das mulheres Com o creme Rugol. Os versos nunca fizeram inveja a Camões, mas eram bonitinhos. E sabe-se lá quantas senhoras não foram atrás do creme Rugol para se sentirem novinhas em folha, rosas resplandecentes. (Quintino Miranda)

a) Reescreva o primeiro parágrafo do texto, substituindo “Décadas atrás” por “Ainda hoje” e transpondo a forma verbal para a voz passiva. Faça as adaptações necessárias. b) Que expressões da quadrinha justificam o emprego de “novinhas em folha” e de “resplandecentes”, no comentário feito pelo autor do texto? 7. (UFU-MG) Observe os verbos do fragmento abaixo e, a seguir, explique a razão da mudança no emprego dos tempos verbais. A autoridade, em suma, desertou a tradição e veio para a experiência — o que permitiu, entre outras coisas, o nascimento da ciência moderna: a Terra é chata porque Ptolomeu disse, é redonda porque a gente pode dar a volta. Língua e linguagem

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Unidade 2 Divulgação - Museu da Imigração

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Construção da brasilidade: as raízes e o cidadão No Museu da Imigração do Estado de São Paulo, é possível andar pelos corredores originais da antiga hospedaria de Imigrantes do Brás e participar da exposição Migrar: experiências, memórias e identidades. Encontra-se lá um enorme painel de madeira com gavetas fechadas, semiabertas e abertas em que podemos ler um fragmento de carta de filho para pai, iluminando a sala escura: “Pode embarcar sem reseo algum pois a meu lado nada lhe faltará nada pois conforme lhe fez ver ó Senhor só nessa como se acha não pode estar tão bem com a meu lado sou com estma seu filho, Manoel Cardozo Filho”. O texto foi escrito em 10 de fevereiro de 1912, em português de Portugal, e recupera a memória de muitas raízes culturais daqueles que chegaram ao Brasil e encontraram um povo com língua e costumes diferentes. Nesta unidade, vamos discutir o tema integrador “Construção da brasilidade: as raízes e o cidadão”. Você vai aprender que a língua é a mais viva expressão da nacionalidade. O português que todos nós, brasileiros, usamos para pensar, conversar em casa, na rua, na escola, e ler jornais, revistas, livros e sites na internet transforma-se a cada dia. A língua se apresenta numa contínua evolução histórica. Observe que na carta do painel, por exemplo, algumas palavras como “reseo” e “estma” hoje são grafadas “receio” e “estima”; quanto à forma de se dirigir ao pai, o uso do pronome “senhor” caiu em desuso na maior parte das famílias. No capítulo de Leitura e literatura, vamos viajar de norte a sul do Brasil flagrando as diferentes linguagens que estão em circulação. No capítulo de Texto, gênero do discurso e produção, analisaremos as propagandas institucionais em jornais e revistas impressas, sua forma de composição e linguagem. Você criará um texto publicitário para divulgar ideias e gestos sociais. No capítulo de Língua e linguagem, vamos entender um pouco da variedade linguística que circula em todo o país. Você terá condições de avaliar o uso de gírias e jargões: sua adequação à situação concreta e seu valor comunicativo.

Exposição Migrar: experiências, memórias e identidades. Museu da Imigração do Estado de São Paulo.

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Capítulo 4

Leitura e literatura

Variedade linguística brasileira Oficina de imagens Tarsila do Amaral. 1929. Óleo sobre tela 126  142 cm. Coleção particular. © Tarsila do Amaral Empreendimentos Ltda.

O Brasil que não está no mapa

Antropofagia, de Tarsila do Amaral, 1929.

Antropofagia, tela da pintora modernista Tarsila do Amaral (1886-1973), é uma imagem grandiosa, que capta um Brasil contraditório, no qual o primitivo e o moderno se misturam. Observe a mulher com um seio tombado sobre a perna de outra figura de perfil, como em um espelho convexo, com os pés gigantescos e a cabeça miúda. O cenário da pintura de Tarsila do Amaral mostra a sombra de uma floresta escura onde se recorta o perfil do mandacaru, planta de ramos cobertos nas extremidades por flores que se abrem à noite. A grande folha de bananeira acentua a pequenez da cabeça para a qual serve de fundo. Nas laterais, os cactos da cena parecem candelabros verdes acesos, iluminando as figuras debaixo da laranja-sol. Um contorno vermelho — como se fosse a luz do sol que se põe — destaca-se no meio do verde/amarelo/azul e da cor terrosa. A partir de 1929, Tarsila do Amaral engajou-se no movimento modernista, com os escritores Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Uma das novidades de seu trabalho está na forma como recupera cores e temas brasileiros. Paulista de Capivari, a pintora foi influenciada por artistas franceses, em especial pelo pintor Fernand Léger (1881-1955), seu professor em Paris. Com ele, Tarsila aprendeu a técnica das imagens justapostas e a ilusão de proximidade e distância, criada pela cor limpa, sem misturas. O resultado da mescla de cores, de formas e de linhas geométricas tem um efeito mágico, de segredo e mistério. Acompanhado de Tarsila do Amaral, você está convidado a ir ao encontro do povo brasileiro, com os grandes pés que ensaiam os primeiros passos no caminho da língua e da cultura brasileiras.

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Organize com os colegas uma instalação mostrando o Brasil que não está no mapa. Cada objeto, imagem visual ou sonora deverá retratar os sentimentos de cidadania do grupo.

Brasil: regiões 50° O

RORAIMA

Equador

AMAPÁ

AMAZONAS

PARÁ

MARANHÃO

Como preparar a instalação? • Providenciem, com a ajuda do professor, um espaço para montar a instalação. Seus colegas da escola serão o público. • Vocês podem reunir objetos que tenham em casa, além de reportagens e imagens de revistas e/ou jornais, para mostrar o Brasil que não está no mapa. É indispensável, nesta proposta, que o trabalho faça referência a um mapa do Brasil (físico, político etc.).

PARAÍBA PERNAMBUCO ALAGOAS

TOCANTINS RONDÔNIA

SERGIPE

MATO GROSSO

BAHIA DF

OCEANO ATLÂNTICO

GOIÁS

r Trópico de Cap

MINAS GERAIS

MATO GROSSO DO SUL

OCEANO PACÍFICO

ESPÍRITO SANTO

SÃO PAULO RIO DE JANEIRO

icórnio

PARANÁ

Norte Nordeste Centro-Oeste

Fonte: ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 94.

RIO GRANDE DO NORTE

CEARÁ

PIAUÍ

ACRE

Renato Bassani

Atividade em grupo

Sudeste

SANTA CATARINA RIO GRANDE DO SUL

0

550

Sul

O que é uma instalação? A instalação é uma espécie de cenário teatral reduzido que permite ao observador envolver-se com a proposta, de forma que seu corpo e seus sentidos se tornem parte indispensável da obra de arte. Essa experiência de interação autor-público-obra permite ao observador construir o próprio entendimento do que é representado. • Para compor a sonoplastia do ambiente, escolham uma trilha sonora que reflita a cultura popular brasileira. • Combinem com o professor o dia da montagem e providenciem o material necessário. • Na hora da apresentação, estejam preparados para estimular o público a participar do trabalho.

Astúcias do texto Língua portuguesa no Brasil: um projeto em construção A ideia de que o texto é expressão somente da língua escrita tem longa tradição e vem de algumas instituições culturais, como a escola, que sacralizou a cultura letrada. Durante muito tempo, a littera (letra) reinou absoluta na história da humanidade e a escrita foi considerada o único sistema com direito a ser lido. Atualmente, porém, a noção de texto incorpora também elementos visuais, gestuais, sonoros etc. Por exemplo, a tela Antropofagia, que abriu este capítulo, é um texto expresso por cores, formas, ângulos, linhas, textura, que, organizados, constroem um sentido: o de um Brasil com múltiplas facetas. Por sua vez, o texto escrito constrói sentido a partir de uma rede de relações entre palavras, estabelecidas pela sintaxe da língua. Ele é organizado exclusivamente com recursos linguísticos e está delimitado por dois espaços em branco no papel: um antes do início e outro depois do fim do escrito. Diferentes textos escritos que tratam de nosso país constroem uma variedade linguística que expressa o sentido da cultura brasileira. Não podemos separar os indivíduos da língua que falam, como explica o filósofo da linguagem russo Mikhail Bakhtin. A língua não pode ser compreendida só como um sistema de normas gramaticais fixas. Por isso, não se deve impor uma única forma de escrever, sob o pretexto de ser a mais correta. A língua portuguesa no Brasil teve origem na mistura de diferentes culturas: indígena, portuguesa, africana; posteriormente, outras influências somaram-se a elas: a inglesa, a francesa, a italiana, entre outras. Essa mistura aparece no jeito de contarmos as histórias, na maneira de vermos o mundo e nos comunicarmos com ele. O que é a língua? Veja a seguir o que explica Mikhail Bakhtin. Leitura e literatura

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A língua, enquanto meio vivo e concreto onde vive a consciência do artista da palavra, nunca é única. Ela é única somente como sistema gramatical abstrato de formas normativas, abstraída das percepções ideológicas concretas que a preenchem e da contínua evolução histórica da linguagem viva. A vida social viva e a evolução histórica criam, nos limites de uma língua nacional abstratamente única, uma pluralidade de mundos concretos, de perspectivas literárias ideológicas e sociais, fechadas. BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: Hucitec, 1998. p. 96.

Vamos conhecer um pouco das raízes culturais que nos fazem brasileiros. Texto 1 Leia o depoimento de Davi Kopenawa Yanomami, cacique e xamã da aldeia Yanomami situada ao pé da Serra do Demini (Serra do Vento), no estado do Amazonas. Nascido em 1956, Davi fez várias viagens ao exterior e já recebeu o prêmio Global 500 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Descobrindo os brancos DOS ESPÍRITOS CANIBAIS Edson Sato/Pulsar

Há muito tempo, meus avós, que habitavam Mõramahi araopi, uma casa situada muito longe, nas nascentes do rio Toototobi, iam às vezes visitar nas terras baixas outros Yanomami estabelecidos ao longo do rio Acará. Foi lá que encontraram os primeiros brancos. Esses estrangeiros coletavam fibra de palmeira-piaçaba ao longo do rio. Durante essas visitas nossos mais velhos obtiveram seus primeiros facões. [...] Mas foi bem mais tarde, quando habitávamos Marakana, mais para o lado da foz do rio Toototobi, que os brancos visitaram nossa casa pela primeira vez. Na época, nossos mais velhos ainda estavam todos vivos e éramos muito numerosos, eu me lembro. Eu era um menino, mas começava a tomar consciência das coisas. Foi lá que comecei a crescer e descobri os brancos. Eu nunca os vira, não sabia nada deles. Nem mesmo pensava que eles existissem. Quando os avistei, chorei de medo. Os adultos já os haviam encontrado algumas vezes, mas eu, nunca! Pensei que eram espíritos canibais e que iam nos devorar. Eu os achava muito feios, esbranquiçados e peludos. Eles eram tão diferentes que me Cacique Davi Kopenawa Yanomami em assembleia de todas aterrorizavam. Além disso, não compreendia nenhuma de as etnias Yanomami na comunidade de Toototobi-Hutukara, Barcelos (AM), 2010. suas palavras emaranhadas. Parecia que eles tinham uma língua de fantasmas. [...] Mais tarde, realmente comecei a crescer e a pensar direito, mas continuei a me perguntar: “O que os brancos vêm fazer aqui? Por que abrem caminhos em nossa floresta?”. Os mais velhos me respondiam: “Eles vêm sem dúvida visitar nossa floresta para habitar aqui conosco mais tarde!”. Mas eles não compreendiam nada da língua dos brancos; foi por isso que os deixaram penetrar em suas terras dessa maneira amistosa. Se tivessem compreendido suas palavras, acho que os teriam expulsado. [...] DESCOBRIR O DESCOBRIMENTO Os brancos são engenhosos, têm muitas máquinas e mercadorias, mas não têm nenhuma sabedoria. Não pensam mais no que eram seus ancestrais quando foram criados. Nos primeiros tempos, eles eram como nós, mas esqueceram todas as suas antigas palavras. Mais tarde, atravessaram as águas e vieram em nossa direção. Depois, repetem que descobriram esta terra. Só compreendi isso quando comecei a compreender sua língua. Mas nós, habitantes da floresta, habitamos aqui há longuíssimo tempo, desde que Omama nos criou. No começo das coisas, aqui só havia habitantes da floresta, seres humanos. Os brancos clamam hoje: “Nós descobrimos a terra do Brasil!”. Isso não passa de uma mentira. [...] Os brancos foram criados em nossa floresta por Omama, mas ele os expulsou porque temia sua falta de sabedoria e porque eram perigosos para nós. Ele lhes deu uma terra, muito longe daqui, pois queria nos proteger de suas epidemias e de suas armas. Foi por isso que os afastou. Mas esses ancestrais dos brancos falaram a seus filhos dessa floresta e suas palavras se propagaram por muito tempo. Eles se lembraram: “É verdade! Havia lá, ao longe, uma outra terra muito bela!”, e voltaram para nós. [...]

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“Nós descobrimos estas terras! Possuímos os livros e, por isso, somos importantes!”, dizem os brancos. Mas são apenas palavras de mentira. Eles não fizeram mais que tomar as terras das gentes da floresta para se pôr a devastá-las. YANOMAMI, Davi. Descobrindo os brancos. In: NOVAES, Adauto (Org.). A outra margem do ocidente. São Paulo: Minc-Funarte: Companhia das Letras, 1999.

FAÇA NO CADERNO

1. Como Davi Yanomami caracteriza a língua dos brancos? 2. Como os indígenas trataram os brancos inicialmente, já que não conheciam a língua deles? 3. No trecho “Descobrir o descobrimento”, que sentido adquire a seguinte afirmação do cacique: “Nos primeiros tempos, eles eram como nós, mas esqueceram todas as suas antigas palavras.”? 4. Davi retoma a tradição milenar de seu povo e afirma: “Mas nós, habitantes da floresta, habitamos aqui há longuíssimo tempo, desde que Omama nos criou. No começo das coisas, aqui só havia habitantes da floresta, seres humanos.”. Qual é o sentido da afirmação? 5. Que afirmações representam a voz que Davi atribui ao branco? Texto 2

Acervo Iconographia

O português Eça de Queiroz (1845-1900), além de escritor de romances e contos, foi um jornalista muito lido na imprensa brasileira, no século XIX, tendo aproximado a visão do jornalismo à da literatura. Ele foi também diplomata e estava exercendo essa função em Paris, na França, onde procurava ainda manter uma importante revista portuguesa de cultura, quando escreveu a um amigo, o conde de Sabugosa. Leia um trecho da carta. Paris, 22 de Dezembro de 1897. Meu querido Sabugosa A urgência impreterível do tempo obriga-me a misturar assuntos que lhe pediam cartas separadas. Tenho de lhe escrever hoje necessàriamente — e começo por esperar que V. recebesse o nosso telegrama no momento do seu grande desgosto que tão sentidamente compartilhamos.1

Eça de Queiroz.

Agora o motivo destas rápidas linhas é dizer-lhe que a Revista2 vai dedicar à Rainha o seu primeiro número de Janeiro. Eu escrevo, se Deus quiser, o artigo de “considerações gerais”. Mas há toda uma série de fotografias, retratos, salas, desenhos da Rainha, etc., que pedem um outro largo artigo de informação, mais exacto e directo. Seria um quadro do viver da Rainha — os seus hábitos, os seus gostos, as suas ocupações — um artigo de alta, elegante, fina e discreta reportagem. Pensamos aqui em V. para o fazer. Foi mesmo (aqui entre nós) a Duquesa de Palmela que teve a lembrança, e eu aplaudi, com fervor. Quer V. tomar o encargo? Ninguém o fará com mais puro gosto, porque se não trata de fazer um cântico de louvor — mas uma fina e luminosa miniatura: un petit portrait dans des tons très doux. Se V. consente, telegrafe logo um sim (que todos desejamos) — porque é necessário Notas: desde já, sem demora, ter o número organizado e seguro. [...] 1. Referência à morte do E agora um longo, afectuoso, apertado abraço pelo delicioso foguete3. Teve aqui um imenso succès. Nada mais elegante, mais pitoresco e mais deliciosamente português. Eu tentei responder-lhe também com um soneto! Mas não passei da primeira quadra... [...] Ponha aos pés da Condessa, minha prima e senhora, os meus melhores respeitos, e V., querido, aceite ainda outro abraço do Seu do c. EÇA DE QUEIROZ. QUEIROZ, Eça de. Correspondência. Porto: Lello & Irmão, 1967. p. 256.

marquês de Sabugosa. 2. A Revista Moderna, que se publicava em Paris, e da qual Eça de Queiroz era um dos principais colaboradores. 3. Alusão a um soneto, intitulado “De três respostas”, com que o conde de Sabugosa contribuiu para o número que a Revista Moderna publicou em homenagem a Eça de Queiroz.

Leitura e literatura

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FAÇA NO CADERNO

1. Que características do texto lido permitem considerá-lo como uma carta? 2. O autor justifica-se ao amigo por causa da mistura de assuntos. Explique o vocábulo “impreterível” e o sentido que adquire em “A urgência impreterível do tempo”. Pedro Seborano. s.d. Gravura. Coleção particular

3. No texto, identifique as expressões francesas misturadas com falas em português. Pelo sentido do texto, procure fazer sua tradução. O escritor Monteiro Lobato lia Eça de Queiroz e foi por ele tão influenciado que criou uma personagem com o nome de uma tradicional família de Portugal, a Sabugosa. Quem não se lembra do Visconde, que, na obra infantil de Monteiro Lobato, foi confeccionado por Tia Nastácia, cozinheira do Sítio do Picapau Amarelo, em um sabugo de milho com a roupa igual à que usavam os aristocratas de Portugal?

Conde de Sabugosa, interlocutor de Eça de Queiroz.

Texto 3 Leia, a seguir, um poema de Solano Trindade (1908-1974), importante representante pernambucano da cultura afro-brasileira, em torno do qual se agruparam artistas preocupados com a defesa das raízes da etnia negra. Além de poeta, ele era ator de cinema e de teatro e animador cultural. Sou negro Sou negro meus avós foram queimados pelo sol da África minh’alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs Contaram-me que meus avós vieram de Loanda como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo e fundaram o primeiro Maracatu Depois que meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi Era valente como o quê na capoeira ou na faca escreveu não leu o pau comeu Não foi um pai João humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira Na guerra dos Malês ela se destacou Na minh’alma ficou o samba o batuque o bamboleio e o desejo de libertação

TRINDADE, Solano. Sou negro. In: BERALDO, Alda. Trabalhando com poesia. São Paulo: Ática, 1990. v. 2. p. 79.

agogô: instrumento afro-brasileiro, com duas campânulas de ferro percutidas por vareta de metal. atabaque: pequeno tambor de origem oriental. gonguê: agogô de uma só campânula ou pequeno atabaque. malê: negro africano que, trazido para o Brasil como escravo, conservou, ainda por algum tempo, a fé muçulmana. maracatu: dança em que um bloco fantasiado, bailando ao som de tambores, chocalhos e gonguês, segue uma mulher que leva na mão um bastão em cuja extremidade há uma boneca enfeitada. Zumbi: também conhecido por Zambi, é considerado um símbolo na luta pela liberdade dos escravos. Foi o líder do quilombo dos Palmares.

O poeta cria um outro eu, a que chamamos de eu poético ou eu lírico. Assim como as personagens ou o narrador, a voz que fala no poema é uma invenção do autor. Quem diz “Sou negro”, já no título, é o eu poético inventado pelo poeta real Solano Trindade. FAÇA NO CADERNO

1. Responda. a) Quais são as marcas de oralidade presentes nesse poema? b) Qual é o ditado popular que consta do poema? 2. No início do poema, que palavras indicam explicitamente a presença de um eu poético em primeira pessoa? 46

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3. Leia os enunciados a seguir. “meu avô brigou como um danado / nas terras de Zumbi” “na capoeira ou na faca” “escreveu não leu o pau comeu” “Não foi um pai João / humilde e manso” “Mesmo vovó / não foi de brincadeira / Na guerra dos Malês / ela se destacou.”

a) Explique cada uma das expressões acima. b) De acordo com o poema, os negros aceitavam pacificamente a escravidão? Acervo UH/Folhapress

Solano Trindade Nasceu em Recife, Pernambuco, em 1908, e morreu no Rio de Janeiro (RJ), em 1974. Cantou o sofrimento das populações suburbanas do Rio de Janeiro e o de seus irmãos negros. Publicou Poemas d’uma vida simples (1944). Fundou, em 1945, o Teatro Experimental do Negro e, em 1950, o Teatro Popular Brasileiro. Foi o pioneiro da transformação de Embu (SP) em reduto de artistas, atualmente Embu das Artes. Atuou na elogiada adaptação para o cinema do conto “A hora e vez de Augusto Matraga”, de Guimarães Rosa, feita pelo cineasta Roberto Santos em 1965.

O poeta, escritor, ator e teatrólogo brasileiro Solano Trindade, em 1963.

Na trama dos textos Diálogo entre as línguas faladas no Brasil Na língua portuguesa falada no Brasil, desde a chegada dos portugueses até hoje, as mudanças foram muitas. Uma grande quantidade de termos que usamos foi importada de outras línguas e gradualmente se aportuguesou.

Contribuições de outras línguas Para refletir sobre a língua que se fala atualmente no Brasil, leia o artigo de Leandro Narloch. As línguas do Brasil Somos todos poliglotas Árabe, ioruba, tupi, cantonês, catalão, provençal. A cada vez que você abre a boca para falar o bom e velho português brasileiro, acaba soltando palavras dessas línguas e de outras 30. Isso por baixo, já que ninguém sabe ao certo quantas línguas tiveram termos aportuguesados desde o ano 218 a.C., quando os romanos apareceram na Península Ibérica e começaram a formar o que seria a língua portuguesa. “Todas as línguas e culturas do mundo vivem do contato e do diálogo”, diz Caetano Galindo, professor de Filologia da Universidade Federal do Paraná. As palavras estrangeiras aportuguesadas são como fósseis: contam a história dos povos que conviveram com quem falava a “língua de Camões”. Povos em florescimento artístico deixaram termos sobre espetáculos e cultura. É o caso do italiano. Povos guerreiros enriqueceram o nosso vocabulário sobre a guerra. “Canivete”, “bando”, “trégua” e a própria “guerra” vieram dos bárbaros

árabe: a língua falada pelos árabes, que estiveram na Península Ibérica por sete séculos. bárbaro: para os gregos e os romanos, bárbaro era quem falasse outra língua ou pertencesse a outra etnia que não a deles; estrangeiro. cantonês: dialeto chinês falado em Cantão. catalão: língua românica falada principalmente na Catalunha, região da Espanha. ioruba (variantes: iorubá e iorubano): língua falada pelo povo africano do sudoeste da República Federal da Nigéria, e por grupos espalhados pela República do Benin e pelo norte da República do Togo. provençal: dialeto falado na antiga Provença, região do sul da França, que influenciou a música e a poesia portuguesas na Idade Média. tupi: tronco linguístico que constitui dez famílias de línguas vivas, distribuídas por 14 estados brasileiros.

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germânicos (suevos e visigodos), que dominaram a Península Ibérica entre os séculos V e VII. Os árabes, que expulsaram os germânicos em 711 e permaneceram na península por 300 anos, também entendiam de guerra e nos deram mais termos bélicos. Mas sua maior contribuição ao português foi de termos relacionados à tecnologia — na época, sua civilização era tecnicamente muito superior à europeia. As novidades que eles levaram para a Europa ficaram registradas na língua: alicate, alicerce, azeite (quase todas as palavras começam com a, pois eram faladas depois do artigo árabe al). Até a preposição “até” veio do árabe, um caso raro de empréstimo linguístico. As línguas indígenas e africanas também deixaram sua marca no Brasil — as indígenas descrevem a natureza exuberante, para a qual os europeus literalmente não tinham palavras, e as africanas impregnaram nossa cultura, especialmente a religião e a culinária. Hoje, muita gente acha ruim a influência inglesa na língua. Nacionalismos à parte, esse pessoal vai ter que suar muito se quiser mesmo livrar o português do Brasil de todos os estrangeirismos.

germânico: relativo à antiga Germânica (atual República Federal da Alemanha). suevo: habitante da Suévia, antigo país germânico. Em 411, esse povo ocupou o noroeste da Península Ibérica e, por isso, constitui um dos povos que deram origem aos galegos e aos portugueses. visigodo: povo germânico que surgiu no século V, na região do Danúbio, e conquistou Roma, a Gália e parte da Espanha, até ser dominado pelos árabes em 711.

NARLOCH, Leandro. As línguas do Brasil: somos todos poliglotas. Superinteressante, São Paulo: Abril, abr. 2002. p. 24. Leandro Narloch/Abril Comunicações S.A. FAÇA NO CADERNO

Que relação tem o ano 218 a.C. com a língua portuguesa falada no Brasil? Por que as palavras estrangeiras aportuguesadas podem ser consideradas “fósseis”? Por que as palavras de origem africana predominam em nossa cultura no que se refere à religião e à culinária? De acordo com o artigo, explique a que se referem as palavras de origem italiana e indígena presentes no português do Brasil. 5. Por que há mais palavras de origem árabe do que de origem germânica no vocabulário referente à tecnologia? 1. 2. 3. 4.

A raiz indígena Você conhece o nheengatu? Foi a língua utilizada tanto pelos indígenas quanto pelos portugueses até o século XVIII. A estrutura da frase era lusitana e o vocabulário, tupi. Leia o fragmento de uma reportagem de Marcos de Moura e Souza sobre o assunto. Nheengatu foi língua mais usada no país O nheengatu — uma das três novas línguas que agora são oficiais em São Gabriel da Cachoeira — entrou para a história do Brasil com outro nome: tupi. Falado por índios de diferentes tribos em quase toda a costa brasileira na época do Descobrimento, o tupi transformou-se e simplificou-se ao longo dos séculos, ganhando arremates de português até chegar ao estágio atual — sob o nome de nheengatu ou tupi moderno. Hoje, é falado apenas por ribeirinhos, índios e caboclos da Amazônia. A evolução e a importância da velha língua brasílica — como era chamado o tupi por portugueses nos dois primeiros séculos — não são muito exploradas pela maioria dos livros de história. Mas seu uso ajudou a dar uma cara ao Brasil. [...] O tupi (às vezes chamado erroneamente de tupi-guarani, que é a denominação de uma família de línguas) deu nomes a cidades, rios, serras. Depois do latim e do grego, nenhuma língua foi tão usada na classificação científica de plantas e animais. Nomes como Sergipe, Guaratinguetá, pipoca, paçoca, pirão, peroba, tatu, sabiá, urubu ou expressões como chorar as pitangas e toró (chuvarada) vêm do tupi. Sua difusão, porém, foi barrada no século 18 por decisão do governo. “Em 1758, o Marquês de Pombal começou a proibir o ensino da língua geral em toda a colônia com o objetivo de impor o português como forma de demonstração de poder”, conta Navarro [especialista em tupi e professor da Universidade de São Paulo (USP)]. SOUZA, Marcos de Moura e. Nheengatu foi língua mais usada no país. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 30 mar. 2003. p. A15.

• Segundo a reportagem, quais são as principais contribuições do tupi, “a língua brasílica”, para o português que falamos atualmente? Dê exemplos.

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Um exemplo: a influência italiana Como as línguas são vivas, o português do Brasil recebeu e continua recebendo contribuições dos mais variados idiomas. No início do século XX, a cidade de São Paulo recebeu muitos estrangeiros, o que gerou uma pluralidade de falares. Antônio de Alcântara Machado (1901-1935), escritor paulistano que utiliza a variante ítalo-paulistana, foi um dos primeiros a descobrir as possibilidades de fazer literatura com a fala dos italianos e de seus descendentes, usada principalmente em alguns bairros de São Paulo, como Brás, Bexiga, Barra Funda e Mooca. Leia agora o fragmento de um conto desse autor, imaginando-se na São Paulo dos anos 1920: poucos carros e alguns ônibus, algumas bicicletas, muitos pedestres. A maioria das pessoas andava de bonde elétrico, que substituiu o bonde puxado a burro — sinal dos tempos modernos.

— Deixa pegar um pouquinho, um pouquinho só nele, deixa? — Ah! — Scusi, senhora. Desculpe por favor. A senhora sabe, essas crianças são compostura: educação, muito levadas. Scusi. Desculpe. comedimento. A mãe da menina rica não respondeu. Ajeitou o chapeuzinho da filha, escarlate: cor vermelha sorriu para o bicho, fez uma carícia na cabeça dele, abriu a bolsa e olhou muito viva. pespegar: assentar ou aplicar o espelho. com violência. Dona Mariana, escarlate de vergonha, murmurou ao ouvido da filha: — In casa me lo pagherai! E pespegou por conta um beliscão no bracinho magro. Um beliscão daqueles. Lisetta então perdeu toda a compostura de uma vez. Chorou. Soluçou. Falando sempre. — Ahn! Ahn! Ahn! Ahn! Eu que...ro o ur...so! O ur...so! Ai, mamãe! Ai, mamãe! Eu que...ro o o o...Ahnn! Ahn! — Stai ferma o ti amazzo parola d’onore! — Um pou...qui...nho só! Ahn! E...ahn! E...ahn! Um pou...qui... — Senti, Lisetta. Non ti porterò piu in città! Mai piu! Um escândalo. E logo no banco da frente. O bonde inteiro testemunhou o feio que Lisetta fez. O urso recomeçou a mexer com a cabeça. Da esquerda para a direita, para cima e para baixo. A história acaba bem: o irmão faz para Lisetta um ursinho de lata. Melhor do que nada...

Editora Melhoramentos

Lisetta

MACHADO, Antônio de Alcântara. Lisetta. In: _____. Novelas paulistanas. 7. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981. p. 28-30.

Na época em que esse conto foi escrito, a imigração italiana tinha começado havia pouco tempo. Quando a mãe de Lisetta diz “Scusi.” e logo em seguida traduz por “Desculpe.”, não há necessidade de o leitor conhecer italiano, pois a palavra seguinte dá o significado. Mas quando ela diz: “Stai ferma o ti amazzo parola d’onore!”, fica mais difícil entender. A situação em que ocorre o diálogo, porém, permite ao leitor fazer uma tradução livre bem próxima do real significado da expressão. • Por que, hoje, entendemos quando alguém diz ópera, tchau, bambino, madona, pizza, espaguete, polenta ou mesmo al dente? Capa do livro Brás, Bexiga e Barra Funda, de Antônio de Alcântara Machado.

Leitura e literatura

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Outro exemplo: a influência anglo-saxônica A crônica a seguir, publicada na coluna Xongas, na qual Ricardo Freire escreve semanalmente para a revista Época, flagra um incidente do cotidiano para refletir sobre o uso do inglês na comunicação eletrônica. Abaixo a @rroba Se você tivesse o poder de mudar uma palavra, qual você escolheria? Eu não tenho dúvida: arroba. Convenhamos — “arroba” é horrível. E no entanto estamos todos condenados a ser alguém-arroba-alguma coisa ponto com ponto br. É triste saber que vou carregar essa palavra a vida inteira, feito uma tatuagem na nuca ou um pino na perna. Não, minha implicância não é com o símbolo @. Esse azinho enrolado é o logotipo perfeito para a internet. Em inglês faz todo o sentido: @ é uma maneira de escrever “at” — a nossa preposiçãozinha “em”. Em português é que fica difícil ligar o nome à figura. Porque, ao contrário do símbolo @, a palavra “arroba” não tem xongas a ver com endereçamento. Arroba é uma medida de peso arcaica, inventada na Península Ibérica, que no Brasil vale 15 quilos. Toda vez que você dita o seu endereço eletrônico, você engorda: alguém-15 quilos-alguma coisa ponto com ponto [...] Eu julgava minha guerra contra a arroba perdida, até que, na semana passada, uma notícia reacendeu minhas esperanças. Seguindo recomendações da Academia Francesa, o governo francês proibiu o uso da palavra “e-mail” em todos os documentos oficiais. No seu lugar deverá ser escrito “courriel” — uma contração de “courrier électronique” (correio eletrônico) que já era usada no Canadá de fala francesa. A estas alturas do campeonato informático, é óbvio que não exista a mínima chance de esse novo nome pegar (já pensou ser obrigado a dizer “eletrocarta” no lugar de e-mail?). Mas pelo menos os dois ou três franceses que não gostam da palavra “e-mail” vão dispor de uma alternativa oficial e compreensível. E nós, os dois ou três brasileiros que não gostamos de engordar 15 quilos toda vez que damos nosso endereço eletrônico — como ficamos? [...] FREIRE, Ricardo. Abaixo a @rroba. Época, São Paulo: Globo, 28 jul. 2003. Coluna Xongas.

1. O que está em discussão é o símbolo @ ou a palavra arroba? Qual é o sentido desse símbolo e dessa palavra?

FAÇA NO CADERNO

2. Segundo a Academia Francesa, a palavra e-mail deveria ser substituída por courriel (courrier électronique) em todos os documentos oficiais. Obedecendo a essa mesma lógica, o autor sugere que, no Brasil, se use a palavra eletrocarta. O que há em comum nas duas propostas de substituição? O plurilinguismo: convivendo com a diversidade Não há línguas puras. Vivas, elas mudam continuamente e têm importante papel na cultura: os árabes expulsaram os germânicos (godos) da Península Ibérica, mas ficaram com palavras originárias de uma cultura e de outra. Os portugueses e os espanhóis lutaram durante séculos para não ser dominados pelos árabes, que acabaram saindo de Portugal e da Espanha, mas deixaram profundas marcas de sua cultura, principalmente de sua língua. O Marquês de Pombal quis impor a língua de Portugal no Brasil; no entanto, já tinha havido uma miscigenação cultural no país: os indígenas se aportuguesaram e os portugueses se “indigenizaram”. Por mais que o nheengatu tenha sido proibido, ele se mantém vivo no português brasileiro. A língua apresenta também variações regionais, como vimos na caracterização da fala do africano e do imigrante italiano. Essa diversidade de línguas do mundo e da sociedade chama-se plurilinguismo, múltiplas vozes que existem ao mesmo tempo na fala das pessoas. É ingenuidade pensar que a língua é única, incontestável e definitiva. Ela é um fato social, histórico, desenvolvido de acordo com as práticas de diferentes grupos sociais e, como tal, obedece a convenções de uso em cada época.

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (Fuvest-SP) Você pode dar um rolê de bike, lapidar o estilo a bordo de um skate, curtir o sol tropical, levar a sua gata para surfar.

Considerando-se a variedade linguística que se pretendeu reproduzir nessa frase, é correto 50

afirmar que a expressão proveniente de variedade diversa é: a) “dar um rolê de bike” b) “lapidar o estilo” c) “a bordo de um skate” d) “curtir o sol tropical” e) “levar sua gata para surfar”

Capítulo 4 – Variedade linguística brasileira

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2. (Enem/MEC) Óia eu aqui de novo xaxando Óia eu aqui de novo pra xaxar Vou mostrar pr’esses cabras Que eu ainda dou no couro Isso é um desaforo Que eu não posso levar Que eu aqui de novo cantando Que eu aqui de novo xaxando Óia eu aqui de novo mostrando Como se deve xaxar. Vem cá morena linda Vestida de chita Você é a mais bonita Desse meu lugar Vai, chama Maria, chama Luzia Vai, chama Zabé, chama Raqué Diz que eu tou aqui com alegria. BARROS, A. Óia eu aqui de novo. Disponível em: <www.luizluagonzaga.mus.br>. Acesso em: 5 maio 2013.

A letra da canção de Antônio Barros manifesta aspectos do repertório linguístico e cultural do Brasil. O verso que singulariza uma forma do falar popular regional é: a) “Isso é um desaforo” b) “Diz que eu tou aqui com alegria” c) “Vou mostrar pr’esses cabras” d) “Vai, chama Maria, chama Luzia” e) “Vem cá, morena linda, vestida de chita” 3. (Enem/MEC) Só há uma saída para a escola se ela quiser ser mais bem-sucedida: aceitar a mudança da língua como um fato. Isso deve significar que a escola deve aceitar qualquer forma da língua em suas atividades escritas? Não deve mais corrigir? Não! Há outra dimensão a ser considerada: de fato, no mundo real da escrita, não existe apenas um português correto, que valeria para todas as ocasiões: o estilo dos contratos não é o mesmo do dos manuais de instrução; o dos juízes do Supremo não é o mesmo do dos cordelistas; o dos editoriais dos jornais não é o mesmo do dos cadernos de cultura dos mesmos jornais. Ou do de seus colunistas. POSSENTI, S. Gramática na cabeça. Língua Portuguesa, ano 5, n. 67, maio 2011 (adaptado).

Sírio Possenti defende a tese de que não existe um único “português correto”. Assim sendo, o domínio da língua portuguesa implica, entre outras coisas, saber: a) descartar as marcas de informalidade do texto. b) reservar o emprego da norma-padrão aos textos de circulação ampla.

c) moldar a norma-padrão do português pela linguagem do discurso jornalístico. d) adequar as formas da língua a diferentes tipos de texto e contexto. e) desprezar as formas da língua previstas pelas gramáticas e manuais divulgados pela escola. 4. (Enem/MEC) Texto para as questões I e II. Aula de português A linguagem na ponta da língua tão fácil de falar e de entender. A linguagem na superfície estrelada de letras, sabe lá o que quer dizer? Professor Carlos Góis, ele é quem sabe, e vai desmatando o amazonas de minha ignorância. Figuras de gramática, esquipáticas, atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me. Já esqueci a língua em que comia, em que pedia para ir lá fora, em que levava e dava pontapé, a língua, breve língua entrecortada do namoro com a priminha. O português são dois; o outro, mistério. ANDRADE, Carlos Drummond de. Esquecer para lembrar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.

I. Explorando a função emotiva da linguagem, o poeta expressa o contraste entre marcas de variação de usos da linguagem em: a) situações formais e informais. b) diferentes regiões do país. c) escolas literárias distintas. d) textos técnicos e poéticos. e) diferentes épocas. II. No poema, a referência à variedade padrão da língua está expressa no seguinte trecho: a) “A linguagem / na ponta da língua” (v. 1 e 2). b) “A linguagem / na superfície estrelada de letras” (v. 5 e 6). c) “[a língua] em que pedia para ir lá fora” (v. 14). d) “[a língua] em que levava e dava pontapé” (v. 15). e) “[a língua] do namoro com a priminha” (v. 17). Leitura e literatura

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Capítulo 5

Texto, gênero do discurso e produção

Gênero publicitário: propagandas institucionais Diversas propagandas circulam diariamente em diferentes meios de comunicação. Acontece que muitas vezes elas não vendem produtos mas propagam informações para conscientizar e instruir a população sobre questões sociais que envolvem todos os cidadãos. As “propagandas institucionais”, de diferentes maneiras, procuram convencer a população a participar de trabalhos voluntários, preservar o meio ambiente, cuidar da saúde, ter acesso à cultura, manter a ética e conhecer as dimensões que ligam o cidadão à vida social. Você já reparou nesse tipo de propaganda? Já leu, no verso de uma embalagem de cigarro, a mensagem “O Ministério da Saúde adverte: [...]”? Em período de férias e no Carnaval, é comum haver muitas campanhas direcionadas principalmente aos jovens, para incentivá-los a usar preservativos e para convencê-los do perigo de dirigir depois de beber.

(Des)construindo o gênero Diálogo entre o verbal e o visual Propaganda institucional Leia a propaganda a seguir, que circulou na revista mensal Ciência Hoje em fevereiro de 2013. Greenpeace

1. Quem é o responsável pela produção dessa campanha publicitária? FAÇA NO CADERNO

2. Descreva os elementos verbais e visuais que compõem a propaganda. 3. A ampulheta, um dos objetos mais antigos criados para medir o tempo, também é conhecida como relógio de areia. Em geral, simboliza o ciclo da vida, que se conclui com a morte. Reflita sobre a imagem da ampulheta na propaganda e responda: a) A ampulheta se refere à vida de quem? b) Relacione a imagem da ampulheta à afirmação “Não deixe que as florestas do Brasil fiquem no passado.”. Explique o sentido da expressão “ficar no passado” nesse contexto. 4. Quando a areia termina de escoar de uma parte para a outra, a ampulheta pode ser invertida para continuar a medir o tempo. Relacione tal aspecto com o texto verbal da parte inferior do anúncio e responda: a) Qual é o sentido de inverter a ampulheta? Justifique sua resposta com trechos dessa parte da propaganda. b) Quem poderá ser responsável por essa inversão? Explique com elementos do texto. 5. Nessa propaganda, há o uso de formas verbais no modo imperativo. a) Identifique-as e indique qual é o sujeito oculto de cada uma. b) A quem o Greenpeace se dirige? Explique o uso desse modo do verbo.

Não há mais tempo, as florestas brasileiras estão sendo dizimadas e, se não agirmos agora, elas farão parte do passado. O Brasil pode se desenvolver sem desmatamento. Junte-se ao Greenpeace e faça parte da mudança.

CIÊNCIA HOJE. São Paulo: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, n. 300, jan./fev. 2013. Contracapa, parte interna.

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Capítulo 5 – Gênero publicitário: propagandas institucionais

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O que é preciso para trabalhar numa ONG? Para trabalhar numa ONG é preciso “Eu me preocupo em fazer um trabalho em forma de parceria, um trabalho importante. Pode ser em uma ONG, pois eles têm muito amor por aquilo que fazem.”

“Arrumei estágio em uma multinacional e foi um horror! A relação era muito impessoal. Coloquei na minha cabeça que nunca mais trabalharia em empresas privadas.”

Edilene da Silva Oliveira 18, alfabetizadora solidária.

Márcio Leoni Kabili 23, estagiário do Greenpeace.

1. Escolher uma causa para lutar. Normalmente, ela vai estar compreendida em uma destas cinco áreas: ação cultural, desenvolvimento comunitário, educação, meio ambiente e saúde. 2. Acreditar na causa pela qual luta. 3. Saber lidar com pessoas. 4. Ser inquieto e ter vontade de melhorar o mundo. 5. Ser comprometido com sua responsabilidade social. 6. Ter participado de grêmios, centros ou diretórios acadêmicos são experiências relevantes. 7. Ter um histórico de participação social. Pode ser ajudando na manutenção de uma praça do seu bairro, por exemplo. 8. Saber que a remuneração é menor se comparada às mesmas funções em cargos privados ou públicos. 9. Ter vontade de sempre se aprimorar e se capacitar 10. Ser capaz de propor soluções. 11. Saber que vai passar grande parte do seu tempo correndo atrás de patrocínios e de parcerias. 12. Ter características como persistência, ética, comprometimento e firmeza. Fontes: ABONG, FAÇA PARTE, GREENPEACE e INSTITUTO AYRTON SENNA.

Para entrar de cabeça no mundo das ONGs “A pessoa que for trabalhar numa ONG tem de ter a consciência de que nunca vai ganhar como um presidente de empresa. Tem de valorizar mais o retorno pessoal do que o retorno financeiro.”

“Só não tem mais gente participando de projetos sociais, não por falta de informação, mas por falta de vontade de se colocar no lugar do outro.”

Priscila Cruz, coordenadora de projetos do Faça Parte.

Isis Lima Soares 16, fundadora do Cala-Boca Já Morreu.

A maioria dos cursos para gestão em organizações não governamentais é paga e exige graduação. Mas alguns fazem exceção e aceitam gente que não tenha ensino superior, inclusive jovens, desde que estejam diretamente envolvidos com projetos de ONGs. Todas as instituições colocadas aqui oferecem algum curso […]: […] • Ceats (Centro de Estudos de Administração do Terceiro Setor) — ONG que funciona junto à FEA (Faculdade de Economia e Administração da USP) e que oferece cursos rápidos e também um MBA em gestão e empreendedorismo social. tel.: 0/xx/11/3818-4009. […] • Cets (Centro de Estudos do Terceiro Setor) — Oferece desde cursos rápidos até pós-graduação sobre o tema. É vinculada à FGV (Fundação Getúlio Vargas). Alguns cursos podem ser feitos a distância. […] • Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) — Disponibiliza um curso rápido e uma especialização sobre as áreas mais contempladas pelo terceiro setor. […] • Ietec (Instituto de Educação Tecnológica) — Junto com a Universidade Federal de Viçosa, o Ietec abriu o primeiro MBA brasileiro na área ambiental (política e gestão ambiental). Tel.: 0/xx/31/3223-6251, 0/xx/31/ 3116-1000. […] PARA trabalhar numa ONG é preciso. Folha de S.Paulo, São Paulo, 15 set. 2003. Folhateen, p. 6-7. Fornecido pela Folhapress. [Dados atualizados em abril de 2016.]

Texto, gênero do discurso e produção

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Linguagem do gênero O texto verbo-visual

Diário de São Paulo

A linguagem que aparece na propaganda mistura formas verbais — uso reiterativo do imperativo — com formas visuais. Os textos verbais apresentam palavras grifadas ou coloridas, maiores ou menores; é uma maneira de dirigir a leitura. Os textos visuais constroem imagens que auxiliam a ver o mundo de maneira diferente. Pela linguagem verbo-visual, o componente cultural se manifesta e se torna o fio condutor para transmitir determinado conhecimento à comunidade-alvo. A propaganda que você vai ler a seguir teve como objetivo divulgar o projeto Estação Luz da Nossa Língua. As obras de restauração da Estação da Luz, em São Paulo, foram iniciadas em 2003 e o espaço abrigou o Museu da Língua Portuguesa de 20 de março de 2006 até o incêndio de grandes proporções em 21 de dezembro de 2015. Muito diferente do texto anterior, este anúncio mantém as marcas composicionais essenciais desse gênero: dirigir-se aos cidadãos de uma cidade, estado, país; divulgar um projeto social; passar informações etc. 1 As obras de restauração

da Estação da Luz, em São Paulo, foram iniciadas.

2 Em breve, a Estação vai

abrigar um grande centro de referência da língua portuguesa. Um projeto para valorizar nosso idioma, nossa identidade e nossa cultura, dentro de um dos mais importantes patrimônios históricos do Brasil.

3 ESTAÇÃO LUZ DA NOSSA

LÍNGUA

4 Um espaço para unir

todas as línguas que fazem a nossa.

5 Iniciativa: Secretaria

Delfim Martins/Pulsar

DIÁRIO DE S.PAULO. São Paulo, 21 maio 2003. p. A14.

de Estado da Cultura. Fundação Roberto Marinho

6 Parceria: IBM, Correios,

Rede Globo, Secretaria de Estado de Educação, BNDES, Votorantim, Vivo, Lei de Incentivo à Cultura — Ministério da Cultura

7 Apoio: Companhia

Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (SP), exposição temporária em homenagem a Guimarães Rosa, junho de 2006.

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Paulista de Trens Metropolitanos, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Fundação Biblioteca Nacional, Prefeitura de São Paulo, Rohr Estruturas Tubulares

Capítulo 5 – Gênero publicitário: propagandas institucionais

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FAÇA NO CADERNO

1. No anúncio, o símbolo do projeto é uma impressão digital que aparece impressa numa página de livro. a) Que relação existe entre a imagem e o projeto? b) Abaixo do símbolo e do nome do projeto, aparece em vermelho uma explicação: “Um espaço para unir todas as línguas que fazem a nossa.”. Quais são as possibilidades de interpretação da palavra “espaço”? 2. Agora, observe a linguagem empregada no título: “Entenda por que você, cê, tu e ocê deve conhecer o projeto.”. a) Sabendo que os pronomes pessoais e os de tratamento que se referem à segunda pessoa do discurso têm a função básica de representar os interlocutores de um enunciado, a quem o texto se dirige? b) Cê e ocê são variações do pronome pessoal você, que se emprega principalmente na linguagem falada, conjugado como ele/ela. Tu é o pronome pessoal da segunda pessoa do singular, a quem o locutor se dirige diretamente. Usados numa sequência e mantido o verbo no singular, qual é o sentido que esses termos produzem? c) Um leitor atento é capaz de captar informações tanto explícitas quanto implícitas. Ao usar “por que”, separado e sem acento, o texto traz uma interrogação indireta implícita. Pela leitura global da propaganda, qual foi o sentido de “por que”? 3. No texto, em letras maiores e vermelhas, aparecem a forma verbal “entenda” (no modo imperativo) e a locução verbal “deve conhecer” (no presente do indicativo, com valor de imperativo). Com que finalidade esse modo temporal foi empregado? A finalidade do gênero propaganda institucional é informar e instruir o leitor a respeito de assuntos de interesse da coletividade e conscientizá-lo acerca de questões das mais diversas ordens (sociais, ambientais, culturais etc.). Para isso, o anúncio se organiza com elementos verbo-visuais. Características da propaganda institucional • Texto curto, para chamar a atenção do leitor. • Linguagem clara, direta e concisa — uso coloquial. • Verbos no imperativo e uso de pronomes pessoais e de tratamento. • Título com o fim de prender a atenção. • Logotipo da instituição, pública ou privada, responsável pela propaganda. • Imagens de fácil compreensão.

Praticando o gênero • Reúna-se com dois colegas para fazer uma propaganda institucional dirigida aos jovens, visando alertá-los para atitudes de desrespeito com os colegas ou com a comunidade. • Listem situações do cotidiano em que vocês observem desrespeito. Em seguida, elaborem a propaganda. • Procurem mostrar a situação com base no texto visual. • Tenham em mente os leitores a quem vocês pretendem alertar. • Observem se a parte verbal do anúncio está de acordo com a visual e se os argumentos verbais são convincentes. • Redijam um título, usando vocabulário apropriado à faixa etária a que se destina, para chamar a atenção sobre a proposta. • Criem um logotipo para o anunciante. • Façam o anúncio numa folha de cartolina, para que possam apresentá-lo ao público. • Se a escola produzir um jornal ou uma revista, conversem com o responsável para reservar um espaço para publicar o anúncio. Caso não tenha um jornal ou uma revista da escola, peçam autorização ao professor para publicar o anúncio no mural da sala de aula ou no quadro que fica no corredor da escola.

Texto, gênero do discurso e produção

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Em atividade

FAÇA NO CADERNO

Fon-Fon!, ano IV, n. 36, 3 set. 1910. Disponível em: <objdigital.bn.br>. Acesso em: 4 abr. 2014.

1. (Enem/MEC)

Em breve, já poderá o Brazil esticar as canellas sem receio de não ser ouvido dos pés á cabeça.

Fon-Fon!, ano IV, n. 36, 3 set. 1910. Disponível em: <objdigital.bn.br>. Acesso em: 4 abr. 2014.

A charge, datada de 1910, ao retratar a implantação da rede telefônica no Brasil, indica que esta: a) permitiria aos índios se apropriarem da telefonia móvel. b) ampliaria o contato entre a diversidade de povos indígenas. c) faria a comunicação sem ruídos entre grupos sociais distintos. d) restringiria a sua área de atendimento aos estados do norte do país. e) possibilitaria a integração das diferentes regiões do território nacional. 2. (Unicamp-SP) O cartaz a seguir foi usado em uma campanha pública para doação de sangue. Aham Comunicações

Considerando como os sentidos são produzidos no cartaz e o seu caráter persuasivo, pode-se afirmar que: a) As figuras humanas estilizadas, semelhantes umas às outras, remetem ao grupo homogêneo das pessoas que podem ajudar e ser ajudadas. b) A expressão “rolezinho” remete à meta de reunir muitas pessoas, em um só dia, para doar sangue. c) O termo “até” indica o limite mínimo de pessoas a serem beneficiadas a partir da ação de um só indivíduo. d) O destaque visual dado à expressão “ROLEZINHO NO HEMORIO” tem a função de enfatizar a participação individual na campanha.

Disponível em: <www.facebook.com/pages/HEMORIO/144978045 579742?fref=ts>. Acessado em 08/09/2014.

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Anonymous riot: rebelião anônima. Rolezinho: diminutivo de rolê ou rolé; em linguagem informal, significa “pequeno passeio”. Recentemente, tem designado encontros simultâneos de centenas de pessoas em locais como praças, parques públicos e shopping centers, organizados via internet.

Capítulo 5 – Gênero publicitário: propagandas institucionais

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Capítulo 6

Língua e linguagem

Variações linguísticas Explorando os mecanismos linguísticos Variações regionais A identidade do português do Brasil se constrói na diversidade de línguas e falares de muitos povos. Baianos, mineiros, gaúchos, amazonenses, cariocas, paulistas e goianos falam do mesmo modo?

Variedades linguísticas O linguista José Luiz Fiorin explica: A variação é inerente às línguas, porque as sociedades são divididas em grupos: há os mais jovens e os mais velhos, os que habitam uma região ou outra, os que têm esta ou aquela profissão, os que são de uma outra classe social e assim por diante. O uso de determinada variedade linguística serve para marcar a inclusão num desses grupos, dá uma identidade para seus membros. Aprendemos a distinguir a variação. Quando alguém começa a falar, sabemos se é do interior de São Paulo, gaúcho, carioca ou português. Sabemos que certas expressões pertencem à fala dos mais jovens, que determinadas formas se usam em situação informal, mas não em ocasiões formais. Saber uma língua é conhecer suas variedades. Um bom falante é poliglota em sua própria língua. Saber português não é aprender regras que só existem numa língua artificial usada pela escola. As variantes não são feias ou bonitas, erradas ou certas, deselegantes ou elegantes, são simplesmente diferentes. Como as línguas são variáveis, elas mudam. FIORIN, J. L. Considerações em torno do projeto de lei no 1.676/99. In: FARACO, C. A. (Org.). Estrangeirismos: guerra em torno da língua. São Paulo: Parábola, 2001. p. 113-114.

Andando pelo Brasil, você encontra diferentes falares: expressões regionais, construções sintáticas de cada lugar, sotaques que constituem a língua portuguesa. Os três textos a seguir mostram a fala do gaúcho, do caipira e do nordestino. Como você fala? Você se considera um poliglota? Texto 1 Leia, a seguir, o fragmento de um conto do gaúcho João Simões Lopes Neto. Morador da cidade, o escritor vivia sempre no campo, recolhendo o linguajar típico dos peões. Criou uma personagem para ser o narrador de seus “causos”, o vaqueano Blau Nunes, um militar que se tornou contador de histórias. Penar de velhos Um dia, dezembro, sol de rachar, com trovoada armada, andara o guri ninhando numas restingas que havia sobre o fundo da roça, por detrás das casas. O chapéu estava já abarrotado de ovos de tico-tico, de alma-de-gato, de corruíras, canarinhos, sabiás...; era um entrevero bonito de cores e feitios diferentes. De calcita arregaçada, mui espinhado nas canelas e nos braços, o rosto vermelho e a cabeça ardendo, o diabinho ainda gateava num ninho de tesouras, quando, do outro lado da cerca, ouviu o assobio das avestruzes, pastando. Ouviu, e fura aqui, fura ali, varou a cerca para dar fé, bem à sua vontade. Entre a roça e um braço de banhado, que havia, formava-se uma rinconada mui boa para volteada: e foi nisso que o guri pensou. As avestruzes seriam umas oito e uma tropilha de filhotes, já emplumaditos. FAÇA NO CADERNO

LOPES NETO, J. Simões. Penar de velhos. In: ______. Contos gauchescos e lendas do sul. Porto Alegre: L&PM Editores, 2012. p. 197.

1. Observe a pontuação usada no primeiro parágrafo, depois da lista de espécies de pássaros: “sabiás...;”. a) O que indicam as reticências no trecho? b) Que outro sinal de pontuação pode ser usado no lugar do ponto e vírgula, com o mesmo efeito? Língua e linguagem

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2. Note os significados das expressões: “ninhando numas restingas” (procurando ninhos para roubar os ovinhos); “mui espinhado nas canelas e nos braços” (ferido por espinhos); “O chapéu estava já abarrotado de ovos”, “o diabinho ainda gateava num ninho de tesouras” (andava de rastros, cautelosamente, para pegar os ovos dos passarinhos chamados tesouras); “varou a cerca para dar fé”. Caracterize o garoto com base nessas expressões. 3. Identifique as palavras ou expressões que permitem classificar o texto como da região Sul do país. Texto 2 Leia o poema de Nhô Musa, paulista de Avaré.

Que marmelada que nada

Muitos diz que é marmelada

A coisa lá é pra valê

Mais não vae lá esprementá

Os murraço e pontapé

Aqueles murraço pra fuça

Nas luta lá na TV.

Pra tê o gosto de contá

Sae cada coice de burro

O sabor da marmelada

Dos pião se retorcê

Tão dura de mastigá

E assistência na gozação

Não come nem uma fatia

Querendo vê o besta morrê.

Desguarita e sae de lá

Quanta coisa atrapaiada

Eu acho que a Televisão

Que passa pra gente vê

Mió coisa não pode havê

Nessa escola de banditismo

Pra insiná tudo o que é bão

Pras criançada aprendê

Pra tudo nóis aprendê

Coas parte de marmelada

É uma escola adiantada

A criança já qué cumê

De quem aprendeu pra sabê

E vae cumendo aos pouquinho

Espaiando a civilização

Vae cumendo até morrê

Pro nosso Brasil crescê

Vae cumendo se ingasgando

Vae pros diabo que os carregue

Mais não dá por vencido

A escola da perversão

Se atarraca feito gato

Estragando a nossa infância

A unhada e pé de vido

Que carece de educação

Uns cae coa oreia arrancada

Aprende a brutalidade

Otros cô nariz retorcido

Inveis de aprendê o que é bão

Fica tudo machucado

Aprende tanta bobage...

Andando meio encoido

Mais viva a Televisão. 9.10.68

FAÇA NO CADERNO

NHÔ MUSA. Marmelada com ferradura. In: ______. Sópoesia. São Paulo: Massao Ohno & M. Lydia Pires e Albuquerque, 1983. p. 119-120.

carecer: não ter, não possuir; ter necessidade de. desguaritar: afastar-se de seu grupo, rebanho; desgarrar-se, perder-se. murraço: murro forte.

Nhô Musa é um poeta “caipira” nascido em 24 de junho de 1900 na cidade de Laranjal Paulista, estado de São Paulo. Filho de fazendeiros, herdou o gosto pela cultura rural. Desde pouca idade pendeu para a escrita. Mudou-se para Avaré (SP) ainda pequeno e trabalhou na terra. Foi tropeiro. Seguiu a profissão de barbeiro e radialista. Animador de programa de auditório na rádio local, também escrevia suas poesias no jornal semanal da cidade. Precursor da sonoplastia criativa, inventou vários sons rurais para enriquecer a sua fala poética nos programas de rádio Luar do sertão e Rancho alegre. Seus poemas são cantados por violeiros de raiz e sua obra foi objeto de dissertação de mestrado na área de Comunicação e jornalismo. Acervo da família Andrade

Marmelada com ferradura

1. O que o poema mostra sobre a televisão? 2. A maneira de falar apresentada no texto é característica de pessoas do interior do estado de São Paulo. Observe as concordâncias nominais, como “os murraço”, e as verbais, como “uns cae”. Identifique mais dois exemplos de uso diferente da norma-padrão escrita. 3. É possível reconhecer o uso de muitas marcas de oralidade, como “sae” por “sai”, “atrapaiada” por “atrapalhada”, “vê” por “ver”, “aprendê” por “aprender”, “coas” por “com as”, “cumê” por “comer”, “pé de vido” por “pé de ouvido” etc. Que sentido as marcas de oralidade dão ao poema? 58

Nhô Musa, em fotografia de 1950.

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Texto 3 Leia um poema em que o escritor nordestino Patativa do Assaré canta sua terra natal, o Ceará. A triste partida Setembro passou, com oitubro e novembro, Já tamo em dezembro, Meu Deus que é de nós? Assim fala o pobre do seco Nordeste, Com medo da peste, Da fome feroz.

Agora pensando segui outra tria, Chamando a famia Começa a dizê: Eu vendo meu burro, meu jegue e cavalo, Nós vamo a Sã Palo Vivê ou morrê.

A treze do mês ele fez esperiença, Perdeu sua crença Nas pedra de sá. Mas noutra esperiença com gosto se agarra Pensando na barra Do alegre Natá.

Nós vamo a Sã Palo, que a coisa tá feia, Por terras alêia Nós vamo vagá. Se o nosso destino não fô tão misquinho, Pro mermo cantinho Nós torna a vortá.

Rompeu-se o Natá, porém barra não veio, O só bem vermeio, Nasceu munto além. Na copa da mata buzina a cigarra, Ninguém vê a barra, Pois barra não tem.

E vende o seu burro, o jumento e o cavalo, Inté mermo o galo Vendero também, Pois logo aparece feliz fazendêro Por pôco dinhêro Lhe compra o que tem.

Sem chuva na terra descamba janêro, Depois feverêro, E o mermo verão. Entonce o rocêro, pensando consigo, Diz: isso é castigo! Não chove mais não!

Em riba do carro se junta a famia; Chegou o triste dia, Já vai viajá. A seca terrive, que tudo devora Lhe bota pra fora Da terra natá.

Apela pra maço, que é o mês preferido Do Santo querido, Senhô São José. Mas nada de chuva! Tá tudo sem jeito, Lhe foge do peito O resto da fé.

O carro já corre no topo da serra. Oiando pra terra, Seu berço, seu lá, Aquele nortista partido de pena, De longe inda acena: Adeus, Ceará!

FAÇA NO CADERNO

PATATIVA DO ASSARÉ. A triste partida. In: ______. Ispinho e fulô. São Paulo: Hedra, 2005. p. 46-48.

1. Esse é um poema de lamento do eu poético, que migra de sua terra natal em razão da seca do Nordeste. Esse lamento é o mesmo de muitos nordestinos que se veem obrigados a migrar para o sul do país. a) Destaque as expressões que se referem ao lamento de quem migra. b) Transcreva as expressões que marcam a terra de Patativa do Assaré. 2. Há, nesse poema, muitas variantes linguísticas que caracterizam um grupo social. Cite algumas delas e verifique se você as usa na linguagem coloquial.

descambar: cair, tombar; no texto, apresenta o sentido de “chegar”. em riba: em cima. vagá: vagar, andar sem destino.

Antônio Gonçalves da Silva nasceu na Serra de Santana, Assaré, município do Ceará, em 1909 e faleceu em 2002. Perdeu um olho aos 4 anos e ficou totalmente cego em 1990. Só estudou por cerca de quatro meses. Aos 17 anos, vendeu uma ovelha, comprou uma viola e passou a apresentar-se em festas, cantando seus próprios versos. Muitos de seus poemas denunciam a realidade de graves problemas e injustiças sociais sofridos pelo povo nordestino, sobretudo em função da seca do sertão. Sua fama de poeta e cantador espalhou-se rapidamente. O jornalista José Carvalho lhe deu o apelido de Patativa, nome de uma ave típica do sertão, por causa de sua maneira de cantar. Publicou o primeiro livro em 1956. Perseguido pelo regime militar, não desistiu da militância política. Foi homenageado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) por suas posições democráticas na luta pela anistia.

Waldemar Padovani/Estadão Conteúdo

Patativa do Assaré: poeta popular, compositor, cantor e improvisador

Patativa do Assaré, em 1988.

Professor(a), a obra O lenhador, de Catulo da Paixão Cearense, está no acervo do PNBE.

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Variações de grupo social: gírias e jargões Gírias As variações de um grupo social para outro são numerosas. A gíria é uma variedade que nasce das diferenças de idade, sexo, classe e da própria evolução da língua. Assim, temos a gíria do surfista, do malandro, do pedante etc. A variante tem de estar adequada à situação de interação de cada grupo social; caso contrário, as falas não são compreendidas. Leia um trecho da crônica de Ferréz (1975), nome literário de Reginaldo Ferreira da Silva, intitulada “Baseado em fatos reais”. Na conversa informal entre dois rapazes, um de 27 anos e outro de 16, fica implícita a denúncia da arbitrariedade que ocorre quando qualquer cidadão resolve fazer justiça pelas próprias mãos. A originalidade está em dar voz às personagens envolvidas, uma como vítima e outra fazendo o papel de jornalista. O discurso é direto, sem a interferência de um narrador. A personagem mais velha é um escritor e a outra, um estudante; ambas moram na periferia de São Paulo. A crônica apresenta marcas linguísticas que permitem ao leitor identificar as personagens. Note as dificuldades da mais jovem em se expressar adequadamente nas diferentes interações verbais. Baseado em fatos reais — E aí, truta, tudo pela ordem? — Tudo, de onde eu te trombo mesmo? — Lá do Jardim Ângela, cê deu uma palestra na minha escola. — Pode crê. — Então, Ferréz, eu queria te trombar mesmo, oh! — E o que pega, trutinha? — Tem uma história pra ti, é curta, mas foi comigo mesmo que aconteceu. — Truta, eu posso tá ouvindo, vamos tomar um refri ali no bar. — Tá legal. — E essas marcas aí no seu rosto? — Isso tem a ver com a história. — Coca-cola ou guaraná? — Dolly, que é mais barato e vêm 2 litros. — Certo, mas, e aí, o que tá pegando? — É o seguinte, minha mãe tá desempregada, né, e cê sabe que a gente tem que fazer uns corres aí pra viver. — Mas você ainda é novo. — Que nada, já tenho 16, e nessas eu tava fazendo umas fitas lá naquele mercado grande. — Víchi! Mó barato sinistro, hein. — Pro cê vê, tava pensando se eu roubar uns barato miúdo eu não viro um dinheiro para a coroa, então peguei logo um litrão de Whiski. — Ahã. — Logo o gerente me pegou no flagra. — E aí? — Me levou para trás no galpão dos estoque, disse no telefone que era um código X10, isso quer dizer que eles devem chamar todo mundo da loja para ver. — E foi todo mundo te ver? — Isso num é vergonha, só que ele começou a me esmurrar, truta, ele me deu um soco tão grande na cara, que o resto eu nem senti. — Filho da puta.

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— E os gambé do mercado só olhando, ele me pegava pelo pescoço e gritava: “Você é louco? Vem roubar meu mercado?”. Eu nunca pensei que ia apanhar desse jeito, no rosto dos funcionários eu ainda notei o dó, porra! Até eu tive dó de mim. — E aí, como ficou? — Depois, ele passou para os gambé bater também, só que um era preto que nem eu e teve meio dó, dava umas porradinhas meio na moral. — Sabia que isso dá processo, tru? — Dá nada, Ferréz, essas lei aí é só pra eles, tô errado mesmo, só que, se um dia eu trombo um só parecido com ele, eu arrebento. — Pensa assim, não, tru, faz o seguinte, deixa o nome dele comigo, na hora certa nóis faz ele passar uma vergonha grande, uma pá de gente vai saber quem é esse patrão bom batedor. — Só que ele não é dono nem de nada, o mercado é de um boyzão, aquele que tá andando com o presidente, e o maluco aí era só gerente. — Eu sei, tru, é o que mais dói. FERRÉZ. Baseado em fatos reais. Caros Amigos, São Paulo: Casa Amarela, ano VII, n. 76, jul. 2003. p. 20. FAÇA NO CADERNO

1. O diálogo é travado entre dois jovens, um mais velho e um mais novo. No começo, o mais jovem é tratado por “truta”, depois por “trutinha” e, finalmente, por “tru”. “Refrigerante” é “refri”, “você” é “cê”, “está” é “tá”. O que se pode saber da identidade do interlocutor mais velho com base em seu jeito de se expressar? 2. Palavrões ou linguagem vulgar caracterizam o calão. a) No texto, como ele é utilizado? b) Há algum palavrão usado no texto que não seja pejorativo, ofensivo, e que indique afetividade?

© Angeli. Folha de S.Paulo, 2 jun. 2003

Leia a tira de Angeli e observe a gíria usada pelas personagens.

ANGELI. Chiclete com Banana. Folha de S.Paulo, São Paulo, 2 jun. 2003. Ilustrada, p. E9.

3. A personagem (Moska) dirige-se a suas amigas Luke e Tantra usando o enunciado: “Aí, minas! Sem zoeira!”. Essas expressões são adequadas à situação? Por quê? 4. O humor da tira joga com as atitudes de Moska, que geram aproximação e distanciamento em relação às garotas. Explique como esses dois diferentes efeitos criam o humor. O importante é falar adequadamente em relação à situação de comunicação, como fez Moska. Ele levou ketchup não por falar “minas”, mas por insistir em uma “candidatura” a namorado. O uso de determinadas variantes linguísticas dá identidade aos membros do grupo. Língua e linguagem

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Jargões Deve-se estar atento a variantes linguísticas ligadas a profissões: os jargões. Eles identificam a linguagem de grupos sociais ou profissionais como os dos jornalistas, dos médicos, dos jogadores de futebol, dos economistas etc. O uso dos jargões deve ser coerente com a situação em que aparecem, considerando os interlocutores. Leia um trecho da crônica humorística “Repórter policial”, de Stanislaw Ponte Preta. [...] O repórter policial, tal como o locutor esportivo, é um camarada que fala uma língua especial, imposta pela contingência: quanto mais cocoroca melhor. Assim como o locutor esportivo jamais chamou nada pelo nome comum, também o repórter policial é um entortado literário. Nessa classe, os que se prezam nunca chamariam um hospital de hospital. De jeito nenhum. É nosocômio. Nunca, em tempo algum, qualquer vítima de atropelamento, tentativa de morte, conflito, briga ou simples indisposição intestinal foi parar num hospital. Só vai pra nosocômio. E assim sucessivamente. Qualquer cidadão que vai à polícia prestar declarações que possam ajudá-la numa diligência (apelido que eles puseram no ato de investigar) é logo apelidado de testemunha-chave. Suspeito é “Mister X”, advogado é causídico, soldado é militar, marinheiro é naval, copeira é doméstica e, conforme esteja deitada a vítima de um crime — de costas ou de barriga pra baixo —, fica numa destas duas posições: decúbito dorsal ou decúbito ventral. Num crime descrito pela imprensa sangrenta, a vítima nunca se vestiu. A vítima trajava. Todo mundo se veste, tirante Luz Del Fuego, mas basta virar vítima de crime, que a rapaziada sadia ignora o verbo comum e mete lá: “A vítima trajava terno azul e gravata do mesmo tom”. [...] Outro detalhezinho interessante: se a vítima de uma agressão morre, tá legal, mas se — ao contrário — em vez de morrer fica estendida no asfalto, está indefectivelmente prostrada. Podia estar caída, derrubada ou mesmo derribada, mas um repórter do crime não vai trair a classe assim à toa. E castiga na página: “Naval prostrou desafeto com certeira facada”.

Um mestre do humor Stanislaw Ponte Preta (1923-1968) era o pseudônimo de Sérgio Porto, jornalista carioca que escreveu coluna esportiva e fez reportagem policial. Trabalhou em rádio e televisão e escreveu revistas musicais para teatro e shows, além de argumentos para filmes. Era um escritor multimídia. Pertencia à famosa “patota de Ipanema”. Irreverente, debochava de tudo e de todos. Misturava palavras eruditas com gírias, jargões e palavrões, além de marcas de oralidade.

Douglas Ferreira da Silva/O Cruzeiro/EM/D.A. Press

PONTE PRETA, Stanislaw. Repórter policial. In: PAULILO, Maria Célia Rua de Almeida. Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). São Paulo: Abril Educação, 1981. p. 33-35.

Stanislaw Ponte Preta, em fotografia da década de 1960.

FAÇA NO CADERNO

1. Jargão é a gíria típica de uma categoria social ou profissão. Na crônica, o autor caracteriza seu tempo referindo-se a uma pessoa conhecida e utilizando palavras e expressões daquela época. Com base nas gírias usadas, é possível identificar o jargão policial. Retire do texto as palavras desse jargão. “Psicologuês” e “mediquês” são jargões, um tipo de gíria, mas nem toda gíria é jargão. Alguns estudiosos da língua consideram essa distinção uma excessiva particularização da nomenclatura. Em uma edição do caderno Sinapse, publicado pela Folha de S.Paulo em junho de 2003, a jornalista Heloísa Helvécia escreveu o artigo “Cada um com a sua língua” sobre esse registro linguístico, com explicações sobre a torre de Babel que é a língua.

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Klebs Junior/Folhapress

Klebs Junior/Folhapress

Observe dois quadrinhos que acompanham o artigo.

HELVÉCIA, Heloísa. Cada um com a sua língua. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 jun. 2003. Caderno Sinapse, p. 10-11.

2. Consulte o dicionário e tente descobrir o que foi dito nos dois balões. Antigamente, jargão era a gíria dos marginais, mas hoje há estudos nos quais essa palavra é usada como sinônimo de gíria. Há “uma confusão grande” nesse sentido, afirma o linguista Dino Preti, coordenador científico do Núcleo de Estudo da Norma Linguística Urbana Culta (Nurc) na Universidade de São Paulo (USP). Para ele, jargão é a “linguagem científica ou técnica banalizada”. É uma forma de falar inadequada à situação. “A pessoa quer se promover, mostrar que fala uma linguagem que o outro desconhece, o que disfarça uma ignorância.”

Sistematizando a prática linguística As variações linguísticas são específicas de grupos sociais formados por diferentes critérios: idade, região, profissão, classe social etc. Também sofrem interferência de outros fatores, como a época em que são produzidas. Sua adequação está, pois, condicionada às situações de interação desses grupos. Um mesmo falante alterna o uso das variantes conforme o grupo social e a situação de comunicação em que atua: as variantes funcionam como fator de identidade, isto é, caracterizam os membros do grupo. As variações são basicamente de: • vocabulário (palavras); • estrutura sintática (frases); • pronúncia (sons). As variações efêmeras, com teor metafórico e alto grau de informalidade, são chamadas de gíria. Quando específicas de grupos profissionais, constituem o jargão.

Usando os mecanismos linguístico-discursivos A gíria nossa de cada dia Fernando Gonsales

Divirta-se com este uso de gíria colhido do cotidiano pelo cartunista paulistano Fernando Gonsales (1961).

GONSALES, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 nov. 2003. Ilustrada, p. E13.

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FAÇA NO CADERNO

1. 2. 3. 4.

Divida as personagens da tira em dois grupos, conforme suas características linguísticas. Justifique sua resposta. Por que a personagem de menor tamanho usa óculos? O que isso acrescenta ao sentido da tira? Onde está a graça do texto? A expressão “Fala sério!” tem o mesmo significado no primeiro e no último quadrinho? Explique seu sentido.

Fernando Gonsales é biólogo e veterinário, além de cartunista. Explora o mundo animal nas tiras, tendo como personagem central Níquel Náusea, uma ratazana de esgoto que satiriza o Mickey Mouse, de Walt Disney. Náusea tem 18 anos, convive com 14 irmãos e dezenas de filhotes, além de amigos.

Fernando Gonsales

Mundo animal ou mundo humano?

Caricatura de Fernando Gonsales por ele mesmo.

Você faz parte de comunidades que usam variantes linguísticas só compartilhadas por seus componentes. São grupos definidos por idade, sexo, classe social, escolaridade, profissão, hábitos de lazer ou esportivos etc. Já parou para pensar nisso?

Cada grupo fala sua língua. Qual é a sua? Vimos nesta unidade que, no Brasil, convivem muitas variantes linguísticas marcadas pelo vocabulário, pela sintaxe e pela pronúncia. Vimos também que diferentes critérios definem grupos sociais com hábitos linguísticos ainda mais específicos, caracterizando gírias e jargões. Agora você fará um trabalho em equipe para marcar seu território, a identidade linguística dos diferentes grupos sociais de que você participa. O primeiro passo é observar as variações da língua falada, culminando na apresentação de uma espécie de mapa linguístico desses grupos de convivência.

1. Com a mediação do professor, organize sua equipe de trabalho. 2. Em grupo: • organizem as etapas de trabalho por meio de um cronograma; • definam os grupos sociais a serem observados e que vão compor sua identidade; • combinem a estratégia de pesquisa: onde e quando fazer, como registrar as informações (com anotações ou gravações); muito cuidado para não causar constrangimento às pessoas; • observem as variações de vocabulário, de construções sintáticas, de aspecto semântico (sentido das palavras), de pronúncia de palavras e de sons; • determinem funções para cada participante. 3. Entreguem ao professor uma cópia do planejamento com todos os itens especificados. Eles constituirão critérios para a autoavaliação final do grupo. 4. Feita a pesquisa, reúnam-se e, em aula, selecionem e organizem os dados coletados. 5. Façam o planejamento da apresentação, que deverá durar até dez minutos. Ela compreenderá uma introdução, a exposição da pesquisa e uma conclusão. Usem material visual e/ou verbal, em linguagem adequada; cuidem da clareza da expressão verbal e visual. 6. Após a apresentação do trabalho, abram espaço para os colegas fazerem comentários. 7. Avaliem o trabalho no próprio grupo, considerando os critérios estabelecidos anteriormente. 64

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Em atividade FAÇA NO CADERNO

1. (Fuvest-SP) A civilização “pós-moderna” culminou em um progresso inegável, que não foi percebido antecipadamente, em sua inteireza. Ao mesmo tempo, sob o “mau uso” da ciência, da tecnologia e da capacidade de invenção nos precipitou na miséria moral inexorável. Os que condenam a ciência, a tecnologia e a invenção criativa por essa miséria ignoram os desafios que explodiram com o capitalismo monopolista de sua terceira fase. Em páginas secas premonitórias, E. Mandel* apontara tais riscos. O “livre jogo do mercado” (que não é e nunca foi “livre”) rasgou o ventre das vítimas: milhões de seres humanos nos países ricos e uma carrada maior de milhões nos países pobres. O centro acabou fabricando a sua periferia intrínseca e apossou-se, como não sucedeu nem sob o regime colonial direto, das outras periferias externas, que abrangem quase todo o “resto do mundo”. Florestan Fernandes, Folha de S.Paulo, 27/12/1993. (*) Ernest Ezra Mandel (1923-1995): economista e militante político belga.

O emprego de aspas em uma dada expressão pode servir, inclusive, para indicar que ela I. foi utilizada pelo autor com algum tipo de restrição; II. pertence ao jargão de uma determinada área do conhecimento; III. contém sentido pejorativo, não assumido pelo autor. Considere as seguintes ocorrências de emprego de aspas presentes no texto: a) “pós-moderna”; b) “mau uso”; c) “livre jogo do mercado”; d) “livre”; e) “resto do mundo”. As modalidades I, II e III de uso de aspas, elencadas acima, verificam-se, respectivamente, em: a) a, c, e. d) a, b, e. b) b, c, d. e) b, d, a. c) c, d, e. 2. (Enem/MEC) Carnavália Repique tocou O surdo escutou E o meu corasamborim Cuíca gemeu, será que era meu, quando ela passou por mim? [...] ANTUNES, A.; BROWN, C.; MONTE, M. Tribalistas, 2002 (fragmento).

No terceiro verso, o vocábulo “corasamborim”, que é a junção de coração + samba + tamborim, refere-se, ao mesmo tempo, a elementos que compõem uma escola de samba e à situação emocional em que se encontra o autor da mensagem, com o coração no ritmo da percussão. Essa palavra corresponde a um: a) estrangeirismo, uso de elementos linguísticos originados em outras línguas e representativos de outras culturas. b) neologismo, criação de novos itens linguísticos, pelos mecanismos que o sistema da língua disponibiliza. c) gíria, que compõe uma linguagem originada em determinado grupo social e que pode vir a se disseminar em uma comunidade mais ampla. d) regionalismo, por ser palavra característica de determinada área geográfica. e) termo técnico, dado que designa elemento de área e de atividade. Língua e linguagem

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© Vladimir Kush

Unidade 3 O atlas de Wander, de Vladimir Kush. Óleo sobre tela. 61  53 cm. Coleção particular.

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Capítulo 7 – Gêneros literários

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Asas da imaginação: indivíduo e consumo A sugestão de que a arte continuamente reinterpreta a vida está presente em diversas manifestações da linguagem artística. Na obra O atlas de Wander, do artista russo Vladimir Kush (1965), a árvore insere, ao mesmo tempo, uma referência à natureza e ao conhecimento, já que parte de seu tronco é formada por um livro, tornando-se uma janela para o mundo e para as inúmeras interpretações da realidade; a árvore torna-se produtora da vida (do livro) que se renova. Há, portanto, uma metáfora visual do livro, da arte como algo que possibilita conhecimento. A obra de arte abrange todas as atividades de uma cultura em que se trabalham o sensível e o imaginário, com o objetivo de recuperar a dimensão simbólica de um povo ou de uma classe social. Cada obra é um diálogo permanente entre quem a faz e quem a contempla, num processo de interação discursiva em um tempo e em um espaço definidos. É o conjunto desses elementos que nos permite ler e entender um texto. A imagem constitui uma metáfora dos gêneros literários, que se ramificam em várias temáticas e estimulam o despertar de nossos olhares para a literatura, em sua leitura, produção escrita e os estudos linguísticos. Os gêneros literários articulam linguagem e vida, criando novas relações entre as palavras, estabelecendo associações inesperadas. Ritmo, sons e imagens levam o leitor a conhecer mundos imaginários e prazerosos, nos quais, por meio da poesia ou da prosa, é possível dar asas à imaginação. Nesta unidade, vamos discutir o tema integrador “Asas da imaginação: indivíduo e consumo”. No capítulo de Leitura e literatura, vamos estudar alguns gêneros literários, com o objetivo de recriar o cotidiano por meio das palavras, valorizando características e elementos estilísticos da linguagem literária. Ler e escrever diferentes gêneros literários pode ser um exercício consciente da linguagem, envolvendo a assimilação de aspectos culturais do conhecimento humano. No capítulo de Texto, gênero do discurso e produção, analisaremos o texto publicitário comercial, sua forma composicional e suas estratégias de persuasão para tomarmos uma posição crítica como consumidores e produzirmos alguns anúncios. No capítulo de Língua e linguagem, estudaremos a ambiguidade como recurso linguístico, em que o mesmo texto tem mais de um sentido, exigindo um leitor atento e participativo, capaz de ler nas entrelinhas.

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Capítulo 7

Leitura e literatura

Gêneros literários Oficina de imagens Observe ao lado a litografia do artista gráfico M. C. Escher e procure dirigir o seu olhar para as formas das janelas, portas, túneis, telhados, escadas e linhas que criam uma linguagem visual, dando composição ao todo da obra. Essa litografia retrata situações inventadas pelo artista para criar ilusões de ótica. Com base na Matemática e na Física, ele reproduziu o triângulo do matemático inglês Roger Penrose (1931) três vezes no interior da gravura. Inicialmente, o que a imagem lhe sugere é que o edifício da base até o topo não encontra nenhum obstáculo, no entanto, a construção tem rachaduras. Dirija novamente seu olhar para A cascata e observe com atenção todo o conjunto. Nessa obra, o artista usa como recurso duas torres que sustentam uma forma geométrica estrelada e que dão a ilusão de ter a mesma altura. No entanto, a torre da direita se mantém um andar mais baixo do que a da esquerda, permitindo que a água passe pelos canais, por causa do desnível. Vamos examinar cada parte. Comece olhando o movimento da água que passa e põe em movimento um moinho. Note que ela sobe em zigue-zague pelas calhas e depois volta para o mesmo lugar. Sabemos que a água não sobe, de modo que Escher distorceu a perspectiva para fazer com que isso tudo pareça possível.

M. C. Escher’s. 1961. Litografia. M. C. Escher’s “Waterfall” © 2016 The M. C. Escher Company-The Netherlands. All rights reserved.

Mudando de perspectiva

A cascata, litografia de M. C. Escher, 30 × 38 cm, 1961.

O que é litografia? Litografia é o processo técnico afim com a gravura. Consiste no traçado de um desenho com lápis gorduroso em pedra calcária, depois tratada com um ácido que torna repelentes à tinta as zonas não protegidas pelo sinal gorduroso. Assim, a tinta adere apenas sobre o desenho traçado, que, prensado, transfere-se à folha de papel. ARGAN, G. C. História da arte italiana: da antiguidade a Duccio. São Paulo: Cosac & Naify, 2004. v. 1. p. 440.

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Maurits Cornelis Escher (1898-1972), artista gráfico holandês, baseou-se em conceitos matemáticos, particularmente na geometria, para criar suas obras com uma perspectiva visual possível apenas no desenho, gerando imagens com efeitos de ilusão de ótica.

© 2016 The M. C. Escher Company-The Netherlands. All rights reserved.

• Inicialmente, o que a imagem lhe sugere quanto ao espaço e às atividades desenvolvidas pelas pessoas nela representadas?

M. C. Escher.

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Atividade em grupo Material necessário: • uma folha de papel sulfite; • recortes de jornal relacionados a interior de ambientes, pessoas e objetos; • canetas coloridas; • cola e tesoura; • sucatas, como botões e tampinhas de refrigerante. Modo de fazer: Reúna-se com três colegas e escolham uma das partes da imagem e a copiem numa folha de papel sulfite, mudando alguns objetos de lugar. Colem os recortes de jornais ou de revistas, ou ainda a sucata, sobre a imagem na folha de sulfite. Façam, na parte dessa imagem, intervenções que surpreendam seu interlocutor. Exponham para a classe a obra produzida, explicando os sentidos decorrentes das alterações de perspectiva feitas a partir da litografia de Escher. A exposição pode ser feita no formato de varal.

Astúcias do texto Texto publicitário e texto artístico

Capa criada por João Baptista da Costa Aguiar para o livro Gertrudes e Cláudio, de John Updike.

Fra Filippo Lippi, 1444. Têmpera sobre madeira. 64,1  41,9 cm. Metropolitan Museum of Art, Estados Unidos. Foto: FineArt/Alamy/Latinstock

Companhia das Letras

Leia os dois textos a seguir. À esquerda, está a capa do livro Gertrudes e Cláudio, do estadunidense John Updike (1932); ao lado, a pintura Retrato de um homem e uma mulher na janela (1440), do italiano Fra Filippo Lippi (1406-1469).

Retrato de um homem e uma mulher na janela, de Fra Filippo Lippi, 1444. Metropolitan Museum of Art, Nova York.

1. Na tela está retratada uma cena doméstica burguesa: o casamento de Angiola Sapiti e Lorenzo Scolari na Itália do século XV. Como estão representados o homem e a mulher (vestimentas, joias)? Qual foi a finalidade dessa pintura para seus contemporâneos?

FAÇA NO CADERNO

2. A pintura do século XV reaparece na capa do livro, mas compondo um cenário do século XII: o casamento da rainha Gertrudes (mãe de Hamlet, personagem da obra homônima de William Shakespeare) com Cláudio, irmão e assassino do rei Hamlet, da Dinamarca. Podemos dizer que a cena doméstica representada na capa do livro é a mesma que a representada na tela de Fra Filippo Lippi? Por quê? 3. Compare o quadro do monge florentino Fra Filippo Lippi, pintado em 1440, e a capa do livro, publicado em 2001. a) Aponte a semelhança de conteúdos entre os dois textos. b) Embora a imagem seja a mesma, o retrato de um homem e de uma mulher, os textos têm objetivos diferentes. Qual é a finalidade de cada um deles? c) Que elementos diferenciam os dois textos? Leitura e literatura

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A frase, famosa, foi pronunciada por Hamlet, o príncipe da Dinamarca. A tragédia Hamlet, de William Shakespeare, composta em cinco atos, retrata a indecisão do impulsivo príncipe, movido pela necessidade de vingar o pai. Atordoado com a morte do pai e com o subsequente casamento da mãe, Gertrudes, com o cunhado, Hamlet retorna à Dinamarca disposto a descobrir o que aconteceu. O pai, que aparece para ele na forma de fantasma, conta-lhe ter sido assassinado pelo próprio irmão — Cláudio, agora padrasto de Hamlet. O desejo de vingança ocasiona uma série de tragédias: entre elas a morte de Ofélia, por quem o príncipe era apaixonado, de Cláudio, da rainha Gertrudes e do próprio Hamlet. Na obra estão retratadas, com precisão, as dúvidas da alma humana.

John Taylor. Óleo sobre tela. 55,2  43,8 cm (detalhe). Séc XVII. National Portrait Gallery, London. Foto: GL Archive/Alamy/Latinstock

Ser ou não ser: eis a questão

William Shakespeare (1564-1616) é considerado o mais importante autor de teatro de todos os tempos.

Sintetizando A capa do livro de John Updike está relacionada a uma atividade mercadológica com finalidade de consumo. Temos um texto publicitário. Na pintura renascentista de Fra Filippo Lippi, a valorização das formas, cores e luz constrói um texto acabado. Na época em que a pintura foi feita, as pessoas eram conhecidas do ambiente social italiano a que o pintor pertencia. A tela não só flagra uma imagem singular como também recupera a cultura de uma época, na fronteira entre o texto visual e o contexto histórico. Os elementos que compõem o objeto permitem ao leitor atualizar seu sentido a cada nova leitura. Temos um texto artístico. Cada tipo de arte estabelece relações com o mundo por meio de ferramentas específicas: por exemplo, a música trabalha com os sons; a escultura, com os materiais, e a literatura, com as palavras. Os textos artísticos podem ser reunidos pelo formato e pelo material utilizado, pois apresentam características com certa regularidade. Textos semelhantes pertencem ao mesmo gênero do discurso, isto é, circulam em determinada esfera de atividade da mesma maneira. Vamos estudar agora uma das esferas do discurso: a literária.

O que é texto literário? Companhia das Letras

A literatura é uma das atividades humanas que nos permitem compreender as diferentes dimensões da vida cotidiana. O escritor reinventa as experiências e transforma a vida em palavras. O texto a seguir discute o que é ter voz ativa. O eu poético descreve que todos têm uma voz, contudo muitos são “alijados” da capacidade de decidir sobre o próprio destino, de adquirir autonomia, de ter liberdade. Leia a seguir um poema de Chacal, pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, publicado em 2012 no livro Murundum. Voz ativa todos têm uma voz alta, baixa, aguda, grave rouca, intensa, suave

porque sua voz foi vendida é o novo dono quem fala e a voz verdadeira, silenciada

todos têm uma voz só que muitos não a usam com medo de tudo e todos

ainda assim ela está lá reprimida inibida sufocada à espera do seu dono

e assim deixam que outra que não sua mas de outro tome então o seu lugar

torcendo pra que ele quebre de repente a mordaça do medo e fale aquilo que sempre quis

e saem por aí dizendo coisas que na real não acreditam mas que não têm força de evitar

então quem falava por ele baterá rapidinho em retirada e a voz será de novo de quem fala

murundum: quantidade de qualquer coisa; porção, monte; bagunça, confusão.

CHACAL. Murundum. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 12.

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Capítulo 7 – Gêneros literários

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1. Ao ler o poema, você notou a forma como ele está construído: a discussão em torno da afirmação “todos têm uma voz” se repete nas oito estrofes. Que função exerce cada uma das proposições?

FAÇA NO CADERNO

2. Considerando que todos os versos começam com letra minúscula e somente na primeira estrofe há o uso da pontuação, levante as possibilidades de leitura para o texto. Às vezes, imagina-se que o escritor é alguém que vive no mundo da lua, mas essa imagem não é real. O escritor, poeta ou prosador, exerce uma atividade comprometida com a realidade social, cultural, política e econômica de seu povo e de seu país. Chacal, um importante poeta contemporâneo, discutiu a dificuldade de se quebrar “de repente a mordaça do medo”, da coerção, da imposição, mas acaba dizendo que é possível falar “aquilo que sempre quis”. Sua poesia imprime uma crítica ao poder controlador, manipulador, que tira a voz do povo. Como ele se expressa? Articula linguagem e vida, constrói textos curtos, visuais, para captar flagrantes do cotidiano e do contemporâneo.

Em prosa ou em verso? Para você identificar as diferenças e as semelhanças existentes entre a prosa literária e a poesia, leia um conto do escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade. A incapacidade de ser verdadeiro Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas. A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça: — Não há nada a fazer, Dona Colo. Este menino é mesmo um caso de poesia. A INCAPACIDADE DE SER VERDADEIRO — In: Contos plausíveis, de Carlos Drummond de Andrade, Companhia das Letras, São Paulo; FAÇA NO CADERNO

Carlos Drummond de Andrade © Granã Drummond www.carlosdrummond.com.br

1. A narrativa se inicia com “Paulo tinha fama de mentiroso”. Depois da leitura, você concorda com essa afirmação categórica? Justifique sua resposta. 2. Em seu diagnóstico, o doutor Epaminondas recuperou uma expressão popular. Identifique-a e explique o novo sentido proposto. 3. Qual é o assunto do poema “Voz ativa”? 4. Como o imaginário foi tratado nos dois textos? Compare-os, mostrando as semelhanças e as diferenças.

Algumas características de prosa e poesia Os textos literários aparecem em verso ou em prosa. A forma mais comum de linguagem é a prosa. Geralmente, você escreve em prosa, isto é, as frases se seguem umas às outras, divididas em parágrafos. Os romances, contos e crônicas costumam ser escritos em prosa. A poesia é outra forma de se escrever um texto literário. Nasceu na linguagem oral e era cantada, e até hoje conserva as marcas da música: o ritmo, a rima, a métrica e o emprego de recursos linguísticos que expressam sonoridade.

Um mergulho no dicionário Agora, pesquise a definição de literatura a fim de organizar um verbete que será apresentado para a classe. Em um dicionário da língua portuguesa, levante todas as informações. Use um dicionário da biblioteca da escola ou uma versão digitalizada, na internet. Antes de apresentar sua pesquisa, verifique se será necessário completar ou modificar seu texto. Leitura e literatura

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A classificação em gêneros literários permite agrupar obras para que o leitor possa saber de que tratam, em que época foram escritas, com quem ou o que dialogam. Como organizar e classificar a variedade de textos literários? Se reunirmos vários textos, logo reconheceremos que eles têm características comuns. Marcados por regularidades como a maneira, a época e o lugar em que foram escritos, acabam reunidos em um grupo ou gênero. Fazer distinções entre os vários textos da literatura é uma ideia que surgiu com o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), em seus estudos no livro A poética. Foi ele quem organizou pela primeira vez a distinção entre prosa e poesia. De acordo com sua classificação, é possível reunir em gêneros literários textos que apresentam traços semelhantes. Historicamente, os gêneros literários, observados da perspectiva artística, foram organizados em três grupos: o lírico, o épico e o dramático. No século XVIII, o romance tornou-se o gênero literário da modernidade.

O gênero lírico Leia um dos poemas mais conhecidos de Vinicius de Moraes. Soneto da separação De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. MORAES, Vinicius de. Soneto da separação. In: ______. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1974. p. 226. ©VM Cultural.

Esse poema é composto de duas estrofes com quatro versos e de duas estrofes com três versos, estrutura fixa chamada de soneto, uma das formas mais usadas pelo gênero lírico. A distribuição dos versos e das estrofes não é feita por acaso pelo poeta; é resultado de uma estreita relação que se estabelece entre a forma e o sentido.

Características do gênero lírico • O autor cria um eu poético que representa suas relações com seu mundo interior, revelando emoções e sentimentos de amor, raiva e ódio por meio das palavras, das imagens e do ritmo recriado. • O assunto predominante é a expressão de sentimentos e de emoções, impressões subjetivas. • As formas poéticas mais usadas são sonetos e canções. • Elementos líricos podem aparecer em textos escritos em prosa.

No início, era a música! A palavra lírica vem de “lira”. Na Grécia antiga, os poemas eram lidos enquanto era tocado esse instrumento. Na Idade Média, passaram a ser acompanhados pela flauta e pela viola. A partir do século XV, os poemas eram lidos sem acompanhamento musical. Ainda hoje se mantém a relação do poema com a música, daí os nomes cantiga, canção, hino e soneto, cujo significado é “pequeno som”. James Steidl/Shutterstock.com

O que são gêneros literários?

FAÇA NO CADERNO

1. O eu poético enfatiza a dor da separação em todas as estrofes. Que ideias estão apresentadas em oposição? 2. A repetição de palavras no início de vários versos chama-se “anáfora” ou “paralelismo”. Em todo o poema, a expressão “De repente” se repete. Que sentido está relacionado a essa repetição? 3. Para finalizar, agrupe os recursos linguísticos e sonoros que expressam emoção e sofrimento do eu poético diante da ruptura amorosa. 72

Lira.

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O gênero épico Hoje não se imagina ninguém que não tenha conhecimento das notícias do mundo, mesmo que não tenha sido alfabetizado, pois existem vários meios de transmitir informações. Numa época em que não havia rádio nem televisão, porém, a forma de fazer circular fatos importantes era pela fala. Os gregos viveram o esplendor da cultura oral, e o modo eficiente de transmitir conhecimento foi a poesia. Nesse ambiente de oralidade, os gregos desenvolveram o gênero épico. Na cultura ocidental, os três poemas épicos mais conhecidos que influenciaram a poesia de séculos posteriores são A Ilíada e Odisseia, do grego Homero, e Eneida, do romano Virgílio.

Um pouco de história A Odisseia, escrita por Homero, é um poema com 12 110 versos. Provavelmente, sua composição definitiva apareceu entre 850 e 650 a.C. O nome do poema vem de Odisseu, herói grego, mais conhecido entre nós pelo nome romano, Ulisses. Homero conta-nos as aventuras de Ulisses, rei de Ítaca, depois do fim da Guerra de Troia. Durante dez anos o herói tenta retornar a seu reino, onde o aguardam ansiosos a esposa, Penélope, e o filho, Telêmaco. Numerosas aventuras, porém, retardam sua volta. O poema começa no vigésimo ano de sua partida para Troia (dez anos de guerra mais dez anos de viagens), e as aventuras dos últimos anos são contadas pelo próprio Ulisses; ao mesmo tempo, o narrador relata as peripécias do jovem Telêmaco, que procura desesperadamente o pai. No final, é claro, o herói consegue retornar ao lar e à família. No trecho a seguir, Ulisses chega a Ítaca, e tem lugar um terrível combate com os pretendentes à mão de sua mulher, Penélope. O fragmento a seguir foi extraído de uma tradução do poema em prosa. O solerte Ulisses despojou-se dos trapos, galgou de um salto a longa soleira, segurando o arco e a aljava cheia; despejou a seus pés as setas ligeiras e disse aos pretendentes: — Essa árdua competição acabou afinal; agora visarei outro alvo, que ainda homem nenhum atingiu, e espero acertar, se Apolo me der essa glória. Com essas palavras, endereçou amarga seta a Antino, no momento em que ia erguendo uma taça de licor, de duas asas; ele já a segurava nas mãos, para beber vinho, longe de cuidar da morte. Quem imaginaria que um homem, só entre muitos, por mais valente que fosse, lhe houver de aprontar o negro destino duma triste morte? No entanto, Ulisses alvejou-o, acertando com a seta na garganta; a ponta varou, sem desvios, o delicado pescoço. Antino tombou para um lado; a taça caiu-lhe das mãos, no mesmo instante, subiu-lhe às narinas um jato grosso de sangue humano; com rápido pontapé, empurrou a mesa, espalhando a comida pelo chão, caíram na sujeira pão e nacos de carne assada. Ergueram-se os pretendentes, ao verem o homem caído; saltaram das cadeiras, precipitando-se pelo salão; percorriam com os olhos toda a extensão das bem construídas paredes, sem deparar em lugar nenhum um escudo ou uma lança para empunhar. E ralhavam com Ulisses com palavras coléricas: — Forasteiro, ai de ti por alvejares pessoas; foi tua última competição; é certa agora tua morte abismal. Quem acabas de matar era incomparavelmente o mais nobre dos jovens de Ítaca; por isso aqui mesmo te hão de devorar os abutres. Assim dizia cada um deles, pensando que ele não tivera intenção de matar o homem; não percebiam os loucos que a todos eles os laços da morte haviam atado. abismal: profundo, da Olhando-os de soslaio, disse-lhes o solerte Ulisses: natureza do abismo. — Cães, julgando que eu não mais chegaria a casa, de volta do país dos aljava: estojo sem tampa troianos, quando dilapidáveis minha fortuna, forçáveis minhas servas a deiem que se guardavam e tar convosco e, estando eu vivo, cortejáveis minha mulher, sem temer os deutransportavam as setas, e ses moradores da vastidão do firmamento, nem imaginar que viesse mais era carregado nas costas, pendente do ombro. tarde um vingador dentre os homens; agora os laços da morte a todos vos Apolo: entre os gregos, deus ataram. — Assim falou ele. Um terror se apoderou de todos. FAÇA NO CADERNO

HOMERO. Odisseia. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix, 2002. p. 256-257.

1. De que forma o aedo (contador) apresenta a chegada de Ulisses a Ítaca? 2. Apresente a sequência dos fatos ocorridos. 3. Situe o espaço físico e o social identificado nesse trecho. 4. Que características fazem de Ulisses um herói?

da luz, do Sol, da força, da música, das artes e, ainda, deus que simboliza o equilíbrio, a ordem, a harmonia, a claridade. solerte: esperto, que procede com sabedoria. soslaio: de lado.

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A Odisseia é longa, mas Homero recitava seus poemas aos poucos, em episódios. No ambiente de oralidade, a poesia foi uma forma de preservar a cultura grega. A epopeia é uma narrativa em forma de versos, em que aparece a realidade do mundo épico, isto é, deuses e homens coexistem. A diferença entre eles é que os deuses são imortais e têm poderes sobre os seres humanos.

Busto em mármore de Homero, cópia romana feita com base no original grego do século V a.C.

2nd. Mármore. British Museum, Londres. Foto: Zev Radovan/BibleLandPictures/Alamy/Latinstock

Homero existiu? As informações sobre a vida de Homero não são precisas. Alguns duvidam de que ele tenha existido. No entanto, o historiador Heródoto (que viveu no século V a.C.) contava que o poeta teria vivido no século IX a.C. Cego, percorria o mundo mediterrâneo recitando poemas, que eram composições anônimas, originadas da tradição oral. Naquele tempo, contar histórias tinha papel social e político: o poeta mantinha a circulação do conhecimento, das ideias e da cultura. No final do século VI a.C. os poemas homéricos foram escritos e tiveram imensa popularidade na Antiguidade.

Características do gênero épico • A forma poética dessa composição oral chama-se epopeia. • Os poemas épicos exigem a presença de um ouvinte ou de uma plateia. • O assunto deve ser um fato grandioso localizado num passado distante, envolvendo guerras, aventuras, viagens. • O herói deve ser um ente superior com características físicas e caráter social que o coloquem num plano superior ao dos outros seres humanos. É um semideus. • As narrativas reunidas devem apresentar os acontecimentos heroicos vividos por deuses mitológicos, que atuam como personagens. Os deuses tomam partido e interferem nas aventuras dos heróis, ajudando-os ou atrapalhando-os. • Os poemas épicos preservam a cultura de um povo. Filme de S

teven Spi ellberg. templo da Indiana Jones e o perdição. EUA, 198 4

O herói épico Atualmente, também se fala em filme épico quando o tema diz respeito a histórias de indivíduos que superam as adversidades, tornam-se super-homens, super-heróis. No filme Indiana Jones e o templo da perdição, o herói sempre ganha dos poderosos inimigos. Leia a análise da linguista Beth Brait sobre o herói épico nos tempos modernos. Consideremos, por exemplo, o filme Indiana Jones and the Temple of Doom (EUA, 1984), dirigido por Steven Spielberg. [...] Se o espectador quiser julgar o filme através dos dados plausíveis que a realidade exterior ao texto oferece, terá de admitir a falta total de veracidade, julgando-o inteiramente absurdo. Como é possível aceitar que, durante uma longa luta nas escarpas de um precipício em que todos os inimigos são derrotados, o herói saia intacto, sem derrubar sequer o chapéu que traz na cabeça? Entretanto, se essa obra-prima da indústria cultural pode ser questionada por uma série de fatores, certamente não o será pela ausência de verossimilhança. A personagem Indiana Jones, vivida pelo belo ator Harrison Ford, apesar de todo o aparato modernoso sustentado pelos efeitos especiais, não deixa de ser o mesmo mocinho dos filmes de cowboy, [...] cujo destino é vencer inimigos e conquistar o coração da mocinha. [...] Indiana Jones é, desde o começo, reconhecido como mocinho, como o herói que vai vencer o mal. Ele é bonito, é inteligente, é esperto, detém um saber — é um arqueólogo e fala várias línguas — e está revestido, além disso tudo, do mito do super-homem. Como o espectador já assimilou todos esses traços em outras narrativas, identifica de imediato o herói e espera que a narrativa cumpra, assim como a personagem, o seu conhecido destino. [...] BRAIT, Beth. A personagem. 8. ed. São Paulo: Ática, 2006. p. 31-32.

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Capa do DVD do filme Indiana Jones e o templo da perdição.

veracidade: atributo do que é verdadeiro ou corresponde à verdade. verossimilhança: coerência interna da obra literária no que diz respeito ao mundo imaginário das personagens e às situações recriadas.

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1. O herói épico pode aparecer em outro tempo e lugar. No filme, que elementos utilizados na composição da personagem Indiana Jones a assemelham ao herói épico grego?

FAÇA NO CADERNO

O gênero dramático Você já assistiu a programas na televisão que transformam a dor humana em espetáculo? Acha que isso é um símbolo de nossa época? Não mesmo. Na Grécia antiga, o destino do ser humano rendeu excelentes manifestações poéticas. As emoções humanas foram motivo de representação, assumindo a forma teatral de tragédia ou comédia. As diferentes formas de exprimir as interpretações do mundo compõem o gênero dramático, que se desenvolve sempre no palco, para espectadores. O texto a seguir é um fragmento do Auto da Compadecida, peça de teatro do escritor pernambucano Ariano Suassuna (1927-2014), encenada pela primeira vez em Recife, no Teatro Santa Isabel, em 1956. É considerado um dos textos mais populares da dramaturgia brasileira. Leia esta passagem, que conta o momento em que João Grilo, uma personagem popular do interior do Nordeste, consegue convencer o padre e o sacristão a enterrar o cachorro da mulher do padeiro. SACRISTÃO Mas um cachorro morto no pátio da casa de Deus? PADEIRO Morto? MULHER, mais alto Morto? SACRISTÃO Morto, sim. Vou reclamar à Prefeitura. PADEIRO, correndo e voltando-se do limiar É verdade, morreu! MULHER Ai, meu Deus, meu cachorrinho morreu. Correm todos para a direita, menos João Grilo e Chicó. Este vai para a esquerda, olha a cena que se desenrola lá fora, e fala com grande gravidade na voz. CHICÓ É verdade; o cachorro morreu. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irre-

Ulisses na caverna de Polifemo (c. 1635), de Jacob Jordaens, retrata um trecho do Canto IX da Odisseia de Homero: a fuga da caverna do ciclope. Museu Pushkin, Moscou, Rússia.

Ariano Suassuna (1927-2014), advogado, professor, teatrólogo e romancista, ocupou a cadeira número 32 da Academia Brasileira de Letras, de 1990 até sua morte, em 2014. Sempre interessado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais, em 1970, lançou o Movimento Armorial, com o concerto “Três séculos de música nordestina: do Barroco ao Armorial”, foi secretário de Educação e Cultura do Recife e ensinou Estética e Teoria do Teatro, Literatura Brasileira e História da Cultura Brasileira na UFPE. Grande defensor da cultura nordestina, suas obras apresentam tipos simples e populares com intensa carga dramática, astúcia, devoção e muito humor. Ariano Suassuna, em 2011.

Nelsina Vitorino/DB/D.A Press.

Jacob Jordeans. 1635. Óleo sobre tela. 96 cm  76 cm. Museu Pushkin. Rússia. Foto: Bridgeman Images/Easypix

2. Por que as ações de Indiana Jones se assemelham às do herói Ulisses?

mediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. JOÃO GRILO, suspirando Tudo o que é vivo morre. Está aí uma coisa que eu não sabia! Bonito, Chicó, onde foi que você ouviu isso? De sua cabeça é que não saiu, que eu sei. CHICÓ Saiu mesmo não, João. Isso eu ouvi um padre dizer uma vez. [...] MULHER, entrando Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai! JOÃO GRILO, mesmo tom Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai! Dá uma cotovelada em Chicó. CHICÓ, obediente Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai! Essa lamentação deve ser mal representada de propósito, ritmada como choro de palhaço de circo.

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SACRISTÃO, entrando com o padre e o padeiro Que é isso, que é isso? Que barulho é esse na porta da casa de Deus? PADRE Todos devem se resignar. MULHER Se o senhor tivesse benzido o bichinho, a essas horas ele ainda estava vivo. PADRE Qual, qual, quem sou eu? MULHER Mas tem uma coisa, agora o senhor enterra o cachorro! PADRE Enterro o cachorro? MULHER Enterra e tem que ser em latim. De outro jeito não serve, não é? PADEIRO É, em latim não serve. MULHER Em latim é que serve! PADEIRO É, em latim é que serve! PADRE Vocês estão loucos! Não enterro de jeito nenhum. MULHER Está cortado o rendimento da irmandade! PADEIRO Está cortado o rendimento da irmandade! MULHER Meu marido considera-se demitido da presidência. PADEIRO Considero-me demitido da presidência! PADRE Não enterro! MULHER A vaquinha vai sair daqui imediatamente! PADRE Oh mulher sem coração! MULHER Sem coração, porque não quero ver meu cachorrinho comido pelos urubus? O senhor enterra! PADRE Ai meus dias de seminário, minha juventude heroica e firme! MULHER Pão pra a casa do vigário só vem agora dormido e com o dinheiro na frente! Enterra ou não enterra? PADRE Oh mulher cruel! MULHER Decida-se, Padre João! PADRE Não me decido coisa nenhuma, não tenho mais idade pra isso. Vou é me trancar na igreja e de lá ninguém me tira. Entra na igreja, correndo

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JOÃO GRILO, chamando o patrão à parte Se me dessem carta branca, eu enterrava o cachorro. PADEIRO Tem a carta. JOÃO GRILO Posso gastar o que quiser? PADEIRO Pode. MULHER Que é que vocês estão combinando aí? JOÃO GRILO Estou aqui dizendo que, se é desse jeito, vai ser difícil cumprir o testamento do cachorro, na parte do dinheiro que ele deixou para o padre e para o sacristão. SACRISTÃO Que é isso? Que é isso? Cachorro com testamento? JOÃO GRILO Esse era um cachorro inteligente. Antes de morrer, olhava para a torre da igreja toda vez que o sino batia. Nesses últimos tempos, já doente pra morrer, botava uns olhos bem compridos pr’os lados daqui, latindo na maior tristeza. Até que meu patrão entendeu, com a minha patroa, é claro, que ele queria ser abençoado pelo padre e morrer como cristão. Mas nem assim ele sossegou. Foi preciso que o patrão prometesse que vinha encomendar a bênção e que, no caso dele morrer, teria um enterro em latim. Que em troca do enterro acrescentaria no testamento dele dez contos de réis para o padre e três para o sacristão. SACRISTÃO, enxugando uma lágrima Que animal inteligente! Que sentimento nobre! (Calculista) E o testamento? Onde está? JOÃO GRILO Foi passado em cartório, é coisa garantida. Isto é, era coisa garantida, porque agora o padre vai deixar os urubus comerem o cachorrinho e, se o testamento for cumprido nessas condições, nem meu patrão nem minha patroa estão livres de serem perseguidos pela alma. CHICÓ, escandalizado Pela alma? JOÃO GRILO Alma não digo, porque acho que não existe alma de cachorro, mas assombração de cachorro existe e é uma das mais perigosas. E ninguém quer se arriscar assim a desrespeitar a vontade do morto. MULHER, duas vezes Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai! JOÃO GRILO E CHICÓ Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai! SACRISTÃO, cortante Que é isso; que é isso? Não há motivo para essas lamentações. Deixem tudo comigo! Entra apressadamente na igreja. PADEIRO Assombração de cachorro? Que história é essa?

Capítulo 7 – Gêneros literários

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JOÃO GRILO Que história é essa? Que história é essa é que o cachorro vai se enterrar e é em latim. PADEIRO Pode ser que se enterre, mas em assombração de cachorro eu nunca ouvi falar! CHICÓ Mas existe. Eu mesmo já encontrei uma. PADEIRO, temeroso Quando? Onde? CHICÓ Na passagem do riacho de Cosme Pinto. PADEIRO Tinham me dito que o lugar era assombrado, mas nunca pensei que se tratasse de assombração de cachorro. CHICÓ Se o lugar é assombrado, não sei. O que eu sei é que eu ia atravessando o sangrador do açude e me caiu do bolso n’água uma prata de dez tostões. Eu ia com meu cachorro e já estava dando a prata por perdida, quando vi que ele estava assim como quem está cochichando com outro. De repente o cachorro mergulhou, e trouxe o dinheiro, mas quando fui verificar só encontrei dois cruzados. PADEIRO Oi! E essas almas de lá têm dinheiro trocado? CHICÓ Não sei, só sei que foi assim. O Sacristão e o Padre saem da igreja. SACRISTÃO Mas eu não já disse que fica tudo por minha conta? PADRE Por sua conta como, se o vigário sou eu? SACRISTÃO O vigário é o senhor, mas quem sabe quanto vale o testamento sou eu. PADRE Hein? O testamento? SACRISTÃO Sim, o testamento. PADRE Mas que testamento é esse? SACRISTÃO O testamento do cachorro. PADRE E ele deixou testamento? PADEIRO Só para o vigário deixou dez contos. PADRE Que cachorro inteligente! Que sentimento nobre! JOÃO GRILO E um cachorro desse ser comido pelos urubus! É a maior das injustiças. PADRE Comido, ele? De jeito nenhum. Um cachorro desse não pode ser comido pelos urubus!

Todos aplaudem, batendo palmas ritmadas e discretas e o Padre agradece, fazendo mesuras. Mas de repente lembra-se do Bispo. PADRE, aflito Mas que jeito pode-se dar nisso? Estou com tanto medo do bispo! E tenho medo de cometer um sacrilégio! SACRISTÃO Que é isso, que é isso? Não se trata de nenhum sacrilégio. Vamos enterrar uma pessoa altamente estimável, nobre e generosa, satisfazendo, ao mesmo tempo, duas outras pessoas altamente estimáveis (Aqui o padeiro e a mulher fazem uma curvatura a que o Sacristão responde com outra igual.), nobres (Nova curvatura.) e, sobretudo, generosas. (Novas curvaturas.) Não vejo mal nenhum nisso! PADRE É, você não vê mal nenhum, mas quem me garante que o Bispo também não vê? SACRISTÃO O Bispo? PADRE Sim, o Bispo. É um grande administrador, uma águia a quem nada escapa. JOÃO GRILO Ah, é um grande administrador? Então pode deixar tudo por minha conta, que eu garanto. PADRE Você garante? JOÃO GRILO Garanto. Eu teria medo se fosse o anterior, que era um santo homem. Só o jeito que ele tinha de olhar para a gente me fazia tirar o chapéu. Mas com esses grandes administradores eu me entendo que é uma beleza. SACRISTÃO E mesmo não será preciso que Vossa Reverendíssima intervenha. Eu faço tudo. PADRE Você faz tudo? SACRISTÃO Faço. MULHER Em latim? SACRISTÃO Em latim. PADEIRO E o acompanhamento? JOÃO GRILO Vamos eu e Chicó. Com o senhor e sua mulher, acho que já dá um bom enterro! PADEIRO Você acha que está bem assim? MULHER Acho. PADEIRO Então eu também acho. SACRISTÃO

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Se é assim, vamos ao enterro. ( João Grilo estende a mão a Chicó, que a aperta calorosamente.) Como se chamava o cachorro? MULHER, chorosa Xaréu. canto gregoriano: SACRISTÃO, enquanto se encaminha para a direita, em tom de canto gremúsica sacra medieval, goriano. essencialmente monofônica. Xaréu. Absolve, Domine, animas omnium fidelium defunctorum ab omni Todos cantavam juntos uma vinculi delictorum. única melodia, numa única TODOS voz, sem acompanhamento; a letra era quase sempre uma Amém.

Saem todos em procissão, atrás do Sacristão, com exceção do padre, que fica um momento silencioso, levando depois a mão à boca, em atitude angustiada, e sai correndo para a igreja.

oração em latim. Essa forma foi fixada no século VII e seu nome é uma referência ao papa Gregório Magno.

SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Ed. comemorativa. Rio de Janeiro: Agir, 2004. p. 45-59. FAÇA NO CADERNO

Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna.

2. No texto para o teatro, não aparece um narrador contando a história. Escrito para ser representado para uma plateia, ele se compõe numa sequência de diálogos. a) Qual é o fato apresentado? b) Quanto tempo você acha que dura a apresentação dessa cena? 3. O título da peça é Auto da Compadecida. a) Que elementos comprovam que a cena retoma um assunto religioso? b) De que maneira o assunto é representado?

Johann Joachim Kändler. Porcelana 16,3 cm de altura. Victoria & Albert Museum, Reino Unido. Foto: Akg-Images/Latinstock

1. Releia o texto teatral em forma de diálogo com seus colegas, procurando dar entonações e pausas para que a ação seja recriada.

4. João Grilo lembra um arlequim, com seu ar de ingenuidade e singeleza. Com base nas falas de cada personagem, procure caracterizar as classes sociais representadas. 5. Observe que a representação das personagens tem um duplo sentido: há esperteza e vivacidade em ver e ouvir as coisas do mundo. Selecione algumas partes que permitem dupla interpretação e acabam por provocar um sentido cômico, engraçado, ao texto.

Representação, em porcelana, de arlequim, feita em 1738 por Johann Joachim Kändler (1706-1775).

Auto da Compadecida em duas versões: tevê e cinema Em 1999, o texto de Suassuna foi adaptado para a televisão pelo diretor Guel Arraes e, a seguir, levado para as telas do cinema. Essa adaptação do Auto da Compadecida não deixou escapar nem as tradições peninsulares, privilegiando a cena final que representa o Tribunal Celeste, com a aparição da Virgem diante dos pecadores, retomando, assim, uma antiga tradição do teatro cristão. 78

Capítulo 7 – Gêneros literários

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Teatro de Epidauro, na cidade de Corinto na Grécia, construído por Policleto, o Jovem (350 a.C.). Os teatros gregos eram auditórios ao ar livre, e o espetáculo começava ao amanhecer. Os três maiores autores do teatro grego foram Sófocles, Ésquilo e Eurípedes. Fotografia de 2016.

Teatro medieval Auto era uma modalidade do teatro medieval, com assunto basicamente religioso. No século XVI, os assuntos passaram a ser também profanos, sérios ou cômicos. Divertiam, moralizavam pela crítica aos costumes e ainda ensinavam as verdades da fé, de modo vivo e acessível. Mesmo com a implantação do teatro clássico no século XVI, o interesse popular pelos autos não acabou. O poeta português Camões chamava seus textos teatrais de autos, embora fosse homem do Renascimento.

Características do gênero dramático • O texto é escrito para ser encenado no teatro diante do público. Pode ser produzido em verso ou em prosa. • A ação do texto é concentrada em momentos decisivos e em situações determinadas: a descoberta da verdadeira identidade, o sofrimento de uma personagem, a vingança de alguém. • O mundo representado mostra-se por meio dos diálogos, criando uma sequência de cenas e relações de causa e de consequência. • O texto escrito para ser representado traz instruções à parte para o diretor da cena. • As principais formas de manifestação do gênero dramático são a tragédia e a comédia. • A tragédia é de origem grega e apresenta os conflitos humanos, provocando uma reflexão sobre o sentido da existência. • A comédia surgiu na Grécia antiga e estava vinculada a uma festa popular profana: a colheita. Eram usadas máscaras como forma de representação, buscando provocar o riso por meio da caricatura.

Na trama dos textos Do texto não literário ao texto literário Você já ouviu as expressões “minha vida daria um romance”, “esse filme é um épico” ou “vamos acabar logo com esta novela”? Provavelmente, você compreende o sentido dessas afirmações tendo em vista o contexto em que a conversa acontece. Atualmente, os estudos da linguagem enfatizam a teoria dos gêneros do discurso, produzidos em situações do cotidiano. Com base em uma atividade humana, as pessoas estabelecem interações verbais. O gênero literário romance, criado no século XVIII, incorpora e reelabora diversos gêneros do cotidiano, como cartas, bilhetes, diálogos, piadas, notícias e debates. Ao entrarem no texto literário, os gêneros do cotidiano perdem o vínculo com a realidade e adquirem outro sentido. Não se pode estudá-lo sem estabelecer relações com a esfera da atividade humana em que aparece. O que faz um texto ser considerado romance, conto ou poema? Por que esses textos são considerados literários? Qual é a diferença entre eles e os textos não literários? Leia os dois textos a seguir e observe a diferença de gêneros. Padroeiro da Internet A Internet vai ganhar seu santo protetor. O papa João Paulo II deve em breve nomear Santo Isidoro de Sevilha como padroeiro da rede mundial. Nascido no século 7 em Cartagena, na Espanha, o santo foi um escritor prolífico e versátil. Ele foi o primeiro católico a compilar os conhecimentos universais de seu tempo — daí seu vínculo com a Internet — numa outra obra enciclopédica intitulada Etymologiae, que trata tanto de assuntos religiosos quanto de gramática, medicina, legislação, ciências, geografia e agricultura, entre outros temas. O dia de Santo Isidoro é comemorado em 4 de abril. GLOBO RURAL. Disponível em: <http://globorural.globo.com/edic/185/rep_digitala.htm>. Acesso em: 21 maio 2007.

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FAÇA NO CADERNO

1. Quais são as informações divulgadas na notícia?

Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra A majestade do Xingu, de Moacyr Scliar.

Prece de internauta

O papa João Paulo 2o está pensando em nomear Santo Isidoro de Sevilha como padroeiro dos usuários da Internet. Mundo, 7 fev. 2001. A PRECE a Santo Isidoro de Sevilha foi elaborada especialmente para os internautas principiantes. O suplicante típico será o homem de meia-idade, recém-iniciado nos mistérios da computação (para ele mistérios dolorosos, nunca gozosos) e que a murmurará com testa franzida, olhar ansioso e lábios trêmulos. Este devoto, que vê na informática uma invenção do demônio, planejada para abalar a fé dos espíritos fracos, espera do santo nada menos do que um milagre. É inútil, Santo Isidoro, porque em nada melhoro. Valei-me, Santo Isidoro, Teu socorro, Santo Isidoro, diante das teclas por ti clamo e choro. é como para a água o cloro. Valei-me, Santo Isidoro, Sem ele, Santo Isidoro, na casa da ignorância eu moro. a internauta não me arvoro. Valei-me, Santo Isidoro, Por isso, Santo Isidoro, por teu socorro eu imploro. a ti sem cessar eu oro. O computador, Santo Isidoro, ameaça: decifra-me ou te devoro. Com fé: de profundis me trazes, Santo Isidoro, Salva minha cara, Santo Isidoro, e à superfície enfim afloro. pois de vergonha eu até coro: Teu e-mail, Santo Isidoro, de computação, Santo Isidoro, Será para sempre o meu sagrado foro. todo manual eu devoro. Repetir esta oração três vezes, antes de ligar o computador. A seguir entrar na Internet. Atenção, porém: cuidado com mensagens supostamente enviadas, da corte celestial, por alguém que se intitula Isidoro. Bem pode ser um vírus. E contra ele não haverá santo que lhe proteja. SCLIAR, Moacyr. Prece de internauta. Folha de S.Paulo, São Paulo, 19 fev. 2001. Cotidiano, p. C2. Folhapress.

2. Moacyr Scliar começa sua crônica, publicada na Folha de S.Paulo, citando uma notícia que circulou no mesmo jornal e em outros periódicos impressos ou digitais. Tomou como ponto de partida uma informação colhida do cotidiano jornalístico. No entanto, o título do texto é “Prece de internauta”. Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, “prece” significa “mensagem oral, escrita ou em pensamento que se dirige a uma divindade ou a um santo, pedindo uma ajuda, uma bênção, ou agradecendo uma graça recebida; oração, reza”. a) Identifique, na crônica, os elementos que caracterizam o gênero “prece”, isto é, fórmulas de invocação e de finalização, marcas típicas de uma oração. b) No último parágrafo da crônica, é retomada a questão cotidiana dos internautas principiantes. Qual é a realidade? c) Observe que, na crônica em questão, a linguagem jornalística e a religiosa são organizadas de forma diferente de uma notícia ou oração. Explique a recriação das diferentes linguagens na crônica. Como você pôde observar, a crônica toma como pretexto uma notícia de jornal, que é um texto não literário, isto é, seu objetivo é apresentar fatos ocorridos no cotidiano. Além disso, a notícia escolhida faz parte daqueles acontecimentos que passam despercebidos de muitos leitores de jornais diários. Exatamente esse incidente abriu perspectiva para o cronista escrever sobre um problema que afeta muitas pessoas que acessam a internet, e esse foi o assunto para a crônica. Seu objetivo foi flagrar o instante presente e levar o leitor para bem longe da notícia que o gerou. Com uma linguagem simples, direta, irônica e bem-humorada, Moacyr Scliar escreve como se estivesse conversando com um amigo. Essa preocupação de sensibilizar o leitor para refletir sobre determinada situação passa por uma elaboração da linguagem, ampliando os sentidos das palavras e das ideias. Essas características permitem considerar a crônica um texto literário.

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Características dos textos não literários e literários No texto não literário, a finalidade é informar ao leitor determinado assunto; pretende-se transmitir algo de caráter prático. Diferentes maneiras de divulgar a informação dependem das pessoas envolvidas na interação em tempo e lugar definidos. As características do texto literário são: • a importância do plano de expressão: prosa ou poesia — o autor/ eu poético recria o cotidiano por meio de palavras, valorizando não apenas o conteúdo, mas também o modo como este é transmitido; • a organização do texto literário por meio de vários recursos: ritmo, sonoridade, repetição de palavras ou de sons; • a utilização e a exploração dos múltiplos sentidos das palavras para expressar os caminhos da existência humana; • a presença indispensável do aspecto individual da linguagem: cada autor representando o cotidiano humano de acordo com sua perspectiva de mundo; • a relação com o leitor, que entenderá o texto literário como uma recriação; • a relação com seu tempo e lugar históricos, e com os demais textos, de qualquer espaço e tempo.

Capítulo 7 – Gêneros literários

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A VOZ DA CRÍTICA

Não necessariamente o texto tem de falar de um mundo imaginário; sua característica principal está na forma como recria a linguagem, trazendo as expressões do dia a dia para as páginas de um livro ou de um jornal. A variedade de linguagens organizada artisticamente cria o texto literário. Os textos literários ganham vida com a presença de outros gêneros, ditos não literários. Os gêneros não literários são muitos, sendo difícil delimitá-los. Têm características próprias, mas no momento em que aparecem no texto literário transformam-se e aí adquirem outro sentido. Ezra Pound (1885-1972), poeta moderno nascido nos Estados Unidos, explica: A literatura não existe no vácuo. Os escritores, como tais, têm uma função social definida, exatamente proporcional à sua competência como escritores. Essa é a sua principal utilidade. [...] A linguagem é o principal meio de comunicação humana. Se o sistema nervoso de um animal não transmite sensações e estímulos, o animal se atrofia. Se a literatura de uma nação entra em declínio, a nação se atrofia e decai. POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Cultrix, 1977. p. 36.

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (Enem/MEC) Texto 1

A melhor banda de todos os tempos da última semana O melhor disco brasileiro de música americana O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos Não importa contradição O que importa é televisão Dizem que não há nada que você não se acostume Cala a boca e aumenta o volume então. MELLO, B.; BRITTO, S. A melhor banda de todos os tempos da última semana. São Paulo: Abril Music, 2001 (fragmento).

Texto 2 O fetichismo na música e a regressão da audição Aldous Huxley levantou em um de seus ensaios a seguinte pergunta: quem ainda se diverte realmente hoje num lugar de diversão? Com o mesmo direito poder-se-ia perguntar: para quem a música de entretenimento serve ainda como entretenimento? Ao invés de entreter, parece que tal música contribui ainda mais para o emudecimento dos homens, para a morte da linguagem como expressão, para a incapacidade de comunicação. ADORNO, T. Textos escolhidos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

A aproximação entre a letra da canção e a crítica de Adorno indica o(a) a) lado efêmero e restritivo da indústria cultural. b) baixa renovação da indústria de entretenimento. c) influência da música americana na cultura brasileira. d) fusão entre elementos da indústria cultural e da cultura popular. e) declínio da forma musical em prol de outros meios de entretenimento. 2. (Enem/MEC)

Sou uma pobre e velha mulher, Muito ignorante, que nem sabe ler. Mostraram-me na igreja da minha terra Um Paraíso com harpas pintado E o Inferno onde fervem almas danadas, Um enche-me de júbilo, o outro me aterra.

VILLON, F. In: GOMBRICH, E. História da arte. Lisboa: LTC, 1999.

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Os versos do poeta francês François Villon fazem referência às imagens presentes nos templos católicos medievais. Nesse contexto, as imagens eram usadas com o objetivo de: a) refinar o gosto dos cristãos. b) incorporar ideais heréticos. c) educar os fiéis através do olhar. d) divulgar a genialidade dos artistas católicos. e) valorizar esteticamente os templos religiosos. 3. (Enem/MEC) Minha vida é andar Por esse país Pra ver se um dia Descanso feliz Guardando as recordações Das terras onde passei Andando pelos sertões E dos amigos que lá deixei GONZAGA, L.; CORDOVIL, H. A vida de viajante, 1953. Disponível em: <www.recife.pe.gov.br>. Acesso em: 20 fev. 2012 (fragmento).

A letra dessa canção reflete elementos identitários que representam a: a) valorização das características naturais do Sertão nordestino. b) denúncia da precariedade social provocada pela seca. c) experiência de deslocamento vivenciada pelo migrante. d) profunda desigualdade social entre as regiões brasileiras. e) discriminação dos nordestinos nos grandes centros urbanos. 4. (Enem/MEC) São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas. O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando: — Quantos são aqui? Pergunta triste, de resto. Um homem dirá: — Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos. E outro: — Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota dos seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor... (...) E outro: — Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito! BRAGA, Rubem. Para gostar de ler. v. 3. São Paulo: Ática, 1998, p. 32-3 (fragmento).

O fragmento acima, em que há referência a um fato sócio-histórico — o recenseamento —, apresenta característica marcante do gênero crônica ao: a) expressar o tema de forma abstrata, evocando imagens e buscando apresentar a ideia de uma coisa por meio de outra. b) manter-se fiel aos acontecimentos, retratando os personagens em um só tempo e um só espaço. c) contar história centrada na solução de um enigma, construindo os personagens psicologicamente e revelando-os pouco a pouco. d) evocar, de maneira satírica, a vida na cidade, visando transmitir ensinamentos práticos do cotidiano, para manter as pessoas informadas. e) valer-se de tema do cotidiano como ponto de partida para a construção de texto que recebe tratamento estético. 82

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Capítulo 8

Texto, gênero do discurso e produção

Gênero publicitário: anúncios comerciais Na vida cotidiana, estamos expostos a muitas campanhas publicitárias que têm como objetivo qualificar um produto para ser consumido. Por meio da linguagem visual, verbal ou verbo-visual, o anunciante apresenta seu produto, com o objetivo de influenciar o público-alvo a consumi-lo.

(Des)construindo o gênero A publicidade hoje

Hortifruti

O anúncio publicitário a seguir é de uma grande rede varejista de hortifrutigranjeiros do Brasil. Ele faz uma referência ao filme brasileiro Tropa de elite (2007), do diretor José Padilha.

Campanha publicitária da empresa Hortifruti, 2010.

Texto, gênero do discurso e produção

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1. Observe que no enunciado “Horta de elite” a letra o ganha destaque.

FAÇA NO CADERNO

Qual é a relação que se estabelece entre a imagem do anúncio e a representação da letra o? 2. No anúncio, há o seguinte enunciado: “Se não for Hortifruti pede pra sair”. Essa expressão faz referência a uma expressão dita ao longo do filme e que é aproveitada no anúncio com outro significado. Que sentido ela adquire na propaganda? 3. Observe que o anúncio traz este slogan: “Aqui a natureza é a estrela”. De que maneira o slogan se relaciona com o conjunto do cartaz? 4. No final do anúncio, o texto é encerrado com o enunciado “Aqui a natureza é a estrela” ao lado da logomarca. Que mudança de sentido ocorreu com a palavra estrela?

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Em cena

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“O alvo é você.” Com esse título, uma reportagem sobre o uso que a publicidade faz da imagem do jovem foi publicada no caderno Folhateen, da Folha de S.Paulo. Leia os trechos a seguir: O alvo é você

[...]

Experiência Quando, na publicidade, o assunto é jovem, o conceito de experiência é a alma do negócio. Por isso, as grandes marcas martelam seus valores em comerciais para depois convidarem o jovem a experimentá-los em megaeventos de cultura, esporte e interação (ou, de preferência, de tudo isso junto) patrocinados por elas. [...] Nem todo mundo aceita a regra para consumir Para a professora de marketing, da ESPM, Luciane Robic, o jovem não tem uma percepção negativa das estratégias de vendas das grandes empresas. “Eles até exigem que essas ações de marketing aconteçam e que sejam bem-feitas. O jovem se sente bem em um ambiente de consumo, como o shopping center”, diz. Mas, ao lado desses jovens, há aqueles que recusam os imperativos do tipo “beba” e “compre já o seu”. Para a psicanalista Maria Rita Kehl, o choque do glamour dos ícones jovens com a realidade de quem está assistindo à propaganda é o ponto de partida para a angústia. “A imagem ‘jovem’ é a mais badalada, estetizada, desejada e cobiçada da nossa cultura. A impressão que se tem é que, se você é jovem e bonito(a), as portas do mundo se abrirão para você. Só que a vida não corresponde integralmente a esse ideal. Isso cria uma defasagem muito angustiante para os adolescentes e jovens que apostam no efeito da imagem para conquistar seu lugar no mundo, quando, na verdade, estão se sentindo inseguros, frágeis e um tanto vazios, ou seja: sem muitos recursos para preencher a imagem ideal que a sociedade faz deles e com a qual, forçosamente, se identificam.” É por essas e outras que Juliana Ferreira, 19, exibe com gosto sua camiseta que pede “boicote ao McCâncer”. “O McDonald’s é um ícone do imperialismo cultural americano. Aqui, no Brasil, é uma das empresas que se aproveitam do adolescente, que está em uma fase sensível, confusa e insegura, para fazê-lo acreditar que ele tem de consumir aquilo.” MENA, Fernanda. O alvo é você. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 out. 2003. Folhateen, p. 9. Folhapress.

• Como você se vê nessa imagem descrita pela psicanalista? • Façam uma roda de conversa com seus colegas a respeito das afirmações da psicanalista Maria Rita Kehl sobre a imagem que as campanhas publicitárias fazem do jovem.

Anúncios classificados Você analisou um tipo de texto publicitário que circula em revistas, jornais, outdoors, internet, rádio e televisão, com alterações decorrentes das diferentes mídias. Outra forma de divulgação muito difundida é o anúncio classificado. No Brasil, jornais trazem cadernos de classificados, dirigidos a leitores que procuram emprego, vendem ou compram produtos, procuram negócios ou companheiros etc. Na maioria das vezes, esses cadernos circulam aos domingos, com um faturamento comercial significativo para a empresa jornalística.

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Capítulo 8 – Gênero publicitário: anúncios comerciais

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Folhapress

No jornal de domingo, o espaço para os classificados é valorizado pelo leitor, pelo anunciante e pelo veículo.

FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 18 maio 2003. Classificados imóveis 3, p. 18. Folhapress.

1. A primeira informação que o anunciante dá ao leitor é: “O anúncio não é colorido, não tem fotos...”. Por que o texto se refere ao anúncio, e não ao produto a ser vendido?

FAÇA NO CADERNO

2. “Mas o apartamento é lindo!!!” Que recursos linguísticos são usados para indicar mudança de assunto? 3. Faça um levantamento das expressões que descrevem o imóvel. Por que foram selecionados esses dados, e não outros, como banheiro, cozinha e garagem? 4. No final do texto, com que linguagem o anunciante se dirige ao leitor? Que sentido ela provoca? 5. Quem é o anunciante do imóvel? Como é possível identificá-lo?

O passado da publicidade Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas não era o que acontecia com os primeiros anúncios brasileiros, em que predominava a linguagem verbal. Tinham o nome de reclame por causa da forte influência da cultura francesa no Brasil (do fr. réclame). Um dos mais antigos reclames apareceu no jornal Gazeta do Rio de Janeiro, em 10 de setembro de 1808: Quem quiser comprar uma morada de casas de sobrado, com frente para Santa Rita, fale com Ana Joaquina da Silva, que mora nas mesmas casas, ou com o Capitão Francisco Pereira de Mesquita, que tem ordem para as vender. GUEDES, Marymarcia; BERLINCK, Rosane de Andrade (Org.). E os preços eram commodos...: anúncios de jornais brasileiros: século XIX. São Paulo: Humanitas, 2000. p. 193.

Esse texto publicitário destinava-se a vender uma casa. Em uma linguagem direta, apresenta nome e sobrenome de quem os interessados devem procurar. O enunciado vinha de alguém que demonstrava ser o proprietário, dando credibilidade ao anúncio. O objetivo do texto era simplesmente oferecer o produto, ao contrário do que ocorre hoje, quando o texto publicitário envolve um processo de sedução. Assim como se vendia uma casa, podia-se vender gente. Num jornal baiano do século XIX, apareceu este anúncio na seção “Avisos”: Texto, gênero do discurso e produção

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Vendem-se os três escravos seguintes: uma cabra lavadeira, um moleque próprio para qualquer serviço de casa e com especialidade de mesa, uma neguinha de oito anos de idade, pouco mais ou menos, e por consequência hábil para qualquer serviço doméstico a que a proponham; quem os quiser comprar dirija-se à Loja da Gazeta onde se lhe dirá quem os vende. GUEDES, Marymarcia; BERLINCK, Rosane de Andrade (Org.). E os preços eram commodos...: anúncios de jornais brasileiros: século XIX. São Paulo: Humanitas, 2000. p. 76.

FAÇA NO CADERNO

1. A finalidade desses anúncios era a mesma da que vimos anteriormente: vender um produto. Qual é, do ponto de vista dos direitos humanos, a diferença fundamental entre eles? 2. No segundo anúncio, a linguagem usada revela uma visão escravocrata da sociedade brasileira da época. Identifique os adjetivos ou expressões que caracterizam essa perspectiva.

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Em cena

Ação Social. São Paulo: Edmetec, ano I, n. 1, 2003

3. Levantando uma hipótese: se você lesse esse anúncio hoje, como cidadão, que atitude tomaria?

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Nos dois textos a seguir (uma propaganda institucional e um artigo jornalístico), note como o tema do trabalho infantil e escravo ainda preocupa os cidadãos do mundo inteiro. Façam um debate com a turma sobre as estratégias linguísticas usadas em cada texto para convencer o leitor de sua proposta. Texto 1

AÇÃO SOCIAL. São Paulo: Edmetec, ano I, n. 1, 2003. Contracapa.

Texto 2 Quase 36 milhões vivem em condições de escravidão no mundo Segundo ONG, mais da metade dos escravos estão em cinco países. Número de escravizados aumentou 20% em relação a 2013. Cerca de 36 milhões de pessoas, homens, mulheres e crianças, são vítimas da escravidão no mundo, e mais da metade delas se encontram em cinco países, Índia, China, Paquistão, Uzbequistão e Rússia, denunciou nesta segunda-feira a ONG Foundation Walk Free. Segundo a investigação conduzida pela organização de defesa dos direitos humanos, a escravidão está presente nos 167 países, e abrange tráfico humano, exploração sexual, trabalho forçado, servidão por dívida ou casamento forçado. A organização calcula em 35,8 milhões o número de pessoas escravizadas, uma alta de 20% em relação a 2013, apesar desta projeção não ser atribuída a um aumento real dos casos e sim a uma metodologia mais apurada. […] O relatório assinala os esforços dos países para lutar contra os tipos de escravidão moderna. Com exceção da Coreia do Norte, todos os envolvidos na investigação adotaram leis para criminalizar certas formas de escravidão moderna. O documento acrescenta, no entanto, que apenas três governos — Estados Unidos, Brasil e Austrália — aplicaram medidas para impedir o regime análogo à escravidão e a escravidão indireta de empresas que trabalham em seu território. FRANCE PRESSE. Quase 36 milhões vivem em condições de escravidão no mundo. G1, 17 nov. 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/11/ quase-36-milhoes-vivem-em-condicoes-de-escravidao-no-mundo.html>. Acesso em: 27 abr. 2016.

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Capítulo 8 – Gênero publicitário: anúncios comerciais

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Linguagem do gênero Diálogo entre o verbal e o visual

FAÇA NO CADERNO

DM9

CREDITO

O gênero publicitário se caracteriza pela linguagem predominantemente verbo-visual. Vamos analisar os recursos linguísticos explorados com o objetivo de persuadir os consumidores. Leia o anúncio publicado de uma marca de bebida.

ÉPOCA. São Paulo: Globo, n. 899, ago. 2015. p. 27.

1. Quem é o anunciante? Qual é o slogan? Como ele aparece inscrito? 2. Observe o texto verbal. Quem é a pessoa que fala? Identifique as marcas linguísticas no enunciado. 3. Para persuadir o consumidor a tomar esta bebida, dois argumentos são usados em forma de depoimento pessoal. Que efeito provoca no leitor esse recurso linguístico? 4. O texto traz duas afirmações que se contrapõem: “Você nunca vai encontrar alguém igual a mim”, “Daqui a uma semana nem eu sou mais assim”. a) Explique os sentidos das duas afirmações. b) Explique o sentido do formato com que as letras aparecem no texto verbal. 5. Note o formato da imagem. Que sentido há entre ela, as palavras e o texto publicitário? Características do gênero anúncio comercial • Persuadir, seduzir o consumidor. • Levar o interlocutor a se identificar com a organização da imagem e do conteúdo. • Adaptar-se ao ponto de vista do consumidor. • Combinar a linguagem verbal com a visual. • Explorar a linguagem visual, provocando sensações derivadas dos sentidos: visão, tato, audição, olfato e paladar. • Identificar o nome da empresa por meio do logotipo e da marca. • Usar recursos de linguagem: linguagem figurada, ambiguidade, provérbios etc. • Apresentar mais de uma possibilidade de leitura. • Utilizar informações implícitas.

Texto, gênero do discurso e produção

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Praticando o gênero Fazendo ofertas Correio Braziliense. 05.08.2013

Texto 1

CORREIO BRAZILIENSE. Brasília, DF, 5 ago. 2013. Classificados, não paginado.

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Capítulo 8 – Gênero publicitário: anúncios comerciais

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Texto 2 O classificado através da história SÍTIO — Vendo. Barbada. Ótima localização. Água à vontade. Árvores frutíferas. Caça abundante. Um paraíso. Antigos ocupantes despejados por questões morais. Ideal para casal de mais idade. Negócio de Pai para filhos. Tratar com Deus. CRUZEIRO — Procuram-se casais para um cruzeiro de 40 dias e 40 noites. Ótima oportunidade para fazer novas amizades, compartilhar alegre vida de bordo e preservar a espécie. Trazer guarda-chuva. Tratar com Noé. ELEFANTES — Vendo. Para circo ou zoológico. Usados mas em bom estado. Já domados e com baixa do exército. Tratar com Aníbal. CAVALO — Troco por um reino. Tratar com Ricardo III. CISNE — Troco por qualquer outro animal de porte, mais moço. Deve ser macho. Tratar com Leda. LEÃO — Oferece-se para shows, aniversários, quermesses, etc. Fotogênico, boa voz, experiência em cinema. Tem referências da MGM, para a qual trabalhou até a aposentadoria compulsória. ÓRGÃO — Compro qualquer um. À vista. Também a audição, o sistema linfático, etc. Tratar com Dr. Frankenstein, no Castelo. CABEÇAS — Compro para coleção. Tenho as de João Batista, Maria Antonieta e todo o bando de Lampião. COZINHEIRA — Procuro. Para família de fino trato. Deve ter experiências em banquetes e uma boa mão para venenos. Se falhar, pode dormir no emprego, para sempre. Tratar com Lucrécia Bórgia. TORRO TUDO — E toco cítara. Tratar com Nero.

BARBADA — Vendo ótima residência por preço de ocasião. Motivo força maior. 117 qtos., 80 banhs., amplos salões, lustres, tapetes, deps. compls. p/ 200 empreg., 50 vagas na estrebaria. Centro de terreno ajardinado. Tratar com Luís XVI, em Versalhes, antes que seja tarde. TELEFONE — Pouco usado. Prefixo 1. Tratar com A. G. Bell. CASAMENTO — Homem só, boa aparência, situação estável. Procura moça para ser companheira pelo resto da vida dela. Procurar Barba-Azul. CORRESPONDÊNCIA — Quero me corresponder com qualquer pessoa em qualquer lugar. Escrever para Robinson Crusoé com urgência. CHICOTE — Correntes, arreios, chapa quente, Cadeirinha de Afrodite, Cabrito Mecânico, grande seleção de alicates, uma prensa, ferros para marcação. Vendo tudo com manual de instrução. Motivo prisão. Tratar com Marquês de Sade. ASSISTENTE DE PINTOR — Deve ter prática em pintar de costas. Preciso de assistente porque estou momentaneamente impossibilitado de trabalhar. Caiu pingo no meu olho. Procurar Michelangelo, na Capela Sistina. ENGENHEIRO — Precisa-se, urgente, para substituir elemento demitido motivo embriaguez. Tratar prefeitura de Pisa, Itália. TRIPULANTES — Preciso para excursão marítima. Jogo tudo nesta empreitada. Tentaremos provar que se pode chegar à Índia viajando para o Oeste. Se conseguirmos, seremos famosos. Se não, a história nos esquecerá. Tratar com Cristóvão Colombo.

O CLASSIFICADO ATRAVÉS DA HISTÓRIA — In: Comédias para se ler na escola, de Luis Fernando Verissimo, Objetiva, Rio de Janeiro; © by Luis Fernando Verissimo. FAÇA NO CADERNO

1. Compare o texto do cotidiano (texto 1, o classificado de jornal) e o texto literário (texto 2, a crônica) e responda às questões propostas. a) Caracterize cada texto identificando: assunto, veículo (lugar de publicação), data, autor, finalidade e interlocutores. b) Retome sua resposta anterior e descreva que marcas verbais e/ou visuais permitiram que você chegasse a tais conclusões. c) Compare a composição dos dois textos, o veículo de publicação e o gênero. Descreva semelhanças e diferenças entre eles. 2. Com relação ao texto 2, identifique. a) Que referências históricas você reconheceu? b) Qual(is) você não identificou? c) Por que compreender essas referências é importante? 3. Embora apresentem características semelhantes, por que os dois textos pertencem a gêneros do discurso diferentes? Justifique sua resposta. Texto, gênero do discurso e produção

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Em atividade

O que faz você feliz? Um lápis, uma letra, uma conversa boa Um cafuné, café com leite, rir à toa, Um pássaro, ser dono do seu nariz... Ou será um choro que te faz feliz? A causa, a pausa, o sorvete, Sentir o vento, esquecer o tempo, O sal, o sol, um som O ar, a pessoa ou o lugar? Agora me diz, O que faz você feliz?

FAÇA NO CADERNO

1. (Unicamp-SP) O texto abaixo é parte de uma campanha promovida pela ANER (Associação Nacional de Editores de Revistas). Surfamos a Internet, Nadamos em revistas A Internet empolga. Revistas envolvem. A Internet agarra. Revistas abraçam. A Internet é passageira. Revistas são permanentes. E essas duas mídias estão crescendo. Um dado que passou quase despercebido em meio ao barulho da Internet foi o fato de que a circulação de revistas aumentou nos últimos cinco anos. Mesmo na era da Internet, o apelo das revistas segue crescendo. Pense nisto: o Google existe há 12 anos. Durante esse período, o número de títulos de revistas no Brasil cresceu 234%. Isso demonstra que uma mídia nova não substitui uma mídia que já existe. Uma mídia estabelecida tem a capacidade de seguir prosperando, ao oferecer uma experiência única. É por isso que as pessoas não deixam de nadar só porque gostam de surfar. Imprensa, n. 267, maio 2011, p. 17. (Adaptado)

a) O verbo surfar pode ser usado como transitivo ou intransitivo. Exemplifique cada um desses usos com enunciados que aparecem no texto da campanha. Indique, justificando, em qual desses usos o verbo assume um sentido necessariamente figurado. b) Que relação pode ser estabelecida entre o título da campanha e o trecho reproduzido a seguir? Como essa relação é sustentada dentro da campanha? A Internet empolga. Revistas envolvem. A Internet agarra. Revistas abraçam. A Internet é passageira. Revistas são permanentes.

(Fatec-SP) Leia o texto, para responder às questões de números 2 a 4. O que faz você feliz? A lua, a praia, o mar A rua, a saia, amar... Um doce, uma dança, um beijo, Ou é a goiabada com queijo? Afinal, o que faz você feliz? Chocolate, paixão, dormir cedo, acordar tarde, Arroz com feijão, matar a saudade... O aumento, a casa, o carro que você sempre quis Ou são os sonhos que te fazem feliz? Um filme, um dia, uma semana Um bem, um biquíni, a grama... Dormir na rede, matar a sede, ler... Ou viver um romance?

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(Anúncio publicitário do Grupo Pão de Açúcar, veiculado na Revista VEJA, edição de 21 de março de 2007)

2. Nesse texto publicitário predomina um padrão de linguagem coloquial, no qual podem ocorrer desvios do padrão culto da língua. Identifique a alternativa contendo desvio(s). a) “Ou é a goiabada com queijo?” b) “O aumento, a casa, o carro que você sempre quis.” c) “O que faz você feliz?” d) “Um cafuné, café com leite, rir à toa.” e) “Agora me diz, o que faz você feliz?” 3. Os versos finais de quatro das estrofes começam com a conjunção “ou”; o sentido dela, nos quatro versos em questão, pode ser mais bem descrito como: a) ênfase, destacando cada oração. b) explicação, equivalente a “isto é”. c) consequência das causas precedentes. d) alternância ou exclusão. e) dúvida ou conclusão. 4. Podem-se destacar alguns elementos que caracterizam o texto como propaganda de uma rede de supermercados. Identifique a alternativa que cumpre melhor esse intento. a) Referência explícita a produtos industrializados, tais como “saia”, “doce”, “goiabada”, “queijo”, todos potencialmente à venda em supermercados. b) Apelo à ideia de que a felicidade depende de elementos naturais, tais como “lua”, “praia” e “mar”, aonde só se chega por meio das relações de compra e venda da sociedade de consumo. c) Menção aos atos de “dormir cedo e acordar tarde”, que evocam, por oposição e contraste, o ciclo do trabalho, base da vida voltada para as necessidades do consumo. d) Citação dos sonhos, em “ou são os sonhos que te fazem feliz?”, para simbolizar tudo aquilo que a noção do consumo leva as pessoas a almejar. e) Evocação da liberdade, na figura do pássaro, em “um pássaro, ser dono do seu nariz”, a qual sugere abandonar as limitações das pessoas compelidas a consumir mais.

Capítulo 8 – Gênero publicitário: anúncios comerciais

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Capítulo 9

Língua e linguagem

Ambiguidade Explorando os mecanismos linguísticos

Os textos publicitários exploram as possibilidades de sentido de uma palavra, expressão ou enunciado. Esse jogo com os diferentes significados é um recurso muito utilizado também nos textos poéticos e humorísticos. Vamos verificar como um mesmo enunciado apresenta dois ou mais sentidos, o que permite mais de uma interpretação. Leia a charge do cartunista Jean Galvão. Observe como ele recuperou uma situação social noticiada no dia anterior no mesmo jornal: a preocupação do brasileiro com o desemprego.

FAÇA NO CADERNO

Jean Galvão/Folhapress

Ambiguidade em charges e quadrinhos

GALVÃO, Jean. Folha de S.Paulo, São Paulo, 9 mar. 2004. p. A2.

1. No enunciado verbal “Até o hífen está sem emprego!”, dito por alguém que procura emprego, que sentido adquirem as palavras hífen e emprego? 2. Ao ler o balão, o que acontece com o leitor que sabe que hífen é um sinal usado para unir palavras na língua portuguesa? 3. Cruzando as informações das duas imagens com o texto verbal, que sentido as palavras hífen e emprego adquirem?

© 2016 King Features Syndicate/Ipress

O humor crítico expresso na charge só é compreendido pelo leitor no momento em que este identifica a ambiguidade criada pela palavra emprego. Seu sentido se constrói na composição das informações do contexto social com as do linguístico e do gráfico. Na tirinha a seguir, criou-se um estranho diálogo entre Hagar e a enfermeira do consultório de seu antigo médico.

Hagar-Chris Browne. BROWNE, Chris Hagar. Folha de S.Paulo, São Paulo, 19 mar. 2003. Ilustrada, p. E9.

Língua e linguagem

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FAÇA NO CADERNO

4. Identifique o trecho que produz ambiguidade no texto. 5. O humor do texto decorre dos diferentes sentidos que Hagar e a novata enfermeira dão a essa expressão. Quais foram as interpretações? © 1993 Watterson/ Dist. by Universal Uclick

6. Leia a tirinha de Bill Watterson.

Calvin & Hobbes, Bill Watterson WATTERSON, Bill. O melhor de Calvin. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 25 nov. 2003. p. D2.

• Com base no diálogo entre Calvin e seu amigo Haroldo sobre um anúncio na televisão, explique as interpretações que eles deram às cenas vistas. 7. Que possibilidades de sentido tem a expressão “Aqui está mais um comercial com atitude.”? 8. Nos textos anteriormente analisados, diferentes sentidos se construíram com o uso de palavras e expressões. A que você atribui a ambiguidade da tirinha?

Ambiguidade na literatura e na publicidade A ambiguidade é um recurso presente também nos textos literários e publicitários. Observe, a seguir, como suas marcas orientam a interpretação do leitor. O miniconto de Fernando Bonassi faz parte de uma coletânea intitulada Passaporte. Nesse texto, o autor utiliza o recurso da ambiguidade para fazer uma dura análise do cotidiano urbano. 047 estática

FAÇA NO CADERNO

BONASSI, Fernando. 047 estática. In: ______. Passaporte. São Paulo: Cosac & Naify, 2001. Não paginado.

1. O que o narrador conta sobre o cotidiano de Maria Cristina? 2. O conto se inicia assim: “Maria Cristina está sonhando com tempestades [...]”. a) Releia o texto e identifique os possíveis significados dessa expressão. b) Observando o título do conto, “047 estática”, notam-se as ideias de imobilidade e de eletricidade. Que novo sentido ele adquire à luz da interpretação de “sonhando com tempestades”? c) Explique a ambiguidade do texto: o que o narrador quis ocultar na sequência de ações? 92

Fernando Bonassi (1962), escritor, roteirista e cineasta paulistano, tem muitos livros lançados, entre os quais: A incrível história de Naldinho, um bandidão ou bandidinho?, O céu e o fundo do mar, 100 coisas, Declaração universal do moleque invocado, O amor é uma dor feliz, Tá louco! e Passaporte. Alguns foram publicados na França, na Alemanha e nos Estados Unidos. Passaporte é uma coletânea de quase 140 microcontos. Com essa obra, em 2002, Bonassi ganhou o concurso de literatura promovido pela Câmara Brasileira do Livro. A obra é composta de textos criados em forma de relatos de viagens a Praga, Cracóvia, Roterdã, Guarulhos e Paris, entre outros lugares.

Karime Xavier/Folhapress

Maria Cristina está sonhando com tempestades e acorda cheia de estática: os músculos vibrando, pelos em pé, os cabelos barulhentos no penteado. Também está constantemente arrepiada, mas isso é o de menos. Toma choques terríveis em bancos de ônibus, telefones, eletrodomésticos desligados e escadas rolantes (mesmo empunhando apenas o corrimão de borracha). Abandonou joias e o que de forma remota pudesse conduzir eletricidade, mas nada. Na verdade não seria tão ruim, se agora não desse pra acontecer quando se aproxima das pessoas. (Gramado — Brasil — 1996)

Fernando Bonassi, em 2008.

Capítulo 9 – Ambiguidade

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Almap BBDO

Leia agora um anúncio publicitário veiculado por ocasião do Dia dos Namorados, 12 de junho, e veja como a ambiguidade foi explorada.

Moema R. Gaivota, 1.471 (11) 5092-5487

Anúncio publicitário da agência Almap BBDO, 2009.

3. Observe que aparece em letras maiores e negrito uma pergunta direta ao leitor. Você andou muito para encontrar seu verdadeiro amor. Não é hora de agradecer seus pés por isso?

a) Que dois sentidos podem ser atribuídos ao verbo andar? b) Que relação se estabelece entre o verbo andar e o agradecimento aos pés? 4. Com que finalidade o recurso linguístico da ambiguidade foi usado nesse anúncio? 5. Associe o enunciado verbal do anúncio à imagem. O que as imagens de gatinhos, aviões, coração, casais apaixonados, passarinhos, serenata, telefone, representadas no anúncio, têm em comum? Sistematizando a prática linguística Ambiguidade é um recurso usado para produzir mais de um sentido em um mesmo enunciado, permitindo, portanto, várias interpretações. Muitas vezes, um texto diz uma coisa para que o leitor entenda outra. Uma forma de conseguir uma melhor interpretação do texto é observar como se constrói a ambiguidade. As formas ambíguas podem estar marcadas: • explicitamente pelo léxico ou pela construção sintática; • de maneira implícita, somente pelo contexto. Esse recurso é empregado com frequência em histórias em quadrinhos, anúncios publicitários, anedotas e textos poéticos. Língua e linguagem

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Usando os mecanismos linguístico-discursivos A ambiguidade na construção do sentido do texto A seguir, há três textos: uma tira, uma charge e um poema, todos com ambiguidade. Explique os vários sentidos construídos em cada texto.

Adão Iturrusgarai

Texto 1

ITURRUSGARAI, Adão. La vie en rose. Folha de S.Paulo, São Paulo, 31 maio 2003. Ilustrada, p. E13.

Arquivo/Estadão Conteúdo

Texto 2

VERISSIMO, Luis Fernando. Família Brasil. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 3 out. 1999. Caderno 2, p. D3.

Texto 3 Ao fósforo Primeiro a cabeça o corpo depois

a pira da paixão

se inflamam e acendem o forno do pão a luz na escuridão

a bomba da revolução. Sim, mas vamos à coisa concreta: você fala de fósforos ou de poetas? PAES, José Paulo. Ao fósforo. In: ______. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 75.

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Capítulo 9 – Ambiguidade

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Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (Enem/MEC) O brasileiro tem noção clara dos comportamentos éticos e morais adequados, mas vive sob o espectro da corrupção, revela pesquisa. Se o país fosse resultado dos padrões morais que as pessoas dizem aprovar, pareceria mais com a Escandinávia do que com Bruzundanga (corrompida nação fictícia de Lima Barreto). FRAGA, P. Ninguém é inocente. Folha de S.Paulo. 4 out. 2009.

O distanciamento entre “reconhecer” e “cumprir” efetivamente o que é moral constitui uma ambiguidade inerente ao humano, porque as normas morais são: a) decorrentes da vontade divina e, por esse motivo, utópicas. b) parâmetros idealizados, cujo cumprimento é destituído de obrigação. c) amplas e vão além da capacidade de o indivíduo conseguir cumpri-las integralmente. d) criadas pelo homem, que concede a si mesmo a lei à qual deve se submeter. E cumpridas por aqueles que se dedicam inteiramente a observar as normas jurídicas. e) cumpridas por aqueles que se dedicam inteiramente a observar as normas jurídicas.

3. Considere as afirmações abaixo. I. O texto explora a ambiguidade do termo visitantes, usado para evocar quem esporadicamente frequenta casas, sites ou portais. II. O trecho “Aqui não há visitantes, só gente de casa” sinaliza que o jornal interrompeu a venda de novas assinaturas e está priorizando o atendimento ao cliente antigo. III. Em “a casa é sua”, faz-se referência a dois fatos: o portal pode ser acionado da casa do assinante, por computador, e é anunciado como um “local” para se ficar à vontade. Identifique: a) se todas estiverem incorretas. b) se todas estiverem corretas. c) se apenas I e II estiverem corretas. d) se apenas I e III estiverem corretas. e) se apenas II e III estiverem corretas.

O Portal do Assinante Estadão é um lugar dedicado especialmente a você, 24 horas por dia, feito para as pessoas se sentirem em casa. Veja alguns privilégios: entrega em dois endereços, transferência temporária, interrupção de entrega, promoções exclusivas do Clube do Assinante, informações sobre o jornal. Entre sem bater, fique à vontade e acesse. Afinal, a casa é sua.

4. Identifique a alternativa correta. a) No segmento “para as pessoas se sentirem em casa” está pressuposto que a casa de fato pertence a elas. b) De “24 horas por dia, feito para as pessoas se sentirem em casa” depreende-se que o portal é refeito a cada dia para atender às necessidades dos usuários. c) O quantificador “alguns” leva a supor que existam outros privilégios concedidos ao assinante que utiliza o portal. d) O uso de letras maiúsculas é inconsistente no texto, pois elas são empregadas inclusive na grafia de nomes comuns como portal e clube. e) “Entre sem bater” significa, denotativamente, que qualquer visitante tem a senha de acesso ao portal.

2. Identifique a alternativa correta. a) O texto é dirigido aos assinantes, que passam a contar com um lugar para atendimento pessoal na redação do jornal. b) Os privilégios citados são oferecidos a quem utiliza o portal e negados ao assinante comum do jornal. c) Sequências como entrega em dois endereços fazem supor que os privilégios citados referem-se ao acesso ao portal via e-mail. d) O texto é dirigido ao público interessado em usufruir dos serviços oferecidos pelo periódico e pelo portal. e) O texto é dirigido exclusivamente aos assinantes do jornal, que passam a contar com um meio eletrônico de controle da assinatura.

5. No texto, a) a expressão “gente de casa” poderia ser substituída, sem prejuízo do sentido original, pela expressão “donos da casa”. b) “Afinal” pode ser substituído, sem que haja alteração do sentido original, por “finalmente”. c) expressões utilizadas comumente para visitantes bem-vindos são empregadas para transmitir os conteúdos de “aproximação”, “familiaridade”. d) “Afinal” pode ser substituído, sem que haja alteração do sentido original, por “portanto”. e) em “feito para as pessoas se sentirem em casa”, o termo “as pessoas” tem como referência “visitantes” e “assinantes”, que, por sua vez, têm sentidos opostos.

(Mackenzie-SP) Texto para as questões de 2 a 5. Portal do Assinante Estadão. Aqui não há visitantes, só gente de casa.

Língua e linguagem

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Dom Quixote de La Mancha, 1955. Pablo Picasso. Nanquim sobre papel. Biblioteca Nacional, Paris.

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Pablo Picasso. Século XX. Nanquim sobre papel. Bibliothèque Nationale, Paris. Foto: The Bridgeman Art Library/Easypix © Succession Pablo Picasso/AUTVIS, Brasil, 2016

Unidade 4


Eu e o outro: subjetividade e ação O desenho do artista espanhol Pablo Picasso (1881-1973) é uma das muitas ilustrações da figura do cavaleiro Dom Quixote. Título do romance do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616), Dom Quixote foi publicado em 1605 e narra as aventuras de um fidalgo castelhano em companhia de Sancho Pança, seu fiel escudeiro. A ação se passa em terras de La Mancha, de Aragão e da Catalunha, na Espanha. O herói de Cervantes envolve-se em uma série de aventuras; contudo, seus sonhos são desmentidos pela dura realidade. Uma das fantasias do herói é a narrativa da “luta contra os moinhos de vento”. Quixote se envolve numa louca batalha em que não só transforma trinta moinhos em gigantes cruéis, mas sozinho os ataca e fica ferido. A expressão “Lutar com moinhos de vento” passou a significar “manter uma luta inútil”. A linguagem desse romance aproxima a fala popular da fala culta. Dom Quixote é uma das mais importantes narrativas de aventuras da literatura universal. Na imagem retratada por Picasso, as figuras de D. Quixote de la Mancha e Sancho Pança, postas frente a frente, estão conversando. Vemos no fundo o cenário com um sol iluminando a paisagem e alguns moinhos de vento, que na imaginação de Quixote representavam os gigantes que ele enfrentaria. O diálogo flagrado no desenho recupera a fala popular presente no romance, característica que aproxima o texto do leitor. Nesta unidade, o tema integrador a ser discutido é “Eu e o outro: subjetividade e ação”. No capítulo de Leitura e literatura, vamos estudar o discurso narrativo em novelas de cavalaria e lendas. No capítulo de Texto, gênero do discurso e produção, será proposta a produção de um seminário escolar. Para essa atividade, serão apresentadas as três etapas que compõem o gênero: o planejamento, a execução da pesquisa e a exposição oral. No capítulo de Língua e linguagem, o foco é a língua portuguesa: sua evolução histórica e as variações existentes. Quem fala português hoje no mundo? Vamos viajar para outros continentes a fim de conhecer os países de língua portuguesa.

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Capítulo 10

Leitura e literatura

O discurso narrativo: histórias de aventuras e desventuras Oficina de imagens Na esteira das narrativas de amor Você verá agora três pinturas relacionadas à narrativa amorosa de Tristão e Isolda, uma lenda céltica do século XII. Não se sabe ao certo quem escreveu essa história de amor excessivo e final trágico da paixão dos amantes. Observe as pinturas, notando que elas foram produzidas no início do século XX e procuraram retratar o espaço social da época vivida pelos jovens amantes. Nesta tela, o autor procura retratar a paixão que sentem as personagens: Tristão, vassalo do rei, e Isolda, nobre princesa irlandesa, logo esposa do rei. Podemos vê-lo observando os amantes. Surpreso? Indignado? Edmund Blair. 1902. Óleo sobre tela, 128,52 cm  147,32 cm. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Easypix

John William Waterhouse.1916. Óleo sobre tela, 109,22 cm  81,28 cm. Coleção particular. Foto: Fisherman/Alamy/Latinstock

Tristão e Isolda bebem, por engano, “o filtro”, uma poção mágica do amor. Passam a viver uma paixão com grande intensidade e nunca se preocupam em ser felizes.

Rogelio Egusquiza. 1910. Óleo sobre tela, 160 cm  240 cm. Musée des Beaux-Arts, Espanha. Foto: Album/Oronoz/Latinstock

Tristão e Isolda com a poção, 1916. Tela do pintor inglês John William Waterhouse. Coleção particular.

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O fim da canção, 1902. Tela do pintor inglês Edmund Blair Leighton. Coleção particular.

No final da narrativa, depois de ter passado por várias tragédias, Tristão implora a sua amada que viesse vê-lo porque estava prestes a morrer de uma infecção causada por uma seta envenenada. Ao encontrá-lo morto, Isolda morre a seu lado.

Tristão e Isolda (A morte), 1910. Tela do pintor espanhol Rogelio de Egusquiza. Museu de Belas Artes de Bilbau. Bilbau, Espanha.

Capítulo 10 – O discurso narrativo: histórias de aventuras e desventuras

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Atividade em grupo Reúna-se com dois colegas e sigam o seguinte roteiro: a) Façam uma pesquisa sobre lendas celtas. b) Comparem a sequência narrativa. c) Façam um levantamento da forma de composição identificando as semelhanças e diferenças (personagens, tempo, espaço, narrador etc.). d) Registrem as informações de cada lenda e apresentem os resultados em uma exposição oral.

Astúcias do texto Entre o real e o fantástico

Caía a noite. Os rostos, entre o bocal e a gola, já não se distinguiam muito bem. Cada palavra, cada gesto era perfeitamente previsível, como tudo naquela guerra que durava tantos anos, cada embate, cada duelo, conduzido sempre conforme as mesmas regras, de tal modo que se sabia na véspera quem havia de ganhar, perder, tornar-se herói, velhaco, quem acabaria com as tripas de fora e quem se safaria com uma queda do cavalo e a bunda no chão. Sobre as couraças, durante a noite, à luz das tochas, os ferreiros martelavam sempre as mesmas amassaduras. — E você? — O rei chegara à frente de um cavaleiro com a armadura toda branca; só uma tirinha negra fazia a volta pelas bordas; no mais era alva, bem conservada, sem um risco, bem-acabada em todas as juntas, encimada no elmo por um penacho de sabe-se lá que raça de galo oriental, cambiante em cada nuance do arco-íris. No escudo, exibia-se um brasão entre duas fímbrias de um amplo manto drapejado, e dentro do manto abriam-se outros dois panejamentos tendo no meio um brasão menor, que continha mais um brasão amantado ainda menor. [...] — E você aí, que se mantém tão limpo... — disse Carlos Magno, que, quanto mais durava a guerra, menos respeito pela limpeza encontrava nos paladinos. — Eu sou — a voz emergia metálica do interior do elmo fechado, como se fosse não uma garganta mas a própria chapa da armadura a vibrar, e com um leve eco — Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Cobentraz e Sura, cavaleiro de Selimpia Citeriore e Fez! — Aaah... — fez Carlos Magno, e do lábio inferior, alongado para a frente, escapou-lhe também um pequeno silvo, como quem diz: “Se tivesse de lembrar o nome de todos estaria frito!”. Mas logo franziu as sobrancelhas. — E por que não levanta a celada e mostra o rosto? O cavaleiro não fez nenhum gesto; sua direita enluvada com uma manopla férrea e bem encaixada cerrou-se mais ainda ao arção da sela, enquanto o outro braço, que regia o escudo, pareceu ser sacudido por um arrepio.

Companhia das Letras

Você lerá um fragmento de O cavaleiro inexistente, novela de cavalaria escrita em 1959 pelo italiano Italo Calvino (1923-1985). O livro conta as aventuras de um cavaleiro do imperador francês Carlos Magno. Ambientada no período medieval, a narrativa chama a atenção do leitor ao deixar transparecer a tradição subvertida, a imprecisão da realidade, a concepção de caos e de desordem. Nessa novela de cavalaria, o autor rediscute os mitos da cavalaria e transforma os heróis em palermas. O protagonista da narrativa é um cavaleiro que ganha notoriedade por apresentar-se com uma bela armadura, de um branco sem mácula. Nada de mais, não fosse o fato de o dito cavaleiro ser dotado de consciência e voz, mas sua armadura estar vazia. Na verdade, ele não existe, a não ser pela enorme consciência que tem de si mesmo. Essa característica é o que cria a ambígua identidade de Agilulfo, um dos cavaleiros de Carlos Magno.

Esta edição de bolso foi lançada em 2005.

Carlos Magno (742-814): em latim, Carolus Magnus (Carlos, o Grande), foi rei dos francos de 768 a 814 e “imperador dos romanos” de 800 a 814. Foi uma figura decisiva no desenvolvimento da civilização da Europa ocidental. couraça: armadura de metal ou couro, usada por soldados sobre o peito e as costas para proteger-se de golpes inimigos. encimado: elevado. fímbria: franja, aba de veste. manopla: luva de ferro. nuance: gradação de cor. paladino: cavaleiro errante da Idade Média, cada um dos 12 pares de Carlos Magno.

Leitura e literatura

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Mondadori Collection/UIG VINTAGE/ Mondadori Editorial/Latinstock

— Falo com o senhor, ei, paladino! — Italo Calvino (1923-1985) nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba, insistiu Carlos Magno. — Como é que não onde seus pais, cientistas italianos, estavam de passagem. Em mostra o rosto para o seu rei? 1941, matriculou-se na Faculdade de Agronomia de Turim. Atraído A voz saiu límpida da barbela. pela Resistência Italiana contra os nazistas, Calvino publicou obras — Porque não existo, sire. nas quais o pensamento da Resistência Italiana aparece com a — Faltava esta! — exclamou o imperanarração de histórias que o escritor colheu durante sua participação dor. — Agora temos na tropa até um cavanos conflitos. Há forte influência do neorrealismo em seus primeiros leiro que não existe! Deixe-nos ver melhor. textos. Terminada a guerra, Calvino mudou-se para Turim. Concluiu Agilulfo pareceu hesitar um momeno doutorado em Letras com tese sobre Joseph Conrad. O reconheto, depois com mão firme e lenta ergueu a cimento internacional começou viseira. Vazio o elmo. Na armadura branca a partir de 1950 com a trilogia com penacho iridescente não havia ninO visconde partido ao meio guém. (1952), O barão nas árvores — Ora, ora! Cada uma que se vê! — disse (1957) e O cavaleiro inexisCarlos Magno. — E como é que está servindo, tente (1959). Sua literatura é se não existe? sincera, delicada e extrema— Com força de vontade — respondeu mente ágil, visto que foi, apesar Agilulfo — e fé em nossa santa causa! das muitas mudanças na carreira — Certo, muito certo, bem explicado, é e nas escolhas literárias, um assim que se cumpre o próprio dever. Bom, humanista, mantendo sempre para alguém que não existe está em exceItalo Calvino, em 1979. uma postura ética e generosa. lente forma! Agilulfo era o último da fila. O imperador terminara a revista; girou o cavalo e afastou-se rumo ao acampamento real. Já velho, tendia a eliminar da mente questões complicadas. CALVINO, Italo. O cavaleiro inexistente. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 9-10.

FAÇA NO CADERNO

1. Como o narrador apresenta o cavaleiro? A que público se destina a obra? 2. O cavaleiro de Italo Calvino se apresenta de maneira inusitada, embora se comporte como um verdadeiro cavaleiro. Que alterações da linguagem, como palavras, expressões e frases, você pode levantar para reconstruir a sequência narrativa (começo, meio e fim) da história? 3. Ser um cavaleiro e não existir são situações contraditórias, o que resulta em uma construção irônica. Esse procedimento fica evidente ao leitor quando este reconhece que o cavaleiro invisível se contrapõe ao cavaleiro visível das novelas de cavalaria. Qual é o sentido desse diálogo entre os dois textos?

Tristão e Isolda: uma paixão trágica A seguir, você lerá o trecho final do último capítulo da lenda medieval Tristão e Isolda. A lenda conta que Tristão de Leão tinha sido criado por seu tio Marcos, rei da Cornualha, o qual o enviara à Irlanda, a fim de pedir em seu nome a mão de Isolda, a Loura. Por engano, Tristão e Isolda beberam uma poção mágica com a propriedade de acender um amor irresistível e eterno. Por lealdade ao rei, tentaram se afastar um do outro, mas não conseguiram, mesmo depois que passou o efeito do filtro do amor. Foi uma paixão trágica: Isolda casou com Marcos, mas continuou a sentir muita saudade de Tristão e queria reencontrá-lo. Você vai ler o sentimento vivido pela outra Isolda, mulher com quem Tristão acabou se casando, sem amor. Tristão, doente e cansado, por vezes queixa-se, por vezes suspira por Isolda que tanto deseja. Torce as mãos e as lágrimas correm. Neste desgosto, nesta angústia, vê a mulher avançar para ele; esta se lembra de um pérfido artifício e diz-lhe: “Kaherdin está a chegar! Avistei a nau ao longe no mar. Estou certa de que é a sua. Deus queira que vos traga uma nova da qual tireis reconforto!” Ao ouvir estas palavras, Tristão sobressalta-se e pergunta: “Bela amiga, estais absolutamente certa de que é a nau de Kaherdin?” “Não duvideis; reconheci-a bem.” “Dizei-me, peço-vos, não mo escondais: de que cor é a vela que esvoaça na verga?” Isolda responde numa voz que deseja segura: “A vela é preta!” Tristão não

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responde nada. Volta-se para a parede e diz: “Isolda, não quisestes vir para junto de mim! Por vosso amor tenho de morrer hoje!” Depois, após um curto instante, acrescenta numa voz apagada: “Não posso reter a vida mais tempo.” Por três vezes, pronunciou “Isolda, meu amor!”; a quarta, entregou a alma a Deus. No mesmo momento, o vento levantou-se no mar: conduziu sem tardar até à margem a nau de Kaherdin. Antes de qualquer outra pessoa, Isolda, a loura, desceu a terra. Ouve grandes lamentos elevaram-se nas ruas de Karhaix e o dobre que soa nos campanários das igrejas. Pergunta aos transeuntes a razão por que tocam os sinos, por quem chora todo aquele povo. Um velho responde-lhe: “Bela dama, que Deus me ajude! Aconteceu nesta terra uma grande infelicidade: Tristão, o bravo, o franco, morreu! Acaba de falecer na cama de uma ferida de que nenhum médico o pôde curar.” TRISTÃO E ISOLDA: lenda medieval celta de amor. São Paulo: Martin Claret, 2006. p. 143. FAÇA NO CADERNO

1. Neste trecho, o conflito da narrativa vem marcado com o uso dos discursos diretos. a) Identifique-os. b) Justifique o efeito de sentido desse recurso linguístico para a construção do discurso narrativo. 2. Um importante elemento do discurso narrativo é o aspecto temporal. Identifique como a natureza se transformou nos últimos momentos de Tristão e as ações realizadas pelas duas Isoldas.

Em cena

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A leitura e a discussão do texto integral permitem a você um encontro com a linguagem das novelas de aventura escritas em diferentes épocas. Indicamos a seguir um livro que merece sua atenção. Ele, em geral, surpreende os leitores não só pelo enredo, mas também pela maneira como foi escrito. Combine com o professor e com seus colegas uma roda de conversa sobre a releitura do mundo medieval feita a partir de um olhar contemporâneo.

Imago Editora

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• As brumas de Avalon: a senhora da magia (livro 1) Marion Zimmer Bradley, novelista estadunidense, escreveu narrativas em prosa, históricas ou lendárias, do rei Artur e de seus fiéis cavaleiros. As narradoras das aventuras são mulheres que contam o conflito insolúvel entre a velha religião de Avalon (ilha sagrada dos celtas, país da eterna juventude, onde acreditavam estar morto ou dormindo o rei Artur) e a nova religião, o cristianismo. A principal narradora é Morgana, bruxa ou fada, que, sem ser correspondida, se apaixona por Lancelote, grande amor da mulher do rei, Gwenhwyfar.

Na trama dos textos As origens do gênero narrativo Leia o trecho a seguir, extraído do livro A demanda do Santo Graal. Trata-se do capítulo XXXIX, intitulado “A barca misteriosa — O torneio forte e maravilhoso”. A demanda do Santo Graal, uma das narrativas mais conhecidas do século XIII, foi traduzida de um original francês. A história se inicia em Camalote, capital do reino de Logres, conhecida como a região da Bretanha, reino do rei Artur e dos 150 cavaleiros da Távola Redonda. Os cavaleiros estavam dispostos a enfrentar todo tipo de aventura à procura do Santo Graal, cálice no qual foram recolhidas as últimas gotas do sangue de Cristo na cruz. Leitura e literatura

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Morris & Co. 1895-96. Tapeçaria. 695 cm  244 cm. Birmingham Museum and Art Gallery, Birmingham

Quando Boorz partiu da abadia, uma voz lhe disse que fosse ao mar, porque Persival o esperava lá. Ele partiu como o conto o tem já relatado. E quando chegou à beira-mar, a formosa nave coberta de um veludo branco aportou e Boorz desceu e encomendou-se a Nosso Senhor, e entrou e deixou seu cavalo fora. E assim que entrou, viu que a nave partiu tão depressa da praia, como se voasse. E olhou pela nave e nada viu, que a noite estava muito escura; e encostou-se a bordo e rogou a Nosso Senhor que o guiasse a tal lugar onde sua alma pudesse salvar. E depois que fez sua oração, deitou-se a dormir. E de manhã, quando se despertou, viu na nave um cavaleiro armado de loriga e de brafoneiras. E depois que o olhou, reconheceu-o e tirou logo seu elmo e foi logo abraçá-lo e fazer com ele maravilhosa alegria. E Persival ficou maravilhado, quando o viu vir em sua direção, porque não podia entender quando entrara na nave. E, por isso, quando o reconheceu, ficou tão alegre que não poderia mais. E ergueu-se e abraçou-o e recebeu-o como devia. E começou um ao outro a contar suas aventuras, que lhes aconteceram desde que entraram na demanda. Assim se encontraram os amigos na barca que Deus lhes preparara e esperavam as aventuras que lhes quisesse enviar. E Persival disse que lhe não faltava sua promessa, exceto Galaaz.

A conquista: a visão do graal para sir Galahad, sir Bors e sir Persival, 1895-1896. Tapeçaria de Morris&Co.

Mas ora deixa o conto a falar deles e torna a Galaaz, porque há muito brafoneira: peça de armadura tempo que se calou dele. que cobria a parte superior Conta a estória que o bom cavaleiro, depois que se separou de Persival e do braço. o livrou dos vinte cavaleiros que o perseguiram por causa da donzela, entrou elmo: peça de armadura medieval que protegia no grande caminho da floresta e andou muitas jornadas, às vezes para cá, a cabeça. às vezes para lá, como a ventura o levava. E depois que andou muito tempo loriga: vestimenta feita de pelo reino de Logres em muitos lugares onde lhe diziam que havia de acabar tiras de couro superpostas e aventuras, voltou-se para o mar, como lhe deu vontade. tão ajustadas entre si que se Um dia lhe aconteceu que a ventura o levou diante de um castelo, onde tornava impossível a uma arma havia um torneio forte e maravilhoso e havia muita gente de um lado e de atravessá-las. outro; e da mesa redonda, havia lá muitos, uns que ajudavam os de dentro e outros os de fora, e não se reconheciam pelas armas que tinham trocado. Mas naquela hora que chegou Galaaz, estavam os de dentro tão desbaratados, que não esperavam senão a morte. E Tristão, que a ventura trouxera àquele torneio e que ajudava os de dentro, sofrera já tanto que tinha já muito grandes quatro feridas, porque viam que era melhor cavaleiro que nenhum dos outros; e não havia quem dos outros lhe tanto mal fizesse como Galvão e Heitor, que eram do outro lado e não o reconheciam e por isso se defendia tão vivamente, que todos os que viam ficaram maravilhados. Galaaz estava já muito perto da porta e viu diante de si um cavaleiro muito ferido, que saíra do torneio e ia fazendo tão grande lamento, que maior não vistes. E Galaaz se chegou a ele e perguntou-lhe por que fazia tão grande lamento. — Por quê? disse ele, pelo melhor cavaleiro do mundo que vejo morrer por grande desgraça, porque todo o mundo está contra ele, como vedes, e ainda não quer deixar o torneio. — E qual é? Disse Galaaz. E lho mostrou. — Por Deus, disse Galaaz, verdadeiramente ele é muito bom cavaleiro. Assim Deus vos salve, dizei-me como tem nome.

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— Senhor, disse ele, tem nome dom Tristão. almofre: parte da malha da — Em nome de Deus, disse Galaaz, eu o conheço muito bem. Agora me teriam armadura que cobria a cabeça e por mau, se o não fosse ajudar. sobre a qual era colocado o elmo. arção: armação da sela de Então deixou-se correr a eles e meteu Gilfrete por terra; depois, Heitor; montaria. depois, Sagramor; depois Lucão. E depois que lhe quebrou a lança, meteu cutilada: golpe desferido mão à espada como quem sabia bem dela ajudar-se, e meteu-se onde estava com espada. a maior luta, e começou a derribar cavaleiros e cavalos, e fazer tão grande maravilha de armas, que quantos o viam se maravilhavam. E Galvão disse a Heitor e aos outros seus companheiros, que já cavalgaram: — Por esta cabeça, este é Galaaz, o bom cavaleiro. Ora será louco quem mais o esperar, porque a seu golpe não pode resistir arma. E ele isto dizendo, aconteceu que chegou Galaaz a ele, como a ventura o trazia, e deu-lhe uma cutilada que lhe cortou o elmo e o almofre e o couro e a carne até a testa, mas aconteceu-lhe bem que não foi a ferida mortal. E Galvão, que bem cuidou ser morto, deixou-se cair em terra. E Galaaz que não pôde segurar seu galope, alcançou o cavalo pelo arção dianteiro, de modo que o cortou por meio das espáduas, e o cavalo caiu morto perto de seu senhor. Quando Heitor viu este galope, maravilhou-se e afastou-se, porque bem entendeu que seria loucura esperar mais. E Sagramor disse então: — Por boa fé, agora bem posso dizer que este é o melhor cavaleiro que alguma vez vi. Nunca acrediteis em mim, se este não é Galaaz, aquele que há de dar cabo às aventuras do reino de Logres. — Sem falha, é, disse Heitor. E nisto falando, Galaaz viu que os de fora começaram a fugir, e os do castelo iam atrás deles, lançando mão deles a seu prazer. E quando Galaaz viu que os de fora estavam já de tal modo desbaratados, que não podiam mais recuperar, partiu dali tão ocultamente, que ninguém o percebeu, exceto Tristão. Aquele verdadeiramente o seguiu de longe, porque naquele dia viu nele tão grande bondade de cavalaria, que disse que jamais estaria alegre até que soubesse quem era. Assim foram ambos tão escondidamente, que os do ajuntamento não puderam saber o que fora feito deles. E Galvão, que ficou tão ferido do golpe, que não cuidou escapar vivo, disse a Heitor: — Por Deus, dom Heitor, ora vejo que é verdade o que me disse Lancelote diante de todos, no dia de Pentecostes, que, se experimentasse tirar a espada da pedra, me acharia mal, antes que o ano passasse, e seria por aquela espada mesma. E, sem falha, esta é aquela espada com que me ele feriu. E vejo que me aconteceu como foi predito. MEGALE, Heitor (Textos sob os cuidados de). A demanda do Santo Graal: manuscrito do século XIII. São Paulo: T. A. Queiroz: Edusp, 1989. p. 214-216.

A demanda do Santo Graal: o discurso narrativo A demanda do Santo Graal pertence ao gênero das novelas de cavalaria, narrativas introduzidas em Portugal durante o reinado de Afonso III (1245-1279) que ganharam imensa popularidade durante o século XIV. Esse gênero narrativo é de caráter místico e simbólico, e as aventuras estão marcadas pela espiritualidade cristã. Há forte influência de uma ordem religiosa católica chamada “Ordem de Cister”, em que a castidade é a marca da perfeição cavaleiresca. FAÇA NO CADERNO

1. Na composição da narrativa, dois elementos organizam o texto: o espaço e a personagem. a) Identifique os espaços por onde circulam as personagens. b) Como o elemento mágico aparece no espaço? c) Quando ocorre a magia? d) Quais são os cavaleiros da Távola Redonda citados no fragmento? e) Quem é o homem que vence os adversários? Quais são suas principais virtudes? 2. No imaginário das narrativas de cavalaria, alguns espaços assumem papel simbólico, como a barca misteriosa. Explique o sentido desse lugar na história lida. Leitura e literatura

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3. Há um entrelaçamento de episódios, deixando o leitor diante de uma história recontada pela voz do próprio episódio. Para organizar a narrativa da cavalaria, há algumas expressões como “ora deixa o conto” ou “Conta a estória”. Com que finalidade esses elementos linguísticos são usados? 4. No texto, aparece uma linguagem marcada pela oralidade, o que deixa a aventura dos cavaleiros da Távola Redonda mais viva. Que passagens do texto recuperam a linguagem oral?

De onde vem a novela de cavalaria? As novelas de cavalaria mais populares abordam assuntos da Bretanha, mas “a história da vida cotidiana não se detém em fronteiras, sobretudo nos séculos XII e XIII, em que todos os países da cristandade ocidental vivem ao ritmo da mesma civilização, e em que a história da França e a da Inglaterra, mais do que em qualquer outra época, encontram-se intimamente ligadas”, conforme afirma Michel Pastoureau, em A vida cotidiana no tempo dos cavaleiros da Távola Redonda, publicado pela Companhia das Letras, em 2001. Compor narrativas é redigir situações ocorridas no passado. Quando se lê um texto, pode-se perguntar: Quem o escreveu? Para quem? Em que tempo e espaço se deu a ação? O autor cria um narrador para que ele reconstrua o passado que viveu, em situações reais ou na sua imaginação. Uma narrativa que nasceu no século XIII é a novela de cavalaria, produzida numa sociedade feudal, composta de senhores e vassalos, servos e vilões, padres e cavaleiros. Nos textos, em geral, os espaços estão em torno de castelos, mosteiros, terras abandonadas, florestas e mares. O gênero novela de cavalaria foi muito difundido na Idade Média. Dom Quixote de la Mancha, por exemplo, é o mais conhecido cavaleiro andante da literatura ocidental. Por ser um tanto desastrado, é chamado de “cavaleiro da triste figura”. Leia o início do capítulo VIII do romance Dom Quixote de La Mancha, intitulado “Do bom sucesso que teve o valoroso Dom Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recordação”. Quando nisto iam, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento, que há naquele campo. Assim que Dom Quixote os viu, disse para o escudeiro: — A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor do que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da Terra. — Quais gigantes? — disse Sancho Pança. — Aqueles que ali vês — respondeu o amo —, de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas. — Olhe bem Vossa Mercê — disse o escudeiro —, que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e o que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós. — Bem se vê — respondeu Dom Quixote — que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha. Dizendo isto, meteu esporas ao cavalo Rocinante, sem atender aos gritos do escudeiro, que lhe repetia serem sem dúvida alguma moinhos de vento, e não gigantes, os que ia acometer. Mas tão cego ia ele em que eram gigantes, que nem ouvia as vozes de Sancho bem reconhecia, com o estar já muito perto, o que era; antes ia dizendo a brado: — Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe. CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de La Mancha. Tradução de Viscondes de Castilho e Azevedo. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 54-55. FAÇA NO CADERNO

1. Um dos elementos que organizam a narrativa é o espaço onde circulam as personagens. Identifique-o e explique como ele se transforma para D. Quixote. 2. Nesse fragmento, a fala de D. Quixote a seu escudeiro Sancho Pança serve para contrastar duas visões diferentes da mesma realidade. a) Que combates cada um deles enfrentou? b) Como o diálogo serviu para caracterizar a fantasia de D. Quixote? 104

Capítulo 10 – O discurso narrativo: histórias de aventuras e desventuras

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Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (UFMG) Miguel de Cervantes, um dos grandes expoentes renascentistas, pretendia com seu livro Dom Quixote: a) denunciar o papel submisso da mulher, representado pela heroína Dulcineia. b) exaltar os valores da cavalaria, da honra, do herói, imortalizados na figura de Dom Quixote. c) fazer uma crítica aos valores medievais, satirizando-os nas figuras de Dom Quixote e Sancho Pança. d) mostrar a inutilidade da luta contra a Igreja, utilizando a imagem de Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento. e) satirizar a figura do monarca absoluto, ao entronizar Sancho Pança como rei da imaginária ilha da Cocanha.

2. (FMU/Fiam/Faam-SP) Nas mais importantes novelas de cavalaria que circularam na Europa medieval, principalmente como propaganda das Cruzadas, sobressaem-se: a) as namoradas sofredoras, que fazem bailias para atrair o namorado ausente. b) os cavaleiros medievais, concebidos segundo os padrões da Igreja Católica (por quem lutam). c) as namoradas castas, fiéis, dedicadas, dispostas a qualquer sacrifício para ir ao encontro do amado. d) os namorados castos, fiéis, dedicados, que, entretanto, são traídos pelas namoradas sedutoras. e) os cavaleiros sarracenos, eslavos e infiéis, inimigos da fé cristã.

3. (Fuvest-SP) [...] o desejo de dar uma forma e um estilo ao sentimento não é exclusivo da arte e da literatura; desenvolve-se também na própria vida: nas conversas da corte, nos jogos, nos desportos... Se, por conseguinte, a vida pede à literatura os motivos e as formas, a literatura, afinal, não faz mais do que copiar a vida. (Johan Huizinga, O Declínio da Idade Média).

Na Idade Média, essa relação entre literatura e vida foi exercida principalmente pela: a) vassalagem b) guilda c) cavalaria d) comuna e) monarquia

4. (Fuvest-SP) A personagem Dom Quixote representava um ideal de vida não mais dominante no tempo em que Miguel de Cervantes escreveu sua famosa obra (1605-1615). a) Explique esse ideal. b) Por que tal ideal deixou de ser dominante?

5. (Unesp-SP) Podemos afirmar que as obras A divina comédia, escrita por Dante Alighieri no início do século

XIV, e Dom Quixote, escrita por Miguel de Cervantes no início do século XVII, a) parodiaram as novelas de cavalaria e defenderam a hegemonia da Igreja Católica e da aristocracia, respectivamente. b) derivaram de registros orais e foram apenas organizadas e sistematizadas na escrita de seus autores. c) contribuíram para a unificação e o estabelecimento da forma moderna dos idiomas italiano e espanhol. d) assumiram forte conotação anticlerical e intensificaram as críticas renascentistas à conduta e ao poder da Igreja Católica. e) retrataram o imaginário da burguesia comercial ascendente na Itália e na Espanha do final da Idade Média.

Leitura e literatura

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Gênero oral e escrito: seminário Roberto Negreiros

Capítulo 11

Texto, gênero do discurso e produção

NEGREIROS, Roberto. Pesquisa Fapesp, São Paulo: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, n. 95, jan. 2004. p. 12.

A charge de Negreiros retrata a percepção pública de uma exposição oral. Pelo semblante das pessoas na plateia, podemos ter pistas importantes sobre o grau de compreensão, envolvimento e concordância dos espectadores com o que está sendo apresentado. Na escola, é comum vivermos situações como essa durante a apresentação de trabalhos de pesquisa ou análise de livros e filmes, por exemplo. Todos os olhares dirigidos para nós fazem com que as pessoas pareçam “crescer”, como a imagem sugere. Será que essa sensação de tamanha exposição está relacionada ao quanto estamos preparados para falar em público? A exposição oral faz parte do cotidiano escolar. Com frequência, professores de diferentes disciplinas propõem alguma apresentação, de forma clara e objetiva, sobre um assunto específico. Neste capítulo, você produzirá um seminário escolar. Para essa atividade, serão apresentadas as fases de planejamento, execução da pesquisa e exposição oral.

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(Des)construindo o gênero O seminário é um gênero oral que circula em diferentes instituições, como escolas, universidades, empresas, igrejas etc. É preciso saber quem propõe a atividade, qual é sua finalidade e para quem se destina a apresentação. Na esfera escolar, na maioria das vezes, a proposta parte do professor, que pretende realizar um trabalho envolvendo os alunos numa pesquisa específica. Nessa atividade, espera-se dos estudantes que demonstrem oralmente seu conhecimento, despertando o interesse do público sobre o assunto exposto. Na hora de planejar um seminário, pense no público-alvo. Seus colegas de classe podem aprender com você, e a troca de informações será um momento de construção de conhecimento. O seminário tem como característica o envolvimento tanto entre os participantes como entre os alunos e as fontes pesquisadas.

Preparando o seminário Vamos começar a organizar o seminário esclarecendo que a exposição é oral, mas nos basearemos em textos escritos para compor a atividade. Três etapas distintas entrecruzam-se nessa preparação: • pesquisa; • texto-roteiro de apresentação; • avaliação. Professor(a), é importante comunicar aos alunos quais recursos ficarão disponíveis para a seleção do material e preparação dos textos orais e escritos.

Como fazer a pesquisa?

Neste cartum do argentino Quino, nota-se o comportamento das pessoas que estão em uma biblioteca. Quino/ Fotoarena

FAÇA NO CADERNO

1. A imagem mostra seis pessoas. Indique suas atitudes. 2. Qual delas chama sua atenção? Quantas vezes você copiou textos de uma obra e não anotou as referências bibliográficas? É importante anotar as referências de todos os textos que for utilizar em seu trabalho, sejam eles verbais ou visuais. Quando o assunto do seminário já estiver definido, é hora de coletar informações em bibliotecas, na internet, em videotecas etc. Para cumprir as finalidades interativas desse gênero, o primeiro passo é investigar a importância do assunto focalizado e estabelecer relações com fatos da atualidade, de maneira que essas informações sejam valorizadas.

QUINO. Não fui eu. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 108.

Texto, gênero do discurso e produção

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Primeiro passo: consulta a fontes de referência Dicionários ajudam a ter noções básicas sobre um assunto; enciclopédias geralmente apresentam verbetes mais voltados a correntes de pensamento, inventos, países e pessoas conhecidas em suas áreas de pesquisa. Muitos dicionários e enciclopédias podem ser consultados na internet ou em CD-ROM. Informações mais detalhadas exigem consulta a outras fontes de referência, como livros especializados ou artigos de revistas científicas, que fornecem dados mais atualizados.

Segundo passo: orientação bibliográfica Não basta indicar uma lista de livros relacionados com o tema. Toda vez que estiver pesquisando, observe o padrão adotado para citações de livros, revistas, enciclopédias e dicionários. Há diversos modelos de apresentação das fontes bibliográficas pesquisadas. Para sistematizar e uniformizar essas referências, geralmente se adota a orientação regulamentada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que teve sua última atualização em 2002. Para orientar seu trabalho, seguem alguns modelos de citação de referência bibliográfica, com base em orientações da ABNT. Livros Modelo SOBRENOME DO AUTOR, Nome. Título do livro: subtítulo. Local de publicação (cidade): editora, ano de publicação. volume (se houver). Exemplo CANFORA, Luciano. A biblioteca desaparecida: histórias da biblioteca de Alexandria. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. Capítulos de livro Modelo SOBRENOME DO AUTOR DO CAPÍTULO, Nome. Título do capítulo. In: SOBRENOME DO AUTOR DO LIVRO, Nome. Título do livro: subtítulo. Local de publicação (cidade): editora, ano de publicação. volume (se houver). Páginas inicial-final do capítulo. Exemplo VIEIRA, Yara Frateschi. Do cancioneiro de Joam Soarez Coelho. In: MONGELLI, Lênia Márcia de Medeiros; MALEVAL, Maria do Amparo Tavares; VIEIRA, Yara Frateschi. Vozes do trovadorismo galego-português. Cotia: Íbis, 1995. p. 115-147. Periódicos (revistas) Modelo TÍTULO DO PERIÓDICO. Local de publicação (cidade): editora, volume, número, mês e ano. Exemplo CIÊNCIA HOJE. São Paulo: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, v. 34, n. 199, nov. 2002. Artigos de periódico (revista) Modelo SOBRENOME DO AUTOR, Nome. Título do artigo. Título do periódico, local de publicação (cidade), volume, número, páginas inicial-final, mês e ano. Exemplo DAL PINO, Elizabete Gouveia. As fornalhas do universo. Ciência Hoje, São Paulo, v. 27, n. 160, p. 30-37, maio 2001. Artigos de revista em meio eletrônico Modelo SOBRENOME DO AUTOR, Nome. Título do artigo. Título do periódico, local de publicação (cidade), volume, número, mês e ano. Nome ou título do caderno, seção ou suplemento. Disponível em: <...> (endereço do site). Acesso em: ... (data de acesso). Exemplo SILVA, M. M. L. Crimes da era digital. Net, Rio de Janeiro, nov. 1998. Seção Ponto de Vista. Disponível em: <www.brazilnet.com.br/contexts/ brasilrevista.htm>. Acesso em: 10 nov. 2001.

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Artigos de jornal Modelo SOBRENOME DO AUTOR, Nome. Título do artigo. Título do jornal, local de publicação (cidade), dia, mês e ano. Nome ou título do caderno, seção ou suplemento, páginas inicial-final. Exemplo DURHAN, E. É preciso amadurecer. Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 dez. 2002. Brasil, p. A3. Artigos de jornal em meio eletrônico Modelo SOBRENOME DO AUTOR, Nome. Título do artigo. Título do jornal, local de publicação (cidade), dia, mês e ano. Disponível em: <...> (endereço do site). Acesso em: ... (data de acesso). Exemplo DURHAN, E. É preciso amadurecer. Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 dez. 2002. Disponível em: <http://www1. folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0612200310.htm>. Acesso em: 15 dez. 2002. Enciclopédias, dicionários e guias 1. Modelo NOME DA ENCICLOPÉDIA. Local de publicação: Editora, ano. volume. Exemplo ENCICLOPÉDIA DELTA. Rio de Janeiro: Delta, 1975. v. 5. 2. Modelo SOBRENOME DO AUTOR DO CAPÍTULO, Nome. Título do capítulo. Título da enciclopédia. Local de publicação: Editora, ano. Páginas inicial-final do capítulo. Exemplo FREIRE, J. G. Pater famílias. Enciclopédia luso-brasileira Cultura Verbo. Lisboa: Editorial Verbo, 1971. p. 237. 3. Modelo SOBRENOME DO AUTOR, Nome. Título do dicionário. Edição. Local de publicação: Editora, data. volume. Exemplo HOUAISS, A. (Ed.). Grande dicionário português/francês. 9. ed. Lisboa: Bertrand, 1989. v. 2. 4. Modelo TÍTULO. Local: Editora, ano. Total de páginas, ilustrado, quando for. Série, se existir. Notas especiais. Exemplo GUIA ABRIL DO ESTUDANTE. São Paulo: Ed. Abril, 2000. 262 p., il. Enciclopédias e dicionários em meio eletrônico 1. Modelo NOME DA ENCICLOPÉDIA. Local de publicação: Editora, ano. volume. Disponível em: <...> (endereço do site). Acesso em: ... (data de acesso). Exemplo ENCICLOPÉDIA DELTA. Rio de Janeiro: Delta, 1975. v. 5. Disponível em: <www.bussolaescolar.com.br/enciclopedias. htm>. Acesso em: 15 dez. 2002. 2. Modelo NOME do verbete. In: NOME da enciclopédia. Local de publicação: Editora, ano. volume. Disponível em: <...> (endereço do site). Acesso em: ... (data de acesso). Exemplo INVASÃO holandesa no Brasil. In: ENCICLOPÉDIA Delta. Rio de Janeiro: Delta, 1975. v. 5. Disponível em: <www. bussolaescolar.com.br/enciclopedias.htm>. Acesso em: 25 jul. 2013. Texto, gênero do discurso e produção

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Terceiro passo: anotações da leitura Tome nota dos dados retirados das obras consultadas ou dos sites visitados. A leitura e a compreensão do material recolhido e seus apontamentos servirão, posteriormente, como base para o texto final a ser apresentado.

Quarto passo: citações Ao copiar trechos de textos verbais retirados dos documentos pesquisados, empregue o sinal de aspas para indicar que é uma citação de outra pessoa, e não seu próprio texto. É necessário indicar a fonte: (SOBRENOME DO AUTOR, ano, página). Por exemplo: (LAJOLO, 1986, p. 24). No final do trabalho, essa obra aparecerá com a referência bibliográfica completa. A pesquisa em fontes de referência é uma importante etapa na preparação do seminário.

Como redigir o texto-roteiro? É o momento de organizar um esquema de apoio para o que será exposto, pois o seminário é oral e não se deve simplesmente ler o texto preparado. É preciso considerar os dados que você deseja apresentar e o tempo determinado para a exposição. Para que seus colegas fiquem interessados em sua apresentação, procure não ultrapassar o tempo estipulado.

Planejando as etapas da exposição 1. Organização do texto a ser exposto Selecione os tópicos principais do material pesquisado relativos ao tema estabelecido. Em seguida, organize-os, pondo a sequência de ideias em ordem clara e coerente. 2. Montagem do esquema Prepare um esquema com a visão geral das etapas para guiar os participantes durante a exposição; se quiser, levante questões que você considera importantes para a discussão, formulando perguntas curtas que motivem o raciocínio argumentativo dos participantes. Exemplo de esquema Introdução • título: nome dado ao trabalho; • tema: assunto pesquisado; • delimitação do tema: aspectos do tema a serem abordados; • objetivos: o que se pretende demonstrar com o trabalho; • bibliografia: fontes pesquisadas (revistas, livros, dicionários, enciclopédias etc.). Desenvolvimento (apresentação e análise dos aspectos levantados na pesquisa) • síntese das principais ideias; • utilização de recursos, como citações, gráficos etc.; • proposta de questões que motivem a participação dos ouvintes. Observações: a) os aspectos devem estar organizados para mostrar a ordem lógica do raciocínio aos ouvintes; b) devem ser obedecidos os critérios de sequenciação textual: ordem cronológica, importância das ideias, causas e consequências. Conclusão (apresentação do ponto de vista do grupo sobre as questões expostas) 3. Uso de suporte Selecione os suportes da exposição oral, como slides, imagens, mapas, gráficos, tabelas etc. Cartazes, anotações na lousa ou transparências em retroprojetor precisam ser bem executados, pois funcionam como um guia de visualização da estrutura do texto e auxiliam seus colegas e o professor a entender o tema em destaque; parágrafos longos devem ficar de fora desse roteiro, uma vez que os tópicos funcionam como estratégia para encaminhar sua exposição oral.

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Como avaliar a apresentação? Esta etapa final conta com a participação de toda a classe. É o momento de verificar como foi a apresentação de cada grupo. Considere os seguintes itens para seus comentários avaliativos: • interação inicial com o público;

• abertura de espaço para discussão com o público;

• introdução do tema e delimitação do assunto;

• uso dos suportes;

• desenvolvimento do conteúdo temático;

• postura corporal dos expositores.

• síntese do trabalho;

Linguagem do gênero Entonação expressiva e recursos linguísticos Nos seminários, a apresentação oral constitui um texto, que é produto da interação entre você e o público, isto é, colegas e professor. A interação verbal, que ocorre em uma situação concreta, envolve três componentes: o falante, o ouvinte e o enunciado. A principal característica dessa atividade é o diálogo. Uma vez que se conhece o interlocutor, é necessário que o texto se dirija a ele, participante ativo da exposição oral. Essa apresentação tem marcas determinadas pela simultaneidade entre o que falar e como falar. Na construção do texto oral, as escolhas linguísticas devem ajudar a esclarecer as ideias a serem debatidas. Na exposição oral, são muitas as manifestações de hesitação do falante, traduzidas em enunciados inconclusos, repetições, alongamentos, pausas preenchidas ou não etc., e ainda variados recursos gestuais e mímicos que integram toda essa interação conversacional. Procure evitar repetições constantes de palavras ou expressões que só servem para preencher o tempo e nada acrescentam ao conteúdo do seminário: “tipo”, “né?”, “tá”, “meu!”, “entende?”, “sabe?”, “numas, né?”, “ahn?”, “OK”. As expressões de reformulação ajudam a explicar de outra forma uma palavra ou expressão: “isto é”, “por exemplo”, “em outras palavras”, “quer dizer”, “vocês sabem o que é isso?”. As expressões linguísticas permitem a coesão de ideias: “além disso”, “por um lado... por outro...”. Considere a sinalização não verbal de seu ouvinte. Expressões faciais de dúvida ou conversas paralelas indicam que é hora de você retomar a atenção de seus colegas, explicando claramente o conceito ou ilustrando o que está sendo dito com imagens, mapas, entrevistas ou filmes. O seminário é uma apresentação dialogada; o fato de seus colegas prestarem atenção e fazerem indagações ajuda na construção participativa da atividade. É importante estabelecer o momento da interação com perguntas, lembrando que as interrupções não devem estar presentes durante a exposição oral. Elas ocupam a parte final da exposição, com a troca de ideias e discussões de questões que surgiram ao longo da exposição. Observe, nos quadros a seguir, uma síntese dos recursos linguísticos e não linguísticos adequados a uma exposição oral. Recursos de entonação expressiva Use

Evite

Tom de voz audível e fala pausada

Sussurros e fala “apressada”, “atropelando” palavras

Postura corporal ereta e receptiva

Ombros encolhidos, braços cruzados e cabeça baixa

Expressão facial e contato visual com a plateia

Expressões depreciativas, como caretas e mímicas

Gestualidade que acompanha as explicações de cartazes e slides

Gestos desenfreados e inadequados a uma situação formal

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Recursos linguísticos Use

Evite

Texto-roteiro para organização da estrutura composicional da apresentação

Apresentação sem organização textual prévia

Organizadores textuais Expressões informais como: (A) Introdução: “o objetivo desta apresentação é”; “para começar”; “em “tipo”, “tá”, “oi”, “meu!”, “né?”, primeiro lugar”; “vamos apresentar...” etc. “numas”, “ahn?”, “OK” etc. (B) Desenvolvimento: “em segundo lugar”; “em terceiro lugar”; “depois”; “em seguida”; “por outro lado”; “além disso” etc. (C) Conclusão: “por fim”; “para encerrar”; “para resumir alguns pontos”; “finalizando” etc. Expressões de reformulação: “por exemplo”, “ou seja”, “isto é”, “quer Expressões informais como: “né?”, dizer” etc. “entende”, “sabe, né?” etc. Vocabulário formal adequado a uma exposição oral escolar

Praticando o gênero

Vocabulário chulo, gírias etc.

Professor(a), a classificação etária do filme é a partir de 16 anos; contudo, há cenas de nudez e sexo que devem ser avaliadas antes da exibição para os alunos.

Exposição oral sobre filme Sugerimos que você assista ao filme O nome da rosa e elabore um seminário cujo tema geral será: imagens e acontecimentos que marcaram a vida cultural e intelectual da Idade Média. Reúna-se em grupo e defina com o professor o tema que sua equipe deverá apresentar. A seguir, algumas sugestões:

Umberto Eco: amor pela arte medieval Umberto Eco (1932-2016) nasceu em Alexandria, na Itália. Escreveu ensaios sobre as relações entre a criação artística e os meios de comunicação, como: Obra aberta (1962), Diário mínimo (1963) e A estrutura ausente (1968).

Roberto Serra/Iguana Press/Getty Images

Assistir a um filme pode ser uma atividade didática. Aproveite a sessão e obtenha as informações para sua exposição oral. Anote os dados apresentados ao longo do filme para fazer um bom seminário. Antes de ver O nome da rosa, que foi baseado no romance homônimo do escritor italiano Umberto Eco, leia o painel de textos na próxima página. Os textos o ajudarão a compreender o filme e, assim, ter mais condições de preparar o seminário.

Editora Record

• apresentação dos locais e das personagens; • apresentação da visão de mundo expressa no contexto religioso, científico e social (concepções de beneditinos, franciscanos, dominicanos; comportamento de Salvatore e Rosa); • apresentação da visão de mundo captada pelas variações linguísticas (vocabulário, sintaxe etc.); • relação entre os objetos de uso cotidiano de cada personagem (livros, instrumentos etc.) e o contexto social; • efeito das imagens externas (estrada, pátio etc.) e internas (ambientes fechados) nas sete narrativas dos crimes.

Umberto Eco, em 2012.

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Filme de Jean-Jacques Annaud. O nome da rosa. EUA. 1986

Texto 1

O NOME da rosa. Direção de Jean-Jacques Annaud. Itália: CDI, 1986. 1 DVD (128 min), son., color. O filme tem a participação de Sean Connery, F. Murray Abraham e Christian Slater.

Texto 2 Umberto Eco: imagem de monge envenenado me fascinou Os meus romances nasceram todos de uma ideia inicial que era pouco mais do que uma imagem, que tomou conta de mim e me fez ter o desejo de ir em frente. “O Nome da Rosa” nasceu quando fui atingido pela imagem do assassinato de um monge em uma biblioteca. Já que nas “Notas ao Nome da Rosa” escrevera que tinha vontade de envenenar um monge, essa fórmula provocativa foi tomada em sentido literal, desencadeando uma série de perguntas sucessivas sobre por que eu queria cometer esse crime. Mas eu não tinha realmente vontade de envenenar um monge (e de fato não envenenei nenhum): eu estava fascinado pela imagem de um monge envenenado enquanto lia um livro na biblioteca. Não sei se estava sob a influência da poética tradicional dos livros policiais anglo-saxões, e por isso o crime devesse ser cometido em um vicariato. Talvez estivesse partindo de algumas emoções que experimentei aos 16 anos, durante um curso de exercícios espirituais em um monastério beneditino, onde passeava entre clausuras góticas e romanas e depois entrava em uma biblioteca sombria onde, sobre um leitoril, achei abertos os “Acta Santorum”, nos quais aprendi que não existia somente, como me fizeram acreditar, um abençoado Umberto, festejado no dia 4 de março, mas também um santo bispo Umberto festejado no dia 6 de setembro, que convertera um leão em uma floresta. Mas se vê que, naquele momento, enquanto folheava aquele in-fólio aberto verticalmente diante de mim, em um silêncio soberano, entre lâminas de luz que entravam por vitrais opacos quase talhados nas paredes que terminavam em ângulos agudos, tive um momento de inquietude. Não sei. O fato é que aquela imagem, do monge assassinado durante a leitura, a um certo ponto me exigiu construir alguma outra coisa ao seu redor. O resto nasceu pouco a pouco, para dar sentido àquela imagem, inclusive a decisão de situar o acontecimento na Idade Média. Primeiro achei que deveria se passar no nosso tempo; depois decidi que, visto que conhecia e amava a Idade Média, melhor seria transformá-la em teatro da minha história. O resto veio sozinho, pouco a pouco, lendo, revendo imagens, reabrindo armários onde se acumulavam havia 25 anos as minhas fichas medievais, escritas por razões totalmente diferentes. FAÇA NO CADERNO

UMBERTO Eco: imagem de monge envenenado me fascinou. Tradução de Gustavo Steinberg. Folha de S.Paulo, São Paulo, 14 jun. 2003. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u34069.shtml>. Acesso em: 11 maio 2016. Folhapress.

1. Com seus colegas de grupo, preparem a exposição oral retomando as etapas estudadas: pesquisa, elaboração do texto-roteiro e avaliação. 2. Apresentem o seminário, atentando-se à linguagem utilizada, adequação ao tempo e a outros critérios estabelecidos pelo professor. 3. Avaliem o trabalho com o professor, considerando todas as etapas desenvolvidas. Texto, gênero do discurso e produção

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Capítulo 12

Língua e linguagem

A língua portuguesa no mundo Vamos ler um fragmento da reportagem “A riqueza da língua”, publicada na revista Veja em setembro de 2007. O português está entre os vencedores da globalização. É uma língua que vem crescendo na internet: nos últimos sete anos, o número de falantes da língua portuguesa que navegam na rede aumentou em 525% (embora ainda represente apenas 4% dos usuários). O acordo ortográfico tem a intenção manifesta de incrementar o “valor de mercado” do português. Desde o início criticada dos dois lados do Atlântico, a unificação da língua portuguesa foi uma causa cara ao filólogo brasileiro Antônio Houaiss, morto em 1999. O acordo foi firmado em 1990 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), então com sete membros — Brasil, Portugal, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Mais tarde, o Timor-Leste também faria sua adesão. Importante: o acordo só alterou a forma de grafar algumas palavras! A língua continua a mesma. TEIXEIRA, Jerônimo. A riqueza da língua. Veja, São Paulo: Ed. Abril, ed. 2025, ano 40, n. 36, 12 set. 2007. p. 93. Jerônimo Teixeira/Abril Comunicações S.A.

http://www.cplp.org/

Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa foi criada em 1996 em Lisboa para valorização e difusão dessa língua. Para conhecer as atividades e os objetivos dessa comunidade, acesse: <www.cplp.org>.

Página inicial do site da CPLP. Acesso em: 4 mar. 2016.

Acordo Ortográfico Em 1990, os países lusófonos que compunham na época a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (conforme identificados no fragmento da reportagem acima) propuseram um acordo para a unificação da grafia da língua portuguesa, com o intuito de difundir internacionalmente essa língua. Para que esse acordo entrasse em vigor, era necessário que ao menos três dos países envolvidos o ratificassem. O Brasil o fez em 2004; Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, em 2006. Entretanto, em respeito a Portugal, o Brasil aguardou que esse país também ratificasse o acordo, o que aconteceu em 2008. Assim, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 entrou em vigor no dia 1o de janeiro de 2009, mas só passou a ser obrigatório no Brasil a partir de 1o de janeiro de 2016. FAÇA NO CADERNO

1. O Acordo Ortográfico chegou em meio a muita polêmica. Depois de ler o fragmento da reportagem, o texto sobre a CPLP e o texto sobre o Acordo, é possível notar que a discussão vai além da unificação da língua. Apresente duas informações da reportagem que mostrem se tratar de uma questão política. 2. Pesquise e responda: quais foram as principais mudanças propostas pelo Acordo que entrou em vigor em janeiro de 2009? 114

Capítulo 12 – A língua portuguesa no mundo

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Explorando os mecanismos linguísticos Onde se fala o português? Observe o mapa da geografia da língua portuguesa, a terceira língua mais falada no mundo ocidental. Ele mostra onde estão distribuídos os maiores grupos de falantes dessa língua.

Renato Bassani

Língua portuguesa no mundo 0° Círculo Polar Ártico

PORTUGAL CABO VERDE

Trópico de Câncer

OCEANO PACÍFICO

GUINÉ-BISSAU OCEANO PACÍFICO

BRASIL

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE ANGOLA

Trópico de Capricórnio

OCEANO ATLÂNTICO

Círculo Polar Antártico

Meridiano de Greenwich

Equador

OCEANO ÍNDICO

TIMOR-LESTE

MOÇAMBIQUE

0

2 565

CÂMARA NOTÍCIAS. Congresso aprova Comissão Mista da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/POLITICA/459711-CONGRESSO-APROVA-COMISSAO-MISTADA-COMUNIDADE-DOS-PAISES-DE-LINGUA-PORTUGUESA.html>. Acesso em: 26 abr. 2016.

As comunidades (países ou regiões) de língua portuguesa estão distribuídas em vários continentes. Abrangem um número de falantes que ultrapassa os 214 milhões. Em algumas dessas comunidades, o português europeu convive com dialetos regionais; em outras, mescla-se a idiomas nativos formando dialetos, como os crioulos africanos. Há ainda comunidades de imigrantes, nos Estados Unidos, no Japão, no Paraguai, na Europa e na Argentina.

Plurilinguismo: rumos da língua portuguesa Vamos “viajar” pelos países de língua portuguesa para conhecer os lugares, o contexto político e o social, o povo e as várias línguas em uso. Você encontrará, nesse roteiro, um texto, em língua falada ou escrita, de um autor de cada país da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Primeira escala: Cabo Verde A República de Cabo Verde é um arquipélago constituído de dez ilhas e oito ilhéus, agrupados em dois conjuntos definidos pela posição dos ventos. Curiosamente, quase não há verde naquelas formações rochosas. Na Ilha de Santiago fica a capital, Praia. Colonizada no século XV, Cabo Verde tornou-se Província Ultramarina Portuguesa em 1951 e conquistou sua independência em 1975. Atualmente, é uma democracia moderna com crescimento nos indicadores demográficos e sociais: apresenta boas condições de saúde, educação e qualidade de vida. A língua oficial é o português, mas há dialetos crioulos, mistura de português e línguas nativas, com pitadas de francês. A população tem familiaridade com o francês, o inglês e o espanhol. Língua e linguagem

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0° Mar Mediterrâneo

cer

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de Gree nwich

Trópico de C ân

van der Meer Marica/Alamy/Latinstock

EUROPA

OCEANO ATLÂNTICO

EGITO (parte asiática)

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Renato Bassani

Cabo Verde

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ÁSIA

ÁFRICA Equador 24º O

Santo Antão Santa Luzia

São Vicente

0

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OCEANO ÍNDICO

Sal São Nicolau

OCEANO ATLÂNTICO

Boa Vista Trópico de Capricórnio

Maio 15º N

Brava

Fogo

0

PRAIA

990

Capital de país

ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 45.

Feira livre em São Vicente, Cabo Verde, em 2014.

Leia a letra da canção a seguir, gravada em 1992, em Paris, pela cantora cabo-verdiana Cesaria Evora (19412011). Ela canta em uma língua familiar aos falantes de português: o crioulo, um dos dialetos falados em Cabo Verde. Algumas músicas de Cesaria Evora podem ser encontradas no site: <http://eba.im/5fzjnm>. Acesso em: 7 mar. 2016. Luz dum estrela

Luz de uma estrela

Já’me tem luz dum estrela E na nha caminhada Dinha lua ta vigiá Pa tudo di bom Ser v’rado prata Pa um manto leitoso Acolhê nhas posse

Eu tenho a luz de uma estrela E na minha caminhada Minha madrinha lua me vigia Pra tudo de bom Virar prata Para que um manto leitoso Acolha meus passos

Bem divagarim Brisa ta sussurá-me Qu’ess dor di meu Ta ser sepultode Na imensidâo di bonança Dess note tâo clara

Bem devagarinho A brisa me sussurra Que essa minha dor Será sepultada Na imensidão da bonança Dessa noite tão clara

E antom C’tudo nha paz reencontrada Um ta podê segui rumo Di nha estrela Qu’já pô ta brilhá na ceu Di nhá infortuna Pa d’ze’me c’ma nhá sina Ja mudá

E então Com minha paz reencontrada Poderei seguir o rumo Da minha estrela Que já está a brilhar no céu Do meu infortúnio Pra dizer que minha sina Mudou

EVORA, Cesaria. Luz dum estrela. Intérprete: Cesaria Evora. In: ______. Miss perfumado. [S.l.]: BMG; Lusafrica; RCA, BM650, 1992. 1 CD. Faixa 5.

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Tradução livre das autoras.

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Miss perfumado. Cesaria Evora. Onesuch Records, 1992

FAÇA NO CADERNO

1. Depois da leitura do texto, percebemos que alguns substantivos, adjetivos e pronomes são iguais aos falados no Brasil, traços que apontam para nossa comunidade linguística. Faça uma leitura do texto em voz alta. Observe estas formas verbais: “acolhê”, “sussurá-me”, “podê”, “segui”, “brilhá”, “mudá”. Compare-as com nosso modo de pronunciar os verbos no infinitivo e tire uma conclusão. 2. Que outras formas linguísticas você reconhece nessa letra? Compare-as com as da língua portuguesa. 3. O assunto da letra da canção é característico das produções cabo-verdianas. Que sentimentos são cantados por Cesaria Evora?

Capa do CD Miss perfumado, de Cesaria Evora (1941-2011). A cantora nasceu em Mindelo, na Ilha de São Vicente, onde andava descalça, como se apresentava nos espetáculos.

A República da Guiné-Bissau tem, além da superfície continental, cerca de quarenta ilhas, que formam o Arquipélago de Bijagós, com reservas naturais. Sua capital é Bissau. Colônia portuguesa desde o século XV, Guiné-Bissau teve sua independência reconhecida em 1974. Hoje tem um presidente eleito democraticamente, mas ainda não se reconstruiu desde a guerra civil, entre as décadas de 1960 e 1970. O país vive da pesca e da agricultura, sendo o sexto produtor mundial de cacau. Tem uma região rica em petróleo, Casamansa, objeto de conflito com o país vizinho, o Senegal. A língua portuguesa, que é oficial, convive com línguas nativas.

Nicolas Thibaut/Photononstop/Glow Images

Segunda escala: Guiné-Bissau

Guiné-Bissau OCEANO ATLÂNTICO eenwic h

Mar Mediterrâneo

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EGITO (parte asiática)

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Trópico de C â

Crianças brincam na rua em Bolama, Guiné-Bissau, em 2010.

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Renato Bassani

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Leia um dos poemas de José Carlos Schwartz, de Guiné-Bissau. Do que chora a criança Do que chora a criança? É dor no seu corpo Do que chora a criança? É sangue que cansou de ver

Caçadores desconhecidos Enganados metralharam a tabanca Caçadores, pretos como nós Enganados metralharam a bolanha

Um pássaro grande chegou Com ovos de fogo O pássaro grande veio Com os ovos da morte

Queimou-se o mato Queimaram-se as casas Perdurou a dor na nossa alma

bolanha: vasto terreno alagadiço, geralmente à beira de um rio, em que se cultiva arroz; arrozal (Guiné-Bissau). tabanca: povoação africana, aldeia (Guiné-Bissau).

SCHWARTZ, José Carlos. Do que chora a criança. Versão portuguesa. In: APA, Livia; BARBEITOS, Arlindo; DÁSKALOS, M. A. Poesia africana de língua portuguesa: antologia. Rio de Janeiro: Lacerda: Academia Brasileira de Letras, 2003. p. 184.

• Considerando que Guiné-Bissau atravessou um período de guerra civil, qual é o sentido de “pássaro grande” e “ovos de fogo” no poema? O poeta e músico José Carlos Schwartz (1949-1977) nasceu em Bissau e fez seus estudos na sua cidade natal e em Dacar, capital do Senegal. Muito jovem foi deportado para a Ilha das Galinhas como preso político. Após a independência de seu país em 1970, tornou-se o Diretor do Departamento de Arte e Cultura do Comissariado da Juventude e Desportos e Encarregado de Negócios da Guiné-Bissau em Cuba. Participou nas antologias de poesia guineense. Aos 27 anos, morreu em um acidente de aviação em Cuba.

Terceira escala: São Tomé e Príncipe São Tomé e Príncipe é um arquipélago com duas ilhas de origem vulcânica. São Tomé, a capital, é uma região de florestas tropicais quase intocadas, com relevo montanhoso. Suas construções conservam traços da arquitetura europeia. Os portugueses chegaram lá no século XV. Entre os séculos XVII e XVIII, o país serviu de entreposto de escravos capturados na África Ocidental para as lavouras do Brasil. Conseguiu a independência em 1975 e hoje é uma república democrática. Tem tradição cultural na dança e no teatro, com forte índole musical. As paisagens paradisíacas e o povo hospitaleiro são propícios ao turismo — ainda pouco desenvolvido —, principalmente para a prática de mergulho.

Mar Mediterrâneo

ÁSIA

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EGITO (parte asiática)

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Trópico de C âncer

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Ilha de São Tomé

Michael Runkel/Alamy/Latinstock

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São Tomé e Príncipe

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Capital de país

ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 45.

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Mercado Central em São Tomé e Príncipe, em 2015.

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O poema a seguir foi escrito pela poetisa são-tomense Manuela Margarido (1925-2007). Autora que lutou pela independência do arquipélago, sua poesia foi de denúncia frente à miséria de seu povo nas roças de café e de cacau. Em 1957, publicou Alto como o silêncio. Roça A noite sangra no mato, ferida por uma aguda lança de cólera. A madrugada sangra de outro modo: é o sino da alvorada que desperta o terreiro. É o feito que começa a destinar as tarefas para mais um dia de trabalho. A manhã sangra ainda: salsas a bananeira com um machim de prata;

capinas o mato com um machim de raiva; abres o coco com um machim de esperança; cortas o cacho de andim com um machim de certeza. E à tarde regressas à senzala; a noite esculpe os seus lábios frios na tua pele E sonhas na distância uma vida mais livre, que o teu gesto há-de realizar.

andim: fruto do dendezeiro; dendê. machim: facão de mato.

MARGARIDO, Manuela. Roça. Versão portuguesa. In: APA, Livia; BARBEITOS, Arlindo; DÁSKALOS, M. A. Poesia africana de língua portuguesa: antologia. Rio de Janeiro: Lacerda: Academia Brasileira de Letras, 2003. p. 273.

FAÇA NO CADERNO

1. Identifique os marcadores de tempo que estão presentes em “Roça”. Relacione-os aos acontecimentos narrados. 2. O que o poema revela da vida em São Tomé?

Quarta escala: Moçambique Situada na costa sul-oriental da África, no oceano Índico, a República de Moçambique tem como capital Maputo. Colônia portuguesa, depois província ultramarina, tornou-se independente em 1975 após luta por libertação iniciada em 1962. É banhada por mais de 60 rios. A maioria da população é de origem banto, com grupos étnicos e idiomas diferentes. A língua oficial é o português.

EUROPA 0°

Fedor Selivanov/Shutterstock.com

Renato Bassani

Moçambique Mar Mediterrâneo

Trópico de C âncer

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Capital de país

ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 45.

Mercado local, em Maputo, 2012. O mercado local é uma das atrações turísticas de Maputo.

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A crônica a seguir, do escritor Mia Couto, tem duas personagens: o funcionário brasileiro e um amigo moçambicano do autor. O texto convida a uma discussão em torno da língua. África com kapa? — Escreve-se com kapa e dabliú! O brasileiro não entendeu. — Como? O meu amigo sorriu benevolente. Puxou a barriga para cima do cinto e dispôs a ajudar o funcionário da migração a preencher nossos papéis de entrada. Pegou na caneta e escreveu o nome, recheado de “k”, “w” e “y”. O anfitrião brasileiro franziu o sobreolho. Remirou as fichas e, certamente, ressentiu-se de o terem corrigido. Ele tinha escrito o nome do meu compatriota, empregando as normas ortográficas da língua portuguesa. Usou as letras “c”, “u” e “i” onde o meu amigo insistia em emendar para kapa, dabliú e ipslon. — Não percebo por que escreve assim — teimou o funcionário. Temi que o meu companheiro de viagem puxasse de resposta arrogante. Mas ele praticou a sua gorda paciência. — Porque assim é que é a maneira africana de escrever. E antes que o recepcionista retomasse fôlego para mais pergunta, o moçambicano adiantou basta filosofia. Foi um discurso. Ali mesmo, entre malas e empurrões, pronunciou-se: era urgente romper com as imposições ortográficas da língua dos colonizadores. A revolução, exclamou ele, é para isso mesmo, para romper espartilhos. Uma dama que passava escoutou a sentença e, desconfiada, apressou-se a sair dali. O meu compatriota continuava, inflamado. — Temos que assumir as nossas raízes africanas, respeitar as nossas tradições. [...] Atrás de nós já uma considerável bicha de pessoas se impacientava. Alguns comentavam: parece que é gente ligada a esse negócio do Acordeo Ortográfico. Uma voz se ergueu nervosa: — E será que vão assinar o acordo aqui, no balcão do aeroporto? Os dois contendores resolveram adiar o despacho final da querela. O funcionário pegou então nos meus papéis e disse, levantando o rosto em desafio: — Pronto, também emendo o seu. Mas é só por esta vez, viu? E com gesto enérgico, riscou a ficha. No formulário, em letras garrafais, escreveu: MYA KOWTO. COUTO, Mia. África com kapa? In: ______. Cronicando. 5. ed. Lisboa: Caminho, 2000. p. 171-173.

• Comente a afirmação: “era urgente romper com as imposições ortográficas da língua dos colonizadores.”. Um dos escritores moçambicanos mais conhecidos no Brasil é Mia Couto (1955). Jornalista, professor e biólogo, publicou contos como Vozes anoitecidas (1987), Estórias abensonhadas (1994), O fio das missangas (2004), além de romances como Terra sonâmbula (1992), O último voo do Flamingo (2004), O outro pé da sereia (2006), Antes de nascer o mundo (2009), Mulheres de cinza (2015), dentre outros.

FAÇA NO CADERNO

Francois Guillo/Getty Images

Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra O último voo do flamingo, de Mia Couto.

Mia Couto, em 2015.

Quinta escala: Angola País de área maior que a de Portugal, Espanha e França juntos, Angola tem 2 milhões de habitantes em Luanda, sua capital. Os portugueses chegaram lá no século XV. Foi colônia de Portugal até 1975, quando teve reconhecido seu direito de independência. Em 1961, entrou em uma guerra civil de quase 40 anos, o que exterminou cerca de 1 milhão de pessoas. Hoje tem um regime semipresidencialista e tenta se reconstruir. É rica em petróleo e diamantes, mas vive assolada pela fome, ameaçada pela aids e aterrorizada pelas minas terrestres (estima-se que existam de 5 a 8 milhões delas). A língua nacional é o português, contudo são faladas outras línguas no país.

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EUROPA

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Angola

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OCEANO ÍNDICO LUANDA

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ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 45. Joe Klamar/Getty Images

Capital de país

Crianças brincam em rua de Luanda, Angola, em 2010.

Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra Mayombe, de Pepetela.

Um dos maiores escritores de literatura angolana é Pepetela (1941), pseudônimo de Artur Carlos Mauricio Pestana dos Santos, que recebeu o Prêmio Camões de Literatura em 1997. Entre suas principais obras estão: As aventuras de Ngunga (1972), Yaka (1984), Mayombe (1980), O quase fim de mundo (2008), O tímido e as mulheres (2013). O fragmento a seguir foi extraído do romance As aventuras de Ngunga, narrativa que tem como personagem principal um menino que, após ter perdido os pais na Guerra da Independência, assume uma visão crítica da cultura de seu povo. Língua e linguagem

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Vida nova

alambamento: dote.

Começou a chinjanguila. Todos lá estavam, povo, guerrilheiros, responsáchinjanguila: nome de uma dança de roda dos povos veis. Dos kimbos vizinhos tinham vindo cumprimentar o Comandante Mambunda e laxaze. vinga. Chipoya também assistia, sentado numa cadeira. Estavam lá todos, kimbo: povoado. menos Uassamba. Ngunga saiu dali, ajudado pela noite e pela confusão, e voltou ao kimbo. Uassamba esperava-o. Meteram-se na mata, iluminados pela Lua cheia. Sentaram-se num tronco caído e ele pegou-lhe na mão. Ficaram assim calados, durante muito tempo, sentindo só o calor da mão do outro. Ngunga já não estava inquieto. Estava calmo, como quando chegava o momento de fazer o que era necessário fazer. Ela falou primeiro: — Ngunga? Estive a pensar no que me disseste. Não pensaste bem. Não posso fugir contigo, embora gostasse. Os meus pais vão ter de pagar o alambamento que receberam, e eles são velhos. Não lhes posso fazer isso... — Ora, tens pena deles? Não te venderam a um velho? É bem feito para eles. Se gostassem de ti, como bons pais, deixavam-te escolher o marido, não te obrigavam a... — É o costume, Ngunga! Eles pensam que fazem bem. Eu não posso fazer-lhes isso. Ele não respondeu. Tinha vontade de gritar, de insultar o Chipoya, os pais de Uassamba, os velhos que defendiam os costumes cruéis, os novos que não tinham coragem de os destruir. A voz dela era doce, a acariciá-lo. O nome dele tornava-se mel na boca dela: — Ngunga? Tu és novo demais para te casares. Seria mau para ti. Agora seria bom, mas, mais tarde, ias arrepender-te. Também não te posso fazer isso. Temos a mesma idade, mas eu sou mais velha. Devo ver o que é bom e o que é mau para ti. Gostava de ir, é verdade. Mas não posso. Tu partirás, verás outras coisas, outras terras, outras raparigas. O pior é para mim, que fico aqui a aturar o Chipoya. Entre nós os dois, sou a mais infeliz, podes ter a certeza. Não valia a pena falar mais. Tudo já estava decidido. Ele ainda era fraco para combater contra todos e mais as leis dos rés esfomeados. Ngunga estava nu, sem uma arma, enfranquecido pela sede. Não podia enfrentar o inimigo. Mavinga dissera que não era vergonha retirar... — Que vais fazer? — perguntou Uassamba. — Vou para uma escola. Calaram-se. As palavras não tinham sentido, Ngunga sempre desconfiara das palavras. Sobretudo em certos momentos. O tempo passou sem que dessem conta. A chinjanguila continuava. A noite escondia-os, só a lua vinha espiá-los, passando entre os ramos das árvores. De repente, Ngunga falou: — Mudei muito agora, sinto que já não sou o mesmo. Por isso mudarei também de nome. Não quero que as pessoas saibam quem eu fui. — Nem eu? — Tu podes saber. Só tu! Se um dia quiseres, podes avisar-me para eu vir buscar-te. Escolhe o meu novo nome. Uassamba pensou, pensou, apertando-lhe a mão. Encostou a boca ao ouvido dele e pronunciou uma palavra. Mas fê-lo tão baixinho que o barulho da chinjanguila a cobriu e só Ngunga pôde perceber. Nem as árvores, nem as borboletas noturnas, nem os pássaros adormecidos, nem mesmo o vento fraquinho, puderam ouvir para depois nos dizer. Ngunga só se despediu de Mavinga. Explicou-lhe por que queria ir secretamente. Pediu-lhe para não contar a ninguém aonde ia e não voltar a falar de Ngunga, que tinha morrido nessa noite inesquecível. E não revelou o seu novo nome ao Comandante. Partiu sozinho para a escola. Um homem tinha nascido dentro do pequeno Ngunga.

FAÇA NO CADERNO

PEPETELA. Vida nova. In: LAJOLO, Marisa (Org.). Nós e os outros: histórias de diferentes culturas. São Paulo: Ática, 2000. p. 73-76.

1. Observe que o texto é escrito em língua portuguesa por um narrador angolano, que recupera palavras de língua africana, como “chinjanguila”, “kimbos” e “alambamento”, marcando a presença de uma cultura. Em que medida essa cultura influenciou a opção de vida de Ngunga? 2. No primeiro diálogo entre Ngunga e Uassamba, identificamos o uso de uma construção linguística que difere da língua falada no Brasil. Qual é ela? 122

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Sexta escala: Timor-Leste Uma das ilhas do arquipélago malaio, o Timor divide-se em uma porção ocidental, pertencente à Indonésia, e em outra oriental, com capital em Díli. O Timor-Leste fica entre a Indonésia e a Austrália e tem uma área menor que a do estado brasileiro de Sergipe. Foi de domínio português desde o início do século XVI. Em 1975, quando as outras colônias portuguesas alcançavam o direito à autodeterminação, o Timor-Leste entrou em guerra civil, pois a Indonésia queria incorporá-lo à porção ocidental. O uso da língua portuguesa foi proibido. Quase um terço da população morreu na guerra. Só em 2002, despertando mobilização mundial, o Timor-Leste obteve a independência e o português voltou a ser a língua oficial, ao lado do tétum, mistura de malaio, melanésio e português.

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ATLAS geográfico escolar. 6. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. p. 45. Valentino de Sousa/AFP

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Vendedores no mercado em Dili, Timor-Leste, em 2013.

Língua e linguagem

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O poema a seguir trata da situação em que se encontrava a nação timorense nos anos de ocupação da Indonésia. Foi escrito por Xanana Gusmão (1946), poeta, artista e guerrilheiro da resistência timorense à dominação indonésia. Símbolo da luta do povo de Timor-Leste, tornou-se o primeiro presidente do país (2002-2006). Escreveu Timor-Leste: um povo, uma pátria (1994) e acredita ser a língua portuguesa um fator de identidade Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra Poesia do povo timorense. Gerações Nomes sem rosto corações esfaqueados de lembranças nas lágrimas de crianças chorando pelos pais... Mais do que a morte que os fez calar em cada gota de lágrima a cena cruel ... uma mãe que gemia sem forças seu corpo desenhava marcas da angústia esgotada Os farrapos que a cobriam rasgados no ruído da sua própria carne sob o selvático escárnio dos soldados indonésios em cima dela, um por um Já inerte, o corpo da mulher se tornou cadáver insensível à justiça do punhal que a libertara da vida enquanto... golpes de coronhadas se repercutiam nas gotas de lágrimas que iam caindo da mesma face das crianças

africana de língua portuguesa: antologia, de Maria Alexandre Dáskalos, Livia Apa e Arlindo Barbeitos.

Um pai se ofendera no último não da sua vida a mulher violada assassinada sob os seus olhos O cheiro da pólvora vinha de muitos furos daquele corpo que já não era corpo estendido sem forma de morte e... As lágrimas secaram nas lembranças das crianças veio o suor da luta porque as crianças cresceram Quando os jovens seios estremecem sob o choque eléctrico e as vaginas queimadas com pontas de cigarro quando testículos de jovens estremecem sob o choque eléctrico e os seus corpos rasgados com lâminas eles lembram-se, eles lembram-se sempre: A luta continuará sem tréguas! (Cipinang, 5 de Novembro de 1995)

GUSMÃO, Xanana. Gerações. [2010?]. Disponível em: <http://www.escritas.org/pt/t/2178/geracoes>. Acesso em: 6 abr. 2016.

1. De que trata o poema?

FAÇA NO CADERNO

Os textos que você acabou de ler não só trazem as marcas temporais, mas também assinalam as especificidades de cada terra, sua história de luta contra a dominação portuguesa e a imposição do idioma colonial. Os autores não se atêm a seus espaços individuais: cantam o amor, a dor, o sofrimento e a esperança de seu povo. A língua portuguesa usada nos textos é adotada nos vários países citados como língua oficial. No cotidiano do povo, porém, a realidade linguística é outra: a maioria da população desses lugares fala dialetos e línguas locais.

2. Depois de todas essas escalas, você diria que o português que falamos aqui é igual em todos os países de língua portuguesa?

Quer conhecer seus mais antigos antepassados? Segundo estudos comparativos, a língua mais antiga foi o indo-europeu, falado há aproximadamente 3 000 anos a.C., na Europa e na Ásia. Identifique no gráfico a seguir: a) o tronco familiar do português; b) nossas línguas irmãs, nascidas do latim.

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Folhapress

Uma família que não para de crescer No século III a.C., os romanos invadiram o ocidente da Península Ibérica e a tomaram dos antigos habitantes, entre os quais estavam os iberos, povo que deu o nome à região. Os peninsulares adotaram naturalmente a língua dos invasores. A mistura das duas línguas, que originou o romance, fez-se por meio do contato entre as pessoas do povo — portanto, da língua falada, o latim vulgar. No século V, bárbaros de várias nações invadiram a península e também absorveram o latim, já bastante alterado. No século VIII, vieram os árabes, de civilização superior. A língua oficial ficou sendo a árabe, mas os peninsulares continuaram falando o romance. Com o tempo, incorporaram do árabe muitos nomes de plantas, instrumentos, ofícios, medidas etc., o que constituiu os termos moçárabes. Os cristãos combateram os mouros nas Cruzadas, tentando libertar os territórios ocupados. Graças às Cruzadas constituíram-se os reinos de Leão, Castela e Aragão. Dom Henrique, conde de Borgonha, por seus serviços nas Cruzadas, ganhou de Dom Afonso VI, rei de Leão e Castela, a mão de sua filha Tareja e um território chamado Condado Portucalense. Em 1139, Dom Afonso Henriques, filho de Dom Henrique, proclamou-se rei de Portugal, que era o Condado Portucalense acrescido das regiões do Minho e do Tejo. Nessa região falava-se o dialeto galego-português, do qual o português foi se separando, de forma que, no século XII, já apareceram inscrições inteiramente em língua portuguesa falada. Foi a fase da língua portuguesa chamada de “histórica”. A ORIGEM DO PORTUGUÊS. Não por acaso, em 1143, Dom Afonso Henriques Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 mar. 1994. Ciência, p. 6-16. proclamou-se rei de Portugal. A partir do século XVI, o país empreendeu grandes conquistas marítimas e, com isso, anexou territórios por onde espalhou a língua portuguesa, que, em contato com outros hábitos linguísticos, fracionou-se em dialetos. Como você pode ver, língua e poder caminham juntos.

Mudanças linguísticas Os textos seguintes, que foram escritos em diferentes momentos históricos, serão usados na atividade Em cena, da página seguinte. O documento oficial do século XIII, em padrão escrito, ainda contém termos em latim, do qual se originou o português. As formas linguísticas são diferentes das atuais. A lenda produzida no século XIV apresenta a língua portuguesa de maneira menos distante do leitor de hoje. O texto do século XIX é o apêndice de um livro editado em 1898. Texto do século XIII Testamento de Elvira Sanches, escrito por tabelião ou escrivão In Christi nomine. Amen. Eu Eluira Sanchiz offeyro o meu corpo áás virtudes de Sam Saluador do moensteyro de Vayram, e offeyro co’no meu corpo todo o herdamento que eu ey em Centegãus e as três quartas do padroadigo d’essa eyglega e todo ho herdamento de Crexemil, assi us das sestas como todo u outro herdamento: que u aia u moensteyro de Vayram por em saecula saeculorum. Amen. SANTOS, Rubens Rodrigues. O português atual é fruto de longa evolução. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12 nov. 1978. p. 38.

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Texto do século XIV No texto a seguir, as palavras em itálico foram adaptadas, pois o caráter demasiado arcaizante desses termos no original comprometia a compreensão, como explicou a organizadora da antologia da qual o fragmento foi retirado. Lenda da dona pé de cabra

alão: grande cão de caça. armada: momento de espera da caça. em guisa que: de modo que. filhar: tomar. monteiro: caçador. penha: rocha. podenga: cadela doméstica. recudir: retirar-se. sinar: fazer o sinal da cruz; benzer-se.

De dom Diego Lopez, senhor de Biscaia, bisneto de dom From, e como casou com uma mulher que achou, andando a monte, a qual casou com ele com condiçom que nunca se benzesse e do que lhe com ela aconteceu. Dom Diego Lopez era mui bom monteiro e, estando um dia em sa armada e atendendo quando viria o porco, ouviu cantar muita alta voz uma mulher em cima de uma penha. E ele foi pera lá e viu-a ser mui fermosa e mui bem vistida e namorou-se logo dela mui fortemente e preguntou-lhe quem era. E ela lhe disse que era uma mulher de muito alto linhagem. E ele lhe disse que, pois era mulher de alto linhagem, que casaria com ele, se ela quisesse, ca ele era senhor daquela terra toda. E ela lhe disse que o faria, se lhe prometesse que nunca se santificasse; e ele lho outorgou e ela foi-se logo com ele. E esta dona era mui fermosa e mui bem feita em todo seu corpo, salvando que havia um pé forcado, como pé de cabra. E vivêrom grão tempo e houveram dous filhos e um houve nome Enheguez Guerra, e a outra foi mulher e houve nome dona... E quando comiam juntos, dom Diego Lopez e sa mulher, assentava ele a par de si o filho e ela assentava a par de si a filha, da outra parte. E um dia foi ele a seu monte e matou um porco mui grande e trouxe-o pera sa casa e pose-o ante si u estava comendo com sa molher e com seus filhos. E lançarom um osso da mesa e vierom a pelejar um alão e uma podenga sobre ele, em tal maneira que a podenga travou ao alão em a garganta e matou-o. E dom Diego Lopez, quando esto viu, teve-o por milagre e sinou-se e disse: — Santa Maria vale! Quem viu nunca tal cousa?... E sa mulher, quando o viu assi sinar, lançou mão na filha e no filho, e dom Diego Lopez travou do filho e nom lho quis leixar filhar; e ela recudiu com a filha por uma fresta do paço e foi-se para as montanhas, em guisa que a nom virom mais nem a filha. Nobiliário do Conde D. Pedro ou IV Livro de Linhagens. LENDA da dona pé de cabra. In: FERREIRA, Maria Ema Tarracha (Sel., int. e notas). Poesia e prosa medievais. 3. ed. [S.l.]: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1998.

Texto do século XIX Livro de apontamentos Para concluir Após a leitura deste appendice, não faltará quem acoime de extraordinária audácia a franqueza e sinceridade com que manifesto o meo pensamento. Isto não me incommoda, comquanto o leitor reconheça o meo desejo de provocar alguma discussão entre pessoas competentes para que luz se faça a respeito de tão momentoso assumpto. E desde já professo-me grato pelas observações que pro ou contra se me façam, promettedo tomal-as na devida consideração para uma próxima edição d’este meu pobre trabalho. Última parte do livro Exploração no norte de Mato Grosso: região do Alto Paraguay e Planalto dos Parecis: apontamentos de Historia Natural, Etnographia, Geographia e impressões, do Padre Nicoláo Badariotti, editado pela Escola Typ. Salesiana, de São Paulo. REVISTA BIBLIOGRÁFICA & CULTURAL. São Paulo: Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, n. 2, jun. 2000.

| Em cena |

FAÇA NO CADERNO

Como leitores e falantes do português do Brasil, observem e registrem o que mudou na ortografia e na sintaxe da língua portuguesa, comparando cada momento com o atual. Combinem com o professor a exposição oral das traduções de cada grupo para confrontá-las, levando em conta o gênero do texto, pois as expectativas de leitura são diferentes diante de um testamento (documento oficial), uma lenda (texto literário) e a conclusão de um livro de apontamentos (texto informativo).

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Capítulo 12 – A língua portuguesa no mundo

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Mudanças sonoras e gramaticais Vamos observar algumas mudanças mais de perto. Leia esta cantiga de maldizer de Pero Garcia Burgalês, escrita no terceiro quartel do século XIII, observando as palavras destacadas. Afinal, um texto da Idade Média foi escrito de forma diferente da atual. Para você entender a atividade proposta, consulte a tradução do poema.

Roi Queimado morreu com amor

Rui Queimado morreu de amor

em seus cantares, par Santa Maria,

em seus cantares, por Santa Maria,

por ua ˜ dona que gran ben queria;

por uma dama e porque queria

e, por se meter por mais trobador, por que lh’ ela non quis [o] bem fazer, feze-s’ el em seus cantares morrer; mais ressurgiu depois ao tercer dia.

Esto fez el por ua ˜ sa senhor

mostrar engenho de trovador. Como ela não lhe quis valer, fez-se ele morrer em suas cantigas, mas ressuscitou ao terceiro dia. Isso ele fez por sua amada a quem muito quer, mais eu diria:

que quer gran ben, e mais vos en diria:

preocupado com a mestria,

por que cuida que faz i maestria,

de seus cantares, tem o pendor

e nos cantares que faz, á sabor

de, embora depois de morto, voltar a viver.

se morrer i e dês i d’ar viver;

Isso só ele pode fazer

Esto faz el que x’o pode fazer,

porque outro homem não o faria.

mais outr’ omem per ren non-o faria. E já da morte não tem pavor,

senon sa morte mais la temeria, mais sabe ben, per sa sabedoria, que viverá, dês quando morto for, e faz-s’ em seu cantar morte prender, des i ar vive. Vedes que poder que lhi Deus deu, — mais quen o cuidaria!

E, se mi Deus a mi desse poder qual oj’ el á, pois morrer, de viver, já mais morte nunca (eu) temeria. TORRES, Alexandre Pinheiro (Org.). Antologia da poesia trovadoresca galego-portuguesa. 2. ed. Porto: Lello & Irmão, 1987. p. 123-124.

senão mil vezes a temeria. Próprio é da sua sabedoria viver quando morto for. Em seus cantares pode morrer

Lello & Irmão Editores

E non á já de sa morte pavor,

estando vivo. Maior poder obter de Deus não poderia. E se Deus me desse igual poder de, embora morto, poder viver nunca sentiria medo da morte. Tradução livre das autoras.

O texto acima fazia parte do cotidiano de falantes da Idade Média. Com o passar do tempo, o contato com diferentes culturas, em lugares diversos, provocou alterações nas formas arcaicas (antigas). Elas ocorreram a partir da fala.

1. Escreva as formas atuais correspondentes das palavras e expressões em destaque.

FAÇA NO CADERNO

2. Faça cinco agrupamentos de palavras e expressões que sofreram o mesmo tipo de mudança linguística e explique-as levantando hipóteses. Língua e linguagem

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Mudanças semânticas

Fausto Bergocce

As mudanças linguísticas não ocorrem somente no campo sonoro e gramatical. Com o passar do tempo, as palavras podem permanecer na língua com sentidos alterados. Note um exemplo de alteração de sentido na poesia do século XIII: “Esto fez el por ua ˜ sa senhor / que quer gran ben, e mais vos en diria: / por que cuida que faz i maestria”. A palavra “cuida” significava “medita, pensa”; hoje tem o sentido de “faz com atenção, preocupa-se, trata com cuidado”. As palavras também morrem quando perdem sua função de uso. Algumas palavras desaparecem, ao passo que outras são inventadas nos vários campos da atividade humana para nomear novas atividades ou fatos sociais: são os neologismos. Observe uma ocorrência de palavra inventada na charge abaixo. Humor e poesia

Arquivo pessoal

O paulista Fausto Bergocce (1952) é cartunista há mais de dez anos, e suas criações já apareceram em vários jornais de grande circulação. No Diário de S.Paulo, publica charges com frequência. É autor de livros como Sem perder a linha (1999) e Esqueçam o que ele desenhou (2002). Em seus trabalhos, costuma conciliar crítica de costumes e tom poético.

Fausto Bergocce. FAUSTO. Diário de S.Paulo, São Paulo, 22 jun. 2003. Opinião, p. A12. FAÇA NO CADERNO

1. Que elementos verbal e visual da charge lembram o passado? 2. Em que esses elementos contribuem para o sentido do texto? 3. A expressão “disk-lenha” é um neologismo, isto é, uma palavra nova, criada para expressar uma crítica social. Por que ela foi usada no texto? 4. Considerando que charge é um texto opinativo, explique a crítica feita. O escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967) é um dos mais conhecidos inventores de palavras; em seu caso, a motivação é criar mundos próximos do nosso. No conto “Pirlimpsiquice”, o narrador-personagem conta um episódio, vivido na escola, em que foi escolhido para ser “ponto” numa peça de teatro. Um imprevisto fez com que o texto ensaiado fosse substituído por outro, improvisado pelos alunos. A beleza da encenação provocou muitos aplausos na plateia. Essa transformação feliz explica o nome de “Pirlimpsiquice”: num passe de mágica, os alunos se entregaram à cena, tornando-se verdadeiros atores. Leia um fragmento de “Pirlimpsiquice” e observe que os neologismos usados estão ligados à vida das pessoas. [...] Cada um de nós se esquecera de seu mesmo, e estávamos transvivendo, sobrecrentes, disto: que era o verdadeiro viver. E era bom de mais, bonito — o milmaravilhoso — a gente voava, num amor, nas palavras: no que se ouvia dos outros e no nosso próprio falar. E como terminar? Então, querendo e não querendo, e não podendo, senti: que — só de um jeito. Só uma maneira de interromper, só a maneira de sair — do fio, do rio, da roda, do representar sem fim. Cheguei para a frente, falando sempre, para a beira da beirada. Ainda olhei, antes. Tremeluzi. Dei a cambalhota. De propósito, me despenquei. E caí. E, me parece, o mundo se acabou. [...] ROSA, João Guimarães. Pirlimpsiquice. In: ______. Primeiras estórias. 15. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 96.

5. Identifique os neologismos e explique os sentidos criados por eles no texto. A leitura do texto integral sem dúvida dará um sentido mais completo a essa passagem. Não deixe de conferir!

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Capítulo 12 – A língua portuguesa no mundo

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João Guimarães Rosa (1908-1967) foi médico, diplomata e um dos maiores escritores do século XX. Em seus neologismos mesclava palavras, aportuguesava formas latinas, invertia a ordem das sílabas, trocava o sufixo das palavras, adotava construções arcaicas, indígenas e da língua falada. Entre as muitas obras publicadas, temos: Sagarana (1946), Grande sertão: veredas (1956), Primeiras estórias (1962). Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, só tomou posse em 1967, morrendo três dias depois.

Folhapress

Porteiras abertas do interior de Minas

João Guimarães Rosa.

Sistematizando a prática linguística Como acontecem as mudanças nas línguas? Elas nem sempre são percebidas pelos falantes porque são lentas e graduais, só identificadas de tempos em tempos. Na língua usada pela coletividade, ocorrem variações num dado momento histórico. Aquelas que permanecem são incorporadas à língua escrita, entram para o dicionário, ganham status de língua padrão e marcam mudanças na evolução da língua. Essas mudanças ocorrem de forma diferente e com ritmo próprio em cada comunidade. Determinados grupos sociais trocam seus hábitos linguísticos, ao passo que outros preservam traços de estágios anteriores da língua. É o que acontece com muitas comunidades no interior do Nordeste e do Sudeste (São Paulo e Minas Gerais), menos expostas a influências linguísticas. Verifique no quadro a seguir alguns exemplos do linguajar brasileiro preservado por séculos. São um verdadeiro patrimônio linguístico. abastar = bastar

despois = depois

lançol = lençol

sobaco = sovaco

antão = então

dezanove = dezenove

luita = luta

teúda = tida

avoar = voar

dorminhar = dormir

manteúda = mantida

treição = traição

basculhar = vasculhar

entonces = então

pranta = planta

troncho = torto

dereito = direito

fruita = fruta

samear = semear

Como vimos, as mudanças na língua portuguesa são lentas; nascem de variações da fala consolidadas após um tempo de uso. Podem ocorrer por: • adição, perda ou troca de fonemas (unidades de som); • troca de lugar do fonema na palavra; • alterações na sintaxe (combinações entre as palavras da frase); • alterações semânticas: mudanças de sentido, nascimento (neologismo) e morte de palavras.

Usando os mecanismos linguístico-discursivos Palavras e expressões populares de língua portuguesa As questões a seguir foram publicadas no caderno Sinapse da Folha de S.Paulo. Confira seus conhecimentos. Com quantas letras se faz uma palavra? Veja se você conhece a origem de palavras e expressões populares da língua portuguesa [...].

1. O abraço de um amigo falso é chamado de: FAÇA NO CADERNO a) Abraço de pinguim, porque o bicho não consegue fechar as asas para dar um abraço de verdade. b) Abraço de tamanduá, porque, quando vê um inimigo, o tamanduá se ergue nas patas traseiras e abre as dianteiras, fingindo estar pronto para dar um abraço, a fim de, na verdade, cravar as unhas nas costas da ingênua vítima. c) Abraço de urso, porque o urso, falso como ele só, simula a gentil oferta de um abraço para comprimir a vítima até a morte. Língua e linguagem

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d) Abraço de jacaré, porque o animal, com aquelas patinhas ridículas, não abraça ninguém; na verdade, com sua bocarra, o que ele quer é jantar a presa rapidamente. 2. Qual é a origem da expressão “cor de burro quando foge”? a) Uma deturpação popular de “corro de burro quando (o burro) foge”. b) Um erro de tradução do inglês “blurred color” (cor borrada, manchada) para “cor de burro”, acrescentando-se a fuga do animal para enfatizar a borradura da cor. c) A impossibilidade de definir a cor de um burro quando ele foge. d) Uma brincadeira entre intelectuais portugueses que jocosamente traduziram, por aproximação sonora, um famoso verso de Paul Verlaine: “Cor de debut, quand il forge...”. 3. De onde veio a palavra “spa”, com o sentido de estabelecimento para tratamento de saúde? a) São as iniciais da frase latina “sanitas per aquas”, saúde pelas águas. b) São as iniciais do inglês “special personal assistance”, assistência pessoal especial. c) São as iniciais das cidades gregas de Salônica, Patra e Arta, que formavam o Triângulo da Eterna Juventude, famoso por suas águas medicinais. d) Veio do nome de uma famosa estância hidromineral da Bélgica. 4. De onde veio a palavra “colchão”? a) Do espanhol “colchón”, que significa “espuma”. b) De Colchone, nome da cidade italiana em que foram fabricados os primeiros colchões. c) Do inglês “coach on”, um amplo cercado coberto com uma grossa camada de feno utilizado no treinamento de cavaleiros, para aparar-lhes as quedas. d) É o aumentativo de “colcha”. 5. Qual é a origem da palavra “esparadrapo”? a) Do inglês “spare drape” (trapo disponível). b) Do croata “spa” (cobertura) + “ra” (sobre) + “drap” (ferida, corte). c) Do italiano “spare drappo” (rasgue o pano). d) Do francês “espoir drap” (pano da esperança). [...] 6. De onde veio a palavra “forró”? a) É a forma reduzida de “forrobodó”. b) Do inglês “for all” (para todos), com o sentido de ritmo universal. c) De “forro” (alforriado), com deslocamento da sílaba tônica; era a dança dos escravos libertados. d) Do masculino de “forroia” (égua velha), pela semelhança dos passos da dança com o cavalgar trôpego do animal. 7. O que significa a palavra “toa”, que aparece na expressão “à toa”? a) O mesmo que “léu”, como na expressão “ao léu”. b) É o nome que se dá à corda usada para uma embarcação rebocar outra. c) É uma forma popularmente deturpada de “tona”; “à toa” é o que está boiando, sem destino, só para sobreviver. d) É uma palavra arcaica que significa “nada, nenhuma”. 8. Como se chama este sinal que aparece entre parênteses (*)? a) Asterístico: de “aster” (astro) + “stico”. O asterístico é uma estrela esticada. b) Asterístico: do grego Asterístikós, deus dos astros, na mitologia grega. c) Asterisco: do latim “asteriscu”, que significa “astrinho”. d) Asterisco: do latim “alteriscu”, que significa “outra forma”. PIMENTA, Reinaldo. Com quantas letras se faz uma palavra? Folha de S.Paulo, São Paulo, 17 fev. 2004. Sinapse, p. 19. Folhapress.

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Capítulo 12 – A língua portuguesa no mundo

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Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (Enem/MEC) Lusofonia rapariga: s.f., fem. de rapaz: mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz. Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada no café, em frente da chávena de café, enquanto alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então, terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café, a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não fique estragada para sempre quando este poema atravessar o atlântico para desembarcar no rio de janeiro. E isto tudo sem pensar em áfrica, porque aí lá terei de escrever sobre a moça do café, para evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é uma palavra que já me está a pôr com dores de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria era escrever um poema sobre a rapariga do café. A solução, então, é mudar de café, e limitar-me a escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se pode sentar à mesa porque só servem café ao balcão. JÚDICE, N. Matéria do Poema. Lisboa: D. Quixote, 2008.

O texto traz em relevo as funções metalinguística e poética. Seu caráter metalinguístico justifica-se pela: a) discussão da dificuldade de se fazer arte inovadora no mundo contemporâneo. b) defesa do movimento artístico da pós-modernidade, típico do século XX. c) abordagem de temas do cotidiano, em que a arte se volta para assuntos rotineiros. d) tematização do fazer artístico, pela discussão do ato de construção da própria obra. e) valorização do efeito de estranhamento causado no público, o que faz a obra ser reconhecida. 2. (Enem/MEC) O presidente Lula assinou, em 29 de setembro de 2008, decreto sobre o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. As novas regras afetam principalmente o uso dos acentos agudo e circunflexo, do trema e do hífen. Longe de um consenso, muita polêmica tem-se levantado em Macau e nos oito países de língua portuguesa: Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Comparando as diferentes opiniões sobre a validade de se estabelecer o acordo para fins de unificação, o

argumento que, em grande parte, foge a essa discussão é: a) “A academia (Brasileira de Letras) encara essa aprovação como um marco histórico. Inscreve-se, finalmente, a Língua Portuguesa no rol daquelas que conseguiram beneficiar-se há mais tempo da unificação de seu sistema de grafar, numa demonstração de consciência da política do idioma e de maturidade na defesa, difusão e ilustração da língua da Lusofonia.” SANDRONI, C. Presidente da ABL. Disponível em: http://www.academia.org.br. Acesso em: 10 nov. 2008.

b) “Acordo Ortográfico? Não, obrigado. Sou contra. Visceralmente contra. Filosoficamente contra. Linguisticamente contra. Eu gosto do “c” do “actor” e o “p” de “cepticismo”. Representam um patrimônio, uma pegada etimológica que faz parte de uma identidade cultural. A pluralidade é um valor que deve ser estudado e respeitado. Aceitar essa aberração significa apenas que a irmandade entre Portugal e Brasil continua a ser a irmandade do atraso. COUTINHO, J. P. Folha de São Paulo. Ilustrada. 28 set. 2008, E1 (adaptado).

c) “Há um conjunto de necessidades políticas e econômicas que visa a internacionalização do português como identidade e marca econômica”. “É possível que o Fernando (Pessoa), como produtor de exportação, valha mais do que a PT (Portugal Telecom). Tem um valor econômico único.” RIBEIRO, J. A. P. Ministro da Cultura de Portugal. Disponível em: http://ultimahora.publico.clix.pt. Acesso em: 10 nov. 2008.

d) “É um acto cívico batermo-nos contra o Acordo Ortográfico.” “O Acordo não leva a unidade nenhuma.” “Não se pode aplicar na ordem interna um instrumento que não está aceito internacionalmente” e nem assegura “a defesa da língua como património, como prevê a Constituição nos artigos 9 º e 68 º.” MOURA, V. G. Escritor e eurodeputado. Disponível em: www.mundoportugues.org. Acesso em: 10 nov. 2008.

e) “Se é para ter uma lusofonia, o conceito [unificação da língua] deve ser mais abrangente e temos de estar em paridade. Unidade não significa que temos que andar todos ao mesmo passo. Não é necessário que nos tornemos homogéneos. Até porque o que enriquece a língua portuguesa são as diversas literaturas e formas de utilização.” RODRIGUES, M. H. Presidente do Instituto Português do Oriente, sediado em Macau. Disponível em: http://taichungpou.blogspot.com. Acesso em: 10 nov. 2008 (adaptado).

Língua e linguagem

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Juca Martins/Olhar Imagem

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Arte e sociedade: a literatura e o leitor O objetivo do fotojornalismo é destacar um acontecimento em imagens fotográficas. Na década de 1980, o repórter fotográfico Juca Martins (1949) flagrou a corrida do ouro em Serra Pelada, no sudeste do estado do Pará. Nesse garimpo, o maior e mais conhecido na época, chegaram a trabalhar até 80 mil homens, em condições insalubres. Essa imagem narra múltiplas histórias de pessoas anônimas que representam grupos sociais marcadamente desfavorecidos. A narrativa visual que tem como tema Serra Pelada testemunha um tempo de grande tensão social. Flagrantes dos acontecimentos estão presentes também em discursos narrativos como a crônica, gênero que recupera o incidente para recriá-lo numa manifestação de linguagem próxima do leitor. Nesta unidade, o tema integrador é “Arte e sociedade: a literatura e o leitor”. No capítulo de Leitura e literatura, vamos dialogar com autores que utilizaram a língua portuguesa como expressão viva de seu cotidiano, com a finalidade de compreender as particularidades do discurso narrativo da crônica jornalística e histórica. No capítulo de Texto, gênero do discurso e produção, analisaremos o cordel, levando em conta sua esfera de circulação e de produção. Os folhetos de cordel — tradição herdada dos portugueses — têm grande prestígio no Nordeste brasileiro. No final do capítulo, você fará o papel de cordelista, elaborando um folheto. No capítulo de Língua e linguagem, passaremos por diferentes experiências rítmicas e aprenderemos diferentes recursos linguísticos, sonoros e visuais para criar o ritmo nos textos poéticos.

Garimpo de ouro em Serra Pelada, Pará, 1986.

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Leitura e literatura

Capítulo 13

Crônica como gênero narrativo Oficina de imagens Sean Adair/Reuters/Latinstock

DPA by Album/Album Art/Latinstock

Por trás da fotografia

littleny/Shutterstock.com

Torres gêmeas do World Trade Center, Nova York, Estados Unidos, em 1996 e 2001, respectivamente.

Memorial do World Trade Center, Nova York, 2012.

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Capítulo 13 – Crônica como gênero narrativo

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Atividade em grupo

FAÇA NO CADERNO

1. Reúna-se com mais três colegas e respondam: a) O que as fotografias contam? b) Como é o uso das fotografias em diferentes situações da vida humana? 2. Agora, fotografem cenas do cotidiano, com pessoas, que mostrem problemas sociais. Exponham as fotos em uma sequência, de forma que contem uma história. a) Redijam falas para as personagens das fotos. b) Montem uma pequena encenação dramática de, no máximo, cinco minutos com a narrativa criada. Como a encenação deve ser realizada em um curto período, as falas precisam ser rápidas. Antes da apresentação, organizem um ensaio, se acharem necessário.

Astúcias do texto A origem da palavra “crônica” vem do grego chronos, que significa “tempo”. A crônica é um pequeno flagrante do cotidiano, um recorte no espaço e no tempo, por meio do tratamento ficcional dispensado aos temas do dia a dia. No jornal é marcada pela efemeridade; no livro torna-se um documento de época. Sempre perto do leitor, a crônica surpreende pela linguagem simples, pela graça e pelo humor.

O discurso narrativo na crônica Leia a crônica de Luis Fernando Verissimo, que recupera um fato histórico: os atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York.

Em 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos sofreram um atentado que deixou cerca de 3 mil mortos. Dois aviões foram lançados contra as famosas torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e um contra a fachada do Pentágono (sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos). Outro avião caiu em uma área vazia após um confronto entre passageiros e terroristas. O local do ataque tornou-se simbólico. O World Trade Center, complexo de sete edifícios situado em Manhattan, no coração de Nova York, tinha as torres gêmeas como as mais famosas construções. Erguidas em 1973, abrigavam 400 empresas de 25 países nos seus 110 andares. Em 2014, foi inaugurado o One World Trade Center, construído no lugar das duas torres.

Dois anos É uma razão inconfessável, confesso. A razão odiosa do namorado que rejeita a namorada quando sabe que ela foi estuprada. No meu caso, a atitude machista e irracional tem uma atenuante: eu estava lá, eu vi o ato, não posso tirá-lo da cabeça. Entre todos os motivos para não ter voltado a Nova York depois do 11/9, este é o pior e o mais forte. Eu presenciei o estupro. Vai levar algum tempo até eu poder encará-la com naturalidade. Eu sei, não foi culpa dela. Toda aquela ostentação, aquela arrogância, tão rica, a pobrezinha — não eram razões para atacá-la daquele jeito. Dizem que ela ficou traumatizada, mas fora isso não mudou muito. Tudo que eu gosto nela continua. Mas, sei não. Sou um desalmado, está certo. Mas não posso. Ainda não dá para encará-la. Tínhamos uma longa história. Eu a conheci com 9 anos (ela devia ter uns 300), numa ocasião especial. Acabara a guerra mundial — a 2a, a boa — e ela estava na rua, comemorando. Lembro de vê-la no Times Square, dançando e beijando marinheiros. Depois, quando morei quatro anos em Washington, a cinco horas de ônibus dela, eu a visitava com frequência, sem dinheiro, mas com todo o vigor da adolescência. Numa dessas visitas, vi o Charlie Parker e o Dizzy Gillespie tocando juntos no Birdland. Ou já contei isso? Tivemos muitas experiências juntos. Eu estava lá quando mataram o John Lennon, por exemplo. E estava lá

Birdland: famoso clube de jazz de Nova York. Charlie Parker: saxofonista e compositor estadunidense muito importante para a história do jazz. Dizzy Gillespie: trompetista, líder de orquestra, cantor e compositor de jazz estadunidense.

Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra Esse nosso português: crônicas sobre língua, linguagem e literatura, de João Ubaldo Ribeiro.

Leitura e literatura

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quando lhe aconteceu o inimaginável, o que nunca antes tinha lhe acontecido, nem nas guerras. Ela foi atacada. Eu estava longe do local, mas senti o seu terror, comovi-me com a sua comoção, fui solidário com a sua dor — e tratei de dar o fora o mais rápido possível. E desde então não voltei mais. Dois anos. Pessoas que vêm de lá me contam que, fora as suas medidas de segurança, ela continua a mesma. Tenho saudade dela, mas talvez eu já estivesse mesmo chegando naquela fase da vida em que o homem começa a ficar, assim, mais europeu, uma condição que não tem a ver com geografia e sim com as suas prioridades e a cor das suas têmporas. No fim, não foi só o que o Bin Laden fez com ela sob os meus olhos, talvez já estivesse na hora do rompimento. Só não precisava ser tão explosivo.

têmpora: cada uma das partes laterais da cabeça compreendidas entre o olho, a orelha, a fronte e a bochecha.

DOIS ANOS, de Luis Fernando Verissimo, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 11 de setembro de 2003, Caderno 2, p. D2; © by Luis Fernando Verissimo.

FAÇA NO CADERNO

1. Costuma-se dizer que a mídia abre janelas para o mundo. Por ela, ficamos sabendo dos principais acontecimentos nacionais e internacionais nas diferentes atividades comunicativas. Na mídia impressa, as notícias, reportagens etc. tendem a ser janelas informativas, e os artigos, editoriais, resenhas, charges etc. são janelas opinativas. A crônica também circula nessa esfera, mas com características bem diferenciadas. a) Qual é o ato histórico que se recupera na crônica de Verissimo? b) Quando e onde esses fatos ocorreram? c) Com quem o narrador está dialogando? 2. Procure reconstruir o percurso do narrador e o percurso da cidade numa sequência de fatos históricos antecedentes a 11 de setembro de 2001. 3. O narrador-personagem apresenta, aparentemente, um caso de estupro da namorada. Durante a leitura do texto, essa situação adquire outros sentidos. Explique-os, considerando as expressões: “ela devia ter uns 300 [anos]”; “fora as suas medidas de segurança, ela continua a mesma”; “não foi só o que o Bin Laden fez com ela sob os meus olhos”. 4. O cronista usa o recurso da linguagem metafórica ao comparar “estupro” a ato terrorista, “namorada” à cidade de Nova York e “o narrador” aos brasileiros. O que há de comum entre cada dupla de elementos? 5. Ao recuperar o ato terrorista de 11 de setembro de 2001, o cronista trouxe a perspectiva de um cidadão brasileiro em terras estadunidenses. Que diálogo ele estabeleceu? Discuta com dois colegas e exponha suas ideias.

A VOZ DA CRÍTICA

O espaço do leitor na crônica No século XV, a crônica documentava a vida e as realizações de reis e nobres. Desde a metade do século XIX, os cronistas passam a narrar episódios comuns para o leitor anônimo, que queria saber de tudo um pouco: acontecimentos mundiais, vida das pessoas famosas, poemas, textos ficcionais etc. No início do século XX, a crônica diminuiu de tamanho, ganhou espaço próprio, mas conservou seu enfoque na miudeza circunstancial, no efêmero e no tom descontraído. A linguagem é informal, mas nem sempre o texto recupera o discurso direto, muitas vezes há uma narrativa indireta com a presença do discurso poético ou paródico. Na maioria das vezes, é a recuperação do discurso citado anteriormente para apresentar ao leitor um outro ponto de vista.

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Para compreender o que se entende hoje por crônica, fique atento à explicação do crítico literário e professor Antonio Candido: A crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da verdade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas suas formas mais fantásticas, sobretudo porque quase sempre utiliza o humor. CANDIDO, Antonio. A vida ao rés do chão. In: ______. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas: Ed. da Unicamp; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992. p. 14.

Capítulo 13 – Crônica como gênero narrativo

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• Leia esta crônica da escritora Rachel de Queiroz, publicada no jornal O Estado de S. Paulo. O Dia da Consciência Negra Rachel de Queiroz

Comemora-se aqui no Rio — hoje, 20 de novembro, dia em que escrevo estas linhas — um feriado em homenagem a Zumbi dos Palmares, feriado que se passou a chamar Dia da Consciência Negra. O assunto é delicado; em questão de raça, deve-se tocar nela com dedos de veludo. Pode ser que eu esteja errada, mas parece que no tema de raça, racismo, negritude, branquitude, nós caímos em preconceito igual ao dos racistas. O europeu colonizador tem — ou tinha — uma lei: teve uma parte de sangue negro — é negro. Por pequena que seja a gota de sangue negro no indivíduo, polui-se a nobre linfa ariana, e o portador da mistura é “declarado negro”. E os mestiços aceitam a definição e — meiões, quarteirões, octorões — se dizem altivamente “negros”, quando isso não é verdade. Ao se afirmar “negro” o mestiço faz bonito, pois assume no total a cor que o branco despreza. Mas ao mesmo tempo está assumindo também o preconceito do branco contra o mestiço. Vira racista, porque, dizendo-se negro, renega a sua condição de mulato, mestiço, half-breed, meia casta, marabá, desprezados pela branquidade. Aliás, é geral no mundo a noção exacerbada de raça, que não afeta só os brancos, mas os amarelos, vermelhos, negros; todos desprezam o meia casta, exemplo vivo da infração à lei tribal. Eu acho que um povo mestiço, como nós, deveria assumir tranquilamente essa sua condição de mestiço; em vez de se dizer negro por bravata, por desafio — o que é bonito, sinal de orgulho, mas sinal de preconceito também. Os campeões nossos da negritude, todos eles, se dizem simplesmente negros. Acham feio, quem sabe até humilhante, se declararem mestiços, ou meio brancos, como na verdade o são. “Black is beautiful” eu também acho. Mas mulato é lindo também, seja qual for a dose da sua mistura de raça. Houve um tempo, antes de se desenvolver no mundo a reação antirracista, em que até se fazia aqui no Rio o concurso “rainha das mulatas”. Mas a distinção só valia para a mulata jovem e bela. Preconceito também e dos péssimos, pois a mulata só era valorizada como objeto sexual, capaz de satisfazer a consciência dos homens. A gente não pode se deixar cair nessa armadilha dos brancos. A gente tem de assumir a nossa mulataria. Qual brasileiro pode jurar que tem sangue “puro” nas veias — branco, negro, árabe, japonês? Vejam a lição de Gilberto Freyre, tão bonita. Nós todos somos mestiços, mulatos, morenos, em dosagens várias. Os casos de branco puro são exceção (como os índios puros — tais os remanescentes de tribos que certos antropólogos querem manter isolados, geneticamente puros — fósseis vivos — para eles estudarem...). Não vale indagar se a nossa avó chegou aqui de caravela ou de navio negreiro, se nasceu em taba de índio ou na casa-grande. Todas elas somos nós, qualquer procedência. Tudo é brasileiro. Quando uma amiga minha, doutora, participante ilustre de um congresso médico, me declarou orgulhosa “eu sou negra” — não resisti e perguntei: “Por que você tem vergonha de ser mulata?”. Ela quase se zangou. Mas quem tinha razão era eu. Na paixão da luta contra a estupidez dos brancos, os mestiços caem justamente na posição que o branco prega: negro de um lado, branco do outro. Teve uma gota de sangue africano é negro — mas tendo uma gota de sangue branco será declarado branco? Não é. Ah, meus irmãos, pensem bem. Mulata, mulato também são bonitos e quanto! E nós todos somos mesmo mestiços, com muita honra, ou morenos, como o queria o grande Freyre. Raça morena, estamos apurando. Daqui a 500 anos será reconhecida como “zootecnicamente pura” tal como se diz de bois e de cavalos. Se é assim que eles gostam!

O universal no regional A escritora cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) testemunhou os conflitos humanos de seu tempo. Começou escrevendo crônicas no jornal O Ceará; depois, trabalhou para vários outros jornais brasileiros. Suas mais de 2 mil crônicas foram organizadas em seis livros. Em seu romance O Quinze (1930), escrito quando ela tinha 19 anos, retratou a seca que levou seus pais a deixar o Ceará, entre 1917 e 1919. Foi autora dos seguintes romances: João Miguel (1932), Caminho de pedras (1937), As três Marias (1939), O galo de ouro (1950), Dora Doralina (1975) e Memorial de Maria Moura (1992), adaptado para uma minissérie da Rede Globo de Televisão. Escreveu ainda duas peças de teatro: Lampião (1953) e A beata Maria do Egito (1958). Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, em 1977.

Carlos Chicarino/Estadão Conteúdo

O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA, de Rachel de Queiroz, publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 23 de novembro de 2002, Caderno 2, p. D2; © by herdeiros de Rachel de Queiroz.

half-breed : mestiço. marabá: mameluco, filho de branco com índio. meião, quarteirão e octorão: pessoas que têm, respectivamente, metade, um quarto e um oitavo de sangue negro.

Rachel de Queiroz.

Leitura e literatura

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FAÇA NO CADERNO

Arquivo/Estadão Conteúdo

1. Observe a forma como o texto está apresentado na página do jornal.

 Rachel de Queiroz escreve aos sábados neste espaço

O ESTADO DE S. PAULO. São Paulo, 23 nov. 2002. Caderno 2, p. D16.

a) b) c) d) e)

A que acontecimento se refere o título? Como a autora está identificada na legenda da fotografia? Que imagens se articulam ao texto verbal e fornecem ao leitor outras possibilidades de leitura? Como estão distribuídas no espaço as colunas do texto? Em que caderno do jornal foi publicada a crônica?

O autor escreve tendo em vista o leitor e as características do espaço jornalístico que seu texto ocupará. Nesse caso, Rachel de Queiroz considerou como interlocutores os leitores do caderno cultural de um jornal de grande circulação nacional; assim, pôde dar ao texto sua feição pessoal para atuar nesse espaço social.

2. Como o assunto da crônica é abordado? 3. O que a cronista quer provocar no leitor ao abordar esse assunto polêmico? 4. Como o texto dialoga com o leitor? Justifique sua resposta com palavras do texto.

Na trama dos textos

Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra Marcelo Rubens Paiva: crônicas para ler na escola. Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra Moacyr Scliar: contos e crônicas para ler na escola.

Crônica histórica: a tradição e a renovação A crônica é um gênero aberto a diferentes temas e muitas vezes o cronista reflete sobre um fato histórico. Um exemplo é a crônica portuguesa, que derivou da tradição dos romances de cavalaria, muito embora eles não fossem realizados com apoio em registros documentais (ou seja: eram criações). Um grande historiador português foi Fernão Lopes, que realizou excelentes pesquisas e análises sobre a história de Portugal. Ele escreveu crônicas, ordenando os fatos numa perspectiva histórica, sempre apoiado em ampla documentação. Fernão Lopes estava comprometido em valorizar e legitimar o reinado de Dom Pedro I, e o fez apresentando o rei como herói passional e popular. Quando Fernão Lopes foi nomeado guarda-mor da Torre do Tombo, em 1418, ficou responsável por arquivar e conservar os documentos e as velhas escrituras do reino. Anos mais tarde, em 1434, foi nomeado cronista-mor, com a obrigação de registrar em crônica a história dos reis de Portugal até o reinado de Dom Duarte, seu contemporâneo. A seguir, leia uma crônica de Fernão Lopes que narra um flagrante da vida do monarca Dom Pedro I, filho de Afonso IV, que reinou em Portugal de 1357 a 1367. O cronista recupera uma situação dramática que apresentava os seguintes antecedentes: Dom Pedro de Portugal, herdeiro da Coroa, apaixonou-se por Inês de Castro, uma dama de companhia de sua esposa, mas seu pai, que então reinava, não aceitou a situação. Com a morte de Dona Constança, mulher de Dom Pedro, os enamorados passaram a viver seus amores. Tal procedimento levou o rei a mandar matar a amante do filho. A saudade que Dom Pedro sentia de Inês era tão grande que muitas noites ele saía à rua para dançar com o povo, procurando diminuir seu sofrimento, como aparece na crônica a seguir.

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Capítulo 13 – Crônica como gênero narrativo

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Capítulo XIV: Como el-rei fez conde e armou cavaleiro João Afonso Telo e da grande festa que lhe fez Em três cousas, assinaladamente achamos, pela mor parte, que el-rei D. Pedro adur: apenas. de Portugal gastava seu tempo. A saber: em fazer justiça e desembargos do reino; e assinaladamente: em monte e caça, de que era mui querençoso; e em danças e festas, segundo aquele notadamente. tempo, em que tomava grande sabor, que adur é agora para ser crido. batel: barco. E estas danças eram o som de umas longas que então usavam, sem curar de desembargo: sentença outro instrumento, posto que o aí houvesse. E se algum lho queriam tanger, logo se de litígio. enfadava dele. E dizia que o dessem ao demo e que lhe chamassem os trombeteiros. desenfadamento: distração. Ora deixemos os jogos e festas que el-rei ordenava por desenfadamento, nas quais, de guisa: modo. dia e de noite, andava dançando por mui grande espaço. Mas vede se era saboroso jogo. homens das Vinha el-rei em batéis de Almada para Lisboa, e saíam-no a receber os cidadãos e vintenas: de cada todos os dos misteres com danças e trebelhos, segundo então usavam. E ele saía dos vinte homens, batéis e metia-se na dança com eles e assim ia até o paço. destacava-se um para Ora atentai se foi bom sabor: jazia el-rei em Lisboa, uma noite na cama, e não lhe servir ao rei. vinha sono para dormir. E fez levantar os moços e quantos dormiam no paço. E manledo: alegre. dou chamar João Mateus e Lourenço Palos que trouxessem as trombas de prata. E fez monte: caça grossa. acender tochas e meteu-se na vila em dança com os outros. As gentes que dormiam ora atentai se foi saíam às janelas ver que festa era aquela, ou porque se fazia. E quando viram daquela bom sabor: preste guisa el-rei, tomaram prazer de o ver assim ledo. E andou el-rei assim grande parte da atenção se for do seu noite. E tornou-se ao paço em dança; e pediu vinho e fruta, e deitou-se a dormir. agrado. Não curando mais falar de tais jogos, ordenou el-rei de fazer conde e armar cavaleiro paço: palácio ou paço João Afonso Telo, irmão de Martim Afonso Telo, e fez-lhe a mor honra em sua festa que até municipal. aquele tempo fora vista que rei nenhum fizesse a semelhante pessoa. Cá el-rei mandou para ter: para trazer. lavrar seiscentas arrobas de cera de que fizeram cinco mil círios e tochas. E vieram do terquerençoso: mo de Lisboa, onde el-rei então estava, cinco mil homens das vintenas para terem os ditos apreciador. círios. E quando o Conde houve de velar suas armas no mosteiro de S. Domingos dessa tomar grande sabor: cidade, ordenou el-rei que, desde aquele mosteiro até aos seus paços que assaz grande ester grande prazer. paço, estivessem quedos aqueles homens todos, cada um com seu círio aceso, que davam trebelho: jogo, todos muito grande lume. E el-rei, com muitos fidalgos e cavaleiros, andavam por entre bailado. eles, dançando e tomando sabor. E assim dispenderam grande parte da noite. tromba: trombeta Noutro dia, estavam mui grandes tendas armadas no Rossio acerca daquele mosteiro, longa. em que havia grandes montes de pão cozido e assaz de tinas cheias de vinho e logo prestes para que bebessem. E fora estavam ao fogo, em espetos, vacas inteiras a assar. E quantos comer queriam daquela vianda tinham-na muito prestes e a nenhum não era vedada. E assim estiveram sempre enquanto durou a festa, na qual foram armados outros cavaleiros cujos nomes não curamos dizer. FAÇA NO CADERNO

COELHO, António Borges. Crônicas de D. Pedro I. Lisboa: Portugália, 1967. p. 74-75.

Fernão Lopes (1385-1459): cronista e historiador Foi funcionário da Corte e tabelião. Nomeado cronista em 1343, redigiu a história de Portugal desde as origens até, provavelmente, a época em que viveu. Parte de sua obra se perdeu ou foi adaptada por seus sucessores, de acordo com novas tendências políticas e novos gostos. Sem distorções nem mutilações, até hoje permanecem: Crônicas de D. Pedro, Crônica de D. Fernando e Crônica de D. João I (1a e 2a). Autodidata, tinha o sentido da percepção da história. Reconstituía o passado e o atualizava, e fazia projeções acertadas sobre o futuro. Fernão Lopes. Leitura e literatura

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Nuno Gonçalves. 1467-1470. Óleo sobre painel. Museu Nacional de Arte Antiga, Portugal

1. Essa crônica flagra um acontecimento do cotidiano do reinado de Dom Pedro I. Que incidente desencadeia a narrativa? Identifique-o no texto. 2. Paralelamente a esse incidente, o narrador recupera a situação histórica da época narrada, isto é, as preocupações do monarca com seu reinado. Quais eram elas? 3. O cronista focaliza a atenção tanto nos afazeres do rei quanto nas festas populares em que o monarca está presente. Isso indica um ponto de vista inovador para a época, porque o processo social constrói-se com a participação de toda a população, e não apenas com a de algumas pessoas. Que elementos marcam o clima festivo narrado? 4. Observe que Fernão Lopes não viveu na época de Dom Pedro I, mas fala dele como se fosse seu contemporâneo e convida o leitor a participar da narrativa, a olhar como se estivesse presente naquele acontecimento. Identifique expressões utilizadas por Fernão Lopes para incluir o leitor na narrativa. 5. A narrativa apresenta certa sequência de quadros dinâmicos, criando um ritmo de tensão e de suspense até o desfecho, rápido e marcante: uma festa em que todos podem comer e beber à vontade. O fato de o rei brincar com o povo e de este dançar com o rei em dias de festa mostra que tipo de relação entre eles?

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Características da crônica histórica • Narrativa vinculada ao registro de acontecimentos históricos. • Necessidade de explicar as causas dos acontecimentos. • Associação da história econômica à história política. • Interesse pela psicologia das pessoas, seja individual, seja coletiva, incluindo as multidões, que têm importante papel na história.

| Em cena |

• Linguagem literária, caracterizada pelo uso de recursos expressivos que sublinham momentos emotivos do relato. • Recriação de personagens históricas, apresentando-as em seus trajes, em seus gestos, em suas falas.

História oral e escrita no cinema Filme de Eliane Caffé. Narradores de Javé. Brasil, 2004. Foto: Bananeira Filmes

O filme brasileiro Narradores de Javé, dirigido pela cineasta paulistana Eliane Caffé, em 2003, conta a saga de Javé, um povoado ameaçado de extinção pela construção de uma grande hidrelétrica. A única maneira que os moradores da cidadezinha do interior da Bahia têm de evitar que isso ocorra é transformar Javé em patrimônio histórico nacional. Por meio do relato de suas memórias, os moradores tentam impedir o andamento das obras e incumbem Antônio Biá, ex-funcionário dos Correios, de ser o escrivão do passado heroico do vilarejo. Biá entrevista os moradores, que narram suas festas, seus cantadores, a vida deles e de seus governantes. Os cronis- Cena do filme Narradores de Javé. tas populares recuperam, na fala, sua história, puxando pela memória, pois nenhuma linha foi escrita, mas a imagem guardou o confronto entre o velho e o novo. Reúna-se com os colegas para assistir ao filme. Combinem com o professor a organização de um roteiro de análise para, depois, discutirem, em um debate, a importância dos cronistas populares no Brasil de hoje.

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (Unicamp-SP) Noite de autógrafos Ivan Ângelo

A leitora, vistosa, usando óculos escuros num ambiente em que não eram necessários, se posta diante do autor sentado do outro lado da mesa de autógrafos e estende-lhe o livro, junto com uma pergunta: — O que é crônica? O escritor considera responder com a célebre tirada de Rubem Braga, “se não é aguda, é crônica”, mas se contém, temendo que ela não goste da brincadeira. [...] Responde com aquele jeito de quem falou disso algumas vezes: — É um texto de escritor, necessariamente de escritor, não de jornalista, que a imprensa usa para pôr um pouco de lirismo, de leveza e de emoção no meio daquelas páginas e páginas de dados objetivos, informações, gráficos, notícias... É coisa efêmera: jornal dura um dia, revista dura uma semana. Já se prepara para escreefêmero: de pouca ver a dedicatória e ela volta duração; passageiro, a perguntar: transitório.

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— E o livro de crônicas, então? Ele olha a fila, constrangido. Escreve algo brevíssimo, assina e devolve o livro à leitora [...]. Ela recebe o volume e não se vai, esperando a resposta. Ele abrevia, irônico: — É a crônica tentando escapar da reciclagem do papel. Ela fica com ambição de estante, pretensiosa, quer status literário. Ou então pretensioso é o autor, que acha que ela merece ser salva e promovida. [...] — Mais respeito. A crônica é a nossa última reserva de estilo. (Veja São Paulo, São Paulo, 25/07/2012, p. 170.)

A certa altura do diálogo, a leitora pergunta ao escritor que dava autógrafos: “— E o livro de crônicas, então?” a) A pergunta da leitora incide sobre uma das características do gênero crônica mencionadas pelo escritor. Explique que característica é esta. b) Explique o funcionamento da palavra então na pergunta em questão, considerando o sentido que esta pergunta expressa.

Capítulo 13 – Crônica como gênero narrativo

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Texto, gênero do discurso e produção

“Olha a laranja!” “Frutas fresquinhas!” Você já foi acordado logo cedo por vendedores de rua gritando essas frases? Parece que isso só acontece na porta de quem quer dormir. Essa técnica de oferecer mercadorias e de divulgar informações tem uma longa tradição na sociedade ocidental. A experiência que passa de pessoa para pessoa é a base da comunicação de todas as sociedades. A presença dos cantadores é importante na manifestação cultural de um povo, uma vez que garante a transmissão de conhecimentos, de fatos históricos ou políticos. Os cantadores populares contam com a capacidade de improvisação, tornando-se autores daquilo que recitam. A produção oral dos poemas ganha também registros escritos, que aparecem em folhetos de impressão simples, conhecidos como cordéis. Esse nome se deve ao fato de os poetas pendurarem seus poemas em cordas, formando varais nas festas e feiras populares.

Ismar Ingber/Pulsar

Capítulo 14

Gênero da oralidade: o cordel

Literatura de cordel à venda na Nova Feira de São Cristóvão, Rio de Janeiro, em 2014.

(Des)construindo o gênero Folheto de cordel: capa e página de rosto

FAÇA NO CADERNO

Editora Luzeiro

Editora Luzeiro

Observe a seguir a capa de um folheto de cordel e a página de rosto da obra. Antes de ler um texto do gênero, você entra em contato com a capa, que sinaliza a esfera de circulação em que a atividade do cantador de cordel aparece. Na verdade, não podemos interpretar um texto sem relacioná-lo com seu contexto, incluindo aí o autor e o público a que se destina.

1. Faça um levantamento das informações verbais e visuais que aparecem na capa. 2. Diante desses dados, que expectativa você tem acerca do conteúdo do folheto desse cordel? © Copyright 1959 – Editora Prelúdio Limitada São Paulo – Brasil Reservados à Editora todos os direitos de propriedade literária e artística Registrado na Biblioteca Nacional sob o nº 11.958

3. Leia a página de rosto e transcreva as informações nela contidas. 4. Depois de ler a página de rosto, que novas informações você obteve? 5. Observando as informações da capa e da página de rosto, responda: quem são os possíveis leitores desse folheto de cordel?

Pelos dados observados na capa do folheto, podemos notar que o material foi produzido de maneira artesanal. Atualmente há novas maneiras de comercialização dos folhetos, por meio de editoras e livrarias, e até mesmo por meio digital. Texto, gênero do discurso e produção

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O texto de cordel Organize-se com os colegas para lerem em voz alta A chegada de Lampião no céu, de Rodolfo Coelho Cavalcante.

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São Pedro disse está bem Acho melhor dar um fora Lampeão disse meu santo Só saio daqui agora Quando ver o meu padrinho Padre Cícero meu filhinho Esteve aqui mas foi embora

São Pedro desconfiado Perguntou ao valentão Quem é você meu amigo Que anda com este rojão? Virgulino respondeu: Se não sabe quem sou eu, Vou dizer: sou Lampeão!

Então eu quero falar Com a Santa Mãe das Dores Disse o Santo ela não pode Vir aqui ver seus clamores Pois Ela está resolvendo Com o Filho intercedendo Em favor dos pecadores

São Pedro se estremeceu Quasi que perdeu o tino Sabendo que Lampeão Era um terrível assassino Respondeu balbuciando O senhor... está... falando... Com... São Pedro... Virgulino!

Então eu quero falar Com Jesus Crucificado Disse São Pedro um momento Que eu vou dar o seu recado Com pouco o Santo chegou Nisso Lampeão entrou Com 12 santos escoltado

Faça o favor abra esta porta Quero falar com o Senhor Um momento meu amigo Disse o Santo faz favor Esperar aqui um pouquinho Para olhar o pergaminho Que é ordem do Criador

São Longuinho e São Miguel São Jorge, São Semião São Lucas, São Rafael, São Luiz, São Julião, Santo António e São Tomé São João e São José Conduziram Lampeão

Se você amou o próximo De todo o seu coração O seu nome está escrito No livro da salvação Porém se foi um tirano Meu amigo não lhe engano Por aqui não fica não

Chegando no Gabinete Do glorioso Jesus Lampeão foi escoltado Disse o Varão da Cruz Quem és tu filho perdido Não estás arrependido Mesmo no Reino da Luz?

Lampeão disse está bem Procure que quero ver Se acaso não tem aí O meu nome pode crer Quero saber o motivo Pois não sou filho adotivo Pra que fizeram-me nascer

Disse o bravo Virgulino Senhor não fui culpado Me tornei um cangaceiro Porque me vi obrigado Assassinaram meu pai Minha mãe quase que vai Inclusive eu coitado

São Pedro criou coragem E falou pra Lampeão Tenha calma cavalheiro Seu nome não está aqui não Lampeão disse é impossível É uma coisa que acho incrível Ter perdido a salvação

Os seus pecados são tantos Que nada posso fazer Alma desta natureza Aqui não pode viver Pois dentro do Paraíso É o reinado do riso Onde só existe prazer

Um mestre do cordel Rodolfo Coelho Cavalcante nasceu em Rio Largo, Alagoas, em 1919. Passou boa parte de sua vida em Salvador, onde faleceu em decorrência de um acidente de trânsito, em 1986. Teve mais de 1 500 folhetos publicados. Além de escritor, foi um verdadeiro sindicalista dos poetas populares. Afiliou-se a diversas associações literárias e, em 1955, promoveu o I Congresso Nacional de Trovadores e Violeiros, na Bahia. ABLC – Academia Brasileira de Literatura de Cordel

Lampeão foi no inferno Ao depois no céu chegou São Pedro estava na porta Lampeão então falou: Meu velho não tenha medo Me diga quem é São Pedro E logo o rifle puxou

Cordel sobre Rodolfo Coelho Cavalcante.

Capítulo 14 – Gênero da oralidade: o cordel

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Então Jesus neste instante Ordenou São Julião Mais São Miguel e São Lucas Que levassem Lampeão Para ele ver a harmonia Nisto a Virgem Maria Aparece no salão

Disse a Virgem mãe suprema Vai-te pra lá Ferrabraz A alma que eu pôr a mão Tu com ela nada faz Arrenegado da Cruz Na presença de Jesus Tu não vences Satanaz

Disse Ferrabraz: protesto Trago toda anotação Lampeão fugiu de lá Em busca de salvação Assassinou Buscapé Atirou em Lúcifer Não merece mais perdão

Aglomerada de Anjos Todos cantando louvores Lampeão disse: meu Deus Perdoai os meus horrores Dos meus crimes tão cruéis Arrependeu-se através Da Virgem seus esplendores

Vamos meu filho vamos Sei que fostes desordeiro Perdeste de Deus a fé Te fazendo cangaceiro Mas já que tu viste a luz Na presença de Jesus Serás puro verdadeiro

Levantou-se Lampeão Por esta forma falou Buscapé eu só matei Porque me desrespeitou E Lúcifer é atrevido Se ele tivesse morrido A mim falta não deixou

Os anjos cantarolavam Saudando a Virgem e o Rei Dizendo: No Céu no Céu Com minha mãe estarei Tudo ali maravilhou-se Lampeão ajoelhou-se Dizendo: Senhora eu sei

Foi Lampeão novamente Pelos Santos escoltado Na presença de Jesus Foi Lampeão colocado Acompanhou por detraz O tal cão de Ferrabraz De Lúcifer enviado

Que não sou merecedor De viver aqui agora Julião, Miguel e Lucas Disseram vamos embora Ver os demais apartamentos Lampeão neste momento Olhou pra Nossa Senhora

Formou-se logo o júri Ferrabraz o acusador Lá no santo Tribunal Fez papel de promotor Jesus fazendo o jurado Foi a Virgem o advogado Pelo seu divino amor

Disse Jesus e agora Deseja voltar à terra A usar de violência Matando que só uma fera? Disse Lampeão: Senhor Sou um pobre pecador Que a vossa sentença espera Disse Jesus: Minha Mãe Vou lhe dar a permissão Pode expulsar Ferrabraz Porém tem que Lampeão Arrepender-se notório Ir até o “purgatório” Alcançar a Salvação

E disse: Ó Mãe Amantíssima Dae-me a minha salvação Chegou nisto o maioral Com cantiga de alcatrão Dizendo não pode ser Agora só quero ver Se é salvo Lampeão

Levantou-se o promotor E acusou demonstrando Os crimes de Lampeão O réu somente escutando Ouvindo nada dizia A Santa Virgem Maria Começou advogando

Respondeu a Virgem Santa Maria Imaculada Já falaste com meu Filho? Vamos não negues nada — Já ó Mãe Amantíssima Senhora Gloriosíssima Sou uma alma condenada

Lampeão de fato foi Bárbaro cruel assassino Mas os crimes praticados Por seu coração ferino Escrito no seu caderno Doze anos de inferno Chegou hoje o seu término

Resta somente saber O que Lampeão já fez Do purgatório será O julgamento outra vez Logo que se for julgado Farei tudo versejado O mais até lá freguez. CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. A chegada de Lampião no céu. São Paulo: Luzeiro, 1959. p. 3-9. G. Evangelista / Opção Brasil

No Brasil, os folhetos começaram a ser produzidos no século XIX, de maneira artesanal, e acabaram se tornando populares em razão da sintonia entre autores e leitores, como explica o cordelista Rodolfo Cavalcante: “O sertanejo sabe pelo rádio ou por ouvir dizer os acontecimentos importantes. Mas só acredita quando sai no folheto... Se o folheto confirma, aconteceu...”.

Ferrabraz ouvindo isto Não esperou por Miguel Pediu licença e saiu Nisto chegou Gabriel Ferrabraz deu um estouro Se virou num grande touro Foi dar resposta à Lumbel.

Literatura de cordel à venda em Sergipe, 2015.

Texto, gênero do discurso e produção

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1. Qual é a questão central desse cordel?

FAÇA NO CADERNO

2. Observe a organização gráfica do poema e sua relação com a musicalidade. a) Quantos versos há em cada estrofe? b) No final dos versos há uma semelhança sonora; por exemplo: “chegou”, “falou” e “puxou” (o segundo verso rima com o quarto e com o sétimo). Cite outros trios de palavras do poema que apresentam semelhança sonora. 3. Por meio da pergunta inicial de São Pedro — “Quem é você meu amigo / Que anda com este rojão?” —, o poema discorre sobre a tentativa de Lampião de conquistar um lugar no céu. O nome verdadeiro do conhecido cangaceiro nordestino era Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938). a) Qual é a situação inicial da narrativa? b) Qual é a dificuldade encontrada pela personagem? c) Que sentido a entrevista com Jesus dá para a narrativa? d) Explique o encontro de Lampião com a Virgem Maria. e) Explique o sentido dos últimos versos: “Logo que se for julgado / Farei tudo versejado / O mais até lá freguez”. 4. Repare nas letras iniciais dos versos na última estrofe. Esse recurso conhecido dos cordelistas, usado como uma espécie de assinatura, chama-se “acróstico”. Com base no que foi explicado, justifique a coerência ou a ruptura dessa última estrofe com a narrativa.

Linguagem do gênero Marcas da oralidade Os folhetos de cordel recebem esse nome — folheto — porque são impressos com poucas folhas, em brochura. Em média têm oito páginas — nunca menos de quatro e nunca mais de 16 —, num tamanho que não pode ultrapassar a medida de 11 centímetros de largura por 16 centímetros de altura. Vamos analisar alguns aspectos da linguagem usada nos folhetos de cordel. Uma das características é a marca da linguagem falada, que se manifesta nos recursos de estilo, como o vocabulário e a construção sintática. Leia alguns trechos de um folheto que trata de um acontecimento com uma personalidade política. A forma utilizada, que tem longa tradição desde a Idade Média, é um antepassado do jornal. O poema foi escrito por Manuel d’Almeida Filho, sobre a morte trágica do presidente Getúlio Vargas, na manhã de 24 de agosto de 1954. A morte do maior presidente do Brasil Dr. Getúlio Dornelles Vargas Com os olhos rasos d’água E o coração entre dores Pego a minha rude pena Para escrever os clamores Dos pobres e operários Humildes trabalhadores.

Assim grande maioria De burgueses por vingança P’ra não pagarem o Salário Fizeram uma aliança Impetrando ao Tribunal Mandado de segurança.

Choram os pobres humildes Nestas horas tão amargas Quando viam no Brasil Abrirem-se estradas largas Na gloriosa gestão Do Dr. Getúlio Vargas.

[...]

Que vendo os trabalhadores Nos estados mais precários Passando fome e nudez Achou que os operários Precisavam com urgência Melhoria de salários. [...]

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E foi por isto que muitos Burgueses e capitalistas Inimigos de Getúlio E das classes trabalhistas Tramaram a sua renúncia Para arrancar-lhe as conquistas. [...] Eleito por cinco anos Constitucionalmente Pelo voto conferido Pelo povo consciente

Renunciar sem motivo? Como pode um Presidente? [...] Assim foi na madrugada De vinte e quatro de agosto Obrigado a assinar Licença contra seu gosto Cravando assim sua alma Com o punhal do desgosto. Vendo rasgados os votos De milhões de eleitores E ele sem poder mais Defender os sofredores Preferiu morte honrada Que seguir os traidores. D’ALMEIDA FILHO, Manuel. A morte do maior presidente do Brasil Dr. Getúlio Dornelles Vargas. Disponível em: <www.casaruibarbosa.gov.br/ cordel/manueldalmeida/manueldalmeida_acervo.htm>. Acesso em: 20 maio 2016.

Capítulo 14 – Gênero da oralidade: o cordel

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AÇA NO 1. A morte do maior presidente do Brasil Dr. Getúlio Dornelles Vargas FCADERNO recupera um acontecimento inesquecível. a) Reconstrua os elementos que compõem o fato: o herói, o tempo, o espaço e a repercussão nacional do ocorrido. b) Que termos descritivos do suicídio mostram que ele foi uma tragédia? c) Para rimar a história, o poeta-repórter utiliza-se da inversão dos termos da nação, como um procedimento sintático. Identifique esse procedimento na primeira estrofe e explique seu sentido.

2. A forma de composição sintática desse poema auxilia na construção de um ritmo geral, o que dá cadência ao texto. a) Observe a semelhança sonora das palavras no final dos versos. Como estão organizadas as rimas nas estrofes? b) Com que finalidade o poeta emprega esse recurso?

Praticando o gênero Elaboração de folheto de cordel •

Xilogravura: desenho talhado na madeira Há muito tempo, a capa dos folhetos era ilustrada com a técnica de xilogravura. Hoje, porém, o cordel anda de roupa nova: entrou na era da informática e tem sites na internet, como <http://eba.im/ erhd5s> e <http://eba. im/9dnhub>. Acessos em: 28 maio 2016. Veja uma matriz de xilogravura na imagem a seguir. Auto Júnior/ Futura Press

Reúna-se com três colegas para escrever um folheto de cordel e providenciar sua impressão gráfica. Depois, organizem uma apresentação coletiva. A seguir estão os principais elementos que compõem um folheto de cordel. Leiam com atenção cada uma das etapas, discutam todos os passos e imitem os poetas de cordel. Agora, mãos à obra; afinal, quem não gosta de ouvir um bom “causo”? • Definição do assunto: escolham um fato atual que seja importante para vocês e para seu público. Não se esqueçam de apresentar: quem, o que, quando, onde, por que e como. • Caracterização do herói: qual é seu perfil: político, esportivo, musical ou social? Procurem informações que caracterizem o herói escolhido. • Outras personagens: quem são? Como são? De onde vêm? Qual é a função delas no poema? • Sequência narrativa: planejem as modificações das situações (é um dos princípios da narrativa). Decidam se a história terá final feliz, se haverá justiça ou castigo. • Valores: que visão moral vocês pretendem transmitir com o poema? • Título: deve dar alguma dica do relato. Ele vem na capa, acompanhado de ilustração. • Vocabulário: selecionem palavras simples; citem, clara ou implicitamente, outras obras ou até personagens históricas. • Recursos estilísticos: vocês poderão ampliar o trabalho, recuperando discursos, usando provérbios e ditos populares, fazendo citações, dando conselhos, criticando ou satirizando. • Ritmo do poema: planejem o tamanho dos versos e das estrofes e estruturem a coincidência de sons no final de versos — criando as rimas — para realçar a ideia contida nos termos rimados. Nos poemas de cordel, é frequente o uso da rima ABCBDDB, em versos de sete sílabas, com estrofes de sete versos. • Acróstico: na última estrofe, o nome do poeta que compôs os versos é quase obrigatório, já que é uma maneira de se marcar a autoria. Lembrem-se de que é uma escrita encantatória, pois mistura o lúdico e o jogo composicional. • Composição do folheto: usem papel-jornal ou sulfite; em geral, os folhetos têm a medida de 11 centímetros de largura por 16 centímetros de altura. As páginas deverão ser em número par para compor a brochura, com grampos no centro. Sua edição precisa ser planejada. • Biografia: na contracapa, costuma haver um pequeno resumo das atividades do poeta.

Linguagem dos folhetos de cordel A linguagem é adequada tanto ao público da área rural quanto ao da cidade. O vocabulário selecionado é de fácil compreensão e as palavras empregadas referem-se a um mesmo assunto, mantendo-se o tema do começo ao fim. Nas composições impressas se empregam marcas da linguagem falada, o que facilita a memorização e a compreensão dos ouvintes. A linguagem está na fronteira entre o oral e o escrito.

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Matriz de xilogravura na madeira, Ceará, em 2005.

Texto, gênero do discurso e produção

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Apresentação oral: varal de cordel Trabalho feito, é importante que os grupos conheçam os poetas-cantadores e os artistas plásticos da classe. • Criem um cenário simples, como o de uma praça pública ou o de uma feira, com todos os folhetos produzidos pendurados na sala. • Ensaiem a entonação de voz, o ritmo e a expressão corporal. Em seguida, apresentem o trabalho para a classe. • Se gostarem da atividade, combinem uma andança pela cidade e procurem conversar com alguns artistas populares. Com certeza, vocês aprenderão muita coisa sobre a cultura popular divulgada pelo cordel.

Em atividade (UFC) Cordéis e outros poemas, de Patativa do Assaré, e seu cordel de abertura, A Triste Partida, servirão de base às questões desta prova. Convidamos você a mergulhar no universo daquele que, conhecedor das temerosas tormentas do mar da vida, canta o sertão que é seu.

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A Triste Partida

Apela pra março o mês preferido do santo querido, senhor São José sem chuva na terra está tudo sem jeito lhe foge do peito o resto da fé.

Passou-se setembro outubro e novembro estamos em dezembro. meu Deus que é de nós? assim diz o pobre do seco Nordeste, com medo da peste e da fome feroz

Assim diz o velho sigo noutra trilha convida a família e começa a dizer Eu vendo o burro o jumento e o cavalo viver ou morrer

A treze do mês ele fez a experiência, perdeu sua crença nas pedra de sal com outra experiência de novo se agarra esperando a barra do alegre Natal

Nós vamos a São Paulo que a coisa está feia por terra alheia nós vamos vagar se o nosso destino não for tão mesquinho pro mesmo cantinho nós torna a voltar

Passou-se o Natal e a barra não veio o sol tão vermeio, nasceu muito além na copa da mata buzina a cigarra ninguém vê a barra pois barra não tem.

Venderam o burro jumento e cavalo até mesmo o galo venderam também e logo aparece um feliz fazendeiro por pouco dinheiro lhe compra o que tem

Sem chuva na terra descamba janeiro Até fevereiro no mesmo verão reclama roceiro dizendo consigo: Meu Deus é castigo não chove mais não

Em cima do carro se junta a família chega o triste dia já vão viajar a seca é terrível que tudo devora lhe bota pra fora do torrão natá

Capítulo 14 – Gênero da oralidade: o cordel

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[...] O carro embalado no topo da serra. olhando pra terra seu berço seu lar aquele nortista partido de pena de longe acena adeus, Ceará! [...] Chegaram em São Paulo sem cobre e quebrado o pobre acanhado procura um patrão só vê cara feia de uma estranha gente tudo é diferente do caro torrão. Trabalha um ano dois anos mais anos e sempre no plano de um dia inda vim. o pai de família triste maldizendo assim vão sofrendo tormento sem fim. [...] O pai de família ali vive preso sofrendo desprezo e devendo ao patrão. o tempo passando vai dia e vem dia aquela família não volta mais não Se por acaso um dia Ele tem sorte Notícia do Norte o gosto de ouvir saudade no peito lhe bate de molhos as águas dos olhos começaram a cair Distante da terra tão seca mas boa sujeito à garoa à lama e ao paul é triste se ver um nortista tão bravo viver sendo escravo na terra do Sul

1. A Triste Partida é uma narrativa composta de cinco partes: I. a espera pela chuva; II. a decisão de sair da terra natal; III. os preparativos para a viagem; IV. a triste partida; V. a vida no Sul. Identifique a alternativa em que estão transcritos os versos que descrevem os preparativos para a viagem. a) Apela pra março / o mês preferido / do santo querido / senhor São José. b) O carro embalado / no topo da serra / olhando pra terra / seu berço seu lar. c) Venderam o burro / jumento e cavalo / até mesmo o galo / venderam também. d) Trabalha um ano / dois anos mais anos / e sempre no plano / de um dia inda vim. e) Nós vamos a São Paulo / que a coisa está feia / por terra alheia / nós vamos vagar. 2. Identifique a única alternativa que contém versos de A Triste Partida nos quais se expressa o tipo de relação existente entre o sertanejo e a terra para onde ele se viu obrigado a migrar. a) se o nosso destino / não for tão mesquinho / pro mesmo cantinho / nós torna a voltar b) Em cima do carro / se junta a família / chega o triste dia / já vão viajar c) aquele nortista / partido de pena / de longe acena / adeus, Ceará d) O pai de família / ali vive preso / sofrendo desprezo / e devendo ao patrão e) saudade no peito / lhe bate de molhos / as águas dos olhos / começam a cair 3. Em A Triste Partida, o eu lírico: a) apresenta o sul como oásis para o nordestino. b) denuncia o descaso divino com o homem do sertão. c) critica a relação de dependência entre o sertanejo e a natureza. d) discute a relação de animosidade entre o sertanejo e sua terra natal. e) destaca a exploração a que os mais afortunados submetem o sertanejo humilde.

ASSARÉ, Patativa. A Triste Partida. In: Cordéis e outros poemas, Fortaleza: Edições UFC, 2006, p. 9-13.

Texto, gênero do discurso e produção

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Capítulo 15

Língua e linguagem

Ritmo Explorando os mecanismos linguísticos O ritmo da vida

Pedro Seiblitz

Fique atento à sequência de imagens apresentadas e acompanhe seu ritmo! Observe que as fotografias de Pedro Seiblitz flagram o movimento de pernas e pés de jovens subindo uma escada numa favela do Rio de Janeiro. Tal gesto poderia muito bem acontecer em qualquer lugar no momento em que alguém subisse escadas.

VARELLA, D. et al (Org.). Maré, vida na favela. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002. p. 58-59.

Rodrigo Rainho/Folhapress

Nossos gestos mais simples do dia a dia estão carregados de ritmo, afirmam o médico Drauzio Varella, o coreógrafo e terapeuta corporal Ivaldo Bertazzo e a arquiteta-urbanista Paola Berenstein. Observe como movimentos de descer ou subir escadas criam uma ginga, uma cadência. Isso acontece por causa da repetição dos passos em intervalos regulares, em alternância. Não é à toa que essa sequência de cenas aparece no capítulo “Quando o passo vira dança”, do livro Maré, vida na favela, de Drauzio Varella. O corpo humano ainda apresenta ritmo na respiração, nos batimentos cardíacos, nos movimentos dos braços ao andar etc. Também encontramos movimentos ritmados na natureza. A foto a seguir aparece na reportagem “Amazonas — Selva impõe novo ritmo a visitante que chega à região”, publicada no caderno Turismo do jornal Folha de S.Paulo, de 9 de junho de 2003 (p. F1). Nessa reportagem, há uma espécie de convite ao turista para que troque o ritmo conturbado de sua rotina de trabalho pela calmaria das vitórias-régias boiando sobre as águas dos rios da Amazônia. No caso da foto, a sugestão de ritmo se faz também pela repetição das formas geométricas e por sua disposição harmônica no espaço.

Vitórias-régias boiam em Silves, ilha a 200 quilômetros de Manaus (AM).

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Capítulo 15 – Ritmo

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Emmanuel Nassar. 1985. Acrílica sobre tela. 80 cm × 80 cm. Coleção Museu de Arte de São Paulo

Veja, em outro exemplo, como o ritmo está presente na arte. Emmanuel Nassar recria na pintura uma cadência de formas e cores. Emmanuel Nassar

Sonoros Brasil, de Emmanuel Nassar, 1985. Acrílica sobre tela. 80 cm × 80 cm. Coleção Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP).

Emmanuel da Cunha Nassar (1949) é um arquiteto, pintor e desenhista paraense. Na década de 1980, incorporou em alguns trabalhos objetos comuns, como garrafas, criando obras tridimensionais. Homenageia em muitas de suas obras a cultura paraense, utilizando cores vibrantes e formas geométricas de casas e de barracas de feira. Em 1998, realizou a instalação Bandeiras, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Em 1999, recebeu o grande prêmio da 6a Bienal de Cuenca, no Equador, com a obra Incêndio.

1. Compare a obra de Emmanuel Nassar com a foto das vitórias-régias. Que semelhanças podem ser encontradas entre elas?

FAÇA NO CADERNO

2. Nos dois casos, o ritmo resulta da distribuição de formas e cores no espaço. Nas fotos de Pedro Seiblitz, o que constrói o ritmo? 3. A palavra ritmo está presente em nossa linguagem cotidiana. Cite expressões em que ela apareça. Procure abranger diferentes atividades humanas. 4. Explique o que você entende por ritmo. Como você pode ver, ritmo é um fenômeno presente no mundo biofísico e nas manifestações humanas, sejam elas simples gestos do cotidiano, sejam produções artísticas. Aplicado à vida, refere-se a situações de relativa regularidade, mas que constituem um conjunto homogêneo.

O ritmo dos versos

Expressões-chave para compreender a noção de ritmo • Distribuição no tempo e no espaço. • Compasso. • Cadência. • Intervalos regulares. • Alternância de elementos e de valores. • Medida. • Conjunto homogêneo. • Movimento. • Periodicidade.

No gênero literário, o ritmo apresenta-se como um recurso estilístico, principalmente para a arte de fazer poemas, também chamada de versificação. Vamos iniciar o estudo da versificação lendo um poema de Vinicius de Moraes. Amo-te tanto, meu amor... não cante O humano coração com mais verdade... Amo-te como amigo e como amante Numa sempre diversa realidade. Amo-te afim, de um calmo amor prestante, E te amo além, presente na saudade. Amo-te, enfim, com grande liberdade Dentro da eternidade e a cada instante.

O poeta sublime Vinicius de Moraes (1913-1980), poeta e compositor carioca, exaltou a vida em seu trabalho. Como Camões, cantou o amor e a mulher. Para saber mais sobre ele e sua obra, visite o site <http://eba.im/fu7c5f> (acesso em: 15 abr. 2016). Nele você poderá até fazer uma antologia pessoal, selecionando as obras do autor que mais agradarem. Claudine Petroli/Estadão Conteúdo

Soneto de amor total

Amo-te como um bicho, simplesmente, De um amor sem mistério e sem virtude Com um desejo maciço e permanente. E de te amar assim muito e amiúde É que um dia em teu corpo de repente Hei de morrer de amar mais que pude. MORAES, Vinicius de. Soneto de amor total. In: ______. Livro de sonetos. 19. reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 91. © VM Cultural

Vinicius de Moraes, em 1973.

Língua e linguagem

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FAÇA NO CADERNO

1. O poema “Soneto de amor total” trata do modo de amar. Como o eu poético se comporta em relação ao amor nas várias estrofes? Explique como foi organizada a descrição. Os versos de um poema costumam estar agrupados em estrofes, que recebem denominações próprias de acordo com o número de versos que reúnem. O agrupamento de versos que se repete ao longo de um poema e facilita sua memorização chama-se refrão, estribilho ou ladainha. Há vários tipos de estrofe: • dístico — dois versos;

• sétima ou septilha — sete versos;

• terceto — três versos;

• oitava — oito versos;

• quadra ou quarteto — quatro versos;

• nona — nove versos;

• quintilha — cinco versos;

• décima — dez versos.

• sexteto ou sextilha — seis versos;

2. Como foram distribuídos os versos no “Soneto de amor total”? Alguns poemas seguem certo padrão de estrutura e por isso são chamados poemas de forma fixa. O soneto é um deles. Veja alguns outros: • balada — três oitavas e uma quadra, com repetição da ideia no final da estrofe; • vilancete — um terceto (“mote” ou motivo inicial) e outras estrofes livres (“voltas” que desenvolvem o mote); • rondó — só quadras ou quadras e oitavas; • haicai — 17 sílabas distribuídas em três versos. Veja um exemplo de haicai: esta vida é uma viagem pena eu estar só de passagem LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 313.

Releia o soneto de Vinicius de Moraes em voz alta, procurando sentir sua fluência melódica. Note como os versos se harmonizam, ou seja, como têm ritmo. Os poemas são, em princípio, composições baseadas na oralidade, feitos para serem declamados ou cantados. Por isso, devem ser analisados como fenômenos de língua falada. De acordo com esse critério, veja como a divisão silábica dos primeiros versos do “Soneto de amor total” fica um pouco diferente da estabelecida pela gramática normativa: A

mo

te

tan

to

meu

a

mor

Ohu

ma

no

A

mo

te

Nu

ma

sem

não

can

(te)

co

ra

ção

com

mais

co

moa

mi

goe

co

ver

da

(de)

moa

man

(te)

pre

di

ver

sa

rea

li

da

(de)

Escandir ou fazer a escansão de um verso é dividi-lo em sílabas poéticas. É um recurso para verificar como se criou o ritmo. Para verificar o tamanho ou a métrica de um verso, só contamos até a última sílaba tônica, desconsiderando as átonas restantes. Eis a classificação dos versos em relação ao número de sílabas: • • • • • •

monossílabo — uma sílaba; dissílabo — duas sílabas; trissílabo — três sílabas; tetrassílabo — quatro sílabas; pentassílabo ou redondilha menor — cinco sílabas; hexassílabo — seis sílabas;

• • • • • •

heptassílabo ou redondilha maior — sete sílabas; octossílabo — oito sílabas; eneassílabo — nove sílabas; decassílabo — dez sílabas; hendecassílabo — onze sílabas; dodecassílabo ou alexandrino — doze sílabas.

Você já entrou no ritmo? Com essa regularidade de métrica e de alternância de sílabas fortes e fracas, ele está quase totalmente criado no poema.

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Capítulo 15 – Ritmo

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Há ainda outro recurso que, por destacar o final dos versos, ajuda a marcar o ritmo: a rima. Repare que ela começa sempre na última sílaba acentuada de cada verso.

3. Identifique as rimas presentes no poema “Soneto de amor total”, copiando-as e marcando cada uma com uma letra (A, B, C, D). Depois consulte o quadro a seguir e classifique-as. Critério

FAÇA NO CADERNO

Classificação • Externa — no final

Posição no verso

• Interna — no meio (É possível!)

Identidade dos sons (não das letras; só vale o que pronunciamos)

• Perfeita — os sons são idênticos • Imperfeita — os sons que rimam são apenas semelhantes ou rimam só as vogais • Cruzadas ou alternadas — ABAB

Distribuição nos versos

• Emparelhadas — AABB • Interpoladas ou opostas — ABBA

Classe gramatical (substantivo, adjetivo, verbo etc.)

• Pobre — da mesma classe gramatical • Rica — de classes gramaticais diferentes

4. As rimas são selecionadas pelo poeta para destacar as palavras que as contêm. Geralmente são externas, isto é, ocorrem no fim dos versos, mas podem ser internas. Além de marcar o ritmo, também têm a função de realçar o sentido do poema. Verifique se isso acontece no poema que estamos analisando.

Este ritmo enche os olhos Ritmo visual O paulista Paulo José Ramos de Miranda (1950) faz poemas para serem veiculados em rádio, tevê, videotexto, outdoor etc. É editor, programador visual e serígrafo. O texto apresentado é de 1976. Acervo pessoal

Paulo Miranda

Soneto

Paulo José Ramos de Miranda.

MIRANDA, Paulo José Ramos de. Soneto. In: OLIVEIRA, Valdevino Soares de. Poesia e pintura: um diálogo em três dimensões. São Paulo: Unesp (FEU), 1999. p. 110.

Língua e linguagem

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FAÇA NO CADERNO

1. Acione seu arquivo de memória ao olhar o texto de Paulo José Ramos de Miranda. O que o poema sugere? Pensando nisso, justifique o título dado a ele. 2. Observe o uso das cores. Que sentido elas acrescentam ao texto? 3. No final do texto, o autor nos dá o total de sua extensão: “1 m e 40 cm”. O que isso significa? Qual é a relação dessa medida com o título do texto? 4. Como foi criado o ritmo do texto? 5. Afinal, estamos diante de um diagrama, ou seja, de uma representação gráfica, ou de um poema? Justifique sua resposta. Você deve estar se perguntando: para fazer um poema, é preciso seguir rigorosamente essas normas de métrica e rima? É uma possibilidade, mas funciona como uma convenção externa, independentemente do sentido do poema. Os poemas de forma fixa são receitas tradicionais do gênero poético que ainda perduram. Mas cada época tem suas preferências de ritmo e opta por diferentes recursos. Há quase um século, acompanhando o ritmo da vida, o poema tornou-se menos regrado. Apareceram os versos livres (sem padrão métrico) e os versos brancos (sem rima). Hoje em dia, os recursos de metro e rima, quando utilizados, remetem ao significado do poema, estando em coerência com ele.

Outros recursos e outros ritmos Leia os poemas a seguir para senti-los e ter deles uma primeira compreensão. José E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio — e agora?

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Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse... Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho do mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde? JOSÉ-In: José, de Carlos Drummond de Andrade, Companhia das Letras, São Paulo; Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond www.carlosdrummond.com.br

teogonia: sistema religioso.

Capítulo 15 – Ritmo

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Arquivo EM/D.A. Press

Poeta da vida inteira Mineiro de Itabira, participante do Movimento Modernista, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi jornalista e escritor, mas principalmente cronista e poeta. Organizou a própria antologia poética, em que fala da terra natal, dos homens, dos sentimentos, da vida social, da poesia e da vida, num misto de desencanto e humor. É considerado um dos grandes poetas brasileiros por seu domínio verbal, sua visão lúcida da vida e dos sentimentos e sua sensibilidade. Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra Antologia poética, de Carlos Drummond de Andrade.

Carlos Drummond de Andrade.

Drumondana e agora, maria?

que você sonhou

o amor acabou

apagou

a filha casou

à luz do dia

o filho mudou

e agora, maria?

teu homem foi pra vida

vai com as outras

que tudo cria

vai viver

a fantasia

com a hipocondria

RUIZ, Alice. Drumondana. In: ______. Poesia contemporânea. São Paulo: Instituto Cultural Itaú, 1997. p. 56. (Cadernos de poesia brasileira).

JF Diorio/Estadão Conteúdo

De olhos abertos para o mundo Alice Ruiz (1946), poeta curitibana, já participou de movimentos artísticos ligados a publicidade, música e videotexto. Para ela, a leitura segue os seguintes critérios: “Primeiro: reler sempre todos os autores que me emocionam e surpreendem. Segundo: estar sempre atenta ao que está surgindo de novo. Terceiro: me deixar influenciar pelo máximo da quantidade de qualidade existente para, assim, identificar o que há de próprio em minha escrita.” Seu diálogo com Drummond nasceu daí. A escritora mantém um site oficial: <http://eba.im/xec2jk>. Acesso em: 18 mar. 2016. Alice Ruiz, em 2008.

FAÇA NO CADERNO

1. Drummond escreveu seu poema “José” entre 1941 e 1942, partindo de situações do cotidiano para mostrar a falta de perspectivas político-sociais daquela época. O poema de Alice Ruiz faz referência ao de Drummond. Que pistas nos permitem tirar essa conclusão? 2. Criado em 1980, em outras circunstâncias sociais, “Drumondana” falou a outros leitores. Qual foi o objetivo da autora com esse poema? 3. Nos versos de Drummond, a partícula se foi repetida na mesma posição, o que conferiu ao poema um aumento de intensidade emotiva. Este recurso chama-se anáfora. Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse JOSÉ-In: José, de Carlos Drummond de Andrade, Companhia das Letras, São Paulo; Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond www.carlosdrummond.com.br

• Encontre uma anáfora na última estrofe do poema de Alice Ruiz. Cite-a e explique sua função. 4. Um recurso linguístico muito utilizado é o da intertextualidade, o que significa recuperar uma mesma palavra, expressão ou trecho de outro texto, reconstruindo-o com outro sentido. No poema “Drumondana”, os versos “e agora, maria?” e “vai com as outras” retomam uma expressão popular: “maria vai com as outras”. Que sentido essa intertextualidade acrescenta ao texto? Língua e linguagem

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Poema “Um ou dois”. Arnaldo Antunes e Márcia Xavier in: ET EU TU. Ed. Cosac Naify, São Paulo, SP

Do verbal ao visual

ANTUNES, Arnaldo; XAVIER, Márcia. Um ou dois. In: ______. Et eu tu. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. Não paginado.

Em Et eu tu, o poeta Arnaldo Antunes (1960) e a fotógrafa Márcia Xavier (1967) publicaram o texto que você acabou de ler. Trata-se de um texto híbrido. Constituído de poema verbal e foto de dois pés tirada de um ângulo superior, deve ser considerado em seu conjunto.

1. Releia a parte verbal. De que ela trata? Relacione esse conteúdo à foto.

FAÇA NO CADERNO

2. Observe a forma criada pela disposição dos versos. Relacione-a à foto.

Compositor, poeta e videasta O paulista Arnaldo Antunes participou de grupos de música, poesia e vídeo, fez performances e integrou a banda de rock Titãs, de 1982 a 1992, atuando como vocalista e compositor. Hoje continua compondo músicas, é poeta e videasta. Em 2002, lançou o CD Tribalistas (pela gravadora EMI), com Marisa Monte e Carlinhos Brown.

Lucas Lacaz Ruiz/Estadão Conteúdo

3. Você deve ter observado que, em alguns versos, as palavras começam sempre pelo som consonantal /p/. Esse recurso sonoro, que também interfere no ritmo, chama-se aliteração. Qual é seu efeito na criação do sentido do poema?

Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra N.D.A., de Arnaldo Antunes.

Arnaldo Antunes, em 2009.

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Capítulo 15 – Ritmo

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O lado poético da publicidade

AXN

O gênero publicitário muitas vezes emprega recursos da linguagem poética. A aliteração aparece no anúncio publicitário, veiculado na revista Veja, em três páginas ímpares sucessivas. Que sentido esse recurso cria no texto?

VEJA SÃO PAULO. São Paulo: Abril, 8 out. 2003. p. 101, 103, 105.

Paulo Leminski

Nomes estranhos, recursos eficazes

sibilino: enigmático, misterioso. LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 27. FAÇA NO

CADERNO 1. De que assunto nos fala o eu poético? 2. É gritante o destaque do som /s/. Como se chama esse fenômeno? 3. Numa leitura atenta às sílabas tônicas dos versos, observamos que existe assonância, isto é, repetição constante das mesmas vogais. Quais são essas vogais? Que sentido produzem?

Língua e linguagem

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A inversão de termos também ajuda a criar ritmo nesse poema. Além de aparecer no primeiro verso de cada estrofe, ocorre em “o silêncio ao som ensino”. Na ordem direta, seria “ensino o silêncio ao som”, arranjo melódico menos expressivo para o sentido pretendido. Em conjunto, esses recursos sonoros imitam dois sons contrastantes: badaladas de sino e o “psiu” de um pedido de silêncio. A utilização de palavras para simular sons e obter um acréscimo de sentido ao poema chama-se onomatopeia.

Quadrinhos, território de onomatopeias

Eisner, Will. Quadrinhos e arte sequencial. São Paulo:Editora WMF Martins Fontes, 2015, p. 30.

Você pensa que onomatopeias só aparecem em poemas? Veja esta sequência de Will Eisner (1917-2005), um dos mais reconhecidos quadrinistas da segunda metade do século XX. O ritmo da sequência narrativa é marcado pelo pingo-d’água que cai da torneira e que, segundo o próprio autor, permite ao leitor calcular quanto tempo demorou para o pavio da bomba se queimar. A onomatopeia é fundamental para marcar o desfecho da cena.

EISNER, Will. Quadrinhos e arte sequencial. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 30.

As onomatopeias encontradas nos quadrinhos são consideradas brutas, pois reproduzem o som natural. Derivam delas as onomatopeias gramaticais, já incorporadas às regras da língua: o tique-taque (substantivo) do relógio, o tiquetaquear (verbo) do relógio, o som tiquetaqueante (adjetivo) do relógio etc.

Sistematizando a prática linguística Vimos a importância do ritmo para o poema. Vimos também que, para obter o ritmo, o autor opta por recursos expressivos nada gratuitos. Unidos ao conteúdo, eles constroem o sentido do poema. Relembre os que você conheceu neste capítulo: • estruturação — temporal e/ou espacial; • paralelismo; verbal e/ou visual; • anáfora; • métrica — versos regulares e/ou versos livres; • aliteração; • acentuação regular e/ou livre; • assonância; • estrofes — refrão; • inversão; • rima ou versos brancos; • onomatopeia.

Ritmo de última geração Nas últimas décadas do século XX, vários poetas têm-se dedicado à poesia experimental, como a videopoesia e a infopoesia. • Videopoesia: incorporação do movimento ao texto. De forma lúdica, sucessivas e rápidas sequências animadas submetem o poema a metamorfoses surpreendentes, criando novos sentidos e alterando a convenção de leitura do texto. Serve-se de recursos requintados, mesclando-se às artes plásticas e à música. Sua exibição em videoprojetores é adequada a espaços privados ou públicos. • Infopoesia, ou poesia no (do) computador, ou webpoemática: experimento com palavras e imagens trabalhadas com instrumentos de informática. Resulta em um poema espacializado, hipertextualizado, com links visuais e tridimensionais, permitindo a interação do leitor. A linguagem infopoética cria estruturas de alta complexidade. O pioneiro da videopoesia é o poeta e ensaísta português Ernesto Manuel de Melo e Castro (1932). Há outros poetas que desenvolvem essas novas tendências, como Augusto de Campos (1931), Arnaldo Antunes (1960), Eduardo Kac (1962), Erthos Albino de Souza (1932-2000), Julio Plaza (1938-2003), Lenora de Barros (1953) e Philadelpho Menezes (1960-2000). Visite, na internet, os sites a seguir, todos acessados em 18 de março de 2016: • <http://eba.im/tfh8db>; • <http://eba.im/2vdk2j>; • <http://eba.im/wprkbq>; • <http://eba.im/p3o4fi>.

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Capítulo 15 – Ritmo

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Usando os mecanismos linguístico-discursivos Quem não tem um pouco de poeta? A seguir, você encontrará atividades envolvendo dois poemas de Arnaldo Antunes, ambos do livro Psia. Cada um deles servirá de motivação para exercitar o ritmo poético. Bom trabalho!

1. O poeta deixou propositadamente espaços neste poema para serem preenchidos pelo leitor. Assim, haverá tantos poemas diferentes quantos forem os leitores. Faça o seu, usando os recursos adequados para realçar o sentido pretendido. Dê a ele um título. Ao final, apresente-o aos colegas, que, se quiserem, poderão fazer comentários sobre a solução encontrada e os recursos utilizados. Há milhares de s. Um acontece quando se vai longe demais. A miragem que um sujeito cava pra si mesmo é a face escura do A face clara do éo . O é o lugar de se cultivar a sede. Não há s quentes. O Saara e o Polo são s frios, como tudo que a distância faz. No se anda em círculos. Não se sabe o tamanho de um , se ele vai mais fundo. De dentro tem o tamanho do mundo.

FAÇA NO CADERNO

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ANTUNES, Arnaldo. Psia. São Paulo: Iluminuras, 2001. Não paginado.

2. Escolha uma das situações a seguir e escreva um poema sobre ela. Nesta atividade você terá mais liberdade para utilizar recursos rítmicos. Para onde vão os covardes quando fogem? 1) espelho 2) travesseiro 3) escuro 4) braços do inimigo ANTUNES, Arnaldo. Psia. São Paulo: Iluminuras, 2001. Não paginado.

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

(Enem/MEC)

O rap, palavra formada pelas iniciais de rhythm and poetry (ritmo e poesia), junto com as linguagens da dança (o break dancing) e das artes plásticas (o grafite), seria difundido, para além dos guetos, com o nome de cultura hip-hop. O break dancing surge como uma dança de rua. O grafite nasce de assinaturas inscritas pelos jovens com sprays nos muros, trens e estações de metrô de Nova York. As linguagens do rap, do break dancing e do grafite se tornaram os pilares da cultura hip hop. DAYRELL, J. A música entra em cena: o rap e o funk na socialização da juventude. Belo Horizonte: UFMG. 2005 (adaptado).

Entre as manifestações da cultura hip-hop apontadas no texto, o break se caracteriza como um tipo de dança que representa aspectos contemporâneos por meio de movimentos a) retilíneos, como crítica aos indivíduos alienados. b) improvisados, como expressão da dinâmica da vida urbana. c) suaves, como sinônimo da rotina dos espaços públicos. d) ritmados pela sola dos sapatos, como símbolo de protesto. e) cadenciados, como contestação às rápidas mudanças culturais. Língua e linguagem

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Companhia das Letras

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Mundo das linguagens: os textos e os contextos O livro Mulheres de cinzas (2015), primeiro volume da trilogia As areias do imperador, é de autoria do escritor moçambicano Mia Couto (1955). A obra retrata o período em que a metade sul do território de Moçambique era governada por Gungunhame, líder do Império de Gaza, o segundo maior do continente comandado por um africano. A história é contada numa linguagem poética, que alterna as vozes de uma jovem africana, Imani (significa “Quem é?”), e a das cartas escritas por Germano de Melo, sargento português que foi enviado para a batalha contra o imperador Gungunhame, que ameaçava o domínio colonial. Na capa do livro, a ilustração de Marcelo Cipis reflete o envolvimento das duas personagens, e a cor vermelha de fundo marca o estado de guerra. Mia Couto trouxe para essa narrativa informações colhidas em várias entrevistas que ele fez em Maputo, capital de Moçambique, e também na cidade de Inhambane, distante 500 km da capital. Ao usar a conversa como um dos recursos expressivos, “Mulheres de cinzas” é um título que remete a uma metáfora das mulheres que precisam passar desapercebidas no país marcado pela guerra como se elas fossem feitas de sombras ou de cinzas. O resgate da identidade coletiva desse povo se baseia no relato oral para transmitir o convívio entre negros e brancos. Em sua obra, Mia Couto oferece uma oportunidade para que o leitor reflita sobre a história que a elite moçambicana quer oferecer como passado oficial. Por essa razão, sua versão da história de Moçambique é contada por personagens “marginais”: uma mulher e um estrangeiro. Esta unidade tem como o tema integrador “Mundo das linguagens: os textos e os contextos”. No capítulo de Leitura e literatura, vamos estudar a epopeia como um gênero narrativo, apresentado na forma de prosa e poesia, com o objetivo de preservar a memória coletiva de um povo. No capítulo de Texto, gênero do discurso e produção, vamos tratar de uma narrativa que se origina na expressão oral e ganha a forma escrita: o depoimento. Analisaremos a sequência narrativa e o modo de narrar em alguns depoimentos. Depois, você produzirá seus depoimentos orais e escritos. No capítulo de Língua e linguagem, vamos saber como se narra uma história. Verificaremos a diferença entre autor e narrador, e conheceremos os modos de o narrador manifestar-se no texto. Em seguida, você colocará esse recurso linguístico em prática.

Capa do livro Mulheres de cinzas, de Mia Couto. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

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Leitura e literatura

Capítulo 16

Epopeia: gênero narrativo Oficina de imagens

Lauro Rocha

De olho na epopeia paulista

Lenise Pinheiro

Painel Epopeia paulista, 2004, da artista plástica ítalo-brasileira Maria Bonomi (1935). Concreto pigmentado, 7 3 m  3 m. Estação da Luz, São Paulo.

O painel Epopeia paulista, 2004, pode ser visto na estação de metrô Luz, em São Paulo. Expressa o desejo de narrar a memória da cidade de São Paulo por intermédio de reminiscências individuais de pessoas anônimas que já chegaram ou continuam chegando à Estação da Luz.

Detalhe do painel Epopeia paulista, 2004.

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Capítulo 16 – Epopeia: gênero narrativo

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Atividade em grupo Construam um painel da memória de diferentes etnias presentes na sua classe, ou escola, ou bairro, ou cidade. O grupo escolherá o campo de atuação. Para isso, será necessário: 1. Reunir-se com três ou quatro colegas e fazer duas ou três entrevistas com pessoas que chegaram à cidade, vindas de outras cidades ou de outros países. 2. Escolher um suporte de papel e distribuir as figuras nele, usando cores, a fim de produzir sentidos para o leitor. 3. Apresentar esse painel em um espaço apropriado.

Bem-vindo ao discurso narrativo: epopeia contemporânea Leia um fragmento do romance Dossiê H, do escritor albanês Ismail Kadaré, publicado em 1990. O primeiro indício sobre o tema da obra está marcado no título com a letra “h”, que se refere ao poeta grego Homero. O autor organiza uma narrativa simbólica em que dois linguistas irlandeses partiram para uma pequena cidade na Albânia, na década de 1930, levando um novíssimo aparelho, o magnetofone, ancestral do gravador. Esses linguistas estavam dispostos a resolver o enigma em torno dos poemas homéricos estudando a epopeia albanesa tradicional, que ainda subsistia nas montanhas do interior. No entanto, as autoridades da região acreditaram que os pesquisadores eram espiões. Meados de março, na Estalagem Breves anotações sobre o papel do ouvido na poesia oral. As relações “olho-ouvido”. Majekrah (ponta de asa). Ao descrever o gesto antigo do majekrah, que até ilustraram com um desenho, os alemães expressaram a ideia de que talvez fosse ditado por uma necessidade fisiológica. Ponto final. Achamos que é preciso ir mais ao fundo. Quando lhe perguntamos que significado pode ter esse gesto, se se deve a algum rito antigo ou possui um sentido simbólico, o estalajadeiro nos deu uma resposta vaga que concorda mais ou menos com a explicação dos alemães. Aparentemente a necessidade que os rapsodos sentem de tapar uma orelha enquanto cantam está ligada à transformação de sua voz de peito em voz de cabeça e à necessidade de preservar seu equilíbrio contra a vertigem que acompanha o canto. O estalajadeiro: “Não podem imaginar até que ponto é difícil cantar canções de gesta. Antigamente eu mesmo tentei, sem sucesso. A cabeça da gente ressoa como se estivesse acontecendo uma avalanche. Quem não está acostumado pode perder a razão”. Sem dúvida a epopeia oral é essencialmente uma arte de ouvido. O olho, sem o qual não se conseguiria compreender o escritor hoje em dia, não desempenhava um papel primordial na época homérica. Quando muito podia se erigir em obstáculo. Não é à toa que se imagina Homero assim: desprovido da visão. Em geral os rapsodos têm a vista fraca. Pode-se jurar que devem sentir uma espécie de desprezo pelos olhos. Talvez até deixem os seus se deteriorarem de um modo que só eles conhecem? (Não dizem que Demócrito se cegou voluntariamente porque os olhos o impediam de mergulhar em suas reflexões?).

Ismail Kadaré nasceu em 1936 em Gjirokastra, na Albânia. É o mais conhecido escritor albanês. Filho de um funcionário público, presenciou a devastação da Albânia pelas tropas em combate durante a Segunda Guerra Mundial, experiência que deixou marcas tanto na sua vida como na sua obra. Estudou História e Filologia na Universidade de Tirana e no Instituto Gorky de Literatura em Moscou. Depois de sofrer ameaças do regime comunista albanês, exilou-se na França em 1990. Regressou ao seu país em 1999. Recebeu muitos prêmios literários e foi nomeado diversas vezes para o Prêmio Nobel de Literatura. Em 2005, recebeu o Man Booker International Prize. Ulf Andersen/Getty Images

Astúcias do texto

KADARÉ, Ismail. Dossiê H. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 117-118. FAÇA NO CADERNO

Ismail Kadaré, em 2012.

1. Explique o título Dossiê H. 2. Que rito antigo auxiliou os rapsodos referidos no texto a preservar a epopeia real?

A epopeia da língua portuguesa A grande epopeia da língua portuguesa, Os Lusíadas, escrita por Camões, foi publicada em 1572. Para compor esse poema épico, o poeta foi buscar na Antiguidade greco-latina a forma mais adequada, seguindo as pegadas do poeta épico grego Homero, na Odisseia, e, sobretudo, as do poeta latino Virgílio, na Eneida. Leitura e literatura

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Lançando mão desse gênero narrativo em forma de versos, o eu poético conta acontecimentos da história portuguesa, desde suas origens, na Idade Média, até a expansão mercantilista no Renascimento, com ênfase na descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, entre 1497 e 1499. A exaltação dos feitos heroicos portugueses é uma valorização da nacionalidade e da língua portuguesa. A leitura do poema épico poderá surpreendê-lo depois de você conhecer algumas passagens das aventuras portuguesas. No entanto, esse estudo não substitui a leitura integral do texto. Leia as quatro estrofes a seguir, fragmentos do “Canto I” de Os Lusíadas. 1

As armas e os barões assinalados Que, da Ocidental praia lusitana, Por mares nunca dantes navegados Passaram ainda além da Taprobana, E em perigos e guerra esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram. 2

E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

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[...] E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mi um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mi vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Por que de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipocrene.

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arma: feito militar. barão: homem ilustre. dilatar: divulgar. em verso humilde: estilo brando, em oposição à epopeia, que exige um som alto e sublimado. engenho e arte: talento e arte de dizer. Febo: nome grego dado a Apolo, deus da poesia e da música. Hipocrene: nome de uma das fontes inspiradoras de poetas. lei da morte: esquecimento. maravilha fatal: rei enviado pelo próprio Deus para dominar o mundo. maura lança: guerreiros árabes (mouros). mi: mim. Novo Reino: o império português na Ásia e na África. ó bem-nascida: referência à ascendência real de Dom Sebastião. ocidental praia: Portugal. pera do mundo a Deus dar parte grande: para dar grande notícia a Deus sobre o mundo. por que: para que. Tágides: ninfas do Rio Tejo; uma crença antiga atribuía às águas a virtude da inspiração poética. Taprobana: Ilha de Ceilão, hoje Sri Lanka, que indica um lugar muito remoto. terra viciosa: povo não cristão.

[...] E vós, ó bem-nascida segurança Da Lusitana antiga liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Pera do mundo a Deus dar parte grande.

FAÇA NO CADERNO

Você poderá ler Os Lusíadas em: <http://eba.im/j8yzac>. Acesso em: 20 maio 2016.

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. In: ______. Obras completas. Organização de Antônio Salgado Júnior. Rio de Janeiro: Aguilar, 1963. p. 9-10.

1. As duas primeiras estrofes compõem a proposição, parte fixa inicial do poema épico, que se destina a expor o assunto da epopeia. a) Que grandezas do povo português são narradas nesse trecho do poema? b) De que precisa o narrador para ter sucesso em sua criação? 162

Capítulo 16 – Epopeia: gênero narrativo

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FAÇA NO CADERNO

2. A estrofe 4 ocupa uma parte fixa do poema épico, denominada invocação. a) A quem o narrador pede auxílio para inspirá-lo? b) O que o narrador deseja para escrever seu longo poema? 3. Na estrofe 6, inicia-se a parte denominada dedicatória, dirigida ao rei Dom Sebastião. O texto integral ocupa 13 estrofes. a) A que se refere a expressão “Da Lusitana antiga liberdade”? b) Que relação há entre os dois últimos versos e Dom Sebastião? Alonso Sánchez Coello. 1575. Óleo sobre tela. Kunsthistorisches Museum Wien, Gemäldegalerie, Austria

Dom Sebastião A estrofe 6 vai ao encontro do doentio ideal de conquista do jovem rei (tinha apenas 18 anos e era obstinadamente dominado pelo desejo de conquistar grande parte do mundo, a começar pelos territórios árabes do norte da África). [...] D. Sebastião era um predestinado. Cumpria, portanto, iniciar sem demora a devastação do Islamismo dos árabes e dos turcos; a cristandade não deveria ser apenas preservada na Europa, mas ampliada até os confins da terra. [...] Seis anos depois, D. Sebastião e seu exército seriam massacrados em Alcácer Quibir, causando danos irreparáveis ao Estado português. TEIXEIRA, Ivan. Primeiros passos para a leitura de Os Lusíadas. In: CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Apresentação e notas de Ivan Teixeira. São Paulo: Ateliê, 2011. p. 45-47.

D. Sebastião retratado em pintura do espanhol Alonso Sánchez Coello, 1575. Óleo sobre tela.

Ação do poema épico Camões inovou o gênero épico ao introduzir episódios líricos não previstos na epopeia clássica. Inovou também na caracterização do herói épico. Nas epopeias antigas, ele tinha características que o aproximavam dos deuses; em Os Lusíadas, contudo, há dois heróis: o navegador Vasco da Gama e o povo português. O nome da epopeia designa a ação dos lusitanos: “lusíadas” vem de “luso”. O poema épico Os Lusíadas conta a viagem de Vasco da Gama à Índia, retomando todas as grandes navegações portuguesas. Camões tinha consciência de que a conquista do mar era o resultado de séculos de preparação. O poema é dividido em dez cantos, com um total de 1 102 estrofes, todas em oitava-rima (oito versos), rimadas sempre da mesma forma: ABABABCC. Como os antigos, Camões estruturou o poema épico com as seguintes partes: proposição, invocação, dedicatória, narração e epílogo.

Artista desconhecido. 1524. Óleo sobre tela. Museu da Marinha, Portugal. Foto: Album/De Agostini/Archivio J. Lange/Latinstock

A crença popular de que Dom Sebastião teria voltado dessa batalha fez dele um mito e deu origem ao sebastianismo, uma espécie de messianismo surgido em Portugal.

Detalhe de pintura do século XVI representando Vasco da Gama, herói português que protagoniza Os Lusíadas.

Depois dessa introdução, é iniciada a narrativa, com Vasco da Gama e os portugueses já no Oceano Índico, a caminho das Índias. A esse fio narrativo incorpora-se a parte mais longa da narração, feita pelo capitão português ao rei de Melinde quando aportavam na África. Gama conta a história de Portugal e os feitos dos heróis portugueses. Vários episódios se destacam, como o do amor trágico de Inês de Castro, o relato da própria partida e o episódio do gigante Adamastor, que tinha duas faces — a do guardador temível do Cabo das Tormentas, que lançava maldições e profetizava desgraças, e a do amante subjugado pelo desengano amoroso. Entre os vários episódios narrados, destaca-se a fala de um velho na Praia do Restelo, em Lisboa, no momento em que os portugueses estão partindo para as conquistas no Oriente. Leitura e literatura

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Este é um fragmento do discurso do “velho do Restelo”: são as estrofes 94 a 97 do “Canto IV”. 94

Mas um velho d’aspeito venerando, Que ficava nas praias, entre a gente, Postos em nós os olhos, meneando Três vezes a cabeça, descontente, A voz pesada um pouco alevantando, Que nós no mar ouvimos claramente, Cum saber só de experiências feito, Tais palavras tirou do experto peito: 95

“— Ó glória de mandar! Ó vã cobiça Desta vaidade, a quem chamamos Fama! Ó fraudulento gosto, que se atiça C’uma aura popular, que honra se chama! Que castigo tamanho e que justiça Fazes no peito vão que muito te ama! Que mortes, que perigos, que tormentas, Que crueldades neles experimentas!” 96

— Dura inquietação d’alma e da vida, Fonte de desamparos e adultérios, Sagaz consumidora conhecida De fazendas, de reinos e de impérios: Chamam-te ilustre, chamam-te subida, Sendo dina de infames vitupérios; Chamam-te Fama e Glória soberana, Nomes com quem se o povo néscio engana!

aspeito: aparência. atiçar: aumentar. aura: prestígio. entre a gente: no meio do povo. O poeta insiste que o velho representa a opinião do povo sobre as navegações. experto peito: peito experiente. O velho falava com coração, com veemência. honra: empregada no sentido de culto da aparência e da ambição. néscio: ignorante. peito vão: peito vazio. preminente: pomposo. subida: sublime. vitupério: castigo, crítica.

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— A que novos desastres determinas De levar estes reinos e esta gente? Que perigos, que mortes lhe destinas Debaixo dalgum nome preminente? Que promessas de reinos, e de minas D’ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? que histórias? Que triunfos, que palmas, que vitórias? [...] CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. In: ______. Obras completas. Organização de Antônio Salgado Júnior. Rio de Janeiro: Aguilar, 1963. p. 112.

4. No momento em que a esquadra de Vasco da Gama se preparava para partir do cais no Restelo, um velho surgiu na praia. a) Como era ele? b) Com que gesto demonstrou censura diante da partida dos navegantes?

FAÇA NO CADERNO

5. Na estrofe 95, o discurso do velho do Restelo tece duras críticas ao empreendimento português. Quais são os motivos apresentados? 6. O velho do Restelo desmitifica o ideal da fama. O que essa ambição causa nos homens? 7. Na estrofe 97, que sentido adquirem as cinco perguntas feitas pelo velho? 8. Comparando o discurso do velho do Restelo com o discurso inicial do poeta nas primeiras estrofes de Os Lusíadas, identificam-se duas perspectivas diferentes na sociedade portuguesa da época dos grandes descobrimentos. a) Aponte-as. b) Em que medida elas se opõem? 164

Capítulo 16 – Epopeia: gênero narrativo

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Sobre esse episódio de Os Lusíadas, o crítico português António José Saraiva explica que o velho do Restelo é o próprio poeta: Camões inventou esta personagem para emitir certas sentenças, para firmar certa ideologia característica da sua formação humanista [...] O velho do Restelo é o próprio Camões erguendo-se acima do encadeamento histórico e medindo à luz dos valores do humanismo europeu os acontecimentos por que se apaixona o vulgo e de que ele mesmo se faz cantor. SARAIVA, António José. Luís de Camões. Lisboa: Europa-América, 1959. p. 125.

No “Canto X”, depois da tormentosa viagem, os navegantes chegam a Portugal e o poeta encerra a epopeia com um lamento de tristeza pelo destino de sua pátria. Leia a estrofe que inicia o epílogo, última parte do poema épico. 145

austero: sombrio. cobiça: desejo de riqueza. destemperado: desafinado. e não do canto: a desafinação e a rouquidão não advêm do canto. favor: aplauso. gosto: prazer. no mais: não mais. vil: infame.

No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho Destemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza ˜ austera, apagada e vil tristeza. Dua FAÇA NO CADERNO

SARAIVA, António José. Luís de Camões. Lisboa: Europa-América, 1959. p. 262.

9. Sobre o epílogo, responda. a) A quem se dirige o poeta? b) Por que o poeta perdeu o gosto de escrever? c) Compare a estrofe da dedicatória com a do epílogo, identifique as diferenças entre ambas e transcreva algumas expressões que mostrem a mudança de perspectiva do poeta.

Vasco da Gama conta ao rei de Melinde a história de sua pátria num tom de celebração nacional — característica da epopeia. A narrativa começa in media res, isto é, em plena ação, quando a esquadra já se encontra no Oceano Índico em busca de um piloto que lhe indique o caminho certo para a Índia. É entremeada de deuses retirados da mitologia greco-romana, com o poder de decidir o destino dos portugueses. Assim, a trama histórica é acompanhada de uma outra, a mitológica. No Olimpo, ocorre um “concílio dos deuses”, planejado por Júpiter, para proteger as naus portuguesas que já estão no oceano. No entanto, há uma disputa entre aqueles que estão a favor dos portugueses — Vênus (deusa do amor) e Marte (deus da guerra) — e os que pretendem atrapalhar a continuação da viagem — Netuno (deus dos mares) Olimpo (1819-1820), afresco de Luigi Sabatelli (1772-1850). Sala da e Baco (deus do vinho). A cada armadilha de Baco, no Ilíada, Palácio Pitti, em Florença, Itália. entanto, corresponde uma reação de Vênus. Após o sucesso da viagem, os portugueses são recompensados por Vênus com um momento de descanso e prazer na Ilha dos Amores, verdadeiro paraíso natural que muito lembra a imagem que se fazia do Brasil recém-descoberto. Note como os dois planos, o narrativo e o mítico, interpenetram-se e completam-se na estrutura do poema. Há uma conciliação entre a ação mitológica, que acentua aspectos pagãos, e a interferência de um catolicismo fervoroso. Esses elementos caracterizam o discurso épico, apresentado numa linguagem eloquente: com vocábulos latinos e gregos, incorpora a tradição e, ao mesmo tempo, propõe novas palavras e usos, que renovam a língua portuguesa.

Leitura e literatura

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Luigi Sabatelli.1819-1820. Afresco. Palácio Pitti, Itália. Foto: Album/De Agostini/A. Dagli Orti/Latinstock

Qual é a história de Os Lusíadas?

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Na trama dos textos PVDE/Rue des Archives/Latinstock

Diálogo com os poetas modernos A obra de Camões é um convite constante ao diálogo que muitos poetas aceitam. O poema a seguir foi escrito pelo poeta português Fernando Pessoa, no século XX. Note como ele dialoga com o episódio do velho do Restelo. Mar portuguez Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa, em 1914.

Bojador: cabo localizado na costa oeste da África, na altura das Ilhas Canárias, ao norte do Trópico de Câncer.

PESSOA, Fernando. Mar portuguez. In: ______. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1972. p. 82. FAÇA NO 1. No poema acima, Fernando Pessoa dialoga com o texto camoniano. CADERNO a) Que elementos fazem alusão ao episódio do velho do Restelo? b) Identifique os versos que respondem às críticas feitas pelo velho do Restelo ao sacrifício imposto ao povo pelas grandes navegações.

2. As expressões “mar salgado” e “lágrimas de Portugal” se referem a que sentimentos? Alusão: um tipo de interdiscursividade Esse recurso põe em diálogo dois discursos; é o processo de incorporação do tema de um discurso em outro. Não há citação de palavras, mas o tema serve para compreender o que é dito. O linguista José Luiz Fiorin dá o seguinte exemplo: No texto Sampa, de Caetano Veloso, há os seguintes versos: quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto é que narciso acha feio o que não é espelho. O mito de Narciso serve de contexto para entender o sentido dos versos: quando o poeta chegou a São Paulo achou a cidade feia, pois ela não era conforme à imagem que ele tinha de uma cidade. BARROS, Diana L. P.; FIORIN, José Luiz (Org.). Dialogismo, polifonia, intertextualidade. São Paulo: Edusp, 1994. p. 34.

Usando essas expressões, Fernando Pessoa incorpora o discurso camoniano do velho do Restelo ao seu, mas altera o sentido, pois valoriza o empenho feito pelos portugueses ao responder à pergunta: “Valeu a pena?”. A alusão é percebida nesse conjunto de expressões em uma relação de interdiscursividade. Leia, a seguir, parte do célebre episódio lírico de Os Lusíadas: “Inês de Castro”. Trata-se da história de uma formosa dama castelhana por quem se apaixonou o infante Dom Pedro (1320-1367), futuro rei Dom Pedro I, já casado com Constança. Seu pai, Dom Afonso IV, por motivos políticos, decidiu mandar matar Dona Inês, que se tornara amante de seu filho. O episódio inicia-se na estrofe 98 e vai até a estrofe 135 do “Canto III” do poema épico. O trecho a seguir compreende as estrofes 118 a 120.

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Capítulo 16 – Epopeia: gênero narrativo

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ara: altar de sacrifício. causa: origem. depois de morta foi rainha: Dom Pedro I transferiu os restos de Inês de Castro para o mosteiro de Alcobaça, com as pompas devidas a uma rainha. desenterra: refere-se à fama que faz que casos como esse vivam na memória dos homens. dino: digno. doce fruito: “doce fruto de teus anos”, o prazer da juventude. fero: feroz. fortuna: destino. mesquinho: infeliz. mitigar: abrandar, diminuir. molesto: doloroso. Mondego: rio que corta Coimbra, onde morava Inês. nome: Inês trazia o nome de Pedro escrito no coração. obrigar: subjugar. o caso triste: a morte de Inês de Castro. pérfido: traiçoeiro. posta em sossego: vivendo tranquilamente. vitória: alusão à Batalha do Salado, em 1340.

Passada esta tão próspera vitória, Tornando Afonso à Lusitana terra, A se lograr da paz com tanta glória Quanta soube ganhar na dura guerra, O caso triste, e dino da memória, Que do sepulcro os homens desenterra, Aconteceu da mísera e mesquinha Que depois de ser morta foi Rainha. 119

Tu, só tu, puro amor, com força crua, Que os corações humanos tanto obriga, Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga. Se dizem, fero Amor, que a sede tua Nem com lágrimas tristes se mitiga, É porque queres, áspero e tirano, Tuas aras banhar em sangue humano. 120

Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruito, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a fortuna não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus fermosos olhos nunca enxuto, Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas. CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. In: ______. Obras completas. Organização de Antônio Salgado Júnior. Rio de Janeiro: Aguilar, 1963.

“É tarde, Inês é morta” Essa expressão popular vem do episódio de Inês de Castro, que ficou presente na memória popular, para mostrar a inutilidade de medidas tomadas após um acontecimento ruim. Está totalmente refutada a lenda segundo a qual D. Pedro I mandou desenterrar D. Inês para que lhe fossem prestadas honras de rainha; transladou, sim, já rei, seus restos para o mosteiro de Alcobaça, com grandes pompas devidas a uma rainha. [...] A popularidade do tema de Inês vulgarizado no século XVIII: amores proibidos, morte trágica e apaixonada, perseguição dos assassinos, seu requintado castigo e, por fim, o beija-mão ao cadáver desenterrado daquela “que depois de morta foi rainha”. BECHARA, Evanildo; SPINA, Segismundo. Os Lusíadas: Luís de Camões: antologia. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 119.

Esse episódio é o tema lírico de maior repercussão na literatura portuguesa. Aparece, também, no Brasil, com a releitura do poeta brasileiro Jorge de Lima (1893-1953) em seu longo poema épico “Invenção de Orfeu” (1952). Compare o fragmento do Canto II de “Invenção de Orfeu” com o episódio de Inês de Castro, de Os Lusíadas. Estavas linda Inês posta em repouso mas aparentemente bela Inês; pois de teus olhos lindos já não ouso fitar o torvelinho que não vês, o suceder dos rostos cobiçoso passando sem descanso sob a tez; que eram tudo memórias fugidias, máscaras sotopostas que não vias. Leitura e literatura

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Tu, só tu, puro amor e glória crua, não sabes o que à face traduzias. Estavas, linda Inês, aos olhos nua, transparente no leito em que jazias. Que a mente costumeira não conclua, nem conclua da sombra que fazias, pois, Inês em repouso é movimento, nada em Inês é inanimado e lento. As fontes dulçurosas desta ilha promanam da rainha viva-morta; o punhal que a feriu é doce tília de que fez a atra brisa santa porta, e em cujos ramos suave se enrodilha, e segredos de amor ao céu transporta. Não há na vida amor que em vão termine, Nem vão esquecimento que o destine. FAÇA NO CADERNO

LIMA, Jorge de. Invenção de Orfeu. In: ______. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. v. III. p. 587.

3. A morte de Inês de Castro, no ano de 1355, e as circunstâncias trágicas que a envolvem têm sido um dos temas amorosos mais caros aos escritores portugueses e brasileiros (além dos espanhóis e franceses) justamente por simbolizar aspectos radicais do sentimentalismo lusitano. Observe que o poeta brasileiro retoma o verso camoniano “Estavas, linda Inês, posta em sossego” e o transforma em “Estavas linda Inês posta em repouso”. a) Que transformação sintática modifica o sentido dos versos? b) Explique a substituição da expressão “em sossego” por “em repouso”. 4. Como o episódio de Inês de Castro é recuperado no poema épico do modernista Jorge de Lima?

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (Fuvest-SP) Oh! Maldito o primeiro que, no mundo, Nas ondas vela pôs em seco lenho! Digno da eterna pena do Profundo, Se é justa a justa Lei que sigo e tenho! Nunca juízo algum, alto e profundo, Nem cítara sonora ou vivo engenho, Te dê por isso fama nem memória, Mas contigo se acabe o nome e a glória. (Camões, Os lusíadas)

a) Considerando este trecho da fala do velho do Restelo no contexto da obra a que pertence, explique os dois primeiros versos, esclarecendo o motivo da maldição que, neles, é lançada. b) Nos quatro últimos versos, está implicada uma determinada concepção da função da arte. Identifique essa concepção, explicando-a brevemente.

2. (PUC-SP) Dos episódios “Inês de Castro” e “O velho do Restelo”, da obra Os lusíadas, de Luís de Camões, não é possível afirmar que: a) “O velho do Restelo”, numa antevisão profética, previu os desastres futuros que se abateriam sobre a Pátria e que arrastariam a nação portuguesa a um destino de enfraquecimento e marasmo. b) “Inês de Castro” caracteriza, dentro da epopeia camoniana, o gênero lírico porque é um episódio que narra os amores impossíveis entre Inês e seu amado Pedro. c) Restelo era o nome da praia em frente ao templo de Belém, de onde partiam as naus portuguesas nas aventuras marítimas.

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Capítulo 16 – Epopeia: gênero narrativo

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d) tanto “Inês de Castro” quanto “O velho do Restelo” são episódios que ilustram poeticamente diferentes circunstâncias da vida portuguesa. e) o velho, um dos muitos espectadores na praia, engrandecia com sua fala as façanhas dos navegadores, a nobreza guerreira e a máquina mercantil lusitana. 3. (Uncisal-AL) O fim da trilogia épica de Batman

Batman “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (The Dark Knight Rises), que chegou às telas em 27 de julho, é um dos recordistas de bilheteria no Brasil. Apesar da tragédia que atingiu os EUA na pré-estreia do filme em Aurora, no estado do Colorado, a superprodução vem alcançando resultados positivos no cinema nacional. Até o último fim de semana, as bilheterias brasileiras registravam a marca de 3.766.579 ingressos vendidos. Disponível em: http://luanalazarini.wordpress.com/2012/08/19/o-fim-da-trilogia-epica-de-batman/. Acessado em: 24 nov. 2013.

a) b) c) d) e)

Com base nas características do discurso épico, presente em obras literárias como A Odisseia, A Ilíada, Eneida ou Os Lusíadas, justifica-se a associação entre o universo épico e os filmes de Batman porque embora o filme trate de uma história passada num mundo industrializado, é possível a associação proposta porque, como os heróis épicos, Batman luta em nome de uma coletividade, não restringindo seus objetivos à sua própria pessoa. o filme faz uso de muitos recursos visuais e sonoros, criando assim uma atmosfera que se aproxima da grandiosidade a que aspiravam os poetas antigos para escrever suas epopeias. do mesmo modo que há uma grande procura, por parte do público atual, para ver o filme em questão, na antiguidade as pessoas lotavam os anfiteatros para ver a leitura e representação dos textos épicos. o que aproxima os filmes de Batman e as epopeias clássicas é o fato de haver, nos dois casos, combates entre o bem e o mal, o que constitui a característica principal do discurso épico. assim como nas epopeias faz-se uso constante da memória coletiva, nos filmes do Batman o herói está sempre sendo associado a seu passado particular sofrido.

4. (PUC-RS) INSTRUÇÃO: Para responder à questão 4, leia o poema a seguir, de Luís de Camões. Transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar; não tenho, logo, mais que desejar, pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia, que, como o acidente em seu sujeito, assim coa alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; [e] o vivo e puro amor de que sou feito, como a matéria simples busca a forma.

Com base no poema e em seu contexto, afirma-se: I. Criado no século XVI, o poema apresenta um eu lírico que reflete sobre o amor e sobre os efeitos desse sentimento no ser apaixonado. II. Camões é também o criador de Os Lusíadas, a mais famosa epopeia produzida em língua portuguesa, que tem como grande herói o povo português, representado por Vasco da Gama. III. Uma das características composicionais do poema é a presença de inversões sintáticas. A(s) afirmativa(s) correta(s) é/são a) I, apenas. b) III, apenas. c) I e II, apenas. d) II e III, apenas. e) I, II e III.

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Gênero oral e escrito: depoimento

Eneida Serrano

Eneida Serrano

Capítulo 17

Texto, gênero do discurso e produção

Eneida Serrano.

JONER, Jacqueline et al. Ponto de vista: um depoimento fotográfico. Porto Alegre: Movimento, 1979. Não paginado.

A fotografia é bastante explorada para a produção de depoimentos visuais. A foto da bailarina, tirada por Eneida Serrano, faz parte de um ensaio fotográfico sobre circo. Em preto e branco, em um ambiente dominado pela escala de claro e escuro, a imagem recupera o momento em que a artista se prepara para entrar em cena. O registro revela a vida simples da bailarina, por meio de marcas visuais: as sandálias que ela usa e as condições precárias do lugar onde ela se veste (não há um camarim). Assim, é possível detectar um processo narrativo na foto, já que a troca de calçados deixa subentendido um processo de transformação da pessoa comum na bailarina. Trataremos, neste capítulo, de uma narrativa que se origina no cotidiano, pela expressão oral, ganhando, muitas vezes, forma escrita: o depoimento. Você já reparou que estamos sempre contando o que presenciamos ou vivenciamos? Analisaremos a sequência narrativa e o modo de narrar de alguns depoimentos. Depois, você produzirá depoimentos orais e escritos.

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Capítulo 17 – Gênero oral e escrito: depoimento

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(Des)construindo o gênero Do oral para o escrito Em nossa vida diária, estamos sempre contando o que vimos ou vivemos. Assim, o gênero depoimento é frequente em situações cotidianas, como um relato de uma experiência particular a um amigo, ou na esfera jornalística, como em entrevistas, documentários e reportagens. A seguir, há a transcrição de dois depoimentos orais retirados do documentário Pro dia nascer feliz, de João Jardim, lançado em 2006 e veiculado em DVD a partir de 2007. Esse documentário registra a vida de adolescentes brasileiros em seis escolas de Pernambuco, São Paulo e do Rio de Janeiro. Os depoimentos são intercalados com sequências de observação do ambiente escolar e de momentos pessoais de cada jovem.

Depoimento de Maysa, 16 anos Às vezes eu acho que é um pouco vioLENto... esse jeito... como... sei LÁ... como se vive no mundo... (que) às vezes as pessoas têm que deixar de lado aquilo que elas acreditam pra... se conservar vivas... assim... (acho um pouco... estranho isso...) Depoimento de Thais, 15 anos L1 — E... eu tenho medo de coisas... assim... totalmente comPLExas e grandiosas... assim que é medo da MORte... medo do que vai acontecer dePOIS... então... eu começo a pensar nisso e eu fico naquela NOia... e... tem BIlhões de perguntas na minha cabeça que... eu sei que ninguém vai me responder... L2 — Que tipo de perguntas? L1 — Ah... que que acontece depois da VIda?... quem sou EU?... que que vai acontecer coMIgo?... PRO DIA nascer feliz. Direção: João Jardim. Rio de Janeiro: Copacabana Filmes e Produções, 2007. 1 DVD. L1 = Thais, 15 anos. L2 = entrevistador João Jardim.

Pro dia nascer feliz Produzido pelo cineasta João Jardim, o documentário Pro dia nascer feliz, de 2006, retrata o adolescente brasileiro, com suas angústias e inquietações e sua maneira de se relacionar com a escola, ambiente fundamental de sua formação. Além de revelar problemas comuns a diferentes adolescentes, o filme traz à tona questões como a desigualdade social e o impacto da banalização da violência no desenvolvimento de muitos desses jovens. O documentário recebeu vários prêmios, entre eles o de melhor filme no Festival de Gramado 2006, nas categorias Prêmio da Capa do DVD Pro dia Crítica e Júri Popular. O DVD foi nascer feliz. lançado no ano seguinte.

Filme de João Jardim. Pro dia nascer feliz. Brasil, 2007

Transcrever um texto oral é passar as características da fala para a forma gráfica, por meio de uma série de procedimentos. Assim, para compreender a transcrição dos depoimentos, considere que: é importante explicitar para o aluno que a transcrição • as reticências marcam qualquer tipo de pausa; Professor(a), de textos orais apresenta outras normas específicas. Nesta obra, • as palavras entre parênteses são apenas hipóteses do que se ouviu; adotamos o modelo de transcrição do Projeto NURC/SP, que pode ser consulta• as letras maiúsculas marcam entonação enfática; do nas Orientações para o professor. • as interrogações indicam perguntas; • outros sinais de pontuação, típicos da língua escrita, não devem ser utilizados.

Filme de João Jardim. Pro dia nascer feliz. Brasil, 2007

• Compare os depoimentos orais com a versão deles publicada na contracapa do DVD.

FAÇA NO CADERNO

Contracapa do DVD Pro dia nascer feliz.

1. Identifique diferenças entre os depoimentos orais transcritos na íntegra do documentário e os depoimentos escritos publicados na contracapa do DVD. Texto, gênero do discurso e produção

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Nos depoimentos escritos, observa-se o uso do procedimento de retextualização, ou seja, transformação do texto oral em escrito. Em nosso dia a dia, muitas vezes realizamos, sem perceber, atividades de reformulação de textos escritos em orais ou de textos orais em escritos. Por exemplo, o aluno que faz anotações da exposição do(a) professor(a); uma pessoa contando a outra o enredo do livro que leu; alguém que relata ao outro notícias que acabou de ler no jornal; a secretária que anota as decisões tomadas em uma reunião e registra-as em uma ata; o escrevente de uma delegacia que anota o depoimento da vítima. Vivenciamos, em nosso cotidiano, um processo de reformulação dos textos que lemos, ouvimos e produzimos. O depoimento é uma narrativa que se origina na expressão oral e ganha forma escrita, muitas vezes intercalando-se a outros gêneros, como documentários e reportagens. A ação de retextualizar requer um propósito, ou seja, um objetivo que encaminha a reformulação de um texto. Essa finalidade instaura uma relação entre o autor do texto original e o transformador — por exemplo, entre o entrevistado e o entrevistador que altera aspectos do depoimento do entrevistado. Para isso, é necessário conhecer o gênero original e o gênero a que se destina a retextualização. No caso dos textos analisados, os depoimentos foram coletados por meio de entrevistas feitas para um documentário. Tais depoimentos foram retextualizados para compor a contracapa do DVD. Nos procedimentos de retextualização, podem-se eliminar, completar, regularizar, acrescentar, substituir, reordenar diferentes aspectos linguísticos e textuais. O professor universitário Luiz Antônio Marcuschi apresenta um modelo de operações textuais-discursivas utilizado na passagem do texto oral para o texto escrito. Observe o quadro a seguir. Operações textuais-discursivas na passagem do texto oral para o texto escrito 1a operação

Eliminação de marcas interacionais, hesitações e partes de palavras.

2a operação

Introdução da pontuação com base na entonação das falas.

3a operação

Retirada de repetições, redundâncias e paráfrases.

4a operação

Introdução da paragrafação, com a manutenção dos tópicos discursivos, ou seja, mantendo a progressão textual original.

5a operação

Introdução de marcas coesivas (referenciação e coesão sequencial).

6a operação

Reconstrução de estruturas truncadas, concordâncias, reordenação sintática.

7a operação

Tratamento estilístico: seleção de novo léxico e de novas estruturas sintáticas.

8a operação

Reordenação tópica do texto e reorganização da sequência argumentativa.

9a operação

Agrupamento de argumentos e condensação de ideias.

Operações especiais

Adaptação dos turnos da fala (nos diálogos) para formas monologadas ou dialogadas. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2004. p. 75.

2. Releia os depoimentos da contracapa e identifique quais desses procedimentos foram utilizados no processo de FAÇA NO retextualização. CADERNO Na retextualização, é importante considerar que o número de operações realizadas se modificará de acordo com a finalidade da produção e com o tamanho e a complexidade do texto original. A seguir, vamos analisar diferentes formas escritas assumidas pelo gênero depoimento em reportagem, site e livro.

Características do depoimento O depoimento é um texto do gênero narrativo não ficcional, que não pode ser confundido com a narrativa literária, em que aparecem narrador e personagens ficcionais. Os textos do gênero narrativo não ficcional (depoimentos, biografias, diários, anedotas) situam-se historicamente, atendendo à motivação de uma situação real. Direciona-se a um leitor/ouvinte específico, que logo o reconhece quando se depara com ele — afinal, reproduz a fala que procede de alguém e se dirige a outro. Os gêneros narrativos ficcionais são: contos, novelas, romances, epopeias, fábulas, mitos.

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Capítulo 17 – Gênero oral e escrito: depoimento

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EXCLUSIVO

Dois ex-dirigentes do DEM denunciam desvio de dinheiro do partido na Bahia e no Acre

NÃO VALE TUDO

COLUNISTAS

Felipe Patury e a Pantera Cor-de-Rosa do Planalto Bruno Astuto e o fotógrafo que deixa as mulheres de quatro Walcyr Carrasco e o manobrista que cobra propina

A reação ao acordo de Lula com Maluf mostra que o Brasil exige um mínimo de coerência dos políticos

Editora Globo

Uma reportagem de capa da revista Época tratou de um assunto bastante controvertido: a decisão de interromper a própria vida. A reportagem, de Felipe Pontes, traz a marca de sua época, mostrando que, no início do século XXI, pacientes terminais podem sobreviver por mais tempo graças a suportes tecnologicamente avançados, como marca-passos, sondas, eletrodos, máscaras de oxigênio. São os chamados “tratamentos fúteis”. Segundo a matéria, uma aposentada paulistana, de 68 anos, já Eles querem planejou a sua morte. Para isso, ela se associou a uma organização suíça com outros decidir 6 261 inscritos de 74 países que têm a mesma decisão. como O texto mostra ainda a controvérsia em relação a esse assunto: há quem discorde morrer Os brasileiros que pagaram para o próprio dessa escolha, considerando o procedimento como um tipo de eutanásia; para essas agendar fim numa clínica da Suíça – e debate sobre pessoas, a antecipação da morte seria homicídio. O físico Stephen Hawking fala à oa morte assistida Época sobre sua aposta na vida: “Encerrar a própria vida eutanásia: morte sem seria um grande erro. Sempre é possível triunfar”. Encerrar a própria vida seria um grande erro. Sempre é possível triunfar” sofrimento, proporcionada O jornalista coletou depoimento de brasileiros que dea doente terminal que cidiram por esse recurso. ÉPOCA. São Paulo: Globo, ed. 736, sofre dores insuportáveis. 23 jun. 2012. Capa. Leia o depoimento de Raquel, a aposentada de 68 anos. www.epoca.com.br

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25 JUNHO 2012 I Nº 736 I R$ 9,90

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diz a ÉPOCA o físico Stephen Hawking

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“Há quatro anos, eu estava andando na rua quando desmaiei, caí e quebrei uma costela. Investigando a causa daquele desmaio, descobri que tenho ateromatose, uma doença degenerativa que entope minhas artérias carótidas e aorta. Isso prejudica o fluxo de sangue e oxigênio para meu cérebro, provocando desmaios e a morte de células nervosas. A ateromatose é imprevisível. Posso ter um derrame, dentro de um mês ou 15 anos, e perder a consciência de quem sou para sempre. Logo que fui diagnosticada, me inscrevi na Dignitas. Eu conhecia e admirava o trabalho do americano Jack Kevorkian, o Dr. Morte, que auxiliava seus pacientes terminais a morrer. Fiquei aliviada ao descobrir uma organização capaz de fazer isso, mesmo que eu tivesse de viajar até a Suíça. […] Sei que há uma cirurgia para tratar da ateromatose. Mas é um risco. […]” Raquel (nome fictício), aposentada, 68 anos. PONTES, Felipe. Depoimentos de brasileiros que se inscreveram na clínica especializada em morte. Época, Sociedade, 23 jun. 2012. Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/06/depoimentos-de-brasileiros-que-se-inscreveram-naclinica-especializada-em-morte.html>. Acesso em: 22 mar. 2016. FAÇA NO CADERNO

1. O relato, inicialmente oral, foi solicitado pelo repórter quando coletava material para seu trabalho. Levando em conta o assunto da reportagem, explique qual foi o objetivo do depoimento de Raquel. 2. Retire do texto as expressões verbais que representam as situações correspondentes ao processo da doença de Raquel. 3. Como se organizam os acontecimentos no texto? Divida-o em partes e explique a função de cada uma delas. 4. Qual é a motivação social do relato e a quem se destina? 5. Como se apresenta o narrador do relato? No caso de Raquel, há um intervalo de quatro anos entre o ocorrido e o relato. Aí aparece uma primeira característica da narrativa: distanciamento do fato. O relato dos acontecimentos, quando escrito, ganha uma dimensão própria: o texto. Autonomia é a segunda característica da narrativa. Retirado da mesma reportagem, leia a seguir outro depoimento, relatado por Ana Paula, ex-atleta, 32 anos. “Na escola, eu lutava judô e era a atleta da sala. Depois, me formei em Educação Física e pratiquei todo tipo de esporte. Malhava e corria diariamente, pegava onda quase todo fim de semana e participei de maratona. Tudo acabou há três anos. Dei um mergulho no mar, de um lugar alto, não vi que a água estava rasa e caí de cabeça num banco de areia. Quebrei uma vértebra na coluna cervical e fiquei tetraplégica. Desde então, só consigo mexer a cabeça. A lesão não tem cura. […] Fiquei muito tempo achando que as coisas iriam melhorar e acontecer. Pesquisei muito o assunto e sei que a perspectiva não é boa. Há muita esperança em células-tronco, mas nada palpável até agora. [...] Eu entrei em contato com a Dignitas há um ano e meio. Fiquei aliviada em descobrir que lá não é um açougue. Eles se importam, querem saber o que você sente. Com a Dignitas, passei a ter uma alternativa, uma saída. Senti uma paz impressionante ao me cadastrar lá.” Ana Paula (nome fictício), ex-atleta, 32 anos. PONTES, Felipe. Depoimentos de brasileiros que se inscreveram na clínica especializada em morte. Época, Sociedade, 23 jun. 2012. Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/06/depoimentos-de-brasileiros-que-se-inscreveram-naclinica-especializada-em-morte.html>. Acesso em: 22 mar. 2016.

Texto, gênero do discurso e produção

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FAÇA NO CADERNO

6. Como se organiza a sequência do texto? Divida-o em partes e explique a função de cada uma delas. 7. Compare o depoimento de Raquel com o da ex-atleta. Explique o que difere no modo de organização desse último com relação aos sentidos construídos.

Avaliação pessoal Experiências significativas, quando transmitidas oralmente ou por escrito, enriquecem a vida das pessoas nos mais variados ramos de atividade. Leia este interessante relato sobre fotografia de Alicia Peres, estudante do 2o ano de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Através da ImageMagica pude fazer diferença na vida desses jovens Comecei a trabalhar na ImageMagica em 2001 como assistente do fotógrafo André François. Participei de muitas oficinas da lata, como assistente e educadora. Minha primeira grande experiência aconteceu em 2002, quando fui chamada para ministrar aulas de fotografia num centro profissionalizante. Eram aproximadamente 45 jovens que já tinham seus olhares sensibilizados pela fotografia na lata. O curso começara em março daquele ano e no segundo semestre achamos que o profissionalizante seria um bom fechamento. Em pouco tempo percebi que, ao oferecer a técnica, o retorno dos jovens vinha em forma de imagens excelentes e ideias criativas. Estudei muito tempo tudo aquilo, e em poucos meses vi mentes brilhantes criando possibilidades novas para velhas receitas. Muitos desses jovens agora trabalham conosco. Outros estão prestes a se tornar educadores. Neste caso me sinto ainda mais feliz, pois o trabalho será transmitido por alguém que já foi beneficiado. Gostaria de ter ensinado a esses jovens tanto quanto eles me ensinaram. Viver uma realidade tão diferente da minha abriu minhas potencialidades como pessoa, como educadora e como fotógrafa. Já estudei muita teoria. Já escrevi sobre a desigualdade social e os meios de amenizá-la. Porém há coisas que precisamos ver para crer. Sentia-me sempre muito insatisfeita por limitar as discussões e atitudes apenas ao meu meio, na universidade e no meu bairro. A ImageMagica me deu a oportunidade de fazer alguma diferença na vida destes jovens, que assumiram um olhar diferente sobre a comunidade onde vivem e tiveram a oportunidade de aprender uma técnica nova. PERES, Alicia. Através da ImageMagica pude fazer diferença na vida desses jovens. Disponível em: <http://www.imagemagica.org>. Acesso em: 17 dez. 2003.

Socializando experiências O projeto ImageMagica nasceu em 1995. O fotógrafo André François fazia fotos em São Tomé das Letras, sul de Minas Gerais, quando notou o interesse das crianças pela fotografia. Idealizou então uma forma de fotografar usando câmeras de lata (técnica de pinhole), solução socialmente viável por ser prática e barata. A fotografia, permitindo melhor observação da realidade, passou a funcionar como meio de releitura e de transformação social. O projeto foi adotado em várias comunidades carentes de São Paulo. FAÇA NO CADERNO

1. O depoimento de Raquel, veiculado em uma revista, pertence a uma esfera jornalística específica. Em que esfera de atividade se insere o de Alicia Peres? Qual é sua motivação? 2. Releia o depoimento de Raquel para comparar sua sequência narrativa com a do depoimento de Alicia Peres. Explique o que é diferente no modo de organização deste último e sua interferência no sentido do texto. 3. As adjetivações a seguir foram extraídas do depoimento de Alicia Peres na ordem em que aparecem. Que relação você vê entre essa sequência e a estrutura narrativa do texto? olhares sensibilizados — imagens excelentes e ideias criativas — mentes brilhantes — possibilidades novas para velhas receitas — olhar diferente — técnica nova

Linguagem do gênero O papel do narrador Você certamente já ouviu falar de pessoas que, motivadas por sonhos e espírito aventureiro, se arrojam em práticas radicais. Uma delas é a escalada do monte Everest, cume do Himalaia, cordilheira localizada na Ásia, entre o Nepal e o Tibete. Como o Everest fica a 8 848 metros de altitude, a experiência expõe o alpinista a várias noites sem dormir, a ventos fortíssimos e ao perigo de congelamento e de falta de oxigênio.

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Capítulo 17 – Gênero oral e escrito: depoimento

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Jornalismo e adrenalina Jon Krakauer, jornalista e alpinista experiente, era editor freelancer da revista Outside quando foi contratado para fazer a reportagem sobre a crescente “comercialização do Everest”, isto é, a popularização de expedições em que guias profissionais são pagos para acompanhar montanhistas amadores (muitas vezes despreparados). Ele alcançou o cume do Everest no dia 10 de maio de 1996, apesar das dificuldades: 56 horas sem dormir, exaustão, tontura por falta de oxigênio, congelamento e alucinações. Alguns de seus companheiros, incluindo Rob Hall, não sobreviveram. Krakauer conta essa história no livro No ar rarefeito. Outro sobrevivente da tragédia, Anatoli Bookreev, também escreveu um livro: A escalada. Ele morreria depois escalando outro cume, de 8 mil metros.

Companhia das Letras

O neozelandês Rob Hall, guia especializado em montanhas de grandes altitudes, realizou essa proeza quatro vezes entre 1990 e 1995. Em 1996, aos 36 anos, organizou sua última expedição, que terminou tragicamente. O jornalista Jon Krakauer fez parte dela e narrou a experiência.

• Leia o impressionante relato feito por Krakauer na introdução do livro. Em março de 1996, a revista Outside enviou-me ao Nepal para participar de uma escalada guiada ao monte Everest e escrever sobre ela. Fui na qualidade de um dos oito clientes da expedição chefiada por um conhecido guia da Nova Zelândia, chamado Rob Hall. No dia 10 de maio cheguei ao topo do mundo, porém a um custo tremendo. Entre os cinco companheiros de equipe que atingiram o topo, quatro, inclusive Hall, pereceram numa tempestade terrível que chegou sem avisar enquanto ainda estávamos no pico. Até eu descer ao acampamento-base, nove alpinistas, de quatro expedições diferentes, estavam mortos e três outras vidas se perderiam antes que o mês terminasse. A expedição me deixou muito abalado e foi um artigo difícil de escrever. Ainda assim, cinco semanas depois de ter voltado do Nepal, entreguei um manuscrito à Outside que foi publicado na edição de setembro da revista. Cumprida essa parte, tentei tirar o Everest de minha cabeça e de minha vida, mas foi impossível. Em meio a um nevoeiro de emoções confusas, continuei tentando dar um sentido ao que acontecera lá em cima e a martelar as circunstâncias em que meus companheiros morreram. O artigo para a Outside foi tão preciso quanto possível, dadas as circunstâncias: eu tinha um prazo, a sequência de eventos fora de uma complexidade frustrante e as lembranças dos sobreviventes estavam muito distorcidas pela exaustão, falta de oxigênio e choque. Em certo ponto de minha pesquisa, pedi a três outras pessoas para contarem um incidente que nós quatro testemunhamos, na alta montanha, mas ninguém foi capaz de concordar quanto aos fatos cruciais, como a hora, o que fora dito e nem mesmo quanto a quem estava presente. Alguns dias depois que o artigo para a Outside foi impresso, descobri que alguns detalhes por mim narrados estavam errados. Eram enganos de pouca importância, a maioria deles do tipo que inevitavelmente acontece no jornalismo. Contudo, um de meus enganos foi mais significativo, tendo um impacto devastador nos amigos e na família de uma das vítimas. Apenas um pouco menos desconcertante do que os erros factuais do artigo foi o material que se teve de omitir por falta de espaço. Mark Bryant, o editor da Outside, me deu um espaço extraordinário para contar a história: eles publicaram o artigo com 17 mil palavras — quatro a cinco vezes maior que uma matéria convencional de revista. Mesmo assim, senti que fora abreviado demais para fazer justiça à tragédia. A escalada do Everest abalou até o âmago de minha vida; tornou-se desesperadamente importante, para mim, registrar os eventos em todos os detalhes, livre das limitações de uma revista. Este livro é fruto dessa compulsão. A impressionante falta de confiabilidade na mente humana a grandes altitudes tornou a pesquisa problemática. Para não me fiar apenas em minhas próprias impressões, entrevistei longamente a maioria dos protagonistas e em várias ocasiões. Sempre que possível, confirmei os detalhes com os registros das transmissões de rádio mantidos pelo pessoal alojado no acampamento-base, onde ainda havia lucidez de pensamento. Os leitores familiarizados com o artigo da Outside notarão discrepâncias entre certos detalhes (sobretudo em relação às horas) narrados na revista e os reproduzidos no livro; as revisões refletem novas informações que vieram à luz após a publicação do artigo. Vários autores e editores que respeito aconselharam-me a não escrever o livro tão depressa quanto o fiz; pediram-me para esperar dois ou três anos e colocar uma certa distância entre mim e a expedição, a fim de enxergar os fatos com uma clareza maior. O conselho deles era bom, mas no fim terminei por ignorá-lo — principalmente porque o que houve na montanha estava me roendo as entranhas. Pensei que, escrevendo o livro, poderia expurgar o Everest de minha vida. Claro que isso não ocorreu. Reconheço que os leitores em geral saem perdendo quando um autor escreve como um ato de catarse, como eu fiz aqui. Mas eu esperava que pudesse obter algo mais ao desnudar minha alma na turvação e no calor do momento, logo após a calamidade. Queria que meu relato tivesse uma espécie de honestidade crua, impiedosa, que talvez me escapasse com a passagem do tempo e a dissipação da angústia. Texto, gênero do discurso e produção

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Algumas das pessoas que me aconselharam a não escrever tão depressa também tinham me aconselhado, em primeiro lugar, a não ir ao Everest. Havia muitas e ótimas razões para não ir, mas tentar escalar o Everest é um ato intrinsecamente irracional — um triunfo do desejo sobre a sensatez. Qualquer pessoa que contemple tal possibilidade com seriedade está quase que por definição além do alcance de argumentos racionais. A verdade é que eu sabia que não deveria ir, mas fui assim mesmo. E, ao ir, acompanhei de perto a morte de pessoas boas. Isso é algo que talvez permaneça em minha consciência por muito tempo. Jon Krakauer, Seattle, novembro de 1996. KRAKAUER, Jon. No ar rarefeito. Tradução de Beth Vieira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 11-13.

Não é um relato emocionante? Esse tom se conserva durante todo o livro. Se possível, combine com seu professor a leitura do texto integral. Vamos à análise do depoimento de Krakauer, que, embora seja único, permite perceber dois diferentes momentos de produção.

Companhia das Letras

1. Identifique esses dois momentos de produção contidos no texto e a expressão que permite comprovar o término do primeiro. 2. Em cada parte, há um modo distinto de narrar, uma vez que o autor tinha diferentes motivações sociais. Quem é o narrador da primeira parte? Para quem narra? 3. Quem narra na segunda parte? Para que leitores? Com que objetivo? 4. Como o autor justifica a passagem da primeira para a segunda narração? 5. A narração feita em primeira pessoa apresenta um narrador participante, que fala de si e de outras personagens. Selecione do texto expressões utilizadas pelo narrador para se referir aos outros participantes da aventura. Separe-as conforme o momento da narrativa. 6. Que sentido se depreende dessas formas linguísticas? 7. Cite a sequência de motivos que levaram o autor a escrever o livro. 8. Releia os parágrafos de 7 a 9. Comente a estratégia de distanciamento dos fatos e de aproximação com o leitor.

Aventuras marítimas Você gosta de depoimentos sobre aventuras radicais? Então anote mais dois livros com esse tema, de Amyr Klink: Cem dias entre céu e mar e Paratii: entre dois polos. Amyr Klink nasceu na cidade de São Paulo em 1955 e é formado em Economia. Navega desde criança e já participou de regatas e travessias do oceano. Isso lhe rendeu um profundo amor aos barcos e à vida marítima. Em sua obra, misturam-se aventura, compreensão das relações do ser humano com o meio natural e projetos de tecnologia avançada.

Companhia das Letras

FAÇA NO CADERNO

O autor relata a travessia do oceano Atlântico, que fez em um barco a remo.

O livro narra os 13 meses de navegação solitária rumo à Antártida.

Características do gênero narrativo: depoimento • • • • •

Os fatos organizam-se de forma lógica, em sequência temporal retrospectiva (tempos verbais e expressões de tempo). A sequência narrativa parte de fato único e descreve uma modificação de comportamento. A narração é produzida em primeira pessoa. Pode-se apresentar avaliação. São empregadas algumas estratégias gramaticais para graduar o ritmo: seleção vocabular, adjetivações, conetivos que indicam tempo, causa e consequência.

Praticando o gênero Recordar para contar Em nossa vida, há sempre alguém marcante e importante com quem criamos laços de amor e amizade. Geralmente, os mais velhos têm experiências que são transmitidas para outras gerações. O resgate dessas lembranças desperta em nós um sentimento de pertencimento a uma época e um lugar.

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Capítulo 17 – Gênero oral e escrito: depoimento

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A palavra recordar significa lembrar, trazer à memória. Sua tarefa será coletar um depoimento de uma pessoa querida (pais, familiares, amigos, professores) e descobrir uma situação marcante pela qual ela passou. Peça a ela que se recorde de um momento importante para a história de sua família. Grave o depoimento oral dessa pessoa. Seu objetivo é transformá-lo em um depoimento escrito. Para isso, siga as seguintes orientações: • • • • • •

Grave o depoimento oral. Faça a transcrição do texto coletado. Selecione as informações mais relevantes. Escreva o depoimento escrito, considerando as operações de retextualização propostas no início do capítulo. Escolha um título sugestivo para o texto. Publique as memórias familiares da turma em um blog e divulgue para a comunidade escolar.

Afetos e lembranças

FAÇA NO CADERNO

1. Relembre um fato marcante ocorrido com você, por ter sido importante, emocionante, interessante ou engraçado. Com base nele, produza um depoimento escrito que resgate afetos e lembranças significativos em sua vida. Seu texto deverá despertar interesse nos leitores. Combine com o professor onde e como serão divulgados os depoimentos. 2. Providencie uma foto (ou mais) que registre esse acontecimento. Reúna-se com dois ou três colegas. Troquem experiências por meio de um primeiro relato oral e mostrem as fotos uns aos outros. 3. Antes de redigir seu depoimento, planeje o texto a fim de contemplar a composição do gênero: • objetivo do depoimento; • esboço das partes do texto; • sequência dos fatos, ritmo e intensidade; • estratégias gramaticais de que se servirá; • recursos para adequar-se ao leitor pretendido e para promover uma aproximação com ele; • narrativa em primeira pessoa. 4. Escrito o rascunho do depoimento, troque-o com o de um colega. Sobre o texto dele, faça dois tipos de comentários: como leitor comum, expresse sua opinião; como leitor crítico, faça observações e sugestões sobre a adequação ao gênero depoimento, a coerência e a correção gramatical. Ajude seu colega a aprimorar o texto dele. 5. Releia seu texto, consultando os quadros deste capítulo e aproveitando as observações do colega. 6. Para expor seu trabalho, passe-o a limpo, cuidando da apresentação.

Cada vida é um documento Em 1991, a historiadora paulista Karen Worcman, sentindo falta de um arquivo de história oral, iniciou um movimento que teve a adesão de muitos historiadores, sociólogos, jornalistas e psicólogos e culminou na formação do Instituto Museu da Pessoa. Um dos projetos resgatou a memória operária da região do ABC paulista; outro, as profissões já extintas.

1. Visite o site <http://eba.im/i5ikyx> (acesso em: 21 maio 2016) para conhecer esses e outros trabalhos. 2. Se quiser e puder, cadastre-se no museu e seja um colaborador: envie fotos, documentos, desenhos, relatos de dramas individuais, de sagas familiares etc., e ganhe uma sala virtual.

| Em cena | Escolha uma disciplina escolar em que você tenha experimentado um momento engraçado, lúdico, difícil, prazeroso, gratificante etc. Usando o roteiro anterior (“Afetos e lembranças”), apresente oralmente seu depoimento sobre essa experiência aos colegas. Observe que o padrão de linguagem oral será coloquial, diferente do empregado no depoimento escrito. Atenção para a entonação de voz, a postura do corpo e as expressões faciais que compõem o texto oral.

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Capítulo 18

Língua e linguagem

Modos de narrar Explorando os mecanismos linguísticos Osvaldo Praddo/Ag. O Dia

Autor  narrador No dia 30 de junho de 2000, o jornal carioca O Dia trouxe uma fotonotícia do confronto entre policiais e traficantes na favela da Vila Vintém, em Padre Miguel, na zona oeste do Rio de Janeiro. A fotografia trouxe a legenda: “Polícia sem condição na Vila Vintém em Padre Miguel — Carro da PM sujo.”. O fotógrafo Osvaldo Prado flagrou um carro sujo da Polícia Militar no meio da favela, sem nenhum policial dentro dele. A viatura tinha várias identificações: o emblema da polícia do Rio de Janeiro, as luzes em cima do teto. Só que também trazia dois enunciados escritos em diferentes lugares do carro. Fotografia de viatura da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro publicada em fotonotícia de jornal carioca, 2000.

FAÇA NO CADERNO

1. Com que objetivo a foto foi tirada? A quem se destinava essa fotonotícia? 2. Que voz o fotógrafo colocou falando para os leitores? 3. Que marcas gramaticais permitem identificar essa voz? 4. O narrador do texto é o carro, por quem o autor faz falar. Com base nisso, explique a diferença entre autor e narrador. 5. A fotografia flagra uma situação cotidiana — um carro de polícia sujo, com o logotipo da PMERJ e uma solicitação escrita à mão, como se tivesse sido escrita pelo carro. Como se chama esse recurso de linguagem que dá voz ao objeto?

No enunciado verbal, autor e narrador são diferentes. O autor é quem escreve/fotografa; o narrador é a voz que ele inventa para falar e que, uma vez inventada, ganha autonomia no texto.

Narrador  leitor O narrador e o leitor virtual são entidades fictícias que integram o enunciado. Não podem ser confundidos com o autor empírico nem com o leitor real. O narrador endereça sua fala à imagem que faz do leitor que ele tem em mente no momento em que escreve. O leitor geralmente está implícito no texto; às vezes, pode aparecer de forma explícita. Vejamos um caso. José Eduardo Camargo, paulista de Itápolis, editor especial do Guia 4 Rodas, viajou a trabalho pelo Brasil e fotografou placas interessantes que encontrou pelas estradas. Algumas delas aparecem em uma publicação especial da revista Superinteressante, com o título “O Brasil das placas: viagem por um país ao pé da letra”. Veja ao lado a foto de uma placa da cidade de Canela, no Rio Grande do Sul.

José Eduardo Camargo

6. Que sentido se criou com esse recurso e com o uso da primeira pessoa?

O BRASIL das placas: viagem por um país ao pé da letra. Superinteressante, São Paulo: Ed. Abril, 2003. p. 26.

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Capítulo 18 – Modos de narrar

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FAÇA NO CADERNO

1. Observe o texto verbal da placa da foto. Quem é o narrador? Como ele é identificado? 2. Qual é o objetivo do cartaz? 3. O narrador imagina como leitor virtual um turista que deixa lixo por onde passa. a) Como o narrador se dirige ao leitor? b) Que sentido essa saudação cria no enunciado? 4. No cartaz, são empregados dois pronomes. Como eles estão colocados na frase? Que sentido isso acarreta?

O leitor previsto pelo narrador é parte essencial do enunciado, e este estabelece com aquele um diálogo explícito ou implícito. Também o leitor virtual é uma construção ficcional.

Narrador participante Até aqui notamos que uma das formas de o narrador aparecer é se tornando presente no texto, falando em primeira pessoa, o que fica marcado nas desinências verbais e nos pronomes. Observe como Fernando Morais empregou o narrador em primeira pessoa num depoimento para um jornal carioca. Meu clássico Várias obras fizeram minha cabeça ou contribuíram para minha formação. Meu primeiro alumbramento literário, no entanto, aconteceu quando li, aos 14 anos, em Belo Horizonte, O encontro marcado, de Fernando Sabino. Já lera outros romances antes, mas aquela era uma história que se desenrolava na cidade em que eu vivia — cidade que ainda guardava, intactas, as características dos anos 40, época em que é ambientado o livro. Os lugares celebrizados em O encontro marcado — o viaduto Santa Teresa, a Rua da Bahia, o Minas Tênis Clube — estavam todos lá. Era como se eu pudesse andar entre os capítulos de um livro, ao final do qual eu estava decidido: ia ganhar a vida escrevendo. A fluência do texto, o caráter coloquial dos diálogos e a leveza com que a história era contada, porém, me induziram ao primeiro e grave erro profissional: imaginar que escrever é a coisa mais fácil do mundo. MORAIS, Fernando. Meu clássico. O Globo, Rio de Janeiro, 20 dez. 2003. Prosa & Verso, p. 5. FAÇA NO CADERNO

2. Que marcas gramaticais nos permitem identificar o narrador participante? 3. Que sentido essas marcas criam no texto?

Narrador não participante Leia agora esta bem-humorada narrativa feita por Victor Giudice em 1996 e publicada no Jornal do Brasil em 1998. Movido pela dificuldade de lidar com a linguagem de computador de sua época, o autor resolveu brincar com ela.

Especialidade: biografias Fernando Morais nasceu em Minas Gerais em 1947. É jornalista e escritor especializado no gênero biografia, o que o leva a fazer minuciosas pesquisas. Escreveu obras de grande sucesso de mercado: A ilha, Olga, Chatô, o rei do Brasil (as duas últimas já adaptadas para o cinema), Corações sujos, O mago e muitas outras.

Sérgio Lima/Folhapress

1. O modo como o narrador participa da narrativa nos leva a situações do cotidiano. Quais são elas?

Fernando Morais, em 2005.

A volta de Eudora Light (Miniconto sujeito à internet com personagens soft) Eudora Light não se sentia feliz casada com Word Seis porque o considerava um Ponto Zero. Um dia, viu uma Photo Deluxe de Aldus Pagemaker e ficou apaixonada. Saiu pela primeira Windows que encontrou aberta e Netscaped com ele. Acontece que o Trumpet Winsock de Page não tocava. Decepcionada, Eudora aceitou uma proposta de Microsoft e foram morar em Control Panel. Lá, abriram uma Photoshop para ganhar a vida. Porém, com o nascimento de Corel Draw, esvaziaram o File Manager. Quando a notícia foi publicada no Printer Setup, Aldus pegou um Navigator e, em três segundos, desembarcou em Control Panel, matou os traidores e despachou os corpos em dois e-mails: um para Flori e outro para Márcia. Em seguida, Aldus escondeu-se em Lótus até embarcar clandestinamente num Config Sys. Aterrissou em Clipboard e passou algum tempo vendendo Netdials na porta de uma Paintshop.

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Um dia, foi devidamente Scanneado e levado para um Template, onde Organized uma seita secreta dedicada a promover Print Previews. Um domingo, resolveu abrir o Template para uma reunião extra. Um provedor ficou revoltado e gritou: Close! Pagemaker respondeu: Open! Desesperado, o provedor ordenou: Exit! Mas Aldus sacou uma Pkunzip e decretou: Error, time out. Apavorado, o provedor trepou numa X-Tree Gold e ficou soltando Power tracks. Vitorioso, Aldus anotou tudo num Notebook e enviou um Winfax para Macintosh. Quando Macintosh ia Select All para contar a novidade, um poderoso Intercom disfarçado em Zoom abriu um Drop Cap e replaced Eudora Light e Microsoft em pessoa. Mal se configuraram, Micro apontou um IBM com 64 megas de RAM e deletou Macintosh. Nunca se soube a verdade sobre o saved as DOS amantes. Hoje, Eudora e Micro vivem felizes em Multimedia, ao lado do pequeno Corel Draw e ao Sound Blaster de Cake Walk, à custa do Thesauros acumulado nos anos de 92, 93, 94 e Windows 95. Finalmente, Aldus Pagemaker encontrou a paz conjugal ao lado de Delrina, que convenceu-o a morar num Modem recém-instalado.

É possível reconhecer, no texto, a estrutura narrativa simples de um conto: tempo, espaço, personagens e uma sequência organizada de acontecimentos. Isso nos mostra que, independentemente do sentido do texto, é possível reconhecer o gênero conto pelas marcas composicionais.

GIUDICE, Victor. A volta de Eudora Light. In: LAJOLO, Marisa. Literatura: leitores & leitura. São Paulo: Moderna, 2001. p. 40-42.

FAÇA NO CADERNO

1. Em toda narrativa há um ou mais espaços em que a ação se desenvolve. Identifique no texto as expressões indicativas de lugar. 2. O que essas expressões permitem compreender sobre o lugar da ação? 3. Por que foram usados esses termos de informática para indicar lugares?

Um homem múltiplo Victor Giudice (1934-1997) nasceu no estado do Rio de Janeiro. Foi professor, jornalista, músico, poeta, crítico e ensaísta literário. Publicou dois romances — Bolero e O sétimo punhal — e quatro livros de contos — O necrológio, Os banheiros, Salvador janta no Lamas e O museu Darbot e outros mistérios, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti. Alguns de seus contos foram publicados em vários países.

Camila Maia / Agência O Globo

Mesmo não conhecendo todos os termos de informática citados no texto, compreendemos que ele apresenta uma estrutura narrativa. Vamos conferir seus elementos composicionais.

Victor Giudice, em 1996.

4. Identifique as expressões indicativas de tempo, um importante elemento da narrativa. Que sentido elas adquirem para a compreensão do leitor? 5. Cite as personagens principais. 6. Os nomes das personagens são de softwares, com exceção de Microsoft, que, por designar uma empresa de informática, no texto substitui o nome de um grande empresário. Relacione a expressão “personagens soft” ao nome Microsoft e explique o sentido criado no texto. 7. Uma narrativa constrói-se com personagens e fatos situados no tempo e no espaço. Faça um levantamento das expressões indicativas dos principais fatos da história. 8. Cite outras expressões do vocabulário da informática que foram utilizadas como verbos de ação na sintaxe frasal de língua portuguesa. Explique como seu significado e seu efeito foram alterados para criar o sentido do texto. 9. Como vimos, todo texto tem um narrador, que é sua voz, mas em “A volta de Eudora Light” ele se mantém do lado de fora da narrativa. Como se percebe isso? 10. A narração em terceira pessoa confere objetividade ao relato. O narrador centraliza nele próprio todo o conhecimento da narrativa, mostrando saber mais que as personagens. Que grau de conhecimento ele tem das personagens? Prove com expressões do texto e explique em que essa perspectiva interfere no sentido do texto. O narrador pode participar ou não da história; quando participa, pode ser personagem principal ou secundária. Quando se ausenta totalmente do texto, parecendo que os fatos se narram por si mesmos, pode demonstrar conhecimento exterior ou também interior das personagens. Neste último caso, ele é um narrador onisciente (aquele que sabe de tudo). Cada modo de participação implica uma focalização diferente dos acontecimentos narrados. A essas perspectivas chamamos de pontos de vista.

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Capítulo 18 – Modos de narrar

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Humor crítico Millôr Fernandes (19232012) nasceu Milton Viola Fernandes, na cidade do Rio de Janeiro. Consagrou-se como humorista. Preferia ser chamado de jornalista, mas deixou ampla e variada obra: muitas peças de teatro, roteiros de cinema, traduções e obras de poesia e prosa, Millôr Fernandes, em 2004. além das artes visuais. Ficou conhecido pelo pseudônimo de Vão Gôgo (alusão ao famoso pintor impressionista Van Gogh), adotado quando passou a escrever para a revista A Cigarra, em 1939.

Tasso Marcelo/Estadão Conteúdo

Uma questão de ponto de vista

Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

O ponto de vista do narrador depende, pois, de uma conjunção de fatores: a opção por participar ou não da narrativa, a focalização interna ou externa das personagens, o modo como ele dialoga com o leitor. Esse ponto de vista permite ao leitor compreender o enunciado — daí a importância de ser analisado. Um exemplo da importância do ponto de vista do narrador nos é dado pelo humorista Millôr Fernandes, em sua obra verbo-visual Tempo e contratempo, que atualiza seu livro homônimo feito há 49 anos. A seção “Como um quadro do salão vê as pessoas que o veem” traz o subtítulo “se passa ao ponto de vista do quadro, para melhor enquadrar a atitude e psicologia do eterno frequentador de museu”. Em vez de o observador falar do quadro que viu, o quadro fala de vários tipos de observadores que foram vê-lo. Leia o conjunto do enunciado — texto visual (quadro) e verbal (legenda) — das duas versões do observador apressado, de Millôr.

A legenda do observador apressado (versão de 1949) é: “Este quase não dá tempo a que o vejam. Passa como um tufão, olhando rapidamente aqui e ali, e vai embora. Em cinco minutos percorre toda a exposição.”.

A legenda do observador apressado (1998) é: “Na última Bienal de São Paulo, bateu o recorde mundial de apreciação pictórica: viu 320 quadros em 12’ e 32”.”.

FERNANDES, Millôr. Como um quadro do salão vê as pessoas que o veem. In: ______. Tempo e contratempo: Millôr revisita Vão Gôgo. São Paulo: Beca, 1998. p. 32. FAÇA NO CADERNO

1. Compare as duas versões em relação ao: a) desenho; b) texto verbal. 2. Ao refazer em 1998 a versão do observador apressado de 1949, que resultado diferente Millôr obteve com o texto? Explique levando em conta os diferentes recursos verbo-visuais utilizados. 3. Considerando o texto visual e a legenda, responda: a) Quem narra? b) De que tipo é o narrador? 4. Que efeito esse modo de narrar causa no leitor do texto? 5. Qual é a importância do enquadramento para o sentido do texto? 6. Qual é o objetivo do autor do texto? Além da função de narrar, relatar os fatos, o narrador ainda orienta o leitor na interpretação deles, ou seja, ele tem voz e ponto de vista. Língua e linguagem

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Sistematizando a prática linguística O narrador não é o autor empírico. Autor empírico

Narrador

• É real, de carne e osso. • Existe em tempo real. • Faz-se representar no texto pelo narrador, ao qual atribui autonomia.

• É fictício. • Existe no tempo ficcional da narrativa. • É o “eu” do texto, mesmo que implícito; a voz com que o autor constrói o texto.

O narrador pode participar ou não dos acontecimentos que narra. Modos de narrar

• narrador participante; tom

Marcas gramaticais personagem principal

• verbos na primeira pessoa

personagem secundária

• pronomes pessoais e possessivos de

subjetivo

• narrador não participante; tom objetivo

primeira pessoa

com conhecimento exterior com conhecimento exterior e interior

• verbos na terceira pessoa

O narrador tem dupla função em relação ao leitor, o que pode ou não vir explicitado no enunciado. Função de narrar

Função de observar (ponto de vista)

• orientação pragmática

• orientação cognitiva

• fala, relato das ações

• interpretação, visão de mundo

Usando os mecanismos linguístico-discursivos Sua vez de narrar Leia o texto “Da arte de jogar pião”, em que o escritor, ensaísta e professor universitário Cristóvão Tezza (1952) recuperou um lance de jogada de pião, brincadeira de infância. O autor dedicou o texto ao escritor curitibano Jamil Snege, que falecera recentemente. Da arte de jogar pião (Para Jamil Snege, in memoriam) Segura-se o pião com a mão esquerda, enquanto a direita enlaça-lhe o pescoço, sem dar nó, puxando a fieira verticalmente até a base da ponta de ferro, de onde voltará a subir em anéis apertados e unidos, feitos com carinho e atenção — da qualidade desta amarração dependerá o destino do lance, a sua parte técnica. É importante que o pião seja velho e o verniz esteja gasto pelo uso — na pele brilhante a fieira escorrega e o resultado é o desastre. Chegando a fieira ao trecho bojudo, em torno da maior circunferência prende-se o último anel com o polegar enquanto a mão direita prepara o golpe, dando voltas na outra ponta como quem firma na palma um chicote improvisado, até que os dedos, livres, mas tensos, segurem o pião, que é indócil, com delicadeza — o indicador na cabeça, o polegar na base. Concentrando-se, deve-se sustentar o pião com uma breve inclinação à direita (para compensar a puxada do chicote quando a peça cair no mundo) e erguer o braço lento e suave até a altura da orelha, não mais, que é exagero, nem menos, que é fraqueza. Fixa-se um ponto no chão e lança-se o pião um palmo além dele, como quem arremessa uma pedra para saltitar na água. (Se o jogador for canhoto, faça-se tudo ao espelho, que será o mesmo.) O pião desenrola-se furioso no ar, mas isso não se verá; a puxada da fieira,

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Capítulo 18 – Modos de narrar

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percebe-se no tato, deve acontecer só no último segundo, quando quase desnecessária. Livre enfim, o pião procurará em desespero o seu ponto de equilíbrio, contra todas as provas da lógica, sob o olho de um furacão mesquinho que o quer ver no chão, mas ele não cai, absurdo. Se o chão for liso, como deve ser, o pião, apenas respirando, dormirá, absolutamente imóvel sobre a Terra, um espetáculo de silêncio e uma aula impossível de geometria. Podemos sentir, sob o eixo estático, como a agulha de um aparelho metafísico, o tremor sutil da rotação do mundo. TEZZA, Cristovão. Da arte de jogar pião. Folha de S.Paulo, São Paulo, 4 jul. 2004. Mais!, p. 20. Folhapress.

FAÇA NO CADERNO

1. Em grupo, identifiquem os recursos narrativos empregados na crônica: a) o tipo do narrador e suas marcas linguísticas; b) o ponto de vista do narrador; c) a sequência narrativa; d) a relação narrador-leitor; e) outros recursos linguísticos. 2. Transforme um acontecimento cotidiano em narrativa: selecione de sua memória uma atividade e explique-a a um colega oralmente em todos os detalhes. Depois, escreva-a, considerando os diferentes recursos estudados (vocabulário, uso dos pronomes, dos tempos verbais etc.). 3. Troque de texto com seus colegas para verificar como os recursos da narrativa interferiram em sua compreensão. Aproveite para saborear as experiências dos outros.

Em atividade FAÇA NO CADERNO

1. (Fuvest-SP)

“[...] Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à noite a bênção do costume. Todas essas ações eram repulsivas; eu tolerava-as e praticava-as, para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. Mas o que pudesse dissimular ao mundo, não podia fazê-lo a mim, que vivia mais perto de mim que ninguém. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu jurava matá-los a ambos, ora de golpe, ora devagar, para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada. Quando, porém, tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava, ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro. O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios não se notará aqui, por ser tão miúdo e repetido, e já tão tarde que não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. Mas o principal irá. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. Antes de descoberta aquela má terra da verdade, tivemos outros de pouca dura; não tardava que o céu se fizesse azul, o sol claro e o mar chão, por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo, até que outro pé de vento desbaratava tudo, e nós, postos à capa, esperávamos outra bonança, que não era tardia nem dúbia, antes total, próxima e firme [...]”. Fragmento do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis.

A narração dos acontecimentos com que o leitor se defronta no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, se faz em primeira pessoa, portanto, do ponto de vista da personagem Bentinho. Seria, pois, correto dizer que ela apresenta-se: a) fiel aos fatos e perfeitamente adequada à realidade; b) viciada pela perspectiva unilateral assumida pelo narrador; c) perturbada pela interferência de Capitu que acaba por guiar o narrador; d) isenta de quaisquer formas de interferência, pois visa à verdade; e) indecisa entre o relato dos fatos e a impossibilidade de ordená-los. Língua e linguagem

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Unidade 7

Joaquim José de Miranda. Séc. XVIII. Guache e aquarela. Coleção particular

Prancha do artista plástico português Joaquim José de Miranda. Representa o encontro das tropas comandadas pelo tenente-coronel Afonso Botelho de Sampaio e Sousa com os índios Kaingang, no local onde hoje fica o estado do Paraná, na região Sul do Brasil, entre 1769-1772.

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Identidade e alteridade: o nativo e o estrangeiro O objetivo deste desenho feito pelo português Joaquim José de Miranda é narrar um momento da conquista dos portugueses no estado do Paraná com a descoberta do ouro no final do século XVIII. A imagem apresenta figuras estáticas, posadas, que foram recortadas e coladas sobre um fundo aquarelado, e mostra o tenente português tirando a sua veste vermelha para colocá-la no índio, cena que se repete com outras personagens da imagem. Sem recuperarmos o contexto em que o desenho foi produzido, o significado dessa imagem isolada pode assumir um sentido bem diferente. Combinados ao conjunto de informações, esses elementos permitem ao leitor compreender como os índios Kaingang foram expostos à exploração portuguesa e sua ação civilizatória. Os discursos produzidos no Brasil nos três primeiros séculos da colônia portuguesa foram dominados pela fala do colonizador, uma fonte de informações para os europeus. Os primeiros contatos entre portugueses e nativos forma certamente um confronto de comunicação, um embate entre a cultura letrada e a cultura ágrafa. Nesta unidade, vamos discutir o tema integrador “Identidade e alteridade: o nativo e o estrangeiro”. No capítulo de Leitura e literatura, conheceremos os discursos brasileiros: narrativas verbo-visuais. Começaremos com algumas orientações espaciais, mapas produzidos sobre o Brasil. Em seguida, analisaremos textos verbais e verbo-visuais sobre o Brasil. No final, vamos confrontar duas diferentes visões sobre a identidade nacional: o ponto de vista descritivo dos estrangeiros e o ponto de vista crítico de escritores, cineastas e músicos do século XX. No capítulo de Texto, gênero do discurso e produção, focalizaremos a composição e a produção do gênero carta de reclamação na esfera jornalística. Como leitores de jornal, nós, cidadãos, temos um espaço para manifestar opiniões, críticas e reclamações. A proposta é que, por meio da produção de uma carta de reclamação, você passe a ocupar esse espaço. No capítulo de Língua e linguagem trataremos das formas pronominais adequadas para nos dirigirmos às pessoas em situações cotidianas e formais. Você distinguirá as pessoas do discurso dos pronomes e aprenderá a usá-los em diferentes textos orais e escritos.

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Capítulo 19

Leitura e literatura

Discursos brasileiros: narrativas verbo-visuais Oficina de imagens Narrativa cartográfica

Lopo Homem, Pedro Teinel e Jorge Reinel – Terra Brasilis, mapa do Atlas Miller. 1515-1519. Biblioteca Nacional, Paris

A localização do espaço que ocupamos e do lugar para onde nos deslocamos é muito importante em nosso dia a dia. Você já imaginou fazer uma viagem sem conhecer o caminho? Os mapas, por exemplo, que tiveram muita importância na época dos grandes descobrimentos no século XVI, por serem uma excelente referência para o acesso às regiões, acabaram se tornando um valioso instrumento político.

Terra Brasilis é um manuscrito iluminado em pergaminho dos cartógrafos portugueses Lopo Homem, Pedro e Jorge Reinel, os mais qualificados do início do século XVI. O mapa pertence à grande obra do império marítimo português, o Atlas Miller. Ele retrata a costa brasileira com 146 nomes, indo do Maranhão ao Rio da Prata. Foi feito à mão sobre pergaminho, por volta de 1519, no reinado de Dom Manuel. As inscrições estão em latim, e as imagens retratam os índios extraindo pau-brasil. Pertence à Biblioteca Nacional da França, Paris.

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Capítulo 19 – Discursos brasileiros: narrativas verbo-visuais

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Atividade em grupo Identificando mapas • Junte-se a quatro colegas e identifiquem desenhos, inscrições ou outras marcas que revelem elementos culturais de quem elaborou o mapa da página anterior. • Estabeleçam possíveis significados político-culturais nos desenhos desse mapa. Contando narrativas por meio de mapas • Forme um grupo com outros quatro colegas e fotografem ou desenhem a escola em que estudam, flagrando aspectos significativos para vocês. • Organizem um mapa da escola, destacando os espaços e os momentos de acordo com a perspectiva adotada. • Comparem o mapa com os de outros grupos e expliquem a forma representada nele. • Façam uma exposição dos mapas produzidos no mural da sala de aula.

Astúcias do texto “Terra à vista!”

Laerte

“Terra à vista!” é uma expressão que marca a chegada de navegantes a um porto seguro. Mas, dependendo de quem a usa, pode significar coisas diferentes: pode ser o comentário de aventureiros, de piratas, de invasores, de náufragos... Qual seria, então, a frase daqueles que já estavam no Brasil quando os portugueses chegaram? “Invasores à vista?”. O chargista Laerte cria uma situação irônica, dando voz aos habitantes da terra quando as caravelas portuguesas chegaram ao litoral brasileiro.

LAERTE. Classificados 2. São Paulo: Devir, 2002. p. 57.

Nos três primeiros séculos da vida brasileira, a produção cultural esteve associada aos vínculos com os portugueses, de modo que os relatos, as cartas e as crônicas atestam o ponto de vista dos colonizadores. Os textos mostram o imaginário que o estrangeiro construiu do brasileiro. A finalidade desses discursos era descrever a terra e a vida brasileiras, servindo de informação e construindo sentidos para a novidade do que foi encontrado no Novo Mundo. O ano de 1500 foi o marco inicial desse período colonial, com a Carta de Pero Vaz de Caminha, um discurso sobre o Brasil.

A carta como documento Leia o trecho final da carta que o escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, escreveu ao rei Dom Manuel I. O documento é considerado nossa certidão de nascimento. Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto temos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Tem, ao longo do mar, em algumas partes grandes barreiras, algumas vermelhas, outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia redonda, muito chã e muito formosa. Leitura e literatura

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Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender os olhos não podíamos ver senão terra e arvoredos, que nos parecia muito longa. Nela, até agora, não pudemos saber haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem o vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre-Douro e Minho, porque neste tempo de agora assim os achávamos como os de lá. As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitá-la, tudo dará nela; por causa das águas que tem! Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute, isso bastava. Mais ainda, disposição para nela cumprir-se e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber: acrescentamento da nossa Santa Fé! E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. O texto completo da E se me alonguei um pouco, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos Carta de Pero Vaz de tudo dizer, me fez pôr assim tudo pelo miúdo. Caminha está disponível E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em ouno arquivo da Biblioteca tra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser por mim Nacional, em: muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir <http://eba.im/z7oxwo>. da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que d’Ela receberei em Acesso em: 15 abr. 2016. muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. CAMINHA, Pero Vaz de. Carta. In: CASTRO, Silvio (Int.). A carta de Pero Vaz de Caminha: o descobrimento do Brasil. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2003. p. 115-116. FAÇA NO CADERNO

1. O escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral descreveu ao rei Dom Manuel a chegada dos portugueses à terra. a) Como aparece a fertilidade da terra? b) Quais são as principais preocupações do escrivão português? 2. Há um trecho da Carta em que se afirma: “E em tal maneira [a terra] é graciosa que, querendo-a aproveitá-la, tudo dará nela; por causa das águas que tem!”. Que ideia de terra é valorizada por Caminha? 3. Observe que, no final da Carta, Caminha faz um pedido ao rei. a) Que favor ele pede a Dom Manuel? b) Como se pode entender esse tipo de solicitação? 4. Observe a linguagem usada na Carta. a) Como Pero Vaz de Caminha se dirige ao rei? b) Identifique palavras, expressões e construções sintáticas que não têm o mesmo uso hoje em dia.

Relatos de viagens Você vai ler, a seguir, dois fragmentos sobre os hábitos e os costumes dos habitantes das terras brasileiras. O texto 1 foi extraído da obra A primeira História do Brasil: história da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, escrita pelo português Pero de Magalhães Gândavo, professor de Humanidades e amigo de Camões, e publicada em 1576. Gândavo viveu seis anos em Salvador, durante a administração de Mem de Sá (1557-1572). O objetivo do autor era atrair colonos e demonstrar que era possível levar uma vida próspera e confortável no Brasil: em outras palavras, incentivar a imigração. O texto 2 é um trecho de Viagem à terra do Brasil, do francês Jean de Léry, que fez parte da expedição de Villegaignon, uma tentativa de criar aqui uma colônia francesa.

Texto 1 Do gentio que há nesta província, da condição e costumes dele, de como se governam na paz [...] Esses índios de cor baça e cabelo corredio; têm o rosto amassado e algumas feições dele à maneira de chins. Pela maior parte são bem-dispostos, rijos e de boa estatura; gente muito esforçada e que estima pouco morrer, temerária na guerra e de muito pouca

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chim: chinês. gentio: indígena.

Capítulo 19 – Discursos brasileiros: narrativas verbo-visuais

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consideração. São desagradecidos em grã maneira, e mui desumanos e cruéis, a língua [...] é uma: Gândavo inclinados a pelejar e vingativos em extremo. Vivem todos mui descansados irá indicar a inexatidão da sem terem outros pensamentos senão comer, beber e matar gente, e por isso informação. Havia uma extensa engordam muito, mas com qualquer desgosto tornam a emagrecer. E muitas variedade de línguas e dialetos vezes, pode neles tanto a imaginação que se algum deseja a morte, ou alguém falados pelos índios brasileiros. lhes mete na cabeça que há de morrer tal dia ou tal noite, não passa daquele termo que não morra. São mui inconstantes e mudáveis; creem de ligeiro tudo aquilo que lhes persuadem, por dificultoso e impossível que seja, e com qualquer dissuasão facilmente o tornam logo a negar. São mui desonestos e dados à sensualidade, e assim se entregam aos vícios como se neles não houvera razão de homens, ainda que todavia em seu ajuntamento os machos com as fêmeas têm o devido resguardo, e nisto mostram ter alguma vergonha. A língua de que usam, por toda a costa, é uma, ainda que em certos vocábulos difere em algumas partes, mas não de maneira que se deixem uns aos outros de entender; e isto até a altura de vinte e sete graus, que daí por diante há outra gentilidade de que nós não temos notícia, que fala já outra língua diferente. Esta de que trato, que é geral pela costa, é mui branda e a qualquer nação fácil de tomar. Alguns vocábulos há nela de que não usam senão as fêmeas, e outros que não servem senão para os machos. Carece de três letras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei, e dessa maneira vivem desordenadamente, sem terem além disto conta, nem peso, nem medida. GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Do gentio que há nesta província, da condição e costumes dele, de como se governam na paz. In: ______. A primeira História do Brasil: história da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. p. 133-136.

Texto 2 Das árvores, ervas, raízes e frutos deliciosos que a terra do Brasil produz

LÉRY, Jean de. Das árvores, ervas, raízes e frutos deliciosos que a terra do Brasil produz. In: _______. Viagem à terra do Brasil. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Itatiaia: Edusp, 1980. p. 169-170.

arabutan: pau-brasil.

Editora Edusp

[...] Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar o seu arabutan. Uma vez um velho perguntou-me: Por que vinde vós outros maírs e pêros (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas. Retrucou o velho imediatamente: e por ventura precisais de muito? — Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. — Ah! Retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? — Sim, disse eu, morre como os outros. Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que deixam? — Para seus filhos se os têm, respondi; na falta destes para os irmãos ou parentes mais próximos. — Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados. Este discurso, aqui resumido, mostra como esses pobres selvagens americanos, que reputamos bárbaros, desprezam àqueles que com perigo de vida atravessam os mares em busca de pau-brasil e de riquezas.

Este livro conta a história malograda da França Antártida no século XVI, isto é, colônia francesa na região da atual cidade do Rio de Janeiro.

Leitura e literatura

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FAÇA NO CADERNO

1. No texto 1, o cronista português descreve os indígenas do litoral brasileiro tomando o europeu como modelo. Na visão do colonizador, que defeitos têm os indígenas? 2. Para Gândavo, a falta das letras “F”, “L” e “R” na língua falada pelos indígenas expressa a vida desregrada deles. Com base na suposição de uma ausência linguística, qual era o ideal do colonizador português? 3. Segundo Jean de Léry, qual é o ponto de vista do indígena sobre o acúmulo de bens? 4. Jean de Léry narra, em primeira pessoa, um diálogo entre ele e um tupinambá. Para você, como o francês entendeu a cultura indígena? 5. Compare os dois textos lidos e responda: a) O comportamento dos indígenas é avaliado de maneira diferente pelo viajante português e pelo francês. Quais são as diferenças de pontos de vista? b) Como os estrangeiros trataram a terra, a cultura e a língua dos indígenas brasileiros? Em sua opinião, por que agiram dessa maneira?

Discursos de viajantes: xilogravura e pintura

Theodore de Bry, 1602. gravura. Biblioteca de Veneza, Itália. Foto: Album/De Agostini/A. Dagli Orti/Latinstock

Albert Eckhout. Século XVII, Óleo sobre tela, 267 cm  160 cm. Museu Nacional da Dinamarca

Os discursos dos colonizadores também aparecem em muitas xilogravuras do editor e ilustrador belga Theodore de Bry (1528-1598) e em uma série de telas do pintor holandês Albert Eckhout (1610-1665), que esteve no Nordeste brasileiro em 1637, na comitiva de Maurício de Nassau. As ilustrações de De Bry são retomadas dos textos de Jean de Léry e do viajante alemão Hans Staden, e podem ser chamadas de gravuras de interpretação. Observe as duas imagens abaixo.

Ilustração de Theodore de Bry para a obra do viajante alemão Hans Staden, século XVII. Mulheres e crianças da tribo bebem o mingau feito com as tripas do prisioneiro sacrificado.

Mameluca, pintura de Albert Eckhout, 1641. Este quadro está em Copenhague, no Museu Nacional da Dinamarca.

FAÇA NO CADERNO

1. Considere cada imagem individualmente e descreva os detalhes da composição visual: forma, cor, trajes, iluminação etc. 2. As duas imagens retratam diferentes visões de mundo. a) Com que finalidade foram produzidas? b) Para que público foram feitos esses trabalhos? c) Qual é a visão do estrangeiro diante do outro? 190

Capítulo 19 – Discursos brasileiros: narrativas verbo-visuais

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A VOZ DA CRÍTICA

O professor Alfredo Bosi explica a natureza dos primeiros escritos brasileiros: Os primeiros escritos da nossa vida documentam precisamente a instauração do processo: são informações que viajantes e missionários europeus colheram sobre a natureza e o homem brasileiro. Enquanto informação, não pertencem à categoria do literário, mas à pura crônica histórica [...]. No entanto, a pré-história das nossas letras interessa como reflexo da visão do mundo e da linguagem que nos legaram os primeiros observadores do país. É graças a essas tomadas diretas da paisagem, do índio e dos grupos sociais nascentes, que captamos as condições primitivas de uma cultura que só mais tarde poderia contar com o fenômeno da palavra-arte. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 35. ed. rev. e aum. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 13.

Na trama dos textos Releituras da Carta O escritor Oswald de Andrade (1890-1954), no início do século XX, escreveu no livro Pau-brasil uma parte denominada “História do Brasil”, com o título geral “Pero Vaz Caminha”, sem a preposição “de”. Parece mesmo que a Carta percorre até hoje muitos caminhos, conduzindo os leitores a um confronto com o discurso de diferentes colonizadores. A seguir, você vai ler mais um trecho da Carta de Caminha e um poema de Oswald de Andrade.

Editora Globo

Texto 1 E assim seguimos o nosso caminho, por este mar de longo, até que na terça-feira das Oitavas de Páscoa — eram os vinte e um dias de abril — estando (distantes) da dita Ilha 660 ou 670 léguas topamos alguns sinais de terra: uma grande quantidade de ervas compridas, chamadas botelhos pelos mareantes, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. CAMINHA, Pero Vaz de. Carta. Porto Alegre: L&PM, 2003. p. 89.

Texto 2 A descoberta Seguimos nosso caminho por este mar de longo Até a oitava da Páscoa Topamos aves E houvemos vista de terra ANDRADE, Oswald de. A descoberta. In: ______. Pau-brasil: obras completas. São Paulo: Globo, 2003. p. 107.

Capa da obra Pau-brasil, que integra a 2a edição da Coleção Obras completas, da Editora Globo, 2003.

FAÇA NO CADERNO

1. Qual é a finalidade das informações dadas nesse trecho da carta por Pero Vaz de Caminha? 2. O poema reproduz um fragmento extraído da Carta de Pero Vaz de Caminha. a) Com que finalidade o autor faz uma releitura da Carta? b) Para que leitor o autor escreve? c) O autor cita as mesmas palavras, mas a linguagem não é a mesma. Um texto recupera outro; portanto, há intertextualidade. Em que medida o sentido foi alterado? Leitura e literatura

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Em cena

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1. Pesquise, na biblioteca da escola ou de sua cidade, o livro História do Brasil, do escritor modernista Murilo Mendes (1901-1975), e o poema “A carta”, do escritor paulista José Paulo Paes (1926-1988). Em grupo, comparem-nos, levando em consideração: a) a maneira como o texto de Caminha é recuperado; b) como aparece a crítica à visão do colonizador português; c) o que mudou em relação ao texto original. 2. Quem “inventou” o Brasil? a) Discutam em grupo e tomem uma posição sobre essa questão. b) Organizem com o professor um debate com a classe.

Qual é a cara do Brasil atualmente? Cazuza registrou o seu ponto de vista sobre a vida cotidiana dos brasileiros na canção “Brasil”, no final do século XX. Leia os trechos a seguir. Não me convidaram pra essa festa pobre que os homens armaram pra me convencer a pagar sem ver toda essa droga que já vem malhada antes d’eu nascer. […]

Brasil, Mostra a tua cara. Quero ver quem paga Pra gente ficar assim. Brasil, Qual é o teu negócio, O nome do teu sócio? Confia em mim. CAZUZA. Brasil. Intérprete: Cazuza. In: ______. Ideologia. [s.l]: Universal, 1998. 1 CD. Faixa 6.

Desmundo: uma radiografia da história do Brasil

FAÇA NO CADERNO

Filme de Alain Fresnot. Desmundo. Brasil, 2003

Assista, com o(a) professor(a) e seus(suas) colegas, ao filme de Alain Fresnot, Desmundo (Brasil: Columbia Pictures do Brasil, 2003, 100 min), que mostra o Brasil por volta de 1570. Desmundo é uma adaptação do romance homônimo de Ana Miranda. Ela se debruçou sobre as cartas do padre Manuel da Nóbrega, os relatos dos primeiros viajantes, os cinco volumes da História trágico-marítima, escritos no século XVIII por Bernardo Gomes de Brito, os capítulos de A história das mulheres, de Georges Duby, Michelle Perrot e Pauline Schimitt-Pantel, dedicados ao século XVI, a obra de Gil Vicente, a de Guimarães Rosa e a de Manoel de Barros. O livro recupera um tempo histórico e o recria em forma de ficção. Professor(a), a obra Desmundo, de Ana Miranda, está no acervo do PNBE.

1. Depois de assistir ao filme, dividam-se em grupos e pesquisem na internet críticas sobre ele. 2. Procurem identificar o fio da narrativa do filme, quem conta os fatos e os flashes da história do Brasil que aparecem. 3. Debatam com os outros grupos sobre como foi descrito o Brasil de quatro século atrás, seus costumes e os temores da época.

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A atriz Simone Spoladore interpreta a personagem Oribela, jovem religiosa obrigada a casar com Francisco de Albuquerque (Osmar Prado), que a leva para seu engenho de açúcar.

Capítulo 19 – Discursos brasileiros: narrativas verbo-visuais

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Pedro Américo de Figueiredo e Melo.1893. Óleo sobre tela, 262 cm  162 cm. Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora

Em atividade FAÇA NO CADERNO

1. (Enem/MEC)

Theodore de Bry.1570-1593. Gravura em metal. Coleção particular. Foto: the Bridgeman Art Library/Easypix

A imagem abaixo (publicada no século XVI) mostra um ritual antropofágico dos índios do Brasil. A imagem ao lado mostra Tiradentes esquartejado por ordem dos representantes da Coroa portuguesa.

Canibalismo humano. Theodore de Bry (1528-1598), século XVI.

Tiradentes esquartejado, 1893. Pedro Américo (1843-1905).

A comparação entre as reproduções possibilita as seguintes afirmações: I. Os artistas registraram a antropofagia e o esquartejamento praticados no Brasil. II. A antropofagia era parte do universo cultural indígena e o esquartejamento era uma forma de se fazer justiça entre luso-brasileiros. III. A comparação das imagens faz ver como é relativa a diferença entre “bárbaros” e “civilizados”, indígenas e europeus. Está correto o que se afirma em: a) I apenas. b) II apenas. c) III apenas. 2. (Enem/MEC) Jean de Léry viveu na França na segunda metade do século XVI, época em que as chamadas guerras de religião opuseram católicos e protestantes. No texto a seguir, ele relata o cerco da cidade de Sancerre por tropas católicas. […] desde que os canhões começaram a atirar sobre nós com maior frequência, tornou-se necessário que todos dormissem nas casernas. Eu logo providenciei para mim um leito feito de um lençol atado pelas suas duas pontas e assim fiquei suspenso no ar, à maneira dos selvagens americanos (entre os quais eu estive durante dez meses) o que foi imediatamente imitado por todos os nossos soldados, de tal maneira que a caserna logo ficou cheia deles.

d) I e II apenas. e) I, II e III. Aqueles que dormiram assim puderam confirmar o quanto esta maneira é apropriada tanto para evitar os vermes quanto para manter as roupas limpas [...].

Nesse texto, Jean de Léry: a) despreza a cultura e rejeita o patrimônio dos indígenas americanos. b) revela-se constrangido por ter de recorrer a um invento de “selvagens”. c) reconhece a superioridade das sociedades indígenas americanas com relação aos europeus. d) valoriza o patrimônio cultural dos indígenas americanos, adaptando-o às suas necessidades. e) valoriza os costumes dos indígenas americanos porque eles também eram perseguidos pelos católicos. Leitura e literatura

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Gênero jornalístico: carta de reclamação

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Capítulo 20

Texto, gênero do discurso e produção

SÃO PAULO (Estado). Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor. Disponível em: <http://www.procon.sp.gov.br>. Acesso em: 27 mar. 2013.

Observamos, na imagem, a página oficial da Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor do estado de São Paulo (Procon-SP). O objetivo principal desse órgão é equilibrar e harmonizar as relações entre consumidores e fornecedores. De acordo com o site, o foco é planejar, coordenar e executar a política de proteção e defesa do consumidor no estado de São Paulo. Além do site, é possível obter informações sobre os direitos do consumidor em diferentes redes sociais vinculadas ao Procon-SP. Entre as formas de atendimento disponíveis, está o envio de cartas, o que é orientado e explicado em link específico. Neste capítulo, você estudará o gênero carta de reclamação na esfera jornalística, focalizando sua composição e produção. Como leitores de jornal, nós, cidadãos, temos um espaço para manifestar opiniões, críticas e reclamações. A proposta é que, por meio da produção de uma carta, você passe a ocupar esse espaço.

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Capítulo 20 – Gênero jornalístico: carta de reclamação

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(Des)construindo o gênero Voz do cidadão

Idec

Bote a boca no trombone! Se algum dia, ao comprar uma mercadoria ou contratar um serviço, você se sentir individualmente lesado, siga estes passos. 1. Informe-se sobre seus direitos consultando o Código de Defesa do Consumidor, disponível na internet, ou algum órgão de defesa do consumidor de seu estado e certifique-se de que está com a razão. O endereço eletrônico do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) é: <http://eba.im/5c3ccb>. (Acesso em: 9 maio 2016.) 2. Se possível, entre em contato com a empresa responsável pelo produto ou serviço, pelo Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC), e tente uma solução amigável: conhecendo seus direitos, ficará mais fácil argumentar. 3. Se isso não resolver, formalize sua reclamação à empresa por carta ou e-mail e guarde o comprovante de envio. 4. Caso ainda não tenha sido suficiente, procure o Departamento de Defesa do Consumidor (Procon — órgão público existente em todos os estados e nas principais cidades), uma Organização Não Governamental (ONG) ou outra entidade civil, mas preste atenção em qual procurar, pois elas tratam de assuntos específicos. 5. Em último caso, procure um advogado e/ou recorra à Justiça. Se o caso atingir mais pessoas, procure soluções coletivas. Além dos passos anteriores, recorra ao jornal do colégio ou do bairro ou a outro meio de comunicação adequado ao papel social que estiver em questão.

Fundação Procon

Você já se sentiu desrespeitado ao fazer uma compra ou contratar um serviço? Já presenciou esse tipo de situação envolvendo parentes ou amigos? O que se pode fazer nesses casos? Até o século XX, as pessoas não tinham a quem recorrer ou não sabiam como proceder quando, em situações de consumo, se sentiam desrespeitadas em seus direitos. Assim, aumentaram as pressões sociais para que se criassem mecanismos capazes de impedir o abuso nos preços de produtos e serviços e a desconsideração pelo consumidor. Com a Lei no 8.078 — Código de Defesa do Consumidor —, aprovada pelo Congresso Nacional em 11 de setembro de 1990, foi promovida uma verdadeira revolução no consumo. O Código considera como consumidor toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza um produto ou serviço.

Os serviços de transporte público estão submetidos às regras do Código de Defesa do Consumidor. Herbert dos Santos, morador da cidade de São Paulo, estava consciente disso quando se sentiu desrespeitado por motoristas de ônibus. Em vez de procurar a própria empresa de transportes, recorreu ao jornal O Estado de S. Paulo, que, como outros jornais, possui um espaço para os cidadãos apresentarem suas reclamações. Texto, gênero do discurso e produção

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Estadão Conteúdo

Estadão Conteúdo

FAÇA NO CADERNO

1. Verifique onde e como esse espaço é aberto no jornal: a) em que caderno; b) em que seção; c) com que título; d) que tipo de orientação visual há para o leitor antes de ele ler o texto verbal. 2. Se você ainda não leu o texto verbal, pode compreender muita coisa com base nos elementos visuais. Comente o sentido produzido por eles. 3. Com frequência, uma foto jornalística serve para ilustrar o texto. Observe a foto inserida na seção e explique seu sentido.

Como publicar uma carta? Cada jornal adota uma forma específica de ceder espaço à voz do leitor. O jornal O Globo, por exemplo, tem uma seção com o título “Mala direta”, na coluna “Defesa do consumidor”, do caderno Economia. Mala direta é um serviço postal usado por empresas para enviar ao mesmo tempo grande número de impressos a vários clientes reais ou potenciais; nesse caso, o título parece se adaptar ao significado de informação rápida e abrangente a um grande número de leitores. Observe agora as instruções para publicar uma carta nesse jornal.

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Agência O Globo

TRÂNSITO: desrespeito e humilhação. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 6 out. 2003. Cidades, p. C2.

O GLOBO. Rio de Janeiro, 2. ed., 12 out. 2003. Economia, p. 40.

Capítulo 20 – Gênero jornalístico: carta de reclamação

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Voltemos ao caso de Herbert dos Santos. Leia novamente a carta dele e a resposta da SPTrans — órgão da prefeitura de São Paulo responsável pelas empresas de ônibus coletivos —, publicadas no mesmo dia. Sempre que ando de ônibus noto, na condição de idoso, a falta de consideração dos motoristas que não respondem aos cumprimentos e agradecimentos que lhes dirigimos, e ainda os comentam com o cobrador, com insinuações humilhantes e provocações, mostrando má vontade para com os mais velhos. Seria útil colocarem uma placa bem visível, com o nome do profissional que desrespeita a lei, o que facilitaria uma possível denúncia à SPTrans. Herbert dos Santos — Capital A SPTrans responde: Para registrar reclamações, o cidadão tem à disposição o Serviço de Atendimento ao Cidadão, que funciona 24 horas por dia, pelo tel. 156. Os empregados trabalham por turnos e mudam de veículo, o que impossibilita atender à sugestão. Mas é possível identificar motoristas e cobradores da linha informando prefixo do ônibus, linha, data e horário da ocorrência. Assess. de Comunicação/SPTrans. TRÂNSITO: desrespeito e humilhação. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 6 out. 2003. Cidades, p. C2. FAÇA NO CADERNO

4. Como o autor da carta se apresenta? Cite expressões do texto que justifiquem sua resposta. 5. Qual é a queixa dele? Prove com expressões tiradas do texto. 6. O que Herbert dos Santos solicita? 7. Ele se refere a um motorista específico? Justifique com o próprio texto. 8. Herbert dos Santos poderia ter escrito diretamente à SPTrans, mas optou pelo jornal. O que o levou a fazer isso? Ele atingiu seu objetivo?

Pela dignidade do idoso Em 2003, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) fizeram uma pesquisa entre os moradores das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife sobre o desrespeito à dignidade humana. Resultou daí um relatório que apontava a desconsideração ou agressividade contra o idoso como o primeiro item de desrespeito humano nessas regiões. Os dados foram divulgados em outubro, mas a pesquisa transcorreu enquanto tramitava na Câmara e no Senado o projeto do Estatuto do Idoso, que, sancionado pelo presidente da República em outubro de 2003, entrou em vigor em 1o de janeiro de 2004. Principais pontos do Estatuto 1. Define crimes contra o idoso e prevê punições. A maior pena é reclusão de 12 anos, para maus-tratos que resultarem em morte. 2. Garante prioridade ao idoso na tramitação de processos e procedimentos na Justiça. 3. Obriga o poder público a fornecer gratuitamente medicamentos aos idosos. 4. Veda a discriminação do idoso nos planos de saúde pela cobrança de valores diferenciados em razão da idade. 5. Garante ao idoso a presença de um acompanhante em tempo integral em caso de internação. 6. Assegura passe livre nos transportes coletivos públicos para os maiores de 65 anos. 7. Determina que, no caso do transporte coletivo interestadual, sejam reservadas duas vagas gratuitas em cada veículo, para idosos com renda igual ou inferior a dois salários mínimos. 8. Determina que o reajuste da aposentadoria seja na mesma data do reajuste do salário mínimo. FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 24 set. 2003. Cotidiano, p. C6. Folhapress

Ombudsman: a serviço do leitor Alguns jornais mantêm um profissional, o ombudsman, para acatar e analisar as críticas dos leitores em relação a determinadas posturas da empresa jornalística. Na Folha de S.Paulo, por exemplo, Marcelo Beraba, que exerceu essa função entre 2004 e 2007, escreveu sugestões para o “Painel do leitor” em sua coluna dominical.

[...] O jornal deveria aproveitar a reforma gráfica para ampliar o espaço de participação e influência do leitor. A pressão por participação é cada vez maior, uma exigência do nosso tempo estimulada por uma grande oferta de informações e facilitada pela internet. Os números de mensagens para o ombudsman mostram isso com clareza. Em 1996, o jornal tinha uma circulação média diária de 519 mil exemplares e o ombudsman recebeu 6 201 mensagens, 19,32% delas por e-mail. Agora, deve ter fechado 2005 com uma média diária de 308 mil jornais e o ombudsman recebeu 10 688 mensagens, 95% por e-mail. O aproveitamento de cartas no “Painel do leitor” é pequeno. [...] BERABA, Marcelo. Três sugestões para 2006. Folha de S.Paulo, São Paulo, 8 jan. 2006. Opinião, p. A6. Folhapress.

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Linguagem do gênero As pessoas do discurso FAÇA NO CADERNO

1. Divida o texto da carta de Herbert dos Santos em três partes e identifique o propósito de cada uma, conforme sua função. 2. O autor da queixa identifica-se no final apenas pelo nome e local onde mora. O que isso significa no texto? 3. Os pronomes representam, no texto, as pessoas do discurso. Explique o uso dos pronomes “eu” e “nós” no texto analisado. 4. Lembre-se de como aparece geralmente, no texto de uma correspondência, a identificação do interlocutor. Explique o que acontece na carta de Herbert dos Santos. Houve um erro do autor ou do editor do jornal? Professor(a), seria interessante discutir o significado da palavra “cidadão” como indivíduo

usufrui direitos civis e políticos pelo Estado e desempenha os deveres que, nessa conO autor desdobrado que dição, lhe são atribuídos.

Na carta analisada, o autor trata de um caso que o envolveu. O papel assumido por ele na carta coincide com o da vida real. Nessa mesma seção, foi publicada outra queixa, semelhante à anterior, com um relato mais detalhado. Observe como ficou a relação pessoa-autor. No dia 23/8 às 18h36, na Avenida Cupecê, altura da Rua Rodrigues Montemor, meu pai e minha irmã viram a seguinte cena, com o ônibus 3 092 da Viação Paratodos (zona sul): dois idosos deram sinal para o ônibus parar; o motorista parou, e, quando eles se aproximaram da porta, ele andou, impedindo a entrada dos passageiros, para logo parar novamente. Os idosos correram para a porta do ônibus, e o motorista mais uma vez deu partida, para logo parar de novo. E a situação se repetiu, até que os velhinhos tivessem corrido até a esquina, de onde o ônibus partiu definitivamente sem eles. Assim, além da corrida para tentar entrar no ônibus, eles tiveram de caminhar de volta para o ponto, para tentar pegar um ônibus conduzido por um motorista consciente do que é respeito e cidadania. Como não consegui localizar o site ou e-mail dessa empresa, peço que a coluna tente obter dela uma explicação sobre o tipo de treinamento dado a seus funcionários, e como é que ela admite uma situação dessas no momento em que o Estatuto do Idoso foi aprovado pelo Senado. A empresa presta um serviço público de concessão e deve satisfação aos usuários. Também seria interessante saber a idade do motorista, se há idosos em sua família, e como é que ele os trata. Lisandra Cristiane Gonçalves – Cidade Júlia TRÂNSITO: desrespeito e humilhação. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 6 out. 2003. Cidades, p. C2.

Notificamos a Viação Paratodos sobre o comportamento inadequado do seu motorista para que ela tomasse providências, e informamos que o motorista foi suspenso das atividades por 5 dias, de 21 a 25/9. Além disso, foi ele notificado de que, na reincidência, serão tomadas medidas mais severas. Esclarecemos que faz parte das metas dessa administração oferecer um tratamento digno aos passageiros especiais e aos demais usuários e para isso foi desenvolvido o Programa Permanente de Requalificação Profissional para os Operadores do Sistema de Transporte Coletivo. Em sua 1a fase, no período de 28/7 a 19/9, requalificou cerca de 4 600 operadores do subsistema local (ex-lotação) e será estendida aos operadores do antigo sistema Bairro a Bairro, que atualmente faz parte do subsistema local e posteriormente aos empregados das empresas de ônibus. Ao todo, serão atendidos cerca de 50 mil operadores. Ass. Imprensa-SPTrans. TRÂNSITO: desrespeito e humilhação. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 6 out. 2003. Cidades, p. C2.

FAÇA NO CADERNO

1. Você já observou que, ao escrever uma carta de reclamação, o autor assume um papel. Ele não fala como pessoa, mas como cidadão. O que ocorreu nesse caso? Compare essa carta à anterior e comente a posição da autora. 2. Possivelmente, o que deu a essa pessoa o direito de escrever por outras? 3. Que expressões foram usadas para designar os idosos? Que efeito causaram? 198

Capítulo 20 – Gênero jornalístico: carta de reclamação

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4. Explique, agora, as expressões usadas para designar os motoristas. 5. Na última frase da carta, é possível identificar um desvio de foco. Levante hipóteses: que desvio seria esse? Explique. 6. Identifique quem assina a carta-resposta e comente seu papel social. 7. Com que pronomes são designados o autor e a empresa na carta-resposta? O que isso revela sobre o significado do texto? Características da carta de reclamação • O espaço em que circula já define suas características e a função social em questão. • O autor identifica-se não como pessoa, mas como cidadão, e trata sua causa como social. • O autor pode falar de um caso que o envolve (o autor coincide com a pessoa real) ou que aconteceu com outra pessoa. Temos, então, duas possibilidades de o assunto ser introduzido: por justaposição ou por desdobramento. • O texto apresenta esta estrutura: queixa, sugestão ou pedido de solução e identificação do emissor. Não há uma saudação inicial ao interlocutor real, que é tratado como assunto. • As pessoas do discurso são nomeadas por substantivos próprios e designadas por substantivos e expressões adjetivas, todos remetendo a significações. São também representadas por pronomes variados, nem sempre gramaticalmente correspondentes a elas. As discordâncias entre os pronomes e as pessoas às quais eles se referem sempre interferem nos significados do texto. • A prática da escrita desse gênero respeita regras de acesso ao espaço jornalístico.

Praticando o gênero Localize seu espaço Onde publicar sua carta de reclamação? Pesquise os jornais de bairro ou de comunidade, revistas, sites, entre outras publicações, que tenham espaço para essas reivindicações escritas. Com a orientação do professor, você e seus colegas devem organizar uma lista com nomes e endereços desses espaços e divulgá-la na escola.

Ocupe seu espaço

FAÇA NO CADERNO

1. Reúna-se com alguns colegas, em grupos determinados pelo professor, e discutam situações em que vocês se sentem ou se sentiram desrespeitados como consumidores. 2. Depois, sozinho, eleja uma das situações a seguir, que será motivo para sua produção de texto. Para isso, determine: • a coletividade pela qual você falará (eu coletivo); • a função social implicada; • o interlocutor; • o veículo mais adequado para a circulação do texto: jornal da escola, do bairro, da cidade, da capital do estado ou outro. 3. Escreva a carta, observando as características já apontadas. 4. Volte ao grupo inicial e troque sua carta com os colegas, de modo que todos leiam todas as cartas e façam observações a respeito das características do gênero, clareza, correção gramatical e eficácia em relação ao objetivo proposto. 5. Corrija, reelabore e refaça sua carta. 6. Se possível, encaminhe sua carta ao órgão competente para as devidas providências. Outra opção é enviar a carta a um jornal de sua comunidade. Nesses casos, faça antes uma cópia; depois, acompanhe os desdobramentos do caso. 7. Com a ajuda do professor, organize, com seus colegas, um painel ou um blog com as cartas produzidas. Texto, gênero do discurso e produção

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Capítulo 21

Língua e linguagem

As pessoas e os pronomes Explorando os mecanismos linguísticos Representando papéis Calvin & Hobbes, Bill Watterson © 1993 Watterson/ Dist. by Universal Uclick

Leia esta tira de Bill Watterson para saborear o humor colhido do cotidiano infantil.

WATTERSON, Bill. Calvin. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 1o nov. 2003. Caderno 2, p. D2.

Na tira, vê-se a sequência de quatro momentos de um diálogo em que Calvin, usando uma estratégia típica da psicologia infantil, se faz passar por outro para obter o que deseja.

1. Situe o espaço, as personagens e o assunto da conversa.

FAÇA NO CADERNO

2. No segundo quadrinho, que recurso linguístico Calvin usou para tentar convencer seu pai? No sistema da língua portuguesa, existem três tipos de morfema para representar as pessoas gramaticais: os pronomes pessoais retos e oblíquos, os pronomes possessivos e as desinências verbais. Relembre-os: Pronomes pessoais Pessoa

Representação

primeira

quem fala

segunda

com quem se fala

terceira

de que(m) se fala

Número

Pronomes retos

Pronomes oblíquos

singular

eu

me, mim, comigo

plural

nós

nos, conosco

singular

tu/você

te, ti, contigo

plural

vós/vocês

vos, convosco

singular

ele/ela

se, si, consigo, o, a, lhe

plural

eles/elas

se, si, consigo, os, as, lhes

Na língua portuguesa falada no Brasil, o pronome “você” corresponde à forma “tu”, alternando-se as duas conforme a região. Quando se usa “você”, toda a concordância se faz na terceira pessoa do singular, como está no anúncio da seção Pessoas e pronomes, na página 202; com “tu”, o verbo é usado na segunda ou na terceira pessoa, conforme a variante linguística da região ou do grupo social do falante.

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Capítulo 21 – As pessoas e os pronomes

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Pronomes possessivos Pessoa

Um possuidor

Vários possuidores

primeira

meu, meus, minha, minhas

nosso, nossos, nossa, nossas

segunda

teu, teus, tua, tuas

vosso, vossos, vossa, vossas

terceira

seu, seus, sua, suas

seu, seus, sua, suas

Desinências verbais (destacadas nos tempos verbais primitivos) Presente

Pretérito perfeito

Infinitivo pessoal

Pessoa

singular

plural

singular

plural

singular

plural

primeira

falo

falamos

falei

falamos

falar(-)

falarmos

segunda

falas

falais

falaste

falastes

falares

falardes

terceira

fala(-)

falam

falou

falaram

falar(-)

falarem

Note que, nas tabelas, aparecem somente as pessoas gramaticais. No entanto, elas diferem das pessoas do discurso, o que equivale a dizer que, na interação verbal, as pessoas gramaticais sofrem alterações de representação quando se transformam em pessoas do discurso. Levantando hipóteses: se o autor da tira optasse por designar os interlocutores usando os pronomes pessoais rigorosamente como constam da norma gramatical, o diálogo dos dois ficaria assim no primeiro quadrinho: eu (quem fala): o menino você equivalendo a tu (interlocutor): o pai elas (assunto): as pesquisas — Saiu o resultado das novas pesquisas (elas), pai (que eu trouxe para você). — Hum… Observação: Quando o pai responde, invertem-se as posições. FAÇA NO

3. Reúna-se com um colega para fazer esta e as próximas atividades. CADERNO No segundo quadrinho, temos: eu (quem fala): o menino você equivalendo a tu (interlocutor implícito na cena): o pai elas (assunto): as expectativas do filho em relação ao pai Como ficaria a fala do menino nesse quadrinho se fossem utilizados os pronomes pessoais de acordo com as normas gramaticais? 4. No terceiro quadrinho, a fala seria: “E (eu quero saber) quais são suas (de você) expectativas?”. Identifique as pessoas do discurso nessa cena. 5. Identifique as pessoas do discurso e reescreva as falas das personagens do terceiro quadrinho. 6. Compare os textos — o original e o simulado — e comente os recursos usados por Calvin e o procedimento adotado pelo pai. 7. A partir de sua comparação, identifique o sentido que o menino criou ao se introduzir na fala original. 8. Compare os textos original e simulado do segundo quadrinho e comente. 9. Comparando os textos (original e simulado), como o pai se introduziu na fala? 10. No último quadrinho, qual foi o sentido criado pela relação entre as pessoas em contexto e os pronomes? Nem sempre há correspondência entre as pessoas do discurso e as reais, pois o enunciado é uma representação de papéis. Na tira de Calvin, o pronome “eles”, da terceira pessoa, marca duas pessoas do discurso: usado pelo menino, significa “eu”, primeira pessoa, o enunciador; usado pelo pai, significa “você”, segunda pessoa, o interlocutor. Língua e linguagem

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Pessoas e pronomes

Sabe o que acontece quando a sua empresa não

Editoria de arte

Vejamos outros casos de emprego de pronomes gramaticais não correspondentes a pessoas reais — agora, em um anúncio publicitário veiculado em um jornal paranaense.

usa tecnologia de ponta? O mercado de hoje exige empresas rápidas, eficientes e modernas. Investir em computadores equipados com processadores Intel® garante a performance, a qualidade e a confiabilidade de que você precisa para tornar o seu negócio mais competitivo, suas operações mais eficientes e seus clientes mais satisfeitos. E, é claro, aumentar seu faturamento. Quando dizemos para você procurar o selo IntelInside®, não estamos apenas ajudando você a encontrar tecnologia de ponta. Estamos mostrando o caminho para o futuro da sua empresa. FAÇA NO CADERNO

GAZETA DO POVO. Curitiba, 22 mar. 2004. Informática, p. 18.

1. Identifique: a) o produto anunciado; b) o espaço do jornal em que foi publicado o anúncio; c) o leitor a que se destina. 2. Como está marcada a presença do leitor na primeira parte do texto verbal? 3. Em seu dia a dia, qual é o pronome usado para se dirigir a um interlocutor? Como é a concordância do verbo? Mesmo com o verbo e o pronome na terceira pessoa, o interlocutor corresponde à segunda pessoa do singular. No anúncio, no entanto, ele se refere à primeira do plural, pois abrange todas as empresas que utilizam computadores. Tratando o interlocutor por “você”, individualiza cada leitor, criando com ele certa intimidade. O anunciante aparece na parte argumentativa do enunciado verbal.

4. A parte argumentativa aparece em letras menores e pode ser subdividida em outras três, compondo um argumento completo. Quais são elas? Organize resumidamente o raciocínio. No argumento do anúncio, novamente aparecem marcas da pessoa do leitor: o pronome “você” está explícito e há reiteradas ocorrências do possessivo de terceira pessoa do singular. Observe que, na primeira parte do argumento, aparece a marca temporal (“hoje”) sobre a qual a parte é construída. Na segunda parte, a empresa anunciante faz sua apresentação.

5. Responda, sobre o anunciante: a) Como ele se apresenta ao leitor? Explique o sentido criado por essa estratégia. b) Como ele aparece na última parte do argumento? Como ele descobriu o sentido criado por esse emprego? 202

Capítulo 21 – As pessoas e os pronomes

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Sistematizando a prática linguística

As pessoas na interação verbal Como vimos, os pronomes nem sempre correspondem às pessoas do discurso. Do ponto de vista do uso da linguagem, as pessoas têm os seguintes significados: “Eu”

é quem fala, o enunciador.

“Tu”

é o interlocutor; pode aparecer como “você”, pronome que lhe é correspondente. (“Eu” e “tu” são reversíveis.)

“Ele”/“ela”

não estão presentes na situação; portanto, não são pessoas do discurso, mas assunto.

“Nós”

não é plural de “eu”; representa diferentes agrupamentos de pessoas: “eu” e “tu” ou “eu” e “você(s)”; “eu” e “vós”; “eu” e “ele” (ou “eles”, “ela”, “elas”); “eu”, “tu” e “ele” (ou “eles”, “ela”, “elas”).

“Vós”

é o plural de “tu” (mais de um interlocutor) ou o conjunto de “tu” e “ele” (“eles”, “ela”, “elas”).

“Eles”/“elas”

são as formas plurais de “ele”/“ela”; as flexões de gênero e número são possíveis porque essas formas não se referem a pessoas do discurso, mas a elementos do assunto.

Os pronomes pessoais são marcas das pessoas do discurso. A relação entre estas e a maneira de designá-las usando pronomes criam significados; assim, é fundamental recuperar os mecanismos utilizados nessa relação para se compreender e escrever bem. São exemplos dessas estratégias de aproximação e convencimento do leitor: a individualização dos interlocutores pelo uso do pronome no singular para marcar o plural; o apagamento da primeira pessoa, que aparece como assunto; a alternância das marcas pronominais referentes à mesma pessoa do discurso para obter nuanças de efeito; a expansão da pessoa do enunciador pelo uso do plural para marcar o singular. Não só os pronomes pessoais são importantes como marcas de pessoalidade. Os pronomes possessivos e as desinências verbais também desempenham esse papel.

Usando os mecanismos linguístico-discursivos Os pronomes em carta de reclamação A esfera jornalística oferece um espaço importante para o exercício da cidadania. Como você já estudou, é preciso dominar as formas de composição do gênero de discurso adequado a essa situação. Em seguida, você poderá exercitar mais um pouco suas habilidades nesse campo, fazendo uso adequado do pronome pessoal. M. I. P., do Rio de Janeiro, está morando com a noiva desde março de 2003. Durante o ano, ambos fizeram muitas compras em uma rede de lojas e usaram as notas fiscais de compra na promoção “Notinha na mão”. No dia 5 de julho, a noiva comprou, na loja da Tijuca, bairro da cidade do Rio de Janeiro, um aparelho de cortar cabelo. Na terceira vez em que o usou, M. notou que o aparelho “agar-

rava” e não cortava o cabelo, além de provocar dor. No dia 7 de agosto, procurou a loja e explicou a situação, mas a empresa não trocou a mercadoria. M. recorreu ao Jornal do Brasil, que tomou as providências e publicou sua carta. A resposta da empresa e o comentário da entidade de defesa do consumidor que trabalha para o jornal provam a eficiência do recurso.

Resposta da loja: Informamos que entramos em contato com o Senhor M. I. e autorizamos a troca do produto. O serviço de atendimento ao cliente da empresa encontra-se sempre à disposição de todos os nossos clientes e do Jornal do Brasil para quaisquer informações ou esclarecimentos que se façam necessários.

Língua e linguagem

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Orientação da Associação de Proteção e Assistência aos Direitos do Consumidor (Apadic): Evidente que a [empresa] somente apresentou uma solução para o leitor após este ter enviado carta ao JB, o que comprova a força da coluna de defesa dos consumidores. JORNAL DO BRASIL. Rio de Janeiro, 9 nov. 2003. Economia & Negócios, p. A31.

E a carta da reclamação? Ficará por sua conta.

FAÇA NO CADERNO

1. Escreva como você imagina que foi a carta da reclamação, observando as características do gênero e, principalmente, explorando as possibilidades de significação dos pronomes. 2. Ao término, o professor lhe mostrará o texto original. Troque de carta com os colegas para que todos leiam todas e as comparem. Comentem as que foram mais convincentes.

Formas de tratamento As formas pronominais de tratamento a seguir são empregadas comumente no cotidiano: você, vocês senhor, senhores, senhora, senhoras doutor, doutores, doutora, doutoras A seguir, você lerá dois textos — o trecho de uma reportagem e um fragmento de artigo — que recuperam o uso dessas formas. Conheça as situações referidas. Texto 1 Ministro do STF nega pedido de juiz que quer ser chamado de ‘doutor’ Ação foi protocolada há 10 anos, mas caso chegou ao STF neste mês. Autor reclama ter sido chamado de ‘você’ e ‘cara’ e de ter ouvido ‘fala sério’. Mariana Oliveira Do G1, em Brasília

O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou nesta terça-feira (22) pedido de juiz do Rio de Janeiro que reivindica que a Justiça obrigue os funcionários do prédio onde ele mora a chamá-lo de “senhor” ou “doutor”, sob pena de multa diária. Lewandowski entendeu que, para atender o pleito do magistrado, teria que reanalisar as provas do processo, o que não é possível ser feito no Supremo. Ainda cabe recurso à Segunda Turma do Supremo. O magistrado Antonio Marreiros da Silva Melo Neto, de São Gonçalo (RJ), entrou com a ação em 2004, há dez anos, e o caso chegou ao Supremo neste mês. Segundo o site do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), atualmente, o magistrado atua na 6a Vara Cível de São Gonçalo, na Região Metropolitana. Na ação judicial, o juiz argumenta que foi chamado pelo porteiro do condomínio de “você” e “cara” e que ouviu a expressão “fala sério” após ter feito uma reclamação. Segundo o processo, o apartamento do magistrado inundou por erro do condomínio, mas o funcionário não o tratou com respeito. Além do pedido para ser tratado por “senhor” ou “doutor”, o magistrado queria que o condomínio fosse condenado a pagar indenização por danos morais de 100 salários mínimos (atualmente, o valor seria de R$ 70 mil) pela inundação no apartamento. Em 2004, quando o processo começou, o magistrado obteve uma liminar (decisão provisória) que obrigava os funcionários a chamá-lo de “doutor” e “senhor”. Mas, ao analisar o processo, em 2005, o juiz de Niterói Alexandre Eduardo Scisinio negou o pedido. Ele entendeu que, apesar de compreender o “inconformismo” do colega, o pedido não tinha sentido porque o termo “doutor” não é pronome de tratamento, mas título acadêmico de quem faz doutorado. Além disso, sobre o uso de “senhor”, o juiz entendeu que não “existe regra legal que imponha obrigação ao empregado do condomínio” de utilizar o termo. “O empregado que se refere ao autor por ‘você’ pode estar sendo cortês, posto que ‘você’ não é pronome depreciativo. [...] Na relação social não há ritual litúrgico a ser obedecido. Por isso, se diz que a alternância de ‘você’ e ‘senhor’ traduz-se numa questão sociolinguística, de difícil equação num país como o Brasil. Ao Judiciário não compete decidir sobre a relação de educação, etiqueta, cortesia ou coisas do gênero”, escreveu o juiz que analisou o caso na primeira instância. OLIVEIRA, Mariana. Ministro do STF nega pedido de juiz que quer ser chamado de ‘doutor’. G1, 22 abr. 2014. Disponível em: <http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/04/ministro-do-stf-nega-pedido-de-juiz-que-quer-ser-chamado-de-doutor.html>. Acesso em: 18 abr. 2016.

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Capítulo 21 – As pessoas e os pronomes

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Texto 2 A república dos doutores […] no Brasil do começo do século 21, só há doutores. Prudente de Moraes pode festejar: a República dos Bacharéis se pós-graduou. Faça a prova: ligue para advogados, psicólogos, arquitetos e outros profissionais liberais. Ouvirá: “A doutora está em consulta”, “Vou ver se o doutor pode atender”. Ligue para uma agência de publicidade, um escritório comercial ou uma empresa e tente falar com um dirigente (engenheiro, arquiteto, administradora etc.). É a mesma coisa: “O doutor está em reunião”, “Quer deixar um recado para a doutora?”. Mas, trégua de brincadeiras. Em geral, esses profissionais não se apresentam como doutores num encontro com membros de sua classe social. Eles são doutores para sua secretária e, graças a elas, para quem telefona.

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Em cena

Algumas semanas atrás, para assinar um contrato, fui até um elegante escritório comercial, na área de São Paulo (ao redor da avenida Berrini) que se apresenta como cartão-postal da modernização. Anunciei ao porteiro que eu devia encontrar o senhor E., que estava me esperando. O porteiro, modulando a voz de modo a acentuar a correção de minhas palavras, perguntou: “Você quer ver o doutor E.? E você é o senhor...?”. Ele parecia treinado para produzir uma tentativa de intimidação social. Não achei graça e retruquei: “Ah, o senhor E. é doutor? Ele é médico ou tem doutorado em alguma outra especialidade?”. O porteiro ficou atônito: como ele deveria reagir a essa resposta imprevista? CALLIGARIS, Contardo. A república dos doutores. Folha de S.Paulo, São Paulo, 21 abr. 2005. Ilustrada, p. E12. Folhapress.

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1. Pesquisa: Faça um levantamento do emprego que você faz destas formas de tratamento: a quem você trata de “senhor”, “senhora”, “você”, “doutor”, “doutora”? 2. Troca de informações: Em grupo, apresentem os levantamentos feitos. 3. Análise: Verifiquem o sentido criado pelo emprego das formas de tratamento nos casos levantados nas pesquisas individuais. Elas podem marcar, por exemplo: • excelência acadêmica;

• hierarquia socioeconômica;

• competência;

• privilégio;

• distância social;

• respeito.

4. Conclusão: Façam uma síntese das conclusões do grupo e apresentem-na à classe em uma roda de conversa. 5. Avaliação: Façam uma avaliação do trabalho. Se o professor achar conveniente, entreguem-lhe as conclusões e a avaliação.

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (UFPR) Quais são as frases que têm o pronome oblíquo mal-empregado? 1. Ninguém falou-me jamais dessa maneira. 2. Bons ventos o levem! 3. Ele recordar-se-á com certeza do vexame sofrido. 4. As pastas que perderam-se, não foram as mais importantes. 5. Confesso que tudo me pareceu confuso. 6. Me empreste o livro! 7. Por que permitir-se-iam esses abusos? d) 3 - 4 - 5 - 6 a) 1 - 4 - 6 - 7 e) 1 - 3 - 5 - 7 b) 2 - 3 - 5 - 7  c) 1 - 2 - 3 - 6

2. (ITA-SP) O pronome pessoal oblíquo átono está bem colocado em um só dos períodos. Qual? a) Isto me não diz respeito! respondeu-me ele, afetadamente. b) Segundo deliberou-se na sessão, espero que todos apresentem-se na hora conveniente. c) Me entenda! Lhe não disse isto! d) O conselho que dão-nos os pais, levamo-los em conta mais tarde. e) Amanhã contar-te-ei por que peripécias consegui não envolver-me. Língua e linguagem

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Unidade 8 OSGEMEOS

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Novos territórios visuais: inovações e estranhamento Nas grandes cidades, encontramos pinturas em grandes muros e paredes nos espaços públicos. Neste grafite dos paulistanos Gustavo e Otávio Pandolfo (1974), consagrados como OSGEMEOS, em parceria com o fotógrafo francês JR (1983), feito em São Paulo, temos a situação da escassez de água que atingiu diversos estados brasileiros em 2015. Por um lado, temos o homem, vestido com a bandeira brasileira, dentro da garrafa bebendo as últimas gotas de água; por outro, a árvore arrancada do chão dá o resto da seiva que lhe sobrou, trazendo uma referência direta aos profundos problemas ambientais e sociais do país. Nesta unidade, vamos discutir o tema integrador “Novos territórios visuais: inovações e estranhamento”. No capítulo de Leitura e Literatura, a proposta é a leitura de diferentes poemas contemporâneos, alguns criam novas relações entre as palavras, outros estabelecem associações inesperadas ou propõem formas inovadoras, são poemas visuais. Também analisaremos alguns textos que mencionam direta ou indiretamente um autor ou texto, de modo que estudaremos a intertextualidade entre os poemas. No capítulo de Texto, gênero do discurso e produção, exploraremos algumas letras de canção do movimento cultural conhecido como Tropicalismo. Artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Torquato Neto e outros puseram em diálogo ritmos diferentes como a música pop e o folclore, rock e bossa nova, samba e baião. O capítulo de Língua e linguagem trata da combinação entre verbo e sujeito em um enunciado. Exploraremos as variações e os sentidos criados por esse mecanismo sintático chamado de concordância verbal.

Grafite de OSGEMEOS com JR, na Avenida Alcântara Machado (Radial Leste), São Paulo (SP), 2015.

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Capítulo 22

Leitura e literatura

O discurso poético Oficina de imagens Isso é arte?

Editorial de imagem/Folhapress

Você já andou pelas ruas de cidades brasileiras e viu muros pichados com letras ilegíveis? Gravar um nome na parede de um prédio é puro ato de vandalismo ou um desejo de visibilidade, uma busca por algum tipo de reconhecimento? O vocábulo graffiti é a forma plural do italiano graffito, que, originalmente, descrevia um estilete de ferro ou bronze utilizado para escrever em tábuas de cera. Há diferença entre grafite e pichação, manifestações que têm em comum o desejo de subverter o espaço urbano? Observe quatro formatos de pichação que revelam os nomes de seus autores; normalmente são jovens que disputam o espaço urbano em lugares de difícil acesso.

DÁVILA, Sérgio; VARELLA, Juca. Pichadores ousam e chegam à classe média. Folha de S.Paulo, São Paulo, 30 jun. 2003. Cotidiano, p. C1.

Desenhar ou pichar em espaços públicos e privados sem autorização é crime, podendo resultar em pena de detenção de três meses a um ano e multa. Embora seja um tema controverso, não se pode deixar de colocar em discussão a produção do grafite e da pichação. É possível considerá-los um produto cultural? O grafite é considerado uma arte que mantém relação com as políticas de ONGs e prefeituras e com a publicidade, tendo sido empregado em campanhas publicitárias de várias empresas. Já a pichação é considerada sujeira por muitos; uma arte marginalizada, refletindo a insatisfação com uma sociedade que prega a ilusão do bem-estar. Uma das cidades brasileiras mais pródigas em produção de grafite é São Paulo. Em 2004, a prefeitura realizou uma campanha com grafiteiros e modificou a passagem subterrânea que liga a avenida Paulista às avenidas Rebouças e Dr. Arnaldo, lugar em que os artistas reproduziram quadros de importantes pintores modernistas.

Como surgiu essa arte na rua? No final da década de 1960, surgiram as primeiras aparições do grafite, que chegaram aos muros de Paris em maio de 1968 com o movimento hippie. O grafite surgiu de forma paralela ao hip-hop — cultura originária dos guetos americanos que une o rap (rhythm and poetry — ritmo e poesia — música mais falada do que cantada) e o break (dança robotizada). Nesse período, os artistas começaram a se interessar por novas linguagens, e a rua passou a ser o cenário perfeito para eles manifestarem sua arte. No início dos anos 1980, jovens de Amsterdã, Berlim, Paris e Londres passaram a criar seus próprios ateliês, em edifícios e fábricas abandonadas. Tinham como objetivo encontrar novas alternativas de criação longe das imposições acadêmicas. Muitos grafiteiros europeus e estadunidenses viveram e trabalharam nesses espaços alternativos e influenciaram a produção cultural e artística em todo o mundo. Os estadunidenses Jean-Michel Basquiat (1960-1986), Keith Haring (1958-1990) e Kenny Scharf (1958) expuseram seus trabalhos feitos em cavernas urbanas na XVII Bienal Internacional de São Paulo, em 1983, influenciando vários artistas brasileiros. 208

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Tuca Vieira/Folhapress

Juca Varella/Folhapress

O assunto aparece com frequência na primeira página de jornais. Nas duas notícias a seguir, retiradas da primeira página da Folha de S.Paulo, o contraste é explicitado visual e verbalmente. As palavras “grafiteiros” e “pichadores” estão nas legendas e são tratadas de maneira diferente. O que as distingue? Vamos analisar os dois textos, compostos de foto e de legenda.

ARTE NA RUA Grafiteiros finalizam reprodução de quadros brasileiros, como o “Abaporu”, de Tarsila do Amaral (dir.), na passagem subterrânea da av. Paulista; inauguração será domingo.

BLOCO DO SUJO Fachadas de São Paulo atacadas por pichadores, que podem chegar a 50 mil na cidade, segundo a prefeitura; a prática não é feita só por jovens da periferia e atrai também filhos de classe média, cujo desafio é deixar marcados locais de difícil acesso. Pág. C1.

FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 3 set. 2004. Capa.

1. Como estas imagens tratam a pichação e o grafite? 2. Quais informações são privilegiadas nas legendas?

FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 30 jun. 2003. Capa.

FAÇA NO CADERNO

Atividade em grupo Dia de grafite Pesquisa • Em grupos pequenos (no máximo quatro pessoas), procurem muros pichados ou grafitados no bairro ou na cidade. Façam registros fotográficos dessas ocorrências. • Criem legendas para as fotos feitas. • Com ajuda do(a) professor(a), organizem uma discussão em grupo acerca do valor artístico dessa produção. Produção • Pesquisem, na internet, algumas informações sobre arte abstrata. • A partir das informações obtidas, procurem encontrar um assunto social em circulação na escola ou no bairro e que será expresso em desenho abstrato. • Façam, primeiro, um desenho em tamanho pequeno e depois, para ampliá-lo, escolham um suporte, como rolo de papel, banner ou tela, que possa ser levado para qualquer canto. Preencham o desenho com spray, tinta látex, pincel atômico ou canetinhas hidrocor, criando os grafites. • Inventem um nome para o grupo e deixem a assinatura de vocês no suporte. • Com auxílio do(a) professor(a), providenciem um local para a exposição dos trabalhos.

Leitura e literatura

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Entre duas águas

Morte e vida severina: poema dramático Morte e vida severina já ultrapassou a cifra de 50 edições, o que é espantoso no mercado da poesia. Dos quatro trechos a seguir, dois fazem parte do início e os dois últimos, do final do poema.

Carybé. 1973. Desenho. Em: MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina e outros poemas. Rio de Janeiro: Sabiá, 1973.

Astúcias do texto

Um dos poetas brasileiros mais importantes é João Cabral de Melo Neto. Sua obra concilia duas posições: de um lado, a especulação sobre o fazer poético, as palavras, sua organização; de outro, o salto participante que sintetiza as questões da existência humana e os problemas sociais do Nordeste. Ilustração para o livro Morte e vida severina. O pintor argentino Carybé Morte e vida severina (auto de Natal (1911-1997) é considerado, pela pernambucano) foi escrito por João Cabral crítica, um dos melhores desenhistas de Melo Neto entre 1954 e 1955. Esse texda paisagem brasileira. to virou peça de teatro em 1965 e, em 1977, virou filme para o cinema e um programa especial para a televisão. Leia os quatro trechos a seguir. Trata-se da trajetória do retirante Severino, que tem o rio como guia. Fugindo da seca, ele deixa o sertão em busca do litoral. Trecho 1 O retirante explica ao leitor quem é e a que vai — O meu nome é Severino, como não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria. Como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mas isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria. Como então dizer quem fala ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba. Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia. Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida:

na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta. E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida). Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a de tentar despertar terra sempre mais extinta, a de querer arrancar algum roçado da cinza. Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possam seguir a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra.

MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966. p. 73-75. Professor(a), a obra Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, está no acervo do PNBE.

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Trecho 2 O retirante tem medo de se extraviar porque seu guia, o rio Capibaribe, cortou com o verão — Antes de sair de casa hirsuto desta caatinga. aprendi a ladainha Pensei que seguindo o rio das vilas que vou passar eu jamais me perderia: na minha longa descida. ele é o caminho mais certo, Sei que há muitas vilas grandes, de todos o melhor guia. cidades que elas são ditas Mas como segui-lo agora sei que há simples arruados, que interrompeu a descida? sei que há vilas pequeninas, Vejo que o Capibaribe, todas formando um rosário como os rios lá de cima, cujas contas fossem vilas, é tão pobre que nem sempre de que a estrada fosse a linha. pode cumprir sua sina Devo rezar tal rosário e no verão também corta, até o mar onde termina, com pernas que não caminham. saltando de conta em conta, Tenho de saber agora passando de vila em vila. qual a verdadeira via Vejo agora: não é fácil entre essas que escancaradas seguir essa ladainha frente a mim se multiplicam. entre uma conta e outra conta, Mas não vejo almas aqui, entre uma e outra ave-maria, nem almas mortas nem vivas há certas paragens brancas, ouço somente à distância de planta e bicho vazias, o que parece cantoria. vazias até de donos, Será novena de santo, e onde o pé se descaminha. será algum mês de maria Não desejo emaranhar quem sabe até se uma festa o fio de minha linha ou uma dança não seria? nem que se enrede no pelo MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966. p. 79-81.

Trecho 3 Assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério — Essa cova em que estás, — Não é cova grande, — É uma cova grande com palmos medida, é cova medida, para teu defunto parco, é a conta menor é a terra que querias porém mais que no mundo que tiraste em vida. ver dividida. te sentirás largo. — É de bom tamanho, — É uma cova grande — É uma cova grande nem largo nem fundo, para teu pouco defunto, para tua carne pouca, é a parte que te cabe mas estarás mais ancho mas a terra dada deste latifúndio. que estavas no mundo. não se abre a boca. MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966. p. 90-91.

Trecho 4 O carpina fala com o retirante que esteve de fora, sem tomar parte em nada — Severino retirante, com sua presença viva. deixe agora que lhe diga: E não há melhor resposta eu não sei bem a resposta que o espetáculo da vida: da pergunta que fazia, vê-la desfiar seu fio, se não vale mais saltar que também se chama vida, fora da ponte e da vida; ver a fábrica que ela mesma, nem conheço essa resposta, teimosamente, se fabrica, se quer mesmo que lhe diga; vê-la brotar como há pouco é difícil defender, em nova vida explodida; só com palavras, a vida, mesmo quando é assim pequena ainda mais quando ela é a explosão, como a ocorrida; esta que vê, severina; mesmo quando é uma explosão mas se responder não pude como a de há pouco, franzina; à pergunta que fazia, mesmo quando é a explosão ela, a vida, a respondeu de uma vida severina. MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966. p. 115-116.

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FAÇA NO CADERNO

1. Morte e vida severina é uma narrativa composta de 18 subitens. Extraída do folclore pernambucano, segue o percurso de Severino, que emigra do sertão para o litoral. No monólogo inicial, o retirante busca uma maneira de se individualizar para o público. a) Com que papel social Severino passa a se identificar? b) Que marcas linguísticas assinalam essa passagem? 2. No trecho 2, Severino narra sua viagem. Palavras e expressões da esfera religiosa são empregadas como recurso estilístico. Identifique-as e explique seu sentido na narrativa. 3. No trecho 3, Severino escuta as vozes dos amigos do finado, que conversam sobre o significado da morte. O ritmo dos versos, criado pelas rimas e pelas repetições, modifica-se para expressar uma crítica social. Que crítica é essa?

A passagem do enterro, uma das mais conhecidas, foi musicada pelo compositor Chico Buarque de Hollanda, em 1965. Se puder, ouça a canção “Funeral de um lavrador”, do álbum Morte e vida severina, 1966, ou do CD Perfil: Chico Buarque, 2004.

4. No trecho 4, Severino encontra José, um carpinteiro que procura responder sua pergunta: “se não vale mais saltar / fora da ponte e da vida”. O poema tem dois movimentos: morte e vida. Em que medida aparece uma visão otimista tirada da miséria e da seca?

Diálogo entre dois ofícios O poema a seguir, escrito em 1987, recria a conversa do autor com um ferrageiro da cidade espanhola de Carmona, expondo algumas das principais preocupações de seu fazer poético: o esforço exigido pela poesia. O ferrageiro de Carmona Um ferrageiro de Carmona que me informava de um balcão: Aquilo? É de ferro fundido, foi a fôrma que fez, não a mão. Só trabalho em ferro forjado que é quando se trabalha ferro; então, corpo a corpo com ele, domo-o, dobro-o, até onde quero. O ferro fundido é sem luta, é só derramá-lo na fôrma. Não há nele a queda de braço e o cara a cara de uma forja. Existe grande diferença do ferro forjado ao fundido; é uma distância tão enorme que não pode medir-se a gritos.

FAÇA NO CADERNO

Conhece a Giralda em Sevilha? De certo subiu lá em cima. Reparou nas flores de ferro dos quatro jarros das esquinas? Pois aquilo é ferro forjado. Flores criadas numa outra língua. Nada têm das flores de fôrma moldadas pelas das campinas. Dou-lhe aqui humilde receita, ao senhor que dizem ser poeta: o ferro não deve fundir-se nem deve a voz ter diarreia. Forjar: domar o ferro à força, não até uma flor já sabida, mas ao que pode até ser flor se flor parece a quem o diga.

O FERRAGEIRO DE CARMONA. In: Crime na Calle Relator/Sevilha Andando, de João Cabral de Melo Neto, Alfaguara, Rio de Janeiro; © by herdeiros de João Cabral de Melo Neto

1. Ferrageiro é um negociante de ferragens ou de ferro que, em seu ofício, utiliza a forja, um conjunto de fornalha. No poema, ele dialoga com o poeta diante de um balcão. a) Quando narra sua atividade, que diferença o ferrageiro estabelece entre trabalhar o ferro fundido e o forjado? b) Como o ferrageiro explica o trabalho feito com as flores da Giralda? 2. Para o crítico literário João Alexandre Barbosa, “a narração de uma atividade serve ao poeta para extração de ensinamento e lição para a poesia”. a) Do ponto de vista do ferrageiro, quais são as duas maneiras de se trabalhar com a linguagem? b) Que conselho ele dá ao poeta? c) Explique a metáfora dos versos seguintes: Pois aquilo é ferro forjado. Flores criadas numa outra língua.

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3. Na composição do poema, o autor articula forma e conteúdo. Observe as interrogações empregadas. Que efeito de sentido se obtém com esse recurso linguístico?

O crítico literário João Alexandre Barbosa caracteriza a obra de João Cabral da seguinte maneira: De cada texto, João Cabral extrai uma maneira de ler dois níveis da realidade: o seu próprio enquanto ser social e o da própria linguagem enquanto definição daquele ser. Por isso mesmo, o poema-título, “A educação pela pedra”, é muito revelador: aqui se explicita, por um lado, a preocupação com um processo de aprendizagem e, por outro, com um modo que serve ao poeta de parâmetro ao próprio fazer poético. BARBOSA, João Alexandre. In: INSTITUTO MOREIRA SALLES. Cadernos de literatura brasileira: João Cabral de Melo Neto. 3. reimp. São Paulo: Ministério da Cultura, 1998. n. 1. p. 85.

João Cabral de Melo Neto (1920-1999): antes de tudo, a poesia Nasceu no Recife, em Pernambuco, e passou a infância nos engenhos de açúcar. Diplomata de carreira, trabalhou em diversas cidades europeias, mas Sevilha, na Espanha, foi sua predileta. Em 1968, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. Seu primeiro livro, Pedra de sono (1942), apresenta elementos surrealistas. A seguir, escreveu O engenheiro (1945), um projeto geométrico, com poemas densos, e Psicologia da composição (1947). A partir de 1950, começou um ciclo de poemas sociais representando poeticamente o Nordeste, como O cão sem plumas, O rio (1953), Morte e vida severina (1945-1955). Em A educação pela pedra (1966), acentuou o poeta-construtor; suas últimas produções são Museu de tudo (1975), A escola das facas (1980), Crime na calle Relator (1987) e Sevilha andando (1990). INSTITUTO MOREIRA SALLES. Cadernos de literatura brasileira: João Cabral de Melo Neto. 3. reimp. São Paulo: Ministério da Cultura, 1998. n. 1. p. 21.

“Fome de forma” Um dos poetas brasileiros contemporâneos é Haroldo de Campos. Leia os dois poemas a seguir, do poeta Haroldo de Campos, que fazem parte do conjunto “fome de forma”, de 1957-1959. Eles foram escritos em 1958 e publicados em 1976, no livro Xadrez de estrelas. Haroldo de Campos/Itaú Cultural

Texto 1

CAMPOS, Haroldo de. Fala prata. In: CADERNOS DE POESIA BRASILEIRA: poesia contemporânea. São Paulo: Instituto Cultural Itaú, 1997. p. 11.

João Cabral de Melo Neto, em 1997.

Haroldo de Campos (1929-2003) nasceu na cidade de São Paulo, onde se formou em Direito e exerceu as funções de crítico e teórico literário, além de tradutor de várias línguas. Em 1952 lançou, com os poetas Augusto de Campos, seu irmão, e Décio Pignatari, a revista literária Noigandres, que iniciou o movimento da poesia concreta no Brasil. Recebeu dois prêmios Jabuti: em 1992 — Personalidade literária do ano; em 1999, o Jabuti de poesia, com a obra Crisantempo: no espaço curvo nasce um, uma coletânea de vinte anos de criação poética do autor. Principais obras: Auto do possesso (1950), Servidão de passagem (1962), Xadrez de estrelas (1976), Galáxias (1984), A educação nos cinco sentidos (1985), Finismundo (1990), Os melhores poemas (1992), Crisantempo: no espaço curvo nasce um (1998), A máquina do mundo repensada (2000). Luludi/Estadão Conteúdo

Galáxias

Milton Michida/Estadão Conteúdo

A VOZ DA CRÍTICA

4. Com base na metáfora, explique a função social do poeta.

Haroldo de Campos, em 1993.

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FAÇA NO CADERNO

1. O poema “Fala prata” propõe uma nova leitura, com a abolição dos versos tradicionais; ele pode ser lido em várias direções simultâneas, saltando-se palavras. Observe a construção de um jogo poético em que se associam formas binárias. a) Com que provérbio ele dialoga? b) Que pares semânticos são formados? c) Como eles são postos na sintaxe visual? d) No plano sonoro, duas vogais se destacam ao longo do poema, uma aberta e outra fechada. Identifique-as e explique seu efeito de sentido. 2. O tema oscila entre dois núcleos de sentido: “fala/prata” e “ouro/fala/clara” e remete ao ofício de escrever. a) Que distinção o eu poético faz entre as duas expressões? b) Que provérbio o autor propõe?

DÉPRÉ, Inês Oseki (Sel.). Melhores poemas. 3. ed. São Paulo: Global, 2000. p. 50.

Haroldo de Campos na voz de Caetano Veloso Um dos poemas de Haroldo de Campos, “Galáxias”, ganhou música de Caetano Veloso e faz parte do seu CD Circuladô de fulô. Procure ouvi-lo. Note a presença dos cantadores nordestinos na canção, tanto no plano da expressão da linguagem quanto na dos sons presentes.

Editora 34

Haroldo de Campos/Editora Global

Texto 2

3. Esse poema também explora o espaço gráfico-visual e retoma uma expressão popular: “ficar a ver navios”. a) Olhando o poema, o que revela a disposição das palavras no espaço em branco? b) A partir da articulação verbo-visual, que sentidos são construídos? 4. Explique os sentidos construídos no poema.

Um importante poeta contemporâneo é Augusto de Campos. Ele procurou construir uma nova poesia fora dos moldes europeus. Sua produção poética vai em direção à arte multimídia, com poemas em computador, e explora as possibilidades linguísticas e formais ao limite. Visite o site oficial de Augusto de Campos — <http://eba.im/tfh8db> (acesso em: 24 mar. 2016) —, onde se encontram muitos poemas visuais e também se pode escutar a voz do poeta lendo alguns poemas. Vale a pena conferir.

© Augusto de Campos

Viva vaia

O poema “Viva vaia”, escrito em 1972, foi dedicado ao compositor Caetano Veloso. A imagem e o texto constroem o sentido do texto: o a e o v aparecem como triângulos invertidos. Assim, o viva do artista só pode ser a vaia. In: CAMPOS, Augusto de. Viva vaia: poesia 1949-1979. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

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Capítulo 22 – O discurso poético

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Leia o poema “Tensão”, escrito em 1956 e publicado na coletânea Viva vaia: poesia 1949-1979, em 1979. Explore as várias possibilidades de leitura visual das palavras:

Augusto de Campos

— da direita para a esquerda; — em forma de cruz; — em diagonal.

CAMPOS, Augusto de. Tensão. In: ______. Viva vaia: poesia 1949-1979. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 95. FAÇA NO CADERNO

1. Explique a tensão do poema expressa no título e como ela se cria. 2. Em que medida a linguagem desse poema é diferente da usada no poema tradicional?

©Augusto de Campos

Augusto de Campos procurou uma imagem sintética que evitasse a expressão verbal. Leia o poema a seguir, publicado pela primeira vez na revista baiana Código, dirigida por Antônio Risério, em 1973.

CAMPOS, Augusto de. Código. In: ______. Viva vaia: poesia 1949-1979. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 209.

Augusto de Campos (1931) nasceu na cidade de São Paulo. É poeta, tradutor, ensaísta, crítico de literatura e música. Juntamente com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari lançou a primeira revista de poesia concreta no Brasil — Noigrandes. No segundo número dessa revista, publicou sua série de poemas em cores, Poetamenos, escritos em Augusto de Campos. 1953. Principais obras poéticas: Poemobiles (1968), Música de invenção (1998), Viva vaia: poesia 1949-1979 (2000), Linguaviagem: cube põem (1987), Despoesia (1994), Polifogramas (2011).

Pisco Del Gaiso/Folhapress

Poema sem palavras ou grafismo?

3. Com a desconstrução da palavra código, um puro grafismo foi criado: uma espiral que lembra um ideograma. a) Qual é a finalidade da associação entre deus (god) e animal — cachorro — (dog)? b) Explique em que medida esse poema traz a marca da modernidade. Leitura e literatura

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Philadelpho Menezes

Esses poemas utilizaram o mesmo processo de combinação e associação de elementos do ideograma, um sinal gráfico da escrita chinesa que representa uma ideia; a maneira de compor o sinal já contém seu significado.

Sol

(se) ergue

(a) leste

MENEZES, Philadelpho. Poesia concreta e visual: roteiro de leitura. São Paulo: Ática, 1998. p. 41. Exemplos de ideogramas da escrita chinesa: o primeiro significa Sol, a ideia de “erguer” é obtida erguendo-se efetivamente o desenho do Sol (segundo ideograma), ao passo que no terceiro a ideia de “leste” é obtida entrelaçando-se o Sol nos galhos de uma árvore.

Décio Pignatari (1927-2012) nasceu em Jundiaí, SP, e faleceu em São Paulo, capital. Foi poeta, ensaísta, tradutor, contista, romancista, dramaturgo e professor. Publicou seus primeiros poemas na Revista brasileira de poesia, em 1949. Em 1950 lançou o livro de poemas, Carrossel, e, em 1952, fundou o grupo e editou a revista Noigandres, com os irmãos Haroldo e Augusto de Campos. Com esse grupo publicou, em 1956, o Plano-piloto para poesia concreta, e em 1965, ainda com Haroldo e Augusto de Campos, lançou o livro Teoria da poesia concreta. Principais obras poéticas: O Carrossel (1950), Organismo (1960), Exercício findo (1968), Poesia pois é poesia (1977) e Vocogramas (1985).

MENEZES, Philadelpho. Poesia concreta e visual: roteiro de leitura. São Paulo: Ática, 1998. p. 100.

Jonas Oliveira/Folhapress

Com os irmãos Campos, Décio Pignatari lançou a poesia concreta. Embora próximos, eles mantiveram características distintas. Esse artista explora a palavra dentro de uma estrutura de permutação matemática, preocupa-se antes com pesquisas de novos códigos do que com a poesia propriamente dita. No poema ao lado, o poeta retoma o slogan da Coca-Cola, um dos símbolos da vida moderna. O tom irônico marca uma crítica à empresa, representante do capitalismo americano. Esse famoso poema foi publicado pela primeira vez na revista Noigandres 4, em 1958. Nota-se um jogo entre os verbos beba/babe e os nomes coca-cola/cloaca (fossa, o que cheira mal); há também um jogo sonoro provocado pelas repetições, aliterações (“b”/“c”) e assonâncias (“e”/“a”/“o”), que contribuem para a construção de novo sentido para o slogan da Coca-Cola: não de adesão à marca, mas de crítica.

Décio Pignatari

Paródia crítica

Décio Pignatari.

Poesia participante: Na vertigem do dia O poeta maranhense José Ribamar Ferreira, que adotou o nome poético de Ferreira Gullar (1930), é um artista comprometido com seu tempo; sempre esteve preocupado com os problemas sociais do país e com o esfacelamento da linguagem. Em Na vertigem do dia (1980), os poemas trazem o questionamento sobre a poesia, as preocupações com os temas sociais, ou os temas do cotidiano do ser humano, a dor, a solidão e a solidariedade.

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Capítulo 22 – O discurso poético

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Leia a seguir o poema de Ferreira Gullar e observe como ele aborda metaforicamente o trabalho do poeta diante da realidade brasileira. Poema obsceno Façam a festa cantem dancem que eu faço o poema duro o poemamurro sujo como a miséria brasileira Não se detenham: façam a festa Bethânia Martinho Clementina Estação Primeira de Mangueira Salgueiro gente de Vila Isabel e Madureira todos façam a nossa festa enquanto eu soco este pilão este surdo poema que não toca no rádio que o povo não cantará (mas que nasce dele) Não se prestará a análises estruturalistas Não entrará nas antologias oficiais Obsceno como o salário de um trabalhador aposentado o poema terá o destino dos que habitam o lado escuro do país — e espreitam.

estruturalista: adepto do Estruturalismo, uma posição inovadora dos estudos linguísticos no início do século XX que entende a língua como um conjunto formal de relações; o estruturalista entende a análise da estrutura como mais importante do que a interpretação dos fenômenos linguísticos.

FERREIRA GULLAR. Poema obsceno. In: ______. Box Ferreira Gullar: obra poética completa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2014. 7 v. FAÇA NO CADERNO

1. A linguagem coloquial e as imagens simples apresentam os planos individual, social e político. Explique como o eu poético caracteriza o poema em cada plano. 2. Leia o significado de estruturalista. a) Explique a crítica do eu poético a essa corrente linguística. b) Qual é a proposta do autor? 3. Explique o título do poema. A voz do poeta A linguista Beth Brait entrevistou Ferreira Gullar, que lhe explicou seu percurso poético: Fiz sempre poesia como uma luta em busca do sentido das coisas, do sentido da própria vida e da literatura e, ao mesmo tempo, como a necessidade de resgatar a experiência da vida, de não deixar que ela se perca. [...] Quero que a minha poesia seja uma coisa que as pessoas leiam e apreendam o que está sendo dito. Não quero hermetismo, mas, ao mesmo tempo, não quero que a poesia seja uma coisa superficial que, em função dessa clareza, dessa possibilidade de comunicação, eu sacrifique a beleza, tudo aquilo que é o cerne da poesia. Esse é o grande problema que se coloca para mim: o problema da expressão. BRAIT, Beth (sel. notas, estudos biográfico, histórico e crítico). Ferreira Gullar. São Paulo: Abril Educação, 1981. p. 989.

Leitura e literatura

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Principais obras Dentro da noite veloz (1975), Poema sujo (1976), Na vertigem do dia (1980), Vanguarda e subdesenvolvimento (1969), Relâmpagos (2003) e Experiência neoconcreta: momento-limite da arte (2007) e Resmungos (2006). Foi premiado com o Jabuti de Melhor Livro de Contos e Crônicas em 2007.

Otávio Magalhães/Estadão Conteúdo

Ferreira Gullar (1930), pseudônimo de José Ribamar Ferreira, nasceu em São Luís, no Maranhão. Por causa de sua produção em vários campos artísticos, é declarado, por alguns críticos, o maior poeta vivo do Brasil. Gullar foi um dos principais poetas do concretismo até 1959, quando criou o movimento neoconcretista que se opunha ao concretismo propondo o resgate da subjetividade e a valorização da expressão. Em 1960, porém, Gullar se afasta do neoconcretismo e passa a fazer poesia com temas políticos.

Ferreira Gullar, em 1994.

Para ler mais poemas de Ferreira Gullar, procure o livro Toda poesia, da editora José Olympio, 2000, edição acompanhada por um CD. Professor(a), no acervo do PNBE, estão disponíveis as obras Poemas escolhidos e Bananas podres, de Ferreira Gullar.

O discurso poético na contemporaneidade

A produção poética da atualidade é bastante ampla e diversificada, misturando várias tendências culturais. Para fechar nosso plano de leitura da poesia brasileira, escolhemos a década de 1970. Como era a poesia dessa década? Que tempo era esse? Em entrevista ao jornal estadunidense Rolling Stone, na abertura da década, John Lennon declara que “o sonho acabou”, define-se o clima que marcou a virada dos anos 60 para os 70. A euforia revolucionária da década de 60 começava a dar lugar ao desencanto e à perplexidade que marcariam, especialmente para a juventude, os anos 70, nos quatro cantos do mundo. [...] O ano de 1968 foi, efetivamente, um divisor de águas. A invasão da Tchecoslováquia — a chamada Primavera de Praga — tira qualquer dúvida sobre a natureza autoritária do socialismo soviético, a atuação do PCF, no Maio de 1968 — o grande momento do movimento estudantil internacional —, revela-se reacionária, Fidel Castro intensifica a repressão e a censura às artes em Cuba. [...] Nos EUA, as contradições da guerra do Vietnã davam, já havia algum tempo, lugar a um forte movimento de resistência pacifista. Soprava um vento libertário, um desejo de “responsabilidade existencial” contra um sistema de vida fechado e controlado por elites. HOLLANDA, Heloísa Buarque de; MESSEDER, Carlos Alberto. Poesia jovem: anos 70. São Paulo: Abril Educação, 1982. (Literatura comentada).

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Editora Objetiva

Para conhecer mais a poesia brasileira do século XX, comece lendo Como e por que ler a poesia brasileira do século XX, organizada por Italo Moriconi, e Na virada do século: poesia de invenção no Brasil, obra organizada por Claudio Daniel e Frederico Barbosa. Editora Landy

Os poetas tiveram de encontrar novas maneiras para divulgar suas produções poéticas porque foram tolhidos pela censura e pela repressão do governo militar na década de 1970. Aos poucos, criaram jornais, folhetos, panfletos e publicações mimeografadas para divulgarem e distribuírem sua poesia de mão em mão em locais públicos, como portas de cinemas, museus e teatros. Essa produção, conhecida como “Poesia marginal”, circulava à margem dos meios editoriais convencionais, à margem do sistema vigente. Os poetas eram universitários, embora avessos à teoria; engajaram-se no movimento de resistência cultural com uma posição de protesto diante da ditadura militar, quando a participação política foi banida da vida universitária. O clima agitado da década de 1970 fez circular uma grande produção de poesia comprometida com a crise política e social e ao mesmo tempo marcada pelo caráter inovador da linguagem. Para conhecermos um pouco da produção poética desse período, selecionamos poemas da carioca Ana Cristina Cesar e do curitibano Paulo Leminski. Capítulo 22 – O discurso poético

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Confissão e poesia

Ana Cristina Cesar (1952-1983) Poeta, ensaísta e tradutora, Ana Cristina Cesar se transformou em um dos expoentes da literatura conhecida como marginal ou “udigrudi”, que vigorou nos anos 1970. Poeta precoce, publicou seu primeiro poema aos 7 anos. Sua poesia é confessional e intimista e sofreu forte influência da correspondência, apresentando textos curtos, poemas fragmentados, cartas e páginas de diário. Em 1979 Ana C., como também ficou conhecida, lançou, de forma independente, o primeiro livro de poesia, Cenas de abril. Em seguida, publicou Correspondência completa (1979), uma carta ficcional, e Luvas de pelica, publicado em 1980. Em 1982, lançou A teus pés — reunião de títulos publicados até então e ainda o inédito que nomeia o volume. Aos 31 anos, em 1983, comete suicídio. Obras lançadas após sua morte: Inéditos e dispersos (1985), Escritos da Inglaterra (1988) e Escritos no Rio (1993).

Lewy Moraes/Folhapress

A poesia marginal de Ana Cristina Cesar explorou a linguagem coloquial, transformando pequenas experiências cotidianas em elementos do poema.

Ana Cristina Cesar, em 1983.

Você vai ler a seguir um poema publicado no livro Cenas de abril, lançado em 1979, em que aparece um trabalho com as palavras. Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra Poética, de Ana Cristina Cesar. 21 de fevereiro Não quero mais a fúria da verdade. Entro na sapataria popular. Chove por detrás. Gatos amarelos circulando no fundo. Abomino Baudelaire querido, mas procuro na vitrina um modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como deve ser, não tão generosa, não. Recebe o afeto que se encerra no meu peito. Me calço decidida onde os gatos fazem que me amam, juvenis, reais. Antes eu era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá a mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta querida, escuta. A marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso. Belo belo. Tenho tudo que fere. As alemãs marchando que nem homem. As cenas mais belas do romance o autor não soube comentar. Não me deixa agora, fera. CESAR, Ana Cristina. 21 de fevereiro. In: ___. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 36.

Leia a explicação da crítica literária Maria Lúcia de Barros Camargo. Ana Cristina usou e abusou dos chamados gêneros confessionais: diários íntimos, correspondência, diário de viagem... Gêneros considerados, até alguns anos atrás, menores ou marginais dentro do sistema da “alta” literatura [...]. CAMARGO, Maria Lúcia de Barros. Atrás dos olhos pardos: uma leitura da poesia de Ana Cristina Cesar. Chapecó: Argos, 2003. p. 195. AÇA NO 1. O poema é feito sob a forma de um diário. FCADERNO a) Que elementos marcam esse gênero? b) Como o eu poético opera a ruptura desse gênero a ponto de transformá-lo em ficção?

2. O poema rompe três vezes com a expectativa do leitor: na primeira, oferece um diário público; na segunda, um poema com cara de prosa; finalmente, inventa um interlocutor, embora fale de si mesmo. a) Quem é esse interlocutor? b) Como o eu poético se dirige a ele? 3. Em grupo, observem as citações e alusões feitas ao longo do poema, que colocam em diálogo os vários campos da cultura. a) Procurem identificá-las. b) Como o eu poético as altera? c) Qual é a importância desse procedimento de intertextualidade para o poema? Leitura e literatura

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A VOZ DA CRÍTICA

Armando Freitas Filho, curador da obra de Ana Cristina Cesar, explica a obra da autora: Tentativa de pegar Ana à unha A poética de Ana Cristina requer um leitor ágil, o que bate com a mocidade de vocês. Afinal é uma contemporânea que escreve: menina, moça e jovem mulher, nessa ordem de aparição. Mas não esperem delas nada de bandeja. [...] Ela também faz uso, na sua composição, da escuta do dia a dia, pescada em conversas transeuntes e telefônicas. É preciso, portanto, ouvido fino, entrar em sintonia. Pois ao contrário de poetas como João Cabral, que são temáticos, Ana é problemática. O que quero dizer com isso? É que em vez de partir de uma situação, ela começa por uma sensação. Por isso, o jogo tem que ser rápido, tem que ser rap, não nas palavras, mas no sentimento, entre uma batida e outra do coração, para sacar não apenas o que passa, mas o que se passa, e que pode se perder se não for logo registrado. FREITAS FILHO, Armando (Org.). Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004. p. 89.

Entre o capricho e a invenção O curitibano Paulo Leminski é um dos poetas brasileiros mais importantes do final do século XX. Seus primeiros poemas de clara matriz concretista misturam Tropicalismo e MPB com o rigor do praticante de artes marciais e quase monge beneditino.

BIOGRAFIA resumida de Leminski. Instituto Paulo Leminski. 24 ago. 2014. Disponível em: <http://fundacaopauloleminski.blogspot.com.br/>. Acesso em: 19 abr. 2016.

Luiz Novaes/Folhapress

Paulo Leminski (1944-1989) nasceu em Curitiba. Desde muito cedo começou a escrever poesia, preferindo poemas breves, muitas vezes fazendo haicais, trocadilhos, ou brincando com ditados franceses. Foi professor de História e de Redação em cursos pré-vestibulares. Depois, tornou-se diretor de criação e redator publicitário. Dentre suas atividades, criou habilidade de letrista e músico. Na década de 1970, teve poemas e textos publicados em diversas revistas. Suas letras foram gravadas por Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Zé Miguel Wisnik. Teve influência da poesia de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Paulo Leminski foi tradutor de James Joyce, Samuel Beckett e Yukio Mishima e um estudioso da língua e cultura japonesas; em 1983 publicou uma biografia de Bashô. Sua obra literária tem exercido marcante influência em todos os movimentos poéticos contemporâneos. Morreu em 1989, em consequência do agravamento de uma cirrose hepática que o acompanhou por vários anos. Paulo Leminski.

Vamos ler um poema de Leminski em que ele aproxima expressão em versos e conjugação verbal. O texto foi publicado em 1980, no livro Não fosse isso e era menos, não fosse tanto e era quase. apagar-me diluir-me desmanchar-me até que depois de mim de nós de tudo não reste mais que o charme LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 84. FAÇA NO CADERNO

1. Por que o poema causa humor? Que palavra-chave cria esse humor? Professor(a), a obra Toda poesia, de Paulo Leminski, está no acervo do PNBE.

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Capítulo 22 – O discurso poético

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2. A linguagem é o material da produção poética de Leminski. a) Que jogo de palavras aparece com a palavra charme? b) O último verso contém duplo sentido: explique-o.

A VOZ DA CRÍTICA

3. Na construção dos versos, o eu poético emprega os paralelismos. a) Identifique-os. b) Que efeito de sentido provoca esse recurso linguístico? Veja o que José Miguel Wisnik escreveu sobre Leminski: Não por acaso Paulo Leminski colocou-se, em boa parte por provocação, no alvo das pendengas sobre o discutido valor literário da poesia contemporânea brasileira, de difícil canonização, como se ele fosse, dela, ao mesmo tempo arqueiro zen e o calcanhar de Aquiles. Mas aquele que declarou, por ocasião da morte de Drummond, o “trono está vago” foi talvez quem melhor percebeu que, a partir de então, a poesia se fazia em torno do vazio do trono, de qualquer trono — como o arqueiro zen — com a máxima precisão. A consciência desse fato, motor interno da sua atividade literária, já o coloca, por si só, para além da gangorra entre seus afetos e desafetos. WISNIK, José Miguel. Nota sobre Leminski cancionista. In: LEMINSKI, Paulo. Toda poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 386.

Na trama dos textos Poemas em diálogo Você lerá dois poemas. O da esquerda é “Poema-bomba”, de Augusto de Campos, publicado na obra Despoesia, em 1987. O da direita é “A rosa de Hiroxima”, de Vinicius de Moraes (1913-1980), publicado na Antologia poética, organizada pelo autor em 1954.

© Augusto de Campos

Poema-bomba

A rosa de Hiroxima Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh não se esqueçam Da rosa da rosa A rosa de Hiroxima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada.

Augusto de Campos, “Poema-bomba” (1987-1992), DESPOESIA, São Paulo, Editora Perspectiva, 1994 © Augusto de Campos.

A rosa de Hiroxima. Vinicius de Moraes. In: Nova antologia poética de Vinicius de Moraes, seleção e organização de Natonio Cícero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Cia. das Letras, Editora Schwarcz Ltda., 2003. p. 150.

FAÇA NO CADERNO

1. O poema de Augusto de Campos está construído numa disposição gráfica que marca o completo distanciamento do poema de Vinicius de Moraes. a) Aponte algumas subversões. b) Que sentido é gerado pelos dois procedimentos? Leitura e literatura

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2. Augusto de Campos baseia seu texto poético no olhar, procurando recuperar a dimensão viva da palavra. a) Como você faz a leitura desse poema? b) Explique o movimento das palavras criado pela forma visual. c) Qual é a finalidade desse movimento? 3. Que sentido adquire a palavra rosa no poema “A rosa de Hiroxima”?

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Em cena

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“Poema-bomba” também foi lançado por Augusto de Campos na forma de clipe-poema, em 1995, dentro do CD-livro intitulado Poesia é risco. Com seus colegas, veja o poema no site oficial de Augusto de Campos, disponível em <http://eba.im/cvcuys>, e acompanhe a leitura feita pelo autor. (Acesso em: 28 maio 2016.) • Discutam as transformações ocorridas no poema na esfera digital, ao tornar-se um clipe-poema. • Que elementos novos o poema apresenta? Selecionem, no site oficial de Augusto de Campos, poemas e clipes-poemas para apresentar em um sarau eletrônico.

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

©Augusto de Campos

1. (Enem/MEC) Leia o poema “A Rosa Doente”, de William Blake, na tradução de Augusto de Campos (1975). A respeito das imagens e dos recursos visuais e sonoros empregados pelo tradutor, aponte a alternativa incorreta: a) A disposição gráfica dos versos e das palavras, formando uma espiral, retoma a principal figura enfocada pelo poema. b) Nos versos Um verme pela treva / Voa invisivelmente. / O vento que uiva o leva / Ao velado veludo, a sonoridade das palavras simula a atividade dos agentes verme e vento.

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c) O rebuscado desenho das letras selecionadas pelo tradutor quer dar a impressão de que o poema é uma espécie de receita médica, feita em caligrafia ininteligível. d) A variação no tamanho das letras cria um efeito visual que reforça a ideia da gravidade da doença que afeta a Rosa. e) A Rosa, no poema, pode ser interpretada como metáfora de pessoa vítima de uma paixão secreta.

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Capítulo 22 – O discurso poético

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Capítulo 23

Texto, gênero do discurso e produção

A canção no Tropicalismo (Des)construindo o gênero Na era dos festivais: entre aplausos e vaias Na década de 1960, a música popular brasileira viveu uma fase de efervescência com os festivais promovidos pela TV Record. Por causa dos conflitos sociais por que passava o país naqueles anos de ditadura e opressão, as disputas foram acirradas. O universo musical refletiu o dualismo social: música engajada de um lado, música alienada de outro. Os artistas tidos como engajados concebiam a música como instrumento de protesto e de denúncia social, e a Jovem Guarda, comandada por Roberto Carlos, era colocada ao lado dos conservadores, ainda mais por produzir em suas canções uma versão do rock ingênuo anglo-americano: o iê-iê-iê. Entre esses dois fogos, nasceu o Tropicalismo, que fez da canção uma forma de movimento cultural.

Sem lenço, sem documento A marcha “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, foi apresentada no 3o Festival da TV Record, em outubro de 1967. O compositor Caetano Veloso interpretou a canção acompanhado pelos Beat Boys, conjunto argentino de rock que causou grande impacto, não só pela guitarra como pela maneira de se apresentar: com cabelos compridos e roupas cor-de-rosa. O público começou vaiando, mas terminou com aplausos. Se for possível, ouça a canção e observe a relação entre o arranjo musical e a letra.

Claudemiro/Acervo UH/Folhapress

De onde veio o título da canção? A expressão “Alegria, alegria” foi recuperada de um bordão usado pelo apresentador Abelardo Barbosa, o Chacrinha, em seu programa de calouros na televisão, de grande apelo popular, Discoteca do Chacrinha.

Caetano Veloso e os Beat Boys cantam “Alegria, alegria” no 3o Festival de Música Popular Brasileira, em 1967.

Texto, gênero do discurso e produção

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Alegria, alegria Caminhando contra o vento sem lenço, sem documento no sol de quase dezembro eu vou.

Ela nem sabe até pensei em cantar na televisão o sol é tão bonito eu vou.

O sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas em cardinales bonitas eu vou.

Sem lenço, sem documento nada no bolso ou nas mãos eu quero seguir vivendo, amor eu vou. Por que não, por que não?... VELOSO, Caetano. Alegria, alegria. Intérprete: Caetano Veloso. . Caetano Veloso. São Paulo: Philips, 1990. 1 CD. Faixa 4.

In:

Caetano Veloso. Caetano Veloso. Gravadora Philips

Em caras de presidentes em grandes beijos de amor em dentes, pernas, bandeiras bomba e Brigitte Bardot. O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça quem lê tanta notícia eu vou. Por entre fotos e nomes os olhos cheios de cores o peito cheio de amores vãos eu vou. Por que não? Por que não? Ela pensa em casamento e eu nunca mais fui à escola sem lenço, sem documento, eu vou. Eu tomo uma coca-cola ela pensa em casamento e uma canção me consola eu vou. Por entre fotos e nomes sem livros e sem fuzil sem fome sem telefone no coração do Brasil.

Capa do disco Caetano Veloso (1968).

Brigitte Bardot: atriz francesa loura e provocante, atuou, nua, no filme “E Deus criou a mulher” (1956), de Roger Vadim. cardinale: artista de cinema; a italiana Claudia Cardinale era uma das mais bonitas estrelas de cinema da época. nada no bolso ou nas mãos: remete a uma citação do filósofo francês Jean Paul Sartre, em seu livro As palavras.

Caetano Veloso nasceu em Santo Amaro, Bahia, em 1942. Sempre esteve ligado ao cinema. Começou como crítico e, depois de ter optado pela carreira de compositor, continuou fazendo e cedendo canções para filmes brasileiros, como São Bernardo (1972), de Leon Hirszman, e A dama do lotação (1978), de Neville d’Almeida. Em 1986, produziu seu próprio filme, Cinema falado. Em 1968, foi preso com Gilberto Gil pelo governo da ditadura e deportado para a Inglaterra, retornando em 1972. Nesse período, contudo, não parou de produzir. Publicou livros, como Verdade tropical (1997). Em 2000, ganhou o Grammy na categoria World Music com o disco Livro (1998). Tem vasta produção em discos, CDs e DVDs, em que interpreta composições suas e de outros compositores nacionais e internacionais. Alguns discos e CDs: Caetano Veloso (1968), É proibido proibir (1968), Araçá azul (1973), Outras palavras (1981), e Circuladô (1990), Zii e Zie (2009) e o mais recente Two friends, one century of music (2016), gravado ao vivo com Gilberto Gil.

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Marcelo Cortes/Fotoarena

Olhos cheios de cores

Caetano Veloso, em 2015.

Capítulo 23 – A canção no Tropicalismo

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FAÇA NO CADERNO

1. Na letra da canção, o autor compõe um painel fragmentado de informações. a) Como ele faz isso? b) De onde ele extrai essas referências? A montagem da letra articula de forma desordenada a vida urbana a fatos políticos nacionais e internacionais. Muitas referências estão subentendidas; uma delas está contida na palavra sol, que na época era o nome de um jornal de esquerda. Outras referências abrangem áreas como arte, política, luta armada e cotidiano.

2. Explique as referências subentendidas nas expressões: a) “espaçonaves, guerrilhas”; b) “sem livros e sem fuzil”; c) “Eu tomo uma coca-cola / ela pensa em casamento”; d) “sem fome sem telefone / no coração do Brasil”. 3. Na letra dessa canção, a visualidade predomina sobre a narratividade. Que imagem de Brasil o autor constrói?

Caldo de cultura

Claudemiro/Acervo UH/Folhapress

Assim como a música “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, que foi vaiada no Festival da Record, em 1967, a música “Domingo no parque”, de Gilberto Gil, também o foi, e ele quase desistiu de apresentá-la. Com arranjo do maestro Rogério Duprat e acompanhado da banda Os Mutantes, composta de Rita Lee e os irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, a apresentação causou reação negativa da plateia pelo uso de guitarra e baixo elétrico e pelas roupas dos instrumentistas. Procure ouvir a canção. Perceba que nela há uma mistura no uso de instrumentos: guitarra e berimbau.

Gilberto Gil e Os Mutantes cantam “Domingo no parque” no 3o Festival de Música Popular Brasileira, em 1967.

O crítico musical Carlos Calado explica como nasceu essa canção. Gil queria alguma coisa diferente, mas que fosse bem popular e lembrasse a Bahia. O que poderia ser mais forte e típico do que o toque de um berimbau durante uma roda de capoeira? Usando um motivo rítmico-melódico baseado no característico padrão de pergunta e resposta, foi um passo apenas para imaginar as personagens centrais da história: o feirante José, o operário João e a doméstica Juliana, um clássico triângulo amoroso que termina em tragédia. CALADO, Carlos. Tropicália: a história de uma revolução musical. São Paulo: Editora 34, 1997. p. 122. (Ouvido musical).

Texto, gênero do discurso e produção

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Domingo no parque O rei da brincadeira (ê, José) O rei da confusão (ê, João) Um trabalhava na feira (ê, José) Outro na construção (ê, João)

O sorvete e a rosa (ô, José) A rosa e o sorvete (ô, José) Foi dançando no peito (ô, José) Do José brincalhão (ô, José)

A semana passada, no fim da semana João resolveu não brigar No domingo de tarde saiu apressado E não foi pra Ribeira jogar Capoeira Não foi pra lá, pra Ribeira Foi namorar

O sorvete e a rosa (ô, José) A rosa e o sorvete (ô, José) Oi, girando na mente (ô, José) Do José brincalhão (ô, José) Juliana girando (oi, girando) Oi, na roda-gigante (oi, girando) Oi, na roda-gigante (oi, girando) O amigo João (João)

O José como sempre no fim da semana Guardou a barraca e sumiu Foi fazer no domingo um passeio no parque Lá perto da Boca do Rio Foi no parque que ele avistou Juliana Foi que ele viu Foi que ele viu

O sorvete é morango (é vermelho) Oi, girando e a rosa (é vermelha) Oi, girando, girando (é vermelha) Oi, girando, girando... Olha a faca! (olha a faca!) Olha o sangue na mão (ê, José) Juliana no chão (ê, José) Outro corpo caído (ê, José) Seu amigo João (ê, José) Amanhã não tem feira (ê, José) Não tem mais construção (ê, João) Não tem mais brincadeira (ê, José) Não tem mais confusão (ê, João)

Gilberto Gil. Gilberto Gil. Philips Records, Water music, Universal music, 1968

In:

Cultura e civilização

Capa do disco Gilberto Gil (1968).

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GIL, Gilberto. Domingo no parque. Intérprete: Gilberto Gil. . Gilberto Gil. São Paulo: Philips, 1968. 1 LP. Faixa 10. Gege Edições.

Estadão Conteúdo

Juliana na roda com João Uma rosa e um sorvete na mão Juliana seu sonho, uma ilusão Juliana e o amigo João O espinho da rosa feriu Zé E o sorvete gelou seu coração

Gilberto Passos Gil Moreira nasceu em Salvador, Bahia, em 1942, e começou a escrever seus primeiros poemas em 1959. Na década de 1960, gravou seus primeiros discos e começou a fazer shows e jingles. Em 1968, vítima do Ato Institucional no 5, foi preso pela Polícia Federal e posGilberto Gil, em 2014. teriormente deportado, com Caetano Veloso, para Londres, de onde retornou em 1972. Desde então, teve intensa produção (mais de 460 letras), fez shows por todo o mundo, compôs músicas para a televisão e o cinema, trabalhou na Secretaria de Cultura de Salvador, foi vereador, membro do Partido Verde e Ministro da Cultura do primeiro (2003-2007) e do segundo (2007-2008) governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Capítulo 23 – A canção no Tropicalismo

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FAÇA NO CADERNO

1. A letra mostra um projeto essencialmente narrativo. a) A que classe social pertencem as personagens? b) Recupere o começo, o meio e o fim da história. c) Descreva o espaço e explique sua relação com a narrativa. 2. Numa concepção cinematográfica, o arranjo do maestro Rogério Duprat e de Gil se compõe com a narrativa. a) Que elementos sonoros aparecem no arranjo da canção? b) Como esses elementos dialogam com a narração da tragédia? 3. Na letra, o autor emprega recursos de linguagem. De que maneira o uso de versos curtos e da repetição interfere no sentido da narrativa? Quando Caetano Veloso e Gilberto Gil apresentaram “Alegria, alegria” e “Domingo no parque” no festival, não pretendiam lançar nenhum movimento; no entanto, ao término dele, com as canções classificadas respectivamente em quarto e segundo lugares, estava deflagrado o movimento tropicalista e uma intensa polêmica estabeleceu-se em torno dele. As canções inauguraram uma atitude, modificando a sensibilidade do público e exigindo dele uma nova postura de análise.

A explosão tropicalista: pão e circo O Tropicalismo foi uma resposta inusitada às questões das relações entre arte e política. Pôs em evidência as contradições do país, tanto no nível da história quanto das linguagens. Abandonou a tradição musical, retomando as pesquisas do Modernismo, principalmente a antropofagia oswaldiana. Pela concepção tropicalista, todas as tendências musicais circulantes no país deveriam fazer parte da música popular brasileira: samba, bolero, tango, rock, rap, reggae, os ritmos regionais etc. Quem usou o termo “Tropicalismo” pela primeira vez foi o jornalista e crítico musical Nelson Motta, em sua coluna do jornal carioca Última Hora. Para ele, o movimento artístico trazia a autenticidade da vida dos trópicos, sem preconceito de ordem estética, assumindo o aspecto subdesenvolvido da realidade brasileira, o mau gosto e o kitsch. Essa palavra, de origem alemã, significa “lixo”; na linguagem estética, está associada à noção de mau gosto, de “cafonice”. Esse movimento complexo foi gerado sob o regime militar instaurado pelo golpe de 1o de abril de 1964. O disco-manifesto Tropicalia ou panis et circencis, lançado em julho de 1968, representou o programa estético-ideológico do movimento. O título, em latim “macarrônico”, significa “pão e circo”. Panis et circencis Eu quis cantar Minha canção iluminada de sol Soltei os panos sobre os mastros no ar Soltei os tigres e os leões nos quintais Mas as pessoas na sala de jantar São ocupadas em nascer e morrer Mandei fazer de puro aço luminoso um punhal Para matar o meu amor e matei Às cinco horas na avenida central Mas as pessoas na sala de jantar São ocupadas em nascer e morrer

Mandei plantar folhas de sonho no jardim do solar As folhas sabem procurar pelo sol E as raízes procurar, procurar Mas as pessoas da sala de jantar Essas pessoas da sala de jantar São as pessoas da sala de jantar Mas as pessoas na sala de jantar São ocupadas em nascer e morrer Essas pessoas na sala de jantar Essas pessoas na sala de jantar Essas pessoas na sala de jantar Essas pessoas

GIL, Gilberto; VELOSO, Caetano. Panis et circencis. Intérprete: Os Mutantes. In: COSTA, Gal et al. Tropicalia ou panis et circencis. São Paulo: Philips Records, 1999. 1 disco sonoro.

Texto, gênero do discurso e produção

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Tropicalia, Caetano Veloso. Gravadora: Philips 1968

FAÇA NO CADERNO

1. Na capa, o maestro Rogério Duprat aparece segurando um prato e um penico, em atitude que cita a transgressão de uma vanguarda europeia. Que vanguarda e que artista esse gesto recupera? 2. A imagem da capa do disco, síntese do movimento tropicalista, merece uma leitura atenta. a) A foto de grupo, com fundo preto e emoldurada, já indica que a obra era uma criação coletiva. Nela aparecem, à maneira patriarcal, vários outros artistas. Identifique-os, se possível, e explique como aparecem e o que simbolizam. b) Descreva o cenário. c) Como aparecem os títulos? O que significam? d) Qual é o significado do conjunto da capa? Capa do disco Tropicalia ou panis et circencis (1968).

Linguagem do gênero Composição rítmico-visual Vamos ler a letra de uma das canções do disco-manifesto. Com o título “Bat macumba”, o que você espera encontrar? Lembre que esse disco representa o importante projeto tropicalista: irreverente, crítico, mas, antes de tudo, uma síntese da cultura brasileira. batmacumbaiêiê batmacumbaoba batmacumbaiêiê batmacumbao batmacumbaiêiê batmacumba batmacumbaiêiê batmacum batmacumbaiêiê batman batmacumbaiêiê bat batmacumbaiêiê ba batmacumbaiêiê batmacumbaiyê batmacumba batmacum batman bat ba bat batman batmacum batmacumba batmacumbaiê batmacumbaiêiê batmacumbaiêiê ba batmacumbaiêiê bat batmacumbaiêiê batman batmacumbaiêiê batmacum batmacumbaiêiê batmacumba batmacumbaiêiê batmacumbao batmacumbaiêiê batmacumbaoba GIL, Gilberto; VELOSO, Caetano. Bat macumba. Intérprete: Os Mutantes. In: COSTA, Gal et al. Tropicalia ou panis et circencis. São Paulo: Philips Records, 1999. 1 disco sonoro.

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Capítulo 23 – A canção no Tropicalismo

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1. Se possível, ouça a canção de Gilberto Gil e Caetano Veloso e identifique sua mistura de ritmos: samba de roda, afoxé, batuques tribais, blues e reggae.

FAÇA NO CADERNO

2. Observe a composição linguística do primeiro verso. a) Que palavras estão contidas nele? b) Que sentidos elas incorporam à canção? c) Observe a sequência dos versos e explique que processo de composição é adotado. 3. A letra da canção foi feita para ser vista como poema gráfico-visual. a) A estrutura visual da canção forma uma letra que naquela época não fazia parte do alfabeto português do Brasil. Qual é o sentido desse recurso? b) A que outra imagem da cultura estrangeira remete essa estrutura visual?

Composição temático-melódica No mesmo disco, a canção “Baby”, de Caetano Veloso, é uma homenagem do cantor a sua irmã Maria Bethânia. Gal Costa interpreta-a, com intervenções vocais do autor. Baby Você precisa saber da piscina Da margarina, da Carolina, da gasolina Você precisa saber de mim Baby, baby, eu sei que é assim Baby, baby, eu sei que é assim Você precisa tomar um sorvete Na lanchonete, andar com a gente Me ver de perto Ouvir aquela canção do Roberto Baby, baby, há quanto tempo Baby, baby, há quanto tempo Você precisa aprender inglês Precisa aprender o que eu sei E o que eu não sei mais E o que eu não sei mais Não sei, comigo vai tudo azul Contigo vai tudo em paz Vivemos na melhor cidade Da América do Sul Da América do Sul Você precisa, você precisa Você precisa Não sei, leia na minha camisa Baby, baby I love you...

Canções tropicalistas na internet Quer ouvi-las? Acesse estes sites. • <http://eba.im/fmrnvg>. • <http://eba.im/byysw2>. • <http://eba.im/o9i8is>. • <http://eba.im/t6n4cc>. Acessos em: 20 abr. 2016.

VELOSO, Caetano. Baby. Intérprete: Gal Costa. In: COSTA, Gal et al. Tropicalia ou panis et circencis. São Paulo: Philips Records, 1999. 1 disco sonoro. AÇA NO 1. Quanto ao tema da canção “Baby”: FCADERNO a) Identifique-o. b) A palavra baby, que dá título à canção, aparece no interior da letra com uma determinada função sintática. Explique a relação desse emprego com o tema.

2. Além do título, que outros elementos marcam a influência do universo pop estadunidense na canção? 3. A letra faz referência a dois compositores da então música jovem nacional, Roberto Carlos e Chico Buarque de Hollanda. • O que eles representam no contexto cultural da década de 1960? Texto, gênero do discurso e produção

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Luiz Tatit

Luiz Tatit

O arranjo de Rogério Duprat confere à canção um ritmo de marcha lenta, ou marcha-rancho. Em “Baby”, o sentido se cria no diálogo perfeito entre os elementos temáticos e sonoros, dispensando-se o plano narrativo. Para observar a tendência melódica, ouça a canção enquanto lê os gráficos do músico e professor de linguística Luiz Tatit para o segundo verso e o refrão.

TATIT, Luiz Augusto de Moraes. O século da canção. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004. p. 220-221.

4. A melodia desses versos da canção, que se repete pelo conjunto da música, mostra uma tendência ascendente, culminando no agudo do refrão. Que sentido essa tendência melódica ascendente constrói?

Praticando o gênero Figurino tropicalista 1. Em grupo, observem em detalhes e comentem os aspectos carnavalescos empregados pelos artistas tropicalistas. A linguagem carnavalesca do Tropicalismo está presente na performance, no vestuário e no discurso dos artistas. 2. Inspirando-se nesses recursos, organizem uma releitura da linguagem carnavalesca do Tropicalismo: por meio de desfile de moda, de performances, discursos etc., recuperem o clima da época.

Festival da canção 1. Hoje, o clima da música jovem nacional é diferente daquele vivido pelos tropicalistas. Para mostrar as tendências atuais da MPB, promovam um festival no colégio, com o auxílio do professor. Para isso, organizem-se em grupos e verifiquem quais são os talentos disponíveis: compositores, instrumentistas, arranjadores, críticos, divulgadores etc. 2. Estabeleçam um cronograma compatível com o calendário escolar. 3. Criem o regulamento, prevendo, entre outros aspectos, a forma de inscrição, as categorias e até os prêmios, para os quais pode ser solicitado patrocínio. Pensem em uma forma de divulgar o festival. 4. Façam a divisão de tarefas, pois a atividade exigirá bastante organização, até mesmo do aspecto material: local para a apresentação, para os jurados, cópias das canções inscritas etc. 230

Capítulo 23 – A canção no Tropicalismo

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5. Convidem pessoas ligadas ao universo musical para fazerem parte da Comissão Julgadora. 6. Cuidem do “casamento” entre letra e música, isto é, empreguem os recursos linguísticos em função do sentido da canção. Observem: • • • • • • • • • • • • • • • • •

Figuras de construção e de linguagem anástrofe: adjunto adnominal + núcleo, em vez de núcleo + adjunto adnominal; elipse: supressão de termo de fácil compreensão; zeugma: supressão de termo já citado; assíndeto: supressão de conjunção; polissíndeto: reiteração de conjunção; metonímia: troca de elementos contíguos (vizinhos) da mesma cadeia semântica: a causa pelo efeito, o todo pela parte, o abstrato pelo concreto etc.; metáfora: comparação reduzida e subentendida; sinestesia: associação de diferentes órgãos dos sentidos. Recursos para criar ritmo métrica: versos regulares (com o mesmo número de sílabas de pronúncia) e/ou livres; acentuação (regular e/ou livre) dos versos; estrofes: refrão; rima ou versos brancos; paralelismo (sintático e semântico): correspondência de esquema frasal entre versos; aliteração: repetição do som inicial das palavras do verso; assonância: repetição constante das mesmas vogais; inversão dos termos; onomatopeia: imitação de sons naturais.

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (Enem/MEC) Mesmo tendo a trajetória do movimento interrompida com a prisão de seus dois líderes, o tropicalismo não deixou de cumprir seu papel de vanguarda na música popular brasileira. A partir da década de 70 do século passado, em lugar do produto musical de exportação de nível internacional prometido pelos baianos com a “retomada da linha evolutória”, instituiu-se nos meios de comunicação e na indústria do lazer uma nova era musical. TINHORÃO, J. R. Pequena história da música popular: da modinha ao tropicalismo. São Paulo: Art, 1986 (adaptado).

A nova era musical mencionada no texto evidencia um gênero que incorporou a cultura de massa e se adequou à realidade brasileira. Esse gênero está representado pela obra cujo trecho da letra é: a) A estrela d’alva / No céu desponta / E a lua anda tonta / Com tamanho esplendor. (“As pastorinhas”, Noel Rosa e João de Barro) b) Hoje / Eu quero a rosa mais linda que houver / Quero a primeira estrela que vier / Para enfeitar a noite do meu bem. (“A noite do meu bem”, Dolores Duran) c) No rancho fundo / Bem pra lá do fim do mundo / Onde a dor e a saudade / Contam coisas da cidade. (“No rancho fundo”, Ary Barroso e Lamartine Babo) d) Baby Baby / Não adianta chamar / Quando alguém está perdido / Procurando se encontrar. (“Ovelha negra”, Rita Lee) e) Pois há menos peixinhos a nadar no mar / Do que os beijinhos que eu darei / Na sua boca. (“Chega de saudade”, Tom Jobim e Vinicius de Moraes)

Texto, gênero do discurso e produção

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Capítulo 24

Língua e linguagem

Concordância verbal Concordar é combinar, estar em harmonia. Em um enunciado, alguns termos “combinam” com outros, que são seus regentes. De que forma esse mecanismo ocorre, suas variações e efeitos de sentido é o que analisaremos neste capítulo. Começaremos pela concordância verbal, em que o verbo concorda com o sujeito.

Explorando os mecanismos linguísticos Uma primeira reflexão Para começar nossa análise, leia as reflexões que Sírio Possenti, linguista e professor da Unicamp (SP), faz sobre a concordância. Dois casinhos O tema da variação linguística, especialmente quando não se trata de casos marcados — bons para preconceitos — é ocasião para interessantes reflexões. É que nela há um cruzamento de fatores de natureza diversa — gramaticais e de posição social dos falantes, pelo menos. Seja pelo cruzamento, seja pela diversidade de fatores, a questão se torna mais complexa. Vale a pena tentar esclarecê-la. Vejam o que se pôde ler no sisudo Estadão (25 nov. 1999): “Causou constrangimento entre os parlamentares as perguntas da deputada Maria Laura Carneiro à ex-namorada de Fernandinho Beira-Mar, Alda Inês, na CPI do Narcotráfico”. Se essa construção (com concordância verbal “errada”) ocorresse em conversa ou entrevista, por mais formal que fosse, não causaria espanto. Talvez nem fosse percebida. Aparecendo em texto escrito, e no Estadão, um jornal de linguagem conservadora, fornece elementos para reflexões. A frase começa com o verbo, eis a questão. Esta estrutura é o fator mais importante para explicar a ausência de concordância (o sujeito é “as perguntas da deputada”). Quem escreveu este texto não escreveria “As perguntas da deputada causou constrangimento”. Mas, invertida a ordem sujeito-verbo, a relação sujeito-predicado se perde para o falante. Para efeito de concordância, importa que não haja nada antes do verbo, ou seja, é como se “causou” fosse um verbo impessoal. Que esteja na dita terceira pessoa do singular não é nem banal nem casual. Este fenômeno é, de certa forma, o avesso de outro. Ocorrem cada vez mais construções do tipo “A política dessas duas cidades são melhores do que...”, em que o verbo concorda com o nome que está mais próximo (aqui, “duas cidades”) e não com seu sujeito (aqui, “a política”). Esta construção é o avesso da outra porque naquela também o verbo concorda com o que está mais próximo: não concorda com nada, já que antes dele não há nada. Alguns poderiam imaginar que assim se produz confusão de “pensamento”. Pode-se ver facilmente que não. O “pensamento” é claro, ninguém deixa de entender a frase. Há casos em que a forma (a sintaxe) não resolve tudo. Se às vezes a sintaxe não é suficiente para a clareza do que se diz, em outras ela não interfere de forma alguma na compreensão do enunciado, que parece funcionar independentemente da sintaxe. Talvez o mais importante nessas construções seja a falta de consciência de que se está cometendo um “erro”. É como se esta sintaxe fosse padrão, como se fosse correta, segundo as exigências daquele jornal. Os sociolinguistas ensinam que, quando um “erro” não é mais percebido, então não há mais um “erro”, mas uma nova norma. Comento brevemente um segundo caso, colhido em coluna do ótimo Tostão (FSP, 28 nov. 1999): “Se o Atlético-MG se iludir de que tem um excepcional time, por causa da vitória sobre o Cruzeiro, e não ter garra e humildade, dança como o Vasco”. Para horror de muitos, Tostão não escreveu “tiver”. Definitivamente, cada vez mais há menos pessoas percebendo que certos verbos deveriam ter um futuro do subjuntivo irregular. O que dizer de sua abolição em penas como as de Tostão? Pode ser que seja apenas a língua mudando, sem que os falantes percebam. POSSENTI, Sírio. Dois casinhos. In:

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. Malcomportadas línguas. 2. ed. Curitiba: Criar, 2002. p. 51-53.

Capítulo 24 – Concordância verbal

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FAÇA NO CADERNO

1. Responda sobre o texto: a) Qual é a regra básica da concordância padrão? b) Segundo o autor, que fatores interferem nela? c) Por que o linguista considera viável “Causou constrangimento entre os parlamentares as perguntas da deputada...” e não “As perguntas da deputada causou constrangimento”? d) Por que ele coloca entre aspas as palavras “erro” e “errada”? Na língua oral, em que o fluxo do pensamento corre mais rápido que a formulação e estruturação da oração, é muito comum enunciar primeiro o verbo — elemento fulcral da atividade comunicativa — para depois se seguirem os outros termos oracionais. Nestas circunstâncias, o falante costuma enunciar o verbo no singular, porque ainda não pensou no sujeito a quem atribuirá a função predicativa contida no verbo; se o sujeito, neste momento, for pensado como pluralidade, os casos de discordância serão aí frequentes. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37. ed. rev. e ampl. 14. reimpr. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 544.

2. O gramático Evanildo Bechara discute a variação na concordância verbal. Em que medida ele dialoga com o linguista Sírio Possenti? Podemos encontrar um exemplo de concordância gramatical padrão em um fragmento do conto “Mistério em São Cristóvão”, de Clarice Lispector. No texto, destacamos as formas verbais a serem analisadas. […] Ao redor da mesa, por um instante imobilizados, achavam-se o pai, a mãe, a avó, três crianças e uma mocinha magra de dezenove anos. [...] Depois cada um foi para o seu quarto. A velha estendeu-se gemendo com benevolência. O pai e a mãe, fechadas todas as portas, deitaram-se pensativos e adormeceram. As três crianças, escolhendo as posições mais difíceis, adormeceram em três camas como em três trapézios. A mocinha, na sua camisola de algodão, abriu a janela do quarto e respirou todo o jardim com insatisfação e felicidade. [...] LISPECTOR, Clarice. Mistério em São Cristóvão. In:

. Laços de família: contos. 5. ed. Rio de Janeiro: Sabiá, 1973. p. 131-132.

O fragmento escolhido compõe a situação inicial do conto; descreve o ambiente familiar em meio ao qual se inscreverá um mistério. Vale a pena ser lido!

3. Verifique a concordância dos verbos destacados: a) identifique seus sujeitos regentes (termos com os quais concordam); b) explique como se dá a concordância. 4. A autora poderia ter optado por “Ao redor da mesa, por um instante imobilizados, achava-se o pai, a mãe, a avó, três crianças e uma mocinha magra de dezenove anos.”, fazendo o verbo concordar com o elemento mais próximo (o pai). Que diferença de sentido isso acarretaria? Os casos de concordância listados nas gramáticas são muitos. Selecionamos alguns por diferentes critérios: por seu grau de ocorrência no cotidiano, tanto na língua oral quanto na escrita; por aparecerem com frequência na esfera jornalística, que é uma referência de padrão culto; por permitirem reflexões quanto aos fatores que interferem nas variações de seu uso.

Sujeito = núcleo singular + especificação plural Faremos nossa análise a partir de um título de reportagem da seção Internacional do jornal O Estado de S. Paulo sobre os homens-bomba do Iraque.

Maioria dos homens-bomba vem de fora

MAIORIA dos homens-bomba vem de fora. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 12 maio 2005. Internacional, p. A13.

Língua e linguagem

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Considerando que, no enunciado, temos sujeito = “maioria dos homens-bomba” e forma verbal = “vem”, observe estas variações possíveis em qualquer padrão linguístico: • Maioria dos homens-bomba vem de fora. • Maioria dos homens-bomba vêm de fora. • Grande parte dos homens-bomba vem de fora. • Grande parte dos homens-bomba vêm de fora. • Uma porção de homens-bomba vem de fora. • Uma porção de homens-bomba vêm de fora. FAÇA NO CADERNO

1. O sujeito foi alterado, mas manteve a forma de estruturação sintática. Como é ela? 2. Reflita sobre a forma verbal: a) Que diferença há entre vem e vêm? b) Explique a concordância de cada uma dessas formas verbais. c) Que diferença de sentido faz cada uma delas?

O sujeito é um nome próprio no plural Muitas vezes deparamos com enunciados em que o sujeito único é representado por um nome próprio no plural. Como fica a concordância nesse caso? Observe nos títulos de reportagem a seguir. GUERRA SEM LIMITES Recursos para enfrentar ataques vão para localidades com possibilidades ínfimas de serem atingidas

EUA desperdiçam verbas antiterrorismo EUA desperdiçam verbas antiterrorismo. Folha de S.Paulo, São Paulo, 4 jun. 2005. Caderno Especial Mundo, p. A1.

O manual de redação do jornal Folha de S.Paulo não faz menção à concordância verbal quando o sujeito é um nome próprio no plural não acompanhado de artigo. Já o manual de O Estado de S. Paulo traz orientações que coincidem com as das gramáticas normativas. Nomes próprios no plural a) Sem artigo — Verbo no singular: Andradas fica em Minas. / Memórias Póstumas de Brás Cubas consagrou Machado de Assis. / Divinas Palavras já foi representada em São Paulo (é uma peça). b) Com artigo no plural — Verbo no plural, faça ou não o artigo parte do nome: As Memórias Póstumas de Brás Cubas lhe causaram profunda impressão. / Os Estados Unidos representam... / Os Andes constituem... / Os Alpes ficam... / Os Lusíadas imortalizaram Camões. / Os Sertões consagraram Euclides da Cunha. / Os Maias deram a Eça inegável prestígio. Exceção: Com o verbo ser e predicativo no singular, o verbo pode ficar no singular: Os Lusíadas é a obra-prima de Camões. / Os Sertões é o nome da obra que imortalizou Euclides da Cunha. MARTINS, Eduardo (Org.). Manual de redação e estilo. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1990. p. 137. FAÇA NO CADERNO

1. Pense, a partir dos exemplos dados pelo verbete do manual: a) No caso dos nomes próprios sem artigo, com que concorda o verbo? Explique usando os exemplos citados. b) Experimente falar em voz alta os exemplos citados para o caso de nomes próprios antecedidos de artigo plural, como estão postos e, em seguida, repita o exercício deixando os verbos no singular. Qual concordância soa melhor para você? 2. No título da reportagem, o jornalista optou por manter o verbo no plural, mesmo não havendo artigo no sujeito. Qual foi o motivo da opção? 3. Reflita com seus colegas: como vocês fazem essa concordância na língua falada? 234

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A concordância com porcentagens Na língua falada informal, pouco se nota como fica a concordância com porcentagens, mas, na fala formal e em textos escritos, você certamente buscará o padrão da língua. Ele pode ser observado na esfera jornalística.

75% investem na aposentadoria

75% INVESTEM na aposentadoria. Folha de S.Paulo, São Paulo, 26 jun. 2005. Carreira&Bolso, p. 9.

Mais de 30% do País vive com meio salário mínimo, diz Ipea Para diretoria de Políticas Sociais, indicador não é o melhor para medir pobreza GOBETTI, Sérgio. Mais de 30% do país vive com meio salário mínimo, diz Ipea. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2 jun. 2005. Nacional, p. A10.

Aos 12 anos, 13% dos estudantes já consumiram droga ilícita

Álcool é a substância de maior uso frequente, segundo pesquisa da Secretaria Nacional Antidrogas, com 48 mil jovens PARAGUASSÚ, Lisandra. Aos 12 anos, 13% dos estudantes já consumiram droga ilícita. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 1o jun. 2005. Vida&, p. A15.

1. Com ajuda do professor, dividam-se em grupos para trocar ideias sobre os assuntos referidos nas três reportagens. Depois relatem as conclusões.

FAÇA NO CADERNO

2. Observe agora a concordância do verbo com as porcentagens, comparando os dois grupos: Grupo 1 75% investem na aposentadoria

Grupo 2 Aos 12 anos, 13% dos estudantes já consumiram droga ilícita Mais de 30% do País vive com meio salário mínimo, diz Ipea

• Responda sobre o que observou: a) No primeiro grupo, com que concorda o verbo? b) E no segundo? c) Que variação sintática provoca concordâncias diferentes? d) Que alteração de sentido ocorre entre uma e outra concordância?

Verbos impessoais, nada de concordância Verbos impessoais são aqueles que não têm sujeito; portanto, não havendo com que concordar, ficam na terceira pessoa do singular. Segundo a gramática normativa, que contempla a norma-padrão da língua, quando o verbo haver significa existir, acontecer, ocorrer, ou indica tempo, ele é impessoal, isto é, a oração não tem sujeito. • Houve surpresa na plateia. • Há um minuto a peça foi interrompida. (Na língua coloquial: Faz um minuto...) Surpresa funciona, nesse caso, como complemento (objeto direto) do verbo. Se a oração não possui sujeito, o verbo fica invariável, mesmo que o complemento esteja no plural: • Há médicos na plateia? • Há dois minutos a peça foi interrompida. (= faz) Língua e linguagem

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Também são impessoais os verbos que indicam fenômenos naturais: • Choveu ontem. • Nevou nos estados do sul do Brasil. • Aqui venta muito.

Concordância de verbos na voz passiva sintética Na hora de fazer a concordância de um verbo na voz passiva sintética, o melhor é considerar se a interação se dá em tom formal ou coloquial. Na língua falada e na escrita informal, é comum deixar o verbo no singular, independentemente do termo que vier em seguida, criando-se um sentido de indeterminação do agente. • Procura-se animais. (forma coloquial) • Procuram-se animais. (forma padrão) Para facilitar seu raciocínio no emprego da forma padrão, use a equivalência entre a passiva sintética e a passiva analítica e lembre-se de que o emprego de “verbo + se” no plural só ocorre quando o verbo é transitivo direto: • Procuram-se animais. (animais são procurados) • Educam-se animais. (animais são educados) O mesmo não acontece com verbos transitivos indiretos (quando o verbo solicita uma preposição): • Precisa-se de animais. • Conta-se com animais.

Sistematizando a prática linguística Concordância verbal é a adaptação do verbo ao sujeito de um enunciado. Pela regra geral, o verbo concorda com o sujeito em número e pessoa; muitas vezes, no entanto, pela interferência de alguns fatores, como eufonia, posição dos elementos na frase ou ênfase em determinado sentido, isso não ocorre. Quando o sujeito antecede o verbo, é comum a concordância ocorrer tanto na fala quanto na escrita. Se o verbo antecede o sujeito, no entanto, na língua falada principalmente, mas às vezes também na escrita, o usuário esquece o sujeito e não faz a concordância, o que não é aceito pela gramática normativa. No caso de haver mais de um núcleo no sujeito, normalmente a concordância se faz com todos, caso o verbo venha posposto ao sujeito; se o verbo estiver anteposto ao sujeito, contudo, pode concordar com o mais próximo. Outros casos: Sujeito = núcleo singular + especificação plural O verbo concorda com o núcleo ou com a especificação, dando destaque ao regente. • Maioria dos homens-bomba vem de fora. • Maioria dos homens-bomba vêm de fora. Nomes próprios no plural Na norma-padrão, o verbo fica no plural quando o nome próprio vem acompanhado de artigo; sem artigo, fica no singular ou no plural. • Os Lusíadas mostram a grandeza dos portugueses. • Memórias Póstumas de Brás Cubas marcou minha história de leitura. Porcentagens O verbo concorda com as porcentagens; se elas vêm acompanhadas de especificação, a concordância se faz com esta última. • Mais de 30% do País vive com meio salário mínimo, diz Ipea

Verbos impessoais São verbos que não têm sujeito, ficando na terceira pessoa do singular, mesmo que o complemento seguinte esteja no plural. Ocorre com o verbo haver com sentido de existir e de tempo e com os verbos que indicam fenômenos naturais. • Houve conversas na plateia. • Há dois minutos a peça foi interrompida. (= faz, com sentido de “tempo”) • Choveu ontem.

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Verbo na voz passiva sintética No padrão coloquial, o verbo pode ficar no singular, quando se quer indeterminar o agente: • Aluga-se casas. Na norma-padrão, sempre que o verbo for transitivo direto, o sujeito, que virá depois do verbo, deverá determinar a concordância do verbo: • Alugam-se casas.

Usando os mecanismos linguístico-discursivos A concordância está adequada? • Observe, nestes dois grupos de títulos colhidos de jornais de grande circulação, como se dá a concordância entre sujeito e verbo: Grupo 1 Só 1,7% das indústrias promovem inovações FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 9 jun. 2005. p. B5.

19,5% dos homens com mais de 50 anos têm osteoporose O ESTADO DE S. PAULO. São Paulo, 7 jun. 2005. Vida&, p. A18.

Só 3,4% do eleitorado se registra FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 12 jun. 2005. p. A30.

Grupo 2 Correios abrem sindicância para investigar o caso O ESTADO DE S. PAULO. São Paulo, 17 maio 2005. p. A5.

EUA discutem heroísmo de “Garganta” FOLHA DE S.PAULO. São Paulo, 2 jun. 2005. p. A14.

a) Justifique a concordância feita. b) Analise a possibilidade de outras concordâncias para cada caso. c) Dê sua opinião sobre a adequação dessas concordâncias para os veículos onde circulam.

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (UFF-RJ) Identifique a opção em que a norma culta da língua admite só uma concordância verbal: a) A maioria das pessoas, aqui, não sabe do que está falando. b) Um e outro protestaram contra a derrubada de eucaliptos. c) Defendiam o meio ambiente, a comunidade e o vigário. d) Não faz falta nenhuma o eucalipto e os cupins. e) Iam dar seis horas no relógio da praça. 2. (ESPM-SP) As normas de concordância verbal estão inteiramente respeitadas na frase: a) Se os dizeres do anúncio do homem-sanduíche indicasse compra de ouro, nenhum dos desempregados se interessariam. b) A ingenuidade das pessoas que vem das cidadezinhas do interior não as preparam para o que vão encontrar nas metrópoles. c) Uma dessas figuras híbridas do humano com a coisa passou a chamar a atenção de quantos por ali estivesse a transitarem. d) Mal se podia ler os dizeres do anúncio, uma vez que os encobriam a pequena multidão que deles se acercara. e) Em meio a dois cartazes de papelão, que lhe davam o aspecto de recheio, mal se mexia o homem que portava anúncios de emprego. Língua e linguagem

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Editora Segmento

Diane Diederich/Vetta/Getty Images

Unidade 9 REVISTA LÍNGUA PORTUGUESA. São Paulo: Segmento, n. 86, p. 38-39, dez. 2012.

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Trajetórias singulares: o artista e o cidadão Professor(a), a revista Língua Portuguesa está no acervo de periódicos do PNBE.

A fotografia retrata uma mudança no modo de nos relacionarmos com as pessoas, destacando a comunicação virtual. A imagem integra a reportagem “A comunicação curta é + forte”, publicada na revista Língua Portuguesa, na edição de dezembro de 2012. Na capa, uma pergunta marca a chamada para a reportagem: “Redes sociais deseducam?”. No texto, são apresentadas pesquisas e diferentes pontos de vista de especialistas sobre a influência das redes sociais nas habilidades de escrita de crianças e adolescentes em outras situações de uso da linguagem. E você, como responderia a essa questão? O avanço da tecnologia móvel, com os tablets e os smartphones, ampliou o acesso ao mundo digital, dando mais liberdade de ação a todos os usuários. É possível tuitar com artistas, publicar um e-book, lançar música na rede, comprar produtos pela internet, fazer novos amigos, organizar manifestações, postar fotografias etc. Nesta unidade, vamos discutir o tema integrador “Trajetórias singulares: o artista e o cidadão”, com foco na valorização dos diferentes pontos de vista em textos artísticos e da vida cotidiana. No capítulo de Leitura e literatura, você conhecerá as produções artísticas tanto no gênero dramático quanto no gênero narrativo. Primeiro, apresentaremos o texto teatral de Nelson Rodrigues; em seguida, selecionamos três textos de ficção que flagram, de diferentes maneiras, a fragmentação do mundo atual: Zero, de Ignácio de Loyola Brandão; Solte os cachorros, de Adélia Prado; e O fotógrafo, de Cristovão Tezza. Em Texto, gênero do discurso e produção, que tem como foco os gêneros digitais, você é convidado a adentrar as redes sociais para compreender como a comunicação virtual pode contribuir para sua formação cidadã, de maneira responsável e participativa. O foco é desenvolver habilidades de escrita que possam ser utilizadas em ambientes virtuais colaborativos, facilitando o compartilhamento de informações e ideias sobre diversos assuntos, como vestibular, carreiras, temas polêmicos, manifestações em prol da coletividade, entre outros. No capítulo de Língua e linguagem, o foco é interação na fala. Destacaremos alguns mecanismos empregados na expressão oral: diferentes maneiras de organização e reformulação, entonação de voz, gestos e expressões faciais, ou seja, marcadores temporais que usamos nas conversas do dia a dia e nem sempre percebemos.

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Leitura e literatura

Capítulo 25

Gênero dramático e narrativa contemporânea Oficina de imagens As produções artísticas têm uma longa tradição e atraem milhões de visitantes a museus, exposições e galerias. Cada um passeia pelos corredores repletos de telas, esculturas e projetos arquitetônicos à procura de um diálogo com os objetos. Na sociedade contemporânea, a indústria cultural promove diferentes produtos para públicos específicos. Alguns grupos de artistas se empenham em fugir desses centros oficiais e surpreendem o público com intervenções urbanas. Nas décadas de 1960 e 1970, artistas brasileiros ocuparam as ruas com suas intervenções urbanas, como forma de protesto. Eram ações feitas na clandestinidade; hoje, os artistas procuram tornar a arte mais próxima da vida do povo. As cidades são grandes vitrines de episódios cotidianos vividos e observados na indiferença do espaço social. São o palco onde tudo se descobre ou se inventa e, na mesma hora, se apaga. A vida humana torna-se espetáculo como se fosse um conjunto de cenas de teatro. Nesse espaço, as obras passam a ser concebidas pelos artistas numa relação com a situação real; a intervenção urbana é um bom começo para transformar a vida nas grandes cidades e sempre surpreende os cidadãos. Observe três intervenções urbanas feitas no início do século XXI por vários artistas, em diferentes regiões do Brasil. Elas discutem as rápidas mudanças no cenário da vida moderna.

Antônio Gaudério/Folhapress

Arte viva, intervenções urbanas

Antônio Gaudério/Folhapress

A artista plástica mineira Néle Azevedo colocou 290 esculturas de gelo para derreter na escadaria da catedral da Sé, na cidade de São Paulo. A intervenção ocorreu em 2005. O projeto Monumento Mínimo é uma leitura crítica dos monumentos nas cidades contemporâneas, acompanhada de ações que invertem os padrões oficiais do registro da memória em monumentos públicos do mundo ocidental.

O Monumento Mínimo já esteve em Salvador (BA), Curitiba (PR), Brasília (DF), Campinas (SP) e em cidades estrangeiras, como Havana, em Cuba, Tóquio e Quioto, no Japão, e Paris, na França. É uma homenagem ao homem comum, que substitui a solidez da pedra pela fugacidade do gelo, troca os espaços fixos e permanentes por uma perambulação por espaços públicos de diversas cidades e países.

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Capítulo 25 – Gênero dramático e narrativa contemporânea

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Denise Andrade

Vinícius de Castro/Toptrends

Anna Carolina Cruz. Maravilha Goiana. Cowparade Goiânia, 2012.

Vamos analisar as intervenções urbanas selecionadas:

1. Que ideia está em jogo em cada uma delas?

FAÇA NO CADERNO

2. Que elementos rompem com a concepção de arte exibida nos museus? 3. A arte pode alterar a vida nas cidades? Atividade em grupo

Em 2005, o arquiteto Ruy Ohtake aceitou o desafio dos moradores de deixar a comunidade de Heliópolis mais bonita. Ele projetou edifícios residenciais cilíndricos e usou diversas cores em suas fachadas. Na fotografia de 2011, o arquiteto posa em frente aos prédios já construídos.

1. Com a orientação do professor, escolha com os colegas um local para montar uma intervenção urbana (dentro da escola ou em torno dela). 2. Façam um levantamento de formas de intervenção urbana e de seus respectivos objetivos. Pesquisem na internet e, se possível, peçam a ajuda do professor de Arte. 3. Escolham a forma de intervenção com base no objetivo desejado. 4. Montem o trabalho para uma exposição em dia preestabelecido. 5. Acompanhem a reação do público. 6. Na avaliação da apresentação, em classe, analisem a recepção do trabalho.

Astúcias do texto Teatro: a tragédia brasileira

Iarli Goulart/Estadão Conteúdo

Você lerá um trecho da peça Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues (1912-1980). Escrita em 1943, teve sua estreia em dezembro do mesmo ano, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, dirigida pelo polonês Zbigniew Ziembinski (1908-1978). Na peça, entram em pauta alguns temas da classe média carioca dos anos de 1940, como a hipocrisia, os preconceitos e as relações familiares e conjugais. Selecionamos dois textos para auxiliá-lo na leitura de um fragmento de Vestido de noiva: a sinopse da peça e a fotografia do primeiro cenário, projetado pelo artista plástico pernambucano Santa Rosa.

Nelson Rodrigues: homem ou personagem? O pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980) iniciou sua carreira jornalística aos 13 anos, como repórter policial no jornal A manhã. Em 1942, escreveu sua primeira peça, Mulher sem pecado. Mas foi a montagem de sua segunda peça, Vestido de noiva, em 1943, que popularizou seu trabalho na dramaturgia. Em 1951, deu início à série de crônicas A vida como ela é, para o jornal Última Hora. Seus textos, quase sempre polêmicos, chocaram e escandalizaram a sociedade da época. Nelson Rodrigues também foi um importante comentarista esportivo. Publicou crônicas sobre futebol até a sua morte, em 1980.

Nelson Rodrigues, em 1979.

Leitura e literatura

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Sinopse [...] A peça começa com o acidente de automóvel sofrido por Alaíde apresentado sonoplasticamente no palco por ruídos de buzina, derrapagem, vidros estilhaçados e sirene de ambulância. No plano da realidade, Alaíde é levada para o hospital e submetida a uma intervenção cirúrgica, numa tentativa de se salvar sua vida. Repórteres noticiam tanto o acidente quanto a operação, finalizando com a notícia de sua morte e enterro. No plano da alucinação, Alaíde procura e encontra Madame Clessi, uma mundana ao que tudo indica, que tivera seus momentos de glória e terminara tragicamente assassinada por seu último amante de dezessete anos. Alaíde, antes de se casar, morou na casa que pertencera a Clessi, onde esses fatos tiveram lugar. Logo se percebe que Alaíde vive um conflito emocional que perturba suas relações com o mundo. Instigada por Clessi, vai rememorando sua vida até descobrir que esse conflito envolve a si própria, sua irmã Lúcia (a mulher do véu) e Pedro, o marido. O problema remonta a um passado remoto, época em que Alaíde roubara Pedro de Lúcia, que reprime sua dor e agressividade, aguardando o momento de vingança. Esse momento se apresenta mais propício quando Alaíde se apronta para o casamento. Lúcia então lhe revela sua raiva, contando que Pedro tentava conquistá-la, ao mesmo tempo que pretendia casar-se com Alaíde. Lúcia termina ameaçando a irmã de morte. [...] Presa a um casamento condenado desde o início e às convenções sociais de uma família burguesa, Alaíde sente-se atraída por essa figura que simboliza uma vida mais livre, principalmente no Cenário da primeira montagem da peça Vestido de noiva, em 1943. Está dividido terreno sexual. [...] Com a morte de Alaíde, Lúcia em três planos: alucinação, memória e realidade. e Pedro realmente se casam.

Acervo Iconographia

Vestido de noiva

MARTINS, Maria Helena Pires (Org.). Nelson Rodrigues: literatura comentada. São Paulo: Abril Educação, 1981. p. 11-12.

Leia o trecho do final do primeiro ato, em que os três planos estão identificados por escrito, para serem encenados. Vestido de noiva (Trevas. Luz no plano da realidade. Redação e casa.) MULHER (gritando) — Quem fala? REDATOR DO DIÁRIO (comendo sanduíche) — O DIÁRIO. MULHER (esganiçada) — Aqui é uma leitora. REDATOR DO DIÁRIO — Muito bem. MULHER — Eu moro aqui num apartamento, na Glória! Vi um desastre horrível! REDATOR DO DIÁRIO — Uma mulher atropelada. MULHER — A culpa toda foi do chofer. Eles passam por aqui, o senhor não imagina! Então, quem tem criança!... REDATOR DO DIÁRIO — Claro! MULHER — Quando a mulher viu, já era tarde! O DIÁRIO podia botar uma reclamação contra o abuso dos automóveis! REDATOR DO DIÁRIO — Vamos, sim! (desliga) MULHER (continuando) — Obrigada, ouviu? (Trevas. Luz no plano da alucinação. Alaíde e Clessi no mesmo lugar. Mas no chão, deitado, está realmente um homem — o mesmo de sempre. Roupa diferente.) ALAÍDE (perturbada) — Que é que tem meu casamento? Ele disse: “Lembre-se de seu casamento”.

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(Som da “Marcha Nupcial”. Alaíde levanta-se. Faz um gesto como que apanhando a cauda do invisível vestido de noiva. Faz que se ajeita.) CLESSI — Bonito vestido! Quem foi que teve a ideia? ALAÍDE (transportada) — Eu vi num filme. A grinalda é que é diferente. Mas o resto é igualzinho à fita. (Alaíde passa ao plano da memória que se ilumina.) PEDRO (levantando-se naturalmente e passando também ao plano da memória) (puxa o relógio) — Está quase na hora. Temos que andar depressa; depois do nosso, tem outro casamento. ALAÍDE — Quer dizer que o outro casamento vai aproveitar a nossa ornamentação? PEDRO — Deixa. Não tem importância. ALAÍDE — Ah! Pedro! PEDRO — Que foi? ALAÍDE (numa atitude inesperada) — Me esqueci que faz mal o noivo ver a noiva antes. Não é bom! (vira as costas)

Capítulo 25 – Gênero dramático e narrativa contemporânea

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PEDRO — Isso é criancice! Agora não adianta! Já vi! ALAÍDE (suplicante) — Vá, Pedro, vá! (Entra a mãe de Alaíde.) ALAÍDE (com um ar de sonâmbula) — O bouquet, mamãe? CLESSI — Sua mãe não pode ser. (A mãe volta em marcha a ré.) CLESSI — Ela só apareceu depois! Você sozinha no quarto, sem ninguém, Alaíde? Uma noiva sempre tem gente perto. O quê? Você pode não se lembrar, mas lá devia ter alguém, sem ser sua mãe! Lembre-se. (“Marcha Nupcial”: Alaíde faz mímica de quem retoca a toilette. O pai e a mãe de Alaíde entram, com roupa de passeio.) PAI — Tudo pronto? ALAÍDE — Quase. Vão tocar mesmo a “Ave-Maria” de Gounod, papai? PAI — Vão. Já falei na igreja. MÃE — Está aí d. Laura. ALAÍDE (virando-se) — Ah! d. Laura. D. LAURA — Como vai? (Beijam-se.) ALAÍDE (faceira, expondo-se) — Que tal a sua nora? Muito feia? D. LAURA — Linda. Um amor! ALAÍDE — Olha, papai. Desculpe, d. Laura. D. LAURA — Ora, minha filha. ALAÍDE (para o pai) — Ou “Ave-Maria” de Gounod, ou, então, de Schubert. Faço questão. Outra não serve. PAI — Já sei. D. LAURA — De Schubert ou de Gounod, qualquer uma é muito bonita. Ah!

(D. Laura parece ter notado a presença de uma pessoa que até então não vira. Dirige-se a essa pessoa invisível, beijando-a, presumivelmente, na testa.) D. LAURA — Desculpe. Eu não tinha visto você. (Pausa para uma resposta que ninguém ouve.) D. LAURA (risonha) — Quando é o seu? (Pausa para outra resposta.) D. LAURA (maliciosa) — Qual o quê? Está aí, não acredito! Tão moça, tão cheia de vida. PAI (para Alaíde, que está pronta) — Então vamos! (D. Laura faz um gesto qualquer para a invisível pessoa e vai para junto de Alaíde.) D. LAURA — Cuidado com a cauda! (D. Laura apanha a imaginária cauda e entrega-a a Alaíde.) ALAÍDE (num último olhar) — Não falta mais nada? MÃE (olhando também) — Nada. Acho que não. PAI (impaciente) — Já é tarde. Vamos descer. (“Marcha Nupcial”. Trevas.) FIM DO PRIMEIRO ATO RODRIGUES, Nelson. Vestido de noiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004. p. 28-32.

Gounod: Charles Gounod (1818-1893), compositor francês, conhecido por suas músicas religiosas. Schubert: Franz Peter Schubert (1797-1828), compositor austríaco que se baseou em poemas e temas populares para suas composições.

Para responder às questões a seguir, é indispensável que você consulte a sinopse na página anterior para se situar no enredo, e a foto, para ver como ficaram partes da encenação. AÇA NO 1. A peça de Nelson Rodrigues é considerada revolucionária por apresentar três planos simultâneos: FCADERNO a realidade, a memória e a alucinação. a) No texto, como os planos estão definidos? b) Como ficam marcados para o espectador? c) Descreva as situações que acontecem em cada um dos planos. d) Na encenação, que resolução foi apresentada ao público para marcar a passagem de um plano a outro?

2. Os planos da alucinação e da memória representam o inconsciente de Alaíde. Ela está em coma, na mesa de cirurgia (realidade), dialogando com Madame Clessi (alucinação) e com Pedro, a mãe e o pai (memória). Como os planos se articulam na peça em relação ao tempo e ao espaço da narrativa? 3. Nelson Rodrigues discute temas universais, como o casamento, em suas peças. a) Como o casamento é concebido nos planos da alucinação e da memória? b) Que clichês sociais estão presentes nessas cenas? Leitura e literatura

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Novas narrativas A partir da década de 1960, os textos narrativos até então considerados marginais (literatura de mulher, de negros, de imigrantes, policial, ficção científica, autoajuda, reportagem, crônica) ganharam importância, com ampla segmentação do mercado. Uma poderosa indústria cultural surgiu, modificando as relações entre literatura e leitor, que passou a ser visto como consumidor. Daí toda a propaganda ser dirigida para agradar ao público. Que tempos são esses? O crítico literário Antonio Candido os retrata da seguinte maneira: O decênio de 1960 foi primeiro turbulento e depois terrível. A princípio, a radicalização generosa mas desorganizada do populismo de João Goulart. Em seguida, graças ao pavor da burguesia e à atuação do imperialismo, o golpe militar de 1964, que se transformou em 1968 de brutalmente opressivo em ferozmente repressivo. Na fase inicial, período Goulart, houve um aumento de interesse pela cultura popular e um grande esforço para exprimir as aspirações e reivindicações do povo — no teatro, no cinema, na poesia e na educação. O golpe não cortou tudo desde logo, mas aos poucos. E então surgiram algumas manifestações de revolta meio caóticas, berrantes e demolidoras, como o tropicalismo. Na verdade, tratava-se de um processo transformador que teve como eixo os movimentos estudantis de 1968 e desfechou num anticonvencionalismo que ainda hoje orienta a produção cultural — a par e a passo com a mudança dos costumes, a dissolução da moda no vestuário, a quebra das hierarquias convencionais, a busca entre patética e desvairada de uma situação de catch-as-catch em atmosfera de terra de ninguém. CANDIDO, Antonio. A nova narrativa. In: ______. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ouro sobre Azul, 2003. p. 208-209.

Nesse contexto sociocultural, é difícil fixar uma linha única para os escritores da década de 1970 até nossos dias. Encontramos uma diversidade na produção de crônicas, contos e romances. A crônica é o gênero mais popular no Brasil; parte de um incidente banal e o recria com muita liberdade. O conto, gênero curto, conquistou a preferência dos leitores na década de 1970, talvez por suas situações anedóticas e uma narrativa ágil. Ele incorpora novas técnicas de linguagem e muitos contos parecem poemas ou crônicas. O romance também ganha novos experimentos: as narrativas combinam reportagens, documentos, lembranças, fábula política e autobiografia. Entre os muitos escritores dessa geração, escolhemos três que contribuíram para a renovação dos modos de narrar. De diferentes cidades brasileiras, contam suas histórias: Ignácio de Loyola Brandão, de São Paulo (SP); Adélia Prado, de Divinópolis (MG); e Cristovão Tezza, de Curitiba (PR). O objetivo é oferecer a você um aperitivo de leitura, para que depois você escolha os textos que preferir.

Zero: literatura sob pressão O paulista Ignácio de Loyola Brandão (1936) é um dos mais importantes escritores brasileiros. Sua produção literária teve início na década de 1970, quando enfrentou problemas com a censura no jornal paulista em que trabalhava: Última Hora. Guardou as matérias censuradas, fragmentos sobre a cidade, com o que construiu seu romance Zero, em que recupera um dos períodos mais difíceis da ditadura militar brasileira. Por causa da censura, a primeira edição do romance saiu na Itália. Em 1975, foi publicado no Brasil; em 1976, foi proibido de circular, sendo liberado em 1979. A obra é lida em vários idiomas, do alemão ao coreano. A narrativa fragmentada de Zero se passa em um “país da América Latíndia” em que beijos e abraços são proibidos em público, assim como músicas profanas, e se determina o tipo de sapato a ser usado ou se ordena o suicídio coletivo do povo. Para driblar a falta de liberdade, o autor concilia relato jornalístico, depoimento, slogans publicitários, ritmo de roteiro cinematográfico e uma narração em primeira pessoa, o que intensifica o coloquialismo da linguagem. Misto de conduta política e texto ficcional, o romance conta a história de José, que perde o emprego de matador de ratos de um cinema pulguento no centro velho de São Paulo. O título do romance recupera o número zero, que só adquire valor quando associado a outro; daí a personagem simbolizar uma pessoa que não tem valor a não ser nas situações concretas com seus amigos.

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Capítulo 25 – Gênero dramático e narrativa contemporânea

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A seguir, leia um dos capítulos desse romance, em que o narrador-personagem faz um relato da vida cotidiana de um herói antes e depois do golpe militar. A revelação sobre o Herói

Ignácio de Loyola Lopes Brandão nasceu em 1936, na cidade de Araraquara, em São Paulo. Após mudar-se para a cidade de São Paulo em 1956, conseguiu trabalho no jornal Última Hora. Mudou-se para a Itália em 1957. Lá, conheceu a obra Oito e meio, do diretor de cinema Federico Fellini. Tempos depois, o escritor admitiu que o filme teve forte influência sobre Zero, um de seus romances. Em 1988, publicou A rua de nomes no ar, livro de contos e crônicas. O homem que espalhou o deserto, de 1994, inaugurou sua produção infantojuvenil. Em 2008, a obra O menino que vendia palavras ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Livro do Ano de Ficção. Desde 2005 escreve crônicas para o jornal O Estado de S. Paulo. Paulo H. Carvalho/CB/D.A Press.

Não aguento mais festa da Luzia Bala. Luzia Bala tinha tomado dois tiros. Nunca se soube quem atirou. Durante anos ela falou nos tiros, guardou as balas. Mostrava para os namorados. [...]. Organizava festas nas casas dos outros. Telefonava, mandava um levar pitza, o outro uísque, cocacola, gelo. Luzia conhecia El Matador. El Matador conhecia Atila. Atila teve a ideia (1). Inaugurar a casa já inaugurada de José e Rosa. O queijo branco esborrachou perto de José. Depois El Matador teve que se desviar de um pedaço de mamão que amarelou a parede. Feijão, arroz, pedaços de carne, um resto de torta. Tudo voava. Na porta da cozinha, o Herói, alto, moreno, o bigode mexicano, atirava comida nos outros. Como se fosse fita pastelão. Iiii, o Herói está atacando de novo. Demorou para ter outro acesso. ? Acesso de quê. Ele tem neurose de heroísmo. Sabe, tem gente que tem neurose de guerra. Ele tem neurose de heroísmo. Contou: “Antes daquele golpe que derrubou o último governo liberal, até o Herói era um sujeito bacana, de talento. Era daquela turma que estava deslanchando paca. Escrevia bem, fazia músicas. Teve uma que foi cantada pelo povo o ano inteiro. O Herói andava pelo país inteiro organizando centros populares de cultura. Aparecia paca. Aí, veio o golpe, deu a puta confusão, aquela fossa danada, todo mundo fugiu, se escondeu, ficou esperando que bicho ia dar. Aí, veio a notícia: Tinham fuzilado o Herói. Pô, velho, foi um choque! Até então, lembra, bater, prender, era coisa comum. Mas a gente ainda não tinha começado a viver esta época de mortes, fuzilamentos, torturas, desaparecimentos — Ah, Espanha, Portugal, Grécia, Rússia, States, Checoslováquia, Argélia, Argentina, Colômbia, Bolívia. Fuzilamento era novidade, era demais. Então todo mundo considerou o cara um herói. Falavam dele, e muito. Virou um guevarinha. Sério. Hoje é gozado, mas naquela altura, todo mundo pensava isso dele: é o nosso herói. Um mártir. Lenda. As meninas que tinham sido namoradas dele puseram luto. Era a glória, para elas. Os moços contavam coisas: o dia em que o Herói foi a minha casa; aquele jantar, puxa vida, eu sabia que ele ia morrer violento; sabe, o Herói estava coordenando guerrilhas por toda América: ia comandar o terrorismo. Até que um dia, ele apareceu. Voltou, glorioso, aos mesmos lugares que frequentava. A onda de cadeia tinha passado — bom, aquele primeiro período, né — o pessoal ia aparecendo. Xiiiii, foi muitos meses depois. Que coisa, seu. Parece que um trator tinha passado em cima do pessoal. Que decepção! Foi demais! O cara tava no bar contando como um da turma foi herói, como resistiu ao espancamento, foi fuzilado, torturado e o cara aparece. O Herói não é herói! Foi outra fossa. O Herói tinha se mandado para tão longe, tinha se escondido tão bem que ninguém achou. Nem as notícias ele leu, lá onde se achava. O Herói circulava e procurava o pessoal, o pessoal ficou triste, puto da vida, furioso, começou a dar aquela gelada. Foi um pouco de filhodaputismo deles, mas a turma precisava de um mito, o pessoal era romântico. Só agora começa a deixar de ser. E o Herói sentiu isso. Soube da história, do fuzilamento, da sua lenda gloriosa. E quis se matar, queria morrer, ir se entregar. Chamavam ele de Herói, mas era gozação. O herói não realizado. Ele foi se apagando, não produziu mais nada, começou a ficar violento, agressivo, a descarregar em cima dos outros. Essa aí, de abrir a geladeira e jogar comida nos outros dá sempre. Adora jogar comida no pessoal, durante os acessos. (1) As coisas são bem mais simples do que imaginamos.

Ignácio de Loyola Brandão, em 2006. Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra A morena da estação, de Ignácio de Loyola Brandão.

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Zero. São Paulo: Global, 1987. p. 149-150.

Leitura e literatura

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1. O processo de criação de Zero durou nove anos, entre 1964-1973, justamente um dos períodos do regime militar. Que registros o narrador faz da vida política e cultural da época?

FAÇA NO CADERNO

2. No capítulo, a composição da narrativa é diferente da tradicional, com início, meio e fim. Como se dá a progressão e a articulação das narrativas? 3. Para construir a figura do herói, o narrador conta as versões dadas para seu desaparecimento. a) O herói é comparado ao guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara (1928-1967): “Virou um guevarinha.”. Que imagem dele se constrói por meio dessa comparação? b) Como se desconstrói a figura do herói?

A VOZ DA CRÍTICA

4. Nesse capítulo, como em todo o romance, a linguagem coloquial recupera a fala das personagens, descontínua e fragmentada, para mostrar metaforicamente as crueldades da ditadura militar. a) De que forma a pontuação recupera a língua falada? b) Como está organizada a sintaxe do capítulo? O modo de escritura de Zero constitui de fato um momento de ruptura e de desmistificação das normas tradicionais, mas também, parece-nos, tende a superar a primeira fase de polêmica absoluta: o romance parece enfim mostrar nas suas contradições a dupla face da rendição e do desafio do labirinto. HOHLFELDT, Antonio. O verbo violentou o muro. Ficção científica nos anos 70: o caso Ignácio de Loyola Brandão. Cadernos de literatura brasileira, São Paulo: Instituto Moreira Salles, vol. 11, 2001, p. 123.

Solte os cachorros: “quem entender a linguagem entende Deus”

Eu, se fosse governo, subia num tamborete, batia palma e gritava bem alto pra todo mundo escutar: cala a boca, gente, escuta aqui. Obrigava todo mundo a ficar quieto primeiro e explicava o meu programa administrativo. Governo não é Deus, muito pelo contrário, é o tipo da coisa que precisa de ajuda. Não ia fazer nada sozinho, que eu não sou bobo. Escolhia pra meus ajudantes só gente que tivesse duas coisinhas à-toa: honestidade e competência. Feito isso, falava pra eles: faz um levantamento do nosso país, aí, isto é, varre a casa primeiro. Depois conferia numa assembleia que não ia ter recesso enquanto não me dessem, por escrito, quantos meninos sem escola, quanto pai de família sem emprego, quanto homem e mulher que fosse amarelo, feio, sem dente, sem saúde, sem alegria. Me aparecesse tudo anotado no papel. Bom, depois dava um descanso de meia hora pras câmaras alta e baixa e ia de novo presidir eles arranjarem um meio de acabar com essa tristeza toda, em primeiro lugar com o problema da comida. Porque vou dizer: passar fome não é coisa pra gente, não; passar fome é de uma desumanidade tão exagerada, que só pensar bole com a bile de quem tiver um grão de consciência. Eu não tenho poder nenhum, de política eu não entendo. Fico falando essas coisas, fico mais ridículo que galinha na chuva, já viu que dó? Aquele passo bobo, aquele pescoço esticado pra frente, olha aqui, olha acolá, encharcada na friagem e na lama, sem resolver nada e, pior que tudo, sem saber de nada. Eu falei de comida, mas tudo tem um nome só: “Procurai antes o Reino de Deus e Sua justiça”, está escrito na Bíblia. Pois nosso país assinou a Carta dos Direitos Humanos, não assinou? Nós somos um país rico, cujo tamanho abarca Europa inteira e ainda sobra terra pra leilão. Não é assim? Então, pelo amor de Deus,

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Editora Nova Fronteira

Uma das mais importantes escritoras contemporâneas é Adélia Prado (1935), que estreou em 1975 com o livro de poemas Bagagem. Ficou conhecida com O coração disparado (poesia), de 1978, que lhe valeu o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Você lerá um conto do livro Solte os cachorros (1979), título que traz o verbo no imperativo, uma forma de dar ordem para a mente deixar que os pensamentos venham sem censura. O livro está organizado em três blocos: “Solte os cachorros” é a parte que dá título ao livro, com 26 contos; “Sem enfeite nenhum”, com dois contos; e “Afresco”, com 12 textos, entre contos, crônicas e poemas.

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o que que eu posso fazer pra ter sossego, pra recuperar umas coisas que desenvolvimento nenhum nunca mais vai me dar? Olha, antigamente, quando chovia encarreirado igual tá chovendo agora, eu gostava de pedir à mãe pra fazer mingau de fubá. A gente bebia e se enfiava debaixo das colchas pra escutar chuva e ser feliz. Enchente era bom porque o Edgar do Zé Romão subia na canoa com o pai dele e vinha navegar quase na nossa porta, pra fazer bonito. Era cobra que aparecia, era gente do centro descendo pra apreciar. Hoje, não. Tá chovendo eu não tenho gosto de aproveitar, fico pensando: ô minha Nossa Senhora, tem gente com os treco tudo molhado, sem uma coisa quente pra forrar o estômago. A situação, entre outras coisas piores, tá estragando com minha vocação de sambista, fazendo tudo pra me tirar o rebolado, o que é me matar da pior das mortes. Tou com medo de apanhar tristeza, encardir de melancolia. Sei que sofrimento neste mundo é fazenda de todos, mas tendo justiça, meu Deus, ao menos miséria some, ao menos ninguém vai ter susto de ser preso à toa, de apanhar sem poder dizer essa boca é minha, explicar, de pé feito um homem, se tem culpa ou não. Culpa eu tenho demais. E medo. Perdi pai, perdi mãe, fiquei grande com muitos filhos nas costas. Tem hora minha vontade é chorar de bezerro desmamado meu fundo desvalimento. Tenho que fazer isso escondido, porque os meninos, quando sofrem o medozinho lá deles, é atrás de mim que correm, pensando que eu sou forte, só porque sou grande. Eu não posso ir pro convento, gente com filhos não pode. Tapar os ouvidos não quero, que é covardia. De morrer eu não gosto. Francamente eu não sei o que fazer, eu não sei mesmo. Se eu fosse o governo ou o chefe dos bispos do Brasil, baixava um decreto pra funcionar desde o mais perdido cruzeiro de roça até a catedral mais chique, desde as prefeituras mais mixas até o palácio dos ministros. Que se estudasse até descobrir o que Deus quis dizer exatamente, quando inspirou o profeta a escrever no Livro Sagrado esta oração mais linda que se reza em vésperas do Natal: “Derramai, ó céus, das alturas o vosso orvalho, e as nuvens façam chover o Justo.” Porque Ele veio e virá sempre à palha e ao cocho para ser compassivo. Mas nós o que estamos fazendo pra ajudar? PRADO, Adélia. Solte os cachorros. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. p. 74-76.

Adélia Prado nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 1935. Aos 14 anos, já escrevia seus primeiros versos. Em 1953, formou-se professora e dois anos depois começou a lecionar. Publicou seus primeiros poemas em jornais de Divinópolis e de Belo Horizonte. Sua estreia como escritora só veio em 1975, quando remeteu a Carlos Drummond de Andrade os originais de seus novos poemas. Depois, dedicou-se à prosa. Volta à poesia em 1981, com Terra de Santa Cruz. Em 1996, estreou no Teatro do Sesi, em Belo Horizonte, sua peça Duas horas da tarde no Brasil, e em 2000, em São Paulo, seu monólogo Dona de casa. Em 1978, pelo livro O coração disparado, recebeu da Câmara Brasileira do Livro o Prêmio Jabuti de Literatura.

Marcos Vieira/EM/D.A Press.

A poetisa mineira

Adélia Prado, em 2013.

FAÇA NO 1. A narrativa trata de uma pessoa que pede compromisso político de lideranças governamentais. CADERNO Ela acompanha a realidade cotidiana e a compara com um passado próximo, sem ficar alienada dela. a) Que expressões do texto caracterizam a narradora-personagem? Professor(a), no acervo do b) Qual é o desabafo dela? PNBE, encontra-se a obra c) O que a pessoa sugere para superar a crise? A duração do dia, de

A VOZ DA CRÍTICA

2. Na interlocução instaurada no texto, a narradora faz profundas reflexões. a) Para que temas se voltam as reflexões dela? b) Com que sentido a narradora cita passagens do texto bíblico?

Adélia Prado.

A respeito da obra de Adélia Prado, o professor de literatura Antônio Hohlfeldt escreveu: […] Adélia Prado surge em meio a um produtivo movimento literário então corrente em Minas Gerais, envolvendo sobretudo contistas, não enquanto prosadora, mas como poeta. […] embora exista […] relação direta e íntima entre os textos das poéticas — entenda-se, os poemas — e os fragmentos de prosa — isto é, os romances — no sentido de que uns iluminam aos outros, há procedimentos e, sobretudo, funções específicas para cada um destes textos. De modo genérico, pode-se dizer que as poéticas têm a seu encargo uma reflexão mais profunda, mais marcadamente religiosa e que, por isso mesmo, assumem um tom epifânico, no sentido não apenas original da palavra, de revelação de origem divina, quanto de revelação ou descoberta, pura e simplesmente. Quanto à prosa, ela permite à escritora uma reflexão secularizada a respeito da condição feminina numa sociedade concreta, que é a sociedade brasileira. HOHLFELDT, Antonio. Cadernos de literatura brasileira. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2000. p. 72 e 112-113.

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O fotógrafo: diálogos com a imagem

O fotógrafo encontra um amigo — O senhor pode parar por aqui — ele disse. — Eu vou caminhar um pouco. Ao pagar, viu a estrela do Partido dos Trabalhadores no painel do carro e perguntou sem pensar: — O senhor vai de Lula? — É hora de mudar, não? — e sorriu. De perto, percebeu que o motorista era muito jovem; ele até conversaria mais, o olhar atento à espera de uma outra palavra, que não veio, além do obrigado mecânico, depois de uma ligeira indecisão. O fotógrafo desceu à rua com o envelope na mão e a máquina pendurada no ombro, que conferiu aflito, como alguém que esquece o que tem à mão, o que lhe deu uma súbita insegurança assim que o táxi arrancou. Que rua é essa? — alguém custando a acordar dos pensamentos. Mais alguns passos e estava na Mariano Torres e a poucas quadras de sua modelo — os passos agora começavam a pesar. Sim, ele vai de Lula, ele pensou vagamente, lembrando do pai, de Lia, de Otávio e do pipoqueiro da esquina em defesa da democracia — súbito, uma camionete cheia de torcedores bêbados passou aos gritos e buzinaços, bandeiras desfraldadas, e alguém berrou um “Filho da puta!” que parecia destinado a ele, mas não: uma janela próxima com outra bandeira se escancarou — “Vagabundos!” — fechando-se em seguida e, súbito, desceu um silêncio completo sobre a rua. Se até os taxistas estão com Lula, ele pensou — se bem que o Maluf — mas o pensamento voltou atrás (hoje teve jogo) e ele lembrou que prometera várias vezes levar Alice ao estádio, e nunca cumpriu. Sou alguém que não consegue dormir, ele pensou. Por isso estou aqui, a essa hora, com a demonstração do meu talento, alguém que se agarra ao que lhe resta. Se bem que a Lídia: já aconteceu antes — quer dizer, e ele começou a atravessar a rua até o canteiro central, dias de silêncio e de tensão que se desanuviavam tão imprevistos, um dia que se abre, el día que me quieras, e ele tentou lembrar de onde vinha essa música, de que cromo da memória. Eu tenho de sair de Curitiba, pensou, já no canteiro central, esperando passar uma sequência de carros, tranquilos desta vez, esse mercado saturado, é o que todos dizem, você tem sorte, dizem. Eu tenho sorte, como se eu fosse um bom funcionário público, o que até faz sentido. Quem me despediria, ele se perguntou, além de Lídia? Refugiou-se tenazmente nas duas fotografias, aqui à mão, cuidando para não deformar o envelope. Se Lídia ao menos falasse! Assim: cartas na mesa. E, bonequinho verde aceso, começou a segunda parte da travessia, sete passos exatos em diagonal até a calçada oposta, ele contou, distraído, e distraído divisou o que parecia a mesma figura esquiva da manhã, um vulto magro no escuro e uma brasa de cigarro se consumindo lenta. Fantasiou-se dono de um táxi, para esquecer a

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Professor(a), no acervo do PNBE, encontra-se a obra O filho eterno, de Cristóvão Tezza.

Tezza e sua obra Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952. Seus primeiros livros, os contos de A cidade inventada e os romances Gran Circo das Américas e O terrorista lírico, foram publicados entre 1979 e 1981. Em 1988, quando publicou Trapo, seu nome começou a se tornar conhecido nacionalmente. Em 2007, foi publicado seu mais conhecido romance O filho eterno, que recebeu em 2008 o Prêmio Jabuti de Melhor Romance e foi traduzido para o francês, sendo também premiado na França. O romance foi lançado em vários países da Europa e na China. Sua obra mais recente é o romance O professor, lançado em 2014. Guilherme Pupo/Folhapress

O catarinense Cristovão Tezza (1952), que fez de Curitiba sua cidade, é um dos escritores contemporâneos que abordam o tema da solidão nas grandes cidades. Em 2004, seu décimo primeiro livro, O fotógrafo, foi escolhido pela Academia Brasileira de Letras como o melhor romance publicado naquele ano. A obra é construída em torno de um fotógrafo, protagonista da história que não tem nome: um jornalista de 40 anos, inseguro, insatisfeito com seu trabalho e sua vida afetiva. O fotógrafo aceita uma proposta de trabalho diferente: fotografar uma jovem a pedido de um homem misterioso. Dividido entre a realidade e a fantasia, o fotógrafo se move com dificuldade no mundo real e se sente seguro apenas quando amparado por sua câmera. Leia o início do capítulo “O fotógrafo encontra um amigo”, em que o tema da solidão se revela de modo lento e profundo. A partir de um close da cidade de Curitiba no início do século XXI, às vésperas da eleição presidencial de 2002, o narrador condensa em apenas um dia dramas particulares em diferentes planos: o passado e o presente, a fantasia e a realidade. Ele recupera a sensação de medo, de tensão e de euforia vivida no país por grande parte da população, com a expectativa da eleição do novo presidente. O narrador abre o livro com a afirmação “A solidão é a forma discreta do ressentimento”, revelando uma aflição que percorre a narrativa do começo ao fim e mantém as personagens em uma compartilhada crise momentânea.

Cristovão Tezza, em 2012.

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FAÇA NO CADERNO

Editora Rocco

figura (evitou olhar para lá), talvez, mas também porque aquele jovem motorista pareceu-lhe repentinamente um homem livre, assim de madrugada, na fantasia de desenhar o seu caminho dentro de um táxi e ganhar por isso. O sonho de alguém que nunca soube dirigir bem, ele pensou, lembrando a figura do pai, este sim, nunca dirigiu na vida — e nem a vida, completou; mas agora é azedume. Parou à altura dos bares da Nilo Cairo e imaginou-se sentado em uma daquelas mesinhas com uma cerveja aberta diante dele só para conferir, no claro-escuro, se aquelas fotografias, agora, faziam sentido, o envelope na mesa com o suor da garrafa escorrendo sobre ele, e olhou em torno, uma ansiedade paralisante e absurda, respire fundo, sempre fui um homem tranquilo, ele frisou, como quem se defende. Avançou até outro bar, diante do qual uma viatura da polícia fazia posto, mas aparentemente tranquila, hoje — já mataram alguém por aqui, ele lembrou, e lembrou, como um fantasma, o silêncio de Lídia sob os lençóis, aquele subterrâneo agressivo que lhe veio, a treva, a treva feita de silêncio, fomos feitos para falar, mas eu nunca falei muito, ele pensou. Às vezes aparece algum conhecido por aqui, edição fechada de madrugada, mas nada disso existe mais, todo mundo quer ir logo para casa dormir. É como se eu fosse meu pai, falando assim, ele lembrou. Daqui da calçada podia pressentir o prédio de Íris, mas, numa decisão súbita, entrou e encostou-se no balcão do bar para uma cerveja, de novo a preocupação com a máquina no ombro (devia ter deixado em casa), contrabalançada pelo carro da polícia (a palavra “viatura” lembrou-lhe uma piada na redação, anos antes, mas só conseguia se lembrar das risadas do mensageiro da identidade). Enfim, aperto o interfone, ele planejou, e digo o quê? Era como se ele não quisesse enfrentar essa obsessão e também o sentido dos 200 dólares ainda no seu bolso (devolver para ela). Sim: um bom plano. Em três segundos o dia — não, a vida — amanhecia luminosa como um cartão-postal. Bastava atravessar aquela rua, ele fantasiou, e bebeu o primeiro gole, preocupado subitamente com o estômago, com a barriga mesmo, com a merda. É medo isso, ele pensou. Pediu também água, para acompanhar a cerveja como se fosse vinho, e continuou em pé, mesmo quando lhe ofereceram um banco, porque se sentasse ficaria ali até amanhecer o dia ou acabar o dinheiro, dólares incluídos, na transação escusa que ele fantasiou à sombra da polícia. TEZZA, Cristovão. O fotógrafo. São Paulo: Rocco, 2004. p. 188-190.

1. Nesse trecho do romance, o narrador conta a trajetória do fotógrafo até o prédio de Íris, a modelo que ele fora contratado para fotografar. a) Que ações da personagem a caracterizam como fotógrafo? b) Como ele demonstra sua solidão no que faz? c) Explique as reflexões feitas pelo fotógrafo sobre as eleições de 2002. 2. A história em si, centrada em personagens comuns e anônimas e com uma trama banal, adquire intensidade dramática pelo modo como é contada. a) Como o narrador faz progredir a narrativa? b) O narrador onisciente pode ser considerado um segundo fotógrafo, que se utiliza não de uma máquina fotográfica mas de palavras. O que ele fotografa? 3. Observe que os fragmentos justapostos de relatos e ideias, marcas do cotidiano do homem contemporâneo recriadas no texto, são acompanhados de uma justaposição de tipos de discurso. • Identifique uma passagem de discurso direto, indireto e indireto livre. 4. Releia os trechos: Parou à altura dos bares da Nilo Cairo e imaginou-se sentado em uma daquelas mesinhas com uma cerveja aberta diante dele só para conferir, no claro-escuro, se aquelas fotografias, agora, faziam sentido [...] Enfim, aperto o interfone, ele planejou, e digo o quê?

a) Tomando como base esses enunciados, identifique marcadores linguísticos que auxiliam o leitor a distinguir a voz da personagem da voz do narrador. b) Como se chama o tipo de discurso em que as vozes do narrador e da personagem não estão demarcadas com precisão? c) Que efeito de sentido provoca no leitor a mistura de discurso direto e indireto? Leitura e literatura

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Sá Editora

A leitura de alguns trechos de romances da década de 1970 até o século XXI revelou uma efervescência cultural brasileira mesmo no longo período da ditadura militar. Essa prosa nasceu sob a égide do repúdio a todo tipo de autoritarismo e também à visão linear e estanque da produção cultural, propondo uma valorização da responsabilidade social e da ética, um diálogo entre as várias disciplinas do conhecimento. A produção literária contemporânea retrata o clima de tensão social e de fragmentação da vida cotidiana. Essa tônica também está presente em outras esferas artísticas, de forma que o diálogo entre as produções culturais se intensificou. Um bom exemplo é a retomada do mito do herói latino-americano Che Guevara (1928-1967), que apareceu no trecho do romance Zero que você leu. Sobre esse tema, há um filme do diretor Walter Salles, Diários de motocicleta (2004), com roteiro elaborado por José Rivera. Eles se basearam nos relatos de Alberto Granado e em dois diários de Ernesto Che Guevara: De moto pela América do Sul (2000) e Outra vez: diário inédito da segunda viagem, 1953-1956. O filme narra a viagem pela América Latina dos amigos Ernesto Guevara de La Serna (mais tarde conhecido como “Che”) e Alberto Granado, iniciada em 1952. Durante a expedição, eles conhecem diferentes povoados e culturas e deparam-se com inúmeros problemas sociais. Acredita-se que essa viagem teve papel fundamental para a opção de Che Guevara pela luta armada. Che foi capturado na Bolívia, com o apoio da CIA, e morto em 1967. A partir daí, sua foto passou a ser reproduzida aos milhões em camisetas, chaveiros, isqueiros, biquínis e broches vendidos pelos camelôs do mundo todo; também há um site que vende produtos com a imagem de Guevara.

IanDagnall Computing/Alamy/Latinstock/Latinstock

Na trama dos textos

Diários de motocicleta: América Latina em duas rodas FAÇA NO CADERNO

1. Em grupo, assistam a Diários de motocicleta, observando como o diretor constrói a figura do herói Che Guevara em sua primeira viagem (1952), com o amigo Alberto Granado, ao continente latino-americano; a jornada começou na Argentina e terminou na Venezuela.

Filme de Walter Salles. Diários de motocicleta. Brasil, 2004

Che Guevara, em 1960.

Capa do DVD Diários de motocicleta, de Walter Salles.

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Professor(a), para o debate oral, se for possível, convidar os(as) professores(as) de História e de Arte para que contribuam com mais informações sobre o momento histórico em que viveu Che Guevara e sobre os recursos da linguagem cinematográfica usados por Walter Salles.

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Em cena

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Roteiro para preparar o debate com a classe toda. FAÇA NO CADERNO

Sobre o filme

a) No filme, por que Ernesto Che Guevara viajou mais de dez mil quilômetros pelo continente sul-americano em oito meses? b) Que tratamento o diretor do filme dá ao herói? c) Qual era a ideologia de Che Guevara? d) Entre o gênero biográfico e político, qual ganhou mais destaque na versão cinematográfica? Qual é a relevância desse aspecto? e) Em que a personagem Alberto Granado auxilia a compor a figura do herói?

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

f) Localize os temas tratados no filme. g) Até que ponto esse filme é um documentário? Discuta a presença da música, o cenário e a fotografia. h) O mito Che Guevara continua vivo até hoje. Como você explica esse fato? Sobre a comercialização da figura de Che Guevara a) O que vocês acham da comercialização da imagem de Che Guevara? b) Comparem as características do herói de Zero e da personagem Che do filme: levantem semelhanças e diferenças.

gauche: palavra da língua francesa que possui inúmeros significados, dentre os quais os de torto, malfeito, desajeitado.

1. (PUC-SP) De Vestido de noiva, peça de teatro de 3. (PUC-RJ) Nelson Rodrigues, considerando o tema desenvolvido, NÃO se pode dizer que aborda: a) o passado e o destino de Alaíde por meio de suas lembranças desregradas. b) o delírio de Alaíde caracterizado pela desordem da memória e confusão entre a realidade e o sonho. c) o mistério da imaginação e da crise subconsciente identificada na superposição das figuras de Alaíde e de Madame Clessi. d) o embate entre Alaíde, com suas obsessões, e Lúcia, a mulher de véu, antagonista e um dos móveis da ação. e) a vida passada de Alaíde revelada no casual achado de um velho diário e de um maço de fotografias.

2. (PUC-SP) A respeito da obra Vestido de noiva, de

Nelson Rodrigues, é INCORRETO afirmar que: a) apresenta um enredo que se apoia na ação de uma moça que roubou o namorado da irmã. b) tem como verdadeiro núcleo e ponto de apoio de construção do texto o interesse de Alaíde por Madame Clessi, despertado pelos pormenores do diário e pelas fotografias encontradas no sótão. c) se constrói a partir de três planos diferentes, dos quais o da alucinação se caracteriza como espaço de encontro de Alaíde e Madame Clessi. d) se desenvolve na faixa de tempo explicitada no plano da realidade, que vai do momento do acidente à morte de Alaíde. e) está centrada na figura da mulher de véu, antagonista e móvel da ação e que provoca o desfecho trágico do assassinato de Pedro.

Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1995. p. 11.

a) Adélia Prado é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras contemporâneas. Sua poesia trata de temas que vão do mistério da criação poética à vida cotidiana, passando pela condição feminina. Leitora contumaz, ela estabelece uma série de diálogos com obras e autores de nossa literatura. A partir da leitura do texto acima, estabeleça uma comparação entre o poema de Adélia e o seguinte trecho do “Poema de sete faces” de Carlos Drummond de Andrade: Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

b) Identifique e explique brevemente o jogo de palavras presente no título do poema. Leitura e literatura

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Texto, gênero do discurso e produção

Editora Alto Astral

Capítulo 26

Gêneros digitais: Facebook, Twitter e blog

POPULAR SCIENCE BRASIL. São Paulo: Alto Astral, ed. 13, set. 2012. p. 34-35.

A linha do tempo “A origem das redes sociais” apresenta uma recuperação histórica de 16 anos. Foi publicada no periódico mensal Popular Science Brasil, destinado à divulgação de avanços científicos e tecnológicos para o público jovem. O texto constrói uma espécie de trama visual na qual se entrelaçam várias redes sociais que existiram ou existem, da Classmates.com, de 1995, até o Google+, de 2011. Juntos — e aliados ao YouTube —, Facebook, Twitter e blog são, neste início de século XXI, grandes instrumentos de comunicação e compartilhamento de informações na web. O “Face”, como é conhecido popularmente, representa uma importante revolução em sites de relacionamento pessoal e social. O Twitter é uma ferramenta de comunicação mais instantânea. O blog tem um caráter de exclusividade que o diferencia de outras mídias e redes sociais. Blogueiros e leitores estabelecem relacionamentos bastante próximos, pela afinidade com as discussões e assuntos veiculados. Mais do que postar fotos, vídeos ou frases de 140 caracteres, tais gêneros digitais são veículos de informação e formação de ponto de vista. Vamos compreender, neste capítulo, como ler e escrever ganham diferentes contornos e objetivos nas redes sociais mais populares da atualidade, o Facebook e o Twitter, e em blogs, ao construir novas formas de interação e participação democrática.

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(Des)construindo o gênero Redes sociais Antes do surgimento da internet, o conceito de rede social já existia como uma organização de grupos de pessoas conectadas por um ou vários tipos de relações, partilhando valores e objetivos comuns. A concepção de rede rompe com as hierarquias convencionais: nela não há níveis superiores ou inferiores. Pela identidade, criam-se redes de relacionamento, profissionais, políticas, comunitárias etc. A internet se constitui em uma enorme rede de comunicação, um espaço virtual ao qual se conectam computadores e dispositivos em escala mundial. Há uma estimativa de mais de 2 bilhões de usuários ativos no mundo, dos quais mais de 50 milhões são brasileiros. Com a ampliação das tecnologias digitais, presenciamos transformações no modo como as pessoas buscam informações e as compartilham. As primeiras redes sociais virtuais surgiram em 1995, ganhando extensa notoriedade com o Orkut, rede filiada ao Google, a partir de 2004.

Origem da internet No final da década de 1960, em plena Guerra Fria, a internet foi criada nos Estados Unidos para manter as comunicações caso um ataque inimigo destruísse os meios convencionais. A partir de 1970, passou a ser utilizada também para a comunicação acadêmica. Em 1990, o desenvolvimento da World Wide Web (www) possibilitou a interface gráfica e a criação de sites mais dinâmicos e interessantes. O uso da rede popularizou-se, fazendo dela uma das criações tecnológicas mais importantes do século XX.

Facebook: do perfil pessoal à fan page Interatividade e colaboração on-line

Mark Zuckerberg, estadunidense nascido em 1984, é o cofundador do Facebook e começou a criar softwares ainda na adolescência. Em 2002, ingressou na Universidade de Harvard e, em 2004, criou o Facebook para publicação de fotos de colegas da faculdade, como um anuário. No fim do primeiro ano, o “Face” já contava com um milhão de participantes. Em 2012, o site atingiu a marca de um bilhão de usuários ativos.

Thomas Coex/AFP

Até o final do século passado, nosso círculo social era composto de indivíduos que conhecíamos pessoalmente ou pelo cartão de visita; no início do século XXI, é frequente conhecermos pessoas pelas redes sociais. Antes, líamos somente textos impressos e escrevíamos no papel; nesta era digital, as atividades de leitura e escrita passaram a ser realizadas também na tela de computadores, tablets, smartphones, celulares e outros dispositivos. Em nossas formas de convivência no cotidiano, no trabalho, interpessoais, um espaço de comunicação é o Facebook, fundado por Mark Zuckerberg e por seus colegas de faculdade Eduardo Saverin, Dustin Moskovitz, Chris Hughes e Andrew McCollum. Ao criar um perfil na página do Facebook, o usuário pode explorar diferentes elementos discursivos na interação entre os participantes, seja em um bate-papo virtual, seja por meio de postagens, que podem ser comentadas, curtidas ou compartilhadas. Os usuários podem, ainda, se conectar a amigos, trocar mensagens, participar de grupos de interesse comum, compartilhar fotografias e vídeos e até mesmo realizar negócios on-line. As características da comunicação oral e escrita estão presentes simultaneamente no Facebook.

Mark Zuckerberg, em 2011.

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A seguir, observe a imagem, publicada em 2012, em O guia completo para Facebook, que mostra a construção de um perfil pessoal.

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Editora Europa

O GUIA completo para Facebook: edição não oficial. São Paulo: Europa, 2012. p. 8-9.

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FAÇA NO CADERNO

1. Com base nas atividades que podem ser realizadas no Facebook, identifique a principal característica dessa rede social. 2. Em seu perfil pessoal, identifique as atividades que você realiza com mais frequência.

Curtir, cutucar, comentar ou compartilhar? No “Face”, existem algumas ações sinalizadas por quatro verbos: • curtir — recurso que permite ao usuário sinalizar uma frase ou foto de que gostou na rede; • cutucar — maneira de chamar a atenção de alguém, ou seja, uma forma de interação; • comentar — recurso que permite explicitar opinião sobre qualquer tipo de postagem; • compartilhar — ação que significa divulgar, distribuir determinado conteúdo a amigos e grupos que integram a rede do usuário.

www.facebook.com

O Facebook, assim como outras redes sociais, enfoca a interatividade entre as pessoas. O perfil pessoal é construído em prol do compartilhamento de informações com outros usuários que dividem opiniões e gostos semelhantes. O internauta tem um papel ativo, pois pode publicar textos, divulgar projetos e defender ideias, de acordo com o que considerar importante.

As redes sociais passaram a ser utilizadas em movimentos colaborativos, nos quais as pessoas realizam ações em conjunto em prol de objetivos comuns. Revoluções políticas, como a Primavera Árabe, estão sendo criadas e compartilhadas on-line.

Primavera Árabe Em 2011, reivindicando democracia, inúmeras revoltas populares eclodiram em países de maioria árabe e de religião muçulmana, no norte da África e no Oriente Médio, como Egito, Líbia e Tunísia. Denominada pela mídia Primavera Árabe, essas revoluções foram inicialmente organizadas por jovens, por meio de protestos arquitetados pelas redes sociais. Tais movimentos geraram instabilidade política na região. A repressão dos regimes aos manifestantes vem provocando constantes conflitos armados e intervenções militares externas.

Nas redes sociais, diferentes vínculos são estabelecidos: afetivos, comerciais, profissionais, políticos etc. Em torno de atividades específicas, surge uma construção colaborativa no compartilhamento de informações, interesses e esforços em comum. É possível promover negócios, empresas, instituições, marcas, produtos, artistas, entretenimento, causas, manifestos, comunidades etc. A rede social torna-se, portanto, uma aliada da participação democrática e da mobilização social. Projetos sociais e instituições jornalísticas, por exemplo, estão modificando as formas de se relacionar com seus parceiros e leitores, criando fan pages (“páginas de fãs”), ou seja, páginas corporativas. Nelas, não se tem amigos, mas sim fãs de produtos, ideias, objetivos afins.

https://www.facebook.com/pages/create

Universo digital: leitores e escritores engajados

MODELO do Facebook que explica como criar uma página. Disponível em: <https://www.facebook.com/pages/create/>. Acesso em: 10 maio 2016.

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https://www.facebook.com/planetasustentavel?fref=ts

Observe a fan page do projeto Planeta Sustentável, movimento proposto pela Editora Abril, com o apoio de empresas parceiras (CPFL Energia, Bunge, Sabesp, Petrobras, Grupo Camargo Corrêa e Caixa Econômica Federal), visando debater, informar e produzir conhecimento sobre sustentabilidade. FAN PAGE do projeto Planeta Sustentável no Facebook. Disponível em: <https://www.facebook.com/planetasustentavel?ref=ts>. Acesso em: 5 maio 2013.

FAÇA NO CADERNO

1. O texto constitui a abertura da fan page, composta de elementos verbais (palavras, expressões e frases) e visuais (ilustrações e ícones). Descreva tais elementos para caracterizar a composição verbo-visual da página. Para organizar seu raciocínio, comece apresentando as informações verbais e visuais da esquerda para a direita, de cima para baixo. 2. Pelo conjunto verbo-visual, identifique que práticas sustentáveis são anunciadas na abertura da fan page e interprete o ponto de vista defendido pelo projeto. http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/terrorismo-ambiental-740013. shtml?utm_source=redesabril_psustentavel&utm_medium=facebook &utm_campaign= redesabril_psustentavel &

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10151967317389465&set=pb.78120029464.-2207520000.1375395987.&type=3&theater

A seguir, observe uma postagem publicada no Facebook e o link a que ela remete.

PÁGINA do projeto Planeta Sustentável. Disponível em: <http://planetasustentavel. abril.com.br/noticia/ambiente/terrorismoambiental-740013.shtml>. Acesso em: 5 maio 2013.

POST na fan page do projeto Planeta Sustentável no Facebook. Disponível em: <https://www.facebook.com/ planetasustentavel?ref=pb>. Acesso em: 5 maio 2013.

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3. De cima para baixo, indique os elementos verbais e visuais que compõem a postagem.

FAÇA NO CADERNO

4. Na postagem há um hiperlink, que remete à página do site em que a reportagem completa está publicada. Identifique que elementos verbais e visuais são utilizados para despertar interesse pela leitura integral do texto. 5. Observe os dois textos: a postagem e a página do site. Os dois circulam na internet, mas em veículos comunicativos diferentes (rede social e site). Levante hipóteses: se o projeto Planeta Sustentável tem um site, por que é necessário criar uma fan page para o movimento?

https://www.facebook.com/diplobrasil

No mundo digital, o texto se constrói de modo simultâneo pela Principais características do hipertexto articulação de diferentes semioses, ou seja, interconectando diferen• Forma de composição simultânea e tes linguagens: palavras, fotografias, vídeos, imagens, sons etc. Essa multidirecional. composição constitui o hipertexto — um texto que inter-relaciona • Articulação de múltiplas semioses (sons, dinamicamente as informações em uma teia multidirecional. imagens, palavras etc.). Tal relação se constrói por meio de referências denominadas • Existência de elos (links) verbais ou hiperlinks — ou simplesmente links — com expressões verbais desvisuais com outros textos. tacadas com cor e/ou sublinhadas ou com ícones gráficos e imagens. • Coprodução por meio da participação O texto digital apresenta informações ramificadas que se articulam ativa do leitor/escritor. com outras ramificações: links que levam a outros links e assim por diante, construindo múltiplas redes. O hipertexto, portanto, estará em constante mutação a partir da atividade do leitor/escritor, pois é ele que escolhe acessar ou não os links propostos; comentar ou não as postagens; inserir informações novas e outros links, por exemplo. Nesse engajamento, leitores/escritores de um mesmo texto inicial podem articular informações de diferentes maneiras. A leitura de hipertextos exige a participação ativa do leitor na construção da coesão e coerência entre diferentes textos acessados. A seguir, é possível visualizar a abertura da fan page do jornal Le Monde Diplomatique Brasil.

FAN PAGE do jornal Le Monde Diplomatique Brasil no Facebook. Disponível em: <https://www. facebook.com/diplobrasil>. Acesso em: 5 maio 2013.

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Le Monde Diplomatique Brasil Publicado desde 1954 na França, o Le Monde Diplomatique tem 71 edições internacionais produzidas em 25 línguas. A edição brasileira, por ter periodicidade mensal, permite uma dinâmica de divulgação muito diferente da dos jornais diários e das revistas semanais. O jornal se autodenomina mídia alternativa e busca expressar múltiplos olhares sobre questões políticas, econômicas e sociais do Brasil e do mundo. Não se trata de uma publicação noticiosa, voltada à cobertura dos fatos correntes, mas de uma publicação crítica e reflexiva sobre acontecimentos e assuntos de interesse da sociedade.

6. Observe a parte superior da abertura da fan page e descreva a imagem que a compõe.

FAÇA NO CADERNO

7. Abaixo dessa imagem, há a sobreposição da edição de julho do jornal, destacando parte da capa, acompanhada de duas frases, constituindo uma espécie de legenda verbo-visual. Relacione a imagem superior às frases e interprete o sentido do conjunto.

https://www.facebook.com/diplobrasil

Nesta fan page, é possível recuperar diferentes edições do jornal Le Monde Diplomatique Brasil. Observe, a seguir, a capa da edição de maio de 2013 e, ao lado, os comentários dos leitores a respeito dela.

POST na fan page do jornal Le Monde Diplomatique Brasil no Facebook. Disponível em: <https://www.facebook.com/diplobrasil>. Acesso em: 5 maio 2013.

A capa do jornal recupera uma obra da op art, ou arte óptica — movimento artístico que se destacou a partir da década de 1950, com o objetivo de criar interações de formas e de cores para “enganar” o olho e o cérebro, dando movimento a imagens. Texto, gênero do discurso e produção

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Akiyoshi Kitaoka. 2003. Coleção particular

Para realizar obras desse tipo, é necessário conhecer com precisão a fisiologia do olho e os mecanismos cerebrais que regulam a visão. Muitos artistas que se dedicam a esse campo são também neurocientistas, como o japonês Akiyoshi Kitaoka, professor de psicologia da Ritsumeikan University, em Quioto, no Japão, e autor de Cobras giratórias, obra recuperada pela capa do jornal. Observe-a ao lado. KITAOKA, A. Cobras giratórias, 2003. FAÇA NO CADERNO

8. O Produto Interno Bruto (PIB) é a medida de todos os bens e serviços finais que foram produzidos em um país ou região durante certo período. É a principal medida de riqueza de um país — quanto mais um país produz, mais ele pode consumir. a) Relacione tal informação ao diálogo com a op art e interprete que crítica fica pressuposta na pergunta inserida na capa: “PIB: a ilusão do crescimento?”. b) Que perfil de leitor tal articulação de informações pressupõe? 9. Considerando o perfil do jornal e de seu público leitor, levante hipóteses: que contribuições uma fan page pode trazer para a interação entre esse veículo de informação e seus leitores? O Facebook é a maior plataforma digital do mundo para divulgar produtos e ideias sem custos. Ter um perfil no Facebook é de caráter pessoal. Já uma fan page pode contribuir, por exemplo, para aproximar público leitor e jornal, práticas sustentáveis e seus ativistas e adeptos. O principal objetivo das páginas corporativas é agregar novas conexões. Quando um usuário curte uma fan page e interage com ela, seus amigos são notificados, podendo ou não se interessar pelo assunto veiculado.

Twitter: microblog em 140 caracteres Observe ao lado a página no Twitter do jornal Le Monde Diplomatique Brasil.

<https://mobile.twitter.com/diplobrasil>

Conectividade e rapidez FAÇA NO CADERNO

1. De cima para baixo, descreva que elementos verbais e visuais compõem a página. 2. Interprete a função dos tweets (as postagens) nessa página. O Twitter é uma rede social que se caracteriza como um microblog. Nele, os usuários podem enviar e receber posts (postagens) em textos de até 140 caracteres, conhecidos como tweets. Criado em 2006 por Jack Dorsey e sócios, o Twitter ganhou extensa notabilidade e popularidade por todo o mundo, sendo descrito como uma espécie de SMS da internet. Stephen Lam/Reuters/Latinstock

Jack Dorsey nasceu em 1976, nos Estados Unidos. É empresário e desenvolvedor, criou a Odeo, empresa de podcasting voltada para publicações em mídias digitais. Em 2006, fundou o Twitter, em parceria com Evan Williams, Biz Stone e Noah Glass.

PÁGINA no Twitter de Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: <https://mobile.twitter.com/diplobrasil>. Acesso em: 5 maio 2013.

Jack Dorsey, em 2012. Professor(a), caso seja necessário, explique que SMS é o serviço de mensagens curtas (em inglês: Short Message Service), disponível para telefones celulares.

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https://mobile.twitter.com/diplobrasil

Leia o post a seguir.

POST no Twitter de Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: <https://mobile.twitter.com/diplobrasil>. Acesso em: 5 maio 2013.

www.freenetfilm.org

No texto, há um retweet do Diplô Brasil, ou seja, o reenvio de um tweet de outro usuário. O hiperlink encaminha para a página reproduzida a seguir.

Glossário do Twitter seguidor: usuário que segue perfis. retweet (RT): replicação de mensagem de outro usuário para a lista de seguidores, dando crédito ao autor original. hashtag: expressão antecedida pelo símbolo “#” (por exemplo, no texto analisado, #PNBL, #WiFi). Ela indica o tema do que foi “tuitado” e permite ao usuário localizar e reunir todos os tweets com o mesmo assunto. trending topics: lista de hashtags mais “tuitadas” na rede.

PÁGINA do projeto Freenet. Disponível em: <http://www.freenetfilm.org>. Acesso em: 5 maio 2013. FAÇA NO CADERNO

3. O projeto Freenet? tem como objetivo realizar um documentário colaborativo que exponha fatos, casos, pontos de vista e questionamentos de pessoas que viveram ou testemunharam algum tipo de violação na web. A ideia central é assegurar que a internet continue sendo um espaço aberto, colaborativo, no qual a autonomia e os direitos dos usuários sejam respeitados. Ao retweetar a divulgação desse projeto, que posicionamento assumiu o jornal Le Monde Diplomatique Brasil? Texto, gênero do discurso e produção

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FAÇA NO CADERNO

4. Considerando que o Le Monde Diplomatique Brasil é um jornal impresso com perfil diferenciado, explique que objetivos do veículo estão articulados em sua página no Twitter. O Twitter apresenta conectividade com outras mídias digitais. Nesse intercâmbio, é possível divulgar sites, notícias e outras redes sociais. Em geral, o foco é manter-se atualizado com notícias e assuntos de interesse; divulgar ideias, produtos e serviços, entre outros aspectos. É comum que pessoas mantenham páginas pessoais no Twitter, divulgando interesses e atividades particulares.

Blog: vozes do mundo digital Dos diários íntimos aos diários virtuais Muitos blogs trazem comentários ou notícias sobre um determinado assunto; outros apresentam diários virtuais. Um blog combina texto, ícones, comentários e links para outros blogs, páginas da web e mídias relacionadas a seu tema. Os leitores interagem com o autor por meio de comentários, compartilhando impressões cotidianas.

Origem dos blogs A palavra blog vem da abreviação de weblog: web significa “teia” e designa o ambiente de internet, e log, “diário de bordo”. O gênero surge, portanto, como um diário virtual, em 1999, com a criação do software Blogger, desenvolvido pela empresa do estadunidense Evan Williams. Esse software pretendia ser uma alternativa popular para a publicação de textos on-line, pois a ferramenta dispensava conhecimento especializado em tecnologias computacionais. A facilidade para edição, atualização e manutenção dos textos tornou a ferramenta muito popular. Um simples diário público tornou-se um dos principais meios de expressão no mundo virtual. Estima-se que existam mais de 200 milhões de blogs na rede, de acordo com a Technorati, empresa especializada na contabilização de blogs. Observe a seguir o blog pessoal de uma jovem que acabou de entrar na faculdade. Olá criaturas terrestres, como vão vcs? A muuuuuuuuito tempo não posto no blog, deixei ele abandonado aqui D: Peço desculpas a todas as leitoras que entram aqui no blog e nao encontram novidades.. é que tá td mto corrido, a faculdade, morar sozinha, cuidar de tudo, e ainda por cima procurar um emprego... Tá tenso.. kkkkkk Mas deixo aqui o meu parecer, não estou morta, estou bem, cursando o primeiro ano de Sistemas para Internet kkkkkkkkkkkkkk Estou com mtas

vcs entendam, e eu agradeço por vcs continuarem lendo o blog, pq ele sempre tem visitas! kkkkk Me desculpem mais uma vez, beijonas.

LOUISE, Stephanie. E o blog ficou abandonado ://. Dilemas de Pós-Adolescente, 21 ago. 2012. Disponível em: <http://dilemasdeadolescente.blogspot.com.br>. Acesso em: 30 abr. 2016.

http://dilemasdeadolescente.blogspot.com.br

saudades de vcs, vou tentar voltar a postar aqui, não dou certeza, mas tenho mta coisa nova pra mostrar pra vcs... Só me falta tempo :// Espero que

O texto digital interconecta elementos da linguagem oral e escrita, aproximando-se da interação face a face. No diário virtual Dilemas de Pós-Adolescente, são empregadas expressões comuns em situações de uso da língua falada, para revelar impressões particulares e sentimentos da autora. Há, por exemplo, prolongamento de vogal em “muuuuuuuuito”, para dar ênfase a uma expressão; uso de “kkkkkkkkk”, que recupera graficamente um elemento típico da interação face a face (a risada); uso de reticências e vírgulas e a quase ausência de ponto final, como estratégia para manter o ritmo conversacional próximo do diálogo cotidiano, entre outras características da linguagem oral.

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A autora também recorre a usos linguísticos específicos do meio digital, como abreviações (“vcs”, “td”, “mto”), para agilizar a comunicação on-line, e emoticons gráficos, “D:” e “://”, para marcar tristeza e indecisão, respectivamente. O diário íntimo é um gênero do discurso utilizado para registrar fatos de cada dia, indicando pensamentos e impressões particulares de quem o escreve. Tem caráter confidencial, e geralmente o registro escrito ocorre em cadernos ou agendas. Com o surgimento do blog, os diários íntimos se tornaram públicos. Reflita sobre essas informações e levante hipóteses: FAÇA NO CADERNO

1. Há interlocutores distintos em diários íntimos e diários virtuais? 2. Que características de um diário íntimo se mantêm no post do blog?

A escrita sobre si, comum em diários íntimos, invadiu a web. O blog passou a designar o espaço de interação para compartilhar experiências, sentimentos, conquistas, interesses e esforços em comum. Assim, esse gênero digital redesenhou as relações virtuais, pois deu voz a milhares de pessoas. Na atualidade, o blog se apoia em diferentes gêneros para sua composição: pode ser um diário virtual, uma tribuna para discussões de diferentes ordens, um espaço de notícias, um mural de mensagens, um conjunto de links, um tutorial interativo. Enfim, não há regras: um blog pode ter a forma, o conteúdo e o estilo que o autor escolher. Há muitos programas gratuitos para a criação de blogs. Para isso, basta preencher alguns dados, escolher um nome e criar a página.

Blog Brasil Acadêmico: espaço colaborativo O gênero blog articula, em sua forma de composição, múltiplas linguagens: textos verbais, imagens (fotos, desenhos, animações), músicas, vídeos etc. A constituição do hipertexto interconecta dinamicamente diferentes informações de modo não linear, por meio de links, que são os atalhos para novas páginas. Observe a seguir o blog Brasil Acadêmico, resultado de uma parceria: um grupo de pessoas colabora para produzir o mesmo blog. Para escrever nesse espaço, é necessário solicitar um convite para ser autor voluntário e enviar uma proposta de colaboração, explicitando o que se pretende publicar no blog. Após análise dos desenvolvedores da página, o interessado recebe um comunicado de aceitação ou recusa via e-mail.

http://blog.brasilacademico.com/index.html

FAÇA NO CADERNO

1. Pelo título e pelo subtítulo do blog, levante hipóteses: qual é o objetivo dessa página na web? 2. O título do blog está relacionado ao formato gráfico da página: um caderno. Explique essa informação e interprete o uso desse recurso.

PÁGINA do blog Brasil Acadêmico. Disponível em: <http://blog.brasilacademico.com/index.html>. Acesso em: 11 maio 2013.

O blog Brasil Acadêmico destina-se ao “acadêmico descolado”, conforme subtítulo da página. O foco é divulgar pesquisas e informações para estudantes, pesquisadores e interessados de modo geral. A página foi idealizada com o intuito de ser uma fonte de ideias e assuntos para debate e discussão, respeitando-se as divergências. Os autores devem utilizar linguagem moderna, mas mantendo o enfoque acadêmico. O blog apresenta textos longos. Assim, a primeira página traz a parte inicial das postagens, com links que encaminham para os textos integrais. Leia, a seguir, um post de abertura. Texto, gênero do discurso e produção

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http://blog.brasilacademico.com/index.html

POST na página do blog Brasil Acadêmico. Disponível em: <http://blog.brasilacademico.com/index.html>. Acesso em: 10 ago. 2013. FAÇA NO CADERNO

3. Começando da parte superior em direção à inferior, identifique os elementos verbais e visuais que compõem o post. 4. Identifique que aspectos da informação são destacados no título e na mensagem. Explique por que tal seleção é importante. 5. O blog Brasil Acadêmico é colaborativo. Pelos aspectos analisados, explique o que o diferencia do blog pessoal Dilemas de Pós-Adolescente.

Particularidades da blogosfera O termo blogosfera designa o conjunto dos weblogs, compreendidos como uma grande comunidade virtual. Cada blog, contudo, tem particularidades relacionadas às características do autor (idade, sexo, etnia, escolaridade etc.); a seu papel social (profissão, ocupações); a seus interlocutores; aos temas e à finalidade da publicação; ao momento de produção (ano, dia, hora etc.). Cada blog apresenta uma identidade articulada a usos específicos da linguagem, de acordo com o autor, seus objetivos e seu público leitor. No blog Dilemas de Pós-Adolescente, há o uso de abreviações, emoticons gráficos, vocabulário informal etc. Já no Brasil Acadêmico, a linguagem é simples e acessível, às vezes com expressões mais informais, mantendo, contudo, o padrão linguístico e evitando abreviações e emoticons, por exemplo. Nesses e em outros blogs, enfoca-se a linguagem específica do texto digital: composição em hipertexto. Embora cada blog apresente certa individualidade, há características comuns que podem ser enumeradas: • Identidade visual, ou seja, um layout adequado ao perfil da página. Glossário da blogosfera • Postagens constituídas em hipertexto. blogueiro: autor de um blog. • Atualização cronológica de postagens (diária ou semanal, por exemplo). postar: inserir uma mensagem em • Espaço para o leitor comentar, sugerir, criticar e debater os assuntos. um blog. • Perfil de usuário/informações biográficas (comuns em blogs pessoais). template: layout do blog. • Conexão do blog com redes sociais, como o Facebook e o Twitter. flog: termo que remete à fotolog É importante ressaltar que nem todos os blogs permitem aos leitores que publiquem opiniões, comentários ou dúvidas. Alguns blogs selecionam os comentários que serão publicados, de acordo com os termos de uso da página. Outros blogs são destinados a grupos específicos, ou seja, o autor escolhe quem poderá ler as postagens: qualquer internauta, grupo de amigos, assinantes da página etc.

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ou fotoblog, variante de weblog, cujo conteúdo principal consiste na publicação de fotografias. vlog: termo abreviado para videolog ou videoblog, variante de weblog, cujos posts são vídeos.

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Linguagem do gênero “Internetês” e língua padrão

https://www.facebook.com

Com as redes sociais e as constantes inovações tecnológicas, surgem novas exigências de leitura e de escrita no mundo virtual. O texto digital interconecta elementos da oralidade e da escrita, articulando múltiplas semioses, ou seja, vídeos, ícones, diagramas, imagens animadas, efeitos sonoros — e tudo isso exige diversas habilidades. Observe uma postagem e um comentário retirados de um perfil pessoal do Facebook.

https://www.facebook.com

POST do Facebook. Disponível em: <https://www.facebook.com>. Acesso em: 13 maio 2013.

POST do Facebook. Disponível em: <https://www.facebook.com>. Acesso em: 13 maio 2013. FAÇA NO CADERNO

1. Nos textos, ocorre o uso de marcas de oralidade, ou seja, termos frequentes em situações de uso da língua falada. Identifique tais elementos. 2. No segundo texto, há o uso de marcas específicas das mensagens curtas enviadas pelo celular ou escritas em diferentes ambientes digitais, como chats, blogs, fóruns etc. Identifique-as e explique que função elas adquirem nesse contexto. Escrever na internet geralmente é associado, única e exclusivamente, ao “internetês”, reconhecido pelo uso de abreviações e imagens, com o objetivo de agilizar a comunicação on-line. O que se observa, contudo, é o uso de elementos que se aproximam da interação face a face, por exemplo marcas de entonação e tom de voz, pelo uso do prolongamento de vogais e letra maiúscula; elementos visuais, como olhares, gestos, meneios de cabeça, pelo uso de ícones animados, fotos, vídeos etc.

Glossário do internetês vc: você

blz: beleza

kd: cadê

fds: fim de semana

net: internet

tbm: também

tah: tá

flw: falou

fmz: firmeza

td: tudo

qdo: quando

pq: porque

qnt: quanto

axo: acho

q: que

nd: nada

naum: não

add: adicionar

bjs: beijos

abs: abraços

Texto, gênero do discurso e produção

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Marcas de oralidade na escrita digital As abreviações e os emoticons (símbolos também denominados “smiles”) recuperam marcas de uma conversa informal e possíveis expressões faciais, ações, estados de espírito, próprios do diálogo face a face. Significado

:-)

felicidade

:-(

tristeza

;-)

piscadela

:-D

risada

:~~

lágrimas

:-*

beijo

B)

óculos escuros

:-O

espanto

Editoria de arte

Emoticons

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10151966890209465&set=pb.78120029464.-2207520000. 1375396396.&type=3&theater

As abreviações, marcas de oralidade, ícones animados e outros recursos têm o objetivo de manter um ritmo conversacional próximo do diálogo cotidiano. Em outras situações de interação, o texto digital assume uma articulação diferente entre palavras, sons, imagens etc. A seguir, observe as postagens realizadas pelo projeto Planeta Sustentável no Facebook e no Twitter.

POST no Facebook na fan page do projeto Planeta Sustentável. Disponível em: <https://www.facebook.com/planetasustentavel>. Acesso em: 5 maio 2013.

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Capítulo 26 – Gêneros digitais: Facebook, Twitter e blog

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http://mobile.twitter.com/psustentavel

FAÇA NO CADERNO

1. De cima para baixo, descreva os elementos verbais e visuais que compõem as postagens do Facebook e a página do projeto Planeta Sustentável no Twitter. 2. Compare os textos e levante semelhanças e diferenças com relação ao tamanho das mensagens, a imagens e a referências a outros textos. 3. Reflita sobre o uso da língua em perfis pessoais e nas páginas corporativas analisadas neste capítulo. Cite algumas características da escrita utilizada nas redes sociais.

TWEETS do projeto Planeta Sustentável. Disponível em: <https://mobile.twitter.com/psustentavel/tweets>. Acesso em: 5 ago. 2013.

A comunicação escrita nas redes sociais está articulada a usos específicos da linguagem, de acordo com o autor e seus objetivos. Mesmo que se mantenha uma linguagem informal e acessível, é preciso considerar que há as páginas corporativas, que exigem o padrão linguístico formal, evitando abreviações e emoticons, por exemplo. Nessas páginas, enfoca-se a linguagem específica do texto digital: composição em hipertexto e o uso do vocabulário específico da rede (como ocorre, principalmente, no Twitter). A linguagem das redes sociais, portanto, não exclui a norma-padrão, mas mantém o ritmo da vida: os usos da língua se articulam a esferas e contextos determinados.

Concisão: escrever apenas o indispensável https://mobile.twitter.com/psustentavel

Escrever postagens curtas e produzir tweets em 140 caracteres requer o uso de recursos linguísticos específicos. Releia dois tweets do projeto Planeta Sustentável.

FAÇA NO CADERNO

TWEETS do projeto Planeta Sustentável. Disponível em: <https://mobile.twitter.com/psustentavel/tweets>. Acesso em: 5 ago. 2013.

1. Identifique os sujeitos gramaticais das frases: “Procura-se a empresa do futuro” e “Nanofibras com óleo geram tecidos medicinais”. 2. O modo como o sujeito se relaciona com o verbo na oração caracteriza o que a gramática normativa chama de voz. Observe. • Voz ativa — sujeito agente — Os pais educam as crianças. • Voz passiva analítica — sujeito paciente — As crianças são educadas pelos pais. • Voz passiva sintética — Educam-se as crianças. a) Em que voz verbal cada tweet foi escrito? b) De que forma as vozes verbais empregadas contribuem para a concisão das frases? Texto, gênero do discurso e produção

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3. Explique que aspectos foram privilegiados em cada tweet.

FAÇA NO CADERNO

Para uma comunicação escrita concisa, diferentes construções sintáticas são articuladas nos tweets analisados. A voz passiva sintética, por ser mais concisa em sua formação, permite destacar sujeitos gramaticais pacientes. Já a voz ativa põe em evidência um sujeito gramatical agente e o objeto do verbo. A escolha das palavras e a ordem com que elas constituem a frase dependem do ponto de vista que se pretende destacar e defender.

4. Considere o perfil do projeto Planeta Sustentável e responda às questões a seguir. a) Levante hipóteses: a que situações sociais os tweets fazem referência? b) Explique que posicionamento o autor dos tweets permite depreender. Nos tweets analisados, os recursos de concisão utilizados são: • uso da ordem direta e da voz ativa para destacar sujeito agente e objeto; • utilização da voz passiva sintética para destacar sujeito paciente; • seleção lexical para marcar ponto de vista. Outros recursos linguísticos podem ser percebidos na construção de textos concisos, como o uso de expressões nominais e orações reduzidas, por exemplo, e a ausência de repetições e expressões de valor apenas apreciativo, como adjetivos e advérbios em excesso.

A etiqueta das redes sociais A revista Língua Portuguesa publicou “A ‘netiqueta’” do mundo virtual. Observe o quadro a seguir.

Editora Segmento

Além dessas observações, no Twitter é importante considerar três aspectos: regularidade, interação e integridade. Um perfil no Twitter não é feito para “fantasmas”, ou seja, é importante manter a página ativa, criando uma regularidade nas postagens. A interação do Twitter difere de outras redes e mídias digitais, pois não é uma sala de bate-papo e sim um espaço para debate e troca rápida de ideias e informações. Seja sempre íntegro com o que é publicado. Se gostar das ideias de alguém, use o recurso do retweet. Jamais publique algo que não seja seu sem citar as fontes. Lembre-se de que, na contemporaneidade, a vida real adentrou o mundo virtual. Assim, é sempre importante tomar alguns cuidados com o que se publica. Muitos profissionais já foram demitidos e pessoas estão sendo processadas em razão da postagem de conteúdos inadequados no perfil.

MURANO, Edgard. O texto na era digital. Língua Portuguesa, São Paulo: Segmento, ano 5, n. 64, fev. 2011. p. 31.

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Capítulo 26 – Gêneros digitais: Facebook, Twitter e blog

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Interatividade e variação linguística

Editoria de Arte/Folhapress

Os blogs conferiram aos internautas o poder de publicar textos com autonomia e liberdade. Com a democratização das tecnologias computacionais, escrever um blog pode ser apenas um hobby ou se transformar em uma atividade profissional. A Folha de S.Paulo publicou, no caderno Ilustrada de 11 de maio de 2013, uma reportagem de página inteira que destaca a atuação de blogueiros como resenhistas amadores.

EZABELLA, Fernanda; COZER, Raquel. Blogueiros chegam a ler 70 livros em um só ano. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 maio 2013. Ilustrada, p. E4. Folhapress.

Leia, a seguir, a parte inicial da reportagem. Blogueiros chegam a ler 70 livros em um só ano

Resenhistas ganham com anúncios, mas rejeitam cobrança por avaliações No hall da fama de resenhistas da Amazon, o americano Donald Mitchell não avalia livros de que não goste FERNANDA EZABELLA DE LOS ANGELES

interagir com leitores, o que dá trabalho. É isso o que traz audiência.”

RAQUEL COZER DA COLUNISTA DA FOLHA

Os livros avaliados tendem a diferir daqueles que frequentam cadernos de cultura. Embora blogs como o Posfácio priorizem não ficção e literatura adulta, predominam entre parceiros de editoras os juvenis, femininos e de fantasia.

Não é fácil medir o impacto que resenhas da internet têm sobre a venda de livros, mas um exemplo permite entender por que editoras têm investido nesse cenário. O juvenil “A Seleção”, de Kiera Cass, lançado há sete meses pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras, vendeu 16 mil cópias quase sem aparecer na imprensa. Mas foi resenhado por blogs como o Garota It e o Literalmente Falando, que recebem uns 100 mil acessos por mês cada um. Enquanto críticas feitas por especialistas em jornais fazem livreiros dar destaque aos títulos nas lojas, blogueiros atraem leitores de gosto similar e alimentam o boca a boca. “É bem pessoal. Eles deixam claro que é o canto deles”, diz a gerente de marketing da Intrínseca, Heloiza Daou. “O discurso não é ‘esse livro é ruim’, é ‘não gostei desse livro’”, diz Diana Passy, gerente de mídias sociais da Companhia das Letras. “E não basta escrever bem, tem que ser bom blogueiro,

“Costumamos dizer ‘esse livro funciona para blog’ e ‘esse funciona para a imprensa’”, diz Tatiany Leite, 20, analista de comunicação na LeYa e fruto desse cenário — foi trabalhar na editora após se destacar com o blog Vá Ler um Livro. A proximidade dos blogs também serve para as editoras conhecerem seu público, com estatísticas. Segundo a Intrínseca, 82% de seus blogueiros são mulheres e 63% moram na região Sudeste. Dos 779 que disputaram vagas em janeiro na Companhia das Letras, a maioria tem de 20 a 24 anos (30%) e diz ler de 51 a 70 livros ao ano (22%). Isso num país em que a média anual é de quatro livros incompletos, segundo a pesquisa Retratos da Leitura de 2012. EZABELLA, Fernanda; COZER, Raquel. Blogueiros chegam a ler 70 livros em um só ano. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 maio 2013. Ilustrada, p. E4. Folhapress.

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1. Que característica do gênero blog se destaca na reportagem?

FAÇA NO CADERNO

2. Ao publicar resenhas, que papel social os blogueiros assumem? 3. De acordo com o texto, explique de que maneira uma resenha em blog contribui para o mercado editorial.

Texto: Agência O Globo. Capa: Cosac Naify

Os blogs surgem como uma arena singular para compreender as reais práticas de leitura de jovens e adultos. Para as editoras, são ferramentas de marketing digital utilizadas para analisar os interesses dos leitores. Esse espaço se diferencia de mídias tradicionais como o jornal impresso. Leia a seguir duas resenhas, uma retirada do jornal O Globo e outra do blog Lendo.org.

CAZES, Leonardo. O último livro de Bartolomeu. O Globo, Rio de Janeiro, 23 mar. 2013. Prosa, p. 7.

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Capítulo 26 – Gêneros digitais: Facebook, Twitter e blog

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http://www.lendo.org/o-apanhador-no-campo-de-centeio/

GAZOLA. André Augusto. O apanhador no campo de centeio, de S. D. Salinger. Lendo.org. Disponível em: <http://www. lendo.org/o-apanhador-nocampo-de-centeio/>. Acesso em: 20 abr. 2016.

FAÇA NO CADERNO

4. De que assunto trata cada resenha? A que leitor se destina? 5. Sobre a avaliação dos autores das resenhas, responda. a) Qual foi a avaliação de cada autor sobre o livro? b) Que recursos foram utilizados pelos autores para marcar sua posição? 6. Caracterize as principais diferenças entre a resenha do jornal O Globo e a do blog Lendo.org, enfocando: apresentação do livro, sequência de informações e descrição do autor e de suas características. 7. Levante hipóteses: o que motivou essas variações? No blog, os posts se aproximam das relações de amizade e intimidade. Assim, a escolha das palavras está articulada a uma situação mais informal de uso da língua, o que não ocorre no jornal. Os blogs são espaços de interação entre blogueiro e leitores, estabelecendo diferentes graus de intimidade. É uma relação diferenciada, que permite observar a variação linguística de caráter individual, ou seja, o registro da língua de acordo com a idade do autor, com o perfil da página e de seus objetivos de produção. Os textos digitais possibilitam perceber, portanto, que a língua é variada e plurilíngue, apresentando diferenças entre a língua falada e a escrita e outros pontos de variação: geográfico, sociocultural, individual, temático. Pensando nisso, você pode pesquisar blogs de diferentes perfis: tutorais de videogame ou de maquiagem; avaliação de filmes, livros ou jogos; comentários sobre futebol ou moda, por exemplo. Ao acessar tais páginas, compare a linguagem de diferentes blogueiros. Para isso, verifique idade, sexo, região, temas e perfil e caracterize as diferentes formas de expressão utilizadas. Apresente os resultados da pesquisa para a classe. Texto, gênero do discurso e produção

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http://www.blogger.com/home?pli=1

Como construir um blog? Na atualidade, há inúmeras ferramentas gratuitas para criar e hospedar um blog. Uma das mais populares é o Blogger (http://eba.im/7njuhp), da empresa Google. O Blogger é uma ferramenta fácil de usar e tem ótimos recursos. Primeiro, é necessário ter uma conta de e-mail do Gmail; depois, é só seguir as orientações: 1) Dê um título a seu blog e ao endereço da página; 2) Escolha uma entre as opções de template (layout). 3) Pronto! Você já pode publicar o primeiro post.

www.blogger.com/home

Professor(a), não escolhemos a ferramenta Blogger por ser melhor que outras, mas por ser simples, fácil e rápida de ser utilizada, além de ser gratuita. PÁGINA do Blogger. Disponível em: <www.blogger.com/home/>. Acesso em: 10 maio 2013.

PÁGINA do Blogger. Disponível em: <www.blogger.com/home/>. Acesso em: 10 maio 2013. www.blogger.com/home/

Para mudar a fonte, a cor ou a configuração do blog, é necessário seguir as orientações que a própria ferramenta oferece. No momento de criação, é importante escrever algumas linhas que definam o blog. Se for um blog pessoal, escreva seu perfil, com uma pequena descrição (idade, objetivos, gostos etc.). Se for um blog coletivo, será necessário definir o grupo de autores. O layout personalizado pode estar articulado a um público leitor específico ou à finalidade da página.

PÁGINA do Blogger. Disponível em: <www.blogger.com/home/>. Acesso em: 10 maio 2013.

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Capítulo 26 – Gêneros digitais: Facebook, Twitter e blog

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Outras ferramentas Visite outras ferramentas para construção de blogs. Escolha aquela que melhor se encaixar nos objetivos de sua produção. • UOL Blog — <http://eba.im/atsfu8>

• Clickgratis Blog — <http://eba.im/q7ba3n>

• Wordpress — <http://eba.im/8ktkyx>

• Uniblog — <http://eba.im/3g5foa>

Praticando o gênero Protagonistas do mundo digital Nessa tarefa, você irá articular o que aprendeu no capítulo a suas necessidades de estudante na construção de um projeto interdisciplinar. Sua tarefa será criar, em grupos, uma fan page dedicada ao Enem. O objetivo da página será divulgar e compartilhar informações sobre o exame: dicas de estudo, links com atualidades, questões e temas de redação, entre outros aspectos. Se for possível, peça a colaboração dos professores de outras disciplinas. Assim, cada grupo poderá ficar responsável por uma área específica: • Linguagens, Códigos e suas Tecnologias;

• Matemática e suas Tecnologias;

• Ciências da Natureza e suas Tecnologias;

• Ciências Humanas e suas Tecnologias.

Autobiografias no Twitter A biografia é um gênero que relata a vida de pessoas, em geral públicas, como políticos, artistas, esportistas, cientistas, celebridades etc. Unindo esse gênero a uma nova esfera de circulação, o professor e linguista paranaense Eduardo Diório Junior escreveu o livro Mil biografias para o Twitter. Na obra, o autor apresenta a vida de famosos em 140 caracteres, de modo muitas vezes sarcástico e politicamente incorreto. Leia a seguir algumas biografias inseridas no livro.

Matrix Editora

Distribuam as tarefas entre os membros do grupo e pesquisem informações, notícias, reportagens e artigos. Visitem outras páginas com objetivos semelhantes e verifiquem que novidades podem ser inseridas na fan page de vocês. Essa página pode ser mantida até o final do curso, de modo que se construa uma rede de relacionamentos em prol do estudo e da pesquisa nas diferentes áreas de conhecimento que compõem o Enem.

Antonio Vivaldi Compositor italiano preferido dos publicitários, principalmente para propagandas de sabonete ou colônia popular. Coitado, olha como acabou! Aristóteles Todo filósofo é chato. Aristóteles era um filósofo. Logo, Aristóteles... Bem, foi ele que criou esta maneira de pensar: a lógica perfeita. Marcelo Tas De Ernesto Varela ao Prof. Tibúrcio, sempre enveredou pro humor. Hoje, comanda aquela bagaça do CQC. Amicíssimo do Maluf, pergunte pra ele. Martinho da Vila Na casa dele, todo mundo é bamba, bebe e samba. Um dos grandes nomes do gênero, mas quem quiser ser como ele vai ter que ralar um bocado. DIÓRIO JUNIOR, Eduardo. Mil biografias para Twitter. São Paulo: Matrix, 2011. p. 16, 17, 110, 115.

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Agora, você tem a tarefa de produzir sua autobiografia para o Twitter. Para isso, siga estas orientações: • Relembre fatos e situações marcantes de sua vida que caracterizem de maneira significativa sua história. • Peça a seus pais e amigos que indiquem três ou quatro palavras que o caracterizem ou demarquem circunstâncias importantes em sua vida. • Escreva frases ou expressões que você está acostumado a repetir, de preferência simpáticas ou engraçadas, que funcionem como uma espécie de bordão pessoal. • Articule tais informações e retome os aspectos linguísticos ligados à concisão. • Eleja os aspectos indispensáveis e construa o texto. • Publique sua autobiografia em seu perfil do Twitter.

Publique suas ideias Você já se perguntou de que seu bairro ou cidade precisam? O blog colaborativo Cidade Sustentável tem o objetivo de informar aspectos que caracterizam um novo modelo de cidade, mais ética e inclusiva, discutindo possíveis soluções. Juntem-se em grupos e criem um blog colaborativo com foco em sua cidade. O objetivo é propor soluções específicas para os problemas do local onde vivem. Para isso, combinem o formato da página, estabeleçam as regras de uso do blog e criem o perfil da comunidade. É importante especificar alguns eixos temáticos a serem tratados, como bens naturais comuns, equidade, cultura de paz, justiça social, planejamento urbano, consumo consciente, educação para sustentabilidade, mobilidade urbana etc. Cada componente do grupo pode focar um deterPÁGINA do blog Cidade Sustentável. Disponível em: minado eixo. A partir disso, vocês deverão pesquisar <http://cidadesustentavel.ning.com/>. Acesso em: 16 maio 2013. o que ocorre em sua região e registrar com fotos e vídeos. Em grupos, avaliem exemplos de outras cidades bem-sucedidas nas questões tratadas, para elaborar propostas de solução viáveis à realidade de sua comunidade. Coloquem os temas em discussão e construam as postagens utilizando as fotos e/ou vídeos produzidos. É importante estabelecer uma sequência temática e a periodicidade. Divulguem o blog em outras mídias digitais.

Cidade Sustentável <http://cidadesustentavel.ning.com>/Deborah Munhoz

Blog colaborativo

Blog pessoal Escrever um blog significa imprimir sua voz na web, cativar leitores e estabelecer uma conexão com as pessoas. Crie um projeto para produção de um blog pessoal. Você poderá comentar: • jogos e campeonatos de futebol;

• publicações em quadrinhos;

• capítulos de seriados ou novelas;

• artigos jornalísticos.

• lançamentos de livros, CDs ou DVDs; Se preferir, poderá relatar suas experiências ao realizar projetos como: • ler um livro por mês (ou por semana!);

• apresentar os projetos sociais de sua comunidade;

• assistir a um filme por semana;

• aprender a tocar um instrumento;

• visitar os museus de sua cidade; • coletar histórias populares. Use sua criatividade e busque algo que lhe traga prazer de escrever. Para isso, é importante definir os objetivos da página e estabelecer o perfil de leitor que pretende alcançar. É fundamental que você defina critérios de publicação: periodicidade, conteúdo, formato. Retome as ferramentas de criação de blogs e escolha a mais adequada a seu projeto. Lembre-se de que a linguagem, o layout e o conteúdo estão articulados aos critérios estabelecidos nesse planejamento. Construa seu blog e divulgue-o nas redes sociais.

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Capítulo 26 – Gêneros digitais: Facebook, Twitter e blog

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Comentário: um debate ativo na rede

Gloss/Edição 38/Abril Comunicações S.A

Ler notícias, artigos, fotos e diversos outros textos e depois comentá-los é uma prática muito comum no mundo virtual. O gênero comentário visa articular diferentes pontos de vista: o do autor do texto publicado/ postado e o de seu leitor. Pensando nisso, leia o artigo “A rede antissocial”, de Anna Muylaert, publicado na revista Gloss em dezembro de 2010.

MUYLAERT, Anna. A rede antissocial. Gloss, São Paulo: Ed. Abril, n. 38, dez. 2010 p. 176.

Texto, gênero do discurso e produção

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https://www.facebook.com/diplobrasil

Relacione o artigo à postagem ao lado, publicada na página do Facebook do jornal Le Monde Diplomatique Brasil. Imagine que, ao ler a charge, de André Dahmer, postada pelo jornal, você decida publicar um comentário para discutir as questões apresentadas. Ao retomar o artigo, você passa a refletir sobre os conceitos de individualismo e individualidade nas redes sociais. Em seu comentário, portanto, você deverá: (1) estabelecer a diferença entre esses dois aspectos e (2) manifestar seu ponto de vista em torno das diferentes formas de interação propostas pelas redes. Retome os aspectos discutidos no capítulo e, se possível, acesse o site <eba.im/yv2oms> (acesso em: 3 jun. 2016) para obter mais informações sobre o tema. Combine com o professor uma forma para divulgar os comentários produzidos.

POST na fan page do jornal Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: <https://www.facebook. com/diplobrasil>. Acesso em: 5 maio 2013.

Em atividade

FAÇA NO CADERNO

1. (Enem/MEC)

A Internet que você faz

Uma pequena invenção, a Wikipédia, mudou o jeito de lidarmos com informações na rede. Trata-se de uma enciclopédia virtual colaborativa, que é feita e atualizada por qualquer internauta que tenha algo a contribuir. Em resumo: é como se você imprimisse uma nova página para a publicação desatualizada que encontrou na biblioteca. Antigamente, quando precisávamos de alguma informação confiável, tínhamos a enciclopédia como fonte segura de pesquisa para trabalhos, estudos e pesquisa em geral. Contudo, a novidade trazida pela Wikipédia nos coloca em uma nova circunstância, em que não podemos confiar integralmente no que lemos. Por ter como lema principal a escritura coletiva, seus textos trazem informações que podem ser editadas e reeditadas por pessoas do mundo inteiro. Ou seja, a relevância da informação não é determinada pela tradição cultural, como nas antigas enciclopédias, mas pela dinâmica da mídia. Assim, questiona-se a possibilidade de serem encontradas informações corretas entre sabotagens deliberadas e contribuições erradas. NÉO, A. et al. A Internet que você faz. In: Revista PENSE! Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Ano 2, no. 3, mar.-abr. 2010 (adaptado).

As novas Tecnologias de Informação e Comunicação, como a Wikipédia, têm trazido inovações que impactaram significativamente a sociedade. A respeito desse assunto, o texto apresentado mostra que a falta de confiança na veracidade dos conteúdos registrados na Wikipédia: a) acontece pelo fato de sua construção coletiva possibilitar a edição e reedição das informações por qualquer pessoa no mundo inteiro. b) imita a disseminação do saber, apesar do crescente número de acessos ao site que a abriga, por falta de legitimidade. c) ocorre pela facilidade de acesso à página, o que torna a informação vulnerável, ou seja, pela dinâmica da mídia. d) ressalta a crescente busca das enciclopédias impressas para as pesquisas escolares. e) revela o desconhecimento do usuário, impedindo-o de formar um juízo de valor sobre as informações. 276

Capítulo 26 – Gêneros digitais: Facebook, Twitter e blog

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Capítulo 27

Língua e linguagem

Interação na fala Explorando os mecanismos linguísticos Situações de oralidade Laerte

Ah! Conversas...

Fernando Gonsales

LAERTE. Piratas do Tietê. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 dez. 2003. Ilustrada, p. E9.

GONSALES, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 23 dez. 2003. Ilustrada, p. E9.

As duas tirinhas acima flagram a conversa entre dois falantes. Cada uma delas mostra uma situação diferente de interação social: a primeira tem como interlocutores marido e mulher; a segunda, dois amigos. AÇA NO 1. Nas tiras de Laerte e Fernando Gonsales, vamos verificar como o significado se constrói na inte- FCADERNO ração. Para reconhecer as diferenças bem marcadas entre elas, responda, sobre cada tira: a) Qual é o papel social dos interlocutores? Em que situação a conversa acontece? b) Você reconhece o planejamento dos interlocutores para a conversa? c) No primeiro balão, o falante demonstra sua atitude em relação ao interlocutor. Que marcas verbais e visuais indicam isso? d) Qual é a reação do interlocutor durante a conversação e quais são suas marcas verbais e visuais? e) Que tipo de relação interpessoal ocorre na conversação?

2. Leia em voz alta as tiras, imitando o tom de voz e os gestos dos falantes. Capriche na expressão, a fim de ressaltar o humor criado. Você notou que essa leitura revela os sentimentos expressos pelos falantes. Que recursos linguísticos substituem, nos balões, a “entonação” que você deu? Língua e linguagem

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A análise dos componentes dessas duas tiras permite compreender a dinâmica das interações face a face. Os falantes têm sempre conhecimento das regras que orientam a conversação: as circunstâncias, o papel social dos interlocutores, as variantes e as estratégias linguísticas e gestuais utilizadas. A interação conversacional é um ato de linguagem, fenômeno sociocultural que cria seus sentidos por meio de gestos e de uma sintaxe específica, diferente da sintaxe da língua escrita. Se tomarmos um diálogo, no início ou em vários pontos de seu desenvolvimento, podemos observar que os falantes replanejam sua organização discursiva, em função das necessidades de compreensão, de envolvimento, de participação, de convencimento de seu interlocutor. PRETI, Dino. Alguns problemas interacionais da conversação. In: ______ (Org.). Interação na fala e na escrita. São Paulo: Humanitas/FFLCH-USP, 2002. p. 52.

O processo comunicativo da conversação Quando conversa com alguém, você se preocupa em ser entendido? Como você sabe que o outro o compreende? Você colabora com seu interlocutor? Existem estratégias linguísticas para falar bem? Como desfazer os equívocos e os conflitos que surgem numa conversa? Dominar as estratégias da conversação é fundamental para os falantes, uma vez que a comunicação oral é uma atividade social básica nas interações humanas: ajuda a criar a identidade dos falantes e funciona como um meio de controle social.

Procedimentos de formulação A seguir, vamos analisar dois trechos de interação em uma aula, uma situação não espontânea, mas adequada à análise de alguns procedimentos da fala. Neles, o professor (locutor) dirige-se ao aluno (interlocutor) para dar uma explicação. Você pode notar que, na transcrição, foram usados três recursos para reproduzir a fala: as reticências, que marcam as pausas; o destaque em maiúsculas para uma sílaba do verbo, indicando o alongamento e a intensificação da pronúncia; e o itálico, que indica o discurso do falante. Esses sinais seguem as normas de transcrição estabelecidas pelo grupo de Estudo da Norma Linguística Urbana Culta de São Paulo (Nurc/SP). Segmento 1 ... e isto Deve ter dado uma sensação de poder... uma sensação... de domínio sobre a natureza... que no final das contas toda a evolução humana... não deixa de ser exatamente a evolução do domínio que o homem tem sobre a natureza... a possibilidade que ele tem de manipular as coisas em seu próprio proveito... certo? ... KOCH, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 1992. p. 102. (Repensando a Língua Portuguesa).

Segmento 2 ... eu acho que o meu conceito de morar bem é diferente um pouco das pessoas que eu conheço... a maioria das pessoas pensa que morar bem é morar num apartamento de luxo... é morar no centro da cidade... perto de tudo... nos locais onde tem assim mais facilidade até de comunicação ou de solidão como vocês quiserem... meu conceito de morar bem é diferente... eu acho que morar bem é morar fora da cidade... é morar onde você respire... onde você acorde de manhã como eu acordo e veja passarinho à vontade no quintal... é ter um quintal... é ter árvores... é morar perto do mar eu não entendo se morar longe do mar. KOCH, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 1992. p. 103. (Repensando a Língua Portuguesa). FAÇA NO CADERNO

1. No segmento 1, o professor explica a noção de evolução humana. Que recursos discursivos ele utiliza para garantir que o aluno compreenda suas informações? 2. Releia o segmento 2. Que recursos conversacionais você observa? 3. No segmento 2, com que finalidade o locutor organizou suas explicações de forma mais elaborada? 278

Capítulo 27 – Interação na fala

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No próximo segmento, você analisará uma interação extraída de uma entrevista feita para uma pesquisa sobre a língua falada. Os dois falantes não se conhecem, e o entrevistador sugere que o assunto seja cinema. Observe o processo de compreensão entre entrevistado, identificado por “Inf”, e entrevistador identificado por “Doc.”. Nas transcrições mantêm-se todos os truncamentos e repetições das palavras; não se usam letras maiúsculas, sinais de exclamação, ponto final, vírgula, ponto e vírgula nem dois-pontos. O sinal :: significa prolongamento da vogal ou da consoante anterior. /…/ Doc. uhn uhn… Dona I. como é que a senhora descreveria um cinema… com todos os elementos assim que compõem o cinema?... Inf como você diz descrever um ::um um filme? Doc. não o cinema em si o local o cinema... Inf eu não entendi a pergunta Doc. o interior do cinema do que se compõe o cinema? na hora que a senhora en::tra antes de entrar:: o que que aconte::ce eu gostaria que a senhora me dissesse como se a senhora fosse entrar no cinema tá?... então a senhora o que a senhora faz primeiro? a senhora chega no cinema a senhora vai para onde? faz o quê? Inf certo eu acho que o ooo antigamente os cinemas... o ambiente era era outro... a gente ia ao cinema tinha em São Paulo uns cinemas ótimos eu acho que aGOra o:: pessoa::l sei lá eles vão de qualquer jeito ao cinema do jeito que estão::... eles emendam saem do trabalho vão ao cinema saem da escola vão ao cinema quer dizer éh éh a gente encontra no cinema no ah ah ah para assistir um filme vários eh grupos de pessoas de de de de várias camadas você encontra estuDANte você encontra pessoa da iDAde eu acho que eh o cinema perdeu muito por causa da televisão... agora se você pergunta o que eu acho quando eu entro no cinema eu entro... MARCUSCHI, Luiz Antônio. Atividades de compreensão na interação verbal. In: PRETI, Dino (Org.). Estudos de língua falada: variações e confrontos. São Paulo: Humanitas/FFLCH-USP, 1998. p. 22. FAÇA NO CADERNO

4. A conversa mostra que a entrevistada não pôde colaborar com o entrevistador porque não compreendeu sua pergunta. a) Por que não houve compreensão? b) Que marcas linguísticas sinalizam esses motivos? 5. As marcas de hesitação podem ser repetições ou pausas e revelam que o falante quer ganhar tempo para planejar seu texto. Identifique as marcas de hesitação na última fala da entrevistada e explique os efeitos de sentido que elas provocam. 6. Diante da pergunta incompreendida, o entrevistador, não podendo apagá-la, fez uma reformulação. Como ele obteve pistas para perceber que era preciso refazer a pergunta inicial? 7. Feita a correção, como a entrevistada deu continuidade à conversa? Ela correspondeu à expectativa do entrevistador? Os segmentos analisados focalizaram os procedimentos discursivos da fala de um locutor. Quando flagramos o diálogo entre dois locutores simultaneamente, notamos que a interação face a face constrói relações não só informativas, mas também de cooperação ou de impasse. Há textos escritos que recuperam essa conversa miúda, do dia a dia, procurando manter a linguagem viva dos encontros pessoais. O escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo registra um desses momentos em uma crônica dialogada, que traz alguns procedimentos da linguagem falada para a escrita, usando marcas de pontuação como dois-pontos e travessão. A volta (II) Batem na porta com insistência. A velha senhora tem dificuldade em atravessar o salão da velha casa para chegar até a porta. Quando abre a porta, dá com um homem grande, quase o dobro do seu tamanho, que sorri para ela com expectativa. — Titia... — diz o homem. — O quê? — Sou eu, titia. — Você! — exclama a velha. Mas em seguida se dá conta que não sabe quem é. — Quem é você? — Não está me reconhecendo, titia? A velha examina o homem com cuidado. Depois exclama: — Não pode ser! Língua e linguagem

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Vai recuando, espantada. Repetindo: — Não pode ser. Não pode ser! Depois volta e diz: — Não pode ser mesmo. Ele já morreu. Quem é você? — Pense, titia. Você gostava muito de mim. — Sim? — Eu era a coisa mais importante da sua vida. A senhora cuidava de mim, me alimentava, me dava banho... — Sim, estou me lembrando... — Um dia eu desapareci e nunca mais voltei. Mas estou voltando agora. — Você voltou. Oh, Rex! — Rex? — Meu cachorrinho, Rex. Meu peludinho. Minha paixão. Você voltou! — Não, titia. Eu não sou o Rex. — Então quem é? — Titia, prepare-se. Eu sou... o Valter! — Não! — Sim! — NÃO! — Sim, titia. Sim! — EU NÃO CONHEÇO NINGUÉM CHAMADO VALTER! — Seu sobrinho favorito. A senhora me criou. Tente se lembrar, titia! — Eu nunca criei sobrinho nenhum. Principalmente chamado Valter. — Tem certeza? — Absoluta. Sempre morei aqui, sozinha. — Aqui não é o número 201? — Não. É o número 2001. — Puxa. Me enganei. Olhe, desculpe, viu? — Tudo bem. A velha fecha a porta. Daí a instantes, ouve outra batida. Ela abre. É o Valter. — Escute... — diz ele. — O quê? — A senhora nunca teve um sobrinho chamado Valter, mesmo? — Nunca. — E... não gostaria de ter? — Bem... — É que o 201 fica tão longe. E já que a senhora mora sozinha... — Está bem — concorda a velha. — Entre. Mas vai logo avisando: — Banho, não. A VOLTA (II) — In: Comédias da Vida Privada, de Luis Fernando Verissimo, L&PM, Porto Alegre; © by Luis Fernando Verissimo.

Língua falada × língua escrita Note como uma conversa registrada em língua escrita é diferente da que segue as normas de transcrição da língua falada. Compare a crônica de Luis Fernando Verissimo com o último segmento oral apresentado e explique as semelhanças e as diferenças entre eles. Leia o que declara Ângela C. Souza Rodrigues sobre a transcrição do texto oral para o escrito. A leitura do texto escrito faz emergir uma oralidade que não é aquela típica da língua falada, mas confeccionada a partir do escrito, caracterizada por um jogo entonacional e de pausas, de uma musicalidade toda própria, característicos da língua escrita. [...] O fato de escritor e leitor não estabelecerem uma interação face a face leva o escritor a não se preocupar por prender a atenção do leitor no momento em que escreve: o escritor tem mais tempo para pensar sobre o que escreve e como escreve, do mesmo modo que o leitor vai dispor de mais tempo para entender o escrito. [...] Desse processo de elaboração resulta a língua com suas especificidades. [...] O texto falado apresenta marcas linguísticas evidentes de seu planejamento passo a passo, enquanto texto construído pelos locutores envolvidos na conversação, de que resultam frases mais fragmentadas do ponto de vista sintático. O texto escrito não deixa marcas do processo de planejamento: ele se apresenta como um todo coeso, acabado, com frases mais densas e sintaticamente mais complexas. RODRIGUES, Ângela C. Souza. Língua falada e língua escrita. In: PRETI, Dino (Org.). Análise de textos orais. São Paulo: Humanitas/FFLCH-USP, 1993. p. 26-31.

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Marcadores conversacionais

Frank & Ernest, Bob Thaves © 2003 Thaves / Dist. by Universal Uclick

De modo geral, as tiras dos quadrinhos flagram certos momentos da fala para criar efeitos de humor ou ironia. Os interlocutores usam várias estratégias para conduzir a conversação, de maneira que estão sempre atentos à manutenção do diálogo para a produção de sentido e à sua finalização. Leia a tira abaixo.

THAVES, Bob. Frank & Ernest. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 9 maio 2004. p. D10.

1. Na cena da tira há um pressuposto: o que estava acontecendo imediatamente antes dela? 2. Diante do que vê, o amigo quer iniciar uma conversa. Que marca conversacional ele usa para isso? 3. Por que a resposta do cientista causa graça?

FAÇA NO CADERNO

Nas interações orais, cada vez que uma pessoa toma a palavra, há um turno. Na sequência do diálogo, pode-se marcar o início, a continuação ou o fim do turno com pequenas expressões que se tornam sinais explícitos da atenção do interlocutor. A conversa telefônica, por exemplo, é um momento em que, se alguém fica quieto, o outro pergunta: “Está me ouvindo?”, para se certificar do interesse do interlocutor pelo assunto.

4. Em suas conversas pessoais, que expressões você usa para sinalizar o início e o fim dos segmentos da fala? Outras marcas auxiliam no prosseguimento da conversa, mantendo o interesse dos interlocutores pelo assunto. Esse recurso é facilmente observado nas entrevistas feitas na televisão, no rádio, na internet e mesmo nas registradas na imprensa escrita. A seguir, há uma entrevista concedida pelo ator Antonio Fagundes à revista Net TV. Na época, ele encenava a peça Sete minutos, no Teatro Cultura Artística, na cidade de São Paulo, de onde falou sobre os problemas de quem produz teatro e cinema no Brasil. Note que a entrevista é um gênero que não corresponde a uma fala espontânea, já que o entrevistador (nesse caso Denerval Ferraro Junior) tem o encadeamento das perguntas antecipadamente planejado; a passagem da língua oral para a escrita implica a edição do texto. Mesmo assim, ela conserva características da língua falada. Vamos seguir os passos da entrevista, observando os recursos utilizados pelo ator para facilitar o encadeamento entre pergunta e resposta e o posicionamento dele sobre temas como teatro, televisão e cinema. O último dinossauro Antonio Fagundes escreve uma peça sobre a paixão pelo palco e avisa: a classe produtora de teatro está em extinção no país. […] A tradição de teatro no Brasil é bastante forte para sobreviver às crises? Acho que não. Acho que nós estamos acabando. Eu costumo brincar que nós somos os últimos dinossauros. O cometa já caiu na Terra, está espalhando suas ondas de calor. E infelizmente os últimos produtores culturais são aqueles mais achincalhados. Ou seja, aqueles que já têm nome, sucesso, se deram bem em outros veículos, não precisam se sujeitar a tudo isso e ainda estão mantendo essa chama acesa. O dia em que essa turminha de dinossauros encher o saco, aí nós vamos ficar fazendo jogo de amarelinha na rua. O fim do teatro significaria o quê? Em termos práticos é assim: se nós fecharmos todos os teatros de São Paulo, o público levará de seis meses a um ano para perceber. [...]

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Isadora Brant/Folhapress

Mesmo tendo feito mais de 40 peças, você é mais reconhecido pela TV. É normal. Você faz um capítulo de TV, ele é assistido por 90 milhões de pessoas. Eu nunca fui assistido por 90 milhões em 36 anos de teatro. O que há de bom na TV? Sempre fiz TV e ouvi falar muito mal da televisão. E isso me incomodava um pouco, porque eu achava o trabalho da gente tão elaborado, legal. Toda vez que eu viajo pro exterior sou aclamado como um grande ator, e isso através de trabalhos aqui considerados mesquinhos. Então eu sempre achei muito estranho que a gente fosse tão achincalhado. Até que eu fiquei de cama um período, sofri uma intervenção cirúrgica, e fiquei vendo TV. Aí comecei a entender por que as pessoas falavam mal. Eles naturalmente não estavam falando mal da telenovela, que junto com o telejornalismo são os maiores produtos que a gente tem. São produtos de exportação. Agora o resto é realmente um problema. É uma mesmice, uma baixaria. Qual a sua relação com o cinema? Antonio Fagundes, em 2013. É muito boa, mas eu tô vendo a onda de calor chegar. Acho que a gente tem problemas, pode vir a perder espaço rapidamente e cinema é muito mais grave do que teatro. Porque teatro você ainda consegue ter meia dúzia de pessoas ao redor de uma fogueirinha no chão e contar uma história pra alguém. O cinema já é uma coisa industrial, você precisa de grana. Atualmente nós estamos na mão do governo mesmo. O dia que o governo acabar com a lei do incentivo, a lei do audiovisual, mais uma vez vai parar o cinema como parou na era Collor, quando fechou a Embrafilme. Nós ficamos cinco anos sem produzir um filme. O que é um desperdício, porque quando recomeçou a produção cresceu. É, mas eu não falo de produção. Produção é fácil: dá dinheiro, produz. Eu falo de relação com a plateia. Essa relação não anda boa hoje? O que você acha? Que 20 mil espectadores é uma relação boa com a plateia? [...] Será que as pessoas não deixam de ir ao cinema por falta de dinheiro? Talvez seja essa uma das razões. Nós temos 50 milhões de miseráveis absolutos, o cara não vai gastar para ir ao cinema. Mas mesmo assim, se você for cortando, vamos ter uma classe média de umas 50 milhões de pessoas. Pelo menos essas pessoas poderiam ir, como nos EUA a classe média vai, quatro vezes por ano ao cinema. Aqui vamos uma vez a cada dois anos! [...] FERRARO JUNIOR, Denerval. O último dinossauro. Net TV, São Paulo: Globo, out. 2002. p. 21-22.

FAÇA NO CADERNO

1. Para responder à primeira pergunta, Fagundes marca o início da fala e sinaliza sua posição em relação ao teatro brasileiro com uma explicação. Que marcas são usadas para esses procedimentos? 2. O entrevistador faz uma afirmação em seu terceiro turno. A resposta do ator traz uma marca de concordância com o interlocutor. Qual é? 3. Já no sexto turno, o ator responde: “É, mas eu não falo de produção”. a) Que procedimentos conversacionais estão marcados por essa resposta? b) Em que outro turno aparece o mesmo procedimento? 4. Como o ator se posiciona na oitava resposta? 5. Discuta com seus colegas: se o teatro acabasse, você levaria seis meses para perceber? Vimos interações de fala e apontamos nelas alguns procedimentos conversacionais e seus marcadores. No entanto, estamos longe de esgotar a diversidade de atos de fala, pois a cada nova situação de interação eles ganham características próprias.

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Sistematizando a prática linguística

Organização da conversação A conversação é uma atividade básica da linguagem à qual estamos acostumados e que nos dá acesso a outras formas de interação social. Anote algumas de suas características: • interação entre pelo menos dois falantes; • envolvimento em situação específica; • sequência coordenada de turnos. Existem elementos típicos da conversação que caracterizam a maneira de dizer e que interferem na compreensão dos falantes sobre o assunto, dando coesão e coerência ao texto falado. • entonação de voz; • gestos e expressão facial; • procedimentos de reformulação; • marcadores conversacionais. Durante a sequência dos turnos conversacionais, usamos os seguintes procedimentos de reformulação: • correções são reformulações da fala que têm o objetivo de consertar o equívoco que se percebe no momento do diálogo;

As regras do jogo O estadunidense Paul Grice (1913-1988) explica que a cooperação é uma regra básica da interação conversacional. Observe se você segue as quatro máximas que o filósofo da linguagem estabeleceu para a conversação. — Máxima da quantidade: não diga nem mais nem menos do que o necessário. — Máxima da qualidade: só diga coisas para as quais tem evidência adequada; não diga o que sabe não ser verdadeiro. — Máxima da relação (relevância): diga somente o que é relevante. — Máxima do modo: seja claro e conciso; evite a obscuridade, a prolixidade etc. Ingedore Koch, linguista da Universidade de Campinas (Unicamp-SP), alerta: Essa teoria não dá conta de toda a “malícia” e manipulação tão presentes na interação verbal humana: estamos constantemente “jogando”, “blefando”, simulando, ironizando, fazendo alusões e criando subentendidos, fenômenos nem sempre explicáveis com base nas “máximas” griceanas. KOCH, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 1992. p. 28. (Repensando a Língua Portuguesa).

• repetições são reconstruções com a função de convencer o interlocutor sobre o que foi dito ou de garantir ao falante o tempo para o planejamento de seu discurso; • paráfrases são reformulações de uma fala anterior que explicam ou substituem seu sentido com a função de dar continuidade ao diálogo; • acréscimos são informações inseridas pelo falante com o objetivo de complementar o que foi dito ou dar ênfase ao assunto.

fim de turno

“percebeu?”, “entendeu?”, “viu?”, “né?”, “que acha?”, “e você?”, “certo?”, “sacou?”, “é isso aí”, “e então?”, “diga lá”, “é ou não é?”etc.

Fernando Gonsales

início de turno

“aí”, “então”, “depois”, “aí então”, “depois então”, “agora”, “veja”, “olhe”, “bom”, “eu acho”, “mas eu”, “não, não”, “epa”, “peraí”, “como assim?”, “nada disso”, “quanto a isso”, “certo” etc.

Fernando Gonsales

Nos textos falados, além desses recursos, são usados muitos marcadores conversacionais. Entre os mais frequentes, há os que sinalizam os turnos:

Língua e linguagem

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Os sinais de posicionamento do interlocutor são: de concordância

“tá”, “está bem”, “taí”, “ótimo”, “ahã”, “mhm”, “claro”, “pois não”, “de fato”, “isso”, “sem dúvida”, “evidente” etc.

de discordância

“não”, “isso não”, “assim também não”, “duvido”, “discordo”, “essa não”, “nada disso”, “nunca”, “peraí”, “calma” etc.

de dúvida

“será?”, “não diga!”, “é?”, “ué”, “como?”, “o quê?”, “mesmo?” etc.

de hesitação

“ah”, “eh”, “uhn” etc.

São sinais de sequenciação: início da digressão

“abrindo parênteses”, “desculpe interromper”, “posso interromper?”, “antes que eu me esqueça”, “por exemplo”etc.

fim da digressão

“voltando ao assunto”, “fechando os parênteses”, “como eu estava dizendo” etc.

sequência da narrativa

“aí”, “então”, “depois”, “daí”etc.

Usando os mecanismos linguísticos-discursivos De ouvido atento à conversa do outro A atividade a seguir tem como objetivo levar você a se conscientizar acerca dos mecanismos da conversação e a aperfeiçoar sua habilidade discursiva. Junte-se a alguns colegas e organizem um grupo de trabalho para fazer o seguinte: a) Escolham um programa de entrevista, de rádio ou de televisão, em que apareça apenas um entrevistado de cada vez, quer para debater ideias, quer para traçar seu perfil. b) Gravem cinco minutos do programa, a começar pela chamada inicial. c) Analisem as interações conversacionais, considerando a mídia escolhida: programa, canal e horário.

Elaboração da entrevista a) Quem é o entrevistado? Qual é seu papel social? b) Quem é o entrevistador? Qual é seu papel social? c) Como ele encaminhou as perguntas? d) Qual era seu objetivo? e) Como o entrevistado encaminhou as respostas? f) Qual era seu objetivo?

Organização dos turnos a) Quem dirigiu os turnos? b) Identifiquem alguns procedimentos de reformulação e marcadores conversacionais que sinalizaram o encaminhamento do assunto e o tom da conversa.

Avaliação da interação face a face a) Que aspectos sociais relevantes vocês observaram na discussão? b) O entrevistado e o entrevistador levaram em consideração o público (ouvinte ou telespectador)? Como?

Apresentação em sala de aula a) Organizem o material analisado para compor uma exposição de, no máximo, dez minutos. Comecem apresentando a gravação. b) Mostrem a importância da entrevista realizada com base nas interações conversacionais. c) Selecionem dois ou três segmentos que provem suas afirmações. d) Providenciem a aparelhagem técnica necessária para a apresentação da atividade.

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Em cena

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Organizem, com o(a) professor(a), esta atividade, em que você e seus colegas poderão se observar em situação de interação verbal. 1. Escolham um ou dois assuntos que despertem diferentes posicionamentos (a favor e contrários) para colocar em debate. Exemplos: a) a questão dos transgênicos; b) as cotas nas universidades; c) os exames vestibulares;

Edson Grandisoli/Pulsar

Pedro Amatuzzi/Sigmapress/Folhapress

d) Brasil como sede das Olimpíadas.

Estudantes em frente a um dos prédios da Unicamp, em Campinas (SP). Fotografia de 2014.

Vista aérea da Vila Olímpica, ainda em construção, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Fotografia de fev. 2016.

Candidatos realizam prova da Fuvest, vestibular para a Universidade de São Paulo (USP), em São Paulo (SP). Fotografia de jan. 2013.

Vanderlei Almeida/AFP

Nelson Antoine/Fotoarena

Plantação de milho transgênico em Araçoiaba da Serra, (SP). Fotografia de jan. 2016.

2. Organizem pequenos debates de cinco minutos entre dois ou três alunos sobre os temas escolhidos. Durante esse tempo, os outros alunos farão anotações sobre: a) os turnos: quem os dirigiu, se foram respeitados; b) os marcadores conversacionais: de organização dos turnos, de sequenciação, de reformulação, de posicionamento; c) o tom e os gestos dos interlocutores; d) os aspectos sociais observáveis. 3. Ao final de cada debate, exponham as anotações feitas. Língua e linguagem

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Lista de siglas de universidades e exames nacionais Enem/MEC — Exame Nacional do Ensino Médio ESPM-SP — Escola Superior de Propaganda e Marketing Fatec-SP — Faculdade de Tecnologia FFB-CE — Faculdade Farias Brito FMU/Fiam/Faam-SP — Fac. Metropolitanas Unidas/Fac. Integr. Alc. Machado/Fac. de Artes Alc. Machado Fuvest-SP — Fundação Universitária para o Vestibular ITA-SP — Instituto de Tecnologia da Aeronáutica Mackenzie-SP — Universidade Presbiteriana Mackenzie PUC-RJ — Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro PUC-RS — Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul PUC-SP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo UEL-PR — Universidade Estadual de Londrina UFF-RJ — Universidade Federal Fluminense UFMG — Universidade Federal de Minas Gerais UFPR — Universidade Federal do Paraná UFU-MG — Universidade Federal de Uberlândia Uncisal-AL — Universidade de Ciências da Saúde de Alagoas Unesp-SP — Universidade Estadual Paulista Unicamp-SP — Universidade Estadual de Campinas URCA-CE — Universidade Regional do Cariri

Sugestões de leitura A DEMANDA do Santo Graal: o manuscrito de Heidelberg. São Paulo: Hedra, 2015. ALCÂNTARA MACHADO, Antônio de. Brás, Bexiga e Barra Funda. São Paulo: Nova Alexandria, 2012. ANTUNES, Arnaldo. N.D.A. São Paulo: Iluminuras, 2010. BÉDIER, Joseph. O romance de Tristão e Isolda. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Zero. São Paulo: Global, 2001. CALVINO, Italo. O cavaleiro inexistente. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. CAMÕES. Os Lusíadas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2011. CAMPOS, Augusto de. Viva a vaia: poesia (1949-1979). São Paulo: Ateliê Editorial, 2014. CAMPOS, Haroldo. Galáxias. São Paulo: Editora 34, 2011. CASTRO, Sílvio. A carta de Pero Vaz de Caminha. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2003. CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012. 2 v.

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CESAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. CHACAL. Murundum. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. CONTOS africanos dos países de língua portuguesa. São Paulo: Ática, 2009. (Para gostar de ler). DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Contos plausíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. ECO, Humberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. GONSALES, Fernando. Níquel Náusea: em boca fechada não entra mosca. São Paulo: Devir, 2008 GUIMARÃES ROSA, João. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. HOMERO, Odisseia. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011. LAJOLO, Marisa (Org.). Nós e os outros: histórias de diferentes culturas. São Paulo: Ática, 2003. LIMA, Stélio Torquato. Shakespeare nas rimas do cordel. São Paulo: Folia das Letras, 2012. MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2007. MIRANDA, Ana. Desmundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. MORAES, Vinicius de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. PATATIVA DO ASSARÉ. Inspiração nordestina. São Paulo: Hedra, 2003. PEPETELA. Mayombe. São Paulo: Leya, 2013. PESSOA, Fernando. Mensagem. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014. PONTE PRETA, Stanislaw. Febeapá. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. PRADO, Adélia. Solte os cachorros. Rio de Janeiro: Record, 2006. QUEIROZ, Rachel de. Melhores crônicas de Rachel de Queiroz. São Paulo: Global, 2009. RODRIGUES, Nelson. Vestido de noiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013. SCLIAR, Moacyr. Melhores crônicas de Moacyr Scliar. São Paulo: Global, 2009. SUASSUNA, Ariano. Auto da compadecida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014. TEZZA, Cristovão. O filho eterno. Rio de Janeiro: Record, 2007. TRINDADE, Solano. Poemas antológicos. São Paulo: Nova Alexandria, 2011. VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. WATTERSON, Bill. O mundo é mágico: as aventuras de Calvin e Haroldo por Bill Watterson. São Paulo: Conrad, 2010.

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Esferas 1  
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