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E Regeneração CHARLES LEITER


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Leiter, Charles Justificação e regeneração / Charles Leiter ; [tradução: Mauricio Fonseca dos Santos Júnior]. – São José dos Campos, SP : Fiel, 2015. 221 p. ; 21 cm. Tradução de: Justification and regeneration. ISBN 978-8581323169 1. Justificação (Teologia). 2. Regeneração (Teologia). I. Título. CDD: 234.7

Catalogação na publicação: Mariana C. de Melo – CRB07/6477 Justificação e Regeneração Traduzido do original em inglês Justification and regeneration por Charles Leiter © 2009 Charles Leiter

Publicado originalmente em inglês por Granted Ministries Press, a Division of Granted Ministries P. O Box 1348 Hannibal, MO 63401-1348 USA Copyright © 2015 Editora Fiel Primeira Edição em Português: 2015

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária Proibida a reprodução deste livro por quaisquer meios, sem a permissão escrita dos editores, salvo em breves citações, com indicação da fonte.

Diretor: James Richard Denham III Editor: Tiago J. Santos Filho Tradução: Maurício Fonseca dos Santos Júnior Revisão: Ingrid Rosane de Andrade Fonseca Diagramação: Rubner Durais Capa: Rubner Durais ISBN: 978-85-8132-316-9 Caixa Postal 1601 CEP: 12230-971 São José dos Campos, SP PABX: (12) 3919-9999 www.editorafiel.com.br


SUMÁRIO Agradecimentos.................................................................................9 Prefácio ..........................................................................................11 Introdução.......................................................................................15 1 – Pecado: O problema final do homem.............................19 2 – Pode um homem ser justo diante de Deus?..................31 3 – Justificação: Suas características.......................................41 4 – Regeneração: Tudo se faz novo.........................................61 5 – Uma nova criação.................................................................67 6 – Um novo homem.................................................................73 7 – Um novo coração..................................................................79 8 – Um novo nascimento..........................................................89 9 – Uma nova natureza..............................................................97 10 – Crucificação e ressurreição..............................................103 11 – Uma mudança de reino: da carne para o espírito.......113 12 – Uma mudança de reino: da terra para o céu.................125 13 – Uma mudança de reino: do pecado para a justiça......135 14 – Uma mudança de reino: da lei para a graça..................143 15 – Uma mudança de reino: de Adão para Cristo.............153 Apêndice A – Regeneração: um resumo................................165 Apêndice B – “Não pode pecar”..............................................177 Apêndice C – Romanos 7..........................................................181 Apêndice D – Todas as bênçãos em Cristo...........................195 Apêndice E – Perguntas frequentes........................................207


AGRADECIMENTOS

Quero expressar minha gratidão especial a Paul Washer, da Sociedade Missionária HeartCry, por encorajar e apoiar a publicação deste livro, e também a Garrett Holthaus de Kirksville, Missouri, por oferecer tantas sugestões valiosas a respeito de seu conteúdo. Ainda devo um agradecimento especial aos meus muitos revisores por terem trabalhado cuidadosamente na correção dos meus erros, e — acima de tudo — à minha esposa, Mona, por ter lido alegremente o manuscrito para mim durante uma viagem de treze horas de volta do Colorado, sugerindo-me uma série de modificações muito úteis.


PREFÁCIO

Parece haver um grande abismo separando os teólogos bíblicos e os crentes sentados nos bancos das igrejas. Embora os teólogos sejam capazes de escalar o Everest das verdades de Deus e serem transformados pela visão arrebatadora, eles frequentemente comunicam essa visão em uma linguagem que está além da nossa compreensão. Dessa forma, somos deixados à mercê da literatura cristã popular que, em muitos casos, não é nada mais do que histórias pitorescas, pragmatismo e psicologia batizada. A igreja contemporânea não precisa de mais estratégias, passos ou chaves para a vida cristã. A igreja precisa da verdade e, mais especificamente, das grandes verdades que são o fundamento do cristianismo histórico. Nesta obra, o pastor Charles Leiter prestou um ótimo serviço à Igreja ao tomar duas das


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maiores doutrinas das Escrituras e dois dos maiores milagres na vida cristã, e explicá-los em uma linguagem simples sem perda de conteúdo. Conforme lia o manuscrito deste livro, ficava maravilhado com sua simplicidade e escopo. As grandes doutrinas da justificação e regeneração só podem ser consideradas apropriadamente no contexto das outras grandes doutrinas da fé — o caráter santo e reto de Deus, a depravação humana, propiciação, arrependimento, fé e santificação, para citar apenas algumas. O pastor Leiter não apenas nos deu uma visão equilibrada de cada uma dessas doutrinas, mas também demonstrou como elas interagem para formar a fundação da vida cristã. De particular interesse para mim foi a demonstração de uma visão apropriada da regeneração. Na evangelização dos dias modernos, esta preciosa doutrina foi reduzida a nada mais que uma decisão humana de levantar a mão, ir até à frente, ou fazer a “oração do pecador”. Como resultado, a maioria das pessoas acredita que “nasceu de novo” (i.e., foi regenerada) mesmo que seus pensamentos, palavras e obras sejam uma contínua contradição à natureza e vontade de Deus. O pastor Leiter demonstra que a regeneração é a obra sobrenatural de Deus por meio da qual o coração de pedra morto e depravado do pecador é substituído por um novo coração que tanto deseja quanto é capaz de responder a Deus em amor e obediência. Em segundo lugar, o pastor Leiter trata Romanos 6 e 7 de forma lógica, consistente e com profunda simplicidade. A visão de nosso irmão concernente a esses dois grandes capítulos tem sido fonte de grande força, conforto e alegria para mim ao longo dos anos de minha própria peregrinação.


Prefácio – 13

Já li este livro muitas vezes antes de ter sido impresso. Fui grandemente beneficiado por seus ensinos e posso recomendá-lo de todo o meu coração. Que o Espírito de Deus possa iluminar seu coração e sua mente para que você possa não somente compreender as Escrituras conforme explicadas aqui, mas para que elas também se tornem uma realidade em sua vida. Paul David Washer


INTRODUÇÃO

Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. Tito 3.3-7


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Dois grandes milagres encontram-se bem no coração e no cerne do evangelho. O primeiro é a justificação, por meio da qual criminosos são considerados justos aos olhos de um Juiz santo e reto. O segundo é a regeneração, por meio da qual pecadores malignos, escravizados e odiosos são transformados para amar a Deus e os homens. Seja direta ou indiretamente, esses dois milagres aparecem em toda parte no Novo Testamento. Eles são absolutamente a fundação para um entendimento apropriado tanto do evangelho quanto da vida cristã. Contudo, mesmo entre crentes genuínos, há muita confusão e ignorância a respeito dessas verdades preciosas e libertadoras da alma. Nas páginas seguintes, você encontrará uma tentativa de demonstrar, à luz clara da Bíblia, a natureza e as características da justificação e da regeneração. Para fazê-lo, primeiro precisamos considerar no Capítulo 1 por qual motivo todos os homens se encontram em tal necessidade desesperada desses dois atos divinos. Isso envolverá uma discussão tanto da culpa objetiva quando da corrupção interna causada pelo pecado. Porque todos os homens são culpados e corrompidos pelo pecado, há um grande dilema moral no caminho da salvação do homem: Como pode um Deus justo justificar pecadores injustos sem ele próprio se tornar injusto? O Capítulo 2 examina esse dilema e como a sabedoria divina o solucionou por meio da Pessoa e obra do Senhor Jesus Cristo. No Capítulo 3, a natureza e as características da justificação são então exploradas à luz das sete verdades sobre a justificação, conforme demonstradas na Escritura. A Bíblia tem muito a dizer sobre regeneração. Em uma tentativa de obter uma visão clara do que é a regeneração, exa-


Introdução – 17

minaremos nove descrições bíblicas deste grande milagre nos Capítulos 4 a 13. Cada descrição olha para a mesma realidade gloriosa a partir de um ângulo diferente, iluminando suas diferentes facetas. No Capítulo 14, tanto a justificação quanto a regeneração são consideradas nos termos das categorias mais amplas de “lei e graça” conforme apresentadas no Novo Testamento. E, finalmente, no capítulo de conclusão, ambas são consideradas como parte de uma realidade ainda maior e mais abrangente de nosso estar “em Cristo”. Cristianismo é Cristo. Toda bênção espiritual é encontrada “nele” — incluindo todas as bênçãos da justificação e regeneração — e nenhuma bênção espiritual existe longe dele. Ao longo desse livro, deixei muitas referências importantes da Escritura nas notas de rodapé, colocadas ao final de cada página para facilitar a leitura. Charles Leiter


Capítulo 1

PECADO O PROBLEMA FINAL DO HOMEM Para uma compreensão apropriada tanto da justificação quanto da regeneração, precisamos começar por onde a Bíblia começa, ou seja, pelo pecado. Todo pecado flui do desejo perverso do homem de se colocar no lugar de Deus — de ser o centro e a medida de todas as coisas e “conhecer” por conta própria o que é bom e o que é mau.1 De acordo com Tito 3.3-7, os homens em seu estado natural são “néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões”. Suas vidas são caracterizadas por “malícia, inveja e ódio”. Longe de reconhecerem essa situação, os homens perdidos se imaginam como “basicamente bons”, a menos que Deus em sua misericórdia lhes revele a verdadeira condição de seus corações endurecidos. O pecado é o problema final e, de fato, o único problema da humanidade. É 1  Gênesis 3.4-5


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o meu problema final e meu único problema, e o seu problema final e seu único problema. UMA VISÃO BÍBLICA DO PECADO A Bíblia tem muito a dizer sobre o pecado. Se quisermos compreender corretamente a verdadeira natureza do pecado, precisamos deixar que a luz desta revelação bíblica ilumine nossas mentes escurecidas e quebrante nossos corações endurecidos. Apenas pense a respeito disso! De acordo com a Bíblia, o pecado é — Absolutamente Universal

O pecado é absolutamente universal na raça humana. “Todos nós, tal qual ovelhas, nos desviamos, cada um de nós se voltou para o seu próprio caminho”.2 “Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer”.3 Você e eu podemos sequer nos conhecer, mas há uma coisa da qual podemos ter certeza antes mesmo de sermos apresentados — ambos somos pecadores. Todo homem, mulher e criança na face da terra, não importa o quão jovem ou velho seja, é um pecador. Mesmo as crianças pequenas, quando lhes é permitido andar em seu próprio caminho, são capazes das crueldades mais requintadas contra animais e umas contra as outras. Raça e nacionalidade, da mesma forma, não oferecem imunidade ao pecado; mesmo as nações mais evoluídas cultural2  Isaías 53.6, NVI 3  Romanos 3.10-12


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mente são capazes de genocídios, assim como as mais bárbaras. As câmaras de gás dos “civilizados” são meramente formas mais sofisticadas dos facões empunhados pelos “não civilizados”. Da mesma forma, não existe tal coisa como o “bom selvagem” ou o “pagão feliz”. Nas palavras de um missionário aposentado, “eu fui ao campo missionário para impedir um Deus mau de mandar homens bons para o inferno. Quando cheguei, descobri que eles eram monstros da iniquidade”. A questão aqui não é se os homens tiveram uma oportunidade de “aceitar Jesus”. A questão é se eles tiveram uma oportunidade de maltratar o missionário e rejeitar sua mensagem — pois, longe da obra especial do Espírito Santo, certamente é isso que eles fariam.4 O pecado é universal na raça humana. Ubíquo

Não somente o pecado é universal; ele é ubíquo. Todo aspecto da personalidade humana e da existência humana é afetado por ele: A mente é cegada. “O deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz...”.5 A vontade é corrompida e incapacitada. “A maldade do homem se havia multiplicado na terra e... era continuamente mau todo desígnio do seu coração”.6 “Não quereis vir a mim para terdes vida”.7 “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”.8 4  5  6  7  8 

Mateus 22.1-6 2 Coríntios 4.4 Gênesis 6.5 João 5.40 João 6.44


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As emoções são confusas e pervertidas. Alguns corações ardem em constante raiva e ódio; outros são atormentados dia e noite por medos sem sentido. Multidões riem de coisas que deviam fazê-las chorar, enquanto outras se derramam em lágrimas sem razão aparente. Tais são as profundas e ubíquas perversões causadas à personalidade humana, seja direta ou indiretamente, pelo pecado. Irracional

O pecado é irracional. Muitos direitos de primogenitura sem preço foram trocados por um prato de sopa;9 muitos casamentos e famílias foram jogados de lado por uma noite de prazer ilícito. Pelo efeito temporário do uso de drogas ilegais, os maiores poderes do cérebro humano são rotineiramente e permanentemente destruídos. Um momento de reflexão sobre os pecados de nosso passado é suficiente para confirmar que nenhum deles faz o menor sentido. Tal é a insanidade das ações do filho pródigo que seu arrependimento envolveu nada menos que “cair em si mesmo”.10 Não existe pecado sábio. Enganoso

O pecado é enganoso. A Bíblia fala sobre ser “endurecido pelo engano do pecado”.11 Assim como em todo engano, a vítima desconhece o seu estado de enganação. Ao mesmo tempo em que pensa que é “rico e abastado e não precisa de coisa al9  Hebreus 12.16 10  Lucas 15.17 11  Hebreus 3.13


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guma”, o homem é, na realidade, “infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”.12 Ele que “inculcando-se por sábio”, mas na realidade tornou-se um “louco”.13 Endurecedor

Uma das coisas mais temíveis a respeito do pecado é seu poder de endurecer aquele que o pratica.14 Quanto mais fundo um homem mergulha no pecado, menos o pecado o incomoda. De acordo com a Bíblia, a própria consciência do homem se torna “cauterizada”.15 Todo pecador se encontra agora cometendo aqueles pecados que antes desprezava, e os pecados que despreza agora, ele se encontrará cometendo algum dia. Deveria nos chocar a lembrança de que, um dia, Adolph Hitler foi um menino brincando com seus brinquedos, como qualquer outro menino. O homem conhece o início do pecado, mas nenhum homem jamais conheceu o fim do pecado. Escravizador

O pecado escraviza aqueles que o cometem. “Todo o que comete pecado é escravo do pecado”.16 Ninguém pode se libertar a si mesmo ou escapar dos laços do pecado. O pecado “reina” sobre o pecador e monta em suas costas como um tirano até que eventualmente o atira no poço da destruição e morte.17 Se você não for cristão, você possui uma corrente em volta do seu 12  13  14  15  16  17 

Apocalipse 3.17 Romanos 1.22 Hebreus 3.13 1 Timóteo 4.2 João 8.34 Romanos 5.21


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pescoço muito pior que qualquer corrente física. Você até pode conseguir abandonar um pecado específico, mas outro pecado imediatamente tomará o seu lugar — frequentemente o pecado do orgulho ou da justiça própria pelo que você imagina ter realizado ao mudar a si mesmo. O pecado é escravizador. Degradante

O pecado afunda o mais distinto e mais nobre dos homens e das mulheres nas profundezas da vergonha e degradação. O jovem rapaz que antes vestia um terno fino e sentava-se em uma cadeira de couro em seu escritório agora se encontra com a barba por fazer, deitado sobre o próprio vômito como resultado do pecado. A jovem moça que antes era limpa, bela e inocente agora é vulgar, sensual e suja — mais uma vez, por causa do pecado. Homens e mulheres feitos à imagem de Deus, criados para sonharem sonhos imortais e pensarem os longos pensamentos da eternidade, são reduzidos pelo pecado a seres que se chafurdam na lama como um porco por um reles pedaço de pão. O pecado transformou anjos em demônios;18 e transforma homens em “animais irracionais”.19 O pecado é degradante. Pervertido

Finalmente, o pecado é pervertido.20 O pecado não é uma frivolidade; o pecado não é “bonitinho”; o pecado não é divertido. O pecado é extremamente perverso e mau, é “sobremaneira maligno”.21 Todo pecado é depravado, feio e vil. Deveríamos nos chocar em ver 18  19  20  21 

Mateus 25.41 2 Pedro 2.12; Judas 1.10 Marcos 7.20-23 Romanos 7.13


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como os homens perversos podem ser e o quão cauterizados podemos nos tornar a tal perversidade. Nós nos acostumamos com ela! O primeiro bebê que nasceu no mundo cresceu para assassinar seu próprio irmão.22 E a história humana, desde então, tem sido um longo fluxo de constante guerra, concupiscência, ódio, tortura, estupro, perversão, abuso e brutalidade. É uma bênção para nós que não saibamos em detalhes os pecados que foram cometidos na noite passada em nossa própria cidade. Tal conhecimento seria por demais pervertido para alguém carregar. Dessa maneira, precisamos admitir o fato de que o mundo não é do jeito que é por ser habitado por algumas poucas pessoas tão más quanto Hitler; o mundo é do jeito que é porque é composto de multidões de pessoas como você e eu! Há uma profunda perversidade em cada um de nós. Algumas vezes Deus usa coisas aparentemente “pequenas” para nos mostrar esta perversidade. Para Agostinho, não foi tanto seu estilo de vida imoral, mas o roubo despropositado das peras da árvore de um vizinho em sua juventude — não por fome, mas por esporte — que lhe revelou a profunda depravação de seu próprio coração. O pecado, apenas pelo prazer de fazer o mal, sem qualquer razão ou recompensa, flui de dentro do coração humano e corrompe a todos nós. OS DOIS LADOS DO PROBLEMA DO PECADO DO HOMEM O pecado é o problema final e, de fato, o único problema da humanidade. Mas este “problema do pecado” possui dois aspectos distintos — um interno e outro externo. 22  Gênesis 4.8


26 – JUSTIFICAÇÃO E Regeneração O Problema Interno — Um Coração Mau

De acordo com o Senhor Jesus Cristo, o próprio homem é corrupto e vil. “O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.”23 Essa é a condição de todo coração humano longe de Cristo. Se um filme, até mesmo de nossos pensamentos passados, para não falar de nossas ações passadas, fosse projetado em um telão diante de nossa família e conhecidos, cada um de nós sairia correndo do cinema morrendo de vergonha. Todo não cristão é — em sua pessoa — mais repulsivo a um Deus santo do que ele jamais seria capaz de imaginar. Mas o problema do homem com o pecado vai ainda mais fundo que isso. Suponha que, por algum milagre, um pecador pudesse se tornar uma nova pessoa e nunca mais pecasse pelo resto de sua vida. Ele ainda assim iria certamente para o inferno. O assassino em série que sinceramente decide nunca mais matar precisa ainda assim pagar por seus crimes cometidos no passado. Em outras palavras, o problema do homem com o pecado possui outra dimensão além da interna. O homem não somente possui um coração mau; ele também possui um histórico mau aos olhos da lei de Deus. O Problema Externo — Um Histórico Mau

Todo pecador é um fugitivo da justiça. A despeito da condição presente de seu coração, ele possui uma culpa objetiva, 23  Marcos 7.20-23


Pecado: O problema final do homem – 27

fora dele mesmo, aos olhos da lei de Deus. Talvez ele não tenha nenhum “sentimento de culpa”, mas ele se encontra “culpado” ou “condenado”, ainda assim. Todos os seus crimes passados clamam para que sua punição seja paga e que a justiça seja satisfeita. Esse clamor encontra-se ancorado no próprio caráter e ser de Deus, em seu atributo de justiça ou equidade. É por causa desse senso de equidade ou justiça que Deus colocou nas profundezas do coração humano que imediatamente nos sentimos moralmente ultrajados quando se permite que o perpetrador de um crime saia sem punição. Por quê é errado que um estuprador assassino receba apenas uma multa de dez reais? Nós não podemos provar que ele merece punição pior, mas intimamente sabemos que sim. Esse conhecimento inescapável dentro de nós é algo mais fundamental e certo que qualquer “prova” teórica. É algo absolutamente básico à constituição humana — um reflexo da própria natureza de Deus. Muito poderia ser dito a respeito do atributo da justiça de Deus, especialmente nestes dias em que o próprio conceito de justiça parece ter se perdido na sociedade de forma geral. Há três razões básicas por que um crime deve ser punido: em primeiro lugar, para a satisfação da justiça (ou seja, porque crimes merecem ser punidos e devem ser punidos); em segundo lugar, para o bem da sociedade (ou seja, para a prevenção de crimes futuros); e em terceiro lugar, para o benefício do ofensor (ou seja, para levá-lo a uma mudança de rumo na vida). Dessas três, a satisfação da justiça é a principal e mais fundamental que as outras duas. Se a punição de um crime não é por si própria justa e merecida, ela não deterá crimes futuros nem corrigirá o ofensor.


28 – JUSTIFICAÇÃO E Regeneração

Em nossos dias, a razão primária e mais fundamental para a punição — a satisfação da justiça — tem sido quase que completamente suprimida e negada. Apenas a segunda e a terceira razão permanecem, sendo que mesmo essas têm sido trocadas em ordem de importância. A “correção” do ofensor é atualmente a razão primária, e as prisões não são mais chamadas de prisões, mas de “centros de correção”. Mesmo aqueles que ainda acreditam que o crime deve ser punido pelo bem da sociedade mantêm a crença de que assassinos devem receber sua sentença não por terem cometido assassinato, mas apenas a fim de prevenir homicídios futuros. Tal filosofia é perversa e falsa, e baseia-se na mentira de que homens e mulheres não são verdadeiramente responsáveis por suas ações. Não é difícil de compreender como essa situação veio a se formar. Porque os homens querem eles próprios ser Deus,24 eles odeiam o pensamento de um Legislador soberano a quem precisam prestar contas. Eles buscam suprimir essa verdade inescapável de que Deus está ao redor deles e dentro deles,25 afirmando o contrário, que Deus não existe.26 Essa negação da existência de Deus lhes facilita fingir que não existe tal conceito de certo e errado. Ao invés de serem pecadores culpados, homens e mulheres são vistos como vítimas indefesas de suas circunstâncias. Em um cenário desses, a punição a fim de satisfazer a justiça torna-se impensável. O homem é livre para agir conforme lhe agrada e não responde a ninguém. 24  Gênesis 3.4-5 25  Romanos 1.18ss. 26  Salmo 10.4; 14.1; 53.1


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Mas não importa o quanto os homens tentem suprimi-la, ainda existe uma verdade indelével no coração humano de que certo e errado são reais,27 que os homens são responsáveis por suas transgressões, e que o pecado merece ser punido.28 Lá no fundo, todos os homens sabem que a balança da justiça precisa ser equilibrada no fim das contas.29 Se você não for cristão e estiver lendo essas linhas, a balança da justiça está muito desequilibrada em sua vida presente, e você pode estar certo — baseando-se no próprio ser e no caráter justo de Deus — de que se você continuar em sua condição atual, ele nunca descansará ou cederá até que você esteja no inferno. Todo o tecido moral do universo entraria em colapso caso ele não colocasse você no inferno. É neste contexto que a Bíblia nos fala da “ira de Deus”. A ira de Deus não é uma perda temporária de autocontrole ou um ataque emocional egoísta. É o seu ódio santo e incandescente pelo pecado, a reação e o asco de sua natureza santa contra tudo que é mau. A ira de Deus está ligada diretamente à sua justiça. Ela tem a ver com sua determinação justa de punir todo pecado, de equilibrar a balança da justiça e endireitar tudo que está errado. É por isso que a ira de Deus “permanece” sobre todo incrédulo.30 Quanto mais o homem persiste no pecado, mais ele “acumula contra si mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus”.31 A ira de Deus irá, afinal, ser “derramada”; ele é um juiz justo e não irá permitir que o pecado siga sem punição eternamente. 27  28  29  30  31 

Romanos 2.14-16 Romanos 1.32 Atos 28.4 João 3.36 Romanos 2.5


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