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“Quem melhor para escrever um livro sobre o evangelho do que John MacArthur? Esse expositor-mestre e talentoso teólogo passou sua vida inteira definindo e defendendo o único e verdadeiro evangelho salvador de Jesus Cristo. Nestas páginas, você encontrará a base bíblica para as boas novas de salvação presentes na pessoa e obra do Filho de Deus, Jesus Cristo. Seu coração vibrará à medida que contempla a glória de Deus na imagem daquele que é o Salvador dos pecadores, o Senhor do céu e da terra. Eis aqui mais um livro doutrinariamente profundo – enquanto fácil de ler – desse autor de best-sellers. O que MacArthur escrever, leia para o benefício de sua alma. Este livro não foge à regra.” – Dr. Steven J. Lawson Presidente do OnePassion Ministries, Dallas “Neste importante livro, John MacArthur desempacota o evangelho, chamando atenção para o seu cerne e a sua essência – Jesus. Nada há mais importante para conhecermos e compreendermos que o evangelho. Sem essa compreensão, corremos o risco de estar eternamente perdidos. Você talvez se julgue bem familiarizado com o evangelho, mas este livro é capaz de mostrar aspectos dele que você talvez ainda não tenha visto. E, fundamentalmente, estes capítulos são todos sobre Jesus – quem ele é, quem ele reivindicou ser, o que veio fazer e o que realizou. Se estiver lendo MacArthur pela primeira vez, ou pela centésima, não ficará desapontado.” – Dr. Derek W. H. Thomas Pastor Sênior da Primeira Igreja Presbiteriana Columbia, Carolina do Sul


JOHN MACARTHUR

Boas Novas o evangelho de Jesus Cristo


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MacArthur, John, 1939Boas novas : o evangelho de Jesus Cristo / John MacArthur ; [tradução: Eros Pasquini Júnior]. – São José dos Campos, SP: Fiel, 2019. Tradução de: Good news : the Gospel of Jesus Christ. Inclui referências bibliográficas. ISBN 9788581325989 (impresso) 9788581325996 (ebook) 1. Jesus Cristo – Personalidade e missão. I. Título. CDD: 232

Catalogação na publicação: Mariana C. de Melo Pedrosa – CRB07/6477

Boas Novas – o evangelho de Jesus Cristo Traduzido do original em inglês Good News: The Gospel of Jesus Christ por John McArthur

Proibida a reprodução deste livro por quaisquer meios sem a permissão escrita dos editores, salvo em breves citações, com indicação da fonte.

Copyright©2018 by John McArthur

Publicado por Reformation Trust, Uma divisão de Ligonier Ministries, 400 Technology Park, Lake Mary, FL 32746 Editora FIEL©2019 Primeira Edição em Português: 2019 Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária

Diretor: James Richard Denham III Editor: Tiago J. Santos Filho Tradução: Eros Pasquini Jr. Revisão: Marilene Paschoal, Voleide Alves Gonçalves Diagramação: Rubner Durais Capa: Rubner Durais 978-85-8132-598-9 (impresso) 978-85-8132-599-6 (ebook)

Caixa Postal 1601 CEP: 12230-971 São José dos Campos, SP PABX: (12) 3919-9999 www.editorafiel.com.br


SUMÁRIO 1 Jesus é o Messias........................................7 2 Jesus é Santo............................................37 3 Jesus é o Único Caminho...........................61 4 Jesus é o Redentor...................................87 5 Jesus é Justo..........................................111 6 Jesus é o Cabeça da Igreja......................133


CAPÍTULO UM

JESUS É O MESSIAS Quem é Jesus? Trata-se de uma pergunta básica que muitos relutam em responder. Praticamente todas as religiões e filosofias do mundo procuram identificá-lo como um profeta gentil, um fiel homem sábio, um mestre espiritual, ou um revolucionário social adiante de sua época. Outros o identificam como um feiticeiro ou um semideus, com acesso a um poder sobrenatural, mas subordinado a um superintendente divino mais poderoso. Outros ainda contornam os relatos bíblicos, tratando Jesus como um grande homem, cuja lenda cresceu graças a mito ou folclore – quase como o lendário lenhador gigante do folclore norte-americano – um Paul Bunyan do primeiro século. Até mesmo as seitas procuram identificar quem ou o quê Cristo foi. Observe a Cientologia, por exemplo, a pseudorreligião popularizada em anos recentes por várias celebridades de Hollywood. A Cientologia é um sistema municiado por demônios, inventada por um escritor de ficção-científica e médium chamado L. Ron Hubbard. De acordo com Hubbard, Jesus jamais existiu como pessoa. Ao contrário, Cristo é uma ideia eletrônica implantada pelos verdadeiros poderes do universo como uma espécie de campanha cósmica de desinformação. Numa carta a seus seguidores, datada de 5 de maio de 1980,


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Hubbard escreveu: “Permitam-me aproveitar a oportunidade para desmentir alguns de seus mitos prediletos. Por exemplo, o Jesus histórico não foi nem de perto a figura santinha que o tornaram. Além de ser amante de meninos e homens, ele era dado a incontroláveis explosões de raiva e ódio que se escondiam debaixo de uma mensagem genérica de amor”.1 É difícil imaginar algo mais bizarro e blasfemo do que isso. Ainda assim, se as pessoas rejeitarem o verdadeiro Cristo das Escrituras, qualquer que seja o substituto que inventem em sua imaginação – mesmo que bem menos ultrajante que a versão de Hubbard – não será menos errôneo ou herético. Mesmo que tenham concepções diferentes, todos os que rejeitarem a verdade bíblica acerca de Cristo inevitavelmente terminarão no mesmo lugar. O efeito de não enxergar a verdade acerca do Senhor Jesus Cristo é sempre o mesmo, visto que qualquer outra coisa que não seja a crença no verdadeiro Cristo é uma ofensa passível de condenação. Além do mais, a correta compreensão de Jesus Cristo é essencial à compreensão de várias outras verdades capitais, especialmente o evangelho e a salvação. Não há boas novas fora de Cristo. O próprio Jesus alertou seus seguidores para não se deixarem enganar por “falsos Cristos” (Marcos 13.21-22). Em 2 João 10-11, o apóstolo do amor declara que qualquer um que abandonar a verdadeira doutrina de Cristo não tem a Deus; portanto, “Se alguém vem ter convosco e não traz esta 1  Citado na literatura de treinamento da Igreja da Cientologia OT VIII, que se tornou pública como parte da ação judicial do Tribunal Federal (Estados Unidos) chamada Igreja Internacional da Cientologia vs. Fishman e Geertz. A igreja contesta o material como sendo falso. 8


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doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas. Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se cúmplice das suas obras más”. Fica claro, portanto, que sua resposta à pergunta “Quem é Jesus?” terá, em última análise, consequências importantes e crucialmente permanentes. Apenas a resposta correta levará à salvação. Mas ainda assim, é possível estar bem perto da resposta correta e não enxergá-la, resultando em eterna calamidade.

O QUE JESUS DISSE ACERCA DE SI MESMO? Uma forma de responder à pergunta “Quem é Jesus?” é prestando atenção às monumentais palavras que Jesus dirigiu aos escribas no templo, registradas no Evangelho de Lucas: Mas Jesus lhes perguntou: Como podem dizer que o Cristo é filho de Davi? Visto que o próprio Davi afirma no livro dos Salmos: “Disse o Senhor ao meu Senhor: “Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés”. Assim, pois, Davi lhe chama Senhor, e como pode ser ele seu filho? Ouvindo-o todo o povo, recomendou Jesus a seus discípulos: “Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e muito apreciam as saudações nas praças, as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das 9


BOAS NOVAS viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo”. Estando Jesus a observar, viu os ricos lançarem suas ofertas no gazofilácio. Viu também certa viúva pobre lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva pobre deu mais do que todos. Porque todos estes deram como oferta daquilo que lhes sobrava; esta, porém, da sua pobreza deu tudo o que possuía, todo o seu sustento. Falavam alguns a respeito do templo, como estava ornado de belas pedras e de dádivas; então, disse Jesus: Vedes estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada (Lucas 20.41-21.6).

Muitas pessoas hoje pensam que se fizerem a maior parte das coisas corretamente – mesmo que deixem de lado “a parte a respeito de Jesus” – ainda assim irão para o céu. Essa é a nova amplitude de tolerância que define boa parte do evangelicalismo contemporâneo, que abre de forma eficaz uma porta dos fundos para o céu. É o reavivar da velha mentira: não é preciso crer especificamente em Cristo. Desde que você seja monoteísta e creia no Deus verdadeiro (e especialmente se você crê no Deus de Abraão, Isaque e Jacó), você se dará bem. A mentalidade reinante é diametralmente oposta ao que lemos no Evangelho escrito por Lucas. Jesus adverte os judeus, que tiraram conclusões erradas a respeito dele, que a condenação deles não será mais branda. Na verdade, além de não receberem a salvação, além de não serem desculpados, rece10


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berão uma condenação maior. Essa mensagem deve trazer as pessoas de volta à realidade, especialmente aqueles que procuram estender e expandir o evangelho para que inclua qualquer um que crê em Deus – em qualquer deus – desde que pertençam a um sistema monoteísta. E deve, igualmente, aterrorizar qualquer um que pressupõe que os padrões de Deus são tão elásticos e flexíveis quanto a tolerância do século XXI. Quando Jesus proferiu as palavras registradas em Lucas 20 e 21, o judaísmo se encontrava no limiar da eminente destruição – momento em que o símbolo desse sistema religioso, o templo, seria destruído. À sombra desse templo, o próprio Senhor Jesus Cristo alertou quem estivesse disposto a ouvir, que a condenação divina viria numa forma apóstata de judaísmo. Atente bem que Jesus não estava condenando uma forma pagã ou panteísta de religião. Eles criam no Deus vivo e verdadeiro: o Deus que era Criador; o Deus que falou no Antigo Testamento; o Deus que se revelou através dos profetas e mostrou seu caráter justo através da Lei; e o Deus que disse que haveria de preservar seu reto caráter por meio de juízo. Os judeus prontamente ratificavam as verdades a respeito de Deus contidas no Antigo Testamento. Mas isso não bastava. Jesus jamais se assentou para declarar: “Sabe, gente, temos tanta coisa em comum; vamos encontrar um denominador comum e bater um papo sobre as verdades que podemos aprovar mutuamente”. Ele não estava nem um pouco interessado em encontrar um denominador comum ou dar acolhida à ignorância. Somente a verdade – a completa verdade – poderia libertar um israelita ou qualquer outra pessoa da escravidão do pecado. 11


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DELINEANDO O CENÁRIO À medida que consideramos esse breve episódio do Evangelho de Lucas, vamos deixar claro o que já aconteceu. O Senhor Jesus Cristo está no final de seu ministério terreno de três anos. Ele cruzou a Judeia e a Galileia, indo de povoados a vilarejos, de vilarejos a cidades, proclamando o evangelho do reino, banindo as enfermidades, demonstrando poder divino sobre os demônios, afirmando reiteradamente ser o cumprimento da profecia messiânica do Antigo Testamento. Ele não se limitou a proclamar que é o Messias, mas declarou ser Deus, e provou isso através do poder exercido sobre a natureza, sobre as doenças, sobre os demônios e até sobre a morte. Mas agora, passados três anos, seu ministério público chega ao fim. Ao chegarmos no momento narrado em Lucas 20, estamos na quarta-feira da Semana da Paixão. No sábado anterior, “seis dias antes da Páscoa” ( João 12.1), ele havia passado por Jericó, subido a Jerusalém e chegado a Betânia. Naquela noite, ele descansou na casa de seus amigos Maria, Marta e Lázaro – cujo ressurgir do túmulo havia se tornado o principal assunto de conversa em Jerusalém. Aliás, foi a ressurreição de Lázaro que atraiu as multidões (v. 9). Um dia ou dois depois disso, as multidões ainda enxameavam Jerusalém, quando Jesus adentrou a cidade em triunfo. Ele cavalgava “num jumentinho, cria de jumenta”, porque isso foi o que Zacarias 9.9 dissera que ele faria. Ele entrou em Jerusalém cumprindo uma profecia. A multidão era monumental; alguns estimam que lá havia 250.000 pessoas. Havia uma real possibilidade, na mente de 12


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cada um que ali estava, que ele fosse o Messias há muito esperado. O que mais explicaria o seu poder e a sua autoridade na proclamação da verdade? Ele falou como jamais outro homem havia falado ( João 7.46). E a multidão estava agitada porque ele havia ressuscitado a Lázaro. Jesus voltou à cidade na terça-feira pela manhã, após sair dela na segunda-feira à noite para ir rumo ao Monte das Oliveiras. Todas as noites ele permaneceu no Monte das Oliveiras – levando consigo seus discípulos através da Porta Oriental de Jerusalém, desceu uma pequena ladeira, atravessou o ribeiro do Cedrom e subiu o Monte das Oliveiras, ao oriente de Jerusalém, desaparecendo entre o maciço bosque de oliveiras. Por quê? Porque ele sabia que seus inimigos o queriam morto. Ele sabia que seus inimigos não queriam prendê-lo à luz do dia, à vista da multidão; portanto, precisava de um lugar clandestino onde pudesse se esconder na escuridão da noite, junto com os discípulos. Na terça-feira pela manhã, ele tinha uma única coisa em mente. Dirigiu-se diretamente ao templo e, uma segunda vez, atacou as corruptas operações que ali aconteciam (Lucas 19.45-46). Ele havia praticado essa mesma ação antes de dar início ao seu ministério público ( João 2.13-17). Em ambas as vezes, Jesus identificou todo o sistema religioso judaico como apóstata. Seu primeiro ataque aos mercadores e lideranças, foi para expor a vil hipocrisia da elite religiosa reinante e declarar que o julgamento divino estava chegando. E agora ele salientava a mesma mensagem ao final de seu ministério terreno, mais uma vez atacando a ímpia operação no templo. 13


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Essa operação existente no templo era corrupta até a raiz. Os escribas e os fariseus eram arqui-hipócritas e manipuladores sem qualquer escrúpulo. Os escribas eram peritos na lei que municiavam a religião legalista dos fariseus. Os fariseus eram os provedores dessa religião através do sistema de sinagoga, religião que tornou sua justiça por meio de obras a forma dominante do judaísmo existente. Os saduceus, outra seita dos judeus, administravam os empreendimentos do templo, o que nada mais era que uma fraude hipócrita. Eles extorquiam dinheiro do povo, descreditando para o sacrifício os animais que as pessoas traziam, forçando-as a comprar os animais que eles, saduceus, vendiam. Eles roubavam o povo ao cobrarem taxas exorbitantes no câmbio de moeda, e chegaram a criar meios para o povo comprar indulgências, garantindo-lhes o favor divino. Era um sistema totalmente corrupto de obras meritórias, autojustiça e hipocrisia descarada – tudo para rechear o bolso dos líderes religiosos. Por isso, na terça-feira, Jesus declarou: “Está escrito: A minha casa será casa de oração. Mas vós a transformastes em covil de salteadores” (Lucas 19.46). A casa de Deus tencionava ser um lugar de adoração, oração e comunhão com o Deus vivo e verdadeiro, conforme o que ele mesmo prescrevera. Mas eles a haviam transformado em refúgio para ladrões. Estavam usando a lei de Deus e a casa de Deus para extorquir dinheiro do povo e enriquecer. Era uma religião falsa da pior espécie, e Cristo não atribuiu pequena importância a esses abusos vis. O Evangelho escrito por Marcos descreve a cena: “Entrando ele no templo, passou a expulsar os que ali vendiam e compravam; 14


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derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. Não permitia que alguém conduzisse qualquer utensílio pelo templo” (Marcos 11.15-16). Jesus passou o restante daquele longo dia interagindo com o povo, curando os doentes e ensinando. Depois disso, ele voltou ao Monte das Oliveiras e se deitou no chão para dormir. Na quarta-feira, ele retornou a Jerusalém. Esse foi o último dia que Jesus ensinou em público. Pregou acerca do reino e respondeu a várias perguntas dos escribas e fariseus que tinham a intenção de deixá-lo perplexo e desnorteado (Lucas 20.1-40). Esse também foi o dia de sua última confrontação com a elite religiosa, que febrilmente o desprezava. O ódio que nutriam por ele havia fervido por anos, desde o início do ministério público de Jesus, quando ele abalara a operação corrupta do templo, dando um golpe arrasador na profanação que praticavam. Ele não apenas interrompeu a operação deles, mas também atirou a integridade e a validade do que faziam no descrédito. Eles o odiavam porque Jesus atacara a teologia e os tronos de poder deles, assim como a frágil trégua que mantinham com Roma. Jesus expôs a falsa retidão deles, e não foi com sutilezas. Ele os denunciou publicamente, condenando abertamente a corrupção e a hipocrisia que os caracterizava. E eles também o odiavam pela suposta blasfêmia de Jesus, pois alegava ser igual a Deus – postura que eles se recusavam a endossar. A ira que os consumia levou-os eventualmente a tramar a morte dele. É de vital importância, portanto, atentar para o que Jesus diz ao encerrar seu ministério público. As palavras contidas 15


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em Lucas 20.41 a 21.6 são suas palavras finais, sua última mensagem às massas. E a respeito do que é essa mensagem? É sobre a identidade dele. Quem é Jesus? Durante três anos ele respondera a essa pergunta. Ele respondera a essa pergunta dia após dia. Ele havia reivindicado ser o Messias reiteradamente, enquanto autenticava tal alegação com evidência incontestável. Aqui, nesse final de ministério terreno, ele volta a essa questão fundamental mais uma vez.

NÃO ENXERGANDO O MESSIAS A Escritura deixa claro que os judeus nutriam altas expectativas com relação ao Messias há muito esperado – expectativas que Cristo não necessariamente preencheu num primeiro momento. Eles tinham certeza que o Messias seria um homem – não um anjo, e também não Deus – simplesmente um homem. E não apenas um homem qualquer, mas um filho de Davi. Com base nas promessas da aliança de Deus com Davi, eles aguardavam o herdeiro de Davi que estabeleceria o reino eterno. Eles esperavam que quando o Messias viesse, seria um homem com tremenda autoridade e influência, que assumiria o poder, destronaria os romanos e todos os inimigos de Israel, e cumpriria instantaneamente todas as promessas de reino feitas a Abraão, Davi e aos profetas. E ao fazer essas coisas, ele traria salvação plena a Israel. Até mesmo os discípulos nutriam tal expectativa. Lucas nos diz que eles criam que o Messias inauguraria o reino (Atos 1.6). Mas o povo achava que ele seria apenas um homem, e um filho de Davi. E nosso Senhor Jesus Cristo se utilizou dessas expec16


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tativas para levantar a pergunta fundamental: seria o Messias meramente um homem? É possível dividirmos essas afirmações públicas finais de Jesus em categorias – pensemos em Lucas 20.41-44 como o convite final de Cristo. A despeito do ódio dos líderes, a despeito do interesse instável da multidão descompromissada, Jesus ainda era um evangelista misericordioso. Apenas alguns dias distante das agonias da cruz, mais uma vez ele esclareceria quem ele é e chamaria pecadores arrependidos a crer. No relato paralelo de Mateus 22.42, Jesus pergunta: “Que pensais vós do Cristo? De quem é filho?” Ele direcionou tais palavras aos fariseus e aos escribas, enquanto podia ser ouvido por todo o povo que ali estava. O mesmo versículo contém a resposta deles: “De Davi”. Todos entendiam e esperavam um Messias de linhagem real. Curiosamente, Mateus registra a pergunta com um artigo definido: “Que pensais vós do Cristo?” (ênfase acrescentada). Naquele momento Jesus não estava enfatizando a si mesmo. Estava simplesmente perguntando: “Como é que vocês enxergam o Messias? De quem ele é filho?” E a resposta foi: “De Davi”. A compreensão deles parou aí. Eles tinham uma concepção um tanto equivocada do Messias – eles esperavam que ele fosse nada mais que um homem com direito adquirido ao trono de Israel. Não era algo completamente herético ou blasfemo, mas era incompleto, e quando se está tratando da pessoa e obra de Cristo, incompleto é igual a errado. Qualquer judeu teria respondido a pergunta relativa à identidade do Messias da mesma forma, pois é o que o An17


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tigo Testamento ensina em 2 Samuel 7, Salmo 89, Ezequiel 37, e em várias outras passagens. De acordo com Mateus 9.27, “partindo Jesus dali, seguiram-no dois cegos, clamando: Tem compaixão de nós, Filho de Davi!” Lucas retrata no capítulo 18 que mais tarde no ministério de Jesus, enquanto passava por Jericó, ele encontrou outro cego. E o cego clamou: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” (Lucas 18.39). Mateus 12 declara: “Então, lhe trouxeram um endemoninhado, cego e mudo; e ele o curou, passando o mudo a falar e a ver. E toda a multidão se admirava e dizia: É este, porventura, o Filho de Davi?” (Mateus 12.22-23). Foi isso que todos entenderam: que o Messias era um filho de Davi. De fato, Zacarias, o pai de João Batista, serve como boa ilustração disso. Quando Zacarias ouviu que a vinda do Messias era iminente (porque Deus havia prometido dar a ele e à sua mulher estéril – Isabel – um filho que seria o precursor do Messias), ele foi cheio do Espírito Santo (Lucas 1.67) e profetizou: Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, Porque visitou e redimiu o seu povo, E nos suscitou plena e poderosa salvação Na casa de Davi, seu servo (vs. 68-69).

Visto que o Messias seria o filho de Davi, a maneira mais óbvia que os líderes judaicos tinham à disposição para desacreditar Jesus ou contestar suas afirmações de messianidade teria sido retirar os registros do templo e mostrar que ele não havia 18


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nascido da linhagem de Davi. Esteja certo que os fariseus e escribas pesquisaram e confirmaram esse detalhe crucial. Mais à frente veremos que o Messias teria de vir antes que o templo fosse destruído porque todos os registros do templo foram igualmente destruídos, junto com o templo. Tais genealogias e a incontestável linhagem de Cristo permanecem como testamentos da precisão do plano soberano de Deus. Isso posto, a resposta dos fariseus à pergunta de Cristo é precisa: “Ele é filho de Davi”. Mas a resposta deles é inadequada e incompleta. Visando o restante da resposta, o Senhor Jesus Cristo fez uma breve exposição do Antigo Testamento: Como podem dizer que o Cristo é filho de Davi? Visto como o próprio Davi afirma no livro dos Salmos: “Disse o Senhor ao meu Senhor: ‘Assenta-te à minha direita, Até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés’”. Assim, pois, Davi lhe chama Senhor, e como pode ser ele seu filho? (Lucas 20.41-44).

Isso é absolutamente surpreendente e brilhante. Nenhum pai que se preze jamais chamaria seu filho de “Senhor”. Por que Davi está chamando seu filho de “Senhor”, Adonai, no Salmo 110.1? Alguns comentaristas judeus concluíram que Davi cometeu um erro, como se não devesse ter dito o que disse. Mas Mateus 22.43 declara: “Como, pois, Davi, pelo Espírito, chama-lhe Senhor...?” Outros críticos sugerem que Davi proferiu essas palavras em seu próprio espírito humano. Mas Marcos 12.36 19


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afirma: “O próprio Davi falou, pelo Espírito Santo”. Quando Davi chamou o Messias de seu Senhor, foi por inspiração do Espírito Santo. O Salmo 110 é um salmo messiânico, e sempre foi interpretado pelos judeus como messiânico até o período da igreja em seus primórdios. Trata-se de um salmo bastante citado pelos autores neo-testamentários. A forma de Jesus tratar esse salmo corrobora seu caráter messiânico, sua autoria davídica, e sua própria divindade. Esse salmo foi prova tão persuasiva da alegação de messianidade feita por Jesus, que os judeus abandonaram a interpretação histórica por centenas de anos. Eles a aplicaram a Abraão, a Melquisedeque, e até mesmo a Judas Macabeus. O salmo tem sido incessantemente atacado por rabinos e críticos que tencionam rejeitar seu elemento profético, a autoria davídica e, em última análise, a divindade de Jesus Cristo. Jesus afirmou que Davi o escreveu, e que o fez pelo Espírito Santo. E tem mais: ele disse que Davi estava profetizando acerca de Jesus, o Messias, e que o Messias é Senhor de Davi. E o que Deus disse ao Senhor de Davi no Salmo 110.1? “Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés’”. Colocar o Messias à direita de Deus é colocá-lo numa posição de igualdade. A mão direita é o símbolo do poder de Deus. Deus investe em seu Filho, o Messias, todo o poder e toda autoridade, e ouvimos isso reiterado no Novo Testamento. O Messias não será apenas o filho de Davi, humanamente falando, mas também será o Senhor de Davi, em termos divinos. Ele é o filho de Davi e o Filho de Deus, filho de Davi e o Senhor de Davi. “E vimos a sua glória”, registra 20


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João, “glória como do unigênito do Pai”. “...cheio de graça e de verdade” ( João 1.14). Essa é a única verdadeira explicação para quem é Jesus – a única. Ele demonstrou sua capacidade divina para criar, partilhou onipotência com Deus, o Pai, deu ordem aos elementos, ordenou a existência de todas as criaturas, criou o alimento, criou corpos sadios, ressuscitou os mortos, perdoou o pecado, proferiu juízo – todos os elementos de onipotência divina. Possuía o atributo da onipresença, e era capaz de estar em todos os lugares o tempo todo, bastava querer ( João 1.48). Ele era onisciente. Sabia tudo que havia no coração do homem de forma que não precisava que ninguém o instruísse sobre o ser humano ( João 2.24-25). Portanto, ele partilhava do infinito conhecimento de Deus. Ele era imutável. É o mesmo hoje, ontem e para sempre: sempre santo, verdadeiro, sábio, soberano, amoroso, eterno, glorioso e sem sombra de mudança. Ele aceitou adoração. Deve ser buscado em oração. Em todo sentido, ele é Deus. Ele chegou até a partilhar alguns títulos com Deus: rocha, pedra de tropeço, Salvador, Redentor, Santo, Senhor dos Exércitos, Rei e o Primeiro e o Último. Quando olhamos para a vida de Jesus Cristo, não nos surpreendemos ao ver manifestamente que ele é Deus. Se Deus se tornou homem, seria de se esperar que sua vida humana fosse sem pecado. E assim ele foi. Se Deus, o verdadeiro Deus santo, se fez homem, seria de se esperar que ele vivesse em completa retidão. E assim ele viveu. Se Deus se tornou homem, seria de se esperar que suas palavras fossem as mais excelentes palavras já proferidas. E assim elas foram. Se Deus se fez homem, seria 21


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de se esperar que ele exercesse um poder profundo e inigualável sobre a humanidade. E esse poder ele exerceu. Se Deus se tornou homem, seria de se esperar que executasse demonstrações sobrenaturais. E houve muitas delas. Se Deus se fez homem, seria de se esperar que ele manifestasse o amor de Deus. E ele assim o fez. Não há outra conclusão possível: Jesus é o filho de Davi, que também é o Senhor de Davi. Mateus acrescenta uma observação bastante sóbria a esta cena em 22.46: “E ninguém lhe podia responder palavra, nem ousou alguém, a partir daquele dia, fazer-lhe perguntas”. Infelizmente, o texto não diz que eles se arrependeram e creram. Em vez disso, podemos pressupor que eles só viram sua raiva crescer, o que lhes deixou o coração ainda mais empedernido contra a verdade, aprofundando, assim, a determinação de ver Jesus silenciado. Eles rejeitaram o último convite feito por Cristo – a última oportunidade que tiveram de cair de joelhos e reconhecer que ele é Deus, assim como é homem, o filho de Davi e o Senhor de Davi. Foi nesse momento que o último convite terminou para aquela geração de Israel.

CORRUPÇÃO CONDENATÓRIA A despeito de três anos de provas abundantes de sua natureza divina, Israel tomou partido contra Jesus, compactuando com seus inimigos. Com suas últimas palavras ditas em público, Jesus proferiu uma severa advertência aos judeus a respeito de seus líderes religiosos e a ameaça espiritual que eles representavam para Israel. Pense nessas palavras como a condenação final 22


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de Jesus à blasfema apostasia deles. “Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e muito apreciam as saudações nas praças, as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo” (Lucas 20.46-47). Bem ali à sombra do templo, Jesus proferiu uma severa e estonteante condenação ao judaísmo apóstata. Foi uma repreensão mordaz e causticante, direcionada à falsa religião dos sacerdotes e dos fariseus. Lucas nos narra apenas dois versículos dessa passagem, mas Mateus 23 nos apresenta a maldição na sua totalidade. Nela Jesus reiteradamente os condena como hipócritas, e pronuncia vários “ais” contra eles por causa de suas práticas abusivas. Ele sai do templo, após haver amaldiçoado os líderes religiosos de Israel e alerta o povo: “Vocês afundarão junto com eles, caso não se apartem deles”. A condenação de Jesus aos líderes religiosos é bastante focada. Ele lida com a atitude hipócrita deles – gostam de se exibir com vestes pomposas, adoram ser saudados, amam os primeiros lugares, são arrogantes, gostam de ser servidos e são cheios de justiça própria. Mas há apenas um ato pecaminoso citado aqui: eles “devoram as casas das viúvas” (Lucas 20.47). Essa é a única ação pecaminosa aqui citada, no grego é katesthiō, que significa “consumir”, “pilhar” ou “tragar”. Quão daninha era essa religião? Chegou ao cúmulo que seus chefes enriqueciam pela prática de abusos para com os indefesos do povo. Isso descreve quão corrupta era a prática do judaísmo do século I, e quanto havia se afastado do coração de Deus. 23


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Ao longo de todo o Antigo Testamento, nas várias alianças e na lei, Deus repetidamente fez provisões para o cuidado do pobre. O mesmo foco é mantido no Novo Testamento. Tiago 1.27 declara: “A religião pura e sem mácula, para com nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações”. Esse é o coração de Deus – terna compaixão, especialmente para aqueles que dela mais precisam. Com isso em mente, Cristo está condenando não apenas a apostasia teológica daqueles líderes, mas também a apostasia prática deles. A deserção espiritual deles fez com que se tornassem, no sentido espiritual, hipócritas isolados, que buscavam ser servidos, e com isso iam se tornando mais e mais obesos e ricos, construindo um império religioso à custa dos mais necessitados, derrotados e indefesos. De acordo com a religião que proclamavam, se uma mulher ficasse viúva, é porque tinha havido pecado na vida dela, e é por isso que ela havia sido punida por Deus. Naquela época, para começo de conversa, mulheres eram cidadãs de segunda classe. Ser viúva fazia de alguém já de pouco valor, uma pessoa desprezível, dando à elite religiosa licença para tratá-la com desdém. Em público, as elites ostentavam sua piedade e devoção, enquanto em particular, devoravam os recursos daqueles a quem deveriam prover e proteger. Eles não passavam de charlatões blasfemos, e logo receberiam o juízo severo por seu comportamento tão aviltante.

UMA ILUSTRAÇÃO TRÁGICA Os eventos descritos na página seguinte deveriam nos abalar. Lucas inicia o capítulo 21 detalhando que Jesus “tendo olhado 24


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para cima, viu...” (no texto grego). O que isso nos diz? Simplesmente que Jesus estivera olhando para baixo. Se juntarmos todas as peças do quadro apresentado pelos Evangelhos Sinóticos, percebemos que Jesus se encontrava compreensivelmente cansado. A semana havia sido longa e exaustiva. Ele acabara de proferir a feroz diatribe registrada em Mateus 23, sendo empurrado e puxado pela multidão o dia inteiro. Ele estava exausto. O coração de Jesus estava aflito, e isso desde que ele viera para a cidade, na segunda-feira, quando o simples olhar para Jerusalém o fez chorar (Lucas 19.41). Ele se encontrava de coração partido. No dia anterior, ele tomara a operação corrupta do templo de assalto e agora, acabara de proferir uma advertência final e urgente contra as mentiras da elite religiosa e de seu sistema corrupto. Mas ele também sabia que nada disso faria diferença – em menos de dois dias, a multidão inconstante haveria de clamar pelo sangue dele. A despeito de tudo que ele fizera e dissera, a maioria daqueles a quem ele ministrara e pregara haveria de seguir os líderes no caminho largo que conduz ao inferno. Marcos 12.41 detalha que “Jesus sentou-se em frente do lugar onde eram colocadas as contribuições” (NVI), que ficava no Pátio das Mulheres. Ele ensinava ali porque havia um grande espaço aberto para onde homens, mulheres e até mesmo gentios se dirigiam para ouvi-lo. Era a mesma parte do templo onde os treze receptáculos no formato de trombetas se encontravam – onde as pessoas do povo e os fariseus vinham depositar suas ofertas publicamente. Era isso que aquele sistema exigia – redenção era obtida pelo dar esmolas. Em Mateus 25


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6, Cristo havia dito que as pessoas davam suas esmolas “com trombetas”, anunciando sua chegada, colocando sua filantropia em exibição. Ele observou os ricos colocando suas dádivas na tesouraria do templo, e de acordo com Marcos 12.41, eles colocavam “grandes quantias”. Então, Jesus viu uma viúva depositar “duas pequeninas moedas de cobre”. Essa moeda chamava-se lépton. Equivalia a 1/132 de um denário, e era a menor moeda que os judeus usavam. Dali a poucos instantes Jesus deixaria a cidade com seus discípulos. À sua volta estava o magnífico templo edificado por Herodes – templo que estivera em construção durante cinquenta anos – o símbolo brilhante e ornado dessa religião abastada. Mas antes de saírem, Jesus reparou nessa viúva e disse a seus discípulos: “Verdadeiramente, vos digo que esta viúva pobre deu mais que todos. Porque todos estes deram como oferta daquilo que lhes sobrava; esta, porém, da sua pobreza deu tudo o que possuía, todo o seu sustento” (Lucas 21.3-4). Quantos sermões e exortações você já ouviu em relação a essa história – que, via de regra, imediatamente são seguidos pelo ofertório? Costuma-se dizer: “Ó Senhor Jesus Cristo, que nós aprendamos com a viúva!” Mas o que está, de fato, acontecendo nessa cena? Se você quiser argumentar que esse breve episódio diz respeito a contribuir, então o princípio que forçosamente terá que extrair desse relato é que Deus quer que doemos absolutamente tudo que temos, e voltemos para casa para morrer. Porque foi isso que aquela viúva fez. O texto relata que ela “deu tudo que possuía, todo o seu sustento” (v. 4). O grego diz literalmente “ela colocou 26


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ali toda a sua vida”. Não sobrou mais nada para sustentá-la. Em grande probabilidade, ela morreria de fome. Jesus estava dizendo, essencialmente: “Os que possuem mais, contribuem daquilo que lhes sobra. Mas quando ela terminar de contribuir, ela nada mais terá”. Então, se esse texto é sobre contribuir, a única lição que dele podemos tirar é que devemos dar tudo que temos, voltar para casa na esperança que surja alguém na nossa porta com alguma coisa, caso contrário morreremos. Esse não pode ser um mandamento bíblico. Outros podem argumentar: “Não, a lição aqui é a boa atitude demonstrada pela viúva”. Entretanto, a Escritura não diz uma palavra sequer sobre a atitude da viúva – o texto simplesmente narra o que ela fez. Tudo que sabemos é que se tratava de uma viúva desamparada que ofertou bem mais em relação aos demais que ofertaram, porque ela ofertou cem por cento. Não temos autorização para arbitrariamente acrescentar quaisquer elementos imaginários, de forma a transformar esta vinheta numa exortação para o contribuir com alegria. De fato, essa história tão conhecida tem sido torcida e distorcida de todos os modos, a fim de extrair-se dela algum princípio sobre altruísmo, humildade e contribuição sacrificial. Mas não há nesse relato qualquer princípio sobre o contribuir. Qualquer ideia semelhante terá sido imposta ao texto. Isso se torna bem claro no momento que levamos em conta o contexto das palavras de Jesus. Ele acabara de proferir juízo e condenação sobre os escribas e fariseus. Não podemos em sã consciência pressupor que ao ver aquela mulher dar suas duas moedinhas Jesus haveria de romper radicalmente sua linha de 27


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raciocínio, de forma a abruptamente oferecer um rápido tratado para os crentes a respeito do contribuir sacrificial. A reação dos discípulos também confirma que nada aqui foi uma afirmação divina dada à igreja a respeito do contribuir. Nenhum deles pede esclarecimento ou maiores detalhes a Jesus – de forma que pudessem entender se de fato Jesus estava querendo que eles abrissem mão de tudo que tinham neste mundo, e seguissem aquela mulher rumo à desprezível pobreza. Nenhum deles se preocupou em perguntar a Jesus se ele estava instruindo-os a contribuir a ponto de se tornarem um fardo para outros ao sustentá-los. Eles sabiam que Jesus não estava elogiando o contribuir dela. Ele não disse que se orgulhava dela ou que ela possuía um coração nobre. Em vez disso, Jesus está dizendo: “O judaísmo é tão corrupto que devora a casa das viúvas, e temos aqui uma ilustração disso. Essa pobre mulher está tão enganada pelo conceito de que ela pode obter o favor de Deus ao abrir mão de tudo que tem, que está disposta a entregar seus últimos centavos”. Portanto, o que temos aqui é a condenação, proferida pelo Senhor Jesus Cristo, a todo aquele que manipula sua Palavra e seu nome para enganar o povo de forma a encher o próprio bolso. Sem sombra de dúvida, Jesus proferiu condenação sobre qualquer falso religioso que constrói fortuna pessoal sobre os lombos dos desamparados e desesperados, acenando com a promessa de favor divino que conduz ao sucesso, à prosperidade, à saúde e à riqueza. A dádiva daquela pobre viúva permanece como testemunho contra as abusivas perversões da falsa religião. 28


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À medida que Jesus e os discípulos dali se afastam, o Senhor Jesus Cristo se volta e olha para o templo, reluzindo à luz do sol do final de tarde em Jerusalém. E enquanto os discípulos comentam a beleza e os caros adornos do templo, Jesus diz: “Vedes estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada” (Lucas 21.6). Não seriam apenas os escribas e fariseus que haveriam de enfrentar juízo mais intenso por seus abusos, mas logo todo aquele sistema religioso desmoronaria. Quarenta anos depois, Jerusalém e o templo foram completamente arrasados, todos os registros genealógicos foram destruídos, e o sistema sacrificial cessou de vez. O fim iminente do sistema religioso judaico tornou a lealdade de Israel a este sistema – e a oferta mal direcionada da viúva – ainda mais desoladora.

UM DETALHE FINAL À medida que chegamos ao final da Semana da Paixão, hora da prisão e julgamento de Cristo, precisamos nos perguntar: este não seria um final impróprio? É assim que a história do Filho de Deus deveria terminar – rejeitado, traído, desolado e preso? E será que esse aparente fracasso de alguma forma macula ou desacredita as alegações divinas de Cristo? Será que Jesus, no fim das contas, era apenas um homem com insights extraordinários acerca de moralidade e religião? Não. E Lucas 22 nos mostra o motivo. O capítulo começa com a trama dos principais dos sacerdotes e dos escribas. Após serem severa e publicamente repreendidos em Mateus 23, a fúria deles contra Cristo atin29


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giu patamares inéditos. Agora eles estão mais determinados do que nunca a silenciá-lo, e finalmente eles contam com um informante para ajudá-los. Lucas 22.3 nos diz que “Satanás entrou em Judas”. Ele sabia exatamente onde Jesus estaria no Monte das Oliveiras, então fez um acordo com os principais dos sacerdotes para conduzi-los ao Getsêmani, onde finalmente eles teriam Jesus em suas garras. É quinta-feira à noite. Jesus e seus discípulos estão no cenáculo, celebrando a última Páscoa legítima. É nesse momento que Jesus institui a ceia do Senhor e alerta seus amigos que o futuro deles seria inóspito. Jesus fala da perseguição e ódio que enfrentariam no mundo ( João 15-16). E, então, ele faz uma declaração impressionante. No recôndito do cenáculo, Jesus faz uma declaração surpreendente, alegando que ele é o profetizado em Isaías 53: “Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: ‘Ele foi contado com os malfeitores’. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido” (Lucas 22.37). Israel rejeitou o convite final de Cristo e ignorou a condenação final que ele proferiu – chamemos isso de a concretização final. Jesus cita Isaías 53.12, não para isolar o versículo de seu contexto, mas exatamente para trazer o capítulo inteiro para o foco de atenção dos discípulos. Duas vezes ele diz: “Se cumpra em mim o que está escrito”, no início e no final de Lucas 22.37. Jesus está afirmando que seu ministério – e logo em seguida, sua vida – não é um fracasso. Tinha de ser assim! As ímpias maquinações do sistema apóstata de Israel não representavam uma derrota. O pior que pudessem fazer acabariam cumprindo o plano de Deus. Como o próprio Lucas declarou na conti30


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nuidade de seu evangelho, este homem que foi “entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (Atos 2.23). Jesus é o Cordeiro de Deus. Não foi a traição de Judas, nem o acordo dele com os principais dos sacerdotes, nem a indiferença de Pilatos, nem mesmo os planos de Satanás que, em última análise, penduraram Jesus em uma cruz. Foi plano de Deus o tempo todo! Por quê? Porque alguém precisava tomar o lugar dos pecadores. Conforme a profecia do Antigo Testamento, ele precisava ser “contado com os transgressores” (Isaías 53.12). Isso não haveria de ser uma derrota dolorosa e final. Era o cumprimento necessário daquilo que ele veio para fazer. Jesus havia dito a seus discípulos: “Tenho, porém, um batismo com o qual hei de ser batizado; e quanto me angustio até que o mesmo se realize!” (Lucas 12.50). E agora ele está dizendo sem vacilar: “Eu sou o cumprimento de Isaías 53”. Ele destaca especificamente uma frase: “Contado com os transgressores” (v. 12). Mas essa é apenas uma entre vinte existentes naquele capítulo que fala da identificação substitutiva dele com pecadores. Podemos olhar para Isaías 53 e constatar que se divide em quatro partes. A primeira delas começa na verdade em 52.14, onde Isaías descreve o substituto sofredor: Como pasmaram muitos à vista dele (Pois o seu aspecto estava mui desfigurado, Mais do que o de outro qualquer, E a sua aparência, mais do que a dos outros filhos dos homens). 31


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Isaías 53.2 dá continuidade ao tema: Não tinha aparência nem formosura; Olhamo-lo, Mas nenhuma beleza havia que nos agradasse.

Ele teria cicatrizes, seria desfigurado, e causaria repulsa em quem olhasse para ele. Então, o profeta ruma para uma segunda ênfase: o substituto suficiente. Isaías escreve: Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades, E as nossas dores levou sobre si; E nós o reputávamos por aflito, Ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões E moído pelas nossas iniquidades; O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, E pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; Cada um se desviava pelo caminho, Mas o Senhor fez cair sobre ele A iniquidade de nós todos (Isaías 53.4-6).

Como nosso substituto suficiente, Cristo pagou a penalidade de nossas transgressões. Ele recebeu a punição por nossas iniquidades. Nossa culpa e a ira que ela exigia caíram sobre ele, e não sobre nós. Ele é o único substituto suficiente – o único que poderia estar em nosso lugar e suportar o peso de nosso pecado. 32


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Nos versículos 7-9, Isaías continua a descrevê-lo como nosso substituto submisso: Ele foi oprimido e humilhado, Mas não abriu a boca; Como cordeiro foi levado ao matadouro; E, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, Ele não abriu a boca. Por juízo opressor foi arrebatado, E de sua linhagem, quem dela cogitou? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; Por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido. Designaram-lhe a sepultura com os perversos, Mas com o rico esteve na sua morte, Posto que nunca fez injustiça, Nem dolo algum se achou em sua boca.

O Deus Todo-Poderoso carregou a penalidade de nosso pecado, junto com todo ódio, zombaria e abuso que o mundo pudesse atirar sobre ele – carregou tudo, sem por um só instante pensar em sua própria defesa. Cristo voluntariamente se submeteu aos horrores da cruz por nossa causa. Isaías 53 termina com a perspectiva final do sacrifício de Cristo – o profeta nos apresenta ao substituto soberano, nos vs. 10-12: Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, Fazendo-o enfermar; Quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, 33


BOAS NOVAS Verá a sua posteridade E prolongará os seus dias; E a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma E ficará satisfeito; O meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, Justificará a muitos, Porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, E com os poderosos repartirá ele o despojo, Porquanto derramou a sua alma na morte; Foi contado com os transgressores; Contudo, levou sobre si o pecado de muitos E pelos transgressores intercedeu. (Isaías 53.10-12).

No fim, esse substituto sofredor, suficiente e submisso foi aquele que “derramou a sua alma na morte”. O Messias não podia simplesmente ser um homem, porque nenhum homem estava apto para carregar os pecados do mundo, nenhum homem poderia ter aceito desprezo tão cruel sem reagir, e nenhum homem poderia se derramar como oferta pela culpa. Ao identificar-se como aquele que seria “contado com os transgressores”, Jesus não estava apenas reivindicando ser o Messias – ele estava se identificando como o Cordeiro de Deus, que proveu o sacrifício substitutivo pelos pecadores, sacrifício esse que escancarou a graça de Deus visando o perdão e a vida eterna. 34


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Você quer conhecer o fator mais espantoso e negligenciado de Isaías 53? Os verbos estão todos no passado. Temos aqui um profeta que está escrevendo centenas de anos antes da cruz, mas que conseguia olhar para trás e contemplá-la. Ele escreve: “Ele carregou, ele foi ferido de Deus, ele foi traspassado, ele foi açoitado, ele foi oprimido, ele foi afligido”, tudo no passado. Por quê? Esse portentoso capítulo foi escrito pela perspectiva daquele grande dia, ainda no futuro profético, quando “todo o Israel será salvo” (Romanos 11.26). Naquele momento os judeus olharão de volta para a cruz. E eles enxergarão a verdade. E o que Zacarias 12.10 diz a esse respeito? “Olharão para mim, aquele a quem traspassaram, e chorarão por ele” (NVI). O resultado final da rejeição de Israel por Cristo como Messias no futuro será a salvação de Israel. Jesus culmina sua vida e seu ministério público dizendo ao Israel apóstata que “se vocês me rejeitarem, serão condenados”. Mas, ele tira seus discípulos para uma conversa reservada e explica que aquela rejeição não é um fracasso final; é um elemento necessário para o cumprimento de Isaías 53. E além disso, os judeus um dia olharão para trás, para a cruz, e encontrarão a salvação prometida em Isaías 53. A cruz não é sinônimo de derrota – ela é, em primeiro lugar, o propósito vitorioso para o qual ele veio. As gloriosas realidades de nosso Cristo são como as incontáveis estrelas dos céus. Cada aspecto da vida dele brilha com fulgor resplandecente, e são tantos que são praticamente incalculáveis. Nós acabamos de salientar uma pequena amostra da majestade e da glória de Jesus. Amamos nosso Cristo, mas só o amamos porque ele nos amou primeiro. Que Deus nos perdoe 35


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por nosso coração tão frio e indiferente, e que nós cresçamos a ponto de amar o Senhor Jesus Cristo com todo o nosso coração, alma, mente e força. Que privilégio estarmos entre os que olharão para trás e perceberão que entenderam a história de forma correta. Que possamos agradecer a Deus por essa graça, e que entreguemos a ele toda a glória.

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