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VOLUME

ÚNICO

Arte por toda parte

Solange Utuari • Daniela Libâneo Fábio Sardo • Pascoal Ferrari

Arte por toda parte

VOLUME

ÚNICO

ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR ARTE

Solange Utuari • Daniela Libâneo Fábio Sardo • Pascoal Ferrari

ISBN 978-85-96-00364-3

ENSINO MÉDIO 9

788596 003643

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COMPONENTE CURRICULAR ARTE

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Arte por toda parte

VOLUME

ÚNICO

ENSINO MÉDIO COMPONENTE CURRICULAR

ARTE

Solange dos Santos Utuari Ferrari Mestre em Artes na área de Artes visuais pela Universidade Estadual Paulista. Especialização em Antropologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (instituição complementar da Universidade de São Paulo). Especialização em Arte-Educação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Licenciada em Educação Artística pela Universidade de Mogi das Cruzes. Artista plástica e ilustradora, formadora de educadores em Arte, assessora de projetos educativos e culturais, autora de materiais didáticos e de livros para formação em diversos níveis.

Daniela Leonardi Libâneo Sardo Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas. Licenciada em Pedagogia pela Pontifícia Universidade de São Paulo. Bailarina e professora de dança por 17 anos, professora universitária, gerente acadêmica, pesquisadora institucional e consultora educacional.

Fábio Sardo Mestre em Artes (área de concentração: Processos de Criação Musical) pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Bacharel em Música pela Faculdade de Artes Alcântara Machado. Professor de música em escolas particulares de São Paulo e elaborador de projetos para a rede pública paulista voltados a CEUs, ONGs e fundações. Violonista, instrumentista, arranjador e interventor musical em ambientes corporativos.

Pascoal Fernando Ferrari Mestre em Ensino de Ciências (área de concentração: Ensino de Ciências) pela Universidade Cruzeiro do Sul. Especialização na área de Sociologia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (instituição complementar da Universidade de São Paulo). Licenciado em Pedagogia pela Universidade Camilo Castelo Branco. Licenciado em Psicologia pela Universidade Braz Cubas. Professor universitário, ator, diretor de teatro, consultor em projetos culturais em Artes Cênicas e autor de materiais didáticos para cursos de formação de professores em ambientes virtuais.

2a edição São Paulo – 2016

MANUAL DO PROFESSOR

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Copyright © Solange dos Santos Utuari Ferrari, Daniela Leonardi Libâneo Sardo, Fábio Sardo e Pascoal Fernando Ferrari, 2016.

Diretor editorial Lauri Cericato Gerente editorial Flávia Renata P. A. Fugita Editora Angela C. Di Cesare M. Marques Editores assistentes Roberta Vaiano, José Alessandre S. Neto, Lilian Ribeiro de Oliveira Gerente de produção editorial Mariana Milani Coordenador de produção editorial Marcelo Henrique Ferreira Fontes Gerente de arte Ricardo Borges Coordenadora de arte Daniela Máximo Projeto gráfico Casa Paulistana, Roque Michel Jr., Tania Abreu Projeto de capa Bruno Attili Foto de capa Thais Falcão/Olho do Falcão Modelos da capa: Andrei Lopes, Angélica Souza, Beatriz Raielle, Bruna Soares, Bruno Guedes, Caio Freitas, Denis Wiltemburg, Eloá Souza, Jardo Gomes, Karina Farias, Karoline Vicente, Letícia Silva, Lilith Moreira, Maria Eduarda Ferreira, Rafael Souza, Tarik Abdo, Thaís Souza Supervisores de arte Roque Michel Jr., Daniela Máximo Editora de arte Lidiani Minoda Diagramação Casa de Ideias, Lidiani Minoda, Lucas Trevelin Tratamento de imagens Eziquiel Racheti Coordenadora de ilustrações e cartografia Marcia Berne Ilustrações Ricardo Dantas, Tarumã, Luís Moura Infográficos Marla Cruz Coordenadora de preparação e revisão Lilian Semenichin Supervisora de preparação e revisão Viviam Moreira Revisão Aline Araújo, Caline Devèze, Marcella Arruda, Pedro Fandi, Sônia Cervantes Coordenador de iconografia e licenciamento de textos Expedito Arantes Supervisora de licenciamento de textos Elaine Bueno Iconografia Cristina Mota, Rosa André Diretor de operações e produção gráfica Reginaldo Soares Damasceno

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Arte por toda parte : volume único / Solange dos Santos Utuari Ferrari... [et al.].  –  2. ed.  – São Paulo  :  FTD, 2016. Outros autores: Daniela Leonardi Libâneo Sardo, Fábio Sardo, Pascoal Fernando Ferrari Componente curricular:  Arte ISBN 978-85-96-00364-3 (aluno) ISBN 978-85-96-00365-0 (professor) 1. Arte (Ensino médio) I. Ferrari, Solange dos Santos Utuari. II. Sardo, Daniela Leonardi Libâneo. III. Sardo, Fábio. IV. Ferrari, Pascoal Fernando. V. Série. 16-03479

CDD –700 Índice para catálogo sistemático: 1. Arte : Ensino médio   700

Reprodução proibida: Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Todos os direitos reservados à

Em respeito ao meio ambiente, as folhas deste livro foram produzidas com fibras obtidas de árvores de florestas plantadas, com origem certificada.

EDITORA FTD S.A. Rua Rui Barbosa, 156 – Bela Vista – São Paulo-SP CEP 01326-010 – Tel. (0-XX-11) 3598-6000 Caixa Postal 65149 – CEP da Caixa Postal 01390-970 www.ftd.com.br E-mail: central.atendimento@ftd.com.br

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Impresso no Parque Gráfico da Editora FTD S.A. CNPJ 61.186.490/0016-33 Avenida Antonio Bardella, 300 Guarulhos-SP – CEP 07220-020 Tel. (11) 3545-8600 e Fax (11) 2412-5375

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A P R E S E NT A Ç Ã O Sons, imagens e gestos inventam a arte. Podemos estar em um show de música, ouvindo instrumentos feitos com os mais inusitados materiais, andar por uma instalação cheia de cores e formas, assistir a uma peça de teatro, interpretá-la na escola ou simplesmente estar em um terminal de ônibus, em uma estação ferroviária, no metrô, e depararmos com uma bailarina que de repente começa a dançar... A arte é assim: pode estar aqui, ali, acolá, é preciso estar atento para perceber as muitas linguagens que nos convidam a pensar, sentir e criar. Estudar arte é conhecer diferentes linguagens e compreender como construímos conhecimento por meio de sons, gestos, movimentos e imagens. No estudo de Arte aprendemos a entender a natureza estética e criativa da humanidade em diversos tempos e lugares, a reconhecer as várias maneiras de expressar pensamentos, ideologias, crenças, estilos, formas, sonhos... A arte proporciona uma reflexão sensível, necessária para a compreensão de como reagimos diante de acontecimentos da vida e de como nos expressamos. O estudo e a criação da arte englobam muitas razões e emoções. Mergulhar no universo de artistas, de obras, de processos de criação e de linguagens da arte pode ser instigante, incômodo, prazeroso e desafiador. Essa aventura vale a pena! Convidamos você, então, para uma conversa sobre arte. Vamos?

Os autores

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Conheça o seu livro Esta obra apresenta o conteúdo do curso dividido em seis capítulos, de modo organizado e orgânico, para proporcionar a construção do conhecimento em arte de forma significativa.

CAPÍTULO

2

“Museu é o mundo;

POR LÍNGUAS E LÍNGUAS

é a experiência cotidiana...”

© Cortesia

/César

Hélio Oiticica, 1966. Disponível em: <http:// pt.museuberardo.pt/exposicoes/helio-oiticica-museu-e-omundo#sthash.cYV9dmY5.dpuf>. Acesso em: 18 jan 2016. e Claudio

Oiticica

Abertura de capítulo Na abertura de cada capítulo, há sempre uma imagem e um texto que estão relacionados com o conteúdo que será abordado. Cada capítulo é composto de quatro temas.

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• Linguagens que se misturam • A tecnologia transformando as linguagens • As linguagens artísticas no tempo

Invenção da cor, Penetrável Magic Square no 5 – De Luxe, de Hélio Oiticica, 1977. A obra faz parte de um grupo de seis trabalhos que são propostas de edificações ao ar livre. Encontra-se no Instituto Inhotim, MG. 4,70 m  15 m  15 m.

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A ALQUIMIA DA ARTE

A forma de criar imagens desses povos antigos deu início a procedimentos de pintura utilizados até hoje. Em relação às técnicas de pintura, o princípio segue a lógica de composição química de tintas, em que se misturam três elementos básicos: aglutinante, pigmento e solvente (diluente). Há casos, também, em que podemos ter um quarto elemento, chamado de aditivo.

Marcos André/Opção Brasil

TEMA

PARA ESTUDAR • A proposição das linguagens

Aglutinantes são substâncias que fazem o pigmento (material responsável pela cor) aderir à superfície (qualquer tipo de suporte). Gordura, resinas, óleos podem ser aglutinantes. Carvão, argila, plantas, minerais e até sangue, entre outros, são materiais usados como pigmentos na composição de tintas. Solventes ou diluentes são substâncias (a maioria em estado líquido) que servem para dissolver ou dar um tipo de textura e consistência à tinta. Água, álcool, terebintina e outras substâncias servem como solventes. Aditivos podem ter várias funções na composição química de tintas, como alterar a consistência, o tempo de secagem ou de conservação, entre outras funções que dependem da composição de cada tipo de tinta.

BEN, Jorge. Os alquimistas estão chegando. In: BEN, Jorge. A Tábua de Esmeralda. Phonogram, 1974. Faixa 1.

Na música Os alquimistas estão chegando, o carioca Jorge Ben Jor (1942-) cantou em homenagem às pessoas que se dedicaram a experimentos, misturas de substâncias, reações químicas, tentativas de experiências, algumas com características místicas e esotéricas. Igualmente, foram os pintores que, ao longo dos tempos, assim como os alquimistas, misturaram e experimentaram substâncias, como cientistas da arte, criando tintas e outros meios, ferramentas, procedimentos, além de suportes dos mais variados tipos.

Arte rupestre: designa gravação, traçado e pintura sobre suporte rochoso.

Quando os seres humanos criaram a arte rupestre nos paredões das cavernas nordestinas brasileiras, na região do atual Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, colocaram ali sua visão e impressão do mundo da época, como é possível observar na pintura acima. Usaram a linguagem das imagens com desenhos e pinturas. Imagens enigmáticas, aos olhos do público que visita esse sítio arqueológico hoje. Não sabemos com certeza o que aquelas pessoas queriam expressar, mas especulamos que a vontade de se comunicar era forte e, assim, foram criando materiais, experimentando procedimentos, maneiras de fazer imagens que nos intrigam até agora. Era um “pintor-caçador” que usava as imagens como magia, buscando uma forma de ter sorte na ação da caça? Queria comunicar uma mensagem, ou relatar um modo de vida? Há muitas hipóteses e explicações, dadas por arqueólogos e outros cientistas que estudam essas imagens.

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David Evison/Shutterstock/Glow Images

Eles são discretos e silenciosos Moram bem longe dos homens [...] São pacientes, assíduos e perseverantes

Temas

Andrii Chernov/Alamy/Glow Images

A oferta de elementos úteis na produção de tintas é abundante na natureza, tanto no meio mineral quanto no vegetal e no animal. Com o processo industrial na produção de tintas, há ainda mais variedade de composições. São conhecimentos desenvolvidos ao longo do tempo, da arte rupestre à contemporaneidade, passando pela pesquisa de muitos artistas e químicos em todas as partes do mundo. É a química na arte de pintar, a alquimia da arte.

Pintura rupestre datada entre 50003000 a.C., na Toca do Boqueirão da Pedra Furada, Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. Foto de 2009.

Resina de cor amarela extraída do tronco de uma árvore.

Pigmentos indianos utilizados na composição de tintas.

Capítulo 4 • Matérias da arte

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Em cada tema, há textos, obras e conceitos pertinentes ao assunto de cada capítulo e aos territórios abordados, que convidam para a investigação e reflexão em arte.

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Giro de ideias: O patrimônio da minha cidade Fabio Colombini

[...] Você já foi à Bahia, nêga? Não? [...]

Giro de ideias

Nas sacadas dos sobrados Da velha São Salvador […] Tudo, tudo na Bahia Faz a gente querer bem

A seção promove a reflexão e a discussão sobre o território abordado, com o levantamento de conhecimentos prévios e experiências estéticas e culturais. Valoriza a oralidade e a construção de ideias com base no debate coletivo.

CAYMMI, Dorival. Você já foi à Bahia? In: Setenta anos – Caymmi. Rio de Janeiro: Funart/Polygram/Philips, 1984. LP. Faixa 3. Disponível em: <http://www.dorivalcaymmi.com. br/sitebiografico/>. Acesso em: 4 mar. 2016.

Sueli Bispo, uma “baiana do acarajé”, e seu tabuleiro contendo acarajé, cocada, peixe frito, bolinho de estudante, vatapá, camarão, caruru (quiabo), passarinha (baço de boi), tomate e óleo de dendê, em foto de 2009. Rodney Suguita /Folhapress

Dorival Caymmi (1914-2008), nascido em Salvador, Bahia, foi cantor, compositor, violonista, pintor e ator. Compôs principalmente músicas que retratam os costumes e as tradições do povo baiano e as influências afrodescendentes. Uma paixão pelas coisas do seu lugar fez esse músico brasileiro criar versos e sons que falam de bens materiais, como as cidades e praias da Bahia, e imateriais, como o modo de fazer os quitutes das baianas do acarajé.

Converse com os colegas sobre como vocês veem o lugar em que moram. O que há na cidade e nos arredores? Existem bens materiais e imateriais que fazem parte do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)? A turma pode sair pela cidade e fotografar esses bens para fazer um catálogo do Patrimônio Cultural local. É possível que vocês se surpreendam ao descobrir os bens culturais que existem em sua cidade. Depois de conhecer sua região, que tal fazer um poema ou letra de música sobre seus bens materiais e imateriais? Pesquise, passeie, conheça e divirta-se!

DICA

Bernd Thissen/DPA/AFP/Otherimages

E com você? Como é o seu lugar? Que tipo de relação você tem com a região em que vive?

O cantor e compositor Dorival Caymmi apresentando-se em São Paulo, em 1996.

A arte de REGINA ADVENTO Na companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch há participações de bailarinos de vários países, inclusive de brasileiros, como Regina Advento (1965-), que participa da companhia há mais de vinte anos. Nas orientações dadas por Pina, ela aprendeu que dançar é conhecer o próprio corpo; que os movimentos da mão, dos dedos, do cotovelo são importantes, que o bailarino precisa usar todas as juntas e explorar todo movimento que o corpo pode proporcionar. Regina começou a dançar ainda criança, aos 10 anos, em Belo Horizonte, nos projetos do Grupo Corpo. Foi do elenco do grupo de 1984 a 1990. Depois foi para a Alemanha, entrando na companhia de Pina Bausch em 1993.

Para ouvir

Palavra do artista

Para melhor conhecer a obra de Dorival Caymmi e como ele retrata a cultura e o povo das regiões em que viveu, visite o site do artista: <http://tub.im/v9ajj3> (acesso em: 4 mar. 2016).

297 Regina Advento, bailarina da companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, durante ensaio geral no teatro em Wuppertal, Alemanha. Foto de 2004.

A arte de

Ofício da arte Bailarino(a)

Palavra do artista Neste boxe, buscamos apresentar a elaboração do pensamento artístico e a discussão sobre arte, propondo um diálogo direto com o artista.

DICA Para visitar Em muitas cidades há centros culturais, pontos e casas de cultura ou projetos ligados a secretarias de cultura estaduais e municipais que oferecem aulas gratuitas de dança. Procure saber mais sobre isso em sua cidade.

Ofício da arte O objetivo deste boxe é apresentar algumas possibilidades profissionais que envolvem o trabalho e os ofícios da arte.

Conexões

Vimos como a química está intimamente ligada à produção de tintas. Na arte rupestre, eram utilizadas gordura de animais e resinas de plantas, entre outros materiais. A resina tem a função de acumular partículas de pigmentos, o que dá à cor consistência, brilho, durabilidade e aderência à superfície. O aglutinante também pode agir como um tipo de verniz. A albumina e a lecitina presentes na gema do ovo, por exemplo, usadas como aglutinantes em tintas têmperas, ajudam a conter as partículas de pigmentos sobre a superfície. As misturas feitas no Egito antigo para conseguir cores sintéticas usavam reações químicas por contato ou calor.

Arte e Meio ambiente

Fora do lugar Na linguagem da land art e intervenção urbana, o artista egípcio naturalizado neozelandês Konstantin Dimopoulos (1954-) criou a obra de arte efêmera The blue trees (As árvores azuis), em que árvores tiveram seus troncos pintados com uma tinta a base de água, não tóxica. Tratava-se de uma ação de arte social, ativista, que queria chamar a atenção das pessoas para a importância das árvores em nosso ecossistema. As árvores são o pulmão do planeta e as pessoas parecem se esquecer disso. O artista mudou a cor do tronco das árvores para que, saindo do comum, chamassem a atenção das pessoas, que talvez se sensibilizassem e pensassem a respeito do desmatamento. Com intenção semelhante, o artista paulistano Eduardo Srur (1974-) criou uma intervenção urbana com garrafas de plástico gigantes, PETS (2008), colocadas às margens do rio Tietê, em São Paulo. Muitas garrafas PET já foram jogadas nesse rio superpoluído, mas garrafas gigantes chamaram a atenção de milhares de pessoas que passaram pelas margens em que fica situada uma importante via expressa. Pense a respeito desses exemplos. Observe as imagens abaixo. São artistas tirando as coisas do lugar para colocar alguma coisa na cabeça das pessoas sobre arte e meio ambiente.

O artista Horst Gläsker, na obra Scala, 2006-2008, pintou 112 degraus e escreveu palavras sobre

relações humanas, como amor e simpatia. São muitas as ligações entre arte e química. Fazer experimentos nessas áreas pode ser uma aventura no universo tanto da arte como das ciências. Pensando na composição química das tintas, vamos explorar sua produção com os elementos básicos: aglutinantes, pigmentos, solventes e aditivos.

Tinta têmpera

Como suporte, use embalagens de papel (como as de pizza). Limpe a superfície, escolha o tamanho e o formato desejado e depois passe uma base de tinta látex branca ou água com gesso (1 xícara de gesso para cada litro de água), mexa bem e aplique essa base imediatamente. Agora, com os materiais prontos, e só criar sua arte. Como a base é a gema de ovo, esse tipo de tinta fica com um aspecto opaco. Veja a seguir outras sugestões.

The blue trees (As árvores azuis), de Konstantin Dimopoulos, 2012, Califórnia, Estados Unidos. Patricia Santos/Estadão Conteudo

Misture uma gema de ovo a uma colher (de sopa) de pigmento à base de óxido de ferro (pó industrializado inorgânico e atóxico com alto poder de tingimento) na cor desejada. Coloque água para controlar a consistência. Um pouco de óleo de cravo ajuda a dar brilho, maciez, além de proporcionar um cheiro mais agradável. Você pode também colocar algumas gotas de vinagre para evitar formação de fungos na pintura, mas o óleo de cravo também ajuda nisso.

Tinta têmpera com brilho Você pode mudar a textura e o brilho desse tipo de tinta acrescentando um pouco de óleo de linhaça ou de banana. Colocando clara no lugar da gema, você pode conseguir uma tinta mais transparente, parecida com a aquarela. Acrescente o óleo de cravo em todas as variações, pois isso ajuda na conservação. Faça mais experiências e analise os resultados. Misture outros tipos de pigmentos. Veja como as tintas reagem às proporções dos ingredientes e como se comportam em diferentes tipo de suportes. Aventure-se, mas tome cuidado! Se for mexer com elementos tóxicos ou corrosivos, faça isso apenas na presença de um especialista.

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Profissional que pode fazer parte de um grupo de dança, um corpo de baile, montar e dirigir espetáculos de dança ou números coreografados para musicais, teatro, cinema ou TV, além de espetáculos solo. Em quaisquer dessas atividades, empregam-se os movimentos corporais, executados de maneira rítmica, com a finalidade de narrar uma história ou expressar uma ideia ou emoção. Pode trabalhar, ainda, em coreografia, definindo os passos e os movimentos que os bailarinos executarão em um espetáculo ou apresentação. Há trabalhos também em instituições sociais, penais e de saúde, que costumam contratar o profissional de dança para ajudar na recuperação e na reintegração de adolescentes, crianças e pessoas com deficiência física e mental, além de cursos de conscientização corporal para leigos. Para atuar como bailarino profissional, além de cursos específicos, é preciso atestado de capacitação profissional fornecido pelos sindicatos da categoria. Para obter o documento, é necessário passar por uma análise de currículo e uma prova prática. Quem faz licenciatura está habilitado para dar aulas de dança ou expressão corporal na educação básica ou em cursos livres.

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ZUMA Press, Inc./Alamy/Glow Images

Muitas cores estão presentes por toda parte, são cores químicas que tingem a cidade como na obra Scala (20062008), do artista alemão Horst Gläsker (1949), um grafite colorido para lembrar das nuances das relações de humanas. Observe a imagem ao lado. O artista pintou uma escadaria em uma vila na cidade de Wuppertal, na Alemanha, formando uma verdadeira paleta de cores a céu aberto.

Horst Gläsker. 2006-2008. Pintura acrílica. Cidade de Wuppertal, Alemanha. Foto: Acervo do artista

Arte e Química

As tintas

BENVEGNU, Marcela; OLIVEIRA, Flávia Fontes. O sol de Regina Advento. Revista de Dança, São Paulo: FM, ano 2, 8 mar. 2015. Disponível em: <http://revistadedanca.com.br/o-sol-de-reginaadvento>. Acesso em: 26 jan. 2016.

Regina Advento em apresentação no Festival Internacional de Edimburgo, Escócia. Foto de 2014.

A proposta é ir além de uma biografia e pontuar de modo sucinto alguns pontos significativos da trajetória do artista.

Conexões

Regina Advento

Robbie Jack/Corbis/Latinstock

Capítulo 6 • Bagagem cultural

“Aprendi muito observando as pessoas, o quanto os movimentos são bonitos, coisas tão simples. Quando cheguei, na primeira produção que fiz, a Pina nos deu pelo menos uns setenta movimentos, todos de braço. Podíamos brincar, conhecer os movimentos para fazer a nossa coreografia, que depois virariam a coreografia da companhia. Para o estilo da Pina, fui aprendendo a me moldar.”

PETS, de Eduardo Srur, 2008. Intervenção urbana com garrafas gigantes fazem parte da instalação às margens do rio Tietê, em São Paulo, SP.

Capítulo 4 • Matérias da arte

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Conexões A seção contempla textos e discussões que abordam as diferentes dimensões do ser humano: éticas, estéticas, culturais, históricas, profissionais e saberes interdisciplinares.

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Fernanda Manéa. 2009. Desenho a pincel. Acervo da artista

Projeto experimental

Gustave Courbet. 1844-1845. Óleo sobre tela. Coleção particular

Espelhos da alma

Autorretrato à luz de velas III – 4 peças, de Fernanda Manéa, 2009. Desenho a pincel – corretor líquido sobre disquete. Tamanho aproximado 18 cm 3 18 cm.

A linguagem da arte

Autorretrato (O homem desesperado), de Gustave Courbet, c. 1844-1845. Óleo sobre tela, 45 cm 3 55 cm.

Processos de criação Fazer um autorretrato é escolher um modo de dizer algo sobre você mesmo. Assim, não há regras fixas, o que vale é a autoanálise e a criatividade na escolha de uma forma que seja considerada adequada tanto na linguagem como nos materiais e na maneira de compor a obra. Você pode escolher fotografar a si mesmo com um celular ou uma câmera, mas antes observe as diversas possibilidades para criar seu autorretrato escolhendo essa ou outras linguagens. Ao fazer um autorretrato para uma rede social, quais seriam suas preocupações? E os cuidados que você tomaria? O que você gostaria de ressaltar e o que esconderia?

Autorretrato diante de um cavalete, de Vincent van Gogh, 1888. Óleo sobre tela, 65,5 cm 3 50,5 cm.

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Salvador Dalí. 1941. Óleo sobre tela. Fundação Galas Salvador Dalí, Figueiras. Foto: The Bridgeman Art Library/Superstock/Glow Images

Van Gogh. 1888. Óleo sobre tela. Museu Van Gogh, Amsterdã

Cecilia Paredes. 2011. Pintura. El Tiempo/GDA/Zuma Press/Glow Images

Blue Landscape, de Cecília Paredes, 2007. Foto sobre papel fotográfico, 100 cm 3 100 cm.

Na história da arte, temos muitos exemplos de autorretratos de pintores como Gustave Courbet, Van Gogh e Salvador Dalí. Cada artista busca revelar detalhes de sua identidade e personalidade, indicar pistas de seus mistérios, como faz a artista peruana Cecília Paredes que se autocamufla em seus autorretratos. Alguns utilizam linguagens como a pintura, a gravura, o desenho, a fotografia, entre outras possibilidades. Há autorretratos que mostram apenas o rosto; outros podem apresentar toda a figura do artista. Nas redes sociais, vemos hoje vários exemplos de autorretratos nos perfis pessoais cuja linguagem mais utilizada é a fotografia.

Autorretrato mole com toucinho frito, de Salvador Dalí, 1941. Óleo sobre tela, 61 cm 3 50 cm.

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Capítulo 2 • Por línguas e línguas

Projeto experimental A seção propõe uma diversidade de atividades artísticas que contemplam as linguagens cênica, plástica e musical, proporcionando situações de aprendizado que estimulam a compreensão e a produção significativa em Arte.

A lei

O bem indigena As culturas e as artes dos povos indígenas brasileiros fazem parte do Patrimônio Cultural do Brasil. Esses direitos foram conquistados com muita luta de grupos indígenas, organizações e profissionais que estudam e defendem a valorização desses povos.

No Brasil, o ARTIGO 216 da

I – as formas de expressão;

CONSTITUIÇÃO FEDERAL

Indígenas das etnias guarani Kaiowás, Kadiweus e Terenas em protesto em frente à Assembleia Legislativa, Campo Grande, MS. Foto de 2015.

II – os modos de criar, fazer e viver;

(1988) conceitua patrimônio cultural assim:

III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

“Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. [...]”

Bens materiais

Bens imateriais

A nossa história cultural e artística começa muito antes dos primeiros europeus chegarem ao Brasil. Povos ceramistas deixaram objetos em ricas padronagens presentes na cerâmica marajoara e formas de figuras enigmáticas na cerâmica de Santarém. Por sua relevância histórica, cultural e artística, essas peças são guardadas e preservadas sob as leis de proteção de patrimônios materiais. Objetos procedentes das culturas indígenas brasileiras, como instrumentos musicais, vestimentas, arte plumária e outras peças históricas e culturais, catalogados em acervos de museus ou sítios arqueológicos, são considerados PATRIMÔNIOS MATERIAIS.

As diversas maneiras de fazer objetos, de se enfeitar, de cantar, de dançar, de falar dos povos indígenas podem ser consideradas BENS IMATERIAIS.

Língua e música

saúva guri

nhenhenhém

abacaxi

Ipanema

cupim bauru guará

saúva

biboca

nhenhenhém

gurioi

caju

mandioca

jaboti tapera

guri caju perereca maracá

caju

maracá

nhenhenhém

curumim abacaxi perereca

Ipanema

biboca

tapera

xará saúva

mandioca

jaboti

oca pipoca

cajuIpiranga

lengalenga

Ipiranga

perereca caju

capengabauru

oi

guri

aguará

arapuca

saúva gambá

guará

guará

abacaxi

aguará

piá

tiririca caju

mandioca

bauru

cupim

caju

canoa

perereca Ipiranga

Vaso de gargalo (1000 a 1400), da cultura Santarém. Cerâmica, 18,9 cm × 31 cm. Com aplicações de detalhes zoomorfos (com formas de animais).

maracá

jaboti

pipoca

saúva

guará gambá

catapora

saúva

xará

guarágambá

curumim

Tupi or not tupi, that is the question (Tupi ou não tupi, eis a questão). A famosa frase de Oswald de Andrade em seu Manifesto antropofágico de 1928 exprime o questionamento sobre nossas origens culturais. A língua de um povo é um bem imensurável. A família linguística tupi-guarani faz parte do vocabulário de várias etnias indígenas brasileiras. Diversas línguas já foram catalogadas no Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL) e registradas como Patrimônio Imaterial brasileiro. Uma das formas de preservar a língua é por meio da música. Os cantos do povo Guarani, por exemplo, são relembrados pelas novas gerações em gravações usando as mais recentes tecnologias.

Danças e cantos As danças e cantos indígenas são bens imateriais. Entre o povo indígena Enawene Nawe, por exemplo, que vive no noroeste do Mato Grosso, a arte está sempre presente na forma de se enfeitar, dançar e cantar na realização do ritual Yaokwa, considerado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, segundo os registros feitos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Arte Kusiwa Arte plumária da etnia brasileira Bororó.

Sítios arqueológicos Sítios arqueológicos são os lugares onde os arqueólogos encontram artefatos antigos, peças que comprovam a existência de seres e povos do passado e documentam culturas. Na região da Amazônia, por exemplo, além de pinturas, encontramos gravuras marcadas em rochas no meio da mata e nas margens dos rios. Essas produções, também chamadas de petróglifos, são vestígios dos povos indígenas que viveram no Brasil por volta de 3 mil a.C.

Lugares sagrados Lugares sagrados para as comunidades indígenas podem ser considerados patrimônios culturais por sua importância (material e imaterial) nas tradições religiosas, artísticas e culturais desses povos. Na região do Alto Xingu, no Mato Grosso, povos indígenas como os Sagihengu e os Kamukuwaká realizam o Kwarup, uma das maiores festas ritualísticas da cultura indígena brasileira. A região desses dois povos é considerada Patrimônio Cultural brasileiro.

perereca

capenga

pitanga

jacaré

Fachada do Memorial dos Povos Indígenas, no Eixo Monumental, em Brasília, com grafismos tradicionais de aldeias do Parque Nacional do Xingu (Mato Grosso).

Urna mortuária de cerâmica, utilzada pelos guaranis pra enterrar seus mortos. 36 cm × 26,5 cm. Foto de 2010.

maracá

Acervo de museus

gambá

saúva

Ipanema

nhenhenhém

catapora xará oi guará

Tribo indígena Kalapalo com flautas Atanga-Kwarup, Parque Indígena do Xingú, MT. Foto de 2011.

Encontramos grafismos em padronagens na cultura de muitos povos indígenas. A arte Kusiwa, uma técnica de pintura corporal e arte gráfica da população indígena Wajãpi, da região do Amapá, faz parte do Patrimônio Cultural Imaterial brasileiro. As padronagens geométricas das pinturas corporais são inspiradas na natureza e em objetos utilizados pelos indígenas, relacionadas às relações sociais às crenças indígenas. Em 2014, foi criada uma edição especial de selo dos Correios que reproduz uma imagem da arte indígena Kusiwa Wajãpi, Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, cedida pelo Conselho das Aldeias Wajãpi Apina. Fonte: Correios Brasil.

Ritxòkòs O modo de fazer as bonecas karajás, que na língua indígena deste povo são conhecidas como Ritxòkò, é patrimônio imaterial. Esse costume que marca a identidade karajá é feito com três materialidades básicas: argila, cinza e água. A boneca é modelada, queimada e pintada nas cores preta e vermelha, geralmente. Os desenhos seguem padronagens que encontramos também em pinturas corporais dos Karajá.

Cultura e imaginário Os povos indígenas brasileiros costumam fazer desenhos com base em suas visões de mundo e de seu imaginário, como nas maluanas (maruana ou maruanan), que é uma roda de madeira confeccionada para o teto das casas comunitárias dos povos indígenas da região do Amapá e do Pará.

Cestaria Muito antes da chegada dos primeiros colonos às terras brasileiras, as culturas locais indígenas já existiam em toda a sua diversidade. As técnicas usadas até hoje na construção da arte de cestarias, por exemplo, são Urupêm ou urupema, um tipo de peneira de buriti com passadas de geração trançado típico da etnia Kaiabi. para geração. Alguns ofícios dos povos indígenas brasileiros já são declarados patrimônios imateriais, outros ainda estão em estudos e processos para registro e tombamento, que é feito pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Infográficos Ao final de cada capítulo, os infográficos aparecem como uma forma de expandir e complementar o conteúdo estudado. Tornam o aprendizado mais claro e dinâmico, ao unir duas abordagens: a verbal e a visual.

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FIQUE DE OLHO:

Enem e vestibulares 1. (Vunesp-SP) A peça Fonte foi criada pelo francês Marcel Duchamp e apresentada em Nova

b) Artur Barrio, no contexto do surgimento da bossa nova, importante momento cultural do país. c) José Leonilson, no contexto de celebração, em virtude da industrialização recente no Brasil.

A transformação de um urinol em obra de arte representou, entre outras coisas,

d) Waltércio Caldas, no contexto da popularização do carnaval, o que implicava destaque internacional para o país.

a) a alteração do sentido de um objeto do cotidiano e uma crítica às convenções artísticas então vigentes.

e) Cildo Meireles, no contexto de censura e medo, derivados da repressão e do regime militar.

3. (Unicamp-SP)

b) a crítica à vulgarização da arte e a ironia diante das vanguardas artísticas do final do século XIX.

Eugène Delacroix. 1830. Óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris

(Fonte – obra de Marcel Duchamp, fotografada por Alfred Stieglitz.)

Iorque em 1917.

c) o esforço de tirar a arte dos espaços públicos e a insistência de que ela só podia existir na intimidade. d) a vontade de expulsar os visitantes dos museus, associando a arte a situações constrangedoras. e) o fim da verdadeira arte, do conceito de beleza e importância social da produção artística.

Cildo Meireles. Foto: Pat Kilgore

Cildo Meireles. Foto: Pat Kilgore

2. (UEL-PR) Observe as imagens a seguir, ambas da década de 1970.

Observe a obra do pintor Delacroix, intitulada A Liberdade guiando o povo (1830), e assinale a alternativa correta. (Inserção em circuitos ideológicos)

(Quem matou Herzog?)

a) Os sujeitos envolvidos na ação política representada na tela são homens do campo com seus instrumentos de ofício nas mãos.

(Disponível em: <www.macvirtual.usp.br>. Acesso em: 18 out. 2009.)

b) O quadro evoca temas da Revolução Francesa, como a bandeira tricolor e a figura da Liberdade, mas retrata um ato político assentado na teoria bolchevique.

Assinale a alternativa que contém as informações corretas com relação ao autor de ambos os trabalhos, assim como o contexto brasileiro do qual fizeram parte.

c) O quadro mostra tanto o ideário da Revolução Francesa reavivado pelas lutas políticas de 1830 na França quanto a posição política do pintor.

a) Hélio Oiticica, no contexto de pressão, fruto da crise da bolsa de valores de Nova Iorque de 1929 que afetou o mundo.

d) No quadro, vê-se uma barricada do front militar da guerra entre nobres e servos durante a Revolução Francesa, sendo que a Liberdade encarna os ideais aristocráticos.

44

Capítulo 1 • O que é arte?

45

Fique de olho: Enem e vestibulares Questões de vestibulares e exames nacionais são apresentadas e relacionadas com os conteúdos abordados no livro.

DIÁRIO DE BORDO

Fox Photos/Hulton Archive/Getty Images

E X P E D I Ç Ã O C U LT U R A L

Vimos que os elementos em cada linguagem estão sempre a serviço da mente criadora do artista. Cabe ao artista descobrir suas intenções poéticas e dar rumos a esses elementos. Trata-se da licença poética de cada um. Ao articular esses elementos básicos, podemos construir formas simétricas ou assimétricas, bidimensionais ou tridimensionais, dar movimento e profundidade às imagens, criar texturas, estabelecer escalas de tamanho, proporção, direção, constituir tonalidades, utilizar cores puras ou misturar matizes cromáticos para conseguir efeitos de contraste ou harmonia, configurar luzes e sombras, entre outras possibilidades. Na linguagem da música podemos usar o silêncio, o tempo, a intensidade, os timbres e muitas outras formas de organizar os sons ou explorar sons que estão ao nosso redor. Nas artes cênicas, podemos usar nosso corpo explorando os gestos e a voz, trabalhando com o espaço, o tempo, a força. Ao articular os elementos de linguagens, podemos figurar, abstrair e transmitir temas e assuntos, ou ainda causar sensações naquele que aprecia a obra artística. Observe que toda essa articulação de elementos de linguagem deve estar atrelada a um jeito singular de criação de cada artista, sua poética pessoal. Você também pode conhecer e realizar experiências artísticas explorando a forma e o conteúdo na arte. Neste capítulo, conversamos sobre a forma e o conteúdo na arte. Pense sobre essas questões.

• • • •

Leonardo da Vinci. Século XV. Biblioteca do Congresso, Washington, D.C. Foto: SPL/Latinstock

Operário no parapeito de um telhado adjacente tomando notas sobre o desmoronamento de um edíficio na rua Cornhill em Londres, em agosto de 1927.

O que você aprendeu sobre os elementos de linguagem em cada área expressiva? O que mais chamou sua atenção? O que você mais gostou de fazer nos projetos de experimentação artística? Gostaria de aprofundar seus estudos em uma linguagem da arte? Qual?

Vamos começar uma expedição cultural?

Observações sobre o cotidiano podem registrar fatos importantes, como na imagem acima, em que vemos um operário fazendo anotações sobre o desmoronamento de um prédio comercial. Ao mesmo tempo, um fotógrafo registra o desmoronamento e o registro feito pelo operário. Ao lado, vemos uma página do caderno de anotações de Leonardo da Vinci com desenhos, esquemas ilustrativos e textos que mostram diferentes formas de capturar momentos e ideias e processos de criação de arte.

Alessandro Bianchi/Reuters/Latinstock

Que tal fazer registros sobre lugares da sua cidade? Pode ser um lugar em que você esteja, um lugar que se transformou com o tempo ou sobre como sente e percebe o mundo neste local.

Leve sempre com você, nestas expedições, um caderno de anotações (seu diário de bordo) para registrar sensações ou momentos que você considerar marcantes, e para desenhar, escrever, colar coisas que você encontrar pela vida.

Página do caderno de anotações de Leonardo da Vinci, publicada no século XIX.

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Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

255

Expedição cultural

Diário de bordo

A seção propõe ações e percursos educativos que despertem a atenção e a experiência significativa dos espaços onde a sociedade está inserida.

A seção retoma conceitos e debates provocados pelos conteúdos temáticos do capítulo.

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SUMÁRIO E

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Tema 2 – Procurando pela arte

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De repente, a arte! A arte de Regina Silveira Provocações da arte Giro de ideias: Linguagens contemporâneas Tudo pode ser arte? A arte de Andy Warhol Giro de ideias: Arte poética Conexões: Arte e Filosofia Projeto experimental

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Tema 3 – Arte é experiência?

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CAPÍTULO 2 Por línguas e línguas

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Tema 1 – A proposição das linguagens

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A arte de Hélio Oiticica A arte de Lygia Clark Giro de ideias: Arte propositora: você aceita o convite? Os “espect-atores” A arte de Augusto Boal Giro de ideias: O “espect-ator” Conexões: Arte e Filosofia Arte pública O teatro popular de rua Sopros poéticos ao pé do ouvido A rua é o espaço cênico Arte em todos os lugares Giro de ideias: Cotidiano e arte Conexões: Arte e Comunicação Projeto experimental

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Tema 4 – Tempo: o compositor de histórias

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A arte de Sheila Hicks Giro de ideias: Ler uma obra de arte Conexões: Arte, História e Ciência Projeto experimental

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Infográfico: A arte sempre foi arte?

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Fique de olho: Enem e vestibulares

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Expedição cultural

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A arte de Pina Bausch Giro de ideias: Experiência estética Conexões: Arte e Saúde Projeto experimental

Diário de bordo

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A arte de O Teatro Mágico A linguagem e a poética do palhaço O que é arte? A arte de Paulo Bruscky Giro de ideias: O que é arte? Conexões: Arte e História Projeto experimental

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Tema 1 – O sentido das coisas

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CAPÍTULO 1 O que é arte?

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Tema 2 – Linguagens que se misturam A arte de Alex Flemming Giro de ideias: Meu autorretrato Conexões: Arte e Língua Portuguesa As muitas linguagens da arte A arte de Adriana Varejão Conexões: Arte, Geografia e Identidade Projeto experimental

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Michel Boutefeu/Getty Images

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Tema 3 – A tecnologia transformando as linguagens

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A arte de June Paik 73 A arte contemporânea: linguagens e tecnologias 73 Mundo visual que se transforma 74 Ilustradores do mundo 75 Imagem e brasilidade 76 Do susto ao olhar Matrix 76 ....................................................................................................................................................................................

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Cultura visual A tecnologia a favor da arte Giro de ideias: A  s novas tecnologias e a captação de imagens Conexões: Arte e Tecnologia Projeto experimental

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Tema 4 – As linguagens artísticas no tempo 83 ..........

A concepção de arte na Antiguidade Classificações das artes na Idade Média Giro de ideias: A arte de desenhar Conexões: Arte e Afrodescendência Projeto experimental

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Infográfico: As mil e uma linguagens da arte

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Fique de olho: Enem e vestibulares

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Expedição cultural

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Diário de bordo

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Conexões: Arte e Língua Portuguesa Projeto experimental

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Tema 2 – Criação e registro

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A arte de Rudolf Laban O desenho da música A arte de Raymond Murray Schafer Giro de ideias: Percepções Conexões: Arte e Ciências Projeto experimental

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Tema 3 – Lugares para criar

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Reunindo-se para criar Trabalhos colaborativos Giro de ideias: Amigos artistas Conexões: Arte e Língua Portuguesa Conexões: Arte e Matemática Projeto experimental

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Tema 4 – “  Dom”: virtude, gênio ou curiosidade?

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Tema 1 – Intervenção como criação

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A arte de Alexandre Orion A arte de Gabriel o Pensador A língua da arte: o grafite reverso Giro de ideias: Liberdade de expressão Criação como improvisação Improvisação como técnica teatral Giro de ideias: Jogo de improvisação teatral Conexões: Arte e Meio ambiente

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Marcos André/Opção Brasil

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Arte é conhecimento Coisas para observar, registrar e imaginar Observar a luz Imaginar mundos Giro de ideias: Criatividade e talento artístico Conexões: Arte e Ciências Projeto experimental

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Infográfico: Tempos e “ismos” na arte

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Fique de olho: Enem e vestibulares

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Expedição cultural

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Diário de bordo

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CAPÍTULO 4 Matérias da arte

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Tema 1 – Corpo e arte

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Materialidades da arte O corpo como suporte A arte de Regina Advento As marcas no corpo A valorização do corpo Giro de ideias: Ela dança, ele dança, eu danço

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CAPÍTULO 3 A criação

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SUMÁRIO A arte de Yves Klein Giro de ideias: O significado das cores Conexões: Arte e Química Conexões: Arte e Meio ambiente Projeto experimental

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Tema 4 – Poética da matéria

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Michelangelo Buonarroti. 1501-1504. Mármore. Galleria dell’ Accademia, Florence. Foto: Tupungato/ Shutterstock/Glow Images

A arte de Vik Muniz Conexões: Arte e Cultura indígena Projeto experimental

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Infográfico: A arte e a matéria

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Fique de olho: Enem e vestibulares

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Expedição cultural

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Diário de bordo

CAPÍTULO 5 A arte em sua forma, a forma 196 em seu conteúdo .........................................................................

Tema 1 – As formas e os conteúdos da arte 198 ........

E a luz se fez A poetisa da luz A arte de Lucia Koch Giro de ideias: Quem tem medo do escuro? Conexões: Arte e Ciências Projeto experimental

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Giro de ideias: A tatuagem Giro de ideias: Nosso corpo Conexões: Arte e Tecnologias Conexões: Arte e Pluralidade cultural Projeto experimental Projeto experimental

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Tema 2 – A gramática visual

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A linha poética Giro de ideias: Traçando linhas Conexões: Arte e Matemática As formas e os movimentos Fotografia: o mundo visto pela lente Um olhar curioso! A arte de Geraldo de Barros Giro de ideias: As fotoformas Conexões: Arte, Física e Química Um mundo em cores para ver Giro de ideias: Cores e coisas Conexões: Arte e Biologia Escolhendo cores A poética da cor A arte dos impressionistas Projeto experimental Projeto experimental

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Tema 2 – Se a criação é mais, tudo é coisa musical!

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A arte de Hermeto Pascoal Há alguma coisa no ar! A materialidade do som O som das cordas A arte de Fernando Sardo Giro de ideias: Criando um som Conexões: Arte e Biologia Projeto experimental

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Tema 3 – A alquimia da arte

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Do Oriente ao Ocidente, a arte é um fazer A arte sumi-ê A arte de Massao Okinaka A pintura a óleo Tudo azul! Pigmentos como crenças e poéticas contemporâneas O azul de Yves Klein

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Tema 3 – O conjunto da obra

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Giro de ideias: Roda da dança Conexões: Arte e religião A língua do corpo A arte de Charles Chaplin A maquiagem no cinema Giro de ideias: Gestos no cinema

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Conexões: Arte e História Vamos comer! Movimento cultural sincrético A arte de Chico Science Conexões: Arte, pluralidade cultural e meio ambiente Projeto experimental

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Tema 3 – Tem gente que guarda cada coisa! 281 ....

Colecionismo: a mania de guardar Sensações para guardar A arte de Brígida Baltar Giro de ideias: Coleções de arte Conexões: Arte e Língua Portuguesa Projeto experimental

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O teatro na história O espaço cênico no teatro Um lugar para se ver A forma na comédia Giro de ideias: A catarse Conexões: Arte e História Dramaturgias da luz e do gesto Conexões: Arte e Literatura Projeto experimental

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Ouvindo vozes A arte de Chelpa Ferro Giro de ideias: Dimensões de sons Conexões: Arte, mitologia e Literatura Projeto experimental

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Infográfico: O que tem na mala do teatro?

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Fique de olho: Enem e vestibulares

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Expedição cultural

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Diário de bordo

CAPÍTULO 6 BAGAGEM CULTURAL Tema 1 – Tudo o que me compõe

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Prédio tombado também cai? As maravilhas do mundo Operação Salvamento Giro de ideias: S.O.S. bens patrimoniais A matéria do imaterial A arte de J. Borges Giro de ideias: Bens imateriais Coisas preciosas para guardar A arte de Ana Teixeira Giro de ideias: O patrimônio da minha cidade Conexões: Arte e Literatura Conexões: Arte e Língua Portuguesa Conexões: Arte e Geografia Projeto experimental Projeto experimental

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Infográfico: O bem indígena

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Expedição cultural

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Diário de bordo

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Tema 2 – Música popular brasileira e gerações de ouvintes 264 ...................................................................................................................................................

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Fique de olho: Enem e vestibulares

A arte de Geoffrey Farmer Vidas privadas e públicas Abstracionismo e outros “ismos” A arte de Jackson Pollock Giro de ideias: Imagens marcantes Conexões: Arte e História Projeto experimental

De tempos em tempos, a música se renova: Cartola e Cazuza A arte de Emicida Giro de ideias: O que é passado e presente? Festivais de música Música brasileira – arte, protesto e festival Música em festivais mundo afora Giro de ideias: Trilhas sonoras

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Tema 4 – O patrimônio nosso de cada dia

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Tema 4 – Os parâmetros do som

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Referências

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Lista de Instituições Promotoras de Exames 319 ........

Crédito das imagens dos infográficos

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J. Borges. 2003. Xilogravura. Coleção particular

Jean-Pierre Lescourret/Getty Images

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CAPÍTULO

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O QUE É ARTE?

“[...] Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem. Traduzir uma parte noutra parte — que é uma questão

Anderson Moreira Fotografia

de vida ou morte — será arte?” GULLAR, Ferreira. Traduzir-se. In: ______. Na vertigem do dia. 17. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. p. 335.

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PARA ESTUDAR • O sentido das coisas • Procurando pela arte • Arte é experiência? • Tempo: o compositor de histórias

Bailarinas do grupo O Teatro Mágico em performance aérea durante show.

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TEMA

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Professor, ao final do Tema 1, o Projeto experimental – A arte do encontro: vamos criar um sarau? – propõe a organização de um sarau, trabalhando com as diversas linguagens da arte: música, dança, teatro etc.

O SENTIDO DAS COISAS Nem toda palavra é Aquilo que o dicionário diz Nem todo pedaço de pedra Se parece com tijolo ou com pedra de giz [...] Descobrir o verdadeiro sentido das coisas é querer saber demais Querer saber demais [...]

Professor, na abertura de cada capítulo e temas de nosso livro, escolhemos trechos de obras literárias e letras de música que funcionam como nutrição estética e deflagradores de reflexão sobre o que vem a seguir nos textos presentes nas diferentes seções. É importante que você trabalhe esses textos junto aos alunos, conversando sobre suas primeiras percepções e interpretações, pois estes também têm função didática e poética. Sugira-lhes que ouçam as músicas e leiam os textos na íntegra para ampliar saberes e repertório cultural por meio de pesquisas.

O TEATRO MÁGICO. Sonho de uma flauta. In: ______. O Teatro Mágico: segundo ato. [S.l.]: independente, 2008. 1 CD. Faixa 9. Disponível em: <http://www.vagalume.com.br/o-teatro-magico/ sonho-de-uma-flauta.html>. Acesso em: 9 fev. 2016. Arte contemporânea: expressão que usamos para nos referir às produções artísticas que vão da segunda metade do século XX até nossos dias.

Em meio a tanta diversidade, como explicar o que é arte? Ao nos dizer, na letra de sua música, que “Nem toda palavra é aquilo que o dicionário diz”, o grupo O Teatro Mágico pode nos indicar algumas pistas sobre esse tema. Uma palavra, por pertencer a uma linguagem, pode ser manipulada pelo autor de uma obra, como um poeta ou um escritor, por exemplo, e assumir muitos usos e diversas interpretações. Em um espetáculo de arte contemporânea, como o do grupo O Teatro Mágico, encontramos a arte de bailarinos, atores, poetas, músicos e artistas circenses, além de programadores visuais, iluminadores, sonoplastas e tantos outros artistas dos bastidores, que têm sua importância na construção de um produto cultural, nesse caso, um show. Essas múltiplas linguagens são reunidas no mesmo palco para mostrar, contar e cantar algo, para transmitir mensagens por meio das linguagens da arte.

Marcos Hermes/Acervo OTM

Fernando Anitelli em apresentação do grupo O Teatro Mágico, em São Paulo, SP, em 2012.

Durante a busca motivada pelo interesse em compreender algo, em saber os sentidos das coisas, geralmente encontramos vários caminhos. Podemos procurar explicações lógicas, científicas, baseadas em nossa vivência ou em nossas crenças.

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Para o filósofo italiano Luigi Pareyson (1918-1991), a arte é uma linguagem que se reinventa constantemente para construir, conhecer e expressar questões dos seres humanos (Pareyson apud BOSI, 1989). Entretanto, realizada de diversos modos e formas, a arte, muitas vezes, faz e provoca perguntas em vez de apresentar respostas prontas. O artista cria com base em suas ideias e intenções, mas quem aprecia a obra também cria por meio de suas interpretações. Não podemos estabelecer uma verdade absoluta sobre o que as obras de arte querem dizer porque sempre há a interpretação de quem as olha, prova, toca ou ouve, ou seja, o espectador, o apreciador de arte. Para compreender a arte, precisamos nos deixar levar pelo seu teor poético, pelo que ela nos provoca, e entrar no universo de sentimentos, pensamentos e sensações que ela nos propõe, desprovidos de respostas esquematizadas e verdades preestabelecidas. Conhecer arte é observar, sentir e nos permitir descobrir o inesperado.

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Com elementos de circo, música e artes cênicas, entre outras linguagens artísticas, o grupo O Teatro Mágico, conhecido como OTM, tem se apresentado em vários espaços culturais desde 2003. Sua origem é paulista, da cidade de Osasco. A proposta do grupo de artistas, criado pelo ator, músico e compositor paulista Fernando Anitelli (1974-), é apresentar poesia, música, dança e filosofia em espetáculos que utilizam linguagens diversificadas, efeitos visuais e tecnologias aliados à singeleza da linguagem circense. Seus componentes misturam sons e gêneros musicais originários de diversos contextos culturais.

Palavra do artista “Nós queremos brincar com essas mais variadas expressões artísticas e simplificar as coisas que acontecem dentro de um sarau. [...] Nascemos com essa proposta. A ideia do projeto era justamente mesclar variadas expressões artísticas.” Fernando Anitelli O QUE pensa o líder do Teatro Mágico. SelesNafes. Com, 2 ago. 2014. Disponível em: <http://selesnafes. com/2014/08/entrevista-o-que-pensao-lider-do-teatro-magico>. Acesso em: 16 dez. 2015. José de Holanda/ Divulgação OTM

A arte de O TEATRO MÁGICO

O OTM acredita na acessibilidade de músicas e vídeos via internet, por meio da flexibilização do direito autoral. Na visualidade de seus shows, há músicos, atores e bailarinos vestidos de palhaço, com maquiagem e roupas que exploram a ideia de que cada um de nós tem um personagem escondido, um clown, um poeta a se revelar por meio da arte.

Luiza Prado/Acervo OTM

Clown: termo usado para se referir à figura do palhaço, um arquétipo que faz as pessoas rirem.

Foto do artista Fernando Anitelli, vocalista de O Teatro Mágico, com o rosto pintado.

O grupo O Teatro Mágico brinca com as linguagens da arte em suas apresentações. Foto de 2013.

Ofício da arte Produtor(a) cultural

Professor, existem muitas profissões relacionadas ao universo da arte e da cultura. Vamos apresentar a você e seus alunos, ao longo deste livro, várias opções. A sugestão é que você converse com os jovens sobre as dimensões da arte como profissão.

A profissão de produtor cultural tem muita importância para a arte, pois é ele quem planeja, elabora e executa projetos artísticos. Também busca recursos para as produções, organiza a agenda dos artistas e exerce outras funções que permitem ao grande público ter acesso à arte e à cultura. Há muitos campos de atuação para esse profissional: organização de espetáculos de música, teatro, artes visuais, dança, festas populares, entre outros. Alguns artistas ou grupos fazem sua própria produção cultural; outros contratam profissionais, formados nas mais diferentes áreas, para realizar esse trabalho. Capítulo 1 • O que é arte?

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A linguagem e a poética do palhaço O palhaço é um personagem criado há mais de 4 mil anos. Em cada lugar e cultura, sua figura aparece associada aos mais diversos sentimentos e características humanas. A imagem do palhaço nos remeterá ora a pessoas engraçadas, sensíveis e espertas, ora à figura do trapalhão, de pessoas desajeitadas ou até mesmo ingênuas.

Hulton Archive/Getty Images

Muitos atores vestiram-se de palhaço, desenvolveram habilidades, aprofundaram saberes e criaram personagens em várias linguagens artísticas.

Cena do filme Luzes da Ribalta, 1952, em que Charles Chaplin interpreta o personagem Calvero, que aparece em frente a um espelho se caracterizando de palhaço.

O ator inglês Charles Chaplin (1889-1977) estudou a linguagem gestual, a poética do clown e a pantomima dos palhaços para construir alguns de seus personagens, entre eles, o palhaço Calvero do filme Luzes da Ribalta, 1952 (o personagem aparece em cena do filme, na imagem ao lado). Ele costumava se caracterizar até mesmo nos ensaios para esse filme, no qual atuou como ator e diretor. Charles Chaplin criou muitos personagens, o mais famoso é Carlitos, presença marcante em muitos filmes.

Michel Boutefeu/Getty Images

Outro ator que incorporou à sua arte os gestos do palhaço e a linguagem não verbal da mímica foi o francês Marcel Marceau (1923-2007). Assim como Chaplin, ele estudou os gestos e a poética do palhaço, preocupou-se com a estética, usou técnicas de maquiagem e compôs um figurino singular para criar o personagem Bip, um palhaço que ficou conhecido por usar camisa listrada e chapéu amassado com uma flor espetada, e ter o rosto coberto de branco com os lábios bem marcados em vermelho e os olhos com contornos em preto. Marcel Marceau e Charles Chaplin inspiraram e continuam inspirando muitos atores que, como eles, escolheram trabalhar com a estética e a poética do palhaço para expressar sentimentos por meio de gestos e da mímica, construindo uma linguagem silenciosa com um intenso trabalho corporal. A figura do palhaço já sofreu diversas transformações e recebeu vários nomes ao longo da história, em diferentes idiomas: bobo da corte, bufão, clown, arlequim, gleeman, jongleurs...

Cena do espetáculo Pelo cano. 2012. Direção Paola Mussati e Vera Abbud.

O personagem Bip, criado por Marcel Marceau, elevou a mímica a uma forma de arte suprema.

As atrizes Vera Abbud e Paola Musatti, em cena do espetáculo Pelo cano.

Mesmo sendo um personagem muito antigo, o palhaço está presente no trabalho de vários artistas contemporâneos brasileiros, como vimos na trupe de O Teatro Mágico. Estudar a poética do palhaço é coisa séria, na opinião das atrizes Paola Musatti e Vera Abbud, da companhia de teatro Las Ventanas. O palhaço faz parte da experiência de criação artística dessas duas atrizes que pesquisam essa linguagem nascida no circo, mas que tem migrado constantemente para os palcos de teatro. Ao falar sobre o processo de criação do espetáculo Pelo cano (2013), a atriz Paola Musatti diz: “A construção de um personagem como o palhaço passa pelo processo de descobrir a si mesmo. O ator precisa perceber sua comicidade, seu ridículo, descobrir um modo de como as pessoas podem rir desse personagem, encontrar o tom da comédia. Há muitas formas de aprender a linguagem do palhaço, desde a tradição dos circos, em que isso era passado de pai para filho, muitas vezes, ou até mesmo na escola.”. Pintar o rosto, vestir roupas engraçadas, convidar as pessoas a rir, a sonhar, a poetizar... Esse é o objetivo de vida dos palhaços, que ainda encantam plateias de todas as idades.

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Professor, explique aos alunos que não há respostas simples para a pergunta “O que é arte?”. Ao longo desta obra, buscaremos discutir e esclarecer de forma mais abrangente possível esse conceito.

O que é arte?

Esse questionamento que move nosso estudo neste capítulo é feito até mesmo por artistas. Na 29 .a Bienal de Arte de São Paulo, em 2010, o pernambucano Paulo Bruscky (1949-) fez essa pergunta ao público. Na obra O que é a arte? Para que serve?, de 1978, o artista multimídia e poeta questiona a todos sobre a função da arte. Para muitos pode parecer estranho um artista fazer esse tipo de indagação, pois é comum as pessoas acreditarem que os artistas sempre sabem o que é arte e qual é sua função na sociedade. Contudo, além de os artistas em geral se questionarem constantemente sobre os significados e as dimensões da arte, ela tem mudado tanto nos últimos tempos que mesmo um artista pode fazer essa pergunta sem causar espanto. Fazer perguntas a si mesmo e aos outros é natural nos seres humanos, que buscam tentar compreender todas as coisas, o que inclui a arte. Na contemporaneidade, as maneiras de criar arte são ainda mais variadas. Responder às questões feitas pelo artista Paulo Bruscky requer investigar como os seres humanos produzem arte e cultura. Assim como as pessoas, a cultura está em constante movimento, em fluxos de pensamentos, valores e gostos.

Paulo Bruscky. 1978. Ampliação fotográfica em preto e branco sobre papel fotográfico fosco. Galeria Nara Roesler

Ao longo dos tempos, criamos diferentes modos de fazer arte, por razões diversas. O papel da arte não é o mesmo em cada época, lugar ou cultura. A maneira como nos relacionamos com a arte também está sempre em mudança. Encontrar respostas para esse tipo de questionamento pode parecer difícil, mas é possível perceber algumas pistas observando a própria arte.

O que é a arte? Para que serve?, de Paulo Bruscky, 1978. Documentação de ação da impressão em papel fotográfico fosco, 40 cm 3 29 cm. Na imagem, uma das quatro fotografias expostas na 29ª. Bienal de Arte de São Paulo, em 2010.

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Capítulo 1 • O que é arte?

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Paulo Bruscky. 1978. Ampliação fotográfica em preto e branco sobre papel fotográfico fosco. Galeria Nara Roesler

A arte de PAULO BRUSCKY

Outra fotografia exposta na 29.a Bienal de Arte de São Paulo, em 2010. Documentação de ação da impressão em papel fotográfico fosco, 29 cm 3 40 cm.

Performance: linguagem artística realizada em um espaço com uma ação efetuada por um artista ou um grupo de artistas que podem utilizar diversas formas de expressão. No caso de Paulo Bruscky, sua arte aconteceu em pleno espaço da cidade do Recife, cercado de transeuntes curiosos com as atitudes daquele “homem-sanduíche”.

Paulo Bruscky criou a obra O que é a arte? Para que serve? para provocar uma reflexão sobre o tema. Ele escreveu essas duas perguntas em um cartaz de papelão e “vestiu” o material como um homem-sanduíche. O termo “homem-sanduíche” é usado para identificar pessoas que trabalham nas ruas das cidades carregando cartazes pendurados no corpo. O artista ficou exposto em uma vitrine de livraria e andou pela rua entre as pessoas, fazendo o que chamamos de performance. A linguagem da performance requer fundamentalmente a realização de algo em que os artistas que estão se expressando possam utilizar diversos recursos e materiais. Como toda ação (acontecimento) é efêmera, a única maneira de mostrar a obra em outros momentos e lugares, além de reapresentá-la, é fazer um registro do evento, que pode ser por meio de fotografias ou de gravação de imagem e áudio (uma filmagem). A performance de Paulo Bruscky foi registrada em quatro fotografias expostas em vários lugares, um deles na 29 a. Bienal de Arte de São Paulo. A obra é de 1978, época em que o Brasil vivia um regime político autoritário, no qual os meios de comunicação e as expressões artísticas eram monitorados pelo governo de regime militar. A intenção do artista era provocar a reflexão sobre os critérios escolhidos por galerias e museus ao determinar o que era arte e o que não era.

Palavra do artista

Leo Caldas/Folhapress

“A arte é uma forma de comunicação global, mesmo muito antes da internet. Não é luxo ou uma forma de elite. Em vez disso é uma arena de esperança em algumas épocas e lugares, ou até mesmo uma última esperança.” Paulo Bruscky Artista plástico e poeta Paulo Bruscky, Recife (PE). Foto de 2003.

PAULO BRUSCKY. Das artes. Disponível em: <http://dasartes.com.br/pt_ BR/agenda/paulo-bruscky-cccsp>. Acesso em: 21 dez. 2015.

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Giro de ideias: O que é arte? O que é arte? Se alguém lhe fizer essa pergunta, o que você vai responder? E seus colegas, que conceitos têm sobre esse tema? Para conhecer as opiniões da turma, organize um fórum. Pode ser na sala de aula ou em algum ambiente virtual. Escreva aqui a conclusão a que você chegou depois de ter participado da discussão sobre “O que é arte?“. Professor, o debate pode acontecer tanto de forma virtual como presencial. Converse com os alunos sobre qual é a melhor opção. De qualquer maneira, é importante estabelecer a figura de um mediador, que tem a função de organizar a discussão e coordenar o ritmo do debate. Traga para os alunos o poema de Ferreira Gullar que abre este capítulo. Faça uma leitura interpretativa com eles e converse sobre o que pode ser a arte: uma parte de nós, uma linguagem? Relacione o poema com as questões trazidas pelos alunos no debate. Se preferir, traga o poema musicado: esse poema teve várias adaptações para a linguagem da música. Você pode sugerir aos alunos que as procurem na internet. Veja mais comentários em Diálogo com o professor. Com esse debate espera-se que os alunos lancem várias hipóteses a respeito do que é arte, a partir de seu próprio repertório. Estudar o conceito do que é arte exige olhar para os contextos nos quais as obras foram produzidas.

Conexões

Arte e História

Ideia e opinião Cildo Meireles. 1970-1975. Carimbo sobre cédula em circulação. Coleção particular. Foto: Pat Kilgore

A arte pode comunicar uma ideia? Sobre o que a arte fala? Que ideia ela transmite? Os objetos do cotidiano podem comunicar. Em épocas de governos ditatoriais, por exemplo, muitos objetos foram utilizados artisticamente como “armas” na resistência contra a opressão, como a que aconteceu no Brasil entre os anos de 1964 a 1985. Eram tempos de censura e medo, que impunham o silêncio à maioria da população. Quem ousava expor suas ideias podia ter sua liberdade e até a própria vida ameaçada pela ditadura militar. O jornalista Vladimir Herzog, uma das centenas de pessoas que morreram pelo direito à democracia no Brasil durante a ditadura, foi assas- Inserções em circuitos Cédula, sinado na prisão em São Paulo, no ano de 1975. Sua morte fez crescer a ideológicos: Projeto Cédula do artista Cildo Meireles, ocorrência de manifestações públicas e artísticas em prol do fim da repres- 1970-1975. Carimbo sobre são política e a luta por um estado democrático, em que os direitos civis cédula em circulação. Professor, esclareça aos alunos que hoje vivemos em plena democracia, mas escrever sobre pudessem ser respeitados. cédulas de dinheiro é crime conforme a Constituição Federal artigos 21, inciso VII, 22; inciso VI; e 164 e também segundo as Leis Federais 4.595/64, 4.511/64 e 5.895/73.

Mesmo quando é proibido dizer o que se pensa, é próprio da natureza humana encontrar meios para se expressar. A arte é uma dessas maneiras. Cildo Meireles (1948-), artista plástico carioca, criou a obra Inserções em circuitos ideológicos: Projeto Cédula, na qual ele carimbou a frase “Quem matou Herzog?” sobre cédulas de dinheiro. O artista realizou essa intervenção no mesmo ano da morte do jornalista. Como o artista usou cédulas de dinheiro corrente, era quase impossível saber de quem era a autoria daquele tipo de arte, e o artista pôde levar suas ideias ao público. A arte não estava nos museus, mas nas ruas, e foi ao encontro das pessoas em suas ações mais corriqueiras, como o uso de uma nota de dinheiro. Trata-se de uma arte conceitual, uma voz que circula e sussurra nos ouvidos do cotidiano pedindo justiça e liberdade em quaisquer situações nas quais não sejam respeitadas. E quanto a você? O que lhe causa incômodo nos dias atuais? O que você gostaria de falar, por meio da linguagem da arte, sobre as injustiças sociais, a violência ou outros temas? Que tal criar com seus amigos um trabalho de intervenção artística? Você pode utilizar objetos do cotidiano como fez Cildo Meireles. Professor, para compreender por que os artistas utilizam objetos do cotidiano e formas inusitadas para fazer arte, é importante que os alunos conheçam os contextos históricos, políticos e sociais que motivam essas criações. Proponha aos alunos que investiguem mais sobre a arte utilizada como forma de protesto contra a repressão política desse período da história do Brasil.

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Capítulo 1 • O que é arte?

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Professor, resgate com os alunos “Palavra do artista” e o “Ofício da arte”, apresentados no início deste tema, e explique que neste projeto a ideia é que os alunos escolham em qual linguagem preferem se expressar. O objetivo é explorar o protagonismo juvenil e desenvolver habilidades e competências na produção cultural, transformando o espaço da escola em lugar de arte e cultura.

Projeto experimental A arte do encontro: vamos criar um sarau? Vimos que o grupo O Teatro Mágico tem como linguagem essencial a música; no entanto, usa também outras linguagens, entre elas a circense. As linguagens podem se misturar muitas vezes, como acontece em um sarau, onde há o encontro de diferentes artistas e linguagens. A palavra “sarau” remete à ideia de uma reunião festiva entre amigos. O termo tem raiz latina — serotinus —, que diz respeito a ações realizadas no final do dia, próximo ao anoitecer, mas chegou a nós por meio do catalão sarau, baile noturno popular. Não podemos afirmar onde os saraus tiveram origem, mas há relatos de que na Grécia e na Roma antigas as pessoas já se juntavam para cantar e ouvir música, conversar, dançar, recitar poemas e contar histórias. Durante o Renascimento, as famílias nobres realizavam eventos noturnos com o mesmo objetivo. A chegada da família real portuguesa trouxe esse tipo de evento para o Brasil, e no decorrer do século XIX eles se tornaram bem populares. Na França, no início do século XX, artistas ligados aos movimentos de arte moderna se reuniam à noite em cafés para realizar saraus e conversar sobre arte. Atualmente, esse tipo de evento é cada vez mais popular.

Processos de criação Para realizar um sarau, você, seus amigos e professores precisam pensar na organização do evento: Espaço

Escolha um espaço, pense na quantidade de pessoas e em como elas vão se acomodar. Esse espaço pode ser a própria escola ou um local adequado na comunidade. Haverá palco? Será preciso mudar a disposição de alguns objetos? O lugar terá decoração? Equipamentos

O evento pode ser mais íntimo, para poucos amigos, mas se a proposta for o encontro de muitas pessoas, talvez seja preciso caixa de som, microfone ou outros instrumentos musicais. Você pode pedir ajuda a seus familiares ou pessoas da comunidade. Pense na possibilidade de conseguir patrocinadores no comércio local para alugar os equipamentos necessários. Artistas convidados

Pesquise se na comunidade há poetas, músicos ou outros artistas que gostariam de participar. Você e seus amigos também podem ser os artistas. O sarau pode ser específico, com foco em uma única linguagem, ou misturar várias linguagens, inclusive a circense, como faz o grupo O Teatro Mágico. Divulgação

Você e seus amigos podem criar um site ou uma página em redes sociais para divulgar e postar fotos do sarau. Vocês não precisam pensar na verba para este item, porque podem usar serviços gratuitos ou criar cartazes com desenhos e frases para convidar o público.

Dicas de materialidades Que tal pesquisar figurinos, maquiagens e gestos expressivos para se apresentar no sarau? A linguagem do palhaço também pode ser pesquisada e utilizada. Para fazer as pinturas de palhaço, existem várias possibilidades. Você pode usar tinta à base de farinha, bem como talco e produtos de maquiagem para criar e dar vida a palhaços bem interessantes. Pesquise em sites os tipos de pintura utilizados para intensificar as expressões faciais e assista também a vídeos que mostram como fazê-las, passo a passo.

DICA Para navegar Para se inspirar, você pode navegar pelo site do grupo O Teatro Mágico, <http://tub.im/ewmhmb> (acesso em: 2 dez. 2015).

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TEMA

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Professor, ao final do Tema 2, o Projeto experimental – Um mundo visual – propõe uma produção artística visual inspirada na Pop Art.

PROCURANDO PELA ARTE [...] Com a roupa encharcada, a alma repleta de chão Todo artista tem de ir aonde o povo está Se foi assim, assim será [...] BRANT, Fernando; NASCIMENTO, Milton. Nos bailes da vida. In: NASCIMENTO, Milton. Uma travessia musical. Rio de Janeiro: Reader’s Digest, 1999. 1 CD. Faixa 10.

Museus, galerias, teatros, casas de espetáculos para dança e música, centros culturais, pontos de cultura etc. são os locais determinados para se encontrar arte. Entretanto, será apenas nesses espaços o lugar da arte? Tais lugares são extraordinários para termos contato com a arte, é muito importante frequentá-los, mas a arte pode estar mais perto do que imaginamos. Andando pelas ruas, podemos encontrar obras arquitetônicas históricas ou contemporâneas, esculturas, mosaicos, pinturas em grafites...

Olhar nos meus sonhos (Awilda), de Jaume Plensa, 2012. Essa escultura gigante, que retrata o rosto de uma mulher, é feita de resina de poliéster.

Jaume Plensa. 2012. Praia de Botafogo, Rio de Janeiro. Foto: Alex Ribeiro/dpa/Corbis/Latinstock

Hoje, as cidades oferecem espaços para espetáculos de rua nas linguagens da dança, do teatro, da música e das artes visuais, abertos a toda a população. Podemos ter acesso a acervos virtuais de museus e galerias do mundo todo navegando pela internet, no computador mais próximo, em celulares e tablets. Há muitos espaços da arte dentro e fora de instituições culturais. Muitos artistas têm o desejo, como disseram o cantor, músico e compositor Milton Nascimento (1942-) e o jornalista e compositor Fernando Brant (1946-2015), de “ir aonde o povo está”; como fez, por exemplo, o artista espanhol Jaume Plensa com a instalação da escultura de 12 metros de altura na Praia do Botafogo no Rio de Janeiro (RJ).

Capítulo 1 • O que é arte?

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Regina Silveira. 2001-2009. Gobo, projetor e carro em movimento. Foto: Renato Pera

Transit, intervenção urbana de Regina Silveira, 20012009, em São Paulo (SP). Gobo, projetor e carro em movimento.

De repente, a arte! Além das pinturas e esculturas e outras linguagens públicas que podemos encontrar pelas ruas das cidades, é capaz que, tendo sorte, você encontre alguns artistas fazendo performances ou uma intervenção urbana. Na arte contemporânea, muitas linguagens inovam na forma de criar arte, como também na maneira de encontrar o público, como é o caso das intervenções urbanas. Esse tipo de arte procura interagir com o público e surpreendê-lo, geralmente criando formas de provocação para que as pessoas reflitam sobre a arte e a sociedade. Observe a imagem ao lado: uma mosca gigante sobrevoa a cidade em uma noite. O que isto significa? A intervenção urbana é uma linguagem artística das cidades. Ela tem a intenção de “ir aonde o povo está”. Dessa forma, a intervenção urbana é feita nas mais variadas linguagens, entre elas as performances, os happenings, o teatro de rua, entre outras manifestações. A artista gaúcha Regina Silveira (1939-) fez surgir moscas luminosas sobre prédios, muros e transeuntes da cidade de São Paulo na intervenção urbana Transit (Trânsito), de 2001, em meio às luzes dos edifícios e luminosos que dominam a metrópole à noite. A artista relata, ao falar dessa obra, que sentiu como se pudesse desenhar sobre “a epiderme da cidade”. Assim como no caso das performances, as intervenções urbanas também podem ser filmadas para depois serem apresentadas em várias situações. É o caso do vídeo produzido para registrar a obra Transit, que está disponível em vários sites.

João Sal/Folhapress

Palavra do artista

A arte de REGINA SILVEIRA

“Das intervenções em espaços públicos, as que me parecem mais próximas das funções transformadoras que acredito que a arte deva ter, antes de qualquer coisa, são as que são efêmeras ou que têm um formato transitório, no sentido de provocar seu efeito e logo desaparecer.” Regina Silveira HAAG, Carlos. Regina Silveira: a mágica das sombras. Pesquisa Fapesp, ed. 178, p. 11-15, dez. 2010. Disponível em: <http://revistapesquisa.fapesp. br/2010/12/01/regina-silveira-a-m%C3%A1gica-dassombras/>. Acesso em: 17 dez. 2015. Regina Silveira explora diferentes linguagens artísticas em sua obra. Foto de 2007.

DICA Para navegar Conheça um pouco mais sobre a arte de Regina Silveira navegando pelo site: <http:// tub.im/nk8ez6> (acesso em: 14 dez. 2015).

Para visitar Procure algum local em sua cidade onde possa encontrar arte, como um ponto de cultura (locais mantidos por grupos que recebem incentivos do governo para manter atividades artísticas e culturais). Esses lugares oferecem cursos e outras atividades. Visite-os!

Regina Silveira (1939-) é uma artista muito criativa que experimenta muitos materiais e linguagens desde o início de sua carreira. Artista consagrada no Brasil e no exterior, ela acredita que a arte contemporânea lhe oferece múltiplas possibilidades de criação: pintura, gravura, desenho, artes gráficas e uso de novas tecnologias como a projeção de imagens usando a cidade como suporte. Regina é uma artista que experimenta tudo: tanto as técnicas tradicionais quanto as novas, criadas a partir dos avanços tecnológicos. Usando o melhor que cada técnica pode lhe oferecer para expressar sua poética.

Ofício da arte Designer gráfico O profissional da área de Design Gráfico desenvolve projetos de comunicação visual; pensa no visual de sites, blogs e panfletos; projeta embalagens; pode criar logotipos de marcas e estabelecer a identidade visual de jornais, livros, revistas e vinhetas para TV. O designer gráfico pode trabalhar em editoras, agências de design e de publicidade, birôs de computação gráfica e produtoras, apoiando artistas plásticos, entre outros. É uma profissão que vem ganhando espaço em razão do surgimento e desenvolvimento de novas mídias e tecnologias, além da ampliação das já existentes, como a publicidade, a internet, a telefonia celular e as mídias impressas.

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Professor, ao fazer um “passeio” pela história da arte, é possível apontar alguns momentos que mostram diferentes concepções sobre o que é arte. A proposta é provocar reflexão sobre como os conceitos mudam ao longo do tempo. Questionar a respeito do que é arte e para que ela serve é uma maneira de provocar o pensamento crítico.

Provocações da arte

Toda revolução sempre traz em sua história muitos personagens. Nas transformações provocadas pela arte dadaísta não foi diferente. Artistas questionavam os moldes de arte que recebiam influência da concepção de belo clássico e técnicas tradicionais. Buscavam um novo sentido para arte em meio às turbulências da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A obra Fonte (1917), do pintor, escultor e poeta francês Marcel Duchamp (1887-1968), apresentada no final da página, coloca em evidência os questionamentos sobre a arte e seu futuro. Duchamp, como outros artistas atuantes nessa época, começou a utilizar objetos “prontos”, retirados do cotidiano, para dar-lhes novos significados e sentidos, determinando-lhes um caráter estético e poético, transformando-os em arte conceitual, os denominados ready mades. Na obra Fonte, Duchamp escolheu uma peça de cerâmica pintada com esmalte branco fabricada pela R. Mutt (uma indústria da época). Era apenas um mictório para uso em sanitários, um urinol, mas o artista deu o título de Fonte, assinou com o nome do fabricante da peça e enviou-a para um concurso de arte. Você pode imaginar o debate desencadeado por essa obra em 1917? Duchamp entrou para a história como uma das figuras de destaque na provocação da discussão sobre o que é arte. Desde esse período, diversas mudanças têm ocorrido em pouco tempo, e, até hoje, na arte contemporânea, há ainda quem pergunte “O que é arte? Para que serve?”.

Arte dadaísta: Surgiu durante a Primeira Guerra Mundial. Os artistas e intelectuais, que aderiram a esse movimento, posicionaram-se de modo crítico em relação à cultura do Ocidente do início do século XX. Em meio às contradições sociais, entre avanços tecnológicos e a barbárie da guerra, manifestavam a intenção de romper fronteiras entre linguagens, delimitações de materiais ou regras como outra forma de fazer arte, criando assim o movimento Dadaísta. Arte conceitual: manifestação artística que prima por uma arte mental, fortemente ligada ao discurso do artista e à interpretação de quem a aprecia. Trata-se de uma arte de intensidade intelectual, divergindo da narrativa ou da forma como o mundo estava acostumado apreciar arte antes do início do século XX.

Ready made: expressão inglesa que significa “objeto pronto”. Marcel Duchamp, por exemplo, em vez de criar um novo objeto, como uma escultura ou uma tela pintada, apropriava-se de objetos do cotidiano, produzidos pela indústria em série, modificando-os, ressignificando sentidos e atribuindo funções estéticas a esses objetos.

Marcel Duchamp. 1917/1964. Porcelana. Galeria de Arte de Barbican, Londres. Foto: Dan Kitwood/Getty Images

Fonte, de Marcel Duchamp, réplica (1964) em exibição em Londres. Foto de 2013.

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Capítulo 1 • O que é arte?

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Depois dos objetos cotidianos trazidos para o cenário da arte pelos artistas dadaístas, muitos outros se aventuraram por caminhos estranhos aos olhos do público e da crítica. Na segunda metade do século XX, muitas concepções de arte já tinham sido aceitas, tanto que, em 1967, o pintor, desenhista, cenógrafo e professor Nelson Leirner (1932-) enviou um porco empalhado, em um engradado, com um presunto pendurado no pescoço, para o IV Salão de Arte Moderna de Brasília. Sua obra Porco empalhado foi aceita e o artista veio a público indagar os critérios para considerar um porco empalhado como forma de arte. Observe-a. Nelson Leimer. 1967. Acervo Documental Fotográfico da Pinacoteca do Estado de São Paulo

O que o artista fez foi um happening, provocando a crítica para que participasse do debate. A palavra happening é usada para descrever uma linguagem artística em que artes visuais e teatro podem estar unidos em um acontecimento provocado pelo artista. As pessoas podem ser envolvidas em uma situação ou convidadas a participar dela. No caso, os críticos de arte e os jurados do IV Salão de Arte Moderna de Brasília foram envolvidos sem perceber no happening Porco empalhado (Happening para de Nelson Leirner. O artista planejou a a crítica), ou O porco, de Nelson Leirner, situação, esperando, com sua percepção 1967. Objeto, engradado de madeira e porco empalhado, do panorama da arte na época, que as pessoas participassem involun83 cm 3 159 cm 3 62 cm. tariamente, o que de fato aconteceu. Tal atitude provocou polêmica e muita discussão entre a crítica e o público, fazendo vir à tona mais uma vez o debate sobre o que é arte.

Giro de ideias: Linguagens contemporâneas Ready made, performance, happening são linguagens artísticas contemporâneas. Observe novamente as obras criadas pelos artistas Marcel Duchamp, Paulo Bruscky e Nelson Leirner e converse com os colegas a respeito dessas produções. Imagine que você e sua turma estão em um museu e se deparam com essas produções. Que reação vocês teriam? Um urinol, uma pessoa com um cartaz pendurado no corpo, um porco empalhado podem ser considerados arte? Analise comparativamente qual pode ter sido a intenção dos artistas ao utilizar essas materialidades e linguagens. Que outros artistas atualmente utilizam essas linguagens artísticas em suas criações?

Pesquise e converse com seus amigos e professores sobre essas linguagens e materialidades. Escreva aqui a sua opinião e o que você descobriu em sua pesquisa. Professor, traga para os alunos novamente as três imagens citadas. Peça para que façam uma leitura comparada dessas três obras para que consigam construir repertórios para a análise proposta. Veja dica para esta atividade no Diálogo com o professor.

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Tudo pode ser arte? Os objetos que existem ao nosso redor também foram produzidos por meio do pensamento estético e artístico. A palavra arte, de origem latina (artis), corresponde, em grego, ao termo tékne (origem também de técnica, relativa à arte, ao saber) e nasceu da ideia de que o ser humano sempre fez coisas, desde sua origem. Entretanto, não é válido atribuir à arte simplesmente o significado de ser uma técnica para “fazer coisas”. Para que algo seja arte, é necessário um sentido ou uma intenção. Não há uma função cotidiana na arte, como encontramos em outros objetos, mas sim uma função poética, estética e artística. Então, o que isso significa? Em nosso dia a dia, encontramos objetos criados com a intenção de agradar ao olhar, ao tato, aos ouvidos... Como um objeto tecnológico, um celular, uma simples caneta. Todo o processo de produção desses objetos nasceu de um desenho (design) pensado por alguém que quis torná-los mais atraentes. Esses objetos têm uma função utilitária, que pode ser a de mandar uma mensagem eletrônica ou a de escrever uma carta manualmente para alguém. Nesse processo, há criação e organização de formas, cores, texturas, dimensões nos objetos em nossa volta, mas nem todos são considerados arte, embora carreguem pensamento estético em sua criação e elaboração. Nas ruas também encontramos imagens, prédios, jardins, ouvimos sons... São lugares, objetos e ambientes criados para o deleite e o uso das pessoas. No cenário em que vivemos, principalmente nas grandes cidades, há muitas linguagens (escritas, faladas, cantadas, desenhadas, modeladas etc.), algumas criadas com intenções artísticas e outras que carregam elementos artísticos e estéticos, mas que estão ligadas a funções de uso cotidiano.

Bilderbox/Age Fotostock/Easypyx

Observe a imagem a seguir.

Mulher observando uma prateleira de supermercado. Foto de 2013.

Quando estamos diante de uma prateleira de supermercado, nossos olhos são preenchidos com tantas cores e formas das embalagens que podemos até ficar admirados com o apelo visual desses produtos. Contudo, estar diante de uma obra de arte é outra experiência, mesmo que tal obra apresente formas e cores semelhantes às que encontramos nas prateleiras dos supermercados.

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Capítulo 1 • O que é arte?

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Pop Art: no início da década de 1960, muitos artistas questionavam o crescimento dos meios de comunicação de massa, como a televisão, aparelho que abriu um novo canal de divulgação de produtos para o consumo. A publicidade começava a conduzir o gosto e o desejo das pessoas para a aquisição de objetos e a busca por padrões sociais de estilo de vida. Nesse cenário, a Pop Art surgiu como um movimento artístico que se apropriou da cultura de massa em tom crítico. Nascido na Inglaterra, o movimento espalhou-se para outros países. A sociedade e a cultura dos Estados Unidos serviram de inspiração para diversos artistas que questionavam em suas obras o estilo de vida estadunidense.

O artista plástico e cineasta estadunidense Andy Warhol (1928-1987) trouxe para suas pinturas imagens de produtos que podemos encontrar em prateleiras de supermercados. Ele escolheu trabalhar com tais imagens em suas obras para provocar o pensamento crítico a respeito de como a sociedade produz e consome imagens. Andy Warhol é considerado um dos mais importantes artistas da Pop Art. A embalagem de um produto na prateleira do supermercado não é arte, mas sua imagem na obra do artista pode ser. Quando Andy Warhol pintou imagens de latas de sopa na obra Campbell’s Soup Cans (1962), modificou a função cotidiana da imagem do produto, atribuindo a ela um novo sentido, poético e estético. Sua intenção era discutir a função dos rótulos, dos produtos em série, do sistema capitalista que leva ao consumismo. É comum a Pop Art ser lembrada na história da arte como um movimento de protesto. No entanto, ela foi além, porque provocou diálogos entre os estilos de vida e a arte, entre a estética e o conceito de visualidade da segunda metade do século XX. Ofereceu, também, possibilidades de reflexão sobre a fama desencadeada pelas mídias em um tempo no qual os meios de comunicação de massa começavam a oferecer um universo de imagens em cores, formas e movimentos em dimensões até então nunca vistas pelas pessoas, mudando estilos de vida e valores estéticos, com uma influência que perdura até os nossos dias.

EI Chapulin/Alamy/Glow Images

Hoje, é cada vez mais perceptível como os meios de comunicação dominam nossa cultura. Pessoas e produtos ficam conhecidos de uma hora para outra quando colocados em evidência pela mídia, assim como também são esquecidos rapidamente quando estão fora dos meios de comunicação.

Mulher observa a obra Campbell’s Soup Cans (conjunto de 32 quadros em tinta de polímero sintético sobre tela, 50,8 cm  40,6 cm), de Andy Warhol, 1962, no Museu de Arte Moderna (MOMA), Nova York, (Estados Unidos). Foto de 2010.

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Uma imagem de latas de sopa pode ser considerada arte? As prateleiras de supermercados, com suas cores vibrantes e formas repetidas, com objetos produzidos em série e colocados em sequência, inspiraram a maneira de como Andy Warhol compôs a obra intitulada Campbell’s Soup Cans (1962). A marca de sopas Campbell’s era muito popular nos Estados Unidos na época, e seus produtos eram servidos até em cenas de seriados de televisão. Warhol pintou individualmente 32 quadros de 50,8 cm 3 40,6 cm com tinta acrílica sobre tela nas cores do produto original. Depois, ele colocou as 32 telas arrumadas uma ao lado da outra, tal qual os arranjos que encontramos em prateleiras de lojas e supermercados. As pinturas em cores vibrantes e combinadas em vários tons contrastantes e a repetição de imagens são pontos marcantes da obra de Andy Warhol, como podemos observar em seu Autorretrato (imagem ao lado).

Andy Warhol. 1966. Tinta serigráfica sobre pintura polímero sintético sobre tela. Museu de Arte Moderna, New York. VG-Bild-Kunst Bonn/ Fine Art Images/Glow Images

A arte de ANDY WARHOL

Embora o movimento Pop Art tenha começado na Inglaterra, foi nos Estados Unidos, país de origem de Andy Warhol, que ganhou maior força. Os artistas desse movimento usaram cores vibrantes, imagens com visual de histórias em quadrinhos, de celebridades de cinema e televisão e embalagens de produtos que eram símbolos de consumo. As linguagens usadas foram bem variadas, desde pinturas e serigrafias a fotografias e vídeos, entre outras. Destacaram-se também nesse movimento artistas como Roy Lichtenstein (EUA, 1923-1997) e Richard Hamilton (Inglaterra, 1922-2011), que trouxeram as imagens da vida cotidiana para os espaços de exposições de galerias e museus.

Autorretrato, de Andy Warhol, 1966. Serigrafia e acrílico sobre tela, 57,2 cm 3 57,2 cm.

Giro de ideias: Arte poética Arte é poética? O que é poética? A arte pode espalhar e espelhar uma ideia, uma opinião sobre um fato ou uma ideologia. A poética é a força de uma obra de arte, é o que faz a diferença entre um objeto do cotidiano e as produções artísticas. Todos nós fazemos diversas atividades no dia a dia; algumas ações são mecânicas, outras mais conscientes, intencionais (porque escolhemos fazê-las de determinada maneira). Contudo há, coisas que fazemos de modo tão significativo que podemos até dizer: “Isso ficou bom! Isso mostra quem eu sou! Essa é a minha poética!”. Na arte, a maneira como o artista produz sua obra pode mostrar quem ele é. Seus estilos e pensamentos podem ser revelados na linguagem da arte por meio dos procedimentos e materialidades escolhidas por ele. Estudamos que muitas coisas podem se tornar arte se tivermos a intenção de dar significados novos aos objetos e às imagens do cotidiano. De embalagens, imagens de celebridades até uma mosca gigante, uma nota de dinheiro ou um cartaz pendurado em alguém, tudo pode ser assunto para uma obra de arte. Para criar também é preciso experimentar diferentes materialidades e verificar qual material tem mais relação com nossa intenção, nossa poética. Qual linguagem você gostou de conhecer e gostaria de utilizar na criação de sua obra? Qual assunto, qual tema o influencia e estimula? Enfim, qual é a sua poética? Escreva a respeito. Professor, proponha um momento de fazer artístico com base nos interesses dos alunos. Você pode transformar a sala de aula em uma oficina de arte em que você terá um papel de orientador do processo criativo do aluno. Como desafio estético, proponha um trabalho prático em que os alunos possam escolher uma linguagem artística e se expressar pensando sobre qual é a sua poética. Pode ser um desenho, uma intervenção, uma performance etc. O importante é que os alunos planejem como vão realizar a atividade. Assim, oriente-os para que façam um esboço das ideias. Veja sugestões de leitura no Diálogo com o professor. É possível que outras reflexões possam surgir durante esta atividade. Se for o caso, incentive os alunos a usarem o diário de bordo também para registrar suas produções textuais.

Capítulo 1 • O que é arte?

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Conexões

Arte e Filosofia

Estética e poética A estética, como um ramo de discussão filosófica, atua na reflexão sobre o papel da arte na vida, sua natureza, seus valores e suas concepções e discute compreensões de beleza ao longo dos tempos. A poética é um ramo da filosofia da arte que estuda a qualidade das obras artísticas em função de como são produzidas, do que expressam e do que provocam na sociedade. Para os gregos existiam critérios para dizer se uma obra tinha poética ou não. Podemos dizer também que a poética é o modo singular com que fazemos as coisas, ou, ainda, o jeito particular com que fazemos arte. A poética representa as ideias dos artistas. Na base dos estudos da filosofia da arte estão os debates sobre mímesis, ideias discutidas por filósofos gregos como Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.). Segundo Alfredo Bosi (1986), Platão dizia em seus discursos que a arte é uma mímesis da vida, como a sombra de um reflexo. A palavra grega mímesis (mimese, em português) apresenta a ideia de imitação, reprodução, representação. Para Platão, a mímesis na arte era a representação da natureza, mas como uma cópia, um reflexo da vida. E a vida, por sua vez, era também um reflexo do mundo das ideias. Assim, a arte seria a cópia da cópia. Já Aristóteles dizia que a arte é a representação da vida como manifestação poética do ser humano, defendendo que o conhecimento advém da percepção dos sentidos. Os artistas criam arte por meio da poética. A arte imita a vida, porém de modo mais belo, sublimado. Rafael Sanzio (1483-1520), pintor renascentista, representou os dois filósofos em sua obra Escola de Atenas. Platão e Aristóteles aparecem no centro da pintura e são representados como amigos que discutiam e refletiam as formas de pensar a filosofia.

Será que a concepção de arte como imitação da vida ou o conceito de beleza sublimada ainda fazem parte de imagens que criamos em nosso tempo, tanto na arte como nos meios de comunicação? Vamos pensar sobre isso?

Rafael Sanzio. 1509. Stanza della Segnatura, Vaticano. Foto: Image Asset Managemen/World History Archive/Grupo Keystone

As ideias ainda hoje estudadas para compreender a natureza estética e poética da arte e a concepção de belo sublimado, colocadas por Aristóteles, influenciaram muitos períodos da história da arte. A arte como função poética foi estudada pelos gregos antigos e é investigada até hoje em razão da necessidade de compreender o que é arte e por que a fazemos.

Escola de Atenas (1509-1510), de Rafael Sanzio. Afresco. 5,00 m 3 7,00 m.

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Projeto experimental Um mundo visual

Professor, proponha um momento de fazer artístico com base nos interesses dos alunos. Você pode transformar a sala de aula em uma oficina de arte em que você terá um papel de orientador do processo criativo do aluno.

Andy Warhol, 1967. Composição e folha,Série de serigrafias. Staatsgalerie Museum,Stuttgart/Michael Latz/AFP/Getty Images

O artista pop analisa a cultura visual de seu tempo, principalmente sob o prisma dos valores e costumes, e traz para sua arte essa visualidade por ter sido marcado e tocado por ela. Enquanto Andy Warhol criava imagens com rostos de celebridades, como a obra Marilyn Monroe (Marilyn) apresentada a seguir, ele mesmo se tornou uma delas. Até hoje sua obra e suas ideias continuam a fazer sucesso. Por causa do destaque ainda dado a esse artista na mídia e no mundo da arte, o fabricante de sopas Campbell’s criou uma edição limitada com embalagens que trazem as cores utilizadas por ele e a estampa de seu rosto.

Visitante ao lado da obra Marilyn Monroe (Marilyn), de Andy Warhol, 1967. Composição e folha, 91,5 cm 3 91,5 cm. Série de serigrafias. Foto de 2008, no Staatsgalerie Museum, em Stuttgart, Alemanha.

Reuters/Latinstock

Em suas investigações, Andy Warhol criou composições artísticas em que utilizou uma única imagem repetida várias vezes, para provocar o pensamento crítico sobre a sociedade de consumo. Diante do exposto, como você vê a relação entre a arte e o mundo capitalista? Reflita sobre isso. A vida dos artistas pode nos inspirar, mas é importante olhar para nossa própria realidade e refletir sobre a cultura que estamos vivenciando e como são os valores e as imagens que marcam nossa história. Como experiência artística, vamos fazer uma composição baseada no princípio da repetição. Escolha uma imagem que marcou sua vida (rótulos, embalagens, logotipos, imagens de pessoas etc., tire cópias na quantidade que considerar suficiente para causar o efeito de repetição que você deseja e cole essas figuras no espaço de uma folha A4 ou de uma cartolina. Faça intervenções com lápis de cor, canetas ou tinta transparente (pode ser guache diluída em água, por exemplo). Você pode criar à vontade, colocando palavras, frases, outras figuras e desenhos. Solte sua imaginação! Como podemos perceber a poética na obra dos artistas? Escolha uma obra da sua preferência e faça uma análise sobre a poética do artista.

Professor, como ampliação do estudo sobre a poética, proponha aos alunos que tragam exemplos de outras obras de arte e apontem a poética de cada artista. Solicite uma pesquisa com análise da poética em várias linguagens. Deixe que os alunos Edição limitada de latas das sopas de tomate escolham a obra e a linguagem sobre as Campbell’s com cores usadas por Andy Warhol e quais querem tratar imagens do rosto do artista. Foto de 2012. em seus trabalhos.

Como verificação do aproveitamento, avaliação dos trabalhos e ampliação de estudos, faça um mapa no quadro com palavras-chave das principais questões que aparecerem nas análises feitas pelos alunos, como: o que os artistas falam em suas obras, como usam materiais para se comunicar com o público, no que os artistas acreditam em relação à questão “O que é arte?”, entre outras.

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Capítulo 1 • O que é arte?

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TEMA

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ARTE É EXPERIÊNCIA?

Professor, ao final do Tema 3, o Projeto experimental – Movimento das manhãs – propõe a exploração da dinâmica dos movimentos (dança/teatro).

A arte existe porque a vida não basta. Pronunciamento de Ferreira Gullar durante a FLIP de 2010.

Vivemos experiências desde os primeiros minutos de nossas vidas. Algumas são esquecidas, outras marcam para sempre nossa história. É próprio dos seres humanos contar suas histórias. Quando, por exemplo, nos deparamos com algo que nos emociona, podemos dizer que tivemos uma experiência marcante. Você acha que, para ter experiências na arte, é preciso estar aberto à poesia? A arte pode nos tocar de modos diferentes. Ter contato com a arte pode proporcionar experiências significativas. Quando observamos uma imagem, assistimos a um filme, a um espetáculo de dança, a uma peça de teatro ou quando ouvimos uma música, sentimos emoções. Essas emoções podem ser bem agradáveis como também podem nos provocar sensações de estranhamento ou incômodo. Cada um sente a arte de um jeito diferente porque somos pessoas com histórias e experiências diversas. Já aconteceu de você ir ao cinema com um amigo e um de vocês se emocionar com as cenas e a história do filme, e o outro, não? Isso acontece porque somos seres singulares, com emoções e opiniões exclusivas. Podemos estar em estado de estesia ou anestesiados. Às vezes, temos a intenção de entrar nesse estado sensível, mas pode acontecer de estarmos distraídos. No entanto, podemos ser atraídos por uma música, uma cena de filme, um trecho de um poema ou uma imagem que nos coloca nesse estado e nos emociona.

Estesia: palavra usada pelos gregos antigos para dizer que, quando nos emocionamos com algo, é porque estamos abertos à poesia, em um estado de estesia, ou seja, estamos propícios a sentir.

Anne-Christine/AFP/Getty Images

A coreógrafa e bailarina alemã Philippine Bausch (1940-2009), mais conhecida como Pina Bausch, mergulhava nas emoções humanas e acreditava que cada bailarino precisava encontrar sua poética, uma maneira singular de expressar os gestos e os movimentos, de desenvolver a coreografia com sinceridade, emoção.

A bailarina alemã Pina Bausch durante a performance da peça Café Müller, no Festival d’Avignon, França, em 1995.

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Sergei Karpukhin/Reuters/Latinstock

Um observador ao lado da escultura Big Baby, do artista australiano Ron Mueck, na Casa de Leilão Christie, em Moscou, Rússia. Foto de 2011.

São imprevisíveis as sensações que alguém pode sentir diante da arte, por causa do repertório cultural de cada um. A emoção diante das coisas, sejam arte ou não, pode acontecer em diferentes espaços e situações. Também nos emocionamos com a visão da natureza ou com o sabor de um alimento. No filme brasileiro O contador de histórias (2009), há uma cena em que a educadora Margherite, vivida pela atriz portuguesa Maria de Medeiros, leva o menino Roberto Carlos Ramos, personagem vivido pelo ator adolescente Paulinho Mendes, para ver o mar pela primeira vez. O garoto se emociona e corre para as ondas: o personagem vive uma experiência sensível. Quando assistimos a essa cena do filme, também podemos nos emocionar com a reação do menino que olha o mar pela primeira vez. Somos envolvidos por uma cadência de emoções provocadas pela visão da natureza na existência do personagem e pela apreciação da cena criada na linguagem do cinema. Nosso conhecimento é construído com base em observações do mundo, pelo acervo da memória, pela leitura, pelo estudo e pela imaginação. O jeito de olhar mais sensível vai além de visões externas e adentra a maneira como elas nos tocam. Para que isso ocorra, é preciso estarmos “abertos” para senti-las — em estado de estesia.

Filme de Luiz Villaça. O contador de histórias. Brasil. 2009. Foto: Acervo da Nia Filmes

O artista australiano Ron Mueck (1958-) especializou-se em criar esculturas hiper-realistas. Algumas são gigantes, como a escultura Big Baby acima; outras, bem pequenas, cabendo até na palma da mão. Estar diante de obras de arte como as dele pode nos provocar sempre algum tipo de reação, seja de estranhamento, admiração ou espanto, entre outras.

Cena do filme O contador de histórias, em que contracenam os atores Maria de Medeiros e Paulinho Mendes. Direção de Luiz Villaça. Brasil: Warner Bros Pictures, 2009.

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A arte de PINA BAUSCH Pina Bausch propôs em sua arte a união de duas linguagens artísticas, a dança e o teatro, que, misturadas, fizeram nascer o termo dança-teatro. Há espetáculos teatrais com coreografias criadas para explorar o palco de forma não convencional: espaços verticais, movimentos cadenciados dos atores, apresentações sem palavras e exploração do corpo como suporte expressivo. Do mesmo modo, na dança-teatro há espetáculos que incorporam textos, personagens, materiais, objetos, adereços de cena, movimentos trazidos do cotidiano e o corpo como suporte de sons e gestos.

David Lefranc/Kipa/Corbis/Latinstock

São intenções que primam por abusar da criação poética de atores e bailarinos para romper barreiras entre linguagens, para criar linguagens híbridas (misturadas). Observe a seguir, a imagem de Pina Bausch atuando em cena da peça teatral Café Müller. Muito do que vemos em espetáculos de artes cênicas contemporâneos teve influência das pesquisas realizadas por Pina e outros artistas da dança, como o austro-húngaro Rudolf von Laban (1879-1958) e a estaduniense Isadora Duncan (1878-1927), que estudaram o corpo como materialidade expressiva nas artes cênicas e impulsionaram a dança como a arte do movimento.

Pina Bausch em cena da peça Café Müller, baseada em memórias de sua infância, no Festival d’Avignon, França em 1995.

Palavra do artista “Eu não classifico nada em minha vida! É apenas uma festa de parte do que eu gosto, e eu gosto de tantas coisas...”

Henning Kaiser/DdpImages/AFP

Pina Bausch ENTREVISTA com Pina Bausch (Reportagem de Fabio Cypriano para Revista BRAVO!). Poéticas teatrais, 14 ago. 2010. Blog. Disponível em: <http:// poeticasteatrais.blogspot.com.br/2010/08/entrevista-com-pina-bausch.html>. Acesso em: 17 dez. 2015.

Coreógrafa Pina Bausch, fundadora da companhia de dança-teatro de Wuppertal. Foto de 2008.

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Ofício da arte Coreógrafo(a) Coreógrafo é o profissional que cria e organiza sequências de movimentos corporais no espaço, com ou sem música, e que resultam em uma dança ou coreografia. O coreógrafo também pode atuar como professor de dança, auxiliando os alunos a desenvolver e ampliar o seu potencial físico e artístico. Normalmente, esse profissional se especializa em algum tipo de dança. Sua formação passa pelo bacharelado e pode chegar até o pós-doutorado. As companhias e os grupos de danças são os maiores empregadores dessa área.

Filme de Mike Newell. O sorriso de monalisa. EUA. 2004

Giro de ideias: Experiência estética

Filme O sorriso de Monalisa. Direção de Mike Newell. EUA: Columbia Pictures, 2004.

O que é ter uma experiência estética? A experiência estética acontece quando nos sensibilizamos com algo. Você se lembra de uma situação em que viveu uma experiência estética com uma obra de arte? Pode ter sido ao assistir à cena de um filme, ao visualizar uma imagem, ao ouvir uma música. No filme O sorriso de Monalisa, há cenas em que é possível apreciar um encontro significativo com a arte, revelando-nos que experiências estéticas podem acontecer. Descreva no espaço a seguir uma experiência significativa que você vivenciou por meio de alguma linguagem artística. Se preferir, você também pode fazer um desenho, em uma folha à parte, que represente essa experiência. Compartilhe sua produção com seus colegas.

Professor, forme grupos pequenos para essa dinâmica, de modo que a atividade não fique cansativa. Assim, cada aluno pode compartilhar suas experiências com a arte e apresentar sua concepção e seu gosto sobre o que considera arte. Professor, experiências estéticas com arte podem acontecer em diferentes circunstâncias e com diferentes linguagens artísticas. O filme O sorriso de Monalisa apresenta cenas com debates e encontros significativos sobre “o que é arte?”. Indique para que os alunos assistam a ele e observem a discussão dos conceitos estudados neste capítulo, como, por exemplo, a experiência estética. Apresentar o filme pode ampliar o conhecimento dos alunos sobre esse conceito.

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Conexões

Arte e Saúde Dance mais! Com tantas facilidades oferecidas pela vida contemporânea, as pessoas acabam por se movimentar cada vez menos. O resultado disso são doenças ligadas ao sedentarismo. Dançar faz bem à saúde porque, seja qual for o tipo de dança escolhido, realizamos movimentos que diferem do que fazemos no dia a dia. Movimentos repetidos realizados no trabalho, por exemplo, são responsáveis por enfermidades que levam à aposentadoria pessoas jovens, que poderiam produzir por mais tempo no mercado de trabalho. Conhecer o próprio corpo, tomar consciência do que ele nos proporciona de prazer e dor também é produtivo. Para começar, vamos perceber nosso corpo do ponto de vista biológico. Preste atenção nas proporções, nos pontos de articulação, nos esforços que fazemos e em como sentimos essa matéria do qual somos recheio. Um dos desenhos mais famosos da história da arte é o Homem vitruviano, do artista renascentista italiano Leonardo da Vinci (14521519), feito por volta de 1490. Esse desenho ficou famoso por mostrar que nosso corpo tem medidas proporcionais; por exemplo, a cabeça de um homem adulto mede cerca de um oitavo da medida da altura do corpo todo. As medições feitas por Da Vinci mostram ainda as proporções de várias partes do corpo entre si. O desenho também é conhecido como o Cânone das proporções humanas. Observe o Homem vitruviano na imagem ao lado. Você já parou para pensar que o nosso corpo pode ser medido e contém muitas relações proporcionais? Faça um desenho no qual possa encaixar seu corpo seguindo a ideia de proporção de Da Vinci. Usando lápis de cor, realce os pontos das articulações. Elas formam um dos sistemas que proporciona movimento ao nosso corpo. Também aponte, usando outra cor, as áreas de seu corpo que você mais movimenta no dia a dia. Você sente dor ou incomôdo em alguma parte do corpo por causa de movimentos repetitivos cotidianos? Registre essa área usando outra cor. Ao dançar, usamos nossa capacidade motora, de criar movimentos, e mental, de concentração; memória e imaginação. Outro motivo para incentivar todos a dançar é o benefício ao nosso lado psicológico. Criar, expressar-se, fruir, enfim, fazer arte é sempre saudável. Mesmo que a pretensão não seja ser um bailarino profissional, todos podem experimentar os movimentos da dança.

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Leonardo da Vinci. 1492. Desenho. Galeria da Academia, Veneza

Homem vitruviano, de Leonardo da Vinci, c. 1490. Desenho, 34,4 cm 3 24,5 cm.

Capítulo 1 • O que é arte?

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Projeto experimental Movimento das manhãs Linguagem da arte: dança

Professor, a proposta aqui é estudar os movimentos e compor sequências coreográficas. Converse com os alunos sobre a qualidade de seus movimentos, segundo o que foi estudado a partir da arte de Pina Bausch e Rudolf Laban.

Rudolf von Laban, um dos precursores da dança moderna ocidental, também pesquisou sobre os movimentos corporais cotidianos para a criação coreográfica na dança. Para ele, o corpo se expressa mesmo nos movimentos mais corriqueiros. Perceber esses movimentos e aprender a conhecer o próprio corpo, matéria-prima para a dança, é importante para o dançarino que investiga as potencialidades expressivas do movimento. Se mesmo dormindo costumamos movimentar nosso corpo, sem perceber, ao acordar essa movimentação se amplia consideravelmente. Em geral, nos espreguiçamos antes de levantar, esticando articulações, músculos... Viramos de um lado para o outro, pensando em tudo o que temos de fazer no dia. Mesmo quem tem algum tipo de imobilidade física, temporária ou permanente, precisa praticar alguma forma de movimentação, se necessário com a ajuda de outras pessoas. Esses simples movimentos cotidianos podem ser estudados por você e usados em criações artísticas na dança.

Processos de criação

Fred Hildenbrandt/Lebrecht/Otherimages

Vamos fazer experimentos sobre os movimentos das manhãs? Pensem em movimentos feitos durante as ações que vocês realizam todas as manhãs, ao acordar. • Repitam alguns desses movimentos. • Escolham, individualmente, três movimentos e definam uma forma de repeti-los algumas vezes. • Em grupos de três ou quatro pessoas, cada um deve ensinar seus três movimentos aos outros. • Todos devem memorizar os movimentos dos colegas e repeti-los duas vezes antes de mudar para outro movimento. • Ensaiem e memorizem a sequência. • Coloquem música (até mesmo mais de uma e de estilos diferentes) e peçam aos grupos que façam a “dança das manhãs”.

Rudolf von Laban com o grupo de bailarinos do Staatsoper Unter den Linden (Berlin State Opera), do qual foi diretor no período de 1930 a 1934. Foto de 1930.

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TEMA

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TEMPO: O COMPOSITOR DE HISTÓRIAS

[...] Compositor de destinos Tambor de todos os ritmos Tempo, Tempo, Tempo, Tempo...

Professor, ao final do Tema 4, o Projeto experimental – Tempo Cronos e tempo Kairós – propõe uma reflexão sobre o “tempo”, os contextos de produção e os artistas que marcaram a história da arte.

VELOSO, Caetano. Oração ao tempo. Intérprete: Caetano Veloso. In: VELOSO, Caetano. Cinema transcendental. [S.l.]: Verve, 1979. 1 disco sonoro. Faixa 2.

Como nos relacionamos com o tempo, esse “compositor de destinos”? Na Grécia antiga, acreditava-se que Cronos (Khronos ou Chronos), o senhor do tempo, teria surgido no princípio de tudo e encontrado Ananke, deusa do destino. De acordo com a mitologia, os dois deuses uniram-se e passaram a reger tudo o que conhecemos. Segundo essa crença, somos regidos tanto pelo tempo quanto pelo destino. Estudar a história da arte talvez seja como olhar para um relógio perdido em um emaranhado de fios de memórias, como na obra da artista Sheila Hicks (1934-), exposta na 30ª. Bienal de Arte de São Paulo em 2012 e reproduzida no final desta página. Olhar a arte com base no panorama histórico é uma tentativa de contextualizar este “tempo embaralhado”. Estudar épocas, estilos, artistas e obras na tentativa de desembaralhar os fios da memória e da história. Entre os mitos criados na Grécia antiga sobre o tempo, temos ainda o mito do deus Kairós, filho de Cronos. Dizem que era belo, atlético, rápido e que só possuía cabelos na parte da frente da cabeça. Por isso, costuma-se dizer, até hoje, que devemos “agarrar as oportunidades pelo topete”. É o deus do momento certo, da ocasião propícia. Sabe aqueles momentos de prazer que passamos com amigos, familiares, em uma festa, viagem ou realização de algo importante? Aquele tempo tão marcante e significativo que nem vimos passar? Esse é o tempo do deus Kairós (tempo significativo).

Obra (sem título) de Sheila Hicks exposta na 30ª. Bienal de Arte de São Paulo, 2012.

Detalhe da obra da artista Sheila Hicks na 30.ª Bienal de São Paulo

Os artistas, ao longo da história da arte, apresentaram suas impressões, não do passado nem do futuro, mas do exato momento em que viviam. Olhar para a história da arte é viajar para outros tempos e tentar compreender como os artistas vivenciaram seu tempo Kairós (significativo) e como sua obra ficou marcada no tempo Cronos (tempo contado e datado).

Professor, pergunte aos alunos: que tempo é esse que, por vezes, parece passar tão rápido e em outras tão devagar? Que tempo é esse, construtor de histórias? Histórias de culturas, sociedades, vidas que constituem, também, o universo da arte. Será o tempo um compositor de destinos, como canta Caetano Veloso (1942-) em sua música “Oração ao tempo”?.

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A arte de SHEILA HICKS A artista Sheila Hicks tem explorado em seu trabalho fios, amarras, entrelaçamentos, mistura de cores e texturas. Ela procura romper com as barreiras entre arte e artesanato, propondo uma arte tátil/têxtil em que podemos tocar e sentir os fios, que são uma espécie de caminhos vividos. Nascida nos Estados Unidos, Sheila viajou por vários países do continente americano. Nessas experiências, conheceu técnicas de tecelagem que influenciaram a sua obra. Nela, mistura técnicas antigas, como a tecelagem artesanal, com linguagens contemporâneas, como a instalação. Na obra observada na página anterior, percebemos um modo poético de mostrar o tempo construído com fios que ora são contínuos, ora são interrompidos; aparecem emaranhados, entrelaçados, com ou sem nós, construindo fluxos de linhas que lembram acontecimentos na vida.

Giro de ideias: Ler uma obra de arte Ao olhar para uma obra de arte, percebemos que ela é “aberta”, ou seja, possibilita diversas interpretações. Cada um pode observá-la e tirar suas próprias conclusões. No entanto, há pinturas carregadas de símbolos e histórias que acabam influenciando nossa leitura de imagem. É o caso da pintura Uma dança para a música do tempo, do artista barroco francês Nicolas Poussin (1594-1655). O título da obra nos sugere que a vida é uma dança, realizada ao ritmo de Cronos (Tempo).

Nicolas Poussin. 1636. Óleo sobre tela. Coleção Wallace, Londres

Observe a imagem a seguir, composta de vários símbolos ligados à percepção do tempo.

Barroco: movimento artístico que aconteceu entre o século XVII e meados do século XVIII, inicialmente na Itália, difundindo-se em seguida pelos países da Europa e da América.

Uma dança para a música do tempo, de Nicolas Poussin, 1636. Óleo sobre tela. 82,5 cm 3 104 cm.

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Agora, registre os elementos que mais chamaram a sua atenção nesta obra. Professor, esta é uma ótima oportunidade para explorar a leitura e interpretação de imagens e aguçar o olhar dos alunos. Segundo historiadores, na pintura intitulada Uma dança para a música do tempo (1636), o pintor Nicolas Poussin cria uma rede de elementos para estabelecer a ideia de que a vida é como uma dança. Podemos notar que no centro da composição quatro figuras dançam em forma de círculo, que podem estar representando a pobreza, o trabalho, a riqueza e o prazer. A dança acontece ao ritmo de uma música que é criada pela divindade do tempo (na mitologia grega título atribuído a Chronos). Ainda temos crianças que brincam com elementos simbólicos representados pela ampulheta (a passagem do tempo) e pela bolha de sabão (brevidade e fragilidade da vida). Na parte superior da composição, ainda é possível ver um conjunto de personagens que sobrevoam a cena. Divindades ligadas ao nascer do sol, alvorada e anoitecer fazem um cortejo, acompanhado pelas horas (seres mitológicos que estão ligados na cultura grega à ideia de passagem do tempo, estações climáticas e à ordem natural das coisas no mundo). Esta é apenas uma possibilidade de interpretação desta obra. Você pode pesquisar e encontrar outras possibilidades.

Conexões

Arte, História e Ciência

Ao sabor de Cronos Um adulto normal nunca ocupa sua cabeça com problemas como tempo e espaço. Em sua opinião, tudo o que havia a aprender sobre esse assunto foi aprendido na infância. Eu, ao contrário, me desenvolvi tão lentamente que só comecei a me questionar sobre tempo e espaço quando já era adulto. EINSTEIN, Albert. In: NACHMANOVITCH, Stephen. Ser criativo. São Paulo: Summus, 1993. p. 111.

Você, certamente, já ouviu falar sobre a teoria da relatividade de Einstein, ou já a estudou em Física. Este cientista mostrou que espaço, tempo, massa e gravidade estão intimamente ligados.

A instalação Fontes (1992/2008), criada pelo artista brasileiro Cildo Meireles (1948-), foi feita com 6 mil fitas métricas, mil relógios e 500 mil números de vinil, formas de marcar, medir e enumerar as coisas, inclusive o tempo.

Acervo Cildo Meirelles

Assim como Albert Einstein (1879-1955) se interessou pelo tempo, muitos artistas também se interessaram e quiseram exprimir essa relação em suas obras. Filmes de ficção científica e outras modalidades de expressão artísticas já foram criados tendo por base as ideias desse e de outros cientistas fascinados pela passagem do tempo.

Instalação Fontes, (1992/2008), de Cildo Meireles 300 cm 3 600 cm 3 600 cm.

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Capítulo 1 • O que é arte?

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Há diversos instrumentos para marcar e medir o tempo e existe também uma ciência que estuda a ordem dos acontecimentos de fatos históricos, a Cronologia. A origem do termo está ligada ao nome do deus Cronos, que deu origem a muitas outras palavras de nosso cotidiano ligadas à ideia de tempo. A palavra cronologia é composta pela junção de duas palavras: chronos (tempo) e logos (estudo). Assim, a Cronologia é o estudo do tempo. Para estudar a história da arte no tempo de Cronos (cronologicamente), podemos escolher algum território da arte e partir de um ponto na linha do tempo (data/período). Com base nele, é possível investigar os movimentos e artistas ligados ao período escolhido. Também podemos escolher um local no mundo. Com o tempo e o local definidos, vamos começar nossa viagem. Considere, por exemplo, o ano de seu nascimento como ponto de partida. 1. Cole várias folhas de papel (formato ofício ou A4) na posição horizontal para conseguir uma linha bem comprida. 2. Selecione canetas, giz de cera e outros materiais para fazer anotações e desenhos na sua linha do tempo. 3. Agora, com a linha do tempo em mãos, vamos começar nossa viagem no túnel do tempo. 4. Marque na sua linha do tempo o ano do seu nascimento e faça um desenho que represente esse acontecimento. Deixe espaço para marcar o que aconteceu no passado (antes do seu nascimento) e o que vem acontecendo até os nossos dias. 5. Pesquise o que estava acontecendo no mundo da arte no ano em que você nasceu. Que música fazia sucesso? Aconteceu alguma exposição importante? Qual filme foi lançado? Algum jogo de videogame fazia sucesso? Enfim, o que estava acontecendo? Para fazer essa pesquisa, você pode perguntar a seus pais e familiares ou fazer buscas na internet.

Professor, é importante trabalhar com a história da arte sob o ponto de vista contemporâneo. Hoje a história já não é mais estudada por datas ou fatos, e sim por contextos, influências, desencadeamentos. Outra questão é trabalhar com os alunos como agentes da sua história, assim como os artistas também foram e são agentes da história do seu tempo. A linha do tempo pode ser feita coletivamente ou individualmente. Se optar por produção coletiva, escolha uma data, vá anotando as descobertas dos alunos conforme caminham os estudos e, ao final do trabalho, proporcione um momento para que os alunos compartilhem as descobertas feitas e registradas na linha do tempo, tendo como ponto de partida o ano em que nasceram.

6. Depois de descobrir o que aconteceu no ano em que você nasceu e enquanto dava os seus primeiros passos neste mundo, amplie a sua pesquisa usando os outros capítulos deste livro para encontrar obras e acontecimentos artísticos ocorridos antes do seu nascimento. 7. Na sequência, investigue o que aconteceu depois do ano em que você nasceu. Enquanto você crescia, o que mudou na arte? 8. Anote o que você descobriu na sua linha do tempo. Você pode escrever, desenhar, colar figuras... a criação da visualidade neste projeto é livre. 9. Capriche em seu trabalho e, no final, exponha a sua linha do tempo na sala de aula.

DICA Para assistir Para conhecer mais sobre a teoria da relatividade, você pode assistir ao filme de ficção científica Interestelar, dirigido por Christopher Nolan e lançado no Brasil em 2014.

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Projeto experimental Tempo Cronos e tempo Kairós Professor, proponha uma pesquisa aos alunos com base no filme Meia-noite em Paris. Cada um pode ficar responsável por pesquisar sobre a vida e obra de um dos artistas que aparecem no filme. Depois, em sala de aula, a turma pode apresentar os artistas (em forma de seminário ou roda de conversa).

Filme de Woody Allen. Meia Noite em Paris. Estados Unidos e Espanha. 2011

Ao conhecer as concepções sobre o tempo, a história e a arte, e ao usar como metáfora a mitologia grega, podemos apresentar as datas de duas formas: cronológica, de Cronos, ou dos momentos significativos, seguindo a linha de Kairós. Qual momento você gostaria de reviver na história da arte? No filme Meia-noite em Paris, lançado no Brasil em 2011 e dirigido por Woody Allen (1935-), o personagem principal faz viagens no tempo para viver épocas consideradas “de ouro” e conhecer personagens que marcaram a história da arte em várias linguagens. Nessa fantasia com tom de comédia romântica, podemos encontrar artistas do passado como o escritor Ernest Hemingway (1899-1961) e os artistas plásticos Pablo Picasso (1881-1973), Salvador Dalí (1904-1989), Man Ray (1890-1976), Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), Paul Gauguin (1848-1903) e Edgar Degas (1834-1917), entre outros, que viveram, cada um a seu modo, os dois tempos Kairós e Cronos. O filme retrata ainda a vida nos ateliês e cafés da cidade-luz, Paris. Como dica, a turma poderia assistir a este filme ou outro, inclusive filmes do gênero cinebiografia, para conhecer mais sobre os tempos significativo e cronológico, nos quais artistas de diferentes épocas e contextos já estiveram mergulhados. Depois de estudar sobre um artista ou grupo, você e seus colegas podem debater os seguintes temas: • Como vivemos nossos tempos? • Somos protagonistas da nossa história e marcamos presença no tempo? • Cada época, no filme, apresenta um contexto cultural. Será que, para compreender a história da arte, temos de estudar não apenas o tempo cronológico, mas também o contexto de cada época? Compreender suas lógicas e oportunidades? • Ao estudar sobre artistas de tempos passados ou do presente, como percebemos a forma pela qual eles lidaram com seus conflitos nos processos de criação? Agora, você é convidado a criar! Muitos artistas são inspirados por outros da mesma época ou épocas anteriores. E você, que artista o inspira ou influencia seu processo criador? Que tal escolher uma linguagem artística (materialidades, temas, elementos dessa linguagem) e criar sua própria obra? Uma pesquisa ampliada sobre o processo de criação dos seus artistas preferidos pode ajudá-lo neste projeto. Cartaz do filme Meia-noite em Paris (2011), de Woody Allen.

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Capítulo 1 • O que é arte?

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FIQUE DE OLHO:

Enem e vestibulares 1. (Vunesp-SP) A peça Fonte foi criada pelo francês Marcel Duchamp e apresentada em Nova Iorque em 1917. (Fonte – obra de Marcel Duchamp, fotografada por Alfred Stieglitz.)

Resposta: a A linguagem criada pelos artistas dadaístas como Duchamp denuncia as transformações que ocorreram no mundo da arte no século XX e ainda influencia a arte contemporânea. O ready made de Marcel Duchamp conhecido como Fonte, de 1917, propõe a dessacralização da arte, apresentando um objeto do cotidiano como obra de arte. Depois dessa obra, a arte nunca mais ficaria presa a regras fixas e padrões, porque, como fruto da mente humana, está sempre em movimento. Da mesma forma que o homem está sempre criando novas formas de ver e expressar o mundo.

A transformação de um urinol em obra de arte representou, entre outras coisas, a) a alteração do sentido de um objeto do cotidiano e uma crítica às convenções artísticas então vigentes. b) a crítica à vulgarização da arte e a ironia diante das vanguardas artísticas do final do século XIX. c) o esforço de tirar a arte dos espaços públicos e a insistência de que ela só podia existir na intimidade. d) a vontade de expulsar os visitantes dos museus, associando a arte a situações constrangedoras. e) o fim da verdadeira arte, do conceito de beleza e importância social da produção artística.

(Inserção em circuitos ideológicos)

Cildo Meireles. Foto: Pat Kilgore

Resposta: e A relação entre história e arte se revela em muitas produções artísticas e vem sendo explorada em provas de vestibulares, demonstrando a importância de o aluno dominar várias competências, como compreender fenômenos. O estudo da produção de Cildo Meireles, principalmente a da década de 1970, pode ajudar o aluno a aprofundar os conhecimentos sobre a história política do Brasil e o papel da arte nesse contexto.

Cildo Meireles. Foto: Pat Kilgore

2. (UEL-PR) Observe as imagens a seguir, ambas da década de 1970.

(Quem matou Herzog?)

(Disponível em: <www.macvirtual.usp.br>. Acesso em: 18 out. 2009.)

Assinale a alternativa que contém as informações corretas com relação ao autor de ambos os trabalhos, assim como o contexto brasileiro do qual fizeram parte. a) Hélio Oiticica, no contexto de pressão, fruto da crise da bolsa de valores de Nova Iorque de 1929 que afetou o mundo.

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b) Artur Barrio, no contexto do surgimento da bossa nova, importante momento cultural do país. c) José Leonilson, no contexto de celebração, em virtude da industrialização recente no Brasil. d) Waltércio Caldas, no contexto da popularização do carnaval, o que implicava destaque internacional para o país. e) Cildo Meireles, no contexto de censura e medo, derivados da repressão e do regime militar.

Eugène Delacroix. 1830. Óleo sobre tela, 260 cm  325 cm. Museu do Louvre, Paris

3. (Unicamp-SP)

Observe a obra do pintor Delacroix, intitulada A Liberdade guiando o povo (1830), e assinale a alternativa correta. a) Os sujeitos envolvidos na ação política representada na tela são homens do campo com seus instrumentos de ofício nas mãos. b) O quadro evoca temas da Revolução Francesa, como a bandeira tricolor e a figura da Liberdade, mas retrata um ato político assentado na teoria bolchevique. c) O quadro mostra tanto o ideário da Revolução Francesa reavivado pelas lutas políticas de 1830 na França quanto a posição política do pintor. d) No quadro, vê-se uma barricada do front militar da guerra entre nobres e servos durante a Revolução Francesa, sendo que a Liberdade encarna os ideais aristocráticos.

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Resposta: c Esta obra celebra a Revolução de 1830, na França; é a representação do ideário liberal defendido pela Revolução Francesa e também adotado por Eugène Delacroix, um dos grandes nomes da pintura romântica. A arte cumpre o seu papel de nos provocar, de nos fazer refletir sobre a vida e a sociedade.

Capítulo 1 • O que é arte?

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Fox Photos/Hulton Archive/Getty Images

E X P E D I Ç Ã O C U LT U R A L

Leonardo da Vinci. Século XV. Biblioteca do Congresso, Washington, D.C. Foto: SPL/Latinstock

Operário no parapeito de um telhado adjacente tomando notas sobre o desmoronamento de um edíficio na rua Cornhill em Londres, em agosto de 1927.

Vamos começar uma expedição cultural? Que tal fazer registros sobre lugares da sua cidade? Pode ser um lugar em que você esteja, um lugar que se transformou com o tempo ou sobre como sente e percebe o mundo neste local. Observações sobre o cotidiano podem registrar fatos importantes, como na imagem acima, em que vemos um operário fazendo anotações sobre o desmoronamento de um prédio comercial. Ao mesmo tempo, um fotógrafo registra o desmoronamento e o registro feito pelo operário. Ao lado, vemos uma página do caderno de anotações de Leonardo da Vinci com desenhos, esquemas ilustrativos e textos que mostram diferentes formas de capturar momentos e ideias e processos de criação de arte. Leve sempre com você, nestas expedições, um caderno de anotações (seu diário de bordo) para registrar sensações ou momentos que você considerar marcantes, e para desenhar, escrever, colar coisas que você encontrar pela vida.

Página do caderno de anotações de Leonardo da Vinci, publicada no século XIX.

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DIÁRIO DE BORDO Como podemos responder à pergunta: “O que é arte?” Há apenas uma única resposta? Se conseguirmos chegar a alguma conclusão, essa ideia poderá mudar futuramente? É da natureza humana pensar sobre tudo, ter novas ideias e concepções. Podemos chamar de arte tanto as obras que estão expostas em museus e galerias quanto os acontecimentos artísticos, como as performances ou intervenções urbanas? Por quantas linguagens a arte se expressa? São muitas e diversas as linguagens artísticas: música, dança, teatro, performance, escultura, pintura, gravura, desenho etc. Então, onde está a arte? Dentro ou fora das instituições culturais? Como conhecê-la e reconhecê-la? Ao observarmos as obras dos artistas destacados neste capítulo, podemos concluir que a arte tem mudado nos últimos tempos e que, em cada tempo e lugar, ela teve papéis e funções diferentes. Cada artista criou com base em sua poética e visão de mundo, cada civilização reagiu às criações artísticas, aceitando-as ou não, emocionando-se, tendo experiências estéticas ou não, mas o fato é que a arte está sempre em fluxos, em movimentos, gerando acontecimentos estéticos que mostram como os seres humanos sentem o mundo. Por essa razão, sabemos que a arte é importante, sabemos o que ela já foi, mas não sabemos o que será, porque a arte está sempre nos surpreendendo e se renovando. Não poderia ser diferente, porque a arte é produto da cultura humana. É a cultura em fluxos. Reflita, com base nos conteúdos apresentados no capítulo, sobre as indagações a seguir. Registre suas reflexões no seu caderno de anotações que chamaremos de Diário de bordo.

• Diante das obras apresentadas neste capítulo, o que mais lhe chamou a atenção?

Professor, verifique de quais linguagens da arte a turma mais gosta e, se julgar interessante, organize um festival de arte na escola. Não se esqueça de que o diário de bordo (caderno de anotações) funciona como um importante instrumento de avaliação; incentive os alunos a registrar suas experiências.

Professor, a respeito da pergunta “Qual é a sua opinião sobre o que é arte?”, sugerimos que os alunos retomem o que foi respondido na seção “Giro de Ideias”, página 19, e avaliem se a opinião se manteve ou se ela se modificou, após o estudo dos temas tratados neste capítulo. Veja mais ideias e atividades no Diálogo com o professor que você pode desenvolver sobre arte e os contextos em que ela é produzida.

Sobre o que você gostaria de saber mais?

Anderson Moreira Fotografia

• Qual é a sua opinião sobre o que é arte? • Suas ideias a respeito de arte mudaram depois de estudar este capítulo? • Você ficou com vontade de criar em alguma linguagem artística? Qual?

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CAPÍTULO

2

POR LÍNGUAS E LÍNGUAS

PARA ESTUDAR • A proposição das linguagens • Linguagens que se misturam • A tecnologia transformando as linguagens • As linguagens artísticas no tempo

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“Museu é o mundo; é a experiência cotidiana...”

© Corte

sia/Césa

Hélio Oiticica, 1966. Disponível em: <http:// pt.museuberardo.pt/exposicoes/helio-oiticica-museu-e-omundo#sthash.cYV9dmY5.dpuf>. Acesso em: 18 jan 2016. r e Clau

dio Oitici

ca

Invenção da cor, Penetrável Magic Square no 5 – De Luxe, de Hélio Oiticica, 1977. A obra faz parte de um grupo de seis trabalhos que são propostas de edificações ao ar livre. Encontra-se no Instituto Inhotim, MG. 4,70 m 3 15 m 3 15 m.

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Hélio Oiticica. 1964. Plástico e tecido. Cortesia do Projeto Oiticica, Rio de Janeiro. Foto: Andreas Valentin

TEMA

A PROPOSIÇÃO DAS LINGUAGENS Professor, ao final do Tema 1, o Projeto experimental – Nós, os “espect-atores” – propõe a prática de jogos teatrais com base nas proposições de Augusto Boal.

Nós somos os propositores: nós somos o molde, cabe a você soprar dentro dele o sentido da nossa existência. Nós somos os propositores: nossa proposição é o diálogo. Sós, não existimos. Estamos à sua mercê. Nós somos os propositores: enterramos a obra de arte como tal e chamamos você para que o pensamento viva através de sua ação. Nós somos os propositores: não lhes propomos nem o passado nem o futuro, mas o agora. CLARK, Lygia. Livro-obra. Rio de Janeiro, 1983. p. 233. [Republicado no Catálogo da Fundació Antoni Tàpies, Barcelona, 1977.]

Professor, na abertura de cada capítulo e temas de nosso livro, escolhemos trechos de obras literárias e letras de música que funcionam como nutrição estética e deflagradores de reflexão sobre o que vem a seguir nos textos presentes nas diferentes seções. É importante que você trabalhe esses textos junto aos alunos, conversando sobre suas primeiras percepções e interpretações, pois estes também têm função didática e poética. Sugira-lhes que ouçam as músicas e leiam os textos na íntegra para ampliar saberes e repertório cultural por meio de pesquisas. Parangolé, P4, Capa 1, com Nildo Mangueira, de Hélio Oiticica, 1964. Plástico e tecido, 150 cm 3 110 cm 3 20 cm.

Você já ouviu falar em artista propositor? O que será que isso quer dizer? A ideia de proposição na arte surgiu no Brasil com o movimento Neoconcreto (entre as décadas de 1950-1960), no qual os artistas buscavam ampliar a ideia de arte como experiência estética, expressiva, como uma linguagem em fluxo com a vida e com a cultura. Eles viam a arte como a criação de um espaço para discursos poéticos que pudessem ser lidos pelos olhos e pelo corpo; desejavam que o público tivesse uma atitude mais ativa diante das obras. O artista carioca Hélio Oiticica (1937-1980) e a artista mineira Lygia Clark (1920-1988) foram personalidades importantes para a divulgação da ideia da arte propositora no lugar da arte contemplativa. Eles defendiam que o público tivesse uma atitude ativa em relação à arte, ou seja, que fizesse parte do processo de criação ou interação com a obra. Os artistas que apresentam esse tipo de proposta em suas exposições ou espetáculos são conhecidos como artistas propositores. Na concepção do artista propositor, a arte precisa estabelecer relações com quem a cria e também com quem a aprecia. O artista não é o único criador da obra e sim um coautor do processo de criação, dado por um projeto descrito pelo artista, mas para o qual é feito um convite ao público para que participe. São projetos que propõem percursos poéticos, convidando as pessoas a penetrarem na obra de arte, para além da apreciação como mero espectador, e, portanto, a participarem ativamente da criação.

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Professor, existem diversos documentários, entrevistas, reportagens sobre a obra e vida do artista Hélio Oiticica, indicamos alguns sites: <http://tub.im/ iufmev>, <https://tub.im/qouh3k> e <http://www.tub.im/nkzqvm>. Inspirada na obra do artista, que propôs diversos tipos de parangolés, a cantora Adriana Calcanhoto fez a música Parangolé Pamplona. O processo de criação e a letra da música podem ser encontrados nos seguintes endereços eletrônicos: <https://tub.im/bb3he8> e <https://tub.im/2x7y7h>. Acessos em: abril de 2016.

Hélio Oiticica, artista propositor, pintor e escultor carioca, rompeu com as barreiras da arte. Ele explorou várias linguagens artísticas e diversas materialidades. Para incentivar o público a interagir com suas obras, Oiticica criava espaços com vários materiais alojados em salas e ninhos que convidavam as pessoas a adentrar lugares labirínticos. O espectador capturado era levado a viver uma experiência sensorial. Toques, cheiros, sons e imagens eram oferecidos para a proposição de uma arte vivencial. Esse tipo de obra é chamada de instalação porque o artista modifica o lugar, criando um espaço novo em que sensações podem ser vividas pelo público ao percorrer esse espaço tridimensional. As instalações penetráveis, termo criado por Hélio Oiticica, eram, assim, um lugar para sentir a arte com o corpo todo, um espaço aberto a sensações corpóreas e mentais, como na imagem a seguir.

Palavra do artista “Eu não sei o que eu faço, porque cada coisa que eu faço, é que me estabelece a referência de que estou fazendo alguma coisa, se as coisas estão sendo feitas, isto é inventadas, inauguradas, elas estão inaugurando, cada vez uma situação, uma realidade nova.” Hélio Oiticica OITICICA, Hélio. Carta de Hélio Oiticica a Ligia Clark de 11 de julho de 1974. In: Figueiredo, L. (org.). Ligia Clark - Hélio Oiticica: Cartas 19641974. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996, p. 227. Cortesia/César e Claudio Oiticica

A arte de HÉLIO OITICICA

Em outra obra, Oiticica fez “esculturas de vestir”, denominadas Parangolés (veja imagem na página anterior). Feitas com tecidos, plásticos e outros materiais, as estruturas criadas pelo artista podiam ser vestidas pelo espectador e, conforme ele se movimentava e dançava, as formas, cores e texturas se mostravam. Mais um exemplo da linguagem da arte como experiência entre o artista e o público.

Hélio Oiticica é considerado um revolucionário artístico. Ele buscou inspiração em diferentes cenários históricos e cenas sociais para criar. Foto de c.1965-66.

Hélio Oiticica. 1967. Cortesia Projeto Hélio Oiticica, Rio de Janeiro. Foto: César Oiticica Filho

Na arte contemporânea, muitos artistas se preocupam em criar uma obra que não seja apenas contemplada, mas também “vivenciada” pelo espectador. A obra não é mais apenas para ser vista: dela se pode participar.

Instalação Tropicália, Penetráveis PN2 e PN3, dimensões variáveis, de Hélio Oiticica, 1967. Os penetráveis são espaços táteis e, muitas vezes, performáticos. Esta obra é composta por materiais como tecidos, pedras, água, areia e madeira, entre outros, um convite para o público interagir com a obra.

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Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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Ofício da arte Profissional de expografia O artista Hélio Oiticica pensou em vários projetos de instalações que pudessem ser feitos e refeitos mesmo depois de sua época. Por isso, podemos vivenciar exposições desse artista mesmo após sua morte. Quem faz a execução de um projeto da instalação é o profissional formado na área de expografia. Esse profissional é responsável pela montagem e organização de exposições artísticas; é ele que pensa nos recursos necessários para a realização de uma exposição, como iluminação do espaço, localização das obras, a programação visual e difusão do evento, entre outras funções para que o acesso do público ocorra da melhor forma possível.

A arte de LYGIA CLARK Mineira de Belo Horizonte, Lygia Clark (1920-1988) acreditava que a arte se renovava a cada dia e o artista precisava criar sempre integrado ao seu tempo e a partir de suas experiências. A artista também defendia o direito à liberdade de criação, ao exercício da licença poética e à ideia de que a arte deve estar ligada à vida. Desafiando a tradição da arte que estabelecia que o artista é quem cria a obra e o espectador aquele que apenas aprecia, Lygia Clark, assim como outros artistas propositores, convidou o público para participar do ato criador em seus projetos artísticos. Um exemplo de sua arte propositora é a obra Caminhando (1963) em que arte e vida se entrelaçam. Nessa proposta, a artista nos convida a fazer um percurso poético e a refletir sobre arte e vida.

Giro de ideias: Arte propositora: você aceita o convite? Para Lygia Clark, é o ato de criar coletivamente (artista e público) que dá sentido à obra de arte. Este processo nos coloca em constante exercício poético e, talvez, desencadeie também reflexões sobre arte e vida. Para criar a obra Caminhando, a artista apropriou-se dos estudos do matemático e astrônomo alemão August Ferdinand Möbius (1790-1868) e, usando uma folha de papel, elaborou uma faixa de Möbius. Esse elemento é usado na sua obra com a proposta de escolher os caminhos para seguir metaforicamente por meio do corte da tesoura sobre uma folha de papel. Na medida em que é cortada, a folha vai criando muitos desdobramentos em linhas que se integram a outras ou se separam, assim como nossa vida que ora os caminhos se integram aos de outras pessoas, ora se desencontram. Neste exercício poético, a artista nos convida a refletir e a criar. Você aceita o convite para criar uma obra propositora semelhante à obra Caminhando? Veja como você pode realizar esta proposta. Siga o passo a passo a seguir:

Xica Lima

1. Corte ao meio uma folha de papel, obtendo duas faixas com formato retangular. Escolha uma delas para construir sua faixa de Möbius. Faixa de Möbius: é uma fita em que há apenas uma face contínua, ou seja, não há lado de dentro e nem lado de fora. Em sua aplicação prática, pode ser encontrada em mecanismos que usam correntes como as esteiras de aeroporto.

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Xica Lima

2. Passe cola em uma das extremidades da faixa que você escolheu.

Xica Lima

3. Torça a faixa de papel e aproxime as duas extremidades. Em seguida, cole as duas pontas, formando um oito na horizontal.

Xica Lima

4. Agora você tem uma faixa de Möbius.

Xica Lima

5. Escolha um local dentro da faixa de Möbius e comece a fazer um corte paralelo a um dos lados da faixa, você pode relacionar esta ação a alguma coisa presente em sua vida ou a algum sentimento que esteja experimentando no momento.

Xica Lima

Xica Lima

6. S iga cortando e fazendo escolhas de direções, tamanho e largura das fitas criadas nesta ação. Procure não romper a fita de papel, mas se isso acontecer não se preocupe.

Xica Lima

7. O resultado é imprevisível, mas geralmente percebemos que a primeira faixa de Möbius se multiplica em várias outras faixas de tamanhos diferentes.

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Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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Os “espect-atores”

Solicitar ao público que participe da obra tem sido uma prática bastante presente na arte contemporânea. Isso acontece não apenas nas artes visuais, mas também em outras linguagens, como na proposta de teatro do artista carioca Augusto Boal (1931-2009). Boal dizia que todo espectador pode ser ator. Dessa forma, Boal estabelecia que todos podiam fazer teatro, do burocrata de um escritório ao operário de uma fábrica, todos, sem exceção. Segundo Boal, espect-ator é o termo proposto para nos referirmos à ideia de que todos os seres humanos são espectadores, porque observam, e também atores, porque agem. Retirar a característica de passividade de quem assiste a uma encenação teatral é primordial. A passividade não combina com a proposição de arte trazida por Boal. A proposta é transformar, encontrar saídas para os problemas expostos no teatro e na vida. Nada está pronto e acabado, ao contrário: tudo está por se fazer. Convidando o público a participar das artes cênicas, e não somente ficar assistindo ao espetáculo de forma passiva, a linguagem do teatro torna-se disponível a todos, rompendo barreiras entre artistas e plateia. Esse tipo de proposta teatral incentivou grupos de teatro contemporâneo a convidar o público para uma atitude ativa na experiência cênica.

A arte de AUGUSTO BOAL Augusto Boal (1931-2009), diretor, dramaturgo e teórico carioca, criou um método de concepção e encenação teatral que reúne exercícios (monólogos corporais) e jogos (diálogos corporais) com a utilização de diversas técnicas, ao qual ele chamou de Teatro do Oprimido, conhecido pela sigla TO. O método foi pensado para um fazer teatral de atores e não atores, tendo como principais objetivos:

• democratizar os meios de produção teatral; • dar acesso ao universo teatral às camadas sociais menos favorecidas; • transformar a realidade por meio do diálogo e da representação teatral. A prática do Teatro do Oprimido busca a (des)mecanização física e intelectual dos atores ou dos não atores.

Palavra do artista “ Aquele que transforma as palavras em versos transforma-se em poeta; aquele que transforma o barro em estátua transforma-se em escultor; ao transformar as relações sociais e humanas apresentadas em uma cena de teatro, transforma-se em cidadão.”

© Instituto Augusto Boal

O Teatro do Oprimido é uma invenção brasileira, difundida no mundo inteiro. A ideia surgiu na década de 1970, quando Boal era diretor da companhia Teatro de Arena, na cidade de São Paulo. Podemos considerar Boal e seu método uma referência do teatro e da dramaturgia brasileira. Um exemplo de artista propositor.

Augusto Boal TEATRO do Oprimido. Ctorio.org.br. Disponível em: <http://ctorio.org.br/novosite/arvore-do-to/teatro-dooprimido/>. Acesso em: 18 jan. 2016.

Augusto Boal em um dos momentos de reflexões e exercícios do Teatro-Fórum.

Ofício da arte Dramaturgo(a) Profissional que cria ou adapta textos para as linguagens das artes cênicas (peças teatrais, novelas e filmes). A maior oportunidade de trabalho nesta área se encontra em cidades onde se concentram as grandes emissoras de TV, os grandes teatros, os grupos teatrais e as produtoras.

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Giro de ideias: O ”espect-ator” Augusto Boal chamava de “espect-ator” às pessoas da plateia que participavam diretamente de suas encenações. O termo proposto refere-se à ideia de que todos os seres humanos são espectadores, porque observam, e atores, porque agem.

• Há pessoas que são mais observadoras e outras mais atuantes. E você? Como você se vê?

• Você acredita, como Boal, que todos podem fazer teatro? O que achou da proposta desse artista?

DICA Para navegar Augusto Boal criou vários exercícios e propostas para que você possa se expressar por meio da linguagem teatral. Para conhecer mais sobre o Centro do Teatro do Oprimido, instituição que desenvolve a metodologia criada por Boal, visite o site <http://tub.im/s4n6g3> (acesso em: 14 mar. 2016). Fazendo uma pesquisa na internet, você também encontrará livros escritos por Boal, disponíveis para leitura, em formato digital.

Conexões

Arte e Filosofia

Teatro-fórum Ser cidadão não é viver em sociedade, é transformá-la Augusto Boal, 1996.

A produção artística de Augusto Boal deu-se principalmente nos tempos de repressão militar no Brasil (1964-1985). Era uma forma de resistência às políticas de silêncio em relação à expressão artística. Uma das proposições de Boal é o teatro-fórum. Trata-se de um processo de criação em grupo. Os temas podem surgir do cotidiano das pessoas, das coisas que nos incomodam todos os dias, que nos oprimem, das situações-problema para as quais precisamos encontrar soluções, buscar alternativas. No teatro-fórum, o texto pode ser a obra de algum autor (dramaturgo) ou construído pelos participantes, mas nas duas formas o público e os atores dão opiniões sobre o desenvolvimento da peça e a solução do conflito gerado na trama. Vamos criar um teatro-fórum na sala de aula? Escolha um tema da atualidade, uma questão polêmica que possa render uma boa discussão. Uma parte da turma formará o grupo de atores, que pode improvisar personagens e diálogos ou se basear em algum texto; a outra parte da turma representará os espectadores. Escolha alguém para ser o mediador, aquele que conduz a interação entre os atores e o público.

Mediador: na concepção do teatro-fórum, mediador é a pessoa que organiza o debate e pode convidar uma pessoa da plateia para participar da cena com os atores a qualquer momento. Pode também provocar questões que levem o público a refletir sobre o problema e a encontrar possíveis caminhos para transformar a sociedade.

Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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Arte pública A arte pública pode estar por todos os lados, em sua cidade ou em outras localidades que você poderá visitar. São instalações, esculturas, intervenções urbanas, pinturas em fachadas de prédios e outras ocorrências também da linguagem das artes cênicas e audiovisuais, como as projeções artísticas.

O teatro popular de rua O teatro popular de rua é um exemplo dessa arte que se realiza em espaço aberto, com uma plateia que, minutos antes da encenação, ainda não era plateia, formada por pessoas que estavam naquele local ou transeuntes que, pela curiosidade, ali pararam para assistir ao espetáculo. Durante a apresentação, essa plateia é livre, pode comer pipoca, ir embora se não gostar, rir ou chorar a qualquer momento do espetáculo, até mesmo comentar a cena. O importante é participar, é se envolver com o clima da encenação apresentada. Misturando teatro, dança, música, circo, em uma combinação de várias linguagens artísticas, o teatro popular de rua é uma arte híbrida. A história de sua origem é antiga, passa pela existência nos rituais da Pré-História, pelas criações dos gregos da história antiga, percorrendo castelos e burgos medievais, chegando até os dias de hoje.

Mr. Lopes - Les Souffleurs commandos poétiques

As performances e intervenções urbanas são linguagens exploradas também em apresentações cênicas.

Sopros poéticos ao pé do ouvido

Acervo da Cia EnvieZada

A vida cotidiana contemporânea nas cidades é tão corrida que, muitas vezes, as pessoas não se permitem estar disponíveis à poesia. Assim, o grupo performático francês Les Souffleurs (Os sopradores), por meio de sua arte, ofeP erformance do grupo Les Souffleurs, em Paris, rece oportunidades para que as pessoas tenham acesso a França, no ano de 2004. discursos poéticos e possam desacelerar o ritmo do dia a dia. Esse grupo declama poesias nos ouvidos das pessoas que passam pelas ruas das cidades do mundo inteiro por onde viajam, até mesmo no Brasil, onde já estiveram várias vezes. Eles utilizam canos de fibra de vidro, carbono ou papelão de aproximadamente 1,80 m de comprimento para soprar as poesias nos ouvidos do público, que experimenta novos modos de apreciar a arte das palavras. Dessa prática nasceu o nome do grupo (Os sopradores) que vem desenvolvendo esse tipo de linguagem pública desde 2001.

A rua é o espaço cênico No Brasil, há vários grupos de teatro que também pesquisam a linguagem de intervenção urbana nas artes cênicas. Imaginem uma cidade com suas ruas e praças... Um grupo de atores faz sua arte acontecer em pleno espaço da rua. As pessoas que passam são convidadas a assistir ao espetáculo que ali se desenvolve e são estimuladas não apenas a acompanhar os atores que usam o espaço da cidade como palco, mas a ouvir o texto teatral por meio de aparelhos de MP3 com a gravação e a trilha sonora. As palavras remetem a trechos de poemas que se misturam aos sons da rua e aos do

Imagens do espetáculo Caminhos – uma intervenção urbana, da Cia EnvieZada, nas ruas do Rio de Janeiro, RJ, 2012.

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Professor, em vários capítulos deste livro, trazemos exemplos de instalações, performances e intervenções urbanas. Se achar conveniente, peça aos alunos que busquem mais informações e exemplos sobre esses temas.

espetáculo na intimidade da audição de cada um. O público segue os atores e participa da encenação, que tem por linguagem a intervenção urbana. Como exemplo dessa ação artística, pode ser citado o espetáculo Caminhos – uma intervenção urbana, que aconteceu em diversas cidades do Brasil, como parte das atividades culturais do Projeto Arte Coletiva. Realizada pelo grupo de teatro Cia EnvieZada, criado em 2003 na Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio), a intervenção urbana Caminhos segue a proposta da companhia, que é a de desenvolver uma prática teatral de inclusão social, com espetáculos gratuitos para estimular a formação de público e também capacitar jovens para as artes. O grupo utiliza uma linguagem de intervenção urbana “caminhante”, que é um tipo de ação artística que se faz durante caminhadas pela cidade.

DICA Para navegar No site da Cia EnvieZada, você pode ouvir a trilha dessa montagem e ver vídeos das apresentações, entre outros trabalhos da companhia. Visite o endereço em: <http://tub.im/eghbfc> (acesso em: 28 mar. 2016).

Arte em todos os lugares Você pode ser surpreendido pelas linguagens artísticas ao perceber imagens, sons, luzes que iluminam uma cidade, ao deparar com uma escadaria toda colorida, ou ao sentar-se em um banco de praça. Isso é arte pública! Em várias partes do Brasil podemos encontrá-la; a seguir veremos alguns exemplos. Em 2012, em São Paulo, aconteceu a Urbe – Mostra de Arte Pública. A cidade foi invadida pela linguagem da arte, em um projeto no qual obras foram colocadas em locais em que o público podia simplesmente encontrá-las ao virar uma esquina, passar sobre um viaduto ou atravessar uma rua. A tecnologia também foi usada nessa mostra, que coloriu o espaço público com luzes e imagens projetadas.

© Urbanscreen

Observe a projeção feita na fachada do prédio da Prefeitura de São Paulo, na foto abaixo.

Arte pública: manifestação artística realizada em espaço público. Contempla desde esculturas como também as manifestações de pinturas murais, outdoors, grafites, performances, intervenções urbanas, entre outras.

Identidade, do coletivo Urbanscreen, 2012. Projeção na fachada do prédio da Prefeitura de São Paulo, SP, que fazia parte do projeto Urbe – Mostra de Arte Pública (2012), promovido pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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G. Evangelista/Opção Brasil

No Rio de Janeiro, o artista Jorge Selarón (19472013) trabalhou durante anos em uma escadaria situada entre os bairros da Lapa e de Santa Teresa. A escadaria do pintor e ceramista autodidata é conhecida como Escadaria Selarón, também chamada de “homenagem ao povo brasileiro”, como ele dizia. Selarón era chileno e morava no Rio de Janeiro desde 1990, ao lado da escadaria. Iniciada em 1990, a obra estava em constante elaboração, sendo feita inicialmente com os materiais que o artista tinha disponíveis. Eram, por exemplo, restos de construção, mas com o tempo a escada ganhou fama e azulejos foram enviados por pessoas de mais de 80 países. Cerca de duas mil peças foram colocadas na escada pelo artista até 2013, compondo um enorme mosaico. Hoje, o local é uma arte pública muito visitada no Rio de Janeiro. Veja ao lado a foto da escadaria. Em Fortaleza, no Ceará, há a Praça dos Leões, onde se pode sentar ao lado da escultura Rachel de Queiroz, obra em tamanho natural feita em bronze pelo artista paulista Murilo Sá Toledo, em 2012. A escritora e jornalista Rachel de Queiroz (1910-2003) foi a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1977.

DICA Para navegar Escadaria Selarón, de Jorge Selarón, elaborada entre 1990 e 2013, no bairro da Lapa, Rio de Janeiro, RJ. Também conhecida como escadaria do Convento de Santa Teresa, tem 215 degraus e 125 m de comprimento. Foto de 2008. Murilo Sá Toledo. 2005. Bronze. Praça dos Leões, Fortaleza. Foto: LC Moreira/Futura Press

O artista paulista Murilo Sá Toledo já realizou várias obras em espaços públicos. Vale a pena conhecer e apreciar suas esculturas, ver os locais em que essas obras estão expostas, visite o site: <http://tub.im/7ci54b> (acesso em: 28 mar. 2016).

Rachel de Queiroz, de Murilo Sá Toledo, 2005. Estátua em bronze, na Praça dos Leões, em Fortaleza, CE. Monumento em homenagem à escritora Rachel de Queiroz. Foto de 2013.

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Giro de ideias: Cotidiano e arte Vamos fazer uma enquete para pensar sobre o seu contato com a arte. No dia a dia, usamos linguagens para nos comunicar e expressar sentimentos e ideias. Algumas pessoas são mais extrovertidas, outras são mais quietas; algumas gostam de desenhar, outras de cantar ou escrever poemas.

• Qual linguagem artística você e seus colegas mais utilizam para se expressar? Resposta pessoal.

• Qual linguagem artística você costuma apreciar com mais frequência? Resposta pessoal. Professor, apresente aos alunos exemplos relacionados às linguagens artísticas, por exemplo: cinema, música, teatro, dança, performance, instalação e outras.

• Você ou alguém da turma conhece alguma obra de arte pública em sua cidade? Que tal vocês irem até lá? Em que lugar ela fica? Resposta pessoal. Professor, sugerimos o trabalho constante com o diário de bordo. É um ótimo material tanto para os alunos, em registros de experiências, como para você, a fim de avaliar o progresso da turma. A proposta é a de estimular a autonomia dos alunos, para que construam um repertório cultural e criem hábitos de visitação para além dos processos escolares.

Na pesquisa sobre arte pública em sua cidade ou em alguma localidade vizinha, investigue a história, o significado, o tipo de linguagem das obras de arte, o autor, os materiais e os processos de criação, entre outros aspectos. Os saberes descobertos e suas experiências no contato com a arte pública nessa visita podem ser registrados no seu diário de bordo. Leve-o sempre com você, porque nunca se sabe onde podemos encontrar a arte. Depois de fazer a pesquisa sobre arte pública, anote um aspecto que você considera interessante comentar.

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Professor, algumas obras precisam ser divulgadas para serem valorizadas e conservadas. Esta é uma forma de cuidar do patrimônio cultural local e de desenvolver nos alunos o sentimento de pertencimento, de protagonismo consciente e de seu papel transformador de realidades.

Conexões

Arte e Comunicação

Divulgando a Arte As obras de arte pública podem ficar expostas, acontecer por um tempo ou ser permanentes em determinado local. Agora que você começou a estudar sobre arte pública, procure visitar algum espaço em que as linguagens artísticas estejam acontecendo ou estejam em exposição permanente. Nos sites das Secretarias de Cultura municipais e estaduais, e também nos de outras instituições culturais, é possível encontrar endereços de obras ou a programação cultural da sua localidade.

A obra de Tatti Moreno (1944-), no Dique do Tororó em Salvador, Bahia é um exemplo de arte pública. Para compor a obra o artista criou um conjunto de esculturas em metal policromado e o colocou sobre o espelho de água. As esculturas representam divindades religiosas presentes na cultura afrodescendente. Você pode conhecer um pouco mais sobre esta obra visualizando a imagem ao lado. Que tal pesquisar se próximo a você há esculturas públicas e qual seu tema, conteúdo, contexto ou motivo do seu surgimento?

Mauricio Simonetti/Pulsar

Obras de arte que estão em espaços públicos podem apresentar diferentes assuntos ou ter sido criadas pelos mais variados motivos e contextos, respeitando a diversidade religiosa e cultural brasileira.

Conjunto de esculturas em metal do artista Tatti Moreno alocadas no Dique do Tororó, na cidade de Salvador, feitas em homenagem à cultura afrodescendente brasileira.

Como sugestão de pesquisa de onde encontrar obras de arte públicas, acesse o site <http://tub. im/96565g> para obter mais informações sobre Urbe – Mostra de Arte Pública. Enquanto você pesquisa e se envolve na aventura de visitar obras públicas em sua cidade ou localidade é importante fazer registros por meio de fotografias, anotações em seu diário de bordo, ou em seu celular. Atuando como um repórter, você pode entrevistar as pessoas que passam por esses locais perguntando o que elas pensam a respeito da arte pública. É importante socializar as informações que você recolheu nessa experiência. Para isso, você pode criar um blog, uma página em uma rede social, um jornal ou uma revista impressa. Além das obras de arte pública da sua cidade ou localidade, você pode pesquisar e apresentar obras de outras partes do mundo. Para começar a criar sua página virtual, jornal ou revista impressa, faça um mapa das principais ideias e informações que pretende disponibilizar. Pense nas cores, nas imagens, nos modelos de letras, nas formas, em outros recursos visuais de uma página eletrônica ou impressa, a fim de conseguir uma programação visual bem dinâmica e atraente. Pensando nisso, o que você considera importante colocar? Cultura afrodescendente: é o conjunto de manifestações artísticas, religiosas ou de costumes que vieram de povos africanos e de seus descendentes. Assim como várias outras culturas, a afrodescendente contribuiu muito para o desenvolvimento da cultura brasileira.

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Projeto experimental

© Instituto Augusto Boal, Rio de Janeiro

Nós, os “espect-atores”

O diretor de teatro e dramaturgo Augusto Boal durante palestra ministrada na década de 1990.

Pensando em transformar o espectador (não ator) em ator, Augusto Boal propõe que as pessoas interessadas em fazer teatro façam alguns experimentos. O teatro, como linguagem, pode explorar situações presentes no cotidiano das pessoas, de forma viva e em constante mudança, não como um produto acabado. As técnicas teatrais podem ajudar a construir essa linguagem de forma apurada. São situações que proporcionam a compreensão de como essa linguagem se constitui. Chame alguns colegas e experimente se expressar pela linguagem teatral. A seguir, como aquecimento, vamos fazer alguns exercícios.

Processos de criação Hipnotismo com a mão

Esse jogo teatral, inspirado na proposta de Boal, visa buscar novos movimentos corporais, quebrando a mecanização do corpo. É um jogo bem divertido e dinâmico. O importante é que sejam feitos movimentos corporais inusitados, para que cada um possa “desmecanizar” seus gestos e estimular sua consciência corporal. Faça esse exercício em duplas. Um participante, que será o hipnotizador, deve colocar a palma da mão, aberta, a uma distância de uns 20 cm do nariz do outro participante, que será o hipnotizado. A regra do jogo é que o hipnotizado não deve afastar o nariz da mão do hipnotizador, mantendo, a qualquer custo, a mão na distância inicial. O hipnotizador inicia um movimento com a mão, fazendo o hipnotizado ir para a frente, para trás, para baixo e para cima. Todas as possibilidades de movimentos devem ser estimuladas, até mesmo passar por baixo das pernas do hipnotizador, por exemplo.

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Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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Adivinhando a mímica

A mímica é um jogo que visa trabalhar unicamente a comunicação não verbal, estimulando a comunicação exclusiva do corpo, sem o uso de qualquer palavra. Organize a turma em dois grupos. Aqui a ideia é comunicar um nome de filme, livro, peça de teatro ou mesmo de uma novela ou série sem usar as palavras, apenas com gestos e expressões corporais e faciais. Um animador, que pode ser o professor, convidará um representante de cada grupo e falará em tom baixo, no ouvido dos representantes, o nome escolhido, sem que os grupos escutem. Ao sinal do animador, os representantes deverão retornar para o grupo de origem e transmitir, somente por meio de sua expressão corporal, o nome que ouviu do animador. O grupo que acertar o nome primeiro ganha ponto, gerando uma disputa saudável e divertida. Vocês podem fazer quantas rodadas desejarem, mas combinem antes o número total. Conhecendo e potencializando o corpo

Professor, Augusto Boal nos deixou uma obra ampla em que descreve e fundamenta vários exercícios que trabalham a linguagem do teatro. Veja mais comentários em Diálogo com o professor.

É fundamental o conhecimento do próprio corpo. Por meio de exercícios, a proposta é perceber limites e possibilidades corporais. Você pode, por exemplo, saltar, correr, movimentar-se lentamente, fazer um gesto com intensidade, outro com leveza, e assim por diante. Explore sua voz na entonação de palavras, combinadas com expressões fisionômicas e em outros exercícios que possam revelar as potencialidades de seu corpo. O corpo humano é muito expressivo, e podemos potencializar ainda mais essa expressão por meio de jogos teatrais. Por exemplo, em vez de dizer algo na linguagem verbal, utilize a linguagem corporal, comunicando-se sem palavras, apenas com gestos. Chame os colegas e combine que cada um vai escrever uma palavra em um pedaço de papel qualquer e, depois, colocá-lo em uma caixa. A caixa ficará no centro de uma roda formada por vocês. No jogo, um de cada vez vai até o centro da roda, retira uma palavra e apresenta seu sentido, não em linguagem verbal, como costumamos fazer quando estamos conversando, mas usando gestos corporais, com o corpo todo, ou apenas com expressões faciais. O teatro jornal

Como sugestão de mais um jogo teatral, vale a pena experimentar o teatro jornal. Escolha um notícia de jornal e a apresente de forma improvisada. Uma pessoa lê a notícia e outra cria um modo de mostrá-la com gestos em cena. Professor, para realizar esta atividade é importante que o texto escolhido pelo grupo seja conhecido por todos.

Dramaturgia simultânea

Na dramaturgia simultânea, a proposta de jogo explora a interação do público. A atividade requer que se escolha um trecho de um texto teatral de autores conhecidos, como Ariano Suassuna, Gianfrancesco Guarnieri, Chico Buarque de Holanda, Shakespeare, ou outro texto de algum autor que vocês possam pesquisar e estudar. No caso de Romeu e Julieta, dois amigos devem realizar a cena em que os jovens namorados morrem, o ponto alto da tragédia. Contudo, no momento da “decisão”, a cena deve ser interrompida, e outra dupla, que esteja assistindo à cena, decide com os atores da primeira dupla se esse é o melhor final. Assim, espectadores e atores podem sugerir outras soluções para o drama de amor impossível do casal. Nesse tipo de técnica, o público participa do espetáculo, podendo dar palpites e sugerir soluções, debatendo a situação e exercitando a compreensão e a argumentação sobre a história desenvolvida.

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LINGUAGENS QUE SE MISTURAM Alex Flemming. 1998. Tinta cerâmica sobre vidro. Acervo do Metrô de São Paulo, São Paulo. Foto: Rita Demarchi

TEMA

Obra de arte pública Estação Sumaré, de Alex Flemming, 1998. Tinta cerâmica sobre vidro, 175 cm 3 125 cm 3 1 cm. Foto de 2010.

A língua é minha pátria E eu não tenho pátria Eu tenho mátria E quero frátria Poesia concreta, prosa caótica Ótica futura

Professor, ao final do Tema 2, o Projeto experimental – Espelhos da alma – propõe a criação de um autorretrato.

VELOSO, Caetano. Língua. In: Língua. Rio de Janeiro: Universal Music, 2006. CD. Faixa 14.

As linguagens artísticas nascem da necessidade humana de se comunicar e agir no mundo, de estabelecer diferentes maneiras de dialogar sobre tudo o que o ser humano percebe, vive e sente. Linguagens que foram criadas por pessoas que precisavam contar sobre suas experiências, manifestar expressões, opiniões e poéticas. Os artistas criaram e continuam a criar linguagens na arte. Muitas vezes, vemos pinturas e desenhos, lemos livros, ouvimos músicas, assistimos a peças teatrais, a espetáculos de dança, a filmes de modo tão natural que não nos damos conta de como essas linguagens são construídas. Em cada tempo e lugar, as linguagens tiveram um modo e um propósito ao serem criadas, e também receberam algum tipo de valor ou grau de importância. Estudar sobre as linguagens artísticas possibilita ampliar conhecimentos e desenvolver habilidades para que possamos ler e criar em arte. As linguagens podem estar misturadas ou não. Na poética do artista Alex Flemming (1954-), pintor, escultor e gravador paulistano, observamos um exemplo de como as linguagens podem se misturar. Ao entrar e sair dos trens na estação de metrô Sumaré, em São Paulo, o público encontra fotografias de pessoas comuns acrescidas de intervenções feitas pelo artista: ele colocou trechos de poemas de vários autores sobre os rostos retratados para criar a obra de arte pública Estação Sumaré. Parte dessa obra pode ser observada no início desta página.

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Com essa obra, o artista estabelece uma proposta de diálogo com as pessoas, desejando que o público que frequenta a estação de metrô “converse” com ela. Ao olhar os rostos das pessoas, que, para os passageiros do metrô, podem ser desconhecidas, o artista propõe ao público que se aproxime da obra e, motivados pela curiosidade, percebam letras, palavras, imagens e, com isso, pensem a respeito. Questionamentos podem surgir no contato com esse tipo de arte: “Quem será essa pessoa?”; “Do que ela gosta?”; “Quais são seus sonhos?”; “Que poesia pode haver em um rosto desconhecido?”. Para o artista, todos nós, em nossa essência, temos poesia.

A arte de ALEX FLEMMING

Quando a estação de metrô Sumaré, em São Paulo, estava sendo construída, Flemming instalou uma cabine de fotografia em uma avenida movimentada da cidade e pediu às pessoas que passavam que se deixassem fotografar. Depois, o artista escolheu um poema para cada rosto e fez montagens com a imagem e as palavras dos poemas. Ele não expôs o poema de forma linear como estamos acostumados a ler em páginas de livros, por exemplo. Ele estabeleceu uma composição explorando um jogo entre formas, letras e palavras que desafiam a interpretação do público. Depois de elaborar os arranjos das linguagens verbal (palavras) e visual (fotografias) nas produções, Flemming mandou imprimir as imagens em placas de vidro com pintura industrial. Técnicos contratados montaram a instalação que compõe a obra da estação Sumaré.

Alex Flemming. 1998. Tinta cerâmica sobre vidro. Acervo do Metrô de São Paulo, São Paulo. Foto: Rita Demarchi

A obra de arte pública Estação Sumaré também ficou conhecida como Os paulistanos. Nela, trabalharam vários outros profissionais para as etapas de construção de sua obra, procedimento comum na arte contemporânea. Ao todo são 21 imagens que se repetem dos dois lados da estação de metrô, entre elas há também a do próprio artista (ver abaixo), e podem ser observadas pelo público que passa todos os dias ao ir para o trabalho, para a escola ou para seus passeios.

Palavra do artista “Eu sempre achei que artista é a pessoa que produz muito e produz bem. Acho que o importante é o artista mudar sempre. Artista é Picasso, é Matisse, é Max Ernst, é Volpi. São pessoas que mudaram muito o seu próprio estilo, produziram muito, não tiveram medo de ousar. Então, todo artista muda, porém sempre numa cadeia, você muda, mas permanece o mesmo, por mais incrível que isso pareça e por mais estranho que isso soe.” Alex Flemming EM BERLIM, Alex Flemming fala sobre arte, melancolia e caos. Não só o gato, 3 jul. 2014. Disponível em: <http:// www.naosoogato.com.br/ cultura/em-berlim-alexflemming-fala-sobrearte-melancolia-e-caos/>. Acesso em: 18 jan. 2016.

Tuca Vieira/Folhapress

Alex Flemming tem pesquisado e desenvolvido uma arte mista. Ele usa tanto a linguagem verbal quanto a visual como fotografias, design e pinturas. A relação entre a linguagem visual e a verbal é recorrente em várias de suas produções.

Alex Flemming e sua obra de esmalte sobre metal da série Olhos, ainda não exibida no Brasil. Foto de 2006.

Obra de arte pública Estação Sumaré, de Alex Flemming, 1998. Tinta cerâmica sobre vidro, 175 cm 3 125 cm 3 1 cm. Foto de 2009.

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Giro de ideias: Meu autorretrato Professor, explique aos alunos que o hibridismo na arte é a junção de várias linguagens em uma única composição artística. Mais adiante, vamos explorar o conceito de arte híbrida.

Leia o poema a seguir:

O autorretrato No retrato que me faço - traço a traço às vezes me pinto nuvem, às vezes me pinto árvore... às vezes me pinto coisas de que nem há mais lembrança... ou coisas que não existem mas que um dia existirão... e, desta lida, em que busco - pouco a pouco minha eterna semelhança, no final, que restará? Um desenho de criança... Corrigido por um louco! QUINTANA, Mário. O autorretrato. In: QUINTANA, Mário. Apontamentos de História Sobrenatural. Rio de Janeiro Alfaguara. © by Elena Quintana.

Da mesma forma que os pintores, escultores e artistas, o poeta Mário Quintana também construiu seu autorretrato, mas em vez de tintas e pincéis, usou a métrica e as palavras e, no lugar da tela, apresentou-nos um poema. Nesse poema, o lírico se pinta de forma metafórica com elementos da natureza e coisas imaginárias, fazendo uso da linguagem figurada. O autorretrato é mais sugestivo do que descritivo, revelando que a sua autoimagem não está acabada, mas que é feita e refeita a todo momento com coisas vividas e com aquelas que ainda vai viver. Como você construiria o seu autorretrato? Que elementos selecionaria para compor sua imagem em forma de poema? Com momentos importantes de sua vida? Fazendo referência a pessoas que marcaram sua história? Você pode escrever um poema rimando as palavras ou em versos brancos, como fez Mário Quintana. Dê asas a sua imaginação! Ao finalizar o seu poema, escolha uma fotografia sua que represente sua identidade. Tire uma cópia, imprima e sobre esse material escreva o seu poema da maneira que achar mais adequada para expressar o seu eu lírico tanto na linguagem verbal quanto na visual. No final, você terá criado um autorretrato em uma linguagem híbrida. Você e seus amigos poderão fazer uma exposição dos autorretratos.

Métrica: é a medida do verso de um poema, definida pelo número de sílabas poéticas que ele possui. Poema: gênero literário que se organiza em versos e estrofes. Metáfora: em sentido estrito, é a substituição do significado de uma palavra por outro, a partir de uma semelhança. Disso, resulta a acumulação de dois significados diferentes na mesma palavra. Em sentido amplo, é qualquer uso de palavra em sentido figurado. Linguagem figurada: é a linguagem simbólica, não literal, utilizada principalmente em textos literários. Versos brancos: versos sem rimas.

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Arte e Língua Portuguesa Alex Flemming. 1998. Tinta cerâmica sobre vidro. Acervo do Metrô de São Paulo, São Paulo. Foto: Rita Demarchi

Conexões

Palavras e imagem [...] Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, Nas selvas cresci;

Professor, com base na teoria de Umberto Eco, acreditamos que a obra é aberta. Assim, a proposta aqui tem por objetivo desenvolver a percepção e possibilidades de interpretação das obras artísticas. Para tanto, você, como mediador cultural, pode encontrar outros caminhos. O importante é que os alunos compreendam que cada artista cria a partir de sua poética e intenção.

Guerreiros, descendo Da tribo Tupi. Da tribo pujante, Que agora anda errante

Professor, leve para a classe o poema de Gonçalves Dias, I-Juca-Pirama (ou solicite a pesquisa dos alunos), para uma leitura integral do texto possibilitando uma compreensão global dos acontecimentos narrados e descritos pelo eu lírico.

Por fado inconstante, Guerreiros, nasci; Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte; Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi. [...]

Obra de arte pública Estação Sumaré, de Alex Flemming, 1998. Tinta cerâmica sobre vidro, 175 cm 3 125 cm 3 1 cm. Nesta imagem vemos o autorretrato do artista.

DIAS, Gonçalves. I-Juca-Pirama. In: MINISTÉRIO DA CULTURA. Fundação Biblioteca Nacional. Departamento Nacional do Livro. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000007.pdf>. Acesso em: 14 mar. 2016.

Você sabe o que é uma linguagem híbrida? O hibridismo na arte acontece quando há a junção de várias linguagens em uma composição artística. O artista Alex Flemming nos apresenta um exemplo desse tipo de linguagem artística que mistura linguagens e poéticas. E como dissemos anteriormente isso pode provocar um desafio na leitura dessas obras. Vamos aceitar esse desafio? Observe a imagem acima criada por Flemming. O que você percebe? Agora leia o trecho do poema I-Juca-Pirama, apresentado acima, de Gonçalves Dias (1823-1864), importante poeta do Romantismo brasileiro, especialmente na temática literária do indianismo. Que interpretação você faz desses versos? Você conhece a história do personagem que protagoniza o poema? Agora observe a imagem novamente. Você consegue identificar as palavras sobre a imagem? Analise a maneira como o artista fez essa composição entre palavras e imagem. Como você interpreta esse conjunto de palavras e imagem? Converse com seus amigos e professor sobre a percepção, a análise e a interpretação possíveis ao ler essa imagem. Será que todos tiveram a mesma ideia ou será que uma obra como essa abre muitas possibilidades de interpretação? Você pode conferir mais obras de Alex Flemming visitando o site: <http://tub.im/atcfyu> (acesso em: 11 abr. 2016).

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Adriana Varejão. 1996. Óleo sobre tela e porcelana. Coleção Brondesbury Holdings Ltd., Caracas. Foto: Eduardo Ortega

As muitas linguagens da arte

Carne à moda de Frans Post, de Adriana Varejão, 1996. Óleo sobre tela e porcelana, 60 cm 3 80 cm (tela), 60 cm 3 150 cm (total).

Pensando nas inúmeras ramificações das linguagens na contemporaneidade, seria importante contá-las ou classificá-las? As linguagens artísticas podem estar ligadas umas às outras ou dentro umas das outras. Portanto, não há necessidade de se estabelecer fronteiras rígidas entre elas. A artista plástica Adriana Varejão (1964-) admite que, em sua produção, trabalha com muitas linguagens. Para ela, as fronteiras entre uma linguagem e outra estão cada vez mais tênues. Essa artista cria imagens que impressionam o público pela variedade de materialidades e efeitos, como observamos na obra Carne à moda de Frans Post. Ela diz não se importar se está fazendo uma obra que será classificada como pintura ou escultura; ela apenas cria sua obra. Como a artista mesmo afirma, sua produção está cada vez mais híbrida. Com tantas possibilidades de manipulação de materiais e maneiras de fazer arte, as fronteiras entre uma linguagem e outra ficam cada vez mais difíceis de definir. Desde tempos remotos, as linguagens artísticas são inventadas e reinventadas. Uma linguagem não morre quando aparece outra; elas se misturam, se transformam.

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A arte da brasileira Adriana Varejão (1964-) pode nos proporcionar muitas indagações. Isso é muito bom, porque as perguntas nos colocam em situação de reflexão, e assim podemos aprender mais sobre as linguagens artísticas.

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Um olhar repousa sobre a cor vermelho sangue. Será que mira o presente, o futuro ou o passado? Frutas brotam da superfície. São de comer? São para ver? Será isso uma pintura? Um objeto? Será arte? Qual é a linguagem?

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Adriana cria sem se preocupar em dar rótulos para as linguagens que explora: escultura, pintura, objetos, fotografias, desenhos... Para ela, o que importa não é classificar em categorias rígidas, e sim permitir-se a mistura, o hibridismo, procurando, dessa maneira, construir uma poética pessoal. A artista faz pesquisas de imagens presentes na história da arte brasileira e usa tais imagens como referências em seus trabalhos, apresentando essas imagens antigas de modo totalmente novo.

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Mestiça, de Adriana Varejão, 2012. Óleo sobre fibra de vidro e resina, 80 cm de diâmetro 3 9 cm de espessura.

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Conexões

Arte, Geografia e Identidade

Você já foi entrevistado ou presenciou alguém respondendo a uma pesquisa? No Brasil, várias pesquisas são feitas para recolher dados que ajudam a compreender quais características constituem a população brasileira. O censo, pesquisa oficial realizada pelo IBGE, levanta dados sobre toda a população. Em uma entrevista como essa, os pesquisadores do IBGE visitam os domicílios do Brasil e fazem perguntas sobre a formação da família, renda familiar, características do domicílio e dos moradores.

O resultado de algumas pesquisas mostra que o brasileiro é muito criativo e plural ao escolher termos para definir a cor de sua pele. Termos como “morena melada”, “morena rosada”, “clarinha”, “cor firme”, “encerada”, “café com leite”, “morenão”, “queimada de sol” e outros, bem inusitados, aparecem como resposta à questão. E você, o que responderia?

Greg Salibian/Folhapress

Dependendo do tipo de questionário, as perguntas podem possuir alternativas para resposta ou não. Para a questão: “Qual é a cor da sua pele?” existem cinco respostas possíveis em questões fechadas: branca, parda, preta, amarela e indígena. Em questões abertas, o entrevistado tem espaço para manifestar sua percepção sobre a cor de sua pele.

A artista plástica Adriana Varejão gosta do termo “branca melada” para definir a cor da sua pele, mas acredita que somos constituídos de várias outras “tonalidades”.

Adriana Varejão, artista plástica carioca, e parte da série Polvo Portraits III, produzida por ela. Foto de 2014.

Vicente de Mello/Atelier Adriana Varejão

Vicente de Mello/Atelier Adriana Varejão

Com base nos resultados das pesquisas realizadas pelo IBGE, ela coletou dados sobre as definições de cores mencionadas pelos brasileiros e criou 33 tintas com base nos tons de pele mencionados, como vemos no estudo apresentado a seguir.

Parte do estudo do desenvolvimento de cores para tons de pele realizado por Adriana Varejão.

Tintas a óleo Polvo (2013), 33 cores criadas por Adriana Varejão com base em pesquisas feitas pelo IBGE sobre os tons de pele brasileiros. Técnica mista, 36 cm 3 51 cm 3 8 cm.

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Mas a artista não parou por aí. Dando continuidade ao seu processo criativo e utilizando seu autorretrato como base para a série Polvo Portraits III, ela usou as diversas cores de tinta e criou formas inspiradas na cultura indígena brasileira sobre o seu rosto. O resultado foi uma série de trabalhos que apresentam um olhar sensível sobre a questão da identidade cultural brasileira, como vemos na imagem abaixo. Assim, percebemos que Adriana Varejão mistura não apenas linguagens e integra áreas do conhecimento, mas também explora diferentes temas relacionados às raízes do nosso povo e à identidade cultural.

Eduardo Ortega/Atelier Adriana Varejão

Agora, você e seus colegas podem aprofundar a pesquisa sobre temas e linguagens artísticas que trabalham com a ideia de identidade individual e cultural. Compartilhe as descobertas que fizeram.

Série Polvo Portraits III (2014) em que a artista Adriana Varejão apresenta seus autorretratos com desenhos feitos sobre o rosto, utilizando as diversas tonalidades de tintas a óleo desenvolvidas por ela. Óleo sobre tela. 33 telas de 52 cm 3 45,5 cm e 12 telas de 52 cm.

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Projeto experimental

Gustave Courbet. 1844-1845. Óleo sobre tela. Coleção particular

Espelhos da alma

Cecilia Paredes. 2011. Pintura. El Tiempo/GDA/Zuma Press/Glow Images

Van Gogh. 1888. Óleo sobre tela. Museu Van Gogh, Amsterdã

Autorretrato (O homem desesperado), de Gustave Courbet, c. 1844-1845. Óleo sobre tela, 45 cm 3 55 cm.

Blue Landscape, de Cecília Paredes, 2007. Foto sobre papel fotográfico, 100 cm 3 100 cm.

Autorretrato diante de um cavalete, de Vincent van Gogh, 1888. Óleo sobre tela, 65,5 cm 3 50,5 cm.

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Fernanda Manéa. 2009. Desenho a pincel. Acervo da artista

Autorretrato à luz de velas III – 4 peças, de Fernanda Manéa, 2009. Desenho a pincel – corretor líquido sobre disquete. Tamanho aproximado 18 cm 3 18 cm.

A linguagem da arte

Processos de criação Fazer um autorretrato é escolher um modo de dizer algo sobre você mesmo. Assim, não há regras fixas, o que vale é a autoanálise e a criatividade na escolha de uma forma que seja considerada adequada tanto na linguagem como nos materiais e na maneira de compor a obra. Você pode escolher fotografar a si mesmo com um celular ou uma câmera, mas antes observe as diversas possibilidades para criar seu autorretrato escolhendo essa ou outras linguagens. Ao fazer um autorretrato para uma rede social, quais seriam suas preocupações? E os cuidados que você tomaria? O que você gostaria de ressaltar e o que esconderia?

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Salvador Dalí. 1941. Óleo sobre tela. Fundação Galas Salvador Dalí, Figueiras. Foto: The Bridgeman Art Library/Superstock/Glow Images

Na história da arte, temos muitos exemplos de autorretratos de pintores como Gustave Courbet, Van Gogh e Salvador Dalí. Cada artista busca revelar detalhes de sua identidade e personalidade, indicar pistas de seus mistérios, como faz a artista peruana Cecília Paredes que se autocamufla em seus autorretratos. Alguns utilizam linguagens como a pintura, a gravura, o desenho, a fotografia, entre outras possibilidades. Há autorretratos que mostram apenas o rosto; outros podem apresentar toda a figura do artista. Nas redes sociais, vemos hoje vários exemplos de autorretratos nos perfis pessoais cuja linguagem mais utilizada é a fotografia.

Autorretrato mole com toucinho frito, de Salvador Dalí, 1941. Óleo sobre tela, 61 cm 3 50 cm.

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TEMA

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A TECNOLOGIA TRANSFORMANDO AS LINGUAGENS

Professor, ao final do Tema 3, o Projeto experimental – Videoarte – propõe a criação de audiovisuais.

Uma das tarefas mais importantes da arte foi sempre a de gerar uma demanda cujo atendimento integral só poderia produzir-se mais tarde. A história de toda forma de arte conhece épocas críticas em que essa forma aspira a efeitos que só podem concretizar-se sem esforço num estágio técnico, isto é, numa nova forma de arte. […] Toda tentativa de gerar uma demanda fundamentalmente nova, visando à abertura de novos caminhos, acaba ultrapassando seus próprios objetivos. BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política – Obras escolhidas I. Trad. Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985. Nam June Paik. 1994. Técnica mista. Kunstmuseum, Wolfsburg. Foto: Album/Akg-Images/Latinstock

Em nosso tempo, as linguagens nascem e se multiplicam. Dentro de cada linguagem, há outras que se misturam, se conectam, se adaptam e se transformam com os meios de produção e comunicação de cada tempo. Happenings, performances, intervenções urbanas, videoartes, artes no computador, entre outras, nascem, desenvolvem-se e transformam as artes visuais. A dança-teatro, as múltiplas possibilidades de dança de rua, os grupos performáticos, o novo circo, os vários segmentos da dança contemporânea, as encenações realizadas dentro e fora das casas de espetáculos e em espaços alternativos, os novos e antigos modos e métodos de lidar com o corpo e sua poética são tendências e linguagens que surgiram para transformar as artes cênicas. Trilhas sonoras de filmes, documentários, videoclipes e músicas dos mais diversos estilos e produzidas de várias maneiras – da música dos repentistas à música dos concertos, em diferentes combinações e experimentações – compõem o cenário contemporâneo musical.

Andy Warhol Robot, de Nam June Paik, 1994. Técnica mista: nove telas coloridas, nove carcaças de TV antigas, caixa em acrílico do original Brillo Box, de Andy Warhol, sete latas de Sopa, cinco filmes de câmeras de 8 mm, dez câmeras, partes de um projetor de 35 mm, filme de 35 mm, lâmpadas titulares, dois suportes sobre rodas, dois reprodutores de vídeos, 34 videoclipes em dois monitores e páginas coladas do catálogo de exposição de Estocolmo, no Kunstmuseum de Wolfsburg.

A videoarte é uma linguagem artística que influenciou a criação de várias linguagens, como a videoinstalação, a videoescultura, a arte via satélite, a web arte e a arte com princípios robóticos, entre outras. Trata-se de uma linguagem contemporânea que nasceu a partir do acesso ao vídeo, em meados dos anos 1960. Os artistas perceberam nessa tecnologia um grande potencial como linguagem. As conquistas dos programas de computadores que se seguiram fizeram a videoarte crescer em importância e aparecer em mostras temporárias ou permanentes de arte, em galerias e museus. Essa linguagem explora principalmente as imagens em movimento, trabalha com o cotidiano, com a própria cultura visual, expondo, além da ideia do artista ou do grupo de artistas, diversos contextos culturais. É uma arte híbrida, porque mistura contextos e mídias: fotografia, vídeo, transmissões e efeitos sonoros de rádio e televisão, depoimentos de pessoas, imagens e sons da cidade, outdoors e cartazes, música de diferentes estilos e linguagens, ou seja, uma infinidade de possibilidades. A videoarte também dialoga com outras linguagens contemporâneas, como as instalações, as performances e os happenings. A produção de algumas linguagens da arte contemporânea tem como característica a coletividade, ou seja, é realizada por muitas pessoas, além dos artistas que têm a ideia inicial.

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Elliot Erwitt/Magnum Photos/Latinstock

A arte de JUNE PAIK Trazida pelos aparelhos de televisão, uma nova linguagem de comunicação de massa inspirou gerações e ainda continua a exercer grande influên­cia sobre as pessoas. Na década de 1960, o artista sul-coreano Nam June Paik (1932-2006) começou a explorar as possibilidades estéticas desse novo meio de comunicação usando a linguagem televisiva. Nam June Paik foi um dos primeiros a lançar novas linguagens unindo vídeos, músicas e outras linguagens artísticas, criando a videoarte, que explora tanto imagens gravadas como as linguagens de instalações e de performances, a exemplo da obra Arte Cibernata (1967), em que a violoncelista Charlotte Moorman (1933-1991) faz uma performance na qual ele utilizou também o próprio aparelho de televisão. Dessa forma, as linguagens das artes visuais e da música em uma mesma obra são caminhos para a construção das linguagens híbridas e para a arte e a tecnologia.

O artista sul-coreano Nam June Paik e a violoncelista Charlotte Moorman. Ambos produziram uma série de trabalhos em que Paik construía instrumentos e aparelhos fantásticos para Charlotte Moorman tocar. Foto de 1982. Graziano Arici/Easypix

Palavra do artista “É preciso conhecer a tecnologia o bastante para subvertê-la, para humanizá-la.” Nam June Paik LOPES, Rodrigo Garcia. Vozes e visões: panorama da Arte e da Cultura Norte-americanas hoje. São Paulo: Iluminuras, 1996. p. 212. As performances de experimentações eletrônicas de Nam June Paik influenciaram gerações de novos artistas. Foto de 1993.

A arte contemporânea: linguagens e tecnologias Vivemos imersos em um ambiente de imagens artísticas, publicitárias, impressas, projetadas, estáticas, movimentadas, bidimensionais, tridimensionais, antigas, novas, em alta resolução, 3D em ambientes exclusivos para exposições ou em espaços abertos e ruas da cidade. Como podemos olhar apenas uma em meio a tantas imagens? Como vemos este mundo repleto de imagens? O que nos faz olhar uma imagem e pensar sobre ela? Ao entrar em salas de exposições de arte contemporânea, podemos encontrar projeções de vídeos, filmes de animação, computadores criando efeitos, com os mais diferentes recursos multimídia. Mas como isso tudo começou? Na década de 1960, experimentos com vídeos em salas de exposições fizeram surgir o termo videoinstalação. Mais tarde, com os programas de computador foi possível criar imagens digitalizadas. Essa união entre vídeo e computador ampliou as ferramentas disponíveis aos artistas, que puderam inventar uma arte multimídia. Hoje temos artistas que em suas poéticas criam na linguagem da videoarte, como Bruce Nauman (1941-) e Bill Viola (1951-).

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Arte multimídia: arte que utiliza diversas linguagens e materialidades, podendo misturar projeção de vídeos, imagens, várias tecnologias, músicas, performances ou proposições interativas para se expressar.

Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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Hoje temos muitas formas e tecnologias de criação de imagens digitais, que também produzem arte. Um exemplo é o Festival da Luz, que acontece em vários países e mostra o quanto a arte mudou, usando o que a cultura contemporânea da sociedade tecnológica tem de melhor.

Fabrice Coffrini/AFP/Getty Images

O futuro da arte... quem sabe? Talvez possa ser entendido como um mergulho luminoso, como na obra de Cedric Le Borgne (1972-), Les voyageurs (2006), criada para a edição do Festival da Luz em Genebra, na Suíça (observe-a abaixo). Ou pode ser algo inventado por você e seus amigos!

Les voyageurs, performance de Cedric Le Borgne em Genebra, Suíça, em 2006.

Mundo visual que se transforma As imagens sempre fizeram parte do universo humano, desde as primeiras representações na arte rupestre às imagens eletrônicas da contemporaneidade. Imagens que comunicam, exibem significados e expressões em cada cultura. Constituem-se como cultura visual que apresenta valores e escolhas em cada época, mas que estabelecem diálogos que podem ser atemporais.

Na Idade Média, as imagens tiveram grande importância para doutrinar as pessoas na religião do Cristianismo. Em fachadas de igrejas na Europa, como a da Igreja de St. Trophime, em Arles (França), construída em c. 1180, vemos um exemplo de arte românica. Nessa imagem, a figura de Cristo é mostrada com ele sentado em um trono, com uma das mãos sobre o livro da lei (segundo essa religião) e outra apontando para cima, em um gesto que quer dizer: “Aos pecadores, o julgamento de Deus, e aos justos, o reino dos céus”. Era uma mensagem que as pessoas podiam ver logo na entrada das igrejas e vinha carregada de simbolismo.

Diana Mayfield/Lonely Planet Images/Getty Images

Imagens abstratas ou figurativas que foram inventadas para registrar um momento, mostrar símbolos, descrever um lugar, doutrinar por meio de concepções religiosas, fazer registros de um instante, revolucionar. São muitas as finalidades e os pretextos que inventamos ao longo da história para produzir e reproduzir imagens.

Arte românica: estilo de arte sacra da Idade Média. As imagens são criadas com formas mais simbólicas e tinham a função de ensinar as passagens bíblicas aos fiéis.

Fachada da Igreja de St. Trophime, em Arles, na França, construída c. 1180, um exemplo de arte românica.

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No exemplo de obra da arte gótica, do italiano Giotto di Bondone (1267-1337), vemos o espaço entre as figuras e a dramaticidade na narrativa. Nessa obra, A lamentação, podemos até perceber a dor que as pessoas estão sentindo ao velar o corpo de Cristo. É possível perceber a emoção, mesmo das figuras que estão de costas. Esse artista cria uma visão mais humana dos personagens bíblicos e se preocupa em dar maior realismo às cenas. A intenção é produzir planos na pintura para nos dar a sensação de adentrarmos nos espaços e participar das cenas. No período do Renascimento (sécs. XV a XVI), os artistas criavam suas obras com imagens que buscavam imitar a realidade. A perspectiva, enquanto arte de criar ilusões de profundidade, foi estudada nessa época, como também as técnicas de luz e sombra, para criar volumes e efeitos tonais em pinturas como podemos observar no afresco Trindade.

Giotto di Bondone. Capela Arena, Itália. Foto: World History Archive/Alamy/Glow Images

Masaccio. 1428. Afresco. Basílica de Santa Maria Novella, Florença. Foto: Atlantide Phototravel/Corbis/Latinstock

Arte gótica: estilo artístico do final da Idade Média. Aparece em um momento da história em que a vida urbana ganha força e as construções destinadas à religião católica começam a mudar, apresentando uma arquitetura com foco na grandiosidade e na luminosidade, com ambientes claros e amplos. Luzes entram pelas janelas das igrejas por meio de vitrais e rosáceas e destacam a presença de arcos góticos (ogivais) em sua arquitetura. Nas esculturas, as figuras são alongadas. Na pintura, os temas sacros ainda estão presentes, mas há tendências em retratar cenas com temas mais cotidianos e com intenções mais realistas.

Homem apreciando a imagem em afresco Trindade (1428), do renascentista Masaccio (1401-1428), na Basílica de Santa Maria Novella, 640 cm 3 318 cm, em Florença, Itália.

A lamentação (1754), de Giotto di Bondone (12671337). Afresco na parede da Capela Degli Scrovegni, 185 cm 3 200 cm, em Pádua, Itália.

Albert Eckhout. c. 1641. Óleo sobre tela. Museu Nacional da Dinamarca

Ilustradores do mundo Hoje, as imagens viajam pelo mundo na velocidade da internet, mas como isso ocorria no passado? Entre os séculos XV e XIX, principalmente nos séculos XVIII e XIX, artistas viajantes percorriam o mundo em busca de imagens. Eram obras que mostravam paisagens, pessoas, plantas e animais das terras chamadas de “Novo Mundo” pelos povos europeus, imagens criadas em desenhos, gravuras e pinturas. No Brasil, os artistas chamados “ilustradores de mundos” criavam imagens que transitavam pela Europa para mostrar as riquezas naturais da nossa terra. Registros feitos sob um “olhar estrangeiro”. Os artistas eram influenciados por suas culturas e mostravam cenas com paisagens, tipos étnicos, fauna e flora de modo idealizado. São imagens que parecem descritivas, porém apresentam estética europeia, como na obra Mulher Tapuia, do artista holandês Albert Eckhout (1610-1666), que esteve no Nordeste brasileiro no século XVII, em que vemos uma indígena com pedaços de corpos humanos sendo carregados como alimento. A pose nessa imagem não é natural e lembra as poses de retratos europeus. Observe-a ao lado. Mulher Tapuia (c. 1641), de Albert Eckhout. Óleo sobre tela, 272 cm 3 165 cm. Museu Nacional da Dinamarca, Copenhague.

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Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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Imagem e brasilidade No início do século XX, obras antropofágicas criadas pela artista Tarsila do Amaral agitaram o mundo com imagens brasileiras e abriram caminho para outros artistas, que foram criando trabalhos cada qual seguindo seus princípios estéticos, poéticos e suas intenções pessoais. Dentro do movimento modernista, vemos nascer um mundo visual, arte brasileira criada por vários artistas, de múltiplas culturas e etnias, uma arte que buscava a brasilidade, a identidade nacional, ao mesmo tempo que acompanhava tudo que estava sendo feito pelo mundo. A arte no Brasil a partir desse período segue o fluxo de transformações em funções de várias correntes estilísticas que acontecem no país e no mundo.

Do susto ao olhar Matrix As imagens em alta resolução, com a profundidade que vemos hoje, começaram a ser forjadas no Renascimento. As pessoas, quando viam uma imagem pintada com os efeitos de perspectiva nessa época, chegavam a colocar a mão sobre a pintura para ter certeza de que ali não havia um buraco. Era difícil acreditar que em uma superfície plana (bidimensional) poderia haver percepção de tridimensionalidade. Será que essa mania de criar realidades ficou só no passado? Hoje, ao entrar nas salas de cinema, vemos imagens em 3D, efeitos para 4D... Será uma versão potencializada da perspectiva renascentista?

Lumiere Pictures/Album/Latinstock

Na França, em 1895, quando as pessoas assistiram ao filme L’Arrivée d’un train à La Ciotat (A chegada de um trem em La Ciotat), no Salão Grand Café, em Paris, exibido pelos Irmãos Lumière por meio de um cinematógrafo, saíram correndo com medo de serem atropeladas pelo trem. Assim como as pessoas da época do Renascimento, o público do filme também se espantou. Aquele jeito de ver imagens era muito diferente para as pessoas, o que causou estranhamento e susto. Imagine se essas pessoas estivessem em nossas atuais salas de cinema, com tecnologia de filmes em 4D, que superam as projeções em 3D por estimular as percepções sensoriais para além da alta qualidade das imagens multidimensionais? É possível sentir calor, frio, ventar, movimentos e até cheiros com tecnologias que monitoram o ambiente e os sistemas de som e imagem nas salas de projeções em 4D de filmes atuais.

Cena do filme L’Arrivée d’un Train à La Ciotat (A chegada de um trem em La Ciotat), dirigido pelos Irmãos Lumière, 1895.

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The Hollywood Archive/Keystone

O olhar Matrix (olhar influenciado pelo filme Matrix), dado pela tecnologia para capturar e apresentar imagens na técnica conhecida como bullet time (tempo de bala), mudou nosso jeito de ver o mundo. Depois de olhar imagens em 360° (graus), criamos uma expectativa ao ver imagens em ação. Parece que estamos sempre a espera de um detalhe, ou Cena do filme Matrix (1999), dirigido pelos irmãos Wachowski. melhor, de milhares de detalhes da mesma cena, vários ângulos de visão, um voo no ar em câmera lenta ou até mesmo ver a trajetória de uma bala. Criamos modos de ver a velocidade em seus mínimos detalhes. O filme estadunidense Matrix, de 1999, dirigido pelos irmãos Wachowski, foi considerado um divisor de tempos para a linguagem cinematográfica. Hoje, muitas produções têm sido realizadas com efeitos semelhantes, cada vez mais aprimorados. Bullet time: (tempo Há cada vez mais profissionais empenhados nessa procura tecnológica pela evolução nos efeitos especiais. Daqui a pouco tempo, talvez achemos obsoletas as imagens que nos fascinam hoje.

Cultura visual

Anderson Ferreira

O mundo de imagens criado pela tecnologia nos oferece viver em meio a uma cultura visual intensa. Na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, em 2013, uma exposição chamou a atenção das pessoas que ali passavam apressadas, todos os dias. A mostra Play!, uma projeção de imagens em tela gigante, no prédio da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), mostrava etapas de jogos de videogames antigos, a maioria dos anos 1980, que fizeram história nessa arte eletrônica. Os transeuntes podiam, por meio de programas interativos de computadores, jogar o videogame olhando para uma imagem que era projetada no prédio. Os meios mudaram, as linguagens também, mas continuamos fascinados por imagens e pela possibilidade de movimentá-las e interagir com elas. Observe a seguir uma imagem da mostra Play!.

de bala), técnica usada no filme Matrix (1999) que utilizou uma tecnologia de simulação digital com câmeras fotográficas de velocidade variável, que mudou o olhar em relação aos efeitos especiais. Para capturar cada ângulo de ação, 120 câmeras fotográficas digitais de alta resolução foram posicionadas em torno da cena, enquanto outras câmeras de filmagem registravam os movimentos dos atores. Esse tipo de efeito nos permite ver os mínimos detalhes de uma cena.

Imagem da mostra Play!, primeira exposição interativa de game arte a céu aberto no Brasil, realizada em arte multimídia na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, no prédio da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), 2013.

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A tecnologia a favor da arte Já vimos que a criação artística pode acontecer com a utilização de mais de uma linguagem, misturando múltiplas maneiras de expressão. Atualmente, há linguagens artísticas que são intermídias. Arte intermídia é um termo usado a partir da segunda metade do século XX para fazer referência a artistas e às suas produções que usam duas ou mais linguagens. O termo também é usado para falar de produções que, além de várias linguagens, utilizam recursos diversos, inclusive os tecnológicos.

A linguagem binária é só um exemplo de como a chegada de novas soluções tecnológicas transformam a cada dia a nossa maneira de ver, ouvir e perceber o mundo. O desejo de criar e utilizar os avanços tecnológicos a favor da arte, motivou o artista Waldemar Cordeiro, na década de 1960, a pesquisar sobre programas de computador e como torná-los ferramentas para criar imagens. Desta forma, ele inaugurava a Computer Art no Brasil. Coleção Família Cordeiro

O artista Waldemar Cordeiro fez um paralelo entre a “destruição” da imagem da menina vietnamita e a destruição causada pela guerra, na obra A mulher que não é B.B (1971), computer graphic, 30,5 cm 3 45,5 cm. Coleção Família Cordeiro.

Uma linguagem inventada há menos de um século foi decisiva para transformar as linguagens artísticas que fazem uso das tecnologias: a linguagem binária. Essa linguagem, por meio de combinações numéricas, permite que os computadores decodifiquem sons, imagens, palavras, comandos etc. Esse processo pode ser considerado como a base da linguagem de programação e representa um grande avanço para a “era digital”.

Ele fez várias experiências e pesquisas sobre digitalização de imagens. Em uma época em que a digitalização de imagens não existia, teve de fazer o processo manualmente; o trabalho durou vários dias. Estudou também funções matemáticas e suas derivadas para criar suas obras, como, por exemplo, a obra A mulher que não é B.B (1971), em que o artista fez uso da linguagem binária para reproduzir, com a ajuda de um antigo computador, o rosto de uma menina vietnamita queimada por bombas de Napalm. Waldemar Cordeiro fez parte do grupo concretista Ruptura que surgiu em São Paulo, em 1952, e também era formado por artistas como Geraldo de Barros (19231998), Lothar Charoux (1912-1987) e Anatol Wladyslaw (1913-2004), entre outros. O grupo realizou estudos, reuniões e manifestos para divulgar as ideias de uma arte que tinha como foco a exploração dos elementos visuais e o abandono à representação da realidade, pois a arte representativa já não respondia mais às demandas de um mundo em constante mudança.

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Giro de ideias: As novas tecnologias e a captação de imagens Você já ouviu falar em performance capture (captura de movimento)? Você saberia dizer em que linguagens fazemos uso deste efeito tecnológico?

O efeito performance capture é obtido com a ajuda de computadores para gravar e capturar os movimentos de atores, que utilizam roupas e acessórios especiais, com o objetivo de produzir efeitos, manipular movimentos ou tornar os personagens mais reais. No filme Avatar, por exemplo, podemos observar que as expressões dos personagens são bastante realistas, pois as imagens que focalizam o rosto foram criadas com o uso dessa tecnologia. Agora que você já sabe que a performance capture é utilizada no cinema, videogame, videoarte e em vídeos veiculados pela internet, procure obras em que essa técnica foi utilizada e analise como essa seleção de cenas ou imagens pesquisadas pode se transformar em uma exposição virtual (blog, site da escola, rede social). Não se esqueça de consultar seu professor sobre os direitos das imagens que serão utilizadas e expostas.

The Picture Desk/Twentieth Century-Fox Film Corporation/The Kobal Collection/AFP

Mesmo que você não tenha conversado sobre isto antes, é provável que já conheça o efeito e viu em algum filme ou jogo de videogame, principalmente, se você tem ido ao cinema nos últimos anos ou jogado videogame com algum amigo.

O ator Sam Worthington utilizou equipamentos especiais para a captura de imagens de seu rosto nas gravações do filme Avatar (2009).

Você e seus amigos podem fazer encontros para realizar a análise das imagens dos filmes e jogos selecionadas, observar e discutir como a arte e a tecnologia vêm mudando nosso modo de produzir e de ver imagens. Após a análise, descreva as cenas mais marcantes e a que filmes ou jogos elas pertencem. Professor, oriente os alunos para que utilizem ambientes ou programas com os quais estejam familiarizados, ou aproveite a oportunidade para criar um projeto interdisciplinar entre Arte e Tecnologia (informática). Se possível, convide professores de outras disciplinas para interagirem como parceiros no projeto.

Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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Conexões

Arte e Tecnologia

Mergulhos virtuais Na chamada era da informação, iniciada no século XX e vivenciada potencialmente hoje por nós, os modos de conhecer as coisas do mundo se ampliam e mudam rapidamente, oferecendo também múltiplas oportunidades de acesso para conhecer a arte.

http://www.googleartproject.com#collections/

Atualmente, temos disponíveis ferramentas que podem nos ajudar a visitar e conhecer acervos de museus de vários países. Os museus virtuais são espaços interativos em que podemos conhecer patrimônios históricos, artísticos e culturais. Em vários deles é possível, inclusive, percorrer esses espaços virtualmente, simulando uma visita real. Há ambientes virtuais que utilizam efeitos de imagem em profundidade que proporcionam a ilusão de se estar dentro da sala de exposição. Trata-se de uma experiência que pode ampliar muito seu repertório cultural. Pesquise espaços virtuais de arte na internet. Você encontrará sites oficiais de artistas plásticos e de grupos de teatro, dança e música, de galerias de arte e outros espaços culturais. O Google Art Project, por exemplo, mostra acervos de vários museus de todo o mundo, nos quais podemos fazer um passeio virtual e conhecer o que está sendo apresentado como exemplos de arte. Obras do passado e do presente podem ser encontradas no site: <http://tub.im/5ad2ro> (acesso em: 30 mar. 2016).

http://www.googleartproject.com#collections/

Depois de um giro pela internet para conhecer o que outras pessoas no mundo estão considerando como arte, combine com os colegas a montagem de uma exposição virtual com as obras de arte favoritas da turma. Não se esqueça de verificar o uso de direitos de imagens, músicas, textos etc.

Reproduções de páginas do projeto Google Art que mostra o acervo da Coleção Frick, Nova York, EUA.

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Museus do amanhã Estamos tão acostumados a ter experiências trazidas pelas tecnologias que quem acha que museu é coisa do passado vai ter de rever seus conceitos sobres esses lugares que mostram tanto coisas que já fizemos como as coisas que estão acontecendo hoje e aquelas que ainda estão por vir.

São exemplo desta nova ordem de museus o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, projetado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, e o Centro de Arte e Mídia, em Karlsruhe, na Alemanha, entre outros espalhados pelo mundo. A tendência é que a arte, a ciência e a tecnologia caminhem juntas para mostrar e criar obras de arte midiáticas interativas.

Picture-Alliance/Dpa/Latinstock

Para provocar os frequentadores desses espaços de cultura, os recursos audiovisuais são cada vez mais empregados. Seja em um museu de arte ou de ciências, as linguagens artísticas se misturam e aparecem em forma de imagens, vídeos, sons, painéis que contam com a interação do público etc.

Próximo ao lugar onde você mora existem museus, galerias, centros culturais ou exposições temporárias que aliam arte às novas mídias? Que tal procurar em seu bairro ou cidade lugares onde possa ocorrer a interação entre arte e tecnologia?

Daniel Derevecki /La Imagem /Fotoarena

Centro de Arte e Mídia, na Alemanha. Espaço aberto à experimentação e ao encontro entre arte, ciência e tecnologia. Foto de 2003.

Museu do Amanhã inaugurado em 2015, na Praça Mauá, no Rio de Janeiro. Foto de 2016.

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Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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Bill Viola. Ascensão de Tristan (o som de uma montanha em uma cachoeira), 2005. Vídeo instalação / som. Cor de alta definição projeção de vídeo; quatro canais de som com subwoofer (4.1). Tamanho da tela: 580 cm  326 cm. Foto: Kira Perov

Projeto experimental Videoarte Linguagem da arte Atualmente, existem muitas possibilidades de criar projetos em arte explorando recursos audiovisuais e outras tecnologias. O artista estadunidense Bill Viola (1951-) é um videoartista que cria trabalhos explorando a linguagem do vídeo usando tudo o que o mundo tecnológico oferece. Observe ao lado uma fotografia da obra Ascensão de Tristan. Utilizando esses recursos, ele procura passar mensagens simples por meio de sua arte com temas relacionados à vida e suas fases – nascimento, amadurecimento e morte. A proposta do artista é provocar as pessoas, chamar a atenção e convidá-las para que façam uma pausa em suas tarefas do dia a dia por alguns instantes e mergulhem em universos imperceptíveis aos olhos rotineiros. Para atingir esse objetivo, ele faz uso dos vídeos, que abusam da passagem do tempo e de corpos humanos em câmera lenta. Para conhecer mais sobre o trabalho desse artista, você pode visitar o site: <http://tub.im/abqpx7> (em inglês). Acesso em: 16 jan. 2016.

Processos de criação Ascensão de Tristan (o som de uma montanha em uma cachoeira), 2005, de Bill Viola, em que ele simula a ascensão da alma após a morte. Performance: John Hay. Videoinstalação/som. Cor de alta definição, projeção de vídeo, quatro canais de som com suboofer, 580 cm 3 326 cm.

Vamos criar usando a técnica do vídeo como linguagem expressiva? Procure escolher algo que tenha vida e movimento para a filmagem ficar mais dinâmica. Você pode realizar esse projeto em grupo; convide seus amigos. Após a gravação, as imagens podem ser transferidas para um computador para que sejam trabalhadas em relação à forma, luzes, intensidade de cores, duração e outros efeitos. Com a ajuda de programas específicos, as imagens também podem ser manipuladas em relação à dinâmica do movimento, acrescentando recursos de câmera lenta, por exemplo. Depois de editado, o vídeo pode ser projetado em um espaço da escola ou em paredes de prédios da sua cidade. Esta pode ser uma forma de criar intervenções urbanas com a ajuda de recursos tecnológicos.

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AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NO TEMPO

Jacopo Robusti (Tintoretto). Século XVI. Óleo sobre painel. Castelvecchio Museum, Verona. Foto: Bridgeman/Keystone

TEMA

Contest between Muses and Pierides (Disputa entre as Musas e Pierides), de Tintoretto, século XVI. Óleo sobre painel, 46 cm 3 91 cm. Uma pintura do italiano Jacopo Robusti, conhecido como Tintoretto (1518-1594), um dos principais pintores da fase final do Renascimento na Itália, representando as nove musas das artes.

Dizei agora a mim, Musas que a olímpica morada tendes, Pois vós sois deusas, presentes estais e sabeis tudo – Enquanto nós a fama apenas ouvimos, nada sabemos – Quem os chefes dos dânaos e seus condutores eram.

Professor, ao final do Tema, o Projeto experimental – Curtas-metragens – propõe a criação de um filme de curta duração, explorando a linguagem do cinema.

HOMERO, Ilíada, II, 484-487.

Na contemporaneidade, temos muitas linguagens artísticas. Classificá-las por ordem de importância, atualmente, não é muito utilizado nem considerado apropriado. No entanto, houve um tempo em que as linguagens sofreram classificações em função de crenças e contextos culturais. Na Antiguidade, tínhamos as nove musas, seres mitológicos que, segundo a lenda, inspiravam o ser humano a realizar nove artes. A cada musa era atribuído um talento. Calíope estava ligada ao canto e à poesia épica; Clio, à história; Polímnia, à retórica e à música cerimonial; Euterpe, à música; Terpsícore, à dança; Érato, ao canto e à poesia lírica; Melpômene, à criação de textos e à atuação de atores nas tragédias; Tália, à comédia; e Urânia, à astronomia. Observe acima, na pintura de Tintoretto, a forma como ele representou as nove musas.

A concepção de arte na Antiguidade É importante ressaltar que a concepção de arte não tinha o mesmo significado que possui hoje. “Arte” podia significar além da poética e estética, técnica bem executada, como por exemplo os grandes feitos, que podiam ser artísticos, científicos e até militares. A escultura, a pintura e a arquitetura não estavam entre os “talentos” dados pelas musas porque eram trabalhos ligados a ofícios braçais, destinados a escravos e às pessoas do povo.

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Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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Séc. II d.C. Mármore. Museus Vaticanos. Vaticano. Foto: Bettmann/Corbis/Latinstock

O termo musa deu origem às palavras museu e música. No século XIX, a pintora inglesa Kate Elizabeth Bunce (1856-1927) retratou a musa da música na obra Melody (Música), abaixo. A pintura no Aulo: instrumento de sopro tempo da crença nas nove musas não era concaracterístico da Grécia antiga. siderada arte nobre, assim como uma mulher Por ter palheta, tem um som próximo ao do oboé, um instrumento também não podia ser artista, valores que foram contemporâneo. mudando ao longo dos tempos.

Kate Elizabeth Bunce. c. 1895-1897. Óleo sobre tela. Museu de Arte de Birmingham, Alabama

Euaion. c. 460-450 a.C. Cerâmica. Museu do Louvre, Paris. Foto: Corbis/Latinstock

Estátua do deus grego Apolo tocando lira, de autoria não identificada, século II d.C. Mármore, 2,2 m.

A música era considerada um grande feito artístico porque estava ligada à doutrina do Ethos, filosofia da educação de jovens para a compreensão das leis do universo e do espírito humano. A importância da música estava em ter a capacidade de estabelecer a formação moral e estética que determinaria o caráter e a conduta das pessoas. Segundo o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), a música era capaz de representar os estados da alma humana, assim como influenciar e expressar suas paixões. A música também estava ligada ao sagrado. Nos cultos a Dionísio, o aulo, um instrumento de sopro, era geralmente usado. Como observamos abaixo na obra Cena de banquete: homem reclinado em um banco e um jovem tocando aulo, de Euaion. Já nos cultos ao deus Apolo, os instrumentos mais utilizados eram os de corda, como a cítara e a lira, a exemplo da estátua do deus Apolo tocando lira (ao lado). Os instrumentos geralmente acompanhavam os cantos. O canto era uma manifestação artística importante naquele tempo, principalmente porque trabalhava com a linguagem da poesia. Os instrumentos de sopro e de corda eram considerados produtores de sons dos deuses e, portanto, a verdadeira arte. Já os sons de percussão eram considerados primitivos e ligados à Terra. Por esse motivo, as musas ligadas à arte da música estão sempre representadas com instrumentos de cordas ou sopro. A música na Grécia antiga era tão importante que era um saber obrigatório na formação de um cidadão bem-educado.

Melody (Música), de Kate Elizabeth Bunce, c. 1895-1897. Óleo sobre tela, 51 cm 3 76,3 cm.

Cena de banquete: homem reclinado em um banco e um jovem tocando aulo, de Euaion, c. 460-450 a.C. Cerâmica, 31 cm.

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Classificações das artes na Idade Média Durante a Idade Média, também havia separações e classificações entre artes mais importantes e outras de valor considerado menor. As tradições artísticas eram divididas entre artes liberais e artes mecânicas. As artes liberais eram atribuídas às pessoas que sabiam escrever textos literários e poemas usando com maestria a gramática a favor da poética. Os artistas criavam poesias e narrações de histórias de contos imaginários ou fatos históricos, trabalhavam a arte da palavra em sua criação escrita, textos que contavam sobre batalhas, acontecimentos, amores e amizades no Ocidente e em muitos casos ligados à tradição cristã. Era considerado artista nas artes liberais aquele que tinha aptidão para a retórica, a arte da palavra na oralidade. As pessoas tinham como hábito ficar em volta desses mestres, para ouvir histórias e notícias, muitas vezes em forma de versos e acompanhados por música, como ilustrado na obra O Decameron (veja abaixo), do pintor britânico John William Waterhouse (1849-1917). Como nessa época não existiam os meios de comunicação atuais, a arte da oralidade era importante não apenas para as questões estéticas, mas também como forma de comunicação e transmissão dos contos de tradição oral de geração para geração.

John William Waterhouse. 1916. Óleo sobre tela. Galeria de Arte Lady Lever, Liverpool. Foto: The Bridgeman/Keystone

A música era ainda uma linguagem artística considerada nobre na Idade Média, principalmente as músicas ligadas às tradições religiosas, como os cantos gregorianos (veja na próxima página um exemplo de notação musical). Contudo, os cantos religiosos fazem parte de tradições bem mais antigas, reportam à época das sinagogas, no tempo de Jesus Cristo, ou ainda à Antiguidade, em que religião e arte sempre tiveram relações muito próximas.

Canto gregoriano: música sacra que recebeu esse nome em homenagem ao papa Gregório I (540-604), que estabeleceu normas e procedimentos litúrgicos na religião cristã ocidental. O canto gregoriano é um gênero de música vocal monofônica em que todos cantam a uma só melodia.

O Decameron, de John William Waterhouse, 1916. Óleo sobre tela, 101 cm 3 159 cm.

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Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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Album/AKG/Latinstock

Nas tradições religiosas judaica e cristã, cantavam-se os salmos e os cânticos do Antigo Testamento, e depois, na Era cristã, do Novo Testamento, consolidando-se na cultura que se seguiu até a Idade Média e que permanece ainda hoje. Foi na Idade Média que Guido D’Arezzo (992-1050), monge e músico italiano, estabeleceu um sistema de notação musical com pautas, usado até hoje, com as notas DO, RÉ, MI, FÁ, SOL, LÁ e SI. O papel pautado no qual se registram as músicas com esse sistema é chamado de partitura.

Notação musical de canto gregoriano. Miniatura de um antifonário (livro de cânticos) de 1405. Têmpera e ouro em pergaminho, 56,8 cm 3 38,9 cm.

Giro de ideias: A arte de desenhar Já sabemos que as linguagens influenciam umas às outras, como é o caso das imagens. Desde as imagens criadas no passado até às do presente, os procedimentos de pintar, desenhar, gravar, entre outros, podem ser misturados na construção da arte. Fique atento a tudo o que você vê e pense a respeito. Quais são as imagens que influenciam seu olhar?

As mudanças que acontecem por causa da tecnologia são inevitáveis, e isso não poderia ser diferente na arte. Embora o momento atual nos ofereça muitas possibilidades tecnológicas, a arte também pode ser criada usando materiais simples. Um desenho feito com grafite sobre uma folha de papel também pode ser arte. A escolha entre usar tecnologia ou não é sempre de quem pensa na obra, nas muitas possibilidades de linguagens artísticas e também na criação de outras que as necessidades de expressão possam estimular. Que tal criarmos na linguagem do desenho? Escolha um suporte e esboce imagens que rondam seus pensamentos.

DICA Para navegar Você também pode usar as tecnologias disponíveis hoje para realizar trabalhos em arte eletrônica ou multimídia. No site <http://tub.im/4kyrme> (acesso em: 15 mar. 2016), você encontrará mais informações sobre a arte e a tecnologia.

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Conexões

Arte e Afrodescendência

Afrodescendência e brasilidade Como um artista escolhe os assuntos ou temas em suas obras? Os caminhos podem ser os mais variados. Mas olhar para sua essência, identidade e poética pode ser um deles. De maneira geral, esses elementos são influenciados pela cultura do povo no qual o artista está inserido. O desenvolvimento da cultura de um povo está relacionado a história da formação de sua população. No caso dos brasileiros houve a influência de muitas culturas, mas podemos dizer que três culturas formam nossa base inicial: • cultura indígena, cultura europeia e cultura africana. A cultura do povo brasileiro nasceu dessa mistura cultural, assim como a arte brasileira, pois cada artista (ou grupo) brasileiro tem sua identidade e influências em suas origens que desencadeiam poéticas e interesses ao criar nas diferentes linguagens artísticas. Por conta do modo como nossa cultura foi formada inicialmente, quando falamos em arte afro-brasileira podemos considerar aquela que carrega temas e conteúdos da cultura afrodescendente. No contexto da cultura e da história, a palavra “afrodescendente” pode compreender traços étnicos, culturais, religiosos, usos, costumes, linguagem, arte e outros aspectos, que tiveram como origem os povos que vieram de várias partes do continente africano e que, no curso da nossa história, influenciaram a nossa brasilidade. Um tema ou assunto relacionado à brasilidade do povo brasileiro pode chamar a atenção de artistas que investigam e criam obras de arte. Um exemplo de pesquisa e criação com base em nossa brasilidade são os chamados afrossambas, gênero musical que tem início com as análises poéticas, rítmicas e linguísticas de Vinicius de Moraes (1913-1980) e Baden Powell (1937-2000) e que resultou no álbum, de 1966, Afrosambas.

Professor, de acordo com o Novo Acordo Ortográfico, a grafia correta da palavra é afrossamba.

Brasilidade: refere-se a características tipicamente brasileiras, que envolvem afinidades com o país e peculiaridades do povo.

Os artistas Vinicius de Moraes e Baden Powell tiveram contato com a cultura afrodescendente em rodas de samba, capoeira e casas religiosas do Rio de Janeiro e da Bahia e se encantaram pelos sons do berimbau, caxixi, atabaques, bongô, agogô e afoxé, instrumentos oriundos da cultura afrodescendente, que foram misturados à flauta, ao violão, ao sax, à bateria e ao contrabaixo instrumentos musicais de influência europeia e americana. A língua africana iorubá também influenciou as letras das músicas que fazem parte do álbum Afrosambas e também de outras composições da música popular brasileira. O iorubá é uma língua que chegou ao Brasil por volta do século XVIII com os povos africanos conhecidos aqui como nagôs, oriundos principalmente de Benin. Muitas palavras dessa língua foram incorporadas ao nosso idioma e ecoaram em nossa brasilidade. Dessa maneira, fizeram parte da composição dos afrossambas que foram cantados por milhares de brasileiros, acompanhando a voz do poeta Vinicius de Moraes e a música do instrumentista Baden Powell. O Brasil, país de pluralidade cultural, proporcionou encontros e parcerias artísticas que influenciaram o sincretismo cultural e a riqueza da nossa arte.

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Os afrossambas apresentados por Vinicius de Moraes e Baden Powell marcaram a história da música popular brasileira. O álbum de 1966 foi um divisor de águas porque mistura o samba, gênero consagrado da nossa música, que já havia nascido por misturas culturais (ritmos africanos e modas de viola de origem europeia), e as palavras e sonoridades afrodescendentes. Forma. 1966

Veja a seguir a capa desse álbum e também um trecho da música Canto de Xangô.

Tudo é só amor, para mim Xangô Agodô Hoje é tempo de amor Hoje é tempo de dor, em mim MORAES, Vinicius de; POWELL, Baden. Canto de Xangô. Disponível em: http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/ musica/discos/os-afrosambas. Acesso em: 11 abr. 2016.

Capa do álbum Os Afrosambas (Forma, 1966), parceria entre Vinicius de Moraes e Baden Powell.

RGE. 1975

O artista Vinicius de Moraes também gravou seus afrossambas em parceria com outros artistas brasileiros, como Toquinho (1946-). Veja a seguir a capa do álbum e um trecho da letra da música Canto de Ossanha.

O canto da mais difícil E mais misteriosa das deusas Do candomblé baiano Aquela que sabe tudo Sobre as ervas Sobre a alquimia do amor MORAES, Vinicius de; POWELL, Baden. Canto de Ossanha. Disponível em: https://www.letras.mus.br/ vinicius-de-moraes/86520/. Acesso em: 11 abr. 2016.

Capa do álbum O Poeta e o Violão (RGE, 1975), parceria entre Vinicius de Moraes e Toquinho.

As músicas de Vinicius influenciaram e continuam influenciando artistas brasileiros como, por exemplo, Jorge Ben Jor (1945-), Chico Science (1966-1997), Tereza Cristina (1968-), Gilberto Gil (1942-) e tantos outros mestres da música brasileira. Que tal ouvir os afrossambas para conhecer a sonoridade da música e da língua que compõe a brasilidade do povo brasileiro, além de poder perceber a influência da música afrodescendente na composição dessas músicas? Você e seus amigos, com seus professores, podem organizar um sarau com o tema “Afrossambas e suas influências na música popular brasileira“ e nesta ocasião promover debates sobre afrodescendência e brasilidade.

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Projeto experimental Curtas-metragens Linguagem da arte: cinema O cinema é considerado a arte das linguagens. Classificado como modalidade das artes visuais, também aplica outras linguagens em sua produção. Música, dramaturgia, roteiro, visualidade são muito potentes nessa linguagem. Ricciotto Canudo (1879-1923), teórico italiano especialista em cinema, foi quem nomeou o cinema como “a sétima arte” ao escrever o manifesto O nascimento da sétima arte, publicado em 1911. Ricciotto Canudo defendeu a ideia de que o cinema é uma arte que reúne as outras, aquela na qual as artes plásticas, como artes do espaço, interagem com a música e a poesia, consideradas artes do tempo. Com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, podemos criar na linguagem do cinema. Hoje, os celulares estão equipados com câmeras digitais, o que pode facilitar a criação.

Processos de criação Há diversos gêneros no cinema: comédia, drama, suspense, terror, ficção científica, entre outros. Escolha um gênero, crie um roteiro e elabore seu filme planejando as tomadas de cenas. Além disso, luz, foco, ângulos de câmera e planos (close e geral, por exemplo) e outros aspectos necessários para compor a imagem são preocupações importantes. Na produção de filmes, muitos profissionais estão envolvidos diretamente, como roteiristas, figurinistas, cenógrafos, técnicos de luz e som, músicos, editores de imagem até o diretor e atores, que são os mais conhecidos pelo público, e indiretamente, como marceneiros, motoristas, cozinheiros, cabeleireiros, maquiadores, enfim, profissionais necessários das mais diversas áreas. É uma arte que se faz coletivamente e que conta com trabalhos de muitas pessoas na pré e pós-produção. Combinem, em grupos, o papel de cada membro e planejem todo o processo. Definam o roteiro e o tempo do filme. Uma proposta é realizar um filme em um minuto. Existem vários festivais do minuto ou com outros limites de tempo, em que as produções são apresentadas em curtas-metragens. Criem, inventem e depois apresentem aos colegas. Para começar, escreva um resumo do roteiro do seu filme, ou seja, o que irá acontecer e em qual ordem. Os criadores de cinema também usam o storyboard como recurso de planejamento. Comece a criar seu storyboard. Faça desenhos em sequência mostrando como serão as cenas, os ângulos de visão, a luz e outros detalhes importantes na composição da linguagem cinematográfica. Descreva também o que acontece em cada cena.

Curta-metragem: termo usado para definir filmes de curta duração. Há festivais de cinema criados especialmente para esse formato de filme. Há regras internacionais que estabelecem que um filme de curta-metragem deve ter no máximo 40 minutos. No Brasil, a orientação estabelece apenas 15 minutos. Existem festivais de cinema em que o desafio é criar um filme em apenas um minuto.

Storyboard : termo em inglês que se refere a desenhos (ilustrações) que mostram a sequência das cenas de um filme. É uma ferramenta de visualização prévia muito usada no processo de criação da linguagem do cinema. Esse recurso também é usado na publicidade como forma de planejamento.

DICA Para navegar Há vários sites que dão dicas sobre a produção de filmes. Para saber mais sobre curtas-metragens, visite o site: <http://tub.im/5y5jka> (acesso em: 15 mar. 2016). Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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FIQUE DE OLHO:

Enem e vestibulares

Cortesia/César e Claudio Oiticica

1. (UFG-GO) Leia a imagem e o texto a seguir e responda à questão.

Imagem de parangolés feitos por espectadores a partir da Proposição /Performace Capas Feitas no Corpo, 1968, de Hélio Oiticica.

Parangolé é o nome dado pelo artista carioca Hélio Oiticica (1937-1980) para as suas “obras para vestir”. Daí surgiram capas/estandartes usadas pelos passistas da Escola de Samba Mangueira. De acordo com o crítico de arte Mário Pedrosa, em artigo de 1966, para o Correio da Manhã, “foi durante a iniciação ao samba que o artista passou da experiência visual, em sua pureza, para uma experiência do tato, do movimento, da fruição sensual dos materiais, em que o corpo inteiro, antes resumido na aristocracia distante do visual, entra como fonte total da sensorialidade”.

O artista plástico Hélio Oiticica queria ressaltar com seus “Parangolés”

a) a transgressão dos valores da indústria da moda de sua época, apenas referenciada na cultura europeia. b) a relação total da arte com o corpo, a vida, a música, as artes visuais e a dança. c) a inclusão da arte nas favelas, onde não havia manifestações artísticas. d) a valorização dos passistas da Escola de Samba.

2. (UFG-GO) Alex Flemming. Série Sumaré, 1998.

Resposta: b O Parangolé para Hélio Oiticica deveria não apenas ser visto, mas também tocado e vestido. O objeto ultrapassa as linguagens tradicionais já que não é somente uma pintura e também não se resume à dança. O corpo que veste o Parangolé o transforma em algo novo e revela também o dançarino, espectador.

Na instalação do artista Alex Flemming, fotografias em grande escala foram plotadas no espaço do metrô Sumaré, na cidade de São Paulo. No exemplo citado, a compreensão da cidade como espaço educativo pode ser assim formulada:

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a) formação de sujeitos reflexivos na relação com o meio do qual fazem parte. b) reafirmação do talento do artista em detrimento das demais competências sociais. c) delimitação de espaços individualizados em áreas de interação coletiva.

Resposta: a A arte de Alex Flemming nos convida a refletir sobre os ambientes onde estamos inseridos e chama a atenção para a poesia que se esconde dentro de cada uma das pessoas que transitam pelas cidades sem ser notadas.

d) universalização das análises de significados dos símbolos urbanos.

3. (Enem-MEC) Teatro do Oprimido é um método teatral que sistematiza exercícios, jogos e técnicas teatrais elaboradas pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal, recentemente falecido, que visa à desmecanização física e intelectual de seus praticantes. Partindo do princípio de que a linguagem teatral não deve ser diferenciada da que é usada cotidianamente pelo cidadão comum (oprimido), ele propõe condições práticas para que o oprimido se aproprie dos meios do fazer teatral e, assim, amplie suas possibilidades de expressão. Nesse sentido, todos podem desenvolver essa linguagem e, consequentemente, fazer teatro. Trata-se de um teatro em que o espectador é convidado a substituir o protagonista e mudar a condução ou mesmo o fim da história, conforme o olhar interpretativo e contextualizado do receptor. Companhia Teatro do Oprimido. Disponível em: www.ctorio.org.br. Acesso em: 1 jul. 2009 (adaptado).

Considerando-se as características do Teatro do Oprimido apresentadas, conclui-se que

a) esse modelo teatral é um método tradicional de fazer teatro que usa, nas suas ações cênicas, a linguagem rebuscada e hermética falada normalmente pelo cidadão comum. b) a forma de recepção desse modelo teatral se destaca pela separação entre atores e público, na qual os atores representam seus personagens e a plateia assiste passivamente ao espetáculo.

Resposta: c Augusto Boal, em seu Teatro do Oprimido, desenvolveu uma linguagem teatral provocativa e democrática, em que as proposições teatrais abrem espaço para o cidadão não ator desenvolver sua criticidade e expressar suas ideias.

c) sua linguagem teatral pode ser democratizada e apropriada pelo cidadão comum, no sentido de proporcionar-lhe autonomia crítica para compreensão e interpretação do mundo em que vive. d) o convite ao espectador para substituir o protagonista e mudar o fim da história evidencia que a proposta de Boal se aproxima das regras do teatro tradicional para a preparação de atores. e) a metodologia teatral do Teatro do Oprimido segue a concepção do teatro clássico aristotélico, que visa desautomação física e intelectual de seus praticantes.

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Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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E X P E D I Ç Ã O C U LT U R A L O verbo “seguir“ é muito usado na internet para designar a ação de acompanhar um debate, as ações de alguém, as ideias etc. Assim, nas redes digitais, quando você “segue” algo ou alguém é porque está acompanhando a maneira como as coisas ocorrem. Desse modo, fique atento às mudanças na arte e nas programações culturais de sua cidade, e vá ver de perto como as linguagens artísticas são criadas e expressas na música e nas artes cênicas e visuais. Anote suas impressões e críticas sobre o que você vê, ouve e sente em relação às linguagens na arte. Trace mapas para procurar as linguagens artísticas; você pode compartilhar as experiências com os colegas, como na imagem abaixo, que apresenta a Cartografia da arte, com curadoria independente de Mona Carvalho, reunindo espaços de arte e ateliês da cidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Em que lugares podemos vê-las, ouvi-las, senti-las? Você pode organizar a cartografia da arte em linguagens como nos sites de músicas em que é possível ouvir playlists criados por outras pessoas e até compartilhá-los. Na linguagem dos audiovisuais podemos investigar as últimas novidades sobre cinema, vídeo e videoarte. Na internet você também pode acessar sites de fotógrafos e de museus para ficar sabendo o que está acontecendo e o que há de novidade na arte contemporânea.

cartografiadaarte.com.br/Curadoria Independente de Mona Carvalho. Arte de: Nicole Nissola

Quando encontrar uma linguagem artística de que você gostar, divulgue-a para os colegas da maneira que puder, por exemplo, por meio das redes sociais de que você participa. Assim, você pode formar uma teia de informações e, além de ser um apreciador de linguagens artísticas, transformar-se em um dinamizador cultural.

O projeto Cartografia da arte com o intuito de aproximar o público dos artistas fez o mapeamento de ateliês da cidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul.

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DIÁRIO DE BORDO Os seres humanos sempre usaram materiais para produzir as linguagens artísticas. Com a era industrial e tecnológica, novos meios surgiram e ainda surgem para se fazer arte. Meios mecânicos e eletrônicos são utilizados para produzir linguagens que trabalham com sons, imagens, letras. Vimos que as linguagens artísticas foram nascendo e modificando-se, misturando-se e tornando-se híbridas. A ideia de hibridismo está ligada ao contexto cultural contemporâneo. O híbrido nasce de situações culturais germinadas por relações sociais e meios de comunicação. As tecnologias trouxeram mais possibilidades de materiais expressivos, mas o que faz nascer uma linguagem é a capacidade dos seres humanos de pensar, o que instiga a vontade de criar sempre. O caminho trilhado pela cultura, principalmente nos ambientes urbanos, trouxe uma nova concepção de arte, que é produzida ainda de forma artesanal, mas que se expande para os meios tecnológicos. As linguagens artísticas já não podem ser classificadas por números ou grau de importância, são linguagens que se comunicam por muitos meios e vozes.

Você conheceu alguma linguagem nova? Quais linguagens são mais veiculadas em sua cidade? Existem espaços dedicados à arte na sua cidade? Registre no seu diário de bordo e compartilhe com seus amigos as suas descobertas.

Capítulo 2 • Por línguas e línguas

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© Cortesia/César e Claudio Oiticica

Diante das linguagens artísticas apresentadas neste capítulo, qual mais chamou a sua atenção?

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CAPÍTULO

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Alexandre Orion. 2006-2011 (www.alexandreorion.com). Acervo do artista

A CRIAÇÃO

Ossário, intervenção urbana, de Alexandre Orion, 2006-2011. Remoção da poluição depositada pelos automóveis na lateral da estrutura do Túnel Max Feffer, São Paulo, SP.

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PARA ESTUDAR • Intervenção como criação • Criação e registro • Lugares para criar • “Dom”: virtude, gênio ou curiosidade?

“A gente pensa que vive num lugar onde se fala o que pensa. [...] Eu não conheço esse lugar! A gente pensa que é livre pra falar tudo que pensa mas a gente sempre pensa um pouco antes de falar! [...] Pensa! O pensamento tem poder. Mas não adianta só pensar. Você também tem que dizer! Diz! Porque as palavras têm poder. Mas não adianta só falar. Você também tem que fazer! Faz! [...]” O PENSADOR, Gabriel; LIMA, Aninha; LIMINHA. Se liga aí. Intérprete: Gabriel o Pensador. In: Seja você mesmo (mas não seja sempre o mesmo). São Paulo: Sony, 2001. CD. Faixa 1.

Capítulo 3 • A criação

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TEMA

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INTERVENÇÃO COMO CRIAÇÃO

Professor, na abertura de cada capítulo e temas de nosso livro, escolhemos trechos de obras literárias e letras de música que funcionam como nutrição estética e deflagradores de reflexão sobre o que vem a seguir nos textos presentes nas diferentes seções. É importante que você trabalhe esses textos junto aos alunos, conversando sobre suas primeiras percepções e interpretações, pois estes também têm função didática e poética. Sugira-lhes que ouçam as músicas e leiam os textos na íntegra para ampliar saberes e repertório cultural por meio de pesquisas. Alexandre Orion durante a execução da intervenção urbana Ossário, 20062011, em São Paulo, SP.

Alexandre Orion. 2006-2011 (www.alexandreorion.com). Acervo do artista

Professor, ao final do Tema 1, o Projeto experimental – Improvisação e ritmo – propõe a criação de um rap, trabalhando com a linguagem da música.

Pintamos, esculpimos, compomos, escrevemos com sensações. Pintamos, esculpimos, compomos, escrevemos sensações. As sensações, como perceptos, não são percepções que remeteriam a um objeto (referência): se se assemelham a algo, é uma semelhança produzida por seus próprios meios, e o sorriso sobre a tela é somente feito de cores, de traços, de sombra e de luz. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? MUÑOZ, Alberto Alonso; PRADO JR., Bento (trad.). São Paulo: Editora 34, 1992. p. 215.

Uma das características marcantes dos seres humanos é a criação. Trata-se de uma habilidade desenvolvida há muito tempo e que faz toda a diferença entre nós e as outras espécies do planeta. E como se dá a criação na arte? Será inspiração, genialidade ou a vontade incontrolável de dizer algo utilizando uma linguagem? Lembrando que a linguagem, no caso de nosso estudo, é artística, a criação nasce desse desejo que o músico e compositor Gabriel o Pensador (1974-) canta na música Se liga aí (2001) apresentada na abertura do Capítulo 3. Gabriel nos conta que o pensamento tem poder, mas é preciso encontrar um modo de dizer o que esse pensamento expressa e uma forma de fazer que ele se torne realidade. Quando criamos também exploramos nossas percepções e sensações, assim como as de outras pessoas que podem entrar em contato com a nossa obra. Como está dito no texto dos filósofos franceses Deleuze (1925-1995) e Guattari (1930-1992), apresentado acima, um artista ao criar arte inventa um mundo imaginário, cheio de sentidos, percepções, direções e sensações. Tanto um sorriso pintado em uma tela com tinta a óleo quanto as caveiras criadas a partir da fuligem no grafite de Alexandre Orion (1978-) ativam nossas sensações e atribuímos-lhes sentido, de acordo com nossas interpretações, reflexões e visões de mundo. As imagens artísticas são textos visuais carregados de poética, sentidos e sensações. Quando um artista cria algo, de onde surge a ideia? O artista paulista Alexandre Orion (1978-) desejou dizer algo às pessoas da cidade mais populosa do Brasil, São Paulo. Pensou, pesquisou, escolheu um lugar, os materiais, e se pôs a criar. Em plena metrópole, o artista começou a executar sua obra. Observe no início desta página a obra e o artista durante a intervenção. As pessoas que passavam por um túnel no momento da criação da obra Ossário (2006) talvez tenham ficado curiosas, incomodadas ou indiferentes. Geralmente, os motoristas e pedestres passam apressados pelos túneis das grandes cidades e as autoridades também não esperam que aconteça alguma coisa fora do habitual, como uma intervenção artística, nesses locais. A criação artística é a construção de um discurso que se constitui de ideias, materiais, linguagens e argumentos poéticos e a necessidade de expressá-los de algum modo. Cabe a quem cria descobrir, mesmo em meio a uma caótica cidade, uma potência que deflagre um processo de criação. Os seres humanos sempre fizeram intervenções em seu ambiente. Em meio a florestas e desertos, criaram cidades, mudaram a direção de rios e construíram objetos capazes de modificar a vida natural. Nesse sentido, realizar intervenções foi um modo que nós, seres humanos, encontramos para criar.

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A intervenção urbana, como linguagem artística, procura uma comunicação direta com o público. É mais uma forma que os artistas encontram para manifestar seus pensamentos. Trata-se de uma potência poética, uma linguagem expressiva e explícita, pois o cidadão que passa pelo local em que está acontecendo a intervenção urbana geralmente não escolhe ver ou ouvir, ele é “capturado” pela obra de arte e estabelece um contato com o discurso do artista, expressado sob a forma de esculturas, grafites, cartazes, cenas de teatro, dança e música ao ar livre, projeções de imagens, entre outras manifestações artísticas. Esse tipo de arte procura interagir com o público e surpreendê-lo. Apresenta uma provocação para que as pessoas reflitam sobre a vida, as sociedades, os ambientes... Alexandre Orion escolheu a superfície das estruturas da parede do Túnel Max Feffer, na capital do estado de São Paulo. Usou a própria poluição da cidade, em grande parte depositada como poeira e fuligem vinda do escapamento dos carros que ali passam todos os dias, e pedaços de pano como ferramentas para desenhar. Esses eram os materiais para construir seu argumento. Sua arte surgiu de onde só havia uma superfície escura, na forma de uma imagem perturbadora composta de muitas caveiras, como em um ossário de seres humanos que pereceram na cidade, contaminados pela poluição. Na arte, criar é dar forma a algo que antes não estava ali – ou pelo menos não era facilmente perceptível –, é transmitir o que se pensa, é construir argumentos com base em imagens, palavras, gestos ou sons. Na obra Ossário, a imagem fala por si mesma, porque foi elaborada com o mesmo material que contamina as pessoas que vivem nas grandes cidades. O artista pensa e seu pensamento tem um poder, o que em arte é chamado de potência criativa. Como precisa dizer algo, o artista cria uma forma poética de discursar, de construir um argumento, um modo de fazer algo com materiais e procedimentos, de dar uma forma a suas ideias. Há todo um processo a ser construído entre pensar e fazer.

A arte de ALEXANDRE ORION Alexandre Orion (1978-) fez a intervenção Ossário em várias etapas de trabalho nas estruturas das paredes do Túnel Max Feffer, na cidade de São Paulo (SP), entre os meses de julho e agosto de 2006. Trabalhando de madrugada, várias vezes foi questionado pelas autoridades policiais e fiscais, que viam com estranheza e como provocação a técnica do artista. Contudo, o que Orion fazia não podia ser considerado um crime, porque ele utilizou a técnica do grafite reverso (também conhecido pelas expressões inglesas reverse graffitti, eco-tagging ou green graffiti), que consiste em remover a matéria da superfície em que trabalha. No caso da obra Ossário, usando uma máscara para se proteger da fuligem, ele limpou áreas da estrutura das paredes do túnel com pedaços de pano, criando as caveiras. No processo de relação entre figura e fundo positivo e negativo, ele foi revelando um conjunto de imagens que chegou a ter 160 metros de extensão. O processo de criação da obra Ossário pode ser visto no site do artista (veja a indicação no boxe Dica para navegar) e em outros sites na internet. É muito comum os artistas fazerem registros de suas obras, principalmente das intervenções urbanas, que são artes efêmeras. Arte efêmera: tipo de arte que não tem caráter de permanência. Os artistas geralmente fazem registros das suas obras em fotografias e vídeos para apresentá-las a outras pessoas em outros locais e momentos diferentes daqueles em que a intervenção tenha ocorrido, ou somente para documentar a realização do projeto.

Ivan Shupikov

Palavra do artista “Meus projetos surgem do pensamento, penso muito antes de começar algo. [...] Sempre me preocupou a ideia de o grafite ser egoísta, de usar o espaço público para expressar algo pessoal, e eu queria que ele fizesse parte da vida, queria que a cidade não fosse apenas o suporte, mas a plataforma. [...] Em Ossário a demanda era outra. Visitei um dos túneis de São Paulo, saí de lá com a certeza de que podia desenhar limpando, mas também assustado com a quantidade de poluição que encontrei. A ideia da intervenção concretizou-se quando entendi de que maneira eu usaria a técnica para construir o discurso. E esse é o dado mais importante do Ossário: a relação intrínseca entre a técnica, o local e o discurso. Uma coisa conduz a outra.” Alexandre Orion BRAZ, Endrigo Chiri. A arte urbana de Alexandre Orion. Revista Cult, ed. 145, abr. 2010. Disponível em: <http://revistacult.uol.com.br/home/2010/04/a-arte-urbana-de-alexandre-orion/>. Acesso em: 5 jan. 2016.

O artista multimídia Alexandre Orion interage com a cidade de maneira singular. Foto de 2014.

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Capítulo 3 • A criação

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Cultura hip hop: manifestação cultural que tem sua origem na década de 1970 em locais urbanos de países como Jamaica, Estados Unidos e alguns países da América Latina, entre estes o Brasil. De forte influência das camadas afrodescendentes desses países, a cultura hip hop (do inglês hip – quadril; e hop – pulo) tem como proposta criar principalmente música e dança, em ritmos de batidas bem marcadas, com pausas e rimas que se repetem, divulgando um pensamento contestador e crítico sobre a realidade, os sonhos e as esperanças por um mundo melhor. Há muitas manifestações dentro dessa cultura que podem ser vistas nos grandes centros urbanos em todo o mundo, uma vez que essa estética artística e social se espalhou e se adaptou a cada lugar e cultura local. Fazem parte da cultura hip hop o rap (rhythm and poetry – ritmo e poesia), o DJ (disc-jóquei), o MC (master of cerimonies – mestre de cerimônias), as danças de movimentos improvisados, como o breakdance, a street dance (dança de rua) e as linguagens do grafite. Também podemos perceber um estilo de se vestir e falar dos adeptos dessa tendência cultural. Atualmente, há muitas outras manifestações artísticas nascendo com base nessa estética, uma vez que a cultura está sempre fluindo.

A arte de GABRIEL O PENSADOR Músico, compositor e escritor, Gabriel o Pensador tem sua arte marcada pela crítica e criatividade na maneira de expressão sobre assuntos polêmicos como política, economia, educação, violência, qualidade de vida, entre outros. Ele começou sua carreira na década de 1990, e vem se destacando desde então como um dos mais populares músicos do rap, ritmo que, assim como a linguagem do grafite, está ligado à cultura hip hop. No entanto, Gabriel não se limita a um único gênero musical, e está sempre pesquisando outros sons, ritmos e rimas em que possa misturar letras e melodias de músicas de outros compositores, poesias e citações de poetas e pensadores. Embora busque se nutrir esteticamente de outras obras e tenha vários parceiros em suas criações, a mistura que ele faz acontece dentro de um estilo próprio, um modo pessoal de expressão, sobre o qual observa, guarda em sua memória e imagina o que possa ser um mundo melhor. Nesse processo, ele acumula em seu repertório cultural uma imensa quantidade de frases, fatos, sonhos, criando, assim, sua obra. É assim que esse artista acaba deixando um recado: para que as pessoas “se liguem”, pensem, porque o pensamento tem poder. Para criar é preciso ser um pensador, como ele.

Ofício da arte

“O rap traz coragem para um garoto adolescente, estimula o cara a ter opinião própria, a querer se expressar, de estar consciente, de se informar, de evoluir intelectualmente.”

Gabriel o Pensador apresentando-se no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, RJ, em dezembro de 2010.

Gabriel o Pensador DAMIÃO, Renato. “Meu rap é para um público misturado”, diz Gabriel O Pensador ao unir hip-hop e forró. UOL, 23 dez. 2012. Disponível em:<http:// musica.uol.com.br/noticias/ redacao/2012/12/23/meu-rap-epara-um-publico-misturado-dizgabriel-o-pensador-ao-unir-hiphop-e-forro.htm>. Acesso em: 5 jan. 2016.

Alexandre Orion. 2006-2011 (www.alexandreorion.com). Acervo do artista

Celso Pupo/Fotoarena/Folhapress

Palavra do artista

O artista Alexandre Orion em ação. Detalhe da intervenção urbana Ossário, 2006-2011, na estrutura do Túnel Max Feffer, em São Paulo, SP.

Grafiteiro(a)

Professor, é indispensável conversar sempre com os alunos sobre as questões legais e a necessidade de autorizações para a realização do grafite, em qualquer contexto que ele aconteça.

O grafite durante muito tempo foi considerado uma linguagem marginal, porém com a preocupação da revitalização urbana, o trabalho do grafiteiro alcançou respeito e notoriedade. O trabalho desse profissional pode cobrir grandes áreas ou deixar marcas em detalhes pelas paredes da cidade, e dependendo da técnica, poética e reconhecimento profissional do artista, esse trabalho pode ser bem remunerado. Por meio de alguns cursos e oficinas disponíveis no mercado é possível se especializar em uma das linguagens do grafite e atuar de forma autônoma.

A língua da arte: o grafite reverso No processo de criação em arte, é importante conhecer técnicas e materiais já empregados em diferentes épocas, mas também é fundamental que o artista experimente, arrisque-se a criar com materiais inusitados. O grafite reverso é uma possibilidade de expressão artística que experimenta novos materiais e maneiras de criar arte. Os artistas que exploram esse procedimento usam poeira, sujeira, água, gelo e outros materiais, dos mais variados. O princípio do grafite reverso é a subtração (retirada de matéria do suporte), ao contrário da pintura em tela, que usa o procedimento de adição (colocação de tinta sobre o suporte, por exemplo). Grafite reverso: linguagem artística ligada ao grafite em que o artista remove materialidades. Poeira, tipos de sujeiras, vegetação e outros materiais são removidos com várias ferramentas (desde um pedaço de pano a máquinas de limpeza), em vez de adicionar tinta, como acontece em outros tipos de grafite. Esse tipo de arte geralmente está ligada a ideologias em defesa do meio ambiente, conscientização do uso dos espaços urbanos e críticas sociais.

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Stefaan De Crook. 2011. Acervo do artista (www.strook.eu)

No Brasil e em outras partes do mundo, artistas fazem experiências com materiais que possam servir para seus projetos. Na página anterior, podemos observar mais um detalhe da intervenção urbana de Alexandre Orion. Na Bélgica, o artista Stefaan De Crook, conhecido como Strook, utilizou água como matéria e uma lavadora de alta pressão como ferramenta para fazer uma intervenção em um muro da cidade de Leuven. Muros antes cobertos por musgos tornaram-se suporte para sua arte. O musgo na parede é a marca do tempo, e a água que limpa ao mesmo tempo desenha. Oberserve a imagem do artista em ação.

Stefaan De Crook em ação na produção de grafite reverso, em Leuven, Bélgica, 2011.

Muitos artistas, antes de executarem seus projetos, fazem esboços, enquanto outros criam diretamente sobre o material escolhido. Assim, estudar e compreender as relações entre figura e fundo e contrastes entre tons claros e escuros pode ajudar na execução do projeto artístico. No grafite reverso, os artistas exploram esses contrastes para fazer surgir a imagem. E você? Onde pode encontrar suportes e materiais para fazer um grafite reverso? Pode ser, por exemplo, o quadro da sua sala de aula com as marcas de giz. O desenho pode ser feito com um pano umedecido com água. O muro da escola pode ter marcas do tempo, como fuligem ou musgo. Um vidro de carro empoeirado ou com sereno da madrugada também pode se tornar a sua base. Tudo pode servir para experimentar e fazer arte.

Giro de ideias: Liberdade de expressão Como você e seus colegas acham que uma obra de arte é criada, seja uma música ou um grafite? Vamos conversar a respeito de processos de criação na arte? Na letra da música Se liga aí, de Gabriel o Pensador, que abre este capítulo, há um trecho que diz:

“A gente pensa que vive num lugar onde se fala o que pensa. [...] Eu não conheço esse lugar! A gente pensa que é livre pra falar tudo que pensa mas a gente sempre pensa um pouco antes de falar! [...]” O PENSADOR, Gabriel; LIMA, Aninha; LIMINHA. Se liga aí. Intérprete: Gabriel o Pensador. In: Seja você mesmo (mas não seja sempre o mesmo). São Paulo: Sony, 2001. CD. Faixa 1. Capítulo 3 • A criação

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Agora, analisando o que foi dito sobre as obras de Gabriel o Pensador e de Alexandre Orion neste capítulo, reflitam:

• • • • •

O que você e seus colegas pensam sobre a liberdade de expressão? Para criar, é importante ter liberdade? Como vocês interpretam esse trecho da letra? Como veem o processo de criação da obra Ossário, de Alexandre Orion? E sobre as linguagens do rap e do grafite na intervenção urbana, o que vocês têm a dizer?

Escreva aqui sobre suas conclusões após as reflexões com os colegas.

Professor, podemos discutir sobre muitos aspectos da criação em arte. Veja sugestão no Diálogo com o professor. Neste tema, usamos como exemplo a música e o grafite reverso.

DICA Para navegar Conheça mais sobre a intervenção urbana Ossário consultando este site: <http://tub.im/xxk8p5> (acesso em: 21 abr. 2016). Alexandre Orion nasceu em São Paulo, estudou artes visuais e tem se dedicado a fazer grafites e intervenções urbanas desde 1995. Em sua arte, ele mistura as linguagens da fotografia, do vídeo, da pintura, do desenho, procurando sempre utilizar materiais inusitados.

Criação como improvisação Imaginem a cena: o amanhecer. Teatro lotado, um ator no palco, dormindo em sua cama, e outros na coxia, esperando sua vez de entrar em cena. Todos ainda no escuro do início do espetáculo. Ouve-se o terceiro sinal, a peça vai começar. Surge o som de um galo cantando, sugerindo o anunciar do amanhecer. A ideia da cena inicial era o amanhecer em uma fazenda. Entretanto, a luz que representaria o amanhecer simplesmente não acendeu. O que fazer? A primeira fala do texto é: “Ah! Que lindo amanhecer! O dia será ensolarado!”. Contudo, a luz não acendeu e o dia não clareou. Qual a solução do problema? O espetáculo não pode parar. Para o espetáculo teatral continuar, o grupo deve improvisar uma saída para o problema. O que o ator vai fazer? Improvisar uma fala? E o técnico de iluminação, como resolverá o problema? E os outros atores, o que farão? O teatro, como uma arte do “aqui e agora”, recorre, em vários momentos, à improvisação como saída para problemas que surgem inesperadamente. Um ator que esquece o texto deve improvisar outro imediatamente. Um objeto que cai inesperadamente em cena ou uma interferência súbita de alguma pessoa da plateia também devem ser considerados. São inúmeros os casos em que os atores em cena se veem obrigados a improvisar algo para continuar o espetáculo. Além dessas possibilidades, em que a improvisação em cena é a tentativa de uma solução para resolver um problema, exigindo criatividade e agilidade, há outra forma de improvisação. Trata-se da improvisação como técnica ou recurso, da qual o grupo de atores e atrizes se apropria como proposta de criação para determinado espetáculo.

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A improvisação no teatro pode acontecer em função de um problema que surge na hora do espetáculo, mas há companhias de teatro que criam jogos teatrais em que a improvisação faz parte da técnica e da concepção cênica adotada na criação da peça. Um jogo teatral com improvisação pode acontecer em vários locais, com base em muitas situações. Para que ele aconteça, precisamos que as pessoas que jogam estejam predispostas a brincar, a jogar e a enfrentar os desafios na improvisação.

Cena da peça teatral Jogando no Quintal. Desde 2001. Direção: Cesar Gouveia. Foto: Acervo do Grupo de teatro

Improvisação como técnica teatral

É preciso fazer alguns combinados para que o jogo teatral de improvisação dê certo:

• • • •

Quem serão os jogadores. Quais serão as regras. Qual será a duração do jogo. Qual será o problema que vai gerar a improvisação.

O jogo de teatro com improvisação é uma forma de criação artística que mostra que aprender e criar podem ser processos divertidos e prazerosos. O grupo teatral Jogando no Quintal tem como proposta a improvisação. Assim, o grupo convida a plateia para participar do espetáculo a todo o momento. A proposta desse grupo é o jogo, e para que isso aconteça cria um ambiente no cenário que lembra uma partida de futebol. Placar, bola, figurinos com roupas de times, um juiz e outros detalhes dão o tom ao espetáculo. Os atores caracterizam-se de palhaços. Músicos criam uma atmosfera de torcida, em que o público é convidado a participar dessa Nesta imagem, o grupo Jogando no Quintal cria e improvisa um carro turma de jogadores e torcedores. usando apenas dois pneus. Tudo com muito humor e criatividade. Ideias e problemas são escolhidos pelos jogadores assim como objetos e Pantomima: Representação teatral em que os atores exprimem unicamente membros da plateia, que ajudam a criar desafios e soluções e se tornam cepor meio de gestos os sentimentos, nas de espetáculos. Cada vez que assistimos a um espetáculo como esse do as paixões, as ideias, utilizando a expressão facial e corporal. Jogando no Quintal, vemos uma peça diferente, porque a dinâmica do jogo e da improvisação cria novas situações. O grupo faz uma mistura do palhaço, da Improvisação: recurso de encenação teatral pelo qual se procura obter a ação pantomima, do roteiro e da improvisação. Cada espetáculo é único.

DICA

dramática com base na espontaneidade e na habilidade de adaptação às situações vividas pelos atores.

Para navegar Conheça mais sobre o grupo Jogando no Quintal, seu método e seus projetos visitando este site: <http://tub.im/3unq6f> (acesso em: 25 abr. 2016). Capítulo 3 • A criação

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Giro de ideias Jogo de improvisação teatral Nas montagens do grupo Jogando no Quintal, o que torna cada jogo tão especial é o fato de todas as cenas serem criadas na hora, ao calor da situação, e com toda a anarquia e a irreverência de seus jogadores. Por esse motivo, podemos dizer que cada partida é um espetáculo único, que jamais se repetirá. Qualquer objeto pode dar uma boa cena de teatro. É só ter a disposição de inventar! Convide os colegas para esse tipo de jogo! Vamos experimentar jogar e improvisar no teatro? Combine com os colegas:

• cada um deve trazer para a aula um objeto qualquer; • coloquem os objetos dentro de uma caixa; • formem grupos de cinco a sete pessoas para jogar de cada vez (quem não estiver jogando atua como plateia); • uma pessoa da plateia vai até a caixa e retira um objeto e, com base no que o objeto pode sugerir, propõe um desafio para o grupo de atores/jogadores; • os jogadores têm de criar uma cena para resolver o desafio dado; • a plateia também pode dar palpites sobre como o desafio pode ser resolvido. Agora, registre os desafios e as cenas que achou mais interessantes e por quê.

Conexões

Arte e Meio ambiente

Ação artística A poluição deixa marcas concretas nas cidades. Ao passar a mão em uma parede, um piso ou na superfície de um objeto qualquer, é possível percebermos as manchas escuras: é a sujeira da cidade. A crítica feita pelo artista Alexandre Orion, ou melhor, sua argumentação poética, na intervenção urbana Ossário, causou polêmica nas esferas públicas e repercutiu na imprensa. A poeira usada pelo artista pode estar nos muros e túneis da sua cidade? Como você vê as políticas públicas para diminuir a poluição em centros urbanos? Nos debates internacionais sobre o meio ambiente, algumas questões têm sido colocadas como prioritárias nas ações do poder público e na iniciativa de empresas privadas. Entre elas estão: a redução de impostos para atitudes que previnem a poluição ambiental, a educação para uma responsabilidade ambiental coletiva e o incentivo ao desenvolvimento de propostas para tecnologias ambientalmente sustentáveis. Você sabe dizer como sua cidade tem lidado com essas questões? Promova uma discussão sobre meio ambiente com base no discurso feito pelo artista Alexandre Orion em sua obra Ossário. Pesquise sobre outros artistas que tratam de questões ambientais em suas obras de arte. Esse tipo de intervenção artística já aconteceu em sua cidade? O que você acha do tema poluição para criar um projeto de arte e meio ambiente? Faça uma pesquisa sobre as intervenções urbanas e o meio ambiente.

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Conexões

Arte e Língua Portuguesa

Metáforas em diferentes contextos Há concursos de música em forma de desafios no rap, as letras elaboradas no improviso fazem parte do freestyle (estilo livre), que se preocupa com a qualidade e a coerência da argumentação que se forma em letras de música. Além da rima, outras características são importantes, como a capa­cidade de se expressar por metáforas e analogias. Isso ocorre não apenas no rap, mas em outros gêneros musicais da música popular brasileira (MPB), como o samba, a bossa nova, entre outros, e também em outras linguagens artísticas. A metáfora consiste em transferência de significados. É criada com base em uma relação de semelhança que pressupõe um processo anterior de comparação. Trata-se de uma figura de linguagem utilizada por letristas e poetas para estabelecer uma analogia de significados entre palavras ou expressões. Pode brincar com a imaginação, enriquecer uma frase poética e criar possibilidades de duplo sentido ou ambiguidade. Na arte, usar metáforas é mais do que migrar significados, é construir um discurso que estabelece relações e inter-relações entre o que está sendo dito e seus possíveis sentidos. Estudar a língua pátria é importante para vários aspectos da nossa vida, tanto pessoais quanto profissionais. E quanto mais conhecemos a língua do nosso país, por exemplo, mais capacitados estamos para criar metáforas em letras de músicas. É como em um jogo, em que é preciso conhecer as regras para compreender e fazer as melhores jogadas. O compositor, músico e poeta baiano Gilberto Gil (1942-) criou uma canção para falar da metáfora na arte. Observe como ele trata o tema no trecho da música Metáfora (1982):

Uma lata existe para conter algo. Mas quando o poeta diz: “Lata” Pode estar querendo dizer o incontível [...] GIL, Gilberto. Metáfora. In: Um Banda Um. Rio de Janeiro: Warner, 1982. CD. Faixa 3.

Há um discurso na linguagem dessa música que fala do processo de criar arte. O compositor também diz que as palavras podem assumir outros significados em função da poética de cada artista. Conheça a letra na íntegra e ouça a música Metáfora, fazendo buscas em sites da internet. Na palavra metáfora, originada do grego antigo, meta indica tempo, lugar ou direção, enquanto fora significa “levar”. O processo metafórico permite-nos ver as coisas diferentemente, para pensar em novas ideias, novas relações entre palavras, sons, imagens, gestos... Outro exemplo de metáfora na música popular brasileira é a canção Cálice (1973), do compositor e escritor carioca Chico Buarque de Hollanda (1944-) em parceria com Gilberto Gil, em que a sonoridade da palavra “cálice” é utilizada com duplo sentido pelos autores. É feita uma analogia entre o objeto “cálice”, que tem relação com passagens do Novo Testamento da religião cristã, pela hesitação entre fugir ou ser pego em pleno sofrimento, e a forma verbal “cale-se”, no contexto da imposição do silêncio, que, na época, era determinada pelo governo militar, que impunha a censura nos tempos de ditadura no Brasil (1964-1985). Observe a imagem e o trecho a seguir.

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Acervo Memórias Reveladas do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro

Reprodução do veto à música Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil. Na imagem, é possível visualizar o carimbo de MJDPF-DCDP/DR/GB (Ministério da Justiça – Departamento de Polícia Federal – Divisão de Censura de Diversões Públicas – Delegacia Regional – Guanabara). A data provável de autorização definitiva desse ato de censura é 10 de maio de 1973, como está manuscrito no visto do documento.

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Professor, sempre que houver citação de músicas, é importante selecioná-las e encontrar meios de reproduzi-las em sala de aula para que os alunos possam apreciá-las e ampliar o repertório cultural. Proponha sessões de audição dos exemplos citados neste capítulo e de outras músicas que achar adequadas e promova debates para que a turma faça comparações e reflexões sobre a metáfora na arte.

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[...] Pai! Afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue Talvez o mundo não seja pequeno (Cale-se!) Nem seja a vida um fato consumado (Cale-se!) Quero inventar o meu próprio pecado (Cale-se!) Quero morrer do meu próprio veneno (Pai! Cale-se!) Quero perder de vez tua cabeça! (Cale-se!) Minha cabeça perder teu juízo. (Cale-se!) Quero cheirar fumaça de óleo diesel (Cale-se!) Me embriagar até que alguém me esqueça (Cale-se!) BUARQUE, Chico; GIL, Gilberto. Cálice. In: BUARQUE, Chico. Chico 50 anos, o político. Rio de Janeiro: Polygram, 1994. CD. Faixa 3.

A letra foi censurada em 1973 e liberada somente em 1978, quando Chico Buarque gravou a música com Milton Nascimento (1942-) e o grupo MPB4 (grupo instrumental e vocal masculino em atividade desde 1965). Ainda em 1978, a cantora baiana Maria Bethânia (1946-) regravaria a música. Em 2010, a cantora baiana Pitty (1977-) fez uma versão rock e, recentemente, o paulista Criolo (1975-), cantor muito influenciado pelo rap, criou outra versão de letra para a melodia, em que retrata a realidade atual dos bairros da periferia das grandes cidades ao mencionar questões relacionadas a segurança, drogas, entre outras.

Como ir pro trabalho sem levar um tiro Voltar pra casa sem levar um tiro Se as três da matina tem alguém que frita Nelson Antoine/Estadão Conteúdo

E é capaz de tudo pra manter sua brisa [...] Pois na quebrada escorre sangue, pai. Pai [...] CRIOLO. Cálice. In: Nó na orelha. Rio de Janeiro: Universal, 2011. CD. Faixa 4.

Pesquise mais sobre a metáfora, tanto em músicas quanto em outras linguagens da Arte.

O cantor Criolo, nome artístico de Kleber Cavalcante Gomes, mistura os ritmos do rap com vários outros estilos, como funk e soul estadunidenses, samba e MPB. Na foto, Criolo apresentando-se na Virada Cultural, evento com 24 horas seguidas de apresentações artísticas, em São Paulo, SP, em maio de 2013.

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Projeto experimental Improvisação e ritmo

Janilton Eloy/D.A Press

O rap é um gênero musical que mistura sons e poesia, palavras quase faladas, ritmadas em sons que dão pausas e marcas sonoras repetidas. Há uma pulsação entre sons e falas (já criados ou improvisados) que expressam o pensamento do artista. O cantor de rap, se quiser, pode utilizar técnica vocal para imitar os sons e as pausas, como os que ouvimos quando um DJ manipula um disco de vinil ou cria efeitos em uma mesa de som ou computador. No caso do grupo do cantor Marcelo D2, há também a presença do artista Fernandinho Beat Box, que, além da função de backing vocal (vocal de apoio), realiza o beatbox. Observe abaixo a foto desses dois artistas se apresentando. Há muitos estilos usados no rap. Um deles é conhecido como freestyle (estilo livre), que explora a improvisação. Em outros gêneros musicais, artistas também utilizam o improviso na criação, como no repente. Beatbox: termo que A composição de um rap pode ser feita como em um jogo entre você e os colegas. significa “caixa de batida”, Nesse momento, é oportuno o questionamento: o que você e a turma estão descobrinusado para especificar do sobre processos de criação na arte? uma técnica de percussão vocal da cultura hip A obra de intervenção urbana Ossário, de Alexandre Orion, e a música Se liga aí, de hop, imitando os sons Gabriel o Pensador e seus parceiros, foram apresentadas como exemplos de criação na produzidos pelo DJ ou acrescentando outros arte. Quando tratamos dos processos de criação em arte, quais palavras vêm à cabeça? sons. Essa técnica, além da Escreva as palavras que vierem à sua mente cada uma em um pedaço de papel, dovoz, também pode usar o corpo como suporte, como bre o papel e coloque-o em uma caixa. instrumento musical. Na Para obter mais palavras e deixar o jogo mais divertido, convide os colegas a fazer maioria das vezes, não é o mesmo. o cantor principal quem utiliza essa técnica em uma Para jogar, um colega vai até a caixa e tira uma palavra e, em ritmo de rap, cria uma apresentação ou gravação, frase (ou mais, conforme quiser) com base nessa palavra. Na sequência, outro colega mas um convidado ou vocal de apoio. ou você mesmo tira mais uma palavra, e o fluxo do jogo segue de forma improvisada na criação de rimas até que acabem todas as palavras de dentro da caixa ou até que Repente: tipo de poesia vocês decidam parar. musicada da cultura brasileira, principalmente Observe a seguir algumas dicas para que o jogo fique mais dinâmico e divertido. na região Nordeste, • Se algum componente do grupo tiver dificuldade em criar a rima, a turma pode realizada por músicos repentistas e cordelistas. ajudá-lo, dando a ele a chance de retirar mais uma palavra. Os repentistas exploram • Enquanto o colega estiver pensando, a turma pode dar a ele mais um tempo para instrumentos como violão, violas, sanfonas, triângulos a elaboração da rima (para que o jogo não perca o ritmo, combinem antes um e outros. Muitas vezes refrão que todos possam cantar até que o colega prossiga com a brincadeira). criam músicas rimadas e • Como se trata de uma criação coletiva, ela exige a cooperação e a compreensão poemas de improviso. de todos. Coloque-se sempre no lugar do colega. Como pode haver maior potência criativa em uma palavra que em outras, não se deve desvalorizar a rima Marcelo D2 e Fernandinho Beat Box apresentando-se dos colegas; ao contrário, deve-se dar apoio para que o resultado, que é a música, no Estádio Olímpico João fique interessante e rico nas rimas e na mensagem. Havelange (Engenhão), no • Enquanto uma parte do grupo estiver criando rimas, outros colegas anotam a Rio de Janeiro, RJ, em letra da música composta. março de 2012. • Outra parte da turma pode fazer sons, criando o ritmo da música com a boca, as mãos ou com objetos disponíveis. • Se na escola tiver um toca-discos (vitrola ou, como os DJs chamam, pickup), um colega pode ser o DJ e brincar com sons entre pausas, repetições e outros efeitos. • Formem também um grupo de dança; se vocês sentirem vontade de dançar, é só seguir o ritmo. • Certamente, esse momento será único e especial. Então, que tal fazer um vídeo para registrar essa criação? Além de assisti-lo e fazer sessões para apresentar a produção do grupo a outras turmas, vocês podem socializar a apresentação na internet, se todos concordarem.

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TEMA

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CRIAÇÃO E REGISTRO

Professor, ao final do Tema 2, o Projeto experimental – Registros artísticos – propõe registro de movimentos corporais e sons por meio de desenhos. Um convite para criar usando a linguagem da dança ou a linguagem da música.

Ora, talvez a dança seja a forma de manifestação artística que guarda a ligação mais íntima com o corpo. É a única forma de expressão em que o corpo do artista se torna plenamente uma obra de arte BARRENECHEA, Miguel Angel; CASANOVA, Marco Antonio; DIAS, Rosa; FEITOSA, Charles (org.). Assim falou Nietzsche III:: para uma filosofia do futuro. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001. p.35.

Nosso corpo traz a expressão que vem de uma vida caracterizada pelas dimensões psicológica, afetiva e cultural. Aprendemos a nos expressar por meio de movimentos. Ao estudar nosso corpo e o que ele pode fazer, ou seja, como se mexe, dobra, salta, se posiciona, entre outras experiências do movimento, desenvolvemos a consciência corpórea, conhecimento fundamental para a criação na linguagem da dança. Para estudar os elementos da dança, pensem em como seu próprio corpo se move. Em que tempo: rapidamente, lentamente, de maneira contínua ou em pausas? Qual a intensidade do movimento? Vocês colocam muita força ou fazem movimentos leves? Como seu corpo e o dos colegas se movimentam na sala ou no pátio? Fazem movimentos próximos ao chão ou dão saltos, alcançando planos mais amplos? Em que direção os movimentos são feitos? Na fluência dos movimentos, como os corpos interagem uns com os outros? Qual a dinâmica do movimento? Como vocês estão fazendo os movimentos?

Dançarinos durante show de dança e música do Ballet Revolución, em Berlim, em 2012.

Tobias Schwarz/Reuters/Latinstock

Na dança contemporânea, há a preocupação em valorizar a criação com base nas emoções e percepções do universo particular dos atores bailarinos. Em muitas companhias de dança, o trabalho acontece de modo colaborativo, em que todos contribuem dando ideias e opiniões sobre a criação de uma coreografia. Os movimentos do dia a dia também podem ser pesquisados para a criação na linguagem da dança, sendo possível explorar tarefas das mais corriqueiras, como escovar os dentes, às mais complexas, como criar um movimento em uma coreografia.

Pensar nessas questões pode motivar sua percepção corporal para começar a compreender os elementos na dança descritos pelo bailarino húngaro Rudolf Laban (1879-1958). Na linguagem da dança, Laban chamava a atenção para o estudo dos seguintes elementos de linguagem corporal: tempo, força/peso, espaço e fluência. Com base inicial nesse estudo, podemos criar partituras de dança que registram os movimentos corporais.

A arte de RUDOLF LABAN Rudolf Laban (1879-1958), considerado um dos principais criadores da dança-teatro, foi um artista húngaro pesquisador da arte da dança. Sempre valorizou o estudo do movimento, desde aquele presente nas ações cotidianas até os que formam as mais elaboradas coreografias. Para Laban, o movimento está sempre em processo de mudança, em mutação. Fazemos uma ação e logo em seguida criamos outras. A cada ação, reorganizamos o movimento em ritmos, intensidades e fluências. Podemos criar uma partitura de movimentos ao prestar atenção em nossas ações. O movimento, para Laban, é uma linguagem e, portanto, tem seus próprios códigos, que podem ser organizados e reorganizados para construir sentido, demonstrar sentimentos, ideias, sensações e, assim, criar na arte da dança. Capítulo 3 • A criação

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Julie Lemberger/Corbis/Latinstock

Embora tenha deixado explicado que somos livres para criar nossos movimentos, Laban também criou vários estudos mostrando uma sintaxe do movimento do corpo. Alguns aspectos de análise do movimento no estudo de Laban:

• no estudo do corpo, investigou como ele se move, organiza gestos, posturas e interage com o espaço e outros corpos;

• sobre o esforço, pesquisou as qualidades do movimento, tanto interno quanto externo, os ritmos, as dinâmicas e como o corpo se move determinado pelas relações com peso, fluxo, tempo e espaço (movimentos que podem acontecer de modo individual ou em grupo);

• a forma também foi investigada para perceber as possibilidades em relação ao volume (as formas podem ser contínuas ou pontuais);

• na pesquisa sobre o espaço, Laban explorou a ideia de kinesfera. Imagine um corpo dentro de um círculo ou outra forma geométrica. Dentro dessa forma, podemos imaginar esse corpo se movimentando em várias direções e alturas. É o estudo de como o corpo ocupa o espaço, como podemos observar na imagem ao lado.  Kinesfera: conceito estudado por Laban para representar a forma do limite de ocupação do espaço de cada um. É o estudo de como ocupamos o nosso espaço individual e como podemos alcançar limites ao esticar as partes do nosso corpo em qualquer direção, a partir de um ponto de apoio. Esquema apresentando o conceito de kinesfera. Cena do Ballet Contemporâneo Alonzo King em Scheherazade, Mônaco, Monte Carlo, 2009.

UllsteinBild Bild/Getty Ullstein /Getty Images Images

Palavra do artista “[...] O movimento, portanto, revela evidentemente muitas coisas diferentes. É o resultado ou da busca de um objeto dotado de valor ou de uma condição mental. Suas formas e ritmos mostram a atitude da pessoa que se move numa determinada situação. Pode tanto caracterizar um estado de espírito e uma reação, como atributos mais constantes da personalidade. O movimento pode ser influenciado pelo meio ambiente do ser que se move.” Rudolf Laban LABAN, Rudolf. Domínio do movimento. Tradução de Anna Maria Barros de Vecchi e Maria Sílvia Mourão Netto. São Paulo: Summus, 1978. p. 20.

Rudolf Laban é considerado o maior teórico da dança do século XX. Foto de 1930.

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O desenho da mĂşsica





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Na música tambÊm hå a percepção de sons do cotidiano. Essa escuta nos ajuda a deixar os ouvidos atentos e a apreciar melhor nosso universo sonoro, incluindo a música. Raymond Murray Schafer (1933-), compositor canadense, tambÊm músico, pedagogo musical, educador e investigador do ambiente sonoro, desenvolve em suas pesquisas a ideia de que temos um mundo para ouvir e criar sons, mas Ê preciso aprender a ouvir de forma significativa para criar. A escuta sensível aguça a percepção das nuances e parâmetros do som.

Editoria de Arte Editoria de Arte

Os sons podem ser registrados por meio de gravação ou da escrita. O registro dos sons por meio da escrita pode ser feito de muitas maneiras. Uma forma bastante utilizada Ê a notação por meio do pentagrama ou pauta, as linhas em que são escritas as notas musicais e as figuras rítmicas usadas para registrar a duração do som. Outra possibilidade Ê realizar registros de modo não convencional, por meio de desenhos. Como observamos na imagem abaixo.

Os sons têm qualidades, parâmetros sonoros. Os compositores descrevem essas qualidades/parâmetros em suas partituras. São códigos combinados na linguagem da música, convençþes de uma linguagem inventada hå muito tempo e adotadas em todo o mundo. Os músicos estudam esses sinais para identificar as notas, sua altura, duração, intensidade, timbre e densidade.

                            î&#x192;&#x2020;î&#x192;&#x2020;

            î&#x192;´î&#x192;´

Nota Pausa

proporcional de valores

44 1 212 2 11 4 1½ ½ 8 1 Ÿ Ÿ 16 1 1/1 8/8 32 1

1/1 16 /16 64

Nomenclatura

Semibreve Semibreve Semibreve MĂ­nima MĂ­nima MĂ­nima

Editoria de Arte

Nota Nomenclatura DivisĂŁo Nota Pausa Pausa Tempo Tempo Nomenclatura

SemĂ­nima SemĂ­nima SemĂ­nima Colcheia Colcheia Colcheia Semicolcheia Semicolcheia Semicolcheia Fusa Fusa Fusa Semifusa Semifusa Semifusa

Figuras Figurasrítmicas rítmicaspara para notação notaçãomusical. musical.

Figuras rítmicas para notação musical. A Semibreve Ê considerada a unidade ou o inteiro, na divisão proporcional de valores. As outras são fraçþes da semibreve. As figuras, segundo a ordem de seus valores, valem o dobro da seguinte e metade da anterior. Por exemplo, se a Semibreve durar 4 tempos, a Mínima terå a duração de 2 tempos e assim sucessivamente.

Veja um exemplo de partitura, representação gråfica das partes vocais e instrumentais de uma música, na imagem abaixo.

Acervo pessoal

Músicos e coreógrafos pesquisam os elementos de linguagem e criam fazendo experiências e registros em pautas ou desenhos, assim como os artistas visuais quando fazem esboços de seus projetos.

Registro grĂĄfico de sons feitos com base na mĂşsica O Trenzinho do Caipira (1930), de Heitor Villa-Lobos (1887-1959).

Acervo pessoal

DICA Para navegar

Exemplo de partitura convencional, representação gråfica das partes vocais e instrumentais de uma música.

Conheça mais sobre vida e obra do compositor Heitor Villa-Lobos, visitando o site: <http:// tub.im/bms8bo>. Acesso em: 11 maio 2016. CapĂ­tulo 3 â&#x20AC;˘ A criação

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A arte de RAYMOND MURRAY SCHAFER Além de se preocupar com o universo da música, Schafer investiga também o universo dos sons de modo geral. Em suas pesquisas, defende a ideia de que o mundo se tornou muito ruidoso e que esse excesso de sons nos tirou a percepção mais atenta e sensível. Para ele, a era industrial apresenta ao ser humano um mundo de sons produzidos por máquinas, em contraponto ao campo, que apresenta sons naturais. É preciso explorar nossos sentidos, nossa percepção, para tirar proveito desse mundo sonoro, aprendendo a ouvir e explorar as potencialidades de sons para criar música e paisagens sonoras no “resgate de uma cultura auditiva significativa” (SCHAFER, 2001, p. 288). Esse músico criou diferentes jeitos de registrar os sons de uma paisagem sonora ou música.

Palavra do artista Frank Lennon/Toronto Star Getty Images

Paisagem sonora: estudo sobre o mundo sonoro em que vivemos e como essa escuta pode ser ainda mais sensível. O conceito tem sido difundido por vários músicos contemporâneos. R. Murray Schafer, em seus estudos, explora a percepção de sons em diversas situações e locais, na ampliação de repertório e desenvolvimento de escuta sensível.

“[...] Se o objetivo da arte é crescer, precisamos viver perigosamente; essa é a razão por que digo aos meus alunos que os seus erros são mais úteis que os seus sucessos, pois um erro provoca mais pensamentos e autocrítica. Uma pessoa bem-sucedida, em qualquer campo, é muitas vezes alguém que parou de crescer.” Raymond Murray Schaffer SCHAFER, Raymond M. O ouvido pensante. Tradução de Marisa Trench de O. Fonterrada, Magda R. Gomes da Silva e Maria Lúcia Pascoal. São Paulo: UNESP, 1991. p. 282. Raymond Murray Schafer é um dos compositores mais renomados do seu país (Canadá). Foto de 1973.

Giro de ideias Percepções Vamos fazer uma enquete!

• Como percebemos os sons no dia a dia? • Quando uma ideia vem à sua cabeça, você costuma registrá-la? Como? Combine com os colegas e faça registros gráficos de sons, como vimos na página anterior, que vocês podem perceber no caminho de ida e volta entre sua casa ou trabalho e a escola. Observando esses registros, conversem sobre como cada um nota esses sons e também como fazem seus registros. Agora, resuma aqui suas conclusões sobre a enquete, os registros e as conversas com os colegas sobre as percepções que vocês captaram. Professor, é importante estimular os alunos para a percepção dos sons e seu registro por meio de desenhos (partituras gráficas não convencionais). Proponha que compartilhem esses registros e analisem como ficaram. Será que sons semelhantes, como os de uma buzina de carro, foram desenhados do mesmo modo por todos? Apresente o conceito de paisagem sonora e fale sobre como Schafer e outros artistas criam modos de fazer registros de sons e músicas.

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Conexões

Arte e Ciências

Eu acredito na intuição e na inspiração. A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado, enquanto a imaginação abraça o mundo inteiro, estimulando o progresso, dando à luz a evolução. Ela é, rigorosamente falando, um fator real

Bettmann/Corbis/Latinstock

Todo mundo cria!

na pesquisa científica. Albert Einstein. In: Sobre religião cósmica e outras opiniões e aforismos, 1931. Disponível em: <http://super.abril.com.br/blogs/superblog/frase-dasemana-a-imaginacao-e-mais-importante-que-o-conhecimento-einstein/>. Acesso em: 2 maio 2016.

O conhecimento nasce dos encontros na trajetória das buscas humanas, que são motivadas pela curiosidade. Diante do que sabemos e do que descobrimos, procuramos dar forma a nossos pensamentos. Uma mente inquieta e investigativa encontra meios para criar nas artes, na ciência, em tudo que está a sua volta. Uma mente inquieta pode provocar outras mentes inquietas a criar. Os cientistas, como os artistas, criam ideias. Nas ciências, essas ideias se manifestam em fórmulas, equações, teorias que explicam a vida em nosso planeta e até fora dele. Na arte, as ideias se manifestam em linguagens artísticas. Para criar, é preciso investigar e também estar aberto à dúvida. É a incerteza que move o mundo. Às vezes, é preciso uma pitada de ócio para nos colocar a pensar e descobrir mais dúvidas, hipóteses, possibilidades que nos motivem a criar o novo.

Albert Einstein (1879-1955), físico alemão que desenvolveu a teoria da relatividade. Suas pesquisas transformaram o modo de pensar no século XX. Foto de c. 1920-1930.

O físico e teórico alemão Albert Einstein (1879-1955) dizia que, às vezes, gostava de ficar por um tempo sentado em uma poltrona em frente a uma janela, parado, pensando. Talvez algumas pessoas, ao verem essa cena, dissessem que ele não estava fazendo nada. Contudo, pensar é fazer. Imaginar é importante no processo de criação. Depois, ele tinha o mesmo prazer em passar horas e dias fazendo anotações e cálculos, até chegar a conclusões científicas que mudaram a visão sobre a Física e sobre o Universo. A verdade, as ideias dos cientistas, assim como as dos artistas, nem sempre são compreendidas em seu tempo. Artistas e cientistas podem ter processos parecidos na criação de suas obras e enfrentar as mesmas dificuldades na aceitação de suas ideias. É preciso ter raciocínio e intuição para criar, e isso não tem nada a ver com loucura, mas sim com a capacidade de observar, memorizar, indagar, investigar e imaginar. A mente sempre foi um terreno repleto de mistérios para o ser humano. Pesquise processos de criação nas artes e nas ciências. Observe também que o processo de criação ocorre tanto na proposta de novos rumos nas ciências e nas artes como nos acontecimentos cotidianos. Você já passou por uma situação em que precisou ser criativo? Desenhe ou escreva sobre essa experiência.

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Capítulo 3 • A criação

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Projeto experimental Registros artísticos

Professor, pesquise sobre os elementos de linguagem da dança e apresente esses conceitos aos alunos. Tempo, força/peso, espaço e fluência estão presentes nos movimentos diários dos alunos, mas na dança esses movimentos podem se tornar mais conscientes e intencionais na hora de criar coreografias. Veja sugestões no Diálogo com o professor.

1. Movimentos, criação e registros

Jack Mitchell

Explorando as habilidades em observar, lembrar e imaginar, vamos criar coletivamente uma coreografia. Combine com os colegas um momento de observação dos movimentos de outras pessoas. Pode ser durante a ida para a escola, no ônibus, no metrô, no trem ou andando na rua. Observe como as pessoas se movimentam, discretamente. Na escola, proponha uma roda em que você e os colegas possam ver o movimento uns dos outros. Uma pessoa entra na roda e faz o movimento que foi percebido antes, na sessão dedicada à observação. Os demais componentes do grupo interpretam esse movimento e dizem que ação é. Na continuidade da proposta, imaginem e criem outro movimento para conti­nuar o primeiro. Assim, vocês estarão criando uma sequência coreográfica. Lembre-se de que você e a turma podem explorar os elementos e aspectos de análise que o bailarino Laban investigou. Com os movimentos criados e aperfeiçoados, escolham uma sequência de seis ou mais para organizar uma coreografia. O uso de músicas, de sons com o próprio corpo, de algum instrumento ou objeto é de escolha do grupo, que pode criar uma dinâmica interessante à apresentação. Quando trabalhamos em um projeto colaborativo é importante sempre discutir e escolher em comum acordo com o grupo. Converse com seu grupo sobre as qualidades do movimento na dança e como cada um gostaria de fazer o que está sendo criado. Após a realização dos movimentos na dança com a turma, desenhe como foi essa dança. O desenho pode ser feito criando imagens abstratas ou figurativas. Use linhas para representar os elementos tempo, força/peso, espaço e fluência. A proposta é criar uma pauta de movimentos.

A bailarina Martha Graham (1894-1991) marcou a história da dança com seu estilo expressivo e por criar um método de dança que recebeu seu nome e se baseia na relação entre a respiração, o movimento e o contato com o solo.

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Veja sugestão para a atividade no Diálogo com o professor. Bruno Fischer

2. Registro sonoro

De-Cantação, exemplo de notação sonora, não convencional, com base na escuta de sons. Ilustração de Bruno Fischer, março de 2016.

Observe a partitura gráfica acima. Você pode criar desenhos e imagens de sons e de combinações musicais, como neste exemplo. Na música também podemos criar com base no que observamos, lembramos ou imaginamos. Acompanhe as etapas a seguir. • Primeiro vamos fazer uma coleta de sons. Pode ser ao andar pela cidade, na escola, em sua casa, ou outro lugar de sua preferência. Combine com os colegas que cada um utilizará o diário de bordo para fazer anotações e desenhos para cada som. Trata-se de um processo de criação livre e cada um terá sua percepção e ideia para representar os sons coletados. • Procure perceber as qualidades e parâmetros de cada som e como podemos desenhar um som longo, curto, agudo, grave, leve, pesado, áspero, liso. Os desenhos são representações de paisagens sonoras, sem padrões de certo ou errado. • Com a turma reunida, cada um contará quais sons recolheu e mostrará como os representou. Procure se lembrar de como era o som observado e reproduza-o com a boca, mãos, um objeto ou instrumento de sua preferência. Sugerimos também outra proposta de projeto no registro sonoro. Acom­panhe as etapas a seguir.

• A turma será dividida em dois, quatro ou mais grupos.

• Crie com sua equipe uma partitura que será executada por outro grupo.

• Ensaie com seu grupo como será a execução da partitura que receberam de outra equipe.

• Com a turma reunida, cada equipe vai tocar a partitura que foi composta pelo outro grupo. Os sons podem ser reproduzidos com a boca, as mãos, um objeto ou instrumento de sua preferência.

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Capítulo 3 • A criação

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TEMA

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LUGARES PARA CRIAR

Professor, ao final do Tema 3, o Projeto experimental – Espaços para criar – propõe a experiência de criar em espaços próprios para cada linguagem, como os ateliês, a musicoteca ou a sala de dança.

A uma arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode ser imposta, que não a de sentir tudo de todas as maneiras, de sintetizar tudo, de se esforçar por de tal modo expressar-se que dentro de uma antologia de arte sensacionista esteja tudo quanto de essencial produziram o Egipto, a Grécia, Roma, a Renascença e a nossa época. A arte, em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter só uma regra - ser a síntese de tudo. Que cada um de nós multiplique a sua personalidade por todas as outras personalidades. PESSOA, Fernando. Páginas Íntimas e de Autointerpretação. Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Ática, 1966.

Não há um lugar determinado para criação e nem regras, como nos apresenta Fernando Pessoa no texto que abre o tema. Cada pessoa encontra um canto, um jeito de organizar os materiais e as ideias para o processo criativo. Na arte contemporânea, os artistas usam materiais muito diversos e seus locais de trabalho podem ser nada convencionais. A arte também pode acontecer na rua, e um ateliê pode ser montado em local público.

Gustave Courbet. 1854-1855. Óleo sobre tela. Museu d’Orsay, Paris

O ateliê pode expressar um universo particular ou coletivo. Na obra do artista francês Gustave Courbet (1817-1877), que tem como título O ateliê do pintor. Alegoria real, resumo de 7 anos da minha vida de artista (1855), vemos não apenas um espaço com objetos e materiais de pintura, mas o universo particular desse artista. Amigos, familiares, pessoas do povo, personalidades da época e até animais fazem parte da representação de seu espaço de criação. Uma visão do ateliê que não contém apenas objetos, um lugar repleto de pensamentos significativos para a criação. Observe com atenção esses detalhes na obra apresentada logo abaixo.

O ateliê do pintor. Alegoria real, resumo de 7 anos da minha vida de artista, de Gustave Courbet, 1854-1855. Óleo sobre tela, 359 cm 3 598 cm.

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Instituto Victor Brecheret, São Paulo

Há ocasiões em que espaços são criados para a produção de uma obra ou exposição. Na época em que o ítalo-brasileiro Victor Brecheret (1894-1955) trabalhou na criação do Monumento às bandeiras (1954), um ateliê foi improvisado em um galpão instalado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Observe ao lado a foto do artista nesse ateliê improvisado. Brecheret fazia estudos e preparava as peças que hoje compõem a grande escultura, que fica na Praça Armando de Sales Oliveira, na cidade de São Paulo. Essa obra demorou a ser concluída e o ateliê ficou nesse local por um bom tempo. Encomendado em 1921, o projeto começou a ser elaborado em 1936 e só finalizado em 1953, sendo inaugurado no ano seguinte, com o Parque do Ibirapuera, para comemorar o IV Centenário da cidade de São Paulo. Embora o processo criativo possa acontecer em locais pouco convencionais, ao sabor do artista e da arte a ser desenvolvida, há locais específicos para ensaios e para a criação de espetáculos em dança e teatro, com salas equipadas ou adaptadas. Existem estúdios de música com equipamentos e aparelhos eletrônicos e com ambiente com acústica em salas isoladas, apropriados à pesquisa de sons. Cada tipo de linguagem pode exigir um ambiente específico para sua criação.

Victor Brecheret no ateliê do Parque do Ibirapuera, durante o processo de criação do Monumento às bandeiras. Foto da década de 1940.

Marcos André/Opção Brasil

Monumento às bandeiras, de Victor Brecheret, 1954. Com 240 blocos de granito, cada um pesando 50 toneladas, 50 m 3 16m.

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Anita Malfatti. 1922. Tinta de caneta e lápis de cor sobre papel. Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, São Paulo

Reunindo-se para criar Além de lugares como os ateliês, às vezes os artistas se encontram para conversar e criar arte. Pode ser na casa de alguém, em um clube, praça ou centro cultural. Muitos artistas criam grupos para discutir suas ideias e para produzir peças teatrais, espetáculos de dança ou exposições em artes visuais. Grandes eventos culturais que influenciaram a arte já foram criados assim, em grupo. Às vezes, a criação de um grupo ocorre intencionalmente, com pessoas convidadas a participar. Em outras, os grupos são formados de maneira espontânea, em círculos de amigos.

Os artistas paulistas Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954), Tarsila do Amaral (18861973), Anita Malfatti (1889-1964) e Menotti del Picchia (1892-1988), após a polêmica Semana de Arte Moderna (também chamada de Semana de 22), formaram o Grupo O Grupo dos Cinco, de Anita Malfatti, 1922. Tinta de caneta e lápis dos Cinco, que se encontrava para conversar sobre os cade cor sobre papel, 26,5 cm 3 36,5 cm. minhos estéticos, políticos e sociais do Brasil no início do século XX. Observe nesta página a pintura de Anita Malfatti retratando os componentes do grupo de forma criativa. Grupo dos Cinco: grupo que defendia as ideias da Semana de Arte Moderna (Semana de 1922), expoente do movimento modernista brasileiro, formado por Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

Do Grupo dos cinco, a única artista que não participou da Semana de Arte Moderna de 1922 foi Tarsila do Amaral. A pintora só começou a fazer parte do grupo de artistas meses depois, quando regressou da Europa. Apesar de não ter participado do evento no Teatro Municipal de São Paulo, ela é considerada uma das referências do movimento modernista, por sua atuação entre os artistas desse período e pelo estilo de suas obras. Apresentada ao grupo de artistas por Anita Malfatti, Tarsila e o grupo de amigos começaram a se encontrar para conversar e produzir poemas, textos, pinturas, desenhos, cada um pesquisando sua linguagem artística preferida. Suas discussões marcaram a história da arte brasileira. Como em qualquer grupo de amigos, eles conversavam sobre tudo e às vezes havia desavenças, mas os diálogos entre esses artistas e o reflexo dessas discussões em suas obras mostram um momento de ruptura entre valores anteriores, acadêmicos e a estética moderna. Para o artista modernista, a criação, a poética pessoal, o discurso singular são pontos importantes.

Tarsila do Amaral. 1922. Óleo sobre tela. Acervo dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo. © Tarsila do Amaral Empreendimentos

Na música brasileira, o desejo de pesquisar novos arranjos e descobrir sons e possibilidades musicais é personificado pelo nosso grande compositor e maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), que nasceu no Rio de Janeiro, estudou música clássica e pesquisou sobre a cultura brasileira popular e seus diferentes ritmos. Criou músicas que valorizam a nossa cultura, misturando elementos da música clássica. Uma de suas obras mais famosas faz parte da peça Bachianas brasileiras (1930-1945) e é um trecho bem popular, a composição O trenzinho do caipira. Villa-Lobos compôs algumas músicas com características impressionistas, entre elas uma série intitulada Cirandas, de 16 peças para piano inspiradas em temas folclóricos.

Retrato de Mário de Andrade, de Tarsila do Amaral, 1922. Óleo sobre tela, 54 cm 3 46 cm.

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Em muitos momentos – próximos, em outras ocasiões, viajando para fazer estudos para suas produções artísticas –, esses artistas mantinham contato pelo modo habitual da época, escrevendo cartas. Essas cartas foram documentadas e, hoje, podemos estudar o processo de criação deles ao ler os trechos de suas correspondências. Numa delas, Mário de Andrade, escritor modernista, escreveu para a amiga Tarsila do Amaral, em 1924, que estava na Europa, dizendo que ela voltasse para o Brasil porque era em sua terra natal que encontraria o que precisava para criar, não em terras estrangeiras. Observe o retrato do escritor na página anterior.

Trabalhos colaborativos

Em um grupo de pessoas, cada um tem seus conhecimentos específicos, o que pode tornar a troca de ideias e informações muito enriquecedora. A percepção de cada um sobre um impasse ou problema pode proporcionar diferentes soluções, cabendo ao grupo escolher a decisão mais adequada à situação. A coordenação de projetos, seja na arte ou em situações do cotidiano, é compartilhada no processo colaborativo. No documentário Rastros de processo colaborativo (direção e roteiro de Danilo Chaia. Brasil, 2010. 18 min) podemos assistir a depoimentos de artistas da linguagem teatral. Entre esses depoimentos, podemos conhecer o grupo Teatro da Vertigem, que vem desenvolvendo essa proposta em seus projetos. Cada integrante do grupo pode influenciar os outros. Desta forma, as cenas e ideias vão sendo construídas por todos.

Cena do espetáculo Kastelo. 2010. Direção: Eliana Monteiro. Foto: Angelo Lorenzetti

A expressão “trabalho colaborativo” tem sido difundida no campo das artes e em outras áreas, tendo como proposta estabelecer processos de criação em grupo. A equipe respeita cada ideia colocada e as singularidades de cada membro. Isso pode acontecer tanto em grupos de teatro, dança, música ou grafiteiros, por exemplo, como no escritório de uma empresa ou no setor de uma fábrica.

Cena do espetáculo Kastelo, do grupo Teatro da Vertigem, 2010, em São Paulo. Na cena, os atores Marçal Costa e Roberto Audio.

Giro de ideias Amigos artistas Em seu círculo de amigos, há quem goste de produzir arte em alguma linguagem? Quem no grupo gosta de desenhar, grafitar, criar poesias, compor músicas, dançar, fazer teatro ou outro tipo de linguagem? Qual a sua opinião sobre as produções feitas por seus amigos? Escreva suas considerações abaixo.

Escreva um e-mail para alguém que você conhece que cria em alguma linguagem artística e comente sobre essa produção. Você, seus amigos e colegas também podem organizar um espaço na rede social para discutir sobre a produção de grupos de artistas. Pesquisem e descubram que na história da arte há vários exemplos de grupos de artistas que também eram amigos e criavam juntos em várias linguagens. Compartilhem as descobertas. Capítulo 3 • A criação

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Professor, apresente aos alunos alguns trechos de manifestos. Veja sugestão no Diálogo com o professor.

Conexões

Arte e Língua Portuguesa Os manifestos da arte Os artistas modernistas, em suas discussões, manifestavam o repúdio a modelos preestabelecidos para a criação da arte. Para eles, todos podem ser influenciados por outras culturas e produções de artistas. No entanto, para criar uma obra própria, é preciso descobrir suas próprias referências culturais e poéticas pessoais. Os artistas modernistas brasileiros defendiam a liberdade para fazer uma arte brasileira, uma arte sincera, expressando a mistura do povo brasileiro em cores nacionais, mas com teor crítico, político e polêmico, como Morro da favela, de Tarsila do Amaral, que você observa no final da página.

Tarsila do Amaral. 1924. Óleo sobre tela. Coleção particular. © Tarsila do Amaral Empreendimentos

Escritores, pintores, escultores, gravuristas, atores e músicos questionavam as influências de fórmulas clássicas de expressão artística herdadas da estética europeia, trazida para o Brasil pela Missão Artística Francesa, grupo de artistas europeus que chegaram em 1816 para fundar a primeira Academia de Arte no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, e que estabeleceram um gosto acadêmico, neoclássico. Essas influências teriam determinado o modo de criar arte no Brasil durante muito tempo, mas no movimento modernista essas regras começariam a mudar.

Morro da favela, de Tarsila do Amaral, 1924. Óleo sobre tela, 64,5 cm 3 76 cm.

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Tarsila do Amaral. 1929. Óleo sobre tela. Acervo Fundação José e Paulina Nemirovsky, São Paulo. © Tarsila do Amaral Empreendimentos

Antropofagia, de Tarsila do Amaral, 1929. Óleo sobre tela, 126 cm 3 142 cm.

A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. Oswald de Andrade. Manifesto da Poesia Pau-brasil. Correio da Manhã, 18 mar. 1924. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/cdrom/oandrade/oandrade.pdf>. Acesso em: 22 maio 2016.

No início do século XX, as cidades começaram a crescer em todo o Brasil. O cinza do concreto iniciou sua contraposição à visão da natureza e suas cores tropicais. A vida das pessoas na cidade se diferenciava das cenas encontradas nos campos, e esse mundo moderno em contraste com o mundo natural foi tema de muitos poemas e pinturas, entre outras produções deixadas pelos artistas modernistas brasileiros. A estética e a ideologia que compunham a produção artística brasileira do Modernismo podem ser lidas e estudadas nos manifestos e pinturas da época. Estude os textos dos manifestos e compare com as pinturas, como você pode observar na pintura Antropofagia, da artista Tarsila do Amaral, acima. A arte com cunho de “poesia pau-brasil” acontece na literatura e na pintura de Tarsila do Amaral, assim como o “movimento antropofágico”, expressões criadas e divulgadas nos manifestos modernistas. Outros grupos de artistas também se reuniram para criar e defender suas ideias, e marcaram a história e a cultura brasileiras. Pesquise sobre eles para ampliar saberes sobre processos de criação em grupo. No Brasil e no mundo, é comum os artistas criarem manifestos para defender suas ideias. Escreva um manifesto de arte com os colegas defendendo como vocês acreditam que deve ser a arte em nossos dias.

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Capítulo 3 • A criação

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Conexões

Arte e Matemática

Parcerias para criar: a tangência perfeita Encontrei a tangente que vai permitir que a cúpula pareça apenas pousada na laje.

Marcel Gautherot. c.1958-1960. Acervo Instituto Moreira Salles, São Paulo

Marcel Gautherot. c.1958-1960. Acervo Instituto Moreira Salles, São Paulo

Fala de Joaquim Cardozo a Oscar Niemeyer em relato presente no documentário O artista e o matemático, de Sérgio Zeigler. In: ZEIGLER, Sérgio. Arte & Matemática. São Paulo, TV Cultura, 2001. Disponível em: <http://blogdopetcivil.com/2012/12/17/engenheiros-notaveis-joaquim-cardozo-2/>. Acesso em: 22 maio 2016.

Na época em que Brasília estava sendo construída, o arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) e o engenheiro calculista Joaquim Cardozo (1897-1978) procuravam criar as formas em curvas que hoje compõem a paisagem da capital do Brasil. Niemeyer fez os esboços do projeto, mostrando formas curvas ao amigo engenheiro, que tinha como tarefa fazer os cálculos matemáticos para que a estrutura em concreto comportasse as formas suaves. Muitas horas de cálculos e reflexão foram necessárias até que Joaquim Cardozo encontrasse as equações que resolvessem a apresentação das tangências adequadas, o que permitiu que as suaves linhas curvas, criadas na mente do arquiteto, pudessem se materializar nas construções que hoje compõem o Patrimônio Artístico e Cultural tombado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como obra urbanística. Joaquim Cardozo e Oscar Niemeyer entraram em estado de “vigília criativa”. Esse estado mental acontece quando nos colocamos imersos na busca para dar forma ao que queremos criar. Ambos procuravam aquilo que consideravam a beleza traduzida em formas curvas, representada tanto em imagens desenhadas nos croquis do arquiteto como nos cálculos do engenheiro. Esse trabalho colaborativo entre artista e calculista é um exemplo dos processos de criação na parceria entre Arte e Matemática. Pesquise mais sobre as relações entre pessoas de diferentes áreas que se unem para criar um projeto específico.

Imagens do Palácio do Congresso Nacional em construção. Esplanada dos Ministérios, em Brasília, no Distrito Federal, c. 1958-1960. Professor, é importante apresentar exemplos e valorizar o trabalho interdisciplinar em diferentes áreas do conhecimento.

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Projeto experimental Espaços para criar

Professor, veja sugestões para esta atividade no Diálogo com o professor.

1. Criando em um ateliê Por necessidade, o artista é impelido a agir. Uma ação como tendência, certamente, complexa que se concretiza por meio de uma operação poética registrada nos documentos do processo. SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. 3. ed. São Paulo: Fapesp/Annablume, 2007. p. 27.

Patricia Amaral

O ateliê, um lugar cheio de objetos, pincéis, telas espalhadas, papéis com anotações, livros, um mural com ideias, prepara futuros trabalhos. Como você imagina um lugar em que os artistas criam suas obras? Como você e os colegas podem organizar um lugar para a criação artística?

Imagem do mural de ideias e estudos no ateliê de Rosana Paulino. Foto de 2012.

No ateliê da artista contemporânea brasileira Rosana Paulino (São Paulo, 1967-), vemos um mural de ideias. Um painel feito com madeira, coberto de cortiça, em que a artista coloca imagens, trecho de textos, poemas, anotações, esboços, provas de gravuras e outras coisas que servem para compor seus trabalhos.

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Norman Rockwell. 1960. Óleo sobre tela. Printed by permission of the Norman Rockwell Family Agency. Copyright © 1960 The Norman Rockwell Family Entities. Norman Rockwell Museum Collections, Stockbridge, MA

Autorretrato triplo, de Norman Rockwell, 1960. Óleo sobre tela, 113 cm 3 88,3 cm.

Walter Limot/AKG/Latinstock

Oficina de pintura para crianças, de Arno Stern, em Paris, França, em foto de 1966.

Na obra do pintor e ilustrador estadunidense Norman Rockwell (1894-1978), vemos a imagem do artista criando um autorretrato em que usa como referência sua figura refletida em um espelho e imagens de autorretratos de outros artistas. O artista alemão Arno Stern (1924-) criou, na década de 1940, na França, um tipo de ateliê em que as pessoas podiam fugir do cotidiano e se dedicar a processos de criação na linguagem da pintura e do desenho. Essa proposta ainda é divulgada em várias partes do mundo. O ateliê ficou conhecido como Closlieu, e consiste em uma sala com papéis colocados nas paredes em diferentes posições e tamanhos. Veja imagem do ateliê abaixo. No centro da sala, geralmente se coloca uma bancada com tintas de várias cores e diversos pincéis. Cada participante entra no local, escolhe um lugar e começa a fazer uma arte de modo livre e particular. Pessoas de todas as idades podem criar juntas nesse espaço de atitude inventiva. As sessões podem ser combinadas em horários e dias em que todos desejem se encontrar para criar. Quais são as suas referências para criar um desenho ou pintura? Que imagens você procura observar para nutrir seu repertório cultural? Qual o motivo dessas escolhas? Pesquise obras produzidas por outros artistas, imagens fotográficas, poemas e outros recursos que estimulem a criação do seu próprio trabalho. Escolha um local em que possa observar esses materiais e manter contato com essas referências. Depois, escolha uma linguagem artística visual e produza sua própria obra. Outra proposta é criar um ateliê closlieu e convidar várias pessoas para criar juntas. A ideia desse tipo de ateliê é motivar a espontaneidade na criação e o momento de cada um. Não tem a obrigatoriedade de criar produções para exposições, e sim promover um momento de criação livre e descomprometida com o mundo fora desse espaço.

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2. “Musicoteca” – um lugar para ouvir e fazer música

New York Times Co./Archive Photos/Getty Images

Há locais apropriados para produzir arte. No entanto, podemos adaptar ambientes para estudar e experimentar processos de criação. Procedimentos criativos em métodos tradicionais ou contemporâneos, com ou sem tecnologias, podem acontecer nesses ambientes. Que tal fazer uma experiência para ouvir e fazer música? Na imagem apresentada no final da página, vemos Murray Schafer, com pessoas deitadas em silêncio praticando a escuta sensível. Nesse mesmo lugar foram feitas experiências sobre criação de sons para paisagem sonora e registros gráficos de sons. É possível você criar isso dentro de sua escola? Uma “musicoteca” é como uma biblioteca, mas, em vez de livros, nesse local vocês podem colocar instrumentos e objetos que produzam sons. Vocês podem trazer para esse espaço acervos de discos antigos, DVDs e CDs de música, partituras, aparelhos de som e até mesa de som, entre outros materiais ligados à linguagem da música. Uma campanha em sua região, com a participação da comunidade, pode ajudar na doação de materiais para compor a “musicoteca” da turma. Esse local também servirá de laboratório de música, no qual você e os colegas poderão ouvir e fazer novos sons.

SOCAN

John Cage (1912-1992) alterando a afinação de seu piano ao colocar moedas e parafusos entre as cordas no auditório Gaveau, em Paris, França, em foto de 1949.

Murray Schafer em experiência em uma escola no final dos anos 1960 e começo dos anos 1970.

Capítulo 3 • A criação

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3. O ambiente das artes cênicas

Edgar Degas. c. 1872. Óleo sobre madeira. Museu Metropolitano de Arte, Nova York

Aula de dança, Edgar Degas, c. 1872. Óleo sobre madeira, 19,7 cm 3 27 cm.

Uma sala ampla, com piso adequado, espelhos, instrumentos ou aparelhos de sons podem ajudar os bailarinos a estudar seu corpo, o ritmo de músicas para dançar, sequências coreográficas, assim como um teatro com aparelhos de iluminação e mesa de som pode ajudar os atores a criar peças teatrais. Hoje há muitas alternativas de locais para esses fins, com toda a estrutura ou adaptados. Esse universo dos ambientes de arte inspirou vários artistas, como o impressionista francês Edgar Degas (1834-1917), pintor, gravurista, escultor e fotógrafo que criou pinturas e desenhos retratando bailarinas em espaços de aprendizado e ensaios de dança. Observe abaixo a obra desse artista. Para que você e seus colegas criem mais nas linguagens do teatro e da dança, procurem saber se próximo à escola há espaços públicos como teatros, centros culturais ou pontos de cultura, que vocês possam frequentar e conhecer mais sobre ambientes de ensaios dessas linguagens. Outra possibilidade é improvisar um espaço na escola em que as linguagens do teatro, da dança ou outras, como performances, possam ser criadas por vocês. Ter locais adequados com todos os equipamentos necessários é importante, mas não é determinante na criação da arte. Caso não existam espaços culturais em sua região, que tal criar um? Além de mobilizar a própria comunidade, vocês podem organizar pedidos às autoridades públicas, fazer movimentos pela internet e abaixo-assinados. Muitos espaços culturais surgiram da reivindicação popular.

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“DOM”: VIRTUDE, GÊNIO OU CURIOSIDADE?

Michelangelo. c. 1508-1512. Afresco. Capela Sistina, Cidade do Vaticano

TEMA

A criação do homem (detalhe), de Michelangelo, 1508-1515. Afresco da Capela Sistina, 280 cm 3 570 cm. Professor, ao final do Tema 4, o Projeto experimental – Processos de criação – propõe a criação nas artes visuais com a ajuda da técnica da aquarela e das habilidades de observar, lembrar e imaginar imagens.

Gustave Moreau. 1891. Óleo sobre madeira. Museu d’Orsay, Paris

Se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida. ANDRADE, Carlos Drummond de. Lembrete. In: Corpo, de Carlos Drummond de Andrade. Companhia das Letras. São Paulo. Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond www.carlosdrummond.com.br

Carlos Drummond de Andrade acreditava que para criar era preciso apenas procurar a poesia escondida nas pequenas coisas da vida. Precisamos de inspiração para criar? Onde podemos encontrá-la? Você certamente já ouviu falar que todo artista é sensível e criativo. Entretanto, a criatividade não é exclusividade dos artistas, ela é inerente a todos os seres humanos e está presente em muitas áreas do conhecimento. O conceito de criatividade é histórico e social, ou seja, em cada época e sociedade foi dada uma explicação para o seu significado. Uma das ideias mais comuns é a de que ser criativo ou talentoso para as artes é um “dom”. Essa concepção vem da época das musas inspiradoras da mitologia grega. Depois, foi transferida para a concepção de criatividade como “dom” dado por “Deus”. Assim, ser criativo seria um presente, um ato sobrenatural de determinado ser sagrado, pensamento encontrado em muitas culturas. Nas imagens desta página que abrem este tema, observamos duas versões sobre a ideia de criatividade como “dom”: na pintura em afresco A criação do homem, do italiano Michelangelo (1475-1564), está representada a criação divina, tanto do ser humano quanto de tudo o mais que ele cria; na pintura Hesíodo e a Musa, do francês Gustave Moreau (1826-1898), uma musa dá o “dom artístico” a Hesíodo (século VIII a.C.), músico, poeta e escritor da Antiguidade grega.

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Hesíodo e a Musa, de Gustave Moreau, 1891. Óleo sobre madeira, 59 cm 3 34 cm.

Afresco: técnica de pintura que usa a parede ou o teto como suporte em que as tintas são aplicadas diretamente sobre a argamassa ainda úmida. Capítulo 3 • A criação

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Eugène Delacroix. 1831. Óleo sobre cartão em painel de madeira. Coleção Philips, Washington, D.C. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Paganini, de Eugène Delacroix, 1831. Óleo sobre cartão em painel de madeira, 44,8 cm 3 30,2 cm.

A concepção de criatividade ou talento em função de um dom, uma graça recebida, está ligada à ideia de merecimento. Atualmente, determinar quem merece e quem não merece ser criativo é algo a ser totalmente questionado, levando em consideração que vivemos mergulhados em pluralidade cultural, ou seja, há muitas formas de criar. Outras explicações foram dadas para justificar o ato criativo. O virtuosismo e a genialidade foram qualificações encontradas para classificar quem era um bom artista diante da técnica apresentada. Na música, por exemplo, o artista italiano Niccolò Paganini Bocciardo (1782-1840) é conhecido até hoje como um grande violinista e compositor, ou seja, um virtuoso. Em sua época, o público idolatrava a maestria na técnica perfeita de execução de um instrumento. O retrato do músico do período do Romantismo foi feito em 1831 pelo pintor francês Eugène Delacroix (1798-1863). Delacroix procurou captar não apenas a técnica e o virtuosismo de Paganini, mas também sua paixão pela música. Os artistas desse período, tanto músicos como pintores, entre representantes de outras linguagens artísticas, eram estimulados pela ideia de superar os próprios limites, sobretudo a liberdade e a expressão sensível de suas emoções. Ainda hoje há artistas que se preocupam em alcançar o virtuosismo ao tocar um instrumento, cantar, dançar, interpretar um personagem ou fazer um desenho realista, por exemplo. Essas inquietações são pertinentes para quem quer alcançar a técnica. No entanto, apenas a técnica e seu aperfeiçoamento não bastam. Para se expressar de modo criativo, é preciso encontrar uma poética, um estilo de fazer arte que marque um modo singular de expressão. O estilo de músicos como Paganini e pintores como Delacroix deixaram sua marca poética na história da arte.

A explicação de um talento artístico, assim como qualquer outra habilidade, pode ter muitas verdades ou alusões. Contudo, é fato que as conquistas no campo do conhecimento e das habilidades dos seres humanos não se desenvolveram sem um conjunto de influências, situações e rede de interações presentes em diversas fases da vida. Dom, técnica, predisposição natural ou o interesse em pesquisar e expressar-se poeticamente podem ser diferentes maneiras para explicar a razão de as pessoas, artistas ou não, serem criativas. O ato criador é uma forma de dizer o que pensamos ou desejamos, e pode acontecer na interação entre o ser humano e o mundo culturalmente vivido. A necessidade de criar se origina de situações que vivemos e delas guardamos uma memória da observação e da interpretação sobre as coisas. É também a capacidade de projetar o futuro, de imaginar outras situações pelas quais podemos ainda passar. Criar é pesquisar, é indagar. Por vezes, esse processo pode ser angustiante, porque “o ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade”, como define criativamente o escritor Rubem Alves (2008, p. 12).

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Arte é conhecimento A cultura à qual pertencemos deflagra nossa forma de criar, como no caso do músico brasileiro Ricardo Herz (1979-). Esse violinista paulista desenvolveu uma técnica considerada virtuosa pela crítica. Em seu processo de criação, ele realiza pesquisas e mistura o som de um instrumento tradicionalmente clássico, como o violino, ao som de gêneros populares como o samba, o choro, a valsa e os ritmos nordestinos. Observe a imagem do artista com seu instrumento em apresentação para o público.

Aproveite para reler com os alunos as seções Palavra do artista de Pina Bausch (no Capítulo 1) e de Rudolf Laban (neste capítulo).

Em nossa cultura, temos uma enorme diversidade de ritmos que nos influenciam e formam nosso repertório. Dessa forma, cunhamos nossa bagagem que pode fazer diferença na habilidade de criação. Assim, para criar, é preciso ter repertório e, com base nele, escolher o que queremos fazer. Na linguagem da dança, durante longo período de tempo, o virtuosismo dos bailarinos foi um dos critérios mais valorizados. Na dança contemporânea, a valorização da técnica está aliada à expressão poética e à diversidade cultural. Uma vez que o conhecimento, tanto o estudado quanto o adquirido na vivência do cotidiano, é muito importante para criar nas linguagens artísticas, conhecer o próprio corpo é essencial para criar e se expressar por meio dos movimentos na dança. Dança é movimento expressivo. Ela ocorre quando pelo menos uma pessoa que se movimenta procura se expressar. Não necessariamente precisa haver música para que a dança seja estabelecida. O dançarino pode guiar-se pelas batidas de seu coração, pelos sons externos do mundo ao redor ou por uma música que “toca” em sua mente. Também não é obrigatório haver técnica. Quem dança pode se expressar pelos movimentos que já possui em seu repertório pessoal cotidiano, buscando fluência e harmonia. A técnica, independentemente de qual seja, tem o objetivo de ajudar a expressar as ideias da criação; ela não pode ser uma amarra nem impor barreiras. Uma das maiores habilidades do artista está em transmitir uma expressão de maneira tão autêntica que faça a técnica utilizada parecer algo espontâneo, mesmo sendo fruto de um árduo trabalho desenvolvido.

Rudolf Laban (1879-1958), importante bailarino, coreógrafo e pesquisador da dança já apresentado em capítulos anteriores, defendia a tese de que não há movimento feio, e sim movimento que consegue ou não expressar sentimentos. Pina Bausch (1940-2009), outra importante artista da dança, também já apresentada neste livro, valorizava o conhecimento do corpo e das possibilidades expressivas para dançar. Levando em consideração as opiniões desses especialistas, com as quais muitos outros artistas concordam, podemos concluir que: investigar cada parte do corpo em seu movimento é se autoconhecer; pesquisar sobre as técnicas é ampliar saberes e possibilidades; perceber e sentir o mundo a nossa volta é sentir-se vivo. Todas essas ações são importantes para quem quer, assim como Laban e Pina, se expressar por meio da dança.

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Mite Kuzevski/Demotix/Corbis/Latinstock

Outro mito no universo da dança é o da necessidade de se ter um corpo magro. Por muito tempo, convencionou-se que apenas pessoas magras poderiam ser dançarinas. Hoje, entretanto, isso é diferente. Qualquer pessoa pode encontrar uma forma de se expressar por meio da dança, incluindo pessoas com deficiências físicas, como cadeirantes.

O músico Ricardo Herz em apresentação no Skopje Jazz Festival, na Macedônia, em 2012.

Capítulo 3 • A criação

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Coisas para observar, registrar e imaginar

Podemos experimentar processos de criação em arte e em outras áreas. A relação entre observação, memória e imaginação pode deflagrar uma ideia criativa. Uma paisagem, por exemplo, pode ser representada de muitas formas. Os artistas românticos criavam paisagens com base na relação de valorização da visão pessoal do artista e da sua emoção ao representar as coisas. Era uma época em que muitas regiões do mundo estavam sendo exploradas, e os artistas viajantes tiveram um importante papel na representação de paisagens das terras conhecidas como o “novo mundo”. Os artistas que vieram para as terras brasileiras como integrantes de missões científicas durante a colonização portuguesa tiveram a experiência de observar as belezas naturais e as pessoas que aqui viviam. Eles recebiam a encomenda de fazer registros fiéis ao que estavam observando. Contudo, alguns desses artistas foram além da observação científica e criaram composições em pinturas, desenhos e gravuras. O alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), por exemplo, enfrentou conflitos entre o registro fiel exigido pelo caráter da missão científica e o desejo pessoal de criar suas próprias interpretações a respeito daquilo que via. Ele fazia esboços de várias partes de uma mata e depois montava em seu ateliê uma imagem de paisagem, como é o caso da tela Paisagem na mata virgem do Brasil (1830), ao lado. Ele usou tanto a observação quanto a memória e a imaginação para compor as paisagens que parecem reais, mas na verdade são montagens idealizadas de uma visão do Brasil no século XIX. Rugendas. 1830. Óleo sobre tela. Fundação Prussiana de Palácios e Jardins, Berlim

Artistas viajantes: entre os séculos XV e XIX, vários artistas fizeram parte das missões científicas, com o objetivo de registrar imagens de animais, plantas e pessoas que viviam em localidades fora da Europa. Esses artistas são considerados os ilustradores do “novo mundo”. Muitas das imagens que vemos nos livros de história do Brasil são reproduções das obras criadas por eles ou inspiradas nelas. As linguagens mais utilizadas nesses registros eram a pintura, o desenho e a gravura.

As ideias podem sair da nossa cabeça. Mas como elas entram lá? Será que elas entram ao observarmos algo ou quando prestamos atenção em alguma coisa que passa pela frente? Será que temos um baú cheio de memórias e, quando necessário, vamos lá e encontramos aquilo que é preciso para ter novas ideias? Ou apenas imaginamos e imaginar é “coisa de louco”, criança ou coisa de poeta?

Observar a luz Os impressionistas buscavam enfatizar a observação ao representar uma paisagem, mas é claro que também havia uma interpretação em relação ao que viam. Como a pintura era realizada geralmente no local da observação, esses artistas estudavam como captar a luz e traduzi-la em cores vibrantes, explorando os contrastes entre luzes e sombras em pinceladas soltas e imprecisas. O objetivo dos pintores era transmitir a impressão daquele momento, capturar a sensação atmosférica, a percepção de um instante que logo iria passar... Assim, uma pintura de paisagem ao ar livre era feita em poucas horas. Impressionismo: movimento artístico que ocorreu no final do século XIX (iniciado em 1862, em Paris), no qual os artistas realizavam processos de criação na pintura ao ar livre com interesse principal nas mudanças da atmosfera e suas consequências na cor e na luz. O termo impressionismo foi inicialmente utilizado para definir pinturas inacabadas. Os artistas seguidores desse movimento são chamados de impressionistas.

Paisagem na mata virgem do Brasil, de Johann Moritz Rugendas, 1830. Óleo sobre tela, 62,5 cm 3 49,5 cm.

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Claude Monet. 1872. Óleo sobre tela. Museu Marmottan Monet, Paris

Antonio Parreiras. 1900. Óleo sobre tela. Acervo Documental Fotográfico da Pinacoteca do Estado de São Paulo

Na pintura Nascer do Sol, Impressão (1872), o artista francês Claude Monet (1840-1926) nos apresentou sua percepção pessoal de um momento do dia em que a luz começa a surgir em meio à névoa da manhã, assim como na obra do artista brasileiro Antônio Parreiras (Rio de Janeiro, 18601937), que nos traz a sensação de calor em Dia de mormaço (1900) apresentada a seguir. No processo de criação de uma pintura impressionista, o artista não faz uso apenas da visão, ele tenta se apropriar de todos os sentidos humanos possíveis e transmitir nas obras essas impressões. Observar não é apenas a ação de olhar a paisagem e sim de senti-la, percebê-la, em toda a sua atmosfera.

Nascer do Sol, Impressão, de Claude Monet, 1872. Óleo sobre tela, 48 cm 3 63 cm.

Dia de mormaço, de Antônio Parreiras, 1900. Óleo sobre tela, 68 cm 3 106 cm.

Renoir. 1873. Óleo sobre tela. Galeria Wadsworth Atheneum, Hartford

Na pintura do francês Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) há uma observação dentro de outra. Renoir retratou seu amigo Claude Monet em plena atividade artística, criando sua obra, em Claude Monet pintando em seu jardim em Argenteuil (1873). Observe-a com atenção.

Claude Monet pintando em seu jardim em Argenteuil, de Pierre-Auguste Renoir, 1873. Óleo sobre tela, 61 cm 3 50 cm.

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Imaginar mundos Surrealismo: movimento do século XX (iniciado na década de 1920) que explora os aspectos psicológicos e imaginários da mente, rompendo com a linearidade de narrativas e da racionalidade na arte investigando as imagens do subconsciente e o lirismo dos sonhos.

René Magritte. 1939. Guache sobre papel. Coleção particular. Foto: Christie’s Images/Corbis/Latinstock

Outros estilos artísticos surgiram no século XX. No Surrealismo, o foco era a imaginação e a memória; as coisas eram apresentadas de forma lírica, como em um sonho. Nesse estilo, as paisagens e outros temas não seguem uma lógica racional: uma árvore pode ser criada em cores que fogem do mundo natural, figuras se misturam formando seres híbridos, animais que não voam podem voar, pode até parecer que o mundo está de ponta-cabeça, um mundo imaginário que se abre na criação dos artistas. É a experiência de criar mundos lúdicos e fantásticos, como na obra Le poison (O veneno) do belga René Magritte (1898-1967). Observe-a.

Le poison (O veneno), de René Magritte, 1939. Guache sobre papel, 36 cm 3 41,5 cm.

Giro de ideias Criatividade e talento artístico Converse com os colegas sobre criatividade e talento artístico. Qual é a opinião da turma? Para direcionar a conversa e torná-la mais dinâmica, pegue um dado e cole em cada face pedaços de papel com as palavras: dom, virtuosismo, genialidade, curiosidade, expressão poética, outra explicação. A conversa começa quando alguém joga o dado e fala a respeito do que sabe e pensa sobre a palavra que cair para cima. Em seguida, a turma expressa sua opinião sobre o mesmo tema, e assim o fluxo da conversa vai evoluindo com a próxima rodada podendo se transformar em um debate. Escreva a seguir o resumo das principais opiniões que apareceram nessa atividade.

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Conexões

Arte e Ciências

Estamos no século XV. Na Itália, na cidade de Florença, vários artistas puseram-se a fazer pesquisas e produções em diversas linguagens artísticas. Além de desenvolver esses estudos, as oficinas de arte também eram escolas para jovens aprendizes. Um jovem chamado Leonardo da Vinci (1452-1519) tinha 14 anos quando entrou para o ateliê de um mestre famoso chamado Andrea del Verrocchio (1435-1488), a fim de aprender os ofícios da arte. Esse mestre tinha as ferramentas e o material necessário para o ensino dos interessados em seguir esse ofício. Aprendizes como Leonardo, no início, não criavam, apenas ajudavam seu mestre nas encomendas feitas à casa de ofícios. Quando um aprendiz adquiria competência para criar a própria obra, ele realizava o sonho da “obra-prima”(primeira obra). Posteriormente esse termo passou a ser usado para designar a obra mais importante do artista, mesmo que realizada em sua maturidade, como no caso da pintura Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, apresentada ao lado. A “primeira obra” de Leonardo da Vinci foi uma pequena interferência em uma obra assinada por seu mestre Verrocchio, a pintura O batismo de Cristo (1472-1475), hoje no Museu de Uffizi, na Itália, veja a reprodução dessa obra na página seguinte. Leonardo teria pintado o jovem anjo de cabelos cacheados que segura o manto de Jesus. Os detalhes criados por Leonardo e sua técnica na expressão da figura geraram uma diferença notável com o restante da pintura. A racionalidade e o rigor científico, aliados à cultura mais humanista, fizeram surgir uma arte que se relaciona com a Matemática e com a Ciência. Leonardo, como um homem do seu tempo, envolveu-se com muitas áreas do saber. Sua mente inventiva e o cenário político e econômico propício para produções na Arte, Ciência e Engenharia motivaram esse artista a criar.

Leonardo da Vinci. c. 1503-6. Óleo sobre madeira. Museu do Louvre, Paris

As múltiplas e geniais faces de um artista e cientista curioso

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, c. 1503-1506. Óleo sobre madeira, 77 cm 3 53 cm.

Sfumato: termo em italiano que designa uma técnica de pintura pesquisada e desenvolvida por Leonardo da Vinci. Esse procedimento dá às imagens, sobretudo nos detalhes das figuras humanas, um efeito suavizado, matizado de tons em transição entre claros e escuros. Propõe que o pintor coloque contínuas camadas de cor, que são misturadas de forma gradual para dar a impressão de volume e profundidade.

Leonardo observava a natureza para conhecer melhor o movimento das asas dos pássaros e desenhava engenhocas que já prenunciavam a aerodinâmica, que futuramente criaria máquinas voadoras capazes de chegar ao espaço.

Chiaroscuro: termo em italiano que significa “claro e escuro”. Refere-se às técnicas desenvolvidas por Leonardo da Vinci para conseguir efeitos de tonalidades, contrastes de planos e volumes.

Da Vinci escreveu o Tratado da pintura com os princípios técnicos do sfumato, chiaroscuro, perspectiva aérea e outros ensinamentos, que correram as academias de arte dos séculos seguintes. Um homem criativo, dono de uma mente curiosa que marcou o seu nome na história, foi considerado muitas vezes um gênio.

Perspectiva aérea: conhecimento de que as cores e os tamanhos dos elementos em uma composição se alteram de acordo com a distância. No Renascimento, técnicas foram desenvolvidas utilizando matizes de cores para conseguir efeitos de profundidade na pintura.

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Andrea del Verrocchio, Leonardo da Vinci e Sandro Botticelli. 1475. Galeria dos Escritórios, Florença. Foto: FineArt Alamy/Glow Images

O batismo de Cristo (1472-1475), de Verrocchio. Óleo e têmpera sobre tela. 180 cm 3 151,3 cm.

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Andrea del Verrocchio, Leonardo da Vinci e Sandro Botticelli. 1475. Galeria dos Escritórios, Florença. Foto: FineArt Alamy/Glow Images


Projeto experimental Processos de criação 1. Criando tintas, descobrindo cores e transparências Rugendas. 1822. Aquarela, nanquim e lápis. Coleção particular

Neste projeto, você poderá usar vários materiais para desenhar ou pintar, inclusive tintas. Sugerimos, agora, que você mesmo crie as cores das suas tintas como a aquarela, material que foi muito usado pelos pintores viajantes, como na pintura de Rugendas, Sagui-de-cara-branca, que você pode observar ao lado. Siga as etapas necessárias para preparar sua tinta aquarela. • Coloque em um copo de plástico descartável uma colher (sopa) de goma arábica (tipo de cola vendida em papelarias) e cinco gotas de anilina comestível (usada em bolos e doces) de qualquer cor. Misture os dois ingredientes e está pronta sua tinta aquarela. • Repita esse procedimento com outras cores. Não há necessidade de fazer a cor branca: deixe sem pintar as partes do papel ou da tela em que você quiser representar as áreas mais claras. • Use água para diluir a tinta e obter nuanças de cores entre claras e escuras. Essa tinta é solúvel em água, ou seja, se você colocar mais água, a tinta ficará clara; se você colocar menos água, conseguirá tons mais escuros. A característica da aquarela é a transparência, as cores podem ser percebidas por baixo de outras. Você terá a opor- Sagui-de-cara­‑branca, de Johann Moritz tunidade de estudar e explorar as possibilidades expressivas Rugendas, 1822. Aquarela, nanquim e lápis, 21,2 cm 3 26,7 cm. desse material. Use papéis encorpados como suporte. Um exemplo é usar cartolinas brancas para fazer sua pintura em aquarela. Como se usa água nessa técnica, papéis de gramaturas mais finas que a cartolina podem enrugar.

2. Imagens para observar, lembrar e imaginar Neste projeto, vamos criar explorando as habilidades de observar, lembrar e imaginar.

• Primeira atividade: escolha um tema, que pode ser uma paisagem, como por exemplo, uma árvore ou

outro elemento que desejar. Faça um desenho ou pintura de observação, usando seus sentidos para registrar a reprodução da paisagem. • Segunda atividade: procure lembrar-se de uma paisagem que você tenha visitado um dia e represente essa imagem usando apenas sua memória. • Terceira atividade: use a imaginação. Crie e inove nas cores e formas de uma paisagem imaginária, em uma dimensão em que tudo pode ser diferente da nossa realidade, como se você estivesse sonhando ou visitando outro planeta. Qual das três atividades você mais gostou de fazer? Mostre suas produções para os colegas. Vocês podem organizar uma mostra de artes visuais com esses estudos. Você pode utilizar as tintas feitas no projeto anterior, fazendo suas pinturas em folhas de cartolina ou outro tipo de papel. Aproveite para analisar as semelhanças e diferenças entre as criações com base nas mesmas ideias, mas feitas de modos diferentes.

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FIQUE DE OLHO:

Enem e vestibulares 1. (Enem-MEC) Imagem da obra Mercado de Artes/ Mercado de Bananas de Paulo Nazareth

Resposta: c Na contemporaneidade, o modo de criar arte pode usar os mais inusitados materiais, apresentar questões de identidade, sentimento de pertencimento a um grupo cultural e mostrar que podemos dizer o que pensamos usando linguagens diversas, exercendo nossa liberdade de expressão.

(Tradução da placa: “Não me esqueçam quando eu for um nome importante.”) NAZARETH, P. Mercado de Artes / Mercado de Bananas. Miami Art Basel, EUA, 2011. Disponível em: www.40forever.com.br. Acesso em: 31 jul. 2012.

A contemporaneidade identificada na performance/instalação do artista mineiro Paulo Nazareth reside principalmente na forma como ele a) resgata conhecidas referências do modernismo mineiro. b) utiliza técnicas e suportes tradicionais na construção das formas. c) articula questões de identidade, território e códigos de linguagens. d) imita o papel das celebridades no mundo contemporâneo. e) camufla o aspecto plástico e a composição visual da sua montagem.

A duração de 24 colcheias é 3 (= 24  1 ). 8 A duração de 12 semínimas é 3 (= 12  1 ) 4 Logo, o trecho musical descrito poderia ser preenchido com 24 colcheias e 12 semínimas.

conforme a figura seguinte. Editoria de arte

Resposta: d Cada um dos oito compassos tem fórmula 3 . 4 A duração total do trecho musical é 8  3 , ou 4 seja, 6.

2. (Enem-MEC) A música e a matemática se encontram na representação dos tempos das notas musicais,

Professor, se quiser aprofundar o assunto, trabalhe em parceria com o professor de Matemática e explore outras questões de música.

Um compasso é uma unidade musical composta por determinada quantidade de notas musicais em que a soma das durações coincide com a fração indicada como fórmula do compasso. Por exemplo, se a fórmula de compasso for 1 , poderia ter um compasso ou com duas semínimas ou 2 uma mínima ou quatro colcheias, sendo possível a combinação de diferentes figuras. Um trecho musical de oito 3 compassos, cuja fórmula é , poderia ser preenchido com 4 a) 24 fusas. b) 3 semínimas. c) 8 semínimas. d) 24 colcheias e 12 semínimas. e) 16 semínimas e 8 semicolcheias.

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Resposta: b O Manifesto Antropofágico tinha uma forte conotação de valorização da cultura nacional. Tarsila do Amaral, embora não estivesse presente na Semana de 22, foi muito importante na divulgação das ideias modernistas. Junto com seus amigos do Grupo dos Cinco criou várias obras que são conhecidas como um marco deste tempo de discussões e manifestos. Abaporu Tarsila do Amaral. 1928. Óleo sobre tela, 85 cm 3 73 cm.

3. (UFRGS-RS) Observe a figura ao lado. A Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo em 1922, representou um marco na cultura brasileira. Tarsila do Amaral trouxe a público, em 1928, a obra o Abaporu, que passou a ser representativa do Manifesto Antropofágico.

Esse manifesto: a) defendia a migração de europeus para diminuir a importância dos brasileiros. b) propunha a “deglutição” da cultura europeia remodelada e devidamente enraizada à terra brasileira, sintetizada na conhecida frase “Tupi or nor tupi, that’s the question”. c) exalava a cultura europeia e o transplante cultural e artístico do Velho para o Novo Mundo. d) valorizava a presença da cultura estrangeira no Brasil e também a manutenção de padrões arcaicos. e) justificava a mentalidade subserviente e o sentimento de inferioridade do brasileiro em relação aos europeus.

4. (Enem-MEC) Veja, no 2138. nov. 2009

IMODESTO “As colunas do Alvorada podiam ser mais fáceis de construir, sem aquelas curvas. Mas foram elas que o mundo inteiro copiou” Brasília 50 anos. Veja. nº 2 138, nov. 2009.

Utilizadas desde a Antiguidade, as colunas, elementos verticais de sustentação, foram sofrendo modificações e incorporando novos materiais com ampliação de possibilidades. Ainda que as clássicas colunas gregas sejam retomadas, notáveis inovações são percebidas, por exemplo, nas obras de Oscar Niemeyer, arquiteto brasileiro nascido no Rio de Janeiro em 1907. No desenho de Niemeyer, das colunas do Palácio da Alvorada, observa-se a) a presença de um capitel muito simples, reforçando a sustentação. b) o traçado simples de amplas linhas curvas opostas, resultando em formas marcantes. c) a disposição simétrica das curvas, conferindo saliência e distorção à base. d) a oposição de curvas em concreto, configurando certo peso e rebuscamento. e) o excesso de linhas curvas, levando a um exagero na ornamentação.

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Resposta: b Nesta questão percebemos que Oscar Niemeyer usa formas tradicionais (as colunas usadas desde a antiguidade), mas colunas sem a ornamentação da extremidade superior, e transforma estas estruturas com elementos curvos que se tornaram marca do estilo do artista.

Capítulo 3 • A criação

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FIQUE DE OLHO:

Enem e vestibulares 5. (Enem-MEC) Era um dos meus primeiros dias na sala de música. A fim de descobrirmos o que deveríamos estar fazendo ali, propus à classe um problema. Inocentemente perguntei: — O que é música? Passamos dois dias inteiros tateando em busca de uma definição. Descobrimos que tínhamos de rejeitar todas as definições costumeiras porque elas não eram suficientemente abrangentes. O simples fato é que, à medida que a crescente margem a que chamamos de vanguarda continua suas explorações pelas fronteiras do som, qualquer definição se torna difícil. Quando John Cage abre a porta da sala de concerto e encoraja os ruídos da rua a atravessar suas composições, ele ventila a arte da música com conceitos novos e aparentemente sem forma. SCHAFER, R. M. O ouvido pensante. São Paulo: Unesp, 1991 (adaptado). Resposta: d O texto mostra que John Cage, ao abrir “a porta da sala de concerto”, permite que a música se reinvente com “conceitos novos” (ruídos da rua).

A frase “Quando John Cage abre a porta da sala de concerto e encoraja os ruídos da rua a atravessar suas composições”, na proposta de Schafer de formular uma nova conceituação de música, representa a a) acessibilidade à sala de concerto como metáfora, num momento em que a arte deixou de ser elitizada. b) abertura da sala de concerto, que permitiu que a música fosse ouvida do lado de fora do teatro. c) postura inversa à música moderna, que desejava se enquadrar em uma concepção conformista. d) intenção do compositor de que os sons extramusicais sejam parte integrante da música. e) necessidade do artista contemporâneo de atrair maior público para o teatro. Iotti/Jornal Zero Hora, 2 mar. 2006.

6. (Enem-MEC)

Jornal Zero Hora, 2 mar. 2006.

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Na criação do texto, o chargista Iotti usa criativamente um intertexto: os traços reconstroem uma cena de Guernica, painel de Pablo Picasso que retrata os horrores e a destruição provocados pelo bombardeio a uma pequena cidade da Espanha. Na charge, publicada no período de carnaval, recebe destaque a figura do carro, elemento introduzido por Iotti no intertexto. Além dessa figura, a linguagem verbal contribui para estabelecer um diálogo entre a obra de Picasso e a charge, ao explorar a) uma referência ao contexto, “trânsito no feriadão”, esclarecendo-se o referente tanto do texto de Iotti quanto da obra de Picasso.

Resposta: e Guernica, de Pablo Picasso, é um “quadro dramático”, pois refere-se aos bombardeios da guerra. Por meio da intertextualidade, o tema do quadro é aproximado ao trânsito caótico explorado na charge.

b) uma referência ao tempo presente, com o emprego da forma verbal “é”, evidenciando-se a atualidade do tema abordado tanto pelo pintor espanhol quanto pelo chargista brasileiro. c) um termo pejorativo, “trânsito”, reforçando-se a imagem negativa de mundo caótico presente tanto em Guernica quanto na charge. d) uma referência temporal, “sempre”, referindo-se à permanência de tragédias retratadas tanto em Guernica quanto na charge. e) uma expressão polissêmica, “quadro dramático”, remetendo-se tanto à obra pictórica quanto ao contexto do trânsito brasileiro.

7. (Enem-MEC) A capa do LP Os Mutantes, de 1968, ilustra o movimento da contracultura. O desafio à traOs Mutantes. Polydor records. 1968

dição nessa criação musical é caracterizado por

Resposta: c Os Mutantes procuravam questionar e buscar novas sonoridades, inseridos no movimento conhecido como “Tropicália”, expoente da contracultura no Brasil.

a) letras e melodias com características amargas e depressivas. b) arranjos baseados em ritmos e melodias nordestinos. c) sonoridades experimentais e confluência de elementos populares e eruditos. d) temas que refletem situações domésticas ligadas à tradição popular. e) ritmos contidos e reservados em oposição aos modelos estrangeiros.

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Capítulo 3 • A criação

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E X P E D I Ç Ã O C U LT U R A L Você observou que costumamos criar com base em nosso repertório cultural. Assim, procure saber o que está acontecendo em sua cidade nas diversas linguagens artísticas. Se possível, assista aos espetáculos, visite ensaios, museus e ateliês, converse com os profissionais e artistas e registre em seu diário de bordo como você percebe o processo de criação deles. Para criar é importante pesquisar, observar como outras pessoas criam, fazer escolhas de temas, linguagens, materialidades... Em sua cidade existem ateliês, salas de dança, musicotecas ou teatros abertos à visitação? Você conhece grupos de amigos que se reúnem para criar? Visite-os.

Leo Caldas/Pulsar

Enfim, para criar é importante ter repertório cultural. Por isso, amplie o seu, aventurando-se em expedições culturais, como observamos na imagem abaixo.

Grupo de estudantes visita a Casa Museu do Mestre Vitalino, em Alto do Moura (PE). Foto de 2010.

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DIÁRIO DE BORDO Neste capítulo, você teve acesso a algumas informações sobre processo de criação. Conheceu artistas de diferentes períodos da história da arte. Dizemos “algumas informações” porque esse campo é muito vasto e há muito ainda para conhecer e estudar. Pesquise mais sobre os temas apresentados e reflita sobre tudo o que você viu neste capítulo. A seguir, responda: •

O que mais chamou sua atenção? Sobre o que você gostaria de saber mais?

Você ficou com vontade de criar em alguma linguagem artística? Qual?

Descreva como poderia ser um projeto de arte em que você colocasse sua poética pessoal. Que temas, materiais, linguagens você trabalharia? Gostaria de criar sozinho ou em parceria com outras pessoas?

Faça um esboço do seu projeto no diário de bordo.

Alexandre Orion. 2006-2011 (www.alexandreorion.com). Acervo do artista

Às vezes você tem uma ideia genial e ela se perde em meio aos acontecimentos do dia a dia. Você pode usar o seu diário de bordo também como um caderno para registro de ideias.

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CAPÍTULO

4

MATÉRIAS DA ARTE PARA ESTUDAR • Corpo e arte • Se a criação é mais, tudo é coisa musical! • A alquimia da arte

Filme de Wim Wenders. Pina. Alemanha. 2010. Foto: Everett Collection/Keystone

• Poética da matéria

Cena do documentário Pina. Direção de Wim Wenders, 2010.

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“ [...] o corpo sabe letras com gosto de carne osso unha e gente o corpo lê nas entrelinhas [...] o corpo não mente o corpo quer dizer o que sabe o corpo sabe o corpo quer o corpo diz: – fala palavra !!! palavracorpo corpopalavra” CHACAL. Palavra corpo. In: ______. Belvedere [1971-2007]. São Paulo: CosacNaify, 2007. p.76-77.

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CORPO E ARTE

Jose Farinha/Demotix/Corbis/Latinstock

TEMA

Bailarina da companhia de Pina Bausch durante apresentação do espetáculo Vollmond (Lua cheia), em Londres, em 2013. Professor, no final deste Tema 1, você encontrará dois projetos experimentais de arte. O projeto O corpo tem alguém como recheio propõe pensar na materialidade da dança, iniciando com a análise do verso que dá título a esse projeto e usando o corpo e elementos cenográficos como linguagem artística em três opções de atividades. O projeto Arte corporal propõe o uso do corpo como suporte para a criação de arte, por meio de propostas de pintura e percussão corporais.

o corpo sabe o corpo quer o corpo diz: – fala palavra !!!

Professor, na abertura de cada capítulo e temas de nosso livro, escolhemos trechos de obras literárias e letras de música que funcionam como nutrição estética e deflagradores de reflexão sobre o que vem a seguir nos textos presentes nas diferentes seções. É importante que você trabalhe esses textos junto aos alunos, conversando sobre suas primeiras percepções e interpretações, pois estes também têm função didática e poética. Sugira-lhes que ouçam as músicas e leiam os textos na íntegra para ampliar saberes e repertório cultural por meio de pesquisas.

palavracorpo corpopalavra CHACAL. Palavra corpo. In: ______. Belvedere [1971-2007]. São Paulo: CosacNaify, 2007. p.76-77.

Nosso corpo é complexo e sensível como expressa o poeta Chacal no poema Palavra corpo, que abre o Capítulo 4 e o Tema 1. “O corpo sabe, o corpo quer, o corpo diz” de forma metafórica, ele nos diz que o corpo fala, ou seja, utiliza vocábulos próprios, expressos por meio de gestos, olhares, comunicação e sensibilidade à flor da pele. Essa pele guarda na memória tudo o que já viveu. O corpo também guarda uma poética, maneira de ser de cada um. Ao usar materialidades seja o corpo, tintas, pedras, madeiras ou elementos naturais, o artista transforma-os em arte por meio de sua poética. Será que fazer arte é transformar materialidades em poesia? A materialidade é um tema de estudo em Arte, pois nos permite conhecer como a arte é constituída, ganha corpo e se torna perceptível.

Materialidades da arte Goivas: são

ferramentas usadas na criação de matrizes em xilogravuras; têm a função de fazer cortes e sulcos na madeira. Essas ferramentas também são utilizadas por marceneiros e escultores.

A materialidade nas obras de arte é constituída, basicamente, por suporte, ferramenta e meios. Ela proporciona consistência física às obras de arte, quando o artista transfere suas obras do plano das ideias para o plano real, no momento da produção do seu projeto. O suporte é o material que segura, que dá sustentação à obra. Costumamos pensar na tela no caso da pintura, por exemplo, mas o suporte também pode ser, nas artes visuais, além da tela, o muro, o bronze, o mármore, e tantos outros tipos; na música, a pessoa que toca ou canta; no teatro e na dança, a pessoa e seu próprio corpo em movimento. As ferramentas, por sua vez, são os “equipamentos” que possibilitam a produção da arte: pincéis, goivas, instrumentos musicais, a voz e, mais uma vez, o próprio corpo (no caso do teatro e da dança ele é basicamente suporte e ferramenta).

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Os meios (ou matéria) são os materiais necessários para a arte se concretizar, por exemplo: a tinta e o grafite do lápis nas artes visuais, o ar por onde os sons da música se propagam, o espaço em que os movimentos expressivos e gestos nas artes cênicas (teatro e dança) acontecem. A arte pode ser feita em diferentes linguagens e materialidades, e as múltiplas possibilidades de misturas são permitidas, pois dão forma às linguagens híbridas na arte contemporânea. Cada artista manipula a materialidade da maneira que melhor lhe convém em função de suas ideias, intenções, inspirações... Essas escolhas podem também ser conhecidas como “poéticas da materialidade”. Há obras de arte que precisam ser expressadas em determinadas materialidades para existirem. Assim a poética, as ideias e expressões dos artistas podem viver e se constituir por meio das infinitas materialidades da arte.

O corpo como suporte Conhecer o material com o qual se trabalha é importante para conseguir tirar o melhor proveito e potencializar o que se quer mostrar. Nos movimentos de uma bailarina ou nos gestos de um ator, podemos compreender o que é usar o corpo como um suporte, uma ferramenta, como meio para fazer arte. A coreógrafa e bailarina alemã Pina Bausch explorou a matéria “corpo” de uma forma excepcional, além de ter sido mestre no ensino da arte da dança. Com um mergulho nos sentimentos humanos, sua técnica articulava no palco tanto seu corpo quanto dos bailarinos da companhia Wuppertal Tanztheater Pina Bausch. Na página ao lado, veja a expressividade e emoção da bailarina no espetáculo Vollmond (Lua cheia). Pina dizia que cada bailarino precisa encontrar sua própria poética, maneira singular de expressar o gesto, os movimentos, de desenvolver a coreografia com sinceridade, emoção. O método criado pela coreógrafa explora o conhecimento do corpo, da mente e das emoções em conjunto, na intenção de descobrir o que essa mistura pode criar com o corpo que se movimenta com estética e poética.

Professor, a arte de Philippine Bausch, mais conhecida como Pina Bausch, já foi tratada no Capítulo 1.

A dança é a arte do movimento, mas o que se movimenta? O corpo sempre foi usado para manifestar emoções, crenças ou explorar o prazer, as sensações que o mundo nos oferece. Às vezes, nos lembramos desse “material” apenas quando sentimos um incômodo ou dor. Entretanto, o corpo nos acompanha em nossos pensamentos e expressões de sentimentos. O corpo físico e emotivo é usado na dança para criar arte. No início da cultura humana, a dança estava mais ligada a lógicas místicas e religiosas, mas com o tempo foi adquirindo mais significados e seguindo rumos expressivos na vida das pessoas em diversas culturas. Hoje, a dança é considerada movimento expressivo. É a expressão artística que se dá por meio dos desenhos construídos pelo corpo ao som da música ou do silêncio. Ela pode ser elaborada para projetos artísticos específicos de dança, para teatro, cinema e televisão, para apresentações em espaços alternativos, para mostrar sensações, sentimentos e visões de mundo, e também para externar prazer e alegria em festas e comemorações. Pode ser fruto de um impulso interno, de reação a uma música ou batida (como fazem bebês e crianças pequenas) ou então expressão de uma cultura ou de um povo. Também dessa linguagem nascem outras que expandem, se misturam na arte contemporânea, como as performances, as intervenções urbanas e a videoarte. Pina Bausch, em sua explosão criativa, explorava em suas coreografias cada parte dos corpos dos bailarinos para que esses corpos revelassem sua alma. Em uma de suas criações, além dos corpos ela também utilizou outras materialidades, colocando no palco uma rocha e água caindo sobre os bailarinos e se espalhando no chão, por exemplo. Todo esse cenário sob o efeito de luzes que proporcionavam a sensação de uma noite ao luar. Uma luz que, como material, criava uma Lua imaginária, sensorial. É o espetáculo Vollmond (Lua cheia), de 2006, cuja imagem pode ser apreciada na página de abertura deste capítulo e na página ao lado.

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Capítulo 4 • Matérias da arte

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Bernd Thissen/DPA/AFP/Otherimages

A arte de REGINA ADVENTO Na companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch há participações de bailarinos de vários países, inclusive de brasileiros, como Regina Advento (1965-), que participa da companhia há mais de vinte anos. Nas orientações dadas por Pina, ela aprendeu que dançar é conhecer o próprio corpo; que os movimentos da mão, dos dedos, do cotovelo são importantes, que o bailarino precisa usar todas as juntas e explorar todo movimento que o corpo pode proporcionar. Regina começou a dançar ainda criança, aos 10 anos, em Belo Horizonte, nos projetos do Grupo Corpo. Foi do elenco do grupo de 1984 a 1990. Depois foi para a Alemanha, entrando na companhia de Pina Bausch em 1993.

Palavra do artista

Robbie Jack/Corbis/Latinstock

Regina Advento, bailarina da companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, durante ensaio geral no teatro em Wuppertal, Alemanha. Foto de 2004.

“Aprendi muito observando as pessoas, o quanto os movimentos são bonitos, coisas tão simples. Quando cheguei, na primeira produção que fiz, a Pina nos deu pelo menos uns setenta movimentos, todos de braço. Podíamos brincar, conhecer os movimentos para fazer a nossa coreografia, que depois virariam a coreografia da companhia. Para o estilo da Pina, fui aprendendo a me moldar.” Regina Advento BENVEGNU, Marcela; OLIVEIRA, Flávia Fontes. O sol de Regina Advento. Revista de Dança, São Paulo: FM, ano 2, 8 mar. 2015. Disponível em: <http://revistadedanca.com.br/o-sol-de-reginaadvento>. Acesso em: 26 jan. 2016.

Regina Advento em apresentação no Festival Internacional de Edimburgo, Escócia. Foto de 2014.

Ofício da arte Bailarino(a)

DICA Para visitar Em muitas cidades há centros culturais, pontos e casas de cultura ou projetos ligados a secretarias de cultura estaduais e municipais que oferecem aulas gratuitas de dança. Procure saber mais sobre isso em sua cidade.

Profissional que pode fazer parte de um grupo de dança, um corpo de baile, montar e dirigir espetáculos de dança ou números coreografados para musicais, teatro, cinema ou TV, além de espetáculos solo. Em quaisquer dessas atividades, empregam-se os movimentos corporais, executados de maneira rítmica, com a finalidade de narrar uma história ou expressar uma ideia ou emoção. Pode trabalhar, ainda, em coreografia, definindo os passos e os movimentos que os bailarinos executarão em um espetáculo ou apresentação. Há trabalhos também em instituições sociais, penais e de saúde, que costumam contratar o profissional de dança para ajudar na recuperação e na reintegração de adolescentes, crianças e pessoas com deficiência física e mental, além de cursos de conscientização corporal para leigos. Para atuar como bailarino profissional, além de cursos específicos, é preciso atestado de capacitação profissional fornecido pelos sindicatos da categoria. Para obter o documento, é necessário passar por uma análise de currículo e uma prova prática. Quem faz licenciatura está habilitado para dar aulas de dança ou expressão corporal na educação básica ou em cursos livres.

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As marcas no corpo [...] Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva Marcada a frio, ferro e fogo Em carne viva [...] BUARQUE, Chico; GUERRA, Ruy. Tatuagem. Intérprete: Chico Buarque. In: Chico canta (Calabar). Rio de Janeiro: Universal, 1972. LP (relançado em CD). Faixa 3. Disponível em: <http://www.chicobuarque.com.br/construcao/mestre. asp?pg=tatuagem_72.htm>. Acesso em: 2 fev. 2016.

Muitas linguagens artísticas utilizam o corpo como suporte. Manifestações que usam como método marcar, pintar, perfurar ou modelar o corpo de alguma maneira são chamadas de body art. O artista francês Marcel Duchamp (1887-1968), pintor, escultor e poeta participante dos movimentos dadaísta e surrealista e um dos precursores da arte conceitual, na obra intitulada Tonsura (1921), raspou parte da própria cabeça, deixando uma imagem de estrela e uma linha que se alongava até a parte da frente do rosto. Hoje, isso não é mais novidade, muitos cabeleireiros fazem penteados dessa maneira para seus clientes do dia a dia, mas na época era incomum até no meio artístico. Duchamp estava experimentando materialidades que pudessem servir como suporte para suas ideias, inclusive o corpo. Então, por que não a própria cabeça? Hoje, muitas pessoas, artistas ou não, fazem interferências no seu próprio corpo (penteados, maquiagens, pinturas corporais, tatuagens). O corpo pode ser utilizado também como suporte ou ferramenta em outras circunstâncias culturais ou artísticas, como é possível observar nas duas imagens desta página. Faz parte de muitas tradições culturais usar o corpo como suporte, como mostra a foto de um Maori sendo tatuado. Na imagem abaixo, vemos o artista Yves Klein preparando o corpo de uma modelo para ser usado como ferramenta (pincel) em sua obra Antropometria. Body art: é a arte do corpo; o termo nasceu no século XX, mas há práticas culturais mais antigas. Nessa linguagem, o corpo é usado como material expressivo

(suporte ou ferramenta). Happenings e performances podem estar associados a ela, explorando o corpo em intervenções plásticas temporárias ou permanentes. George

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George Steinmetz/Corbis/Latinstock

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Rene Burri/Magnum Photos/Latinstock

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Yves Klein em seu estúdio, em 1961, dirigindo uma modelo para a performance Body Art Painting. Nessas performances, as quais Klein chamou de Antropometria, modelos tinham seus corpos nus cobertos com tinta e se movimentavam ou fixavam sobre o papel para criar as imagens.

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A tatuagem faz parte da tradição do povo Maori, da Nova Zelândia. Na foto, uma tatuagem é realizada no rosto de um homem, processo que pode levar vários dias. Chamada de Moko, essa tatuagem facial geralmente é feita em dois dias, em duas sessões de quatro horas cada. Foto de 1995.

Capítulo 4 • Matérias da arte

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Nas artes visuais, o corpo pode ser tanto o suporte como a ferramenta. O artista francês Yves Klein (1928-1962) criou obras trabalhando com modelos que tiveram seus corpos manipulados como se fossem pincéis, ou seja, como as ferramentas para a criação das obras. Klein passava a tinta nos corpos das modelos e depois os pressionava sobre um suporte como folhas gigantes de papel, que eram colocadas na parede ou no chão. Por vezes, ele propunha performances em que as modelos entintadas arrastavam umas as outras para criar as pinturas, acompanhadas pela apresentação de músicos ao vivo. Tratava-se de um modo diferente de pintar, explorando novas materialidades e procedimentos e provocando reflexões sobre as formas de concepção artística. Um dos resultados deste tipo de pintura você vê na imagem abaixo, em que o artista criou vários trabalhos em tons de azul, pigmentação criada por ele mesmo, imprimindo as formas das modelos sobre os suportes (papéis, tecidos) na técnica de frotagens (do francês frottage, frotter; que significa “esfregar”), performances em que os corpos das modelos eram pintados e “esfregados” como pincéis “vivos” no papel para criar as pinturas. Muito antes de classificarem a arte de utilizar o corpo como suporte ou ferramenta com o nome de body art, as pinturas corporais – permanentes ou temporárias – já eram muito conhecidas em técnicas e procedimentos em tradições culturais. A tatuagem geralmente é uma arte permanente no corpo, aplicada na pele por meio de instrumentos com agulhas com tintas. Ao longo do tempo, os artistas desenvolveram infinidades de tintas, instrumentos, técnicas e imagens para os adeptos dessa arte marcarem o seu corpo. Os adeptos também podem optar por tatuagens temporárias, como as de hena, que desaparecem com o desgaste da tinta.

Yves Klein. 1960. Impressão, pigmento e resina sintética em corpo em papel sobre tela. Coleção particular. Foto: AKG/Latinstock

A tatuagem é uma manifestação antiga existente em muitas culturas, tendo vestígios encontrados até em corpos mumificados. Nas técnicas contemporâneas, são usadas como ferramentas agulhas de metal (esterilizadas e descartáveis, por questões de saúde), mas em práticas mais antigas, grupos culturais utilizavam ossos de aves como ferramentas e materiais como fuligem de madeira queimada, gordura de animais, resinas vegetais e pigmentos naturais como matérias. Segundo algumas versões sobre a história da tatuagem, os termos tattoo (inglês), tattow ou tatau (taitiano) eram uma referência ao som emitido quando os instrumentos de ossos eram batidos para introduzir a tinta na pele no momento da execução da tatuagem. Atualmente, a arte da tatuagem ainda é referência em várias culturas. Em algumas, ainda há o aspecto religioso e sagrado, em outras serve para distinguir grupos e papéis sociais. Na maioria dos casos, as pessoas escolhem a linguagem da tatuagem para enfeitar ou modificar o corpo, evidenciar formas de pensar ou prestar homenagens. Em alguns núcleos sociais, ainda há muito preconceito em relação à tatuagem, uma vez que esse procedimento também foi muito usado dentro de presídios, para sinalizar mensagens de protesto ou identificar pertencimento a certos grupos. Enfim, há muitos motivos para o uso da linguagem da tatuagem, determinados pela cultura e pelos valores aos quais cada indivíduo ou cada grupo de seres humanos pertencem.

Antropometria: ANT 130, de Yves Klein, 1960. Impressão, pigmento e resina sintética em corpo em papel sobre tela, 194 cm 3 127 cm.

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Professor, debata com a turma: como a imagem do corpo é veiculada nas mídias? O que é considerado bonito atualmente? Alguém gostaria de mudar alguma coisa em seu corpo em função dos valores estabelecidos sobre beleza na sociedade? Pesquise no site oficial e mostre mais imagens e vídeos da artista ORLAN (<http://tub.im/8c8xd4>; acesso em: 05 abr. 2016). É importante debater quais ideias os alunos veiculam sobre sua própria imagem. Você pode perguntar, por exemplo: Como vocês se Depoimento da artista ORLAN em uma palestra no Brasil, em 2008, mostram nos perfis das redes sociais? Vocês têm sobre a arte de modificar o próprio corpo com cirurgias. consciência da cultura visual sobre o corpo nas redes de relacionamento?

A valorização do corpo

Na cultura de um povo, os eventos não acontecem de repente de um momento para o outro. As ideias e os movimentos artísticos e sociais são frutos de processos, discursos poéticos e ações. A artista performática francesa ORLAN (1947-), que escreve seu nome com todas as letras em maiúsculo, já como uma manifestação artística, utiliza várias linguagens e tem causado polêmica com suas obras de body art e suas performances, principalmente naquelas em que usa cirurgia plástica como procedimento artístico. Nesses casos, bisturis, anestesias e outros materiais médicos estão a serviço não apenas da medicina, mas também da arte.

Justin Tallis/AFP

A arte carnal não procura purificação, mas busca transformar o corpo em língua

A discussão em obras como as de ORLAN está relacionada às culturas e às convenções que deixam marcas nos corpos das pessoas. Atualmente, o número de cirurA artista ORLAN posa diante das pinturas (estudos) de gias plásticas e suas técnicas tem aumentado consideraVênus, de Botticelli, referências como “padrão de beleza” velmente. Todos os anos algumas mortes acontecem em para suas obras. Foto de 2016. razão da busca exagerada das pessoas pelo corpo perfeito, dentro de um padrão de beleza ditado pelas mídias e pela indústria da moda em geral, que recorrem, muitas vezes, a profissionais desqualificados e a procedimentos perigosos. O trabalho da artista critica essas ideias. Suas cirurgias plásticas objetivam questionar esses valores. ORLAN não quer ficar “bonita”, pelo menos não na concepção do senso comum ou das mídias. Ela pretende colocar em seu corpo traços culturais presentes em imagens conhecidas na história da arte, como a da pintura de Vênus (1490-1500), do artista renascentista Botticelli (1445-1510), essa imagem é um dos símbolos de beleza ideal. Desta forma, a artista utiliza-se de várias imagens criadas em diferentes movimentos artísticos e que exaltam o ideal de beleza clássico para criar a sua obra. Ela seleciona as imagens de referência e depois mistura tudo em seu rosto em dois tipos de projetos: artes gráficas e vídeos (cria imagens feitas em programas de computadores misturando várias imagens a seus autorretratos) e em performances e body art (realiza cirurgias plásticas para mudar suas feições inspirada nas imagens de obras de arte de várias épocas). ORLAN relata que a sua intenção ao escolher esses procedimentos é demonstrar o quanto estamos presos à ditadura de padrões de beleza e às convenções. O conceito de beleza é relativo, não é um valor universal e único. Assim, o que é belo para uns pode parecer grotesco para outros, mas todos temos o direito de ser da forma que quisermos. Seres híbridos, belos em sua essência, não apenas seguindo uma aparência específica para agradar a alguém que quer ditar o que e como devemos ser. A artista ORLAN usa imagens de diferentes culturas e tempos e sua própria imagem para fazer composições usando o computador. Vamos experimentar com a mistura de imagens? Pense nos valores que você quer transmitir com suas escolhas. Tire uma cópia de uma imagem sua e trabalhe essa imagem, fazendo interferências por meio de um programa de computador ou usando os seguintes materiais: recortes de revistas feitos com tesoura ou à mão, cola e canetas hidrográficas. Podemos também fazer performances artísticas e body art usando nosso corpo como suporte. Pintar partes do corpo é fazer body art, assim como usar roupas de uma única cor para transmitir uma mensagem também pode ser um tipo de performances utilizando o corpo como suporte. O que vale é a intenção e a poética artística! Qual é a sua?

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Capítulo 4 • Matérias da arte

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Foto: Agnaldo Passos/Acervo do projeto Bailarina Projétil

Giro de ideias: Ela dança, ele dança, eu danço

Deise Gabrielle, bailarina do Projeto Bailarina Projétil, em Ferrovia, Salvador, BA. Foto de 2013.

Ainda hoje existe a ideia de que a dança é apenas a clássica ou de que essa arte é somente para o gênero feminino. A dança, assim como a sociedade, está em constante mudança, e hoje temos uma imensa variedade de estilos de dança artística praticados tanto por homens quanto por mulheres. Observe e compare as semelhanças e diferenças entre a bailarina apresentada nesta página e a bailarina na pintura de Degas na página seguinte. Na linguagem da dança, principalmente em nossa época, há muitas manifestações expressivas. A visão sobre quem dança também mudou. Muitas vezes, temos a imagem de como os artistas são por conta da história que nos foi contada. Quando você pensa em uma bailarina, o que vem à sua mente? O que vem à sua memória é a figura de uma jovem com roupas esvoaçantes dançando com sapatilhas de ponta? Esse tipo de figurino ainda existe e muitas companhias de balé escolhem compor espetáculos no estilo do ballet clássico, estética artística da dança que nasceu nas cortes europeias e que teve seu apogeu na França, na corte de Luís XIV, conhecido como o “Rei Sol”. Ele foi um grande incentivador das artes, criando uma série de instituições destinadas a promovê-las, dentre as quais a Académie Royale de Danse, em 1661. Em seu reinado, surgiram as figuras do professor e do coreógrafo de dança. Suas características referem-se à linearidade nos movimentos; à verticalidade; à utilização de narrativas associadas aos contos de fadas, histórias de príncipes e princesas; ao padrão estético definido: bailarinos e bailarinas magros, altos, de pernas longas, em busca pelo etéreo, divino, além do humano. Nesse contexto, surgiu a sapatilha de ponta e o coque nos cabelos das mulheres. A tradição do balé clássico trouxe uma imagem de senso comum sobre a figura da bailarina. Repensando essa ideia, surgiu o projeto Bailarina Projétil, que procura ressignificar a visão do corpo e a postura nessa arte. A ideia é contrapor a ambientação e os corpos artísticos padrão, focando na arte corpórea brasileira. O projeto quer romper com estigmas de que qualidade técnica e beleza estão diretamente ligados a padrões estéticos, corpóreos e ambientais predeterminados. Acesse a página do projeto na internet: <http://tub.im/kw468p> (acesso em: 26 jan. 2016) e veja as imagens de bailarinas de diferentes tipos étnicos e em diversos cenários de várias cidades brasileiras.

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Como atividade para analisar a dança em seu cotidiano e romper com preconceitos, reúna-se com os colegas para uma conversa. Vocês podem assistir a um trecho de um espetáculo de dança e depois debater sobre como os bailarinos utilizam seus corpos de modo expressivo.

Edgar Degas. c. 1876-1878. Monotipia e pastel sobre papel. Museu d’Orsay, Paris

Assim, com o coração e a mente desprovidos de preconceitos, permita-se conhecer mais sobre o universo da dança.

Converse com seus amigos sobre como vocês se relacionam com a arte da dança. Cos­tumam dançar com seus amigos? Que tipo de dança vocês gostam mais? Vocês consideram que é preciso ter um tipo físico específico para dançar? Todos podem dançar? Escreva abaixo a opinião da turma.

A primeira bailarina, de Edgar Degas, c. 1876-1878. Monotipia e pastel sobre papel, 58 cm 3 42 cm.

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Para navegar Você também pode pesquisar mais sobre pessoas que dançam atualmente, principalmente em nosso país, como o Grupo Corpo, acessando o site: <http://tub.im/4ikp7g> (acesso em: 26 jan. 2016).

Para assistir Há vários DVDs de espetáculos e também vídeos na internet. É possível assistir à coreografia Vollmond (Lua cheia) e outras da artista Pina Bausch no documentário Pina, filme dirigido pelo cineasta, dramaturgo e fotógrafo alemão Wim Wenders (1945-). Esse filme também ganhou uma versão em 3D, o que nos aproxima ainda mais dos movimentos dos bailarinos.

Filme de Wim Wenders. Pina. Alemanha. 2010.

DICA

Reprodução da capa da versão em 3D do documentário Pina. Direção de Wim Wenders. Alemanha/França/Reino Unido: Imovision, 2010. 103 min.

Giro de ideias: A tatuagem Na reprodução da pintura Tattoo artist (O artista tatuador), o artista estadunidense Norman Rockwell (1894-1978) retrata um tatuador e seu cliente. O que está acontecendo na cena? Para descobrir, vamos fazer uma leitura da imagem, seguindo o roteiro de perguntas. Norman Rockwell. 1944. Óleo sobre tela. The Brooklyn Museum of Art. Printed by permission of the Norman Rockwell Family Agency. Copyright © 1944 The Norman Rockwell Family Entities. Norman Rockwell Museum Digital Collections, Stockbridge, MA

• Ao primeiro olhar, o que é possível perceber nessa imagem?

• O que está escrito no braço da pessoa que está sendo tatuada? E nas imagens ao fundo, o que você vê?

• Em que local essa cena acontece? • Que cores e formas o artista usou para compor a imagem?

• Por que será que o artista escolheu esse tema?

• Na maioria dos casos, as pessoas optam por tatuagens permanentes na pele. Qual a sua opinião sobre isso?

• Você conhece alguém que usa o próprio corpo como suporte para a arte, como a tatuagem? O que você acha do uso do corpo como suporte para arte?

• Quais outros temas relacionados à Tattoo artist (O artista tatuador), de Norman Rockwell, 1944. Óleo sobre tela, 109,54 cm 3 84,13 cm.

body art podem ser debatidos além da tatuagem?

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Escreva aqui um resumo da leitura de imagem que você fez. Professor, a leitura de imagem é uma das habilidades mais solicitadas nas provas do ENEM e de vestibulares. Crie roteiros de leitura para as imagens presentes neste livro e converse com os alunos. Mostre a eles a importância de ler uma imagem para compreender não só os movimentos artísticos, mas também a sociedade. A arte nos leva a refletir sobre temas complexos e a compreender questões relativas à época em que as obras foram produzidas.

Professor, é sempre importante lembrar que toda obra de arte é aberta à interpretação de cada um, a partir de suas experiências e bagagem cultural. No entanto, é possível você criar pautas e questões para aguçar o olhar dos alunos em relação à construção das imagens em seus aspectos técnicos, linguísticos, poéticos e estéticos. Deixamos algumas sugestões, mas você pode criar outros caminhos. Por meio da descrição da imagem podemos notar que a imagem é figurativa e traz como tema um homem que procura o serviço de um tatuador. A cena se passa provavelmente no ateliê desse profissional em meio a vários desenhos que parecem pertencer à cultura visual de uma época. Mas explore de maneira mais livre a interpretação dos alunos. Explore também a percepção dos alunos aos aspectos de construção da linguagem artística: figura e fundo, anatomia, proporção, cores e formas. Segundo estudos, a obra do artista Norman Rockwell explora situações da vida cotidiana de sua época, como, por exemplo, um homem que tatua o nome da mulher amada a cada vez que troca de namorada.

Giro de ideias: Nosso corpo Crie um fórum com os seus amigos e compartilhem as opiniões sobre as questões a seguir.

• • • •

Você gostaria de mudar algo em seu corpo para se tornar uma pessoa mais atraente? Como você vê a ditadura da beleza imposta pela mídia e pelo mercado? Como, em geral, lidamos com nosso corpo e o que a sociedade nos cobra? Pesquise sobre os temas: body art, o corpo como tabu e objeto de exploração e escreva o que você descobriu.

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Arte e Tecnologias

A desmaterialização do corpo Desde a segunda metade do século XX, misturas e fusões entre as artes e a tecnologia vêm gerando variadas expressões artísticas, nas quais a questão da combinação de materialidades também é constantemente questionada.

Paul Kaiser, Shelley Eshkar e Bill T. Jones. 1999. Foto: Acervo dos artistas

Conexões

No curta-metragem Ghostcatching (1999, 7 min.), realizado pelos artistas digitais Paul Kaiser (Alemanha, 1956-) e Shelley Eshkar (EUA, 1970-), o bailarino e coreógrafo estadunidense Bill T. Jones (1952-) parece uma animação gráfica computadorizada. Veja ao lado imagem do filme. No filme, dança e cinema interagem com o vídeo, o computador e a internet, abrindo uma nova tendência para as artes do movimento: a desmaterialização do corpo. A proposta do filme é capturar o essencial do movimento por meio de processos digitais. Foram gravadas primeiro cenas do dançarino girando e dançando, captadas também por meio de sensores ópticos colados ao corpo em movimento. Depois, essas imagens são multiplicadas e editadas, promovendo uma interação umas com as Imagem do filme Ghostcatching, realizado pelos artistas outras, nas quais são aplicados, ainda, efeitos digitais Paul Kaiser e Shelley Eshkar, 1999. Efeitos de de computação gráfica. O desenho de seu computação em imagens gravadas fazem o dançarino Bill T. Jones parecer uma animação gráfica. corpo foi apagado e apenas seus movimentos foram preservados. A ideia foi apresentar a dança sem o próprio corpo, ou seja, sem o suporte e a ferramenta, restando apenas o movimento da matéria. Essa técnica é semelhante à usada em efeitos especiais e caracterização de personagens de muitos filmes, principalmente de animação. Que tal fazer uma pesquisa sobre esse tema na internet procurando descobrir outras obras que usaram essa técnica? Como é realizado o processo? Quais são as ferramentas digitais necessárias?

DICA Para navegar Você pode visitar o site do projeto Ghostcatching e visualizar mais imagens do projeto acessando: <http://tub.im/4xnmys> ou assistir a um trecho do filme na internet no site: <http://tub.im/hi88h9> (acessos em: 26 jan. 2016).

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Arte e Pluralidade cultural Sergio Ranalli/Pulsar

Conexões

Marcas culturais Muitos deles ou quase a maior parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, tinham os beiços furados e nos buracos uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha; outros traziam três daqueles bicos, a saber, um no meio e os dois nos cabos. Aí andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada; e outros quartejados de escaques. Trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha. Disponível em: <http://www.culturatura.com.br/dochist/carta/5.htm>. Acesso em: 2 fev. 2016.

Pintura corporal indígena. Festa do Djawari na Aldeia Aiha, etnia Kalapalo, no Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso, em foto de 2011.

Arte indígena: é toda manifestação artística realizada por comunidades indígenas. Artesanato em geral, como cestaria e cerâmica, instrumentos, música, dança, arte plumária e pinturas corporais são exemplos de arte indígena.

O quanto podem parecer estranhas as formas que cada povo escolhe para se enfeitar? Imagine em 1500, quando os portugueses aqui chegaram e encontraram nossos povos indígenas. No trecho da famosa carta de Pero Vaz de Caminha (1450-1500), escrivão da esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral, enviada ao rei de Portugal, D. Manuel I, temos algumas impressões sobre esse encontro. Caminha descreve como os indígenas se apresentavam no momento da chegada dos portugueses na costa brasileira, expostos aos olhares curiosos dos estrangeiros. Ao citar na carta que os índios se apresentam “quartejados de escaques”, ele se refere às pinturas corporais de padrões geométricos, feitas com tintas de tons pretos azulados conseguidas a partir do sumo do jenipapo, fruta popular no Norte e Nordeste. Caminha compara os padrões geométricos das pinturas com desenhos do jogo de xadrez. Observe acima a imagem que retrata a pintura corporal indígena com padrões geométricos. Darcy Ribeiro (1922-1997), importante antropólogo, escritor e político, estudioso das culturas no Brasil, em sua obra O Povo Brasileiro, de 1995, comenta que os indígenas têm uma “necessidade de beleza” e, por essa razão, criam adornos de plumas, enfeitam seus corpos com pinturas e outros elementos e, assim, criam a arte indígena. As concepções de beleza e arte estão relacionadas às particularidades culturais de cada nação ou etnia indígena. Cada nação indígena produz desenhos diferenciados e usa os mais variados materiais disponíveis na natureza, como a tinta feita de jenipapo descrita na carta de Caminha. Essa tinta possui alta capacidade de fixação na pele e, por essa razão, demora a sumir, durando, às vezes, mais de uma semana. Outras cores são conseguidas com semente de urucum, para a tinta vermelha, e com calcário, para a branca, além da utilização de outros materiais para diversas cores. Como são os desenhos geométricos criados pelos indígenas? O que representam? Como temos no Brasil uma grande pluralidade de culturas, é natural que cada povo indígena tenha ideias diferentes. Desse modo, as pinturas podem apresentar vários motivos e significados, como aquelas feitas para a guerra, as de casamentos e outras festas, aquelas para ritos de passagem ou apenas para servir como adorno ou proteção contra mosquitos. As imagens criadas pelas culturas indígenas apresentam riqueza de detalhes e significados locais. Pesquise se próximo de onde você mora existe alguma comunidade indígena e como essa população vive e desenvolve sua cultura. Talvez você e a turma possam visitá-la, e conhecer mais sobre sua arte e cultura, como fez o antropólogo Darcy Ribeiro, que durante sua vida se dedicou a saber sobre a nossa brasilidade composta por vários povos.

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Projeto experimental Professor, pensando na materialidade da dança, podemos usar nosso corpo e outros materiais em um projeto de arte. Lembre os alunos que o suporte e a ferramenta são o corpo do artista e os meios são as formas, movimentos corporais e gestos. Todos podem trazer adereços, objetos de cena ou criar figurinos. Sugerimos três opções de atividades. Escolha a que achar mais adequada ou faça todas diante da motivação da turma e do tempo disponível.

O corpo tem alguém como recheio A frase “O corpo tem alguém como recheio” é de autoria de Arnaldo Antunes e faz parte da música Momento VIII. Para ler a letra na íntegra, acesse o site: <http://tub.im/ nyof4h> (acesso em: 5 abr. 2016). Como você interpreta essa frase? Converse com seus amigos a respeito disso.

1. Minha parte favorita Vamos movimentar esse corpo? Conhecer o próprio corpo é fundamental na arte da dança. A coreógrafa Pina costumava perguntar aos bailarinos: Qual a parte preferida do seu corpo? Com base na resposta, ela sugeria que o bailarino explorasse essa parte. Por exemplo, se um dançarino escolhia as mãos, ela o estimulava a pensar e praticar como poderia transformar essa parte expressiva do corpo, utilizando movimentos de dedos, do pulso, movimentando as mãos separadamente ou unindo-as. E se fossem os olhos, a boca, o nariz, o pé, o tronco, as pernas, pois cada um tinha uma preferência, ela também assim procedia. Escolha a sua parte corporal preferida e explore-a, primeiro de modo individual, criando movimentos diversos, de preferência em frente a um espelho. Depois, em grupo, cada um pode apresentar seu movimento com a parte do corpo escolhida. Em seguida, a turma pode criar uma coreografia coletiva. O que acham? Já descobriu qual a sua parte preferida?

2. A dança das cadeiras O corpo do bailarino pode receber reforços comunicacionais por meio de elementos cenográficos, como adereços, figurinos, cenografias, iluminação ou objetos de cena. Que tal criarmos movimentos com cadeiras? Dentro de um ambiente apropriado, ou seja, um espaço escolhido para dançar, junte-se aos colegas e disponham algumas cadeiras na forma que quiserem. Em seguida, criem movimentos com esses objetos. Exemplos: circulem entre as cadeiras sem tocá-las, dancem com uma cadeira como se ela fosse seu par ou façam movimentos interagindo, dançando em planos distintos (em cima da cadeira, embaixo, do lado, de longe, de perto...). Vale criar como acharem melhor. Explorem múltiplas possibilidades.

3. Roda de adereços Ao colocar e tirar um adereço, o ator pode trocar de personagem e, ainda, na cena seguinte, desligar-se dessa máscara e assumir perante o público sua identidade pessoal. Um objeto ou parte do cenário pode mudar de função, de banco para cama ou para barco, por exemplo. Na mesma perspectiva, a luz possui uma função estética nos espetáculos de dança e teatro. Em uma combinação de cores, por meio de filtros, e de intensidades (mais forte, mais suave), ao iluminar corpos, objetos e adereços cênicos, a luz pode transformar a configuração, o sentido, a materialidade, a textura, o tamanho, a cor, o volume, o contorno, o peso, o brilho daquilo que está sob seu foco. São muitas as possibilidades que essas materialidades podem dar a um espetáculo. Para experimentar criar uma dança com adereços, você e os colegas podem escolher um objeto, como um chapéu, um lenço, um pedaço de tecido, uma máscara ou qualquer outro artefato fácil de manipular. Passe-o de mão em mão e, a cada vez que chegar em uma pessoa, ela deve improvisar uma dança com o adereço.

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Projeto experimental

Meu corpo é suporte para minha arte Vimos que o corpo pode ser usado como suporte em pinturas, performances e outras linguagens artísticas ligadas à body art. A artista cubana naturalizada estadunidense Ana Mendieta (1948-1985) explorou seu próprio corpo como materialidade. Na obra A árvore da vida (1976), ela cobriu o corpo com barro e materiais retirados da vegetação do lugar, integrando seu corpo ao meio ambiente. Essa linguagem artística também pode ser considerada uma land art. Observe a particularidade dessa arte na imagem ao lado. Há pintores que usam o corpo como se fosse uma tela. Outros artistas usam o corpo para fazer performances e até para fazer música. Agora, que tal cada um escolher uma linguagem artística usando o corpo para criar uma obra? As razões podem ser as mais diversas. Pense! Que razões você teria para criar na linguagem da arte corporal? Que tipo de técnicas e materiais você gostaria de usar? Pode ser uma proposta individual ou em grupo. Veja algumas sugestões:

Ana Mendieta. 1976. Fotografia colorida. © The Estate of Ana Mendieta Collection – Courtesy Galerie Lelong, New York

Arte corporal

Tree of Life (A árvore da vida), de Ana Mendieta, 1976. Fotografia colorida, 50,8 cm 3 33,7 cm. Nesta performance, a artista usa o corpo, barro e vegetais do meio ambiente como materiais para criar a sua arte.

Land art (ou Earth art): o que há de potencial em um lugar, uma paisagem e como o artista pode intervir ou integrar-se ao ambiente é o foco central dessa linguagem artística que usa o mundo como suporte. Trata-se de mais uma forma que os artistas encontraram para explorar materiais, lugares e assuntos para fazer arte.

1. Pintura corporal Sugerimos, a seguir, como fazer uma tinta corporal natural. Como base, use mandioca (também conhecida como macaxera ou aipim) ou cola de farinha.

• Mandioca: cozinhe a quantidade de mandioca que achar suficiente; depois de fria, amasse e passe em uma peneira para ficar apenas a massa mais fina. • Farinha: misture uma xícara de farinha de trigo em um litro de água fria; depois de dissolver bem, leve ao fogo brando, mexendo sempre para não empelotar (quando começar a engrossar, retire do fogo e continue mexendo até ter uma massa homogênea e deixe esfriar). • Anilinas comestíveis para criar as cores (pigmentos): coloque a base (de mandioca ou de farinha em potes) e acrescente o corante (anilinas comestíveis) na intensidade da cor desejada. Está pronta a sua tinta! Crie uma body art, usando seu corpo como suporte para as pinturas. Use tintas temporárias, que podem ser retiradas com facilidade, e não tóxicas.

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2. Percussão corporal O grupo musical Barbatuques cria sons percutidos batendo palmas e explorando os sons por meio do uso de várias partes do corpo. Vamos experimentar?

• Explore os sons que suas mãos podem fazer: bata palmas com os dedos separados, com as mãos em forma de concha, estale os dedos, entre outras possibilidades.

• Bata as mãos nas coxas, na barriga, no peito, nas pernas, e veja que tipos e qualidades de sons podem ser conseguidos.

• Depois de explorar as possibilidades sonoras de seu próprio corpo, convide mais colegas para criar uma “banda corporal”.

• Primeiro, escolha três tipos de batidas, como bater palmas uma vez, bater as mãos nas pernas e estalar os dedos.

• Depois, vá brincando com essa ideia e criando mais batidas, que podem ser organizadas em sequências para criar vários efeitos sonoros. Explore os sons com o corpo, faça música com percussão corporal.

DICA Para navegar

Rogério Vieira

O grupo Barbatuques, que cria músicas com as possibilidades sonoras do corpo, já se apresentou por todo o país e em outros lugares do mundo, utilizando muita linguagem teatral também. Aprecie os vídeos, textos, sons e imagens acessando o site: <http://tub.im/mhyyk2> (acesso em: 26 jan. 2016).

Grupo Barbatuques, em apresentação do espetáculo Ayú, em São Paulo, em setembro de 2015.

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TEMA

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SE A CRIAÇÃO É MAIS, TUDO É COISA MUSICAL!

Hermeto foi na cozinha pra pegar o instrumental: do facão à colherinha tudo é coisa musical. Trouxe concha e escumadeira, ralador, colher de pau, barril, terrina, e peneira – tudo é coisa musical. [...]

Professor, no final deste Tema 2, o projeto experimental de arte Os sons que ecoam em nossa afrodescendência propõe desenvolver na prática a influência da cultura africana, por meio da construção do instrumento musical kalimba. Na música brasileira, essa influência é uma das mais expressivas. Aproveite o tema para apresentar e apreciar diversas manifestações e obras que dialogam com a herança cultural originada de nossa ascendência africana.

GUINGA; BLANC, Aldir. Chá de panela. Intérprete: Leila Pinheiro. In: Catavento e girassol. Rio de Janeiro: EMI, 1996. CD. Faixa 6. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/leilapinheiro/catavento.htm>. Acesso em: 2 fev. 2016.

Tudo pode ser coisa musical, como canta a paraense Leila Pinheiro (1960-). A vontade de criar e experimentar tem movido os músicos a comprovar isso. No estudo da materialidade na linguagem da música, podemos relacionar desde a voz humana e instrumentos produzidos de modo artesanal até instrumentos elétricos e eletrônicos, que usam tecnologias para funcionar e emitir sons. No canto, o corpo é matéria. Ao cantarmos, nosso corpo funciona como um instrumento de sopro. O diafragma potencializa o ato de respirar e cantar. O ar, ao entrar e sair, atrita as cordas vocais, o que provoca a emissão do som. A habilidade de cantar compreende o domínio da respiração, do fluxo de ar, da articulação da boca, da movimentação da língua. Os órgãos que deixam fluir o som, as ressonâncias sonoras que habitam o organismo fazem nascer a música, arte na materialidade do corpo humano.

Para Hermeto Pascoal, os sons orgânicos que surgem do canto dos pássaros, da voz humana e de outros elementos naturais constituem os sons da aura. Ao vermos o compositor, arranjador e multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal (1936-) mergulhado em suas pesquisas, percebemos o quanto a ideia citada é certeira. Seja em suas apresentações nos palcos do mundo, ou seja imerso em um rio, Hermeto faz música tirando sons de coisas da natureza, como a água, ou da indústria, como uma peça qualquer de cozinha. Esse músico não dá sossego para o som e está sempre em estado de investigação. Como diz a letra da música Chá de cozinha, de Guinga (1950-) e Aldir Blanc (1946-), ele está sempre à procura de coisas musicais, que só darão bom som “se a criação for mais, e se o músico for bom.”

Palavra do artista “Som da Aura é a vibração sonora da alma de cada um, refletida pela sua fala, que faz a ligação entre mente e corpo”.

Hermeto Pascoal, compositor, arranjador e multi-instrumentista brasileiro, apresentando-se em Nova York, em 2010.

Chad Batka/The New York Times/Latinstock

A arte de HERMET0 PASCOAL

Hermeto Pascoal PASCOAL, Hermeto. Som da aura. Hermeto Pascoal. Disponível em: <http://tub.im/ys4gvw>. Acesso em: 26 jan. 2016.

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Ofício da arte Compositor(a) O compositor é quem cria a música, ou seja, o autor de uma realização artística musical. A música pode ser instrumental (somente com instrumentos musicais) ou cantada (acompanhada de voz, com ou sem um texto, também chamado de letra da música). Quando ouvimos uma música, na maioria das vezes, conseguimos identificar uma forma pessoal na criação, ou seja, as características de determinado compositor de fazer a melodia ou a letra da música. O compositor pode criar uma música dentro de um gênero musical existente, por exemplo, rock, música clássica, choro, jazz etc., ou criar uma nova forma para sua música. No Ocidente, a figura do compositor passou a ter reconhecimento somente a partir da Renascença (século XV).

DICA Para navegar No site <http://tub.im/5pxgsg> (acesso em: 27 jan. 2016), você encontra a biografia e a discografia de Hermeto Pascoal, assim como fotos, notícias, partituras e pode fazer downloads gratuitos de criações do artista.

Há alguma coisa no ar! O som se propaga pelo ar. Há ondas sonoras espalhadas por aí que, se arranjadas de alguma forma coordenada, podem se tornar música. Contudo, como em qualquer linguagem artística, é preciso ter a intenção de fazer o arranjo, de compor. Como o músico Jean Michel Jarre, que, ao tocar seus instrumentos potencializados pelos avanços tecnológicos, possibilita a milhares de pessoas ouvirem o som de sua música. “A produção musical ocorre por meio de dois eixos – a criação e a reprodução – que garantem três possibilidades de ação: a interpretação, a improvisação e a composição” (BRITO, 2003, p. 57), conforme nos explica Teca Alencar de Brito, professora de música da USP. A capacidade de ouvir, organizar e criar sons é um aspecto de nossa inteligência. A composição resulta da coordenação de nossas ideias em um projeto musical. A música nasce dessa percepção e paixão que os seres humanos têm pelos sons.

Rune Hellestad/Corbis/Latinstock

Concerto de Jean Michel Jarre (1948-), instrumentista, compositor e produtor musical francês, na Arena Wembley, em Londres, em maio de 2009.

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As ondas sonoras só “viajam” por meio de materialidades, sejam elas sólidas, líquidas ou gasosas, como a madeira, a água, o ar. Em cada matéria, o som se propaga de modos e com velocidades diferentes. Não há som no vácuo, por exemplo, porque sempre é preciso haver matéria para que o som se propague. Podemos ouvir os sons até determinadas distâncias e medir as ondas sonoras em hertz (Hz). Embora tenhamos um sofisticado órgão de audição, temos limites, só captamos os sons que estão na frequência entre aproximadamente 20 Hz e 20 000 Hz.

A materialidade do som Há dois modos de os sons se propagarem entre os materiais: irregular ou regular. O ruído é característico do primeiro caso. O segundo modo pode ter como exemplo uma peça musical, mas apenas como uma das possibilidades, porque há diversos gêneros musicais que fazem uso desses dois conceitos, por meio dos sons de uma bateria, do uso de objetos do cotidiano como instrumentos de percussão, por exemplo. O som que passa por materiais vibra entre frequências, tempos, se relacionando com espaços internos e externos. Esse conhecimento foi precioso para os músicos, que aprenderam a construir instrumentos com materiais que oferecessem diversos tipos de sons e timbres sonoros. O timbre é a característica que diferencia e personaliza cada som. Todo instrumento possui uma qualidade de som própria, em função do material do qual é composto e de sua forma. Por exemplo, o timbre de uma flauta é diferente do timbre de um violão. Como os sons são ondas que vibram, cada timbre tem um tipo específico de combinação de ondas. A construção de vários instrumentos envolve um trabalho artesanal. O profissional que constrói instrumentos de corda com caixa de ressonância, como violino, violão, violoncelo, cavaquinho, entre outros, é o luthier. Esse artesão também é especializado no reparo desses tipos de instrumentos. Trata-se de um trabalho que requer muita especialização e exige do profissional conhecimentos sobre a física do som (como ele se propaga), sobre as características sonoras na música e que tipo de materiais podem alcançar a produção de sons idealizada pelo músico, que geralmente tem suas preferências sobre instrumentos e estilos musicais. O luthier pode, assim, produzir um instrumento personalizado, restaurá-los ou fazer adaptações.

Acervo do artista

Há músicos que preferem utilizar materiais com tecnologias atuais e sons sintetizados por aparelhos eletrônicos. Outros desejam redescobrir os sons do passado e trazê-los para o presente e compartilhar com o público. Diante das escolhas de gêneros e estilos, existem músicos que trabalham com essas duas tendências paralelamente. Sobre a questão da linguagem musical, o pesquisador, professor e músico Edilson Vicente de Lima comenta que “não existe som sem um suporte que o sustente (seu corpo vital) nem sem um espaço físico que o comporte. Ambos, seu suporte material e o local onde acontece, participam de sua produção e lhe imprimem características; qualidades” (depoimento dado para este livro). Em suas pesquisas, ele investiga o repertório camerístico e orquestral (referente à música de orquestra) dos séculos XVII e XVIII. Com base em pesquisa de repertório e de documentos, ele encomenda a um luthier a confecção de instrumentos barrocos, que faz o trabalho com base nas características do instrumento encomendado. O processo de produzir um instrumento antigo é bastante complexo. É preciso adquirir uma planta do instrumento (desenho) para ver todos os detalhes, medidas e características. Essa planta geralmente pode ser comprada em museus de música ou de colecionadores. A pesquisa continua na busca do material mais adequado (tipo de madeira, cordas etc.) e na procura de um artesão com a maestria dos antigos construtores de instrumentos. Camerístico: termo relacionado à música de câmara, isto é, a qualquer formação instrumental que se limite a poucos executantes e destinada a pequenos espaços.

Durante uma apresentação, o músico Edilson Vicente de Lima toca uma teorba, instrumento de cordas criado na Itália, no fim do século XVI, e um tipo de predecessor do alaúde.

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O som das cordas A caixa acústica do violão e de outros instrumentos de corda, como violino, violoncelo, cavaquinho, viola, bandolim, entre outros, tem como objetivo amplificar o som emitido. A escolha das madeiras utilizadas exerce uma função importante na qualidade sonora dos instrumentos. Para vibrar, a madeira do tampo deve ser flexível. As madeiras do fundo e das laterais, por sua vez, devem ser mais resistentes. A ponte ou o rastilho, além da função de prender uma das extremidades da corda, conduz a vibração até o tampo do instrumento. A caixa acústica amplifica o som que sai pelo furo localizado no tampo, a boca do violão.

mão

Elisanth/Shutterstock.com

traste zero

braço (neck )

corpo ou caixa de ressonância

tampo harmônico

boca

rastilho

O som da guitarra elétrica é produzido por meio dos captadores (sensores eletromagnéticos). Quando as cordas vibram, produzem um impulso elétrico, que é transformado em onda mecânica, gerando o som. Como a guitarra é maciça, não há caixa acústica. Então, é necessário o uso de um amplificador. Para criar música, é importante percebermos os sons e suas características, conhecer os materiais e explorá-los. Com as novas tecnologias, podemos manipular os sons e fazer muitos arranjos. Com os instrumentos, podemos explorar os diferentes timbres que nascem dos materiais e dos formatos dos quais são feitos esses objetos. Ainda temos a possibilidade de criar objetos sonoros com coisas do cotidiano, como faz Hermeto Pascoal. Nos últimos tempos, a música vem sendo modificada pelo avanço tecnológico, proporcionando novas formas de produção, interação e apreciação. A linguagem da música é encontrada no núcleo de todas as culturas. Com a criação do gravador de fita, por volta da década de 1930, foi possível manipular o som, ou seja, alterar o andamento da gravação. Dessa forma, além de modificar a nota musical, o ritmo e o timbre, também foi possível sobrepor vários sons provenientes de instrumentos musicais ou mesmo de sons da natureza, de ruídos, de trens, entre outros. Até então, os compositores utilizavam, na maioria das vezes, instrumentos convencionais para criar suas obras.

Elisanth/Shutterstock.com

tarrachas ou cravelhas

Outro equipamento revolucionário na área da música eletrônica foi o sintetizador, que chegou ao mercado em 1964. Basicamente, o sintetizador cria sons artificialmente, podendo reproduzir sons dos instrumentos musicais convencionais ou outros sons que podem ser inventados. Popularmente, a música eletrônica também é conhecida como a música dançante criada na década de 1980. Na contemporaneidade, encontramos grupos musicais que utilizam apenas aparelhos celulares para produzir o som de guitarras, baixos e baterias e como microfones, por exemplo. E, assim, podem espalhar seu som pelo ar em qualquer lugar.

faixa lateral

A arte de FERNANDO SARDO fundo

Esquema representativo das partes de um violão.

O paulista Fernando Sardo (1963-) é músico, luthier, artista plástico e arte-educador. Cria instrumentos musicais, esculturas e instalações sonoras com os mais diversos materiais, obtendo o registro de uma enorme variedade sonora e objetos incríveis. Trabalhando formas e sons constituídos de materialidades, Sardo explica que esculturas sonoras “são obras plásticas-musicais construídas artesanalmente que proporcionam ao público a apreciação visual, aliada à interação artística e lúdica, por meio de fontes sonoras timbrísticas e melódicas” (disponível em: <http://tub.im/cobfb5>; acesso em: 27 jan 2016).

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Miriam Matsuda

Sardo desenvolve outras criações com instrumentos musicais, esculturas e instalações sonoras que inventa e que muitas vezes não partem de uma ideia de um instrumento que já existe dentro do universo dos instrumentos tradicionais. Para essas criações, algumas vezes ele parte de uma ideia de forma plástica e sonoridade que imagina e a partir disso pesquisa os materiais mais adequados. Outras vezes, as criações surgem simplesmente da experimentação dos materiais que acabam por si só abrindo a visão de uma criação, como, por exemplo, certa vez em que tocou em uns tubos de alumínio com arcos de violino e, ao perceber o resultado sonoro, teve a ideia de fazer uma escultura sonora que batizou de Pássaro. Para ele, o resultado dessa pesquisa na área da luthieria amplia o universo sonoro com que pode fazer música. Leia, a seguir, um trecho da entrevista especial que Fernando Sardo concedeu para esta obra, na qual nos conta como escolhe os materiais para construir instrumentos e esculturas sonoras.

Fernando Sardo em seu ateliê, entre os instrumentos que o próprio luthier criou.

Palavra do artista “Quando me proponho a construir instrumentos tradicionais, como violão, violino, marimbas ou flautas, escolho os materiais com os quais esses instrumentos foram desenvolvidos na história da música e luthieria e que já fazem parte da expressão cultural de uma sociedade. O mesmo se dá quando construo instrumentos de origem indígena brasileira: utilizo os materiais característicos desses instrumentos, ou quando faço um koto japonês e utilizo as madeiras que são próprias para esse instrumento. Ou seja, quando faço um instrumento tradicional, procuro fazê-lo com a sonoridade parecida com a dos que já existem. Para que isso ocorra, tanto a forma do instrumento quanto as características dos materiais são importantes. [...] Quando invento instrumentos, por outro lado, minha busca é explorar novas sonoridades e descobrir diferentes timbres, e para isso é natural experimentar diversos materiais. Quando construo um tipo de violino com a caixa acústica feita de cabaça, ele fornece uma sonoridade bem diferente da de um instrumento similar com a caixa acústica feita de lata, ou plástico ou papel, como também da de um violino tradicional; cada um terá uma identidade sonora própria.” Miriam Matsuda

Fernando Sardo Entrevista concedida especialmente para esta obra.

O luthier Fernando Sardo construiu mais de 100 instrumentos musicais com matérias alternativas, orgânicas e sintéticas.

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Ofício da arte Luthier Luthier é o profissional especializado na construção e no conserto de instrumentos musicais. Antigamente, essa palavra de origem francesa designava apenas quem construía o alaúde, mas hoje ela dá nome ao profissional que constrói ou repara qualquer instrumento musical. Um luthier que ficou bastante conhecido foi o italiano Antonius Stradivarius (1644-1737), especialista em construção de violinos, violas, violoncelos e contrabaixos. A luthieria associa o conhecimento de outras áreas, como marcenaria, marchetaria, matemática, desenho, pintura, eletrônica, entre outras.

DICA Para navegar Fernando Sardo disponibiliza em sua página na internet informações sobre música, instrumentos criados e tradicionais, artes plásticas e arte-educação. Para conhecer mais sobre esses assuntos navegue no site: <http://tub.im/cobfb5> (acesso em: 2 fev. 2016).

Giro de ideias Criando um som

Herve Gloaguen/Gamma-Rapho/Getty Images

Como será que os instrumentos foram criados? Que materiais fascinaram os ouvidos humanos? Será que, ao provocar o impacto entre duas pedras, o ser humano percebeu que um som percutia? Ou em sua leitura de mundo sensível foi capaz de ouvir o vento que assobia ao passar entre as árvores? Trovões, ventos, águas inspiraram e ainda motivam os seres humanos a criar e combinar sons para fazer música. O músico estadunidense John Cage (1912-1992), em uma performance no programa Eu tenho um segredo, na televisão dos Estados Unidos, em 1960, provocou risos ao descrever os elementos que utilizaria em sua apresentação: um liquidificador, quatro rádios, uma banheira, um regador com água, um pato de borracha, torradeira, chaleiras e baldes. Imagine a cara das pessoas ao ver que um músico iria fazer som com objetos domésticos! Cage pertenceu ao Grupo Fluxus, movimento artístico iniciado na década de 1960 nos EUA. Observe ao lado a imagem de John Cage durante uma performance. Para os integrantes desse grupo, não havia limites para a criação do artista. E para você, há limites na música? Qualquer objeto pode ser “coisa musical”? Pesquise também sobre os instrumentos musicais: do que são feitos, como são produzidos, a história de cada um. O passado pode despertar para novas ideias de criação no presente. Vamos fazer um som? Sempre vale a pena tentar! Converse com os colegas e proponha uma sessão de experimentação de sons de objetos, como nas

O músico e compositor John Cage e a Companhia de Dança Merce Cunningham durante performance na Fundação Maeght, em Saint Paul de Vence, França, em 1966.

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pesquisas que músicos como Hermeto Pascoal fazem. Alguém do grupo pode fazer um mapa dos sons que os objetos sonoros produzem (por exemplo, um traço para sons longos e um círculo para outro tipo de som). Explore sua percepção e sensibilidade. Registre aqui um comentário sobre a sua pesquisa.

Conexões

Arte e Biologia Professor, se achar conveniente, faça parceria com o professor de Biologia para mostrar ilustrações de como funciona o aparelho fonador.

A voz Cantar Desnudar-se diante da vida Cantar é vestir-se com a voz que se tem

Fábio Guinalz / Fotoarena

CRISTINA, Teresa. Cantar. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/teresa-cristina-grupo-semente/1089288/>. Acesso em: 11 abr. 2016.

Temos, em nosso corpo, conjuntos de órgãos que formam aparelhos responsáveis por várias funções e ações que praticamos. Ao cantar, por exemplo, usamos o aparelho fonador, composto de boca, língua, pregas vocais, laringe e faringe. Quando inspiramos, as cordas vocais (como popularmente são conhecidas as pregas vocais) se afastam e o ar entra nos pulmões, mas quando vamos emitir algum som, como a fala ou o canto, as cordas se aproximam, o ar sai de nossos pulmões e passa pela laringe, pelas cordas vocais e provoca vibrações que resultam na produção do som. Os diferentes tipos de voz, de entonações, ou seja, o timbre, são resultado da manipulação, da articulação do som, que é feita pelos movimentos da língua, de nossos lábios e da mandíbula.

A artista brasileira Teresa Cristina canta samba com sua bela voz e é uma das revelações da nova geração de sambistas brasileiros.

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O diafragma é o principal músculo da respiração, situado na base do pulmão. Quando inspiramos, o diafragma é estendido. Quando expiramos, ele volta à posição de origem. Para cantar, utilizamos muito esse músculo. Aprender a cantar envolve desenvolver uma forma de respirar que permita que o ar flua melhor. Assim, durante o canto há preocupações com a postura, a concentração e a percepção dons sons. Além disso, são necessários conhecimentos sobre o som e sua fluência e sobre aspectos musicais como altura (frequência), entonação e projeção.

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Os sons que ecoam em nossa afrodescendência

AGE RM/Otherimages

A música sempre esteve associada às tradições e às culturas de povo e cada época. No Brasil, temos sons que vieram com a cultura africana, representada pelas pessoas de vários povos que foram escravizadas e trazidas durante a colonização portuguesa. Esses sons, entre Kalimba ou sanza, instrumento originário do Zaire. Na foto, tantos outros elementos culturais, incorporaram-se à sociedade que instrumento encontrado em se formava, caracterizando a influência da cultura afrodescendente Angola. no Brasil. Vamos conhecer um desses sons? Encontramos no Brasil vários instrumentos que foram trazidos pelos africanos, como afoxé, agogô, caxixi, claca, cuíca, djembe, kalimba, kora, maracá, reco-reco, xilofone etc. Que tal fazermos uma kalimba? Trata-se de um instrumento feito de lâminas de metal ou de bambu presas a uma cabaça, que serve como caixa de ressonância. É tocado com as duas mãos, e as lâminas são “beliscadas” pelos polegares. Em algumas regiões, é conhecido como sanza. As kalimbas atuais geralmente são feitas com

Ray Moller/Dorling Kindersley/G etty Images

Projeto experimental

cabaças ou cascas de coco; são bem pequenas, mas possuem uma boa sonoridade.

Construção da kalimba

Você pode fazer sua kalimba usando diferentes materiais. Sugerimos usar uma lata de metal como caixa acústica, mas se preferir você pode usar uma cabaça redonda cortada ao meio. Apresentamos, abaixo, os materiais necessários: Uma lata de metal grande. Um frasco de cola forte. Uma chave de fenda. Dois parafusos 3x25 mm. Um pedaço de fio de arame de 2 mm. Um pedaço de madeira do mesmo tamanho da parte superior da lata (a medida pode variar de acordo com o tamanho do material que você estiver usando).

• Três pedaços pequenos de madeira, com cerca de 5 cm (esta medida também pode variar).

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Cinco grampos de cabelo grandes. Dois grampos de cabelo pequenos. Um pedaço de fita adesiva preta (tipo isolante). Uma furadeira com brocas finas para madeira e uma serra tipo copo para madeira (este material deve ser manipulado com a ajuda de um adulto ou com a orientação dele, para evitar acidentes).

Fotos: Xica Lima

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Professor, a dica é pesquisar se em sua comunidade há uma oficina de marcenaria que possa fazer este processo para todas as peças dos alunos ou se na escola há um funcionário ou ainda alguns pais de alunos que possam ajudar os estudantes neste projeto. O processo é bem simples, mas como envolve ferramentas de corte é mais prudente solicitar ajuda.

Processo de construção 100 mm Editoria de Arte

Veja o passo a passo para construir sua kalimba com a lata metálica.

1. Vamos preparar o tampo: meça a parte de cima da lata e corte um pedaço de madeira nesta medida.

• Tire a medida novamente do tampo de madeira e divida-o em

25 mm

três partes proporcionais.

• Peça orientação aos seus professores e familiares para cortar

Fotos: Xica Lima

uma forma circular (cerca de 20 mm de diâmetro), em uma das extremidades da madeira. Geralmente, usa-se uma serra tipo copo que facilita este processo de corte. O diâmetro deve ser pequeno para dar um bom resultado sonoro.

2. Faça dois furos em um dos pedaços de madeira e passe o fio de arame, prendendo-o bem ao pedaço de madeira e à base. Cole o outro pedaço de madeira sobre o tampo um pouco mais abaixo. Entre os dois, faça dois furos, e também no pedaço de madeira que sobrou, como mostra a imagem ao lado. 3. Abra os grampos e utilize apenas uma parte, a mais lisa. Isole a ponta mais áspera na fita adesiva formando um leque, colocando os grampos grandes no centro e os pequenos nas pontas, conforme apresentado na foto.

4. Prenda os grampos sobre a base com a ajuda do pedaço de madeira que tinha sobrado. Aperte bem os parafusos.

5. Deixe uma borda na lata e passe cola na superfície. Encaixe a base madeira que você montou sobre a lata e espere secar bem. Decore como quiser.

6. Sua kalimba está pronta! Use os polegares para tocar.

DICA Para ouvir P Que tal conhecer os sons da kalimba, este instrumento milenar da cultura africana? Assista ao vídeo: <https://tub. im/4tcex7> (acesso em: 12 abr. 2016).

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A ALQUIMIA DA ARTE

Marcos André/Opção Brasil

TEMA

Pintura rupestre datada entre 50003000 a.C., na Toca do Boqueirão da Pedra Furada, Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. Foto de 2009.

Eles são discretos e silenciosos Moram bem longe dos homens [...] São pacientes, assíduos e perseverantes BEN, Jorge. Os alquimistas estão chegando. In: BEN, Jorge. A Tábua de Esmeralda. Phonogram, 1974. Faixa 1. Professor, no final deste Tema 3, são apresentados dois projetos experimentais de arte para trabalhar com os alunos. O projeto Pincéis e tintas para a arte sumi-ê traz detalhes dessa arte, seus contextos culturais e propõe procedimentos artísticos para a confecção de pincéis e tintas para a criação de pinturas com nanquim. Em Ferramentas para pintar, abordam-se materialidades e suportes visuais para aprofundar procedimentos artísticos relacionados ao grafite.

Arte rupestre: designa gravação, traçado e pintura sobre suporte rochoso.

Na música Os alquimistas estão chegando, o carioca Jorge Ben Jor (1942-) cantou em homenagem às pessoas que se dedicaram a experimentos, misturas de substâncias, reações químicas, tentativas de experiências, algumas com características místicas e esotéricas. Igualmente, foram os pintores que, ao longo dos tempos, assim como os alquimistas, misturaram e experimentaram substâncias, como cientistas da arte, criando tintas e outros meios, ferramentas, procedimentos, além de suportes dos mais variados tipos. Quando os seres humanos criaram a arte rupestre nos paredões das cavernas nordestinas brasileiras, na região do atual Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, colocaram ali sua visão e impressão do mundo da época, como é possível observar na pintura acima. Usaram a linguagem das imagens com desenhos e pinturas. Imagens enigmáticas, aos olhos do público que visita esse sítio arqueológico hoje. Não sabemos com certeza o que aquelas pessoas queriam expressar, mas especulamos que a vontade de se comunicar era forte e, assim, foram criando materiais, experimentando procedimentos, maneiras de fazer imagens que nos intrigam até agora. Era um “pintor-caçador” que usava as imagens como magia, buscando uma forma de ter sorte na ação da caça? Queria comunicar uma mensagem, ou relatar um modo de vida? Há muitas hipóteses e explicações, dadas por arqueólogos e outros cientistas que estudam essas imagens.

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A forma de criar imagens desses povos antigos deu início a procedimentos de pintura utilizados até hoje. Em relação às técnicas de pintura, o princípio segue a lógica de composição química de tintas, em que se misturam três elementos básicos: aglutinante, pigmento e solvente (diluente). Há casos, também, em que podemos ter um quarto elemento, chamado de aditivo. Aglutinantes são substâncias que fazem o pigmento (material responsável pela cor) aderir à superfície (qualquer tipo de suporte). Gordura, resinas, óleos podem ser aglutinantes. Carvão, argila, plantas, minerais e até sangue, entre outros, são materiais usados como pigmentos na composição de tintas. Solventes ou diluentes são substâncias (a maioria em estado líquido) que servem para dissolver ou dar um tipo de textura e consistência à tinta. Água, álcool, terebintina e outras substâncias servem como solventes.

David Evison/Shutterstock/Glow Images

A oferta de elementos úteis na produção de tintas é abundante na natureza, tanto no meio mineral quanto no vegetal e no animal. Com o processo industrial na produção de tintas, há ainda mais variedade de composições. São conhecimentos desenvolvidos ao longo do tempo, da arte rupestre à contemporaneidade, passando pela pesquisa de muitos artistas e químicos em todas as partes do mundo. É a química na arte de pintar, a alquimia da arte.

Andrii Chernov/Alamy/Glow Images

Aditivos podem ter várias funções na composição química de tintas, como alterar a consistência, o tempo de secagem ou de conservação, entre outras funções que dependem da composição de cada tipo de tinta.

Resina de cor amarela extraída do tronco de uma árvore.

Pigmentos indianos utilizados na composição de tintas.

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Gil Vicente. 2008. Nanquim sobre papel. Coleção Ernani Vilachan. Licenciado por InArts.com. Foto: Flavio Lamenha. Licenciado por InArts.com

Do Oriente ao Ocidente, a arte é um fazer

Sem título, de Gil Vicente, 2008. Nanquim sobre papel, 228 cm 3 280 cm.

“A arte é um conjunto de atos pelos quais se muda a forma, se transforma a matéria oferecida pela natureza e pela cultura” (BOSI, 1986). Além disso, o que realmente transforma a matéria em “arte” é a quantidade de poética que se coloca nas materialidades. Ou seja, fazer arte é transformar materiais com poesia, seja aqueles que encontramos na natureza ou os produzidos por complexos processos industriais. Na arte oriental, há um tipo de tinta que apresenta como solvente (diluente) a clareza e a fluidez da água; como pigmentos, a escuridão do carbono obtido por queimas de materiais (fuligem); e como aglutinante, a consistência da resina vegetal (goma arábica). Outra variação mais antiga dessa técnica usa como pigmento a tinta produzida por moluscos (polvos e lulas). A combinação de outros materiais encontrados na natureza forma uma das tintas mais antigas no mundo, usada tanto para escrever como para desenhar, a tinta nanquim. Ela recebeu esse nome porque foi inventada pelos moradores da cidade chinesa chamada Nanjing (Nanquim).

O artista plástico pernambucano Gil Vicente (1958-), apesar de ter à sua disposição materiais produzidos com altas tecnologias, admira a tinta nanquim por suas qualidades.

Como qualidades plásticas desta tinta de origem oriental, destaco o poder do seu pigmento, sua opacidade, a discreta cor sépia que eleva a temperatura das suas aguadas e a aveludada profundidade do preto quando conseguido por camadas. Depoimento de Gil Vicente em seu site oficial. Disponível em: <http://www.gilvicente.com.br/atelier/atelier_nanquim.html>. Acesso em: 2 fev. 2016.

Em sua obra Sem título (2008), o papel é invadido pelo negro do nanquim, que contrasta com a figura nua em tons de cinza do próprio Gil Vicente contemplando o vazio da folha escura. Um autorretrato, um mergulho em si mesmo ou contemplação distante? O que pensa o artista ao olhar para o espaço em meio à escuridão?

A arte sumi-ê Cada artista tem interesse em determinados materiais em função do que quer dizer por meio de suas imagens, sua poética. Os artistas praticantes da arte sumi-ê (pintura com tinta) apresentam a ideia de que a produção do ser humano na arte ou em qualquer outra atividade deve ter profunda ligação com a natureza. Esses artistas fazem delicadas pinturas com sumi (tinta nanquim) e com pincéis chamados de fude, criando efeitos com aguadas em tons que vão do preto puro a infinitos tons de cinza sobre o papel. Nessa tradição artística, podemos apreciar imagens que mostram elementos como plantas, flores, árvores e traços abstratos que lembram a fluidez da água, do vento etc.

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Nesta imagem, um dos principais materiais utilizados na arte sumi-ê: pincel para tinta especial tipo nanquim. Também podem ser usados carimbos com indicações da cidade ou filosofia que influenciou a obra.

Massao Okinaka. 1993. Sumi-ê sobre papel washi. Acervo Documental Fotográfico da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Fotógrafa: Isabella Matheus

A tinta nanquim, como vimos, é muito antiga. Utilizada na contemporaneidade, oferece-nos muitos efeitos. Na arte sumi-ê, os artistas exploram o conceito de isocromia. Observe, na imagem a seguir, que há uma cor predominante, o preto. Ao diluir essa cor em água, conseguimos vários tons de cinza. Isocromia é o nome dado a esse tipo de harmonia, em que usamos vários tons de uma cor diluída em solvente, no caso, a água.

Photo Japan/Alamy/Glow Images

Na arte sumi-ê, o artista encontra, além do prazer estético, a possibilidade de praticar atividades zen-budistas, que primam pelo desenvolvimento da paciência, da humildade e da simplicidade. Uma arte antiga nascida da tradição da escrita chinesa em templos budistas durante a dinastia Sung (960-1274), a arte sumi-ê foi para o Japão e, atualmente, espalhou-se pelo mundo, divulgada por mestres como o artista Massao Okinaka. Os mestres de sumi-ê ensinam seus alunos a criar desenhos com traços rápidos, mas ao mesmo tempo suaves e, dessa forma, buscar a definição de formas encontradas na natureza. Essa técnica era ensinada aos samurais da Antiguidade, para que exercitassem a decisão de gestos sem hesitação. Tanto na arte do sumi-ê como em uma luta de espadas, depois da ação feita, não há como efetuar correção: um gesto é um gesto, seja o traço no papel, seja o golpe de uma espada. Veja ao lado uma artista criando um sumi-ê em seu estúdio em Nikko, Japão.

Uahu-Zumi-Sakura (Cerejeiras), de Massao Okinaka, 1993. Sumi-ê sobre papel washi, 69,8 cm 3 135,5 cm.

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A arte de MASSAO OKINAKA Nascido em Kyoto, no Japão, Massao Okinaka (1913-2000), cujo nome artístico é Bunsen (dado por seu mestre em pintura japonesa, Onishi Kakyo, herdeiro da Escola Sanae), viveu muitos anos em São Paulo, onde firmou carreira artística. Conhecido como um importante representante da arte nipo-brasileira, foi responsável por divulgar no Brasil a arte sumi-ê, tanto por meio de produção de pinturas como pelo ensino dessa tradição. Fez parte da turma do Seibi (Seibikai), um grupo de artistas japoneses imigrantes no Brasil que se reuniu para criar um espaço de discussão que promovesse o aprimoramento técnico e a divulgação de suas obras. A partir da década de 1940, artistas nipo-brasileiros participaram e organizaram vários eventos artísticos, projetando em nossa história da arte muitos nomes, como Tomie Ohtake (1913-2015), Flávio-Shiró (1928-2015) e Manabu Mabe (1924-1997). No grupo Seibi, cada artista desenvolveu sua própria linguagem e pesquisou as materialidades com base em filosofias de vida e pensamentos influenciados pelas tradições religiosas e culturais do Japão, a terra do Sol Nascente.

Mestre Massao comenta em seu diário de artista que há três elementos básicos no sumi-ê: simplicidade, simbolização e naturalidade.

Acervo da família

Palavra do artista

“O sumi-ê é uma arte subjetiva. A expressão livre que brota por meio da cor sumi e dos movimentos do pincel reflete com serenidade o caráter e a personalidade do autor, induzindo-o ao prazer das descobertas.” Massao Okinaka OKINAKA, Massao. Sumi-ê – A arte em preto e branco. Made in Japan. n. 53, 2 mar. 2006. Disponível em: <http://madeinjapan.uol.com. br/2006/03/02/sumie-a-arte-em-preto-e-branco/3/>. Acesso em: 19 maio 2016. Massao Okinaka trabalha em seu sumi-ê O silêncio, de 1993.

A pintura a óleo Usando óleo em vez de ovo, podia trabalhar muito mais devagar e com maior exatidão. Podia fazer cores lustrosas, suscetíveis de serem aplicadas em camadas transparentes ou ‘vidradas’; podia adicionar cintilantes detalhes em relevo com um pincel de ponta fina, e realizar todos aqueles milagres de precisão e minúcia que espantaram seus contemporâneos e cedo levaram à aceitação geral do óleo como o veículo pictórico mais adequado. GOMBRICH, Ernst H. A história da arte. Tradução Álvaro Cabral. 16 ed. Rio de Janeiro: LTC, 1999. p. 240.

Enquanto na arte da pintura oriental os artistas dedicaram-se, na tradição sumi-ê, para conseguir traços sutis e capturar a síntese das coisas, no Ocidente, no período da Renascença, artistas buscaram a realidade na representação de imagens. Para isso, exploraram materiais que pudessem oferecer contrastes entre luzes e sombras, cores brilhantes, infinitas combinações de tonalidades, além de proporcionar a representação de espaços com profundidade. A tinta a óleo foi uma alternativa no período do Renascimento e influenciaria a produção de muitas obras também em outros momentos da história da arte. Segundo o historiador Ernst Gombrich (1909-2001), o artista Jan van Eyck (c. 1390-1441) teria sido um dos primeiros a explo-

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Nascia a tinta a óleo, material usado em pinturas famosas, como O casamento dos Arnolfini (1434), de Jan van Eyck, e a Mona Lisa (c. 1503-1506), de Leonardo da Vinci (1452-1519). Na investigação de materialidades, Da Vinci explorou a técnica da pintura a óleo, ampliando os estudos sobre esse material realizados antes, e deixou vários escritos sobre o tema. Como um alquimista, o artista pesquisou e misturou muitos materiais em suas pinturas, para criar obras como A última ceia (14951498), pintada no refeitório do mosteiro de Santa Maria da Graça, em Milão, Itália.

Jan Van Eyck. 1434. Óleo sobre painel. Galeria Nacional de Londres

rar a tinta a óleo na pintura artística. A tinta era preparada pelos pintores ou seus aprendizes, que pesquisavam os pigmentos e as misturas. O ovo era utilizado como aglutinante para fazer a tinta têmpera. Contudo, essa tinta secava rápido, o que dificultava realizar matizes de tons, levando artistas a misturar óleo de sementes de linho (Linum usitatissimum, óleo de linhaça) e terebintina (produzida com base na resina de pinheiros) na receita de tinta.

O casamento dos Arnolfini, de Jan van Eyck, 1434. Óleo sobre painel, 83,7 cm 3 57 cm. Caracterizado pelo naturalismo e realismo, o artista representa nessa obra a burguesia comerciante belga. Leonardo da Vinci. 1495-1497. Técnica mista com predominância da têmpera e óleo sobre duas camadas de preparação de gesso aplicadas sobre reboco. Igreja Santa Maria delle Grazie, Milão

A última ceia, de Leonardo da Vinci, 1495-1497. Técnica mista com predominância da têmpera e óleo sobre duas camadas de preparação de gesso aplicadas sobre reboco, 460 cm 3 880 cm.

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Tudo azul! Pigmentos como crenças e poéticas contemporâneas [...] O oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã e a seda azul do papel que envolve a maçã

Paul Vinten/Shutterstock/Glow Images

VELOSO, Caetano. Trem das cores. In: Cores, Nomes. Rio de Janeiro, Polygram, 1982. CD. Faixa 3. Disponível em: <http://www.caetanoveloso.com.br/discografia.php>. Acesso em: 2 fev. 2016.

Escultura e hieróglifo egípcio na parede do interior de um templo egípcio, c. 3000 a.C.

O azul é uma das cores que mais traz significados. Cor da noite, do mar, do céu, da calmaria, da espiritualidade, da suavidade, dos fluxos de sentidos nas culturas. Como representar tantos significados? Como materializar tantas formas imaginadas nas mentes humanas? Essas questões moveram pessoas a pesquisar pigmentos e processos para a criação de materiais sintéticos. No Egito antigo, técnicas para criar tintas sintéticas já tinham sido exploradas. Para conseguir o azul egípcio, com forte simbolismo na religião desse povo em ideias de eternidade, eram misturados os elementos: óxido de cobre e de cobalto com bicarbonatos de sódio e cálcio, aquecendo tudo em altas temperaturas, cerca de 700 graus Celsius. Há outras versões dessa receita de azul egípcio, estudada até nossos dias por químicos, historiadores e artistas, que você pode ver como exemplo no fundo da imagem acima.

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Zou Yanju/Getty Images

Os chineses também adoravam a cor azul, que tinha significados culturais como, por exemplo, a pureza espiritual. Assim, desenvolveram um tipo de azul usando uma mistura parecida com a composição egípcia, mas alterando os sais de cálcio para sais de bário, produzindo um azul mais próximo do roxo, conhecido como o azul chinês. Muitas técnicas foram desenvolvidas pelos chineses, que se tornaram mestres na produção de porcelana fina e delicada. Com vernizes associados a pigmentos e elementos químicos, depois de queimas em fornos em altas temperaturas, os mestres chineses criaram diversas figuras e padronagens nas porcelanas azuis, como podemos observar nas imagens abaixo.

Museu de Arte de Indianápolis, EUA. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Eduardo Enomoto/Agencia Estado/Xinhua Press/Corbis/Latinstock

Detalhe do Muro dos Nove Dragões, no Parque Beihai, em Pequim, na China. Construído em 1402 com mais de 270 tijolos esmaltados. Possui 29,4 m de comprimento e 3,5 m de altura.

Vaso de porcelana chinesa pintado com o azul chinês, c. 1426-1435.

Apresentação do circo chinês Shenyang Acrobatic Troupe, em São Paulo, SP, em 2011.

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Yves Klein. 1962. Pigmento azul em resina sintética sobre plaste. Coleção particular. Foto: Christie’s Images/Corbis/Latinstock

O circo chinês Shenyang Acrobatic Troupe apresentou um espetáculo no Brasil, em 2011 (veja imagem na página anterior), com um visual que trouxe a tradição do tom azul na cultura daquele país. Uma cor criada em tempos distantes, na dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.), e que, agora, até brilha no escuro. Esses azuis, hoje, são as luzes da tecnologia.

O azul de Yves Klein No início não há nada depois um nada profundo e depois uma profundidade azul. BACHELARD, Gaston apud MAGNO, Lucas. Pincéis vivos. ABD Conceitual, n. 5, p. 24, nov./dez. 2012.

A paixão pelo azul que moveu artistas a criar pigmentos nos tempos mais antigos chegou até à contemporaneidade. Já no século XX, o artista francês Yves Klein (1928-1962), o mesmo que trabalhou com o corpo de modelos como pincéis humanos, patenteia um azul vivo com o nome de International Klein Blue (IKB, =PB29, =CI77007). Klein criou diversas obras utilizando o tom, como podemos observar em S41, Blue Venus, ao lado. Esse tom de azul ficou tão famoso que foi usado por estilistas e designers em roupas e objetos. Pode ser que você tenha alguma peça em seu guarda-roupa com esse azul tão popular. Observe alguns exemplos nas imagens abaixo. Azul egípcio, azul chinês, Klein Blue, esses tons de azul ainda continuam por aí, não apenas em roupas e objetos, como também em espetáculos e obras de arte. A adoração pela cor azul atravessou os tempos e continua presente nos dias atuais.

Da esquerda para direita, de cima para baixo: Sagir/Shutterstock/Glow Images, Gregory Gerber/ Shutterstock/Glow Images, Adisa/Shutterstock/Glow Images, Karkas/Shutterstock/Glow Images, Igor Stramyk/Shutterstock/Glow Images e S.Z./Shutterstock/Glow Images

S41, Blue Venus, escultura de Yves Klein. Pigmento azul em resina sintética sobre plaste, 70 cm  30 cm  20 cm.

Blusa feminina, batom, esmalte, sombra, cachecol, sapato, pulseira, brincos e bolsa em tons de Klein Blue.

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A arte de YVES KLEIN Yves Klein (1928-1962) nasceu em Nice, França, em um ambiente totalmente artístico, uma vez que seus pais também trabalhavam com arte. Um universo de cores e formas rodeavam o ambiente do menino, que cresceu convivendo com arte, tornando-se um artista que experimentou várias linguagens, como fotografia, pintura, escultura e performance. O fascínio de Klein pela cor azul começou em uma viagem ao Japão, na qual teve contato com o zen-budismo. Culturas em fluxos viajando entre o Oriente e o Ocidente marcam a criação desse artista, que pesquisou tons de azul misturando pigmentos com seu amigo químico Edouard Adam até criarem o International Klein Blue (IKB): arte e química de mãos dadas. Yves Klein morreu jovem, mas fez experimentos com outras cores, embora tenha ficado mais famoso por seu mergulho no infinito e profundo azul, mergulhando em pigmentos para traduzir a poética do vazio. Pierre Boulat/ Cosmos/Glow Images

Palavra do artista “A missão do pintor é realizar uma obra-prima única: ele próprio, de forma constante... transformando-se assim uma espécie de gerador atômico de radiação constante, capaz de impregnar a atmosfera com a sua presença pictórica, a qual permanece gravada no espaço após a sua passagem. É este o significado real da pintura, no século XX.” Yves Klein Registro de Klein em seu diário, em setembro de 1957, publicado postumamente sob o título O meu livro. In: ADAGEISA. Noveau Réalisme − Yves Klein, p. 7. Disponível em: <https://adageisa.files. wordpress.com/2008/09/yves-klein.pdf>. Acesso em: 29 jan. 2016. Yves Klein e suas esponjas azuis. Foto de 1957.

DICA Para navegar A biografia de Yves Klein, artista de diversas linguagens visuais, além da reprodução de várias obras e o registro de performances você encontra neste site (em inglês e francês): <http://tub.im/shed6i> (acesso em: 29 jan. 2016).

Giro de ideias: O significado das cores O significado das cores pode ter uma referência cultural. Que tal fazer uma enquete sobre as cores e preferências da turma?

• Qual a sua cor preferida? Por que você acha que escolheu essa cor?

• Converse com seus colegas a respeito das cores que cada um prefere e dos motivos dessa preferência. A preferência é unânime? E os motivos?

Agora faça uma pesquisa para saber sobre o significado das cores em diferentes culturas e depois compartilhe a sua descoberta com seus colegas. Capítulo 4 • Matérias da arte

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Arte e Química

As tintas Muitas cores estão presentes por toda parte, são cores químicas que tingem a cidade como na obra Scala (20062008), do artista alemão Horst Gläsker (1949), um grafite colorido para lembrar das nuances das relações de humanas. Observe a imagem ao lado. O artista pintou uma escadaria em uma vila na cidade de Wuppertal, na Alemanha, formando uma verdadeira paleta de cores a céu aberto. Vimos como a química está intimamente ligada à produção de tintas. Na arte rupestre, eram utilizadas gordura de animais e resinas de plantas, entre outros materiais. A resina tem a função de acumular partículas de pigmentos, o que dá à cor consistência, brilho, durabilidade e aderência à superfície. O aglutinante também pode agir como um tipo de verniz. A albumina e a lecitina presentes na gema do ovo, por exemplo, usadas como aglutinantes em tintas têmperas, ajudam a conter as partículas de pigmentos sobre a superfície. As misturas feitas no Egito antigo para conseguir cores sintéticas usavam reações químicas por contato ou calor.

Horst Gläsker. 2006-2008. Pintura acrílica. Cidade de Wuppertal, Alemanha. Foto: Acervo do artista

Conexões

O artista Horst Gläsker, na obra Scala, 2006-2008, pintou 112 degraus e escreveu palavras sobre relações humanas, como amor e simpatia.

São muitas as ligações entre arte e química. Fazer experimentos nessas áreas pode ser uma aventura no universo tanto da arte como das ciências. Pensando na composição química das tintas, vamos explorar sua produção com os elementos básicos: aglutinantes, pigmentos, solventes e aditivos.

Tinta têmpera Misture uma gema de ovo a uma colher (de sopa) de pigmento à base de óxido de ferro (pó industrializado inorgânico e atóxico com alto poder de tingimento) na cor desejada. Coloque água para controlar a consistência. Um pouco de óleo de cravo ajuda a dar brilho, maciez, além de proporcionar um cheiro mais agradável. Você pode também colocar algumas gotas de vinagre para evitar formação de fungos na pintura, mas o óleo de cravo também ajuda nisso. Como suporte, use embalagens de papel (como as de pizza). Limpe a superfície, escolha o tamanho e o formato desejado e depois passe uma base de tinta látex branca ou água com gesso (1 xícara de gesso para cada litro de água), mexa bem e aplique essa base imediatamente. Agora, com os materiais prontos, e só criar sua arte. Como a base é a gema de ovo, esse tipo de tinta fica com um aspecto opaco. Veja a seguir outras sugestões.

Tinta têmpera com brilho Você pode mudar a textura e o brilho desse tipo de tinta acrescentando um pouco de óleo de linhaça ou de banana. Colocando clara no lugar da gema, você pode conseguir uma tinta mais transparente, parecida com a aquarela. Acrescente o óleo de cravo em todas as variações, pois isso ajuda na conservação. Faça mais experiências e analise os resultados. Misture outros tipos de pigmentos. Veja como as tintas reagem às proporções dos ingredientes e como se comportam em diferentes tipo de suportes. Aventure-se, mas tome cuidado! Se for mexer com elementos tóxicos ou corrosivos, faça isso apenas na presença de um especialista.

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Professor, é interessante observar nas receitas quais ingredientes são aglutinantes, pigmentos, solventes e aditivos e conversar com os alunos sobre as misturas e o papel de cada elemento na composição das tintas. Resgate o que foi estudado antes. Peça a eles que analisem cada tipo de tinta e o que determina as características de cores transparentes, opacas, espessura, fluidez etc. Você pode optar por trabalhar com um tipo de tinta por vez e depois propor que eles percebam as diferenças de cada material.

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Conexões

Arte e Meio ambiente

Fora do lugar Na linguagem da land art e intervenção urbana, o artista egípcio naturalizado neozelandês Konstantin Dimopoulos (1954-) criou a obra de arte efêmera The blue trees (As árvores azuis), em que árvores tiveram seus troncos pintados com uma tinta a base de água, não tóxica. Tratava-se de uma ação de arte social, ativista, que queria chamar a atenção das pessoas para a importância das árvores em nosso ecossistema. As árvores são o pulmão do planeta e as pessoas parecem se esquecer disso. O artista mudou a cor do tronco das árvores para que, saindo do comum, chamassem a atenção das pessoas, que talvez se sensibilizassem e pensassem a respeito do desmatamento. Com intenção semelhante, o artista paulistano Eduardo Srur (1974-) criou uma intervenção urbana com garrafas de plástico gigantes, PETS (2008), colocadas às margens do rio Tietê, em São Paulo. Muitas garrafas PET já foram jogadas nesse rio superpoluído, mas garrafas gigantes chamaram a atenção de milhares de pessoas que passaram pelas margens em que fica situada uma importante via expressa.

ZUMA Press, Inc./Alamy/Glow Images

Pense a respeito desses exemplos. Observe as imagens abaixo. São artistas tirando as coisas do lugar para colocar alguma coisa na cabeça das pessoas sobre arte e meio ambiente.

Patricia Santos/Estadão Conteudo

The blue trees (As árvores azuis), de Konstantin Dimopoulos, 2012, Califórnia, Estados Unidos.

PETS, de Eduardo Srur, 2008. Intervenção urbana com garrafas gigantes fazem parte da instalação às margens do rio Tietê, em São Paulo, SP.

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Projeto experimental

Vamos, agora, criar pinturas com nanquim inspirados na arte sumi-ê. Observe uma ilustração, no final da página, feita em nanquim. Escolha pincéis com cerdas macias e longas. Pincéis desse tipo podem ser caros, mas você pode fazer seu próprio material. Consiga um cabo para o pincel (palito de churrasco, graveto, bambu são algumas possibilidades). Para as cerdas, você pode usar materiais como um pouco de cabelo (procure em algum cabeleireiro próximo). Consiga, também, elástico de borracha, barbantes e cola quente ou adesivo multiuso. Com todo o material reservado, vamos começar a montar o pincel. Arrume os fios de cabelo, de modo a formar uma mecha. A quantidade de cabelo determinará a espessura do pincel, assim podemos fazer pincéis mais grossos (com mais fios de cabelo) e mais finos (com menos fios de cabelo). Passe cola quente ou adesivo multiuso líquido em uma extremidade do cabo, coloque a mecha de cabelo (se estiver usando cola quente, cuidado: é melhor colocar a mecha sobre uma mesa e ir rodando o cabo, de modo que os cabelos possam aderir ao local onde há cola). Depois, reforce a colocação do cabelo no cabo com o elástico. Para fazer um acabamento, passe o barbante várias vezes em torno do cabo, para que os cabelos fiquem bem presos e não soltem enquanto você estiver pintando. Na finalização desse material, use uma tesoura para cortar o excesso de fios e modelar a forma das cerdas do pincel. Você pode fazer cortes na diagonal, retos, arredondados, ou outra forma que desejar. Pense antes como quer o seu. Você também pode usar a tinta nanquim industrializada. Se preferir, há várias marcas no mercado, ou pode se aventurar a ser um alquimista da arte e criar sua própria tinta. O pigmento para a tinta nanquim é obtido da queima de materiais (carbono) também conhecidos pelos nomes de negro de fumo, negro de carbono ou negro vegetal. Esse material é abundante no meio em que vivemos, pois frequentemente queimamos coisas, tanto que a poluição vem aumentando no planeta, em consequência do uso do petróleo. Você pode, também, usar a fuligem que se acumula em escapamentos de carros, por exemplo, sujeiras de churrasqueiras, lareiras, ou queimar um pedaço de jornal (essa deve ser a última alternativa, porque já há muita produção de carbono na atmosfera). O pigmento deve ser colhido e peneirado, porque vamos precisar de partículas bem finas que possam ser misturadas à goma arábica (tipo de cola vendida em papelarias). A receita pede uma colher de sopa de pó de pigmento negro para uma colher de café de goma. Essa medida pode variar dependendo da consistência que você quer dar à tinta. Como solvente, você já sabe que vamos usar água. O papel deve ser mais encorpado, especial para pintura, ou podemos utilizar cartolinas brancas, de preferência. Existem muitos tipos de papel especiais para esse trabalho. A qualidade dos papéis varia de acordo com a gramatura, o que ajuda a absorver melhor a tinta e evitar que fique com ondas. Antes de começar a obra definitiva, faça vários exercícios como teste, para se familiarizar com o material.

Altemar Domingos. 2013. Nanquim aquarelado sobre papel. Coleção do artista

1. Pincéis e tintas para a arte sumi-ê

Ilustração Samurai, de Altemar Domingos, 2013. Nanquim aquarelado sobre papel, 20 cm  28 cm.

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Chame a atenção dos alunos para a diversidade de traços e as possibilidades de tons com o acréscimo de água. A textura proporcionada pelo pincel é um ponto importante na arte sumi-ê: traços leves criam os efeitos de isocromia; um círculo traçado rapidamente apura o gesto; as formas de seres imaginários ou reais aguçam a percepção. Oriente os alunos a criar o que quiserem a partir dos traços.

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Iago Mazza Chiaravalloti/NurPhoto/AFP

2. Ferramentas para pintar

bico ou biqueira gás

tinta

válvula

Ilustração: Ricardo Dantas

Africa Studio/Shutterstock/Glow Images

Nas artes visuais, as materialidades são muitas. Como vimos, os suportes na arte podem ir do corpo de uma pessoa a tudo o mais que está no mundo. As ferramentas para pintura vão de pincéis às máquinas com compressão de ar e outras tecnologias. Povos antigos usavam ossos, em que colocavam pigmentos (minerais moídos com cor) e sopravam sobre uma superfície impregnada com algum tipo de aglutinante (resina, gordura etc.). O pigmento, então, Imagem de grafite da 3.a Bienal Internacional Graffiti Fine aderia ao suporte (a rocha de cavernas, por exemplo). Art, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque do Nesse processo, criavam imagens. Mãos marcadas no Ibirapuera, São Paulo, SP, de abril a maio de 2015. tempo, pintura conseguida pelo processo conhecido hoje como graffiti stencil (estêncil), que nada mais é que uma matriz – geralmente feita de papel, plástico ou metal – em que um desenho tem partes cortadas para proporcionar furos por onde a tinta passa. No caso dos pintores do passado, as mãos eram usadas como stencil. Processos que envolvem ar comprimido (que sofreu compressão) como parte de ferramentas para pintar são muito usados hoje na indústria e na arte, como o caso do aerógrafo (ou caneta aerógrafo), principalmente em ilustrações e criações de HQs (histórias em quadrinhos). As materialidades estão disponíveis para o artista fazer arte, mas com poesia. Assim, artistas grafiteiros (que são muito diferentes dos pichadores de rua) lotam as cidades com suas imagens poéticas. Esse grupo de artistas utiliza, entre outros materiais, latas de tinta spray e matrizes de estêncil, ferramentas inspiradas nos processos de pinturas antigas com ar, mas que no caso do spray usa solução de gás líquido conhecida como sol (solução aerossol). Uma lata de tinta spray é uma ferramenta de pintura formada por um mecanismo composto de várias partes. Na parte de cima, há um bico ou biqueira, peça por onde a tinta sai, cujo tamanho e tipo regulam o diâmetro e a quantidade de tinta que é projetada, pulverizada. Algumas latas possuem um círculo que identifica a cor da tinta na saída do bico. Ligada a esse bico há um tubo de plástico que vai até o final da lata. A tinta (conhecida como produto) e o gás (conhecido como propelente) estão dentro da lata, comprimidos, em um processo essencial para que as ferramentas de pintura com princípios aerógrafos funcionem. A pressão interna da lata é maior que a externa, pois a tinta e o gás estão comprimidos. Assim, quando acionamos o bico, o gás que está sob alta pressão tende a sair da lata, empurrando o produto líquido até o topo do tubo de plástico e daí para fora, através do bico. Para melhor saída da tinta, é recomendável utilizar a lata sempre em pé. A válvula é o mecanismo que pega a tinta na parte inferior da lata e a conduz para fora, a partir da pressão feita no bico para abrir e soltar a tinta e o gás, que estão sob alta pressão dentro da lata. Assim, o gás tende a sair devido a diferença de pressão.

bola côncavo

Lata de spray em uso.

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Esquema ilustrativo do interior de uma lata de spray.

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Alamer/Iconotec/Keystone

Ainda há dois detalhes importantes para que tudo dê certo: uma pequena bola que fica dentro da lata tem a função de misturar a tinta e o gás para que ela saia mais homogênea; o formato do fundo da lata, em desenho côncavo, proporciona maior estrutura e ajuda a esgotar o conteúdo, pois se o fundo fosse reto, o gás, por causa da pressão, empurraria o metal para fora e, para esvaziar o líquido, teríamos que inclinar a lata, como fazemos quando queremos tomar um copo de refrigerante com um canudinho. Há muitos conhecimentos científicos contidos nessa ferramenta de pintar que você pode estudar em Física e Química, como a ideia de ocupação de corpos dentro de um espaço, pressão, líquidos e gases, densidades, conceito da lei dos gases etc. São vários saberes científicos dentro de uma latinha! E tudo começou com alguém soprando pigmentos por um osso e deixando suas marcas na história da arte, como as pinturas feitas na Caverna das mãos, na Patagônia (Argentina), em cerca de 7300 a.C.

Caverna das mãos, arte rupestre, c. 7300 a.C., Província de Santa Cruz, na Patagônia, Argentina.

Você pode experimentar vários traços ao utilizar uma lata de spray. Para definir que tipo de traço você quer é importante escolher o tipo de bico que será usado, pois esse mecanismo é responsável pela saída da tinta. Há bicos para traços grossos e finos. Você também pode fazer traços finos retirando um pouco de ar de dentro da lata. Para isso, coloque a lata de cabeça para baixo (apenas nesse momento) e aperte o bico: no início, a tinta sai também, mas, logo em seguida, sai mais ar, e com menos ar o traço fica mais fino. Nesse procedimento, você retira um pouco de pressão da lata, por essa razão o traço fica mais fino. Há marcas de tintas spray que já vêm com a variação de pressão para traços grossos ou finos, você pode conferir nos rótulos dos produtos. Tome cuidado para não retirar todo o ar, senão a tinta não sairá mais. Para pintar, use sempre a lata com o bico para cima. Outro detalhe para conseguir efeitos de traços é a distância em relação à parede. Quanto mais perto, mais consistente será seu traço. A força que você coloca no bico também determina quanta tinta você quer que saia. Para conseguir traços contínuos e sem gotejamento, faça o traço com maior velocidade. Se a intenção for conseguir um traço grosso e com a cor bem intensa, a velocidade deve ser lenta. Se você não estiver familiarizado com essa ferramenta, faça algumas experiências antes para definir os diferentes tipos de traços. Depois, vá se arriscando mais, criando formas, linhas, misturando as cores sobre o suporte, que pode ser uma parede ou um papel. Para criar com estêncil, faça um desenho em uma folha de papel grosso ou papelão (ou outro material pouco flexível, como radiografias velhas, por exemplo). Depois, com um estilete ou tesoura (tome cuidado para não se machucar), retire as partes do desenho por onde você quer que a tinta passe. Essa proposta explora as relações entre figura e fundo, positivo e negativo. É nesse jogo que surgem as imagens. Outros efeitos podem ser trabalhados, como aplicar as cores em várias camadas. Isso dá efeitos de tonalidade, luminosidade e profundidade.

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TEMA

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POÉTICA DA MATÉRIA

A arte tem amplas opções de materialidades. Cada artista ou grupo pesquisa para encontrar a melhor materialidade para construir sua obra. Essa matéria está sempre ligada a intenções no final deste Tema 4, o Projeto experimental – Padrões abstratos dos artistas, estilos e poéticas. Professor, propõe estimular nos alunos a pesquisa de padronagens geométricas nas diversas culturas, apresentando algumas padronagens indígenas, para, em seguida, criar seus próprios padrões abstratos.

Cada materialidade abrange, de início, certas possibilidades de ação e outras tantas impossibilidades. Se as vemos como limitadoras para o curso criador, devem ser reconhecidas também como orientadoras, pois dentro das delimitações, através delas, é que surgem sugestões para se prosseguir um trabalho e mesmo para ampliá-lo em direções novas. OSTROWER, Fayga. Criatividade e processo de criação. 21. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 32.

Grupo UAKTI. Foto: Sylvio Coutinho

O grupo musical UAKTI, formado em Belo Horizonte (MG), atuando de 1978 a 2015, pelos músicos Marco Antônio Guimarães, Artur Andrés Ribeiro, Paulo Sérgio Santos e Décio Ramos, realizou vários estudos a partir da observação de fenômenos físicos naturais, como o som da água que cai sobre um material ou que flui entre coisas, fato que possivelmente os seres humanos que criaram os primeiros instrumentos observaram e experimentaram. Tendo como paixão a pesquisa e a música, o grupo UAKTI utilizou instrumentos criados com materiais inusitados. Seus músicos além de explorar qualidades sonoras dos materiais, pesquisaram os sons de instrumentos tradicionais misturados a novos materiais e modos de tocar. Essas pesquisas marcaram história na exploração das materialidades na música.

Grupo musical UAKTI em apresentação no Grande Teatro do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, MG, em dezembro de 2006.

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A música, a dança, o teatro, as artes visuais e audiovisuais e todas as linguagens híbridas têm seus materiais e procedimentos específicos para sua elaboração. As obras de arte apresentadas nesta página são exemplos da diversidade de materiais utilizados em sua criação. Do fogo que queima e forja a cerâmica, que um dia antes era barro, das esculturas em modelagem de terracota dos Guerreiros de Xian, encontradas em 1974 próximas do mausoléu do primeiro imperador da China (Qin Shi Huang, c. 259-210 a.C.), ao mármore esculpido do italiano Michelangelo (1475-1564), do bronze no casal que dança na escultura da francesa Camille Claudel (1864-1943) às PETs do artista Eduardo Srur, que você viu no Tema 3, dos pigmentos antigos aos atuais, tudo pode estar a serviço da poética do artista e nos oferecer obras artísticas em várias linguagens. Até do lixo pode surgir uma matéria extraordinária, como exemplificado no documentário Lixo extraordinário, sobre a obra do artista plástico, pintor e fotógrafo paulista Vik Muniz.

Michelangelo Buonarroti. 1501-1504. Mármore. Galleria dell’ Accademia, Florence. Foto: Tupungato/Shutterstock/Glow Images

Imagebroker Dp/Otherimages

Camile Claudel. c. 1900. Bronze. Museu Rodin, Paris. Foto: Christie’s Images/Corbis/Latinstock

Valsa, de Camille Claudel, c. 1900. Bronze, 43,2 cm 3 23 cm 3 34,3 cm.

Imagem da obra Davi, de Michelangelo, 15011504. Estátua em mármore, com 5,5 m de altura.

Réplica dos Guerreiros de Xian, em exposição em Weilburg, na Alemanha, em 2011.

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Tribalistas. Arnaldo Antunes,Marisa Monte e Carlinhos Brown.Gravadora: Phonomotor Records, EMI.2002

A arte de VIK MUNIZ Vicente José de Oliveira Muniz, conhecido como Vik Muniz (1961-) nasceu em São Paulo e vive entre Nova York, nos Estados Unidos, e o Rio de Janeiro. Filho de pernambucanos, o artista costuma experimentar materiais variados – muitos deles perecíveis – para fazer suas produções em diversas escalas de tamanho e tira fotografias para registrar permanentemente o resultado das obras. As séries de fotografias com suas criações são expostas em várias partes do mundo e vendidas. O artista também usa a popularidade adquirida pelas obras para auxiliar projetos sociais. Pintor, fotógrafo, desenhista e gravador, o artista também trabalha com mídias tecnológicas. Na obra ao lado, por exemplo, Vik pintou as imagens dos cantores e compositores Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown somente com chocolate e água. Em seguida, fotografou a pintura para a capa do CD e do DVD do grupo Tribalistas, projeto musical criado pelos músicos em 2002.

Capa do DVD do grupo Tribalistas, obra de Vik Muniz, 2002.

Martin Zabala/Xinhua Press/Corbis/Latinstock

Palavra do artista “O que faz de uma imagem arte, e de outra, não arte? A imagem artística tem o poder de engajar o indivíduo para ele transcender o tema da imagem. Tem o poder de fazer o espectador pensar o que é uma imagem. Cria um diálogo. Aí tem ainda uma questão ética. Mesmo se eu não estou falando de política, a imagem tem um efeito político por esclarecer a realidade em torno da pessoa, dando a ela mais ferramentas para lidar com coisas mais práticas. O artista tem muita responsabilidade em relação à ideia futura da representação. O mundo a gente está fazendo o tempo todo, com as ferramentas que recebeu e com aquelas que estamos inventando.” Vik Muniz SIMÕES, Eduardo. Vik Muniz fala à ARTE! Brasileiros sobre seu catálogo raisonné. Brasileiros, 10 dez. 2015. Disponível em: <http://brasileiros.com.br/2015/12/vik-muniz-fala-artebrasileirossobre-seu-catalogo-raisonne/>. Acesso em: 2 fev. 2016. O artista brasileiro Vik Muniz posa diante de uma parte do seu trabalho exibido no Instituto Universitário Nacional de Arte, em Buenos Aires, Argentina. Foto de 2015.

DICA Para navegar Conheça mais sobre a arte de Vik Muniz, sua biografia atualizada, galeria com reprodução de obras em todo o mundo e trechos de livros, jornais e revistas com entrevistas e estudos sobre o estilo de suas criações e sobre as linguagens da arte, acessando o site: <http://tub.im/uz6b7i> (acesso em: 2 fev. 2016).

Para ouvir Você pode saber mais sobre a cantora Marisa Monte e o grupo Tribalistas, ver as capas do CD e do DVD produzidas pelo artista plástico Vik Muniz, assistir a vídeos do grupo, baixar partituras e cifras e acompanhar as letras das músicas no site: <http://tub.im/ tix9bx> (acesso em: 2 fev. 2016). Capítulo 4 • Matérias da arte

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Sabemos que muito antes da chegada dos primeiros colonos a nossas terras, o povo indígena já existia e aqui vivia com sua pluralidade e cultural local. As técnicas e influências artísticas de culturas antigas como a santarém e a marajoara podem ser sentidas na produção da arte indígena brasileira e atestam esse passado cultural. Além disso, vasos, bonecas e pinturas corporais revelam técnicas de padronagens simétricas e geométricas presentes nessas culturas. As culturas indígenas criam padronagens geométricas, com grafismos simbólicos inspirados na natureza e com base em seu universo mitológico. São imagens que os povos indígenas aprenderam a ver, interpretar e criar. Assim, cada grupo cultural pode atribuir significados simbólicos diferentes para cada desenho das padronagens que criam.

Cerâmica. Museu Nacional do Rio de Janeiro. Foto: Rômulo Fialdini/Tempo Composto

Os desenhos em padronagens geométricas, utilizados nas pinturas corporais, também são encontrados em cestarias e pinturas em peças de cerâmica. A natureza é a inspiração dessas formas abstratas. Linhas podem representar espinhas de peixes, folhas de açaí, estrelas, entre outros elementos. Observe os desenhos nas imagens ao lado e seus usos na arte indígena. Agora, que tal realizar uma pesquisa para descobrir desenhos em padronagens de várias etnias indígenas brasileiras?

Cerâmica karajá representando a pintura corporal e o penteado tradicional das indígenas Karajá. Aldeia de Santa Isabel, Araguaia, Goiás. Artesã Xuréia. Cerâmica, 14, 8 cm  11 cm.

Mario Friedlander/Pulsar

Pluralidade cultural

Renato Soares/Pulsar

Arte e Cultura indígena

Renato Soares/Pulsar

Conexões

Desenhos em padrão são compostos por elementos visuais iguais que se repetem sequencialmente ou periodicamente.

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Projeto experimental Padrões abstratos

Renato Soares/Pulsar

Dorival Moreira/Pulsar

Desenhos em padrão são compostos por elementos visuais iguais que se repetem sequencialmente ou periodicamente. Algumas padronagens criadas por grupos indígenas contemporâneos inspiram-se na natureza. Cada grupo cultural pode atribuir significados simbólicos diferentes para cada desenho que cria. No nosso cotidiano também encontramos desenhos em padronagens geométricas: em estampas de roupas, objetos decorativos e até mesmo na capa do celular ou do caderno. Observe o mundo ao seu redor e descubra essas padronagens. Agora é a sua vez! Vamos criá-las? Você vai precisar de lápis ou caneta preta e uma folha de papel. Escolha um arranjo de formas e linhas. Depois repita essa mesma imagem várias vezes sobre uma folha de papel. Você pode se inspirar na natureza, em elementos presentes em objetos ou na arquitetura, porém crie padrões abstratos.

Os indígenas realizam diversos estudos de desenhos em padronagens antes de realizar suas pinturas e fabricar produtos artesanais.

Capítulo 4 • Matérias da arte

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FIQUE DE OLHO:

Enem e vestibulares

http://www.fumdham.org.br

1. (Enem-MEC) TEXTO I

Toca do Salitre - Piauí

Arte Urbana. Foto: Diego Singh

TEXTO II

Arte urbana. Disponível em: <http://www.diaadia.pr.gov.br>. Acesso em: 27 jul. 2010.

Resposta: c A criação de imagens seja em forma de grafite ou pinturas murais representativas de cada época, de cada cultura e de cada sociedade revelam características em comum: são formas de registrar concepções de mundo, costumes, valores e fatos curiosos da História.

O grafite contemporâneo, considerado em alguns momentos como uma arte marginal, tem sido comparado às pinturas murais de várias épocas e às escritas pré-históricas. Observando as imagens apresentadas, é possível reconhecer elementos comuns entre os tipos de pinturas murais, tais como a) a preferência por tintas naturais, em razão de seu efeito estético. b) a inovação na técnica de pintura, rompendo com modelos estabelecidos. c) o registro do pensamento e das crenças das sociedades em várias épocas. d) a repetição dos temas e a restrição de uso pelas classes dominantes. e) o uso exclusivista da arte para atender aos interesses da elite.

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O artista gráfico polonês Pawla Kuczyns­ kiego nasceu em 1976 e recebeu diversos prêmios por suas ilustrações. Nessa obra, ao abordar o trabalho infantil, Kuczynskiego usa sua arte para

KUCZYNSKIEGO, Pawla. Ilustração, 2008.

2. (Enem-MEC)

Ilustração do artista polonês Pawla Kuczynskiego sobre o trabalho infantil.

a) difundir a origem de marcantes diferenças sociais.

Resposta: c Nesta questão, o artista nos convida a refletir sobre o trabalho infantil. Ele se utiliza do contraste de duas imagens: a dos dois meninos, aparentemente da mesma idade – um brinca e outro trabalha – e a imagem do trem, opondo o objeto da brincadeira infantil ao do trabalho árduo do mundo industrial.

b) estabelecer uma postura proativa da sociedade. c) provocar a reflexão sobre essa realidade. d) propor alternativas para solucionar esse problema. e) retratar como a questão é enfrentada em vários países do mundo.

3. (Enem-MEC) A dança é um importante componente cultural da humanidade. O folclore brasileiro é rico em danças que representam as tradições e a cultura de várias regiões do país. Estão ligadas aos aspectos religiosos, festas, lendas, fatos históricos, acontecimentos do cotidiano e brincadeiras e caracterizam-se pelas músicas animadas (com letras simples e populares), figurinos e cenários representativos. SECRETARIA DA EDUCAÇÃO. Proposta Curricular do Estado de São Paulo: Educação Física. São Paulo: 2009 (adaptado).

A dança, como manifestação e representação da cultura rítmica, envolve a expressão corporal própria de um povo. Considerando-a como elemento folclórico, a dança revela a) manifestações afetivas, históricas, ideológicas, intelectuais e espirituais de um povo, refletindo seu modo de expressar-se no mundo. b) aspectos eminentemente afetivos, espirituais e de entretenimento de um povo, desconsiderando fatos históricos. c) acontecimentos do cotidiano, sob influência mitológica e religiosa de cada região, sobrepondo aspectos políticos. d) tradições culturais de cada região, cujas manifestações rítmicas são classificadas em um ranking das mais originais. e) lendas, que se sustentam em inverdades históricas, uma vez que são inventadas, e servem apenas para a vivência lúdica de um povo.

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Resposta: a Esta questão explora a dança como forma de linguagem e expressão da cultura brasileira, relacionando-a com a religiosidade, as tradições, a história e o cotidiano do nosso povo. Desde os tempos mais remotos, os seres humanos utilizam a dança como forma de expressão, ela faz parte de manifestações populares e o corpo é o suporte de expressões culturais traduzidas em forma de dança.

Capítulo 4 • Matérias da arte

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E X P E D I Ç Ã O C U LT U R A L Professor, fóruns e debates podem acontecer a partir da experiência em observar as materialidades na arte e suas potencialidades poéticas e em especial as inovações desse campo explorando as questões de arte e meio ambiente. Sempre é bom lembrar que nem todo material pode ser reciclado e /ou reaproveitado por oferecer riscos à saúde dos alunos em caso de materiais contaminados com substâncias tóxicas.

Quando estamos diante de uma obra de arte, geralmente ficamos mais preocupados com o sentido, o significado e as mensagens que a arte pode nos passar. Entretanto, pode ser bem interessante também prestar atenção nas materialidades e nos procedimentos artísticos que fazem nascer as obras de arte. Observar como um bailarino ou ator de teatro utiliza seu corpo como material expressivo, perceber como nossos cantores prediletos usam sua voz e como os instrumentistas tiram o máximo de som e arranjos de suas guitarras, violões, baterias, investigar como cada pintor, em diferentes culturas, aplica as tintas para conseguir cores que fascinam nosso olhar, todos esses detalhes podem acrescentar informações. O lixo que pode virar arte, por exemplo, nos traz uma nova consciência sobre o meio ambiente. Observe as materialidades presentes em obras de arte que estão próximas a você: a escultura na praça, a pintura no muro, as pinturas dentro de museus e galerias ou as instalações. Vimos também que o corpo pode ser suporte. Pesquise em quais linguagens podemos perceber o corpo e sua potencialidade. Você pode assistir a espetáculos de dança, um canto em uma ação artística etc. Procure assistir a shows, espetáculos de dança, teatro ou outra manifestação artística, como festejos populares.

Jota Azevedo.2014.Técnica: reciclagem. Recife. Foto: Edu Rocha

Filme de Lucy Walker. Lixo Extraordinário. Brasil. 2009

Estudamos neste capítulo também a respeito de que qualquer materialidade pode virar arte, inclusive o lixo (resíduos descartados) não contaminados. Hoje, muitas pessoas usam materiais descartados para fazer outros objetos, alguns com intenção artística. Como é o caso do artista Jota Azevedo. Pesquise se em sua localidade há pessoas que tenham a mesma atitude. Para saber mais sobre este tema, sugerimos também assistir ao documentário do artista Vik Muniz, Lixo extraordinário.

Tatu-bola, da coleção Animales e Insectos Robots, de Jota Azevedo, 2014. Resíduos tecnológicos e reciclados. Montagem e colagem, 49 cm 3 48 cm 3 9 cm.

Capa do DVD do documentário Lixo extraordinário, direção de Lucy Walker, Brasil: O2 Filmes/Downtown Filmes, 2009.

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DIÁRIO DE BORDO Neste capítulo, apresentamos várias materialidades utilizadas na criação de obras de arte. Desde a utilização do próprio corpo aos mais diversos materiais fabricados ou encontrados na natureza, os seres humanos criam arte. Reflita sobre as questões a seguir e registre suas conclusões no seu diário de bordo. O que você aprendeu de novo? Gostaria de investigar e fazer seus próprios instrumentos, tintas e outros materiais para fazer arte? Qual a linguagem artística de que você mais gosta e que tipo de material mais chama sua atenção? A partir de sua observação em relação às materialidades nas obras de arte com que você teve contato, escreva uma relação de palavras que você encontrou (barro, pedra, voz, corpo). Procure perceber se a matéria era intrinsecamente importante para a ideia e poética do artista, como, por exemplo, o azul de Yves Klein. Para ampliar seus conhecimentos sobre história da arte, você pode pesquisar que materiais foram importantes na história da civilização e cultura, como, por exemplo, a pigmentação para conseguir cores na arte egípcia, chinesa, japonesa e outras. Convide seus amigos para produzir arte em várias linguagens, usando os mais variados materiais. Depois, organize uma mostra de arte com os trabalhos realizados. Filme de Wim Wenders. Pina. Alemanha. 2010. Foto: Everett Collection/Keystone

Registre os processos, as descobertas e os percursos em seu diário de bordo.

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CAPÍTULO

5

Alessandro Bianchi/Reuters/Latinstock

A ARTE EM SUA FORMA, A FORMA EM SEU CONTEÚDO

Apresentação do espetáculo Botanica, do grupo de dança Momix, no Teatro Olímpico de Roma, em fevereiro de 2010.

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PARA ESTUDAR • As formas e os conteúdos da arte • A gramática visual • O conjunto da obra • Os parâmetros do som

forma reforma disforma transforma conforma informa forma Grünewald, José Lino. Apud ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1986. p. 412.

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TEMA

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Professor, no final deste Tema 1, você encontrará o Projeto experimental – Linhas de luz –, que propõe a experiência de criar desenhos com luz, fazendo uso da técnica light painting, e o registro desses desenhos por meio da arte da fotografia.

AS FORMAS E OS CONTEÚDOS DA ARTE [...] As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração […]

Professor, na abertura de cada capítulo e temas de nosso livro, escolhemos trechos de obras literárias e letras de música que funcionam como nutrição estética e deflagradores de reflexão sobre o que vem a seguir nos textos presentes nas diferentes seções. É importante que você trabalhe esses textos junto aos alunos, conversando sobre suas primeiras percepções e interpretações, pois estes também têm função didática e poética. Sugira-lhes que ouçam as músicas e leiam os textos na íntegra para ampliar saberes e repertório cultural por meio de pesquisas.

GIL, Gilberto; ANTUNES, Arnaldo. As coisas. Intérpretes: Caetano Veloso e Gilberto Gil. Tropicália 2. Rio de janeiro: Polygram, 1993. LP. Faixa 7.

Tudo que vemos e percebemos ao nosso redor tem peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, como expressa a letra da música As coisas, de Gilberto Gil (1942-) e Arnaldo Antunes (1960-) . As coisas podem ter muitos significados em função de suas características e formas. A arte, como um modo de apresentar, expressar, representar, de falar, enfim, sobre as coisas do mundo, e abordar os mais diversos assuntos, utiliza-se de elementos como pontos, linhas, planos, formas, cores, tempos, volumes, texturas, dimensões, movimentos, luzes, e tantos outros componentes para criar poesias, pinturas, músicas, dramatizações e outras manifestações artísticas. É a forma e o conteúdo na arte! A construção da linguagem artística acontece como na linguagem escrita, em que letras combinadas formam vocábulos, palavras formam frases organizadas pelas pontuações, princípios e elementos linguísticos são descritos e regidos pela gramática. Do mesmo modo, cada linguagem artística possui seus próprios códigos, elementos linguísticos que, combinados, constroem as formas e os conteúdos na arte. As linguagens artísticas possuem sua própria “gramática”. O mesmo elemento de linguagem pode ser base da comunicação e expressão de várias linguagens artísticas, como o espaço, o tempo, a luz.

Hiroyuki Ito/Hulton Archive/Getty Images

O elemento de linguagem espaço é observável nos gestos dos corpos de atores, dançarinos ou artistas performáticos, que o ocupam e exploram; no espaço tridimensional, da escultura, dos sons da música que se propagam; no espaço bidimensional, do papel em que as linhas do desenhista se espalham.

O maestro João Carlos Martins conduzindo a Filarmônica Bachiana SESI-SP no Avery Fisher Hall, em Nova York, EUA, em setembro de 2010.

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O elemento de linguagem tempo é observável na relação entre imagem e movimento, no cinema; na duração de uma nota ou do silêncio, na música; no tempo marcado pelos gestos da regência do maestro João Carlos Martins (1940-), observe a imagem na página anterior; no tempo presente também no passo do bailarino; no gesto e na palavra do ator; em instalações, entre tantas outras linguagens artísticas. O elemento de linguagem luz pode ser observado invadindo palcos nas artes cênicas, em pinturas, em intervenções urbanas, transformando-se em espetáculo visual tanto no palco como na plateia nos shows de música e de importância fundamental no cinema e na televisão.

Giancarlo Neri. 2007. Circo Máximo, Roma. Foto: Alessandra Tarantino/AP/Glow Images

A luz em uma obra artística pode ser apresentada de muitos modos, às vezes como tema, como materialidade ou elemento expressivo. Na obra do artista italiano Giancarlo Neri (1955-), a luz e o tempo são um espetáculo à parte que acontece no espaço público. Em 2012, na Praça Paris, do bairro da Glória, no Rio de Janeiro, esse artista apresentou a obra Máximo silêncio em Paris, veja abaixo. Essa obra foi composta por cerca de 9 000 globos luminosos (em lâmpadas de LED) que, de tempos em tempos, mudavam de cor, apresentando aos olhos dos espectadores um universo de luzes e cores que se espalhavam no espaço. O artista também trabalhou com a efemeridade do tempo, uma vez que a obra foi exposta ao público durante pouco mais de uma semana. Trata-se de um exemplo importante do uso do espaço, do tempo e da luz como elementos de linguagem da arte.

Máximo silêncio em Paris, de Giancarlo Neri, 2007. Lâmpadas de 25 cm que mudam de intensidade e cor.

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Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Fotos: Lucia Koch. 1999. Chapas de acrílico em janelas e frestas da oficina de reparos do antigo cais do porto. 2.ª Bienal do Mercosul, Porto Alegre. Fotos: Acervo da artista

E a luz se fez [...]a luz e o ar são os elementos que ativam um espaço e fazem surgir, ali, um lugar. KOCH, Lucia. Apud SALAZAR, Carmem. Gabinete – Lucia Koch. Revista eletrônica Luz & Cena, ed. 91, Seção Galeria, 24 fev. 2007.

A artista gaúcha Lucia Koch (1966-) usa a luz como assunto e como materialidade. Na obra O gabinete (1999), ao lado, instalação exposta na II Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, no mesmo ano, ela utilizou filtros coloridos e transparentes, colocados nos vidros das janelas de um velho armazém localizado às margens do rio Guaíba. No decorrer do dia, a luz do Sol, ao passar pelos filtros coloridos, projetava, no chão e nas paredes do lugar, padrões de formas abstratas e geométricas. Refração, transparências, cor, luz e o tempo vagaroso do cair da tarde compuseram a obra. Assim, o tempo também foi tema nessa obra, como um dos agentes construtores das imagens projetadas no chão e na parede ao passar do dia. O ser humano sempre expressou concepções imaginárias e simbólicas sobre a luz. Várias culturas contam histórias sobre como o mundo foi criado em meio ao surgimento da luz, sobre a origem de deuses e mitos que vieram com a luz, ou moram na luz, seja a luz da Lua, do Sol, das estrelas... A luz sempre exerceu um fascínio nas pessoas, sendo encontrada em temas ou formas na arte, às vezes até como materialidade, a exemplo da obra de Koch, ou de forma simbólica, mostrando dualidades, passagens entre mundos. A luz pode representar a conexão entre mundos, mesmo que seja apenas entre os mundos interno e externo, em cenas do cotidiano, como nos mostra a pintura do artista barroco holandês Johannes Vermeer (1632-1675), Mulher com o alaúde (c. 1663), em que uma luz sutil convida a moça a olhar para fora, em um momento de distração durante o estudo de música. Observe a obra desse artista na página ao lado.

O gabinete, de Lucia Koch, 1999. Chapas de acrílico em janelas e frestas da oficina de reparos do antigo cais do porto de Porto Alegre. Instalação apresentada na II Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, RS.

Quando pensamos em luz, logo nos lembramos das sombras, que assumem na arte muitos significados. Às vezes, as sombras são usadas como parte da composição da imagem. Em outros momentos, podem revelar um destino inevitável, como a morte, ou ainda enfatizar a luz, que revela um conhecimento.

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Johannes Vermeer. c. 1662-1663. Óleo sobre tela. Museu Metropolitano de Arte, Nova York

E a outra imagem no final da página, o que será? Pintura ou fotografia? Trata-se de uma pintura hiper-realista do artista canadense Jason de Graaf (1971-), que persegue a ilusão de verossimilhança com as coisas do mundo sob uma ótica muito pessoal. Ele explora efeitos de profundidade, reflexos, contrastes entre volumes, luzes e sombras. Graaf gosta de trabalhar as transparências, os movimentos e a maneira como a luz se comporta na incidência sobre os objetos.

Geraldo de Barros. 1949. Fotografia. Coleção particular. © Fabiana de Barros

Mulher com o alaúde, de Johannes Vermeer, c. 1662-1663. Óleo sobre tela, 51,4 cm 3 45,7 cm.

Observe abaixo a obra A menina do sapato (1949). É o desenho de uma menina completado por um pé de sapato que projeta sua sombra sobre a imagem. Trata-se de uma fotografia do artista Geraldo de Barros, que gostava de fazer essas combinações entre formas, sombras e luz do Sol, como veremos adiante.

A luz no Barroco é um aspecto importante a ser estudado com os alunos. Mostre outras imagens de obras barrocas e estabeleça a relação entre luz e espaço, dentro e fora, e outras possibilidades em que os artistas convidam a imaginar universos entre o externo e o interno como vimos na obra de Vermeer. A menina do sapato, de Geraldo de Barros, 1949. Matriz-negativo (fotografia, 38,2 cm X 28,2 cm).

Jason de Graaf. 2009. Acrílico sobre tela. Acervo do artista

Vesalius skeleton, de Jason de Graaf. Acrílico sobre tela, 91 cm 3 61 cm.

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Pietro Longhi. 1762. Óleo sobre tela. Galeria dell”Academia,Veneza, Itália. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone

Em HQs, quando algum personagem tem uma ideia, a luz pode ser representada por uma lâmpada acesa como a que vemos sobre a cabeça do Snoopy. Talvez essa imagem tenha origem em outras bem antigas, como vemos em Pitágoras, obra pintada em 1762 pelo italiano Pietro Longhi (1702-1785), uma analogia entre o conhecimento e a luz. A vela acesa clareia uma área da pintura, o livro e a face do filósofo; em meio ao restante do ambiente, embebido na escuridão, como se a obra nos dissesse que o conhecimento se revela na luz. Observe com atenção a pintura do artista Pietro Longhi. Que cores ele escolheu para compor? O que você percebe? Tons de marrons, tons terrosos, laranjas, amarelos, outros ainda? Será que ele desejava capturar a luz da vela em suas cores misteriosas? Um foco de luz parece iluminar em um ponto a pintura. Esse recurso era bem comum na época, a intenção era dar maior dramaticidade à cena e, talvez, provocar a nossa imaginação. A cena nos remete a um ambiente fechado, um espaço interno e íntimo, possivelmente, um local para estudos, meditações ou para ter grandes ideias, como as de Pitágoras!

Snoopy, personagem das tirinhas do cartunista Charles Schulz.

Peanuts, Charles Schulz © Peanuts Worldwide LLC./Dist. byUniversal Uclick

Pitágoras, de Pietro Longhi, 1762. Óleo sobre tela, 130 cm 3 91 cm.

A poetisa da luz Você já parou para pensar que a forma como percebemos a luz e criamos maneiras de iluminar as coisas pode ter mudado nossa forma de perceber o mundo? Quando as pessoas descobriram que podiam iluminar a escuridão noturna usando o fogo, transformaram a cor da noite. Hoje, podemos até mesmo usar filtros para mudar a cor de ambientes e criar efeitos incríveis com a luz ou a ausência dela. Observe a obra da artista Lucia Koch e veja como ela muda a atmosfera dos ambientes. Muitos artistas usaram tintas para colorir, a que chamamos de cores químicas ou cores pigmentos. Lucia Koch pinta os ambientes com cores físicas ou cores luz. Ela utiliza filtros de cor, parecidos com os que vemos em vidros de carros, mas com cores. Esse material também é usado para criar efeitos de cores e luzes em espetáculos de dança ou peças de teatro. Depois, ela escolhe um lugar e começa a fazer intervenções que transformam os lugares por onde circula o público. A artista cobre janelas e aberturas com formas que vão desde imagens geométricas a delicadas padronagens. Em muitas de suas obras, ela usa a luz natural do sol como matéria que passa por esses filtros coloridos e assim faz o processo da cor luz (ou cor física). Koch é uma poetisa da cor luz.

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A arte de LUCIA KOCH Muitos artistas têm fascínio pela luz. É o caso da artista gaúcha Lucia Koch (1966-). Em suas intervenções ou instalações, ela estabelece diálogos entre cor, forma e espaço, criando efeitos, atmosferas, imagens, mudando lugares e rompendo com as rotinas. Em suas pesquisas, procura explorar os efeitos que a luz pode proporcionar. Observe a obra Correções de luz abaixo.

Lucia Koch. 2008. Chapas de acrílico recortadas a laser em janelas. Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre. Foto: Acervo da artista

Lucia Koch tem andado pelo mundo para fazer experiências com a luz e com o espaço tanto em ambientes contemporâneos como em lugares históricos.

Correções de luz, de Lucia Koch, 2008. Chapas de acrílico recortadas a laser em janelas.

Lucia Koch NEM DENTRO, nem fora: conversa com Lucia Koch. Disponível em: <http://luciakoch.com/textos/PDF_pt/nemdentro_nemfora_pt.pdf>. Acesso em: 15 fev. 2016.

Crédito da imagem

“Minha opção por usar, sempre que possível, luz natural, tem a ver com a instabilidade que ela impõe. Pensar uma transformação que não só opera no espaço, mas também é afetada pela luz que se projeta e move no espaço, muda de intensidade e cor. Fica muito mais claro também que o que eu ocupo é um `lugar no tempo.”

Zanone Fraissat/Folhapress

Palavra do artista

A artista da luz Lucia Koch. Foto de 2013.

Ofício da arte Iluminador(a) Profissional que trabalha com iluminação, principalmente de peças teatrais. Para atuar nessa área, é preciso conhecer técnicas e conceitos ligados a eletricidade, saber como usar as “gelatinas” (filtros usados nos refletores), e a gama de cores e intensidades de luz sobre a cena no palco. É importante conhecer também as tecnologias, porque as mesas de luz estão cada vez mais computadorizadas. No entanto, é fundamental ter um olhar sensível e poético.

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Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Professor, se possível, proponha aos alunos que assistam ao filme e notem como a luz e a composição das cenas são feitas. Depois, comente a obra e o estilo de Guillermo del Toro. Converse com a turma sobre como os elementos de linguagem (dando como exemplo a luz) podem transmitir certos conteúdos, sensações e ideias. Traga mais exemplos para mostrar como a luz é usada na arte, como cenas ou imagens de outros filmes, reprodução de pinturas, desenhos, gravuras ou fotografias.

Picturehouse/Courtesy Everett Collection/Keystone

Giro de ideias: Quem tem medo do escuro?

Picturehouse/Courtesy Everett Collection/Keystone

Cena do filme O labirinto do fauno, do diretor Guilhermo del Toro, 2006, mostra o personagem Homem Pálido.

A representação da luz em algumas imagens pode construir relações simbólicas. No cinema, além da função inicial de iluminar atores e ambientes, a luz é também um elemento de linguagem artística, ao ser usada para criar atmosferas e nos passar sensações. O diretor e roteirista mexicano Guillermo del Toro (1964-) tem nos efeitos de luzes e sombras a sua marca registrada. Em seus filmes, a maioria dos personagens são fruto da imaginação, dos medos de infância, de contos de fada e de terror. Em O labirinto do fauno (Espanha/ México/EUA: Warner Bros., 2006), por exemplo, a luz é usada em tons âmbar, explorando as variações entre tons de amarelo, vermelho, laranja e marrom, como percebemos na cena com o personagem Homem Pálido, veja cena ao lado. Em outras cenas, o diretor explora cores frias para transmitir atmosferas úmidas e sombrias, em que a luz é acesa em foco luminoso sobre os personagens que estão cercados de vários tons claros e escuros de azul acinzentado. Os leves reflexos amarelados dão um toque luminoso à cena envolta em sombras. Observe a imagem em que aparecem os personagens Ofélia e Fauno. Agora, levando em consideração os detalhes relacionados à luz e às cores de cada cena do filme O labirinto do fauno, analise:

Cena do filme O labirinto do fauno, do diretor Guilhermo del Toro, 2006, mostra os personagens Ofélia e Fauno.

• Que sensações podemos sentir ao olhar para essas imagens?

Resposta pessoal. Professor, os alunos vão responder a partir de suas percepções e experiências anteriores.

• A luz projetada sobre os personagens vem da mesma direção em ambas as imagens?

Não. Na primeira cena, percebemos que a luz projetada sobre os personagens é frontal. Na segunda cena, a luz é projetada em diagonal.

• Nas duas imagens, a luz foi usada da mesma maneira em relação ao foco e à cor? O que mais chama sua atenção nas imagens?

Não. Na primeira imagem, o foco é mais aberto e as cores são quentes, em tons de âmbar; na segunda, os tons são mais frios, com predominância dos tons verde, azul e roxo; o foco está no olhar dos personagens o que atribui maior dramaticidade à cena.

• Pense em outras imagens no cinema em que a luz foi trabalhada de forma ex-

pressiva. Em uma roda de conversa, apresente a seus colegas as cenas de filmes que você analisou.

Âmbar: substância sólida, espécie de resina fóssil. É encontrada em variações de cor entre amarelo e castanho (o âmbar de origem vegetal) e preto (o de origem animal). Dissemos cor de âmbar para fazer relações com imagens com variações entre tons de amarelo, ocre, laranja, vermelha e marrom, pelo fato de o conjunto dessas cores lembrar a cor de uma pedra de âmbar.

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Conexões

Arte e Ciências

O artista carioca Eduardo Kac (1962-) cria arte usando ciência e tecnologia. Ele explora o campo das imagens e dos conceitos científicos. Já expôs inúmeros trabalhos em diversos países, nos quais utiliza várias linguagens, como poemas holográficos, fotografia, performances, grafites, painéis eletrônicos, instalações robóticas e de telepresença. Trabalha com linguagens que lidam com recursos multimídia e até com conhecimentos de Biologia, como a fotossíntese, em obras caracterizadas como bioarte.

Eduardo Kac. 1994. Acervo do artista

A interação com o público também costuma ser foco de suas obras. Nessa proposta, a internet tem sido uma ferramenta fundamental em instalações de telepresença. Nesse tipo de proposição artística, as pessoas podem participar mesmo de longe do local em que a obra está exposta. Como isso funciona? Vamos descrever a obra Teleportando um estado desconhecido (Teleporting an unknown state), de Eduardo Kac. Essa instalação, criada em 1994, já percorreu vários países e em cada ocasião foi feita de um modo. Vamos descrever a seguir a ideia central da obra.

1.º) Captura de uma imagem de um lugar remoto por câmera digital. Eduardo Kac. 1994. Acervo do artista

As relações entre arte, ciências e tecnologias estão cada vez mais comuns na contemporaneidade. Muitas vezes, o artista busca parcerias com especialistas em informática, engenheiros de robótica e biólogos para realizar obras artísticas. Há também muitas parcerias feitas entre artista e público, em propostas de interatividade na criação.

Eduardo Kac. 1994. Acervo do artista

Luz, arte e vida

2.º) Envio da imagem pelo celular ou computador para o site da instalação.

3.º) Imagem da página interativa da instalação (Teleportando um estado desconhecido), na qual os internautas escolhem quais imagens de lugares do mundo querem enviar para banhar a plantinha de luz e provocar o processo de fotossíntese.

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Eduardo Kac. 1994. Acervo do artista Eduardo Kac. 1994. Acervo do artista

4.o) Planta recebendo a luz da imagem enviada de um lugar remoto (várias cidades do mundo).

Imagine uma sala escura de uma galeria de arte. Nesse local, um pedestal com um pouco de terra acomoda uma semente de planta. A plantinha recebe frações de luzes vindas de uma câmera que recebe imagens recolhidas de webcams (câmeras de computadores e celulares conectados à internet) em cidades diferentes do mundo. Em tempo real, é possível enviar luz para a plantinha por meio das imagens eletrônicas. A plantinha germina por meio da participação de pessoas que estão em locais remotos. Para isso, os internautas acessavam um dos links no site criado para a instalação. Trata-se de fotossíntese em tempo e realidade virtual, de natureza e cultura produzindo vida. O público, que ajuda o artista a criar sua obra, ao mesmo tempo contribui para que uma plantinha cresça, de forma tímida, mas persistente, sob um tênue facho de luz. É vida natural nascendo de relações artificiais, arte criada com conhecimento estético, tecnologias de comunicação e Biologia.

5.o) A planta que recebe a luz se desenvolve no espaço da galeria ou museu.

DICA Para navegar Como a instalação Teleportando um estado desconhecido, de Eduardo Kac, foi realizada em vários lugares e em momentos diferentes, para saber em detalhes como ela ocorreu em cada versão, você pode acessar o site: <http://tub.im/3eyarr> (acesso em: 9 fev. 2016). Nesse site, o artista explica cada uma de suas obras. É um mergulho no mundo da arte e da ciência.

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Projeto experimental Linhas de luz

Fotos: Gjon Mili//Time Life Pictures/Getty Images

A linha também pode ser feita com luz. Como assim? Certa vez, o pintor, escultor e desenhista espanhol Pablo Picasso (1881-1973), usando uma lanterna em uma sala escura, experimentou criar desenhos no ar. Foi em 31 de dezembro de 1948, e o fotógrafo da revista estadunidense Life, Gjon Mili, que estava presente, aproveitou para registrar a cena. Veja, a seguir, o resultado dessa experiência em forma de imagens.

Registro fotográfico em que Pablo Picasso cria com luz (light painting) em sua casa e em uma olaria, na França, em dezembro de 1948.

Essa técnica é chamada light painting (pintura com luz). Para conseguir esse efeito, é preciso haver uma exposição de luz durante um tempo diante da câmera. Há câmeras fotográficas que já possuem recursos de tempo de exposição que podem ser regulados. Vamos experimentar criar desenhos com linhas de luz? Como o artista Pablo Picasso, escolha uma sala escura, leve uma lanterna e uma câmera fotográfica. Aventure-se, faça várias experiências em relação ao tempo de exposição e regulagens da máquina fotográfica. Depois, relate como foi a experiência de desenhar com luz.

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TEMA

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A GRAMÁTICA VISUAL [...] Fiz carvão do baton que roubei de você E com ele marquei dois pontos de fuga E rabisquei meu horizonte [...]

Professor, no final deste Tema 2, você encontrará dois projetos experimentais. O projeto A cor significa propõe a experiência de criar projetos visuais fazendo uso de cores de tintas feitas pelos próprios alunos. O projeto Criando imagens incríveis propõe a experiência de criar usando imagens fotográficas e traços.

LEGIÃO URBANA. Acrilic on canvas. Dois. São Paulo: EMI Music, 1986. CD. Faixa 3.

Para construir imagens, muitos artistas pesquisaram quais seriam os elementos básicos de composições visuais. Alguns chegaram à conclusão de que são três: ponto, linha e plano. O ponto é o início, ele marca um começo. Às vezes, é um ponto que nos chama a atenção em uma paisagem, que pode ser um ponto de foco de interesse em uma obra, um ponto geométrico ou o início de uma linha. Na imagem Disks Bearing Spirals (Discos de Rolamento Espirais), 1923, criada pelo francês Marcel Duchamp (1887-1968), veja abaixo, você consegue ver os pontos? Além de pontos geométricos, também são pontos de interesse visual, uma vez que atraem nosso olhar para uma direção. Também percebemos a linha, outro elemento de linguagem, nessa imagem de Duchamp. Elas são curvas, grossas e finas.

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As linhas são deslocamentos de pontos ou o próprio ponto em movimento. Por exemplo, pegue um lápis e faça um ponto em uma folha de papel. Depois, arraste esse ponto para alguma direção por algum tempo. O que temos? Observe que criamos, nesse traçado, o rastro do ponto, ou seja, a linha.

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Podemos deslocar as linhas sobre uma superfície, um plano que possui altura e largura. Elas podem ser de muitos formatos e seguir em variadas direções, sendo puras ou criando texturas e formas. A linha é a poesia da forma. Das linhas podem nascer formas. Pontos e linhas se acomodam em planos e formas, que podem ser geométricas, orgânicas, abertas, fechadas. São muitas as possibilidades de criar na arte com esses três elementos básicos: ponto, linha e plano. As linhas nascem e criam formas, texturas, movimento, criam poéticas visuais.

Disks Bearing Spirals (Discos de Rolamento Espirais), de Marcel Duchamp, 1923. Lápis, tinta e papel, 108,2 cm de diâmetro.

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As linhas nascem no papel ou na cabeça do artista? Quem comanda o riscador? Mãos, cérebro, sentimentos? Linhas nascem de muitos riscadores, desde os mais antigos, como giz, carvão, lápis, bico de pena, até as canetas eletrônicas que levam para o computador as linhas virtuais. O carvão, material usado para riscar (desenhar), citado na música do grupo musical brasileiro Legião Urbana, é um dos riscadores mais antigos da história da arte, mas ainda muito presente nas produções contemporâneas.

Edith Derdyk. 1998. Espaço Torreão, Porto Alegre. Foto: RAR

A linha poética

Tramas, de Edith Derdyk, 1998. Instalação com 9 000 m de linha preta

Edith Derdyk. 1998. Acervo da artista

A linha pode ser “pura”, feita com de algodão, 5 000 grampos e que levou três dias para ser montada. um único traço, ou pode ser composta por um tipo de textura resultante de várias linhas que se aproximam ou se entrelaçam. A escolha pela linha pura ocorre quando ela já é suficiente para o que o artista pretende, não há intenção de criar texturas ou efeitos de luz e sombra. No entanto, quando estão próximas, em grande quantidade, criam tramas tonais, nuances entre áreas claras ou escuras. Com esses efeitos é possível gerar a percepção de volume e a sensação tridimensional. Há artistas como a paulista Edith Derdyk (1955-), que cria linhas no espaço tridimensional de uma sala. A linha não é mais desenhada sobre um papel ou outro suporte bidimensional, mas sobre o próprio espaço. É um desenho que se expande, ganha grandes dimensões, transgride o espaço tradicionalmente bidimensional para ganhar mais espaço na tridimensionalidade, uma concepção contemporânea de desenho expandido. Uma nova maneira de apresentar a linguagem usada desde os tempos mais remotos da nossa história cultural, o desenho. Na contemporaneidade, os artistas buscam formas de ampliar as possibilidades expressivas do desenho, criando com técnicas, materialidades e em diferentes meios, que podem ser tanto materiais como eletrônicos (desenhos feitos em grandes escalas, explorando o espaço tridimensional, como a obra de Edith Derdyk, entre outras possibilidades). Observe o efeito das linhas no espaço da sala na obra Tramas na foto acima.

Esboço do projeto da obra Tramas, de Edith Derdyk, 1998.

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Em cada linguagem artística, a linha se comporta de forma diferente porque ganha corpo com a matéria. Na gravura, ela pode ser riscada na matriz, na chapa de cobre, sobre os veios da madeira etc. Na escultura, a linha pode se apresentar mais grossa, mais fina, reta, curva, pesada, suave, feita em aço, concreto, arame e outros materiais. Observe abaixo a obra do artista paulista Luiz Sacilotto (1924-2003). Como as linhas e formas se apresentam nessa escultura? Como você acha que elas foram feitas? Em vários momentos da história da arte, os artistas se reuniram para conversar e divulgar suas ideias. Sacilotto participou do Grupo Ruptura, que desenvolveu no Brasil a arte concreta. Uma ramificação dos movimentos abstracionistas que aconteceram em vários países no século XX. Em 1952, no Brasil, exposições de arte abstrata deram início a esse movimento. O Grupo Ruptura era formado por artistas abstracionistas que não estavam interessados em representar coisas do mundo natural, e sim em criar imagens com conceitos matemáticos em composições que exploravam a gramática visual. Esse movimento artístico também teve manifestações na literatura, por meio da poesia concreta. Nesse momento da história da arte brasileira, os artistas ligados a essa corrente artística gostavam de criar imagens na abstração geométrica e exploravam os elementos de linguagem nas artes visuais com pontos, linhas e planos. Pesquisavam também sobre cores, formas, texturas, luminosidades e movimentos em composições abstratas. Buscavam a arte em suas formas mais puras, a poética da forma.

Luiz Sacilotto. 1958. Latão. Coleção particular

A linha, por meio do gesto do artista, pode construir formas abstratas ou figurativas. Ela dá forma ao desenho como linguagem, obra pronta, ou é usada em esboços, projetos, para depois renascer em outras linguagens. Observe, por exemplo, o esboço feito para a instalação Tramas, de Edith Derdyk, cuja imagem você viu na página 209.

Concreção 5816, de Luiz Sacilotto, 1958. Latão polido, 45 cm 3 45 cm 3 45 cm.

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Giro de ideias: Traçando linhas A linha está muito presente em nossa vida. É só olhar ao redor. Se hoje grande parte das pessoas fica ligada aos seus celulares, ouvindo música ou acessando a internet, em aplicativos também repletos de linhas, algumas pessoas ainda podem riscar linhas em um papel enquanto esperam passar o tempo, ou quando alguém indica um caminho, marcando em mapas. Ainda hoje as crianças costumam rabiscar e desenhar em papéis e até nas paredes de casa. A linha é o primeiro elemento visual em que nos aventuramos a criar imagens. Ao desenhar com linhas, criamos um mundo imaginário. Observe ao seu redor e identifique os tipos de linhas que você puder: reta, curva, grossa, fina, contínua, tracejada etc. Crie o seu próprio projeto de arte: faça um desenho com as linhas que você encontrou nesse rápido olhar. Mostre seu desenho para os colegas e converse com eles sobre como cada um criou seus desenhos com linhas. Registre as seus percepções a seguir.

Esse tipo de exercício pode ser ampliado para o uso de vários riscadores e suportes. A linha pode ser feita de materialidades como lã, barbante e outras linhas podem servir também como riscadores. Para alunos com necessidades especiais, é sempre possível adaptar as atividades. No caso do desenho, por exemplo, os materiais em relevo proporcionam outras formas de percepção, como a sensorial tátil.

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Conexões

Arte e Matemática

Haus-Rucker-Co. 1977. Aço. Documenta, Kassel, Alemanha. Foto: Rita Demarchi

Ponto de vista

A instalação Rahmenbau oder Landschaft im Dia, do grupo Haus-Rucker-Co, 1977, criada para a exposição Documenta 6, em Kassel (Alemanha), tornou-se permanente. Aço, 31 m 3 14 m 3 16,5 m.

Ao observar uma imagem, notamos que alguns pontos podem nos atrair para determinada direção. Os artistas do Renascimento estudaram essa característica e criaram verdadeiros tratados matemáticos. Esse conhecimento proporcionou a construção de imagens em profundidade. Assim, foram criadas imagens em perspectivas que, em nosso tempo, possibilitaram as imagens em 3D, com efeitos de profundidade tão próximos do real que impressionam. Você já deve ter visto esses efeitos aplicados em videogames, filmes, sites e programas de televisão.

Para estudar como nossos olhos veem as imagens e como podemos representá-las por meio de pontos, linhas e planos, os artistas do passado utilizavam uma espécie de moldura com linhas para registrar as imagens e depois reproduzi-las. Durante a Renascença, o arquiteto e escultor italiano Filippo Brunelleschi (1377-1446) desenvolveu vários experimentos. O elemento visual linha pode nos direcionar a pontos de fuga para algum lugar no horizonte. Trata-se da perspectiva linear, que proporciona a visão de profundidade em imagens. Perspectiva linear: visão científica (matemática) das aparências do mundo, que proporciona criar profundidade por meio de linhas e pontos de atenção. Conhecida por povos antigos, teve suas normas estruturadas no Renascimento, mudando para sempre a forma de construir e ver imagens.

Na arte contemporânea, o grupo de artistas austríacos Haus-Rucker-Co criou, na cidade de Kassel, na Alemanha, em 1977, uma instalação de proporções gigantescas para homenagear os estudos de artistas renascentistas. Trata-se de uma estrutura de aço com 31 m de comprimento, 14 m de altura e 16,5 m de largura, em relação a qual o público pode se posicionar para ver as linhas e o ponto de fuga no horizonte. Observe a imagem da instalação acima.

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Um dos significados para a palavra perspectiva é “ver através”. Também temos definições que consideram a perspectiva como tudo aquilo que nossos olhos podem ver, alcançar.

Sergei25/Shutterstock/Glow Images

Experimente ver o mundo dessa forma: pegue uma placa de vidro (ou acetato) retangular e trace (com caneta hidrográfica) um ponto e linhas (uma linha horizontal no meio da placa, no centro dessa linha um ponto e outras linhas que saem de cada ponta do retângulo e vão se encontrar no centro – o ponto de fuga). Observe o exemplo a seguir.

ponto de fuga

linha do horizonte

linhas de atração para o ponto de fuga

Esquema de indicação de perspectiva em imagem de píer na cidade de Palanga, na Lituânia.

Escolha uma paisagem e olhe através da placa. Procure perceber onde está o ponto de fuga, a linha do horizonte e outras linhas. Em nosso exemplo, mostramos apenas um esquema básico, mas você pode traçar mais linhas na placa para mostrar aquelas que fogem para o ponto que pode estar no centro (ou em várias posições na linha do horizonte). Aproveite para criar desenhos representando a paisagem observada usando linhas e pontos de fuga.

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Em nosso exemplo, o ponto está na posição central da composição, mas você pode mostrar aos alunos que, às vezes, o ponto de fuga pode estar em outras posições no horizonte, afastado para a direita ou esquerda, por exemplo. Explore com os alunos os diferentes campos de visão e a percepção visual e depois proponha a eles que desenhem o que observaram.

Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Marcel Duchamp. 1925. Museu de Arte Moderna, Nova York. Foto: Burstein Collection/Corbis/Latinstock

As formas e os movimentos Nas artes visuais, podemos citar duas maneiras de perceber o movimento: na representação e na forma dinâmica. Na pintura, por exemplo, em algumas produções, podemos observar a representação do movimento por meio da articulação dos elementos de linguagem, como cores, linhas, formas, luz, espaço. Na arte cinética, o movimento é parte da forma dinâmica, ou seja, está ligado de algum modo às engrenagens que o geram. Esse tipo de arte rompeu com a tradição de imagens estáticas. Nessa arte, as imagens surgem em função de um sistema motriz. Observe como o francês Marcel Duchamp (1887-1968) criou um sistema motriz na imagem ao lado. Há uma estrutura mecânica com círculos e roldanas que recebeu o título de Demisphere Rotary (Semiesfera rotativa: óptica de precisão), de 1925. Nessa estrutura, há um círculo com linhas que, quando em movimento, revelam imagens. Os círculos criados por Marcel Duchamp na obra Discos de Rolamento Espirais, vistos na abertura deste tema, foram elaborados com base em estudos que o artista realizou para suas obras de arte cinética. Observamos que são composições em que ele usou os elementos de linguagem pontos, linhas e formas. Alguns desses estudos ele colocou em movimento, criando uma arte cinética.

Demisphere rotary (Semiesfera rotativa: óptica de precisão), de Marcel Duchamp, 1925. Papel machê pintado e montado em disco revestido de veludo, círculo em cobre com cúpula de fibra de vidro, motor, polia e base metálica, 148,6 cm 3 64,2 cm 3 60,9 cm.

Arte cinética: as experiências entre objetos com movimento e imagens já existia desde o início do século XX, mas o termo só surge em 1955, quando um grupo de artistas se reuniu para realizar a exposição Le Mouvement (O Movimento), em uma galeria parisiense. Entre esses artistas, Marcel Duchamp (1887-1968) apresentou obras que mais pareciam engenhocas, mas que criavam imagens com efeitos visuais ao serem colocadas em movimento.

Você pode encontrar um jeito só seu de fazer arte cinética. Crie desenhos para colocar em um mecanismo que fará a imagem girar. Para fazer uma arte cinética, você precisa de algum tipo de motor (ou outra forma dinâmica) que faça a imagem se mover: uma roda de bicicleta, o motor de um liquidificador ou outro material que possa provocar movimento. É fácil conseguir vários efeitos, variando e trabalhando com pontos, linhas e formas.

DICA Para ver O interesse de Marcel Duchamp por máquinas capazes de produzir efeitos ópticos motivou-o a criar vários experimentos. A maioria das imagens produzidas por ele com esse conceito são compostas por círculos que, organizados na superfície do disco, criam efeitos ao girar. O artista fez várias filmagens de seus inventos ópticos, e você pode assistir a alguns desses filmes na internet, acessando: <http://tub.im/8xfex2> (acesso em: 22 fev. 2016).

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Fotografia: o mundo visto pela lente

Você já parou para pensar nos inventos criados pelos seres humanos para ampliar nossa maneira de ver o mundo? Com que frequência olhamos o mundo por meio de lentes ou visores de câmeras fotográficas?

O desejo de capturar as impressões do momento vivido, na pintura e na música, teve influência no invento da fotografia. Experimentos de Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) e Daguerre (1787-1851) e outros estudos mudaram a forma de registrar os momentos e o mundo das imagens. Uma nova técnica de captura de imagens proporcionou uma febre de retratos no lugar de pinturas e outras linguagens tradicionais (desenho, escultura e gravura). Com a novidade, era possível realizar retratos com uma câmera fotográfica e por meio de processos de revelação.

As câmeras fotográficas possuem ajustes e recursos técnicos que possibilitam capturar a imagem de um pássaro em pleno voo, por exemplo, como fez o fotógrafo Alan Murphy que conseguiu capturar com precisão o momento do voo de dois pássaros, como vemos na imagem abaixo.

Em 1925, surgiu a câmera Leica I, que revolucionou o mundo da fotografia graças à alta qualidade das imagens e sua portabilidade.

O fotógrafo britânico Alan Murphy flagrou dois pássaros em pleno voo.

Rasch/Shutterstock.com

Alan Murphy/BIA/Minden/Latinstock

Das máquinas fotográficas mecânicas às nossas supercâmeras digitais, muita coisa mudou, muita coisa foi feita e experimentada. O uso da fotografia alcançou proporção inigualável no desenvolvimento da cultura visual. Com o advento da fotografia, surgiu também a figura do fotógrafo, profissão que se tornou nobre na sociedade. A fotografia, na contemporaneidade, é utilizada não só para uso artístico, mas também para registrar acontecimentos do dia a dia e capturar o que se passa ao nosso redor.

Daniel Valla FRPS/Alamy/Latinstock

O uso de lentes para observar imagens de modos diferentes já era conhecido por povos da Antiguidade que usavam pedras transparentes, como cristais e gemas preciosas. Com o tempo novos materiais surgiram, o vidro foi descoberto e a tecnologia possibilitou a invenção de lentes cada vez mais precisas. Nos dias atuais, existe uma grande quantidade de lentes, com diferentes funções, materiais, tamanhos e modelos para serem usadas em câmeras fotográficas.

Primeira câmera fotográfica, conhecida como Daguerreótipo, inventada pelo francês Daguerre em 1839.

Visor de câmera digital mostrando uma paisagem. Foto de 2014.

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Um olhar curioso!

Professor, proponha que os alunos façam uma análise comparativa e percebam as formas figurativas e abstratas utilizadas pelo artista e que levantem hipóteses sobre o processo de criação dessas fotografias.

Por volta da década de 1950, a fotografia já era bem popular e existiam no mercado muitos modelos de câmeras analógicas (manuais). O artista Geraldo de Barros (1923-1998) olhava pelas lentes das câmeras fotográficas e tinha um olhar curioso que o impulsionava a criar de forma diferente, inovadora. Ao olhar de forma sensível, via formas geométricas, orgânicas, figurativas, abstratas, bidimensionais, tridimensionais e criava com base nessas formas nas linguagens da fotografia, do desenho, da pintura e da gravura; muitas vezes, também misturava linguagens. Ele também estudou sobre linhas, superfícies, texturas, tonalidades, contrastes, luminosidades, transparências e composições para enriquecer o seu trabalho, na forma e no conteúdo, com as artes visuais. Observe as imagens abaixo e perceba as diferentes formas de composição exploradas por Geraldo de Barros.

Geraldo de Barros. 1950. Fotografia. Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro. © Fabiana de Barros

Geraldo de Barros. 1950. Fotografia. Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro. © Fabiana de Barros

Suas pesquisas ficaram conhecidas como Fotoformas. Usando a fotografia como base, ele sobrepunha imagens, combinava formas, criava atmosferas de luzes ou aproveitava a luz ambiente. Conseguir efeitos, sombras e reflexos era seu principal interesse nas composições das “fotoformas”.

Fotoformas, de Geraldo de Barros, 1950. Fotografia, 40 cm 3 30 cm.

Homenagem a Stravinsky, de Geraldo de Barros, 1950. Matriz-negativo (fotografia, 38,2 cm 3 28,2 cm).

A arte de GERALDO DE BARROS Geométricas, orgânicas, figurativas, abstratas, bidimensionais, tridimensionais, as formas são apresentadas de muitos modos na arte. Geraldo de Barros (1923-1998), artista nascido em Chavantes, interior de São Paulo, se expressou em várias linguagens: pintor, gravador, artista gráfico, designer. Mas foi como fotógrafo que se destacou como um artista curioso, que gostava de fazer experiências com as maneiras de criar imagens. Chegou a construir sua própria câmera fotográfica no início de sua carreira. Estudou sobre a forma e criou várias obras com a gramática visual. Por essa razão, na história da arte brasileira, Geraldo de Barros ficou conhecido como um dos precursores da fotografia experimental. Em suas imagens, explorou tanto a figuração como a abstração em fotografias, pinturas e gravuras.

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Pami de Souza/Folhapress

Palavra do artista “A fotografia é para mim um processo de gravura. [...] Acredito também que é no ‘erro’, na exploração do acaso, que reside a criação fotográfica. Me preocupei em conhecer a técnica apenas o suficiente para me expressar, sem me deixar levar por excessivos virtuosismos. [...] Acredito que a exagerada sofisticação técnica, leva a um empobrecimento dos resultados, da imaginação e da criatividade, o que é negativo para a arte fotográfica.” Geraldo de Barros FERNANDES JR., Rubens. A fotografia expandida. In: GRECCO, Priscila Miraz de Freitas. “Felizmente existem os restos”: Sobras de Geraldo de Barros e a autobiografia através da fotografia. Domínios da Imagem, Londrina, ano V, n. 9, p. 110, out. 2011. Disponível em: <http://www.uel.br/revistas/uel/index. php/dominiosdaimagem/article/viewFile/23387/17083>. Acesso em: 17 fev. 2016.

Artista plástico, fotógrafo e designer Geraldo de Barros. Foto de 1986.

Ofício da arte Fotógrafo(a) Profissional e/ou artista da fotografia que domina o uso de máquinas, lentes e filmes, bem como as técnicas de revelação, ampliação e tratamento de imagens analógicas e digitais. Utiliza técnicas de iluminação e enquadramento com o objetivo de captar a melhor imagem possível do objeto fotografado. Sua produção pode ser jornalística, documental, comercial ou artística. O fotógrafo pode atuar como profissional contratado ou autônomo em jornais, revistas, sites, emissoras de TV, no cinema, em agências de publicidade e propaganda, além de empresas de eventos, familiares e corporativos.

Giro de ideias: As fotoformas Vimos como o artista Geraldo de Barros organizava suas pesquisas. Nas imagens que criava com fotografias, ele realizava interferências, às vezes fazia cortes, desenhava ou pintava sobre as imagens, trabalhava sobreposições, alterava a luz, entre outros tipos de experimentações artísticas. Agora, que tal você experimentar criar fotoformas? Pesquise mais sobre as possibilidades de criação na proposta das fotoformas. Encontre locais, objetos, monte imagens e fotografe-as. Depois, imprima as fotografias e faça mais interferências sobre elas. Registre suas observações nas linhas abaixo. Depois, que tal fazer uma exposição virtual das fotoformas?

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Conexões

Arte, Física e Química

Olha o passarinho! Você já ouviu essa expressão? Sabe como ela surgiu?

Xica Lima

Os processos físico-químicos da fotografia Quando a fotografia foi inventada uma das modalidades mais comuns era o retrato. É curioso pensar que os retratos e os autorretratos também estão em evidência hoje na produção de fotografias. A diferença é que fazer uma selfie ou fotografia de alguém nos dias atuais é bem mais rápido do que no passado. No final do século XIX, para fazer um retrato utilizando a técnica da fotografia era preciso que as pessoas posassem durante algum tempo, às vezes, por cerca de 30 minutos. Para distrair os retratados durante o tempo de espera, principalmente as crianças, alguns fotógrafos tinham em seus estúdios gaiolas com pássaros e era comum dizerem: Olha o passarinho! Agora que já descobrimos a origem da expressão, vamos entender o processo. O tempo de espera para conseguir uma imagem fotográfica era necessário porque as fotografias eram feitas por um processo físico-químico que envolve tempo de exposição à luz e uso de componentes específicos. Os papéis fotográficos são sensíveis à luz, porque são compostos por uma emulsão de gelatina animal e sais de prata. Quando expostos à luz, gravam a imagem e formam o “negativo”. O processo de revelação e fixação da imagem capturada utiliza materiais que reagem entre si, sob a ação da luz e o tempo de exposição a ela. A invenção do Daguerreótipo, aparelho que produzia imagens fotográficas, abriu caminhos para a história da captura e fixação de imagens pelo processo físico-químico. Este invento funcionava da seguinte maneira:

Reprodução de câmera fotográfica artesanal conhecida como “lambe-lambe”, em exposição no Sesc Boulevard, Belém (PA).

• Uma placa de cobre é sensibilizada com vapor de iodo, formando assim o iodeto de prata.

• Depois da formação do iodeto de prata, a placa é exposta à luz ao ser colocada dentro de uma câmara escura por cerca de 25 minutos. Durante este período, ocorre o processo físico-químico em que a luz transforma os cristais de iodeto de prata em prata metálica formando a imagem.

• A imagem formada era revelada com a ajuda do vapor de mercúrio aquecido.

• Para fixar a imagem na placa, usava-se o tiossulfato de sódio. O processo físico-químico do Daguerreótipo influenciou os inventores das câmeras fotográficas analógicas.

Câmeras fotográficas analógicas: a cada clique, o obturador da câmera se abre e permite a entrada de luz. A luz registra a imagem em um filme fotossensível que tem de ser “revelado” em laboratório com o uso de substâncias químicas para revelar e fixar a imagem e, finalmente, produzir as impressões em papel. Por causa deste processo não é possível apagar as imagens gravadas, como fazemos com as câmeras digitais.

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Pincel de luz

Sugerimos algumas ações e pesquisas sobre a arte da fotografia. Proponha que os alunos investiguem sobre grupos e clubes de fotografias; sobre as técnicas antigas e as novas tecnologias utilizadas. Essa pesquisa é uma forma de compreender essa linguagem no tempo e observar as descobertas tecnológicas. Fazer arte é pesquisar o tempo todo, tudo que foi inventado até hoje nasceu de muita experimentação, de acertos e de erros.

Vamos criar imagens com base no processo químico da fotografia? Para criar com a técnica de “pincel de luz”, você vai precisar dos seguintes materiais:

• Líquido revelador (específico para revelação de fotografias P&B); • Papel fotográfico (exposto à luz); • Alguns pincéis macios de tamanhos variados. Você pode pensar em um tema e, a partir dele, criar desenhos e imagens, com linhas, formas e texturas, ou desenhar ao acaso. Molhe o pincel no líquido revelador e passe sobre o papel fotográfico, sensibilizado pela luz, fazendo linhas, criando formas e áreas mais claras e outras mais escuras. Linhas paralelas e pontos criam efeitos de textura. Em um primeiro momento, os desenhos não aparecerão e a sensação é que o papel apenas está ficando “molhado”. Porém, após alguns minutos, a mágica acontece e começam a surgir graduações de cinza até o preto.

Miguel Chikaoka/Kamara Kó Fotografia

Faça vários desenhos e aproveite a experiência que une arte, fotografia e química. Professor, um texto interessante para ler com os alunos Criação Fotográfica: a experiência do outro e a dissolução da autoria, de Patrick Pardini, disponível em: <http://tub.im/28o8y5>, acesso em: 17 fev. 2016.

Desenhos feitos com “pincel de luz” em papel fotográfico, em oficina realizada por Miguel Chikaoka com apoio de Irene Almeida, no Mercado Ver-o-Peso, em Belém (PA).

DICA Para navegar A Associação Paraense Fotoativa desenvolve a cultura fotográfica na região amazônica e é uma das mais atuantes e criativas organizações culturais do país, navegue pelo site e conheça esse trabalho: <http://tub.im/hg8kks> (acesso em: 25 jan. 2016).

Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Albert Eckhout. s. d. Óleo sobre tela. Nationalmuseet, Copenhague, Dinamarca. © The National Museum of Denmark, Ethnographic Collection José Ferraz de Almeida Júnior. 1899. Óleo sobre tela. Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo.

Bananas, goiaba e outras frutas, de Albert Eckhout, s.d. Óleo sobre tela, 91 cm 3 91 cm.

Um mundo em cores para ver O pintor holandês Albert van der Eckhout (c. 1610-c. 1666), quando esteve no Brasil, a serviço do conde Maurício de Nassau (1604-1679), entre os anos de 1637 e 1644, deve ter enchido seus olhos com as cores e se deliciado com os sabores dos frutos de nossa terra. Na pintura Bananas, goiaba e outras frutas, vemos as cores das frutas em tons de vermelho, amarelo, verde, entre outros. Observe a percepção sensível do artista da cor luz, traduzida, na pintura em óleo sobre tela, em cores pigmentos. Repare no detalhe em vermelho da goiaba suculenta na composição da pintura de Eckhout. Quando olhamos para uma goiaba vermelha cortada ao meio na natureza, vemos a cor vermelha porque essa fruta absorve todas as outras cores e reflete apenas o vermelho, que é a sua cor. Assim acontece com as cores pigmentos, as tintas. O pigmento é uma materialidade proveniente de alguma substância de origem mineral, vegetal, animal ou sintética (compostos químicos). Dependendo da natureza da cor da tinta (cor pigmento), ela absorve, refrata ou reflete as ondas luminosas da luz. Por isso vemos a representação da goiaba vermelha, que se mostra apetitosa, ao lado de outras, em destaque que pode até nos dar água na boca e vontade de prová-la, um convite feito pela imagem criada pelo pintor Albert Eckhout.

O retrato da atmosfera e do ser humano em sua essência inspirou vários artistas, entre eles um brasileiro, o paulista José Ferraz de Almeida Júnior (1850-1899), considerado um pintor característico do Realismo. A realidade não está apenas nos temas ou nas cenas em pinturas realistas, pode estar também na escolha de cores O violeiro (1899), de Almeida Júnior (1850-1899). Óleo sobre tela, 141 cm 3 172 cm. na paleta do pintor. Para isso, o artista deve olhar de maneira mais atenta ao seu redor e perceber luminosidade, cor, forma e temas próximos, regionais. Observe ao lado essas características na pintura O violeiro (1899). Almeida Júnior esteve em viagem de estudos na Europa por uma temporada, chegando a estudar na Escola Superior de Belas Artes, em Paris. De volta ao Brasil, começou a perceber que a paleta de cores usada por seus colegas parisienses por vezes era em tons mais frios. Para representar o clima brasileiro e sua atmosfera tropical, ele precisava de uma paleta mais quente. Foi uma escolha pela brasilidade da cor para mostrar a quentura do ar, as luzes e cores da nossa terra, criando pinturas com atmosferas carregadas de regionalismo e percepção da natureza.

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Cildo Meireles. 1967-84. Instituto Cultural de Inhotim. Foto: Eduardo Eckenfels

As cores podem nos provocar sensações diversas. Cada pessoa pode ter uma reação particular. Imagine entrar em um local todo impregnado da cor vermelha. Qual seria sua reação? O artista carioca Cildo Meireles (1948-) nos faz esse convite em sua instalação Desvio para o vermelho, que está em caráter permanente no Centro Cultural Inhotim, em Minas Gerais, desde 2006. Observe-a.

Desvio para o vermelho – I: Impregnação, II: Entorno, III: Desvio, de Cildo Meireles, 1967-1984. Instalação com materiais diversos, 100 cm 3 500 cm (cada uma das partes). Segunda de três versões.

Giro de ideias: Cores e coisas As cores dos ambientes podem nos proporcionar várias sensações. Uma sala escura, por exemplo, pode nos dar a impressão que é menor que uma sala pintada com cores mais claras, mesmo que a metragem de ambas seja a mesma. O teto, quando pintado de uma cor mais escura que a da parede, também pode nos causar sensação de achatamento. Designers de interiores são profissionais que estudam a cor e a relação com o espaço. Observe o local em que você e os colegas estão neste momento e analise as relações entre cor e espaço. Volte à imagem da obra Desvio para o vermelho, de Cildo Meireles. Que relações podemos estabelecer com as cores e as coisas? Ao adquirir algum objeto, você pensa sobre a predileção de cores, emoções e sensações? Continuando nossas observações sobre as cores, amplie o debate com sua turma. Você considera que haja relações entre cores e símbolos? Por exemplo, para muitas pessoas, o vermelho é a cor da paixão; o azul representa a tranquilidade; o branco, a cor da paz; o amarelo é energia. Essas ideias estão em todas as culturas? Quem determinou que deveria ser assim? Após o debate, registre as conclusões a que você e o grupo chegaram. Professor, essas questões podem motivar boas conversas entre os alunos. Neste momento, aproveite para ampliar esse conhecimento discutindo com os alunos quais são as relações entre cor e formação sociocultural, ou seja, determinados significados atribuídos a algumas cores podem estar relacionados à formação social e cultural em que a pessoa está inserida. Uma cor pode ter diferentes significados em diferentes culturas ou ainda estão relacionadas com o que determina a indústria cultural.

Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Conexões

Arte e Biologia

Olhares sabidos Por meio de nossos olhos, aprendemos a observar o mundo e ir além das aparências das coisas, imaginando e criando arte. Na escultura Olho (2010), do artista multimídia estadunidense Tony Tasset (1960-), essa parte do corpo humano foi expressa em dimensões gigantescas, chamando a atenção de olhares curiosos na cidade de Chicago, Estados Unidos.

Cada olho humano, ou bulbo ocular, é composto de um sistema em que temos a córnea, a parte transparente que cobre o elemento colorido do olho, ao qual chamamos de íris. No centro da íris, temos a pupila, responsável por receber a luz. A lente, também presente no olho, é uma estrutura gelatinosa que focaliza a luz, formando imagens na retina, que é composta pelos cones e bastonetes. São essas partes que, juntas, proporcionam a percepção de cores, de formas, de imagens, graças à existência da luz e da fisiologia do olho. Observe na página seguinte um esquema que mostra a formação de uma imagem no olho humano. Precisamos de mais luz que alguns outros animais para enxergar. Os felinos são mestres em enxergar no escuro porque precisam de menos luz. O ser humano, ao observar como os animais veem as cores, desenvolveu instrumentos para também enxergar melhor, como os binóculos infravermelhos, usados para ampliar a capacidade de enxergar em ambientes com pouca luz.

Tony Tasset. 2010. Fibra de vidro e aço. Pritzer Park, Chicago. Foto: Scott Harrison/Retna Ltd./Corbis/Latinstock

Segundo a teoria da evolução das espécies, o olho humano se desenvolveu e se adaptou à luz do Sol, o que nos garante a sensibilidade na percepção da cor. A Biologia explica que registramos as frequências do espectro eletromagnético visível, ou seja, a porção do espectro em que a radiação é composta por fótons que sensibilizam nossos olhos. As cores são percebidas em faixas de frequência de radiação entre os tons de vermelho e ultravioleta. Para cada frequência, percebemos a faixa de luz visível de uma cor.

Olho, de Tony Tasset, 2010. Fibra de vidro, aço, 9,14 m de diâmetro. Em exibição no Pritzker Park, Chicago, EUA.

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Ilustração: Luís Moura

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Saberes em Biologia e Física nos ajudam a compreender como vemos as cores. Com tais conhecimentos podemos fazer pinturas, como a obra do artista paulista Antonio Peticov (1946-), veja abaixo.

objeto distante

Também podemos criar arte a partir de saberes em Química e Física. Vamos fazer uma pintura que só aparece no escuro? Para isso, vamos precisar de protetor solar, uma sala escura e uma lâmpada ultravioleta (luz negra). 1. Escolha uma superfície de cor branca (pode ser tecido, papel ou plástico).

lente imagem formada na retina Esquema representando a visão humana de um objeto distante.

2. Molhando um pincel no protetor solar, trace linhas e desenhe aquilo que quiser. 3. Coloque seu desenho em uma sala escura com uma lâmpada de luz negra acesa. 4. Você verá seu desenho em destaque no escuro.

Antonio Peticov. 1980. Madeira, cerâmica e neon. Acervo do artista

Isso acontece porque as lâmpadas de luz negra são preparadas com vidros especiais, mais escuros, dos quais é eliminado o fósforo que geralmente reveste os vidros das lâmpadas comuns. Dessa forma, a luz ultravioleta passa diretamente pelo vidro e reflete em superfícies brancas. O protetor solar bloqueia os raios ultravioletas e, assim, seu desenho aparece.

Natura, de Antonio Peticov, 1980. Madeira, cerâmica e neon, 21 cm 3 100 cm 3 21 cm.

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Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Ola-ola/Shutterstock.com

Escolhendo cores

Círculo cromático com transição para o preto no centro.

Artefficient/Shutterstock.com

O círculo cromático é um esquema que apresenta as cores e como se relacionam quanto a suas tonalidades. Há artistas que escolhem usar as cores vizinhas, chamadas de cores análogas. Você já ouviu falar que os opostos se atraem? Assim, alguns pintores gostam de explorar os contrastes e escolhem cores que estão opostas no círculo, por exemplo, o azul e o laranja (em combinações entre azul e laranja, vermelho e verde, amarelo e roxo e suas variações cromáticas chamamos de arranjos complementares). Há, também, escolhas em relação às “temperaturas” das cores, quentes ou frias, em uma classificação sensorial, relacionada às sensações que as cores podem transmitir. Veja no círculo quais cores são quentes e quais são frias. Uma cor próxima a outra provoca interferência. Se pintarmos uma tela com 70% de tons em amarelo e 30% de roxo, por exemplo, o roxo, mesmo considerado frio, parecerá mais quente. A cor verde é considerada fria, porém, se em sua composição, colocarmos amarelo e azul e a proporção de amarelo for maior que a de azul, a sensação será de um tom de verde mais cítrico, mais quente. Podemos ainda estudar as cores (pigmentos) primárias, secundárias, terciárias e neutras. A cor física, que é aquela derivada da luz, também pode ser um foco de estudo.

Cores neutras: do cinza ao bege.

Há ótimas tintas industrializadas, mas você pode sempre pesquisar materiais e procedimentos para inventar suas próprias tintas. Assim, vale experimentar e escolher como você quer apresentar as cores em sua pintura e com que forma poética.

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A poética da cor

Professor, proponha que os alunos leiam o texto expositivo e conversem sobre as imagens. A proposta é trabalhar a ideia de que há artistas que têm uma intenção ao trabalhar determinados elementos em suas obras; no caso das obras estudadas, a “cor” é utilizada para expressar poéticas, mensagens, percepções, leituras de mundo etc. Os alunos também podem aprender a utilizar estes recursos expressivos em seus trabalhos artísticos.

Observe, a seguir, as imagens criadas pelo espanhol Pablo Picasso (1881-1973). Na primeira, ele usou mais tons de azul. Na segunda, predominam tons de rosa. As pinturas apresentam a cor em consonância com a intenção do artista quando as criou. Essas pinturas fazem parte de dois momentos importantes do processo de criação do artista que, na ocasião, pesquisava sobre a poética da cor. O que isto quer dizer? Pablo Picasso era um artista dedicado e intenso ao criar, sempre mergulhava em suas pesquisas ao estudar temas, materialidades, técnicas e elementos de linguagem, como conseguir encontrar um caminho poético e expressivo por meio de linhas, formas, cores... Nas fases que ficaram conhecidas como azul e rosa, ele traduziu em cores suas percepções sobre vida, particular e social.

Emoções e sensações ligadas ao viver em meio a lutas sociais, discussões políticas, momentos de angústia ao testemunhar injustiças, pessoas passando fome, perdas de pessoas queridas e o sentimento de tristeza, foram traduzidos em tons de azul. É como se o artista tivesse usado uma metáfora em forma de cores: uma fria manhã de inverno coberta de nevoa úmida ou as cores de uma noite sombria que custa a passar. Na fase rosa, são celebrados os momentos com amigos, a percepção do amor e da ternura familiar, as risadas, as pequenas alegrias diárias e sutis que nem todos percebem, mas que são preciosas. As cores que a representam são como as cores do entardecer de um dia quente, que findam carregados de tons de rosa. Artistas como Picasso sentiram o mundo, o interpretaram e usaram a poética da cor para pintar percepções de momentos de suas vidas.

Pablo Picasso. 1903. Óleo sobre madeira. National Gallery of Art, Washington DC. Foto: Francis G. Mayer/Corbis/Latinstock

Pablo Picasso. 1905. Guache sobre papel. Museu de Artes de Gotemburgo, Suécia. Foto: Painting/Alamy/Glow Images

Reflita e faça um exercício de percepção sobre o tema “poética da cor”, com base no texto expositivo e nas pinturas, A Tragédia (1903), da fase azul, e Família de acrobatas com macaco (1905), da fase rosa. Que relações você percebe sobre as cores escolhidas pelo artista? Que cores você escolheria para representar o seu universo?

A Tragédia, de Pablo Picasso, 1903, de sua fase azul. Óleo sobre madeira, 105,3 cm 3 69 cm.

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Família de acrobatas com macaco, de Pablo Picasso, 1905, de sua fase rosa. Guache sobre papel, 104 cm 3 75 cm.

Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Professor, uma seção de pintura ao ar livre contribui para que os alunos percebam como vemos as cores e como podemos transpor essa percepção para a pintura. Também é uma forma de compreender na prática como algumas telas impressionistas foram criadas.

A arte dos impressionistas Há artistas considerados coloristas por aplicarem muitas cores em seus trabalhos. Os impressionistas, como eram chamados os artistas seguidores do Impressionismo, saíram dos ateliês para registrar como o olho vê as cores e como poderiam traduzir essas visões cromáticas em imagens pictóricas. Ao realizar pinturas ao ar livre, esses artistas fizeram pesquisas sobre as mudanças na atmosfera e suas consequências na composição da cor e da luz. Com base nessas pesquisas, eles usavam em suas obras cor e luz compondo imagens fluidas e sem contornos, linhas dissolvidas, mergulhadas em manchas e nuances cromáticas. O termo Impressionismo foi inicialmente usado pela crítica de modo pejorativo para se referir a pinturas “inacabadas”. Depois, os artistas seguidores desse movimento assumiram o termo, já que se tratava de capturar as impressões de cada momento, como podemos notar na obra Nascer do sol, impressão, de Claude Monet (1840-1926), apresentada no capítulo 3. Os impressionistas também observavam a vida e o cotidiano. Este artista, como forma de aprofundar suas pesquisas sobre a visão da cor e a pintura, fez vários estudos de vistas da Catedral de Rouen, na França. Em cada pintura, utilizou cores diferentes, em função da percepção de mudanças na iluminação da luz do Sol e das influências de materiais na atmosfera, como o ar e sua umidade. Dos estudos de Monet aprendemos que, a cada momento do dia ou período do ano, a mesma paisagem pode mudar de cor. Observe as pinturas de Monet nesta página. Outros artistas impressionistas, como Degas (1834-1917), Manet (1832-1883), Pissarro (1830-1903), Renoir (1841-1919), Sisley (1839-1899), Mary Cassat (1844-1926), Berthe Morisot (1841-1895) e Marie Bracquemond (1840-1916), marcaram a história da criação de imagens dentro desse estilo.

Claude Monet. 1894. Óleo sobre tela. Museu Marmottan, Paris

Claude Monet. 1894. Óleo sobre tela. Galerie Beyerler, Basel

Claude Monet. 1894. Óleo sobre tela. Museu Metropolitano de Arte, Nova York

Que tal fazermos como os impressionistas? Escolha um parque ou praça em sua cidade, leve telas, tintas e se aventure a criar observando a própria natureza.

Três das 50 imagens da série A Catedral de Rouen, de Claude Monet. Essa série foi pintada em horários diferentes, entre 1893 e 1894, reproduzindo as diferentes incidências de luz. Óleo sobre tela, 110 cm 3 73 cm; 100 cm 3 65 cm; 100 cm 3 65 cm (respectivamente).

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Projeto experimental A cor significa

Henri Matisse. 1911. Óleo sobre tela. Museu de Arte Moderna, Nova York. Foto: VG-Bild-Kunst Bonn/Glow Images

Henri Matisse. 1908. Óleo sobre tela. Museu Hermitage, St. Petersburgo. Foto: Album/Joseph Martin/Fototeca H. Matisse/Latinstock

Na escolha de cores para pintar, podemos elencar vários critérios. Que significados as cores têm para você? Você tem uma cor preferida? O artista francês Henri Matisse (1869-1954), (veja as pinturas ao lado), assim como o brasileiro Cildo Meireles, já citado, criou obras em que predominam a cor vermelha. Escolha uma cor e pinte uma superfície (um suporte). Você pode optar por trabalhar com guaches prontos, mas experimente fazer suas próprias tintas. Depois faça algum tipo de interferência sobre sua pintura, usando imagens impressas, objetos, palavras, enfim, não há regras, mas procure estabelecer relações entre a cor e um assunto, tema, ou significado. Veja agora uma maneira de fazer tintas. Para fazer cada cor, reserve os materiais a seguir. A sobremesa: harmonia em vermelho, de Henri • Uma gema de ovo (que funcionará como Matisse, 1908. Óleo sobre tela, 180 cm 3 220 cm. um aglutinante – ver Capítulo 4). • ½ copo de água (a água funciona como solvente e dá fluidez à tinta, ou seja, você pode controlar a quantidade de água para obter uma tinta mais rala ou mais densa). • Pigmentos (você pode usar pigmentos naturais, como urucum, açafrão, beterraba etc., ou, pigmentos minerais de várias cores, como óxido de ferro, que é vendido em casas de materiais para construção, ou, ainda, anilinas comestíveis, que são vendidas em supermercados). • Copos descartáveis, panos para limpeza e pincéis de vários tamanhos e espessuras. Para fazer a tinta à base de ovo, misture os materiais: para cada gema de ovo (sem a película), acrescente de uma a duas colheres de sopa de água. Lembre-se de que você pode O estúdio vermelho, de Henri Matisse, 1911. Óleo sobre tela, 181 cm 3 219,1 cm. escolher entre tintas mais aguadas e tintas mais espessas, variando a quantidade de água. Depois acrescente o pigmento na cor desejada. Se o pigmento estiver em estado líquido, coloque 1 colher de sopa; se o pigmento se apresentar em pó, você pode acrescentar 2 colheres de sopa. A quantidade de pigmento, seja líquido ou pó, dependerá da consis- Professor, oriente os alunos a fazer próprias tintas. No capítulo 4, que tência da tinta que você deseja obter. Desse modo, a proposta é a de suas aborda a materialidade, há mais dicas que você faça experiências e eleja qual é o melhor tipo de tinta para de como as tintas podem ser feitas. o seu projeto.

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Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Projeto experimental

© Ben Heine 2013 – benheime.com

Criando imagens incríveis

Composição de desenho e fotografia da série Pencil Vs Camera, 2011. Projeto artístico do artista belga Ben Heine.

Há artistas que apresentam como característica principal na criação de suas obras a mistura de linguagens. É o caso das composições com fotografias e desenhos do artista belga Ben Heine (1983-). Em seu processo de criação, Heine escolhe uma cena, cria desenhos e coloca-os sobre a cena, em uma posição previamente planejada, de modo que pareçam estar na mesma perspectiva. Então, ele fotografa a imagem, obtendo resultados surpreendentes. Faça sua arte usando imagens fotográficas e traços. Há vários tipos de materiais para os desenhos, que chamamos de riscadores. Pesquise e escolha o seu. Também há muitos modos de fazer a linha no desenho. Invente seu jeito, crie em sua poética. Escolha cenas interessantes para colocar os desenhos e fotografar. Você pode usar até uma câmera de celular para fazer esse tipo de trabalho.

DICA Para navegar

Professor, a obra de Ben Heine, na qual ele fotografa a cena com o desenho, serve como exemplo de estética e estímulo para despertar a criatividade da turma. Como variação dessa proposta, os alunos podem escolher uma fotografia, fazer um desenho e depois sobrepor as imagens em colagens.

Saiba mais sobre o artista belga Ben Heine e sobre sua obra acessando este site: <http://tub.im/wk4er9> (acesso em: 9 fev. 2016).

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TEMA

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O CONJUNTO DA OBRA

Professor, no final deste Tema 3, o Projeto experimental – Teatro de sombras – propõe a experiência de criar um teatro de sombras.

Nós, seres-humanos, possuímos a mesma geometria e uma estrutura corporal organizada nos mesmos padrões de movimento. E, mesmo assim, nos expressamos gestualmente das maneiras mais variadas possíveis. [...] Ivaldo Bertazzo (1949-), bailarino e coreógrafo paulista, diz que mesmo tendo a mesma estrutura biofísica a nossa formação cultural nos torna pessoas que se expressam na dança ou por meio de gestos de forma completamente diferente. Na dança e no teatro, a ação dramática ocorre prioritariamente, mas não exclusivamente, por meio do movimento. Nesse caso, dramaturgia é o nome que damos às histórias que os corpos em movimento contam. Temos danças que são populares, étnicas ou folclóricas, danças religiosas, danças teatrais, danças terapêuticas e danças educativas, cada qual expressando dramaturgias de determinada comunidade ou grupo de pessoas.

Value Stock Images/Glow Images

MÉTODO BERTAZZO. Os caminhos de Bertazzo. [2015?]. Disponível em: <http://metodobertazzo.com/sobre.php>. Acesso em: 18 abr. 2016.

Na história das danças teatrais, o balé clássico, por exemplo, nasceu com base em uma dramaturgia que representava os valores da nobreza europeia, para em seguida se transformar em uma representação dos valores das mulheres de uma época, com base nos contos de fada: mulheres frágeis, dependentes dos homens e sem poder de decisão. Hoje, o balé clássico prevalece, porém, contando as mais variadas histórias, em uma pluralidade de conteúdos. A forma, contudo, permanece, por meio das linhas retas, dos movimentos precisos, dos pés esticados em sapatilhas, dos giros e virtuoses técnicas.

Pilobolus é uma companhia estadunidense de dança (Pilobolus Dance Theatre) e um instituto de ensino e aprendizagem (Pilobolus Institute). Em seu espetáculo Shadowland (Ilha das sombras), criado em 2009 e continuamente apresentado, (veja ao lado uma imagem do espetáculo) eles transformam as sombras em vida. Os bailarinos e bailarinas, escondidos atrás de uma tela, brincam com as luzes e as projeções de suas sombras. Os movimentos criados pela coreografia possibilitam, nesse jogo de sombras, que se transformem em animais, objetos e personagens de fantasia.

Rapaz praticando street dance, um tipo de dança contemporânea de rua. Foto de 2011.

Timothy A. Clary/AFP

O hip hop, outro exemplo, é uma dança que expressa a dramaturgia de algumas pessoas e seu estilo de vida, seus conceitos e ideias, assim como o frevo (típico do Nordeste do Brasil), o vira (de Portugal), o tango (da Argentina), entre tantos outros estilos. Os conteúdos manifestados na dança expressam histórias, sentimentos e visões de mundo.

Os dançarinos do grupo Pilobolus brincam com as sombras no espetáculo Shadowland, em novembro de 2015.

DICA Para navegar Informe-se sobre danças do seu estado, de outros estados brasileiros e países, como a Pilobolus Dance Theatre, companhia estadunidense de dança acrobática. Veja um trecho do espetáculo Shadowland (2009), dessa companhia navegando pelo site: <http://tub.im/5tfoph> (acesso em: 24 fev. 2016). Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Giro de ideias: Roda da dança Há muitos estilos de dança. Você já deve ter visto ou participado de alguma apresentação, ou mesmo dançado algum estilo específico em uma festa ou confraternização. Procure na internet a história de uma dança de que você goste ou que tenha curiosidade de conhecer. Se possível, entreviste ou converse com profissionais ligados à dança que possam ajudá-lo. Registre suas observações nas linhas abaixo.

Conexões

Arte e religião

Linguagem da arte: dança A dança sempre esteve presente como manifestação artística ou religiosa. Ainda hoje ela pode estar ligada a ritos religiosos, como as danças nas religiões afro-brasileiras, na cultura de grupos indígenas e nas coreografias de corais evangélicos ou católicos. A dança pode estar nas ruas, nas casas noturnas ou nos cultos religiosos. E em cada contexto cultural ela tem um significado específico.

Na Turquia, um grupo religioso conhecido como dervixes acredita que a maneira de chegar mais próximo de Deus é por meio da poesia, da música e da dança. A dança dos dervixes rodopiantes é feita em uma sala apropriada, eles vestem longas túnicas brancas e um chapéu cônico na cabeça. A mão direita se eleva ao céu para recolher as graças divinas que são enviadas à terra e a mão esquerda aponta em direção ao solo, e nesta posição, eles rodopiam diversas vezes.

Kenan Kahraman / Shutterstock.com

A dança como louvação

Pesquise sobre as danças ligadas Os dervixes rodopiantes em apresentação no Mevlana Culture Center, em Konya, Turquia. Foto de 2015. à cultura do sagrado, que acontecem dentro de religiões ou manifestações culturais étnicas. Discuta esse assunto com o professor e os colegas. Na sua comunidade, essas manifestações de dança acontecem? Quais significados elas apresentam?

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A dança e o teatro são linguagens cênicas. Assim, como as palavras são os vocábulos da língua que falamos e escrevemos, podemos dizer que os movimentos são os vocábulos cênicos da dança, do teatro e de suas versões filmadas. Podemos ler essas linguagens na pele do ator, na expressão fisionômica, ao perceber o esforço dos músculos, dos nervos no corpo do bailarino. Enfim, nosso corpo fala. O que diz? Em nossos gestos, falamos por linguagem não verbal. A comunicação não se dá apenas por palavras, mas também por gestos. Gestos expressivos que mostram se estamos felizes, tristes, furiosos ou em estado de euforia. Essa forma de comunicação gestual é muito antiga e está presente tanto na arte quanto nas atitudes mais corriqueiras, como em um cumprimento, no modo de chamar alguém, em jogos esportivos e outras situações. Para a montagem de um espetáculo de dança ou teatro, são pesquisados o espaço, as roupas que serão usadas (figurino), como será a luz, o som e outros detalhes, mas, principalmente, os bailarinos e atores pesquisam sobre como farão cada movimento e gesto. Às vezes, um gesto é “lapidado”, exaustivamente, trabalhado várias vezes até que atores, diretores, bailarinos e coreógrafos fiquem satisfeitos. Geralmente, quando vemos tudo pronto em cena, não pensamos que, por trás de um simples gesto, há tanto trabalho.

Filme de Charles Chaplin. O Grande Ditador. EUA. 1940. Foto: Everett Collection/Latinstock

A língua do corpo

Charles Chaplin, na famosa cena de O grande ditador, 1940.

Existe uma arte cênica que não utiliza palavras. O foco é o gesto. O mímico é um artista dos gestos que conta suas histórias por meio da pantomima (ou mímica). A arte da pantomima originou-se na Grécia antiga. Uma versão histórica conta que esse termo nasceu do nome de um ator chamado Pantomimus. Ele usava máscaras e dançava se comunicando somente por gestos. Essa tradição atravessou os tempos e ainda hoje é uma forma de arte. Às vezes, é possível vermos mímicos pelas ruas, com máscaras ou o rosto compleL inguagem cênica: própria de uma tamente maquiado e luvas brancas, expressando-se por meio da linguagem representação artística na qual o corpo é o principal suporte dessa arte. A dança, o não verbal, por meio dos gestos. No cinema, em seus primórdios, a arte da mímica também foi explorada por artistas como o inglês Charles Chaplin (Charles Spencer Chaplin, 1889-1977). Um exemplo de seus personagens é o inesquecível Carlitos, protagonista de vários filmes.

Charles Spencer Chaplin (1889-1977), mais conhecido como Charlie Chaplin, nasceu em Londres, Inglaterra. Foi ator, diretor, roteirista, bailarino e músico, começando sua carreira nos primórdios da linguagem do cinema. Muitos de seus trabalhos hoje são considerados clássicos nessa arte. A expressividade gestual foi ponto fundamental na carreira de Chaplin, em um tempo em que as palavras ainda não podiam ser ouvidas nas salas de projeções. Era ainda a época do cinema mudo, a linguagem e a expressão do gesto eram o que valia, e o personagem Carlitos tornou-se uma de suas grandes estrelas. Chaplin chegou a fazer alguns filmes no cinema falado, como O grande ditador (1940), filme que ganhou vários prêmios na época. As cenas em que ridiculariza um ditador, inspirado em Adolf Hitler, entraram para a história do cinema como um momento de crítica aliada à graça. Contudo, lembramos desse artista principalmente por seus gestos e expressões fisionômicas, por sua arte não verbal, por sua linguagem corporal e cênica.

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M  ímico: ator que usa a mímica (pantomima, a arte dos gestos) como forma de expressão; mimo; pantomimeiro.

Palavra do artista “A arte é uma emoção adicional justaposta a uma técnica apurada.” Charles Chaplin CHAPLIN, Charles. In: CÓRDULA, Raul. Utopia do olhar. Recife: Fundarpe, 2013. p. 13. Bettmann/Corbis/Latinstock

A arte de CHARLES CHAPLIN

teatro, o circo, a mímica, entre outras formas de arte, são consideradas linguagens cênicas.

Charles Chaplin no Lincoln Center, em Nova York (EUA). Foto de 1975.

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Ofício da arte Diretor(a) de cinema / Cineasta Profissional que transforma um roteiro literário, verídico ou ficcional, em imagens cinematográficas. O diretor de cinema conta com a ajuda de diversos profissionais especializados para produzir sua história (curta, média ou longa duração) e exibir em salas de cinema, em emissoras de TV ou em sites. O trabalho do diretor de cinema consiste em escolher os atores e o figurino, pensar nos cenários das gravações e nos espaços a serem locados, nos efeitos especiais a serem utilizados, na trilha sonora, ou seja, em planejar o passo a passo de todas as etapas de filmagem e da finalização técnica, até o filme ficar pronto para ser exibido. Para trabalhar na área é preciso estudar em uma escola de cinema ou fazer um curso de comunicação com especialização na área. A melhor maneira de iniciar a carreira é por meio de estágios ou como assistente de direção.

A maquiagem no cinema Pintar o rosto é uma prática muito antiga que também está presente no cinema. Maquiagens podem transformar as expressões dos atores e criar personagens fantásticos.

NG Collection/Interfoto/Latinstock

Na arte do circo, encontramos as famosas pinturas de rosto dos palhaços, como vimos no capítulo 1. A tradição de pintar o rosto com maquiagem vem desde a Antiguidade. Nas cortes dos reinos da China, havia atores cômicos que pintavam o rosto para divertir o imperador e uma seleta plateia. Na Roma antiga, no surgimento da comédia, existiam atores que pintavam os rostos, usavam máscaras e figurinos exagerados. Mas foi na Idade Média que começaram a surgir atores andarilhos, que viviam de cidade em cidade e ganhavam a vida contando histórias engraçadas. Eles se apresentavam vestidos como palhaços, e eram os únicos que ironizavam os nobres sem sofrer ameaças. Da Idade Média para a atualidade, a arte de pintar o rosto se modificou e se diversificou segundo a expressão cultural de cada país. No cinema, muitos personagens ficaram famosos por causa do tipo de maquiagem que caracterizou os atores que os interpretaram. Alguns casos são tão impressionantes que fica quase impossível reconhecer os atores, como é o caso do personagem Chapeleiro Maluco interpretado por Johnny Depp no filme Alice no País das Maravilhas (2010), dirigido por Tim Burton. O ator passou horas na sala de maquiagem e precisou de sombras, pó branco, cílios postiços, peruca e, até mesmo, lentes de contato para ganhar o rosto rosado, as sobrancelhas felpudas e os olhos eletrizantes que dão vida ao seu personagem. A figura do maquiador é muito importante no processo de caracterização e, com a ajuda do diretor de arte, colhe informações relevantes sobre as características psicológicas e físicas do personagem, sentimentos que ele deve exprimir, o universo em que está inserido e em que época vive. Várias pesquisas são realizadas até que se defina a paleta de cores e produtos que serão utilizados na maquiagem. No cinema, a maquiagem é parte fundamental do processo de criação de um personagem, pode transformar as expressões dos atores e até mesmo dar vida a seres fantásticos. A caracterização e a maquiagem do personagem Chapeleiro Maluco, interpretado por Johnny Depp, foi reconhecida e premiada por instituições internacionais.

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Giro de ideias: Gestos no cinema Junte-se aos colegas e façam uma lista de títulos de filmes, séries, desenhos e novelas que todos conheçam. Dividam-se em duas equipes. Cada equipe fica com metade da lista. Em seguida, cada grupo escolhe uma pessoa para apresentar um dos títulos fazendo mímica. A outra equipe deve adivinhar qual é o título que está sendo representado. Depois, os grupos invertem os papéis. Anote suas impressões sobre as atividades:

• No jogo de mímica, você achou mais difícil descobrir o título ou apresentar a mímica?

• Em que situações você usa ou usou mais gestos do que palavras para se comunicar?

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O teatro na história Embora o teatro já existisse desde a Pré-História em forma ritualística e em cerimônias ao deus Dionísio na Grécia, foi na época do imperador grego Pisístrato (600 a.C.-528 a.C.) que foram criados os concursos de teatro em Atenas. Dois gêneros surgiram como os mais importantes: a comédia e a tragédia. Vários autores despontaram, tornando-se conhecidos na posteridade, como Sófocles, Eurípedes e Aristófanes. O estudo do filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), sobre as artes ficou conhecido como Poética. Sua teoria legitimou a importância da linguagem teatral na Antiguidade e atravessou os tempos, sendo estudada ainda hoje. Os estudos dos filósofos e artistas gregos sobre os gêneros dramáticos contribuíram para a sistematização do estudo da arte. Antes a arte estava a serviço da religião. Com base nesses estudos, a arte firma-se como produção do espírito humano com o objetivo de levar à reflexão sobre a vida e o mundo. A estética passa a ser um ramo da filosofia. A cultura dos povos que ajudaram a formar o que conhecemos como “povo grego” era rica em rituais religiosos com dança, poesia, cânticos e encenações sobre a trajetória dos deuses. Com o tempo, as histórias dos deuses passaram a ser contadas como expressão da cultura mitológica. Assim, nascia uma arte em função da arte, não mais ligada apenas à religião, embora ainda tivesse relações diretas com ela. O que hoje conhecemos como teatro e dança nasceu dessas tradições.

O espaço cênico no teatro Os lugares onde acontecem o teatro e outras linguagens cênicas (como dança, circo e outras manifestações) são conhecidos como “espaços cênicos”. Estes podem acontecer em lugares abertos ou fechados, tradicionais ou inovadores, locais preparados especialmente para este fim ou totalmente inusitados. Enfim qualquer lugar pode ser transformado em um espaço cênico, até mesmo o pátio da sua escola! Na Grécia antiga, as manifestações em homenagem ao deus do vinho, Dionísio, eram apresentadas a céu aberto. As tragédias e comédias gregas aconteciam em palcos inicialmente muito simples. Para o público, arquibancadas de madeira, degraus nos barrancos e degraus de pedra em volta do palco. As forças naturais exerciam papel vital. O céu e a trajetória do Sol conferiam vida e dramaticidade aos espetáculos.

LOIC VENANCE/AFP/Getty Images

CM Dixon/Heritage Images/Glow Images

Com o passar do tempo, os teatros, criados para abrigar manifestações culturais, começaram a ser construídos nas encostas de montanhas, pois existia uma preocupação com a acústica: era necessário que o público não só visse como ouvisse a encenação dos atores. Para uma boa visualização do espetáculo, os assentos eram dispostos em degraus. Ainda hoje se constroem teatros com essa disposição de lugares.

Os teatros romanos eram construções colossais. A disposição dos assentos em degraus é usada até os dias atuais.

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Os romanos também criaram locais para entretenimento, e eram construções colossais. As representações teatrais em Roma tiveram seu auge no século III a.C. A obra arquitetônica mais famosa é sem dúvida o Coliseu, cuja construção foi concluída no ano 80 d.C., no governo de Tito, filho do imperador Vespasiano. Uma das construções mais fascinantes dos romanos, o Coliseu abrigou tanto a arte quanto os esportes sanguinários e os jogos de diversão. A cultura dos jogos romanos como entretenimento para o povo fez nascer o circo. Em Roma, havia os ludi scaenici (jogos cênicos). Nos palcos, onde antes havia apenas espetáculos de circo, corridas de cavalo e lutas, passaram a acontecer os jogos cênicos com atores, músicos e dançarinos. Na Europa medieval, entre os séculos V e XV, o teatro ganha vida no interior das igrejas com encenações de temas religiosos. Para as peças mais elaboradas, o espaço escolhido são as praças, inicialmente em frente às igrejas, e depois nas praças centrais. Para a igreja, o teatro se torna um instrumento de disseminação ideológica, obediência e submissão aos valores da época. A partir do século XII, pequenas casas montadas lado a lado eram chamadas de mansões e usadas como cenário. Usavam-se também os “carros-palco”, que se moviam diante de um público que, por sua vez, permanecia estático. No Brasil colonial, procissões encenadas ao ar livre para catequizar os indígenas utilizavam elementos como a dança e o canto. Na Inglaterra, assuntos sobre a história do país eram trazidos à cena em pátios de hospedarias e prédios teatrais simples de madeira ou pedra, em formato circular ou hexagonal, com balcões e galerias. Na Itália, a commedia dell’arte exerceu papel importante no teatro itinerante que teve início no século XV com características de um teatro popular apresentado nas ruas e praças públicas, em carroças ou em pequenos palcos improvisados. Na virada do século XV para o século XVI, nasce um novo modelo de espaço teatral: o palco italiano. Evoluções cênicas permitem a mobilidade de cenários, portanto maior versatilidade nas apresentações. Neste novo espaço cênico a boca de cena é arredonda e há luzes na ribalta. Mais uma inovação: uma cortina esconde o cenário. Telões pintados agregam perspectiva e são manipulados por mecanismos próprios. Plateia e camarotes estão dispostos em forma de ferradura. Abandona-se a luz à vela. Vem o gás e, então, a energia elétrica.

Jean-Pierre Lescourret/Getty Images

Na Rússia, a busca por novas concepções arquitetônicas teatrais é parte do espaço cênico realista. Há melhores condições visuais e acústicas e os cenários realistas aproximam o público da encenação, e a encenação da vida. Apoiando-se ao conceito de teatro clássico e tradicional, o dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956) propõe um teatro narrativo que leva o espectador a refletir com atitude crítica. Espaço e tempo são indeterminados. A peça acontece no palco, na plateia, no corredor, na rua... Em sua própria companhia teatral, o Berliner Ensemble, não se faz necessário haver coxias. Os equipamentos técnicos estão à mostra, e os elementos cenográficos são poucos e têm uma função específica que não é apenas decorativa. Na segunda metade do século XX o Brasil vive o regime militar e ouve-se também pelo teatro as vozes de protesto contra esse sistema de governo. Formam-se teatros em espaços populares, teatros de rua, se apresentando em locais abandonados ou não utilizados pela sociedade. Em espaços como esses, busca-se a maior interação e identificação com o público. Destacam-se o Teatro Oficina, no bairro do Bixiga, em São Paulo; o Grupo Balcão, nas ruas de Belo Horizonte; e o Teatro da Vertigem, que intriga com as locações inusitadas de seus espetáculos. Na arte contemporânea, os espaços cênicos são os mais variados e as escolhas dependem do projeto, da poética e da intenção de cada grupo de teatro. Maior anfiteatro do mundo, o Coliseu de Roma tinha capacidade para 45 mil pessoas.

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Um lugar para se ver Teatro é a arte em que um ator, ou conjunto de atores, interpreta uma história cujo objetivo é apresentar uma situação e despertar sentimentos, sensações e reflexões no público. Que sentimentos seriam esses? Os mais variados possíveis. Na comédia, o teatro nos faz rir. Na tragédia, nos faz entrar em contato com dramas humanos profundos. Em geral, o teatro está ligado a uma narrativa, a uma história com começo, meio e fim. Como a arte de contar histórias por meio da ação e do diálogo, o teatro tem uma extensa história na produção cultural da humanidade. Um espetáculo de teatro pode originar-se de um texto em forma de monólogo, diálogo ou musical, e é interpretado por um ator ou por um elenco de atores. Além do texto, dos atores e da equipe de montagem (que envolve profissionais de direção, figurinos, maquiagem, iluminação, sonoplastia, cenografia, maquinaria etc.), para o espetáculo acontecer é primordial a presença do público. É para ele que tudo isso é criado. É a plateia que vai receber toda a informação e a beleza do espetáculo. A palavra teatro vem do grego théatron, que significa “lugar aonde se vai para ver”. O teatro era um importante meio de educar os cidadãos que iam fazer as escolhas políticas que determinariam o futuro da cidade. Assim, ele nasceu também ligado à política. Alguns estudiosos apontam a origem do teatro ligada aos rituais sagrados dedicados ao deus grego Dionísio, considerado, por isso, o protetor do teatro e dos atores. No Brasil, o teatro teve início na época da colonização, organizado pelos padres jesuítas. Eles usavam as encenações para catequizar os indígenas. Nelas misturavam aspectos da vida local com o evangelho e a vida dos santos. A Comédia e a Tragédia desencadearam, ao longo dos tempos, muitos gêneros e concepções teatrais. Cada gênero tem sua própria maneira de ser e de se expressar.

A forma da comédia No início do século XVI surge uma forma popular de teatro na Itália, denominada de commedia dell’arte (comédia de arte), também chamada de commedia all’improviso (comédia do improviso). Usada como linguagem cênica em algumas montagens teatrais até hoje, trata-se de uma forma de se fazer teatro que exige muita habilidade e agilidade do ator ou atriz para improvisar, tornando-se uma arte burlesca e fundamentada na inspiração do momento. No período de origem, era considerada uma arte profana, na qual os artistas não estavam presos a temas religiosos impostos pela Igreja. Por essa razão, foi alvo de muitas críticas e proibições por parte dos religiosos. Suas apresentações eram feitas pelas ruas e praças públicas, em carroças que viravam palcos improvisados.

Canovaccio:

expressões e diálogos que marcam os momentos e o ritmo, geralmente cômicos, da peça teatral dentro do gênero da commedia dell´arte.

As companhias da commedia dell’arte, por serem itinerantes, ao chegarem em uma cidade, pediam permissão às autoridades locais para se apresentarem. Geralmente, as companhias eram formadas tradicionalmente por famílias de artistas, e um ator ou atriz representava os mesmos personagens por toda sua vida, uma vez que a estrutura da commedia dell’arte trabalhava com personagens de características fixas, mas que reagem conforme a situação improvisada. As apresentações seguiam um roteiro, chamado de canovaccio. Os diálogos da peça eram criados pelos atores, durante a encenação, de forma improvisada. Muitas vezes, essas falas traziam questões locais, inspirando-se em situações baseadas em relações de patrões com seus empregados, em amores proibidos e personagens da sociedade da época, nos quais a plateia reconhecia essas questões e podiam refletir sobre elas. Todavia, a commedia dell’arte

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French School. c. 1580. Óleo sobre painel. Museu Carnavelet, Paris, França.

The Commedia dell’Arte Company, obra anônima, c. 1580. Óleo sobre painel, 95 m 3 147 m.

tinha como função principal divertir o povo. Quando os comediantes agradavam, os espectadores retribuíam e pagavam mais, uma vez que o pagamento era uma contribuição espontânea dada pela plateia. Na pintura acima, podemos observar uma representação de um grupo da commedia dell’arte se apresentando. Os personagens mais característicos e conhecidos da commedia dell’arte são:

• Arlequim (criado fofoqueiro muito esperto e acrobata); • Brighella (trapaceiro de pouca moral e desmerecedor de confiança); • Pantalone (velho muito rico e muito avarento); • Il Capitano (soldado farrista, covarde e mentiroso); • Scaramouche (contador de mentiras muito covarde, usa uma máscara de veludo negro);

• Doutor (velho rico e falador); • Colombina (bela e inteligente, esperta, irônica e fofoqueira, par do Arlequim). Esses personagens eram fixos. A estrutura de cada um seguia o roteiro, mas os atores e atrizes possuíam liberdade total de improvisação das falas, ações e reações. A máscara é um importante elemento dessa forma de se fazer teatro. Além dos figurinos, era o adereço característico e marcante de um personagem da commedia dell’arte, pois compunha e caracterizava os personagens apresentados nos roteiros. Geralmente, era o próprio ator que confeccionava sua máscara.

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Giro de ideias: A catarse Eugène Delacroix. 1839. Óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris

Quem já não ouviu a célebre frase: “Ser ou não ser, eis a questão!”? Na imagem ao lado, a representação do personagem Hamlet, do texto dramático escrito pelo inglês William Shakespeare (15641616), é criada na pintura Hamlet e Horácio com os dois rústicos (1839), do pintor francês Eugène Delacroix (1798-1863). Na peça Hamlet, escrita entre 1599 e 1601, o protagonista, príncipe Hamlet, vive as contradições da alma humana entre ser bom, ruim, justo ou cruel. Dilemas também vividos por muitas pessoas, razão de a peça continuar atual e ser montada em todo o mundo até hoje e ter várias adaptações para o cinema. O teatro na Grécia antiga já era considerado arte fundamental na educação das pessoas. Para o filósofo Aristóteles (384 a.C.322 a.C.), a atuação de um ator na interpretação de um texto dramático pode provocar catarse. É como viver as emoções dos personagens ao assistir a uma peça teatral ou a um filme. Esse tipo de experiência, segundo Aristóteles, podia levar o público a refletir sobre suas próprias vidas, emoções e desejos.

Hamlet e Horácio com os dois rústicos, de Eugène Delacroix, 1839. Óleo sobre tela, 81,5 cm 3 65,5 cm.

Catarse: nome dado pelos gregos antigos para se referir a uma experiência em sentimentos e emoções vivida pelo público ao assistir a uma peça teatral. O público pode se identificar com as situações vividas pelos personagens do texto no teatro, cinema, televisão, texto literário e outras linguagens e refletir sobre sua própria vida.

Você já viveu uma catarse ao assistir a uma peça de teatro ou a um filme? Se a sua resposta for sim, descreva o que você sentiu. Professor, sobre as performances que envolvem dança e teatro busque a obra de Pina Bausch, já estudada neste livro.

Quem era o personagem com o qual você se identificou? Professor, provoque um debate entre os alunos sobre o conceito de catarse e sobre as experiências significativas que tiveram assistindo a um filme, teatro, dança e/ou em contato com outras linguagens (leitura de texto literário, programas de televisão…).

Para ampliar seus estudos sobre os gestos e as artes cênicas, faça uma pesquisa em livros, revistas ou na internet sobre outras formas expressivas de teatro, como:

• teatro de formas animadas (sombra, fantoches, bonecos...) • performances (dança, teatro...) • monólogo ou diálogo Que tal combinar com seus colegas e professor a montagem de uma peça teatral escolhendo uma dessas formas?

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Conexões

Arte e História

Os autos: ontem e hoje Na linguagem teatral da Idade Média, a temática predominante era a religiosa. Temas não religiosos também eram abordados, mas ficaram conhecidos como teatro profano. Sabemos que o teatro já existia desde a Antiguidade, mas desenvolveu-se e aprimorou suas técnicas com o surgimento dos primeiros dramas litúrgicos e dos textos teatrais inspirados na Bíblia. Os dramas litúrgicos eram apresentados inicialmente durante as missas. Depois, o público teatral aumentou e as apresentações passaram a ser feitas fora das igrejas. A freira Rosvita (c. 935-c. 973), de Gandersheim, território germânico, foi uma das primeiras dramaturgas da Europa e escreveu seis peças. Ela reelaborou a dramaturgia clássica e abordou temas edificantes escritos em latim. A partir do século XII, o teatro deixa de ficar restrito às igrejas e vai para a cidade, por iniciativa das confrarias (irmandades laicas ou religiosas) e dos saltimbancos, companhias teatrais do final da Idade Média que escrevem as peças e as apresentam. Nesse momento, convivem textos profanos e sacros. O teatro profano, apresentado nas festas de Carnaval, cria o gênero teatral das farsas e do burlesco. Na Espanha, por volta do século XII, surgem os autos, que podem ser religiosos ou profanos, sérios ou cômicos, mas possuem um sentido moralizador. As procissões na Idade Média eram chamadas de laudes e reuniam pessoas que caminhavam cantando, declamando e representando assuntos de temática religiosa. Para conferir mais realismo às encenações de cunho religioso, foram criadas as chamadas mansões. Até chegar a esses espaços, o público caminhava com os atores e havia a presença de um diretor de cena, que ditava o ritmo do espetáculo. Muitas vezes, o público também participava do ato dramático, como figurante.

Mansões: espaços cênicos, comuns na Idade Média, construído para abrigar apresentações dos atos religiosos.

Essas formas de fazer teatro ou fazer grandes festas para as encenações, permanecem até os dias de hoje. Como exemplo, temos as festas do Círio de Nazaré na cidade de Belém do Pará. De cunho religioso, o evento reúne milhões de pessoas que participam de autos e procissões. O Auto do Círio é um evento de rua, realizado pela Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (UFPA), que está inserido na programação do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Une artistas,

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Mauricio Lima/AFP

Performance durante o Círio de Nazaré, em Belém (PA). Foto de 2008.

pesquisadores e a população em geral, formando um dos maiores cortejos dramáticos realizados no mundo. O cortejo realizado pelas ruas do bairro Cidade Velha, em Belém, no Pará, une o erudito e o popular em um espetáculo que foi considerado pelo Iphan como bem imaterial, juntamente com a festa do Círio de Nazaré. Procure mais informações sobre os autos. Em sua cidade existem eventos ou festas populares que exploram o gênero? Você já assistiu ou leu peças em forma de autos? Autores como o português Gil Vicente (1465-1537) e o brasileiro Ariano Suassuna (1927-2014) dominaram a arte de escrever autos. Pesquise sobre a obra de Gil Vicente ou Ariano Suassuna, ou ainda outro autor que trabalhe com o gênero auto, e escolha uma obra. Você e seus amigos podem montar uma peça ou encenar um trecho dessa obra. Para começar, leiam a peça em forma de leitura dramática. Organizem o grupo e combinem quem fará cada personagem. Após essa definição, a leitura pode começar. Cada um deve ler a fala do seu personagem dando impostação à voz, enfatizando olhares e gestos, procurando interpretar e não apenas ler. Quem assistir à leitura dramática deve ter noção do que está acontecendo na história. Assim, combine com seus amigos e capriche nessa leitura dramática.

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Na linguagem teatral, independentemente do significado da palavra dita, é o conjunto de sua pronúncia, do volume e da entonação em determinado contexto que influenciará os significados dos diálogos. O corpo, por meio da exploração da voz e do gesto, é como a página de um livro (ambos como suportes), em que as palavras são escritas e reescritas pelos atores e espectadores, pelo sentido atribuído e pela expressão vivida. As palavras podem não existir oralmente, mas estar contidas nos gestos.

Cena do Espetáculo Saudades em terras d’água. Cia de Teatro Dos à Deux. Foto: Xavier Cantat

Dramaturgias da luz e do gesto

No espetáculo Saudades em terras d’água (2005), os atores da Cia. Dos à Deux, grupo de teatro franco-brasileiro criado em 1997, (observe a cena ao lado) contam uma história sem verbalização de palavras, mas, mesmo assim, as palavras ressoam no silêncio das emoções e dos gestos. A iluminação dá o tom e mostra a quem assiste os momentos e lugares em que se passa a história. Há momentos em que ela ocorre no litoral, perto da água, e são Cena da peça Saudades em terras d’água, da Cia. Dos à Deux, usadas luzes em cores azuis e tons frios e refrescan2005. A iluminação em tons de azul mostra o momento em que o personagem está em alto-mar. tes. Em outras cenas do espetáculo, quando a história se passa em terras secas, a iluminação projeta cores em tons de vermelho, amarelo, laranja e marrom, tons quentes e dramáticos. Observe abaixo a imagem que retrata uma cena com essas características. Em obras nas quais prevalece o teatro gestual, os atores não utilizam a opção de verbalizar o texto, que é expresso por meio de gestos, enfatizando as linguagens visual e sonora. Os movimentos e gestos “lapidados”, as coreografias detalhadas e cuidadosas e a iluminação poética compõem esse tipo de espetáculo, que une forma e conteúdo cunhados em gestos, cores e sons. Cena do Espetáculo Saudades em terras d’água. Cia de Teatro Dos à Deux. Foto: Xavier Cantat

Cena da peça Saudades em terras d’água, da Cia. Dos à Deux, 2005. Em relação à imagem anterior, a iluminação muda para indicar a terra que seca, trabalhando tons de vermelho e amarelo.

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Professor, pesquise, escolha e proponha a interpretação de um poema curto. Depois, de preferência em círculo, converse com a turma sobre como você vai para a escola (cada um pode comentar seus trajetos).

Conexões

Arte e Literatura

Caminhante

Professor, num primeiro momento, é importante que todos os alunos façam a atividade com o mesmo poema. Depois, peça que escolham outros poemas e façam a mesma atividade com o objetivo de proporcionar o desenvolvimento e ampliação da proposta desta seção.

Há produções em que atores ou dançarinos utilizam textos como referência ou foco. Nesses casos, o texto pode ser dito tanto por meio de palavras como de gestos. O teatro gestual é uma modalidade cênica caracterizada pelo menor uso possível de palavras e o maior uso de gestos. É a arte de narrar com o corpo. Poemas curtos podem nos ajudar a criar gestos nas artes cênicas. Existem também outras possibilidades, como a criação de uma sequência coreográfica com base nos trajetos que você faz todos os dias. Usando apenas linhas, faça desenhos mostrando como é o trajeto de sua casa até a escola. Do ponto de partida até a chegada. Agora, vamos representar esse trajeto por meio de gestos. Na sala de aula, escolha os pontos de saída e de chegada. Olhando para o desenho traçado com as linhas, siga o trajeto, imaginando que a sala de aula é o caminho que você faz todos os dias. Ao andar pela sala, olhe para algum colega e faça algum tipo de cumprimento, porém sem palavras, apenas com gestos. Essa etapa da atividade acaba quando você chegar ao ponto final. O mesmo vale para os colegas que estão participando desse aquecimento. Agora, faça novamente o mesmo percurso, usando o desenho com as linhas que marcam seu trajeto, mas, dessa vez, com uma música de fundo. Durante o trajeto, explore não apenas o plano do solo no andar, mas dê saltos, gire, se movimente em laterais com os braços e pernas, enfim, amplie as possibilidades de movimentos e gestos expressivos ao caminhar. Esse tipo de atividade tem o objetivo de proporcionar o conhecimento do que seu corpo pode fazer. Agora, vamos voltar ao poema. Crie com os colegas uma sequência coreográfica, expressando com o corpo, por meio de gestos, a interpretação de um poema curto. Não há regras preestabelecidas, vale a criação na linguagem do teatro gestual.

Teatro de sombras

Professor, conte aos alunos a história da criação do teatro de sombras. Veja mais informações em Diálogo com o professor.

Você sabia que o teatro de sombras é uma arte muito antiga? Há relatos de que seja proveniente da China. Inicialmente, os artistas trabalhavam sob a luz do Sol para criar os contrastes de luz e sombras. Depois, os chineses começaram a usar velas, acesas ao cair da noite, por trás da cortina, e assim criaram um mundo lúdico e mágico por séculos e séculos. Essa arte se espalhou por todo o mundo e ainda é muito praticada, tanto no teatro como na dança, como recurso cênico com efeitos de iluminação.

Processos de criação

Zeng Nian/Corbis/Latinstock

Projeto experimental

Exemplo de teatro de sombra chinês. Foto de 2005.

Vamos criar um teatro de sombras? Aproveite para reciclar chapas de acetato (como as usadas em radiografias), caixas de papelão, ou use cartolina preta para fazer as silhuetas. Primeiramente, com os colegas, planejem quais serão os personagens, os movimentos e os diálogos (se houver, porque o teatro pode ser apenas de movimentação e gestos). Pensem também nos sons e na trilha sonora para sua peça de teatro de sombras. É importante estudar os detalhes das figuras. Faça esboços para estudar as formas e os pontos vazados na figura. Recorte com cuidado a silhueta dos personagens. Os detalhes podem criar efeitos incríveis.

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TEMA

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OS PARÂMETROS DO SOM

Professor, no final deste Tema 4, o Projeto experimental – Música – propõe a reflexão sobre os parâmetros do som e um convite à criação em música. Mármore. Ny Carlsberg Glyptotek, Copenhagen. Foto: Prisma Archivo/Alamy/Glow Images

A poesia é a emoção expressa em ritmo através do pensamento, como a música é essa mesma expressão, mas direta, sem o intermédio da ideia. PESSOA, Fernando. Páginas íntimas e de autointerpretação.. Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Ática, 1966.

Assim como as linguagens das artes visuais e cênicas, a música também tem seus próprios códigos. As cores luz são ondas eletromagnéticas que podem viajar no vácuo, já as ondas sonoras precisam de matéria para se mover. Ou seja, não há som no vácuo. Tanto cores como sons podem ser medidos em frequências. Essas frequências vão de infrassons a ultrassons e são medidas em hertz (Hz). As ondas sonoras sempre vão precisar de uma fonte e vão durar no espaço tempo. Assim, o tempo e o espaço são suportes para a música. As ondas sonoras percorrem tempo e espaço de duas formas: em frequências regulares (som constante e ordenado, como as notas de um instrumento) e frequências irregulares (sem ordem e indeterminada, como os ruídos). O som é produzido pela vibração de algum objeto. Um exemplo é a vibração da corda de um violão. A vibração gera ondas que são transmitidas pelo ar ou qualquer outro meio de condução. Ao chegar aos nossos ouvidos, essas ondas transportam a informação para o cérebro que, por sua vez, identifica o som de várias formas, entre as quais, como uma vibração regular (que tem altura definida, produzida, por exemplo, por um instrumento musical como violão, flauta, entre outros) e como uma vibração irregular (que não tem altura definida, identificada como chiado ou barulho, por exemplo, o som de um vidro quebrando ou muitas pessoas conversando ao mesmo tempo). Os gregos antigos diziam que os sons de instrumentos como a lira e a flauta eram capazes de provocar a sintonia entre seres humanos e deuses. Observe ao lado a imagem do deus Apolo tocando lira. Trata-se de sons em harmonias, sons regulares. Harmonia, na música, tem dois sentidos: pode ser a junção de duas ou mais notas tocadas simultaneamente (o que produz o acorde) ou a sequência de acordes que são encadeados. A música pode ser entendida como a intenção de organizar materiais sonoros, tais como melodia, ritmo, harmonia, ruídos. Esses materiais podem ser organizados uma única vez ou combinados de diversas maneiras, por exemplo, melodia e ritmo ou harmonia e melodia.

Apolo, divindade olímpica greco-romana. Era imperial. Escultura em mármore, 2,5 m de altura. Foto de 2012.

Os parâmetros do som são as características presentes em todas as sonoridades existentes. São eles: altura, duração, timbre, intensidade e densidade. Ao classificarmos o som como grave ou agudo, estamos falando sobre a altura. Essa classificação depende da frequência da vibração do som por segundo, ou seja, os sons agudos têm mais vibrações por segundo do que os sons mais graves. O hertz (Hz) é a unidade usada para medir a frequência de vibrações e ondas, como já vimos acima, e 1 hertz é a referência de um ciclo por segundo. Por meio das frequências é possível identificar as notas musicais. Por exemplo, a frequência da nota Dó central do piano é de 261,6 Hz, a nota Lá tocada na quinta corda solta do violão ou guitarra é de 110 Hz. Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Notas agudas

Em uma partitura tradicional as notas graves ficam na parte de baixo e as agudas em cima.

Sol

Si

Dó Ré

Mi

Fá Sol Lá

Si

Ré Mi

Sol Lá Si

Dó Ré Mi

Tarumã

Veja na partitura representada abaixo como as notas graves e agudas ficam dispostas.

Sol

Notas graves

A duração refere-se ao tempo de ressonância de um som que pode ser curto ou longo. Quando um sino é tocado tem um som de longa duração, mas se tocarmos uma madeira com outra temos um som curto. O timbre é a característica que diferencia cada som, possibilitando, dessa forma, identificar sua origem. Quando ouvimos um instrumento em uma gravação é possível identificá-lo apenas pelo som, sem precisarmos vê-lo. O violão tem um som (timbre) característico que o difere do som de uma flauta, pandeiro, saxofone etc.

DICA

A intensidade é o volume do som que é produzido, pode ser forte ou fraco, dependendo do ataque, ou seja, a força aplicada para gerar um som. Já a densidade se refere à quantidade de sons produzidos ao mesmo tempo. Uma orquestra, por exemplo, tocando com 80 instrumentos ao mesmo tempo tem uma densidade maior do que um som produzido por um único instrumento.

Para assistir

A música se encontra no núcleo de todas as culturas, e em cada uma explora formas e conteúdos de modos bem particulares.

Algumas das pesquisas de John Cage foram filmadas ou gravadas, permitindo acesso do público ao percurso criativo desse artista. Assista a um trecho da peça 4’33”, que está disponível em: <http:// tub.im/dgrugp> (acesso em: 27 fev. 2016).

O silêncio pode ser compreendido como um elemento na arte contemporânea. John Cage (1912-1992), compositor, escritor e teórico musical estadunidense, chocou o público ao propor o silêncio como elemento expressivo da peça musical 4’33”, composta em 1952. Em sua carreira, esse músico explorou sons, investigou possibilidades expressivas de elementos de linguagem e materialidades. Na apresentação da obra 4’33”, durante 4 minutos e 33 segundos a orquestra de músicos se manteve em silêncio. Sons e ruídos ecoaram pelo espaço da sala de concerto, mas nenhuma nota foi emitida. Essa obra mostra que o silêncio absoluto não existe, porque estamos sempre cercados de sons ora regulares, ora irregulares, separada ou simultaneamente.

Ouvindo vozes Em obras contemporâneas, as linguagens se misturam. Às vezes, o mesmo elemento de linguagem pode fazer parte da composição dessas obras. Quando temos duas medidas (dimensões), comprimento e largura, dizemos que algo é bidimensional. Já para o conceito de tridimensional, temos como base três medidas (dimensões): comprimento, largura e profundidade. A tridimensionalidade, por exemplo, é uma das características de como as formas de uma escultura são apresentadas em um espaço. Em imagens, podemos conseguir efeitos de tridimensionalidade também explorando e articulando cores, texturas, pontos, linhas, direções, posições e contrastes, entre outras possibilidades. A música se propaga no ar, espaço tridimensional, assim como os bailarinos e atores se movem nesses lugares, que chamamos de espaços cênicos.

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Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler. 2008. Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte

Em várias obras contemporâneas, temos as instalações, que são tridimensionais. Adentramos esse espaço e percebemos todo o seu comprimento, largura e profundidade. Podemos ir a uma apresentação de coral, por exemplo, e não encontrar nenhum cantor ou cantora, apenas a ressonância de suas vozes no espaço tridimensional. Observe o exemplo ao lado.

A obra Acusma (2008) aborda a relação entre as linguagens e seus elementos. Trata-se de uma instalação com vasos de cerâmica, alto-falantes e sistema de som ligados em canais de frequência (os fios que ligam os alto-falantes também são usados como material artístico da instalação). A obra foi criada pelo grupo Chelpa Ferro (composto pelos artistas Jorge Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler em 1995) para ocupar o espaço do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, Minas Gerais. A palavra acusma, de origem grega (ákousma), com significado de ato, assume o sentido de “alucinação auditiva em que se ouvem vozes, instrumentos musicais, rumores e outros sons” (Fonte: iDicionário Aulete. Disponível em: <http://aulete.com.br/acusma>. Acesso em: 17 abr. 2016.). O grupo Chelpa Ferro tem pesquisado e criado instalações tirando proveito de materialidades para estabelecer diálogos entre as artes visuais e a música, como em Acusma, uma arte híbrida em que as linguagens tradicionais e contemporâneas se entrelaçam entre fios e vasos. Estar nessa sala permite-nos ouvir as vozes em solfejos, por meio de materialidades do passado (cerâmica, arte do fogo) e do presente (música eletrônica, arte da tecnologia) que se encontram, formando simbiose entre culturas. Uma das propostas dessa instalação é romper as fronteiras entre mundo visual e sonoro. Observe que tanto a cerâmica quanto a música são tridimensionais.

Acusma, de Chelpa Ferro, 2008. Instalação do grupo criado pelos artistas plásticos Jorge Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler. Exposição no Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte (MG).

A arte de CHELPA FERRO O grupo Chelpa Ferro é um grupo multimídia carioca formado pelos artistas Luiz Zerbini, Jorge Barrão e Sergio Mekler que apresenta trabalhos em diversos formatos: instalações sonoras, vídeos, apresentações em palcos e discos inovadores, utilizando os instrumentos musicais de forma não convencional. As experimentações feitas com a composição imagética é a marca registrada do trio. As suas obras musicais flertam com as artes visuais e produzem uma arte híbrida e inovadora. Como vimos anteriormente, a obra Acusma, montada em forma de instalação, apresenta uma espécie de música matemática, em que números são cantados por 30 vozes que saem de dentro de vasos espalhados pelo chão do museu. Uma escultura para ser vista e ouvida. Leandro Moraes/Folhapress

Palavra do artista “O trabalho deve existir por ele mesmo. Deve falar por si mesmo.” Sergio Mekler

MARTÍ, Silas. Chelpa Ferro retorna em filme e instalação. 26 nov. 2009. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ fsp/acontece/ac2611200902.htm>. Acesso em: 27 fev. 2016. Os artistas Sergio Mekler, Jorge Barrão e Luiz Zerbini, do grupo Chelpa Ferro, na instalação Sonorama, no Centro Cultural Banco do Brasil. Foto de 2008.

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Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Ofício da arte Técnico(a) de gravação O técnico de gravação é o profissional responsável pela captação do áudio falado, cantado, tocado ou, até mesmo, das sonoridades ambientes. Na maioria das vezes, também é a pessoa responsável pela mixagem (processo de juntar tudo que foi gravado em diversos canais para consolidação do produto final). É importante que este profissional tenha um bom conhecimento dos equipamentos de áudio como microfones, mesa de som, equalizadores, compressores, amplificadores etc. Além de dominar programas de gravação e edição e a produção de efeitos. Seu trabalho pode ser realizado em estúdios de gravação, em shows, espetáculos, instalações e eventos, programas de rádio e TV.

Giro de ideias: Dimensões de sons Feche os olhos por um minuto e atente para os sons que estão perto e aqueles que estão longe. Como você percebe a tridimensionalidade do som? O que é música para você e para seus colegas? Bata um papo com a turma sobre o sentido da música na vida de vocês.

Música para ouvir [...]

Música para tocar na parada

Música para pular carnaval

Música pra dar risada

Música para esquecer de si

[...]

Música pra boi dormir ANTUNES, Arnaldo; SCANDURRA, Edgard. Música para ouvir. Intérprete: Arnaldo Antunes. In: Um som. Rio de Janeiro: BMG, 1998. CD. Faixa 1.

Depois registre aqui a sua opinião e a dos colegas. Professor, para proporcionar uma compreensão global da canção Música para ouvir (trecho apresentado nesta página) e enriquecer o debate dos alunos, proponha que naveguem pelo site: <http:tub.im/8p8arn> (acesso em: 13 de maio 2016) e ouçam a música.

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Conexões

Arte, mitologia e Literatura

A ópera Durante o Barroco, grandes teatros para concertos musicais foram criados, e a vida cultural ganhou visibilidade. A música instrumental passou a ter a mesma importância da música vocal. Nesse período, Claudio Monteverdi (1567-1643) compôs a ópera L’Orfeu (1607), uma obra com quase duas horas de música, encenada com cenários deslumbrantes. Na Grécia antiga, as linguagens artísticas do teatro, música e dança não eram separadas de forma rígida como ocorreu em outros períodos. A ópera volta a unir essas três linguagens, além de fortalecer as artes visuais na criação de cenários ricos em formas e cores. Segundo a mitologia grega, Orfeu era um semideus, seu canto era muito poderoso e capaz de encantar a natureza, os seres vivos e também os seres divinos. Acreditando no poder do seu canto, Orfeu, acompanhado de sua lira, vai em busca de sua esposa Eurídice no Inferno, de onde nenhum outro humano conseguiu retornar. A música de Orfeu consegue encantar todos os seres sombrios e, até mesmo, os reis do Inferno (Hades e Perséfone), e ele atinge o seu objetivo de resgatar Eurídice. Porém, uma condição havia sido imposta pelos reis: a de que Orfeu só poderia olhar para sua esposa quando os dois tivessem saído do mundo dos mortos. Quando estavam prestes a voltar ao mundo dos vivos, Orfeu olha para trás para certificar-se de que Eurídice o seguia e, assim, perde a sua amada para sempre nos abismos do Inferno. Monteverdi revisitou o mito de Orfeu e acreditou no poder do texto combinado à música; desta forma, a música na ópera L´Orfeu não estava subordinada ao texto, mas o reforça e faz com que as emoções humanas sejam experimentadas de forma intensa, no todo artístico e não só na beleza das palavras recitadas.

Robbie Jack/Corbis/Latinstock

A ópera L´Orfeu é considerada a primeira obra que foi além da poesia lírica musicada, marcando o início da escrita da ópera da forma como conhecemos nos dias atuais. Observe uma cena dessa ópera logo abaixo.

Apresentação contemporânea da ópera L’Orfeu, de Monteverdi.

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Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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Da ópera ao teatro Muito anos depois, o mito de Orfeu ganhou uma releitura em forma de peça musical idealizada e escrita por Vinicius de Moraes, chamada Orfeu da Conceição (Tragédia carioca em três atos). A história é ambientada no Rio de Janeiro, os personagens são negros e moradores da favela, mas o final trágico do casal Orfeu e Eurídice permanece. O espetáculo estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em setembro de 1956 e marcou o encontro de grandes nomes das artes brasileiras, como Tom Jobim, que musicou todo o espetáculo, e Oscar Niemeyer, que ficou responsável pela criação dos cenários. Leia um trecho dessa peça e observe um cartaz que serviu para divulgar a peça naquela época.

ORFEU DA CONCEIÇÃO Tragédia carioca em três atos “[...] São demais os perigos desta vida Para quem tem paixão, principalmente Quando uma lua surge de repente E se deixa no céu, como esquecida. Vem se unir uma música qualquer Aí então é preciso ter cuidado Porque deve andar perto uma mulher. Deve andar perto uma mulher que é feita De música, luar e sentimento

Orfeu da Conceição. Odeon. 1956

E se ao luar que atua desvairado

E que a vida não quer, de tão perfeita. Uma mulher que é como a própria Lua: Tão linda que só espalha sofrimento Tão cheia de pudor que vive nua. [...]” MORAES, Vinicius de. Orfeu da Conceição: tragédia brasileira em três atos. Disponível em: <http://www. viniciusdemoraes.com.br/pt-br/teatro/pecas/orfeu-daconceicao>. Acesso em: 29 fev. 2016.

Capa do CD da peça musical Orfeu da Conceição, 1956, com músicas de Tom Jobim.

DICA Para navegar Para ampliar seu repertório e compreensão global da peça musical de Vinicius de Moraes Orfeu da Conceição, navegue por este site: <http://tub. im/fu7c5f> (acesso em: 17 abr. 2016).

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Projeto experimental Professor, para que este exercício de escuta sensível fique mais rico leve para a sala de aula materiais sonoros e exponha para apreciação e percepção dos alunos.

Música

O que é um som para você e seus colegas? Vocês percebem os parâmetros do som no dia a dia? Conseguem prestar atenção à altura, à duração, à intensidade, ao timbre e à densidade dos sons? Vamos ouvir! Escolha uma música instrumental. Observe: duração das notas, intensidade dos sons, energia que o músico coloca ao tocar o instrumento (ataque) etc. Você consegue identificar os diferentes sons produzidos por materialidades como madeira, couro, metais, cordas, entre outros? Qual é a sua percepção dos sons agudos e graves? E em relação ao conjunto? Há um ou mais instrumentos? O que você observou? Agora, percebam outro aspecto: o som é regular ou irregular? O artista visual, poeta, compositor, músico e cantor Arnaldo Antunes, em sua música Um som, composta em parceria com o músico, cantor e compositor paulista Paulo Tatit (1951-), fala sobre a percepção do som.

Um som [...] é só um som a dor de ser alguém de longe longe vem [...] ANTUNES, Arnaldo; TATIT, Paulo. Um som. Intérprete: Arnaldo Antunes. In: Um som. Rio de Janeiro: BMG, 1998. CD. Faixa 17. Disponível em: <http://www.arnaldoantunes.com.br/new/ sec_discografia_list.php. Acesso em: 19 maio 2016.

A música é formada por sons organizados no tempo e pode apresentar estilos diferentes, de acordo com épocas, regiões, instrumentos, culturas e compositores. Para compreender como a música seguiu seu curso através dos tempos, pesquise músicas de diferentes culturas e épocas. Que tal você e os colegas também se aventurarem em criar usando as qualidades e parâmetros sonoros da música? Arrisquem-se e inventem.

DICA Para navegar Para saber mais sobre a vida e a obra do músico e compositor Paulo Tatit, visite o site: <http://tub.im/bv2p8g> (acesso em: 19 abr. 2016).

Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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FIQUE DE OLHO:

Enem e vestibulares 1. (Enem-MEC) Resposta: d A característica que diferencia o som da mesma nota tocada por uma flauta e por um piano é o formato da onda, chamado de timbre do som.

Ao ouvir uma flauta e um piano emitindo a mesma nota musical, consegue-se diferenciar esses instrumentos um do outro. Essa diferenciação se deve principalmente ao(à) a) intensidade sonora do som de cada instrumento musical. b) potência sonora do som emitido pelos diferentes instrumentos musicais. c) diferente velocidade de propagação do som emitido por cada instrumento musical. d) timbre do som, que faz com que os formatos das ondas de cada instrumento sejam diferentes. e) altura do som, que possui diferentes frequências para diferentes instrumentos musicais.

Associação Cultural O Mundo de Lygia Clark

2. (Enem-MEC)

Lygia Clark, Bicho de Bolso. 1956. Ref.20361. Fotógrafo desconhecido.

O objeto escultórico produzido por Lygia Clark, representante do Neoconcretismo, exemplifica o início de uma vertente importante na arte contemporânea, que amplia as funções da arte. Tendo como referência a obra Bicho de bolso, identifica-se essa vertente pelo(a) Resposta: a A fotografia nos revela que a obra é feita para ser manuseada, tocada e “modificada” pelo espectador. Há uma participação efetiva do público.

a) participação efetiva do espectador na obra, o que determina a proximidade entre arte e vida. b) percepção do uso de objetos cotidianos para a confecção da obra de arte, aproximando arte e realidade. c) reconhecimento do uso de técnicas artesanais na arte, o que determina a consolidação de valores culturais. d) reflexão sobre a captação artística de imagens com meios óticos, revelando o desenvolvimento de uma linguagem própria. e) entendimento sobre o uso de métodos de produção em série para a confecção da obra de arte, o que atualiza as linguagens artísticas.

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Olavo Bilac. Gazeta de Notícias. 13/1/1901

3. (Uerj-RJ)

O cinema se popularizou no Brasil depois de esta crônica ter sido escrita. Nela, porém, o autor já antecipa o advento do novo meio de comunicação. Um trecho que comprova tal afirmativa é: a) E ainda a ciência humana há de achar o meio de simplificar e apressar a vida (l. 10-11) b) toda a explicação vem da gravura, que conta conflitos e mortes, (l. 14-15) c) nada impede que seja anexado ao animatógrafo um gramofone de voz tonitruosa, (l. 21) d) a máquina fotográfica funciona sempre sob a égide da soberana Verdade, (l. 25-26)

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Resposta: c O escritor antecipa o advento do cinema ao sugerir que seria possível combinar sons e vozes (gramofone) a um aparelho que projetasse imagens animadas (animatógrafo), de forma que a sequência de imagens fosse narrada.

Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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E X P E D I Ç Ã O C U LT U R A L Que tal fazermos um passeio pela escola ou por algum ambiente externo? Pensem qual seria o lugar mais interessante próximo de vocês e decidam. Nesse lugar, observem como são as linhas, as cores, as formas, os elementos sonoros (como altura, timbre, intensidade, duração...). Registre em seu diário de bordo tudo o que você descobrir sobre os elementos de linguagem. Combine com os colegas e vá a espetáculos de dança, teatro ópera e música e também visite exposições. Preste atenção em como os artistas usam os elementos de linguagem que você estudou neste capítulo e de que forma esses artistas criam com os elementos que escolheram. Percebam, ainda, os gestos que usamos para nos comunicar e que também fazem parte das expressões em artes cênicas, na expressão poética do corpo. Que elementos estão presentes em uma ópera? E em um show ou espetáculo de dança? Observe a imagem abaixo de uma cena de uma ópera encenada no teatro Amazonas, em Manaus. Bernardo Gutiérrez/Folhapress

Espetáculo de ópera apresentado no teatro Amazonas, em Manaus. Foto de 2008.

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DIÁRIO DE BORDO Vimos que os elementos em cada linguagem estão sempre a serviço da mente criadora do artista. Cabe ao artista descobrir suas intenções poéticas e dar rumos a esses elementos. Trata-se da licença poética de cada um. Ao articular esses elementos básicos, podemos construir formas simétricas ou assimétricas, bidimensionais ou tridimensionais, dar movimento e profundidade às imagens, criar texturas, estabelecer escalas de tamanho, proporção, direção, constituir tonalidades, utilizar cores puras ou misturar matizes cromáticos para conseguir efeitos de contraste ou harmonia, configurar luzes e sombras, entre outras possibilidades. Na linguagem da música podemos usar o silêncio, o tempo, a intensidade, os timbres e muitas outras formas de organizar os sons ou explorar sons que estão ao nosso redor. Nas artes cênicas, podemos usar nosso corpo explorando os gestos e a voz, trabalhando com o espaço, o tempo, a força. Ao articular os elementos de linguagens, podemos figurar, abstrair e transmitir temas e assuntos, ou ainda causar sensações naquele que aprecia a obra artística. Observe que toda essa articulação de elementos de linguagem deve estar atrelada a um jeito singular de criação de cada artista, sua poética pessoal. Você também pode conhecer e realizar experiências artísticas explorando a forma e o conteúdo na arte. Neste capítulo, conversamos sobre a forma e o conteúdo na arte. Pense sobre essas questões. O que você aprendeu sobre os elementos de linguagem em cada área expressiva? O que mais chamou sua atenção? O que você mais gostou de fazer nos projetos de experimentação artística? Gostaria de aprofundar seus estudos em uma linguagem da arte? Qual?

Alessandro Bianchi/Reuters/Latinstock

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Capítulo 5 • A arte em sua forma, a forma em seu conteúdo

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CAPÍTULO

6

BAGAGEM CULTURAL

“[...] Sou pássaro no pé do vento Que vai voando a esmo em plena primavera Cantando eu vivo em movimento E sem ser mais do mesmo Ainda sou quem era. [...]” GADÚ, Maria; KRIEGER, Edu. No pé do vento. Intérprete: Maria Gadú. In: GADÚ Maria, Mais uma página. Rio de Janeiro: Som Livre, 2012. CD. Faixa 1. Disponível em: <http://letras.mus.br/maria-gadu/1997764>. Acesso em: 5 fev. 2016.

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PARA ESTUDAR • Tudo o que me compõe • Música popular brasileira e gerações de ouvintes • Tem gente que guarda cada coisa! • O patrimônio nosso de cada dia

Geoffrey Farmer. 2012. Life Magazine (1935-1985), grama alta, madeira, colagem de dimensões variáveis. Foto: Rita Demarchi

Pessoas observam a obra Leaves of grass (Folhas de grama), de Geoffrey Farmer, 2012, feita com recorte de edições da revista Life de 1935 a 1985, hastes de madeira de alturas variadas, grama alta e cola. Com aproximadamente 18 m de comprimento, esteve exposta no festival de arte Documenta 13, em Kassel, Alemanha.

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Capítulo 6 • Bagagem cultural

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TEMA

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TUDO O QUE ME COMPÕE

Professor, no final deste Tema 1, o Projeto experimental – Essa imagem é a minha cara! – propõe duas atividades para estimular e desenvolver a linguagem da fotografia. Na primeira, inspirados pela máscara feita por Arnold Newman e fotografada por Abe Frajndlich, oriente os alunos a fazer sua própria máscara com o material e da forma que escolherem. Na segunda, estimule-os a pensar em cenários, focos de luz, enquadramentos e outros detalhes na construção dessa linguagem para a criação da fotografia da “celebridade-amiga” de cada um.

Cantando eu vivo em movimento E sem ser mais do mesmo ainda sou quem era.

GADÚ, Maria; KRIEGER, Edu. No pé do vento. Intérprete: Maria Gadú. In: GADÚ, Maria. Mais uma página. Rio de Janeiro: Som Livre, 2012. CD. Faixa 1. Disponível em: <http://letras.mus.br/maria-gadu/1997764>. Acesso em: 5 fev. 2016.

Professor, na abertura de cada capítulo e temas de nosso livro, escolhemos trechos de obras literárias e letras de música que funcionam como nutrição estética e deflagradores de reflexão sobre o que vem a seguir nos textos presentes nas diferentes seções. É importante que você trabalhe esses textos junto aos alunos, conversando sobre suas primeiras percepções e interpretações, pois estes também têm função didática e poética. Sugira-lhes que ouçam as músicas e leiam os textos na íntegra para ampliar saberes e repertório cultural por meio de pesquisas.

Geoffrey Farmer. 2012. Life Magazine (1935-1985), grama alta, madeira, colagem de dimensões variáveis. Foto: Rita Demarchi

São situações, vivências e visões que nos pertencem, que constroem histórias e identidades. Isso acontece, talvez, como diz a música de Maria Gadú (1986-), porque vivemos em movimento, no pé do vento, em culturas em fluxos. Entre aquilo que consumimos e apreciamos e aquilo que expressamos e descartamos, vamos construindo nossa bagagem, que nos permite fazer mil viagens, mesmo que sejam imaginárias.

Detalhe de outro ângulo de Leaves of grass (Folhas de grama), de Geoffrey Farmer.

Quantas imagens você já viu até hoje? Quantas músicas já ouviu? Ver, ouvir, sentir são situações que acontecem a cada instante. Encontramos muitas coisas em nossos caminhos... objetos, cenas, sons... Tropeçamos em linguagens artísticas, em pessoas com as quais conversamos ou que falam frases soltas, em livros, músicas, imagens em cartazes, em outdoors, na TV, no celular, na internet... Vamos vivendo o dia a dia, e na maioria das vezes não nos damos conta de que são essas coisas que compõem nossa bagagem cultural, nosso repertório, nosso patrimônio cultural. Além da cultura visual, também estamos mergulhados em um mundo sonoro. Podemos, por exemplo, selecionar músicas, fazer playlists e compartilhar com amigos em sites de relacionamento. Essa seleção de músicas mostra nossas escolhas, do que gostamos e, dessa forma, apresenta quem somos. Ao compartilhá-las, expomos não apenas as músicas, mas também um pouco de nós a outras pessoas. É comum também as pessoas colocarem seleções de imagens em redes de relacionamento. São fotos com amigos, familiares, namorados, lugares em que estiveram, lugares em que gostariam de estar, frases, momentos que marcam a história de cada um. Tudo isso é acervo pessoal, que se torna público quando exposto. O artista canadense Geoffrey Farmer (1967-) pesquisou imagens que marcaram épocas e gerações, parte do repertório cultural de muita gente que leu a revista estadunidense Life entre os anos de 1935 e 1985. Essa revista foi uma das mais lidas do mundo (sua última edição foi em 2000). Apresentava a vida de celebridades e fatos que marcaram a história. O artista recortou milhares de imagens dessa revista e as colocou em estruturas de madeira, criando uma colagem de imagens em composição tridimensional que podemos observar na obra Leaves of grass, apresentada acima.

Playlist: termo inglês que

significa lista de músicas, sons ou vídeos em meio eletrônico, podendo ser virtual, e que pode ser apreciada por quem a criou ou por outras pessoas em vários momentos e lugares remotos. É uma espécie de acervo, coleção de som e imagem.

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Geoffrey Farmer se apropria de imagens do cotidiano, como recortes de revistas, e cria arranjos colando pedaços de imagens em outras, o que faz surgir composições inusitadas. As imagens, bidimensionais na linguagem da fotografia, da pintura ou do desenho, tornam-se tridimensionais nas instalações e esculturas de papel que esse artista inventa. Ele também usa objetos, tecidos, jogos de luzes e projeção de imagens para fazer outras instalações. Sua arte tem sido mostrada mundo afora, como na exposição Documenta, que acontece a cada cinco anos, na cidade alemã de Kassel, e é considerada uma das mais importantes exposições de arte do mundo. Essa exposição dura cem dias e mostra obras de artistas contemporâneos de todo o mundo. Imagens da obra do artista Geoffrey Farmer foram registradas na exposição Documenta 13, de 2012, pela fotógrafa paulista Rita Demarchi (1969-).

Wolfgang Stahr/Laif/Glow Images

Palavra do artista

Geoffrey Farmer. 2012. Life Magazine (1935-1985), grama alta, madeira, colagem de dimensões variáveis. Foto: Rita Demarchi

A arte de Geoffrey Farmer

Mais um detalhe de Leaves of grass (Folhas de grama), de Geoffrey Farmer, 2012.

“Em Kassel, o trabalho é exibido no segundo andar da Neue Galerie, que é um longo corredor, escultural, com enormes janelas arqueadas com vista para o parque. A visão trouxe à mente a miniaturização do mundo. Eu já estava pensando em como a fotografia tem uma tendência a fazer escultura, e gostei disto [...].”

Geoffrey Farmer diante de sua obra na Documenta 13. Foto de 2012.

Geoffrey Farmer FARMER, Geoffrey apud HEATHER, Rosemary. Geoffrey Farmer discusses his big Documenta hit. Canadian Art, 30 ago. 2012. Disponível em: <http://canadianart.ca/features/geoffrey-farmer-reveals-processbehind-documenta-13-hit/>. Acesso em: 17 fev. 2016.

Vidas privadas e públicas Antes da internet, outras mídias eram canais importantes para compartilhar notícias sobre a vida pública ou privada das pessoas. As revistas foram e ainda são importantes mídias de informação, mas no passado elas tinham um valor ainda maior, porque eram um meio para saber das notícias mais recentes sobre as celebridades. O pintor estadunidense Jackson Pollock com uma de suas obras em fotografia publicada na revista Life, em 1949.

Arnold Newman/Getty Images

O pintor estadunidense Jackson Pollock (1912-1956) teve uma reportagem sobre sua vida publicada na revista Life em 1949. Esse artista se tornou uma celebridade da arte nos Estados Unidos na metade do século XX. A revista mostra o artista trabalhando em seu estúdio, em Long Island (EUA), em meio a suas telas de estilo expressionista abstrato, seguindo a tendência da action painting, ou pintura gestual estadunidense (falaremos sobre essas linguagens logo adiante).

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Geoffrey Farmer. 2012. Life Magazine (1935-1985), grama alta, madeira, colagem de dimensões variáveis. Foto: Rita Demarchi

A fotografia de Jackson Pollock publicada nessa edição da Life faz parte da obra de Geoffrey Farmer, que recebeu o título de Leaves of grass (Folhas de grama), e foi exposta no Documenta 13, realizado na cidade de Kassel, Alemanha, em 2012. Trata-se de uma obra contemporânea que apresenta imagens de outras épocas. Apresenta vidas que eram privadas, particulares, mas se tornaram públicas e passaram a fazer parte do acervo de memória de pessoas que consumiram esse tipo de mídia, as revistas.

A partir do século XX, a fotografia tornou-se um modo importante de registro de imagens, inclusive para fotografar outras linguagens, como pintura, desenho, escultura, arquitetura. Os fotógrafos são profissionais responsáveis pela captura de imagens que podem ficar gravadas em nossa memória, passando a fazer parte de nosso acervo visual.

Detalhe de Leaves of grass (Folhas de grama), de Geoffrey Farmer, 2012.

Martha Holmes/Time Life Pictures/Getty Images

Fotógrafos que trabalharam para a revista Life, como Martha Holmes (1923-2006) e Arnold Abner Newman (1918-2006), estiveram com Jackson Pollock, polê­­mico artista estadunidense. A imagem mostra um desses encontros entre a fotógrafa e o universo da pintura. O artista é visto mergulhado em ação, ao pintar, com seus gestos compondo uma imagem abstrata.

Abstracionismo e outros “ismos” A forma, tão importante nas artes visuais em outros tempos, foi sendo desconstruída até ser totalmente abstraída nas várias vertentes do movimento conhecido como Abstracionismo. A arte abstrata surgiu no início do século XX e passou a ser um movimento tão extenso que precisou ganhar sentidos particulares, desmembrando-se em outros “ismos”: Expressionismo abstrato, Suprematismo, Construtivismo, Neoplasticismo, Espacialismo, Minimalismo abstrato, entre outros. Nas imagens abstratas, os elementos de linguagem se bastam, e não vemos figuras que representam “coisas reconhecíveis” na natureza (como paisagens ou seres vivos) ou na cultura (como os objetos). Abstracionismo: uma tendência de arte desprendida da imitação do mundo, ou seja, da figuração. Historicamente, está ligada às vanguardas europeias do início do século XX. Esta corrente estilística desencadeou várias ramificações, como o abstracionismo geométrico e o expressionismo abstrato, entre outras.

Pintor Jackson Pollock trabalhando em seu estúdio, fotografado por Martha Holmes para a revista Life, em 1949.

Expressionismo abstrato: uma das tendências do expressionismo, movimento que nasceu no início do século XX. Em meio a conflitos e guerras, os artistas refletem a respeito das condições sociais da existência. Na pintura do movimento expressionismo abstrato, vemos uma arte emocional e dinâmica, em que ficam registrados as marcas de pincéis ou os movimentos feitos pelo artista ao jogar a tinta na tela. São os registros da energia do gesto colocada no momento da criação da pintura.

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Após a ruptura com a representação de imagens como imitação do mundo que sempre marcou as artes visuais, vemos nascer nesse movimento imagens que se concretizam pela exploração de elementos como linhas, formas, cores, planos e pontos. Pollock criava pinturas classificadas no estilo expressionismo abstrato, uma das ramificações do Abstracionismo, movimento que se desenvolveu de diferentes modos pelo mundo. Nos Estados Unidos, esse estilo teve grande adesão de artistas que faziam uma arte gestual, pintura de ação conhecida como action painting. Nesse estilo, o processo de criar na linguagem da pintura era também uma performance Action painting: termo inglês que significa artística, em que a pintura torna-se registro do gesto dos artistas. Na imapintura de ação. Está ligado ao movimento de arte informal que defende a gestualidade e gem de Pollock, apresentada na página anterior, podemos ver a energia do a improvisação no ato de criação da pintura. gesto da ação do artista ao olhar manchas formadas pelas tintas lançadas Expressa a personalidade e o sentimento de liberdade do artista, ato cinestésico que sobre a tela e relevos que ele conseguia jogando diversos materiais, como estabelece o trabalho simultâneo entre corpo e areia. Gestos que mostram a personalidade desse artista conhecido tammente. Um dos adeptos desse tipo de produção bém por seu temperamento inquieto. foi Jackson Pollock.

A arte de Jackson Pollock Pollock criou imagens na linguagem da pintura que, em sua época, desafiavam os olhos mais conservadores, mas que também fascinavam o público que gostava de conhecer novas propostas em arte. Essa maneira de fazer arte dividiu a opinião do público nos Estados Unidos. Na reportagem citada na revista Life de 8 de agosto de 1949, há um tom de ironia que coloca a pergunta: “É este o maior pintor vivo nos Estados Unidos?”.

Palavra do artista “Eu não pinto a natureza, eu sou a natureza.” Jackson Pollock POLLOCK, Jackson. Apud Ars, São Paulo: ECA-USP, p. 13, 2003. Disponível em: <https:// pt.wikiquote.org/wiki/Jackson_Pollock>. Acesso em: 17 fev. 2016.

DICA Para navegar Um vídeo mostrando a performance de Jackson Pollock ao pintar, fazendo sua arte em action painting, chegou a ser exibido para uma plateia no Museu de Arte de Nova York, em 1951. São exemplos das linguagens da pintura e da performance registradas em vídeo. Você pode ver esse vídeo na internet, acessando: <http://tub.im/yii6wr> (acesso em: 26 fev. 2016).

Giro de ideias: Imagens marcantes Na obra do artista Geoffrey Farmer aparecem imagens que marcam gerações. Você já parou para pensar que imagens marcaram sua infância e adolescência? Quais imagens são importantes para você e seus colegas hoje? Para ampliar nossos estudos sobre acervos e repertórios visuais, que tal fazermos um fórum de imagens? Pode ser presencial (na sala de aula), entre você, os colegas e o professor, ou em algum ambiente virtual a escolher. Selecione uma imagem que marcou sua história. Pode ser uma imagem de seu passado ou algo mais recente. Mostre essa imagem para a turma e faça um breve comentário sobre a razão de a imagem ser importante para você. Com base nessa conversa, você e toda a turma são convidados a apreciar as imagens apresentadas. Escreva, a seguir, as principais impressões comentadas no fórum de imagens. Professor, peça aos alunos que tragam fotos de ídolos e artistas de que gostam, de pessoas da família, imagens de fatos importantes ou objetos que os representem para realizar esse trabalho. As imagens podem ser colocadas no centro da sala ou projetadas para discutir sobre a importância dessas imagens na vida dos alunos. A proposta é explorar o conceito da cultura visual. Para saber mais sobre o assunto, veja comentários em Diálogo com o professor.

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Arte e História LatinContent/Getty Images

Conexões

Exemplo de fotojornalismo esportivo: equipe brasileira de nado sincronizado em apresentação nos jogos Pan Americanos de Guadalajara, em 2011.

Fotojornalismo Fotojornalismo é um gênero de jornalismo que privilegia a fotografia como elemento informativo das notícias. É também o trabalho desempenhado pelo fotojornalista ou repórter fotográfico, jornalista responsável pelo registro fotográfico de quaisquer fatos ou assuntos de interesse jornalístico. A fotografia jornalística pode mostrar, revelar, expor, denunciar, opinar, informar e reforçar a credibilidade da informação textual. Desse modo, pode ser usada em vários suportes, desde os jornais e revistas, impressos e virtuais, até em exposições, livros e boletins empresariais, além de sites e blogues. Temos, então, conforme o teor do assunto a ser abordado, vários temas fotojornalísticos, como: fotojornalismo social, cultural, esportivo, policial, de guerra. Todos esses tópicos, no âmbito geral, constituem a fotografia jornalística como um documento histórico. O domínio das linguagens, técnicas e equipamentos fotojornalísticos é muito importante para qualquer profissional da comunicação. A fotografia digital e os progressos nas telecomunicações e na informática trouxeram ao fotojornalismo grandes potencialidades para a informação, como a velocidade, a maleabilidade e a utilização da fotografia em diferentes meios e contextos. Além de informar, o fotojornalismo leva milhões de pessoas a exposições e fornece ao mundo fotolivros de qualidade, beleza, interesse e potencial informativo, por meio da força atrativa das imagens desenvolvida pela aplicação da linguagem das artes visuais. Você se lembra de algum fato ou notícia que ficou marcado pela fotografia que a acompanhava? Pesquise em jornais, revistas e na internet assuntos que foram registrados e eternizados pelas lentes de profissionais da comunicação e apresente para a turma a fotografia que você considerou mais marcante.

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Projeto experimental Essa imagem é a minha cara! Photograph © Abe Frajndlich 2013

O fotógrafo estadunidense Arnold Newman (1918-2006) fez muitos registros de imagens de políticos e personalidades artísticas. Algumas dessas imagens compõem a fotografia feita em 1988 por Abe Frajndlich (1946-), que retratou Arnold Newman com uma máscara de papel em que foram coladas várias das fotografias feitas por ele. Do mesmo modo, as fotografias que tiramos ou gostamos de olhar também contam um pouco sobre nós. Admiramos pessoas, ideias, e somos inspirados por elas. Com base em pesquisas em revistas e jornais, selecione de dez a vinte imagens com as quais você tenha algum tipo de identificação. Escolha um suporte, pode ser uma caixa de papelão, um saco de papel ou outro que possa servir como um tipo de máscara. Crie uma composição com essas imagens, colando-as sobre o suporte. Deixe espaço para os Arnold Newman, fotografado por Abe Frajndlich, no livro Penelope’s hungry eyes – Portraits of photographers (Olhos olhos e para você respirar. famintos de Penélope – retratos de fotógrafos) (Nova York: Cada um fará a sua própria máscara Schirmer/Mosel, 1988). de imagens com as referências que fazem parte da sua vida e que, assim, são a sua “cara”. Que tal fazer uma foto da turma com as máscaras? Será divertido!

Uma celebridade em minha vida! Atualmente, algumas celebridades acabam por se tornar amigas dos fotógrafos de eventos. Pensando nisso, outra proposta de projeto artístico é fazer uma fotografia de alguém que é uma celebridade na sua vida, um amigo, por exemplo, um membro da família, um professor. Planeje como essa foto será feita: pense na luz, no fundo (cenário), na pose ou atitude em que a “celebridade” (a pessoa que você escolheu) está, alguma ação que indique sua profissão ou algo que gosta de fazer, como nas fotos que retratam o artista Jackson Pollock envolvido em seu trabalho ou posando em frente a suas obras. Reflita por que escolheu essa pessoa e como pretende fazer a fotografia retratando sua “celebridade”.

DICA Para navegar Conheça os retratos criativos que o fotógrafo alemão Abe Frajndlich (1946-) cria e publica em livros, revistas, sites e outras mídias e espaços de exposição pelo mundo. Nos últimos trinta anos, ele tem se dedicado a retratar os fotógrafos mais famosos do mundo, misturando linguagens e materiais. Há várias imagens disponíveis em: <http://tub.im/f6hf5j> (acesso em: 26 fev. 2016). Pode ser até que você já tenha visto algumas de suas imagens por aí.

Professor, é importante que os alunos reflitam sobre a produção de uma fotografia. No dia a dia, é comum eles fazerem fotos dos amigos e familiares com seus celulares e câmeras digitais, porém a linguagem da fotografia também exige planejamento e técnica para se obter um registro com mais qualidade e, inclusive, teor artístico. Traga para a sala de aula mais informações sobre essa linguagem e peça aos alunos que escrevam um miniprojeto em que comentem como pretendem fazer suas fotografias.

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TEMA

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MÚSICA POPULAR BRASILEIRA E GERAÇÕES DE OUVINTES

Professor, no final deste Tema 2, o Projeto experimental – Criando um novo som – propõe trabalhar com os alunos a apreciação e escuta musical de alguns clássicos do movimento tropicalista e que, com base nessas audições e em pesquisas, eles pratiquem a criação de sons e criem um jogo musical, para que conheçam um pouco da história da música popular brasileira e compreendam questões Disco de vinil: mídia criada estéticas e estilísticas sobre essa linguagem.

RUSSO, Renato. Tempo perdido. In: Legião Urbana. Dois. Rio de Janeiro: EMI Music, 1986. Faixa 6. Disponível em:<http://www.legiaourbana.com.br/discografia>. Acesso em: 18 fev. 2016.

Como vivemos nosso tempo e construímos memórias? Que músicas gostamos de ouvir? Na música Tempo perdido, da banda brasileira Legião Urbana, a letra de Renato Russo (1960-1996) expressa percepções sobre o tempo. Como percebemos o tempo passar? Como nos relacionamos com as pessoas, as coisas, as linguagens artísticas? O que guardamos de nossa história? Outra música que também fala sobre o tempo foi composta e gravada em 1982 por Lulu Santos (1953-). Trata-se da música Tempos modernos, divulgada no álbum do mesmo nome, ainda no tempo do disco de vinil. Essa música já foi regravada por vários artistas. Uma das mais recentes releituras dessa obra é de 2013, do grupo Jota Quest. Talvez você já tenha ouvido nas rádios, na televisão ou na internet. Capa do Disco Tempos modernos. Lulu Santos. 1982

na década de 1940 com a finalidade de reproduzir músicas e outros tipos de material em áudio. Feito de matéria plástica, necessita de um aparelho com agulha especial para fazer vibrar os sons e reproduzir a música, chamado de vitrola ou toca-discos e, atualmente, de pickup. Foi amplamente consumido até os anos de 1990, no formato de LP (long-plays, com cerca de 5 a 7 músicas em cada lado – lado A, lado B) e na versão compacto (simples, com uma música de cada lado, ou duplo, com duas músicas de cada lado). Essa época trouxe outras tecnologias de gravação e reprodução de músicas e sons, como os CDs e o MP3. Atualmente, essa mídia tem sido revisitada por DJs e colecionadores, fãs do “vinil”.

Todos os dias quando acordo, Não tenho mais o tempo que passou Professor, é muito importante que os alunos Mas tenho muito tempo: ouçam as músicas apresentadas neste tema e as letras na íntegra para ampliar saberes e Temos todo o tempo do mundo. leiam repertório cultural. [...]

A música Tempos modernos, de Lulu Santos, foi um enorme sucesso na década de 1980, época em que explodiam no Brasil vários grupos de rock. Esse gênero já era conhecido desde os anos 1950, mas a Geração 80 (que engloba toda a década de 1980) buscava um rock nacional, contemporâneo, em que se pudesse usar tudo que essa época oferecia de tecnologia e ideias novas na arte.

[...] Vamos viver tudo o que há pra viver Vamos nos permitir SANTOS, Lulu. Tempos modernos. In: . Tempos modernos. Rio de Janeiro: WEA, 1982. LP. Faixa 1. Disponível em: <http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/lulu-santos/ tempos-modernos/954696>. Acesso em: 18 fev. 2016.

Capa do disco Tempos modernos, de Lulu Santos, lançado em 1982.

Patrimônios culturais se constroem no tempo; assim formamos nossa bagagem cultural, nossa história no decorrer do tempo. Algumas músicas ficam no passado, fazem parte da história, outras são revisitadas em adaptações e regravações. As obras artísticas de diferentes linguagens podem transitar do passado ao presente, vestindo novas roupagens, recebendo novos contextos e tecnologias. Podemos assistir a videoclipes e baixar músicas pela internet. As tecnologias de informação nos aproximaram ainda mais da linguagem da música, com obras criadas hoje ou que marcaram gerações passadas.  eração 80: Movimento de jovens artistas que tiveram a intenção de inovar e questionar sobre os acontecimentos do mundo e G da cultura por meio de criação artística em várias linguagens, principalmente na música, com grande repercussão nos estilos do pop e, principalmente, do rock brasileiros. O Brasil atravessava um momento de transição entre a ditadura militar (1964-1985) e a democracia (1985-), e os grupos de jovens artistas se uniram para criar e discutir sobre arte. Eventos artísticos e culturais aconteceram em todo o país. No Rio de Janeiro, por exemplo, em 1984, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, aconteceu a exposição Como vai você, Geração 80?

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Antes da época da Geração 80, o movimento do Tropicalismo tinha aberto terreno para uma concepção de arte brasileira inovadora na música. O Tropicalismo, surgido no final da década de 1960 com as apresentações de Caetano Veloso (1942-) e Gilberto Gil (1942-) no Festival de Música Popular realizado em 1967, pela TV Record, buscava mesclar inovações estéticas que ocorriam em outros países com elementos da cultura brasileira. Nos anos do período do militarismo, surge no Brasil a arte de protesto, que se manifesta em várias linguagens artísticas, como na música, nas artes visuais e no teatro. Outro movimento de música popular brasileira, a Bossa Nova, agitou o mundo da música entre as décadas de 1950 e 1960. Esse estilo musical se desenvolveu no Rio de Janeiro, tendo como características marcantes a “batida” do violão introduzida por João Gilberto e seu jeito de cantar à meia voz. Por meio da Bossa Nova, músicos e compositores como Tom Jobim (1927-1994), Vinicius de Moraes (1913-1980), João Gilberto (1931-), Carlos Lyra (1939-), Roberto Menescal (1937-), Johny Alf (1929-2010), entre outros, inventaram um ritmo e um modo diferentes de harmonizar as canções na música brasileira, que influenciou também o estilo de cantar das gerações seguintes. A Bossa Nova misturou ritmos como o jazz e o samba e ganhou o mundo no embalo de Garota de Ipanema, música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, entre tantos outros sucessos.

Tropicalismo (movimento tropicalista): manifestação artística da década de 1960 que se revelou em várias linguagens da arte, como no teatro, na poesia, nas artes plásticas, no cinema e, principalmente, na música. Na linguagem musical, artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Torquato Neto, Jorge Mautner, Rogério Duprat, entre outros, misturam ritmos brasileiros, africanos, pop e rock and roll e outros sons, inclusive música clássica, criando composições que mesclam contextos culturais, marcando a história da arte brasileira e influenciando comportamentos.

Olha que coisa mais linda Mais cheia de graça [...] MORAES, Vinicius de; JOBIM, Tom. Garota de Ipanema, 1962. Disponível em: <http:// www.viniciusdemoraes.com.br/site/article.php3?id_article=947>. Acesso em: 18 fev. 2016.

Tom e Vinicius também olharam para a vida nos morros do Rio de Janeiro, além de cantar a beleza da mulher e das praias brasileiras. A música O morro não tem vez fez muito sucesso primeiramente na voz da cantora Elis Regina (1945-1982).

O morro não tem vez E o que ele fez já foi demais [...] MORAES, Vinicius de; JOBIM, Tom. O morro não tem vez, 1962. Disponível em: <http://www.viniciusdemoraes.com.br/site/article.php3?id_article=1154>. Acesso em: 18 fev. 2016.

Outras vozes cantaram músicas sobre o morro, as favelas e sobre o samba. Vários sambistas ficaram conhecidos por cantar as belezas e dificuldades de morar nas favelas do Rio de Janeiro. Um deles foi Cartola (1908-1980), que viveu no morro da Mangueira e foi um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. O samba é um gênero que se apresenta em várias formas: samba de enredo (samba-enredo), samba-canção, samba de breque, samba-rock, entre outros. A música Pelo telefone, composta pelo carioca Donga (1889-1974) em parceria com Mauro de Almeida (1882-1956), em 1916, é considerada o primeiro samba a ser gravado no Brasil, em 1917. Essa música aparece gravada em várias versões ao longo da história da música brasileira. Décadas depois, Gilberto Gil faria a música Pela internet, que tem como referência o clássico e cita um trecho da letra, fazendo uma contextualização entre essas tecnologias e as mudanças que as envolvem, exemplificadas nos comportamentos e hábitos das épocas em que foram compostas. Veja a comparação a seguir.

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Música de Donga:

O chefe da polícia pelo telefone mandou me avisar que na Carioca tem uma roleta para se jogar [...]. DONGA; ALMEIDA, Mauro de. Pelo telefone. In. MPB NAS ESCOLAS. Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cravo Albin, 2016. 1 CD. Faixa 1. Disponível em: <http://institutocravoalbin.com.br/mpb-nas-escolas/musicas/>. Acesso em: 18 fev. 2016.

Versão na música de Gil:

Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular Que lá na praça Onze tem um videopôquer para se jogar [...]. GIL, Gilberto. Pela internet 2009. Disponível em: <http://www.gilbertogil.com.br/sec_ musica.php?>. Acesso em: 18 fev. 2016.

Heitor Villa-Lobos (1887-1959), que participou da Semana de Arte Moderna de 1922, foi um dos mais importantes músicos e compositores do Brasil no que se refere ao estudo de ritmos, tanto brasileiros quanto de outros países. Ele uniu sons do chorinho (gênero popular da época) com a maneira de fazer música criada na época do Barroco europeu pelo músico alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), criando a composição Bachianas brasileiras, determinando um estilo pessoal de revisitar o passado da música trazendo coisas de seu tempo e de sua cultura.

DICA

Para assistir

Para navegar Vocês e seus amigos podem ouvir a música Tempo perdido e conhecer mais sobre a banda Legião Urbana, suas obras e sua trajetória navegando por este site: <http://tub. im/u8tjjz> (acesso em: 14 abr. 2016).

Assista ao filme Somos tão jovens, direção de Antônio Carlos da Fontoura. Brasil: Fox filmes, 2013. (104 min), que mostra a formação de várias bandas da Geração 80, principalmente da Legião Urbana, retratando a juventude do músico Renato Russo (1960-1996).

De tempos em tempos, a música se renova: Cartola e Cazuza Ai, esse bojo perfeito Que trago junto ao meu peito Só você, violão, compreende [...] CARTOLA. Cordas de aço, 1976. Disponível em: <http://www.cartola.org.br/letra/20_letra_cordas_de_aco.htm>. Acesso em: 18 fev. 2016.

Angenor de Oliveira era seu nome de batismo, mas ficou conhecido como Cartola (1908-1980), deixando sua marca na música popular brasileira como um artista que criou belas músicas, tanto na poesia de suas letras como nos acordes de seu violão. Menino pobre, nasceu e se criou ao som do violão, porque seu pai era músico. Entretanto, o pai de Cartola tinha outros planos para a vida profissional do filho, em vão, pois o som do violão já estava impregnado e esse artista humilde cantou a vida de seus iguais, pessoas moradoras de favelas ou áreas pobres da cidade, e que, ainda assim, não perdiam a capacidade de sonhar e poetizar. Suas músicas inspiraram e ainda movem gerações. Muitos músicos brasileiros regravam suas canções de tempos em tempos. Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza (1958-1990), dizia que sua música fazia parte de sua história. Viveu, quando menino, cercado de músicos que frequentavam sua casa, amigos de seus pais. Por meio do repertório dos pais, cresceu ouvindo música de todas as épocas. Ainda na adolescência, fazia versos

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Kenji Honda/AGE/Estadão Conteúdo

que depois se tornaram potências para suas canções. Participou de uma banda importante no cenário do rock nacional, criada nos anos 1980, o grupo Barão Vermelho. Depois, seguiu carreira solo de grande sucesso. Iniciou, com o Barão Vermelho, uma arte contestadora, que se desenvolveu principalmente durante a Geração 80 e que continuaria em outros discos. Ainda com o Barão Vermelho, esteve na primeira edição do festival de música Rock in Rio, em 1985. Um jovem que prestava atenção em tudo que estava sendo produzido na arte de seu tempo. Um poeta da música, apaixonado por outros poetas, como Cartola, de quem era admirador e regravou músicas. A obra de Cazuza também tem sido revisitada por músicos das novas gerações.

mal começastes a conhecer a vida Já anuncias a hora de partida Sem saber mesmo o rumo que irás tomar [...] CARTOLA. O mundo é um moinho, 1976. Disponível em: <http://www.cartola.org.br/letra/13_letra_o_mundo_e_um_moinho.htm>. Acesso em: 18 fev. 2016

Ricardo Leoni/Agência O Globo

Ainda é cedo, amor,

O músico Cartola durante apresentação no Zicartola, em 1975.

A Geração 80, por exemplo, o apresenta aos jovens da época pela voz do cantor e compositor Cazuza que regravou O mundo é um moinho. Coincidentemente, Cartola e Cazuza tinham quase o mesmo nome de batismo, Agenor (por um erro do cartório, Cartola ficou registrado como Angenor). Os dois são exemplos de artistas que, ao criar músicas, deixaram um acervo de obras que, por sua qualidade, são revisitadas. Obras musicais que são patrimônios culturais brasileiros. Cazuza, em apresentação do Barão Vermelho no primeiro Rock in Rio, em 1985.

DICA Para ouvir A arte de Cartola e outros mestres da música brasileira pode ser ouvida em suas próprias gravações e nas vozes de diversas gerações, entre elas, nas de criativas e talentosas cantoras. Nos sites a seguir, investigue e acrescente em sua playlist a arte de Cartola: <http://tub.im/ivj7xd>; Jesuton: <http://tub.im/sxoj9g>; Roberta Sá: <http://tub.im/6xjfu4>; Tereza Cristina: <http:// tub.im/irjicd>; Zélia Duncan: <http://tub.im/9wth7o>. Todos acessados em: 2 mar. 2016.

A arte de EMICIDA Vejo alvorada no morro, fazer pá quá da vitrola Como se eu tivesse dentro daquele samba do Cartola [...] É isso, (isso) assim mantenho meu compromisso Minha índole não se encarde, à tarde a rima vem disso As beleza me brinda com a inspiração dos antigo [...]

Professor, Emicida homenageia Cartola, comparando o amanhecer na periferia paulistana em que cresceu com a canção Alvorada, outra música de Cartola, que começa com o verso “Alvorada lá no morro” (referência às favelas do Rio de Janeiro). No último verso, fala da inspiração nos artistas antigos. Se possível, ouça a música Só isso inteira com os alunos, em que são citados outros compositores e cantores de gerações anteriores, como Zé Kéti, Paulinho da Viola, João Nogueira e Jackson do Pandeiro, mestres da música brasileira que inspiram a sua obra e a de vários outros artistas que fazem releituras e misturas de estilos de diversas épocas. Comente com os alunos que Emicida preserva na letra, propositalmente, a linguagem coloquial, com casos que seriam considerados erros de concordância na linguagem formal (“As beleza”, “dos antigo”), para ressaltar a proposta de representatividade do falar das pessoas da região no dia a dia.

EMICIDA. Só isso. Intérprete: Emicida. In: ______. Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe... São Paulo: Laboratório Fantasma, 2009. CD. Faixa 8. Disponível em: <http://www.vagalume.com.br/emicida/so-isso.html>. Acesso em: 2 mar. 2016. Capítulo 6 • Bagagem cultural

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O rapper paulistano Leandro Roque de Oliveira (1985-), artisticamente conhecido como Emicida, é mais um exemplo das novas gerações que revisitam e são influenciadas por grandes músicos do passado. Ouvir de tudo e perceber o mundo sonoro e musical a sua volta, criticar o preconceito e aprender com a sabedoria dos músicos brasileiros do passado e do presente: essas são as mensagens que ele nos traz em sua música Só isso. Esse rapper e produtor musical brasileiro tem como estilo principal a cultura do hip-hop. É, também, um pesquisador das manifestações musicais populares brasileiras e, inspirado nelas, cria letras que revisitam essas riquezas nacionais, como a arte de Cartola.

“[...] Eu nasci num bairro [...] bem pobrinho [...] quando cresci não tinha nada. Cresci ali, como eu falo na música, zombando da morte, andando no meio do fio da navalha. [...] Só que acho que o que salvou a minha vida foram duas coisas, o hip hop e a leitura [...]. A leitura começou a abrir um outro universo para mim. [...] Acho que quando você nasce num bairro violento, a pior coisa que aquele ambiente faz para você é destruir a sua humanidade. E isso é uma coisa que é incomensurável, não tem como você quantificar o quanto de compaixão aquela pessoa perdeu por estar em um ambiente muito agressivo.”

Joyce Cury/A Cidade/ Futura Press

Palavra do artista

Emicida CARNEIRO, Júlia Dias; MENDONÇA, Renata. ‘A pior coisa é você perguntar as horas e a pessoa esconder a bolsa’, diz Emicida sobre racismo no Brasil. BBC Brasil, 1o set. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150824_entrevista_emicida_jc_rm>. Acesso em: 2 mar. 2016.

Emicida, durante show, usando a camiseta “Hip-hop salvou minha vida”. Foto de 2012.

Ofício da arte DJ O DJ (abreviação de disc jockey) trabalha com materiais musicais previamente gravados, atuando em diversos eventos e locais como festas, shows, lançamentos de produtos, desfiles de moda, danceterias, bares, entre outros, utilizando vinis, CDs, laptops, softwares. O DJ também pode criar suas próprias músicas, trabalhar com releituras ou remixes, produzindo um caminho criativo para suas apresentações. A atividade de DJ teve início nas rádios, com o uso do vinil, e passou para festas, bailes e pistas de danceterias. Nas últimas décadas, surgiram vários equipamentos e softwares específicos para criação e edição de músicas e efeitos sonoros nesta área. Atualmente, muitos DJs seguem carreira com trabalhos personalizados, fazem temporadas de shows e participam de festivais de música eletrônica.

DICA Para ouvir Para ouvir um exemplo de versões contemporâneas de músicas de outros tempos, acesse o link: <http:// tub.im/9ki9cw> (acesso em: 2 mar. 2016) e aprecie a releitura da obra musical Sim, de Cartola e Oswaldo Martins, apresentada pelo rapper Emicida, que fez vários shows com releituras do repertório de Cartola.

Giro de ideias: O que é passado e presente? Vimos que, na música popular brasileira, a divisão temporal passado-presente é tênue, porque podemos ouvir músicas em arranjos e adaptações feitos atualmente, que nos soam como criações novas, mas que já foram consagradas em outros tempos. Você conhece alguma música antiga que foi regravada recentemente? Pesquise sobre regravações de músicas, grupos e cantores, gêneros musicais e outros detalhes. Apresente a música escolhida para a turma e comente sobre o resultado da sua pesquisa.

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Festivais de música Música brasileira – arte, protesto e festival A história da música brasileira é caracterizada pela presença de muitos festivais, organizados por emissoras de rádio, redes de televisão e movimentos de estudantes. Entre os anos de 1965 a 1985, diversas emissoras de televisão do Brasil produziram e transmitiram festivais nacionais de música popular brasileira (MPB). Nesse período também tivemos festivais regionais e alguns nacionais que não alcançaram grande repercussão, inclusive por falta de apoio da grande mídia. Esses festivais ajudaram a divulgar a música brasileira e a revelar e consolidar compositores, músicos e intérpretes como Caetano Veloso (1942-), Chico Buarque (1944-), Edu Lobo (1943-), Elis Regina (1945-1982), Gilberto Gil (1942-), Jair Rodrigues (1939-2014), Milton Nascimento (1942-), Nara Leão (1942-1989), Paulinho da Viola (1942-), Ivan Lins (1945-), Djavan (1949-), Oswaldo Montenegro (1956-), Eduardo Dusek (1958-), Leila Pinheiro (1960-), Tetê Espíndola (1954-) e muitos outros. Os festivais de música desse período tiveram grande contribuição para a expressão cultural brasileira, popularizaram a música e a sigla MPB, além de demonstrarem a diversidade de estilos em todo o Brasil. As pessoas formavam torcidas pelas músicas e intérpretes, como nos jogos esportivos. Os artistas também aproveitaram a visibilidade dos festivais como meio de protesto contra a ditadura militar (1964-1985). Entre algumas das mais conhecidas músicas diretamente relacionadas a essa perspectiva, chamadas popularmente de música de protesto, podemos citar Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, Roda viva, de Chico Buarque, É proibido proibir, de Caetano Veloso.

Ainda fazem da flor seu mais forte refrão E acreditam nas flores vencendo o canhão VANDRÉ, Geraldo. Pra não dizer que não falei das flores. In: ——. Pra não dizer que não falei das flores. São Paulo: RGE,1979.

Os versos da canção Pra não dizer que não falei das flores, de autoria do paraibano Geraldo Vandré (1935-), eram cantados por milhares de pessoas que torciam para que ela fosse vencedora do I Festival de Música Popular Brasileira (1968). A canção foi classificada em segundo lugar e marcou a história brasileira; sua letra foi cantada pela geração da época e pelas seguintes, que foram às ruas clamar por democracia na época das eleições diretas. A música de Vandré se tornou um hino contra a ditadura militar. A partir da década de 1960, também se estabeleceu na televisão brasileira a cultura de programas musicais, entre os quais o Jovem Guarda, apresentado por Roberto Carlos, Vanderleia e Erasmo Carlos, e o Fino da Bossa, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, que contribuíram para difundir novas perspectivas à música brasileira. Durante as décadas de 1970 a 1990, os programas serviram como uma vitrine dos artistas de destaque ou como documentários sobre a história da música no Brasil. A TV Cultura de São Paulo e a TV Educativa do Rio de Janeiro (atual TV Brasil) tiveram como destaque a produção de programas que documentaram a história da música brasileira, como o programa Ensaio, produzido desde 1990 até hoje, e programas que buscam mostrar a produção de novas pesquisas e propostas musicais no Brasil. A televisão tornou-se cada vez mais popular e a cultura audiovisual passou a ocupar um espaço considerável na vida das pessoas. A experiência coletiva de recepção de obras de arte (música, dança, teatro, pinturas) provoca experiências em massa e dá origem ao que chamamos de cultura de massa. Com a música no Brasil não foi diferente – a televisão, a partir da década de

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Cultura audiovisual: reconhecida nas formas de comunicação que combinam som e imagem, e os produtos criados com estes recursos ou para serem veiculados em mídias com estas características.  ultura de massa: C conjunto de ações, atitudes, experiências e escolhas feitas e vividas coletivamente.

Capítulo 6 • Bagagem cultural

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Professor, converse com os alunos sobre recepção artística e estética. Este é um tema de estudo da Arte-educação que procura compreender como os alunos se relacionam e interpretam os produtos artísticos do passado e presente em processo de mediação cultural. Proponha que os alunos reflitam sobre a dinâmica que há no jogo de interpretação que se dá no contato com obras de arte, individualmente e coletivamente, na atividade entre perceber/apreciar/ pensar/julgar entre outras possibilidades interpretativas. De cima para baixo, da esquerda para direita: RGE. 1966, Biscoito Fino. 2007/2009, Philips. 1972, Philips. 1966, Warner. 2002, RCA Victor. 1985

1960, tornou-se uma vitrine, os festivais televisionados e os programas de auditório colocaram milhares de pessoas em contato com a experiência de assistir a uma apresentação artística gravada em vídeo, ouvir a mesma música, apreciar imagens que mostravam a maneira de se vestir de uma cantora ou grupo de artistas... Essa experiência influenciou a moda, o comportamento da juventude da época e ajudou a lançar artistas e a consolidar suas carreiras. Também alavancou o mercado de venda de discos, na época de vinil. Assistimos pela telinha da televisão a formação de importantes movimentos artísticos na música popular brasileira como o Tropicalismo, com suas músicas que valorizavam a cultura afro-brasileira e os ritmos da Bahia na década de 1980; o rock da Geração 80 e os grupos que apareceram a partir da década de 1990 que são considerados a nova geração da música popular brasileira. Vale a pena você estudar e conhecer mais sobre quais foram os artistas que podem ter influenciado os músicos que você curte ouvir hoje. Nossa música popular brasileira é muita rica!

Muitos artistas, como Elis Regina, Chico Buarque, Milton Nascimento, entre outros, se consagraram nos Festivais e ficaram conhecidos como grandes nomes da MPB. Professor, uma atividade interessante é propor aos alunos que identifiquem os artistas e seus estilos musicais. Aproveite também o pôster para comentar sobre a arte da caricatura (veja informações sobre caricatura nos links <http://tub.im/iv7exm> e <http://tub.im/ iwirp8>. Acessos em: 3 mar. 2016.

DICA Para navegar • No site do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira você encontra informações sobre a história da MPB, seus artistas e criações, assim como informações sobre todos os festivais realizados, as obras e artistas participantes, com comentários sobre os resultados e as polêmicas. Visite o endereço: <http://tub.im/6pymb2> (acesso em: 3 mar. 2016). • Veja pôsteres com artistas da música popular brasileira de várias épocas. Navegando pelo site: <http:// tub.im/umimix> (acesso em: 3 mar. 2016), ao clicar sobre a imagem de cada artista, além de saber seu nome, você pode pesquisar sobre sua história e suas obras.

Música em festivais mundo afora Nos Estados Unidos, em 1969, aconteceu o lendário festival de Woodstock (posteriormente transformado em disco e documentário), marco daquela geração e da contracultura. Reunindo mais de 500 000 pessoas em três dias, nele estiveram presentes alguns dos grandes artistas da época e outros que ficariam famosos após o festival, como The Who, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jefferson Airplane, Carlos Santana, Joan Baez, Joe Cocker, entre outros. Tudo isso em plena época de Guerra Fria contra a União Soviética e a crise sociopolítica dos EUA com a guerra contra o Vietnã. O Woodstock representou o ápice da contracultura e da contestação dos jovens. No ano de 1985, é criado no Brasil o Rock in Rio, até então o maior festival de música na América Latina tendo o rock como gênero principal. A primeira edição teve 10 dias de apresentações, com a presença de aproximadamente 1 300 000 pessoas. A partir de 2004, o evento passa a ter edições também em Lisboa (Portugal), Madri (Espanha) e Las Vegas (Estados Unidos).

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Rock in Rio. 1985

O Lollapalooza é um festival anual criado em 1991 nos Estados Unidos, que conta com artistas consagrados e revelações das várias vertentes do rock alternativo. Em 2010, teve início a versão do festival em outros países, começando no Chile. Em 2011, o evento chegou ao Brasil e à Argentina e, posteriormente, na Alemanha e na Colômbia. Outros festivais que aconteceram e, eventualmente, têm reedições são o Monsters of Rock, originado na Inglaterra em 1980 e voltado exclusivamente para o rock pesado (a sexta edição brasileira aconteceu em 2015), e o SWU Music & Arts Festival (a sigla é de Stars With You – Estrelas com você), evento que foi criado no Brasil, ligando a música à preocupação com a sustentabilidade e o meio ambiente, e reuniu artistas da música de todo o mundo em 2010 e 2011.

Cartaz da primeira edição do Rock in Rio, em 1985, com a lista dos artistas que se apresentaram no evento.

DICA Para assistir

Professor, no caso de músicas mais antigas, será interessante ampliar os estudos contextualizando-as com acontecimentos históricos e sociais referentes à época de sua composição.

• Uma noite em 67. Direção: Renato Terra e Ricardo Calil. Produção: João Moreira Salles. Rio de Janeiro: Videofilmes, 2010. DVD. Documentário (93 min.). Documentário sobre o III Festival da Música Popular Brasileira (TV Record), em 1967. Entre os finalistas, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil com Os Mutantes, Roberto Carlos, Edu Lobo e Sérgio Ricardo. Registra momentos do tropicalismo, dos debates artísticos e políticos durante a ditadura e o destaque de nomes que se tornariam ícones da música brasileira. Há trechos disponíveis para visualização na internet. • Woodstock – 3 dias de paz, amor e música. Direção: Michael Wadleigh. Estados Unidos, 1994. DVD (225 min.). Registra o festival de Woodstock e suas principais apresentações. A primeira edição, lançada nos cinemas e em vídeo em 1970, tinha 184 min. Em reconhecimento ao significado cultural, histórico e estético do festival, a edição original do documentário foi incluída no Registro Nacional de Filmes da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Na internet há vários trechos disponíveis para visualização.

Giro de ideias: Trilhas sonoras Já ouvimos falar em trilhas sonoras de filmes, novelas, minisséries de TV, lemos sobre os festivais de música no Brasil e no mundo, mas será que podemos pensar em criar trilhas sonoras para nossa vida? Quais as músicas de que você mais gosta e colocaria em uma playlist? Converse com os colegas sobre as semelhanças e diferenças nas escolhas musicais de cada um, sobre a importância de respeitá-las como partes da história da vida das pessoas. Vamos criar um jogo com playlists de músicas.

• Primeiro, cada um vai escolher e gravar (no celular, por exemplo) cinco músicas que considera importantes por algum motivo e trazer para a aula.

• Escreva o nome de cada música e coloque em uma caixa. • Um jogador retira um papel da caixa com o nome de uma música que será ouvida por todos. • Depois de ouvir a música, quem fez a escolha comenta o motivo. Para evitar repetições, quem tiver escolhido a mesma música também pode comentar nesse momento.

• Entrem em acordo sobre o tempo de duração dos comentários e do jogo, pois, afinal, é provável que todos tenham muitas músicas que são “trilha sonora” de histórias da sua vida.

Capítulo 6 • Bagagem cultural

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Conexões

Arte e História

Na mala da memória Não me iludo Tudo permanecerá do jeito que tem sido Transcorrendo Transformando Tempo e espaço navegando todos os sentidos [...]

Evandro Teixeira

GIL, Gilberto. Tempo rei. In: ——. Raça humana. Rio de Janeiro: Warner, 1984. LP/CD. Faixa 4. Disponível em: <http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=24>. Acesso em: 3 mar. 2016.

Foto feita na Cinelândia, Rio de Janeiro, durante o discurso do então presidente da União Metropolitana dos Estudantes (UME), Vladimir Palmeira, em 26 de junho de 1968, na Passeata dos 100 Mil, que reuniu estudantes, intelectuais e artistas do Rio de Janeiro e de São Paulo em protesto contra a ditadura. Na foto, do centro até o canto direito, podemos ver os cantores e compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil, a cantora Nana Caymmi e o ator Paulo Autran, entre outros artistas.

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Claudemiro/Acervo UH/Folhapress

O que um artista como Gilberto Gil (1942-) possui em sua bagagem cultural? O que traz na “mala” da memória? Esse artista participou da história do Brasil em momentos importantes. Em 1968, estava na passeata contra a ditadura militar no Brasil, entre mais de cem mil pessoas. Estudantes e artistas estavam reunidos para manifestar sua opinião sobre os acontecimentos da época. Também participou de festivais de música e esteve ao lado de outros artistas que mudaram os rumos da música popular brasileira com o Tropicalismo (movimento tropicalista). No início da década de 1980, o Brasil reivindicava democracia e, em 1984, Gil participou das grandes manifestações pelo direito ao voto direto para presidente. Era o tempo em que o Brasil gritou “Diretas Já!”. Assim como Gilberto Gil, muitos outros artistas participaram desse momento histórico, estimulando a população a atuar politicamente e exercer sua cidadania, e se mantêm criativos e participativos até hoje.

Fernando Santos/Folhapress

Apresentação de Gilberto Gil com o grupo Os Mutantes (formado por Rita Lee, Sérgio Dias e Arnaldo Baptista) no III Festival de Música Brasileira, em 1967, concorrendo com a música Domingo no parque, de Gil, que ficou em 2.º lugar.

O comício das Diretas Já! na Praça da Sé, São Paulo, em 1984, com a participação de políticos, esportistas e artistas, reuniu milhares de pessoas.

E você e os colegas? Como vocês convivem com os acontecimentos atuais? Vivemos e pertencemos a um tempo histórico. Contudo, podemos escolher apenas seguir o fluxo da história ou nos sentir pertencentes a um contexto e ter participação ativa nele. O sentimento de pertencimento desenvolve a ideia de não apenas estar na história, mas de ter o poder de transformá-la. É dizer: “Eu me alimento disso, isso me pertence!”. E, assim como Gilberto Gil, seguir “[...] transcorrendo, transformando, tempo e espaço navegando [...]”. Faça um desenho de algum acontecimento atual que chamou a sua atenção, tentando expressar também as sensações e reflexões que esse acontecimento provocou. Apresente o desenho para a turma e organize uma exposição dos trabalhos na sala de aula.

DICA Para navegar Conheça mais sobre Gilberto Gil, sua história e sua arte no site do artista: <http:// tub.im/t6n4cc> (acesso em: 26 fev. 2016) no qual você encontrará músicas, fotos, vídeos e reportagens. Trata-se de material que apresenta a união entre arte e história, memória cultural que vai além do artista, retratando aspectos socioculturais de um país.

Professor, assim como o artista é um ser humano de seu tempo e se expressa por meio de sua arte e também como cidadão, debata com os alunos como eles percebem o próprio tempo e como encontram maneiras de expressar suas opiniões sobre os Capítulo 6 • Bagagem cultural acontecimentos. Proponha uma reflexão sobre “ser” e “pertencer” em relação ao contexto em que vivem.

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Vamos comer! O que é comer, devorar culturas? Na música Vamo comer, de Caetano Veloso (1942-), assim, sem o “s” do plural mesmo, como costumamos falar com os amigos no dia a dia, o poeta e músico baiano que participou do movimento tropicalista expressa bem essa ideia.

[...] Vamo comer Vamo comer canção Vamo comer Vamo comer poesia Se tiver Se não tiver então Ô, ô, ô, ô [...] VELOSO, Caetano; COSTA, Toni. Vamo comer. Intérpretes: Caetano Veloso e Luiz Melodia. In: ——. Caetano. Rio de Janeiro: Universal, 1987. LP/CD. Faixa 6. Disponível em: <http://www.caetanoveloso.com.br/discografia.php>. Acesso em: 24 fev. 2016.

O poeta modernista Oswald de Andrade (1890-1954) fez pesquisas no início do século XX sobre o ritual antropofágico presente na cultura dos povos da nação Tupinambá. Ao retomar essa ideia, Oswald queria afirmar tanto um resgate da história do Brasil como a necessidade da cultura em absorver as influências estrangeiras. Ele escreveu o Manifesto Antropofágico para difundir as ideias do movimento antropofágico brasileiro. Oswald defendia no manifesto o resgate da cultura primitiva, sem deixar de lado as ideias e a arte que chegavam do estrangeiro. Era necessário alimentar-se de tudo o que chegava no Brasil para dar forma à brasilidade, uma produção artística rica, única e própria.

Theodore de Bry. 1592. Gravura colorida. Coleção particular. Foto: The Bridgeman Art Library/Getty Images

Antropófago é aquele que come carne humana para nutrir seu corpo físico, mas, em algumas culturas, também há a ideia de que essa prática pode nutrir o espírito, absorvendo a coragem, a força e o conhecimento da pessoa que serve de alimento. No caso da ideia de antropofagia expressada pelos artistas, esse termo é usado como metáfora, para fazer referência a um ser humano que se alimenta de culturas para nutrir seu repertório, digerir e criar novas coisas que serão “comidas” (arte que será consumida e interpretada) por outras pessoas, em um ciclo de vida cultural contínuo.

Cenas de canibalismo, de Theodore de Bry, 1592. Gravura colorida, 24,2 cm 3 33,1 cm.

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Movimento cultural sincrético [...] Somos todos juntos uma miscigenação E não podemos fugir da nossa Etnia [...] Maracatu psicodélico Capoeira da pesada Bumba meu rádio Berimbau elétrico Frevo, samba e cores Cores unidas e alegria Nada de errado em nossa ETNIA. SCIENCE, Chico; MAIA, Lúcio. Etnia. Intérprete: Chico Science & Nação Zumbi. In: _____. Afrociberdelia. Rio de Janeiro: Sony Music, 1996. CD. Faixa 3. Disponível em: <http://www.recife.pe.gov.br/chicoscience/>. Acesso em: 24 fev. 2016.

No Brasil, a mistura de povos provocou, também, o encontro das culturas de grupos diferentes. Esse processo de fusão de culturas é chamado de sincretismo cultural. Isso acontece quando duas ou mais culturas se misturam em sua fé, sua arte e seus costumes. Dessa simbiose cultural podem surgir movimentos culturais sincréticos, como o movimento Manguebeat.

Manguebeat  : (também escrito como manguebit ou mangue beat) é um movimento cultural (principalmente na música) criado por volta de 1990, no Recife, estado de Pernambuco, que ficou conhecido internacionalmente. Mangue é um ambiente formado por árvores de raízes longas que se espalham pelas areias à beira de rios próximos a litorais. Ambientes naturais ricos em crustáceos (principalmente caranguejos e siris), peixes e moluscos. No Brasil, muitas populações ribeirinhas e litorâneas vivem da extração de recursos desses locais. Beat é uma palavra da língua inglesa que, em português, significa bater, batida. Na música, esse termo é usado geralmente para fazer referência ao toque, batida, cadência, ou seja, o jeito de tocar, bater, executar um ritmo. As músicas desse movimento têm como referência ritmos nordestinos, principalmente o maracatu, misturando-o a estilos musicais diversos. Seus temas abordam principalmente a crítica aos preconceitos e às injustiças sociais, além da valorização e respeito ao meio ambiente.

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Afrociberdelia. Chico Science & Nação Zumbi. Gravadora: Sony Music. 1996

Fazer misturas culturais, olhar ao redor e criar grupos de pessoas que compartilham das mesmas ideias e interesses é frequente na história da música popular brasileira. Na letra da música Etnia, apresentada acima (1996), de Chico Science (1966-1997), gravada por ele com o grupo Nação Zumbi, lemos que “Somos todos juntos uma miscigenação”; nós, nossos gostos, influências e escolhas culturais. É natural termos necessidades e vontades. Então, pense sobre isso e pergunte-se: “Quem sou eu? O que eu gosto de ouvir, de ver, de cantar, de dançar, de curtir na arte?”.

Reprodução da capa do CD Afrociberdelia, de Chico Science & Nação Zumbi, 1996. No centro da capa, o músico Chico Science (de camiseta verde).

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O movimento Manguebeat propôs, desde seu início, na década de 1990, misturar tradições folclóricas e ritmos nordestinos, principalmente o maracatu, com rock, hip-hop e música eletrônica, explorando a fusão entre culturas locais e mundiais. Percebemos nos ritmos musicais escolhidos pelos adeptos desse movimento cultural e artístico a tradição e a modernidade. Usam instrumentos e efeitos sonoros dados pelas tecnologias (como guitarras elétricas, sintetizadores sonoros, entre outros) e também instrumentos tradicionais da cultura popular brasileira (como tambores, atabaques, alfaias). Ainda hoje, grupos como Mestre Ambrósio e Sheik Tosado, além do próprio Nação Zumbi, vêm desenvolvendo essa mistura.

Professor, com a leitura do texto e do glossário, pode-se aprofundar as ideias sobre o Manguebeat, relacionadas à escolha do nome do movimento. Eleger o mangue como título de um movimento está relacionado com sua proposta ideológica, política. Algumas questões que podem ser debatidas com a turma: Qual é a cultura que existe no manguezal? Por que ela é exaltada nesse movimento? Que relações podemos estabelecer com o nosso cotidiano?

Os artistas do Manguebeat também se preocupam com a vida social e o meio ambiente, principalmente em relação à preservação da natureza dos mangues e da tradição cultural de seus moradores. Os principais divulgadores do movimento foram Chico Science e o grupo Nação Zumbi, Fred Zero Quatro (ou Fred 04), Monbojó e o grupo Mundo Livre S/A. Movimentos como o Modernismo, o Tropicalismo e o Manguebeat são exemplos do antropofagismo cultural, que ocorre a partir da nutrição estética. O que isso quer dizer? Entre outras coisas, que tudo que você degusta de música e outras formas de arte pode influenciar em sua criação.

Mundo Livre S.A. Vs Nação Zumbi. Gravadora Deck. 2013

Com base na ideia de antropofagia cultural, pense nesta pergunta: Você se “alimenta” de quê? Que produtos culturais você costuma consumir para nutrir o seu repertório cultural?

O caranguejo de manguezal, uma das fontes de sustento dos povos da região, tornou-se também símbolo do movimento Manguebeat.

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Marcelo Soubhia/Folhapress

A arte de Chico Science [...] E a cidade se apresenta Centro das ambições Para mendigos ou ricos E outras armações Coletivos, automóveis, Motos e metrôs Trabalhadores, patrões, Policiais, camelôs [...]. SCIENCE, Chico. A cidade. Intérprete: Chico Science & Nação Zumbi. In: _____. CSNZ. Rio de Janeiro: Sony Music, 1997. CD. Disco 2. Faixa 3. Disponível em: <http://www.recife.pe.gov.br/chicoscience/>. Acesso em: 25 fev. 2016.

O pernambucano Francisco França (1966-1997), artisticamente conhecido como Chico Science, foi um dos fundadores e líder do grupo musical pernambucano Nação Zumbi (1990-). Em suas composições musicais, Chico Chico Science em show com figurino Science sempre utilizou a fusão de referências, mas mantendo a construção inspirado nas fantasias do maracatu. de identidades culturais autênticas. Foi responsável pela composição de vá- Foto de 1994. rias músicas que misturavam literatura de cordel a temas urbanos. Envolveu-se ativamente em movimentos sociais pela melhoria de vida das pessoas e valorização da cultura nordestina e afrodescendente, como a cultura hip-hop. Com o grupo Nação Zumbi, desenvolveu uma música que misturava ritmos e gêneros nordestinos, como o maracatu, com outras influências musicais, passando pelo rock, hip-hop, punk rock, samba, reggae e música eletrônica. Foi líder do movimento Manguebeat, com o grupo Nação Zumbi, ao lado de grupos como Mestre Ambrósio, Mundo Livre S/A, Sheik Tosado, entre outros.

“Eu acho que essa tensão cultural é sofrida no Brasil inteiro. É uma questão de trabalhar os ritmos regionais. De você ter o que fazer e ter elementos para trabalhar. Não só no Nordeste como no resto do Brasil.” Chico Science. SILVA, Walter de. Interview: Chico Science − do mangue para o mundo. Brazilian Music Up to Date. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/ uptodate/up3/interind.htm>. Acesso em: 25 fev. 2016.

Tasso Marcelo/Estadão Conteúdo

Palavra do artista

Cantor e compositor Chico Science, líder da banda Nação Zumbi. Foto de 1994.

DICA Para navegar Para conhecer mais sobre a obra de Chico Science, sua forma de ver a sociedade e a arte e como ele registrou as misturas de culturas do nordeste brasileiro e do mundo em seus trabalhos com o grupo Nação Zumbi, visite os sites a seguir: • Acervo de Chico Science na internet: <http://tub.im/8be2gc> (acesso em: 25 fev. 2016). • Entrevista com Chico Science: <http://tub.im/zts9fa> (acesso em: 25 fev. 2016). • Página de Chico Science: <http://tub.im/8cj44a> (acesso em: 25 fev. 2016). Capítulo 6 • Bagagem cultural

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Arte, pluralidade cultural e meio ambiente

Tudo junto e misturado

Hans Von Manteuffel/Pulsar

Conexões

Os artistas costumam criar com base em suas referências e seus olhares para si, para o que está à sua volta, para o mundo todo e para todo o mundo, observando e percebendo tanto o local quanto o global. No Brasil, é forte a influência de pertencermos a um povo miscigenado, mestiço, formado por muitas etnias, e essas mistura é captada pela sensibilidade de muitos artistas. Isso acontece, por exemplo, com o movimentos artístico Manguebeat, Escultura de caranguejo, de Augusto Ferrer, na Rua da Aurora, no Recife (PE). originado no Recife no início dos O caranguejo, ligado à cultura de subsistência na região do mangue, fonte de anos 1990. Para expressar e divulgar alimento e de renda da população ribeirinha. Sucata de ferro, com tratamento suas ideias, os membros de movi- especial para evitar oxidação, 7 m 3 5,5 m. mentos artísticos criam textos em Movimento cultural sincrético: (ou de forma de Manifesto. Essa também foi a atitude tomada por Fred Zero Quatro (1965-), sincretismo cultural) referejornalista e músico pernambucano da banda Mundo Livre S/A que, em 1992, escreveu -se ao movimento artístico que se baseia na fusão de o manifesto Caranguejos com cérebro, em que falava sobre o sentido das músicas elementos culturais diversos e os objetivos desse movimento cultural sincrético conhecido como Manguebeat. ou de culturas distintas. Leia, agora, alguns trechos do manifesto Caranguejos com cérebro:

“Mangue, o conceito. Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo. [...] Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. [...] para os cientistas são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza. Manguetown, a cidade A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade ‘maurícia’ passou a crescer desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais.

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Em contrapartida, o desvario irresistível de uma cínica noção de ‘progresso’, que elevou a cidade ao posto de ‘metrópole’ do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade. Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada à permanência do mito da ‘metrópole’ só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano. Mangue, a cena Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! [...] O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife. Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de ideias pop. O objetivo era engendrar um ‘circuito energético’, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama. Hoje, os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em

hip-hop, colapso da modernidade, caos [...], Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio [...], música de rua, conflitos étnicos, midiotia [...]. Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, videoclipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown.” ZERO QUATRO, Fred. Trechos de Caranguejos com cérebro (manifesto), o primeiro manifesto do Mangue, em sua versão original de 1992. Disponível em: <http://www.recife.pe.gov.br/chicoscience/textos_manifesto1. html>. Acesso em: 3 mar. 2016.

Pensando nas discussões levantadas nesse manifesto, o que há de bom em sua comunidade? Quais os problemas a resolver? Que tal criar um movimento cultural e colocar suas ideias em um texto na forma de um manifesto?

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Professor, comente com os alunos que o texto propõe, por meio de manifestações e criações artísticas, a análise de problemas sociais, políticos, econômicos, de meio ambiente e sustentabilidade que atingem a população e a cultura da região, propondo a reação e o posicionamento dos cidadãos, ou seja, o manifesto passa a se configurar, além de um projeto artístico, como uma atividade de reflexão e cidadania. Para isso, faz uma breve e contundente contextualização histórica da fundação da cidade aos dias atuais.

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Projeto experimental Criando um novo som [...] Eu organizo o movimento Eu oriento o carnaval Eu inauguro o monumento no planalto central Do país Viva a bossa-sa-sa Viva a palhoça-ça-ça-ça-ça [...]

Capa do disco Tropicalia ou panis et circencis. Gravadora: Philips. 1968

VELOSO, Caetano. Tropicália. In: ——. Caetano Veloso. Rio de Janeiro: Universal, 1967. LP/CD. Faixa 1. Disponível em: <www.caetanoveloso.com.br/ discografia.php>. Acesso em: 3 mar. 2016.

Artistas se conectam e organizam movimentos, criam arte juntos, podem debater sobre ideias do passado e sobre os acontecimentos recentes. Os tropicalistas compartilhavam da ideia de antropofagia, que Oswald de Andrade já tinha anunciado por meio do Manifesto Antropófago, em 1928. Os artistas do movimento tropicalista deram um novo rumo à arte brasileira, a partir da década de 1960. Nesse movimento havia muita experimentação. Sons de instrumentos usados tradicionalmente em um gênero musical, como o pandeiro no samba ou a guitarra no rock, podiam estar tudo junto e misturado em uma única música tropicalista. Na salada de culturas que se alimentavam umas das outras, essa mistura apresentou ao Brasil e ao mundo um som original: um som tropicalista. Pesquise mais sobre esse movimento artístico. Depois, crie com os colegas um laboratório musical, misturando gêneros musicais, culturas, sons... Veja algumas sugestões a seguir. Sons misturados – Se na turma tiver quem toque algum instrumento, vocês podem criar músicas usando vários tipos de instrumentos em uma única composição. Outra proposta é pesquisar na internet vários sons de diferentes instrumentos e fazer arranjos mixados, misturando os sons, colocando para tocar todos ao mesmo tempo ou combinados em dois ou três sons por vez. Jogo musical – Um jogo para misturar sons pode ser divertido de fazer com a turma. Cada um deve trazer o som de um instrumento, ruído ou voz gravado em celulares (ou outro material). Vocês também precisarão de um dado para jogar. Um jogador lança o dado. Se cair no número dois, um par de sons de diferentes instrumentos ou vozes é tocado. Se o resultado for o três, o jogo segue da mesma maneira, tocando três sons ao mesmo tempo. Jogue e experimente misturar sons! Você é o artista! Capa do disco-manifesto do movimento tropicalista Tropicalia ou panis et circencis, de 1968. Em sentido horário: Arnaldo Baptista, Caetano Veloso (com uma foto de Nara Leão), Rita Lee, Sérgio Dias, Tom Zé, Torquato Neto, Gal Costa, Gilberto Gil (com uma foto de Capinam), Rogério Duprat.

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TEMA

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TEM GENTE QUE GUARDA CADA COISA!

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. [...] Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. [...] CICERO, Antonio. Guardar. In: ——. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/antoniocicero/>. Acesso em: 24 maio 2016.

Uma coleção pode se iniciar por muito motivos, mas a mania de guardar coisas existe desde o início das civilizações. Na Grécia antiga, nas escolas de Filosofia, conhecidas como liceus, os mestres filósofos guardavam coisas para servir de estudos. Nos mosteiros da Idade Média, havia salas fechadas a sete chaves que guardavam objetos considerados profanos, tesouros da Antiguidade ligados a culturas diferentes do cristianismo. Já os nobres guardavam de tudo em seus castelos, em salas chamadas de gabinetes, nas quais colecionavam desde objetos antigos e obras de arte até animais em taxidermia (empalhados).

Professor, no final do Tema 3, o Projeto experimental – Coletas sensoriais – propõe desenvolver com os alunos trabalhos que envolvam os conceitos de colecionismo, sensações, poéticas artísticas e arte conceitual, entre outros, inspirados nos artistas, nas obras e nos exemplos mostrados no conteúdo. Leia os comentários feitos no Diálogo com o professor e desenvolva, com os alunos, mais propostas com essas ideias.

Wellcome Library, London

No decorrer dos tempos, muitas coisas foram colecionadas. Observe a foto a seguir.

Major-general Horatio Gordon Robley com parte da sua coleção de cabeças Maori tatuadas, 1895. Fotografia, 18,4 cm 3 21,4 cm.

Essa foto revela uma das coleções mais estranhas da história: o acervo de cabeças tatuadas do major-general português Horatio Gordon Robley (1840-1930). Essas cabeças eram de membros da civilização Maori, de chefes da tribo que os indígenas preservavam por meio de processo de mumificação. A tatuagem era um costume entre esse povo, cujos desenhos possuíam vários significados e ainda hoje são escolhidos por pessoas que gostam de marcar seus corpos com imagens. O major Robley comprou boa parte da sua coleção em lojas de curiosidades na Europa. A coleção chegou a ter 35 cabeças que, hoje, pertencem a maioria a museus, expostas ao público como exemplo dessa cultura.

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Galit Seligmann/Alamy/Glow Images

Colecionismo: a mania de guardar

Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Rio de Janeiro. Projeto de Oscar Niemeyer inaugurado em 1996. Foto de 2008.

Uma coleção geralmente tem um tema em comum a todos os objetos. Para algumas pessoas, pode ser um hobby; para outras, um negócio, uma mania. Em outros casos, são de interesse cultural de uma sociedade. Temos notícias de coleções de carros, moedas, pedras, sapatos, brinquedos, relógios, figurinhas, revistas, livros, álbuns de músicas, coleções de obras de arte, entre tantas.

Há instituições criadas para abrigar coleções, como os museus, que preservam esses acervos para apreciação do público. Temos museus para muitos temas. Engana-se quem acha que museu é lugar de guardar coisas velhas. Há museus de arte contemporânea, de ciência, de arte e tecnologia e outros saberes atualíssimos, além daqueles voltados aos acervos antigos. Praticamente tudo pode ser importante para guardar, conservar e, naturalmente, compartilhar com o público, como bem nos alerta o poeta, filósofo e escritor carioca Antonio Cicero (1945-), irmão da cantora e compositora Marina Lima (1955-), no poema que abre este tema. Acervo da Fundação Cultural Ema Gordon Klabin

Emiliano Di Cavalcanti. 1955. Óleo sobre tela. Acervo da Fundação Cultural Ema Gordon Klabin

Os itens de uma coleção são de interesses e escolhas de cada colecionador ou grupo. As coleções podem ser particulares ou públicas, individuais ou coletivas. Podem ser de interesse artístico, histórico, técnico, científico ou de caráter pessoal, às vezes envolvendo mais de um desses aspectos.

Vaso (Aryballos) de Corinto, Grécia. Cerâmica pintada, séc. VI a.C.

Retrato de mulata, de Di Cavalcanti, 1955. Óleo sobre tela, 100 cm 3 81 cm.

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Para navegar O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), oferece o Guia dos museus brasileiros, que traz dados sobre mais de 3 000 museus, incluindo 23 museus virtuais, já mapeados pelo Ibram em território nacional. Nele você pode localizar o museu mais próximo da sua casa ou da escola e aventurar-se nesse ambiente que prioriza as diversas linguagens da arte e suas origens. Visite: <http://tub.im/hvpraa> (acesso em: 8 mar. 2016). Conheça mais sobre os museus de todo o Brasil.

Sensações para guardar Guardar objetos pode ser importante, mas há artistas que preferem guardar sensações, como o francês Marcel Duchamp (1887-1968) e a brasileira Brígida Baltar (Rio de Janeiro, 1959-).

Marcel Duchamp. Séc. XX. Ready made: ampola de vidro. Museu de Arte Moderna, Paris. Foto: RMN/Otherimages

DICA

Você já esteve em um lugar ou viveu um momento de que gostou muito? Um dia com os amigos, com a família, uma festa, uma viagem... Duchamp provavelmente gostava muito da sensação de estar em Paris. Por essa razão, guardou o ar dessa cidade em um frasco, em 1919. A cidade de Paris, entre o final do séc. XIX e início do séc. XX, era o berço da arte. Muitos artistas, famosos ou não, passaram pela metrópole conhecida como Cidade Luz. Guardar o ar de Paris dessa época foi como conservar as fragrâncias dos perfumes franceses, dos cafés, das praças, das exposições, o ar cheio de conversas sobre arte. O artista lacrou um pequeno objeto de vidro (observe ao lado) e, assim, estava pronto mais um de seus ready mades, chamado de Ar de Paris. Trata-se de um tipo de arte também conhecido como arte conceitual.

Ar de Paris, de Marcel Duchamp, 1919. Ready made: ampola de vidro, diâmetro 6,35 cm 3 13,3 cm.

Brígida Baltar. 1999. Galeria Nara Roesler, São Paulo

A artista carioca Brígida Baltar faz coletas de neblina, orvalho, maresia e guarda em pequenos receptáculos. Ao recolher essas sensações e atmosferas, a artista elabora performances que são fotografadas e filmadas. Observe abaixo a foto da artista em plena coleta. Nas galerias e museus, essas fotos e vídeos são exibidos com as instalações e objetos artísticos que a artista cria. Assim como na obra de Duchamp, trata-se de uma arte subjetiva, conceitual, que captura as sensações e percepções do tempo e do espaço.

A coleta da neblina, de Brígida Baltar, 1999. Fotografia, 40 cm 3 60 cm.

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Brígida Baltar (1959-) nasceu no Rio de Janeiro, cidade onde ainda vive e trabalha. A sua arte a representa em vários regiões do mundo. Já participou de bienais e mostras de arte coletivas e fez diversas exposições internacionais em países americanos e europeus. Seus trabalhos foram selecionados para várias coleções em museus e galerias brasileiras, dos Estados Unidos e do México, por exemplo. Brígida Baltar começou a desenvolver sua obra na década de 1990, por meio de pequenos gestos poéticos realizados na sua casa, que também é seu ateliê. Durante cerca de dez anos, a artista colecionou materiais da vida doméstica, como a água de goteiras ou a poeira dos tijolos das paredes para suas criações. As ações domésticas foram se expandindo para o espaço da rua, originando obras como a série Coletas, da qual já vimos uma amostra na página anterior. Essa forma de arte, conceitual e subjetiva, por basear-se em elementos tão comuns e conhecidos, redimensionados em suas percepções de espaço e tempo, pode provocar sensações muito pessoais em cada um que a aprecia.

Palavra do artista “Nos anos noventa descobri a casa como matéria de investigação para meu trabalho. Ali, comecei certas ações e algumas escavações que foram se tornando cada vez maiores [...]. Com tijolos desenvolvi uma série de pequenas esculturas e quando me mudei desta casa levei aqueles que havia retirado, agora em pó. [...] Tornar a casa em pó dá um sentido de desmaterialização que sempre me interessou e ainda dá a ideia de desconstruir ao transformar um material rígido em tão maleável. É também como levar a casa para outros lugares, uma casa móvel, que viaja pelo mundo.” Brígida Baltar

Julia Moraes/Folhapress

A arte de BRÍGIDA BALTAR

GALERIA Nara Roesler. Brígida Baltar: portfólio. Rio de Janeiro: Galeria Nara Roesler, 2015. p. 3. Disponível em: <www. nararoesler.com.br/usr/library/documents/ main/34/portfolio-gnr-br-gida-baltar-web_ res_2015.pdf>. Acesso em: 4 mar. 2016. Brígida Baltar expõe grande parte de suas obras na galeria Nara Roesler. Foto de 2007.

DICA Para navegar Conheça mais sobre a artista Brígida Baltar, seu processo de criação, sua poética e suas obras visualizando o portfólio ilustrado e comentado criado pela galeria Nora Roesler, que representa a artista. No site: <http://tub.im/uqhhnu> (acesso em: 4 mar. 2016).

Giro de ideias: Coleções de arte Bibliotecas possuem acervos de livros, pinacotecas têm coleções de pinturas, filmotecas guardam e cuidam de produtos audiovisuais, como coleções de filmes, minisséries, novelas de TV, desenhos de animação e outras gravações de imagens em movimento, assim como uma “musicoteca” guarda arquivos em áudio, músicas, partituras (escritas musicais), instrumentos e gravações em vídeos, como videoclipes e documentários relacionados à música. Cada tipo de acervo leva um nome específico. Você coleciona ou já colecionou alguma coisa? Qual o nome da sua coleção? Conhece alguém que faz coleções? Reflita sobre:

• o objeto que você coleciona ou irá colecionar. Por que escolheu este objeto? • o espaço que terá para acomodar os objetos da sua coleção. Você usará pastas, caixas ou espaços maiores para armazená-la?

• a origem de sua coleção. Você fará a coleção com objetos comprados, doados ou presenteados? • a coleção pode ser vista por todos ou só por você? Que tal criar uma exposição das coleções da turma? Certamente será curioso, divertido e instrutivo compartilhar esses acervos.

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Conexões

Arte e Língua Portuguesa

Gavetas para me guardar Heráclito de Éfeso (535 a.C.-475 a.C.) falava sobre os devires das coisas, em que tudo que está no mundo flui. Uma das suas frases mais famosas diz que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, pois ele já não será o mesmo, nem nós. A cada instante mudamos, assim como as águas do rio, que no momento seguinte já percorrem outros territórios. Clarice Lispector (1920-1977) escreveu que é importante estarmos sempre na iminência de mudanças.

É. Parece que estou mudando o modo de escrever. [...] Escrevo em traços vivos e ríspidos de pintura. Estarei lidando com fatos como se fossem as irremediáveis pedras de que falei. Embora queira que para me animar sinos badalem enquanto adivinho a realidade. E que anjos esvoacem em vespas transparentes em torno de minha cabeça quente porque esta quer se transformar em objeto-coisa, é mais fácil. Será mesmo que a ação ultrapassa a palavra? Mas que ao escrever – que o nome real seja dado às coisas. Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventa-se-a. LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. 23. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

Na arte, há muitas linguagens por meio das quais podemos nos expressar. Clarice Lispector escolheu a linguagem das palavras, a arte da literatura.

André Neves

Apesar de estarmos em mudança, podemos guardar o que já fomos. Gavetas, caixas, baús podem abrigar coisas que guardamos por algum motivo, são objetos significativos para nossa história. Onde você costuma conservar seus guardados, objetos, suas experiências? O que tem em suas gavetas, caixas, baús? Que linguagens artísticas podemos usar para contar sobre nossos guardados? Uma das salas da exposição Clarice Lispector – a hora da estrela, em Bogotá, Colômbia, em 2012. Transformada em um imenso gaveteiro, com 2 000 gavetas, das quais só 65 delas tinham chaves e podiam ser abertas, e nas quais os visitantes encontravam alguns dos tesouros de Clarice, como frases, cartas e objetos. Essa exposição teve início no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, SP, em 2007.

O pintor catalão Salvador Dalí (1904-1989) fez uma série de imagens surrealistas em que trata do tema “gavetas” e seus guardados, abordando o universo do subconsciente, daquilo que está escondido, mas que pode se revelar a qualquer momento. Dalí escolheu para essas imagens a linguagem da escultura, do desenho e da pintura. Na página seguinte, trazemos uma imagem que mostra uma escultura. O paulista Candido Portinari (1903-1962) colocou em várias de suas pinturas pequenos baús ao lado de pessoas retirantes. Um povo migrante, humilde, que de um lugar para o outro sempre carregava seu baú de guardados. Em que linguagem artística você quer se expressar para falar sobre suas memórias, guardados, sonhos, mudanças?

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Candido Portinari. 1936. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro. Reprodução autorizada por João Candido Portinari. Imagem do acervo do Projeto Portinari

Salvador Dalí. 1979-1982. Bronze com pátina escura. Coleção particular. Foto: Araldo de Luca/Corbis/Latinstock

Professor, muitos artistas usaram esse objeto (baú) para falar sobre essas questões, em forma de metáfora. Para que os alunos tenham autonomia na escolha de linguagens artísticas em que possam se expressar, é importante mostrar várias produções. Apresente a obra de Clarice Lispector, de Salvador Dalí e de Portinari e converse com os alunos sobre as escolhas de temas e linguagens que os artistas fazem. Explore os temas tratados neste capítulo sobre repertório cultural, memória e poéticas pessoais.

The Anthropomorphic Cabinet, de Salvador Dalí, 1979-1982. Escultura em bronze com pátina escura, 60 cm  30 cm.

Retirantes, de Candido Portinari, 1936. Óleo sobre tela, 60 cm  73 cm.

DICA Para navegar Assistir à entrevista com a escritora Clarice Lispector é mergulhar em um mar de possibilidades e personalidades humanas. Essa entrevista foi dada para a TV Cultura de São Paulo, no programa Panorama Especial, em 1977, um pouco antes de sua morte, e está disponível em: <http://tub.im/6utgg4> (acesso em: 26 fev. 2016).

Projeto experimental Coletas sensoriais

Professor, veja comentários sobre a atividade no Diálogo com o professor.

Maria José Braga Falcão

Você pode imaginar alguém que escolheu, entre tantas coisas que existem no mundo, guardar o ar de Paris? Ou coletar a neblina? A brisa do mar? Vimos essa atitude artística nas obras de Marcel Duchamp e Brígida Baltar. E você, se fosse guardar uma sensação, como faria? Onde guardaria? Usaria um objeto como um pote de vidro? Ou fotografaria essa sensação? Há momentos que queremos guardar para sempre. Vamos tentar? Pense em um projeto sobre guardar sensações, atmosferas, percepções sensíveis das situações e dos ambientes ao seu redor. Escolha os materiais e as linguagens que considerar apropriados para fazer seu projeto artístico. Professor, apresente aos alunos diferentes tipos de coleção e oriente-os no momento de reflexão. Se os alunos não tiverem uma coleção ainda, oriente-os a escolher um objeto que seja fácil de transportar, pois será preciso reuni-los e apresentá-los à turma em um determinado momento. Projeto Tempo de Arte: duração para coletas subjetivas. Realizado pelos alunos de uma escola pública da cidade de Itapetininga, São Paulo. Acervo pessoal da professora Maria José Falcão, coordenadora do projeto. Foto de 2013.

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O PATRIMÔNIO NOSSO DE CADA DIA

Laurent Guerinaud/Keystone

TEMA

Vista de Brasília, DF, com destaque para a Catedral Metropolitana, parte da Esplanada dos Ministérios e o Palácio do Congresso Nacional ao fundo. Foto de 2013.

[...] Só há um meio eficaz de assegurar a defesa permanente do patrimônio de arte e de história do país: é o da educação popular [...]

ANDRADE, Rodrigo Melo Franco de. In: Educação patrimonial: reflexos e práticas. Átila Bezerra Tolentino (org.). João Pessoa: Superintendência do Iphan na Paraíba, 2012.

Nestor Javier Beremblum/ LatinContent/Getty Images

Os museus, prédios históricos, praças e monumentos públicos são como a nossa casa, nos pertencem, fazem parte do nosso patrimônio, são nossa herança cultural. Somos donos de objetos, de lugares e até de cidades inteiras, como a cidade de Brasília, São Luís, no Maranhão, e o bairro do Pelourinho, em Salvador.

Professor, no final deste Tema 4, os projetos experimentais Xilogravura, Patrimônios culturais materiais e intervenções urbanas e Criando sons pelo Brasil propõem desenvolver atividades sobre bens materiais e imateriais do patrimônio cultural. Veja os comentários específicos na seção dos projetos e no Diálogo com o professor e desenvolva, com os alunos, essas e outras propostas que acharem adequadas.

Vista da arquitetura do Pelourinho, bairro histórico de Salvador, BA. Foto de 2012.

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Luis Salvatore/Pulsar

Casario colonial no centro histórico de São Luís (MA), exemplo de patrimônio material. Foto de 2012. Zoonar GmbH/Alamy/Glow Images

A palavra patrimônio tem sua origem no grego pater, que significa “pai” ou “paterno”. Patrimônio, portanto, está relacionado com tudo aquilo que é transmitido ou deixado de pai para filho. Com o decorrer do tempo, porém, a palavra patrimônio passou a ser utilizada para designar bens de natureza material e imaterial considerados importantes para a identidade das sociedades, sejam eles culturais ou naturais. Acervos de museus, cidades históricas, parques ecológicos, sítios arqueológicos, prédios, teatros e outros que podemos tocar são nossos bens materiais. Já os bens imateriais são os deDetalhe de bateria de escola de samba, exemplo de patrimônio imaterial. Foto de 2012. mais, por exemplo os costumes, as danças (como o frevo), músicas, festas, a Feira de Caruaru, a capoeira, o modo artesanal de fazer o queijo de minas e os quitutes do tabuleiro das baianas, as matrizes do samba, no Rio de Janeiro, ou mesmo algumas religiões, como o candomblé.

Marco Antônio Sá/Pulsar

No Brasil, o órgão responsável por cuidar do Patrimônio Histórico Brasileiro é o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Quando o patrimônio cultural é preservado legalmente e na prática, a memória e a identidade de uma sociedade são conservadas.

Grupo folclórico Maracatu Leão Colorado, na Noite dos Tambores Silenciosos, em Olinda, PE, exemplo de patrimônio imaterial. Foto de 2010.

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DICA Para navegar Conheça os projetos de preservação, restauro e tombamento de bens patrimoniais, materiais ou imateriais, disponibilizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) navegando pelo site: <http://tub.im/dndshz> (acesso em: 26 fev. 2016). Joana Kruse/Alamy/Glow Images

Prédio tombado também cai? Ao observarmos a Torre de Pisa, na Itália, podemos temer que ela possa tombar, literalmente, ou seja, cair. Entretanto, ela está resguardada desse destino porque pertence ao Patrimônio Mundial da Humanidade e, em função disso, está tombada no outro sentido, o de que seja preservada e protegida para que nunca caia. Pelo menos essa é a intenção. Questões ligadas ao tipo de solo, material empregado e maneira de construí-la provocaram o problema da inclinação. Muito do que se conhece na tecnologia em construção já foi empregado nesse bem material para que continue a fascinar milhares de pessoas que visitam o conjunto arquitetônico de Pisa. Os bens materiais e imateriais são patrimônios. Eles passam por um processo de pesquisa e validação e, então, são “tombados”. O processo de tombamento equivale a registrar, com o objetivo de proteger, controlar, cuidar e guardar (documentar). Esse registro é feito no livro do “Tombo”. Daí vem o nome tombamento.

As maravilhas do mundo Cada monumento tem sua história. Na Índia, o Taj Mahal (construído entre 1632 e 1653) foi um desejo do príncipe Shah-Jehan para abrigar o corpo da princesa Mumtaz Mahal, como prova de amor eterno.

Torre de Pisa, na Itália. Com 14 700 toneladas e 55,86 metros de altura. Iniciada em 1173, sua construção só foi concluída em 1350.

Waj/Shutterstock/Glow Images

Uma vez registrado o bem, podem ser elaborados projetos e políticas públicas que envolvam ações necessárias à preservação dessa manifestação.

A eternidade também foi o motivo pelo qual fez surgir no meio do deserto as pirâmides, a esfinge e outras construções que marcaram a civilização egípcia. Muitas obras construídas são inspiradas em histórias de amor, em crenças religiosas ou nas formas da natureza. Algumas obras são muito antigas e outras mais recentes. Na contemporaneidade, o Templo de Bahai, inaugurado em 1996, recebe milhares de pessoas para contemplar as formas simétricas da forma da flor-de-lótus. A imagem dessa flor está presente como um signo sagrado para religiões como o hinduísmo, o budismo e o islamismo. A flor-de-lótus representa sabedoria, purificação, vida longa, espiritualidade e boa sorte, e suas delicadas formas já eram encontradas em esculturas e pinturas no Egito antigo. Esse templo sagrado é símbolo da harmonia porque respeita e atende várias crenças.

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Taj Mahal, na cidade de Agra, na Índia, inaugurado em 1648. Faz parte do Patrimônio Cultural da Humanidade. Foto de 2010.

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saiko3p/Shutterstock/Glow Images

Templo de Bahai (com suas pétalas e as piscinas), conhecido como Templo de Lótus, projeto do arquiteto Furiburz Sabha, em Délhi, Índia. Foto de 2012.

Por todo o mundo temos patrimônios espalhados, tanto materiais como imateriais. Do mundo antigo à contemporaneidade, os monumentos e costumes precisam ser preservados.

Jarno Gonzalez Zarraonandia/Shutterstock/Glow Images

Pius Lee/Shutterstock/Glow Images

Encravada nas montanhas do Peru está a cidade de Machu Picchu. Ao olhar para essas ruínas, podemos imaginar o que acontecia ali, como era a cultura desse povo, do que gostavam e no que acreditavam. Será que no futuro outras pessoas vão olhar para o lugar em que você mora e fazer as mesmas perguntas?

Vista das ruínas da cidade de Machu Picchu, no Peru, berço da civilização Inca, hoje patrimônio mundial da humanidade. Foto de 2010.

Vista de Esfinge e Pirâmide de Gizé, no Cairo, Egito, outro patrimônio mundial da humanidade. Foto de 2010.

DICA Para ouvir Pa Você provavelmente conhece a música Taj Mahal, do cantor, compositor e músico carioca Jorge Ben Jor (1942-). Ela conta um pouco da história que motivou a construção desse templo. Você pode ouvi-la e acompanhar sua letra acessando: <http://tub.im/h8t8rr> (acesso em: 26 fev. 2016).

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Eduardo Srur. 2008. Museu do Ipiranga, São Paulo. Foto: Hilton de Souza

Operação Salvamento Monumentos estão por todas as cidades, mas nem sempre sabemos quem são seus criadores nem suas origens. Muitas vezes, pouco sabemos da programação de centros culturais, teatros e museus. Infelizmente, nem todos têm a consciência de que os patrimônios artítisticos espalhados pelas cidades são de todos e devem ser preservados. Ainda hoje, muitas ações de vandalismo acontecem. Em 2008, o artista paulista Eduardo Srur (1974-) fez uma interferência urbana com o título de Sobrevivência que chamou a atenção dos passantes nas ruas de São Paulo. Foram vários os monumentos que receberam coletes salva-vidas especialmente fabricados para vestir as esculturas. Essa intervenção artística no cotidiano da cidade nos mostra um modo de alertar para a importância de conservar o patrimônio cultural material. Na imagem ao lado, vemos um dos monumentos escolhidos por Eduardo Srur para realizar a intervenção artística.

Sobrevivência, de Eduardo Srur, 2008. Intervenção urbana no Monumento da Independência, nos jardins do Museu do Ipiranga. Foto de 2008.

Giro de ideias: S.O.S. bens patrimoniais Às vezes, estamos tão imersos no cotidiano que nosso olhar fica anestesiado e não percebemos os bens patrimoniais em nosso caminho. Vamos abrir nossos olhos, ouvidos e ver como podemos cuidar melhor dos nossos bens patrimoniais? O artista Eduardo Srur tem como uma de suas propostas fazer as intervenções nos monumentos colocando coletes salva-vidas neles, para chamar a atenção das pessoas para essas obras e reativar esses bens públicos, muitos dos quais estão abandonados ou simplesmente não são percebidos pelo público. Converse com os colegas sobre essa problemática. Como cuidar melhor dos bens patrimoniais? Um fórum em rede social pode ser um instrumento interessante e prático para o debate sobre esse assunto. Registre aqui as ideias discutidas pelo grupo.

DICA Para navegar Conheça mais sobre os projetos do artista Eduardo Srur, que desenvolve sua arte visual trabalhando com pintura, fotografia, escultura, vídeo, performances, instalações e intervenções urbanas, navegando pelo site: <http://tub.im/gz8kj3> (acesso em: 26 fev. 2016). Capítulo 6 • Bagagem cultural

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A matéria do imaterial Danças, músicas e demais expressões artísticas vão compondo pouco a pouco o nosso patrimônio histórico, para que não caiam no esquecimento e se percam com o passar do tempo. Podemos pesquisar, divulgar e até mesmo praticar essas manifestações como uma forma de preservar nossa memória. Entre as danças e músicas que constituem o patrimônio histórico brasileiro imaterial estão a capoeira, o samba de roda do Recôncavo Baiano, o bumba meu boi. O frevo também se tornou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2012.

Tunart/Getty Images

A capoeira foi desenvolvida pelos africanos e seus descendentes no Brasil como forma de resistir aos opressores e preservar sua cultura. Trata-se de uma forma de expressão que une música, dança, luta e brincadeira. A roda de capoeira serve para o “jogo”, a brincadeira, que é espetáculo e treinamento, e é formada por músicos que tocam e cantam. As músicas que acompanham esse misto de dança e defesa pessoal podem ser em forma de canção, com estrofes intercaladas por um refrão, ou em forma de ladainhas narrativas. Podemos encontrar a mesma letra em várias regiões do Brasil. O canto do coro pode ser definido como “responsorial”, ou seja, um canto coletivo em que uma voz canta uma frase que é respondida pelo coro.

O samba de roda do Recôncavo Baiano é outro exemplo de bem imaterial que faz parte do Patrimônio Histórico Brasileiro. É uma manifestação cultural que une música, dança e poesia, tendo influenciado a origem do samba do Rio de Janeiro e servido de referência para todo o samba nacional. É acompanhado por instrumentos de origem africana, como atabaques, reco-reco e ganzá. A influência portuguesa está presente na língua cantada e na introdução de instrumentos como a viola, o violão e o pandeiro.

Delfim Martins/Pulsar

Roda de capoeira em Jericoacoara, CE. Foto de 2011.

O ritmo e o estilo do jogo da capoeira são, muitas vezes, determinados pela música. O principal instrumento utilizado é o berimbau, dividido em três tipos, conforme a variação da afinação, podendo ser o berimbau gunga (som mais grave), o médio (som na região intermediária) e o viola (som agudo). Entretanto, a capoeira também pode ser acompanhada por atabaque, caxixi, pandeiro, agogô e ganzá.

Boi Caprichoso, no Festival de Folclore de Parintins, AM. Foto de 2010.

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Élcio Carriço/SambaPhoto

J. Borges. 2002. Xilogravura. Acervo do artista

Vanice Ayres Leite. 2011. Nanquim colorido sobre papel. Galeria Jacques Ardies, São Paulo

Roda de samba em Cachoeira, BA. Foto de 2000.

O forró, de J. Borges, 2002. Xilogravura, 24 cm 3 30 cm.

Forrozeira, de Vanice Ayres Leite, 2011. Nanquim colorido sobre papel, 55 cm 3 60 cm.

O forró é o principal ritmo originário do Sertão nordestino. Popular em todo o Brasil, sua disseminação se deu por meio da imigração dos nordestinos para outras regiões do país. Como patrimônio imaterial da humanidade, o forró pode ser protegido a fim de que permaneça vivo para as gerações futuras.

J.Borges, anos 90. Xilogravura. Acervo do artista. Bezerros, PE

A literatura de cordel e a xilogravura também são patrimônios culturais brasileiros. O artista José Francisco Borges, mais conhecido como J. Borges (1935-), é considerado um dos maiores nomes da gravura popular brasileira e sua obra é conhecida mundialmente.

A arte de J. BORGES O xilogravurista e cordelista J. Borges já confeccionou brinquedos artesanais e vendeu literatura de cordel antes de resolver escrever seus próprios cordéis, aos 20 e poucos anos. Como não podia pagar um ilustrador, ele mesmo começou a empreitada. Com o tempo, desenvolveu técnicas próprias para criar, colorir e publicar xilogravuras e sua literatura. Em 2006, J. Borges foi nomeado Patrimônio Vivo de Pernambuco. Suas obras estão repletas de manifestações culturais populares, como a embolada, uma linguagem de tradição nordestina que une música e poesia, podendo ser improvisada ou não, apresentada em feiras, praças e ruas, na qual uma melodia simples embala um duelo rimado e ritmado. Xilogravura: trata-se de um tipo de gravura feito de uma matriz de madeira. É uma linguagem artística usada também em livros de literatura de cordel, muito comum na região Nordeste do Brasil.

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Cantadores de embolada, de J. Borges, c. 1990. Xilogravura, 48 cm  66 cm.

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“[...] A xilogravura nasceu em mim a partir da necessidade de ilustrar o cordel. O cordel foi o meu início em tudo e eu devo muito a ele [...]. Hoje a gravura me alimenta mais, ganhei mais visibilidade com ela, mas não desprezo o cordel [...] trabalhando dentro da minha linha e do meu traço, com os temas da nossa região, que é muito rica em cultura popular, e por isso eu continuo fazendo os dois – cordel e gravuras.”

Marco Antônio Sá/Pulsar

Palavra do artista

J. Borges MAGALHÃES, Elton. Entrevista com J. Borges. O Cordel na Web, 21 abr. 2015. Disponível em: <https://ocordelnaweb. wordpress.com/2015/04/21/entrevista-com-j-borges/>. Acesso em: 8 mar. 2016.

J. Borges entalhando uma matriz, em Bezerros (PE). Foto de 2012.

DICA Para navegar Conheça mais sobre o artista J. Borges e sua obra. Além de informações sobre a vida e as artes desse mestre da gravura, você pode assistir a trechos de documentários e entrevistas em um blogue dedicado a ele e à literatura de cordel no endereço: <http://tub.im/5qdx93> (acesso em: 10 mar. 2016).

Ofício da arte Ilustrador(a) O ilustrador é principalmente um prestador de serviços, mas pode também ser um artista da ilustração, no caso da ilustração para literatura. No mercado de produção, tem como objetivo planejar, criar, propor soluções, expressar ideias ou situações que o cliente deseja ou que estejam descritas em textos por meio de desenhos e imagens, que podem ter características mais abstratas e de maior profundidade artística se forem para textos literários. Deve estar a todo momento treinando, aperfeiçoando-se, buscando por novas técnicas, praticando, inspirando-se, renovando-se, nutrindo-se esteticamente e enriquecendo sua bagagem cultural. Atualmente, o uso de softwares e técnicas facilitou a criação, mas não se pode abrir mão da criatividade e da sensibilidade do profissional, que também pode ser um artista da ilustração.

DICA Para navegar No Portal do Ilustrador, você encontra fóruns de ilustradores de todo o Brasil para troca de experiências e discussão de dúvidas, além de conteúdos sobre o ofício e a arte da ilustração. Navegue por: <http://tub.im/4t8i77> (acesso em: 10 mar. 2016).

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Giro de ideias: Bens imateriais Você e os colegas conhecem algum grupo que se expressa em alguma dança ou música que fazem parte do patrimônio cultural imaterial brasileiro, como a capoeira, o forró, o samba de roda e outras? Que tal pesquisar e criar alguns projetos com o que vocês descobrirem?

• Vocês podem organizar, na escola ou na comunidade, festivais culturais em que algumas dessas manifestações possam ser mostradas.

• Pesquisem em sua comunidade se as pessoas conhecem os bens imateriais. • Observe que tratamento é dado aos bens imateriais pela comunidade. • Organizem um blog com as informações e acontecimentos sobre bens imateriais. Abram espaço para que outras pessoas possam enviar imagens, vídeos e relatos sobre esse tipo de bem patrimonial. Registre aqui o que você descobriu durante as pesquisas.

Coisas preciosas para guardar Os artistas contemporâneos usam muitos materiais e maneiras diversas para expressar suas ideias sobre a vida cotidiana e seus desdobramentos. Vamos conhecer alguns exemplos dessa diversidade artística a seguir. Para conhecer histórias, é preciso estar disponível e disposto a ouvi-las. Da mesma forma, para que outras pessoas conheçam nossas histórias, precisamos contá-las. Às vezes, não é preciso fazer registros escritos apenas ouvir. A arte realizada por Ana Teixeira tem como prerrogativa exatamente ouvir, somente ouvir.

A artista paulista e mestre em poéticas visuais Ana Teixeira (1957-) vai às ruas das cidades com duas cadeiras dobráveis, lã e agulhas de tricô, se acomoda e espera por pessoas que se sentem ao seu lado para contar suas histórias de amor. Na ação urbana Escuto histórias de amor, a artista cria um espaço para que os transeuntes compartilhem, no espaço público, histórias íntimas e pessoais. A proposta dessa artista é promover uma intervenção no cotidiano das pessoas e provocar reflexões sobre as maneiras como vivemos e ocupamos as cidades.

Ana Teixeira. 2006

A arte de ANA TEIXEIRA

A artista Ana Teixeira em suas “ações de rua”: Escuto histórias de amor, uma intervenção urbana realizada em vários países. Foto de 2006.

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Palavra do artista “Sou uma artista visual e, tanto em minhas intervenções quanto em meus desenhos, objetos e fotos, tenho me dedicado a uma extensa pesquisa sobre os seres humanos. Os assuntos que me mobilizam são os que mobilizam a grande maioria das pessoas, como o amor, a morte, o desejo, os sonhos e, ainda, as questões de gênero e identidade. Meu intuito é colocar uma lupa sobre esses temas instigando as pessoas a vê-los a partir de outro lugar. Creio assim, por meio do desassossego, produzir enfrentamentos provocando não o conhecimento, mas sim o desconhecimento. Escuto histórias de amor é uma das minhas ações e foi realizada em nove países: Brasil, Canadá, Alemanha, França, Itália, Espanha, Portugal, Chile e Dinamarca. Eu ouço as histórias, mas não as registro sonoramente. Os filmes exibem apenas as imagens e os sons das ruas das cidades de diferentes países. A matéria-prima de meu trabalho são as perguntas, indagações que produzem outras indagações. Não pretendo em nenhum momento respondê-las, apenas plantá-las no mundo silenciosa e rasteiramente, como quem planta raízes e não árvores. As árvores são para serem apreciadas, as raízes, precisamos enfrentá-las.”

Ana Teixeira. 2010

Depoimento de Ana Teixeira sobre sua arte. Ana Teixeira. Disponível em: www.anateixeira.com. Acesso em: 20 abr. 2016.

Escuto histórias de amor, intervenção urbana de Ana Teixeira. Foto de 2010.

DICA Para navegar A artista Ana Teixeira estudou arte na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e desenvolve vários trabalhos artísticos e de pesquisa. Você pode conhecer e apreciar mais imagens e textos criados por essa artista navegando pelo site: <http://tub.im/9fd8ri> (acesso em: 26 fev. 2016).

Para navegar Conheça o site Museu da Pessoa, um museu virtual colaborativo de relatos de vida em que qualquer pessoa pode contar suas próprias histórias ou explorar o acervo de textos, imagens, vídeos e áudios que registram e preservam as narrativas de histórias de diversas áreas da atividade humana. Navegue pelo site: <http://tub.im/i5ikyx> (acesso em: 10 mar. 2016).

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Giro de ideias: O patrimônio da minha cidade Fabio Colombini

[...] Você já foi à Bahia, nêga? Não? [...] Nas sacadas dos sobrados Da velha São Salvador […] Tudo, tudo na Bahia Faz a gente querer bem CAYMMI, Dorival. Você já foi à Bahia? In: Setenta anos – Caymmi. Rio de Janeiro: Funart/Polygram/Philips, 1984. LP. Faixa 3. Disponível em: <http://www.dorivalcaymmi.com. br/sitebiografico/>. Acesso em: 4 mar. 2016.

Sueli Bispo, uma “baiana do acarajé”, e seu tabuleiro contendo acarajé, cocada, peixe frito, bolinho de estudante, vatapá, camarão, caruru (quiabo), passarinha (baço de boi), tomate e óleo de dendê, em foto de 2009. Rodney Suguita /Folhapress

Dorival Caymmi (1914-2008), nascido em Salvador, Bahia, foi cantor, compositor, violonista, pintor e ator. Compôs principalmente músicas que retratam os costumes e as tradições do povo baiano e as influências afrodescendentes. Uma paixão pelas coisas do seu lugar fez esse músico brasileiro criar versos e sons que falam de bens materiais, como as cidades e praias da Bahia, e imateriais, como o modo de fazer os quitutes das baianas do acarajé. E com você? Como é o seu lugar? Que tipo de relação você tem com a região em que vive? Converse com os colegas sobre como vocês veem o lugar em que moram. O que há na cidade e nos arredores? Existem bens materiais e imateriais que fazem parte do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)? A turma pode sair pela cidade e fotografar esses bens para fazer um catálogo do Patrimônio Cultural local. É possível que vocês se surpreendam ao descobrir os bens culturais que existem em sua cidade. Depois de conhecer sua região, que tal fazer um poema ou letra de música sobre seus bens materiais e imateriais? Pesquise, passeie, conheça e divirta-se!

DICA

O cantor e compositor Dorival Caymmi apresentando-se em São Paulo, em 1996.

Para ouvir Para melhor conhecer a obra de Dorival Caymmi e como ele retrata a cultura e o povo das regiões em que viveu, visite o site do artista: <http://tub.im/v9ajj3> (acesso em: 4 mar. 2016).

Capítulo 6 • Bagagem cultural

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Conexões

Arte e Literatura 1. Como nasceram os livros

 Tipos móveis: são matrizes em madeira ou metal em que as letras são gravadas individualmente. Essa técnica era utilizada para formar as palavras e os textos que eram impressos.  Litogravura: o nome litografia vem de lithos, que em grego significa pedra, e graphein, que é escrever ou desenhar. Assim, litogravura é o desenho na pedra. A pedra litográfica é o suporte (matriz) em que o artista desenha com lápis oleoso (ou pastas gordurosas). Depois de feito o desenho na pedra, em geral em calcário, ela é tratada com materiais químicos e água. Ao final do processo, a imagem é gravada em papel por meio de uma prensa litográfica (especialmente construída para este processo).

A xilogravura é uma das mais antigas formas de gravar e reproduzir imagens da história. Por meio dessa técnica, foi possível criar livros em série e obras de arte. Um dos exemplares mais antigos de xilogravura conservado é conhecido como a Lição dos ensinamentos de Buda ou Sutra do Diamante, de 868 d. C., encontrado na China. Observe a imagem abaixo. Acredita-se que a técnica da xilogravura seja originária desse país e muito mais antiga do que o livro. Há indícios de que anteriormente era usada para gravar imagens em tecidos, produzindo estampas; depois, passou-se a usar a técnica em papéis. O nome xilogravura significa “arte de gravar em madeira”. Essa linguagem artística existe até nossos dias. Para fazer uma xilogravura, desenhava-se em uma placa de madeira, usando uma ferramenta chamada goiva para fazer sulcos, isto é, retirar parte da madeira para produzir um desenho em baixo-relevo. É preciso passar tinta sobre essa placa de madeira com a ajuda de um rolo. No lugar onde foram feitos os sulcos, a tinta não penetra, e assim o desenho se forma com maior nitidez e riqueza de detalhes. Para finalizar esse processo, uma folha de papel é colocada sob a placa de madeira, que é manualmente pressionada. Assim, a imagem é transferida da matriz (placa de madeira) para o papel, em processo de impressão que pode ser repetido várias vezes. Imagens e letras podiam ser impressas dessa maneira, porém as letras deveriam ficar sempre ao contrário, para que saíssem no sentido correto na impressão. Com o tempo, adaptando a técnica da xilogravura, considerou-se mais prático fazer uma matriz para cada letra e, assim, nasceram os tipos móveis. Depois, foram inventadas prensas de impressão. No Sacro Império Romano-Germânico, por volta de 1439, a produção de livros usando metal como matriz foi desenvolvida por Gutenberg, e tanto textos como imagens começaram a ser produzidos com a técnica de gravura em metal.

World History Archive/Ann Rona/Keystone

Essa técnica desenvolveu-se também como linguagem artística e tornou-se muito popular a partir do século XV. Artistas como Albrecht Dürer criaram tanto em xilogravura como em gravura em metal. Mais tarde, no século XVIII, o alemão Alois Senefelder (17711834) criou outro tipo de gravura, a litogravura, que utiliza gravações em pedra por meio de processos químicos. Várias formas de criar imagens impressas foram desenvolvidas, como a serigrafia e a impressão a laser, mas a xilogravura e outras maneiras antigas de criar gravuras ainda são linguagens visuais escolhidas por artistas da nossa era como Gilvan Samico (1928-2013) e os autores de literatura de cordel.

Sutra do Diamante (Lição dos ensinamentos de Buda), de Wang Chieh. Xilogravura sobre pergaminho, 868.

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Derlon Allmeida. 2011. Acervo do artista

2. A diversidade cultural e as linguagens artísticas Derlon de Almeida (1985-), artista pernambucano, é conhecido por misturar imagens que parecem ter saído de livros de cordel à arte das ruas. Ele usa colagens e pinturas em cores contrastantes, principalmente em branco e preto e faz uso da técnica do lambe-lambe para divulgar a sua arte. As imagens que inspiraram Derlon Almeida foram criadas por outros artistas na linguagem da gravura. Dentre elas, é possível citar xilogravuras como as do também pernambucano J. Borges (1935-), que cria imagens e textos em cordel para contar as histórias do Nordeste brasileiro.

As xilogravuras nascidas para ilustrar os cordéis mostram a estética que revela a cultura dos contos de tradição oral, que têm seus personagens imortalizados nas imagens criadas pela Obra de Derlon Almeida, 2011, no Recife, PE. imaginação do artista. Trata-se da linguagem visual na xilogravura e de uma poética nordestina, expressa tanto na obra de Derlon Almeida, nas ruas das cidades, e que depois invadiu galerias de arte e museus, como nas páginas dos livros ilustrados pela arte de J. Borges.

J. Borges. 2003. Xilogravura. Coleção particular

Em sua cidade, que obras estampam os muros? Fotografe-as e compartilhe com os colegas. Lambe-lambe: técnica do lambe-lambe é uma das linguagens visuais denominadas urbanas e consiste em colar imagens feitas em papel sobre paredes, muros e outros suportes. Hoje, alguns artistas usam também adesivos produzidos de modo industrial em grandes formatos.

O forró dos bichos, de J. Borges, 2003. Xilogravura, 53 cm 3 35 cm.

DICA Para navegar Conheça mais sobre Gilvan Samico e outros artistas gravuristas que usam a linguagem e técnica da xilogravura visitando o site Arte Popular no Brasil: <http://tub.im/5iudcb> (acesso em: 10 mar. 2016).

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Conexões

Arte e Língua Portuguesa

1. Leitura dramática [...] CHICÓ — [...] Foi no dia em que meu pirarucu morreu. JOÃO GRILO ­— Seu pirarucu? CHICÓ — Meu, é um modo de dizer, porque, para falar a verdade, acho que eu é que era dele. Nunca lhe contei isso não? JOÃO GRILO — Não, já ouvi falar de homem que tem peixe, mas de peixe que tem homem, é a primeira vez. [...] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 11. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1975. p. 57.

Para montar uma peça teatral, o diretor, os atores e toda a equipe de uma companhia de teatro estudam os textos para compreender suas mensagens e construir os personagens. Esse tipo de exercício, além de ajudar a decorar as falas, também auxilia na construção dos personagens. São horas de estudos e treino para o desenvolvimento da capacidade de interpretar o texto que poderá entreter, emocionar, divertir o público. Vimos que há textos escritos especialmente para teatro, e outros que foram adaptados para o palco. O pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980) e o paraibano Ariano Suassuna (1927-2014) são exemplos de autores dramaturgos brasileiros que escreveram textos especialmente para o teatro. Esses autores também já tiveram seus textos adaptados para a linguagem do cinema e da televisão. Você conhece algum texto desses autores? Escolha um dos dois autores, pesquise e traga um trecho de texto para um jogo com sua turma em sala de aula. Veja quantos personagens aparecem no trecho do texto selecionado e proponha que cada colega leia a parte de um personagem. Essa leitura deve ser dramatizada, procurando construir a voz e alguns gestos desses personagens. Esse tipo de exercício teatral se chama leitura dramática. A proposta é estudar o texto antes mesmo de montar a peça, para sentir o clima de cada cena, o jeito de ser de cada personagem e a potência expressiva de cada trecho do texto. Desenhe como você imagina que seja o personagem que você escolheu para fazer a fala que está no texto. Pense nas características físicas, na voz, na expressão do rosto e no figurino.

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2. Palavras para guardar A arte da dramaturgia também é um patrimônio cultural. Há textos que são verdadeiros clássicos do Patrimônio Cultural da Humanidade (PCH), como Medeia (431 a.C.), do grego Eurípides (480 a.C.-406 a.C.), poeta e escritor de peças trágicas que viveu na Grécia antiga.

Filme de Guel Arraes. O Auto da Compadecida. Brasil. 2000

A dramaturgia pode ser composta por vários estilos de obras literárias. Alguns textos já são escritos diretamente para o teatro e, além dos diálogos, apresentam detalhamento de ações dos atores como é o caso do Auto da Compadecida (que posteriormente foi adaptado para o cinema dando origem ao filme de mesmo nome). Há textos que, inclusive, dão indicações de como podem ser os figurinos, o cenário, a luz em cena e outros aspectos importantes para que os atores e diretores de teatro criem os espetáculos. Outros textos são adaptados, por exemplo, textos narrativos, em que um autor conta a história dos personagens, e ao lê-lo vamos imaginando as cenas e os diálogos. Há muitos autores que fazem adaptações de textos da literatura dos mais variados gêneros para o formato de texto dramático. Que tal, agora, fazermos o papel de autores? Vamos experimentar adaptar um texto de sua preferência em um texto dramático? Escolha um texto com estrutura narrativa, desses que contam a história de um ou mais personagens, e adapte um pequeno trecho, criando os diálogos, as cenas, como devem ser os personagens e outros detalhes. Depois, convide os colegas para fazer a interpretação do texto adaptado por você.

Capa do DVD do filme O auto da Compadecida, adaptação para o cinema da peça de Ariano Suassuna. Direção de Guel Arraes. Brasil: Globo Filmes/Sony Pictures, 2000.

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Arte e Geografia Cena do espetáculo O compadre da morte. 2010-2011. Direção: Luiz Munhoz. Foto: Acervo do ator e diretor Luiz Munhoz

Conexões

Cena da peça O compadre da morte, do grupo Trancos e Barrancos, durante temporada 2010-2011.

Na boca do povo! O Brasil, como sabemos, apresenta uma diversidade cultural muito rica e marcante. Histórias que estão na boca do povo, nos contos de tradição oral, nos causos e lendas, são exemplos de bens imateriais. A pessoa que pesquisa sobre esses assuntos é chamada de folclorista. O folclorista Luís da Câmara Cascudo (18981986) dizia que gostava de pesquisar sobre a cultura oral brasileira para saber das histórias que contavam sobre as coisas das localidades rurais e das cidades Brasil afora. Nascido em Natal, Rio Grande do Norte, também era historiador, antropólogo, jornalista e advogado, profissões que estimularam seu interesse pelo folclore.

Câmara Cascudo sempre teve interesse em conhecer mais sobre os contos que falavam da vida de pessoas humildes, dos sábios, dos moços e velhos. Queria descobrir os mistérios das assombrações, os segredos do mar, do céu, das estrelas, de um mundo imaginário que anda por aí, na cabeça e na boca do povo, nos contos populares. De pesquisa em pesquisa, de lugar em lugar, foi mapeando os contos de tradição oral e estudando suas origens, de lugares geográficos e contextos culturais. Sua pesquisa constitui uma geografia cultural, mostrando a origem das histórias e como elas se adaptaram em cada lugar. São muitos e diversos os contos recolhidos. Tem conto que explica a origem das coisas, que conta sobre reinos, príncipes e princesas, contos para dar exemplos ou de encantamento, de assombração e até contos para enganar a morte. Será que é fácil enganar a morte? No conto de tradição oral O compadre da morte, recolhido pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo, um homem se tornou compadre da morte e, durante sua vida, sempre encontrou maneira de enganar sua comadre morte, que não podia levá-lo sem seu desejo. A cada encontro, a morte ia embora, zangada pela sabedoria do homem em enganá-la. Contudo, ela ficava à espreita, esperando um momento propício para levá-lo. Um dia, o homem estava distraído e veja a seguir o que aconteceu.

Anos e anos depois, o médico, velhinho e engelhado, ia passeando nas suas grandes propriedades quando reparou que os animais tinham furado a cerca e estragado o jardim, cheio de flores. O homem, bem contrariado disse: — Só queria morrer para não ver uma miséria destas!... Não fechou a boca e a Morte bateu em cima, carregando-o. A gente pode enganar a Morte duas vezes, mas na terceira é enganado por ela. CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999. p. 342.

Esse conto, da Região Norte do Brasil, já foi adaptado para o teatro pelo grupo Trancos e Barrancos, de Poços de Caldas, Minas Gerais, em 2010. Observe uma cena dessa peça na imagem acima. Você conhece algum conto de tradição oral que gostaria de contar para a turma?

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Projeto experimental Xilogravura Vamos fazer uma xilogravura? 1. Escolha um material para gravar seu desenho. Uma placa de madeira ou uma superfície plana de gesso podem servir como matriz. 2. Usando uma folha de papel carbono, passe o seu desenho para a superfície da matriz. 3. Se você escolher como matriz um pedaço de madeira, o melhor é usar goivas, que são ferramentas de corte para fazer marcas ou retirar partes da madeira. Se escolher trabalhar com outros materiais, como um placa de isopor com textura lisa ou uma placa de gesso, você pode usar lápis, tampas de canetas, palitos de madeira, dentre outros materiais. 4. Com a matriz gravada, passe tinta (pode ser guache) sobre essa superfície. 5. Pressione uma folha de papel de seda sobre ela e veja como sua gravura aparece. Faça quantas cópias quiser. Vale lembrar que as primeiras cópias são as mais valiosas no que diz respeito a uma tiragem profissional. Outra ideia é usar as técnicas do artista Derlon Almeida. Desenhe o que quiser em uma folha de jornal e depois pinte seu desenho usando nanquim ou guache preto, explorando as áreas claras e escuras. Em seguida, passe cola branca no verso da sua pintura e escolha um local para “adesivar” sua arte (de preferência uma parede). Depois, passe cola por cima da imagem para fixá-la bem no local escolhido. Essa técnica é parecida com a colocação de cartazes em postes e paredes.

Projeto experimental 1. P  atrimônios culturais materiais e intervenções urbanas

Professor, como variação dessa proposta, os alunos podem fazer intervenções urbanas próximas ou no próprio lugar do patrimônio material. É preciso apenas alertá-los para a necessidade das devidas autorizações, para que a ação poética e artística ocorra sem problemas. Estimule-os a pesquisar mais sobre o artista citado, neste tema Eduardo Srur, e outros artistas que apresentem em suas obras a preocupação com o patrimônio cultural.

Dê um giro pela sua cidade e fotografe os patrimônios culturais materiais. Museus, prédios históricos, praças, monumentos... Qual o estado desses bens? Imprima as imagens que você registrou e faça interferências com textos sobre o que você sente ao ver o estado em que se encontram os bens materiais de sua cidade. Estão bem conservados? Apresentam degradação do tempo? Foram vítimas de vandalismo? O que você tem a dizer sobre isso? Você pode, também, organizar uma exposição com essas imagens e textos na escola. Deixe um livro de comentários disponível para que outras pessoas expressem opiniões sobre sua pesquisa visual e criação poética. Chame a turma toda para participar desse projeto.

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2. Criando sons pelo Brasil

pau de berimbau

O berimbau é um instrumento de origem africana. No Brasil, geralmente é utilizado nas rodas de capoeira. Vamos construir um berimbau? Acompanhe as etapas a seguir. Materiais necessários: ripa de madeira ou um bambu fino, medindo de 1,50 m a 1,70 m de comprimento (com maleabilidade suficiente para envergar e formar um arco); arame; cabaça; pedra ou moeda; vareta; caxixi (para caxixi ajudar a marcar o ritmo); ferramentas para furar e cortar (faca, alicate). Passo a passo: • Amarre um arame em uma extremidade da ripa de madeira ou bambu. • Coloque a ponta com o arame amarrado no chão e envergue a ripa de madeira ou bambu e amarre o aravareta me na outra ponta. • Em uma das pontas, amarre uma cabaça com a base cortada para servir de caixa de ressonância. • Para tocar, utilize uma vareta de madeira e uma pedra lisa ou moeda, que é colocada na corda para mudar a nota musical. Depois de criar seu instrumento, chame o pessoal para roda, toquem o berimbau, dancem e joguem capoeira.

2. O ofício da viola de cocho Eu hei de morrer cantando por que eu chorando eu nasci [...]

arame

Fernando Favoretto/Criar Imagem

1. Na roda de capoeira – som e movimento

cabaça

Berimbau, caxixi e vareta, instrumentos utilizados nas rodas de capoeira.

Trecho da toada de cururu Onde eu nasci, de autoria do mestre Caetano Ribeiro, artesão e tocador da viola de cocho de Cuiabá, Mato Grosso.

Marcos André/Opção Brasil

A viola de cocho é um instrumento encontrado na região do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ela recebe esse nome porque é confeccionada de maneira semelhante a um cocho (objeto utilizado para alimentar o gado). É feita de um tronco de madeira inteiro que é esculpido no formato de uma viola, no qual são fixados o tampo, o cavalete, as cravelhas, os trastes (ou trastos) e as cordas. É utilizado para acompanhar diversas danças e cantorias da região, como o cururu e o siriri. O cururu é dançado pelos homens, em roda, e a cantoria pode ser realizada em forma de desafio ou louvação. Já o siriri é dançado principalmente pelas mulheres ou casais. Os assuntos mais tratados nas letras são as mulheres, além de pássaros e outros animais. Esse é um ofício ensinado de geração para geração. Por exemplo, a viola de cocho na vida do mato-grossense Alcides Ribeiro (1965-), artesão especializado na construção desse instrumento, foi passada por seu pai, Caetano Ribeiro (1925-2012), mestre nesse ofício. Observe as imagens da página seguinte. O mestre que ensinou o trabalho a seu

Viola de cocho desenhada. Corumbá, MS. Foto de 2008.

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Fotos: Acervo de família

filho também aprendeu com seu pai, e este, por sua vez, recebeu os segredos da construção da viola de cocho no seio da sua família. São quatro gerações de construtores e músicos que têm em comum a paixão pela viola de cocho e a música de tradição cuiabana.

Mestre Caetano Ribeiro e seu filho Alcides, com as violas de cocho produzidas por eles. Foto de 2011.

Artesão e mestre Alcides Ribeiro construindo uma viola de cocho. Foto de 2011.

O som da viola que embala a dança de São Gonçalo, do rasqueado, além dos ritmos do cururu e siriri, é forjado nos quintais, na troca de afetos, entre um conselho e outro dado de pai para filho, conversas que animam a vida em família na região de Cuiabá. É o ofício de fazer viola, música e história. Coisas que fazem parte do nosso patrimônio cultural imaterial. A confecção da viola de cocho também foi tombada como patrimônio cultural, por se tratar de uma forma única de construção. Para construí-la, acompanhe as etapas indicadas no link da Dica para navegar a seguir.

DICA Para navegar O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) disponibilizou um livro ilustrado que documenta toda a história da viola de cocho, sua cultura, as artes e os povos envolvidos, e ensina, passo a passo, como confeccioná-la. Traz também partituras de canções típicas para tocar com a viola de cocho. Para conhecer essa arte, visite: <http://tub.im/7odbe6> (acesso em: 7 mar. 2016).

Para navegar Conheça mais sobre as gerações de uma família de artesãos e músicos especialistas em viola de cocho no blog criado por Alcides Ribeiro: <http://tub.im/64fygy> (acesso em: 7 mar. 2016).

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FIQUE DE OLHO:

Enem e vestibulares Resposta: d Nessa questão, são trabalhados conceitos como: sentimento de pertencimento e responsabilidade pelos bens artísticos e culturais, a importância de órgãos públicos que cuidam do patrimônio nacional e a construção de políticas culturais e leis que garantam que os nossos bens não sejam destruídos. Além de deixar claro que é preciso preservar a memória oficial brasileira e compreender o papel de serviços oferecidos pelo serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (SPHAN) no percurso da história brasileira e nos dias atuais.

1. (Enem-MEC) O que o projeto governamental tem em vista é poupar à Nação o prejuízo irreparável do perecimento e da evasão do que há de mais precioso no seu patrimônio. Grande parte das obras de arte até mais valiosas e dos bens de maior interesse histórico, de que a coletividade brasileira era depositária, têm desaparecido ou se arruinado irremediavelmente. As obras de arte típicas e as relíquias da história de cada país não constituem o seu patrimônio privado, e sim um patrimônio comum de todos os povos. ANDRADE, R. M. F. Defesa do patrimônio artístico e histórico. O Jornal, 30 out. 1936. In: ALVES FILHO, I. Brasil, 500 anos em documentos. Rio de Janeiro: Mauad, 1999 (adaptado).

A criação no Brasil do Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (SPHAN), em 1937, foi orientada por ideias como as descritas no texto, que visavam a) submeter a memória e o patrimônio nacional ao controle dos órgãos públicos, de acordo com a tendência autoritária do Estado Novo. b) transferir para a iniciativa privada a responsabilidade de preservação do patrimônio nacional, por meio de leis de incentivo fiscal. c) definir os fatos e personagens históricos a serem cultuados pela sociedade brasileira, de acordo com o interesse público. d) resguardar da destruição as obras representativas da cultura nacional, por meio de políticas públicas preservacionistas. e) determinar as responsabilidades pela destruição do patrimônio nacional, de acordo com a legislação brasileira. As questões de número 2 e 3 tomam por base duas passagens do livro A linguagem harmônica da Bossa Nova, do docente e pesquisador da Unesp, José Estevam Gava.

Momento Bossa Nova Professor, o texto de José Estevam Gava oferece várias possibilidades de discussão sobre este movimento da arte brasileira, a Bossa Nova, que ainda é conhecida, tocada e ouvida por gerações que nasceram bem depois do seu início, um estilo musical repleto de brasilidade que é parte do nosso patrimônio cultural.

Nos anos 1940, o samba-canção já era uma alternativa para o samba tradicional, batucado, quadrado. Em sua gênese foram empregados recursos correntes na música erudita europeia e na música popular norte-americana. Já era algo mais sofisticado, praticado por compositores e arranjadores com maior preparo musical e sempre de ouvido aberto para as soluções propostas pela música estrangeira. O jazz, por exemplo, mais tarde permitiria fusões interessantes como o “samba-jazz” e o “samba moderno”, com arranjos grandiosos e com base nos instrumentos de sopro. Mas, em termos de poesia e expressividade, o samba-canção tendia a manter seu caráter escuro, sombrio, com muitos elementos que lembravam a atmosfera tensa e pessimista do tango argentino e do bolero, gêneros latinos por excelência. O samba-canção esteve desde logo ambientado em Copacabana, lugar de vida noturna intensa, boates enfumaçadas, mulheres adultas e fatais envoltas num clima de pecado e

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traição, enquanto a Bossa Nova ambientou-se mais para o Sul, em Ipanema, além de tornar-se representativa de um público mais jovem, amante do sol e da praia. Nesse ambiente solar, a mulher passou a ser a garota da praia, a namorada. Deu-se um descanso às imagens de “amante proibida e vingativa, com uma navalha na liga. E as letras da Bossa Nova não tinham nada de enfumaçado. Eram uma saga oceânica: a nado, numa prancha ou num barquinho, seus compositores prestaram todas as homenagens possíveis ao mar e ao verão. Esse mar e esse verão eram os de Ipanema” (Castro, 1999, p. 59). A Bossa Nova levou aos extremos a tendência intimista de cantar sobre temas do cotidiano, sem muita complicação poética. Em vez da negatividade do samba-canção, explorou ao máximo a positividade expressiva e um otimismo sem precedentes. Esse foi o grande traço distintivo entre a Bossa Nova e o samba-canção. O otimismo diante do amor trouxe consigo imagens de paz e estabilidade possibilitadas por relacionamentos amorosos felizes e amores correspondidos, sem as cores patológicas e dramáticas que tanto marcavam os sambas-canções. Mesmo a dor, quando ocorria, era encarada como um estágio passageiro, deixando de assumir o antigo caráter terminal. Em plenos anos 1950, quando nas rádios predominava o derramamento vocal e sentimental, Tom Jobim já buscava um retraimento expressivo pautado por um discurso poético/musical mais sereno, mais em tom de conversa do que de súplica. Se os mais jovens identificavam-se com essas coisas novas, os mais velhos e tradicionalistas viam-nas com estranheza, sendo compreensível que as descrevessem como canções bobas e ingênuas, não obstante a sofisticação harmônica e rítmica. (José Estevam Gava. A linguagem harmônica da Bossa Nova. São Paulo: Editora Unesp, 2002.)

2. (Vunesp-SP) A partir do texto apresentado, aponte a alternativa que não caracteriza a Bossa Nova. a) Ambientada em Ipanema. b) Bem recebida por um público mais jovem. c) Abordagem de temas do cotidiano. d) A dor como o fato dominante da existência. e) Maior sofisticação harmônica e rítmica.

Resposta: d O público mais jovem via a paisagem, o clima e os locais de encontro que a cidade carioca oferecia de forma leve, “sem nada de enfumaçado”, por isso, se identificou com a Bossa Nova, que mostra o cotidiano de modo mais otimista, intimista e, como é colocado no texto de José Estevam Gava, “sem muita complicação poética”.

3. (Vunesp-SP) Segundo o texto, o principal traço distintivo da Bossa Nova com relação ao samba-canção foi a) a influência do jazz. b) o afastamento do samba tradicional, batucado, quadrado. c) a exploração da positividade expressiva e um otimismo sem precedentes. d) a influência do tango e do bolero sofrida pela Bossa Nova. e) o caráter mais inovador e as virtudes rítmicas do samba-canção.

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Resposta: c A diferença entre o samba-canção e a Bossa Nova foi a exploração da positividade expressiva e um otimismo sem precedentes. Uma música que valorizou a vida carioca.

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E X P E D I Ç Ã O C U LT U R A L Quais os percursos que nos levam aos monumentos da cidade? Pegue o mapa de sua cidade e trace percursos que você e seus colegas podem percorrer para encontrar os bens materiais e imateriais. Em sua cidade são realizadas festas para a população? Que tal se informar na Secretaria de Cultura quando vão acontecer e o que comemoram? Será uma boa oportunidade para você marcar um encontro com a cultura de sua região. Aproveite sua expedição cultural e qualquer outro passeio que você faça. Fique atento a tudo que está em seu caminho. Leve sempre seu diário de bordo consigo e guarde nele tudo que pode constituir a sua bagagem cultural. Que tal pesquisar em sua comunidade sobre as influências culturais locais? Com os colegas, pensem nas misturas e sincretismos que vocês podem criar na linguagem da arte explorando aspectos dados pelas tecnologias contemporâneas e pelas manifestações tradicionais. Escolham qualquer linguagem da arte, como compor músicas, criar imagens nas artes visuais ou expressar-se corporalmente na dança e no teatro. Que tal criar manifestos artísticos sobre o que pesquisaram e sobre os anseios artísticos e sociais que descobriam nesses percursos?

Rodrigo Lima/ Nitro

Reúna-se com os colegas e os professores e organizem um festival de misturas culturais na escola.

O Instituto Inhotim, criado em meados da década de 1980, em Belo Horizonte (MG), agrega um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea do mundo e uma coleção botânica que reúne espécies raras, de todos os continentes. Os acervos são mobilizados para o desenvolvimento de atividades educativas e sociais para públicos de diversas idades.

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DIÁRIO DE BORDO Neste capítulo, conversamos sobre patrimônio e como formamos nossa bagagem cultural. Coisas que vemos e sentimos, guardamos quando é significativo. Pensar sobre tudo aquilo que faz parte de sua bagagem cultural pode ajudar a criar projetos e maneiras de trabalhar suas produções artísticas e a compreender as coisas que são nossas, que estão por aí, dentro de museus ou nas praças, nas ruas, na internet, até dentro de nossas gavetas. São coisas que compartilhamos com todos (os patrimônios públicos materiais e imateriais) ou coisas que guardamos só para nós (a memória de nossas experiências ou os objetos pessoais significativos). De qualquer forma, essas coisas nos pertencem e precisam ser guardadas, cuidadas, preservadas. Elas nos alimentam, mas também precisamos alimentá-las. Fazem parte da nossa “nutrição estética“. Para guardar precisamos conhecer e cuidar. Cultivar afetos e sentimento de pertencimento. A artista Ana Teixeira nos fala que podemos estar abertos a ouvir, ver, sentir... Muitos artistas criam obras a partir de suas histórias ou de histórias dos outros. O que você tem a dizer nas muitas linguagens da arte?

Conversamos sobre memória, guardados, valorização, tombamento, acessibilidade a bens imateriais e a bens materiais, nossos patrimônios culturais. Como você se relaciona com sua memória? O que há guardado dentro de seus baús, de suas caixas, de suas gavetas? Reflita sobre esses assuntos e registre suas descobertas em seu diário de bordo.

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Geoffrey Farmer. 2012. Life Magazine (1935-1985), grama alta, madeira, colagem de dimensões variáveis. Foto: Rita Demarchi

A cidade em que você mora pode estar repleta de bens patrimoniais e culturais. Você se sente preparado para descobrir esse material e pesquisar sobre os bens? O que ficou de significativo de nossa conversa sobre bens materiais e imateriais? Que conceito ficou mais forte?

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REFERÊNCIAS Arte na web Sugestões de aprofundamento Artigos, entrevistas, textos, filmes e documentários Acusma. Verbete. Dicionário AULETE. Disponível em: <http://tub.im/myg9gk>. Acesso em: 23 abr. 2016. Adriana Varejão. Adriana Varejão: metáforas da memória. In: BUCHMANN, Luciano. São Paulo: Instituto Arte na Escola, 2005. p. 5. Disponível em: <http://tub.im/msad9o>. Acesso em: 23 abr. 2016 Albert Einstein. Artigo. In: Sobre religião cósmica e outras opiniões e aforismos, 1931. Disponível em: <http://tub.im/czy393>. Acesso em: 23 abr. 2016. Alice no país das maravilhas. Direção de Tim Burton. EUA, 2010. (109 min). Informações disponíveis em: <http://tub.im/wy7a9i>. Acesso em: 23 abr. 2016. Andy Warhol. Técnica de retrato da cantora Deborah Harry com computador na TV norte-americana. Reportagem disponível em: <http://tub.im/fgui8g>. Acesso em 23 abr. 2016. Antonio Cícero. Poema: Guardar. In: Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996. Disponível em: <http://tub.im/ viegwr>. Acesso em: 23 abr. 2016. Antonio Machado. Poema XXIX de Proverbios y cantares. In: Poesías completas. Madrid: Espasa-Calpe, 1983. (Tradução de Antonio Cícero) para seu blog oficial, 27 ago. 2010. Disponível em: <http://tub.im/fkbu44>. Acesso em: 23 abr. 2016. Arnaldo Antunes. Videoclipe e letra de Música para ouvir. Disponível em: <http://tub.im/8p8arn>. Acesso em: 23 abr. 2016. Arte & Matemática. Programas interdisciplinares com textos, jogos e documentários. Disponível em: <http:// tub.im/hwz85d>. Acesso em: 23 abr. 2016. Arte Poética. Aristóteles. Links de obras em domínio público. Disponível em: <http://tub.im/iwk53f>. Acesso em: 23 abr. 2016. Augusto Boal. Biografia. Disponível em: <http://tub.im/rwss9j>. Acesso em: 23 abr. 2016. Augusto Boal. Biografia, artigo e entrevista. Disponível em: <http://tub.im/w8227u>. Acesso em: 23 abr. 2016. Avatar. Direção de James Cameron. EUA, 2009. (162 min). Informações disponíveis em: <http://tub.im/ mszdkj>. Acesso em: 23 abr. 2016. Body Art. Arte do corpo – verbete enciclopédico. Disponível em: <http://tub.im/9bo96q>. Acesso em: 23 abr. 2016. Carta de Pero Vaz de Caminha. Transcrição da carta original. Disponível em: <http://tub.im/h3fcs6>. Acesso em: 23 abr. 2016. Cildo Meireles. Depoimento. Disponível em: <http://tub.im/6wz7b3>. Acesso em: 23 abr. 2016.. Clarice Lispector. Entrevista ao programa Panorama. Disponível em: <http://tub.im/87vgka>. Acesso em: 23 abr. 2016. Curtas-metragens. Site Porta Curtas, especializado em curtas-metragens. Disponível em: <http://tub.im/5y5jka>. Acesso em: 23 abr. 2016. Ferreira Gullar. Depoimento em vídeo e entrevista escrita ao jornalista Luciano Trigo, 26 ago. 2010. Disponível em: <http://tub.im/cubepe>. Acesso em: 23 abr. 2016. Gaston Bachelard. Apud: MAGNO, Lucas. Pincéis vivos. Revista ABD Conceitual, São Paulo: Velvet, ed. 5, p. 24, nov./dez. 2012. Disponível em: <http://tub.im/s5wofe>. Acesso em: 23 abr. 2016. Gonçalves Dias. Poema: I-Juca-Pirama. In: MINISTÉRIO DA CULTURA. Fundação Biblioteca Nacional. Departamento Nacional do Livro. Disponível em: <http://tub.im/cpp654>. Acesso em: 23 abr. 2016.

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Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Disponível em: <http://tub.im/dndshz>. Acesso em: 23 abr. 2016. Jackson Pollock 51. Trecho do documentário dirigido por Hans Namuth e Paul Falkenberg, 1951. Disponível em: <http://tub.im/yii6wr>. Acesso em: 23 abr. 2016. John Cage. Apresentação da peça musical 4’33”. Disponível em: <http://tub.im/dgrugp>. Acesso em: 23 abr. 2016. Lixo Extraordinário. Direção de Lucy Walker. Brasil/Reino Unido: Downtown Filmes, 2010. (90 min). Disponível em: <http://tub.im/mz6eym>. Acesso em: 23 abr. 2016. Lucia Koch. Reportagem. IN: SALAZAR, Carmem. Revista eletrônica Luz e Cena, Seção Galeria, edição 91, 24 fev. 2007. Disponível em: <http://tub.im/3k4zf8>. Acesso em: 23 abr. 2016. Manifesto Antropofágico. Revista de Antropofagia, ano 1, no 1, maio 1928. Disponível em: <http://tub.im/ qtyg3p>. Acesso em: 23 abr. 2016. Manifesto da Poesia Pau-Brasil. Correio da Manhã, 18 mar. 1924. Disponível em: <http://tub.im/qtyg3p>. Acesso em: 23 abr. 2016. Marcel Duchamp. Rotary Demisphere, 1925. Filme que mostra a arte cinética do artista. Disponível em: <http://tub.im/8xfex2>. Acesso em: 23 abr. 2016. Moça com brinco de pérola (Girl with a pearl earring). Direção de Petter Webber. Reino Unido/ Luxemburgo: Imagem Filmes, 2003. (99 min). Informações disponíveis em: <http://tub.im/dyeeov>. Acesso em: 23 abr. 2016. Moça com brinco de pérola: a mulher, o estético e o cultural, Reheniglei Rehem. Rio de Janeiro: UERJ, agosto de 2005. Disponível em: <http://tub.im/itvvvq>. Acesso em: 23 abr. 2016. Meia noite em Paris. Direção de Woody Allen. 2011. (100 min). Informações disponíveis em: <http://tub.im/ amvs3j>. Acesso em: 23 abr. 2016. Nanquim. Artigo do artista plástico Gil Vicente sobre técnica com nanquim. Disponível em: <http://tub.im/ ojaz62>. Acesso em: 23 abr. 2016. Nelson Leirner. Disponível em: <http://tub.im/ejw74p>. Acesso em: 23 abr. 2016. O artista e o matemático. Direção de Sérgio Zeigler. Documentário da série Arte & Matemática. São Paulo: TV Cultura, 2001. Disponível em: <http://tub.im/hwz85d>. Acesso em: 23 abr. 2016. O auto da Compadecida. Direção de Guel Arraes. Brasil: Globo Filmes/Sony Pictures, 2000. (1h44min). Informações disponíveis em: <http://tub.im/yx67qi>. Acesso em: 23 abr. 2016. O contador de histórias. Direção de Luiz Villaça. Brasil, 2009. (100 min). Informações disponíveis em: <http:// tub.im/38ayx4>. Acesso em: 23 abr. 2016. O grande ditador. Direção de Charles Chaplin. EUA, 1940. (126 min). Informações disponíveis em: <http://tub. im/af9ebj>. Acesso em: 23 abr. 2016. O labirinto do fauno. Direção e roteiro de Guilhermo del Toro. Espanha/México/EUA: Warner Bros., 2006. (118 min). Informações disponíveis em: <http://tub.im/df7pzr>. Acesso em: 23 abr. 2016. O povo brasileiro. Direção de Isa Grinspum Ferraz. São Paulo: Versátil Home Vídeo, 2000. (260 min). Informações disponíveis em: <http://tub.im/ayadzo>. Acesso em: 23 abr. 2016. Orfeu da Conceição. Peça musical de Vinicius de Moraes. Informações disponíveis em: <http://tub.im/ 2cm6pp>. Acesso em: 23 abr. 2016. O sorriso de Monalisa. Direção de Mike Newell. EUA, 2004. (19 min). Informações disponíveis em: <http://tub. im/4c9o26>. Acesso em: 23 abr. 2016. Massao Okinaka. Sumi-ê – A arte em preto e branco. In: Revista MADE IN JAPAN. São Paulo: JBC, ed. 53, 2 mar. 2006. Disponível em: <http://tub.im/fm4hzp/>. Acesso em: 23 abr. 2016. Pilobolus Dance Theatre. Canal de vídeos oficial da companhia. Disponível em: <http://tub.im/83zn5h>. Acesso em: 23 abr. 2016. Pina. Direção de Win Wenders. Alemanha/França/Reino Unido: Imovision, 2011. (106 min). Informações disponíveis em: <http://tub.im/e82tjc>. Acesso em: 23 abr. 2016. PLAY!. Registro em vídeo da mostra interativa de game arte. Disponível em: <http://tub.im/bs3eze>. Acesso em: 23 abr. 2016. Pollock. Direção de Ed Harris. EUA: Sony Pictures, 2000. (117 min). Informações e links contextualizados disponíveis em: <http://tub.im/m47f74>. Acesso em: 23 abr. 2016.

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UTUARI, Solange. Lygia Clark. São Paulo: Fundação Iochpe, 2006, p. 25. v. 1000. (Material educativo para professor-propositor – Encarte: DVDteca Arte na Escola; 68). VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. WILLIAMS, Robin. Design para quem não é designer. São Paulo: Callis, 2005. WISNIK, José Miguel. O som e o sentido. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. WISNIK, José Miguel. Sem receita: ensaios e canções. São Paulo: Publifolha, 2004. WOODFORD, Susan. A arte de ver a arte. Tradução Álvaro Carvalho. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

LISTA DE INSTITUIÇÕES PROMOTORAS DE EXAMES Enem-MEC

Exame Nacional do Ensino Médio

Udesc-SC

Universidade do Estado de Santa Catarina

UEL-PR

Universidade Estadual de Londrina

UERJ-RJ

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

UFG-GO

Universidade Federal de Goiás

UFRGS-RS

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Unicamp-SP

Universidade Estadual de Campinas

Vunesp-SP

Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista

CRÉDITOS DAS IMAGENS DOS INFOGRÁFICOS Capítulo 1 – A arte sempre foi arte? Crédito do Infográfico: Marla Cruz Crédito das imagens: Vênus de Willendorf - Jorge Royan/Alamy/Latinstock; Reprodução de Bisão ferido - The Art Archive/Alamy/Glow Images; Flauta de osso de pássaro - Ascha Schuermann/AFP/Getty Images; Máscara de pedra - Máscara de pedra. Período Neolítico. Museu de Israel, Jerusalém. Foto: The Bridgeman Art Library/Keystone; Busto da rainha Nefertiti - Michael Sohn/AFP/Otherimages; Foto do sarcófago de Tutancâmon - Robert Harding/Robertharding/Getty Images; Discóbolo - c. 450 a.C. Mármore. Museu Nacio-

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nal Romano, Roma. SuperStock/Getty Images; Afresco da poetisa Safo - Século I a.C. Afresco. Museu Arqueo­ lógico Nacional de Nápoles. SuperStock/Glow Images; Cristo Pantocrator - Basílica de Santa Sofia, Turquia. Karl F.Schöfmann/i/Keystone; Trovadores com instrumentos musicais medievais - 280. Ilustração. Mosteiro e Sítio do Escorial. Fine Art/Heritage/Glow Images; O Buda de Leshan - Pyty/Shutterstock/Glow Images; A lamentação - Giotto di Bondone. Capela Arena, Itália. World History Archive/Alamy/Glow Images; Mona Lisa - Leonardo da Vinci. c. 1503-6. Óleo sobre madeira. Museu do Louvre, Paris; Davi - Michelangelo Buonarroti. 1501-1504. Mármore. Galleria dell’Accademia,

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Florence. Tupungato/Shutterstock/Glow Images; Moça com brinco de pérola - Johannes Vermeer. 1665. Óleo sobre tela. Museu Mauritshuis, Haia. Art Media/Heritage /Keystone; A liberdade guiando o povo - Eugène Delacroix. 1830. Óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris; O grito - Album/Akg-Images/Latinstock; Câmera mamute - Corbis/Latinstock; Isadora Duncan - Elvira Studio. 1903. Fotografia em preto-e-branco. Biblioteca da Ópera Garnier de Paris. Archives Charmet/Bridgeman Art Library/Keystone; O Tão – esperado – Foto: Ricardo Botelho/Brazil Photo Press/AFP.

Capítulo 2 – As mil e uma linguagens da arte Crédito do Infográfico: Marla Cruz Crédito das imagens: Pietá - Michelangelo. 14981499. Mármore. Basílica de São Pedro, Vaticano. Shutterstock/Glow Images; A leitora - Jean-Honoré Fragonard. c.1770. Óleo sobre tela. Galeria Nacional de Arte, Washington DC; Agamemnon - James MacMillan/ Wikimedia Commons; Sarah Bernhardt - Ullsteinbild/ Glow Images; Camille Claudel - William Elborne/Wikimedia Commons; Pintura (alegoria) - Almeida Júnior. 1892. Óleo sobre tela. Acervo Documental Fotográfico da Pinacoteca do Estado de São Paulo; O menestrel – Kate Elizabeth Bunce. ca. 1890. Óleo sobre tela. Coleção particular; Clark Gable e Mirna Loy - Filme de Jack Conway. Too hot to handle. EUA. 1938. Everett Collection/Keystone; O minueto - Frederik Hendrik Kaemmerer. c. 1890. Óleo sobre tela. Coleção particular. Hérois da Marvel - Anton_Ivanov/Shutterstock.com; Final Fantasy – Hironobu Sakaguchi /KPA/Heritage Images/ Glow Images; Marina Abramovic - Dario Cantatore/ Retna/Corbis/Latinstock; Video mapping - Michal Kamaryt/Age Fotostock/CTK Photobank/Easypix.

Capítulo 3 – Tempos e “ismos” na arte Crédito do Infográfico: Marla Cruz Crédito das imagens: O violeiro - J. F. de Almeida Júnior. 1899. Óleo sobre tela. Pinacoteca do Estado, São Paulo; Recanto do morro de Santo Antônio - Eliseo d’Angelo Visconti. 1920. Coleção Particular; Tarde de domingo na ilha de Grande Jatte - Georges-Pierre Seurat. 1886. Instituto de Arte de Chicago; De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? - Paul Gauguin. 1897. Óleo sobre tela. Museu de Belas Artes de Boston. Tompkins Collection/The Bridgeman Art Library/Keystone; Retrato de Madame Matisse - Henri Matisse. 1905. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Arte da Dinamarca. Dennis Hallinan/Alamy/Glow Images; O grito - Album/Akg-Images/Latinstock; As senhoritas de Avignon - Pablo Picasso. 1907. Museu de Arte Moderna, Nova York. Peter Horree/Alamy/Glow Images; Formas únicas de continuidade no espaço - Umberto Boccioni. 1913. Museu de Arte Contemporânea da USP, São Paulo. Universal History Archive/UIG/Getty Images; El pueblo a la universidad, la universidad al

Pueblo - Patrick Escudero/Hemis/Corbis/Latinstock; Ar de Paris - Marcel Duchamp. Séc. XX. Ready made: ampola de vidro. Museu de Arte Moderna, Paris. Foto: RMN/Otherimages; The Anthropomorphic Cabinet Salvador Dalí. 1979-1982. Bronze com pátina escura. Coleção particular. Foto: Araldo de Luca/Corbis/Latinstock; Composição II em vermelho, azul e amarelo Piet Mondrian. 1921. Museu Municipal de Haia.

Capítulo 4 – A arte e a matéria Crédito do Infográfico: Marla Cruz Crédito das imagens: Queima de cerâmica - Fabio Colombini; Flauta chinesa - Thirteen/Shutterstock/ Glow Images; Bianzhong - Peter Bischoff/Getty Images; Sino chinês de bronze - The Art Archive/Alamy/ Glow Images; Ânfora grega - P.Spiro/Alamy/Latinstock; Músico Paulo Moura - Monalisa Lins/Estadão Conteúdo; Boneca de cerâmica - Fabio Colombini; Portal de Ishtar - Paolo Cordelli/Getty Images; Detalhe do Portal de Ishtar - Brais Seara/Getty Images; Fonte - Marcel Duchamp. 1917/1964. Porcelana. Museu Nacional de Arte Moderna, Paris. Foto: RMN/Otherimages; Vaso antropomorfo - 1000 a 1400 d.C. Cerâmica. Museu Nacional do Rio de Janeiro 400 a 1400 d.C. Cerâmica. Museu Nacional do Rio de Janeiro. Foto: Rômulo Fialdini/ Tempo Composto; Vaso da cultura marajoara - 400 a 1400 d.C. Cerâmica. Museu Nacional do Rio de Janeiro. Foto: Rômulo Fialdini/Tempo Composto.

Capítulo 5 – O que tem na mala do teatro? Crédito do Infográfico: Marla Cruz Crédito das imagens: Cia. Teatral Crias da Casa - Marilane Pita; Teatro de Epidaurus - Ken Welsh/Age Fotostock/Easypix; Arte grega - Dea/G. Nimatallah/De Agostini Editore/Easypix; Máscara grega - Panagiotis Karapanagiotis/Alamy/Glow Images; Máscara grega - Ruggero Vanni/Corbis/Latinstock; Marcel Marceau - Michel Boutefeu/Getty Images; Ariano Suassuna - William Volcov/ Brazil Photo Press/Folhapress; Édipo e a Esfinge - Stock Montage/Getty Images; William Shakespeare - Everett - Art/Shutterstock.com; Teatro Kabuki - Kobbydagan/ Deposit Photos/Glow Images.

Capítulo 6 – O bem indígena Crédito do Infográfico: Marla Cruz Crédito das imagens: Indígenas protestando - Cassandra Cury/Pulsar; Pinturas indígenas no Memorial dos Povos - Claudio Reis/CB/D.A Press; Urna mortuária - Gerson Gerloff/Pulsar; Cerâmica tapajoara - Fabio Colombini; Arte Plumária - Rubens Chaves/Pulsar; Tribo Indígena Kalapalo - Fabio Colombini; Maruana, roda de madeira - Renato Soares/Imagens do Brasil; Selo - Correios Brasil; Urupema, peneira de buriti - Renato Soares/Imagens do Brasil; Bonecas de cerâmica Karajá - Fabio Colombini.

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