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Marco Pellegrini Adriana Machado Dias Keila Grinberg

Ensino Médio Componente curricular

História Ensino Médio Componente História curricular

Manual do Professor

História

História

Manual do Professor

ISBN 978-85-8392-086-1

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Ensino Médio Componente curricular História

Marco César Pellegrini

Keila Grinberg

Licenciado em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR).

Licenciada em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ).

Atuou como professor de História em escolas da rede particular de ensino.

Doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ).

Editor de livros na área de ensino de História.

Professora do Departamento de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO-RJ).

Autor de livros didáticos de História para o Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Manual do Professor

História

Adriana Machado Dias Bacharel e licenciada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Especialista em História Social e Ensino de História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Atuou como professora de História em escolas da rede particular de ensino. Autora de livros didáticos de História para o Ensino Fundamental e Ensino Médio.

1a. edição

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São Paulo

2016

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Copyright © Marco César Pellegrini, Adriana Machado Dias, Keila Grinberg, 2016

Diretor editorial Gerente editorial Editora Editores assistentes Assessoria Gerente de produção editorial Coordenador de produção editorial Coordenadora de arte Coordenadora de preparação e revisão Supervisora de preparação e revisão Revisão Coordenador de iconografia e licenciamento de textos Supervisora de licenciamento de textos Iconografia Coordenadora de ilustrações e cartografia Diretor de operações e produção gráfica

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Pellegrini, Marco César #Contato história, 3o ano / Marco César Pellegrini, Adriana Machado Dias, Keila Grinberg. – 1. ed. – São Paulo : Quinteto Editorial, 2016. – (Coleção #contato história) “Componente curricular: história” ISBN 978-85-8392-085-4 (aluno) ISBN 978-85-8392-086-1 (professor) 1. História (Ensino médio) I. Dias, Adriana Machado. II. Grinberg, Keila. III. Título. IV. Série.

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CDD-907

Índices para catálogo sistemático: 1. História : Ensino médio

Reprodução proibida: Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Todos os direitos reservados à QUINTETO EDITORIAL LTDA. Rua Rui Barbosa, 156 – Bela Vista – São Paulo-SP CEP 01326-010 – Tel. (11) 3598-6000 Caixa Postal 65149 – CEP da Caixa Postal 01390-970

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Em respeito ao meio ambiente, as folhas deste livro foram produzidas com fibras obtidas de árvores de florestas plantadas, com origem certificada.

Impresso no Parque Gráfico da Editora FTD S.A. CNPJ 61.186.490/0016-33 Avenida Antonio Bardella, 300 Guarulhos-SP – CEP 07220-020 Tel. (11) 3545-8600 e Fax (11) 2412-5375

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Para conhecer seu livro O imperialismo

Por que estudar história?

Estudar História é importante porque ela nos permite conhecer as transformações O desenvolvimento industrial século XIX levou as grandes que ocorreram nas sociedades humanas ao longo do tempo.doEsse conhecimento nos potências mundiais a empreender a colonização de vários territórios na África, na Ásia e na Oceania. Além do ajuda a compreender as raízes históricas da realidade atual e desenvolve em nós poder econômico, essas potências contavam com grande força militar, pois estavam uma visão mais crítica da sociedade em que vivemos. equipadas com diversas inovações tecnológicas na área bélica. Desse modo, o imperia-

Os estudos históricos tambémlismo são submeteu importantes para compreendermos que a reali-do século XIX para o XX. muitos povos e moldou o mundo na passagem dade atual não é resultado de um processo “natural”. A sociedade em que vivemos foi O imperialismo naque África construída por meio da ação dos homens e das mulheres viveram antes de nós. Assim, podemos perceber que a realidade, no passado, era diferente dano realidade No início do século XIX, a presença europeia continentede africano se limitava a alguhoje. Do mesmo modo, o mundo mas de amanhã poderá ser diferente do mundo de porque hoje. os povos africanos não regiões litorâneas. Isso acontecia, principalmente, o avanço dos estrangeiros no interior de seu território. Dessa forma, estudar Históriapermitiam é importante porque ela nos dá a certeza de que Nessa época, o tráfico de escravos era uma importante fonte de renda para muitos o futuro está em nossas mãos! Estados africanos. A suspensão desse comércio, ocorrido em meados do século XIX por

Conheça a organização de seu livro dos ingleses, enfraqueceu os Estados africanos mais poderosos, diminuindo pressão Abertura para aproveitá-lo ao máximo. assim sua capacidade de resistência frente à invasão europeia. Protetorado: região sob “proteção” de estrangeiros. No regime de protetorado, os chefes locais mantinham formalmente o poder, mas eram obrigados a aceitar as decisões de unidade é iniciada com seu “protetor”.

Além disso, no final do século XIX, os europeus se viram em condições de superioridade militar suficientes para expandir seus domínios ao interior do continente africano. A princípio, os europeus se limitaram a consolidar áreas de influência, por meio de alianças e tratados com chefes africanos, visando à formação de protetorados. Apenas em um segundo momento, eles se lançaram à conquista militar, principalmente quando seus duas interesses foram contrariados por chefes africanos.

Edward Linley Sambourne. Gravura. 1892. Coleção particular. Foto: Granger, NYC/Glow Images

Cada páginas de abertura. Nelas, você encontrará uma imagem relacionada ao tema da unidade e um texto introdutório, que poderão ser explorados por meio das questões apresentadas.

O american way of life

Refletindo

• No Brasil, o

consumismo é incentivado na atualidade? Justifique sua resposta.

A Conferência de Berlim Convocada pelo chanceler alemão Otto von Bismarck, a Conferência de Berlim ocorreu entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, na Alemanha. Dessa reunião, participaram representantes de 13 países europeus, além dos Estados Unidos e do Império Turco-Otomano. O objetivo da conferência era garantir a liberdade de comércio e navegação pelos rios Níger e Congo, além de instituir regras e critérios para a anexação dos territórios africanos pelas potências imperialistas.

A posse de um na território seriade reconhecida O desenvolvimento econômico e tecnológico ocorrido nos EUA, década 1920, mediante o estabelecimento de um protetoraocasionou várias transformações na sociedade estadunidense. Em um clima de otido ou de algum tipo de autoridade sobre ele. mismo, novas maneiras de pensar, de agir, de se vestir e de se expressar difundiam-se por todo o país. Nessa época, o american way of life, isto é, o estilo de vida estadunidense, tornou-se o modo de vida predominante nas classes média e alta dos EUA. O colonizador britânico Cecil Rhodes AAopropaganda e o consumismo representado em charge publicada longo das unidades você

na Punch Magazine, que em 1892. encontrará a seção Refletindo, que Os meios de comunicação veiculavam intensa propaganda estimulava o consupropõe questões que favorecem mismo e, assim, uma série de novos produtos invadiu os lares estadunidenses, sobrereflexões e troca de ideias sobre tudo os da classe média crescente. Automóveis e eletrodomésticos, como fogões, assuntos relevantes da realidade atual.

geladeiras, aspiradores de pó e máquinas de lavar roupas, além de facilitarem o dia a dia das pessoas, conferiam status a quem os possuía. Explorando a imagem

A grande procura por esses bens não estava ligada ao conforto que eles Cecil Rhodes foi representado • Comosomente proporcionavam, mas também à crença de que o consumo aju-o na charge?dessas Em suamercadorias opinião, o que Atualmente, as imagens estão presentes em modo comodoeleconsumismo foi representado indica daria todos no desenvolvimento do país. Desse modo, a ideologia se conos lugares e, por isso, é importante sobre relação entre e o solidou tornou-se uma Explorando das principais características do aamerican way aof Inglaterra life. saberelê-las. Na seção a imagem,

Explorando

continente africano, no século XIX?

H. Armstrong Roberts/Corbis/Latinstock

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são propostas questões que o ajudarão a analisar as informações que são veiculadas por meio de imagens.


Marc Ferrez. 1918. Coleção Gilberto Ferrez, Instituto Moreira Salles, São Paulo (SP)

O cinema A eletricidade possibilitou às pessoas uma nova opção de lazer: o cinema. A primeira exibição de um filme no Brasil aconteceu em 1896, no Rio de Janeiro, e, desde então, várias salas de cinema foram instaladas nas maiores cidades brasileiras. Ir ao cinema toda semana, trajando a melhor roupa, tornou-se então um costume nas grandes cidades. O sucesso do cinema foi tão grande que, em pouco tempo, o vestuário, os gestos e as falas dos atores e atrizes passaram a ser incorporados pelos espectadores brasileiros em seu dia a dia. As mulheres, por exemplo, passaram a usar roupas mais ousadas, maquiagem e cabelos curtos, e a trabalhar fora, adquirindo maior autonomia e liberdade. Os homens, por sua vez, procuravam andar elegantes, barbeados, com cabelos curtos e cuidadosamente penteados. Além disso, o cinema estimulou o desejo de consumir produtos — como roupas, eletrodomésticos e objetos usados pelos atores.

A corrida espacial Durante a Guerra Fria, os EUA e a URSS também investiram no desenvolvimento de tecnologia espacial. Esses investimentos eram estratégicos, pois os foguetes utilizados nos lançamentos de espaçonaves e satélites podiam ser utilizados para lançar mísseis nucleares a longa distância. Além disso, os satélites colocados na órbita terrestre poderiam servir para a monitoração e o controle do que acontecia nas mais diversas regiões do planeta.

Fotografia de Marc Ferrez que retrata a entrada do cinema Pathé, no Rio de Janeiro (RJ), por volta de 1918.

Voo do 14-bis no campo de Bagatelle, em Paris, na França, em 1906.

Os estadunidenses, por sua vez, foram os primeiros a alcançar a Lua, com Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin a bordo da astronave Apolo 11, em 1969. A partir de então, os dois países passaram a adotar uma política de cooperação, compartilhando algumas informações das suas pesquisas espaciais.

O socialismo na União Soviética Enquanto os países capitalistas atravessavam um período de dificuldades decorrentes da Grande Depressão, a União Soviética procurava atingir as metas estabelecidas pelos Planos Quinquenais. Esses planos, lançados pelo governo soviético na década de 1920, estipularam metas de desenvolvimento em setores considerados prioritários, como a produção de energia elétrica, máquinas pesadas e armamentos, além da mecanização da agricultura.

Unidade 7

À esquerda, Yuri Gagarin, primeiro homem que completou uma volta em torno da Terra no espaço. “A Terra é azul”, disse o cosmonauta, durante sua viagem a bordo de uma cápsula espacial. Fotografia de 1961. À direita, a cosmonauta Valentina Tereshkova, em fotografia de 1963. JSC PAO Web Team/NASA

No final de sua vida, quando já era portador de uma doença degenerativa em estágio avançado, ele presenciou a utilização de aviões como arma durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Profundamente abalado, Santos Dumont suicidou-se nesse mesmo ano.

RIA Novosti/Sputnik/SPL/Latinstock

Após ter realizado várias experiências e contornado a Torre Eiffel a bordo de um balão dirigível, Santos Dumont realizou, no dia 23 de outubro de 1906, um voo histórico: a bordo do aeroplano que havia projetado e batizado de 14-bis, ele voou por 60 metros a uma altura média de 2,5 metros no campo de Bagatelle. Esse foi o primeiro voo autônomo de uma aeronave, que inaugurou uma nova fase da aviação mundial.

Autor desconhecido. 1906. Coleção particular

Os soviéticos saíram na frente, dando início à corrida espacial ao lançar um satélite artificial na órbita terrestre, o Sputnik I, em 1957. Eles também foram os primeiros a enviar um homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 1961, e uma mulher, Valentina Tereshkova, em 1963.

Santos Dumont

Em meio à euforia causada pelas inovações científicas e tecnológicas, que alteraram o cotidiano das pessoas em todo o mundo a partir do final do século XIX, destacaram-se as contribuições do brasileiro Alberto Santos Dumont. Nascido em 1873, na cidade de Palmira (atualmente chamada Santos Dumont), em Minas Gerais, ele se mudou para Paris, na França, onde se tornou conhecido e respeitado pela população por causa de sua contribuição no desenvolvimento da aviação.

TASS Archive/ITAR-TASS/Diomedia

O sujeito na história

O primeiro desses planos foi criado em 1928, sendo sucedido por outros na década seguinte. A agricultura foi coletivizada com a junção das pequenas unidades agrícolas, formando grandes áreas agricultáveis, buscando diminuir os custos da mecanização. Nesse processo, a burguesia rural foi eliminada, criando-se um proletariado agrícola a serviço do Estado. Divisa: moeda utilizada em transações comerciais internacionais.

Fotografia de 1969 que retrata, da esquerda para a direita, os astronautas estadunidenses Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin.

Passado e presente

Os Planos Quinquenais aceleraram a industrialização da União Soviética à custa dos esforços dos trabalhadores, que deviam cumprir metas rigorosas de produção. Em 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética já era uma potência industrial e militar.

A exploração do espaço na atualidade

Com o fim da Guerra Fria, em 1989, EUA e URSS deixaram de disputar a supremacia na exploração espacial. Atualmente, além de EUA e Rússia (antigo membro da URSS), países dos cinco continentes possuem tecnologia espacial. Veja na tabela.

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Enquanto isso

América

Países África do Sul. Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina, México, Chile.

Ásia

China, Coreia do Sul, Índia, Israel, Japão, Rússia, Indonésia, Turquia.

Europa

França, Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Noruega, Áustria, Suíça, Finlândia, Portugal, Ucrânia, Grécia, Irlanda, Luxemburgo, Suécia, Dinamarca, República Tcheca.

Oceania

Austrália.

Capa do catálogo da exposição de artes plásticas da Semana de Arte Moderna, de 1922, com desenho de Di Cavalcanti.

Fonte: The Space Economy at a Glance – 2011. p. 53. Disponível em: <www.oecd-ilibrary.org/ economics/the-space-economy-at-a-glance-2011_9789264111790-en>. Acesso em: 2 maio 2016.

As transformações mundiais durante a Guerra Fria

Na seção Passado e presente você vai encontrar exemplos de acontecimentos que mostram que é no passado que podem ser encontradas as origens de nossa realidade atual.

153 Iconographia/Reminiscências

A seção O sujeito na história apresenta pessoas que participaram ativamente do processo histórico, exercendo influência nas sociedades em que viviam.

África

Di Cavalcanti. 1922. Xilografia. Instituto Histórico e Geográfico, Rio de Janeiro (RJ)

Países que mais investiram em tecnologia espacial (2009) Continentes

Com o controle total da produção e distribuição de alimentos, o governo pôde direcionar produtos para a exportação, gerando divisas que foram utilizadas na compra de máquinas e na contratação de técnicos ocidentais. Uma das consequências da estatização da economia foi a criação de uma imensa burocracia estatal, responsável pela administração dos empreendimentos industriais e agrícolas do país.

... no Brasil

No início da década de 1920, diante de tantos acontecimentos políticos e mudanças comportamentais que ocorriam em todo o mundo, alguns jovens artistas brasileiros, influenciados pelas vanguardas artísticas europeias, buscavam novas maneiras de expressar seus valores e preocupações. Chamados de modernistas, eles queriam criar uma arte genuinamente brasileira, tendo como temas principais as paisagens, o folclore, os costumes e as festas populares. Os modernistas promoveram uma grande manifestação em fevereiro de 1922, quando realizaram a Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo. Entre os vários participantes do evento, estavam os escritores Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Graça Aranha e Manuel Bandeira, os pintores Di Cavalcanti e Anita Malfatti, o escultor Vítor Brecheret, o arquiteto Antônio Moya e o músico Heitor Villa-Lobos. Foram três dias de apresentações e exposições que chocaram os espectadores mais conservadores. Espalhando suas obras por todo o teatro, nas escadarias, no palco e nos saguões, os modernistas apresentavam sua nova proposta, que causou diversas reações no público, desde aplausos até vaias e xingamentos. Fotografia que retrata os organizadores da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em 1922.

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Por meio da seção Enquanto isso, você conhecerá sobre a simultaneidade de processos históricos, muitos dos quais estão inter-relacionados.

Explorando o tema

Em algumas unidades, você encontrará a seção Explorando o tema. Nela, você encontrará assuntos relacionados aos conteúdos da unidade, mas com um tratamento diferenciado.


David J. & Janice L. Frent Collection/Corbis/Lati

Atividades Cartaz estadunidense produzido em 1919.

a ) Com o auxílio de um dicionário bilíngue (português-inglês), tr taz e explique com qual objetivo ele foi produzido.

b ) Explique a relação entre a participação das mulheres na P emancipação feminina.

Momento da redação

12. Acostumamo-nos a pensar que os casos extremos de discrim

nações sem uma tradição democrática ou que, em determinad estiveram sob o domínio de regimes totalitários e antidemocráti

a ) A partir da leitura do texto, explique como os sindicatos atuavam na defesa dos trabalha histórica tem nos mostrado que nem sempre isso é verdade. Os dores no final do século XIX e início do paísXX. nominalmente democrático, mas que mantiveram um regim

década dequal 1960.era Além nos utilizado EUA desenvolveu-se a Ku Klu b ) Quando as negociações sindicais falhavam, o disso, recurso pelos trabalha nacionalista de extrema direita, comandada por pro dores visando ter suas reivindicaçõesnização atendidas? Dê um exemplo.

europeus. A KKK promove o ódio contra grupos sociais m

c ) Quais as maneiras encontradas pelas de classes patronais contra-atacarem greve? esquerda, por vezespara utilizando-se de violência. uma Atualmente, a de seguidores várias regiões dos EUA. Leia o texto da pági Que papel os fura-greves desempenhavam nessaemcontraofensiva?

Oficina de história

Experiência e vivência

No Momento da redação, você poderá aprimorar sua capacidade de ler, Provavelmente, grande parte das pessoas já presenciou ou foi vítima de manifestações de pre interpretar e redigir. Racismo e etnocentrismo

conceito, racismo ou intolerância. E, por vezes, essas situações passam despercebidas. Você já refletiu sobre o que significam esses comportamentos discriminatórios?

O preconceito pode ser entendido como uma atitude, um comportamento ou uma ideia mani festada por uma pessoa mediante um julgamento antecipado sobre algo que ela ainda não co nhece bem. Esse tipo de opinião, por ser precipitado e discriminatório, normalmente não está baseado em critérios justos. Existem vários tipos de preconceitos, como o de orientação sexual o linguístico, o estético, o social e o étnico. O racismo, por sua vez, é uma discriminação contra Na Oficina de história: determinadas etnias.

Em Expandindo o conteúdo, alguns temas da unidade serão aprofundados e novas relações entre os conteúdos podem ser estabelecidas.

experiência e vivência, você realizará trabalhos em grupo, interagindo com seus colegas e com afoi comunidade emse que vive.a grupos humanos arbitraria Durante muito tempo, o termo “raça” utilizado para referir O preconceito racial

A subseção Sistematizando o conhecimento apresenta questões de revisão, que o ajudarão a verificar se você compreendeu os conteúdos da unidade.

mente classificados de acordo com certas características físicas, como cor de pele, tipo de ca belo, formato dos olhos etc. Porém, estudos científicos mostraram que, embora existam diferen ças genéticas, essas diferenças não são relevantes a ponto de os seres humanos serem classifi cados em “raças”.

O racismo está ligado ao preconceito e pode resultar na segregação de pessoas, baseada em seus critérios de “raça”, descendênciaAmpliando ou cor da pele. Atitudes preconceituosas e racistas geralmente conhecimentos resultam em intolerância, repressão e violência.

Todas as unidades são encerradas com a seção Ampliando seus conhecimentos. Nela, você vai encontrar as subseções Arte e história, que apresenta artistas e obras de arte criadas em diferentes épocas e lugares, e A história no cinema, que apresenta uma sugestão de filme cujo tema está relacionado ao conteúdo da unidade. Por fim, você encontrará algumas indicações de livros e de sites que complementam e aprofundam os estudos realizados.

A visão etnocêntrica

Essas ideias e comportamentos discriminatórios têm origem no etnocentrismo, que é a tendên cia de um determinado grupo em valorizar a sua própria cultura como ideal, desvalorizando a cultura de outros grupos.

O pensamento etnocêntrico tende a ser uma barreira para uma convivência harmoniosa e de mocrática entre as pessoas. Suas características são facilmente observadas nas sociedades to talitárias, que não toleram a diferença e privilegiam sua visão de mundo em detrimento de outras

O respeito às diferenças

Para um convívio democrático, que privilegie a diversidade e evite o etnocentrismo, deve-se buscar a compreensão das culturas e respeitá-las como elas são. Para isso, não se pode julgar o outro de acordo com os próprios valores, pois os costumes e interesses são variados e pessoais.

O fato de uma cultura ser diferente não significa que ela seja superior ou inferior. Essa perspec tiva pode ampliar as possibilidades de uma convivência pacífica, democrática e respeitosa, sem que seja preciso que alguém abra mão de sua identidade. É claro que a diferença pode gera divergências entre as pessoas, porém mesmo essa situação pode ser construtiva. Leia o texto escrito pelo cientista francês Albert Jacquard e, depois, observe a pintura da página ao lado, in titulada a We the Peoples...

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A industrialização e a expansão imperialista Os avanços tecnológicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 O capitalismo financeiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14

As transformações no cotidiano . . . . . . . . . . . . . 15 Os impactos no dia a dia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15

O cotidiano urbano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16

A burguesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 Os operários . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17

Propostas de reorganização social. . . . . . . 18 O socialismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18 O anarquismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 O positivismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

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O imperialismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20

A Primeira República

Aspectos econômicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 A questão militar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 A questão do escravismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 Conflitos entre Estado e Igreja . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 Os militares e a Proclamação da República . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36

O poder das oligarquias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 A política dos governadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 Coronelismo e clientelismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 O voto de cabresto. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38

Os imigrantes no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39

Os imigrantes nos cafezais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 As atividades urbanas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40 Os trabalhadores imigrantes se organizam. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40

A modernização das cidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41

O cinema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42 Os meios de transporte . . . . . . . . . . 43 Outras novidades no dia a dia urbano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 A prática de esportes . . . . . . . . . . . . . . 43

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Margo Harrison/ Shutterstock.com

O imperialismo na África . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 O imperialismo na Ásia e na Oceania . . . . . . . . . . . . 21 As oposições ao imperialismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 O imperialismo japonês . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 O imperialismo estadunidense . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 Possessões imperialistas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

As consequências do imperialismo . . . . . . . 24 As consequências na África . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24

As ideologias imperialistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

O darwinismo social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

Atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26 Ampliando seus conhecimentos. . . . . . . . . . . . . . . . . 30

..................................................................................................................

O final do período Monárquico . . . . . . . . . . . . . . . . 34

Disputas imperialistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60 O sentimento nacionalista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61

A Primeira Guerra Mundial. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 62 A guerra é declarada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 As frentes de batalha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 A Guerra de Trincheiras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64 O fim da neutralidade dos EUA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65 A participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65 A participação das mulheres na guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66 A Grande Guerra chega ao fim. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67 Os tratados de paz e a diplomacia. . . . . . . . . . . . . . . . . 67 As consequências da guerra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68

32

O projeto de “regeneração”. . . . . . . . . . . . . . . . . 44

Problemas de infraestrutura . . . . . . . . . . . . . . . . . 44 O Bota-abaixo . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 A expulsão da população pobre . . . . . . . . . . . . . 46 A sanitarização e a Revolta da Vacina . . . . . . . . 46

Os movimentos populares . . . . 47

A Guerra de Canudos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47 A Guerra do Contestado . . . . . . . . . . . . . . 48

A Revolta da Chibata . . . . . . . . . . . . . . 49 Explorando o tema . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50 Os afro-brasileiros depois da abolição

Atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52 Ampliando seus conhecimentos . . . . . . . . . . . . . . . 56

A Grande Guerra e a Revolução Russa Antecedentes da guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60

10

.com

A Segunda Revolução Industrial . . . . . . . . . . . . . . 12

............................

Dja65/Shut ters tock

unidade

Sumário

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58

O Império Russo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69

A modernização da Rússia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69 Revoltas populares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 A queda do czar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70

A Revolução Bolchevique de 1917 . . . . . . . . . . . . 71

O governo bolchevique. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71 O Exército Vermelho e a guerra civil . . . . . . . . . . . . . 72 A Nova Política Econômica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72 A ditadura de Stalin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73

Explorando o tema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 74 A arte de vanguarda

Atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76 Ampliando seus conhecimentos. . . . . . . . . . . . . . . . 80


.........................................................................................................

A Europa no pós-guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84 EUA, nova potência mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85 As linhas de montagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85 O american way of life . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86 A propaganda e o consumismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86 A cultura de massa e os mass media . . . . . . . . . . . . 87 Mudanças no comportamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87

Os EUA e a intolerância no pós-guerra. . . . 88

O racismo da Ku Klux Klan . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88 A proibição das bebidas alcoólicas . . . . . . . . . . . . . . . 88

A Grande Depressão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 A quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 Reflexos da crise . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89

unidade

A Era Vargas

Os fascistas tomam o poder . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92

O nazismo na Alemanha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93

Hitler e o nazismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93 Os nazistas no poder . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93

Explorando o tema. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 94 Estudos sobre a mente humana

Atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 96 Ampliando seus conhecimentos. . . . . . . . . . . . . . 100

102

O Estado Novo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110

O fim da Primeira República . . . . . . . . . . . . . . 106

A era do rádio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112

A Era Vargas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108

A campanha constitucionalista . . . . . . . . . . . . . . 108 O movimento operário no Brasil. . . . . . . . . . . . . 109 O fortalecimento do comunismo no Brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 O Levante Comunista de 1935. . . . . . . . . . . . . . . . . . 109

A Segunda Guerra Mundial

unidade

O New Deal. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91

O fascismo na Itália . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92

A sociedade brasileira na década de 1920 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104

O tenentismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106 A República Oligárquica em crise . . . . . . . . . . . 107 A Aliança Liberal toma o poder . . . . . . . . . . . . . . . 107

A situação econômica . . . . . . . . . . . . . . 110 Repressão política . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111 Controle dos sindicatos. . . . . . . 111 Os artistas do rádio . . . . . . . . . . . . . . . 112 O rádio na construção da identidade nacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113 O rádio sob fiscalização . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113 O rádio para exaltar o trabalhador . . . . . . . 113

Atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 114 Ampliando seus conhecimentos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118

............................................................................................

120

A caminho da Segunda Grande Guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122

O avanço dos Aliados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134

O prenúncio da guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124

O Brasil na Segunda Guerra Mundial. . 136

O revanchismo alemão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 O governo nazista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 O arianismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123

O expansionismo alemão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124 A Conferência de Munique. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 O início da guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125

A ofensiva do Eixo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 128 A guerra-relâmpago. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 A resistência soviética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130 A ofensiva japonesa e a entrada dos EUA na guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131

O mundo entre os anos 1942 e 1944. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132

unidade

O socialismo na União Soviética. . . . . . . . . . . . . 90 A intervenção estatal nos EUA. . . . . . . . . . . . . . . . . 91

..................................................................................................................

A população urbana. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104 A população rural . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105

82

A invasão de Berlim . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134 A rendição do Japão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135 As consequências da bomba atômica . . . . . . . . 135 As negociações com os EUA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 136 Os brasileiros na guerra. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 As batalhas na frente italiana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 Os problemas internos do Brasil. . . . . . . . . . . . . . . . . . 137

Explorando o tema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 138 O Holocausto

Atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 140 Ampliando seus conhecimentos. . . . . . . . . . . . . . 144

As transformações mundiais durante a Guerra Fria 146 .......

A configuração da Guerra Fria . . . . . . . . . . . . . . . 148 A Doutrina Truman e o Plano Marshall. . . . . . . 148 As alianças militares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149 A divisão da Alemanha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 149

EUA x URSS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 150

Teoria capitalista. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 150 Teoria socialista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 150 A propaganda ideológica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151

Os serviços de inteligência. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151

Os Países Não Alinhados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152 A Conferência de Bandung . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152

A corrida espacial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153 A corrida armamentista. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154 As armas nucleares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154 Conflitos na atualidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 155 A energia nuclear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 155

John Springer Collection/ Corbis/Latinstock

unidade

O período Entreguerras


A criação do Estado de Israel . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156 A partilha da Palestina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157 Os conflitos árabe-israelenses . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 158

A Revolução Chinesa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 160

A China socialista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 160 As propostas da revolução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 160

A Índia independente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161

O processo de independência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161

A Revolução Cubana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 162

unidade

Waring Abbott/Michael Ochs Archives/Getty Images

unidade

O movimento revolucionário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 162 Cuba socialista. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 162

Estadunidenses x vietcongues . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163

A contracultura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164

Os hippies . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164

Os movimentos negros estadunidenses . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165 Explorando o tema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 166 Música e contracultura

Atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 168 Ampliando seus conhecimentos. . . . . . . . . . . . . . . 172

Movimentos de independência na África O período pré-independências . . . . . . . . . . . . . . . 176

.......................................

174

Independência dos países sob domínio português . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 179

Soldados africanos na Segunda Guerra Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 176 Ideologias anti-imperialistas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 176 A influência da Guerra Fria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 176

As novas nações africanas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 180

Os processos de independência na África . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177

A arte nos países africanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 182

Independência dos países sob domínio inglês. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 178 Independência dos países sob domínio belga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 178 Independência dos países sob domínio francês. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 178 Independência dos países sob domínio espanhol . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 179

As características regionais da África independente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 180

O cinema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 182 A pintura e a escultura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 182 A literatura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 183 A música. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 183

Atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 184 Ampliando seus conhecimentos. . . . . . . . . . . . . . 188

A democracia no Brasil do pós-guerra O início do período democrático . . . . . . . . . . . . 192 A abertura do regime . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 192 A deposição de Vargas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193 O governo do general Dutra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193 Vargas retorna ao poder . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194 Progressistas x conservadores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195 A morte de Vargas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 195

O governo JK . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196

O Plano de Metas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 196 A construção de Brasília . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 197

A cultura brasileira dos anos 1950 . . . . . . . 198 O cinema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198 A televisão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 198 A música. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 199

unidade

A Guerra do Vietnã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 163

Militares no poder . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 213

O regime militar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 214 A propaganda ideológica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 214 Os órgãos de repressão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 215 A censura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 215

Arte e resistência durante a ditadura . . . . . 216 O teatro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 216 O cinema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 216 A Música Popular Brasileira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 217 O Tropicalismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 217 O rock nacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 217 A imprensa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 218 Os movimentos estudantis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 218

As resistências armadas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 219

190

O esporte brasileiro na década de 1950 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 Brasil, campeão da Copa do Mundo de futebol . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200

A política de Jânio Quadros. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201 As medidas administrativas de Jânio. . . . . . . . . . 201

João Goulart no poder . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 202 As tensões sociais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 202 A volta do presidencialismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 203 As Reformas de Base . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 203 O fim do governo Jango . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 203

Atividades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204 Ampliando seus conhecimentos. . . . . . . . . . . . . 208

O Brasil durante a ditadura militar O golpe de 1964 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 212

...............................................

............................................................

210

Outras ditaduras na América Latina . 220 A ditadura na Argentina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 220 O golpe no Chile . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 220 A repressão no Uruguai . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221 Militares no governo do Peru . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221 O regime militar na Bolívia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221

O “milagre econômico” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222 O desenvolvimento econômico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 222 O colapso da economia brasileira . . . . . . . . . . . . . . . 222

Abertura “lenta, gradual e segura” . . . . 223 Avanços e retrocessos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 223 As consequências do caso Herzog. . . . . . . . . . . . . . 224

O fim do regime militar. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225 O retorno dos exilados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 225


Atividades. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 228 Ampliando seus conhecimentos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 232

unidade

As greves no ABC paulista.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 226 As Diretas já.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 226 A “Emenda das Diretas”. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 227 Eleições indiretas para presidente. . . . . . . . . . . . . . 227

O mundo contemporâneo

.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A Guerra Fria chega ao fim.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 236 Gorbachev: perestroika e glasnost.. . . . . . . . . . . . . 236 Boris Yeltsin e a criação da CEI.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237 A crise dos países socialistas.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237

O mapeamento do genoma humano e as células-tronco.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 246 A transgenia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 246 A Bioética. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 247

O mundo multipolar. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 238

A questão energética. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248

A ascensão da China. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 238 O neoliberalismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 239 A globalização.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 239

Conflitos no mundo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 240 Conflitos na Caxemira. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 240 Tensões entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 240 Lutas pela independência do Tibete. . . . . . . . . . . 240 Grupos paramilitares na Colômbia.. . . . . . . . . . . . . . 241 Guerras nos Bálcãs.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241 Disputas no Cáucaso.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241

Oriente Médio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 242

Conflitos entre israelenses e palestinos. . . 243 O Acordo de Paz de Oslo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243 O Muro de Israel. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 243

A Terceira Revolução Industrial.. . . . . . . . . . . 244

Meios de transporte e de comunicação. . . . . 244 As tecnologias de interação. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 245 A exclusão digital. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 245 O aumento do consumismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 245

A Biotecnologia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 246

unidade

234

As principais fontes de energia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248 As formas alternativas de energia. . . . . . . . . . . . . . 248

Alterações climáticas.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 249

O aquecimento global.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 249 O que pode ser feito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 249

Problemas do mundo contemporâneo.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 250

Desigualdade e desemprego. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 250 Racismo e xenofobia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 250 A Aids. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 250 O crime organizado. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 251 A dinâmica das atividades ilícitas. . . . . . . . . . . . . . . . . 251 A intolerância religiosa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 252 O Estado Islâmico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 252 A questão dos refugiados.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253 O caso dos refugiados sírios. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 253

Explorando o tema. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 254 Consumismo e sociedade

Atividades. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 256 Ampliando seus conhecimentos. . . . . . . . . . . . . . 260

O Brasil contemporâneo

.................................................................................................

A transição para a democracia. . . . . . . . . . . . . 264

O contexto econômico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 264 Tentativas de estabilização econômica. . . . . 265 Protestos contra o governo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 265

A Constituição de 1988. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 266 A participação popular. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 266 Características da Constituição.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 267

O Brasil na era da globalização. . . . . . . . . . . . . 268

O governo Collor.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 268 A abertura neoliberal.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 268 Itamar Franco e FHC. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 269 O governo Lula. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 269 O governo de Dilma Rousseff.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 270

As relações de trabalho no Brasil. . . . . . . . . 271

A exploração do trabalho infantil. . . . . . . . . . . . . . . . . 271 A terceirização do trabalho.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 272 O cooperativismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 272

262

Moradias precárias. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 274 Congestionamentos e poluição. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 274 A violência urbana e a criminalidade. . . . . . . . . . 274

A desigualdade social. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 275

A concentração de renda. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 275 A educação pública.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 275 A saúde pública. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 275

Os direitos dos povos indígenas. . . . . . . . . . . 276 Legislação Escolar Indígena. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 277 Indígenas no Ensino Superior.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 277

Comportamento e diversidade. . . . . . . . . . . . . . 278

O impacto das novas tecnologias. . . . . . . . . . . . . . . . 278 O consumismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 278 A religiosidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 279 A sexualidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 279

Consumo e meio ambiente.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 280

O espaço rural brasileiro.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 273

Explorando o tema. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 282

Problemas urbanos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 274

Atividades. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 284 Ampliando seus conhecimentos. . . . . . . . . . . . . . 286

O desmatamento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 273 A desigualdade social. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 273

A violência contra as mulheres

Referências bibliográficas.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 288 Lista de siglas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 288


unidade

10

A industrialização e a expansão imperialista


Nesta unidade, vamos estudar a Segunda Revolução Industrial, que criou as condições tecnológicas e econômicas que favoreceram a consolidação do sistema capitalista. Estudaremos também o imperialismo, processo histórico caracterizado pela intensa exploração econômica de povos da África, Ásia, Oceania e América Latina. Essa exploração, realizada pelos países tecnologicamente mais avançados e militarmente mais poderosos, resultou em atraso e estagnação econômica em várias das nações exploradas. Veja as respostas

das questões nas Orientações para o professor.

Com base nos elementos que aparecem nesta fotografia, defina o que é uma linha de montagem.

B

Nesta fotografia aparecem os trabalhadores e os fiscais da fábrica. Identifique essas pessoas.

C

O desenvolvimento tecnológico alcançado pelas potências europeias entre meados dos séculos XIX e X X está diretamente relacionado à expansão do imperialismo na África e na Ásia. Explique por quê.

Bettmann/Corbis/Latinstock

Fotografia que mostra a primeira linha de montagem da fábrica de automóveis Ford, em Michigan, nos Estados Unidos, no início do século XX.

A

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A Segunda Revolução Industrial O século XX foi um período de profundas transformações e de grandes avanços tecnológicos. Muitas dessas transformações, no entanto, começaram a ocorrer ainda na segunda metade do século XIX, quando teve início a Segunda Revolução Industrial. Nessa fase, o crescimento industrial foi impulsionado por inovações tecnológicas que ampliaram o leque de fontes de energia e de materiais, aumentando a capacidade produtiva das indústrias.

Em “Le Petit Journal”. Paris, 17/04/1904. Coleção particular. Foto: World History Archive/Alamy Stock Photo/Latinstock

Gravura publicada no Le Petit Journal, em 1904, representando uma central telefônica em Paris, na França.

Locomotiva movida a diesel, nos Estados Unidos, em 1934.

A partir de 1870, os motores a vapor foram gradativamente substituídos pelos motores de combustão interna e também pelos motores elétricos. O ferro — principal material da primeira fase da industrialização —, aos poucos foi substituído pelo aço, um material mais leve, maleável e resistente. Avanços nas áreas de siderurgia, química, fabricação de aparelhos elétricos e de novos produtos farmacêuticos caracterizaram esse período que estabeleceu as bases do mundo tecnológico contemporâneo. Leia o texto a seguir.

Os historiadores referem-se à segunda metade do século XIX como Segunda Revolução Industrial, devido ao grande aumento na velocidade e extensão da transformação social e econômica. Essa mudança no mundo foi definida pelos avanços tecnológicos e por novas formas de negócios e organização do trabalho. [...] Mudanças tecnológicas revolucionárias fomentaram o crescimento da indústria. Na metade do século, em toda a Europa espalhou-se a mesma mania de construir ferrovias que acometera a Inglaterra na década de 1840. Essa expansão épica das ferrovias reproduziu-se também na frota mercante. Em 1850, os barcos movidos a vapor constituíam apenas 5% da tonelagem mundial; em 1893, esse número crescera para a metade de toda tonelagem. Na virada do século, dois engenheiros alemães, Gottlieb Daimler e Karl Benz, associaram-se para aperfeiçoar o motor de combustão interna. Então o estadunidense Henry Ford, empregando técnicas de linha de montagem para produção em massa, lançou seu Modelo T para “o homem comum”, dando início à era do automóvel. A invenção do motor a diesel por outro alemão, em 1897, permitiu a utilização de um combustível mais barato e eficiente. Os motores a diesel logo substituíram os motores a vapor nos gigantescos navios de carga, vasos de guerra e embarcações de luxo. No setor das comunicações, o advento do telégrafo, do telefone e, mais tarde, do rádio também revolucionou a vida das pessoas. PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. Tradução Waltensir Dutra; Silvana Vieira. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 444-5.

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Materiais mais resistentes, máquinas mais produtivas e novas fontes de energia foram condições essenciais para o avanço industrial. Veja algumas informações sobre essas importantes inovações tecnológicas que propiciaram o desenvolvimento da industrialização.

Os motores de combustão interna Até meados do século XIX, predominavam os motores a vapor, movidos principalmente pela queima do carvão. Eles funcionavam por combustão externa, isto é, o combustível era queimado fora da máquina, o que limitava sua potência. A partir de 1870, no entanto, foram criados os motores de combustão interna, aumentando a potência das máquinas. Pouco tempo depois, o alemão Nikolaus August Otto construiu um motor de quatro tempos, que possibilitava o uso de derivados de petróleo como combustível.

A ciência e a tecnologia Enquanto na Primeira Revolução Industrial os aperfeiçoamentos das máquinas foram conduzidos por pequenos industriais, artesãos e operários, na Segunda Revolução Industrial eram necessários esforços sistemáticos e complexos para aumentar a produção em qualidade e quantidade, o que exigia o emprego de equipes de pesquisadores especializados. Para formar esses profissionais, os Estados e as empresas particulares financiaram a criação de instituições de pesquisa científica, que cediam bolsas de estudo para os cientistas que se destacassem no desenvolvimento de novas tecnologias.

A ampliação do uso do aço O aço é uma liga metálica que tem o ferro como principal componente. Durante a Primeira Revolução Industrial (cerca de 1780-1850), as técnicas disponíveis não permitiam a produção do aço em grandes quantidades e a preços acessíveis. Isso só foi possível com a invenção do conversor Bessemer, em 1856, criado pelo engenheiro inglês Henry Bessemer. Na década de 1890, o aço já havia substituído o ferro na indústria de construção naval inglesa.

Frank Robbins/Library of Congress Prints and Photographs Division Washington, D.C. (EUA)

Os geradores de corrente elétrica No decorrer do século XIX, vários pesquisadores estudaram as aplicações da eletricidade. A partir de 1870, com a invenção de geradores de corrente elétrica, foi possível o uso comercial dessa forma de energia, que tinha a vantagem de ser silenciosa e limpa, podendo ser transmitida a longas distâncias e de forma ininterrupta. Durante a Segunda Revolução Industrial, ocorreram tantos avanços tecnológicos que alguns estudiosos também a chamaram de Revolução Científico-Tecnológica. Esses avanços propiciaram um aumento significativo da produção industrial, implicando em mudanças na organização do trabalho e nas políticas adotadas pelas potências industriais. Leia o texto a seguir.

Uma [...] característica marcante da Revolução Científico-Tecnológica é o impulso extraordinário que ela deu para a consolidação da unidade global do mercado capitalista [...]. Nesse sentido, se a [Primeira Revolução Industrial] dera origem a unidades produtivas relativamente modestas, as fábricas, pelo elementar de suas máquinas e o limitado número de trabalhadores, esse novo salto produtivo gerou gigantescos complexos industriais, com equipamentos sofisticados e de grande escala, como as turbinas elétricas ou as usinas siderúrgicas, envolvendo em cada unidade até dezenas de milhares de trabalhadores. Essa prodigiosa escalada da produção obviamente tanto implicava uma corrida voraz pela disputa das matérias-primas disponíveis em todas as partes do mundo, como também exigia a abertura de um amplo universo de novos mercados de consumo para absorver seus excedentes maciços. Foi essa ampliação na escala das demandas e das exportações que gerou o fenômeno conhecido como neocolonialismo ou imperialismo, que levou as potências industriais, na segunda metade do século XIX, a disputar e dividir entre si as áreas ainda não colonizadas do globo ou a restabelecer vínculos de dependência estreitos com áreas de passado colonial. SEVCENKO, Nicolau. O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso. In: SEVCENKO, Nicolau (Org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 3. p. 11-2.

Fotografia que retrata a extração de petróleo no final do século XIX, na Pensilvânia, EUA.

A industrialização e a expansão imperialista

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Unidade 1

Os avanços tecnológicos


O capitalismo financeiro A grande concentração de capital, ocorrida durante a Segunda Revolução Industrial, resultou na passagem do capitalismo industrial, também chamado concorrencial, para o capitalismo financeiro. Durante a Primeira Revolução Industrial, a principal característica do capitalismo era a livre concorrência, principalmente entre os capitalistas ingleses. As indústrias eram de pequeno ou médio porte, geralmente sob direção familiar, e seu crescimento decorria do reinvestimento dos próprios lucros, caracterizando capitalismo industrial. No entanto, o crescimento acelerado da economia capitalista no final do século XIX favoreceu a formação de grandes empresas, que dominavam a produção, o preço e a distribuição das mercadorias, acarretando a falência das empresas menores. Além do acúmulo dos lucros, a capitalização das grandes indústrias foi garantida pelos investimentos de grandes banqueiros. Desenvolveu-se, assim, o capitalismo financeiro, fruto da unificação do capital industrial com o capital bancário, em que empresas gigantescas monopolizavam a produção em determinados ramos industriais.

O que caracteriza o capitalismo financeiro? As principais características do capitalismo financeiro são o monopólio, a concentração de capital e a eliminação da livre concorrência. Essas práticas ocorrem sob três formas principais:

••Truste: fusão de várias empresas em apenas uma, que assume o comando com o objetivo de concentrar e dominar todas as fases de produção, distribuição e consumo;

Subsidiária: empresa controlada por outra que detém grande parte de suas ações.

••Holding: ocorre quando empresas de médio porte tornam-se subsidiárias de uma

grande empresa. O controle das ações por parte da grande empresa ajusta o mercado a seu favor, já que ela acaba estabelecendo o padrão dos preços para eliminar a concorrência;

••Cartel: acordo entre empresas que atuam em um mesmo ramo da economia, com

Ramin Talaie/Corbis/Latinstock

o objetivo de evitar a concorrência e de estabelecer convenções quanto à fixação de preços e nichos do mercado. As ações Além dos empréstimos de bancos, os gran­ des empresários podem obter recursos dividindo o capital de suas empresas em ações e vendendo-as para investidores. Uma ação corresponde a uma pequena parte do patrimônio de uma empresa. Assim, quem compra, por exemplo, 10% das ações de uma empresa, torna-se dono de 10% dessa empresa e passa a receber 10% dos lucros que ela obtém. Ao fracionar o capital de sua empresa em ações e vendê-las aos investidores, os empresários obtêm o dinheiro no momento da venda das ações e evitam o pagamento de altos juros dos empréstimos bancários.

As bolsas de valores são mercados privados em que investidores compram e vendem ações de grandes empresas. Na fotografia ao lado, tirada em 2005, vemos a movimentação dos corretores na Bolsa de Valores de Nova Iorque, EUA, fundada em 1792.

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Em “Le Petit Journal”. Paris, 25/11/1906. Coleção particular

As tecnologias desenvolvidas a partir da Segunda Revolução Industrial provocaram muitas transformações no cotidiano das pessoas que viviam nos países industrializados. Nessa época, foram inventados novos meios de comunicação, como o telégrafo e o telefone, que permitiram às pessoas se comunicar com maior rapidez. As descobertas científicas e industriais do final do século XIX e início do século XX também revolucionaram os meios de transporte, possibilitando a produção e a modernização do automóvel, do trem, do bonde elétrico, da bicicleta, do avião e do transatlântico. Dessa forma, os meios de transporte se tornaram mais acessíveis e possibilitaram às pessoas se locomover com muito mais facilidade e rapidez.

Unidade 1

As transformações no cotidiano

Os impactos no dia a dia Além dos novos meios de comunicação e de transporte, outras novidades tecnológicas surgiram nessa época. Essas inovações modificaram bastante o dia a dia das pessoas. A eletricidade, por exemplo, permitiu o uso de lâmpadas elétricas, possibilitando às pessoas aproveitar mais o período noturno para trabalhar, estudar ou mesmo passear pelas ruas da cidade. Além disso, a energia elétrica propiciou o desenvolvimento de novos eletrodomésticos, como a geladeira e o ferro elétrico de passar roupas.

O brasileiro Santos Dumont, pioneiro na aviação, foi homenageado no Le Petit Journal, de 1906.

Nessa época, também foram fabricados os primeiros fogões a gás, os vasos sanitários com descarga, as máquinas fotográficas e cinematográficas, os aparelhos de raio X, entre outras inovações. No relato a seguir, o francês Raymond Loewy (1893-1986) conta sobre as transformações que vivenciou na época da Segunda Revolução Industrial. Leia-o.

Estando com apenas catorze anos, em Paris, onde nasci, eu já tinha visto o surgimento do telefone, do aeroplano, do automóvel, da eletricidade doméstica, do fonógrafo, do cinema, do rádio, dos elevadores, dos refrigeradores, do raio X, da radioatividade e, ademais, da moderna anestesia.

John Atkinson Grimshaw. 1881. Óleo sobre tela. 61,2 x 91,6 cm. Galeria de Arte de Leeds (Inglaterra)

LOEWY, Raymond. In: SEVCENKO, Nicolau (Org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 3. p. 10.

As exposições universais Ao longo da segunda metade do século XIX, grupos de investidores promoveram exposições para divulgar as novas descobertas tecnológicas, científicas e artísticas. Em Paris, por exemplo, foram organizadas cinco exposições entre os anos de 1855 e 1900. Na exposição de 1889, calcula-se que 28 milhões de pessoas passaram pelo recinto da feira.

Com o advento das lâmpadas elétricas, as pessoas puderam aproveitar melhor o período noturno. Pintura de John Atkinson Grimshaw, feita em 1881, representando uma rua iluminada na cidade de Leeds, na Inglaterra.

A industrialização e a expansão imperialista

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O cotidiano urbano Os avanços tecnológicos alcançados no final do século XIX possibilitaram melhorias nas condições de vida. Os benefícios proporcionados por esses avanços, porém, não estavam ao alcance de todos. Um exemplo disso é a diferença entre o modo de vida dos burgueses e o dos trabalhadores operários.

A burguesia Muitas famílias burguesas, que geralmente eram as proprietárias de grandes indústrias ou de instituições bancárias, moravam em amplas casas rodeadas por bosques e jardins, longe do centro das cidades. Na Europa, essas pessoas eram as principais consumidoras dos novos produtos industrializados de luxo, como os utensílios domésticos e os automóveis. Além disso, começaram a ser instalados em suas casas os serviços de esgoto, de água encanada e de eletricidade. Wilhelm Gause. 1904. Óleo e aquarela sobre tela. 62 x 88 cm. Museu Karlsplatz, Viena (Áustria)

Por não precisarem trabalhar para sobreviver, os filhos e as mulheres dos grandes capitalistas tinham bastante tempo para o lazer. Eles praticavam esportes e frequentavam teatros e óperas. As mulheres de mais idade promoviam reuniões particulares em casa, restrita às pessoas das elites. Os mais jovens, por sua vez, participavam de saraus e bailes. Nas tardes de domingo, as famílias costumavam passear no campo e praticar esportes. Essas ocasiões eram importantes para que os jovens das famílias ricas se conhecessem, pois geralmente os casamentos eram feitos entre pessoas que tinham a mesma condição social. Pintura de Wilhelm Gause, feita em 1904, representando um baile burguês, em Viena, na Áustria.

Sarau: reunião noturna promovida para conversar, ouvir música e ler poesias.

O texto a seguir trata dessa nova elite burguesa, contrapondo-a à crescente massa operária.

Como o crescimento das unidades industriais supõe a aplicação de capitais, vemos também surgir uma categoria relativamente nova, a dos chefes de indústria, a dos empresários, que dispõem de capitais ou fazem empréstimos. Mas, enquanto entre o patrão do Antigo Regime e seus artífices a separação não era intransponível, entre os novos patrões e os novos operários, o abismo que os separa cada vez se aprofunda mais. A disparidade dos gêneros de vida, a desigualdade dos recursos acabam por criar como que duas humanidades diferentes: de um lado, o capitalismo industrial, financeiro, bancário, favorecido por dispositivos de lei [...] e, do outro lado, uma massa assalariada que não tem por si nada mais além de sua capacidade de trabalho físico, que não tem nem reservas nem recursos, mão de obra não qualificada, vinda em linha direta do campo à busca de trabalho, obrigada a se acomodar ao primeiro serviço que encontra [...]. RÉMOND, René. O século XIX (1815-1914). Tradução Frederico Pessoa de Barros. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 2004. p. 104.

As universidades e os jovens burgueses No final do século XIX, o ensino universitário foi difundido entre os membros da elite burguesa. Nessa época, as descobertas científicas e tecnológicas, além do crescente interesse pelas culturas humanas, despertaram nos jovens de famílias ricas o desejo de aprofundar seus conhecimentos sobre o mundo. Como eles geralmente só se casavam após o fim do curso universitário, passaram a morar mais tempo com os pais. Para os poucos jovens pobres que conseguiam estudar, a universidade era uma possibilidade de ascensão social, pois aqueles que possuíam um diploma tinham uma remuneração melhor.

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Unidade 1

Os operários As melhorias urbanas proporcionadas pelos avanços tecnológicos não beneficiaram a todos. A maioria dos bairros operários não tinha rede de esgoto nem abastecimento de água e gás. Como ficavam localizados próximos às fábricas, a poluição industrial provocava sérios problemas de saúde nos moradores desses bairros.

[...] Na medida em que as novas cidades industriais envelheciam, multiplicavam-se os problemas de abastecimento de água, saneamento, superpopulação [...]. Nas vilas, a água de um poço próximo do cemitério podia ser impura, mas, pelo menos, seus habitantes não tinham de se levantar à noite para entrar numa fila diante da única bica que servia a várias ruas, nem tinham de pagar por ela. Os habitantes das cidades industriais tinham frequentemente de suportar o mau cheiro do lixo industrial e dos esgotos a céu aberto, enquanto seus filhos brincavam entre detritos e montes de esterco.

Fotografia de cerca de 1890 retratando um cortiço, em Londres, Inglaterra, onde viviam de forma precária as famílias dos operários. Granger, NYC/Glow Images

Além da poluição, as precárias condições de higiene eram favoráveis à proliferação de doenças. Leia o texto a seguir.

THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. 4. ed. Tradução Renato Busatto; Cláudia Rocha de Almeida. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. v. 2. p. 185.

O trabalho nas fábricas O dia a dia dos operários durante a Segunda Revolução Industrial foi marcado por uma rotina de trabalho extenuante e repetitiva. Homens, mulheres e crianças eram submetidos a longas jornadas de trabalho nas fábricas. Além de receberem baixos salários, eles estavam sujeitos a maus-tratos e a um ambiente de trabalho insalubre. Leia o texto a seguir. O trabalho que se fazia ali era distinto das atividades realizadas no campo ou em casa, pois era disciplinado, cansativo e repetitivo. As condições na fábrica eram prejudiciais à saúde, o ar, quase irrespirável (principalmente nas tecelagens, onde fiapos de lã flutuavam pelo ar), e o vapor e o calor das máquinas faziam com que muitos trabalhassem descalços, com os pés constantemente dentro da água usada para esfriar os mecanismos. Aos trabalhadores restava adaptarem-se a uma nova rotina de muitas horas de trabalho por dia em ambientes insalubres e lutar, por exemplo, pela regulamentação de sua jornada de trabalho [...].

Frente a essa situação, ao longo do século XIX e início do século XX, os operários passaram por um processo de tomada de consciência enquanto classe social. Eles passaram a lutar por direitos e condições dignas de trabalho. Nasceram, assim, ideologias políticas e movimentos sindicais comprometidos com a causa operária.

••Você acredita

que, na atualidade, ainda existem pessoas que trabalham em condições parecidas com as que foram descritas no texto ao lado? Comente.

Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor. Autor desconhecido. Xilografia. 1862. Coleção particular. Foto: Granger, NYC/Glow Images

DECCA, Edgar de; MENEGUELLO, Cristina. Fábricas e homens: a Revolução Industrial e o cotidiano dos trabalhadores. São Paulo: Atual, 1999. p. 38. (História geral em documentos).

Refletindo

Xilogravura de autor desconhecido que representa operários trabalhando em uma fábrica na Inglaterra, em 1862.

A industrialização e a expansão imperialista

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Propostas de reorganização social Os socialistas utópicos Os socialistas utópicos eram pensadores que, a partir do final do século XVIII, defenderam a possibilidade da eliminação das desigualdades sociais sem a necessidade de uma violenta revolução operária. Entre os socialistas utópicos, destacaram-se os franceses Saint-Simon (17601825), Charles Fourier (1772-1837) e Louis Blanc (1811-1882), e o britânico Robert Owen (1771-1858). Este último procurou implantar, em uma fábrica na vila de New Lanark, na Escócia, melhorias para os operários, como a redução da jornada de trabalho de 16 para 10 horas diárias, a construção de moradias para as famílias dos trabalhadores e a fundação de uma cooperativa.

Alguns intelectuais europeus do século XIX conheciam a realidade social de seu tempo e discordavam das condições de trabalho impostas aos proletários. Por isso, alguns deles propuseram várias alternativas para a organização da sociedade.

O socialismo

Os temas sobre socialismo e anarquismo favorecem o trabalho interdisciplinar com Sociologia. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

Entre esses intelectuais, estavam os alemães Karl Marx e Friedrich Engels. Eles propuseram um novo modo de organizar a sociedade, baseado no materialismo histórico, teoria que defende que a ordem social é definida pelo meio de produção e de troca dessa sociedade. Durante a Segunda Revolução Industrial, os capitalistas, ou seja, os donos dos meios de produção, lucravam e enriqueciam com a exploração do trabalho dos proletários. Marx e Engels afirmavam que, para transformar essa realidade, seria necessário mudar a maneira como a sociedade estava organizada. Eles defendiam a extinção da propriedade privada e acreditavam que as fábricas deveriam pertencer àqueles que nelas trabalhavam, ou seja, aos operários. Marx e Engels afirmavam que os trabalha­d ores tinham que tomar consciência de sua condição de explorados. De acordo com o materialismo histórico, a transformação da sociedade capitalista em socialista teria de ser feita pelos próprios proletários — que tomariam o poder e direcionariam as políticas do Estado para atender às suas necessidades, o que possibilitaria a construção de uma nova sociedade, diferentemente dos socialistas utópicos. As classes sociais De acordo com Marx e Engels, a sociedade europeia do século XIX era composta principalmente por duas classes sociais: a dos capitalistas e a dos operários, isto é, a burguesia e o proletariado que, por possuírem interesses opostos, viviam em constante luta. Além dessas duas classes sociais, havia a classe média e a nobreza. Para esses filósofos, a classe média não tinha uma ideologia própria, associando-se ora à burguesia, ora ao proletariado, sempre de acordo com os interesses do momento. Já a nobreza, apesar de economicamente enfraquecida pelo avanço da burguesia, ainda detinha importância política.

Giuseppe Pellizza. c. 1898-1901. Óleo sobre tela. 293 x 545 cm. Galeria de Arte Moderna, Milão (Itália). Foto: Alinari/Bridgeman Images/Easypix

O Quarto Estado, pintura de cerca de 1900 feita por Giuseppe Pellizza. Ela representa um grupo de proletários em greve na cidade de Volpedo, na Itália.

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Unidade 1

O anarquismo Alguns intelectuais, entre eles Proudhon, Bakunin e Kropotkin, seguiam tendências anarquistas e defendiam mudanças políticas, econômicas e morais, como a eliminação do Estado, do capitalismo e da Igreja, pois negavam a autoridade, a propriedade privada e a moral religiosa da época. Esses anarquistas acreditavam que a educação era fundamental para a mudança social, pois só assim as pessoas poderiam conhecer o mundo e as suas possibilidades de transformação. Com relação ao trabalho, esses intelectuais propunham a organização voluntária dos operários em comunidades autogestoras, em que a responsabilidade pela produção fosse dividida entre todos os trabalhadores.

Em “A Plebe”. 11/08/1917. Coleção particular

No Brasil, as ideias anarquistas ganharam força principalmente com a chegada dos imigrantes europeus no final do século XIX. Ao lado, Derradeiras machadadas, charge publicada no jornal anarquista A Plebe, em 1917.

Explorando a imagem

••Os anarquistas afirmavam

que havia diversas mazelas na sociedade a serem eliminadas. Identifique na charge algumas delas.

Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.

O positivismo

Comte considerava que a propriedade privada tinha uma função social importante para a organização do trabalho e, diferentemente de Marx e Engels, não defendia sua extinção. Ele também considerava de grande importância a conscientização dos operários a respeito de seu papel na sociedade industrial e a elevação de seu nível intelectual, o que seria possível por meio da educação.

Michael Roeder/Shutterstock.com

Criado pelo filósofo francês Auguste Comte, o positivismo apresentava uma explicação filosófica sobre a história das sociedades. Comte formulou a concepção de que o desenvolvimento social deveria passar por três fases sucessórias: a fase teológica, em que predominaria o poder de religiosos e militares; a fase metafísica, com a supremacia de filósofos e juristas; e, por fim, a fase positiva, que teria como pressuposto básico o conhecimento científico (ou positivo) de sociólogos e o poder econômico dos burgueses. O lema do positivismo era “o amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim”. A inscrição “Ordem e Progresso”, presente na bandeira do Brasil, foi inspirada no ideal positivista proposto por Auguste Comte: “O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim”.

A industrialização e a expansão imperialista

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O imperialismo O desenvolvimento industrial do século XIX levou as grandes potências mundiais a empreender a colonização de vários territórios na África, na Ásia e na Oceania. Além do poder econômico, essas potências contavam com grande força militar, pois estavam equipadas com diversas inovações tecnológicas na área bélica. Desse modo, o imperialismo submeteu muitos povos e moldou o mundo na passagem do século XIX para o XX.

O imperialismo na África No início do século XIX, a presença europeia no continente africano se limitava a algumas regiões litorâneas. Isso acontecia, principalmente, porque os povos africanos não permitiam o avanço dos estrangeiros no interior de seu território. Nessa época, o tráfico de escravos era uma importante fonte de renda para muitos Estados africanos. A suspensão desse comércio, ocorrido em meados do século XIX por pressão dos ingleses, enfraqueceu os Estados africanos mais poderosos, diminuindo assim sua capacidade de resistência frente à invasão europeia.

Edward Linley Sambourne. Gravura. 1892. Coleção particular. Foto: Granger, NYC/Glow Images

Protetorado: região sob “proteção” de estrangeiros. No regime de protetorado, os chefes locais mantinham formalmente o poder, mas eram obrigados a aceitar as decisões de seu “protetor”.

Além disso, no final do século XIX, os europeus se viram em condições de superioridade militar suficientes para expandir seus domínios ao interior do continente africano. A princípio, os europeus se limitaram a consolidar áreas de influência, por meio de alianças e tratados com chefes africanos, visando à formação de protetorados. Apenas em um segundo momento, eles se lançaram à conquista militar, principalmente quando seus interesses foram contrariados por chefes africanos. A Conferência de Berlim Convocada pelo chanceler alemão Otto von Bismarck, a Conferência de Berlim ocorreu entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, na Alemanha. Dessa reunião, participaram representantes de 13 países europeus, além dos Estados Unidos e do Império Turco-Otomano. O objetivo da conferência era garantir a liberdade de comércio e navegação pelos rios Níger e Congo, além de instituir regras e critérios para a anexação dos territórios africanos pelas potências imperialistas. A posse de um território seria reconhecida mediante o estabelecimento de um protetorado ou de algum tipo de autoridade sobre ele.

O colonizador britânico Cecil Rhodes representado em charge publicada na Punch Magazine, em 1892.

Explorando a imagem

••Como

Cecil Rhodes foi representado na charge? Em sua opinião, o que o modo como ele foi representado indica sobre a relação entre a Inglaterra e o continente africano, no século XIX?

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Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.


Além da África, as potências imperialistas se apossaram de territórios na Ásia e na Oceania. A França e a Holanda dominaram vastas regiões desses continentes. A Inglaterra conquistou a Índia e a Austrália, e manteve forte controle sobre a China. A Coreia, por sua vez, ficou sob domínio do Japão, uma potência imperialista asiática. De forma geral, o interesse das potências imperialistas era vender seus produtos industrializados a esses povos e comprar, a preços baixos, a matéria-prima utilizada em suas indústrias. A conquista imperialista, porém, foi realizada com grande violência, causando a morte de milhares de nativos das nações dominadas. Além disso, desestruturou a sociedade e a cultura de diversos povos, que ainda hoje sofrem as consequências da dominação imperialista.

As oposições ao imperialismo Os povos da África, Ásia e Oceania resistiram de várias maneiras à invasão de seus territórios e à dominação estrangeira. Na África, o conhecimento de novas táticas de guerra aprendidas com os conquistadores europeus e a aquisição de armas mais potentes possibilitaram aos habitantes autóctones resistirem aos invasores europeus. Na Argélia e no sul do continente, por exemplo, povos como os tukulur e os zulus mantiveram uma forte oposição contra a dominação dos franceses e ingleses.

Gravura publicada no Illustrated London News, em 1879, que representa uma batalha entre ingleses e zulus durante a guerra Anglo-Zulu, de 1879.

Na Ásia, chineses e indianos também resistiram à expansão imperialista. Nos dois países, havia grupos que lutavam pela expulsão dos europeus e pelo respeito à cultura nativa, bem como pela retomada do poder pelos antigos chefes. A resistência dos povos nativos não se deu somente por meio da luta armada. Outras formas de oposição também ocorreram, como sabotagens de equipamentos europeus e destruição de meios de transporte, plantações e armazéns.

Enquanto isso

... na Itália e na Alemanha

Diferentemente de outras nações europeias, a Itália e a Alemanha mantiveram-se fragmentadas até meados do século XIX. Nesse período, foram iniciados processos de unificação nessas regiões, visando à formação de Estados nacionais. Na Itália, esse processo ocorreu entre os anos de 1850 e 1870, e foi levado a cabo por proprietários rurais, membros da burguesia liberal italiana e pela nobreza do reino do Piemonte-Sardenha, pois eles entendiam que a fragmentação do território prejudicava a economia da península Itálica. Pouco depois da unificação da Itália, ocorreu o processo de unificação da Alemanha. Leia o texto.

[...] Na Alemanha, a unificação foi direcionada pela Prússia, num movimento claramente “de cima para baixo”, contando com o apoio da nobreza junker e da burguesia e afastando completamente os setores populares. A unificação foi completada em 1871, após a vitória sobre os franceses na Guerra Franco-Prussiana. Esta guerra não assinala apenas o momento da unificação. Marca também, profundamente, o inconsciente coletivo da população francesa, vindo a se constituir, naquele país, um forte sentimento nacionalista e revanchista, que explodirá no início do século XX.

Autóctone: natural de determinada região. Junker: membro da nobreza prussiana que detinha grandes propriedades de terra.

MARQUES, Adhemar Martins e outros. História contemporânea através de textos. 11. ed. São Paulo: Contexto, 2005. p. 73. (Textos e Documentos).

A industrialização e a expansão imperialista

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Unidade 1

Em “The Illustrated London News”. Londres, 1879. Coleção particular

O imperialismo na Ásia e na Oceania


O imperialismo japonês Até o século XIX, a economia japonesa era baseada na agricultura, a maioria da população do país vivia nas áreas rurais e a relação entre o Japão e os demais países era restrita. Em 1868, entretanto, subiu ao poder Mutsuhito, também conhecido como Meiji, imperador responsável pelo início da modernização do Japão. Meiji assinou acordos econômicos com a Inglaterra e a França e comprou máquinas e ferramentas europeias, dando início à industrialização do país. Além disso, investiu na construção de navios e ferrovias, ampliou o acesso à educação e financiou a formação de um exército japonês. Essas medidas possibilitaram o fortalecimento político e econômico do Japão, que no final do século XIX já havia se tornado mais uma potência imperialista. O Japão estabeleceu o domínio sobre a Manchúria, Coreia, Formosa (Taiwan) e sobre partes do território chinês. Assim como outras potências imperialistas, o Japão buscava garantir o fornecimento de matérias-primas para suas indústrias e o acesso a novos mercados consumidores.

O imperialismo estadunidense

Louis Dalrymple. c. 1905. Gravura. Coleção particular. Foto: Bettmann/Corbis/Latinstock

Tio Sam, símbolo dos Estados Unidos, representado em charge de Louis Dalrymple, feita em 1905.

Enquanto as potências europeias disputavam o controle da África, Ásia e Oceania, os Estados Unidos impunham políticas imperialistas aos países da América Latina e a algumas ilhas do oceano Pacífico, como o Havaí e as Filipinas. Na primeira metade do século XIX, os Estados Unidos foram os primeiros a reconhecer as independências dos países latino-americanos e a barrar a interferência das antigas metrópoles nos países em formação. Nessa época, o presidente estadunidense, James Monroe, proclamou a frase “América para os americanos”, que demonstrava seus interesses imperialistas sobre o restante do continente. Ele desejava controlar a produção agrícola latino-americana e as rotas comerciais que ligavam os oceanos Atlântico e Pacífico. Além do Havaí e das Filipinas, os Estados Unidos anexaram territórios mexicanos (do Texas à Califórnia), russos (Alasca) e da América Central (Panamá, Cuba e Porto Rico). No início do século XX, dando continuidade à po­lítica de James Monroe, conhecida como Dou­ tri­na Monroe, o presidente estadunidense Theodore Roosevelt proclamou a chamada Doutrina do Big Stick (traduzido do inglês, “grande porrete”), que previa a intervenção militar dos Estados Unidos caso os governos latino-americanos não colaborassem com a política imperialista estadunidense.

Explorando a imagem a ) Identifique na imagem elementos que representem o controle exercido pelo Tio Sam na América. b ) Qual doutrina foi mencionada na imagem? Qual a ideia central dessa doutrina?

22

Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.


Unidade 1

Possessões imperialistas Observe, no mapa a seguir, a divisão que os países imperialistas impuseram à África, à Ásia e à Oceania no século XIX. Possessões imperialistas no século XIX EUROPA

N

RÚSSIA O

ÁSIA COREIA I. Madeira TÂNGER (POR) MARROCOS Is. Canárias (ESP) RIO DO OURO

LÍBIA

CHINA

PÉRSIA

S

JAPÃO

OCEANO PACÍFICO

EGITO

ÍNDIA FORMOSA Trópico de Câncer Hong Kong (POR) Diu (POR) Macau (POR) Damão (POR) Yanaon (FRA) Is. Marianas SIÃO ERITREIA Goa (POR) Guam SUDÃO Pondichéry (FRA) INDOCHINA SOMÁLIA FR. Mahe (FRA) (EUA) ANGLO-EGÍPCIO FILIPINAS Is. Andman Is. Marshal SOMÁLIA BRIT. Karikal (FRA) ETIÓPIA Is. Carolinas ARÁBIA

ÁFRICA OC. FRANCESA COSTA NIGÉRIA DO MARFIM CAMARÕES TOGO LIBÉRIA

0˚ Equador

SOMÁLIA IT.

Is. Maldivas

Bornéu

CONGO BELGA

GUINÉ ESP.

OCEANO ATLÂNTICO

ÁFRICA

ÁFRICA Is. Seychelles OR. ALEMÃ (GB) Is. Comores (FRA)

Java

IQ MB ÇA

MO

Meridiano de Greenwich

ÁFRICA RODÉSIA DO SUDOESTE

MADAGASCAR

Trópico de Capricórnio AUSTRÁLIA

UNIÃO SUL-AFRICANA

0

1 350 km

Fonte: BARRACLOUGH, Geoffrey. Atlas da história do mundo. São Paulo: Folha da Manhã, 1995.

Enquanto isso

Timor

OCEANO ÍNDICO

UE

ANGOLA

Nova Guiné

Arq. de Chagos

Terra do Imperador Guilherme

Is. Gilbert Is. Salomão

Novas Hérbridas (FRA e GB) Nova Caledônia (FRA)

Fiji

OCEANIA Possessões imperialistas Francesa Belga Britânica Italiana Alemã Holandesa Portuguesa Estadunidense Espanhola Japonesa

NOVA ZELÂNDIA

E. Cavalcante

Is. Cabo Verde (POR) SENEGAL GUINÉ POR. SERRA LEOA

KUAIT

L

... no México

Diante dessa situação, o movimento revolucionário passou a combater a ditadura de Porfírio Diaz, que estava no poder há quase 30 anos, e a lutar pela reforma agrária e por direitos sociais. Na Revolução Mexicana, dois personagens ganharam grande importância pela liderança que exerceram: Emiliano Zapata (atuando no sul do México) e Pancho Villa (liderando o norte do país).

Underwood & Underwood/Corbis/Latinstock

Na época em que os estadunidenses impuseram a doutrina do Big Stick, o México passava por momentos conturbados que, em 1910, fizeram eclodir a Revolução Mexicana. Entre os motivos dessa revolução, destaca-se a péssima estrutura fundiária do país: enquanto a elite detinha a maior parte das propriedades rurais, os camponeses não tinham acesso à terra e enfrentavam duras condições de vida. Além disso, a exploração imperialista promovida pelos Estados Unidos agravou a situação de pobreza da população mexicana.

Pancho Villa (ao centro) e Emiliano Zapata (segurando um sombrero) com um grupo de revolucionários, por volta de 1915.

A industrialização e a expansão imperialista

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As consequências do imperialismo O imperialismo causou enormes prejuízos aos povos que viviam na África, na Ásia e na Oceania. Quando os europeus dominaram esses territórios, obrigaram os nativos a realizar trabalhos nas minas e nas grandes plantações em troca de baixos salários. Além disso, impuseram sua cultura aos nativos, obrigando-os a adotar sua língua, costumes e religião. A exploração imperialista resultou na morte de milhares de nativos, provocada pelas guerras, doenças e, também, pela fome. Uma das consequências mais persistentes do imperialismo é o atraso econômico, que ainda hoje se reflete no subdesenvolvimento e nas desigualdades sociais presentes na maioria desses países.

As consequências na África Etnia: grupo de indivíduos que compartilham as mesmas características socioculturais, como língua, religião, costumes e modos de sentir, de pensar e de agir.

Além da aculturação dos povos nativos, dos trabalhos forçados e do extermínio de milhares de pessoas, a exploração imperialista traz consequências negativas até hoje. Na África, a delimitação territorial feita pelos europeus (a “Partilha da África”), iniciada em 1885, provocou sérios conflitos internos. Ao delimitarem as fronteiras de suas possessões, os representantes dos países imperialistas não respeitaram as antigas ocupações territoriais dos nativos e englobaram, em um mesmo território, etnias que eram historicamente rivais. Houve também casos em que as potências europeias, visando fortalecer seu poder, incitaram rivalidades entre grupos distintos. Este é o caso de Ruanda, um país localizado no centro-leste da África, onde viviam dois grupos tradicionais: os tutsis e os hutus.

Ossos humanos expostos no Memorial do Genocídio em Kigali, Ruanda, em 2015.

Após a independência do domínio belga, na década de 1960, esses grupos iniciaram uma disputa pelo domínio da região. Em 1994, o conflito se intensificou e provocou a morte de cerca de um milhão de pessoas. Leia o texto.

kamnuan/Shutterstock.com

[...] Durante cem noites, quase um milhão de tutsis, quatro quintos de todos os tutsis residentes em Ruanda, foram assassinados com facões. A ONU retirou suas forças de paz do país e os diplomatas das grandes potências entregaram-se à discussão acadêmica sobre se o genocídio deveria ser denominado genocídio. [...] Na época do genocídio, a mídia descreveu hutus e tutsis como etnias rivais, repetindo manuais históricos cujas fontes são as narrativas do poder colonial belga. A Bélgica estabeleceu um protetorado sobre Ruanda em 1918. Encontrou uma sociedade tradicional, dividida entre uma elite de proprietários de rebanhos (tutsis) e a massa de camponeses (hutus). O governo colonial apoiou a sua administração sobre os tutsis. Seus historiadores e etnólogos trataram de produzir o passado dos dois grupos, “descobrindo” origens e migrações e “provando” que eram “etnias” ou “raças” diferentes. Os tutsis, na documentação “científica” belga, distinguiam-se por um porte elegante, pela altura e por narizes mais finos. Atrás da montagem, estava a ciência racista do século XIX. MAGNOLI, Demétrio. Hotel Ruanda e as raízes do genocídio. Mundo Geografia e Política Internacional. São Paulo: Pangea, ano 13, n. 5. set. 2005. p. 16.

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Unidade 1

As ideologias imperialistas O imperialismo se baseia, essencialmente, na dominação de uma nação sobre outra, principalmente por interesses políticos e econômicos. Para consolidar essa dominação, o uso de ideologias foi muito comum. Durante o século XIX, os países imperialistas se preocuparam em buscar a aprovação interna e o apoio popular para as campanhas militares de intervenção nos países dominados. Nessa época, ideologias etnocêntricas se reafirmaram, enaltecendo a origem e a cultura europeias e menosprezando as culturas de outros povos. Ideologia segundo Tracy, Marx e Gramsci O termo ideologia foi criado no início do século XIX pelo filósofo francês Destutt de Tracy (1754-1836). Influenciado pelo Iluminismo, ele acreditava que as ideias podiam ser estudadas da mesma maneira que se estudavam os objetos naturais, criando o conceito de ideologia ou a “ciência das ideias”. O pensador alemão Karl Marx (1818-1883), por sua vez, interpretou o conceito de ideologia como um conjunto de valores e ideias que tinham como finalidade a dominação de uma classe social sobre a outra. Esses valores e ideias partiam da classe social dominante para legitimar seu poder sobre a classe social dominada, muitas vezes criando uma “falsa realidade”, impedindo que os dominados percebessem as desigualdades e os conflitos sociais existentes. Mais tarde, o pensador italiano Antonio Gramsci (1891-1937), passou a defender que a ideologia possuía um sentido positivo, pois ela representava um conjunto de ideias que caracterizavam a “visão de mundo” de uma sociedade. Essa visão de mundo se manifestava implicitamente em várias atividades humanas, individuais ou coletivas, seja na arte, no trabalho, na política.

O darwinismo social

O tema sobre o darwinismo social favorece o trabalho interdisciplinar com Sociologia. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão sobre esse assunto.

Um dos estudiosos que mais se empenhou na divulgação da teoria da evolução de Darwin foi o filósofo e sociólogo inglês Herbert Spencer (18201903). Em seus estudos, ele buscou aplicar a teoria de Darwin à análise das sociedades humanas. Assim, o chamado darwinismo social criou as bases ideológicas para o racismo, que buscava justificar o direito natural de dominação dos europeus sobre povos considerados “inferiores”. A “raça branca” europeia seria a mais favorecida na luta pela sobrevivência, portanto mais “forte” e “capaz” que outros povos considerados cultural e fisicamente “inferiores”.

Roger-Viollet/Glow Images

A publicação da obra A origem das espécies (1859) pelo naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) causou grande impacto entre os estudiosos europeus do século XIX, entre eles filósofos, naturalistas e sociólogos. Nessa obra, Darwin tratou do processo de evolução biológica dos seres vivos defendendo a hipótese da conservação das espécies mais adaptadas ao meio ambiente em que vivem e a extinção das espécies menos aptas ao seu meio, no decorrer do tempo. Essa teoria foi denominada de seleção natural.

Durante o século XIX, muitos cientistas acreditavam que, por meio de seus estudos, era possível determinar a “superioridade” e a “inferioridade” entre as “raças” humanas. Nessa fotografia, de 1853, vemos um cientista francês medindo o crânio de um homem.

A atuação dos religiosos A Igreja Católica também exerceu um papel importante no esforço de legitimação do imperialismo nos países dominados. Na África, por exemplo, a Igreja atuou defendendo a política de conquista colonial. Os religiosos acreditavam que os africanos precisavam ser salvos pela fé. Por meio da catequização, eles teriam contato com o cristianismo e com os costumes e valores da cultura europeia, dita “superior”. Dessa forma, essas sociedades deixariam de ser “primitivas” para se tornarem “civilizadas”. A industrialização e a expansão imperialista

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Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento

co-Tecnológica.

2. Diferencie capitalismo industrial de capitalismo financeiro. Em seguida, escolha uma das formas do capitalismo financeiro e explique-a.

3. Escreva um texto sobre as transformações ocorridas na vida cotidiana, no final do século XIX e início do século XX, em virtude dos avanços tecnológicos. Comente também sobre as diferenças entre as condições de vida da burguesia e do operariado.

4. Produza um texto sobre as propostas que surgiram, no final do século XIX, como alternativas ao imperialismo e à exploração do trabalho operário pela elite burguesa.

Explorando a imagem 10. Observe a charge a seguir.

a ) Descreva a imagem. Em sua opinião, que pessoas foram representadas? b ) Estabeleça relações entre a charge e a dominação imperialista na China.

Charge publicada no Le Petit Journal, em 1898, que satiriza a atuação das potências imperialistas na China.

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5. Explique o que foi a Conferência de Berlim e quais as suas consequências para o continente africano.

6. Durante a expansão imperialista, quais formas de resistência os colonizadores enfrentaram por parte dos povos que habitavam as regiões invadidas?

7. As consequências do imperialismo foram danosas para a África? Justifique sua resposta.

8. E xplique o conceito de ideologia para Destutt Tracy, Karl Marx e Antonio Gramsci.

9. Como os países imperialistas justificaram ideologicamente a dominação colonial na África, Ásia e Oceania?

Em “Le Petit Journal”. Paris, 16/01/1898. Coleção particular. Foto: Archives Charmet/Bridgeman Images/Easypix

1. Caracterize a chamada Revolução Científi-


Unidade 1

Expandindo o conteúdo 11. O texto a seguir trata da organização de sindicatos na época da Segunda Revolução Industrial.

Muitos sindicatos haviam se desenvolvido na mesma linha das guildas medievais: a princípio, com o intuito de proteger os interesses de profissões e ofícios específicos, com frequência contra grupos competidores de trabalhadores. Os sindicatos barganhavam salários e condições de trabalho pelos seus membros, prestando-lhes assistência financeira quando enfrentavam problemas de saúde ou vivenciavam outros apuros. A tendência dos sindicatos era representar artesãos qualificados; mas no fim do século XIX ocorreu uma mudança significativa, quando uma massa de operários não qualificados começou a se filiar aos sindicatos. Uma série de greves nas docas de Londres, na década de 1890 — cujo resultado foram algumas concessões, inclusive aumento de salário para trabalhadores —, demonstrou o imenso potencial dos sindicatos. Esse “novo sindicalismo”, abarcando trabalhadores sem qualificação, mudou a face das relações industriais. Na virada do século a indústria se transformou num campo de batalha, sendo as greves a principal arma de negociação dos trabalhadores. Elas ocorriam com regularidade por todo o mundo industrializado. Em 1900, foram deflagradas nas regiões mineiras da Bélgica, da Alemanha e da Áustria. Em 1902 o rei Afonso XIII da Espanha declarou a lei marcial em face da conflagração industrial amplamente difundida. Uma greve de ferroviários na Hungria, em 1904, levou a desordens civis. Em 1907 violentos distúrbios eclodiram na Antuérpia e na Bélgica — operários britânicos não sindicalizados foram embarcados como fura-greves nas docas. O poder dos sindicatos se tornara uma questão política de peso. Governos de todas as convicções consideravam-nos uma ameaça e reagiam ao seu poder à altura. Nos regi-

mes autoritários, como o da Rússia, toda atividade sindical era reprimida, e as greves eram enfrentadas com demonstrações de força, que em geral acabavam em distúrbios e mortes. Na Rússia as concessões só foram alcançadas depois da revolução de 1905. Em países mais liberais, como a Grã-Bretanha e a França, talvez os próprios sindicatos até fossem tolerados, mas não raro as greves levavam a confrontos cruéis. Uma das principais armas da classe patronal era o lockout: diante da ameaça de ação sindical indesejada, os empregadores cerravam os portões das fábricas, na certeza de que isso seria mais prejudicial ao bolso dos trabalhadores do que aos deles. Deflagrada a greve, sempre era possível contratar fura-greves, embora essa atitude pudesse fazer com que o tiro saísse pela culatra: em vez de dobrar os grevistas, a medida em geral os tornava mais acirrados e militantes. Mesmo assim, enquanto permaneciam localizados e limitados a ofícios específicos, os sindicatos eram vulneráveis à tática de “dividir para reinar”. Só viriam a ser verdadeiramente eficazes quando cobrissem setores integrais e, se possível, também os correlatos. Portanto, uma greve dos estivadores, apoiada por todos os trabalhadores dos transportes, podia levar um país à paralisação. MASON, Antony. O surgimento da Era Moderna: 1900-1914. Tradução Maria Clara de Mello Motta. Rio de Janeiro: Reader’s Digest, 2003. p. 97-8. Bettmann/Corbis/Latinstock

O trunfo dos trabalhadores era a força numérica. Organizados em sindicatos para defender seus interesses comuns, podiam fazer pressão com medidas tomadas em termos coletivos. Como recurso final, eram capazes de entrar em greve — embora sob o risco de cortes nos salários ou até mesmo de demissão.

Fotografia de uma greve organizada pelo sindicato dos trabalhadores portuários de Londres, na Inglaterra, em 1925.

A industrialização e a expansão imperialista

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a ) A partir da leitura do texto, explique como os sindicatos atuavam na defesa dos trabalhadores no final do século XIX e início do XX. b ) Quando as negociações sindicais falhavam, qual era o recurso utilizado pelos trabalhadores visando ter suas reivindicações atendidas? Dê um exemplo. c ) Quais as maneiras encontradas pelas classes patronais para contra-atacarem uma greve? Que papel os fura-greves desempenhavam nessa contraofensiva?

Oficina de história

Experiência e vivência

Racismo e etnocentrismo Provavelmente, grande parte das pessoas já presenciou ou foi vítima de manifestações de preconceito, racismo ou intolerância. E, por vezes, essas situações passam despercebidas. Você já refletiu sobre o que significam esses comportamentos discriminatórios? O preconceito pode ser entendido como uma atitude, um comportamento ou uma ideia manifestada por uma pessoa mediante um julgamento antecipado sobre algo que ela ainda não conhece bem. Esse tipo de opinião, por ser precipitado e discriminatório, normalmente não está baseado em critérios justos. Existem vários tipos de preconceitos, como o de orientação sexual, o linguístico, o estético, o social e o étnico. O racismo, por sua vez, é uma discriminação contra determinadas etnias.

O preconceito racial Durante muito tempo, o termo “raça” foi utilizado para se referir a grupos humanos arbitrariamente classificados de acordo com certas características físicas, como cor de pele, tipo de cabelo, formato dos olhos etc. Porém, estudos científicos mostraram que, embora existam diferenças genéticas, essas diferenças não são relevantes a ponto de os seres humanos serem classificados em “raças”. O racismo está ligado ao preconceito e pode resultar na segregação de pessoas, baseada em critérios de “raça”, descendência ou cor da pele. Atitudes preconceituosas e racistas geralmente resultam em intolerância, repressão e violência.

A visão etnocêntrica Essas ideias e comportamentos discriminatórios têm origem no etnocentrismo, que é a tendência de um determinado grupo em valorizar a sua própria cultura como ideal, desvalorizando a cultura de outros grupos. O pensamento etnocêntrico tende a ser uma barreira para uma convivência harmoniosa e democrática entre as pessoas. Suas características são facilmente observadas nas sociedades totalitárias, que não toleram a diferença e privilegiam sua visão de mundo em detrimento de outras.

O respeito às diferenças Para um convívio democrático, que privilegie a diversidade e evite o etnocentrismo, deve-se buscar a compreensão das culturas e respeitá-las como elas são. Para isso, não se pode julgar o outro de acordo com os próprios valores, pois os costumes e interesses são variados e pessoais. O fato de uma cultura ser diferente não significa que ela seja superior ou inferior. Essa perspectiva pode ampliar as possibilidades de uma convivência pacífica, democrática e respeitosa, sem que seja preciso que alguém abra mão de sua identidade. É claro que a diferença pode gerar divergências entre as pessoas, porém mesmo essa situação pode ser construtiva. Leia o texto escrito pelo cientista francês Albert Jacquard e, depois, observe a pintura da página ao lado, intitulada a We the Peoples...

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Unidade 1

[...] Uma opinião diversa da minha, um modo de se comportar oposto ao meu, obrigam-me a refletir. Eu me questiono, o que enriquece minha maneira de ver, de pensar e de agir. Enfim, o outro me faz progredir e ajuda-me na construção de minha personalidade. Não se trata de aceitar, sem refletir, os modismos ou de ser um cata-vento girando aos quatro ventos. Trata-se, somente, de se abrir ao mundo exterior, de ficar atento aos outros; ou seja, de estar pronto a compreender, reagir, construir. O racismo somente será vencido quando nós soubermos dizer ao outro um “muito obrigado”, tanto maior quanto maiores forem as diferenças entre nós. JACQUARD, Albert. Todos semelhantes, todos diferentes. Tradução Celita Gomes Schermann. São Paulo: Augustus, 1993. p. 73. (O mundo em seu bolso).

a ) Qual é a ideia central do texto de Albert Jacquard? /E

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b ) Descreva a imagem ao lado, comentando em quais aspectos ela aborda a questão da diversidade.

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c ) Defina os seguintes conceitos: racismo, etnocentrismo e preconceito. Utilize as informações da página 28 e também outras fontes de informação, como livros, revistas e sites.

f ) Para finalizar, produza um texto descrevendo sua experiência ao realizar essa oficina.

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e ) Em sala de aula, realize com os colegas um debate sobre o tema “Racismo e etnocentrismo”. Durante o debate, apresente as respostas dos questionamentos a, b e c, além de contar qual foi a opinião da pessoa entrevistada. É fundamental que, durante o debate, você apresente também a sua opinião sobre esse tema.

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d ) Realize uma entrevista com uma pessoa conhecida (algum parente ou alguém da comunidade). Pergunte como ela define os conceitos acima citados. Anote as respostas.

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Pintura intitulada We the Peoples..., do artista Ron Waddams, feita em 1984.

Vestibulares 1. (UNESP) “O mundo está quase todo parcelado e o que dele resta está sendo dividido, conquistado, colonizado. Pense nas estrelas que vemos à noite, esses mundos que jamais poderemos atingir. Eu anexaria os planetas, se pudesse. Sustento que somos a primeira raça do mundo e quanto mais do mundo habitarmos, tanto melhor será para a raça humana. Se houver um Deus, creio que Ele gostaria que eu pintasse o mapa da África com as cores britânicas”. O último desejo e testamento de Cecil Rhodes. In: HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem.

O texto refere-se à: a ) partilha do continente africano deliberada em 1885, na Conferência de Berlim, que teve por objetivo maior promover a riqueza dos países pobres por meio dos investimentos europeus.

b ) expansão europeia, realizada segundo os preceitos mercantis, que visava ao acúmulo de metais preciosos abundantes e pouco valorizados pelos habitantes nativos do continente africano. c ) procura de novos mercados para a produção industrial e os capitais bancários europeus, prejudicados pela instabilidade política da América Latina, que impedia o crescimento das trocas. d ) expansão imperialista na África, liderada pela Inglaterra e França no século XIX, ligada ao capitalismo industrial, evidenciando a ideia de superioridade e de preconceito contra os colonizados. e ) fragmentação do continente africano desde meados do século XIX para garantir a ajuda aos nativos que, incapa zes de explorar suas próprias riquezas, necessitavam de capitais europeus.

A industrialização e a expansão imperialista

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Ampliando seus conhecimentos Arte e história

Os movimentos artísticos do final do século XIX

Na passagem do século XIX para o século XX, o imperialismo das nações europeias atingia diversas regiões do planeta, impondo sua cultura e seus valores aos povos dominados. Nesse momento, vários artistas da Europa buscavam romper com as antigas estruturas artísticas, priorizando elementos que não tinham sido alvo de atenção da arte até então. Entre esses elementos, destacam-se as condições ambientais na realização da obra, ou seja, novas interpretações acerca da luminosidade e de outros elementos do ambiente (o vento, a chuva etc.); a subjetividade do artista, isto é, a expressão dos sentimentos na arte; novas técnicas de pintura e novos temas para as obras.

Edvard Munch. 1893. Óleo, têmpera e pastel sobre cartão. Galeria Nacional, Oslo (Noruega). Foto: Granger, NYC/Glow Images

Os principais movimentos artísticos dessa época foram o impressionismo, o pós-impressionismo e o expressionismo (que teve maior ênfase no começo do século XX). A tela a seguir, produzida em 1893, é do pintor norueguês Edvard Munch e foi intitulada O grito. Observe-a.

O Grito, de Edvard Munch, 1893.

Essa imagem pode ser analisada como uma manifestação da angústia e do desespero do ser humano moderno na passagem do século XIX para o século XX. O personagem central é quem grita, que está angustiado, desesperado, doente (física ou mentalmente). Na representação desse grito, tudo o que é natural se abala, se “move”; as únicas coisas que ficam inabaladas são a ponte (de concreto) e as duas figuras humanas, que parecem não se importar com a dor do personagem central. Considerado como um dos marcos iniciais do expressionismo, O grito se transformou em um ícone da cultura moderna.

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Unidade 1

Germinal Filme de Claude Berri. Germinal. Bélgica/França/Itália, 1993

A história no cinema

Baseado no romance homônimo escrito por Émile Zola em 1885, o termo “germinal” faz referência ao processo de germinação; neste caso, o nascimento e o posterior ama­ durecimento dos movimentos grevistas em uma época marcada pelo liberalismo econô­ mico e pela inexistência de direitos trabalhistas. A história se passa na França do século XIX, no contexto da Revolução Industrial, e mostra as difíceis condições enfrentadas por trabalhadores de uma mina de carvão. Germinal apresenta um conflito entre duas classes sociais: a burguesia, representada pela figura dos patrões; e o proletariado, formado pelos mineradores. Filme de Claude Berri. Germinal. Bélgica/ França/Itália, 1993. Foto: Album/Latinstock

Após ter contato com ideias socialistas e anarquistas que circulavam entre a classe ope­ rária europeia, os trabalhado­ res da mina de carvão passam a lutar por melhores condições de vida e de trabalho e tam­ bém pelo fim da exploração por parte dos seus patrões.

Título: Germinal Diretor: Claude Berri Atores principais: Gérard Depardieu, Renaud, Miou-Miou, Jean Carmet, Jean-Roger Milo, Judith Henry Ano: 1993 Duração: 170 minutos Origem: Bélgica, Itália e França

Cena do filme Germinal.

Para ler

••A

luta contra a metrópole (Ásia e África), de Maria Yedda Linhares. Editora Brasiliense. O livro apresenta uma investigação sobre as consequências da co­ lonização e questionamentos relacionados à independência e ao posterior sur­ gimento dos novos países na África e na Ásia com o término da Segunda Guerra Mundial.

••A

volta ao mundo em oitenta dias, de Júlio Verne. Editora Melhoramentos. Clássico de Júlio Verne, o livro é uma crítica aos costumes e à cultura inglesa. O personagem Phileas Fogg e seu criado se aventuram em uma viagem pelos mais diversos lugares do mundo.

••De vagões e vagabundos: memórias de um submundo, de Jack London. Edi­ tora L&PM Pocket. Autobiografia do autor, narra sua infância miserável, sua adolescência inconformada e sua vida adulta bastante politizada.

Para navegar

••Dossiê Classe Operária - Núcleo de Estudos Contemporâneos (UFF). Dispo­ nível em: <http://tub.im/bv9rvp>. Acesso em: 19 mar. 2016. Página do Núcleo de Estudos Contemporâneos da Universidade Federal Fluminense com docu­ mentos históricos, textos e recursos pedagógicos sobre a classe operária, seu cotidiano e suas formas de organização.

• •Geledés

Instituto da Mulher Negra. Disponível em: <http://tub.im/sysv6s>. Acesso em: 19 mar. 2016. Página do Geledés Instituto da Mulher Negra com matérias, artigos e vídeos sobre racismo e preconceito. A industrialização e a expansão imperialista

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unidade

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A Primeira RepĂşblica


No final do século XIX, o Brasil passou por rápidas mudanças sociais e políticas. Nesse processo, foi implantado um regime republicano, dominado pelas oligarquias agrá­r ias, principalmente, de São Paulo e de Minas Gerais. Com a instalação desse novo regime político, recursos significativos foram investidos para incentivar a vinda de trabalhadores imigrantes europeus para o Brasil, relegando os ex-escra­ vos e seus descendentes a uma situação de marginalização social.

Nessa conjuntura, destacou-se um relativo desenvolvimento industrial, embora a economia cafeeira continuasse como a principal fonte de riquezas do país. Enquanto isso, as mazelas sociais se mantinham, estimulando revoltas populares em várias regiões brasileiras. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

A Faça uma descrição desta fotograf ia. Como é a arquitetura do local retratado? Quais meios de transporte eram utilizados? B Quais pessoas aparecem na imagem? Descreva-as. C Quando falamos de Primeira República no Brasil, aparecem termos como: oligarquia, coronelismo e voto de cabresto. Você conhece o significado de algum desses termos? Comente com os colegas.

Marc Ferrez. 1910. Coleção Gilberto Ferrez, Instituto Moreira Salles, São Paulo (SP)

Avenida Central, no Rio de Janeiro (RJ), em 1910.

Nesta unidade, estudaremos o processo de modernização do país e as transformações que ocorreram nas relações de trabalho e no modo de vida das pessoas. Veremos como essas transformações se refletiram nas cidades e como prevaleceu o projeto progressista de modernizá-las e “civilizar” seus moradores.

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O final do período Monárquico Durante a maior parte do século XIX, o Brasil foi uma Monarquia governada por imperadores, inicialmente por D. Pedro I e depois por seu filho D. Pedro II, que governou o país por quase 50 anos. Nesse período, o Brasil se integrou ao capitalismo mundial, que se difundia pelo mundo impulsionado pela industrialização europeia.

Aspectos econômicos

Marc Ferrez. c. 1895. Coleção particular

Ao longo do século XIX, o Brasil recebeu grandes investimentos e empréstimos estrangeiros, provenientes sobretudo da Inglaterra. Esses capitais foram investidos em melhorias na infraestrutura do país, como as estradas de ferro, abastecimento de água, redes de esgoto e iluminação pública, necessários por causa da expansão urbana.

Fotografia de Marc Ferrez que retrata uma locomotiva saindo de um túnel da estrada de ferro Rio-Minas, por volta de 1895.

Oligarquia: palavra de origem grega que significa “governo de poucos”. No contexto brasileiro, refere-se ao domínio político dos latifundiários e alguns grupos ou famílias com grande poder econômico.

Destacou-se também o cultivo de café, atividade monocultora voltada para exportação que gerava muitas riquezas e que provocou grandes transformações sociais e políticas no Brasil. Com a cafeicultura, formou-se uma nova oligarquia rural nas províncias do Sudeste. Nesse período, São Paulo despontava como a província mais rica do Império, mas não desfrutava de uma participação política no governo central que correspondesse à sua importância econômica. As oligarquias agrárias dessa província começaram, então, a se queixar do centralismo do governo imperial, e os políticos paulistas passaram a reivindicar maior autonomia para administrar sua província.

A questão militar Os líderes militares também estavam insatisfeitos com o governo central e almejavam uma maior participação na vida política do país. Com o término da Guerra do Paraguai (1864-1870), conflito do qual se saíram fortalecidos, passaram a criticar abertamente o imperador, acusando-o de negligência em relação ao Exército e de interferências indevidas em questões militares.

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A questão do escravismo Unidade 2

A escravidão foi extinta gradualmente no Brasil. A lei do Ventre Livre, de 1871, foi a primeira iniciativa do governo contra a escravidão e declarava que a partir dessa data os filhos de mulheres escravas nasceriam livres. Essa lei, no entanto, feria os interesses econômicos das oligarquias agrárias, principal fonte de apoio do regime monárquico.

O fim da escravidão no Ceará A província do Ceará foi a primeira a abolir a escravidão. Em 1881, um grupo de jangadeiros liderados por Francisco do Nascimento — o “Dragão do Mar” — se recusou a embarcar em suas jangadas escravos que seriam vendidos nas fazendas de café do sul do país. Depois disso, a pressão popular cearense contra a escravidão aumentou e, em 1884, quatro anos antes da abolição no restante do país, o governador do Ceará decretou o fim da escravidão na província.

Capa da Revista Illustrada, de 1884, com ilustração de Angelo Agostini que homenageia Francisco José do Nascimento (1839-1914), o jangadeiro abolicionista que contribuiu para que o Ceará fosse a primeira província brasileira a abolir a escravidão.

Angelo Agostini. Em “Revista Illustrada”. 04/1884. IEB/USP, São Paulo. Foto: Nelson Toledo

Já na década de 1880, o movimento abolicionista apresentava grande crescimento, e a importância econômica da escravidão diminuiu em algumas regiões, a exemplo da província do Ceará, que aboliu a escravidão em 1884.

Angelo Agostini. Em “Revista Illustrada”. 1888. Coleção particular

Nos cafezais do Vale do Paraíba e do Rio de Janeiro, a campanha abolicionista incentivava a fuga em massa de escravos, desorganizando o sistema produtivo das fazendas. Os militares, por sua vez, comunicaram às autoridades civis que não faziam mais o papel de capitães do mato, deixando de perseguir escravos fugidos. No plano internacional, o Brasil não conseguia passar a desejada imagem de um país moderno, pois mantinha-se escravocrata. Por fim, em 1888 a escravidão foi abolida em todo o Império, sem indenizações aos proprietários de escravos. Diante disso, a maior parte da elite agrária escravista que ainda era fiel à Monarquia aderiu à causa republicana, pois acreditava que a abolição contrariava o “direito à propriedade”. Fazendeiros escravocratas leem a notícia da abolição da escravidão. Repare na expressão de insatisfação dos fazendeiros. Charge de Angelo Agostini publicada na Revista Illustrada, em 1888.

A Primeira República

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Conflitos entre Estado e Igreja

Em “O Mosquito”. 29/04/1876. Coleção Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (RJ)

Padroado: vínculo mantido entre Estado e Igreja, por meio do qual o governo tinha o direito de intervir na nomeação de bispos e comprometia-se a pagar o salário dos membros da Igreja.

1891. Coleção Arquivo Nacional, Rio de Janeiro (RJ)

Charge publicada na revista O Mosquito, em 1876, que representa D. Pedro II recebendo um castigo do papa Pio IX. Essa charge ironiza o imperador brasileiro, que acabou voltando atrás em uma decisão sua, anistiando os bispos católicos.

Nas últimas décadas do século XIX, a Monarquia brasileira passava por sérios problemas políticos. De acordo com a Constituição de 1824, que manteve o padroado, a Igreja Católica tinha grande ligação com o Estado, o qual exercia grandes poderes sobre ela. Desde meados do século XIX, no entanto, as ordens do papa buscavam aumentar o poder da Igreja, em oposição ao crescimento das liberdades individuais. No Brasil, as lideranças católicas tentavam fugir do controle imperial, reivindicando autonomia perante o Estado. Diante dessa situação, instaurou-se um conflito entre Igreja e Estado quando, em meados de 1870, a Igreja proibiu que membros da Maçonaria participassem dos cultos católicos, o que atingiu políticos influentes do governo. Os bispos de Olinda e de Belém tentaram cumprir as determinações papais e foram punidos com a prisão. A grande massa da população, ligada à religiosidade tradicional, protestou contra as medidas imperiais, consideradas impiedosas. O imperador então voltou atrás, anulando a pena e anistiando os bispos. No entanto, a alta hierarquia da Igreja se afastou do Estado imperial, reduzindo seu apoio ao regime monárquico.

Os militares e a Proclamação da República A Proclamação da República foi conduzida por setores do Exército com o apoio dos republicanos paulistas, que em sua maioria eram cafeicultores. Desse modo, sob a liderança do marechal Deodoro da Fonseca, a Monarquia foi derrubada em 15 de novembro de 1889, por meio de um golpe de Estado que não teve participação popular. Ao tomar o poder, os militares expulsaram do país o imperador D. Pedro II e organizaram um governo provisório. Em seguida, convocaram uma Assembleia Constituinte, formada por representantes dos grupos de elite que participaram do golpe, a fim de elaborar uma nova Constituição. Essa Constituição ficou pronta no início de 1891 e estabeleceu como regime político do país a República Federativa. Entre as diretrizes dessa nova Constituição, destacavam-se a ruptura entre Igreja e Estado (não haveria mais religião oficial) e a criação do casamento civil. Além disso, as províncias passaram a ser chamadas de estados, e o país, de Estados Unidos do Brasil. A administração da República foi dividida em três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. O mandato do presidente foi fixado em quatro anos, sem direito à reeleição. As eleições passaram a ser diretas e com voto aberto (não era secreto). Podiam votar os maiores de 21 anos que não fossem analfabetos, mendigos, soldados ou membros de ordens religiosas. Como a Constituição não fazia nenhuma referência à mulher, elas não tinham direito ao voto.

Capa da Constituição da República, de 1891.

A “República Velha” A Primeira República, também chamada “República Velha”, é comumente dividida em República da Espada, de 1889 a 1894, período em que o Brasil foi governado pelos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto; e República Oligárquica, de 1894 a 1930, em que prevaleceram os interesses dos grandes cafeicultores. Durante o primeiro período, os militares compunham a principal força política capaz de manter a ordem interna para a consolidação do novo regime. No segundo período, iniciado com o governo do paulista Prudente de Morais, o poder voltou para as mãos dos civis, mais especificamente para os grupos oligarcas de São Paulo e Minas Gerais. Ao contrário dos militares, que buscavam uma política centralizadora, os governos oligarcas eram adeptos do federalismo, que dava maior autonomia para os governos estaduais.

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O poder das oligarquias

Durante o seu governo, Deodoro assumiu uma política autoritária e centralizadora, causando descontentamento nos cafeicultores. Esses cafeicultores formavam oligarquias que detinham o poder econômico do país em função dos lucros obtidos com a exportação do café. Eles haviam apoiado o golpe contra a Monarquia, porém rejeitavam a implantação de um governo militar autoritário no país. Assim, passaram a pressionar Deodoro até que, em novembro de 1891, ele renunciou. Floriano Peixoto, o vice-presidente, assumiu o poder e procurou se aliar às oligarquias. Essa união possibilitou a estabilização do regime republicano.

A política dos governadores A eleição do paulista Prudente de Morais, em 1894, marcou a ascensão dos grandes cafeicultores ao comando político do país. Nessa época, os presidentes do Brasil procuraram fazer alianças com as elites regionais, implantando a política dos governadores. Essa política, também conhecida como “café com leite”, possibilitou que os oligarcas se mantivessem no poder por cerca de 35 anos. As alianças com as elites regionais previam o apoio do governo federal aos grupos dominantes de cada estado. Em contrapartida, esses grupos defenderiam as políticas federais e garantiriam, a qualquer custo, a eleição de deputados que apoiassem o governo federal. Em várias regiões, entretanto, houve forte resistência contra a centralização do poder no governo federal. No Rio Grande do Sul, por exemplo, eclodiu a chamada Revolução Federalista.

Unidade 2

No início do período Republicano, o país foi governado por dois presidentes militares: Deodoro da Fonseca e, depois, Floriano Peixoto. Esses militares tinham como objetivo principal garantir a consolidação da República e, por isso, reprimiram grupos descontentes com o fim da Monarquia. Além disso, eles se empenharam em centralizar o poder, confrontando grupos regionais que desejavam maior autonomia em relação ao governo federal.

Por que “café com leite”? Na Primeira República, São Paulo e Minas Gerais eram os estados com maior representação política. Como São Paulo era um grande exportador de café, e Minas Gerais, além do café, era um grande produtor de leite, a alian­ç a entre esses dois estados ficou conhecida como política do “café com leite”.

A Revolução Federalista Ocorrida entre 1893 e 1895, a Revolução Federalista foi motivada pela enorme insatisfação com o governo federal no início da República. Liderados por Gaspar da Silveira Martins, do Partido Federalista do Rio Grande do Sul, os federalistas defendiam a revisão da Constituição, a garantia de um sistema federativo e a adoção do governo parlamentar. Essas ideias, entretanto, eram contrárias às leis da Constituição do Rio Grande do Sul de 1891, defendida pelo Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), que era liderado pelo então governador Júlio de Castilhos. A divergência entre os defensores da autonomia estadual e os defensores da centralização do poder federal levou a uma luta armada que atingiu a região Sul do Brasil, ameaçando a estabilidade do regime republicano.

Fotografia de 1893 que retrata um grupo de federalistas, entre eles os comandantes Gumercindo e Aparício Saraiva, ambos ao centro da imagem. Autor desconhecido. Séc. XIX. Coleção particular

O ponto alto da revolução ocorreu em fins de 1893, quando colunas de maragatos — apelido dado aos federalistas — avançaram sobre Santa Catarina, juntando-se aos integrantes da Revolta da Armada. Esta se iniciara nos navios estacionados no Rio de Janeiro, tendo como causa as rivalidades entre o Exército e a Marinha e ressentimentos do almirante Custódio José de Melo, que se vira frustrado em seu objetivo de suceder a Floriano na presidência da República. Uma parte da esquadra rebelde deslocou-se para o Sul e ocupou Desterro (Florianópolis). Após a junção das duas forças, os federalistas invadiram o Paraná e tomaram Curitiba. A partir daí, tiveram de recuar, concentrando-se no Rio Grande do Sul. Os combates aí prosseguiram até a deposição das armas pelos revoltosos, em agosto de 1895. A rendição resultou de um acordo que teve a mediação do presidente Prudente de Morais. FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2. ed. São Paulo: Edusp; FDE, 1995. p. 255-6. (Didática).

A Primeira República

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Coronelismo e clientelismo

O presidente, o governador e o coronel

Para que os governadores conseguissem garantir a eleição de deputados favoráveis ao governo federal, eles faziam alianças com grandes proprietários rurais, também chamados de coronéis. Os coronéis se aproveitavam do poder que exerciam sobre a população pobre para garantir os votos que desejavam.

A prática do coronelismo fazia parte de uma estrutura mais ampla, conhecida como política das oligarquias, que se dava em três níveis: federal, estadual e municipal. No nível federal, o governo contava com o apoio dos governadores dos estados, que a cada eleição reafirmavam suas alianças e interesses políticos. Em troca, o presidente atribuía amplos poderes a eles. O nível estadual era dominado pelas oligarquias regionais, que recebiam o apoio dos coronéis e concediam a eles muitos privilégios caso garantissem a eleição dos candidatos favoráveis ao governo. No nível municipal se destacava a figura do coronel, que exercia seu poder em uma região do interior do país. Ele era responsável por garantir que a população votasse nos deputados favoráveis ao governo.

Essa prática ficou conhecida como coronelismo e só foi possível por causa da opressão que os proprietários de terra exerciam sobre os camponeses, dependentes de sua terra e “proteção”. Além da opressão, os coronéis também controlavam os votos dos trabalhadores por meio de pequenos favores, por exemplo, doando roupas ou conseguindo uma vaga para um idoso doente em algum hospital da região. Essa prática foi chamada de clientelismo.

O voto de cabresto Para o funcionamento do coronelismo, era fundamental a ação dos cabos eleitorais, que faziam o contato e reuniam os eleitores.

Alfredo Storni. Em “Careta”. 19/02/1927. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (RJ)

Como o voto não era secreto, os eleitores eram facilmente coagidos a votar nos candidatos apoiados pelos coronéis. Além disso, as fraudes eleitorais eram muito frequentes e, por isso, raramente os candidatos de oposição conseguiam se eleger. O voto de cabresto tornou-se uma prática comum, principalmente no interior do país, e permitia que as elites oligárquicas se mantivessem no poder. Controlando o resultado das eleições, o coronel exercia grande influência na política estadual, chegando até mesmo a administrar a justiça e a controlar a polícia em suas áreas de influência. Cabresto: tipo de correia usada na cabeça de animais quadrúpedes para conduzi-los.

Explorando a imagem

••Explique a ironia da charge.

Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.

Charge de Alfredo Storni publicada na revista Careta, em 1927, que ironiza o voto de cabresto.

Linha do tempo 1889

Deodoro da Fonseca, apoiado por alguns militares, proclama a República no Brasil. 1890

1891

Promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil.

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Primeira República

1903

1912

Início das reformas urbanas no Rio de Janeiro, conhecidas como Bota-abaixo. 1895

1895

1900

Início da Guerra de Canudos, no Sertão nordestino.

Início da Guerra do Contestado, ocorrida na fronteira dos estados de Santa Catarina e Paraná. 1905

1904

Eclode a Revolta da Vacina, na cidade do Rio de Janeiro.

1910

1917

Greve geral dos operários em São Paulo.

1925

Início da Coluna Prestes, marcha que percorreu cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil com o objetivo de incentivar a revolta popular contra o governo. 1915

1920

1930

1925

O então presidente Washington Luís é deposto e Getúlio Vargas assume o governo provisório do país. Esse episódio marca o fim da Primeira República.

1930


Os imigrantes no Brasil

Desde a proibição do tráfico de escravos, em 1850, diversos grupos da elite brasileira concordavam que era necessário trazer imigrantes para o Brasil a fim de substituir a mão de obra escrava. Com a abolição da escravidão, em 1888, grande parte da elite brasileira aderiu a essa ideia. O governo republicano deu grande incentivo à imigração para o Brasil, subsidiando a viagem das famílias de imigrantes. Os principais grupos que vieram para o Brasil eram de origem italiana, portuguesa, espanhola, alemã, japonesa, libanesa e síria.

O contexto europeu A maioria dos imigrantes que veio para o Brasil no início da República era de origem europeia. Nessa época, ocorreu um aumento populacional em toda a Europa, além da expansão da industrialização e do aumento da concentração das terras nas mãos de poucos proprietários. Desse modo, muitos trabalhadores do campo ficaram sem terra e sem trabalho, sendo obrigados a ir para as cidades, onde também não havia empregos para todos. Além disso, em muitas regiões da Europa, a população sofria com os malefícios provocados por guerras quase que ininterruptas. Muitos europeus pobres viam o Brasil como um país onde poderiam trabalhar e conquistar melhores condições de vida.

Os imigrantes nos cafezais Muitos imigrantes que vieram para o Brasil durante a Primeira República foram trabalhar nos cafezais. O tipo de contrato estabelecido entre os imigrantes e os grandes proprietários era o colonato. Esse contrato estabelecia que todos os integrantes da família, incluindo homens, mulheres e crianças, deveriam trabalhar na lavoura de café. Em troca, cada família recebia uma parte do café colhido e uma pequena remuneração. Eles também podiam utilizar pequenos lotes de terras, onde cultivavam cereais e legumes para sua subsistência, vendendo o excedente de sua produção. Colonos italianos trabalhando na colheita de café, no interior do estado de São Paulo, por volta de 1902. Fotografia de Guilherme Gaensly.

Guilherme Gaensly. c. 1902. BND - Biblioteca Nacional Digital

Os imigrantes moravam em pequenas casas localizadas nas sedes das fazendas. Geralmente, eles eram proibidos de se retirar das fazendas em que trabalhavam sem a autorização do proprietário e, além disso, frequentemente eram vítimas de maus-tratos. Assim, muitos deles fugiam para outras fazendas ou para as cidades em busca de melhores condições de vida.

A Primeira República

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Unidade 2

No início da República, ocorreu no Brasil a chamada “grande imigração”. Nesse período, muitos estrangeiros deixaram seus países de origem para morar e trabalhar no Brasil.


As atividades urbanas No início do século XX, as oportunidades de emprego cresceram nas cidades brasileiras. Isso ocorreu por causa do aumento no número de indústrias, que precisavam contratar cada vez mais operários. Além disso, com as reformas urbanas e a modernização de várias cidades, muitos trabalhadores foram contratados para trabalhar em obras públicas e na construção civil. Essas novas oportunidades levaram um grande número de imigrantes a se estabelecer nas cidades. Industrialização no Brasil

Em “A Plebe”. 12/02/1927. Coleção particular

Durante a Primeira República, a industrialização do país foi amplamente impulsionada. Diversas indústrias, principalmente de tecidos e de alimentos, foram instaladas em grandes cidades do país, como Rio de Janeiro e São Paulo. Muitos empresários industriais eram comerciantes e cafeicultores que conseguiram acumular capital necessário para investir em indústrias nas cidades, empregando um grande número de imigrantes.

Nas indústrias, os imigrantes eram maioria entre os operários. Por causa da inexistência de leis que os defendessem, eles trabalhavam de 10 a 14 horas por dia, geralmente em locais insalubres. Grande parte do operariado era composta por mulheres e crianças, que ganhavam um salário inferior ao dos homens. Além da indústria, muitos imigrantes passaram também a trabalhar no comércio, que crescia bastante nas cidades, principalmente naquelas em que os portos e as ferrovias estavam sendo modernizados. Muitos imigrantes se tornaram vendedores ambulantes de produtos como vassouras, tecidos, panelas e alimentos. Com o tempo, alguns conseguiram economizar capital suficiente para se tornar proprietários de negócios.

Os trabalhadores imigrantes se organizam Nas cidades, os imigrantes se uniam para ajudar uns aos outros, conforme a necessidade. Para isso, fundaram as chamadas sociedades beneficentes. Várias delas existem até hoje, atuando principalmente como hospitais. Por outro lado, havia muitos imigrantes europeus que eram influenciados por ideias socialistas e anarquistas. Eles passaram a criticar as sociedades beneficentes por não promoverem a participação dos trabalhadores na luta por melhores condições de vida. Os socialistas e os anarquistas lutavam por direitos que consideravam indispensáveis, como a jornada de trabalho de oito horas, a aposentadoria e o direito à greve, considerada o meio mais efetivo para exigir benefícios. Buscando promover essa luta, muitos trabalhadores se organizaram nas chamadas ligas de resistência e ligas operárias, que deram origem aos primeiros sindicatos do Brasil. Fac-símile da capa do jornal anarquista A Plebe, que começou a ser publicado a partir de 1917. Jornais como esse circulavam entre os operários, possibilitando a difusão de ideias anarquistas.

O sujeito na história

Maria Lacerda de Moura

Além dos imigrantes, muitos brasileiros tiveram um importante papel na organização dos primeiros sindicatos. Esse é o caso de Maria Lacerda de Moura (18871945). Nascida em Manhuaçu, Minas Gerais, ela é considerada uma das primeiras feministas do Brasil. Além de educadora, escritora e ativista dos direitos das mulheres, foi jornalista e participou do movimento sindical operário, colaborando em jornais anarquistas. Criticou a sociedade burguesa de sua época, que colocava a mulher em condição de inferioridade. Com uma atitude considerada ousada para sua época, Maria Lacerda contribuiu para que as mulheres brasileiras conquistassem vários direitos no século XX.

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No início do século XX, com o apoio das elites urbanas, os governantes realizaram uma série de reformas nas maiores cidades do país. Eles pretendiam modernizar as cidades e “civilizar” a população. Para empreender tais reformas, o governo brasileiro se inspirou na organização urbana das cidades europeias. Nessa época, foram construídas largas avenidas e instalados bondes elétricos, que permitiram às pessoas se deslocar de um lugar para outro com maior rapidez. Além dos bondes, o uso da eletricidade permitiu a substituição dos lampiões a gás por lâmpadas. Nas áreas mais ricas das cidades, foram instalados encanamentos de água e rede de esgoto.

Belle Époque: do francês, “Bela Época”, período que se estendeu de meados do século XIX até a Primeira Guerra Mundial, em 1914, marcado por um grande otimismo e por intensas mudanças na cultura, nas produções intelectuais e nas artes.

Esse período de inovações foi marcado por intensas mudanças, criando um sentimento de otimismo nas pessoas. Leia o texto a seguir.

Margo Harrison/ Shutterstock.com

[...] De repente [...], o homem tinha em seu poder engenhos inacreditáveis: um carro que anda sem precisar ser puxado por cavalos, um fio que instantaneamente transmite mensagens de um continente a outro, uma lâmpada sem gás nem pavio, um aparelho para conversar com pessoas a longa distância, outro para tirar retratos perfeitos como um espelho, uma curiosa maquininha capaz de gravar e reproduzir todos os sons deste mundo, uma tela mágica onde são projetadas imagens de pessoas, bichos e coisas movendo-se animadamente, igualzinho à vida real... E para coroar esse festival de deslumbramento, vira realidade o mais caro sonho humano: voar! O século XX traz uma surpresa atrás da outra, revelando a cada vez um novo talento humano. Do espírito sorridente da Belle Époque, confiante de que não haverá mais guerras, emana uma fé inabalável no progresso. E as extraordinárias novidades do século, verdadeiras flores da ciência, são a um tempo símbolo e garantia de um mundo melhor. Um admirável mundo novo.

Dja65/Shut ters tock

Margo Harrison/ Shutterstock.com

As imagens representam três novidades já acessíveis à população mais abastada do início do século XX: um automóvel, uma câmera fotográfica e uma luminária elétrica.

.com

Nosso Século 1900-1910. São Paulo: Abril Cultural, 1980. v. 1. p. 55.

A Primeira República

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Unidade 2

A modernização das cidades


Marc Ferrez. 1918. Coleção Gilberto Ferrez, Instituto Moreira Salles, São Paulo (SP)

O cinema A eletricidade possibilitou às pessoas uma nova opção de lazer: o cinema. A primeira exibição de um filme no Brasil aconteceu em 1896, no Rio de Janeiro, e, desde então, várias salas de cinema foram instaladas nas maiores cidades brasileiras. Ir ao cinema toda semana, trajando a melhor roupa, tornou-se então um costume nas grandes cidades. O sucesso do cinema foi tão grande que, em pouco tempo, o vestuário, os gestos e as falas dos atores e atrizes passaram a ser incorporados pelos espectadores brasileiros em seu dia a dia. As mulheres, por exemplo, passaram a usar roupas mais ousadas, maquiagem e cabelos curtos, e a trabalhar fora, adquirindo maior autonomia e liberdade. Os homens, por sua vez, procuravam andar elegantes, barbeados, com cabelos curtos e cuidadosamente penteados. Além disso, o cinema estimulou o desejo de consumir produtos — como roupas, eletrodomésticos e objetos usados pelos atores. Fotografia de Marc Ferrez que retrata a entrada do cinema Pathé, no Rio de Janeiro (RJ), por volta de 1918.

O sujeito na história

Santos Dumont

Em meio à euforia causada pelas inovações científicas e tecnológicas, que alteraram o cotidiano das pessoas em todo o mundo a partir do final do século XIX, destacaram-se as contribuições do brasileiro Alberto Santos Dumont. Nascido em 1873, na cidade de Palmira (atualmente chamada Santos Dumont), em Minas Gerais, ele se mudou para Paris, na França, onde se tornou conhecido e respeitado pela população por causa de sua contribuição no desenvolvimento da aviação. Após ter realizado várias experiências e contornado a Torre Eiffel a bordo de um balão dirigível, Santos Dumont realizou, no dia 23 de outubro de 1906, um voo histórico: a bordo do aeroplano que havia projetado e batizado de 14-bis, ele voou por 60 metros a uma altura média de 2,5 metros no campo de Bagatelle. Esse foi o primeiro voo autônomo de uma aeronave, que inaugurou uma nova fase da aviação mundial. No final de sua vida, quando já era portador de uma doença degenerativa em estágio avançado, ele presenciou a utilização de aviões como arma durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Profundamente abalado, Santos Dumont suicidou-se nesse mesmo ano.

Autor desconhecido. 1906. Coleção particular

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Voo do 14-bis no campo de Bagatelle, em Paris, na França, em 1906.


Autor desconhecido. 1910. Coleção particular

O cotidiano das cidades foi transformado pelos novos meios de transporte, como os bondes elétricos e os automóveis, que alcançavam em média 20 quilômetros por hora, sendo considerados muito velozes na época. Os primeiros automóveis circularam pelas ruas brasileiras no início do século XX. Em 1904, por exemplo, havia cerca de 80 veículos na cidade de São Paulo, que disputavam espaço com carroças e charretes puxadas por cavalos. Nessa época, foram criadas as primeiras leis de trânsito, que regulamentavam a velocidade máxima permitida e obrigavam os motoristas a fazer exames para tirar a carteira de habilitação. Por causa do alto preço, o automóvel particular era um bem pouco acessível à maioria da população urbana, que dependia do transporte coletivo — o bonde elétrico — para se deslocar.

Fotografia de 1910 retratando vários automóveis estacionados em uma rua de São Paulo (SP).

Outras novidades no dia a dia urbano A modernização das cidades e as novidades tecnológicas provocaram grandes transformações no cotidiano dos brasileiros. Nessa época, chegaram ao Brasil novos meios de comunicação, como os aparelhos de telefone e o telégrafo, que possibilitaram às pessoas trocar informações com maior rapidez. Além dos meios de comunicação, começaram a ser importados novos utensílios domésticos, como ferros elétricos e máquinas de costura, fogões a gás, geladeiras, máquinas fotográficas e cinematográficas.

A prática de esportes Entre o final do século XIX e início do século XX, diferentes esportes foram introduzidos no Brasil, entre eles a esgrima, o tênis, o basquete e a natação. Foram também criados vários clubes de regata.

Iconographia/Reminiscências

Nessa época, chegou também ao Brasil o futebol. Sob a influência dos imigrantes ingleses, os brasileiros incorporaram o futebol como atividade de lazer. No início do século XX, formaram-se os primeiros clubes de futebol no país, muitos dos quais se tornaram times profissionais e passaram a disputar campeonatos estaduais, nacionais e internacionais.

Esgrima: tipo de esporte com espada. Regata: tipo de competição de velocidade com embarcações de pequeno porte.

Nessa fotografia, vemos uma partida de futebol realizada no Rio de Janeiro (RJ), por volta de 1910.

A Primeira República

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Unidade 2

Os meios de transporte


O projeto de “regeneração” Na virada do século XIX para o XX, o progresso econômico alcançado com a cafeicultura e com a industrialização acelerou as transformações sociais. Surgiu uma nova elite enriquecida, formada principalmente por industriais, banqueiros e cafeicultores. Essa elite, que acreditava viver em um país atrasado, de características coloniais, buscava o alinhamento com a cultura e os costumes europeus, considerados modelos de “progresso” e “civilização”, coerentes com a dinâmica e os valores do novo século. Assim, no século XX, teve início um processo de profundas transformações no espaço público, no modo de vida e na mentalidade das pessoas. No Rio de Janeiro, então capital do Brasil, por exemplo, ocorreu o chamado projeto de “regeneração”.

Leia o texto.

Augusto Malta c. 1906. Coleção particular. Foto: Iconographia/Reminiscências

Fotografia de Augusto Malta que retrata o interior de uma luxuosa loja de roupas, no Rio de Janeiro (RJ), por volta de 1906.

Com esse projeto, além de uma capital “moderna”, as elites brasileiras desejavam que a população fosse “civilizada”, ou seja, que se comportasse de acordo com padrões europeus. Por isso, vários costumes e tradições considerados atrasados, como a serenata e o jogo de capoeira, além de festas tradicionais e manifestações religiosas populares, foram sistematicamente reprimidos, somente encontrando espaço nos bairros distantes do centro.

[...] Quatro princípios fundamentais regeram o transcurso dessa metamorfose [...]: a condenação dos hábitos e costumes ligados pela memória à sociedade tradicional; a negação de todo e qualquer elemento de cultura popular que pudesse macular a imagem civilizada da sociedade dominante; uma política rigorosa de expulsão dos grupos populares da área central da cidade, que será prati­camente isolada para o desfrute exclusivo das camadas aburguesadas; e um cos­mo­ politismo agressivo, profundamente identificado com a vida parisiense. SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1999. p. 30.

Problemas de infraestrutura A cidade do Rio de Janeiro, no início do século XX, ainda possuía características urbanas do período colonial. O centro da cidade era repleto de cortiços. As ruas eram sujas e estreitas e quase não havia saneamento básico. Doenças como varíola, malária, febre amarela e peste bubônica atingiam frequentemente a população. Além disso, o porto carioca não tinha estrutura para receber navios de grande porte, prejudicando a circulação de mercadorias entre a capital e outras regiões do Brasil e do mundo.

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O Bota-abaixo Unidade 2

Em 1902, Rodrigues Alves assumiu a presidência do Brasil e um dos seus principais projetos foi implementar um programa de reformas urbanas e sanitárias no Rio de Janeiro. Essas reformas visavam tornar a cidade mais limpa e moderna, de modo a transmitir ao mundo a impressão de que a capital federal do Brasil era uma cidade “civilizada”. Para realizar as reformas propostas, o presidente deu amplos poderes ao prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Pereira Passos. Durante as obras, muitos prédios antigos foram demolidos e milhares de pessoas ficaram desabrigadas. Esse período da história do Rio de Janeiro ficou conhecido como Bota-abaixo. Rua Uruguaiana, no Rio de Janeiro (RJ), em 1905. Fotografia de Augusto Malta.

Augusto Malta. 1905. Coleção particular

A

Rua Uruguaiana, no Rio de Janeiro (RJ), em 1906. Fotografia de Augusto Malta.

B

Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.

Augusto Malta. 1906. Coleção particular

Explorando a imagem

••As fotografias A

e B retratam um mesmo local, em anos diferentes. Quais foram as principais transformações que ocorreram nesse local?

A Primeira República

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A expulsão da população pobre Durante as reformas, muitos moradores pobres e pequenos comerciantes foram expulsos do centro da cidade, sem receber indenização ou ter um novo local para morar. As obras foram conduzidas de modo autoritário e com repressão policial, gerando grande insatisfação popular. Os pobres, desalojados de suas residências, mudaram-se para os morros vizinhos ou para os subúrbios, construindo moradias improvisadas com material de demolição obtido no centro da cidade. Essas moradias improvisadas deram origem às primeiras favelas do Rio de Janeiro.

A sanitarização e a Revolta da Vacina

Autor desconhecido. Em “Popular Science”, no 87. 1915. Coleção particular

O médico sanitarista Oswaldo Cruz foi encarregado de conduzir as reformas sanitárias no Rio de Janeiro. Com o objetivo de sanear a cidade, dedicou-se, inicialmente, ao combate de doenças como a febre amarela e a peste bubônica, eliminando mosquitos e ratos. Em seguida, comandou o processo de erradicação da varíola, porém o único meio de combater essa doença era vacinar a população. Na época, membros da oposição ao governo propagaram informações infundadas que questionavam a eficácia da vacina. Essas informações assustaram boa parte da população, sobretudo as pessoas de origem pobre, que se recusaram a tomá-la. Por isso, o governo aprovou, em novembro de 1904, a Lei da Vacina Obrigatória e passou a usar a força policial nos casos de resistência à vacinação. A população, que já estava cansada das medidas autoritárias do governo, iniciou então uma grande revolta. Durante uma semana, a população levantou barricadas nas ruas, depredou edifícios e saqueou lojas. Nos confrontos com a polícia, houve grande número de mortos e feridos. Após a revolta, a vacinação deixou de ser obrigatória e tornou-se voluntária.

Leônidas Freire. Em “O Malho”. 29/10/1904. Coleção particular

Oswaldo Cruz em fotografia de 1903.

Explorando a imagem a ) Identifique, na charge, o médico Oswaldo Cruz. Como ele foi representado? b ) De acordo com a charge, como a população reagiu à vacinação obrigatória? Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor. Charge de Leônidas Freire publicada na revista O Malho, em 1904.

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Os movimentos populares Unidade 2

No Brasil, no início da República, havia uma grande dificuldade de comunicação entre o sertão e as regiões urbanizadas, localizadas geralmente nas áreas litorâneas. O povo sertanejo vivia em condições precárias, isolado e com poucas opções de trabalho. Grande parte morava e trabalhava nas terras dos “coronéis”. Uma das alternativas buscadas pelos mais pobres foi o messianismo, que é a esperança depositada em um líder capaz de livrá-los de seus sofrimentos. Homens com grande carisma, que ajudavam os necessitados e pregavam valores cristãos, eram idolatrados pelo povo e considerados “salvadores”.

A Guerra de Canudos Flávio de Barros. 1897. Museu da República, Rio de Janeiro (RJ)

Um desses “salvadores” foi Antônio Conselheiro. Percorrendo o sertão do Nordeste brasileiro, Conselheiro reuniu um grande número de seguidores. Em 1893, eles organizaram uma sociedade comunitária, na qual as leis seriam baseadas nas palavras da Bíblia, e todas as pessoas trabalhariam cooperando entre si. Para isso, estabeleceram-se em uma região chamada Canudos, no norte da Bahia. Lá fundaram um arraial, que chamaram de Belo Monte, administrado por Antônio Conselheiro. Os habitantes desse arraial plantavam feijão, milho, cana-de-açúcar e mandioca, além de criar aves e cabritos. Eles produziam para sua subsistência e vendiam o excedente nas cidades próximas, para comprar armas e madeira. Apenas três anos após sua fundação, o arraial já contava com cerca de 10 mil habitantes. A quantidade de famílias que estava se mudando para Canudos começou a incomodar os poderosos da região. Os habitantes do arraial não trabalhavam para os latifundiários, mas em benefício próprio, negociando os produtos diretamente com comerciantes. Além disso, eles aprendiam a doutrina cristã da forma que Conselheiro ensinava, e não como pretendia a Igreja, e ainda criticavam o governo republicano, principalmente por causa da cobrança de altos impostos. Alguns jornais do país, apoiados em relatórios da Igreja e em boatos, chamavam os habitantes de Canudos de “fanáticos” e “monarquistas”. Nessa época, a República estava sendo consolidada, e a ideia de um reduto monarquista no sertão preocupava as autoridades republicanas. Diante dessa situação, em 1896, o governador da Bahia solicitou ao Exército a aniquilação de Canudos. O Exército realizou três expedições ao arraial, que foram derrotadas, por causa da tenaz resistência de seus habitantes. Em 1897, foi enviada uma quarta expedição, com milhares de soldados e as melhores armas que o Exército possuía. Essa expedição dizimou Canudos, massacrando sua população.

Soldado do Exército com um prisioneiro de Canudos. Fotografia de Flávio de Barros, tirada em 1897.

O sujeito na história

Autor desconhecido. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (RJ)

O tema sobre a Guerra de Canudos favorece o trabalho interdisciplinar com Literatura. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

Euclides da Cunha

Euclides da Cunha (1866-1909) foi jornalista, poeta e engenheiro. Atuando como correspondente de guerra de um jornal de São Paulo, ele presenciou os horrores da Guerra de Canudos e escreveu a obra Os Sertões, publicada em 1902, que se tornou referência para a compreensão desse episódio histórico. Euclides da Cunha. Fotografia do início do século XX.

A Primeira República

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A Guerra do Contestado No início do século XX, havia um território pertencente ao estado do Paraná cujo direito de posse era contestado por Santa Catarina. Os habitantes dessa região, que ficou conhecida como Contestado, praticavam agricultura de subsistência e exerciam atividades como o cultivo de erva-mate e o corte de madeiras. Como havia poucos padres e médicos, a população se aconselhava e tratava de doenças com os chamados monges. Os monges eram pessoas de grande carisma, que não tinham vínculos com qualquer religião, mas eram conhecedores dos valores cristãos e, também, das plantas medicinais da região. Entre esses monges curandeiros, destacou-se José Maria. Em 1912, ele organizou uma sociedade comunitária na cidade de Irani, na região do Contestado, que recebeu o nome de Vila Santa. Em pouco tempo, a vila atraiu uma grande quantidade de pessoas, despertando a preocupação das autoridades republicanas, que mobilizaram tropas para acabar com o movimento. A Brazil Railway

Claro Gustavo Jansson. 1914. Coleção particular

O governo brasileiro contratou, em 1908, a Companhia Brazil Railway para a construção de uma linha férrea que atravessaria a região do Contestado, ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul. Para a construção da ferrovia, o governo concedeu à companhia o direito de adquirir terras em torno da linha férrea, onde já moravam diversas famílias. Essas famílias foram expulsas de suas casas e tiveram que buscar um novo local para morar e trabalhar. Com isso, muitas dessas pessoas aderiram ao movimento do Contestado.

Claro Gustavo Jansson. Coleção particular

Portando suas armas, sertanejos do Contestado posam para fotografia. Entre eles, há dois músicos (em pé, à direita). Fotografia de Claro Gustavo Jansson, de 1914.

Fotografia de Claro Gustavo Jansson que retrata as obras de construção da ferrovia na região do Contestado, em 1914.

Em 22 de novembro de 1912, José Maria morreu combatendo as tropas do governo do Paraná. Depois de sua morte, novos líderes surgiram e várias “vilas santas” foram fundadas. Os revoltosos sa­q uearam cidades, destruíram trens e entraram em confronto com grandes contingentes de tropas do Exército. Em 1915, com o uso de aparatos de guerra, como metralhadoras e aviões, tropas estaduais e federais dispersaram os revoltosos. Em 1916, com a prisão do último líder, a Guerra do Contestado chegou ao fim, deixando milhares de mortos.

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Em “A Illustração Brazileira”. 01/12/1910. Coleção particular. Foto: Iconographia/Reminiscências

No início do século XX, a Marinha do Brasil possuía alguns dos navios de guerra mais mo­ dernos do mundo. Apesar disso, os marinheiros, em sua maioria descendentes de africanos, permaneciam submetidos a leis herdadas do período escravista. Uma das leis mais ultrajantes permitia chibatadas como punição aos marinheiros, o que gerava grande descontentamento entre eles. Essa insatisfação crescente motivou um gru­ po de marinheiros a articular um movimento que ficou conhecido como Revolta da Chibata. Em 22 de novembro de 1910, o marinheiro João Cândido Felisberto liderou mais de dois mil colegas, que assumiram o controle de quatro navios ancorados no Rio de Janeiro: o Minas Gerais, o São Paulo, o Bahia e o Deodoro. Por rádio, ele comunicou às autoridades as exigências dos marinheiros: fim dos castigos corporais, aumento dos salários e melhoria nas condições de trabalho.

Fac-símile do jornal A Illustração Brazileira, de 1910, noticiando “a revolta da marinhagem”.

Iconographia/Reminiscências

Para pressionar o governo, João Cândido comandou as tripulações dos navios em manobras no litoral, chegando a disparar alguns tiros de canhão. Diante da ameaça contra a capital, o governo federal decidiu atender às reivindicações dos marinheiros, que se entregaram em 26 de novembro de 1910. Os castigos corporais foram abolidos, entretanto, dias depois, a Marinha prendeu alguns marinheiros, incluindo João Cândido. Ele foi expulso da corporação e permaneceu preso até 1912. João Cândido, que ficou conhecido como “Almirante Negro”, sofreu muitas perseguições das autoridades, o que não o impediu de participar ativamente de outros movimentos políticos até o fim de sua vida, em 1969.

Fotografia de Augusto Malta que retrata João Cândido, em 1910, lendo o documento que continha as exigências dos marinheiros revoltosos.

A Primeira República

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Unidade 2

A Revolta da Chibata


Explorando o tema

Os afro-brasileiros depois da abolição

A abolição da escravidão no Brasil, em 1888, foi resultado da união e da luta de diversos grupos sociais brasileiros pela libertação dos escravos. No entanto, o governo republicano, instalado um ano mais tarde, não empreendeu políticas de inclusão dos ex-escravos na sociedade. Por falta de opção, muitas dessas pessoas permaneceram em fazendas, trabalhando em troca de uma pequena remuneração. Outras procuraram um pedaço de terra desocupada e lá se instalaram. Muitos ex-escravos, porém, deslocaram-se para as cidades em busca de melhores condições de vida. Por causa da discriminação e da falta de boas oportunidades de emprego, no entanto, tinham que aceitar os trabalhos mais pesados ou prestar serviços nas ruas das cidades, recebendo pequenos pagamentos.

Redes de solidariedade como estratégia de sobrevivência Autor desconhecido. Coleção particular

Sem contar com o apoio do governo e enfrentando dificuldades para sobreviver, os ex-escravos se organizaram e formaram redes de solidariedade, em que contavam com a ajuda dos demais. Essas redes de solidariedade arrecadavam dinheiro para a compra de alimentos e roupas aos necessitados, conseguiam assistência médica para os doentes e promoviam eventos culturais e artísticos. Além disso, elas contratavam advogados para defender os direitos e a liberdade religiosa dos afro-brasileiros. Essas redes foram formadas em diferentes regiões do país e permitiram a essas pessoas resgatar sua força e dignidade por meio da cooperação e do trabalho comunitário. Um bom exemplo da importância social e cultural dessas redes de solidariedade é a casa da tia Ciata, que ficava localizada na cidade do Rio de Janeiro, no início do século XX. Leia o texto a seguir. Retrato de tia Ciata (1854-1924). Autor e data desconhecidos.

A casa de tia Ciata se torna a capital dessa Pequena África no Rio de Janeiro [...]. Na sua casa, capital do pequeno continente de africanos e baianos, se podiam reforçar os valores do grupo, afirmar o seu passado cultural e sua vitalidade criadora recusados pela sociedade. Lá começam a ser elaboradas novas possibilidades para esse grupo excluído das grandes decisões e das propostas modernizadoras da cidade, gente que progressivamente se integraria, a partir do processo de proletarização que se acentua no fim da República Velha e da redefinição de sua vida cultural [...]. Da Pequena África no Rio de Janeiro surgiriam alternativas concretas de vizinhança, de vida religiosa, de arte, trabalho, solidariedade e consciência, onde predominaria a cultura do negro vindo da experiência da escravatura, no seu encontro com o migrante nordestino de raízes indígenas e ibéricas e com o proletário ou o pária europeu, com quem o negro partilha os azares de uma vida de sambista e trabalhador. MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1995. p. 152-3.

A preservação das raízes culturais Para superar as dificuldades que enfrentavam, era muito importante para os afro-brasileiros manter seus costumes. Desse modo, todos os anos eles comemoravam a Festa do Divino Espírito Santo, a Congada e a Festa de Iemanjá, além do Moçambique e do Carnaval. As religiões de matriz africana, como o candomblé, mesmo sofrendo a repressão do governo, mantiveram os seus cultos e constituíram-se como núcleo de sociabilidade e de apoio espiritual. A música popular brasileira, desde aquele período, congregava elementos europeus com os ritmos de origem africana, em que predominavam o som dos tambores e do berimbau.

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A luta dos negros hoje Unidade 2

Desde o início do século XX, já existiam organizações que defendiam os direitos civis dos afrodescendentes. No entanto, foi somente nas últimas décadas que as organizações de defesa dos afrodescendentes se consolidaram. Leia o texto.

Inspirado no início dos anos 1970 pelo movimento negro americano, pelo pensamento de esquerda que liderava a resistência contra a ditadura militar no Brasil e pela luta anticolonialista dos povos africanos de língua portuguesa, o movimento negro brasileiro consolidou o seu papel reivindicatório e atingiu o auge. Nomeando Zumbi dos Palmares como herói inspirador, elegeu 20 de novembro como o Dia Nacional da Consciência Negra. “O ato simbolizava a recusa pelas celebrações do 13 de maio, que glorificava o ato da princesa Isabel, repleto de significações negativas”, explica [a educadora] Sueli Carneiro.

Em 1978, o movimento finalmente atingiu a importância que buscara até então. Em ato público contra a morte por tortura de um trabalhador negro, o assassinato de um operário mestiço por um policial e o impedimento de atletas afrodescendentes entrarem no Clube de Regatas Tietê, diversos grupos negros, até então espalhados pelo país, reuniram-se nas escadarias do Teatro Municipal, em São Paulo. Batizado como Movimento Negro Unificado (MNU), o grupo bradava pelo reconhecimento de seus direitos e pela criminalização do racismo. O movimento ganhou o apoio de lideranças político-partidárias e conseguiu chamar a atenção da mídia para suas reivindicações. [...] Embora poucas, as vitórias são significativas. Em 1998, a Lei 4.370 estabeleceu cotas para artistas negros em filmes publicitários. Em 2001, foram aprovadas cotas para afrodescendentes nas universidades públicas do Rio de Janeiro. [...] Com a aprovação da Lei 10.639, tornou-se obrigatório o ensino de história da África, cultura africana e afro-brasileira em todas as escolas brasileiras, desde o primeiro grau. [...] São passos ainda incipientes, mas fundamentais para a superação das mazelas deixadas por séculos de opressão e preconceito, rumo à construção de uma sociedade verdadeiramente justa, pluralista e democrática. TAVARES, Juliana. A cor da indignação. História viva: Temas Brasileiros. São Paulo: Duetto. n. 3, s/d. p. 92-3. Edição Especial Temática: Presença Negra.

O braço direito erguido com a mão fechada é o símbolo do Movimento Negro. Ilustração do século XXI.

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José Luis da Conceição/Estadão Conteúdo

Manifestação no Dia Nacional da Consciência Negra, em 20 de novembro. Fotografia de 2007, tirada em São Paulo (SP).

A Primeira República

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Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento 1. Descreva os principais fatores que levaram

6. De que maneiras os imigrantes se organi-

à que­d a da Monarquia no Brasil, no final do século XIX.

zaram para lutar por melhores condições de vida no início do século XX?

2. Quais foram as transformações promovidas

7. Elabore um texto sobre a modernização das

pelos governantes na organização política e administrativa do Brasil depois da Proclamação da República?

3. O que levou as oligarquias regionais a entrarem em conflito com os militares que haviam proclamado a República no Brasil?

4. Como funcionava a política dos governadores, que predominou na Primeira República?

5. Quais eram as principais atividades desenvolvidas pelos imigrantes no campo? E nas cidades?

cidades brasileiras no início do século XX, apresentando as principais características desse processo.

8. Explique o que foi o Bota-abaixo e a Revolta da Vacina.

9. Apresente um resumo sobre os seguintes movimentos ocorridos na Primeira República. a ) Guerra de Canudos. b ) Guerra do Contestado. c ) Revolta da Chibata.

Expandindo o conteúdo 10. Leia o texto a seguir, que trata do ideal de formação da identidade nacional promovido pelos intelectuais brasileiros na passagem do século XIX para o XX.

Ao longo do século XIX toda a literatura sobre o Brasil, produzida pelos estrangeiros que nos visitaram, apresentou duas marcas: o encantamento com a natureza e o choque diante da escravidão. Os intelectuais brasileiros, por outro lado, estavam envolvidos na construção de uma identidade para o novo país. A identidade do Brasil, desde meados do século XIX, é pensada como resultado da fusão das três raças formadoras da nacionalidade — o branco, o índio e o negro. A participação do negro, entretanto, apresentava problemas. Vindo e vivendo como escravo, considerado como inferior, o negro se integra à nação através da miscigenação, mas não encontra lugar na construção ideológica da identidade brasileira. [...] A mestiçagem da população brasileira se coloca como um desafio, já que a ciência do final do século XIX considerava a mistura de raças um mal. A produção de seres híbridos — o pior de cada uma das raças — leva à crença de que o Brasil não terá lugar entre as nações civilizadas do mundo. Para além do impasse de ter que lidar com uma população mestiça, foi construído um imaginário sobre o Brasil e os brasileiros que afirmava a capacidade plástica (de se moldar, se adaptar), a cordialidade (garantida pela proximidade, pela intimidade) e a democracia racial (pela miscigenação) como ingredientes capazes de garantir a formação de uma grande nação nos trópicos. A hegemonia desse processo obviamente caberia ao português branco, latino e católico. Intelectuais brasileiros construtores da teoria do “branqueamento” no início do século XX — processo seletivo de miscigenação que dentro de três ou quatro gerações faria surgir uma população branca — viam a vinda de imigrantes brancos como um bem.

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É preciso lembrar que os povos estiveram sempre se movimentando ao longo dos territórios, rios e mares do globo, em deslocamentos contínuos. O curso da civilização ocidental foi movido pela existência de novos espaços — a ideia de uma fronteira aberta —, que atraiu e possibilitou a movimentação de grupos que se deslocavam da Europa para Oeste, em direção ao continente americano. Se isto acontecia des- A redenção de Can, de Modesto Brocos y Gomez, de 1895, representa a teoria do branqueamento. de [a conquis­t a portuguesa], um período de imigração em massa da Europa para a América aconteceu entre 1870 e 1930. Estima-se que 40 milhões tenham atravessado o Atlântico, migrando do Velho para o Novo Mundo. Outras fontes falam em 31 milhões. OLIVEIRA, Lucia Lippi. O Brasil dos imigrantes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 9-11. (Descobrindo o Brasil).

Após ler o texto, observe a tela acima e responda às questões. a ) Como os intelectuais do século XIX pensavam a construção da identidade brasileira? Segundo esses intelectuais, qual era o papel dos afrodescendentes nesse processo? b ) Explique a teoria do “branqueamento”, criada no início do século XX, relacionando-a com a tela A redenção de Can, de 1895. c ) De acordo com a teoria apresentada no texto, que função ocupava o imigrante europeu?

11. Leia o texto a seguir. Pensamos no dia 15 de novembro. Acontece que caiu forte temporal sobre a parada militar e o desfile naval. A marujada ficou cansada e muitos rapazes tiveram permissão para ir à terra. Ficou combinado, então, que a revolta seria entre 24 e 25. Mas o castigo de 250 chibatadas no Marcelino Rodrigues precipitou tudo. O Comitê Geral resolveu, por unanimidade, deflagrar o movimento no dia 22. O sinal seria a chamada da corneta das 22 horas. O Minas Gerais, por ser muito grande, tinha todos os toques de comando repetidos na proa e popa. Naquela noite o clarim não pediria silêncio e sim combate. Cada um assumiu o seu posto e os oficiais de há muito já estavam presos em seus camarotes. Não houve afobação. Cada canhão ficou guarnecido por cinco marujos, com ordem de atirar para matar contra todo aquele que tentasse impedir o levante. Às 22h50, quando cessou a luta no convés, mandei disparar um tiro de canhão, sinal combinado para chamar à fala os navios comprometidos. Quem primeiro respondeu foi o São Paulo, seguido do Bahia. O Deodoro, a princípio, ficou mudo. Ordenei que todos os holofotes iluminassem o Arsenal da Marinha, as praias e as fortalezas. Expedi um rádio para o Catete, informando que a Esquadra estava levantada para acabar com os castigos corporais. [...] FELISBERTO, João C. In: MOREL, Edmar. A Revolta da Chibata. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p. 73-4.

a ) Com base no conteúdo estudado na unidade, responda: a que levante esse texto faz referência? b ) Quem é o autor do texto? Como você chegou a essa conclusão? c ) Que fato antecipou o início do levante para o dia 22 de novembro? A Primeira República

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Unidade 2

Modesto Brocos y Gomez. 1895. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro (RJ)

O mestiço original poderia ser melhorado caso se introduzisse mais brancos à mistura original. A seleção de imigrantes obedeceu principalmente à demanda pelo branqueamento. A possibilidade de miscigenação e a disponibilidade à assimilação são variáveis fundamentais na definição de quais imigrantes são desejáveis. O imigrante, além de vir preencher uma demanda de braços para o trabalho, teria o papel de contribuir para o branqueamento da população, ao submergir na cultura brasileira por meio da assimilação.


Explorando a imagem

Guilherme Gaensly. c. 1902. Coleção particular

12. Observe a fotografia e leia o texto a seguir.

Imigrantes trabalhando no cafezal de uma fazenda do interior do estado de São Paulo. Fotografia de Guilherme Gaensly, de cerca de 1902.

Na época próxima à colheita, que ocorre geralmente em maio, são executadas as tarefas de preparação. Durante o período da colheita toda a família do colono participava do trabalho, inclusive as crianças, como se vê na foto. A colheita é feita por derriça; as cerejas derriçadas, juntamente com as folhas e pedacinhos de galhos são rastelados para fora das saias dos cafeeiros. Limpas as cerejas com as peneiras são conduzidas para o lavador ou diretamente para o terreiro. A colheita no pano, registrada ao centro, evita que o café derriçado entre em contato com a terra. Além da informação iconográfica que nos apresenta, por assim dizer, o fato da colheita, tal como se dá no campo, trata-se, por outro lado, de uma foto bastante elaborada sob o prisma estético. Os colonos — no momento da foto também personagens de Gaensly — são registrados “naturalmente”, em plena harmonia com o carro de bois e o restante da paisagem montanhosa ao fundo por onde se estende o cafezal: uma perfeita composição. [...] A serenidade que esta imagem romântica do trabalho nas fazendas de café transmite mascara, no entanto, uma dura realidade escondida além da imagem. [...] Em 1902, o governo italiano, através do decreto Prinetti, proibia a imigração subsidiada

para São Paulo, baseado em denúncias contidas nos relatórios de observadores que para aqui vieram. Constataram eles as péssimas condições de vida e trabalho a que estavam submetidos seus compatriotas nas fazendas de café. A construção estética dessa foto, onde se tem um forte apelo às composições românticas da pintura, tem uma finalidade: a de atrair colonos para as fazendas do Estado de São Paulo, como de fato foram utilizadas pelos agentes de recrutamento de trabalhadores na europa. Comprova isso o fato de que o fotógrafo era contratado pela Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo para documentar as fazendas do interior, justamente entre os anos de 1902 e 1903, época em que foi tirada a foto. As fotos de Gaensly foram continuamente multiplicadas pelas primeiras publicações ilustradas num contexto claramente promocional. Eis, pois, o verdadeiro significado dessa foto. Uma imagem que utiliza o realismo fotográfico da aparência enquanto testemunho fiel, enquanto “prova” que pode conduzir o receptor desavisado a imaginar uma situação verdadeira que não existe, para criar, enfim, no imaginário dos receptores uma (pseudo) realidade. [...] KOSSOY, Boris. Fotografia e História. 2. ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 118-21.

• •Com base na fotografia e nas considerações de Boris Kossoy, produza um texto sobre o

seguinte tema: “A fotografia é uma fonte histórica que deve ser analisada em seu contexto”.

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13. Leia os textos a seguir.

No aluir das paredes, no ruir das pedras, no esfarelar do barro, havia um longo gemido. Era o gemido soturno e lamentoso do Passado, do Atraso, do Opróbio. A cidade colonial, imunda, retrógrada, emperrada nas suas velhas tradições, estava soluçando no soluçar daqueles apodrecidos materiais que desabavam. Mas o hino claro das pica retas abafava esse protesto impotente. Com que alegria cantavam elas — as picaretas regeneradoras! É como as almas dos que ali estavam compreendiam bem o que elas diziam, no seu clamor incessante e rítmico, celebrando a vitória da higiene, do bom gosto e da arte!

Arquivo Público Mineiro

O Brasil entrou — e já era tempo — em fase de restauração do trabalho. A higiene, a beleza, a arte, o “conforto” já encontraram quem lhes abrisse as portas desta terra, de onde andavam banidos por um decreto da Indiferença e da Ignomínia coligadas. O Rio de Janeiro, principalmente, vai passar e já está passando por uma transformação radical. A velha cidade, feia e suja, tem os seus dias contados. [...]

Olavo Bilac (1865-1918). Fotografia de autor e data desconhecidos.

BILAC, Olavo. In: SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1999. p. 30-1.

Iconographia/Reminiscências

O individualismo, levado aos exageros destruidores do egoísmo, enfraqueceu os laços de solidariedade. Infelizmente (...) a noção de sacrifício se extingue com os progressos do individualismo revolucionário, cujo preceito supremo é o cada um por si. O Rio de Janeiro é o cosmopolitismo, é a ambição de fortuna de todas as criaturas, talvez, de todas as nações da terra, cada qual querendo vencer e dominar pelo dinheiro e pelo luxo, de qualquer maneira e a qualquer preço. Se a dissolução dos costumes que todos anunciam como existente, há, antes dela houve a dissolução do sentimento, do imarcescível sentimento de solidariedade entre os homens. BARRETO, Lima. In: SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1999. p. 39-40.

• Com base em seus conhecimentos e nas opiniões de Olavo Bilac e Lima Barreto,

escreva um texto dissertativo-argumentativo sobre os aspectos positivos e negativos do processo de modernização do Rio de Janeiro, no início do século XX. Em seu texto, compare os pontos de vista de cada um dos autores, destacando semelhanças e diferenças. Finalize o texto expressando sua opinião a respeito dos impactos da modernização do início do século XX nos dias de hoje, destacando mudanças e permanências.

Lima Barreto (1881-1922). Fotografia de autor desconhecido, tirada em 1916.

Vestibulares 1. (FGV-SP) O sucesso da imigração na década de 1880, como fórmula para substituir os escravos nas fazendas de café, foi resultado: a ) da Lei de Terras, que tornava acessível a terra aos estrangeiros pobres. b ) do financiamento da entrada de contingentes de imigrantes pelo governo.

c ) da industrialização do país, que abria novas perspectivas de empregos. d ) das colônias de parceria, introduzidas pelo senador Vergueiro em 1882. e ) da crise econômica nos EUA, que estimulou a emigração para o Brasil.

A Primeira República

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Unidade 2

Momento da redação


Ampliando seus conhecimentos Arte e história

A pintura de Almeida Júnior

A arte brasileira do fim do século XIX era predominantemente acadêmica e representava principalmente acontecimentos políticos, fatos históricos considerados importantes e as pessoas da elite social brasileira. Nesse contexto, destacou-se um pintor chamado José Ferraz de Almeida Júnior, que promoveu importantes inovações no cenário artístico brasileiro. Nascido em Itu (1850-1899), Almeida Júnior começou a revelar seu talento artístico ainda jovem. Com o auxílio dos moradores de sua cidade, ele conseguiu se mudar para o Rio de Janeiro para estudar na Academia Imperial de Belas-Artes. Seu talento despertou o interesse do imperador D. Pedro II, que lhe ofereceu uma bolsa de estudos na Escola Superior de Belas-Artes de Paris. Almeida Júnior viveu durante cinco anos na Europa, onde teve a oportunidade de conhecer de perto a obra de grandes pintores, como Gustave Coubert, Pierre Auguste Renoir, Claude Monet e Paul Cézanne. Ao voltar para o Brasil, ele foi morar novamente em sua cidade natal, onde produziu a maior parte de suas pinturas. Leia o texto a seguir, que trata da importância desse artista.

[...] Almeida Júnior foi o primeiro artista no Brasil a pintar o homem simples do campo, seu ambiente, os costumes e o modo de vida interiorano. Sua obra mostra a vida do homem brasileiro que trabalha e vive da terra. [...] Usando sua sensibilidade para captar os gestos e o cotidiano dos costumes regionais, Almeida Júnior homenageou as pessoas simples. Podemos até nos transportar para esse ambiente de chão árido, casa de pau a pique ensolarada, repleta de sombras e contrastes. [...] Artistas modernistas como Candido Portinari e Tarsila do Amaral também pintaram temas sociais, valorizando a cultura e o cidadão brasileiro. Mas foi Almeida Júnior que, pintando o seu próprio modo de vida, conseguiu pela primeira vez expressar a sensibilidade do nosso povo e abrir caminho para a arte genuinamente brasileira. ROSA, Nereide Schilaro Santa. José Ferraz de Almeida Júnior. São Paulo: Moderna, 1999. p. 3; 5; 30. (Mestre das artes no Brasil).

José Ferraz de Almeida Júnior. 1899. Óleo sobre tela. 141 x 172 cm. Pinacoteca do Estado de São Paulo, (SP)

Agora, observe uma das obras mais conhecidas de Almeida Júnior, a tela O Violeiro, de 1899.

O Violeiro, de Almeida Júnior, 1899.

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Unidade 2

Guerra de Canudos Filme de Sergio Rezende. Guerra de Canudos. Brasil, 1997

A história no cinema

Lançado no centenário de destruição de Canudos, o filme brasileiro Guerra de Canudos é um trabalho cinematográfico sobre os fatos e as pessoas que lutaram e morreram no arraial Belo Monte no final do século XIX. Inspirado na obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, o filme consegue representar os principais acontecimentos da Guerra de Canudos com certa fidelidade e explora elementos subjetivos dos personagens principais, como a espiritualidade.

Para ler

• •Contra a chibata: marinheiros brasileiros em 1910, de Marcos A. da Silva. Editora Brasiliense. Discute a Revolta da Chibata a partir de textos dos revoltosos, noticiários da imprensa e debates parlamentares, ressaltando sua importância para os direitos humanos e a cidadania no Brasil.

Título: Guerra de Canudos Diretor: Sergio Rezende Donnersmarck Atores principais: José Wilker, Cláudia Abreu, Paulo Betti, Marieta Severo e Selton Mello Ano: 1997 Duração: 169 minutos Origem: Brasil

••Cidade e cultura urbana na Primeira República, de José Geraldo V. de Moraes.

Editora Atual. O livro busca esclarecer o crescimento urbano brasileiro a partir da análise da formação das cidades industriais da Europa e da substituição dos valores tradicionais por novos valores.

• •A República do progresso, de Iara Lis S. Carvalho Souza. Editora Atual. Análi-

se da urbanização e modernização da cidade do Rio de Janeiro por meio do papel disciplinar da ciência, moda, saneamento e engenharia.

Para navegar

• •Instituto Moreira Salles. Disponível em: <http://tub.im/r9sq7w>. Acesso em: 21

mar. 2016. Página do Instituto Moreira Salles, que contém um dos maiores acervos fotográficos e iconográficos do Brasil, com imagens feitas por Marc Ferrez, Augusto Malta, Guilherme Gaensly e muitos outros.

• •Hemeroteca Digital Brasileira. Disponível em: <http://tub.im/mqg5rv>. Aces-

so em: 21 mar. 2016. Site produzido pela Biblioteca Nacional com todas as edições da Revista Illustrada (1876 a 1898) digitalizadas e disponíveis para consulta.

• •Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Disponível em: <http://

tub.im/6pymb2>. Acesso em: 21 mar. 2016. Dicionário on-line com cerca de 12 mil verbetes sobre a música popular brasileira.

A Primeira República

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unidade

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A Grande Guerra e a Revolução Russa


Em 1914, eclodiu na Europa uma guerra sem precedentes. Por causa do grande desenvolvimento tecnológico ocorrido no decorrer da Segunda Revolução Industrial, o poder das novas armas era tão destrutivo que os combates resultaram em massacres nunca antes vistos. Conhecida como a Grande Guerra (e posteriormente denominada Primeira Guerra Mundial), esse conflito foi consequência, principalmente, da disputa das potências imperialistas pelo domínio de territórios e pelo controle de fontes de matérias-primas e mercados consumidores. Nesta unidade, vamos entender como se deu esse conflito, suas fases, a dura realidade enfrentada pelos soldados nas trincheiras e também as principais consequências desse conflito. Além disso, estudaremos as consequências de uma revolução ocorrida na Rússia em 1917, que tornou esse país o primeiro da história a implantar um sistema socialista. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

Que pessoas aparecem nesta fotografia? O que elas estão fazendo?

B

Você sabe o que é uma trincheira? Comente.

C

Converse com os colegas sobre as relações entre o fortalecimento das potências imperialistas no final do século XIX e a eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Bettmann/Corbis/Latinstock

A

Soldados alemães em uma trincheira na França, em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial.

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Antecedentes da guerra O tema sobre a Belle Époque favorece o trabalho interdisciplinar com Arte. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

Após as guerras napoleônicas do início do século XIX, a Europa viveu um longo período de paz, perturbado apenas por conflitos localizados e de curta duração, como a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). No continente europeu, reinava a política do equilíbrio de poder, que visava evitar que algum país se fortalecesse a ponto de conseguir enfrentar não apenas um, mas uma coligação de países rivais.

A Belle Époque Na Europa, o período entre 1880 e 1914 ficou conhecido como Belle Époque (Bela Época). Esse período foi marcado pelo otimismo e prosperidade causados por um grande desenvolvimento tecnológico e pelo progresso industrial. Esses avanços possibilitaram a criação de novos produtos, como o telefone e o automóvel, os quais causaram um grande impacto no cotidiano das pessoas que viviam nas cidades. Apesar de parecer anunciar um período duradouro de progresso material, o otimismo desse período chegou ao fim com a eclosão da Grande Guerra, em 1914.

Ao final do século, no entanto, a estabilidade econômica e a segurança proporcionada pela política de equilíbrio de poder entre as nações era mais aparente do que real. As disputas entre as potências imperialistas estavam cada vez mais acirradas, o que dificultava as soluções negociadas. No plano social, aumentava o antagonismo entre as burguesias europeias, que podiam desfrutar de grande conforto material, e as massas operárias e camponesas economicamente oprimidas, que passavam a expressar seu descontentamento de forma organizada.

Disputas imperialistas A disputa entre as potências imperialistas pelo domínio de territórios coloniais tornou-se mais intensa nas últimas décadas do século XIX. Os países europeus tinham a necessidade de garantir fontes de matérias-primas para suas indústrias. Além disso, o crescimento industrial acarretou crises de superprodução, o que tornava necessária a busca de novos mercados consumidores para os produtos dos países industrializados. A Alemanha, por exemplo, após sua unificação em 1871, passou por um grande desenvolvimento industrial, aumentou sua produção de armamentos e investiu nas indústrias químicas, exercendo forte concorrência com os produtos ingleses no mercado europeu. O crescimento militar e econômico da Alemanha desagradava outras potências europeias. Nesse contexto, a Inglaterra sentiu-se ameaçada quando a Alemanha iniciou seu projeto de formar uma marinha mercante e de guerra. Além disso, duas nações não europeias, os EUA e o Japão, também avançavam no caminho imperialista em suas respectivas áreas de influência na América e na Ásia.

Album/akg-images/Latinstock

A tecnologia militar, acompanhando o processo de industrialização, teve grande desenvolvimento entre os anos 1880 e o início do século XX. As fronteiras nacionais tornaram-se áreas militarizadas e foram criados armamentos mais mortíferos, como fuzis de repetição, metralhadoras, lança-chamas, artilharia pesada, projéteis com gás venenoso e submarinos. Os navios ganharam blindagem de aço e motores de turbinas, tornando-se maiores e mais velozes, aumentando seu poder bélico. Desse modo, configurou-se a “paz armada”, em que as potências realizaram intensa corrida armamentista.

Indústria de canhões na cidade de Essen, Alemanha, em 1909.

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O sentimento nacionalista

Hansi. Séc. XX. Litografia. Coleção particular. Foto: Granger, NYC/Glow Images

Nacionalismo alemão Na Alemanha, o nacionalismo girava em torno do pangermanismo, a ideia de unir os povos germânicos em um poderoso e extenso Império Alemão. Clubes patrióticos proliferavam, assim como organizações militaristas.

Nacionalismo francês Na França, o nacionalismo era alimentado pelo sentimento de vingança, o revanchismo francês, mar cado pelo desejo de retomar a Alsácia-Lorena, que compreendia províncias ricas em minério de ferro tomadas pelos alemães durante a Guerra Franco-Prussiana. Cartaz de Hansi, feito no início do século XX, que manifesta o sentimento revanchista francês. Nele, vemos soldados franceses observando a catedral de Estrasburgo, então sob domínio alemão, onde resplandece a bandeira da França. Nesse cartaz, aparece uma frase do escritor francês Victor Hugo: “Este é o nosso céu azul. Este campo é a nossa terra! A Alsácia-Lorena é nossa!”.

Conflitos nos Bálcãs Na região dos Bálcãs, dominada pelo Império Turco-Otomano e pelo Império Austro-Húngaro, o sentimento nacionalista manifestou-se de maneira violenta. Minorias nacionais, como os macedônios, eslovenos, albaneses, croatas, bósnios e ucranianos, lutavam por sua independência em relação aos turcos e aos austro-húngaros. Os sérvios, que já tinham se tornado independentes do domínio turco, aspiravam criar a Grande Sérvia, por meio da união dos povos eslavos que estavam sob o domínio turco e austro-húngaro. Essa política tinha apoio no pan-eslavismo, defendido e liderado pelo Império Russo, que se considerava líder e guia natural dos povos eslavos do Sul (iugoslavos).

Cercado por regiões do Império Austro-Húngaro, existia um pequeno Estado independente, de população eslava, denominado Sérvia. Era protegido pela Rússia, na medida em que constituía polo de atração para os demais eslavos dispersos pelo império. Diplomaticamente, os incidentes entre a Sérvia e o Império Austro-Húngaro vinham se tornando cada vez mais frequentes. JANOTTI, Maria de Lourdes. A Primeira Grande Guerra. São Paulo: Atual, 1992. p. 11. (História geral em documentos).

Grupos pan-eslavistas No início do século XX, na Sérvia e na Bósnia, formaram-se grupos pan-eslavistas que, por meio de ações terroristas, lutavam contra o domínio austro-húngaro na região dos Bálcãs. Entre esses grupos havia a Mão Negra (Sérvia) e a Jovem Bósnia (Bósnia). As ações desses grupos eram ligadas ao assassinato de líderes políticos contrários à união dos povos eslavos.

Havia também o interesse russo em dominar as saídas para o mar Mediterrâneo, principalmente os estreitos de Bósforo e de Dardanelos, além da cidade de Constantinopla, controlados pelo sultão turco-otonamo. A Grande Guerra e a Revolução Russa

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Unidade 3

O militarismo das potências imperialistas estava apoiado no crescente sentimento nacionalista. Esse sentimento, que manifestou-se na Europa a partir do século XVIII, foi acirrado entre o final do século XIX e o início do século XX. Veja, a seguir, exemplos de manifestações nacionalistas nesse período.


A Primeira Guerra Mundial Em meio às disputas e rivalidades, as potências europeias fizeram alianças de caráter militar, político e econômico para tentar assegurar suas defesas e conquistar vantagens diante do conflito iminente. Em 1892, a Itália aderiu à aliança entre o Império Austro-Húngaro e a Alemanha, formando o bloco das Potências Centrais (também conhecido como Impérios Centrais ou Tríplice Aliança), ao qual o Império Turco-Otomano se uniu no final de 1914. Everett Historical/Shutterstock.com

Em resposta, líderes da França, Rússia e Inglaterra formaram, em 1907, o bloco dos Aliados da Entente (ou Tríplice Entente), do qual o Brasil fez parte nos momentos finais da guerra junto com os EUA. Também foram integrantes da Tríplice Entente o Japão e a Itália, que passou para o lado dos Aliados em 1915. Não foram todos os países da Europa que se envolveram na Primeira Guerra Mundial. Houve algumas nações que mantiveram a neutralidade, como a Espanha, os Países Baixos, a Suécia, a Dinamarca, a Noruega e a Suíça.

Fotografia de 1913 que retrata um encontro entre o czar russo Nicolau II (à esquerda) e o general francês Joseph Joffre (à direita) em São Petersburgo, na Rússia.

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Potências Centrais (Tríplice Aliança) Aliados da Entente (Tríplice Entente) Países neutros 0°

Mar Mediterrâneo

0

250 km

Fonte: HOBSBAWM, Eric J. A era dos impérios. São Paulo: Paz e Terra, 2006.

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E. Cavalcante

A Europa antes da Grande Guerra


A guerra é declarada Bettmann/Corbis/Latinstock

Os riscos do militarismo e do nacionalismo foram intensificados pelas alianças militares. Como as principais potências estavam unidas por tratados de ajuda mútua em caso de conflito, qualquer incidente que não fosse resolvido por meio da diplomacia poderia levar todas as potências europeias para a guerra.

Unidade 3

Foi o que aconteceu após o atentado ocorrido em Sarajevo, capital da Bósnia, em 28 de junho de 1914, quando Gavrilo Princip, membro da organização pan-eslavista Jovem Bósnia, assassinou a tiros Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, e sua esposa, Sofia. Acusando a Sérvia de estar ligada ao atentado, o Império Austro-Húngaro declarou-lhe guerra, fazendo com que o sistema de alianças funcionasse como uma reação em cadeia: a Alemanha declarou guerra à Rússia, à França e à Bélgica, enquanto a Inglaterra, por sua vez, declarou guerra contra os alemães.

Fotografia de 1914 que retrata o momento da prisão do nacionalista sérvio Gavrilo Princip, logo após o assassinato do arquiduque austro-húngaro Francisco Ferdinando e sua esposa, Sofia, em Sarajevo, na Bósnia.

Desse modo, um incidente regional deu origem a um conflito mundial. Os dois blocos de alianças começaram a se enfrentar no final de 1914, dando início à Grande Guerra.

As frentes de batalha As Potências Centrais combatiam os Aliados em duas frentes, a oriental e a ocidental. Na Frente Oriental, as Potências Centrais enfrentaram o Império Russo. Já na Frente Ocidental, travaram combates contra tropas da França, da Bélgica (invadida pela Alemanha, motivo pelo qual entrou na guerra) e da Inglaterra.

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As fases da guerra

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Na Frente Ocidental, a guerra se desdobrou em fases distintas. A primeira fase, chamada Guerra de Movimento, foi caracterizada pela movimentação ofensiva das tropas alemãs pela Frente Ocidental, com o objetivo de tomar Paris, enfrentando a resistência francesa entre os meses de agosto e novembro de 1914. A segunda fase, conhecida como Guerra de Posição, entre os anos de 1915 e 1916, foi marcada pelo estabelecimento das tropas nas trincheiras, tornando as batalhas mais estáticas. A terceira fase, entre 1917 e 1918, caracterizou-se pela saída da Rússia e pela entrada dos Estados Unidos no conflito. A entrada dos EUA na guerra foi determinante para a vitória dos Aliados.

ALBÂNIA GRÉCIA 0°

Frente Ocidental Frente Oriental

0

310 km

IMPÉRIO TURCO-OTOMANO

Fonte: JANOTTI, Maria de Lourdes. A Primeira Grande Guerra. São Paulo: Atual, 1992.

A Grande Guerra e a Revolução Russa

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A Guerra de Trincheiras A segunda fase da Grande Guerra foi caracterizada pelo estabelecimento de tropas entrincheiradas nas frentes de batalha. Essa fase do conflito também é chamada de Guerra de Trincheiras. Leia o texto. Daily Mirror/Mirrorpix/Corbis/Latinstock

Soldados ingleses caminhando ao longo de uma trincheira de comunicação na França, em 1916.

A Primeira Guerra Mundial foi uma guerra de trincheiras. O súbito aumento do poder de fogo, provocado pelos fuzis de repetição, pela metralhadora e pela artilharia de tiro rápido no início do século XX, forçou todos os exércitos da Europa, [que] tão logo encontraram-se em campos de batalha em agosto de 1914, a cavar para sobreviver [...]. Em pouco tempo, todos os exércitos criaram sistemas de trincheiras semelhantes, assim como similares rotinas de trincheiras. A linha do front, protegida por um emaranhado de arame farpado, tinha uma linha de apoio paralela a algumas centenas de metros da retaguarda, além de uma linha de reserva mais atrás. Trincheiras de comunicação, cavadas nos ângulos corretos, conectavam as linhas e protegiam as tropas que se moviam para cima e para baixo. A terra de ninguém entre as linhas de front opostas podia medir de menos de 50 metros até quase meio quilômetro de largura [...]. Bombardeios, muitas vezes a intervalos previsíveis, ao amanhecer ou na hora do jantar, eram parte da rotina das trincheiras. Assim como, ocasionalmente, os ataques noturnos às trincheiras, que visavam fazer prisioneiros ou “estabelecer a superioridade”. Porém, muitas vezes — particularmente em setores que não eram protegidos por tropas de elite —, uma política de “viver e deixar viver” prevalecia. As guarnições opostas deixavam uma à outra em paz. Contudo, tal tolerância não era de maneira alguma a norma. [...] Keegan, John. História ilustrada da Primeira Guerra Mundial. Tradução Renato Rezende. 4. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. p. 208-9. (História ilustrada).

O horror nas trincheiras Leia o depoimento de Rudolf Binding, um escritor que serviu como oficial do exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. O campo de batalha é terrível. Há um cheiro azedo, pesado e penetrante de cadáveres. Homens que foram mortos no último outubro [de 1914] estão meio afundados no pântano e nos campos de nabos em crescimento. As pernas de um soldado inglês, ainda envolta em polainas, irrompem de uma trincheira, o corpo está empilhado com outros; um soldado apoia o seu rifle sobre eles. Um pequeno veio de água corre através da trincheira, e todo mundo usa a água para beber e se lavar; é a única água disponível. Ninguém se importa com o inglês pálido que apodrece alguns passos adiante. No cemitério de Langemarck [, na Bélgica,] os restos de uma matança foram empilhados e os mortos ficaram acima do nível do chão. As bombas alemãs, caindo sobre o cemitério, provocaram uma horrível ressurreição [...]. BINDING, Rudolf Georg. Um fatalista na guerra. In: MARQUES, Adhemar e outros. História contemporânea através de textos. 11. ed. São Paulo: Contexto, 2005. p. 119. (Textos e Documentos).

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O fim da neutralidade dos EUA O desequilíbrio de forças A partir de 1917, os Aliados começaram a se fortalecer, causando desequilíbrio de forças na Primeira Guerra Mundial. Na Rússia, os revolucionários socialistas tomaram o poder em 1917. O novo governo revolucionário russo assinou um tratado de paz com a Alemanha em março de 1918. Com a Frente Oriental pacificada, os alemães deslocaram um grande número de tropas para a Frente Ocidental.

James Montgomery Flagg. 1917. Litografia. Library of Congress Prints and Photographs Division Washington, D.C. (EUA)

A entrada dos EUA na guerra fortaleceu os Aliados e foi decisiva para a definição do conflito. Assim, configurou-se a terceira e última fase da Grande Guerra, caracterizada por novas movimentações de tropas e pelas batalhas finais.

Unidade 3

Em abril de 1917, em razão dos ataques de submarinos alemães contra navios mercantes estadunidenses, os EUA entraram na Primeira Guerra Mundial ao lado dos Aliados. A partir de então, os EUA passaram a enviar para a Europa grandes quantidades de armas e soldados, além de recursos financeiros.

A primeira campanha dos EUA na guerra se deu em maio de 1918, na Batalha de Cantigny, na França, quando os soldados estadunidenses expulsaram os alemães do vilarejo. Pouco tempo depois, em uma das últimas ofensivas alemãs na frente ocidental, 85 000 soldados estadunidenses, com o auxílio de tropas francesas, britânicas e italianas, derrotaram o exército alemão na Batalha do Marne, a poucos quilômetros de Paris.

Cartaz de 1917 representando o Tio Sam, um ícone nacional estadunidense, convocando recrutas para lutar na Primeira Guerra Mundial, com os dizeres: “Eu quero você para o exército dos Estados Unidos”.

A participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial No início da Primeira Guerra Mundial, o Brasil optou por se manter neutro. Porém, em 1917, o governo brasileiro decidiu apoiar os Estados Unidos, que romperam relações diplomáticas com a Alemanha. O Brasil, que tinha estreitas relações econômicas e políticas com os EUA, participou do conflito enviando aos Aliados na Europa alguns médicos e aviadores, além de disponibilizar navios de guerra para auxiliar na patrulha do oceano Atlântico. Leia, a seguir, o trecho de uma mensagem enviada ao Congresso Nacional pelo então presidente do Brasil, Venceslau Brás Pereira Gomes, em 1917.

[...] O governo não podia ir além; mas a Nação Brasileira, pelo seu órgão legislativo, poderá sem intuitos belicosos, mas com firmeza, considerar que um dos beligerantes é parte integrante do Continente Americano e que a esse beligerante estamos ligados por uma tradicional amizade, e pelo mesmo pensamento político na defesa dos interesses vitais da América [...]. Revogação da neutralidade do Brasil em favor dos Estados Unidos da América. In: JANOTTI, Maria de Lourdes. A Primeira Grande Guerra. São Paulo: Atual, 1992. p. 41. (História geral em documentos).

A Grande Guerra e a Revolução Russa

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A participação das mulheres na guerra As mulheres que viviam nos países que participaram da guerra também sofreram as consequências do conflito. Com o deslocamento de grande número de homens para os campos de batalhas, muitas mulheres de classe média e alta tiveram que trabalhar fora de casa, assim como já faziam as mulheres pobres. Everett Historical/Shutterstock.com

No campo, as mulheres ficaram responsáveis principalmente pela produção agrícola e pela criação de animais. Muitas das que viviam nas cidades, por sua vez, foram trabalhar no setor dos transportes, dirigindo ônibus e caminhões, e também nas indústrias em geral, entre elas, a bélica. Além disso, houve muitos casos de mulheres que foram para os campos de batalha trabalhar como enfermeiras, cozinheiras, motoristas de ambulâncias e escriturárias. Durante o período da guerra, as mulheres vivenciaram experiências novas que lhes ampliaram a participação nos espaços públicos. Apesar das dificuldades e dos sofrimentos, a guerra lhes propiciou muitas conquistas que contribuí­ ram para sua emancipação. Com o final dos conflitos e o retorno dos soldados para casa, muitas delas deixaram de trabalhar nos serviços considerados masculinos, porém conseguiram manter e ampliar muitas de suas conquistas. Em vários países, por exemplo, elas puderam se afirmar como profissionais e adquirir independência financeira. Além disso, logo depois da guerra, o voto feminino foi legalizado em vários países. Mulher trabalhando em uma indústria bélica nos Estados Unidos, em 1918.

No entanto, essa melhoria de condições teve um alcance bastante limitado, pois não se ampliou às mulheres das classes sociais mais baixas. Houve também uma expressiva mudança no comportamento feminino. As mulheres alcançaram liberdade para sair sozinhas e dirigir automóveis. Apesar dessas conquistas, grande parte das mulheres continuou responsável pelas tarefas domésticas, assumindo jornadas exaustivas fora de casa e também em seus lares.

O sujeito na história

Marie Curie

Bettmann/Corbis/Latinstock

A cientista Marie Sklodowska nasceu em 1867, na cidade de Varsóvia, capital da Polônia. Ao se casar com o também cientista Pierre Curie, passou a adotar o sobrenome pelo qual se tornou conhecida. Marie Curie foi a primeira mulher a ganhar o prêmio Nobel de Física, em 1903, pelos estudos sobre radiação. Em 1911, ela tornou-se também a primeira pessoa a ganhar duas vezes o prêmio, quando recebeu o Nobel de Química pelo descobrimento e isolamento do elemento rádio, um metal radioativo. Seus estudos deram grandes contribuições para o desenvolvimento da química e da medicina. Durante a Primeira Guerra Mundial, Marie propôs a utilização de veículos portando aparelhos que permitiriam a prática de exames radio­ lógicos nos soldados, dando agilidade ao diagnóstico, aumentando, dessa maneira, a possibilidade de sucesso no tratamento dos feridos.

Marie Curie trabalhando em seu laboratório em Paris, França, em 1905.

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Marie Curie morreu em 1934, vítima de leucemia, causada pelo alto nível de radiação ao qual ficou exposta durante suas pesquisas com o rádio.


A Grande Guerra chega ao fim

A partir de agosto de 1918, os Aliados, fortalecidos pelas tropas estadunidenses, obtiveram importantes vitórias em batalhas contra as tropas das Potências Centrais. Com isso, as Potências Centrais se renderam uma a uma e, no dia 11 de novembro de 1918, assinaram o armistício.

Charge publicada no semanário francês J’ai vu..., em fevereiro de 1919. Nela aparece escrito: “Os três construtores do novo mundo. Lloyd George – Clemenceau – Wilson”.

Unidade 3

Em 1917, as economias das nações europeias estavam seriamente abaladas e o sofrimento da população era muito grande. Ocorriam revoltas populares e deserções de soldados em várias regiões da Europa, enquanto políticos procuravam uma solução diplomática para o fim da guerra.

Os tratados de paz e a diplomacia

Em “J’ai vu...”, 01/02/1919. Coleção Kharbine-Tapabor, Paris (França). Foto: Bridgeman Images/Easypix

Em 1919, representantes dos países Aliados (chefiados pelos EUA, Inglaterra e França) e da Alemanha assinaram o Tratado de Versalhes, que estabeleceu as diretrizes para a reorganização política e econômica da Europa, além das punições aos países derrotados. A Alemanha foi duramente penalizada, pois foi considerada a principal responsável pela Grande Guerra. Pelo tratado, a Alemanha se comprometeu a pagar aos Aliados indenizações altíssimas, além de ser obrigada a reduzir o seu exército em todos os aspectos, desde o número de soldados até os tipos de armamento utilizados. O tratado também estabeleceu a criação da Liga das Nações, uma organização internacional voltada à manutenção da paz por meio da diplomacia entre os países. Com o fim da guerra, as Potências Centrais perderam territórios, dando origem a novos países e fronteiras. Observe o mapa. A Europa em 1923 E. Cavalcante

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b ) Relacione a representação da charge e sua legenda ao fim da Primeira Guerra Mundial. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

TURQUIA (PARTE ASIÁTICA)

GRÉCIA Malta (GB)

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URSS (UNIÃO DAS REPÚBLICAS SOCIALISTAS SOVIÉTICAS)

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OCEANO ATLÂNTICO

a ) O que David Lloyd George (primeiro-ministro britânico), Georges Clemenceau (primeiro-ministro francês) e Woodrow Wilson (presidente estadunidense) estão fazendo na charge acima?

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390 km

Fonte: GIRARDI, Gisele; ROSA, Jussara Vaz. Novo atlas geográfico do estudante. São Paulo: FTD, 2005.

A Grande Guerra e a Revolução Russa

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As consequências da guerra De acordo com estudiosos, a Primeira Guerra Mundial causou a morte de cerca de 10 milhões de pessoas, principalmente homens jovens, e deixou aproxidamente 20 milhões de feridos, muitos deles inválidos. Além disso, ao final dos conflitos, várias regiões da Europa estavam completamente destruídas e com serviços básicos prejudicados. Para reconstruir as cidades e proporcionar condições de sobrevivência à população, os países europeus precisaram pedir empréstimos ao governo e aos bancos estadunidenses. Além disso, tiveram que importar grande parte dos produtos primários de que necessitavam, como alimentos e remédios.

Com o fim da guerra, muitas cidades ficaram completamente destruídas. Fotografia de 1918 tirada em Reims, na França.

Milhões de corpos foram enterrados em cemitérios improvisados próximos aos campos de batalha. Fotografia tirada em Meuse, na França, em 1916.

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[...] A contribuição mais permanente do conflito ao espírito do pós-guerra foi a desilusão — principalmente entre as classes médias. Uma geração de homens tinha sido sacrificada — “perdida” sem qualquer objetivo claro. Muitos dos que sobreviveram se sentiam enojados pela chacina inútil, para a qual sabiam ter dado sua contribuição e da qual julgavam ser seu dever partilhar pelo menos um pouco da culpa. [...] O ódio e a suspeita em relação aos “velhos” — que haviam arrastado o mundo a um conflito desnecessário, que depois o haviam conduzido mal, com resultados tão horrendos, e que haviam traído a causa da paz internacional em troca de ganhos nacionais — azedavam o espírito de muitos jovens no pós-guerra. O poeta inglês Edmund Blunden expressou bem essa profunda desilusão ao escolher como título de um poema, escrito para celebrar o Ano Novo de 1921, o versículo bíblico: “O cão voltou ao seu próprio vômito e a porca lavada tornou a revolver-se na lama.” BURNS, Edward McNall. História da civilização ocidental: do homem das cavernas às naves espaciais. Tradução Donaldson M. Garshagen. São Paulo: Globo, 1993. p. 688-9. adoc-photos/Corbis/Latinstock

Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latinstock

Leia o texto a seguir.


O Império Russo Autocrático: sistema político em que o governante possui poder absoluto.

A modernização da Rússia Igor Golovniov/ZUMA Press/Corbis/Latinstock

No final do século XIX intensificou-se o desenvolvimento industrial no Império Russo. O plano de modernização econômica, iniciado durante o governo do czar Alexandre II (18551881), previa reformas nas forças armadas, investimentos em obras públicas e construção de ferrovias. Para o plano ser realizado, o czar da dinastia Romanov aumentou drasticamente os impostos e recorreu ao financiamento estrangeiro, principalmente francês e inglês. Com o desenvolvimento industrial, muitos camponeses foram atraídos para as cidades, formando uma camada de operários mal remunerados. Enquanto isso, a burguesia industrial enriquecia, tornando mais evidentes as desigualdades sociais na Rússia czarista. Leia o texto.

[...] A Rússia imperial abria, finalmente, as portas para o desenvolvimento do capitalismo, numa perspectiva de subordiná-lo aos interesses do Estado. [...]

Fotografia de ferrovia na Rússia, no final do século XIX.

[Contudo] boa parte das cidades russas era ainda cercada pela economia e cultura agrárias, ou ainda profundamente impregnada por hábitos e costumes camponeses. [...] Assim, o influxo do capitalismo na Rússia, apesar do progresso proporcionado, não foi capaz de resolver os problemas acumulados e acentuou contrastes no processo de desenvolvimento econômico em curso. Em espaços contíguos, era comum constatar a existência do que havia de mais avançado e de mais atrasado no mundo de então. [...] O desenvolvimento desigual e combinado não se resumia ao mundo da economia e da produção. Marcava o conjunto da sociedade, onde se mesclavam, como diferentes expressões de uma mesma Rússia, os [...] bailes cintilantes de cristais e pratarias em que confraternizavam as famílias ricas e poderosas e as fétidas cantinas onde comiam os trabalhadores. [...] Progresso e atraso em doses tão desproporcionais constituíam uma perigosa mistura de arrogância e de ressentimento. Segundo as circunstâncias, a combinação poderia gerar explosões imprevisíveis. REIS Filho, Daniel Aarão. As revoluções russas e o socialismo soviético. São Paulo: Unesp, 2003. p. 30-3. (Revoluções do século XX).

A oposição ao czarismo Os contrastes entre ricos e pobres propiciaram a difusão de ideologias como o socialismo, inspirado nas ideias de Marx. Assim, no início do século XX, surgiram partidos de oposição à autocracia do czar Nicolau II. Entre esses partidos, o principal era o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Em 1903, por causa de divergências ideológicas, os membros desse partido se dividiram entre bolcheviques (maioria) e mencheviques (minoria). Os bolcheviques, liderados por Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido como Lenin, defendiam mudanças radicais no governo, a derrubada do czar e o estabelecimento do socialismo por meio de uma revolução feita pelo proletariado. Os mencheviques, liderados por Georgi Plekhanov e Yuli Martov, acreditavam em reformas graduais feitas por meio da aliança entre o proletariado emergente e a burguesia russa até atingir o socialismo. A Grande Guerra e a Revolução Russa

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Unidade 3

Até a segunda metade do século XIX, a sociedade russa era essencialmente agrária. O império era governado por um regime autocrático, centralizado na figura do czar. Mais de 80% da população era formada por camponeses pobres, que estavam sujeitos à fome e ao analfabetismo.


O calendário russo Até o ano de 1918, a Rússia adotava o calendário juliano, que apresentava um atraso de 13 dias em relação ao calendário gregoriano, utilizado atualmente na maioria dos países. As datas utilizadas no tema Revolução Russa, nesta e nas próximas páginas, estão de acordo com o calendário juliano.

Revoltas populares No começo do século XX, o Império Russo iniciou uma disputa com o Japão para obter o domínio sobre os territórios da Coreia e da Manchúria. Essa disputa se acirrou e acabou dando origem a uma guerra. Várias derrotas militares do Império Russo contra o Japão, no entanto, abalaram a já fragilizada base do governo czarista de Nicolau II. Além disso, essas derrotas agravaram ainda mais as condições de vida da maioria da população pobre. Surgiram revoltas populares e greves que foram duramente reprimidas por tropas imperiais. No dia 22 de janeiro de 1905, trabalhadores russos organizaram, na cidade de São Petersburgo, uma manifestação pacífica para reivindicar melhores salários e redução da jornada de trabalho. O czar, porém, ordenou que os guardas imperiais atacassem os manifestantes, matando centenas de homens, mulheres e crianças. Esse episódio, conhecido como Domingo Sangrento, marcou o início de várias revoltas contra a autoridade do czar. Para se organizar e lutar por melhorias, os trabalhadores criaram então os sovietes, conselhos formados por delegados eleitos por operários, camponeses e soldados, que conferiram maior representação política à população russa.

A queda do czar Após enfrentar os levantes populares, o czar promoveu algumas reformas buscando restabelecer seu prestígio e manter-se no poder. Assim, ele criou a Duma, um parlamento formado por deputados eleitos pelo povo que auxiliavam nas decisões políticas, e legalizou os sindicatos de trabalhadores. Entretanto, quando a Rússia entrou na Primeira Guerra Mundial, após a Alemanha ter-lhe declarado guerra, o exército russo, apesar de numeroso, estava despreparado e sem recursos, sofrendo muitas baixas no conflito. À medida que o czar insistia em manter a Rússia na guerra, aumentava a oposição popular ao seu governo. Underwood & Underwood/Corbis/Latinstock

A situação de pobreza da população aumentou, uma vez que toda a economia estava voltada para despesas de guerra. No inverno de 1917, uma onda de fome assolou a Rússia. A população, então, organizou várias greves, saqueou lojas e depredou tribunais e delegacias. Nem mesmo os soldados reagiram contra a população, pois apoiavam os revoltosos. Sem ter como retomar o controle da situação, o czar Nicolau II foi obrigado a abdicar em março de 1917. Após sua abdicação, o czar Nicolau II e sua família foram obrigados a se mudar para a Sibéria para realizar trabalhos forçados. Após algum tempo, eles foram executados. Nessa fotografia, tirada dias antes de sua execução, em 1917, vemos o czar e sua família trabalhando em uma plantação na Sibéria.

O governo provisório O regime czarista deu lugar a um governo provisório formado por liberais e conservadores moderados, a princípio sob o comando do príncipe George Lvov e, mais tarde, de Alexander Kerenski, de orientação socialista moderada. O governo provisório realizou reformas como a regularização da jornada de oito horas de trabalho e a garantia dos direitos de liberdade de imprensa e de organização política. No entanto, durante esse período, a Rússia continuou engajada na Primeira Guerra Mundial, o que contribuiu para manter a situação de miséria pela qual passava a maioria da população.

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A Revolução Bolchevique de 1917

Unidade 3

O governo provisório não podia mais conter a revolta popular. Os camponeses já estavam ocupando as terras dos nobres e da Igreja Ortodoxa, que apoiaram o governo do czar. Nas cidades, a agitação dos operários era intensa, principalmente no soviete de São Petersburgo, controlado pelos bolcheviques. A situação do governo provisório ficou ainda pior com a tentativa frustrada de um golpe militar pelo general Kornilov, que era apoiado pelas forças fiéis ao czar. Como o governo provisório não possuía tropas suficientes, foram os sovietes de Petrogrado que evitaram o golpe militar, em uma demonstração de que estavam em condições de tomar o poder. Lenin e Trotsky, os principais líderes bolcheviques, articularam então a insurreição, que teve início na noite do dia 24 de outubro. Contando com tropas de trabalhadores armados, além das unidades militares que guarneciam Petrogrado, os revolucionários não tiveram dificuldades em tomar os principais pontos da capital e depor o governo provisório.

O governo bolchevique Assim que tomaram o poder, os bolcheviques do soviete de Petrogrado criaram o Conselho de Comissários do Povo, uma espécie de ministério responsável pela nova organização do governo e pela coordenação dos demais sovietes russos. Presidido por Lenin, o conselho realizou várias mudanças, como a estatização da marinha mercante e dos bancos. Também foram criados tribunais revolucionários formados por cortes populares em substituição às antigas instituições judiciárias.

World History Archive/Alamy/Glow Images

Além disso, houve a extinção dos latifúndios e a desapropriação de terras, que foram entregues às comunas agrícolas para serem distribuídas aos camponeses de acordo com as necessidades e a capacidade de trabalho das famílias. As fábricas também foram estatizadas e passaram a ser autogeridas pelos operários. Houve também o confisco dos bens da Igreja Ortodoxa e a abolição do ensino religioso nas escolas. Assim, foi priorizada a educação laica, e os privilégios de caráter religioso sofreram severas restrições.

Lenin discursando para uma multidão na Praça Vermelha, em Moscou, durante a Revolução Russa, em outubro de 1917.

Logo que assumiram o poder, os bolcheviques determinaram a adoção do regime de partido único, e o Partido Bolchevique foi rebatizado como Partido Comunista. E, em 1922, com a intenção de englobar as demais repúblicas soviéticas anexadas à Rússia, foi criada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Estatizar: colocar sob controle do Estado.

As consequências do Tratado de Brest-Litovsk Uma das primeiras medidas adotadas pelo governo bolchevique foi a retirada da Rússia da guerra. Apesar do objetivo de conseguir paz sem perdas territoriais, o Tratado de Brest-Litovsk, de 1918, teve sérias consequências para a Rússia: perda de 3,5 milhões de quilômetros quadrados de seu território (Finlândia, Polônia, Ucrânia e parte da Letônia), além do pagamento de uma milionária indenização aos alemães.

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O Exército Vermelho e a guerra civil Depois que a Rússia retirou-se da guerra, os grupos anticomunistas se organizaram e formaram uma coalizão para derrubar o regime socialista implantado pelos bolcheviques. Dessa coalizão participaram antigos oficiais fiéis ao czarismo, grupos liberais, mencheviques e mesmo os socialistas que estavam descontentes com o poder concentrado pelo Partido Comunista. Além disso, os grupos anticomunistas receberam o reforço de tropas e apoio material dos países capitalistas, como França, Inglaterra, Estados Unidos e Japão. Esse contingente contrarrevolucionário ficou conhecido como Exército Branco. Em defesa da revolução, Leon Trotsky passou a ocupar o cargo de comissário do povo para a guerra. Com dificuldades para montar às pressas um exército capaz de resistir à guerra civil que se configurava, ele estabeleceu o serviço militar obrigatório e recrutou oficiais e soldados do antigo exército czarista. Rapidamente, Trotsky organizou o Exército Vermelho, formado por três milhões de homens treinados sob rígida disciplina e motivados por intensa propaganda comunista.

Superstock/Glow Images

Durante a guerra civil, que durou de 1918 a 1920, foi implantado o comunismo de guerra. De acordo com essa política, baseada em uma disciplina severa no exército e nas fábricas, os camponeses deveriam entregar parte de sua produção ao esforço de guerra do Estado. A estatização da economia foi levada ao extremo, com a proibição de qualquer iniciativa privada. Mediante esses esforços, o Exército Vermelho venceu as forças contrarrevolucionárias no final de 1920, expulsando-as do país. A guerra teve um saldo de milhares de mortos.

Fotografia de 1918 que retrata Trotsky no comando do Exército Vermelho, na Rússia.

A Nova Política Econômica Com o fim da guerra civil e da política do comunismo de guerra, a necessidade de recuperar o país, arrasado pelo conflito, obrigou o Partido Comunista a adotar a Nova Política Econômica (NEP) para a reconstrução do que havia sido destruído. Iniciada em 1921, essa política era defendida por Lenin como um recuo estratégico de retorno ao capitalismo para em seguida avançar ainda mais no fortalecimento do socialismo. O embargo da produção camponesa foi substituído por um imposto a ser cobrado em produtos, sendo permitido que os camponeses vendessem o excedente, para assim obterem lucro. Além disso, o Estado soviético permitiu que a iniciativa privada controlasse pequenos setores do comércio e da indústria, mantendo sob a autoridade estatal as grandes indústrias pesadas e áreas estratégicas, como produção de aço, construção naval, geração de energia, extração mineral e sistema bancário.

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A ditadura de Stalin Após a morte de Lenin, em 1924, teve início uma disputa pelo poder entre Stalin, então secretário-geral do Partido Comunista, e Trotsky, o comissário do povo para a guerra.

Unidade 3

A disputa entre Trotsky e Stalin espelhava também uma disputa entre dois projetos de revolução socialista. Enquanto Stalin era partidário do fortalecimento do socialismo na Rússia, para depois levá-lo a outras nações, Trotsky defendia a “revolução permanente”, ou seja, a internacionalização do movimento revolucionário, pois acreditava que o socialismo russo dificilmente venceria sozinho a concorrência capitalista. Como dominava a máquina burocrática do partido, Stalin conseguiu expulsar Trotsky do país e passou a exercer o poder absoluto, realizando expurgos dentro e fora do partido, eliminando a maioria dos revolucionários que lutaram ao lado de Lenin. Nascia, assim, a ditadura stalinista, marcada pela rigorosa censura à imprensa e pelo rígido controle sobre a sociedade.

Mary Evans Picture Library/Easypix

A falsificação de imagens Durante a ditadura stalinista, foi grande o número de imagens adulteradas pelos censores do governo. Entre os casos mais comuns estão o “apagamento” dos desafetos do ditador, além da inclusão de pessoas em cenas nas quais elas não estavam. Observe, ao lado, um dos exemplos mais conhecidos de falsificação de fotografias durante a ditadura stalinista: na fotografia original vemos Lenin discursando para uma multidão em frente ao Teatro Bolshoi, em Moscou. Nessa imagem, aparecem também no palanque Trotsky e Lev Borisovich Kamenev, um dos líderes bolchevique do Partido Comunista. Já na fotografia adulterada, Trotsky e Kamenev foram apagados.

Sovfoto/UIG/Easypix

Fotografia original, de 1920, que retrata Lenin discursando em Moscou, na Rússia.

Explorando a imagem a ) Compare as fotografias e identifique Trotsky e Kamenev na fotografia original. b ) Você conhece outros casos de fotografias adulteradas? Comente com os colegas. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor. Fotografia adulterada, por volta de 1930, já sem a presença de Trotsky e Kamenev.

A Grande Guerra e a Revolução Russa

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Explorando o tema

A arte de vanguarda

No início do século XX, predominava na Europa um sentimento de grande otimismo, inspirado na urbanização, na industrialização e nas novidades tecnológicas. No entanto, alguns anos antes da Grande Guerra, muitos artistas europeus estavam apreensivos em relação ao futuro da sociedade europeia e passaram a criticar as regras artísticas tradicionais ensinadas nas escolas de belas-artes. Esses artistas acreditavam que a obra de arte deveria expressar sua visão de mundo, sem se limitar a representar os objetos exatamente como eles se apresentavam na natureza. Essa maneira de entender a composição artística foi chamada de arte de vanguarda (em francês avant-garde, que significa “à frente da guarda”), pois eram produções que rompiam com a arte tradicional e, por isso, dizia-se que esses artistas estavam à frente do seu tempo.

A criação literária Edizioni Futuriste di Poesia

Um dos campos artísticos que recebeu influência dessas novas ideias foi a literatura. Em 1909, Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), egípcio de ascendência italiana, publicou o Manifesto Futurista, no jornal francês Le Figaro, com uma introdução e 11 artigos. Nesse manifesto, há a glorificação da guerra, do militarismo, do patriotismo e das inovações tecnológicas. Os futuristas preconizavam a liberdade de expressão das artes literárias e plásticas, enalteciam a agitação das cidades e declaravam-se apaixonados por máquinas, fábricas, velocidade, enfim, eram adeptos do movimento dos seres, das coisas e, no caso de Marinetti, do movimento das palavras. Leia um trecho do Manifesto Futurista.

Folha de rosto da obra futurista Zang Tumb Tumb, escrita por Marinetti em 1914.

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela revolta; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as gulosas estações de caminho de ferro engolindo serpentes fumegantes; as fábricas suspensas das nuvens pelas fitas do seu fumo; as pontes que saltam como atletas por sobre a diabólica cutelaria dos rios ensolarados; os aventureiros navios a vapor que farejam o horizonte; as locomotivas de vasto peito, galgando os carris como grandes cavalos de ferro curvados por longos tubos e o deslizante voo dos aviões cujos motores drapejam ao vento como o aplauso de uma multidão entusiástica. MARINETTI, Filippo Tommaso. Manifesto Futurista. Disponível em: <www.pitoresco.com/art_data/futurismo>. Acesso em: 22 jan. 2016.

O Futurismo influenciou muitos autores, como o escritor francês Guillaume Apollinaire (1880-1918), que, por sua vez, publicou textos sobre poesia e pintura, criticou a sociedade burguesa europeia e exaltou o surgimento de um “espírito novo” após a guerra. Apollinaire teve contato com os futuristas italianos ligados a Marinetti, embora não compartilhasse de seus ideais políticos. Sua obra era marcada pela ausência de sinais de pontuação e pela presença dos caligramas, poemas cuja disposição das palavras formava desenhos, chamados também de “poemas gráficos”.

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Fernando Pessoa e o Futurismo português

Considerado por muitos o maior poeta de língua portuguesa, é difícil enquadrar Pessoa em um movimento literário. Criador de heterônimos, ou seja, outros “eus” poé­ticos, ele foi um grande colaborador do movimento futurista português. Seu heterônimo futurista era Álvaro de Campos, um poeta da modernidade, da emoção, da ânsia e do desejo: “pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida”, escreveu o poeta em uma carta a um amigo.

Unidade 3

Em “Portugal Futurista”. 1917. Coleção particular

O Futurismo se difundiu em Portugal, principalmente com a publicação da revista Orpheu, em 1915, e da revista Portugal Futurista, em 1917, que teve apenas um número publicado. Seus maiores representantes foram Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e Fernando Pessoa.

Capa da revista Portugal Futurista, de 1917. Entre os colaboradores, além de Fernando Pessoa, aparece Álvaro de Campos, heterônimo de Pessoa.

Mudanças nas concepções arquitetônicas A produção em larga escala do aço e de novos materiais para a construção revolucionou a arquitetura do início do século XX. Os principais arquitetos desse período foram o estadunidense Frank Lloyd Wright e o alemão Walter Gropius, que, assim como outros influentes arquitetos da época, buscaram relacionar a forma de um prédio à sua função. Dessa forma, para projetar um edifício, eles consideravam fatores como a circulação de pessoas, as atividades que nele seriam desenvolvidas e o horário de funcionamento.

A pintura

A Dança, pintura produzida por Henri Matisse, em 1910.

A Grande Guerra e a Revolução Russa

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Henri Matisse. 1910. Óleo sobre tela. 260 x 391 cm. Museu Hermitage, São Petersburgo (Rússia). Foto: Album/akg-images/Latinstock

A pintura europeia do início do século XX acompanhou as transformações culturais do final do século XIX. O Fauvismo, por exemplo, foi um movimento artístico de vanguarda apresentado ao público em 1905, quando um grupo de artistas franceses expôs seus trabalhos no Salão de Outono, em Paris. O principal representante dos fauvistas foi o francês Henri Matisse (1869-1954). Esse pintor dava grande importância às cores na transmissão de emoções e na criação das formas. Outro pintor de vanguarda foi Edvard Munch (1863-1944), um artista norueguês que inspirou muitos pintores do início do século X X. Em suas pinturas, Munch procurou expressar sua ansiedade e seu pessimismo diante do mundo e do futuro. A atmosfera artística de experimentação e contestação das regras tradicionais no início do século X X abriu possibilidades para o desenvolvimento de importantes movimentos artísticos, como o Cubismo, representado pelo pintor espanhol Pablo Picasso.

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Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento 1. Explique o que foi a Belle Époque. 2. Cite algumas características das disputas imperialistas no final do século XIX.

3. Explique o que foi o pangermanismo, o revanchismo francês e o pan-eslavismo.

4. Descreva as principais características de uma trincheira da Primeira Guerra Mundial.

5. O que motivou a entrada do Brasil na Grande Guerra? Como foi a participação brasileira nesse conflito?

6. O que estabeleceu o Tratado de Versalhes? 7. Quais eram as divergências entre as facções bolchevique e menchevique do Par tido Operário Social-Democrata Russo?

8. Sobre a Revolução Russa de 1917, caracterize os itens abaixo. a ) As principais medidas tomadas pelo governo bolchevique, considerando a atuação de Lenin, a formação do Parti­ do Comunista e a assinatura do Tratado de Brest-Litovsk. b ) A guerra civil envolvendo o Exército Vermelho e o Exército Branco, considerando a atuação de Trotsky. c ) A formação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

9. Quais eram as principais divergências entre os ideais revolucionários defendidos por Stalin e aqueles defendidos por Trotsk y?

Expandindo o conteúdo 10. Leia o texto a seguir, sobre a situação da Europa em 1914, às vésperas do início da Grande Guerra.

[...] Muitos historiadores têm chamado a atenção para a atmosfera que por toda a Europa em 1914 promovia uma mentalidade bélica e para a excitação gerada pela declaração de guerra. Em agosto de 1914, os jovens clamavam por serem convocados. Não só na Alemanha, mas também na Grã-Bretanha, na França e na Rússia, considerava-se que a guerra oferecia uma fuga pitoresca de uma vida aborrecida, dando oportunidade ao heroísmo individual e aos atos de rebelde bravura. Nas décadas anteriores a 1914, a educação se difundira por toda a Europa, e com ela chegaram os jornais populares e a ficção romântica [...]. A guerra foi popularizada por essa literatura como uma força positiva que podia promover a disciplina, a lealdade e a camaradagem. Os jovens liam contos épicos sobre feitos heroicos na fronteira noroeste, sobre lutas na floresta para disseminar a civilização e o cristianismo, e sobre batalhas contra os [indígenas] nas fronteiras do oeste selvagem. [...] Ao mesmo tempo, a imprensa popular tinha um tom xenófobo e apressava-se em promover os interesses do governo nacional em face de desafios estrangeiros. As teorias da evolução e as noções populares a respeito da sobrevivência dos mais aptos derramavam-se sobre o pensamento nacionalista. Os países precisavam expandir sua influência, ou entrariam em decadência. As nações brancas deviam levar as luzes para os zulus, os hindus e os chineses, e o poder exercido sobre povos não europeus acrescia prestígio e status perante outras grandes potências. Havia uma competição aguda entre todas as grandes potências europeias pela influência e domínio sobre o mundo “menos civilizado”, por motivos tanto políticos quanto econômicos. [...]

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Unidade 3

Os países entraram em guerra porque acreditavam que podiam conseguir melhores resultados por meio da guerra do que por negociações diplomáticas, e achavam que, se permanecessem de fora, seu status de grandes potências seria gravemente abalado. Esse foi seu maior equívoco. O balanço final em 1918 mostrou o quão errados estavam; naquele momento, o status de todas as maiores potências da Europa se havia reduzido substancialmente e praticamente nenhum dos objetivos das elites governantes europeias se concretizara. HENIG, Ruth. As origens da Primeira Guerra Mundial. São Paulo: Ática, 1991. p. 65-6; 70. (Princípios).

a ) Segundo o texto, quais eram as atitudes e sentimentos dos jovens europeus antes do início da Primeira Guerra Mundial? b ) Explique a relação entre o imperialismo e a Primeira Guerra Mundial.

Explorando a imagem

David J. & Janice L. Frent Collection/Corbis/Latinstock

11. Observe a imagem a seguir.

Cartaz estadunidense produzido em 1919.

a ) Com o auxílio de um dicionário bilíngue (português-inglês), traduza a mensagem do cartaz e explique com qual objetivo ele foi produzido. b ) Explique a relação entre a participação das mulheres na Primeira Guerra Mundial e a emancipação feminina.

Momento da redação 12. Acostumamo-nos a pensar que os casos extremos de discriminação ocorrem apenas em nações sem uma tradição democrática ou que, em determinado momento de sua história, estiveram sob o domínio de regimes totalitários e antidemocráticos. Contudo, a experiência histórica tem nos mostrado que nem sempre isso é verdade. Os EUA, por exemplo, são um país nominalmente democrático, mas que mantiveram um regime oficial de apartheid até a década de 1960. Além disso, nos EUA desenvolveu-se a Ku Klux Klan (ou KKK), uma organização nacionalista de extrema direita, comandada por protestantes descendentes de europeus. A KKK promove o ódio contra grupos sociais minoritários e organizações de esquerda, por vezes utilizando-se de violência. Atualmente, a KKK ainda possui milhares de seguidores em várias regiões dos EUA. Leia o texto da página a seguir. A Grande Guerra e a Revolução Russa

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O caso da KKK é um bom exemplo de que racistas fanáticos não são apenas personagens exclusivos de estados totalitários nem de um passado longínquo. A violência sem limites em que desemboca o racismo é uma manifestação de indivíduos que ignoram o diálogo, a ética e a dignidade humana e pode surgir [...] mesmo em sociedades consideradas democráticas. O aparecimento e a sobrevivência da KKK desmistificam a crença de que o povo estadunidense, por tradição, constitui uma sociedade perfeita, pluralista, exemplo de nação multirracial e multiétnica. Expressa o arraigamento de um pensamento racista cuja prática, ainda hoje, arranha a imagem dos Estados Unidos.

Robin Nelson/ZUMA Press/Corbis/Latinstock

Atualmente, a Ku Klux Klan atua em vários países como uma organização racista clandestina, tendo entre seus membros principalmente neonazistas, fascistas e xenófobos. Muitos dos adeptos da KKK substituíram os capuzes brancos por trajes militares, como retrata abaixo a fotografia de uma marcha realizada por membros da KKK no estado da Geórgia, Estados Unidos, em 2011.

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Em diversos momentos da história estadunidense, determinados grupos étnicos ou nacionais foram vistos como o “outro”, tratados como “estranhos”, “eternos estrangeiros” ou “seres inferiores”. [...] Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a KKK passou a investir também contra judeus, católicos, socialistas, comunistas e estrangeiros em geral. Ideias, velhas e novas, aplaudidas por simpatizantes lhe valeram um crescente destaque político. Esse período coincide com um momento único nos Estados Unidos, marcado por contradições como, por exemplo, uma extraordinária reação ao liberalismo. Um forte nacionalismo difundiu-se por todo o continente, tumultuado por ondas de medo ao comunismo, supressão das liberdades civis, antissemitismo e preconceitos contra os imigrantes. [...] Infelizmente, não conseguimos adentrar o século XXI ilesos de fobias construídas pelos inimigos da democracia. Valendo-se de falsas ideias e levando à configuração de perigos e mundos imaginários, [...] continuam a investir na visão falseada da realidade que ainda sobrevive de mitos: o mito da conspiração judaica, o mito do perigo estrangeiro e o mito das raças degeneradas. CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Ku Klux Klan – A seita da supremacia branca. In: PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi (Orgs.). Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. p. 78-9; 93; 97.


Os avanços tecnológicos do século XX e o acesso amplo à informação não foram suficientes para que, no século XXI, as pessoas do mundo todo passassem a conviver de forma harmoniosa com as diferenças e especificidades de cada um. O texto a seguir propõe formas para evitar o perigo da mentalidade etnocêntrica e intolerante, que ainda é defendida por algumas pessoas. Leia-o.

Unidade 3

Quando nos encontramos diante de outra pessoa, dizemos muitas vezes: “Ele (ou ela) não é como eu”. Reconhecemos que o outro é diferente. Mas é preciso saber que o outro também reconhece essa diferença, de seu ponto de vista. Então, se cada um desrespeitar a individualidade dos que não são “como ele”, fica muito difícil conviver. Passarão o tempo a se insultar, a brigar ou, simplesmente, a se ignorar, ficando “cada um na sua”. Nas sociedades humanas, muitas vezes, trata-se mal aquele que tem uma identidade diferente do grupo, outra nacionalidade, outra religião ou outras características físicas [...]. O respeito pelo outro pode se expressar nos atos mais simples, mais cotidianos, ao alcance de todos: um sorriso, uma ajuda... É o que se chama “civilidade”, que permite relações harmoniosas entre as pessoas, por mais diferentes que sejam. Para conviver, cada um deve admitir que os outros não precisam ser como ele, viver obrigatoriamente da mesma forma, ter forçosamente a mesma cultura, a mesma história. Entender isso e aceitar é dar provas de tolerância. Seu contrário, a intolerância, conduz à violência e ao ódio. GARDON, Odile. Para entender o mundo: os grandes desafios de hoje e de amanhã. São Paulo: Edições SM, 2007. p. 38; 40.

• Partindo dos recursos expostos, escreva um texto dissertativo-argumentativo sobre o problema

da intolerância e da discriminação na atualidade. Considere aspectos históricos desse tema, valendo-se dos recursos apresentados e também de seus conhecimentos prévios. Defenda sua proposta com base em argumentos que valorizem os direitos humanos e a diversidade étnica da população mundial.

Vestibulares 1. (UFJF-MG) Sobre o contexto social da Rússia, anterior à Revolução Bolchevique de 1917, é incorreto dizer que: a ) a grande massa da população era camponesa, reflexo das condições econômicas e sociais anteriores, havendo grande concentração fundiária nas mãos de poucos. b ) a industrialização estava restrita a poucas cidades, como Moscou e São Petersburgo, e fora financiada, em grande parte, pelo capital europeu ocidental. c ) apresentava uma burguesia forte e organizada, com um projeto revolucionário amadurecido, que defendia, entre outros aspectos, a criação de uma República no lugar do governo czarista. d ) o proletariado enfrentava péssimas condições de vida nas cidades, fruto dos baixos salários, mas dispunha de um certo grau de organização política, que possibilitava sua mobilização. e ) após o fim da servidão, houve uma intensa migração do campo em direção à cidade,

contribuindo para o aumento da mão de obra disponível, que seria direcionada, em grande parte, para a indústria.

2. (UNESP) As raízes da Primeira Guerra Mundial encontram-se, em grande parte, na história do século XIX. Pode-se citar como alguns dos fatores que deram origem ao conflito desencadeado em 1914: a ) a concentração da industrialização na Inglaterra e o escasso crescimento econômico das nações do continente europeu. b ) a emergência de ideologias socialistas e revoluções operárias que desajustaram as relações entre os países capitalistas. c ) a derrota militar da França pela Prússia, no processo de unificação alemã, e a incorporação da Alsácia-Lorena à Alemanha. d ) o confronto secular entre a França e a Inglaterra e a crise da economia inglesa provocada pelo Bloqueio Continental. e ) a política do “equilíbrio europeu”, praticada pelo Congresso de Viena, e o fortalecimento militar da Rússia na península Balcânica.

A Grande Guerra e a Revolução Russa

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Ampliando seus conhecimentos Arte e história

Pablo Picasso e o Cubismo

Os movimentos artísticos do início do século XX tinham como objetivo romper com a arte tradicional. Um desses movimentos, que influenciou diversas formas de arte durante os séculos XX e XXI, foi o Cubismo, que teve como marco inicial a tela As senhoritas de Avignon, pintada entre 1906 e 1907 pelo artista espanhol Pablo Picasso (1881-1973). Com essa tela, considerada por muitos especialistas uma das obras mais importantes da arte ocidental do século XX, Picasso inaugurou uma tendência e um movimento artístico que buscava recompor na pintura os elementos observados no mundo real. Essa recomposição dava-se de forma fragmentada, pois os cubistas se preocupavam em retratar um objeto ou pessoa em vários ângulos ao mesmo tempo, não se importando em representar a realidade como ela é, mas como o pintor a percebe, em verdadeiras experimentações artísticas. Nessa obra, Picasso rompeu com os padrões artísticos clássicos e com os modelos estéticos de beleza da época, incorporando as formas geométricas como partes constitutivas na representação de figuras humanas e dos demais objetos.

As senhoritas de Avignon, pintura de Pablo Picasso, feita entre 1906 e 1907.

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Pablo Picasso. 1907. Óleo sobre tela. 243,9 x 233,7 cm. Museu de Arte Moderna, Nova York (EUA). Foto: André Held/Album/akg-images/Latinstock © Succession Pablo Picasso/AUTVIS, Brasil, 2016

Picasso também foi fortemente influenciado por expressões artísticas não europeias, principalmente a arte africana, que lhe foi apresentada pelo pintor francês Henri Matisse (1869-1954). Essa influência pode ser observada em As senhoritas de Avignon, especialmente na maneira como Picasso pintou os rostos das duas mulheres no canto direito (de quem observa), lembrando máscaras africanas. Observe a obra a seguir.


Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, um general francês ordena um ataque suicida para conquistar posições estratégicas na Frente Ocidental. Percebendo imobilidade frente ao fogo inimigo, o general ordena que alguns soldados atirem contra os próprios colegas de trincheira, obrigando-os a avançar, mas é desobedecido. Diante do gesto de insubmissão, o general pede o julgamento e a execução de todo o regimento alegando comportamento covarde diante do inimigo. Porém, o coronel que liderou os soldados na missão resolve interceder, defendendo os soldados na Corte Marcial. Filme de Stanley Kubrick. Glória feita de sangue. EUA, 1957. Foto: Archives du 7e Art/United Artists/Glow Images

Glória feita de sangue chegou a ser proibido em vários países, inclusive na França, por causa do seu alto teor crítico contra o sistema militar. O filme é considerado por muitos críticos de cinema um clássico pacifista, que mostra os horrores da Primeira Guerra Mundial e as condições desumanas às quais os soldados estavam submetidos.

Título: Glória feita de sangue Diretor: Stanley Kubrick Atores principais: Kirk Douglas, George MacReady, Adolphe Menjou, Ralph Meeker Ano: 1957 Duração: 87 minutos Origem: EUA

Cena do filme Glória feita de sangue.

Para ler

• •Adeus às armas, de Ernest Hemingway. Editora Bertrand Brasil. Romance autobiográfico que narra a história de amor, vivida durante a Primeira Guerra, de um motorista de ambulância do exército italiano e uma enfermeira inglesa.

• •A Primeira Guerra Mundial, de Luiz Cesar B. Rodrigues. Editora Atual. O livro pretende fazer uma introdução às causas e consequências imediatas da Primeira Guerra Mundial.

• •A

Revolução Russa, de Daniel Aarão Reis Filho. Editora Brasiliense. Primeiro de dois livros sobre a Revolução Russa, analisa a Rússia czarista e sua queda, a tradição revolucionária do país, os primeiros meses da Revolução, a guerra civil e a consolidação dos bolcheviques, e um relato da política internacional do governo soviético.

Para navegar

• •Desenhos de soldado mostram vida nas trincheiras da 1

Guerra. Disponível em: <http://tub.im/mzhaid>. Acesso em: 30 mar. 2016. Reportagem publicada em 2014 que apresenta desenhos feitos por combatentes da Grande Guerra. a

• •Manifesto

Futurista. Disponível em: <http://tub.im/e58t5p>. Acesso em: 30 mar. 2016. Versão em português do Manifesto Futurista, de Filippo Tommaso Marinetti, publicado originalmente em 1909.

• •O Eu profundo e os outros Eus. Disponível em: <http://tub.im/2zsogb>. Acesso em: 30 mar. 2016. Obra O Eu profundo e os outros Eus, de Fernando Pessoa, disponível no site Domínio Público.

A Grande Guerra e a Revolução Russa

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Unidade 3

Glória feita de sangue Filme de Stanley Kubrick. Glória feita de sangue. EUA, 1957

A história no cinema


H.E. French/Corbis/Latinstock

unidade

O perĂ­odo Entreguerras

Nessa fotografia, tirada por volta de 1920, vemos mulheres se divertindo em uma praia em Washington, D.C., nos EUA.

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Após a Primeira Guerra Mundial, os países europeus enfrentaram uma situação muito difícil, sobretudo em razão da grande destruição causada pela guerra e pela morte ou invalidez de milhões de jovens. O esforço de reconstrução resultou no endividamento de vários países europeus, especialmente, com os EUA, que emergi­ ram da guerra como o grande país credor e como a maior potência econômica e mi­ litar do planeta. Nesta unidade, vamos estudar alguns acontecimentos importantes desse perío­ do que posteriormente ficou conhecido como “Entreguerras”. Conheceremos di­ versos aspectos do american way of life, ou seja, o modo de vida estadunidense e, ainda, a intolerância a tudo aquilo que era considerado “antiamericano”. Também vamos estudar a profunda cri­ se que se abateu sobre a economia dos EUA a partir de 1929, conhecida como a Grande Depressão, e como essa crise re­ percutiu em diversas partes do mundo, fa­ vorecendo, por exemplo, o fortalecimento de regimes totalitários que mais tarde pro­ vocariam a Segunda Guerra Mundial. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

A A imagem da mulher cada vez mais independente, livre e moderna passou a ser difundida nos EUA principal­ mente durante os chamados “loucos anos 20”. Você sabe quais foram as principais características desse perío­ do? Comente. B Com o fim da Primeira Guerra Mun­ dial, as mulheres passaram a exigir maior par­ticipação política. Explique os motivos. C Procure citar as principais caracterís­ ticas dos regimes totalitários na Itália e na Alemanha.

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A Europa no pós-guerra Após o final da Primeira Guerra Mundial, a Europa enfrentava grandes dificuldades: muitas cidades haviam sido completamente destruídas e vastas áreas agrícolas esta­ vam arrasadas. Os horrores da guerra criaram um clima de desilusão e desesperança em grande parte da população. Leia o texto.

[...] Antes de 1914, nenhum europeu [...] poderia ter imaginado tanta brutalidade naquela que era vista como a região mais civilizada do globo. [...] Quando, em agosto de 1914, um [...] conflito nos Bálcãs fugiu do controle, transformando-se numa guerra total entre as Grandes Potências europeias, e quando essas potências conseguiram prolongar por mais de quatro anos a matança de toda uma geração de jovens, pareceu a muitos europeus que sua própria civilização, com suas promessas de paz e de progresso, havia fracassado. [...] Também as economias e as sociedades de todos os países em guerra passaram por profundas transformações. Os povos europeus haviam sofrido [uma] experiência prolongada de [...] racionamento de alimentos, de energia e de roupas [...]. Apesar desses esforços sem precedentes, entretanto, nenhum dos países beligerantes atingiu seus objetivos. Em vez de uma guerra curta com resultados claros, essa carnificina longa e intensiva de mão de obra terminou em exaustão mútua e em desilusão. [...] PAXTON, Robert Owen. A anatomia do fascismo. Tradução Patrícia Zimbres e Paula Zimbres. São Paulo: Paz e Terra, 2007. p. 59-60.

Diante dessa realidade e com o intuito de reconstruir seus países, os governantes europeus contraíram pesadas dívidas, principalmente com os Estados Unidos. Ao em­ prestar dinheiro para a reconstrução dos países europeus, os EUA tornaram-se credores. Além disso, exportavam grande quantidade de produtos para a Europa, aumentando ainda mais sua capacidade industrial. Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latinstock

Fotografia tirada por volta de 1919 mostrando a reconstrução de edifícios danificados durante a Primeira Guerra Mundial, em Paris, na França.

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EUA, nova potência mundial Os EUA atravessaram uma época de grande prosperidade econômica depois da Primeira Guerra Mundial. Durante os anos de 1919 a 1921, sua economia passou por um período de adaptação, mas, nos anos seguintes, houve o fortalecimento da indús­ tria produtora de carvão, ferro, aço e petróleo e, também, da produção da indústria química, elétrica e automobilística.

Unidade 4

Parte desse desenvolvimento deveu-se à dependência dos países europeus que, arruinados pela guerra, tornaram-se consumidores de produtos dos EUA. Leia o texto.

Os Estados Unidos haviam saído da guerra como país vencedor. Vencedor no campo militar e vencedor, principalmente, no campo econômico. Como potência distante dos conflitos, o país pôde fornecer material bélico, alimentos e matérias-primas para os aliados europeus. Depois da guerra os americanos haviam acumulado riquezas fabulosas. Até a Crise da Bolsa de 1929, os americanos viveram numa euforia que fazia com que todos vissem os Estados Unidos como “modelo” a ser imitado. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos procuravam manter-se longe dos conflitos políticos europeus. Esse posicionamento ficou conhecido como isolacionismo. TOTA, Pedro. Origens da Segunda Guerra. In: MAGNOLI, Demétrio (Org.). História das guerras. São Paulo: Contexto, 2006. p. 359.

Underwood & Underwood/Corbis/Latinstock

Prosperidade nos EUA O desenvolvimento industrial e econômico que ocorria nos EUA pro­ porcionou um período de prosperidade e melhoria na qualidade de vida dos estadunidenses. Essa prosperidade se refletia, por exemplo, na abertura de estradas, na construção de moradias, no crescimento das cidades e no aumento da aquisição de automóveis, telefones, fogões, entre outros produtos. Cartaz estadunidense de 1921 comparando o uso de aparelhos telefônicos em cidades estadunidenses e inglesas. Repare que, de acordo com esse cartaz, o percentual do uso de telefone em Londres é menor que a metade do percentual de uso na cidade de Nova Iorque.

As linhas de montagem Bettmann/Corbis/Latinstock

O aperfeiçoamento de máquinas e equipamentos contribuiu para o aumento da produção industrial nos EUA. Outro fator im­ portante para esse desenvolvimento foi a introdução das linhas de montagem nas fábricas estadunidenses. A primeira linha de montagem foi implantada por Henry Ford (1863-1947) em sua fábrica de automóveis. Nesse sistema de trabalho, conhecido como fordismo, cada trabalhador exercia uma tarefa específica com o auxílio de máquinas e, dessa forma, os automóveis eram produzidos com maior rapidez. Henry Ford diminuiu a jornada de trabalho de nove para oito horas diárias. Além disso, por acreditar que trabalhadores bem pagos eram também bons consumidores, ele ofereceu aos seus funcionários um salário relativamente alto se comparado ao de outras fábricas da época. Com essas medidas, Ford conquistou trabalhadores mais empenhados e disciplinados em suas tarefas e acabou contribuindo para uma maior circulação de dinheiro no país.

Fotografia de uma linha de montagem na fábrica de automóveis Ford, em Michigan, nos EUA, em 1913.

O período Entreguerras

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O american way of life

Refletindo

• •No Brasil, o

consumismo é incentivado na atualidade? Justifique sua resposta.

Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.

O desenvolvimento econômico e tecnológico ocorrido nos EUA, na década de 1920, ocasionou várias transformações na sociedade estadunidense. Em um clima de oti­ mismo, novas maneiras de pensar, de agir, de se vestir e de se expressar difundiam-se por todo o país. Nessa época, o american way of life, isto é, o estilo de vida estaduni­ dense, tornou-se o modo de vida predominante nas classes média e alta dos EUA.

A propaganda e o consumismo Os meios de comunicação veiculavam intensa propaganda que estimulava o consu­ mismo e, assim, uma série de novos produtos invadiu os lares estadunidenses, sobre­ tudo os da classe média crescente. Automóveis e eletrodomésticos, como fogões, geladeiras, aspiradores de pó e máquinas de lavar roupas, além de facilitarem o dia a dia das pessoas, conferiam status a quem os possuía.

H. Armstrong Roberts/Corbis/Latinstock

A grande procura por esses bens não estava ligada somente ao conforto que eles proporcionavam, mas também à crença de que o consumo dessas mercadorias aju­ daria no desenvolvimento do país. Desse modo, a ideologia do consumismo se con­ solidou e tornou-se uma das principais características do american way of life.

Explorando a imagem

• •Descreva a

imagem, citando elementos que caracterizem o american way of life.

Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.

Cena de família em casa, na década de 1930, nos Estados Unidos. Essa fotografia reflete a ideologia do american way of life.

Passado e presente

Consumismo nos EUA

O consumismo faz parte da cultura estadunidense na atualidade. Em escala mundial, os EUA são os principais consumidores de bens materiais, alimentos, água e energia elétrica. Além disso, ao lado da China, são responsáveis pela emis­ são de grande quantidade de gases do efeito estufa no planeta.

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Granger, NYC/Glow Images

A cultura de massa e os mass media

Muitos produtos da cultura de massa, como filmes, músicas e livros, tinham como objetivo informar e proporcionar momentos de lazer e entretenimento à população em geral. Os meios pelos quais a cultura de massa difundia-se eram jornais, revistas, rádio e cinema, conhecidos também como mass media (meios de comunicação de massa).

Unidade 4

Ao longo da década de 1920, as produções culturais também passaram a ser bens que podiam ser consumidos, “vendidos” ao grande público. O que antes era domínio de uma determinada elite intelectual, agora estava ao alcance da maioria da população. Para designar esse tipo de produção cultural, criou-se o termo “cultura de massa”, ou seja, a produção cultural voltada à satisfação do grande público.

Fotografia tirada por volta de 1920 mostrando o interior de uma sala de cinema em Nova Iorque, EUA.

Mudanças no comportamento Granger, NYC/Glow Images

Houve também mudanças nos padrões de beleza e de comportamento nesse período. Inspirados nos astros de cinema da época, como Gloria Swanson, Mary Pickford e Douglas Fairbanks, os homens e, principalmente, as mulheres buscavam ter maior liberdade na década de 1920. Muitas mulheres passaram a usar roupas mais ousadas, cabelos curtos, dirigiam automóveis, trabalhavam fora de casa, ou seja, tinham hábitos que causavam espanto às pessoas mais conservadoras. Os homens, por sua vez, estavam sempre barbeados, com cabelos curtos e bem penteados, vestindo roupas mais descontraídas que as usadas no século anterior. Foi nessa época que a preocupação com a boa forma física tornou a prática de esportes mais comum entre jovens de ambos os sexos. Além disso, homens e mulheres frequentavam ca­barés, onde novos estilos de música, como o jazz, e de dança, como o foxtrot e o charleston, tornaram-se populares na década de 1920.

Fotografia de casal dançando o charleston, na década de 1920, nos Estados Unidos.

Underwood & Underwood/Corbis/Latinstock

A mulher nos roaring twenties A expressão “loucos anos 20” (do inglês, roaring twenties) popularizou-se como referência ao período que compreende os anos de 1919 a 1929, marcado pela euforia e prosperidade econômica pós-guerra e pelas transformações sociais e culturais nos EUA. Um exemplo das mudanças ocorridas é a emancipação feminina. Nessa época, passou-se a difundir, principalmente por meio do cinema, a imagem de uma mulher moderna, dinâmica e independente, livre para fazer suas escolhas, fugindo do padrão tradicional. Nos “loucos anos 20”, os movimentos feministas fortaleceram-se nos EUA e foram fundamentais na luta pela conquista dos direitos das mulheres. Atividades consideradas masculinas, como dirigir automóveis e motocicletas, passaram a fazer parte do cotidiano de algumas mulheres. Outras, mais “ousadas”, tornaram-se aviadoras. Ao lado, fotografia de 1920 que retrata a aviadora Ruth Elder em Virgínia Ocidental, EUA.

O período Entreguerras

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Os EUA e a intolerância no pós-guerra Os Wasp O termo Wasp: white, anglo-saxon and protestant, que significa “bran­ co, anglo-saxão e protestante”, foi criado no início do século X X, para se referir aos estadunidenses que atribuem grande valor à sua origem anglo-saxã, à cor branca da pele e ao cristianismo protestante.

No decorrer da década de 1920, ao mesmo tempo em que o american way of life se consagrava entre as famílias de classes média e alta, ganhava força um movimento nacionalista. Esse movimento foi caracterizado pela grande intolerância a tudo que não fosse “genuinamente americano”, e manifestou-se por meio de proi­ bições de caráter reacionário e por um forte preconceito em relação a negros, judeus, católicos e imigrantes, que passaram a ser vistos como “antiamericanos”.

AP Photo/Glow Images

O racismo da Ku Klux Klan Uma das manifestações mais destrutivas de intolerância nos EUA foi a organização racista chamada Ku Klux Klan (KKK), for­ mada por nacionalistas extremados e fanáticos religiosos. Em nome de supostos valores “genuinamente americanos” e da ma­ nutenção da suposta pureza Wasp, essa organização passou a perseguir negros, judeus e imigrantes, além de pressionar e cor­ romper autoridades para aprovar leis restringindo os direitos dos grupos considerados “antiamericanos”. Fotografia que retrata membros da KKK usando trajes e capuzes brancos, inclusive nos seus cavalos, fazendo uma manifestação em Oklahoma, EUA, em 1923.

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A proibição das bebidas alcoólicas

Alphonsus Gabriel Capone, o Al Capone, chefe da maior máfia de bebidas clandestinas de Chicago, foi considerado um dos maiores gângsteres dos EUA. Retrato de Al Capone tirado em 1930.

Resultado da intensa campanha dos setores mais tradicionalistas da sociedade, como a União das Mulheres pela Temperança Cristã, membros das igrejas puritanas e da Liga Antibares, foi aprovada a 18 a emenda à Constituição estadunidense, em janei­ ro de 1920. Conhecida como Lei Seca, ela proibia a fabricação, o transporte e o con­ sumo de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos. A proibição, porém, não contribuiu para uma época de “ideias e vidas limpas”, como queriam seus defensores. Ao contrário, o número de estabelecimentos que ven­ diam bebidas alcoólicas clandestinamente aumentou muito, assim como o consumo de álcool e os casos de hospitalização em razão da má qualidade das bebidas produ­ zidas em fábricas ilegais. Além disso, a proibição gerou um atrativo negócio para os gângsteres, como eram chamados os criminosos que enriqueceram com a produção e a venda clandestina de bebidas. O crescimento da criminalidade e os protestos contra a Lei Seca levaram à sua abolição pelo presidente Roosevelt, em dezembro de 1933.

A “ameaça comunista” A ameaça comunista causava grande apreensão nas classes média e alta dos EUA. Desde a época da Revolução Russa, havia o receio da infiltração de estrangeiros ligados ao comunismo na sociedade estadunidense. Assim, imigrantes adeptos dos ideais socialistas ou anarquistas passaram a ser perseguidos. Essas perseguições acabaram se estendendo aos estrangeiros de modo geral, que começaram a ser vistos também como concorrentes aos empregos dos trabalhadores estadunidenses. Um exemplo da intolerância estadunidense foi o julgamento de Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, dois imigrantes italianos anarquistas. Eles foram presos sob a acusação de roubo e homicídio. Apesar da falta de provas, foram executados na cadeira elétrica, em 1927.

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A Grande Depressão

A partir da metade da década de 1920, no entanto, o crescimento econômico esta­ dunidense entrou em desaceleração, pois a recuperação da indústria e da agricultura europeias tornou a Europa menos dependente dos produtos importados dos EUA.

Hipotecar: oferecer um bem como garantia na contratação de um empréstimo. Especular: neste caso, realizar operação financeira com base em dados incertos.

Unidade 4

O clima de prosperidade nos EUA, na década de 1920, gerou uma onda de investi­ mentos em ações de empresas na Bolsa de Valores de Nova Iorque. Isso fez o mercado de ações se valorizar e a economia se tornou aparentemente mais dinâmica, apresen­ tando um crescimento superficial. Porém, nem todos os setores produtivos foram afeta­ dos por essa euforia do mercado e a desigualdade social ainda se mostrava marcante entre os setores da sociedade. Por isso, os economistas afirmam que não houve um crescimento real da economia estadunidense nessa época. Isso aconteceu principal­ mente porque os consumidores procuravam manter um nível de vida mais alto que a realidade econômica permitia, contraindo empréstimos garantidos por hipotecas.

A quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque

O preço das ações era especulado e continuou subindo, até que se tornou evidente que essa euforia não era compa­ tível com a situação real das empresas, que começaram a falir. Os investidores correram para vender suas ações, mas já não havia compradores e o preço delas despencou. A eu­ foria dos investidores deu lugar ao desespero, e o mercado de ações entrou na crise que levaria à grande quebra (crash) da Bolsa de Valores de Nova Iorque, em outubro de 1929, iniciando a Grande Depressão.

Popperfoto/Getty Images

O dinamismo do mercado interno estadunidense tam­b ém foi prejudicado pela queda no valor dos salários pagos aos trabalhadores. Com menores salários, diminuía o poder de compra da população e o consumo caía, porém as indústrias continuavam produzindo, gerando estoques que ficavam en­ calhados, desencadeando uma crise de superprodução.

Fotografia tirada em Nova Iorque, em 1929, que mostra um homem vendendo seu carro por 100 dólares após a quebra da Bolsa de Valores.

A Grande Depressão pode ser definida como um período de recessão econômica que durou desde a crise de 1929 até o final da década de 1930. Nos Estados Unidos, durante os primeiros anos após a quebra da Bolsa de Valores, mais de nove mil ban­ cos faliram e cerca de 300 mil empresas foram fechadas, deixando desempregados cerca de 12 milhões de trabalhadores.

Reflexos da crise AP Photo/Glow Images

Os reflexos da crise logo foram sentidos em quase todos os países capitalistas, principalmente na Europa e na Améri­ ca Latina, onde havia grande dependência dos empréstimos e investimentos dos EUA. Como decorrência da crise, os credores estadunidenses começaram a cobrar os empréstimos de curto prazo e cor­ taram os investimentos externos e as importações. Na Ale­ manha, França e Inglaterra, por exemplo, ocorreu um au­ mento significativo do desemprego, os salários foram con­ gelados e houve grande queda da produção. Após o colapso econômico, uma multidão de clientes se dirigiu aos bancos para tentar sacar seu dinheiro depositado. Fotografia tirada em Berlim, Alemanha, em 1931.

O período Entreguerras

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O socialismo na União Soviética Enquanto os países capitalistas atravessavam um período de dificuldades decorren­ tes da Grande Depressão, a União Soviética procurava atingir as metas estabelecidas pelos Planos Quinquenais. Esses planos, lançados pelo governo soviético na década de 1920, estipularam metas de desenvolvimento em setores considerados prioritários, como a produção de energia elétrica, máquinas pesadas e armamentos, além da me­ canização da agricultura. O primeiro desses planos foi criado em 1928, sendo sucedido por outros na década seguinte. A agricultura foi coletivizada com a junção das pequenas unidades agrícolas, formando grandes áreas agricultáveis, buscando diminuir os custos da mecanização. Nesse processo, a burguesia rural foi eliminada, criando-se um proletariado agrícola a serviço do Estado. Divisa: moeda utilizada em transações comerciais internacionais.

Com o controle total da produção e distribuição de alimentos, o governo pôde dire­ cionar produtos para a exportação, gerando divisas que foram utilizadas na compra de máquinas e na contratação de técnicos ocidentais. Uma das consequências da estatização da economia foi a criação de uma imensa burocracia estatal, responsável pela administração dos empreendimentos industriais e agrícolas do país. Os Planos Quinquenais aceleraram a industrialização da União Soviética à custa dos esforços dos trabalhadores, que deviam cumprir metas rigorosas de produção. Em 1939, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética já era uma po­ tência industrial e militar.

Di Cavalcanti. 1922. Xilografia. Instituto Histórico e Geográfico, Rio de Janeiro (RJ)

Enquanto isso

Iconographia/Reminiscências

Capa do catálogo da exposição de artes plásticas da Semana de Arte Moderna, de 1922, com desenho de Di Cavalcanti.

... no Brasil

No início da década de 1920, diante de tantos acon­ tecimentos políticos e mudanças comportamentais que ocorriam em todo o mundo, alguns jovens artistas brasi­ leiros, influenciados pelas vanguardas artísticas europeias, buscavam novas maneiras de expressar seus valores e preocupações. Chamados de modernistas, eles queriam criar uma arte genuinamente brasileira, tendo como te­ mas principais as paisagens, o folclore, os costumes e as festas populares. Os modernistas promoveram uma grande manifestação em fevereiro de 1922, quando realizaram a Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo. Entre os vários participantes do evento, estavam os escritores Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Graça Aranha e Manuel Bandeira, os pintores Di Cavalcanti e Anita Malfatti, o escultor Vítor Brecheret, o arquiteto Antônio Moya e o músico Heitor Villa-Lobos. Foram três dias de apresentações e exposições que chocaram os espectadores mais conservadores. Espa­ lhando suas obras por todo o teatro, nas escadarias, no palco e nos saguões, os modernistas apresentavam sua nova proposta, que causou diversas reações no público, desde aplausos até vaias e xingamentos. Fotografia que retrata os organizadores da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em 1922.

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A intervenção estatal nos EUA

Keynes tinha uma postura crítica em relação às teorias liberais até então dominan­ tes e defendia uma participação mais ativa do Estado na execução de políticas eco­ nômicas. Esse economista também defendia o direito dos trabalhadores ao pleno emprego, sendo obrigação do Estado garanti-lo. O pleno emprego requeria a existência de oportunidades reais de trabalho, por causa de uma relação entre oferta e demanda favorável aos trabalhadores, que facilitaria sua inclusão no mercado de trabalho. A intervenção estatal viria para estimular a iniciativa privada, criando condições para o aumento das contratações.

O New Deal

Essa ajuda veio acompanhada da interfe­ rência do Estado no mercado, controlando e limitando a produção de mercadorias, a fim de evitar novas crises de superprodução. Me­ didas trabalhistas também fizeram parte do New Deal, como a liberdade sindical, a redu­ ção da jornada de trabalho sem diminuição de salários, o estabelecimento do salário mínimo, a criação do seguro-desemprego e o auxílio aos idosos.

Como parte do New Deal, em 1935 o governo dos Estados Unidos criou a Works Progress Administration (Administração do Progresso dos Trabalhos), agência responsável pelo combate ao desemprego. Até o ano de sua dissolução, em 1943, a agência empregou cerca de 8,5 milhões de pessoas. Abaixo, fotografia de 1936 que retrata trabalhadores da WPA construindo uma calçada em Minnesota, EUA. Minnesota Historical Society/Corbis/Latinstock

O programa de reformas lançado por Roosevelt ficou conhecido como New Deal (Novo Acordo). O plano consistia em grandes investimentos pelo governo em obras pú­b licas (usinas hidrelétricas, pontes, estradas) com a finalidade de reduzir o desem­ prego que assolava o país. O governo também promoveu o financiamento da produ­ ção agrícola e industrial, ajudando os produtores rurais que haviam hipotecado suas propriedades e os industriais que não tinham como saldar suas dívidas.

Unidade 4

Em 1932, Franklin Delano Roosevelt foi eleito presidente dos EUA, no momento mais crítico da Grande Depressão. Os EUA necessitavam de medidas urgentes para enfrentar a crise, por isso Roosevelt rompeu com os princípios econômicos liberais, segundo os quais o mercado se autorregularia de forma eficiente, tornando desneces­ sária a intervenção estatal na economia. Adotando as ideias do economista inglês John Maynard Keynes, Roosevelt buscou salvar o capitalismo estadunidense, geren­ ciando-o por meio de reformas econômicas dirigidas pelo Estado.

Embora de forma lenta, o programa teve efeitos positivos, e a economia voltou a cres­ cer, diminuindo o desemprego e aumentando o poder de compra dos trabalhadores.

Russell Lee/Corbis/Latinstock

O Estado de Bem-Estar As políticas sociais do New Deal promoveram a implantação do Welfare State (Estado de Bem-Estar) nos EUA. Essas políticas tinham o objetivo de conter o avanço do comunismo por meio da intervenção dos poderes pú­ blicos nos mecanismos de produção, aumentando a transferência de renda para os setores mais carentes da sociedade. Como parte do programa de distribuição de renda, foram investidas grandes quantias na construção de moradias para os setores mais carentes da sociedade. Essa fotografia retrata trabalhadores construindo casas pré-fabricadas em Missouri, EUA, em 1938.

O período Entreguerras

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O fascismo na Itália O fascismo surgiu na Itália a partir das ideias difundidas por Benito Mussolini. Depois de combater na Primeira Guerra Mundial e escrever para jornais socialistas, ele procurou criar uma nova ideologia política. De acordo com essa ideologia, chamada de fascismo, a solução para os problemas sociais dos países desestruturados após a guerra seria a adoção de alguns princípios básicos, como: o nacionalismo, com tendências ao racismo e à xenofobia (repulsa a tudo que é estrangeiro); a militarização, com um governo autoritário e expansionista; e o corporativismo, sistema em que os sindicatos de trabalhadores são substituídos por corporações submetidas ao controle do Estado, das quais participam operários e patrões. Nessa situação de crise, a ideologia do fascismo conquistou muitos adeptos, atraindo desempregados, estudantes e a classe média, formada por funcionários públicos, profissionais liberais, militares e pequenos proprietários de terras, de fábricas e de estabelecimentos comerciais. O fascismo promoveu a mobilização das massas, mas também recebeu apoio de grupos paramilitares nacionalistas, além da burguesia, que temia o crescimento do socialismo.

Os fascistas tomam o poder Paramilitar: grupo de civis organizados como força militar.

O tema sobre os regimes totalitários favorece o trabalho interdisciplinar com Sociologia. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

Os italianos, por terem lutado na guerra ao lado dos Aliados, acreditavam que receberiam compensações territoriais com o término dos conflitos, entretanto, de acordo com as determinações do Tratado de Versalhes, isso não ocorreu, contribuindo com o aumento do sentimento de frustração na Itália. Além disso, com o fim da Primeira Guerra Mundial, a Itália enfrentou uma crise econômica generalizada, causando grande descontentamento na população. Aproveitando a insatisfação popular, em 1922, Mussolini organizou e liderou uma passeata fascista em Roma, denominada Marcha sobre Roma, que contou com a participação de milhares de pessoas. Após essa manifestação de poder, o rei italiano Vítor Emanuel III concedeu o cargo de primeiro-ministro a Mussolini, que, a partir de então, aumentou a perseguição às pessoas contrárias às suas ideias.

Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latinstock

Ele adotou medidas centralizadoras, tornando-se ditador da Itália, com poderes ilimitados. Além disso, aboliu o Poder Legislativo e os demais partidos, concentrando o poder no Partido Fascista, além de substituir os sindicatos dos trabalhadores por corporações controladas pelo Estado.

Fotografia que retrata Mussolini (ao centro) liderando suas tropas durante a Marcha sobre Roma, realizada em 1922, na Itália.

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O nazismo na Alemanha No período final da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha passava por grande instabilidade política e econômica. Algumas reivindicações populares anteriores à guerra não haviam sido contempladas, gerando revoltas por todo o país. Soldados, marinheiros e operários fundaram conselhos, exigindo o fim da Monarquia e a organização de uma República, que foi proclamada em novembro de 1918.

Hitler e o nazismo

Nessa situação crítica, foi fundado o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou Partido Nazista. O nazismo apresentava princípios semelhantes aos do fascismo, porém dava grande ênfase ao racismo e ao antissemitismo, além de reprovar a democracia liberal da República de Weimar. O grande líder do Partido Nazista era Adolf Hitler. Em 1923, ele liderou os nazistas em um golpe para tentar tomar o poder na cidade de Munique, na região alemã da Baviera. A tentativa de golpe foi rapidamente sufocada pela polícia bávara, e Hitler foi preso com outros nazistas.

Os nazistas no poder No ano de 1925, Hitler já estava solto e retomou suas ações para chegar ao poder na Alemanha. No entanto, ele mudou de estratégia, abandonando as tentativas de golpe e tentando chegar ao poder pelas vias burocráticas e eleitorais. Nas eleições de 1930, o Partido Nazista foi o segundo mais votado. Em 1933, Hitler foi nomeado primeiro-ministro da Alemanha e, em 1934, com a morte do então presidente Hindenburg, assumiu o comando do país. Hitler era extremamente autoritário, tinha o apoio da alta burguesia e promoveu uma intensa mobilização popular. Ele acabou com o federalismo, centralizando o poder do Estado em suas mãos, e adquiriu poderes de ditador, autoproclamando-se führer (líder, em alemão). Além disso, intensificou a censura e aboliu os sindicatos, substituindo-os por corporações nacionais.

Bettmann/Corbis/Latinstock

Ele também financiou a formação de uma milícia extremamente fiel às suas ordens, a Schutzstaffel (ou SS), que perseguia membros de grupos sociais considerados “inferiores”, principalmente judeus, ciganos, eslavos e homossexuais, além de comunistas e demais adversários políticos.

Unidade 4

No início da década de 1920, a Alemanha atravessava uma profunda crise econômica, com uma crescente inflação. A dívida do Estado alemão era agravada pela alta indenização que, de acordo com o Tratado de Versalhes, o governo se comprometera a pagar aos Aliados. A República de Weimar A primeira experiência republicana da Alemanha começou na pequena cidade de Weimar. Com uma maioria social-democrata (socialistas moderados), Weimar foi palco da criação de uma Constituição federalista que estabeleceu alguns princípios democráticos, como a liberdade de opinião, possibilitando, entre outras vantagens, o aumento da produção cultural na Alemanha. A chamada República de Weimar foi criticada durante toda sua existência (1919-1933) por vários grupos políticos, que a viam como um regime político importado, sem identidade nacional.

Fotografia de um desfile de tropas nazistas, durante um congresso em Nuremberg, Alemanha, em 1938. Na imagem, vemos Hitler fazendo a saudação nazista.

O período Entreguerras

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Explorando o tema

Estudos sobre a mente humana

Após o fim da Primeira Guerra Mundial, a Europa enfrentou um período de crise econômica somada à necessidade de reconstruir as cidades e áreas agrícolas que tinham sido destruídas. Milhões de pessoas haviam morrido e muitas outras estavam doentes, lutando para recompor suas vidas. Nesse contexto de desilusão coletiva, muitos estudiosos dedicaram-se a entender o funcionamento das relações interpessoais e a propor alternativas para o futuro das sociedades.

Freud e a Psicanálise Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latinstock

Nesse período, destacaram-se os estudos sobre o funcionamento da mente humana feitos pelo médico e psiquiatra Sigmund Freud, criador da Psicanálise. Analisando o comportamento de seus pacientes, ele desenvolveu uma teoria fundamentada na estrutura da personalidade, a qual seria formada por três domínios: o id, o ego e o superego. O id é o setor mais profundo do psiquismo, que contém os impulsos mais básicos e elementares de uma pessoa. O id é composto de energias biológicas, chamadas pulsões, que determinam os desejos e buscam sua satisfação sem se importar com as normas sociais.

Sigmund Freud. Fotografia da década de 1930.

O ego corresponde ao “eu” racional e consciente, e se desenvolve ao longo da vida de uma pessoa. O ego é a instância em que se desenvolvem as funções psíquicas, como a percepção e a memória, e que busca manter o contato entre o indivíduo e o seu ambiente. O superego é o domínio da personalidade que incorpora as normas sociais e os valores morais do grupo social em que a pessoa vive. A família é o primeiro grupo social que representa esses valores, que posteriormente são interiorizados pelo indivíduo. Assim, é por meio do ego que um indivíduo busca encontrar o equilíbrio entre as exigências representadas pelas poderosas energias que emanam do id e as demandas morais representadas pelo superego. Esse equilíbrio é o que possibilita a uma pessoa satisfazer suas necessidade instintivas e, ao mesmo tempo, ser aceita pela sociedade em que vive. De acordo com Freud, os distúrbios psíquicos surgem quando o superego impõe barreiras que não permitem que as energias originadas no id cheguem ao ego. As energias reprimidas do id formam, assim, uma esfera da personalidade repleta de desejos reprimidos, que não são conhecidos pelo ego. Essa esfera é o que Freud chama de inconsciente, e que ocupa grande parte do psiquismo de uma pessoa.

Bettmann/Corbis/Latinstock

Para acessar os desejos reprimidos que estão no inconsciente, Freud desenvolveu uma terapia baseada na análise dos sonhos e na técnica da livre associação, em que o paciente relata tudo que lhe vem à mente. Ao entrar em contato com seus desejos reprimidos, o paciente tem condições de compreender as origens de seus distúrbios psicológicos e alcançar a cura.

Wilhelm Reich: sexualidade e neurose

Wilhelm Reich, na década de 1950. Seu lema era “Amor, trabalho e conhecimento são as fontes de nossa vida. Devem também governá-la”.

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Um dos mais importantes discípulos de Freud foi o austríaco Wilhelm Reich. Nascido no final do século XIX, ele lutou no exército austríaco durante a Primeira Guerra Mundial, dedicando-se ao estudo da medicina após o fim do conflito. Nessa época, os estudantes de Viena costumavam organizar seminários de sexologia, com o intuito de compensar a ausência dessa disciplina no currículo acadêmico. Assim, Reich teve contato com a Psicanálise em 1919, lendo os textos de Freud, e em 1920 ingressou na Sociedade Psicanalítica de Viena. Para Reich, os problemas psíquicos tinham origem na incapacidade de satisfazer os desejos sexuais. Ele acreditava que o amor reprimido era a fonte dos problemas humanos e relacionava diretamente a incapacidade de amar ao moralismo da sociedade e da família patriarcal.


Reich escreveu diversos livros, dos quais se destacaram A função do orgasmo e Psicologia de massas do fascismo. Nesse último, elabora uma crítica ao fascismo, estabelecendo um vínculo entre a repressão sexual e a pré-disposição das pessoas a se submeter aos regimes totalitários. Suas críticas ao fascismo o obrigaram a emigrar para os EUA, onde continuou desenvolvendo suas pesquisas. Por causa de suas pesquisas sobre doenças, que envolviam o desenvolvimento de tratamentos para o câncer, em 1957 Reich foi acusado de charlatanismo, condenado pela justiça estadunidense e levado à prisão, onde faleceu oito meses depois, após sofrer um ataque cardíaco. Unidade 4

Carl Gustav Jung: os símbolos e o inconsciente coletivo

Em 1912, Jung publicou Metamorfoses e símbolos da libido, obra que causou o seu rompimento com Freud. A partir daí, ele se isolou em seus estudos, acumulando conhecimentos em filosofia, história das religiões, mitologia e arqueologia. Também viajou bastante, vivendo entre povos nativos do norte da África; do Quênia e do Novo México, nos EUA.

Bettmann/Corbis/Latinstock

Outro importante estudioso que seguiu os passos de Freud foi o suíço Carl Gustav Jung. Em 1907, quando conheceu Freud, Jung já era um psiquiatra experiente, mas foi profundamente influenciado pelas teorias da Psicanálise. A colaboração entre os dois foi tão intensa que, em 1910, ao fundar a Associação Psicanalítica Internacional, Freud indicou Jung para ocupar a presidência. As divergências entre eles, no entanto, logo se mostraram indisfarçáveis. Para Freud, se a importância da sexualidade fosse contestada, a própria Psicanálise teria suas bases solapadas. Jung, por outro lado, dizia que não havia uma sustentação segura para a tese de que a sexualidade era determinante na formação da natureza humana. Fotografia do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, tirada na década de 1950.

Salvador Dalí. c. 1936. Óleo sobre papel cartão. Teatro-Museu Dalí, Figueres (Espanha). Foto: Christie’s Images/Fine Art/Corbis/Latinstock © Salvador Dalí, Fundación Gala-Salvador Dalí/AUTVIS, Brasil, 2016

Um dos principais conceitos criados por Jung é o de inconsciente coletivo. Ao contrário do inconsciente concebido por Freud, o inconsciente coletivo de Jung não é pessoal, mas diz respeito a toda a humanidade. Os símbolos e mitos seriam conteúdos desse inconsciente coletivo, transmitidos a nós pela herança das experiências vividas pelas gerações anteriores. Desse modo, o inconsciente coletivo expressaria a identidade de todos os seres humanos, independentemente de época ou lugar. Os elementos que constituem essa identidade entre as pessoas são o que Jung chamou de arquétipos. Eles podem se manifestar em imagens e símbolos, geralmente quando sonhamos. Psicanálise e arte Além de influenciar intelectuais de todo o mundo, a Psicanálise também foi fundamental para alguns artistas europeus do período Entreguerras. Em 1924, o escritor francês André Breton publicou o Manifesto do Surrealismo. Nesse texto, ele afirmou a influência da Psicanálise sobre os artistas surrealistas, que, ao pintar ou escrever, privilegiavam conteúdos oníricos, buscando expressar os elementos do inconsciente. O Surrealismo é considerado a última vanguarda europeia e teve como principais representantes o pintor belga René Magritte e o pintor catalão Salvador Dalí. Tela Composição Surrealista com figuras invisíveis, do pintor Salvador Dalí, feita por volta de 1936.

O período Entreguerras

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Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento 1. Explique a seguinte afirmação: “Os EUA saíram da guerra como grandes vitoriosos”.

2. O que significou para o mercado de trabalho e para a economia dos EUA a adoção das linhas de montagem por Henry Ford?

3. Relacione o american way of life com a propaganda e o consumismo nos EUA do período Entreguerras.

4. Produza um texto sobre a intensificação dos movimentos nacionalistas, das práticas racistas e da radicalização do tradicionalismo nos EUA.

5. Explique o que eram os Planos Quinquenais

instituí­d os na década de 1920. Quais foram suas consequências para a economia da URSS?

6. Sobre a recuperação dos EUA após a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, responda. a ) A partir desse momento, qual foi a posição adotada pelos EUA frente aos princípios do liberalismo econômico? b ) O que foi o New Deal?

7. Explique as principais características do fascismo italiano e do nazismo alemão. Explique as principais semelhanças e, também, as diferenças entre esses dois regimes.

Expandindo o conteúdo 8. Leia o texto a seguir sobre o conceito de “indústria cultural”. Indústria cultural é a produção e dissemi­ nação de produtos culturais para o consumo em massa, ou seja, o consumo de um grande número de pessoas em diferentes lugares, in­ dependentemente das particularidades cultu­ rais. Tal produção é realizada em geral pelos meios de comunicação e está interligada à ati­ vidade industrial propriamente dita. Jornais, revistas periódicas, programas de TV, livros, revistas em quadrinhos, músicas, filmes são exemplos de produtos culturais que passaram a fazer parte da sociedade de consumo, surgi­ da nas primeiras décadas do século [XX]. Nes­ se momento, os Estados Unidos apareceram como principal produtor e divulgador do que ficou conhecido como “cultura de massa”. [...] De início essa cultura era constituída por pro­ dutos feitos especificamente pelos meios de comunicação para o grande público, como o romance de folhetim, o teatro de revista, a opereta, o cartaz. A indústria cultural surgiu

com a industrialização, com os primeiros jor­ nais de grande tiragem, e logo gerou a cultura de massa, que se instalou apenas quando já existia a sociedade de consumo. Foi na segunda metade do século XIX, com o avanço do capitalismo liberal, que se consoli­ daram as duas condições fundamentais para a existência da indústria cultural: a economia de mercado e a sociedade de consumo. Os bens cul­ turais, que antes tinham apenas valor de uso, passaram a ser produzidos para uma sociedade de mercado, adquirindo um novo caráter, o va­ lor de troca, como qualquer outro objeto. Essa nova concepção de cultura como coisa a ser trocada no mercado denomina-se “reificação” (coisificação). Mas foi só no século XX que se consolidou a cultura de massa, a produção de bens culturais para o consumo de um grande público. SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2006. p. 225-6.

a ) Explique o significado do conceito de indústria cultural, apontando a sua relação com o conceito de cultura de massa. b ) Qual a relação entre industrialização e indústria cultural? c ) De que forma as condições criadas pelo sistema capitalista liberal permitiram o surgimento da indústria cultural?

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9. Leia o texto a seguir, sobre a política proibicionista iniciada com a Lei Seca, nos EUA.

Em 1874, mulheres que integravam a con­ servadora União Feminina de Temperança Cristã (Woman’s Christian Temperance Union) invadiam bares e restaurantes do país portan­ do a bandeira da proibição do álcool. Com ma­ chados e porretes, elas destruíam todas as bebidas alcoólicas que viam engarrafadas. Em curto espaço de tempo, essas mulheres encontrariam o apoio do público masculino através da Liga Antibares (Anti-Saloon League), fundada em 1893 por produtores rurais conser­ vadores, liderados pelas igrejas puritanas. Ao final do século XIX, a Associação Republicana dos Abstinentes já havia conseguido implan­ tar leis antiálcool em alguns estados estadu­ nidenses. Mas seria a eclosão da Primeira Guerra Mundial que proporcionaria o argu­ mento decisivo que restava aos inimigos do álcool. Segundo os proibicionistas, cereais, le­ vedo, malte e açúcar seriam alimentos bási­ cos e não deveriam ser desperdiçados na fa­ bricação de bebidas alcoólicas em tempos de guerra. Além disso, cerveja e vinho seriam produtos típicos da Alemanha. Consumir tais bebidas seria, então, um ato pouco patriótico. Através de um projeto apresentado no dia 8 de setembro de 1917 à Câmara estaduniden­ se dos Representantes, que só entraria em vi­ gor dois anos depois, começou a proibição das bebidas alcoólicas nos Estados Unidos. Mes­ mo a tradição liberal estadunidense não foi

capaz de minar a cruzada do senador Andrew Volstead, cuja lei batizada em seu nome (Volstead Act) proibiu, por quase 14 anos, a fabricação, venda, transporte, importação e exportação de bebidas alcoólicas em toda a área dos Es­ tados Unidos e dos territórios judicialmente submetidos a este país. [...] Como consequência da proibição do álcool, o chefão mafioso Alfonso “Al” Capone entraria para a história como um dos maiores crimino­ sos de todos os tempos, fazendo fortuna com o tráfico de bebidas alcoólicas, transformando ci­ dades como Chicago e Nova Iorque em redutos de intensa violência. Implantada com o propó­ sito de proteger os cidadãos dos perigos gera­ dos pelo consumo do álcool, a chamada “Lei Seca” acabou por provocar a disseminação de um mal ainda mais perigoso: o crime organiza­ do. Além disso, a “jogatina”, a corrupção e a prostituição acompanhavam com frequência o consumo ilegal do álcool. Por fim, as consequên­ cias da Lei Seca representaram um “tiro pela culatra” nas intenções da promoção da absti­ nência dos puritanos estadunidenses, pois até ser revogada em 1933, a Lei Seca foi responsá­ vel pelo fortalecimento do crime nos Estados Unidos e pelo agigantamento das agências e da burocracia estatal. O consumo, alvo primei­ ro das associações abstêmias, não recuou e, ademais, os estadunidenses foram expostos a bebidas muito mais nocivas à saúde, uma vez que eram fabricadas sem cuidados mínimos de higiene e escolha de matérias-primas.

Unidade 4

[...] A implementação do modelo proibicio­ nista estadunidense, desta vez com relação ao álcool, seria inspirado em uma seita religiosa: o puritanismo protestante. [...]

MOTA, Leonardo de Araújo e. As drogas e a lei: Reflexões sociológicas sobre o proibicionismo. Disponível em: <www.faculdadescearenses.edu.br/revista2/edicoes/ vol1-1-2010/artigo5.pdf>. Acesso em: 22 jan. 2016.

a ) Partindo do que é apresentado no texto acima, relacione o puritanismo religioso, o conservadorismo e a adoção da Lei Seca. b ) Qual era a posição dos proibicionistas quanto ao uso das matérias-primas necessárias à produção de determinadas bebidas alcoólicas? c ) Explique de que forma a Lei Seca acabou trazendo males ainda mais graves à sociedade estadunidense.

10. Leia o texto a seguir sobre a crise econômica global de 1929, provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque. [Na década de 1920], à medida que o tempo passava, tornava-se evidente que aquela pros­ peridade não duraria [nos Estados Unidos]. Dentro dela estavam contidas as sementes de sua própria destruição. E o país caminhava para o mais grave dos problemas. Nisso reside

o fascínio peculiar do período para um estudo do problema de lideranças. Pois nesses anos poucos passos foram dados no sentido de con­ ter a tendências que estavam conduzindo ao desastre. [...]

O período Entreguerras

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[Uma das principais fraquezas] da economia era a especulação em larga escala em torno de sociedades anônimas. Isso assumiu uma gran­ de variedade de formas, a mais comum das quais sendo a organização de sociedades anô­ nimas proprietárias das ações de outras socie­ dades anônimas (holdings) que, por sua vez, já eram proprietárias de ações de outras compa­ nhias. No caso das ferrovias e das empresas de utilidade pública, o objetivo dessa pirâmide de holdings (companhias financeiro-administrati­ vas que dominam uma série de empresas por meio do controle acionário) era obter o controle do maior número possível de empresas por meio de um mínimo de investimento na holding de cúpula. Ao fim da década, eram bastante habi­ tuais estruturas de holdings organizadas em seis ou oito camadas. E algumas delas — as pirâmides da Insull and Associated Gas & Eletric e da ferrovia Van Sweringens — eram espantosamente complexas. É pouco provável que alguém entendesse, ou pudesse entender, perfeitamente esse tipo de organização. Essa especulação insana era bastante visí­ vel, da mesma forma que seus danos. As pirâ­ mides só se manteriam enquanto os lucros das companhias de base fossem garantidos e os recursos captados fossem realmente investidos em atividades produtivas, ao invés de alimen­ tar mais ainda a especulação. Se alguma coisa acontecesse aos dividendos dessas compa­ nhias de base haveria sérios problemas e a pi­ râmide entraria em colapso. Tal colapso teria efeito negativo não só para o andamento orde­ nado dos negócios e do investimento das com­ panhias, mas também repercutiria na confiança, investimento e consumo da comunidade em geral. A essa probabilidade acresceria-se o fato de que, em várias cidades — Cleveland, Detroit e Chicago foram exemplos notáveis —, os ban­ cos estavam profundamente comprometidos com essas pirâmides, tendo mesmo caído sob seu controle. [...]

Por fim, o mais evidente dos sintomas: a euforia reinante na Bolsa de Valores. Mês após mês, ano após ano, o grande mercado em alta dos anos 20 regurgitava. Havia algumas bai­ xas, mas o mais frequente eram as fenome­ nais altas. O verão de 1929 foi o mais frenético da história financeira americana. Ao seu tér­ mino, os preços das ações haviam quase qua­ druplicado em comparação com os quatro anos anteriores. As transações na bolsa de Nova Iorque envolviam cerca de 5 milhões ou mais de ações por dia. Poucos, ao que parece, detinham as ações para auferir rendimento pessoal. O que importava era especular para realizar “ganhos” de valorização de capital. Esse boom era intrinsicamente autodestruti­ vo. Poderia durar apenas enquanto novas pes­ soas, ou pelo menos novo dinheiro, entrassem no mercado à procura de ganhos de capital. Novas demandas faziam as ações aumentar de valor, criando os ganhos de capital. Assim que o suprimento de novos clientes começasse a murchar, o mercado entraria em baixa. Nessas circunstâncias, alguns, talvez mesmo uma boa parcela, começariam a transformar suas ações em dinheiro. Uma pessoa interessada em fazer ganhos especulativos de seu capital deve ven­ der suas ações enquanto a cotação é elevada. Mas uma venda maciça pode levar a uma que­ da do mercado, e, um dia, isso pode transfor­ mar-se no sinal para muitas outras vendas. Assim, era certo que um dia o mercado viria abaixo, e muito mais rapidamente do que havia subido. E, de fato, caiu, com um estrondoso crash, em outubro de 1929. Numa sucessão de dias terríveis, dos quais a quinta-feira, 24, e a terça-feira, 29 de outubro, foram os mais aterra­ dores, foram perdidos bilhões em valores, e milhares de especuladores — até então, consi­ derados investidores — ficaram total e irrecu­ peravelmente arruinados. GALBRAITH, J. K. Dias de boom e de desastre. In: MARQUES, Adhemar Martins e outros. História Contemporânea através de textos. 11. ed. São Paulo: Contexto, 2005. p. 156-9. (Textos e Documentos).

a ) Segundo o autor, havia uma “especulação insana” nas bolsas de valores dos EUA. Explique como se desenvolveu esse processo de especulação financeira, até atingir o nível considerado “insano”. b ) De que maneira a euforia reinante na Bolsa de Valores se transformou em um mecanismo de autodestruição? c ) Qual foi o resultado, para a sociedade estadunidense, da euforia dos especuladores durante a década de 1920?

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Momento da redação 11. Em 1929, o mundo foi atingido por um colapso econômico sem precedentes, que resultou em

[O] computador, essa tão útil ferramenta de trabalho, pesquisa, educação e entretenimen­ to, [...] nas últimas décadas do século XX tor­ nou­se uma enorme ameaça (aparentemente sem cura) [...]. Com os supostos crescimento e evolução da economia, as distâncias — antes um dos fatores de maior dificuldade para a atividade mercantil — foram tremendamente encurtadas tornando o alcance dos grandes grupos empresariais, que já detinham uma boa parcela da economia, muito maior com o aparecimento da internet, ou World Wide Web (WWW), como é tecnicamente conhecida. Entretanto, do aparecimento do computa­ dor até a consecução da grande rede mundial foram dados muitos grandes passos. As diver­ sas linguagens, criadas para o uso naquela máquina, facilitaram o surgimento de outras ciências também derivadas da Eletrônica, como a Biônica e em especial a Robótica, que permite às máquinas executar movimentos e tarefas semelhantes ao Homo sapiens. O que no primórdio foram consideradas e festejadas como maravilhas da ciência e tec­ nologia, hodiernamente vêm sendo uma das

Unidade 4

uma grande onda de desemprego em várias regiões. Atualmente, um novo processo de adequação das economias à automação industrial e à informática tem produzido novas ondas de desemprego pelo planeta. As máquinas automáticas vêm substituindo muitos postos de trabalho, em nome do aumento nos lucros e da velocidade dos serviços: robôs ocupam o lugar de operários; códigos de barra nos caixas substituem os balconistas; e computadores exercem a função dos gerentes, tomando decisões de forma programada e automática. Leia o texto a seguir. principais causas do tenebroso aumento do desemprego, ao lado do crescimento desmesu­ rado das grandes corporações empresariais, fazendo pesados, constantes e crescentes in­ vestimentos na automação para evitar os gas­ tos com mão de obra humana. Nesse patamar, gerou­se uma situação de muito difícil remediação, mas não impossível, na medida em que quanto mais fácil o acúmulo de capital por poucas e portentosas empresas, tanto mais ávidas por esse acúmulo elas se tor­ nam, acelerando ainda e cada vez mais a econo­ mia global, e o que é pior, repercutindo em todas as áreas profissionais. Isso ocorre levando­se em consideração que o sistema capitalista visa pri­ mordialmente a produção de numerários, ou seja, se o consumidor – sendo este acima de qualquer outra pessoa o trabalhador, sobrevi­ vente da sua renda – não dispõe de poder aqui­ sitivo, como as empresas atrairiam esse capital? Ou seja, em um segundo momento as próprias empresas não sobreviveriam também. [...] PIMENTEL, Baruch Spinoza; ALMEIDA, Claudiana Nery de. Da automação abusiva: será o fim do direito do trabalho e ao trabalho? Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/1187/ da-automacao-abusiva>. Acesso em: 23 set. 2015.

• Tendo como base o texto acima apresentado, produza um texto dissertativo-argumenta-

tivo sobre o desemprego no mundo atual. Considere as novas relações de trabalho resultantes da flexibilização dos mercados de trabalho, o uso intenso das tecnologias nos setores produtivos e a consequente eliminação de postos de trabalho. Faça uso de outras informações de que você dispõe e procure apresentar uma proposta para solucionar ou, ao menos, amenizar os efeitos dessa crise.

Vestibulares 1. (FUVEST-SP) O período entre as duas Guerras Mundiais (1919-1939) foi marcado por: a ) crise do capitalismo, do liberalismo e da democracia e polarização ideológica entre fascismo e comunismo. b ) sucesso do capitalismo, do liberalismo e da democracia e coexistência fraterna entre fascismo e comunismo.

c ) estagnação das economias socialista e capitalista e aliança entre os EUA e a URSS para deter o avanço fascista na Europa. d ) prosperidade das economias capitalista e socialista e aparecimento da Guerra Fria entre os EUA e a URSS. e ) coexistência pacífica entre os blocos americano e soviético e surgimento do capitalismo monopolista. O período Entreguerras

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Ampliando seus conhecimentos Arte e história

A persistência da memória

Salvador Dalí. 1931. Óleo sobre tela. 24 x 33 cm. Museu de Arte Moderna, Nova York (EUA). Foto: Joseph Martin/Album/Latinstock © Salvador Dalí, Fundación Gala-Salvador Dalí/AUTVIS, Brasil, 2016

No período Entreguerras, os movimentos artísticos de vanguarda passaram a expressar a perda na crença de um futuro sem riscos ou de uma humanidade vivendo em um progresso sem fim. Esses movimentos reuniam principalmente jovens interessados em viver intensamente o presente.

A persistência da memória, pintura de Salvador Dalí, de 1931.

Nesse contexto, em 1924, um médico psiquiatra chamado André Breton publicou o Manifesto Surrealista. Esse documento era uma importante declaração de princípios que se tornaria a “certidão de nascimento” do Surrealismo, movimento artístico com pretensões que iam além da realidade. Com base principalmente nas concepções psicanalíticas desenvolvidas por Sigmund Freud, os surrealistas buscavam a compreensão da psique humana por meio da integração entre o sonho e a realidade. Essa busca se manifestou em diversas artes, como a literatura, a pintura, a escultura e o cinema. Um dos artistas que mais se destacaram no movimento surrealista foi o pintor espanhol Salvador Dalí (1904-1994), que em suas telas se utilizou com frequência das premissas surrealistas. Observe a pintura A persistência da memória, uma das obras mais conhecidas de Dalí. Depois, leia seu relato sobre a noite em que teve a inspiração para a fazer essa pintura.

E quando decidi pintar os meus relógios, pintei-os moles. Isso aconteceu num dia em que estava fatigado e com dores de cabeça, o que raramente acontecia. Tínhamos planejado ir ao cinema com uns amigos, e no último momento, decidi ficar em casa. Gala saiu com eles e eu quis deitar-me. Tínhamos terminado o jantar com um camembert forte e, assim que fi­ quei sozinho, permaneci ainda durante muito tempo apoiado na mesa, re­ fletindo sobre os problemas levantados pelo “supermole” deste queijo fluido. Levantei-me e fui até ao atelier para dar, como era habitual, uma última olhadela ao meu trabalho. O quadro que estava então a pintar representava uma paisagem nos arredores de Port Lligat, cujos rochedos pareciam ilumi­ nados por uma luz transparente do entardecer. Em primeiro plano, havia feito o esboço de uma oliveira cortada sem folhas. Esta paisagem devia servir de tela de fundo a alguma ideia, mas qual? Faltava-me uma imagem extraordinária e não a conseguia encontrar. Preparava-me para apagar a luz e sair, quando, de repente, “vi” a solução: dois relógios moles, um dos quais estava pendurado tristemente no ramo da oliveira. Apesar da minha enxa­ queca, preparei a paleta e lancei mãos à obra. Duas horas depois, quando Gala voltou do cinema, o quadro, que se tornaria um dos mais famosos, estava acabado... DESCHARNES, Robert; NÉRET, Gilles. Salvador Dalí: 1904-1989. Colônia (Alemanha): Benedikt Taschen, 1993. p. 76.

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Sacco e Vanzetti foram dois imigrantes italianos que viveram nos EUA dos anos 1920. Acusados de terem assassinado um vigia durante uma manifestação anarquista, foram detidos pela polícia estadunidense, julgados e condenados. Mesmo sem provas e com o depoimento de várias pessoas a favor dos italianos, os dois foram executados na cadeira elétrica. O longa-metragem mostra a política dos EUA com relação aos imigrantes estrangeiros e interpreta a decisão do governo como uma prática intolerante de perseguição, que atingia sindicalistas, militantes anarquistas e imigrantes ligados à defesa das causas trabalhistas. Filme de Giuliano Montaldo. Sacco e Vanzetti. França/Itália, 1971. Foto: Jolly Film/Archives du 7e Art/Glow Images

Na época de seu lançamento, o filme chegou a ser proibido no Brasil pela censura do governo militar. Sua história causou a mobilização de organizações políticas de esquerda em vários países, como Inglaterra, Brasil e Argentina.

Unidade 4

Sacco e Vanzetti Filme de Giuliano Montaldo. Sacco e Vanzetti. França/Itália, 1971

A história no cinema

Título: Sacco e Vanzetti Diretor: Giuliano Montaldo Atores principais: Riccardo Cucciolla, Gian Maria Volonté, Valentino Orfeo, Felicity Mason, Claude Mann, Paul Sheriff Ano: 1971 Duração: 120 minutos Origem: Itália e França

Cena que mostra Sacco e Vanzetti durante seu julgamento.

Para ler

• •Os

inventores do New Deal: Estado e sindicato no combate à Grande Depressão, de Flávio Limoncic. Editora Civilização Brasileira. O autor explica como o presidente Roosevelt criou um aparato estatal para a geração de empregos e redistribuição de renda entre 1935 e 1940, em oposição à tradição liberal dos EUA, para superar a crise e promover o Estado de Bem-Estar.

• •A

República de Weimar, de Lionel Richard. Companhia das Letras. Em uma Alemanha enfraquecida e humilhada depois da Primeira Guerra Mundial, se forma a primeira democracia parlamentar de sua história. A República de Weimar traz novas ideias que dão origem, entre outras coisas, à principal escola moderna de arquitetura, a Bauhaus, e tem fim quando os nazistas chegam ao poder.

••Freud para principiantes, de Richard Osborne. Editora Objetiva. Narrativa em ilustrações e quadrinhos sobre a vida e a obra de Freud, o criador da Psicanálise.

Para navegar

• •Semana

de Arte Moderna. Disponível em: <http://tub.im/6igfkj>. Acesso em: 8 abr. 2016. Página do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas sobre a Semana de Arte Moderna de 1922.

• •Manifesto

Surrealista. Disponível em: <http://tub.im/g5n9oj>. Acesso em: 8 abr. 2016. Texto em português do Manifesto Surrealista, de André Breton, disponível no site Domínio Público. O período Entreguerras

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unidade

A Era Vargas

Fotografia tirada em 10 de novembro de 1943, dia em que entrou em vigor a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que mostra o então presidente Getúlio Vargas em frente ao Ministério da Fazenda, no Rio de Janeiro. Em segundo plano, é possível ver uma manifestação em favor do presidente.

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No final da década de 1920, a popu­ lação brasileira estava descontente com o governo das oligarquias, que era coman­ dado basicamente pelos grupos ligados à produção e à exportação do café. Entre os grupos descontentes, havia milita­ res, membros das camadas médias urbanas e grandes proprietários rurais, cujas atividades não estavam ligadas à produção cafeeira e, por­ tanto, não compartilhavam dos privilégios de­ correntes da política de proteção à cafeicultura. Com a Grande Depressão de 1929, que ge­ rou uma crise mundial e uma brusca redução nas exportações brasileiras de café, os confli­ tos na sociedade brasileira se agravaram. Teve início, então, um movimento revoltoso que derrubou a República Oligárquica e im­ plantou um novo governo, liderado pelo políti­ co gaúcho Getúlio Vargas. Nesta unidade, vamos estudar as principais características da chamada Era Vargas, um período dominado pela figura do presidente Getúlio Vargas, que ficou conhecido popular­ mente como o “pai dos pobres”. Também estudaremos alguns movimentos revoltosos importantes, a repressão política e a censura, a difusão do rádio no Brasil e sua utilização como instrumento de propaganda política, além da rica produção intelectual desse período. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor

Nesta fotografia, procure identificar quais grupos de pessoas estão presentes na mul­ tidão por meio da observação das faixas que eles estão carregando.

B

Identifique Getúlio Vargas na fotografia.

C

O que você sabe sobre a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)? Comente.

Iconographia/ Reminiscências

A

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A sociedade brasileira na década de 1920 Ao longo da década de 1920, o Brasil atravessava um momento de grave crise eco­ nômica. A nascente burguesia industrial brasileira estava descontente com a política econômica do governo federal, que era dominada pela oligarquia cafeeira e agroex­ portadora, e exigia medidas que protegessem os produtos industrializados brasileiros e dificultassem a importação dos produtos ingleses, franceses e estadunidenses.

A população urbana Nesse contexto, a sociedade brasileira moderna e urbana era formada por grupos distintos, como industriais, comerciantes, profissionais liberais, militares e operários. Esses grupos passaram a lutar por maior participação política e pelo direito de parti­ cipar das decisões econômicas. Arquivo/Estadão Conteúdo

Industriais e classes médias urbanas Os industriais brasileiros buscavam o apoio do governo para dinamizar e incentivar a fabricação nacional de pro­ dutos como tecidos, calçados, chapéus, alimentos, im­ plementos agrícolas, entre outros.

Fotografia de 1921 que retrata pessoas da classe média visitando linha de montagem de uma fábrica de veículos em São Paulo (SP).

As classes médias urbanas, por sua vez, eram formadas principalmente por comerciantes, funcionários públicos e profissionais liberais. Ao alcançar maior poder aquisi­ tivo, elas passaram a reivindicar, também, maior partici­ pação política.

Autor desconhecido. c. 1920. Coleção particular

Os operários Os operários se organizaram em sindicatos para exigir melhorias nas condições de trabalho. Eles passaram a promover greves para reivindicar a diminuição da jornada de trabalho, melhores salários, férias, 13 o salário, melho­ rias nas instalações das fábricas e regulamentação do trabalho infantil. Operários em frente a uma fábrica de tecidos na cidade de Salto (SP), por volta de 1920.

Autor desconhecido. c. 1920. Arquivo G. Ermakoff, Rio de Janeiro (RJ)

Os ex-escravos Cerca de três décadas após a abolição da escravidão no Brasil, os ex-escravos e seus descendentes continua­ vam sofrendo discriminação. Nas cidades, muitos deles exerciam trabalhos domésticos nas casas das antigas fa­ mílias escravocratas.

Fotografia tirada por volta de 1920 retratando afro-brasileiros e imigrantes que trabalhavam na construção civil no Rio de Janeiro (RJ).

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Trabalhavam, também, como ajudantes na construção civil, prestavam serviços nas ruas ou atuavam como ven­ dedores ambulantes. Nas fábricas, eles tinham grande dificuldade para conseguir um emprego, pois a maioria dos contratados eram imigrantes europeus.


A população rural

As oligarquias locais, cujos principais representan­ tes eram os “coronéis”, dominavam o cenário político das regiões interioranas do país. Por exemplo, no Nor­ deste, os “coronéis” eram grandes proprietários rurais que dominavam a produção da cana-de-açúcar e de cacau; no Centro-Oeste, eles eram grandes pecuaris­ tas; no Sul do país, eram produtores de erva-mate e de charque.

Unidade 5

Os “coronéis”

Autor desconhecido. 1922. Coleção particular

Na mesma época em que parte da sociedade urbana brasileira se modernizava, grandes áreas do interior do Brasil permaneciam organizadas com base na tradição rural. Veja a seguir alguns grupos sociais que formavam a sociedade tradicional.

Fotografia de 1922 que retrata dois “coronéis” da erva-mate em Três Barras (SC).

Os sertanejos Iconographia/Reminiscências

Camponeses, seringueiros, mineiros e vaqueiros, também chamados sertanejos, formavam a maior par­ te da mão de obra no interior do país. Trabalhavam muitas horas por dia para proprietários de grandes lo­ tes de terras, em troca de baixos salários. No Sertão nordestino — uma região semiárida, onde pouco cho­ ve durante o ano —, famílias de sertanejos pobres en­ frentavam a seca e a fome sem receber qualquer tipo de auxílio do governo. Sem oportunidades de melhoria de vida, muitos nordestinos migravam para outras re­ giões do país, em busca de trabalho. Fotografia que retrata um vaqueiro, na década de 1920, no interior do estado de São Paulo.

Os cangaceiros

O tema sobre os sertanejos nordestinos favorece o trabalho interdisciplinar com Geografia. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

Autor desconhecido. c. 1924. Coleção particular

Os cangaceiros eram pessoas que se revoltavam contra a opressão dos “coronéis” e passavam a viver na ilegalidade, assaltando e saqueando fazendas e cidades do Sertão nordestino. Eles eram apegados aos seus códigos de honra, e muitos deles ajudavam os necessitados, conquistando grande prestígio popular. Apesar dos esfor­ ços do governo, a polícia tinha grande dificuldade para combater os cangaceiros, pois eles eram bem armados e tinham grande conhecimento da região onde atuavam, além de muitas vezes receberem a ajuda da população local.

Os líderes religiosos Nas regiões do interior do país, os líderes religiosos exerciam grande influência so­ bre a população e ocupavam uma posição de destaque na sociedade. Esses religiosos, muitas vezes, faziam a intermediação entre a população pobre e os grandes proprie­ tários rurais, levando até eles as reivindicações dos trabalhadores. Padre Cícero em 1924, em Juazeiro do Norte (CE). Ele foi um dos principais líderes religiosos do Nordeste brasileiro.

A Era Vargas

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O fim da Primeira República Na década de 1920, o governo das oligarquias cafeeiras se enfraqueceu, pois suas decisões políticas e econômicas provocaram grande descontentamento em diferentes grupos sociais brasileiros. Entre esses grupos, estavam os operários e também as camadas médias urbanas, formadas por profissionais liberais, pequenos comerciantes, funcionários públicos e militares de baixa patente, como tenentes. Além desses grupos, havia vários latifundiários que também estavam insatisfeitos com o governo, principalmente os produtores de açúcar e de cacau, no Nordeste. A partir de 1927, por causa da grande produção, houve uma queda no preço do café. Para tentar estabilizar os preços, os grupos agroexportadores, que estavam no poder e dirigiam uma política governamental de proteção ao café, compravam e estocavam os excedentes do produto. No entanto, essa política era duramente criticada pelos grupos econômicos e sociais que não estavam ligados à cafeicultura e que não recebiam incentivos governamentais para investir em outras atividades econômicas.

O tenentismo No início da década de 1920, jovens oficiais do Exército, a maioria proveniente das classes médias urbanas, organizaram uma série de levantes militares, que ficou conhecida como tenentismo. Os tenentes criticavam o sistema eleitoral brasileiro, o crescimento da dívida externa, o descontrole das finanças públicas e o privilégio dado aos grupos agroexportadores por meio das políticas protecionistas do governo federal. Eles desejavam reformar as instituições republicanas, principalmente por meio da centralização do poder Executivo e da defesa do nacionalismo, uma vez que consideravam os grupos oligárquicos dominantes como representantes do imperialismo no Brasil.

Iconographia/Reminiscências

Abaixo, participantes de uma revolta militar contra o governo federal ocorrida no Rio de Janeiro (RJ), em 1922, conhecida como Revolta dos 18 do Forte ou Revolta do Forte de Copacabana. Além de militares, o movimento envolveu também civis. Na imagem, da esquerda para a direita, foram retratados os tenentes Eduardo Gomes, Siqueira Campos, Nílton Prado e o civil Otávio Correia.

Apesar de a maioria dos tenentistas ser formada por oficiais de baixa patente, o movimento contava com alguns oficiais de alta patente, que desejavam destituir as oligarquias do poder e modernizar o Exército. Os principais levantes tenentistas aconteceram em 1922 e 1924.

Arquivo/Jornal do Commercio/D.A Press

A Coluna Prestes A Coluna Prestes foi um movimento que reuniu entre 800 a 1 500 homens — a maioria deles militares de baixo escalão — em uma marcha pelo interior do Brasil, entre 1925 e 1927. Ao todo foram percorridos mais de 24 mil quilômetros pela Coluna, que nasceu das rebeliões tenentistas desencadeadas em 1924 em São Paulo e no Rio Grande do Sul, com o objetivo de depor o presidente Arthur Bernardes. Um dos comandantes das forças rebeldes gaúchas era o jovem capitão Luís Carlos Prestes, que mais tarde assumiu o comando das forças unificadas que formaram a Coluna. A grande marcha que se seguiu tinha o objetivo de estimular a sublevação das unidades militares de todo o país e, assim, aumentar seu contingente para enfrentar as forças legalistas, fiéis ao governo federal. Apesar do forte sentimento nacionalista, esses militares não tinham um projeto revolucionário, apenas a vontade de livrar o país da corrupção e do atraso político por meio de reformas constitucionais. Luís Carlos Prestes por volta de 1925. Local desconhecido.

Durante a marcha, a Coluna teve que enfrentar as forças legalistas, as doenças tropicais e a carência de armas e alimentos. Após vários combates e manobras militares, os rebeldes se refugiaram na Bolívia, encerrando sua marcha.

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A República Oligárquica em crise Na sucessão presidencial de 1929, ocorreu um desentendimento entre as oligarquias paulista e mineira. Os mineiros esperavam a indicação de seu governador, Antônio Marcos, como candidato à presidência da República. O presidente Washington Luís, porém, indicou Júlio Prestes, governador de São Paulo, como candidato oficial. Diante dessa situação, a oligarquia política de Minas Gerais aliou-se à do Rio Grande do Sul e à da Paraíba, formando a Aliança Liberal. Essa aliança lançou a candidatura oposicionista do rio-grandense Getúlio Vargas para presidente, e do paraibano João Pessoa para vice-presidente. Esse grupo recebeu o apoio de militares remanescentes do movimento tenentista, além de conseguir a simpatia de setores populares urbanos.

Unidade 5

Em São Paulo, a Aliança Liberal se fortaleceu com o apoio do Partido Democrático, que tinha sido criado em 1926. No entanto, como o governo federal detinha o controle da máquina eleitoral, Júlio Prestes venceu a eleição.

A Aliança Liberal toma o poder A vitória do candidato oficial veio acompanhada de protestos. Os militares oposicionistas começaram a planejar um golpe contra o governo, mas os líderes da Aliança Liberal não queriam recorrer às armas. Em julho de 1930, no entanto, João Pessoa foi assassinado, e esse crime foi utilizado politicamente pelos líderes da Aliança Liberal, causando grande indignação popular e servindo de justificativa para o golpe de Estado.

Em “O Cruzeiro”, 1930. Coleção particular

Após convencerem os chefes militares ainda resistentes, as tropas rebeldes começaram a se movimentar em 3 de outubro. A vitória foi rápida: no dia 23 do mesmo mês os rebeldes já ocupavam a capital federal. Houve luta em alguns pontos do país, como em Minas Gerais, Pará e Rio Grande do Sul. Esperava-se maior resistência em São Paulo, o que não ocorreu por causa da superioridade numérica dos revoltosos. A Revolução de 1930, como foi denominada pelos seus idealizadores, saiu vitoriosa. O presidente Washington Luís foi deposto e, em 3 de novembro, Getúlio Vargas assumiu a chefia do Governo Provisório.

O Brasil e a crise de 1929 Como a economia brasileira era profundamente dependente da exportação de produtos agrícolas, particularmente do café, o crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque e a Grande Depressão geraram uma difícil situação para o país, acelerando a crise política que tirou as oli­ garquias cafeeiras do comando da nação. Com a crise do café, a indústria passou a ser mais prestigiada pelo governo e pelos investidores, promovendo a produção nacional, como vinha fazendo a maioria dos países afetados pela crise. Isso gerou uma tendência a práticas e tarifas protecionistas, com o intuito de desestimular as importações. Mesmo com a crise, a elite cafeeira ainda era a maior força econômica do país. Assim, o governo de Getúlio Vargas buscou socorrer os cafeicultores ao mes­ mo tempo em que procurava contornar a crise financeira investindo nas indústrias. Ele tomou medidas para conter o excesso de produção, proibindo novos plantios e comprando os estoques para evitar a queda dos preços do café.

Fotografia que mostra Getúlio Vargas no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro (RJ), dias antes de tomar posse do Governo Provisório, em 1930.

A Era Vargas

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A Era Vargas Decreto-lei: decreto elaborado pelo presidente ou pelo Congresso que tem validade de lei.

Ao assumir o poder, Getúlio Vargas iniciou um processo de centralização política suspendendo a Constituição, além de fechar o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas estaduais e as Câmaras municipais. Assim, passou a controlar os poderes Executivo e Legislativo, governando por meio de decretos-leis. Com exceção do go­ vernador de Minas Gerais, todos os outros foram substituídos por interventores fede­ rais, a maioria militares tenentistas.

A campanha constitucionalista As relações entre o Governo Provisório e os políticos de São Paulo ficaram tensas, pois os paulistas não aceitavam os interventores militares indicados por Vargas. As forças oligárquicas destituídas do poder começaram, então, a se reorganizar, forman­ do a Frente Única Paulista, que reunia as principais lideranças políticas do estado. Essa união se deu em torno da campanha constitucionalista, que reivindicava a volta à legalidade com uma nova Constituição.

Sarcinelli. 1932. Arquivo Público do Estado de São Paulo (SP)

Autor desconhecido. 1932. Coleção particular

Em 9 de julho de 1932, após vários meses de agitação política e manifestações de apoio popular, teve início um movimento revoltoso exigindo a volta do regime constitu­ cional, que ficou conhecido como Revolução Constitucionalista. A indústria paulista rapidamente se adaptou à produção de armamentos, surpreendendo o Governo Provi­ sório. Apesar de mais bem equipada do que as tropas federais, a força pública paulis­ ta não resistiu à campanha de Vargas, que reuniu forças de todo o Brasil. Após três meses de luta, os paulistas foram derrotados, porém atingiram seu principal objetivo: a convocação de eleições para uma Assembleia Constituinte.

Cartaz da Revolução de 1932.

Fotografia de soldados paulistas, durante a Revolução de 1932.

A Constituição de 1934 A Assembleia Constituinte iniciou os trabalhos em novembro de 1933. Getúlio Vargas procurou controlar todo o processo de elaboração da nova Constituição. Assim, o trabalho da Assembleia li­ mitava-se a fazer “emendas” em um anteprojeto elaborado por uma equipe jurídica criada por Var­ gas. Em julho de 1934, foi promulgada a terceira Constituição brasileira (a segunda da República). A Assembleia Constituinte elegeu Vargas como presidente, com um mandato de quatro anos. A Constituição de 1934 instituiu a Justiça do Trabalho, estabeleceu o salário mínimo e regulamen­ tou a jornada de trabalho em oito horas diárias. Foram institucionalizados o voto secreto e o voto feminino, embora analfabetos e soldados continuassem excluídos do processo eleitoral. O Ensino Primário passou a ser obrigatório e os recursos do subsolo brasileiro foram nacionalizados.

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O movimento operário no Brasil No final do século XIX, foram criadas no Brasil as chamadas ligas operárias, orga­ nizações de trabalhadores que deram origem aos primeiros sindicatos brasileiros. A partir do início do século XX, muitas dessas organizações de trabalhadores adotaram os ideais anarquistas como ideologia predominante nas lutas por seus direitos. Buscando melhorias em suas condições de trabalho, operários de diversos ramos organizaram greves nas principais cidades industriais do país. Porém, de acordo com a legislação vigente, a greve era considerada crime, o que dificultava a utilização desse instrumento de pressão pelos trabalhadores. Apesar disso, eles promoveram grandes greves em São Paulo, em 1917, e no Rio de Janeiro, em 1918, nas quais ocorreram violentos confrontos com a polícia.

Em 1922, foi fundado, na cidade de Niterói (RJ), o Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual participavam principalmente operários, profissionais liberais e funcioná­ rios públicos. Esse partido seguia as novas tendências socialistas, inspiradas no co­ munismo soviético, e passou a atrair grande número de operários. Porém, no mesmo ano, ele foi considerado ilegal pelo governo, passando a atuar na clandestinidade. A partir da década de 1930, com a ascensão de partidos fascistas na Europa e a for­ mação do integralismo no Brasil, os comunistas decidiram mudar sua atuação. Em 1935, eles se uniram a diversos grupos políticos contrários ao fascismo, ao imperialismo e aos latifúndios, formando uma nova organização política, a Aliança Nacional Libertadora (ANL). A ANL defendia a formação de um governo popular que garantisse a liberdade dos cidadãos, a proteção às pequenas e médias propriedades, a nacionalização de em­ presas estrangeiras, o cancelamento da dívida externa e a reforma agrária. Esse par­ tido atraiu sindicatos e a classe média urbana, representada por militares, intelectuais, profissionais liberais e estudantes. Luís Carlos Prestes, que havia aderido ao PCB em 1934, foi aclamado como presidente de honra da ANL. Ainda em 1935, o Congresso aprovou a Lei de Segurança Nacional, que definia os crimes contra a ordem política e social e oficializava ações ainda mais radicais do governo em relação aos esquerdistas. Dessa maneira, o governo decretou, em julho de 1935, a ilegalidade da Aliança Nacional Libertadora.

Unidade 5

O fortalecimento do comunismo no Brasil O integralismo Fundada em 1932 pelo escritor e jornalista Plínio Salgado, a Ação Integralista Brasileira (AIB) defendia princípios que estavam resumidos no lema “Deus, pátria e família”. Politicamente, os integralistas tinham uma nítida influência fascista, eram nacionalistas, antissocialistas e repudiavam o liberalismo. Em 1937, quando Vargas fechou os partidos políticos, os integralistas foram postos na ilegalidade.

O Levante Comunista de 1935 Contrários à ilegalidade da ANL e para combater o governo de Vargas, comunistas civis e militares iniciaram um movimento revolucionário, tomando o poder na cidade de Natal (RN), em 23 de novembro de 1935. Nos dias que se seguiram, militares aderiram ao Levante Comunista, como ficou conhecido esse movimento, tomando quartéis em Natal, Recife e Rio de Janeiro.

Integrantes do Partido Comunista Brasileiro presos durante o Levante Comunista. Iconographia/Reminiscências

Em poucos dias, no entanto, o movimento foi sufoca­ do pelas tropas legalistas do Exército e seus participan­ tes foram presos. Nos anos seguintes, apoiado pelas elites, Vargas utilizou o exemplo do Levante Comunista, que foi chamado de “Intentona Comunista”, como justifi­ cativa para aumentar a perseguição a grupos políticos contrários ao seu governo. Essa situação se agravou com a criação da Comissão de Repressão ao Comunis­ mo e com a declaração de estado de sítio em todo o país. Com isso, foram suspensos os direitos civis, e as pessoas consideradas “inimigas da nação” passaram a ser sistematicamente perseguidas. A Era Vargas

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O Estado Novo Enquanto eram organizadas as campanhas para as eleições presidenciais previstas para 1938, Getúlio Vargas se empenhava em articulações políticas para permanecer no poder. Um suposto plano para implantar o comunismo no Brasil, conhecido como Plano Cohen, foi utilizado pela propaganda política de Vargas para criar um clima de insegurança no país. Iconographia/Reminiscências

No dia 10 de novembro de 1937, com o pretexto de comba­ ter a “ameaça” comunista, Vargas aplicou um golpe político com o apoio dos militares e de vários políticos influentes, dan­ do início a um governo autoritário que ficou conhecido como Estado Novo. Logo após o golpe, Getúlio Vargas fechou o Senado e a Câ­ mara dos Deputados, suspendeu os direitos constitucionais, extinguiu os partidos políticos e outorgou uma nova Constitui­ ção. A Constituição de 1937, apelidada de “Polaca”, reforçava o poder do presidente, aumentando a influência do governo fede­ ral e reduzindo a autonomia dos governos estaduais. Muitos elementos da “Polaca” foram inspirados na Constitui­ ção do governo fascista da Itália e também no modelo corpora­ tivista português. Assim, a Constituição do Estado Novo tinha como princípios a afirmação do nacionalismo econômico e o controle governamental sobre os sindicatos de trabalhadores, o que implicava, por exemplo, na proibição de greves.

Pelo rádio, Getúlio Vargas anuncia a implantação do Estado Novo. Fotografia tirada no dia 10 de novembro de 1937, no Rio de Janeiro (RJ).

A situação econômica Principalmente a partir do governo de Vargas, a economia brasileira deixou de ser ex­ clusivamente agrária e exportadora. Nessa época, grandes comerciantes e latifundiários passaram a investir na implantação de indústrias no Brasil voltadas ao mercado interno. Nesse período, a intervenção do governo na indústria, no comércio e na agricul­ tura foi marcante. No setor agrícola, incentivou o cultivo de produtos diversificados, criando institutos que orientavam e financiavam produtores de açúcar, mate e algo­ dão, por exemplo. No setor industrial, o governo controlou a produção de minérios e de fontes de energia. Durante o Estado Novo, foram criados o Conselho Nacional de Petróleo, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a mineradora Vale do Rio Doce. Leia o texto a seguir.

A economia recuperou-se a partir do crescimento das atividades vinculadas ao mercado interno, em particular do setor industrial. Entre 1933 e 1939, a indústria apresentou um crescimento médio anual de 11,2%, cabendo destacar o grande crescimento do setor de bens de produção, que obteve índices superiores aos alcançados pelas indústrias de bens de consumo não duráveis. Enquanto isso, a agricultura crescia a uma taxa média anual de 2% naquele período. Esse desempenho da indústria marca o início da expansão industrial, setor que passa a determinar a dinâmica da acumulação de capital. [...] CORSI, Francisco Luiz. O longo caminho da industrialização. História Viva: Grandes Temas. São Paulo: Duetto, n. 4, s/d. p. 24. Edição especial temática: Getúlio Vargas.

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Repressão política Getúlio Vargas utilizou diversos mecanismos de controle social. Durante o Estado Novo, o governo interferiu em vários aspectos da vida social no país. A repressão po­ lítica e a censura, aliadas ao uso em massa da propaganda e dos meios de comuni­ cação, tornaram-se marcantes no regime ditatorial de Vargas.

Cartaz produzido pelo DIP, em 1944. Iconographia/Reminiscências

No campo ideológico, a censura e a propaganda foram impor­ tantes para o governo construir e divulgar a imagem do país como uma “unidade nacional”, em que o povo e os governantes se rela­ cionavam de forma harmoniosa, visando o bem comum da pátria e da sociedade. Assim, por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em 1939, o governo Vargas submetia à censura todos os órgãos de comunicação do país, como o rádio, os jornais e as revistas. O objetivo era impedir a disseminação nos lares brasileiros de “conteúdos nocivos” aos interesses do governo.

Controle dos sindicatos Além do uso da violência física e da propaganda ideológica, o Estado também monitorava a sociedade, fosse por meio do con­ trole das organizações de classe dos trabalhadores, fosse através de alianças com essas organizações, pois muitas demandas traba­ lhistas atendidas pelo Estado Novo faziam parte da pauta de reivindicações da classe operária. Desse modo, a maioria dos sin­ dicatos passou a ser dirigida por aliados do governo, conhecidos como “pelegos”. Assim, a participação política dos trabalhadores se dava por meio de órgãos oficiais. Por outro lado, o governo adotou medidas importantes que amenizaram a péssima situação dos trabalhado­ res da época, como a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), considerada uma das grandes realizações do Estado Novo. Criada em 1943, ela ga­ rantiu direitos como salário mínimo, férias remuneradas, jornada de trabalho de oito horas diárias, pagamento de horas extras e descanso semanal remunerado, além de leis específicas para mulheres e jovens trabalhadores. Embora a CLT tenha sido resultado de uma luta operária de várias décadas, o Estado Novo apresentou-a como um benefício oferecido pelo governo aos trabalha­ dores, aumentando ainda mais o prestígio do presidente Vargas. Por causa de sua política populista, ele conquistou o apoio das massas, passando a ser chamado de “pai dos pobres” ou “protetor dos trabalhadores”. O trabalhismo O trabalhismo foi uma prática política característica do Estado Novo, que consistia na valorização do trabalho nas esferas política e econômica, destacando a questão dos direitos trabalhistas. Essa política agradou muitos trabalhadores e trouxe grande admiração ao presidente Getúlio Vargas. No entanto, o trabalhismo proposto por ele aumentou a intervenção do Estado nas atividades políticas dos trabalhadores, restringindo a autonomia pela qual lutavam.

Explorando a imagem a ) Descreva o cartaz. Como foi representado Getúlio Vargas? b ) Que outras pessoas aparecem no cartaz? Como elas foram representadas?

Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

Assim, se por um lado Vargas legalizou direitos importantes, pelos quais os trabalhadores vinham lutando há décadas, como o salário mínimo e as férias remuneradas, por outro eliminou direitos igualmente importantes, como a possibilidade de formar sindicatos autônomos em relação ao Esta­ do e de organizar greves. A Era Vargas

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Unidade 5

Houve perseguição a quem se opunha ao governo. Políticos liberais ou comunistas, bem como partidos ou associações estavam sob constante vigilância da Polícia Políti­ ca, chefiada por Filinto Müller. Muitos opositores do regime foram presos, torturados, exilados ou assassinados.


A era do rádio

John Springer Collection/Corbis/Latinstock

Além de cantora, Carmen Miranda era atriz. Ela participou de vários filmes em Hollywood, tornando-se uma das artistas mais bem remuneradas de sua época. Fotografia de 1949.

Em 1923 foi fundada a primeira estação de rádio do Brasil, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que inaugurou a era da comunicação de massa no país. Essa rádio, bem como as outras que foram criadas nessa época, tinha o objetivo de contribuir para a formação cultural da população brasileira. Assim, a programação incluía a leitura de textos literários e a apresentação de músicas clássicas. Porém, a partir de 1932, quando a inserção de propagandas comerciais dos patrocinadores foi autorizada, o rádio deixou de ter apenas função educativa e passou a ser também uma forma de entretenimento. As principais emissoras dessa época se localizavam em São Paulo — Rádio Record e Rádio Tupi — e no Rio de Janeiro — Rádio Mayrink Veiga e Rádio Nacional. A programação era bastante variada: havia programas de música, de humor, de calouros, radionovelas e noticiários.

Os artistas do rádio No início da década de 1930, o rádio foi amplamente difundido entre a população brasileira. Nessa época, milhares de aparelhos foram vendidos, e as notícias do Brasil e do mundo chegavam mais rapidamente aos ouvintes brasileiros. Conforme o rádio se popularizou, alguns artistas passaram a fazer grande sucesso entre os ouvintes de todo o país. Francisco Alves, Lamartine Babo, Adoniran Barbosa, Araci de Almeida e Dalva de Oliveira são exemplos de artistas que ficaram muito conhecidos a partir de então. Uma dessas artistas de rádio, no entanto, construiu uma bem-sucedida carreira internacional. Seu nome era Maria do Carmo da Cunha, mais conhecida como Carmen Miranda. Filha de imigrantes portugueses, ela fez grande sucesso no Brasil e, principalmente, nos Estados Unidos, cantando e dançando samba, rumba e outros ritmos latino-americanos.

O sujeito na história

Dalva de Oliveira

Iconographia/Reminiscências

Natural de Rio Claro, São Paulo, Vicentina Paula de Oliveira (1917-1972), mais conhecida como Dalva de Oliveira, foi uma importante cantora brasileira. Em 1934, mudou-se para o Rio de Janeiro e entrou para o grupo musical Trio de Ouro, ao lado de Herivelto Martins e Francisco Sena, fazendo grande sucesso. Dalva ficou conhecida tanto pela voz magnífica como pelo seu relacionamento amoroso com Herivelto Martins. Na década de 1950, os dois, já separados, travaram uma disputa musical, lançando músicas baseadas nos problemas do casamento. Com essa disputa, foram lançados alguns clássicos da música popular brasileira, como Palhaço, Caminhemos e Errei, sim. Em 1951, Dalva venceu um concurso da Associação Brasileira de Rádio, recebendo o título de Rainha do Rádio. Nessa época, viajou para a Inglaterra, onde cantou na festa de coroação da rainha Elizabeth II. Dalva de Oliveira. Fotografia da década de 1950.

Até os seus últimos anos de vida, Dalva de Oliveira alegrou e emocionou o Brasil com sua música, relembrando os anos áureos do rádio no Brasil.

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O rádio na construção da identidade nacional Iconographia/Reminiscências

O sucesso do rádio no Brasil foi tão grande que logo os governantes perceberam que poderiam utilizar esse poderoso meio de comunicação para transmitir e padronizar os valores culturais brasileiros e, assim, tentar criar uma identidade nacional. O governo então comprou jornais e rádios, como a Rádio Nacional, que passaram a ser utilizados como meios de afirmação da política getulista e da cultura nacional, veiculando diariamente as notícias referentes ao Estado Novo e privilegiando programas e reportagens que valorizassem a cultura brasileira.

Unidade 5

Fotografia de uma família brasileira reunida para ouvir um discurso de Getúlio Vargas no rádio, em 1942. Essa fotografia, produzida pelo DIP, procurou transmitir aos brasileiros a ideia de que os discursos de Vargas despertavam o interesse de toda a família.

O rádio sob fiscalização A partir do golpe do Estado Novo e especialmente depois da criação do DIP, as emissoras de rádio passaram a ser fiscalizadas e censuradas por funcionários do governo, que aprovavam ou vetavam os programas, além de avaliarem e censurarem previamente as letras de músicas colocadas no ar. Além da censura nas estações de rádio, o DIP controlava as informações veiculadas na imprensa e no cinema. Esse departamento também organizava festas cívicas, exposições de arte e concertos musicais, fiscalizava as apresentações de teatro e acompanhava de perto a produção literária brasileira e, também, a estrangeira que estivesse em circulação no país. No campo da educação, o DIP era responsável por analisar os conteúdos dos livros didáticos e das cartilhas distribuídas aos estudantes, bem como produzir cartazes e livros que exaltassem a figura de Getúlio Vargas e suas decisões políticas.

O rádio para exaltar o trabalhador Durante seu governo, Vargas empreendeu uma política de exaltação ao trabalho e de valorização do papel do trabalhador na sociedade brasileira, condenando a malandragem e a ociosidade. Por isso, as músicas tocadas no rádio deveriam exaltar a importância do trabalho de cada um para a construção da nação. Muitos compositores, no entanto, não compartilhavam dessas ideias e, por meio de letras irônicas e bem-humoradas, apontavam as dificuldades do trabalhador brasileiro, como a longa jornada de trabalho, os baixos salários, a precariedade das fábricas e as dificuldades de transporte enfrentadas pela classe trabalhadora.

Passado e presente

A Voz do Brasil

Atualmente, existe no Brasil um programa de rádio do governo federal de transmissão obrigatória. Ele chama-se A Voz do Brasil e é uma continuação do programa criado pelo governo de Vargas. O objetivo desse programa é informar os brasileiros sobre as notícias do dia, principalmente referentes aos atos do governo. Nos primeiros 25 minutos são veiculadas as informações sobre o Poder Executivo, depois Judiciário e Legislativo (referente à Câmara e ao Senado).

A Hora do Brasil A partir de 1938, foi ao ar o programa A Hora do Brasil. Transmitido das 19 às 20 horas, esse programa veiculava notícias sobre os fatos políticos do país, as ações diárias do presidente, além de temas sobre a história do Brasil e músicas regionais e de autores brasileiros consagrados. A partir de 1939, todas as estações de rádio foram obrigadas a transmitir A Hora do Brasil. No entanto, o programa não obteve muito sucesso entre os ouvintes e recebeu o apelido de “fala sozinho”. A Era Vargas

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Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento

1. Explique o que foi o tenentismo e destaque

entre outros direitos, a liberdade dos cidadãos. Explique o Levante Comunista de 1935, liderado pela ANL, e como terminou a chamada “Intentona Comunista”.

a atuação de Luís Carlos Prestes nesse movimento.

2. Relacione a crise da cafeicultura no Brasil, no final da década de 1920, ao contexto global gerado pela crise de 1929, iniciada nos EUA.

5. O Estado Novo foi implantado pelo governo

b ) O que foi a Revolução Constitucionalista?

Vargas em 1937, sendo esse período marcado por um forte controle estatal nos diferentes setores da vida pública e privada brasileira. Produza um texto abordando a presença do Estado Novo na economia, na política, no mercado de trabalho e na atuação dos sindicatos.

c ) Quais foram as mudanças propostas pela Constituição de 1934?

6. De que maneira o rádio foi utilizado na

3. Sobre o primeiro governo de Getúlio Vargas, responda. a ) Como Vargas chegou ao poder?

construção de uma identidade nacional brasileira no governo Vargas?

d ) O que foi o integralismo?

4. Em 1935, os comunistas brasileiros organizaram a Aliança Nacional Libertadora. Contrária ao fascismo, a ANL defendia,

7. Como o DIP atuava junto aos meios de comunicação, especialmente o rádio?

Expandindo o conteúdo 8. Leia o texto a seguir, que trata da construção do mito político Getúlio Vargas.

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Getúlio Vargas é, com toda a certeza, um dos maiores nomes do cenário político brasileiro do século XX. [...] Ficou conhecido como o “pai dos pobres”, o protetor dos trabalhadores, mas também como o presidente em cujo governo trabalhadores foram presos, torturados e até mortos.

tavam sua população havia décadas. Mitos políticos exigem intensa e sofisticada propaganda governamental, mas é preciso que o que está sendo propagado faça sentido para a população receptora, vinculando-se à sua experiência de vida, seja direta, seja indiretamente. [...]

Mitos políticos são construções modernas, possíveis quando a política se torna uma atividade central para uma sociedade e quando as “massas” se tornam um ator necessário, porém temido. Mitos políticos, especialmente quando assumem a forma de uma personalidade, cumprem o papel de guias para o povo, devendo ser facilmente reconhecidos e seguidos — nesse sentido Getúlio Vargas foi um grande mito, construído no contexto das décadas de 1930-1940, quando o Brasil se tornava uma sociedade urbano-industrial, entrava na era dos meios de comunicação de massa e não podia mais desconhecer os graves problemas socioeconômicos que inquie-

Diretamente envolvidos no esforço de divulgação da figura de Vargas, estavam o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e também o Ministério da Educação e Saúde. [...] Esses órgãos do aparelho de Estado revelam claramente o tipo de imagem que Vargas desejava criar junto à população. Ela devia ser a de um presidente especialmente atento à situação dos trabalhadores do Brasil e, com igual ênfase, à situação das mulheres/mães, dos jovens e das crianças, que garantiriam o futuro do país. Dessa forma, Vargas materializava um modelo de presidente voltado para a criação e a imple-


mentação dos novos direitos sociais do povo brasileiro, que constituíam o coração e o sentido da cidadania social, então preconizada. Esse presidente queria inaugurar um novo tempo nas relações entre Estado e sociedade no Brasil: elas deviam ser diretas — através de cartas e de cerimônias cívicas —,

sem quaisquer intermediários. Povo e presidente deviam estar próximos, deviam confiar um no outro. [...] Vargas é, nessa perspectiva, um exemplar mito político. GOMES, Ângela de Castro. O mito Vargas. Disponível em: <https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/artigos/ AlemDaVida/MitoVargas>. Acesso em: 22 jan. 2016.

a ) Qual foi o papel do DIP na construção da imagem de Vargas como um mito político? b ) Segundo a autora, o que caracteriza um mito político?

9. Leia o texto a seguir, que trata da repressão do Estado Novo à ideologia dos que viviam à

Durante a ditadura do Estado Novo (19371945) piscaram os sinais de alerta para os malandros e os que cultuavam a malandragem. Com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), em 1939, a censura intensificou a repressão à “vadiagem” e ganhou corpo a perseguição a quem exaltasse o não trabalho. Nada de anormal se considerarmos que a Constituição imposta ao país em 1937 equiparava a ociosidade a crime e estabelecia, no artigo 136, que “o trabalho é um dever social”. O ditador Getúlio Vargas (1882-1954) acolhia até com simpatia sua identificação popular como “bom malandro” — no fundo um reconhecimento de sua inteligência e esperteza política. Na propaganda estado-novista, porém, ele era reverenciado como o “trabalhador número um do Brasil”, ou seja, encarnava o papel antimalandro. Greves, ociosidade ou malandragem não eram digeridas pelo Governo Vargas, empenhado no desenvolvimento capitalista em terras brasileiras. E tudo o que conspirasse contra esse “ideal patriótico” ficava sob a alça de mira do DIP e da polícia. Inclusive os compositores populares, em especial os sambistas, que passaram a ser vigiados, ao mesmo tempo em que o governo buscava atrair os artistas para a sua área

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margem do trabalho regular.

de influência, usando a moeda de troca dos favores oficiais, a fim de tentar capturá-los na rede do culto ao trabalho. Houve, evidentemente, músicos populares que morderam a isca. Ainda que por um mero cálculo interesseiro ou em função de uma adesão, mais ou menos espontânea, ao regime, o que de fato se viu foi uma enorme safra de canções que enalteciam o mundo do trabalho, para não falar do Estado Novo e de sua personificação, Getúlio Vargas. [...] Apesar da obrigação de submeter suas obras à censura do DIP — os selos dos discos gravados em 78 rpm traziam, em regra, o número de registro junto a esse órgão —, não foram poucas as gravações que ultrapassaram os limites impostos. [...] Excepcionalmente, um ou outro samba abordava, de forma direta e reta, as dificuldades da vida do trabalhador. [...] A cruzada antimalandragem tinha o objetivo de interromper a íntima relação que, ao longo da história da música popular brasileira, unira o samba à malandragem. Mesmo assim, em pleno império do DIP, de modo enviesado que fosse, figuras que viviam à margem do trabalho regular continuavam presentes em muitas composições, como que a fornecer um atestado de sua sobrevivência. PARANHOS, Adalberto. Os desafinados do samba na cadência do Estado Novo. Nossa História. São Paulo: Vera Cruz, ano 1, n. 4, p. 16-7, fev. 2004.

a ) Após a leitura do texto, é correto afirmar que o governo Vargas limitava a manifestação criativa dos sambistas? Justifique sua resposta com passagens do texto. b ) De que forma o governo “converteu” os malandros em trabalhadores? Todos seguiram as regras impostas pelo Estado Novo? Explique. c ) Por que o governo Vargas via na malandragem sambista e nas mensagens presentes em suas letras um risco de subversão da ordem? A Era Vargas

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Momento da redação 10. No Brasil, o governo de Getúlio Vargas foi pioneiro na utilização dos meios de comunicação de massa para fazer propaganda política. Leia o texto a seguir.

O nascimento do Estado Novo se dá sob a evidente preocupação de Vargas com a publicidade de seu regime e sua consequente legitimação, a qual foi conquistada sob forte apoio dos meios de comunicação. Desde o momento que viu consolidar-se o golpe que o levou ao poder em 1930, Getúlio Vargas mostrou-se bastante preocupado em estruturar seu governo ancorado em mecanismos de propaganda e controle da opinião pública, como meio de difundir as ideias e os ideais que norteariam sua atuação política.

Iconographia/Reminiscências

O DIP pode ser considerado o porta-voz oficial do Estado Novo, responsável não só pela propaganda de governo, mas, sobretudo, pela perpetuação da autoimagem de Getúlio Vargas e de seu projeto político. Soma-se a isso o fato de que o DIP era a expressão máxima da coerção do livre pensamento e da livre expressão, incumbido da tarefa de moldar a cultura brasileira aos propósitos do Estado Novo. Há quem o considere como o superministério de Vargas, pedra basilar em seu esquema de sustentação. A gigantesca burocracia do DIP era ainda composta por filiais denominadas de DEIP (Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda) presentes em cada um dos estados brasileiros. Ao DIP cabia também a importante tarefa de difundir o ideário do Estado Novo junto às repartições públicas, por meio da distribuição de retratos oficiais do presidente, os quais deveriam ser fixados em locais visíveis. Aos estudantes brasileiros o DIP dedicava a produção de cartilhas cívicas nas quais a história do Brasil era contada de forma enviesada e a figura de Vargas pintada como a de um redentor. Por meio de suas cartilhas, o DIP transformou o aniver­ sário de Vargas em efeméride escolar, de maneira que em centenas de escolas do Brasil milhares de crianças lhe rendiam homenagens no dia 19 de abril. SANTOS, Marco Antonio Cabral dos. DIP: máquina de propaganda que conquista corações e controla mentes. História Viva: Grandes Temas. São Paulo: Duetto, n. 4, p. 42-4, s/d. Edição especial temática: Getúlio Vargas.

Cartaz produzido pelo DIP, em 1940, exaltando a figura de Vargas.

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Ainda hoje o problema da manipulação dos meios de comunicação de massa persiste, e a propaganda política irregular continua sendo realizada no Brasil e também no exterior. Leia o texto.

[...] Em princípio, o que diferenciaria uma prática política corrupta de outra não corrupta seria o uso indevido dos cargos e recursos públicos. Mas a legislação que estabelece o que pode e não pode ser feito, por exemplo, no uso da máquina política para a obtenção de votos, na distribuição de cargos de confiança para amigos e correligionários, no recebimento e uso de contribuições de campanha, nas propostas de legislação em favor de determinados grupos de interesse, no uso da propaganda eleitoral, etc., é muito fluida, varia enormemente de um país para outro, e, como não tem uma fundamentação doutrinária clara, está sujeita a todo tipo de interpretações e reinterpretações. [...]

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[…] A corrupção especificamente política ocorre quando as “regras do jogo” dos processos eleitorais e do funcionamento das instituições governamentais são violados, seja nos processos eleitorais (como, por exemplo, no financiamento ilegal de campanhas, ou na fraude eleitoral direta), seja nos processos legislativos, judiciários ou na ação do executivo (por conluios na compra de votos, conluios entre o executivo e o judiciário, influência de lobbies e grupos de interesse no processo legislativo e nas ações do executivo, etc.). Este tipo de corrupção depende, em parte, da cultura ética de cada sociedade, mas depende também da maneira pela qual as instituições políticas estão formatadas; e depende ainda da transparência dos processos políticos e da ação governamental, assim como da força da opinião pública e da imprensa independente.

SCHWARTZMAN, Simon. Coesão social, democracia e corrupção. Disponível em: <www.plataformademocratica.org/Publicacoes/ Publicacao_28_em_06_04_2008_19_37_43.pdf>. Acesso em: 24 set. 2015.

• Produza um texto dissertativo-argumentativo abordando a questão da imprensa e os usos

que dela se faz na política, seja durante um processo eleitoral ou depois que um determinado político é eleito. Atente para a questão do uso irregular da imprensa e, também, para a maneira como alguns personagens históricos foram e são construídos, em suas nações, por meio da manipulação dos meios de comunicação. Faça uso dos conhecimentos que você tem sobre o assunto. Em seu texto, procure sugerir medidas que, em sua opinião, poderiam ajudar a coibir o uso da propaganda política irregular nos meios de comunicação.

Vestibulares 1. (ENEM-MEC) A figura de Getúlio Vargas, como personagem histórica, é bastante polêmica, devido à complexidade e à magnitude de suas ações como presidente do Brasil durante um longo período de quinze anos (1930-1945). Foram anos de grandes e importantes mudanças para o país e para o mundo. Pode-se perceber o destaque dado a Getúlio Vargas pelo simples fato de este período ser conhecido no Brasil como a “Era Vargas”. Entretanto, Vargas não é visto de forma favorável por todos. Se muitos o consideram como um fer voroso nacionalista, um progressista ativo e o “Pai dos Pobres”, existem outros tantos que o definem como ditador oportunista, um intervencionista e amigo das elites. Provavelmente você percebeu que as duas opiniões sobre Vargas são opostas, defendendo valores praticamente antagônicos. As diferentes interpretações do papel de uma personalidade histórica podem ser explicadas, conforme uma das opções a seguir. Assinale-a. a ) Um dos grupos está totalmente errado, uma vez

b)

c)

d)

e)

que a permanência no poder depende de ideias coerentes e de uma política contínua. O grupo que acusa Vargas de ser ditador está totalmente errado. Ele nunca teve uma orientação ideológica favorável aos regimes politicamente fechados e só tomou medidas duras forçado pelas circunstâncias. Os dois grupos estão certos. Cada um mostra Vargas da forma que serve melhor aos seus interesses, pois ele foi um governante apático e fraco – um verdadeiro marionete nas mãos das elites da época. O grupo que defende Vargas como um autêntico nacionalista está totalmente enganado. Poucas medidas nacionalizantes foram tomadas para iludir os brasileiros, devido à política populista do varguismo, e ele fazia tudo para agradar aos grupos estrangeiros. Os dois grupos estão errados, por assumirem características parciais, e às vezes conjunturais, como sendo posturas definitivas e absolutas. A Era Vargas

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Ampliando seus conhecimentos Arte e história

Café, de Candido Portinari

A exportação do café tinha grande importância para a economia do Brasil na década de 1930. Nessa época, a produção e o beneficiamento dos grãos nas fazendas demandavam grande quantidade de mão de obra e longas jornadas de trabalho. Em 1935, Candido Portinari, um dos maiores pintores brasileiros, representou essa realidade dos cafezais em uma tela, chamada Café. Leia o texto a seguir.

O tema do quadro, como muitos outros de Portinari e dos pintores modernos, é o trabalhador braçal brasileiro. Não há intenção em dar à figura humana fidelidade, veracidade, mas expressar a ideia de calor, de força, de movimento, por meio da representação da musculatura [desenvolvida] pelo esforço do trabalho de plantar, colher, ensacar e carregar o café. Esse embrutecimento da figura anônima (apenas um trabalhador tem rosto totalmente visível) é atenuado pelas linhas arredondadas e pela tinta esfumaçada em tons de terra e verde. A distribuição harmoniosa da luz valoriza a figura humana na paisagem. A ideia de infinito, de imensidão da lavoura, é alcançada pela perspectiva, pela sucessão de figuras decrescentes e também pela cor, que vai se esmaecendo do lado esquerdo, no alto. O gesto autoritário do feitor, única figura de botas, acentua a preocupação social de Portinari. GARCEZ, Lucília; OLIVEIRA, Jô. Explicando a arte brasileira. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. p. 128.

Candido Portinari. 1935. Óleo sobre tela. 130 x 195 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro (RJ). Direito de reprodução gentilmente cedido por João Candido Portinari

Café, óleo sobre tela de Candido Portinari, 1935.

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Olga Filme de Jayme Monjardim. Olga. Brasil, 2004

A história no cinema

Cinebiografia de Olga Benário Prestes, militante judia alemã que atuou no Brasil pela causa comunista, participando, ao lado de Luís Carlos Prestes, do Levante Comunista de 1935.

Olga retrata importantes momentos da história do Brasil e da Europa, contribuindo na compreensão do contexto do período que vai da Primeira Guerra Mundial, passando pelo Entreguerras, até a Segunda Guerra Mundial, e mostrando aspectos da política de Getúlio Vargas, do movimento tenentista e da criação do Partido Comunista no Brasil.

Para ler

• •Olga: a vida de Olga Benário Prestes, judia comunista entregue a Hitler pelo

governo Vargas, de Fernando Morais. Editora Companhia das Letras. Romance biográfico sobre a militante alemã enviada para promover a revolução comunista no Brasil.

• •A República Velha e a Revolução de 30, de Cláudio Bertolli Filho. Editora Áti-

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Baseado no livro Olga, de Fernando Morais, o filme narra várias fases de sua vida, da infância burguesa, o envolvimento com o Partido Comunista, os treinamentos militares na União Soviética, sua relação amorosa e o casamento com Prestes até a sua morte em um campo de concentração na Alemanha.

Título: Olga Diretor: Jayme Monjardim Atores principais: Camila Morgado, Caco Ciocler, Fernanda Montenegro, Luis Mello, Osmar Prado, Floriano Peixoto, Werner Schünemann Ano: 2004 Duração: 141 minutos Origem: Brasil

ca. O livro narra a passagem da República do Café com leite à Revolução de 1930, que inaugurou a Era Vargas e trouxe consigo inúmeras transformações para o país.

• •Nos tempos de Getúlio: da Revolução de 30 ao fim do Estado Novo, de So-

nia Bercito. Editora Atual. O livro narra os 15 anos de Getúlio no poder. Da Revolução de 1930, passando pelo início do Estado Novo em 1937 — o período ditatorial — até a saída de Vargas do governo em 1945. Descreve, também, as mudanças no país, como a industrialização, a urbanização e a regulamentação do trabalho.

• •A

Coluna Prestes, de Luiz Maria Veiga. Editora Scipione. Explica a Coluna desde a rebelião no Rio Grande do Sul e a luta armada contra a República oligárquica até o fim da marcha e o exílio de Prestes na Bolívia.

Para navegar

• •A chegada de Lampião no Céu. Disponível em: <http://tub.im/pb3jh7>. Acesso em: 8 abr. 2016. Cordel A chegada de Lampião no Céu, de Guaipuan Vieira, disponível no site Domínio Público.

• •Departamento

de Imprensa e Propaganda (DIP). Disponível em: <http://tub. im/gz4o36>. Acesso em: 8 abr. 2016. Página do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas sobre o DIP.

• •A Voz do Brasil. Disponível em: <http://tub.im/svjty9>. Acesso em: 8 abr. 2016.

Página da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) com link para a transmissão do programa de rádio A Voz do Brasil. A Era Vargas

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Parlamentares fazem a saudação nazista após um discurso do chanceler alemão Adolf Hitler, em uma reunião do Reichstag (Parlamento) da Alemanha, em Berlim, em 1938.

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A Segunda Guerra Mundial


Em agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, causando a morte instantânea de aproximadamente 200 mil pessoas. Esse episódio, em que pela primeira vez foram utilizadas armas atômicas, representou o desfecho da Segunda Guerra Mundial. Nesta unidade, vamos verificar como os ressentimentos e revanchismos gerados na Primeira Guerra Mundial abriram caminho para a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Vamos conhecer aspectos importantes dessa guerra, que ocorreu entre 1939 e 1945, envolveu vários países, resultou na morte de cerca de 55 milhões de pessoas e causou destruição e prejuízos incalculáveis. Vamos entender também como as fronteiras do mapa-múndi foram redesenhadas após o fim da guerra, emergindo uma nova configuração política em escala planetária. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

A

Quais elementos desta fotografia indicam que o evento retratado é uma reunião nazista? Justifique sua resposta.

B

Explique a relação entre o fortalecimento do nazismo na Alemanha e a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

C

O que você sabe sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial? Comente.

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A caminho da Segunda Grande Guerra A Segunda Guerra Mundial foi um conflito sem precedentes na história, por causa da quantidade de pessoas mobilizadas e da utilização de armas com poder destrutivo nunca antes visto, o que os especialistas em história militar chamam de “guerra total”. De acordo com alguns estudiosos, várias motivações da Segunda Guerra Mundial tiveram origem no final da Primeira Guerra Mundial. Isso porque as cláusulas estabelecidas pelo Tratado de Versalhes, em 1919, não solucionaram os fatores que motivaram aquele conflito e lançaram as sementes para a Segunda Guerra Mundial. A política de “apaziguamento” Diante das atrocidades ocorridas na Primeira Guerra Mundial, os governos de muitos países, como França, Inglaterra e Estados Unidos, adotaram uma diplomacia baseada na chamada política de “apaziguamento”. Segundo essa proposta, os governantes desses países buscariam manter a paz entre as nações por meio da diplomacia. Eles sabiam que a paz era importante para reerguer a economia dos países europeus, arrasada pela guerra. No entanto, cada nação adotou uma atitude diferente. Os governantes da França afirmavam que era necessário respeitar o Tratado de Versalhes. Para alguns grupos políticos ingleses, entretanto, era preciso rever alguns pontos do tratado, por causa do excesso de cláusulas punitivas impostas à Alemanha. Já os governantes dos EUA, que haviam se recusado a assinar o Tratado de Versalhes, preferiam adotar uma política não só pacifista, mas também isolacionista, procurando não interferir nas questões envolvendo países europeus, conforme era defendido pela opinião pública estadunidense.

Oscar Edward Cesare. 1931. Ilustração. Coleção particular. Foto: Bettmann/Corbis/Latinstock

Apesar de ter se rendido, a Alemanha não havia sido totalmente derrotada no campo militar. Sua rendição decorreu do descontentamento dos militares e da abdicação do imperador Guilherme II, seguido pela instauração da República de Weimar. Na Europa Ocidental, mesmo as vitoriosas Inglaterra e França estavam com suas economias arrasadas, necessitando da ajuda dos EUA para a sua recuperação. Por outro lado, na Europa Oriental, a União Soviética reconstruía-se rapidamente após uma guerra civil e a consolidação do regime socialista. Na Ásia, a política expansionista japonesa era uma ameaça à paz. Em 1931, o Japão invadiu a Manchúria, território pertencente à China, com o objetivo de recuperar a economia do país, arruinada com a crise de 1929. Porém, o expansionismo japonês acabou chocando-se com os interesses da grande potência emergente da Primeira Guerra Mundial: os EUA.

Imagem que denuncia o descumprimento do Pacto de Paris por parte do Japão. Ao invadirem a Manchúria, os japoneses romperam com o acordo de não agressão internacional. Charge de 1931 feita por Oscar Edward Cesare. Pacto de Paris: também conhecido como Pacto Briand-Kellog, foi um tratado assinado em 1928 condenando a guerra como meio para solucionar divergências internacionais. Entre os países signatários, estavam EUA, Japão, Alemanha, França, Inglaterra e Itália.

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A Liga das Nações A Liga das Nações foi uma organização internacional criada pelo Tratado de Versalhes, em 1919, com a finalidade de promover a paz entre os povos. Mesmo tendo realizado intervenções em diversas regiões de conflito, essa organização não foi capaz de atingir plenamente seus objetivos. Os principais motivos do fracasso da Liga das Nações foram a demora em aceitar a participação da Alemanha e da União Soviética (URSS), além da ausência dos EUA como país-membro. Uma das medidas mais importantes adotada pela Liga das Nações foi a proibição de cláusulas secretas nos acordos diplomáticos, o que aumentava a confiança entre as nações. Essa proibição, no entanto, não foi seguida pelos países-membros, que firmaram diversos acordos secretos entre si, sem consultar a Liga.


Em “Völkischer Beobachter”, 1934. Coleção particular. Foto: Album/akg-images/Latinstock

De acordo com o Tratado de Versalhes, a Alemanha foi considerada a principal responsável pela Primeira Guerra Mundial. Além de pagar altas indenizações e perder suas colônias na África, os alemães foram proibidos de possuir marinha de guerra e força aérea e, também, tiveram seu exército limitado a 100 mil homens. Além disso, com a criação da Tchecoslováquia e da Polônia, a Alemanha perdeu boa parte de seu território e mais de três milhões de habitantes. Essas imposições, reconhecidamente humilhantes até por inimigos declarados da Alemanha, como os soviéticos, geraram um sentimento de revanche nos alemães, que encontraram na figura de Adolf Hitler um líder para canalizar esse sentimento.

O governo nazista Desde que chegaram ao poder, em 1933, os nazistas iniciaram um governo autoritário, centralizando o poder do Estado nas mãos do ditador Adolf Hitler. Eles adotaram medidas racistas, criando leis de exclusão para certos grupos, como estrangeiros, ciganos, homossexuais, afrodescendentes e judeus. Em seus discursos, embasavam seu nacionalismo extremado no pangermanismo, que é a ideia de que todos os povos de origem germânica deveriam se unir em uma única nação, a Grande Alemanha, chamada pelos nazistas de Terceiro Reich. Com isso, eles buscavam estimular nos alemães a ideia de que deveriam participar dos projetos expansionistas de invasão de territórios estrangeiros habitados por povos germânicos. Para fortalecer o poder do Estado e controlar os movimentos operários, o governo alemão realizou grandes investimentos nos setores produtivos do país. O desemprego foi praticamente eliminado com a disponibilização de postos de trabalho em grandes obras públicas. O poderio industrial alemão foi recuperado, destacando-se a produção de artefatos bélicos para equipar as forças armadas, então em franca expansão, o que garantiu o apoio dos industriais ao regime nazista. Além da reestruturação econômica, a propaganda foi outra arma muito eficaz para garantir o apoio da população à política nazista. O responsável pela propaganda do regime foi Joseph Goebbels, que glorificou a imagem de Hitler por meio de jornais e panfletos, além de promover comícios gigantescos, com grande ostentação de poder militar, que incluíam simulações de batalhas com tanques e soldados em estádios lotados de espectadores.

Página do Völkischer Beobachter, jornal do Partido Nazista alemão, exaltando as ações de Adolf Hitler. Publicado em julho de 1934. No dia 9 de novembro de 1938, ocorreu, em diferentes lugares da Alemanha e da Áustria, uma série de ataques contra judeus, conhecida como Noite dos Cristais. Durante esses ataques, incitados pelo governo, os nazistas destruíram várias lojas judaicas, além de incendiar casas e sinagogas. Essa fotografia retrata lojas de judeus destruídas após os ataques nazistas, em Berlim, Alemanha.

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O arianismo A xenofobia radical do nazismo tinha um caráter profundamente racista, promovido pela ideologia do arianismo. Segundo os nazistas, os alemães “puros” eram arianos que possuíam características que faziam deles e de seus descendentes uma “raça superior”. Por outro lado, também afirmavam que judeus e ciganos pertenciam a “raças inferiores”. Assim, o Estado alemão justificava a exclusão e as perseguições a esses grupos considerados “impuros”. O tema sobre o arianismo favorece o trabalho interdisciplinar com Biologia. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho. A Segunda Guerra Mundial

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O revanchismo alemão


O prenúncio da guerra Durante o período Entreguerras, diversos países firmaram acordos entre si, o que despertava a desconfiança dos Estados que não participavam desses acordos. Além disso, as grandes potências vinham aumentando a produção de armamentos e o alistamento de soldados, demonstrando que estavam se preparando para uma possível guerra. Um dos acordos mais importantes firmados nessa época foi o Pacto Anticomunista (Antikominternpakten, em alemão), assinado por representantes do Japão, da Itália e da Alemanha, em 1937, estabelecendo o chamado Eixo Roma-Berlim-Tóquio. O anticomunismo do Eixo agradava aos governantes dos países capitalistas, que temiam o aumento da área de influência dos comunistas.

O expansionismo alemão O governo da Alemanha, seguindo o princípio do pangermanismo, buscava o que considerava um “espaço vital”, isto é, terras e recursos suficientes para que sua população pudesse se desenvolver. O primeiro passo do expansionismo alemão foi a anexação da Áustria, transformada em província da Alemanha em 1938. Na Áustria, havia uma grande quantidade de germânicos, que falavam alemão, e muitos deles receberam com alegria os soldados alemães. A situação econômica da Áustria era péssima, com muitos desempregados, enquanto, na Alemanha, a propaganda nazista passava a ideia de que o país estava prosperando.

Explorando a imagem a ) Além da Alemanha, quais outros países aparecem no cartaz? Como as pessoas desses países foram representadas? Comente. b ) Com base nas ilustrações e no texto do cartaz, procure explicar a mensagem que ele pretende transmitir. Autor desconhecido. 1938. Poster. Coleção particular. Foto: Michael Nicholson/Corbis/Latinstock

Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

Despensa: cômodo da casa ou armário onde ficam guardados os alimentos.

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Pouco antes da eclosão da guerra, a propaganda nazista produziu cartazes como esse, de 1938. Nele está escrito, em alemão: “A despensa alemã tem duas vezes e meio o número de consumidores que a França ou a Inglaterra (em milhões de habitantes). A economia mundial não pode existir sem o mercado alemão!”.


A Conferência de Munique Bettmann/Corbis/Latinstock

Depois de anexar a Áustria, o governo alemão alegou que tinha direitos também sobre a região dos Sudetos, localizada na Tchecoslováquia, país que havia sido criado pelo Tratado de Versalhes, logo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Para garantir sua conquista, os alemães prepararam a Conferência de Munique, na Alemanha, em 1938. Nessa conferência, Adolf Hitler, da Alemanha, e Benito Mussolini, da Itália, assinaram um acordo com os primeiros-ministros Édouard Daladier, da França, e Neville Chamberlain, da Inglaterra, que permitia a ocupação dos Sudetos, apesar de ser uma região de minoria alemã. Em 1939, a Alemanha rompeu o acordo e ocupou o restante da Tchecoslováquia. Com isso, muitos europeus passaram a criticar veementemente a política de apaziguamento adotada pelos franceses e ingleses.

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Fotografia que retrata Hitler (ao centro) recepcionando Mussolini (à direita) para a Conferência de Munique, na Alemanha, em 1938.

O início da guerra Em agosto de 1939, ocorreu uma reviravolta na política internacional, quando representantes dos governos da Alemanha e da URSS assinaram o Pacto Germano-Soviético, um acordo de não agressão mútua. Esse acordo surpreendeu os governos liberais, principalmente da França e da Inglaterra, que até então acreditavam na veracidade da propaganda anticomunista promovida pelo governo nazista alemão. No dia 1o de setembro de 1939, os alemães invadiram a Polônia para reaver a cidade de Danzig (Gdansk, para os poloneses), que pertencia à Alemanha até o fim da Primeira Guerra Mundial.

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Diante disso, no dia 3 de setembro de 1939, a França e a Inglaterra declararam guerra à Alemanha, dando início à Segunda Guerra Mundial.

Observados por Hitler, soldados alemães marcham durante a invasão da Polônia, em 1939.

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Enquanto isso

... na Espanha

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A instabilidade política na Espanha vinha se agravando desde a época da quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, em 1929. A crise econômica gerava manifestações e greves, além de levantes promovidos por grupos ligados tanto a partidos de esquerda como de direita, que levaram ao fim da Monarquia e à implantação da República no país. Nesse contexto, as disputas políticas se polarizaram na Espanha. De um lado, havia a direita fascista, composta pelas forças políticas tradicionais espanholas: os grandes proprietários rurais, a Igreja e o exército, que formaram a Frente Nacionalista. De outro, os grupos políticos de esquerda, compostos por comunistas e anarquistas, que se aliaram aos republicanos democratas e liberais, criando a Frente Popular, que saiu vitoriosa nas eleições de 1931.

Assim, em 1936, o general Francisco Franco, ligado à Frente Nacionalista, liderou uma revolta contra o governo republicano, desencadeando uma violenta guerra civil entre nacionalistas e republicanos. Franco obteve apoio financeiro e bélico dos nazistas alemães e dos fascistas italianos, enquanto os republicanos receberam armas e assessores militares da União Soviética, além de milhares de soldados voluntários estrangeiros.

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Adolf Hitler e Francisco Franco se cumprimentam, selando o auxílio nazista à Frente Nacionalista. Fotografia tirada em Hendaye, na França, em 1940.

O governo da Frente Popular promoveu uma série de reformas, como desapropriações de grandes latifúndios, redução do número de oficiais do exército, dissolução da Ordem dos Jesuítas e o fechamento de escolas religiosas. Essas medidas, no entanto, desagradaram a elite espanhola.

Com a eclosão da guerra civil na Espanha, milhares de pessoas tiveram suas casas destruídas, sendo obrigadas a deixar o país. Essa fotografia, tirada em 1939, retrata espanhóis migrando para a França para fugir da guerra.

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Os conflitos se estenderam até 1939, quando as forças nacionalistas de Franco venceram os republicanos e estabeleceram uma ditadura militar de cunho fascista, que se estenderia até 1975. Segundo estudos, as mortes na Guerra Civil Espanhola chegaram a centenas de milhares de pessoas, entre civis e militares. Cidades inteiras foram devastadas, causando grandes prejuízos sociais e econômicos para o país, levando-o a um período de estagnação que durou quase trinta anos.

Explorando a imagem No mesmo ano em que a cidade de Guernica foi bombardeada, o pintor espanhol Pablo Picasso expôs, na Feira Mundial de Paris, uma enorme tela denunciando os horrores da Guerra Civil. Intitulada Guernica, a tela mede 3,4 metros de altura e 7,7 metros de largura. a ) Descreva a pintura. Como foram representados os personagens?

Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

Guernica, de Pablo Picasso, 1937. Pablo Picasso. 1937. Óleo sobre tela. 349 x 776 cm. Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia. Madrid (Espanha). Foto: Photo Josse/Scala, Florence/Glow Images © Succession Pablo Picasso/AUTVIS, Brasil, 2016

b ) Converse com os colegas sobre qual mensagem Picasso procurou transmitir por meio dessa pintura.

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Durante a Guerra Civil Espanhola, foram testadas novas técnicas de guerra. Essa fotografia retrata a cidade de Guernica, na região do País Basco, após um bombardeio aéreo ocorrido em 26 de abril de 1937. O ataque foi realizado por tropas alemãs e italianas, que apoiavam Francisco Franco. Essa foi a primeira demonstração de um ataque de saturação, técnica que consiste no bombardeamento rápido e intensivo de uma área limitada.


A ofensiva do Eixo Os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial foram marcados pela ofensiva das forças do Eixo na Europa e no Pacífico. O avanço alemão

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Mar Mediterrâneo 350 km

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UNIÃO SOVIÉTICA

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Alemanha em agosto de 1939 Regiões ocupadas (setembro 1939 - maio 1941) Aliados da Alemanha em 1940 Avanço alemão

GRÉCIA

Atenas

Fonte: PARKER, Philip e outros. Atlas of Military History. Londres; Nova Iorque: Collins, 2010.

De setembro de 1939 a abril de 1940, a guerra limitou-se a combates navais, em que os alemães procuravam desestabilizar o comércio marítimo britânico utilizando submarinos. Quando as condições climáticas permitiram, em abril de 1940, os alemães invadiram e ocuparam rapidamente a Dinamarca e a Noruega. Em maio, deram início à ofensiva contra Holanda, Bélgica e Luxemburgo, apesar da neutralidade desses países. Enquanto isso, as forças francesas e inglesas aguardavam a chegada das tropas alemãs. Os franceses estavam confiantes na capacidade de defesa da Linha Maginot, que era uma série de fortificações construídas na fronteira com a Alemanha e a Itália, ligadas entre si por corredores subterrâneos. Como havia sido idealizada para uma guerra de trincheiras, essa linha de defesa não pôde conter o avanço dos veículos blindados alemães, que a contornaram, passando por uma região de florestas não fortificada, e invadiram o território francês. Derrotada, a França assinou um armistício em junho de 1940 e, com isso, o norte e o centro do país, incluindo a capital Paris, foram dominados pelos alemães. No sul e sudoeste foi formado um governo francês colaboracionista com os alemães, com capital em Vichy, sendo presidido pelo marechal francês Phillippe Pétain. Tendo a Europa Ocidental sob controle, Hitler voltou suas forças contra a Inglaterra. Antes de tentar uma invasão, em 1940, os alemães procuraram enfraquecer as defesas inglesas por meio de pesados bombardeios aéreos. Mesmo com a destruição provocada pelos bombardeios alemães, a Inglaterra resistiu, frustrando os planos de Hitler.

Durante o ataque alemão à Inglaterra, a cidade de Londres foi severamente bombardeada, causando grande destruição. Nessa fotografia, tirada em 1940, vemos pessoas no interior de uma biblioteca bombardeada pelas forças alemãs.

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A guerra-relâmpago

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A Blitzkrieg (do alemão, “guerra-relâmpago”) foi a tática responsável pela grande rapidez e eficácia dos combates das Forças Armadas da Alemanha nos primeiros anos da guerra. Essa tática visava o avanço rápido e eficiente de tropas do exército, reduzindo ao máximo as chances de defesa do inimigo. Após atingir o objetivo, as forças da Blitzkrieg eram rapidamente deslocadas para outra frente de batalha.

Primeiro, os aviões bombardeiros Stuka despejavam explosivos para destruir pontos essenciais de defesa, como meios de comunicação e ferrovias. Ao lado, Stukas sobrevoando o céu de Berlim, Alemanha, em 1940.

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Em seguida, antes que o inimigo pudesse se recompor, começava a ofensiva das divisões de tanques, sufocando qualquer tipo de resistência. Ao lado, tanques alemães na Polônia, em 1939.

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Protegida pelos tanques, a infantaria motorizada avançava, dominando o território, fator que dificultava o avanço das tropas de defesa. Ao lado, infantaria motorizada alemã na Bélgica, em 1940.

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A resistência soviética Tendo que adiar os planos de invadir a Inglaterra (em três meses os alemães perderam 1 700 aviões, contra 900 dos ingleses), Hitler direcionou suas forças contra a URSS. Desconsiderando o pacto de não agressão estabelecido com os soviéticos, Hitler iniciou a invasão em junho de 1941. Com a intensidade e violência dessa invasão, conhecida como Operação Barbarossa, milhões de soviéticos, civis e militares, foram massacrados. O avanço dos alemães foi rápido e, em novembro, eles já estavam próximos a Moscou.

Berliner Verlag/Archiv/dpa/Corbis/Latinstock

A população da capital russa, no entanto, conseguiu resistir e, além disso, foi beneficiada pelas chuvas que transformaram as imediações de Moscou em pântanos, impossibilitando o avanço dos blindados alemães.

Apesar da resistência, milhares de soviéticos foram capturados durante os ataques nazistas na URSS. Fotografia de 22 de julho de 1941 em Minsk, na Bielorrússia (URSS).

Corbis/Latinstock

A tática da “terra arrasada” Além da ideologia anticomunista, a invasão da URSS foi motivada por razões econômicas: os nazistas tinham grande interesse nas áreas industriais da Ucrânia e também nos campos petrolíferos da região do Cáucaso. No entanto, enquanto os soviéticos se retiravam para além dos montes Urais, levaram consigo os equipamentos industriais para reinstalá-los, destruindo tudo o que não pudesse ser carregado e que poderia ser útil aos invasores.

Antes de se retirar, a população de Minsk, na Bielorrússia (URSS), incendiou vários edifícios da cidade para não deixar recursos disponíveis aos nazistas. Fotografia de 1941.

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Essa estratégia ficou conhecida como tática da “terra arrasada”, que contou com o apoio maciço da população civil, a qual passou a aplicá-la em outros territórios que fossem invadidos pelos nazistas.


A ofensiva japonesa e a entrada dos EUA na guerra

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Assim, em dezembro de 1941, os japoneses desferiram um grande ataque surpresa à base naval estadunidense de Pearl Harbor, no Havaí. As consequências desse ataque influenciaram nos rumos do conflito para os estadunidenses, que perderam mais de dois mil homens, além de grande parte de sua frota que estava estabelecida no Pacífico. O ataque ajudou o presidente Roosevelt a convencer o Con­g resso estadunidense e a unir a opinião pública em favor da declaração de guerra às potências do Eixo no mesmo dia do ataque a Pearl Harbor. O grande poderio industrial e militar estadunidense foi posto então à disposição dos Aliados, mudando a relação de forças no conflito. Enquanto isso, o comando militar japonês, acreditando que as forças navais estadunidenses estavam derrotadas, lançou uma gran­ de ofen­siva, capturando Hong Kong, as ilhas Filipinas, Singapura, Indonésia, Birmânia, Nova Guiné, entre outras ilhas.

Unidade 6

Os planos expansionistas japoneses na Ásia contrariavam os interesses estadunidenses. Quando os japoneses invadiram a Indochina francesa, em setembro de 1940, os EUA, como resposta, impuseram um embargo comercial ao Japão, privando-o de aço e petróleo. A frota da marinha estadunidense era um empecilho ao expansionismo japonês no oceano Pacífico. Então, eles elaboraram um plano de lançar um ataque fulminante que arrasaria a frota estadunidense, abrindo caminho para o Japão ocupar importantes regiões produtoras de petróleo, estanho e borracha.

Os kamikazes (do japonês, “vento divino”) eram pilotos de caça que ficaram conhecidos pelas táticas suicidas de combate. Quando havia poucas chances de sobrevivência, muitos deles se empenhavam em chocar suas aeronaves contra o alvo inimigo, de forma a causar o maior dano possível. Fotografia de 1945, no Japão.

Navios estadunidenses destruídos após o ataque japonês a Pearl Harbor, no Havaí, em 1941.

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O mundo entre os anos 1942 e 1944 Até o ano de 1941, as forças do Eixo estavam em franca vantagem, mantinham seus territórios sob controle e avançavam em diversas frentes de batalha. Porém, a entrada dos EUA na guerra, ao lado dos Aliados, e as importantes vitórias do exército soviético mudaram os rumos do conflito. Nesse período, em todo o mundo, ocorreram vários fatos importantes que ajudaram a definir o desfecho da Segunda Guerra Mundial. Veja.

Midway, Havaí, junho de 1942

Início da batalha de Midway, ofensiva naval japonesa visando a tomada do Havaí, que durou cerca de oito meses. Após um pesado contra-ataque, os estadunidenses vencem a batalha.

Stalingrado, URSS, novembro de 1942

O exército nazista tenta invadir a cidade de Stalingrado. Acometidos pelo frio, pela falta de alimentos e pela forte resistência soviética, os soldados alemães são massacrados e rendem-se após meses de lutas.

1942

1943

Detroit, EUA, 1943

Mumbai, Índia, agosto de 1942 Egito, África, julho de 1942

Archiv Peter Rühe/akg-images/Latinstock

Photo Keystone Archives/Heritage Images/Scala, Florence/Glow Images

Começam as batalhas no norte da África, onde tanques britânicos derrotam o Afrika Korps, o mais poderoso destacamento militar alemão. Essa fotografia retrata um ataque da artilharia britânica em El Alamein, Egito, em 1942.

Mahatma Gandhi inicia sua campanha de desobediência civil contra a dominação britânica na Índia. Essa fotografia, tirada em Mumbai, na Índia, em 1942, retrata Gandhi, à direita, conversando com Jawaharlal Nehru, um dos principais líderes da resistência indiana.

A empresa automobilística General Motors dedica 100% de sua produção ao esforço de guerra, produzindo veículos, aviões e autopeças para uso militar. Nessa época, os EUA já eram um dos países mais industrializados do mundo.

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British Official Photo/AP Photo/Glow Images

Sicília, Itália, setembro de 1943

Mussolini é deposto e mantido como prisioneiro. A Itália passa a ser governada pelo general Pietro Bodoglio, que assina o termo de rendição. Resgatado por tropas de Hitler, Mussolini organiza uma república fascista no norte da Itália.

Teerã, Irã, dezembro de 1943

1944

1945

Nápoles, Itália, julho de 1944 Tropas brasileiras desembarcam na Itália para lutar ao lado dos Aliados.

Kursk, URSS, junho de 1943

Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latinstock

Hulton Archive/Getty Images

Os soviéticos derrotam os nazistas na batalha de Kursk, que durou cerca de três meses e é considerada a maior batalha de tanques da Segunda Guerra Mundial. Essa fotografia retrata tanques soviéticos durante esse combate.

Paris, França, agosto de 1944

As tropas aliadas, com o auxílio decisivo da resistência francesa, liderada por Charles de Gaulle, livram a cidade de Paris da dominação nazista. Essa fotografia mostra a participação feminina na resistência francesa contra o avanço alemão, em 1944.

A Segunda Guerra Mundial

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Unidade 6

Os “três grandes”, Stalin, Roosevelt e Churchill (da esquerda para a direita), reúnem-se para planejar um grande desembarque de tropas no litoral francês, conhecido como Operação Overlord.


O avanço dos Aliados A invasão alemã ao território soviético foi contida nos arredores de Moscou, mas a batalha decisiva para a mudança dos rumos da guerra na frente leste aconteceu em Stalingrado. Nessa batalha, ocorrida entre julho de 1942 e fevereiro de 1943, a vitória soviética acabou com o mito da invencibilidade do exército alemão e, com isso, o Exército Vermelho soviético começou a avançar com destino a Berlim.

AP Photo/Glow Images

A vitória dos Aliados contra as forças alemãs no norte da África, em 1942, facilitou a invasão do sul da Itália, criando uma nova frente de batalha. As tropas alemãs e italianas não conseguiram conter o avanço dos Aliados, composto por forças anglo-americanas, fazendo com que o próprio Conselho Fascista italiano depusesse Mussolini para negociar a rendição italiana. Com o apoio de Hitler, no entanto, Mussolini organizou uma república fascista no norte do país, mantendo a resistência até o início de 1945, quando foi capturado e executado por forças antifascistas italianas. O “Dia D” Na madrugada do dia 6 de junho de 1944, conhecido como “Dia D”, teve início o desembarque das tropas aliadas na Normandia, no norte da França. Participaram dessa operação mais de 150 mil soldados estadunidenses, ingleses e canadenses, apoiados por mais de seis mil navios e cinco mil aviões. Sob pesado fogo alemão, o desembarque foi difícil, causando milhares de mortes. Como os alemães não estavam preparados para enfrentar o ataque, os Aliados foram bem-sucedidos na invasão. Esse episódio marcou o início da grande ofensiva aliada e, em agosto, Paris foi libertada do domínio alemão.

A invasão de Berlim Após um avanço significativo, as forças soviéticas chegaram à fronteira alemã em janeiro de 1945. Stalin organizou então uma nova ofensiva, fechando o cerco à capital Berlim, que foi duramente bombardeada e invadida por mais de dois milhões de sovié­ ticos. Os invasores, no entanto, encontraram forte resistência entre os 100 mil soldados alemães que defendiam a capital, além dos civis que obedeceram às ordens de Hitler de resistir até o fim. Mas as forças soviéticas eram superiores em número, e Berlim se rendeu em maio de 1945. Logo depois, as forças aliadas também chegaram à capital. Hitler já havia se suicidado em 30 de abril. Era o fim do Terceiro Reich. SuperStock/Glow Images

Soldados estadunidenses momentos antes de desembarcar nas praias da Normandia, na França.

Fotografia que mostra aviões e tanques soviéticos bombardeando Berlim, em abril de 1945.

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O tema sobre a bomba atômica favorece o trabalho interdisciplinar com Física. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho. Fotografia da explosão da bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945. Roger Viollet/Getty Images

Depois de conter o avanço japonês, em maio de 1942, os estadunidenses atacaram por meio de uma guerra submarina, procurando causar o maior número de perdas possível à marinha japonesa, enquanto investiam na recuperação de sua própria frota. Assim, tomando um a um os territórios sob ocupação japonesa, os estadunidenses isolaram o Japão, que gradativamente foi perdendo suas fontes de recursos naturais, indispensáveis para o esforço de guerra. O golpe final veio em agosto de 1945. Tomando uma das decisões militares mais polêmicas da história, o presidente estadunidense Harry Truman autorizou o lançamento de bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima (6 de agosto) e Nagasaki (9 de agosto). Diante da destruição sem precedentes, o Japão acabou se rendendo, pondo fim à Segunda Guerra Mundial.

As consequências da bomba atômica

Para outros, o ataque atômico era desnecessário, visto que a situação do Japão era calamitosa, e que o país poderia ser forçado à rendição apenas com o bloqueio naval. Nesse caso, o verdadeiro sentido da utilização da bomba seria fazer uma demonstração de poder, principalmente para os soviéticos.

O sujeito na história

AP Photo/Glow Images

A utilização da bomba atômica sobre o Japão é um assunto muito discutido até hoje. Alguns concordam com Harry Truman, argumentando que a invasão do arquipélago japonês acarretaria muitas mortes tanto de estadunidenses quanto de japoneses, sendo necessária uma medida drástica, mas eficiente, para forçar a rendição japonesa.

Fotografia que mostra a cidade de Hiroshima, após a explosão da bomba atômica, em 1945.

Keiji Nakazawa

Keiji Nakazawa nasceu no dia 14 de março de 1939 em Hiroshima. Ele estava na cidade quando, em 1945, os estadunidenses realizaram o ataque atômico contra o Japão. Praticamente toda a sua família e vizinhos morreram instantaneamente. Keiji e sua mãe, entretanto, conseguiram sobreviver à explosão da bomba.

Capas da série Gen: Pés Descalços. Keiji Nakazawa. Editora Conrad. Foto: José Vitor Elorza/ASC Imagens

Na década de 1960, Keiji mudou-se para Tóquio e começou a trabalhar como desenhista e escritor. Os principais temas de suas histórias eram o ataque a Hiroshima e os relatos dos sobreviventes, principalmente o seu próprio testemunho.

Alter ego: expressão de origem latina que significa “outro eu”. Mangá: gênero de história em quadrinhos característico do Japão.

Nos anos 1970, com base em sua própria experiência, ele produziu Eu vi, um mangá em que apresenta fatos sobre a destruição causada pela explosão da bomba atômica em Hiroshima. Mais tarde, com base em Eu vi, Keiji produziu uma série intitulada Gen: Pés Descalços, considerada por muitos sua obra-prima. Nessa série, por meio de seu alter ego Gen, Keiji fez uma verdadeira denúncia sobre os horrores da bomba atômica, desde as consequências imediatas de sua explosão até os efeitos posteriores causados pela radiação. A Segunda Guerra Mundial

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Unidade 6

A rendição do Japão


O Brasil na Segunda Guerra Mundial Desde que Getúlio Vargas instituiu o Estado Novo, as semelhanças dessa ditadura com o regime fascista tornaram-se evidentes. A própria Constituição de 1937 tinha vários elementos em comum com a Constituição italiana, elaborada durante o governo de Benito Mussolini. No entanto, apesar das semelhanças no modo de governar e da boa relação do Brasil com os países do Eixo, Vargas preferiu não assumir nenhum posicionamento quando eclodiu a Segunda Guerra. A neutralidade nesse conflito era conveniente, pois dessa forma o Brasil obtinha benefícios comerciais e conseguia financiamentos tanto dos países Aliados, principalmente dos EUA, quanto dos países do Eixo, sobretudo da Alemanha. Em 1941, depois que entraram na guerra ao lado dos Aliados, os EUA começaram a pressionar outros países americanos a participar do conflito, com o objetivo de formar uma união continental contra os países do Eixo. Iconographia/Reminiscências

As negociações com os EUA Os EUA queriam permissão para a instalação de bases militares no nordeste brasileiro, pois essa região tinha localização estratégica para os países Aliados. Em troca, o Brasil solicitava o financiamento para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Volta Redonda, além de verbas para o reaparelhamento das Forças Armadas. Inicialmente o pedido foi negado, pois a construção de uma usina no Brasil acabaria com a dependência que o país tinha de muitos produtos estadunidenses. Porém, quando os alemães amea­ çaram financiar a construção da CSN, Roosevelt atendeu às exigências de Vargas rapidamente.

Filme de Walt Disney. Saludos Amigos. EUA, 1942

Fotografia que mostra a construção da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda (RJ), em 1941.

Assim, em janeiro de 1942, na Conferência dos Chanceleres, realizada no Rio de Janeiro, o Brasil e outros países da América se comprometeram a romper oficialmente as relações com todos os países do Eixo. A política da boa vizinhança Sustentada pelo presidente estadunidense Franklin Roosevelt, a política da boa vizinhança visava aproximar os EUA dos demais países americanos, buscando ajuda mútua e, principalmente, afastando a influência do nazismo e do comunismo na América. Essa política também permitiu trocas culturais entre os países americanos. Nessa época, muitos filmes foram produzidos nos Estados Unidos com temas considerados típicos da América Latina. Muitos deles, no entanto, misturavam características, por exemplo, do Brasil e do México, como se esses países tivessem a mesma cultura.

Criado por Walt Disney na década de 1940, o personagem Zé Carioca tornou-se um símbolo da aproximação entre os Estados Unidos e o Brasil. O filme Saludos Amigos (Alô, Amigos), de 1942, marca a estreia desse personagem no cinema estadunidense. Ao lado, cartaz desse filme.

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Os brasileiros na guerra FEB/Força Expedicionária Brasileira

Depois que o Brasil se posicionou ao lado dos Aliados, a partir de fevereiro de 1942, os alemães passaram a realizar ataques a navios mercantes brasileiros no Atlântico, causando mais de 600 mortes. Houve diversas manifestações populares nas ruas. Milhares de pessoas se mobilizaram exigindo a entrada do Brasil na guerra. Em agosto de 1942, Getúlio Vargas declarou guerra às forças do Eixo, como resposta às agressões nazistas.

As batalhas na frente italiana Na Europa, os pracinhas encontraram dificuldades, como o rigoroso inverno, ao qual não estavam acostumados, e a falta de preparo para a guerra. No entanto, a participação do Brasil na campanha da Itália teve saldo positivo.

Pracinhas: soldados que lutaram pela Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.

Arquivo/Estadão Conteúdo

Em menos de oito meses no conflito, eles libertaram várias cidades e fizeram mais de 20 mil prisioneiros, mas também sofreram baixas, cerca de 500 mortes. As principais batalhas em que lutaram foram na tomada de Monte Castelo, em fevereiro de 1945, e na conquista da cidade de Montese, em abril do mesmo ano. Ao fim da guerra, os pracinhas voltaram ao Brasil e foram recebidos como heróis, com festas e desfiles pelas ruas de várias cidades brasileiras.

Distintivo da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que representava a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

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As forças brasileiras de guerra enviadas para as frentes de combate na Itália eram compostas por cerca de 25 mil soldados e oficiais, treinados no Brasil e nos EUA. Eles formavam a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e a Força Aérea Brasileira (FAB). Também foram enviados cronistas e jornalistas correspondentes de jornais de todo o país, além de dezenas de enfermeiras voluntárias que atuaram nos hospitais das bases estadunidenses na Itália.

Fotografia que retrata pracinhas recebendo homenagens em Piracicaba (SP) em agosto de 1945.

Os problemas internos do Brasil Terminada a guerra, havia um problema no cenário político brasileiro: como um país que lutou contra o fascismo podia manter o regime ditatorial de Getúlio Vargas? Essa contradição enfraqueceu ainda mais o já desgastado Estado Novo. Várias manifestações populares exigiam a deposição de Vargas e a democratização do país. Por outro lado, havia aqueles que queriam a manutenção do presidente no poder. Eram os queremistas, como ficaram conhecidos por empregar o lema “Queremos Getúlio”. No esforço de permanecer no poder, Getúlio tomou algumas medidas democráticas, como a anistia a presos e exilados políticos. Porém, em 29 de outubro de 1945, ele foi obrigado a renunciar. Os militares tomaram o Palácio do Catete e substituíram-no por José Linhares, ministro do Supremo Tribunal Eleitoral, até que fossem realizadas novas eleições, em dezembro do mesmo ano. A Segunda Guerra Mundial

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Explorando o tema

O Holocausto

Um dos acontecimentos mais chocantes revelados ao mundo ao fim da Segunda Guerra Mundial foi o genocídio cometido pelos nazistas contra judeus, ciganos e demais minorias consideradas “inferiores”. O extermínio dos judeus, conhecido popularmente como Holocausto e chamado de Shoah, em língua hebraica, representou o ápice da intolerância, do preconceito e do racismo no século XX. Antes mesmo da ascensão do Partido Nazista ao poder, já havia grande preconceito contra os judeus. Leia o texto a seguir. Libelo: documento escrito com acusações.

Mesmo durante a República de Weimar, salas de aula e livrarias estavam repletas de libelos, slogans e símbolos antissemitas. Entre 1918 e 1924, ataques isolados a grupos de judeus foram registrados nos relatórios policiais. Em 1920, dois terços dos estudantes presentes na assembleia estudantil da Universidade Técnica de Hannover votaram a favor da exclusão dos estudantes de [origem] judaica da União dos Estudantes Alemães. Em meio à crise das democracias, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães conquistava adeptos bradando inflamados discursos contra o “perigo” judaico, prometendo estabilidade da vida social alemã e restauração da Alemanha como grande potência mundial. Nessa mesma época, o Grupo de Munique da União Central de Cidadãos Alemães do Credo Judaico se pronunciou contra o movimento, que os culpava de tudo: dos males do capitalismo, da guerra, dos sofrimentos, da revolução etc. Num brado consciente de revolta, a comunidade judaica alemã deixou seus protestos registrados em um pôster: “Recusamo-nos a ser bodes expiatórios para todas as maldades do mundo”. No entanto, suas vozes foram abafadas pelos brados dos nazistas uniformizados que, no final dos anos de 1920, desfilavam pelas ruas de Berlim numa verdadeira demonstração de força. CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Racismo Nazista: A era nazi e o antissemitismo. In: PINSKY, Jaime; PINSKY, Carla Bassanezi. (Orgs.). Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. p. 104-5.

As fases do Holocausto

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Ao assumirem o poder em 1933, os nazistas encontraram uma situação propícia para a disseminação do antissemitismo. Assim, a segregação de judeus e outras minorias se tornou uma política de Estado. Em 1935, as Leis de Nuremberg definiram a “pureza racial” dos alemães utilizando como critério o exame da ascendência genealógica dos indivíduos. Inicialmente, os judeus foram segregados em áreas específicas, os guetos, tiveram grande parte de seus bens confiscados e foram obrigados a usar uma identificação, a estrela de Davi, para que fossem facilmente distinguidos dos alemães. Com o início da guerra, em 1939, os judeus passaram a ser enviados para os campos de concentração e extermínio, onde aqueles que não tinham condições para o trabalho eram executados. Por volta do final de 1942, quando os alemães começaram a ser derrotados, delineou-se mais claramente uma política nazista de extermínio massivo dos judeus, quando milhares deles, de toda a Europa, foram mortos em câmaras de gás. Ao final da guerra, o número de judeus mortos foi estipulado em cerca de seis milhões.

Fotografia retratando a chegada de prisioneiros judeus no campo de Auschwitz, na Polônia. Em 1944, quando foi tirada essa fotografia, Auschwitz era o maior campo de extermínio na Europa.

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Os campos da morte No campo de concentração, os prisioneiros passavam por uma triagem e, depois, eram despidos e tinham os cabelos rapados. Nada de valor poderia ficar com os prisioneiros, até mesmo as próteses e equipamentos mecânicos usados pelos deficientes físicos eram confiscados. Os homens e as mulheres saudáveis eram mandados para campos de trabalho forçado, enquanto crianças, idosos e doentes eram executados ou enviados para servirem como cobaias em experimentos “científicos”.

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Os campos de trabalho forçado e os campos de extermínio eram interligados por estradas de ferro. Nas proximidades dos campos, eram instaladas indústrias para aproveitar a mão de obra dos prisioneiros, que eram obrigados a trabalhar até a exaustão, sob o calor ou frio intenso. Mal alimentados e doentes, tinham que suportar maus-tratos e humilhações, além de testemunhar o fuzilamento de colegas, entre outras atrocidades. As mulheres muitas vezes sofriam violência sexual antes de serem executadas.

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No entanto, nem todos os alemães compactuaram com a política do Estado nazista. Embora grande parte da nação alemã aprovasse o governo nazista e a perseguição aos judeus, tendo Hitler como um verdadeiro guia e herói, a maioria desconhecia o que se passava nos campos de concentração e extermínio. Quando o regime caiu e essas práticas foram reveladas ao mundo, o povo alemão sofreu um grande trauma decorrente do sentimento de culpa.

O relato de um sobrevivente Veja, no texto a seguir, o relato do judeu polonês Solomon Radasky, um sobrevivente do genocídio nazista que pôde reconstruir sua vida, mudando-se para os EUA em 1950, onde morreu aos 92 anos de idade. Nasci em Varsóvia, na Polônia. Dos 78 membros de minha família, só eu sobrevivi. Meus pais e meus cinco irmãos foram mortos. Minha mãe e minha irmã mais velha morreram no gueto de Varsóvia, em janeiro de 1941, quando disseram aos guardas alemães não possuírem nem peles nem joias, conforme eles haviam solicitado. [...]

Fotografia que retrata civis alemães observando corpos de prisioneiros do campo de extermínio de Buchenwald, Alemanha, em 1945. Esses civis foram levados até o campo por soldados estadunidenses para que vissem o horror cometido pelo regime nazista.

Eu trabalhava em uma loja que fazia casacos de lã para o exército alemão. Depois do levante judeu no gueto de Varsóvia, em 19 de abril de 1943, fui enviado ao campo de concentração de Majdanek, perto de Lublin. Ao chegar lá, tivemos de entregar nossas roupas e nos deram camisas e calças listradas e sapatos de madeira. [...] Quando nos chamavam para o pátio, íamos com nossos sapatos de madeira. Mas, depois que atravessávamos o portão, tínhamos que tirá-los e seguir descalços. Havia pedrinhas no caminho que cortavam nossos pés. Trabalhávamos limpando terrenos. Depois de alguns dias, muitos não aguentavam e caíam na estrada. Se não se levantassem, eram assassinados a tiros ali mesmo. Nós tínhamos que carregar os corpos de volta. Se mil tinham saído para trabalhar, mil tinham que voltar. RADASKY, Solomon. Fui o único da minha família a sobreviver. Almanaque Abril: II Guerra Mundial: 60 anos. São Paulo: Abril, v. 2, 2005. p. 44. Edição especial: O mundo sob Hitler.

O revisionismo Logo após a condenação dos chefes nazistas, surgiram várias versões sobre o Holocausto que, se não negavam, pelo menos procuravam reduzir a amplitude do crime cometido contra os judeus. Os autores dessas versões são chamados de revisionistas e, em alguns casos, de negacionistas. Eles costumam ser acusados, principalmente pela comunidade judaica, de serem antissemitas e simpatizantes do neonazismo. Atualmente, em alguns países, é crime negar ou colocar a realidade histórica do Holocausto em dúvida. Na Alemanha, a pena é de cinco anos de prisão, enquanto na Áustria a pena pode chegar a vinte anos. Assim, criou-se uma polêmica que está longe de ser resolvida: de um lado, os revisionistas pedem liberdade de expressão; do outro, agrupam-se os que defendem a criminalização do revisionismo sobre o Holocausto como forma de evitar o ressurgimento dos ideais nazistas. A Segunda Guerra Mundial

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Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento 1. Explique o que causou o sentimento de revanche na população alemã após o término da Primeira Guerra Mundial.

2. Como ocorreu a polarização das disputas políticas na Espanha, na década de 1930?

3. Comente sobre a ofensiva do Eixo ocorrida no início da Segunda Guerra Mundial.

4. Explique o que foi a Operação Barbarossa. 5. Por que se pode afirmar que o ataque a Pearl Harbor foi o estopim de uma situação que já estava se configurando entre EUA e Japão?

6. Sobre o desfecho da Segunda Guerra Mundial, responda. a ) Qual a relação entre o fim da guerra e as derrotas dos alemães em Stalingrado e no norte da África? b ) O que foi o “Dia D”? c ) Como foi a invasão de Berlim pelos soviéticos? d ) Por que a utilização da bomba atômica sobre o Japão é um assunto muito discutido até hoje?

7. Produza um texto sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Expandindo o conteúdo por causa da sua atuação política e militar, tornou-se bastante conhecido no exterior. Por sua participação na Aliança Nacional Libertadora (ANL), foi preso pelo governo de Getúlio Vargas. Em seguida, foi para a Europa, onde combateu na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos, nas Brigadas Internacionalistas (ou “Brigadas Vermelhas”). Derrotado na Guerra Civil Espanhola, Apolônio foi para a França, onde lutou ao lado da Resistência Francesa, conseguindo vencer os alemães. Leia a seguir trechos da sua última entrevista, feita pelo jornalista Bosco Martins em agosto de 2005.

Bosco Martins - Você saiu da prisão [no Rio de Janeiro, em 1937], é expulso do Exército e segue para a Europa. Apolônio de Carvalho - Ao sair da prisão, eu me incorporo ao Partido Comunista [PC], pois na prisão eu conhecera o Partido Comunista, através de uma dezena de antigos cadetes da Escola Militar do Realengo, através deles vieram as primeiras lições da doutrina comunista, do marxismo em geral. Ao sair da prisão, no dia seguinte, me incorporei ao PC [...]. Tinha havido uma reunião do comando central do Partido Comunista Brasileiro e nessa reunião tinha sido definida uma iniciativa. Havia muitos oficiais, muitos sargentos, muitos cabos, muitos militares que estavam expulsos do Exército, a República Espanhola es­

Paulo Jares/Conteúdo Expresso/Latinstock

8. Apolônio de Carvalho (1912-2005) foi um militar brasileiro que,

Fotografia de Apolônio de Carvalho tirada em 1997.

tava assaltada por generais, pelos príncipes da Igreja Reacionária Espanhola, era necessário, portanto, que alguém de fora, com forças de fora, suprisse essa defasagem de forças existentes em torno da República ameaçadas naquele momento. Então, eu que na minha família já tinha um pouco de experiência de posições internacionalistas [do socialismo]... Bosco Martins - Vai para as Brigadas Internacionalistas. Apolônio de Carvalho - Eu era um jovem tenente, moço de 24, 25 anos. Eu era tenente de artilharia e a Espanha estava com muito poucos oficiais e eu tinha todo um curso da Academia Militar do Rio de Janeiro. Nessa época a Escola do Realengo não tinha a pompa militar da Academia das Agulhas Negras,

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porque a derrota militar e a derrota político-militar da França abalou profundamente a consciência da nação. A França tinha sido educada, todas as novas gerações e um pedaço das antigas, na visão de que tinham um exército invencível. A vitória de 1914 a 1918, da 1a Guerra Mundial, tornou-a poderosa, com exército respeitável, com grandes generais e grandes marechais. Acumularam essa mística, essa lenda do grande exército, das grandes forças armadas. A França cai como um castelo de cartas, porque não é derrotada militarmente, ela é entregue aos alemães. Antes, em 1935, 1936, 1937, o movimento social e o momento político de esquerda tinham criado uma situação nova, que foi o período da vitória eleitoral das frentes populares [alianças de partidos de esquerda]. A vitória dos trabalhadores, dos operários, uma parte dos camponeses, das camadas médias e uma parte dos burgueses, de figuras do capital progressista ligada ao sentimento nacional. Não se pode achar que isso não existiu. Tivemos então o regime das frentes populares, com conquistas sociais muito altas, com medidas muito importantes olhando para a soberania nacional, com estímulos muito maiores para a integração do povo através de suas instituições de base, do debate político e do debate do hoje e do amanhã para o país. Essa mística, essa imagem de uma França nova, guiada pelos trabalhadores incluindo camadas médias e também uma parte do capital, que querem fazer um avanço, sob forma de mudanças políticas, nacionalistas, essa França nova representava para o capital uma ameaça incisiva. O raciocínio era, se em 1939 e 1940, a França vence a Alemanha, é porque tinha condições de deter o avanço alemão. Mas o Estado Maior Francês, ordenado pelo grande capital francês, decidiu que a França não lutaria contra o exército alemão. A França se entregou, porque preferiu o domínio da ocupação e da arrogância nazista àquela França parecida com a do Regime da Frente Popular [espanhola] e apoiada no povo e em coisas novas para a nação e sua gente. Bosco Martins - Que tipo de operações vocês faziam na época [na França], Apolônio? Apolônio de Carvalho - Operações que tinham objetivos muito claros: primeiro atacar as forças inimigas, que vinham desfilar nas cidades e nós tínhamos naturalmente ataques armados a esses desfiles. Os alemães tinham também os cinemas e nós atacávamos os soldados na saída. Os alemães roubavam o que podiam na França. As vias férreas estavam carregadas das riquezas A Segunda Guerra Mundial

Unidade 6

era apenas a Escola Militar do Realengo. Eu tinha todo um curso de oficial do Exército. Então eu passei na Espanha a ter funções sucessivas. Além da função de comandante-chefe de uma bateria de artilharia, eu fui também encarregado de funções de comandante, coronel e mesmo funções de General se tivesse continuado por lá. Bosco Martins - Você participou de muitos combates na Espanha? Apolônio de Carvalho - Eu passei nesse período a estar presente em todos os combates da metade sul da Espanha. [...] Bosco Martins - Os campos de concentração. Você ficou preso? Apolônio de Carvalho - Em fins de 1938 o Governo da República tinha tido um gesto que parecia muito humano, mas que na verdade era um gesto muito perigoso. Nós éramos 40 mil voluntários internacionais e constituímos as brigadas organizadas e o exército republicano se tinha apoiado muito nas nossas formações de brigadas, porque nós já chegamos com organização de batalhão, regimento etc. Acontece muito que essas forças que tinham participado das batalhas mais difíceis, eram deslocadas das frentes e enviadas para fora. O que fez com que nós verdadeiramente tivéssemos que sair da Espanha. Para os voluntários internacionais que vinham da Europa era uma coisa mais fácil, pois em seus paí­ses não havia ditadura militar, como para nós da América Latina. Quando os voluntários internacionais foram chamados para sair do país, o caminho mais fácil e único era a fronteira com a França. Atravessamos a fronteira, depusemos as nossas armas na fronteira e embora o governo francês tivesse assumido diante do governo da República Espanhola o compromisso de nos receber como refugiados políticos, fomos enviados para os campos de concentração. Então, eu passei praticamente do Natal de 1939 até agosto de 1940, nos campos de concentração franceses. Nesse momento eu decidi com meus companheiros, já que a França assinara o Armistício com a Alemanha, entregando a metade norte do País para a ocupação militar alemã, fugir dos campos de concentração e nos colocar a serviço dos primeiros núcleos de resistência que a França organizara no interior do país. [...] Bosco Martins - Seria possível traçar o perfil de quem colaborou com os alemães e de quem lutou na resistência? Apolônio de Carvalho - Não seria fácil fazer uma delimitação segura. O grande capital ficou com os alemães, mas ficou paralisado

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francesas e nós trabalhávamos para fazer o descarrilamento dos trens e ao mesmo tempo atacar as tropas alemãs. No Tribunal Popular, que criamos com o movimento social e com os comitês de libertação nacional, que se re-

criaram em cada bairro, em cada cidade, preparamos o governo francês para a libertação que viria em 1944. MARTINS, Bosco. Apolônio de Carvalho em entrevista a Bosco Martins. Disponível em: <http://culturadigital.br/raizes/2009/10/21/apolonio-decarvalho-em-entrevista-a-bosco-martins-%E2%80%93-revista-carosamigos>. Acesso em: 22 jan. 2016.

a ) Na primeira parte da entrevista, Apolônio de Carvalho fala de sua prisão no Brasil. Quais contatos ele estabeleceu enquanto estava preso? O que esses contatos significaram para ele? b ) Por que Apolônio foi para a Espanha? Explique quais funções ele desempenhou lá. c ) Como Apolônio foi preso em um campo de concentração na França? d ) Como era a situação da sociedade francesa antes de a Segunda Guerra começar? Na opinião de Apolônio, por que a França se rendeu tão facilmente à Alemanha nazista? e ) Quais eram as ações de Apolônio e seus companheiros contra alemães na França?

Momento da redação 9. Arthur Koestler é um autor húngaro de origem judaica que, no início da Segunda Guerra Mundial, migrou para a Inglaterra. Leia o texto a seguir, escrito em 1967, em que o autor aborda o impacto psicológico que a explosão da bomba atômica em Hiroshima causou na humanidade.

Eu disse existirem duas razões que nos intitulam a chamar nossa época de “única”. A primeira é quantitativa, expressa pelo aumento exponencial das populações, comunicações, poder destrutivo etc. [...] A segunda razão é qualitativa e pode ser resumida numa só frase: antes da bomba termonuclear [lançada em 6 de agosto de 1945], o homem tinha de viver com a ideia de sua morte como indivíduo; de agora em diante, a humanidade tem de viver com a ideia de sua morte como espécie. A bomba deu-nos o poder de cometer genossuicídio [ou seja, o “suicídio da humanidade”,] e, dentro de poucos anos, teremos mesmo o poder de converter nosso planeta em uma nova, ou seja, uma estrela que explodiu. [...] As implicações completas desse fato ainda não nos entraram na cabeça [...]. Fomos sempre ensinados a aceitar a transitoriedade da existência individual, enquanto tomávamos a sobrevivência de nossa espécie como automaticamente garantida. Excluindo-se alguma improvável catástrofe cósmica, era uma crença perfeitamente razoável. Ela, porém, deixou de sê-lo desde o dia em que a possibilidade de engendrar uma catástrofe de dimensões cósmicas foi experimentalmente testada e provada. [...] À medida que os artefatos da guerra atômica e biológica se tornam mais potentes e simples de produzir, torna-se inevitável a sua disseminação pelas nações jovens e imaturas, assim como pelas velhas e maduras demais. Uma invenção, uma vez feita, não pode ser “desinventada”: a bomba veio para ficar. A humanidade tem de viver com ela para sempre; não simplesmente durante a próxima crise e a seguinte, mas para sempre; não durante os próximos vinte, duzentos ou dois mil anos, mas para sempre. Ela tornou-se parte da condição humana. KOESTLER, Arthur. O Novo Calendário. In: O fantasma da máquina. Tradução Christiano Monteiro Oiticica; Hesiodo de Queiroz Facó. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1969. p. 370-3.

Agora, leia um texto que traz informações sobre os países que, em 2009, não faziam parte do Tratado Sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares.

O Tratado Sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares surgiu em [1968], em plena Guerra Fria, mas só foi ratificado em 2002. Assinaram o acordo 188 países, entre os que já possuíam armas nucleares antes de 1967 (Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, China e França) e os que ainda não possuem essa tecnologia. Os cinco signatários que são potências nucleares fazem parte do Conselho de Segurança da ONU e, segundo o acordo, se comprometem a não utilizar e nem transferir armas nucleares para outros países ou ajudá-los a adquiri-las. [...]

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O que preocupa a comunidade internacional no momento é que quatro países que também são claramente detentores de armas nucleares não fazem parte do acordo: Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. [...] [Em maio de 2009], as manchetes dos jornais do mundo inteiro foram os exercícios militares da Coreia do Norte, que disparou mísseis balísticos em direção do mar do Japão e fez um teste subterrâneo com uma arma nuclear da mesma magnitude da bomba de Hiroshima. Seria isso um indício de que a Coreia poderia tentar atacar o Japão? Paulo Resende [PUC-SP] acredita que não, “na verdade, o perigo não é o de que a Coreia do Norte use as armas, mas que ele entre no mercado negro e venda a tecnologia para países do Oriente Médio ou da África”. [...] SATO, Paula. Que países possuem armas nucleares, além da Coreia do Norte? Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/geografia/fundamentos/paises-possuem-armas-nucleares-quais-deles -nao-estao-tratado-nao-proliferacao-armas-nucleares-473379.shtml>. Acesso em: 25 set. 2015.

Veja a opinião do jurista brasileiro Celso Lafer.

Unidade 6

[...] Neste sentido, queremos e precisamos de um mundo em paz. Esta é, pois, mais uma razão para continuarmos a buscar participação ativa nos foros globais, desempenhando, sempre que possível, um papel construtivo na articulação dos consensos que favoreçam o controle, a redução e a eliminação das armas nucleares e dos riscos que trazem para todos. LAFER, Celso. As Novas Dimensões do Desarmamento: os Regimes de Controle das Armas de Destruição em Massa e as Perspectivas para a Eliminação das Armas Nucleares. Disponível em: <www.iea.usp.br/publicacoes/textos/ laferdesarmamento.pdf/at_download/file>. Acesso em: 25 set. 2015.

• Escreva um texto disser tativo-argumentativo expressando sua opinião sobre os riscos

do uso de armas nucleares na atualidade. Considere, em seu tex to, as ideias de Arthur Koestler, as informações acerca do Tratado Sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares, a opinião de Celso Lafer e também seus conhecimentos prévios. Expresse sua opinião por meio de argumentos que respeitem os direitos humanos e procure sugerir medidas que possam reduzir os riscos de uma guerra com a utilização de armas nucleares.

Vestibulares 1. (UFRN) O filósofo alemão Theodor Adorno, refletindo sobre aspectos da sociedade ocidental do século X X, chegou à conclusão de que “Pessoas que se enquadram cegamente em coletividades transformam-se em algo análogo à matéria bruta e omitem-se como seres autodeterminantes. Isso combina com a disposição de tratar os outros como massa amorfa [...]. Aquilo que exemplificava apenas alguns monstros nazistas poderá ser observado hoje em grande número de pessoas, como delinquentes juvenis, chefes de quadrilhas e similares, que povoam o noticiário dos jornais, diariamente [...]. As pessoas dessa índole equiparam-se de certa forma às coisas. Depois, caso o consigam, elas igualam os outros às coisas. A expressão ‘acabar com eles’, tão popular no mundo dos valentões, como no dos nazistas, revela muito bem essa ideia”. COHN, Gabriel (Org). Theodor Adorno. São Paulo: Ática, 1986. p. 40.

O acontecimento da história da Alemanha que, no século XX, serviu de base para as reflexões de Adorno no fragmento anterior foi: a ) a ascensão política dos junker – grandes proprietários, conservadores, protestantes –, que tinham se beneficiado com a alta dos preços, após a Guerra Franco-Prussiana. b ) a agressiva política externa do III Reich, reivindicando territórios da Polônia, que acabaria sendo invadida por Hitler. c ) a política de manutenção da “pureza da raça” ariana, com a eliminação das raças ou elementos considerados inferiores, sobretudo os judeus. d ) a tomada do poder pelo Partido Comunista Alemão, que pregava a revolução socialista como alternativa para sair da crise econômica decorrente do Tratado de Versalhes.

A Segunda Guerra Mundial

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Ampliando seus conhecimentos Arte e história

A “arte degenerada”

No início dos anos 1920, vários movimentos artísticos modernos ganharam força, como o Dadaísmo, o Cubismo, o Fauvismo, o Impressionismo, o Surrealismo e o Expressionismo. Ao assumirem o governo alemão, no entanto, os nazistas proibiram a arte produzida pelos movimentos modernos, argumentando que ela não possuía raízes germânicas e que, em oposição aos modelos clássicos valorizados pela estética nazista, a arte moderna era vista como indecifrável e degenerada.

George Grosz. 1944. Óleo sobre tela. Coleção particular. Foto: Album/akg-images/Latinstock © Estate of George Grosz, Princeton, N.J./AUTVIS, Brasil, 2016

Contrário aos ideais nazistas, o pintor alemão George Grosz exilou-se nos EUA. Influenciado pelo Expressionismo e pelo Futurismo, ele produziu várias obras criticando o regime nazista, entre elas, Caim, ou Hitler no inferno, de 1944, reproduzida abaixo.

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Entartete Kunst, ou “arte degenerada”, foi o termo adotado para classificar obras de arte que não se identificavam com a estética nazista. A “arte degenerada” também foi o tema de várias exposições artísticas organizadas pelos nazistas em cidades da Alemanha e da Áustria. Nessas exposições, que buscavam condenar e desqualificar publicamente a arte contrária à estética nazista, as peças eram penduradas de maneira desorganizada, ao lado de cartazes com frases ridicularizantes. Além disso, os artistas identificados pelos nazistas como degenerados tornaram-se alvo de perseguições, sendo proibidos de exibir, vender e, em alguns casos, de produzir arte. Entre os artistas que tiveram sua arte taxada de degenerada pelo regime nazista, estavam Marc Chagall, Max Ernst, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Piet Mondrian, Lasar Segall, Pablo Picasso, Edvard Munch, Otto Dix e George Grosz. Veja, a seguir, uma pintura de Grosz.


Filme de Jean-Jacques Annaud. Círculo de fogo. EUA, Alemanha, Inglaterra, Irlanda, 2001

Círculo de fogo

O filme Círculo de fogo apresenta o cerco a Stalingrado, uma das campanhas mais agressivas da Segunda Guerra Mundial. O episódio se deu quando as forças alemãs tentaram invadir a cidade de Stalingrado, sob forte resistência soviética. Inspirado em um personagem real, conta a história de um soldado soviético promovido ao posto de atirador de elite. Convencido por um amigo, ele permite que suas vitórias sejam divulgadas pela imprensa, tornando-se rapidamente um herói de guerra e um exemplo para os outros soldados. Filme de Jean-Jacques Annaud. Círculo de fogo. EUA, Alemanha, Inglaterra, Irlanda, 2001. Foto: Perry Kretz/Tri Star Pictures/Album/Latinstock

Ao longo do filme é possível perceber a violência das batalhas e dos crimes de guerra cometidos por ambos os lados e a importância da pro­ paganda na construção dos mitos heroicos para a manutenção dos interesses políticos e a elevação do moral dos combatentes.

Título: Círculo de fogo Diretor: Jean-Jacques Annaud Atores principais: Jude Law, Joseph Fiennes, Rachel Weisz, Bob Hoskins, Ed Harris, Ron Perlman Ano: 2001 Duração: 131 minutos

Cena do filme Círculo de fogo.

Origem: Alemanha, EUA, Inglaterra e Irlanda

Para ler

• •Stalingrado, o cerco fatal, de Antony Beevor. Editora Record. A partir da descoberta de documentos dos arquivos alemão e russo, o autor expõe e compara as estratégias dos dois lados na batalha, revelando o aspecto humano de uma das mais terríveis campanhas da história das guerras.

• •O diário de Anne Frank, de Anne Frank. Editora Record. O diário é um registro da vida de uma adolescente judia que viveu na Holanda durante a Segunda Guerra Mundial.

• •Hiroshima,

de John Hersey. Editora Companhia das Letras. Um ano após a bomba atômica atingir a cidade de Hiroshima, o autor entrevistou seis sobreviventes do episódio. Quarenta anos depois, ele recolhe novos depoimentos e os reúne nesse livro, que expõe o poder destrutivo das armas nucleares.

• •Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial, de Francisco César Ferraz. Editora Jorge Zahar. O livro elucida as circunstâncias que envolveram a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial e as consequências do fato para o país.

Para navegar

• •Tratado Sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares. Disponível em: <http://

tub.im/sm2ojc>. Acesso em: 11 abr. 2016. Decreto n o 2.864, de 7 de dezembro de 1998, que promulga o Tratado Sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares, assinado em Londres, Moscou e Washington, em 1o de julho de 1968.

• •Anne

Frank. Disponível em: <http://tub.im/zohkr7>. Acesso em: 11 abr. 2016. Página dedicada a Anne Frank, com opção de navegação em português. Informações sobre a vida da jovem na Alemanha, o esconderijo da família na Holanda e o Diário escrito por ela. A Segunda Guerra Mundial

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Unidade 6

A história no cinema


unidade

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As transformaçþes mundiais durante a Guerra Fria


Após o final da Segunda Guerra Mundial, os países mais ricos e industrializados da Europa, como a França, a Inglaterra e a Alemanha, enfrentavam uma situação extremamente difícil: haviam perdido grande parte de sua população jovem, a maioria de suas instalações industriais tinha sido destruída e sua economia estava arrasada. Os Estados Unidos, por sua vez, tinham se tornado a maior potência econômica e militar do planeta. A União Soviética, porém, tinha poderosas forças armadas e, assim como os Estados Unidos, também dominava a tecnologia de fabricação de armas nucleares. Nesse contexto, configurou-se o chamado mundo bipolar, em que havia dois sistemas político-econômicos diametralmente opostos: o capitalismo, representado pelos Estados Unidos, e o socialismo, representado pela União Soviética. Nesta unidade, vamos estudar como a disputa entre essas duas superpotências deu origem à Guerra Fria, em que cada uma delas procurava expandir suas respectivas áreas de influência, buscando conquistar o maior número possível de países aliados. Vamos verificar como essa disputa levou os dois países à corrida armamentista, que deu origem a um gigantesco arsenal bélico, capaz de provocar a destruição em escala global. Entenderemos também como essa disputa entre o capitalismo e o socialismo se refletiu em diversos países, provocando guerras e movimentos revolucionários. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

A

Quais são os elementos em destaque nesta fotografia?

B

Você sabe quem organizou esse evento? E com quais objetivos?

C

Por que a disputa entre EUA e URSS ficou conhecida como Guerra Fria? Comente.

Yevgeny Khaldei/ Corbis/Latinstock

Fotografia de 1963 que mostra a população nas ruas de Moscou assistindo a um desfile militar composto por tropas, tanques de guerra e mísseis.

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A configuração da Guerra Fria

Nesse contexto, após a Conferência de Potsdam, o ex-primeiro-ministro inglês Winston Churchill, em visita aos EUA, fez um discurso alertando os políticos estadunidenses sobre a dominação hegemônica da URSS no leste europeu, a qual ele chamou de “cortina de ferro”. Leia um trecho desse discurso.

George Skadding/The LIFE Picture Collection/Getty Images

Conferência de Potsdam: realizada na Alemanha, em 1946, essa conferência foi liderada por representantes dos países Aliados, vitoriosos na Segunda Guerra Mundial. Durante a conferência, esses líderes negociaram a política de ocupação territorial da Alemanha e o cenário geográfico e político da Europa no pós-guerra.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa estava arrasada. As grandes potências imperialistas europeias, entre elas Inglaterra, França e Alemanha, perderam sua hegemonia para os Estados Unidos, que haviam se tornado o país mais poderoso do mundo. Por outro lado, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, apesar das perdas sofridas durante a guerra, ainda possuía o maior exército do mundo e passava por uma rápida industrialização. Além disso, o exército soviético ocupou territórios de vários países na Europa Oriental, dando início à expansão do socialismo para essas regiões.

[...] “Uma sombra desceu sobre o cenário até bem pouco iluminado pela vitória aliada. Ninguém sabe o que a [União] Soviética e sua organização comunista internacional pretendem fazer no futuro imediato, ou quais os limites, se os há, de suas tendências expansionistas e de proselitismo” [...]. “[...] Caiu sobre o continente europeu uma cortina de ferro. Atrás desta linha estão todas as capitais dos antigos Estados da Europa Central: Varsóvia; Berlim; Praga; Viena; Budapeste; Belgrado; Bucareste e Sófia. Essas famosas cidades e suas populações estão sob o que devo chamar de ‘esfera soviética’” [...]. CHURCHILL, Winston. O discurso em Fulton, 5 maio 1946. In: HEIN, Leslie Lothar. Guerra Fria: uma nova ordem internacional. Núcleo de Estudos contemporâneos. Universidade Federal Fluminense. Disponível em: <http://www.historia.uff.br/nec/ guerra-fria-uma-nova-ordem-internacional>. Acesso em: 25 nov. 2015.

Churchill discursa na Universidade de Westminster, nos EUA, em 1946.

A Organização das Nações Unidas Em junho de 1945, durante a Conferência de São Francisco, foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU), com o objetivo de substituir a Liga das Nações. Inicialmente, a carta com os propósitos básicos da ONU foi assinada por 51 países, inclusive pelo Brasil. De acordo com a carta, o objetivo central da ONU era manter a paz mundial promovendo o diálogo e a diplomacia entre os Estados independentes do globo. Contudo, desde sua criação, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, EUA, França, URSS (hoje representada pela Rússia), China e Inglaterra, possuem poder de vetar todas as resoluções da organização e têm, por diversas vezes, deixado seus interesses prevalecerem sobre o interesse internacional.

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A Doutrina Truman e o Plano Marshall Em consonância com o discurso de Churchill, o então presidente estadunidense Harry Truman oficializou, em 1947, uma nova orientação política que visava conter a influência do comunismo soviético em outros países. De acordo com essa orientação, denominada Doutrina Truman, os EUA assumiriam a posição de líder dos países capitalistas ocidentais para enfrentar o avanço soviético, oferecendo apoio econômico e, principalmente, militar aos países capitalistas da Europa. Como complemento econômico dessa doutrina, ainda em 1947 foi lançado o Plano Marshall, idealizado pelo secretário de Estado estadunidense George Marshall. O plano previa ajuda econômica para a reconstrução dos países europeus arrasados pela guerra, principalmente Inglaterra, França e Alemanha. O auxílio econômico não seria apenas uma obra de ajuda humanitária aos países europeus, pois os EUA tinham interesse na manutenção do capitalismo na Europa, caso contrário, aumentavam as chances de expansão do socialismo no continente.


As alianças militares A política de contenção do avanço do socialismo soviético, lançada pela Doutrina Truman, foi reforçada com a criação, em 1949, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Esse tratado foi firmado para funcionar como um escudo militar do Ocidente capitalista contra a expansão do bloco soviético. Além dos EUA, faziam parte dessa aliança a maioria dos países da Europa Ocidental, o Canadá e outros Estados capitalistas. Em 1955, a Alemanha Ocidental se vinculou à Otan. Em resposta, os países socialistas do leste europeu, sob a liderança da URSS, assinaram o Pacto de Varsóvia, que previa o apoio mútuo entre os países socialistas em caso de conflitos armados. Participaram desse tratado URSS, Polônia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia e Bulgária.

Comecon: Conselho para Assistência Econômica Mútua, oficializado em 1949. Esse bloco era liderado pela URSS, que buscava fornecer ajuda militar e econômica aos países do bloco socialista, fazendo frente, assim, aos EUA, que apoiavam as nações capitalistas por meio da Otan e da Doutrina Truman.

As áreas de influência (1945 a 1989) N

OCEANO GLACIAL ÁRTICO ALEMANHA ORIENTAL

O

Círculo Polar Ártico

L S

UNIÃO SOVIÉTICA ALEMANHA OCIDENTAL

ESTADOS UNIDOS

ARÁBIA SAUDITA

VENEZUELA GUIANA FRANCESA

OCEANO PACÍFICO

BRASIL

ARGENTINA

Estados Unidos e Aliados (Otan) Países alinhados com os Estados Unidos União Soviética e Aliados (Pacto de Varsóvia) Países alinhados com a União Soviética Países não alinhados

OCEANO ATLÂNTICO

ÍNDIA

COREIA DO SUL VIETNÃ

OCEANO PACÍFICO

ETIÓPIA AFEGANISTÃO

Meridiano de Greenwich

Débora Ferreira

Trópico de Capricórnio

LÍBIA

CUBA HONDURAS NICARÁGUA

COREIA DO NORTE

CHINA

MARROCOS

Trópico de Câncer

Equador

MONGÓLIA

CONGO ZAIRE

OCEANO ÍNDICO

ANGOLA

ÁFRICA DO SUL

Unidade 7

CANADÁ

MADAGASCAR

AUSTRÁLIA

OCEANO GLACIAL ANTÁRTICO

Círculo Polar Antártico

0

2 190 km

Fonte: VOLPE, Fabio (Ed.). Almanaque Abril 2015. São Paulo: Abril, 2015.

Após o final da guerra, a Alemanha, que saiu derrotada da guerra, foi dividida em quatro partes, cada uma entregue a um país vencedor: Inglaterra, França, EUA e URSS. No final da década de 1940, os países capitalistas se uniram e formaram, no lado ocidental alemão, a República Federal Alemã (RFA), também conhecida como Alemanha Ocidental, com capital em Bonn. O lado oriental, por sua vez, ficou vinculado à URSS e recebia verbas do Comecon. Nessa região foi formada a República Democrática Alemã (RDA), ou Alemanha Oriental, com capital em Berlim. Assim como a Alemanha, a cidade de Berlim foi dividida em duas áreas de influência: o lado capitalista e o lado socialista. Para impedir a passagem de pessoas do lado socialista para o capitalista, em 1961 o governo socialista da Alemanha Oriental iniciou a construção de um grande muro que dividia a cidade: o Muro de Berlim, que era vigiado 24 horas por dia. Esse muro existiu por 28 anos e foi um dos símbolos da Guerra Fria.

Edwin Reichert/AP Photo/Glow Images

A divisão da Alemanha

Fotografia do Muro de Berlim em 1967.

As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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EUA 5 URSS Roman Cieslewicz. 1968. Ilustração. Coleção particular. Foto: David Pollack/Corbis/Latinstock

Como vimos, com o término da Segunda Guerra Mundial, os EUA e a URSS despontaram como grandes potências mundiais. A partir de então, o cenário geopolítico passou a contar com dois grandes blocos antagônicos: um capitalista e o outro socialista. Nesse contexto, teve início uma disputa ideológica, política e econômica por áreas de influência entre os governos capitalista dos EUA e socialista da URSS. Essa disputa ficou conhecida como Guerra Fria, já que as duas grandes potências não chegaram a se enfrentar diretamente, embora fornecessem ajuda militar aos países com os quais se aliaram.

Teoria capitalista De acordo com o sistema capitalista, as leis de um país devem assegurar o direito à propriedade privada dos bens. Assim, os cidadãos que possuem recursos para investir, chamados de capitalistas, os aplicam na produção de novos bens e serviços, gerando lucros que aumentam ainda mais o capital acumulado. Capa da revista francesa Opus International, ilustrada por Roman Cieslewicz, em 1968. Ela mostra dois super-heróis quase idênticos, sendo diferentes as siglas estampadas em seus uniformes. O da esquerda traz a sigla CCCP (sigla em russo para URSS); já o da direita traz a sigla USA (sigla em inglês para EUA). A capa faz uma crítica à disputa de força entre URSS e EUA durante a Guerra Fria. Geopolítica: é um campo do conhecimento, comumente relacionado à Geografia, que envolve outras ciências, como a Ciência Política, a Economia e a Demografia. Analisa as relações e as disputas de poder entre os Estados, considerando sua atuação sobre o espaço mundial: seus territórios geográficos, seus domínios, áreas de influência e população, por exemplo.

O tema desta página favorece o trabalho interdisciplinar com Sociologia. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

Além disso, as leis de um país capitalista devem garantir aos cidadãos a possibilidade de escolher os produtos que desejam comprar. O Estado deve evitar intervenções na economia, com base no pressuposto liberalista de que o mercado deve ser regulado pela lei da oferta e da procura. Os capitalistas procuram promover o consumismo, estimulando os cidadãos a comprar grandes quantidades de produtos. O consumismo é incentivado principalmente pela propaganda veiculada pelos meios de comunicação de massa. Por meio das propagandas, os capitalistas apresentam os produtos destinados ao consumo de cada grupo social, tentando associar a posse desses produtos à aquisição de status e de prazer imediato.

Teoria socialista No sistema socialista, por outro lado, os meios de produção, como as terras e as indústrias, devem ser compartilhados. No socialismo não há propriedade privada de meios de produção, apenas propriedades estatais. Além disso, em todas as atividades, os trabalhadores devem servir à coletividade e ao Estado. Outra característica importante do socialismo é a planificação da economia pelo Estado. São os altos funcionários do governo socialista que determinam diversos aspectos da economia, como o valor dos salários pagos aos trabalhadores, quais bens devem ser produzidos, a quantidade de cada produto que uma pessoa pode dispor etc. Enquanto os EUA defendiam os princípios capitalistas, os governantes da URSS passaram o período da Guerra Fria buscando propagar o socialismo pelo mundo. Esse sistema era caracterizado pela existência de um único partido político: o Partido Comunista (PC), responsável por todas as funções do Estado. Por se diferenciar em alguns aspectos das ideias teóricas propostas por Marx e Engels, esse sistema político-econômico colocado em prática na URSS ficou conhecido como “socialismo real”. Capitalismo e socialismo na prática O sistema capitalista produziu enormes riquezas que, no entanto, não foram distribuí­d as de forma equitativa. Por isso, nos países capitalistas ge­ralmente há grandes desigualdades sociais. No caso dos países onde o sistema socialista foi implemen­t ado, o chamado “socialismo real” não garantiu uma distribuição igualitária das mercadorias e dos benefícios do Estado. Isso ocorreu por causa, entre outros motivos, da formação de uma burocracia privilegiada que se apoderou do poder político e econômico.

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A propaganda ideológica

Refletindo

O mundo bipolar dividido ideologicamente suscitou intensa campanha publicitária patrocinada pelos governos capitalistas e socialistas. Nos Estados Unidos, a propaganda veiculada em desenhos, cartazes e filmes procurava ressaltar o progresso material alcançado pelo capitalismo, a liberdade e o conforto material advindos desse sistema econômico. Na União Soviética, a ideologia socialista era propagandeada de forma semelhante, em campanhas publicitárias que enalteciam as virtudes do igualitarismo e da justiça social, de modo a divulgar os valores do regime socialista, principalmente para a juventude. Além da exaltação de seus respectivos sistemas econômicos, EUA e URSS também recorriam a insultos e ironias com o objetivo de desqualificar o regime defendido por seu oponente. B

Fria as campanhas publicitárias veiculadas pelos governos eram recorrentes. O que você sabe sobre esses tipos de anúncios na atualidade? Sobre o que eles tratam? Converse com os colegas. Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.

Cartaz de 1951.

Unidade 7

Autor desconhecido. 1951. Litografia colorida. Coleção particular. Foto: Peter Newark Military Pictures/Bridgeman Images/Easypix

Autor desconhecido. 1951. Pôster. Arquivos Nacionais e Administração de Documentos, Washington, D.C. (EUA). Foto: U.S. Information Agency

A

••Durante a Guerra

Cartaz de 1951.

Os serviços de inteligência Durante a Guerra Fria, o acesso às informações secretas do inimigo era essencial e, por isso, tanto os EUA como a URSS mantinham serviços de inteligência. Os estadunidenses tinham a Agência Central de Inteligência (CIA, sigla do nome da agência em inglês), criada em 1947, e os soviéticos, o Comitê de Segurança do Estado (KGB, sigla do nome do comitê em russo), criado em 1954. Essas agências atuavam na obtenção de informações secretas por meio da espionagem, infiltrando seus agentes em muitos países sob influência da potência rival. Com isso, planos políticos e projetos militares para a construção de aviões supersônicos, de submarinos atômicos e de espaçonaves, por exemplo, não estavam totalmente seguros. Além disso, essas agências exerciam um papel importante dentro de seus próprios países, pois, por serem controladas pelo governo, perseguiam pessoas que eram consideradas subversivas, ou mesmo traidoras, que pudessem agir de forma a favorecer o rival. Assim, as agências de espionagem representavam também um mecanismo de controle ideológico sobre a população.

Explorando a imagem

••Observe os

cartazes A e B. Qual deles foi produzido pelo governo estadunidense e qual foi produzido pelos soviéticos? Justifique sua resposta. Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.

As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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Os Países Não Alinhados Enquanto os EUA e a URSS disputavam áreas de influência, as potências imperialistas europeias, desgastadas pela guerra, não conseguiram impedir o processo de independência de suas colônias na Ásia e na África. Muitos dos governantes dessas novas nações independentes não pretendiam se alinhar a um dos dois blocos, o estadunidense ou o soviético.

A Conferência de Bandung Em abril de 1955, governantes de 29 países da Ásia, do Oriente Médio e da África se reuniram na Conferência de Bandung, realizada na Indonésia, e criaram um documento no qual exigiam que todos os povos tivessem o direito de se constituírem como nações plenamente independentes, condenavam o imperialismo e o racismo, além de exigirem o direito de ter um papel mais ativo nas questões internacionais, principalmente naquelas que os afetavam diretamente.

Os 29 países participantes da Conferência de Bandung foram: Ásia: Afeganistão, Birmânia, Camboja, Ceilão, China, Filipinas, Índia, Indonésia, Japão, Laos, Nepal, Paquistão, Vietnã do Norte, Vietnã do Sul e Tailândia. Oriente Médio: Arábia Saudita, Iêmen, Irã, Iraque, Jordânia, Líbano, Síria e Turquia. África: Costa do Ouro (atual Gana), Etiópia, Egito, Líbia, Libéria e Sudão.

Akg-Images/Latinstock

Países participantes

••

••

••

Zhou Enlai, representante da China, faz um discurso durante a Conferência de Bandung, na Indonésia, em 1955.

Esses países deram início ao grupo que ficou conhecido como Movimento dos Paí­ses Não Alinhados, ao qual aderiram Índia, Egito, Iugoslávia, entre outros. Entre os Não Alinhados, havia países de regime socialista e também de regime capitalista. Eles rejeitaram a ideia de divisão do planeta em dois blocos ideológicos, o capitalista e o socialista, e enfatizaram que o mundo, na realidade, estava dividido entre países ricos e países pobres. Dessa forma, os Não Alinhados se autodefiniram como países formadores do Terceiro Mundo, criando o chamado terceiro-mundismo. O Primeiro Mundo, por sua vez, seria constituído pelos países capitalistas desenvolvidos alinhados aos EUA, e o Segundo Mundo seria composto pelos países socialistas desenvolvidos alinhados à URSS.

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A corrida espacial Durante a Guerra Fria, os EUA e a URSS também investiram no desenvolvimento de tecnologia espacial. Esses investimentos eram estratégicos, pois os foguetes utilizados nos lançamentos de espaçonaves e satélites podiam ser utilizados para lançar mísseis nucleares a longa distância. Além disso, os satélites colocados na órbita terrestre poderiam servir para a monitoração e o controle do que acontecia nas mais diversas regiões do planeta.

À esquerda, Yuri Gagarin, primeiro homem que completou uma volta em torno da Terra no espaço. “A Terra é azul”, disse o cosmonauta, durante sua viagem a bordo de uma cápsula espacial. Fotografia de 1961. À direita, a cosmonauta Valentina Tereshkova, em fotografia de 1963. JSC PAO Web Team/NASA

Os estadunidenses, por sua vez, foram os primeiros a alcançar a Lua, com Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin a bordo da astronave Apolo 11, em 1969. A partir de então, os dois países passaram a adotar uma política de cooperação, compartilhando algumas informações das suas pesquisas espaciais. Fotografia de 1969 que retrata, da esquerda para a direita, os astronautas estadunidenses Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin.

Passado e presente

A exploração do espaço na atualidade

Com o fim da Guerra Fria, em 1989, EUA e URSS deixaram de disputar a supremacia na exploração espacial. Atualmente, além de EUA e Rússia (antigo membro da URSS), paí­ses dos cinco continentes possuem tecnologia espacial. Veja na tabela. Países que mais investiram em tecnologia espacial (2009) Continentes África América

Países África do Sul. Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina, México, Chile.

Ásia

China, Coreia do Sul, Índia, Israel, Japão, Rússia, Indonésia, Turquia.

Europa

França, Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Noruega, Áustria, Suíça, Finlândia, Portugal, Ucrânia, Grécia, Irlanda, Luxemburgo, Suécia, Dinamarca, República Tcheca.

Oceania

Austrália. Fonte: The Space Economy at a Glance – 2011. p. 53. Disponível em: <www.oecd-ilibrary.org/ economics/the-space-economy-at-a-glance-2011_9789264111790-en>. Acesso em: 2 maio 2016.

As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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Unidade 7

RIA Novosti/Sputnik/SPL/Latinstock

TASS Archive/ITAR-TASS/Diomedia

Os soviéticos saíram na frente, dando início à corrida espacial ao lançar um satélite artificial na órbita terrestre, o Sputnik I, em 1957. Eles também foram os primeiros a enviar um homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 1961, e uma mulher, Valentina Tereshkova, em 1963.


A corrida armamentista

Fotografia que retrata teste de bomba nuclear em Nevada, nos EUA, em 1951.

Os EUA e a URSS foram os países que saíram mais fortalecidos da Segunda Guerra Mundial. Eles se tornaram grandes rivais nas décadas seguintes. Essa rivalidade se manifestava de modo dramático na chamada corrida armamentista, que era a disputa pela capacidade de produzir armas cada vez mais destrutivas.

As armas nucleares Desde 1942, com o chamado Projeto Manhattan, os EUA se empenhavam na construção da bomba atômica. Esse ambicioso plano foi dirigido pelo físico Robert Oppenheimer. A primeira bomba produzida pelo projeto foi testada em junho de 1945, no deserto do estado estadunidense do Novo México. Nessa ocasião, Oppenheimer e mais três cientistas recomendaram a utilização da bomba contra o Japão, uma decisão da qual se arrependeriam posteriormente. Após o fim da Segunda Guerra, em 1946, os EUA continuaram os testes atômicos no Atol de Bikini, no oceano Pacífico, aperfeiçoando a tecnologia até criarem a bomba de hidrogênio, que tem poder destrutivo muitas vezes maior que o da bomba atômica. Os soviéticos, que desde 1945 já tinham o projeto de construir uma bomba atômica, aceleraram seu programa nuclear e, em 1949, testaram, com sucesso, a sua primeira bomba no deserto do Cazaquistão. Além das bombas nucleares, os EUA e a URSS desenvolveram mísseis intercontinentais, que podiam ser lançados a longas distâncias para atingir o território inimigo. A produção dessas armas e a possibilidade de uma guerra nuclear provocavam pânico nos habitantes desses países. A “Destruição Mútua Assegurada”

Everett Historical/ Shutterstock.com

O Secretário da Defesa dos EUA, Robert McNamara, criou uma expressão que resumia a relação crítica dos EUA e da URSS: MAD (Mutual Assured Destruction, traduzida do inglês Destruição Mútua Assegurada). Essa expressão significava que, se uma das partes realizasse um ataque nuclear à outra, a potência atingida, mesmo após sofrer terríveis perdas, teria condições de lançar um poderoso contra-ataque, garantindo a destruição mútua, ou seja, de ambos os países rivais. Diante do potencial destrutivo das armas nucleares e da catástrofe que ocorreria no caso de uma nova guerra mundial, os governos dos EUA e da URSS fizeram acordos estabelecendo limites à corrida armamentista. Assim, em 1963 os governantes dos dois países assinaram o Tratado de Banimento Parcial de Testes Nucleares e, em 1968, o Tratado Sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares.

Linha do tempo 1942

Os EUA iniciam o Projeto Manhattan, com objetivo de construir a bomba atômica.

1930

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Era Nuclear 1945

Os EUA lançam bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.

1940

1949

A URSS explode sua primeira bomba atômica.

1950


Míssil balístico lançado pelo Paquistão, em 2008.

Guerra nas Estrelas Em 1983, o governo dos EUA lançou um programa estratégico que ficou conhecido como Guerra nas Estrelas. Tratava-se da construção de uma barreira espacial que protegeria os EUA contra ataques nucleares. Um conjunto de radares e uma rede de satélites artificiais possibilitariam a localização e o rastreamento de mísseis balísticos poucos minutos após seu lançamento. Assim, eles poderiam ser interceptados e destruídos ainda durante a sua trajetória. No entanto, esse programa mostrou-se inviável na época, além de muito caro ao governo.

Armas nucleares

Rússia

10 000

EUA

8 000

Reino Unido

225

Embora a possibilidade de uma guerra nuclear intencional tenha diminuído desde o fim da Guerra Fria, a existência de milhares de armas nucleares representa uma grande ameaça global.

França

300

China

240

Índia

80-100

Paquistão

90-110

Apesar dos acordos para reduzir o arsenal nuclear mundial, o número de países que possuem a bomba atômica continua crescendo.

Israel

80

Coreia do Norte

5

Total aprox.

19 000

Crise dos Mísseis, considerada o episódio mais tenso da Guerra Fria.

1960

1968

Os governos dos EUA e URSS assinam o Tratado Sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares.

1970

ck .c r ph/ Shu t t er s t o t t Mu

S co

Atualmente, por causa dos problemas ambientais que a produção de energia provoca (principalmente quando o processo envolve a queima de combustíveis fósseis), vários grupos de técnicos e cientistas têm trabalhado no desenvolvimento de novas formas de obtê-la. Entre as formas alternativas está a energia nuclear, cuja produção é muito promissora, mas tem provocado muitas polêmicas. Essa energia quase não libera gases na atmosfera e por isso não contribui para o aquecimento global. Porém, produz lixo atômico, que é extremamente nocivo. Além disso, acidentes ou mau uso dessa energia podem causar grandes catástrofes.

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Fonte: Arms Control Association, Washington, 2010.

A energia nuclear

1962

Unidade 7

Atualmente, nove países são conhecidos por possuírem armas nucleares: China, França, Índia, Israel, Coreia do Norte, Paquistão, Rússia, Reino Unido e EUA.

Países

Stringer/Reuters/Latinstock

Conflitos na atualidade

Símbolo da radiação nuclear.

1989

1972

EUA e URSS assinam o Tratado de Limitação de Armas Estratégicas (Salt I).

1980

A queda do Muro de Berlim simboliza o fim da Guerra Fria.

1990

1991

Assinatura do Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start) pelos EUA e pela URSS.

2000

As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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A criação do Estado de Israel A Palestina, no início do século XX, fazia parte do Império Turco-Otomano, que dominava grande parte do Oriente Médio. Com o final da Primeira Guerra Mundial e a derrota dos turcos, foi instalado um mandato britânico para administrar a Palestina. Os líderes do povo árabe, que era majoritário na Palestina, passaram a negociar com os britânicos a possibilidade de constituírem um Estado independente. Underwood & Underwood/Corbis/Latinstock

Nessa época, ganhou força o Movimento Sionista, promovido por judeus europeus que exigiam o direito de formarem uma pátria judaica única, fundamentada em suas próprias tradições milenares. Muitos deles argumentavam que seus ancestrais viveram durante muito tempo na Palestina, até serem expulsos da região pelos romanos, no século II. Com o objetivo de se estabelecer na Palestina, judeus de várias nacionalidades passaram a comprar terras nessa região, no início do século XX. Porém, os árabes da Palestina, em sua maioria, não aceitavam a imigração judaica para o seu território, pois associavam esse processo à manutenção do colonialismo britânico na região.

Hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latinstock

Fotografia do início do século XX que retrata judeus trabalhando em uma propriedade na Palestina.

Percebendo a iminência de um confronto direto entre árabes e judeus na Palestina, os britânicos armaram policiais, dos dois lados, para conter um possível levante popular. Entre 1936 e 1939, eclodiu um levante árabe, que foi duramente reprimido pelas tropas britânicas, auxiliadas pelos policiais árabes e judeus. Os governantes britânicos passaram, então, a defender uma partilha da Palestina para que os dois grupos pudessem conviver pacificamente na mesma região. Além disso, eles criaram mecanismos para controlar a imigração judaica para a região, que vinha crescendo por causa das perseguições nazistas na Europa.

Combatentes judeus na Palestina durante o levante árabe, em 1938.

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A partilha da Palestina

Galileia Haifa Nazaré Telaviv

ock

S

TRANSJORDÂNIA Unidade 7

EGITO Eilat 0

60 km

Fonte: Atualidades vestibular. São Paulo: Abril, 2009.

Hulton-D eutsch Collection/Corbis/Latinst

SÍRIA

L

31° N

35° L

Fundamentalismo: movimento que busca a integração de uma etnia específica segundo princípios religiosos fundamentais, que devem ser seguidos à risca, como verdades indiscutíveis.

O

Ramallah Jerusalém Gaza Hebron Mar Morto Neguev

Em algumas regiões, milícias de israelenses passaram a atacar os árabes palestinos, muitos dos quais se refugiaram em outros países árabes da região, como Jordânia, Iêmem, Síria e Egito. Enquanto isso, judeus que viviam há gerações em países árabes também foram sistematicamente atacados e muitos deles emigraram para a Palestina. O fundamentalismo das milícias de árabes e de judeus, geralmente apoiadas por pessoas ricas ou politicamente influentes, tornou-se um grande empecilho para que se efetivasse o convívio pacífico entre palestinos e israelenses. Alguns meses depois que a ONU declarou a partilha da Palestina, as tropas britânicas se retiraram da região. Logo após, em 14 de maio de 1948, o líder judeu David Ben-Gurion declarou a fundação do Estado independente judaico, chamado Israel.

N

Mar LÍBANO Mediterrâneo

E. Cavalcante

A partilha da Palestina em 1947

Rio Jor dã o

No final da Segunda Guerra Mundial, grande parte da comunidade internacional, chocada com o Holocausto, passou a apoiar o Movimento Sionista e a fundação de um Estado judeu. Diante disso, a Assembleia Geral da ONU declarou, em 1947, que o território da Palestina seria dividido em dois Estados independentes: um governado pelos palestinos e o outro pelos judeus. Os representantes dos EUA e da URSS na ONU apoiaram a decisão, pois desejavam diminuir a influência britânica na região. Os representantes de países árabes, porém, se opuseram à decisão, o que aumentou a tensão na Palestina.

Estado judeu Estado árabe-palestino Países árabes

Fotografia tirada no dia em que as tropas britânicas deixaram a Palestina, em 1948.

As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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Os conflitos árabe-israelenses Assim que foi declarada a fundação do Estado de Israel, teve início uma série de conflitos entre árabes e israelenses.

••Guerra árabe-israelense (1948-1949): ao fundarem um Estado, os israelenses so-

AP Photo/Glow Images

freram ataques de países árabes (Egito, Síria, Líbano, Iraque e Jordânia). As tropas israelenses ainda não estavam bem estruturadas, mas foram beneficiadas pela discordância entre os governantes árabes. Os israelenses resistiram até conseguir comprar mais armas e aviões da URSS, quando passaram à ofensiva, obrigando os árabes a admitirem a derrota e a assinarem um armistício em 1949. Ao fim da guerra, os israelenses haviam expandido seu território sobre quase toda a Palestina, ficando a Cisjordânia e parte de Jerusalém com a Jordânia, e a Faixa de Gaza com os egípcios.

Fotografia que mostra refugiados árabes da Palestina indo para o Líbano em 1948.

••Guerra de Suez (1956-1957): em 1955, o presidente egípcio Gamal Nasser blo-

queou o acesso dos israelenses ao mar Vermelho pelo golfo de Ácaba, ao sul de Israel. Nessa época, o canal de Suez, que liga o mar Vermelho ao mar Mediterrâneo, era dominado por uma companhia de capital francês e britânico. Em julho de 1956, Nasser estatizou essa companhia, impedindo que os israelenses chegassem ao mar Vermelho através do canal. Diante disso, Israel ocupou a Faixa de Gaza e atravessou a península do Sinai, chegando até o canal de Suez, com o apoio de tropas e de aviões franceses e britânicos. Porém, depois de pressões diplomáticas estadunidenses e soviéticas, os israelenses desistiram da ocupação, e uma força da ONU ocupou a região. Em 1957, Israel devolveu o Sinai ao Egito.

A Opep A partir da fundação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em 1960, os países árabes passaram a exercer maior influência no cenário mundial. A região do Oriente Médio, por ser a mais rica em petróleo do mundo, vem sendo, desde o início do século XX, cobiçada por muitos países. A Opep é um cartel utilizado pelos países que exportam petróleo bruto (árabes, em sua maioria) para estabelecer diretrizes de mercado, como o valor de venda do produto. Atualmente, fazem parte dessa organização: Arábia Saudita, Iraque, Kuait, Irã, Catar, Emirados Árabes Unidos (EAU), Argélia, Líbia, Nigéria, Angola, Venezuela e Equador.

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• Guerra dos Seis Dias (1967): depois que as tropas da ONU saíram da região de

Golfo de Suez

Golfo de Ácaba

Território ainda ocupado por Israel em 1979

ARÁBIA SAUDITA

EGITO

N O

0

85 km

Mar Vermelho

35° L

L S

Fonte: Atualidades vestibular. São Paulo: Abril, 2009.

Pedro Carrilho/Folhapress

Os conflitos prosseguiram na Palestina, mas os israelenses, apesar das vitórias nas guerras, começaram a enfrentar dificuldades por conta dos altos gastos militares e do seu isolamento do mundo árabe. Os países árabes, por sua vez, não conseguiram unir forças contra Israel. Além disso, fracassou a estratégia árabe de utilizar o controle sobre os preços do petróleo como arma política e, assim, os territórios palestinos continuaram sob ocupação israelense.

No centro dos conflitos entre palestinos e israelenses está a cidade de Jerusalém, considerada sagrada para três religiões: judaísmo, islamismo e cristianismo. Quando a ONU criou o Estado de Israel, em 1948, deu a Jerusalém o status de “cidade internacional”. No entanto, palestinos e israelenses ainda não conseguiram chegar a um acordo sobre o futuro dessa cidade.

As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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Unidade 7

Canal de Suez

Rio Jordão

E. Cavalcante

Suez, em maio de 1967, tropas egípcias (apoiadas por países árabes como Síria e Jordânia) se mobilizaram na península do Sinai, em oposição às forças israelenses que também estavam na região. Nesse contexto de tensão entre ambos os lados, em junho de 1967, a força aérea e o exército israelense realizaram uma ofensiva que durou 6 dias. As invasões foram realizadas por motivos considerados estratégicos, principalmente para garantir o abastecimento de água proveniente do rio Jordão e aumentar a segurança das fronteiras do Estado de Israel. No final do conflito, Israel consolidou a ocupação da península do Sinai, da Cisjordânia, da Faixa de Gaza, além da cidade de Jerusalém e das colinas de Golã, na Síria (onde se encontra a nascente do rio Jordão). A Palestina no final Guerra do Yom Kippur (1973): depois de se recuperarem da década de 1970 da derrota na Guerra dos Seis Dias, os exércitos do Egito e LÍBANO da Síria efetuaram um ataque surpresa contra Israel, em 6 de Colinas outubro de 1973, no Dia do Perdão judaico (Yom Kippur). A de Golã Síria ocupou Golã, enquanto o Egito dominava o Sinai, amSÍRIA bos com o apoio soviético. No entanto, os estadunidenses abasteceram o exército israelense, que, dias depois, conCisjordânia Telaviv seguiu dominar o Sinai e as colinas de Golã. Durante a Ramallah Mar Jerusalém guerra, os membros árabes da OPEP estabeleceram limiMediterrâneo Faixa Mar tes à produção de petróleo e passaram a controlar os prede Gaza Morto JORDÂNIA ços internacionais do produto. O principal objetivo dessa ISRAEL medida era exercer pressão sobre os países do Ocidente, 31° N para que estes obrigassem Israel a desocupar territórios Território devolvido palestinos. O resultado dessa política foi o chamado Chopor Israel ao Egito (Tratado de que do Petróleo, um aumento súbito do preço do produto Península Washington, 1979) em escala mundial. do Sinai


A Revolução Chinesa No início do século XX, a China era um país monarquista e industrialmente atrasado. Nessa época, a população estava cada vez mais descontente por causa da conivência do monarca com a exploração imperialista que os britânicos praticavam no país. Em 1911, membros do Kuomintang (Partido Nacionalista do Povo), liderados por Sun Yat-sen, derrubaram a Monarquia e instauraram uma República na China.

A China socialista Autor desconhecido. c. 1966. Selo postal. Coleção particular. Foto: Pixeljoy/Shutterstock.com

Em 1921, foi fundado o Partido Comunista da China (PCC), liderado por Mao Tse-tung. Em um primeiro momento, esse partido se uniu ao Kuomintang para impedir o retorno da Monarquia ao poder. Porém, a partir de 1925, os dois partidos passaram a lutar por objetivos diferentes. Os nacionalistas do Kuomintang, agora sob a liderança de Chiang Kai-chek, aliaram-se aos conservadores, principalmente latifundiários e burgueses. Os comunistas, por sua vez, alinharam-se à URSS, que mantinha sua política de expansão de áreas de influência. As disputas entre os nacionalistas e os comunistas provocaram violentas guerras civis. A atuação do PCC foi considerada ilegal e os comunistas passaram a ser perseguidos pelo Kuomintang.

Mao conquistou o apoio da população chinesa defendendo a reforma agrária, o fim da propriedade privada, a melhor exploração de terras e a emancipação feminina. Fotografia de Mao estampada em um selo chinês de 1966.

Em 1934, os comunistas, sob a liderança de Mao, iniciaram a chamada Longa Marcha para o norte do país e começaram a se reorganizar. Adotando uma nova estratégia, eles buscaram o apoio dos camponeses, que compunham a maioria da população, e organizaram o Exército Vermelho que, além de ações militares, fazia propaganda dos ideais socialistas por todo país. Em 1949, o Exército Vermelho venceu as forças do Kuomintang e conquistou Pequim, a capital. Mao Tse-tung, que durante o episódio da Longa Marcha havia tido uma destacada atuação como estrategista militar, além de demonstrar seus conhecimentos sobre a realidade da população rural chinesa, proclamou então a República Popular da China, assumiu o governo e implantou um regime socialista no país.

As propostas da revolução Autor desconhecido. c. 1970. Pôster. Coleção particular. Foto: K.J. Historical/Corbis/Latinstock

Para evitar o enfraquecimento da revolução, em 1966 Mao deu início a uma grande campanha de reeducação da população camponesa, que ficou conhecida como Revolução Cultural. Suas principais propostas eram:

• •modificar os costumes tradicionais (antigos) chineses, substituindo-os por valores do proletariado;

• •banir as influências burguesas e capitalistas no país; • •combater e eliminar os burocratas do governo; • •melhorar a estrutura do ensino chinês, a fim de desenvolver as artes, as ciências e a tecnologia;

• •promover a união do trabalho manual e do intelectual.

Pôster chinês de cerca de 1970 representando um trabalhador rural segurando o Pequeno Livro Vermelho, símbolo dos ideais revolucionários.

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Com isso, Mao pretendia construir um país em que os valores individuais dessem espaço aos valores coletivos, garantindo bases mais sólidas para uma sociedade igualitária e democrática. Naquela época, as atitudes consideradas anticomunistas foram duramente reprimidas por diferentes milícias que interpretavam, cada uma à sua maneira, as propostas de Mao, causando conflitos internos que ao longo dos anos descaracterizaram os princípios da Revolução Cultural.


A Índia independente Após a Segunda Guerra Mundial, teve início a desagregação do império colonial inglês na África e na Ásia. Na Índia britânica, o movimento de independência era forte desde o final do século XIX. Havia, nesse país, dois grupos que lutavam pelo fim do domínio inglês. Um desses grupos era liderado pelo Partido do Congresso, que reunia as camadas médias da sociedade indiana, formada por professores, advogados e jornalistas, em grande parte de religião hindu, a maior do país. Eles estruturaram suas posições políticas com base na figura, no pensamento e nas ações de Mahatma Gandhi. Do outro lado, havia um grande número de seguidores do islamismo que formava a Liga Muçulmana, liderada por Mohamed Ali Jinnah e que defendia a separação da Índia britânica em dois países: a Índia, de maioria hindu, e o Paquistão, destinado aos muçulmanos.

O processo de independência

Após intensa mobilização popular liderada por Gandhi, a independência da Índia britânica foi oficializada em 15 de agosto de 1947. A divisão foi feita e dois novos países independentes foram criados: a Índia, de maioria hindu, e o Paquistão muçulmano, dividido em Paquistão Ocidental e Paquistão Oriental (que se tornou Bangladesh na década de 1970), separados pela região norte da Índia. Após a independência e a divisão dos países, as rivalidades entre hindus e muçulmanos se radicalizaram, tornando-se cada vez mais violentas. Ocorreram massacres de ambos os lados, enquanto cinco milhões de hindus se deslocavam do Paquistão para a Índia e seis milhões de muçulmanos faziam o caminho inverso.

A independência da Índia – 1947 UNIÃO SOVIÉTICA

N O

AFEGANISTÃO

CHINA

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Unidade 7

IRÃ

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Mar da Arábia

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390 km

BUTÃO PAQUISTÃO ORIENTAL BIRMÂNIA 20° N

Golfo de Bengala

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SIKKIM

75° L

Rangum

E. Cavalcante

Entre os maiores problemas no processo de independência da Índia britânica estavam os constantes conflitos entre hindus e muçulmanos. Praticamente todos os líderes da Liga Muçulmana e do Partido do Congresso (com exceção de Mahatma Gandhi, que acreditava em uma Índia independente e unida) concordavam que deveria ser criada uma nação para hindus e outra para muçulmanos.

CEILÃO

Fonte: ALLAN, Tony (Ed.). A sombra dos ditadores (1925-1950). Rio de Janeiro: Abril, 1992.

adoc-photos/Corbis/Latinstock

Mahatma Gandhi Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), mais conhecido como Mahatma (“Grande Alma”), liderou um modo diferente de resistência ao domínio e exploração colonial britânicos: a resistência pacífica por meio da desobediência civil, isto é, boicotar tudo o que fosse inglês, desde as mercadorias (principalmente os tecidos) até as escolas e universidades, além dos tribunais e assembleias legislativas, de modo a tornar a Índia ingovernável para os ingleses. Caso fossem reprimidos, os manifestantes não deveriam reagir ou resistir às prisões, pois Gandhi acreditava firmemente na não violência como meio para atingir seus objetivos. Ele também recorria a jejuns como forma de pressionar as autoridades britânicas a aceitar a independência indiana. Apesar de recorrer à violência e prender vários líderes, os britânicos não conseguiram conter o movimento pela independência. Gandhi desejava que a Índia permanecesse unida após a independência, advogando a tolerância entre as diversas religiões do país. Por causa de suas atitudes de não violência e tolerância, ele foi assassinado por um hindu extremista, em 1948.

Mahatma Gandhi fiando algodão para produzir tecido. Ele encorajava os indianos a produzirem seus próprios tecidos para não terem que comprá-los das indústrias inglesas. Fotografia de 1935, tirada na Índia.

As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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A Revolução Cubana Na década de 1950, durante o governo ditatorial de Fulgêncio Batista, a estrutura social e econômica de Cuba era comandada por uma reduzida elite latifundiária, submissa aos interesses estadunidenses. A economia da ilha baseava-se principalmente na produção de açúcar e tabaco, exportados em grande parte para os EUA. Além disso, havia o turismo, que rendia grandes lucros ao país, e os cassinos, administrados por mafiosos cubanos e estadunidenses.

O movimento revolucionário Muitas pessoas expressavam insatisfação com o governo de Batista. Entre elas, destacou-se a figura de Fidel Castro, advogado que se empenhou em denunciar os abusos do governo e a difícil situação em que vivia o povo cubano. Após ser preso pela tentativa de tomada de um quartel militar em 1953, Fidel planejou e executou o desembarque de revolucionários em Santiago de Cuba, no final de 1956. Entre os rebeldes, estavam seu irmão Raúl Castro, Ernesto Che Guevara e Camilo Cienfuegos. A partir de então, na região montanhosa de Sierra Maestra, o movimento revolucionário se organizou e cresceu, contando com a adesão dos camponeses, a quem eles ensinaram táticas de guerrilha nas matas. Além disso, os revolucionários desenvolveram um trabalho de sanitarização, alfabetização e ajuda médica para a população local.

Cuba socialista Apesar de mais numeroso, o exército de Fulgêncio Batista não conseguiu conter os guerrilheiros de Sierra Maestra, que, com o apoio da população local, tomaram Havana, a capital cubana, em 1o de janeiro de 1959.

Fotografia tirada em 1962, sobre a base de mísseis soviéticos em São Cristóvão, em Cuba. Foi por meio dessa fotografia que a CIA conseguiu comprovar a instalação de mísseis soviéticos na ilha.

Ao assumir o poder, os revolucionários puseram em prática várias medidas de grande impacto, como a reforma agrária e a estatização de empresas e de bancos. Em abril de 1961, o presidente Fidel Castro declarou que estava implantando um regime socialista em Cuba. Prejudicados pelas mudanças, proprietários rurais e donos de usinas de açúcar de Cuba buscaram apoio dos EUA e passaram a financiar hostilidades contra o novo governo. Em 1962, sob a liderança do governo estadunidense e com a participação de alguns países da América foi estabelecido um bloqueio econômico a Cuba, sob a alegação de que o regime revolucionário cubano interferia na ordem dos demais países americanos. Bettmann/Corbis/Latinstock

A Crise dos Mísseis Por causa do bloqueio econômico liderado pelos EUA a Cuba, o presidente da ilha, Fidel Castro, intensificou as relações comerciais e diplomáticas com a URSS. Para os soviéticos, a localização de Cuba era estratégica, graças à sua proximidade com os EUA. Assim, no início da década de 1960, o governo soviético instalou uma base de lançamento de mísseis nucleares em Cuba e, em troca, forneceu armamentos ao exército cubano. Temendo um ataque nuclear, os EUA reagiram mobilizando forças militares em torno de Cuba, o que gerou um clima de guerra iminente. A chamada Crise dos Mísseis foi superada com um acordo em que a URSS se comprometia a retirar os mísseis desde que os EUA não invadissem a ilha. Esse episódio foi um dos momentos mais tensos da Guerra Fria, pois as duas potências estiveram à beira de um conflito armado.

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Autor desconhecido. Séc. XX. Litografia. Coleção particular. Foto: Peter Newark Military Pictures/Bridgeman Images/Easypix

A Guerra do Vietnã Situada no Sudeste Asiático, a Indochina era uma colônia francesa desde o final do século XIX. Depois da Segunda Guerra Mundial, ganhou força um movimento pela independência do país, comandado pelo líder comunista Ho Chi Minh. Após anos de lutas, em 1954 os franceses foram derrotados e abandonaram sua ex-colônia. Nesse mesmo ano, na Conferência de Genebra, parte da Indochina foi dividida em dois países: o Vietnã do Norte, governado pelos comunistas, e o Vietnã do Sul, que adotou o sistema capitalista e contava com o apoio dos EUA. A divisão do Vietnã em dois países era motivo de grande insatisfação popular, porém as manifestações em favor da unificação eram reprimidas com violência pelo governo do Vietnã do Sul. Teve início, então, uma luta pela unificação do Vietnã, movida pelos vietcongues, nome dado aos revolucionários comunistas, tanto do Norte como do Sul, que eram liderados por Ho Chi Minh.

O governo dos EUA, por sua vez, temia que o Vietnã fosse unificado sob um regime comunista, o que ampliaria a área de influência da URSS na Ásia. Por isso, no começo da década de 1960, os EUA envolveram-se diretamente no conflito, enviando mais de 500 mil soldados para os campos de batalha no Viet­n ã, além de uma grande quantidade de armamentos. Os vietcongues, no entanto, conheciam muito bem a região onde viviam e levavam vantagem sobre os soldados estadunidenses nas guerrilhas, pois deslocavam-se com grande rapidez nas florestas e armavam emboscadas fatais contra os soldados inimigos. Diante dessas dificuldades, o governo dos EUA apelou para o uso de modernos equipamentos de guerra e armas químicas. Assim, milhões de litros de herbicidas (agente laranja) e de bombas incendiárias (napalm) foram jogados em solo vietnamita com o objetivo de desmatar as florestas e dificultar a guerrilha.

A Guerra do Vietnã foi a primeira guerra a ser televisionada. Os combates eram filmados no Vietnã durante o dia e transmitidos para os EUA à noite, chegando aos lares estadunidenses. Esse foi um dos fatores que desencadearam os movimentos contrários à guerra. Por meio das imagens veiculadas, as pessoas conseguiam ter uma ideia do que estava acontecendo naquele país e começaram a questionar a validade da interferência dos EUA no Vietnã. Além disso, muitos soldados estadunidenses que foram feridos em combate retornaram aos EUA relatando os horrores que aconteciam no Vietnã. Junto aos estudantes, artistas e outros grupos sociais, vários veteranos de guerra tiveram papel ativo nas manifestações pela paz e pelo fim da Guerra do Vietnã. Ao fim do conflito, cerca de um milhão de vietnamitas tinham morrido e havia milhares de pessoas feridas. As cidades estavam destruídas e as áreas rurais arrasadas por armas químicas, minas terrestres e bombas. O país teve que enfrentar grandes dificuldades econômicas, agravadas por um embargo econômico imposto pelos EUA que durou cerca de 20 anos. Marc Riboud/Magnum Photos/Latinstock

Apesar da desigualdade de recursos, os vietcongues resistiram ao poderio militar estadunidense e, em 1975, depois de dez anos de conflitos, tomaram Saigon, a capital do Vietnã do Sul. Nesse mesmo ano, o governo dos EUA ordenou a retirada das tropas estadunidenses do país, e os lados Norte e Sul foram unificados, formando a República Socialista do Vietnã.

As consequências da guerra Unidade 7

Estadunidenses 5 vietcongues

Cartaz da década de 1970 produzido no Vietnã do Norte em comemoração à independência do país.

Mulher confrontando com uma flor os soldados estadunidenses armados, durante uma marcha contra a Guerra do Vietnã, em Washington, D.C., em 1967.

Explorando a imagem a ) Descreva os principais elementos retratados na imagem. b ) Em sua opinião, qual é a mensagem que essa fotografia transmite? Vejas as respostas das questões nas Orientações para o professor. As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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A contracultura A contracultura foi uma série de movimentos de contestação realizados por grupos de jovens da classe média urbana de países capitalistas, em especial dos EUA, da Inglaterra e da França. Os participantes desses movimentos, que tiveram início na década de 1950, criticavam a cultura ocidental tradicional. Esses jovens, além disso, promoviam manifestações e adotavam atitudes contestadoras, como a organização de comunidades coletivas e a luta pela igualdade racial, explicitando sua crítica à moral conservadora dominante em seus países e também sua simpatia pelos ideais socialistas. A geração beatnik Surgido nos Estados Unidos na década de 1950, o movimento beatnik criticava a moral conservadora estadunidense e propunha o estabelecimento de relações interpessoais mais livres. Esse movimento teve início com a publicação do poema Uivo (1956), de Allen Ginsberg.

Bettmann/Corbis/Latinstock

Seus principais expoentes foram o próprio Allen Ginsberg, William Burroughs, Jack Kerouac e John Fante. Esses escritores criticavam o racionalismo científico e vincularam-se às filosofias orientais. Suas obras exerceram grande influência sobre os movimentos de contracultura, especialmente o hippie.

Com esse novo modo de vida, eles criticavam principalmente o capitalismo, a industrialização em larga escala e a sociedade de consumo. Além disso, discordavam da política imperialista dos EUA e de alguns países europeus, condenando o militarismo e em especial a Guerra do Vietnã.

Os hippies Composto em sua maioria por jovens de classe média, o movimento hippie fazia oposição aos valores morais dominantes nas sociedades ocidentais industrializadas. Eles criticavam o racismo e apoiavam o Movimento Negro, questionavam o intelectualismo universitário e a educação tradicional de seus países, propondo novas formas de relacionamento entre professores e alunos, a fim de estimular a aquisição criativa e ativa do conhecimento. Os hippies geralmente se vestiam com roupas coloridas, usavam cabelos compridos, viviam em comunidades e eram adeptos do vegetarianismo. Muitos deles acreditavam que, se utilizassem substâncias alucinógenas, expandiriam sua consciência e obteriam maior conhecimento sobre si mesmos. Além disso, defendiam a liberdade sexual e simpatizavam com as filosofias orientais e místicas. Fotografia que mostra uma manifestação hippie em favor da paz, ocorrida na Califórnia, EUA, em 1967.

Enquanto isso

... em Paris

Descontentes com a educação tradicional francesa, em maio de 1968, milhares de estudantes tomaram as ruas de Paris para protestar. Eles questionavam os códigos morais que regiam as relações pessoais, especialmente entre homens e mulheres. Nessas manifestações, carregavam cartazes e gritavam slogans como: “É proibido proibir”, “Sejamos realistas, que se peça o impossível”, “A imaginação no poder”, “Tome seus desejos como realidade”. Aos estudantes, uniram-se milhares de operários franceses e imigrantes, que lutavam por melhorias nas condições de trabalho e aumentos salariais. A polícia entrou em confronto com os manifestantes, que, por sua vez, montaram barricadas nas ruas para enfrentar a repressão. Apesar de não terem conseguido transformar a organização política e social da França, essas manifestações provocaram uma revolução cultural e comportamental que influenciou os jovens de diversos países do mundo.

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Os movimentos negros estadunidenses O Movimento Negro teve forte impacto nos EUA. As pessoas que dele participaram lutavam pela igualdade civil entre brancos e negros e pelo fim da discriminação racial no país. Seus principais líderes foram Martin Luther King Jr. e Malcolm X. No entanto, cada um deles defendia diferentes estratégias de luta. Luther King era um líder negro cristão que acreditava na luta multirracial contra a segregação, a pobreza e a marginalização dos afro-americanos. Ele estimulou boicotes aos meios de transporte que discriminavam os negros e organizou diversas manifestações pacifistas pelos direitos civis e pela igualdade racial. AP Photo/Glow Images

Por meio de seus discursos, Luther King conseguiu unir milhares de pessoas em defesa da causa negra, inclusive políticos estadunidenses, que aprovaram leis que beneficiaram os afro-americanos. Em 1963, ele lide­r ou a Marcha pelos Direitos Civis, em Washington, D.C., da qual participaram cerca de 200 mil pessoas e, em 1964, recebeu o prêmio Nobel da Paz. Luther King foi assassinado em 1968, porém sua luta serve de exemplo, ainda na atualidade, para os movimentos que defendem a igualdade racial.

Unidade 7

Malcolm X, por sua vez, era um líder negro muçulmano que não acreditava na união entre brancos e negros. Ele também organizou muitas manifestações em favor da causa negra, mas, ao contrário de Luther King, estimulava a luta armada se ela fosse necessária. Ele participou do Movimento Negro de 1952 até 1965, quando foi assassinado. Fotografia de Martin Luther King discursando em Washington, D.C., em 1963.

Passado e presente

O Ilê Aiyê

No início da década de 1970, tornou-se cada vez mais intensa a influência do Movimento Negro no Brasil. Um dos reflexos dessa influência está na fundação do Ilê Aiyê, em Salvador. Leia o texto.

ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FRAGA FILHO, Walter. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. p. 286.

Ilê Aiyê

No mesmo período, década de setenta, a população negra de Salvador inventou novas formas de assumir a negritude. Muitos dos jovens que frequentavam discotecas passaram a outros tipos de expressão musical e estética. Os carnavais de Salvador já tinham uma forte participação negra em escolas de samba [e] afoxés [...]. Mas em 1974 surgiu uma novidade: o hoje famoso Ilê Aiyê, que foi fundado no Curuzu, bairro da Liberdade, em Salvador. A nova agremiação celebrava a cultura africana a partir do próprio nome, mas não se limitou a isso. Ilê Aiyê significa “a terra é nossa casa” no idioma iorubá. Pela primeira vez uma agremiação carnavalesca expressava claramente nas letras de suas músicas o protesto contra a discriminação racial, ao mesmo tempo que valorizava enfaticamente a estética, a cultura e a história negra e africana. [...] Emblema do bloco carnavalesco baiano Ilê Aiyê.

Até os dias de hoje, o Ilê Aiyê atua em prol da valorização do negro na sociedade brasileira por meio de ações culturais e sociais. As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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Explorando o tema

Música e contracultura

Bill Haley & The Comets. Rock Around The Clock. Gravadora Hallmark, 1968. Vinil. Coleção particular. Foto: EyeBrowz/Alamy Stock Photo/Latinstock

Até a década de 1950, o jazz e o blues eram os estilos musicais favoritos da juventude estadunidense. A partir de então, muitos jovens começaram a se identificar com um tipo de som mais “cru”, que expressava uma postura contestadora perante a sociedade. Esse novo estilo musical era o rock and roll. Marcado por influências de estilos musicais já consagrados, como o blues, o folk, o gospel e o country, o rock and roll revolucionou a história da música dos EUA. Esse ritmo surgiu como um estilo de música mais dançante e vigoroso, com canções que remetiam ao universo dos jovens, tornando-se um importante veículo de identificação e de autoafirmação entre eles. Capa do disco da banda Bill Haley and The Comets. Essa banda, formada na década de 1950, é considerada uma das precursoras do rock and roll.

Acordes rebeldes A partir da segunda metade da década de 1960, o rock, assim como outras vertentes musicais, foi influenciado pelos movimentos de contracultura. Com isso, suas letras passaram a tratar de temas controversos, fazendo críticas sociais contundentes, que chocaram os setores mais conservadores da sociedade. Em um contexto social conturbado, marcado por conflitos como a Guerra do Vietnã, intrigas e perseguições políticas, além de manifestações de cunho racista, muitos jovens da década de 1960 produziram músicas de contestação, às vezes alinhadas aos ideais de movimentos sociais da época. Temas como liberdade sexual, inconformismo, pacifismo e igualdade de direitos estavam presentes nas canções e despertavam reações apaixonadas nas pessoas.

[...] No quadro da contracultura, o rock é um tipo de manifestação que está longe de ter um significado apenas musical. Por tudo que conseguiu expressar, por todo o envolvimento social que conseguiu provocar, é um fenômeno verdadeiramente cultural, no sentido mais amplo da palavra, constituindo-se em um dos principais veículos da nova cultura que explodia em pleno coração das sociedades industriais avançadas. PEREIRA, Carlos Alberto M. O que é contracultura. São Paulo: Nova Cultural; Brasiliense, 1986. p. 42-3. (Primeiros passos).

Rex Features/Glow Images

The Beatles Em 1960, surgiu uma banda de rock que alcançaria grande sucesso em todo o mundo: The Beatles. Formada pelos ingleses John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, a banda lançou em 1962 a música Love me do e, no ano seguinte, o primeiro disco do grupo, Please please me, que, em poucos dias, bateu recorde de vendas na Inglaterra. Nos anos posteriores, eles se apresentaram em vários países, provocando grande emoção na plateia. Além disso, gravaram filmes e participaram de muitos programas de televisão.

Fotografia que mostra uma apresentação da banda The Beatles em Londres, em 1963.

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A partir de 1965, a banda The Beatles iniciou uma nova fase musical. Influenciados pela cultura oriental, os músicos introduziram instrumentos indianos em suas composições, criando músicas inovadoras e bastante experimentais. O disco Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band foi um clássico dessa fase. O grupo, que se desfez em 1970, é considerado uma das bandas musicais mais influentes de todos os tempos.


O indiano Ravi Shankar tocando cítara no Festival de Monterrey, em 1967, demonstrando a influência oriental no movimento hippie.

Antes de 1967 já tinham sido realizados, nos Estados Unidos, festivais de jazz e de folk. O público jovem, no entanto, sentia a falta de um festival de rock. Foi então que um grupo de músicos estadunidenses e ingleses se reuniu e organizou o Festival de Monterrey, no estado da Califórnia, em junho de 1967. Calcula-se que cerca de 50 mil pessoas participaram do evento, assistindo a apresentações de vários astros do rock, como Jimi Hendrix e Janis Joplin, e de grupos musicais como The Who e The Mamas & The Papas.

O Festival de Woodstock

Michael Ochs/Corbis/Latinstock

Ted Streshinsky/Corbis/Latinstock

O Festival de Monterrey

O guitarrista e cantor estadunidense Jimi Hendrix foi uma das principais atrações do Festival de Monterrey. Nesse festival, ele protagonizou uma das cenas mais radicais da história do rock, ateando fogo em sua guitarra. Acima, Hendrix tocando em Monterrey, em 1967.

Unidade 7

Em 1969 foi realizado, em uma fazenda no estado de Nova Iorque, o maior festival de rock ao ar livre daquela época, o Woodstock. Foram três dias de apresentações que contaram com a participação de músicos como Neil Young, Ravi Shankar, Joan Baez, Santana, Jimi Hendrix e Janis Joplin. Em um clima de paz e amor, cerca de 400 mil pessoas dormiram em acampamentos improvisados, dividiram entre si a comida e a água disponíveis e utilizaram banheiros improvisados.

Fotografia do cantor inglês Joe Cocker se apresentando no Festival de Woodstock, em 1969.

DA Pennebaker/KPA/Glow Images

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Fotografia de 1969 retratando o público de Woodstock.

As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento 1. Explique o que foram a Doutrina Truman e o Plano Marshall.

2. Por que foi construído um muro na cidade de Ber­lim em 1961?

3. Estabeleça as principais diferenças entre o

a ) Como se deu a implantação do socialismo na China? b ) Quais eram as principais propostas da Revolução Cultural?

8. Sobre a independência da Índia, responda.

sistema capitalista e o sistema socialista.

a ) O que era a resistência pacífica defendida por Gandhi?

4. Quais eram as reivindicações da Conferên-

b ) Como o país foi organizado após a independência?

cia de Bandung? Como os países que dela fizeram parte se colocavam frente à questão de um mundo bipolarizado?

5. Por que o uso da energia nuclear gera polêmica na atualidade?

6. Elabore um texto sobre a história das relações entre judeus e árabes na Palestina, desde a formação do Estado de Israel, em 1948, até o Choque do Petróleo de 1973.

7. Sobre a Revolução Chinesa, responda.

9. Explique o que foi a Crise dos Mísseis. 10. Escreva um texto sobre os principais acontecimentos da Guerra do Vietnã e suas consequências.

11. Caracterize os seguintes movimentos de con­testação da década de 1960, ocorridos nos Estados Unidos. a ) O movimento hippie. b ) Os movimentos negros.

Expandindo o conteúdo 12. Leia o texto a seguir, sobre os movimentos de contracultura Fred W. McDarrah/Getty Images

A partir de 1961, surge a contracultura americana, que clama por uma cultura alternativa, construída sobre a contestação e sobre uma ideologia revolucionária nem sempre inspirada no socialismo ou no marxismo. O pacifismo, o terceiro-mundismo, drogas, liberação sexual e combate ao racismo foram alguns dos temas que fizeram parte da contracultura americana e dos movimentos jovens espalhados pelo mundo em toda a década de 1960.

Os escritores beatniks Jack Kerouac e Gloria Schoffel, em 1959, em Nova Iorque.

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Desde a década de 50 a geração Beat [beatnik] denunciava a instituição americana, o american way of life, condenando os valores tradicionais da vida americana. Dylan Thomas foi um dos precursores deste movimento. No entanto, a primeira obra considerada realmente Beat foi On the Road (1957) de Jack Kerouac, cujos temas básicos são as experiências de um grupo com alucinógenos, jazz, sexo etc. Kerouac participou ativamente das questões políticas e sociais de seu tempo, tal como o problema do racismo. [...]


Estava colocada para os rebeldes a necessidade da mudança, de livrar-se de um passado indesejado, em que negros não podiam frequentar a mesma escola que brancos, o sexo não era livre e as mulheres tinham uma posição inferior em relação ao homem. As reivindicações femininas passavam pela liberdade sexual, contracepção livre, legalização do aborto, legislação para o estupro e igualdade entre homens e mulheres. Durante as manifestações ocorriam diferentes formas de protesto contra a guerra e o modo de vida americano. Em Chicago, em 1968, militantes tomaram de assalto a convenção do Partido Democrata para contestar sua posição sobre a Guerra do Vietnã, ao mesmo tempo que mulheres queimavam publicamente seus sutiãs e perturbavam a solene cerimônia de coroamento da Miss América. [...] Enquanto os Beatles vinham com uma receita nova com composições simples e ajuizadas, os Rolling Stones, The Animals, John Mayall e outros buscavam recuperar o rock’n’roll dos anos 50 e o blues de Chicago com uma forma rebelde e inovadora. Na Inglaterra surgiram outros grandes nomes do rock nos anos 60, principalmente através do rock mod, estilo típico de jovens operários ingleses ou desempregados dos grandes conjuntos habitacionais de Londres. [...] O grupo mod The Who foi o primeiro a simular cenas de violência no palco, quebrando guitarras e amplificadores no final dos shows.

bém nos Estados Unidos. [...] Jimmy Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, líder do grupo The Doors, que dizia: “Nós queremos o mundo e o queremos agora”. Neste mesmo clima surgiu o movimento hippie, que nasceu no Golden Gate Park em São Francisco em um concerto público, em que o uso de drogas, visto como uma libertação do espírito, foi muito intenso. O movimento hippie também foi chamado de flower power (poder das flores), que representa o pacifismo. Este movimento também nega qualquer forma de repressão ou controle social, mas expressa-se de uma forma diferenciada dos beats. Com um discurso menos agressivo, enfatizavam o mundo das cores, slogans pacifistas, o contato com a natureza e a vida ao ar livre e comunitária. [...] A rebeldia também se fez presente na França de 1968, quando milhares de jovens universitários promoveram uma verdadeira revolução a partir do mês de maio. A questão não era econômica, uma vez que a França encontrava-se em situação estável. Tratava-se de uma revolta contra os hábitos sociais estabelecidos. Protestava-se contra o ensino tradicional, mas mais do que isso contra o sentido da carreira, da formação técnica, a hierarquia e contra a reforma universitária que queria formar técnicos segundo os interesses do Estado. Contestar a estrutura universitária significava contestar a própria forma de existência social, uma vez que era a partir daí que se traçavam os planos de futuro.

Unidade 7

A atmosfera de protesto criada nos Estados Unidos, principalmente na costa leste — onde os jovens queimavam em público a convocação para o serviço militar — encontrou no rock a forma mais acabada de expressão de uma geração. A música inicialmente folk de Bob Dylan, juntamente com Joan Baez, inspirada na geração Beat deu alma à rebelião que estava em curso, com letras sempre engajadas.

Havia também um sentido de solidariedade entre os movimentos de protesto que se desenvolviam nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Os estudantes franceses distribuíam flores aos policiais antes de serem alvejados por bombas de gás lacrimogêneo, lembrando o flower power. Nos Estados Unidos, os estudantes faziam passeatas contra a repressão aos estudantes na França.

A partir da grande renovação ocorrida no rock inglês, surgiu uma nova geração tam-

CATELLI, Roberto. O mundo contemporâneo. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 1993. p. 96-7; 99-100.

a ) Explique o que foi a contracultura estadunidense. b ) Cite exemplos apresentados no texto de manifestações de reivindicação da década de 1960. c ) O que diferenciava os ideais dos hippies dos ideais da geração Beat? d ) Quais eram as reivindicações dos estudantes franceses em maio de 1968? As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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13. Leia um trecho de uma entrevista concedida pelo pensador francês Edgar Morin sobre as mobilizações populares ocorridas na França e em outros países em maio de 1968. Essa entrevista foi concedida em 2008, ou seja, 40 anos após o “Maio de 68”. Folha – Quarenta anos depois, o que ficou dos acontecimentos de Maio de 68? Edgar Morin – 1968 foi, antes de mais nada, um ano de revolta estudantil e juvenil, numa onda que atingiu países de naturezas sociais e estruturas tão diferentes como Egito, EUA, Polônia... O denominador comum é uma revolta contra a autoridade do Estado e da família. A figura do pai de família perdeu importância, dando início a uma era de maior liberdade na relação entre pais e filhos. A revolta teve um caráter mais marcante nos países ocidentais desenvolvidos. Teóricos achavam que vivíamos numa sociedade que resolveria os problemas humanos mais fundamentais. E, de repente, percebeu-se que havia uma insatisfação na parte mais privilegiada dessa sociedade, que é a juventude estudante. Jovens de classes privilegiadas que desfrutavam de bens materiais preferiram buscar uma vida comunitária, num sinal de que o consumismo da sociedade ocidental não resolvia os problemas e aspirações humanas. Muitos desses jovens trocaram a cidade pela vida com as cabras, em busca de felicidade. Esses grupos não duraram, porque não conseguiram resolver os problemas e conflitos – só perduram comunidades que têm o cimento religioso. Mas o importante é que houve um processo de autoafirmação da adolescência como entidade social e cultural. O rock, muito além da música, consiste em agrupamentos de jovens. É uma maneira de se vestir e se comportar. É a autonomização da adolescência, que se afirma por oposição ao mundo adulto dos professores e pais. Depois disso, a poeira baixou e tudo pareceu voltar ao que era antes. Mas houve mudanças, sim. Foi depois de 68 que os homossexuais e as minorias étnicas se afirmaram e que o novo feminismo se desenvolveu. A imprensa

feminina francesa pré-68 dizia: “sejam bonitas e façam uma boa comidinha para agradar aos seus maridinhos”. Depois de 68, essa mesma imprensa passou outro recado: “vocês estão ficando velhas, seus filhos foram embora e seus maridos as traem, então resistam”. Foi uma verdadeira crise da ideia de felicidade, que é a grande mitologia da sociedade ocidental. [...] Folha – Mas o mal-estar que causou Maio de 68 permanece... Morin – Não só permanece, como agravou-se. Onde há vida urbana e desenvolvimento, há estresse e ritmos de trabalho desumanos. A poluição causa males terríveis, e nossa civilização é incapaz de impedir a criação de ilhas de miséria. Mas o que piorou mesmo foi o fato de termos perdido a fé no progresso. O mundo ocidental dava como certa a ideia de que o amanhã seria radioso. Mas, nos anos 90, percebeu-se que a ciência trazia também coisas como armas de destruição em massa e que a economia estava desregulada, enterrando de vez a promessa de que as crises haviam deixado de existir. O sentimento de precariedade é agravado pelo fato de os pais não saberem se seus filhos terão um emprego. Tampouco há esperança vinda da esfera política. Os políticos hoje se contentam em pegar carona no crescimento econômico. Não bastasse a ilusão de que esse crescimento da economia resolveria os problemas, eis que agora impera a estagnação. O mal-estar está mais profundo, inclusive nas classes que têm acesso ao consumo. E quando não há mais futuro, a gente se agarra a um presente desprovido de sentido ou ao passado — nação e religião. [...] ADGHIRNI, Samy. Folha de S. Paulo, 28 abril 2008. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2804200813.htm>. Acesso em: 25 nov. 2015. Fornecido pela Folhapress.

a ) Na opinião de Edgar Morin, o que foi o “Maio de 68”? b ) Quais foram as principais mudanças ocorridas depois que “a poeira baixou”? c ) Morin afirma que a situação social se agravou nas últimas décadas no Ocidente. Quais exemplos ele utiliza para sustentar sua afirmação? d ) “E quando não há mais futuro, a gente se agarra a um presente desprovido de sentido ou ao passado — nação e religião.” Você concorda com essa frase? Produza um texto explicando o que ela significa e qual a sua opinião sobre esse assunto.

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14. Os textos a seguir apresentam diferentes visões sobre a Revolução Cubana. Leia-os. A

[...] A comparação entre os índices sociais e econômicos das Nações Unidas dos dois períodos, antes e depois da revolução, mostra que, na maioria deles, na verdade, Cuba andou para trás. Fulgêncio Batista, derrubado por Fidel, havia expandido o sistema educacional, promovido um grande programa de obras públicas e, com isso, alimentado o crescimento econômico. O ditador [Fidel] herdou um país com indicadores sociais e econômicos relativamente avançados para os padrões latino-americanos. Cuba tinha a quarta renda per capita da América Latina, maior que a do Chile, e uma economia vibrante. [...] AQUINO, Felipe. Cuba retrocedeu após a revolução comunista. Disponível em: <http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=59774&cat=Artigos&vinda=S>. Acesso em: 22 jan. 2016.

B

A Revolução Cubana não transformou apenas a estrutura política e econômica de Cuba, mas também mudou o padrão de vida da população, as relações entre os cidadãos e a atitude destes diante do país. A revolução afetou profundamente alguns aspectos da vida cubana, como a pobreza, a saúde pública e o analfabetismo, alterando radicalmente a maneira como os cubanos viam a si próprios e ao seu mundo.

Unidade 7

Antes da revolução, as crianças das famílias pobres iam à escola, em média, até o quarto ano do primeiro ciclo. Muitas das áreas rurais não tinham infraestrutura educacional e metade das crianças do país não recebia nenhum tipo de instrução. Fidel Castro fez da educação uma das mais importantes prioridades revolucionárias. Em 1961, [...] foi iniciada uma campanha maciça de alfabetização para crianças e adultos. Mais de 100 mil alunos das escolas secundárias das grandes e médias cidades foram enviados ao campo para ensinar as primeiras letras para a população analfabeta. [...] Nos anos que se seguiram à revolução, milhares de novas escolas foram construídas na área rural cubana e foi instituído um programa maciço de bolsas de estudo para estudantes, cujo objetivo era levar as crianças pobres do campo para internatos nas áreas urbanas. VAIL, John J. Fidel Castro. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 101. (Os grandes líderes).

• Qual é a opinião do autor do texto A sobre Cuba após a revolução? E a do autor do texto B? Vestibulares 1. (ENEM-MEC) Em dezembro de 1998, um dos assuntos mais veiculados nos jornais era o que tratava da moe da única europeia. Leia a notícia destacada abaixo. O nascimento do Euro, a moeda única a ser adotada por onze países europeus a partir de 1o de janeiro, é possivelmente a mais importante realização deste continente nos últimos dez anos que assistiu à derrubada do Muro de Berlim, à reunificação das Alemanhas, à libertação dos países da Cortina de Ferro e ao fim da União Soviética. Enquanto todos esses eventos têm a ver com a desmontagem de estruturas do passado, o Euro é uma ousada aposta no futuro e uma prova da vitalidade da sociedade europeia. A “Euroland”, região abrangida por Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo e Portugal, tem um PIB (Produto Interno Bruto) equivalente a quase 80% do americano, 289 milhões de consumidores e responde por cerca de 20% do comércio internacional. Com este

cacife, o Euro vai disputar com o dólar a condição de moeda hegemônica. (Gazeta Mercantil, 30/12/1998)

A matéria refere-se à “desmontagem das estruturas do passado”, que pode ser entendida como a ) o fim da Guerra Fria, período de inquietação mundial que dividiu o mundo em dois blocos ideológicos opostos. b ) a inserção de alguns países do Leste Europeu em organismos supranacionais, com o intuito de exercer o controle ideológico no mundo. c ) a crise do capitalismo, do liberalismo e da democracia levando à polarização ideológica da antiga URSS. d ) a confrontação dos modelos socialista e capitalista para deter o processo de unificação das duas Alemanhas. e ) a prosperidade das economias capitalista e socialista, com o consequente fim da Guerra Fria entre EUA e a URSS.

As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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Ampliando seus conhecimentos Arte e história

Pop art

O Pop art, movimento artístico de crítica ao consumismo, surgiu em Londres, Inglaterra, no final da década de 1950. Entretanto, foi na década seguinte que, em Nova Iorque, EUA, essa tendência artística encontrou terreno fértil para seu desenvolvimento. Os artistas desse movimento se valiam da ironia para criticar a sociedade de consumo, utilizando como matéria-prima para a criação de suas obras os próprios objetos da cultura de massa: propagandas publicitárias, histórias em quadrinhos e fotografias de artistas e celebridades da música e do cinema. Os principais nomes do Pop art estadunidense foram Andy Warhol e Roy Lichtenstein.

Andy Warhol. 1962. Acrílica sobre tela. 205 x 290 cm. Museu Tate Modern, Londres (Inglaterra). © The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc./AUTVIS, Brasil, 2016

Veja a seguir a obra Marilyn diptych (1962), de Andy Warhol, e leia o texto.

Marilyn diptych, painel de 1962 produzido por Andy Warhol.

Díptico: painel pintado em duas peças.

O Marilyn diptych é obra que atrai e impressiona, originando-se de algo bem no fundo da psique de Warhol. Ele era fã ardoroso das celebridades e entendia o caráter transitório da fama; estava, porém, mais interessado na ideia da devoção do público americano à celebridade como símbolo cultural da época. Entregando-se à máquina da publicidade, Marilyn foi destruída como pessoa, e o estilo absolutamente neutro e documental de Warhol reproduz a impessoalidade e o isolamento que caracterizam essa fama. No díptico, um mar de rostos – todos parecidos e, ainda assim, sutilmente diferenciados – encara-nos com uma máscara icônica. BECKETT, Wendy. História da pintura. Tradução Mário Vilela. São Paulo: Ática, 1997. p. 381.

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Filme de Florian Henckel von Donnersmarck. A vida dos outros. Alemanha, 2006

A vida dos outros

A vida dos outros se passa durante a década de 1980, na Alemanha socialista, e conta a história de um agente da polícia política encarregado de espionar um escritor e sua namorada por suspeita de envolvimento com movimentos antissoviéticos. Filme de Florian Henckel von Donnersmarck. A vida dos outros. Alemanha, 2006. Foto: Hagen Keller/ Bayerischer Rundfunk/Album/Latinstock

O agente instala uma escuta na residência do escritor e passa a espionar o cotidiano do casal. Aos poucos, ele começa a questionar os seus próprios valores e modo de vida. O filme explora as faces obscuras do governo socialista em assuntos como espionagem, abuso de poder e totalitarismo, sob um ponto de vista crítico do governo da Alemanha Oriental e de sua atuação na vida das pessoas. Cena do filme A vida dos outros.

Título: A vida dos outros Diretor: Florian Henckel von Donnersmarck Atores principais: Martina Gedeck, Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Ulrich Tukur, Thomas Thieme Ano: 2006 Duração: 137 minutos

Para ler

• •Despachos

do front, de Michael Herr. Editora Objetiva. Com uma linguagem permeada pela cultura pop, o jornalista dá o seu relato sobre sua temporada como correspondente da revista Esquire na Guerra do Vietnã. O livro foi inspiração para as mais diversas representações feitas da guerra em outros livros, filmes e músicas.

Origem: Alemanha

• •Gandhi:

por ele mesmo, de Mohandas Karamchand Gandhi. Editora Martin Claret. A história, as lutas e a ideologia de Gandhi contadas por ele mesmo.

• •Oriente Médio, de Leandro Karnal. Editora Scipione. O livro busca explicar as

culturas e os conflitos do Oriente Médio, desde os tempos descritos na Bíblia, para possibilitar a compreensão do que a região é hoje.

• •Watchmen, de Alan Moore. Editora Abril. História em quadrinhos ambientada nos Estados Unidos de 1985, onde super-heróis mantêm o equilíbrio entre as forças do planeta até que o relógio do fim do mundo começa a marchar em direção ao fim da humanidade.

Para navegar

• •Corrida

espacial. Disponível em: <http://tub.im/b5vdo6>. Acesso em: 11 abr. 2016. Página do acervo do jornal O Estado de S. Paulo sobre a corrida espacial durante a Guerra Fria.

• •Ilê Aiyê. Disponível em: <http://tub.im/k36p66>. Acesso em: 11 abr. 2016. Página oficial do Ilê Aiyê. No site, é possível conhecer as ações culturais do bloco, como a Noite da Beleza Negra e o Cortejo da Negritude, e também as ações sociais, como a Escola Mãe Hilda e a Escola Profissionalizante do Ilê Aiyê.

• •Estatuto da Igualdade Racial. Disponível em: <http://tub.im/qdrh22>. Acesso

em: 11 abr. 2016. Lei n o 12.288, de 20 de julho de 2010, que Institui o Estatuto da Igualdade Racial no Brasil. As transformações mundiais durante a Guerra Fria

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Unidade 7

A história no cinema


unidade Fotografia tirada em Acra, capital de Gana, em 5 de março de 2007. Nesse dia, milhares de pessoas saíram às ruas para comemorar o 50o aniversário da independência do país.

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Movimentos de independência na África


Durante a Guerra Fria, grande parte dos países africanos conquistou sua independência. Vários fatores influenciaram esse processo, entre eles a difícil situação de algumas potências imperialistas depois da Segunda Guerra Mundial, incapazes de manter seus domínios coloniais na África diante de movimentos populares nacionalistas e anti-imperialistas, que passaram a lutar pela independência em diversos países africanos. Nesta unidade, vamos estudar o contexto em que ocorreram essas independências e as peculiaridades desse processo em diferentes regiões da África. Além disso, vamos conhecer algumas características dos novos países africanos e também os principais problemas que eles passaram a enfrentar após a independência. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

A Descreva a fotografia. Qual sensação ela passa?

Guy Calaf/Polaris/ Other Images

B O que você sabe sobre os processos de independência na África? Comente.

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O período pré-independências Grande parte dos países africanos conquistou sua emancipação política em meados do século XX. Diversos fatores influenciaram os processos de independência na África, entre eles a participação de soldados africanos na Segunda Guerra Mundial, a propagação de ideologias pan-africanistas e pan-arabistas e a influência da União Soviética (URSS) e dos Estados Unidos (EUA).

Soldados africanos na Segunda Guerra Mundial

Henri Bureau/Sygma/Corbis/Latinstock

Soldados africanos que lutaram com os Aliados no norte da África. Fotografia tirada na Líbia, em 1942.

O tema sobre o pan-africanismo favorece o trabalho interdisciplinar com Geografia. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

“Descolonização” O termo “descolonização”, usado muitas vezes para explicar os processos de independência na África, não é considerado apropriado por muitos estudiosos. Esse termo, que, segundo eles, apresenta uma visão eurocêntrica, passa a ideia de que as metrópoles teriam concedido por vontade própria a independência aos africanos, o que de fato não ocorreu. As independências na África são resultado da luta dos próprios africanos contra o imperialismo.

Mais de um milhão de soldados africanos combateram nos exércitos das metrópoles durante a Segunda Guerra Mundial. Ao lado dos britânicos, eles lutaram na Índia e na Birmânia (atual Myanmar) contra os japoneses. No norte da África, na Itália, na Alemanha e na França, ao lado dos Aliados contra as forças do Eixo. A experiência durante a guerra os fez refletir sobre sua condição de povos colonizados. Durante o conflito, os soldados africanos ouviam os líderes dos países Aliados falarem a respeito de libertarem pessoas oprimidas e do direito à autodeterminação dos povos, além de criticarem o imperialismo praticado pelos nazistas. Eles perceberam, desse modo, a grande incoerência entre o discurso dos líderes Aliados e as suas práticas imperialistas. Com isso, ao retornarem para a África com o fim da guerra, foram grande defensores das independências.

Ideologias anti-imperialistas Dois movimentos político-ideológicos colaboraram para o processo de independência na África: o pan-africanismo e o pan-arabismo. O primeiro foi elaborado no final do século XIX por intelectuais afro-americanos e antilhanos, espalhando-se depois entre intelectuais africanos residentes na Europa, que, mais tarde, o difundiram pela África. Os pan-africanistas defendiam a autonomia e a unidade do continente africano, divulgando suas ideias principalmente por meio da literatura, de conferências e de congressos. O pan-arabismo, por sua vez, teve maior influência no norte da África, entre os paí­ ses de tradição árabe-muçulmana, como Argélia, Mauritânia, Tunísia, Líbia e Egito. O principal irradiador desse movimento foi Gamal Nasser, presidente do Egito entre 1954 e 1970, que defendia a união desses povos para o seu fortalecimento na luta contra o imperialismo ocidental. Mais tarde, os movimentos pan-africanista e pan-arabista se uniram na luta contra o imperialismo.

A influência da Guerra Fria No contexto da Guerra Fria, URSS e EUA passaram a apoiar os movimentos de independência na África, interessados, principalmente, em atrair para suas respectivas áreas de influência os países que se tornassem independentes. Defendendo uma postura anti-imperialista, a URSS procurava aumentar a influência do socialismo nos países em luta pela independência. Como o imperialismo estava vinculado ao capitalismo, os socialistas argumentavam que lutar contra o capitalismo era um meio de combater o imperialismo. Os EUA, por sua vez, procuravam ampliar sua influência na África justificando sua intervenção com base no direito de autodeterminação dos povos e na responsabilidade dos estadunidenses na defesa da democracia liberal.

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Os processos de independência na África Bettmann/Corbis/Latinstock

Os processos das independências na África variaram de acordo com cada lugar e cada época. Durante as lutas de independência, ocorreram conflitos armados, protestos, manifestações, greves e acordos diplomáticos. A maioria dos países africanos tornou-se independente a partir da década de 1950. As exceções foram a Etiópia e a Libéria, que não eram colônias e o Egito, que conquistou sua independência em 1922. Fotografia de 1926 que retrata uma reunião do Parlamento do Egito, no Cairo. No trono, está sentado o líder egípcio Ahmed Fuad Pasha, que após a independência passou a ser chamado de rei Fuad I.

Unidade 8

Observe, no mapa a seguir, as datas em que cada país africano conquistou sua independência. As independências no continente africano Alemanha e Itália perdem suas colônias

N

MARROCOS 1956

MAURITÂNIA 1960

SENEGAL 1960

O

ARGÉLIA 1962

MALI 1960

LÍBIA 1951

Com sua derrota na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha perdeu o domínio sobre suas colônias africanas, que passaram a ser controladas pela Inglaterra, França e Bélgica.

EGITO 1922

NÍGER 1960

CHADE 1960 SUDÃO BURKINA FASSO 1956 GUINÉ1960 GUINÉ -BISSAU 1958 BENIN 1974 NIGÉRIA COSTA 1960 1960 GANA SERRA LEOA DO REP. CENTRO1961 MARFIM 1957 -AFRICANA LIBÉRIA 1960 1960 CAMARÕES TOGO 1960 1960 UGANDA ZAIRE GUINÉ 1962 (ATUAL REP. CONGO EQUATORIAL DEM. 1960 GABÃO 1968 RUANDA CONGO) DO 1960 1962 1960

ERITREIA 1993 DJIBUTI 1977

ETIÓPIA

QUÊNIA 1963

Meridiano de Greenwich

BURUNDI 1962 TANZÂNIA 1961 ANGOLA 1975

RODÉSIA DO NORTE (ATUAL ZÂMBIA) 1964

MALAUÍ 1964

RODÉSIA DO SUL (ATUAL ZIMBÁBUE) NAMÍBIA 1980 1990 BOTSUANA 1966

Tróp ico de Cap ricó rnio

0

L S

SAARA

OCIDENTAL Tr óp ic o de C ân ce r 1976

GÂMBIA 1965

TUNÍSIA Mar Mediterrâneo 1956

ÁFRICA DO SUL 1961

670 km

MOÇAMBIQUE 1975

SOMÁLIA 1960

No final da Segunda Guerra Mundial, a Itália, derrotada, também perdeu o domínio sobre suas colônias na África. A Líbia e a Somália, por exemplo, passaram a ser administradas pela ONU.

Equador 0° SEICHELES 1976

OCEANO COMORES ÍNDICO 1975

MADAGÁSCAR 1960 MAURÍCIO 1968

SUAZILÂNDIA 1968

E. Cavalcante

OCEANO ATLÂNTICO

LESOTO 1966

0° Fonte: ALLAN, Tony (Ed.). A Era Nuclear: 1950-1990. Rio de Janeiro: Abril Livros, 1993.

Movimentos de independência na África

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Independência dos países sob domínio inglês Nas colônias inglesas, o sistema de administração colonial era indireto, ou seja, o chefe nativo local continuava no poder, desde que colaborasse com as autoridades inglesas. Essa forma de dominação garantiu processos de independência relativamente pacíficos, como foi o caso da Nigéria e de Serra Leoa.

Bettmann/Corbis/Latinstock

Em outros países, no entanto, houve boicotes, greves e manifestações, como as ocorridas no Quênia em 1951, em que milhares de manifestantes foram presos e muitos morreram ao resistir contra as forças coloniais.

Um multidão saúda líderes africanos após a declaração da independência do Quênia, em 1963. Fotografia tirada em Nairóbi, Quênia.

Independência dos países sob domínio belga

Bettmann/Corbis/Latinstock

No processo de independência das colônias sob domínio belga, Congo, Ruanda e Burundi, houve a importante participação da população, a qual se organizou em partidos e se mobilizou na defesa de seus direitos políticos. Ocorreram diversos confrontos de rua em que membros de grupos étnicos rivais lutaram entre si, instigados pelos colonizadores que incentivavam a rivalidade entre os grupos anticoloniais, buscando desorganizá-los. Essa estratégia provocou muitas mortes e desestabilizou o movimento de emancipação política. Fotografia de Lumumba, líder anticolonialista, após ser nomeado primeiro-ministro do Congo, em 1960. Fotografia tirada em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo.

A independência do Congo foi decidida em uma conferência realizada na cidade de Bruxelas, na Bélgica, em janeiro de 1960. Nessa ocasião, autoridades belgas e chefes políticos congoleses estabeleceram a data de 30 de junho de 1960 para a saída dos colonizadores do país. Já Ruanda e Burundi conquistaram sua independência em 1962.

Independência dos países sob domínio francês

Archives Barrat-Bartoll/Corbis/Latinstock

Após o final da Segunda Guerra Mundial, a França não tinha condições de reprimir os protestos e as rebeliões em seus domínios. Por isso, algumas colônias francesas, como a Tunísia, o Marrocos e a África Equatorial, conquistaram sua independência de forma relativamente pacífica, por meio de acordos e plebiscitos, mas mesmo nesses países ainda houve disputas políticas e levantes populares. Na Argélia, no entanto, ocorreram violentas lutas de independência, em que milhares de pessoas morreram ao longo de oito anos de conflitos armados entre europeus e argelinos.

Fotografia tirada na década de 1950, retratando soldados argelinos durante as lutas de independência, na Argélia.

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Independência dos países sob domínio espanhol

Alain Nogues/Sygma/Corbis/Latinstock

Nas colônias espanholas, livrar-se do domínio europeu não representou necessariamente autonomia política. No caso do Saara Espanhol, por exemplo, o poder passou dos europeus para os países vizinhos, Marrocos e Mauritânia, em 1976. Os nativos saaráuis se organizaram em exércitos e reagiram contra a ocupação, mas foram derrotados. Em 1979, o Marrocos consolidou a dominação do território, atualmente chamado Saara Ocidental. A dominação existe até os dias de hoje e enfrenta a resistência de movimentos pró-independência.

Unidade 8

Fotografia de 1976 que retrata um grupo de guerrilheiros saaráuis, no Marrocos.

Independências dos países sob domínio português Algumas nações africanas estavam sob domínio português desde o século XVI, entre elas a Angola. No contexto das independências na África, no século XX, Portugal também perdeu suas possessões coloniais no continente.

Passado e presente

Soldado do MPLA mutilado durante a Guerra Civil Angolana. Fotografia de 1988, tirada em Luanda, Angola. Ricardo Azoury/Pulsar

A luta pela independência de Angola teve início em meados da década de 1950. Três grupos nacionalistas se mobilizaram contra a dominação portuguesa: o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). Embora tivessem o objetivo comum de libertar Angola do domínio português, esses grupos eram rivais entre si. Após anos de conflitos armados, em 1975, líderes desses três grupos proclamaram a independência de Angola, porém, a ONU reconheceu apenas a declaração de independência do líder do MPLA, Agostinho Neto, que se tornou o primeiro presidente do país.

A Guerra Civil Angolana

Após a independência, teve início em Angola a disputa pelo poder político do país. Líderes da UNITA e da FNLA, apoiados pelos Estados Unidos e pela África do Sul, não reconheceram o governo do MPLA. Este último, por sua vez, era apoiado pela URSS e por Cuba. Instaurou-se, então, uma violenta guerra civil no país, que teve fim em 2002, com a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi. Após quase três décadas de guerra civil, morreram cerca de 500 mil pessoas e milhares foram obrigadas a deixar suas casas, refugiando-se em países vizinhos, principalmente na República Democrática do Congo e na Zâmbia.

Movimentos de independência na África

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As novas nações africanas A questão étnica

Amr Nabil/AP Photo/Glow Images

Os governantes dos países africanos independentes mantiveram grande parte das fronteiras artificiais estabelecidas pelos europeus. Essas fronteiras desrespeitavam a distribuição tradicional das etnias africanas pelo continente. Com isso, pessoas de etnias diferentes foram obrigadas a conviver em um mesmo país, enquanto pessoas da mesma etnia passaram a viver separadas, em países diferentes.

Mesmo depois de conquistarem a independência política, as novas nações africanas mantiveram relações de dependência com as potências imperialistas, as quais se utilizaram de diversos meios para manter a sua influência política, econômica e militar na África. Nesse sentido, muitos representantes do governo e das empresas privadas dessas potências se empenharam em manter relações vantajosas com as novas nações, mantendo laços de dependência econômica. As novas elites africanas que surgiram dessas relações eram proprietárias de grandes indústrias, bancos e fazendas e mantiveram o modelo de exploração econômica implantado pelas antigas elites europeias, fundamentado em latifúndios monocultores e em empresas estrangeiras que continuaram a explorar os recursos do país. A produção agrária e industrial praticada nesses moldes permaneceu voltada para a exportação. Por isso, apesar de muitos países africanos serem grandes produtores de alimentos, sua população permaneceu vítima da desnutrição e da fome, além de continuarem dependentes da importação de outros produtos essenciais, como roupas e medicamentos.

As características regionais da África independente Os países africanos independentes passaram por um processo de integração regional. Desse modo, com base em suas características étnicas e geográficas, eles podem ser agrupados em cinco macrorregiões. Veja. Os países independentes do Norte da África são bastante integrados culturamente, pois a maioria de sua população compartilha os costumes muçulmanos. Além disso, a formação do Egito e do Marrocos foi facilitada pela coesão nacional histórica das suas populações. O Norte da África é uma região estratégica (no litoral do mar Mediterrâneo), onde os países independentes mantiveram os contatos comerciais que tinham há séculos com povos da Europa e do Oriente Médio. As cidades e as indústrias se desenvolveram principalmente nas regiões ricas em petróleo (Egito, Argélia, Líbia e Sudão, por exemplo) e nas áreas próximas às margens do rio Nilo. Mulheres muçulmanas em frente à Universidade do Cairo, no Egito. Fotografia tirada em 2009.

Carl & Ann Purcell/Corbis/Latinstock

Na África Central, convivem muçulmanos, cristãos descendentes de europeus e grupos que preservam culturas tradicionais africanas. A região é bastante rica em diamantes, além de cobre, urânio, manganês e petróleo. As vegetações predominantes são as savanas e as florestas tropicais. Apesar da baixa densidade demográfica, esses territórios vêm se deteriorando por causa da exploração predatória de seus recursos. Na África Oriental habitam, além das etnias africanas, descendentes de colonizadores europeus e asiáticos, principalmente muçulmanos do Oriente Médio. Atualmente, os países da África Oriental têm sofrido com a chamada “guerra pela água”, uma disputa de diversos países pelo domínio de nascentes, rios e poços. O Quênia é o país de maior importância regional, onde ocorre a exploração do turismo ecológico em seus parques e reservas naturais.

Turistas observando um rinoceronte em reserva natural no Quênia, em 2010.

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Enquanto isso

... na Ásia

Assim como na África, muitos movimentos de independência na Ásia ocorreram a partir de meados do século XX. Alguns fatores foram determinantes, entre eles, o enfraquecimento das potências europeias durante a Segunda Guerra Mundial, as lutas anti-imperialistas nas colônias e a influência das ideologias capitalista e socialista.

Nelson Mandela, um dos principais líderes na luta contra o apartheid, fazendo o gesto simbólico do movimento negro: braço direito erguido, com o punho fechado. Fotografia tirada na África do Sul, em 1991.

Do mesmo modo que fizeram na África durante a Guerra Fria, EUA e URSS fomentaram movimentos de independência na Ásia por meio de apoio financeiro, logístico e militar, procurando atrair os novos países independentes para suas respectivas áreas de influência.

E. Cavalcante

As independências na Ásia N

Mar Mediterrâneo

GEÓRGIA 1991 CAZAQUISTÃO 1991 ARMÊNIA 1991 AZERBAIJÃO MONGÓLIA 1991 UZBEQUISTÃO JORDÂNIA 1911 IRAQUE 1923 1991 1932 QUIRGUISTÃO TURCOMENISTÃO 1991 1991 TADJIQUISTÃO KWAIT 1991 1961 AFEGANISTÃO BAREIN 1919 1971 CATAR 1971 PAQUISTÃO 1947 NEPAL BUTÃO 1969 OMÃ 1949 1951 BANGLADESH ÍNDIA 1971 1947 REPÚBLICA DEMOCRÁTICA MIANMAR LAOS 1948 POPULAR DO IÊMEN 1953 1967 CAMBOJA 1953 MALDIVAS 1965

Independência dos países Entre 1911 a 1932 Entre 1945 e 1960 Entre 1961 e 1975 Entre 1990 ou 1991

SRI LANKA 1948

OCEANO ÍNDICO 0

650 km

O

OCEANO PACÍFICO

COREIA DO NORTE 1945 COREIA DO SUL 1945

VIETNÃ 1954

L S

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od

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FILIPINAS 1946 Equ

BRUNEI 1974

r ado 0º

MALÁSIA 1957 CINGAPURA 1965

90º L

194 I ND O NÉ SIA

9 TIMOR-LESTE 1975

Fonte: GIRARD, Gisele; ROSA, Jussara Vaz. Novo atlas geográfico do estudante. São Paulo: FTD, 2005.

Movimentos de independência na África

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Unidade 8

Na região Sul da África destaca-se a África do Sul, país mais industrializado do continente, com grande produção nas áreas automobilística, siderúrgica e química. As indústrias sul-africanas são, em sua maioria, multinacionais que se instalaram no país na época da Guerra Fria. A África do Sul tornou-se mais conhecida internacionalmente, no entanto, pelo apartheid, um regime que oficializou a segregação racial. Esse regime, oficialmente implantado em 1948 pela elite de origem europeia, privava a população negra de direitos e a impedia de frequentar os mesmos lugares que os brancos. Graças às lutas promovidas pelo movimento negro da África do Sul, e também por causa da pressão internacional, o apartheid foi abolido no início da década de 1990.

Graeme Williams/South Photographs/Latinstock

Na África Ocidental formaram-se vários países, habitados por diferentes grupos étnicos. Próximo ao continente, no oceano Atlântico, há diversas ilhas que ainda permanecem como possessões de países europeus (como o arquipélago Madeira, pertencente a Portugal). A região já foi bastante rica em minérios, mas a exploração desenfreada esgotou grande parte das reservas, restando apenas o petróleo, na Nigéria, e os diamantes, em Serra Leoa. Nas regiões interioranas da África Ocidental, ainda existem os tradicionais mercados ao ar livre, geralmente em frente às antigas mesquitas islâmicas.


A arte nos países africanos O continente africano é composto por uma grande diversidade de povos e línguas. Isso se reflete nas manifestações artísticas, que são muito variadas. No entanto, quando os países africanos conquistaram suas independências, seus artistas procuraram criar uma identidade cultural que unisse os povos do continente e que fortalecesse o sentimento anti-imperialista.

Caroline Penn/Corbis/Latinstock

Um dos pioneiros do cinema africano foi Ousmane Sembène (1923-2007). Seus filmes receberam aclamação internacional e têm como público-alvo a população do Senegal, seu país de origem. Em filmes como Mandabi, Ousmane critica o comportamento da elite senegalesa; enquanto em outros, como Ceddo, o cineasta conta a história das lutas de seu povo contra conquistadores estrangeiros.

Fotografia do cineasta e escritor senegalês Ousmane Sembène, na década de 1990.

Mural pintado pelo artista moçambicano Valente Malangatana, no século XX, localizado no Museu de História Natural em Maputo, Moçambique.

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O cinema Após o período de independências, as produções cinematográficas da África procuraram combater os estereótipos e preconceitos reproduzidos pelo cinema ocidental, que geralmente retratava os africanos de maneira preconceituosa e racista. Assim, muitos cineastas dessa época procuraram abordar, em suas produções, a realidade social, econômica e política da África do período pós-colonial, denunciando as difíceis condições de vida enfrentadas pela população, além do preconceito contra o negro. Esse é o caso do cineasta moçambicano Ruy Guerra, um ativista político que participou de movimentos antirracistas e pró-independência antes de deixar seu país e vir para o Brasil, onde participou do movimento do Cinema Novo, nas décadas de 1950 e 1960.

A pintura e a escultura Diante da nova situação dos paí­s es independentes, os artistas africanos procuraram refletir sobre as mudanças políticas e sociais que estavam acontecendo em seus países naquela época. Além disso, buscaram compreender a relação entre essas mudanças e a formação de identidades culturais dos povos africanos. A fim de resgatar suas antigas tradições, as obras de arte produzidas na época, logo após a independência, eram inspiradas em narrativas épicas, mitológicas e folclóricas das antigas nações do continente. Nessa época, foram criadas escolas de arte em alguns países do continente africano, o que facilitou o contato entre artistas de vários países e favoreceu a troca de experiências entre eles. Malangatana Ngwenya. 2005. Mural. Museu de História Natural, Maputo (Moçambique). Foto: blickwinkel/Alamy/Glow Images

As denúncias de Ousmane Sembène


A literatura

O tema desta página favorece o trabalho interdisciplinar com Literatura. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho. Sophie Bassouls/Sygma/Corbis/Latinstock

O contato com a cultura do colonizador influenciou de maneira significativa as produções literárias africanas, principalmente no que diz respeito ao idioma em que as obras foram e ainda são escritas. Por exemplo, Chinua Achebe, um escritor nigeriano, escreveu vários livros em inglês; Ahmadou Kourouma, escritor nascido na Costa do Marfim, produziu livros em francês. Nessas obras, que geralmente abordam temas ligados ao anti-imperialismo, são feitas críticas aos regimes ditatoriais implantados em muitos países africanos depois da independência, além de denúncias de violência contra a população. Fotografia do escritor Ahmadou Kourouma, da Costa do Marfim, em 1989.

David Atlas/Retna Ltd./Corbis/Latinstock

Além da produção literária, muitos escritores tiveram importante participação na política. O moçambicano Mia Couto, por exemplo, participou ativamente do processo de independência de seu país, os angolanos Viriato da Cruz e Antônio Jacinto atuaram na luta pela libertação de seu país e o escritor Agostinho Neto foi o primeiro presidente de Angola. As mulheres também deixaram seu nome nas páginas da literatura. Entre elas, estão a nigeriana Flora Nwapa e a sul-africana Bessie Head, que escreveram sobre a submissão da mulher em algumas sociedades africanas e reivindicaram maior participação feminina na política dessas sociedades.

A música

O músico senegalês Baaba Maal, por exemplo, iniciou sua carreira compondo em pulaar, a língua de seus antepassados. Em alguns trabalhos, ele misturou à sua música diversos gêneros, como a salsa cubana e ritmos jamaicanos.

Apresentação do músico senegalês Baaba Maal, em Nova Iorque, EUA, em 2010.

Refletindo

Cesária Évora

Nascida em Cabo Verde no ano de 1941, desde criança Cesária Évora esteve envolvida com a música, pois seu pai era violonista. Ainda jovem, tornou-se cantora de morna, estilo musical característico de Cabo Verde. Esse tipo de música aborda temas como tristezas, lamentações e desejos impossíveis de serem realizados. Depois de alguns anos, Cesária já era muito conhecida em Cabo Verde, principalmente pelos admiradores da morna. Na época da independência de seu país (1975), ela interrompeu sua vida artística por causa de problemas pessoais e financeiros. Voltou a cantar no final da década de 1980 e, em pouco tempo, tornou-se a artista de Cabo Verde mais conhecida internacionalmente, fazendo shows e recebendo prêmios em diversos países.

a ) Você conhece alguma manifestação artística de origem africana? Comente com os colegas.

Fotografia de Cesária Évora, em 1999.

b ) A cultura africana é difundida pela mídia brasileira? De que forma isso ocorre?

Joanne Savio/Retna Ltd./ Corbis/Latinstock

O sujeito na história

Unidade 8

A música africana se caracteriza pela grande diversidade. Os estilos e ritmos tradicionais da África deram origem a vários outros ritmos musicais e exerceram profunda influência na música de países do mundo todo. Os músicos africanos também foram influenciados por gêneros musicais de outros continentes para compor suas músicas.

Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

Movimentos de independência na África

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Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento 1. Qual a relação entre a participação dos sol­

5. Explique as relações de dependência que

dados africanos na Segunda Guerra Mun­ dial e as independências na África?

as elites das nações africanas mantiveram com as potências imperialistas.

2. E xplique o que eram as seguintes ideologias

6. Produza um texto apresentando os princi­

anti-imperialistas.

nos processos de independências na África.

pais aspectos socioeconômicos das cinco regiões africanas: Norte da África, África Central, África Ocidental, África Oriental e Sul da África.

4. Por que alguns estudiosos não consideram

7. Quais as principais características das ma­

a ) Pan-africanismo.

b ) Pan-arabismo.

3. De que modos URSS e EUA influenciaram

apropriado o uso do termo “descolonização” para o estudo dos processos de indepen­ dência na África?

nifestações artísticas da África indepen­ dente?

Expandindo o conteúdo 8. Leia a seguir o trecho de uma entrevista com o escritor malinês Amadou Hampâté Bâ, feita pelo belga Philippe Decraene. Philippe Decraene - Os europeus provocaram sérios traumatismos culturais na África? Amadou Hampâté Bâ - É claro! Nenhum colonizador é filantropo. Todos os que colonizam têm um complexo de superioridade. E como poderia ser diferente? Não é uma questão de cor da pele, pois os toucouleurs (mestiços) que colonizaram os povos do Macina, no Mali, também se comportaram como dominadores no campo cultural. A vontade de dominar o pensamento era evidente, por exemplo, entre as autoridades coloniais que criaram em Kayes, [no Mali], a “esco­ la dos reféns”, para onde eram enviados todos os filhos dos chefes e dos notáveis. O uso das línguas africanas era nelas estritamente proibido, em favor do uso exclusivo da língua francesa. Qualquer aluno que infringisse essa regra era coroado com o “símbolo” da cabeça de burro e privado do almoço. Uma grande perturbação no campo cultural foi a ruptura progressiva da transmissão dos conhecimentos tradicionais. Até então, essa transmissão era feita oralmente de uma geração a outra por meio das iniciações africanas regu-

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lares, das iniciações de ofício e das escolas corânicas [islâmicas]. As oficinas artesanais, por exemplo, eram verdadeiras escolas tradicionais, onde se ensinava não apenas uma tecnologia, mas todo um conjunto de conhecimentos científicos e culturais ligados ao ofício. O apren­ diz de ferreiro, por exemplo, que trabalhava silenciosamente ao lado de seu mestre, tinha acesso, através do simbolismo dos instrumentos da forja, a uma explicação particular do mundo e do papel do homem no universo, papel fundado na ideia de responsabilidade e de interdependência de todas as coisas. Ele recebia além disso um conjunto de conhecimentos concretos sobre geologia, mineralogia, botânica e toda uma educação do comportamento. As escolas artesanais tradicionais de ferreiros, tecelões, sapateiros, trabalhadores da madeira, narradores..., reunidos em torno dos mestres, eram, assim, lugares de transmissão de toda uma cultura. No entanto, por todos os meios a administração colonial esforçou-se para desencorajar essas atividades. Aos ferreiros, por exemplo, era proibido fabricar certos objetos, especialmente fuzis ou facões, a fim de nos in-


Era um problema grave, porque assim foi sufocada qualquer veleidade criativa de nossos artesãos, que teriam sido perfeitamente capazes de adaptar sua arte às novas necessidades. Citarei o exemplo de um ferreiro [do povo] dogon que havia fabricado sozinho fuzis em tudo semelhantes aos europeus e que não apenas foi condenado a cinco anos de prisão como também atingido por uma proibição vitalícia de exercer seu ofício. A ruptura na transmissão dos conhecimentos de uma geração a outra se acentuou com a luta da administração [pública] contra as escolas corânicas e o esforço de escola­rização em língua francesa. Mas a grande quebra se produziu por ocasião da guerra de 1914 [a Primeira Guerra Mundial], mais especialmente em 1917, quando quase todos os nossos jovens, fossem voluntários ou recrutados, foram enviados para combater na França. De um só golpe, os velhos mestres foram privados da maioria dos apren-

dizes que teriam podido continuar seu trabalho e assegurar, por sua vez, a transmissão e a salvaguarda do patrimônio cultural. Muitos não retornaram. Quanto aos que voltaram, não eram mais os mesmos homens. Traumatismo cultural, ainda, foi o fenômeno de aculturação que, em seguida, marcou todos os nossos jovens que estudaram nas universidades ocidentais, cavando assim entre os nossos “intelectuais” e a massa africana um fosso cada vez mais profundo. Como diz o provérbio africano, “o criador sofre pelo educador”: porque, afinal, somos sempre filhos de nossa escola... Traumatismo cultural, enfim, foi esse lento trabalho de despersonalização que se realizou ao longo das décadas, a ponto de os africanos terem chegado a duvidar de seus próprios valores e de não conceber mais a evolução ou o progresso fora da imitação total dos antigos colonizadores e em todos os campos. Quantos problemas atuais, na África, não se devem a esse fenômeno... pois, como diz o provérbio, “um pedaço de pau, por mais que flutue na água, nunca se tornará um crocodilo”.

Unidade 8

citar a comprar artigos manufaturados provenientes da metrópole. Aliás, na época éramos literalmente inundados por grossos catálogos da Manufatura de Armas e das Bicicletas Saint-Étienne, cujas imagens nos fascinavam e nos faziam sonhar.

DECRAENE, Philippe. Confrontações culturais. Disponível em: <http://beta.casadasafricas.org.br/banco_de_textos/01&id_texto=22>. Acesso em: 22 jan. 2016.

a ) De acordo com Amadou, de que forma os europeus interromperam a transmissão dos conhecimentos tradicionais entre mestres e aprendizes africanos? b ) Explique por que a colonização europeia foi traumática para os africanos.

9. O músico nigeriano Fela Anikulapo Kuti (1938-1997), de etnia iorubá, foi o precursor do es­ tilo musical afrobeat e um ativista político no processo de emancipação dos povos africanos. Leia o texto a seguir, que narra alguns episódios da sua vida.

[...] Poucos artistas levaram tão a sério a proposta de música de protesto [quanto o nigeriano Fela Kuti]. Cada disco, cada verso, cada acorde cutucava uma ferida específica em um sem-número de fraturas expostas sem disfarce por um sistema de governo autoritário. Pedra no sapato alheio, Fela foi pisoteado pelo regime ao longo de toda carreira. Tanto apanhou e resistiu que, em 1975, acrescentou ao seu nome a expressão Anikulapo — “aquele que guarda a morte no próprio bolso”. Fela Anikulapo Kuti incomodava. O presidente da Nigéria militar entre 1976 e 79, Olusegun Obasanjo, não aceitava tanta crítica e o choque entre as duas partes se arrastou por

anos e culminou na tragédia de 18 de fevereiro de 1977. Naquele dia, aproximadamente mil soldados invadiram a residência de Fela — denominada República Kalakuta, um terri­ tório declarado pelo músico como independente da ordem do resto do país — e tocaram, literalmente, o terror. [...] Obasanjo voltou ao poder da Nigéria em 1999, na primeira eleição para presidente do país em 16 anos — e lá [permaneceu até 2007.] O ataque à Kalakuta aconteceu depois de uma apresentação de Fela Kuti e sua banda Afrika 70 no Festac — Festival de Arte e Cultura Negra. O ódio dos militares veio à tona depois da apresentação da música Zombie, uma sátira escancarada à obediência cega e Movimentos de independência na África

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Apesar de tantos machucados, Fela tinha uma excepcional capacidade regenerativa que o fazia retornar ao combate sempre que fosse preciso. No final dos anos 70, o músico fundou seu próprio partido político (Movement of the People) e lançou uma campanha para se tornar presidente da Nigéria em 1979, mas sua candidatura foi recusada. Na década seguinte, formou a banda Egypt 80, com a qual gravou diversos discos e continuou enfurecendo os governantes com seus relatos de abuso. O auge da denúncia fica explícito ao final de International Thief Thief, quando Fela cita os nomes do presidente Olusegun Obasanjo e do vice, Moshood Abiola, com todas as letras. Em 1983, Fela concorreu à presidência novamente, mas desta vez foi detido e levado à prisão, onde permaneceu por 20 meses. Depois de solto, a frequência com que lançava discos diminuiu em medida inversamente proporcional à ascensão da ditadura no país.

[...] No dia 3 de agosto de 1997 seu irmão mais velho chocou a nação com a notícia de que Fela Kuti havia morrido, de Aids, no dia anterior. Mais de um milhão de pessoas compareceram ao funeral do artista em seu antigo clube Shrine — hoje administrado por seu filho e também músico, Femi Kuti — e, 10 anos depois, os admiradores continuam visitando o local onde seu corpo está enterrado, sob um pedestal de mármore na República Kalakuta. ZWETSCH, Ramiro; NOGUEIRA, Lígia. Com a morte no bolso. Disponível em: <www.radiolaurbana.com.br/com-a-morteno-bolso>. Acesso em: 22 jan. 2016.

Fela Kuti. Fotografia tirada em 1970.

Waring Abbott/Michael Ochs Archives/Getty Images

robótica dos soldados ao regime. [...] A música estava entre os maiores sucessos de Fela no período e sua execução ao vivo era certeza de retaliação militar. [...]

a ) Qual foi o efeito político provocado pelas músicas de protesto de Fela Kuti? b ) Descreva a trajetória de Fela Kuti como ativista político e a repressão que ele sofreu.

10. Leia o texto a seguir sobre o apartheid. O apartheid foi um dos regimes de discriminação mais cruéis de que se tem notícia no mundo. Ele vigorou na África do Sul de 1948 até 1990 e durante todo esse tempo esteve ligado à política do país. A antiga Constituição sul-africana incluía artigos onde era clara a discriminação racial entre os cidadãos, mesmo os negros sendo maioria na população. [...] O apartheid, que quer dizer separação na língua africâner dos imigrantes europeus, atingia a habitação, o emprego, a educação e os serviços públicos, pois os negros não podiam ser proprietários de terras, não tinham direito de participação na política e eram obrigados a viver em zonas residenciais separadas das dos brancos. Os casamentos e relações sexuais entre [negros e brancos] eram ilegais. Os negros geralmente trabalha-

vam nas minas, comandados por capatazes brancos e viviam em guetos miseráveis e superpovoados. Para lutar contra essas injustiças, os negros acionaram o Congresso Nacional Africano — CNA, uma organização negra clandestina, que tinha como líder Nelson Mandela. Após o massacre de Sharpeville [em que dezenas de manifestantes morreram em confronto com a polícia, em março de 1960], o CNA optou pela luta armada contra o governo branco, o que fez com que Nelson Mandela fosse preso em 1962 e condenado à prisão perpétua. A partir daí, o apartheid tornou-se ainda mais forte e violento, chegando ao ponto de definir territórios tribais chamados bantustões, onde os negros eram distribuídos em grupos étnicos e ficavam confinados nessas regiões.

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tal. Ao longo de sua costa viajam quase todos os navios que transportam petróleo para o Ocidente. É rica em ouro, diamantes, carvão, ferro, minérios, cromo e urânio, vital para a indústria militar. Tem uma população de aproximadamente 44 milhões de pessoas, sendo 85% negros. Apartheid, o racismo legalizado. Disponível em: <www.ibge.gov.br/ibgeteen/datas/discriminacao/apartheid.html>. Acesso em: 29 maio 2013.

A África do Sul é um país de grande importância estratégica para o mundo ociden-

David Turnley/Corbis/Latinstock

A partir daí, outras conquistas foram obtidas: o Congresso Nacional Africano foi legalizado, Klerk e Mandela receberam o Prêmio Nobel da Paz (1993), uma nova Constituição não racial passou a vigorar, os negros adquiriram direito ao voto e em 1994 foram realizadas as primeiras eleições multirraciais na África do Sul e Nelson Mandela se tornou presidente [...], com o desafio de transformar o país numa nação mais humana e com melhores condições de vida para a maioria da população. Fotografia de Nelson Mandela, principal líder do Congresso Nacional Africano, tirada em 1990, em Michigan, EUA.

Unidade 8

A partir de 1975 [...] lentamente começaram os avanços para acabar com o apartheid. A comunidade internacional e a Organização das Nações Unidas (ONU) faziam pressão pelo fim da segregação racial. Em 1991, o então presidente Frederick de Klerk não teve outra saída: condenou oficialmente o apartheid e libertou líderes políticos, entre eles Nelson Mandela.

a ) Quais eram as principais características do regime do apartheid da África do Sul? b ) Embora proibido, existem muitos reflexos do apartheid na África do Sul, na atualidade. Faça uma pesquisa sobre esse assunto, produza um texto e apresente­o aos colegas.

Vestibulares 1. (UFMT) Na descolonização da África, encontram­ ­se casos em que a independência foi conquis­ tada com grande violência, assim como situações em que a liber tação da colônia ocorreu de modo mais pacífico. No entanto, em todos os processos, pode­se afirmar a existência de uma relação entre a situação interna da colônia e realidades mais amplas. Sobre a independência de Angola, analise V p a ra a s af i r m ati va s ve rd ad e i ra s e F p a ra as falsas.

• Aconteceu

no âmbito da Guerra Fria como demonstra a guerra civil ocorrida após a in­ dependência entre o MPL A, apoiado pela União Soviética, e a UNITA, apoiada pelos Estados Unidos da América.

• Deve

ser compreendida no contexto da de­ s ag re g aç ão d o Im p é r i o Po r tu g u ê s a p ó s

a independência do Brasil e o fim do tráfico negreiro, a grande fonte de renda do estado lusitano.

• Foi resultado da globalização que, ao permi­

tir o maior fluxo comercial e de ideias, fez surgir no povo angolano o sentimento de li­ berdade e o desejo de autodeterminação.

• Foi impulsionada pelo fim da ditadura salaza­

rista, marcado pela Revolução dos Cravos, que significou o abandono da guerra colonial e da política imperialista portuguesa.

Identifique a sequência correta: a ) V, F, V, F. b ) F, V, F, V. c ) F, F, F, V. d ) V, V, V, F. e ) V, F, F, V.

Movimentos de independência na África

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Ampliando seus conhecimentos Arte e história

Tingatinga

No período pós-independências, a arte produzida na África foi marcada principal­ mente pela valorização de temas tipicamente africanos. Nesse contexto, destacou-se um estilo de arte chamado tingatinga. O nome é uma homenagem ao seu criador, Edward Said Tingatinga. Nascido em um povoado da Tanzânia, em 1932, começou a pintar na década de 1960, produzindo seus quadros em casa e levando-os a um mer­ cado próximo para vendê-los. Na década seguinte, suas pinturas já faziam sucesso em todo o país e ele começou a ensinar alguns jovens a sua maneira de fazer arte. As pinturas de Edward Said são caracterizadas por representarem os animais da fauna africana. Eles são pintados de forma estilizada, com elementos geométricos e cores fortes. O estilo de arte tingatinga sobreviveu mesmo após a morte de seu fun­ dador, em 1972. Atualmente, existe na Tanzânia uma cooperativa de artistas que se dedicam a manter essa forma de arte viva.

Escola Tingatinga. Séc. XX. Óleo sobre tela. Coleção particular. Foto: McPhoto/ZAD/Keystone

Veja, a seguir, um exemplo da arte tingatinga.

Pintura em estilo tingatinga. Autor desconhecido, século XX.

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Filme de Kevin Macdonald. O último rei da Escócia. EUA/Inglaterra, 2006

O Último Rei da Escócia

Inspirado em fatos históricos, o filme narra a trajetória de um médico escocês que, no começo da década de 1970, saiu de seu país natal rumo a Uganda, na África. O país, que havia recentemente se tornado independente da Inglaterra, passou a ser governado por Idi Amin Dada por meio de um golpe de Estado em 1971. Em Uganda, o médico se instala em um pequeno vilarejo e certo dia conhece o presidente, por acaso. Ele é convidado, então, a fazer parte da equipe oficial do go­ vernante, que era um admirador da Escócia, e vai para a capital de Uganda, Kampala. Deslumbrado com a riqueza oferecida por Idi Amin, o médico fecha os olhos para o que estava acontecendo no país: o massacre dos opositores do governo. Filme de Kevin Macdonald. O último rei da Escócia. EUA/ Inglaterra, 2006. Foto: Archives du 7e Art/DR/Glow Images

O Último Rei da Escócia trata de importantes questões do perío­ do de independências na África ao retratar o caso de Uganda. Muitos desses países, após se envolverem em conflitos para conquistar a in­ dependência, enfrentaram guerras civis e ditaduras militares, como a de Idi Amin Dada.

Título: O Último Rei da Escócia Diretor: Kevin Mcdonald Atores principais: James McAvoy, Forest Whitaker, Gillian Anderson, Kerry Washington, David Oyelowo, Abby Mukiibi Nkaaga Ano: 2006 Duração: 121 minutos

Cena do filme O Último Rei da Escócia.

Origem: EUA e Inglaterra

Para ler

• •A

luta contra a metrópole (Ásia e África), de Maria Yedda Linhares. Editora Brasiliense. O livro apresenta uma investigação sobre as consequências da co­ lonização e questionamentos relacionados à independência e ao surgimento dos novos países na África e Ásia, após o término da Segunda Guerra Mundial.

••Terra sonâmbula, de Mia Couto. Editora Companhia das Letras. Se valendo do

realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana, o autor conta uma fábula sobre personagens inseridos no contexto da guerra civil que assolou Moçambique de 1976 a 1992.

• •O mundo se despedaça, de Chinua Achebe. Editora Companhia das Letras. O romance narra a desintegração da vida tribal decorrente da colonização de uma região no sudeste da Nigéria. A obra é tida como fundadora do romance nigeriano contemporâneo.

Para navegar

• •Malangatana. Disponível em: <http://tub.im/yokube>. Acesso em: 13 abr. 2016. Informações sobre um exemplar no Brasil da obra do artista moçambicano Valente Malangatana. Trata-se de uma pintura mural feita em 1998, na sede administrativa da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife (PE).

• •Mia

Couto. Disponível em: <http://tub.im/mruy9g>. Acesso em: 13 abr. 2016. Página oficial do escritor moçambicano Mia Couto, autor do romance Terra sonâmbula, considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Movimentos de independência na África

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Unidade 8

A história no cinema


AP Photo/Glow Images

unidade

A democracia no Brasil do pรณs-guerra

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Após o final da Segunda Guerra Mundial, o Brasil atravessou um período de quase 20 anos no qual se tentou consolidar a democracia no país. Nesta unidade, vamos conhecer um pouco sobre esse período, marcado pela volta de Getúlio Vargas à presidência e suas tentativas de implementar uma política nacionalista. Vamos estudar também o governo de “50 anos em 5” de Juscelino Kubitschek, conhecido como JK, que tentou promover uma rápida modernização no país. Estudaremos o governo de João Goulart, também chamado de Jango, que tentou implementar no país as Reformas de Base, vistas pelos setores conservadores da sociedade como uma porta aberta para a entrada do comunismo no país. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

A Quando foi inaugurada, em 1960, Brasília já possuía alguns de seus principais edifícios governamentais. Procure identificá-los nesta fotografia. B No Brasil, por que o período político entre 1945 e 1964 é chamado de democrático? Comente.

Fotografia tirada em 21 de abril de 1960, retratando a inauguração de Brasília, que se tornaria, a partir de então, a nova capital do Brasil.

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O início do período democrático

Iconographia/Reminiscências

Na metade do século XX, o Brasil passava por um rápido crescimento urbano e industrial. Difundiam-se os meios de comunicação de massa — com destaque para o rádio e o cinema —, que estabeleciam novos padrões de comportamento e de consumo. O país havia participado do combate aos nazifascistas e, com o fim da Segunda Guerra Mundial, ficou evidente que o regime ditatorial do Estado Novo era contraditório com a democracia defendida pelos Aliados.

Embora Getúlio Vargas contasse com grande popularidade, ao final da Segunda Guerra Mundial aumentaram os grupos descontentes com o “getulismo”, principalmente entre os setores da classe média urbana. Fotografia de 1945, mostrando uma manifestação de oposição a Vargas ocorrida em São Paulo (SP).

A abertura do regime No final de 1944, cresciam no Brasil os movimentos políticos que exigiam o fim do regime ditatorial e defendiam o retorno da democracia e das liberdades civis. Desde 1943, o movimento dos estudantes universitários, organizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), fazia passeatas e manifestações protestando contra a ditadura. Os órgãos da imprensa, mesmo sob censura, passaram a desafiar a ditadura varguista, publicando artigos de políticos e intelectuais que criticavam abertamente o governo em nome da democracia. Pressionado por grupos políticos favoráveis à democratização e pelas manifestações estudantis, Vargas se antecipou e decretou um novo Código Eleitoral. De acordo com esse código, as eleições para presidente e também para a Assembleia Constituinte seriam realizadas em dezembro de 1945. Foi permitido, então, que os partidos políticos se reorganizassem. A oposição liberal, formada pelas oligarquias estaduais, criou a União Democrática Nacional (UDN). Para representar os grupos ligados ideologicamente ao governo de Getúlio Vargas, ele próprio orientou a criação de dois partidos: o Partido Social Democrático (PSD), sob controle dos burocratas do Estado, e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), controlado pelos sindicatos vinculados ao Estado. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) retornou à legalidade e mudou sua posição política em relação a Getúlio Vargas. Nesse momento, o ditador representava o nacionalismo, única força capaz de conter a ascensão dos liberais da UDN, geralmente associados aos interesses estadunidenses. Diante disso, o PCB passou a apoiar a sua permanência no poder até a aprovação da nova Constituição.

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A deposição de Vargas A propaganda do Estado Novo influenciava fortemente as camadas populares e informalmente estimulava o queremismo, movimento favorável à permanência do presidente Vargas no governo, cuja palavra de ordem era “queremos Getúlio”. Esse apoio popular gerava apreensão, principalmente entre os políticos liberais e a elite militar, quanto às pretensões de Vargas de permanecer no poder. Além disso, a pressão do governo estadunidense pela redemocratização e suas críticas ao populismo varguista, após sua aproximação a grupos políticos de esquerda, estimulavam civis e militares a conspirar pela deposição do presidente. O nacionalismo econômico de Vargas também desagradava tanto os interesses econômicos estadunidenses quanto os dos liberais brasileiros. A insatisfação aumentou após o governo decretar leis combatendo a formação de trustes e cartéis, a fim de evitar a manipulação dos preços, prevendo até mesmo a desapropriação de empresas, nacionais ou estrangeiras, que realizassem essas práticas.

Refletindo

••A Constituição

Além disso, Vargas perdeu o apoio da alta cúpula militar, que articulou um golpe de Estado. Em novembro de 1945, os mesmos líderes militares que apoiaram Vargas em 1937 comandaram o cerco ao palácio do governo, obrigando o ditador a renunciar.

Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.

O governo do general Dutra Em dezembro de 1945 foram realizadas eleições presidenciais e também para a Assembleia Constituinte, que seria a responsável pela elaboração de uma nova Constituição. Como candidatos a presidente, concorreram o general Dutra (PSD-PTB), que tinha o apoio de Vargas, o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN) e o engenheiro Yedo Fiúza (PCB). Dutra foi eleito com 55% dos votos.

A política econômica do governo Dutra teve duas fases. Na primeira, de 1946 a 1947, foi adotado o modelo liberal, com abertura para o capital estrangeiro e a redução das tarifas alfandegárias, o que proporcionou o aumento das importações. No entanto, por causa das dificuldades financeiras do país e da estagnação da indústria nacional, uma nova política econômica foi adotada. Essa nova orientação restringiu as importações e provocou um pequeno aumento da produção industrial brasileira, voltada para o mercado interno. No entanto, essas medidas não foram suficientes para controlar a inflação e melhorar as condições de vida das camadas populares, que passaram a protestar contra o congelamento de seus salários, que não eram reajustados desde 1942.

Durante o governo Dutra (1946-1951), foi promulgada uma nova Constituição, que restabeleceu o processo democrático eleitoral, determinando o voto direto e secreto para os brasileiros de ambos os sexos, desde que alfabetizados. Essa Constituição manteve o corporativismo sindical e autoritário do Estado Novo, como a restrição ao direito de greve. Também conservou o presidencialismo, mas aumentou o poder do Congresso Nacional. Além disso, manteve a legislação trabalhista do governo de Vargas e assegurou as liberdades de culto, de reunião e de imprensa.

Fotografia que mostra uma parada militar ocorrida em Washington, D.C., nos EUA, para recepcionar o presidente Dutra, em maio de 1949. Nessa fotografia destacam-se a bandeira brasileira e uma faixa de boas-vindas ao presidente brasileiro.

A democracia no Brasil do pós-guerra

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Unidade 9

A Constituição de 1946

Bettmann/Corbis/Latinstock

Na política externa, o governo Dutra foi marcado pelo fortalecimento dos laços políticos com os Estados Unidos (EUA). Muitas diretrizes desse alinhamento foram estabelecidas durante a Conferência Interamericana, realizada na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 1947. O Brasil passou a apoiar os EUA na Guerra Fria e rompeu relações diplomáticas com a União Soviética (URSS). Além disso, o PCB foi novamente posto na ilegalidade, e os parlamentares comunistas tiveram seu mandato cassado. Os funcionários públicos suspeitos de ligação com o comunismo foram demitidos e passaram a sofrer perseguições.

de 1946 tinha restrição quanto ao direito de greve. E na Constituição de 1988, esse direito é garantido? Comente.


Iconographia/Reminiscências

Cartaz da campanha de Getúlio Vargas à presidência, em 1950.

Vargas retorna ao poder Em 1950, Getúlio Vargas foi o candidato do PTB nas eleições diretas para a presidência da República. Em sua campanha, ele explorou o contraste entre as realizações trabalhistas de seu governo e o descaso com que o governo liberal de Dutra havia tratado as questões sociais. Assim, por meio de uma campanha que enfatizava os interesses nacionais, Vargas foi eleito presidente em 1951. Sua política foi marcada pelo paternalismo, reforçado pela consolidação dos direitos trabalhistas, e também pelo desenvolvimentismo, impulsionado pelo projeto de industrialização nacional. Nessa época, o debate entre nacionalistas e liberais se intensificou, principalmente entre os militares. A questão de maior discórdia estava relacionada à manutenção ou não do monopólio energético estatal. Os nacionalistas defendiam que as reservas e as refinarias de petróleo, bem como as usinas hidrelétricas e suas redes de distribuição, deveriam ser de propriedade do Estado nacional. Os liberais, no entanto, queriam que as empresas privadas, nacionais e estrangeiras, pudessem participar da exploração do setor energético brasileiro.

O conceito de populismo Entre as décadas de 1950 e 1960, estudiosos definiram o conceito de populismo como um fenômeno político em que as massas de trabalhadores seriam tuteladas pelo Estado. Nessas condições, o Estado dificultava o processo de organização dos trabalhadores, enquanto concedia benefícios, como direitos trabalhistas, em troca de apoio político. Para seduzir as massas, o Estado se personificava na figura de um líder político carismático, um “protetor dos pobres”. Com isso, o Estado continuava atendendo aos interesses dos grupos dominantes, ao mesmo tempo que buscava manipular as massas, realizando reformas que satisfaziam de forma superficial às suas necessidades. Atualmente, o conceito de populismo é criticado, pois relega os trabalhadores à condição de sujeitos “passivos” no processo histórico. Estudos recentes apontam para o fato de que, apesar da relação desigual entre as forças populares e as do Estado, os trabalhadores possuíam mecanismos próprios de mobilização e de pressão política. Dessa forma, não teriam adotado uma atitude de “submissão”, mas sim procurado estabelecer “alianças” com o Estado, utilizando os meios de que dispunham para defender seus próprios interesses.

A partir de 1952, os militares liberais passaram a perseguir duramente os militares nacionalistas, acusando-os de serem comunistas e excluindo-os de postos importantes das Forças Armadas. Vargas, porém, continuou adotando medidas nacionalistas e foi perdendo o apoio das Forças Armadas, que estavam sob o controle dos liberais, e passou a enfrentar o ataque direto de seus opositores.

O tema sobre o populismo favorece o trabalho interdisciplinar com Sociologia. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

Enquanto isso Michael S. Yamashita/Corbis/Latinstock

Soldado sul-coreano vigiando uma região de fronteira entre as duas Coreias. Fotografia tirada em 2002.

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... nas Coreias

Nessa época, ocorreu a Guerra da Coreia, o primeiro conflito bélico no contexto da Guerra Fria. As origens desse conflito remontam ao final da Segunda Guerra Mundial, quando os japoneses foram expulsos da península da Coreia. A península foi, então, dividida em dois países: a Coreia do Norte (República Popular Democrática da Coreia), de regime socialista e apoiada pela URSS, e a Coreia do Sul (República da Coreia), que era capitalista e tinha o apoio dos EUA. Em 1950, o exército da Coreia do Norte, com o apoio de soviéticos e chineses, invadiu a cidade de Seul, capital da Coreia do Sul. Diante disso, a ONU organizou um exército, liderado por estadunidenses e apoiado por vários países capitalistas, que conseguiu expulsar os norte-coreanos da Coreia do Sul. A Guerra da Coreia durou aproximadamente três anos e causou a morte de cerca de 3,5 milhões de pessoas. Após o fim da guerra, houve vários conflitos entre as duas Coreias. O mais grave deles ocorreu no início de 2013, depois que a ONU impôs sanções econômicas à Coreia do Norte como represália a testes com armas nucleares realizados por esse país. A Coreia do Norte ameaçou, então, reiniciar a guerra contra a Coreia do Sul e seus aliados, utilizando inclusive as armas nucleares de que dispõe.


Progressistas 5 conservadores Na década de 1950, muitos grupos políticos se uniram a uma das duas tendências majoritárias. Aos liberais, juntaram-se os anticomunistas radicais, formando o grupo político dos conservadores, representado principalmente pela UDN. Eles compunham a maioria entre as oligarquias rurais e a alta burguesia comercial, industrial e financeira. Os conservadores contavam com o apoio dos grandes capitalistas estrangeiros. Os nacionalistas, por sua vez, receberam o apoio dos comunistas, compondo o grupo político dos progressistas, representado principalmente pelo PTB. Esse grupo era formado, em sua maioria, pelos operários e demais trabalhadores urbanos e também por intelectuais.

A morte de Vargas A partir de 1953, Vargas ampliou suas políticas nacionalistas. Ele criou a Petrobras, empresa estatal que passou a deter o monopólio da extração de petróleo no país, e duplicou o valor do salário mínimo. Essas medidas serviram de pretexto para os conservadores intensificarem seus ataques ao governo.

Após o Atentado da rua Tonelero, houve grande mobilização militar pela deposição do presidente. Ciente de que seria obrigado a deixar o cargo, Vargas teria dito ao jornalista Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora: “Só morto sairei do Catete”.

O jornal Última Hora, fundado em junho de 1951 pelo jornalista Samuel Wainer, foi um importante veículo de apoio ao governo Vargas, em um momento em que grande parte da imprensa brasileira era controlada por adversários do governo. Funcionando como intermediário entre o governo e a população, esse jornal procurava transmitir uma imagem positiva de Vargas. O Última Hora introduziu uma linguagem mais informal e acessível ao grande público. Sua diagramação, rica em imagens, charges, caricaturas e histórias em quadrinhos, aliada a uma grande cobertura de eventos esportivos, fez com que conquistasse o gosto popular, sendo um dos mais vendidos durante o período em que ficou em circulação.

Passados alguns dias, um manifesto assinado por generais da Aeronáutica, do Exército e da Marinha foi entregue a Getúlio Vargas, exigindo seu afastamento do cargo. Algumas horas depois, na madrugada de 24 de agosto, o presidente suicidou-se.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História. Carta-Testamento de Getúlio Vargas. Disponível em: <www0.rio.rj.gov.br/memorialgetuliovargas/conteudo/expo8.html>. Acesso em: 22 jan. 2016.

Edição do Última Hora noticiando o suicídio de Vargas, em 1954.

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Em agosto de 1954, no Rio de Janeiro, Carlos Lacerda sofreu um atentado, no qual morreu o major da Aeronáutica Rubens Vaz, seu guarda-costas. Um inquérito aberto pela Aeronáutica apontou como mandante do crime o chefe de segurança de Vargas, Gregório Fortunato. Esse episódio, conhecido como Atentado da rua Tonelero, fez aumentar as pressões pela renúncia do presidente.

O jornal Última Hora e o governo Vargas

Última Hora. 24/08/1954. Arquivo do Estado de São Paulo, São Paulo. Foto: Neoimagem

As críticas mais duras a Getúlio Vargas, porém, eram feitas pelo jornalista Carlos Lacerda, dono da Tribuna de Imprensa. Ele acusava o governo de corrupção e fazia críticas à sua política econômica, marcada por uma crescente inflação.

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O governo JK

Iconographia/Reminiscências

Estado de sítio: situação em que o governo assume plenos poderes, suspendendo direitos constitucionais em caso de ameaça de guerra interna ou externa.

Após a morte de Getúlio Vargas, em 1954, o vice-presidente Café Filho assumiu a presidência do Brasil. Durante seu governo, as divergências políticas entre conservadores e progressistas se acentuaram, provocando acirradas disputas partidárias. Nas eleições presidenciais realizadas em 1955 venceu Juscelino Kubitschek, conhecido como JK, candidato pela coligação PSD-PTB, e João Goulart foi eleito vice-presidente. Porém, grupos de militares e civis conservadores passaram a articular um golpe para impedir que JK tomasse posse. Diante disso, militares que ocupavam altos cargos públicos, preocupados em manter a ordem democrática, desferiram um contragolpe liderado pelo marechal Henrique Lott. Foi então estabelecido o estado de sítio no país, que garantiu a posse de JK e seu vice em janeiro de 1956. Durante seu mandato, Juscelino demonstrou ser um político capaz de lidar com os interesses tanto de aliados quanto de opositores. Com isso, ele conseguiu manter um equilíbrio de forças, conciliando interesses de políticos, militares, estudantes e trabalhadores.

Fotografia que mostra a visita do presidente JK a uma fábrica de caminhões em São Bernardo do Campo (SP), em 1956.

O Plano de Metas Como presidente, JK adotou uma política conhecida como desenvolvimentismo. Ele afirmava que, durante seu governo, o Brasil cresceria o equivalente a “50 anos em 5”. Instituições que colaboraram com a política desenvolvimentista Durante o governo de JK, algumas instituições contribuíram para a elaboração e a realização de alguns objetivos propostos no Plano de Metas: A Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), criada em 1959, tinha como objetivo promover estratégias para o desenvolvimento socioeconômico da região Nordeste. O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), criado em 1955, tinha como propósito, além do estudo, ensino e divulgação das ciências sociais, fomentar a discussão em torno das melhores formas de promover o desenvolvimento do país. A Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), órgão da ONU criado em 1948, buscava incentivar a cooperação econômica entre os países latino-americanos. Reunindo intelectuais do continente americano, o Cepal defendia a industrialização como uma saída para a superação do subdesenvolvimento na América Latina. Os estudos da economia brasileira realizados por esse órgão serviram de base para elaboração do Plano de Metas.

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Para cumprir sua promessa de desenvolvimento acelerado do país, JK estabeleceu um Plano de Metas, que previa grandes investimentos em áreas importantes para a modernização do país, principalmente nos setores industrial, energético e de transportes. JK adotou o princípio progressista de intervenção planejada do Estado na economia. Ao mesmo tempo, manteve a medida conservadora de entrada livre de capital estrangeiro no país, por meio de empréstimos e de importações de máquinas e equipamentos. Durante seu governo, a produção industrial cresceu principalmente em áreas como metalurgia, siderurgia, petroquímica e bens duráveis, gerando milhares de novos empregos. Foram instaladas diversas empresas multinacionais estrangeiras no Brasil, produzindo bens de consumo duráveis como automóveis e eletrodomésticos e mudando os padrões de consumo dos brasileiros. No entanto, apesar da euforia provocada pelas novas mercadorias produzidas no Brasil, a situação econômica do país não melhorou e grande parte da população não foi beneficiada pelas melhorias, mantendo-se em situação de pobreza. Embora JK tenha cumprido grande parte dos objetivos do Plano de Metas, os empréstimos feitos pelo governo acarretaram um grande aumento da dívida externa do país. Logo, iniciou-se um período de crise marcado pela alta inflação e o desemprego.


A construção de Brasília Vizzoni/Estadão Conteúdo

O Plano de Metas de JK possuía como “metassíntese” a transferência da capital federal do Rio de Janeiro para uma nova cidade no interior do país, na região do Planalto Central do Brasil. Essa ideia fazia parte do projeto de Integração Nacional, isto é, de interligar as diferentes regiões do país. O projeto de Integração Nacional era parte importante da polí­ tica desenvolvimentista de JK. Ele pretendia aumentar a densidade demográfica do interior do país e, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento de toda essa região. Em 1956, foram iniciadas as obras para a construção da nova capital, Brasília, com planejamento urbano de Lúcio Costa e projetos arquitetônicos de Oscar Niemeyer.

Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960, tornando-se a nova capital federal. Apesar do clima de euforia, a transferência da capital para a região Centro-Oeste foi criticada por muitas pessoas, que alertavam para o fato de que ela estava distante da maior parte da população do país, dificultando a mobilização popular para fazer reivindicações aos governantes.

Jorge Ferreira/O Cruzeiro/EM/D.A Press

Para a construção da cidade, milhares de operários migraram de diversas regiões do país, principalmente do Nordeste. Esses trabalhadores ficaram conhecidos como candangos. Por falta de uma política de integração social, após o fim da construção de Brasília, muitos deles não tiveram espaço para habitar a cidade. Grande parte não conseguiu voltar para sua região de origem e acabou se deslocando para a periferia de Brasília, contribuindo para a formação e o crescimento das cidades-satélites.

Vista aérea da construção de Brasília, no final da década de 1950. O nome adotado para a nova capital federal, Brasília, havia sido sugerido em 1823 por José Bonifácio, ministro do Império do Brasil. A área onde ela foi construída havia sido delimitada em 1892, por uma expedição enviada pelo governo federal ao Planalto Central.

Os candangos foram a principal mão de obra na construção de Brasília. Fotografia tirada em 1960.

Impactos do governo de JK Os estudiosos apontam que a política desenvolvimentista de JK trouxe ao Brasil vários benefícios, mas também uma série de problemas. Veja.

Benefícios

Cidade-satélite: cidade que se desenvolve intimamente ligada e dependente de uma grande cidade.

••JK estimulou o estabelecimento de multinacionais no Brasil, o que barateou o preço de alguns bens de consumo, como automóveis. ••A construção de Brasília contribuiu para o projeto de Integração Nacional, diminuindo a influência do eixo Rio-São Paulo sobre as demais regiões. ••Foram construídas várias estradas por todo o país, o que colaborou para a integração de diferentes regiões, aumentando o fluxo de carros e caminhões. ••A política voltada à industrialização gerou novos empregos nos meios urbanos.

Problemas

••JK não criou mecanismos que limitassem a remessa de lucros para o exterior; por isso, a maior parte do capital gerado pelas multinacionais foi enviada aos seus países de origem. ••Para executar suas obras, o governo emitiu uma grande quantidade de papel-moeda, o que acarretou uma enorme inflação. ••As ferrovias, sistema de transporte de baixo custo, foram abandonadas, e o país ficou dependente da importação de combustíveis derivados do petróleo. ••A falta de políticas voltadas aos camponeses aumentou o êxodo rural, provocando o crescimento desordenado das cidades.

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Brasília foi construída seguindo critérios inovadores para a época. A disposição dos elementos urbanos foi feita de maneira estritamente racional. A cidade foi dividida em setores voltados para atividades urbanas específicas, como lazer, trabalho, estudo e moradia, de modo que um espaço não interferisse no outro.


A cultura brasileira dos anos 1950 Com a popularização dos meios de comunicação, como o rádio, o cinema e a televisão, a partir da década de 1950 novas expressões artísticas brasileiras passaram a ser conhecidas e admiradas tanto no Brasil como em outros países. Filme de Vítor Lima Barreto. O Cangaceiro. Brasil, 1953

O cinema Na década de 1950, o cinema brasileiro ampliou sua capacidade de produção de filmes. Às comédias produzidas pelos estúdios Atlântida, no Rio de Janeiro, somaram-se os filmes da produtora Vera Cruz. Fundada em 1949, essa produtora recebeu o incentivo financeiro de grandes industriais brasileiros, levando para as telas dos cinemas atores como Oscarito, Dercy Gonçalves e Grande Otelo.

Cartaz do filme O Cangaceiro, de 1953, do cineasta Vítor Lima Barreto, produzido pela Vera Cruz.

Arquivo/Estadão Conteúdo

A partir de 1955, cineastas de várias regiões do Brasil passaram a produzir filmes que buscavam mostrar o cotidiano e as condições de vida da população brasileira. Nelson Pereira dos Santos, por exemplo, dirigiu Rio, 40 graus (1955) e Rio, Zona Norte (1957), que retratam o cotidiano das pessoas nas favelas do Rio de Janeiro daquela época. Alguns anos mais tarde, outro cineasta, o baiano Glauber Rocha, gravou Barravento (1961), filme que mostra o cotidiano e as dificuldades de uma comunidade de pescadores pobres na Bahia. Essas produções marcaram o surgimento do Cinema Novo, caracterizado pela denúncia social e pela crítica política. O teatro brasileiro O teatro profissional brasileiro teve início no final da década de 1940, com a criação do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Fizeram parte desse grupo dramaturgos e autores que participaram da formação de outras companhias, como o Teatro de Arena e o Grupo Oficina. Nesse período, destacaram-se dramaturgos como Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna e José Celso Martinez, além dos atores Paulo Autran, Cacilda Becker, Tônia Carrero, Raul Cortez, entre outros. Fotografia da atriz Cacilda Becker, em 1958.

Iconographia/Reminiscências

A televisão Em 1950 foi inaugurada, na cidade de São Paulo, a primeira emissora de televisão brasileira: a TV Tupi, do empresário Assis Chateaubriand. Nos anos seguintes, foram instalados estúdios televisivos em diversas cidades brasileiras. Inicialmente, só havia programas noturnos, porém em poucos anos as emissoras ampliaram sua programação também para o período diurno. Faziam parte da grade de exibições telejornais, como Repórter Esso e Edição Extra, teleteatros, telenovelas e programas de auditório, como Rancho Alegre e O Céu é o Limite. Fotografia do estúdio da TV Tupi, em São Paulo (SP), na década de 1950. À esquerda da imagem, vemos Walter Tasca, o primeiro cameraman da América Latina.

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A música Arquivo/Estadão Conteúdo

No início da década de 1950, o rádio ainda era o meio de comunicação mais popular no Brasil. Sua programação privilegiava os sambas-canções, que eram sambas melódicos que entoavam os dramas do amor impossível e sofredor. No final da década de 1950, no entanto, outros estilos musicais ganharam popularidade, como o forró, o rock and roll e o jazz, possibilitando que jovens músicos brasileiros criassem novos ritmos musicais com a fusão desses estilos. Em 1958, o músico baiano João Gilberto lançou um disco intitulado Chega de saudade, marcando o nascimento da bossa nova. Esse estilo musical, caracterizado pela fusão do samba e do jazz, apresentava harmonias complexas e melodias simples, com um jeito de cantar intimista, suave. Fotografia que mostra João Gilberto se apresentando em São Paulo (SP), em 1965.

Bossa Nova at Carnegie Hall, Nova York, 1962

A bossa nova nos EUA Em 1962, foi realizada em Nova Iorque uma grande apresentação musical que reuniu artistas de diversos países. Um grupo de músicos brasileiros ligados à bossa nova se apresentou no teatro Carnegie Hall, encantando músicos e ouvintes estadunidenses. Depois disso, a bossa nova fez grande sucesso nos EUA e passou a influenciar a música estadunidense.

O tema sobre a música brasileira na década de 1950 favorece o trabalho interdisciplinar com Arte. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

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O disco trazia várias composições de Tom Jobim e de Vinicius de Moraes, que, ao lado de João Gilberto, foram os principais expoentes da bossa nova.

Capa de disco com músicas do show de bossa nova realizado no teatro Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 1962.

O sujeito na história

Tom Jobim Darcy Cardoso/Folhapress

Nascido no Rio de Janeiro, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (1927-1994) foi um dos principais divulgadores da bossa nova. Na juventude, estudou piano com o professor alemão Koellreuter, considerado um dos precursores da música dodecafônica no Brasil. Depois, iniciou o curso de arquitetura e chegou a trabalhar nessa área, mas logo desistiu, preferindo seguir a carreira de músico, tocando piano em bares e boates no Rio de Janeiro. No início da década de 1950, foi contratado por uma gravadora para trabalhar como arranjador. Nessa época, Tom Jobim, como ficou conhecido, começou a escrever suas primeiras composições. Em 1956, em parceria com Vinicius de Moraes, Jobim musicou a peça Orfeu da Conceição, que incluía a música Se todos fossem iguais a você, fazendo grande sucesso. Nos anos seguintes, compôs centenas de músicas, sozinho ou com parceiros, como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Newton Mendonça e Aloysio de Oliveira. Suas composições mais conhecidas são Águas de Março, Samba de Uma Nota Só, Desafinado e Garota de Ipanema, que estão entre as músicas mais gravadas e executadas no mundo todo.

O músico Tom Jobim apresentando-se no Rio de Janeiro (RJ), em 1991.

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Arquivo/Estadão Conteúdo

O esporte brasileiro na década de 1950 Na década de 1950, o Brasil conquistou vitórias em vários esportes. Nas Olimpíadas de Helsinque, na Finlândia, e nas Olimpíadas de Melbourne, na Austrália, por exemplo, Ademar Ferreira da Silva tornou-se bicampeão de salto triplo, batendo o recorde mundial. Outro destaque foi a tenista Maria Esther Bueno, que venceu três vezes o Torneio de Wimbledon, na Inglaterra, uma das mais importantes competições de tênis no mundo.

Brasil, campeão da Copa do Mundo de futebol Nesse contexto, a seleção brasileira de futebol embarcou para a Europa, onde disputou, com mais quinze países, a sexta edição da Copa do Mundo de Futebol, realizada na Suécia, em 1958.

A tenista Maria Esther Bueno. Fotografia tirada em 1954.

Contagiados pelo crescimento econômico do país, os torcedores estavam otimistas com a seleção brasileira, pois a equipe tinha vários jogadores de alto nível, como Zagalo, Garrincha, Didi e a grande revelação: Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Com apenas 17 anos, ele se destacou na Copa da Suécia, marcando seis gols em quatro jogos. Embalada pela música A taça do mundo é nossa, a seleção brasileira realizou uma grande campanha. Nos seis jogos que disputou, conquistou um empate e cinco vitórias. Na grande final, venceu a seleção da Suécia por 5 x 2, conquistando seu primeiro título em uma Copa do Mundo de Futebol.

Arquivo/Estadão Conteúdo

Vários governantes se aproveitavam das conquistas esportivas para promover sua própria imagem por meio da mídia ou articular manobras políticas. Durante a Copa do Mundo de 1958, por exemplo, Juscelino Kubitschek realizou a troca de vários ministros sem chamar a atenção da imprensa.

Fotografia de jogadores da seleção brasileira de futebol, após vencerem a Copa do Mundo, na Suécia, em 1958. Da esquerda para a direita, Djalma Santos, Zagallo, Pelé, Zito e o chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho (de óculos), seguram a taça Jules Rimet.

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A política de Jânio Quadros Acervo UH/Folhapress

O sucessor de Juscelino Kubitschek foi Jânio Quadros, que, com o apoio da UDN, derrotou o marechal Henrique Lott, candidato pelo PSD-PTB. Jânio Quadros, que já havia sido vereador, deputado, prefeito de São Paulo e governador do estado, foi eleito presidente com 5,6 milhões de votos, o que correspondia a 48% do eleitorado. Como as eleições para presidente e vice-presidente eram realizadas separadamente, o trabalhista João Goulart, da mesma chapa de Lott, foi eleito vice-presidente. O presidente e seu vice tomaram posse em Brasília, no dia 31 de janeiro de 1961. Jânio conquistou a simpatia das classes médias e de lideranças militares, defendendo a moralização das instituições políticas e o combate à corrupção. Ele também conseguiu o apoio tanto dos grandes grupos empresariais, ao afirmar sua defesa da livre iniciativa, quanto dos trabalhadores, prometendo que diminuiria as injustiças sociais.

Em sua campanha eleitoral, Jânio usou a vassoura como símbolo da moralidade e do combate à corrupção, prometendo “varrer” a sujeira da administração pública. Fotografia tirada em 1960, em Santos (SP).

As medidas administrativas de Jânio Unidade 9

A política interna de Jânio Quadros foi conservadora e repleta de medidas polêmicas, como a proibição das corridas de cavalos em dias úteis e a regulamentação das regras dos jogos de cartas nos clubes. Ele ainda instalou inquéritos presididos por oficiais militares, visando investigar todos os níveis da administração pública e os atos do governo anterior. Nessa época, a política de emissão de papel-moeda, adotada por JK, começou a gerar uma inflação crescente, que chegou a 30% ao ano. Além disso, a dívida externa atingia 3,8 bilhões de dólares. Diante disso, com o intuito de combater a inflação, Jânio adotou uma política de corte nos gastos públicos: restringiu o crédito, cancelou os subsídios dados pelo governo às importações, além de congelar os salários. Essas medidas agradaram ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mas trouxeram grande descontentamento popular.

Jânio Quadros em Brasília (DF), no dia de sua renúncia à presidência, em 25 de agosto de 1961. Domicio Pinheiro/Estadão Conteúdo

Na política externa, ele procurou traçar uma linha independente e, por vezes, contraditória: tentou assumir uma posição de liderança entre os países do chamado Terceiro Mundo e de não alinhamento aos EUA; reatou relações diplomáticas com a URSS e com a China; e aproximou-se de outros países socialistas, chegando a condecorar o líder da Revolução Cubana Ernesto Che Guevara. Além disso, mostrou-se favorável à independência das colônias europeias na África e na Ásia. A renúncia à presidência Sem conseguir controlar a crise econômica e desagradando os setores mais conservadores da sociedade com sua política externa, Jânio passou a ser criticado por seus antigos aliados. Diante da crise, em 25 de agosto de 1961, Jânio apresentou uma carta de renúncia ao Congresso Nacional, alegando a atuação de “forças terríveis” que pressionavam sua saída. Alguns historiadores, porém, consideram a renúncia uma malfadada estratégia política. Eles afirmam que Jânio acreditava que sua renúncia não seria aceita pelo Congresso e que ele voltaria à presidência com mais poder e apoio popular, além da ajuda dos militares. Mas a estratégia teria falhado: o Congresso aceitou a renúncia, e as esperadas mobilizações populares pedindo a volta do presidente não ocorreram.

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João Goulart no poder Com a renúncia de Jânio Quadros, o vice João Goulart deveria assumir a presidência, no entanto vários políticos e militares se opuseram à sua posse. João Goulart, popularmente conhecido como Jango, havia sido ministro do Trabalho no último mandato de Getúlio Vargas e era um defensor da política varguista. Além disso, sua posse era vista pelos militares como uma brecha para a infiltração de ideias socialistas, uma vez que Jango era considerado um político de esquerda. No momento em que Jânio Quadros renunciou, Jango estava em visita oficial à China e, por isso, a presidência foi assumida interinamente pelo presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli. Jango foi proibido de voltar ao Brasil por questão de segurança nacional, porém o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, conseguiu o apoio de chefes militares e de grupos civis em defesa da posse do vice-presidente. Essa mobilização ficou conhecida como Campanha da Legalidade. Déficit: deficiência monetária, ou seja, excesso de despesas em relação à receita. Parlamentarismo: sistema de governo representativo em que todas as decisões do Executivo dependem da aprovação do Parlamento. Nesse sistema, os poderes do presidente são muito reduzidos, não havendo uma clara distinção entre o poder Executivo e o Legislativo. Plebiscito: tipo de votação em que a população decide de forma soberana sobre questões políticas e sociais de grande importância.

Em um acordo estabelecido entre as forças que tentavam impedir sua posse e as forças legalistas, Jango aceitou assumir o poder em um sistema parlamentarista de governo, a fim de evitar uma possível guerra civil, e tomou posse em setembro de 1961. Foi marcado, então, um plebiscito para o ano de 1965, quando o povo decidiria entre a manutenção do parlamentarismo ou a volta do presidencialismo.

As tensões sociais Logo após a posse de Jango, a situação do país era tumultuada. A inflação aumentava a cada mês e havia um déficit na balança comercial. Além disso, os movimentos sociais se organizavam, aumentando sua atuação e acirrando as tensões políticas. No campo, movimentos de esquerda, como as Ligas Camponesas, lideradas pelo deputado Francisco Julião, lutavam pelos direitos dos trabalhadores rurais e pela reforma agrária. Ao mesmo tempo, o movimento estudantil se radicalizava e participava ativamente das questões políticas do país. Trabalhadores organizados em sindicatos, como a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), aumentaram sua atuação em defesa das causas trabalhistas.

Arquivo/Estadão Conteúdo

Em oposição a esses movimentos progressistas, os conservadores também se organizaram. Membros da Igreja, grandes proprietários de terras e a elite industrial brasileira, associada a empresários estrangeiros, criaram órgãos como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. Essas organizações tinham um caráter declaradamente anticomunista, criticavam a política social e econômica do governo Jango, o qual tachavam de populista, e atuavam principalmente por meio do financiamento de candidatos contrários ao governo, além de se utilizarem dos mais variados meios para desestabilizá-lo, como jornais, produção de filmes, conferências, panfletos e lançamento de livros.

Fotografia que mostra a atuação do movimento das Ligas Camponesas. Nessa imagem, podemos ver trabalhadores rurais reunidos durante uma manifestação, na cidade de Governador Valadares (MG), em 1964.

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A volta do presidencialismo Diante dessa situação, João Goulart conseguiu a antecipação do plebiscito e, em janeiro de 1963, após uma campanha massiva, a população decidiu pela volta do presidencialismo. Jango passou, então, a governar com plenos poderes presidenciais. Uma de suas primeiras medidas foi executar o Plano Trienal, que visava combater a inflação negociando a dívida externa, controlando despesas públicas e congelando os salários da população. Essas medidas consideradas conservadoras, porém, provocaram o descontentamento das camadas populares e de setores da esquerda, resultando em uma série de greves e manifestações. Desse modo, as ações de Jango passaram a ser vistas com desconfiança tanto por grupos de esquerda, que exigiam reformas mais radicais que realmente favorecessem os trabalhadores, quanto por grupos de direita, os quais acreditavam que o reformismo do presidente estava sendo realizado nos moldes de um governo socialista.

O governo de Goulart revelou os limites do reformismo. Numa época em que as contradições sociais chegaram à situação de tensão pré-revolucionária, Goulart insistiu num programa de reformas de base que não atendiam completamente os anseios populares e desagradavam profundamente os setores conservadores, questionando a capacidade do populismo de continuar mantendo a estabilidade política e a acumulação de capitais no país, essenciais para a burguesia. DANTAS FILHO, José; DORATIOTO, Francisco F. M. A república bossa-nova: a democracia populista (1954-1964). São Paulo: Atual, 1991. p. 18-9. (História em documentos).

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No campo político, concediam o direito de voto a analfabetos e a militares de baixo escalão, como sargentos e cabos. Na economia, as medidas tinham cunho nacionalista e propunham a estatização de empresas concessionárias de serviços públicos, da indústria farmacêutica e dos frigoríficos, além da regulamentação da remessa de lucros das empresas estrangeiras para o exterior. Além disso, previam a estatização de refinarias de petróleo privadas, que passariam a ser administradas pela Petrobras. Leia o texto.

Militares chegam ao Comício das Reformas de Base, na Central do Brasil, Rio de Janeiro (RJ), em 13 de março de 1964. Arquivo/Estadão Conteúdo

O programa de governo de Jango baseava-se nas chamadas Reformas de Base, que previam várias medidas de grande impacto. Na área social, propunham a reforma agrária visando o fim das disputas pela posse da terra, o que beneficiaria milhares de agricultores que não tinham acesso a ela.

Domicio Pinheiro/Estadão Conteúdo

As Reformas de Base

O fim do governo Jango As Reformas de Base provocaram a reação das elites, principalmente do setor agrário e industrial. Essas elites, aliadas à classe média, organizaram várias manifestações contra o governo. A maior delas foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ocorrida em 19 de março de 1964, que levou cerca de 500 mil pessoas às ruas de São Paulo. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade aconteceu também em outras cidades brasileiras, como Bandeirantes (PR), Belo Horizonte (MG) e Recife (PE). Assim, a manifestação civil deu respaldo aos militares, que organizaram um golpe de Estado, deflagrado em 1o de abril de 1964, ocupando as ruas das principais cidades brasileiras. Deposto, João Goulart se refugiou no Rio Grande do Sul e, em seguida, exilou-se no Uruguai.

Marcha da Família com Deus pela Liberdade em Belo Horizonte (MG), em maio de 1964.

A democracia no Brasil do pós-guerra

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Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento 1. Descreva o cenário político do Brasil em 1945, quando teve início o processo de democratização.

2. Escreva um texto sobre o populismo expli-

de futebol com as condições econômicas do país na época.

6. Quais medidas adotadas por Jânio Quadros

cando por que esse conceito é atualmente criticado.

desagradaram os trabalhadores? E quais medidas desagradaram a elite conservadora?

3. Como se davam os debates entre naciona-

7. O governo João Goulart foi marcado por

listas e liberais no governo Vargas?

4. Em que consistia o Plano de Metas de JK? 5. Relacione o otimismo dos brasileiros em relação à conquista da Copa do Mundo

uma série de complicações desde o início. Produza um texto explicando os problemas sociais, políticos e econômicos que ele enfrentou, relacionando-os com o desfecho do seu governo.

Expandindo o conteúdo 8. Leia o texto a seguir. O nacionalismo será o argumento principal contra a bossa nova. Seus críticos, principalmente devido ao momento político da década de 1960, irão acusá-la de ser música americana, “entreguista”, de ofender a música brasileira, especialmente o samba. Arquivo/Estadão Conteúdo

Da casa da irmã, em Minas Gerais, João Gilberto havia passado algum tempo em sua cidade na Bahia e estava de volta ao Rio de Janeiro em 1957 com uma novidade que muita gente estava esperando no Brasil. A batida do violão. À beira da praia, na Zona Sul do Rio, os garotos Roberto Menescal e Carlos Lyra, influenciados pela música do violonista Barney Kessel, buscavam uma música que nada tinha a ver com o “Ninguém me ama/ Ninguém me quer”. Tocavam violão e mantinham uma academia para ensinar o instrumento. Uma das alunas foi Nara Leão, cujo amplo apartamento em Copacabana era um templo da nova música que estava nascendo na ainda capital do Brasil. João Gilberto apresentou seu violão a Roberto Menescal, que espantado com aquilo tratou de levá-lo para que todos o conhecessem. Mas quem viu o mundo se descortinar diante da batida de João Gilberto foi Tom Jobim. Nara Leão. Fotografia tirada em 1966, em São Paulo (SP).

Há algum tempo, Jobim vinha procurando uma maneira de inovar a harmonia do samba. O samba-canção era uma possibilidade, mas ainda assim limitada. Já havia assinado parcerias com Dolores Duran e Billy Blanco. Mas seu grande parceiro na bossa nova viria a ser o poeta e diplomata Vinicius de Moraes. Já haviam composto juntos a trilha de Orfeu da Conceição, adaptação de Vinicius para a tragédia grega no carnaval carioca. Uma das canções que acabou não sendo aproveitada na peça foi uma experiência de Tom Jobim com o choro em que Vinicius pôs letra. A canção ficou engavetada até que João Gilberto apareceu com seu violão. [...]

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Diante daquela batida seca que simplificava ao extremo o samba, Tom percebeu as possibilidades para as harmonias complicadas que estava inventando. Lembrou-se da canção engavetada que viria a ser gravada [com o título Chega de Saudade] em 1958. [...] A canção decreta o fim da tristeza, o fim da “fossa”. A harmonia ao longo da primeira estrofe é em tom menor, o que realça o tema da tristeza. A partir da segunda estrofe, com a conjunção adversativa “Mas”, ocorre uma reviravolta na letra, instala-se a alegria e a harmonia se dá em tom maior, reforçando a oposição e a mudança de clima com predomínio da alegria sobre a tristeza. [...] Estava iniciada a profunda mudança na música brasileira que iria ganhar o mundo inteiro. Duas canções que João Gilberto viria a gravar podem ser entendidas como verdadeiros manifestos da bossa nova. Trata-se das metalinguísticas Desafinado e Samba de uma nota só. Casamento perfeito entre letra e música, compostas por uma parceria igualmente perfeita: Tom Jobim e Newton Mendonça. Amigos de infância, grandes pianistas. Ambos compunham letra e música revezando-se à caneta e ao piano. [...] O ideal da garotada que estava começando a se interessar por música naquele momento era fazer música como Tom Jobim, escrever letras como Vinicius e cantar como João Gilberto. Por mais que se acuse a bossa nova de americanizada, é injusto atribuir a acusação a João Gilberto. Ao final do século [XX], computadas todas as canções que ele gravou, percebe-se que mais de 70% são canções antigas, genuinamente brasileiras que ele recriou com seu estilo. A música brasileira sim ganhou uma roupagem elegante e tornou-se produto de exportação digno de ser consumido no mundo inteiro [...].

Unidade 9

Vários artistas brasileiros foram ao exterior. O grande Frank Sinatra gravou músicas da bossa nova e se apresentou em shows com Tom Jobim. Até o final do século XX, a bossa nova seria cultuada pelo mundo inteiro, inclusive nas pistas de dança das “raves” da Europa. [...]

Patr i c i a S tav i s / Fo l h a p re s s

O violão, instrumento marginalizado até então, passou a ser peça de mobília obrigatória em todos os lares do mundo. Bossa nova no Brasil virou uma espécie de gíria para designar tudo que fosse bom, moderno, positivo. WORMS, Luciana Salles; COSTA, Wellington Borges. Brasil século XX: ao pé da letra da canção popular. Curitiba: Nova Didática, 2002. p. 70-5.

• Com

base no texto acima, nas informações da página 199 e em seus conhecimentos, escreva um texto sobre as origens da bossa nova, comentando sobre sua influência na música contemporânea.

Disco Chega de Saudade, de 1958.

9. Leia o texto a seguir sobre as Reformas de Base propostas por João Goulart. Quando [...] um plebiscito restituiu ao presidente a plenitude do comando do governo, em janeiro de 1963 [...] ganhava força a mobilização popular em torno do novo plano de Reformas de Base — um conjunto de ações governamentais que deveriam promover a reforma agrária, a reforma fiscal e a reforma bancária, entre outras. O objetivo geral dessas ações era garantir a continuidade do desenvolvimento econômico, ampliando o mercado interno, e atender às demandas populares, que eram cada vez maiores. A democracia no Brasil do pós-guerra

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Para completar o cenário que antecedeu a deposição de João Goulart, é importante acrescentar dois aspectos. O primeiro refere-se ao apoio que o PTB, partido de Jango, havia recebido do Partido Comunista Brasileiro (PCB), uma vez que os ideais nacionalistas e a defesa da modernização industrial desvinculadas dos interesses econômicos estadunidenses eram pontos comuns em ambos os partidos. O PCB acreditava que, ao apoiar o desenvolvimento político-econômico do país, expandindo as relações capitalistas em todos os setores da economia, estava criando as condições para que, no futuro, a revolução socialista ocorresse. A adesão dos comunistas ao programa das reformas consolidou ainda mais a aliança, a despeito das divergências entre os militantes das duas agremiações. Para os setores conservadores, sobretudo os latifundiários, banqueiros e industriais, além de empresários ligados às multinacionais, essa aliança e mesmo as Reformas de Base eram muito malvistas, pois eram entendidas como implantação do comunismo do país. [...] Assim, os últimos meses do governo Goulart foram marcados por muitas tensões. Até mesmo alguns setores da esquerda aumentavam suas críticas ao governo, acusando-o de tímido ou de reformista, quando para eles a saída seria a radicalização através da revolução popular. Jango se viu, então, pressionado pela esquerda e pela direita, ou seja, pelos polos antagônicos que formavam o “pacto político” da democracia populista. Sem poder atender completamente às exigências de ambos, o governo foi se tornando indeciso e fraco, enquanto boa parte das elites civis e militares conspirava contra Jango. Diante da crescente mobilização popular em torno das Reformas de Base, as correntes que defendiam a derrubada do governo pela força ganhavam cada vez mais adeptos, sobretudo entre a classe média, cujo grande medo era que o “comunismo” viesse junto com as Reformas. Diga-se de passagem que esse conservadorismo da classe média será um dos pilares de apoio do golpe que logo ocorreria. O agravamento da crise socioeconômica e a crescente organização dos trabalhadores na forma de movimentos sociais e sindicais eram entendidos pelas elites como sinônimos de fraqueza do governo, incapaz de controlar a instabilidade econômica e os conflitos sociais. Para perturbar ainda mais a conjuntura política do Brasil, o governo de Jango, dependente do apoio das elites (sobretudo aquelas ligadas ao PSD), estava impedido de radicalizar sua política de reformas, para atender às reivindicações dos trabalhadores. Se o fizesse, perderia parte importante daquele apoio, fato que efetivamente ocorreu, aliás, mesmo sem a radicalização do governo. Cercado pelos conspiradores e prisioneiro de seus próprios limites, já que identificado com um sistema democrático-populista, o governo Jango foi derrubado pelo golpe militar de 1964, o que não implica afirmar que toda a sociedade brasileira tenha se rendido ao golpe e ao regime imposto. O Brasil entrava, assim, na era do “regime militar”, que não só afetou a face política do país como acabou por transformar outros aspectos da vida nacional. NAPOLITANO, Marcos. O regime militar brasileiro: 1964-1985. São Paulo: Atual, 1998. p. 6-8. (Discutindo a História do Brasil).

a ) Quais as principais medidas propostas pelas Reformas de Base? O que levou Jango a propor essas medidas? b ) Na época do governo Jango, em que pontos os partidários do PTB e os do PCB concordavam? c ) Qual era a visão dos grupos conservadores brasileiros em relação à mobilização popular que vinha ocorrendo na época? d ) Explique o que o autor quer dizer quando afirma que o governo Jango se encontrava “prisioneiro de seus próprios limites, já que identificado com um sistema democrático-populista”.

10. Leia o texto a seguir, em que o pesquisador Carlos Fico, em uma entrevista, apresenta sua investigação a respeito da Operação Brother Sam, um plano do governo dos Estados Unidos para, se necessário, intervir militarmente no Brasil e garantir o êxito do golpe de Estado de 1964. [...] Carlos Fico — A ideia de derrubar o presidente João Goulart consolidou-se, no final de 1963, em setores do governo dos Estados Unidos, em paralelo às conspirações que existiam no Brasil. En-

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tretanto, havia já algum tempo que aquele país vinha tentando desestabilizar o governo brasileiro, financiando candidatos de oposição, emprestando dinheiro a governadores contrários a Goulart e patrocinando uma expressiva propaganda política que sugeria que o presidente conduziria o Brasil ao comunismo. Essas iniciativas estadunidenses, chocantes e inéditas, deviam-se à decisão que eles tinham tomado de impedir, a qualquer custo, que surgisse “outra Cuba” no continente americano. A Operação Brother Sam foi a culminância dessa postura intervencionista. O governo estadunidense enviou às costas brasileiras uma força-tarefa naval com um porta-aviões, um porta-helicópteros, seis contratorpedeiros (dois equipados com mísseis teleguiados), 100 toneladas de armas e quatro navios-petroleiros que traziam combustível para o caso de um eventual boicote do abastecimento pelas forças legalistas. A ideia era apoiar o governador Magalhães Pinto, de Minas Gerais, onde o golpe de 1964 começou, com o qual os Estados Unidos haviam combinado a estratégia da declaração de um governo alternativo, plano que foi rascunhado ainda em 1963. Havia a previsão de desembarque de tropas, de armas, e os generais brasileiros estavam informados de tudo isso. A Operação Brother Sam não chegou às costas brasileiras e poucos ficaram sabendo dela até os anos 1970. Ao contrário de todas as previsões, João Goulart não resistiu, de modo que o golpe de 1964 concluiu-se rapidamente com a vitória dos conspiradores. [Depois do golpe], o Brasil alinhou-se inteiramente aos Estados Unidos. [...] Há muitas novidades e documentos inéditos que divulgo no livro [O grande irmão: da Operação Brother Sam aos anos de chumbo], como a instalação, no Brasil, pelos militares estadunidenses, de um equipamento de detecção de explosões nucleares, sem o conhecimento do governo do Brasil, em base militar operada secretamente, ou o nome do general brasileiro que era o contato com os americanos para a operacionalização da Operação Brother Sam. Uma das coisas que mais me impressionou na documentação [dos arquivos estadunidenses] foi a imagem muito negativa que os funcionários do Departamento de Estado e o governo dos Estados Unidos em geral tinham do Brasil e dos brasileiros. [...] Unidade 9

FICO, Carlos. Por trás do golpe de 1964. Boletim da FAPERJ. Disponível em: <www.faperj.br/?id=1391.2.2>. Acesso em: 22 jan. 2016.

a ) O que motivava os estadunidenses a tomarem essa postura intervencionista no Brasil? b ) De acordo com as pesquisas de Carlos Fico, como seria realizada a Operação Brother Sam?

Vestibulares 1. (ENEM-MEC) A moderna democracia brasileira foi construída entre saltos e sobressaltos. Em 1954, a crise culminou no suicídio do presidente Vargas. No ano seguinte, outra crise quase impediu a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek. Em 1961, o Brasil quase chegou a guerra civil depois da inesperada renúncia do presidente Jânio Quadros. Três anos mais tarde, um golpe militar depôs o presidente João Goulart, e o país viveu durante vinte anos em regime autoritário. A partir dessas informações, relativas à história republicana brasileira, assinale a opção correta. a ) Ao término do governo João Goulart, Juscelino Kubitschek foi eleito presidente da República. b ) A renúncia de Jânio Quadros representou a primeira grande crise do regime republicano brasileiro. c ) Após duas décadas de governos militares,

Getúlio Vargas foi eleito presidente em eleições diretas. d ) A trágica morte de Vargas determinou o fim da carreira política de João Goulart. e ) No período republicano citado, sucessivamente, um presidente morreu, um teve sua posse contestada, um renunciou e outro foi deposto.

2. (UFRJ) O governo de Juscelino Kubitschek (19561961) costuma ser lembrado como o dos “anos dourados”. As classes médias urbanas viviam em clima de grande otimismo, marcado especialmente pelo acesso a bens de consumo que transformavam seu estilo de vida. Contudo, a política desenvolvimentista que caracterizou o período também causou indesejáveis modificações na economia do país. Indique duas consequências negativas da adoção dessa política para a economia brasileira da época.

A democracia no Brasil do pós-guerra

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Ampliando seus conhecimentos Arte e história

Lasar Segall

O pintor Lasar Segall (1891-1957) nasceu na Lituânia e, entre os anos de 1906 e 1923, viveu na Alemanha, onde absorveu muitos elementos do Expressionismo alemão. Ele veio ao Brasil pela primeira vez em 1912, em visita a familiares. No ano seguinte, apresentou suas obras em São Paulo e Campinas, proporcionando ao público brasileiro um dos primeiros contatos com a então desconhecida arte expressionista. Lasar Segall. 1954-1955. Óleo com areia sobre tela. 65 x 50 cm. Acervo do Museu Lasar Segall, São Paulo (SP) - IBRAM/MinC

Ele desenvolveu um estilo próprio e intuitivo ao longo de sua carreira, pintando quadros que valorizavam seu subjetivismo e individualismo. No Expressionismo de Segall, é constante a representação de figuras deformadas, pintadas com cores fortes, que buscam expressar as emoções do artista, transmitindo sentimentos com grande peso psicológico. Lasar Segall naturalizou-se brasileiro em 1927 e, a partir de então, entre muitas viagens para Europa e EUA, participou de várias exposições, tendo inclusive algumas de suas obras exibidas na Exposição de Arte Degenerada, organizada em 1937 pelos nazistas que condenavam a arte moderna. Durante a década de 1950, Segall, morando definitivamente no Brasil desde 1932, já era reconhecido como um dos grandes pintores modernistas brasileiros, ao lado de outros nomes como Portinari e Di Cavalcanti. Participou de várias edições da Bienal Internacional de São Paulo, expondo obras com forte temática humana e social, que abordavam a situação de personagens como trabalhadores operários, imigrantes e pobres, priorizando temas como as desigualdades sociais e o trabalho. Veja duas obras de Lasar Segall.

Lasar Segall. 1956. Óleo sobre tela. 100 x 164 cm. Acervo do Museu Lasar Segall, São Paulo (SP) - IBRAM/MinC

Pintura de Lasar Segall, Favela I, produzida entre 1954-1955.

Greve, obra pintada por Lasar Segall em 1956.

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O Pagador de Promessas Filme de Anselmo Duarte. O Pagador de Promessas. Brasil, 1962

A história no cinema

O Pagador de Promessas tem seu roteiro baseado em uma peça de teatro homônima, escrita por Dias Gomes na década de 1950. O longa conta a história de um morador do interior da Bahia que faz uma promessa para que seu burro doente sobrevivesse. A promessa consiste em dividir sua terra com os mais pobres e levar a pé uma cruz de madeira até a igreja de Santa Bárbara, na cidade de Salvador. Após a melhora do animal, ele se desloca até lá para pagá-la. Porém, o padre não concede permissão para a entrada na igreja. A insistência do homem em entrar cria uma situação de conflito e a população se posiciona. O filme mostra, entre outros aspectos, a intolerância às diferenças, principalmente em relação à religiosidade. O Pagador de Promessas foi o primeiro filme brasileiro premiado no Festival de Cinema de Cannes, na França. Título: O Pagador de Promessas

• •De Getúlio a Getúlio: o Brasil de Dutra e Vargas, 1945 a 1954,

de José Dantas Filho e Francisco F. M. Doratioto. Editora Atual. Estudo sobre os anos entre a saída de Getúlio Vargas do poder e seu suicídio.

••A

Atores principais: Leonardo Villar, Glória Menezes, Dionízio Azevedo, Geraldo Del-Rey, Norma Bengell Ano: 1962 Duração: 100 minutos Origem: Brasil

Unidade 9

Diretor: Anselmo Duarte

Para ler

década de 50: populismo e metas desenvolvimentistas no Brasil, de Marly Rodrigues. Editora Ática. A atuação de grupos e movimentos sociais na década de 1950 prenunciaram as mudanças de comportamento e valores que viriam a caracterizar a sociedade brasileira dos anos 1960.

• •Jango e o golpe de 1964 na caricatura, de Rodrigo Patto Sá Motta. Editora

Jorge Zahar. O livro trata do período pré-1964 a partir da produção de caricaturas. Elas são capazes da transmitir o clima da época, a personalidade de políticos, e de dar forma a um discurso que ecoava, e ainda ecoa, na opinião pública.

Para navegar

• •Várias faces do moderno: a historiografia da música popular brasileira nos anos 50. Disponível em: <http://tub.im/zhk33b>. Acesso em: 18 abr. 2016. Artigo do professor Fábio Guilherme Poletto, publicado nos Anais do IV Fórum de Pesquisa Científica em Arte da Escola de Música e Belas Artes do Paraná.

• •História do Cinema Brasileiro. Disponível em: <http://tub.im/od6e58>. Acesso

em: 2 out. 2015. Site que se propõe a levantar e difundir imagens e textos abrangendo verbetes relacionados ao cinema brasileiro. Notícias, biblioteca, filmografia, enciclopédia, legislação e história.

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unidade

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O Brasil durante a ditadura militar


No dia 1o de abril de 1964, os militares brasileiros aplicaram um golpe de Estado, depondo o então presidente João Goulart. Sob o pretexto de afastar uma suposta amea ça comunista, eles implantaram no país uma ditadura, que foi marcada pelo desrespeito aos direitos dos cidadãos e pela perseguição aos opositores do regime. Nesta unidade, vamos estudar alguns fatos importantes relacionados ao período da ditadura militar, como o chamado “milagre econômico”. Vamos conhecer como os militares recorreram à censura para impedir as críticas ao seu governo e como a delação foi estimulada pelos seus agentes, de modo que qualquer denúncia, mesmo anônima, podia resultar na prisão e na tortura de pessoas consideradas suspeitas. Apesar de correrem riscos, muitas pessoas resistiam à opressão, entre elas jornalistas, estudantes, artistas e operários. Vamos entender também como foi importante a mobilização popular, principalmente por meio da campanha das Diretas já, para pôr fim ao regime militar e instaurar um regime democrático no país. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

A

Logo após o anúncio do golpe de 1964, muitas pessoas saíram às ruas de Porto Alegre para protestar. De acordo com a fotografia, como foi a reação dos militares?

B

Durante a ditadura militar, milhares de pessoas sofreram perseguições e foram torturadas. O que mais você sabe sobre esse período da história do Brasil? Comente.

Iconographia/Reminiscências

Fotografia tirada em Porto Alegre (RS), logo após o golpe militar de 1964.

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O golpe de 1964 Na manhã de 1o de abril de 1964, cidadãos das principais cidades do país acordaram ao som da movimentação de tropas do Exército. Era um golpe militar em andamento, que, contando com o apoio de parte da sociedade civil, depôs o presidente João Goulart sob a justificativa de garantir a ordem e a segurança no país e conter as ações daqueles que supostamente pretendiam transformar o Brasil em um país socialista.

Arquivo/Estadão Conteúdo

Apesar de ainda contar com o apoio dos governadores Miguel Arraes (Pernambuco) e João Dória (Sergipe), além de Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul, o presidente deposto João Goulart se refugiou no estado gaúcho e, em seguida, exilou-se no Uruguai, procurando evitar conflito armado.

Fotografia de um tanque do Exército estacionado próximo à casa do presidente João Goulart, no Rio de Janeiro (RJ), em 31 de março de 1964.

Linha do tempo 1 o de abril de 1964

Golpe de Estado depõe o presidente João Goulart. Ranieri Mazilli, presidente da Câmara, assume provisoriamente a presidência.

1964

Governo militar no Brasil

9 de abril de 1964

O AI-1 (Ato Institucional no 1) limita os poderes do Congresso Nacional e cassa direitos políticos de opositores do regime.

1965

1966

1967

17 de outubro de 1965

O AI-2 (Ato Institucional no 2) extingue todos os partidos existentes, criando restrições para que fosse adotado um sistema bipartidário, além da instituição de eleições indiretas para presidência da República.

1968

1969

1970

24 de janeiro de 1967

13 de dezembro de 1968

É implantada a nova Constituição.

1971

1972

O AI-5 (Ato Institucional no 5) decreta o fechamento do Congresso Nacional e a suspensão de garantias legais e constitucionais dos cidadãos brasileiros.

1973

1974

15/04/1964 a 15/03/1967

15/03/1967 a 31/08/1969

31/08/1969 a 30/10/1969

30/10/1969 a 15/03/1974

Humberto Castello Branco

Arthur da Costa e Silva

Junta Militar

Emílio Garrastazu Médici

Período marcado pela implantação da ditadura militar.

Governo marcado pelo endurecimento do regime e aumento da perseguição aos opositores.

Para evitar a posse do vice de Costa e Silva, o civil Pedro Aleixo, uma Junta Militar assume o governo.

Esse período, conhecido como “anos de chumbo”, foi marcado por um alto grau de autoritarismo e de arbitrariedades.

212


Militares no poder Arquivo/Estadão Conteúdo

Após o golpe, os militares assumiram o poder e cassaram o mandato de muitos políticos da oposição. No dia 15 de abril, o Congresso Nacional elegeu indiretamente o Marechal Humberto de Alencar Castello Branco como presidente do Brasil. A partir de então, os militares garantiram o controle social por meio do autoritarismo e da repressão policial.

Fotografia que retrata militar reprimindo uma estudante nas ruas de São Paulo (SP), em 1968.

26 de outubro de 1975

1 o de janeiro de 1979

A morte do jornalista Vladimir Herzog causa comoção nacional, resultando em manifestações contra o governo militar.

1975

1976

O escritor e compositor Mário Lago mostra seu livro 1o de abril, no qual relata sua experiência como prisioneiro do regime militar. Fotografia tirada em 1964.

Ernesto Geisel revoga o AI-5.

1977

1978

1979

13 de novembro de 1980

Aprovada uma Emenda Constitucional estabelecendo eleições diretas para governadores estaduais.

1980

1981

1982

Unidade 10

Entre os perseguidos pelo regime militar estavam personalidades conhecidas no meio político, como Luiz Carlos Prestes, João Goulart, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Samuel Wainer e Juscelino Kubitschek. Alguns artistas foram acusados de serem comunistas e perderam o emprego, como Herivelto Martins, Mário Lago, Dias Gomes, Paulo Gracindo. O líder comunista Gregório Bezerra foi preso, espancado e arrastado pelas ruas da cidade de Recife. Mesmo políticos conservadores, que haviam apoiado o golpe esperando receber benefícios políticos, foram, posteriormente, relegados ao isolamento político ou mesmo cassados: esse foi o caso de Carlos Lacerda, ex-governador do estado da Guanabara.

Bosco/Acervo UH/Folhapress

Os perseguidos pelo regime militar

15 de abril de 1985

O primeiro presidente civil eleito, José Sarney, assume o cargo de presidente da República, fato que marca o fim do regime militar.

1983

1984

15/03/1974 a 15/03/1979

15/03/1979 a 15/03/1985

Ernesto Geisel

João Batista Figueiredo

Período em que se inicia a abertura política, porém de maneira gradual e com a manutenção de vários instrumentos de exceção.

Figueiredo dá continuidade à abertura política iniciada por seu antecessor. Esse período é marcado pela crítica popular ao regime e pelo aumento da recessão econômica.

1985

O Brasil durante a ditadura militar

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O regime militar Após assumirem o governo, os militares tomaram uma série de medidas a fim de exercer o controle sobre a população e centralizar as decisões políticas. Entre essas medidas estavam os Atos Institucionais (AIs). Ao longo da ditadura, foram promulgados 17 AIs. O primeiro deles, o AI-1, procurou consolidar e dar legitimidade ao novo regime: instituiu a eleição indireta para presidente, cassou por dez anos os direitos políticos daqueles considerados inimigos do regime e suspendeu por seis meses os direitos constitucionais de todos os brasileiros. As perseguições, o exílio e a censura passaram então a fazer parte do cotidiano brasileiro, limitando a participação da sociedade civil na vida política do país. Em outubro de 1965, o AI-2 foi promulgado. Ele extinguia os partidos políticos existentes e, juntamente com o Ato Complementar no 4, oficializava dois novos partidos: a Arena (Aliança Renovadora Nacional), que era um partido alinhado ao regime militar, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), que fazia oposição ao governo e defendia a redemocratização, apesar de sofrer com as restrições impostas pela ditadura. 29/03/1969. Biblioteca Municipal Mário de Andrade, São Paulo (SP)

A propaganda ideológica Ao mesmo tempo que proibia a circulação de informações e ideias consideradas “impatrióticas”, o governo militar divulgava massivamente a sua própria ideologia em propagandas nos meios de comunicação e em instituições educacionais. Lemas como “Brasil, ame-o ou deixe-o” ou “Ninguém mais segura este país” buscavam veicular ideais nacionalistas e desenvolvimentistas, promovendo uma imagem positiva do governo, enquanto transmitia a impressão de que o Brasil estava se tornando uma grande potência. Com isso, procurava-se também encobrir a falta de liberdade política e os problemas sociais presentes no país. A partir de 1969, o ensino de Educação Moral e Cívica se tornou obriga­tório em todas as escolas brasileiras. Durante a ditadura, a função primordial dessa disciplina foi transmitir aos alunos conceitos e valores alinhados à ideo­ logia do regime militar. Cartaz de propaganda do governo militar, veiculado em 1969.

A Doutrina de Segurança Nacional Desenvolvida no contexto da Guerra Fria, a Doutrina de Segurança Nacional foi elaborada por estadunidenses com a intenção de conter o avanço da influência comunista na América Latina, principalmente após a Revolução Cubana, ocorrida em 1959. Subversivo: característica atribuída a uma pessoa ou às suas ideias quando se almeja a derrubada de uma ordem ou sistema político, econômico ou social estabelecido.

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Essa doutrina tinha como objetivo identificar e prender as pessoas consideradas contrárias ao regime político instituído, principalmente comunistas. No Brasil, essa doutrina foi adotada pelos militares da Escola Superior de Guerra (ESG), órgão ligado ao Ministério da Defesa que defendia o desenvolvimento nacional aliado ao capital estrangeiro. Durante a ditadura militar, a Doutrina de Segurança Nacional era a base ideológica da política instituída pelos militares, servindo como justificativa para as ações repressoras do governo contra as pessoas e ideias consideradas subversivas.


Os órgãos de repressão Durante o governo militar, foram criados vários órgãos estatais que visavam identificar e perseguir indivíduos considerados subversivos. Em nome da segurança nacional, órgãos como o Serviço Nacional de Informações (SNI), o Departamento de Operações Internas (DOI) e o Centro de Operações e Defesa Interna (CODI) tinham a função de controlar as informações que circulavam no país e de desarticular as organizações que visavam combater o regime militar, localizando e prendendo seus militantes. Muitas pessoas que faziam oposição ao regime, como políticos, estudantes, trabalhadores, artistas e escritores, foram perseguidas por agentes do governo. Vários opositores fugiram do país, pois corriam risco de serem presos, torturados ou até mesmo assassinados.

Disco de Caetano Veloso. Joia. Philips, 1975

A censura As proibições impostas pela censura também faziam parte da Doutrina de Segurança Nacional. A censura foi oficializada pelo decreto-lei n o 1 077, de janeiro de 1970. De acordo com esse decreto, estava proibida a divulgação de obras que tivessem conteúdos considerados subversivos e que colocassem em risco a segurança nacional.

Conteúdos que criticassem ou transmitissem uma visão negativa do regime, alinhados ou não à ideologia comunista, eram considerados impatrióticos e, então, censurados. Redações de jornal, bancas de revistas, livrarias e editoras foram fechadas e, muitas vezes, tornaram-se alvo de ataques de agentes do governo.

Unidade 10

Na prática, a censura já era aplicada desde 1967, quando foi criada a Lei de Imprensa, porém, ao longo dos anos, ela atingiu todos os meios de comunicação. Programas de televisão e de rádio, jornais, revistas, livros, letras de música, peças de teatro, filmes, ou seja, quase toda a produção cultural e intelectual brasileira e estrangeira tinha que passar pelo crivo dos censores que trabalhavam para o regime militar. Capa original de um disco de Caetano Veloso, de 1975, que foi censurada e teve que ser modificada. Pau de arara: instrumento de tortura composto por um pedaço de madeira suspenso, em que o torturado é pendurado pelos joelhos e cotovelos.

L.C Leite/Folhapress

Os torturadores Além da violência institucionalizada do regime militar, como a censura, as prisões e o exílio, também havia práticas de repressão e tortura não oficiais. Os torturadores contavam com a cumplicidade de seus superiores e aproveitavam-se da impunidade para usar métodos de repressão violentos contra os inimigos do regime. Muitas pessoas morreram ou sofreram danos irreversíveis ao serem submetidas à tortura utilizada nos interrogatórios ou como penalidade por crimes contra a ordem. Uma vez capturados, os suspeitos podiam sofrer maus-tratos e castigos corporais diversos. Práticas como choques elétricos, afogamentos, pau de arara, espancamentos e palmatória eram comuns nos quartéis para os quais os prisioneiros eram levados. Muitas mulheres sofreram violência sexual. Em casos de “acidentes de trabalho”, que resultavam na morte do prisioneiro, os militares faziam a “desova”, ou seja, abandonavam os cadáveres em locais ermos ou enterravam-nos como indigentes. Médicos que compactuavam com os militares emitiam laudos médicos falsos e forjavam autópsias para encobrir as verdadeiras causas dessas mortes.

Ossadas encontradas em um cemitério clandestino, em 1990, no qual acredita-se que foram enterrados cerca de 50 presos políticos mortos durante a ditadura militar.

O Brasil durante a ditadura militar

215


Arte e resistência durante a ditadura Os conteúdos das páginas 216 e 217 favorecem o trabalho interdisciplinar com Arte. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

No início da década de 1960, vários grupos de estudantes brasileiros se organizaram para promover movimentos populares de educação e cultura. Eles tiveram o apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de alguns membros da Igreja Católica. A partir de 1964, esses movimentos culturais passaram a estimular a população a resistir e protestar contra a ditadura militar de maneira pacífica. Os artistas que deles participavam assumiam um posicionamento crítico frente ao regime, procurando abordar em suas obras os problemas sociais brasileiros. Esse tipo de arte ficou conhecido como arte engajada. Por causa da censura e da falta de liberdade para produzir obras que criticassem o governo militar, os artistas engajados procuraram denunciar os problemas da sociedade brasileira de maneira sutil e disfarçada, para que suas críticas não fossem percebidas pelos agentes da censura.

Chico Nelson/Conteúdo Expresso/Latinstock

O teatro Muitos grupos de teatro encenaram peças que denunciavam as difíceis condições de vida da população pobre brasileira, tanto no meio rural (como Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto) quanto no meio urbano (como Navalha na Carne, de Plínio Marcos). As peças apresentadas pelo grupo Teatro Oficina, dirigido por José Celso Martinez Corrêa, geralmente tratavam de temas polêmicos e criticavam o contexto político da época. Já o grupo Teatro de Arena, dirigido por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, abordava em suas peças questões sociais da época, além de lutas históricas da população brasileira, como em Arena conta Zumbi, de 1976. Apresentação da peça Arena conta Zumbi, no Rio de Janeiro (RJ), em 1976.

O cinema

Filme de Glauber Rocha. Terra em Transe. Brasil, 1967

No cinema, vários diretores também fizeram críticas sociais e políticas em seus filmes, sob forte influência do Cinema Novo. Entre eles, estavam Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Júlio Bressane, Arnaldo Jabor e Rogério Sganzerla. Os filmes e documentários desses cineastas mostravam pessoas em situação de miséria e sofrendo humilhações, bem como pessoas comuns emi­tindo suas opiniões sobre diversos assuntos. Apesar de muitos desses filmes terem permanecido censurados no Brasil por vários anos, alguns deles receberam prêmios em festivais de cinema internacionais, como O dragão da maldade contra o santo guerreiro, de Glauber Rocha. A contracultura no Brasil

Cartaz do filme Terra em Transe, de 1967, escrito e dirigido por Glauber Rocha.

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Vários movimentos culturais brasileiros das décadas de 1960 e 1970 eram contraculturais, pois criticavam o comportamento conservador e os princípios políticos capitalistas, que eram difundidos pelos meios de comunicação da época. O movimento contracultural brasileiro, além de promover a “cultura de protesto”, propunha novas formas de viver em sociedade, por exemplo em comunidades coletivas, e a recusa do consumismo. No Brasil, o principal divulgador da contracultura foi o jornalista Luiz Carlos Maciel, que publicava textos sobre os movimentos de contestação em sua coluna Underground, no jornal O Pasquim.


A Música Popular Brasileira

Folhapress

Durante o regime militar, a Música Popular Brasileira (MPB) se caracterizou como um influente movimento artístico. Vários músicos passaram a compor letras de música que contestavam a ditadura e que ficaram conhecidas como canções de protesto. Esses artistas conquistaram a simpatia do público e enriqueceram a música popular do país. Entre os cantores da MPB que compuseram e cantaram canções de protesto destacam-se Nara Leão, Zé Keti, Carlos Lyra, Sérgio Ricardo, Edu Lobo, João do Valle, Aldir Blanc, Elis Regina, João Bosco, Jair Rodrigues, Geraldo Vandré e Chico Buarque. Este último, bastante visado pelos censores, compunha letras que faziam críticas aos problemas econômicos, sociais e políticos decorrentes do regime militar. Perseguido, teve várias músicas censuradas. Para burlar a censura, ele adotou o pseudônimo artístico Julinho da Adelaide. Com essa estratégia, conseguiu lançar três músicas de conteúdo contestatório: Milagre brasileiro, Jorge Maravilha e Acorda, amor.

Elis Regina se apresentando em 1966, local desconhecido. Arquivo/Estadão Conteúdo

O Tropicalismo

Os tropicalistas assimilavam elementos estrangeiros e os misturavam à cultura popular do Brasil. Alguns dos fundadores do movimento tropicalista foram: no cinema, Glauber Rocha; no teatro, o grupo Teatro Oficina; nas artes plásticas, Hélio Oiticica; na música, Rogério Duprat, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Jorge Ben, Tom Zé e o conjunto musical Os Mutantes.

O rock nacional

Unidade 10

O Tropicalismo foi um movimento contracultural brasileiro que ganhou expressão nacional no final da década de 1960. Ele trouxe novos questionamentos sobre a cultura brasileira, principalmente em relação à identidade nacional e ao comportamento conservador da sociedade.

Tropicalistas se apresentam no programa Divino e Maravilhoso, da TV Tupi, em São Paulo (SP), em 1968. Da esquerda para a direita: Os Mutantes, Gilberto Gil, Caetano Veloso (sentado, no centro), Gal Costa (sentada à direita) e Jorge Ben.

Um singular expoente do rock na época, Raul Seixas, no entanto, introduziu inovações na variante nacional. Ele mesclou o rock com ritmos tradicionais do Brasil, como o forró e o baião, e compôs letras que tinham um caráter contestador.

Norma Albano/Estadão Conteúdo

O rock nacional ganhou popularidade com o movimento da jovem guarda (também chamado de “iê-iê-iê”), liderado por Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos. Esses músicos procuravam passar uma imagem de rebeldia, mesmo que a temática de suas músicas fossem amorosas e adolescentes. Além disso, seu comportamento era muito influenciado por padrões estadunidenses. Muitos artistas e militantes engajados criticavam a jovem guarda, pois consideravam que esse movimento era alienante, por não enfocar as questões sociais em suas composições.

Apresentação de Raul Seixas em São Paulo (SP), no início da década de 1980.

O Brasil durante a ditadura militar

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A imprensa O golpe de 1964 teve apoio de grande parte da imprensa, que aprovava a derrubada de Jango. No entanto, após o golpe, grandes jornais, como o Correio da Manhã, passaram a publicar denúncias relacionadas ao governo militar. No início da ditadura, quase todos os jornais de esquerda foram fechados. Os veículos de comunicação que continuaram suas atividades, como jornais, revistas e emissoras de rádio e de televisão, foram vítimas de censura. Editoras de livros e escritórios de redação de jornais que veiculavam ideias contestatórias sofreram intervenções, como o recolhimento das edições impressas e a prisão de seus editores.

A Passeata dos Cem Mil Em março de 1968, uma ação militar no restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro, onde estudantes estavam reunidos, resultou na morte do jovem Edson Luís. Em resposta, os estudantes organizaram uma marcha contra os abusos do governo militar da qual participaram líderes do Movimento Estudantil, escritores, cineastas, artistas plásticos, professores, intelectuais e operários. A mobilização, conhecida como a Passeata dos Cem Mil, foi realizada no dia 26 de junho de 1968, no Rio de Janeiro. Arquivo/Estadão Conteúdo

Alguns jornalistas fundaram periódicos independentes, que formavam a chamada “imprensa nanica”. Para transmitir à população as notícias censuradas, eles publicavam-nas de forma disfarçada, utilizando também o humor para criticar o regime militar. Esse formato jornalístico obteve grande aceitação do público leitor.

Os movimentos estudantis Representado principalmente pela União Nacional dos Estudantes (UNE), o Movimento Estudantil desempenhou um importante papel social durante a ditadura militar. Seus membros organizaram vários Centros de Cultura Popular e implantaram o programa UNE-volante, que passou a divulgar propostas a favor de uma cultura nacional revolucionária, popular e democrática. Alguns estudantes, por outro lado, engajavam-se em movimentos de direita, como o CCC (Comando de Caça aos Comunistas), o que demonstra que os interesses estudantis não eram homogêneos. Com a crescente repressão, o movimento estudantil de esquerda se desestruturou e perdeu grande parte de sua capacidade de mobilização.

Fotografia que retrata participantes da Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro (RJ), em 1968.

Arquivo/Estadão Conteúdo

O sujeito na história

Tarso de Castro (ao centro) preparando uma edição do jornal O Pasquim, no Rio de Janeiro (RJ), em 1969.

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Tarso de Castro

Entre os jornalistas que fizeram oposição ao regime militar destaca-se Tarso de Castro (1941-1991). Nascido em Passo Fundo (RS), ele começou sua carreira jornalística trabalhando no jornal O Nacional. Com o golpe militar, Tarso foi perseguido e ficou alguns anos exilado no Uruguai. Em 1969, de volta ao Brasil, ele e alguns amigos (Jaguar, Sérgio Cabral, Luiz Carlos Maciel, Claudius e Carlos Prosperi) criaram um jornal que se tornou símbolo do jornalismo alternativo e de denúncia à ditadura militar: O Pasquim. Tarso foi editor de O Pasquim por vários anos e estabeleceu uma linha editorial que, por meio do humor e da ironia, fez do jornal um dos principais veículos de crítica ao regime militar.


As resistências armadas

Focos de resistência popular armada começaram a se formar nas cidades e também no campo. Estudantes, operários e camponeses ligados a ideologias de esquerda se engajaram em organizações guerrilheiras, como a Ação Libertadora Nacional (ALN), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). A ALN foi uma das primeiras organizações guerrilheiras a entrar em ação durante a ditadura. Ela foi criada em 1967 sob a liderança de Carlos Marighella, ex-membro do PCB.

O endurecimento do regime Desde o início da ditadura, muitos militares defendiam a necessidade de centralizar ainda mais o poder Executivo e aumentar a repressão aos opositores do regime. O processo de endurecimento do regime militar começou a se configurar com a promulgação da Constituição de 1967, que institucionalizou as medidas dos AIs e aumentou os poderes do Executivo. O AI-5, promulgado em 13 de dezembro de 1968, inaugurou o período mais repressi­ vo do regime, suspendendo o habeas corpus de presos políticos e restringindo ainda mais a liberdade do cidadão. Ele ainda concedeu plenos poderes ao presidente da República, que fechou o Congresso Nacional, as Assem­bleias Nacionais e as Câmaras de Vereadores. Além disso, o presidente podia cassar mandatos, decretar e prorrogar o estado de sítio e também nomear interventores nos governos estaduais e prefeituras municipais.

Geralmente, os grupos de guerrilha urbana se organizavam em duas frentes: os grupos de ação, em que atuavam os guerrilheiros que sabiam atirar, usar e fabricar explosivos, planejar e praticar assaltos e sequestros; e os grupos de apoio, que produziam documentos falsos e material de propaganda, roubavam veículos para utilizar nas ações, estocavam armas, munição e dinheiro, além de abrigar guerrilheiros dos grupos de ação em suas casas quando fosse necessário. A guerrilha rural, por sua vez, visava mobilizar a população camponesa para a luta armada. Em várias regiões isoladas do país, os guerrilheiros tinham maior possibilidade de se organizar e treinar, além de abrigar militantes procurados pela polícia.

O principal exemplo de guerrilha rural contra a ditadura foi a Guerrilha do Araguaia, ocorrida entre os anos de 1971 e 1974, nas matas do rio Araguaia, na região amazônica. Os guerrilheiros instalaram vários postos nas matas estocando mantimentos, armas e munições. Para combatê-los, o Exército montou uma base militar e postos policiais na região. O governo mobilizou aproximadamente 10 mil soldados para combater cerca de 70 guerrilheiros, sufocando o movimento e executando a maioria de seus membros.

Enquanto isso

... na Tchecoslováquia

Habeas corpus: ação judicial que tem como objetivo proteger o direito de liberdade ameaçado por abuso de autoridade.

Unidade 10

Durante o governo Médici, entre 1969 e 1974, o regime militar se caracterizou pela violenta repressão aos seus opositores, pela rigorosa censura aos meios de comunicação e pelo rígido controle da sociedade. Esse período ficou conhecido como “anos de chumbo”.

Manifestantes saem às ruas em apoio a Alexander Dubček durante a Primavera de Praga, em 1968. Keystone Archives/Heritage Images/Scala, Florence/Glow Images

A Tchecoslováquia (atuais República Tcheca e Eslováquia) era uma das repúblicas do Leste europeu sob a esfera de influência da URSS. No ano de 1968, teve início uma série de manifestações e levantes em Praga (capital do país) contra a imposição do modelo político soviético na região. Essas manifestações ficaram conhecidas como Primavera de Praga e seu principal líder foi Alexander Dubcˇ ek, que governou o país por cerca de oito meses. Os principais objetivos de Dubcˇ ek eram: acabar com o autoritarismo promovido pelo modelo stalinista soviético, aumentar a liberdade para os cidadãos do país e instituir o multipartidarismo. Porém, as tropas soviéticas invadiram a capital, prenderam Dubcˇ ek e o destituíram do governo. Muitos estudiosos consideram a Primavera de Praga como o começo do declínio da unidade soviética.

O Brasil durante a ditadura militar

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Outras ditaduras na América Latina As intervenções dos EUA Durante a Guerra Fria, os países latino-americanos alinhados à esfera capitalista e comprometidos com o combate ao comunismo adotaram a Doutrina de Segurança Nacional e passaram a receber apoio financeiro e militar dos EUA. Esse fato teve papel fundamental nos golpes militares ocorridos durante as décadas de 1960 e 1970. Muitos oficiais militares de países como Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, por exemplo, eram treinados em academias financiadas e administradas pelos estadunidenses, como a Escola das Américas, no Pana­ má, onde eles aprendiam técni­ cas para combater as guerrilhas e a subversão.

Ao longo da década de 1950, vários países da América Latina foram governados por presidentes que, para conquistar o apoio das massas, propuseram diversas reformas que desagradaram os setores mais conservadores da sociedade. Já na década de 1960, sob a influência das ideologias de esquerda, as classes assalariadas se tornavam mais politizadas e os movimentos sociais buscavam se articular. Nesse contexto, fortaleciam-se também os grupos reacionários e militaristas que desejavam o aumento da repressão contra os projetos de mudança social. Com o apoio de setores conservadores da sociedade, como a elite oligárquica e parte da classe média, as intervenções militares na América Latina deixaram de ser pontuais, como nas décadas anteriores, para ocupar institucionalmente o poder, muitas vezes com o apoio militar e econômico de agências governamentais e empresas estadunidenses. Ao assumir o poder, a maioria dos militares se alinhava à política econômica orientada pelos preceitos do capitalismo liberal vigente nos EUA. Além do Brasil, outros países latino-americanos foram governados por militares nas décadas de 1960 e 1970. Veja alguns exemplos.

Eduardo DiBaia/AP Photo/Glow Images

A ditadura na Argentina Em 1966, ocorreu um golpe militar na Argentina, liderado pelo general Juan Carlos Onganía. Os militares permaneceram no poder até 1973, quando foram convocadas eleições livres e o poder foi devolvido aos civis. No entanto, os militares argentinos reassumiram o poder em 1976, instaurando uma das ditaduras mais repressivas e violentas da América Latina.

Horacio Villalobos/Corbis/Latinstock

Fotografia que retrata militares reprimindo manifestantes durante um protesto contra o regime militar em Buenos Aires, Argentina, em 1982.

Foram executadas cerca de 30 mil pessoas, entre elas políticos e militantes de esquerda. A Junta Militar, presidida pelo general Jorge Rafael Videla, extinguiu partidos políticos e sindicatos, além de intervir e controlar o Supremo Tribunal do país, subordinando todas as esferas de poder ao seu controle. Os militares deixaram o poder no país em 1986.

O golpe no Chile

Fotografia que mostra tanques do exército chileno, comandado pelo general Augusto Pinochet, em frente ao Palácio de La Moneda, sede do governo, em 1973.

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No Chile, em 1973, o presidente Salvador Allende, de orientação socialista, foi deposto pelos militares chilenos, que contaram com o apoio do exército estadunidense. No dia do golpe militar, em 11 de setembro de 1973, forças militares invadiram a sede do governo e uma junta militar, chefiada pelo general Augusto Pinochet, assumiu o poder, cancelando as nacionalizações feitas pelo governo de Allende. A perseguição aos opositores do regime resultou em cerca de quatro mil mortos.


No final da década de 1960, ganhou força no Uruguai um grupo guerrilheiro socialista conhecido como Tupamaro, que se destacou em ações urbanas na capital Montevidéu. Com o crescimento desse grupo, o exército uruguaio passou a reprimir violentamente as suas ações. Após desarticularem a guerrilha, no entanto, os militares recusaram-se a retornar aos quartéis sob a justificativa de que era preciso impedir o ressurgimento de grupos subversivos. Assim, tomaram o poder em 1973 por meio de um golpe que contou com o apoio dos militares brasileiros, os quais forneceram armas e logística, além de soldados que lutariam caso fosse preciso. De acordo com estimativas, a repressão do regime militar uruguaio foi responsável por cerca de 300 mortos e desaparecidos. A democracia foi restabelecida no Uruguai em 1985.

Ciro Gianbruno/dpa/Corbis/Latinstock

A repressão no Uruguai

Militares reprimem uma manifestação contra a ditadura em Montevidéu, no Uruguai, em 1984.

Militares no governo do Peru

Fotografia que mostra o ditador peruano Juan Velasco Alvarado (à direita) em uma reunião de chefes de Estado militares da América do Sul, em Lima, Peru, em 1974.

O regime militar na Bolívia Na Bolívia, os militares chegaram ao poder por meio de um golpe de Estado apoiado pelas elites. Parte da massa camponesa, manipulada por líderes que haviam sido coop­ tados, também apoiou o golpe. Ao assumir o poder em 1964, o militar René Barrientos Ortuño promoveu uma política de aproximação com os Estados Unidos, além de empreender uma violenta perseguição a vários movimentos sociais organizados, como os de operários e de mineiros. O governo exilou vários de seus adversários políticos, além de prender e assassinar muitos outros. Apesar da violência do regime, alguns grupos sociais oprimidos resistiram, principalmente por meio da formação de milícias até o fim do regime militar, em 1982. A Operação Condor A Operação Condor foi uma articulação entre os governos militares do Cone Sul (Brasil, Argentina, Bolívia, Uruguai, Paraguai e Chile). Criada em 1975, durante a XI Reunião dos Exércitos Americanos, realizada em Montevidéu, no Uruguai, a Operação Condor integrou os serviços de informação e repressão dos países envolvidos. Além de atuarem de forma conjunta na América do Sul, os aparelhos repressivos organizados pela operação também atuaram em países europeus, perseguindo os subversivos latino-americanos que estavam exilados.

O Brasil durante a ditadura militar

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Unidade 10

Em 1975, por meio de outro golpe militar, Alvarado foi substituído pelo general Francisco Morales Bermudez, que iniciou a segunda fase da ditadura. Ele manteve as restrições das atividades democráticas e foi mais conservador no âmbito social.

Diego Goldberg/Sygma/Corbis/Latinstock

A ditadura militar no Peru, que vigorou entre 1968 e 1980, teve duas fases distintas. A primeira, sob o governo do general Juan Velasco Alvarado, que tomou o poder por meio de um golpe, foi marcada pela ilegalidade dos partidos políticos, pela extinção do Parlamento e das eleições e pela censura à imprensa. No entanto, os sindicatos puderam continuar suas atividades. Além disso, o governo realizou uma reforma agrária e nacionalizou bancos, mineradoras e companhias de petróleo, medidas que desagradavam diretamente os estadunidenses.


O “milagre econômico” Ao assumirem o poder, os militares brasileiros empreenderam uma série de ações reformistas no campo econômico e financeiro. Eles pretendiam modernizar o capitalismo a fim de garantir o crescimento econômico e afastar a suposta ameaça comunista no país. O plano econômico adotado pelo governo militar baseava-se na entrada de capitais estrangeiros e na instalação de indústrias no Brasil. Para isso, foram feitos grandes investimentos na construção e modernização de portos e rodovias. Por outro lado, o governo tentava aumentar o volume de exportações, o que o levou a conter o crescimento do consumo interno, mantendo os salários baixos. Para estimular a entrada de capitais estrangeiros, os militares alteraram a lei que restringia o envio de lucros para o exterior. Desse modo, as empresas multinacionais tinham certeza de que o capital investido no Brasil retornaria às suas matrizes no exterior.

O desenvolvimento econômico A nova política econômica permitiu ao país receber várias indústrias multinacionais, principalmente estadunidenses, elevando a produção de bens de consumo duráveis, como automóveis e eletrodomésticos. Reginaldo Manente/Estadão Conteúdo

Houve crescimento das exportações, da exploração de reservas naturais e da produção industrial. Para impulsionar o desenvolvimento das indústrias, o governo passou a conceder empréstimos subsidiados aos empresários, além de conceder créditos pessoais, que possibilitaram o aumento do consumo. Parte dos empréstimos estrangeiros era utilizada na construção de grandes obras de infraestrutura, como a Usina Hidrelétrica de Itaipu e a rodovia Transamazônica, com mais de dois mil quilômetros de extensão no meio da Floresta Amazônica. Em sua propaganda, o governo apresentava essas obras como demonstração de que o país estava se desenvolvendo, criando assim um clima de otimismo e desviando a atenção da população dos graves problemas sociais e também da violenta repressão política. Rodovia Transamazônica em construção, Amazonas, década de 1970.

O colapso da economia brasileira O tema sobre o “milagre econômico” favorece o trabalho interdisciplinar com Matemática. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

Arrocho salarial: desvalorização dos salários em relação ao índice de inflação, o que diminui o poder de compra do trabalhador.

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Para atender às demandas do crescimento, o governo recorreu a novos empréstimos estrangeiros, aumentando a dívida externa e a dependência em relação ao capital estrangeiro. A situação da economia brasileira agravou-se em 1973, quando teve início a Crise do Petróleo, que ocasionou um grande aumento no preço do petróleo, numa época em que o Brasil importava a maior parte do combustível que consumia. Além disso, o governo militar passou a ter mais dificuldade para conseguir novos empréstimos, gerando um aumento nos juros da dívida externa. Diante dessa situação, o governo procurou aumentar as exportações, desvalorizando a moeda brasileira e intensificando o arrocho salarial. Como consequência, no início da década de 1980, a inflação disparou e os recursos provenientes das exportações eram utilizados, em sua maior parte, para pagar as parcelas e os juros da dívida externa. Desse modo, chegava ao fim o “milagre econômico”, deixando como resultado uma economia estagnada e endividada. Por causa da concentração da renda ocorrida durante o período do “milagre”, houve grande aumento das desigualdades sociais no Brasil.


Abertura “lenta, gradual e segura” Durante o governo do general Ernesto Geisel, uma abertura política começou a ser esboçada. Geisel, que pertencia ao grupo dos militares considerados moderados, adotou um programa de abertura que deveria acontecer de forma “lenta, gradual e segura”. Nesse contexto, a censura e a repressão política foram moderadamente diminuídas e, além disso, o governo estabeleceu alguns canais de diálogo e negociação com os oposicionistas do regime.

Avanços e retrocessos O general Golbery do Couto e Silva, nomeado ministro-chefe da Casa Civil, foi o principal articulador do projeto iniciado por Geisel. A abertura, no entanto, teve diversos momentos de endurecimento e retrocesso, pois uma ala militar, conhecida como “linha dura”, comandava os aparelhos repressivos da ditadura. Esse grupo era contrário a qualquer abrandamento do regime e também não aceitava a possibilidade de restauração do regime democrático. Manoel Pires/Folhapress

Nas eleições parlamentares de 1974, por exemplo, que deram a vitória à oposição, os aparelhos repressivos recorreram à violência, perseguindo jornalistas, sindicalistas e acusando militantes comunistas de serem os responsáveis pela expressiva votação obtida pelo MDB. No auge dessa reação conservadora, foram mortos o jornalista Vladimir Herzog, em 1975, e o metalúrgico Manoel Fiel Filho, em 1976, nas dependências do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) de São Paulo.

Unidade 10

O general Ednardo de Melo, comandante do II Exército, ao qual o DOI-CODI de São Paulo era subordinado, foi destituído pelo presidente Geisel. Além disso, em 1977 o general Sylvio Frota, ministro do Exército e candidato dos setores “linha dura” à sucessão presidencial, foi exonerado de seu cargo pelo presidente. Mesmo durante o processo de abertura política, os materiais produzidos pela imprensa subversiva eram malvistos pelo governo ditatorial. Nessa fotografia, tirada em 1981, vemos o jornalista Hélio Fernandes em frente à sede do jornal Tribuna da Imprensa, no Rio de Janeiro (RJ), destruído pelos militares do DOI-CODI.

O sujeito na história

Manoel Fiel Filho Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo

Manoel Fiel Filho nasceu na cidade de Quebrangulo, Alagoas, em 1927. Com 18 anos de idade, mudou-se para São Paulo em busca de emprego. Trabalhou como cobrador de ônibus, padeiro e metalúrgico. Filiado ao Partido Comunista e ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Fiel foi perseguido pela ditadura militar. De acordo com um relatório do antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), ele foi incriminado por receber exemplares do jornal Voz Operária. Em 1976, agentes militares foram até a casa de Manoel e o levaram para ser interrogado nas dependências do DOI-CODI. Ele foi brutalmente torturado e assassinado. De acordo com a versão dos militares, porém, ele teria se enforcado com suas próprias meias. No início da década de 1980, a viúva de Manoel, Teresa Lourdes Martins Fiel, conseguiu provar na justiça que seu marido não cometeu suicídio, e sim foi assassinado.

Manoel Fiel Filho. Fotografia da década de 1970.

O Brasil durante a ditadura militar

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As consequências do caso Herzog Em 1975, Vladimir Herzog foi intimado a comparecer ao DOI-CODI para prestar esclarecimentos. No dia de seu depoimento, 25 de outubro, durante o interrogatório, ele foi submetido à violenta tortura, que ocasionou sua morte. As autoridades militares alegaram que Herzog havia cometido suicídio, porém fortes evidências mostravam que ele havia sido assassinado após horas de tortura. O assassinato desse jornalista causou grande impacto na sociedade civil brasileira. Uma semana depois da morte de Herzog, foi realizada na catedral da Sé, em São Paulo, uma missa ecumênica em sua memória, com a presença de cerca de oito mil pessoas. Leia o trecho a seguir sobre a importância desse evento.

O ato marcou a primeira grande manifestação pública contra o regime militar desde a edição do AI-5 [...]. Em torno do tema dos direitos humanos e da justiça social, a oposição se rearticulava contra o regime militar, passando a reocupar o espaço público. A partir daí, a sociedade civil iria ampliar sua participação em atos públicos de protesto, em torno de valores democráticos.

Arquivo/Estadão Conteúdo

NAPOLITANO, Marcos. O regime militar brasileiro: 1964-1985. São Paulo: Atual, 1998. p. 58. (Discutindo a História do Brasil).

Fotografia que retrata uma multidão na missa em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, ocorrida na catedral da Sé, no centro de São Paulo (SP), em 1975.

Passado e presente

Refletindo

• •O que a retificação do atestado de óbito de Herzog representa para a sociedade brasileira na atualidade? Reflita sobre o tema e converse com os colegas. Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.

O caso Herzog passado a limpo

Em 2012, após anos de luta pelo esclarecimento da morte de Vladimir Herzog, amigos e familiares do jornalista comemoraram a retificação de seu atestado de óbito. De acordo com decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, a morte de Herzog foi decorrente de lesões e maus-tratos sofridos nas dependências do DOI-CODI. Ivo Herzog, filho do jornalista, e Paulo Markun, amigo de Vladimir Herzog, consideram a retificação de seu atestado de óbito um passo importante para o esclarecimento de outras mortes durante o regime militar no Brasil. Leia o texto a seguir.

[...] A deliberação do juiz Márcio Martins Bonilha Filho, da 2 a Vara de Registros Públicos do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), concede um importante precedente para que outras famílias torturadas pelo mesmo sofrimento possam fazer justiça. “Ela abre as portas para que os que perderam gente querida naquela época sigam o mesmo caminho e possam ter um documento que recupere a verdade sobre o destino daquela gente”, afirmou Ivo. “O atestado de óbito afinal reescrito prova que a verdade tarda, mas aparece”, concluiu Markun. PITHAN, Natália. Alteração da certidão de óbito do pai emociona filho de Herzog. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/brasil/alteracao-da-certidao-de-obito-do-paiemociona-filho-deherzog,6033dc840f0da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html>. Acesso em: 5 fev. 2016.

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O fim do regime militar Ao mesmo tempo que tomava medidas para levar em frente a abertura política, o presidente Ernesto Geisel abusava dos poderes ditatoriais. Temendo o avanço eleitoral do MDB nas eleições parlamentares de 1978, ele fechou o Congresso e lançou uma série de medidas conhecidas como Pacote de Abril. Essas medidas alteravam o sistema eleitoral, determinando que 1/3 dos senadores fossem indicados pelo presidente (os chamados senadores “biô­n icos”), que a eleição dos governadores continuasse indireta e que o mandato presidencial fosse ampliado de cinco para seis anos. Apesar dessas medidas, Geisel manteve o processo de abertura, revogando os Atos Institucionais decretados desde 1964, inclusive o AI-5. Para substituir Geisel na presidência, foi escolhido o general João Baptista Figueiredo, que assumiu o governo prometendo continuar a abertura e redemocratizar o país. Em agosto de 1979, depois de anos de luta de grande parte da oposição, foi aprovada a Lei da Anistia. Essa lei prescreveu os crimes políticos das pessoas consideradas subversivas, mas também perdoou os agentes de repressão responsáveis por mortes e torturas.

A volta do pluralismo partidário Em 1979, o presidente Figueiredo realizou uma reforma partidária, substituindo o bipartidarismo (Arena e MDB) pelo pluripartidarismo. A Arena, que reunia a base do governo, passou a se chamar PDS (Partido Democrático Social) e o MDB passou a se chamar PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), agrupando os opositores do regime. Surgiram também os partidos trabalhistas PDT (Partido Demo­ crático Trabalhista), liderado por Leonel Brizola, e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), além do PT (Partido dos Trabalhadores), enca­ beçado pelas novas lideranças operárias, e o PP (Partido Popular), que logo se incorporou ao PMDB.

O retorno dos exilados

Leonel Brizola

Nascido em Carazinho (RS), no ano de 1922, Leonel de Moura Brizola foi um dos mais influentes políticos brasileiros e participou dos principais acontecimentos políticos do Brasil desde 1945 até sua morte, em 2004. Eleito governador do Rio Grande do Sul em 1959, ele apoiou o presidente João Goulart, sendo defensor das Reformas de Base. Durante a ditadura militar no Brasil, ficou exilado no Uruguai e nos Estados Unidos, mas continuou articulando formas para combater o regime ditatorial. Com o fim da ditadura, Brizola continuou sua carreira política, sendo eleito governador do estado do Rio de Janeiro por duas vezes. Em 1992, época em que a economia do país passava por uma grande abertura ao mercado internacional, Brizola fez a seguinte declaração:

Na fotografia tirada em 1979, Brizola é recebido com festa pelos habitantes de São Borja (RS), na volta do exílio. Ricardo Chaves/Conteúdo Expresso/Latinstock

O sujeito na história

Sabe qual é a nossa posição? Liberdade, sim, mas até o ponto em que essas franquias não se transformem na liberdade da raposa dentro do galinheiro. Esta é a nossa fronteira. Se a liberdade é para todos no galinheiro, mas quem come as galinhas é a raposa, então não serve. Precisamos de um Estado democrático, uma sociedade vigilante, para que isso não aconteça. Porque do contrário desaparece toda a razão de sermos uma nação independente, um povo que tem o seu orgulho, a sua vontade de projetar-se para o futuro. BRIZOLA, Leonel. A economia brasileira. In: MANESCHY, Osvaldo (Coord.). Leonel Brizola: a legalidade e outros pensamentos conclusivos. Niterói: Nitpress, 2011. p. 147-8.

O Brasil durante a ditadura militar

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Unidade 10

A Lei da Anistia foi um importante passo no processo de abertura e redemocratização do Brasil. Ela possibilitou o retorno dos exilados políticos, que estavam fora do país há muitos anos. Entre eles havia políticos (como Luís Carlos Prestes e Leonel Brizola), intelectuais (como Paulo Freire e Milton Santos) e artistas (como Geraldo Vandré). A volta dessas pessoas ao Brasil fez os movimentos pelo fim do regime militar ganharem mais força e estrutura.


As greves no ABC paulista Durante o processo de abertura, ocorreram várias greves de trabalhadores da região do ABC paulista. Essas greves foram iniciadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva. A luta desses operários era, inicialmente, por reajustes salariais. Posteriormente, entretanto, eles ampliaram o leque de reivindicações. Leia o texto.

Os metalúrgicos estiveram à frente dos movimentos que abrangeram também outros setores. Em 1979, cerca de 3,2 milhões de trabalhadores entraram em greve no país. Houve 27 paralisações de metalúrgicos, abrangendo 958 mil operários; ao mesmo tempo, ocorreram vinte greves de professores, reunindo 766 mil assalariados. As greves tinham por objetivo um amplo leque de reivindicações: aumento de salários, garantia de emprego, reconhecimento das comissões de fábrica, liberdades democráticas. FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. São Paulo: Edusp; Imprensa Oficial do Estado, 2002. p. 277.

As Diretas já Em 1982, aconteceram as primeiras eleições diretas para governador desde a implantação da ditadura. O PMDB venceu em vários estados (SP, PR, MG e GO) e o PDT elegeu Leonel Brizola no Rio de Janeiro. A partir de então, os opositores do regime passaram a lutar pelas eleições diretas para presidente. Começava a campanha das Diretas já, que, no início de 1984, reunia milhares de pessoas em comícios populares realizados em várias cidades brasileiras. Enquanto isso, os congressistas discutiam o restabelecimento das eleições diretas para presidente, em 1985.

A campanha das diretas foi, sem dúvida, a maior mobilização popular da história do país, se medida pelo número de pessoas que nas capitais e nas maiores cidades saíram às ruas. Ela começou com um pequeno comício de 5 mil pessoas em Goiânia, atingiu depois as principais cidades e terminou com um comício de 500 mil pessoas no Rio de Janeiro e outro de mais de 1 milhão em São Paulo. [...]

Rolando de Freitas/Estadão Conteúdo

Vista aérea da praça da Sé, em São Paulo (SP), durante um comício da campanha pelas Diretas já, em 1984.

Os comícios transformaram-se em grandes festas cívicas. Compareciam os líderes dos partidos de oposição, os presidentes de associações influentes como a ABI [Associação Brasileira de Imprensa] e a OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], e, sobretudo, os mais populares jogadores de futebol, cantores e artistas de televisão. Músicas populares de protesto eram cantadas com acompanhamento da multidão, tudo sempre em perfeita ordem. As cores nacionais, o verde e o amarelo, tingiam roupas, faixas, bandeiras. A bandeira nacional foi recuperada como símbolo cívico. [...] Mais que tudo, o hino nacional foi revalorizado e reconquistado pelo povo. Ao final de cada comício, era cantado pela multidão num espetáculo que a poucos deixava de impressionar e comover. CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 10. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. p. 188-9.

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A “Emenda das Diretas” Benedito Salgado/Estadão Conteúdo

Em abril de 1984, ocorreu a votação da Emenda Dante de Oliveira, que propunha o restabelecimento das eleições diretas para presidente. Os congressistas, em sua maioria, votaram a favor da emenda, no entanto, por causa do grande número de ausências e abstenções, não conseguiram os 2/3 de votos necessários para sua aprovação. Leia a matéria a seguir, publicada no jornal Folha de S.Paulo, após a reprovação da Emenda Dante de Oliveira.

A tudo isso alguns congressistas disseram não. Evitemos insultar a memória do passado e as gerações de amanhã chamando-os congressistas: são representantes de si próprios, espectros de parlamentares, fiapos de homens públicos, fósseis da ditadura. [...] Cai a emenda, não nós. Folha de S.Paulo, São Paulo, 26 abr. 1984. p. 1. Disponível em: <http://acervo.folha.uol.com.br/ fsp/1984/04/26/2/>. Acesso em: 5 fev. 2016.

Eleições indiretas para presidente Em meio à instabilidade política, foram lançadas as candidaturas para as eleições indiretas de 1985. O deputado federal Paulo Maluf, candidato alinhado aos militares, recebeu a indicação do PDS para disputar as eleições. Já Tancredo Neves, que era governador de Minas Gerais, foi o candidato da oposição. Tancredo obteve a maioria dos votos no Colégio Eleitoral e venceu as eleições, tornando-se o primeiro presidente civil eleito após 21 anos de ditadura militar.

Pessoas comemoram o fim da ditadura militar. Brasília (DF), 1985.

O Brasil durante a ditadura militar

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Unidade 10

Com a reprovação da Emenda Dante de Oliveira, um clima de tristeza tomou conta do país. Fotografia tirada em São Paulo (SP), na praça da Sé, em 1984.

Stephanie Maze/Corbis/Latinstock

Frustrou-se a esperança de milhões. Uma compacta minoria de maus parlamentares disse não à vontade que seu próprio povo soube expressar com transparência, firme­ za e ordem. Nunca a sociedade brasileira se ergueu com tal vulto, nunca um movimento se irradiou de modo tão amplo nem o curso da história se apresentou assim palpitante e inconfundível. Em poucos meses a campanha pelas Diretas já dissolveu fronteiras de todo tipo para imantar o espírito dos brasileiros numa torrente serena, profunda, irrefreável. Um povo sempre acusado de abulia e de inaptidão para a vida pública ofereceu, ante a surpresa de observadores locais e estrangeiros, o espetáculo de seu próprio talento para se organizar e manifestar com responsabilidade, energia e imaginação.


Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento 1. “A imagem positiva do Brasil, difundida

7. Descreva os seguintes acontecimentos do

pela propaganda dos governos militares, acobertava um governo arbitrário, autoritário e repressivo.” Com base no que foi estudado, explique essa afirmação.

final da ditadura militar, explicando de que forma eles contribuíram para a queda do regime.

2. Quais eram os princípios da Doutrina de Segurança Nacional?

3. Como se manifestou a arte engajada durante o regime militar?

4. O que foi a Passeata dos Cem Mil? 5. De que maneira os EUA influenciaram os golpes e regimes militares dos países latino-americanos?

a ) A abertura “lenta, gradual e segura”. b ) O caso Vladimir Herzog. c ) A Lei da Anistia e a volta dos exilados. d ) As greves no ABC paulista. e ) O movimento Diretas já. 8. Como se deu a eleição de Tancredo Neves em 1985? Qual foi sua importância histórica?

6. O que foi o chamado “milagre econômico”?

Expandindo o conteúdo 9. Leia o texto a seguir, que trata da censura que a ditadura militar impôs à imprensa brasileira, impedindo-a de noticiar qualquer informação que fosse considerada prejudicial à imagem do governo.

Desde 1964, a imprensa foi o único setor de atividade econômica contra o qual o regime praticou e permitiu agressões patrimoniais. O jornal Última Hora [do Rio de Janeiro], único diário a defender o governo Goulart na edição de 1o de abril, teve as suas sedes do Rio e do Recife invadidas e depredadas. [...] Todos os semanários esquerdistas foram fechados e em 1966 fracassou até a costumeira tática do Partido Comunista de reaparecer com um novo título e diretores notáveis. A Folha da Semana, seu semanário de fachada liberal, foi fechada pela Marinha. Durante o governo Castello Branco [...] jornalistas foram cassados e perseguidos em inquéritos intimidadores. Ainda assim, a soma de todas as pressões que exerceu sobre os jornais e emissoras é insuficiente para eliminar o fato de que preservou uma liberdade de imprensa seletiva, graças à qual o Correio da Manhã conduziu a campanha contra a tortura. O mesmo se pode dizer do marechal Costa e Silva, em cujo governo Carlos Marighella publicara o texto “Algumas questões sobre guerrilhas” na solene edição dominical do Jornal do Brasil. A ambiguidade terminou na noite de 12 de dezembro de 1968, quando o general Jayme Portella de Mello determinou à Polícia Federal que se preparasse para calar as emissoras de rádio e televisão e enviar censores aos jornais do Rio e de São Paulo. Era o prelúdio da missa negra que decretaria o AI-5. Em Brasília, a blitz do general Portella resultou na prisão de jornalistas, como Carlos Castello Branco, do Jornal do Brasil, o maior cronista político do país. [...] Cada um a sua maneira, todos os proprietários de empresas jornalísticas captaram os sinais de sanções e isenções que o regime enviou. A imprensa que gritara “Basta” e “Fora” Jango, denunciara torturas no governo de Castello e se opusera ao AI-5 em 1968 foi sedada através da reformulação dos termos do tradicional processo que regia suas relações de poder.

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[...] O ministro da Fazenda exercitava a capacidade de negociar isenções e financiamentos, enquanto o da Justiça ganhava poderes para “determinar investigações sobre a organização e o funcionamento de empresas jornalísticas”. [...] Samuel Wainer, transformado pela propaganda do regime em arquétipo da pena janguista, negociara em Paris a venda da Última Hora paulista ao proprietário da Folha de S.Paulo [...]. [Em 1971], Samuel decidiu vender o pedaço que lhe restava do império da Última Hora [carioca]. Compraram-no os mesmos empreiteiros que haviam arrematado o Correio da Manhã [dois anos antes]. A mordaça imposta à imprensa a partir de dezembro de 1968 era confusa, onipotente e errática. Passada a blitz do AI-5, os censores foram dispensados, e a tesoura foi instrumentalizada através de sucessivos encontros de autoridades com proprietários de empresas jornalísticas. Criou-se assim uma rotina de comunicações entre a censura e as empresas, quase sempre telefônica, informal. [...] Dois jornais — O Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde, pertencentes a uma única família — haveriam de se recusar (a partir de agosto de 1972) a cumprir as ordens telefônicas ou papeletas trazidas por policiais, obrigando o governo a remeter censores às suas redações. Somente neles podia-se ver diariamente o efeito da tesoura, pois, no lugar dos textos vetados, foram publicadas receitas culinárias e, posteriormente, poemas. A partir de julho de 1973, os espaços vazios foram ocupados por trechos d’Os Lusíadas, de Luís de Camões. [...]

Unidade 10

Arquivo/Estadão Conteúdo

Arquivo/Estadão Conteúdo

GASPARI, Elio. A Ditadura Escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 210-1; 216-9.

Acima, página do jornal O Estado de S. Paulo de 4 de setembro de 1974, que teve a seguinte notícia censurada: “A defesa da liberdade de imprensa não é solitária”. À sua direita, a mesma página, com um poema da obra Os Lusíadas do escritor português Luís de Camões no lugar da notícia censurada.

• •Produza um texto explicando como os seguintes jornais sofreram com a censura: Última Hora, Correio da Manhã, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil.

O Brasil durante a ditadura militar

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10. O texto a seguir foi publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, em dezembro de 2008. Leia-o. Editado há 40 anos pelo general Costa e Silva, o AI-5, o principal símbolo da ditadura militar, é totalmente ignorado por 82% dos brasileiros a partir dos 16 anos. E, dos 18% que ouviram falar algo sobre ele, apenas 1/3 (32%) respondeu corretamente que a sigla se referia ao Ato Institucional no 5. Fac-símile do Jornal da Tarde. 14/12/1968. Coleção particular

Editado em 13 de dezembro de 1968 [...], o AI-5 autorizava o Executivo a fechar o Congresso, cassar mandatos, demitir e aposentar funcionários de todos os poderes. O governo podia legislar sobre tudo, e suas decisões não podiam ser contestadas judicialmente. Em dez anos, o AI-5 serviu de base para a cassação de mais de cem congressistas. A censura atingiu cerca de 500 filmes, 450 peças, 200 livros e 500 canções. Passados quase 30 anos de sua extinção, a lembrança do AI-5 vem se desvanecendo. Como observa o cientista político Marcus Figueiredo, do IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), isso resulta do fato de que boa parte da população nasceu após 1968: “O fato tem 40 anos e não faz parte do calendário das datas nacionais”. Mas mesmo no estrato de pessoas com 60 anos ou mais (indivíduos que tinham ao menos 20 anos quando o AI-5 foi editado), só 26% dizem ter ouvido falar dele. [...]

Capa do Jornal da tarde de 1968, que traz como manchete principal a promulgação do AI-5.

Para o sociólogo Leôncio Martins Rodrigues, professor aposentado da USP e da Unicamp, “a variável decisiva é a escolaridade”. “É natural que o desconhecimento exista. A população comum é muito desinformada sobre questões políticas. O pessoal mal lê jornal. Isso não é só no Brasil. Foi feita uma pesquisa com jovens da Alemanha, e a grande maioria nunca tinha ouvido falar de Hitler”.

[...] A historiadora Denise Rollemberg, da UFF, diz tratar-se de um processo que envolve esquecimento e reconstrução da história: “No Brasil pós-abertura política, quando a democracia passa a ser valorizada, há uma reconstrução do passado a partir do presente. Nessa reconstrução esquece-se o que houve [...]”. Daniel Aarão Reis, também da UFF, concorda. Diz que sempre que uma sociedade muda de valores surge o desafio de compreender por que se tolerou a situação agora deixada de lado: “É muito mais simples não falar do assunto, esquecer”. PAIVA, Natália; PULS, Mauricio. Oito em cada dez brasileiros nunca ouviram falar do AI-5. Folha Online, 13 dez. 2008. Fornecido pelo Folhapress. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1312200819.htm>. Acesso em: 18 mar. 2016.

a ) Quais são as justificativas apresentadas pelos estudiosos citados no texto para o desconhecimento da população brasileira sobre o AI-5? b ) Elabore um pequeno texto sobre o AI-5. Procure expressar sua opinião sobre o decreto e explicar o porquê de grande parte da população brasileira desconhecê-lo.

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Oficina de história

Experiência e vivência

O cotidiano de quem viveu durante a ditadura militar As fontes orais são relatos de pessoas sobre determinados temas que podem ser utilizados como fontes de pesquisa para construir a História. O regime militar brasileiro — assunto estudado nesta unidade — durou de 1964 a 1985 e pode ser estudado por meio de relatos orais de brasileiros que viveram nessa época. a ) Em grupo, recolham um relato desse tipo, entrevistando uma pessoa que vivia no Brasil durante o regime militar. O relato pode ser recolhido com anotações ou por meio de gravação de áudio e transcrição. Vejam um roteiro de questões para auxiliá-los nesta atividade.

• O que você lembra do golpe militar de 1964? • O que você pensa a respeito do regime militar? • Como você tomava conhecimento da repressão do governo? • Você conheceu alguém que foi preso durante a ditadura? • Qual é a sua opinião a respeito dos grupos guerrilheiros que se opunham aos militares? • Quais estilos de música você gostava de ouvir naquela época? • Você participou de alguma das manifestações pelo fim do regime militar?

b ) Verifiquem se a pessoa entrevistada possui alguma fotografia, jornal ou revista da época do regime militar. Se possível, reproduzam esses documentos. c ) Feita a entrevista, selecionem alguns trechos e reproduzam-nos em cartazes para serem expostos na escola. Para tornar os cartazes mais atrativos, incluam as reproduções dos documentos fornecidos pelo entrevistado. Caso não haja, pesquisem na internet e imprimam fotografias ou documentos do período. Convidem alunos de outras turmas para visitar a exposição e, se possível, contem para eles como foi a experiência de entrevistar uma pessoa que viveu durante o regime militar no Brasil.

1. (UFRRJ) Ao chegar à Oban, fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram-me para o pau de arara. Dependurado, nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-se “telefones” (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isso durou cerca de uma hora. Frei Betto. Batismo de sangue: os dominicanos e a morte de Carlos Marighella. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.

O texto acima discorre sobre os procedimentos dos militares e demais grupos responsáveis pela repressão contra aqueles que lutavam contra a ditadura instaurada no Brasil em 1964. Sobre a ação do regime ditatorial, podemos afirmar que: a ) a suspensão dos direitos e garantias individuais serviu ao propósito de debelar a oposição com violência.

b ) a tolerância política dos generais-presidentes conteve os excessos dos simpatizantes da ditadura. c ) a sociedade brasileira estava indiferente às questões da democracia e da justiça social. d ) os tenentes foram os responsáveis pelo questionamento da ordem e exigiram medidas modernizadoras. e ) o estabelecimento do Estado Novo garantiu a entrada do país na etapa da redemocratização política.

2. (UNICAMP-SP) A palavra revolução tem sido empregada de modo a provocar confusões... No essencial, porém, há pouca confusão quanto ao seu significado central: sabe-se que a palavra se aplica para designar mudanças drásticas e violentas na estrutura da sociedade. FERNANDES, Florestan. O que é Revolução. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 7-8.

Explique por que, segundo o conceito proposto por Florestan Fernandes, o movimento político de 1964 não foi uma revolução.

O Brasil durante a ditadura militar

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Unidade 10

Vestibulares


Ampliando seus conhecimentos Arte e história

Hélio Oiticica

A arte brasileira no período do regime militar reflete muitas das tensões sociais e insatisfações que as pessoas sentiam diante da situação vigente nos anos da ditadura. Um dos expoentes dessa época foi Hélio Oiticica (1937-1980). Ele era pintor, escultor, artista plástico e performático. Como ativista político, era partidário do anarquismo. Pregava a rebelião total contra os conceitos de arte, criando assim a antiarte, ou seja, criações experimentais fora dos padrões convencionais. Em suas criações artísticas, Oiticica utilizava materiais do uso cotidiano (TVs, discos de vinil etc.), dispondo-os em uma ou mais salas interligadas, que compunham as chamadas instalações. Ele buscava superar os limites estéticos do quadro e da escultura, levando suas criações para espaços que antes não eram contemplados pela arte, como as ruas e favelas do Rio de Janeiro. Desse modo, a antiarte quebrava o distanciamento entre o espectador e a obra, convidando-o a participar diretamente das criações com todos os sentidos (visão, olfato, audição, paladar e tato), fossem elas pinturas, esculturas ou instalações de qualquer tipo. Exemplificando seu conceito de antiarte, uma das obras mais importantes é o Parangolé, uma espécie de capa para ser vestida.

Hélio Oiticica. 1960. Tate Modern, Londres (Inglaterra). Foto: Jonathan Hordle/Rex Features/Glow Images

As obras de Oiticica influenciaram o movimento Tropicalista e os movimentos de oposição aos militares, especialmente dos jovens brasileiros, no fim da década de 1960.

Obra de arte de Hélio Oiticica intitulada Grande Núcleo, de 1960, exposta em Londres, Inglaterra. Fotografia de 2007.

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Zuzu Angel Filme de Sérgio Resende. Zuzu Angel. Brasil, 2006

A história no cinema

O filme é inspirado na história da estilista Zuleika Angel Jones, conhecida internacionalmente como Zuzu Angel, e aborda o regime militar e perseguições políticas ocorridas durante o período. O filho de Zuzu, Stuart Angel Jones, era um estudante de Economia que ingressa na militância política e torna-se um membro do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Por causa da militância, vai preso no Rio de Janeiro por agentes da ditadura e desaparece. Com base nos relatos de um companheiro de prisão de Stuart, Zuzu Angel denuncia a tortura e o assassinato de seu filho, e encaminha o caso ao Congresso Americano e ao secretário de Estado dos EUA (já que Stuart possuía cidadania brasileira e estadunidense), mas não obtém esclarecimentos. Filme de Sérgio Resende. Zuzu Angel. Brasil, 2006. Foto: Ana Ottoni/Folhapress

Alguns anos depois, ainda sem ter encontrado o corpo do filho, Zuzu tem sua busca interrompida por um acidente ocorrido em circunstâncias mal explicadas.

Título: Zuzu Angel Diretor: Sérgio Resende Atores principais: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Luana Piovani, Regiane Alves, Alexandre Borges, Leandra Leal e Elke Maravilha Ano: 2006 Duração: 110 minutos Origem: Brasil

Unidade 10

Cena do filme Zuzu Angel.

Para ler

• •O regime militar brasileiro: 1964-1985, de Marcos Napolitano. Editora Atual. O

livro aborda como se dá a formação de um regime militar, a ditadura no Brasil, e a luta até a transição para a democracia.

• •Militarismo na América Latina, de Clóvis Rossi. Editora Brasiliense. Demonstra

a ocorrência habitual do militarismo na história política da América Latina desde sua independência. No Brasil, explica como as forças armadas deixaram de fazer o papel de moderadoras do poder para o exercerem após o golpe de 1964.

• •Resistência da mulher à ditadura militar no Brasil, de Ana Maria Colling. Edi-

tora Rosa dos Tempos. A autora investiga a participação das mulheres em instâncias predominantemente masculinas: a militância política e os órgãos de repressão. Da negação da sexualidade para a conquista da igualdade de gênero até as diferenças entre a tortura de homens e mulheres.

Para navegar

••Memórias reveladas. Disponível em: <http://tub.im/weziu3>. Acesso em: 29 set.

2015. Página do Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (Ministério da Justiça) no período da ditadura militar, com banco de dados, publicações, material audiovisual, entre outros. O Brasil durante a ditadura militar

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Guillem Lopez/Alamy Stock Photo/Latinstock

unidade

O mundo contemporâneo

Criança interagindo com o robô “humanoide”, modelo ASIMO, produzido por uma empresa japonesa. Esse robô, de 1,20 metro de altura e 52 quilos, é capaz de realizar vários movimentos humanos, como andar, correr, subir escadas e segurar objetos com as mãos, além de trocar informações e reconhecer gestos e rostos humanos. Atualmente, o ASIMO já é utilizado como recepcionista em algumas empresas e como guia turístico em museus. Fotografia de 2009.

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Em fevereiro de 1997 a revista Nature divulgou o nascimento da ove­ ­lha Dolly, o primeiro mamífero clona­d o com sucesso a partir da célula de um animal adulto. Essa notícia deixou o mundo perplexo diante da atual capacidade de in­ tervenção humana nos processos de gera­ ção da vida. As reações foram extremadas, desde o repúdio total a essas experiências até a glorificação do progresso científico. Nesta unidade, estudaremos algumas das grandes transformações provocadas pela Terceira Revolução Industrial, entre as quais a clonagem é um exemplo emblemático do avanço tecnológico em curso no mundo em que vivemos. Perceberemos como a Biotecnologia e a Bioética nos colocam questões totalmente novas, que exigem a busca de soluções ba­ seadas em amplo debate ético e moral. Estu­ daremos também alguns avanços tecnológi­ cos, como o desenvolvimento da robótica e a criação de realidades virtuais, que vêm trans­ formando rapidamente as relações de traba­ lho e também nossa percepção de mundo. Veremos, ainda, como o fim da União Soviética e, consequentemente, da Guerra Fria marcou o surgimento de um mundo cada vez mais integrado pelo processo da globalização, em uma nova ordem mundial caracterizada pela multipolaridade do poder econômico e político. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

A Descreva a fotografia. Qual sensação ela causa em você? B Além de robôs humanoides como esse da fotografia, outros tipos de tecnolo­ gias da robótica são utilizados atual­ mente em nossa sociedade. Em quais instrumentos estão presentes? C Nesta unidade, estudaremos alguns dos problemas do mundo contemporâneo. Em sua opinião, quais são eles?

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A Guerra Fria chega ao fim No final dos anos 1970, a economia da União Soviética (URSS) enfrentava grandes dificuldades. O país não conseguia acompanhar o rápido desenvolvimento tecnológico do mundo capitalista. Nessa época, a administração do regime soviético estava cen­ tralizada nas mãos de uma burocracia ineficiente e corrupta, que impedia a livre circu­ lação de ideias e não conseguia atender às demandas do consumo interno. O alto custo da corrida armamentista sufocava a economia do país. A prioridade dada aos projetos militares e às indústrias pesadas resultava na insuficiência de inves­ timentos nas indústrias de bens de consumo, como alimentos, eletrodomésticos e automóveis, ocasionando a falta desses produtos para a população. A agricultura soviética também enfrentava problemas com a baixa produtividade, agravados por empreendimentos caros e malsucedidos de irrigação e beneficiamento do solo. Essa situação era agravada ainda mais por problemas técnicos, de armaze­ namento e de transporte, e administrativos, como a falta de organização para realizar a distribuição dos produtos.

Gorbachev: perestroika e glasnost Ao assumir o governo da URSS em 1985, Mikhail Gorbachev procurou estabelecer uma série de medidas que buscavam superar a estagnação econômica e tornar o sistema político soviético menos rígido. Para enfrentar esses desafios, Gorbachev implan­ tou as reformas conhecidas como perestroika (reestruturação econômica) e glasnost (abertura política). A perestroika tinha como objetivo dinamizar o desenvolvimento do país e diminuir o atraso tecnológico em relação aos países capitalistas. A corrida armamentista foi in­ terrompida, com a redução dos investimentos bélicos em benefício da produção de bens de consumo e da implantação de programas de habitação. As formas alternati­ vas de produção, em relação à propriedade estatal, foram estimuladas, como as coo­ perativas de trabalhadores e as pequenas empresas privadas. Além disso, foi permitida a entrada de capital estrangeiro no país, pois, além da captação de dinheiro, preten­ dia-se incorporar a tecnologia avançada de outros países na URSS.

Ronald Reagan (à esquerda), presidente dos Estados Unidos, com Mikhail Gorbachev (à direita). Os encontros entre esses dois líderes marcaram o período de abertura da URSS ao capital estrangeiro. Fotografia de 1985 tirada em Genebra, na Suíça.

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A glasnost, por sua vez, visava diminuir o controle burocrático do Partido Comunis­ ta, eliminando o centralismo político. Os prisioneiros políticos foram libertados e a censura à imprensa e às artes foi abolida. Foram permitidas a livre manifestação pú­ blica e a criação de associações e clubes de discussão política, embora o Partido Comunista continuasse a ser o único com existência legal. Vários templos religiosos foram devolvidos à Igreja Ortodoxa, que deixou de ser hostilizada pelo Estado.


Boris Yeltsin e a criação da CEI As reformas de Gorbachev eram apoiadas pela maioria da população e também por políticos influentes. Na alta cúpula do Partido Comunista soviético, porém, as reformas eram vistas com reservas, principalmente pelos burocratas que tinham interesse na manutenção de seus privilégios.

Gorbachev permaneceu no comando da URSS, mas a força política estava agora nas mãos do presidente russo Boris Yeltsin. O golpe final se deu em dezembro de 1991, quando os representantes da Rússia, Ucrânia e Bielorrússia assinaram o Acordo de Minsk, determinando a criação da Comunidade de Estados Independentes (CEI), extinguindo a União Soviética como entidade política. Com isso, Gorbachev teve de assinar sua renúncia.

Shepard Sherbell/Corbis/Latinstock

O auge dessa tensão se deu em agosto de 1991, com uma tentativa de golpe dos setores mais conservadores do Partido Comunista. A ten­ tativa de afastar Gorbachev foi frustrada pela resistência dos moscovitas que, sob a liderança de Boris Yeltsin, então presidente da Rússia, ocu­ param o Parlamento soviético e impediram sua tomada pelo exército.

Fotografia que retrata Boris Yeltsin discursando em Moscou, na Rússia, em 1992.

A desintegração da URSS (1991)

E. Cavalcante

OCEANO GLACIAL ÁRTICO

Lionel Cironneau/AP Photo/Glow Images

N O

L S

Círculo Polar Ártico

RÚSSIA ESTÔNIA LETÔNIA LITUÂNIA BIELORRÚSSIA

Unidade 11

50° N

UCRÂNIA

CAZAQUISTÃO

MOLDÁVIA UZBEQUISTÃO

GEÓRGIA ARMÊNIA

Território da antiga URSS

TURCOMENISTÃO AZERBAIJÃO

QUIRGUISTÃO TADJIQUISTÃO

0

840 km

50° L

Fonte: ALLAN, Tony (Ed.). A Era Nuclear: 1950­1990. Rio de Janeiro: Abril, 1993.

A crise dos países socialistas Após a queda do Muro de Berlim, os países socialistas do Leste Europeu iniciaram um processo de transição para o sistema capitalista. Na maioria dos casos, a transição econômica e a democratização ocorreram de forma pacífica. Mas o caso da Iugoslávia, por exemplo, foi marcado por intensos conflitos. O país era uma federação composta por repúblicas de auto­ nomia reconhecida, mas não independentes: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro e Bósnia­Herzegóvina. No início dos anos 1990, os movimentos de independência nesses países envolveram guerras civis, conflitos étnicos e ações genocidas, que causaram a morte de milhares de pessoas.

Em 1989, o Muro de Berlim, símbolo da divisão ideológica entre capitalistas e socialistas, foi derrubado. A queda do muro acelerou o enfraquecimento do regime socialista em vários países do Leste Europeu. Nessa fotografia, tirada em 1989, vemos uma multidão festejando a derrubada do Muro de Berlim, na Alemanha.

O mundo contemporâneo

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O mundo multipolar A formação dos blocos econômicos A formação de diferentes blocos econômicos ocorreu por meio de tratados e acordos oficiais entre os governos ou de maneira informal, ou seja, não institucional. A finalidade de um bloco econômico é ampliar e facilitar as trocas comerciais entre os países-membros. Os meios para se atingir esses objetivos implicam na regulação ou eliminação de tarifas alfandegárias e das taxas e impostos sobre os bens e serviços negociados, além da adoção de uma política que visa a solução comum para os eventuais problemas comerciais que podem ocorrer entre os países de determinado bloco.

A desintegração da União Soviética e o fim dos regimes comunistas do Leste europeu representaram a vitória dos Estados Unidos na Guerra Fria. A partir de então, os EUA emergiram como maior superpotência econômica e militar do planeta. Apesar dessa supremacia, o país vem perdendo seu poder de influência, mesmo entre seus tradicionais aliados. O confronto que havia entre os sistemas capitalista e socialista durante a Guerra Fria foi substituído pela disputa dentro do próprio capitalismo, por meio da forma­ ção de blocos de poder político e econômico. Assim, no final do século XX se configuraram três polos de poder: o americano, liderado pelos EUA e composto por países da América; o europeu, constituído pelos países da União Europeia; e o oriental, formado por países da Ásia e da Oceania, cujo centro é o Japão. Nesse começo de século XXI, a geopolítica mundial também sofre influência da intensa ascensão econômica da China que, juntamente com outros países emer­ gentes, como o Brasil, a Índia e a Rússia, compõe esse novo mundo multipolar.

A ascensão da China No início da década de 1980, a China passou por uma grande transformação. Sua economia, que antes funcionava nos moldes socialistas e realizava pouco comércio com outros países, passou aos poucos a se abrir ao mercado internacional. A abertura econômica chinesa foi acompanhada de uma forte intervenção do Estado, que continuou a controlar rigidamente os rumos da produção no país. A indústria passou por um processo de modernização, com um alto investimento do Estado em tecnologia. Desde o final da década de 1970, a economia chinesa pas­ sou a apresentar grandes índices de crescimento.

[...] A China, após décadas de isolamento sob o regime de Mao Tse-Tung, morto em 1976, começou a focar no comércio e no investimento estrangeiro para turbinar sua economia. O crescimento econômico do país teve uma média impressionante de 9,9% por ano entre 1978 e [2012]. China ultrapassa EUA e se torna a maior potência comercial global. O Globo, 11 fev. 2013. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/economia/china-ultrapassa-eua-se-torna-maiorpotencia-comercial-global-7554869>. Acesso em: 11 mar. 2016.

Klimentyev Mikhail/ITAR-TASS Photo/Corbis/Latinstock

Os investimentos do governo chinês transformaram o país em uma grande po­ tência econômica e militar. No âmbito político, porém, não houve muitas mudan­ ças, pois o país continuou a ser governado pelo Partido Comunista. O BRICS A China é um dos países que compõem o grupo denominado BRICS. Esse grupo é composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, países cuja economia, nos primeiros anos do século XXI, estava em crescimento. A primei­ ra articulação do grupo para discutir interesses em comum ocorreu em 2006. A partir de 2009, os líderes dos países-membros passaram a se reunir uma vez por ano para definir estratégias de cooperação entre eles. As principais conquistas do BRICS estão relacionadas à criação, em 2015, do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), instituição que tem como objetivo o financiamento de projetos de infraestrutura nos países-membros e também em países pobres e em desenvolvimento. Uma das fragilidades do BRICS é a dis­ paridade do crescimento econômico entre seus membros. O PIB da China, por exemplo, é maior do que a soma do PIB dos demais países. Além disso, desde 2015, a economia do Brasil, da Rússia e da África do Sul está em recessão. Cédulas monetárias em circulação nos países que compõem o BRICS. De cima para baixo: Real (Brasil), Rublo (Rússia), Rupia (Índia), Renminbi (China) e Rand (África do Sul).

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O neoliberalismo

O tema sobre o neoliberalismo favorece o trabalho interdisciplinar com Sociologia. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

Na década de 1980, ocorreu nos EUA o declínio das políticas sociais do Estado de Bem-Estar (Welfare State), ao mesmo tempo em que as políticas liberais ressurgiram sob o rótulo do “neoliberalismo”.

Ronald Reagan e Margaret Tatcher reunidos em Washington, D.C., Estados Unidos, em 1982.

De maneira geral, a globalização designa a crescente integração e interdependência da economia mundial, que se manifesta na expansão das transações comerciais, no rápido avanço tecnológico dos meios de comunicação e de transporte e também na disseminação em escala planetária dos valores morais e políticos originários do mundo ocidental. Assim, a globalização pode ser definida como o aceleramento da formação de um sistema mundial cada vez mais integrado nos níveis da produção (de mercadorias, de serviços e de conhecimento), da comercialização e das transações financeiras. A globalização não é um fenômeno recente, mas o seu desenvolvimento se acelerou no início da década de 1990. Seu estágio atual pode ser caracterizado pelo aumento vertiginoso dos fluxos de trocas de mercadorias, capital e serviços entre as nações e entre os blocos econômicos.

••Compare as

duas fotografias abaixo e explique por que elas representam uma consequência gerada pelo processo de globalização. Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor. Matyas Rehak/Shutterstock.com

Tupungato/Shutterstock.com

Embora possa parecer, a globalização não criou uma mundialização homogênea da vida econômica e social, pois ela é seletiva e visa a integração apenas de algumas regiões, atividades econômicas e grupos sociais, enquanto exclui a maioria da população mundial, deixando-a às margens do sistema. O sistema de transporte ferroviário, por exemplo, é um reflexo da desigualdade na era da globalização.

Explorando a imagem

Unidade 11

A globalização

Bettmann/Corbis/Latinstock

As novas tecnologias inauguraram campos de investimento com promissoras perspectivas de lucros para as empresas. Para que a economia apresentasse melhores resultados, muitos teóricos defendiam a interferência mínima do Estado nas relações econômicas, favorecendo o livre mercado baseado na lei da oferta e da procura. Assim, para os neoliberais, não caberia ao Estado impor limites à atuação do capital, por exemplo, defendendo direitos sociais. Os maiores defensores dessa corrente foram o presidente estadunidense Ronald Reagan e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.

Japoneses aguardam para entrar no trem-bala, considerado um dos meios de transporte mais rápidos e seguros do mundo. Tóquio, Japão, 2012.

Indianos a bordo de metrô, meio de transporte onde são frequentes os acidentes por causa da falta de segurança. Mumbai, Índia, 2011.

O mundo contemporâneo

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Conflitos no mundo

Yawar Nazir/Getty Images

A configuração do mundo multipolar não eliminou as enormes desigualdades so­ ciais e econômicas entre os países, nem as que existem no interior deles. Além disso, por todo o mundo vêm ocorrendo conflitos pela autonomia política e também de or­ dem étnica e religiosa. Veja.

Conflitos na Caxemira No território da Caxemira, na Índia, vários grupos étnicos muçulmanos lutam pelo reconhecimento de suas nacionalidades, geralmente por meios pacíficos. Outros, entretanto, recorrem ao terrorismo a fim de transformar a Caxemira em um Estado independente, governado sob leis islâmicas.

Ativistas da organização separatista Muslim Khawateen Markaz (MKM) durante protesto silencioso no Dia Internacional da Mulher, em 8 de março de 2012, em Srinagar, Caxemira, Índia.

Nos últimos anos, o governo indiano tem acusado o Paquistão de permi­ tir a atuação desses grupos terroristas, que, de certa forma, também bus­ cam o fim do domínio indiano na região. Por causa dessas acusações, a Índia e o Paquistão enfrentam conflitos diplomáticos, o que preocupa a co­ munidade internacional, já que ambos possuem arsenal atômico. Além dis­ so, a Caxemira transformou-se em rota de tráfico de armas, que chegam a diversos grupos terroristas do Oriente Médio.

Chung Sung-Jun/Getty Images

Tensões entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte Desde o final da Guerra da Coreia, em 1953, permanece uma tensão entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. A violência dessa guerra, que possuía caráter ideológico (capitalistas contra socialistas), gerou grandes empecilhos para que as duas nações convivessem pacificamente. Atual­ mente, a Coreia do Sul, capitalista, é um grande polo industrial e tecnológi­ co da região, aliado ao capital do Japão e dos EUA.

vipflash/Shutterstock.com

Manifestantes sul-coreanos queimam uma imagem do líder norte-coreano Kim Jong-Un durante um protesto contra testes nucleares realizados pela Coreia do Norte. Fotografia tirada em Seul, Coreia do Sul, em 2016.

A Coreia do Norte, por sua vez, é um país socialista que desenvolve um programa nuclear, causando preocupações em outras nações, principal­ mente em seus vizinhos japoneses e sul-coreanos. Os testes nucleares re­ alizados em 2006, 2009, 2013 e 2016 foram repudiados pelo governo de vários países, que temem a retomada da guerra entre as duas nações ri­ vais. Apesar disso, tentativas de negociar a paz entre as duas Coreias vêm sendo promovidas pela comunidade internacional.

Lutas pela independência do Tibete O Tibete foi anexado pela China em 1951, tornando-se um Estado nomi­ nalmente autônomo, mas governado por chineses. A partir de então, o go­ verno socialista chinês passou a enfrentar vários grupos tibetanos, como proprietários de terra, que lutavam contra a desapropriação e coletivização de suas terras. Em 1959, um levante de tibetanos contra o governo chinês foi duramente reprimido, deixando milhares de mortos. Desde que foi exilado de seu país, em 1959, Dalai Lama viaja pelo mundo divulgando a causa da independência tibetana e denunciando as violências cometidas pelos ocupantes chineses. Fotografia tirada em Berlim, na Alemanha, em 2008.

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Nessa época, grupos de chineses radicais realizaram um “genocídio cul­ tural”, destruindo templos e monastérios budistas do Tibete. Atualmente, muitos tibetanos têm reivindicado a independência de seu país de forma pacífica, acusando a China de cometer atos violentos contra seu povo. Um deles é Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, monge budista que é herdeiro do tro­ no do Tibete.


Grupos paramilitares na Colômbia A Colômbia é uma das regiões mais tensas da América do Sul, onde atuam grupos paramilitares como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), de orien­ tação socialista. Fundada na década de 1960, as FARC vêm disputando o poder polí­ tico da Colômbia desde então com o apoio de parte da comunidade rural. As FARC dominam várias regiões da floresta amazônica, entrando em constantes choques com o exército colombiano e com outros grupos paramilitares. A situação no país é agravada pela forte influência de narcotraficantes e pelos interesses estratégi­ cos dos EUA, que têm buscado aumentar sua influência militar na região.

Guerras nos Bálcãs

Em 1991, começou a desagregação do país, mesmo com a opo­ sição da Sérvia, que desejava manter a Iugoslávia unida e sob sua direção. Em 1992, as lideranças muçulmanas e croatas da Bósnia­ -Herzegóvina declararam sua independência. No entanto, nessa Re­ pública havia uma importante minoria sérvia (31,4%) que, contando com apoio iugoslavo, formou milícias para combater os muçulmanos e croatas. Teve início, então, uma violenta guerra civil em que morreram cerca de 300 mil pessoas em combates e em práticas de limpeza étnica, realizadas principalmente pelos bósnios e sérvios. Com a intervenção de forças da ONU, em 1995, um acordo de paz foi firmado e a Bósnia-Herzegóvina se tornou independente, mas dividida em duas repúblicas autônomas: uma para os muçul­ manos e croatas e outra para os sérvios e bósnios. Em 1998, surgiu um novo conflito, dessa vez na província sérvia de Kosovo. A Iugos­ lávia, que a essa altura contava apenas com as repúblicas da Sérvia e Montenegro, tentou reprimir o movimento separatista dos albaneses muçulmanos, a maioria da po­ pulação de Kosovo. A guerra acabou com o bombardeio da Sérvia pelas forças da OTAN lideradas pelos EUA, em 1999. Meses depois, com o fim da ocupação pela OTAN, Kosovo ficou sob a tutela da ONU, declarando sua independência em 2008.

Em decorrência dos conflitos nos Bálcãs, milhares de pessoas precisaram deixar suas casas, passando a viver em campos de refugiados. Nessa fotografia, tirada em 1999, vemos uma multidão chegando a um campo de refugiados na Macedônia.

Disputas no Cáucaso Desde o início dos anos 1990, ocorreram conflitos na região do Cáucaso envolvendo grupos étnicos que, com a extinção da URSS, passaram a exigir o reconhecimento de suas nacionalidades e a formação de repúblicas independentes. Isso vem ocorrendo na Geórgia, República independente que fazia parte da antiga URSS. No território geor­ giano, grupos da Ossétia do Sul e da Abkházia lutam pela sua independência, com o apoio do governo da Rússia. Em 2008, o exército russo interveio em defesa dos interesses separatistas dos os­ setas que habitam a Ossétia do Sul. Iniciou-se, então, uma guerra entre a Geórgia e a Rússia, que resultou na morte de centenas de pessoas. As montanhas do Cáucaso continuam sendo palco de conflitos entre grupos separatistas, inclusive no território russo, onde a etnia dos chechenos luta pela formação da República da Chechênia.

Limpeza étnica: consiste em práticas que têm o objetivo de “purificar” uma etnia, eliminando sua cultura (religião, idioma) e procurando controlar sua composição demográfica, principalmente por meio da esterilização, de estupros em massa e de chacinas.

O mundo contemporâneo

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Unidade 11

Murray Sanders/Daily Mail/Rex Features/Glow Images

A Iugoslávia era habitada por povos de várias etnias que viviam espalhadas pelas diversas repúblicas que formavam esse país, o qual também abrigava três religiões (católica, cristã-ortodoxa e mu­ çulmana). Toda essa multiplicidade de povos e culturas se manteve unida enquanto durou o regime do Partido Comunista, centralizado na figura de Josip Broz Tito, conhecido como marechal Tito. Mas, com a crise dos regimes socialistas no Leste Europeu, os sentimen­ tos nacionalistas e separatistas desses povos foram despertados.


Oriente Médio A descoberta de grandes reservas de petróleo, ainda no início do século XX, já havia despertado a cobiça das potências mundiais. Com a derrota do Império Turco­ ­Otomano na Primeira Guerra Mundial, o território do Oriente Médio foi repartido entre a Inglaterra e a França, países interessados no potencial econômico da região. O estabelecimento de fronteiras promovido pelos europeus, que não respeitaram as diferenças étnicas e culturais dos povos, trouxe uma série de problemas sociais que, ao longo do tempo, se tornaram mais acentuados.

O Oriente Médio em 2015 Mar Negro Mar Mediterrâneo

TURQUIA CHIPRE LÍBANO SÍRIA ISRAEL JORDÂNIA

Mar Cáspio

Mar de Aral

IRAQUE

ARÁBIA SAUDITA

IRÃ

KUWEIT Golfo Pérsico

AFEGANISTÃO

BAHREIN CATAR

Mar Vermelho

30° N

E. Cavalcante

EMIRADOS ÁRABES IÊMEN

Tr ó p i

OMÃ

co d e Câ nçer

Mar da Arábia

0

480 km

45° L

N O

L S

Fonte: VOLPE, Fabio (Ed.). Almanaque Abril 2015. São Paulo: Abril, 2015.

Atualmente, o Oriente Médio é uma região composta por diversos países que, embora abriguem uma popula­ ção de maioria muçulmana e falante da língua árabe, não apresentam homogeneidade, pois neles convivem tam­ bém muitos judeus e católicos, formando um mosaico étnico­religioso. Nessa região ocorrem frequentes choques entre os po­ vos por interesses econômicos ou pela autonomia política, além de conflitos étnicos e religiosos. A combinação des­ ses conflitos agrava a situação no Oriente Médio.

Guerra entre Irã e Iraque

Guerra do Golfo

Após a Revolução Iraniana e a implantação da República Islâmica, o governo do Irã, formado por xiitas, retomou o controle sobre as reservas de petróleo do país, até então exploradas por empresas estrangeiras, principalmente estadunidenses. Diante disso, os EUA armaram o Iraque, país de maioria sunita, que, alegando direitos territoriais, iniciou uma guerra contra o Irã em 1980. Os vários anos de conflito causaram a morte de cerca de um milhão de pessoas, provocaram grande destruição em ambos os países e reduziram o fluxo da produção de petróleo. Isso afetou a economia de muitos países que importavam essa fonte de energia. O cessar­fogo foi assinado em 1988.

Ao invadir o Kuweit, em 1990, Saddam Hussein, presidente do Iraque, tinha a intenção de dominar suas jazidas petrolíferas e acabar com a crise econômica após o conflito com o Irã. Depois de um sucesso inicial, a invasão foi contida pelas forças da ONU, formadas essencialmente por soldados estadunidenses, que desferiram um pesado contra­ataque. Apesar da derrota, Saddam continuou governando o Iraque.

A “guerra contra o terror” Os conflitos no Oriente Médio atingem diretamente o Ocidente, principalmente potências econômicas como os EUA. Após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, ao World Trade Center, em Nova Iorque, a política dos EUA com os países do Oriente Médio se tornou mais radical. Internamente, houve um endurecimento das leis, acompanhado de medidas repressivas e autoritárias com relação aos estrangeiros nos EUA. Muitos suspeitos podiam ser presos e interrogados sem direito à defesa, casas podiam ser invadidas e revistadas sem autorização judiciária e pessoas eram deportadas sem justificativa. Países como a França, a Alemanha, a Itália, a Espanha e o Reino Unido, alinhados aos EUA na “guerra contra o terror”, também tomaram medidas semelhantes, colocando­se à disposição das agências do governo estadunidense.

Guerra no Afeganistão

Guerra no Iraque

Após os atentados terroristas às torres do World Trade Center, no centro financeiro de Nova Iorque, em 2001, os EUA invadiram o Afeganistão para depor o regime político Taleban, que governava o país e mantinha vínculos com a organização responsável pelos atentados, a Al Qaeda.

Com o auxílio dos britânicos e com o pretexto de “guerra contra o terror” divulgado em 2001, os EUA invadiram o Iraque em 2003 para tirar o ditador Saddam Hussein do poder, mesmo sem a permissão da ONU. Apesar da fuga, Saddam foi capturado e julgado com a pena de morte por enforcamento, fato que causou polêmica internacional, já que, para muitos, por ter cometido genocídio, ele deveria ser julgado por um tribunal internacional, e não pelas leis iraquianas.

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Conflitos entre israelenses e palestinos Em 1967, o Estado de Israel foi o vencedor dos conflitos árabe-israelenses, por causa de seu poderio militar e do apoio financeiro e bélico dos EUA, grandes interes­ sados no petróleo do Oriente Médio. Em função desses conflitos, cerca de quatro milhões de palestinos se encontram, atualmente, refugiados em outros países da re­ gião, como Egito, Líbano, Síria e Jordânia. A superioridade bélica e econômica dos israelenses nesses conflitos não impediu que nas décadas seguintes os palestinos continuassem protestando e resistindo à ocupação israelense nas áreas destinadas pela ONU à formação do Estado palestino.

O Acordo de Paz de Oslo Cynthia Johnson/Getty Images

Em 1993, ocorreu uma tentativa de estabelecimento da paz entre Israel e Palestina por meio do Acordo de Paz de Oslo. Esse acordo foi assinado pelo primeiro-ministro de Is­ rael Yitzhak Rabin e pelo presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) Yasser Arafat com a media­ ção do presidente estadunidense Bill Clinton. Entre outras determinações, o acordo reconhecia o estabelecimento da Autoridade Nacional Palestina (ANP) na cidade de Jericó e em parte da Faixa de Gaza. Em 1995, outro acordo foi assi­ nado, o Oslo II, garantindo à ANP o controle sobre algumas cidades da Cisjordânia. Embora muitos israelenses e palestinos aceitassem os acordos, alguns grupos ra­ dicais não concordavam com a aproximação entre Israel e Palestina. Em 1995, Yitzhak Rabin foi assassinado por um fundamentalista israelense após realizar um discurso pela paz, em Tel Aviv, Israel. Depois desse episódio, a luta pela paz entre Israel e Pa­ lestina ficou enfraquecida.

Observados por Bill Clinton, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat cumprimentam-se em Washington, D.C., Estados Unidos, em 1993.

O Muro de Israel Unidade 11

O conflito entre israelenses e palestinos tem tomado novas proporções nos últimos anos. Os israelenses intensificaram a construção de colônias em territórios palestinos. Além disso, em 2002, como parte de uma política de segregação, o Estado de Israel começou a construir muros para impedir a entrada dos palestinos em territórios ocu­ pados pelos israelenses. A construção desses muros é contestada sob os aspectos políticos, legais e tam­ bém humanitários. Em 2004, o Tribunal Internacional de Justiça de Haia declarou as construções ilegais, pois grande parte dos muros foi construída em territórios que não pertencem ao Estado de Israel, além de isolar milhares de palestinos. Os israelenses, porém, desconsideraram a decisão do Tribunal e continuaram a construir os muros. Uma paz distante Apesar do apoio da maior parte das populações israelense e palestina pela paz e dos vários acordos já assinados entre os seus respectivos líderes, há muitos impasses nas negociações. Entre eles, estão: a delimitação das fronteiras do Estado palestino, a volta de refugiados palestinos e o controle dos rios e lagos da região, onde a água é extremamente escassa. O maior obstáculo aos acordos de paz, no entanto, é o fundamentalismo de alguns grupos, tanto israelenses quanto palestinos. Os nacionalistas radicais israelenses defendem a criação da “Grande Israel”, que ocuparia toda a Palestina. Os radicais palestinos, por sua vez, são contrários à existência do Estado judeu. Entre os fundamentalistas, existem grupos extremistas que organizam ataques que causam destruição e matam civis. Muitas das ações dos fundamentalistas palestinos e israelenses têm o objetivo de agredir o adversário e interromper as negociações de paz.

O mundo contemporâneo

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A Terceira Revolução Industrial Desde o começo da Era Espacial, no início da década de 1960, novas tecnologias são criadas e aprimoradas a cada dia. Nas décadas mais recentes, em virtude da rapidez com que ocorrem as inovações, essas tecnologias foram se popularizando e se tornando mais comuns no cotidiano das pessoas, mudando seu modo de vida. A necessidade de acompanhar os avanços da tecnologia está provocando, em muitas sociedades, transformações profundas nos mecanismos de produção, armazenamento, administração, comercialização e consumo de produtos. Alguns estudiosos acreditam que esse conjunto de transformações pelas quais estamos passando pode ser considerado como uma Terceira Revolução Industrial. Essa revolução seria caracterizada pela grande rapidez com que os avanços científicos e tecnológicos são implementados nas linhas de produção das fábricas. Nesse contexto, os consumidores são estimulados a acreditar na necessidade constante de adquirir os produtos mais avançados, ou seja, os produtos “de última geração”.

Meios de transporte e de comunicação tcly/Shutterstock.com

Os avanços nos meios de transporte e de comunicação têm gerado grandes transformações na vida das pessoas. O desenvolvimento dos meios de transporte aumentou a integração entre as pessoas e os mercados de diversas partes do mundo. Atualmente, entre os exemplos da grande velocidade que os meios de transporte podem alcançar estão: trens que transportam passageiros a até 500 km/h; carros que chegam a atingir 400 km/h; e aviões que voam a até 3 500 km/h. Exemplos da capacidade de carga dos meios de transporte são: trens com capacidade para carregar mais de 20 mil toneladas e navios cargueiros com capacidade de carga de mais de 300 mil toneladas. Navio cargueiro no porto de Qingdao, Shandong, China, em 2016.

Vários meios de comunicação se tornaram mais populares nas últimas décadas. Muitos telefones celulares, televisores, rádios, jornais, revistas são vendidos todos os dias, permitindo a troca de grande quantidade de informações. Com o advento da informática e da rede mundial de computadores, a internet, a velocidade de troca dessas informações aumentou consideravelmente. Com a expansão da internet, o acesso à informação se tornou muito mais ágil e fácil, além de interligar as pessoas de diferentes lugares do mundo, criando um novo tipo de relação social na atual Era da Informação. A aceleração do tempo histórico A rapidez das transformações tecnológicas vem provocando um fenômeno que os historiadores chamam de aceleração do tempo histórico. Desde o início do século XX, a rápida sucessão de acontecimentos ligados ao desenvolvimento tecnológico tem transformado a nossa realidade de maneira muito mais rápida do que em qualquer outro período da história. Em 1906, por exemplo, a população de Paris presenciou o voo do primeiro avião; em 1969, a população mundial assistia, pela televisão, a um astronauta pisando na superfície da Lua. Nesse intervalo de apenas 63 anos, as transformações impulsionadas pelos avanços tecnológicos alteraram radicalmente o cotidiano das pessoas que tinham acesso às novas tecnologias. A partir da década de 1970, esses desenvolvimentos se aceleraram ainda mais. Como o tempo histórico acompanha o ritmo das transformações sociais, podemos concluir que o tempo histórico está cada vez mais acelerado.

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betto rodrigues/Shutterstock.com

As tecnologias de interação Outra inovação que tem provocado várias mudanças no comportamento das pessoas é a tecnologia da interação em tempo real, que permite a transmissão imediata de informa­ ções. Essa tecnologia é utilizada em atividades que exigem alta precisão, por exemplo, o lançamento de foguetes.

A exclusão digital

Pessoa usando óculos de realidade virtual, uma das mais recentes tecnologias de interação. Os óculos que simulam a realidade têm sido usados principalmente pelas indústrias de entretenimento e videogames. Alguns especialistas acreditam que essa tecnologia possa ser usada também para fins educativos, como passeios virtuais em museus e galerias de arte. Fotografia de 2016 tirada em uma exposição de realidade virtual em Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos.

O mundo contemporâneo modificou-se em um processo acelerado de desenvolvi­ mento científico e tecnológico. O aprimoramento das máquinas possibilitou a constru­ ção de sistemas de alta tecnologia: satélites, microcomputadores, aparelhos musicais individuais, tablets, smartphones etc. Embora essas invenções estejam presentes no cotidiano de muitas pessoas, elas não são acessíveis a grande parte da população mundial. A internet, que alterou o modo como os indivíduos se relacionam com a sociedade, também não faz parte da vida de milhões de pessoas. A chamada exclusão digital é uma realidade no mundo contemporâneo.

O aumento do consumismo

Refletindo

••De que maneiras a

Terceira Revolução Industrial afeta o seu dia a dia? Cite exemplos e converse com os colegas sobre esse assunto. Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor. liam1949/Shutterstock.com

A rapidez com que ocorre o lançamento de novos pro­ dutos tecnológicos estimula o consumismo, pois leva os consumidores a descartar seus aparelhos “antigos” para adquirir produtos “de última geração”, ou seja, os mais avançados. Esse consumismo gera grandes lucros para as indústrias, mas causa graves problemas ambientais. Para produzir quantidades cada vez maiores de aparelhos eletrônicos “descartáveis”, as indústrias utilizam os recursos naturais de maneira indiscriminada. Outra consequência desse consumismo é o aumento da quantidade de lixo produzido, situação que é agravada pelos elementos tóxicos contidos nas baterias de muitos apare­ lhos eletrônicos.

A grande quantidade de aparelhos eletrônicos descartados diariamente gera graves problemas ambientais.

A manipulação das informações Na sociedade tecnológica atual, televisores, rádios, jornais, internet etc. divulgam diariamente uma quantidade vultosa de informações. Os grupos sociais que controlam esses meios de comuni­ cação frequentemente manipulam as informações de acordo com seus interesses políticos e comer­ ciais, sem se comprometerem com a veracidade do conteúdo informado. Muitas pessoas, no entanto, aceitam todas as informações veiculadas como se fossem verdadeiras, sem se questionarem a res­ peito dos interesses que estão por trás delas. Por isso, cada vez mais é importante saber interpretar e manter uma postura crítica diante das informações veiculadas pelos meios de comunicação.

O mundo contemporâneo

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Unidade 11

A transmissão de informações em tempo real é utilizada também em computadores e videogames para criar as chamadas realidades virtuais (ou espaços virtuais), que permitem a interação por meio de sons e imagens entre pessoas que estão em lugares diferentes ou, ainda, uma maior interação das pessoas com as próprias realidades virtuais criadas por esses aparelhos. As pessoas que têm acesso a esses meios de comunicação acabam adquirindo novas noções de tempo e de espaço.


A Biotecnologia Digital Art/Corbis/Latinstock

Os grandes avanços tecnológicos do final do século XX permitiram aos cientistas desenvolver novas pesquisas, principalmente nas áreas da Biologia e da Genética. Dessa forma, eles alcançaram um alto nível de conhecimento sobre o organismo hu­ mano e a natureza. Nesse contexto, destacou-se a Biotecnologia, ramo da ciência que estuda a utilização de material genético dos seres vivos para desenvolver organismos (plantas e animais) geneticamente modificados. O primeiro mamífero clonado foi uma ovelha, batizada de Dolly, em 1996.

Clone: organismo produzido por meio de manipulação genética e que é geneticamente idêntico ao seu original. Gene: parte do DNA que determina as características dos seres vivos. Genético: hereditário, que é transmitido de pais para filhos. Genoma: conjunto dos genes de um indivíduo ou de uma espécie.

Najlah Feanny/Corbis Saba/Latinstock

Estrutura do ácido desoxirribonucleico (DNA), descoberta pelos cientistas Francis Crick e James Watson, em 1953. A molécula de DNA é formada por uma sequência de compostos que se arranjam entre si, formando algo parecido com duas fitas que se entrelaçam. Ela também é chamada de “molécula de fita dupla” ou “dupla hélice”. Essa descoberta foi fundamental para o desenvolvimento da biotecnologia, pois é no DNA que estão registradas todas as características hereditárias de um organismo.

As principais pesquisas que estão sendo realizadas nessa área se dedicam a estu­ dar o genoma humano, utilizar as células-tronco para tratamentos médicos e produzir alimentos transgênicos. As células-tronco são células que podem originar qualquer órgão ou tecido humano.

Fotografia da ovelha Dolly, tirada em 1997, em Midlothian, Escócia.

O mapeamento do genoma humano e as células-tronco Durante 13 anos (de 1990 a 2003), cientistas de vários países trabalharam no Pro­ jeto Genoma Humano, que tinha o objetivo de mapear o genoma dos seres humanos. Esses cientistas conseguiram descobrir a sequência dos genes do nosso organismo e, atualmente, procuram descobrir qual é a função deles, para utilizar esse conheci­ mento na cura de doenças como o câncer, a hemofilia e a doença de Parkinson. Além do mapeamento do genoma humano, os cientistas têm pesquisado o uso de células-tronco no tratamento de doenças, na fabricação de medicamentos e na pro­ dução de órgãos e tecidos para transplantes.

A transgenia Além da manipulação dos genes dos seres humanos e de outros animais, muitos cientistas têm se especializado no desenvolvimento de plantas geneticamente modifi­ cadas, chamadas de transgênicas. Para produzir o milho transgênico, por exemplo, os cientistas introduzem genes de outras espécies de plantas no milho para que ele apresente a característica desejada, como maior resistência às pragas que prejudicam a produção da lavoura ou o aumento da quantidade de nutrientes do alimento. No entanto, a manipulação dos genes das plantas para a produção de alimentos transgênicos também tem gerado grandes polêmicas. Muitos ambientalistas acreditam que os transgênicos podem prejudicar o meio ambiente, afetando a biodiversidade na­ tural do planeta.

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A Bioética Com os avanços científicos no campo da Biotecnologia torna-se indispensável que os profissionais que pesquisam o funcionamento dos seres vivos levem em considera­ ção a Bioética, que busca garantir a integridade e a dignidade dos seres vivos acima de qualquer pesquisa científica. A Bioética foi estruturada como disciplina na década de 1970 nos EUA e congrega vários saberes, entre eles a Biologia, a Medicina, a Filosofia e o Direito.

Os campos de atuação da Bioética David McNew/Getty Images

Sendo um campo de estudo que integra várias disciplinas, a Bioética atua na tentativa de resolver diversas questões — por meio de leis, diretrizes e regulamentações —, que relacio­ nam avanços científicos com problemas de ordem social e moral da contemporaneidade, tais como aborto, fertilização in vitro, clonagem, eutanásia, células-tronco embrionárias, transgênicos e muitos outros. Leia o texto a seguir.

À primeira vista parece que as questões relativas à Bioética só interessam a profissionais da área de saúde (medicina, enfermagem, odontologia, farmácia etc.) e a cientistas. Tal impressão é falsa. Fotografia que mostra manifestantes na Califórnia, Estados Unidos, protestando contra a liberação de pesquisas no campo da Biotecnologia, em 2002.

A Bioética apresenta-se como um instrumento importante para a socialização do debate sobre as tecnociências. Não é simples nem fácil para quem não é especialista compreender o que se passa na arena das ciências biológicas, em particular porque a celeridade com que os saberes são gerados é alucinante, assim como são muito rápidas as repercussões das pesquisas básicas na frente industrial e financeira. Tal realidade forçosamente impede que não especialistas percebam as dimensões de tudo isso no cotidiano e as possíveis perspectivas de futuro para a humanidade [...]. Spain Health Sci Tech/Reuters/Latinstock

É preciso haver regulamentação pública sobre a atividade científica e os produtos das ciências, que de nenhum modo significa adotar uma postura contra a ciência e a tecnologia. Vivemos uma época na qual a ciência não é tão somente uma inocente e poética tentativa de explicar a natureza. Suas aplicabilidades tecnológicas (industrialização da ciência) impactam quase todos os domínios de nossas vidas, daí t o­ a necessidade de proteger “consumidores(as)” e produ­ res(as) de ciências. Caíram por terra, pois, a universalidade, a inocência e a autoridade, supostamente intrínsecas à atividade científica. Essa regulamentação é uma tentativa de circunscrever os direitos e deveres de cientistas e demais profissionais da saúde, e de exigir que o compromisso e a responsabilidade social sejam o esteio de suas atividades. OLIVEIRA, Fátima. Bioética: uma face da cidadania. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1997. p. 59-60.

O menino Andres, de 7 anos, curou-se de uma doença rara graças a um tratamento realizado em Sevilha, na Espanha, utilizando as células-tronco retiradas do cordão umbilical de seu irmão. Fotografia de 2009, tirada logo após o tratamento.

O mundo contemporâneo

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Unidade 11

Os assuntos da Bioética são importantes para todas as pessoas, porque cientistas e profissionais de saúde existem para “atender” às necessidades das pessoas; todas, portanto, têm direito de conhecer bem os procedimentos e o grau de risco, e então fazer sua escolha. Enfim, todas as pessoas têm o direito de decidir.


A questão energética O desenvolvimento tecnológico ocorrido nas últimas décadas provocou um grande aumento no consumo mundial de energia, pois tanto as máquinas industriais quanto os meios de transporte e de comunicação precisam dela para funcionar. Além disso, o atual modo de vida da maioria da população mundial, principalmente nos grandes centros urbanos, depende da utilização de diferentes fontes de energia.

As principais fontes de energia

Além do petróleo, existem outras fontes de energia amplamente exploradas na atua­ lidade, como o carvão mineral, muito utilizado pelas indústrias. A queima do carvão e do petróleo é uma das formas de produção de energia mais prejudiciais ao meio am­ biente, pois ela provoca a poluição do ar e é uma das principais causas das alterações climáticas que vêm ocorrendo no planeta. A força das águas dos rios também é utilizada para gerar energia elétrica e, para tanto, são construídas usinas hidrelétricas. Apesar de essa fonte de energia ser reno­ vável e não poluente, a construção de uma usina também prejudica o meio ambiente, pois, para formar uma represa, é necessária a inundação de uma grande área, afetando a flora e a fauna da região, além das populações ribeirinhas. Os conflitos pelo petróleo Desde o início do século XX, a principal fonte de energia tem sido o petróleo. Além da energia, a partir desse óleo natural é possível fabricar uma infinidade de produtos utilizados no dia a dia, como plásticos, tintas, parafina etc. A maior parte das reservas de petróleo do mundo (cerca de 60%) está localizada em uma das regiões mais conflituosas do planeta: o Oriente Médio. Os EUA são um dos maiores consumidores de petróleo produzido no Oriente Médio e, por isso, têm grande interesse em controlar as reservas petrolíferas da região, tanto que, em 2001, o então presidente estadunidense, George W. Bush, or­ denou a invasão do Iraque sob o pretexto de que esse país estava fabricando armas de destruição em massa.

Eduardo Zappia/Pulsar

Após a invasão, o então presidente iraquiano, Saddam Hussein, foi deposto e executado. Os partidários iraquianos de Bush assumiram o governo do país e iniciaram um processo de abertura das reservas de petróleo iraquianas para empresas multinacionais.

As formas alternativas de energia

Atualmente, por causa dos problemas ambientais que os meios tradi­ cionais de produção de energia provocam, muitos cientistas têm tra­ balhado no desenvolvimento de novas formas de obtenção de energia. O Brasil, por exemplo, tem investido em pesquisas para a produção de energia a partir da biomassa, que é todo tipo de resíduo de maté­ ria orgânica, como a cana-de-açúcar, a soja, o dendê e a mamona, além de restos de madeira, que pode ser usado para esse fim. Além disso, vários países têm investido na geração de energia eólica, produzida pela força dos ventos, e de energia solar, obtida por meio de painéis que captam os raios solares. A produção de energia nuclear é muito promissora, no entanto, tem provocado grandes polê­ micas. A quantidade de gases liberados na atmosfera é muito pe­ quena, porém essa energia produz lixo atômico, que é extremamente nocivo. Acidentes ou mau uso dessa energia podem causar grandes catástrofes. Complexo Eólico em Caetité (BA). Fotografia de 2015.

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Alterações climáticas Desde sua formação, há cerca de 4,6 bilhões de anos, o planeta Terra passou por vários ciclos naturais de aquecimento e de resfriamento do clima. O clima pode variar quanto à temperatura, à precipitação pluviométrica e à frequência de fenômenos como tempestades, inundações e secas.

O aquecimento global Nas últimas décadas, organismos internacionais de pesquisa e investigação sobre o clima intensificaram os alertas sobre uma tendência de aquecimento atmosférico acentuado. Os cientistas argumentam que a segunda metade do século XX foi parti­ cularmente quente e que, até o final do século XXI, a temperatura atmosférica média pode sofrer uma elevação entre 1 ºC e 5 ºC. Um dos maiores responsáveis por esse aquecimento é o aumento do efeito estufa por causa das atividades humanas. O efeito estufa é um fenômeno natural que evita o resfriamento excessivo do planeta. Ele é responsável pela retenção na atmosfera de parte da energia solar refletida pela superfície terrestre, o que mantém a tempera­ tura aquecida.

Unidade 11

TonyV3112/Shutterstock.com

Ao liberar na atmosfera grande quantidade de gases poluentes, como o CO 2, produzido com a queima do petróleo e do carvão mineral, as so­ ciedades industriais colaboram para que a atmos­ fera retenha mais calor do que o normal. Esse processo pode ocasionar o aquecimento excessi­ vo do planeta, que, entre outros problemas, tende a provocar uma elevação do nível dos mares e oceanos em decorrência do derretimento das ge­ leiras e calotas polares; o aumento das doenças tropicais; a desarticulação das atividades agrícolas em escala mundial; além de afetar a biodiversida­ de do planeta como um todo.

Mulheres utilizando máscaras de proteção por causa da alta taxa de poluição no ar. Fotografia tirada em Pequim, na China, em 2014.

O que pode ser feito Entre as medidas que podem ser adotadas visando reduzir o aquecimento global, a mais importante é a redução da queima de combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão mineral, e sua substituição por fontes de energia menos poluentes. As fontes de energia alternativas mais promissoras na atualidade são a energia so­ lar, a eólica, e também a das marés. Essas fontes de energia são renováveis e, além disso, não são poluentes. Outras medidas importantes para reduzir os riscos de alterações climáticas são: a redução do desmatamento, o reflorestamento e a recuperação de áreas degradadas ambientalmente. Nesse sentido, é necessária a existência de leis ambientais rígidas, com o objetivo de obrigar os industriais, e também os consumidores em geral, a redu­ zirem ao máximo a degradação do meio ambiente e a produção e emissão de subs­ tâncias poluentes. O mundo contemporâneo

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Problemas do mundo contemporâneo A expansão da globalização tem causado profundos impactos na vida econômica, social e política, em âmbito mundial. Os problemas que se apresentam no mundo contemporâneo são muitos. Na base desses problemas está a característica seletiva dos benefícios da globali­ zação, que exclui do sistema grandes áreas geográficas e contingentes populacionais, com o consequente crescimento das desigualdades sociais.

Desigualdade e desemprego A era da globalização aprofundou ainda mais as desigualdades na distribuição da ren­ da mundial. Para se ter uma ideia, em 1998, os 20% mais ricos da população detinham 86% da riqueza mundial, enquanto os 20% mais pobres dispunham de menos de 1%, e essa tendência de concentração não parece se alterar. Os estudiosos apontam o desem­ prego como uma das principais causas dessas desigualdades. Segundo estimativa feita em 2016 pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2017, cerca de 200 milhões de pessoas estarão sem emprego. Além disso, segundo dados da Organização das Na­ ções Unidas (ONU), em 2015 havia cerca de 800 milhões de pessoas vivendo na miséria.

Racismo e xenofobia O recente crescimento de forças políticas de extrema direita em diversas regiões do planeta demonstra como as atuais condições culturais e socioeconômicas contribuem para a emergência do neofascismo e do neonazismo. O problema do desemprego, somado à intensificação dos fluxos de novos imigrantes, está criando um campo fértil para a disseminação da xenofobia (medo e aversão a estrangeiros), sobretudo em países europeus. Elena Dijour/Shutterstock.com

Um exemplo do crescimento do racismo e da xenofobia pode ser visto em movimentos de jovens simpatizantes do nazismo, como os skinheads. Esses jovens, atuantes em quase toda a Europa, na América Latina, nos EUA, na Aus­ trália e na Nova Zelândia, costumam agredir judeus, ciga­ nos, negros, homossexuais e imigrantes. Com um discurso nacionalista e racista, costumam defender a identidade cul­ tural nacional e a “pureza” étnica do país, atribuindo aos estrangeiros a culpa pelo suposto declínio econômico e moral da sociedade. Franceses protestam após a morte do ativista de esquerda Clément Méric, de 18 anos, atacado por um grupo de skinheads em Paris, na França. Fotografia tirada em 23 de junho de 2013.

A Aids De acordo com relatório de 2012, divulgado pela Unaids (Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids), o número estimado de infectados no planeta era de 34 milhões, dos quais 28 milhões estavam no continente africano. Estudos recentes demonstram que a disseminação da Aids ocorre sobretudo em sociedades pobres, sem apoio do Estado. Esse dado desmente antigos preconceitos que associavam a doença aos homossexuais e viciados em drogas. A importância da ação do Estado na redução dos casos da doença pode ser observada no Senegal e em Uganda, países africanos onde medidas políticas importantes foram tomadas, como a distribuição de preservativos e o trabalho educativo, principalmente entre jovens do sexo feminino, divulgando a importância de exigir que o parceiro use preservativo. Essas medidas reduziram significativamente o número de pessoas contagiadas pela Aids.

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O crime organizado Oliver Lang/Getty Images

O crime organizado pode ser definido como uma ativida­ de ilegal exercida por um grupo hierarquicamente estrutu­ rado nos moldes de uma empresa, que divide as funções de acordo com uma logística bem planejada visando atingir altos lucros. Alimentado pela ineficiência, conivência e cor­ rupção dos poderes públicos, o crime organizado opera em estreita relação com as atividades consideradas legais, exercendo o que se convencionou chamar de “poder pa­ ralelo”, desafiando a autoridade do Estado. As atuais facilidades de comunicação, deslocamento e acesso a informações, proporcionadas pela Revolução Científico-Tecnológica, propiciaram a rápida internaciona­ lização ou globalização do crime organizado. Praticamente todos os países estão de alguma forma articulados a essas redes ilegais. As atividades que elas exercem são variadas, mas, entre as que mais se destacam, estão o contrabando e o tráfico de drogas, de armas e de pessoas. No caso do tráfico de pessoas, a finalidade pode ser a prostituição, o trabalho forçado ou, até mesmo, a venda de órgãos.

Fotografia tirada no aeroporto de Munique, na Alemanha, em 2008, durante um protesto contra o tráfico internacional de pessoas.

A dinâmica das atividades ilícitas As redes internacionais que controlam as atividades ilícitas atuam de forma integrada, estabelecendo alianças entre si para se fortalecerem. O caso do tráfico de drogas, por exemplo, envolve as áreas de produção, beneficiamento e distribuição. A produção geralmente é feita nos países periféricos, onde o poder do Estado é fraco ou muito corrupto para reprimi-la de forma eficiente. Além disso, essas regiões contam com abundante mão de obra barata. Assim, países da Ásia Central, como o Afeganistão, ou do Sudeste Asiático, como Myanmar, produzem a papoula, matéria-prima do ópio e da heroína. Bolívia e Peru fornecem folhas de coca para a produção de cocaína, en­ quanto a produção da cannabis (maconha ou cânhamo) é forte no interior do Paraguai, no Marrocos e no Nordeste brasileiro. Unidade 11

As regiões mais ricas, como a Europa e os EUA, formam os maiores mercados con­ sumidores das drogas produzidas no planeta e são as principais distribuidoras de produtos químicos usados no beneficiamento dessas substâncias. No entanto, países de economia emergente, como o Brasil, além de fornecerem produtos para o beneficia­ mento, estão inseridos nas rotas do tráfico internacional e constituem um importante mercado consumidor. O tráfico internacional de drogas está intimamente ligado a outros tipos de comércio ilícito, como o tráfico de armas. Com o final da Guerra Fria, grandes estoques de armamentos entraram no mercado de forma irregular. Assim, grupos guerrilheiros, or­ ganizações separatistas e grupos criminosos em geral tiveram o acesso facilitado a metralhadoras, granadas, lançadores de mísseis e demais artefatos bélicos que antes eram monopolizados pelos exércitos nacionais. O dinheiro e os bens patrimoniais arrecadados pelo crime organizado geralmente servem para a manutenção e expansão das atividades ilícitas, mas uma boa parte, considerada como o “lucro”, acaba sendo investida em atividades legalmente reco­ nhecidas. Para isso, esse capital passa pelo processo chamado de “lavagem de di­ nheiro”, que consiste em apagar os vestígios de sua origem criminosa. Um dos meios mais usados para isso é a remessa de dinheiro para os “paraísos fiscais”, que são Estados onde há pouca ou nenhuma restrição à entrada de capitais estrangeiros de origem desconhecida, além de garantirem o sigilo quanto à identidade dos proprietá­ rios desses capitais. O mundo contemporâneo

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A intolerância religiosa O preconceito contra as religiões de matriz africana No Brasil, a intolerância religiosa atin­g e diversos grupos. Entre aqueles mais afetados estão os adeptos das religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Os casos de violência e de precon­ ceito são recorrentes em diversas re­ giões do país. Em 1999, por exemplo, a líder religiosa do candomblé Mãe Gilda teve sua casa e local de culto invadidos e depredados. Alguns me­ ses depois, em 21 de janeiro de 2000, por causa de sua saúde debilitada, Mãe Gilda faleceu. Em referência à morte de Mãe Gilda e para propagar o respeito à diversi­ dade religiosa, foi instituído no Brasil o Dia Nacional de Combate à Intolerân­ cia Religiosa (21 de janeiro).

A intolerância religiosa ocorre quando um indivíduo ou um grupo de pessoas sofre com a não aceitação de sua opção religiosa. Essa situação pode se manifestar de diversas formas, como em atos de violência física e verbal, atitudes de discriminação e de desrespeito, além do cercea­ mento de liberdades. A intolerância religiosa atinge populações em todas as partes do mundo e tem sido um dos motivos geradores de conflitos na atualidade. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), qualquer tipo de atitude suscitada por intolerância religiosa constitui-se como gra­ ve ofensa aos direitos humanos e deve ser combatida por todos, inclusive por governantes e líderes mundiais. Os casos de intolerância religiosa que mais têm causado preocupações no mundo contemporâneo são aqueles que envolvem os movimentos fun­ damentalistas. Para esses grupos, a sua religião constitui uma verdade in­ discutível, que deve ser seguida por todos e de forma literal, ou seja, assim como ditam os livros sagrados e dogmas. Dessa forma, muitos grupos fundamentalistas recorrem a atos violentos para impor suas crenças, des­ respeitando a diversidade cultural existente entre as populações.

O Estado Islâmico

A islamofobia O preconceito contra pessoas que seguem a religião islâmica é chamado de islamofobia. Depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center, em Nova Iorque, houve um grande aumento da islamo­ fobia. A islamofobia é agravada por vários outros ataques terroristas realiza­ dos por fundamentalistas muçulmanos. Em 2015, por exemplo, jovens islâmicos promoveram um ataque contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo, em Pa­ ris, França, matando vários cartunistas. Os islamofóbicos acreditam que o islamismo representa um risco à sua segurança e fazem uma relação direta entre essa religião e o terrorismo, igno­ rando que a maioria dos muçulmanos é pacífica e contra qualquer tipo de ação terrorista.

Entre os patrimônios históricos destruídos pelo Estado Islâmico estão as cidades de Nimrud (3 300 anos) e Hatra (2 300 anos), no Iraque, e a cidade de Palmira (4 mil anos), na Síria. Ao lado, fotografia de 2010 do Templo de Baal-Shamin, em Palmira, destruído pelo Estado Islâmico em 2015.

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Nos últimos anos, o grupo fundamentalista conhecido como Estado Islâmico tem causado diversos conflitos na região do Oriente Médio. Des­ de 2012, seus adeptos têm buscado impor um califado em determinadas regiões da Síria e do Iraque. Por meio de atentados terroristas, seques­ tros, destruição de patrimônios históricos e do comércio ilegal de armas e combustíveis, o Estado Islâmico busca expandir sua rede de adeptos para consolidar o poder, perseguindo as populações que vivem nessas regiões e propagando a intolerância religiosa. Adwo/Shutterstock.com

Califado: forma de governo centrada em um líder (califa) e regida de acordo com as leis islâmicas.


A questão dos refugiados Principalmente por causa dos conflitos da atualidade, muitas populações que vivem em áreas ameaçadas são obrigadas a se deslocarem de suas residências. Para tentar viver em segurança, essas pessoas buscam refúgio em outros países ou se deslocam para os campos provisórios onde podem conseguir auxílio. Assim, são consideradas refugiadas as pessoas que estão fora de seu país por causa de perseguições política, étnica ou religiosa, além daquelas que vivem sob ameaça de violação dos direitos humanos, como em casos de violência e guerras. Para proteger e regulamentar os direitos e deveres dessa população e garantir as­ sistência aos refugiados, em 1951 a ONU aprovou a Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, atualmente com cerca de 140 países signatários, que se comprometem a respeitar e prestar ajuda aos refugiados. Ano a ano, o número de refugiados tem aumentado. De acordo com a Agência da ONU para Refugiados (Acnur), em 2014, cerca de 59 milhões de pessoas foram obri­ gadas a deixar o seu local de origem. A integração dos refugiados no local de destino é bastante difícil. Muitos encontram resistência da população local e passam por um longo processo de adaptação cultural e social. Refugiados ou migrantes? Como vimos, as pessoas refugiadas são forçadas a se deslocarem por diversos motivos e, por isso, apresentam uma condição especial, reconhecida internacionalmente. No entanto, existem tam­ bém os migrantes, pessoas que se deslocam em busca de melhores condições de vida, salário e emprego, por exemplo. Os migrantes deixam sua moradia por iniciativa própria e não necessaria­ mente se encontram em situações de perigo ou risco de morte. Segundo a Acnur, a diferenciação entre essas expressões é fundamental, pois, em termos legais, ser considerado um refugiado permi­ te o acesso a auxílios e asilo, por exemplo.

O caso dos refugiados sírios

Unidade 11

Um dos mais recentes casos de aumento no número de refugiados é decorrente da guerra civil da Síria, iniciada em 2011. O país está em guerra desde que manifestantes passaram a exigir que o ditador Bashar Al-Assad deixasse o cargo de presidente. Por causa da violenta repressão do governo contra os manifestantes, milhões de sírios se refugiaram nos países vizinhos, principalmente no Líbano.

Alexandre Rotenberg/Shutterstock.com

A situação foi agravada em 2014, quando membros do Estado Islâmico começaram a ocupar diversas cidades sírias. Com medo de serem capturados pelos fundamenta­ listas, os sírios estão fugindo não somente para os países vizinhos, mas também para a Europa.

Segundo a Acnur, a jornada para deixar a Síria tornou-se mais difícil, e mais pessoas recorrem a grupos armados para fazer a travessia. “A crise síria tornou-se a maior emergência humana da nossa era e, apesar disso, o mundo não consegue atender às necessidades dos refugiados e países que os recebem”, disse o alto-comissário da ONU para refugiados, António Gueterres. Síria é “maior crise humana da nossa era”, diz ONU. Disponível em: <www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/08/140829_siria_crise _humanitaria_hb>. Acesso em: 12 mar. 2016.

Refugiados sírios em Budapeste, na Hungria, em 2015.

O mundo contemporâneo

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Explorando o tema

Consumismo e sociedade

O texto a seguir, escrito pelo economista Ladislau Dowbor, trata do consumismo e os impactos diretos e indiretos que ele causa na sociedade e, principalmente, no dia a dia das pessoas que habitam as grandes cidades. Leia-o.

Consumo, meio ambiente e qualidade de vida Vale a pena comprarmos carros para ir trabalhar, gastando rios de combustível para andar em primeira ou segunda? Ficamos um carro atrás do outro, por ausência de transporte coletivo, olhando os esgotos em que se transformou o Tietê por falta de tratamento e excesso de poluentes. Um quilômetro de metrô custaria aqui cerca de 40 reais por habitante. Pagamos 30 000 reais para andarmos a 14 quilômetros por hora. Tem lógica? Hoje levamos à morte inúmeros jovens que ocupam com as suas motos os restos de espaço viário que sobrou, entre um mundo de carros parados. O absurdo do nosso cotidiano de consumidor já não está por demonstrar. Na realidade, pela intensidade de trabalho que desenvolvemos para produzir coisas inúteis, pelo volume de coisas descartadas que desperdiçamos, pelo impacto ambiental de um consumo que não se sustenta e nos leva a impasses planetários, pelos custos adicionais para nos curar da obesidade e outras doenças geradas por consumo irracional, pelo isolamento social que gera a acumulação individual de bens, pelos gastos em segurança e desconforto geral que resul-

tam da desigualdade e da elitização social, fica cada vez mais evidente a inadequação dos nossos mecanismos de regulação, a insuficiência de deixar simplesmente a corporação decidir por nós. [...] [Diante disso] as pessoas simplesmente se defendem. O slow food é um movimento importante. Surgido na Itália a partir de pessoas preocupadas em ter uma vida mais agradável ainda que não necessariamente mais eficiente, o movimento tornou evidente o fato de que na corrida para nos tornarmos competitivos esque­ cemos que estamos gerando um desperdício monumental do único recurso absolutamente não renovável, que é o nosso tempo de vida. A apropriação comercial do nosso tempo parece ser um progresso porque não leva em conta como valor o tempo não comercial da vida. Os exemplos são inúmeros, como o dos downshifters nos Estados Unidos, que optam por uma vida com menos entulho de produtos comerciais e mais qualidade de vida, e representam na realidade um movimento cultural amplo e difuso, mas poderoso. [...]

Comércio solidário Outro eixo de ação consiste na organização da sociedade em torno de seus interesses, ainda que pontuais. Em numerosos lugares estão surgindo ONGs de intermediação financeira, onde a remuneração das aplicações é razoável, mas sobretudo o dinheiro é investido de forma socialmente útil: as pessoas estão simplesmente desintermediando os fluxos de poupanças, descobrindo que não precisam necessariamente sustentar os gigantes burocráticos que são os bancos modernos. Há comunidades que simplesmente optaram por criar sua própria moeda, como o bairro de Palmas, em Fortaleza, Ceará. Frente ao arrocho de crédito que os bancos privados geraram e aos juros obscenos cobrados, Palmas emite a sua própria moeda, pois afinal trata-se de um meio de troca, e não de um valor em si. A experiência deu tão certo, em termos de dinamização da economia, que onze municípios estão adotando o sistema. O comércio solidário já se tornou uma tendência internacional. Numerosos autores disponibilizam as suas publicações gratuitamente para fins não comerciais, na linha de um novo tipo de copyright chamado de copyleft, na linha dos creative commons, conside-

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rando a criatividade como patrimônio comum da humanidade, e reagindo contra a apropriação privada do conhecimento. Muitas cidades têm sistemas de trocas de produtos. Cada bairro pode ter um evento de fim de semana em qualquer praça, onde são trocados produtos usados, as inevitáveis bicicletas ergométricas que entulham as garagens, o carrinho de bebê que já não comporta a criança e assim por diante. [...] Muita gente [...] se dá conta de que os custos das embalagens saem do nosso bolso. Em muitos países, a empresa que entrega uma geladeira na nossa casa leva de volta a embalagem que, em vez de entulhar a nossa lixeira, vai servir para embalar outra geladeira. É frequente também a cobrança de impostos às empresas que vendem refrigerantes em garrafas plásticas, incitando-as a buscar soluções inteligentes. O desperdício é um custo, e quem gera o desperdício deve carregar o ônus. A lista de iniciativas desse tipo é muito grande. Não é nosso objetivo fazer o seu detalhamento, e sim


mostrar que existe uma nova cultura de consumo em gestação, que as pessoas estão cansando [...] de tra- balhar muito para sustentar intermediações inúteis, de custear uma sociedade do desperdício. O consumo

inteligente pode ser um bom ponto de partida. Ele vai muito além das nossas polarizações ideológicas, e se prende ao simples bom senso.

Três pontos-chave O primeiro ponto é que o consumo irresponsável leva ao colapso do planeta, pois estamos exterminando a vida nos mares, destruindo o solo agrícola, exaurindo os lençóis subterrâneos de água para irrigação, gerando um caos climático planetário através do desperdício energético, e assim por diante. Não é sustentável e seremos vistos pelas gerações futuras como genocidas da vida na Terra. O segundo ponto é que esse consumismo desenfreado não nos deixa mais felizes. Pelo contrário, ao individualizar as necessidades, isolamos os indivíduos, atomizamos a sociedade, o que mata a riqueza da vida cultural. As pessoas que optam por trabalhar um pouco menos e viver de forma mais rica estão simplesmente optando pela inteligência.

O terceiro ponto é revalorizar o trabalho, pois temos uma parte da sociedade desesperada por trabalhar demais, e outra por não ter emprego. Isso mostra a que ponto chegamos em termos de irracionalidade nas nossas formas de organização. Quem acha que se sacrifica por ter de trabalhar deveria conversar um pouco com uma pessoa desempregada, para entender onde estão os sacrifícios. A redistribuição do esforço social é hoje uma necessidade. O que esses pontos têm em comum é o fato de apontar para a necessidade de a sociedade retomar o controle dos seus processos de desenvolvimento e se apropriar das transformações econômicas e sociais. Não são sugestões idealistas: a destruição ambiental e as explosões sociais estão aí, às nossas portas.

Mais trabalho para viver Ao reduzir o consumo irresponsável haverá produtos para todos e menos tensões sociais. Ao produzir de maneira inteligente, entregaremos o planeta razoavelmente menos destruído aos nossos filhos. E, ao redistribuirmos o trabalho, estaremos trabalhando todos, e trabalhando menos, como diz a fórmula. Teremos mais tempo para viver. Isso se chama qualidade de vida, referência bem mais significativa do que o crescimento do PIB. As novas tecnologias, ao colocar nas nossas mãos instrumentos poderosos de extração de recursos natu-

rais, de produção de massa, de ritmos acelerados, geram também um novo desafio: temos de nos dotar das formas de gestão social correspondentes a esse novo nível de desenvolvimento das forças produtivas. O vale-tudo do mercado, o darwinismo da sobrevivência do mais forte não são suficientes. E, se não avançarmos rapidamente por processos democráticos, para a sustentabilidade ambiental e a redução das desigualdades, haverá seguramente candidatos para defender regimes duros e fortes, para “colocar ordem” nas coisas.

Unidade 11

Moacyr Lopes Junior/Folhapress

DOWBOR, Ladislau. Disponível em: <http://dowbor.org>. Acesso em: 29 fev. 2016.

Fotografia da avenida 23 de Maio, em São Paulo, durante um congestionamento de 293 km em toda a cidade, ocorrido no dia 10 de junho de 2009.

O mundo contemporâneo

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Atividades

Anote as respostas no caderno.

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

Sistematizando o conhecimento 1. Explique em que consistiam a perestroika e a glasnost, implantadas pelo governo de Mikhail Gorbachev.

2. O que representou a queda do Muro de Berlim?

3. O que se entende por globalização? 4. O que é a Terceira Revolução Industrial?

6. O que é exclusão digital? 7. Cite problemas decorrentes do aquecimen­ to global.

8. Entre os problemas do mundo contempo­ râneo citados nas páginas 250 a 253, quais fazem parte do seu cotidiano? Jus­ tifique sua resposta.

5. Cite um exemplo do seu cotidiano que evi­ dencie que vivemos na Era da Informação.

Expandindo o conteúdo 9. Os atentados promovidos em 11 de setembro de 2001 pelo grupo terrorista Al Qaeda con­ tra as torres do World Trade Center, em Nova Iorque, marcaram o início da chamada Era do Terror Global. Leia o texto a seguir, que traz diferentes definições para o conceito de terrorismo.

O terrorismo é a ação armada contra civis; é a violência usada para fins políticos, não contra as forças repressivas de um Estado, mas contra seus cidadãos. Uma classificação atual distingue o terrorismo em pelo menos quatro categorias: terrorismo revolucionário; terrorismo nacionalista; terrorismo de Estado; e terrorismo de organizações criminosas. O terrorismo de cunho revolucionário pode englobar grupos como as Brigadas Vermelhas e o Ordine Nuovo, que atuaram na Itália durante o século XX; a Fração do Exército Vermelho, da Alemanha; Ação Direta, na França; o Sendero Luminoso, no Peru. Esses grupos pregam o uso da ação terrorista como ferramenta para a instalação de uma revolução. Já o terrorismo nacionalista é aquele praticado por grupos que pretendem fundar um Estado-nação com a separação de uma região de um Estado preexistente, como o Setembro Negro palestino, o grupo basco ETA e o irlandês IRA, entre outros. O terrorismo de Estado, por sua vez, como o próprio nome diz, é aquele praticado por Estados nacionais, como o promovido pela Líbia na segunda metade do século XX. Por fim, o terrorismo criminoso se refere a grupos criminosos, como a Máfia, a Camorra, o Cartel de Medellín, entre outros. [...] No século XX, o terrorismo não se expandiu apenas quanto ao número de grupos, mas também em termos de raio de atuação. Conexões internacionais sofisticadas, uso de tecnologia bélica de alto poder destrutivo, redes de comunicação como a internet, tudo isso mostra o quanto o terror tomou uma face que dialoga cada vez mais com a tecnologia de ponta. Seus fins podem ser “antigos”, a mídia pode até taxar alguns grupos, como a Al Qaeda, de fundamentalistas retrógrados, mas é inegável que a modernidade técnica é instrumentalizada por eles com eficiência cada vez mais letal. Antes, com poucas exceções, os grupos extremistas conduziam suas campanhas de violência em seus próprios territórios e contra inimigos declarados. Mas desde a segunda metade do século XX já não há mais fronteiras para atingir as metas políticas, e os países mais vulneráveis são, em geral, aqueles onde tradicionalmente todos que chegavam tinham liberdade de movimento. Os terroristas, agora, são os moradores típicos do que o teórico Marshall MacLuhan designou “aldeia global”.

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Para a maior visualização do terrorismo mundial, a mídia exerce um papel fundamental. Mas é evidente que também cria um sensacionalismo em torno dos terroristas. Há até quem acredite que a atenção exacerbada dada pela mídia aos atentados auxilia os grupos radicais na propaganda do terror. Por sua vez, o sensacionalismo se torna uma arma também na propaganda antiterror, veiculada por grupos e Estados atingidos pelo terrorismo. Dessa forma, a mídia ajuda a justificar a legalidade e a necessidade de ações antiterroristas que, muitas vezes, levam adiante banhos de sangue e violações aos direitos humanos que atingem mais a população civil do que os próprios terroristas. [...]

Carmen Taylor/Associated Press/Estadão Conteúdo

Ao falar em terrorismo de Estado, podemos abordar duas vertentes de terror: a primeira é o terrorismo de Estado, praticado contra sua própria população, como no modelo clássico totalitário; a segunda, os alvos são os civis, na maioria das vezes considerados estrangeiros, como ocorreu no modelo estadunidense. O modelo clássico totalitário ocorreu em particular no século XX. O regime nazista na Alemanha exerceu uma política de terror, perseguição e morte aos judeus; o regime stalinista, por sua vez, fez uso do Estado centralizado para minar qualquer dissidência por menor que fosse, por meio de prisões e milhões de assassinatos; por fim, as ditaduras latino-americanas do Chile, Brasil e Argentina, por exemplo, e a ditadura de Pol Pot no Camboja, também exerceram o terrorismo de Estado com perseguições, extermínios, torturas e deportações. Não seria errôneo dizer que os EUA e Israel do século XXI praticam terrorismo de Estado. A ideia de George W. Bush de guerra preventiva e as frequentes ações militares israelenses contra os palestinos são formas de terrorismo de Estado que, sob a desculpa do combate a grupos terroristas, espalham a morte por meio de tecnologias do terror para alcançar ou consolidar espaços geopolíticos.

Unidade 11

SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2006. p. 397-9.

Explosão das torres do World Trade Center, causada por aviões sequestrados por terroristas da Al Qaeda em 11 de setembro de 2001.

a ) Caracterize cada um dos quatro tipos de terrorismo apontados no texto. b ) Comente, com base no texto e em seus conhecimentos, a seguinte afirmação: “Os terro­ ristas, agora, são os moradores típicos do que o teórico Marshall MacLuhan designou ‘aldeia global’.”. c ) Como a mídia pode contribuir com a divulgação do terror e do combate ao terror? d ) Cite exemplos de terrorismo de Estado praticados nos séculos XX e XXI.

10. Leia o texto a seguir, escrito pelo geógrafo Milton Santos. De que maneira a globalização afeta a soberania das nações, as fronteiras dos países e a governabilidade plena é uma questão que, volta e meia, ocupa os espíritos, seja teoricamente, seja em função de fatos concretos. Nesse terreno, como em muitos outros, a produção de meias-verdades é infinita e somos frequentemente convocados a repeti-las sem maior análise do problema. Há, mesmo, quem se arrisque a falar de desterritorialidade, fim das fronteiras, morte do Estado. Há os otimistas e pessimistas, os defensores e os acusadores. O mundo contemporâneo

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Tomemos o caso particular do Brasil para discutir mais de perto essa questão, ainda que nossa realidade se aparente à de muitos outros países do planeta. Com a globalização, o que temos é um território nacional de economia internacional, isto é, o território continua existindo, as normas públicas que o regem são da alçada nacional, ainda que as forças mais ativas do seu dinamismo atual tenham origem externa. Em outras palavras, a contradição entre o externo e o interno aumentou. Todavia, é o Estado nacional, em última análise, que detém o monopólio das normas, sem as quais os poderosos externos perdem eficácia. Sem dúvida, a noção de soberania teve de ser revista, face aos sistemas transgressores de âmbito planetário, cujo exercício violento acentua a porosidade das fronteiras. Estes são, sobretudo, a informação e a finança, cuja fluidez se multiplica graças às maravilhas da técnica contemporânea. Mas é um equívoco pensar que a informação e a finança exercem sempre sua força sem encontrar contrapartida interna. Esta depende de uma vontade política interior, capaz de evitar que a influência dos ditos fatores seja absoluta. Ao contrário do que se repete impunemente, o Estado continua forte e a prova disso é que nem as empresas transnacionais nem as instituições supranacionais dispõem de força normativa para impor, sozinhas, dentro de cada território, sua vontade política ou econômica. [...] É o Estado nacional que, afinal, regula o mundo financeiro e constrói infraestruturas, atribuindo, assim, às grandes empresas escolhidas a condição de sua viabilidade. [...] Mas a cessão de soberania não é algo natural, inelutável, automático, pois depende da forma como o governo de cada país decide fazer sua inserção no mundo da chamada globalização. O Estado altera suas regras e feições num jogo combinado de influências externas e realidades internas. Mas não há apenas um caminho e este não é obrigatoriamente o da passividade. Por conseguinte, não é verdade que a globalização impeça a constituição de um projeto nacional. Sem isso, os governos ficam à mercê de exigências externas, por mais descabidas que sejam. Este parece ser o caso do Brasil atual. Cremos, todavia, que sempre é o tempo de corrigir os rumos equivocados e, mesmo num mundo globalizado, fazer triunfar os interesses da nação. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 76-8.

a ) De acordo com o autor, a globalização é capaz de eliminar a soberania das nações? Justifique sua resposta utilizando trechos do próprio texto. b ) No caso do Brasil, como é explicada a coexistência da globalização e da autonomia do Estado? c ) Como o autor explica a relação de poder entre as multinacionais e o Estado?

11. Leia a seguir trechos da entrevista sobre o crime organizado no Brasil, feita com o venezue­

Neilson Barnard/Getty Images

lano Moisés Naím, autor do livro Ilícito: o ataque da pirataria, da lavagem de dinheiro e do tráfico à economia global. Essa entrevista foi transmitida no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 17 de maio de 2006.

Moisés Naím em fotografia tirada em São Francisco, Califórnia, em 2013.

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[...] O contrabando é tão antigo quanto a humanidade. Fala-se de contrabando na Bíblia, nos papiros egípcios. Os mercados negros sempre existiram. O que aconteceu a partir da década de 1990 foi uma revolução nas comunicações, nos transportes [...]. O contêiner [por exemplo] é um instrumento importante, que permite e facilita o comércio internacional. A internet, os cartões pré-pagos dos celulares e os cartões para fazer saques nos caixas automáticos em qualquer lugar do mundo [...] são instrumentos que facilitaram muito e fizeram o contrabando, que sempre existiu, adquirir uma dimensão mundial. É isso que [também] acontece no Brasil. Coisas que sempre existiram ganharam dimensões muito maiores [...]. Antes era um negócio de [grupos criminosos locais], agora esses [grupos locais] estão conectados a redes mundiais [em diversos países]. Há partes desses negócios que são frívolas — a carteira elegante que se compra e tudo mais — mas há partes que são horríveis [...]. Sempre ouvimos falar do tráfico de drogas, do tráfico de armas e de pessoas. [...] [Esses crimes] estão


todos conectados e [...] os especialistas nesses tráficos são especialistas em logística, [...] em comunicação e em transporte de produtos [ilegais] em todo o mundo. [...] [O problema do crime organizado deve ser encarado do ponto de vista econômico]. [...] Estamos falando de mercados que geram lucros imensos. São mercados com centenas de milhares de consumidores com grande apetite para comprar e centenas de [...] milhares de vendedores agressivos querendo vender. [...] Ou seja, até agora tratamos a questão apenas do ponto de vista criminal, como um problema policial. Já estamos vendo que as dimensões vão muito além do que a polícia pode fazer. Dizer que esse é um problema do departamento de polícia é uma ilusão. Isso tem dimensões de segurança nacional, tem dimensões internacionais, econômicas, financeiras etc. Vai além do problema policial. E a outra ilusão [...] é que o problema seja nacional. Sim, é nacional, mas tem escala mundial. Qualquer solução nacional está condenada ao fracasso, porque é preciso haver uma coordenação internacional. [...] [É importante destacar, ainda, que existem] vários tipos de crimes, e não há dúvida de que o crime não acontece apenas nas favelas, acontece também nos ministérios, acontece dentro dos bancos, dentro das empresas, dentro das organizações mais elegantes. [...]. Disponível em: <www.rodaviva.fapesp.br>. Acesso em: 5 out. 2015.

a ) O que possibilitou a globalização do crime organizado, de acordo com Moisés Naím? b ) De acordo com o Naím, qual é a solução para o problema do contrabando e do crime organizado? c ) Produza um texto apontando as principais características do crime organizado nos dias atuais.

Oficina de história

Experiência e vivência

Biotecnologia e Bioética

Unidade 11

Várias das questões polêmicas do final do século XX e início do século XXI estão relacionadas às descobertas científicas (fertilização in vitro, clonagem, pesquisa com células­tronco embrioná­ rias, alimentos transgênicos etc.) e às questões de saúde pública (aborto, eutanásia etc.). Esses temas repercutem nos meios de comunicação quase diariamente e são motivos de discussões nos mais diversos setores da sociedade. Em grupo, na sala de aula, realizem um debate sobre um desses temas. Veja um roteiro de questões para auxiliá­los nessa atividade. • Escolham um dos temas apresentados nas páginas 246 e 247, cujos assuntos são Biotecno­ logia e Bioética; • Procurem reunir a maior quantidade de informações possível sobre o tema escolhido, incluin­ do pontos de vista diferentes a favor ou contra o tema escolhido; • Durante o debate, discutam sobre os aspectos polêmicos que envolvem o tema, procurando sempre respeitar as diferentes opiniões que venham a surgir; • Se possível, para tornar o debate mais interessante, façam uso de recursos como painéis, cartazes, apresentações digitais etc.; • Por fim, com seu grupo, produzam um texto sobre os resultados do debate, apresentando a opinião de vocês sobre a realização da atividade.

Vestibulares 1. (Puccamp) Recentemente o Neo­Nazismo a ) resultou da desagregação da União Soviética e da Queda do Muro de Berlim o que provo­ cou o ressurgimento de fortes tendências e movimentos nacionalistas, de fundo étnico e religioso. b ) ganhou força principalmente a partir do fracasso das experiências socialistas no Leste Europeu. c ) manifestou­se principalmente na Alemanha e na Áustria, onde os grupos de extrema direi­ ta mais antigos, formados por saudosistas do

regime de Hitler, ganharam novo alento com a adesão de grupos de jovens conhecidos como cabeças­peladas (skinheads). d ) embora com restrições e diferentes interpre­ tações sobre seu funcionamento e grau de participação cívica, está no âmbito político de todos os países da Europa e da América. e ) manifestou­se inclusive nos Estados Unidos, que, embora se mantendo como uma super­ potência militar, tende a evoluir para uma multipolaridade política. O mundo contemporâneo

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Ampliando seus conhecimentos Arte e história

Arte e história - Banksy e a arte urbana contemporânea

Ammar Awad/Reuters/Latinstock

A arte contemporânea urbana, muitas vezes, aborda temá­ ticas relativas às questões sociais, políticas, econômicas e éticas de maneira satírica, transmitindo com intensidade as insatisfações pessoais. Exemplos desse tipo de arte são as intervenções realiza­ das por um artista inglês conhecido como Banksy. Suas obras são encontradas em vários lugares do mundo, como na cidade de Londres e na Palestina, e em diversos tipos de es­ paços, como paredes, muros e no próprio chão.

Nayef Hashlamoun/Reuters/Latinstock

Suas criações caracterizam-se muitas vezes como um ato público de protesto contra o poder vigente e a autoridade, o que, quase sempre, provoca em seus observadores um misto de incômodo e reflexão.

Grafite de Banksy representando uma pomba da paz com um colete à prova de balas, em local vigiado por um soldado, na cidade de Belém, na Cisjordânia, em 2008.

Matt Cardy/Getty Images

Fotografia de uma mulher palestina com seus filhos passando em frente ao muro que divide Israel do território palestino na Cisjordânia, com um grafite de Banksy, em 2005.

Grafite de Banksy, em Glastonbury, na Inglaterra. Fotografia tirada em 2010.

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Adeus, Lenin! Filme de Wolfgang Becker. Adeus, Lenin! Alemanha, 2003

A história no cinema

O filme Adeus, Lenin! narra a história de uma professora que sofre um ataque car­ díaco e entra em coma após ver seu filho em uma passeata contra o governo de seu país, a Alemanha Oriental. Durante o período em que ela está em coma, o país passa por uma profunda trans­ formação política, econômica e cultural: cai o muro de Berlim. É o fim do socialismo e as duas Alemanhas se unificam sob o regime capitalista. No intuito de privar a professora de emoções fortes, que poderiam piorar seu esta­ do de saúde, o filho se esforça de todas as maneiras para que ela não descubra a novidade e continue a pensar que ainda estavam vivendo sob o regime socialista. Título: Adeus, Lenin! Diretor: Wolfgang Becker

Para ler

• •Manual

Live Earth de sobrevivência ao aquecimento global: 77 táticas essenciais para frear a mudança climática ou sobreviver a ela, de David de Rothschild. Editora Manole. Apresenta táticas para o impedimento do aqueci­ mento global, como cuidar do destino próprio lixo ou comprar a lâmpada correta.

• •Meio

ambiente no século 21: 21 especialistas falam da questão ambiental nas suas áreas de conhecimento, de André Trigueiro. Editora Sextante. Artigos escritos por 21 personalidades brasileiras sobre o universo socioambiental, que nos ajuda a compreendê-lo e a nos reconhecermos nele.

Atores principais: Daniel Brühl, Katrin Sab, Maria Simon, Chulpan Khamatova, Florian Lukas, Michel Gwisdek, Rudi Völler, Helmut Kohl Ano: 2003 Duração: 121 minutos Origem: Alemanha

• •Sociedade

tecnológica, de Ciro Marcondes Filho. Editora Scipione. A fim de explicar as mudanças pelas quais o ser humano vem passando, o autor aborda o mundo teocêntrico, antropocêntrico e tecnocêntrico, focando na cultura tec­ nocrática em que estamos inseridos desde o século XX.

• •Usos

Unidade 11

de energia, de Helena da Silva Freire Tundisi. Editora Atual. Utilizando diversos recursos iconográficos, o livro aborda a problemática da crise energé­ tica pela qual passamos e traz reflexões acerca do tema e sobre possíveis soluções para ele.

Para navegar

• •Programa

das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Veja nesse site notícias recentes e informações atualizadas sobre diversos temas a respei­ to da questão ambiental, como consumo sustentável e aquecimento global. Disponível em: <http://tub.im/72a8q7>. Acesso em: 14 mar. 2016.

• •A volta ao mundo em uma mochila — Acnur. O site mostra detalhes sobre a

campanha organizada pela Agência da ONU para Refugiados, que busca pro­ pagar mensagens de esperança e solidariedade às crianças sírias refugiadas. Por meio de vídeos, textos e fotografias, acompanhe o trajeto da mochila, que percorre diversas partes do mundo recolhendo presentes, cartas e mensagens às crianças. Disponível em: <http://tub.im/fh7fvw>. Acesso em: 14 mar. 2016.

• •Ladislau

Dowbor. Página do professor Ladislau Dowbor, com artigos científi­ cos, indicação de leituras e filmes, arquivos de áudio e vídeos a respeito das principais questões da atualidade, envolvendo aspectos ambientais, econômi­ cos e culturais. Disponível em: <http://tub.im/cxrrz8>. Acesso em: 14 mar. 2016. O mundo contemporâneo

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Tuca Vieira/Folhapress

unidade

O Brasil contemporâneo


Nos últimos 20 anos, o Brasil deu passos importantes para a consolidação do regime democrático. Esse período foi marcado pela conquista de vários direitos, como a liberdade de expressão e o direito de escolher, por meio de eleições diretas, todos os governantes do país. Esse período também foi marcado pela inserção do Brasil no mundo globalizado e pela abertura da economia às práticas neoliberais. Nesta unidade, estudaremos o processo de consolidação da democracia após o fim da ditadura militar, a integração do Brasil no sistema mundial globalizado e os impactos causados pelo avanço da globalização em diversas áreas da sociedade brasileira. Veremos que houve algumas melhorias na distribuição das riquezas no país, porém, em outros aspectos, a situação se agravou nas últimas décadas. Alguns exemplos são o crescimento desordenado das cidades, a escalada da violência urbana e o aumento da degradação ambiental. Além disso, poderemos observar que a superação desses problemas é um desafio que deve ser enfrentado não somente pelos governantes, mas por toda a população do país. Veja as respostas das questões nas Orientações para o professor.

A A desigualdade social é, atualmente, um dos principais pro­b le­m as do Brasil. De que maneira esse problema é mostrado na fotografia? B Além da desigualdade social, quais outros problemas têm sido enfrentados pela sociedade brasileira na atualidade? Comente.

Fotografia tirada na cidade de São Paulo (SP), em 2004.

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A transição para a democracia

Jorge Rosenberg/Conteúdo Expresso/Latinstock

Em março de 1985, os brasileiros estavam se preparando para a posse de um presidente civil após quase 21 anos de ditadura militar. Apesar de ter sido indireta, a eleição de Tancredo Neves criou um clima de otimismo e de expectativa em grande parte da população brasileira. Antes da posse, no entanto, Tancredo adoeceu e precisou ser hospitalizado, ficando sem condições de assumir o cargo. Com isso, o vice-presidente José Sarney foi empossado como presidente da República.

O contexto econômico A situação econômica do Brasil era muito difícil em meados da década de 1980. A crise era agravada pelas altas despesas do governo, que gastava mais do que arrecadava. Esses gastos, em sua maioria, eram direcionados ao pagamento dos juros da dívida externa. Além disso, a conjuntura da economia mundial era de recessão, o que aumentava as dificuldades para conseguir crédito externo.

A dívida da ditadura A crise financeira de meados da década de 1980 foi uma das heranças da ditadura. Ela demonstrava o esgotamento do modelo econômico adotado durante o regime militar, o qual se baseava na intervenção estatal na economia e no alto endividamento externo. Nessa época, a dívida crescente fez com que órgãos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), interferissem nos assuntos internos do país, enquanto a produção industrial caía e o desemprego aumentava.

Dívida externa brasileira (1970-1985) Acervo da editora

Tancredo Neves foi hospitalizado às vésperas de sua posse, prevista para 15 de março de 1985. Submetido a várias cirurgias, não resistiu e faleceu em 21 de abril. A morte de Tancredo causou grande comoção nacional. Na fotografia, vemos uma multidão acompanhando o cortejo fúnebre, em São Paulo (SP).

Bilhões de dólares 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0

1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985

Anos

Fonte: SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

Moratória: suspensão de pagamentos a credores internacionais, que geralmente ocorre quando o país devedor atravessa uma crise econômica muito grave.

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Na linguagem dos economistas, o Brasil passava nesse período por uma crise de estagflação, ou seja, a combinação de estagnação da economia (o fim do “milagre econômico”) com altos índices de inflação e a consequente perda do poder aquisitivo dos consumidores. A situação financeira do país se encontrava tão desestruturada que o governo declarou uma moratória em 1987, suspendendo provisoriamente o pagamento dos juros de curto e médio prazos da dívida externa brasileira.


Renato dos Anjos/Conteúdo Expresso/Latinstock

Tentativas de estabilização econômica Para tentar combater a crescente inflação e o aumento da dívida externa, o governo federal lançou uma série de planos econômicos. O primeiro deles foi o Plano Cruzado, lançado em fevereiro de 1986, que estabelecia o congelamento dos preços da maioria dos produtos, principalmente gêneros alimentícios, das tarifas públicas, como água e luz, dos aluguéis e também dos salários. Apesar do congelamento, trabalhadores e patrões podiam negociar livremente os salários, desde que nenhum aumento fosse repassado ao preço dos produtos. Além disso, foi criado o salário-desemprego e foi previsto o mecanismo do “gatilho” salarial, por meio do qual os salários deveriam ser reajustados automaticamente quando a inflação atingisse a marca dos 20% ao mês. A moeda foi valorizada e seu nome substituído: o Cruzeiro passou a ser Cruzado (1 Cruzado correspondia a 1 000 Cruzeiros). Por um curto período, a inflação recuou. Os preços congelados e a moeda valorizada propiciaram às camadas mais pobres da população maior acesso aos bens de consumo. A estabilidade econômica, no entanto, era artificial e logo começaram a faltar produtos no mercado, principalmente carne, o que contribuiu para o surgimento de um mercado ilícito que vendia produtos com preços acima dos estipulados. Para contornar a situação, a equipe econômica idealizadora do plano defendeu a flexibilização gradual do congelamento, como estava previsto desde o início do plano.

Cartaz de 1986 incentivando a fiscalização dos preços por parte da população.

No entanto, o governo manteve o congelamento, pois no final de 1986 haveria eleições legislativas e para governador, e o Plano Cruzado representava um excelente trunfo eleitoral. Assim, o congelamento dos preços só foi suspenso após a vitória da maioria dos candidatos do partido do governo (PMDB), o que levou muitos analistas políticos a considerá-lo um golpe eleitoral. No final de 1986, a inflação voltou a subir de maneira incontrolável, assim como os preços dos bens de consumo em geral. Outros planos econômicos semelhantes foram decretados até o fim do governo Sarney (Plano Cruzado II, de novembro de 1986; Plano Bresser, de janeiro de 1988; Plano Verão, de janeiro de 1989), mas nenhum obteve sucesso.

Os problemas econômicos e a desilusão com a classe política se refletiram na sociedade brasileira. O agravamento dos problemas sociais, tanto na cidade como no campo, ganhava forma em movimentos grevistas, piquetes de trabalhadores rurais e manifestações urbanas violentas.

Operários que participavam de uma assembleia cercados por soldados do Exército. Volta Redonda (RJ), 1988. Oscar Cabral/Conteúdo Expresso/Latinstock

Além do desemprego, a lentidão do governo em realizar reformas importantes há muito tempo desejadas pela população, como a reforma agrária, estimulava a onda de protestos. No final de 1986, por exemplo, uma grande manifestação de trabalhadores e desempregados em Brasília assumiu formas violentas, com a queima de veículos e a danificação de edifícios públicos. O governo Sarney utilizou as Forças Armadas, além das polícias militares estaduais, para reprimir manifestações grevistas, acusadas de promover o ressurgimento de “grupos subversivos” com o objetivo de desestabilizar o governo. O Brasil contemporâneo

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Unidade 12

Protestos contra o governo


A Constituição de 1988 Nas eleições de novembro de 1986, cerca de 60 milhões de eleitores escolheram os deputados e senadores que formaram a Assembleia Constituinte, responsável pela elaboração de uma nova Constituição. Na composição do Congresso (487 deputados e 72 senadores), o PMDB foi o partido de maior representatividade, embora entre seus filiados houvesse grande diversidade ideológica.

A participação popular A elaboração do conjunto de leis mais importante do país contou com grande participação popular. Era a “sociedade civil organizada”: associações de bairro e de consumidores, sindicatos, ligas camponesas, associações de médicos, professores, advogados, jornalistas etc. Nessa época, prevaleceu a ideia de que a democracia não podia se limitar ao voto, pois sua efetivação apenas se daria com a participação ativa do cidadão na vida pública. Sergio Borges/Estadão Conteúdo

A participação da população na elaboração da Constituição se deu de diversos modos: por meio de visitas coletivas ao Congresso, comícios, cartas direcionadas aos parlamentares ou publicadas nos jornais, entre outros. Mas o modo mais eficaz foram as emendas populares, ou seja, o envio ao Congresso de propostas elaboradas por organizações da sociedade civil. Essas propostas deveriam ser defendidas por, no mínimo, três organizações da sociedade, contendo pelo menos 30 mil assinaturas. A mobilização nacional em torno das emendas populares foi considerável. Foram criados, por exemplo, a Frente Nacional de Entidades Democráticas, Sindicais e Populares e o Plenário Pró-participação Popular na Constituinte. Essas organizações tiveram um importante papel, divulgando em todo o território nacional materiais didáticos informando sobre a participação dos cidadãos na elaboração da carta constitucional e sua importância na configuração do futuro do país. Plenário Pró-participação Popular na Constituinte/Divulgação

Cerca de dois mil manifestantes convocados pela Frente Nacional de Entidades Democráticas, Sindicais e Populares promoveram um “abraço” ao Congresso Nacional, em Brasília (DF), em defesa das emendas populares à Constituinte. Fotografia de 1988.

Com o slogan “Constituinte sem povo não cria nada de novo”, os organizadores do Plenário Pró-participação Popular na Constituinte buscaram estimular os brasileiros a propor emendas para a nova Constituição. Ao todo, foram enviadas 122 emendas populares, assinadas por mais de 12 milhões de brasileiros. Ao lado, slogan do Plenário Pró-participação Popular na Constituinte.

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Características da Constituição Editora do Senado

Após dois anos de trabalho, a nova Constituição da República Federativa do Brasil, conhecida como “Carta Cidadã”, foi promulgada pelo Congresso em 5 de outubro de 1988. Veja algumas determinações da Constituição de 1988.

• •Universalização do voto, sendo facultativo aos analfabetos, aposentados e maiores de 16 anos e menores de 18.

• •Fixação do salário mínimo como base para o pagamento de pensões e aposentadorias, inclusive aos portadores de deficiência física.

• •Jornada de trabalho de 44 horas semanais e direito de greve. • •Liberdade de expressão, de imprensa e de organização. • •Qualificação do racismo como crime inafiançável. • •Condenação da tortura. • •Reconhecimento do direito dos grupos indígenas à manutenção de sua cultura e das terras que historicamente ocupam.

O sujeito na história

Capa da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988.

Chico Mendes

Francisco Alves Mendes Filho, conhecido como Chico Mendes, nasceu em 1944 na cidade de Porto Rico, no Acre. Assim como seu pai, ainda criança começou a trabalhar na extração do látex nos seringais. Quando jovem, tornou-se líder sindical e presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, além de vereador e um dos fundadores do Conselho Nacional de Seringueiros (1985).

Para solucionar esse conflito, Chico Mendes defendia a criação de reservas extrativistas para a preservação da floresta nativa. Leia, a seguir, o trecho de uma entrevista concedida por ele no início de dezembro de 1988.

Na fotografia tirada em 1988, vemos Chico Mendes em frente à sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (AC).

Edson Caetano/Estadão Conteúdo

Vamos utilizar a selva de forma racional, sem destruí-la. Os seringueiros, os índios, os ribeirinhos há mais de 100 anos ocupam a floresta. Nunca a ameaçaram. Quem a ameaça são os projetos agropecuários, os grandes madeireiros e as hidrelétricas com suas inundações criminosas. Nas reservas extrativistas, nós vamos comercializar [...] os produtos que a floresta generosamente nos concede. [...] A Reserva Extrativista é a única saída para a Amazônia não desaparecer. E mais: essa reserva não terá proprietários. Ela vai ser um bem comum da comunidade. Teremos o usufruto, não a propriedade. MENDES, Chico. Entrevista concedida ao Jornal do Brasil. In: MONDAINI, Marco. Direitos humanos no Brasil. São Paulo: Contexto, 2009. p. 118-9.

Por causa de sua ação e influência, Chico Mendes foi assassinado em 22 de dezembro de 1988, a mando de fazendeiros da região. A sua morte, entretanto, teve ampla repercussão na imprensa nacional e estrangeira, despertando a opinião pública para a importância das reservas extrativistas e da luta pela preservação da Amazônia. O Brasil contemporâneo

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Unidade 12

Dedicou sua vida à defesa dos seringueiros, atuando contra a devastação das florestas. Essas atividades lhe renderam muitos inimigos, principalmente entre os grandes proprietários rurais. Para impedir o desmatamento, Chico Mendes aplicava a tática do “empate”: os seringueiros, acompanhados por suas famílias, colocavam-se entre a floresta e os jagunços dos fazendeiros, tentando evitar a derrubada da mata. No entanto, nem sempre a tática tinha sucesso, porque os fazendeiros geralmente recebiam apoio da polícia.


O Brasil na era da globalização No final de 1989, os brasileiros foram às urnas eleger um presidente de forma direta, fato que não ocorria desde 1960. Nessa mesma época, o mundo passava por grandes transformações, com o avanço das políticas neoliberais e da globalização dos mercados. No Brasil, fazia apenas um ano que a nova Constituição havia sido promulgada. Epitácio Pessoa/Estadão Conteúdo

O governo Collor Em 1989, o ex-governador do estado de Alagoas Fernando Collor de Mello foi eleito presidente da República em uma eleição muito disputada, vencendo no segundo turno o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, líder sindical de origem operária. Em sua campanha presidencial, Fernando Collor de Mello representou o neoliberalismo e a modernidade, prometendo prender os corruptos e acabar com a inflação no país. Collor, no entanto, não correspondeu às expectativas da população. Por meio de um plano de combate à inflação, o Plano Collor, a poupança de milhões de brasileiros foi confiscada, gerando enorme descontentamento. Além de não resolver o problema da inflação, o presidente perdeu definitivamente seu prestígio após a descoberta de um esquema de corrupção chefiado por seu tesoureiro, Paulo César Farias, conhecido como PC Farias. Com isso, em 1992, multidões saíram às ruas para protestar e, pela primeira vez no Brasil, um processo de impeachment foi iniciado. Collor foi cassado, perdendo seus direitos políticos por oito anos.

O processo de impeachment ganhou força com o “Fora Collor”, movimento promovido em 1992 por jovens que ficaram conhecidos como caras-pintadas. Esse movimento demonstrou a importância da participação popular nos processos democráticos. Na fotografia, vemos uma multidão protestando nas ruas de São Paulo (SP) em favor do impeachment de Collor.

A abertura neoliberal A onda neoliberal dominou a economia brasileira em toda a década de 1990. E não apenas a brasileira, mas a economia de praticamente todos os países da América Latina. Nesses países, o neoliberalismo foi impulsionado por uma reunião econômica realizada em Washington, D.C., capital dos EUA, destinada a discutir formas de superar a crise econômica latino-americana, caracterizada por elevada dívida externa, estagnação econômica, inflação e desemprego. O encontro foi promovido pelo Instituto para a Economia Internacional, contando com a participação de representantes de organismos internacionais (FMI, Banco Mundial etc.), do governo dos EUA, além de economistas latino-americanos. Conhecido como Consenso de Washington, esse encontro estabeleceu como diretrizes os preceitos básicos do neoliberalismo: subordinação da economia às leis do mercado, pois a intervenção do Estado inibiria a participação do setor privado e, consequentemente, o desenvolvimento; desregulamentação do mercado de trabalho, para que as empresas pudessem reduzir custos com mão de obra; corte de gastos sociais; privatização de empresas estatais; liberalização financeira e comercial, por meio da eliminação de barreiras aos investimentos e produtos estrangeiros, abrindo a economia ao capital externo. Seguindo essas diretrizes, o Brasil reduziu os impostos sobre importações, fazendo que os produtos estrangeiros ficassem muito mais baratos que os nacionais. Assim, muitas empresas brasileiras foram seriamente atingidas, como as do ramo de informática e as do setor têxtil. A privatização de empresas estatais também começou a ser feita no governo Collor.

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Vice-presidente e sucessor de Collor, Itamar Franco adotou como principal medida de governo a implantação do Plano Real. Elaborado por uma equipe de economistas coordenada por Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, esse plano anti-inflacionário visava estabilizar a economia adotando medidas como o aumento de impostos, a redução dos gastos públicos e a criação de uma nova moeda, o Real, com valor cambial igualado ao do dólar. Durante o governo de Itamar, a inflação foi controlada e a nova moeda brasileira permaneceu valorizada. Fernando Henrique Cardoso, conhecido como FHC, sucedeu Itamar e foi presidente em dois mandatos consecutivos, entre os anos de 1995 e 2002, mantendo a mesma linha política e econômica da administração anterior. O governo FHC conseguiu manter a inflação sob controle. Além disso, ele obteve êxito com investimentos na área da saúde, implementando políticas bem-sucedidas de combate à Aids, e da educação, aumentando o número de crianças na escola e diminuindo os índices de analfabetismo no país. Seu governo se caracterizou por uma política neoliberal, de abertura ao capital estrangeiro e privatizações de empresas estatais, no intuito de diminuir os gastos públicos. As privatizações ocorreram em empresas de diversos setores, principalmente da siderurgia e das telecomunicações. A má distribuição de renda e os altos índices de desemprego prejudicaram o país no campo econômico. Além disso, houve diver­s as denúncias de corrupção durante o seu governo, principalmente no processo de privatização das empresas estatais, escândalo que ficou conhecido como privataria.

As privatizações Durante a década de 1990, diversas empresas estatais brasileiras passaram pelo processo de privatização. As privatizações promovidas durante esse período foram muito contestadas, gerando um amplo debate no país. Aqueles que defendiam as privatizações procuravam justificar que o Estado deveria ter uma participação mínima na economia do país. Segundo eles, empresas controladas pela iniciativa privada possuem uma capacidade de gestão mais eficiente, gerando melhores serviços para a população, mais lucros e, consequentemente, uma maior arrecadação de impostos. Aqueles que eram contra as privatizações acreditavam que, com a venda das empresas estatais, o Estado estaria perdendo parte de sua soberania, pois não possuiria mais o controle sobre setores estratégicos da economia nacional. Além disso, argumentavam que sempre houve pouco interesse da iniciativa privada em investir em setores de infraestrutura, sendo necessário um amplo investimento do Estado para assegurar o desenvolvimento de empresas estatais que atuam nesses setores. Rosane Marinho/Folhapress

Itamar Franco e FHC

Manifestantes contrários à privatização da Companhia Vale do Rio Doce entram em confronto com policiais, no Rio de Janeiro (RJ), 1997.

O governo Lula Unidade 12

Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente do Brasil em 2002, tornando-se o primeiro líder sindical a assumir esse cargo. Lula teve participação ativa nas greves dos metalúrgicos do ABC paulista no final da década de 1970, ainda sob o regime militar, e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). No campo econômico, seu governo manteve a inflação controlada, elevando as taxas de juros e aumentando a arrecadação de impostos. Com o fortalecimento do Real em relação ao dólar, o país obteve crescimento no comércio externo e uma balança comercial favorável. No campo social, foi implantado um programa de auxílio mensal em dinheiro para famílias pobres, conhecido como Bolsa Família, e o aumento real do salário mínimo. Isso possibilitou o aumento da renda da camada mais pobre da população. Além disso, outros programas foram criados, como o Luz para todos, o Brasil alfabetizado, o ProUni, entre outros, aumentando os índices de aprovação de seu governo. Por outro lado, denúncias de corrupção, que deram origem a um processo que ficou conhecido como mensalão, desestabilizaram o governo Lula em 2005. Apesar da instabilidade política, Lula obteve a maioria dos votos da população nas eleições de 2006, sendo reeleito e dando continuidade às políticas sociais. O Brasil contemporâneo

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O governo de Dilma Rousseff No final de seu segundo mandato, Lula apontou a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para sucedê-lo na presidência em 2011. Ex-militante de esquerda, Dilma chegou a ser presa e torturada quando lutava contra a ditadura militar. Defendendo a continuidade e ampliação das políticas sociais do governo Lula, Dilma se elegeu, tornando-se a primeira mulher a chegar à presidência no Brasil. Dilma Rousseff ampliou diversos programas econômicos e sociais. As obras públicas, por exemplo, foram incentivadas pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), beneficiando diversas cidades brasileiras com obras de infraestrutura. Além disso, implantou programas de auxílio à pesquisa e à formação acadêmica no exterior, como o Ciência sem Fronteiras.

A polarização política Com a crise do governo de Rousseff, estabeleceu-se no Brasil uma espécie de polarização política em relação ao impeachment. Enquanto muitas pessoas apoiavam o afastamento da presidente, outras defendiam que esse acontecimento desestabilizaria o regime democrático no país.

Durante o seu primeiro mandato (2011-2014), no entanto, alguns políticos e ministros foram acusados de corrupção e, por isso, foram afastados de seus cargos. Nesse período, foram apuradas e julgadas várias das denúncias do processo do mensalão, e vários políticos foram presos, inclusive alguns membros do primeiro escalão do governo Lula. Em 2014, após uma acirrada disputa com Aécio Neves (que obteve 48,3% dos votos), Dilma foi reeleita (com 51,6% dos votos). O início de seu segundo mandato foi marcado pelas tentativas de superar problemas como a alta da inflação e baixo crescimento econômico do país. Além disso, desde 2015, o Brasil enfrenta uma grave crise de desemprego.

A taxa de desemprego aumentou para 9,5% no trimestre encerrado em janeiro de 2016, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa taxa é recorde da série histórica da pesquisa, iniciada no primeiro trimestre de 2012. No mesmo período em 2015, o desemprego atingia 6,8% da população economicamente ativa do país. [...] POLITO, Rodrigo. Taxa de desemprego sobe para 9,5% no trimestre encerrado em janeiro. Disponível em: <www.valor.com.br/ brasil/4496682/taxa-de-desemprego-sobe-para-95-no-trimestre-encerrado-em-janeiro>. Acesso em: 3 maio 2016.

Abaixo, à esquerda, vemos uma manifestação a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Abaixo, à direita, uma manifestação contra o impeachment de Rousseff. Fotografias tiradas em março de 2016, em São Paulo (SP).

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Outra questão marcante no segundo mandato de Dilma Rousseff é a grande mobili­ zação popular contra o seu governo. Em 2015 e 2016, centenas de milhares de pessoas foram às ruas para pedir seu impeachment, principalmente por causa dos problemas econômicos que marcaram seu mandato. O processo, aprovado em maio de 2016 no Senado, determinou o afastamento da presidente. Em seu lugar, assumiu o vice-presidente Michel Temer. Will Rodrigues/Shutterstock.com

Alf Ribeiro/Shutterstock.com


As relações de trabalho no Brasil Rubens Chaves/Pulsar

Além do grande aumento do desemprego, o país enfrenta o problema do crescimento do trabalho informal. Quando um trabalhador desempenha uma atividade profissional destituída de vínculos empregatícios e de direitos trabalhistas, dizemos que ele exerce um trabalho informal. Esse modelo de trabalho está crescendo entre os brasileiros que buscam alternativas frente ao amplo quadro de desemprego.

Vendedor ambulante de legumes e hortaliças, em Palmeira dos Índios (AL), 2015.

A exploração do trabalho infantil

No campo, as crianças seguem os pais nas lidas de muitas culturas, ou em atividades como a produção de carvão vegetal, a brita de pedras e a feitura de tijolos. Nas cidades, as crianças trabalham dentro e fora de casa. Em casa, auxiliam a família em serviços terceirizados, ou são ajudantes de mecânicos, confeiteiros, feirantes etc. As meninas fazem o serviço doméstico, que não é encarado como trabalho, apesar de ser fundamental na sobrevivência familiar.

Refletindo

••Você já presenciou

cenas de trabalho infantil? Conte aos colegas sua experiência e exponha sua opinião sobre como a sociedade pode combater esse tipo de problema. Veja a resposta da questão nas Orientações para o professor.

Hans von Manteuffel/Tyba

Famílias pobres empregam suas filhas como domésticas. Dos 5 milhões de empregadas domésticas brasileiras, cerca de 16% têm entre 10 e 17 anos, e a maior parte ganha menos de 1 salário mínimo. Muitas delas acabam sendo exploradas sexualmente. Como a prostituição infantil tem crescido assustadoramente no mundo inteiro, também motivada pelo aumento do turismo, os governos e movimentos sociais organizaram redes internacionais para combatê-la. Nas ruas das cidades brasileiras, a presença de crianças é histórica: há vendedores, engraxates, guardadores de carro, carregadores, catadores de papel, mendigos. Nas praias, recolhem latas para reciclar e nos lixões acompanham a família, coletando ma­ terial reciclável, que é vendido a sucateiros. PORTO, Cristina e outros. Trabalho infantil: o difícil sonho de ser criança. São Paulo: Ática, 2003. p. 75. (Que mundo é esse?).

Menina trabalha limpando vidro de carro, em Recife (PE), 2015.

O Brasil contemporâneo

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Unidade 12

O trabalho infantil ainda é um problema a ser superado em nosso país. Muitas crianças são obrigadas a trabalhar para complementar a renda familiar. Empregadas em sua maioria no setor agrícola ou em serviços domésticos, desenvolvem trabalhos com baixíssima ou nenhuma remuneração, muitas vezes em ambientes insalubres e sem proteção. Com o dever de trabalhar, geralmente deixam de ter acesso à educação, ao lazer e a um desenvolvimento saudável.


A terceirização do trabalho Lucas Lacaz Ruiz/Fotoarena/Folhapress

A terceirização de serviços por parte de uma empresa consiste na atribuição de determinados serviços a “terceiros”, isto é, a outras empresas. Os principais serviços que as empresas brasileiras vêm terceirizando se relacionam à segurança do trabalho, ao transporte de produtos e de matérias-primas, ao suporte técnico (como o conserto de mercadorias com defeito) e serviços de call center (central de atendimento onde são realizados serviços via telefone, por exemplo, pesquisas de mercado, cobranças de faturas, vendas e ouvidoria). Ao terceirizar serviços, uma empresa isenta-se de muitas responsabilidades trabalhistas relacionadas aos funcionários da empresa contratada. No Brasil, esse processo intensificou-se a partir da década de 1990, quando teve início a flexibilização nas leis trabalhistas. Funcionário de empresa terceirizada faz manutenção em tubulação de gás em São José dos Campos (SP), em 2014.

Uma das medidas políticas mais recentes sobre a terceirização no Brasil é a aprovação do projeto de lei 4330/04 pela Câmara dos Deputados, em 2015. Esse projeto, caso se torne lei, permitirá que todos os tipos de serviços de uma empresa sejam terceirizados, não somente aqueles considerados complementares à sua atividade principal. Conhecido como lei da terceirização, esse projeto é alvo de controvérsias. As pessoas favoráveis ao projeto afirmam que a terceirização pode impulsionar a geração de empregos, provocar o aumento dos salários e melhorar a qualificação dos profissionais. Já as pessoas contrárias ao projeto afirmam que a terceirização pode aumentar o desemprego e deixar os empregados terceirizados desprotegidos em termos de direitos trabalhistas.

O cooperativismo O cooperativismo, mesmo sendo uma forma tradicional de organização do trabalho, cada vez mais se destaca como uma alternativa viável para os trabalhadores, pois visa beneficiar a todos os cooperados de forma proporcional à sua participação. Desse modo, a produção de riquezas por meio do trabalho cooperado pode ser repartida entre seus associados, proporcionando amplo desenvolvimento econômico e social.

Mauricio Simonetti/Tyba

Sandálias fabricadas em cooperativa de produção de calçados, bolsas e roupas, em Cabaceiras (PB), 2015.

O cooperativismo é um ramo que cresce e se profissionaliza, no mundo todo. Há, no Brasil, 6,8 mil cooperativas atuantes em 13 ramos (agropecuário, consumo, crédito, educacional, especial, habitacional, infraestrutura, mineral, produção, saúde, trabalho, transporte e turismo e lazer), nas quais trabalham 340 mil profissionais. Segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras, 46 milhões de brasileiros são beneficiados pelo trabalho cooperativista e, entre 2004 e 2013, o número de cooperados cresceu 88% e o de empregos gerados 83%. A chamada economia solidária permite a parcelas da população mais vulneráveis sobreviver em períodos de crise econômica, por meio de ajuda mútua. No Brasil, o profissional atua não apenas nas tradicionais cooperativas de produção, crédito ou consumo, mas também em organizações não governamentais (ONGs) e associações de bairro – segmentos em crescimento. O Norte e o Nordeste são as regiões pioneiras na área. No entanto, o mercado se aquece no restante do país. Mercado de Trabalho. Guia do Estudante. Disponível em: <http://guiadoestudante.abril.com. br/profissoes/ciencias-humanas-sociais/cooperativismo-gestao-cooperativas-684663.shtml>. Acesso em: 16 mar. 2016.

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O espaço rural brasileiro Atualmente, cerca de 25% de toda riqueza produzida no Brasil provém do agronegócio, que movimenta grandes quantias de dinhei­ro, principalmente com as exportações. Apesar do protecionismo de alguns países, que impõe barreiras tarifárias para produtos como o café, as exportações brasileiras têm aumentado a cada ano, tornando o Brasil um dos líderes mundiais do agronegócio. Os principais produtos exportados pelo Brasil são trigo, algodão, milho, soja e laranja, além do álcool e do açúcar.

O agronegócio Agronegócio é o conjunto de atividades que envolve todo o processo de cultivo e comer­ cialização de produtos do campo. Ele envolve desde a produção agrícola ou a criação pecuária, até a comercialização das mercadorias, movimentando, por exemplo, o mercado de maquinários para a colheita, o beneficiamento e o transporte dos produtos.

O desmatamento

O agronegócio avança na trilha do desmatamento e da superexploração do meio ambiente. No lugar da floresta, grandes pastos para receber gado, lavouras de soja e algodão. E o que restou de árvores que alimentaram madeireiras e carvoarias ou que serviram de insumo para a construção civil das grandes cidades. Esse é o alto preço que paga o país por apostar na grande propriedade rural como alavanca para o desenvolvimento econômico. As ameaças ao Pantanal, Cerrado e Amazônia são apenas a face mais conhecida da destruição ambiental provocada também por grandes projetos de infraestrutura que obedecem às demandas da indústria e da agricultura exportadora.

Ricardo Azoury/Pulsar

O agronegócio é um dos ramos da economia que mais crescem no Brasil. Porém, seu desenvolvimento acarreta graves problemas ambientais.

Vista aérea do rio Branco e Floresta Amazônica com áreas desmatadas para agricultura, em Boa Vista (RR), 2014.

Unidade 12

VEZZALI, Fabiana. Desmatamento e poluição seguem o rastro do agronegócio. Repórter Brasil. Disponível em: <http://reporterbrasil.org.br/2006/07/desmatamento-e-poluicaoseguem-o-rastro-do-agronegocio/>. Acesso em: 16 mar. 2016.

A desigualdade social Os lucros proporcionados pelo agronegócio contrastam com a realidade vivida pelos pequenos produtores rurais. Desfavorecidos, eles ocupam faixas de terra nem sempre produtivas e não dispõem dos subsídios necessários para seu desenvolvimento, assim encontram dificuldades para competir no mercado agropecuário ou mesmo para garantir seus meios de subsistência. A grande concentração de terras nas mãos de grandes fazendeiros dificulta ainda mais a vida dos camponeses. Detentores de poder econômico e político, esses fazendeiros dificultam a adoção de medidas políticas necessárias para resolver os problemas de distribuição das terras brasileiras, sendo essa uma das principais causas de tensões e conflitos no campo.

A reforma agrária A reforma agrária consiste na revisão da estrutura agrária de um país, visando à redistribuição das terras, principalmente as improdutivas, a um maior número de pessoas, com o objetivo de se fazer justiça social e, ao mesmo tempo, garantir o aumento da produtividade agrícola. Os grandes proprietários rurais geralmente são contrários a essa reforma, pois acreditam que ela fere o direito à propriedade privada. Existem outras questões que dificultam a ampliação da reforma agrária no Brasil. Nos assentamentos, além de receberem a terra, os pequenos agricultores precisam de auxílio para iniciar os cultivos e estabelecer a infraestrutura necessária, como moradias, postos de saúde, escolas, barracões etc. O Brasil contemporâneo

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Problemas urbanos Atualmente, no Brasil, mais de 80% da população vive nas cidades. Pessoas atraídas pelas oportunidades de emprego, serviços públicos, lazer e educação, disponíveis principalmente nas áreas urbanas, contribuem para o crescimento desordenado das cidades, que não possuem a infraestrutura necessária para acompanhar o aumento populacional. Aleksandar Todorovic/Shutterstock.com

Moradias precárias Um dos principais problemas urbanos que afligem os habitantes das cidades brasileiras é a falta de moradia. Além das pessoas que vivem nas ruas, dormindo sob viadutos, ou em abrigos improvisados, existem milhões vivendo em favelas. Construídas em morros ou na periferia, em áreas sem planejamento urbano, essas habitações geralmente não possuem sistemas de saneamento básico, expondo os moradores a várias doenças.

Favela em morro na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 2016. Marcos Amend/Pulsar

Congestionamentos e poluição Outro problema que atinge muitas cidades está relacionado à grande quantidade de veículos que circulam pelas ruas. Em cidades como São Paulo, por exemplo, onde o número de veículos passa de 6 milhões, os congestionamentos são constantes e forçam milhares de pessoas a ficar horas paradas no trânsito. Além disso, a poluição do ar, causada pela grande quantidade de poluentes expelidos por esses veículos, prejudica a qualidade de vida dos habitantes, já que a grande concentração de CO2 (dióxido de carbono) é altamente nociva à saúde. Trânsito congestionado na cidade de Belo Horizonte (MG), em 2015.

A violência urbana e a criminalidade Latrocínio: roubo em que ocorre a morte da vítima.

O Brasil é um dos países com maior índice de violência e criminalidade do mundo, destacando-se crimes como homicídios, latrocínios e sequestros. Em nosso país, grupos criminosos formam organizações fortemente armadas que se sustentam por meio de práticas ilícitas, como o tráfico de armas e de drogas e a comercialização de produtos contrabandeados. Muitas dessas organizações exercem poder e influência sobre as comunidades nas quais se estabelecem, dificultando que os órgãos de segurança pública combatam o crime. Essa violência, ligada em grande parte à criminalidade, está diretamente relacionada às grandes desigualdades sociais e à má distribuição de renda entre a população.

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A concentração de renda diz respeito à má distribuição de riqueza entre as classes sociais. Pesquisas divulgadas em 2011 concluíram que cerca de 10% da população brasileira detém mais de 75% da riqueza nacional, enquanto os outros 90% da população dividem os 25% restantes.

A educação pública Dados recentes mostram uma melhoria nos índices da educação brasileira de forma geral. Nos últimos anos, cresceu o número de alunos matriculados nas escolas públicas de ensino básico, sinalizando mais acesso à educação. No entanto, existem vários desafios a serem superados a fim de que se ofereça uma educação de qualidade. Muitas escolas de diferentes regiões do Brasil sofrem com a falta de recursos, privando milhares de alunos do acesso a materiais didáticos, bibliotecas, salas de informática, quadras de esporte e merenda escolar. Além disso, outros fatores prejudicam a qualidade da educação, como a falta de formação continuada de professores e os baixos salários recebidos por esses profissionais.

A saúde pública

Na luta contra o racismo, muitas organizações não governamentais têm se mobilizado, promovendo ações de valorização da diversidade étnica do país.

Distribuição de renda no Brasil Salários Mais de 5 salários mínimos De 3 a 5 salários mínimos

5,1 6,0

De 2 a 3 salários mínimos

8,3

De 1 a 2 salários mínimos

24,8

Até 1 salário mínimo

50,4 0

10

20

30

40

50

60

Porcentagem da população Fonte: Pnad 2011 IBGE. Fábio Cortez/D.A Press

A concentração de renda

Estatísticas mostram que os que mais enfrentam dificuldades de acesso à educação, à saúde e a empregos são principalmente os afrodescendentes e os indígenas pobres.

Quadra de esportes de escola pública com problemas de infraestrutura, em Natal (RN), 2012.

Nos últimos anos, a expectativa de vida do brasileiro aumentou para cerca de 72 anos. Além disso, os índices de mortalidade infantil estão cada vez menores, indicando avanços significativos na área da saúde. Porém, a situação do Sistema Único de Saúde (SUS) ainda exige melhorias. Muitos hospitais e postos de saúde não possuem condições de fornecer um atendimento adequado à população. Essa situação ocorre, muitas vezes, por falta de infraestrutura, equipamentos, medicamentos e mesmo de profissionais qualificados, pois muitos médicos, atraídos por melhor remuneração, deixam de atender pelo SUS, dedicando-se exclusivamente à prestação de serviços particulares.

Por falta de vagas, pacientes são acomodados em macas em corredor de hospital público, em São Paulo (SP), 2012.

O Brasil contemporâneo

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Unidade 12

Apesar do crescimento econômico e da diminuição no número de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza nos últimos anos, as desigualdades sociais ainda são profundas e estão entre os principais problemas enfrentados pela sociedade.

Embora a Constituição brasileira considere o racismo crime inafiançável, a discriminação ainda existe em nosso país e é um dos fatores que mais dificultam o combate às desigualdades sociais.

Robson Ventura/Folhapress

A sociedade brasileira obteve várias conquistas durante o período de redemocratização e, ao longo desses anos, tem promovido mudanças positivas em relação à cidadania e aos direitos civis dos brasileiros, porém ainda há muito a ser melhorado.

O preconceito racial

E. Cavalcante

A desigualdade social

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25/5/16 1:10 PM


Os direitos dos povos indígenas A história dos indígenas no Brasil é marcada pela luta por suas terras, desde a época em que elas foram invadidas por europeus, a partir do século XVI. Atualmente, a falta de reconhecimento das Terras Indígenas (TIs) permanece como um dos problemas mais graves do Brasil. Apesar disso, os territórios habitados por indígenas possuem uma legislação própria, definida na Constituição Federal de 1988.

No Brasil, quando se fala em Terras Indígenas, há que se ter em mente, em primeiro lugar, a definição e alguns conceitos jurídicos materializados na Constituição Federal de 1988 e também na legislação específica, em especial no chamado Estatuto do Índio (Lei 6.001/73), que está sendo revisto pelo Congresso Nacional. A Constituição de 1988 consagrou o princípio de que os [indígenas] são os primeiros e naturais senhores da terra. Esta é a fonte primária de seu direito, que é anterior a qualquer outro. Consequentemente, o direito dos índios a uma terra determinada independe de reconhecimento formal. A definição de terras tradicionalmente ocupadas pelos [indígenas] encontra-se no parágrafo primeiro do artigo 231 da Constituição Federal: são aquelas “por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seu usos, costumes e tradições”. No artigo 20 está estabelecido que essas terras são bens da União, sendo reconhecidos aos [indígenas] a posse permanente e o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. Não obstante, também por força da Constituição, o Poder Público está obrigado a promover tal reconhecimento. Sempre que uma comunidade indígena ocupar determinada área nos moldes do artigo 231, o Estado terá que delimitá-la e realizar a demarcação física dos seus limites. A própria Constituição estabeleceu um prazo para a demarcação de todas as Terras Indígenas (TIs): 5 de outubro de 1993. Contudo, isso não ocorreu, e as TIs no Brasil encontram-se em diferentes situações jurídicas. [...] O que são Terras Indígenas. Povos Indígenas no Brasil. Instituto Socioambiental (ISA). Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/c/terras-indigenas/introducao/o-que-sao-terras-indigenas>. Acesso em: 16 mar. 2016.

Apesar do amparo legal, o reconhecimento das Terras Indígenas tem enfrentado objeções de fazendeiros, garimpeiros e madeireiros que ocupam algumas dessas terras, explorando seus recursos e impedindo o prevalecimento do direito dos indígenas sobre elas. Renato Costa/FramePhoto/Folhapress

Os indigenistas, porém, defendem essas demarcações como meio de proteger as Terras Indígenas e preservar a cultura desses povos. Ainda, chamam a atenção para a grande capacidade que esses povos têm de manter o equilíbrio ecológico das terras em que habitam ao extrair delas somente o necessário para sua sobrevivência.

Indígenas fazem protesto pela demarcação de Terras Indígenas em frente ao Superior Tribunal Federal (STF), na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), em 2014.

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Legislação Escolar Indígena Marcelo Justo/Folhapress

Na década de 1990, o Ministério da Educação estabeleceu diretrizes específicas para os indígenas brasileiros. A partir de então, vêm sendo tomadas medidas para tentar garantir o seu acesso à educação, o que tem diminuído os índices de analfabetismo em suas comunidades.

Fabio Colombini

Atualmente, muitas comunidades indígenas recebem uma educação bilíngue, ou seja, na língua de sua etnia e também em língua portuguesa. Além disso, tem-se buscado formar professores indígenas, pois eles têm melhores condições de contribuir para a preservação dos valores culturais de seu grupo.

Pote de cerâmica usado em escola na comunidade indígena de São Pedro (AM). Ao fundo, quadro com palavras escritas na língua tuiuca. Antes à beira da extinção, a língua tuiuca agora é falada dentro e fora da escola, inclusive pelos alunos Tucano, Desana, Yebamasã, Bará e Miriti-Tapuia, vindos de aldeias vizinhas.

Professora ensinando artesanato para alunas na escola da aldeia Guarani Tenondé Porã, em Parelheiros (SP), em 2012.

Unidade 12

Indígenas no Ensino Superior Uma das consequências da implantação de uma política educacional específica para as comunidades nativas do Brasil foi o aumento do número de jovens indígenas nas instituições públicas de Ensino Superior. Leia o texto.

[...] A atual entrada dos indígenas no Ensino Superior do país se deve, sem dúvida, à importante atuação das organizações de professores indígenas (OPIs) como instituições que fizeram frente na mobilização dos indígenas em geral [na época da elaboração da Constituição de 1988]. E a situação atual da presença de indígenas nas universidades é devedora dessa posição tomada pelas OPIs. Aproximamo-nos de 5000 indígenas no Ensino Superior brasileiro, mais da metade dos 7000 estimados no Ensino Médio [...]. Este é um dado interessante que reflete o potencial das políticas de ações afirmativas para formação superior diante dos outros níveis de capacitação educacional, mas também que mostra certo investimento dos próprios indígenas no ensino superior como um meio fundamental de valorização de suas culturas e de busca por sua autonomia política. Educação Escolar Indígena no Brasil. Ensino Superior Indígena. Mapeamento de Controvérsias. Disponível em: <http://ensinosuperiorindigena.wordpress.com/index/educacao-indigena>. Acesso em: 6 out. 2015.

O Brasil contemporâneo

277


Comportamento e diversidade No início do século XXI, sob o impacto dos avanços tecnológicos, novos hábitos e valores ganharam espaço na sociedade brasileira, trazendo, por um lado, muitos benefícios e, por outro, acarretando diversos problemas.

O impacto das novas tecnologias Diego Padgurschi/Folhapress

Na primeira década do século XXI, houve, no Brasil, um grande crescimento no número de pessoas conectadas à internet, seja por meio de computadores ou de tablets e smartphones. Isso vem facilitando a comunicação e o compartilhamento de dados entre pessoas de várias partes do mundo. Desse modo, a popularização da internet tem democratizado o acesso à informação e aproximado pessoas de diferentes regiões e culturas.

A facilidade proporcionada pelos meios de comunicação tem levado muitas pessoas a se tornarem dependentes deles, utilizando-os excessivamente e chegando, muitas vezes, a priorizá-los em detrimento dos relacionamentos pessoais afetivos. Além disso, está cada vez mais comum as pessoas preferirem registrar (por meio de fotografias ou vídeos) os momentos em vez de vivenciá-los. Nessa imagem, torcedores usam celulares para fotografar e gravar vídeos em um jogo de futebol da Copa do Mundo no Brasil, em São Paulo (SP), 2014.

O consumismo Define-se o consumismo como o hábito de adquirir produtos de forma compulsiva e desnecessária. No sistema capitalista globalizado, novas mercadorias surgem de forma extremamente rápida. Além disso, elas passam por renovações tecnológicas tão aceleradas que um modelo de telefone celular do ano anterior, por exemplo, já pode ser considerado obsoleto após um período mínimo de uso, o que acontece também com computadores e demais aparelhos eletrônicos de alta tecnologia. As empresas costumam investir muito em publicidade e propaganda, fazendo com que o consumidor crie necessidades artificiais, cuja satisfação imediata torna-se o único meio de obter prazer. Muitas pessoas buscam adquirir status por meio da posse de determinados bens, enquanto outras se identificam com os atributos e valores veiculados por determinada marca de um produto. Como o Brasil é um país integrado à sociedade globalizada, também chamada de sociedade do consumo, existem parcelas significativas da população brasileira que sofrem desse mal. Geralmente, as pessoas percebem que são consumistas quando se encontram endividadas, evidenciando a perturbação emocional causada pela impossibilidade de satisfazer sua compulsão pela compra constante de novos produtos. O aumento dos transtornos de saúde A sociedade brasileira está se fundamentando, cada vez mais, nos valores capitalistas de consumo excessivo, sucesso a todo custo e aquisição de prazeres imediatos. Esses valores que, aparentemente, agradam a todas as pessoas, podem trazer consigo sérios malefícios a médio e longo prazo. Vivendo sob constante pressão e em ambientes extremamente competitivos, muitas pessoas que trabalham com computadores, por exemplo, desenvolvem transtornos do sistema motor, conhecidos como LER (Lesão por Esforço Repetitivo). Além disso, essa situação estressante pode levar muitos indivíduos a desenvolverem distúrbios alimentares, provocados pelo sedentarismo e ansiedade, como a obesidade e a bulimia. Outro transtorno de saúde característico da atualidade é a depressão, uma doença mental relacionada ao desequilíbrio emocional, que pode provocar uma série de distúrbios, como ansiedade, estresse e frustração, fatores que intensificam estados depressivos. Pessoas depressivas podem apresentar dificuldades na realização de atividades cotidianas, como o trabalho, o estudo e o relacionamento afetivo.

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A religiosidade Nas últimas décadas, no Brasil, o desenvolvimento de um ambiente cultural de maior tolerância quanto às diferenças que envolvem a religiosidade e a sexualidade vem permitindo que grupos minoritários, antes reprimidos, tenham a possibilidade de se expressar de forma aberta e de exigir o respeito a seus direitos civis. As manifestações da religiosidade popular, por exemplo, estão cada vez mais evidentes na sociedade brasileira. As religiões com maior quantidade de adeptos são o catolicismo, o protestantismo, o espiritismo e as religiões afro-brasileiras. Atualmente, o Brasil é um Estado laico, isto é, que não possui vínculo oficial com nenhuma religião instituída. Dessa forma, todos os cidadãos brasileiros desfrutam legalmente de liberdade religiosa. Mas nem sempre foi assim. Até meados do século XX, os seguidores de religiões minoritárias eram vítimas de preconceito e discriminação. Nas últimas décadas, os cidadãos brasileiros conseguiram se mobilizar em defesa da tolerância religiosa. Assim, vários grupos que historicamente sofreram com a discriminação já podem realizar seus cultos e manifestar suas opiniões religiosas com mais liberdade. Porém, a luta pelo respeito à diversidade cultural no Brasil não chegou ao fim, pois ainda existem grupos intolerantes que não respeitam o direito à liberdade religiosa.

A sexualidade Do mesmo modo que em outros países ocidentais, a sociedade brasileira comporta ampla diversidade sexual, que fica em evidência nas diferentes formas de os indivíduos expressarem sua sexualidade. Esse é um assunto que costuma levantar polêmica, pois diz respeito aos comportamentos e sentimentos mais íntimos de cada pessoa. Nesse âmbito, destaca-se a luta dos homossexuais para obter do Estado as garantias que assegurem o direito à liberdade de orientação sexual. Em muitos países desenvolvidos, os movimentos homossexuais já obtiveram várias conquistas na esfera judiciária e na legislativa, como o reconhecimento legal do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e a elaboração de leis contra a homofobia.

Daniel Cymbalista/Pulsar

Unidade 12

No Brasil, apesar de alguns avanços nessa área, ainda é necessário superar os preconceitos e o Estado agir para combater a discriminação. Nesse sentido, é muito importante a mobilização popular para garantir a aprovação de leis que criminalizem a homofobia, bem como a efetiva aplicação dessas leis.

Homofobia: medo irracional, aversão a homossexuais. Uma pessoa homofóbica geralmente tem uma atitude discriminatória e hostil em relação a gays, lésbicas, bissexuais e transexuais.

Todos os anos, milhões de pessoas participam da Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Na fotografia tirada em 2015, uma multidão estende a bandeira do movimento gay ao longo da Avenida Paulista, em São Paulo (SP).

O Brasil contemporâneo

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O tema sobre o mundo sustentável favorece o trabalho interdisciplinar com Biologia. Veja, nas Orientações para o professor, sugestão para a realização desse trabalho.

Consumo e meio ambiente Desde o início da Primeira Revolução Industrial, em meados do século XVIII, o ser humano vem aumentando continuamente sua capacidade produtiva, o que foi possível graças ao desenvolvimento de máquinas cada vez mais complexas e à aplicação da força motriz originada principalmente pela queima de combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão. O aumento na produção e o desenvolvimento tecnológico proporcionaram melhorias nas condições de vida das pessoas, permitindo a automatização de muitas tarefas. Por outro lado, o desenvolvimento industrial tem causado enormes prejuízos ao meio ambiente, como a poluição e o esgotamento dos recursos naturais. Um dos grandes desafios para a humanidade no século XXI é encontrar maneiras de viabilizar um mundo sustentável. A sustentabilidade é a tentativa de garantir a qualidade de vida das sociedades atuais sem prejuízo para as gerações futuras. Veja, a seguir, alguns equipamentos e medidas que podemos adotar em nosso dia a dia, e que podem contribuir para o desenvolvimento de um mundo sustentável. Fotomontagem de Eduardo C. S. formada pelas imagens dcwcreations, antpkr, Radiokafka, Dan Breckwoldt, Nick Stubbs, Joe Klune, Krzysztof Slusarczyk, Lisa F. Young, Cameramannz, Aleksandar Todorovic, Olga Miltsova, Anna Kucherova, irin-k, violetkaipa, Smileus, Madlen, withGod, kezza, Iriana Shiyan, gopause, Phanumassu Sang-ngam, ZaZa Studio e Matee Nuserm/Shutterstock.com

Utilizar bicicleta como meio de transporte alternativo evita a emissão de CO 2 (dióxido de carbono). Além disso, a utilização de transportes coletivos, como ônibus e trens, contribui para reduzir o número de automóveis nas ruas.

As plantas domésticas ajudam a manter um ambiente mais fresco no entorno da habitação, aumentando o conforto térmico e evitando gasto de energia com ar-condicionado.

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O plantio de árvores é muito importante, pois, além de tornarem nosso ambiente mais bonito e agradável, elas retiram grandes quantidades de CO 2 da atmosfera, contribuindo para reduzir o aquecimento global.

A reciclagem ajuda a preservar o meio ambiente, diminuindo a quantidade de lixo nos aterros sanitários e reduzindo a exploração dos recursos naturais do planeta.


Consumo e meio ambiente Grande parte dos produtos que consumimos atualmente, como roupas, calçados, móveis e automóveis, é fabricada nas indústrias. No entanto, a produção industrial demanda matérias-primas, gasto de energia e normalmente gera resíduos poluentes. Por isso, para contribuirmos com a sustentabilidade, é fundamental praticarmos o consumo consciente, que consiste em evitar o consumo de produtos desnecessários, além de dar preferência a mercadorias produzidas por empresas comprometidas com a redução dos danos ambientais em todas as etapas da cadeia produtiva.

As paredes ecológicas podem ser feitas com materiais de construção reciclados ou com materiais retirados do próprio terreno, como pedras e madeiras. Se cultivado de maneira sustentável, o bambu, grande retentor de CO 2 , é um material alternativo para a feitura de pisos, tecidos e utensílios.

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Atualmente, em vários países, têm sido realizadas pesquisas em busca de fontes alternativas de energia, que são menos prejudiciais ao meio ambiente. Em uma residência, por exemplo, pode-se utilizar a energia solar, que é captada por meio de painéis instalados no telhado e que permitem aquecer a água, reduzindo o gasto de energia elétrica.

A utilização de pisos permeáveis no jardim contribui para a absorção da água pelo solo, evitando enchentes quando ocorrem chuvas.

A instalação de estações de tratamento nos banheiros permite, por meio da compostagem, transformar os dejetos em húmus para ser utilizado posteriormente como adubo.

As águas pluviais, coletadas e armazenadas com a utilização de calhas e cisternas, podem ser utilizadas para diversos fins, como irrigar jardins e hortas, lavar roupas e dar descargas em vasos sanitários.

Em uma horta, pode-se praticar a agricultura orgânica, ou seja, a produção de alimentos e vegetais sem a utilização de agrotóxicos e fertilizantes.

O Brasil contemporâneo

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Explorando o tema Os movimentos feministas e suas reivindicações A luta para garantir a igualdade de gênero e combater a violência contra as mulheres é histórica. A partir do início do século XX principalmente, as mulheres têm buscado lutar mais abertamente por seus direitos. O empenho pelo direito ao voto teve papel importante nos movimentos feministas e, após anos de reivindicações, tornou possível a participação das mulheres em eleições. Nas décadas de 1960 e 1970, os movimentos se intensificaram e passaram a reivindicar a igualdade no mercado de trabalho, a lutar a favor de métodos contraceptivos e de uma maior liberdade em relação aos modos de vestir, por exemplo.

Os casos de violência contra mulheres constituem um grave problema mundial e exigem toda a atenção dos governos e das sociedades. Permitir a efetivação dos direitos de igualdade e de respeito entre os gêneros é essencial na atualidade. No Brasil, as mulheres sofrem diariamente com várias formas de violência. Seja no ambiente doméstico, no trabalho ou em locais públicos, atos de agressividade e de opressão ainda representam um sério problema no país. De acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, em 2015, a central de atendimento que registra denúncias relacionadas à violência contra mulheres efetuou mais de 700 mil atendimentos. Veja, a seguir, os tipos de atos de violência registrados em 2015 e observe como essa situação é alarmante. Violência contra mulheres no Brasil – 2015 Tipos de violência contra mulheres

Número de denúncias registradas em 2015 no Brasil

Violência física

38.451

Violência psicológica

23.247

Violência moral

5.556

Violência patrimonial

1.607

Violência sexual

3.478

Cárcere privado

3.961

Tráfico de pessoas

351

Fonte: Balanço 2015 — Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher. Disponível em: <www.spm.gov.br/ assuntos/violencia/ligue-180-central-de-atendimento-a-mulher/balanco180-2015.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2016.

Secretaria de Políticas para as Mulheres - SPM

Os movimentos feministas na atualidade continuam lutando para aprovar legislações específicas, como no caso da legalização do aborto, da equiparação salarial, dos direitos trabalhistas e da erradicação do machismo na sociedade.

A violência contra as mulheres

A Secretaria de Políticas para as Mulheres (criada em 2003) e o disque denúncia Ligue 180 (criado em 2005) são alguns mecanismos que vêm sendo adotados para estimular o combate à violência contra a mulher em nosso país. Acima, logomarca do Ligue 180.

282


As conquistas recentes Alan Marques/Folhapress

Para combater os casos de violência contra mulheres, nos últimos anos foram implementadas algumas medidas na legislação do país. A Lei n o 11.340 de 2006, conhecida como Maria da Penha, tornou-se um dos principais mecanismos que permitem coibir e prevenir atos violentos que atingem a população feminina. Por meio dessa lei, foram criadas instituições específicas e uma rede de serviços e de atendimento de urgência a casos de violência contra mulheres, além do incentivo a políticas públicas que possam coibir essas atitudes. Leia a seguir um trecho dessa lei.

Art. 2o Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social. Art. 3o Serão asseguradas às mulheres as condições para o exercício efetivo dos direitos à vida, à segurança, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, à moradia, ao acesso à justiça, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

Maria da Penha Maia Fernandes durante entrevista no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), em 2008. Maria da Penha sofreu agressões do ex-marido por seis anos, foi alvo de tentativas de assassinato e ficou paraplégica após ser baleada por ele.

§ 1o O poder público desenvolverá políticas que visem garantir os direitos humanos das mulheres no âmbito das relações domésticas e familiares no sentido de resguardá-las de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Dando continuidade a essas políticas públicas, em 2015 foi aprovada a Lei de Tipificação do Feminicídio (Lei n o 13.104/ 2015). Por meio dessa legislação, os crimes de homicídio relacionados à condição feminina passaram a ser considerados hediondos, recebendo assim uma punição mais severa pelo poder público.

Kevin David/Brazil Photo Press

Mesmo com as conquistas recentes, os casos de violência contra mulheres ainda constituem uma situação preocupante e devem ser combatidos por toda a sociedade. Para isso, é importante que se discuta nas escolas, na vida pública e nos meios familiares a importância da igualdade de gênero e a valorização do papel das mulheres em nossa sociedade.

Hediondo: nesse caso, é um crime considerado pela legislação como de extrema gravidade, inafiançável e que recebe um tratamento mais rigoroso que as demais faltas penais.

Pessoas durante manifestação contra a implantação de vagão de metrô exclusivo para mulheres, em São Paulo (SP), em 2014. Os manifestantes alegam que esse tipo de medida não resolve o problema do assédio sofrido pelas mulheres nos metrôs.

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Unidade 12

Disponível em: <www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 15 mar. 2016.


Atividades

Anote as respostas no caderno.

Sistematizando o conhecimento 1. Descreva a situação da economia brasileira após o fim do governo militar.

2. Quais as principais características da Constituição de 1988?

3. De acordo com o Consenso de Washington, quais eram as diretrizes básicas do neoliberalismo a serem implementadas nos países da América Latina, entre eles o Brasil? Que medidas foram adotadas pelo governo brasileiro para seguir essas diretrizes?

4. Sobre as privatizações da década de 1990,

Veja as respostas das Atividades nas Orientações para o professor.

a ) O que caracteriza o trabalho informal? b ) Quais tipos de trabalho são executados por crianças brasileiras? Quais as consequências para elas? c ) O que é trabalho terceirizado? Cite exemplos. d ) O que é o cooperativismo? Cite exemplos.

6. Quais problemas urbanos atuais fazem parte da sua realidade? Responda com exemplos.

7. Analise o gráfico da página 275. O que ele indica sobre a distribuição de renda no Brasil?

quais eram os argumentos favoráveis? E quais eram os argumentos contra?

8. Quais os principais obstáculos para o re-

5. Sobre as relações de trabalho no Brasil, na

9. Cite medidas que você pode tomar para

atualidade, responda.

conhecimento das Terras Indígenas? colaborar com um mundo sustentável.

Expandindo o conteúdo 10. Leia os textos a seguir, que apresentam duas opiniões sobre as cotas nas universidades. A

Manifesto de “Cento e treze cidadãos antirracistas contra as leis raciais” [...] Nós, intelectuais da sociedade civil, sindicalistas, empresários e ativistas dos movimentos negros e outros movimentos sociais, dirigimo-nos respeitosamente aos juízes da corte mais alta, que recebeu do povo constituinte a prerrogativa de guardião da Constituição, para oferecer argumentos contrários à admissão de cotas raciais na ordem política e jurídica da República. [...] apontamos a Constituição Federal, no seu artigo 19, que estabelece: “É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si”. O artigo 208 dispõe que: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia do acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um”. Alinhada aos princípios e garantias da Constituição Federal, a Constituição Estadual do Rio de Janeiro, no seu artigo 9 o, determina que: “Ninguém será discriminado, prejudicado ou privilegiado em razão de nascimento, idade, etnia, raça, cor, sexo, estado civil, trabalho rural ou urbano, religião, convicções políticas ou filosóficas, deficiência física ou mental, por ter cumprido pena nem por qualquer particularidade ou condição”. As palavras da lei emanam de uma tradição brasileira, que cumpre exatos 120 anos desde a Abolição da escravidão, de não dar amparo a leis e políticas raciais. No intuito de justificar o rompimento dessa tradição, os proponentes das cotas raciais sustentam que o princípio da igualdade de todos perante a lei exige tratar desigualmente os desiguais. [...] Raças humanas não existem. A genética comprovou que as diferenças icônicas das chamadas raças humanas são características físicas superficiais, que dependem de parcela ínfima dos 25 mil genes estimados do genoma humano. A cor da pele, uma adaptação evolutiva aos níveis de radiação ultravioleta vigentes em diferentes áreas do mundo, é expressa em menos de dez genes!

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[...] As cotas raciais proporcionam privilégios a uma ínfima minoria de estudantes de classe média e conservam intacta, atrás de seu manto falsamente inclusivo, uma estrutura de ensino público arruinada. [...] É preciso elevar o padrão geral no ensino mas, sobretudo, romper o abismo entre as escolas de qualidade, quase sempre situadas em bairros de classe média, e as escolas devastadas das periferias urbanas, das favelas e do meio rural. [...] A meta nacional deveria proporcionar a todos um ensino básico de qualidade e oportunidades verdadeiras de acesso à universidade. B

“Manifesto em defesa da justiça e constitucionalidade das cotas” [...] As iniciativas de inclusão racial e social no Brasil no campo do ensino superior contam com uma história rica e complexa, embora inconclusa, que certamente pode juntar-se ao repertório de outras notáveis conquistas ao redor do mundo. A história a que nos referimos se baseia em um processo concreto de luta pela igualdade após um século inteiro de exclusão dos negros do ensino superior, e não mais na controversa ideologia do mito de uma “democracia racial” que, de fato, nunca tivemos. [...] A demanda por políticas compensatórias específicas para os negros no Brasil [...] insere-se na busca de justiça social em uma sociedade que historicamente se mostra racista, sexista, homofóbica e excludente. As cotas e o ProUni significam uma mudança e um compromisso ético do Estado brasileiro na superação de um histórico de exclusão que atinge de forma particular negros e pobres. Não leis raciais, como dizem os 113 anticotistas, mas um posicionamento do Estado coerente com os acordos internacionais de superação do racismo, de luta pelos direitos humanos dos quais o país é signatário. [...] A parte do documento dedicada à genética é [...] confusa e inútil, além de contraditória para seus objetivos. Seu interesse é minar a realidade da diferença entre os seres humanos pelo fenótipo e demonstrar a mestiçagem genética que caracteriza a todos nós. Com isso, pretendem invalidar a possibilidade de que se adotem cotas para negros nas universidades ao “demonstrar” que “cientificamente” não existem negros. E para que insistir em negar aquilo que ninguém afirma? A quem estão atacando? Não a nós, certamente, porque os defensores das cotas jamais falaram em raça no sentido biológico. Somos nós que defendemos políticas públicas para a comunidade negra, que enfatizamos ser o racismo brasileiro o resultado histórico de uma discriminação dos brancos contra as pessoas de fenótipo africano. VENTUROLI, Thereza. Mais de um século de discriminação. Atualidades Vestibular. São Paulo: Abril, n. 8, 2009. p. 166-7.

a ) De acordo com o texto A, por que o sistema de cotas não resolve o problema do ensino no país? Unidade 12

b ) Com base no texto B, aponte os principais argumentos dos que defendem o sistema de cotas. c ) O que você pensa sobre o sistema de cotas? Justifique sua resposta apresentando elementos dos dois textos citados, além de seus conhecimentos sobre o assunto.

Vestibulares 1. (UFF-RJ) Escrevendo sobre a transição democrática brasileira e a emergência da Nova República em 1985, Boris Fausto afirma que “O fato de que tenha havido um aparente acordo geral pela democracia, por par te de quase todos os atores políticos, facilitou a continuidade de práticas contrárias a uma verdadeira democracia”. Desse modo, o fim do autoritarismo levou o país a uma “situação democrática”

mais do que a um regime democrático consolidado. A consolidação foi uma das tarefas centrais do governo e da sociedade nos anos posteriores a 1988. FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo: Edusp/ Imprensa Oficial do Estado, 2002. p. 290.

Com base na leitura do texto, analise duas contradições presentes no processo da transição “democrática” no Brasil.

O Brasil contemporâneo

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Ampliando seus conhecimentos Arte e história Graffiti: palavra italiana, plural de graffito, que se refere às inscrições com carvão e outros materiais na Roma Antiga. Atualmente, graffiti é o termo que os próprios grafiteiros utilizam para denominar sua forma de arte.

Entre as manifestações artísticas da contemporaneidade estão os graffiti (ou grafites), que aborda temáticas relacionadas principalmente às questões sociais, políticas, econômicas, éticas e ambientais, utilizando diversas técnicas e instrumentos, com destaque para o spray de tinta. Os graffiti fazem uso de espaços que não são vistos como artísticos, pois as “telas” do grafiteiro são os muros e as ruas das cidades. O graffito atualmente é considerado um dos três fundamentos da cultura hip-hop, ao lado do rap (rithm and poetry, traduzido do inglês “ritmo e poesia”) e do break dance (estilo de dança típico dos adeptos do hip-hop). No Brasil, expressões dos graffiti podem ser vistas nas paredes, muros e ruas da maioria das cidades. No entanto, essa arte se diferencia da pichação, que é considerada um ato de vandalismo, um crime contra o patrimônio público e privado. Os adeptos dos graffiti normalmente solicitam a autorização dos agentes do poder público ou dos proprietários dos imóveis onde serão feitas as pinturas. Atualmente, muitos jovens e adolescentes encontram nos graffiti um modo de expressar suas opiniões e sentimentos. Por meio dessa forma de expressão artística, eles conquistam sua inclusão social e passam a exercer mais efetivamente sua cidadania. No século XXI, os graffiti estão indo além de suas áreas tradicionais de atua­ ção, participando de mostras e eventos em diversos museus e galerias de arte do Brasil. Além disso, muitos governos municipais estabelecem parcerias com grupos de grafiteiros para fazer arte e intervenções nos muros e espaços públicos das cidades. Juca Martins/Olhar Imagem

Graffiti feitos na galeria de rua Beco do Batman, em São Paulo (SP). Fotografia tirada em 2009.

Os graffiti

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Cidade de Deus Filme de Fernando Meirelles. Cidade de Deus. Brasil, 2002

A história no cinema

No filme, um narrador-personagem conta a história de um grupo de moradores de um conjunto habitacional (hoje bairro) da cidade do Rio de Janeiro, chamado Cidade de Deus. Ao narrar sua própria infância e adolescência, ele aborda também as transformações que ocorreram nas relações sociais entre os membros da comunidade, bem como o aumento da criminalidade no Rio de Janeiro, do fim da década de 1960 até o começo dos anos 1980. Cidade de Deus é importante por representar um momento decisivo para o desenvolvimento da criminalidade no Brasil: o surgimento do crime organizado. Um aspecto bastante interessante são as qualidades estéticas do filme, que apresenta uma narrativa dinâmica e recursos visuais de grande impacto. Além disso, diversos atores amadores e pessoas que nunca haviam atuado antes participaram do filme, atribuindo-lhe realismo.

Para ler

• •1001

maneiras de salvar o planeta, de Joanna Yarrow. Editora Publifolha. Ideias de mudança em nosso estilo de vida que podem trazer benefícios para o planeta e, consequentemente, para nós mesmos. São abordados temas como poluição, desperdício, alimentação, entre outros.

• •Constituição

da República Federativa do Brasil. Editora Saraiva. Elaborada em 1988, contém os direitos e deveres dos cidadãos brasileiros. É a principal Lei do país.

Título: Cidade de Deus Diretor: Fernando Meirelles Atores principais: Matheus Nachtergaele, Seu Jorge, Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Douglas Silva, Alice Braga Ano: 2002 Duração: 135 minutos Origem: Brasil

• •Racismo no Brasil, de Lilia Moritz Schwarcz. Editora Publifolha. Aborda a mis-

cigenação na formação do povo brasileiro e a importância das etnias africanas nesse processo, explicando também a falta de comprovação científica nas diferenciações de raça e por que a discriminação no Brasil é considerada velada.

• •O trabalho na economia global, de Paulo Sérgio do Carmo. Editora Moderna.

Unidade 12

O livro explica as transformações ocorridas no trabalho dentro do contexto da globalização e a relevância das ideias liberais e neoliberais em nossa sociedade.

Para navegar

••Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Disponível em: <http://tub.im/xhs7gi>. Acesso em: 17 mar. 2016. Portal do órgão oficial brasileiro para proteção do meio ambiente. Informações sobre preservação ambiental. Acesso à biblioteca virtual, editais, legislação, ouvidoria e denúncias.

••Instituto Socioambiental (ISA). Disponível em: <http://tub.im/8t6y6b>. Acesso em: 17 mar. 2016. O Instituto Socioambiental defende os direitos relativos ao ambiente, à cultura e aos direitos humanos. Projetos, notícias, mapas, entre outros.

• •As leis e a educação escolar indígena. Disponível em: <http://tub.im/oqde78>. Acesso em: 17 mar. 2016. Link para o livro As leis e a educação escolar indígena: Programa Parâmetros em Ação de Educação Escolar Indígena, organizado por Luís Donisete Benzi Grupioni, 2001.

••Secretaria de Políticas para as Mulheres. Disponível em: <http://tub.im/7k7fxa>.

Acesso em: 17 mar. 2016. Site da Secretaria de Políticas para as Mulheres, onde podem ser consultadas as principais políticas públicas brasileiras desenvolvidas para combater a violência contra a mulher e valorizar a igualdade de gênero. O Brasil contemporâneo

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Referências bibliográficas BARROS, José Augusto. Pesquisa escolar na internet. Belo Horizonte: Formato, 2001. (Dicas & informações). BETHELL, Leslie (Coord.). História da América Latina. São Paulo: Edusp; Brasília: Fundação Alexandre Gusmão, 20042005. 6 v. BOSCHI, Caio César. Por que estudar história? São Paulo: Ática, 2007. BRAUDEL, Fernand. O espaço e a história no Mediterrâneo. Tradução Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1988. BRITISH MUSEUM (Natural History). Man’s place in evolution. 2. ed. Londres: Natural History Museum Publications; Cambridge: Cambridge University Press, 1991. CARTLEDGE, Paul (Org.). História Ilustrada da Grécia Antiga. Tradução Laura Alves; Aurélio Rebello. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras/Secretaria Municipal de Cultura; Fapesp, 1992. DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004. FALCON, Francisco José Calazans. Iluminismo. 3. ed. São Paulo: Ática, 1991. (Princípios). FINLEY, Moses I. História antiga: testemunhos e modelos. Tradução Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Martins Fontes, 1994. (O homem e a história).

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Lista de siglas ENEM-MEC FUVEST-SP UFJF-MG

288

Fundação Universitária para o Vestibular

Universidade Federal Fluminense

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Exame Nacional do Ensino Médio

Fundação Getúlio Vargas de São Paulo

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